Oportunidades na base da pirâmide

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Artigo do Núcleo Estratégia e Economias Emergentes da FDC, publicado na Revista DOM, discorre sobre como o poder privado pode atuar junto com o público na diminuição da pobreza e na busca por uma distribuição de renda mais igual.

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Oportunidades na base da pirâmide

  1. 1. Oportunidades na base da pirâmide por R e u b e n Abr a h a m Raramente, a palavra “negócios” é mencio- sem depender de infindáveis doações e apoios, e a nada no debate sobre pobreza e desenvolvimento disciplina do mercado assegura que os erros sejam econômico. De certa forma, isso não nos surpre- corrigidos de forma rápida. ende, pois os comerciantes e os negócios sempre Isso pode até ser considerado óbvio, mas não foram tratados com indiferença, desde os tempos é, pois, se fosse, o papel dos negócios seria visto das frotas mercantis fenícias até a Índia de Nehru de maneira muito mais favorável. Como afirmou C. (embora isso não tenha impedido o Partido do K. Prahalad, “senso comum não é tão comum!” Congresso, no poder, de solicitar benefícios das (comentário feito ao autor numa conferência da empresas). Os negócios sempre foram tolerados Universidade de Michigan, em Ann Arbor). como um mal necessário, em vez de encorajados. Antes de avançarmos, vejamos alguns dados Mas, qual seria a realidade de hoje? Mesmo sobre a China e a Coréia do Sul. quem assume ser a favor da redistribuição (e eu Na Figura 1, vemos que o crescimento eco- sou), o que realmente está sendo redistribuído? nômico da China provocou a maior redução da Afinal, não podemos redistribuir a pobreza – ape- pobreza humana na história, tirando perto de 600 nas a riqueza –, e, para isso, primeiro é preciso milhões de pessoas da pobreza absoluta em 26 criá-la. E o único agente social que pode criar anos. Destaca-se, sobretudo, a queda a partir de riqueza são os negócios. 2001, quando a China foi admitida na Organização Podemos discutir se são os negócios priva- Mundial do Comércio (OMC). dos ou os conduzidos pelo Estado que fazem um Vejamos agora os dados da Coréia do Sul, de melhor trabalho de geração de riqueza. Minha 1970 a 2008 (Figura 2), para compararmos com tendência é favorecer os negócios privados, pois Coréia do Norte e Gana, no mesmo período. acredito que eles têm sistemas de incentivos cons- Novamente, os dados apresentam um forte truídos para a melhor alocação de recursos. E ain- argumento de que a industrialização é fundamen- da mais importante – os negócios são sustentáveis tal para o crescimento de produtividade/renda e42 DOM
  2. 2. figura 1 | Pobreza na China (em milhões de pessoas)Percentual de pessoas vivendo com menos de US$ 1.08 por dia (PPP) 700 634 600 500 400 375 300 212 200 100 52 0 1981 1990 2001 2007 figura 2 | PIB per Capita (1970-2008) na Coréia do Norte, Gana e Coréia do Sul (em US$) Coréia do Norte Gana Coréia do Sul 20000200001500010000 5000 388 244 291 555 709 0 1970 2008 Fonte: National Accounts Estimates of Main Aggregates. United Nations Statistics Division: http://data.un.org DOM 43
  3. 3. diminuição da pobreza. Observamos, nas duas meio, estão algo em torno de 4 a 4,5 bilhões de figuras, que os países que conseguiram criar um pessoas, que provavelmente recebem de US$ 1,50 ambiente favorável aos negócios e ao mercado a US$ 15,00 por dia. Esse segmento representa foram muito bem-sucedidos na redução drástica um grande mercado inexplorado. Mas é preciso da pobreza. Portanto, é quase inacreditável que cuidado para não sermos teocráticos com essas ainda haja dúvidas sobre o papel central dos negó- definições, já que elas não são exatas e utilizadas cios e do empreendedorismo no desenvolvimento apenas para criar um modelo conceitual. econômico. Outro fator que contribuiu para que as solu- Indo além do modelo da Base da Pirâmide ções de negócios para diminuição da pobreza Ainda que as premissas de Hart e Prahalad for- ganhassem força nos últimos anos foi a fenomenal neçam um aparato extremamente útil para pensar penetração da telefonia móvel em todo o mundo. em oportunidades nos mercados de baixa renda, Ainda que as condições iniciais tenham sido par- seria importante ir além do modelo apresentado, cialmente subsidiadas, o crescimento da telefonia abordando também as principais críticas feitas a móvel