O s reflexoas do eu em mulher no espelho de helena parente cunha

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O s reflexoas do eu em mulher no espelho de helena parente cunha

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS – LICENCIATURA SANDRA KELLY SOUZA SANTOS OS REFLEXOS DO EU EM MULHER NO ESPELHO DE HELENA PARENTE CUNHA Conceição do Coité 2012
  2. 2. SANDRA KELLY SOUZA SANTOSOS REFLEXOS DO EU EM MULHER NO ESPELHO DE HELENA PARENTE CUNHA Monografia apresentada ao Departamento de Educação, Campus XIV, Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas - Licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como instrumento da avaliação final do Componente Curricular Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para obtenção do grau de licenciada. Orientadora: Profa. Dra. Itana Nogueira. Conceição do Coité 2012
  3. 3. A mente é tudo A mente é a força mestra que modela e faz E o homem é mente, e cada vez mais empunha O instrumento do pensamento e, afeiçoando o que quer, Produz mil alegrias, mil males _ Reflete em segredo e o que ele pensa acontece: O ambiente nada mais é do que o seu espelho. Anônimo Espelho Queria não ter tanto pra escrever, ser sempre leve. Mas tudo pra mim é vidro... Vejo tudo através dele, Não apenas o que está ao alcance, Mas o que nele está contido. É quase um dom, mas às vezes não, Às vezes é só delírio. Pois a imagem, quando atravessa, Nem sempre permanece o que era. Quase sempre quem vê ao espelho, Vê ao inverso, ou do avesso.Às vezes o avesso é o que mais se aproxima da realidade. Mas, na maioria das vezes, o avesso, é só o avesso. Nada tem de verdade. Súlzer Larissa Germano
  4. 4. Dedico este trabalho primeiramente a minha família, por sempre estarpresente nos momentos difíceis, dando-me força para vencer asbatalhas que a vida oferece e nos momentos alegres, principalmente aminha mãe, Iracema Carneiro que é um exemplo de vida. Dedicotambém aos professores da faculdade principalmente a Itana Nogueirae os professores das escolas onde estudei, pois contribuíram com seusméritos de forma complacente no que sou hoje.
  5. 5. AGRADECIMENTOSA DEUS pela acolhida nas horas em que mais preciso, pela benção de nascer,conhecer e viver com pessoas especiais. Pelas alegrias, pela força e coragem devencer os obstáculos e nunca desistir dos sonhos. Agradeço-o por oportunizardiversas portas que se abrem na vida, que trazem um crescimento profissional eprincipalmente pessoal.A MINHA FAMÍLIA pelo apoio nas horas em que mais preciso: pais, primos, tios,avós, especialmente a minha mãe, IRACEMA CARNEIRO DOS SANTOS, pessoamais importante que Deus colocou em minha vida. Obrigada mãe por me fazerexistir, permanecendo carregada pela força que vem de você. Como também, minhaavó, MARIA SOUZA SANTOS e minha tia IRACY CARNEIRO DOS SANTOSMIRANDA.A Orientadora Prof.ª Dr.ª ITANA NOGUEIRA NUNES, por sempre estar apoiando eincentivando a construir. Uma pessoa coadjuvante, que compartilha seus saberes emostra que “nada se perde”. Obrigada por oportunizar o espaço de expor opiniões esentimentos. Como também aos professores DEIJAIR FERREIRA e SAYONARAAMARAL pelas orientações de grande valia.Aos colegas de classe, principalmente, MÔNICA DE OLIVEIRA SOUZA, ROSANACRISTINA LIMA DA SILVA E ELIANE LIMA DOS SANTOS. Obrigada porcompartilhar momentos difíceis e momentos alegres. Nossos momentos divertidosficarão para sempre. Momentos de risos deixarão saudade, porém a amizade seráeterna.Às pessoas que de certa forma deixaram suas marcas, direta ou indiretamente. Àspessoas que conheci através da graduação, aos colegas de trabalho, aos parceirosdo PIBID.Enfim, agradeço a todos, que de fato contribuíram na construção da pessoa que souhoje.
  6. 6. RESUMOO presente trabalho analisa os reflexos do eu na obra Mulher no Espelho, daescritora Helena Parente Cunha, investigando a (des)construção da imagemfeminina e seus conflitos identitários através dos espelhos. A obra é escrita emprimeira pessoa, possibilitando a narradora construir um diálogo entre dois mundos,no qual a personagem apodera-se do inconsciente para liberar seus desejos eacaba constituída por múltiplas identidades refletidas no espelho. Para desenvolvero trabalho, utiliza-se a pesquisa bibliográfica embasando-se em Anthony Giddens(2002), David Zimerman (1999), Joel Dor (1989), Carl Jung (1995), Anthony Elliott(1996), Afrânio Coutinho (2004), Nelly Coelho (1999), Nicole Bravo (1998), BethBrait (1985) e outros que, em suas obras retratam a literatura contemporânea, oespelho, o consciente e inconsciente, além da análise de romance. A partir dessaabordagem, foi possível constatar o jogo de manipulação utilizada no discurso danarrativa dentro do mundo fictício, proporcionando a revelação das múltiplasidentidades da mulher através do espelho.Palavras- chaves: Literatura. Espelho. Mulher.
  7. 7. ABSTRACTThis paper analyzes the reflections of the work The Woman in the Mirror, the writerHelena Parente Cunha, whose objective is to investigate the (de) construction of thefemale image and his identity conflicts through the mirrors. The work is written in firstperson, allowing the narrator to build a dialogue between two worlds, in which thecharacter takes hold of the unconscious to release their desires and ends consistingof multiple identities reflected in the mirror. To develop the work, we use the literaturebasing on Anthony Giddens (2002), David Zimerman (1999), Joel Dor (1989), CarlJung (1995), Anthony Elliott (1996), Afranio Coutinho (2004), Nelly Coelho (1999),Nicole Bravo (1998), Beth Brait (1985) and others who, in his works portraycontemporary literature, the mirror, the conscious and unconscious, beyond theanalysis of the novel. From this approach, we could see the game of manipulationused in the discourse of narrative within the fictional world, providing the revelation ofthe multiple identities of women through the mirror.Keywords: Literature. Mirror. Women.
