VONTADE DE VENCER
O QUE FAZER PARA MELHORAR SUA VIDA NO TRABALHO?
THIAGO VENDITELLI CURY
VONTADE DE VENCER
O QUE FAZER PARA MELHORAR SUA VIDA NO TRABALHO?
Mídia Alternativa Comunicação e Editora
São Paulo
2007
Realização:
Midia Alternativa Comunicação
Diagramação:
Beto Muniz
Capa:
Douglas de Souza
Mídia Alternativa Comunicação e Editora
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SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
V988v
Cury, Thiago Venditelli, 1985 -
Vontade de vencer: o que fazer para melhorar sua vida no trabalho /
Thiago Venditelli Cury. - São Paulo : Mídia Alternativa, 2007.
150p.:il.
ISBN 978-85-98567-11-2
1. Relações trabalhistas.
2. Profissões - Desenvolvimento.
3. Ambiente de trabalho.
I. Título.
07-1912. CDD: 650.13
CDU: 65.012:61
17.05.07 25.05.07 001899
AGRADECIMENTOS
Agradeço, em primeiro lugar, a Deus, que me deu
forçasparaseguiremfrente,protegendo-meeiluminando
minha vida; mesmo com todas as pedras que surgiram
emmeucaminho,conseguicontinuarminhajornadacom
fé e esperança. Em segundo lugar, aos meus pais, Tufik
Cury Neto e Ana Lucia Venditelli Cury, que me
proporcionarammuitosmomentosfelizeseaprendizados
durante a minha vida, pois, quando eu mais precisei de
apoio, forças e orações, eles estavam lá, ao meu lado.
Em terceiro lugar, aos meus avós, que mesmo
cansados pela idade avançada, nunca me negaram um
ensinamento ou uma palavra de apoio numa hora difícil.
Emparticular,agradeçoaoapoioespiritualquemeuavô,
já falecido, me proporciona todos os dias. Sei que sua
missão em terra foi cumprida, e, agora, ele continua
olhandopelasuafamíliadeumlugarmaiselevado,onde
não há brigas nem intrigas, não há falsidade nem
inimizade e todos se unem por um bem maior.
E, por fim, não poderia deixar de agradecer aos
meusamigosque,alémdeseremfontedeinspiraçãopara
as minhas idéias, ajudaram-me com opiniões, críticas,
elogios e muitas risadas.
Obrigado a todos que estiveram ao meu lado
durante esta jornada.
E nunca se esqueçam: aconteça o que acontecer,
semprevaleapenarecomeçar,deumamaneiradiferente.
Agradeço em especial a todos os leitores. Espero
que possam tirar proveito deste livro e levar para suas
vidas uma nova luz, um novo brilho.
Sucesso a todos!
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ......................................................................................... 9
CAPÍTULO UM ....................................................................................... 11
CAPÍTULO DOIS ................................................................................... 19
CAPÍTULO TRÊS .................................................................................. 27
CAPÍTULO QUATRO ............................................................................. 33
CAPÍTULO CINCO ................................................................................ 43
CAPÍTULO SEIS .................................................................................. 55
CAPÍTULO SETE .................................................................................. 67
CAPÍTULO OITO .................................................................................. 83
CAPÍTULO NOVE .................................................................................. 97
CAPÍTULO DEZ ...................................................................................109
CAPÍTULO ONZE ................................................................................ 113
CAPÍTULO DOZE ................................................................................. 121
CAPÍTULO TREZE ...............................................................................127
A ESCOLHA ........................................................................................135
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VONTADE DE VENCER
INTRODUÇÃO
O que muitos pensam sobre um escritório, uma
empresa,muitasvezesnãoéverdade.Existeumagrande
divergência na opinião das pessoas, na maneira de agir,
depensareatémesmodeliderarequipes.Algunstentam
lidar com as pessoas como se elas fossem robôs,
produtores em potencial, que não têm o direito de sentir,
de terem problemas pessoais, de apresentarem idéias
novas ou de emitirem sugestões.
Estetempoestámudando.Omercadodetrabalho
estácadavezmaiscompetitivoedestacam-seaquelesque
são inovadores.Assim, as oportunidades de crescimento
são maiores. É preciso que os empresários e os seus
colaboradores atualizem-se dos novos mecanismos de
trabalho. Nos dias de hoje, é preciso inovar para poder
sobreviver. Por exemplo: perceba quantas padarias
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THIAGO VENDITELLI CURY
existem em seu bairro; a cada esquina podemos ver uma.
O que torna uma melhor dentre as demais é o que ela
oferece de diferente aos seus clientes.
O consumidor não procura somente o melhor
preço,eletambémprocuraomelhoratendimento,olocal
mais organizado e também pessoas bem apresentadas e
bem treinadas para atendê-lo. Para que isso aconteça, é
necessário que você treine o seu funcionário, já que é ele
quem tem o maior contato com o consumidor. Ele é o
cartão de visita da sua empresa.
Vale a pena investir na pessoa que colabora para a
maximizaçãodosresultados.Funcionáriossatisfeitoscom
o que fazem, trabalham melhor e produzem mais. E, sem
dúvidaalguma,traráexcelentesresultados.
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VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO UM
Avida se faz de sonhos, vontades, realizações e, é
claro, de rotina. E o maior desafio de todos nós é
transformaressarotinadetrabalho,deestudosedetarefas
domésticas em prazer. Nosso objetivo é vencer. Vencer
medos, superar obstáculos, ir além a fim de termos algo
paracontar,transmitirconhecimentoseajudarosoutros.
Talvez o mais difícil seja combater estas aflições no
ambientedetrabalho.Aselvadepedraemquevivemosé
um mundo competitivo, cheio de entranhas e de ações
mesquinhas e ilícitas, para que cada um tire a maior
vantagem para si próprio. Mas se começarmos a mudar
um pouco este conceito, com atitudes mais amáveis, a
competição se tornará mais saudável, sem desgastes,
apenas melhorando a qualidade do trabalho e se
empenhando mais. Frederico aplicava essa vontade de
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THIAGO VENDITELLI CURY
vencer nos seus funcionários. Queria estimulá-los. Fazer
decadaumdelesumverdadeiroprofissionaldesucesso.
Doutor Frederico é advogado e administrador de
empresas, foi diretor e consultor de grandes
multinacionais. Hoje, é superintendente na Junção
Recursos Humanos. Ele procurava sempre contemplar
seus dias com pensamentos que o fizessem sentir-se
melhor e em condições de exigir a mesma força daqueles
que trabalhavam com ele. “A cada novo dia temos a
oportunidade de aprender algo novo, de fazer algo que
não fizemos no dia anterior”.
E era com esse pensamento que ele saía de casa,
enfrentava a paulicéia desvairada e ainda chegava bem
humorado à Trivial Recursos Humanos, distribuindo
sorrisos e desejando bom dia. Frederico acreditava que,
com esse comportamento, as pessoas teriam um dia
melhor, com mais alegria. Elas trabalhariam mais
empolgadas, pois muitas poderiam nem ter recebido um
bom dia ao sair de casa.
Talvez tivesse razão. Por causa da correria do dia-
a-dia,muitagentesaidecasasemreceberumasaudação.
As razões são várias: talvez porque acordem atrasadas,
por falta de costume, por problemas de relacionamento
emcasaou,simplesmente,pormoraremsozinhas.Alguns
acham que com ou sem bom dia é a mesma coisa. Doutor
Frederico sempre acreditou que desejar bom dia, ser
educado e atencioso com os outros era um
comportamento essencial, e isso nunca lhe custou nada.
Lógicoque,comotodoebomserhumano,àsvezes,
isto não acontecia como o esperado.Algumas pessoas de
mau humor já traziam de casa um rosto amargo, pois, ao
saírem,algumacoisajátinhadadoerradoeavontadeera
de nem ter saído da cama. Isso já aconteceu comigo, com
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VONTADE DE VENCER
você, com todo mundo, não é verdade? Pois é, Doutor
Frederico também tinha dias assim, de “acordar com o
pé esquerdo”, mas ele lidava com estas situações de
maneiras diferentes. Nesses dias de sua vida, com
maestria e sabedoria, ele conseguia contornar essas
situações e seguir em frente. Sabendo que tudo o que
acontece à nossa volta é um aprendizado, ele procurava
não se estressar com fatos assim.Além disso, ele tentava
fazer com que todos os colaboradores da empresa se
empenhassem em seus trabalhos.
Esseempenhodentrodoambientedetrabalhotinha
base em uma diretriz do Doutor Frederico: denominar o
funcionário como colaborador. Todos aqueles que
trabalhavam ao seu redor eram colaboradores. Ele dizia
que, se você chamasse um funcionário de empregado, ele
poderia cumprir muito bem as suas funções. Mas, se este
indivíduofossechamadodecolaborador,omesmotrabalho
seriafeito,sóquecommuitomaisempenhoegosto.Desta
maneira, o trabalhador teria a certeza de que não só
cumpriria suas funções, mas também colaboraria com o
crescimento da empresa. Sendo assim, os lucros
aumentariam, os objetivos seriam alcançados e o
colaborador cresceria junto com a empresa.
Seus funcionários aprovavam a atitude de Doutor
Frederico.
— Comopodeagirassim?Preocupar-setantocom
os funcionários! Nunca vi alguém trabalhar com esse
objetivo. Todos que conheci só se preocupavam com a
produção e, se não alcançássemos as metas, era bronca
na certa.
Apesar de observações positivas, mudanças
causam burburinhos – não só na empresa, mas em todos
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THIAGO VENDITELLI CURY
os lugares. E na Junção não foi diferente, alguns não
gostaram e pouco admiravam uma pessoa que se
preocupava com os outros. Frederico se importava tanto
com os seus colaboradores que se dedicava também a
melhorias para eles.
Umadasgrandesmudançasqueeleproporcionou
aos colaboradores foi o café da manhã, todos os dias,
dentro da empresa. Com um cardápio caprichado, seus
colaboradores podiam sair de casa com mais calma para
tomaremseucafédamanhãcomseusamigosdetrabalho.
Essa iniciativa fez com que o número de pessoas
que se atrasavam diminuísse bastante. Logo, o
desempenhonotrabalhotambémmelhorou,fazendocom
que,conseqüentemente,oresultadofinanceirodaempresa
aumentasse. Percebendo toda esta melhora, Doutor
Frederico resolveu compartilhar de todos os benefícios
com seus colegas de trabalho, diretores e até mesmo com
apresidênciadaempresa,buscandodifundirsuasidéias.
Frederico convocou a diretoria para uma reunião,
onde passaria todas as informações de seus projetos, e
juntos traçariam novas metas.
A diretoria aprovou as decisões de Frederico.
Fizeram alguns ajustes e desenharam uma nova meta.
Com isso, começava uma nova jornada.
Doutor Frederico convocou todos os seus
colaboradores a participarem de um café da manhã
especial, onde entrariam uma hora mais cedo, comeriam
algodiferentedohabitual,edepoiselecomunicariaquais
eram seus novos planos e objetivos.
