Arca de noé no romance cacau um leitura metafórica

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Arca de noé no romance cacau um leitura metafórica

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS – LICENCIATURA ANE TARCÍLA ARAÚJO MATOSARCA DE NOÉ NO ROMANCE CACAU: UMA LEITURA METAFÓRICA Conceição do Coité 2012
  2. 2. ANE TARCÍLA ARAÚJO MATOSARCA DE NOÉ NO ROMANCE CACAU: UMA LEITURA METAFÓRICA Monografia apresentada ao Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas – Licenciatura, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciado em Letras. Orientador: Prof. José Plínio de Oliveira Conceição do Coité 2012
  3. 3. CONVITE E quando a viola gemer nas mãos do seresteiro na rua Trepidante da cidade mais agitada, não tenhas moça, Um minuto de indecisão. Atende o chamado e vem. A Bahia te espera para sua festa quotidiana. Teus olhos Te encharcarão de pitoresco, mas se entristecerão também Diante da miséria que sobre nestas ruas coloniais onde seElevaram, violentos, magros e feios, os arranha-céus modernos. (AMADO, 1991, p. 11)
  4. 4. DEDICATÓRIA Dedico esta conquista as pessoas mais importantes da minha vida. À minha avó Romilce, uma estrela no céu que ilumina os meus passosdiariamente; a melhor pessoa que já conheci em toda a minha existência. Deusprecisava de mais u anjo no céu e por isso a tirou da Terra. Aos meus pais, Umberto e Zetinha, por todo esforço e carinho durante toda aminha trajetória, por me ajudarem de todas as maneiras. Ao meu filho Henry, por me fazer entender o significado do verdadeiro amor,por me doar o sorriso mais lindo do mundo, por me fazer feliz nos momentos maistristes; por me amar como sou. Aos meus familiares e amigos, por sempre estarem na torcida pelo meusucesso, por compreenderem as minhas ausências e continuarem gostando de mimmesmo quando estive totalmente distante. Ao meu esposo, por estimar meu crescimento, por sempre me aconselhar aseguir em frente, a estudar, a buscar um ideal. Por demonstrar um sentimento fortepor mim, mesmo quando nem eu me suportava, quando o nervoso era bem maior doque eu. Aos mestres que tive durante toda a jornada de vida pessoal, estudantil eacadêmica. Essa vitória não é só minha, é nossa!
  5. 5. AGRADECIMENTOS À Deus, primeiramente, por me conceder a vida e o direito de usufruí-la. Portrilhar meu caminho, por me fazer chorar para aprender a acertar; por me fazer sorrire chorar em meio as conquistas. Aos meus pais, por sempre me ensinarem que o estudo é o que de melhor oser pode ter, e assim lutarem comigo pela graduação. Por sempre estarem do meulado, auxiliando, apoiando e corrigindo os meus erros. Ao meu filho, o meu grande amor, por entender as minhas ausências nassuas tardes, por me doar o melhor abraço, o melhor beijo, o melhor carinho. Por tãopequeno se preocupar comigo e sempre querer me ver sorrindo. Por me fazer voltara ser criança como ele, por me proporcionar os melhores momentos. À meu avô Amorzinho, por demonstrar um carinho único, pela sabedoriapassada. Por prosear comigo sobre diversos assuntos, auxiliando no meucrescimento. À Everton, meu esposo, por entender minhas falhas, meus estresses, minhacorreria nesse tempo da graduação. Pôr continuar gostando de mim e me dando oseu melhor, mesmo em meio a turbulências; por sonhar junto comigo com o meusucesso. À minha família, por me ajudar nesse processo de crescimento intelectual, enatural. Por me incentivar a continuar, mesmo quando pensei que não conseguiriamais. Em especial, às minhas tias Sileide, Romilza e Urânia, que o tempo todosabiam que eu seria vitoriosa, sempre apostaram em mim, nos meus estudos, naminha vontade e capacidade de crescer. E ainda, por sempre me ajudarem nosmomentos difíceis, com conselhos e palavras de conforto, por demonstrarem quererme ver brilhar. Ao meu irmão Juninho e a Antonia, por estarem do meu lado, mesmo quandobrigamos, por segurarem minha mão para eu não cair. Por me deixarem muitochateada as vezes, mas depois tudo passar e estarmos rindo de novo juntos.
  6. 6. Aos professores da Uneb, em especial Eugênia e Plínio, pois, a primeira foi aque mais brigou comigo durante todos esses anos, e também a que mais meensinou; e ainda, é ela a que posso dizer que foi a “mãe” que tive na graduação,pois sempre me ajudou, reclamou, puxou a orelha, mas jamais desgostou de mim,ao contrário, sempre mostrou um carinho; o que é recíproco. E ao meu orientador,por ser mais que um companheiro no estudo amadiano, por vibrar comigo nasconquistas e estimar um maior desenvolvimento intelectual para mim, por almejar omestrado e sempre me deixar otimista. Aos meus colegas e amigos da graduação, por serem mais que uma famíliatemporária, por formarem comigo laços eternos. Por me marcarem na escola da vidae com certeza, por me deixarem muitas saudades de hoje em diante. As serventes da faculdade, por me demonstrarem uma amizade, por semprequererem me ver alegre, por me desejarem sempre uma boa tarde, pessoas boas eque fazem da instituição não só estudos intelectuais, mas também vivências. A todos, muito obrigada. Vocês foram fundamentais nesta vitória!
  7. 7. RESUMOO estudo de a Arca de Noé no romance Cacau: uma leitura metafórica é umexercício de significação acerca das civilizações pré e pós-diluvianas, pois, põe-nosa repensar questões identitárias; enquanto a primeira encontrava-se no limiar entre oangélico e o humano, a segunda vive na “caça” do homem pelo homem no universosertão. Através do romance Cacau, Jorge Amado demonstra os riscos do mundocapitalista, o qual asfixia e engole as classes que se encontram à margem dasociedade detentora do capital. Tratando do ciclo cacaueiro, fica explícito, nestaobra, a disparidade entre dois grupos sociais: o dos trabalhadores cacaueiros e odos coronéis, detentores das fazendas dos frutos valiosos. Objetivando estudar odiscurso bíblico na obra amadiana, busca-se o estudo metafórico existente nos doisambientes, no eixo da sobrevivência dos seres. Sendo assim, tratando dos excluídossertanejos na obra, é pretendido denunciar a hipocrisia da sociedade. Este estudofoi movido por uma metodologia de cunho bibliográfico, voltando-se para obras comoDa Diáspora, de Hall (2003); Vidas Secas, de Ramos (2003); O Menino Grapiúna, deAmado (1982); dentre tantas outras que tratam de temas relacionados à vidahumana. Estabelecida a relação entre a história bíblica (Arca de Noé) e a Literatura(Cacau), o resultado da pesquisa é relevante pelo fato da confirmação que ocapitalismo não traz melhoria de vida à classe marginalizada, ao contrário, faz dostrabalhadores reféns da sociedade de bens; humilhados e menosprezados, vivemsubalternamente. Confirma-se, portanto, que o capitalismo não é uma boa escolhapara o homem, pois, corrompe valores humanos, os quais eram vividos nasociedade antes do dilúvio.Palavras- chave: Arca de Noé. Sociedade. Capitalismo. Marginalização.
  8. 8. ABSTRACTThe study of the Ark of Noah in the novel Cocoa: a metaphoric reading is an exercise aboutthe significance of civilizations and post-diluvian there fore brings us to rethink questions ofidentity, while the first was at the thres hold between the angelic and human lives in thesecond "game" of man by man in the universe interior. Through out thenovel Cocoa, Jorge Amado demonstrates the risk sof the capitalist world, which chokesand swallows the classes that are outside the company that ownsthe capital. Since the cocoa cycle, is explicit in this work, the gap between two social groups:the workers and the cacao colonels, holders of valuable fruit farms. Aiming at studyingthe Bible talk amadiana in the work, the study seeks to metaphorical exists in bothenvironments, the axis of the survival of human beings. Thus, treating theexcluded backland in the work, is intended to expose the hypocrisy of society. This studywas motivated by a bibliographical methodology, turning to such worksas The Diaspora, Hall (2003), Barren Lives, Palm (2003),The Boy Grapiúna, Amado (1982),among many others dealing topics related to human life. The relationship betweenthe biblical story (Noahs Ark) and Literature (Cocoa), the search result is relevant because ofthe confirmation that capitalism does not bring better life to the marginalized class, bycontrast, makes workers hostage Society goods, humiliated and despised, livingsubalternamente. Confirms, therefore, that capitalism is not a good choice for theman, therefore corrupts human values, which were experienced in society before the flood.Keywords: Noahs Ark. Society. Capitalism. Marginalization.
