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Book saga

Apresentação com o conto «Saga», de sophia de mello Breyner Andressen.

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Book saga
O mar do Norte, verde e cinzento,
rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam
os rochedos escuros. Havia nesse começo
de tarde um vaivém incessante de aves
marítimas, as águas engrossavam
devagar, as nuvens empurradas pelo
vento sul acorriam e Hans viu que se
estava formando a tempestade. Mas ele
não temia a tempestade e, com os fatos
inchados de vento, caminhou até ao
extremo do promontório.
   O voo das gaivotas era cada vez mais
inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto
cada vez mais violentos e os longínquos
espaços escureciam. A tempestade, como      .
uma boa orquestra, afinava os seus
instrumentos.
Hans concentrava o seu espírito
                                                Nuvens sombrias enrolavam os anéis
para a exaltação crescente do grande
                                            enormes e, sob uma estranha luz,
cântico marítimo. Tudo nele estava
                                            simultaneamente sombria e cintilante, os
atento como quando escutava o cântico
                                            espaços se transfiguravam. De repente,
do órgão da igreja luterana, na igreja
                                            começou a chover.
austera, solene, apaixonada e fria.
                                                A família de Hans morava no interior
    Para resistir ao vento, estendeu-se
                                            da ilha. Ali, o rumor marítimo só em dias
ao    comprido      no    extremo     do
                                            de temporal, através da floresta
promontório. Dali via de frente o inchar
                                            longínqua, se ouvia.
da ondulação cada vez mais densa como
                                                Mas ele vinha muitas vezes até à
se as águas se fossem tornando mais
                                            pequena vila costeira e, esgueirando-se
pesadas.
                                            pelas ruelas, caminhava ao longo do
    Agora as gaivotas recolhiam a terra.
                                            cais, ao lado de botes e veleiros,
Só a procelária abria rente à vaga o voo
                                           .atravessava a praia e subia ao extremo
duro. À direita, as longas ervas
                                            do promontório. Ali, no respirar da vaga,
transparentes, dobradas pelo vento,
                                            ouvia o respirar indecifrado da sua
estendiam no chão o caule fino.
                                            própria paixão.
Nesse dia, quando ao cair da noite
entrou em casa, Hans curvou a cabeça.
Pois aos catorze anos já tinha quase a
altura de um homem e, em Vig, as portas
de entrada são baixas.
    Assim é desde o tempo antigo das
guerras quando os invasores que
ocupavam a ilha penetravam nas casas
de cabeça erguida mas exigiam que a
gente da ilha se curvasse para os saudar.
Então, os homens de Vig baixaram o
lintel das suas portas para obrigarem o
vencedor a baixar a cabeça.
    Sören, pai de Hans, era um homem
alto, magro, com os olhos cor de
porcelana azul, os traços secos e belas
mãos sensíveis que mais tarde, durante
gerações, os seus descendentes
herdaram. Nele, como na igreja
luterana, havia algo de austero e solene,       Os seus irmãos mais novos - Gustav e
apaixonado e frio. À casa e à família       Niels - tinham morrido no naufrágio de
imprimia uma inominada lei de silêncio      um veleiro que lhe pertencia. Sören sabia
e reserva onde o espírito de cada um        que o seu barco era um bom barco onde
concentrava a sua força. De certa forma     ele próprio inspecionara com minúcia
Sören reconhecia o risco que corria:        cada cabo e cada tábua, sabia que os seus
sabia que é no silêncio que se escuta o     jovens irmãos eram perfeitos homens do
tumulto, é no silêncio que o desafio se     mar e hábil e competente o capitão a
concentra. Mas ele impunha a si mesmo       quem tudo entregara. No entanto, o navio
e aos outros uma disciplina de              naufragou quando a experiência e o
responsabilidade e de escolha dentro da     cálculo não mediram exatamente a força
qual cada um ficava terrivelmente livre.    e a proximidade do temporal.
Havia porém algo de taciturno e ansioso
em Sören: ele pensava talvez que a
integridade humana, mesmo a mais
perfeita, nada podia contra o destino. Do
dever cumprido, da liberdade assumida,
não esperava sucesso nem prosperidade,
nem mesmo paz.
Mal a notícia do naufrágio foi                 Queria navegar para o Sul. Imaginava
confirmada pelo cargueiro inglês que dois    as grandes solidões do oceano, o surgir
dias depois recolhera ao largo os            solene dos promontórios, as praias onde
destroços do veleiro desmantelado - o        baloiçam coqueiros e onde chega até ao
mastro partido, as boias, o bote virado -    mar a respiração dos desertos. Imaginava
Sören vendeu os seus barcos e comprou        as ilhas de coral azul que são como os
terras no interior da ilha. Dizia-se mesmo   olhos azuis do mar. Imaginava o tumulto,
que nunca mais olhara o mar. Dizia-se        o calor, o cheiro a canela e laranja das
mesmo que nesse dia tinha chicoteado o       terras meridionais.
mar. No entanto Hans suspirava e nas              Queria ser um daqueles homens que a
longas noites de inverno procurava           bordo do seu barco viviam rente ao
ouvir, quando o vento soprava do             maravilhamento e ao pavor, um daqueles
sul, entre o sussurrar dos abetos, o         homens de andar baloiçado, com a cara
distante,     adivinhado,      rumor    da   queimada por mil sóis, a roupa desbotada
rebentação. Carregado de imaginações         . rija de sal, o corpo direito como um
                                             e
queria ser, como os seus tios e              mastro, os ombros largos de remar e o
avós, marinheiro. Não para navegar           peito dilatado pela respiração dos
apenas entre as ilhas e as costas do         temporais. Um daqueles homens cuja
Norte, seguindo nas ondas frias os           ausência era sonhada e cujo regresso,
cardumes de peixe.

