Textos e Comentários

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Textos de apoio para alunos de Filosofia do Ensino Secundário.

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Textos e Comentários

  1. 1. Filosofia TEXTOS ECOMENTÁRIOS JORGE NUNES BARBOSA
  2. 2. INTRODUÇÃO
  3. 3. Este conjunto de textos destina-se prioritariamente, se ❖ Crença e razão;não exclusivamente, aos meus alunos de Filosofia doEnsino Secundário. ❖ Dever e verdade;Não me move qualquer motivação doutrinária, mas tão ❖ Trabalho e utilidade;só a intenção de fornecer aos estudantes alguns modelos ❖ Estado e liberdade (Espinosa);de resposta a perguntas, ou modelos de comentários detextos de autor. ❖ Estado e liberdade;Para cada pergunta ou texto a comentar, foram ❖ Uma Boa Lei (Hobbes).elaborados dois modelos de resposta. Na maior partedas vezes, a distinção entre eles é de naturezaestritamente técnica. No entanto, em alguns casos, paraalém das diferenças estruturais, existem também Tenham bom proveito.algumas diferenças de substância. Nem sempre asinterpretações, presentes nos dois modelos, são Julho de 2012coincidentes. Jorge Nunes BarbosaOs temas abordados dizem respeito: ❖ Juízos de gosto; ❖ Conceito de educação (Rousseau); ❖ Verdade e dúvida; ii
  4. 4. • CAPÍTULO 1 • APRECIAR OBRAS DE ARTEAdmitindo que nem todos os artistascontemporâneos são charlatães, e que as suas obrassão, apesar de tudo, reconhecidas por um públicoesclarecido, podemos, então, perguntar-nos se, paraapreciar uma obra de arte, precisamos de ser cultos.
  5. 5. • Secção 1 •1. Ser-se culto não é uma condição necessária para se ser sensível à beleza ou à arte em geral. Mas a cultura é necessária se quisermos cultivar o nosso gosto.2. A cultura afina o gosto, tal como o gosto gera a vontade de cultura, ou de nos cultivarmos.3. Todos os homens, porque são homens, possuem uma cultura. É por isso Primeiro Modelo que todos os homens reúnem as condições É preciso ser-se culto para apreciar arte contemporâneas, somos tentados a para apreciar a arte? uma obra de arte? seguir uma de duas formas de reagir: Perante a nossa desorientação quando ✤ Considerar que o artista nos propõe nos é pedido que avaliemos as obras de qualquer coisa, sem critério visível; 4
  6. 6. ✤ Considerar, com muita modéstia, que somos I. A instrução e o conhecimento são necessários incompetentes e que não temos cultura bastante para apreciar uma obra de arte. para apreciar essas obras. 1. A cultura é indispensável para saborear, no seuAdmitindo, no entanto, que nem todos os artistas justo valor, uma obra de arte, porque é a culturacontemporâneos são charlatães, e que as suas obras são, que nos permite situarmo-nos a nós próprios eapesar de tudo, reconhecidas por um público situar o artista numa época e num espaçoesclarecido, podemos, então, perguntar-nos se, para particulares.apreciar uma obra de arte, precisamos de ser cultos. Oproblema está em saber o que é que se entende por “ser 2. A cultura fornece-nos as chaves para aculto”, sabendo-se, como se sabe, que a cultura não se compreensão de uma obra de arte: permitereduz à erudição e que o apreço não é talvez um simples julgar, no sentido de avaliar uma obra,juízo de gosto subordinado a normas, mas também uma respeitando os critérios de gosto de uma épocaforma de obtenção de prazer, de gozo, que nos deve ser determinada. Se nos ficarmos, no entanto, pordado por uma obra artística. Qual é, então, o papel da estas reflexões, teríamos de assumir que avaliarcultura, isto é, de todos esses hábitos e aptidões uma obra de arte corresponderia ao uso deaprendidas que pertencem à nossa educação e critérios, de normas. A obra de arte inscrever-participam nos nossos juízos? Deveremos questionar- se-ia numa história particularnos sobre se nos basta ter bom gosto, ou se nos é 3. O que aprendemos, pelo esforço de nosnecessário ser cultos para apreciar uma obra de arte. cultivarmos, são regras, mas não é garantidoFinalmente, interrogar-nos-emos sobre a própria que a obra de arte se reduza a uma linguagem eexistência da obra de arte, independentemente dos que as regras (ou a gramática dessa linguagem)juízos de apreço que possamos formular a seu respeito. que percebemos sejam aquelas que o artista 5
  7. 7. desejaria transmitir. Neste aspeto, a arte escapa dos juízos de conhecimento. Os primeiros são às categorias que se transmitem pelo ensino, e determinantes, isto é, partem do universal para depende da liberdade de pensar e de se ser se aplicar ao caso particular, os segundo são artista. determinados. Com efeito, o gosto é a relação de um sujeito com uma obra de arte particular, queII. A obra de arte não é hermética, tem a ver permite tomar a decisão de dizer, com toda acom o prazer. sua subjetividade, “isto é belo”. 4. É a relação que o espectador mantém com a 6. A obra de arte, por seu turno, tem a ver com o obra de arte que é decisiva na sua apreciação, e livre jogo da imaginação e do entendimento. Na não um aparelho técnico, um léxico por ausência de um conceito que possa limitar a exemplo, ou dados históricos. Essa relação entre liberdade desse jogo, diz-nos Kant, tudo se observador e obra de arte é necessariamente passa como se não pudéssemos impedir-nos a subjetiva: trata-se da relação entre uma nós mesmos de julgar e dizer “isto é belo”. Só sensibilidade e uma matéria. Vale pouco a pena que este processo não se explica pela cultura; na saber tudo sobre um artista, ou sobre o verdade só se desencadeia quando, perante uma movimento no qual se inscreve a sua criação; obra de arte, experimentamos prazer que isso não basta para a apreciar. tendemos, implicitamente, a partilhar com os outros: existe um juízo de gosto universal que é, 5. Se a cultura nos ajuda a compreender a arte, de alguma forma, esta pretensão em partilhar o tratando-se de a apreciar, a situação é diferente, nosso próprio gosto com os outros. pois a apreciação tem a ver com o gosto, com o prazer e não com a reflexão. Temos de distinguir, à maneira de Kant, os juízos de gosto 6
  8. 8. III. Uma obra de arte basta-se a si mesma. 9. Qualquer que seja a obra de arte, ela pertence a uma cultura sem hierarquia, sem critério de 7. Esquecemo-nos muitas vezes, sobretudo reconhecimento. O que se aprende e pertence a perante a arte abstrata, que a obra de arte é uma uma cultura determinada, é uma maneira de matéria que não se refere a outra coisa senão a ver, de ouvir, de sentir, em resumo, de si mesma. Neste sentido, o artista não participar na obra de arte. Mas isto acontece comunica, não envia uma mensagem por espontaneamente, pois todas as crianças são intermédio da sua obra. A criação é muito mais candidatas à cultura do seu país e do seu tempo, do que isso e, como afirmava Kant, nenhum tal como todas as obras de arte são candidatas a Homero, nenhum poeta seria capaz de relatar apreciação. aquilo que a obra de arte veicula. A obra de arte não remete nem para regras, nem para conceitos. Conclusão: Uma obra de arte pode ser apreciada, sem 8. A cultura pode ajudar a compreender, a situar ser explicada, compreendida e encerrada em regras ou uma obra de arte no seu contexto, mas não normas culturais. Neste sentido, pode dizer-se que a permite apreciá-la no seu justo valor. Com obra de arte é independente do facto de se ser culto ou efeito, a obar de arte não é um signo que se não. Entendamos por “ser culto” pertencer a uma referiria a um significado, a um sentido. Ela está cultura particular, ter recebido uma educação para além da própria cultura, na medida em que determinada, qualquer que seja a sua forma. O que os se constitui numa manifestação da liberdade etnólogos nos ensinaram foi que cultura não significa humana e da sua infinita capacidade tanto para necessariamente uma caminhada no sentido do criar como para apreciar as obras de arte. progresso, e muito menos é a soma de conhecimentos de uma elite reservada a alguns povos. Todos os 7
  9. 9. homens, porque são homens, possuem uma cultura. Épor isso que todos os homens reúnem as condições paraapreciar a arte? Sem dúvida, na condição de todoscompreenderem que a obra de arte não obedece anenhuma norma, mas é o fruto do seu criador e daapreciação do observador. 8
