SlideShare uma empresa Scribd logo
Jan Davidz de Heem
Joana Kruse
Amanhecer
Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
José Saramago
In “Os Poemas Possíveis”
Conrad Kiesel
Pudesse Eu
Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner Andresen
In “Poesia I”
William Orpen
À Tua Espera
Tranquila e serena
a nossa casa
nos quatro cantos
o sol do meio-dia
à tua espera alegre
e descansada
injecto-me de amor às
escondidas
Sobre a garganta passo
os dedos espessos
e a roupa uma a uma
vai caindo
para que então amor
com os teus dedos
quando vieres me vás
depois vestindo
Maria Teresa Horta
in “Candelabro”
Charles Edward Perugini
John Singer Sargent
Gota de Água
Eu, quando choro,
não choro eu.
Choro aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.
António Gedeão
In “Movimento Perpétuo”
Jean-Honore Fragonard
Urgentemente
É urgente o amor
É urgente um barco no mar
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade
in "Até Amanhã"
Carl Wilhelm Holsoe
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
vede que perigosas seguranças:
que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar perdido o lenho
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;
que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como e dói não sei por quê.
Luís Vaz de Camões
Frank W. Benson
Lembra-te
Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos
Mário Cesariny
in "Pena Capital"
Edward John Poynter
Charles Perugini
Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
Maria do Rosário Pedreira
Delphin Enjolras
Primeira Palavra
Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo
Mia Couto
in “Raiz de Orvalho”
Carl Holsoe
Mona Hopton Bell
Soneto do Amor Total
Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinicius de Moraes
Lilian Matilda Genth
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira
Sally Rosenbaum
Da Tua Vida
Da tua vida o que não podem entender
Nem oiro nem poder nem segurança
Mas a paixão do Tempo e de seus riscos
Tu buscaste o instante e a intensidade
E foste do combate e da mudança
Por isso um rastro de ruptura e de viagem
Ou talvez este fogo inconquistado
Como breve eternidade
De passagem
Manuel Alegre
in "Chegar Aqui"
Frederick Childe Hassam
Vladimir Volegov
Amo o Que Vejo Porque Deixarei
Amo o que vejo porque deixarei
Qualquer dia de o ver.
Amo-o também porque é.
No plácido intervalo em que me sinto,
Do amar, mais que ser,
Amo o haver tudo e a mim.
Melhor me não dariam, se voltassem,
Os primitivos deuses,
Que também, nada sabem.
Ricardo Reis
In “Poemas de Ricardo Reis”
(Fernando Pessoa)
William McGregor Paxton
O Poeta é um Guardador
o poeta é um guardador
guarda a diferença
guarda da indiferença
no incerto
guarda a certeza da voz
Ana Hatherly
in “Um Calculador de Improbabilidades”
Harold Knight
Entre o Luar e a Folhagem
Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
Fernando Pessoa
William Orpen
Sue Halstenberg
Quando Tornar a Vir a Primavera
Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
Alberto Caeiro
In “Poemas Inconjuntos. Poemas de Alberto Caeiro” (Fernando Pessoa)
Thomas Benjamin Kennington
Dez Chamamentos ao Amigo (I)
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse.
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst
In “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão”
Sally Rosenbaum
Os Poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mário Quintana
In “Esconderijos do Tempo”
Jacek Malczewski
A.C.W. Duncan.
Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Cecília Meireles
in “Viagem”
Sally Rosenbaum
Cai a Chuva no Portal
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.
Lídia Jorge
Fernando Álvarez de Sotomayor
O Mundo é Grande
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
Carlos Drummond de Andrade
in “Amar se Aprende Amando”
James Wells Champney
Asta Nørregaard
Estigma
Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos
O que os homens não querem.
Ao vento arremessamos
As verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.
José Carlos Ary dos Santos
In “Obra Poética”
Andre Fontaine
Auto-Retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
Natália Correia
Carl Holsoe
Albert Anker
Canção do Verdadeiro Abandono
Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente
de bicho que sofre as pedras
e se desloca de rastos.
Natércia Freire
Dennis Perrin
Voar
Deve ser bom voar! Abrir as asas,
fechar os olhos e partir sem rumo,
pairar sobre as cidades, sobre as casas,
como pássaro, estrelas, nuvem, fumo...
Deve ser bom voar! Erguer os braços
e acima dos telhados e dos ninhos,
esquecer os sinais de inúteis passos,
fugir ao pó de todos os caminhos...
Mas onde as asas para assim voar,
para subir às nuvens e às estrelas?
As dos homens, são asas de matar...
...e as dos anjos, quem pode pretendê-las?
Fernanda de Castro
In “Trinta e Nove Poesias”
Alexander Mann
Martin Cauchon - Flickr

