Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo2007 jan-abr; 19(1):77-83     Manifestações bucais da aids eM cr...
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  1. 1. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo2007 jan-abr; 19(1):77-83 Manifestações bucais da aids eM crianças: iMplicações clínicas para o cirurgião- dentista Aids orAl mAnifestAtions in children: clinicAl implicAtions to the dentist Luciane Miranda Guerra ** Antonio Carlos Pereira* Eduardo Hebling * Marcelo de Castro Meneghim* resuMo A AIDS pediátrica é considerada hoje um problema de saúde pública mundial. O presente trabalho tem  como objetivo fornecer informações ao cirurgião-dentista acerca da AIDS pediátrica relacionadas com o  tratamento odontológico. Através de revisão da literatura conclui-se, entre outras coisas, que as manifes- tações bucais da AIDS são muito freqüentes e que o seu reconhecimento é responsabilidade do cirurgião- dentista e que a candidíase é a principal manifestação bucal da AIDS em crianças. descritores: Manifestações bucais – AIDS – Odontopediatria abstract The pediatric AIDS is considered a world-wide public health problem . The present  work has the objec- tive to supply information to the dentists concerning the pediatric AIDS related with the dentistry treat- ment. Through literature revision concludes one among others things, that the oral manifestations of the  AIDS are very frequent and that its recognition is responsibility of the dentist and that the candidíasis is  the main orall manifestation of the AIDS in children.  descriptors: Oral manifestations – Acquired immunodeficiency syndrome – Pediatric dentistry  * Cirurgiões-Dentistas. Professores Associados do Departamento de Odontologia Social da F.O.P.- Unicamp. E-mail: apereira@fop.unicamp.br**   irurgiã-Dentista. Mestra em Odontologia  Legal e Deontologia  pela   FOP-Unicamp, e doutoranda em Cariologia pela FOP - Unicamp  . e – mail aleoulu@ C aol.com 77
  2. 2. Guerra LM, Pereira AC, Hebling E, Meneghim MC. Manifestações bucais da Aids em crianças: implicações clínicas para o cirurgião-dentista. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo 2007 jan-abr; 19(1):77-83introdução mundo. Os 15% restantes incluem crianças com hemo- O HIV (Human Immunodeficiency Vírus), é um re- filia, desordens de coagulação, receptores de transfusõestrovírus humano que pode ser transmitido pela via san- de sangue e outros riscos não identificados Chigurupat-guínea, pelo contato sexual e pela via vertical, ou seja, da  ti5 (1996).mãe soropositiva para o feto durante a gestação, o parto  Há  similaridade  entre  as  lesões  dos  adultos  e  das ou a amamentação (Chigurupati et al.5, 1996). Atualmen- crianças mas também há diferenças, incluindo fatores de te, identifica-se o sexo feminino numa curva ascendente risco, modo de transmissão, padrão de soroconversão e de incidência da doença. Em razão disso aumenta o nú- história natural da doença Petersen19 (1993).mero de transmissões verticais do vírus e a taxa de in- A presença de lesões bucais é útil para a seleção de fecção por essa via varia de 20 a 40% dos casos segundo  profilaxia antibiótica e da intervenção terapêutica, o queRamos-Gomes21 (1997). Conseqüentemente o número melhorararia  a  sobrevida  de  crianças  infectadas  pelo de crianças afetadas pela doença começa a ocupar espa- HIV (Chigurupatti5 1996).