Manual de Redação

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Manual de Redação que encontrei na internet muito bom, bem resumido.

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Manual de Redação

  1. 1. Guia Prático daLíngua Portuguesa Luiz Fernando MazzarottoTeoria da RedaçãoRedação nos VestibularesRedação Escolar, Comercial e Oficial Davi Dias de CamargoInterpretação de Texto Ana Maria Herrera SoaresGuia Prático de Redação
  2. 2. Editor Raul MaiaProdução Editorial Departamento Editorial DCLProdução Gráfica Nelson PastorCapa Antonio BrianoDiagramação Thiago NieriRevisão Caio Alexandre Bezarias Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Mazzarotto, Luiz Fernando Manual de redação / Luiz Fernando Mazzarotto, Davi Dias de Camargo, Ana Maria Herrera Soares. -- São Paulo : DCL, 2001. -- (Guia prático da língua portuguesa) Bibliografia. ISBN 85-7338-429-8 1. Português — Redação I. Camargo, Davi Dias de. II. Soares, Ana Maria Herrera. III. Título. IV. Série. 01-0305 CDD-808.0469 Índices para catálogo sistemático: 1. Redação : Português 808.0469 Proibida reprodução total ou parcial Direitos exclusivos desta publicação: © Difusão Cultural do Livro Ltda. Rua Manoel Pinto de Carvalho, 80 CEP: 02712-120 – São Paulo – Brasil dcl@editoradcl.com.br
  3. 3. Introdução No mundo atual, escrever é sempre im- comunicadas, resultando em algo prazerosoportante, necessário e freqüente. Mostrar que de ler, parece coisa reservada aos professo-você sabe comunicar-se (bem) usando a es- res de gramática, aqueles especialistas quecrita é um dos fundamentos da capacidade de estudam a Língua Portuguesa a ponto de fa-ser e realizar, da cidadania e da competência. zerem disso sua profissão.A tão propalada era do computador que, muitos Nada mais equivocado. A Língua Portu-afirmavam, iria diminuir drasticamente a ne- guesa é acessível a todos, é companheira ecessidade de papel e de escrever, fez o inver- filha de nós e da cultura em que vivemos eso: nunca tanta informação e conhecimento participamos; companheira porque a utiliza-circularam entre tantas pessoas e de modo tão mos continuamente, é o veículo de transmis-rápido, nunca as pessoas se comunicaram são de nossos saberes, conhecimento e vi-tanto (via e-mails, chats, impressos etc), fa- são de mundo, e filha porque é uma entidadezendo com que todos escrevamos mais e mais. continuamente alterada pela vivência e cria- E escrever bem exige conhecer as re- ções de nós, falantes da língua portuguesagras e bons autores do idioma em que se espalhados pelo mundo.escreve. É nesse momento, em que se exige Este Manual de Redação é um guia parasegurança no manejo das palavras, que sur- todos que querem e precisam escrever; pre-gem temor, dúvida, desconfiança e sentimento tende ensinar a vencer temores e dúvidasde debilidade diante dos labirintos da língua. que cercam a produção de um texto. ContémEstas são as reações mais comuns de a teoria completa da redação e suas categori-vestibulandos, alunos de colégios e cursi- as, muitos exemplos do uso correto de pala-nhos e outros praticantes da Língua Portugue- vras e expressões, como interpretar correta-sa quando precisam encará-la. E produzir um mente um texto. E mais: modelos de redaçãotexto correto e elegante, em que o uso ade- comercial e oficial, temas de redação e ques-quado das infinitas e complicadas regras gra- tões dos principais vestibulares do Brasil, paramaticais case com as idéias a serem você praticar o que aprendeu.
  4. 4. Sumário1. Teoria da redação As partes da redação — Estrutura ................................. 17 Introdução ..................................... 1 I. Introdução ........................... 17 A redação e os bloqueios ............ 2 II. Desenvolvimento ................ 17 Tipos de redação .......................... 4 III. Conclusão .......................... 18 Descrição ................................. 4 Qualidades básicas da Tipos de descrição ............. 4 redação .................................. 20 Exemplos de descrição ...... 5 Montagem da redação ................ 20 Exemplo de descrição I. O visual ⇒ estética ............ 20 de pessoa ........................... 6 II. Lado interno ⇒ correção .. 22 Exemplo de descrição de ambiente ........................ 7 1. A correção ................... 23 Narração .................................. 7 2. A clareza ...................... 24 Exemplos de narração ....... 8 3. A concisão ................... 25 Formas de relatar 4. A originalidade .............. 25 o enunciado ...................... 10 5. A elegância ................... 26 Formas do discurso .............. 11 6. A coesão ...................... 26 Dissertação ............................ 12 Montagem dos esquemas .......... 26 Exemplos de Seleção e organização das dissertação ....................... 14 idéias na redação .................. 26 Objetividade x Modelo de esquema .............. 27 Subjetividade .................... 15 Dissertação: Texto Subjetivo ................. 16 como proceder? .................... 27 Texto Objetivo ................... 16 Exemplos de esquemas ........ 28
  5. 5. Descontraia ................................. 29 II – Da elaboração da O estilo de cada um ............... 29 redação ............................. 72 Mandamentos de III – Das propostas ............ 73 uma boa redação ........................ 30 Modelo 7 – UNIFOR-CE ............... 74 O início da redação .................... 33 Modelo 8 – UEMA ........................ 75 Pontos a ponderar ...................... 34 Modelo 9 – UEL-PR ..................... 75 Redação ................................. 752. A redação nos vestibulares Modelo 10 – UFPE ....................... 76 Lembretes importantes ............... 35 Objetivo: ................................. 76 Os erros mais freqüentes .......... 35 Critérios básicos Temas de redação de correção ...................... 77 de vestibulares ........................... 36 Proposta ................................. 56 3. Redação escolar, comercial e oficial Modelo 1 – ENEM 2000 ............... 63 Modelo 2 – UFMG 99 .................. 65 Exemplo de redação escolar ..... 78 Modelo 3 – UERJ 2000 ................ 66 Carta comercial – Regras .......... 81 Instruções .............................. 66 Ata .......................................... 83 Proposta de Circular ................................... 85 redação .................................. 66 Certificado .............................. 87 Coletânea de textos .............. 66 Contrato ................................. 87 Conjunto 1 — Crianças e Memorando ............................ 89 adolescentes no Brasil .... 66 Ordem de serviço .................. 89 Conjunto 2 — A infância na mídia ............................. 67 Procuração ............................ 90 Conjunto 3 — Alguns Parecer .................................. 91 dados ................................ 69 Recibo .................................... 92 Conjunto 4 — Cenas Relatório ................................. 94 brasileiras ......................... 70 Currículo ................................. 95 Modelo 4 – ESPM-SP .................. 70 Apresentação ................... 95 Modelo 5 – PUC-RS 2000 ........... 71 Conteúdo ........................... 96 Redação ................................. 71 Redação oficial ........................... 98 Modelo 6 – PUCCAMP-SP ........... 72 Ofício – Regras ..................... 98 Instruções gerais .................. 72 Ofício completo ...................... 99 I – Dos cuidados gerais a serem tomados pelos Ofício simples ....................... 100 candidatos ........................ 72 Requerimento ....................... 102
  6. 6. Decreto ................................ 104 3. Metonímia ......................... 121 Despacho ............................. 105 4. Ironia ................................ 121 Auto ...................................... 105 5. Eufemismo ........................ 122 Aviso .................................... 106 6. Prosopopéia ou Ato ........................................ 107 Personificação ..................... 122 Acórdão ............................... 108 7. Hipérbole .......................... 122 Boletim .................................. 109 8. Antítese ............................ 122 Comunicado ......................... 109 9. Gradação ......................... 122 10. Catacrese ...................... 123 Edital ..................................... 110 11. Aliteração ....................... 123 Folha corrida ........................ 112 12. Assonância ................... 123 Portaria ................................. 113 13. Onomatopéia ................. 1234. Interpretação de textos 14. Polissíndeto ................... 123 Conceito .................................... 114 5. Guia prático de redação A intenção textual ..................... 115 Introdução ................................. 155 O sentido lógico e o sentido simbólico das palavras ............. 116 Especificações ......................... 156 Graus de compreensão Observações finais .................. 291 dos textos ................................. 117 Vocabulário ............................... 301 Figuras de linguagem ............... 119 Questões de vestibulares ........ 343 1. Metáfora ........................... 119 Índice ......................................... 371 2. Comparação .................... 120 Bibliografia ................................ 375
