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  UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB
    DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV
              COLEGIADO DE HISTÓRIA




             JAIR MOTA JUNQUEIRA




FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS DE 1990 A
                    2011




                 Conceição do Coité
                       2011
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             JAIR MOTA JUNQUEIRA




FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS DE 1990 A
                      2011




                 Artigo apresentado ao Departamento de Educação do
                 Estado da Bahia (UNEB), curso de licenciatura em
                 História, como parte do processo avaliativo para
                 obtenção do grau de Licenciado em História.


                 Orientadora: Prof. Ms. Adriana Teles Boudoux




                Conceição do Coité
                      2011
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         FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS 1990 A 2011

                                                                         Jair Mota Junqueira1


RESUMO


      A festa revela não apenas os momentos festivos de uma localidade, mas também
as vivências cotidianas, suas identidades, valores e tensões. O artigo discute as
festividades no mês de Junho, enfatizando o São João, focando o distrito de Bandiaçu2
no município de Conceição do Coité dos anos 1990 a 2011. Para tanto, são analisadas as
imbricações entre as esferas sagradas e profanas; as relações políticas existentes nessa
festividade; continuidades, mudanças e dificuldades que se efetivaram ao longo dos
anos. O objetivo será entender suas origens e perpetuação, recorrendo, portanto, às
narrativas dos participantes bem como registros fotográficos.

Palavras-Chave: Festas Juninas. Sagrado. Profano. Política.


ABSTRACT


      The party reveals not only the festive moments of a locality, but also the daily
experiences, their identities, values and tensions. The article discusses the festivities in
June, focusing on John, focusing on the district Bandiaçu in the municipality of
Conceição do Coité the years 1990-2011. To this end, we analyze the interplay between
sacred and secular spheres, the political relations existing at that feast; continuities,
changes and difficulties that they conducted over the years. The goal is to understand its
origins and perpetuation, using, hence the participants' narratives as well as
photographs.


Keywards: State Fairs. Sacred. Profane. Politics.




¹ Estudante do curso de História da Universidade do Estado da Bahia, Campus XIV. Pesquisa
desenvolvida sob orientação da Professora Adriana Teles Boudoux.
2
  Esse distrito situa-se no município de Conceição do Coité, em pleno semi-árido nordestino. Está a cerca
de 10 km da sede. Sua economia baseia-se na agropecuária, nos benefícios do INSS e mais recentemente,
nos valores repassados pelo governo federal através do programa Bolsa Família. (IBGE, 2010).
4



Considerações introdutórias



     Este artigo tratará sobre festejos juninos no distrito de Bandiaçu dos anos 1990 a
2011. Esse recorte temporal dá-se pela incorporação de algumas novidades nos festejos
nesse período. Será dada ênfase à festa de São João, que é a manifestação mais
comemorada. Percebe-se, após algumas leituras, que os festejos do mês de Junho (Santo
Antônio, São João e São Pedro), de forma geral, são tratados como O São João, por
alguns autores, na mídia, em propagandas e principalmente entre os populares, não
havendo, portanto, uma distinção acentuada na comemoração dos santos.
     Também será analisado o famoso Rapa, uma tradição que, ao que tudo indica,
teria sido iniciada na localidade no dia 25 de Junho, entre os anos de 1967/68 por
populares que, inconformados com o final das festas, resolveram sair de casa em casa,
recolhendo as comidas e bebidas que haviam sobrado das comemorações. Essa
manifestação encontra-se em crise desde início do século XXI, quando apareceram os
primeiros sinais da “decadência”, percebida após sucessivos períodos de diminuição na
quantidade de adeptos, que talvez tenha ocorrido pela concorrência de povoados
vizinhos, os quais passaram a copiá-lo, e da má organização facilmente percebida no
evento.
     O objetivo do trabalho é perceber como se deu a introdução dos festejos locais,
suas permanências, mudanças e influências, dialogando com manifestações análogas em
diferentes lugares, percebendo e discutindo semelhanças e diferenças culturais e
regionais.
     Foram utilizados livros, artigos, textos e imagens que tratam sobre o conteúdo de
maneira geral. Porém, como não existe nenhum trabalho sobre o assunto específico da
localidade, entrei em contato com moradores locais que presenciaram os fatos, assim,
através da oralidade, buscarei preencher as lacunas deixadas pela ausência de
documentação escrita.
     A história oral, segundo Paul Thompson, é a interpretação da história e das
mutáveis sociedades e culturas através da escuta das pessoas e do registro de suas
lembranças e experiências. Esta surgiu no século XX, com o intuito de diversificar as
fontes e somar-se às escritas. Em muitos casos, é o único meio de registrar e analisar
costumes e hábitos que não dispõem de documentos escritos. Porém, ela é seletiva,
estando sujeita tanto a esquecimentos, quanto a acréscimos e silêncios.
5



Origens do São João e sua inserção no Brasil e em Bandiaçu

     Segundo Campos (2007, apud Araújo, 1957; 1973), os estudiosos situam as
origens das comemorações juninas entre os povos arianos e os romanos, na Europa, na
Idade Antiga. As festas eram consideradas parte dos rituais de celebração da passagem
para o verão (inverno no Hemisfério Sul). A população rural promovia as festas para
afastar os espíritos maus que provocavam a esterilidade da terra, as pestes nos cereais e
as estiagens. No decorrer da Idade Média, a festa foi cristianizada e a Igreja Católica
deu-lhe como padroeiros os santos cujas datas localizam-se na época da mudança de
estação.
     Chianca (2009) comenta que o São João passou a ser comemorado na Europa a
partir do nascimento de João Batista, no dia 24 de Junho. A fogueira que o representa
teria sido acesa por ordem de sua mãe Isabel para avisar a Maria, sua prima e mãe de
Jesus, que se encontrava em outro ponto do vilarejo, que havia dado a luz.
     De acordo com Chianca (2009), buscando manter a hegemonia, evitando práticas
que pudessem distanciar os fiéis de seus dogmas, a Igreja Católica reagiu de forma
áspera à prática de acendimento das fogueiras que eram tidas como rituais pré-cristãos,
portanto, símbolo do paganismo. Eram acesas nos cultos solares no dia com maior
duração da luminosidade, no caso, 21 de Junho, simbolizando a vitória da luz e do calor
sobre a escuridão e o frio.
     Ainda na visão da autora, inúmeras tentativas frustradas do alto clero, no sentido
de banir as práticas pagãs, consideradas satânicas, foram revistas somente no Concílio
de Trento (1545-1563) onde, após muitas opiniões contrárias, a Igreja resolveu
incorporar as fogueiras. Considerou-as “fogos eclesiásticos”, sendo banidas as
superstições, e o fogo sendo resignificado como sinônimo de purificação e símbolo da
Inquisição.
     Chianca (2009) explana que, no século XVI, com a recente chegada dos
portugueses e como forma de aproximação e catequização dos povos indígenas, os
colonizadores souberam utilizar-se muito bem das fogueiras, há muito usadas pelos
nativos, e dos fogos que impressionavam e despertava a simpatia dos índios. Porém
após mais uma série de discussões no seio da religião predominante, as fogueiras e os
fogos foram proibidos desde 1641, até meados do século XX. Diante das proibições, as
festas ocorriam com grande vigilância do clero, que buscava identificar e punir práticas
6

pagãs, como fogueiras, fogos, adivinhações, batismos e casamentos de fogueiras.
Verifica-se muita resistência no que se refere às mudanças, principalmente por parte da
ala mais conservadora da Instituição, os quais se colocam radicalmente contra ritos
pagãos nos festejos.
     Soihet (2005) remete ao pensamento do padre José Maria Martins Alves da Rocha
a respeito das festas populares de cunho pagão:

                        Tais festejos não significam regozijo e muito menos idéia de religião,
                        e nem recomenda a nossa civilização. Servir-se de atos de religião
                        para dar-se à crápula, à embriaguez, ao jogo, a todos os vícios enfim,
                        é a maior das ofensas que se possa fazer à religião, é voltar-se ao
                        paganismo, é negar-se a fé. (Rocha apud SOIHET, 2005, p. 351).


     Apesar de terem sido introduzidos no Brasil por povos europeus responsáveis pela
colonização do território, os festejos sofreram várias influências da cultura local. Tais
incorporações devem-se, segundo Darcy Ribeiro (2000), à singularidade da população
brasileira que foi formada a partir de etnias bastante diferenciadas e, consequentemente,
de diferentes culturas, o que de forma positiva contribuiu com vários ritmos, crenças e
sabores. Dentre as incorporações realizadas no São João brasileiro, está o costume de
nesse período consumir-se aipim, amendoim, milho e derivados (pamonha, canjica,
cuscuz, bolos de milho, mingau, mugunzá), jenipapo, cajá, umbu que são muito
utilizados na fabricação de licores, coco e derivados (cocadas, leite de coco), beiju e
tapioca no Norte, pinhão no Sul, pão de queijo no Sudeste. Como afirma Russo (2003),
outras manifestações como o Forró, Tambor-de-crioula, Boi-bumbá também são
manifestações nacionais. Há ainda, a tradicional quadrilha que, apesar de ser de origem
francesa, também sofreu influências nas letras das músicas, nas danças e na inserção de
novos personagens, como o caipira ou matuto, sertanejo, tabaréu etc.
     Segundo Campos (2007), em períodos juninos no meio urbano, indivíduos se
caracterizam de caipiras, os quais são apresentados com vários estereótipos: dentes
falhados, roupas rasgadas e remendadas e forma de falar de maneira incorreta. Afirma
ainda que muitos centros escolares nesse período, talvez de forma impensada,
estimulam os alunos a incorporar diversos preconceitos. O camponês é visto como
atrasado e ignorante. Deve-se trabalhar na expectativa de difundir as diferentes culturas
existentes em nosso país, no sentido de divulgá-las positivamente.
     Em Bandiaçu não é diferente. Apesar de se encontrar numa região totalmente
rural, percebe-se a difusão da imagem do indivíduo do campo de forma estereotipada.
7

Nas apresentações juninas, principalmente nas escolas, notam-se pessoas caracterizadas
de matutos com dentes cariados, mal trapilho e deselegantes ao andar e falar. Deve-se
compreender que as necessidades enfrentadas pelas pessoas da zona rural são oriundas
de um país desigual, carente de reforma agrária, saúde e educação. A importantíssima
diversidade cultural existente no Brasil, é fruto justamente das diferenças culturais que o
formaram, daí, a pluralidade da nossa cultura e a singularidade do povo brasileiro.
         Júlio Grigório, morador do distrito há 80 anos, afirma que a tradição de
comemorar o dia de São João em Bandiaçu teria sido iniciada no final da década de 40,
por volta de 1947/1948. Seguindo o calendário dos santos do catolicismo, muitas
famílias tinham o hábito de acender fogueiras e consumir milho e seus derivados
(pamonha canjica, cuscuz, bolo, mingau, mugunzá), e diversos tipos de licores, ao som
do autêntico Forró, que tinha como instrumentos musicais a sanfona, zabumba,
triângulo, pandeiro e ganzá3. Na comemoração eram soltos pequenos fogos de artifícios,
símbolo da alegria e da comemoração do nascimento do santo.
         Segundo o senhor Gregório Anselmo, um dos mais antigos moradores da
localidade; “era uma festa que acontecia entre parentes, cumpades e amigos, onde todos
dançava, cumia, bebia e se divertia               sem nenhuma confusão”. (Entrevistado em
08/07/2011).
         De acordo com o senhor Jorge, morador local, no final da década de 1980,
passaram a ser contratados grupos musicais que inicialmente tocavam no chão,
contando logo após com um caminhão como suporte para os instrumentos musicais e
cantores. Somente por volta da segunda metade da década de 1990, o caminhão foi
substituído por um palco.
         A alvorada consiste no costume de soltar uma grande quantidade de fogos em
seqüência. O senhor Antônio, um dos primeiros organizadores dessa prática, afirma que
ela teria sido iniciada no início da década de 70, onde as pequenas bombas eram
hegemônicas devido à ausência de outros fogos que provocasse estouros. As bombas
eram montadas uma a uma, sendo que havia duas fileiras separadas por mais ou menos
um centímetro de distância, unidas por certa quantidade de pólvora que servia para
desencadear as explosões simultaneamente. Havia a necessidade de que, no término de
uma alvorada, fosse montada rapidamente a posterior. Já que eram milhares de




3
    Instrumento musical confeccionado com tampas de garrafa, arame e madeira.
8

pequenas bombas que dava muito trabalho para serem organizadas. Assim, garantia-se
as explosões no horário programado.
     De acordo com o senhor Antônio, a Alvorada contava com a contribuição de
populares para compra do material. Somente no limiar da década de 90 passou a ser
custeada pela Prefeitura Municipal. Nesse mesmo período, iniciou-se a prática de
ordenar a queima de fogos. Dessa forma, a primeira queima teria início às 00:00h, do
dia 22, seguida por mais quatro queimas que seriam desencadeadas a cada uma hora,
portanto, até às 05:00h da manhã.
     Somente por volta de 1998/1999, houve uma modificação que viria a facilitar a
montagem e a queima de fogos. As pequenas bombas foram substituídas por fogos mais
modernos que, além de facilitar a arrumação, trouxeram algo além das simples
explosões provocadas pelas bombas. Cascatas de luzes com cores variadas
acompanhadas de longos assovios passaram a abrilhantar ainda mais o espetáculo. (Ver
imagens 1 e 2).
     Outra manifestação bastante difundida são as quadrilhas juninas, que, segundo
Chianca (2009), vieram para o Brasil juntamente com a Corte portuguesa em 1808.
Estas não eram exclusivas do mês de Junho, pois animava os carnavais e festas de salão
realizadas pelos círculos sociais da monarquia. Após a queda do regime, as quadrilhas
saíram de cena pelo menos até 1950, quando ressurgiram com a substituição dos
elegantes nobres pelos matutos e caipiras.
     As quadrilhas em Bandiaçu, segundo a professora Joana Angélica, passaram a
acontecer de forma periódica na década de 90. Essa sempre ocorreu na noite do dia 22,
abrindo a festa. Porém, por volta de 2003, iniciou-se a tradição de dançar quadrilha
também no dia 21, à noite, passando a transformar-se na abertura do evento.
     Existem dois tipos de quadrilha que se apresentam no São João: a tradicional e,
mais recentemente, as que vêm ocorrendo aproximadamente desde 2005, onde se
verifica mudanças no que concerne às roupas e músicas utilizadas. Estas últimas
receberam influências de diversos estilos como Rip Rop, Axé, internacional, forró
tradicional e universitário. Tais alterações buscam inovar na maneira de apresentação da
dança, coexistindo com a forma tradicional. (Ver imagens 3 e 4).
9

      São João e diversidade cultural


     Como afirma Pinto (2010), as festas a partir de 1970 passaram a ser vistas pela
historiografia, com uma atenção mais constante e inovadora. Isso se deu graças ao
trabalho de historiadores vinculados à História Social que resgataram tanto a
perspectiva do mundo da cultura na história, quanto a perspectiva da “história vista de
baixo”. A festa, como objeto de estudo, pertence ao campo historiográfico da História
Cultural. Esta, apesar de rotulada recentemente, é herdeira de uma longa trajetória, cujo
início deu-se através da Escola dos Annales, nas primeiras décadas do século XX e,
mais diretamente, como afirma Cecília Azevedo (2003 apud PINTO, 2010), na crise do
paradigma economicista da década de 1960. O abandono das grandes teorias
estruturalistas foi responsável pelo desmoronamento da visão mecânica das sociedades,
permitindo abordagens etnográficas na História, colocando em foco a consciência, as
tensões, as atitudes e as crenças dos atores sociais.
     Ribeiro (2000) comenta que a cultura popular representada pela participação
maciça das pessoas de menor poder aquisitivo e personificada através de expressões
como danças, crenças, hábitos e vestimentas, recebeu em diferentes momentos críticas
por parte das elites que restringiam a idéia de civilidade a uma simples cópia de
modelos importados da Europa. De acordo com essa visão estereotipada, as
manifestações oriundas de membros da cultura popular são consideradas atrasadas e
objeto da mais densa ignorância. Porém, mesmo diante de críticas ferozes feitas outrora,
as elites dos países periféricos acabam fazendo uma mescla entre a cultura européia
vista como superior e a cultura oriunda das misturas étnicas que se deram no processo
de formação da cultura brasileira.
     A cultura popular na visão de Carlo Ginzburg (1987) se caracteriza da seguinte
forma:

                         “Cultura popular se define, de um lado, pela oposição à cultura
                         letrada das classes dominantes; por outro lado, pelas relações que
                         mantém com a cultura dominante, filtradas pelas classes subalternas
                         de acordo com seus próprios valores e condições de vida. A cultura
                         letrada, por seu turno, igualmente filtra de acordo com suas
                         características, os elementos da cultura popular”. (p. 17).