ço na epidemiologia do HIV. (Brasil2, 2000). Pesquisa  com  crianças  brasileiras  infectadas  pelo  Considerando que as manifestações bucais são muito  HIV. concluiu que as lesões intra e extra-bucais foram comuns e, na maior parte das vezes, são os primeiros si- encontradas  na  maioria  das  crianças  que  apresentaram nais e sintomas da doença, o cirurgião- dentista é, nesses  sorologia positiva, além disso, a Linfadenopatia cervical casos, o primeiro a se deparar com o fato. Assim, cabe  e a Candidíase pseudomembranosa foram as lesões mais a esse profissional o diagnóstico ou pelo menos a hipó- comuns Costa8 (1998).tese  de  diagnóstico  que  suscite  o  encaminhamento  do paciente (Ramos-Gomes21, 1997). Manifestações bucais em crianças infectadas Visando auxiliar o cirurgião-dentista nas dificuldades pelo vírus HIVque possa encontrar no atendimento a essa nova deman- Rubini,  em  2001,  descreve  as  principais  manifesta-da de pacientes, este artigo apresenta uma revista da li- ções bucais em crianças com infecção pelo HIV por or-teratura referente ao assunto, buscando, a atualização do  dem  decrescente  de  freqüência  :  candidíase,  cengivite, profissional e, sobretudo, contribuindo para a melhora hipertrofia de parótidas, úlceras aftosas, estomatite her-da qualidade de vida dessas crianças. pética e abcessos dentários. Afirma ainda que manifes- tações raras incluem: leucoplasia oral pilosa, neoplasias revisão da literatura malignas  e  ulcerações  relacionadas  à  citomegalovirose,  “É considerada como criança, para os efeitos da lei,  varicela zoster e ao vírus cocksackie.a  pessoa  com  até  doze  anos  incompletos...”  (Estatu-to...,1990)10 Entretanto, Petersen et al.19 (1993) definem Candidíase ou candidose bucalAIDS  Pediátrica  como  a  que  ocorre  em  crianças  com  Pode ser encontrada sob quatro formas: eritematosa, menos de 13 anos de idade. Acima de treze anos os pa- queilite angular, hiperplásica e pseudomembranosa que cientes são incluídos nas estatísticas de adultos por apre- é a mais freqüente e caracteriza-se por manchas ou pla-sentarem padrões semelhantes. cas removíveis de coloração branca ou amarelada locali- Van  de  Perre28,  em  1999,  alerta  que  o  aleitamento  zadas em qualquer área da mucosa bucal (Chigurupatti5 materno é uma forma comprovada de transmissão ver- 1996).tical do vírus HIV para a criança. Há comprovação da  O diagnóstico clínico da candidíase pseudomembra-presença do vírus no leite materno.  nosa consiste em raspar com uma espátula a região pseu- A  primeira  ocorrência  de  transmissão  perinatal  re- domembranosa e, após removida a camada esbranquiça-gistrada no Brasil foi em 1985. O número de casos de  da, o exame do leito mucoso que deverá apresentar-se AIDS no Brasil em menores de 13 anos de idade é de  avermelhado  (Valentim27, 2001). A citologia esfoliativa7846 (Brasil,2002ª)3.  serve para evidenciar a colonização por cândida como  A  infecção  pelo  HIV/AIDS,  em  crianças  e  adoles- agente etiológico da lesão. A biópsia da lesão também é centes já é considerada um problema de saúde pública  útil para a confirmação de presença de hifas e/ou pseu-mundial (Brasil, 2001)3. do-hifas, o que pode eliminar a dúvida em relação a pro- A transmissão vertical representa 85% dos casos pe- cessos virais ou outras lesões cujo aspecto clínico pode diátricos notificados nos Estados Unidos e ao redor do se assemelhar à candidíase (Flaitz11 1999).78