  7. 7. — 1 —1 Teoria da redação Introdução ce-nos normal a reação instintiva de detestá-la, de abstraí-la de nosso dia-a- dia, pois seria anormal o regozijo por uma A Redação no Vestibular, ou em redação que nos lembrasse todas asqualquer tipo de Concurso, certa- limitações de que somos possuidores.mente já causou muito mais horror, tre- E, ainda por cima, com nosso nome emores, faniquitos e bloqueios do que assinatura... É demais!hoje. Destarte, passou o tempo, apren-deu-se a conviver com ela, mas não se Mas, entenda-se o vestibular comoIhe descobriram os segredos, não se uma grande maratona, e suponha-seIhe assinalaram as técnicas, não se Ihe que, no lugar da redação (com númeroadquiriu o sabor gratificante da con- de linhas e tempo definidos), exigissemvivência: tornou-se conhecida, mas dos vestibulandos uma prova de nata-não íntima. ção, por exemplo: «o candidato deverá nadar quinhentos metros em cinqüenta O vestibular nos exige muito mais minutos; não atingir o estabelecido im-que garatujas, rabiscos, arremedos de plicará a atribuição do grau zero». Umcomunicação verbal lançados ao papel. percentual insignificante de candidatosAs falhas, sabemo-las, são de base. A (aqueles que fizeram da natação, des-reforma do ensino, com o distaciamento de a infância, uma prática constante)da cultura humanística, assolou o debili- não se preocuparia em absoluto com taltado saber, contribuindo muito mais para prova. Apenas, ao longo do ano prepa-um ensino pragmático que se coloca ad- ratório, continuariam a manter a forma.verso «ao gosto pelas letras». Os outros, a maioria esmagadora (tal E comunicarmo-nos é criar. É ofere- como na redação), seriam obrigados acer a outrem as nossas idéias, as nos- submeter-se a treinamentos constantessas opiniões, as nossas experiências e intensos, que Ihes exigiriam muita for-de vida. É mostrar a nossa cultura e per- ça de vontade e autodeterminação emsonalidade. A comunicação escrita, muito treinar mais, muito mais do que uma vezmais que a oral, é o nosso auto-retrato. por mês ou por quinzena ou por sema-A redação surge como um verdadeiro na. Force-se, agora, um paralelo com aespelho do que somos — é o peso de redação e sinta-se o quanto nos falta,nossa bagagem cultural. Ora, entenden- não para escrever algumas linhas (comodo-a, mesmo que inconscientemente, para dar algumas braçadas suficientescomo reflexo da nossa bagagem forma- para atravessar a piscina na sua late-tiva, como reflexo «do que sou», pare- ral), mas para escrevermos (ou nadar-
  8. 8. — 2 —mos) o suficiente em técnica e corre-ção, com limites de tempo e de númerode linhas, de forma a nos possibilitarconcorrer, mais do que participar, a umavaga na Universidade. É necessário, portanto, que cadaum, conscientizado de suas limitaçõese necessidades, se atire de corpo e almaa um trabalho de treinamento contínuo egradativo, com vistas a melhorar a suaredação, à luz das técnicas e orien-tações dadas. O esforço, a dedicação, o reconhe-cer-se débil — mas capaz — são oselementos que, juntos, propiciarão ao A redação e osaluno as condições para adquirir aautoconfiança perdida ao longo de anos bloqueiossem preparo específico, refletidosbasicamente em bloqueios e brancos «Gastei uma hora pensando um versomentais, ou na apavorante quantidade que a pena não quer escrever.de erros que surgem após uma corre-ção. É básico que cada um venha a acre- No entanto ele está cá dentro inquieto,ditar em si mesmo, sinta-se o suficiente- vivo.mente capaz de, por meio de treinos con- Ele está cá dentro e não quer sair.»tínuos, elaborar uma redação que atinjaos padrões mínimos de objetividade, cla- (Carlos Drummond de Andrade)reza e correção das idéias: pré-requisi- «Tantos estudantes psiquicamentetos exigidos e propostos para a reda- normais, que falam bem, e até comção nos vestibulares ou nos concursos exuberância e eloqüência, no inter-públicos. câmbio de todos os dias, são deso- Portanto: ladores quando se Ihes põe um lápis ou uma caneta na mão.»Eu + Força de Vontade (Mattoso Câmara)Proporcional às Minhas Dificul- São poucas as pessoas que, aodades = TREINO + TREINO + TREI- receberem a incumbência de escreverNO + ... alguma coisa, ainda que simples bilhete, Esta é a regra: Escrever? Só es- não sintam inibição paralisante. Aconte-crevendo...! ce um branco em sua mente, um vazio
  9. 9. — 3 —nas suas potencialidades. Vivem minu- torne algo não só penoso, mas im-tos (minutos?) de angústia, roem unhas, possível.mascam caneta e nada sai. Como evitar isso? O que acontece, se tal ocorre in-clusive com pessoas de razoável co- — Treinando! Escrevendo to-nhecimento, com executivos desinibidos, dos os dias. Lendo e escrevendo.por exemplo? — E tempo? Primeiramente, como causa objeti- — Todos dispõem de tempo. É ape-va, existe a falta de hábito da escrita e nas uma questão de saber aproveitá-lo.da leitura. Secundariamente, existe a De dez minutos diários para uma leitura,causa subjetiva, o bloqueio psíquico. de mais dez minutos para pequena re-Quando escrevemos, temos medo de dação, todos dispõem. É só fazer hábitoexpor-nos. Em geral, não tememos ser e... até o gosto é capaz de adquirir.gozados pelo que dizemos. Mas nãoaceitamos a hipótese de gozação pelo Lembre-se: 10 e 10que escrevemos. É a força do docu-mento!... — Adianta escrever se ninguém É importante não esquecer que, o corrige?mais das vezes, falar bem não significa — Evidentemente que sim! Escre-necessariamente escrever bem. Na vendo todos os dias você vai selinguagem oral, usamos de recursos que desinibindo. Vai adquirindo jeito para ainexistem na escrita: os gestos, por coisa. Vai sanando dúvidas de ortogra-exemplo, ou as situações configuradas, fia (desde que consulte o dicionário).facilmente descritas ou levadas a imagi- Vai ficando fluente.nar, são elementos fundamentais paraque a comunicação possa ser efetua- — Escrever sobre quê?da. Convém ainda lembrar que no falar — Sobre qualquer coisa. No come-somos repetitivos e, às vezes, até mes- ço, é aconselhável escrever sobre coi-mo obscuros, sem que ninguém nos sas que aconteceram com você. Expri-«anule» nada. Na redação, ao contrá- mimos melhor assuntos que vivemos.rio, a objetividade e a clareza devem se Depois sobre uma notícia, um comentá-fazer presentes, pois nós não seremos rio. A cena de um filme. Mais tarde uminquiridos no caso de alguma dúvida. tema abstrato. Reproduzir aquilo que leu. Daí que nossas dificuldades se re- Ou então reescrever as redações quefletem em brancos ou bloqueios e so- voltam da correção, corrigindo-as nosmente como já dissemos, muito treina- erros apontados, aumentando-as emmento e perseverança são capazes de idéias novas, enriquecendo-as de deta-nos devolver a autoconfiança abalada lhes que, porventura, tenhamos lido oue de nos oferecer um mínimo de condi- que tenham nos ocorrido. E assim vaições para que o fazer redações não se indo...
  10. 10. — 4 — Tipos de redação O interesse de um texto descritivo reside na impressão que tal descrição provoca em nós, e nada melhor que o Três são os tipos de composição substantivo — que designa o mundoescrita: a Descrição, a Narração e a do ser — e o adjetivo — que designa oDissertação. mundo das qualidades do ser — para produzirem enfaticamente aquela im- pressão que brota da fonte descritiva.Descrição O emissor capta a realidade por meio de seus sentidos e a transmite, utilizando Descrever é traduzir com palavras os recursos da linguagem, tal que o recep-aquilo que se viu e se observou. É a tor a identifique. A caracterização é im-representação, por meio das palavras, prescindível, daí a forte incidência de ad-de um objeto ou imagem. jetivos no texto. A descrição é atemporal, É uma seqüência de aspectos: for- por um lado, e espacial, por outro. Ver-ma, tamanho, matriz, quantidade etc. bos indicativos de ação ou movimento sãoEquivale ao registro do que se vê em secundários, valorizando-se os proces-uma fotografia. Pessoas, objetos ou pai- sos verbais não-significativos, ou de liga-sagens (com todos os seus pormeno- ção. Há grandes descrições que despre-res) podem ser objeto de um desenho zam totalmente formas verbais finitas, res-ou pintura e, logicamente, de uma des- saltando o emprego de formas nominaiscrição. (infinitivo, gerúndio, particípio). Consiste em fazer viver, tornar vi- Convém que se observe, na des-vos e tangíveis os pormenores, si- crição, a quase ausência de processostuações ou pessoas. É evocar o que verbais finitos (indicativo ou subjuntivo),se vê ou sente, ou criar o que não se o que dá à descrição um tom especia-vê, mas se percebe ou imagina. Des- líssimo de imobilidade do objeto.crever não é copiar friamente, masenriquecer a visão do que é real ou Tipos de descriçãoprocura-se tornar real. Saber descre-ver não significa enumerar muitos de- 1. Descrição Denotativa: A descriçãotalhes, mas procurar transmitir sensa- é denotativa quando a linguagem re-ções fortes. presentativa do objeto é objetiva, cla- ra, direta, sem metáforas ou outras A descrição é destituída de ação. É figuras literárias. Na descrição deno-estática. tativa, as palavras são tomadas no Na descrição, o ser, o objeto ou o seu sentido de dicionário, único. De-ambiente são mais importantes, ocupan- notativas são, por exemplo, as des-do lugar de destaque na frase o subs- crições científicas, as descrições quetantivo e o adjetivo. vêm nos livros didáticos etc.