Mais conteúdo relacionado

Destaque

Colors
ColorsColors
Colors
guida04
 
Ron Hicks
Ron HicksRon Hicks
Ron Hicks
guida04
 
I Love Chocolate
I Love ChocolateI Love Chocolate
I Love Chocolate
guida04
 
Verdadeiro
VerdadeiroVerdadeiro
Verdadeiro
guida04
 
Merry Christmas
Merry  ChristmasMerry  Christmas
Merry Christmas
guida04
 
Tiradentes
TiradentesTiradentes
Tiradentes
guida04
 
Have you ever seen the rain?
Have you ever seen the rain?Have you ever seen the rain?
Have you ever seen the rain?
guida04
 
Sweet Colors
Sweet ColorsSweet Colors
Sweet Colors
guida04
 
Lake Constance
Lake ConstanceLake Constance
Lake Constance
guida04
 
Proverbium (II)
Proverbium (II)Proverbium (II)
Proverbium (II)
guida04
 
Black Coffee
Black CoffeeBlack Coffee
Black Coffee
guida04
 
Sandra Bierman
Sandra BiermanSandra Bierman
Sandra Bierman
guida04
 
Women in Black
Women in BlackWomen in Black
Women in Black
guida04
 
Daisies
DaisiesDaisies
Daisies
guida04
 
Rio Kwanza
Rio KwanzaRio Kwanza
Rio Kwanza
guida04
 
H. Armstrong Roberts
H. Armstrong RobertsH. Armstrong Roberts
H. Armstrong Roberts
guida04
 
Cubatas de Angola
Cubatas de AngolaCubatas de Angola
Cubatas de Angola
guida04
 
Tea Time
Tea TimeTea Time
Tea Time
guida04
 
Andreas Heumann - Photography
Andreas Heumann - PhotographyAndreas Heumann - Photography
Andreas Heumann - Photography
guida04
 
Colors and Sounds from Africa
Colors and Sounds from AfricaColors and Sounds from Africa
Colors and Sounds from Africa
guida04
 

Destaque (20)

Colors
ColorsColors
Colors
 
Ron Hicks
Ron HicksRon Hicks
Ron Hicks
 
I Love Chocolate
I Love ChocolateI Love Chocolate
I Love Chocolate
 
Verdadeiro
VerdadeiroVerdadeiro
Verdadeiro
 
Merry Christmas
Merry  ChristmasMerry  Christmas
Merry Christmas
 
Tiradentes
TiradentesTiradentes
Tiradentes
 
Have you ever seen the rain?
Have you ever seen the rain?Have you ever seen the rain?
Have you ever seen the rain?
 
Sweet Colors
Sweet ColorsSweet Colors
Sweet Colors
 
Lake Constance
Lake ConstanceLake Constance
Lake Constance
 
Proverbium (II)
Proverbium (II)Proverbium (II)
Proverbium (II)
 
Black Coffee
Black CoffeeBlack Coffee
Black Coffee
 
Sandra Bierman
Sandra BiermanSandra Bierman
Sandra Bierman
 
Women in Black
Women in BlackWomen in Black
Women in Black
 
Daisies
DaisiesDaisies
Daisies
 
Rio Kwanza
Rio KwanzaRio Kwanza
Rio Kwanza
 
H. Armstrong Roberts
H. Armstrong RobertsH. Armstrong Roberts
H. Armstrong Roberts
 
Cubatas de Angola
Cubatas de AngolaCubatas de Angola
Cubatas de Angola
 
Tea Time
Tea TimeTea Time
Tea Time
 
Andreas Heumann - Photography
Andreas Heumann - PhotographyAndreas Heumann - Photography
Andreas Heumann - Photography
 
Colors and Sounds from Africa
Colors and Sounds from AfricaColors and Sounds from Africa
Colors and Sounds from Africa
 

Semelhante a Leituras

Poemas Ilustrados
Poemas IlustradosPoemas Ilustrados
Poemas Ilustrados
vales
 
Poesias mostra cultural
Poesias mostra culturalPoesias mostra cultural
Poesias mostra cultural
Barbara Coelho
 
Chuva de Poemas 1.pdf
Chuva de Poemas 1.pdfChuva de Poemas 1.pdf
Chuva de Poemas 1.pdf
VitorRibeiro261164
 
Biblioteca Global - Ponte entre Culturas
Biblioteca Global - Ponte entre CulturasBiblioteca Global - Ponte entre Culturas
Biblioteca Global - Ponte entre Culturas
Besaf Biblioteca
 