  10. 10. • Seção 2 • Segundo ModeloProblematização/Introdução. No entanto, a arte é uma manifestação cultural do homem. As formas artísticas, os temas, as técnicas utilizadas dependem de contextos históricos e culturais particulares. O artista pertence sempre a uma época, eA obra de arte é uma criação livre do espírito humano, parece, pelo menos, difícil considerar uma obra de arteque ao contrário da produção artesanal, não depende de separando-a das significações culturais que possuemum fim ou finalidade particular. Pode obedecer a certas necessariamente, mesmo se o artista quis desligar-se daregras de realização ou de composição, mas pode sua época e propor uma nova forma artística. Sendotambém desligar-se delas, deixando o artista livre de assim, podemos realmente separar conhecimento deinventar as suas próprias regras ou até de não ter arte e gosto artístico?nenhumas. Esta ideia implica que aquele que recebe aobra de arte seja também livre de apreciar o seu valorde acordo com o seu gosto pessoal. Por outro lado, devenotar-se que podemos gostar de uma obra de arte sem, Primeira parte: O juízo estético não requerantes, conhecer o tema ou o assunto que a inspirou. conhecimentos particulares.Pelo contrário, um especialista de história de arte podeconhecer muito bem em detalhe a obra de um artista, À partida, para apreciar uma obra de arte não ésem a achar bela. requerido nenhum conhecimento particular. Porquê? Porque se gosto de uma obra de arte e a acho bela, não é devido a qualidades objetivas que ela possua. Por 9
  11. 11. exemplo, posso achar belo o retrato de uma mulher porque não o conhecemos? Para apreciar uma obra dedisforme, objetivamente pouco graciosa, ou então uma arte não será preciso saber o que ela significa e,natureza morta representando o cadáver de um animal, portanto, possuir uma forma de cultura artística? Aque, em condições reais seria para mim pouco obra de arte, com efeito, possui um conjunto deagradável. significados como as intenções do autor, os temas escolhidos ou os meios de composição, que não seDo mesmo modo, posso apreciar um trecho de música manifestam, talvez, de forma imediata ao olhar ou àsem compreender o significado das palavras. Parece, audição, mas que a constituem de facto.nesta ordem de ideias, que a apreciação estética édesligada do conhecimento de eventuais significados Poderíamos objetar que certas obras de arte nãoculturais de uma obra (o seu tema, o seu lugar na respeitam nenhuma regra definida ou que há artistashistória da arte, o seu autor, etc.). que inventam o seu próprio género, que criam um estilo a partir de nada. Neste sentido, isso reforçaria a teseSegunda parte: A arte é uma atividade significante precedente, segundo a qual a arte é independente de um(com significado). saber cultural e, nesta ordem de ideias, se o artista se consegue libertar da tradição cultural, o observadorTodavia, temos muitas vezes a experiência de que o pode fazer o mesmo. No entanto, parece haver aquinosso gosto estético não nasce sem um mínimo de alguma precipitação, na medida em que, mesmo que oconhecimentos. Por exemplo, podemos realmente artista se desligue da tradição para inventar novasadquirir o gosto pela ópera ou pelo teatro, sem dominar formas artísticas, não deixa de pertencer a uma época eos códigos e as regras destes géneros artísticos? Por a uma cultura particulares. Como podemos apreciar, novezes, dizemos não gostar de um género artístico, seu justo valor, o movimento surrealista, sem conhecerquando, na realidade, o que queremos dizer é que ele o contexto cultural, histórico e até político em quenão nos interessa. Mas, se for esse o caso, não será surgiu? Quando um movimento artístico se apresenta 10
  12. 12. como revolucionário, isso não significa que essarevolução se produz exclusivamente no seio da históriada arte. A revolução artística tem também causas sociaisque não podem ser isoladas do contexto em que surgemas obras de arte.Terceira parte: Ser-se culto reforça a apreciaçãoestéticaAssim, mesmo que nada nos impeça de experimentarprazer numa obra de arte de que não se conhece ocontexto de criação, ou a biografia do autor, poder-se-ádizer que ser-se culto reforça o gosto artístico. Comefeito, esse gosto, sendo uma tarefa individual antes deser uma questão de conhecimento, pode e deve sercultivado. Neste sentido, a cultura afina o gosto, talcomo o gosto gera a vontade de cultura, ou de noscultivarmos.Conclusão: Ser-se culto não é uma condiçãonecessária para se ser sensível à beleza ou à arte emgeral. Mas a cultura é necessária se quisermos cultivar onosso gosto. 11
  13. 13. • CAPÍTULO 2 • TEORIA DA EDUCAÇÃO - ROUSSEAU“Cada um de nós é, assim, formado por três tipos demestres. O discípulo, em que as suas diversas liçõesse contrariam, é mal educado, e nunca estará emconformidade consigo mesmo; aquele no qual elascaem todas nos mesmos pontos e tendem para osmesmos fins, encontra sozinho o seu caminho e viveconsequentemente.”
  14. 14. • Secção 1 •1.Esta teoria da educação (muito ao contrário do que defendem, sobretudo, alguns políticos muito apressados em tirar as conclusões que lhes convêm) está em perfeita conformidade com o ideal do século das Luzes, mesmo concedendo Rousseau um lugar privilegiado ao sentimento (linhas 1 a 6) e às lições da experiência.2. O desafio colocado por Rousseau é crucial, pois a questão da educação Primeiro Modelo é a questão da Explicação de Texto - Rousseau, educação. Mesmo que o homem nascesse realização do homem, do processo Émile grande e forte, o seu tamanho e a sua necessário (e força ser-lhe-iam inúteis antes de desejável) de transformação da aprender a servir-se deles; ser-lhe-iam criança num prejudiciais por impedir os outros de lhe indivíduo O texto: “Cuidamos das plantas através prestar assistência; e, abandonado a si autónomo. da cultura, e os homens através da 13
  15. 15. mesmo, morreria de miséria, mesmo antes de ter consequentemente. Só deste se pode dizer que é bemconhecido as suas necessidades. Lamentamo-nos da educado”.infância; não vemos que a raça humana teria perigado,se o homem não começasse por ser criança. Nascemosfracos, temos necessidade de força; nascemos Tese: Neste texto, Rousseau estabelece um paralelodesprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; entre a cultura das plantas e a educação dos homens. Onascemos estúpidos, temos necessidade de juízo. Tudo o seu objetivo, para além de sublinhar a necessidade daque não temos na altura do nascimento, e de que educação e a feliz condição do homem apesar da suaprecisamos quando somos adultos, é-nos dado pela fraqueza natural, é o de definir o que é uma boaeducação. Esta educação vem-nos da natureza, dos educação. Este texto não é, como veremos, incompatívelhomens e das coisas. O desenvolvimento interno das com a crítica que faz Rousseau da cultura comonossa faculdades e dos nossos órgãos corresponde à desnaturação no Second Discours e no Discours sur leseducação da natureza; o uso que aprendemos a fazer sciences et les arts. A tese dos três mestres (coisas,deste desenvolvimento vem da educação dos homens; e natureza e homem) permite repensar a educação eo que adquirimos através da nossa experiência com os descobrir o fundamento das teorias mais modernas daobjetos que nos afetam correponde à educação pelas educação. Trata-se de um texto com atualidade, nacoisas. Cada um de nós é, assim, formado por três tipos medida em que lembra que a educação não devede mestres. O discípulo, em que as suas diversas lições reduzir-se ao treino.se contrariam, é mal educado, e nunca estará emconformidade consigo mesmo; aquele no qual elas caem Elementos de explicação:todas nos mesmos pontos e tendem para os mesmosfins, encontra sozinho o seu caminho e vive ★ Linhas 1 a 6: Após um paralelo entre as plantas e os homens (associando a cultura a um 14
  16. 16. acompanhamento do movimento da natureza, ao como do espírito (“nascemos estúpidos”). Na facto de cuidar dela), Rousseau sublinha que a verdade, tudo é compensado pela educação. fraqueza natural do homem (ser inacabado, teoria da Poderíamos pensar que Rousseau sugere que nós só neotenia, ser de Prometeu) é na realidade um dom somos cultura e que tudo nos é dado pelos outros (o feliz da natureza. É o que quer dizer quando imagina que colocaria questões inultrapassáveis à sua crítica um recém-nascido grande e forte, mas incapaz de contra a cultura desnaturante; com efeito, se nada usar as suas forças. Se o recém-nascido, a criança, existe de natural, como poderíamos falar de não tivesse essa aparência fraca, não cuidaríamos desnaturação?) dela, nem se pensaria na hipótese de lhe prestar assistência. Talvez Rousseau queira sugerir que é a ★ Mas nas linhas 11 a 15, vai sublinhar que a vulnerabilidade da criança que nos leva a cuidar educação não se reduz àquela que é recebida dos dela. A fraqueza, a fragilidade da criança sublinha o homens; há também a educação através da natureza seu inacabamento, a sua imaturidade e faz apelo à e através das coisas. Mesmo sendo verdade que maturação pela cultura, pela educação. Conclui, nascemos inacabados, a natureza encarrega-se de, assim, que não nos devemos queixar dessa através do “desenvolvimento interno das nossas fragilidade da infância (aliás, uma demasiada faculdades e órgãos”, de nos assegurar o robustez seria o sinal de um acabamento, que cumprimento de objetivos naturais; é portanto esconderia a plasticidade que é o ponto chave da possível um movimento natural e um movimento possibilidade de aperfeiçoamento que caracteriza o contra natura. E, tal como a cultura para a planta, a homem por oposição à rigidez do instinto no educação é já pré-orientada por este movimento animal). natural, inato. O adquirido não se opõe, então, ao inato, não vem preencher um vazio, vem prolongá-★ Linhas 7 a 10: Rousseau limita-se a sublinhar que lo, ajudar a fazer uso do que em nós é inato. À essa fraqueza exige cuidados tanto ao nível do corpo educação recebida dos outros acrescenta-se a 15