  11. 11. — 5 —2. Descrição Conotativa: É a des- Exemplos de descrição crição literária, onde as palavras são tomadas em sentido simbólico, ri- 1. «Duas horas da tarde. Um sol ardente cas em polivalências. Visam a re- nos colmos dardejando e nos eirados tratar uma realidade além da realida- sobreleva aos sussurros abafados o de. Uma supra-realidade. grito das bigornas estridentes...» Dado, por exemplo, o tema «A Ca- (Gonçalves Crespo)deira» para descrever: 2. «Manhã cinzenta. Partida de Lisboa.a) A pessoa que se limitasse a descre- Os primeiros aspectos da campina ver fisicamente a cadeira — suas per- ribatejana: touros, campinos de vara nas, espaldar, assento, altura, cor ao alto, searas infinitas. etc. — estaria fazendo descrição Depois, mutação de cenário: flores- denotativa. tas de pinheiros verdenegros, outeiros.b) Mas aquele que passasse, digamos, Uma aberta de luz: campos exten- a descrever «reações psicológicas» sos de milho e arrozais. Enfim, o tufo de uma cadeira diantes dos diferen- espesso do Choupal. Coimbra, debru- tes tipos de nádegas que sobre ela çada sobre o Mondego». repousassem... estaria fazendo des- (R. Lapa) crição conotativa. Qualidades da boa descrição: 3. «Sala de prédio novo no pátio douma descrição é boa quando é viva, torel. Ornamentações «Liberty» naanimando-se a paisagem com seres vi- sua clara tonalidade preferida, que funde o verde-mar e em rosa-páli-vos e com a presença do homem. Além do. Duas grandes janelas por ondede viva, a descrição deve ser real e se perspectiva a baixa e um largopormenorizada. Descrição real é a des- trecho do rio. A parede do sul corta-crição em relevo, dotada, podemos di- da por três arcos envidraçados quezer, de corpo. Devem ser eliminados to- dão para uma espécie de estufados os pormenores que não se subordi- rescendente.»nem à impressão geral que se quer dar. (Teixeira Gomes) O estilo da descrição: a lingua-gem descritiva exige o vigor e o relevo 4. «Os companheiros de classe eramdo termo forte, próprio, exato, concreto. cerca de vinte. O Gualtério, miúdo,Nos quadros de natureza, por exemplo, redondo de costas, cabelos re-a linguagem deve traduzir a cor e a vi- voltos, motilidade brusca e care-são, os espaços sem limites, as formas tas de símio — palhaço dos ou-sem contornos, imprecisas, intangíveis, tros, como dizia o professor: o Nasci-para isso utilizando os termos gerais e mento, o bicanca, alongado por umabstratos. modelo geral de pelicano, nariz
  12. 12. — 6 —esbelto, curvo e largo como uma Exemplo de descrição de pessoavoice; o Álvares, moreno, cenhocarregado, cabeleira espessa e NHÔ RUFAintonsa de vate de caverna, vio- Chamava-se Rufino o preto cujalento e estúpido ( . . . ); o Almeidinha, carapinha em desalinho a neve dos anosclaro, translúcido, rosto de me- manchara de branco. Não sei a sua ida-nina, faces de um rosa doentio, de, mas meu avô dizia que "Negro quan-que se levantava, para ir à pedra com do pinta tem três vezes trinta". Talvezum vagar lânguido de convales- carregasse por noventa anos aquelecença; o Maurílio, nervoso, insofri- corpo magro e dolorido.do, fortíssimo em tabuada: cinco As pálpebras empapuçadas deixa-vezes três, vezes dois, noves fora, vam entrever, dos olhos, apenas um ris-vezes sete?. . . Iá estava Maurílio, trê- co preto que mirava com ódio a menina-mulo, sacudindo no ar o dedinho da que o acompanhava e divertia-se àsesperto... olhos fúlgidos no ros- suas custas.to moreno, marcado por uma pin-ta na testa; o Negrão, de ventas A pele preta era opaca e sem viço, próprio da idade avançada. Seu narizacesas, lábios inquietos, fisio- achatado parecia esborrachado. O lá-nomia agreste de cabra, canhoto bio inferior, bem vermelho e grosso, pen-e anguloso, incapaz de ficar sen- dia desgovernado, dificultando a fala.tado três minutos; (...) BatistaCarlos, raça de bugre, válido, de Os pés grandes e descalços, sem-má cara, coçando-se muito, co- pre inchados, permitiam-lhe apenas ummo se o incomodasse a roupa no caminhar trôpego, arrastado e cansa-corpo, alheio às coisas da aula, do. Usava um velho capote de cor inde-como se não tivesse nada com aquilo, finida, onde predominava o pó da estra- da, e um chapéu de feltro, maltratadoespreitando apenas o professor para pelas intempéries, tão deformado pelaaproveitar as distrações e ferir a ore- falta de forro a ponto de parecer umalha dos vizinhos com uma seta de pa- tigela desabada sobre os olhos.pel dobrado. (...) Trazia a tiracolo um bodoque (queFui também recomendado ao Sanches. é um arco para atirar bolotas de barro)Achei-o supinamente antipático: e, no outro ombro, uma velha aljava decara extensa, olhos rasos, mor- couro, velha e encardida, repleta dastos, de um pardo transparente, lá- ditas bolotas de barro seco, sua armabios úmidos, porejando baba, contra os meninos. Estes diziam que Nhômeiguice viscosa de crápula anti- Rufa tinha bicho-de-pé e gritavam dego. Era o primeiro da aula. Primeiro que longe, em coro:fosse do coro dos anjos, no meu con- — Bichento! Bichento!ceito era a derradeira das criaturas.» (Dalva Ferreira Fanchim. Piraí do Sul, sua gente e suas(O Ateneu, Raul Pompéia — Coleção dos Clássicos histórias. Curitiba: Imprensa da Assembléia Legislativa Brasileiros, Edições de Ouro, p. 57-58.) do Paraná, 1984, p. 90.)