vem sendo liderado pelo mercado, na medi- esse modelo (um de seus críticos mais ferozes foi da em que os mercados competitivos em tele- Aneel Karnani, colega de Prahalad na Ross School comunicações baixaram fortemente o preço dos of Business) – foco excessivo em multinacionais aparelhos telefônicos e das tarifas. O número de estrangeiras e no consumo (que os pobres mal assinantes de telefonia móvel disparou, de cerca podem custear), ao invés da produção. de 1 bilhão (quase todos em países desenvolvidos) É fundamental manter o foco não no seg- para mais de 5 bilhões no momento, a maioria pes- mento mais pobre do mercado, mas nos estratos soas pobres ou de classe média baixa, localizadas medianos, que formam um mercado real (e muito em países em desenvolvimento. Apenas na Índia, grande). Nesse segmento, é menos relevante o o número de assinantes subiu de três milhões, em questionamento se as pessoas estão consumindo 2000, para mais de 850 milhões este ano. Nos produtos que não precisam, já que aí o custo de últimos dois anos, o país registrou de 15 a 20 oportunidade de cada dólar é menor do que para milhões de novos assinantes por mês. A adoção da aqueles que são absolutamente pobres. telefonia móvel provocou um aumento de produti- Acredito também que o foco em empresas vidade e renda em vários mercados de baixa renda. multinacionais erra o alvo em relação às pequenas e médias empresas (PMEs), que são o coração de O modelo da Base da Pirâmide Stuart Hart qualquer economia, especialmente na criação de e C. K. Prahalad desenvolveram um modelo empregos. As grandes empresas, em sua persegui- conceitual para pensar em mercados de baixa ção implacável por maior produtividade, não criam renda (The Fortune at the Bottom of the Pyramid, tantos empregos. De fato, observando os números, o Strategy+Business, número 26, 2002), com a segmento das PMEs é responsável por algo em torno divisão da pirâmide econômica em camadas, de 85% dos empregos nos Estados Unidos e acima incluindo uma base substancial. Eles argumentam de 90% na Europa. Na verdade, a queda na criação que existe uma oportunidade gigantesca na oferta de empregos nesse setor é a maior responsável pela de produtos de alta qualidade a preços acessíveis atual taxa de desemprego nos Estados Unidos. para a base da pirâmide econômica. A maioria dos empregos em países da OCDE Para simplificar, calculo a última camada da é criada no segmento das PMEs. No entanto, em pirâmide em aproximadamente um bilhão de pes- países como a Índia, essas empresas empregam soas que vivem com menos de US$ 1,50 por dia menos de 10% da população. Na medida em que e, provavelmente, estão fora do alcance dos mer- esses países vivem a transição de uma economia cados atuais. No topo da pirâmide há pelo menos primariamente agrícola, precisam que as PMEs um bilhão de pessoas com alta renda, a maioria cresçam rapidamente e absorvam a força de vivendo em países desenvolvidos, apesar de que trabalho liberada pelos ganhos de produtividade as elites dos países em desenvolvimento talvez na agricultura. Portanto, uma questão relevante também pertençam a essa mesma a categoria. No é: se essas empresas são tão importantes como44 DOM
  4. 4. É fundamental manter o foco não no segmento mais pobre do mercado, mas nos estratos medianos, que formam um mercado real (e muito grande)parecem, o que retarda seu crescimento em países ção da roda” e ao uso de tecnologias e processosem desenvolvimento? Creio que alguns custos de “subótimos” e ineficientes.transação têm papel importante nesse contexto: • Acesso a talentos: as PMEs tem um sério • Governos e políticas regulatórias: apesar de problema para acessar os talentos, tanto na faixasuas boas intenções, os governos acabam sendo mais alta quanto na mais baixa do mercado. Asum imenso empecilho para o segmento das PMEs, poucas empresas que conseguem ter esse acessosobretudo porque criam um ambiente de negócios enfrentam pedidos de demissão e alta rotatividadehostil, apesar de toda a evidência de que os países O problema é agravado por questões de proprie-amigáveis aos negócios tendem a ser mais ricos do dade e controle: dificilmente os proprietários con-que os menos amistosos. Um exemplo disso são as cordam em transferir decisões e responsabilidadesrestrições de muitos deles para a entrada e saída para gestores profissionais.de negócios, além de leis