Após a reunião com a diretoria e o café da manhã
com os colaboradores, um período de testes para o novo
modelo de trabalho foi traçado. Ao final três meses,
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VONTADE DE VENCER
haveria nova reunião para apresentar um balanço da
políticadetrabalhoimplantadaeosresultadosdoprojeto.
Todosestavamempolgados.Umnovoânimofazia-
se presente e isso era algo que não se via há muito tempo
naquela empresa. Isto trouxe de volta a esperança para
todos aqueles que trabalhavam por algum ideal, e não
simplesmente por dinheiro e ganância, como era o caso
dealgumaspessoasládentro.Maistardesaberemosquem
são e porquê agiam desta forma.
Para que todos pudessem ter um parâmetro, um
planejamento,DoutorFredericopreparou,noperíododa
manhã, uma planilha onde especificou claramente os
planos e as metas. Colocou os valores e uma idéia que
incentivariaaindamaisseuscolaboradores:umbenefício,
uma premiação em dinheiro, medida em porcentagem,
nofinaldoanovigente.Quantomaisprogredissem,mais
ganhariam em benefícios no final do ano.
Estametaficoutraçadadaseguinteforma:quando
alcançassem o primeiro objetivo, receberiam uma
premiação;seconseguissemosegundoobjetivo,umanova
premiação um pouco maior, e assim sucessivamente. A
notícia correu por todos os departamentos, a nova meta
estava na boca do povo e as conversas paralelas
começaram a surgir.
Muitos diziam que isto era impossível, jamais
alcançariamosobjetivosdaformaqueeleestavapropondo.
Outros acreditavam tanto no Doutor Frederico que não
duvidaramdaplenapossibilidadedealcançarseusobjetivos
e ainda serem beneficiados pelos seus esforços.
QuandoDoutorFredericoterminouseusrelatórios
sobreosnovosobjetivos,resolveumontaralgumaspastas
com o seu projeto, e também com algumas frases de
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THIAGO VENDITELLI CURY
entusiasmo, que combinavam com as características de
cada um de seus colaboradores. Ao terminar de montar
as pastas, dirigiu-se a cada um dos departamentos da
empresa,distribuindo-as.
Ele dizia que o contato mais próximo com os
colaboradores era fundamental para o bom andamento
de seus projetos. Enquanto conversava com as pessoas,
ele ressaltava que elas poderiam fazer algo de diferente
para alcançar seus objetivos. Como exemplo, ele
costumava usar a seguinte frase: “Todos os dias, eu me
levanto e leio a lista dos nomes mais ricos do mundo.
Se meu nome não está lá, vou trabalhar”.
Como ele participava das atividades de todos os
departamentos, e conhecia todos muito bem, ele podia
dar feedback, mas o que ele preferia mesmo era fazer com
que a própria pessoa percebesse seu erro, e lhe dissesse
como poderia ser consertado.
Na maioria das vezes, Doutor Frederico chamava
ocolaboradorparaumareunião,ondefalavadaseguinte
forma: “Aqui encontramos algo que poderia ser diferente, ou
até mesmo mais arrojado; você saberia me dizer onde podemos
mudaralgo?”.Comestaatitude,elepretendiacriardesafios
eexplorarosconhecimentoseasvontadesdocolaborador.
Quando era necessário chamar a atenção de um
colaborador, ele dizia onde a pessoa havia errado e, em
seguida, o quanto ela era importante para o crescimento
da empresa, do quanto era capaz e que possuía
conhecimento para realizar aquela tarefa. Desta forma,
as pessoas à sua volta não desistiam de seus ideais e não
sedesanimavam.
Fredericosabiamuitobemcomochamaraatenção
de um colaborador. Procurava sempre fazer seus
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VONTADE DE VENCER
comentáriosousuasrepreensõesemumlocalreservado,
onde ninguém mais pudesse ouvir o que estava sendo
dito, para não causar constrangimentos e nem expor a
imagem da pessoa. Fazia isto por saber que muitos
profissionais costumavam chamar a atenção de um
empregado na frente de qualquer pessoa, causando
timidez, constrangimento, vergonha e até raiva nas
pessoas. Este não era seu objetivo, por isso agia de uma
forma diferente dos outros.
O contato com cada trabalhador resultou em
grande aceitação e um retorno bem acima do esperado, o
que deu a Frederico a certeza de que os colaboradores já
estavam prontos para começar a ingressar nos novos
objetivos.Estapreparaçãonãofoifácil,umatarefaárdua,
mas de grande valia, afinal o feedback era positivo. Todos
osesforçosestavamvalendoapena,porqueosresultados
eram visíveis dentro da empresa.
Durante vários dias, as pessoas conversavam,
trocavamidéias,comentavamsobreoandamentodeseus
trabalhos e das dificuldades que estavam encontrando.
Porém, no meio de toda esta empolgação, sempre existia
uma ou outra pessoa que não queria saber de nada, que
queria somente subir na vida pelo lado mais fácil, o lado
da corrupção, da roubalheira. Enfim, uma situação que
existeemvárioslugares,assimcomonaJunção,eeraisso
o que o Doutor Frederico queria mudar.
Sabendodequenemtodosconcordavamcomsuas
idéias,DoutorFredericoficouatentoàspessoasqueagiam
desta maneira, tomando o devido cuidado para que
ninguém atrapalhasse seus trabalhos. Ele não queria que
nada desse errado. Queria ter a certeza que ao final de
todo o seu esforço as pessoas reconhecessem o que ele
havia feito pela empresa e também pelos que nela
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THIAGO VENDITELLI CURY
trabalhavam. Infelizmente, não era com qualquer
colaboradorqueDoutorFredericopodiacontar,sabiaque
algumas pessoas ali dentro eram “perigosas”. Assim foi
conquistandoaconfiançadaspessoascertas,aquelasque
dispunham a seguir o seu modelo de trabalho, os seus
projetos. Mesmo com esta dúvida em relação a algumas
pessoas, ele não deixou de auxiliar ninguém dentro da
empresa. Ao contrário, continuava à disposição de
qualquer um que precisasse de sua ajuda, sendo uma
necessidade sincera ou não.
Após todas as mudanças, a rotina do Doutor
Frederico se alterou um pouco, e para melhor. Quanto
mais os associados ficavam sabendo dos novos projetos,
mais eles queriam participar das reuniões que ele
proporcionava. O objetivo deles era se aliarem ao modo
de trabalhar de Frederico, e acompanhar a sua evolução
no mercado de trabalho, podendo assim aprender muito
com as pessoas que colaboravam para este crescimento.
As empresas associadas e os respectivos profissionais
sabiam que a troca de experiências e a ajuda mútua
enriqueceriam não só o cotidiano de trabalho, mas
também a vida pessoal, uma vez que muitos não tiveram
apoio para começar a carreira.
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VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO DOIS
Adiretoria começou a perceber o quão valioso era
otrabalhoqueDoutorFredericodesenvolvia.Lógicoque
perceberam isso não só por causa do aumento nos lucros
daempresa,mastambémporqueosclientesnãoparavam
de comentar como os serviços e o atendimento
melhoraram significativamente, os colaboradores
trabalhavam mais felizes, mais empolgados e o quanto
as representações estavam contentes com os trabalhos.
As melhorias que Doutor Frederico conquistou
eramcompletamentevisíveis.Pessoasfelizesnoambiente
detrabalhoedívidasdoscredoressendoquitadas,graças
ao novo modelo de cobrança que ele implantou. Quando
osclientesvisitavamaempresa,erammaisbemrecebidos
e melhor atendidos, em razão de um treinamento
praticado em uma semana, sempre uma hora antes do
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THIAGO VENDITELLI CURY
expediente, sobre o tema: “Como atender bem o seu cliente
para que ele traga mais clientes”.
Algumas semanas se passaram e tudo caminhava
tranqüilamente, como era esperado. Doutor Frederico
deixouumcanalabertoparaquequalquerpessoapudesse
procurá-lonomomentoemqueprecisasse.“Jáqueelenos
deuestaliberdade,vamosatéele”,diziamosfuncionários
mais preocupados com o andamento dos projetos. As
pessoas o procuravam, tiravam suas dúvidas, e algumas,
um pouco mais ousadas, experimentavam dar sugestões.
DoutorFrederico,comsuasabedoria,muitasvezes
aproveitava as idéias de seus companheiros, dando uma
incrementada em algumas delas. Sua formação garantia
amparo legal, pois possuía total conhecimento da área
financeira,embasandoaexecuçãoeoplanejamento,com
chances mínimas de erro. Mas ele era prevenido, sempre
contavacomeventuaisdificuldadesquepudessemocorrer,
como problemas no orçamento e processos judiciários.
Suavastaexperiênciapermitia-lheumatranqüilidadepara
enfrentar os problemas. Mesmo que alguma pedra
aparecessenoseucaminho,elepoderiaretirá-lacomcalma
e sabedoria, para que nada desse errado.
Ele se preocupou também em qualificar a rede de
computadores da empresa, promovendo melhoras
significativas no sistema de informações e no arquivo
eletrônico, além de mudanças no site. Visava o aumento
da produtividade, realizava mais reuniões do que de
costume para manter sempre atualizados os novos
projetos e os resultados. Entre tantas melhorias, seriam
necessárias novas contratações.
Enquanto tudo isto acontecia na empresa, os
diretores conversavam entre si, trocavam opiniões sobre
como a situação estava melhorando e como as atitudes do
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VONTADE DE VENCER
Doutor Frederico estavam trazendo lucros para a Junção
Recursos Humanos, entre outras coisas. Decidiram,
então,contratarmaispessoasparaajudarnocrescimento
da empresa. Os membros da diretoria sabiam que era
necessário acompanhar o ritmo do superintendente com
a contratação de novos funcionários. Se ele cria novos
departamentos, é preciso contratar ou promover
algumas pessoas.
Após muitas conversas e inúmeras reuniões, a
diretoria chegou a um acordo de que deveriam contratar
três novas pessoas e promover duas. Quando a decisão
foi transmitida ao Doutor Frederico, ele se sentiu muito
orgulhoso por saber que seu trabalho estava sendo
reconhecido,equeseusesforçosestavamacarretandoem
novas contratações. Isso era gratificante.
Foram decididas as novas vagas e o pessoal a ser
promovido,afinal,havianaJunçãopessoasquebuscavam
sempreoseucrescimentopessoaleprofissional;nadamais
justodoquepromoverosmaiscompetentesparaasnovas
funções.Regrasforamimpostaseadiretoriafariaasnovas
contratações;entretanto,DoutorFredericotomouafrente
da situação e resolveu que ele mesmo faria as entrevistas
com os candidatos e, conseqüentemente, as escolhas dos
novos contratados.
—Comopossoexerceraminhafunçãoaquidentro,
se vocês não me dão liberdade para isso? - disse Doutor
Frederico, querendo mostrar o quanto queria trabalhar
para o crescimento da empresa, e de todos os
colaboradores também, fossem eles novos ou antigos.