  17. 17. experiência pessoal das coisas. O mundo físico, o mundo dos outros e a nossa própria natureza (são estes os nossos mestres) são as três fontes de educação que impede qualquer tentativa de reduzir a educação a um treino, deixando espaço para a autoformação e colocando limites à estruturação de si pelos outros.Estes últimos esclarecimento permitem a Rousseaudistinguir a boa da má educação: a boa educação seriaaquela que concilia os três mestres, que permitesalientar no ser educado aquilo para que tenderianaturalmente. A educação não é, portanto, um treino,uma formatação, ela só é aquilo que permite aoindivíduo tornar-se por si mesmo aquilo que ele é. Estateoria da educação (muito ao contrário do quedefendem, sobretudo, alguns políticos muito apressadosem tirar as conclusões que lhes convêm) está emperfeita conformidade com o ideal do século das Luzes,mesmo concedendo Rousseau um lugar privilegiado aosentimento (linhas 1 a 6) e às lições da experiência. 16
  18. 18. • Secção 2 • Segundo ModeloExplicação de Texto. Rousseau natureza; o uso que aprendemos a fazer deste desenvolvimento vem da educação dos homens; e o que O texto: “Cuidamos das plantas através da adquirimos através da nossa experiência com os objetoscultura, e os homens através da educação. Mesmo que o que nos afetam correponde à educação pelas coisas.homem nascesse grande e forte, o seu tamanho e a sua Cada um de nós é, assim, formado por três tipos deforça ser-lhe-iam inúteis antes de aprender a servir-se mestres. O discípulo, em que as suas diversas lições sedeles; ser-lhe-iam prejudiciais por impedir os outros de contrariam, é mal educado, e nunca estará emlhe prestar assistência; e, abandonado a si mesmo, conformidade consigo mesmo; aquele no qual elas caemmorreria de miséria, mesmo antes de ter conhecido as todas nos mesmos pontos e tendem para os mesmossuas necessidades. Lamentamo-nos da infância; não fins, encontra sozinho o seu caminho e vivevemos que a raça humana teria perigado, se o homem consequentemente. Só deste se pode dizer que é bemnão começasse por ser criança. Nascemos fracos, temos educado”.necessidade de força; nascemos desprovidos de tudo,temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos,temos necessidade de juízo. Tudo o que não temos naaltura do nascimento, e de que precisamos quando Elementos de problematização e de Introdução.somos adultos, é-nos dado pela educação. Esta “O Emílio” constitui um tratado consagrado poreducação vem-nos da natureza, ou dos homens ou das Rousseau à questão da educação. Para Rousseau, nestecoisas. O desenvolvimento interno das nossa faculdades excerto, trata-se de nos interrogarmos sobre ae dos nossos órgãos corresponde à educação da 17
  19. 19. articulação entre a natureza e a cultura e a passagem de sentido. Num segundo tempo (que corresponde àsuma para a outra. A educação é, com efeito, o processo últimas linhas), Rousseau deduz dessa primeiraque permite ao homem sair do seu estado natural para abordagem a natureza da educação, que não é umque se realize e atinja o seu estado final. Ora, este simples processo artificial, mas que tem origem em trêsprocesso tem os seus perigos. Se a educação nos faz sair “mestres”.da natureza para acedermos à cultura, como garantirque não se trata de um processo de desnaturação? ❖ Num primeiro tempo, então, Rousseau explica porRousseau aborda, então, a noção de educação para que razão a educação é necessária. O paralelo com aestudar as suas modalidades, o seu sentido, a sua cultura, a transformação de uma sementefunção. Mas porque é que o homem precisa de insignificante numa planta vistosa, indica que aeducação? Esta pergunta parece ter uma resposta óbvia. educação tem uma função que poderíamos compararTrata-se, no entanto, de uma questão essencial que com o amanho das terras. A noção de “amanho” oudesempenha um papel fundamental na atribuição de de cultivo remete para a noção de produção. É asentido à educação, concebida não como uma educação que produz o homem.desnaturação, mas como uma forma de prolongar e ❖ Esta primeira abordagem é justificada pelo facto deperfazer ou aperfeiçoar a natureza do homem. o homem nascer fraco e desprovido (como já diziaEstes elementos são apresentados em dois momentos, Platão no Protágoras) o que, no final de contas, éem dois tempos, digamos assim. Primeiro, Rousseau uma coisa boa: é esta fraqueza que faz com que osesclarece a necessidade da educação. Poder-se-ia outros homens se interessem pela criança e cuidemlamentar que a natureza não tenha criado o homem dela. Não fosse assim, o homem morreria antes decompleto desde o nascimento, mas a fraqueza da tomar consciência das suas necessidades, nas suasinfância preenche uma função que Rousseau esclarece palavras “antes de ter conhecido as suasna primeira parte do texto, dando à educação todo o seu necessidades”, expressão esta um pouco enigmática, 18
  20. 20. que significa simplesmente que sem a ajuda dos seus educação da natureza educa-nos muito semelhantes, o homem não acederia ao simplesmente fazendo-nos crescer e transformando- conhecimento de si mesmo, muito menos a ser capaz nos espontaneamente em homens de assegurar a sua sobrevivência. No seu Second (“desenvolvimento interno”). Mas isto não basta, discours, Rousseau completa esta ideia descrevendo pois ainda nos falta saber e poder conhecer o ser em este sentimento que leva os homens a preocupar-se que nos tornamos para saber como fazer uso dele. A com os seus semelhantes sempre que estes parecem educação dos homens, inculcando-nos saberes e mais fracos (na velhice, na infância, na doença...). princípios, ensina-nos a fazer bom uso das liberdades e das faculdades com que a natureza nos❖ A fraqueza do homem recém-nascido é portanto vai progressivamente completando. Por fim, a “lição uma feliz providência da natureza (não temos de nos das coisas” corresponde à aprendizagem pela lamentar por o homem nascer inacabado), e é ela experiência, pela prática. que explica a necessidade da educação, definindo, por essa via, o seu sentido. A educação é o processo ❖ A parte final do texto atribui a estes três mestre as que deve permitir dotar o homem de tudo aquilo de suas respetivas funções. Nenhuma é mais que originalmente ele é desprovido. Ela organiza a importante do que as outras e esta ideia de igual passagem da infância para a idade adulta, dotando o importância dos três mestres parece ser a ideia indivíduo de tudo o que lhe falta, para fazer dele, central que Rousseau quer transmitir no “Emílio”. A retomando a fórmula do Contrato Social, “um ser educação só tem sucesso e a criança só é bem inteligente, e um homem”. educada se a educação respeitar a natureza da criança e a natureza em geral. Por isso, é❖ Esta educação é proteiforme (polimorfa) e não se absolutamente indispensável garantir a harmonia reduz à educação académica. Rousseau identifica entre os três mestres, que devem prosseguir os três mestres: a natureza, os homens e as coisas. A mesmos objetivos tendo em vista assegurar a 19
  21. 21. coerência do indivíduo consigo mesmo. A noção de harmonia é fundamental, pois trata-se, antes de mais, de não desnaturar o homem, mas de preservar aquilo que ele é naturalmente. Temos, então, de prestar atenção àquilo que a natureza e as coisas – e não só os homens – têm para nos ensinar.Conclusão: Este excerto do início do livro “O Emílio”permite compreender o interesse que Rousseau concedeà educação. O desafio colocado por Rousseau é crucial,pois a questão da educação é a questão da realização dohomem, do processo necessário (e desejável) detransformação da criança num indivíduo autónomo. 20
  22. 22. • CAPÍTULO 3 • BUSCA DA VERDADE E DÚVIDAA busca da verdade exige que tenhamos algumascertezas, por exemplo, a respeito dos passos que nospermitem alcançar o conhecimento.