     Ginzburg esclarece que apesar do distanciamento entre a cultura popular e a
cultura letrada, em diferentes momentos e, utilizando-se das especificidades existentes
em cada grupo, ocorrem certas trocas e incorporações de elementos entre as duas.
10

     Como explana Bakhtin (2008), as festas oficiais tendiam a consagrar a
estabilidade, a imutabilidade e as perenidades das regras que regiam o mundo:
hierarquias, valores, normas e tabus religiosos, políticos e morais. Funcionava como o
triunfo da verdade pré-fabricada, vitoriosa e dominante, assumindo aparência de uma
verdade eterna. Davam-se geralmente em palácios, clubes e templos, tendo como
referência a cultura letrada de origem européia. Restando aos excluídos reunir-se na
praça pública, e aí, expressar seus costumes, crenças, angústias e aspirações, geralmente
indo de encontro à visão de cultura existente entre as elites.
     Levando-se em consideração o espaço temporal e os diferentes contextos
históricos, as festas juninas em Bandiaçu e, principalmente o Rapa, se assemelham
bastante com a visão Baktiniana sobre as manifestações populares, pois, pelo menos
nesses dias, as ruas são ocupadas pelos menos favorecidos e, através do consumo
exagerado de álcool e do comportamento considerado deselegante pelos que se
comportam como superiores, principalmente no Rapa, são expressas as tensões,
resistências e indignações do povo.
     Estudando a diversidade de significados e práticas nos festejos juninos, Aldé
(2009) afirma que no candomblé escolheram Xangô, orixá equivalente a São João, para
representar o santo católico no período das festas juninas. Esse orixá representa o
elemento fogo no candomblé. Em um ritual denominado ajerê, em transe, os adeptos da
Religião recebem o santo. Colocam na cabeça uma panela cheia de óleo ou brasa
fervente dançando e atravessando a roda sem se queimar. Outra prática comum é
caminharem descalços sobre as cinzas incandescentes da fogueira.
     Ainda segundo Aldé (2009), no pantanal sul-mato-grossense, diferente do que
ocorre em todo nordeste, não há quadrilha nem Forró. Comemora-se ao som de uma
dança típica da fronteira denominada cururu, de origem guarani. Como as cheias e as
vazantes, coordenam o cotidiano nessa parte do país, ao invés de acenderem-se
fogueiras, fazem uma procissão, onde as diversas imagens de São João são levadas até o
rio mais próximo para o tradicional banho, numa alusão ao batismo de Jesus realizado
por João Batista no Rio Jordão.
     Em Corumbá, segundo Souza (2004), ocorre uma inversão no que diz respeito ao
santo considerado casamenteiro. Enquanto em diversas outras áreas, inclusive no
nordeste, santo Antônio é reverenciado pelas mulheres que desejam arranjar um marido,
portanto, sendo considerado o santo casamenteiro, em Corumbá as moças que desejam
casar fazem promessas e simpatias para São João.
11

     No sul do país, como prosperou a mescla de uma cultura dos povos da fronteira
com imigrantes alemães, italianos e poloneses, como explana Darcy Ribeiro (2000), em
seu documentário “A Invenção do Brasil”, as danças que ditam o ritmo do São João,
principalmente no Rio Grande do Sul, são o Cateretê e o fandango. Ao invés de roupas
caipiras como se usam nas quadrilhas do nordeste, usa-se o tradicional traje gaúcho.
     De acordo com Batista (2008), outra forma bastante peculiar de comemorar o mês
junino é o Boi- Bumbá de Parintins, no estado do Amazonas. A festa é realizada nos
dias 28, 29 e 30 de Junho, na Ilha de Tupinambarama. Lá, ocorre uma grande disputa
entre o boi Caprichoso e o Garantido. No espetáculo que ocorre no bumbódromo, são
apresentadas lendas da Amazônia encenadas por tribos indígenas, sobre cobras gigantes,
onças de fogo e pássaros que trazem a noite. As rivalidades são tão acentuadas, que no
bumbódromo nenhum torcedor pode ultrapassar a linha que divide as duas torcidas,
caso contrário, são hostilizados ou vítimas de violência.
     O autor comenta ainda sobre a grande rivalidade entre Caruaru/PE, e Campina
Grande/PB, na disputa pelo maior São João do Mundo. Numa festa onde o objetivo
principal é a atração de turistas, notam-se certos exageros na perspectiva de
impressionar os visitantes. Em Caruaru é montada a Vila do Forró, cidade cenográfica, e
representações humanas que tentam imitar o clima e a cultura material das cidades
interioranas. Encontram-se casas coloridas, delegacia, subprefeitura, posto bancário,
mercearia, igrejinha e restaurante. Encontra-se também a maior fogueira do Mundo,
com mais 17 metros de altura, o maior cuscuz do Mundo com 700 quilos de massa, 3,3
metros de altura e 1,5 metros de diâmetro e a maior pamonha do mundo, esta última
com 600 quilos, inclusive, reconhecida pelo Guiness Book, na edição de 1997.
     De acordo com Aldé (2009), apesar de não contar com cuscuz, pamonha e
fogueira tão gigantes como os encontrados em Caruaru, Campina Grande expõe três
grandes maquetes que reproduzem construções importantes para a história da cidade,
além, de exibir uma decoração ímpar. Comenta Batista (2008) que o investimento em
publicidade e propaganda em Campina Grande é superior ao que se investe em Caruaru,
assim, em termos de quantidade de visitantes, acaba levando vantagem.
      Guardado os exageros, no que se refere às exposições de elementos da cultura
popular nordestina apresentados na Vila do forró, onde se percebe o homem do interior
e seu cotidiano, Bandiaçu se assemelha bastante a Caruaru, já que também expõe
através tanto de bonecos de pano quanto do ambiente, o homem do campo e seu
trabalho diário (Ver imagens 5, 6, 7 e 8).
12

     A questão da representação com figuras típicas da cultura nordestina, a exemplo
do homem interiorano e dos alimentos utilizados nesse período, como o milho e seus
derivados, e até pelas diferenças étnicas, geográficas e culturais, caracteriza o São João
do nordeste de forma bastante diferenciada do que ocorre no Rio Grande do Sul e em
Corumbá.
     Em um país com tanta diversidade étnica, cultural e religiosa, não é de se
estranhar a pluralidade de seu povo, de suas crenças e manifestações. Portanto,
percebem-se diferentes formas de comemorações e ritos, principalmente no que
concerne às festas juninas.


O espírito do São João em Bandiaçu


     O mês de Junho para o distrito de Bandiaçu é o período mais esperado pelos
moradores. Apesar dos festejos serem tradicionalmente iniciados apenas no dia 22, e
mais recentemente no dia 21, nota-se um cenário que leva a comentários e expectativas
sobre a realização e o possível sucesso da festa.
     Cerca de quinze dias antes da data esperada são iniciados os primeiros
preparativos, tanto no sentido da divulgação realizada através da emissora de rádio local
e de cartazes, (Ver imagem 9 ), quanto de enfeitar a praça com bandeirolas e balões que
são símbolos do São João. E, mais recentemente, imagens de caipiras, que representam
o homem da região. (Rever imagens 5 e 6 ). Casa de farinha representando uma cultura
bastante conhecida na região, que é o cultivo e o beneficiamento da mandioca, raiz da
qual se extrai a farinha e a goma utilizada para fazer biju e tapioca. (Rever imagem 7).
À mandioca devem-se muitas vidas salvas em períodos de longas secas. E por último, o
motor de sisal que expressa uma cultura bastante popular na região. (Rever imagem 8).
Responsável durante muito tempo pelo sustento de diversas famílias, as quais eram
obrigadas a trabalhar durante longas horas no cultivo e beneficiamento do sisal. Em
muitos casos, era o único meio de emprego existente. Atualmente o cultivo da fibra
encontra-se quase que em extinção, sendo reduzida a algumas poucas propriedades.
     Esses dias de preparação são acompanhados de pequenas reuniões que ocorrem
entre pessoas que discutem a respeito da festa em bares, mercadinhos, residências e na
própria praça, palco central das comemorações. Existe todo um clima de tensão,
otimismos e pessimismos sobre a realização do evento. Nota-se entre as pessoas muito
13

receio no sentido de que a festa não corresponda às expectativas em termos de
organização, público e atrações musicais.
     Geralmente, na véspera, a praça já está preparada para a execução das
manifestações. Assim, tem-se a constatação de que a tensão e os comentários
pessimistas ou otimistas que ocorrem de forma corriqueira todos os anos, não passam de
cogitações dos bandiaçuenses, que nada mais querem do que curtir esse período de
forma bastante divertida entre familiares e amigos. Essa ocasião também é marcada pelo
reencontro de pessoas que muitas vezes só se encontram nesse período. Ouvem-se
facilmente comentários de conterrâneos que trabalham em locais distantes e, muitas
vezes fora do estado, que afirmam ter planejado desde o início do ano sua vinda ao São
João da terra natal. O autor Batista (2008) lança o seguinte comentário:


                         [...] Muitos nordestinos que se encontram fora de seus estados
                        costumam economizar dinheiro, comprar presentes e voltar com eles
                        para sua cidade natal na época das festas juninas, a fim de comemorar
                        os santos. No sudeste é comum que nordestinos abandonem seus
                        empregos, faltem por toda uma quinzena, peçam licença ou
                        ofereçam-se para trocar o período do natal por alguns dias de folga
                        em Junho, ou ainda negociem suas férias para gozá-las no meio do
                        ano e poderem estar presentes às festas juninas, em sua terra [...]
                        (p.1).

      Nota-se a cada ano o aumento na quantidade de pessoas que vem apreciar a festa,
isso pelo menos nos dias 22, 23 e 24, já que o Rapa no dia 25 tem enfrentado
dificuldades no sentido de diminuição na quantidade de foliões. As comunidades
adjacentes têm presença garantida. (Ver imagens 10). As pessoas se divertem sem medo
de acharem-se ridículos, com a plena sensação de liberdade e, muitas vezes de volta aos
tempos de criança. Isso pelo menos entre as classes mais populares, pois as elites fazem
questão de manter as aparências, conservando certo ar de superioridade.


Relações políticas e sociais na festa


     Esse período, além de ser repleto de comemorações, danças, degustação de
comidas típicas e muita diversão, ainda transforma-se em terreno fértil para a atuação de
políticos oportunistas que atuam de diversas formas, principalmente na especulação de
possíveis contribuições dadas para a realização do evento. Assim, ocorrem as
articulações na tentativa de aumentar a visibilidade ao máximo diante do eleitorado,
14

pois essa presença, principalmente nos anos em que ocorrem os pleitos eleitorais, é
fundamental para o sucesso nas urnas. O professor Josemar afirma que: “Aquele que
promove o São João fica bem visto na sociedade. Pois a festa só existe pela boa vontade
dessa pessoa. Existe uma espécie de endeusamento do responsável pelo São João”.
(Entrevista realizada em 16/08/2011).
     Nesses momentos festivos e de escolha dos representantes, nota-se algo muito
diferente do que acontece durante praticamente todo o mandato dos que são eleitos. Há
uma estranha disponibilidade, acessibilidade e gentileza por parte dos políticos. Em
virtude de tanta vontade de ajudar na festa, ocorrem grandes divergências por parte de
aliados e opositores, pois, na tentativa de encontrar o reconhecimento dos eleitores não
se medem esforços. Todos tentam desesperadamente contribuir, seja com a contratação
de grupos musicais, de uma aparelhagem sonora de melhor qualidade, de um palco mais
espaçoso, e até mesmo, da distribuição gratuita de bebidas, prática essa, bastante
difundida em nossa região. Absolutamente tudo é válido na captura desesperada pela
maior quantidade possível de votos. Esse período transforma-se no momento oportuno
de ter e manter contato com figuras públicas que permanecem ausentes por longos
períodos. E que, adotando um comportamento não corriqueiro se misturam com o povo
para festejar. É o que pode ser percebido na fala do deputado federal José Carlos Aleluia
(PFL-BA): “Viajo nesta quarta-feira pela manhã para a Bahia, passo o São João no
carro, visito os arraias e quadrilhas em cerca de dez municípios distribuídos por cerca de
200 km do interior [...] se eu não for, não me reelejo”. (Folha de São Paulo,
21/06/1993).
     A declaração do deputado Aleluia, se alterada para um contexto menor, no caso,
as disputas para as eleições municipais tanto para o executivo e, principalmente, para o
legislativo, representa perfeitamente a realidade do município de Conceição do Coité.
     Já nos anos posteriores às eleições, nota-se certo jogo de empurra, ou seja, em
virtude dos insucessos nas urnas diminuem-se muito aquele espírito de gentileza e
contribuição. Para os que saíram vitoriosos nas eleições resta ajudar na festa sem perder
a oportunidade de usar um discurso superior e paternalista, como se estivessem
prestando um grande favor à comunidade. Esta dimensão política da festa é vista de
forma negativa por alguns participantes; como dona Marilza:


                        “A politicagem está atrapalhando a festa. O fato de ter uma pessoa
                        muito ligada a um grupo político, que está guiando, está deixando a
15

                        desejar, pois, outras pessoas que são do partido político contrário
                        estão deixando de participar das comemorações e, principalmente do
                        Rapa. Antigamente não tinha muito isso. A comunidade toda
                        acompanhava”. (Entrevista realizada em 10/08/2011).

     Infelizmente, o que é colocado em primeiro plano não é a permanência de uma
tradição, e sim os interesses na aquisição de votos, o que acaba provocando divisões que
prejudicam o desenrolar do evento. Desse modo, na visão dos políticos, como requisito
básico na escolha dos representantes legislativos locais, o candidato deve se doar de
corpo e alma à organização dos festejos juninos, caso contrário, corre o risco de perder
ou não alcançar o status de vereador do município.
      Parcela da população que muitas vezes se deixam guiar por ideologias partidárias,
não compreende que o incentivo à cultura é de obrigação da União, Estados e
Municípios, como descreve a constituição de 1988, e que, todos os recursos destinados
para tais fins, não são oriundos de riquezas e bondade pessoal, e sim, da grande e
onerosa carga tributária imposta pelos nossos representantes. Dessa forma, são erguidos
os pilares da futura e promissora sociedade brasileira. Enquanto os políticos trabalham
de forma conveniente e estratégica na perspectiva de aumentar suas fortunas e proteger
seus apadrinhados, o povo, como coloca o nosso hino nacional, permanece deitado
eternamente em berço esplêndido.
     Percebe-se de maneira sutil, durante as festas juninas em Bandiaçu, certa
separação entre as pessoas de menor poder financeiro e a elite local. No dia 23 de Junho
de 1990, por volta das 19:00h, foi dado início a uma tradição que perduraria até 2004,
ano da morte do seu principal organizador e patrocinador, Manoel Gilberto Ferreira
Mota. Era realizado um coquetel, na sede da associação local, ADECOBA (Associação
de desenvolvimento comunitário de Bandiaçu), onde grande quantidade de pessoas se
faziam presentes. Dona Marilza, a vice-presidente da associação na época, comenta:

                        “Distribuía cobertores, camisas. O povo comia se divertia. Tinha
                        castelo que caia. A comunidade fazia a maior farra. A meninada, os
                        adultos. Como tinha muita coisa boa no castelo, até mesmo os adultos
                        entravam na folia de pegar o castelo. Era muito interessante”.
                        (Entrevista realizada em 10/08/2011).