trabalhistas onerosas nacontratação e desligamento de pessoal. Tipos de empreendedores Antes de discutir- • Acesso a financiamento: junto com as mos como enfrentar esses desafios, é importante terquestões de políticas públicas, o acesso ao finan- mais clareza sobre o empreendedorismo, que, infe-ciamento é outro dificultador do desenvolvimento lizmente, se tornou bastante confuso desde o sur-das PMEs. Pequenos empreendimentos, especial- gimento de “estórias” em torno das microfinanças.mente em negócios simples (em contraponto aos Considero a existência de três tipos de empre-de tecnologia), têm sérias dificuldades em levantar endedores: aquele que vende um produto numacapital, seja por empréstimos ou capital acionário. barraca de beira de estrada, o proprietário deIsso leva a um custo de capital mais alto do que uma PME e outros do tipo Steve Jobs/Bill Gates,o necessário e as fontes de recursos continuam que constroem negócios imensos, criam enormesendo os amigos e a família. Outro problema riqueza para os acionistas e empregam centenasdas empresas é a obsessão pela propriedade (os de milhares de pessoas. Qualquer sociedade comempreendedores parecem preferir ter 100% de um bom funcionamento tentará eliminar o primeirouma empresa de US$ 1 milhão, do que 20% de tipo de empreendedor, por ser um meio de subsis-uma empresa de US$ 1 bilhão), o que torna o tência disfarçado de empreendedorismo, emboraacesso ao capital acionário muito mais difícil. ainda seja frequentemente assim reconhecido. • Acesso a mercados: mesmo no cenário mais Um efeito colateral do boom de microfinançasfavorável, quando as PMEs estão indo bem, elas na última década foi a celebração desse tipo detêm problemas em acessar os mercados, principal- empreendedor.mente os mais distantes (tipicamente de margens O empreendedorismo é um conjunto de habi-mais altas). lidades muito especializadas, que apenas uma • Acesso a melhores práticas, tecnologia e pequena fatia da população possui. Obviamente,redes de conhecimento: este é um ponto óbvio, traz uma grande recompensa para os que têmmas a falta de acesso leva à constante “reinven- essas habilidades e são bem-sucedidos. DOM 45
  5. 5. Observando a média das turmas de MBA na Indian School of Business (ISB), onde sou pro- fessor, constatamos que menos de 5% dos alunos se tornam empreendedores, enquanto o restante apenas está buscando melhores oportunidades de emprego. Por que devemos assumir que as popula- ções de baixa renda são, de alguma forma, diferen- tes? E, mais importante: por que devemos assumir que elas têm maior talento para o empreendedoris- mo? De fato, o que um empreendedor no nível de subsistência mais deseja é um emprego formal de tempo integral que lhe garanta renda e benefícios fixos. E não o jogo variável e arriscado no qual o empreendedorismo às vezes se transforma. O pior é que numa equivocada tentativa de transformar empreendedores de subsistência em empreendedores reais, podemos perder boas opor- tunidades de criar negócios. A experiência me leva a crer que o vendedor de chá em frente à ISB não tem interesse em expandir e se tornar uma Starbucks do Chá. Realmente, ele preferiria ser um motorista na minha escola, com emprego formal, renda fixa e alguns benefícios. É muito importante perceber essa diferença, especialmente numa época em que a noção de microempreendedorismo está na moda. O cres- cimento do setor formal é bom não apenas para as autoridades tributárias, mas também para os empregados que atualmente definham na sombra do setor informal. Má avaliação de risco e acesso ao finan- ciamento Estando claro o tipo de empreendedo- rismo que queremos endossar, podemos analisar46 DOM
  6. 6. os custos de transação, especialmente o acesso ao Uma quantidade razoável de pesquisas indicoufinanciamento. Acredito realmente que há muitas como poderia ser a evolução desses grandes núme-oportunidades de investimentos na oferta de bens ros, e um fundo de hedge adquiriu parte de umae serviços de alta qualidade para os mercados de empresa de treinamento no ensino básico de eletrô-baixa renda. Em minha opinião, os mercados dos nica (manutenção de computadores, iPods, rádios,países em desenvolvimento, especialmente os da aparelhos de TV, etc.) para classes de baixa renda.base da pirâmide, se caracterizam por avaliações Menos de dois anos depois, quando se retirou doincorretas dos riscos e