  23. 23. • Secção 1 •1. A busca da verdade exige que tenhamos algumas certezas, por exemplo, a respeito dos passos que nos permitem alcançar o conhecimento.2. Acontece que a dúvida em filosofia não é uma incerteza que, de forma negativa, nos distancia do verdadeiro.3. A dúvida é o meio seguro para filosofar, isto é, para Primeiro Modelo pôr à prova as nossas crenças, as nossas A busca da verdade pode dispensar conseguimos elaborar um juízo ilusões e falsos a dúvida? definitivo, isto é, dizer “isto é verdadeiro” saberes que ensombram o nosso ou “isto é falso”. Estar em dúvida espírito. Problematização/Introdução. significa, ou suspender totalmente o juízo, ou afirmar algo, tendo consciência Sentimos dúvidas quando não estamos de que nos podemos estar a enganar. seguros de nada, quando não 22
  24. 24. Neste caso, o juízo é provisório. Estar na verdade, pelo corro o risco de não tomar consciência da minhacontrário, exclui a dúvida. Mas, como indica a pergunta, ignorância. A dúvida permite tomar consciência dabuscar a verdade não é ainda estar na posse dela. Muito ignorância. Duvidando, sei, pelo menos, que não sei. Oufrequentemente, para obter a verdade, é preciso que aquilo em que acredito não é seguro ou não estácomeçar por pôr em dúvida aquilo em que se acredita, provado; portanto, pode ser falso. Nesta ordem depois os nossos preconceitos, as nossas opiniões, as ideias, a dúvida oferece-me uma primeira verdade, énossas ideias recebidas encerram no seu interior juízos certo que pobre em conhecimento, mas mesmo assimsem fundamento ou juízos falsos. Por outras palavras, a fundamental para me pôr a caminho em busca dadúvida seria o motor da busca da verdade: é por duvidar verdade. Revela-me que aquilo em que acredito é umque estamos em busca da verdade. preconceito, isto é, uma opinião que se impôs a mim, sem que eu próprio a tenha fundamentado, ou sequerNo entanto, a busca da verdade exige que tenhamos analisado.algumas certezas, por exemplo, a respeito dos passosque nos permitem alcançar o conhecimento. Com efeito, Segunda parte: A busca da verdade exige apara progredir na pesquisa da verdade temos posse de certezas.necessidade de nos apoiar em certezas. Não podemos,portanto, duvidar sempre, ou duvidar de tudo, se Podemos admitir que a dúvida é inseparável da buscaquisermos progredir na via da ciência e do saber. da verdade, mas a busca da verdade deve também ser capaz de dispensar a dúvida. Com efeito, se estou aPrimeira parte: Duvidar é a primeira etapa do fazer, por exemplo, uma demonstração matemática, nãoconhecimento. posso deixar de fundamentar a minha argumentação em princípios que aceito sem os demonstrar e sem duvidarAquele que não duvida corre o risco de não progredir no da sua verdade. Neste sentido, a busca da verdade podeconhecimento e na verdade. Com efeito, se não duvidar, dispensar a dúvida, pelo menos, em certos etapas da 23
  25. 25. demonstração. Se, no momento em que utilizo o teoria é verdadeira até ao momento em que seteorema de Pitágoras para determinar a superfície de demonstre que ela é falsa. Isto implica queum triângulo, fosse necessário voltar atrás para me mantenhamos a ideia de que ela possa ser falsa, mesmoassegurar da verdade desse teorema, não seria capaz de que nenhum facto, nenhuma prova tenha, até aoavançar na resolução do meu problema, até porque momento, estabelecido a possibilidade da sua falsidade.antes de encontrar os fundamentos do teorema teria Considerar que a verdade é, de alguma forma,ainda de demonstrar os fundamentos desses provisória ainda é o melhor meio para fazer avançar afundamentos e assim por diante. A busca da verdade busca dela. A dúvida desempenha, portanto, a função decorresponderia a uma regressão sem fim, e recuaria em motor da descoberta.vez de avançar. É, então claro: saber duvidar é tambémsaber quando não ou já não duvidar, para progredir no Conclusão.caminho da verdade A busca da verdade não pode, de facto, dispensar aTerceira parte: A certeza nunca é absoluta; dúvida. Ela é o motor desta busca num duplo sentido: étemos sempre de encarar a hipótese de nos a dúvida que desencadeia essa busca, e é também elaestarmos a enganar. que alimenta o movimento de pesquisa. E isto é assim, mesmo que, por vezes, a busca da verdade devaAté agora, o que foi já exposto não permite afirmar que dispensar a dúvida para que possa progredir.existem verdades absolutas que escapem a todos ostipos de dúvida. Com efeito, uma teoria da Física só éverdadeira, por exemplo enquanto não existir umaprova (um acontecimento natural ou uma experiênciade laboratório) que contradiga as predições que podemser estabelecidas a partir dela. Por outras palavras, uma 24
  26. 26. • Secção 2 • Segundo ModeloA busca da verdade pode dispensar a dúvida? com forma de objetos ou realidades sensíveis. Estes homens são prisioneiros das aparências, pois não põem em dúvida aquilo que veem. A dúvida relativamente ao conhecimento é, então, definida como o contrário doÁvido de certezas, o senso comum não confia na dúvida. conformismo, da adesão, sem provas, a uma ideia, aCom efeito, é vulgar haver quem critique o juiz por não dúvida é o recuo necessário da reflexão contra a crença.ter a certeza dos atos de um criminoso, ou o médico que Será que, mesmo assim, ela desempenha um papel naafirma não ter a certeza do diagnóstico e do tratamento busca da verdade? Mais do que isso, será ela é tãode uma doença. No entanto, a dúvida não significa uma necessária que podemos afirmar que a busca dorenúncia à verdade, se for utilizada como um meio de a verdadeiro não pode dispensá-la? A busca da verdade,procurar. Duvidar é não receber no nosso espírito o que os antigos chamavam-lhe filosofia, implica quenos vem do exterior sem o ter submetido a um exame compreendamos paradoxalmente que esta exigência dacrítico. As nossas sensações, as nossas perceções dúvida é sempre um meio, uma maneira particular deparecem estar ao abrigo da dúvida, por exemplo, pesquisar a verdade, sem estar seguro de a encontrar.quando admitimos saber alguma coisa por ouvir dizer, Se não pode dispensar a dúvida, então a filosofia nuncaou quando vemos aquilo que consideramos uma está acabada.evidência. Assim, os prisioneiros da caverna no célebretexto da República de Platão não duvidam das imagensque percecionam no fundo da caverna, mesmo quesaibamos que elas não passam de sombras, de imagens 25
  27. 27. I. A busca da verdade é a busca do saber, não de lógico Tarski que diz que a proposição “a neve é certezas. branca” é verdadeira, se e somente se a neve for branca! Neste caso, a dúvida pode ser o meio de✤ Platão afirmava que a origem da filosofia é o interrogar a realidade e fazê-la corresponder a um espanto, isto é, a atitude que consiste em interrogar- discurso verdadeiro se, em não se satisfazer com respostas indiscutíveis e com opiniões. A filosofia não possui a verdade, II. A dúvida como método de pesquisa da procura por ela. verdade.✤ O reconhecimento da sua própria ignorância é a ✤ Foi Descartes quem utilizou a dúvida no Discurso do condição para a pesquisa da verdade. Como pensava método explicitamente para alcançar a verdade. Sócrates que pretendia não saber nada, mas Descartes começa por pôr em dúvida os dados dos procurar o saber, a busca da verdade é uma pesquisa nossos sentidos, sob o pretexto de que eles são e não uma posse. É preciso, portanto, num primeiro enganadores e nos conduzem a ilusões. Claro, não tempo, pôr em dúvida as nossas certezas e basta duvidar para fazer cessar as nossas ilusões, preconceitos. mas a dúvida permite detetar certezas que podem enganar-nos, como é o caso das ilusões óticas.✤ A dúvida é um momento essencial da busca da verdade, pois permite interrogar a realidade sem a ✤ O segundo momento da dúvida no Discurso do confundir com o que vemos nela. A verdade não é a método é o questionamento dos erros de raciocínio. realidade; a verdade é definida como a adequação de Desta vez, o argumento para pôr em dúvida os uma representação com o que ela representa. O nossos erros é a possibilidade de todos nós, e até os verdadeiro, neste sentido, é um enunciado que melhores matemáticos, fazermos erros de cálculo, corresponde à realidade. Tomemos o exemplo do por desatenção ou precipitação. Neste caso, a dúvida 26
  28. 28. é aplicada também às ciências, apesar de parecerem céticos que duvidam por duvidar de maneira ao abrigo de incertezas e serem um meio seguro de confortável, a dúvida cartesiana seria insustentável, pesquisar o verdadeiro. a partir do momento em que já não sabemos distinguir o real do imaginário.✤ Finalmente, Descartes utiliza a dúvida para pôr à prova da verdade a própria realidade. Utiliza o ✤ Para os céticos, a dúvida torna-se uma espécie de argumento do sonho para mostrar que não filosofia de vida que consiste na suspensão do juízo e possuímos nenhum critério fiável para distinguir a a só colocar uma questão sem esperar resposta: “O realidade do imaginário. Para aceder ao real, somos que é que eu sei?”. No termos da dúvida, isto é, obrigados a fiar-nos nos nossos sentidos, sem tendo-a levado ao extremo de duvidar da nossa sabermos se estamos a dormir ou se estamos própria realidade e do que nos envolve, Descartes acordados. alcança a verdade: “penso, logo existo”. Este é o primeiro princípio, o fundamento que lhe permitiráIII.A busca da verdade necessita da dúvida, com certeza construir a árvore do saber: a dúvida desde que seja capaz de sair dela, isto é, de a cética já não terá qualquer razão de ser. utilizar como um meio. ✤ Para os céticos, a dúvida consiste em suspender o juízo, isto é, em não negar nem afirmar nada: “a Conclusão: dúvida é um agradável travesseiro para uma cabeça bem feita”, dizia Montaigne. Embora a dúvida seja A busca da verdade define o trajeto do filósofo em busca necessária para nos desembaraçarmos dos do saber. Ora, a questão era saber da possibilidade de preconceitos, das opiniões, das crenças, ela não é o dispensar a dúvida na busca da verdade. Acontece que a objetivo da filosofia. Tal como acontece com os dúvida em filosofia não é uma incerteza que, de forma 27
  29. 29. negativa, nos distancia do verdadeiro. A dúvida é ummétodo, uma exigência de fazer corresponder o discursoà realidade sem precipitações, mas com o recuonecessário da reflexão. É neste sentido que a dúvida nospermite pesquisar o verdadeiro e que essa busca nãopode evitar a dúvida. A dúvida é o meio seguro parafilosofar, isto é, para pôr à prova as nossas crenças, asnossas ilusões e falsos saberes que ensombram o nossoespírito. 28
  30. 30. • CAPÍTULO 4 • CRENÇA E RAZÃOA distinção platónica entre opinião (doxa) e opiniãoadequada (ortodoxa) permite pensar, pelo menos,em crenças não são contrárias à razão por seremrazoáveis, diríamos nós.
