Artigo cientifico festa junina - nordestinidade no design

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Festa junina, uma relação social e cultural com a indústria do povo

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Artigo cientifico festa junina - nordestinidade no design

  1. 1. Festa junina, uma relação social e cultural com a indústria do povo Thyago Caminha B. de Oliveira¹ Philippe Pessoa Sobral²RESUMOEste artigo trata de um estudo sobre a Festa Junina, o maior evento turístico donordeste, visando relatar como se dá o planejamento estratégico do mesmo, que incluiprojeto, infra estrutura e estética e busca entender como a festa junina aderiu a umapostura urbano-industrial, perdendo sua identidade original e tornando-se produto daindústria cultural. Utilizou-se como metodologia as diferentes narrativas sobre a festajunina (organizadores, barraqueiros, participantes, mídia, entre outros). A partir delasprocurou-se mostrar o destaque que o evento adquiriu no meio social, sua importânciae quais os elementos que a compõe, assim como tudo que a envolve. Pudemosanalisar a posição do mediador sobre o evento e sua organização, e sua colocação nomeio da indústria cultural urbana se posicionando como produto e como resgate efirmação de uma cultura nordestina.Palavras-chave: Planejamento Estratégico. Evento. Cultura local. Nordeste. Festa Junina.¹ Aluno graduando em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do RioGrande do Norte - UFRN. email: thyagoca@hotmail.com² Aluno graduando em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do RioGrande do Norte - UFRN. email: pessoa-yo@hotmail.com
  2. 2. 21 - INTRODUÇÃO 1.1 Contextualização As festas juninas tem seu nome em homenagem a São João, embora girem em torno de três datas principais: 13 de junho, festa de Santo Antônio; 24 de junho, São João Batista e 29 de junho, São Pedro. As festas juninas brasileiras podem ser divididas em dois tipos distintos: as festas da Região Nordeste e as festas do Brasil caipira, ou seja, dos estados de São Paulo, Paraná (norte), Minas Gerais (sobretudo na parte sul) e Goiás. E por estas festas ocorrerem durante o mês de junho são chamadas de juninas. É interessante notar que não apenas o dia dos santos, propriamente dito, mas todo o mês é considerado como tempo consagrado e, principalmente, as vésperas, quando se realizam os sortilégios e simpatias, a parte mágica da festa, típica do catolicismo popular. 1.1.2 Diferenças Regionais Festas Juninas no Nordeste: Embora seja comemorado nos quatro cantos do Brasil, na região Nordeste as festas ganham mais expressão. No Nordeste brasileiro se comemora, com pequenas ou grandes festas que reúnem toda a comunidade e muitos turistas, com fartura de comidas típicas, quadrilhas, casamento matuto e muito forró. É comum os participantes das festas se vestirem de matuto, os homens com camisa quadriculada, calça remendada com panos coloridos, e chapéu de palha, e as mulheres com vestido colorido de chita e chapéu de palha. O baião, o xote, o reizado, o samba-de-coco e as cantigas são danças e canções típicas destas festas. Festas Juninas no Sul: Danças-das-fitas, de origem portuguesa e Espanhola, são a que mais animam a festa. Casais com a roupa caipira, bombachas e vestidos remendados, dançam cruzando fitas coloridas presas a um mastro. O gosto dos gaúchos pelas carnes não é esquecido, e o churrasco está sempre presente. Festas juninas no Sudeste: Tem o caipira com o chapéu de palha, calças remendadas, camisa xadrez e dente cariado, estilo country, e música sertaneja. 1.1.3 História das festas De acordo com historiadores, esta festividade foi trazida para o Brasil pelos portugueses, ainda durante o período colonial (época em que o Brasil foi colonizado e governado por Portugal). No Brasil, as festas juninas ocorrem desde o século XVI, trazida pelos jesuítas, tinham o intuito de atrair os indígenas para a mensagem catequizadora dos
  3. 3. 3padres, já que as festas Juninas coincidiam com o período em que os índiosrealizavam os rituais de fertilidade. Nesta época, havia uma grande influência de elementos culturaisportugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da França veio a dança marcada,característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicasquadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China, região de onde teriasurgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Da península Ibéricateria vindo a dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha. Todos estes elementos culturais foram, com o passar do tempo, misturando-se aos aspectos culturais dos brasileiros (indígenas, afro-brasileiros e imigranteseuropeus) nas diversas regiões do país, tomando características particulares emcada uma delas. As comemorações juninas foram agregando valores regionais, criandovariações da festa de acordo com a região, mas tendo