  8. 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃO -----------------------------------------------------------------------------------------081 O ESPELHO DA MULHER ----------------------------------------------------------------------101.1 O jogo dos espelhos -----------------------------------------------------------------------------101.2 O limite entre o consciente e o inconsciente ----------------------------------------------151.3 Autoria feminina ----------------------------------------------------------------------------------192 O CONFLITO DA PERSONAGEM NO ROMANCE MULHER NO ESPELHO DE HELENA PARENTE CUNHA --------------------------------------------------------------------222.1 Diálogos no espelho -----------------------------------------------------------------------------222.2 Imagens duplicadas e múltiplas identidades ----------------------------------------------26CONSIDERAÇÕES FINAIS ------------------------------------------------------------------------34REFERÊNCIAS
  9. 9. 8 INTRODUÇÃO A Literatura Contemporânea possui um vasto grau de heterogeneidade,caracterizada por mostrar uma diversidade de temáticas e estilos, a partir dosconhecimentos estéticos de períodos passados e a continuidade através do caráterrenovador, ao fazer do velho um espaço de apoio para os novos talentos. É por meio da cultura literária contemporânea que se destacam as relevantescrises do eu feminino na obra Mulher no Espelho, da escritora baiana HelenaParente Cunha, cuja narrativa traça a desconstrução da imagem feminina e seusconflitos identitários através dos espelhos. A personagem apodera-se doinconsciente para liberar seus desejos e acaba constituída por múltiplas identidadesque se refletem no espelho, utilizado na tentativa de autoanálise e liberdade interior.Este comportamento é indagado a partir de estudos da psicanálise, para discutir asintrospecções dos indivíduos. A dupla personalidade da mulher é movida pelosdevaneios de uma família tradicional, submissa ao pai, ao marido e aos filhos. O seuinconsciente luta por seus sonhos reprimidos e por sua liberdade, uma imagem quese apresenta através de um espelho e questiona a atitude da personagem real. O desígnio é investigar o conflito e a fragmentação do sujeito contemporâneo,representado pela duplicidade da personagem através de seu reflexo no espelho.Para tanto, utiliza-se o princípio da argumentação como método básico parajustificar as discussões aqui propostas. A pesquisa utilizada é a bibliográfica, quepermite uma revisão alicerçada em fundamentações teóricas que apresentamdiscussões sobre identidades relacionadas à figura da mulher nacontemporaneidade. Nessa perspectiva, algumas hipóteses podem ser levantadassobre a discussão pautada na figura feminina: o espelho pode ser o limite entre oconsciente e o inconsciente da personagem; pode ser também a única saída para apersonagem se debruçar e questionar-se buscando o reflexo como conforto. Para o desenvolvimento do trabalho retoma-se as ideias de algunsinvestigadores que dialogam com a temática em questão. Deste modo, encontram-se aqui citações de autores como: Anthony Giddens (2002), Joel Dor (1989),Anthony Elliott (1996), Carl Gustav Jung (1998), David E. Zimerman (1999), Alberto
  10. 10. 9Tallaferro (2001), Zeferino Rocha (2008), Afrânio Coutinho (2004), Nelly NovaesCoelho (1999), Nicole Fernandez Bravo (1998), Beth Brait (1985), entre outros coma finalidade de empreender as teorias que baseiam os estudos literários. Além dotexto principal, o romance Mulher no Espelho, de Helena Parente Cunha, tem-setambém como base de sustentação para o objeto desse estudo, o conto O Espelho,de Machado de Assis, a poesia Retrato, de Cecília Meireles e a tela Moça na frentedo espelho, de Pablo Picasso. A monografia está estruturada em dois capítulos. No primeiro, há umaexplanação teórica sobre o termo espelho. Além de, uma investigação psicanalíticapreliminar, discutindo a formação e desconstrução identitária do indivíduo através doespelho, que necessariamente estão pautadas na literatura contemporânea. Osegundo capítulo trata da análise da obra Mulher no Espelho. Os desfechos serãoapontados e justificados a partir das obras de criação, que seguem dialogando como objeto espelho no qual as personagens se buscam, refletindo seus inconscientes.
  11. 11. 10 1 O ESPELHO DA MULHER A obra de Helena Parente Cunha, Mulher no Espelho, é o retrato de umapersonagem feminina, cuja identidade fragmentada pelas suas tentativas frustradasde buscar a sua verdadeira personalidade, aparece em todo o corpo do romancecomo uma figura atormentada a procura de respostas. O seu descontentamento e insatisfação que estão refletidos nas suas açõese pensamentos são as bases nas quais a autora empreende a sua discussão sobreo eu feminino para abordar temas como: as múltiplas identidades; os limites entre oconsciente e o inconsciente; a realidade e a imaginação e finalmente os reflexosobtidos como tais respostas através do espelho. É nos textos literários que o espelho atua com maior intensidade nosdesenlaces das histórias das personagens que se autorefletem, na tentativa deexpor seus desejos e de refletirem sobre suas próprias vidas.1.1 O jogo dos espelhos Segundo Zimerman (1999) o espelho é um elemento que estáconstantemente vinculado a áreas como a mitologia, a ciência, a religião e aliteratura. Tem sido considerado ao longo dos tempos como objeto causador detristezas, sofrimentos, mortes, mas também de alegrias, luzes, e outros símbolospositivos, além de ser a chave do reconhecimento ou das fragmentações de um eu,a depender da crença de cada indivíduo. Desde muito tempo, o espelho é utilizado como objeto do reflexo. Antesmesmo da utilização do vidro como espelho, a humanidade primitiva usava daságuas paradas como forma de refletir suas próprias imagens e constituir crendicesrelacionadas ao espelhar do corpo e da alma. As crendices populares estenderam-se até os dias atuais, e muitas pessoasacreditam que o espelho pode ser um objeto que desperte o mal e o demônio.
  12. 12. 11Segundo Zimerman (1999, p. 185), são crendices populares: “[...] ‘criança que seolha no espelho custa a falar’; ‘espelho quebrado é sinal de morte’; olhar-se noespelho a noite é perigoso: pode-se ver o diabo’ [...]”. O espelho tem a função derefletir imagens através do olhar, e toda essa construção é fruto da imaginação e detodos estes preconceitos estabelecidos. Para Ferreira (1999, p. 814) “[...] os olhos são o espelho da alma [...]”. Éatravés do olhar que se visualiza a alma de um ser, seus pensamentos e suasações. Também nas referências bíblicas, tem-se o olhar como possível causadorimparcial da destruição do sujeito, que, pela curiosidade e pela desobediência, podeprovocar um fim trágico. A história bíblica da esposa de Ló é um dos clássicosexemplos, pois ela voltou-se para ver a destruição de Sodoma e Gomorra, ondedeixou suas jóias preciosas. Dessa maneira, verifica-se no evangélico de Lucas(17:31-2) das escrituras sagradas: “Quem estiver no terraço e os bens dentro decasa, não desça para apanhá-los. Também quem estiver no campo, não volte atrás.Lembrai-vos da mulher de Ló”. O olhar, nesse caso, é considerado pela religião como pecado. É a históriada mulher que foi castigada pela sua desobediência, tornando-se uma estátua desal. Entretanto, o espelho é também o simbolizador da iluminação, da reflexãosolar, da sabedoria e do reconhecimento. Uma forma de expressão mais forte de umser, pois ele remete a claridade, a luz que ilumina a face de um indivíduo. É atravésdo espelho que as pessoas podem notar suas formas corporais e adentrar atravésdo próprio olhar na reflexão de seus pensamentos e atitudes. Nesse sentido Dijck(2004), afirma que: [...] a palavra ‘espelho’ (speculum= especulação) nomeia um dos artefatos mais antigos [...] tanto remete à observação dos corpos estelares, como lembra a verdade, a sinceridade, a pureza, o conteúdo do coração e da 1 consciência [...] (Não paginado).1 A citação foi extraída do texto Calidoscópio e Hipertexto de Sonia van Dijck (2004), porém, não seencontra paginado. Disponível em: <http://www.soniavandijck.com/espelhos.htm>.
  13. 13. 12 O espelho leva o sujeito a observar os componentes do seu interior e domundo em que está inserido. Trazendo com os seus vários significados, desde asreações mais angustiantes às mais fantásticas, transmitindo assim os sentimentosde cada indivíduo. A imagem do sujeito é capturada constantemente pelo espelho no momentoem que ele se posiciona na frente do objeto. Essa reflexão se desdobra em umadimensão que se pode constatar a imaginação de diversos rostos de um eu2. Asimagens especuladas são frutos da percepção do próprio indivíduo, quando suaunidade corporal está em outra dimensão, causando-lhe um estranhamento e váriosquestionamentos sobre as imagens projetadas diante do espelho. Segundo Sales(2005), em função disso, há uma necessidade de representação do outro, ou seja, oindivíduo vê sua imagem formada através da imagem que tem de outros sujeitos.Assim, o autor (2005) estuda a formulação lacaniana se referido ao que ele chama“estágio do espelho”. Segundo ele, Lacan usou experimentos comparativos entre omundo consciente e inconsciente através do espelhar. Daí parte-se do exemplo deuma criança que se encontra hesitando entre a realidade e o espaço, ou seja, entreas imaginações (inconsciente) e uma realidade física (consciente): “[...] o contatocom o espelho é uma experiência provocada pelo psicológico cujo objetivo éinvestigar o modo como a criança atinge uma relação adulta normal com a realidade[...]” (SALES, 2005, p. 118). O indivíduo ao nascer está sempre em contato com imagens, que serefletem e constroem a sua própria imagem. No momento em que a criança estásendo amamentada, ela busca intensamente olhar para o rosto de sua mãe, paraassim estabelecer uma relação de sentido com o seu mundo. Quando a mãedevolve esse olhar, a criança sente-se amada e acolhida e sua reação é ter a mãecomo próprio espelho. Segundo Joel Dor (1989, p. 81) “[...] a criança se mantémjunto à mãe, buscando identificar-se como o que supõe ser o objeto de seu desejo”.Com o tempo, o indivíduo vai desenvolvendo-se por meio das sensações que seureflexo evidencia através de uma imagem, sucedendo o reconhecimento daimaginação e do seu próprio corpo. Como Sales e Joel Dor, Giddens (2002, p. 47) enfatiza:2 Segundo Parot e Doron (2001), “[...] o ego / eu se baseia numa experiência subjetiva de(consciência de si) [...] é, ao mesmo tempo, a instância integrada onde se forma as representaçõesconscientes, especialmente a representação de si [...] a sede da consciência [...]”.