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Book saga

  • 2. O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo de tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com os fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontório. O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como . uma boa orquestra, afinava os seus instrumentos.
  • 3. Hans concentrava o seu espírito Nuvens sombrias enrolavam os anéis para a exaltação crescente do grande enormes e, sob uma estranha luz, cântico marítimo. Tudo nele estava simultaneamente sombria e cintilante, os atento como quando escutava o cântico espaços se transfiguravam. De repente, do órgão da igreja luterana, na igreja começou a chover. austera, solene, apaixonada e fria. A família de Hans morava no interior Para resistir ao vento, estendeu-se da ilha. Ali, o rumor marítimo só em dias ao comprido no extremo do de temporal, através da floresta promontório. Dali via de frente o inchar longínqua, se ouvia. da ondulação cada vez mais densa como Mas ele vinha muitas vezes até à se as águas se fossem tornando mais pequena vila costeira e, esgueirando-se pesadas. pelas ruelas, caminhava ao longo do Agora as gaivotas recolhiam a terra. cais, ao lado de botes e veleiros, Só a procelária abria rente à vaga o voo .atravessava a praia e subia ao extremo duro. À direita, as longas ervas do promontório. Ali, no respirar da vaga, transparentes, dobradas pelo vento, ouvia o respirar indecifrado da sua estendiam no chão o caule fino. própria paixão.
  • 4. Nesse dia, quando ao cair da noite entrou em casa, Hans curvou a cabeça. Pois aos catorze anos já tinha quase a altura de um homem e, em Vig, as portas de entrada são baixas. Assim é desde o tempo antigo das guerras quando os invasores que ocupavam a ilha penetravam nas casas de cabeça erguida mas exigiam que a gente da ilha se curvasse para os saudar. Então, os homens de Vig baixaram o lintel das suas portas para obrigarem o vencedor a baixar a cabeça. Sören, pai de Hans, era um homem alto, magro, com os olhos cor de porcelana azul, os traços secos e belas mãos sensíveis que mais tarde, durante gerações, os seus descendentes herdaram. Nele, como na igreja
  • 5. luterana, havia algo de austero e solene, Os seus irmãos mais novos - Gustav e apaixonado e frio. À casa e à família Niels - tinham morrido no naufrágio de imprimia uma inominada lei de silêncio um veleiro que lhe pertencia. Sören sabia e reserva onde o espírito de cada um que o seu barco era um bom barco onde concentrava a sua força. De certa forma ele próprio inspecionara com minúcia Sören reconhecia o risco que corria: cada cabo e cada tábua, sabia que os seus sabia que é no silêncio que se escuta o jovens irmãos eram perfeitos homens do tumulto, é no silêncio que o desafio se mar e hábil e competente o capitão a concentra. Mas ele impunha a si mesmo quem tudo entregara. No entanto, o navio e aos outros uma disciplina de naufragou quando a experiência e o responsabilidade e de escolha dentro da cálculo não mediram exatamente a força qual cada um ficava terrivelmente livre. e a proximidade do temporal. Havia porém algo de taciturno e ansioso em Sören: ele pensava talvez que a integridade humana, mesmo a mais perfeita, nada podia contra o destino. Do dever cumprido, da liberdade assumida, não esperava sucesso nem prosperidade, nem mesmo paz.
  • 6. Mal a notícia do naufrágio foi Queria navegar para o Sul. Imaginava confirmada pelo cargueiro inglês que dois as grandes solidões do oceano, o surgir dias depois recolhera ao largo os solene dos promontórios, as praias onde destroços do veleiro desmantelado - o baloiçam coqueiros e onde chega até ao mastro partido, as boias, o bote virado - mar a respiração dos desertos. Imaginava Sören vendeu os seus barcos e comprou as ilhas de coral azul que são como os terras no interior da ilha. Dizia-se mesmo olhos azuis do mar. Imaginava o tumulto, que nunca mais olhara o mar. Dizia-se o calor, o cheiro a canela e laranja das mesmo que nesse dia tinha chicoteado o terras meridionais. mar. No entanto Hans suspirava e nas Queria ser um daqueles homens que a longas noites de inverno procurava bordo do seu barco viviam rente ao ouvir, quando o vento soprava do maravilhamento e ao pavor, um daqueles sul, entre o sussurrar dos abetos, o homens de andar baloiçado, com a cara distante, adivinhado, rumor da queimada por mil sóis, a roupa desbotada rebentação. Carregado de imaginações . rija de sal, o corpo direito como um e queria ser, como os seus tios e mastro, os ombros largos de remar e o avós, marinheiro. Não para navegar peito dilatado pela respiração dos apenas entre as ilhas e as costas do temporais. Um daqueles homens cuja Norte, seguindo nas ondas frias os ausência era sonhada e cujo regresso, cardumes de peixe.
  • 7. mal o navio ao longe se avistava, fazia acorrer ao cais as mulheres e as crianças de Vig e a história que eles contavam era repetida e contada de boca em boca, de geração em geração, como se cada um a tivesse vivido. Sören e Maria jantavam com os filhos, Hans e Cristina, em redor do círculo luminoso da lâmpada. Lá fora as madeiras da janela batiam, através da floresta arfava o rumor marinho da tempestade. Por entre as agulhas dos pinheiros e os ramos das bétulas perpassavam ecos, sibilâncias, gritos e, contra o céu baixo de nuvens, ressoava o longínquo tumulto da rebentação. - Sören, que notícias ouviste hoje na vila? - perguntou Maria.