em comum o louvor aossantos do mês de junho e dançar ao redor da fogueira. No Nordeste a festa eramarcada pelos figurinos usados, onde geralmente os brincantes utilizavam roupasvelhas e com remendos. Uma das partes das festas juninas mais comentadas é aquadrilha, porém não podemos utilizá-las como sinônimo, visto que as festasjuninas não se resumem as apresentações de quadrilhas, e sim a uma série dedetalhes que fazem do período junino uma grande festa. Dentre tantos detalhesque cercam a mesma, podemos citar as quermesses, simpatias, as decorações, osritmos e as comidas típicas que além da quadrilha dão um requinte a mais nasfestividades do mês de junho. Hoje em dia, podemos afirmar que as festas juninas perderam bastante da suaidentidade de festa rural, onde antes eram feitas apenas em comunidades locais eregionais, passando a serem festas empresariais, de grande amplitude edirecionado para as massas. A festa junina por uma visão significativa nos permiteuma re-elaboração dos conceitos de identidade regional e cultura local.1.2 A Festa junina na atualidade De origem rural, associado ao ciclo das colheitas agrícolas e ao calendárioreligioso, a festa junina possui características familiares baseadas nos costumesregionais. Ao longo dos processos históricos, com a migração da população do
  4. 4. 4campo para as cidades e com o aumento da industrialização, as características deevento familiar, realizado em espaço urbano que possuía as festas juninas,transformaram em um evento turístico, meramente comercial, tornando-se umespetáculo para as massas, assumindo caráter político, econômico e ideológico.Algumas festas juninas têm o formato de evento turístico, mas procuramincorporar componentes tradicionais, como podemos observar em algumas festasjuninas elementos como o casamento matuto, a noite das fogueiras, danças dasquadrilhas, passeio ferroviário, entre outros nos quais estejam presentes às raízesda cultura nordestina. A festa junina tem em sua identidade, diversas características da cultura locale regional, na qual tem suas bases na tradição nordestina. As imagens, sons,ritmos, crenças, valores, representações, práticas e manifestações, são elementosde forte tradição cultural e social, mas que nem sempre de fácil identificação desuas origens e até mesmo proveniente de várias raízes. A festa junina é um evento que agrega diversos valores culturais de diferentesprocedências e contextos em um único. Atualmente, o evento se tornou um mixcultural, pois uniu uma variedade de práticas sociais e elementos simbólicos taiscom: míticos, rurais, urbanos, tradicionais, modernos, sagrados, profanos, cujasuas significações unem-se uma as outras. Nos últimos anos o sentido religioso da festa perdeu espaço para os grandesespetáculos realizados nos principais polos do Nordeste, como Campina Grande,Caruaru, e até mesmo Mossoró. Mau ouvimos falar em simpatias e quermesses eo nome dos santos do ciclo junino só são lembrados como nomes quase quecomuns, deixando de lado o significado religioso de cada santo econsequentemente da festa. E essa perda de características da “quadrilhatradicional” não se resume somente ao teor religioso, mas também às mudançasnas músicas, ritmos, figurinos, personagens e praticas em geral, sem esquecer deuma das mais notórias mudanças que são os locais onde ocorrem asapresentações das quadrilhas. Que embora tentem trazer para o público umaimagem do sertanejo, com a montagem de cidades cenográficas onde retratemum pouco do cotidiano no sertão, a festa é tida como um espetáculo. Segundo Hugo Menezes Neto no artigo “Damas e Cavalheiros” (2006), foi apartir da década de 1980 que foram incluídos novos ritmos, cores e modelosestéticos. Podemos perceber que as modificações ocorridas nas festas juninas não seresumem somente nas roupas, músicas e coreografias que passaram a serexecutadas de forma mais individualizada, continua a tradição de dançar empares, mas mesmo dançando juntos tem desempenho diferenciado e sempreseguindo um padrão de comportamento masculino e feminino, assim como os
  5. 5. 5demais fatores onde podemos observar essas modificações, também podemosobservar estudar as mudanças nos arraias. As festas populares celebradas ganham novos aspectos nacontemporaneidade. Uma das maneiras de observarmos essas modificações é adistinção entre “Quadrilha Tradicional” e “Quadrilha Estilizada”, onde os figurinospassaram por diversas modificações. Essas mudanças não se resumem somente afigurinos, mas também, nas coreografias, a introdução das competições locais efestivais regionais e principalmente a criação de locais específicos para asapresentações das quadrilhas juninas. Assim como os figurinos e coreografias passaram por processos detransformação, os locais onde estas festas ocorriam também passaram por estamodificação, sendo que deixaram de ser festas em que reuniões familiares eamigos de uma