  31. 31. • Secção 1 •1. Podemos, então, pensar que precisamos de crenças para viver e que as crenças são uma espécie de reação defensiva da natureza contra a razão. É o “resgate da inteligência” que temos de pagar por a termos aprisionado. Digite para introduzir texto2. A razão é limitada: não pode demonstrar tudo cientificamente, mas pode apreender o momento em que a crença pode intervir Primeiro Modelo no exercício do espírito. Ela pode A Crença é contrária à Razão? e a razão não se reduz ao racional, uma fornecer uma vez que o excesso de razão pode não ser gramática de Problemática: razoável (talvez convenha distinguir os consentimento, de conformidade. dois sentidos de razão: racional e Enquanto, por um lado, a crença é razoável), por outro lado, o irracional espontaneamente associada ao que não não se reduz ao que é contrário à razão; tem fundamento na razão, ao irracional, 30
  32. 32. pode ser também o que está para lá da razão, o que é mas também pela análise freudiana e marxista daestranho à razão (“o coração tem as suas razões que a ilusão religiosa.razão não conhece de todo”, segundo Pascal). Apergunta formulada convida portanto a interrogarmo- ✤ Foi através da rutura com as explicações religiosasnos sobre os fundamentos da crença, sobre o que é ou míticas, em resumo, com as abordagens baseadascontrário ou não à razão e sobre a distinção entre na fé, na crença religiosa, que o pensamentorazoável e racional. científico ou filosófico nasceu.Esquema ✤ A preocupação com a verdade, exigência da razão, opõe-se à adesão à crença; a razão convida aoI. Se o uso da razão exige a rejeição da crença, distanciamento crítico, à dúvida. então a crença parece contrária à razão. Transição:✤ As pesquisas, que pretendemos que sejam objetivas e rigorosas, exigem que façamos uma crítica das A crença parece, então contrária à razão, tanto nos seus opiniões recebidas, dos preconceitos, das crenças fundamentos quanto na adesão que ela implica; mas comuns que constituem os primeiros “obstáculos será que podemos dizer, a partir daqui, que todas as epistemológicos” (Bachelard), por se crenças são irracionais? fundamentarem exclusivamente no “ouvir dizer”, II. Certas crenças não são contrárias à razão. nos desejos, na experiência espontânea, na força da adesão comum, e portanto por não se ✤ A distinção platónica entre opinião (doxa) e opinião fundamentarem na razão. É esta a perspetiva que adequada (ortodoxa) permite pensar, pelo menos, nos é transmitida pela alegoria da caverna de Platão, em crenças não são contrárias à razão por serem razoáveis, diríamos nós. 31
  33. 33. ✤ Por outro lado, a crença religiosa pode apoiar-se Transição: numa teologia racional, por exemplo, através das provas da existência de Deus, ainda que nelas Assim sendo, a crença não é necessariamente contrária possamos ver algumas contradições lógicas. à razão; se há crenças que não se opõem à razão, em que condições crença e razão podem coexistir?✤ O pensamento racional parece também apoiar-se em certas crenças, postulados admitidos sem serem III.Uma coexistência possível, embora não demonstrados ou provados racionalmente. “Não há pacífica. ciências sem pressuposições”, diz Nietzche. A ✤ O que o uso da razão rejeita liminarmente e em ciência, apesar da sua racionalidade, não desemboca absoluto não é a crença propriamente dita, mas as em verdades absolutas, mas tão só em verdades suas derivas que são o fanatismo (ideológico, provisórias, que não são mais do que crenças religioso, sectário) cego, e a superstição que alimenta racionais. o medo e impede, ao mesmo tempo, o progresso do✤ Então, a crença não é necessariamente contra a conhecimento (uma vez que a superstição só pode razão, pode ser que esteja para além da razão: viver da ignorância) e a vida razoável, isto é, sábia Pascal. A crença sublinha os limites do poder da (por exemplo, a filosofia epicurista, que desenvolve razão, tanto do ponto de vista teórico como do ponto princípios de vida sábia e feliz, começa por uma de vista prático (por exemplo: Kant e o seu postulado física, que tem por objetivo desmistificar e da existência de Deus, um dos três postulados da desmitificar o mundo, de separar o divino do moral; os outros são a liberdade e a imortalidade da puramente físico, pois é o medo dos deuses que alma). perturba a alma e impede os homens de alcançar a felicidade, a ataraxia). Por outras palavras, o que o uso da razão rejeita, é a crença que nega a ciência, 32
  34. 34. que ignora que ela não é uma crença, ou uma mera opinião.✤ A opinião é, por vezes, o único ponto de apoio, a que podemos recorrer para conduzir a nossa vida, na falta de regras objetivas sobre a felicidade, por exemplo. E se assim fizermos, ser-nos-á possível ter uma conduta consciente, enquanto a dúvida permanente nos impede de viver e de agir (a moral provisória de Descartes).✤ Podemos, então, pensar que precisamos de crenças para viver e que as crenças são uma espécie de reação defensiva da natureza contra a razão. É o “resgate da inteligência” que temos de pagar por a termos aprisionado. A ilusão é, nesta ordem de ideias, uma necessidade razoável, isto é, que não se opõe à razão, mas que se faz a partir da multiplicidade de razões e do seu agrupamento diverso, não unificado num modelo único. 33
  35. 35. • Secção 2 • Segundo ModeloA crença é contrária à razão? quando se compromete com a fé? Veremos que, embora o exercício da razão consista,Concordamos facilmente com a ideia de que a crença é antes de mais, em pôr em causa a crença, é mesmoum saber fraco, ora ingénuo (a criança acredita no Pai assim necessário tolerar algumas crenças, e atéNatal), ora perigoso (o fanático que mata em nome de relativizar as próprias ambições da razão em proveitoDeus). Pelo contrário, o que é racional parece-nos fiável de uma crença que ainda não somos capazes deporque é logicamente coerente, ou porque corresponde qualificar.à realidade, ou porque é eficaz, ou por todas estasrazões juntas. Numa primeira abordagem, então, crença A crença (pistis) é o mais baixo dos saberes. Comoe razão parecem estar em oposição uma à outra: a fé demonstra Platão com a metáfora da linha dividida emnão é o saber, ela remete para uma convicção pessoal, quatro secções, a crença é o saber daqueles queenquanto a razão pretende a objetividade. Mas não será confundem as coisas com o seu reflexo. Crer é, do pontoesta oposição demasiado simplista? Não haverá crenças de vista epistemológico, atribuir à sensação um podercompatíveis com as exigências da razão? Como excessivo de juízo. Assim, os escravos aprisionados nopoderemos explicar o fracasso relativo do positivismo fundo da caverna acreditam na realidade exclusiva dasou o sucesso, limitado é certo, da religião na época da sombras e, deste modo, se enganam convictamente.ciência? Podemos racionalizar e acreditar em certas Todavia, a razão libertar-se totalmente da crença. Se ocrenças, ou temos de defender que a razão se demite percurso racional consiste em pôr em dúvida as 34
  36. 36. aparências, nem por isso essa razão pode deixar de se um espírito positivo, também pretendia que só oapoiar num fundamento “firme e seguro”, como diz demonstrável pudesse ser considerado verdadeiro. ADescartes. Ora, se o exercício hiperbólico da dúvida tem própria crença torna-se objeto de uma análise apertada,de parar perante a evidência de que o sujeito que duvida através dos estudos de Freud sobre as motivaçõesnão pode ser posto em dúvida, esse mesmo sujeito tem profundas da crença religiosa. Aquilo que Freudde admitir que, quando pensa, a sua razão não é traída concede às crenças é que elas têm as suas razõespor um “génio maligno”. Como correlato, Descartes (consolar o homem perante a angústia da morte) eadmite um Deus verdadeiro conhecido por intuição e portanto um futuro próprio.não por demonstração.Há crenças, então, que a razão reprova como as que são Contra esta captura da fé pelo saber, podemos oporveiculadas pela superstição, e outras que a razão aprova duas opções filosóficas: a da continuidade entre os doisporque simplesmente não consegue fundamentar-se domínios, ou as de rutura em benefício da fé. A primeiracompletamente em si mesma. A escola positivista opção é ilustrada pelo pensamento de S. Tomás deprocurou, no entanto, demonstrar que esta concessão Aquino que queria ver na filosofia a serva da teologia.feita à crença deveria ser ultrapassada. Assim, Comte Segundo ele, a razão deve estender a sua influência, asdistingue três estados (teológico, metafísico e positivo) suas luzes, a todos os objetos de conhecimento. Poderá,tendo em vista defender que entrámos numa época de assim, aproximar-se da ideia de Deus. Mas não seráordem e de progresso, onde a razão deve reinar sem capaz de penetrar no domínio das verdades ditaspartilhas, mesmo nos domínios onde as demonstrações reveladas. A segunda opção é ilustrada peloparecem mais difíceis de realizar, como é o caso das existencialismo de Kierkgaard. A sua tese consiste emrepresentações coletivas que fazem apelo a estudos aceitar a ideia de uma salto no absurdo. O verdadeirosociológicos. É também o caso do inconsciente que filósofo é o que se faz “cavaleiro da fé” e que correpenetra a psicanálise com as armas da ciência. Freud, deliberadamente o risco de passar do estado ético ao 35