     A brincadeira denominada de castelo, onde era colocada uma árvore recheada de
presentes, que com a ação do fogo viria a cair, proporcionava grande diversão entre as
pessoas que se amontoavam para pegar os presentes. Nessa brincadeira, percebia-se a
grande participação das pessoas mais humildes. Enquanto que os mais dotados
16

financeiramente apenas acompanhavam. Notava-se a grande vontade de algumas
crianças, pertencentes à elite, em participar, porém, eram rechaçadas pelos pais. Quanto
aos adultos, conservavam o espírito de aparências que eram mantidas por medo da
ridicularização perante seus pares, portanto, permanecendo a certa distância das
comemorações.
     Nesse contexto de festas populares, Soihet (2005), salienta que: “[...] a festa
possivelmente se constitui no elemento fundamental da vida coletiva, porque exprime
com marcante intensidade as dimensões dos papéis sociais e o confronto dos símbolos
que eles significam”. (P. 364). Após uma observação mais apurada com o desenrolar da
festa na praça, verificava-se a continuação da distinção. Como o local do evento é
levemente inclinado, observa-se facilmente, é lógico com algumas exceções, que a
grande maioria do pessoal que ostenta maior poder financeiro, se situa na parte mais
elevada, a qual se localiza à direita do palco. Enquanto que os menos dotados
financeiramente, permanecem por mais tempo na frente e na área menos elevada, lado
esquerdo do palco. (Ver imagem. 11). Nessa região, por razões que a sociologia explica,
brinca-se com menos preconceito. Na parte baixa, também se concentram barracas de
cachorro quente, espetinhos de carne, amendoim, enfim, as comidas consideradas
menos elegantes pela elite.


A indústria do Forró


     Toda festa, evento ou manifestação traz consigo a necessidade de uma estrutura
que lhe dê suporte. Portanto, além de movimentar culturalmente o espaço, ainda
movimenta toda economia local. Segundo Maranhão (2011), foi investido em Campina
Grande/PB 1,8 milhões este ano pelo Ministério da Cultura. Esta cidade juntamente
com co-irmã, Caruaru/PE, investem num marketing bastante agressivo na tentativa de
atrair a maior quantidade possível de turistas. Carvalho (2008) explana que cerca de 1,5
milhão de pessoas eram esperadas nas respectivas cidades em 2008, e que deveria ser
arrecadado 10 milhões, sendo criados 2000 postos de trabalho. Estes turistas trazem
grandes lucros para taxistas, hotéis, bares, restaurantes, ambulantes, catadores de
latinhas, enfim, fazem circular grandes somas que são revestidas em arrecadação para o
município, e consequentemente, geram milhares de empregos.
     Guardadas as proporções geográficas, econômicas e populacionais, no São João de
Bandiaçu, em 2011, segundo o administrador Antônio Lucivânio, foram investidos
17

cerca de 30 mil reais. Assim, como em Campina Grande e em Caruaru, se transforma na
maior fonte de lucros do ano para o Distrito, pois com a vinda de turistas, ocorre uma
especulação muito alta nos preços dos aluguéis, chegando-se a cobrar 1000 Reais, por
cinco dias. Esse aumento na população e, consequentemente na demanda por produtos,
geram mais renda para panificadoras, supermercados, lanchonetes, salões de beleza e,
principalmente, para os donos de bares, os quais lucram durante todo período da festa,
já que o movimento é incessante.
      Farias (Ortiz 1999, Heller e Feher, 1998 apud FARIAS 2005), explana que a
mediação do mercado cultural tornou-se incontrolável, contemplando ou excluindo
mediante o crivo das práticas norteadas pela ética hedonista do consumo com sua ênfase
nas permutas de significados. Tanto que o lazer tornou-se um dos ramos dos negócios
nas tramitações capitalistas, o mais sofisticado, aqueles das atividades de serviços; aí se
articulam o comércio de habilidades e conhecimentos com os suportes materiais mais
distintos.
      Outro fato curioso é a inserção de grupos musicais da região que se apresentam no
Distrito. Nesse período, têm a maior, senão a única lucratividade do ano, já que por se
dedicarem ao Forró são lembrados muitas vezes, apenas nas festas juninas. Também
pegando carona no sucesso do Forro, durante todo ano ocorrem, pelo menos no interior
da Bahia, festas particulares, a exemplo do Forró do Bosque (Cruz das Almas), O Baião
de 2 (Conceição do Coité), Forró do Piu Piu (Amargosa), Forró da Mina (Pé de Serra),
entre várias outras do tipo, que misturam Forró, Axé Music e Pagode. Essa mistura
agrada em cheio a juventude, público maciço nesses eventos. Florido (2011) comenta
que para ter acesso desembolsam-se valores entre 50 e 500 Reais, que dá direito à
camisa e, em alguns casos, às comidas e bebidas.
      Em Bandiaçu, pelo menos no que concerne ao acesso à praça, local da festa,
ocorre de forma gratuita desde a quadrilha que dá início ao evento até o Rapa, o qual é
responsável pelo fechamento das comemorações. Exigindo-se dos foliões apenas muita
energia.
18

O sagrado e o profano no São João


     Apesar das festas juninas serem atribuídas aos santos, Antônio, Pedro e João, em
virtude de sua origem pagã, encontram-se várias manifestações que destoam da visão
religiosa. Se por um lado a Igreja Católica comemora o dia dos santos numa perspectiva
de enquadramento aos dogmas da instituição, por outro, em diversos pontos do país,
percebe-se que as comemorações nas praças e largos se caracterizam pela presença
marcante de elementos profanos.
      Serra (2009) relata que na mudança do ambiente para a praça, percebe-se algo ao
avesso do que ocorre no templo. Há todo um ambiente extrovertido que contribui para
diferentes formas de expressão, risos, danças, pulos, abraços sem cerimônias, gestos
espontâneos, exageros, tumultos, brigas e galanteios, os quais são impulsionados muitas
vezes pela ingestão exagerada de bebidas alcoólicas. Algo parecido com um grande
teatro, onde diferentes apresentações ocorrem ao mesmo tempo de maneira informal.
     Características da praça pública na Idade Média em período de festas se
assemelham às atuais, inclusive em Bandiaçu. Como declara Bakhtin (2008): “A praça
pública era o ponto de convergência de tudo que não era oficial, de certa forma gozava
de um direito de ‘exterritorialidade’ no mundo da ordem e da ideologia oficiais, e o
povo aí tinha sempre a última palavra”. (p.132).
      Segundo Neiva e Pena (1916 apud ALDÉ, 2009) outra profanidade encontrada na
região entre Piauí e Goiás até 1912, era o casamento realizado na fogueira de São João,
o qual era considerado como sacramento com direito, inclusive, aos noivos, padrinhos,
parentes e convidados. A justificativa utilizada era que os sacerdotes ficavam em
regiões distantes dificultando, portanto, as uniões. Estas eram abençoadas quando um
religioso passava pelo local.
     O São João é muito mais que uma simples festa para alguns estados do nordeste.
Verifica-se com maior ênfase em Alagoas a criação de um vínculo criado através do
compadrio que resulta em uma relação parecida à que se dá entre irmãos. Segundo
Araújo (2007), existe dois tipos de compadres:

                         “O da Igreja e o da fogueira. O da Igreja é aquele que leva a criança,
                         o afilhado, para receber o sinal de iniciação – o batismo na Igreja
                         Católica Romana. O de fogueira é o caso em que não há criança a ser
                         batizada, são apenas compadres, que passam a tratar-se
                         respeitosamente por tal. Não há apenas os compadres de fogueira, há
                         tios, sobrinhos, pais e filhos de fogueira, basta que um afeto forte os
19

                        aproxime para que no dia de São João, ao saltar a fogueira, façam
                        antes um juramento e a seguir saltem em cruz três vezes a fogueira.
                        Desse momento em diante passam a tratar-se de acordo com que
                        adrede ficou tratada”. (Pág. 24).

     Conforme Aldé (2009), na festa no Pantanal, busca-se através de rituais, adivinhar
se a próxima colheita será próspera, ou se determinada moça conseguirá casar-se no ano
seguinte.
     Se assemelhando à prática pagã da Idade Antiga, em Bandiaçu, que é um local
onde as lavouras são responsáveis pelo sustento de grande parte das famílias. Percebe-se
que o período junino está diretamente ligado as comemorações da colheita do milho.
Portanto, o sucesso nas plantações é um fator que influencia diretamente na festa. Já que
os agricultores em caso de boa colheita, acham-se em melhores condições para entregar-
se as comemorações.
     Outra prática profana citada por Bakhtin na Idade Média, que também é bastante
perceptível em Bandiaçu, assim como em Caruaru, nas comemorações de São João, são
os exageros que se dão na utilização de bebidas alcoólicas. Essa situação é
frequentemente combatida nos cultos que ocorrem na Igreja Católica nos períodos
anteriores aos eventos. O professor Josemar, morador do Distrito e participante assíduo
dos festejos, afirma que: “Desde a alvorada até o Rapa, não se percebe nada de religioso
na festa em Bandiaçu, a não ser o nome”. (Entrevista realizada em 16/08/2011).
     Por mais que sejam acesas fogueiras e soltem-se fogos para comemorar o São
João, “os vivas” que são atribuídos ao santo, entre as pessoas e no palco onde ocorre a
festa, que, aliás, se localiza em frente à igreja, traduz-se muito mais em uma
empolgação oriunda da curtição, do que de uma atribuição à religiosidade. Porém, é
necessário salientar que sagrado e profano coexistem, sendo que a presença de um é
extremamente necessária para que haja a existência do outro. Dessa forma, entre
alterações regionais e misturas entre sagrado e profano, os festejos juninos se renovam e
se reinventam.
     Verifica-se, pelo menos em Bandiaçu, que são poucos os frequentadores assíduos
dos cultos realizado na Igreja que participam de forma direta dos festejos juninos na
praça. Dona Lurdes coloca: “São cometidos muitos excessos. As pessoas bebem
demais. Por isso, brigam muito. Deus não condena a diversão, e sim, os excessos”.
(Entrevista realizada em 17/08/2011). Mesmo diante de tal afirmativa, ela explica que
não vai para a festa porque os familiares chegam à sua casa e, em virtude dos trabalhos
realizados durante o dia, não tem ânimo para se divertir a noite.
20

     Os senhores e senhoras são atores principais na realização de cultos, quermesses e
missas. Talvez, não se identifiquem com a comemoração da forma como ela acontece.
Daí a pequena participação no evento. Quanto aos mais jovens, influenciados pelas
novidades, e pelo espírito natural da idade, se voltam mais para as diversões,
consideradas por eles, como mais prazerosas.




Transformações


     É sabido que toda tradição carrega consigo uma série de mudanças,
complementações, influências e rupturas que vão se modelando de acordo com as
diferentes épocas e crenças, já que o transcorrer da história nos ensina que nada é
totalmente conservável em sua forma original.
     Seguindo a tendência acima, os festejos de São João em Bandiaçu também são
frutos de mudanças que ocorreram com as diferentes gerações que vivenciaram essas
manifestações. O período festivo que teve início por volta de 1947/48, e que tivera sua
incipiência com um seleto grupo de familiares, hoje se encontra em plena expansão,
onde pessoas de diferentes cidades se aglutinam nesse período para viver a festa, seja a
convite de parentes, amigos ou simplesmente pela fama adquirida pelo evento no
município e, em menor escala, fora dele, através da propaganda realizada por habitantes
que trabalham em diferentes locais, principalmente nas empresas que se situam em
cidades maiores, as quais suprem as carências de empregos da região.
      Mudanças no sentido de preparação para o evento também são facilmente
percebidas. Segundo o senhor Antônio, os enfeites utilizados na praça praticamente não
existiam nos primórdios. Foram pouco a pouco sendo introduzidos e, dentro do
processo de desenvolvimento industrial do país que compreendeu tanto a fabricação de
novos produtos quanto o desenvolvimento e aquisição de transportes mais rápidos e
mais eficientes, facilitaram a distribuição de novos produtos nos locais mais distantes
dos grandes centros. Assim, a singela arrumação foi dando lugar a bandeirolas de
diferentes cores. (Ver imagem 12).
     Outro fator que merece destaque é a presença de novos instrumentos musicais a
exemplo de baixos, baterias, teclados e, consequentemente, um estilo de Forró mais
21

instrumentalizado, batizado de Neoforró, muito questionado principalmente pelas
pessoas mais velhas. O senhor Júlio coloca que: “Essas banda fica tocano umas música
que não tem nada a ver com São João. Música boa era a de antigamente que só usava
sanfona, triângulo, pandeiro, zabumba e ganzá”. (Entrevistado em 08/07/2011).
     A declaração do senhor Júlio remete a uma questão muito discutida, definida por
Stuart Hall (2000), como ‘crise de identidade’:


                        [...] Assim a chamada ‘crise de identidade’ é vista como parte de um
                        processo mais amplo de mudanças, que está deslocando as estruturas
                        e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros
                        de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no
                        mundo social. [...]. (p. 7).

     O indivíduo não se sente contemplado com um novo modelo ou estilo lançado,
pois, as experiências vividas foram modificadas ou influenciadas por tendências mais
recentes que por não terem participado da construção da identidade de um ser ou de
determinado grupo, são consideradas estranhas, sendo, portanto, negadas e combatidas.
     Percebe-se na juventude brasileira, inclusive em Bandiaçu, uma facilidade maior
para lidar com as mudanças. É o que Hall (2000), coloca como ‘celebração móvel da
identidade’, encontrada pelas rápidas mudanças que ocorrem dentro do processo de
globalização, o qual está ancorado num sistema de comunicação maior, mais rápido e
mais acessível. Facilitando assim, o acesso e a incorporação de diferentes
manifestações.


O Rapa: surgimento, mudanças e dificuldades


     Segundo o senhor Antônio, um dos idealizadores da festa, o Rapa teve início no
dia 25 de Junho, por volta de 1967/68, quando em uma manhã, um grupo de amigos se
encontravam reunidos lamentando sobre o fim das comemorações, quando surgiu a
idéia de saírem de casa em casa, recolhendo comidas e, principalmente bebidas que
haviam sobrado dos festejos. Assim, ao som de cavaquinho, violão, triângulo, pandeiro,
sanfona e zabumba, iniciaram o que viria a ficar conhecido em toda região e, em menor
escala, fora dela, como o famoso Rapa de Bandiaçu. Ele afirma:


                        “Começou com um punhado de gente, daqui a pouco, otas pessoas
                        foram se juntano e do meio pro final já tinha era bastante gente.
                        Como o povo já tava de ressaca que muita gente já vinha bebeno há
22

                             muitos dias, um bucado de gente foi bebo, trupicano, cada um pra
                             suas casa”. (Entrevista cedida em 12/08/2011).