  9. 9. SUMÁRIOINTRODUÇÃO 10 1. NOÉ E AS CIVILIZAÇÕES PRÉ E PÓS- DILUVIANAS 12 1.1 Comunidade fraterna e o castigo divino 12 1.2 A pombinha pesquisadora de Noé 14 1.3 Jorge Amado, o Noé do dilúvio cacaueiro 16 2. A PESQUISA METODOLOGICA EM “CACAU” 22 2.1 Compreensão de pesquisa bibliográfica 22 2.2 O passo a passo investigado 23 2.3 Entendendo a escolha e a organização da pesquisa 24 3. “CACAU”, A FOLHA DÓLAR QUE ATRAI O SERTANEJO 26 3.1 Entendendo o fenômeno migratório e as esperanças no Sul do Cacau 26 3.2 A relação entre Jorge Amado e o Cacau 28 3.3 Um olhar sobre a obra amadiana 31CONSIDERAÇÕES FINAIS 35REFERÊNCIAS 36
  10. 10. INTRODUÇÃO Compreendendo que a Literatura se apropria da linguagem comumressignificando-a, transformando-a em arte, faz-se representação da realidade,trazendo à tona, na ficção, textos com vida própria, que muito expressam. JorgeAmado, a partir de suas inferências da realidade de flagelo e exclusão econômico-social da classe trabalhadora das fazendas cacaueiras, apresenta, em sua obra“Cacau”, a crueldade do ser homem em relação ao próprio homem, o qual movidopela ganância e falta de solidariedade subestima e aprisiona a sua própria espécie.Amado torna-se, nesta obra, um Noé, bem como o personagem existente na“Sagrada Escritura”, metáfora essa que é a base e a fomentação desse estudo. Estabelecendo uma conexão / relação entre a história bíblica da Arca de Noé,contida no Gênesis, e o romance “Cacau” do autor Jorge Amado, exprimem-secaracterísticas metaforicamente comuns entre os dois ambientes, afinal, ambostratam de seleção; enquanto Noé seleciona os animais que adentrarão à Arca,Amado demonstra, em sua obra, os bichos homens flagelados que migram para oSul da Bahia em busca de ascensão; de melhoria de vida, os quais, desde omomento que entram no navio, sofrem a diferenciação de classe social, igualmentea seleção feita por Noé. Em face desta leitura, podemos questionar: até que pontoessa realidade de flagelo social é imperativa na vida das populações sertanejas doNordeste Brasileiro, abordadas nesse romance de Jorge Amado? Como entender asrelações entre a obra “Cacau” de Jorge Amado e a Arca de Noé, no âmbito daSagrada Escritura? O escopo do trabalho é a análise da possível ligação existente entre os textos(Cacau e a Arca), correlacionando aspectos de vida nos dois meios. Buscaram-se,nesse viés, referências acerca do tema proposto, para a realização do estudo eescrita do trabalho. Muitas foram as obras selecionadas, dentre elas pode-se citar:Da Diáspora, de Hall (2003); Desconversa, de Galvão (1998); Metáfora, de Lopes(1987); Vidas Secas, de Ramos (2003). Com uma metodologia de caráterbibliográfico, a leitura do objeto investigado averiguará se o capitalismo traiu osgrapiúnas sertanejos.
  11. 11. O presente texto está dividido em três partes: capitulo primeiro – voltado paraas sociedades pré e pós-diluvianas, recontando a história bíblica da Arca de Noé emostrando posteriormente o Noé (Amado) do capitalismo, que aborda na obraliterária (Cacau) a seleção dos bichos homens -; capítulo segundo – que demonstraos passos metodológicos aplicados à pesquisa – e, capítulo terceiro – análise dostextos, traçando a possível relação entre os dois ambientes (Cacau e a Arca deNoé). Enfim, partindo-se de diversas leituras e da extração de informações dostextos, têm-se o resultado do estudo: o trabalho monográfico constituído.
  12. 12. 1. NOÉ E AS CIVILIZAÇÕES PRÉ E PÓS- DILUVIANAS Neste capítulo primeiro a análise se debruça no que foi e como se deu aconstrução da arca de madeira pelo carpinteiro Noé, explicando por ora o porquê daconstrução dessa Arca e o acordo entre Deus e o carpinteiro. E, principalmente,como o próprio título diz, trata-se da diferenciação das sociedades antes e depois dodilúvio; enquanto a primeira é próspera, feliz e conserva valores como moral e ética,a posterior é totalmente avessa, corrompida pelo capitalismo. Jorge Amado é, pois,nesse momento apresentado como outro Noé, o qual estratifica na obra “Cacau”uma arca, só que com bichos homens, ou melhor, homens que “são” bichos para asociedade detentora do fruto lucrativo; do cacau. 1.1 Comunidade fraterna e o castigo divino O pensamento inicial sobre as civilizações pré e pós dilúvio, fundadas porNoé, levam o leitor a praticar uma demanda de leitura prévia em que se propõe aestabelecer uma relação de entendimento das linguagens de uma era muito remotaque inaugura a trajetória existencial da humanidade. Nesse sentido o leitor se dispõea compreender um mundo distante do que ele se encontra, também enquantohumano e, portanto, herdeiro dessa história. Compreendendo os aspectos da sociedade existente antes do dilúvio,percebe-se que aquela foi uma era da humanidade fraterna, feliz, inclusiva esolidária no sentido estrito do termo. Antes do dilúvio a humanidade viveu uma eraem que provavelmente “casavam-se e davam-se em casamento” (Lc 24, 38-9), ouseja, era um tempo onde a felicidade reinava e não existiam ameaças ou outrasformas de opressão, havia prosperidade, alongava-se a dimensão da vida emcomunidade, incluindo o outro, atribuindo valor à História da humanidade na Terra. Nesta era não havia ódio entre os homens, fome, pobreza, miséria, pedofilia,desemprego, violência contra a mulher, preconceito, mas sim amor e cultivo dos
  13. 13. sentimentos mais elevados. Esta sociedade teve um único pecado: caiu em umaespécie de abismo existencial, matando a cultura, bem como valores e princípios, damoral, da ética e da dignidade em que também sucumbimos – por conseqüência ecujos ônus ainda persistem neste tempo presente. Uma civilização que desobedeceu às orientações do Criador e que teve odilúvio como forma de expiação, deixou-nos o seguinte legado:Por conta do arrependimento de Deus de ter posto o homem na Terra, pelo fato damalícia (corrupção) deste perante os valores proclamados pela divindade, o Criadorcom muita dor e compaixão resolveu destruir o ser por ele criado, estendendo, pois,sua vingança desde o homem até todas as espécies de animais (os que voavam,que se arrastavam e que andavam). Naquele contexto, Deus se viu diante de Noé,um homem justo e perfeito, filho de Lamec, um dos grandes patriarcas da origemhumana, e que andou com Ele todo o tempo. Noé havia gerado três filhos: Sem, Cam e Jafé, os quais assim como Noé,tinham mulheres. O Criador, então, em face da Terra corrompida pela criaturahumana, manda Noé fazer uma arca de madeira, com três andares, para que ele esua família, bem como um casal de cada animal existente no Planeta (na intençãode não aniquilar totalmente as espécies no Universo existentes, e sim restar destasum casal para procriar e povoar o meio ambiente mais tarde) pudessem, assim,salvar-se do castigo ou da vingança; dizendo ele a Noé, que mandaria um dilúvio deáguas sobre o Planeta Terra e que faria perecer todas as espécies viventes queexistissem debaixo do céu e que consumiria tudo que estivesse sobre a Terra.Mandou ainda Noé depositar na Arca todos os estoques de víveres, destinados àsegurança alimentar e nutricional da sua família e das espécies da fauna entãorecolhida nos espaços próprios da Arca. No momento em que o Senhor conversacom Noé, este fala o porquê de o estar salvando, enfatizando o quanto ele foi justodiante do homem, ao contrário dos outros homens que viviam no Planeta. Sete dias se passaram, a chuva começou a cair, Noé com toda a sua famíliae as espécies da fauna estavam dentro da Arca. As cataratas do céu foram abertas,chovendo, pois, quarenta dias e quarenta noites. As águas da chuva foram tãofortes, a ponto de elevar a Arca (construída por Noé sob orientação divina) muito altapor cima da Terra, levando-a sempre sobre a Terra. Tudo foi coberto pelas águas, o