  37. 37. estado religioso, nas etapas que marcam o caminho davida.Kant, no seu célebre prefácio à Crítica da razão pura,escreveu que teve de “substituir a fé ao saber”. A razão élimitada: não pode demonstrar tudo cientificamente,mas pode apreender o momento em que a crença podeintervir no exercício do espírito. Ela pode fornecer umagramática de consentimento, de conformidade. 36
  38. 38. • CAPÍTULO 5 • O DEVER DA VERDADEA busca da verdade é realmente um imperativoabsoluto, mesmo em detrimento da nossa felicidadeou da dos outros? Esta questão não pode serresolvida só no plano moral.
  39. 39. • Secção 1 •1. Buscar a verdade (tal como a sinceridade) é expor- nos a ser feridos por ela.2. A referência à alegoria da caverna na “República” de Platão ilustra perfeitamente esta ideia: o prisioneiro que se liberta da caverna e procura (e encontra) a verdade acaba por pagar um alto preço pela sua ousadia, sendo linchado pelos antigos Primeiro Modelo companheiros de cativeiro que se Temos o dever de procurar a Elementos de problematização. recusam ouvir o que verdade? ele tem para dizer. A verdade parece imediatamente conotada positivamente, por oposição aos seus contrários (a mentira, o erro) que aparecem como devendo ser 38
  40. 40. evitados. A pergunta aborda este tema num ângulo ignora o que ignora? (paradoxo do Ménon de Platão:particular: não se trata de saber se se deve dizer a como saber que verdade procurar, uma vez que, porverdade, mas se devemos procurá-la, não se devemos definição, se estamos em busca dela é porque não adesvendar o que sabemos ou guardar segredo, mas se sabemos). Assim, se a lei reconhece, em certa medida, odevemos dedicar-nos a pesquisar o que ignoramos. dever de dizer a verdade e castiga a mentira ou oTrata-se, no fundo, de nos perguntarmos sobre se perjúrio, buscar a verdade não é, de modo nenhum,podemos ficar satisfeitos com a nossa ignorância ou se uma obrigação jurídica. Mas o dever não é a mesmatemos o dever de sair dela. Não é, portanto, tanto a coisa que uma obrigação: o dever não nos é imposto doquestão do dizer, do desvendar a verdade, mas exterior, mas uma prescrição que impomos a nóssobretudo a da ou das ações a levar a cabo para a próprios. Tem, por esta razão, uma dimensão moral queencontrar. Se fizermos a pergunta ao contrário põe em jogo a nossa humanidade. Como já foi dito,(podemos ficar satisfeitos com a nossa ignorância?), a renunciar a buscar a verdade parece consistir emverdade parece impor-se como um dever: Que género renunciar a nos colocarmos à altura da nossade homens seríamos nós, se pudéssemos ficar satisfeitos humanidade. Mas não podemos fazer outras escolhas?com nada saber? Não será a capacidade de A busca da verdade é realmente um imperativoconhecimento, de compreensão e de explicação do absoluto, mesmo em detrimento da nossa felicidade oumundo que nos envolve, aquilo que distingue o homem da dos outros? Esta questão não pode ser resolvida sódos outros animais? no plano moral. Coloca também um desafio político e social. Ora, nestes domínios, não é evidente que se devaMas não nos basta ficar por aqui. Se reconhecermos a buscar a verdade em todos os casos, pois a verdade podeverdade como um dever, faltará ainda esclarecer a ter efeitos devastadores para cada um de nós e para osnatureza desse dever. Um dever desta natureza não é, outros. O segredo, a mentira podem igualmente tercom efeito, evidente. Podemos condenar o ignorante utilidade social, política, íntima e, pelo contrário, apela sua ignorância? Como, de resto, pode ele saber que 39
  41. 41. verdade pode ter efeitos negativos. Nestas condições, empregar todos os meios ao seu alcance, mesmoem nome de quê haveremos de fazer da verdade um moralmente condenáveis, para se certificar dadever, um imperativo? Não valerá a pena, pelo verdade?); é perigosa na esfera política (um jornalistacontrário, ter algumas precauções. deve trazer à luz do dia verdades que o Estado mantém secretas para o bem dos cidadãos?). A verdade tem,Ficamos, assim, retalhados entre a representação que então, uma conotação positiva, mas há, no fim defazemos de nós mesmo e da nossa humanidade, contas, uma razão que nos pode levar a sentir, muitassegundo a qual a busca da verdade é o que faz de nós vezes, dificuldades em cumprir o nosso dever deseres vivos distintos dos outros, e uma dimensão mais verdade. Por esta razão, buscar a verdade a qualquerprática, segundo a qual a busca da verdade pode preço não será um dever, se atribuirmos a esse deverrevelar-se prejudicial e perigosa, portanto, não um uma natureza absoluta: fazer da busca da verdade umdever absoluto. imperativo, é expor-nos a sofrer consequências negativas. ✤ Buscar a verdade (tal como a sinceridade) é expor-I. Fazer da busca da verdade um dever nos a ser feridos por ela. Queremos procurar sempre absoluto parece perigoso e prejudicial... saber o que os outros pensam de nós, por exemplo? A verdade é difícil de dizer e de ouvir, ela prejudica oPodemos começar por explorar, nesta parte, a pista que bom funcionamento das relações sociais. Esta é umaé talvez a mais intuitiva: sabemos espontaneamente que ideia explorada nomeadamente por Pascal nos seusa verdade é perigosa e pode revelar-se prejudicial. Pensamentos.Temos, aliás, em geral experiência disso mesmo. Averdade pode fazer-nos infelizes (alguém que tenha ✤ Esta perigosidade estende-se ao domínio político: odúvidas sobre a fidelidade do seu cônjuge deve segredo é necessário em certos domínios – 40
  42. 42. diplomático, militar. O nosso dever de cidadão, efeitos negativos, do ponto de vista afetivo, político, vivendo numa democracia, é respeitar o bom social... funcionamento das instituições, não prejudicando o interesse geral, tentando desvendar o que é e deve Mas o próprio do dever, na sua dimensão moral, não manter-se (pelo menos, durante um certo tempo) será precisamente o ele ser desinteressado? A nossa um segredo de Estado. humanidade não se joga justamente na nossa capacidade para agir em nome de valores, mesmo que✤ Em “Reações políticas”, Constant opõe-se ao dever saibamos que isso é arriscado para nós? Porque a busca de dizer a verdade em todas as circunstâncias. da verdade pode ser prejudicial, quer isso dizer que Podemos retomar as suas palavras para nos opormos devemos renunciar a ela? a um dever de procurar a verdade em todas as circunstâncias. Por outras palavras, não podemos falar em dever de procurar sempre a verdade, II. ... mas isso não é razão para renunciar a porque, sendo ela por vezes útil, por vezes fazer dela um dever moral... prejudicial, não tem as características de um imperativo. Nesta parte podemos conduzir a reflexão de um modo mais moral, para além das consequências práticas. Se aConclusão 1: verdade for considerada uma coisa boa, então devemosFazer da busca da verdade um dever é não ter em conta lutar por ela a qualquer preço. O característico do deveras suas consequências práticas, por vezes prejudiciais. moral é justamente ir para além dos nossos interessesNão podemos impor a nós próprios a busca da verdade pessoais, imediatos, sensíveis. Podemos mesmo dizerde maneira incondicionada, porque nos exporia a que é precisamente aquilo que não é imediatamente útil ou proveitoso que tem condições para ser considerado 41