  3. 3. Guerra LM, Pereira AC, Hebling E, Meneghim MC. Manifestações bucais da Aids em crianças: implicações clínicas para o cirurgião-dentista. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo 2007 jan-abr; 19(1):77-83 O paciente HIV positivo e com candidíase bucal tem  so,  quadros  severos  de  febre,  infartamento  ganglionar, seu prognóstico, em relação à sobrevivência, diminuído  prostração e inapetência podem ser comuns em crianças além do que a candidíase pode agravar o estado do sis- HIV soropositivas ou na fase de AIDS (Chigurupati ettema imunológico já comprometido e, ainda, funcionar  al.5, 1996).como foco de colonização para outros locais como esô- Geralmente as infecções por HSV em HIV soroposi-fago e trato respiratório (São Paulo24, 2002). tivos são mais severas e exigem hospitalização (Ramos- Gomes et al.20, 1999). Hipertrofia de parótida É característica de distinção de infecção por HIV em  Cárie dentária e HIV/AIDScrianças. A glândula apresenta aumento difuso de volu- Num estudo de prevalência de cárie Souza et al.26, em me, uni ou bilateral, de consistência firme e sem evidên- 1996, encontraram valores estatisticamente significantescia de inflamação ou sensibilidade ao toque. O aumento de ceo e CPO-D, respectivamente, de 5,29 e 2,36 para é crônico, ocasionalmente acompanhado de xerostomia  crianças HIV soropositivas e 2,59 e 0,74 para as crianças (Chigurupatti5 1996). A análise histopatológica de bióp- do grupo-controle. O autor atribui a alta incidência de sia revela um infiltrado linfocitário disperso no tecido cárie em crianças HIV soropositivas à alta concentração glandular. Não  requer tratamento e pode ser um fator  de sacarose nos medicamentos antiretrovirais e pela xe-preditor  de  prognóstico  para  AIDS,  sugerindo,  uma  rostomia causada por eles.progressão mais lenta da doença causada pelo HIV (De Martino9 1994). Linfadenopatia cervical A linfadenopatia cervical não é um achado específico Gengivite associada ao HIV (Gengivite-HIV) em  crianças  infectadas  pelo  HIV,  ou  seja,  sua  presen- Leggott16, em 1992, relata que muitas crianças HIV  ça, sozinha, não indica infecção sintomática. Ela geral-soropositivas  apresentam  gengivite.  Caracteristicamen- mente  está  acompanhada  por  hepatoesplenomegalia  e te há  um  eritema  linear  na  gengiva  marginal  na  super- hipertrofia de glândulas salivares. Caracteristicamente éfície  vestibular  e  proximal  sem  correlação  direta  entre  crônica, difusa e sem sensibilidade dolorosa (Classifica-a existência dessa lesão e as condições de higiene locais  tion6, 1987). Costa et al.8, em 1998, encontraram linfade-e  de  placa  bacteriana.  A  extensão  do  eritema  é  variá- nopatia cervical em 53,7% das crianças acometidas pelo vel podendo chegar até mucosa bucal. Pode-se atribuir  HIV. Nódulos submandibulares foram sempre afetados, a persistência da inflamação gengival à baixa relação de enquanto que linfonodos mentonianos e parotídeos fo-células CD4/CD8. Vieira et al.29 (1996) ressaltam que a ram palpáveis em 18,2% e 9,1%, respectivamente. instituição de tratamento não reduz o quadro inflamató-rio gengival. Leucoplasia pilosa A  leucoplasia  pilosa  é  uma  lesão  branca,  não  re- Herpes simples ( HSV) movível que usual ocorre na borda lateral da língua, e,  A estomatite herpética é causada por Herpes Simples  ocasionalmente, na mucosa bucal ou labial. (Grenspan Vírus –1 (HSV). É doença comum em crianças infecta- e Grenspan14, 1993). Em crianças é raríssima, podendodas pelo HIV. Inicialmente, manifesta-se como gengivo- ocorrer nos adolescentes com idade acima de 15 anos estomatite. Lesões recorrentes são vistas como vesículas  5,12. Sua etiologia está associada ao vírus Epstein Barr na margem do vermelhão do lábio, que, posteriormente  (EBV) e as lesões podem ainda estar infectadas porse  rompem  formando  úlceras  nos  lábios  ou  aparecem  Cândida  Albicans  sendo  que  o  diagnóstico  diferencial como  aglomerados  de  pequenas  úlceras  dolorosas  no  deve ser feito em relação a outras lesões brancas como: palato e na gengiva. Em crianças HIV soropositivas es- candidíase, líquen plano, leucoedema e nevo branco es-sas lesões são crônicas, recorrentes, e podem progredir  ponjoso. Para tanto os testes laboratoriais indicados são: rapidamente até causar extenso envolvimento mucocu- exame  histopatológico,  demonstração  do  EBV  por  hi-tâneo. O aumento na severidade e na freqüência das re- bridização  in situ  pela  reação  em  cadeia  da  polimerase petições das lesões orolabiais está associado ao aumento  (PCR) e microscopia eletrônica. Seu tratamento consisteda imunossupressão. Os sintomas desse quadro severo  de boa higiene bucal, bochechos com povidona iodada podem impedir a ingestão. (Leggot16, 1992). Além dis- a 10% ouclorexidina a 0,1-0,2% e agentes fúngicoa tópi- 79
  4. 4. Guerra LM, Pereira AC, Hebling E, Meneghim MC. Manifestações bucais da Aids em crianças: implicações clínicas para o cirurgião-dentista. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo 2007 jan-abr; 19(1):77-83cos como nistatina ou miconazol (Laskaris15, 2000) . rologia falso-positivos. Por outro lado, a sorologia nega- tiva não exclui a possibilidade de infecção uma vez que  Sarcoma de Kaposi a  criança  pode  estar  na  “janela  imunológica”  (período  O sarcoma de Kaposi é uma lesão que pode ser plana  entre o momento da infecção e a formação de anticor-ou elevada, única ou múltipla, avermelhada, azulada ou  pos anti-HIV). Assim, o diagnóstico laboratorial paracinzenta, cuja localização mais comum na boca é o pala- detecção  de  infecção  por  HIV  em  lactentes  deve  ser to duro. (Grenspan e Grenspan14, 1993). Estes tumores realizado através dos métodos de cultura, PCR-DNA e ocorrem  com  freqüência  na  população  adulta  em  fase  PCR-RNA, sendo considerado positivo se ocorrer po-de AIDS (aproximadamenete 15%) mas, em crianças de sitividade  em  um  ou  mais  desses  métodos  e  em  duas países ocidentais é raro 1, 5. Em Kampalla, Uganda, um  amostras  coletadas  em  ocasiões  diferentes  (Sande  & número crescente de crianças apresentou essa manifes- Volberding23 ,1995).tação: de 1986 a 1990 vinte e cinco casos foram docu-mentados (Chiguruppatti et al.5, 1996). Biossegurança e controle de infecção no consul- Segundo  Laskaris15 (2000) o diagnóstico diferencial tório odontológicodeve  ser  estabelecido  através  de  biópsia  em  relação  a   O risco de se adquirir HIV é de aproximadamente granuloma piogênico, lesão periférica de células gigan- 0,3% após exposição percutânea; e de 0,09% após uma tes, angiomatose bacilar, hemangioma e angiossarcoma exposição  mucocutânea  em  situações  de  exposição  a  O  tratamento  das  lesões  bucais,  quando  isoladas,  sangue. Se associado a outros materiais biológicos o ris-pode  ser  realizado  topicamente  com  aplicações  intra- co é menor e ainda indefinido. O risco de transmissãolesionais de Vimblastina (Velban), evitando-se assim os após exposição da pele íntegra a sangue infectado por inconvenientes de uma quimioterapia sistêmica. Porém,  HIV é menor do que o risco após exposição mucocutâ-somente a biópsia serve como controle pós-aplicações,  nea (Brasil4, 2002b).devendo apresentar como resultado tecido normal (FU- A  Secretaria  Estadual  de  Saúde  do  Estado  de  