A argumentação do Doutor Frederico deixou
alguns diretores contrariados, mas eles permitiram que
ele fizesse as contratações. Após as devidas seleções de
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THIAGO VENDITELLI CURY
currículos,aspessoasselecionadasforamchamadaspara
umaentrevista,ondeeleconversava,nomínimo,comuma
pessoa por dia.
Duranteasentrevistas,pôdeconhecerváriostipos
deprofissionais.Pessoasdispostasacrescer,querendoalgo
melhor em suas vidas e também pessoas tímidas, com
medodonovo,medodedesafios,pessoasquenãosabiam
seexpressar.Claroqueosselecionadosseriamosquemais
tinham interesse em crescer, em ter novos desafios em
suas vidas profissionais. Não que estas pessoas “menos”
qualificadas não sejam profissionais capazes de exercer
asfunções,sóqueelaslevariammaistempoparafazeros
trabalhos como ele gostaria, por isso, os melhores
qualificados seriam os primeiros contratados. Após a
formação dos setores e o andamento do projeto, seriam
feitas novas contratações.
Tendoacertezadaescolhafeita,elecomunicouaos
colaboradores quem seriam as novas pessoas a trabalhar
na empresa. Solicitou a Carmem, responsável pelo
departamento de cadastros, que avisasse aos candidatos
selecionadosqueprovidenciassemseusdocumentospara
a contratação.
Foidecididotambémquemseriamaspessoaspara
auxiliar os novos colaboradores nas suas funções, quem
ensinaria como o era o funcionamento e o cotidiano da
empresa. Esta pessoa responsável por ajudar o novo
colaborador a se adaptar era denominada pelo Doutor
Frederico como “padrinho” ou “madrinha”.
Durantequinzedias,os“padrinhos”deixavamum
pouco os seus afazeres de lado para auxiliar o novo
colaborador.DoutorFredericohaviaimplantadoestaidéia
na empresa, para que as pessoas se conhecessem melhor,
promovendoumauniãomaiorecriandolaçosdeamizade.
23
VONTADE DE VENCER
Essa atitude tinha tudo para dar certo. É possível
fazer novos amigos onde trabalhamos, nos relacionar
melhor com uma pessoa de nossa equipe, simplesmente
pelo fato de almoçarmos juntos ou de irmos embora no
mesmo ônibus.
Existem pessoas dentro de empresas que moram
no mesmo bairro e nem sequer sabem disso, porque não
conversam ou não se relacionam muito bem umas com
as outras.
Logo após estas denominações, os novos
colaboradores foram destinados aos seus setores, e
também as devidas promoções foram feitas: uma pessoa
foi promovida para o setor financeiro; o outro, para o
administrativo. Em relação aos novos, um foi para o
administrativo,outroparaosetordevendaseumamoça
para a recepção. Doutor Frederico ressaltava que a
recepção é uma parte importante da empresa, pois é o
local que as pessoas chegam e devem ser bem recebidas.
Segundo suas palavras “a recepção é a primeira impressão
que uma pessoa tem da empresa”.
Todos receberam ajuda dos antigos funcionários.
Doutor Frederico aprovou a ajuda dada aos
colaboradores novos, e disse, em tom de elogio, a todos:
“se todas as pessoas soubessem passar um pouco de seus
conhecimentos ao próximo, aos seus amigos, tanto na vida
profissional como na vida pessoal, estas poderiam desfrutar de
benefícios maravilhosos, como a gratificação de poder observar
uma pessoa cumprindo uma tarefa com sucesso, e ter a certeza
de que se hoje esta pessoa é capaz de exercer esta função, foi
porque teve o auxilio de um de vocês”.
Naquela empresa, a solidariedade e o gosto por
ensinar o próximo faziam parte de um objetivo a ser
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THIAGO VENDITELLI CURY
cumprido dia após dia, mas, infelizmente, não eram
todas as pessoas que pensavam desta forma. Algumas
delas queriam realizar seus objetivos pelo lado mais
“fácil” da vida.
Para os novos contratados, o simples fato de
obterem um treinamento, de serem capacitados a
desenvolver tarefas e de poderem assumir
responsabilidades iguais às dos outros profissionais, era
muitovalioso.Osbenefíciosadquiridosdestaajudaedeste
ensinamentorefletiriamcoletivamentedentrodaempresa
e também na sociedade.
Doutor Frederico preocupava-se também em
conscientizar seus colaboradores de que era preciso a
cooperação com estas novas pessoas. Percebendo mais
umavezoresultadopositivodeseusatos,eledecidiuentão
promover uma palestra onde trataria de assuntos de
conscientizaçãoparaestanecessidadedecompartilharos
ensinamentos e seus conhecimentos. Um de seus
argumentosera:
“Se nós, que somos os representantes da sociedade,
tratássemos os novos profissionais com olhar de humanidade e
não de simples empregados, muitas pessoas teriam mais
conhecimento hoje em dia. Assim, logicamente, teríamos um
número menor de pessoas desempregadas”.
“Nãoqueestaresponsabilidadesejanossa,maspodemos
cumprir com as nossas obrigações, podemos contribuir com a
nossa parte, por isso estou criando estas palestras de
conscientização das pessoas para este novo tempo; o tempo de
ensinamento”.
Pensando em como poderia começar seu novo
trabalho, Doutor Frederico decidiu pedir a opinião de
alguns amigos do ramo, para saber quais as dificuldades
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VONTADE DE VENCER
que eles encontravam no mercado de trabalho. Procurou
saber também como as empresas de seus amigos agiam
emrelaçãoaestasnovascontrataçõeseaoutrosassuntos.
Logoqueconseguiureunirasinformaçõesqueseus
amigos empresários lhe forneceram com muito prazer,
começouacolocarsuasidéiasnopapel.Enquantoescrevia,
não podia deixar de recordar do seu passado, dos seus
ensinamentoseaprendizados.Lembrou-sedasprimeiras
pessoas que passaram pela sua vida profissional, seus
primeiros chefes, seus amigos de trabalho e até mesmo
de professores da universidade.
Fredericoqueriacolocarumpoucodasuahistória
pessoal nesta nova empreitada. “Precisamos de novas
idéias, de novas propostas, de contestações que mudem
o posicionamento do setor empregatício e dos
empresáriosemgeral.Temosqueeliminarospreconceitos
queaindaexistemsobreosnovosprofissionais,todostêm
totalcapacidadedeaprender,algunscommaisfacilidade,
outros com mais dificuldade, mas ninguém é
impossibilitadodeaprenderalgonovo.Ainclusãodestas
pessoas não é somente um assunto empresarial, mas
também um assunto social”.
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VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO TRÊS
No que diz respeito a operacionalidade das novas
contratações, a capacitação é essencial para dar início à
uma nova jornada. A praxe do mercado é permanecer
com o quadro de funcionários já existentes, sem
aumentar o número de pessoas trabalhando em suas
dependências, já que isso aumentaria os custos e
acarretaria em riscos financeiros. Entretanto, Doutor
Frederico acredita que se devem dar novas chances às
pessoas que estão começando suas carreiras
profissionais, principalmente àqueles que têm visão de
empregabilidade. E o que é empregabilidade?
“Empregabilidadesãoosdiferenciaisdeumprofissional
quefazemcomqueelesemantenhaouserecoloquerapidamente
no mercado de trabalho, onde as pessoas têm a oportunidade
demostrarsuasqualificações,fazendocomquesejamescolhidas
para exercer suas funções”.
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THIAGO VENDITELLI CURY
EstaeraumagrandebrigaqueoDoutorFrederico
estava comprando com os diretores, os supervisores e o
presidente,mostraralgodiferentedoqueelesacreditaram
ser o correto durante todas as suas vidas.
Concluída a primeira parte do projeto, Frederico
decidiu que era a hora de convocar uma reunião com a
diretoria da empresa. Pediu a Andressa, sua secretária,
que marcasse o encontro com os diretores para quarta-
feiradasemanaseguinte.Afinal,mesmocomaautonomia
que lhe foi dada, ele devia satisfações e esclarecimentos
aos seus superiores. Apresentaria o projeto de inserção
de novos profissionais no mercado de trabalho.
Uma hora depois, Andressa comunicou ao chefe
queestavatudoacertadoeareuniãoconfirmada.“Muito
bom,Andressa,vocêémuitoeficiente”.Eleprezavamuito
a capacidade de seus colaboradores e por isso fazia
questãodelhesdarum feedback.Esteretornoeraessencial
para que continuassem exercendo suas obrigações da
mesma forma, ou até melhor.
DoutorFredericosentia-sesatisfeitoporternasua
equipe pessoas tão habilidosas. Sentia-se ainda mais
recompensado por saber que quase todas as pessoas da
empresa começaram de baixo, aprenderam de tudo um
pouco e tiveram o apoio de outros colaboradores para
chegarem onde estão, e isto fazia com que ele se
empenhasse ainda mais em seu projeto.
Enquanto o dia da reunião não chegava, Doutor
Frederico aproveitava seu tempo livre para continuar a
colocarnopapelsuasmaisnovasidéias.Elefaziapesquisas
demercadorelacionadascomnovascontratações,buscava
informaçõesemlivros,jornais,revistasdaáreadeRecursos
Humanos,entretantosoutroslugares,alémdeconversar
29
VONTADE DE VENCER
muito com amigos e conhecidos. Chegou até a pedir a
opiniãodeseusfamiliares,oqueelespensavamarespeito
doassunto,ecomopercebiamoretornodestanovaatitude
para as empresas.
Com o passar da semana, Doutor Frederico foi
concretizando seu trabalho, mas sem se esquecer em
momento algum dos seus colaboradores. Ele sempre
estava presente em todos os departamentos, prestando o
auxilioquehaviaprometidoaeles,paraquecontinuassem
a cumprir suas metas com sucesso.
Na terça-feira, um dia antes da reunião com a
diretoria, Doutor Frederico preparou a apresentação que
usaria. Revisou todo o seu trabalho, corrigiu erros,
acrescentoumaisalgunsdetalhese,quandoestavacomo
projeto pronto, pôde respirar tranqüilo: “Mais uma vez,
trabalho cumprido com excelência”.
Poderia agora pensar com calma na maneira que
apresentariaseunovoprojetoàdiretoria,comoiniciariaa
sua abordagem, como exporia suas pesquisas sem que
causasse tumulto e discussões.Afinal, o que as pesquisas
de mercado apresentavam não era nem um pouco
parecido com a atitude dos empresários ali presentes.
Decidiu então pedir a ajuda de Andressa, já que
ela sabia detalhadamente como os diretores preferiam
observar uma apresentação. Aproveitou a ajuda da
secretária e pediu a opinião em alguns pontos de seu
projeto.
— Doutor Frederico, está maravilhoso! O projeto
éperfeitoeaapresentaçãonãopoderiaestarmelhor.Está
tudo de acordo com o que os diretores gostam.
— Andressa, muito obrigado por sua ajuda. Se os
resultados desta reunião forem positivos, como
30
THIAGO VENDITELLI CURY
esperamos, você vai ver como tudo irá mudar aqui nesta
empresa e em outras também.