comunidade em frente às suas casas e passaram a ser realizadaspor instituições e em locais estratégicos e de maneira comercial. Segundo Luiz Custódio da Silva: [...] os festejos juninos cada vez mais ocupamnovos cenários, novas formas de apresentação e de reinvenção no atual contextoda sociedade. Estratégias inovadoras estão sendo implementadas para que essasmanifestações sejam reinventadas e possam cumprir múltiplas funções nasociedade contemporânea. [...] não podemos negar a relação dessasmanifestações culturais com o processo de desenvolvimento do turismo, daeconomia, do comércio e para a implementação de novas políticas relacionadascom a revitalização da Cultura Popular na contemporaneidade. Antônio de Almeida e Gustavo Gutierrez (2004) afirmam que com odesenvolvimento da sociedade contemporânea, a indústria cultural confundiu-secom o lazer a ponto de serem empregados com sinonímia, o que leva a umafugentamento ainda maior das suas manifestações não consumistas como o lazerde rua, as relações interpessoais, a recordação das atividades antigas e as festaspopulares. Podemos concluir que a festa junina é a forma condensada da atualização daidentidade cultural regional. A festa popular, no nordeste está diretamenteligado ao lugar, à região, às raízes locais e aos valores culturais regionais,gerando aos participantes do evento o sentimentalismos de ser pertencente aolugar. Por isso a idéia veiculada é de que o São João é a marca do nordeste e dosnordestinos. Contudo, ela expressa e manifesta a nordestinidade, construindo umsentido que envolve um conjunto de narrativas produtoras e mediadoras,formando as noções de identidade regional e cultura nordestina.
  6. 6. 62 - A FESTA E SUAS NARRATIVAS As diversas narrativas da festa (mídia, organizadores, barraqueiros e participantes)mostram visivelmente o caráter mercadológico do evento, mas para que este sejavendável, apresentam alguns elementos “autênticos”, de forma que, o evento sejarecuperado e conservado, apresentando semelhanças com as raízes da cultura,tornando assim típicas. Alguns elementos por sua vez, introduzidos posteriormente,fora bastante criticados, exatamente por serem vistos como elementos dedescaracterização da festa e da tradição. Com isso, quando os participantes sereferem ao São João atual, ele aparece descaracterizado, diferentemente do São Joãodo passado, que mantêm seus elementos aparentemente intactos. De acordo com as narrativas dos barraqueiros, por exemplo, a festa deveriaconstar mais de bandas locais e regionais que tocassem e cantassem forró do quecontratar bandas conhecidas, que tocam a todos instante nas rádios, podendoprivilegiar assim, a cultura local, preservando as tradições e os valores da culturanordestina, chamando a atenção ainda mais do público. Ao avaliarmos esses diferentes pontos de vista, podemos perceber que há umadivergência nos olhar dos participantes do evento, tais como entre os barraqueiros eos organizadores com relação aos sentidos instituídos pela indústria cultural. Para osagentes do evento, os elementos tradicionais da festa do passado são constituídos porum caráter familiar, autênticos, originais e genuínos, estando associados à tradição eaos valores culturais local. Já nos eventos modernos, atuais, pode-se observar umavisão um pouco mais distorcida, com fogueiras artificiais, uma padronização dasbarracas, a estilização das quadrilhas entre outras inovações e elementos associadosao moderno, desvirtuando o ideal das tradições nordestinas. Os Grandes eventos atuais procuram fazer uma mistificação de elementostradicionais e modernos, aderindo ao modismo do mercado atual, no qual a indústriacultural tem um papel fundamental em sua adaptação e divulgação. A principal funçãodo evento consiste em resgatar as tradições contidas na dança do forró, no ritmo damúsica nordestina, na poesia popular e no seu folclore regional. Os elementosrepresentados pelos movimentos das quadrilhas através do canto, da dança, dacoreografia e das vestimentas, possibilitam a preservação da identidade culturalregional. A mídia, além de ser responsável por fazer a divulgação do evento, forma umavisão de mundo que trabalha os interesses de grupos sociais e jogos políticos, além doque reforça o discurso dos dirigentes que tem hegemonia local, em torno dosinteresses da sociedade, manipulando e moldando a informação para que melhor seja