  • 8. - Más notícias. O Elseneur devia ter entrado a barra a meio da tarde mas, ao pôr-do-sol, ainda não se avistava. Vão ser obrigados a passar o temporal e a noite no mar. - É um bom barco - disse Hans que conhecia o Elseneur palmo a palmo. - É um navio que aguenta muito mar. - Deus os guarde - murmurou Nenhum homem se salvou. O vento Maria. Pois o Elseneur era o melhor espalhou os gritos no clamor da escuridão navio de Vig e a sua tripulação era selvagem, a força das braçadas desfez-se formada por gente da ilha, homens nos redemoinhos, a água tapou as bocas. jovens que ela conhecia desde o berço, Nem os que treparam aos mastros se ou velhos lobos-do-mar que a salvaram, nem os que se meteram nos conheciam desde a própria infância. .botes, nem os que nadaram para terra. O Porém, nessa noite, enquanto Hans mar quebrou tábua por tábua o casco, os dormia, o Elseneur naufragou contra os mastros, os botes e os marinheiros foram rochedos negros das falésias rolados entre a pedra e a vaga.
  • 9. Estas foram as notícias que as criadas Um instante passou, pesado como um de manhã trouxeram do mercado. longo tempo. Finalmente Sören falou: Nesse dia, à noite, depois do jantar, - Hoje escrevi para Copenhaga. No fim quando a mulher e a filha se levantaram deste Verão vais para lá estudar. Escolhe da mesa, Sören continuou sentado e o que queres estudar. disse a Hans: - Quero ser marinheiro - respondeu - Fica. Hans. Hans apoiou-se ao grande armário de - Não. Escolhe outra coisa. Podes madeira lavrada, fora do círculo da luz estudar leis ou medicina ou engenharia. da lâmpada, semioculto na penumbra. Lá - Quero ser capitão de um navio. fora continuava o mau tempo e a Sören poisou as mãos sobre a mesa sob a ventania sacudia as portadas fechadas. luz branca e direta da lâmpada. Hans - Senta-te - ordenou Sören. mais uma vez viu como elas eram belas, Hans avançando, entrou no círculo da luz, e sentou-se em frente de Sören e .belas e e contida paixão. No entanto, austera penetradas de domínio em sua fitou o branco da toalha. nesse momento, tremiam um pouco e Quando o vento parava, ouvia-se um Sören apertava-as uma contra a outra tilintar de loiça no interior da casa. enquanto falava.
  • 10. - Ouve - disse ele. - Esta manhã fui ao Hans fitou a toalha. Baixo e devagar, lugar do naufrágio, à Ponta do Norte. Fui respondeu: acompanhar Knud que ia em busca do - Não posso. corpo dos seus dois filhos. O mar já tinha Sören apertou uma contra a outra as atirado muitos dos corpos para a praia. mãos, levantou-se em silêncio e saiu sem Mas estavam quase todos completamente fechar a porta. Sob os seus passos desfigurados de tanto terem sido batidos ouviram-se gemer os degraus da escada. contra os rochedos da falésia. A praia Depois, no interior da casa, soou o tilintar estava cheia de gente. Cada um procurava da loiça e subiu um riso de mulher. Hans os seus mortos. Knud só pôde reconhecer estava de pé na penumbra, encostado ao os filhos pelo anel de prata que ambos armário de madeira lavrada. usavam no terceiro dedo da mão direita. Lá fora o vento fazia ressoar todas as Disse: “Maldito seja o mar”. Não hás de suas harpas. ser marinheiro, Hans. Escolhe outro Em agosto, chegou a Vig, vindo da . ofício. Não quero amaldiçoar o mundo Noruega, um cargueiro inglês que se onde nasci nem acusar o Deus que me chamava Angus e seguia para o Sul. O criou. Muda de ideias. Promete-me que capitão era um homem de barba ruiva e nunca serás homem do mar. Dá-me a tua aspeto terrível que navegara até aos palavra. mares da China. Foi no Angus que Hans
  • 11. Depois atravessaram as tempestades da fugiu de Vig, alistado como grumete. Biscaia. Ali a vaga media dez metros e a Navegaram primeiro com bom água tornara-se espessa, pesada e brutal tempo e o veleiro corria esticado no em seu cinzento metálico. Todas as vento. Unido ao balanço, Hans, enquanto madeiras gemiam como se fossem lavava o convés, polia os metais ou despedaçar-se e sentia-se a tensão dos enrolava os cabos, aspirava a veemência cabos repuxados. As ondas varriam o da vasta respiração marítima. Os seus convés e o navio, ora erguido na crista da ouvidos escutavam a força viva do navio vaga ora caindo pesadamente, parecia a que galgando a onda reencontrava o cada instante tocar seu ponto de rutura e equilíbrio sobre o desequilíbrio das desmantelamento. Mas Hans sentia a águas. elasticidade do barco, a sua precisão de extremo a extremo e o equilíbrio que, entre vaga e contravaga, não se . rompia. Mais tarde os navios de Hans nunca naufragaram.