  14. 14. 13 [...] que a sensação precoce de segurança da criança vem da criação que recebeu daqueles que cuidavam dela [...] a aprovação ou desaprovação paternos ou maternos. A ansiedade é sentida ─ real ou imaginariamente [...]. O sujeito sente a necessidade de encontrar no outro o apoio fundamentalpara construir a autoestima. Quando não localiza essa fortaleza, passa porprovações de insegurança e não consegue sustentar uma atitude. O comportamentodescontrolado desse sujeito é o espelhar da sua infância, utilizando-se do afeto ounão da familiaridade como seu próprio espelho para formar ou desconstruir umaidentidade. Nos liames literários, os espelhos são elementos bastante recorrentes nosdesfechos das narrativas, especificamente, por serem os geradores dasintrospecções das personagens. Dessa forma, são utilizados para viabilizar osdiálogos das personagens com seu interior, refletindo as frustrações e conflitos naconstrução identitária. Segundo Silva (2007, p.59) “o espelho na narrativa de ficçãosempre foi um elemento que representou um meio pelo qual as personagens seinteriorizam e fazem uma investigação da alma [...]”. De tal modo, limita-se entre oreal e o imaginário e constrói a fragmentação da personagem, pois é um artifíciopelo qual a arte literária se configura. Contudo, há o conflito entre o consciente e oinconsciente da personagem, ao investigar-se através do próprio reflexo no espelho,se autoanalisando na busca da libertação. Mulher no Espelho, de Helena Parente Cunha, publicado em 1985, retratauma personagem feminina que luta constantemente na busca obsessiva da própriapersonalidade, refletida por um espelho, que, de certa forma, é o objeto de conflitoda sua identidade. Assim sendo, há uma tripartição dessa única mulher manifestadaem: eu (a real na obra, possivelmente passiva); ela (o reflexo desse eu,necessariamente a do espelho, revoltosa) e uma terceira (autora – personagem, quese manifesta nas leituras romanescas da personagem), porém as duas primeirasdominam quase todo o enredo. São duas histórias de uma única personagem. Elatem quarenta e seis anos, personagem sem nome, oriunda de uma família burguesa,vítima de um pai e de um marido autoritários, que aniquilaram sua liberdade,impondo padrões, regras e comportamentos a serem seguidos.
  15. 15. 14 Na infância, a personagem viveu um drama ao ter um irmão mais novo, porquem era responsável em tudo o que lhe pudesse acontecer. Para acalentar-se, apersonagem procurava o sótão, o quarto e demais lugares escuros e solitários,como refúgio de um mundo onde ela não recebia carinho e atenção da própriafamília. Na casa havia espelhos e, neles, a personagem adentrava-se, na tentativade acalentar seus medos e angústias. “[...] Na fluidez das linhas divisórias qual adistância entre o rosto no espelho e o espelho ante o rosto? [...] E o meu rosto noespelho? Quem é?” (CUNHA, 2001, p. 18). No conto de Assis (1994) O Espelho, na poesia O Retrato, de CecíliaMeireles (2001) e na tela Moça na frente do espelho, de Pablo Picasso (1932), oespelho é também um objeto que busca uma análise íntima dos sujeitos. Em OEspelho, o personagem entra em conflito com a sua imagem quando está sozinho esente a necessidade de ser o que as pessoas o consideravam. Este vazio leva-opara um mundo imaginário e conturbado, e a partir do momento em que opersonagem adormece, tomam conta de seu corpo os sonhos, suas imaginações,seus desejos e sensações de acalento, na tentativa de realização. Do mesmo modo, no poema Retrato, de Cecília Meireles, o eu lírico resgatauma visão da sua própria vida e as modificações feitas pelo tempo. O espelho é oespaço onde sua face está. É o objeto que conflita o passado e o presente do eulírico. Já na tela Moça na frente do espelho, de Picasso, as imagens sinalizamuma mulher dividida e amargurada se refletindo no espelho. Suas formas mostramuma aparência conturbada e fragmentada nas imagens produzidas, como tambémnas imagens que corresponde à figura real que se reflete. Dessa forma, seja na literatura ou na linguagem pictórica, muitas dastensões e dos conflitos retratam o universo das imagens dos sujeitos, que seperpetuam diante dos espelhos, ou seja, é o limite, onde se autoanalisam,conflitando seus sonhos e desejos reprimidos do inconsciente através da suaconsciência, buscando assim o real.
  16. 16. 151.2 O limite entre o consciente e o inconsciente Alguns estudos psicanalíticos caracterizam-se como método de investigaçãopela busca de significados dos sentimentos expressos pelo imaginário, através depalavras e ações proferidas pelos delírios e sonhos do indivíduo. Freud (apud ROCHA, 2008, p. 202) diz que, a partir de suas investigaçõespsicanalíticas, criou o sistema metapsicológico que apresenta o aparelho psíquicodo indivíduo, topograficamente dividido em inconsciente, pré-consciente econsciente. Segundo o autor, o indivíduo pode mudar de estágios, transitandoocasionalmente entre inconsciente e consciente. Assim o inconsciente, paraStefanzweig (apud TALLAFERRO, 2001, p. 42), “[...] não é em absoluto o resíduo daalma, mas pelo contrário, sua matéria prima, da qual só uma porção mínima alcançaa superfície iluminada da consciência [...]”. É nele, onde está o reprimido, o refúgiode um mundo consciente. Uma parte do inconsciente surge a partir de sonhos que afloram-se até oconsciente, supostamente é considerado como pré-consciente devido estar maisperto do sentido consciente. Embora exista o inconsciente reprimido, a parteabstrata nunca chegará ao consciente, encontrando-se no id3, instância regida pelosistema do inconsciente e que nunca pode mudar de estágio. Segundo Sales (2005, p. 117), o conceito lacaniana oscila entre o euconsciente e o eu inconsciente, utilizando a terminologia je para consciente e moipara o inconsciente, partindo do que não é “verdade do sujeito”, ligado intimamentea subjetividade, enquanto que o consciente é a unidade sistematizada de um eu.Tais pensamentos podem ser verificados no seguinte trecho: [...] ao moi o significado de uma instância imaginária sintomática e alarmante e ao je o estatuto de sujeito do inconsciente, lugar situado no simbólico e aparentemente a verdade do desejo [...] (SALES, 2005, p. 117).3 Segundo Ferreira (1999) id é um “sistema básico da personalidade que possui um conteúdoinconsciente, por um lado hereditário e inativo, e por outro, recalcado e adquirido, de acordo com asegunda teoria freudiana do aparelho psíquico”.