      O senhor Salvador, que também participou da fundação do Rapa, inclusive, foi o
primeiro sanfoneiro, relatou que a brincadeira surgiu de forma espontânea, e que jamais
imaginaria que ganharia tanta repercussão e dimensão. Segundo ele, foi visitada uma
pequena quantidade de moradias, dada a pouca quantidade de casas que existia.
Também eram poucas as pessoas que contribuíam com a brincadeira. Algo que talvez
seja explicado pela incipiência do movimento, já que muitos moradores não sabiam o
que estava acontecendo. Como explana o senhor Osvaldo: “Só se via um bucado de
home ino nas casa pegar tudo que tinha. Os dono das casa só viero a se acustumar com
a brincadera depois de uns ano”. (Entrevista cedida em 08/07/2011).
      Cerca de cinco anos depois do início do Rapa, verificou-se que muitas pessoas se
embriagavam e ficavam caídas pela rua. Como parte da solução para o problema foi
criado um meio de transporte conhecido como Banguê4. (Ver imagem 13). Evidencia
seu Jorge: “O Banguê pegava os bebo que tava caído e levava pra casa. Mais num
adiantava que eles tornava voltar pra rua”. Ainda segundo ele, o que movia o transporte
era a força dos braços de indivíduos que estavam em menor estado de embriaguez.
(Entrevista cedida em 06/07/2011).
      De acordo com o senhor Salvador, como forma de expressar alegria e a euforia do
momento que era acompanhado pela ingestão de diversas bebidas alcoólicas, algumas
pessoa fingiam estar embriagadas para serem conduzidas pelo Banguê, se retirando logo
em seguida do transporte.
      No final da década de 90, foram introduzidas as charangas5, que eram
responsáveis pelas músicas tocadas em todo circuito a ser percorrido. Por volta de 2003,
carros de particulares com equipamentos sonoros na parte traseira substituíram as
charangas. Seguindo o processo de mudanças, em anos posteriores, um trator,
pertencente à Prefeitura Municipal, viria a ser usado para o transporte do som, algo que
perdura até os dias atuais.
       No Rapa de Bandiaçu existe uma entidade denominada de Clube da Cachaça.
Segundo seu fundador, o senhor Valter, esta organização iniciou-se em 2004. No início,
reunia as pessoas que se identificavam com a bebida, porém, foi conquistando grande

4
  Instrumento que era utilizado em períodos de secas para a retirada de lama dos tanques e represas, e que,
foi adaptado com cordas para a condução de pessoas.
5
  Veículo equipado com som na parte superior ou traseira.
23

quantidade de adeptos. Para representar os ideais de seus participantes são
confeccionadas, todos os anos, camisas com frases que de forma lúdica simbolizam o
apoio ao consumo excessivo de bebidas, tais como: A oração do bêbado: “Cachaça
nossa que estais no bar, alcoolizado seja nosso fígado, venha nós o copo cheio, seja feita
a nossa aguardente, assim na festa como na ressaca, a caipirinha nossa de cada dia nos
dai hoje, perdoais as nossas bebedeiras, assim como nós perdoamos, a quem não tenha
bebido, não nos deixais cair no refrigerante, livrai-nos da água e da polícia....também!!!
(2008). Observa-se nesse caso, que a criatividade é tão grande que até paráfrase da
Oração do Pai Nosso, foi utilizada. Há ainda outros exemplos: “Nóis bebe é de balde”
(2009). “Não sou cachaceiro, sou consumidor”... Tem cachaça aí? Traz cá! (2009).
Poema do bêbado: “Cachaça cachaçinha tu é pra mim o que eu sou pra ti, tu vai me
derrubar, mas antes eu vou te engolir” (2010). “Mamãe falô! Fio acaba com a cachaça!
To tentando mãe, ta difice, num desisto nunca!!!”(2010).
     No dia do Rapa, percebe-se todo um clima de liberdade e subversão aos valores
sociais, onde muitos participantes se caracterizam, alguns vestidos de mulher, inclusive
maquiados. Utilizam-se ainda de acessórios considerados estranhos, como pinicos,
chifres e mocotós de boi, bolsas que são penduradas nas costas, pênis de plástico e
grandes baldes que são incompatíveis com a pequena quantidade de bebidas existentes.
Todos esses acessórios servem para acondicionar as bebidas. Sendo o evento regado por
bebidas alcoólicas das mais variadas espécies, não são raras as brigas e confusões.
     O Rapa de Bandiaçu se caracteriza por ser uma festa menosprezada pela elite
local. Sendo que, a maioria dos participantes têm baixo poder aquisitivo e, através de
uma manifestação mal vista pela elite, expressam toda sua indignação com o modelo
social que está posto. Onde as aparências, o lucro e o jogo de interesses se sobrepõem
ao ser humano.
     O professor Josemar, que nasceu e passou toda sua vida participando da festa,
relata que:

                        “O Rapa é o momento em que a elite se afasta [...]. É a festa do povo
                        mesmo [...]. Povo que é mau vestido, que é tido como feio, que cheira
                        mal, mas que é povo, que é gente de verdade. Que são pessoas que
                        você está vendo ali da forma como são [...]. O Rapa é como se fosse
                        um exerciciozinho de resistência para uma coisa maior. Eu me sinto
                        indo de encontro ao sistema”. (Entrevista cedida em 16/08/2011).

     No dia 25 de Junho em Bandiaçu, dia do Rapa, ocorre uma das maiores, senão a
maior, manifestação de resistência por parte de membros das camadas populares. O
24

povo sai às ruas desprovido dos preconceitos cotidianos para beber, dançar, enfim,
manifestar suas carências, desejos e dores. (Ver imagens 14 e 15).
     No início do século XXI, constatou-se a diminuição nos números de pessoas que
acompanhavam o Rapa. Cogitou-se que tal fator estava ocorrendo pelos dias em que a
festa tinha acontecido, ou seja, por cair em dias úteis, impossibilitava muitos indivíduos
de participar, pois teriam que trabalhar. Vieram os anos seguintes e, percebia-se que a
cada nova comemoração diminuía a quantidade de adeptos. Tentando explicar a
situação, a professora Joana Angélica afirma: “Os povoados vizinhos estão copiando o
Rapa. [...] As pessoas não se unem para fazer a festa. [...] Se alguém se prontifica a
organizar, falam que está tendo vinculação política, e que há interesses nas finanças”.
(Entrevista cedida em 14/07/2011).
      Outras localidades vizinhas, com destaque para o povoado de Minação, município
de Barrocas, vêm realizando festas semelhantes no dia 25 de Junho, o que acaba
chocando com a data em Bandiaçu. Esse fator pode até influenciar, pois algumas
pessoas podem migrar de um evento para o outro, porém não determina tanta redução
na quantidade de participantes.
     Na visão do senhor Júlio, o motivo pelo qual vem acontecendo uma crescente
redução na quantidade de foliões, é simplesmente pelo cansaço oriundo dos diversos
festejos que ocorrem na localidade nos dias anteriores, assim, no dia do Rapa, as
pessoas já estão esgotadas. Porém, essa explicação encontra resistências, pois em anos
anteriores existiam as mesmas comemorações.
     Outro motivo que pode ter influenciado, é um hábito mais recente, no qual alguns
foliões optam por se concentrar na praça, onde se encontram diversos carros com som
automotivo, ou seja, a tradição do cortejo que visitava diversas casas em ruas diferentes,
uma das principais características do Rapa, vem dando lugar ao costume de permanecer
no centro do Distrito.
      Em virtude da reduzida participação dos habitantes locais, os quais pouco se
mobilizam na organização do Rapa, assim como em outras comemorações, essa festa se
transformou em um palco de campanhas políticas. Representantes ou aspirantes do
poder legislativo municipal, rivais ou até do mesmo grupo, levados por pequenas rixas,
não hesitam em ofuscar o brilhantismo do evento. Nota-se, por parte dos representantes
do poder público municipal, que os investimentos na difusão e incentivo à cultura local
vêm como se fosse um presente, uma espécie de dádiva derramada sobre a localidade.
25

     A professora Elza coloca que foi montado um grupo há cerca de 10 anos, do qual
fazia parte, que ficaria incumbido da arrecadação de valores para o São João. Porém
começou a surgir influências políticas e, ela se retirou. “O grupo foi desarticulado por
interesses políticos”, afirma. (Entrevista cedida em 10/08/2011).
     Os comerciantes que têm sua principal fonte de lucro do ano, nesse período,
muitas vezes se omitem nas colaborações. Como observa Magno:

                         “O comerciante, que é os principais que colhem o tempo todo na
                         festa, não ajuda [...]. Teve um comerciante, que os organizadores do
                         Rapa foi pra pegar uma colaboração, e ele deu cinco reais. Os
                         comerciantes todos. As barracas de capeta, as barraca de pastel, colhe
                         a festa inteira. Na hora de contribuir com o Rapa, que é uma tradição,
                         ninguém quer contribuir”. (Entrevista cedida em 10/08/2011).

     A professora Márcia cita como exemplo a comunidade de Joazeirinho, localidade
que também realiza as festas juninas, onde, segundo ela, há uma colaboração financeira
de moradores e principalmente dos comerciantes, os quais contribuem o ano inteiro para
a realização da festa.
     O administrador de Bandiaçu, Antônio Lucivânio, admite que ocorram algumas
falhas, porém, segundo ele, grande parte da população apenas critica, não participando
da organização do evento. Fato que é facilmente constatável.
      O Rapa por ter sido criado em Bandiaçu é venerado, transformando-se em um dos
principais orgulhos do lugar. Funciona como algo em comum na confecção de um elo
que interliga os habitantes à localidade. Serve como construtor de uma identidade local.
Muitos fatos da vida de moradores e frequentadores são relacionados e relembrados por
ocasiões em que os bandiaçuenses se encontravam festejando esse momento.


Considerações finais


     Mesmo diante do controle da Igreja Católica, instituição de poder imensurável na
colonização do Brasil, a qual tentou de muitas formas sufocar as manifestações
populares que não se enquadrassem em seus dogmas, percebe-se de formas bastante
diversificadas as mudanças de significados e incorporações que ocorreram nas
comemorações do São João em diferentes partes do país, prevalecendo em muitos casos,
a natureza pagã derivada de sua origem. A diversidade étnica, cultural e as dimensões
geográficas são fatores que contribuíram para mudanças tão acentuadas.
26

     Nos festejos juninos em Bandiaçu, verifica-se de forma bastante diferenciadas a
presença de manifestações profanas, que vão desde danças de cunho sensual até a
ingestão exacerbada de álcool, que gera confusões e, consequentemente brigas. Um dos
poucos momentos que se percebe a presença da religião nesse período, dá-se no culto
anterior ao dia do santo, realizado na Igreja Católica, onde ocorrem manifestações de
louvor a São João.
      Nota-se, na realização das entrevistas, que algumas pessoas regidas por interesses
pessoais, grupais ou político-partidários em alguns momentos, omitiram ou
acrescentaram determinadas informações no sentido de que prevaleça aquilo que lhe é
mais conveniente.
     As festas não representam apenas um momento de diversão entre as pessoas que a
compartilham. Exprimem as relações sociais, tensões e conflitos existentes nas diversas
sociedades. Parafraseando Bakhtin, as festividades, em todas suas fases históricas, estão
ligadas a momentos de crises, de transtornos, na vida da natureza, da sociedade e do
homem. A morte e a ressurreição, a alternância e a renovação, construíram sempre os
aspectos marcantes das festas.
     Verificou-se no que tange às festas juninas em Bandiaçu e, principalmente, no
Rapa, a pouca união dos moradores no sentido de organizar as comemorações, ficando
estas, portanto, entregues à boa vontade de um pequeno grupo vinculado diretamente ao
partido político da situação, o qual realiza o evento guiado por interesses e
conveniências político-partidárias. A omissão da comunidade juntamente com as ações
políticas direcionadas são fatores determinantes para falhas evitáveis que ocorrem entre
os dias 22 a 24, e pela crescente decadência do Rapa no dia 25.
     Surgiram algumas dificuldades no sentido de adquirir imagens da festa na década
de 90, seja pela raridade dos documentos, já que muitos desapareceram em exposições
que foram realizadas no Distrito, ou pelo temor de algumas pessoas em emprestar essas
fontes com receio de que desaparecessem. Bem como, barreiras que foram impostas na
busca por possíveis documentos que se encontram sob tutela do Poder Executivo
Municipal, dificultaram um aprofundamento maior, deixando algumas lacunas que
poderão ser preenchidas em pesquisas posteriores sobre o tema.
27


                                    REFERÊNCIAS


ALDÉ, Lorenzo. Isto é São João? Revista História Viva (RHBN). Junho, 2009.

ARAÙJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 2ªed. São Paulo: Martins
Fontes, 2007.


BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. A cultura popular na Idade Média e no
Renascimento. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.


BATISTA, dos Rodinez. O São João como fato social total. Jornal Livre (13/06/2008).


CAMPOS, Judas Tadeu de. Festas juninas nas escolas: lições de preconceitos.
Campinas, 2007.

CARLO, Ginzburg. O queijo e os vermes. Companhia das Letras, São Paulo, 1987.


CHIANCA, Luciana. Chama que não se apaga. Revista História Viva (RHBN). Junho,
2009.


FARIAS, Edson. Economia e cultura no circuito das festas populares brasileiras.
Brasília, setembro/Dezembro, 2005.


FLORIDO, Flavio. Na Bahia indústria do Axé abraça o Forró. Folha Imagem. 2011.


Folha de São Paulo, (21/06/1993).


HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade: tradução Tomaz Tadeu da
Silva, Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.


Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Recenseamento, 2010.


MARANHÃO, Gil. Especial de Fim de Semana. Agência Política Real. 2011.


PINTO, Fabiane. Entre a fé e a folia: festas de reis realizadas em Conceição do Coité.
(1990-2009). Conceição do Coité, 2010.
28



RIBEIRO, Darcy. Documentário: A invenção do povo brasileiro. Cinematográfica
Superfilmes. Brasil, 2000.


RUSSO, Marcelo. Festas Juninas. Reportagem. Junho, 2003.


SOIHET, Rachel. “Festa da Penha: resistência e interpenetração cultural” in Cunha,
M.P. (org.), Carnavais e outras f(r) estas, Campinas, Ed. Unicamp, 2005.


SERRA Ordep. Rumores de Festa: O Sagrado e o Profano na Bahia. Salvador:
EDUFBA, 1999.


SOUZA, João Carlos de. O caráter religioso e profano das festas populares: Corumbá,
passagem do século XIX para o XX. São Paulo, 2004.


THOMPSON, Paul. História oral e contemporaneidade. Tradução Andrea Zhouri e
Lígia Maria Leite Pereira. Sociedade brasileira de história oral, 2002.
29




                                    Entrevistados

Antônio Martir Mota, 68 anos, aposentado. (12/08/2011).

Antônio Lucivânio Lopes Mota, 37 anos, administrador do distrito. (12/08/2001).

Arlindo José de Lima, 85 anos, aposentado. (08/08/2011).

Carlos Magno Oliveira Santana, 41 anos, servidor público. (10/08/2011).

Elza Pereira da Silva. 61 anos, professora. (10/08/2011).

Gregório Anselmo de Amorim, 85 anos, agricultor aposentado. (06/07/2011)

Joana Angélica Oliveira Lima, 58 anos, professora. (14/07/2011).

Jorge Carneiro Mota, 59 anos, agricultor. (06/07/2011).

Josemar da Silva Araújo, 37 anos, professor. (16/08/2011).

Júlio Grigório dos Santos, 81anos, agricultor aposentado. (08/07/2011).

Márcia Mota Simões Borges, 38 anos, professora. (10/08/2011).

Maria de Lurdes Oliveira Mota, 59 anos, aposentada e coordenadora das manifestações
religiosas na Igreja Católica. (17/08/2011).

Marilza Ferreira Mota, 47 anos, técnica em enfermagem e assistente social.
(10/08/2011).