  • 12. Contornaram a terra, navegaram para o sul e, ao cair de uma tarde, penetraram sob o arco das gaivotas, na barra estreita de um rio esverdeado e turvo, flutuante de imagens entre as margens cavadas. À esquerda, subindo a vertente, erguia-se o casario branco, amarelo e vermelho, misturado com os escuros granitos. Na luz vermelha do poente a Hans amou desde o primeiro cidade parecia carregada de momento a respiração rouca da memórias, insondavelmente cidade, o colorido intenso e antiga, feérica e magnetizada, com todos sombrio, o arvoredo murmurante e os vidros das suas janelas cintilando. espesso, o verde espelhado do rio. Na Animava-a uma veemência indistinta estrada que corria junto às margens que aqui e além aflorava em viam-se bois enfeitados e ecos, rumores, perpassar de vultos, gritos vermelhos, puxando carros de madeira longínquos e perdidos, reflexo de luzes que chiavam sob o peso de sobre o rio. pipas, pedra e areias.
  • 13. O navio demorou-se vários dias no Hans, sozinho, no meio do círculo cais, carregando e descarregando. Na vazio, suportou com um sorriso calmo o véspera da partida entre Hans e o capitão rosto irado que o fitava. Houve um levantou-se uma furiosa querela. pesado silêncio. Hans estava de pé no cais, vestido - Despe isso - gritou o capitão. - Aqui com uma pele de urso branco que não é um circo. encontrara no porão. No centro de um Hans, devagar, com um sorriso círculo de marinheiros, que batiam petulante, despiu a pele do urso e palmas para marcar o ritmo, dançava e estendeu-a a outro grumete, dizendo: - ria sacudindo uma pandeireta. Juntava-se Toma, meu pajem, leva o meu manto. gente. Como se se tratasse de um circo E a pele, sem que nenhum braço se ambulante um grumete tirara o barrete e estendesse para a receber, caiu mole no estendia-o aos espectadores que chão. começavam a lançar moedas. A tarde - Aqui não é um teatro - disse o escorria sobre o rio. capitão, olhando Hans na cara. Foi esta cena que o capitão viu Hans sustentou o olhar e o seu sorriso quando, de súbito, irrompeu no convés. tornou-se duro e teimoso. A sua barba vermelha brilhava de fúria.
  • 14. - Apanha a pele - ordenou o capitão. Parou em frente dos ourives para olhar - E vai para bordo, tu e os outros todos as montras, à porta das adegas respirou a para bordo. frescura sombria e o cheiro do vinho No porão o capitão chicoteou Hans entornado. Caminhou ao longo do rio, na em frente dos homens calados. No fim margem onde as mulheres, descalças, disse-lhe: carregavam cestos de areia enquanto - Agora aprendeste a ter juízo. outras discutiam, aos magotes, cortando Mas nessa madrugada, em segredo, com grandes brados e largos gestos o ar Hans abandonou o navio. Caminhou ao liso da manhã. Penetrou nas igrejas de acaso na cidade desconhecida, perdido azulejo e talha que não eram claras e frias no som das palavras estrangeiras, como as igrejas do seu país, mas doiradas perdido na diferença dos sons, da luz, e sombrias, numa penumbra trémula de dos rostos e dos cheiros, carregando o velas onde negrumes e brilhos animavam seu pequeno saco, procurando nas ruas o o rosto das imagens que num incerto lado da sombra. Através de grades de . sorriso pareciam reconhecê-lo. Dormiu ferro pintadas de verde, espreitou o nos degraus de uma escada, sob os arcos interior sussurrante de insondáveis da praça, nos bancos do jardim público e jardins onde sob enormes arvoredos se as noites pareceram-lhe mornas e abriam trémulos junquilhos. transparentes.
  • 15. Hoyle era armador e negociava no transporte de vinho para os países do Assim, diz-se, terá vagueado quatro Norte. Vivia naquela cidade há trinta anos, dias, tonto de descobrimento, de espanto mas sempre como estrangeiro, sem e de solidão. Mas ao quinto dia o seu aprender decentemente a língua da terra ânimo quebrou-se. A língua estrangeira nem se habituar à sua comida. Só ao clima fechava em sua roda um círculo. De e aos vinhos se habituara. Para além das repente, reconheceu o seu exílio, a sua relações com empregados, criados e fraqueza. Foi então que um inglês alguns comerciantes não convivia com chamado Hoyle que morava para o lado indígenas. As suas relações e amizades do rio o encontrou, a chorar, encostado ao eram só com ingleses, só falava bem muro da sua quinta e lhe bateu com a mão inglês, só lia jornais ingleses e comia só no ombro e o levou consigo e o recolheu. comida inglesa com mostarda inglesa, na . casa mobilada com mesas, cadeiras, sua armários, camas e gravuras inglesas e onde pairava sempre um cheiro inglês a farmácia.
  • 16. Hans ficou a viver nessa casa, em Dois dias depois de ter recolhido parte como empregado, em parte como Hans, Hoyle levou-o ao centro da cidade e filho adotivo. comprou-lhe as roupas de que precisava e A sua adolescência cresceu entre os também papel e caneta. cais, os armazéns e os barcos, em Hans escreveu para casa: pediu com conversas com marinheiros embarcadiços ardor perdão da sua fuga, dizia as suas e comerciantes. De um barco ele sabia razões, as suas aventuras, o seu paradeiro. tudo desde o porão até ao cimo do mais Prometia que um dia voltaria a Vig e seria alto mastro. E, ora a bordo ora em terra, o capitão de um grande veleiro. ora debruçado nos bancos da escola sobre A resposta só veio meses depois. Era mapas e cálculos, ora mergulhado em uma carta da mãe. Leu: “Deus te perdoe, narrações de viagens, estudando, Hans, porque nos injuriaste e abandonaste. sonhando e praticando, ele preparava-se Manda-me o teu pai que te diga que não para cumprir o seu projeto: regressar a voltes a Vig pois não te receberá.” Vig como capitão de um navio, ser perdoado pelo pai e acolhido na casa.
