1 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
♥- Graduado em História, pela UKB
INTRODUÇAO
NOÇÃO DE HISTÓRIA — Tudo que, no passado, os homens Fizeram, ou lhes aconteceu, é
história.
Ora nós desejamos conhecer essa história. Mas esse desejo levanta dois problemas:
1º — Poderemos conhecer tudo aquilo que os homens fizeram ou lhes aconteceu, desde que
existem homens?
2.° — A supor que o poderíamos, como ter tempo e memória para fixar os milhões de milhões de
factos que se deram no passado?
Pois bem: não podemos conhecer toda a história dos homens. Podemos conhecer muitos factos
— umas vezes de menos, outras vezes de mais...
Em qualquer caso, fazemos sempre uma escolha dos acontecimentos que conseguimos averiguar,
pois nem todos nos interessam,
Com esses que escolhemos (e, porventura, com os que nos faltam mas procuramos inferir* dos
conhecidos) reconstituímos a vida dos homens de outrora, nas suas linhas gerais, nos seus
aspectos importantes. É como se, tendo encontrado pedras dum edifício antigo.
Reconstruíssemos esse edifício, procurando, com o nosso raciocínio, acertar as pedras, colocá-las
no lugar que teriam tido, e, onde fiquem paredes por acabar, preencher esses vazios com pedras
novas, que sejam o mais possível idênticas às originais ou como presumimos* que elas foram.
É assim que fazem os historiadores — só que, em vez de apresentarem, no fim, uma casa,
apresentam um relato escrito, uma espécie de conto ou romance, não inventado, mas o mais
próximo que consigam da realidade, como ela terá sido ou julgam que terá sido.
A este relato também chamamos História.
É uma pena que a mesma palavra «história» tenha, em Português, de servir para aqueles dois
sentidos: o que aconteceu, e o relato daquilo que aconteceu ou se presume ter acontecido.
É certo que existe o termo «historiografia» para o segundo significado. Mas mal se usa — e
quando se usa, não é exactamente no sentido indicado.
Por isso, aqui resolvemos escrever ‗história» (com o «h» inicial minúsculo) no primeiro
significado, e «História» com maiúscula inicial no segundo.
Como os alunos não são historiadores, não vão reconstituir o edifício; limitam-se a vê-lo, a
estudá-lo já reconstruído — isto é, a aprender o que sucedeu no passado, estudando a
reconstituição que, desse passado, relatam os historiadores. Vão pois aprender História.
OS FACTOS HISTORICOS — Acaba de dizer-se que o historiador faz uma escolha nos factos
do passado que consegue conhecer, pois nem todos lhe interessam.
Na realidade, fixar tudo que aconteceu seria não só impossível como inútil, Tão impossível e tão
inútil como ler e decorar todos os jornais e livros, ou mesmo só as listas dos telefones...
O que precisamos conhecer é, unicamente (e já não é pouco!), os acontecimentos importantes, a
ligação de uns com os outros, as suas causas e consequências, de modo a chegarmos a um relato
encadeado, organizado, compreensível — e não a um amontoado sem ordem, desconexo e
incompreensível.
Mas quais serão, então, os acontecimentos importantes? Aqueles que profundamente
modificaram a vida dos homens em geral (não a de um ou outro homem) — modificaram o seu
comportamento, o seu modo de pensar e de viver, a sua maneira de estar no mundo.
«Com o termo história designam—se ao mesmo tempo duas coisas realmente distintas.
a) A realidade do acontecimento histórico, objecto da história científica, e
b) Aquela ciência cujo objecto é a história real. Os alemães chamaram à primeira Geschichte, e à
segunda Historie»
( ANTONIO MILLAN PUELLE5, «ONTOLOGIA DE LA EXISTENCIA HISTORICA»)
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DOCUMENTO 2
«Na História, os factos fundamentais relacionam—se com os motivos que lhes deram existência
e valorizam-se dentro dessa dependência. Valorizam-se e dessa valorização depende a sua
selecção para a exposição histórica — segundo a parte e resultado que têm em cada série de
factos, segundo o seu correspondente valor para a colectividade»
(ERNST BERNHEIM, .(INTRODUCCIÓN AL ESTUDIO DE LA HISTORIA»)
DOCUMENTOS 3
«A História ocupa-se dos factos na medida em que não são totalmente passados, mas sim, de
algum modo, sobrevivem no presente... Todo o passado que não penetra e não se acumula no
presente não é um passado histórico, mas um puro passado (não-histórico).»
(ANTONIO MILLAN PUELLE5, »ONTOLOGIA DE LA EXITSENCIA HISTORICA»)
OS FACTORES DA HSTÓRIA 3 — É inegável que os homens não pensam, não actuam, não
vivem hoje como os seus mais primitivos avós, nem como os seus outros avós, já menos
afastados do tempo de Cristo, ou do quando Portugal se formou, ou do século XVIII...
De umas épocas para as outras houve grandes transformações.
Quais foram as causas dessas transformações - isto é, porque se deram elas? Que factos
provocaram as transformações?
Dito por outras palavras: quais foram os factores* da história?
Fundamentalmente dois: os próprios homens e o meio em que vivem, isto é a Terra (a geografia,
a natureza).
É principalmente o comportamento dos homens (a sua conduta, os seus actos, ou seja, aquilo que
fazem) que molda ou altera a sua maneira de viver.
Ora o que os homens fazem depende do que sentem, do que sabem, do que pensam e do que
crêem. Daí que sejam factores da história: aquilo que os homens pensam (a sua filosofia e a sua
ideologia, quer dizer as suas ideias sobre a vida e o mundo, sobre si próprios e sobre o meio em
que se situam, sobre a sociedade e o seu governo), aquilo que eles sabem (a sua ciência e a sua
técnica, ou seja, os seus conhecimentos da natureza e da maneira de pô-la ao seu serviço), aquilo
que eles crêem (a sua religião), aquilo que eles sentem (manifestado na sua arte).
Mas os homens vivem, e decerto sempre viveram, em sociedade, isto é, agrupados, associados.
As formas variadas e variáveis de associar-se (na família, no clã, na tribo, na aldeia, na cidade,
na nação, nas classes, nas profissões, etc.) constituem outro factor histórico: o factor social;
assim também as formas de governo desses seus grupos constituem outro factor: o factor
político.
Para que os homens vivam, porém, é necessário que recebam constantemente da natureza os
elementos da vida: o solo em que estejam e se movam, o ar que respirem, os alimentos que
consumam... Ora o solo existia já antes de cada homem nascer, e o ar é-lhe dado gratuitamente.
Mas os alimentos, esses, têm os homens de obtê-los da Terra com o seu esforço - o seu trabalho.
Chamamos produção ao resultado desse trabalho, dessa relação entre os homens e a Terra, que
toma as formas mais diferentes. Pode consistir em arrancar raízes e apanhar frutos silvestres
(recolecção); em semear e colher (agricultura); em transformar o linho, os troncos das árvores, a
lã dos carneiros, os metais do subsolo, etc., em vestuario, casas, mobiliário e instrumentos
(indústria); em adquirir esses produtos aos seus produtores e transmiti-los aos consumidores
(comércio), ou em prestar outros serviços (ensinar, curar, defender, etc.) aos que deles
necessitam. Damos o nome de economia ao conjunto dessas actividades (trabalho) de produção,
distribuição e consumo de alimentos, coisas e serviços. A economia é, pois, outro factor da
história — e até um dos mais importantes e mesmo, para alguns historiadores, o mais importante.
Economia, organização social, regime político, ciência e técnica, filosofia, ideologia, religião,
arte-são, portanto, outros tantos factores da história em que podemos decompor o factor
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fundamental que é o próprio Homem; dito por outras palavras, são vários aspectos do
comportamento ou acção dos homens, quer em relação à natureza (à Terra) quer em relação uns
aos outros quer cada um em relação a si próprio.
Porém, na base desses comportamentos está sempre a Terra. É nela que o Homem vive e é dela
que vive. Ela é o seu meio, o seu ambiente. Simplesmente, a Terra não é uma coisa uniforme,
imóvel e inalterável — sempre a mesma no espaço e no tempo. Ao contrário, a Terra é
imensamente diversificada: aqui plana, ali montanhosa; aqui sólida, ali líquida; aqui muito
quente, ali temperada ou muito fria; aqui desértica, ali rica de vegetação... E imensamente
mudável: nas 24 horas da sua rotação, há a noite e o dia; ao longo do ano, sucedem-se as
estações, com suas alterações de clima; no decurso dos séculos, surgem e desaparecem relevos e
oceanos, florestas e desertos, glaciações (invasões dos gelos polares) e interglaciacões (recuo dos
gelos para os pó-
los)... Todos esses diversos estados e mudanças afectam, mais ou menos, fortemente a vida dos
homens — a sua saúde, a sua alimentação, o seu trabalho, os seus conhecimentos e ideias, os
modos de se associarem e governarem... O factor geográfico é, assim, também um factor da
história — e um factor básico.
Não, porém, que o Homem sofra passivamente os efeitos da natureza: as relações entre ele e a
Terra não se fazem num sentido único — da natureza para os homens. Antes são recíprocas,
pois, por sua vez, os homens transformam o seu meio — a Terra. Eles destroem as florestas para
agricultar os solos ou cultivam numa região plantas que trouxeram de outra afastada — e essas
mudanças muitas vezes alteram o clima; pela irrigação, transformam desertos em verdes prados;
pela exploração excessiva, tornam desérticos terrenos que eram férteis; abrem o subsolo para
extrair minérios; extinguem espécies animais por demasia de caça ou pesca, domesticam e criam
outros...
Afinal, é essa relação dialéctica* entre o Homem e a Terra, ou dos homens entre si em função da
Terra, que constitui a história — e é dela que se ocupa a História.
Por isso, o historiador precisa não só de relatar os acontecimentos do passado mas também de
destrinçar os seus factores, que entre si os relacionam.
O TEMPO COMO DIMENSÃO DA HISTÓRIA - Do exposto resulta que uma das dimensões
da história é o espaço — neste caso a Terra, onde os homens vivem e a sua vida se modifica.
Nisso os fenómenos históricos não se afastam dos fenómenos físicos, os quais se passam também
num espaço.
Mas a história tem ainda uma outra dimensão que é mais propriamente sua: o tempo. Os
acontecimentos históricos sucedem-se cronologicamente (uns depois dos outros) — como um
filme que vai passando. Só no tempo os fenómenos históricos se podem compreender; se os
isolássemos do tempo, eles deixariam de ser históricos.
Ora esse tempo não é um tempo qualquer — é o tempo histórico. Que quer isto significar? Que a
mera datação de um acontecimento (o tempo breve desse acontecimento) não constitui história.
O acontecimento só adquire caracter histórico quando o situamos naquilo a que F. Braudel
chamou a «longa duração», isto é, quando o relacionarmos com os seus factores, que o
precederam, com os outros acontecimentos, que o acompanharam, e com as suas consequências,
que o seguiram, num vasto quadro.
Para tal situação no tempo, é indispensável que o tempo se meça.
E para medir o tempo tem de estabelecer-se um sistema* — como para medir o espaço foi
preciso criar sistemas (o sistema métrico decimal, por exemplo).
Nem sempre os homens souberam medir o tempo. Só depois de terem descoberto a agricultura
sentiram a necessidade dessa medição (para os trabalhos agrícolas, que se efectuam em estações
do ano diferentes umas das outras, mas iguais de uns para outros anos).
Para a criação dum sistema de medir o tempo — isto é, para a criação do calendário —
recorreram à observação dos movimentos regulares dos astros: da Lua e do Sol. Assim puderam
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estabelecer o dia (tempo de uma revolução completa da Terra em volta do seu eixo), o ano
(tempo que leva a Terra a completar a sua translação à roda do Sol), a semana e o mês (tempo,
respectivamente, de cada fase da Lua e do total das suas quatro fases).
DOCUMENTO 4
«A História é o mais perigoso produto elaborado pela química do intelecto… Faz sonhar,
embriaga os povos ... condu-los ao delírio das grandezas e ao da perseguição, e torna as nações
amargas, soberbas, insuportáveis e vãs [...].»
(PAUL VALÉRY, ‘REGARDS SUR LE MONDE ACTUEL)
DOCUMENTO 5
«A erudição sem vida, o saber como inibitório da acção, a História como luxo [...] têm de ser-nos
odiosas [… ]. Precisamos da História; mas precisamos dela ... para a vida e para a acção, e não
para cómodo afastamento da vida e da acção ...»
(FREDERICO NETZSCF, ‘DA UTILIDADE E INCONVENIENTES DA HISTÓRIA PARA A VIDA.)
DOCUMENTO 6
«A maior parte dos erros de previsão ... vem duma insuficiência do esforço necessário para situar
o acontecimento no tempo[… ]
A regra de ouro do espírito prospectivo* é colocar o acontecimento não somente no passado
recente mas no longo termo, isto é, pelo menos no século e até no milénio. É sempre da
Humanidade que se trata. E a Humanidade é milenária.»
(JEAN FOURASTIE, ‘>LES 40.000 HEURES.’)
Foi um grande avanço — suficiente para os trabalhos agrícolas.
Mas outras necessidades impuseram, além do calendário, a datação. Isto é, ordenar no tempo,
uns a seguir aos outros, acontecimentos que se sucediam mas não se repetiam ou se repetiam
irregularmente.
Isso exigia fixar um momento a partir do qual se contasse o tempo.
Cada povo, em cada época, escolheu essa data inicial, essa data zero, nem sempre a mesma.
Por exemplo, os Romenos antigos contavam os anos a partir da fundação tradicional» da cidade
de Roma (que corresponde, na nossa datação actual, ao ano de 758 antes do nascimento de
Cristo.
Os Árabes contavam — e contam a partir Hégira, isto é, da data em que seu profeta Maomé se
estabeleceu na cidade da Medina (que corresponde ao ano de 622 da nessa era»).
Os cristãos fizeram começar a era no ano do nascimento de Cristo. É essa a datação hoje usada
em quase todo o mundo. Assim, o ano de 1977 significa que desde o nascimento de Cristo até
este ano decorreram 1976 anos completos e naquela altura estava decorrendo o 1977° (milésimo
novecentésimo septuagésimo sétimo).
Mas quando Jesus Cristo nasceu já havia milhares (mesmo mais de um milhão) de anos da
história humana! Então como contar esses anos antes de Cristo?
COMO CLASSIFICAR O SÉCULO OU COMO ACHAR UM SÉCULO?
- Década é igual a dez (10) anos = vão desde 0 a 9 anos
- Século é igual a cem (100) anos = vão desde 0 a 99 anos
- Milénio é igual a mil (1000) anos = vão desde 0 a 999 anos
De 0 á 99 corresponde ao século I
Do ano 100 á 199 corresponde ao século II
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Pois contam-se do mesmo modo, mas do nascimento de Cristo para trás -- às arrecuas...
DOCUMENTO 7
No evoluir incessante que é a nossa vida, tudo se nos apresenta sob o aspecto do sucessivo, a tal
ponto que, mesmo instintivamente, somos levados a procurar na sua sucessão a explicação dos
factos de que somos testemunhas… Temos necessidade de pensar na continuidade, porque é na
continuidade que vivemos. Acusa-se a História de inimiga do progresso. Ao contrário, ela ensina
a marcha constante para a frente, a progressão perpétua.»
(LOUIS HALPHEN, ..II4TRODUCTlON’À L’HISTOIRE»)
DOCUMENTO 8.
« O ensino da História tende a exercitar os alunos numa forma de pensamento que poucas
doutras disciplinas proporcionam que não analítica nem dedutiva, mas indutiva* e sobretudo
objectiva*. Os alunos devem aprender a acolher as novas informações com completa
objectividade, com espírito, crítico, é não com a credulidade passiva que caracteriza, por
exemplo, o leitor médio da imprensa moderna.»
(OTTO-ERNST SCHUEDOEK0PT, «O ENSINO DA HISTÓRIA E A REVISÃO DOS MANUAIS DE HISTÓRIA»)
DOCUMENTO 9
,‗Mas é claro que a nossa função de professor de História não consiste principalmente em
atafulhar de factos o crânio dos nossos alunos. Uma das coisas mais úteis que podemos ensinar-
lhes é a pensar — a pensar duma maneira que se poderá chamar histórica, a adquirir o hábito de
examinar cada problema à luz das suas origens históricas, a procurar porque são as coisas aquilo
que são, ‗pois a solução dum problema se encontra muitas vezes facilitada pelo conhecimento da
sua evo1ução*,
(E. H. DANCE, «ALGUMAS SUGESTÕES, DESTINADAS AOS PROFESSORES DE HISTÓRIA RESPEITANTES A NOVAS CONCEPÇÕES E
NOVOS MÉTODOS.’).
Assim, se um acontecimento se deu 1270 anos antes do nascimento de Jesus, escreve-se: 1270 a.
C.
A.C. é a abreviatura de «Antes de Cristo».
E, como pode haver confusão, também para os anos da nossa era se usa uma abreviatura: d. C.
(depois de Cristo). Por exemplo, 212 d. C.
O que sucede com os anos sucede, é claro, com os séculos (centenas de anos) e com os milénios
(milhares de anos).
O ano de 1270 a. C., acima dado como exemplo, pertence ao 2.° milénio a, C., ou, se quisermos
contar em séculos, ao XIII século a. C. E o ano 212 d. C. pertence ao século III d. C. e ao 1º
milénio d. C.
Se pretendermos indicar o milénio (sem o ano nem século) mas precisar que se trata do começo,
do meio ou do fim do milénio, diremos:
Para o ano 1270 a. C. final do 2º milénio a. C.; e para o ano 212 d. C.; início (ou começo) do 1º
milénio d. C.
UTILIDADE DA HISTORIA
5 - Para que serve o estudo da História?
A esse respeito, variam muito as opiniões: há quem o considere inútil e até quem o considere
nefasto. Mas a grande maioria das pessoas considera-o útil.
Muitas têm sido as utilidades encontradas à História — várias delas inaceitáveis, algumas
absurdas ou ridículas, outras verdadeiras mas de pouco valor e, finalmente, as que podemos
considerar fundamentais e decisivas.
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Destas vamos apontar, apenas, as duas que se afiguram mais importantes:
1ª- O conhecimento da História é necessário para compreendermos bem o presente, isto é, a vida
actual, e para podermos prever o futuro, previsão esta indispensável para orientarmos a nossa
vida e para planearmos a sua melhoria.
2ª- Os homens são animais racionais*, o que constitui a sua grande superioridade sobre todos os
outros. E é essa sua faculdade de raciocinar* que lhe tem permitido sobreviver* e progredir. Mas
há várias formas ou tipos de raciocínio*: analógico*, dedutivo (o próprio das matemáticas, por
exemplo), indutivo (mais utilizado nas ciências experimentais, como a Física), etc. Ora um dos
tipos de raciocínio é o histórico. Quer dizer, a História (a reconstituição do passado histórico)
serve-se de um certo método* de pensamento especial.
Enquanto as outras formas de raciocínio se adquirem estudando outras ciências, é estudando a
História que se pode assimilar e adquirir o hábito de usar o método histórico, o que constitui um
enriquecimento mental, que torna as pessoas mais aptas a resolver os problemas que a vida e o
mundo põem a todos nós.
DEFINIÇÃO DE HISTÓRIA
6 — Depois de tudo o exposto, já poderemos compreender a definição de História tal como foi
formulada pelo Prof. Vitorino Magalhães Godinho: «A História é a maneira de bem pôr os
problemas de hoje graças a uma indagação científica do passado virada para a preparação dos
tempos vindouros.»
A EXPANSAO EUROPEIA E O COMERCIO Á ESCALA MUNDIAL
No século XV o desenvolvimento da economia exigia a procura do ouro e de outros produtos,
por vezes a grandes distancias. A Europa voltava a sentir a necessidade da expansão. Será em
Portugal que esse desejo expansionista, comum a outros países encontrara os meios adequados a
sua realização. A prática da navegação foi introduzida em Portugal pelos Mouros, e depois
patrocinada pelo infante Dom Henrique no século XVI. Usada na prática da exploração, na
época das Grandes Navegações, Portugal já tinha prática e conhecimentos pelos seus 100 anos de
experiência antecedentes, quando começou a usa a Caravela, Astrolábio e a Bússola.
Portugal vai ser, assim o país pioneiro nas viagens de descobertas que, desde o inicio do século
XV, alargaram os horizontes do mundo conhecido pela Europa.
MOTIVAÇOES DA EXPANSAO EUROPEIA
A grave crise do século XIV, simultaneamente económica, social, moral e política,
concretamente, pestes, fomes, guerras e ainda uma crise dinástica de sucessão que colocou o paÍs
numa situação difícil que só a força das armas conseguiu ultrapassar; foi o motor que impeliu a
Europa para a expansão marítima.
Para além da falta da mão-de-obra, a Europa sentia a escassez de matérias-primas, mercadorias,
metais preciosas.
A oposição dos mercadores muçulmanos ao comércio cristão no mediterrâneo dificultava a
aquisição de muitos produtos orientais (especiarias, sedas, porcelanas) e a obtenção de ouro do
continente africano.
O reino de Granada controlava o tráfego do estreito de Gibraltar criando dificuldades á
navegação cristã e a pirataria mourisca, em constantes incursões, constituía uma ameaça aos
países ibéricos.
Para vencer esses obstáculos a Europa só tinha uma saída: a expansão marítima para o atlântico.
Foi com este espírito comercial e, ao mesmo tempo, de cruzada que se iniciou a expansão um
conjunto de condições favoráveis em relação aos restantes países da Europa.
Portugal foi aprendendo com os marinheiros experimentado do mediterrâneo, aperfeiçoou as
técnicas de navegação através da utilização da bússola e do astrolábio, bem como da elaboração
de cartas de marear e ainda do uso da vela latina ou triangular. A construção naval também
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sofreu melhoramento. Para ensinarem aos portugueses a arte de navegar, foram chamados muitos
estrangeiros, principalmente árabes e judeus, homens de sabedoria e larga experiencia na
navegação astronómica. Os marinheiros portugueses utilizavam com mestria vários instrumentos
náuticos recebidos dos outros povos, alguns dos instrumentos permitiam a orientação através dos
astros, levando ao desenvolvimento da navegação astronómica.
FACTORES E CONDIÇOES QUE CONTRIBUIRAM PARA A EXPANSAO
MARITIMA EUROPEIA
a) FACTORES ECONOMICOS
• O monopólio comercial árabe - italiano no comércio com o oriente. Os produtos do
oriente chegavam a Europa com preços demasiados altos, o que não permitiam grandes
lucros aos mercadores europeus devido a sua passagem pelos vários intermediários: Do
oriente chegavam á Europa seda, tapetes, jóias, açúcar, plantas medicinais, especiarias
como a pimenta, canela, cravinho, noz-moscada, etc… esses produtos eram adquiridos
pelos árabes nos portos da China, da Índia e da Pérsia.
Obtidos os carregamentos nessas paragens, retornavam pelo indico e subiam as costas do mar
vermelho, chegados ao canal de Suez vendiam ao Egipto e seguiam ainda para Constantinopla
em caravanas de camelos.
• Necessidade do ouro para o desenvolvimento da actividade mercantil. O ouro era cada
vez mais necessário para a actividade comercial pelo que era imprescindível a sua busca.
• Procura de novas rotas para o comércio com o Oriente.
O facto de a rota do Mediterrâneo e do Indico estar sob controlo dos árabes fez com
que fosse necessário procurar novas rotas para se chegar ao Oriente.
b) FACTORES TECNICOS - CIENTIFICOS
• O desenvolvimento da técnica e da ciência.
O desenvolvimento da ciência e da técnica possibilitou o inicio da expansão marítima no
final do século XV
• A imprensa.
• Os instrumentos náuticos: bússola, astrolábio e caravelas.
• As armas de fogo
1- SITUAÇAO GEOGRAFICA E ACTIVIDADES ECONOMICAS
No século XV, o desejo de todos os europeus de procura de ouro e de produtos vai-se concretizar
em Portugal. Portugal fica situado na faixa litoral do oceano atlântico e tem bons portos: Setúbal
e Lisboa. O que obriga os habitantes desta região a mergulharem-se no mar, razão pela qual
Portugal e Espanha foram os pioneiros na conquista de outras terras. As suas actividades
económicas eram de pesca, a navegação e o comércio. Os portugueses são um povo navegador
que foi ganhando experiências na arte de navegar com ajuda dos seus reis na construção naval e
na aquisição de conhecimentos dos seus marinheiros.
SITUAÇAO POLITICA E SOCIAL
No inicio do século XV, em Portugal a paz era um facto, mas a actividade comercial estava a
decair ou enfraquecer.
Os vários grupos sociais desejavam melhorar as suas condições económicas.
- A burguesia queria novos mercados para obter mais lucros
- A nobreza desejava conquistar novas terras e novos cargos (emprego).
- O povo esperava melhorar as suas condições de vida ; a estes argumentos associa-se a
curiosidade e o desejo de evangelizar o cristianismo.
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AS GRANDES VIAGENS E AS NOVAS ROTAS
A EXPANSAO DE PORTUGAL
Portugal e Espanha foram os iniciadores da expansão no século XV e a estabelecerem as
principais rotas marítimas que ligavam a Europa á África, América e a Ásia.
Em Portugal e Espanha, a burguesia e a monarquia uniram-se para custearem a empresa da
expansão. A primeira para desenvolver o comércio e a segunda para fortalecer o seu poder. A
estes factores juntam-se a os da posição geográfica favorável destes países e a experiencia de
navegação aí existente, recebidos dos marinheiros, geógrafos e astrónomos árabes, judeus e
italianos.
Ate ao século XIV, os europeus tinham uma noção errada e retrógrada dos continentes.
No decorrer do século XV, as viagens sucederam-se transpondo etapas que possibilitaram, no
século seguinte o conhecimento dos oceanos e continentes, nova rota atlântica, a esfericidade da
Terra , de povos e culturas de outros continentes. isso permitiu um maior desenvolvimento dos
europeus usufruir de maior desenvolvimento económico com o alargamento do espaço colonial,
o que levou Portugal e Espanha a enveredarem-se em contendas que, mais tarde, se estenderam a
outros países europeus, como a Holanda, a França, e a Inglaterra, pois cada um queria formar o
seu império colonial; com o alargamento do comércio, a Europa cumulava capitais, pilhando as
riquezas dos outros continentes, enquanto outros empobreciam.
- O primeiro acto expansionista dos portugueses foi a tomada de Ceuta, em 1415, aos Mouros, no
norte de África.
A conquista da região Muçulmana de Ceuta – Marrocos, incentivou os portugueses ao
reconhecimento da costa africana para lá do Cabo Bojador, com o propósito de chegarem ao pais
de ouro, na costa ocidental de África. Pois era ―Tida como a chave de todo
mediterrâneo‖Abrindo para o Reino de Portugal as portas ao domínio do comércio que aquele
porto exercia. A vila rapidamente cresceu como pólo da mais elevada tecnologia da época para a
navegação e cartografia com um arsenal naval, observatório, e uma escola para estudo da
geografia e navegação.
os portugueses prosseguiram com a exploração da costa africana, tendo atingido as Ilhas de
Madeira por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1425, posteriormente colonizadas.
- Em 1427, outros navegadores descobriram as primeiras ilhas dos Açores (possivelmente
Gonçalo Velho). Também estas ilhas desabitadas foram depois colonizadas pelos portugueses.
- Seguindo viagem para o sul do Cabo Bojador, os portugueses chegaram ao tão desejado Rio do
Ouro , na actual Republica do Sahara, em 1436, onde mais tarde os portugueses capturaram, pela
primeira vez, escravos africanos, inaugurando, desta forma, o comercio de escravos que iria
perdurar até ao século XIX.
Entre os anos 1469 – 1474, no século XV começava a exploração do Golfo da Guiné , os
portugueses, com o desejo de encontrar a índia, chegaram á costa do Golfo da Guiné, que tinha
extrema importância para os portugueses, pois o controlo destas significava, a partir daí,
desenvolver o comércio de escravos, de ouro, do marfim e a malagueta. Como forma de prevenir
ataques de concorrência entre europeus, uma das primeiras medidas tomadas por D. João II rei
de Portugal, foi a de mandar construir na mina (actual Gana), o forte de São Jorge da mina, em
1482, que se tornou no principal centro de tráfico de escravos e de ouro. Mina foi o porto mais
próspero da África ocidental, enquanto não se chegou a India, se retirava 400 quilos de ouro para
a Europa.
- Na sequência da viagens de exploração marítima portuguesas, em 1482, o navegador português
Diogo Cão, chega a foz do rio Zaire ou Kongo e coloca o seu primeiro padrão de São Jorge, e
Bartolomeu Dias chega ao Cabo de Boa esperança, em 1487.
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Com essas em torno da costa ocidental africana, os portugueses ganhavam cada vez mais certeza
de que a India poderia ser alcançada por mar.
- No mês de Julho de 1498 , Vasco da Gama conduzido por um piloto árabe, Ibn Madjid de
Melinde que atravessando a costa oriental de África, chega a Calecut, cidade da Índia,
descobrindo desta forma o caminho para a Índia.
É com esta viagem, é que se conheceu grande parte da costa oriental africana, que se abriu para a
Europa o desconhecido mundo oriental e o relacionamento dos três continentes: Europa, África e
Ásia.
Na tentativa de chegar a índia, uma expedição um expedição comandada por um genovês,
Cristóvão Colombo, ao serviço de Espanha, chega as ilhas de Cuba e Haiti, na América, em
1492.
Durante o século XVI realizaram-se outras expedições:
A 22 de Abril de 1500 Pedro Alves Cabral chegava ao Brasil.
- entre 1519-1522, realiza-se a viagem de circum-navegação, comandada por Fernão de
Magalhães e Sebastião Elcano, pela primeira vez, o homem andava á volta do mundo dando
provas da esfericidade do globo terrestre.
A nova rota atlântica possibilitou, aos países ibéricos, o conhecimento de varias regiões.
Como o interesse primordial da expansão era o alargamento do mercado e o desenvolvimento da
economia europeia, Portugal e Espanha, disputavam entre si diversas regiões. Primeiro foi a
disputa das Canárias e, depois, e depois a viagem de Cristóvão Colombo á América. A contenda
reacendeu tendo culminado com um novo acordo - o Tratado de Tordesilhas – que estipulava a
divisão do mundo em dois hemisférios, cabendo a Espanha o hemisfério ocidental e a Portugal o
hemisfério oriental.
A partir dos séculos XVII e XVIII, o domínio europeu sobre os outros continentes vai continuar
a alargar-se , sendo também disputado por outras potencias. Portugal e Espanha eram o centro
que comandava a economia mundial, mas este centro desloca primeiro para a Holanda e depois
para a emergência de novos impérios coloniais.
OUTRAS EXPEDIÇOES
O Cabo Branco foi atingido em 1441 por Nuno Tristão e Antão Gonçalves. A Baía de Arguim
em 1443, com consequente construção de um forte em 1448.
Dinis Dias chega ao Rio Senegal e dobra o Cabo Verde em 1444. A Guiné é visitada. Assim, os
limites a sul do grande deserto do Sara são ultrapassados. A partir daí, D. Henrique cumpre um
dos seus objectivos: desviar as rotas do comércio do Sara e aceder às riquezas na África
Meridional.
Em 1452 a chegada de ouro era em suficiente quantidade para que se cunhassem os primeiros
cruzados de ouro. Entre 1444 e 1446 cerca de quarenta embarcações saíram de Lagos. Na década
de 1450 descobriu-se o arquipélago de Cabo Verde.
- Em 1460 a costa estava já explorada até ao que é hoje a Serra Leoa.
- Em 1434 Gil Eanes, navegador português dobra o cabo Bojador
- Em 1441 os portugueses ultrapassam o cabo Branco, onde adquiriam escravos e ouro em troca
de alguns produtos europeus.
- Em 1460 os portugueses chegam a Serra Leoa.
- Em 1460, o Cabo da Boa Esperança foi dobrado, e Vasco da Gama chega à Índia, em 1498,
pouco antes de Pedro Álvares Cabral descobrir o Brasil. Cristóvão Colombo foi um dos alunos
da Escola de Sagres, e na década de 1470 navegou pelos territórios portugueses na Madeira
(residiu em Porto Santo) e na costa africana.
10 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
♥- Graduado em História, pela UKB
- Em 1488 Bartolomeu Dias, passou o extremo sul de África, confirmando a passagem do
atlântico para o indico, chamando põe isso« Cabo de Boa Esperança» e torna comunicáveis os
oceanos Atlântico e Indico.
A EXPANSAO DA ESPANHA
Depois da descoberta das Américas por Cristóvão Colombo, os espanhóis começaram a sua
expansão. Porem só a partir de 1519 começaram a exploração do continente Americano.
- Em 1522 Fernão de Magalhães (português ao serviço do rei da Espanha) passando do oceano
Atlântico para o oceano Pacifico, estabelecia a primeira viagem de circum-navegação.
Magalhães virá a ser morto em combate nas filipinas e foi piloto espanhol Sebastião Elcano que
completou a viagem de circum-navegação. Dos 265 homens que compunham a tripulação inicial
só 18 voltaram a Espanha.
OBS: A conquista das Américas pela Espanha foi muito terrível para os habitantes , pois já
existiam civilizações ameríndias extremamente desenvolvidas como: Maias, Incas e Astecas.
O Cabo Branco foi atingido em 1441 por Nuno Tristão e Antão Gonçalves. A Baía de Arguim
em 1443, com consequente construção de um forte em 1448.
Dinis Dias chega ao Rio Senegal e dobra o Cabo Verde em 1444. A Guiné é visitada. Assim, os
limites a sul do grande deserto do Sara são ultrapassados. A partir daí, D. Henrique cumpre um
dos seus objectivos: desviar as rotas do comércio do Sara e aceder às riquezas na África
Meridional. Em 1452 a chegada de ouro era em suficiente quantidade para que se cunhassem os
primeiros cruzados de ouro.
Entre 1444 e 1446 cerca de quarenta embarcações saíram de Lagos. Na década de 1450
descobriu-se o arquipélago de Cabo Verde. Em 1460 a costa estava já explorada até ao que é
hoje a Serra Leoa.
EMERGÊNCIA DE NOVOS IMPÉRIOS COLONIAIS EUROPEUS
(HOLANDA, INGLES E FRANCES)
Guerra dos Sete Anos
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
A Guerra dos Sete Anos foi o primeiro conflito a ter carácter mundial, e o seu resultado é muitas
vezes apontado como o ponto fulcral que deu origem à inauguração da era moderna. Ao longo
dos sete anos que vão de 1756 e 1763, as grandes potências europeias levam a guerra às suas
possessões em todo o mundo. Na Europa, a Inglaterra e a Prússia confrontam-se com as três
grandes potências continentais do tempo, França, Áustria e Rússia, e a guerra termina com
vantagem para a Prússia, que mantém o controlo sobre a Silésia e se afirma como concorrente da
Áustria na liderança dos estados alemães, e a Inglaterra, que consegue vitórias importantes sobre
a França, solidificadas no Tratado de Paris, e que lançam as bases do seu futuro império colonial.
A Guerra dos sete anos foi precedida por uma reformulação do sistema de alianças entre as
principais potências europeias, a chamada Revolução Diplomática de 1756.
11 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
♥- Graduado em História, pela UKB
O Império Inglês
A Inglaterra era tradicionalmente um país de intensa actividade marítima graças à sua
localização geográfica. No entanto, a partir do século XVI, nomeadamente no reinado de Isabel 1
(1558-1603), os Ingleses tentaram estender a sua influência às regiões recém-descobertas, mais
precisamente à América e à África, e mais tarde à Índia, disputando o comércio transatlântico
com os Portugueses e Espanhóis. A guerra de corso contra os países ibéricos, incentivada no
século XVII, foi substituída pela ocupação territorial inglesa.
As perseguições religiosas e os conflitos políticos levaram muitas famílias a procurar a liberdade
e a paz que não existiam nos seus países na costa atlântica da América do Norte. Foi aí que
fundaram as primeiras colónias inglesas: na Virgínia e no Massachusetts. A ocupação e
conquista do território americano marcaram o avanço dos Ingleses. Mesmo com o direito
exclusivo colonial em vigor (as colónias apenas podiam comercializar com a metrópole), os
territórios americanos conseguiram atingir um elevado nível de desenvolvimento. Depois de
obterem a sua independência no século XVIII, as treze colónias americanas deram origem aos
Estados Unidos da América.
Durante a governação de Oliver Cromwell (1653-58), foi publicado o Acto de Navegação
(1651), que veio contribuir de forma decisiva para o triunfo do domínio inglês nos mares. Nessa
lei estabelecia-se que todas as mercadorias produzidas nas colónias inglesas deveriam ser
transportadas para Inglaterra em barcos ingleses e que os barcos estrangeiros apenas podiam
transportar para Inglaterra mercadorias produzidas nos respectivos países.
Esta lei foi um duro golpe nos interesses dos Holandeses, que se tinham tornado, como sabemos,
os principais intermediários do comércio realizado entre o Norte e o Sul da Europa. Além disso,
permitiu o desenvolvimento da marinha mercantil inglesa. Por consequência, a Holanda perdeu a
sua hegemonia comercial nos mares. Apetrechada com uma poderosa frota no século XVIII, a
Inglaterra tornou-
-se então a principal potência comercial europeia.
A França não tardou também a entrar na concorrência do comércio colonial. No entanto, apesar
de ter criado companhias de comércio e estabelecido colónias na América Central e do Norte,
bem como no Oriente, acabou por perder quase todas em proveito da Inglaterra.
RIVALIDADES EUROPEIAS, CONFERÊNCIA DE BERLIM E A SOLUÇÃO DAS
LUTAS PELA OCUPAÇÃO DOS TERRITÓRIOS COLONIAIS
Depois do comércio de escravos deixar de ser rentável, o comércio de especiarias e a
indústria levaram a que se começasse a desenvolver o sistema económico capitalista. Foi por
essa razão que as nações europeias entraram em conflito aquando da procura de matérias-primas,
mercados e zonas de exploração, principalmente no século XIX.
Nessa altura, a Europa saía da fase do capitalismo de livre concorrência para a fase do
capitalismo monopolista, e a procura de novos mercados tornava-se uma necessidade para as
potencias europeias, que na sua expansão em África e na Ásia procuravam solução para os
problemas económicos. A Europa necessitava também de matérias-primas e a África era a zona
mais próxima e disponível para tal.
No final do século XIX teve inicio o grande movimento de expansão colonial em África.. O
mundo foi Influenciado pelo sistema capitalista industrial recém-nascido em África e a situação
agravou-se quando a Alemanha e a Itália concluíram os seus processos de unificação nacional e
se lançaram também em busca de posições no continente africano.
Os Europeus fixaram-se no interior do continente africano e, mais tarde iniciaram a penetração
no interior. A resistência dos povos africanos obrigou os Europeus a recorrerem a força — não
obstante, a partilha de África fez-se por via diplomática.
12 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
♥- Graduado em História, pela UKB
Portugal e Inglaterra assinaram em 1884 um tratado sobre oo Kongo, ao qual o bloco franco-
belga, a que mais tarde se juntou a Alemanha, reagiu. Para norte do paralelo 8º (território de
Ambriz, Soyo e Kabinda), a Inglaterra reconhecia os direitos de Portugal, mas não permitia que
se promovesse a ocupação efectiva desses territórios em virtude de reservas e diferenças
diplomáticas. Na costa norte e nas duas margens do rio Kongo (Nzadi a Kongo) havia algumas
feitorias portuguesas e numerosos estrangeiros. Os Portugueses reivindicavam o direito histórico
sobre as duas margens do rio Kongo, mas tal direito foi contestado pela Bélgica, Inglaterra e
França. Foi este facto que provocou a convocação da Conferência de Berlim, a pedido de
Portugal.
Nessa conferência, que se realizou em Berlim entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro
de 1885 sob os auspícios do chanceler alemão Bismark, foram estabelecidas algumas regras
relativas à partilha de África. A ocupação do litoral não bastava para reivindicar as terras do
interior: este tinha de ser efectivamente ocupado, com notificação às potências. Sob o pretexto de
resolver o problema do Kongo, foram convocadas para essa conferência 15 nações, incluindo
os Estados Unidos da América e a Turquia. A África não foi representada. São eles
França,Alemanha, grã-bretanha, portugal, Holanda,Áustria, Hungria, Bélgica,
Dinamarca, Itália, Suécia, Noruega, Espanha,Turquia, E.U.A. e ainda a associação
internacional do Kongo.
Nesse fórum foi reconhecido o Estado Livre do kongo, uma criação do rei Leopoldo II da
Bélgica a partir do antigo Reino do Kongo, retalhado por Portugueses, Franceses e Belgas.
Foram firmadas as normas para a abolição da escravatura e criou-se o conceito de ―ocupação
efectiva‖, que exigia dos colonizadores a ―existência de uma autoridade suficiente para fazer
respeitar os direitos adquiridos‖, entre outras. Neste caso, foi entregue à administração
portuguesa em Angola uma região, com as fronteiras estabelecidas entre os paralelos 5º e 17º25‘
de latitude Sul, incluindo a margem esquerda do majestoso rio Kongo.
Quanto à administração belga, para ter acesso ao mar, foram-lhe entregues as regiões de Matadi,
Boma, Banana e a margem direita do rio Kongo. Aí começou a corrida à ocupação efectiva de
África. Os princípios da repartição colonial de Berlim foram praticamente reconfirmados na
Conferência de Bruxelas de 1 889-1890. Podemos recordar que o tratado que veio estabelecer os
limites a norte de Angola foi assinado apenas a 25 de Maio de 1891 entre Portugal e o Reino do
Kongo, representado pelo Rei D. Pedro V (Kivuzi) (1855—1891).
A expansão europeia trouxe grandes alterações ao mundo, pois até ao século XV grandes partes
do globo viviam completamente separadas entre si. A expansão europeia veio abrir através dos
oceanos uma rede de rotas comerciais que passaram a ligar todas as regiões do mundo,
originando no século XV a primeira economia à escala mundial. Esta mundialização da
economia fez-se sobretudo em proveito da Europa e contribuiu decisivamente para o seu futuro
desenvolvimento.
1.4.3. Consequências económicas da expansão europeia
Economia à escala mundial
No século XV a maior parte dos países do mundo desenvolviam as suas trocas comerciais em
determinados espaços geográficos, nas áreas mais desenvolvidas e mais próximas, em particular
na Europa Ocidental, Próximo Oriente e China. No entanto, a rede de rotas comerciais estava
bem longe de cobrir todas as partes do mundo.
13 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
♥- Graduado em História, pela UKB
No século XVI, a situação altera-se profundamente com a expansão de Portugal e Espanha. A
partir dessa altura, os mercadores da península Ibérica e, mais tarde, de outros países europeus,
começaram a instalar-se através da força em quase todas as partes do mundo. TAREFA
1- Quais são as potencias que substituíram Portugal e Espanha no mar?
2- Qual era a politica defendida pelos portugueses e espanhóis no que respeita ao domínio
dos mares?
3- O que entendes por mare liberum? 4-Explica o que é o mare clausum
4- Consequências económicas da expansão europeia numa economia à escala mundial?
5- O que provocou as rivalidades entre os europeus?
6- Cita o lugar da conferência e os participantes?
