ARES DA MINHA SERRA

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ARES DA MINHA SERRA

  1. 1. Um aviso do Céu Ao Sr. Prof. Dr. Álvaro de MatosTinha eu oito anos apenas quando abandonei pelaprimeira vez o meu pacato burgo de Moncorvo,demandando as veigas do Minho.O barco de carreira entre a foz do Sabor e a do Tua- ponto terminal, nesse tempo, da linha férrea doDouro - partia do Rego da Barca, pelas duas horasda madrugada, às terças e sextas-feiras. E foiprecisamente numa sexta-feira de Setembro que eu,cavalgando ao lado de meu pai, desci pela estradada Vilariça, em direitura ao cais de embarque. Mer-gulhava o sol atrás da serra da Lousa quando meapeei no pequeno largo da povoação, onde os meusolhos infantis puderam contemplar, curiosamente,os viajantes que iam chegando: uns a pé, - os demais cerca; outros, os que provinham lá de cima, donorte do concelho, das terras de Mogadouro e deMiranda, bifurcados em machos ou jericos, a malade viagem à garupa e os alforjes repletos de sacasde chita, uma das quais, a mais obesa e melhoracautelada, era o farnel.Pouco a pouco, foi-se enchendo a única hospedariado lugarejo, instalada numa casa de andar, para cujagrande sala, simultâneamente de reunião e decomer, dava ingresso grosseira escada exteriordesembocando num balcão alpendrado. Vinha a
  2. 2. noite, fomos todos para a mesa, onde fumegava asopa. Vazios os pratos, entraram em acção as saco-las da merenda. A casa era mais albergue querestaurante, cozinhando apenas duas bebidas: asopa e o chá. De resto, quem viesse comeria do quetrouxesse. O certo é que ninguém ficou com fome,e a refeição resultou variadíssima porque, além deserem os farnéis abundantemente providos, logo seestabeleceu entre os comensais tão sem-cerimoniosa familiaridade, que não houve resistir-se à insistência obsequiosa de aquela boa gentetransmontana, para que nos servíssemos das suasiguarias.A hora em que, no silêncio da noite, ecoou a buzinado arrais anunciando a partida, já todos éramoscomo amigos velhos. Pôs-se ponto à pequena festaque sucedera à ceia, - um bailarico improvisado emque, ao compasso de duas guitarras e outros tantosviolões, os rapazes se haviam deliciado polcandocom ardor, enquanto os velhos jogavam a manilha eas matronas e as crianças dormitavam. Largoucarreiro abaixo o grupo dos forasteiros, de essa vezbastante numeroso, em linha como as formigas,malas na mão, sacas ao ombro, atrás do moço daestalagem que marchava na testa erguendo umlampião. Ao fundo do areal, a sombra do compridorabelo dava a impressão de um animal antedilu-viano encalhado ali. Saltámos para dentro. Cadaqual procurou lugar, ao sabor das suas predilecções,na grande bancada que circundava a metade poste-rior do barco.. A meio, de frente para a proa, ficaram os melóma-
  3. 3. nos que haviam tido a feliz ideia de trazer os seusinstrumentos musicais, para aligeirarem a viagem.Apagaram-se as duas luzes de bordo, «que cega-vam os olhos - explicou o arrais - a quem precisavade ver no escuro». Os marinheiros toma¬ram osseus postos. - «Largai» bradou uma voz. Cravandoa ponta do croque na areia, um rapazote da tripula-ção fez finca-pé, afastando da margem a pesadabarcaça. - «Rema pra o pego!» mandou o patrão.Ouviram-se os remos a cair na água. E nada mais seescutou, depois, senão aquele chape-chape compas-sado e o murmúrio sinistro da corrente.Quem apurasse o ouvido, mais alguma coisa escu-taria: o sussurro das rezas. Ao aventurar-se no dorsoda torrente bravia e lodosa, onde os «pontos»abundavam e as arestas dos rochedos afloravamcom frequência, os passageiros, aterrorizados,entregavam-se nas mãos de Deus. E era bem umasensação de terror a que todos nós sentíamos,dentro de frágil e já carcomida construção demadeira, à tona de aquele «rio de mau navegar»,imersos em profunda escuridão, que uma neblinaténue tornava mais densa.A princípio, durante poucos minutos, avistaram-seainda algumas luzes, no Rego da Barca, na Foz doSabor. Mas logo, dada a volta do Monte Meão, seentrou na treva absoluta. As margens, até entãoespraiadas, erguiam-se quase a pique, negras,maciças, ameaçadoras, altas de centenas de metros:duas muralhas de crepe forrando um poço. E era nofundo de esse poço que seguíamos navegando,vendo apenas, no cairei altaneiro do abismo, lá