  17. 17. 16 Para a formação mental de um indivíduo, é preciso passar por diversasfases desde o nascimento. Quando ocorrem incoerências no desenvolvimento deuma criança, aparecem os reflexos na formação adulta. O indivíduo passa a terconflitos entre os desejos retraídos e seus sentimentos, que não poderá serexpressos em sua vida enquanto sujeitos de uma sociedade. A construção do eufica impossibilitado devido às reações provocadas pelo inconsciente e peloconsciente, quando o indivíduo se encontra em situações que lhe provocamconstrangimentos e decepções, alarmando-se na formação da sua plenaconsciência, quem realmente é esse eu. O desencontro do processo que limita o consciente do inconsciente resulta nabusca insensata da própria construção do sujeito. A imaginação é a via que leva oindivíduo ao mundo irreal do seu próprio interior, tornado-se o espaço que liga ossentimentos reprimidos até a consciência, enquanto o ser eu, revela seus aspectoscontraditórios. Segundo as ideias de Elliott (1996, p. 223), há “[...] uma reflexãocrítica nas modalidades centrais de sentimento [...]”, do indivíduo, ao perpassar peladistância que se limita entre o inconsciente e o consciente. Este debate é o quepossibilita o conflito da sua construção identitária. Quando o indivíduo se depara com duas personalidades, constata astransposições entre o inconsciente e o consciente, os quais se alternam propagandoos desejos e as razões de um ser. Assim, Jung (1998, p.191) diz: “[...] tudo que éinconsciente já foi ou será conteúdo do consciente [...]”. O inconsciente quandorefletido é considerado como se fosse parte do consciente, porque quando um eu seatribui dos conteúdos do inconsciente tornando-se semelhantes ao consciente, oindivíduo passa a ter perturbações na consciência e necessariamente a construçãoda dupla personalidade. Também no universo literário, algumas personagens se deparam emsituações de busca e conflito, quanto à formação da consciência e inevitavelmenteda própria personalidade. Em Mulher no Espelho, desde a sua infância, apersonagem central de Cunha (2001) não teve um firmamento estrutural daconsciência, ou seja, o eu não se concretizou durante toda a sua vida e chega a nãose reconhecer. Os conteúdos inconscientes refletem contrariamente ao conscientedessa mulher. Suas ideias e suas atitudes de toda a vida são questionadas pelosdesejos e pelas indignações do inconsciente.
  18. 18. 17 Pelo fato de viver na infância passivamente, sempre atendendo as ordens deoutras pessoas e inevitavelmente privada da afetividade familiar, essa mulherinacabada não se estruturou psicologicamente, o que lhe ocasionouconstrangimentos e perturbações. Como relata o filosofo Giddens (2002, p. 42): Desde os primeiros dias de vida, o hábito e a rotina desempenham um papel fundamental na construção de relações no espaço potencial entre a criança e os que cuidam dela. Conexões centrais são estabelecidas entre a rotina, a reprodução de convenções coordenadas e os sentimentos de segurança antológica nas atividades posteriores do indivíduo. Pode-se afirmar que quando o sujeito não tem uma boa convivência com afamília, ele passa a ter um desequilíbrio emocional. A falta de carinho esucessivamente a obrigação de seguir normas levou aquela mulher a viver dentrodos padrões de uma sociedade tradicional, apenas para servir seus pais, movidospelo autoritarismo. Uma mulher reprimida que aprendeu a cuidar do irmão mais novoe quando adulta foi submissa ao marido e aos filhos. Para ela, uma mulher recatada,simples e dona de casa, deveria manter-se nesses patamares. “[...] Eu boa menina,obediente, os amigos do meu pai me gabavam [...]” (CUNHA, 2001, p. 19); “[...] paraviver bem com meu pai que eu amava, aprendi a viver para amá-lo [...] nãolevantava a cabeça para falar com ele [...]” (p. 25). A personagem quando criança quebrou um brinquedo do irmão não seconformando por ele ter destruído a sua boneca favorita. Por causa dessa atitude opai a colocou de castigo e não o irmão, ela ficou revoltada, entretanto se culpa peloato. Foi questionada pelo seu inconsciente, dizendo que ela não tinha errado emquebrar o brinquedo do irmão, ele substituiu seu espaço enquanto criança, de poderbrincar e ser bem amada. Esse confronto viabiliza um diagnóstico de que, desde sua infância, aquelamulher angustiada sempre esteve num abismo, sem ter a certeza do que estavafazendo. Seus desejos e instintos eram vistos como errados por sua consciência,enquanto um eu que deveria se comportar como criança bondosa e educada. Osatos momentâneos eram sementes das conturbações da consciência do sujeito emove toda a dualidade de uma única mulher. A personagem dialoga com a suaimagem ao espelho:
  19. 19. 18 Você já falhou. Desde o começo, falhou com suas omissões. Suas manias de querer desculpar todos e tudo. E sua rotina de autocondenação e flagelação. (CUNHA, 2001, p. 41). Dessa maneira a dualidade perpassa toda a narrativa, mesclando odiscurso do consciente e inconsciente, que se esquivam e se chocam num diálogode culpas e sentimentos. Uma vida de desastres em que a mulher se autocrítica,negando-se e ao mesmo tempo fugindo dessa realidade. O inconsciente que rompe o limite, surgindo como força de expressão,inevitavelmente provoca o conflito da imaginação com os princípios da realidade.Uma ruptura na formação da identidade de uma mulher procedente de uma famíliatradicionalista, que agita a sua vida. A imaginação protesta contra suas atitudesreais, projetando uma desconstrução mental da personagem e aflorando suasvontades até então não assumidas. Dessa forma, o indivíduo passa a ter perturbações e não forma umaidentidade própria. Há sempre um limite entre o seu estado consciente e oinconsciente. Assim, a personagem da narrativa é vista através de um discursocontrário ao estabelecido, como mais uma possibilidade, diante dos conflitosexistenciais do contemporâneo. Como diz Giddens (2003, p.50), “a existência é um modo de estar-no-mundo[...] aceitar e viver sua própria realidade”, porém o sujeito pós-moderno é construídopelas fragmentações e certamente não tem a sua própria essência. O planejamentoda vida é a referência da personalidade de cada indivíduo, e quando esse projetonão se constitui, o sujeito se perde entre tempo e espaço. O autor ainda diz: ‘Isolamento existencial’ não é tanto uma separação do indivíduo dos outros, mas uma separação dos recursos morais necessários para viver uma existência plena e satisfatória (GIDDENS, 2003, p. 16). Contudo, enquanto representação da realidade o sujeito depara-se comhipóteses e ferramentas que, certamente, podem levá-lo a questionar-se sobre a suaexistência, desconstruindo assim a ideia de um mundo coerente, igual. E aimaginação é uma forma para então reconstruí-la com base nessa nova realidade,isto é, um universo fragmentado e heterogêneo.
  20. 20. 191.3 Autoria feminina A literatura contemporânea cada vez mais rica e heterogênea,caracterizada por mostrar várias tendências temáticas e estéticas, continua seguindotanto as tendências passadas como as presentes, pois reconstrói obras de inegávelcaráter inovador. Para Coutinho (2004, p.362) “[...] não houve uma ruptura radicalcom o Modernismo, ao contrário, esta geração é uma continuação dele [...]”. Astendências se aproximam principalmente pela engendra do fenômeno daintertextualidade, como elemento das mais recentes teorizações da literatura,marcadas pelos diálogos dos textos, ao permitir a disseminação, colagem, e misturadas escritas. A obra literária recria uma imagem de estética e de valor dentro domundo ficcional. Assim, a literatura brasileira se potencializou com a junção dos autores queligaram o velho e o novo, a partir dos conhecimentos estéticos de um período com aestreia de um novo movimento, a contemporaneidade, que é caracterizada portrazer obras com aspectos renovados. Uma tentativa de continuar com umalinguagem original, ao fazer do velho um espaço de apoio para os novos talentos.Diz ainda o autor: [...] Ela está viva, atuante, com a sua linguagem própria, mas rica e mais variada do que a linguagem comum, cotidiana, embora o escritor possa fazer uso desta, na variada estilização de suas concepções da realidade (COUTINHO, 2004, p. 274). E nesse espaço aparecem as obras de cunho feminino, já existentes, porémnão manifestadas. Desde a metade do século XX, a literatura de autoria feminina sedestacou ao proporcionar constantes reflexões acerca dessas diversidades, embora,as autorias desempenhem uma representação do discurso feminino dentro dasociedade, baseado na tentativa de assumir lugares e papeis sociais perante asorganizações. Nesse sentido, Xavier (1998) afirma que: [...] A condição de mulher vivida e transfigurada esteticamente é um elemento estruturante nesses textos; não se trata de um simples tema literário, mas da substância mesma de se nutrir à narrativa (p. 11).