  13. 13. — 7 — Exemplo de descrição Narração de ambiente Narrar é discorrer sobre fatos. É A FAZENDA contar. Consiste na elaboração de um Pior fazenda que a do Espigão, ne- texto que relate episódios, aconteci-nhuma. Já arruinara três donos, o que mentos, ou seja, é uma seqüência defazia dizer aos pragueiros: Espiga é o acontecimentos: começo, meio e fim.que aquilo é! Equivale ao registro de uma história, de um "causo", de uma anedota, de uma Os cafezais em vara, ano sim ano piada. Quando se conta uma histórianão batidos de pedra ou esturrados de (verdadeira ou inventada), está-se fa-geada, nunca deram de si colheita de zendo uma narração.entupir tulha. Os pastos ensapezados,enguaxumados, ensamanbaiados nos Ao contrário da descrição, que étopes, eram acampamentos de cupins estática, a narração é eminentementecom entremeios de macegas mortiças, dinâmica. Nela predominam os verbos.formigantes de carrapatos. Boi entrado Aqui o importante está na ação. No «oali punha-se logo de costelas à mostra, que aconteceu».encaroçado de bernes, triste e dolorido A essência da ficção é a Narrativa,de meter dó. respondendo os seus elementos a uma As capoeiras substitutas das ma- série de perguntas. São elas:tas nativas revelavam pela indiscrição a) Quem participa nos acontecimentos?das tabocas a mais safada das terras (personagens)secas. Em tal solo a mandioca braceja-va a medo varetinhas nodosas; a cana b) O que acontece? (enredo)caiana assumia aspecto de caninha, eesta virava um taquariço magrela dos c) Onde e em que circunstâncias acon-que passam incólumes entre os cilin- tece? (o lugar dos fatos, ambiente edros moedores. Piolhavam os cavalos. situação)Os porcos escapos à peste encrua- Em síntese, a narrativa de um fatovam na magrém faraônica das vacas ou vários é feita a partir de alguns ele-egípcias. mentos, tais como: Por todos os cantos imperava o fer- o quê?rão das saúvas, dia e noite entregues à o acontecimento a ser narrado;tosa dos cupins para que em outubro setoldasse o céu de nuvens de içás, em quem?saracoteios amorosos com enamorados a personagem principal (protagonista);sativus. quem? (Monteiro Lobato. Urupês. 13. ed., São Paulo: Brasiliense, 1996, p. 234-5.) o antagonista;
  14. 14. — 8 —como? de ouvir as personagens); ter como as-a maneira como se desenrolou o sunto caso real ou fictício; ser séria,acontecimento; engraçada ou triste. Quem escreve é quem decide como fazer a redação.quando?o tempo da ação; Exemplos de narraçãoonde? 1. «Toda a gente tinha achado estranhao local do acontecimento; a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé.por quê? Um dia chegou a cavalo, vindo nin-a razão do fato; guém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a belapor isso cabeça de macho altivamente erguida,o resultado ou conseqüência. e aquele seu olhar de gavião que irri- tava e ao mesmo tempo fascinava as Na redação narrativa, o fato é o pessoas. Devia andar lá pelo meio danúcleo da ação, e o verbo o elemento casa dos trinta, montava um alazão,valioso por excelência. Ao escrevermos trazia bombachas claras, botas comuma narração, é importante que uma só chilenas de prata e o busto musculososituação a centralize e envolva as per- apertado num dólmã militar azul, comsonagens. Deve haver um centro do gola vermelha e botões de metal. Ti-conflito, um núcleo do enredo. A narra- nha um violão a tiracolo; sua espada,ção distingue e ordena os fatos. apresilhada aos arreios, rebrilhava ao A sua essência é a criatividade. sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pes- O texto narrativo é eminentemente coço esvoaçava no ar como uma ban-temporal e espacial. Envolve a ação, deira. Apeou na frente da venda doo que produz a personagem, o agen- Nicolau, amarrou o alazão no troncote do processo narrativo. dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com Esta modalidade de texto transita o rebenque, e foi logo gritando, assimpor um fio condutor que leva a uma situ- com ar de velho conhecido:ação denominada «clímax» ou «nó»,decaindo numa «resolução» ou epílo- — Buenas e me espalho! Nos pe-go. O segredo da narrativa concentra- quenos dou de prancha e nos grandesse no grau de «suspense» criado, bem dou de talho!como no fecho surpreendente. Havia por ali uns dois ou três ho- É importante lembrar que a narra- mens, que o miraram de soslaio sem di-ção pode ser curta ou longa; ter diálogo zer uma palavra. Mas dum canto da salaou não (o diálogo torna a narração mais ergue-se um moço, que puxou a faca,dinâmica, pois cria no leitor a sensação olhou para Rodrigo e exclamou:
  15. 15. — 9 — — Pois dê! Depois de alguma relutância o ou- tro guardou a arma, meio desajeitado, e Os outros homens se afastaram Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo:como para deixar a arena livre, e Nicolau,atrás do balcão, começou a gritar: — Aperte os ossos.» — Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora! (Érico Veríssimo, Um certo capitão Rodrigo) Rodrigo, porém, sorria imóvel, de 2. «O fiscal da alfândega não podia en-pernas abertas, rebenque pendente do tender por que aquela velhinha viaja-pulso, mãos na cintura, olhando para o va tanto. A cada dois dias, vinha elaoutro com um ar que era ao mesmo tem- pilotando uma motocicleta e ultrapas-po de desafio e simpatia. sava a fronteira. Fora interceptada — Incomodou-se, amigo? — per- inúmeras vezes, fiscalizada e nada. O fiscal alfandegário não se confor-guntou, jovial, examinando o rapaz de mava com aquilo.alto a baixo. — Não sou de brigas, mas não cos- — Que traz a senhora, aí?tumo agüentar desaforo. — Nada, não, senhor! — Oi bicho bom! A cena, que se repetia com tanta Os olhos de Rodrigo tinham uma freqüência, intrigava o pobre homem.expressão cômica. Não se conteve: — Essa sai ou não sai? — pergun- — Não é por nada, não; me faz umtou alguém do lado de fora, vendo que favor, dona. Não Ihe vou multar, nemRodrigo não desembainhava a adaga. O nada; é só por curiosidade, a senhorarecém-chegado voltou a cabeça e res- está contrabandeando o quê?pondeu calmo: — Seu fiscal, o senhor já desmon- — Não sai. Estou cansado de bri- tou a moto e nada achou, que quer mais?gas. Não quero puxar arma pelo menospor um mês. — Voltou-se para o homem — Só pra saber, dona!moreno e, num tom sério e conciliador, — Tá bem, eu conto: O contraban-disse: — Guarde a arma, amigo. do é a moto, moço!» O outro, entretanto, continuou de (adaptado)cenho fechado e faca em punho. Eraum tipo indiático, de grossas sobrance- 3. A BORBOLETA PRETAlhas negras e zigomas salientes. A borboleta, depois de esvoaçar — Vamos, companheiro — insistiu muito em torno de mim, pousou-me naRodrigo. — Um homem não briga debal- testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidra-de. Eu não quis ofender ninguém. Foi ça; e, porque eu a sacudisse de novo,uma maneira de falar... saiu dali e veio parar em cima de um
  16. 16. — 10 —velho retrato de meu pai. Era negra como Pegou a mala deixada na portaria de uma noite. O gesto brando com que, uma dos hotéis em que havia procurado cô-vez posta, começou a mover as asas, modo, tomou um táxi e foi para a casatinha um certo ar escarninho, que me do parente, certo de ali encontrar o de-aborreceu muito. Dei de ombros, saí do sejado cantinho onde pudesse passarquarto; mas tornando lá, minutos depois, alguns dias.e achando-a ainda no mesmo lugar, senti Chegou e foi bem recebido. Como,um repelão dos nervos, lancei a mão de porém, a casa era pequena, teve de aco-uma toalha, bati-lhe e ela caiu. modar-se no mesmo quarto em que dor- Não caiu morta; ainda torcia o cor- mia um sobrinho de poucos meses. Depo e movia as farpinhas da cabeça. madrugada, acordou com a bexiga cheia,Apiei-me; tomei-a na palma da mão e fui desesperado por esvaziá-la. Levantou-depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a se, procurou o vaso noturno por todosinfeliz expirou dentro de alguns se- os cantos e não o encontrou. Para ir atégundos. Fiquei um pouco aborrecido, in- o banheiro, tinha de atravessar o quartocomodado. onde dormia o casal, precisaria acender as luzes e, com todo esse movimento, — Também por que diabo não era poderia acordar o irmão e a cunhada.ela azul? disse comigo. Como fazer, então, para sair da- E esta reflexão — uma das mais quela aflitiva situação?profundas que se tem feito, desde a in-venção das borboletas — me consolou Depois de muito pensar, pegou odo maléfico, e me reconciliou comigo garoto, passou-o para a sua cama emesmo. esvaziou a bexiga ali mesmo no col- chãozinho do berço... (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. 5. ed., São Paulo: Ática, 1975, p.52.) Aliviado, o Juventino, ao pegar ou- tra vez o garotinho para pô-lo novamen- 4. CASTIGO MERECIDO te no berço, viu que o safadinho havia feito coisa muito pior em sua cama... Numa das suas viagens a São Pau-lo, o Juventino não pôde conseguir, de (Décio Valente. Coisas que acontecem... 1. ed. São Paulo: L. Oren, 1969, p. 66-7.)forma alguma, um quarto em hotel oupensão onde pudesse hospedar-se. Percorreu a cidade toda, e nada! Formas de relatar o enunciadoTudo cheio, completamente lotado. A relação verbal emissor/receptor Finalmente, após longas e infrutífe- efetiva-se mediante o que chamamosras caminhadas, resolveu ir para a casa discurso. A narrativa se vale de talde seu irmão, residente em bairro afas- recurso, efetivando o ponto de vista outado do centro da grande metrópole. foco narrativo.