São NARI13, 2003). Paulo,  através  de  Norma  Técnica  (São  Paulo24, 2002), estabelece as condições para instalação e funcionamento  Manifestações sistêmicas em crianças infecta- dos estabelecimentos de assistência odontológica. das pelo vírus HIV - Todo estabelecimento de assistência odontológica  “Geralmente  os  recém-nascidos  são  assintomáticos  deve ter lavatório com água corrente, de uso exclusivo até o 3º ou 4º meses de vida, quando, então, começam a  para lavagem de mãos dos membros da equipe de saúde apresentar déficit no desenvolvimento pondo-estatural. bucal.A pneumonia linfóide crônica e a parotidite inespecífica I) A lavagem de mãos é obrigatória para todos ospraticamente só aparecem em AIDS pediátrica. A crian- membros da equipe de saúde bucal.ça HIV positiva apresenta evolução clínica bastante vari- II) O lavatório deve contar com: dispositivo que dis-ável. Quinze a vinte por cento, no primeiro ano de vida,  pense o contato de mãos com o volante da torneira ou desenvolvem a  forma grave, ocorrendo  encefalopatias,  do registro quando do fechamento da água; toalhas de hepatoesplenomegalia,  pneumonia  linfóide  intersticial,  papel descartável ou compressas estéreis e sabonete lí-podendo evoluir para a morte, e 80% seguem o padrão  quido.semelhante ao do adulto, tendo mais chance de sobre- III)A limpeza e/ou descontaminação de artigos nãovida a longo prazo” (Wiznia et al31., citados por Vilaça et deve ser realizada no mesmo lavatório para lavagem das al.30, 1996). mãos. Em relação ao equipamento de proteção individual  Diagnóstico e evolucão da doença (EPI.), a Norma Técnica declara em seu capítulo VIII, O diagnóstico laboratorial de infecção por HIV no  artigo 36 que os estabelecimentos de assistência odon-recém-nascido não pode ser realizado através da soro- tológica  devem  possuir  os  seguintes  equipamentos  de logia  anti-HIV.  Isso  porque  ocorre  passagem  transpla- proteção individual:centária de anticorpos maternos para o feto. Até os 18  I) Luvas para atendimento clínico e cirúrgico, que de-meses  de  vida  as  crianças  nascidas  de  mães  infectadas  vem ser descartadas a cada pacientepelo HIV podem, portanto, apresentar resultados de so-80
  5. 5. Guerra LM, Pereira AC, Hebling E, Meneghim MC. Manifestações bucais da Aids em crianças: implicações clínicas para o cirurgião-dentista. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo 2007 jan-abr; 19(1):77-83 II) Avental para proteção de atendimentos odontológicos a crianças e adolescen- III) Máscaras descartáveis tes infectados seja bastante grande.  IV) Óculos de proteção Considerando que as manifestações bucais são extre- V) Gorro mamente comuns em crianças e, geralmente a primeira  O profissional que sofreu um acidente ocupacional manifestação  da  doença,  o  papel  do  cirurgião-dentista deve proceder da seguinte forma: passa a ser crucial no diagnóstico e na evolução da mes- 1) Adotar cuidados locais de forma exaustiva: lava- ma (Ramos-Gomez21, 1997).gem das mãos com água e sabão e aplicação de deger- O  reconhecimento  da  candidíase  como  principal mantes; manifestação  bucal  da  AIDS  em  crianças  deve  ser  de  2) Fazer teste anti-HIV imediatamente após o aci- domínio  do  cirurgião-dentista  já  que  em  grande  parte dente  para  comprovação  de  seu  status  sorológico  não  dos casos é essa manifestação que leva os responsáveis comprometido no momento do acidente para efeitos le- pela  criança  a  procurarem  atendimento  odontológico, gais. Repetir o referido teste após 6 semanas, 12 semanas  em razão das conseqüências da lesão como o incômodo e após 6 meses; e a inapetência.  