  43. 43. um dever. Não temos necessidade de impor a nós valores que são reconhecidos e se impõem como bons.próprios o dever de procurar a verdade quando ela é Neste sentido, aliás, o dever não é um dado. Nós não oútil. A busca da verdade por interesse científico não “temos”, não, pelo menos, de modo imediato: o dever élevanta verdadeiramente problemas de dever. A uma regra que impomos a nós próprios.explicação e a compreensão do mundo que nos envolvepermitem-nos dominá-lo e portanto viver melhor nele. ✤ Seria sem dúvida útil ter começado por trabalhar aPodemos interrogar-nos sobre as consequências noção de dever para estabelecer o elo com a ideia detécnicas que são retiradas da ciência, que, elas, podem que este é desinteressado e incondicionado: o deverser catastróficas para a natureza e para o homem. Mas a é um fim em si mesmo, não é um meio com vista averdade, em si mesma, definida como a adequação do uma finalidade que lhe seja exterior (não podemos,discurso e do real, remete para o discurso. Por isso, as por exemplo, dizer que a verdade deve sersuas consequências práticas diretas são nulas. Buscar a pesquisada somente quando é útil, pois, então, comoverdade no domínio científico não tem portanto já foi dito, não temos necessidade de fazer disso umnecessidade de ser erigida em dever. Os homens fazem- dever, para que os homens o façam). Os texto deno espontaneamente, pois procuram conhecer o seu filosofia moral de Kant, nomeadamente osambiente, por necessidade de sobreviver nele. A noção “Fundamentos da metafísica dos costumes”,de dever só se coloca verdadeiramente nos domínios em permitem trabalhar a noção de dever moral nesteque há uma contradição com os nossos interesses sentido. O mesmo acontece com o conceito dediretos. É pois, paradoxalmente, porque a investigação humanidade, como afirma Kant em “Qu’est-ce queda verdade pode ser perigosa, que devemos impô-la a les Lumières”?nós mesmos como um dever. Aqui se define a ✤ A verdade constitui, assim, um bem que nos émoralidade do homem, que consiste justamente em se necessário obter. A referência à alegoria da cavernaser capaz de ultrapassar os seus interesses em nome de na “República” de Platão ilustra perfeitamente esta 42
  44. 44. ideia: o prisioneiro que se liberta da caverna e Conclusão 2: procura (e encontra) a verdade acaba por pagar um alto preço pela sua ousadia, sendo linchado pelos Embora a busca da verdade possa produzir, por vezes, antigos companheiros de cativeiro que se recusam efeitos nefastos, isso não é razão suficiente para ouvir o que ele tem para dizer. renunciar a ela. Moralmente, só encontramos a nossa humanidade na condição de fazer passar os nossos✤ Este texto permite, de resto, estabelecer a ligação valores antes dos nossos interesses; nesta ordem de entre o dever moral e a utilidade, pois a pesquisa da ideias, a busca da verdade impõe-se como um dever. verdade não diz somente respeito à moral, nem à epistemologia: buscar a verdade é também um Como podemos, então, conciliar estes dois aspetos? empreendimento de libertação. Através do Podemos seguir cegamente o nosso dever sem nos conhecimento, os homens libertam-se de uma preocuparmos com as suas consequências? Haverá um natureza, a que teriam de se submeter, se não meio de procurar a verdade, evitando o que ela pode ter procurassem a verdade, mas também das suas de perigoso? ilusões que os alienam. É este o sentido, por exemplo, do incentivo à investigação que faz Marx na “Crítica da filosofia do direito de Hegel”, por III. … desde que não o sigamos cegamente. considerar que essa é a única maneira de destruir as ilusões da religião, que se constituem como um instrumento de alienação e de dominação. Foi dito na introdução que a formulação da pergunta nos convida a refletir sobre a ação (buscar a verdade) mais do que sobre a palavra (dizer a verdade). Já agora que reconhecemos na pesquisa da verdade um dever 43
  45. 45. moral porque nela está em jogo a nossa humanidade, permitam que a busca da verdade não acabe por serpodemos ir um pouco mais longe interrogando-nos letra morta. A forma da verdade interessa tantosobre as formas que toma essa pesquisa, tendo em vista como o seu conteúdo. Se a verdade fere, não serálimitar as suas consequências catastróficas. Para além tanto pelo que ela diz, mas mais pela forma como édas formas típicas dos domínios morais e científicos, a dita.busca da verdade pode ainda tomar outras formas quepermitam torná-la compatível com os nossos afetos e a ✤ Assim, buscar a verdade é também e, talvez, emnossa felicidade, e justifiquem que a imponhamos a nós primeiro lugar procurar a linguagem adequada parapróprios, sem por isso seguir esse dever cegamente, de encontrar uma verdade que seja audível e útil. Auma maneira que seja contraprodutiva. arte, por exemplo, constitui uma das múltiplas formas de busca da verdade, que pode evitar que✤ O dever, pensado independentemente das suas esse dever nos conduza a odiar e a fugir da verdade, consequências práticas, pode ser contraprodutivo mais do que a procurá-la. É o que nos diz Proust, por correr o risco de não ter sequência prática. referindo-se à função de verdade da arte no tempo Podemos conceber a possibilidade de pensar no reencontrado. dever sem, por isso, renunciar a refletir nas suas condições práticas de aplicação. Não podemos exigir Conclusão. dos homens que, como o prisioneiro da alegoria de Temos o dever de procurar a verdade, pois nela se joga a Platão, ponham tudo em jogo em nome da verdade. dignidade humana. Todavia, esse dever deve ser Talvez valha a pena recorrer ao conceito de adaptado à natureza da verdade que, por muito útil que prudência de Aristóteles. seja, pode, mesmo assim, revelar-se destruidora se não✤ Nestas condições, importa refletir em modalidade de for manuseada com precaução, ou com prudência. busca da verdade que tornem esse dever realizável e 44
  46. 46. • Secção 2 • Segundo ModeloTemos o dever de procurar a verdade? verdade (conforto da ilusão), e que, se existe o desejo, ou até a necessidade, de verdade, este não é um desejo como os outros: talvez o homem, enquanto animal racional, tenha o dever de procurar a verdade, mesmo que ela seja contrária aos seus desejos e aos seus interesses imediatos. Este tema coloca, então, oProblemática : problema da nossa relação com a verdade, do seu valor,A formulação do tema pode surpreender. A verdade é da nossa liberdade perante ela e também das origensum valor do conhecimento, que pertence ao domínio da desse dever. Qual é a origem deste dever? A razão, aciência; a noção de dever é um valor da existência, que sociedade?pertence ao domínio da moral ou da ética. Portanto, a I. Embora tenhamos o dever de dizer aideia de um dever de procurar a verdade pode parecer verdade, parece que somos livres deestranha, na medida em que supõe que se pesquise a procurar ou não a verdade:verdade na ciência e em outros domínios. Temos desejode verdade, experimentamos o dever de a dizer quando A moral impõe-nos que digamos a verdade, quea conhecemos, mas porque haveremos de ter o dever de sejamos verdadeiros nas nossas declarações (talveza procurar? Para compreender esta noção de dever, dentro de certos limites, por muito que esses limitestemos de ter em conta que, contrariamente àquilo em desagradem a Kant e à sua moral rigorosa)que muitos acreditam, o homem não procura a verdadeespontaneamente, nem procura a verdade só pela 45