—Certamenteseusprojetostrarãobonsresultados
para esta empresa, Doutor, e o senhor será reconhecido
por seu trabalho, dedicação e esforço neste e em outros
projetos.
— Querida Andressa, todos estes projetos que
estou desenvolvendo aqui na empresa não são pelo
reconhecimento das pessoas, mas sim pelos meus ideais.
Nãoháprazermaiordoqueasatisfaçãodeverumprojeto
dando certo e as pessoas se beneficiando com os
resultados.Logicamente,serreconhecidoéalgobom,mas
não podemos esperar do outro algum tipo de
reconhecimentoparanossentirmosbem,“nuncadevemos
fazer da opinião do outro o termômetro da nossa auto-estima”.
— Doutor Frederico, como é bom ouvir e
compartilhar dos seus ensinamentos. Trabalhar com o
senhor é como uma escola para mim. Sempre que venho
paraotrabalho,logoquandoacordo,mepergunto:Oque
eu vou aprender hoje? Com o que vou poder contribuir
paraocrescimentodaquelesquetrabalhamcomigoepara
o meu crescimento pessoal também?
— Comecei a pensar assim depois que o senhor
veio trabalhar aqui. Pude conhecer vários tipos de
superintendentes e nunca tinha visto alguém com a
sabedoriaqueosenhortem.Seestaspessoasquepassaram
pela empresa tivessem tido a mesma dedicação em criar
projetos, de lutarem por algum ideal, como o senhor está
fazendo, as coisas poderiam estar melhores para todos
nós há algum tempo. Mas os outros profissionais não
colocavam esta sabedoria para fora, guardavam todo o
seu conhecimento para eles mesmos.
31
VONTADE DE VENCER
— Pois é, Andressa, muitas vezes as pessoas
pensam que, se compartilharem algo bom com seus
colegas, estarão colocando seus cargos em risco; mesmo
lhesajudando,passandoseusconhecimentosparafrente,
continuarão correndo riscos, podendo ter seus cargos
“roubados”.Muitosempresáriosqueeuconheçopensam
que,secompartilharemdealgoqueaprenderamemsuas
vidas, podem estar dando a chave do sucesso para o
outro “de mãos beijadas” ou “de graça”, e não percebem
que temos que transmitir o nosso conhecimento e as
nossas técnicas. Se nós nos prendermos a estas “técnicas
velhas”, deixaremos também de aprender coisas novas.
Pessoas que sabem algo a mais do que nós também não
irão compartilhar seus conhecimentos conosco. E aí? O
que faremos para recuperar o tempo perdido?
— O que eles ainda não se deram conta é que
qualquer pessoa pode fazer isso, até mesmo a própria
diretoria da empresa pode decidir se é necessário trocar
de profissional, e não apenas mudar por mudar, como já
aconteceram várias vezes. Então,Andressa, enquanto eu
estiver ocupando a minha cadeira de superintendente,
sempre farei tudo o que estiver ao meu alcance para o
crescimento da empresa e dos colaboradores.
Espantada com tanta coragem e dedicação,
Andressa decidiu permanecer em silêncio por alguns
instantes, como se não tivesse palavras para descrever o
quão importante era o aprendizado que obtinha
diariamente com Frederico.
Logo após ouvir o que o superintendente disse,
Andressa resolveu ir mais longe com os seus
questionamentos, aproveitando a ênfase que ele havia
dado ao assunto.
32
THIAGO VENDITELLI CURY
—DoutorFrederico,oquepodemosfazerparaque
os diretores das empresas realmente queiram nos ajudar?
— Não podemos fazer nada, além de
expressarmos as nossas idéias. Então, teremos que
aguardar a colaboração deles. O que eu realmente
gostaria de fazer era, simplesmente, estalar os dedos e
fazer com que as coisas ficassem diferentes e mudassem
para melhor.Assim, eu teria mais tempo para desfrutar
dos resultados. Mas isto não me levaria a nada, pois
como saberia definir o que é superar um desafio? O
que é conquistar algo que tanto se deseja? Como eu
compreenderia o que é ser bem sucedido na vida? Se
as coisas são fáceis, os esforços não valeriam de nada,
as opiniões não seriam aceitas! As regras seriam
quebradas. Por isso, a única coisa que nos resta é fazer
a nossa parte e esperar que eles cumpram com a deles.
Aconversa fluía tão bem que nem perceberam a
hora do almoço chegar. Doutor Frederico convidou
Andressa para almoçar, pois, como um homem esperto,
ele sabia que, de estômago vazio, é mais difícil criar
novas idéias.
33
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO QUATRO
Enquanto Frederico e Andressa iam para o
restaurante, muito freqüentado pelos funcionários da
empresa e “eleito” por eles como sendo a mais deliciosa
massa da região, aproveitaram para colocar a conversa
em dia. Afinal, no horário de almoço é que eles podiam
conversarsobrecoisasquenãodiziamrespeitoàempresa.
Mas quem disse que eles conseguiam não falar de
trabalho? Andressa, em sua primeira frase fora do
ambiente de serviço perguntou:
— Doutor Frederico, como as pessoas estão
reagindo com a sua maneira de trabalhar? Como está
sendo a aceitação dos seus projetos?
— Bem, pelo menos ao meu ver, os nossos
colaboradoresestãosatisfeitos.Todosestãocontentescom
aminhamaneiradeprovidenciarasdevidasmudançase
34
THIAGO VENDITELLI CURY
comomeujeitodetratarcarinhosamenteaspessoas.Acho
que elas nunca tinham trabalhado com alguém que tem
como primeira ação da manhã, logo ao pisar na empresa,
desejarumbomdia.Algumasatitudessurpreendem!Mas
este meu comportamento é o que todos nós deveríamos
ter diariamente em nossas vidas, com todas as pessoas à
nossavolta.Nãonoscustanadadesejarumbomdiaeser
educado com nossos amigos, familiares, companheiros
de trabalho, entre tantas outras pessoas que convivemos
durante os nossos dias.
Andressa, impressionada com as palavras de
Doutor Frederico, quis saber mais sobre como, quando e
onde ele havia aprendido todas estas coisas.
—Comoosenhorconquistouestejeitodeser,esta
forma carismática de tratar as pessoas à sua volta? –
perguntou a secretária ansiosa por mais informações, já
que via no chefe um modelo de profissional.
— Antes de responder-lhe, posso-lhe fazer uma
pergunta,Andressa?
— Claro que pode, Doutor Frederico.
— Para você, o que é o Auto-Conhecimento?
— Doutor Frederico, que pergunta difícil! E
tambémbemdiferente,porsinal!—titubeandoumpouco,
mas continuando logo em seguida — Para mim, Auto-
Conhecimento, é quando sabemos o que queremos para
a nossa vida, é o que sabemos de nós mesmos, o que
gostamos, que dia da semana preferimos e o porquê
preferimos. Também é o tipo de cheiro que mais nos
agrada, estas coisas... Por quê?
— Você não está errada, Andressa, mas Auto-
Conhecimentoétambémumamaneiradeolharmospara
dentro de nós mesmos, para o nosso próprio interior,
35
VONTADE DE VENCER
percebendoqualéanossaessência,osnossospadrões,as
nossas experiências de vida, a cultura social. Somente
assim podemos encontrar um sentido para nossas vidas.
Quando nós conseguimos alcançar todas estas coisas
dentro de nós mesmos, poderemos definir uma maneira
de agir, qual o melhor comportamento que podemos ter,
de que forma desfrutaremos nossas vidas e como vamos
superar os nossos desafios e obstáculos.
Andressa ficou pensativa. Desmembrava aquele
aprendizado, atentando para cada palavra. Enquanto a
moça refletia, ambos resolveram pedir a comida. O
garçom aproximou-se, sugeriu alguns pratos. Pediram
capelete ao molho branco e um vinho para acompanhar.
— Onde paramos nossa conversa,Andressa?
— O senhor estava falando sobre Auto-
Conhecimento.
— Claro! Deixe-me lhe explicar. Todos nós temos
uma intuição, algo que nos diz o que devemos fazer ou
não, como devemos agir em determinadas situações, etc.
Nós já nascemos com esta intuição. A única coisa que
temosafazerduranteanossavidaéaprendermosacolocá-
laemprática.Eucostumodizerqueestaintuiçãoéa“voz
do nosso coração”.
— “Voz do nosso coração”, como assim?
— Veja bem, Andressa, quando você está com
dúvida, por exemplo, em decidir por alguma coisa, algo
que queira muito, mas não tem certeza se deve fazer ou
não,oqueacontece?Nestemomento,separarporalguns
instantes e pensar se deve realmente fazer, você vai ouvir
uma voz interior que lhe dirá o que deve ser feito. Você
pode acreditar que a resposta estará certa. Isto porque o
seu coração jamais irá mentir para você, não é mesmo?
36
THIAGO VENDITELLI CURY
—Achoquesim.Nuncatenteifazeristo,mascreio
quenósnãonosenganamoscomascoisas.Achoquetudo
acontece como deveria acontecer, se eu escolho por algo,
masnofimvejoquefoiaescolhaerrada,nãofuienganada,
fui alertada a não errar novamente.Acredito que seja um
aprendizado,paraquenapróximaoportunidadeeupossa
fazer do jeito certo.
— Perfeito! Mesmo assim, com esta sua facilidade
em compreender o raciocínio das coisas, não pense que
é fácil ouvir uma voz interior, algo que você não vê,
somente pode ouvir e sentir. As pessoas têm medo,
acham que é coisa do outro mundo, mas ninguém se dá
conta de que um dia já passaram por algo parecido. Elas
não se atentam aos detalhes e este acontecimento acaba
passando desapercebido. Ninguém nunca pára e pensa
“como eu decidi por algo sem ter a certeza de que era o
melhor a ser feito?”. E pode acreditar que era a sua
intuição lhe dizendo o que fazer.
— Doutor Frederico, quantos ensinamentos
maravilhosos estou aprendendo! Espero que o senhor
não tire férias nunca, assim lhe verei sempre e não
deixarei de aprender.
— Querida Andressa, você sempre irá aprender
coisas novas seja comigo, ou com outra pessoa. A nossa
vida é feita de aprendizados. Com alguns, nos
identificamos mais, com outros não nos damos tão bem
assim, mas sempre estamos aprendendo algo. Quando
conhecemos algumas pessoas, não é por acaso que elas
apareceram. Se conhecermos um amigo novo, e nos
identificamos muito com ele, por exemplo, é que temos
algo importante para aprender com ele, ou até mesmo
temos algo a lhe ensinar. Ou, de repente, se deixamos de
nos encontrar com uma pessoa, é porque o que tínhamos
37
VONTADE DE VENCER
queaprendercomelaterminou,eoquetínhamosaensinar
também se encerrou. Espero que você faça bom uso das
minhas palavras, e que sempre conte com a minha ajuda
para o que precisar.