  4. 4. muito em cima, um retalho de céu cor de tinta,picado pelo lucilar de algumas estrelas.Ninguém falava. Todos nos conservávamos mudos,dominados por intransitivo sentimento de angústia.Felizmente, ao cabo de uma hora, as montanhasabriram, o rio dilatou-se, e surgiram aqui e ali asmanchas alvacentas de alguns areais. Como o hori-zonte era mais largo, e os olhos se iam acos-tumando ao negrume, percebiam-se as silhuetas dascasas de quinta alcandoradas pelas encostas, ossocalcos do vinhedo, os esquadrões das oliveirasdescendo, em carga cerrada, os pendores da mon-tanha. Gritos de aves de rapina, acordadas pelobater dos remos, estridulavam nos recôncavos. Euma que outra vez, chegavam até nós latidos decães e brados alegres dos guardadores das vinhas,saudando os passageiros e desejando-lhes boaviagem.Pouco a pouco, a serenidade ia voltando aos nossosespíritos. Já cortava o silêncio um cicio de conver-sas a meia voz. Algumas risadas soaram. E embreve a palestra se generalizou, até que uma vozpediu: - o senhores das guitarras! Quer-se umbocado de músicaElevou-se o ruído plangente das cordas de arame,logo secundado pelo dlon-dlon dos bordões.Alguém denunciou que uma senhora ali presenteera exímia cantadeira de fados. Choveram as súpli-cas. E uma voz de contralto, trémula ainda daemoção sofrida, subiu para as estrelas, dizendo asorte triste de quem sofre penas de amor.Foi nesta ocasião que reparei em certo rapazito,
  5. 5. pouco mais velho do que eu, sentado no lastro dobarco, quase sobre os meus pés. Perto dele, umvulto de mulher, acocorado nas tábuas húmidas,gemia. Meu pai, compadecido, interrogou:- Está incomodada, tiazinha?- Não, meu, senhor - respondeu ela, soerguendo-se,- Vou a chorar, também, a minha triste sorte.E com aquela comunicabilidade tão vulgar na genteda província, desenrolou toda a sua vida. Viúva,com quatro filhos, um deles ainda de peito. Aqueleque ia ali era o mais velho. Viviam miseràvelmente.Tudo quanto ganhavam, trabalhando de sol a sol, -nas ceifas, nas mondas, na apanha da azeitona ounas vindimas - mal chegava para a côdea docenteio. Aparecera lá na terra, uma aldeola dotermo da Alfândega da Fé, certo brasileiro rico quese apiedara da sua pobreza e se tinha prontificado aempregar-lhe o rapaz na Baía. Esse senhor - umsanto homem, não desfazendo - tornara para oBrasil havia dois meses, E o cachopo ia ter com ele,por esses mares de Cristo. Mas como a viagem eracara, e o dinheiro. pouco, ele arranjara-lhe passa-gem num veleiro a barca «Santa Quitéria», quepartia do Porto de ali a dois dias.- E é por isso que chora?- Pois não hei-de chorar, meu senhor?Ganhasse eu pão bastante pra os sustentar a todos,que não havia forças humanas que me arrancassemo rapaz dos braços!Nesta altura notámos que o barco atracava a umareal. As guitarras calaram-se. -«Que temos» ?- perguntou-se. E o arrais explicou: estávamos a
  6. 6. cem braças do Cachão da Valeira. Seria imprudên-cia tentar de noite esse arriscado passo. Ficaríamosali, portanto, até que o dia rompesse.-Contanto que não percamos o comboio! - disseuma senhora idosa, de mantilha preta.- Antes isso do que irmos todos ao charco!- contrapôs outro passageiro.E foi fatal vir a lume a história do célebre sinistrosucedido naquele sítio, havia já bastantes anos, masainda bem presente na memória de todos, em queperderam a vida seis pessoas, entre as quais uminglês tido e havido por habilíssimo nadador.Salvara-se apenas uma senhora, que a saia-balãofizera flutuar.As raparigas, que conheciam a saia-balão apenasdos figurinos antigos, riram-se, achando graçaàquela bóia improvisada. Depois, a animação caiu.Faltava ainda uma boa hora para o nascer do sol. Eos passageiros, aconchegados nos seus agasa¬lhos,aproveitaram a trégua passando pelo sono.Fui eu um dos poucos que permaneceram desper-tos. Impressionara-me muito aquela mãe chorandoo filho que partia para a América. E lembrava-me,com saudade intensa, da minha, que, igualmentelavada em lágrimas, se despedira de mim horasantes.- O menino vai também pra o Brasil? - perguntou orapazito acocorado a meus pés.- Felizmente não! -, respondi, sem pesar o egoísmocruel da resposta.- Por que é que diz: felizmente? - volveu ele, numainflexão muito meiga.