  21. 21. 20 Dessa forma, a literatura de autoria feminina perpassa de forma progressiva,ao ter espaço para expressar suas artes literárias. Contudo, essa dimensãoproporciona a representação do sujeito feminino até os dias atuais, narepresentação do mundo real. Os textos literários seguiram novos rumos, em meio a novas indagações eperplexidades instauradas pelo paradoxo pós-moderno. Assim, as produçõesfeministas são abordadas sob um enfoque distante do que era considerado comohierarquia patriarcal, em que o homem era o centro das atenções e do poder,questionando a sociedade tradicional às discriminações excludentes. Assim afirmaCoelho (1999, p.10) “[...] é principalmente no âmbito dessa literatura feminina,reivindicante, que ressalta o poder da Literatura, como grande instrumento deconscientização [...]”. A literatura foi uma das formas em que a escrita feminina teveoportunidade de expressar uma conscientização e de fato questionar as atitudes deuma sociedade prisioneira. A escrita ampliou os embates da mulher e a participaçãonos meios sociais. A escritora Helena Parente Cunha faz parte da geração de 60. Pertenceu auma época, em que se iniciava a luta pela inserção da fala e do jeito feminino naliteratura brasileira. Suas obras abordam temáticas da mulher na sua recriação eredefinição identitária, ao constituir um espaço onde se torna possível um sujeito queafirma sua subjetividade ao descrever a realidade interior conflituosa daspersonagens na busca de sua identidade. Assim descreve Coutinho, a autora: [...] ensaísta, romancista, poeta e contista, transita com facilidade entre poesia e prosa. [...] Sua ficção parte da observação da realidade mais prosaica, para um conhecimento mais profundo do homem e da vida coletiva dos fatos (2004, p. 273). Foram as vivências revolucionárias, a transformação de perceber o mundo ea vida, que permitiram a mulher contemporânea se apropriar das raízes, o que, nopassado, não era possível, para criar sua linguagem e atrair algumas adeptasfervorosas do feminismo, reescrevendo principalmente a afirmação identitária damulher, para uma vivência da nova conscientização.
  22. 22. 21 E neste viés, Mulher no Espelho, de Helena Parente Cunha, traça ascondições do sujeito contemporâneo na literatura através do diálogo intimista damulher em frente a sua imagem no espelho. Um desafio aos limites impostos aouniverso feminino diante de si mesmo e à sociedade. A narrativa perpassa os fluxosda consciência, por meio de uma personagem condicionada à passividade e o seureflexo intricado a uma mulher que rompe com o convencional. Contudo é um sujeitofrustrado, e suas reflexões são os desejos que até então retidos no inconsciente.Assim sendo, a obra de criação traça literariamente o sujeito contemporâneofragmentado e diversificado, na perspectiva de interiorização do eu. As vozes dapersonagem revelam-se perturbadoras, pois em meios a uma vivência dramática, apersonagem se encontra dividida entre os mandatos patriarcais familiares e suaspercepções liberais, deixando vim à tona seus anseios reprimidos em suaimaginação. E é assim, que os escritos feministas encontram um posicionamento emrelação aos conceitos dirigidos a classe feminina, com o intuito de reverter os pontosaté então consagrados pela sociedade, na medida em que expressava suasangústias e questionamentos através da escrita. O discurso da mulher passa a sersustentado por seus próprios pensamentos que se atualizam na produção literária. Contudo, é por meio da literatura de cunho feminino que se discute ocomportamento da mulher dentro da ficção. E Helena Parente Cunha faz de suapersonagem instrumento de representação do mundo real, onde identidades não seformam, gerando o descontentamento e perturbações do sujeito, que se multiplicampelo jogo dos espelhos. Assim, o espelho da mulher está diretamente ligado aosmúltiplos reflexos do seu interior, que será analisado no próximo capítulo.
  23. 23. 22 2 O CONFLITO DA PERSONAGEM NO ROMANCE MULHER NO ESPELHO DE HELENA PARENTE CUNHA O foco deste capítulo é analisar o diálogo entre a personagem e o seuinterior, consciente/inconsciente, através da imagem projetada pelo espelho. Assim,a partir do espelhar, na tentativa de uma interiorização é que o indivíduo gera oconflito da sua construção identitária. A personagem duplica sua imagem peloreflexo no espelho e se multiplica em diversos eu.2.1 Diálogos no espelho As personagens na literatura são construídas a partir dos registros danarrativa, ao tecer o comportamento de agentes transitando pelo mundo literário.Segundo Gancho (2002, p. 14), “[...] os personagens se definem no enredo pelo quefazem ou dizem, e pelo julgamento que fazem dele, o narrador e os outrospersonagens [...]”. Neste caso, a personagem é construída dentro da narrativa pelassuas ações e pelo olhar do outro. Mulher no Espelho é narrado em primeira pessoa a partir de umaobservação na perspectiva da própria personagem. Suas ações interferem aatenção do leitor. Assim a narradora está dentro da história, necessariamente naconstrução dos seres fictícios, através de um minucioso trabalho de linguagem atéchegar ao leitor a partir da personagem principal que relata à história do seu pontode vista. Para Brait (1985, p. 60), a narradora personagem é a própria “câmera”, quedefine a construção adequada do enredo: “[...] produtos de um discurso narrativoque aponta para a ironia de um observador empenhado em fazer da linguagem oseu instrumento de impiedosa caracterização”. E neste viés a obra de criação representa uma personagem que se deparaem uma condição real e imaginário, oscilando entre dois mundos, ao representar aslutas e as frustrações da mulher dentro da sociedade, na tentativa de se esquivar
  24. 24. 23dos seus comportamentos. Uma mulher frustrada, sem nome definitivo, à procura desua existência, julgando sua própria realidade através dos jogos dos espelhos,permitindo-lhes questionar suas novas inspirações e, as imagens, revelando quem apersonagem poderia ter sido e quem ela é. A mulher divide-se psicologicamente, realizando um reflexo em torno desi, isto é, uma troca de posicionamento ao fragmentar-se nas unidades (consciente/inconsciente), até obter uma mudança comportamental: Eu vou começar a minha estória. [...] no cruzamento do meu corpo com o espaço de minhas imagens. [...] Só existo na minha imaginação e na imaginação de quem me lê. E, naturalmente, para a mulher que me escreve [...] (CUNHA, 2001, p. 17). Um conflito existencial de uma mulher que ao se espelhar, dialoga com oseu íntimo, na tentativa de obter uma identidade própria. O diálogo perpassa osdetalhes corporais, ao adentrar na mais profunda subversão de um indivíduo. Destemodo, há uma afirmação do posicionamento da personagem, ao se tratar da suaprojeção nos espelhos e a rejeição constatada: “Não desejo narrar a mulher que meescreve. Quero narrar a mim mesma somente [...]” (p. 27). A mulher em frente aoespelho discorre com seus desejos sobrepujados no inconsciente. E tudo pelas maneiras de dependência em que esse eu se permitia. Seuhorizonte deve limitar-se a satisfazer aos desejos do senhor seu pai. Como pode serobservado neste trecho, em que a mulher refletida pelo espelho faz umquestionamento a atitude do pai e a aceitação da filha submissa: [...] Seu pai pegou uma toalha de rosto que estava perto da cama, uma toalha felpuda e começou a esfregar na sua boca, esfregado, muito zangado, dizendo que filha dele não ia andar daquele jeito na rua, você não arredava o pé e ainda oferecia mais o rosto para ele maltratar [...] (p. 59). A mulher fora do espelho rejeita a posição de seu reflexo, na tentativade aceitar a vida que estava sobrevivendo. Assim ela responde aos seus desejos daseguinte forma: Meu marido acha que devo viver, exclusivamente, exaustivamente para ele. Isso me faz muito feliz. Na opinião de meus filhos, toda mãe tem obrigação