Enquanto almoçavam, o silêncio pairava sobre
aquela mesa, a comida estava tão gostosa que as únicas
palavrasquepodiamserouvidaseram:“Porfavor,passe-
me o sal”. “Por favor, traga-me uma garrafa de água”.
Naquele momento, o assunto tão interessante foi
interrompido pela imensa vontade de comer.
O almoço não durou mais do que 40 minutos, e
assimqueterminaramdecomer,DoutorFredericopediu
um cafezinho. Andressa quis um pedaço de bolo de
chocolate como sobremesa.
Apóspediremaconta,AndressasugeriuaoDoutor
Fredericoque,aochegaremàempresa,conversassemum
poucomais,chamandoCarmem,agoracoordenadorado
departamento administrativo, para interagir. Os três não
teriam nenhum compromisso importante e trocariam
idéiassobreoambientedetrabalhoeaconvivênciainterna.
Ao chegarem no escritório, adiantaram algumas
tarefas pendentes para que pudessem se reunir sem
nenhumcontratempo.Logoqueterminaram,Andressae
Carmem prepararam alguns documentos para serem
vistos durante a reunião. Frederico estava ansioso para
expor suas novas idéias às moças.
Os três dirigiram-se à sala de reuniões e pediram
para que não fossem incomodados. Apesar de não ser
um assunto confidencial, era melhor não perderem o fio
da meada com interrupções.
A porta fechada da sala de reunião despertou a
curiosidade das pessoas dentro do escritório. Os ânimos
38
THIAGO VENDITELLI CURY
ficaram aguçados. “O que será que está acontecendo?
Porta fechada e não querem ser interrompidos? Algo
estranho pode estar começando a acontecer”. Alguns,
maisexagerados,diziam:“Temosquenosprevenir,seeles
vão se unir, nós também devemos fazer uma aliança”.
Como ninguém imaginava o que era discutido
naquela sala, os mais preocupados tiraram suas próprias
conclusõesetomaramatitudessobreaconversamisteriosa
dos três. E eles iriam se defender! Não sabiam o que ia
acontecer daquele dia em diante, mas na opinião deles,
era necessário se prevenir. Eles pensavam que, se os
assuntosdareuniãofossemdeinteressedetodos,Doutor
Frederico deveria fazer uma reunião coletiva, e não de
portas fechadas e a um “público” limitado.
Se prevenir contra o quê? Eles estavam se
precipitando,jáqueosplanosdeDoutorFredericotinham
como objetivo trazer o bem-estar para todos dentro da
empresa. Mas eles decidiram, antecipadamente e sem
conhecimento dos fatos, se armar contra o
superintendente,CarmemeAndressa.
Oqueseráquelevouestaspessoasapensaremmal
do Doutor Frederico? Provavelmente a influência que
algunsexercemsobreoutros.Talvezfossesomentefofoca.
Doutor Frederico foi julgado sem motivos e pagaria um
preço por esse julgamento.
Essaatitudesedeuporqueo“medo”estánamente
daspessoas.Seelasconfiassememsimesmas,nãoteriam
motivos para julgar o Doutor Frederico como uma má
pessoa, com más intenções. Elas viram o perigo, onde
existia somente a bondade. “Cada um vê aquilo de
acordo com os óculos que usa”.
Sem que Doutor Frederico percebesse, algumas
pessoas começavam a olhar para ele de uma maneira
39
VONTADE DE VENCER
diferente, achavam que ele estaria tramando algo ou
reunindoforçasaseufavor.Destamaneira,começarama
tratá-lo de uma forma mais retraída, com um pouco de
desconfiança, com o “pé atrás”.
Ninguém poderia imaginar que algo deste tipo
pudesse acontecer. Talvez, com os antigos diretores, mas
não com o Doutor Frederico. No princípio, ninguém
percebeu nada, pois as observações eram feitas às
escondidas.Apósotérminodareunião,DoutorFrederico,
Andressa e Carmem começaram a trabalhar de uma
maneiramaisalegreemaisempolgada,provocandomais
desconfiança nas outras pessoas.
“Vamosprestarmuitaatençãonocomportamento
deles, vamos nos atentar em como serão as coisas daqui
para frente”, diziam os opositores.
Os dias foram se passando, o trabalho seguia
normalmente e ninguém desconfiava de nada. Para a
maioria das pessoas, as coisas estavam normais e
melhorariam em breve. Enquanto isso, outros pensavam
em como destruir o superintendente que, em tão pouco
tempodeempresa,jápromoviasignificativasmudanças.
Eles desconfiavam das reais intenções de Frederico.
EstamosatentosaosnovosmovimentosdoDoutor
Frederico e sua turma. Se eles querem nos derrubar,
podemos fazer isto primeiro.
As pessoas tiram suas próprias conclusões e
relatam falsos acontecimentos. A desconfiança em
Fredericoeratãograndequeninguémsepreocupoucom
ofatodequepoderiamprejudicaralguémou,atémesmo,
elespróprios.Maisalgunsdiasseseguiramsemquenada
viesse à tona. Tudo parecia normal. Enquanto alguns
estavam felizes e aguardando as mudanças, outros
40
THIAGO VENDITELLI CURY
estavam preocupados, tensos, não disfarçando a
ansiedade sobre o que estaria para acontecer.
Osprocedimentosqueforammudados,aospoucos
foram dando resultados, e, por sinal, bons resultados. Os
modos de cobrança foram alterados, assim como o
funcionamentoemalgunsdepartamentos.Ospromovidos
já trabalhavam nas novas funções, e os contratados já se
encontravam familiarizados com o trabalho.
Quase todos os dias, Doutor Frederico reunia-se
comalgumaspessoasdosdepartamentosparasabercomo
estava o andamento das novas funções. Ele queria saber
tambémseelastinhamdúvidas,comoosclientesestavam
reagindo e como estavam as inscrições para os novos
treinamentos que a empresa oferecia. Em relação aos
cadastros das empresas, ele quis saber se estavam sendo
feitosdeacordocomasnovasregras.Fredericopediuum
relatório das empresas que estavam inadimplentes e que
agora regularizavam a situação depois dos novos
procedimentos de cobrança.
Comojáfoiditoantes,areformulaçãonosquadros
daempresaenvolveucontrataçõesemudançasdefunção.
A recepcionista foi promovida a auxiliar administrativa.
Omensageiropassouaserauxiliarfinanceiro,nosetorde
contas a pagar.
Para o setor de vendas e cobranças foi contratado
Matheus, um rapaz jovem, mas experiente. Além dele,
foi contratada uma moça para o lugar da antiga
recepcionista e um novo mensageiro. Todos estavam em
caráter de experiência, e teriam que mostrar vontade de
crescer para assegurarem o posto.
Naempresa,ooffice-boyerachamadomensageiro.
Todosdiziamqueanovanomenclaturaeraumaevolução
41
VONTADE DE VENCER
do office-boy tradicional. O mensageiro fazia quase os
mesmos serviços de um boy, mas com uma apresentação
diferente,deroupasocial,porlidarcomdiretores,grandes
empresáriosedonosdemultinacionais;eleseriaacarada
empresa na rua. Doutor Frederico sempre ressaltava:
“O mensageiro é quem leva a empresa para as outras
pessoas, se ele não estiver bem apresentado, estará passando a
idéia de que a empresa não é bem apresentável para os outros”.
Após a implantação da nova organização, Doutor
Frederico foi conversar pessoalmente com os
colaboradorespromovidosecontratados.Elequeriasaber
como eles estavam se adaptando, o que estava faltando,
seprecisavamdasuaajuda.Enfim,queriaqueosnovatos
se sentissem à vontade.
As contratações feitas por Frederico foram
planejadas para atuar flexivelmente, ou seja, o novo
funcionáriotinhaasuafunçãoespecífica,maseletambém
atuaria em outros setores. Então, durante duas semanas,
o superintendente fez um rodízio de tarefas a fim de
analisarondecadaumseencaixavamelhor.Porexemplo,
caso Matheus se adaptasse melhor com a área de vendas,
inicialmente, ficaria nesta função.
A partir das mudanças implantadas, as tarefas
fluíam normalmente na empresa. Funcionários novos
cumpriam suas obrigações, cafés da manhã eram
realizados durante toda a semana e a produtividade
aumentouconsideravelmente.Maisempresasassociadas
participavam dos treinamentos e reuniões aconteciam
como nunca dentro da empresa. Tudo parecia tranqüilo.
Em um belo dia, Doutor Frederico acordou
inspiradoparanovosdesafiosemsuacarreiraprofissional
eresolveuagitarumpoucoocotidianodaempresa.Novos
42
THIAGO VENDITELLI CURY
desafios, mas sem se esquecer de seu projeto de montar
umcursoouumapalestraquetratassedaconscientização
das pessoas em relação às novas contratações. Além
disso, era preciso conscientizá-los da importância em
passar seus conhecimentos para frente, trocar
experiências e aprendizados.
Quando chegou ao trabalho, convocou alguns
funcionários para uma reunião, sem que eles soubessem
o assunto em pauta. Todos ficaram agitados, correndo
para um lado e para o outro, buscando relatórios dos
últimos seis meses, providenciando os documentos que
foram solicitados, buscando as informações no sistema,
imprimindorelatóriosdeúltimahora.Umaloucuralogo
de manhã. Mas era isto mesmo que ele queria, saber o
quanto essas pessoas estavam dispostas a se
empenharem em novos desafios. Tudo para ser
apresentado no café da manhã do dia seguinte.
— Neste café da manhã, iremos abordar as novas
mudanças e o porquê de eu estar querendo colocar em
prática todas essas idéias. Vamos falar um pouco sobre
comoaspessoasestãoencarandoestesnovosdesafios,se
vocês estão encontrando alguma dificuldade, qual a
repercussão deste novo projeto fora da empresa e como
os outros profissionais estão encarando as nossas
mudanças.Conversaremosumpoucotambém.Algobem
diferente da rotina de vocês, pelo menos no período da
manhã — brincou Doutor Frederico, para quebrar o gelo
que se instalava naquela sala — Afinal, todas as pessoas
presentes temiam o que estava para acontecer. Uma
reuniãodeúltimahora,comumcafédamanhã,realmente,
era bem estranho.
43
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO CINCO
TodosficaramespantadoscomaatitudedoDoutor
Frederico, mas, com certeza, estariam presentes naquele
café da manhã “especial”.
Ao final do dia, com muito trabalho e dedicação,
todos os objetivos haviam sido alcançados e suas
solicitações atendidas.
Doutor Frederico decidiu trabalhar até um pouco
maistarde,paraprepararumaapresentaçãoondepudesse
mostrar aos colaboradores que eles faziam parte de uma
equipe, que o trabalho deles era muito importante para a
empresa.Queriacriaralgumtextoquelhesproporcionasse
uma sensação boa, uma motivação, para buscarem mais
resultadosealcançaremseusideaismaisfacilmente,tanto
profissionalmentequantoemsuasvidaspessoais.Colocou
no papel tudo o que estava em sua mente. Ao final
44
THIAGO VENDITELLI CURY
daquelas horas a sós em sua sala, redigiu um bom texto,
que lhe deu a certeza de sucesso garantido na manhã
seguinte.Inseriualgumasfrasesparameditação,paraque
aspessoasrefletissemsobreseusideais,sobreseussonhos
e suas vontades.