  14. 14. Planeta inundou-se, todas as espécies de animais morreram, os homens perecerame tudo o que havia abaixo do céu não resistiu, chegando ao fim, a não ser os seresque estavam na Arca, únicos que ficaram com vida. As águas só aumentavam comos dias, e a chuva cobriu a superfície terrestre por cento e cinquenta dias. 1.2 A Pombinha pesquisadora de Noé O Senhor, lembrando-se do acordo por ele feito com Noé, que após cento ecinqüenta dias as águas cessariam, mandou um vento forte sobre o Planeta para adiminuição das águas, fez com que as chuvas parassem e as águas de cima daTerra se retirassem. Quarenta dias se passaram, a arca estava estacionada sobre omonte Arará, situado na atual Armênia, Noé resolveu abrir a janela da Arca e deixousair um corvo, o qual não retornou antes das águas que estavam sobre a terra sesecarem; em seguida Noé soltou uma pomba, a qual desenvolveu uma espécie depesquisa para Noé, pois, esta foi averiguar se as águas já haviam se retirado decima da Terra, como isso ainda não tinha acontecido e a pombinha não teve ondepousar, pelo fato das águas ainda estarem na superfície terrestre, esta retornou àArca, voltando a sair somente depois de mais sete dias, retornando também para àArca, mas só no final da tarde e trazendo no bico um ramo de oliveira, que Noé leucomo um texto narrando a retirada das águas. Uma espécie de carta de despedida.Ainda assim Noé esperou mais sete dias, e novamente deixou a pomba ir, a qualnão retornou a Arca, tendo Noé entendido que as águas haviam cessado e que esteera o momento de abrir a Arca e sair com todas as espécies, pois, já haviam sesalvado. Noé abriu o teto da Arca e viu que a superfície terrestre estava seca; oSenhor, portanto, mandou Noé se retirar da Arca, com todos que lá estavam, pois,deviam sair para procriar e povoar a terra; e assim foi feito. Deus, enfim, resolveu que não mais amaldiçoaria a Terra, que não maisencerraria o ciclo de vida através do dilúvio e disse ao lavrador (Noé) que daquelemomento por diante o que haveria de acontecer eram exatamente punições deacordo o cometido, por exemplo, se o homem cometesse derramamento de sangue,ele ira responder (pagar) por isso. E este foi o último acerto de Deus com Noé.
  15. 15. Com a leitura da Arca de Noé visualiza-se a pombinha como um símbolo/representação de sobrevivência, ela mesma se tornou para Noé uma pesquisadora,pois, dialoga com a Terra a possibilidade de vida. Sem muitas características acercada pombinha, suscitam-se indagações sobre sua cor, seu aspecto físico e mesmo oseu tamanho, que são dados ainda desconhecidos e que nos faz pensar na teoria doocultismo para a não existência do preconceito, ou seja, o texto bíblico em nenhummomento revela se a pomba é ou não branca, para que não pensemos sobrequestões humanas como a cor e a raça. Contudo, Noé compreende os resultados dapesquisa da pombinha, ele vai lendo os resultados trazidos por ela, desde omomento em que ela sai à primeira vez, retornando para a Arca com os pés sujos delama, fazendo Noé entender que as águas ainda reinam e que não é o momento desair; bem como quando volta pela última vez trazendo no bico uma folha verde deoliveira, representando para o patriarca Noé uma grande leitura: a existência doverde, do surgimento de alimento, da esperança de vida. É perceptível, pois, a importância da pesquisa da pombinha, ela coleta dadospacientemente, esforçando-se a todo tempo e sendo perseverante, bem como temtodo um cuidado em realizar a seleção dos dados colhidos no momento de passá-los para Noé, que codifica essas informações. A Arca também é convertida em umlaboratório de pesquisa, pois é nesse lócus que os dados da pombinha são tratadose interpretados, para logo depois serem passados para o outro, para o mundo, enfimpara posteridade. No momento da pesquisa a pombinha faz deslocamentos emovimentos tanto no sentido físico como no intelectual, pois é uma pesquisa decaráter sustentável, capaz de garantir a plenitude à humanidade, afinal à pombinhanos ensina que os resultados de uma prática de pesquisa são destinados à melhoriada qualidade do mundo enquanto espaço humano. Portanto, faz-se visível que ocorrompimento humano não é culpa da pombinha, mas sim dos desejos e vontadesdo ser, que elevados pela vaidade e ganância acabaram motivados por vontadescontrárias a do Pai Criador. Nesta perspectiva de leitura, cabe ao mundo contemporâneo empreender areleitura dos resultados da pesquisa da pombinha, visando agora a realizar aortopedia desse mundo. Esse símbolo dialoga, portanto, com a sociedade pós-diluviana, com o “Cacau”, em que Jorge Amado é, pois, um outro Noé.
  16. 16. 1.3 Jorge Amado, o Noé do dilúvio cacaueiro A cultura brasileira no ano de 1922 buscava afirmar-se através da Semana deArte Moderna, um verdadeiro dilúvio de linguagens, ocorrida em São Paulo, sendoum movimento no qual as estruturas envelhecidas da arte e da Literatura no Brasilansiavam por se equiparar às da Europa com todas as suas vanguardas. Os ideaisda semana de 22 eram voltados a propostas nacionalistas, ou seja, ao desejo defazer uma Literatura calcada na realidade brasileira. A Literatura de 1930 aparece, pois, com duas vertentes paralelas: a correnteregionalista (que diz respeito tanto ao meio rural quanto às zonas suburbanas dasgrandes capitais) e a corrente psicológica (que faz a analise do comportamentohumano por si mesmo e em face de outros). Têm-se, portanto, a relação do homemcom o meio, que é a matéria-prima do regionalismo, com um conceito de afirmaçãoda realidade brasileira. A ficção brasileira tem fisionomia e comunicação verbal próprias: o povo, apaisagem, os costumes, os tipos e patologias sociais, os problemas, tudo e todosintegrantes de um mundo brasileiro, mas não por isso menos universal. Muitos foramos autores que narraram o Brasil em seus romances, fazendo Literatura com a “carada nação”, entre eles figura Jorge Amado. A importância de Jorge Amado veio do caráter seco, participante e, todavia lírico dos seus primeiros livros, que descrevem a miséria e a opressão do trabalhador rural e das classes populares. [...] Um dos traços característicos da sua maturidade foi a mistura de realismo e romantismo, de poesia e documento, voltando-se para os pobres, para a humanidade da gente de cor da sua terra, que apresenta com uma simpatia calorosa, um vivo senso do pitoresco, e, sempre, um imperativo de justiça social sobrepairando a narrativa. (CÂNDIDO, 1983, p. 271). Amado demonstra em seus escritos uma mistura de passado e presente,pois, fatos por ele dantes pronunciados caracterizam a sociedade deste séculotambém. O romance realista de Jorge Amado tem a peculiaridade de trabalhar asquestões sociais de forma muito acentuadas. As relações entre homens, sociedadee capitalismo são tratadas com toda a crueza típica do mundo dos conflitos e das
  17. 17. contradições enfrentadas pelas classes oprimidas, na perspectiva da subsistênciamaterial. Jorge Amado escreve, pois, de acordo com a realidade, vindo a Literatura ase constituir com base na visualização desta, que a partir do reflexo visto,desenvolve-se, sendo esta sobrecarregada de significação; utiliza-se das maisdiferentes linguagens, para criar a partir da palavra uma imitação (mimese) do jáexistente. Jorge Amado é o ficcionista mais popular do país. Sua obra tem secaracterizado pela adesão afetiva do narrador aos fatos que relata. (JUNIOR;CAMPEDELLI, 1999, p. 261). A década de 30 traz marcada na Literatura a ênfase do social, voltando-separa os problemas regionalistas enfrentados pelo país; de cunho popular, trata dosproblemas do povo brasileiro a partir da escrita narrativa da língua falada pelosdiversos setores humanos. É como relata Cândido (1983, p. 123) um romancefortemente marcado de neonaturalismo e de inspiração popular, visando aos dramascontidos em aspectos característicos do país. Jorge é um escritor que junto comRachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, e outros, integram omodernismo brasileiro, pertencente ao grupo chamado “Regionalista”, que tem essenome dado pela crítica por conta de denunciarem e anunciarem a vida do povonordestino. Sendo Jorge um dos maiores romancistas de nosso país (DIAS, 2008, p.234), percebe-se em seus escritos o amor pelo seu povo e pela Bahia, sempreretratando a realidade destes dois signos em seus escritos. Bosi (1994) diz ser JorgeAmado o contador de histórias regionais adaptadas em seus romances, utilizando nagrande maioria das vezes de uma linguagem de baixo calão, que veio trazer opopulismo literário para as suas narrativas. Ainda segundo tal crítico literário, o autordivide a sua obra em fases da vida baiana, demonstrando o seu gosto por temassociais e pela Bahia. É, pois, conhecido como um escritor popular, justamente pelofato de trazer o povo em suas histórias, ele conta sobre esse povo, sobre essaclasse marginalizada, sem vez e sem voz; há então na sua arte literária areinterpretação histórica dessa Bahia por ele tão querida, mas tão cheia decontradições na questão humanitária de valores.