assimetrias de informação. negócio, o fundo tinha conseguido 350% de retor-Existe, portanto, oportunidade real de aplicar no nesse investimento, enquanto a empresa estavacapital social e filantrópico ao se reavaliar esses criando 20.000 empregos de baixa renda por ano.riscos. Além disso, há um papel destinado à Em 2007, outro fundo de hedge investiu numapesquisa acadêmica: desvendar algumas dessas oportunidade “inviável” – a coleta e gestão deoportunidades de investimentos. Estudos e insi- resíduos sólidos. Hoje, essa companhia é a maiorghts dessa natureza podem ser comercializados empresa individual desse serviço na Índia, cominternamente ou disponibilizados para agentes receita de US$ 75 milhões e margens de EBITDAexternos, que possam construir novos negócios de cerca de 40% (existem empresas maiores nocom base neles (veja o papel importante que setor de tratamento de resíduos, em geral conglo-universidades como Stanford desempenharam na merados que atuam em diversos outros setores).catalisação do cluster de alta tecnologia em torno Do lado social, a companhia dá emprego diretodo Vale do Silício, nos EUA). para milhares de trabalhadores de baixa renda, enquanto a sua “pegada” ambiental (esse é umExemplos de investimentos por investido- ponto crucial, pois os resíduos não coletados cau-res comerciais Vejamos agora alguns exemplos sam diversas doenças, como dengue e malária)de investimentos ocorridos na Índia. Em 2005, afeta a vida de mais de 15 milhões de pessoas,poucas pessoas estavam atentas às oportunidades numa estimativa conservadora.no treinamento de habilidades profissionais, apesar Certamente não havia nada de errado comdos cenários macroeconômicos sinalizarem um esses investimentos e hoje podemos observar umgrande desafio para a educação nos 20 anos seguin- grande número de investidores e empreendedores,tes, especialmente nos negócios. A Índia precisaria tanto na gestão de resíduos como no treinamen-educar 700 milhões de estudantes até 2025, 200 to vocacional. Podemos, então, concluir que foimilhões deles com educação universitária e 500 a percepção do risco e a falta de compreensãomilhões com ensino técnico-profissional. A linha que afastaram os investidores em 2005 e 2007.divisória entre um bônus demográfico e um pesade- Analisando esses investimentos mais de perto, tireilo demográfico pode ser quase imperceptível. algumas conclusões: DOM 47
  7. 7. Nossa experiência mostra que a escala e o sucesso estão intimamente relacionados com a capacidade de apostar no tipo certo de empresário, e não na causa certa • A demonstração tem um papel primordial na essas empresas (uma empresa financeira não ban- abertura dos mercados de baixa renda. Um inves- cária, a NBFC, é o mais provável veículo para esse timento de sucesso pode atrair outros. tipo de empréstimos). • A má avaliação do risco pode ser corrigida com uma combinação de pesquisa de alta qualida- O Fundo SONG O Fundo SONG foi estabelecido de e capital de longo prazo inteligente. em 2009, na Índia, para cuidar do financia- • Os empreendedores, apesar de terem criado mento de negócios em estágio inicial, voltados benefícios sociais e ambientais enormes, não foram para mercados da base da pirâmide. A premissa empreendedores sociais, mas simplesmente os que fundamental desse fundo era a de que se fosse- criaram esses benefícios, ao gerir bem um negócio. mos focar nos mercados da base da pirâmide, o • Ambos os investimentos exigiram grandes impacto social viria em seguida. Por exemplo, se somas de recursos e parece óbvio que o acesso ao financiássemos a educação para faixas de baixa capital foi um considerável empecilho nos estágios renda, não precisaríamos de medidas complexas iniciais do crescimento das empresas. para perceber que tínhamos tido um impacto na vida dos mais pobres. Baseados nesse entendimento e nas pesquisas Como o Fundo SONG tem em primeiro lugar sobre os mercados da base da pirâmide, atuamos a ambição de um retorno dos investimentos, o de maneira ativa no estágio inicial de constituição impacto social não pode ser desculpa para o não de um fundo de capital de risco em PMEs, tendo retorno do capital dos investidores. O fundo foi for- o Soros Economic Development Fund, a Omidyar mado com a crença de que a visão social pertence Network e a Google como investidores. O fundo ao investidor e não ao empreendedor. teve recursos de US$ 