  • 17. Depois dessa carta, Hans sonhou com No adolescente evadido ele via agora Vig muitas vezes. Era acordado de noite um reflexo da sua própria juventude pelo clamor de tempestades em que aventurosa que, há muito tempo, naquela naufragava à vista da ilha sem a poder cidade ancorara. Para ele, Hans era a sua atingir. Ou deslizava, ao lado do pai, num nova possibilidade, o destino outra vez grande lago gelado, rente à luz de cristal e oferecido, aquele que iria viver por ele a havia em seu redor um infinito silêncio, verdadeira vida, que nele, Hoyle, estava já uma transparência infinita, uma leveza e pedida como se o destino, tendo falhado uma felicidade sem nome. Mas outras seus propósitos, fizesse, com uma nova noites acordava chorando e soluçando, mocidade, uma nova tentativa. Assim, pois o seu pai era o capitão do navio e o Hans era para ele não o herdeiro daquilo chicoteava brutalmente no convés e ele que possuía e fizera mas antes o herdeiro fugia e de novo ficava sozinho e perdido daquilo que perdera. Por isso seguiu passo numa cidade estrangeira. a passo os estudos e a aprendizagem do Os anos passaram e Hans aprendeu a . adolescente, controlando a qualidade do arte de navegar e a arte de comerciar. ensino nas escolas onde o inscrevera e Hoyle nunca casara e, numa terra para ele vigiando a competência dos superiores sob estrangeira, não tinha família e as suas cujas ordens a bordo o colocava. raras amizades eram pouco íntimas.
  • 18. Aos 21 anos, já Hans era capitão de Escorrendo água do mar, estendido na um navio de Hoyle e homem de praia, afastado um pouco dos confiança nos seus negócios. companheiros, poisava sobre os ouvidos Assim, desde muito cedo, Hans dois grandes búzios brancos, rosados e conhecera as ilhas do Atlântico, as costas semitranslúcidos e pensava: “Um dia de África e do Brasil, os mares da China. levarei estes búzios para Vig.” E à noite, Manobrou velas e dirigiu a manobra das já a bordo, escrevia para casa uma longa velas, descarregou fardos e dirigiu o carta que falava de búzios do Índico. embarque e desembarque de mercadorias. Encostado à amurada do navio em Respirou o arfar dos temporais e a noite de luar e calmaria, com os olhos imensidão azul das calmarias. Caminhou postos no grande olhar magnético da lua em grandes praias brancas onde cujo rasto trémulo de brilho como o dorso baloiçavam coqueiros, rondou de um peixe cortava a escuridão estática promontórios e costas desertas, perdeu-se das águas, pensava: “Um dia contarei em nas ruelas das cidades desconhecidas, Vig este brilho, esta escuridão negociou nos portos e nas fronteiras. transparente, este silêncio.” No dia seguinte escrevia para casa, contando a noite, o mar, o luar.
  • 19. Num porto distante, sentado a cear na varanda da hospedaria, sob a luz das lanternas de cor, enquanto se deslumbrava com a beleza das loiças, com seus desenhos azuis e seu branco azulado e descobria o sabor sábio dos temperos exóticos, pensava: “Levarei “Deus te proteja e te dê para Vig esta loiça e estas especiarias saúde. Mas não voltes a para alegrar e aquecer as ceias do Vig porque o teu pai não Inverno.” E, no dia seguinte, escrevia para casa contando o azul das loiças, a te quer receber.” beleza das sedas e das lacas e as maravilhas do tempero. Mas, quando ao fim de longos meses regressou e Hoyle lhe entregou o correio chegado na sua . ausência, as cartas da mãe, em resposta às notícias que do cabo do mundo mandara, eram sempre a mesma mensagem:
  • 20. Quando estava já passada a sua À noite relatava a Hoyle as conversas primeira mocidade, um dia, à volta de que tivera, as decisões que tomara. uma das suas viagens, Hans encontrou Depois bebiam juntos um copo de vinho. o inglês doente. O mal atacara os seus A vida de Hans mais uma vez tinha olhos e a cegueira avançava rápida. virado. Já não eram as longas navegações - Hans - disse ele -, estou velho e até aos confins dos continentes, o avançar cego, já não posso tratar dos meus aventuroso ao longo de costas luxuriantes barcos, dos meus armazéns, dos meus e de costas desérticas, de povo em povo, negócios. Fica comigo. de baía em baía. Agora verificava a ordem Hans ficou. Deixou de ser dos armazéns, o bom estado dos navios, a empregado de Hoyle e tornou-se seu competência das equipagens, controlava sócio. Sentado em frente da pesada as cargas e descargas, discutia negócios e mesa de carvalho recebia os contratos. As suas viagens iam-se comerciantes, os chefes dos armazéns e tornando rápidas e espaçadas. os capitães de navio. As suas narinas E Hans compreendeu que, como tremiam quando no gabinete entravam todas as vidas, a sua vida não seria mais a gentes vindas de bordo. Porque deles sua própria vida, a que nele estava se desprendia cheiro a mar. A renúncia impaciente e latente, mas um misto de endurecia os seus músculos. encontro e desencontro, de
  • 21. desejo cumprido e desejo fracassado, fortuna não era nem a sua ambição, nem a embora, em rigor tudo fosse possível. E sua aventura nem o seu jogo e nela nada de compreendeu que as suas grandes si próprio envolvia. Enriquecia porque a vitórias seriam as que não tinha sua perceção e os seus cálculos estavam desejado e que, por isso, nem sequer certos. seriam vitórias. Algum tempo depois casou com a filha Escreveu ao pai. Disse-lhe que não de um general liberal que desembarcara no era mais um navegador entre as ondas Mindelo e cuja espada, mais tarde, e o vento. Que era um homem transitando de herança em herança, se estabelecido, em terra firme e que conservou na família. Escolheu Ana porque queria voltar a Vig. Foi a mãe que tinha a cara redonda e rosada e cheirava a respondeu à sua carta dizendo que o maçã como a primeira mulher criada e pai não o receberia. como a casa onde ele nascera, e porque o Associado ao inglês, Hans começou seu loiro de minhota lhe lembrava as a construir uma fortuna pessoal que tranças das mulheres de Vig. Pouco antes nunca tinha projetado. Era um homem do seu casamento Hoyle morrera e Hans de negócios hábil porque se apercebia fundara a sua própria firma cuja da natureza das coisas e da natureza prosperidade crescia. Era agora um homem das pessoas e negociava sem paixão. A rico e também respeitado e escutado.