Osvaldo Ferreira Lopes, 77 anos, agricultor e açougueiro aposentado. (08/07/2011).

Salvador Ferreira Simões, 58 anos, pedreiro e sanfoneiro. (16/08/2011).

Valter Carneiro de Oliveira, 42 anos, autônomo. (22/08/2011).
30


                                               Anexo




       Imagem 1. Início da Alvorada (2006).              Imagem 2. Explosão dos fogos (2006).




     Imagem 3. Quadrilha tradicional (2006).           Imagem 4. Quadrilha com inovações nas roupas
Imagem 5. Casal de namorados (2006).                       Imagem 6. Casal de noivos (2006).
31




Imagem 7. Representação de uma casa de farinha (2011). Imagem 8. Representação de um motor de sisal
                                                        (2011).




  Imagem 9. Cartaz com propaganda do São João (2011).
32




  Imagem 10. Pessoas dançando na praça (2006).      Imagem 11. Palco, dividindo a praça (2011).




                                                     Imagem 13. O famoso Bangüê (2006).

Imagem 12. Bandeirolas enfeitando a praça (2011).




  Imagem 14. Início do Rapa na praça (2006).          Imagem 15. Cortejo pelas ruas (2006).

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Festas juninas em bandiaçu dos anos de 1990 a 2011