  17. 17. — 11 —a) Quando o narrador participa do en- c) Ocorrem casos em que o narrador é redo, é personagem atuante, diz-se classificado como onisciente, pelo que é narrador-personagem ou fato de dominar o lado psíquico de seus participante. Isso constitui o foco personagens, antepondo-se às suas narrativo ou ponto de vista da pri- ações, percorrendo-lhes a mente e a meira pessoa. alma. Neste particular, Clarice Lis- pector destaca-se brilhantemente. Exemplo: Exemplo: «— Is this an elephant? Minha ten-dência imediata foi responder que não; «Na rua vazia as pedras vibravammas a gente não deve se deixar levar de calor — a cabeça da menina flameja-pelo primeiro impulso. Um rápido olhar va. Sentada nos degraus de sua casa,que lancei à professora bastou para ver ela suportava. Ninguém na rua, só umaque ela falava com seriedade e tinha o pessoa esperando inutilmente no pontoar de quem propõe um problema.» de bonde. E como se não bastasse seu (Aula de Inglês, Rubem Braga) olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, aba-b) Chamamos narrador-observador lando o queixo que se apoiava com- ao que serve de intermediário entre o panheiro na mão... Na rua deserta ne- episódio e o leitor — é o foco narrati- nhum sinal de bonde. Numa terra de vo de terceira pessoa. morenos, ser ruiva era uma revol- ta involuntária. Exemplo: Se num dia futuro sua marca ia fazê- «Os dois cabras se aproximaram la erguer insolente uma cabeça de mu-sem que ele pressentisse. Eram um alto e lher? Por enquanto ela estava sentadaum baixo; o baixo, grosso e escuro, ves- num degrau faiscante da porta, às duastido numa camisa de algodãozinho encar- horas. O que a salvara era uma bolsadido. O alto era alourado e não se podia velha de senhora, com alça partida. Se-dizer que estivesse vestido de coisa ne- gurava-a com um amor conjugal já habi-nhuma, porque era farrapo só. O grosso tuado, apertando-a contra os joelhos.»na mão trazia um couro de cabra, ainda (Clarice Lispector)pingando sangue, esfolado que fora fa-zia pouco. E nem tirou o caco de chapéuda cabeça, nem salvou ao menos. O velho até se assustou e brusca- Formas do discursomente se pôs a cavalo na rede, a escu-tar a voz grossa e áspera, tal e qual 1. O DISCURSO DIRETO constitui aquem falava: técnica do diálogo. É a persona- gem em atividade, animizada, falan- — Cidadão, vim Ihe vender este do. Estrutura-se, normalmente, comcouro de bode.» a precedência de dois-pontos e ini- (Rachel de Queiroz) cia-se após um travessão.
  18. 18. — 12 — «... Botou as mãos na cabeça e a que o envolvem, na discussão da pro-boca no mundo: blemática que nele reside, na defesa de princípios, na tomada de posições. — Nossa senhora, meu patrãozinhome mata!» Caracteriza-se a dissertação pela (Fernando Sabino) análise objetiva de um assunto, pela seqüência lógica das idéias, quando re-2. O DISCURSO INDIRETO caracteriza- fletidas e expressas, pela coerência na se pelo emprego da subordina- exposição delas. ção sintática, impedindo a fala da personagem. «D. Evarista ficou A redação expositiva ou disserta- aterrada. Foi ter com o marido, dis- ção implica uma estrutura organizada se-lhe que estava com desejos.» em etapas que focalizem o assunto a partir de uma técnica determinada, bus- (Machado de Assis) cando objetivos precisos.3. O DISCURSO INDIRETO LIVRE é uma Portanto: a dissertação exige re- mescla do discurso direto com flexão e seleção de idéias. Exige que o indireto, proporcionando um mo- se monte um plano de desenvolvimento. vimento interno da fala, o monólo- go interior. Para reforçar esta necessidade, vale a pena transcrevermos algumas li- Observe o fragmento: nhas de Buffon: «Sinhá Vitória falou assim, mas Fa- «É pela ausência de plano, é porbiano franziu a testa, achando a frase não ter refletido bastante sobre oextravagante. Aves matarem bois e ca- assunto, que um homem de talento sevalos, que lembrança! Olhou a mulher, sente embaraçado, não sabendo pordesconfiado, julgou que ela estivesse onde começar a escrever. Entrevê, aotresvariando». mesmo tempo, grande número de idéi- (Graciliano Ramos) as; e como não as comparou, nem su- bordinou, nada o obriga a preferir umas às outras; fica, pois, perplexo. Mas,Dissertação quando tiver esboçado um plano, quando tiver reunido e posto em or- Dissertar é tratar com desen- dem todos os pensamentos essenci-volvimento um ponto doutrinário, ais ao seu assunto, sentirá o ponto deum tema abstrato, um assunto ge- maturação da produção do espírito,nérico. Ou seja: apressar-se-á a fazê-lo desabrochar e Dissertar é expor idéias em torno terá prazer em escrever. de um problema qualquer. Para escrever bem, é preciso, por- Consiste na exposição de um as- tanto, estar plenamente senhor do seusunto, no esclarecimento das verdades assunto; é preciso refletir bem nele,
  19. 19. — 13 —para ver claramente a ordem dos Introdução — parte em que sepensamentos e formular deles uma apresenta o assunto a ser questionado;seqüência, uma cadeia, em que cada o desenvolvimento — parte em queponto representa uma idéia». de se discute a proposta e, por último, a conclusão — em que se toma posição Convém certo domínio de conheci- relativamente à proposta.mento do assunto, cultura apreciável e,sobretudo, domínio das estruturas sin- Normalmente os vestibulares pe-táticas mais elaboradas, do período com- dem que se disserte em 25 ou 30 linhas,posto por subordinação. As orações re- no máximo, o que nos faz sugerir pará-duzidas de infinitivo, particípio e gerúndio grafos de 5 ou 6 linhas.constituem excelente material. A sermos coerentes, é necessário⇒ Este é o tipo de redação pedido (ou entre os parágrafos, correlação. Isto é, esperado) pela maioria dos vestibu- o assunto deve ser criteriosamente lares do Brasil ou dos Concursos Pú- distribuído. blicos. Resumindo: E, infelizmente, desde as primei- É uma seqüência de juízos, de con-ras redações primárias até as colegi- siderações, de reflexões sobre algumais, a redação preferida, pela necessi- assunto, a partir do que estabelece umadade de se incentivar a criatividade, foi opinião.a Narração. Contamos sobre piqueni-ques, passeios, viagens, excursões...; Para quem vai fazer uma disserta-contamos o real, o imaginário, o veros- ção é importante:símil...; passamos do infantil ao trágico;seguimos, enfim, por caminhos que a a) examinar o tema, entendê-lo e rela-nossa imaginação e potencialidades cioná-lo a alguma situação conhe-nos levaram e, em matéria de redação, cida;paramos aí. b) anotar as idéias (argumentos fa- O discutir assuntos, o criticar situa- voráveis e contrários) que conseguirções, o propor soluções sempre o fo- sobre o tema;ram muito distantes de nossa realidade. c) decidir a posição (favorável ou con-A juventude, hoje, mais do que nunca, trária) que vai defender;alienou-se em páramos de um mundo semproblemas. Ela não participa, ela não sen- d) fazer um rol do vocabulário (elencote, ela não reage, ela não discute, nor- de palavras) que se refere ao as-malmente não entende, e... por isso, não sunto;escreve; quando o faz, as paráfrases e) rascunhar a dissertação a partir dofazem-se presentes também. tema, com rápida introdução em que A dissertação baseia-se em três podem aparecer dados históricos,partes fundamentais: opiniões gerais;
  20. 20. — 14 —f ) apresentar os argumentos, come- O marco divisório entre os dois çando pelos mais simples, já atacan- mundos, o que avança destemido e o do os contrários e enaltecendo os que marca passo no círculo de giz de favoráveis; suas estruturas arcaicas e tradicionais, é, sem dúvida nenhuma, a educação. Ég) concluir o trabalho, à vista dos argu- ela que, ao produzir tecnologia, encami- mentos, com a posição que está de- nha as soluções permanentes concebi- fendendo; das em nível de magnitude. Por issoh) revisar o texto: mesmo, é a matéria-prima prioritária, o elemento deflagrador do progresso rá-— eliminando o que for supérfluo ou ine- pido. Terá de ser encarada com imagi- ficaz, como repetições, frases que nação e empenho, pré-requisito que pouco dizem (e que, portanto, não exige a participação imediata e fecunda fazem falta); da vontade nacional.— alterando, se preciso, a ordem dos Muitas nações subdesenvolvidas já argumentos; despertaram para a ampla semeadura— corrigindo os erros de concordância, educacional. O fato de pensar-se na de regência, de pontuação, de orto- educação como meio de desenvolvimen- grafia, de acentuação; to já constitui um sistema de desenvolvi- mento, uma atitude para o desen-i) rever o texto, analisando-o como su- volvimento. Nem todas, porém, lograram põe que o examinador o analisará e, ainda preencher o hiato entre o desejo e se necessário, modificá-lo; a vontade de se desenvolverem.j) passar a limpo, lembrando-se de que O hiato persiste sob a forma de uma nenhum examidor gostaria de ter de mentalidade rançosa, impermeável às decifrar a letra. mudanças. E, quando o influxo refor- mista vence barreiras e busca implan- Exemplos de dissertação tar-se, defronta quase sempre a falta de organização e os condicionamentos Os meios de comunicação de mas- superados.sa devem alterar, nas próximas duasou três décadas, uma boa parte da Só a esperança não basta; é preci-fisionomia do mundo civilizado e das so a consciência.relações entre os homens e povos. A (Jornal do Brasil, 23/11/69)educação, mola mestra deste impulsoirresistível, é modernizada dia a dia a 1. NASCEM OS HOMENS IGUAISfim de suprir as novas necessidadesque se multiplicam, adaptando o homem Nascem os homens iguais; um mes-contemporâneo ao chamado das es- mo, igual princípio os anima, os conser-trelas, que ele já não se satisfaz em va, e também os debilita, e acaba. So-contemplar. mos organizados pela mesma forma, por