A apresentação contava com um vídeo
motivacional e algumas animações. Sua idéia era
promoverumaespéciededebate,maseleaindanãotinha
tudo formulado. Como já era tarde, decidiu pensar a
respeito no caminho de casa.
Nocaminho,ligouparasuaesposaepediuqueela
preparasse um jantar especial e abrisse uma garrafa de
vinho, para comemorarem mais um objetivo que ele
conseguiu realizar dentro da empresa. Sua felicidade
naquele dia era evidente, pois tinha aprendido muitas
coisas, mas ele não sabia que o maior aprendizado ainda
estaria por vir.
Ao parar o carro no semáforo, viu um homem
pedindo esmola. Ele aparentava mais ou menos uns 35
anos de idade, cabisbaixo, com uma roupa velha e de pés
descalços. Parecia perigoso, afinal, à noite, em um local
escuro, com histórico de assaltos, a suspeita era grande.
Mas isso não o inibiu. Conforme foi se aproximando do
semáforo fechado, o superintendente começou a pensar
nostrocadosquetinhanobolso.Fredericosempreajudava
aspessoasdando-lhesalgunstrocados,massemprepedia
para que elas comprassem comidas ao invés de bebidas
oudrogas.Nãopodiagarantirqueospedintesseguiriam
seu conselho, mas, ao menos, cumpria a sua parte.
Assim que foi apanhar a carteira, sentiu a
necessidadedefazeralgoamaisporaquelapessoa,queria
ajudarmaisdoqueapenasdandounstrocados.Semsaber
45
VONTADE DE VENCER
como fazer, abaixou o vidro do carro e perguntou para o
pedinte, que parecia faminto e com frio:
—Comopossoajudá-lo,semserdando-lhedinheiro?
— O senhor gostaria mesmo de me ajudar? —
perguntou o mendigo surpreso com o tipo de pergunta.
Afinal, não é todos os dias que vemos pessoas tendo
esta atitude.
— Claro que quero! Sei que o senhor precisa de
algo a mais do que uns trocados, algo que lhe dê
esperança! Talvez mais forças para os seus dias... —
sugeriu Doutor Frederico, ansioso pela resposta do
mendigo, que já não parecia ser tão perigoso.
Frederico não tinha esse comportamento todos
os dias de sua vida, mas, naquele momento, escutou a
voz do seu coração e percebeu que deveria fazer algo
por aquela pessoa.
Imediatamente,omendigorespondeuapergunta,
antes que acendesse a luz verde do semáforo e ele não
pudesse dizer tudo aquilo que gostaria que fosse
diferente neste país.
— “O senhor pode lutar por um mundo melhor, pode
lutar para que meus filhos tenham uma oportunidade de
estudar, um futuro melhor que o meu. Se o senhor fizer isto, já
vai estar me ajudando mais do que imagina”.
Após ouvir, Doutor Frederico ficou sem palavras,
estático por algum tempo. Em fração de segundos, um
filme passou em sua cabeça: lembrou-se dos seus filhos;
dasoportunidadesquetiveramquandoeramcrianças,da
segurança ao brincarem, dos bons estudos, dos cursos e
em todas as outras coisas que lhes transformaram em
profissionais competentes. Naquele momento, ele não
tinha noção do número de pessoas que gostariam de ter
46
THIAGO VENDITELLI CURY
as mesmas coisas que seus filhos tiveram. Frederico,
porém, sabia que muitos estavam na mesma situação do
mendigo. Pessoas que, por não terem conseguido uma
oportunidade de estudo, não puderam ter um emprego
melhor, um trabalho digno e uma vida decente.
Elesabiamuitobemquenãoeramtodasaspessoas
queseenquadravamnasmesmascircunstâncias,algumas
realmente não fizeram por onde para serem bem
sucedidas na vida. Existem aquelas que se entregam à
bebidaeaojogo,perdemtudo—casa,família,empresas,
dinheiro — e acabam na rua, pedindo esmolas, se
humilhando por uma nova oportunidade. Mesmo
sabendo que essas pessoas erravam, ele acreditava que
elas mereciam uma segunda chance. Frederico queria
ajudar, mas sabia também que o governo tinha
responsabilidades diante da pobreza.
Mesmo com os pedidos do mendigo para que ele
lutasse por um mundo melhor, proporcionando mais
oportunidades para os seus filhos, Doutor Frederico não
se contentou e quis ajudar. Deu ao pedinte dez reais e
disse-lhequeodinheiroeraparalevarleiteepãoparasua
família, que o resto deixasse por sua conta; tudo o que
fosse possível, ele faria, e, com certeza, assim que os
resultados aparecessem, o mendigo se lembraria dele.
O mendigo agradeceu, ficou muito feliz, mas
mesmoassimpediuquenãoseesquecessedeseupedido
especial: gostaria de ver seus filhos formados, com
oportunidades iguais às que o superintendente teve. O
semáforoabriueDoutorFredericoseguiuemfrente,feliz
por ter ajudado, pensando muito na cena ocorrida.
Quandochegouemcasa,cumprimentouosfilhos,
beijouaesposaefoilogoxeretandonaspanelasparasaber
o cardápio do jantar.
47
VONTADE DE VENCER
Frederico tinha uma esposa amorosa e
companheira, que o apoiava em todas as suas decisões,
estando sempre ao seu lado. O casal tinha três filhos,
dedicados, amigos e integrados com os acontecimentos
da família.
Enquanto colocavam a mesa para o jantar, os
rapazes perguntaram ao pai como havia sido seu dia.
Após ter contado o que havia se passado, os jovens lhe
disseram que tudo o que o pai fez um dia por eles, seria
retribuído e eles dariam toda a ajuda, o apoio e a força
que fossem necessários.
—Pai,hojeétempoderetribuirmosoqueosenhor
fez por nós, sempre conte com o nosso apoio e a nossa
ajuda para o que o senhor precisar.
— Meus filhos, já que vocês tocaram no assunto,
eu gostaria de pedir a ajuda de vocês.
— Pode pedir, pai, faremos o que o senhor
precisar. Nós o ajudaremos com muito orgulho.
Frederico soube criar seus filhos para que se
tornassem grandes homens, e orgulhava-se muito em
ver seu “trabalho” concluído. Podia dormir todos os dias
tranqüilamente,sabendoqueosgarotosestavamcriados,
construindo suas famílias, realizando os seus sonhos,
conquistando objetivos na vida.
— Hoje, vindo para casa, deparei-me com um
senhor pedindo esmola no semáforo, e, quando quis
ajudá-lo, ele me pediu para que lutasse por um mundo
melhor, onde seus filhos tivessem mais oportunidades
do que as que ele teve em sua vida. Queria que eu fizesse
algumacoisaeaindatomou-mecomoexemplo.Gostaria
de ver seus filhos tendo as mesmas oportunidades que
eu tive em minha vida.
48
THIAGO VENDITELLI CURY
— Pai, que homem consciente! Não somente ele,
mas muitos outros andarilhos da cidade merecem ajuda
e oportunidades! — ressaltou um dos rapazes.
Eassimdecorreuojantar.Todospalpitavamsobre
como ajudar pessoas, o que pode ser feito pelo próximo e
concordaram que, acima de tudo, é muito importante o
apoio da família. E aquela família estaria empenhada em
ajudaraquelepobrehomemperdidonasruasdeSãoPaulo
Frederico sentiu-se aliviado. Sabia que algumas coisas já
estavam sendo feitas. Ele não desistira de lutar a cada dia
por um mundo melhor. Ele faria a sua parte.
Terminado o jantar, seus filhos agradeceram pela
“valiosa conversa” que tiveram naquela noite. Enquanto
se preparava para dormir, decidiu inserir na sua palestra
alguma coisa sobre esta situação do país. Acrescentaria
algo para demonstrar que cada um pode fazer sua parte
porummundomelhor.Elenãosabiaoquediriaarespeito,
somente tinha a certeza de que as palavras certas seriam
ditas no momento adequado.
Doutor Frederico contava sempre com o apoio de
alguém maior, alguém que ele dizia ser seu protetor para
todas as horas. Quando se sentia mal, sabia que alguém
estava ali por perto para protegê-lo. Ele tinha o hábito de
rezar a toda hora, entrando em contato com este “alguém
maior”. Sempre disse que não importava a denominação
que damos a esta energia, a esta força maior, mas o que
realmente importava era o que sentíamos e no que
acreditávamos.Achava que todos deveriam crer em algo
que ajudasse nas horas mais difíceis da nossa vida.
As pessoas ao seu redor poderiam até tentar
derrubá-lo,poderiam“puxaroseutapete”,masoqueele
realmente acreditava, era que uma “Força Superior” não
deixaria que nada de ruim lhe acontecesse. Essa “Força
49
VONTADE DE VENCER
Superior” é a nossa Fé. Aquilo que acreditamos nos
momentosquemaisprecisamos,aquiloaquerecorremos
nos momentos mais difíceis e agradecemos nos
momentos mais fáceis.
Finalmente, foi se deitar, e, como já era de
costume, agradeceu pelas conquistas e aprendizados,
pedindo proteção e uma boa noite de descanso para ele
eparatodaasuafamília.Aolevantar-se,pediriaproteção
e discernimento para suas decisões e obrigações.
Um dos seus ideais era mostrar às pessoas como
era bom ter o hábito de agradecer, ter fé,
independentemente de suas crenças. Tudo para ter uma
esperança de um mundo melhor e buscar os sonhos e
objetivos almejados.
Doutor Frederico levantou-se bem cedo, disposto
comosempre,tomoubanhoesearrumouparairtrabalhar.
Na mesa da cozinha, um belo café da manhã reforçado já
o aguardava e, além disso, o diferencial de todos os dias,
suafamíliareunidaàmesa.Muitasvezessaíamatrasados,
com pressa e nem tomavam café da manhã em casa.
Feliz, ele agradeceu a presença da família e
afirmouqueodiaseriamaravilhosoerepletodesucesso.
Entrou na garagem, pegou o carro e seguiu para o
trabalho pelo mesmo caminho de todos os dias,
enfrentando um trânsito caótico. Mas aquele dia era
especial. Mesmo um trânsito ruim não acabaria com o
seu bom humor, preferiu cortar caminho para chegar
mais cedo à empresa para testar a apresentação e se
certificar de que não estava faltando nada para o café da
manhã dos colaboradores.
Ele chegou no horário, preparou tudo o que
precisava,conferiusuaapresentação,certificou-sedeque
50
THIAGO VENDITELLI CURY
o café estava pronto, e enquanto confirmava os últimos
detalhes, os colaboradores começaram a chegar.
Após cerca de trinta minutos, Doutor Frederico
começou sua palestra, mesmo sabendo que algumas
pessoas ainda não haviam chegado.