  • 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE HISTÓRIA JAIR MOTA JUNQUEIRA FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS DE 1990 A 2011 Conceição do Coité 2011
  • 2. 2 JAIR MOTA JUNQUEIRA FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS DE 1990 A 2011 Artigo apresentado ao Departamento de Educação do Estado da Bahia (UNEB), curso de licenciatura em História, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciado em História. Orientadora: Prof. Ms. Adriana Teles Boudoux Conceição do Coité 2011
  • 3. 3 FESTAS JUNINAS EM BANDIAÇU DOS ANOS 1990 A 2011 Jair Mota Junqueira1 RESUMO A festa revela não apenas os momentos festivos de uma localidade, mas também as vivências cotidianas, suas identidades, valores e tensões. O artigo discute as festividades no mês de Junho, enfatizando o São João, focando o distrito de Bandiaçu2 no município de Conceição do Coité dos anos 1990 a 2011. Para tanto, são analisadas as imbricações entre as esferas sagradas e profanas; as relações políticas existentes nessa festividade; continuidades, mudanças e dificuldades que se efetivaram ao longo dos anos. O objetivo será entender suas origens e perpetuação, recorrendo, portanto, às narrativas dos participantes bem como registros fotográficos. Palavras-Chave: Festas Juninas. Sagrado. Profano. Política. ABSTRACT The party reveals not only the festive moments of a locality, but also the daily experiences, their identities, values and tensions. The article discusses the festivities in June, focusing on John, focusing on the district Bandiaçu in the municipality of Conceição do Coité the years 1990-2011. To this end, we analyze the interplay between sacred and secular spheres, the political relations existing at that feast; continuities, changes and difficulties that they conducted over the years. The goal is to understand its origins and perpetuation, using, hence the participants' narratives as well as photographs. Keywards: State Fairs. Sacred. Profane. Politics. ¹ Estudante do curso de História da Universidade do Estado da Bahia, Campus XIV. Pesquisa desenvolvida sob orientação da Professora Adriana Teles Boudoux. 2 Esse distrito situa-se no município de Conceição do Coité, em pleno semi-árido nordestino. Está a cerca de 10 km da sede. Sua economia baseia-se na agropecuária, nos benefícios do INSS e mais recentemente, nos valores repassados pelo governo federal através do programa Bolsa Família. (IBGE, 2010).
  • 4. 4 Considerações introdutórias Este artigo tratará sobre festejos juninos no distrito de Bandiaçu dos anos 1990 a 2011. Esse recorte temporal dá-se pela incorporação de algumas novidades nos festejos nesse período. Será dada ênfase à festa de São João, que é a manifestação mais comemorada. Percebe-se, após algumas leituras, que os festejos do mês de Junho (Santo Antônio, São João e São Pedro), de forma geral, são tratados como O São João, por alguns autores, na mídia, em propagandas e principalmente entre os populares, não havendo, portanto, uma distinção acentuada na comemoração dos santos. Também será analisado o famoso Rapa, uma tradição que, ao que tudo indica, teria sido iniciada na localidade no dia 25 de Junho, entre os anos de 1967/68 por populares que, inconformados com o final das festas, resolveram sair de casa em casa, recolhendo as comidas e bebidas que haviam sobrado das comemorações. Essa manifestação encontra-se em crise desde início do século XXI, quando apareceram os primeiros sinais da “decadência”, percebida após sucessivos períodos de diminuição na quantidade de adeptos, que talvez tenha ocorrido pela concorrência de povoados vizinhos, os quais passaram a copiá-lo, e da má organização facilmente percebida no evento. O objetivo do trabalho é perceber como se deu a introdução dos festejos locais, suas permanências, mudanças e influências, dialogando com manifestações análogas em diferentes lugares, percebendo e discutindo semelhanças e diferenças culturais e regionais. Foram utilizados livros, artigos, textos e imagens que tratam sobre o conteúdo de maneira geral. Porém, como não existe nenhum trabalho sobre o assunto específico da localidade, entrei em contato com moradores locais que presenciaram os fatos, assim, através da oralidade, buscarei preencher as lacunas deixadas pela ausência de documentação escrita. A história oral, segundo Paul Thompson, é a interpretação da história e das mutáveis sociedades e culturas através da escuta das pessoas e do registro de suas lembranças e experiências. Esta surgiu no século XX, com o intuito de diversificar as fontes e somar-se às escritas. Em muitos casos, é o único meio de registrar e analisar costumes e hábitos que não dispõem de documentos escritos. Porém, ela é seletiva, estando sujeita tanto a esquecimentos, quanto a acréscimos e silêncios.
  • 5. 5 Origens do São João e sua inserção no Brasil e em Bandiaçu Segundo Campos (2007, apud Araújo, 1957; 1973), os estudiosos situam as origens das comemorações juninas entre os povos arianos e os romanos, na Europa, na Idade Antiga. As festas eram consideradas parte dos rituais de celebração da passagem para o verão (inverno no Hemisfério Sul). A população rural promovia as festas para afastar os espíritos maus que provocavam a esterilidade da terra, as pestes nos cereais e as estiagens. No decorrer da Idade Média, a festa foi cristianizada e a Igreja Católica deu-lhe como padroeiros os santos cujas datas localizam-se na época da mudança de estação. Chianca (2009) comenta que o São João passou a ser comemorado na Europa a partir do nascimento de João Batista, no dia 24 de Junho. A fogueira que o representa teria sido acesa por ordem de sua mãe Isabel para avisar a Maria, sua prima e mãe de Jesus, que se encontrava em outro ponto do vilarejo, que havia dado a luz. De acordo com Chianca (2009), buscando manter a hegemonia, evitando práticas que pudessem distanciar os fiéis de seus dogmas, a Igreja Católica reagiu de forma áspera à prática de acendimento das fogueiras que eram tidas como rituais pré-cristãos, portanto, símbolo do paganismo. Eram acesas nos cultos solares no dia com maior duração da luminosidade, no caso, 21 de Junho, simbolizando a vitória da luz e do calor sobre a escuridão e o frio. Ainda na visão da autora, inúmeras tentativas frustradas do alto clero, no sentido de banir as práticas pagãs, consideradas satânicas, foram revistas somente no Concílio de Trento (1545-1563) onde, após muitas opiniões contrárias, a Igreja resolveu incorporar as fogueiras. Considerou-as “fogos eclesiásticos”, sendo banidas as superstições, e o fogo sendo resignificado como sinônimo de purificação e símbolo da Inquisição. Chianca (2009) explana que, no século XVI, com a recente chegada dos portugueses e como forma de aproximação e catequização dos povos indígenas, os colonizadores souberam utilizar-se muito bem das fogueiras, há muito usadas pelos nativos, e dos fogos que impressionavam e despertava a simpatia dos índios. Porém após mais uma série de discussões no seio da religião predominante, as fogueiras e os fogos foram proibidos desde 1641, até meados do século XX. Diante das proibições, as festas ocorriam com grande vigilância do clero, que buscava identificar e punir práticas
  • 6. 6 pagãs, como fogueiras, fogos, adivinhações, batismos e casamentos de fogueiras. Verifica-se muita resistência no que se refere às mudanças, principalmente por parte da ala mais conservadora da Instituição, os quais se colocam radicalmente contra ritos pagãos nos festejos. Soihet (2005) remete ao pensamento do padre José Maria Martins Alves da Rocha a respeito das festas populares de cunho pagão: Tais festejos não significam regozijo e muito menos idéia de religião, e nem recomenda a nossa civilização. Servir-se de atos de religião para dar-se à crápula, à embriaguez, ao jogo, a todos os vícios enfim, é a maior das ofensas que se possa fazer à religião, é voltar-se ao paganismo, é negar-se a fé. (Rocha apud SOIHET, 2005, p. 351). Apesar de terem sido introduzidos no Brasil por povos europeus responsáveis pela colonização do território, os festejos sofreram várias influências da cultura local. Tais incorporações devem-se, segundo Darcy Ribeiro (2000), à singularidade da população brasileira que foi formada a partir de etnias bastante diferenciadas e, consequentemente, de diferentes culturas, o que de forma positiva contribuiu com vários ritmos, crenças e sabores. Dentre as incorporações realizadas no São João brasileiro, está o costume de nesse período consumir-se aipim, amendoim, milho e derivados (pamonha, canjica, cuscuz, bolos de milho, mingau, mugunzá), jenipapo, cajá, umbu que são muito utilizados na fabricação de licores, coco e derivados (cocadas, leite de coco), beiju e tapioca no Norte, pinhão no Sul, pão de queijo no Sudeste. Como afirma Russo (2003), outras manifestações como o Forró, Tambor-de-crioula, Boi-bumbá também são manifestações nacionais. Há ainda, a tradicional quadrilha que, apesar de ser de origem francesa, também sofreu influências nas letras das músicas, nas danças e na inserção de novos personagens, como o caipira ou matuto, sertanejo, tabaréu etc. Segundo Campos (2007), em períodos juninos no meio urbano, indivíduos se caracterizam de caipiras, os quais são apresentados com vários estereótipos: dentes falhados, roupas rasgadas e remendadas e forma de falar de maneira incorreta. Afirma ainda que muitos centros escolares nesse período, talvez de forma impensada, estimulam os alunos a incorporar diversos preconceitos. O camponês é visto como atrasado e ignorante. Deve-se trabalhar na expectativa de difundir as diferentes culturas existentes em nosso país, no sentido de divulgá-las positivamente. Em Bandiaçu não é diferente. Apesar de se encontrar numa região totalmente rural, percebe-se a difusão da imagem do indivíduo do campo de forma estereotipada.
  • 7. 7 Nas apresentações juninas, principalmente nas escolas, notam-se pessoas caracterizadas de matutos com dentes cariados, mal trapilho e deselegantes ao andar e falar. Deve-se compreender que as necessidades enfrentadas pelas pessoas da zona rural são oriundas de um país desigual, carente de reforma agrária, saúde e educação. A importantíssima diversidade cultural existente no Brasil, é fruto justamente das diferenças culturais que o formaram, daí, a pluralidade da nossa cultura e a singularidade do povo brasileiro. Júlio Grigório, morador do distrito há 80 anos, afirma que a tradição de comemorar o dia de São João em Bandiaçu teria sido iniciada no final da década de 40, por volta de 1947/1948. Seguindo o calendário dos santos do catolicismo, muitas famílias tinham o hábito de acender fogueiras e consumir milho e seus derivados (pamonha canjica, cuscuz, bolo, mingau, mugunzá), e diversos tipos de licores, ao som do autêntico Forró, que tinha como instrumentos musicais a sanfona, zabumba, triângulo, pandeiro e ganzá3. Na comemoração eram soltos pequenos fogos de artifícios, símbolo da alegria e da comemoração do nascimento do santo. Segundo o senhor Gregório Anselmo, um dos mais antigos moradores da localidade; “era uma festa que acontecia entre parentes, cumpades e amigos, onde todos dançava, cumia, bebia e se divertia sem nenhuma confusão”. (Entrevistado em 08/07/2011). De acordo com o senhor Jorge, morador local, no final da década de 1980, passaram a ser contratados grupos musicais que inicialmente tocavam no chão, contando logo após com um caminhão como suporte para os instrumentos musicais e cantores. Somente por volta da segunda metade da década de 1990, o caminhão foi substituído por um palco. A alvorada consiste no costume de soltar uma grande quantidade de fogos em seqüência. O senhor Antônio, um dos primeiros organizadores dessa prática, afirma que ela teria sido iniciada no início da década de 70, onde as pequenas bombas eram hegemônicas devido à ausência de outros fogos que provocasse estouros. As bombas eram montadas uma a uma, sendo que havia duas fileiras separadas por mais ou menos um centímetro de distância, unidas por certa quantidade de pólvora que servia para desencadear as explosões simultaneamente. Havia a necessidade de que, no término de uma alvorada, fosse montada rapidamente a posterior. Já que eram milhares de 3 Instrumento musical confeccionado com tampas de garrafa, arame e madeira.
  • 8. 8 pequenas bombas que dava muito trabalho para serem organizadas. Assim, garantia-se as explosões no horário programado. De acordo com o senhor Antônio, a Alvorada contava com a contribuição de populares para compra do material. Somente no limiar da década de 90 passou a ser custeada pela Prefeitura Municipal. Nesse mesmo período, iniciou-se a prática de ordenar a queima de fogos. Dessa forma, a primeira queima teria início às 00:00h, do dia 22, seguida por mais quatro queimas que seriam desencadeadas a cada uma hora, portanto, até às 05:00h da manhã. Somente por volta de 1998/1999, houve uma modificação que viria a facilitar a montagem e a queima de fogos. As pequenas bombas foram substituídas por fogos mais modernos que, além de facilitar a arrumação, trouxeram algo além das simples explosões provocadas pelas bombas. Cascatas de luzes com cores variadas acompanhadas de longos assovios passaram a abrilhantar ainda mais o espetáculo. (Ver imagens 1 e 2). Outra manifestação bastante difundida são as quadrilhas juninas, que, segundo Chianca (2009), vieram para o Brasil juntamente com a Corte portuguesa em 1808. Estas não eram exclusivas do mês de Junho, pois animava os carnavais e festas de salão realizadas pelos círculos sociais da monarquia. Após a queda do regime, as quadrilhas saíram de cena pelo menos até 1950, quando ressurgiram com a substituição dos elegantes nobres pelos matutos e caipiras. As quadrilhas em Bandiaçu, segundo a professora Joana Angélica, passaram a acontecer de forma periódica na década de 90. Essa sempre ocorreu na noite do dia 22, abrindo a festa. Porém, por volta de 2003, iniciou-se a tradição de dançar quadrilha também no dia 21, à noite, passando a transformar-se na abertura do evento. Existem dois tipos de quadrilha que se apresentam no São João: a tradicional e, mais recentemente, as que vêm ocorrendo aproximadamente desde 2005, onde se verifica mudanças no que concerne às roupas e músicas utilizadas. Estas últimas receberam influências de diversos estilos como Rip Rop, Axé, internacional, forró tradicional e universitário. Tais alterações buscam inovar na maneira de apresentação da dança, coexistindo com a forma tradicional. (Ver imagens 3 e 4).
  • 9. 9 São João e diversidade cultural Como afirma Pinto (2010), as festas a partir de 1970 passaram a ser vistas pela historiografia, com uma atenção mais constante e inovadora. Isso se deu graças ao trabalho de historiadores vinculados à História Social que resgataram tanto a perspectiva do mundo da cultura na história, quanto a perspectiva da “história vista de baixo”. A festa, como objeto de estudo, pertence ao campo historiográfico da História Cultural. Esta, apesar de rotulada recentemente, é herdeira de uma longa trajetória, cujo início deu-se através da Escola dos Annales, nas primeiras décadas do século XX e, mais diretamente, como afirma Cecília Azevedo (2003 apud PINTO, 2010), na crise do paradigma economicista da década de 1960. O abandono das grandes teorias estruturalistas foi responsável pelo desmoronamento da visão mecânica das sociedades, permitindo abordagens etnográficas na História, colocando em foco a consciência, as tensões, as atitudes e as crenças dos atores sociais. Ribeiro (2000) comenta que a cultura popular representada pela participação maciça das pessoas de menor poder aquisitivo e personificada através de expressões como danças, crenças, hábitos e vestimentas, recebeu em diferentes momentos críticas por parte das elites que restringiam a idéia de civilidade a uma simples cópia de modelos importados da Europa. De acordo com essa visão estereotipada, as manifestações oriundas de membros da cultura popular são consideradas atrasadas e objeto da mais densa ignorância. Porém, mesmo diante de críticas ferozes feitas outrora, as elites dos países periféricos acabam fazendo uma mescla entre a cultura européia vista como superior e a cultura oriunda das misturas étnicas que se deram no processo de formação da cultura brasileira. A cultura popular na visão de Carlo Ginzburg (1987) se caracteriza da seguinte forma: “Cultura popular se define, de um lado, pela oposição à cultura letrada das classes dominantes; por outro lado, pelas relações que mantém com a cultura dominante, filtradas pelas classes subalternas de acordo com seus próprios valores e condições de vida. A cultura letrada, por seu turno, igualmente filtra de acordo com suas características, os elementos da cultura popular”. (p. 17). Ginzburg esclarece que apesar do distanciamento entre a cultura popular e a cultura letrada, em diferentes momentos e, utilizando-se das especificidades existentes em cada grupo, ocorrem certas trocas e incorporações de elementos entre as duas.
  • 10. 10 Como explana Bakhtin (2008), as festas oficiais tendiam a consagrar a estabilidade, a imutabilidade e as perenidades das regras que regiam o mundo: hierarquias, valores, normas e tabus religiosos, políticos e morais. Funcionava como o triunfo da verdade pré-fabricada, vitoriosa e dominante, assumindo aparência de uma verdade eterna. Davam-se geralmente em palácios, clubes e templos, tendo como referência a cultura letrada de origem européia. Restando aos excluídos reunir-se na praça pública, e aí, expressar seus costumes, crenças, angústias e aspirações, geralmente indo de encontro à visão de cultura existente entre as elites. Levando-se em consideração o espaço temporal e os diferentes contextos históricos, as festas juninas em Bandiaçu e, principalmente o Rapa, se assemelham bastante com a visão Baktiniana sobre as manifestações populares, pois, pelo menos nesses dias, as ruas são ocupadas pelos menos favorecidos e, através do consumo exagerado de álcool e do comportamento considerado deselegante pelos que se comportam como superiores, principalmente no Rapa, são expressas as tensões, resistências e indignações do povo. Estudando a diversidade de significados e práticas nos festejos juninos, Aldé (2009) afirma que no candomblé escolheram Xangô, orixá equivalente a São João, para representar o santo católico no período das festas juninas. Esse orixá representa o elemento fogo no candomblé. Em um ritual denominado ajerê, em transe, os adeptos da Religião recebem o santo. Colocam na cabeça uma panela cheia de óleo ou brasa fervente dançando e atravessando a roda sem se queimar. Outra prática comum é caminharem descalços sobre as cinzas incandescentes da fogueira. Ainda segundo Aldé (2009), no pantanal sul-mato-grossense, diferente do que ocorre em todo nordeste, não há quadrilha nem Forró. Comemora-se ao som de uma dança típica da fronteira denominada cururu, de origem guarani. Como as cheias e as vazantes, coordenam o cotidiano nessa parte do país, ao invés de acenderem-se fogueiras, fazem uma procissão, onde as diversas imagens de São João são levadas até o rio mais próximo para o tradicional banho, numa alusão ao batismo de Jesus realizado por João Batista no Rio Jordão. Em Corumbá, segundo Souza (2004), ocorre uma inversão no que diz respeito ao santo considerado casamenteiro. Enquanto em diversas outras áreas, inclusive no nordeste, santo Antônio é reverenciado pelas mulheres que desejam arranjar um marido, portanto, sendo considerado o santo casamenteiro, em Corumbá as moças que desejam casar fazem promessas e simpatias para São João.