  21. 21. — 15 —isso estamos sujeitos às mesmas vai- pre, cheio de Espinhos e sem uma únicadades. Para todos nasce o Sol; a aurora flor que nele se abra e amenize. Haveriaa todos desperta para o trabalho; o si- somente um homem em quem palpitasselêncio da noite anuncia a todos o des- coração tão seco, tão enregelado e semcanso. O tempo que insensivelmente vida de Sentimentos: o homem que nãocorre, e se distribui em anos, meses e amasse o lugar de seu nascimento. De-horas, para todos se compõe do mesmo pois dos pais, que recebem nosso pri-número de instantes. Essa transparen- meiro grito, o solo pátrio recebe os nos-te região a todos abraça; todos acham sos primeiros passos; é um duplo rece-nos elementos um patrimônio comum, li- ber, que é duplo dar. As idéias grandesvre, e indefectível; todos respiram o ar; e generosas dilatam o horizonte da pá-a todos sustenta a terra; as qualidades tria; a religião, a língua, os costumes, asda água, e do fogo, a todos se comuni- leis, o governo, as aspirações fazem decam. O mundo não foi feito mais em be- uma nação uma grande família, e de umnefício de uns, que de outros, para to- país imenso a pátria de cada membrodos é o mesmo; e para o uso dele todos dessa família. Mas, deixem-me dizertêm igual direito; ou seja pela ordem da assim, a grande não pode fazer olvidarnatureza, ou seja pela ordem da sua a pequena pátria; dessa árvore que semesma instituição; todos achamos no chama a nação, o país, não há quemmundo as mesmas partes essenciais. não sinta que a raiz é a família e o berçoQue cousa é a vida para todos mais do a pátria.que um enleio de vaidades, e um giro (Joaquim Manuel Macedo. Apud Oliveira, Cleófanosucessivo entre o gosto, a dor, a ale- de. Flor do Lácio. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 1961,gria, a tristeza, a aversão, e o amor? p. 287.)(Matias Aires. Reflexões Sobre a vaidade dos homens,ou discursos morais sobre os efeitos da vaidade. 9. ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1953, p. 117-8.) Objetividade x Subjetividade 2. A PÁTRIA Ao expor um problema, ao discutir um assunto, você pode agir de duas Um célebre poeta polaco, des- maneiras: objetiva ou subjetivamente.crevendo em magníficos versos uma flo- Objetivamente, se a exposiçãoresta do seu país, imaginou que as aves do assunto se apresentar impessoal,e os animais ali nascidos, se por acaso marcada pela presença do raciocínio elonge se achavam, quando sentiam apro- da Iógica universal — quando o assuntoximar-se a hora da sua morte, voavam for abordado e discutido de maneira ge-ou corriam e vinham todos expirar à som- nérica, com idéias e posicionamentosbra das árvores do bosque imenso onde que pudessem ser aceitos por todos,tinham nascido. O amor da pátria não ou por uma maioria.pode ser explicado por mais bela e deli-cada imagem. Coração sem amor é um Essa redação tem por finalidadecampo árido, quase sempre, ou sem- básica instruir e/ou convencer o lei-
  22. 22. — 16 —tor. As idéias e o modo de se analisar e é o normal, que dentro de uma surjamenfocar os problemas são pessoais, mas aspectos das outras. O seu entrosa-a colocação disso tudo dentro da reda- mento é normal, malgrado se conservemção deve ser impessoal: verbo na 3ª sempre a essência e as particularidadespessoa ou na 1ª do plural — afinal, de cada uma, pois, se assim não o fosse,Nós não sou eu, mas... somos todos. não saberíamos identificá-las. Subjetivamente, caso predomi- Exemplos:nem, na exposição das idéias, suas pró-prias opiniões, sua maneira pessoal, Texto Subjetivoparticular de ver e encarar as coisas.Esta modalidade depende essencialmen- «Nunca será tão domingo como aqui,te do tema dado, que deve estar próxi- e domingos e domingas de eternidade semo da subjetividade. De um modo geral, concentram em vigorosa dominicalização.ela deve ser evitada por aproximar-se Não acontecer nada, que beatitude! Dei-demasiadamente da narração, por meio xar o mato crescer — mas o próprio matodos seus subtipos, como a crônica, por foge à obrigação, e goza o domingo. Láexemplo. estão o touro zebu e seu harém de no- bres e modestas vacas — porque o zebu Na redação subjetiva, procura-se, alia à majestade indiana a placidez dasantes de tudo, angariar a simpatia do Minas, e boi nenhum se fez tão mineiroleitor com relação ao exposto. Daí que, quanto esse, e bicho nenhum é tão minei-para fazê-lo, baseamo-nos essencial- ro quanto o boi, em seu calado conheci-mente em nossas opiniões, no nosso mento da vida, sua participação no traba-modo particular de ver as coisas, no lho. O rebanho amontoa-se em círculos,nosso pensar em relação aos fatos, algumas reses em pé, outras deitadas,deixando transparecer, o mais das ve- chifres cumprimentando-se sem ruído. Pa-zes, um tom confessional, pontilhado de rece um só boi espalhado, maginando. Comemoções e sentimentalismos: verbo na o pincel do rabo, executa o milenar movi-1ª pessoa do sing. — EU. mento de repelir a mosca, sei que não o O ideal seria que se unissem num pratica pelo prazer de abanar-se. Mas hásó os dois modelos, escrevendo, num bois esparsos, bois solitários, que se pos-tom impessoal, idéias efervescentes de tam junto a árvores, aparentemente re-características emotivas que pudessem colhidos; ou fitam o carro que levanta po-tocar o leitor, derrubando-o do seu papel eira sobre a poeira habitual, e ruminamtirano de riscar, corrigir, apontar defei- não sei que novelas de boi.»tos: afinal, ele é «gente como nós». (Carlos Drummond de Andrade)⇒ Observação: Texto Objetivo Nem sempre a descrição, a narra-ção e a dissertação aparecem em «esta- «As casinhas eram alugadas pordo puro». É perfeitamente possível, aliás mês e as tinas por dia: tudo pago adi-
  23. 23. — 17 —antado. O preço de cada tina, metendo a Ela é muito importante. Sendo oágua, quinhentos réis, sabão à parte. As contato inicial do leitor com o texto, devemoradoras do cortiço tinham preferência atraí-lo, despertar-lhe o interesse. As-e não pagavam nada para lavar. sim, deve ser objetiva e simpática. E, sobretudo, não pode ser longa. Normal- Graças à abundância da água que mente um ou dois períodos.lá havia, como em nenhuma outra parte,e graças ao muito espaço de que se dis- O tópico frasal pode se apresentarpunha no cortiço para estender a roupa, de várias formas: uma declaração, umaa concorrência às tinas não se fez es- pergunta, uma divisão, uma citação... Aoperar; acudiram lavadeiras de todos os desenvolvê-lo, é preciso ser o mais ob-pontos da cidade, entre elas algumas vin- jetivo possível, evitando-se divagaçõesdas de bem longe. E, mal vagava uma inúteis.das casinhas, ou um quarto, um cantoonde coubesse um colchão, surgia uma Enfim, na introdução, o importantenuvem de pretendentes a disputá-los.» é falarmos no tema da redação, mes- mo que (ou até obrigatoriamente às ve- (Aluísio Azevedo) zes) tenhamos de usar as suas pala- vras, ou parte delas. As partes da Lembre-se: a redação começa na linha (1) e não no tema ou no título,redação — Estrutura não havendo desta forma repetição; pois, como repetir o que ainda não foi dito? Classicamente, uma redação deveconstar de três partes: I — Introdução II. Desenvolvimento II — Desenvolvimento É o corpo da redação. Sua parte III — Conclusão principal. É aqui que aparecem as idéi- as, os argumentos, a originalida- de. A introdução corresponde à tese.I. Introdução O desenvolvimento vem a ser o debate da tese. É a parte mais longa. O corpo Introduzir significa «levar para sempre há de ser maior que a cabeça edentro». Na introdução, portanto, con- os pés. Sob pena de termos uma aber-duzimo-nos para dentro do tema, do as- ração!...sunto. Apresenta cada um dos argumen- A introdução apresenta a idéia que tos ordenadamente, analisando deti-vai ser discutida (tópico frasal), nada damente as idéias e exemplificando deIhe acrescentando. maneira rica e suficiente o pensamento.