  25. 25. 24 de se dedicar de modo absoluto a quem pôs no mundo. Esta é a razão da minha vida (CUNHA, 2001, p.26). Com o diálogo através do espelho, o inconsciente desperta umamanifestação, e o outro lado, o consciente, abriga uma permanência subentendido.Dessa forma, o eu personagem, tinha sempre um olhar limitado, observe-a: “[...] Opai autoritário que eu superamei e ela superodiou [...]” (p.24). Constata-se que apersonagem possui duas personalidades: uma que amava o pai e outra que oodiava. Uma mulher adulta reprimida, diligenciando contra o domínio da imaginaçãoque afloram sob seus pensamentos, acumulados durante anos. A realidade dapersonagem era viver excepcionalmente para servir ao pai, ao marido e aos filhos,impedida de viver a sua própria vontade. Seus desejos autênticos ficaram reprimidosna imaginação. A personagem é tratada como objeto do marido e dos filhos. Essa atitude fazde seu interior, uma maneira de questioná-la. Desse modo, expressa as angústiasrelevantes a condição de subordinação em que vive: Você não pode continuar a alimentar esta atitude absurda. É preciso ter consciência dos seus próprios direitos, sobretudo nos dias de hoje, final da década de 70, numa cidade como Salvador. A mulher deve reagir, não se permitir levar pelos caprichos e exorbitâncias da família. Você não pode continuar a viver assim (p.26). Aos poucos ela reage como se tudo fosse realmente parte dela. Que existeuma necessidade de assumir uma atitude. Porém, o eu em frente ao espelhoassume um papel de resistência a um desejo que lhe consumia, mas não foracrescendo com tanta exatidão: “[...] Por mais que tinha crescido a sua necessidadede captar, não me alcança [...]” (p.34). Seus instintos de liberdade, de por em cenaos anseios acumulados durante anos, ainda encontra uma linha que promove umadiscussão dentro de um indivíduo: “Não gosto de admitir que todo meu sacrifíciotenha sido estéril” (p. 95). Assim, a narrativa enfatiza um diálogo com seu alter-ego. A protagonistaquestiona quem ela é e o que quer. “[...] não quero me influenciar pela mulher queme escreve. Ela vê a minha vida pelo seu ângulo torto e vesgo [...]” (p. 96). Divididaentre um sistema de normas tradicionais e seus desejos de emancipação ainda não
  26. 26. 25assumidos, e que só aos poucos ela se redime como necessidade da outra. “[...]Está na hora de se conceder uma nova modalidade de vida [...]” (CUNHA, 2001, p.99). Ela aceita que precisa mudar e para isto, precisa da outra: [...] preciso dela e, no fundo, é bom que as coisas apareçam também sob os olhos dela, [...]. De qualquer forma, quer eu queira ou não, essas coisas pertencem a ela também [...]. Meus filhos de repente, são também filhos dela [...] (p. 37). A imaginação questiona os modos da mulher que se diz real, impondolimites à passividade: “[...] Você se mostra tão fraca e impotente [...]” (p.96). E numinstante, seus desejos são de livre arbítrio, de uma mulher independente, que nãotem medo de se expressar, diante de uma sociedade. O que era apenas imaginaçãopassa a ser uma realidade para a personagem. Assim pode ser notado na seguinteexpressão: Posso gozar do meu ser livre. Que ninguém sabe nem suspeita, supondo que a sujeição é o único gesto endossado. Quando estou só em casa, dou- me o direito de me entregar à proibição. Canto minhas músicas, preferidas, sem zombarias. Sinto-me livre, no gosto e na voz. E danço, invadida de ritmo e balanço [...] (p. 45). A mulher angustiada abre espaço para sua imaginação. Os sentimentosliberais surgem sob o corpo da mulher real, uma mulher ardilosa, que se arrisca nosdesejos, e utiliza de um jogo de sedução para a conquista: “Eu vou virar a mesa. Deagora por diante estou livre de todos e qualquer preconceito [...]” (p. 117). E é o fluxodo inconsciente e do consciente que promove as concepções do que é real eimaginário. “[...] Quem conhece meu rosto atrás do meu rosto? Que rosto seesconde atrás dos espelhos iluminados? Que rosto se perde aquém dos espelhosapagados? [...]” (p. 107). O discurso passa a inverter-se. A mulher real tem atitudes que seuinconsciente passa agora a considerar anormal: “Você até hoje confunde anecessidade de ser independente com invenções de fugir de casa e matar alguémde desgosto [...]” (p. 126). E nesta oportunidade o eu se defende: “Eu me condenei,eu me acusei, eu me culpei, eu vivi meu fracasso, dobra por dobra, até oesgotamento final. Por isso estou poliedricamente livre [...]” (p. 126). A personagem
  27. 27. 26necessita da constatação de fragmentar-se para liberar seus sentimentos, quearrastam por discursos múltiplos de se mesma. Uma crise de identidade que geradiálogos e perturbações de um único ser. Seus sentimentos misturam-se,contorcendo a dor, o sofrimento, a solidão, e o desejo de liberdade. Absolutamentesensações refletidas pelo espelho. Giddens (2002, p. 61) afirma que, o indivíduo caracterizado pela falta deconexão do pensamento e de atitudes padece de psicose, ou seja, “[...] se sentedistante do que o corpo está fazendo ou do que ele está sofrendo. A imagemespecular e o eu podem se tornar efetivamente invertidos em personalidades”. Assim, pode-se constatar a condição daquela mulher que sofre deinsanidade. Em frente ao espelho, julga-se, invertendo corpo e sentimentos, aomodo que se aceita e confronta-se, aniquilando sua própria essência. Dessa maneira, a obra abordada traz o espelho como base desustentabilidade da formação da consciência do sujeito, mas também adesconstrução de sua identidade. A personagem passa a ter atitudes diferentes eafobações que abrangem o diálogo do inconsciente com o consciente, ousimplesmente, na perspectiva de questionar atitudes e negar a si mesma. O discursose prolonga por toda a narrativa. As vozes da se intercalam, ora a sua imaginação,ora sua própria realidade física. Assim, vai contradizendo os desejos do inconscientecom sua consciência.2.2 Imagens duplicadas e múltiplas identidades Diante de uma figura atormentada, que se encarrega em conflitar seussentimentos e suas ações, pode-se designar um sujeito duplo. Para Bravo (1998, p.263) “um conflito psíquico cria o duplo, projeção da desordem íntima [...]”. Assimencontra-se explícito, um sujeito dividido em um mundo capaz de apontar o que estáno inconsciente e o que está conscientemente. O indivíduo libera os anseios inconscientes para dialogar com sua realidadefísica, criando a ideia de duplo. Ainda segundo autor, o ser duplo são pessoas que“[...] se vêem a si mesmas [...]”, aquela que possui em si mesma o outro,caminhando ao seu lado (BRAVO, 1998, p. 261; 262).