Ele teria que iniciar a exposição conforme o
combinado, não poderia deixar os que chegaram no
horário esperando por causa dos atrasados.
- Muito bem, senhoras e senhores aqui presentes,
sentem-se,porfavor,paraquepossamosdarinícioànossa
palestra. Mas, continuem comendo, não precisam ter
pressa, somente vamos dar inicio à nossa conversa para
não ultrapassarmos muito do horário.
Doutor Frederico agradeceu a presença de todos,
naquelemomento,foradohoráriodetrabalhoeressaltou
que a reunião seria muito valiosa.
Logo que começou a falar, ele pediu a opinião de
algumas pessoas a respeito dos temas expostos.
—Senhores,euvousugeriralgumascoisasequero
a opinião de vocês a respeito do que eu disser.
— Carmem, primeiramente você, o que acha da
nossa proposta de fazer um coffee-break para os
empresáriosqueparticipamconoscodasnossasatividades
e dos nossos objetivos? Aqueles que nos apóiam e são
nossos aliados nesta busca de novos ideais?
— Bem, Doutor Frederico, eu acho uma idéia
válida.Paraquepossamosoferecernovosserviços,novas
oportunidades de mercado, precisamos do apoio dos
diversosprofissionais.Énecessárioqueaspessoasopinem,
que elas digam o que está faltando no mercado de
trabalho, o que elas acham necessário que seja
reformulado. Até mesmo novas idéias, como, por
51
VONTADE DE VENCER
exemplo, este evento que estamos realizando hoje.
Deveriam ser feitas mais reuniões assim. Com este
objetivo, nós, profissionais, saberemos onde devemos
aperfeiçoar, o que devemos manter e como podemos
inovar nosso trabalho.
—Carmem,admirávelseucomentário!Esomente
para concluir, podemos criar também um grupo interno
aqui na nossa empresa, para que os profissionais aliados
a nós possam efetuar consultas e também dar suas
opiniões,unirforçaspornovosideais,utilizarnossoespaço
físico para suas reuniões, eventos e várias outras coisas.
Mais alguém gostaria de fazer algum comentário sobre o
assunto em questão?
— Eu gostaria, Doutor Frederico! — chamou
Roberto, do departamento jurídico.
—Naminhaopinião,achoquepodemosmelhorar
o nosso departamento jurídico, já que é um dos serviços
mais fortes prestados pela nossa empresa. Poderíamos
melhorar o nosso atendimento aos clientes, com a
contratação de novos advogados e até mesmo de alguns
estagiários.Aomeuver,poderíamosoferecermaiscursos
naáreajurídica,comcustosespeciaisàsempresasparceiras
nas representações, trazendo mais pessoas e firmas para
perto de nós. Com esta atitude, podemos aumentar o
número de clientes e também o nosso orçamento. É um
investimento relativamente pequeno em relação aos
benefícios que teremos em um futuro próximo.
—Muitobem,senhorRoberto,maisumaexcelente
idéia de crescimento para a nossa empresa. Mais alguém
gostaria de comentar algo?
Como ninguém se manifestou, Doutor Frederico
resolveu seguir em frente com os temas, já que o assunto
52
THIAGO VENDITELLI CURY
em questão naquele momento não necessitava de mais
modificações.
—Nósjátemosalgumasmetasaseremcumpridas
e estamos estabelecendo mais algumas neste momento.
Comopodemosfazerparaquenadafiqueparatrás?Afinal,
nãopodemosfazeralgonovoenosesquecermosdoquejá
começamos.
—DoutorFrederico,eutenhoumasugestão.Posso
expô-la ao grupo? Perguntou Matheus, o rapaz recém-
contratado para a área de vendas.
—Claroquepode,Matheus!Porfavor,qualéasua
idéia?
— Eu sei que todos os departamentos têm as suas
obrigaçõeseassuasmetas,cadaumaquitemoseuobjetivo,
tantoprofissionalquantopessoal.Achoquepodemosfazer
algo diferente para alcançarmos essa meta, com mais
rapidez e facilidade. Podemos nos unir e ajudar uns aos
outros.
QuandoMatheusdisseisso,todosficaramsurpresos
comoseucomentário.Eburburinhossurgiramnaplatéia.
—Comopôdesugeriralgodestetipo?Elenãosabe
o que está dizendo!
— Será que ele pensa que é fácil fazer o que
fazemos? E ainda ter que nos conhecer melhor? Ele
está louco!
Osquemaiscriticavameachavamaidéiaruimeram
osquenãosepreocupavamcomocrescimentodaempresa,
nem com o bem-estar de seus colegas de trabalho.
—Porfavor,senhores,mantenhamacalma.Euainda
nem terminei de falar qual é a minha idéia. Sei que para
muitos pode parecer impossível de acontecer, mas com
53
VONTADE DE VENCER
organização e dedicação podemos conseguir bons
resultados para a empresa e para cada um de nós em
particular. Doutor Frederico, posso continuar?
—Claroquesim,Matheus!Porfavor,prossigacom
suaidéia.
— Como eu dizia, se cada um de nós soubesse, no
mínimo, um pouco do que o outro faz, de qual
departamento ele é responsável, poderíamos nos
comunicar melhor, nos reportar às pessoas certas, sem
antes passarmos pelos departamentos errados. Já
pensaram se, quando fossemos pegar o nosso salário,
procurássemos o departamento de marketing para saber
quandoiríamosreceberonossodinheiro?Achoqueseria
um pouco difícil de obter esta resposta ali.
— Bem, o que quero dizer, de uma maneira geral,
éoqueaconteceemváriasempresas,faltadecomunicação
interna. Vejamos um exemplo. Se cada um de nós fosse
falar diretamente com o departamento correto e com a
pessoacerta,deacordocomainformaçãoqueprecisamos,
ficaria mais fácil e menos cansativo para os demais. Isso
se chama “Comunicação Interna”.
55
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO SEIS
Osfuncionáriostinhamosolhosarregalados.Oque
Matheus dizia era algo novo na empresa. A expressão
ComunicaçãoInternanuncahaviasidopensadanaJunção
RecursosHumanos.Apreocupaçãodetodoseracumprir
suas tarefas e receber o dinheiro no final do mês. Não era
necessário conhecer pessoas e departamentos. Mas
Matheus foi firme e seguiu em frente.
—Seumapessoaligaaquinaempresa,epedepara
falar com o departamento administrativo, a secretária irá
perguntar com quem especificamente ele deseja falar.
Correto? E se ele não souber com quem ele quer falar? Se
nãotiveronomedealguém,asecretáriatransferiráaligação
para qualquer ramal da administração. Não é verdade?
— Sim — responderam os outros colaboradores,
interagindo com Matheus.
56
THIAGO VENDITELLI CURY
O Doutor Frederico não disse nada, queria ver até
onde o jovem rapaz queria chegar. Tinha a certeza que
seria uma coisa boa e, curioso para testá-lo, deixou que
elecontinuasse.
— Pois bem — continuou Matheus — se a
atendentesouberalgunsdetalhessobreosdepartamentos,
ela poderá perguntar para a outra pessoa na linha qual a
informação que ela deseja. E quando a pessoa confirmar
o que quer, ela transferirá a ligação para a pessoa certa.
— A partir do momento em que eu sei um pouco
do que cada departamento cuida e quem são as pessoas
responsáveis por cada tipo de serviço, eu posso poupar
um pouco mais de tempo, tanto do meu, como do da
outra pessoa. Além disso, a qualidade no atendimento
irámelhorarmuito.Porqueperdemostempocomligações
malencaminhadaseatendimentosmaldados.Aspessoas
esperam demais por uma informação.
— Temos que saber disto antes do cliente chegar
até nós, para que no exato momento do atendimento,
possamossermaisatenciososcomeles,facilitandoonosso
trabalho e o de nossos colegas. Com isso, deixamos o
cliente satisfeito, oferecendo serviços e atendimento de
altaqualidade.Hojeemdia,temosexemplosclarosdeste
tipodecomportamentoemoutrasempresas.Essapostura
realmente funciona. Pode não ser a solução para todos os
nossos problemas, mas com certeza alguma coisa irá
mudar aqui dentro da Junção.
Doutor Frederico aproveitou o ânimo do novo
rapazparatestarseusconhecimentosesaberatéondeele
chegaria com sua idéia, sem que ele precisasse interferir.
— Muito boa idéia, Matheus, mas você poderia
me dar um exemplo de como poderíamos desenvolver
57
VONTADE DE VENCER
este tipo de atividade aqui dentro? Pois acho que esta
dúvida pode ser a de outras pessoas.
— Claro que sim, Doutor Frederico, com o maior
prazer! Na minha opinião, podemos nos comunicar
melhor a partir do momento em que eu sei o que o
departamento vizinho faz. Vamos utilizar um exemplo:
eu sou funcionário do financeiro, mas não sei ao certo o
que faz o departamento de cadastro e quem é o
responsável. O mesmo acontece com todas as outras
seções. Falta “Comunicação Interna” entre as pessoas, e
a minha sugestão é que façamos o seguinte: em primeiro
lugar, podemos nos reunir uma hora antes do nosso
expediente aqui no auditório para nos conhecer melhor.
E como podemos fazer isto? É simples, a cada
semana, os integrantes de um departamento nos
apresentam seus setores, dizendo o que cada um faz e dá
um pequeno resumo do seu trabalho e, posteriormente,
esclareceasdúvidasdoscompanheiros.Éclaroqueesteé
um trabalho um pouco demorado, mas o resultado é
garantido. Acredito que o esforço vale a pena. Podemos
fazer o sorteio de qual será a ordem dos setores a expor.
Assim, todos terão a oportunidade de falar um pouco
sobre a sua função e o seu departamento. Desta forma,
todos saberão um pouco dos seus colegas e poderemos
noscomunicarmelhor.
Assim que Matheus terminou de explicar a sua
idéia, que seria adaptada da melhor forma para aquela
empresa, Doutor Frederico agradeceu a ajuda do
colaborador.
— Com certeza, será um movimento grande para
todos os colaboradores, e certamente fará diferença em
nosso dia-a-dia. Mais uma vez, as atitudes e o empenho
58
THIAGO VENDITELLI CURY
estão me surpreendendo — disse Doutor Frederico,
contente com as novas ações e percepções de seus
colaboradores.
— Mais alguém quer falar algo ou sugerir alguma
outra coisa que possa nos ajudar?
Como ninguém quis comentar mais nada, Doutor
Fredericodeucontinuidadecomaprogramaçãodoevento.
— Vamos dar seqüência às nossas atividades. Eu
gostaria de passar um vídeo que mostra um pouco dos
resultadosobtidosemoutrasempresascomotrabalhoem
conjunto, como disse Matheus. Este vídeo expõe alguns
resultadospositivosdotrabalhoemequipeedaimportância
de conhecer uns aos outros, saber o que o colega faz, por
qual setor ele é responsável, como atender melhor o seu
cliente e obter melhores resultados a partir desta postura.