  24. 24. — 18 — O desenvolvimento será a parte mais Portanto, é a comprovação da te-longa da redação, mas não necessaria- se levantada na Introdução e discutidamente a mais confusa, complicada e no desenvolvimento.ininteligível. E isso é o que acontece, nor- Ela é, a princípio, retirada da melhormalmente, quando não se faz uma sele- idéia que achamos ter no momento dação de idéias prévia, quando não se sabe reflexão inicial sobre o tema. É a nossao que escrever antes de começar a es- posição em face de um problema qual-crever. Bem se diz: «só comece a es- quer, a sua solução, ou a projeção futuracrever depois que você souber, com de conseqüências que advirão caso nãocerteza, quais as idéias, aquilo que sejam tomadas as medidas que acha-e sobre o que você vai escrever». mos necessárias (e que devem ter sido Não há necessidade de muitas idéi- citadas no desenvolvimento da redação).as (e normalmente nem espaço para A conclusão não deve ser muitoisso). O importante é que, mesmo sendo longa, a exemplo da introdução, e devepoucas, as idéias sejam correta e obje- ocupar, também, somente um parágrafotivamente expostas. Não se deve can- (ao contrário da introdução, pode tersar o leitor com um milhão de argumen- mais do que um período).tos diferentes, nem com períodos lon-gos e maçantes que, fatalmente, resul- ⇒ Observação:tam confusos. Principalmente nos contos e nas crônicas, a conclusão, o «fecho», pode Nas redações entre 15 e 18 linhas, ser imprevisto e absolutamente desliga-o desenvolvimento deve ocupar um ou do daquilo para que se vem conduzindodois parágrafos (com vários períodos o leitor. E nisso está o seu valor. É clarodentro deles). Nas redações com nú- que isso não cabe às dissertações,mero de linhas entre 20 e 25, o número aos temas abstratos. É próprio para ade parágrafos no desenvolvimento gira narração.em torno de 3 ou 4. Exemplo: PARA LER... E VERIFICAR!III. Conclusão Veja a seguir um exemplo de dis- sertação, com suas partes respectivas, É o acabamento da redação. E, se e os comentários — ao final — sobrenão se deve iniciar «abruptamente» a cada uma delas.redação, também não se pode acabá-lade súbito. A PAZ E A GUERRA A conclusão resume todas as idéi- «Há ideologias que pressupõemas apresentadas e discutidas no desen- seja o homem um ser naturalmente incli-volvimento, tomando uma posição sobre nado à guerra, essencialmente agressi-o problema apresentado na introdução. vo. São idéias fundamentadas na teoria
  25. 25. — 19 —da evolução, nos conceitos de luta pela Comentários:existência, em que o mais forte ocupa as Notamos que o assunto se desen-altas posições econômicas e políticas. volve em torno de uma idéia-núcleo que No entanto, estas concepções são está expressa no trecho: «No entanto...completamente contrárias à tendência baixo nível de luta animal» (segundo pa-evolucionária humana, que retrocede rágrafo). Esta idéia-núcleo traduz o pen-não só até a evolução em nível animal, samento geral do autor em face da pro-mas também ao mais baixo nível de luta blemática sugerida pelo título, além deanimal. Nem mesmo os carnívoros se lançar uma idéia discordante daquelaalimentam uns dos outros, como o ho- apresentada na introdução (primeiro pa-mem competitivo devora os rivais. rágrafo). Nenhum futuro evolucionário espe- Nos parágrafos seguintes (segun-ra o homem que segue este caminho. A do e terceiro), o autor confirma e justifi-luta competitiva não deixará sobreviven- ca os princípios expostos em sua tese,tes. Mesmo que se limite a uma guerra utilizando o recurso dos exemplos (qua-econômica, só pode acabar em conten- tro últimas linhas do terceiro parágrafo)da social, em crises de desemprego, em que reforcem a idéia assumida no de-apuros financeiros e num fracasso quan- correr da sua argumentação e apresen-to à utilização dos recursos do mundo tando soluções aos impasses que de-da maneira mais completa e eficiente. nuncia (quatro primeiras linhas do quar- to parágrafo). Ao aproximar-se da con- Fora de uma atitude mútua de cola- clusão do trabalho, o autor prepara oboração social e da produção voltada e seu término com um retorno às idéias daplanejada para o consumo, não há solu- introdução (três últimas linhas do quartoção para tais dificuldades. Enquanto se parágrafo). Na etapa conclusiva, ex-mantiverem as condições atuais, o ho- pressa no parágrafo final, o autor sinte-mem sentir-se-á agressivo, estará pre- tiza a idéia-núcleo desenvolvida no de-parado para assegurar seu próprio bem- correr da dissertação, e o assunto éestar à custa do próximo. encerrado de forma taxativa e enfática. Esta, contudo, não é a natureza do O esquema de idéias desta dis-homem, e sim a natureza do homem em sertação poderia ter seguido o roteironível subumano. Se o colocarmos em que passaremos a apresentar:condições de trabalho realmente huma-nas, tendo em vista o bem comum, sua I — Introdução:natureza tornar-se-á mais humana, maiscooperativa, e seu futuro estará asse- a) Segundo a teoria da evolução, o ho-gurado. Se fracassarmos neste propó- mem é naturalmente agressivo e devesito, seu futuro será a guerra e a des- competir para viver.truição.» b) Desta competição, sairá vencedor o (John Lewis, O homem e a evolução) mais forte e o mais importante.
  26. 26. — 20 —II — Desenvolvimento: entre as palavras é feita pela organiza- ção do pensamento no que se refere aoa) Na luta competitiva, o homem retro- conteúdo e pelas partículas de transição cede ao mais baixo nível animal. que unem as idéias, tais como as ex-b) A competição entre os homens aca- pressões «no entanto», «contudo», li- bará por destruir a civilização e as gando parágrafos, e conjunções, ligan- possibilidades de progresso. do as idéias dentro do período.c) A única solução: colaboração social A ênfase consiste no fato de a e produção voltada e planejada para idéia-núcleo estar colocada em lugar de o consumo. destaque, ocupando um parágrafo in- teiro e aparecer reforçada em subidéiasIII — Conclusão: no final do segundo e quarto parágra-a) O futuro do homem assegurado: condi- fos, e totalmente destacada da conclu- ções realmente humanas de trabalho. são. A ênfase à idéia principal é conse- guida por meio do uso de expressõesb) Perdurando a atual situação: o homem fortes e eloqüentes, tais como «nível ani- destruir-se-á. mal», «homem competitivo devora os ri- vais» (segundo parágrafo), «nível subu-Qualidades básicas da mano», «a guerra e a destruição» (últi- mo parágrafo) e muitas outras igualmen-redação te enfáticas. Unidade + Coerência + Ênfase Observando o estilo da dissertação Montagem daanterior, veremos que ela apresenta astrês qualidades necessárias a um redaçãobom texto escrito: unidade, coerênciae ênfase. A unidade reside no fato de que o I. O visual ⇒ estéticaautor se fixou em uma só idéia central nodecorrer de sua argumentação; em to- Quando, ao entrar na casa de al-dos os parágrafos as idéias se sucedem guém, você a encontra na mais completaem ordem seqüente e lógica, todas com- confusão, sujeira por todos os lados: ospletando e enriquecendo a idéia-núcleo. pratos de não sei quantos almoços dis-Não houve pormenores desnecessários, putando lugares com as panelas; as cri-nem redundâncias, o que pode atestar o anças com roupas sujas, o rosto lambu-esquema anteriormente traçado. zado, o nariz a escorrer; o cheio de bolor e gordura a envergonharem seu deso- A coerência reside na associação dorante; qual a sensação que tem?e correlação de idéias dentro do períodoe de um parágrafo a outro. A conexão — De desleixo, de sujeira, certamente!
  27. 27. — 21 — Sentirá acaso vontade de ali per- c) Todas as palavras com maiúsculasmanecer, ficar para o jantar, pegar ao (letra de forma).colo uma criança? A MISSÃO SOCIAL DO ADVOGADO — Seguramente não! A VIDA NO PLANETA DOS MACACOS E, entretanto, a coisa muda de figura ⇒ Observação:se a casa visitada é asseada, as crian-ças cuidadosas com a roupa e o trato, o Coloca-se o título apenas nas fo-ar agradável a lembrar-lhe a sua própria lhas de redação em que ele não estejacasa, enfim, causa-lhe «boa impressão». previamente grafado, ou nas folhas dePode até sentir o suco gástrico manifes- redação que não estejam previamentetando-se apesar de ter devorado sucu- numeradas. A linha do título e as duaslenta refeição há bem pouco tempo. (ou três) linhas que se deixam em branco antes do primeiro parágra- Com a redação também é assim! O fo não devem ser contadas. A reda-impacto (bom ou mau) que nos causa é ção começa na linha um, ou seja, nomuito importante. primeiro parágrafo.Lembre-se: o BELO é um padrão nato 2) Use ponto final nos títulos, em se tra-e instintivo em nós. E não há beleza ondenão houver ordem e limpeza. tando de frase ou citação somente. Os temas de redação normais não Estes são os elementos que com- levam ponto final.põem a estética da redação, concorren-do para um melhor visual e correção: 3) Entre o título e o contexto, deixe uma duas ou três linhas ou espaço equi-1) Título/Tema valente.a) Todas as iniciais do título, menos das ⇒ Observação: palavras de pouca extensão, como preposições, artigos, conjunções etc., Estes três primeiros itens se refe- com exceção do primeiro, devem ser rem aos vestibulares que solicitam que maiúsculas: o vestibulando dê um título para a sua Redação.A Missão Social do Advogado 4) Os parágrafos devem adentrar à li-A Vida no Planeta dos Macacos nha uns dois centímetros e iniciarem-Ou se, todos, à mesma altura.b) Maiúscula inicial apenas na primeira pa- São fundamentais à redação, pois lavra, seja ela artigo, preposição etc. constituem o visual prático da estruturaA missão social do advogado redacional, apontando as três partes obrigatórias num texto dissertativo: aA vida no planeta dos macacos introdução, o desenvolvimento e a con-Ou clusão.