17 milhões e foi criado Isso merece uma explicação. Algumas vezes, para realizar aportes de US$ 1 milhão a US$ 1.5 os investidores erram ao sustentar pessoas orien- milhões em negócios atraentes voltados para a tadas a uma missão, que se tornam empreende- base da pirâmide. doras como um caminho para executar aquela É preciso aqui fazer um esclarecimento. missão. Entretanto, ao manter a nossa crença Acredito que existam dois tipos de PMEs – um de que o empreendedorismo é uma habilidade com imenso potencial de crescimento e outro que altamente especializada, apoiamos empresários sempre será uma PME. O fundo SONG (acrônimo que trabalham em mercados da base da pirâmide. para Soros, Omidyar Network e Google), como veí- Isso garante um impacto social, independente culo de participação na propriedade de empresas, do empreendedor estar buscando, ou não, esse foi criado tendo como alvo o primeiro tipo, embora resultado. Nossa experiência mostra que a escala exista uma oportunidade de fornecer empréstimos e o sucesso estão intimamente relacionados com a a o outro tipo de PMEs, principalmente conside- capacidade de apostar no tipo certo de empresário, rando que os bancos não querem emprestar para e não na causa certa.48 DOM
  8. 8. Habitação para população de baixa renda Esse preço tornaria possível a propriedade deEsta é outra oportunidade não aproveitada na residências para famílias com renda entre US$maioria dos países em desenvolvimento, especial- 150,00 e US$ 300,00 por mês (tipicamentemente quando eles crescem rápido e acabam se com duas pessoas gerando renda por família). Osurbanizando em velocidade ainda maior (a urba- proprietários teriam que dar um sinal de 20% enização é causa e consequência do crescimento depois pedir um financiamento. O emprego noeconômico). Somente na Índia, a estimativa é de setor formal torna o processo mais fácil para osum déficit de 30 milhões de habitações, mais de bancos, especialmente aqueles que focam priori-95% no segmento de baixa renda. Nossa pesquisa tariamente em alguns segmentos da sociedade.sobre o mercado imobiliário identificou apenas Considerando a demanda não atendida dodois projetos focados nesse segmento, o que mercado, 75% das residências foram vendidasrepresenta um imenso desajuste entre a demanda no primeiro dia da pré-venda. Somando os baixose oferta. Em 12 meses de pesquisas, identificamos custos de construção e os 20% de sinal, garantiu-os seguintes insights-chave: -se que o projeto ficasse livre de dívidas (sem • A maioria das empresas imobiliárias comete necessidade de um project finance) e o fluxo deum erro fundamental quando segmentam o mer- caixa positivo, desde o primeiro dia. Ao final, ocado pela renda – um habitante de uma favela projeto gerou uma taxa interna de retorno de maisem Mumbai tem provavelmente uma renda mais de 100%. Agora, os investidores privados estãoelevada do que uma pessoa de classe média numa investindo na empresa, permitindo que ela aumen-cidade de nível 3. Descobrimos que a segmentação te sua escala de operações.seria mais adequada se fosse feita com base na Baseados em nossa pesquisa e na experiênciageografia e cada uma exigiria uma solução habita- de comercialização, identificamos três oportunida-cional diferente. des comerciais no segmento de habitação para a • Apenas os clusters industriais têm um déficit população de baixa renda:de seis milhões de residências, apesar dos empre- 1. Compradores potenciais em diferentesgos formais e o potencial de descontos nas folhas segmentos geográficos (como mencionado ante-de pagamento, conforme pesquisa realizada por riormente).Roopali Raghavan e Reshma Apte, pesquisadores 2. Residências para aluguel – há um imensodo Centro para Soluções em Mercados Emergentes déficit no estoque de residências para aluguel no(CEMS) da ISB. mercado, em todos os segmentos, mas especial- • Fora das grandes cidades, os proprietários de mente para a população de baixa renda. Abaixobaixa renda preferem viver em casas de um único de certo nível de renda, a propriedade não é umaandar, com estruturas simples. alternativa viável e o aluguel se torna uma opção • Se fosse adotado um modelo de capital de mais atraente. Um trabalhador migrante recém-giro com rápidas saídas, em vez do tradicional -chegado a uma cidade não tem necessidademodelo de empréstimos bancários, haveria poten- nem capacidade de manter uma