  18. 18. Assim, é perceptível na obra “Cacau”, essa conotação peculiar daLinguagem, afinal, encontramos nesses escritos um realismo premeditadamenteintoxicado de historicidade, onde a exclusão é uma forte característica. No romance “Cacau”, o autor deixa explicita a ganância humana, onde há aexploração do homem pelo homem na busca do capital. O cacau, conhecido como odólar do sertão, traz a idéia de ascensão para os nordestinos, que iludidos com osuposto crescimento de vida saem da sua terra natal e vão trabalhar nas fazendasdo sul da Bahia, demonstrando o fenômeno da migração sertaneja (que em geralé impulsionado pelas expectativas de conquistar melhores condições de vida), dosindivíduos castigados pela seca e marcados pela pobreza, que visam a ter a suaforça de trabalho reconhecida e esperam serem melhor remunerados. Os migrantestrabalhadores viajam de trem; das estações mais próximas dos seus lugares deorigem até a capital mais desenvolvida; de cujo porto sai o navio para o Sul,sofrendo desde esse momento a seleção de classes em vagões de passageiros,bem como a feita por Noé, para entrar nas camadas estratificadas da Arca. O autor demonstra, portanto, uma visão critica do país, onde, denuncia aexploração dos trabalhadores que são esmagados pela opressão capitalista nesseuniverso sertão, onde, nem as crianças têm mais esperança de ascensão de vida. Caatingas do sertão, dor das florestas sertanejas, o manso andar do trem sertanejo. Homens de alpercatas e chapéu de couro. Crianças que estudam para cangaceiros na escola da miséria e da exploração do homem. (AMADO, 2008, p. 248) Estes homens sofrem todo tipo de exploração, são menosprezados e vivemem condições subumanas de sobrevivência, trabalham como animais e devem alémdo que recebem aos coronéis, configurando uma realidade verdadeiramente inferiore injusta, na qual o homem passa a ser devorado pelos obstáculos que o meio e acondição de vida estão o infligindo. A narração desta obra se deve a um ex-trabalhador destas fazendas cacaueiras, conhecido como Sergipano, que depois deconseguir mudar o rumo da sua vida resolve contar a vida de miséria dostrabalhadores do cacau nessa sociedade distinta, onde poucos têm muito e muitos
  19. 19. não têm nada. Além de tudo, os que detêm o capital ainda tiram o pouco que ostrabalhadores conseguem obter com o trabalho duro e suado que exercem. [...] Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que será que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia até nojo essas pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias. (RAMOS, 2003, p. 94) Os coronéis são os homens detentores do capital, um mundo diferente do dostrabalhadores, que pagam com o seu suor a sua sobrevivência; [...]a culpa era dasociedade mal organizada, era dos ricos [...](AMADO, 2008, p. 112), elestrabalhavam de sol a sol e pouco ou nada obtinham. A despensa levava todo nosso saldo. A maioria dos trabalhadores devia ao coronel e estava amarrada à fazenda. (AMADO, 2000, p.5) [...] Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar a carta de alforria! (RAMOS, 2003, p. 94) Jorge, portanto, compreende o universo psicológico de seus personagens,nesta obra “Cacau”, por exemplo, ele denúncia à exploração sofrida pelostrabalhadores, demonstrando as lutas físicas e mentais que eles sofrem. Na obra de Jorge Amado compreende-se, pois, a diferença dessa sociedadepós-diluviana para a anteriormente citada. A civilização pós-diluviana é marcada porcontradições existenciais, é uma sociedade muito pouco fraterna. O homem nesta,encontra-se indignado com o dilúvio e tenta imprimir na Terra a marca da suapresença eterna, que agora luta para resistir ao dilúvio capitalista que visa arrastar oser humano para o abismo da desumanização. Este ser humano sofre, pois, com afalta de sentimentos, os quais reinaram por muito tempo na sociedade pré-diluviana,homem este que esta causando a sua própria extinção, diariamente comete erros
  20. 20. com sua própria raça, derrama seu próprio sangue, impede as crianças eadolescentes de tentarem trazer fraternidade e prosperidade a este mundo. O homem aqui pensa somente em si, não olha o próximo, visa tão somenteseu crescimento material, nem enxerga a sua interioridade, muitas vezes nemconhece a si mesmo, mas, é capaz de atos de carnificina contra o outro, é um ser demuita coragem e muita falta de amor por si próprio e pelo próximo. Contudo,percebe-se que as crises existenciais e os problemas mentais perduram nessasociedade em crise, e este é um fator relevante no quesito da desumanizaçãoprofunda em que esta sociedade está imbricada. Seres fortemente marcados com ascorrupções e degenerações do século vigente. Deus avisou a Noé o quanto asociedade pré-diluviana havia errado e explicou o porquê do dilúvio, mas, estaatualidade vai além dos erros passados, comete homicídios, suicídios, vivem empreconceitos, não aceita as diferenças de raça e humanas, mata crianças que nemtiveram tempo de escolher os seus destinos, esta comunidade não se deu conta domal que esta causando a si mesma e não entende a dor que o Pai Criador estásentindo com a perda de valores éticos e humanos desta sociedade. Mediante a práxis da leitura empreendida pela pombinha, fica evidente que oantídoto contra os malefícios do capitalismo é a prática da leitura e do cultivo dossentimentos mais elevados, ainda que os dilúvios das contradições capitalistastentem encurralar os homens nos porões das arcas das favelas, das prisões, dassarjetas, das ruas, dos flagelos e das segundas-classes dos navios que transportamtrabalhadores a serem escravizados nas grandes fazendas de Cacau, o que seconclui é uma imperativa construção de uma sociedade capaz de interpretar ohomem no prisma de uma história em que direitos, justiça e igualdade constituem asbases de estabelecimento de uma sociedade fraterna. O dilúvio marca, portanto, o fim de uma sociedade insustentável pelascontradições criadas pelo próprio homem, na mesma perspectiva em que seestabelece uma nova era material, ou seja, de um novo mundo em que a pessoahumana supera todas as mazelas que fizeram sucumbir o que existiu antes. É assimtambém o capitalismo contemporâneo, com todas as suas formas de injustiças, queinspiram o escritor Jorge Amado a criar o seu mundo literário.