  • 11. 11 No sul do país, como prosperou a mescla de uma cultura dos povos da fronteira com imigrantes alemães, italianos e poloneses, como explana Darcy Ribeiro (2000), em seu documentário “A Invenção do Brasil”, as danças que ditam o ritmo do São João, principalmente no Rio Grande do Sul, são o Cateretê e o fandango. Ao invés de roupas caipiras como se usam nas quadrilhas do nordeste, usa-se o tradicional traje gaúcho. De acordo com Batista (2008), outra forma bastante peculiar de comemorar o mês junino é o Boi- Bumbá de Parintins, no estado do Amazonas. A festa é realizada nos dias 28, 29 e 30 de Junho, na Ilha de Tupinambarama. Lá, ocorre uma grande disputa entre o boi Caprichoso e o Garantido. No espetáculo que ocorre no bumbódromo, são apresentadas lendas da Amazônia encenadas por tribos indígenas, sobre cobras gigantes, onças de fogo e pássaros que trazem a noite. As rivalidades são tão acentuadas, que no bumbódromo nenhum torcedor pode ultrapassar a linha que divide as duas torcidas, caso contrário, são hostilizados ou vítimas de violência. O autor comenta ainda sobre a grande rivalidade entre Caruaru/PE, e Campina Grande/PB, na disputa pelo maior São João do Mundo. Numa festa onde o objetivo principal é a atração de turistas, notam-se certos exageros na perspectiva de impressionar os visitantes. Em Caruaru é montada a Vila do Forró, cidade cenográfica, e representações humanas que tentam imitar o clima e a cultura material das cidades interioranas. Encontram-se casas coloridas, delegacia, subprefeitura, posto bancário, mercearia, igrejinha e restaurante. Encontra-se também a maior fogueira do Mundo, com mais 17 metros de altura, o maior cuscuz do Mundo com 700 quilos de massa, 3,3 metros de altura e 1,5 metros de diâmetro e a maior pamonha do mundo, esta última com 600 quilos, inclusive, reconhecida pelo Guiness Book, na edição de 1997. De acordo com Aldé (2009), apesar de não contar com cuscuz, pamonha e fogueira tão gigantes como os encontrados em Caruaru, Campina Grande expõe três grandes maquetes que reproduzem construções importantes para a história da cidade, além, de exibir uma decoração ímpar. Comenta Batista (2008) que o investimento em publicidade e propaganda em Campina Grande é superior ao que se investe em Caruaru, assim, em termos de quantidade de visitantes, acaba levando vantagem. Guardado os exageros, no que se refere às exposições de elementos da cultura popular nordestina apresentados na Vila do forró, onde se percebe o homem do interior e seu cotidiano, Bandiaçu se assemelha bastante a Caruaru, já que também expõe através tanto de bonecos de pano quanto do ambiente, o homem do campo e seu trabalho diário (Ver imagens 5, 6, 7 e 8).
  • 12. 12 A questão da representação com figuras típicas da cultura nordestina, a exemplo do homem interiorano e dos alimentos utilizados nesse período, como o milho e seus derivados, e até pelas diferenças étnicas, geográficas e culturais, caracteriza o São João do nordeste de forma bastante diferenciada do que ocorre no Rio Grande do Sul e em Corumbá. Em um país com tanta diversidade étnica, cultural e religiosa, não é de se estranhar a pluralidade de seu povo, de suas crenças e manifestações. Portanto, percebem-se diferentes formas de comemorações e ritos, principalmente no que concerne às festas juninas. O espírito do São João em Bandiaçu O mês de Junho para o distrito de Bandiaçu é o período mais esperado pelos moradores. Apesar dos festejos serem tradicionalmente iniciados apenas no dia 22, e mais recentemente no dia 21, nota-se um cenário que leva a comentários e expectativas sobre a realização e o possível sucesso da festa. Cerca de quinze dias antes da data esperada são iniciados os primeiros preparativos, tanto no sentido da divulgação realizada através da emissora de rádio local e de cartazes, (Ver imagem 9 ), quanto de enfeitar a praça com bandeirolas e balões que são símbolos do São João. E, mais recentemente, imagens de caipiras, que representam o homem da região. (Rever imagens 5 e 6 ). Casa de farinha representando uma cultura bastante conhecida na região, que é o cultivo e o beneficiamento da mandioca, raiz da qual se extrai a farinha e a goma utilizada para fazer biju e tapioca. (Rever imagem 7). À mandioca devem-se muitas vidas salvas em períodos de longas secas. E por último, o motor de sisal que expressa uma cultura bastante popular na região. (Rever imagem 8). Responsável durante muito tempo pelo sustento de diversas famílias, as quais eram obrigadas a trabalhar durante longas horas no cultivo e beneficiamento do sisal. Em muitos casos, era o único meio de emprego existente. Atualmente o cultivo da fibra encontra-se quase que em extinção, sendo reduzida a algumas poucas propriedades. Esses dias de preparação são acompanhados de pequenas reuniões que ocorrem entre pessoas que discutem a respeito da festa em bares, mercadinhos, residências e na própria praça, palco central das comemorações. Existe todo um clima de tensão, otimismos e pessimismos sobre a realização do evento. Nota-se entre as pessoas muito
  • 13. 13 receio no sentido de que a festa não corresponda às expectativas em termos de organização, público e atrações musicais. Geralmente, na véspera, a praça já está preparada para a execução das manifestações. Assim, tem-se a constatação de que a tensão e os comentários pessimistas ou otimistas que ocorrem de forma corriqueira todos os anos, não passam de cogitações dos bandiaçuenses, que nada mais querem do que curtir esse período de forma bastante divertida entre familiares e amigos. Essa ocasião também é marcada pelo reencontro de pessoas que muitas vezes só se encontram nesse período. Ouvem-se facilmente comentários de conterrâneos que trabalham em locais distantes e, muitas vezes fora do estado, que afirmam ter planejado desde o início do ano sua vinda ao São João da terra natal. O autor Batista (2008) lança o seguinte comentário: [...] Muitos nordestinos que se encontram fora de seus estados costumam economizar dinheiro, comprar presentes e voltar com eles para sua cidade natal na época das festas juninas, a fim de comemorar os santos. No sudeste é comum que nordestinos abandonem seus empregos, faltem por toda uma quinzena, peçam licença ou ofereçam-se para trocar o período do natal por alguns dias de folga em Junho, ou ainda negociem suas férias para gozá-las no meio do ano e poderem estar presentes às festas juninas, em sua terra [...] (p.1). Nota-se a cada ano o aumento na quantidade de pessoas que vem apreciar a festa, isso pelo menos nos dias 22, 23 e 24, já que o Rapa no dia 25 tem enfrentado dificuldades no sentido de diminuição na quantidade de foliões. As comunidades adjacentes têm presença garantida. (Ver imagens 10). As pessoas se divertem sem medo de acharem-se ridículos, com a plena sensação de liberdade e, muitas vezes de volta aos tempos de criança. Isso pelo menos entre as classes mais populares, pois as elites fazem questão de manter as aparências, conservando certo ar de superioridade. Relações políticas e sociais na festa Esse período, além de ser repleto de comemorações, danças, degustação de comidas típicas e muita diversão, ainda transforma-se em terreno fértil para a atuação de políticos oportunistas que atuam de diversas formas, principalmente na especulação de possíveis contribuições dadas para a realização do evento. Assim, ocorrem as articulações na tentativa de aumentar a visibilidade ao máximo diante do eleitorado,
  • 14. 14 pois essa presença, principalmente nos anos em que ocorrem os pleitos eleitorais, é fundamental para o sucesso nas urnas. O professor Josemar afirma que: “Aquele que promove o São João fica bem visto na sociedade. Pois a festa só existe pela boa vontade dessa pessoa. Existe uma espécie de endeusamento do responsável pelo São João”. (Entrevista realizada em 16/08/2011). Nesses momentos festivos e de escolha dos representantes, nota-se algo muito diferente do que acontece durante praticamente todo o mandato dos que são eleitos. Há uma estranha disponibilidade, acessibilidade e gentileza por parte dos políticos. Em virtude de tanta vontade de ajudar na festa, ocorrem grandes divergências por parte de aliados e opositores, pois, na tentativa de encontrar o reconhecimento dos eleitores não se medem esforços. Todos tentam desesperadamente contribuir, seja com a contratação de grupos musicais, de uma aparelhagem sonora de melhor qualidade, de um palco mais espaçoso, e até mesmo, da distribuição gratuita de bebidas, prática essa, bastante difundida em nossa região. Absolutamente tudo é válido na captura desesperada pela maior quantidade possível de votos. Esse período transforma-se no momento oportuno de ter e manter contato com figuras públicas que permanecem ausentes por longos períodos. E que, adotando um comportamento não corriqueiro se misturam com o povo para festejar. É o que pode ser percebido na fala do deputado federal José Carlos Aleluia (PFL-BA): “Viajo nesta quarta-feira pela manhã para a Bahia, passo o São João no carro, visito os arraias e quadrilhas em cerca de dez municípios distribuídos por cerca de 200 km do interior [...] se eu não for, não me reelejo”. (Folha de São Paulo, 21/06/1993). A declaração do deputado Aleluia, se alterada para um contexto menor, no caso, as disputas para as eleições municipais tanto para o executivo e, principalmente, para o legislativo, representa perfeitamente a realidade do município de Conceição do Coité. Já nos anos posteriores às eleições, nota-se certo jogo de empurra, ou seja, em virtude dos insucessos nas urnas diminuem-se muito aquele espírito de gentileza e contribuição. Para os que saíram vitoriosos nas eleições resta ajudar na festa sem perder a oportunidade de usar um discurso superior e paternalista, como se estivessem prestando um grande favor à comunidade. Esta dimensão política da festa é vista de forma negativa por alguns participantes; como dona Marilza: “A politicagem está atrapalhando a festa. O fato de ter uma pessoa muito ligada a um grupo político, que está guiando, está deixando a
  • 15. 15 desejar, pois, outras pessoas que são do partido político contrário estão deixando de participar das comemorações e, principalmente do Rapa. Antigamente não tinha muito isso. A comunidade toda acompanhava”. (Entrevista realizada em 10/08/2011). Infelizmente, o que é colocado em primeiro plano não é a permanência de uma tradição, e sim os interesses na aquisição de votos, o que acaba provocando divisões que prejudicam o desenrolar do evento. Desse modo, na visão dos políticos, como requisito básico na escolha dos representantes legislativos locais, o candidato deve se doar de corpo e alma à organização dos festejos juninos, caso contrário, corre o risco de perder ou não alcançar o status de vereador do município. Parcela da população que muitas vezes se deixam guiar por ideologias partidárias, não compreende que o incentivo à cultura é de obrigação da União, Estados e Municípios, como descreve a constituição de 1988, e que, todos os recursos destinados para tais fins, não são oriundos de riquezas e bondade pessoal, e sim, da grande e onerosa carga tributária imposta pelos nossos representantes. Dessa forma, são erguidos os pilares da futura e promissora sociedade brasileira. Enquanto os políticos trabalham de forma conveniente e estratégica na perspectiva de aumentar suas fortunas e proteger seus apadrinhados, o povo, como coloca o nosso hino nacional, permanece deitado eternamente em berço esplêndido. Percebe-se de maneira sutil, durante as festas juninas em Bandiaçu, certa separação entre as pessoas de menor poder financeiro e a elite local. No dia 23 de Junho de 1990, por volta das 19:00h, foi dado início a uma tradição que perduraria até 2004, ano da morte do seu principal organizador e patrocinador, Manoel Gilberto Ferreira Mota. Era realizado um coquetel, na sede da associação local, ADECOBA (Associação de desenvolvimento comunitário de Bandiaçu), onde grande quantidade de pessoas se faziam presentes. Dona Marilza, a vice-presidente da associação na época, comenta: “Distribuía cobertores, camisas. O povo comia se divertia. Tinha castelo que caia. A comunidade fazia a maior farra. A meninada, os adultos. Como tinha muita coisa boa no castelo, até mesmo os adultos entravam na folia de pegar o castelo. Era muito interessante”. (Entrevista realizada em 10/08/2011). A brincadeira denominada de castelo, onde era colocada uma árvore recheada de presentes, que com a ação do fogo viria a cair, proporcionava grande diversão entre as pessoas que se amontoavam para pegar os presentes. Nessa brincadeira, percebia-se a grande participação das pessoas mais humildes. Enquanto que os mais dotados
  • 16. 16 financeiramente apenas acompanhavam. Notava-se a grande vontade de algumas crianças, pertencentes à elite, em participar, porém, eram rechaçadas pelos pais. Quanto aos adultos, conservavam o espírito de aparências que eram mantidas por medo da ridicularização perante seus pares, portanto, permanecendo a certa distância das comemorações. Nesse contexto de festas populares, Soihet (2005), salienta que: “[...] a festa possivelmente se constitui no elemento fundamental da vida coletiva, porque exprime com marcante intensidade as dimensões dos papéis sociais e o confronto dos símbolos que eles significam”. (P. 364). Após uma observação mais apurada com o desenrolar da festa na praça, verificava-se a continuação da distinção. Como o local do evento é levemente inclinado, observa-se facilmente, é lógico com algumas exceções, que a grande maioria do pessoal que ostenta maior poder financeiro, se situa na parte mais elevada, a qual se localiza à direita do palco. Enquanto que os menos dotados financeiramente, permanecem por mais tempo na frente e na área menos elevada, lado esquerdo do palco. (Ver imagem. 11). Nessa região, por razões que a sociologia explica, brinca-se com menos preconceito. Na parte baixa, também se concentram barracas de cachorro quente, espetinhos de carne, amendoim, enfim, as comidas consideradas menos elegantes pela elite. A indústria do Forró Toda festa, evento ou manifestação traz consigo a necessidade de uma estrutura que lhe dê suporte. Portanto, além de movimentar culturalmente o espaço, ainda movimenta toda economia local. Segundo Maranhão (2011), foi investido em Campina Grande/PB 1,8 milhões este ano pelo Ministério da Cultura. Esta cidade juntamente com co-irmã, Caruaru/PE, investem num marketing bastante agressivo na tentativa de atrair a maior quantidade possível de turistas. Carvalho (2008) explana que cerca de 1,5 milhão de pessoas eram esperadas nas respectivas cidades em 2008, e que deveria ser arrecadado 10 milhões, sendo criados 2000 postos de trabalho. Estes turistas trazem grandes lucros para taxistas, hotéis, bares, restaurantes, ambulantes, catadores de latinhas, enfim, fazem circular grandes somas que são revestidas em arrecadação para o município, e consequentemente, geram milhares de empregos. Guardadas as proporções geográficas, econômicas e populacionais, no São João de Bandiaçu, em 2011, segundo o administrador Antônio Lucivânio, foram investidos
  • 17. 17 cerca de 30 mil reais. Assim, como em Campina Grande e em Caruaru, se transforma na maior fonte de lucros do ano para o Distrito, pois com a vinda de turistas, ocorre uma especulação muito alta nos preços dos aluguéis, chegando-se a cobrar 1000 Reais, por cinco dias. Esse aumento na população e, consequentemente na demanda por produtos, geram mais renda para panificadoras, supermercados, lanchonetes, salões de beleza e, principalmente, para os donos de bares, os quais lucram durante todo período da festa, já que o movimento é incessante. Farias (Ortiz 1999, Heller e Feher, 1998 apud FARIAS 2005), explana que a mediação do mercado cultural tornou-se incontrolável, contemplando ou excluindo mediante o crivo das práticas norteadas pela ética hedonista do consumo com sua ênfase nas permutas de significados. Tanto que o lazer tornou-se um dos ramos dos negócios nas tramitações capitalistas, o mais sofisticado, aqueles das atividades de serviços; aí se articulam o comércio de habilidades e conhecimentos com os suportes materiais mais distintos. Outro fato curioso é a inserção de grupos musicais da região que se apresentam no Distrito. Nesse período, têm a maior, senão a única lucratividade do ano, já que por se dedicarem ao Forró são lembrados muitas vezes, apenas nas festas juninas. Também pegando carona no sucesso do Forro, durante todo ano ocorrem, pelo menos no interior da Bahia, festas particulares, a exemplo do Forró do Bosque (Cruz das Almas), O Baião de 2 (Conceição do Coité), Forró do Piu Piu (Amargosa), Forró da Mina (Pé de Serra), entre várias outras do tipo, que misturam Forró, Axé Music e Pagode. Essa mistura agrada em cheio a juventude, público maciço nesses eventos. Florido (2011) comenta que para ter acesso desembolsam-se valores entre 50 e 500 Reais, que dá direito à camisa e, em alguns casos, às comidas e bebidas. Em Bandiaçu, pelo menos no que concerne ao acesso à praça, local da festa, ocorre de forma gratuita desde a quadrilha que dá início ao evento até o Rapa, o qual é responsável pelo fechamento das comemorações. Exigindo-se dos foliões apenas muita energia.
  • 18. 18 O sagrado e o profano no São João Apesar das festas juninas serem atribuídas aos santos, Antônio, Pedro e João, em virtude de sua origem pagã, encontram-se várias manifestações que destoam da visão religiosa. Se por um lado a Igreja Católica comemora o dia dos santos numa perspectiva de enquadramento aos dogmas da instituição, por outro, em diversos pontos do país, percebe-se que as comemorações nas praças e largos se caracterizam pela presença marcante de elementos profanos. Serra (2009) relata que na mudança do ambiente para a praça, percebe-se algo ao avesso do que ocorre no templo. Há todo um ambiente extrovertido que contribui para diferentes formas de expressão, risos, danças, pulos, abraços sem cerimônias, gestos espontâneos, exageros, tumultos, brigas e galanteios, os quais são impulsionados muitas vezes pela ingestão exagerada de bebidas alcoólicas. Algo parecido com um grande teatro, onde diferentes apresentações ocorrem ao mesmo tempo de maneira informal. Características da praça pública na Idade Média em período de festas se assemelham às atuais, inclusive em Bandiaçu. Como declara Bakhtin (2008): “A praça pública era o ponto de convergência de tudo que não era oficial, de certa forma gozava de um direito de ‘exterritorialidade’ no mundo da ordem e da ideologia oficiais, e o povo aí tinha sempre a última palavra”. (p.132). Segundo Neiva e Pena (1916 apud ALDÉ, 2009) outra profanidade encontrada na região entre Piauí e Goiás até 1912, era o casamento realizado na fogueira de São João, o qual era considerado como sacramento com direito, inclusive, aos noivos, padrinhos, parentes e convidados. A justificativa utilizada era que os sacerdotes ficavam em regiões distantes dificultando, portanto, as uniões. Estas eram abençoadas quando um religioso passava pelo local. O São João é muito mais que uma simples festa para alguns estados do nordeste. Verifica-se com maior ênfase em Alagoas a criação de um vínculo criado através do compadrio que resulta em uma relação parecida à que se dá entre irmãos. Segundo Araújo (2007), existe dois tipos de compadres: “O da Igreja e o da fogueira. O da Igreja é aquele que leva a criança, o afilhado, para receber o sinal de iniciação – o batismo na Igreja Católica Romana. O de fogueira é o caso em que não há criança a ser batizada, são apenas compadres, que passam a tratar-se respeitosamente por tal. Não há apenas os compadres de fogueira, há tios, sobrinhos, pais e filhos de fogueira, basta que um afeto forte os
  • 19. 19 aproxime para que no dia de São João, ao saltar a fogueira, façam antes um juramento e a seguir saltem em cruz três vezes a fogueira. Desse momento em diante passam a tratar-se de acordo com que adrede ficou tratada”. (Pág. 24). Conforme Aldé (2009), na festa no Pantanal, busca-se através de rituais, adivinhar se a próxima colheita será próspera, ou se determinada moça conseguirá casar-se no ano seguinte. Se assemelhando à prática pagã da Idade Antiga, em Bandiaçu, que é um local onde as lavouras são responsáveis pelo sustento de grande parte das famílias. Percebe-se que o período junino está diretamente ligado as comemorações da colheita do milho. Portanto, o sucesso nas plantações é um fator que influencia diretamente na festa. Já que os agricultores em caso de boa colheita, acham-se em melhores condições para entregar- se as comemorações. Outra prática profana citada por Bakhtin na Idade Média, que também é bastante perceptível em Bandiaçu, assim como em Caruaru, nas comemorações de São João, são os exageros que se dão na utilização de bebidas alcoólicas. Essa situação é frequentemente combatida nos cultos que ocorrem na Igreja Católica nos períodos anteriores aos eventos. O professor Josemar, morador do Distrito e participante assíduo dos festejos, afirma que: “Desde a alvorada até o Rapa, não se percebe nada de religioso na festa em Bandiaçu, a não ser o nome”. (Entrevista realizada em 16/08/2011). Por mais que sejam acesas fogueiras e soltem-se fogos para comemorar o São João, “os vivas” que são atribuídos ao santo, entre as pessoas e no palco onde ocorre a festa, que, aliás, se localiza em frente à igreja, traduz-se muito mais em uma empolgação oriunda da curtição, do que de uma atribuição à religiosidade. Porém, é necessário salientar que sagrado e profano coexistem, sendo que a presença de um é extremamente necessária para que haja a existência do outro. Dessa forma, entre alterações regionais e misturas entre sagrado e profano, os festejos juninos se renovam e se reinventam. Verifica-se, pelo menos em Bandiaçu, que são poucos os frequentadores assíduos dos cultos realizado na Igreja que participam de forma direta dos festejos juninos na praça. Dona Lurdes coloca: “São cometidos muitos excessos. As pessoas bebem demais. Por isso, brigam muito. Deus não condena a diversão, e sim, os excessos”. (Entrevista realizada em 17/08/2011). Mesmo diante de tal afirmativa, ela explica que não vai para a festa porque os familiares chegam à sua casa e, em virtude dos trabalhos realizados durante o dia, não tem ânimo para se divertir a noite.