casa, até quecial para a geração de lucros significativos. Nesses sua família se junte a ele e a necessidade decasos, a valorização da terra é fonte de grandes espaço aumente.lucros e, em consequência, os proprietários promo- 3. Financiamento habitacional – atualmente,vem os empreendimentos lentamente, na medida os bancos fornecem financiamento aos nossosem que o valor da terra aumenta. clientes porque eles têm um emprego formal. Entretanto, deve haver uma oportunidade signifi- Baseados nesses insights e no levantamento cativa em oferecer financiamento imobiliário parade cerca de US$ 500.000,00 de capital, deci- trabalhadores informais a um custo mais baixo dodimos testar a hipótese com um projeto piloto que o dos bancos. Deve haver também maneiras decomercial de cerca de 220 residências, vendidas oferecer seguros que protejam contra o não paga-por US$ 6.000,00 a US$ 11.000,00 (casas de 20 mento causado por flutuações bruscas na rendaa 28 metros quadrados, não incluindo um jardim e dos trabalhadores.um quintal, que existem em todas as residências). DOM 49
  9. 9. figura 3 | Contornos de uma sociedade que funcione bem INFRAESTRUTURA INFRAESTRUTURA INFRAESTRUTURA FÍSICA SOCIAL FACILITADORA Imóveis / Terras Emprego / Governança Empregabilidade Água / Esgoto Saúde Políticas Públicas Energia / Clima Educação Planejamento Habitação Financiamento Alimentos / Agricultura Sustentabilidade Transportes / Logística Infraestrutura Soft Infraestrutura Digital50 DOM
  10. 10. Como pensar em oportunidades nesse seg- fundamentos de negócios, execução e um fluxo demento A Figura 3 poderia ser concebida como os caixa positivo o mais rápido possível, haverá imen-elementos de uma sociedade que funciona bem, sas oportunidades em cada um desses setores.como os pilares da urbanização ou crescimentourbano e ainda em termos de inovações e investi- Papéis para as multinacionais? Considerandomento potenciais no segmento da base da pirâmi- tudo o que foi comentado neste artigo, haveria umde, com a exceção das três primeiras caixas cinza. papel para as empresas multinacionais nos seg-É impossível ter sociedades saudáveis ou cidades mentos da base da pirâmide? Acredito que sim.funcionando bem sem que cada um desses pontos Em alguns casos, isso vai envolver oportunidadesseja adequadamente tratado. Mais ainda – eles para lidar diretamente com os consumidores (comoprecisam ser tratados simultaneamente e não vender xampus para os pobres), mas deve haverincrementalmente. possibilidades muito maiores (e de menor custo) ao lidar com os custos de transação encontradosPressupostos básicos Cada uma dessas cai- por empresas menores, mais inovadoras e empre-xas representa um mercado de US$ 100 bilhões endedoras. Finanças é um bom começo, já queapenas na Índia, portanto não há um risco de os empreendedores usualmente são mais bemmercado real se for encontrada uma solução de atendidos por investidores estratégicos (grandesalta qualidade e baixo preço. Sempre haverá um empresas que atuam nos mesmos segmentos)mercado para água tratada, por exemplo. Além do que por investidores financeiros. Além disso,disso, todos esses setores podem comportar um as multinacionais costumam ter acesso a merca-alto nível de competição. Por exemplo, em habi- dos, novas tecnologias e talentos em gestão, quetação, dez empresas adicionais não afetariam poderiam ser fortemente utilizados por empresasos negócios existentes, ainda que beneficiassem iniciantes (startups). Finalmente, em relação àsimensamente os consumidores. Mesmo assumido políticas públicas, uma grande empresa provavel-o melhor cenário, seremos pressionados a construir mente será mais capaz de lutar por mudanças do100.000 residências no período de cinco anos. que pequenas empresas desconhecidas.Considerando o déficit de 30 milhões de residên-cias (ou de seis milhões apenas nas áreas indus-triais), a competição é a menor das preocupações. Reuben Abraham é professor da Indian School of Business (ISB), res- ponsável pelo Centro para Soluções em Mercados Emergentes (CEMS), eA execução é um problema. PhD pela Universidade de Columbia (EUA). Portanto, estamos considerando oportunida- Tradução: Aldemir Drummonddes com baixo risco tecnológico ou de mercado,e o risco da execução é muito mais fácil de sercontrolado pelo investidor. Se o foco for inovação, DOM 51

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