  21. 21. 2 A PESQUISA METODOLÓGICA EM “CACAU” No capítulo vigente têm-se os preceitos metodológicos que direcionam oestudo de caso, discorrendo sobre as técnicas aplicadas na pesquisa, explicandocomo se deu a investigação e a escolha do tema, bem como se desenvolveu acoleta de dados, análise e seleção das informações acerca dos textos suportes dapesquisa. Do ponto de vista metodológico o estudo da obra Cacau, de Jorge Amado,requer uma acentuada leitura dos pressupostos que orientam as relações de leitorpara com a arte modernista, porque esse autor integra a plêiade de escritoressurgidos naquele contexto literário.2.1 Compreensão de pesquisa bibliográfica Neste capítulo, são abordadas as bases metodológicas que organizam estapesquisa bibliográfica. A metodologia é um conjunto de técnicas, procedimentos,métodos e regras que servem de indicativo da realização da pesquisa, ou seja,demonstra as etapas do processo de estudo, análise e produção do texto. Entendendo por técnica “um conjunto de preceitos ou processos de que seserve uma ciência ou arte [...]” (MARCONI; LAKATOS, 2006, p. 176), o estudobibliográfico realizado além de se debruçar sobre a bibliografia já pública, traz à tonaum novo estudo, uma nova proposta sobre o assunto. Portanto, Marconi e Lakatos(2006, p. 71) definem a pesquisa bibliográfica como o levantamento, a seleção e adocumentação de toda bibliografia [...]. Este trabalho teve um caráter bibliográfico, justamente por se utilizar deleituras. O método de abordagem utilizado foi o hipotético-dedutivo, pois naelaboração do trabalho criaram-se hipóteses como pressupostos dos que buscamcomprovações aos questionamentos iniciais para o estudo do caso em questão.
  22. 22. Corroborando, de acordo às leituras e às análises realizadas, a terceirahipótese contida no Projeto de Pesquisa, cuja trata que se a realidade de flagelosocial impera na vida dos grapiúnas sertanejos, o capitalismo pode ter traído essademanda de trabalhadores, ou seja, iludiu-os, fez com que tivessem esperança deascensão econômico-social e agiu contrariamente, deixando-os miseravelmente e àmargem de tudo e de todos. Enfim, conclui-se pois, a perversidade da dominaçãocapitalista que submete e massacra os trabalhadores oprimidos. Os procedimentos aplicados foram o histórico, revisitando a SagradaEscritura; o comparativo, visualizando a metáfora entre os dois textos que tratam daseleção de animais e do bicho homem; e ainda, e principalmente, o monográfico(estudo de caso), examinando minuciosamente diversas bibliografias e escrevendoconcretamente acerca do tema proposto. A fenomenologia teve uma abordagemqualitativa, com etapas investigativas e diversas informações da analise acerca dotema em foco, buscando compreender os dados significativos da pesquisa,descrevendo-os e investigando-os diretamente.2.2 O passo a passo investigado A leitura e a análise do romance “Cacau”, de Jorge Amado e da históriabíblica da “Arca de Noé”, presente na Sagrada Escritura, foram as primeiras etapasinvestigativas na relação da arca estratificada. Posteriormente, durante o levantamento, fichamento e análise bibliográfica,outros livros foram selecionados e acrescidos a este estudo, como “Da Diáspora”, deHall (2003); “Desconversa”, de Galvão (1998); “Metáfora”, de Lopes (1987); “Históriada Literatura Brasileira”, de Moisés (2001); “História Concisa da Literatura Brasileira”,de Bosi (1994); “As Transformações da Literatura Brasileira no século XX”, de Lucas(1989); “O Menino Grapiúna”, de Amado (1982); “Bahia de Todos os Santos”, deAmado (1991); “Fragmentos de História”, de Souza (2008); “Vidas Secas”, de Ramos(2003); dentre tantos outros que também foram somados a este estudo bibliográfico.
  23. 23. Além dos textos em análise, as diversas leituras feitas em outras obrasenriqueceram de informações o tema em foco, pois, extraíram-se dos teóricos,citações e comentários importantes para a constituição do trabalho. Sendo assim, a coleta de dados acerca do tema proposto foi um estudo acimade tudo cultural, por conta de englobar a vida de trabalhadores nas fazendascacaueiras, com aspectos relacionados as explorações e mazelas sofridas por essaclasse marginalizada e desprezada pela sociedade detentora do capital de lucro. Portanto, este estudo literário analisa questões relacionadas à vida humana,buscando demonstrar o imperativo sofrimento de uma classe; através do eixo daanálise e interpretação dos textos. Conclui-se que é uma pesquisa bibliográficaimportante no quesito de apresentação e representação da vida humana.2.3 Entendendo a escolha e a organização da pesquisa A escolha do tipo de pesquisa foi feita por questão de afinidade com a área daLiteratura Brasileira. O autor selecionado aconteceu pelo fato da sua critica e suadenúncia social, a qual serve de inspiração a esta sociedade que vive em criseexistencial de valores e que elege o dinheiro como meio de afirmação. Conhecendo diversas obras amadianas, suscitou o questionamento acerca dovalor da vida humana e, após muitas leituras e análises, chegou-se ao denominadorcomum que deveria ser “Cacau” a obra a ser estudada, mas, não como aspesquisas já encontradas, cujas analisam, muitas vezes, um determinadopersonagem e sua participação influente no texto, mas de maneira diferenciada, quese tornasse um desafio e, ao mesmo tempo, um tema inovador. Neste quesito, foipensada a “Arca de Noé”. Quando foi possível abordar os dois textos, “Arca de Noé” e “Cacau”,metaforicamente, encontrando um ambiente comum, inicialmente se tornou maisque um desafio, pelo fato de muitos perguntarem (e interrogarem de certa maneira)se daria certo, se seria possível, se havia realmente o que se falar em conjuntosobre dois ambientes distintos (o mito bíblico e o texto amadiano), mas que
  24. 24. demonstram, no decorrer da análise, serem comuns. Posteriormente, o trabalhoaumentou, tornou-se visível a metáfora da vida humana existente nesses doismeios, com a sua diferenciação, e o estudo seguiu o trajeto junto com Sergipano(personagem de “Cacau”). A pesquisa ganhou vida própria e a análise e estudo do caso foram seconstruindo aos poucos, visando o demonstrativo da fúria do capitalismo acirradodas sociedades, afinal, trata-se de tempos únicos, uma sociedade antes do dilúvio ea outra após o dilúvio. São trazidos para o estudo bibliográfico, o Noé da Bíblia e oNoé (Amado) da sociedade corrompida. A organização da pesquisa deu-se de maneira simples e objetiva, inicialmentetrazendo o mito do Noé pré-diluviano, posteriormente tratando da metodologia, quevisa justamente demonstrar o porquê e como se deu esta pesquisa; e, por fim,buscando confirmações nos teóricos sobre o Noé Amado, cujo transcreve o íntimodos trabalhadores cacaueiros, conseguindo assimilar e escrever esta dor dasinjustiças e diferenças sociais sofridas por esta classe trabalhadora. Tendo se tornado visível esta realidade de flagelo social sofrida por estaclasse marginalizada, compreende-se o pouco valor do ser humano, o qual vale ounão moedas, pois, o homem nesta sociedade passa a ser visto não pelos seusvalores adquiridos no berço familiar e ao longo da vida, mas pelos bens que possui. Eis aqui um exercício de estudo da vida, da imperativa dor humana, a qual écausada pelo próprio homem mediante a exploração do homem, regida por suaspróprias regras, um universo diferente do divino.