  • 22. A sua honestidade era célebre e a sua palavra era de oiro. Parecia estar já inteiramente integrado na cidade onde, quase ainda criança, vagueara estrangeiro e perdido. Conhecia um por um os notáveis do burgo: ele próprio agora era um dos notáveis do burgo. Amava o rio, o granito das casas e calçadas, as enormes tílias inchadas de brisas, as cameleiras de folhas polidas que floriam desde novembro até maio. E foi no tempo das últimas camélias (vermelhas, pesadas e largas) que nasceu o seu primeiro filho. . Tinha sido decidido que a criança seria batizada no seu sétimo dia de vida e que, após o batizado, o primeiro navio de Hans seria lançado à água.
  • 23. Tudo se preparava para a festa - Vai, Sören, Deus te proteja e quando, na madrugada no sexto dia, o navega por todo o mar. recém-nascido adoeceu. Foi batizado de Nasceu o seu segundo filho no urgência recebendo o nome de Sören. tempo das primeiras camélias, em Foi Hans quem, dobrando o seu Novembro do seguinte ano. Era um corpo, colocou no caixão o pequeno rapaz grande e robusto e quando ele corpo deitado nas suas mãos abertas. começou a andar Hans, mais uma vez, Mas não deixou adiar o lançamento escreveu para Vig. E mais uma vez foi a do navio e no dia seguinte desceu a pé mãe que respondeu dizendo que o pai desde o cemitério até à doca. não o receberia. Na manhã de maio, as árvores Os anos foram passando e a riqueza estavam cheias de folhas novas, e ao de Hans continuava a crescer. Nasceram- longe, do outro lado da foz, a claridade lhe mais cinco filhos, três rapazes e duas brilhava na rebentação da praia, as raparigas. Aumentou também o número ondas sacudiam as crinas como cavalos .dos seus barcos e a extensão dos seus felizes e as gaivotas descreviam no céu negócios. grandes arcos festivos. Quando o navio começou a deslizar Hans disse:
  • 24. E de novo se multiplicaram as suas Já não era como se o barco fosse o viagens. Mas não eram já os seu corpo, como se o emergir das aventurosos caminhos da sua juventude: paisagens fosse a sua alma e o seu eram viagens de negociante que vai próprio rosto, como se o seu ser se estudar mercados, abrir sucursais, confundisse com as águas. estudar contratos e contactos. Porém A sua antiga fuga de Vig fora, de quando a bordo, à noite, sozinho à popa, certa forma, inútil. Nem a traição lhe dera olhando o rasto branco da espuma, o seu destino. respirava o vento salgado, ou quando no E entre negócios e nostalgia, viagens seu beliche sentia o bater das ondas no e empreendimentos se foram os anos casco, às vezes, de súbito, reencontrava passando. No entanto parecia a Hans que a voz, a fala do seu destino. Mas era só algo em sua vida, embora fosse já tão o fantasma do seu destino. Em rigor ele tarde, era ainda espera e espaço aberto, já não era quem era e tinha encalhado possibilidade. em sua própria vida. Já não era o . Quando a mãe morreu, mais uma vez navegador que no barco e no mar está ele escreveu ao pai. Mas do pai nunca em sua própria casa, mas apenas o veio resposta e foi então que Hans viajante que por uns tempos deixou a compreendeu que jamais regressaria a sua própria casa aonde vai regressar. Já Vig.