A ERA DO TRÁFICO DE ESCRAVOS NEGROS
Na 7a classe, estudaste já os principais Estados e as características gerais das sociedades
africanas no período que vai do século VII ao século XV, que corresponde à chamada época
feudal europeia e, em África, a um período de desenvolvimento económico, político e cultural
em nada inferior ao da Europa. Isto aplica-se não só às regiões directamente influenciadas pela
civilização islâmica (Norte de África, região sudanesa, costa oriental), mas também às marcadas
por uma cultura negro- africana original (África Subsariana, Central e Meridional).
Antes do tráfico europeu, já os Árabes traficavam escravos africanos. Estes eram há muito
objecto de comércio regular entre o Sara e o oceano Índico, que os colocava em contacto com o
exterior. As relações da Arábia com África pelo mar Vermelho e pelo oceano Índico explicam o
papel desempenhado pelos Árabes no tráfico negreiro. Este comércio iniciou-se em pequena
escala, mas depois conheceu uma grande evolução na altura da expansão árabe na África do
Norte.
Uma das principais vias do tráfico era a que ligava a costa oriental de África com a Arábia. Os
escravos eram uma das mercadorias mais procuradas na Arábia, sendo as outras o marfim, o ouro
e a madeira. Uma segunda via do tráfico unia a Arábia ao Corno de África, mais precisamente à
Abissínia.
A Europa nunca esteve ausente durante as correntes de trocas negreiras anteriores ao tráfico
transatlântico. Inicialmente a sua participação foi menor e indirecta, e fez-se por intermédio dos
seus vizinhos muçulmanos. Porém, a partir do século XIV, os Europeus, principalmente os da
península Ibérica, procuraram a todo o custo abrir vias ou rotas de trocas directas com a África
atlântica.
A princípio, estas trocas acabaram por se concentrar nos escravos como mercadoria privilegiada,
mas os Europeus tornaram-se rapidamente independentes dos Árabes, pelo que o comércio de
escravos praticado pelos Europeus veio a conhecer uma amplitude sem precedentes.
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♥- Graduado em História, pela UKB
A escravatura era um estatuto social corrente na Europa medieval. No final da Idade Média, os
escravos que se encontravam na Europa eram na maior parte originários dos territórios situados
nas margens do mar Negro ou do Cáucaso. Os negros de África constituíam uma excepção.
Porém, a introdução destes africanos proveio da iniciativa dos Árabes, e os próprios Europeus
não tardaram a utilizar um número cada vez mais crescente de escravos negros.
A partir do século XVI, o curso da história africana alterou-se brutalmente, quando a Europa
entrou exactamente na mesma época em período de expansão económica e geográfica, passando
a interferir na evolução das sociedades africanas de uma forma que se foi acentuando nos séculos
seguintes. Com os ―grandes descobrimentos‖ começa uma evolução divergente: civilizações que
não sendo semelhantes mas têm um nível de desenvolvimento equivalente vão distanciar-se de
tal maneira que os Europeus do século XIX, em plena fase de expansão imperialista, acharão
normal e natural apoderar-se gradual e depois totalmente do continente africano.
Do século XVI ao século XVIII, a África foi palco de um dos maiores genocídios da história da
humanidade: milhões de africanos foram arrancados violentamente das suas terras e do seu meio
social ou pereceram para enriquecer uma burguesia mercantil sedenta de ouro, prata e outros
produtos preciosos.
É este período que se designa por ―Era do Tráfico‖, para África, e ―Período de Acumulação
Primitiva de Capitais‖, para a Europa (ver esquema acima). O tráfico de escravos foi o factor
essencial da história africana durante este período.
Enquanto para os Europeus, especialmente para as suas classes dominantes, o tráfico significou
ouro, marfim, especiarias, açúcar, tabaco, enfim, riqueza e desenvolvimento das forças
produtivas, para os Africanos o tráfico significou extermínio, expulsão e deslocação, perda dos
seus melhores filhos, degradação da economia, bem como atraso no desenvolvimento das forças
produtivas.
Primeiros contactos
Desde tempos remotos, houve contactos entre África e os países do Mediterrâneo através das
rotas de caravanas transarianas.
As mercadorias do Norte de África, do Próximo Oriente e da Europa (espadas de aço, ferragens,
sedas, tecidos e escravos, entre outros produtos) chegavam até à África sudanesa para serem
trocados por ouro, marfim, sal, pimenta e escravos. Entre as várias regiões africanas também
havia trocas comerciais que permitiam contactos culturais e relações politicas. Os Estados
sudaneses (Gana, Mali, Songhai) mantinham ligações com o Egipto; havia contactos entre o
Senegal e a Somália; entre o Chade e as cidades do Nilo; das cidades da costa do oceano Índico
com os Estados da bacia do Nilo, e do litoral com o interior.
Até ao século XV, o comércio entre a África e a Europa efectuava-se através das rotas
transarianas e da costa do oceano Índico por intermédio de mercadores árabes, que
encaminhavam os produtos para as grandes cidades italianas e ibéricas.
No século XV, o tráfico mudou de orientação. O Sara cedeu progressivamente o lugar ao oceano
Atlântico, onde os contactos entre africanos e europeus se multiplicaram devido às descobertas
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científicas e técnicas que permitiram uma navegação mais segura e à grande necessidade que a
Europa tinha de ouro e especiarias. Os primeiros europeus que desembarcaram nas costas
africanas foram os Portugueses, movidos por interesses lucrativos e de aventuras.
No início da expansão, os Europeus limitaram-se à costa ocidental de África, mas a procura do
caminho marítimo para a Índia, outra fonte de ouro e especiarias, levou-os à costa oriental
africana.
O objectivo principal dos Portugueses na costa oriental era o de se apoderarem
do mercado árabe. A sua intromissão no oceano Índico foi desastrosa para os
Árabes, pois perderam o papel de intermediários entre a Índia, o Extremo Oriente
e a Europa.
Na costa oriental, os contactos afro-portugueses não tiveram o mesmo carácter que tinham
assumido na costa atlântica. Quando ali chegaram, os Portugueses descobriram que as cidades
mercantis que estavam em contacto com a Pérsia, a Índia e a China detinham há séculos uma
civilização mais sofisticada do que a sua. Assim, a primeira atitude foi destruir, pilhar e queimar
Quilôa, Mombaça e outras cidades do litoral Índico, cujo fraco poder defensivo não pôde
impedir esta agressão violenta.
Os escravos eram obtidos em África através de assaltos aos acampamentos tuaregues ao longo
do litoral do Sara e às aldeias negras da região do Senegal. Os primeiros navegadores
portugueses trouxeram para Lisboa alguns escravos negros que designaram por ―mouros‖.
A compra e venda de escravos negros por parte dos Europeus teve o seu início em 1441, quando
os navegadores Antão Gonçalves e Nuno Tristão levaram para Lisboa dez escravos capturados
na Costa da Guiné. Em 1444 chegava a Lisboa o primeiro grande carregamento de escravos, num
total de 263. À curiosidade inicial seguiram-se rapidamente razões de ordem comercial, pois a
partir de 1510 a 1555 um décimo da população de Lisboa era composta por escravos e seus
descendentes. Alguns destes escravos eram empregues como mão-de-obra na agricultura,
sobretudo no Sul de Portugal (Algarve), na Madeira e nos Açores.
No princípio do século XVl, os Portugueses, já solidamente estabelecidos nas ilhas de Cabo
Verde e São Tomé, instalaram aí plantações de cana-de-açúcar, tendo capturado escravos para
estas culturas nas costas do Senegal, na Costa do Ouro e no Benim.
A descoberta da América por Cristóvão Colombo em 1492 marca uma viragem na história da
humanidade, em geral, e na história de África, em particular. O tráfico de escravos não só
aumentou extraordinariamente como se tornou uma instituição que durante cerca de quatro
séculos iria marcar de forma dramática três continentes — a África, a América e a Europa no que
foi designado como ―Grande Circuito‖ ou ―Comércio Triangular‖.
A exploração da terra na América exigia muita mão-de-obra. Os índios, pouco numerosos e
habituados a uma vida nómada, não aguentaram a escravatura: morriam, fugiam ou eram
massacrados.
Também foram enviados europeus degredados ou servos, mas estes não tinham experiência na
agricultura tropical. Então, os grandes proprietários recorreram aos escravos africanos, mais
fortes e experientes na agricultura tropical. Foi o início do comércio triangular.
A mão-de-obra africana tornava-se cada vez mais necessária à medida que a
América era explorada nos seus recursos agrícolas e minerais. As plantações das
Antilhas e do continente, sobretudo do Brasil, desenvolviam as culturas do açúcar, do tabaco e
do café. A exploração mineira tinha como objectivo a obtenção de ouro e prata necessários à
expansão do capitalismo europeu.
O capitalismo mercantil europeu foi, pois, marcado desde o início por uma concorrência
extraordinária, levando os países participantes a lutas constantes.
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Como obtinham os portugueses escravos em Angola
Durante a primeira metade do século XVII havia três métodos principais para se obter escravos.
O primeiro consistia em mandar traficantes comprá-los aos mercados dos povos mais afastados, junto às
fronteiras do congo e de Angola. Uma das feiras de escravos mais importantes realizava-se entre o povo Mpumbu,
próximo do lago Stanley. Do nome desse povo deriva o dos comerciantes que se deslocavam tanto para o interior,
assim como os dos mercados que frequentavam — respectivamente ―pombeiros‖ e―pombos‖
O segundo método consistia em obter escravos através da imposição de tributos aos chefes
mpumbu conquistados. Esse tributo tinha que ser pago em jovens adultos
conhecidos pelo nome de ―peças da Índia‖. Estas ―peças‖ eram a princípio obtidas livremente pelos soldados ou pelo
oficial,..
O terceiro método de adquirir escravos era através de guerras directas. Durante as guerras de alargamento territorial,
os comerciantes acompanhavam os exércitos portugueses, comprando cativos aos soldados que a eles tinham direito.
O perigo deste sistema era que os comerciantes perdiam a sua mercadoria sempre que o exército português era
derrotado...
VE SE SABES
1 Por que razão os portugueses ocuparam a costa oriental africana?
2- Qual foi a consequência desta ocupação para os árabes?
3- A descoberta das Américas por Cristóvão Colombo em 1492 marca uma viragem na historia
da humanidade, em geral, e na historia de África, em particular. Porquê?
4- Explica o sentido da expressão ―comercio triangular‖
5- Quais eram os métodos a que recorriam os traficantes negreiros para obterem escravos?
O tráfico de escravos negros deu origem a um circuito comercial que se designou por ―comércio
triangular‖. Este comércio praticado pela maioria dos países europeus, e depois pelos
americanos, com a cumplicidade dos chefes africanos durou até ao século XIX e marcou
fortemente a história africana.
O COMERCIO TRIANGULAR
A descoberta e a exploração das Américas encontra-se na origem deste acto hediondo praticado
pelos Europeus.
Os navios negreiros partiam dos portos europeus carregados de artigos, geralmente de baixo
valor, tais como espelhos, colares e aguardente (misturada com água e sabão, para fazer espuma),
entre outros. Chegados à costa africana, os europeus trocavam estes produtos por ouro, peles,
goma, marfim e, sobretudo, escravos, que eram transportados para as Américas e vendidos aos
colonos. Estes depois forneciam os produtos das suas plantações (açúcar, algodão, café, tabaco) e
das minas (ouro, prata e pedras preciosas), que eram levados para a Europa nos mesmos navios
negreiros.
O comércio triangular dava assim lucros fabulosos com a venda dos produtos europeus em
África, escravos nas Américas e produtos americanos na Europa.
No início, o transporte era organizado por particulares. Depois, os governos europeus, que até
então estavam alheios ao tráfico negreiro, acabaram por aceitar e encorajar esta prática devido
aos interesses económicos que representava.
Eram seis as regiões principais do tráfico, as quais abrangiam a área que vai de Arguim
(Mauritânia) até Angola:
• Senegal • Costa do Marfim
• Serra Leoa • Costa do Ouro (actual Gana
• Costa da Guiné • Costa dos Escravos (Togo, Daomé)
Entre o Senegal e a Costa do Ouro também existia tráfico, mas era insignificante em relação à
parte oriental do golfo da Guiné e à costa do Kongo e de Angola.
O comércio triangular foi inicialmente monopólio dos Portugueses e Espanhóis. Até ao século
XVI, encaminhavam os escravos para Cabo Verde, São Tomé, Brasil e ilhas de Cuba e S.
Domingos (Haiti).
Em 1508, a coroa espanhola promulgou a primeira lei relativa ao transporte de escravos negros
para as Américas.
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Em 1510 foi ordenado o primeiro transporte de escravos para a América. A partir de 1515 os
rendimentos da monarquia espanhola provinham sobretudo do tráfico de escravos. O direito de
resgatar escravos e dispor deles era uma prerrogativa (direito) real. Foi assim que surgiu o
primeiro “asiento‖ em 1518, concedido aos Portugueses pela coroa de Espanha, isto é, o direito
de comprar escravos em África e de os vender na América mediante condições especiais e
precisas estabelecidas pelo rei de Espanha. Em 1693, a coroa espanhola voltou a renovar o
contrato de ―asiento‖ à companhia portuguesa de Cacheu.
ESCLARECER • Asiento — era o direito que o governo espanhol concedia a uma nação ou companhia
estrangeira privada a fim de abastecer as suas colónias da América de escravos negros.
O tráfico português destinava-se principalmente ao Brasil, onde a procura era muito elevada nas
plantações açucareiras e continuava a aumentar no sector mineiro. O Estado esforçava-se por
fazer um controlo cerrado deste comércio, tanto na partida como na chegada às Américas.
No fim do século XVI, grandes potências como a Holanda, a Inglaterra e a França entraram em
competição no comércio negreiro. Em 1580, Portugal perdeu a sua independência assim como as
suas possessões na Ásia e as feitorias africanas. Entre 1600 e 1680, os Holandeses foram os
grandes beneficiários do comércio e da navegação no Atlântico, tendo como concorrentes os
Franceses e os Ingleses.
No início do século XVII, estima-se que mais de um milhão de escravos tinham
sido exportados para as Américas, sendo mais de metade proveniente de
Angola, do Kongo e do Benim. A outra parte provinha da Costa do Ouro (actual
Gana) e da Senegâmbia (região situada entre o rio Senegal e a Serra Leoa).
O golfo da Guiné e a Costa do Ouro (Gana) eram as zonas de maior concorrência comercial,
onde os mercadores europeus se debatiam pela obtenção de melhores produtos e por maior
número de escravos. Na Costa do Ouro havia trinta e três fortes pertencentes a Holandeses,
Ingleses e Dinamarqueses. Cada uma destas potências tinha uma determinada zona de influência:
na Costa dos Escravos (golfo do Benim) estavam os Franceses, Holandeses e Portugueses; na
Senegâmbia, Gabão e Kongo, os Ingleses e Franceses. A costa sul do rio Kongo era monopólio
português, e a concorrência nesta zona não era muito grande.
Porém, os navegadores europeus só conseguiram instalar-se em certos locais. Para fazerem
comércio fundaram feitorias, isto é, pequenos estabelecimentos comerciais, por vezes
fortificados.
Em 1482, os Portugueses construíram o primeiro forte na Costa do Ouro, a que chamaram
castelo de São Jorge da Mina (El-Mina), pensando a partir daí chegar às minas de ouro, o que
nenhum europeu conseguiu até ao século XIX devido à resistência dos reis e chefes da região.
AS FEITORIAS
Os grandes núcleos do comércio europeu em África eram a foz do Casamansa, na Guiné (ouro);
a Costa da MaLagueta, na actual Libéria (Gindungo); São Jorge da Mina, no actual Gana (ouro e
escravos); o golfo do Benim (escravos e especiarias); a costa dos Camarões; a foz do rio Zaire; a
região do Cabo; e a África Oriental (escravos e marfim).
Os Portugueses foram os primeiros a estabelecer feitorias nestes centros de comércio: Arguim
(Mauritânia), Goreia (Senegal), Rio Fresco (Cabo Verde), Transval (Gâmbia), Casamansa
(Guiné), Samina (Costa do Marfim), Mina (Costa do Ouro — Gana), São Tomé e São Paulo de
Luanda. O monopólio deste comércio pertencia ao rei de Portugal, que concedia a contratadores
o direito de traficar
Os estados marítimos do Noroeste Europeu -França, Inglaterra e Holanda, cujo poderio
económico e comercial não cessava de aumentar - foram atraídos no século XVII para a África
Subsariana pelos produtos que os traficantes árabes e portugueses traziam para a Europa. Assim,
começaram a disputar as feitorias portuguesas na África, Índia e América, aproveitando a
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ocupação de Portugal pela Espanha, sendo necessária uma guerra de reconquista para recuperar
São Tomé, Luanda e a colónia do Brasil.
Os Franceses instalaram-se no Senegal onde fundaram S. Luís, conquistaram a Goreia aos
Holandeses e ocuparam a região do Alto Volta e Madagáscar.
A Costa do Ouro foi frequentada por Ingleses que se instalaram na Gâmbia, e por
Dinamarqueses e Alemães que também criaram alguns entrepostos.
O papel das feitorias
As feitorias tiveram um duplo papel: eram pontos de escala para os navios que se dirigiam para a
índia ou para a América e também serviam como entrepostos e lugares de troca entre traficantes
europeus e africanos. Por vezes eram ainda usadas como ponto de partida para o interior, mas a
penetração foi fraca ou quase nula, pois os africanos da costa impediam o acesso ao interior do
continente aos Europeus, utilizando para isso os seus próprios intermediários.
Os produtos trocados nas feitorias eram, do lado europeu, tecidos, pacotilhas, aguardente e armas
de fogo; e do lado africano, ouro de Bambuk (Gâmbia) e de Buré (Guiné), malagueta da Guiné e
da Mina, marfim e escravos.
Inicialmente, os produtos africanos eram enviados para as ilhas da Madeira e dos Açores e para
Lisboa, seguindo daí para outros grandes centros de comércio europeus.
Porém, as primeiras relações diplomáticas e comerciais deterioraram-se rapidamente, e, no fim
do século XV, o escravo negro tornou-se o elemento essencial das trocas entre a África e a
Europa.
O tráfico negreiro no litoral Índico
No litoral Índico, os Árabes tinham instalado há muitos séculos vários entrepostos comerciais,
mantendo o monopólio do comércio desde o cabo de Guardafui, na Somália, até Sofala, em
Moçambique.
Quando Vasco da Gama chegou à região, começou a luta entre Árabes e Portugueses, tendo estes
arrebatado o controlo do Índico durante a primeira metade do século XVI, Estabeleceram várias
feitorias no litoral - Sofala, Quelimane, ilha de Moçambique — e tentaram penetrar no interior
pelo Zambeze, onde estabeleceram entrepostos em Sena (1530) e Tete (1537), a fim de chegarem
às célebres minas de ouro do Monomotapa. Mas aqui tiveram que fazer face à resistência não só
do Monomotapa, mas também de outros reis africanos da região a quem tiveram de pagar tributo
para poderem traficar. Todos os anos seguia para Tete uma representação do Monomotapa, para
receber impostos dos Portugueses.
AS CONDIÇÕES DO TRÁFICO NEGREIRO
Ao chegarem à costa com as suas mercadorias, os traficantes de escravos negros desembarcavam
em portos onde negociavam com os intermediários. Nos primeiros tempos, as casílias para a
captura de escravos aconteceram com os soberanos locais, que passaram a vender aos europeus
os seus condenados ou prisioneiros de guerra. Porém, com o desenvolvimento do tráfico, estes
escravos deixaram de ser suficientes e passou a ser necessário obter ainda mais noutras regiões.
Como forma de penetrar no interior, os negreiros recorreram aos ―lançados‖ ou ―pombeiros‖,
descendentes de antigos negreiros que se tinham fixado em África e tinham como função
organizar o tráfico no interior. Os pombeiros percorriam o interior do continente e depois traziam
para a costa caravanas de escravos capturados nas ―razias‖.
Nos mercados, os escravos eram examinados como gado, avaliados e vendídos em leilão, e
depois armazenados em locais próprios, empilhados em quartos húmidos e mal iluminados
enquanto aguardavam pelo embarque.
Os navios negreiros eram barcos especiais com capacidade para quinhentas (500) ou seiscentas
(600) pessoas. Os porões destes barcos, equipados com correntes, eram preparados com o fim de
levarem o máximo de carga humana no pouco espaço disponível. As condições de transporte
eram péssimas, sem qualquer cuidado de salubridade, pelo que um quarto dos escravos morria
durante o trajecto.
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Os negreiros classificavam os escravos segundo a sua idade, robustez e estado de saúde. Só
depois de um exame anatómico minucioso e completo é que o escravo estava pronto para ser
vendido. Depois de adquirido, o escravo era marcado com um ferro em brasa com as iniciais do
comprador. Alguns escravos lançavam-se ao mar antes do embarque, e outros suicidavam-se
durante a penosa travessia e devido às condições desumanas. Os escravos doentes eram lançados
ao mar e os outros eram submetidos à chegada a novos exames médicos: dentes, olhos, órgãos
sexuais, mãos e pés. Por vezes eram chicoteados para se testar a sua resistência.
Nas plantações e nas minas a violência continuava, não havendo qualquer legislação que
defendesse e protegesse o trabalho dos escravos, pois estes não eram mais do que objectos,
máquinas de trabalho. Os escravos eram designados como ―peças da Índia‖ ou ―madeira de
ébano‖, pois, tal como a madeira, eram abatidos, vendidos, transportados e entregues.
Testemunho de um senhor e dos seus escravos
Lembro-me de ter tido momentaneamente ao meu serviço um negro de muito boa aparência e recém-desembarcado,
cujos punhos e tornozelos estavam em chaga devido às correntes. Perguntei-lhe qual era a causa.
- O meu pai, respondeu-me ele, era o rei e foi morto à traição pelos filhos dum príncipe vizinho. Para procurar
vingar a sua morte, ía diariamente à casa com algum dos meus, na esperança de encontrar os assassinos, mas tive a
infelicidade de ser surpreendido e acorrentado; daí vêm estas vergonhosas cicatrizes que vê aqui. Venderam-me em
seguida aos nossos compatriotas, na costa da Guiné, suplício estimado mais horrível do que a própria morte. A
história do meu negro Quaco era ainda mais extraordinária: ―Os meus pais‖, disse-me ele, ―viviam da caça e da
pesca. capturaram-me muito jovem enquanto eu brincava na areia com os meus dois irmãos. Imediatamente
meteram-me num saco e levaram-me a várias milhas dali.‖
Tornei-me então um dos escravos de um rei da costa da Guiné, que já tinha um número considerável. Quando ele
morreu, decapitaram a maior parte (dos escravos), que enterraram com o rei. As crianças da minha idade foram
distribuídas como presentes aos capitães do seu exército, e o patrão de um navio holandês comprou-me em troca de
um fusil e um pouco de pólvora.‖
O DESENVOLVIMENTO DO TRÁFICO E A RESISTÊNCIA AFRICANA
O comércio triangular, apesar de proporcionar enormes lucros aos comerciantes europeus,
também comportava alguns riscos, tais como naufrágios, pirataria, guerras entre as potências e a
resistência dos povos africanos. Como forma de se protegerem, os armadores e mercadores
europeus começaram a agrupar-se em associações ou companhias concessionárias apoiadas pelos
governos dos respectivos países. Os reis de cada país davam a cada companhia de mercadores o
monopólio nacional do comércio numa determinada região da costa oriental e ocidental da
África através de uma ―carta de garantia‖, na qual eram afixados os direitos e as obrigações a
cumprir.
Estas companhias concessionárias estavam organizadas em monopólios mediante uma concessão
real - obtinham o monopólio comercial e beneficiavam de privilégios, mas os reis exigiam parte
dos lucros obtidos no comércio.
O tráfico de escravos, que fora praticado sobretudo por particulares (navegadores, comerciantes,
piratas e aventureiros) durante os séculos XV e XVI, passou a ser exercido pelas grandes
companhias a partir do século XVII. Foram estas que se encarregaram do comércio transatlântico
e da exploração das colónias das Américas. Estas companhias instalaram feitorias e construíram
fortes e armazéns de escravos. Entre as várias companhias concessionárias destacaram-se as
francesas (Companhia do Cabo Verde e Senegal, Companhia das Índias Ocidentais), as inglesas
(Companhia dos Aventureiros Reais de África) e as holandesas (Companhias das Índias
Ocidentais e das Índias Orientais).
O desenvolvimento do tráfico e a resistência africana
O comércio de escravos na costa oriental africana e nas ilhas do Índico antes da chegada dos
Portugueses nunca tomou as proporções do tráfico transatlântico.
Este comércio era feito pelos Árabes, que encaminhavam os escravos para a
Arábia e o Médio Oriente.
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No entanto, as lutas entre Monomotapa e as tribos vizinhas deram aos Portugueses a
oportunidade de iniciar o comércio de escravos. Em 1544, fundaram uma feitoria em Quelimane
para onde eram escoados os escravos capturados nas guerras entre africanos e que se destinavam
à Índia, a Portugal e ao Brasil. Ainda assim, o transporte para Portugal e para o Brasil mostrou-se
improdutivo, pois a viagem era longa e uma grande parte dos escravos morria no caminho. O
tráfico passou então a dirigir-se essencialmente para a Índia.
Só a partir de 1640, quando Angola esteve ocupada pelos Holandeses e a costa ocidental indiana
se manteve nas mãos dos Portugueses, é que os traficantes de escravos negros se começaram a
dirigir à costa oriental à procura de escravos para satisfazer o número necessário para o trabalho
nas roças do Brasil. Porém, só nos finais do século XVIII é que este comércio se intensificou. Os
maiores centros de venda de escravos na costa oriental de África eram a Ilha de Moçambique e
Quelimane.
A RESISTÊNCIA AFRICANA
A resistência africana não tardou a organizar-se, e os europeus caíram vítimas das técnicas de
combate e do recurso às técnicas de guerrilha com a utilização das famosas flechas envenenadas,
que tanto os intimidavam.
Em 1446, uma nova expedição destinada a capturar africanos na Costa da Guiné orientada por
Nuno Tristão foi atacada quando invadia o rio Cacheu. Dos vinte e sete (27) membros da
expedição, apenas sete sobreviveram e o próprio Nuno Tristão aí encontrou a morte.
A morte em combate dos primeiros europeus obrigou-os a uma reflexão que, por sua vez,
chamou a atenção para a necessidade de mudanças.
As medidas tomadas resultaram da intervenção do Infante D. Henrique, o Navegador, que impôs
a renúncia à razia, substituída por um sistema baseado em relações comerciais normais.
No entanto, os Europeus jamais renunciaram à razia, técnica que sobreviveu até inícios do século
XIX, embora a maioria das operações tivessem já um carácter comercial.
Apesar dos europeus terem começado por praticar a compra de escravos fornecidos pelas guerras
havidas entre africanos, posteriormente desencadearam as suas próprias campanhas militares. No
fim do século XVI e no século XVII o povo Mbundu tornou-se o principal alvo dessas
campanhas.
No Kongo, os conflitos contra os Portugueses eram frequentes devido aos abusos, provocando
revoltas por parte do povo e da própria aristocracia. No século XVI, o povo konguense
manifestou-se contra os traficantes portugueses, que na ânsia de enriquecerem capturavam os
filhos da terra. O rei Álvaro ordenou o encerramento do porto de Mpinda e a expulsão dos
traficantes europeus.
A oposição mais violenta contra os agressores estrangeiros deu-se quando os missionários actuaram contra as
crenças animistas locais e o rei do Kongo ordenou a queima de objectos de culto. Este acontecimento chamou-se
―Revolta da Casa dos Ídolos‖ e teve lugar em 1591 —92, durante o reinado de D. Afonso 1 (Nzinga Mvemba).
Outras resistências sucederam-se contra os agressores estrangeiros através de revoltas que
destituíram monarcas, fazendo-os substituir por outros que oferecessem maiores garantias na
defesa da soberania do reino. A resistência que os Portugueses encontraram na tentativa de
conquistar o Ndongo parece ter sido superior àquela que esperavam.
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A principal razão era combater contra o poder estabelecido pelo Ngola e os seus chefes locais,
reforçados por vezes pela aliança com alguns grupos.
A resistência foi-se organizando e generalizando. De 1590 a 1600 a guerra conduzida pelo Ngola
Kiluanji e os seus aliados conseguiu limitar as posições portuguesas e os fortes de Muxima,
Massangano e Luanda.
No entanto, os Portugueses compreenderam que o tráfico de escravos estava seriamente
afectado, pois os Mbundu podiam bloquear as rotas comerciais e encerrar os mercados. Foram
então enviados emissários a Ngola Mbandi para negociar a reactivação do comércio de escravos.
Mas estes impuseram algumas condições:
• Auxílio dos Portugueses ao Ndongo para expulsar Kassanje, chefe dos Imbangalas do reino
• A restituição ao Ngola dos súbditos e chefes que tinham sido aprisionados durante a guerra.
Do lado dos Portugueses houve um bom acolhimento à negociação das tréguas, dada a urgência
que tinham em intensificar o tráfico que a guerra havia interrompido. O acordo assinado em
1656 entre Portugueses e Nzinga restabeleceu com efeito o comércio entre a colónia e a
Matamba durante os últimos anos de vida da rainha.
VÊ SE SABES...
1. O que eram as Companhias Concessionárias? Qual a sua razão de ser?
2. Quais eram as companhias mais famosas?
3. O que levou os Europeus a uma reflexão para a mudança no método de captura dos escravos?
4. Quando se deu esse ponto de viragem?
5. Destaca o papel da Rainha Nzinga Mbande na resistência contra os Portugueses.
Carácter exclusivo e racista do tráfico praticado pelos Europeus
A partir do século XV o tráfico de escravos mobilizou todas as nações europeias que
controlavam o fluxo internacional de escravos, recebendo por isso avultadas verbas de acordo
com o número de escravos que exportavam.
O escravo perdia a liberdade, aceitando a sua nova condição nacional e eliminando as relações de
parentesco nas quais tinha sido integrado e que até esse momento haviam determinado a sua
vida.
O escravo era, pois, brutalmente afastado da sua nação, da sua ecologia, dos seus espíritos e,
sobretudo, do seu parentesco. Esta nova condição era imposta todos os dias, sendo o escravo
obrigado, sob pena de morte, a aprender as novas regras, as novas línguas e até as novas
religiões.
Todo este processo que convertia um homem livre à condição de homem-mercadoria e de
homem-objecto decorreu com revoltas constantes, que eram reprimidas brutalmente — o que
demonstra o carácter exclusivo e racista das práticas dos traficantes negreiros.
Os homens africanos transformados em escravos com destino às Américas eram submetidos a
uma série de operações que procuravam não só transformá-los em mercadoria, como também
desligá-los da sua própria origem.
Não bastava ser escravo: como qualquer outra mercadoria, o escravo devia apresentar as
características procuradas pelo comprador. Assim, os corpos dos escravos eram portadores de
informações: as tatuagens e as escarificações funcionavam como autênticos bilhetes de
identidade, informando quanto à sua origem, assim como à sua situação hierárquica.
Segundo as ideias eurocêntricas, ―para os africanos poderem integrar o espaço branco e divino,
deviam ser escravizados e sujeitos a rituais purificadores‖. A sua coabitação com a humanidade
só era possível através do sofrimento.
Foi nestas condições que se processou a escravatura. Os africanos capturados eram
transformados em escravos, e muitos daqueles que já eram escravos dos africanos eram vendidos
para se tornarem escravos dos Europeus. Com os corpos ―marcados‖, arrancados do seu
território, do seu grupo e do seu continente, eram remetidos para uma categoria de inferioridade
absoluta. Sem família e sem os seus deuses, deixaram de pertencer ao chamado espaço
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―diabólico‖ africano para se tornarem ―coisas‖ do espaço considerado civilizado e humanizado
— o espaço da violência colonial.
A violência exercida contra os escravos africanos integrava-se também numa concepção
religiosa que considerava a violência física exercida pelos sacrificadores e traficantes como
sendo normal e indispensável. Uma das primeiras condições era modificar o corpo dos escravos
africanos por meio de tatuagens — marcas a fogo que inscreviam na sua pele o nome do
proprietário, de forma a serem conhecidos e encontrados em caso de fuga.
No porto marítimo, antes do embarque, eram novamente marcados no peito com as armas do rei
e da nação de quem ficavam vassalos. A sua própria conf iguração física era assim
profundamente alterada. As marcas a fogo eram tidas como purificadoras e agiam como uma
borracha que apagava o passado, considerando-o nulo e indicando a nova situação daqueles que
eram africanos — escravos dos brancos, primeiro destinados ao comércio negreiro e depois
confiados aos fazendeiros das Américas.
A grande operação de transformação do corpo dos escravos com um módulo de fogo
demonstrava claramente que o escravo estava condenado a não poder circular livremente na
sociedade dos brancos. Perdia a sua autonomia para se transformar em mercadoria. Os corpos
dos escravos que aguardavam o embarque para as Américas eram modelados nos espaços
africanos, Associavam-se as marcas do fogo e dos chicotes ao rigor das algemas, dos grilhões e
das gargalheiras: toda uma panóplia de instrumentos de contenção que tinha como objectivo
restringir os movimentos das mãos e dos pés dos escravos.
VÊ SE SABES...
1. Porque se afirma que o escravo era considerado uma mercadoria? Explica.
CONSEQUÊNCIAS DO TRÁFICO DE ESCRAVOS
Como vimos, foram várias as consequências da agressão europeia em relação aos povos do
continente africano.
A actividade desenvolvida pelos Europeus, Portugueses em especial, Holandeses, Franceses e
Ingleses, afectou vastas regiões de África nos séculos XVI a XVIII, trazendo consequências
demográficas, económicas e políticas.
CONSEQUÊNCIAS DEMOGRÁFICAS
O tráfico atingiu sobretudo os elementos mais vigorosos da população africana — ―as peças da
Índia‖-, o que provocou o enfraquecimento demográfico e o sub - povoamento do continente,
Com efeito, a transferência de milhões dos melhores produtores (cultivadores, ferreiros, tecelões)
e reprodutores e o extermínio de tantos outros milhões através de guerras, razias, fadiga e
doenças, contribuíram para que a população africana diminuísse, enquanto o resto da população
do globo se encontrava em franca expansão.
Se, no início, o tráfico se limitou aos escravos residentes no litoral africano, a partir do fim do
século XVI a procura aumentou de tal maneira que levou os chefes africanos a fornecerem não
apenas os verdadeiros escravos, mas a procurarem outros através de guerras e razias no interior
do continente. A actividade produtiva foi substituída pela guerra, pois essa passou a ser a
situação mais lucrativa. Assim, no litoral de Angola e do Senegal, reis, chefes e mercadores
africanos envolveram-se irremediavelmente no comércio de escravos, e as suas terras passaram a
ser exclusivamente locais de exportação de mercadoria humana.
As sociedades começaram a dividir-se em dois grandes grupos: a massa de produtores e uma
minoria de nobres e traficantes, enriquecida por meio de um novo tipo de comércio. Para estes,
criou-se um círculo vicioso: para poderem capturar escravos, necessitavam de armas de fogo e
para obter armas de fogo (que se tornaram um elemento imprescindível para a própria
sobrevivência dos Estados e das classes no poder) era necessário vender cada vez mais escravos.
Como o mercado estava em constante expansão, os povos do litoral e do interior mais próximo
mantinham-se em situação de beligerância (guerra) contínua. Mesmo os Estados mais poderosos
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do interior, que se recusavam a vender escravos, viram-se obrigados em determinada altura a
travar autênticas batalhas para alcançarem a costa e disporem de armas para se defenderem.
As relações entre os diversos Estados e povos deterioraram-se. Despojadas dos seus melhores
elementos - massacrados ou deportados -, as sociedades desorganizaram-se. As migrações
forçadas de populações apavoradas, fugindo às razias, criaram uma situação de instabilidade tal
que iria minar as bases da sociedade rural africana.
A desorganização de sociedades inteiras (povos, comunidades, reinos) atingiu tais proporções
que quando no século XIX as potências coloniais europeias decidiram partilhar entre si o
continente africano, respondendo às exigências do capitalismo monopolista da época,
encontraram povos material e moralmente arruinados como resultado de quatro séculos de rapina
e razia.
Ainda assim, os povos africanos mostraram-se capazes de oferecer resistência à ocupação, e não
foi fácil aos colonialistas dominar o continente africano.
CONSEQUENCIAS ECONOMICAS
O tráfico transatlântico veio instaurar relações comerciais de um novo tipo, em que o escravo
servia de equivalente monetário, do mesmo modo que a cabeça de gado ou a barra de sal. Sob o
ponto de vista económico, o resultado foi a redução da capacidade produtiva das sociedades
(devido às deportações e à insegurança), a instauração da fome e o aparecimento de epidemias
(mais frequentes em populações esfomeadas ou enfraquecidas).
Como a principal mercadoria procurada era a humana, não havia estímulo para a produção
destinada ao mercado, tendo-se deixado de produzir mesmo para o consumo, pois certas
mercadorias passaram a ser trazidas da Europa (instrumentos, tecidos, bugigangas), o que fez
declinar o artesanato tradicional.
Os intermediários africanos da costa não se aperceberam de que vendendo cultivadores e
artesãos ou simplesmente procriadores estavam a contribuir para a sua própria destruição como
povos organizados. Por outro lado, ao vedarem o acesso ao interior, de maneira a reservarem
para si o monopólio do comércio, estavam a aumentar o isolamento daquelas populações.
De uma forma geral, houve retrocesso das forças produtivas. Os povos agricultores voltaram ao
estado de recolectores, e as populações sedentárias de longa data viram-se forçadas a deslocar-se
para o interior, procurando refúgio ou construindo paliçadas sobre os lagos do interior.
A África viu-se privada da força de trabalho necessária para o seu desenvolvimento, o que a
lançou no atraso e no subdesenvolvimento.
CONSEQUÊNCIAS POLÍTICAS
O tráfico permitiu a criação de novos poderes políticos em detrimento dos antigos. O recuo
generalizado do Islamismo permitiu o aparecimento de novos Estados, essencialmente guerreiros
e dominados por uma aristocracia militar.
A desagregação do Império Songai depois da conquista marroquina (1591) deu origem a uma
multiplicidade de Estados minúsculos, em guerra permanente uns com os outros.
No golfo da Guiné formaram-se pequenos Estados, dirigidos por chefes aventureiros
enriquecidos pelo comércio de escravos e apoiados por grupos guerreiros armados de
espingardas, cuja função principal era fazer a guerra. Ter muitos escravos e bens era sinónimo de
riqueza e prestígio.
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A fragmentação política e étnica na costa favoreceu guerras constantes provocadas pela procura
e captura de escravos fora dos limites de cada Estado ou comunidade.
No entanto, durante o período do tráfico - e como adaptação perfeita às novas condições que este
impôs - surgiram quatro Estados importantes e fortemente estruturados na região do Benim:
foram o Reino Yoruba, o Reino de Oyo, o Reino de Daomé e a Confederação Achanti.
CONSEQUÊNCIAS DO TRÁFICO DE ESCRAVOS EM ÁFRICA.
O CASO CONCRETO DE ANGOLA
O tráfico teve consequências diferentes nos vários povos e Estados africanos, que responderam
positiva ou negativamente a ele consoante o grau de desenvolvimento das suas forças produtivas
ou da sua proximidade e afastamento em relação às áreas dos circuitos comerciais.
Foram várias as transformações ocorridas em Angola para as quais contribuiu a intervenção
directa ou indirecta dos Portugueses. Ao longo dos três séculos de tráfico, as regiões do Kongo,
Ndongo, Kwango, Planalto e Benguela foram devastadas por pombeiros, militares e padres ora
para capturar escravos e mercadorias ora para cobrar tributos ou impor leis e práticas estranhas
aos respectivos povos.
Calcula-se em cerca de três milhões o número de escravos que o tráfico desviou neste período
desde as costas de Angola para os portos de São Tomé e das Américas. Por outro lado, outros
tantos africanos morreram nas guerras de kwata-kwata, de cansaço ao longo do percurso até à
costa, em alto mar e de doenças ou fome enquanto aguardavam o embarque nos portos de
Luanda, Mpinda e Benguela.
Assim se explica que nos séculos XV a XVII mesmo as zonas mais povoadas antes da chegada
dos Portugueses tivessem já escassa população.
A captura de escravos provocou guerras entre reinos que acabaram por enfraquecer e fragmentar-
se, tendo muitos deles desaparecidos. Foi a desagregação gradual do poder do rei do Kongo face
ao crescente poder dos Manis das várias províncias e a afirmação da independência do Ndongo
face ao Kongo, do qual fora tributário até 1560. No século XVIII, o Reino do Kongo deixou de
ser um estado organizado capaz de se opôr à violência e aos abusos cometidos pelos traficantes e
os seus agentes.
De uma forma global, o tráfico de escravos paralisou o desenvolvimento das forças produtivas de
África ao sul do Sara devido à perda da sua força de trabalho e à desorganização das sociedades,
o que teve consequências económicas e políticas desastrosas a curto e a longo prazo para todo o
continente.
Pode dizer-se que o tráfico negreiro justifica em parte o fraco povoamento actual de Angola,
assim como de todo o continente africano.
A descoberta do Novo Mundo estimulou fortemente o tráfico negreiro, pois a mão-de-obra
africana foi indispensável à exploração das riquezas nas terras descobertas e conquistadas nas
Américas e nas Caraíbas. Os colonizadores pediam constantemente mais escravos africanos para
as plantações e para o trabalho nas minas.
Durante os séculos XVII - XVIII e inícios do século XIX foi utilizada mão-de-obra africana nas
plantações de cana-de-açúcar, tabaco e nos trabalhos de exploração mineira nas colónias das
Américas.
O trabalho escravo africano - a ―madeira de ébano‖ — não só fazia funcionar a economia das
Américas como também era utilizado para outras actividades, como o transporte de mercadorias
e de passageiros, os trabalhos domésticos nas ―grandes casas‖ dos senhores-de-engenho, a
construção de estradas e de edifícios, a limpeza das cidades, etc.
A cultura da cana-de-açúcar e a produção de açúcar exigiam abundante mão-de-obra escrava,
pois à medida que progredia a exportação daquele produto, a intensificação dos trabalhos
acelerou o enfraquecimento dos escravos, aumentando a sua mortalidade e obrigando a uma
substituição imediata dos africanos exterminados.
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A média de sobrevivência de um escravo na América era entre cinco a sete anos, devido aos
trabalhos forçados que executavam e ao cruel tratamento que sofriam.
Não se pode pensar que os escravos aceitaram a sua condição com passividade. Embora a
escravidão já existisse em África antes da chegada dos Europeus, tratava-se de uma escravidão
doméstica ou patriarcal, onde o escravo tinha um lugar na comunidade. Por outro lado, se existiu
um comércio de escravos no mundo mediterrânico e no mundo árabe, nunca tomou proporções
alarmantes nem trouxe para África efeitos tão desastrosos como os do tráfico atlântico.
Desde o início que os Africanos tentaram escapar à violência de que estavam a ser vítimas, quer
através da fuga, do suicídio ou mesmo da revolta.
Durante a travessia para a América, muitos escravos preferiam lançar-se ao mar a sofrer as
horríveis condições a bordo dos navios. Estas revoltas eram reprimidas, e os revoltosos
(―recalcitrantes‖) castigados exemplarmente.
Nas colónias da América houve várias revoltas de escravos: a primeira a ser assinalada pela sua
importância deu-se em 1522 na ilha de Hispaniola (São Domingos, no Haiti). Outras sucederam-
se em Porto Rico (1527), Santa Marta (1529) e Panamá (1531). Estas revoltas levaram os
Espanhóis a criar em 1532- uma polícia especial destinada a reprimir e a caçar os escravos
fugitivos.