  25. 25. 3. “CACAU”, A FOLHA-DÓLAR QUE ATRAI O SERTANEJO Neste capítulo, inicialmente é explicado o fenômeno migratório da classesertaneja para o Sul da Bahia (mas precisamente Itabuna e Ilhéus); em seguida, édemonstrado o porquê de Jorge Amado escrever sobre a vida no cacau e por últimotraz-se as considerações sobre esta obra “Cacau”, motivação dessa pesquisabibliográfica. Cacau, de Jorge Amado, inicialmente atrai a atenção do leitor porque ampliaas possibilidades de diálogo com outros discursos, por exemplo, o mito bíblico daCriação, A Arca de Noé. Então adentrar à leitura desse romance é como principiarum exercício de percepção de valores míticos, que incluem, inclusive, o mito docapital.3.1 Entendendo o fenômeno migratório e as esperanças no Sul do Cacau Este capítulo é uma forma de leitura literária dos movimentos migratórios,desenvolvidos por correntes de trabalhadores sertanejos atraídos por melhorescondições de vida humana. Inicialmente percebe-se que o homem no sertão doflagelo social têm sérias implicações de natureza climática, de ordem econômica, deprojeto político, de educação escolar e até de espaço social, com motivações dedemandas geográficas. Partindo-se do ponto de vista sócio geográfico, a migração tem comosignificado um indivíduo ou um grupo de indivíduos que saem de suas fronteiras deterra em demanda de outros territórios que lhe propiciem melhores condições desobrevivência. Muitos são os fatores que causam esse deslocamento, entre eles, oprincipal é o fator econômico. As pessoas muitas vezes migram em busca detrabalho e de melhores condições de vida. (COELHO; TERRA, 2003, p. 339). Entendendo que é muito baixo o nível de vida da população nordestina (semcontar na existência de uma classe dominante que é a minoria da população, queconcentra em suas mãos parte das riquezas regionais), milhões de brasileiros
  26. 26. migram para as demais regiões do Brasil, em busca de se reestruturemeconomicamente. Grande parte dessa população flagelada migrou para o sul daBahia (Itabuna e Ilhéus), trabalhando nas fazendas de cultivo do cacau, importanteproduto de exportação e enriquecimento para uma minoria, e de exploração da forçade trabalho de uma maioria oprimida. O cacau é uma planta originária da floresta Amazônica, que se desenvolve asombra de outras árvores maiores (cultivo sombreado). Seus frutos, produtos, sãoexportados de caminhões e de navios (para o Brasil e para o exterior). É uma dasprincipais atividades econômicas da Zona da Mata Baiana. Sendo a Literatura uma apresentação da realidade, percebe-se, de acordocom os Estudos Culturais, que os textos literários são transmissores da cultura, que,na maioria das vezes, é determinada na sociedade por um grupo restrito depessoas, “elite”, que impõe como deve ser esse meio social e não dá “voz” aos queestão à margem, que carregam consigo diversos fardos desde o nascimento, nãopor opção, mas por imposição. Portanto, a Literatura é também uma forma demanifestação social que se utiliza do poder do discurso da Linguagem e da Arte,vindo esses estudos culturais a serem a prática da teoria literária. É nesse contextoque a ficção brasileira ganha vida. A ficção literária tem fisionomia e comunicação verbal próprias: o povo, apaisagem, os costumes, os tipos e patologias sociais, os problemas, tudo e todosintegrantes de um mundo brasileiro, mas não por isso menos universal. Muitos foramos autores que narraram o Brasil em seus romances, fazendo literatura com a “cara”da nação, entre eles têm-se Jorge Amado, que buscou, nos marginalizados,histórias para suas obras ficcionais de cunho realista. Em se tratando do Sul do cacau, Amado, por ser filho de um proprietário defazendas cacaueiras, pôde visualizar o sofrimento dos trabalhadores que viviam naesperança de crescerem, melhorarem de vida. Aqueles homens que trabalhavam desol a sol, e ali chegaram por acharem que, sendo o cacau um fruto lucrativo muitovalioso, iriam com ele enriquecer, mesmo sendo empregados e não detentores docapital de lucro e das fazendas cacaueiras. Sendo o nordestino um “forte”, comoafirma Euclides da Cunha, esses esperançosos, com todo sofrimento que
  27. 27. passavam, ainda acreditavam que tudo daria certo com o tempo, que parecia nãopassar, mesmo passando. O fruto cacau seduziu todas as esferas sociais que viveram um jogo deinteresses econômicos. A população de pouca renda nordestina tinha duas opçõesde mudança: São Paulo (a grande capital urbana e universo cafeeiro) ou o Sul daBahia, onde se encontrava o cheiro do chocolate, as matas cacaueiras. Duasopções distintas, mas em algum ponto iguais: a ilusão do sucesso era a mesma e adesilusão também. Muitos migraram para São Paulo, outros não partiram eenfrentaram a Seca trazida pelo sol e ainda atrelada à existência; e o restante searriscou na busca do dólar do Sertão. As migrações impulsionadas pela busca do sucesso e pelo cansaço dofracasso fizeram com que os outros horizontes fossem sempre os melhores e,portanto, a luta de vida se expandisse e os navios estratificados da Arca quetransportava os trabalhadores sertanejos continuassem a existir, resgatandograndes levas de trabalhadores do dilúvio da pobreza para as promessas deabastança no universo cacaueiro. O trabalhador Sergipano é um grande exemplodesse drama da economia cacaueira.3.2 A Relação entre Jorge Amado e o Cacau Jorge Amado nasceu na fazenda Auricidia, no distrito de Ferradas, municípiode Itabuna, no Sul do Estado da Bahia, em 10 de Agosto de 1912. Era filho dofazendeiro de cacau João Amado de Faria e Eulália Leal Amado. Ao completar doisanos de idade, junto com a sua família, vai morar em Ilhéus (cidade vizinha aItabuna), por conta de uma enchente e de um surto de varíola, uma espécie dedilúvio epidemiológico, que destruiu a casa e a lavoura da família e que “operou”entre os homens uma espécie de seleção biológica, tal como a do mito Noé. Em Ilhéus, aos poucos a família reestruturou-se financeiramente, e, logo, ocoronel (titulo comprado à Guarda Nacional) João Amado conseguiu comprar outrafazenda, onde recomeçou a plantar suas roças de cacau, que viriam a inspirar Jorge
  28. 28. posteriormente em seus romances, em meio às lutas políticas, às tocaias e brigas dejagunços e pistoleiros. Jorge Amado cresceu na realidade do cacau, aprendendo então a convivercom todo tipo de gente, sem preconceito. Anos mais tarde, vai morar em Salvadorpara estudar. Aos 13 anos, o padre Cabral, professor de Jorge, recebe uma redaçãosua (“O Mar”) e postula que será escritor. Mais tarde, muda-se para o Rio deJaneiro, pois seus pais almejavam que ele seguisse a carreira de bacharel emDireito, vindo a se formar posteriormente, mas nunca tendo exercido a profissão. NoRio de Janeiro, publica seu primeiro romance, O País do Carnaval, que se torna umsucesso de crítica e de público, animando-o a outras empreitadas. Nesta época,conhece pessoas importantes tanto na política quanto nas letras, vindo a fazernovas amizades e a aliar-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Retornando a Ilhéus, interessa-se pelos dramas humanos da zona do cacau,criando, portanto, o romance Cacau (1933), primeiro do ciclo cacaueiro, que narra àsaga dos nordestinos flagelados, das contradições humanas. Morreu em 06 deAgosto de 2001, em sua casa no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Tendo visto a realidade desumana de flagelo social vivida pelos trabalhadoresexplorados nas fazendas de cacau, o escritor Jorge Amado, em sua ficção, cria ummundo de outras realidades humanas como forma de crítica ao universo real. Jorgeé um intérprete dessa realidade, e transpôs isso em sua Literatura. A produção literária é uma reflexão sobre o social, sobre as práticas sociais e não apenas uma repetição destas, logo, possibilita-nos perceber o contexto social mais amplo no qual foi produzida. Os romancistas, como os historiadores, vão construindo uma certa história social, vão instituindo uma memória em detrimento de outras, dentro do momento e do contexto em que cada um se encontra. (SOUSA, 2008, p.52) Sendo Jorge Amado o Noé do mundo capitalista, cria uma arca literária queabriga bichos homens em estado de miséria quase extrema, que vão se aventurar,pois, no mito do Cacau. Na região grapiúna não havia lugar para vagabundos, otrabalho era duro, a luta sem tréguas (AMADO, 1982, p. 66). Naquela região, a vidahumana valia muito pouco, reinava ali só o fruto valioso; no mais, o ser humano valiao que tinha. Como os empregados não tinham nada, este era o valor adquirido.