  7. 7. 7aproveitada a favor do jogos de poder, influenciando assim na formação de umaopinião social e na formação de uma imagem pública, seja dos nordestinos, do eventoem si ou de quem o organiza. A narrativa publicitária, por exemplo, refere-se à festa junina como uma síntese doNordeste, da sua cultura e da sua gente. A festa é a expressão dos sonhos, daesperança e da fé dos nordestinos: (...) sem o que não poderá construir uma sociedadejusta e dinâmica, as cíclicas estiagens comprometem a colheita (...) Jamais a fécaracterística do nordestino. Em todo o Nordeste os santos são comemorados commuita reverência e festa. Eles são reverenciados nas igrejas e com muito forró.(MORIGI, 2001, p. 135). Os fatores midiáticos, mesmo trabalhando com jogos de informações emanipulando estes, transformam ideologicamente as opiniões sobre a cultura local eregional, e para aqueles que questionam a festa e o resgate de suas raízes e datradição, sempre é possível recuperar a nordestinidade e os valores autênticos dacultura nordestina, mesmo que seja através da simulação. Os eventos juninos são espetáculos direcionados as grande massas, comotambém é objeto de consumo, mas além disso, um objeto vivo, alvo das atenções dogovernantes que se apropriam da festa como mecanismo estratégico paramanipulação e manutenção ideológica, tratando o São João como um produtocultural regional que é capaz de resgatar as origens nordestinas.3 - DO PLANEJAMENTO E DA REALIZAÇÃO DO EVENTO O planejamento das grandes festas juninas quase sempre começa meses antes doevento, onde primeiramente ele é idealizado com tudo o que haverá no evento e comdetalhes pré definidos tais como: tema da festa, locais, datas e horários, música(shows e artistas), composição das barracas (de comida, bebidas, jogos e brincadeiras),decoração, danças (apresentações de quadrilha), trajes, etc. Logo em seguida faz-se oorçamento de tudo o que irá ser necessário para a realização da festa para depois,buscar os patrocinadores. A partir desse momento o organização se encarrega de seguir um roteiro deetapas a serem trabalhadas a começar pelo local de maior infra-estrutura do evento: oarraial (onde ocorre a maioria dos festejos juninos). Os arraiás possuem um largo espaço ao ar livre cercado ou não e onde barracassão erguidas unicamente para o evento, ou um galpão já existente com dependênciasjá construídas e adaptadas para a festa. Geralmente o arraial é decorado combandeirinhas (confeccionadas com papel colorido, jornais, revistas etc.), fogueira,
  8. 8. 8balões e palha de coqueiro. Nos arraiás acontecem as quadrilhas, os forrós, leilões,bingos e os casamentos matutos. Nas dependências encontramos também asbarraquinhas, famosas por suas comidas típicas, jogos e brincadeiras. Como exemplo de festa junina bem sucedida, podemos tomar o exemplo dacidade de Campina Grande (PB), onde se realiza desde o ano de 1983 o eventodenominado O Maior São João do Mundo que modifica substancialmente a cidadedurante trinta dias, às vezes até um período maior, dependendo do calendáriodeterminado pelos organizadores. Durante todo o mês de junho, os festejos juninossão intensamente comemorados, principalmente no Parque do Povo (arraial), atravésde uma multiplicidade de barracas com bebidas, comidas típicas, apresentação dequadrilhas juninas, tendências variadas de ritmos musicais, com predominância para oforró. Além dessas atrações, diariamente bandas e cantores diversos se apresentam nopalco principal do evento, geralmente a partir das 22h prolongando-se até às 4 damanhã. A cidade vive durante esse feriado em função das festas juninas. Outro exemplo de festa junina bem sucedida é o da cidade de Caruaru (PE). OSão João de lá acontece também durante 30 dias ininterruptos, ocupando uma área de40 mil m² do Parque de Eventos Luiz Gonzaga, onde cerca de R$ 6 milhões são gastosna mega estrutura montada pela prefeitura que inclui: 50 camarotes, dois palcosprincipais, 50km de bandeirinhas e muitos balões, 200 apresentações artísticas, oitoambientes distintos para os públicos infantil, adulto e terceira idade. O patrocínio vem da iniciativa privada e do governo federal e estadual. Mas deacordo com o organizador, Milton Santana, o investimento alto é recompensado. Maisde R$ 12 milhões são injetados na economia a partir dos negócios que são viabilizados.Cerca de 8 mil empregos são gerados e durante esse período os hotéis ficam com100% de ocupação na cidade, que chega a atrair cerca de 1,5 milhões de pessoas.“Alinhamos a festa junina, que é um dos acontecimentos mais importantes de nossacultura a um produto comercial imbatível”, define Santana, organizador do evento.4 - A FESTA JUNINA COMO EXPRESSÃO DA IDENTIDADE CULTURALNORDESTINA O São João como expressão da identidade cultural nordestina se manifesta dediferentes formas. Os organizadores se referem à festa como uma combinação dosdiferentes elementos que fazem parte da cultura regional, como uma expressãolegítima dos valores da identidade cultural nordestina. Eles tentam agregar a festa valores tradicionais e locais da cultura, formando umimaginário social que dá sustentação ideológica à ordem política, uma vez que se apelapara argumentos político-sociais da festa junina. A festa gera empregos, aumento daarrecadação municipal, podendo estes ser revertidos na melhoria da qualidade devida da população local. Nesse ângulo de visão, o São João é tratado como forma de