  • 25. Hans mandou fazer grandes obras. Da Boémia vieram os vidros de cristal lavrado das portas, semitransparentes e semifoscas e tendo gravadas as suas iniciais, vieram os copos, jarras, jarros, taças e compoteiras cuja transparência brilhava e tilintava em Passados alguns meses comprou almoços e jantares. Da Alemanha, da urna quinta que do alto de uma pequena França, de Itália vieram as sedas e os colina descia até ao cais da saída da veludos dos cortinados e os móveis à última barra. Entrava-se na quinta, pelo lado moda e muito do vinho das garrafeiras, dos campos, por um portão de ferro vinho do Reno e Mosela e vinho tinto da que, depois de o passarmos, ao fechar- Borgonha, vinho de Champagne e vinho de se batia pesadamente. Itália, alinhados por ordem de origem ao Em frente, surgia a casa, enorme, lado dos vinhos do Douro e da Madeira. desmedida, com altas janelas, largas Muito mais tarde, nessas caves quase vazias portas e a ampla escadaria de granito, e cheias de teias de aranha e sustos, os netos abrindo em leque. Na parte de trás, de Hans, às escondidas das mestras e corria uma longa varanda debruçada criadas, divagaram em explorações sobre os roseirais do poente. sonhadoras. Mas naquele tempo chegavam sem cessar
  • 26. coisas novas: o enorme bilhar com as Mas o grande maravilhamento das bolas de marfim encarnadas e brancas crianças era uma caixa retangular e alta e onde vieram jogar todos os campeões para dentro da qual se espreitava através da região, o piano de cauda, onde de dois óculos. Lá dentro viam-se, em tocaram meninas prendadas, mas relevo e a cores, cenas de óperas e também verdadeiros pianistas, os bailados. Fazia-se girar um botão e as espelhos de fundo esverdeado, as caixas cenas mudavam. E durante horas as de laca com os tentos de crianças espreitavam, pois os óculos eram madrepérola, os quadros de um para elas janelas abertas para o jardim de realismo romântico onde se viam um outro mundo, um mundo onde campos, aldeias, pontes e camponesas princesas, caçadores, pajens e bailarinas sonhadoras, vestidas à moda da viviam misteriosos enredos, um mundo Calábria. Chegavam real e inacessível como o verdadeiro lustres, bustos, estátuas e o enorme destino de cada um. globo terrestre onde os filhos e os netos . Tudo na casa era desmedidamente cismaram a geografia. grande desde os quartos de dormir onde as crianças andavam de bicicleta até ao enorme átrio para o qual davam todas as
  • 27. das rosas, do brilho das pratas do tilintar de salas e no qual, como Hans dizia, se copos e talheres. Entretanto, à medida que poderia armar o esqueleto da baleia que a vida ia cumprindo os seus há anos repousava, empacotado em ciclos, noivados, casamentos, nascimentos, numerosos volumes, nas caves da batizados iam povoando a casa de azáfama Faculdade de Ciências por não haver e festas, animando e dramatizando os lugar onde coubesse armado. dias, reajustando as relações dos Agora que os filhos cresciam, Hans personagens como num gostava dos longos jantares. Além da caleidoscópio, quando, num clic, se família, sempre havia amigos e reajustam as relações das figuras. convidados, muitos deles gente de Os filhos tinham crescido. As quatro passagem, capitães de navios, Estações giravam. negociantes, músicos que vinham dar De súbito, Hans não reconhecia o concertos na cidade. Hans precisava da tempo. Como alguém que distraído deixa diversidade das companhias, de passar a hora em que devia comparecer em conversas que lhe trouxessem um eco de . determinado jardim e se espanta que seja já terras e vidas diferentes. E gostava da tão tarde, assim agora ele se espantava animação das vozes, da abundância e da como se não tivesse à passagem qualidade das comidas, da excelência reconhecido os dias e, por descuido, tivesse dos vinhos, da frescura e da beleza deixado passar os anos sem comparecer à
  • 28. sua própria vida. E não sabia bem Depois o seu pensamento derivava e a como tanto se atrasara, encalhado em alta proa do grande navio avançava com hábitos, afazeres e demoras sem jamais terra à vista ao longo de praias desertas. surgir, assomar, à proa do navio, no O cheiro de África penetrava o seu peito. horizonte de Vig. Faltava algo que lhe Via as florestas, as embocaduras, ouvia era devido. gemer os mastros. Dispersas memórias E agora deitava-se tarde. Quando os irrompiam: sob a vasta noite atlântica convidados saíam e a casa adormecia, estava deitado no convés com o brilho ficava sozinho no átrio, sentado à mesa das estrelas sobre o rosto, ouvindo o redonda onde se empilhavam as revistas bater do mar no barco e o bater das velas do mês e os jornais da semana. Folheava inchadas e, sobre o seu corpo, corriam o Times, via as cotações da Bolsa de brisas e alísios salgados e, brandamente, Londres, programava e meditava os seus penetrava no interior do universo e da próprios empreendimentos. Pensava na noite. Estava sentado num pequeno muro mulher, nos filhos que tinham crescido, e .em frente do cais de um porto chinês que, ao crescer se tinham ido definindo, onde juncos e faluas se cruzavam, enquanto ele, atentamente, procurava enfeitados de cores vivas, cheias de neles parecenças - ecos de memórias, vozes, luzes e música: e as cores e as sombras de rostos amados e perdidos. luzes refletiam-se deslizando nas águas