  47. 47. A sociedade, uma vez que se baseia em contratos e Transição:na confiança recíproca, exige igualmente quesejamos verdadeiros (salvo quando a verdade Se é verdade que aspiramos quase naturalmente àameaça a vida em comum: dizer a verdade àquele verdade quando parece que ela está sempre distante deque pretende prejudicar alguém, por exemplo, dizer nós, será que podemos contentar-nos com essa relaçãoa um assassino onde se encontra uma potencial “utilitarista” com a verdade?vítima, ou a um terrorista onde é mais eficaz a II. Temos o dever de procurar a verdade.colocação de uma bomba) Na nossa qualidade de seres racionais, mesmo que,A busca da verdade é um desejo natural do homem, no limite, a verdade nos incomode e não nos tragaque o leva a condenar a mentira e a tentar aumentar nada de interessante, podemos preferi-la à ilusãoos seus conhecimentos, na medida em que o reconfortante ou à mentira vantajosa.conhecimento lhe permite adquirir poder sobre simesmo e sobre o que o envolve. Enquanto seres humanos, dotados de consciência reflexiva, é nosso dever libertarmo-nos daPoderíamos pensar que a procura da verdade só tem inconsciência e da ignorância para aceder à verdade.valor pelas suas consequências, como pensouEpicuro que renunciou a uma pesquisa de A verdade vale por si mesma, tal como oconhecimento em si e por si. Se a verdade não nos conhecimento. É uma valor, do mesmo tipo do Bempermitir viver melhor, ela seria inútil e portanto e do Belo. Devemos esforçar-nos por ela. A verdademelhor seria que não a procurássemos. vale por si e por nós. Fazer da procura da verdade um dever e não somente uma necessidade é obrigarmo-nos a não 46
  48. 48. nos satisfazermos com os conhecimentos que III. Um dever discutível de buscar a verdade. tenhamos, mesmo que sejam eficazes. É este sentido do valor da verdade que anima o cientista e que faz Nietzsche vê nesta exigência de verdade, com que não se contente com o que descobriu, considerada como um valor da existência humana, verificou, provou, e que qualifique as suas uma posição herdada de Sócrates: “A enunciação da explicações ou teses como probabilidades, verdades verdade a qualquer preço é socrática”, escreve provisórias, práticas. A verdade mantém-se no Nietzche no Livro do filósofo. Esta exigência de horizonte da sua investigação. O mesmo acontece verdade pode ter efeitos perversos, como a rejeição com o filósofo, que busca incessantemente a da arte reduzida a uma força de ilusão; Essa ilusão, verdade, sem alguma vez pretender tê-la alcançado. segundo Nietzche, é uma força salvadora que nos liberta da verdade. Portanto, conceber a verdade como objeto de um dever é concebê-la como uma exigência que impõe O dever de verdade, concebido como valor absoluto, exigências. traz consigo também a desvalorização de outros valores vitais. Em nome desse dever de verdade,Transição: rejeitamos o mundo sensível: “filosofar é aprender a morrer”.Parece, então, que a busca da verdade nos é impostapela nossa humanidade; no entanto, podemos O dever de procurar a verdade mascara a sua origemperguntar-nos se esse dever de procurar a verdade não é social, utilitarista: “O homem exige a verdade ediscutível. realiza-a no comércio moral com os homens; é em cima dela que se baseia toda a vida em comum. Antecipamos as consequência malignas das mentiras recíprocas. É aí que nasce o dever de verdade.”, e de 47
  49. 49. a procurar. Mas, se admitirmos esta origem,admitimos também que a mentira e a ilusão sãoaceitáveis, se forem vantajosas e agradáveis, o quepõe em causa o dever de verdade.Esta busca da verdade pode afastar-seperigosamente da vida. 48
  50. 50. • CAPÍTULO 6 • TRABALHO E UTILIDADECompreende-se, então, que a diferença entretrabalho e lazer deve, à luz destas considerações, serposta em causa. Se o trabalho também é criação,então também partilha as características do lazer.
  51. 51. • Secção 1 •1. O trabalho é uma atividade produtora orientada para a busca de finalidades.2. O trabalho deve ser pensado para além da esfera da utilidade social3. O trabalho possui um valor em si mesmo independentemente do seu valor económico.4. No Mito de Prometeu, que Platão relata no diálogo Primeiro Modelo “Protágoras”, o A Utilidade é o Único Valor do Introdução/Problematização. trabalho tem origem na fraqueza dos Trabalho? homens. E geral, é considerado útil um meio que permite atingir um fim, que se ajusta a uma finalidade. Ser útil é sinónimo de ser eficaz, produzir um efeito esperado, 50
  52. 52. um ganho uma mais-valia: em resumo, ser útil é ser transformo nada com o fim de obter um valoroperacional. Diz-se de um método, de um instrumento, económico. Postas as coisas assim, poderemos dizer quede uma função que são úteis quando cumprem o uma vida sem trabalho seria, no fundo, desejável?objetivo que lhes foi previamente atribuído. O trabalho, Questionarmo-nos sobre se a utilidade é o único critérioenquanto atividade produtora, cria também utilidade de de valor que permite justificar o trabalho é o mesmoduas maneiras possíveis. Por um lado, trabalhar é que refletir sobre a questão de saber se o trabalho,transformar uma matéria para fazer uso dela - os bens enquanto atividade produtora, possui um fim em si–, ou realizar um serviço. Por outro lado, o trabalhador mesmo, independentemente de objetivos como aparticipa naquilo a que se chama a “divisão social do rentabilidade, a eficácia ou a produtividade que avaliamtrabalho” que permite a uma sociedade criar, reproduzir o trabalho pelo seu resultado e não por si mesmo.as condições de sobrevivência e de desenvolvimento. Aocolocar a sua pedra no edifício, o trabalhador, para além Primeira parte: Trabalhar é participar nade ser útil, sente-se útil. divisão social do trabalho.Mas esta atividade fundamental deve ser somente O trabalho é uma atividade produtora orientada para aanalisada em termos de utilidade? Com efeito, se o busca de finalidades. Um carpinteiro, trabalhando umtrabalho só fosse útil, isso implicaria que, se as bocado de madeira, dá-lhe uma forma que permite, emmáquinas ou os robots pudessem fazer tudo em nosso seguida, atribuir-lhe uma utilização. Torna-se, porlugar, deixaríamos de ter qualquer motivo para exemplo, numa peça de uma mesa. Podemos atribuir-trabalhar. Ora, não é garantido que o facto de trabalhar lhe, assim, uma utilidade. E, fazendo o que fez,não tenha, em si mesmo, valor e interesse para aquele podemos também dizer que o carpinteiro foi útil,que trabalha. Quando eu me imponho um trabalho porque participou num processo de trabalho coletivo.quotidiano de prática de um instrumento musical, por Com efeito, pertence a uma cadeia de intervenientes queexemplo, não sou, por isso, útil à sociedade e não começa com o lenhador e acaba com o comerciante que 51
  53. 53. vende a mesa ao consumidor. Quanto mais para o conjunto da sociedade não é considerado umespecializado numa tarefa é o trabalhador, mais ele é trabalhador. É o caso, por exemplo, do artista.útil económica e socialmente: cada sociedade baseia-se,com efeito, numa divisão social do trabalho. Se o Segunda parte: O trabalho humaniza.carpinteiro também tivesse de ser lenhador, a O trabalho não é só uma atividade com finalidade, noconstrução da mesa exigiria muito mais tempo e talvez sentido referido até aqui. Ao trabalhar, o homemnão fosse tão perfeita, porque não é fácil que um único produz também um efeito sobre si mesmo, que não é, àindivíduo domine o conjunto de técnicas necessárias. partida, especificamente procurado. Por exemplo, oPor outro lado, a distinção entre trabalho e lazer reforça trabalho leva-nos a desenvolver as nossas faculdades, aa ideia segundo a qual trabalhar é ser-se útil, isto é, visa adquirir competências, a disciplinar-nos. O trabalhoresponder a necessidades. O tempo da lazer começa também nos socializa. Aprendemos a colaborar com osjustamente quando já não se coloca a questão da outros, portanto a viver com eles. O trabalho, uma dasutilidade ou do nosso papel social. O tempo de lazer é o ligações da rede social, tem, então, um papel civilizadormomento em que nos afastamos da vida social comum, e humanizante para o homem. É frequente ouvir dizerem que deixamos de exercer uma função. Podemos que o homem se humaniza pelo trabalho. Neste sentido,gastar o nosso tempo, realizar atividades gratuitas ou produzindo as suas condições de existência, o homemdesinteressadas, sem finalidade económica reconhecida. produz-se a si mesmo. Dito de outro modo e utilizando uma imagem, ao cultivar o seu campo, o homemConsequentemente, um trabalho não produtivo não cultiva-se a si mesmo: adquire traços especificamentepode ser verdadeiramente considerado um trabalho. O humanos que lhe permitem distinguir-se damesmo se pode dizer do trabalhador não produtivo, que animalidade. Pour le dire autrement et en utilisant unenão é um verdadeiro trabalhador. Aquele que não é útil image parlante, en 52

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