  7. 7. - Porque não tenho de passar o mar.O mar! Nunca eu o tinha visto. Mas imaginava-o,como toda a gente das serras, cheio de ondas altero-sas topetando o firmamento.Houve uma pausa. Depois, a voz infantil, mais doceainda, tornou:- Então o mar é assim bravo?- Muito bravo. E tu não tens medo de tearriscares em cima de ele?- Não, senhor. As ondas não me hão-de fazer mal.Minha mãe apegou-se com o Salvador do Mundo,pra que me defenda de elas.- Quem é o Salvador do Mundo?- Olhe, meu menino - explicou a mãe. É o santo queestá no altar de uma capelinha, além, no cimo daserra. Se fosse dia, via-se de aqui.Enfim, o firmamento tornou-se menos escuro.Uma ligeira tonalidade pálida o vinha tomando,desde as arribas de leste, espraiando-se lentamente,como tecido compacto cuja extremidade seembebesse num líquido e a acção da capilaridadefosse pouco a pouco humedecendo por igual. Nascristas das serranias a montante entraram derecortar-se, nítidos como repregos de teatro, asárvores e os penhascos. Para o poente, doiravam-seos visos escalvados, enquanto as vertentes setingiam de violeta. De instante para instante, a luzintensificava-se, fazendo avultar os relevos dapaisagem. Já lá no alto, a cavaleiro da montanha emfrente, se distinguia a cascata da Ola, saltando derocha em rocha, num filete de espuma. Os azinhei-ros das encostas tomavam atitudes hirtas, de galhos
  8. 8. abertos como braços de ermitães rezando. Doscasais dependurados pelas escarpas, ou coroandomoutas de verdura, subiam colunas de fumo. Umou outro rebanho de cabras saía dos currais e desciaos atalhos, chocalhando. Vinha de qualquerquebrada distante um toque de sino. E a aragem queentrara de soprar inclinava sobre a água a cabeleirarumorejante dos canaviais.Mas já o tom índigo dos últimos planos se dissol-via, dando lugar a um cor-de-rosa suave, logomudado em amarelo retinto. O oiro que tingia ospicos veio descendo até se esbater pelas margens dorio. Um pequeno brilhante, que era o solemergindo, cintilou nas cumeadas do Freixo.- Larga! - mandou de novo o arrais.Meia dúzia de remadas nervosas, - e o barcoabalou. Logo, tomado pela corrente impetuosa,começou de fugir como uma flecha. Entrávamos no«ponto» da Valeira. A água precipitava-se, escacho-ando, batendo como um aríete as rochas escaveira-das, refluindo em caprichosas volutas, atirando-secontra o costado da embarcação, que gemia sob oembate. Seguindo a depressão cavada pelos rede-moinhos no eixo do rio, o rabelo corria como numacalha. Sobre a ponte, o velho arrais, de semblanteadusto, olhos fitos na proa e músculos retesados,movia à direita e à esquerda a pesada espadela,guinando ora para o pego ora para a margem,procurando evitar os parcéis e manter-se no sinuosocanal, - na certeza de que o menor desvio seria oirremediável naufrágio. De repente, sentiu-se umapancada surda na quilha. Batêramos num penedo
  9. 9. submerso. Alguns passageiros, violentamenteprojectados, estatelaram-se no fundo da embarca-ção. Um golpe de água entrou, como vaga alterosa,molhando-nos a todos. E um brado uníssono deangústia vibrou no ar, ecoou nos penhascos dasarribas, ao mesmo tempo que nos erguíamos dosbancos.- Má raios! - gritou o arrais.E logo, imperativamente:- Tudo sentado já! Rema à esquerda! Cia à direita!O barco atravessou-se, oscilou, conseguiu libertar-se das garras agudas do granito. Metros abaixo,entrámos no «poço» do Salvador, tranquilo comoum lago. Estávamos salvos. No alto da escarpa, porcima das nossas cabeças, alvejava a ermida doSalvador do Mundo ...Duas horas depois, avistávamos o apeadeiro de S.Mamede do Tua, e a par dele, fumegando, umalocomotiva atrelada à longa fila de trens, negros esujos, que devia conduzir-nos vale do Douroabaixo. Desembarcámos. Todos? Não. A bordoficavam dois passageiros: a mulher da Alfândega eo filho.- Então não vêm! - berrou um de nós. - .Olhem que perdem o comboio!- Deixá-lo, meu senhor - tornou a mulherzinha, comuma expressão de resoluta firmeza. - Perdido sejaele pra sempre! Depois do que se passou lá em riba,na Valeira, pus-me a pensar que muito tolo é quemse arrisca em cima da água. A terra é bem melhor.
  10. 10. Dá-nos o pão enquanto vivemos, e só nos afogadepois de mortos. Em toda a parte se vive, havendosaúde e graça de Deus. Aquele susto que apanhá-mos foi um aviso do céu. Foi o Senhor Salvador doMundo a dizer-me os males que esperam o meufilho por lá. E é que já não vai! Torna pra casacomigo!- Mas olhe que lhe estraga o futuro! Sabe lá se eleainda viria a ser muito rico?- Antes quero vê-lo pobre como os escalrachos doque morto no mar, sem sepultura em sagrado!E repetia, com um acento de funda convicção: - Foium aviso do céu! Foi um aviso do céu! Lá ficou,abraçada ao rapaz, sentada na bordado barco, as grossas sapatorras de bezerro penden-tes sobre a areia ...Teria razão? Não teria? Houve, no grupo, quem serisse da pobre mulher. Esse riso, porém, deviasecar-se-lhe nos lábios, um mês depois, quando osjornais noticiaram ter ido a pique, em viagem doPorto para Pernambuco, a barcaSanta Quitéria.
  11. 11. Ficha Técnica:Título da obra: Ares da Minha SerraAutor: Campos MonteiroEdição: Livraria Figueirinhas - Porto 2ª Edição 5º MilharData: 1956

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