Poemas de vários autores
Poemas de vários autoresPoemas de vários autores
Poemas de vários autores
bibliotecanordeste
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
guest2ffb44
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas
PoetasPoetas
Poetas
iracemap
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas An
Poetas AnPoetas An
Poetas An
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
guest2ffb44
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
Juvenal Lucas
 

Semelhante a Leituras (20)

Poemas Ilustrados
Poemas IlustradosPoemas Ilustrados
Poemas Ilustrados
 
Poesias mostra cultural
Poesias mostra culturalPoesias mostra cultural
Poesias mostra cultural
 
Chuva de Poemas 1.pdf
Chuva de Poemas 1.pdfChuva de Poemas 1.pdf
Chuva de Poemas 1.pdf
 
Biblioteca Global - Ponte entre Culturas
Biblioteca Global - Ponte entre CulturasBiblioteca Global - Ponte entre Culturas
Biblioteca Global - Ponte entre Culturas
 
Poemas de vários autores
Poemas de vários autoresPoemas de vários autores
Poemas de vários autores
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas
PoetasPoetas
Poetas
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas An
Poetas AnPoetas An
Poetas An
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 
Poetas A N
Poetas  A NPoetas  A N
Poetas A N
 

Mais de guida04

Filmes (II)
Filmes  (II)Filmes  (II)
Filmes (II)
guida04
 
I Love Cats (II)
I Love Cats (II)I Love Cats (II)
I Love Cats (II)
guida04
 
Beautiful Africa
Beautiful AfricaBeautiful Africa
Beautiful Africa
guida04
 
Filmes
FilmesFilmes
Filmes
guida04
 
Poetas
PoetasPoetas
Poetas
guida04
 
Fotógrafos
FotógrafosFotógrafos
Fotógrafos
guida04
 
I Love Cats
I Love CatsI Love Cats
I Love Cats
guida04
 
Séverine
SéverineSéverine
Séverine
guida04
 
Artur Pastor
Artur PastorArtur Pastor
Artur Pastor
guida04
 
José Saramago - Poesia
José Saramago - PoesiaJosé Saramago - Poesia
José Saramago - Poesia
guida04
 
Sonho
SonhoSonho
Sonho
guida04
 
Daro Bernardes
Daro BernardesDaro Bernardes
Daro Bernardes
guida04
 
Lisboa de Ontem
Lisboa de  OntemLisboa de  Ontem
Lisboa de Ontem
guida04
 
Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .
Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .
Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .
guida04
 
Painting the Sun
Painting the SunPainting the Sun
Painting the Sun
guida04
 
Mar e Poesia
Mar e PoesiaMar e Poesia
Mar e Poesia
guida04
 
Here Comes the Sun
Here Comes the SunHere Comes the Sun
Here Comes the Sun
guida04
 
Chuva e Poesia
Chuva e PoesiaChuva e Poesia
Chuva e Poesia
guida04
 
Eric Lafforgue
Eric LafforgueEric Lafforgue
Eric Lafforgue
guida04
 
Eugène Atget
Eugène AtgetEugène Atget
Eugène Atget
guida04
 

Mais de guida04 (20)

Filmes (II)
Filmes  (II)Filmes  (II)
Filmes (II)
 
I Love Cats (II)
I Love Cats (II)I Love Cats (II)
I Love Cats (II)
 
Beautiful Africa
Beautiful AfricaBeautiful Africa
Beautiful Africa
 
Filmes
FilmesFilmes
Filmes
 
Poetas
PoetasPoetas
Poetas
 
Fotógrafos
FotógrafosFotógrafos
Fotógrafos
 
I Love Cats
I Love CatsI Love Cats
I Love Cats
 
Séverine
SéverineSéverine
Séverine
 
Artur Pastor
Artur PastorArtur Pastor
Artur Pastor
 
José Saramago - Poesia
José Saramago - PoesiaJosé Saramago - Poesia
José Saramago - Poesia
 
Sonho
SonhoSonho
Sonho
 
Daro Bernardes
Daro BernardesDaro Bernardes
Daro Bernardes
 
Lisboa de Ontem
Lisboa de  OntemLisboa de  Ontem
Lisboa de Ontem
 
Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .
Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .
Gervasio Sánchez. El fotógrafo del dolor .
 