3) O profissional acidentado deverá ser acompanha- A candidíase pseudomembranosa e a hipertrofia dedo por doze meses, com especial atenção para as mani- parótidas, entre outros sinais, têm sido reconhecidas, se-festações primárias que podem ocorrer de 3 a 4 semanas  gundo Chigurupati5 (1996), como característica de dis-após o contágio. Os testes de acompanhamento deverão  tinção de infecção por HIV em crianças. As principais levar em conta o período de janela imunológica, na qual  diferenças  no  curso  clínico  das  manifestações  quando podem ocorrer resultados falso-negativos; estas ocorrem em crianças saudáveis e quando ocorrem  4) A instituição de terapia profilática depende da ava- em crianças HIV soropositivas são: liação do acidente, do status sorológico do paciente-fon- – A candidíase é doença comumente encontrada em te,  de  condições  imunológicas  do  acidentado  e  deverá  crianças saudáveis nos primeiros seis meses de vida nas ser feita por profissional competente. (Brasil4, 2002b). quais apresenta-se de forma leve; entretanto em imunos- suprimidos é freqüentemente observada fora deste perí- Aspectos éticos e legais odo e as lesões são mais severas (Petersen19, 1993). O Conselho Federal de Odontologia (CFO)7,  em  –  A  gengivite  em  crianças  saudáveis  sempre  estará 1998, através do Código de Ética Odontológica declara  associada à má higienização bucal. Já nos imunossupri-no artigo 6º que “é vedado abandonar o paciente, sal- midos ela ocorre mesmo na ausência de placa bacteriana vo por motivo justificável, circunstância em que serão e  persistem  mesmo  com  boa  higienização  bucal  (Le-conciliados  os  honorários  e  indicado  substituto;  e  que  ggott16, 1992)é “vedado deixar de atender paciente que procure cui- – A Hipertrofia de glândula Parótida (Parotiditedados profissionais em caso de urgência, quando não inespecífica) ocorre, em imunocompetentes, associadahaja outro cirurgião-dentista em condições de fazê-lo”  a inflamação. Em crianças HIV soropositivas não háEm seu artigo 2º inciso IV, diz que a Odontologia é uma  evidência de inflamação, nem mesmo sensibilidade aoprofissão que se exerce em benefício da saúde do ser toque5.humano  e  da  coletividade,  sem  discriminação  de  qual- –  Herpes  Simples:  Em  crianças  HIV  soropositivas quer  forma  ou  pretexto.  Além  disso,  esclarece  que  “é  provoca  quadros  severos  muito  mais  graves;  as  lesões direito fundamental do cirurgião-dentista, segundo suas  extrapolam  a  região  perioral,  provocam  prostração  e atribuições específicas, diagnosticar, planejar e executar exigem,  muitas  vezes,  hospitalização  (Ramos-Gomes20 tratamentos, com liberdade de convicção, nos limites de  1999).suas atribuições, observados o estado atual da ciência e  A  Secretaria  de  Saúde  de  São  Paulo  (São  Paulo24, sua dignidade profissional” (cap. 2º, art.3º). 2002), bem como o Ministério da Saúde (Brasil4, 2002b), são muito claros em suas regulamentações e normas téc-discussão nicas, o que viabiliza o atendimento odontológico segu- A alarmante epidemiologia da AIDS pediátrica nos  ro e o perfeito controle de infecção durante o tratamen-traz a perspectiva de que ainda na atual década o número  to de qualquer paciente. Basta que se sigam as referidas  81