  29. 29. Pagavam com a sua existência a moradia no caro reino. A vida humana continuavaa valer pouco, moeda com que se pagava um pedaço de terra, um sorriso demulher, uma parada de pôquer (p.37). O romance Cacau é a Arca literária em que as demandas de trabalhadoresnavegam para o território das incertezas: a fome, as relações sociais, a violência, asopressões, entre tantas outras que os marcam, afligem e maltratam. Esses seresperpassam, portanto, por crises existenciais, que, apesar de serem inerentes àcondição humana, os afloram ainda mais, desde a instabilidade emocional até aopróprio vazio existencial, onde esses migrantes se questionam sobre sua própriaidentidade e seu valor perante a sociedade dominante. Jorge traz,na sua obra, uma realidade regional e universal, afinal a naçãoconverte tradicionalmente esses valores para os impactos da exclusão social. A obrade Jorge Amado funciona, portanto, como via de acesso à realidade brasileiraextraliterária (GOLDSTEIN, 2003, p.226). Em Cacau, o autor faz uma dura crítica aosistema capitalista de relações, pois, demonstra que, apesar de todo sofrimento nasterras fartas, esses trabalhadores não desistiam da luta pela vitória, e, mesmo emmeio a lágrimas, continuavam a comemorar a vida. Povo alegre, festeiro, otimista eresistente ao sofrimento é o povo de Jorge Amado (GOLDSTEIN, 2003, p.116).Porque assim é a Bahia, mistura de beleza e sofrimento, de fartura e fome, de risosálacres e de lágrimas doloridas (AMADO, 1991, p. 12-13). Amado compreende opovo e escreve acerca desse povo e suas lutas pela ascensão, pois, por convivercom essa realidade cacaueira de divisão de classes ele acabou por pertencer decerta forma a este mundo bipartido de culturas e economias distintas. Vidas opostase que se cruzam são a dos empregadores e dos empregados, os quais necessitamum do outro para que a vida financeira continue acontecendo. Em se tratando darealidade do fruto valioso, as figuras, na obra em questão, são, pois, transposiçõesde uma realidade vista e relatada, não precisamente igual, mas muito semelhante,como afirma Amado: Os personagens das obras de ficção resultam da soma de figuras que se impuseram ao autor, que fazem parte de sua experiência vital. Assim são os coronéis de cacau nos livros onde trato de região grapiúna, nos quais tentei recriar a saga das conquistas da terra e as etapas da construção de uma cultura própria (AMADO, 1982, p. 71-72).
  30. 30. Muitas são as classes relatadas nas obras amadianas, entre putas evagabundos, trabalhadores e coronéis, todas personagens de obras ficcionais,espelho do real. Lutas pelo dinheiro e pela vida fazem parte desses seres meiohumanos, afinal apesar de serem homens sobrevivem como animais. A região grapiúna por ser povoada por sergipanos faz desta demandahumana desbravadores, pois, vão à terras por ora desconhecidas encontrar frutosvaliosos mas para eles não tão lucrativos, afinal acabam pagando com seusesforços físicos e psicológicos a sobrevivência na “nova casa”. A arca de animais domito bíblico se mantém, pois, na sociedade capitalista que imprime regras e reprimemuitos seres humanos. Neste prisma, a figura humana do escritor grapiúna Jorge Amado emerge nãosomente como a de um grande pensador literário, mas também como uma vítimadas mazelas sofridas pelos migrantes sertanejos que inundavam o Sul cacaueiro.Dessa forma, Jorge é uma alma marcada pelos estigmas da dor que martirizava oseu povo convertido – pelos sofrimentos – em personagens de sua obra.3.3 Um olhar sobre a obra amadiana Jorge Amado, pertencente ao grupo chamado de Regionalista, em sua obraCacau, trata da saga cacaueira na região Sul da Bahia, tendo como personagemprincipal Sergipano, um migrante nordestino que busca mudança e melhoria de vidanas fazendas do “dólar do sertão”. Nesta obra, Jorge por meio do narrador JoséCordeiro (o Sergipano), relata as opressões, as marginalizações, os flagelos e asmisérias sofridas por essa classe trabalhadora, que acaba vivendo um escravismono capitalismo que os sucumbi. Com diferentes manifestações culturais, a classe oprimida e a repressoraconvivem nas mesmas fazendas, mas com afazeres e estadias distintas. Enquantoos coronéis aproveitavam-se de seu título de nobreza e capital de lucro para ordenare reprimir, os trabalhadores, surrados e suados dessa vida de incertezas
  31. 31. continuavam a aventurar o mito. Sergipano trabalhava e residia na fazendaFraternidade, do coronel Mané Fragelo. Mané Fragelo fora um apelido posto na cidade. Pegou. Um flagelo, de fato, aquele homem gordo, de setenta anos, que falava com uma voz arrastada e vestia miseravelmente. Manoel Misael de Souza Telles era o seu verdadeiro nome (AMADO, 2000, p.5). Sergipano trabalhava como alugado, bem como os outros, era assim que oscoronéis tratavam os empregados; diminuindo-os, tratando-os como “máquinas deserviço” somente, algo descartável, que só serve enquanto está funcionando deacordo com o que os patrões desejam. O termo me humilhava. Alugado... Eu estava reduzido a muito menos que homem [...](AMADO, 2000, p. 23) Apesar de a fazenda ter o nome de Fraternidade, esse valor não existia entrepatrão e empregados, solidariedade era uma utopia da classe subalterna e valorescomo ética e moral jamais existiram. Ao contrário das sociedades pré-diluvianas,esta que é sucumbida pelo capitalismo acirrado, visualizada no fruto do cacau,destrói sentimentos, honra, ilusões e ideais daqueles que buscam trabalharhonestamente para alcançar o direito à vida. Honestidade se torna uma palavra erealidade em desuso pela classe dominante, que vive na ganância de imperar nofruto valioso, tornam-se mercenários e não têm pudores na busca incessante pelolucro, atropelam pessoas e não se comovem com a perda de vidas de empregados,matam os que “sabem demais”. A maldade não tem limites quando o intuito é oaumento do patrimônio financeiro, os valores humanos inexistem e até o seguimentofamiliar é esquecido. Em se tratando de Mané Frajelo, diz um empregado: [...]A alegria desse miserável é fazer mal aos outros. A mãe morreu pedindo esmolas e o irmão vive ai cheio de feridas, vestido que nem a gente. Miserável assim nunca vi. (AMADO, 2000, p. 20)
  32. 32. A história de Sergipano, personagem de “Cacau”, divide-se em três fases:operário da fábrica de seu pai, trabalhador das roças cacaueiras e por últimotipógrafo no Rio de Janeiro. Antes de entrar no drama do cacau, tinha uma estávelcondição financeira, pois seus pais eram donos de uma fábrica, mas, com a mortede seu pai e as alucinações posteriores de sua mãe, seu tio que tinha ganhado deseu pai sociedade nos negócios acabara por tornar-se proprietário único daempresa, pois, segundo ele, para o nome da família não ir para “o brejo” quitou asinúmeras dívidas deixadas por seu irmão na fábrica e como forma de pagamento seapropriou do comércio, deixando sua cunhada e sobrinhos ao desamparo. Ficandopobre, Sergipano partiu para a terra do cacau, região em que os operários falavamcomo da terra de Canaã (p. 15), um mito, a prosperidade financeira. A vida na roça do Sul da Bahia não foi a imaginada, o eldorado passava longedaquela realidade inóspita e grotesca, afinal, viviam miseravelmente, pouco comiam,o dinheiro do suor não dava nem para a alimentação, a despensa ficava com tudo eo saldo ainda era devedor. Em meio a esta classe humilhada, crianças, desde cedo,começavam a trabalhar, e não havia tempo para os estudos, cresciam e mal sabiamfalar, os palavrões imperavam, homens feitos quase nenhum sabia ler. Pobres crianças amarelas, que corriam entre o ouro dos cacauais, vestidos de farrapos, os olhos mortos, quase imbecis. A maioria deles desde os cinco anos trabalhava na juntagem. Conservavam-se assim enfezados e pequenos até aos 10 e 12 anos. (AMADO, 2000, p. 70) Sergipano, bem como os outros empregados das fazendas, tinha comofilosofia de vida a obediência aos patrões. Trabalhavam de sol a sol, viviam maiscomo animais do que como homens, e, naquela terra, a única coisa, que soava bempara os fazendeiros e que tinha valor, era o cacau. O cacau exercia sobre eles umafascinação doentia (AMADO, 2000, p.12). As roças são belas quando carregadas defrutos amarelos (p. 58). As mulheres que ali residiam acabavam se engraçando com os filhos doscoronéis, os quais as tratavam como mero objeto sexual, tiravam sua honra, usavame abusavam e, em seguida, jogavam-nas fora. Defloradas, iam residir na Rua da