Outras vezes os escravos fugiam para o mato, organizando aldeias fortificadas que no Brasil se
designavam como ―quilombos‖.
Nas Antilhas, os fugitivos, designados como ―negros castanhos‖, formaram verdadeiros Estados
independentes (Haiti, Jamaica).
Apesar destas revoltas mais ou menos organizadas e esporádicas, os escravos africanos não
puderam acabar com a exploração e as condições sub-humanas a que eram submetidos. Ainda
não se encontravam reunidas as condições para levarem a bem a sua luta contra os opressores.
Foram precisos três séculos para que a primeira sublevação de escravos negros na América
resultasse. Esta deu-se nos fins do século XVIII em São Domingos do Haiti, onde um antigo
escravo, Toussaint-Louverture, dirigiu uma das maiores revoltas de escravos que a história
colonial conheceu, pondo fim ao domínio colonial francês em 1803.
CONSEQUÊNCIAS DO TRÁFICO DE ESCRAVOS NA EUROPA
O tráfico de escravos praticado pelos Europeus e o comércio do ultramar em geral tiveram
consequências muito positivas para o desenvolvimento da Europa através dos chamados ―efeitos
multiplicadores‖: isto quer dizer que os lucros provenientes dos contactos com o exterior se
multiplicaram em muitos domínios da vida dos Europeus, mesmo daqueles que não estavam
directamente ligados ao comércio, o que fez com que a sociedade no seu todo se tivesse
apetrechado melhor para o seu desenvolvimento interno.
O certo é que a Europa se desenvolveu à custa do trabalho escravo: tornou-se rica e poderosa
com o comércio negreiro e ergueu nas suas colónias americanas, africanas e das Caraíbas uma
economia que, no essencial, assentava nas culturas do café, do algodão, do cacau, do tabaco e da
exploração mineira através do recurso à mão-de-obra escrava, isto é, a toda a violência
esclavagista.
O comércio com África ajudou verdadeiramente a Europa a transformar a economia de muitas
nações e a fundir mais solidamente as diferentes economias nacionais, enquanto em África o que
se produziu foi apenas a perturbação e a desintegração dos Estados africanos.
CRIAÇÃO DE NOVOS ESPAÇOS SOCIAIS, RACIAIS E CULTURAIS NO MUNDO
Durante o período do comércio atlântico de escravos, foi transportado para o Brasil, a América
do Norte e muitas outras colónias um número considerável de escravos, os quais levaram com
eles não só a sua capacidade de trabalho nas plantações e nas minas, mas também a cultura e as
suas qualidades africanas em toda a sua diversidade.
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Estes traços culturais eram representativos de diferentes grupos étnicos e misturaram-se no plano
racial e social aos traços culturais portugueses e americanos, o que deu origem a uma grande
diversidade cultural.
A Influência cultural africana na América
O trabalho nos campos de algodão era ritmado já por sons que saem como uma lava ardente das entranhas de
homens e mulheres oprimidas. Estas lamentações transpostas para os cultos religiosos deram o ―espiritual negro‘ e
depois o ―jazz‖. No Brasil e nas Antilhas, a marca negra será mais nítida ainda na música, tendo os escravos
transplantado para as Américas o pulso palpitante da África que ressoa no tam-tam. Os batuques ou o samba,
dançados no decurso das festas semanais permitiram aos diversos grupos étnicos ultrapassar as suas particularidades
culturais para se reencontrarem e reinventarem uma arte simplesmente africana, embora influenciada pelos
elementos europeus. Os próprios deuses africanos tinham, na atmosfera pesada e pestilenta dos entrepostos,
atravessado o Atlântico para continuar junto dos negros a sua função de auxiliares, mais necessária do que nunca. O
domínio de uma linguagem ignorada do mestre constituía um meio de resistência terrível.
O papel das mulheres africanas no Brasil e em outras regiões da América do Norte foi muito
importante, pois embora pouco numerosas, constituíam o cordão umbilical que ligava a
população brasileira e americana à África através das danças, canções, da cozinha e dos escritos.
Além da força de trabalho, as mulheres africanas serviram também de esposas aos senhores-de-
engenho e a outros colonos, pois a colonização portuguesa no Brasil foi essencialmente
masculina no início, dando origem a uma mestiçagem biológica e cultural importante.
As influências culturais manifestaram-se também através da religião e de práticas rituais
africanas. A magia e a iniciação africanas combinadas com o Catolicismo europeu deram origem
a sincretismos originais, como o candomblé e a capoeira, assim como à divulgação de muitos
elementos das culturas africanas. A capoeira foi utilizada pelos escravos como forma de luta para
a conquista e defesa da sua liberdade. Oriunda de Angola e levada para o Brasil pelos escravos,
estava associada a uma cerimónia mágica com características religiosas. A capoeira continua a
ser hoje um dos principais elementos culturais do Brasil.
Portanto, pode dizer-se que o desenvolvimento económico do Brasil e da América do Norte foi
fruto do esforço de escravos africanos que para lá levaram a sua força de trabalho. Não é menos
verdade que as sociedades brasileira e norte-americana actuais foram também profundamente
marcadas pelas línguas, música, gostos alimentares africanos, em suma, pela sua cultura.
VÊ SE SABES...
1. Quais foram as consequências demográficas do tráfico de escravos?
2. Refere outras consequências económicas e políticas no caso de Angola.
3. Que efeitos teve o tráfico de escravos na América e na Europa?
Unidade III: FORMAÇÃO DA MENTALIDADE NA IDADE MODERNA
O SURGIMNTODO HUMANISMO NA ITÁLIA RENASCÉNTISYA
No meio de uma profunda debilidade politica fruto de frequentes antagonismos e de desuniões
internas, surge no século XV em Itália um forte movimento que iremos chamar de ―descoberta
do homem‖. Neste período, os Homens começaram a descobrir-se a si próprios, pois durante
séculos tinham vivido mais preocupado com assuntoS divinos, ignorando quase tudo acerca da
sua natureza humana.
Intesamente religioso, o Homem medieval tinha colocado Deus e a Igreja Católica no centro da
sua vida — tudo, desde o nascimento à morte1 era marcado por uma visao ―teocêntríca‖ da
realidade.
Séculos antes, na Grécia e Roma Antigas, muitos pensadores tinham já centrado os seus estudos
no conhecimento do Homem, considerado como a ―medida de todas as coisas‖. A partir dos
finais da idade Média, primeiro em Itália e depois noutros países da Europa, ressurge este
interesse pelo conhecimento do ser humano. Sem deixarem de ser religiosos, os intelectuais do
século XV passavam a colocar o homem no centro dos seus interesses, passando a ter uma visão
―antropocêntrica‖ da vida e do mundo.
27 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
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“RENASCIMENTO‖ foi um vasto e profundo movimento artístico e de renovação intelectual
e cultural que teve início em Itália a partir dos finais da Idade Média e depois se difundiu por
toda a Europa. Nos séculos XV e XVI intensificou-se o interesse pela cultura clássica — isto é,
pela cultura da Antiguidade Greco-Romana — e desenvolveu-se uma verdadeira paixão pelos
vestígios dessa época: manuscritos, estátuas, edifícios, etc. Foi este ‗renascer‖ da cultura clássica
que deu origem à designação ―Renascimento‖.
Algumas características do renascimento
- O classicismo - isto é o gosto pela arte e letras greco-latinas
- O espírito crítico e observador
- O individualismo – consiste na valorização do Homem e a crença na inesgotável capacidade
humana de saber e descobrir.
No entanto, o Renascimento não se caracterizou apenas por este interesse pelas letras e pelas
artes greco-latinas. Foi sobretudo uma época marcada pelo desenvolvimento de uma nova
mentalidade, um espírito novo, mais aberto, um espírito crítico e observador, atento às realidades
do seu tempo. Um novo tipo de homem — sobretudo grande comerciante, banqueiro ou jurista,
sem esquecer nobres e senhores da Igreja — desprezava os ideais cavaleirescos do seu tempo e
dava pouca importância à ―supremacia papal‘, preferindo observar de modo realista e sereno o
Universo onde vivia e aspirar a ganhos concretos adquiridos durante a sua existência neste
mundo,
Por outro lado, o ―Humanismo‖ foi um conjunto de preceitos que durante o Renascimento
valorizou o Homem. Pensadores e homens de letras do Renascimento retomaram o estudo dos
problemas humanos, que já antes tinham despertado interesse nos filósofos da Antiguidade
Greco-Romana. Procuravam nas letras antigas as respostas para aquilo que verdadeiramente os
preocupava — um melhor conhecimento do Homem. ―DESCOBRIR O MUNDO, DESCOBRIR
O HOMEM‖ Estes intelectuais, apaixonados pela cultura clássica, chamavam-se ―humanistas‖
Eram letrados profissionais, geralmente de origem burguesa, eclesiásticos professores
universitários etc.
É de salientar que os humanistas demonstraram um profundo desprezo pela Idade Média:
consideravam que após a queda do Império Romano do Ocidente as culturas clássicas do mundo
greco-romano não tinham tido continuidade. Bons conhecedores do latim e do grego, os
humanistas estudaram cuidadosamente os autores antigos — Platão, Aristóteles, Cícero, etc. — e
traduziram-nos, comentaram-nos e reeditaramnos agora apoiados também numa nova invenção:
a imprensa.
Primeiro que qualquer outra parte da Europa, foi em Itália que se deu o início do Renascimento
nos séculos XV e XVI. Em Itália existia então um ambiente favorável ao desenvolvimento
cultural. As condições económicas, sociais e históricas explicam o facto do Renascimento ter aí
começado. Porém, em breve o movimento renascentista estendeu-se ao resto da Europa,
sobretudo à Flandres, a Inglaterra e à França.
Desde o século XIV destacaram-se em Itália importantes precursores do Humanismo
renascentista. Foi o caso de Petrarca, Boccaccio e Dante. No Norte da Europa viveram
importantes humanistas, como Erasmo de Roterdão ou Sir Thomas More.
Em Portugal, no século sobretudo no reinado de O. João 1H, desenvolveu-se um grande interesse
pelo Humanismo europeu, salíentando-se nomes como António de Gouveia, André de Gouveia e
André Resende, três dos mais importantes‘ representantes do Humanismo português. Podemos
ver assim como o Humanismo surgiu de tendências de indivíduos de diferentes origens e que não
estavam ligados por quaisquer vínculos ao Estado, à Igreja ou às universidades.
VÉ SE SABES…
1. Compara a visão do mundo e da vida do Renascimento com a da Idade Média.
2. Por que razão se pode dizer que o Renascimento está ligado ao Humanismo?
28 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
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3.1.1. A ARTE DO RENASCIMENTO
O Renascimento também teve reflexos na arte, que passou a espelhar as novas concepções
humanistas. Os arquitectos do Renascimento rejeitaram o Gótico e inspiraram-se nas formas
clássicas greco-romanas.
O Homem volta de novo a ser a ―medida de todas as coisas‖, o que conduz a uma arte
racionalizada, ordenada, dominada pelas preocupações com o equilíbrio, a harmonia, a
proporção e a simetria.
Apesar de inspiração clássica, a arte renascentista é inovadora e criativa. Raramente, em toda a
história da humanidade, houve uma época em que a produção artística tivesse alcançado a
quantidade e qualidade que atingiu o Renascimento. O movimento artístico renascentista
também nasceu em Itália, particularmente em Florença, que era uma das mais prósperas cidades
italianas e onde se encontravam as sedes de importantes empresas dedicadas a actividades
comerciais e financeiras.
SABIAS QUE..,
Os grandes centros de criação artística do Renascimento no início do século XV eram Florença,
Veneza e Roma, em ltáia; e a Flandres, nos Países Baixos.
ESCLARECER
• No século X Florença tinha uma População de 100 mil habitantes, entre os quais se contava um
numeroso grupo de burgueses emriquecidos, apreciadores da beleza, da arte e do luxo. È
importante lembrar que os negociantes e financeiros florentinos criaram em sua volta um
ambiente favorável aos artistas.
Entre as famílias mais ricas de Florença contavam-se os Medici, que acabaram por controlar o
governo da cidade e se tornaram mecenas generosos. Sob o governo dos Medici —
principalmente no tempo de Lourenço, o Magnífico, Florença transformou-se na capital das artes
em Itália: ali viveram e trabalharam arquitectos como Bruneleschi, escultores como Donatello e
Miguel Ângelo, e pintores como Botticelli e Leonardo da Vinci.
O século XV (―quatrocento‖) é o século do ―Renascimento florentino‖. Talvez em nenhuma
outra época e em nenhum outro lugar tenham vivido tantos artistas e tão geniais como na
Florença Renascentista dos finais do século XV. No entanto, as novas tendências da arte tinham-
se espalhado por toda a Itália, e, na primeira metade do século seguinte (―cinquecento‖), Roma
seria o principal centro cultural do Renascimento. É aí que se atingirá o apogeu do movimento
renascentista.
São também de salientar os avanços ocorridos nas artes durante o Renascimento, nomeadamente
na arquitectura (uma ―nova arquitectura antiga‖), na pintura e na escultura. A arquitectura
―antiga‖ passou a servir então de modelo a uma nova arquitectura caracterizada pelo Classicismo
e a Racionalidade.
À antiga arquitectura clássica grega e romana Brunelleschi foi buscar um conjunto de elementos
fundamentais, como as ordens dórica, jóníca, corintia, o arco de volta perfeita o frontão, a
abóbada de berço e a cúpula, entre outros. Esta inspiração na arquitectura greco-romana
constitui, na verdade, uma das principais características da arquitectura do Renascimento — o
Classicismo.
ESCLARECER
• Os arquitectos do Renascimento puseram de parte a medieval (a arquitectura gótica, que
depreciativamente, consideraram ―barbara‖ e preferiram inspiraram-se nas formas da
arquitectura:
clássica greco-romana.
• ―Quatrocento‖ e ―cinquecento» são palavras italianas para designar respectivamente, o século
XV (os anos de ―quatrocentos) e o século XVI (e os anos ―quinhentos»).
No entanto, tal como a arquitectura greco-romana a nova arquitectura caracteriza-se também pela
racionalidade com que era planeda e executada. É uma arquitectura em que predomina um
29 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
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equilíbrio perfeitamente geométricos a par de uma rigorosa simetria na distribuição dos volumes.
As soluções quatrocentistas de Brunelleschi seriam depois retomadas e desenvolvidas no século
XVI por outros grandes arquitectos como Bramante, que projectou e executou parte do projecto
da maior igreja do mundo — a Basílica de S. Pedro, em Roma — ou Miguel Ângelo, que
planeou e dirigiu a construção da grande cúpula da mesma basílica.
Para além da nova arquitectura antiga ligiosa o Renascimento produziu um grande número de
edifícios civis, sobretudo palácios. Estas construções eram igualmente caracterizadas pela
civilização de elementos clássicos.
No século XV a pintura europeia desenvolveu-se a partir de dois centros principais: a Itália,
sobretudo em Florença, e a Flandres. Foi aí que ocorreram duas transformações absolutamente
revolucionárias na arte de pintar: a invenção de uma nova técnica de pintura a óleo, usada
inicialmente na Flandres por Van Eyck, e a aplicação das leis da perspectiva à pintura. A
perspectiva é um modo de representação de objectos sobre uma superfície com duas dimensões
(comprimento e largura) de maneira a criar a ilusão de uma terceira dimensão, isto é, a
profundidade. Foi devido a ela que se passou a poder pintar com uma exactidão quase
―científica‖ as coisas ―tal como elas eram‖.
Giotto, pintor florentino do século XIV, foi um precursor do Renascimento, tendo pintado já o
corpo humano com preocupações de perspectiva. No entanto, foi apenas nos começos do século
XV, com o flamengo Van Eyck e os Italianos Masaccio e Piero della Francesca, que as leis da
perspectiva começariam a ser aplicadas com rigor
ESCLARECER
• Ao contrário do que sucedera na época medieval, o Homem já não se envergonha do seu corpo
e passa a representã-lo em todo o seu esplendor como algo de belo e admirável.
Outra característica fundamental da pintura renascentista foi o naturalismo: os pintores
procuravam representar a Natureza, os objectos e as pessoas com realismo e naturalidade, ou
seja, ―tal como eram‖.
Foram essas preocupações naturalistas que levaram á descoberta e aplicação das leis da
perspectiva e ao estudo cuidadoso da anatomia do corpo humano e dos animais. Por sua vez, o
interesse pelos aspectos do mundo físico levou os pintores do Renascimento inserção da
Natureza nas suas obras (árvores, flores, rios, rochedos etc.).
Ao contrário do que acontecia na idade Média, em que a grande maioria das obras de pintura
tratavam de temas religiosos, surgiram também as da mitologia greco-romana e do quotidiano.
No entanto, como reflexo do individualismo da época, o retrato foi um dos temas favoritos da
pintura renascentista.
Além disso, a representação do nu, que era muito frequente na arte clássica grega e romana, é
agora retomada.
A pintura renascentista
A pintura renascentista difundiu-se ao longo dos séculos XV e XVI através de um número
impressionante de grandes pintores, quer em Itália quer nos outros países da Europa. Entre os
italianos, merecem destaque os seguintes artistas:
• Sandro Botticefli (1 445- 1 51 0), nascido em Florença, trabalhou nessa cidade durante a
segunda metade do século XV e foi autor de quadros famosos, como A Primavera (1478), Vénus
e Marte (1483) e O Nascimento de Vénus (1485).
• Leonardo da Vinci (1452—1519), para além de outras actividades, foi tambem extraordinário
pintor de alguns dos quadros mais famosos do mundo ,como La Gionda (1502—1519) e A
Virgem e o Menino (1505). Fez intensas pesquisas quanto à perspectiva, à anatomia e aos novos
materiais de pintura. Usou uma técnica de gradação de cor e de transição do claro para o escuro a
que se chamou ―sfumato‖, que envolvia as suas obras num ambiente de mistério, parecendo que
as estariamos a ver através de um finíssimo véu.
30 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
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• Miguel Ângelo (1475—1564) considerava-se sobretudo um escultor, mas foi também um
pintor genial, cuja obra-prima foram os frascos da Capela Sistina, no Vaticano.
• Rafael (1483—1520) foi um dos maiores génios da pintura, tendo assimilado todos os
progressos da arte de pintar até então alcançados. O retratista Rafael conseguia captar
magistralmente a personalidade dos modelos através de um simples olhar ou um sorriso. São
famosos os seus frescos no Vaticano e as ―Madonas‖ — enternecedoras imagens da Virgem com
o Menino.
A partir do século XVI, Veneza torna-se o principal centro cultural da Itália. É o tempo da
chamada ―Escola Veneziana‖ de pintura, cujo principal representante foi Ticiano.
A escultura renascentista
Durante a Idade Média europeia, a escultura funcionou como elemento integrante da
arquitectura, isto é, sobretudo como uma arte decorativa arquitectónica. Com o Renascimento, a
escultura torna-se fínalmente uma arte autónoma.
Como já tinha sucedido em relação à arquitectura, a escultura do Renascimento
desenvolveu-se a partir da cidade de Florença.
Entre outros grandes escultores, destacou-se o florentino Donatello. Na sua escultura David, uma
estátua em bronze, Donatello representa o primeiro nu masculino a ser moldado desde a
Antiguidade. Donatello recupera igualmente da antiga Roma uma outra forma escultórica — a
escultura equestre.
Miguel Ângelo atingirá o ponto culminante da escultura no século XVI. Grande admirador da
escultura clássica greco-romana ,produziu algumas das obras mais belas e representativas do
Renascimento1 como Píetá e Moisés. A sua escultura de David foi talhada num único bloco de
mármore com quase quatro metros de altura e retratava o herói não como um jovem suave e
dedicado, como fizera Donatello, mas sim como um atleta consciente do seu corpo nusculado, do
seu vigor e da sua vitória sobre o gigante Golias, Em suma, o Homem é ilustrado com orgulho
de ser homem.
Para sumarizar, podemos dizer que, em termos artísticos, o renascimento distingue-se pela
apresentação do corpo humano em moldes naturalistas, por representações da natureza, pela
perspectiva e pela combinação de cenas mundanas com conteúdos religiosos.
VÊ SE SABES.
1. Menciona as três características fundamentais da arquitectura e da pintura renascentistas.
2. Indica quais foram as duas transformações mais revolucionárias que surgiram na pintura
durante O Renascimento e quais as suas consequências.
3. Qual foi a principal inovação introduzida na escultura durante o Renascimento?
4. Depois de responderes às perguntas anteriores, caracteriza de uma forma geral o
Renascimento no seu âmbito artístico.
5. Identifica pelo menos quatro obras artísticas dos quatro autores que mais te impressionaram
Os novos caminhos do conhecimento racional e científico
Como vimos atrás, o Renascimento proporcionou uma nova visão do mundo e do Homem, tendo
trazido ao Homem uma grande confiança nas suas capacidades e uma curiosidade sem limites.
Um novo espírito crítico e observador, em parte resultante das grandes viagens marítimas,
conduziu à pesquisa e à descoberta de novos caminhos para o conhecimento humano.
Com efeito, no século XV surge um novo saber racional, isto é, baseado na razão ou no
conhecimento racional e científico. Os alicerces dos conhecimentos relativos ao mundo, ao
Universo, à natureza e ao próprio Homem permaneciam ainda baseados nas obras dos antigos
Gregos, principalmente do filósofo Aristóteles, do geógrafo Ptolomeu e do médico Galeno.
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No começo do século XVI, continuava a ser aceite de forma irrefutável a ideia da Terra ser o
centro do Universo. Além disso, como o interior do corpo humano não era estudado devido aos
preconceitos religiosos, ignorava-se quase tudo sobro a sua constituição e funcionamento.
Todavia, a situação estava a mudar.
A partir dessa altura, porém, a autoridade dos sábios greco-romanos e a admiração pela
Antiguidade começam a surgir aliadas a uma atitude crítica relativamente ao saber herdado. Não
se tratava simplesmente de rejeitar conhecimentos recebidos da Antiguidade, mas de os sujeitar a
uma reflexão critica. O racionalismo característico do Renascimento seria também aplicado
conhecimento da natureza. Segundo o racionalismo, ― somente é verdadeiro aquilo que a razão
pode demonstrar‖. A razão opõe-se á fé.
A partir do século XV desenvolveu-se um desejo insaciável pela procura da verdade, para
satisfazer a curiosidade e explicar as contradições do saber antigo.
No século XVI, dá-se um autêntico confronto com o pensamento tradicional. Defendia-se a ideia
de que não se devia dar crédito aos conhecimentos que não fossem confirmados pela razão e pela
experiência.
Leonardo da Vinci, um dos mais famosos representantes deste novo espírito, utilizava uma
linguagem semelhante, tendo-se interessado por todos os ramos do saber humano. Os seus
estudos sobre a natureza e alguns dos seus inventos anteciparam conhecimentos que apenas
voltariam a ser retomados séculos mais tarde. Segundo Leonardo, aqueles que tomavam as
afirmações dos sábios antigos como verdadeiras sem as sujeitarem a confirmação utilizavam ―a
memória e não o entendimento‘.
Para os homens do Renascimento, o saber devia basear-se na experiência e na observação da
Natureza. Todavia, este conhecimento feito de experiência só seria verdadeiramente válido se
fosse depois sistematizado racionalmente, recorrendo a critérios matemáticos.
Esta nova mentalidade racionalista, aberta ao estudo de todos os ramos do saber, encontra-se na
origem da revolução científica, que viria a ter o seu ponto mais alto no século XVII.
Novos caminhos do conhecimento científico
Antes do século XVI, acreditava-se que a Terra era um ponto fixo no Universo, com os planetas,
o Sol e as outras estrelas a girarem à sua volta. Esta representação designou-se como ―sistema
geocêntrico‖ e foi exposta por Ptolomeu no século II. Séculos antes, outro grego, Aristarco de
Samos, tinha colocado a hipótese da Terra girar à volta do Sol, mas as suas ideias não tiveram
aceitação e foram rapidamente esquecidas.
No século XVI, o polaco Nicolau Copérnico retomou as ideias de Aristarco e escreveu um livro,
publicado em 1543, onde falava de um novo sistema do Universo — o ―sistema heliocêntrico‖.
Segundo esta nova explicação, o Sol era uma estrela fixa, à volta da qual giravam os planetas,
incluindo a Terra.
Esta ideia, hoje universalmente aceite, constituiu na época uma verdadeira revolução, tendo
encontrado muita resistência Nas universidades continuou a leccionar-se o sistema ptolomaico
ainda por muito tempo. No entanto, mais tarde outros astrónomos, como Tycho Brahe, Kepler,
Galijeu e Newton, prosseguiram os estudos iniciados por Copérnico e confirmaram as suas
ideias.
No começo do século XVI, o conhecimento do corpo humano era ainda muito rudimentar
bastando olhar para as representações anatómicas medievais. Como não se fazia um estudo dos
cadáveres, os órgãos eram imaginados ou adivinhados. Os conhecimentos de anatomia e de
fisiologia (estudo do funcionamento do corpo humano) viriam, no entanto, a evoluir de forma
significativa durante o Renascimento. Os próprios artistas estudavam anatomia humana com o
objectivo de a representarem melhor nas suas obras. Leonardo da Vinci, por exemplo deixou-nos
inúmeros estudos e desenhos de anatomia.
Em síntese, o Renascimento começa a pôr em causa o conhecimento tradicional, recebido da
Antiguidade e da Idade Média. Dentro dos novos caminhos do conhecimento racional e
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científico surge uma nova atitude perante a Natureza o Universo e o Homem — Uma atitude de
dúvida e interrogação que conduziu ao lançamento das bases da ciência moderna.
A crise do Catolicismo e as ideias reformistas
No século XVI, a Europa dividiu-se em dois blocos: de um lado, os conservadores, que se
mantinham fiéis ao Cristianismo tradicional (os Católicos), e do outro os reformadores, que
exigiam mudanças nas atitudes e no comportamento religioso e a que os primeiros chamaram de
Protestantes. Aproximavam-se, por isso, tempos de intolerância e de lutas religiosas. No
entanto, é fundamental conhecer os precedentes históricos para compreender a origem e
desenvolvimento do Protestantismo.
SABIAS QUE
• O espírito crítico e interrogativo do Homem renascentista levou-o a pôr em causa algumas das
doutrinas e normas de comportamento impostas pela Igreja Católica.
• Houve homens esclarecidos e corajosos que denunciaram os abusos eclesiásticos e propuseram
logo no começo do século XVI uma profunda reforma religiosa.
A Igreja Católica esteve associada ao poder político durante vários séculos. Possuía vastas
propriedades, e não só estava isenta de pagamento de impostos como recebia o dízimo dos
crentes. Os membros do Alto Clero viviam no luxo e na abundância, em contraste com o ideal de
pobreza evangélica que recomendavam aos fiéis. Os papas do Renascimento comportavam-se
como grandes senhores laicos, vivendo em luxuosos palácios, construídos e decorados pelos
artistas mais célebres da época.
ESCLARECER
A ‗pobreza evangélica» era o ideal de vida proposto pelos Evangelhos aos Seguidores de Cristo.
O próprio Jesus Cristo tinha dado um exemplo de humildade e de vida simples que, no entanto
não foi seguido pelos membros do Clero. Ao longo da história da Igreja Católica, alguns fiéis
mais corajosos como S. Francisco de Assis, no século XII, condenaram os desvios em relação à
simplicidade evangélica.
A corrupção e a imoralidade eram frequentes entre os membros do Clero.
Os próprios cargos eclesiásticos eram geralmente cobiçados devido aos elevados
rendimentos que proporcionavam (as ―simonias‖) e muitas vezes comprados.
Por outro lado, os elementos do Alto Clero preocupavam-se mais com o aspecto
formal da religião, com o cerimonial, do que com a sua missão de espiritualidade
e de pastores do povo de Deus. As próprias práticas do culto católico utilizavam
o latim — uma língua que o povo comum não entendia.
As lutas pela supremacia entre o poder eclesiástico (o poder da Igreja) e o poder secular (o
poder dos reis e dos senhores feudais) tinham-se agravado nos finais da ldade Média. As
discórdias internas culminaram no grande cisma do Ocidente (1378—1417), com os Católicos
divididos na obediência a dois papas: o de AVinhão (França) e o de Roma (Itália). Embora esta
cisão tivesse terminado nos começos do século X deixou seriamente abalado o prestígio da Igreja
Católica e dos seus dirigentes. Nesse mesmo século alguns críticos mais corajosas, como o checo
João Huss e o florentino Savonarola, ousaram chamar a atenção para os erros e os abusos da
Igreja Católica. Ambos acabariam por ser condenados a morrer na fogueira.
Já no início do século XVI, Erasmo de Roterdão e outros humanistas cristãos defenderam
igualmente uma renovação da Igreja, que moralizasse a vida eclesiástica e reconduzisse o
Cristianismo à sua pureza original. Apesar destes desejos de mudança, os papas insistiram em
manter as estruturas e as doutrinas da Igreja impermeáveis a todas as críticas e sugestões.
Alguns dos factores que conduziram à revolução luterana já se manifestavam de uma forma
latente há muito tempo antes. Todo o processo de desagregação dos princípios e atitudes que
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tinham servido de fundamento à Cristandade medieval constituiu ao mesmo‘ tempo uma
preparação para a Reforma: as doutrinas concilíaristas, o democratismo eclesial, a filosofia
nominalista e a pressão tributária da fazenda papal de Avinhão. Outros factores de ordem
política, como os conflitos entre papas e imperadores e o auge dos nacionalismos eclesiásticos,
contribuíram também para preparar a crise religiosa. Houve ainda outras causas relacionadas
com a própria realidade alemã: a decadência moral do Clero, especialmente do episcopado
marcado por um pendor senhorial e o monopólio efectivo da Nobreza, a debilidade do poder
soberano, e o facto do império se encontrar fragmentado em inúmeros principados e cidades.
É indiscutível o carácter de protagonista máximo que correspondeu a Martinho Lutero na grande
revolução religiosa, mas, por mais excepcional que fossem a personalidade do antigo frade
agostinho e os seus talentos de ―líder‖, parece claro que o êxito do reformador se deveu também
em boa medida à conjugação de toda uma série de circunstâncias particularmente oportunas.
Lutero teve a arte de se fazer intérprete de ideias e sentimentos muito disseminados nessa época
entre os seus compatriotas e conseguiu dar-lhes respostas que satisfaziam as aspirações religiosas
de uns e as ambições políticas de outros.
As doutrinas de Lutero, por outro lado, foram recebidas com agrado por muitos ouvintes — às
vezes por razões profundamente diferentes. A supressão do celibato eclesiástico foi bem acolhida
por muitos sacerdotes numa época de baixo nível moral do Clero, bem como a supressão dos
votos monásticos sob libertação entre comunidades religiosas não muito fervorosas. A ―teologia
da consolação‖, segundo a qual a fé sem obras se Justifica, tornava mais Cómoda a vida Cristã e
tranquilizava indivíduos conscientes dos seus pecados, mas ao mesmo tempo possuidores de
sentimentos religiosos e com ânsia de assegurar a sua salvação eterna. Por outro lado, o anti-
romanismo (a oposição ao papado romano) agradava a humanistas do estilo de Ulrich von
Hutten, mas foi Sobretudo a Possibilidade de se apoderarem dos bens eclesásticos que despertou
a cobiça dos príncipes e dos munícipes de certas cidades imperiais. Lutero revelou um invulgar
sentido de propaganda de que soube tirar partido através da imprensa. A Alemanha viu-se assim
Inundada de folhetos, devocionários livros de Cânticos e folhas volantes que difundiram a
doutrina luterana por toda a parte e a colocaram ao alcance de todo o género de pessoas.
A própria rapidez com que se propagou a Reforma foi bom indício de que o vento soprava a seu
favor e a conjuntura era propícia. Todos esses factores favoreceram a criação do clima adequado
para o eclodir de uma grande crise religiosa.
A Reforma Protestante
Convém seguidamente recordar, ainda que sucintamente as grandes linhas do processo histórico
da Reforma na Alemanha, cujo ponto de arranque se situa no ano de 1517.
Martinho Lutero (1483—1546) era um monge alemão, professor dé Filosofia na Universidade de
Wittenberg, na Alemanha. Tal Como outros seus Contemporâneos, Lutero apercebeu-se das
contradiçoes internas da lgreja Católica. No entanto, o que desencadeou a sua critica e rebelião
contra Roma foi na questão das indulgências.
Em 1513, o Papa l Leão X tinha enviado monges por toda Europa pedindo aos fieis que
contribuíssem com o dinheiro para o pagamento das obras da basílica de S. Pedro em Roma. Em
troca, o papa concedia a estes fieis uma bula de indulgências, isto é, um documento que os
ilibava da penitencia pelos pecados. Apesar do papa afirmar tratar-se de uma recolha de esmola,
esta operação tinha o chocante aspecto de uma transacção comercial.
Martinho Lutero denunciou publicamente a questão das indulgências numa
proclamação que afixou na porta da Catedral de Wittenberg (Alemanha) — as
―95 Teses Contra as Indulgências‖. Lutero acabaria por ser excumungado,
e só a protecção que lhe foi dispensada por alguns príncipes alemães impediu
que fosse condenado à fogueira.
Lutero aprofundou as suas críticas à Igreja Católica, alargando-as aos aspectos doutrinários. A
Igreja Católica ensinava que o Homem não poderia salvar-se, isto é, alcançar a vida eterna (o
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paraíso), senão através da prática de boas obras e da mediação do Clero. Para Lutero, pelo
contrário, o fundamental era a fé. Para que o Homem se salvasse era suficiente que tivesse fé,
isto é, que acreditasse em Cristo e na sua palavra, tal como se encontrava nos Evangelhos.
Lutero: a salvaçao pela fé
Todos somos pecadores, é um erro pensar-se que este mal se pode curar com as boas obras .a experiencia mostra-nos que as
nossas obras, por muito grande que sejam não nos impedem de pecar. As boas obras, não fazem o homem bom. Mas , se o
homem for bom, fará boas obras.
Deverás possuir uma fé profunda e confiante em Deus. Graças a ele, triunfará das tentações e serás recto, verdadeiro, pacifico e
justo; assim cumprirás os mandamentos.
Desde que se tinha tornado frade, Lutero tinha sentido uma angustiante ansiedade para assegurar
a sua salvação. A teologia ockhamista em que se tinha formado, ao mesmo tempo que
proclamava o voluntarismo arbitrário de Deus, sustentava que a vontade livre do homem bastava
para cumprir a lei divina, e desse modo alcançar a bem-aventurança. A meditação sobre o
capítulo 1º, versículo 17 da ―Epístola aos Romanos‖ — ―o justo vive da fé‖ — fez sair Lutero da
sua profunda crise de angústia. Acreditava entender que Deus misericordioso justificava o
Homem através da fé a ―fé fiducial‖ —, e à luz deste princípio pareceu-lhe que toda a Escritura
ganhava um novo sentido.
Por esse motivo, Lutero traduziu a Bíblia para alemão, para que cada crente a pudesse ler e
interpretar livremente, sem ter o Clero como intermediário. Desta maneira a reforma protestante
resumia o culto à leitura da Bíblia e ao cântico de hinos, suprimindo todas as restantes
cerimónias. Lutero reduziu os sacramentos, mantendo apenas o baptismo e a comunhão aboliu o
culto dos San tos e da Virgem Maria, bem como as ordens monásticas e o celibato eclesiástico,
atendendo a que nenhuma destas disposições constava na Bíblia. Qualquer crente podia exercer a
função do ministro do culto, ou ―pastor‖.
Deste modo, na Igreja Luterana, o Clero quase desapareceu, bem como a sua hierarquia (bispos,
cardeais, papas). Lutero estabelecia também que a sua Igreja não possuiria propriedades. Assim,
todo o imenso património eclesiástico poderia ser confiscado pelo Estado, Isto favoreceu a
conversão de muitos príncipes alemães, que, ao aderirem à Reforma, encontravam justificações
para se apropriarem dos bens do Clero.
Os anos seguintes presenciaram um surpreendente crescimento da fama de Lutero, que, chamado
a Roma, recusou apresentar-se e recorreu às dietas imperiais de Augsburgo (1 518) e de Leipzig
(1519), adoptando posições religiosas cada vez mais críticas, Roma não tomou uma acção
decidida contra Lutero, sobretudo por razões de ordem política: o trono do imperador estava
vago e o candidato preferido do Papa Leão X era o eleitor Frederico, o sábio, da Saxónia, senhor
territorial e grande protector do frei Martinho. Após a eleição do ímperador Carlos V(1519),
Lutero publicou em 1520 três escritos famosos que Implicavam a ruptura aberta contra a Igreja:
―A nobreza cristã da nação alemã‖, ―Do cativeiro de Babilónia da Igreja‖ e ―Da liberdade do
cristão ‖. Em 1521, recaía finalmente sobre Martinho Lutero a excomunhão. Lutero regressou a
Wittenberg em 1522.
A consolidação do Luteranismo progrediu tanto na ordem politica como na teológica: os
príncipes e cidades reformadas constituíram uma liga confessional. Melanchton fixou a doutrina
luterana na ―Confissão de Augsburgo‖ em 1530. Um ano antes, a dieta de Spira deliberou tolerar
a Reforma nos lugares onde já estava implantada, mas proibiu que se estendesse a novos
territórios. O protesto de cinco Estados e catorze cidades cunhou uma denominaçao religiosa
que fez sucesso: Protestante, Protestantismo.
Quando Lutero morre, em 1546, a Reforma tinha-se estendido a mais de metade da Alemanha.
Em 1545 deu-se início ao Concílio de Trento, que Carlos V vinha reclamando quinze anos antes.
Em 1547 o conflito entre o imperador e os príncipes protestantes degenerou em luta armada, e
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Carlos V obteve em Mühlberg uma vitória completa sobre a Uga de Smalkald. Porém, mais
tarde, a traição de Maurício da Saxónia obrigou o imperador a conceder liberdade religiosa aos
Luteranos (1552) pelo Tratado de Passau. Em 1555, Carlos V teve de sancionar a paz de
Augsburgo, que concedia igualdade de direitos a Católicos e Luteranos, tendo sido os príncipes a
tomar a decisão a cerca da confissão a seguir no seu território.
A cisão religiosa da Alemanha era já um facto consumado e irreversível.
VË SE SABES.
1. Mostra oomo as ideias do Renascimento culminaram na cisão religiosa conhecida por
protestantismo.
2. Quais foram os principais aspectos da Igreja Católica contra os quais Lutero se rebelou para
fazer a sua reforma religiosa‘
3. Quais eram as principais diferenças entre a Igreja católica da época e a nova doutrina de
Lutero‘?
4. Dois poderosos factores, entre outros, favoreceram a difusão das ideias e a adesão maciça dos
alemães ao Protestantismo. Diz quais foram e explica porquê.
Difusão das ideias reformistas
A revolução religiosa iniciada por Lutero teve como primeiro cenário a Alemanha, onde se
difundiu rapidamente em meados do século XVI. Ventos de mudança varreram depois a maior
parte do Ocidente Europeu, levando por toda a parte as sementes da Reforma. Daqui as ideias
reformistas estenderam-se à Suíça, Holanda, Dinamarca, Suécia e Noruega.
Foi surpreendente a rápida expansão que teve o Protestantismo, tanto na sua forma luterana
como noutras formas, diversas entre si mas todas coincidentes na sua ruptura com a ortodoxia
católica. Depois de ter dominado mais de metade da Alemanha, a revolta protestante arrancou do
tronco da Igreja metade dos povos que tinham integrado a Cristandade medieval.
Recordemos agora os aspectos mais marcantes desse contágio desintegrador que alterou a face
do continente europeu.
O segundo principal protagonista da Reforma, tanto pelo seu contributo doutrinal
como pela sua influência no progresso do Protestantismo, surgiu mais tarde — foi
o francês João Calvino.
João Calvino (1509—1564), nascido em Noyon e adepto da Reforma desde a sua infância, abriu
novos caminhos ao Protestantismo. Dotado de uma mente mais lógica e extremista que Lutero,
Calvino levou as premissas fundamentais da doutrina protestante às últimas consequências,
defendendo que o Homem estava antecipadamente destinado por Deus a salvar a sua alma ou a
perdê-la — a doutrina da predestinação.
Para Calvino, a teologia da consolação luterana era, em sua opinião, totalmente insuficiente. A
corrupção insanável do Homem e o voluntarismo divino absoluto deviam conduzir fatalmente à
doutrina calvinista. Deus — transcendente e incompreensível —, teria predestinado segundo o
seu arbítrio insondável os homens ao Céu ou ao Inferno, dando de presente ―a uns a salvação e a
outros a condenação‖. A verdadeira Igreja seria a congregação dos predestinados.
Calvino expôs a sua doutrina no tratado da ―Instituição Cristã‖, composto primeiro em latim e
ampliado e publicado depois em francês (1541) Em Genebra, onde fixou residência definitiva,
João Calvino conseguiu instaurar um regime quase teocrático e uma austera vida social inspirada
nas normas da Bíblia. Calvino foi um autocrata religioso que governou a comunidade rodeado de
um ―consistório‖ de pastores e anciãos. A Academia Teológica de Genebra, fundada em 1558,
que se transformou numa ―Roma calvinista‖, era o seminário onde se formavam os pastores com
destino às diversas comunidades calvinistas da Europa. Genebra velava pela pureza do
Cristianismo reformado, tendo o célebre médico espanhol Miguel Servet sido condenado como
hereje e morrido na fogueira por negar o mistério da Santíssima Trindade.
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O Protestantismo calvinista teve uma força expansiva superior ao Luteranismo, quase reduzido à
Alemanha e à Escandinávia, e a sua influência foi decisiva para os destinos cristãos da Europa.
No Centro e no Leste Europeu, o Calvinismo introduziu-se profundamente na Hungria e na
Boémia e conquistou parte da aristocracia polaca. Nos Países Baixos, Guilherme de Orange, o
Taciturno, foi o líder protestante contra Filipe II e os Católicos, e conseguiu consolidar como um
reduto calvinista as Províncias Unidas do Norte da Europa — a futura Holanda. Na Escócia, o
Calvinismo tomou a forma de Presbiterianismo. O Calvinismo foi a forma de Protestantismo que
maior importância ganhou na pátria do próprio Calvino, ou seja, na França.
Os reis franceses dos primeiros tempos da Reforma deram o tom de uma singular política
religiosa. Desde a época de Francisco 1, a França foi uma constante aliada dos príncipes
protestantes alemães que lutavam contra Carlos 1, tendo sido igualmente aliada dos Turcos, que
ameaçavam as fronteiras orientais do império. Essa mesma linha manteve-se durante o século
XVII, na prova decisiva da Guerra dos Trinta Anos. Mas na política interna, os reis franceses
mostraram--se geralmente católicos fiéis, e tanto Francisco 1 como Henrique II agiram com rigor
em relação aos seus súbditos protestantes. Apesar disso, o Calvinismo penetrou em França, fez
numerosos adeptos entre a aristocracia e não tardaram a formar-se duas grandes facções — uma
católica, liderada pelos Guise, e outra protestante, cujos chefes mais famosos foram o almirante
Coligny e o príncipe Henrique de Bourbon e Navarra. Catarina de Medici, viúva de Henrique II,
quando esteve na regência, tentou uma política neutral e de apaziguamento, mas foi em vão, pois
as guerras religiosas assolaram a França durante quase três décadas.A noite de S. Bartolomeu e
os assassinatos do Duque de Guise e do Rei Henrique III contam-se entre os episódios mais
notórios daquela tormentosa época de guerra civil.