  6. 6. Guerra LM, Pereira AC, Hebling E, Meneghim MC. Manifestações bucais da Aids em crianças: implicações clínicas para o cirurgião-dentista. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo 2007 jan-abr; 19(1):77-83normas para que haja biossegurança na rotina clínica. conclusão A responsabilidade do cirurgião-dentista é a de zelar  •  O  reconhecimento  das  manifestações  bucais  da pela  saúde  e  pelo  bem-estar  do  ser  humano.  Isso  im- AIDS em crianças é responsabilidade do cirurgião-den-plica que não necessariamente ele proceda diretamente  tista;em todos os trâmites do diagnóstico propriamente dito,  •  A  candidíase  é  a  principal  manifestação  bucal  da embora  essa  seja  uma  prerrogativa  sua  garantida  pelo  AIDS em criançasCódio de Ética Odontológica (CFO7, 1998) mas, sobre- • As manifestações bucais da AIDS em crianças ser-tudo, que conduza o paciente para essa etapa, quer seja  vem como fator preditor do prognóstico e valioso auxí-encaminhando-o  para  o  médico  que  o  faça,  quer  seja  lio para a instituição de tratamentoconvencendo-o  a  procurar  um  serviço  de  testagem  e  • O diagnóstico precoce da AIDS em crianças per-aconselhamento.  mite aumento da sobrevida e melhora da qualidade de  vida desses pacientes.  referências 1.   erkowitz R, Frenkel LM. Cancer in the HIV-infec- B 8.   osta LRRS. et al. Oral findings in pediatric AIDS: C ted child. Pediatr Dent 1996 Mar-Apr;18(2):127-8.. a  case control study in Brasilian  children.  ASDC  J Dent Child 1998 May/June; 87(3): 186-90.. 2.   rasil. Ministério da Saúde. Controle de infecção e  B a prática odontológica em tempos de AIDS: manual  9.   e Martino M. Features of  children perinatally in- D de condutas. Brasília, 2000a. 118p.. fected with HIV-1 surviving longer than five years : Italian register of  HIV infection in children. Lancet,    3.   rasil.  Ministério  da  Saúde.  Secretaria  de  Políticas  B 1994  v.343,  p.191-5.  Apud  Chigurupatti  R,  Ragha- de Saúde. Coordenação Nacional de DST e AIDS.  van SS, Studen-Pavlovich DA. Op. cit. Ref. 5.  Boletim epidemiológico-AIDS- julho a setembro de  2001. Brasília, 2001. Disponível em: <http://www. 10.   statuto da Criança e do Adolescente: Lei n. 8069,  E aids.gov.br> Acesso em: 26 nov. 2002a.. de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da  Criança e do Adolescente e dá outras providências.  4.   rasil.  Ministério  da  Saúde.  Secretaria  de  Políticas  B Rio de Janeiro: Auriverde, 1997. 134p. de Saúde. Coordenação Nacional de DST e AIDS.  Manual    de  condutas  em  exposição  ocupacional  a  11.   laitz  CM,    Hicks  MJ.  Oral  candidiasis  in  children  F material  biológico.Disponível  em:  <www.aids.gov. with  immune  suppression:  clinical  appearance  and  br/assistencia/manual_exposicao_ocupa.htm>    therapeutic  considerations.  ASDC  J Dent child  Ful- Acesso em: 16 jul. 2002b.. ton. 1999 May-June; 66(3):161-6. 5.   higurupatti R, Raghavan SS, Studen-Pavlovich, DA.  C 12.   onseca  RO.  Freqüência  das  manifestações  bucais  F Pediatric HIV infection and its oral manifestations:  em crianças infectadas pelo vírus da imunodefici- a review.  Pediatr Dent 1996 Mar-Apr; 18(2):106-13.. ência  humana.  1996.  100p.  Dissertação  (Mestrado  em Odontologia, Odontopediatria) - Faculdade de 6. Classification System for Human Immunodeficiency Odontologia, Universidade Federal do Rio de Janei- Virus (HIV) infection in children under 13 years of ro, Rio de Janeiro. age.  MMWR  Morb Mortal Wkley Rep Waltham  1987  Apr; 36(5):225-30.. 13.   unari  S.  Manifestações  bucais  em  pacientes  com  F vírus da imunodeficiência humana. J Periodonto São  7.   onselho  Federal  de  Odontologia.  Código  de  C Paulo, out.-dez. 2001. Disponível em  <www.sobra- ética  odontológica  :  resolução  CFO  n.  179,  de  pe.org.br > Acesso em : 30 abr. 2003. 19/12/1991,  alterada  pelo  regulamento  n.  01  de  05/06/1998. Rio de Janeiro : CFO, 1998. 20p.. 14.   reenspan D, Greenspan JS. Oral manifestations of   G human immunodeficiency vírus infection. Dent Clin North Am 1993 Jan; 37(1)21-31.82