  28. 28. 27 Com base no estudo de Kappler (1972 apud BRAVO, 1998, p. 263), o duplosignifica que o sujeito é “[...] ao mesmo tempo idêntico ao original e diferente - atémesmo o oposto - [...]”. Assim, o indivíduo apresenta-se confuso com mais de umaidentidade, trazendo o imaginário para o real. O mesmo ocorre em Mulher no Espelho. A personagem se desdobra comdiferentes personalidades. O duplo é uma ilusão do próprio sujeito, uma loucura queconsome e faz alucinar-se dentro de um mundo onde seus desejos sãomanifestados. A busca da identidade profunda faz com que essa mulher tomeconsciência de seu íntimo, através da sua duplicidade, sendo a forma pela qual oindivíduo pode se encontrar literalmente ou fracassar. A personagem não se reconhece ao espelhar-se. Uma imagem que tentadilacerar a inquietude da real, na tentativa de sustentar uma tomada de consciênciada sua própria identidade: “Os ratos só existem na sua imaginação [...]” (CUNHA,2001, p. 21). Então a mulher dentro do espelho significava a mulher liberal: “[...] Amulher que me escreve se julga sem preconceitos nem barreiras, dona e senhora desuas guerras [...]” (p.44). Que tenta ressurgir na mulher passiva, que aceitava asimposições a ela, e não reivindicava o seu desejo, não abria espaço para sustentar oque estava por dentro. Portanto, o eu personagem, abre espaço para seu inconsciente, o querealmente deseja, os sentimentos liberais surgem sob o corpo da real, uma mulherardilosa, que se arrisca nos desejos, e utiliza de um jogo de sedução para aconquista. Nua diante dos espelhos [...] Para que meu corpo se encontre inteiro com meu corpo, viro a cabeça de lado e me coloco ao espelho [...] Uma sensação boa de liberdade percorre as minhas imagens [...] (p. 114). Há um conflito na narrativa proporcionado pelo íntimo da personagemnarradora, e, sem dúvidas, o trágico destino explora uma densidade do próprioinconsciente. Há também uma fragmentação na personalidade da protagonistagerada pela rejeição e ódio de uma vida conturbada onde se depara com os desejosdo inconsciente, deixando-a dilacerada. Para Bravo (1998), o sujeito ficcional aparece em linhas literárias formuladonas ideias da dualidade da consciência, o que permite as múltiplas identidades de
  29. 29. 28uma única personagem. E essa duplicidade, deixa suceder a confusão naconstrução da personalidade do indivíduo, conflitando os elementos reais eimaginários, relativamente, a consciência e o inconsciente. Essa crise existencial também pode ser discorrida em outras obras comoo conto O Espelho, de Machado de Assis, a poesia Retrato, de Cecília Meireles e atela Mulher no espelho de Pablo Picasso. O Espelho de Machado (1994) retrata ahistória de um homem também com quarenta e seis anos de nome Jacobina, queconta uma passagem de sua vida a quatro amigos. Uma história que despertou aconstrução de duas almas de uma única personagem. Tudo aconteceu a partir domomento em que fora nomeado alferes de Guarda Nacional, criticado por algumaspessoas, porém elogiado por muitos, desde amigos e parentes, chamando-o deSenhor Alferes. Em certo dia visitou a senhora sua tia, Marcolina, que o contemplavadignamente. Com alguns dias, ela precisou ir ao encontro da filha que estavaenferma e o Jacobina, ficou tomando conta do Sítio. Nesse período, Jacobina, sentiu-se sozinho e a solidão tomou conta de suavida e sua alma. “[...] Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os diasformam mais compridos [...]” (ASSIS, 1994, p. 4). E o seu refúgio era o sono, quandodormia sentia aliviado. Os louvores dirigidos a ele pelos amigos e familiares eramperpassados pelos sonhos e as angústias tomavam seu corpo no momento em queacordava. Sua solidão era ver que não tinha ninguém para lhe proclamar: “[...] umsilêncio vasto, enorme, infinito [...]” (p. 5). Porém, toda agonia e sofrimentos instigados pela solidão, eram abrandadospelo objeto que estava em seu quarto, o espelho, acessório decorativo da sala, quea tia tinha cedido como forma de consagração a um alferes, depositando-o noquarto. E a todo o momento a personagem se deparava no espelho para resgatar asua própria construção identitária. Sua alma exterior (alferes) estava presa aoespelho, recolhida no momento em que a tia e os escravos saíram do Sítio e deixou-o sozinho. A solidão rompeu a construção da figura de alferes, que estavaacostumado a ouvir chamá-lo desse título, e quando sozinho sentiu a necessidadede ser exaltado, e seu eu foi reprimido no espelho. Algo fez com que a personagem vestisse a farda de alferes, olhando-se parao espelho, o que antes era confusa, vaga, incompleta, esfumada sem umaconstrução própria, tornou-se clara e natural: “[...] o vidro reproduziu então a figuraintegral; nenhuma linha a menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o
  30. 30. 29alferes, que achava, enfim, a alma exterior [...] “(ASSIS, 1994, p.6)”. O espelhogerou um pensamento que uniformizou sua imagem e amenizou a solidão. Assimcomo em Mulher no Espelho sua imagem inicial também era incompleta. Quandovestiu a farda em frente ao espelho a aflição e o desespero levou-o a umaidentidade integral, que seria pertencer à Guarda Nacional. Assim, afirma Tanis (2003) sobre o conto O Espelho: [...] adultos vestidos identidades fardadas, como forma de se defender de conflitos que se sentem incapazes de enfrentar ou, quando a angústia é maior, de um vazio que domina sua existência (p.81). Certamente, este sujeito angustiado sente-se incapaz de ter suapersonalidade, e busca ano espelho um sentido de evasão do mundo em que seencontra. A tristeza conduz-lhe para a reflexibilidade de si mesmo através dosinstintos inacabados, sustentando uma identidade através da sua farda. Já na obra Retrato, de Cecília Meireles (2001), a solidão é anunciada, aocomunicar a alma de um eu lírico desmaterializado que vaga em dimensõesespirituais. O texto é contaminado pelo sentimento da desilusão que leva o eu aabismar-se entre um mundo através do espelho que retém sua própria realidade. Retrato Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face? (Retrato, Viagem, MEIRELES, 2001) Assim, o poema Retrato refere-se à velhice, onde o eu lírico compara orosto do presente com o rosto do passado, a partir do reconhecimento de tudo que
  31. 31. 30lhe aconteceu. Uma imagem modificada pelo tempo, provocando um sentimento deperplexidade: “[...] Eu não dei por esta mudança / tão simples, tão certa, tão fácil [...]”(MEIRELES, 2001, p. 232). O desencanto pela vida, que se deu em um momento,que estava claro durante anos e não tinha percebido. Na primeira estrofe, o eu lírico descreve seu próprio rosto que não maisreconhece como seu. A ideia se intensifica com a passagem da vida e a nostalgia doeu, que perpassa-se quando reafirma essa constatação: “eu não tinha este rosto dehoje,/ assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios,/ nem olábio amargo [...]” (p. 232). Essa visão indica a mudança ocorrida no íntimo, napersonalidade e no físico devido aos sofrimentos em que viveu o eu lírico. No último verso da última estrofe, há um questionamento com relação a suavida diante do espelho: “[...] em que espelho ficou perdida a minha face?”(p. 232),numa indicação de que o espelho seria o lugar ou o momento de sua vida em queficou presa, havendo assim, uma transição, porém, sem o seu pleno conhecimentodesse fato. Sua face ficou imóvel no espelho, mas o tempo passou sem que sepercebesse as mudanças ocorridas. Assim, afirma Bittencourt (2010, p.266) sobre a poesia Retrato: [...] a dualidade passado/presente está presente nessa relação simbólica, mostrando as modificações apreendidas pelo indivíduo. No instante em que o homem se depara com um espelho e com um retrato, ele é forçado a refletir sobre a sua condição e sobre os seus anseios. É o encontro dos mundos problemáticos do sujeito: o interior e o exterior. Portanto, no momento em que o indivíduo se olha, é obrigado a deparar-seconsigo mesmo, numa condição estabelecida pelo próprio tempo. O eu líricodescobre seu lado inconsciente através da constatação de que tudo mudou, suasformas e expressões foram alteradas e só neste momento teve a consciência de quea crise de identidade foi aceita e internalizada por si próprio. Ainda que, numa linguagem pictórica, a tela Moça na frente do espelho, dePablo Picasso (1932), exposta no Museu de Arte Moderna em Nova York com 162 x130 cm, aproxima-se das obras de Helena, de Machado e de Cecília. Suas formassão capazes de reproduzir o espelhar de um sujeito, aparentemente uma mulher, apartir do movimento da imagem. Pode-se observar por meio das misturas de cores ede formas a multiplicidade da construção de um ser através da seguinte tela:
  32. 32. 31 4 De tal modo, nota-se que a imagem real, fora do espelho, é construída pordupla face que se reflete pelo espelhar, simbolizando um sujeito incompleto ousimplesmente misturado. Picasso (1932) cria uma tela capaz de chocar as pessoase mostrar o sujeito além da realidade, fazendo do imaginário instrumento daoriginalidade. Para Meyer (2002, p. 47) há uma mudança estrutural do corpo externo e docorpo interno através da “[...] imagem do corpo e esquema do corpo, e que éconstantemente remodelado e distorcido por diversas emoções, instabilidades ousofrimento do indivíduo”. Desse modo, a pintura traz mais um corpo contemplado noespelho como forma de refletir o interior desta mulher.4 Moça na frente do espelho (1932), de Pablo Picasso, exposta no Museu de Arte Moderna em NovaYork com 162 x 130 cm.