A história da Reforma em Inglaterra seguiu uma trajectória peculiar e obedeceu, talvez mais do
em qualquer outro país, às directrizes da realeza, mas o Anglicanismo não foi invenção de
Henrique VIII. Sob dinastia Tudor do século XV, igreja de Inglaterra era já em certo sentido
―anglicana ―, e Henrique VIII encontrou a legislação eclesiástica dos seus predecessores um
instrumento valido para a sua politica de subjugação religiosa. Este príncipe foi paladino do
Catolicismo nos alvores da Reforma e escreveu contra Lutero uma ―Defesa dos Sete
Sacramentos‖que lhe valeu do Papa Leão X o titulo de ―Defensor Fiel‖. Foi a recusa papal em
conceder a Henrique VII o divórcio de Catarina de Aragão, para casar com Ana Bolena, a razão
que o levou ao repúdio do primado romano e ao cisma. O rei autoproclamou-se ―cabeça suprema
da Igreja de Inglaterra‖ e exigiu reconhecimento jurado da sua supremacia eclesiástica. A grande
maioria dos homens da Igreja submeteu-se temerosamente à vontade do rei. Houve, no entanto,
excepções admiráveis, como a dos mártires cartuxos e, sobretudo, de duas figuras insignes, que
não claudicaram e morreram pela fé; São João Fisher, bispo de Rochester, e Sir Tomas More,
grão-chanceler do reino e o maior humanista de Inglaterra — uma personalidade que passados
séculos continua a ser apelativa e moderna.
O Protestantismo de inspiração calvinista introduziu-se em Inglaterra no reinado de Eduardo VI
(1 547—1 553). A sua sucessora, Maria Tudor, filha de Henrique VIII e Catarina de Aragão,
reprimiu a heresia e tentou a restauração católica. Mas esta restauração não durou mais do que os
breves anos da sua ocupação do trono (1 553—1 558). À data da sua morte, sem filhos, a coroa
passou para Isabel, filha de Henrique VIII e Ana de Bolena. Foi o longo reinado de Isabel I
(1558—1603) que decidiu a sorte do Cristianismo inglês. Conservaram-se formas externas de
tradição católica, como a hierarquia eclesiástica com os seus bispos e os seus cabidos, embora
sem clero celibatário nem vida monástica. Proibiu-se a celebração da missa, e o Anglicanismo
protestantizado, com elementos luteranos e calvinistas, impôs-se como doutrina oficial da Igreja
de Inglaterra.
Atendendo ao período em estudo, apraz salientar sumariamente, e quase em jeito de epílogo, que
a doutrina de Calvino exerceu uma notável influência na génese do capitalismo moderno.
VÊ SE SABES..
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1. Refere o papel de João Calvino na expansão da reforma protestante.
2. Compara a doutrina de Calvino com a de Lutero.
3. Procura informações sobre a famosa ―noite de S. Bartolomeu‖ e refere a tua opinião acerca do
acontecimento.
3.4. A reacção da igreja Católica a Contra-Reforma
Às críticas e avanços do reformismo protestante respondeu a Igreja Católica com um movimento
simultâneo de renovação interna, através do qual procurou afirmar o papel da Igreja universal
fundada por Cristo e combater as ideias reformistas. Este movimento recebeu o nome de Contra-
Reforma ou Reforma Católica).
O acontecimento central da Reforma Católica foi o Concílio de Trento (1545-1563). O Papa
Paulo III (1534-1549), um notável humanista e diplomata, compreendeu que um concílio
ecuménico constituía o único caminho para levar cabo a reforma da Igreja. Passo a passo, foram-
se superando muitos dos obstáculos que se opunham à sua celebração. A escolha de Trento para
sede do concílio foi uma das soluções de compromisso a que se chegou nas negociações prévias.
Trento fica no Norte da Itália, mas era uma cidade imperial e podia esperar-se que os
Protestantes aceitariam deslocar-se lá em vez de um concílio celebrado em território papal. A
própria ordem a seguir nos trabalhos suscitava opiniões contrárias: o papa desejava que se
tratassem antes de mais os temas doutrinais para fixar com precisão o dogma católico nas
questões discutidas pelos Protestantes, enquanto o imperador desejava que se desse preferência
às questões disciplinares de reforma eclesiástica, esperando satisfazer assim os seus súbditos
luteranos e facilitar o restauro da unidade cristã. O compromisso a que se chegou foi o
tratamento simultâneo das duas matérias, alterando os decretos dogmáticos e os de reforma.
Porém, as dificuldades não terminaram com a abertura do sínodo — longe disso, os incidentes
sucederam-se ao longo da sua celebração, e em certas ocasiões foram tão graves que fizeram
temer pela sorte do mesmo concílio.
Determinação do Concílio de Trento
Se alguém diz que o ímpio se justifica unicamente pela fé, de tal modo que entenda que nada mais é preciso para cooperar com a
graça com o fim de obter a justificação, e que não é preciso que se prepare e se disponha por um movimento da sua própria
vontade, que seja excomungado.
Se alguém diz que todos têm o poder de anunciar a palavra [de Deus]
e de administrar os sacramentos, que seja excomungado.
Que ninguém seja recebido em regime da Igreja catedral se não for recebido de casamento legitimo, de idade madura, de
costumes austeros, e sábios nas letras (…)
Que os bispos sejam obrigados a visitar em cada ano rodas as Igrejas [na sua diocese].
Que aqueles que foram promovidos à dignidade episcopal recebam a ordem do sacerdócio dentro do tempo [idade] ordenado pelo
direito [canónico].
Não é possível descrever aqui em pormenor o que ocorreu no Concílio de Trento, bastando
recordar os marcos fundamentais do seu desenvolvimento. A inauguração teve lugar em 19 de
Novembro de 1545, tendo sido anunciado, sem dúvida, com o intuito de ser um concílio
unionista com os Protestantes. Em 11 de Março de 1547, os delegados papais, alegando uma
epidemia, decidiram transferir o concílio para Bolonha. O verdadeiro motivo da mudança,
porém, era o desejo de subtrair a assembleia à influência do imperador, cujas relações com o
papa estavam longe de ser cordiais. Basta recordar que a vitória de Carlos V sobre os Luteranos
em Mühlberg foi recebida na cúria romana com mais receio do que alegria. A etapa bolonhesa do
concílio não contou com a presença dos bispos súbditos do imperador, que permaneceram em
Trento. Finalmente, em Janeiro de 1548, Carlos V apresentou um protesto solene e formal que
obrigou à interrupção imediata das sessões conciliares em Bolonha e pôs fim à suspensão do
concílio no mês de Setembro de 1549.
A segunda etapa do concílio teve início em Trento no dia 1 de Maio de 1551, sob
o novo pontífice Júlio III (1550—1555), O imperador conseguiu desta vez que fosse
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a Trento um certo número de delegações de príncipes e cidades protestantes.
A presença dos reformistas manifestou de forma clara quão difícil era a restauração da unidade
cristã, depois de mais de trinta anos de cisão religiosa. Não obstante isso, a traição ao imperador
eleito, Maurício da Saxónia, obrigou a suspender novamente o concílio (28 de Abril de 1552).
Foi uma interrupção que durou dez anos, entre os quais se contam a totalidade do pontificado de
João III, zeloso reformador, mas por vias diferentes da conciliar.
Foi preciso iniciar-se o pontificado do Papa Pio IV (1559—1565) para que o concílio retomasse
os trabalhos, o que aconteceu em 18 da Janeiro de 1562. A terceira etapa tridentina durou dois
escassos anos e serviu para levar a feliz termo a grande empresa raformadora: no dia 4 de
Dezembro de 1563 foi encerrado o Concílio de Trento e o papa confirmou todos os seus decretos
pela bula ―Benedictus Deus‖, no dia 26 da Janeiro de 1564.
Trento não pôde ser um sínodo unionista, mas foi o grande concílio da reforma católica. A sua
obra foi extraordinária tanto no campo doutrinal como disciplinar. No âmbito do primeiro,
declarou-se antes de mais que a Revelação Divina se transmitia através da Sagrada Escritura,
interpretada pelo magistério da Igreja e pela tradição apostólica, O concílio abordou o tema-
chave da justificação humana e, contra as teologias luterana a calvinista, declarou que a graça
divina e a cooperação livre e meritória da vontade humana operam em conjunto na justificação
do Homem. Outro tema de índole dogmática tratado pelo concílio foi o dos sacramentos, em que
tanta confusão tinham lançado os Protestantes; definiu-se a doutrina dos sete sacramentos e as
notas próprias de cada um deles.
A Reforma Católica, como movimento renovador da Igreja universal promovida pelo papado, é
posterior à Reforma Protestante. Porém, o anseio de reforma, como se disse, já vinha da trás a
tinha-se efectivado em algumas realizações de grande importância, embora a título parcial. Um
país ocidental surge na vanguarda da Reforma Católica — a Espanha dos Reis Católicos. Estes
movimentos consideraram a reforma eclesiástica como uma parcela essencial da obra geral de
restauração do Estado, que norteou a sua politica. O direito de apresentação que os reis
obtiveram, primeiro para os bispos do rur:oi 1111 hilcic lo 1 ccii 0 i lo (ii II nada, e depois
praticamente para todos os bispos do reconquistado reino da Granada, e depois praticamente para
todos os bispos da monarquia, permitiu-lhes subtrair o episcopado das mãos da Nobreza e
escolher para bispos indivíduos eminentes pelo seu espírito religioso e pelo sou conhecimento
cientifico provenientes do Clero regular. O cardeal Císneros reformou os conventos franciscanos
e a vida monástica. A Universidade Alcalá , fundada por ele, foi um activo foco de humanismo
cristão e um grande centro de estudos teológicos, onde se publicou a célebre ―Bíblia Poliglota
Complutense‖. A Igreja espanhola no primeiro terço do século XVI era, sem dúvida, a que
revelava o maior nível espiritual e cientifico da Europa, o que explica o papel preponderante
que os teólogos espanhóis tiveram em Trento.
O Concílio de Trento definiu regras de recrutamento do Clero, que passava a ser formado em
seminário, e procurou moralizar o seu comportamento impondo uma disciplina severa e
conservando o celibato. Para reforçar a autoridade do Alto Clero e reafirmar a doutrina
tradicional, a Igreja Católica iniciou um verdadeiro combate contra a Reforma.
Foi criada uma nova ordem religiosa, a Companhia de Jesus, para lutar pelo Cristianismo
católico e pela sua difusão no mundo. A Companhia de Jesus (ou Ordem dos Jesuítas), fundada
em 1539 pelo nobre espanhol Inácio de Loyola , constituiu uma importante barreira contra o
avanço do reformismo protestante através da pregação e do ensino ministrado em numerosos
colégios abertos por toda a Europa. Os Jesuítas recebiam uma sólida preparação intelectual, de
modo a poderem rebater os argumentos reformistas. Prestaram serviços de grande importância ao
pontificado na sua obra de reforma católica, especialmente através da formação do Clero, da
educação da juventude e das missões. A sua acção estendeu-se também às novas terras
descobertas, sobretudo ao Oriente e ao Brasil, onde exerceram a missionação. Em breve, a
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Companhia de Jesus tornou-se uma instituição poderosíssima, dispondo de grande influência
junto das autoridades eclesiásticas e junto de reis e governantes.
A Igreja Católica dispôs ainda de dois outros instrumentos de combate contra o reformismo e de
defesa do Catolicismo: o primeiro foi o “Index”, uma lista de livros proibidos pela Igreja
Católica, onde até as obras de Erasmo, que nunca chegou a apoiar claramente o movimento
reformista, foram incluídas. O segundo instrumento de cerceamento do movimento reformista foi
a Inquisição, um tribunal eclesiástico que vigiava, perseguia e condenava os herejes e todos os
que fossem contra as ideias da Igreja Católica.
A reacção da Igreja Católica foi, simultaneamente, um movimento de renovação interna e uma
resposta organizada para enfrentar e impedir a expansão da reforma protestante. Nada impediria,
no entanto, que a Europa ficasse definitivamente dividida em termos religiosos — o Norte
protestante e o Sul católico. Esta divisão, conforme se verá adiante, viria a ter influência na
evolução económica e social do continente europeu.
Por conseguinte, podemos concluir que os anseios de renovação crista produziram um admirável
florescimento no seio da Igreja, que em alguns países, como em Espanha, se iniciou antes do
Luteranismo. ―Reformaram-se antigas ordens religiosas, criaram-se ordens novas, apareceram
grandes santos o grandes papas. O Concílio de Trento não conseguiu o objectivo almejado por
Carlos V de restaurar a unidade cristã, mas realizou uma obra imensa, tanto na doutrina católica
como na disciplina eclesiástica.‖
VE SE SABES…
1. Quando e porquê se realizou o Concilio de Trento?
2. Quais foram os resultados do Concilio de Trento?
3. Destaca o papei de inácio de Loyola na luta pelo catolicismo e pela sua difusão no mundo?
4. Que papéis tiveram o Index e a inquisição na conservação da doutrina católica?
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A CRISE RELIGIOSA DO SÉCULO XVI
O espírito crítico e interrogativo do homem renascentista levou-o a pôr em
questão, também, algumas doutrinas e normas de comportamento impostas pela Igreja
Católica. No começo do século XVI houve homens esclarecidos e corajosos que
denunciaram os abusos eclesiásticos e propuseram uma profunda reformo religiosa.
Europa dividiu-se em dois blocos: de um lado, os que se mantinham fiéis cio
cristianismo tradicional (católicos), e do outro, as igrejas cristãs reformados, ou
protestantes. Aproximavam-se tempos de intolerância e lutos religiosas.
O CATOLICISMO, UMA RELIGIÃO EM CRISE
A Igreja Católica estava associada ao poder político havia séculos. Possuía
vastas propriedades e não só estava isenta de pagamento de imposto tinha direito a
recebê-lo (caso da dízimo). Os membros do alto clero viviam no luxo e na abundância,
em contraste com o ideal de pobreza evangélica recomendado aos fiéis. Os papas do
Renascimento comportavam-se como grandes senhores laicos, vivendo em luxuosos
palácios, construídos e decorados pelos artistas mais célebres.
A corrupção e a imoralidade eram frequentes entre os cléricos. Os próprios
cargos eclesiásticos, devido aos elevados rendimentos que proporcionavam, eram
geralmente cobiçados e, muitas vezes, comprados. Por outro lado, os elementos do
alto clero preocupavam-se mais com o aspecto formal da religião, com o cerimonial, do
que com a sua missão espiritual de pastores do povo de Deus. As próprias práticas do
culto católico utilizavam o latim, uma língua que o povo comum á não entendia.
As lutas pela supremacia entre o poder eclesiástico e o poder temporal (o poder
dos reis e dos senhores feudais) tinham enfraquecido a Igreja, nos finais da Idade
Média. As discórdias internas culminaram no grande cisma do Ocidente, com os
católicos divididos na obediência a dois papas. Embora esta cisão tivesse terminado
nos começos do século XV, deixou seriamente abalado o prestígio da Igreja Católica e
dos seus dirigentes.
Ainda no mesmo século, alguns críticos mais corajosos, como o checo João
Huss e o florentino Savonarola, ousaram chamar para os erros e os abusos dentro
Católica. Acabariam por ser condenados a morrer na fogueira.
Já no do começo do século XVI, Erasmo de Roterdão e outros humanistas
cristãos defendiam igualmente uma renovação da Igreja, que moralizasse a vida
eclesiástica reconduzisse o cristianismo a sua pureza original.
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Apesar destes desejos de mudança, os papas insistiam em manter as estruturas
e as doutrinas da igreja impermeáveis a todas as críticas e sugestões.
A REFORMA PROTESTANTE
Martinho Lutero (1483-1546) era um monge alemão, professor de filosofia na
Universidade de Wittenberg, na Alemanha. Tal como outros seus contemporâneos,
Lutero apercebeu-se das contradições interna da Igreja Católica.
No entanto, aquilo que desencadeou a sua crítica e o rebelião contra Roma foi a
questão das indulgências.
Em 1513, o popa Leão X tinha enviado monges por toda a Europa, pedindo aos
fieis que contribuíssem com dinheiro para o pagamento das obras da Basílica de S.
Pedro, em Roma. Em troca, o papa concedia a esses fiéis uma bula de indulgências,
isto é, um documento em que lhes perdoava a penitência dos pecados. Apesar de o
papa afirmar tratar-se de uma recolha de esmola, esta operação tinha um aspecto de
transacção comercial chocante.
Martinho Lutero denunciou publicamente a questão das indulgências, numa
proclamação que afixou na porta da catedral de Wittenberg – Às Noventa e Cinco
Teses contra as indulgências. Lutero acabaria por ser excomungado pelo papa e só a
protecção que lhe dispensada por alguns príncipes alemães impediu que fosse
condenado à fogueira.
Martinho Lutero aprofundou as suas críticas à Igreja Católica, alargando-as aos
aspectos doutrinários. A Igreja Católica ensinava que o Homem não poderia salvar-se,
é, alcançar a vida eterna (o Paraíso), senão através da prática de boas obras e da
mediação do clero. Para Lutero, pelo contrário, o fundamental era a fé. O Homem
salva-se se tivesse fé, isto é, se acreditasse em Cristo e na sua palavra, tal como se
encontrava nos Evangelhos.
Para isso, Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, de forma que cada crente a
pudesse ler e interpretar livremente, sem ter o clero como intermediário.
Desta maneira, a Reforma Protestante resumia o culto à leitura da Bíblia e ao
cântico de hinos, suprimindo todas as restantes cerimonias Lutero reduziu os
sacramentos, mantendo apenas o baptismo e a comunhão; aboliu culto dos Santos e
da Virgem Maria, bem como as ordens monásticas e o celibato eclesiástico, porque
nenhuma destas disposições constava na Bíblia. Qualquer crente podia exercer a
função de ministro do culto, ou pastor.
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Deste modo, na igreja Luterana, o clero quase desapareceu, bem como a sua
hierarquia (bispos, cardeais, papas).
Lutero estabelecia, também, que a sua Igreja não possuiria propriedades. Assim,
todo o imenso patnirn6nio eclesiástico poderia ser confiscado pelo Estado. Isto
favoreceu, como calculas, a conversão de muitos príncipes alemães, que, ao aderirem
à Reforma, encontravam justificação para se apropriarem dos bens do clero.
A DIFUSÃO DAS IDEIAS REFORMISTAS
Em meados do século XVI, a Reforma protestante triunfa em quase toda a
Alemanha, onde o luterismo se tinha difundido rapidamente. Daqui, as ideias
estabeleceram-se à Suíça, Holanda, Dinamarca, Suécia e Noruega.
Na Suíça, Calvino adopta uma doutrina mais rígida e extremista que a luterana,
defendendo que o Homem estava antecipadamente destinado por Deus a salvar a sua
alma ou a perdê-la (doutrina de predestinação). O Calvinismo acabaria por originar um
novo foco reformista (a Igreja Calvinista), que se difundiu, sobretudo, na Escócia e em
França. Neste país, os adeptos de Calvino (os huguenotes) foram violentamente
perseguidos pelos católicos.
Na Inglaterra em 1533 o rei Henrique VIII desligou-se da obediência ao papa e
fundou a Igreja Anglicana. Uma das principais características do anglicanismo é o facto
de o rei se tornar, ele próprio, o chefe supremo da Igreja Anglicana. Esta nova igreja
reformada, manteve alguns elementos doutrinários católicos e foi buscar outros ao
calvinismo
A REACÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
As críticas e avanços do reformismo protestante respondeu a igreja católica com
um movimento que foi simultaneamente de renovação interna (reforma católica) e de
combate das ideias reformista (contra reforma).
Reunidos no conselho de Trento, numa grande assembleia que se prolongou por
vários anos os bispos e cardeais católicos analisaram as criticas reformistas. De um
modo geral não aceitou as propostas de mudança dos protestantes. Pelo contrário,
foram reafirmando todos os dogmas da fé católica, valorizando o papel do papa e do
igreja como intermediários para a salvação do Homem, mantidos os sacramentos,
reforçado o culto dos santos e da Virgem Maria, Por outro lado, o concílio de Trento
estabeleceu regras de recrutamento do clero, que passava a ser formado em
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seminário, e procurou moralizar o seu comportamento, impondo uma disciplina severa
e conservando o celibato.
ROMA DEPOIS DA REFORMA CATÓLICA
Já não se vêem os cardeais disfarçados, a cavalo ou em carruagem, passeando
pela cidade na companhia de mulheres, como era costume até há bem pouco tempo;
hoje, se viajam em carruagem, fazem-no sozinhos. Acabaram os festins, as caçadas e
as exibições de luxo; e os próprios familiares laicos dos papas deixaram de viver no
Vaticano, corno era habitual.
Carta de um embaixador veneziano, junto da Santa Sé (1566 – 1572)
Para melhor impor a autoridade do alto clero e reafirmar a doutrina tradicional, a
Igreja Católica iniciou um verdadeiro combate contra a Reforma.
Foi criada uma nova ordem religiosa, a Companhia de Jesus, para lutar pelo
Cristianismo Católico e pela sua difusão no mundo. A Companhia de Jesus, ou Ordem
dos Jesuítas, fundada em 1539 pelo nobre espanhol Inácio de Loyola, constituiu uma
importante barreira contra o avanço do reformismo protestante, através da pregação e
do ensino, ministrado em numerosos colégios abertos por toda a Europa.
JESUÍTAS: O EXÉRCITO DE DEUS
Aquele que desejar tornar-se um soldado de Deus na nossa Ordem deverá,
depois de ter feito voto de castidade perpétua, consagrar-se à propagação da fé,
pregando publicamente, ensinando a palavra de Deus, fazendo exercícios espirituais e
acções piedosas e, sobretudo, dando às crianças uma educação religiosa e levando o
consolo espiritual através da confissão. Se o papa nos enviar a propagar a fé, ou a
converter as almas entre os infiéis, mesmo que seja às Índias, deveremos obedecer-lhe
sem reservas. Os membros da nossa ordem devem distinguir-se por uma obediência
absoluta, verdadeira, cega, renunciando à sua própria vontade. É necessário acreditar
que tudo o que um superior nos ordena é justo.
Os Jesuítas recebiam uma sólida preparação intelectual, de modo a poderem
rebater os argumentos reformistas. A sua acção estendeu-se também às novas terras
descobertas, sobretudo ao Oriente e ao Brasil, onde exerceram a missionação. Em
44 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
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breve a companhia de Jesus se tornou uma instituição poderosíssima, dispondo de
grande influência junto das autoridades eclesiásticas e junto de reis e governantes.
A Igreja Católica dispôs ainda de dois outros instrumentos de combate contra o
reformismo e de defesa do catolicismo: o Índex e a Inquisição.
O Índex era um catálogo dos livros de leitura proibidos aos católicos. Aqueles
que ousassem ler qualquer desses livros ficavam excomungados. Escusado será dizer
que os obras de Lutero figuravam à cabeça do índex e até as de Erasmo, que nunca
chegou a apoiar claramente o movimento reformista, foram nele incluídas.
Revolução Industrial
Um motor a vapor de Watt, o motor a vapor, alimentado principalmente com carvão,
impulsionou a Revolução Industrial no Reino Unido e no mundo.
A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo
impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Iniciada na Inglaterra em meados
do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX.
Ao longo do processo a era da agricultura foi superada, a máquina foi superando o trabalho
humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs, novas relações entre nações se
estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros eventos.
Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores, como o liberalismo
econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções, tais como o motor a vapor. O
capitalismo tornou-se o sistema econômico vigente.
O escocês James Watt.
Antes da Revolução Industrial, a atividade produtiva era artesanal e manual (daí o termo
manufatura), no máximo com o emprego de algumas máquinas simples. Dependendo da escala,
grupos de artesãos podiam se organizar e dividir algumas etapas do processo, mas muitas vezes
um mesmo artesão cuidava de todo o processo, desde a obtenção da matéria-prima até à
comercialização do produto final. Esses trabalhos eram realizados em oficinas nas casas dos
próprios artesãos e os profissionais da época dominavam muitas (se não todas) etapas do
processo produtivo.
Com a Revolução Industrial os trabalhadores perderam o controle do processo produtivo, uma
vez que passaram a trabalhar para um patrão (na qualidade de empregados ou operários),
perdendo a posse da matéria-prima, do produto final e do lucro. Esses trabalhadores passaram a
controlar máquinas que pertenciam aos donos dos meios de produção os quais passaram a
receber todos os lucros. O trabalho realizado com as máquinas ficou conhecido por
maquinofatura.
45 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
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Esse momento de passagem marca o ponto culminante de uma evolução tecnológica, econômica
e social que vinha se processando na Europa desde a Baixa Idade Média, com ênfase nos países
onde a Reforma Protestante tinha conseguido destronar a influência da Igreja Católica:
Inglaterra, Escócia, Países Baixos, Suécia. Nos países fiéis ao catolicismo, a Revolução
Industrial eclodiu, em geral, mais tarde, e num esforço declarado de copiar aquilo que se fazia
nos países mais avançados tecnologicamente: os países protestantes.
De acordo com a teoria de Karl Marx, a Revolução Industrial, iniciada na Grã-Bretanha, integrou
o conjunto das chamadas Revoluções Burguesas do século XVIII, responsáveis pela crise do
Antigo Regime, na passagem do capitalismo comercial para o industrial. Os outros dois
movimentos que a acompanham são a Independência dos Estados Unidos e a Revolução
Francesa que, sob influência dos princípios iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna
para a Idade Contemporânea. Para Marx, o capitalismo seria um produto da Revolução Industrial
e não sua causa.
Com a evolução do processo, no plano das Relações Internacionais, o século XIX foi marcado
pela hegemonia mundial britânica, um período de acelerado progresso econômico-tecnológico,
de expansão colonialista e das primeiras lutas e conquistas dos trabalhadores. Durante a maior
parte do período, o trono britânico foi ocupado pela rainha Vitória (1837-1901), razão pela qual é
denominado como Era Vitoriana. Ao final do período, a busca por novas áreas para colonizar e
descarregar os produtos maciçamente produzidos pela Revolução Industrial produziu uma
acirrada disputa entre as potências industrializadas, causando diversos conflitos e um crescente
espírito armamentista que culminou, mais tarde, na eclosão, da Primeira Guerra Mundial (1914).
A Revolução Industrial ocorreu primeiramente na Europa devido a três fatores: 1) os
comerciantes e os mercadores europeus eram vistos como os principais manufaturadores e
comerciantes do mundo, detendo ainda a confiança e reciprocidade dos governantes quanto à
manutenção da economia em seus estados; 2) a existência de um mercado em expansão para seus
produtos, tendo a Índia, a África, a América do Norte e a América do Sul sido integradas ao
esquema da expansão econômica européia; e 3) o contínuo crescimento de sua população, que
oferecia um mercado sempre crescente de bens manufaturados, além de uma reserva adequada (e
posteriormente excedente) de mão-de-obra. [1]
O pioneirismo do Reino Unido
O Reino Unido foi pioneiro no processo da Revolução Industrial por diversos fatores:
Pela aplicação de uma política econômica liberal desde meados do século XVIII. Antes
da liberalização econômica, as atividades industriais e comerciais estavam cartelizadas
pelo rígido sistema de guildas, razão pela qual a entrada de novos competidores e a
inovação tecnológica eram muito limitados. Com a liberalização da indústria e do
comércio ocorreu um enorme progresso tecnológico e um grande aumento da
produtividade em um curto espaço de tempo.
O processo de enriquecimento britânico adquiriu maior impulso após a Revolução
Inglesa, que forneceu ao seu capitalismo a estabilidade que faltava para expandir os
investimentos e ampliar os lucros.
A Grã-Bretanha firmou vários acordos comerciais vantajosos com outros países. Um
desses acordos foi o Tratado de Methuen, celebrado com a decadência da monarquia
absoluta portuguesa, em 1703, por meio do qual conseguiu taxas preferenciais para os
seus produtos no mercado português.
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A Grã-Bretanha possuía grandes reservas de ferro e de carvão mineral em seu subsolo,
principais matérias-primas utilizadas neste período. Dispunham de mão-de-obra em
abundância desde a Lei dos Cercamentos de Terras, que provocou o êxodo rural. Os
trabalhadores dirigiram-se para os centros urbanos em busca de trabalho nas manufaturas.
A burguesia inglesa tinha capital suficiente para financiar as fábricas, adquirir matérias-
primas e máquinas e contratar empregados.
Para ilustrar a relativa abundância do capital que existia na Inglaterra, pode se constatar que a
taxa de juros no final do século XVIII era de cerca de 5% ao ano; já na China, onde praticamente
não existia progresso econômico, a taxa de juros era de cerca de 30% ao ano.
O liberalismo de Adam Smith
As novidades da Revolução Industrial trouxeram muitas dúvidas. O pensador escocês Adam
Smith procurou responder racionalmente às perguntas da época. Seu livro A Riqueza das Nações
(1776) é considerado uma das obras fundadoras da ciência econômica. Ele dizia que o
individualismo é útil para a sociedade. Seu raciocínio era este: quando uma pessoa busca o
melhor para si, toda a sociedade é beneficiada. Exemplo: quando uma cozinheira prepara uma
deliciosa carne assada, você saberia explicar quais os motivos dela? Será porque ama o seu
patrão e quer vê-lo feliz ou porque está pensando, em primeiro lugar, nela mesma ou no
pagamento que receberá no final do mês? De qualquer maneira, se a cozinheira pensa no salário
dela, seu individualismo será benéfico para ela e para seu patrão. E por que um açougueiro vende
uma carne muito boa para uma pessoa que nunca viu antes? Porque deseja que ela se alimente
bem ou porque está olhando para o lucro que terá com futuras vendas? Graças ao individualismo
dele o freguês pode comprar boa carne. Do mesmo jeito, os trabalhadores pensam neles mesmos.
Trabalham bem para poder garantir seu salário e emprego.
Portanto, é correto afirmar que os capitalistas só pensam em seus lucros. Mas, para lucrar, têm
que vender produtos bons e baratos. O que, no fim, é ótimo para a sociedade.
Então, já que o individualismo é bom para toda a sociedade, o ideal seria que as pessoas
pudessem atender livremente a seus interesses individuais. E, para Adam Smith, o Estado é quem
atrapalhava a liberdade dos indivíduos. Para o autor escocês, "o Estado deveria intervir o mínimo
possível sobre a economia". Se as forças do mercado agissem livremente, a economia poderia
crescer com vigor. Desse modo, cada empresário faria o que bem entendesse com seu capital,
sem ter de obedecer a nenhum regulamento criado pelo governo. Os investimentos e o comércio
seriam totalmente liberados. Sem a intervenção do Estado, o mercado funcionaria
automaticamente, como se houvesse uma "mão invisível" ajeitando tudo. Ou seja, o capitalismo
e a liberdade individual promoveria o progresso de forma harmoniosa.
As primeiras máquinas a vapor foram construídas na Inglaterra durante o século XVIII.
Retiravam a água acumulada nas minas de ferro e de carvão e fabricavam tecidos. Graças a essas
máquinas, a produção de mercadorias aumentou muito. E os lucros dos burgueses donos de
fábricas cresceram na mesma proporção. Por isso, os empresários ingleses começaram a investir
na instalação de indústrias.
As fábricas se espalharam rapidamente pela Inglaterra e provocaram mudanças tão profundas
que os historiadores atuais chamam aquele período de Revolução Industrial. O modo de vida e a
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mentalidade de milhões de pessoas se transformaram, numa velocidade espantosa. O mundo
novo do capitalismo, da cidade, da tecnologia e da mudança incessante triunfou.
As máquinas a vapor bombeavam a água para fora das minas de carvão. Eram tão importantes
quanto as máquinas que produziam tecidos.
As carruagens viajavam a 12 km/h e os cavalos, quando se cansavam, tinham de ser trocados
durante o percurso. Um trem da época alcançava 45 km/h e podia seguir centenas de
quilômetros. Assim, a Revolução Industrial tornou o mundo mais veloz. Como essas máquinas
substituiam a força dos cavalos, convencionou-se em medir a potência desses motores em HP
(do inglês horse power ou cavalo-força).
A classe trabalhadora
A produção manual que antecede à Revolução Industrial conheceu duas etapas bem definidas,
dentro do processo de desenvolvimento do capitalismo:
O artesanato foi a forma de produção industrial característica da Baixa Idade Média,
durante o renascimento urbano e comercial, sendo representado por uma produção de
caráter familiar, na qual o produtor (artesão) possuía os meios de produção (era o
proprietário da oficina e das ferramentas) e trabalhava com a família em sua própria casa,
realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima, até o
acabamento final; ou seja não havia divisão do trabalho ou especialização para a
confecção de algum produto. Em algumas situações o artesão tinha junto a si um
ajudante, porém não assalariado, pois realizava o mesmo trabalho pagando uma ―taxa‖
pela utilização das ferramentas.
o É importante lembrar que nesse período a produção artesanal estava sob controle
das corporações de ofício, assim como o comércio também se encontrava sob
controle de associações, limitando o desenvolvimento da produção.
A manufatura, que predominou ao longo da Idade Moderna e na Antiguidade Clássica,
resultou da ampliação do mercado consumidor com o desenvolvimento do comércio
monetário. Nesse momento, já ocorre um aumento na produtividade do trabalho, devido à
divisão social da produção, onde cada trabalhador realizava uma etapa na confecção de
um único produto. A ampliação do mercado consumidor relaciona-se diretamente ao
alargamento do comércio, tanto em direção ao oriente como em direção à América. Outra
característica desse período foi a interferência do capitalista no processo produtivo,
passando a comprar a matéria-prima e a determinar o ritmo de produção.
A partir da máquina, fala-se numa primeira, numa segunda e até terceira e quarta Revoluções
Industriais. Porém, se concebermos a industrialização como um processo, seria mais coerente
falar-se num primeiro momento (energia a vapor no século XVIII), num segundo momento
(energia elétrica no século XIX) e num terceiro e quarto momentos, representados
respectivamente pela energia nuclear e pelo avanço da informática, da robótica e do setor de
comunicações ao longo dos séculos XX e XXI (aspectos, porém, ainda discutíveis).
Na esfera social, o principal desdobramento da revolução foi a transformação nas condições de
vida nos países industriais em relação aos outros países da época, havendo uma mudança
progressiva das necessidades de consumo da população conforme novas mercadorias foram
sendo produzidas.
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A Revolução Industrial alterou profundamente as condições de vida do trabalhador braçal,
provocando inicialmente um intenso deslocamento da população rural para as cidades. Criando
enormes concentrações urbanas; a população de Londres cresceu de 800 000 habitantes em 1780
para mais de 5 milhões em 1880, por exemplo. Durante o início da Revolução Industrial, os
operários viviam em condições horríveis se comparadas às condições dos trabalhadores do
século seguinte. Muitos dos trabalhadores tinham um cortiço como moradia e ficavam
submetidos a jornadas de trabalho que chegavam até a 80 horas por semana. O salário era
medíocre (em torno de 2.5 vezes o nível de subsistência) e tanto mulheres como crianças
também trabalhavam, recebendo um salário ainda menor.
A produção em larga escala e dividida em etapas iria distanciar cada vez mais o trabalhador do
produto final, já que cada grupo de trabalhadores passava a dominar apenas uma etapa da
produção, mas sua produtividade ficava maior. Como sua produtividade aumentava os salários
reais dos trabalhadores ingleses aumentaram em mais de 300% entre 1800 até 1870. Devido ao
progresso ocorrido nos primeiros 90 anos de industrialização, em 1860 a jornada de trabalho na
Inglaterra já se reduzia para cerca de 50 horas semanais (10 horas diárias em cinco dias de
trabalho por semana).
Movimentos
Alguns trabalhadores, indignados com sua situação, reagiam das mais diferentes formas, das
quais se destacam:
Movimento Ludista (1811-1812)
Ver artigo principal: Ludismo
Reclamações contra as máquinas inventadas após a revolução para poupar a mão-de-obra já eram
normais. Mas foi em 1811 que o estopim estourou e surgiu o movimento ludista, uma forma
mais radical de protesto. O nome deriva de Ned Ludd, um dos líderes do movimento. Os luditas
chamaram muita atenção pelos seus atos. Invadiram fábricas e destruíram máquinas, que,
segundo os luditas, por serem mais eficientes que os homens, tiravam seus trabalhos, requerendo,
contudo, duras horas de jornada de trabalho. Os manifestantes sofreram uma violenta repressão,
foram condenados à prisão, à deportação e até à forca. Os luditas ficaram lembrados como "os
quebradores de máquinas".
Anos depois os operários ingleses mais experientes adotaram métodos mais eficientes de luta,
como a greve e o movimento sindical.
Movimento Cartista (1837-1848)
Em seqüência veio o movimento "cartista", organizado pela "Associação dos Operários", que
exigia melhores condições de trabalho como:
particularmente a limitação de oito horas para a jornada de trabalho
a regulamentação do trabalho feminino
a extinção do trabalho infantil
a folga semanal
o salário mínimo
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Este movimento lutou ainda pelos direitos políticos, como o estabelecimento do sufrágio
universal (apenas para os homens, nesta época) e extinção da exigência de propriedade para se
integrar ao parlamento e o fim do voto censitário. Esse movimento se destacou por sua
organização, e por sua forma de atuação, chegando a conquistar diversos direitos políticos para
os trabalhadores.
As "trade-unions"
Os empregados das fábricas também formaram associações denominadas trade unions, que
tiveram uma evolução lenta em suas reivindicações. Na segunda metade do século XIX, as trade
unions evoluíram para os sindicatos, forma de organização dos trabalhadores com um
considerável nível de ideologização e organização, pois o século XIX foi um período muito fértil
na produção de idéias antiliberais que serviram à luta da classe operária, seja para obtenção de
conquistas na relação com o capitalismo, seja na organização do movimento revolucionário cuja
meta era construir o socialismo objetivando o comunismo. O mais eficiente e principal
instrumento de luta das trade unions era a greve.
A industrialização na Europa: a partir de 1815
Até 1850, a Inglaterra continuou dominando o primeiro lugar entre os países industrializados.
Embora outros países já contassem com fábricas e equipamentos modernos, esses eram
considerados uma "miniatura de Inglaterra", como por exemplo os vales de Ruhr e Wupper na
Alemanha, que eram bem desenvolvidos, porém não possuíam a tecnologia das fábricas inglesas.
Na Europa, os maiores centros de desenvolvimento industrial, na época, eram as regiões
mineradoras de carvão; lugares como o norte da França, nos vales do Rio Sambre e Meuse, na
Alemanha, no vale de Ruhr, e também em algumas regiões da Bélgica. A Alemanha nessa época
ainda não havia sido unificada. Eram 39 pequenos reinos e dentre esses a Prússia, que liderava a
Revolução Industrial. A Alemanha se unificou em 1871, quando a Prússia venceu a Guerra
Franco-Prussiana.
Fora estes lugares, a industrialização ficou presa:
às principais cidades, como Paris e Berlim;
aos centro de interligação viária, como Lyon, Colônia, Frankfurt am Main, Cracóvia e
Varsóvia;
aos principais portos, como Hamburgo, Bremen, Roterdã, Le Havre, Marselha;
a polos têxteis, como Lille, Região do Ruhr, Roubaix, Barmen-Elberfeld (Wuppertal),
Chemmitz, Lodz e Moscou;
e a distritos siderurgicos e indústria pesada, na bacia do rio Loire, do Sarre, e da Silésia.
De 1830 a 1929 : A Expansão pelo mundo
Após 1830, a produção industrial se descentralizou da Inglaterra e se expandiu rapidamente pelo
mundo, principalmente para o noroeste europeu, e para o leste dos Estados Unidos da América.
Porém, cada país se desenvolveu em um ritmo diferente baseado nas condições econômicas,
sociais e culturais de cada lugar.
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Na Alemanha com o resultado da Guerra Franco-prussiana em 1870, houve a Unificação Alemã
que, liderada por Bismarck, impulsionou a Revolução Industrial no país que já estava ocorrendo
desde 1815. Foi a partir dessa época que a produção de ferro fundido começou a aumentar de
forma exponencial.
Na Itália a unificação política realizada em 1870, à semelhança do que ocorreu na Alemanha,
impulsionou, mesmo que atrasada, a industrialização do país. Essa só atingiu ao norte da Itália,
pois o sul continuou basicamente agrário.
Muito mais tarde, começou a industrialização na Rússia, nas últimas décadas do século XIX. Os
principais fatores para que ela acontecesse foram a grande disponibilidade de mão-de-obra,
intervenção governamental na economia através de subsídios e investimentos estrangeiros à
indústria.
Nos Estados Unidos a industrialização começou no final do século XVIII, e foi somente após a
Guerra da Secessão que todo o país se tornou industrializado. A industrialização relativamente
tardia dos EUA em relação à Inglaterra pode ser explicada pelo fato de que nos EUA existia
muita terra per capita, já na Inglaterra existia pouca terra per capita, assim os EUA tinham uma
vantagem comparativa na agricultura em relação à Inglaterra e consequentemente demorou
bastante tempo para que a indústria ficasse mais importante que a agricultura. Outro fator é que
os Estados do sul eram escravagistas o que retardava a acumulação de capital, como tinham
muita terra eram essencialmente agrários, impedindo a total industrialização do país que até a
segunda metade do século XIX era constituído só pelos Estados da faixa leste do atual Estados
Unidos.
O término do conflito resultou na abolição da escravatura o que elevou a produtividade da mão
de obra. aumentando assim a velocidade de acumulação de capital, e também muitas riquezas
naturais foram encontradas no período incentivando a industrialização.
A modernização do Japão data do início da era Meiji, em 1867, quando a superação do
feudalismo unificou o país. A propriedade privada foi estabelecida. A autoridade política foi
centralizada possibilitando a intervenção estatal do governo central na economia, o que resultou
no subsidio a indústria. E como a mão-de-obra ficou livre dos senhores feudais, ocorreu
assimilação da tecnologia ocidental e o Japão passou de um dos países mais atrasados do mundo
a um país industrializado.
A industrialização no Brasil
Ver artigo principal: História da industrialização no Brasil.
O Brasil, como uma antiga colônia de uma nação europeia, faz parte de um grupo de países de
industrialização tardia.
A industrialização em Portugal
Em Portugal, as reformas de Mouzinho da Silveira liquidam os resquícios das estruturas feudais
e consolidam a burguesia no poder, modernizando o país. Na segunda metade do século XIX
implanta-se a malha ferroviária no país em paralelo a um desenvolvimento industrial e do
comércio, à dinâmica do colonialismo, e a uma grande emigração, principalmente em direcção
ao Brasil e aos Estados Unidos da América.
51 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
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As consequências da Revolução Industrial
A partir da Revolução Industrial o volume de produção aumentou extraordinariamente: a
produção de bens deixou de ser artesanal e passou a ser maquinofaturada; as populações
passaram a ter acesso a bens industrializados e deslocaram-se para os centros urbanos em busca
de trabalho. As fábricas passaram a concentrar centenas de trabalhadores, que vendiam a sua
força de trabalho em troca de um salário.
Outra das consequências da Revolução Industrial foi o rápido crescimento econômico. Antes
dela, o progresso econômico era sempre lento (levavam séculos para que a renda per capita
aumentasse sensivelmente), e após, a renda per capita e a população começaram a crescer de
forma acelerada nunca antes vista na história. Por exemplo, entre 1500 e 1780 a população da
Inglaterra aumentou de 3,5 milhões para 8,5, já entre 1780 e 1880 ela saltou para 36 milhões,
devido à drástica redução da mortalidade infantil.