Painting the Sun
Painting the SunPainting the Sun
Painting the Sun
 
Mar e Poesia
Mar e PoesiaMar e Poesia
Mar e Poesia
 
Here Comes the Sun
Here Comes the SunHere Comes the Sun
Here Comes the Sun
 
Chuva e Poesia
Chuva e PoesiaChuva e Poesia
Chuva e Poesia
 
Eric Lafforgue
Eric LafforgueEric Lafforgue
Eric Lafforgue
 
Eugène Atget
Eugène AtgetEugène Atget
Eugène Atget
 

Leituras

  • 2. Joana Kruse Amanhecer Navego no cristal da madrugada, Na dureza do frio reflectido, Onde a voz ensurdece, laminada, Sob o peso da noite e do gemido. Abre o cristal em nuvem desmaiada, Foge a sombra, o silêncio e o sentido Da nocturna memória sufocada Pelo murmúrio do dia amanhecido. José Saramago In “Os Poemas Possíveis”
  • 3. Conrad Kiesel Pudesse Eu Pudesse eu não ter laços nem limites Ó vida de mil faces transbordantes Para poder responder aos teus convites Suspensos na surpresa dos instantes! Sophia de Mello Breyner Andresen In “Poesia I”
  • 4. William Orpen À Tua Espera Tranquila e serena a nossa casa nos quatro cantos o sol do meio-dia à tua espera alegre e descansada injecto-me de amor às escondidas Sobre a garganta passo os dedos espessos e a roupa uma a uma vai caindo para que então amor com os teus dedos quando vieres me vás depois vestindo Maria Teresa Horta in “Candelabro”
  • 6. John Singer Sargent Gota de Água Eu, quando choro, não choro eu. Choro aquilo que nos homens em todo o tempo sofreu. As lágrimas são as minhas mas o choro não é meu. António Gedeão In “Movimento Perpétuo”
  • 7. Jean-Honore Fragonard Urgentemente É urgente o amor É urgente um barco no mar É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer. Eugénio de Andrade in "Até Amanhã"
  • 8. Carl Wilhelm Holsoe Busque Amor novas artes, novo engenho, para matar-me, e novas esquivanças; que não pode tirar-me as esperanças, que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! vede que perigosas seguranças: que não temo contrastes nem mudanças, andando em bravo mar perdido o lenho Mas, conquanto não pode haver desgosto onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê; que dias há que na alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei por quê. Luís Vaz de Camões
  • 10. Lembra-te Lembra-te que todos os momentos que nos coroaram todas as estradas radiosas que abrimos irão achando sem fim seu ansioso lugar seu botão de florir o horizonte e que dessa procura extenuante e precisa não teremos sinal senão o de saber que irá por onde fomos um para o outro vividos Mário Cesariny in "Pena Capital" Edward John Poynter
  • 11. Charles Perugini Deixei de ouvir-te. E sei que sou mais triste com o teu silêncio. Preferia pensar que só adormeceste; mas se encostar ao teu pulso o meu ouvido não escutarei senão a minha dor. Deus precisou de ti, bem sei. E não vejo como censurá-lo ou perdoar-lhe. Maria do Rosário Pedreira
  • 12. Delphin Enjolras Primeira Palavra Aproxima o teu coração e inclina o teu sangue para que eu recolha os teus inacessíveis frutos para que prove da tua água e repouse na tua fronte Debruça o teu rosto sobre a terra sem vestígio prepara o teu ventre para a anunciada visita até que nos lábios humedeça a primeira palavra do teu corpo Mia Couto in “Raiz de Orvalho”
  • 14. Mona Hopton Bell Soneto do Amor Total Amo-te tanto meu amor... não cante O humano coração com mais verdade... Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade. Amo-te enfim, de um calmo amor prestante E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante. Amo-te como um bicho, simplesmente De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim, muito e amiúde É que um dia em teu corpo de repente Hei de morrer de amar mais do que pude. Vinicius de Moraes
  • 15. Lilian Matilda Genth Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto... Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente... Tristeza esparsa... remorso vão... Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre, Deixando um acre sabor na boca. - Eu faço versos como quem morre. Manuel Bandeira
  • 16. Sally Rosenbaum Da Tua Vida Da tua vida o que não podem entender Nem oiro nem poder nem segurança Mas a paixão do Tempo e de seus riscos Tu buscaste o instante e a intensidade E foste do combate e da mudança Por isso um rastro de ruptura e de viagem Ou talvez este fogo inconquistado Como breve eternidade De passagem Manuel Alegre in "Chegar Aqui"
  • 18. Vladimir Volegov Amo o Que Vejo Porque Deixarei Amo o que vejo porque deixarei Qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, Do amar, mais que ser, Amo o haver tudo e a mim. Melhor me não dariam, se voltassem, Os primitivos deuses, Que também, nada sabem. Ricardo Reis In “Poemas de Ricardo Reis” (Fernando Pessoa)