  • 29. e as vozes e as músicas flutuavam no os navios avançavam para a ilha. Grandes ar pesado e leve das noites. E no souk velas côncavas e abertas, negros cascos de Marrocos um rapaz sentado no chão cortando as águas frias. Vozes roucas no respirava uma rosa. Sentia ainda a cais, cabos puxados, amarras, azáfama do frescura do leite e a doçura das tâmaras atracar, dedilhar de água nas pedras, que lhe tinham oferecido à chegada e vaivém de botes. Descarga, roldanas, como então descobriu um luxo que não manobras, ordens. E um por um, nimbados era a pesada riqueza da Europa, mas de sal e distância, queimados pelo vento e era silêncio e rumor de água e o pelo sol, altos homens de largos ombros cerimonial das vozes, das palavras e desembarcavam na tarde fria e, daí a dos gestos. E no canto do átrio vazio poucas horas, já de boca em boca, de casa cismava vagamente, nem sequer em casa, corria a notícia das suas sabendo que cismava, debruçado sobre pescarias, das tempestades atravessadas, papeladas, contas e jornais ingleses. das singraduras percorridas, dos perigos, Mas de súbito estremecia e passava . medos e maravilhas que tinham para além do próprio cismar: a encontrado. E daí em diante a sua história memória de Vig subia à flor do mar. Os seria contada junto ao lume dos longos nevoeiros marítimos invadiam a sua Invernos e, cismada por crianças, sonhada respiração. Desde o horizonte por
  • 30. por adolescentes, entraria no grande Nas cerejas brancas havia um leve sabor espaço mítico que é a alma da vida. a amêndoa, um levíssimo travo amargo Mas dele, Hans, burguês próspero, cortando a doçura sumarenta da polpa. comerciante competente, que nem se Em novembro as primeiras camélias perdera na tempestade nem regressara ao eram de um rosa pálido e transparente e cais, nunca ninguém contaria a história, mantinham-se direitas e rijas na haste. nem de geração em geração, se cantaria a Os seus troncos largavam nos dedos um saga. Fechou os livros de contas, dobrou pó escuro que as crianças limpavam ao os jornais, levantou-se pesadamente e bibe. atravessou como estrangeiro a sua casa. E ritmados pelas quatro estações, os anos Vagos os espelhos luziam nas penumbras. passavam e, como as tílias e os Neles uma pesada imagem sua, não pomares, a nova geração de crianças reconhecida, passava. Porém em redor da crescia. No fundo da quinta, para os casa os anos faziam crescer os jardins e lados da barra, Hans mandou construir pomares. As cerejas brancas e as camélias . uma torre. Segundo disse para ver a da quinta tornaram-se entrada e a saída dos seus barcos. Daí em célebres. diante, de vez em quando, à tarde, em vez de trabalhar no escritório, trabalhava no quarto da torre onde recebia os
  • 31. Daí em diante, de vez em quando, à do horizonte marinho. - Avô - disse tarde, em vez de trabalhar no escritório, Joana - porque é que está sempre a trabalhava no quarto da torre onde olhar para o mar? recebia os empregados e as pessoas que o - Ah! - respondeu Hans. - Porque o procuravam. Consigo às vezes levava mar é o caminho para a minha casa. Joana, a neta mais velha, que achava na - E os anos começaram a passar muito torre grande aventura e mistério, e a depressa. E uma certa irrealidade quem ele ensinava o nome e a história começou a crescer. dos navios. Depois, quando queria - Hans agora já não viajava. Estava trabalhar, dava à neta lápis e papel para velho como um barco que não que ela desenhasse enquanto ele se navegava mais e prancha por prancha debruçava sobre contratos, cartas, livros, se vai desmantelando. Tinha as mãos contas, relatórios. Mas Joana desenhava um pouco trémulas, o azul dos olhos pouco. Levantava a cabeça e fitava intensamente Hans pois algo na sua cara a .desbotado, fundas rugas lhe cavavam a testa, os cabelos e as compridas suíças fascinava e inquietava. E via então que estavam completamente brancas. Mas também ele não trabalhava: para além da era um velho imponente e terrível, alto barra, para além da rebentação, os seus e direito em seu pesado andar, olhos fitavam os verdes azuis autoritário nas ordens que dava e
  • 32. sempre um pouco impaciente e taciturno. Quase até ao fim todos esperaram que Quando adoeceu para morrer, ia o homem robusto sacudisse a doença. novembro perto do fim. Durante seis dias, Hans sereno e As camélias brancas estavam em consciente pareceu resistir. Mas ao sétimo flor, levemente rosadas, macias, dia a febre subiu, a respiração começou a transparentes. Algumas lhe trouxeram ao ser difícil e na sua atenção algo se alterou. quarto, apanhadas à beira do roseiral. No quarto o ambiente tornou-se Num tempo ainda sem radiografias sussurrado, com luzes veladas e gestos morria em casa à maneira antiga, de uma silenciosos como se cada pessoa tivesse doença incertamente diagnosticada, medo de quebrar qualquer fio. rodeado pela mulher, pelos filhos, por Ao cair da noite, Hans - que durante criados antigos e médicos e enfermeiros. longas horas parecera semiadormecido - A incerteza do diagnóstico era, de certa abriu os olhos e chamou. forma, uma misericórdia. . A mulher e os filhos debruçaram-se sobre ele para o ouvir. - Quando eu morrer - pediu Hans - mandem construir um navio em cima da minha sepultura.
  • 33. - Um navio? - murmurou o filho mais velho. - Um navio como? - Naufragado - disse Hans. E, até morrer, não falou mais. Talvez Hans estivesse já delirante quando pronunciou as últimas palavras, pensou-se. No entanto o pedido foi cumprido. Hans foi enterrado no lado sul do cemitério, no terreno reservado aos protestantes. Daí se vê o rio, a barra, o mar e, ao longo das avenidas, os plátanos arrastam no outono as suas folhas. Em pedra e bronze, com mastros . quebrados e velas rasgadas, o navio foi construído sobre a campa de Hans.
  • 34. Este estranho jazigo que entre lápides, bustos, anjos de pedra, canteiros e piedosas cruzes tinha algo de arrebatado e selvático, tornou-se depressa um dos monumentos famosos da cidade e vinha gente das redondezas para o ver. A sua enorme sombra inquieta quem passe sozinho na avenida dos plátanos e muitos perguntam porquê tão estranha sepultura. Porém é nesse navio que, nas noites de temporal, Hans sai a barra e navega para o Norte, para Vig, a ilha. . Fim.
  • 35. «Saga» Sophia de Mello Breyner Andresen