A Revolução Industrial alterou completamente a maneira de viver das populações dos países que
se industrializaram. As cidades atraíram os camponeses e artesãos, e se tornaram cada vez
maiores e mais importantes.
Na Inglaterra, por volta de 1850, pela primeira vez em um grande país, havia mais pessoas
vivendo em cidades do que no campo. Nas cidades, as pessoas mais pobres se aglomeravam em
subúrbios de casas velhas e desconfortáveis, com condições horríveis de higiene e salubridade,
se comparadas com as habitações dos países industrializados hoje em dia. Mas representavam
uma grande melhoria se comparadas as condições de vida dos camponeses, que viviam em
choupanas de palha. Conviviam com a falta de água encanada, com os ratos, o esgoto formando
riachos nas ruas esburacadas.
O trabalho do operário era muito diferente do trabalho do camponês: tarefas monótonas e
repetitivas. A vida na cidade moderna significava mudanças incessantes. A cada instante,
surgiam novas máquinas, novos produtos, novos gostos, novas modas.
Estudos sobre as variações na altura média dos homens no norte da Europa, sugerem que o
progresso econômico gerado pela industrialização demorou varias décadas até beneficiar a
população como um todo. Eles indicam que, em média, os homens do norte europeu durante o
início da Revolução Industrial eram 7,6 centímetros mais baixos que os que viveram 700 anos
antes, na Alta Idade Média. É estranho que a altura média dos ingleses tenha caído
continuamente durante os anos de 1100 até o início da revolução industrial em 1780, quando a
altura média começou a subir. Foi apenas no início do século XX que essas populações voltaram
a ter altura semelhante às registradas entre os séculos IX e XI[3]
. A variação da altura média de
uma população ao longo do tempo é considerada um indicador de saúde e bem-estar econômico.
52 | Resumo sistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto
♥- Graduado em História, pela UKB
.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Gustavo de Freitas, ―Actos Pontifícios‘ in Textos e Dorumentos de Hiretria, PíStano
‗Valuce, Ladmo – Historia gera- Ensino de Primeiro grau, ed. Do Brasil,1975
De Freitas, Gustavo– historia, ed Plátano, Lisboa-1978
Almiro neves, Pedro e Castro almeida,Valdemar- A Descoberta da Historia 7- ed, porto
editora, Sd.

8ª classe

  • 1.
    1 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB INTRODUÇAO NOÇÃO DE HISTÓRIA — Tudo que, no passado, os homens Fizeram, ou lhes aconteceu, é história. Ora nós desejamos conhecer essa história. Mas esse desejo levanta dois problemas: 1º — Poderemos conhecer tudo aquilo que os homens fizeram ou lhes aconteceu, desde que existem homens? 2.° — A supor que o poderíamos, como ter tempo e memória para fixar os milhões de milhões de factos que se deram no passado? Pois bem: não podemos conhecer toda a história dos homens. Podemos conhecer muitos factos — umas vezes de menos, outras vezes de mais... Em qualquer caso, fazemos sempre uma escolha dos acontecimentos que conseguimos averiguar, pois nem todos nos interessam, Com esses que escolhemos (e, porventura, com os que nos faltam mas procuramos inferir* dos conhecidos) reconstituímos a vida dos homens de outrora, nas suas linhas gerais, nos seus aspectos importantes. É como se, tendo encontrado pedras dum edifício antigo. Reconstruíssemos esse edifício, procurando, com o nosso raciocínio, acertar as pedras, colocá-las no lugar que teriam tido, e, onde fiquem paredes por acabar, preencher esses vazios com pedras novas, que sejam o mais possível idênticas às originais ou como presumimos* que elas foram. É assim que fazem os historiadores — só que, em vez de apresentarem, no fim, uma casa, apresentam um relato escrito, uma espécie de conto ou romance, não inventado, mas o mais próximo que consigam da realidade, como ela terá sido ou julgam que terá sido. A este relato também chamamos História. É uma pena que a mesma palavra «história» tenha, em Português, de servir para aqueles dois sentidos: o que aconteceu, e o relato daquilo que aconteceu ou se presume ter acontecido. É certo que existe o termo «historiografia» para o segundo significado. Mas mal se usa — e quando se usa, não é exactamente no sentido indicado. Por isso, aqui resolvemos escrever ‗história» (com o «h» inicial minúsculo) no primeiro significado, e «História» com maiúscula inicial no segundo. Como os alunos não são historiadores, não vão reconstituir o edifício; limitam-se a vê-lo, a estudá-lo já reconstruído — isto é, a aprender o que sucedeu no passado, estudando a reconstituição que, desse passado, relatam os historiadores. Vão pois aprender História. OS FACTOS HISTORICOS — Acaba de dizer-se que o historiador faz uma escolha nos factos do passado que consegue conhecer, pois nem todos lhe interessam. Na realidade, fixar tudo que aconteceu seria não só impossível como inútil, Tão impossível e tão inútil como ler e decorar todos os jornais e livros, ou mesmo só as listas dos telefones... O que precisamos conhecer é, unicamente (e já não é pouco!), os acontecimentos importantes, a ligação de uns com os outros, as suas causas e consequências, de modo a chegarmos a um relato encadeado, organizado, compreensível — e não a um amontoado sem ordem, desconexo e incompreensível. Mas quais serão, então, os acontecimentos importantes? Aqueles que profundamente modificaram a vida dos homens em geral (não a de um ou outro homem) — modificaram o seu comportamento, o seu modo de pensar e de viver, a sua maneira de estar no mundo. «Com o termo história designam—se ao mesmo tempo duas coisas realmente distintas. a) A realidade do acontecimento histórico, objecto da história científica, e b) Aquela ciência cujo objecto é a história real. Os alemães chamaram à primeira Geschichte, e à segunda Historie» ( ANTONIO MILLAN PUELLE5, «ONTOLOGIA DE LA EXISTENCIA HISTORICA»)
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    2 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB DOCUMENTO 2 «Na História, os factos fundamentais relacionam—se com os motivos que lhes deram existência e valorizam-se dentro dessa dependência. Valorizam-se e dessa valorização depende a sua selecção para a exposição histórica — segundo a parte e resultado que têm em cada série de factos, segundo o seu correspondente valor para a colectividade» (ERNST BERNHEIM, .(INTRODUCCIÓN AL ESTUDIO DE LA HISTORIA») DOCUMENTOS 3 «A História ocupa-se dos factos na medida em que não são totalmente passados, mas sim, de algum modo, sobrevivem no presente... Todo o passado que não penetra e não se acumula no presente não é um passado histórico, mas um puro passado (não-histórico).» (ANTONIO MILLAN PUELLE5, »ONTOLOGIA DE LA EXITSENCIA HISTORICA») OS FACTORES DA HSTÓRIA 3 — É inegável que os homens não pensam, não actuam, não vivem hoje como os seus mais primitivos avós, nem como os seus outros avós, já menos afastados do tempo de Cristo, ou do quando Portugal se formou, ou do século XVIII... De umas épocas para as outras houve grandes transformações. Quais foram as causas dessas transformações - isto é, porque se deram elas? Que factos provocaram as transformações? Dito por outras palavras: quais foram os factores* da história? Fundamentalmente dois: os próprios homens e o meio em que vivem, isto é a Terra (a geografia, a natureza). É principalmente o comportamento dos homens (a sua conduta, os seus actos, ou seja, aquilo que fazem) que molda ou altera a sua maneira de viver. Ora o que os homens fazem depende do que sentem, do que sabem, do que pensam e do que crêem. Daí que sejam factores da história: aquilo que os homens pensam (a sua filosofia e a sua ideologia, quer dizer as suas ideias sobre a vida e o mundo, sobre si próprios e sobre o meio em que se situam, sobre a sociedade e o seu governo), aquilo que eles sabem (a sua ciência e a sua técnica, ou seja, os seus conhecimentos da natureza e da maneira de pô-la ao seu serviço), aquilo que eles crêem (a sua religião), aquilo que eles sentem (manifestado na sua arte). Mas os homens vivem, e decerto sempre viveram, em sociedade, isto é, agrupados, associados. As formas variadas e variáveis de associar-se (na família, no clã, na tribo, na aldeia, na cidade, na nação, nas classes, nas profissões, etc.) constituem outro factor histórico: o factor social; assim também as formas de governo desses seus grupos constituem outro factor: o factor político. Para que os homens vivam, porém, é necessário que recebam constantemente da natureza os elementos da vida: o solo em que estejam e se movam, o ar que respirem, os alimentos que consumam... Ora o solo existia já antes de cada homem nascer, e o ar é-lhe dado gratuitamente. Mas os alimentos, esses, têm os homens de obtê-los da Terra com o seu esforço - o seu trabalho. Chamamos produção ao resultado desse trabalho, dessa relação entre os homens e a Terra, que toma as formas mais diferentes. Pode consistir em arrancar raízes e apanhar frutos silvestres (recolecção); em semear e colher (agricultura); em transformar o linho, os troncos das árvores, a lã dos carneiros, os metais do subsolo, etc., em vestuario, casas, mobiliário e instrumentos (indústria); em adquirir esses produtos aos seus produtores e transmiti-los aos consumidores (comércio), ou em prestar outros serviços (ensinar, curar, defender, etc.) aos que deles necessitam. Damos o nome de economia ao conjunto dessas actividades (trabalho) de produção, distribuição e consumo de alimentos, coisas e serviços. A economia é, pois, outro factor da história — e até um dos mais importantes e mesmo, para alguns historiadores, o mais importante. Economia, organização social, regime político, ciência e técnica, filosofia, ideologia, religião, arte-são, portanto, outros tantos factores da história em que podemos decompor o factor
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    3 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB fundamental que é o próprio Homem; dito por outras palavras, são vários aspectos do comportamento ou acção dos homens, quer em relação à natureza (à Terra) quer em relação uns aos outros quer cada um em relação a si próprio. Porém, na base desses comportamentos está sempre a Terra. É nela que o Homem vive e é dela que vive. Ela é o seu meio, o seu ambiente. Simplesmente, a Terra não é uma coisa uniforme, imóvel e inalterável — sempre a mesma no espaço e no tempo. Ao contrário, a Terra é imensamente diversificada: aqui plana, ali montanhosa; aqui sólida, ali líquida; aqui muito quente, ali temperada ou muito fria; aqui desértica, ali rica de vegetação... E imensamente mudável: nas 24 horas da sua rotação, há a noite e o dia; ao longo do ano, sucedem-se as estações, com suas alterações de clima; no decurso dos séculos, surgem e desaparecem relevos e oceanos, florestas e desertos, glaciações (invasões dos gelos polares) e interglaciacões (recuo dos gelos para os pó- los)... Todos esses diversos estados e mudanças afectam, mais ou menos, fortemente a vida dos homens — a sua saúde, a sua alimentação, o seu trabalho, os seus conhecimentos e ideias, os modos de se associarem e governarem... O factor geográfico é, assim, também um factor da história — e um factor básico. Não, porém, que o Homem sofra passivamente os efeitos da natureza: as relações entre ele e a Terra não se fazem num sentido único — da natureza para os homens. Antes são recíprocas, pois, por sua vez, os homens transformam o seu meio — a Terra. Eles destroem as florestas para agricultar os solos ou cultivam numa região plantas que trouxeram de outra afastada — e essas mudanças muitas vezes alteram o clima; pela irrigação, transformam desertos em verdes prados; pela exploração excessiva, tornam desérticos terrenos que eram férteis; abrem o subsolo para extrair minérios; extinguem espécies animais por demasia de caça ou pesca, domesticam e criam outros... Afinal, é essa relação dialéctica* entre o Homem e a Terra, ou dos homens entre si em função da Terra, que constitui a história — e é dela que se ocupa a História. Por isso, o historiador precisa não só de relatar os acontecimentos do passado mas também de destrinçar os seus factores, que entre si os relacionam. O TEMPO COMO DIMENSÃO DA HISTÓRIA - Do exposto resulta que uma das dimensões da história é o espaço — neste caso a Terra, onde os homens vivem e a sua vida se modifica. Nisso os fenómenos históricos não se afastam dos fenómenos físicos, os quais se passam também num espaço. Mas a história tem ainda uma outra dimensão que é mais propriamente sua: o tempo. Os acontecimentos históricos sucedem-se cronologicamente (uns depois dos outros) — como um filme que vai passando. Só no tempo os fenómenos históricos se podem compreender; se os isolássemos do tempo, eles deixariam de ser históricos. Ora esse tempo não é um tempo qualquer — é o tempo histórico. Que quer isto significar? Que a mera datação de um acontecimento (o tempo breve desse acontecimento) não constitui história. O acontecimento só adquire caracter histórico quando o situamos naquilo a que F. Braudel chamou a «longa duração», isto é, quando o relacionarmos com os seus factores, que o precederam, com os outros acontecimentos, que o acompanharam, e com as suas consequências, que o seguiram, num vasto quadro. Para tal situação no tempo, é indispensável que o tempo se meça. E para medir o tempo tem de estabelecer-se um sistema* — como para medir o espaço foi preciso criar sistemas (o sistema métrico decimal, por exemplo). Nem sempre os homens souberam medir o tempo. Só depois de terem descoberto a agricultura sentiram a necessidade dessa medição (para os trabalhos agrícolas, que se efectuam em estações do ano diferentes umas das outras, mas iguais de uns para outros anos). Para a criação dum sistema de medir o tempo — isto é, para a criação do calendário — recorreram à observação dos movimentos regulares dos astros: da Lua e do Sol. Assim puderam
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    4 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB estabelecer o dia (tempo de uma revolução completa da Terra em volta do seu eixo), o ano (tempo que leva a Terra a completar a sua translação à roda do Sol), a semana e o mês (tempo, respectivamente, de cada fase da Lua e do total das suas quatro fases). DOCUMENTO 4 «A História é o mais perigoso produto elaborado pela química do intelecto… Faz sonhar, embriaga os povos ... condu-los ao delírio das grandezas e ao da perseguição, e torna as nações amargas, soberbas, insuportáveis e vãs [...].» (PAUL VALÉRY, ‘REGARDS SUR LE MONDE ACTUEL) DOCUMENTO 5 «A erudição sem vida, o saber como inibitório da acção, a História como luxo [...] têm de ser-nos odiosas [… ]. Precisamos da História; mas precisamos dela ... para a vida e para a acção, e não para cómodo afastamento da vida e da acção ...» (FREDERICO NETZSCF, ‘DA UTILIDADE E INCONVENIENTES DA HISTÓRIA PARA A VIDA.) DOCUMENTO 6 «A maior parte dos erros de previsão ... vem duma insuficiência do esforço necessário para situar o acontecimento no tempo[… ] A regra de ouro do espírito prospectivo* é colocar o acontecimento não somente no passado recente mas no longo termo, isto é, pelo menos no século e até no milénio. É sempre da Humanidade que se trata. E a Humanidade é milenária.» (JEAN FOURASTIE, ‘>LES 40.000 HEURES.’) Foi um grande avanço — suficiente para os trabalhos agrícolas. Mas outras necessidades impuseram, além do calendário, a datação. Isto é, ordenar no tempo, uns a seguir aos outros, acontecimentos que se sucediam mas não se repetiam ou se repetiam irregularmente. Isso exigia fixar um momento a partir do qual se contasse o tempo. Cada povo, em cada época, escolheu essa data inicial, essa data zero, nem sempre a mesma. Por exemplo, os Romenos antigos contavam os anos a partir da fundação tradicional» da cidade de Roma (que corresponde, na nossa datação actual, ao ano de 758 antes do nascimento de Cristo. Os Árabes contavam — e contam a partir Hégira, isto é, da data em que seu profeta Maomé se estabeleceu na cidade da Medina (que corresponde ao ano de 622 da nessa era»). Os cristãos fizeram começar a era no ano do nascimento de Cristo. É essa a datação hoje usada em quase todo o mundo. Assim, o ano de 1977 significa que desde o nascimento de Cristo até este ano decorreram 1976 anos completos e naquela altura estava decorrendo o 1977° (milésimo novecentésimo septuagésimo sétimo). Mas quando Jesus Cristo nasceu já havia milhares (mesmo mais de um milhão) de anos da história humana! Então como contar esses anos antes de Cristo? COMO CLASSIFICAR O SÉCULO OU COMO ACHAR UM SÉCULO? - Década é igual a dez (10) anos = vão desde 0 a 9 anos - Século é igual a cem (100) anos = vão desde 0 a 99 anos - Milénio é igual a mil (1000) anos = vão desde 0 a 999 anos De 0 á 99 corresponde ao século I Do ano 100 á 199 corresponde ao século II
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    5 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Pois contam-se do mesmo modo, mas do nascimento de Cristo para trás -- às arrecuas... DOCUMENTO 7 No evoluir incessante que é a nossa vida, tudo se nos apresenta sob o aspecto do sucessivo, a tal ponto que, mesmo instintivamente, somos levados a procurar na sua sucessão a explicação dos factos de que somos testemunhas… Temos necessidade de pensar na continuidade, porque é na continuidade que vivemos. Acusa-se a História de inimiga do progresso. Ao contrário, ela ensina a marcha constante para a frente, a progressão perpétua.» (LOUIS HALPHEN, ..II4TRODUCTlON’À L’HISTOIRE») DOCUMENTO 8. « O ensino da História tende a exercitar os alunos numa forma de pensamento que poucas doutras disciplinas proporcionam que não analítica nem dedutiva, mas indutiva* e sobretudo objectiva*. Os alunos devem aprender a acolher as novas informações com completa objectividade, com espírito, crítico, é não com a credulidade passiva que caracteriza, por exemplo, o leitor médio da imprensa moderna.» (OTTO-ERNST SCHUEDOEK0PT, «O ENSINO DA HISTÓRIA E A REVISÃO DOS MANUAIS DE HISTÓRIA») DOCUMENTO 9 ,‗Mas é claro que a nossa função de professor de História não consiste principalmente em atafulhar de factos o crânio dos nossos alunos. Uma das coisas mais úteis que podemos ensinar- lhes é a pensar — a pensar duma maneira que se poderá chamar histórica, a adquirir o hábito de examinar cada problema à luz das suas origens históricas, a procurar porque são as coisas aquilo que são, ‗pois a solução dum problema se encontra muitas vezes facilitada pelo conhecimento da sua evo1ução*, (E. H. DANCE, «ALGUMAS SUGESTÕES, DESTINADAS AOS PROFESSORES DE HISTÓRIA RESPEITANTES A NOVAS CONCEPÇÕES E NOVOS MÉTODOS.’). Assim, se um acontecimento se deu 1270 anos antes do nascimento de Jesus, escreve-se: 1270 a. C. A.C. é a abreviatura de «Antes de Cristo». E, como pode haver confusão, também para os anos da nossa era se usa uma abreviatura: d. C. (depois de Cristo). Por exemplo, 212 d. C. O que sucede com os anos sucede, é claro, com os séculos (centenas de anos) e com os milénios (milhares de anos). O ano de 1270 a. C., acima dado como exemplo, pertence ao 2.° milénio a, C., ou, se quisermos contar em séculos, ao XIII século a. C. E o ano 212 d. C. pertence ao século III d. C. e ao 1º milénio d. C. Se pretendermos indicar o milénio (sem o ano nem século) mas precisar que se trata do começo, do meio ou do fim do milénio, diremos: Para o ano 1270 a. C. final do 2º milénio a. C.; e para o ano 212 d. C.; início (ou começo) do 1º milénio d. C. UTILIDADE DA HISTORIA 5 - Para que serve o estudo da História? A esse respeito, variam muito as opiniões: há quem o considere inútil e até quem o considere nefasto. Mas a grande maioria das pessoas considera-o útil. Muitas têm sido as utilidades encontradas à História — várias delas inaceitáveis, algumas absurdas ou ridículas, outras verdadeiras mas de pouco valor e, finalmente, as que podemos considerar fundamentais e decisivas.
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    6 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Destas vamos apontar, apenas, as duas que se afiguram mais importantes: 1ª- O conhecimento da História é necessário para compreendermos bem o presente, isto é, a vida actual, e para podermos prever o futuro, previsão esta indispensável para orientarmos a nossa vida e para planearmos a sua melhoria. 2ª- Os homens são animais racionais*, o que constitui a sua grande superioridade sobre todos os outros. E é essa sua faculdade de raciocinar* que lhe tem permitido sobreviver* e progredir. Mas há várias formas ou tipos de raciocínio*: analógico*, dedutivo (o próprio das matemáticas, por exemplo), indutivo (mais utilizado nas ciências experimentais, como a Física), etc. Ora um dos tipos de raciocínio é o histórico. Quer dizer, a História (a reconstituição do passado histórico) serve-se de um certo método* de pensamento especial. Enquanto as outras formas de raciocínio se adquirem estudando outras ciências, é estudando a História que se pode assimilar e adquirir o hábito de usar o método histórico, o que constitui um enriquecimento mental, que torna as pessoas mais aptas a resolver os problemas que a vida e o mundo põem a todos nós. DEFINIÇÃO DE HISTÓRIA 6 — Depois de tudo o exposto, já poderemos compreender a definição de História tal como foi formulada pelo Prof. Vitorino Magalhães Godinho: «A História é a maneira de bem pôr os problemas de hoje graças a uma indagação científica do passado virada para a preparação dos tempos vindouros.» A EXPANSAO EUROPEIA E O COMERCIO Á ESCALA MUNDIAL No século XV o desenvolvimento da economia exigia a procura do ouro e de outros produtos, por vezes a grandes distancias. A Europa voltava a sentir a necessidade da expansão. Será em Portugal que esse desejo expansionista, comum a outros países encontrara os meios adequados a sua realização. A prática da navegação foi introduzida em Portugal pelos Mouros, e depois patrocinada pelo infante Dom Henrique no século XVI. Usada na prática da exploração, na época das Grandes Navegações, Portugal já tinha prática e conhecimentos pelos seus 100 anos de experiência antecedentes, quando começou a usa a Caravela, Astrolábio e a Bússola. Portugal vai ser, assim o país pioneiro nas viagens de descobertas que, desde o inicio do século XV, alargaram os horizontes do mundo conhecido pela Europa. MOTIVAÇOES DA EXPANSAO EUROPEIA A grave crise do século XIV, simultaneamente económica, social, moral e política, concretamente, pestes, fomes, guerras e ainda uma crise dinástica de sucessão que colocou o paÍs numa situação difícil que só a força das armas conseguiu ultrapassar; foi o motor que impeliu a Europa para a expansão marítima. Para além da falta da mão-de-obra, a Europa sentia a escassez de matérias-primas, mercadorias, metais preciosas. A oposição dos mercadores muçulmanos ao comércio cristão no mediterrâneo dificultava a aquisição de muitos produtos orientais (especiarias, sedas, porcelanas) e a obtenção de ouro do continente africano. O reino de Granada controlava o tráfego do estreito de Gibraltar criando dificuldades á navegação cristã e a pirataria mourisca, em constantes incursões, constituía uma ameaça aos países ibéricos. Para vencer esses obstáculos a Europa só tinha uma saída: a expansão marítima para o atlântico. Foi com este espírito comercial e, ao mesmo tempo, de cruzada que se iniciou a expansão um conjunto de condições favoráveis em relação aos restantes países da Europa. Portugal foi aprendendo com os marinheiros experimentado do mediterrâneo, aperfeiçoou as técnicas de navegação através da utilização da bússola e do astrolábio, bem como da elaboração de cartas de marear e ainda do uso da vela latina ou triangular. A construção naval também
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    7 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB sofreu melhoramento. Para ensinarem aos portugueses a arte de navegar, foram chamados muitos estrangeiros, principalmente árabes e judeus, homens de sabedoria e larga experiencia na navegação astronómica. Os marinheiros portugueses utilizavam com mestria vários instrumentos náuticos recebidos dos outros povos, alguns dos instrumentos permitiam a orientação através dos astros, levando ao desenvolvimento da navegação astronómica. FACTORES E CONDIÇOES QUE CONTRIBUIRAM PARA A EXPANSAO MARITIMA EUROPEIA a) FACTORES ECONOMICOS • O monopólio comercial árabe - italiano no comércio com o oriente. Os produtos do oriente chegavam a Europa com preços demasiados altos, o que não permitiam grandes lucros aos mercadores europeus devido a sua passagem pelos vários intermediários: Do oriente chegavam á Europa seda, tapetes, jóias, açúcar, plantas medicinais, especiarias como a pimenta, canela, cravinho, noz-moscada, etc… esses produtos eram adquiridos pelos árabes nos portos da China, da Índia e da Pérsia. Obtidos os carregamentos nessas paragens, retornavam pelo indico e subiam as costas do mar vermelho, chegados ao canal de Suez vendiam ao Egipto e seguiam ainda para Constantinopla em caravanas de camelos. • Necessidade do ouro para o desenvolvimento da actividade mercantil. O ouro era cada vez mais necessário para a actividade comercial pelo que era imprescindível a sua busca. • Procura de novas rotas para o comércio com o Oriente. O facto de a rota do Mediterrâneo e do Indico estar sob controlo dos árabes fez com que fosse necessário procurar novas rotas para se chegar ao Oriente. b) FACTORES TECNICOS - CIENTIFICOS • O desenvolvimento da técnica e da ciência. O desenvolvimento da ciência e da técnica possibilitou o inicio da expansão marítima no final do século XV • A imprensa. • Os instrumentos náuticos: bússola, astrolábio e caravelas. • As armas de fogo 1- SITUAÇAO GEOGRAFICA E ACTIVIDADES ECONOMICAS No século XV, o desejo de todos os europeus de procura de ouro e de produtos vai-se concretizar em Portugal. Portugal fica situado na faixa litoral do oceano atlântico e tem bons portos: Setúbal e Lisboa. O que obriga os habitantes desta região a mergulharem-se no mar, razão pela qual Portugal e Espanha foram os pioneiros na conquista de outras terras. As suas actividades económicas eram de pesca, a navegação e o comércio. Os portugueses são um povo navegador que foi ganhando experiências na arte de navegar com ajuda dos seus reis na construção naval e na aquisição de conhecimentos dos seus marinheiros. SITUAÇAO POLITICA E SOCIAL No inicio do século XV, em Portugal a paz era um facto, mas a actividade comercial estava a decair ou enfraquecer. Os vários grupos sociais desejavam melhorar as suas condições económicas. - A burguesia queria novos mercados para obter mais lucros - A nobreza desejava conquistar novas terras e novos cargos (emprego). - O povo esperava melhorar as suas condições de vida ; a estes argumentos associa-se a curiosidade e o desejo de evangelizar o cristianismo.
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    8 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB AS GRANDES VIAGENS E AS NOVAS ROTAS A EXPANSAO DE PORTUGAL Portugal e Espanha foram os iniciadores da expansão no século XV e a estabelecerem as principais rotas marítimas que ligavam a Europa á África, América e a Ásia. Em Portugal e Espanha, a burguesia e a monarquia uniram-se para custearem a empresa da expansão. A primeira para desenvolver o comércio e a segunda para fortalecer o seu poder. A estes factores juntam-se a os da posição geográfica favorável destes países e a experiencia de navegação aí existente, recebidos dos marinheiros, geógrafos e astrónomos árabes, judeus e italianos. Ate ao século XIV, os europeus tinham uma noção errada e retrógrada dos continentes. No decorrer do século XV, as viagens sucederam-se transpondo etapas que possibilitaram, no século seguinte o conhecimento dos oceanos e continentes, nova rota atlântica, a esfericidade da Terra , de povos e culturas de outros continentes. isso permitiu um maior desenvolvimento dos europeus usufruir de maior desenvolvimento económico com o alargamento do espaço colonial, o que levou Portugal e Espanha a enveredarem-se em contendas que, mais tarde, se estenderam a outros países europeus, como a Holanda, a França, e a Inglaterra, pois cada um queria formar o seu império colonial; com o alargamento do comércio, a Europa cumulava capitais, pilhando as riquezas dos outros continentes, enquanto outros empobreciam. - O primeiro acto expansionista dos portugueses foi a tomada de Ceuta, em 1415, aos Mouros, no norte de África. A conquista da região Muçulmana de Ceuta – Marrocos, incentivou os portugueses ao reconhecimento da costa africana para lá do Cabo Bojador, com o propósito de chegarem ao pais de ouro, na costa ocidental de África. Pois era ―Tida como a chave de todo mediterrâneo‖Abrindo para o Reino de Portugal as portas ao domínio do comércio que aquele porto exercia. A vila rapidamente cresceu como pólo da mais elevada tecnologia da época para a navegação e cartografia com um arsenal naval, observatório, e uma escola para estudo da geografia e navegação. os portugueses prosseguiram com a exploração da costa africana, tendo atingido as Ilhas de Madeira por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, em 1425, posteriormente colonizadas. - Em 1427, outros navegadores descobriram as primeiras ilhas dos Açores (possivelmente Gonçalo Velho). Também estas ilhas desabitadas foram depois colonizadas pelos portugueses. - Seguindo viagem para o sul do Cabo Bojador, os portugueses chegaram ao tão desejado Rio do Ouro , na actual Republica do Sahara, em 1436, onde mais tarde os portugueses capturaram, pela primeira vez, escravos africanos, inaugurando, desta forma, o comercio de escravos que iria perdurar até ao século XIX. Entre os anos 1469 – 1474, no século XV começava a exploração do Golfo da Guiné , os portugueses, com o desejo de encontrar a índia, chegaram á costa do Golfo da Guiné, que tinha extrema importância para os portugueses, pois o controlo destas significava, a partir daí, desenvolver o comércio de escravos, de ouro, do marfim e a malagueta. Como forma de prevenir ataques de concorrência entre europeus, uma das primeiras medidas tomadas por D. João II rei de Portugal, foi a de mandar construir na mina (actual Gana), o forte de São Jorge da mina, em 1482, que se tornou no principal centro de tráfico de escravos e de ouro. Mina foi o porto mais próspero da África ocidental, enquanto não se chegou a India, se retirava 400 quilos de ouro para a Europa. - Na sequência da viagens de exploração marítima portuguesas, em 1482, o navegador português Diogo Cão, chega a foz do rio Zaire ou Kongo e coloca o seu primeiro padrão de São Jorge, e Bartolomeu Dias chega ao Cabo de Boa esperança, em 1487.
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    9 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Com essas em torno da costa ocidental africana, os portugueses ganhavam cada vez mais certeza de que a India poderia ser alcançada por mar. - No mês de Julho de 1498 , Vasco da Gama conduzido por um piloto árabe, Ibn Madjid de Melinde que atravessando a costa oriental de África, chega a Calecut, cidade da Índia, descobrindo desta forma o caminho para a Índia. É com esta viagem, é que se conheceu grande parte da costa oriental africana, que se abriu para a Europa o desconhecido mundo oriental e o relacionamento dos três continentes: Europa, África e Ásia. Na tentativa de chegar a índia, uma expedição um expedição comandada por um genovês, Cristóvão Colombo, ao serviço de Espanha, chega as ilhas de Cuba e Haiti, na América, em 1492. Durante o século XVI realizaram-se outras expedições: A 22 de Abril de 1500 Pedro Alves Cabral chegava ao Brasil. - entre 1519-1522, realiza-se a viagem de circum-navegação, comandada por Fernão de Magalhães e Sebastião Elcano, pela primeira vez, o homem andava á volta do mundo dando provas da esfericidade do globo terrestre. A nova rota atlântica possibilitou, aos países ibéricos, o conhecimento de varias regiões. Como o interesse primordial da expansão era o alargamento do mercado e o desenvolvimento da economia europeia, Portugal e Espanha, disputavam entre si diversas regiões. Primeiro foi a disputa das Canárias e, depois, e depois a viagem de Cristóvão Colombo á América. A contenda reacendeu tendo culminado com um novo acordo - o Tratado de Tordesilhas – que estipulava a divisão do mundo em dois hemisférios, cabendo a Espanha o hemisfério ocidental e a Portugal o hemisfério oriental. A partir dos séculos XVII e XVIII, o domínio europeu sobre os outros continentes vai continuar a alargar-se , sendo também disputado por outras potencias. Portugal e Espanha eram o centro que comandava a economia mundial, mas este centro desloca primeiro para a Holanda e depois para a emergência de novos impérios coloniais. OUTRAS EXPEDIÇOES O Cabo Branco foi atingido em 1441 por Nuno Tristão e Antão Gonçalves. A Baía de Arguim em 1443, com consequente construção de um forte em 1448. Dinis Dias chega ao Rio Senegal e dobra o Cabo Verde em 1444. A Guiné é visitada. Assim, os limites a sul do grande deserto do Sara são ultrapassados. A partir daí, D. Henrique cumpre um dos seus objectivos: desviar as rotas do comércio do Sara e aceder às riquezas na África Meridional. Em 1452 a chegada de ouro era em suficiente quantidade para que se cunhassem os primeiros cruzados de ouro. Entre 1444 e 1446 cerca de quarenta embarcações saíram de Lagos. Na década de 1450 descobriu-se o arquipélago de Cabo Verde. - Em 1460 a costa estava já explorada até ao que é hoje a Serra Leoa. - Em 1434 Gil Eanes, navegador português dobra o cabo Bojador - Em 1441 os portugueses ultrapassam o cabo Branco, onde adquiriam escravos e ouro em troca de alguns produtos europeus. - Em 1460 os portugueses chegam a Serra Leoa. - Em 1460, o Cabo da Boa Esperança foi dobrado, e Vasco da Gama chega à Índia, em 1498, pouco antes de Pedro Álvares Cabral descobrir o Brasil. Cristóvão Colombo foi um dos alunos da Escola de Sagres, e na década de 1470 navegou pelos territórios portugueses na Madeira (residiu em Porto Santo) e na costa africana.
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    10 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB - Em 1488 Bartolomeu Dias, passou o extremo sul de África, confirmando a passagem do atlântico para o indico, chamando põe isso« Cabo de Boa Esperança» e torna comunicáveis os oceanos Atlântico e Indico. A EXPANSAO DA ESPANHA Depois da descoberta das Américas por Cristóvão Colombo, os espanhóis começaram a sua expansão. Porem só a partir de 1519 começaram a exploração do continente Americano. - Em 1522 Fernão de Magalhães (português ao serviço do rei da Espanha) passando do oceano Atlântico para o oceano Pacifico, estabelecia a primeira viagem de circum-navegação. Magalhães virá a ser morto em combate nas filipinas e foi piloto espanhol Sebastião Elcano que completou a viagem de circum-navegação. Dos 265 homens que compunham a tripulação inicial só 18 voltaram a Espanha. OBS: A conquista das Américas pela Espanha foi muito terrível para os habitantes , pois já existiam civilizações ameríndias extremamente desenvolvidas como: Maias, Incas e Astecas. O Cabo Branco foi atingido em 1441 por Nuno Tristão e Antão Gonçalves. A Baía de Arguim em 1443, com consequente construção de um forte em 1448. Dinis Dias chega ao Rio Senegal e dobra o Cabo Verde em 1444. A Guiné é visitada. Assim, os limites a sul do grande deserto do Sara são ultrapassados. A partir daí, D. Henrique cumpre um dos seus objectivos: desviar as rotas do comércio do Sara e aceder às riquezas na África Meridional. Em 1452 a chegada de ouro era em suficiente quantidade para que se cunhassem os primeiros cruzados de ouro. Entre 1444 e 1446 cerca de quarenta embarcações saíram de Lagos. Na década de 1450 descobriu-se o arquipélago de Cabo Verde. Em 1460 a costa estava já explorada até ao que é hoje a Serra Leoa. EMERGÊNCIA DE NOVOS IMPÉRIOS COLONIAIS EUROPEUS (HOLANDA, INGLES E FRANCES) Guerra dos Sete Anos Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. A Guerra dos Sete Anos foi o primeiro conflito a ter carácter mundial, e o seu resultado é muitas vezes apontado como o ponto fulcral que deu origem à inauguração da era moderna. Ao longo dos sete anos que vão de 1756 e 1763, as grandes potências europeias levam a guerra às suas possessões em todo o mundo. Na Europa, a Inglaterra e a Prússia confrontam-se com as três grandes potências continentais do tempo, França, Áustria e Rússia, e a guerra termina com vantagem para a Prússia, que mantém o controlo sobre a Silésia e se afirma como concorrente da Áustria na liderança dos estados alemães, e a Inglaterra, que consegue vitórias importantes sobre a França, solidificadas no Tratado de Paris, e que lançam as bases do seu futuro império colonial. A Guerra dos sete anos foi precedida por uma reformulação do sistema de alianças entre as principais potências europeias, a chamada Revolução Diplomática de 1756.
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    11 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB O Império Inglês A Inglaterra era tradicionalmente um país de intensa actividade marítima graças à sua localização geográfica. No entanto, a partir do século XVI, nomeadamente no reinado de Isabel 1 (1558-1603), os Ingleses tentaram estender a sua influência às regiões recém-descobertas, mais precisamente à América e à África, e mais tarde à Índia, disputando o comércio transatlântico com os Portugueses e Espanhóis. A guerra de corso contra os países ibéricos, incentivada no século XVII, foi substituída pela ocupação territorial inglesa. As perseguições religiosas e os conflitos políticos levaram muitas famílias a procurar a liberdade e a paz que não existiam nos seus países na costa atlântica da América do Norte. Foi aí que fundaram as primeiras colónias inglesas: na Virgínia e no Massachusetts. A ocupação e conquista do território americano marcaram o avanço dos Ingleses. Mesmo com o direito exclusivo colonial em vigor (as colónias apenas podiam comercializar com a metrópole), os territórios americanos conseguiram atingir um elevado nível de desenvolvimento. Depois de obterem a sua independência no século XVIII, as treze colónias americanas deram origem aos Estados Unidos da América. Durante a governação de Oliver Cromwell (1653-58), foi publicado o Acto de Navegação (1651), que veio contribuir de forma decisiva para o triunfo do domínio inglês nos mares. Nessa lei estabelecia-se que todas as mercadorias produzidas nas colónias inglesas deveriam ser transportadas para Inglaterra em barcos ingleses e que os barcos estrangeiros apenas podiam transportar para Inglaterra mercadorias produzidas nos respectivos países. Esta lei foi um duro golpe nos interesses dos Holandeses, que se tinham tornado, como sabemos, os principais intermediários do comércio realizado entre o Norte e o Sul da Europa. Além disso, permitiu o desenvolvimento da marinha mercantil inglesa. Por consequência, a Holanda perdeu a sua hegemonia comercial nos mares. Apetrechada com uma poderosa frota no século XVIII, a Inglaterra tornou- -se então a principal potência comercial europeia. A França não tardou também a entrar na concorrência do comércio colonial. No entanto, apesar de ter criado companhias de comércio e estabelecido colónias na América Central e do Norte, bem como no Oriente, acabou por perder quase todas em proveito da Inglaterra. RIVALIDADES EUROPEIAS, CONFERÊNCIA DE BERLIM E A SOLUÇÃO DAS LUTAS PELA OCUPAÇÃO DOS TERRITÓRIOS COLONIAIS Depois do comércio de escravos deixar de ser rentável, o comércio de especiarias e a indústria levaram a que se começasse a desenvolver o sistema económico capitalista. Foi por essa razão que as nações europeias entraram em conflito aquando da procura de matérias-primas, mercados e zonas de exploração, principalmente no século XIX. Nessa altura, a Europa saía da fase do capitalismo de livre concorrência para a fase do capitalismo monopolista, e a procura de novos mercados tornava-se uma necessidade para as potencias europeias, que na sua expansão em África e na Ásia procuravam solução para os problemas económicos. A Europa necessitava também de matérias-primas e a África era a zona mais próxima e disponível para tal. No final do século XIX teve inicio o grande movimento de expansão colonial em África.. O mundo foi Influenciado pelo sistema capitalista industrial recém-nascido em África e a situação agravou-se quando a Alemanha e a Itália concluíram os seus processos de unificação nacional e se lançaram também em busca de posições no continente africano. Os Europeus fixaram-se no interior do continente africano e, mais tarde iniciaram a penetração no interior. A resistência dos povos africanos obrigou os Europeus a recorrerem a força — não obstante, a partilha de África fez-se por via diplomática.
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    12 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Portugal e Inglaterra assinaram em 1884 um tratado sobre oo Kongo, ao qual o bloco franco- belga, a que mais tarde se juntou a Alemanha, reagiu. Para norte do paralelo 8º (território de Ambriz, Soyo e Kabinda), a Inglaterra reconhecia os direitos de Portugal, mas não permitia que se promovesse a ocupação efectiva desses territórios em virtude de reservas e diferenças diplomáticas. Na costa norte e nas duas margens do rio Kongo (Nzadi a Kongo) havia algumas feitorias portuguesas e numerosos estrangeiros. Os Portugueses reivindicavam o direito histórico sobre as duas margens do rio Kongo, mas tal direito foi contestado pela Bélgica, Inglaterra e França. Foi este facto que provocou a convocação da Conferência de Berlim, a pedido de Portugal. Nessa conferência, que se realizou em Berlim entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885 sob os auspícios do chanceler alemão Bismark, foram estabelecidas algumas regras relativas à partilha de África. A ocupação do litoral não bastava para reivindicar as terras do interior: este tinha de ser efectivamente ocupado, com notificação às potências. Sob o pretexto de resolver o problema do Kongo, foram convocadas para essa conferência 15 nações, incluindo os Estados Unidos da América e a Turquia. A África não foi representada. São eles França,Alemanha, grã-bretanha, portugal, Holanda,Áustria, Hungria, Bélgica, Dinamarca, Itália, Suécia, Noruega, Espanha,Turquia, E.U.A. e ainda a associação internacional do Kongo. Nesse fórum foi reconhecido o Estado Livre do kongo, uma criação do rei Leopoldo II da Bélgica a partir do antigo Reino do Kongo, retalhado por Portugueses, Franceses e Belgas. Foram firmadas as normas para a abolição da escravatura e criou-se o conceito de ―ocupação efectiva‖, que exigia dos colonizadores a ―existência de uma autoridade suficiente para fazer respeitar os direitos adquiridos‖, entre outras. Neste caso, foi entregue à administração portuguesa em Angola uma região, com as fronteiras estabelecidas entre os paralelos 5º e 17º25‘ de latitude Sul, incluindo a margem esquerda do majestoso rio Kongo. Quanto à administração belga, para ter acesso ao mar, foram-lhe entregues as regiões de Matadi, Boma, Banana e a margem direita do rio Kongo. Aí começou a corrida à ocupação efectiva de África. Os princípios da repartição colonial de Berlim foram praticamente reconfirmados na Conferência de Bruxelas de 1 889-1890. Podemos recordar que o tratado que veio estabelecer os limites a norte de Angola foi assinado apenas a 25 de Maio de 1891 entre Portugal e o Reino do Kongo, representado pelo Rei D. Pedro V (Kivuzi) (1855—1891). A expansão europeia trouxe grandes alterações ao mundo, pois até ao século XV grandes partes do globo viviam completamente separadas entre si. A expansão europeia veio abrir através dos oceanos uma rede de rotas comerciais que passaram a ligar todas as regiões do mundo, originando no século XV a primeira economia à escala mundial. Esta mundialização da economia fez-se sobretudo em proveito da Europa e contribuiu decisivamente para o seu futuro desenvolvimento. 1.4.3. Consequências económicas da expansão europeia Economia à escala mundial No século XV a maior parte dos países do mundo desenvolviam as suas trocas comerciais em determinados espaços geográficos, nas áreas mais desenvolvidas e mais próximas, em particular na Europa Ocidental, Próximo Oriente e China. No entanto, a rede de rotas comerciais estava bem longe de cobrir todas as partes do mundo.