  9. 9. 9espetáculo, e o forró pé-de-serra, deixa de ser cultural e passa a tomar uma posiçãocomercial, e os espaços antes públicos e privados tornam-se ambientes comunspassando a agregar um valor comercial, para atender a um requisito do mercado e dasociedade de consumo. Desta forma, a festa junina pode ser tratada como um evento do povo onde seinserem projetos de vida, sonhos e promessas, como a de se devolver a autenticidadeda cultura nordestina e dos seus valores culturais. Essa noção de resgate, porexemplo, aplica-se ao forró pé-de-serra: ao reconstruírem determinados prédioshistóricos do centro da cidade, ao montarem um arraial, a Casa do Matuto, o SítioJoão, a Fazenda Santa Roza, entre outros elementos da narrativa popular que passama fazer parte do cenário do local de exposição da festa, os organizadores tentamrecuperar uma dimensão imaginária da festa da qual esses elementos sãocomponentes essenciais. A música e a dança são manifestações artísticas, e a sua reprodução se dá daseguinte forma: o forró pé-de-serra, por exemplo, é valorizado e considerado umelemento originário cultura nordestina, porque segue uma tradição de cantores ecompositores nordestinos, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, tidos como clássicosdo forró. A originalidade é creditada aqui como aquilo que está enraizado em umatradição que identifica esse objeto como sendo sempre igual e idêntico a si mesmo. OSão João é uma espécie de documento-monumento, ou seja é a preservação de umamemória. As narrativas orais, escritas e virtuais que passeiam pelo discurso datradição, dos valores regionais, da cultura nordestina e da sua identidade procurammostrar esse aspecto. Entretanto, as metáforas utilizadas para narrar a festa, taiscomo as narrativas da publicidade, da mídia, dos organizadores e dos participantes,não são suficientes. Nesse sentido, a decoração do espaço, através do conjunto deelementos que o compõe, abrange entre outros elementos que representam atradição da festa (balões, fogueira, bandeirolas...) e da cultura nordestina (forró,chapéus, instrumentos musicais...). A festa junina é um evento social que se propõe a abrigar em torno de si diversoselementos simbólicos da tradição nordestina, entre os quais o forró (a dança e amúsica). Como exemplo, podemos citar as constantes inovações que são promovidasno evento a cada ano. Os símbolos culturais presentes no cenário da festa referem-se à tradição dafesta e da cultura regional, como o casamento matuto, que se entrelaça tanto aouniverso simbólico do modo de vida rural quanto ao modo de vida urbano. Nessefestival eclético de imagens, estão os símbolos que representam a cultura regional,como o chapéu do cangaceiro, o candeeiro, a sanfona, as fotos de artistas da terra
  10. 10. 10que compartilham espaço com as imagens dos santos e das crenças que representamo povo. Assim, o São João é colocado muitas vezes como um evento monumental. Afesta é considerada uma representação máxima da tradição e da identidade culturalnordestina. Ao se privilegiar e recortar tais imagens e elementos da festa, objetiva-sepreservar a cultura nordestina. A festa não só possibilita o encontro do nordestino com suas raízes, suastradições culturais e sua identidade cultural, mas também permite expressar um estilode vida, uma estética, a nordestinidade. Por isso, na narrativa das gerações maisvelhas, que identifica a festa como o São João moderno, as inovações da festaconfundem-se e são encaradas como uma afronta aos valores culturais tradicionais,mas também como uma forma de atualização dos costumes locais e regionais. Assim, o objetivo maior da festa na teoria consiste em resgatar as tradiçõescontidas nos rituais da dança do forró, no ritmo da música nordestina, na poesiapopular e no seu folclore regional. Esses elementos colocados em movimento pelosgrupos folclóricos e quadrilhas, através do canto, da dança e das representaçõescoreográficas, possibilitam relembrar o passado e a tradição e, assim, preservar acultura regional. Porém há uma falha neste planejamento por parte dos organizadores, pois se apriori estamos falando de um evento que pretende ser o mais autêntico e original, ouseja, o retrato mais fiel da tradição e da cultura nordestina, não podemos resgatarestes valores tradicionais e da nossa cultura se ao mesmo tempo estamos lidando econcorrendo com outros projetos ainda maiores, como a da industrial cultural. A tradição não consegue ser representada em seus sentidos autênticos,genuínos, originais de forma plena, mas persiste nos imaginários dos agentes sociais.Por outro lado, o projeto modernizador também não atinge seu domínio completo,pois depende das significações dos agentes para se tornar concluso. É no processointerativo, na dialética entre os projetos e seus desdobramentos, que os novossignificados da festa são reinventados e instituídos.