  • 19. William McGregor Paxton O Poeta é um Guardador o poeta é um guardador guarda a diferença guarda da indiferença no incerto guarda a certeza da voz Ana Hatherly in “Um Calculador de Improbabilidades”
  • 20. Harold Knight Entre o Luar e a Folhagem Entre o luar e a folhagem, Entre o sossego e o arvoredo, Entre o ser noite e haver aragem Passa um segredo. Segue-o minha alma na passagem. Tênue lembrança ou saudade, Princípio ou fim do que não foi, Não tem lugar, não tem verdade. Atrai e dói. Segue-o meu ser em liberdade. Vazio encanto ébrio de si, Tristeza ou alegria o traz? O que sou dele a quem sorri? Nada é nem faz. Só de segui-lo me perdi. Fernando Pessoa
  • 22. Sue Halstenberg Quando Tornar a Vir a Primavera Quando tornar a vir a Primavera Talvez já não me encontre no mundo. Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente Para poder supor que ela choraria, Vendo que perdera o seu único amigo. Mas a Primavera nem sequer é uma coisa: É uma maneira de dizer. Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes. Há novas flores, novas folhas verdes. Há outros dias suaves. Nada torna, nada se repete, porque tudo é real. Alberto Caeiro In “Poemas Inconjuntos. Poemas de Alberto Caeiro” (Fernando Pessoa)
  • 23. Thomas Benjamin Kennington Dez Chamamentos ao Amigo (I) Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse. Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo. Entendo que sou terra. Há tanto tempo Espero Que o teu corpo de água mais fraterno Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta Olha-me de novo. Com menos altivez. E mais atento. Hilda Hilst In “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão”
  • 24. Sally Rosenbaum Os Poemas Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhoso espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti... Mário Quintana In “Esconderijos do Tempo”
  • 26. A.C.W. Duncan. Canção Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; — depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar. Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre dos meus dedos colore as areias desertas. O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Cecília Meireles in “Viagem”
  • 27. Sally Rosenbaum Cai a Chuva no Portal Cai a chuva no portal, está caindo Entre nós e o mundo, essa cortina Não a corras, não a rasgues, está caindo Fina chuva no portal da nossa vida. Gotas caem separando-nos do mundo Para vivermos em paz a nossa vida. Cai a chuva no portal, está caindo Entre nós e o mundo, essa toalha Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo Chuva fina no portal da nossa casa. Por um dia todos longe e nós dormindo Lado a lado, como páginas dum livro. Lídia Jorge
  • 28. Fernando Álvarez de Sotomayor O Mundo é Grande O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. Carlos Drummond de Andrade in “Amar se Aprende Amando”
  • 30. Asta Nørregaard Estigma Filhos dum deus selvagem e secreto E cobertos de lama, caminhamos Por cidades, Por nuvens E desertos. Ao vento semeamos O que os homens não querem. Ao vento arremessamos As verdades que doem E as palavras que ferem. Da noite que nos gera, e nós amamos, Só os astros trazemos. A treva ficou onde Todos guardamos a certeza oculta Do que nós não dizemos, Mas que somos. José Carlos Ary dos Santos In “Obra Poética”
  • 31. Andre Fontaine Auto-Retrato Espáduas brancas palpitantes: asas no exílio dum corpo. Os braços calhas cintilantes para o comboio da alma. E os olhos emigrantes no navio da pálpebra encalhado em renúncia ou cobardia. Por vezes fêmea. Por vezes monja. Conforme a noite. Conforme o dia. Molusco. Esponja embebida num filtro de magia. Aranha de ouro presa na teia dos seus ardis. E aos pés um coração de louça quebrado em jogos infantis. Natália Correia
  • 33. Albert Anker Canção do Verdadeiro Abandono Podem todos rir de mim, podem correr-me à pedrada, podem espreitar-me à janela e ter a porta fechada. Com palavras de ilusão não me convence ninguém. Tudo o que guardo na mão não tem vislumbres de além. Não sou irmã das estrelas, nem das pombas nem dos astros. Tenho uma dor consciente de bicho que sofre as pedras e se desloca de rastos. Natércia Freire
  • 34. Dennis Perrin Voar Deve ser bom voar! Abrir as asas, fechar os olhos e partir sem rumo, pairar sobre as cidades, sobre as casas, como pássaro, estrelas, nuvem, fumo... Deve ser bom voar! Erguer os braços e acima dos telhados e dos ninhos, esquecer os sinais de inúteis passos, fugir ao pó de todos os caminhos... Mas onde as asas para assim voar, para subir às nuvens e às estrelas? As dos homens, são asas de matar... ...e as dos anjos, quem pode pretendê-las? Fernanda de Castro In “Trinta e Nove Poesias”