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    13 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB No século XVI, a situação altera-se profundamente com a expansão de Portugal e Espanha. A partir dessa altura, os mercadores da península Ibérica e, mais tarde, de outros países europeus, começaram a instalar-se através da força em quase todas as partes do mundo. TAREFA 1- Quais são as potencias que substituíram Portugal e Espanha no mar? 2- Qual era a politica defendida pelos portugueses e espanhóis no que respeita ao domínio dos mares? 3- O que entendes por mare liberum? 4-Explica o que é o mare clausum 4- Consequências económicas da expansão europeia numa economia à escala mundial? 5- O que provocou as rivalidades entre os europeus? 6- Cita o lugar da conferência e os participantes? A ERA DO TRÁFICO DE ESCRAVOS NEGROS Na 7a classe, estudaste já os principais Estados e as características gerais das sociedades africanas no período que vai do século VII ao século XV, que corresponde à chamada época feudal europeia e, em África, a um período de desenvolvimento económico, político e cultural em nada inferior ao da Europa. Isto aplica-se não só às regiões directamente influenciadas pela civilização islâmica (Norte de África, região sudanesa, costa oriental), mas também às marcadas por uma cultura negro- africana original (África Subsariana, Central e Meridional). Antes do tráfico europeu, já os Árabes traficavam escravos africanos. Estes eram há muito objecto de comércio regular entre o Sara e o oceano Índico, que os colocava em contacto com o exterior. As relações da Arábia com África pelo mar Vermelho e pelo oceano Índico explicam o papel desempenhado pelos Árabes no tráfico negreiro. Este comércio iniciou-se em pequena escala, mas depois conheceu uma grande evolução na altura da expansão árabe na África do Norte. Uma das principais vias do tráfico era a que ligava a costa oriental de África com a Arábia. Os escravos eram uma das mercadorias mais procuradas na Arábia, sendo as outras o marfim, o ouro e a madeira. Uma segunda via do tráfico unia a Arábia ao Corno de África, mais precisamente à Abissínia. A Europa nunca esteve ausente durante as correntes de trocas negreiras anteriores ao tráfico transatlântico. Inicialmente a sua participação foi menor e indirecta, e fez-se por intermédio dos seus vizinhos muçulmanos. Porém, a partir do século XIV, os Europeus, principalmente os da península Ibérica, procuraram a todo o custo abrir vias ou rotas de trocas directas com a África atlântica. A princípio, estas trocas acabaram por se concentrar nos escravos como mercadoria privilegiada, mas os Europeus tornaram-se rapidamente independentes dos Árabes, pelo que o comércio de escravos praticado pelos Europeus veio a conhecer uma amplitude sem precedentes.
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    14 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB A escravatura era um estatuto social corrente na Europa medieval. No final da Idade Média, os escravos que se encontravam na Europa eram na maior parte originários dos territórios situados nas margens do mar Negro ou do Cáucaso. Os negros de África constituíam uma excepção. Porém, a introdução destes africanos proveio da iniciativa dos Árabes, e os próprios Europeus não tardaram a utilizar um número cada vez mais crescente de escravos negros. A partir do século XVI, o curso da história africana alterou-se brutalmente, quando a Europa entrou exactamente na mesma época em período de expansão económica e geográfica, passando a interferir na evolução das sociedades africanas de uma forma que se foi acentuando nos séculos seguintes. Com os ―grandes descobrimentos‖ começa uma evolução divergente: civilizações que não sendo semelhantes mas têm um nível de desenvolvimento equivalente vão distanciar-se de tal maneira que os Europeus do século XIX, em plena fase de expansão imperialista, acharão normal e natural apoderar-se gradual e depois totalmente do continente africano. Do século XVI ao século XVIII, a África foi palco de um dos maiores genocídios da história da humanidade: milhões de africanos foram arrancados violentamente das suas terras e do seu meio social ou pereceram para enriquecer uma burguesia mercantil sedenta de ouro, prata e outros produtos preciosos. É este período que se designa por ―Era do Tráfico‖, para África, e ―Período de Acumulação Primitiva de Capitais‖, para a Europa (ver esquema acima). O tráfico de escravos foi o factor essencial da história africana durante este período. Enquanto para os Europeus, especialmente para as suas classes dominantes, o tráfico significou ouro, marfim, especiarias, açúcar, tabaco, enfim, riqueza e desenvolvimento das forças produtivas, para os Africanos o tráfico significou extermínio, expulsão e deslocação, perda dos seus melhores filhos, degradação da economia, bem como atraso no desenvolvimento das forças produtivas. Primeiros contactos Desde tempos remotos, houve contactos entre África e os países do Mediterrâneo através das rotas de caravanas transarianas. As mercadorias do Norte de África, do Próximo Oriente e da Europa (espadas de aço, ferragens, sedas, tecidos e escravos, entre outros produtos) chegavam até à África sudanesa para serem trocados por ouro, marfim, sal, pimenta e escravos. Entre as várias regiões africanas também havia trocas comerciais que permitiam contactos culturais e relações politicas. Os Estados sudaneses (Gana, Mali, Songhai) mantinham ligações com o Egipto; havia contactos entre o Senegal e a Somália; entre o Chade e as cidades do Nilo; das cidades da costa do oceano Índico com os Estados da bacia do Nilo, e do litoral com o interior. Até ao século XV, o comércio entre a África e a Europa efectuava-se através das rotas transarianas e da costa do oceano Índico por intermédio de mercadores árabes, que encaminhavam os produtos para as grandes cidades italianas e ibéricas. No século XV, o tráfico mudou de orientação. O Sara cedeu progressivamente o lugar ao oceano Atlântico, onde os contactos entre africanos e europeus se multiplicaram devido às descobertas
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    15 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB científicas e técnicas que permitiram uma navegação mais segura e à grande necessidade que a Europa tinha de ouro e especiarias. Os primeiros europeus que desembarcaram nas costas africanas foram os Portugueses, movidos por interesses lucrativos e de aventuras. No início da expansão, os Europeus limitaram-se à costa ocidental de África, mas a procura do caminho marítimo para a Índia, outra fonte de ouro e especiarias, levou-os à costa oriental africana. O objectivo principal dos Portugueses na costa oriental era o de se apoderarem do mercado árabe. A sua intromissão no oceano Índico foi desastrosa para os Árabes, pois perderam o papel de intermediários entre a Índia, o Extremo Oriente e a Europa. Na costa oriental, os contactos afro-portugueses não tiveram o mesmo carácter que tinham assumido na costa atlântica. Quando ali chegaram, os Portugueses descobriram que as cidades mercantis que estavam em contacto com a Pérsia, a Índia e a China detinham há séculos uma civilização mais sofisticada do que a sua. Assim, a primeira atitude foi destruir, pilhar e queimar Quilôa, Mombaça e outras cidades do litoral Índico, cujo fraco poder defensivo não pôde impedir esta agressão violenta. Os escravos eram obtidos em África através de assaltos aos acampamentos tuaregues ao longo do litoral do Sara e às aldeias negras da região do Senegal. Os primeiros navegadores portugueses trouxeram para Lisboa alguns escravos negros que designaram por ―mouros‖. A compra e venda de escravos negros por parte dos Europeus teve o seu início em 1441, quando os navegadores Antão Gonçalves e Nuno Tristão levaram para Lisboa dez escravos capturados na Costa da Guiné. Em 1444 chegava a Lisboa o primeiro grande carregamento de escravos, num total de 263. À curiosidade inicial seguiram-se rapidamente razões de ordem comercial, pois a partir de 1510 a 1555 um décimo da população de Lisboa era composta por escravos e seus descendentes. Alguns destes escravos eram empregues como mão-de-obra na agricultura, sobretudo no Sul de Portugal (Algarve), na Madeira e nos Açores. No princípio do século XVl, os Portugueses, já solidamente estabelecidos nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé, instalaram aí plantações de cana-de-açúcar, tendo capturado escravos para estas culturas nas costas do Senegal, na Costa do Ouro e no Benim. A descoberta da América por Cristóvão Colombo em 1492 marca uma viragem na história da humanidade, em geral, e na história de África, em particular. O tráfico de escravos não só aumentou extraordinariamente como se tornou uma instituição que durante cerca de quatro séculos iria marcar de forma dramática três continentes — a África, a América e a Europa no que foi designado como ―Grande Circuito‖ ou ―Comércio Triangular‖. A exploração da terra na América exigia muita mão-de-obra. Os índios, pouco numerosos e habituados a uma vida nómada, não aguentaram a escravatura: morriam, fugiam ou eram massacrados. Também foram enviados europeus degredados ou servos, mas estes não tinham experiência na agricultura tropical. Então, os grandes proprietários recorreram aos escravos africanos, mais fortes e experientes na agricultura tropical. Foi o início do comércio triangular. A mão-de-obra africana tornava-se cada vez mais necessária à medida que a América era explorada nos seus recursos agrícolas e minerais. As plantações das Antilhas e do continente, sobretudo do Brasil, desenvolviam as culturas do açúcar, do tabaco e do café. A exploração mineira tinha como objectivo a obtenção de ouro e prata necessários à expansão do capitalismo europeu. O capitalismo mercantil europeu foi, pois, marcado desde o início por uma concorrência extraordinária, levando os países participantes a lutas constantes.
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    16 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Como obtinham os portugueses escravos em Angola Durante a primeira metade do século XVII havia três métodos principais para se obter escravos. O primeiro consistia em mandar traficantes comprá-los aos mercados dos povos mais afastados, junto às fronteiras do congo e de Angola. Uma das feiras de escravos mais importantes realizava-se entre o povo Mpumbu, próximo do lago Stanley. Do nome desse povo deriva o dos comerciantes que se deslocavam tanto para o interior, assim como os dos mercados que frequentavam — respectivamente ―pombeiros‖ e―pombos‖ O segundo método consistia em obter escravos através da imposição de tributos aos chefes mpumbu conquistados. Esse tributo tinha que ser pago em jovens adultos conhecidos pelo nome de ―peças da Índia‖. Estas ―peças‖ eram a princípio obtidas livremente pelos soldados ou pelo oficial,.. O terceiro método de adquirir escravos era através de guerras directas. Durante as guerras de alargamento territorial, os comerciantes acompanhavam os exércitos portugueses, comprando cativos aos soldados que a eles tinham direito. O perigo deste sistema era que os comerciantes perdiam a sua mercadoria sempre que o exército português era derrotado... VE SE SABES 1 Por que razão os portugueses ocuparam a costa oriental africana? 2- Qual foi a consequência desta ocupação para os árabes? 3- A descoberta das Américas por Cristóvão Colombo em 1492 marca uma viragem na historia da humanidade, em geral, e na historia de África, em particular. Porquê? 4- Explica o sentido da expressão ―comercio triangular‖ 5- Quais eram os métodos a que recorriam os traficantes negreiros para obterem escravos? O tráfico de escravos negros deu origem a um circuito comercial que se designou por ―comércio triangular‖. Este comércio praticado pela maioria dos países europeus, e depois pelos americanos, com a cumplicidade dos chefes africanos durou até ao século XIX e marcou fortemente a história africana. O COMERCIO TRIANGULAR A descoberta e a exploração das Américas encontra-se na origem deste acto hediondo praticado pelos Europeus. Os navios negreiros partiam dos portos europeus carregados de artigos, geralmente de baixo valor, tais como espelhos, colares e aguardente (misturada com água e sabão, para fazer espuma), entre outros. Chegados à costa africana, os europeus trocavam estes produtos por ouro, peles, goma, marfim e, sobretudo, escravos, que eram transportados para as Américas e vendidos aos colonos. Estes depois forneciam os produtos das suas plantações (açúcar, algodão, café, tabaco) e das minas (ouro, prata e pedras preciosas), que eram levados para a Europa nos mesmos navios negreiros. O comércio triangular dava assim lucros fabulosos com a venda dos produtos europeus em África, escravos nas Américas e produtos americanos na Europa. No início, o transporte era organizado por particulares. Depois, os governos europeus, que até então estavam alheios ao tráfico negreiro, acabaram por aceitar e encorajar esta prática devido aos interesses económicos que representava. Eram seis as regiões principais do tráfico, as quais abrangiam a área que vai de Arguim (Mauritânia) até Angola: • Senegal • Costa do Marfim • Serra Leoa • Costa do Ouro (actual Gana • Costa da Guiné • Costa dos Escravos (Togo, Daomé) Entre o Senegal e a Costa do Ouro também existia tráfico, mas era insignificante em relação à parte oriental do golfo da Guiné e à costa do Kongo e de Angola. O comércio triangular foi inicialmente monopólio dos Portugueses e Espanhóis. Até ao século XVI, encaminhavam os escravos para Cabo Verde, São Tomé, Brasil e ilhas de Cuba e S. Domingos (Haiti). Em 1508, a coroa espanhola promulgou a primeira lei relativa ao transporte de escravos negros para as Américas.
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    17 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Em 1510 foi ordenado o primeiro transporte de escravos para a América. A partir de 1515 os rendimentos da monarquia espanhola provinham sobretudo do tráfico de escravos. O direito de resgatar escravos e dispor deles era uma prerrogativa (direito) real. Foi assim que surgiu o primeiro “asiento‖ em 1518, concedido aos Portugueses pela coroa de Espanha, isto é, o direito de comprar escravos em África e de os vender na América mediante condições especiais e precisas estabelecidas pelo rei de Espanha. Em 1693, a coroa espanhola voltou a renovar o contrato de ―asiento‖ à companhia portuguesa de Cacheu. ESCLARECER • Asiento — era o direito que o governo espanhol concedia a uma nação ou companhia estrangeira privada a fim de abastecer as suas colónias da América de escravos negros. O tráfico português destinava-se principalmente ao Brasil, onde a procura era muito elevada nas plantações açucareiras e continuava a aumentar no sector mineiro. O Estado esforçava-se por fazer um controlo cerrado deste comércio, tanto na partida como na chegada às Américas. No fim do século XVI, grandes potências como a Holanda, a Inglaterra e a França entraram em competição no comércio negreiro. Em 1580, Portugal perdeu a sua independência assim como as suas possessões na Ásia e as feitorias africanas. Entre 1600 e 1680, os Holandeses foram os grandes beneficiários do comércio e da navegação no Atlântico, tendo como concorrentes os Franceses e os Ingleses. No início do século XVII, estima-se que mais de um milhão de escravos tinham sido exportados para as Américas, sendo mais de metade proveniente de Angola, do Kongo e do Benim. A outra parte provinha da Costa do Ouro (actual Gana) e da Senegâmbia (região situada entre o rio Senegal e a Serra Leoa). O golfo da Guiné e a Costa do Ouro (Gana) eram as zonas de maior concorrência comercial, onde os mercadores europeus se debatiam pela obtenção de melhores produtos e por maior número de escravos. Na Costa do Ouro havia trinta e três fortes pertencentes a Holandeses, Ingleses e Dinamarqueses. Cada uma destas potências tinha uma determinada zona de influência: na Costa dos Escravos (golfo do Benim) estavam os Franceses, Holandeses e Portugueses; na Senegâmbia, Gabão e Kongo, os Ingleses e Franceses. A costa sul do rio Kongo era monopólio português, e a concorrência nesta zona não era muito grande. Porém, os navegadores europeus só conseguiram instalar-se em certos locais. Para fazerem comércio fundaram feitorias, isto é, pequenos estabelecimentos comerciais, por vezes fortificados. Em 1482, os Portugueses construíram o primeiro forte na Costa do Ouro, a que chamaram castelo de São Jorge da Mina (El-Mina), pensando a partir daí chegar às minas de ouro, o que nenhum europeu conseguiu até ao século XIX devido à resistência dos reis e chefes da região. AS FEITORIAS Os grandes núcleos do comércio europeu em África eram a foz do Casamansa, na Guiné (ouro); a Costa da MaLagueta, na actual Libéria (Gindungo); São Jorge da Mina, no actual Gana (ouro e escravos); o golfo do Benim (escravos e especiarias); a costa dos Camarões; a foz do rio Zaire; a região do Cabo; e a África Oriental (escravos e marfim). Os Portugueses foram os primeiros a estabelecer feitorias nestes centros de comércio: Arguim (Mauritânia), Goreia (Senegal), Rio Fresco (Cabo Verde), Transval (Gâmbia), Casamansa (Guiné), Samina (Costa do Marfim), Mina (Costa do Ouro — Gana), São Tomé e São Paulo de Luanda. O monopólio deste comércio pertencia ao rei de Portugal, que concedia a contratadores o direito de traficar Os estados marítimos do Noroeste Europeu -França, Inglaterra e Holanda, cujo poderio económico e comercial não cessava de aumentar - foram atraídos no século XVII para a África Subsariana pelos produtos que os traficantes árabes e portugueses traziam para a Europa. Assim, começaram a disputar as feitorias portuguesas na África, Índia e América, aproveitando a
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    18 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB ocupação de Portugal pela Espanha, sendo necessária uma guerra de reconquista para recuperar São Tomé, Luanda e a colónia do Brasil. Os Franceses instalaram-se no Senegal onde fundaram S. Luís, conquistaram a Goreia aos Holandeses e ocuparam a região do Alto Volta e Madagáscar. A Costa do Ouro foi frequentada por Ingleses que se instalaram na Gâmbia, e por Dinamarqueses e Alemães que também criaram alguns entrepostos. O papel das feitorias As feitorias tiveram um duplo papel: eram pontos de escala para os navios que se dirigiam para a índia ou para a América e também serviam como entrepostos e lugares de troca entre traficantes europeus e africanos. Por vezes eram ainda usadas como ponto de partida para o interior, mas a penetração foi fraca ou quase nula, pois os africanos da costa impediam o acesso ao interior do continente aos Europeus, utilizando para isso os seus próprios intermediários. Os produtos trocados nas feitorias eram, do lado europeu, tecidos, pacotilhas, aguardente e armas de fogo; e do lado africano, ouro de Bambuk (Gâmbia) e de Buré (Guiné), malagueta da Guiné e da Mina, marfim e escravos. Inicialmente, os produtos africanos eram enviados para as ilhas da Madeira e dos Açores e para Lisboa, seguindo daí para outros grandes centros de comércio europeus. Porém, as primeiras relações diplomáticas e comerciais deterioraram-se rapidamente, e, no fim do século XV, o escravo negro tornou-se o elemento essencial das trocas entre a África e a Europa. O tráfico negreiro no litoral Índico No litoral Índico, os Árabes tinham instalado há muitos séculos vários entrepostos comerciais, mantendo o monopólio do comércio desde o cabo de Guardafui, na Somália, até Sofala, em Moçambique. Quando Vasco da Gama chegou à região, começou a luta entre Árabes e Portugueses, tendo estes arrebatado o controlo do Índico durante a primeira metade do século XVI, Estabeleceram várias feitorias no litoral - Sofala, Quelimane, ilha de Moçambique — e tentaram penetrar no interior pelo Zambeze, onde estabeleceram entrepostos em Sena (1530) e Tete (1537), a fim de chegarem às célebres minas de ouro do Monomotapa. Mas aqui tiveram que fazer face à resistência não só do Monomotapa, mas também de outros reis africanos da região a quem tiveram de pagar tributo para poderem traficar. Todos os anos seguia para Tete uma representação do Monomotapa, para receber impostos dos Portugueses. AS CONDIÇÕES DO TRÁFICO NEGREIRO Ao chegarem à costa com as suas mercadorias, os traficantes de escravos negros desembarcavam em portos onde negociavam com os intermediários. Nos primeiros tempos, as casílias para a captura de escravos aconteceram com os soberanos locais, que passaram a vender aos europeus os seus condenados ou prisioneiros de guerra. Porém, com o desenvolvimento do tráfico, estes escravos deixaram de ser suficientes e passou a ser necessário obter ainda mais noutras regiões. Como forma de penetrar no interior, os negreiros recorreram aos ―lançados‖ ou ―pombeiros‖, descendentes de antigos negreiros que se tinham fixado em África e tinham como função organizar o tráfico no interior. Os pombeiros percorriam o interior do continente e depois traziam para a costa caravanas de escravos capturados nas ―razias‖. Nos mercados, os escravos eram examinados como gado, avaliados e vendídos em leilão, e depois armazenados em locais próprios, empilhados em quartos húmidos e mal iluminados enquanto aguardavam pelo embarque. Os navios negreiros eram barcos especiais com capacidade para quinhentas (500) ou seiscentas (600) pessoas. Os porões destes barcos, equipados com correntes, eram preparados com o fim de levarem o máximo de carga humana no pouco espaço disponível. As condições de transporte eram péssimas, sem qualquer cuidado de salubridade, pelo que um quarto dos escravos morria durante o trajecto.
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    19 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Os negreiros classificavam os escravos segundo a sua idade, robustez e estado de saúde. Só depois de um exame anatómico minucioso e completo é que o escravo estava pronto para ser vendido. Depois de adquirido, o escravo era marcado com um ferro em brasa com as iniciais do comprador. Alguns escravos lançavam-se ao mar antes do embarque, e outros suicidavam-se durante a penosa travessia e devido às condições desumanas. Os escravos doentes eram lançados ao mar e os outros eram submetidos à chegada a novos exames médicos: dentes, olhos, órgãos sexuais, mãos e pés. Por vezes eram chicoteados para se testar a sua resistência. Nas plantações e nas minas a violência continuava, não havendo qualquer legislação que defendesse e protegesse o trabalho dos escravos, pois estes não eram mais do que objectos, máquinas de trabalho. Os escravos eram designados como ―peças da Índia‖ ou ―madeira de ébano‖, pois, tal como a madeira, eram abatidos, vendidos, transportados e entregues. Testemunho de um senhor e dos seus escravos Lembro-me de ter tido momentaneamente ao meu serviço um negro de muito boa aparência e recém-desembarcado, cujos punhos e tornozelos estavam em chaga devido às correntes. Perguntei-lhe qual era a causa. - O meu pai, respondeu-me ele, era o rei e foi morto à traição pelos filhos dum príncipe vizinho. Para procurar vingar a sua morte, ía diariamente à casa com algum dos meus, na esperança de encontrar os assassinos, mas tive a infelicidade de ser surpreendido e acorrentado; daí vêm estas vergonhosas cicatrizes que vê aqui. Venderam-me em seguida aos nossos compatriotas, na costa da Guiné, suplício estimado mais horrível do que a própria morte. A história do meu negro Quaco era ainda mais extraordinária: ―Os meus pais‖, disse-me ele, ―viviam da caça e da pesca. capturaram-me muito jovem enquanto eu brincava na areia com os meus dois irmãos. Imediatamente meteram-me num saco e levaram-me a várias milhas dali.‖ Tornei-me então um dos escravos de um rei da costa da Guiné, que já tinha um número considerável. Quando ele morreu, decapitaram a maior parte (dos escravos), que enterraram com o rei. As crianças da minha idade foram distribuídas como presentes aos capitães do seu exército, e o patrão de um navio holandês comprou-me em troca de um fusil e um pouco de pólvora.‖ O DESENVOLVIMENTO DO TRÁFICO E A RESISTÊNCIA AFRICANA O comércio triangular, apesar de proporcionar enormes lucros aos comerciantes europeus, também comportava alguns riscos, tais como naufrágios, pirataria, guerras entre as potências e a resistência dos povos africanos. Como forma de se protegerem, os armadores e mercadores europeus começaram a agrupar-se em associações ou companhias concessionárias apoiadas pelos governos dos respectivos países. Os reis de cada país davam a cada companhia de mercadores o monopólio nacional do comércio numa determinada região da costa oriental e ocidental da África através de uma ―carta de garantia‖, na qual eram afixados os direitos e as obrigações a cumprir. Estas companhias concessionárias estavam organizadas em monopólios mediante uma concessão real - obtinham o monopólio comercial e beneficiavam de privilégios, mas os reis exigiam parte dos lucros obtidos no comércio. O tráfico de escravos, que fora praticado sobretudo por particulares (navegadores, comerciantes, piratas e aventureiros) durante os séculos XV e XVI, passou a ser exercido pelas grandes companhias a partir do século XVII. Foram estas que se encarregaram do comércio transatlântico e da exploração das colónias das Américas. Estas companhias instalaram feitorias e construíram fortes e armazéns de escravos. Entre as várias companhias concessionárias destacaram-se as francesas (Companhia do Cabo Verde e Senegal, Companhia das Índias Ocidentais), as inglesas (Companhia dos Aventureiros Reais de África) e as holandesas (Companhias das Índias Ocidentais e das Índias Orientais). O desenvolvimento do tráfico e a resistência africana O comércio de escravos na costa oriental africana e nas ilhas do Índico antes da chegada dos Portugueses nunca tomou as proporções do tráfico transatlântico. Este comércio era feito pelos Árabes, que encaminhavam os escravos para a Arábia e o Médio Oriente.
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    20 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB No entanto, as lutas entre Monomotapa e as tribos vizinhas deram aos Portugueses a oportunidade de iniciar o comércio de escravos. Em 1544, fundaram uma feitoria em Quelimane para onde eram escoados os escravos capturados nas guerras entre africanos e que se destinavam à Índia, a Portugal e ao Brasil. Ainda assim, o transporte para Portugal e para o Brasil mostrou-se improdutivo, pois a viagem era longa e uma grande parte dos escravos morria no caminho. O tráfico passou então a dirigir-se essencialmente para a Índia. Só a partir de 1640, quando Angola esteve ocupada pelos Holandeses e a costa ocidental indiana se manteve nas mãos dos Portugueses, é que os traficantes de escravos negros se começaram a dirigir à costa oriental à procura de escravos para satisfazer o número necessário para o trabalho nas roças do Brasil. Porém, só nos finais do século XVIII é que este comércio se intensificou. Os maiores centros de venda de escravos na costa oriental de África eram a Ilha de Moçambique e Quelimane. A RESISTÊNCIA AFRICANA A resistência africana não tardou a organizar-se, e os europeus caíram vítimas das técnicas de combate e do recurso às técnicas de guerrilha com a utilização das famosas flechas envenenadas, que tanto os intimidavam. Em 1446, uma nova expedição destinada a capturar africanos na Costa da Guiné orientada por Nuno Tristão foi atacada quando invadia o rio Cacheu. Dos vinte e sete (27) membros da expedição, apenas sete sobreviveram e o próprio Nuno Tristão aí encontrou a morte. A morte em combate dos primeiros europeus obrigou-os a uma reflexão que, por sua vez, chamou a atenção para a necessidade de mudanças. As medidas tomadas resultaram da intervenção do Infante D. Henrique, o Navegador, que impôs a renúncia à razia, substituída por um sistema baseado em relações comerciais normais. No entanto, os Europeus jamais renunciaram à razia, técnica que sobreviveu até inícios do século XIX, embora a maioria das operações tivessem já um carácter comercial. Apesar dos europeus terem começado por praticar a compra de escravos fornecidos pelas guerras havidas entre africanos, posteriormente desencadearam as suas próprias campanhas militares. No fim do século XVI e no século XVII o povo Mbundu tornou-se o principal alvo dessas campanhas. No Kongo, os conflitos contra os Portugueses eram frequentes devido aos abusos, provocando revoltas por parte do povo e da própria aristocracia. No século XVI, o povo konguense manifestou-se contra os traficantes portugueses, que na ânsia de enriquecerem capturavam os filhos da terra. O rei Álvaro ordenou o encerramento do porto de Mpinda e a expulsão dos traficantes europeus. A oposição mais violenta contra os agressores estrangeiros deu-se quando os missionários actuaram contra as crenças animistas locais e o rei do Kongo ordenou a queima de objectos de culto. Este acontecimento chamou-se ―Revolta da Casa dos Ídolos‖ e teve lugar em 1591 —92, durante o reinado de D. Afonso 1 (Nzinga Mvemba). Outras resistências sucederam-se contra os agressores estrangeiros através de revoltas que destituíram monarcas, fazendo-os substituir por outros que oferecessem maiores garantias na defesa da soberania do reino. A resistência que os Portugueses encontraram na tentativa de conquistar o Ndongo parece ter sido superior àquela que esperavam.
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    21 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB A principal razão era combater contra o poder estabelecido pelo Ngola e os seus chefes locais, reforçados por vezes pela aliança com alguns grupos. A resistência foi-se organizando e generalizando. De 1590 a 1600 a guerra conduzida pelo Ngola Kiluanji e os seus aliados conseguiu limitar as posições portuguesas e os fortes de Muxima, Massangano e Luanda. No entanto, os Portugueses compreenderam que o tráfico de escravos estava seriamente afectado, pois os Mbundu podiam bloquear as rotas comerciais e encerrar os mercados. Foram então enviados emissários a Ngola Mbandi para negociar a reactivação do comércio de escravos. Mas estes impuseram algumas condições: • Auxílio dos Portugueses ao Ndongo para expulsar Kassanje, chefe dos Imbangalas do reino • A restituição ao Ngola dos súbditos e chefes que tinham sido aprisionados durante a guerra. Do lado dos Portugueses houve um bom acolhimento à negociação das tréguas, dada a urgência que tinham em intensificar o tráfico que a guerra havia interrompido. O acordo assinado em 1656 entre Portugueses e Nzinga restabeleceu com efeito o comércio entre a colónia e a Matamba durante os últimos anos de vida da rainha. VÊ SE SABES... 1. O que eram as Companhias Concessionárias? Qual a sua razão de ser? 2. Quais eram as companhias mais famosas? 3. O que levou os Europeus a uma reflexão para a mudança no método de captura dos escravos? 4. Quando se deu esse ponto de viragem? 5. Destaca o papel da Rainha Nzinga Mbande na resistência contra os Portugueses. Carácter exclusivo e racista do tráfico praticado pelos Europeus A partir do século XV o tráfico de escravos mobilizou todas as nações europeias que controlavam o fluxo internacional de escravos, recebendo por isso avultadas verbas de acordo com o número de escravos que exportavam. O escravo perdia a liberdade, aceitando a sua nova condição nacional e eliminando as relações de parentesco nas quais tinha sido integrado e que até esse momento haviam determinado a sua vida. O escravo era, pois, brutalmente afastado da sua nação, da sua ecologia, dos seus espíritos e, sobretudo, do seu parentesco. Esta nova condição era imposta todos os dias, sendo o escravo obrigado, sob pena de morte, a aprender as novas regras, as novas línguas e até as novas religiões. Todo este processo que convertia um homem livre à condição de homem-mercadoria e de homem-objecto decorreu com revoltas constantes, que eram reprimidas brutalmente — o que demonstra o carácter exclusivo e racista das práticas dos traficantes negreiros. Os homens africanos transformados em escravos com destino às Américas eram submetidos a uma série de operações que procuravam não só transformá-los em mercadoria, como também desligá-los da sua própria origem. Não bastava ser escravo: como qualquer outra mercadoria, o escravo devia apresentar as características procuradas pelo comprador. Assim, os corpos dos escravos eram portadores de informações: as tatuagens e as escarificações funcionavam como autênticos bilhetes de identidade, informando quanto à sua origem, assim como à sua situação hierárquica. Segundo as ideias eurocêntricas, ―para os africanos poderem integrar o espaço branco e divino, deviam ser escravizados e sujeitos a rituais purificadores‖. A sua coabitação com a humanidade só era possível através do sofrimento. Foi nestas condições que se processou a escravatura. Os africanos capturados eram transformados em escravos, e muitos daqueles que já eram escravos dos africanos eram vendidos para se tornarem escravos dos Europeus. Com os corpos ―marcados‖, arrancados do seu território, do seu grupo e do seu continente, eram remetidos para uma categoria de inferioridade absoluta. Sem família e sem os seus deuses, deixaram de pertencer ao chamado espaço
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    22 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB ―diabólico‖ africano para se tornarem ―coisas‖ do espaço considerado civilizado e humanizado — o espaço da violência colonial. A violência exercida contra os escravos africanos integrava-se também numa concepção religiosa que considerava a violência física exercida pelos sacrificadores e traficantes como sendo normal e indispensável. Uma das primeiras condições era modificar o corpo dos escravos africanos por meio de tatuagens — marcas a fogo que inscreviam na sua pele o nome do proprietário, de forma a serem conhecidos e encontrados em caso de fuga. No porto marítimo, antes do embarque, eram novamente marcados no peito com as armas do rei e da nação de quem ficavam vassalos. A sua própria conf iguração física era assim profundamente alterada. As marcas a fogo eram tidas como purificadoras e agiam como uma borracha que apagava o passado, considerando-o nulo e indicando a nova situação daqueles que eram africanos — escravos dos brancos, primeiro destinados ao comércio negreiro e depois confiados aos fazendeiros das Américas. A grande operação de transformação do corpo dos escravos com um módulo de fogo demonstrava claramente que o escravo estava condenado a não poder circular livremente na sociedade dos brancos. Perdia a sua autonomia para se transformar em mercadoria. Os corpos dos escravos que aguardavam o embarque para as Américas eram modelados nos espaços africanos, Associavam-se as marcas do fogo e dos chicotes ao rigor das algemas, dos grilhões e das gargalheiras: toda uma panóplia de instrumentos de contenção que tinha como objectivo restringir os movimentos das mãos e dos pés dos escravos. VÊ SE SABES... 1. Porque se afirma que o escravo era considerado uma mercadoria? Explica. CONSEQUÊNCIAS DO TRÁFICO DE ESCRAVOS Como vimos, foram várias as consequências da agressão europeia em relação aos povos do continente africano. A actividade desenvolvida pelos Europeus, Portugueses em especial, Holandeses, Franceses e Ingleses, afectou vastas regiões de África nos séculos XVI a XVIII, trazendo consequências demográficas, económicas e políticas. CONSEQUÊNCIAS DEMOGRÁFICAS O tráfico atingiu sobretudo os elementos mais vigorosos da população africana — ―as peças da Índia‖-, o que provocou o enfraquecimento demográfico e o sub - povoamento do continente, Com efeito, a transferência de milhões dos melhores produtores (cultivadores, ferreiros, tecelões) e reprodutores e o extermínio de tantos outros milhões através de guerras, razias, fadiga e doenças, contribuíram para que a população africana diminuísse, enquanto o resto da população do globo se encontrava em franca expansão. Se, no início, o tráfico se limitou aos escravos residentes no litoral africano, a partir do fim do século XVI a procura aumentou de tal maneira que levou os chefes africanos a fornecerem não apenas os verdadeiros escravos, mas a procurarem outros através de guerras e razias no interior do continente. A actividade produtiva foi substituída pela guerra, pois essa passou a ser a situação mais lucrativa. Assim, no litoral de Angola e do Senegal, reis, chefes e mercadores africanos envolveram-se irremediavelmente no comércio de escravos, e as suas terras passaram a ser exclusivamente locais de exportação de mercadoria humana. As sociedades começaram a dividir-se em dois grandes grupos: a massa de produtores e uma minoria de nobres e traficantes, enriquecida por meio de um novo tipo de comércio. Para estes, criou-se um círculo vicioso: para poderem capturar escravos, necessitavam de armas de fogo e para obter armas de fogo (que se tornaram um elemento imprescindível para a própria sobrevivência dos Estados e das classes no poder) era necessário vender cada vez mais escravos. Como o mercado estava em constante expansão, os povos do litoral e do interior mais próximo mantinham-se em situação de beligerância (guerra) contínua. Mesmo os Estados mais poderosos
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    23 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB do interior, que se recusavam a vender escravos, viram-se obrigados em determinada altura a travar autênticas batalhas para alcançarem a costa e disporem de armas para se defenderem. As relações entre os diversos Estados e povos deterioraram-se. Despojadas dos seus melhores elementos - massacrados ou deportados -, as sociedades desorganizaram-se. As migrações forçadas de populações apavoradas, fugindo às razias, criaram uma situação de instabilidade tal que iria minar as bases da sociedade rural africana. A desorganização de sociedades inteiras (povos, comunidades, reinos) atingiu tais proporções que quando no século XIX as potências coloniais europeias decidiram partilhar entre si o continente africano, respondendo às exigências do capitalismo monopolista da época, encontraram povos material e moralmente arruinados como resultado de quatro séculos de rapina e razia. Ainda assim, os povos africanos mostraram-se capazes de oferecer resistência à ocupação, e não foi fácil aos colonialistas dominar o continente africano. CONSEQUENCIAS ECONOMICAS O tráfico transatlântico veio instaurar relações comerciais de um novo tipo, em que o escravo servia de equivalente monetário, do mesmo modo que a cabeça de gado ou a barra de sal. Sob o ponto de vista económico, o resultado foi a redução da capacidade produtiva das sociedades (devido às deportações e à insegurança), a instauração da fome e o aparecimento de epidemias (mais frequentes em populações esfomeadas ou enfraquecidas). Como a principal mercadoria procurada era a humana, não havia estímulo para a produção destinada ao mercado, tendo-se deixado de produzir mesmo para o consumo, pois certas mercadorias passaram a ser trazidas da Europa (instrumentos, tecidos, bugigangas), o que fez declinar o artesanato tradicional. Os intermediários africanos da costa não se aperceberam de que vendendo cultivadores e artesãos ou simplesmente procriadores estavam a contribuir para a sua própria destruição como povos organizados. Por outro lado, ao vedarem o acesso ao interior, de maneira a reservarem para si o monopólio do comércio, estavam a aumentar o isolamento daquelas populações. De uma forma geral, houve retrocesso das forças produtivas. Os povos agricultores voltaram ao estado de recolectores, e as populações sedentárias de longa data viram-se forçadas a deslocar-se para o interior, procurando refúgio ou construindo paliçadas sobre os lagos do interior. A África viu-se privada da força de trabalho necessária para o seu desenvolvimento, o que a lançou no atraso e no subdesenvolvimento. CONSEQUÊNCIAS POLÍTICAS O tráfico permitiu a criação de novos poderes políticos em detrimento dos antigos. O recuo generalizado do Islamismo permitiu o aparecimento de novos Estados, essencialmente guerreiros e dominados por uma aristocracia militar. A desagregação do Império Songai depois da conquista marroquina (1591) deu origem a uma multiplicidade de Estados minúsculos, em guerra permanente uns com os outros. No golfo da Guiné formaram-se pequenos Estados, dirigidos por chefes aventureiros enriquecidos pelo comércio de escravos e apoiados por grupos guerreiros armados de espingardas, cuja função principal era fazer a guerra. Ter muitos escravos e bens era sinónimo de riqueza e prestígio.
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    24 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB A fragmentação política e étnica na costa favoreceu guerras constantes provocadas pela procura e captura de escravos fora dos limites de cada Estado ou comunidade. No entanto, durante o período do tráfico - e como adaptação perfeita às novas condições que este impôs - surgiram quatro Estados importantes e fortemente estruturados na região do Benim: foram o Reino Yoruba, o Reino de Oyo, o Reino de Daomé e a Confederação Achanti. CONSEQUÊNCIAS DO TRÁFICO DE ESCRAVOS EM ÁFRICA. O CASO CONCRETO DE ANGOLA O tráfico teve consequências diferentes nos vários povos e Estados africanos, que responderam positiva ou negativamente a ele consoante o grau de desenvolvimento das suas forças produtivas ou da sua proximidade e afastamento em relação às áreas dos circuitos comerciais. Foram várias as transformações ocorridas em Angola para as quais contribuiu a intervenção directa ou indirecta dos Portugueses. Ao longo dos três séculos de tráfico, as regiões do Kongo, Ndongo, Kwango, Planalto e Benguela foram devastadas por pombeiros, militares e padres ora para capturar escravos e mercadorias ora para cobrar tributos ou impor leis e práticas estranhas aos respectivos povos. Calcula-se em cerca de três milhões o número de escravos que o tráfico desviou neste período desde as costas de Angola para os portos de São Tomé e das Américas. Por outro lado, outros tantos africanos morreram nas guerras de kwata-kwata, de cansaço ao longo do percurso até à costa, em alto mar e de doenças ou fome enquanto aguardavam o embarque nos portos de Luanda, Mpinda e Benguela. Assim se explica que nos séculos XV a XVII mesmo as zonas mais povoadas antes da chegada dos Portugueses tivessem já escassa população. A captura de escravos provocou guerras entre reinos que acabaram por enfraquecer e fragmentar- se, tendo muitos deles desaparecidos. Foi a desagregação gradual do poder do rei do Kongo face ao crescente poder dos Manis das várias províncias e a afirmação da independência do Ndongo face ao Kongo, do qual fora tributário até 1560. No século XVIII, o Reino do Kongo deixou de ser um estado organizado capaz de se opôr à violência e aos abusos cometidos pelos traficantes e os seus agentes. De uma forma global, o tráfico de escravos paralisou o desenvolvimento das forças produtivas de África ao sul do Sara devido à perda da sua força de trabalho e à desorganização das sociedades, o que teve consequências económicas e políticas desastrosas a curto e a longo prazo para todo o continente. Pode dizer-se que o tráfico negreiro justifica em parte o fraco povoamento actual de Angola, assim como de todo o continente africano. A descoberta do Novo Mundo estimulou fortemente o tráfico negreiro, pois a mão-de-obra africana foi indispensável à exploração das riquezas nas terras descobertas e conquistadas nas Américas e nas Caraíbas. Os colonizadores pediam constantemente mais escravos africanos para as plantações e para o trabalho nas minas. Durante os séculos XVII - XVIII e inícios do século XIX foi utilizada mão-de-obra africana nas plantações de cana-de-açúcar, tabaco e nos trabalhos de exploração mineira nas colónias das Américas. O trabalho escravo africano - a ―madeira de ébano‖ — não só fazia funcionar a economia das Américas como também era utilizado para outras actividades, como o transporte de mercadorias e de passageiros, os trabalhos domésticos nas ―grandes casas‖ dos senhores-de-engenho, a construção de estradas e de edifícios, a limpeza das cidades, etc. A cultura da cana-de-açúcar e a produção de açúcar exigiam abundante mão-de-obra escrava, pois à medida que progredia a exportação daquele produto, a intensificação dos trabalhos acelerou o enfraquecimento dos escravos, aumentando a sua mortalidade e obrigando a uma substituição imediata dos africanos exterminados.