  7. 7. Guerra LM, Pereira AC, Hebling E, Meneghim MC. Manifestações bucais da Aids em crianças: implicações clínicas para o cirurgião-dentista. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo 2007 jan-abr; 19(1):77-8315.   askaris  G.  Atlas  colorido  de  doenças  bucais  da  L 24. São Paulo (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. infância e da adolescência. Porto Alegre: Art Med,  Coordenação dos Institutos de Pesquisa. Centro de  2000. cap.23, p. 250-54. Vigilância Sanitária. Sistema Único de Saúde. Reso- lução SS-15, de 18-1-99: aprova norma técnica que 16.   eggott  PJ.  Oral  manifestations  of   HIV  infection  L estabelece  condições  para  instalação  e  funciona- in children. Oral Surg Oral Med Oral Pathol 1992 Feb;  mento  de  estabelecimentos  de  assistência  odonto- 73(2):187-90. lógica, e dá providências correlatas. Disponível em: 17.   agalhães  MG,  et al.  Oral  manifestation  of   HIV  M <http://www.saude.sp. gov.br> Acesso em: 25 jul.  positive  children.  J Clin Pediatr Dent  2000  Winter;  2002. 25(2):103-6. 25.   ilverman  MAS.  Atlas  colorido  das  manifestações  S18.   esquita RA, et al. Candidíase oral e a infecção pelo  M bucais da AIDS. São Paulo: Santos, 1989. 113p. HIV. Rev CROMG 1998 jan/jul; 4(1):27-31. 26.   ouza  IPR,  et al.  Prevalência  de  cárie  em  crianças  S19.   etersen SG, et al. Manifestações Orais em crianças  P infectadas pelo HIV. Rev Bras Odontol 1996 jan/fev;  portadoras de AIDS. Rev Bras Odontol Rio de Janeiro.  53(1):49-51. 1993 set/out; 50(5):10-5. 27.   alentim C. Condições patológicas da cavidade bu- V20.   amos-Gomez  FJ,  et al. Classification, diagnostic R cal na infância. In: CORREA MSNP. Odontopedia- criteria, and treatmentrecommendation for orofacial  tria na primeira infância. São Paulo : Santos, 2001.  manisfestation  in  HIV-infected  pediatric  patients.  cap.42, p.614-25. Collaborative workgroup on oral manifestations of   28.   an de Perre P. Transmission of  human immunode- V pediatric HIV infection. J Clin Pediatr Dent Birmin- ficiency virus type 1 through breast-feeding: how can gham. 1999 Winter; 23(2):85-96. it be prevented? J Infect Dis 1999 may; 179(3):405-7.21.   amos-Gomez FJ. Oral aspects of   HIV infection  R 29.   ieira AR, et al. “Status” gengival de crianças HIV  V in  children.  Oral Dis,  San  Francisco.  1997  May;  positivas. Rev Bras Odontol 1996 nov/dez; 53(2):2-4. 3(1):531-5. 30.   ilaça  EL,  Linhares  RMS,  Pordeus  IA.  Manifesta- V22.   ubini  N.  Principais  manifestações  buco-maxilo- R ções bucais associadas à infecção pelo HIV/AIDS  faciais em crianças [mensagem pessoal]. Mensagem  em crianças. Rev CROMG 2001 jan/abr; 7(1):47-56. recebida  por  <antonio@aids.gov.br>  em  6  ago.  2001. 31.   iznia AA, et al. Pediatric HIV infection. Med Clin W North Am Philadelphia, 1996 Nov; 80(6):1309-36.23.   ande  MA,  Volberdig  PA.  Tratamento  clínico  da  S Apud  Vilaça  EL,  Linhares  RMS,  Pordeus  IA.  Op.  AIDS. 3.ed. Rio de Janeiro: Revinter, 1995. 409p. cit. Ref. 30. Recebido em: 14/9/2004  Aceito em: 11/5/2005 83

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