  33. 33. 32 O espelho traz o que pode-se chamar de verdade, mostrando os traçosmarcantes do seu corpo através da imagem deformada e contornada por linhas quejuntam realidade e os seus reflexos. A figura de Picasso demonstra-se triste edeprimida, refletindo os sentimentos de uma mulher infeliz, o que parece sugerir aexpressão de alguém que tem medo de aceitar quem realmente é. Em Mulher no Espelho, de Cunha (2001) a personagem está em constanteconfronto com o abismo, em um processo de autoafirmação e descoberta da própriaidentidade, através da subserviência da mulher perante a sociedade em que estáinserida. O objeto questionador é sua própria imagem suprimida através de umespelho, que tenta abrir caminhos para a libertação do seu verdadeiro sentimentodiante da sua condição de vida: “Abro os meus espelhos. Lá dentro, no fundo dasuperfície fria, esgueira-se uma imagem [...]” (CUNHA, 2001, p. 113). Mas suaidentidade nunca se concretiza em presença de duas visões que circundam suaprópria existência. Segundo Bravo (1998, p. 282) “a literatura tem a vocação de pôrem cena o duplo, invalidando o princípio de identidade: o que é uno é tambémmúltiplo, [...]”. Assim, quando uma está no corpo presente, a outra está refletida noespelho para culpá-la das consequências de suas ações. O fim dramático apodera-se de seu corpo. Não se move deitada no tapetede pele, ouve seu filho chamar-lhe, e não consegue se levantar: “[...] alguémtocando a companhia. [...] Meu cansaço me paralisa. Não mexo um músculo [...]”(CUNHA, 2001, p. 172). E é através dos pedaços de espelhos que consegue ver asinúmeras imagens produzidas pelo único rosto: “Os espelhos se multiplicam asimagens até o infinito. Mas o nosso remorso nos une. [...] Meu rosto no espelho é odela. Ela sou eu. Eu sou ela. [...]” (p. 174). Dessa forma, necessariamente apersonagem se perde entre o espelhar do seu consciente, o que para Ferreira(1999, p. 814) “[...] os olhos são o espelho da alma [...]”. Em meios ao engendramento dos corpos duplicados, chega-se as maisdiversas possibilidades do eu, que se multiplica em diversos rostos, em várias almasde um único ser. A imaginação viabiliza as mais distintas particularidades do interiorda personagem. Suas personalidades de submissão, de questionamentos, desensualidade, de fracasso, de sua alma, do seu corpo, de suas atitudes, capazes deexperimentar o mundo e seus desejos além de suas limitações. O duplo passa agoraa ser múltiplo. Sua fragmentação perpassa ao desdobramento e chega a maisinusitada perspectiva: o encontro de si mesma.
  34. 34. 33 [...] Encontrei o meu rosto no canto do último espelho. Quero guardar intacto este sorriso novo, aberto no sulco da lágrima que houvera. O renascer dos frutos nas sombras mais profundas [...] ( CUNHA, 2001, p. 130). A obra de Helena Parente Cunha representa uma história que despertavários temas da realidade. O leitor traça uma reflexão dos problemas humanos, aoprojetar o drama do mundo real. Todo conflito é consequência da culpa, das dúvidase contradições doutrinadas, em um incontrolável posicionamento do que é certo e doque não é certo, transformado pelos sentimentos, no interior de cada pessoa. Metaforicamente, a literatura promove o conflito do duplo, pois busca umarepresentação e uma subjetividade encontradas no real, recriando sentidos eapoderando-se das palavras que manipula através da escrita para dar vida a ficção.Deste modo, Mulher no Espelho transmite a construção de uma figura complexa evariável, de uma mulher sensível, expressando seus vários mundos, formas etempos a partir de seu reencontro, visando enriquecer a sua verdadeira identidade,formada por muitos conceitos que se confrontam, se ajustam, se movem e se unem.
  35. 35. 34 CONSIDERAÇÕES FINAIS Partindo-se do princípio da investigação deste trabalho, pode-se constatarque o espelho é aqui um elemento de observação e construção dos reflexoshumanos e ficcionais. Através dele o sujeito busca a sua própria imagem como forma deconstrução psíquica. Assim é na literatura. O espelho como elemento coadjuvantena narrativa, revela o que as personagens buscam para refletir seus sentimentos.Mulher no Espelho, de Helena Parente Cunha (2001), traz estas características apartir do drama da personagem em frente ao espelho, no espaço mais escuro dasua própria casa. E a partir dele, sua personalidade torna-se móvel oscilando entreseu corpo real e tudo aquilo que ficou acumulado durante anos. Seus sonhosreprimidos, suas desilusões e suas dores, ficaram boa parte da vida dentro doespelho questionando-a e na tentativa de tomar posse de seu corpo, passando aassumi-lo através da desconstrução mental, em que a imaginação assume lugar pormeio de alucinações da própria personagem. De acordo com as ideias de Giddens (2002, p. 70), pode-se perguntar “Oque fazer? Como fazer? Quem ser?” em circunstâncias das questões existenciaisem que determinados indivíduos se encontram. Portanto, Possivelmente você está inquieto. Ou pode se sentir assoberbado pelas demandas da mulher, filhos, marido, ou do trabalho. Pode se sentir pouco apreciado pelas pessoas mais próximas. Talvez sinta raiva de que a vida está passando e você não conseguiu realizar as grandes coisas que pretendia. Parece que falta algo em sua vida [...] (RAINWATER, 1989, p.9 apud GIDDENS, 2002, p. 70). O reflexo do eu se torna uma possível investigação da alma e oscomportamentos expostos pelo sujeito. A mulher atormentada da obra de criaçãoconstitui uma significância negada pela solidão em que viveu durante anos. Afragilidade limita a existência de uma pessoa confiante e determinada, constituindoassim um eu sem identidade.
  36. 36. 35 A partir do momento em que o espelho se estilhaça ao chão, aquela mulheratormentada, toma consciência de seu único rosto, formado através das múltiplasimagens refletidas pelos espelhos quebrados, constatando finalmente que o sujeito éconstituído por muitos eus de várias personalidades. Pois é neste momento queacontece a união dos conteúdos inconscientes e conscientes, auxiliando o indivíduoa entender uma identidade marcada pela fragmentação. Assim como nas obras de Machado de Assis, Cecília Meireles e PabloPicasso, o espelho também é o instrumento pelo qual o sujeito pode ver o seupróprio reflexo e questioná-lo na tentativa de entender seu próprio ser. Há umainteriorização que os multiplicam em diversos rostos, expressões e sentimentos. Oespelho é o espaço onde os indivíduos mesclam a consciência e a imaginação nointuito de refletir e desconstruir a ideia de unidade do sujeito, tornando-o múltiplo evariado. Enfim, os sujeitos procuram através do espelhar, o sentido da vida e areflexão de sua existência, onde tudo se confunde e ao mesmo tempo fica claro.
  37. 37. REFERÊNCIASASSIS, Machado de. O espelho. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar1994. v.2. <Disponível em: http://www.bibvirt.futuro.usp.br>. Acessado em10/07/2010.BIBLÍA SAGRADA. Tradução de L. Garmus [et al]. Petrópolis: Vozes, 1986.BITTENCOURT, Amanda Rosa de. Uma análise psicológica do duplo em CecíliaMeireles. In: Revista Historiador. n 03. Ano 03. Dezembro de 2010. <Disponível em:http://www.historialivre.com/revistahistoriador>. Acessado em 04/03/2012.BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 1985.BRAVO, Nicole Fernandez. O duplo. In: BRUNEL, Pierre. Dicionário de mitosliterários. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.COELHO, Nelly Novaes. O desafio ao cânone: consciência histórica versus discurso-em-crise. In: CUNHA, Helena Parente (Org.). Desafinado o cânone: aspectos daliteratura de autoria feminina na prosa e na poesia (anos 70/80). Rio de Janeiro:Tempo Brasileiro, 1999.COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil: relações e perspectivas conclusões. 7.ed. São Paulo: Global. 2004, v. 6.CUNHA, Helena Parente. Mulher no espelho. 8. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasil,2001.DIJCK, Sônia Van. Calidoscópio e hipertexto. Rio de Janeiro: Ciência Moderna,2004. <Disponível em: http://www.soniavandijck.com/espelhos.htm>. Acessado em01/07/2011.DOR, Joel. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado comolinguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
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