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    25 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB A média de sobrevivência de um escravo na América era entre cinco a sete anos, devido aos trabalhos forçados que executavam e ao cruel tratamento que sofriam. Não se pode pensar que os escravos aceitaram a sua condição com passividade. Embora a escravidão já existisse em África antes da chegada dos Europeus, tratava-se de uma escravidão doméstica ou patriarcal, onde o escravo tinha um lugar na comunidade. Por outro lado, se existiu um comércio de escravos no mundo mediterrânico e no mundo árabe, nunca tomou proporções alarmantes nem trouxe para África efeitos tão desastrosos como os do tráfico atlântico. Desde o início que os Africanos tentaram escapar à violência de que estavam a ser vítimas, quer através da fuga, do suicídio ou mesmo da revolta. Durante a travessia para a América, muitos escravos preferiam lançar-se ao mar a sofrer as horríveis condições a bordo dos navios. Estas revoltas eram reprimidas, e os revoltosos (―recalcitrantes‖) castigados exemplarmente. Nas colónias da América houve várias revoltas de escravos: a primeira a ser assinalada pela sua importância deu-se em 1522 na ilha de Hispaniola (São Domingos, no Haiti). Outras sucederam- se em Porto Rico (1527), Santa Marta (1529) e Panamá (1531). Estas revoltas levaram os Espanhóis a criar em 1532- uma polícia especial destinada a reprimir e a caçar os escravos fugitivos. Outras vezes os escravos fugiam para o mato, organizando aldeias fortificadas que no Brasil se designavam como ―quilombos‖. Nas Antilhas, os fugitivos, designados como ―negros castanhos‖, formaram verdadeiros Estados independentes (Haiti, Jamaica). Apesar destas revoltas mais ou menos organizadas e esporádicas, os escravos africanos não puderam acabar com a exploração e as condições sub-humanas a que eram submetidos. Ainda não se encontravam reunidas as condições para levarem a bem a sua luta contra os opressores. Foram precisos três séculos para que a primeira sublevação de escravos negros na América resultasse. Esta deu-se nos fins do século XVIII em São Domingos do Haiti, onde um antigo escravo, Toussaint-Louverture, dirigiu uma das maiores revoltas de escravos que a história colonial conheceu, pondo fim ao domínio colonial francês em 1803. CONSEQUÊNCIAS DO TRÁFICO DE ESCRAVOS NA EUROPA O tráfico de escravos praticado pelos Europeus e o comércio do ultramar em geral tiveram consequências muito positivas para o desenvolvimento da Europa através dos chamados ―efeitos multiplicadores‖: isto quer dizer que os lucros provenientes dos contactos com o exterior se multiplicaram em muitos domínios da vida dos Europeus, mesmo daqueles que não estavam directamente ligados ao comércio, o que fez com que a sociedade no seu todo se tivesse apetrechado melhor para o seu desenvolvimento interno. O certo é que a Europa se desenvolveu à custa do trabalho escravo: tornou-se rica e poderosa com o comércio negreiro e ergueu nas suas colónias americanas, africanas e das Caraíbas uma economia que, no essencial, assentava nas culturas do café, do algodão, do cacau, do tabaco e da exploração mineira através do recurso à mão-de-obra escrava, isto é, a toda a violência esclavagista. O comércio com África ajudou verdadeiramente a Europa a transformar a economia de muitas nações e a fundir mais solidamente as diferentes economias nacionais, enquanto em África o que se produziu foi apenas a perturbação e a desintegração dos Estados africanos. CRIAÇÃO DE NOVOS ESPAÇOS SOCIAIS, RACIAIS E CULTURAIS NO MUNDO Durante o período do comércio atlântico de escravos, foi transportado para o Brasil, a América do Norte e muitas outras colónias um número considerável de escravos, os quais levaram com eles não só a sua capacidade de trabalho nas plantações e nas minas, mas também a cultura e as suas qualidades africanas em toda a sua diversidade.
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    26 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Estes traços culturais eram representativos de diferentes grupos étnicos e misturaram-se no plano racial e social aos traços culturais portugueses e americanos, o que deu origem a uma grande diversidade cultural. A Influência cultural africana na América O trabalho nos campos de algodão era ritmado já por sons que saem como uma lava ardente das entranhas de homens e mulheres oprimidas. Estas lamentações transpostas para os cultos religiosos deram o ―espiritual negro‘ e depois o ―jazz‖. No Brasil e nas Antilhas, a marca negra será mais nítida ainda na música, tendo os escravos transplantado para as Américas o pulso palpitante da África que ressoa no tam-tam. Os batuques ou o samba, dançados no decurso das festas semanais permitiram aos diversos grupos étnicos ultrapassar as suas particularidades culturais para se reencontrarem e reinventarem uma arte simplesmente africana, embora influenciada pelos elementos europeus. Os próprios deuses africanos tinham, na atmosfera pesada e pestilenta dos entrepostos, atravessado o Atlântico para continuar junto dos negros a sua função de auxiliares, mais necessária do que nunca. O domínio de uma linguagem ignorada do mestre constituía um meio de resistência terrível. O papel das mulheres africanas no Brasil e em outras regiões da América do Norte foi muito importante, pois embora pouco numerosas, constituíam o cordão umbilical que ligava a população brasileira e americana à África através das danças, canções, da cozinha e dos escritos. Além da força de trabalho, as mulheres africanas serviram também de esposas aos senhores-de- engenho e a outros colonos, pois a colonização portuguesa no Brasil foi essencialmente masculina no início, dando origem a uma mestiçagem biológica e cultural importante. As influências culturais manifestaram-se também através da religião e de práticas rituais africanas. A magia e a iniciação africanas combinadas com o Catolicismo europeu deram origem a sincretismos originais, como o candomblé e a capoeira, assim como à divulgação de muitos elementos das culturas africanas. A capoeira foi utilizada pelos escravos como forma de luta para a conquista e defesa da sua liberdade. Oriunda de Angola e levada para o Brasil pelos escravos, estava associada a uma cerimónia mágica com características religiosas. A capoeira continua a ser hoje um dos principais elementos culturais do Brasil. Portanto, pode dizer-se que o desenvolvimento económico do Brasil e da América do Norte foi fruto do esforço de escravos africanos que para lá levaram a sua força de trabalho. Não é menos verdade que as sociedades brasileira e norte-americana actuais foram também profundamente marcadas pelas línguas, música, gostos alimentares africanos, em suma, pela sua cultura. VÊ SE SABES... 1. Quais foram as consequências demográficas do tráfico de escravos? 2. Refere outras consequências económicas e políticas no caso de Angola. 3. Que efeitos teve o tráfico de escravos na América e na Europa? Unidade III: FORMAÇÃO DA MENTALIDADE NA IDADE MODERNA O SURGIMNTODO HUMANISMO NA ITÁLIA RENASCÉNTISYA No meio de uma profunda debilidade politica fruto de frequentes antagonismos e de desuniões internas, surge no século XV em Itália um forte movimento que iremos chamar de ―descoberta do homem‖. Neste período, os Homens começaram a descobrir-se a si próprios, pois durante séculos tinham vivido mais preocupado com assuntoS divinos, ignorando quase tudo acerca da sua natureza humana. Intesamente religioso, o Homem medieval tinha colocado Deus e a Igreja Católica no centro da sua vida — tudo, desde o nascimento à morte1 era marcado por uma visao ―teocêntríca‖ da realidade. Séculos antes, na Grécia e Roma Antigas, muitos pensadores tinham já centrado os seus estudos no conhecimento do Homem, considerado como a ―medida de todas as coisas‖. A partir dos finais da idade Média, primeiro em Itália e depois noutros países da Europa, ressurge este interesse pelo conhecimento do ser humano. Sem deixarem de ser religiosos, os intelectuais do século XV passavam a colocar o homem no centro dos seus interesses, passando a ter uma visão ―antropocêntrica‖ da vida e do mundo.
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    27 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB “RENASCIMENTO‖ foi um vasto e profundo movimento artístico e de renovação intelectual e cultural que teve início em Itália a partir dos finais da Idade Média e depois se difundiu por toda a Europa. Nos séculos XV e XVI intensificou-se o interesse pela cultura clássica — isto é, pela cultura da Antiguidade Greco-Romana — e desenvolveu-se uma verdadeira paixão pelos vestígios dessa época: manuscritos, estátuas, edifícios, etc. Foi este ‗renascer‖ da cultura clássica que deu origem à designação ―Renascimento‖. Algumas características do renascimento - O classicismo - isto é o gosto pela arte e letras greco-latinas - O espírito crítico e observador - O individualismo – consiste na valorização do Homem e a crença na inesgotável capacidade humana de saber e descobrir. No entanto, o Renascimento não se caracterizou apenas por este interesse pelas letras e pelas artes greco-latinas. Foi sobretudo uma época marcada pelo desenvolvimento de uma nova mentalidade, um espírito novo, mais aberto, um espírito crítico e observador, atento às realidades do seu tempo. Um novo tipo de homem — sobretudo grande comerciante, banqueiro ou jurista, sem esquecer nobres e senhores da Igreja — desprezava os ideais cavaleirescos do seu tempo e dava pouca importância à ―supremacia papal‘, preferindo observar de modo realista e sereno o Universo onde vivia e aspirar a ganhos concretos adquiridos durante a sua existência neste mundo, Por outro lado, o ―Humanismo‖ foi um conjunto de preceitos que durante o Renascimento valorizou o Homem. Pensadores e homens de letras do Renascimento retomaram o estudo dos problemas humanos, que já antes tinham despertado interesse nos filósofos da Antiguidade Greco-Romana. Procuravam nas letras antigas as respostas para aquilo que verdadeiramente os preocupava — um melhor conhecimento do Homem. ―DESCOBRIR O MUNDO, DESCOBRIR O HOMEM‖ Estes intelectuais, apaixonados pela cultura clássica, chamavam-se ―humanistas‖ Eram letrados profissionais, geralmente de origem burguesa, eclesiásticos professores universitários etc. É de salientar que os humanistas demonstraram um profundo desprezo pela Idade Média: consideravam que após a queda do Império Romano do Ocidente as culturas clássicas do mundo greco-romano não tinham tido continuidade. Bons conhecedores do latim e do grego, os humanistas estudaram cuidadosamente os autores antigos — Platão, Aristóteles, Cícero, etc. — e traduziram-nos, comentaram-nos e reeditaramnos agora apoiados também numa nova invenção: a imprensa. Primeiro que qualquer outra parte da Europa, foi em Itália que se deu o início do Renascimento nos séculos XV e XVI. Em Itália existia então um ambiente favorável ao desenvolvimento cultural. As condições económicas, sociais e históricas explicam o facto do Renascimento ter aí começado. Porém, em breve o movimento renascentista estendeu-se ao resto da Europa, sobretudo à Flandres, a Inglaterra e à França. Desde o século XIV destacaram-se em Itália importantes precursores do Humanismo renascentista. Foi o caso de Petrarca, Boccaccio e Dante. No Norte da Europa viveram importantes humanistas, como Erasmo de Roterdão ou Sir Thomas More. Em Portugal, no século sobretudo no reinado de O. João 1H, desenvolveu-se um grande interesse pelo Humanismo europeu, salíentando-se nomes como António de Gouveia, André de Gouveia e André Resende, três dos mais importantes‘ representantes do Humanismo português. Podemos ver assim como o Humanismo surgiu de tendências de indivíduos de diferentes origens e que não estavam ligados por quaisquer vínculos ao Estado, à Igreja ou às universidades. VÉ SE SABES… 1. Compara a visão do mundo e da vida do Renascimento com a da Idade Média. 2. Por que razão se pode dizer que o Renascimento está ligado ao Humanismo?
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    28 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB 3.1.1. A ARTE DO RENASCIMENTO O Renascimento também teve reflexos na arte, que passou a espelhar as novas concepções humanistas. Os arquitectos do Renascimento rejeitaram o Gótico e inspiraram-se nas formas clássicas greco-romanas. O Homem volta de novo a ser a ―medida de todas as coisas‖, o que conduz a uma arte racionalizada, ordenada, dominada pelas preocupações com o equilíbrio, a harmonia, a proporção e a simetria. Apesar de inspiração clássica, a arte renascentista é inovadora e criativa. Raramente, em toda a história da humanidade, houve uma época em que a produção artística tivesse alcançado a quantidade e qualidade que atingiu o Renascimento. O movimento artístico renascentista também nasceu em Itália, particularmente em Florença, que era uma das mais prósperas cidades italianas e onde se encontravam as sedes de importantes empresas dedicadas a actividades comerciais e financeiras. SABIAS QUE.., Os grandes centros de criação artística do Renascimento no início do século XV eram Florença, Veneza e Roma, em ltáia; e a Flandres, nos Países Baixos. ESCLARECER • No século X Florença tinha uma População de 100 mil habitantes, entre os quais se contava um numeroso grupo de burgueses emriquecidos, apreciadores da beleza, da arte e do luxo. È importante lembrar que os negociantes e financeiros florentinos criaram em sua volta um ambiente favorável aos artistas. Entre as famílias mais ricas de Florença contavam-se os Medici, que acabaram por controlar o governo da cidade e se tornaram mecenas generosos. Sob o governo dos Medici — principalmente no tempo de Lourenço, o Magnífico, Florença transformou-se na capital das artes em Itália: ali viveram e trabalharam arquitectos como Bruneleschi, escultores como Donatello e Miguel Ângelo, e pintores como Botticelli e Leonardo da Vinci. O século XV (―quatrocento‖) é o século do ―Renascimento florentino‖. Talvez em nenhuma outra época e em nenhum outro lugar tenham vivido tantos artistas e tão geniais como na Florença Renascentista dos finais do século XV. No entanto, as novas tendências da arte tinham- se espalhado por toda a Itália, e, na primeira metade do século seguinte (―cinquecento‖), Roma seria o principal centro cultural do Renascimento. É aí que se atingirá o apogeu do movimento renascentista. São também de salientar os avanços ocorridos nas artes durante o Renascimento, nomeadamente na arquitectura (uma ―nova arquitectura antiga‖), na pintura e na escultura. A arquitectura ―antiga‖ passou a servir então de modelo a uma nova arquitectura caracterizada pelo Classicismo e a Racionalidade. À antiga arquitectura clássica grega e romana Brunelleschi foi buscar um conjunto de elementos fundamentais, como as ordens dórica, jóníca, corintia, o arco de volta perfeita o frontão, a abóbada de berço e a cúpula, entre outros. Esta inspiração na arquitectura greco-romana constitui, na verdade, uma das principais características da arquitectura do Renascimento — o Classicismo. ESCLARECER • Os arquitectos do Renascimento puseram de parte a medieval (a arquitectura gótica, que depreciativamente, consideraram ―barbara‖ e preferiram inspiraram-se nas formas da arquitectura: clássica greco-romana. • ―Quatrocento‖ e ―cinquecento» são palavras italianas para designar respectivamente, o século XV (os anos de ―quatrocentos) e o século XVI (e os anos ―quinhentos»). No entanto, tal como a arquitectura greco-romana a nova arquitectura caracteriza-se também pela racionalidade com que era planeda e executada. É uma arquitectura em que predomina um
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    29 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB equilíbrio perfeitamente geométricos a par de uma rigorosa simetria na distribuição dos volumes. As soluções quatrocentistas de Brunelleschi seriam depois retomadas e desenvolvidas no século XVI por outros grandes arquitectos como Bramante, que projectou e executou parte do projecto da maior igreja do mundo — a Basílica de S. Pedro, em Roma — ou Miguel Ângelo, que planeou e dirigiu a construção da grande cúpula da mesma basílica. Para além da nova arquitectura antiga ligiosa o Renascimento produziu um grande número de edifícios civis, sobretudo palácios. Estas construções eram igualmente caracterizadas pela civilização de elementos clássicos. No século XV a pintura europeia desenvolveu-se a partir de dois centros principais: a Itália, sobretudo em Florença, e a Flandres. Foi aí que ocorreram duas transformações absolutamente revolucionárias na arte de pintar: a invenção de uma nova técnica de pintura a óleo, usada inicialmente na Flandres por Van Eyck, e a aplicação das leis da perspectiva à pintura. A perspectiva é um modo de representação de objectos sobre uma superfície com duas dimensões (comprimento e largura) de maneira a criar a ilusão de uma terceira dimensão, isto é, a profundidade. Foi devido a ela que se passou a poder pintar com uma exactidão quase ―científica‖ as coisas ―tal como elas eram‖. Giotto, pintor florentino do século XIV, foi um precursor do Renascimento, tendo pintado já o corpo humano com preocupações de perspectiva. No entanto, foi apenas nos começos do século XV, com o flamengo Van Eyck e os Italianos Masaccio e Piero della Francesca, que as leis da perspectiva começariam a ser aplicadas com rigor ESCLARECER • Ao contrário do que sucedera na época medieval, o Homem já não se envergonha do seu corpo e passa a representã-lo em todo o seu esplendor como algo de belo e admirável. Outra característica fundamental da pintura renascentista foi o naturalismo: os pintores procuravam representar a Natureza, os objectos e as pessoas com realismo e naturalidade, ou seja, ―tal como eram‖. Foram essas preocupações naturalistas que levaram á descoberta e aplicação das leis da perspectiva e ao estudo cuidadoso da anatomia do corpo humano e dos animais. Por sua vez, o interesse pelos aspectos do mundo físico levou os pintores do Renascimento inserção da Natureza nas suas obras (árvores, flores, rios, rochedos etc.). Ao contrário do que acontecia na idade Média, em que a grande maioria das obras de pintura tratavam de temas religiosos, surgiram também as da mitologia greco-romana e do quotidiano. No entanto, como reflexo do individualismo da época, o retrato foi um dos temas favoritos da pintura renascentista. Além disso, a representação do nu, que era muito frequente na arte clássica grega e romana, é agora retomada. A pintura renascentista A pintura renascentista difundiu-se ao longo dos séculos XV e XVI através de um número impressionante de grandes pintores, quer em Itália quer nos outros países da Europa. Entre os italianos, merecem destaque os seguintes artistas: • Sandro Botticefli (1 445- 1 51 0), nascido em Florença, trabalhou nessa cidade durante a segunda metade do século XV e foi autor de quadros famosos, como A Primavera (1478), Vénus e Marte (1483) e O Nascimento de Vénus (1485). • Leonardo da Vinci (1452—1519), para além de outras actividades, foi tambem extraordinário pintor de alguns dos quadros mais famosos do mundo ,como La Gionda (1502—1519) e A Virgem e o Menino (1505). Fez intensas pesquisas quanto à perspectiva, à anatomia e aos novos materiais de pintura. Usou uma técnica de gradação de cor e de transição do claro para o escuro a que se chamou ―sfumato‖, que envolvia as suas obras num ambiente de mistério, parecendo que as estariamos a ver através de um finíssimo véu.
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    30 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB • Miguel Ângelo (1475—1564) considerava-se sobretudo um escultor, mas foi também um pintor genial, cuja obra-prima foram os frascos da Capela Sistina, no Vaticano. • Rafael (1483—1520) foi um dos maiores génios da pintura, tendo assimilado todos os progressos da arte de pintar até então alcançados. O retratista Rafael conseguia captar magistralmente a personalidade dos modelos através de um simples olhar ou um sorriso. São famosos os seus frescos no Vaticano e as ―Madonas‖ — enternecedoras imagens da Virgem com o Menino. A partir do século XVI, Veneza torna-se o principal centro cultural da Itália. É o tempo da chamada ―Escola Veneziana‖ de pintura, cujo principal representante foi Ticiano. A escultura renascentista Durante a Idade Média europeia, a escultura funcionou como elemento integrante da arquitectura, isto é, sobretudo como uma arte decorativa arquitectónica. Com o Renascimento, a escultura torna-se fínalmente uma arte autónoma. Como já tinha sucedido em relação à arquitectura, a escultura do Renascimento desenvolveu-se a partir da cidade de Florença. Entre outros grandes escultores, destacou-se o florentino Donatello. Na sua escultura David, uma estátua em bronze, Donatello representa o primeiro nu masculino a ser moldado desde a Antiguidade. Donatello recupera igualmente da antiga Roma uma outra forma escultórica — a escultura equestre. Miguel Ângelo atingirá o ponto culminante da escultura no século XVI. Grande admirador da escultura clássica greco-romana ,produziu algumas das obras mais belas e representativas do Renascimento1 como Píetá e Moisés. A sua escultura de David foi talhada num único bloco de mármore com quase quatro metros de altura e retratava o herói não como um jovem suave e dedicado, como fizera Donatello, mas sim como um atleta consciente do seu corpo nusculado, do seu vigor e da sua vitória sobre o gigante Golias, Em suma, o Homem é ilustrado com orgulho de ser homem. Para sumarizar, podemos dizer que, em termos artísticos, o renascimento distingue-se pela apresentação do corpo humano em moldes naturalistas, por representações da natureza, pela perspectiva e pela combinação de cenas mundanas com conteúdos religiosos. VÊ SE SABES. 1. Menciona as três características fundamentais da arquitectura e da pintura renascentistas. 2. Indica quais foram as duas transformações mais revolucionárias que surgiram na pintura durante O Renascimento e quais as suas consequências. 3. Qual foi a principal inovação introduzida na escultura durante o Renascimento? 4. Depois de responderes às perguntas anteriores, caracteriza de uma forma geral o Renascimento no seu âmbito artístico. 5. Identifica pelo menos quatro obras artísticas dos quatro autores que mais te impressionaram Os novos caminhos do conhecimento racional e científico Como vimos atrás, o Renascimento proporcionou uma nova visão do mundo e do Homem, tendo trazido ao Homem uma grande confiança nas suas capacidades e uma curiosidade sem limites. Um novo espírito crítico e observador, em parte resultante das grandes viagens marítimas, conduziu à pesquisa e à descoberta de novos caminhos para o conhecimento humano. Com efeito, no século XV surge um novo saber racional, isto é, baseado na razão ou no conhecimento racional e científico. Os alicerces dos conhecimentos relativos ao mundo, ao Universo, à natureza e ao próprio Homem permaneciam ainda baseados nas obras dos antigos Gregos, principalmente do filósofo Aristóteles, do geógrafo Ptolomeu e do médico Galeno.
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    31 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB No começo do século XVI, continuava a ser aceite de forma irrefutável a ideia da Terra ser o centro do Universo. Além disso, como o interior do corpo humano não era estudado devido aos preconceitos religiosos, ignorava-se quase tudo sobro a sua constituição e funcionamento. Todavia, a situação estava a mudar. A partir dessa altura, porém, a autoridade dos sábios greco-romanos e a admiração pela Antiguidade começam a surgir aliadas a uma atitude crítica relativamente ao saber herdado. Não se tratava simplesmente de rejeitar conhecimentos recebidos da Antiguidade, mas de os sujeitar a uma reflexão critica. O racionalismo característico do Renascimento seria também aplicado conhecimento da natureza. Segundo o racionalismo, ― somente é verdadeiro aquilo que a razão pode demonstrar‖. A razão opõe-se á fé. A partir do século XV desenvolveu-se um desejo insaciável pela procura da verdade, para satisfazer a curiosidade e explicar as contradições do saber antigo. No século XVI, dá-se um autêntico confronto com o pensamento tradicional. Defendia-se a ideia de que não se devia dar crédito aos conhecimentos que não fossem confirmados pela razão e pela experiência. Leonardo da Vinci, um dos mais famosos representantes deste novo espírito, utilizava uma linguagem semelhante, tendo-se interessado por todos os ramos do saber humano. Os seus estudos sobre a natureza e alguns dos seus inventos anteciparam conhecimentos que apenas voltariam a ser retomados séculos mais tarde. Segundo Leonardo, aqueles que tomavam as afirmações dos sábios antigos como verdadeiras sem as sujeitarem a confirmação utilizavam ―a memória e não o entendimento‘. Para os homens do Renascimento, o saber devia basear-se na experiência e na observação da Natureza. Todavia, este conhecimento feito de experiência só seria verdadeiramente válido se fosse depois sistematizado racionalmente, recorrendo a critérios matemáticos. Esta nova mentalidade racionalista, aberta ao estudo de todos os ramos do saber, encontra-se na origem da revolução científica, que viria a ter o seu ponto mais alto no século XVII. Novos caminhos do conhecimento científico Antes do século XVI, acreditava-se que a Terra era um ponto fixo no Universo, com os planetas, o Sol e as outras estrelas a girarem à sua volta. Esta representação designou-se como ―sistema geocêntrico‖ e foi exposta por Ptolomeu no século II. Séculos antes, outro grego, Aristarco de Samos, tinha colocado a hipótese da Terra girar à volta do Sol, mas as suas ideias não tiveram aceitação e foram rapidamente esquecidas. No século XVI, o polaco Nicolau Copérnico retomou as ideias de Aristarco e escreveu um livro, publicado em 1543, onde falava de um novo sistema do Universo — o ―sistema heliocêntrico‖. Segundo esta nova explicação, o Sol era uma estrela fixa, à volta da qual giravam os planetas, incluindo a Terra. Esta ideia, hoje universalmente aceite, constituiu na época uma verdadeira revolução, tendo encontrado muita resistência Nas universidades continuou a leccionar-se o sistema ptolomaico ainda por muito tempo. No entanto, mais tarde outros astrónomos, como Tycho Brahe, Kepler, Galijeu e Newton, prosseguiram os estudos iniciados por Copérnico e confirmaram as suas ideias. No começo do século XVI, o conhecimento do corpo humano era ainda muito rudimentar bastando olhar para as representações anatómicas medievais. Como não se fazia um estudo dos cadáveres, os órgãos eram imaginados ou adivinhados. Os conhecimentos de anatomia e de fisiologia (estudo do funcionamento do corpo humano) viriam, no entanto, a evoluir de forma significativa durante o Renascimento. Os próprios artistas estudavam anatomia humana com o objectivo de a representarem melhor nas suas obras. Leonardo da Vinci, por exemplo deixou-nos inúmeros estudos e desenhos de anatomia. Em síntese, o Renascimento começa a pôr em causa o conhecimento tradicional, recebido da Antiguidade e da Idade Média. Dentro dos novos caminhos do conhecimento racional e
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    32 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB científico surge uma nova atitude perante a Natureza o Universo e o Homem — Uma atitude de dúvida e interrogação que conduziu ao lançamento das bases da ciência moderna. A crise do Catolicismo e as ideias reformistas No século XVI, a Europa dividiu-se em dois blocos: de um lado, os conservadores, que se mantinham fiéis ao Cristianismo tradicional (os Católicos), e do outro os reformadores, que exigiam mudanças nas atitudes e no comportamento religioso e a que os primeiros chamaram de Protestantes. Aproximavam-se, por isso, tempos de intolerância e de lutas religiosas. No entanto, é fundamental conhecer os precedentes históricos para compreender a origem e desenvolvimento do Protestantismo. SABIAS QUE • O espírito crítico e interrogativo do Homem renascentista levou-o a pôr em causa algumas das doutrinas e normas de comportamento impostas pela Igreja Católica. • Houve homens esclarecidos e corajosos que denunciaram os abusos eclesiásticos e propuseram logo no começo do século XVI uma profunda reforma religiosa. A Igreja Católica esteve associada ao poder político durante vários séculos. Possuía vastas propriedades, e não só estava isenta de pagamento de impostos como recebia o dízimo dos crentes. Os membros do Alto Clero viviam no luxo e na abundância, em contraste com o ideal de pobreza evangélica que recomendavam aos fiéis. Os papas do Renascimento comportavam-se como grandes senhores laicos, vivendo em luxuosos palácios, construídos e decorados pelos artistas mais célebres da época. ESCLARECER A ‗pobreza evangélica» era o ideal de vida proposto pelos Evangelhos aos Seguidores de Cristo. O próprio Jesus Cristo tinha dado um exemplo de humildade e de vida simples que, no entanto não foi seguido pelos membros do Clero. Ao longo da história da Igreja Católica, alguns fiéis mais corajosos como S. Francisco de Assis, no século XII, condenaram os desvios em relação à simplicidade evangélica. A corrupção e a imoralidade eram frequentes entre os membros do Clero. Os próprios cargos eclesiásticos eram geralmente cobiçados devido aos elevados rendimentos que proporcionavam (as ―simonias‖) e muitas vezes comprados. Por outro lado, os elementos do Alto Clero preocupavam-se mais com o aspecto formal da religião, com o cerimonial, do que com a sua missão de espiritualidade e de pastores do povo de Deus. As próprias práticas do culto católico utilizavam o latim — uma língua que o povo comum não entendia. As lutas pela supremacia entre o poder eclesiástico (o poder da Igreja) e o poder secular (o poder dos reis e dos senhores feudais) tinham-se agravado nos finais da ldade Média. As discórdias internas culminaram no grande cisma do Ocidente (1378—1417), com os Católicos divididos na obediência a dois papas: o de AVinhão (França) e o de Roma (Itália). Embora esta cisão tivesse terminado nos começos do século X deixou seriamente abalado o prestígio da Igreja Católica e dos seus dirigentes. Nesse mesmo século alguns críticos mais corajosas, como o checo João Huss e o florentino Savonarola, ousaram chamar a atenção para os erros e os abusos da Igreja Católica. Ambos acabariam por ser condenados a morrer na fogueira. Já no início do século XVI, Erasmo de Roterdão e outros humanistas cristãos defenderam igualmente uma renovação da Igreja, que moralizasse a vida eclesiástica e reconduzisse o Cristianismo à sua pureza original. Apesar destes desejos de mudança, os papas insistiram em manter as estruturas e as doutrinas da Igreja impermeáveis a todas as críticas e sugestões. Alguns dos factores que conduziram à revolução luterana já se manifestavam de uma forma latente há muito tempo antes. Todo o processo de desagregação dos princípios e atitudes que
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    33 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB tinham servido de fundamento à Cristandade medieval constituiu ao mesmo‘ tempo uma preparação para a Reforma: as doutrinas concilíaristas, o democratismo eclesial, a filosofia nominalista e a pressão tributária da fazenda papal de Avinhão. Outros factores de ordem política, como os conflitos entre papas e imperadores e o auge dos nacionalismos eclesiásticos, contribuíram também para preparar a crise religiosa. Houve ainda outras causas relacionadas com a própria realidade alemã: a decadência moral do Clero, especialmente do episcopado marcado por um pendor senhorial e o monopólio efectivo da Nobreza, a debilidade do poder soberano, e o facto do império se encontrar fragmentado em inúmeros principados e cidades. É indiscutível o carácter de protagonista máximo que correspondeu a Martinho Lutero na grande revolução religiosa, mas, por mais excepcional que fossem a personalidade do antigo frade agostinho e os seus talentos de ―líder‖, parece claro que o êxito do reformador se deveu também em boa medida à conjugação de toda uma série de circunstâncias particularmente oportunas. Lutero teve a arte de se fazer intérprete de ideias e sentimentos muito disseminados nessa época entre os seus compatriotas e conseguiu dar-lhes respostas que satisfaziam as aspirações religiosas de uns e as ambições políticas de outros. As doutrinas de Lutero, por outro lado, foram recebidas com agrado por muitos ouvintes — às vezes por razões profundamente diferentes. A supressão do celibato eclesiástico foi bem acolhida por muitos sacerdotes numa época de baixo nível moral do Clero, bem como a supressão dos votos monásticos sob libertação entre comunidades religiosas não muito fervorosas. A ―teologia da consolação‖, segundo a qual a fé sem obras se Justifica, tornava mais Cómoda a vida Cristã e tranquilizava indivíduos conscientes dos seus pecados, mas ao mesmo tempo possuidores de sentimentos religiosos e com ânsia de assegurar a sua salvação eterna. Por outro lado, o anti- romanismo (a oposição ao papado romano) agradava a humanistas do estilo de Ulrich von Hutten, mas foi Sobretudo a Possibilidade de se apoderarem dos bens eclesásticos que despertou a cobiça dos príncipes e dos munícipes de certas cidades imperiais. Lutero revelou um invulgar sentido de propaganda de que soube tirar partido através da imprensa. A Alemanha viu-se assim Inundada de folhetos, devocionários livros de Cânticos e folhas volantes que difundiram a doutrina luterana por toda a parte e a colocaram ao alcance de todo o género de pessoas. A própria rapidez com que se propagou a Reforma foi bom indício de que o vento soprava a seu favor e a conjuntura era propícia. Todos esses factores favoreceram a criação do clima adequado para o eclodir de uma grande crise religiosa. A Reforma Protestante Convém seguidamente recordar, ainda que sucintamente as grandes linhas do processo histórico da Reforma na Alemanha, cujo ponto de arranque se situa no ano de 1517. Martinho Lutero (1483—1546) era um monge alemão, professor dé Filosofia na Universidade de Wittenberg, na Alemanha. Tal Como outros seus Contemporâneos, Lutero apercebeu-se das contradiçoes internas da lgreja Católica. No entanto, o que desencadeou a sua critica e rebelião contra Roma foi na questão das indulgências. Em 1513, o Papa l Leão X tinha enviado monges por toda Europa pedindo aos fieis que contribuíssem com o dinheiro para o pagamento das obras da basílica de S. Pedro em Roma. Em troca, o papa concedia a estes fieis uma bula de indulgências, isto é, um documento que os ilibava da penitencia pelos pecados. Apesar do papa afirmar tratar-se de uma recolha de esmola, esta operação tinha o chocante aspecto de uma transacção comercial. Martinho Lutero denunciou publicamente a questão das indulgências numa proclamação que afixou na porta da Catedral de Wittenberg (Alemanha) — as ―95 Teses Contra as Indulgências‖. Lutero acabaria por ser excumungado, e só a protecção que lhe foi dispensada por alguns príncipes alemães impediu que fosse condenado à fogueira. Lutero aprofundou as suas críticas à Igreja Católica, alargando-as aos aspectos doutrinários. A Igreja Católica ensinava que o Homem não poderia salvar-se, isto é, alcançar a vida eterna (o
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    34 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB paraíso), senão através da prática de boas obras e da mediação do Clero. Para Lutero, pelo contrário, o fundamental era a fé. Para que o Homem se salvasse era suficiente que tivesse fé, isto é, que acreditasse em Cristo e na sua palavra, tal como se encontrava nos Evangelhos. Lutero: a salvaçao pela fé Todos somos pecadores, é um erro pensar-se que este mal se pode curar com as boas obras .a experiencia mostra-nos que as nossas obras, por muito grande que sejam não nos impedem de pecar. As boas obras, não fazem o homem bom. Mas , se o homem for bom, fará boas obras. Deverás possuir uma fé profunda e confiante em Deus. Graças a ele, triunfará das tentações e serás recto, verdadeiro, pacifico e justo; assim cumprirás os mandamentos. Desde que se tinha tornado frade, Lutero tinha sentido uma angustiante ansiedade para assegurar a sua salvação. A teologia ockhamista em que se tinha formado, ao mesmo tempo que proclamava o voluntarismo arbitrário de Deus, sustentava que a vontade livre do homem bastava para cumprir a lei divina, e desse modo alcançar a bem-aventurança. A meditação sobre o capítulo 1º, versículo 17 da ―Epístola aos Romanos‖ — ―o justo vive da fé‖ — fez sair Lutero da sua profunda crise de angústia. Acreditava entender que Deus misericordioso justificava o Homem através da fé a ―fé fiducial‖ —, e à luz deste princípio pareceu-lhe que toda a Escritura ganhava um novo sentido. Por esse motivo, Lutero traduziu a Bíblia para alemão, para que cada crente a pudesse ler e interpretar livremente, sem ter o Clero como intermediário. Desta maneira a reforma protestante resumia o culto à leitura da Bíblia e ao cântico de hinos, suprimindo todas as restantes cerimónias. Lutero reduziu os sacramentos, mantendo apenas o baptismo e a comunhão aboliu o culto dos San tos e da Virgem Maria, bem como as ordens monásticas e o celibato eclesiástico, atendendo a que nenhuma destas disposições constava na Bíblia. Qualquer crente podia exercer a função do ministro do culto, ou ―pastor‖. Deste modo, na Igreja Luterana, o Clero quase desapareceu, bem como a sua hierarquia (bispos, cardeais, papas). Lutero estabelecia também que a sua Igreja não possuiria propriedades. Assim, todo o imenso património eclesiástico poderia ser confiscado pelo Estado, Isto favoreceu a conversão de muitos príncipes alemães, que, ao aderirem à Reforma, encontravam justificações para se apropriarem dos bens do Clero. Os anos seguintes presenciaram um surpreendente crescimento da fama de Lutero, que, chamado a Roma, recusou apresentar-se e recorreu às dietas imperiais de Augsburgo (1 518) e de Leipzig (1519), adoptando posições religiosas cada vez mais críticas, Roma não tomou uma acção decidida contra Lutero, sobretudo por razões de ordem política: o trono do imperador estava vago e o candidato preferido do Papa Leão X era o eleitor Frederico, o sábio, da Saxónia, senhor territorial e grande protector do frei Martinho. Após a eleição do ímperador Carlos V(1519), Lutero publicou em 1520 três escritos famosos que Implicavam a ruptura aberta contra a Igreja: ―A nobreza cristã da nação alemã‖, ―Do cativeiro de Babilónia da Igreja‖ e ―Da liberdade do cristão ‖. Em 1521, recaía finalmente sobre Martinho Lutero a excomunhão. Lutero regressou a Wittenberg em 1522. A consolidação do Luteranismo progrediu tanto na ordem politica como na teológica: os príncipes e cidades reformadas constituíram uma liga confessional. Melanchton fixou a doutrina luterana na ―Confissão de Augsburgo‖ em 1530. Um ano antes, a dieta de Spira deliberou tolerar a Reforma nos lugares onde já estava implantada, mas proibiu que se estendesse a novos territórios. O protesto de cinco Estados e catorze cidades cunhou uma denominaçao religiosa que fez sucesso: Protestante, Protestantismo. Quando Lutero morre, em 1546, a Reforma tinha-se estendido a mais de metade da Alemanha. Em 1545 deu-se início ao Concílio de Trento, que Carlos V vinha reclamando quinze anos antes. Em 1547 o conflito entre o imperador e os príncipes protestantes degenerou em luta armada, e
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    35 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Carlos V obteve em Mühlberg uma vitória completa sobre a Uga de Smalkald. Porém, mais tarde, a traição de Maurício da Saxónia obrigou o imperador a conceder liberdade religiosa aos Luteranos (1552) pelo Tratado de Passau. Em 1555, Carlos V teve de sancionar a paz de Augsburgo, que concedia igualdade de direitos a Católicos e Luteranos, tendo sido os príncipes a tomar a decisão a cerca da confissão a seguir no seu território. A cisão religiosa da Alemanha era já um facto consumado e irreversível. VË SE SABES. 1. Mostra oomo as ideias do Renascimento culminaram na cisão religiosa conhecida por protestantismo. 2. Quais foram os principais aspectos da Igreja Católica contra os quais Lutero se rebelou para fazer a sua reforma religiosa‘ 3. Quais eram as principais diferenças entre a Igreja católica da época e a nova doutrina de Lutero‘? 4. Dois poderosos factores, entre outros, favoreceram a difusão das ideias e a adesão maciça dos alemães ao Protestantismo. Diz quais foram e explica porquê. Difusão das ideias reformistas A revolução religiosa iniciada por Lutero teve como primeiro cenário a Alemanha, onde se difundiu rapidamente em meados do século XVI. Ventos de mudança varreram depois a maior parte do Ocidente Europeu, levando por toda a parte as sementes da Reforma. Daqui as ideias reformistas estenderam-se à Suíça, Holanda, Dinamarca, Suécia e Noruega. Foi surpreendente a rápida expansão que teve o Protestantismo, tanto na sua forma luterana como noutras formas, diversas entre si mas todas coincidentes na sua ruptura com a ortodoxia católica. Depois de ter dominado mais de metade da Alemanha, a revolta protestante arrancou do tronco da Igreja metade dos povos que tinham integrado a Cristandade medieval. Recordemos agora os aspectos mais marcantes desse contágio desintegrador que alterou a face do continente europeu. O segundo principal protagonista da Reforma, tanto pelo seu contributo doutrinal como pela sua influência no progresso do Protestantismo, surgiu mais tarde — foi o francês João Calvino. João Calvino (1509—1564), nascido em Noyon e adepto da Reforma desde a sua infância, abriu novos caminhos ao Protestantismo. Dotado de uma mente mais lógica e extremista que Lutero, Calvino levou as premissas fundamentais da doutrina protestante às últimas consequências, defendendo que o Homem estava antecipadamente destinado por Deus a salvar a sua alma ou a perdê-la — a doutrina da predestinação. Para Calvino, a teologia da consolação luterana era, em sua opinião, totalmente insuficiente. A corrupção insanável do Homem e o voluntarismo divino absoluto deviam conduzir fatalmente à doutrina calvinista. Deus — transcendente e incompreensível —, teria predestinado segundo o seu arbítrio insondável os homens ao Céu ou ao Inferno, dando de presente ―a uns a salvação e a outros a condenação‖. A verdadeira Igreja seria a congregação dos predestinados. Calvino expôs a sua doutrina no tratado da ―Instituição Cristã‖, composto primeiro em latim e ampliado e publicado depois em francês (1541) Em Genebra, onde fixou residência definitiva, João Calvino conseguiu instaurar um regime quase teocrático e uma austera vida social inspirada nas normas da Bíblia. Calvino foi um autocrata religioso que governou a comunidade rodeado de um ―consistório‖ de pastores e anciãos. A Academia Teológica de Genebra, fundada em 1558, que se transformou numa ―Roma calvinista‖, era o seminário onde se formavam os pastores com destino às diversas comunidades calvinistas da Europa. Genebra velava pela pureza do Cristianismo reformado, tendo o célebre médico espanhol Miguel Servet sido condenado como hereje e morrido na fogueira por negar o mistério da Santíssima Trindade.
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    36 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB O Protestantismo calvinista teve uma força expansiva superior ao Luteranismo, quase reduzido à Alemanha e à Escandinávia, e a sua influência foi decisiva para os destinos cristãos da Europa. No Centro e no Leste Europeu, o Calvinismo introduziu-se profundamente na Hungria e na Boémia e conquistou parte da aristocracia polaca. Nos Países Baixos, Guilherme de Orange, o Taciturno, foi o líder protestante contra Filipe II e os Católicos, e conseguiu consolidar como um reduto calvinista as Províncias Unidas do Norte da Europa — a futura Holanda. Na Escócia, o Calvinismo tomou a forma de Presbiterianismo. O Calvinismo foi a forma de Protestantismo que maior importância ganhou na pátria do próprio Calvino, ou seja, na França. Os reis franceses dos primeiros tempos da Reforma deram o tom de uma singular política religiosa. Desde a época de Francisco 1, a França foi uma constante aliada dos príncipes protestantes alemães que lutavam contra Carlos 1, tendo sido igualmente aliada dos Turcos, que ameaçavam as fronteiras orientais do império. Essa mesma linha manteve-se durante o século XVII, na prova decisiva da Guerra dos Trinta Anos. Mas na política interna, os reis franceses mostraram--se geralmente católicos fiéis, e tanto Francisco 1 como Henrique II agiram com rigor em relação aos seus súbditos protestantes. Apesar disso, o Calvinismo penetrou em França, fez numerosos adeptos entre a aristocracia e não tardaram a formar-se duas grandes facções — uma católica, liderada pelos Guise, e outra protestante, cujos chefes mais famosos foram o almirante Coligny e o príncipe Henrique de Bourbon e Navarra. Catarina de Medici, viúva de Henrique II, quando esteve na regência, tentou uma política neutral e de apaziguamento, mas foi em vão, pois as guerras religiosas assolaram a França durante quase três décadas.A noite de S. Bartolomeu e os assassinatos do Duque de Guise e do Rei Henrique III contam-se entre os episódios mais notórios daquela tormentosa época de guerra civil. A história da Reforma em Inglaterra seguiu uma trajectória peculiar e obedeceu, talvez mais do em qualquer outro país, às directrizes da realeza, mas o Anglicanismo não foi invenção de Henrique VIII. Sob dinastia Tudor do século XV, igreja de Inglaterra era já em certo sentido ―anglicana ―, e Henrique VIII encontrou a legislação eclesiástica dos seus predecessores um instrumento valido para a sua politica de subjugação religiosa. Este príncipe foi paladino do Catolicismo nos alvores da Reforma e escreveu contra Lutero uma ―Defesa dos Sete Sacramentos‖que lhe valeu do Papa Leão X o titulo de ―Defensor Fiel‖. Foi a recusa papal em conceder a Henrique VII o divórcio de Catarina de Aragão, para casar com Ana Bolena, a razão que o levou ao repúdio do primado romano e ao cisma. O rei autoproclamou-se ―cabeça suprema da Igreja de Inglaterra‖ e exigiu reconhecimento jurado da sua supremacia eclesiástica. A grande maioria dos homens da Igreja submeteu-se temerosamente à vontade do rei. Houve, no entanto, excepções admiráveis, como a dos mártires cartuxos e, sobretudo, de duas figuras insignes, que não claudicaram e morreram pela fé; São João Fisher, bispo de Rochester, e Sir Tomas More, grão-chanceler do reino e o maior humanista de Inglaterra — uma personalidade que passados séculos continua a ser apelativa e moderna. O Protestantismo de inspiração calvinista introduziu-se em Inglaterra no reinado de Eduardo VI (1 547—1 553). A sua sucessora, Maria Tudor, filha de Henrique VIII e Catarina de Aragão, reprimiu a heresia e tentou a restauração católica. Mas esta restauração não durou mais do que os breves anos da sua ocupação do trono (1 553—1 558). À data da sua morte, sem filhos, a coroa passou para Isabel, filha de Henrique VIII e Ana de Bolena. Foi o longo reinado de Isabel I (1558—1603) que decidiu a sorte do Cristianismo inglês. Conservaram-se formas externas de tradição católica, como a hierarquia eclesiástica com os seus bispos e os seus cabidos, embora sem clero celibatário nem vida monástica. Proibiu-se a celebração da missa, e o Anglicanismo protestantizado, com elementos luteranos e calvinistas, impôs-se como doutrina oficial da Igreja de Inglaterra. Atendendo ao período em estudo, apraz salientar sumariamente, e quase em jeito de epílogo, que a doutrina de Calvino exerceu uma notável influência na génese do capitalismo moderno. VÊ SE SABES..