  28. 28. — 22 — O número de parágrafos é variável O borrão não possui um valor deconforme a extensão exigida para a reda- perda específico: não vale menos um, oução. Nas redações dissertativas, o míni- menos dois. Ele é negativo na sua es-mo obrigatório é de três parágrafos; sência, no exato momento do seu apa-o máximo depende da quantidade de linhas recimento.pedidas. Sugere-se que os parágrafos 7) Letra é importantíssimo! Não apenascontenham em torno de cinco linhas cada. pelo visual simpático de uma caligra-5) Separar as diferentes idéias em pará- fia, mas por representar a própria re- grafos distintos, guardando-lhes a de- dação. A legibilidade é o item a que vida conexão. As idéias que se relacio- todos os vestibulares fazem referên- nam mais intimamente, que se unem cia específica: alguns poucos espe- por um mesmo fio de ligação lógica cificam também o tipo de letra. devem ficar no mesmo parágrafo, ain- A realidade é que a ilegibilidade é da que em diversos períodos. item anulatório da redação. E não é Porém, toda vez que se mudar o fio necessário chegar-se a extremos parado raciocínio, sempre que se passe para que se caracterize a ilegibilidade. Letrauma nova idéia que não tenha relação feia, em redação, é pecado. De quetão íntima com a anterior, deve-se iniciar adianta alguém escrever bem, escreverlinha nova. Portanto, novo parágrafo. substanciosa, estilística e semanticamen- te com letra que ninguém entenda? Ou Apenas o parágrafo inicial pode ainda com letra que, para ser entendida,ser constituído por um período (ou são necessárias a releitura e a adivinha-dois) somente. Os demais parágrafos ção? Para os que têm letra feia, a saída é(os do desenvolvimento) devem ter vários o treinamento de caligrafia (aliás, esteperíodos; portanto, vários pontos finais. caderno não é para crianças, como mui-6) Não rasurar a redação. A redação tos pensam, mas para quem possui letra suja, borrada dará ao avaliador uma feia) ou a letra de forma. primeira impressão negativa, que difi- cilmente será apagada, por melhor que se apresentem o conteúdo e a cor- II. Lado interno ⇒ correção reção. A maioria quase que absoluta dos Ao se compor uma redação, devemvestibulares oferece oportunidade e lu- ser levadas em consideração as quali-gar para se fazer a redação, preliminar- dades básicas que a habitam e a distin-mente, no rascunho. Assim sendo, a ra- guem das redações normais. No vesti-sura na versão definitiva não pode ser bular, o número de redações ascendeexplicada nem perdoada; ou o aluno não aos milhares, e são estas qualidades quefez rascunho (e isso é imperdoável), ou vão fazer com que algumas poucas seo fez, mas não aprendeu ainda nem a diferenciem da maioria. São, exatamen-fazer o primário trabalho de cópia. te, estas as qualidades da redação:
  29. 29. — 23 — }1) correção Há erros, no entanto, que pesam mais na avaliação de uma redação. Há2) clareza aqueles que deixam o avaliador de tal3) concisão Forma + forma indisposto que... Conteúdo Quais são os piores erros?4) originalidade Vamos lá:5) elegância a) de concordância: Esse negócio de6) coesão sujeito no plural e o verbo no singular é dose! Portanto, muito cuidado! Pro- Para redigirmos bem, é necessárioque aliemos à criatividade ou análise de cure o sujeito de cada verbo e veja seum assunto a correção e adequação de há correspondência. Sobretudo tenha cuidado quando, na oração que vocêlinguagem. Não basta elaborar uma idéiaimportante. É preciso saber expressá-la escreveu, ocorre partícula «SE», ver-com acerto e propriedade. O estilo na re- bos impessoais como «HAVER», «FA- ZER» etc. E para errar concordânciadação é representado pela clareza, uni-dade, ênfase e coerência que devemos nada melhor do que fazer períodosimprimir aos recursos lingüísticos que tra- longos ou utilizar a ordem inversa. Escreva idéias simples em períodosduzam nossos pensamento. Estes aspec-tos já foram referidos anteriormente em simples, portanto curtos.nosso trabalho. Outros elementos são b) de regência: Se você usar verboimportantes na expressão escrita e dizem de regência problemática (aquelesrespeito também ao estilo. São aqueles que você estudou, como assistir, que-que influem decisivamente na elaboração rer etc.), cuide da regência. Se vocêde uma linguagem escrita correta, ade- não tem certeza da regência de umquada e harmoniosa, alcançada não só verbo, não o use. Substitua-o por si-por meio de recursos (leitura, vocabulá- nônimo. O problema mais freqüenterio, interpretação de textos, conhecimen- de regência em uma redação ou car-to de tipos de composição), mas também ta, ofício etc. diz respeito ao empre-pelo conhecimento de fatos gramaticais go das formas oblíquas «O» e «LHE».que ordenam, disciplinam e sistema- A norma é:tizam nossa língua. — «O» só para objeto direto (com 1. A correção verbo transitivo direto); — «LHE» só para objeto indireto ou É a ausência de erros. Consegue- com valor de possessivo.se com a observância das normas daGramática. Para que serve a Gramática? CUIDADO:— Exatamente para ensinar-nos a es-crever corretamente! Você tem de pôr Nada de: «ele Ihe viu», «eu o queroem prática aquelas regrinhas todas!... muito bem», «ele assistiu o filme».
  30. 30. — 24 —c) de colocação: Se é verdade que este seus erros... bem, estes são de domínio tópico não precisa chegar ao requin- público e de dívida ativa: custam caro! te, também é verdade que não se tole- rarão os exageros dos modernistas 2. A clareza eufóricos. Assim: Consiste na transmissão mais com- — Nunca comece oração com oblí- preensível do pensamento. Quem es-quo átono: Me levaram dali para um lu- creve (como quem fala) deve fazer-segar escuro e misterioso. Te deram o re- entendido da melhor maneira possível.cado? etc. A concisão concorre muito para a — Lembre-se de que não, nunca, clareza. Para obter-se clareza, além daque, porque, quando, enquanto, se, concisão, cumpre:para que etc. exigem oblíquo antes do a) Para escrever claro é preciso pensarverbo! claro. Antes de começar a escrever, — Jamais coloque o oblíquo depois medite sobre o tema, reúna idéi-de particípio: Vocês tinham levantado- as, coloque-as de modo coerente. Sóse mais cedo. comece a escrever depois que você souber o que vai escrever! — Depois de vírgula (ou qualquer Daí a importância de um esquemaoutra pontuação) não se deve colocar e do rascunho.pronome oblíquo (a não ser que sejamvírgulas de encaixe, como por exemplo: b) Frases curtas: períodos longos fa-Nunca, mesmo nos piores momentos, talmente resultam confusos.lhe pedimos ajuda.) c) Empregar a palavra precisa: sód) de grafia: Erro ortográfico, sobretu- empregue palavras simples, de cujo do em palavras comuns, de uso coti- significado você tem certeza. Não diano, não se admite. Coisas do tipo queira esnobar porque o esnobado de «ãncia, pêcego, talvêz, xegar». E poderá ser você! escrever «exepicional» em vez de d) Evitar a ambigüidade, que é a pos- «excepcional» é sem comentários... sibilidade de mais de um sentido em Se você não sabe escrever uma uma oração.palavra, EVITE-A! Ex.: «José mandou dizer a Pedro Troque-a por sinônimo! E cuidado que só trataria daquele negócio no seu escritório». No escritório de quem?com os acentos gráficos! No dele, José, ou no de Pedro? Isso⇒ Lembre-se: em caso de dúvida, não é ambigüidade.use a palavra, coloque outra da qual vocêtenha certeza da grafia. Afinal, na sua Clareza é qualidade; obscuridade,redação, quem manda é você... mas, nos defeito.

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