  • 20. 20 Os senhores e senhoras são atores principais na realização de cultos, quermesses e missas. Talvez, não se identifiquem com a comemoração da forma como ela acontece. Daí a pequena participação no evento. Quanto aos mais jovens, influenciados pelas novidades, e pelo espírito natural da idade, se voltam mais para as diversões, consideradas por eles, como mais prazerosas. Transformações É sabido que toda tradição carrega consigo uma série de mudanças, complementações, influências e rupturas que vão se modelando de acordo com as diferentes épocas e crenças, já que o transcorrer da história nos ensina que nada é totalmente conservável em sua forma original. Seguindo a tendência acima, os festejos de São João em Bandiaçu também são frutos de mudanças que ocorreram com as diferentes gerações que vivenciaram essas manifestações. O período festivo que teve início por volta de 1947/48, e que tivera sua incipiência com um seleto grupo de familiares, hoje se encontra em plena expansão, onde pessoas de diferentes cidades se aglutinam nesse período para viver a festa, seja a convite de parentes, amigos ou simplesmente pela fama adquirida pelo evento no município e, em menor escala, fora dele, através da propaganda realizada por habitantes que trabalham em diferentes locais, principalmente nas empresas que se situam em cidades maiores, as quais suprem as carências de empregos da região. Mudanças no sentido de preparação para o evento também são facilmente percebidas. Segundo o senhor Antônio, os enfeites utilizados na praça praticamente não existiam nos primórdios. Foram pouco a pouco sendo introduzidos e, dentro do processo de desenvolvimento industrial do país que compreendeu tanto a fabricação de novos produtos quanto o desenvolvimento e aquisição de transportes mais rápidos e mais eficientes, facilitaram a distribuição de novos produtos nos locais mais distantes dos grandes centros. Assim, a singela arrumação foi dando lugar a bandeirolas de diferentes cores. (Ver imagem 12). Outro fator que merece destaque é a presença de novos instrumentos musicais a exemplo de baixos, baterias, teclados e, consequentemente, um estilo de Forró mais
  • 21. 21 instrumentalizado, batizado de Neoforró, muito questionado principalmente pelas pessoas mais velhas. O senhor Júlio coloca que: “Essas banda fica tocano umas música que não tem nada a ver com São João. Música boa era a de antigamente que só usava sanfona, triângulo, pandeiro, zabumba e ganzá”. (Entrevistado em 08/07/2011). A declaração do senhor Júlio remete a uma questão muito discutida, definida por Stuart Hall (2000), como ‘crise de identidade’: [...] Assim a chamada ‘crise de identidade’ é vista como parte de um processo mais amplo de mudanças, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. [...]. (p. 7). O indivíduo não se sente contemplado com um novo modelo ou estilo lançado, pois, as experiências vividas foram modificadas ou influenciadas por tendências mais recentes que por não terem participado da construção da identidade de um ser ou de determinado grupo, são consideradas estranhas, sendo, portanto, negadas e combatidas. Percebe-se na juventude brasileira, inclusive em Bandiaçu, uma facilidade maior para lidar com as mudanças. É o que Hall (2000), coloca como ‘celebração móvel da identidade’, encontrada pelas rápidas mudanças que ocorrem dentro do processo de globalização, o qual está ancorado num sistema de comunicação maior, mais rápido e mais acessível. Facilitando assim, o acesso e a incorporação de diferentes manifestações. O Rapa: surgimento, mudanças e dificuldades Segundo o senhor Antônio, um dos idealizadores da festa, o Rapa teve início no dia 25 de Junho, por volta de 1967/68, quando em uma manhã, um grupo de amigos se encontravam reunidos lamentando sobre o fim das comemorações, quando surgiu a idéia de saírem de casa em casa, recolhendo comidas e, principalmente bebidas que haviam sobrado dos festejos. Assim, ao som de cavaquinho, violão, triângulo, pandeiro, sanfona e zabumba, iniciaram o que viria a ficar conhecido em toda região e, em menor escala, fora dela, como o famoso Rapa de Bandiaçu. Ele afirma: “Começou com um punhado de gente, daqui a pouco, otas pessoas foram se juntano e do meio pro final já tinha era bastante gente. Como o povo já tava de ressaca que muita gente já vinha bebeno há
  • 22. 22 muitos dias, um bucado de gente foi bebo, trupicano, cada um pra suas casa”. (Entrevista cedida em 12/08/2011). O senhor Salvador, que também participou da fundação do Rapa, inclusive, foi o primeiro sanfoneiro, relatou que a brincadeira surgiu de forma espontânea, e que jamais imaginaria que ganharia tanta repercussão e dimensão. Segundo ele, foi visitada uma pequena quantidade de moradias, dada a pouca quantidade de casas que existia. Também eram poucas as pessoas que contribuíam com a brincadeira. Algo que talvez seja explicado pela incipiência do movimento, já que muitos moradores não sabiam o que estava acontecendo. Como explana o senhor Osvaldo: “Só se via um bucado de home ino nas casa pegar tudo que tinha. Os dono das casa só viero a se acustumar com a brincadera depois de uns ano”. (Entrevista cedida em 08/07/2011). Cerca de cinco anos depois do início do Rapa, verificou-se que muitas pessoas se embriagavam e ficavam caídas pela rua. Como parte da solução para o problema foi criado um meio de transporte conhecido como Banguê4. (Ver imagem 13). Evidencia seu Jorge: “O Banguê pegava os bebo que tava caído e levava pra casa. Mais num adiantava que eles tornava voltar pra rua”. Ainda segundo ele, o que movia o transporte era a força dos braços de indivíduos que estavam em menor estado de embriaguez. (Entrevista cedida em 06/07/2011). De acordo com o senhor Salvador, como forma de expressar alegria e a euforia do momento que era acompanhado pela ingestão de diversas bebidas alcoólicas, algumas pessoa fingiam estar embriagadas para serem conduzidas pelo Banguê, se retirando logo em seguida do transporte. No final da década de 90, foram introduzidas as charangas5, que eram responsáveis pelas músicas tocadas em todo circuito a ser percorrido. Por volta de 2003, carros de particulares com equipamentos sonoros na parte traseira substituíram as charangas. Seguindo o processo de mudanças, em anos posteriores, um trator, pertencente à Prefeitura Municipal, viria a ser usado para o transporte do som, algo que perdura até os dias atuais. No Rapa de Bandiaçu existe uma entidade denominada de Clube da Cachaça. Segundo seu fundador, o senhor Valter, esta organização iniciou-se em 2004. No início, reunia as pessoas que se identificavam com a bebida, porém, foi conquistando grande 4 Instrumento que era utilizado em períodos de secas para a retirada de lama dos tanques e represas, e que, foi adaptado com cordas para a condução de pessoas. 5 Veículo equipado com som na parte superior ou traseira.
  • 23. 23 quantidade de adeptos. Para representar os ideais de seus participantes são confeccionadas, todos os anos, camisas com frases que de forma lúdica simbolizam o apoio ao consumo excessivo de bebidas, tais como: A oração do bêbado: “Cachaça nossa que estais no bar, alcoolizado seja nosso fígado, venha nós o copo cheio, seja feita a nossa aguardente, assim na festa como na ressaca, a caipirinha nossa de cada dia nos dai hoje, perdoais as nossas bebedeiras, assim como nós perdoamos, a quem não tenha bebido, não nos deixais cair no refrigerante, livrai-nos da água e da polícia....também!!! (2008). Observa-se nesse caso, que a criatividade é tão grande que até paráfrase da Oração do Pai Nosso, foi utilizada. Há ainda outros exemplos: “Nóis bebe é de balde” (2009). “Não sou cachaceiro, sou consumidor”... Tem cachaça aí? Traz cá! (2009). Poema do bêbado: “Cachaça cachaçinha tu é pra mim o que eu sou pra ti, tu vai me derrubar, mas antes eu vou te engolir” (2010). “Mamãe falô! Fio acaba com a cachaça! To tentando mãe, ta difice, num desisto nunca!!!”(2010). No dia do Rapa, percebe-se todo um clima de liberdade e subversão aos valores sociais, onde muitos participantes se caracterizam, alguns vestidos de mulher, inclusive maquiados. Utilizam-se ainda de acessórios considerados estranhos, como pinicos, chifres e mocotós de boi, bolsas que são penduradas nas costas, pênis de plástico e grandes baldes que são incompatíveis com a pequena quantidade de bebidas existentes. Todos esses acessórios servem para acondicionar as bebidas. Sendo o evento regado por bebidas alcoólicas das mais variadas espécies, não são raras as brigas e confusões. O Rapa de Bandiaçu se caracteriza por ser uma festa menosprezada pela elite local. Sendo que, a maioria dos participantes têm baixo poder aquisitivo e, através de uma manifestação mal vista pela elite, expressam toda sua indignação com o modelo social que está posto. Onde as aparências, o lucro e o jogo de interesses se sobrepõem ao ser humano. O professor Josemar, que nasceu e passou toda sua vida participando da festa, relata que: “O Rapa é o momento em que a elite se afasta [...]. É a festa do povo mesmo [...]. Povo que é mau vestido, que é tido como feio, que cheira mal, mas que é povo, que é gente de verdade. Que são pessoas que você está vendo ali da forma como são [...]. O Rapa é como se fosse um exerciciozinho de resistência para uma coisa maior. Eu me sinto indo de encontro ao sistema”. (Entrevista cedida em 16/08/2011). No dia 25 de Junho em Bandiaçu, dia do Rapa, ocorre uma das maiores, senão a maior, manifestação de resistência por parte de membros das camadas populares. O
  • 24. 24 povo sai às ruas desprovido dos preconceitos cotidianos para beber, dançar, enfim, manifestar suas carências, desejos e dores. (Ver imagens 14 e 15). No início do século XXI, constatou-se a diminuição nos números de pessoas que acompanhavam o Rapa. Cogitou-se que tal fator estava ocorrendo pelos dias em que a festa tinha acontecido, ou seja, por cair em dias úteis, impossibilitava muitos indivíduos de participar, pois teriam que trabalhar. Vieram os anos seguintes e, percebia-se que a cada nova comemoração diminuía a quantidade de adeptos. Tentando explicar a situação, a professora Joana Angélica afirma: “Os povoados vizinhos estão copiando o Rapa. [...] As pessoas não se unem para fazer a festa. [...] Se alguém se prontifica a organizar, falam que está tendo vinculação política, e que há interesses nas finanças”. (Entrevista cedida em 14/07/2011). Outras localidades vizinhas, com destaque para o povoado de Minação, município de Barrocas, vêm realizando festas semelhantes no dia 25 de Junho, o que acaba chocando com a data em Bandiaçu. Esse fator pode até influenciar, pois algumas pessoas podem migrar de um evento para o outro, porém não determina tanta redução na quantidade de participantes. Na visão do senhor Júlio, o motivo pelo qual vem acontecendo uma crescente redução na quantidade de foliões, é simplesmente pelo cansaço oriundo dos diversos festejos que ocorrem na localidade nos dias anteriores, assim, no dia do Rapa, as pessoas já estão esgotadas. Porém, essa explicação encontra resistências, pois em anos anteriores existiam as mesmas comemorações. Outro motivo que pode ter influenciado, é um hábito mais recente, no qual alguns foliões optam por se concentrar na praça, onde se encontram diversos carros com som automotivo, ou seja, a tradição do cortejo que visitava diversas casas em ruas diferentes, uma das principais características do Rapa, vem dando lugar ao costume de permanecer no centro do Distrito. Em virtude da reduzida participação dos habitantes locais, os quais pouco se mobilizam na organização do Rapa, assim como em outras comemorações, essa festa se transformou em um palco de campanhas políticas. Representantes ou aspirantes do poder legislativo municipal, rivais ou até do mesmo grupo, levados por pequenas rixas, não hesitam em ofuscar o brilhantismo do evento. Nota-se, por parte dos representantes do poder público municipal, que os investimentos na difusão e incentivo à cultura local vêm como se fosse um presente, uma espécie de dádiva derramada sobre a localidade.
  • 25. 25 A professora Elza coloca que foi montado um grupo há cerca de 10 anos, do qual fazia parte, que ficaria incumbido da arrecadação de valores para o São João. Porém começou a surgir influências políticas e, ela se retirou. “O grupo foi desarticulado por interesses políticos”, afirma. (Entrevista cedida em 10/08/2011). Os comerciantes que têm sua principal fonte de lucro do ano, nesse período, muitas vezes se omitem nas colaborações. Como observa Magno: “O comerciante, que é os principais que colhem o tempo todo na festa, não ajuda [...]. Teve um comerciante, que os organizadores do Rapa foi pra pegar uma colaboração, e ele deu cinco reais. Os comerciantes todos. As barracas de capeta, as barraca de pastel, colhe a festa inteira. Na hora de contribuir com o Rapa, que é uma tradição, ninguém quer contribuir”. (Entrevista cedida em 10/08/2011). A professora Márcia cita como exemplo a comunidade de Joazeirinho, localidade que também realiza as festas juninas, onde, segundo ela, há uma colaboração financeira de moradores e principalmente dos comerciantes, os quais contribuem o ano inteiro para a realização da festa. O administrador de Bandiaçu, Antônio Lucivânio, admite que ocorram algumas falhas, porém, segundo ele, grande parte da população apenas critica, não participando da organização do evento. Fato que é facilmente constatável. O Rapa por ter sido criado em Bandiaçu é venerado, transformando-se em um dos principais orgulhos do lugar. Funciona como algo em comum na confecção de um elo que interliga os habitantes à localidade. Serve como construtor de uma identidade local. Muitos fatos da vida de moradores e frequentadores são relacionados e relembrados por ocasiões em que os bandiaçuenses se encontravam festejando esse momento. Considerações finais Mesmo diante do controle da Igreja Católica, instituição de poder imensurável na colonização do Brasil, a qual tentou de muitas formas sufocar as manifestações populares que não se enquadrassem em seus dogmas, percebe-se de formas bastante diversificadas as mudanças de significados e incorporações que ocorreram nas comemorações do São João em diferentes partes do país, prevalecendo em muitos casos, a natureza pagã derivada de sua origem. A diversidade étnica, cultural e as dimensões geográficas são fatores que contribuíram para mudanças tão acentuadas.
  • 26. 26 Nos festejos juninos em Bandiaçu, verifica-se de forma bastante diferenciadas a presença de manifestações profanas, que vão desde danças de cunho sensual até a ingestão exacerbada de álcool, que gera confusões e, consequentemente brigas. Um dos poucos momentos que se percebe a presença da religião nesse período, dá-se no culto anterior ao dia do santo, realizado na Igreja Católica, onde ocorrem manifestações de louvor a São João. Nota-se, na realização das entrevistas, que algumas pessoas regidas por interesses pessoais, grupais ou político-partidários em alguns momentos, omitiram ou acrescentaram determinadas informações no sentido de que prevaleça aquilo que lhe é mais conveniente. As festas não representam apenas um momento de diversão entre as pessoas que a compartilham. Exprimem as relações sociais, tensões e conflitos existentes nas diversas sociedades. Parafraseando Bakhtin, as festividades, em todas suas fases históricas, estão ligadas a momentos de crises, de transtornos, na vida da natureza, da sociedade e do homem. A morte e a ressurreição, a alternância e a renovação, construíram sempre os aspectos marcantes das festas. Verificou-se no que tange às festas juninas em Bandiaçu e, principalmente, no Rapa, a pouca união dos moradores no sentido de organizar as comemorações, ficando estas, portanto, entregues à boa vontade de um pequeno grupo vinculado diretamente ao partido político da situação, o qual realiza o evento guiado por interesses e conveniências político-partidárias. A omissão da comunidade juntamente com as ações políticas direcionadas são fatores determinantes para falhas evitáveis que ocorrem entre os dias 22 a 24, e pela crescente decadência do Rapa no dia 25. Surgiram algumas dificuldades no sentido de adquirir imagens da festa na década de 90, seja pela raridade dos documentos, já que muitos desapareceram em exposições que foram realizadas no Distrito, ou pelo temor de algumas pessoas em emprestar essas fontes com receio de que desaparecessem. Bem como, barreiras que foram impostas na busca por possíveis documentos que se encontram sob tutela do Poder Executivo Municipal, dificultaram um aprofundamento maior, deixando algumas lacunas que poderão ser preenchidas em pesquisas posteriores sobre o tema.
  • 27. 27 REFERÊNCIAS ALDÉ, Lorenzo. Isto é São João? Revista História Viva (RHBN). Junho, 2009. ARAÙJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira. 2ªed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008. BATISTA, dos Rodinez. O São João como fato social total. Jornal Livre (13/06/2008). CAMPOS, Judas Tadeu de. Festas juninas nas escolas: lições de preconceitos. Campinas, 2007. CARLO, Ginzburg. O queijo e os vermes. Companhia das Letras, São Paulo, 1987. CHIANCA, Luciana. Chama que não se apaga. Revista História Viva (RHBN). Junho, 2009. FARIAS, Edson. Economia e cultura no circuito das festas populares brasileiras. Brasília, setembro/Dezembro, 2005. FLORIDO, Flavio. Na Bahia indústria do Axé abraça o Forró. Folha Imagem. 2011. Folha de São Paulo, (21/06/1993). HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade: tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Recenseamento, 2010. MARANHÃO, Gil. Especial de Fim de Semana. Agência Política Real. 2011. PINTO, Fabiane. Entre a fé e a folia: festas de reis realizadas em Conceição do Coité. (1990-2009). Conceição do Coité, 2010.
  • 28. 28 RIBEIRO, Darcy. Documentário: A invenção do povo brasileiro. Cinematográfica Superfilmes. Brasil, 2000. RUSSO, Marcelo. Festas Juninas. Reportagem. Junho, 2003. SOIHET, Rachel. “Festa da Penha: resistência e interpenetração cultural” in Cunha, M.P. (org.), Carnavais e outras f(r) estas, Campinas, Ed. Unicamp, 2005. SERRA Ordep. Rumores de Festa: O Sagrado e o Profano na Bahia. Salvador: EDUFBA, 1999. SOUZA, João Carlos de. O caráter religioso e profano das festas populares: Corumbá, passagem do século XIX para o XX. São Paulo, 2004. THOMPSON, Paul. História oral e contemporaneidade. Tradução Andrea Zhouri e Lígia Maria Leite Pereira. Sociedade brasileira de história oral, 2002.
  • 29. 29 Entrevistados Antônio Martir Mota, 68 anos, aposentado. (12/08/2011). Antônio Lucivânio Lopes Mota, 37 anos, administrador do distrito. (12/08/2001). Arlindo José de Lima, 85 anos, aposentado. (08/08/2011). Carlos Magno Oliveira Santana, 41 anos, servidor público. (10/08/2011). Elza Pereira da Silva. 61 anos, professora. (10/08/2011). Gregório Anselmo de Amorim, 85 anos, agricultor aposentado. (06/07/2011) Joana Angélica Oliveira Lima, 58 anos, professora. (14/07/2011). Jorge Carneiro Mota, 59 anos, agricultor. (06/07/2011). Josemar da Silva Araújo, 37 anos, professor. (16/08/2011). Júlio Grigório dos Santos, 81anos, agricultor aposentado. (08/07/2011). Márcia Mota Simões Borges, 38 anos, professora. (10/08/2011). Maria de Lurdes Oliveira Mota, 59 anos, aposentada e coordenadora das manifestações religiosas na Igreja Católica. (17/08/2011). Marilza Ferreira Mota, 47 anos, técnica em enfermagem e assistente social. (10/08/2011). Osvaldo Ferreira Lopes, 77 anos, agricultor e açougueiro aposentado. (08/07/2011). Salvador Ferreira Simões, 58 anos, pedreiro e sanfoneiro. (16/08/2011). Valter Carneiro de Oliveira, 42 anos, autônomo. (22/08/2011).
  • 30. 30 Anexo Imagem 1. Início da Alvorada (2006). Imagem 2. Explosão dos fogos (2006). Imagem 3. Quadrilha tradicional (2006). Imagem 4. Quadrilha com inovações nas roupas Imagem 5. Casal de namorados (2006). Imagem 6. Casal de noivos (2006).
  • 31. 31 Imagem 7. Representação de uma casa de farinha (2011). Imagem 8. Representação de um motor de sisal (2011). Imagem 9. Cartaz com propaganda do São João (2011).
  • 32. 32 Imagem 10. Pessoas dançando na praça (2006). Imagem 11. Palco, dividindo a praça (2011). Imagem 13. O famoso Bangüê (2006). Imagem 12. Bandeirolas enfeitando a praça (2011). Imagem 14. Início do Rapa na praça (2006). Imagem 15. Cortejo pelas ruas (2006).