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    37 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB 1. Refere o papel de João Calvino na expansão da reforma protestante. 2. Compara a doutrina de Calvino com a de Lutero. 3. Procura informações sobre a famosa ―noite de S. Bartolomeu‖ e refere a tua opinião acerca do acontecimento. 3.4. A reacção da igreja Católica a Contra-Reforma Às críticas e avanços do reformismo protestante respondeu a Igreja Católica com um movimento simultâneo de renovação interna, através do qual procurou afirmar o papel da Igreja universal fundada por Cristo e combater as ideias reformistas. Este movimento recebeu o nome de Contra- Reforma ou Reforma Católica). O acontecimento central da Reforma Católica foi o Concílio de Trento (1545-1563). O Papa Paulo III (1534-1549), um notável humanista e diplomata, compreendeu que um concílio ecuménico constituía o único caminho para levar cabo a reforma da Igreja. Passo a passo, foram- se superando muitos dos obstáculos que se opunham à sua celebração. A escolha de Trento para sede do concílio foi uma das soluções de compromisso a que se chegou nas negociações prévias. Trento fica no Norte da Itália, mas era uma cidade imperial e podia esperar-se que os Protestantes aceitariam deslocar-se lá em vez de um concílio celebrado em território papal. A própria ordem a seguir nos trabalhos suscitava opiniões contrárias: o papa desejava que se tratassem antes de mais os temas doutrinais para fixar com precisão o dogma católico nas questões discutidas pelos Protestantes, enquanto o imperador desejava que se desse preferência às questões disciplinares de reforma eclesiástica, esperando satisfazer assim os seus súbditos luteranos e facilitar o restauro da unidade cristã. O compromisso a que se chegou foi o tratamento simultâneo das duas matérias, alterando os decretos dogmáticos e os de reforma. Porém, as dificuldades não terminaram com a abertura do sínodo — longe disso, os incidentes sucederam-se ao longo da sua celebração, e em certas ocasiões foram tão graves que fizeram temer pela sorte do mesmo concílio. Determinação do Concílio de Trento Se alguém diz que o ímpio se justifica unicamente pela fé, de tal modo que entenda que nada mais é preciso para cooperar com a graça com o fim de obter a justificação, e que não é preciso que se prepare e se disponha por um movimento da sua própria vontade, que seja excomungado. Se alguém diz que todos têm o poder de anunciar a palavra [de Deus] e de administrar os sacramentos, que seja excomungado. Que ninguém seja recebido em regime da Igreja catedral se não for recebido de casamento legitimo, de idade madura, de costumes austeros, e sábios nas letras (…) Que os bispos sejam obrigados a visitar em cada ano rodas as Igrejas [na sua diocese]. Que aqueles que foram promovidos à dignidade episcopal recebam a ordem do sacerdócio dentro do tempo [idade] ordenado pelo direito [canónico]. Não é possível descrever aqui em pormenor o que ocorreu no Concílio de Trento, bastando recordar os marcos fundamentais do seu desenvolvimento. A inauguração teve lugar em 19 de Novembro de 1545, tendo sido anunciado, sem dúvida, com o intuito de ser um concílio unionista com os Protestantes. Em 11 de Março de 1547, os delegados papais, alegando uma epidemia, decidiram transferir o concílio para Bolonha. O verdadeiro motivo da mudança, porém, era o desejo de subtrair a assembleia à influência do imperador, cujas relações com o papa estavam longe de ser cordiais. Basta recordar que a vitória de Carlos V sobre os Luteranos em Mühlberg foi recebida na cúria romana com mais receio do que alegria. A etapa bolonhesa do concílio não contou com a presença dos bispos súbditos do imperador, que permaneceram em Trento. Finalmente, em Janeiro de 1548, Carlos V apresentou um protesto solene e formal que obrigou à interrupção imediata das sessões conciliares em Bolonha e pôs fim à suspensão do concílio no mês de Setembro de 1549. A segunda etapa do concílio teve início em Trento no dia 1 de Maio de 1551, sob o novo pontífice Júlio III (1550—1555), O imperador conseguiu desta vez que fosse
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    38 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB a Trento um certo número de delegações de príncipes e cidades protestantes. A presença dos reformistas manifestou de forma clara quão difícil era a restauração da unidade cristã, depois de mais de trinta anos de cisão religiosa. Não obstante isso, a traição ao imperador eleito, Maurício da Saxónia, obrigou a suspender novamente o concílio (28 de Abril de 1552). Foi uma interrupção que durou dez anos, entre os quais se contam a totalidade do pontificado de João III, zeloso reformador, mas por vias diferentes da conciliar. Foi preciso iniciar-se o pontificado do Papa Pio IV (1559—1565) para que o concílio retomasse os trabalhos, o que aconteceu em 18 da Janeiro de 1562. A terceira etapa tridentina durou dois escassos anos e serviu para levar a feliz termo a grande empresa raformadora: no dia 4 de Dezembro de 1563 foi encerrado o Concílio de Trento e o papa confirmou todos os seus decretos pela bula ―Benedictus Deus‖, no dia 26 da Janeiro de 1564. Trento não pôde ser um sínodo unionista, mas foi o grande concílio da reforma católica. A sua obra foi extraordinária tanto no campo doutrinal como disciplinar. No âmbito do primeiro, declarou-se antes de mais que a Revelação Divina se transmitia através da Sagrada Escritura, interpretada pelo magistério da Igreja e pela tradição apostólica, O concílio abordou o tema- chave da justificação humana e, contra as teologias luterana a calvinista, declarou que a graça divina e a cooperação livre e meritória da vontade humana operam em conjunto na justificação do Homem. Outro tema de índole dogmática tratado pelo concílio foi o dos sacramentos, em que tanta confusão tinham lançado os Protestantes; definiu-se a doutrina dos sete sacramentos e as notas próprias de cada um deles. A Reforma Católica, como movimento renovador da Igreja universal promovida pelo papado, é posterior à Reforma Protestante. Porém, o anseio de reforma, como se disse, já vinha da trás a tinha-se efectivado em algumas realizações de grande importância, embora a título parcial. Um país ocidental surge na vanguarda da Reforma Católica — a Espanha dos Reis Católicos. Estes movimentos consideraram a reforma eclesiástica como uma parcela essencial da obra geral de restauração do Estado, que norteou a sua politica. O direito de apresentação que os reis obtiveram, primeiro para os bispos do rur:oi 1111 hilcic lo 1 ccii 0 i lo (ii II nada, e depois praticamente para todos os bispos do reconquistado reino da Granada, e depois praticamente para todos os bispos da monarquia, permitiu-lhes subtrair o episcopado das mãos da Nobreza e escolher para bispos indivíduos eminentes pelo seu espírito religioso e pelo sou conhecimento cientifico provenientes do Clero regular. O cardeal Císneros reformou os conventos franciscanos e a vida monástica. A Universidade Alcalá , fundada por ele, foi um activo foco de humanismo cristão e um grande centro de estudos teológicos, onde se publicou a célebre ―Bíblia Poliglota Complutense‖. A Igreja espanhola no primeiro terço do século XVI era, sem dúvida, a que revelava o maior nível espiritual e cientifico da Europa, o que explica o papel preponderante que os teólogos espanhóis tiveram em Trento. O Concílio de Trento definiu regras de recrutamento do Clero, que passava a ser formado em seminário, e procurou moralizar o seu comportamento impondo uma disciplina severa e conservando o celibato. Para reforçar a autoridade do Alto Clero e reafirmar a doutrina tradicional, a Igreja Católica iniciou um verdadeiro combate contra a Reforma. Foi criada uma nova ordem religiosa, a Companhia de Jesus, para lutar pelo Cristianismo católico e pela sua difusão no mundo. A Companhia de Jesus (ou Ordem dos Jesuítas), fundada em 1539 pelo nobre espanhol Inácio de Loyola , constituiu uma importante barreira contra o avanço do reformismo protestante através da pregação e do ensino ministrado em numerosos colégios abertos por toda a Europa. Os Jesuítas recebiam uma sólida preparação intelectual, de modo a poderem rebater os argumentos reformistas. Prestaram serviços de grande importância ao pontificado na sua obra de reforma católica, especialmente através da formação do Clero, da educação da juventude e das missões. A sua acção estendeu-se também às novas terras descobertas, sobretudo ao Oriente e ao Brasil, onde exerceram a missionação. Em breve, a
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    39 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Companhia de Jesus tornou-se uma instituição poderosíssima, dispondo de grande influência junto das autoridades eclesiásticas e junto de reis e governantes. A Igreja Católica dispôs ainda de dois outros instrumentos de combate contra o reformismo e de defesa do Catolicismo: o primeiro foi o “Index”, uma lista de livros proibidos pela Igreja Católica, onde até as obras de Erasmo, que nunca chegou a apoiar claramente o movimento reformista, foram incluídas. O segundo instrumento de cerceamento do movimento reformista foi a Inquisição, um tribunal eclesiástico que vigiava, perseguia e condenava os herejes e todos os que fossem contra as ideias da Igreja Católica. A reacção da Igreja Católica foi, simultaneamente, um movimento de renovação interna e uma resposta organizada para enfrentar e impedir a expansão da reforma protestante. Nada impediria, no entanto, que a Europa ficasse definitivamente dividida em termos religiosos — o Norte protestante e o Sul católico. Esta divisão, conforme se verá adiante, viria a ter influência na evolução económica e social do continente europeu. Por conseguinte, podemos concluir que os anseios de renovação crista produziram um admirável florescimento no seio da Igreja, que em alguns países, como em Espanha, se iniciou antes do Luteranismo. ―Reformaram-se antigas ordens religiosas, criaram-se ordens novas, apareceram grandes santos o grandes papas. O Concílio de Trento não conseguiu o objectivo almejado por Carlos V de restaurar a unidade cristã, mas realizou uma obra imensa, tanto na doutrina católica como na disciplina eclesiástica.‖ VE SE SABES… 1. Quando e porquê se realizou o Concilio de Trento? 2. Quais foram os resultados do Concilio de Trento? 3. Destaca o papei de inácio de Loyola na luta pelo catolicismo e pela sua difusão no mundo? 4. Que papéis tiveram o Index e a inquisição na conservação da doutrina católica?
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    40 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB A CRISE RELIGIOSA DO SÉCULO XVI O espírito crítico e interrogativo do homem renascentista levou-o a pôr em questão, também, algumas doutrinas e normas de comportamento impostas pela Igreja Católica. No começo do século XVI houve homens esclarecidos e corajosos que denunciaram os abusos eclesiásticos e propuseram uma profunda reformo religiosa. Europa dividiu-se em dois blocos: de um lado, os que se mantinham fiéis cio cristianismo tradicional (católicos), e do outro, as igrejas cristãs reformados, ou protestantes. Aproximavam-se tempos de intolerância e lutos religiosas. O CATOLICISMO, UMA RELIGIÃO EM CRISE A Igreja Católica estava associada ao poder político havia séculos. Possuía vastas propriedades e não só estava isenta de pagamento de imposto tinha direito a recebê-lo (caso da dízimo). Os membros do alto clero viviam no luxo e na abundância, em contraste com o ideal de pobreza evangélica recomendado aos fiéis. Os papas do Renascimento comportavam-se como grandes senhores laicos, vivendo em luxuosos palácios, construídos e decorados pelos artistas mais célebres. A corrupção e a imoralidade eram frequentes entre os cléricos. Os próprios cargos eclesiásticos, devido aos elevados rendimentos que proporcionavam, eram geralmente cobiçados e, muitas vezes, comprados. Por outro lado, os elementos do alto clero preocupavam-se mais com o aspecto formal da religião, com o cerimonial, do que com a sua missão espiritual de pastores do povo de Deus. As próprias práticas do culto católico utilizavam o latim, uma língua que o povo comum á não entendia. As lutas pela supremacia entre o poder eclesiástico e o poder temporal (o poder dos reis e dos senhores feudais) tinham enfraquecido a Igreja, nos finais da Idade Média. As discórdias internas culminaram no grande cisma do Ocidente, com os católicos divididos na obediência a dois papas. Embora esta cisão tivesse terminado nos começos do século XV, deixou seriamente abalado o prestígio da Igreja Católica e dos seus dirigentes. Ainda no mesmo século, alguns críticos mais corajosos, como o checo João Huss e o florentino Savonarola, ousaram chamar para os erros e os abusos dentro Católica. Acabariam por ser condenados a morrer na fogueira. Já no do começo do século XVI, Erasmo de Roterdão e outros humanistas cristãos defendiam igualmente uma renovação da Igreja, que moralizasse a vida eclesiástica reconduzisse o cristianismo a sua pureza original.
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    41 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Apesar destes desejos de mudança, os papas insistiam em manter as estruturas e as doutrinas da igreja impermeáveis a todas as críticas e sugestões. A REFORMA PROTESTANTE Martinho Lutero (1483-1546) era um monge alemão, professor de filosofia na Universidade de Wittenberg, na Alemanha. Tal como outros seus contemporâneos, Lutero apercebeu-se das contradições interna da Igreja Católica. No entanto, aquilo que desencadeou a sua crítica e o rebelião contra Roma foi a questão das indulgências. Em 1513, o popa Leão X tinha enviado monges por toda a Europa, pedindo aos fieis que contribuíssem com dinheiro para o pagamento das obras da Basílica de S. Pedro, em Roma. Em troca, o papa concedia a esses fiéis uma bula de indulgências, isto é, um documento em que lhes perdoava a penitência dos pecados. Apesar de o papa afirmar tratar-se de uma recolha de esmola, esta operação tinha um aspecto de transacção comercial chocante. Martinho Lutero denunciou publicamente a questão das indulgências, numa proclamação que afixou na porta da catedral de Wittenberg – Às Noventa e Cinco Teses contra as indulgências. Lutero acabaria por ser excomungado pelo papa e só a protecção que lhe dispensada por alguns príncipes alemães impediu que fosse condenado à fogueira. Martinho Lutero aprofundou as suas críticas à Igreja Católica, alargando-as aos aspectos doutrinários. A Igreja Católica ensinava que o Homem não poderia salvar-se, é, alcançar a vida eterna (o Paraíso), senão através da prática de boas obras e da mediação do clero. Para Lutero, pelo contrário, o fundamental era a fé. O Homem salva-se se tivesse fé, isto é, se acreditasse em Cristo e na sua palavra, tal como se encontrava nos Evangelhos. Para isso, Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, de forma que cada crente a pudesse ler e interpretar livremente, sem ter o clero como intermediário. Desta maneira, a Reforma Protestante resumia o culto à leitura da Bíblia e ao cântico de hinos, suprimindo todas as restantes cerimonias Lutero reduziu os sacramentos, mantendo apenas o baptismo e a comunhão; aboliu culto dos Santos e da Virgem Maria, bem como as ordens monásticas e o celibato eclesiástico, porque nenhuma destas disposições constava na Bíblia. Qualquer crente podia exercer a função de ministro do culto, ou pastor.
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    42 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Deste modo, na igreja Luterana, o clero quase desapareceu, bem como a sua hierarquia (bispos, cardeais, papas). Lutero estabelecia, também, que a sua Igreja não possuiria propriedades. Assim, todo o imenso patnirn6nio eclesiástico poderia ser confiscado pelo Estado. Isto favoreceu, como calculas, a conversão de muitos príncipes alemães, que, ao aderirem à Reforma, encontravam justificação para se apropriarem dos bens do clero. A DIFUSÃO DAS IDEIAS REFORMISTAS Em meados do século XVI, a Reforma protestante triunfa em quase toda a Alemanha, onde o luterismo se tinha difundido rapidamente. Daqui, as ideias estabeleceram-se à Suíça, Holanda, Dinamarca, Suécia e Noruega. Na Suíça, Calvino adopta uma doutrina mais rígida e extremista que a luterana, defendendo que o Homem estava antecipadamente destinado por Deus a salvar a sua alma ou a perdê-la (doutrina de predestinação). O Calvinismo acabaria por originar um novo foco reformista (a Igreja Calvinista), que se difundiu, sobretudo, na Escócia e em França. Neste país, os adeptos de Calvino (os huguenotes) foram violentamente perseguidos pelos católicos. Na Inglaterra em 1533 o rei Henrique VIII desligou-se da obediência ao papa e fundou a Igreja Anglicana. Uma das principais características do anglicanismo é o facto de o rei se tornar, ele próprio, o chefe supremo da Igreja Anglicana. Esta nova igreja reformada, manteve alguns elementos doutrinários católicos e foi buscar outros ao calvinismo A REACÇÃO DA IGREJA CATÓLICA As críticas e avanços do reformismo protestante respondeu a igreja católica com um movimento que foi simultaneamente de renovação interna (reforma católica) e de combate das ideias reformista (contra reforma). Reunidos no conselho de Trento, numa grande assembleia que se prolongou por vários anos os bispos e cardeais católicos analisaram as criticas reformistas. De um modo geral não aceitou as propostas de mudança dos protestantes. Pelo contrário, foram reafirmando todos os dogmas da fé católica, valorizando o papel do papa e do igreja como intermediários para a salvação do Homem, mantidos os sacramentos, reforçado o culto dos santos e da Virgem Maria, Por outro lado, o concílio de Trento estabeleceu regras de recrutamento do clero, que passava a ser formado em
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    43 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB seminário, e procurou moralizar o seu comportamento, impondo uma disciplina severa e conservando o celibato. ROMA DEPOIS DA REFORMA CATÓLICA Já não se vêem os cardeais disfarçados, a cavalo ou em carruagem, passeando pela cidade na companhia de mulheres, como era costume até há bem pouco tempo; hoje, se viajam em carruagem, fazem-no sozinhos. Acabaram os festins, as caçadas e as exibições de luxo; e os próprios familiares laicos dos papas deixaram de viver no Vaticano, corno era habitual. Carta de um embaixador veneziano, junto da Santa Sé (1566 – 1572) Para melhor impor a autoridade do alto clero e reafirmar a doutrina tradicional, a Igreja Católica iniciou um verdadeiro combate contra a Reforma. Foi criada uma nova ordem religiosa, a Companhia de Jesus, para lutar pelo Cristianismo Católico e pela sua difusão no mundo. A Companhia de Jesus, ou Ordem dos Jesuítas, fundada em 1539 pelo nobre espanhol Inácio de Loyola, constituiu uma importante barreira contra o avanço do reformismo protestante, através da pregação e do ensino, ministrado em numerosos colégios abertos por toda a Europa. JESUÍTAS: O EXÉRCITO DE DEUS Aquele que desejar tornar-se um soldado de Deus na nossa Ordem deverá, depois de ter feito voto de castidade perpétua, consagrar-se à propagação da fé, pregando publicamente, ensinando a palavra de Deus, fazendo exercícios espirituais e acções piedosas e, sobretudo, dando às crianças uma educação religiosa e levando o consolo espiritual através da confissão. Se o papa nos enviar a propagar a fé, ou a converter as almas entre os infiéis, mesmo que seja às Índias, deveremos obedecer-lhe sem reservas. Os membros da nossa ordem devem distinguir-se por uma obediência absoluta, verdadeira, cega, renunciando à sua própria vontade. É necessário acreditar que tudo o que um superior nos ordena é justo. Os Jesuítas recebiam uma sólida preparação intelectual, de modo a poderem rebater os argumentos reformistas. A sua acção estendeu-se também às novas terras descobertas, sobretudo ao Oriente e ao Brasil, onde exerceram a missionação. Em
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    44 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB breve a companhia de Jesus se tornou uma instituição poderosíssima, dispondo de grande influência junto das autoridades eclesiásticas e junto de reis e governantes. A Igreja Católica dispôs ainda de dois outros instrumentos de combate contra o reformismo e de defesa do catolicismo: o Índex e a Inquisição. O Índex era um catálogo dos livros de leitura proibidos aos católicos. Aqueles que ousassem ler qualquer desses livros ficavam excomungados. Escusado será dizer que os obras de Lutero figuravam à cabeça do índex e até as de Erasmo, que nunca chegou a apoiar claramente o movimento reformista, foram nele incluídas. Revolução Industrial Um motor a vapor de Watt, o motor a vapor, alimentado principalmente com carvão, impulsionou a Revolução Industrial no Reino Unido e no mundo. A Revolução Industrial consistiu em um conjunto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo em nível econômico e social. Iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX. Ao longo do processo a era da agricultura foi superada, a máquina foi superando o trabalho humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs, novas relações entre nações se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros eventos. Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores, como o liberalismo econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções, tais como o motor a vapor. O capitalismo tornou-se o sistema econômico vigente. O escocês James Watt. Antes da Revolução Industrial, a atividade produtiva era artesanal e manual (daí o termo manufatura), no máximo com o emprego de algumas máquinas simples. Dependendo da escala, grupos de artesãos podiam se organizar e dividir algumas etapas do processo, mas muitas vezes um mesmo artesão cuidava de todo o processo, desde a obtenção da matéria-prima até à comercialização do produto final. Esses trabalhos eram realizados em oficinas nas casas dos próprios artesãos e os profissionais da época dominavam muitas (se não todas) etapas do processo produtivo. Com a Revolução Industrial os trabalhadores perderam o controle do processo produtivo, uma vez que passaram a trabalhar para um patrão (na qualidade de empregados ou operários), perdendo a posse da matéria-prima, do produto final e do lucro. Esses trabalhadores passaram a controlar máquinas que pertenciam aos donos dos meios de produção os quais passaram a receber todos os lucros. O trabalho realizado com as máquinas ficou conhecido por maquinofatura.
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    45 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Esse momento de passagem marca o ponto culminante de uma evolução tecnológica, econômica e social que vinha se processando na Europa desde a Baixa Idade Média, com ênfase nos países onde a Reforma Protestante tinha conseguido destronar a influência da Igreja Católica: Inglaterra, Escócia, Países Baixos, Suécia. Nos países fiéis ao catolicismo, a Revolução Industrial eclodiu, em geral, mais tarde, e num esforço declarado de copiar aquilo que se fazia nos países mais avançados tecnologicamente: os países protestantes. De acordo com a teoria de Karl Marx, a Revolução Industrial, iniciada na Grã-Bretanha, integrou o conjunto das chamadas Revoluções Burguesas do século XVIII, responsáveis pela crise do Antigo Regime, na passagem do capitalismo comercial para o industrial. Os outros dois movimentos que a acompanham são a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa que, sob influência dos princípios iluministas, assinalam a transição da Idade Moderna para a Idade Contemporânea. Para Marx, o capitalismo seria um produto da Revolução Industrial e não sua causa. Com a evolução do processo, no plano das Relações Internacionais, o século XIX foi marcado pela hegemonia mundial britânica, um período de acelerado progresso econômico-tecnológico, de expansão colonialista e das primeiras lutas e conquistas dos trabalhadores. Durante a maior parte do período, o trono britânico foi ocupado pela rainha Vitória (1837-1901), razão pela qual é denominado como Era Vitoriana. Ao final do período, a busca por novas áreas para colonizar e descarregar os produtos maciçamente produzidos pela Revolução Industrial produziu uma acirrada disputa entre as potências industrializadas, causando diversos conflitos e um crescente espírito armamentista que culminou, mais tarde, na eclosão, da Primeira Guerra Mundial (1914). A Revolução Industrial ocorreu primeiramente na Europa devido a três fatores: 1) os comerciantes e os mercadores europeus eram vistos como os principais manufaturadores e comerciantes do mundo, detendo ainda a confiança e reciprocidade dos governantes quanto à manutenção da economia em seus estados; 2) a existência de um mercado em expansão para seus produtos, tendo a Índia, a África, a América do Norte e a América do Sul sido integradas ao esquema da expansão econômica européia; e 3) o contínuo crescimento de sua população, que oferecia um mercado sempre crescente de bens manufaturados, além de uma reserva adequada (e posteriormente excedente) de mão-de-obra. [1] O pioneirismo do Reino Unido O Reino Unido foi pioneiro no processo da Revolução Industrial por diversos fatores: Pela aplicação de uma política econômica liberal desde meados do século XVIII. Antes da liberalização econômica, as atividades industriais e comerciais estavam cartelizadas pelo rígido sistema de guildas, razão pela qual a entrada de novos competidores e a inovação tecnológica eram muito limitados. Com a liberalização da indústria e do comércio ocorreu um enorme progresso tecnológico e um grande aumento da produtividade em um curto espaço de tempo. O processo de enriquecimento britânico adquiriu maior impulso após a Revolução Inglesa, que forneceu ao seu capitalismo a estabilidade que faltava para expandir os investimentos e ampliar os lucros. A Grã-Bretanha firmou vários acordos comerciais vantajosos com outros países. Um desses acordos foi o Tratado de Methuen, celebrado com a decadência da monarquia absoluta portuguesa, em 1703, por meio do qual conseguiu taxas preferenciais para os seus produtos no mercado português.
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    46 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB A Grã-Bretanha possuía grandes reservas de ferro e de carvão mineral em seu subsolo, principais matérias-primas utilizadas neste período. Dispunham de mão-de-obra em abundância desde a Lei dos Cercamentos de Terras, que provocou o êxodo rural. Os trabalhadores dirigiram-se para os centros urbanos em busca de trabalho nas manufaturas. A burguesia inglesa tinha capital suficiente para financiar as fábricas, adquirir matérias- primas e máquinas e contratar empregados. Para ilustrar a relativa abundância do capital que existia na Inglaterra, pode se constatar que a taxa de juros no final do século XVIII era de cerca de 5% ao ano; já na China, onde praticamente não existia progresso econômico, a taxa de juros era de cerca de 30% ao ano. O liberalismo de Adam Smith As novidades da Revolução Industrial trouxeram muitas dúvidas. O pensador escocês Adam Smith procurou responder racionalmente às perguntas da época. Seu livro A Riqueza das Nações (1776) é considerado uma das obras fundadoras da ciência econômica. Ele dizia que o individualismo é útil para a sociedade. Seu raciocínio era este: quando uma pessoa busca o melhor para si, toda a sociedade é beneficiada. Exemplo: quando uma cozinheira prepara uma deliciosa carne assada, você saberia explicar quais os motivos dela? Será porque ama o seu patrão e quer vê-lo feliz ou porque está pensando, em primeiro lugar, nela mesma ou no pagamento que receberá no final do mês? De qualquer maneira, se a cozinheira pensa no salário dela, seu individualismo será benéfico para ela e para seu patrão. E por que um açougueiro vende uma carne muito boa para uma pessoa que nunca viu antes? Porque deseja que ela se alimente bem ou porque está olhando para o lucro que terá com futuras vendas? Graças ao individualismo dele o freguês pode comprar boa carne. Do mesmo jeito, os trabalhadores pensam neles mesmos. Trabalham bem para poder garantir seu salário e emprego. Portanto, é correto afirmar que os capitalistas só pensam em seus lucros. Mas, para lucrar, têm que vender produtos bons e baratos. O que, no fim, é ótimo para a sociedade. Então, já que o individualismo é bom para toda a sociedade, o ideal seria que as pessoas pudessem atender livremente a seus interesses individuais. E, para Adam Smith, o Estado é quem atrapalhava a liberdade dos indivíduos. Para o autor escocês, "o Estado deveria intervir o mínimo possível sobre a economia". Se as forças do mercado agissem livremente, a economia poderia crescer com vigor. Desse modo, cada empresário faria o que bem entendesse com seu capital, sem ter de obedecer a nenhum regulamento criado pelo governo. Os investimentos e o comércio seriam totalmente liberados. Sem a intervenção do Estado, o mercado funcionaria automaticamente, como se houvesse uma "mão invisível" ajeitando tudo. Ou seja, o capitalismo e a liberdade individual promoveria o progresso de forma harmoniosa. As primeiras máquinas a vapor foram construídas na Inglaterra durante o século XVIII. Retiravam a água acumulada nas minas de ferro e de carvão e fabricavam tecidos. Graças a essas máquinas, a produção de mercadorias aumentou muito. E os lucros dos burgueses donos de fábricas cresceram na mesma proporção. Por isso, os empresários ingleses começaram a investir na instalação de indústrias. As fábricas se espalharam rapidamente pela Inglaterra e provocaram mudanças tão profundas que os historiadores atuais chamam aquele período de Revolução Industrial. O modo de vida e a
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    47 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB mentalidade de milhões de pessoas se transformaram, numa velocidade espantosa. O mundo novo do capitalismo, da cidade, da tecnologia e da mudança incessante triunfou. As máquinas a vapor bombeavam a água para fora das minas de carvão. Eram tão importantes quanto as máquinas que produziam tecidos. As carruagens viajavam a 12 km/h e os cavalos, quando se cansavam, tinham de ser trocados durante o percurso. Um trem da época alcançava 45 km/h e podia seguir centenas de quilômetros. Assim, a Revolução Industrial tornou o mundo mais veloz. Como essas máquinas substituiam a força dos cavalos, convencionou-se em medir a potência desses motores em HP (do inglês horse power ou cavalo-força). A classe trabalhadora A produção manual que antecede à Revolução Industrial conheceu duas etapas bem definidas, dentro do processo de desenvolvimento do capitalismo: O artesanato foi a forma de produção industrial característica da Baixa Idade Média, durante o renascimento urbano e comercial, sendo representado por uma produção de caráter familiar, na qual o produtor (artesão) possuía os meios de produção (era o proprietário da oficina e das ferramentas) e trabalhava com a família em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima, até o acabamento final; ou seja não havia divisão do trabalho ou especialização para a confecção de algum produto. Em algumas situações o artesão tinha junto a si um ajudante, porém não assalariado, pois realizava o mesmo trabalho pagando uma ―taxa‖ pela utilização das ferramentas. o É importante lembrar que nesse período a produção artesanal estava sob controle das corporações de ofício, assim como o comércio também se encontrava sob controle de associações, limitando o desenvolvimento da produção. A manufatura, que predominou ao longo da Idade Moderna e na Antiguidade Clássica, resultou da ampliação do mercado consumidor com o desenvolvimento do comércio monetário. Nesse momento, já ocorre um aumento na produtividade do trabalho, devido à divisão social da produção, onde cada trabalhador realizava uma etapa na confecção de um único produto. A ampliação do mercado consumidor relaciona-se diretamente ao alargamento do comércio, tanto em direção ao oriente como em direção à América. Outra característica desse período foi a interferência do capitalista no processo produtivo, passando a comprar a matéria-prima e a determinar o ritmo de produção. A partir da máquina, fala-se numa primeira, numa segunda e até terceira e quarta Revoluções Industriais. Porém, se concebermos a industrialização como um processo, seria mais coerente falar-se num primeiro momento (energia a vapor no século XVIII), num segundo momento (energia elétrica no século XIX) e num terceiro e quarto momentos, representados respectivamente pela energia nuclear e pelo avanço da informática, da robótica e do setor de comunicações ao longo dos séculos XX e XXI (aspectos, porém, ainda discutíveis). Na esfera social, o principal desdobramento da revolução foi a transformação nas condições de vida nos países industriais em relação aos outros países da época, havendo uma mudança progressiva das necessidades de consumo da população conforme novas mercadorias foram sendo produzidas.
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    48 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB A Revolução Industrial alterou profundamente as condições de vida do trabalhador braçal, provocando inicialmente um intenso deslocamento da população rural para as cidades. Criando enormes concentrações urbanas; a população de Londres cresceu de 800 000 habitantes em 1780 para mais de 5 milhões em 1880, por exemplo. Durante o início da Revolução Industrial, os operários viviam em condições horríveis se comparadas às condições dos trabalhadores do século seguinte. Muitos dos trabalhadores tinham um cortiço como moradia e ficavam submetidos a jornadas de trabalho que chegavam até a 80 horas por semana. O salário era medíocre (em torno de 2.5 vezes o nível de subsistência) e tanto mulheres como crianças também trabalhavam, recebendo um salário ainda menor. A produção em larga escala e dividida em etapas iria distanciar cada vez mais o trabalhador do produto final, já que cada grupo de trabalhadores passava a dominar apenas uma etapa da produção, mas sua produtividade ficava maior. Como sua produtividade aumentava os salários reais dos trabalhadores ingleses aumentaram em mais de 300% entre 1800 até 1870. Devido ao progresso ocorrido nos primeiros 90 anos de industrialização, em 1860 a jornada de trabalho na Inglaterra já se reduzia para cerca de 50 horas semanais (10 horas diárias em cinco dias de trabalho por semana). Movimentos Alguns trabalhadores, indignados com sua situação, reagiam das mais diferentes formas, das quais se destacam: Movimento Ludista (1811-1812) Ver artigo principal: Ludismo Reclamações contra as máquinas inventadas após a revolução para poupar a mão-de-obra já eram normais. Mas foi em 1811 que o estopim estourou e surgiu o movimento ludista, uma forma mais radical de protesto. O nome deriva de Ned Ludd, um dos líderes do movimento. Os luditas chamaram muita atenção pelos seus atos. Invadiram fábricas e destruíram máquinas, que, segundo os luditas, por serem mais eficientes que os homens, tiravam seus trabalhos, requerendo, contudo, duras horas de jornada de trabalho. Os manifestantes sofreram uma violenta repressão, foram condenados à prisão, à deportação e até à forca. Os luditas ficaram lembrados como "os quebradores de máquinas". Anos depois os operários ingleses mais experientes adotaram métodos mais eficientes de luta, como a greve e o movimento sindical. Movimento Cartista (1837-1848) Em seqüência veio o movimento "cartista", organizado pela "Associação dos Operários", que exigia melhores condições de trabalho como: particularmente a limitação de oito horas para a jornada de trabalho a regulamentação do trabalho feminino a extinção do trabalho infantil a folga semanal o salário mínimo
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    49 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Este movimento lutou ainda pelos direitos políticos, como o estabelecimento do sufrágio universal (apenas para os homens, nesta época) e extinção da exigência de propriedade para se integrar ao parlamento e o fim do voto censitário. Esse movimento se destacou por sua organização, e por sua forma de atuação, chegando a conquistar diversos direitos políticos para os trabalhadores. As "trade-unions" Os empregados das fábricas também formaram associações denominadas trade unions, que tiveram uma evolução lenta em suas reivindicações. Na segunda metade do século XIX, as trade unions evoluíram para os sindicatos, forma de organização dos trabalhadores com um considerável nível de ideologização e organização, pois o século XIX foi um período muito fértil na produção de idéias antiliberais que serviram à luta da classe operária, seja para obtenção de conquistas na relação com o capitalismo, seja na organização do movimento revolucionário cuja meta era construir o socialismo objetivando o comunismo. O mais eficiente e principal instrumento de luta das trade unions era a greve. A industrialização na Europa: a partir de 1815 Até 1850, a Inglaterra continuou dominando o primeiro lugar entre os países industrializados. Embora outros países já contassem com fábricas e equipamentos modernos, esses eram considerados uma "miniatura de Inglaterra", como por exemplo os vales de Ruhr e Wupper na Alemanha, que eram bem desenvolvidos, porém não possuíam a tecnologia das fábricas inglesas. Na Europa, os maiores centros de desenvolvimento industrial, na época, eram as regiões mineradoras de carvão; lugares como o norte da França, nos vales do Rio Sambre e Meuse, na Alemanha, no vale de Ruhr, e também em algumas regiões da Bélgica. A Alemanha nessa época ainda não havia sido unificada. Eram 39 pequenos reinos e dentre esses a Prússia, que liderava a Revolução Industrial. A Alemanha se unificou em 1871, quando a Prússia venceu a Guerra Franco-Prussiana. Fora estes lugares, a industrialização ficou presa: às principais cidades, como Paris e Berlim; aos centro de interligação viária, como Lyon, Colônia, Frankfurt am Main, Cracóvia e Varsóvia; aos principais portos, como Hamburgo, Bremen, Roterdã, Le Havre, Marselha; a polos têxteis, como Lille, Região do Ruhr, Roubaix, Barmen-Elberfeld (Wuppertal), Chemmitz, Lodz e Moscou; e a distritos siderurgicos e indústria pesada, na bacia do rio Loire, do Sarre, e da Silésia. De 1830 a 1929 : A Expansão pelo mundo Após 1830, a produção industrial se descentralizou da Inglaterra e se expandiu rapidamente pelo mundo, principalmente para o noroeste europeu, e para o leste dos Estados Unidos da América. Porém, cada país se desenvolveu em um ritmo diferente baseado nas condições econômicas, sociais e culturais de cada lugar.
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    50 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB Na Alemanha com o resultado da Guerra Franco-prussiana em 1870, houve a Unificação Alemã que, liderada por Bismarck, impulsionou a Revolução Industrial no país que já estava ocorrendo desde 1815. Foi a partir dessa época que a produção de ferro fundido começou a aumentar de forma exponencial. Na Itália a unificação política realizada em 1870, à semelhança do que ocorreu na Alemanha, impulsionou, mesmo que atrasada, a industrialização do país. Essa só atingiu ao norte da Itália, pois o sul continuou basicamente agrário. Muito mais tarde, começou a industrialização na Rússia, nas últimas décadas do século XIX. Os principais fatores para que ela acontecesse foram a grande disponibilidade de mão-de-obra, intervenção governamental na economia através de subsídios e investimentos estrangeiros à indústria. Nos Estados Unidos a industrialização começou no final do século XVIII, e foi somente após a Guerra da Secessão que todo o país se tornou industrializado. A industrialização relativamente tardia dos EUA em relação à Inglaterra pode ser explicada pelo fato de que nos EUA existia muita terra per capita, já na Inglaterra existia pouca terra per capita, assim os EUA tinham uma vantagem comparativa na agricultura em relação à Inglaterra e consequentemente demorou bastante tempo para que a indústria ficasse mais importante que a agricultura. Outro fator é que os Estados do sul eram escravagistas o que retardava a acumulação de capital, como tinham muita terra eram essencialmente agrários, impedindo a total industrialização do país que até a segunda metade do século XIX era constituído só pelos Estados da faixa leste do atual Estados Unidos. O término do conflito resultou na abolição da escravatura o que elevou a produtividade da mão de obra. aumentando assim a velocidade de acumulação de capital, e também muitas riquezas naturais foram encontradas no período incentivando a industrialização. A modernização do Japão data do início da era Meiji, em 1867, quando a superação do feudalismo unificou o país. A propriedade privada foi estabelecida. A autoridade política foi centralizada possibilitando a intervenção estatal do governo central na economia, o que resultou no subsidio a indústria. E como a mão-de-obra ficou livre dos senhores feudais, ocorreu assimilação da tecnologia ocidental e o Japão passou de um dos países mais atrasados do mundo a um país industrializado. A industrialização no Brasil Ver artigo principal: História da industrialização no Brasil. O Brasil, como uma antiga colônia de uma nação europeia, faz parte de um grupo de países de industrialização tardia. A industrialização em Portugal Em Portugal, as reformas de Mouzinho da Silveira liquidam os resquícios das estruturas feudais e consolidam a burguesia no poder, modernizando o país. Na segunda metade do século XIX implanta-se a malha ferroviária no país em paralelo a um desenvolvimento industrial e do comércio, à dinâmica do colonialismo, e a uma grande emigração, principalmente em direcção ao Brasil e aos Estados Unidos da América.
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    51 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB As consequências da Revolução Industrial A partir da Revolução Industrial o volume de produção aumentou extraordinariamente: a produção de bens deixou de ser artesanal e passou a ser maquinofaturada; as populações passaram a ter acesso a bens industrializados e deslocaram-se para os centros urbanos em busca de trabalho. As fábricas passaram a concentrar centenas de trabalhadores, que vendiam a sua força de trabalho em troca de um salário. Outra das consequências da Revolução Industrial foi o rápido crescimento econômico. Antes dela, o progresso econômico era sempre lento (levavam séculos para que a renda per capita aumentasse sensivelmente), e após, a renda per capita e a população começaram a crescer de forma acelerada nunca antes vista na história. Por exemplo, entre 1500 e 1780 a população da Inglaterra aumentou de 3,5 milhões para 8,5, já entre 1780 e 1880 ela saltou para 36 milhões, devido à drástica redução da mortalidade infantil. A Revolução Industrial alterou completamente a maneira de viver das populações dos países que se industrializaram. As cidades atraíram os camponeses e artesãos, e se tornaram cada vez maiores e mais importantes. Na Inglaterra, por volta de 1850, pela primeira vez em um grande país, havia mais pessoas vivendo em cidades do que no campo. Nas cidades, as pessoas mais pobres se aglomeravam em subúrbios de casas velhas e desconfortáveis, com condições horríveis de higiene e salubridade, se comparadas com as habitações dos países industrializados hoje em dia. Mas representavam uma grande melhoria se comparadas as condições de vida dos camponeses, que viviam em choupanas de palha. Conviviam com a falta de água encanada, com os ratos, o esgoto formando riachos nas ruas esburacadas. O trabalho do operário era muito diferente do trabalho do camponês: tarefas monótonas e repetitivas. A vida na cidade moderna significava mudanças incessantes. A cada instante, surgiam novas máquinas, novos produtos, novos gostos, novas modas. Estudos sobre as variações na altura média dos homens no norte da Europa, sugerem que o progresso econômico gerado pela industrialização demorou varias décadas até beneficiar a população como um todo. Eles indicam que, em média, os homens do norte europeu durante o início da Revolução Industrial eram 7,6 centímetros mais baixos que os que viveram 700 anos antes, na Alta Idade Média. É estranho que a altura média dos ingleses tenha caído continuamente durante os anos de 1100 até o início da revolução industrial em 1780, quando a altura média começou a subir. Foi apenas no início do século XX que essas populações voltaram a ter altura semelhante às registradas entre os séculos IX e XI[3] . A variação da altura média de uma população ao longo do tempo é considerada um indicador de saúde e bem-estar econômico.
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    52 | Resumosistematizado pelo professor –joaquim pedro Escola 1º de Agosto ♥- Graduado em História, pela UKB . BIBLIOGRAFIA CONSULTADA Gustavo de Freitas, ―Actos Pontifícios‘ in Textos e Dorumentos de Hiretria, PíStano ‗Valuce, Ladmo – Historia gera- Ensino de Primeiro grau, ed. Do Brasil,1975 De Freitas, Gustavo– historia, ed Plátano, Lisboa-1978 Almiro neves, Pedro e Castro almeida,Valdemar- A Descoberta da Historia 7- ed, porto editora, Sd.