  11. 11. 115 - CONCLUSÕES Podemos dizer que atualmente a festa junina não se encaixa apenas como umevento religioso, de celebração e de resgate da cultura regional, ela faz parte de umaindústria cultural na qual envolve diversos fatores de caráter político, religioso esocial. Por um lado podemos fazer relação a política do “Pão e Circo” no qual ospolíticos e personalidades da alta burguesia se utilizam do evento para mudar o focodas críticas e fazer a população “esquecer” dos problemas sociais e físicos do meio,enquanto se entretém com o evento (que move toda uma economia regional, como éo caso de Campina Grande/PB e Caruaru/PE) e passando a puxar o foco parapromoção pessoal, ganhando assim, um certo status na sociedade. Por outro lado,temos toda uma movimentação da economia local, beneficiando a todos, seja na áreado turismo, do comercio ou de alimentos. Contudo, podemos avaliar que as festas juninas são de grande importância paraa sociedade, seja ela de forma cultural ou industrial (já que os ambos sãobeneficiados), no comercio com toda a movimentação econômica entorno do evento,de sua organização e divulgação, social por ser um evento de caráter público eenvolver toda a população seja esta participando parcialmente (de fora do evento) ouparticipando diretamente do evento, no resgate da cultura, busca pelas raízesnordestinas, divulgação do nordeste e afirmação da cultura e do caráter nordestino. O São João do Nordeste, mesmo ligado à indústria do lazer e da cultura da qualfaz parte, é uma tentativa de reconstrução do passado, colocando-se como retratoatual da manifestação tradicional da cultura nordestina. Por isso, a sua preservação é,em partes, uma forma de resgate das raízes e origens dessa cultura, relembrando oscostumes e dando ênfase as tradições ligadas a região, ao mesmo tempo em que estarevela os traços da nordestinidade no presente. Essas construções que consideram afesta junina como representação da cultura e da identidade do Nordeste e dosnordestinos, na qual a mídia exerce um papel fundamental, fazendo circular taisrepresentações, baseiam-se no imaginário tradicional da festa e do seu passado, cujoselementos míticos, religiosos, folclóricos da cultura regional, ao serem inventados ereinventados, sustentam e dão continuidade ao imaginário da festa e à sua significaçãono presente.
  12. 12. 12Referências bibliográficas _______. Festa junina. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_junina. Acessado em 29 de novembro de 2011. LIMA, Elizabeth Christina de Andrade. A fábrica de sonhos: a festa do Maior São João do Mundo – Campina Grande – PB. Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, 2001. Tese de doutoramento. LUCENA FILHO, Severino Alves de. A festa junina em Campina Grande – Paraíba: evento gerador de discursos organizacionais no contexto do Folkmarketing. PortoAlegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2005 ______. O São João de Campina Grande: um acontecimento folkmidiático. Unisinos –Rio Grande do Sul, 2001. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e históriada cultura. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997.HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. (Org.). A Invenção das tradições . 2 ed. Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1997. (Col. Pensamento Crítico, 55). MORIGI, Valdir Jose. Imagens recortadas, tradições reinventadas: as narrativas da festajunina em Campina Grande-PB. 2001. 345 p. Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade deFilosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

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