  33. 33. Lama e trabalhar como prostitutas. Pobres mulheres, que choravam, rezavam e seembriagavam na Rua da Lama. Pobres operárias do sexo. Quando chegará o dia davossa libertação? (p.57). Enfim, no Sul da Bahia até as mulheres não tinham valor,juntamente com os empregados e filhos viviam quase fora do mundo, da maneiraque dava, vivendo por viver, aprendendo com a miséria reinante. Olhávamos oscacaueiros e não achávamos a solução. Se nós não estivéssemos muitoacostumados com a miséria, os suicídios seriam diários. (p.84) Poucos conseguiram a libertação das roças dos frutos amarelos, uns fugiram,outros pagaram para sair e ir embora. Sergipano depois de beijos e caricias trocadoscom a filha do coronel, com consciência de classe, vai embora para o Rio deJaneiro, torna-se tipógrafo e conhece outra esfera de vida em sociedade, em que otrabalho não é tão duro e tem-se recompensa, ao contrário de muitos anos passadosna Fazenda Fraternidade. Deixou de ser bicho homem e tornou-se gente, digno ecom valores humanos. O personagem Sergipano, dessa forma, fecha o ciclo factual de umdeterminismo que condena o trabalhador explorado a uma eterna relação desubserviência e exclusão humana. Também Sergipano fecha um discurso deinspiração marxista no romance amadiano, no sentido de que o homem oprimido é oprincipal agente de sua libertação. A guisa de conclusão, este trabalho de estudo literário chega a uma baseirrefutável de que o romance Cacau, de Jorge Amado é um manifesto de afirmaçãoque trata da exploração do homem pelo homem, quanto das possibilidades que estetem para promover a sua emancipação, mediante o conhecimento de uma culturaliterária emancipadora em todos os sentidos, inclusive a da própria Arte Literária.Enfim, Jorge Amado liberta a Literatura e mostra a “cara da terra”, do povo, doscostumes.
  34. 34. CONSIDERAÇÕES FINAIS Realizou-se o estudo entre a Arca de Noé, texto contido na Sagrada Escriturae o romance Cacau, obra amadiana, encontrando a metáfora da vida existente nosdois ambientes. Enquanto a Arca, feita por Noé, visou à salvação das espécies,Amado demonstra que o navio cacaueiro, arca estratificada, tenta sucumbir edestruir o ser humano. Por isso, o estudo metafórico entre os ambientes já citados,deixa-nos a analisar as relações humanas enquanto sociedade e economia nomundo das desigualdades. São denunciadas à sociedade as mazelas do capitalismo. Considerando osobjetivos e hipóteses iniciais a este estudo, confirmou-se a hipótese que condena ocapitalismo como destruidor de sonhos e esperanças de ascensão e como traidor daclasse trabalhadora, que sai de suas terras em busca de crescimento social eeconômico e acaba retornando igual ou pior do que quando partiu. Este estudo buscou, em teóricos, aprimoramentos e citações relevantes aotema abordado, bem como criou por si um texto que visa o repensar do ser homemna sociedade vigente, afinal, vive-se como ser humano e age-se como irracional.Enquanto a arca de Noé salvou os animais da total destruição para que não seaniquilasse totalmente as espécies, o bicho homem, que tem voz na época presente,torna-se canibal da sua própria raça. Enfim, o estudo de anúncio e denúncia da sociedade contido nas páginas deCacau cruza-se com o Gênesis enquanto sociedades distintas, mas sofrem a dorexistencial em universos diferentes, pois, a sociedade pré- diluviana era fraterna ecultivava valores como moral e ética e, após o corrompimento humano, recebeu odilúvio e passou a viver uma era insustentável, bem como a dos dias de hoje. Portanto, o estudo monográfico possibilitou a visualização da crueldadehumana, que marginaliza, reprime, sucumbi, menospreza e destrói o seu próximo,manifestando-se de acordo os interesses próprios. Sendo o texto repleto designificados e interpretações, este se reescreve e reconstrói a cada leitura, por isso,esta obra amadiana discute também uma consciência histórica, fato este que seencontra imbricado nestas páginas de análise; há, pois, o dedo da arte literáriarefletida nas diferentes gerações.
  35. 35. REFERÊNCIASAMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. 39 ed. Rio deJaneiro: Record, 1991.AMADO, Jorge. Academia dos Rebeldes. In: SANTANA, Valdomiro. LiteraturaBaiana 1920- 1980. Salvador: Casa das Palavras, 2009.AMADO, Jorge. Cacau. 35. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.AMADO, Jorge. Capitães de Areia. 6. Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.AMADO, Jorge. O Menino Grapiúna. Ed. Especial. Rio de Janeiro: Record, 1982.Bíblia Sagrada. Tradução de Ivo Storniolo. Revista e Corrigida. São Paulo: Pastoral,1991.BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 40. Ed. São Paulo:Cultrix, 1994.CÂNDIDO, Antonio. Presença da literatura brasileira. 9. Ed. São Paulo: Difel,1983.COELHO, Marcos de Amorim; TERRA, Lygia. Geografia Geral e do Brasil. 1.ed.São Paulo: Moderna, 2003.DIAS, Léa Costa Santana. O ciclo do cacau na Bahia: Jorge Amado e as Terras dosem fim. In: O olhar de Castro Alves: ensaios críticos da literatura baiana.FONSECA, Aleilton (org.). Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia;Academia de Letras da Bahia, 2008.FONSECA, Aleilton. O pêndulo de Euclides. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.GALVÃO, Walnice Nogueira. Metáforas Náuticas. In: Desconversa. 1.ed. Rio deJaneiro: UFRJ, 1998.GOLDENBERG, Mirian. A arte de pesquisar.7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.GOLDSTEIN, Ilana Seltzer. O Brasil Best Seller de Jorge Amado: literatura eidentidade nacional. São Paulo: SENAE, 2003.HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Tradução deAdelaine La Guardia Resende. Belo Horizonte: UFMG, 2003.JÚNIOR, Benjamim Abdala; CAMPEDELLI, Samira Youssef. Tempos da literaturabrasileira.6. Ed. São Paulo: Ática, 1999.LOPES, Edward. Metáfora: da retórica à semiótica. 2. Ed. São Paulo: Atual, 1987.LUCAS, Fábio. As transformações da literatura brasileira no século XX: In: Dobarroco ao moderno. São Paulo: Ática, 1989.
  36. 36. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos demetodologia científica. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2006.MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. 5.ed. São Paulo: Cultrix, 2001.V.III.RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 92. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2003.SEIXAS, Cid. Triste Bahia. Oh! Quão dessemelhante. Salvador: EGBA, 1996.SOUZA, Antonio Pereira. Fragmentos de História: contribuições teóricas sobrehistória e literatura. Rio de Janeiro: T.mais.oito, 2008.TORRES, Antonio. Meu querido canibal. 2. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

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