É um vídeo interessante, que explica de maneira clara e
objetivaosprincipaisaspectosdeumaempresaquecresce
no mercado de trabalho. Além do vídeo, temos também
uma pesquisa, que mostra a opinião da população em
relação a estas novas atitudes nas empresas. Foram feitas
duas perguntas para os entrevistados:
1— “O que vocês gostariam que mudasse na
empresa na qual você trabalha?”.
2— “Se tais mudanças fossem feitas, como você
reagiria,ecomoseriaoseumododetrabalhar?”.
—Antesdemostrar,querodizer-lhesparaficarem
tranqüilos.Todosestesnovosplanoseidéiasqueestamos
discutindo serão passados para o papel. Faremos um
planejamentoemontaremosumainfra-estruturaquesirva
de diretriz para todos nós, incluindo a mim.
Doutor Frederico pediu para que iniciassem ao
vídeodetrintaminutos.Apósaexibição,eleperguntouo
59
VONTADE DE VENCER
queoscolaboradoresacharameoqueaprenderamcoma
fita. As respostas foram semelhantes.
— “Aprendemos que a qualidade e o bom atendimento
dependem de cada um de nós, e temos que fazer a nossa parte,
para que possamos alcançar nossos objetivos”.
— Muito bem, senhoras e senhores, vejo que o
vídeofoiproveitoso,e,paraencerrar,eugostariadecontar
uma história para vocês. Prometo que não irá demorar.
Todos permaneciam atentos às palavras do
Doutor Frederico.
— Uma vez, um amigo me deu um convite para
assistir a uma palestra bem interessante. O palestrante
iniciou o encontro segurando uma nota de cem reais na
mão. Na sala, havia mais ou menos 160 pessoas, entre
grandesempresários,funcionáriospúblicos,vendedores,
autônomoseoutros.Comanotadecemreaisnamão,ele
levantou o braço e perguntou “quem quer esta nota de
cem reais?”.
Várias pessoas começaram a gritar: — Eu quero!
Eu quero!
— “Eu darei esta nota a um de vocês, mas antes
me deixem fazer isto” e começou a amassar a nota, como
se estivesse amassando um papel velho. E assim,
perguntou outra vez. “Quem ainda quer esta nota?” —
As mãos continuaram erguidas e os gritos cada vez mais
altos. “E se eu fizer isso?” — E ele deixou a nota cair no
chão e começou a pisar em cima. Pisava de um lado,
pisava do outro e depois que a nota estava totalmente
amassada e suja, ele perguntou novamente: “E agora
quem ainda quer esta nota?”.
Todas as mãos continuaram erguidas e os gritos
ainda mais altos. Quando o palestrante disse: Meus
60
THIAGO VENDITELLI CURY
amigos, aprendam esta lição: “Não importa o que eu faça
com o dinheiro, posso amassá-lo, posso sujá-lo e vocês ainda
irão querer esta nota, porque ela não perderá o seu valor, ela
sempre irá valer cem reais”.
Após ouvir esta frase, eu fiquei pensando por
algunsinstantes.Oqueaspessoasfazemconsigomesmas
ecomosoutroséigualaoqueelefezcomodinheiro.Isso
acontececonoscononossodia-a-dia.Muitasvezes,somos
amassados,pisoteados,passadosparatrás,ficamossujos,
nossentimoshumilhados,fracassadosederrotados.Estas
situações ocorrem em razão das decisões que temos que
tomar em nossas vidas, ou por obstáculos que surgem
emnossoscaminhos,talvezporarriscarmos.Setomarmos
decisões e, infelizmente, por qualquer motivo, o
planejamento dá errado, nos sentimos sem importância,
incapazesdeacertar.Nossentimosdesvalorizados.Porém,
nãoimportaoqueaconteceuouoquevaiacontecer,nunca
perderemos o nosso valor perante o universo. Estejamos
sujosoulimpos,amassadosouinteiros,nadadissomuda
aimportânciaquetemosparao“mundo”eparaosoutros,
mesmoqueelesnãoreconheçamonossoverdadeirovalor.
O preço de nossas vidas não é pelo que fazemos ou
pelo que sabemos, mas sim pelo que somos, e como
demonstramos quem somos. Através do nosso caráter,
danossadignidadeedanossaposturadiantedosdesafios
équesuperamososobstáculosimpostospelanossavida.
Quandoeutermineideouvirestaspalavrasnoseminário,
fiquei por alguns instantes pensando a respeito do que o
palestrante acabara de falar. E percebi que, muitas vezes,
nós valorizamos as pessoas pelo que elas sabem, pela
maneira que se vestem ou agem, mas não pelo que
realmente são. No fundo, são pessoas maravilhosas que
merecem o nosso respeito e a nossa admiração, como
61
VONTADE DE VENCER
qualquer outra pessoa, seja ela tendo o melhor
desempenho ou não, seja ela errando ou não. “Todos
somos iguais”.
Ao fim do discurso, Frederico foi aplaudido de pé
por todos os colaboradores, emocionados com suas
palavras. Eles tinham a certeza de que, daquele dia em
diante, mudariam seus conceitos e a maneira de olharem
para as pessoas.
A palestra surtiu efeito. Nos dias seguintes, as
pessoas passaram a se entreolhar com mais sinceridade,
com menos desconfiança. Os colaboradores perceberam
quetodossãosereshumanosemerecemomesmorespeito
e a mesma consideração. Essas atitudes também devem
ser aplicadas aos pedintes nas ruas, àqueles que moram
emcasasmaissimplesqueasnossaseatémesmoaquem
tem cargo mais baixo que o nosso.
Mas, infelizmente, nem todos mudaram seus
comportamentos. Havia um grupinho que desconfiava
que Doutor Frederico planejava algo de ruim. Eles
continuaram olhando torto, sempre com o pé atrás,
evitando que Frederico soubesse dos trabalhos que
estavam desenvolvendo, distanciando-se ainda de
Carmem e deAndressa.
O que eles menos imaginavam estava por
acontecer.Umbelodia,umdosaliadosdeFredericoouviu
uma conversa do pessoal da oposição. Todo o cuidado
com as tramóias acabou indo por água a baixo. Laís, a
moça responsável pelos treinamentos, passava pelo
grupinho e acabou ouvindo tudo! Ela ficou atônita!
Completamente perplexa e indignada!
Os opositores de Doutor Frederico estavam
planejando contar as suas “conclusões” para a diretoria.
62
THIAGO VENDITELLI CURY
Queriamobteroapoiodossuperioresdentrodaempresa.
Assim, seria mais fácil chegarem ao objetivo final.
Uma das meninas do grupo opositor tinha um
contatomaispróximocomumdosdiretoresdaempresa.
Essa aproximação daria chances para que eles
convencessemestediretordequeoDoutorFredericonão
era a pessoa ideal para o cargo e para os trabalhos que
eles, os diretores e o presidente, queriam desenvolver
dentro da empresa.
Diante dessa situação, alguns poderiam se
perguntar como um diretor de uma empresa se deixaria
levarporumafofocadestas.Comoeleseriacapazdejulgar
a capacidade e a competência de um profissional?
Interesse, é claro.
Passado o evento, Doutor Frederico voltou a se
dedicaraosseustrabalhosdiários.Eleplanejavacriaruma
palestra de conscientização, com o objetivo de fazer com
queoscolaboradorespudessempassarosconhecimentos
para os outros. Frederico dizia que as pessoas recém-
formadas necessitavam de alguém que lhes ensinasse
coisas novas do mercado de trabalho. Ele acreditava que,
com essa atitude, poderia haver diminuição do
desempregoetambémmelhoradaptaçãodocolaborador
às suas funções.
O objetivo de Frederico era mostrar que passar o
conhecimentoadiantesótrazbenefíciosequetodosteriam
condições de progredirem na carreira.
Entre tantas tarefas, como criar palestras e cuidar
da evolução dos seus colaboradores, Frederico ainda
cuidava dos eventos que a empresa participava. Estes
eventos aconteciam fora da sede e normalmente
duravam vários dias. Como estava ficando atarefado, o
63
VONTADE DE VENCER
superintendente decidiu passar esta responsabilidade
para algum colaborador de confiança. Ele precisava que
tudo estivesse bem organizado, porque os eventos são a
imagem da empresa perante outras organizações e tudo
deve estar impecavelmente perfeito, a não ser quando
ocorre algum imprevisto.
A primeira pessoa que veio à sua mente foi
Mariana, responsável pela parte de criação das revistas
que a empresa fornecia para seus associados. Mariana
tambémcuidavadosanúnciosemjornaisepropagandas,
entre outras funções relacionadas com a área de
Marketing.Fredericoacreditavaqueelaseriaapessoamais
indicada para a função e decidiu chamá-la para uma
conversa. Marcou uma reunião com a moça para logo
cedo, no dia seguinte.
Deixou tudo pronto para passar a Mariana, mas,
mesmoassim,resolveuficarumpoucomaisnoescritório,
afimdeincrementarasuapalestra.Àquelahora,osilêncio
do ambiente inspirava suas idéias. Naquela atmosfera,
Frederico começou a traçar as diretrizes para seu projeto,
que incluía a melhora no ambiente empresarial e a
expansão da idéia para outros empresários.
UmadascoisasqueDoutorFredericoabordariaem
sua palestra seria as criticas que os chefes e supervisores
fazemaosseusfuncionários.Osupervisorqueriadizerque
épossívelcorrigirumerrosemutilizaçãodeofensaverbal
e grosseria. Frederico acreditava que a amabilidade no
tratamento das pessoas pode trazer melhores resultados.
Doutor Frederico falaria ainda sobre o
comportamento das pessoas dentro das empresas, da
importância de um bom relacionamento interno entre os
departamentos, da qualidade do atendimento e de como
traçar os objetivos para sua equipe e sua empresa.
64
THIAGO VENDITELLI CURY
Enquantoeleescreviasuasidéias,pensouemcriar
uminstitutoondepoderiaajudaraspessoasasetornarem
melhoresprofissionaisparaomercadodetrabalho.Neste
instituto, seriam promovidos cursos, palestras, reuniões
de apoio para os profissionais interessados, entre outras
atividades. A idéia de Frederico era contar com o apoio
deamigos,jáqueotrabalhoeravoluntárioegratuitopara
os interessados. Ele pensava em beneficiar a fatia da
população que não tem acesso a este tipo de qualificação.
Este projeto seria para longo prazo, mas Frederico já
começara a traçar seus planos, pensando no futuro.
Aofinalizar,Fredericofoiparacasa,poissuafamília
o esperava. Ele precisava descansar, pois o dia seguinte
estava cheio de tarefas a serem cumpridas.
As novidades do dia seguinte não provocariam
modificações em seu humor. Ele teria novos desafios,
aprendizados, além de imprevistos, que resolveria com
calma, sensatez e sabedoria. Você pode estar se
perguntando: “Este homem existe mesmo?” “Como pode
alguém que tem problemas não se estressar”.
Realmente, Frederico se estressava bem pouco.
Procurava sempre resolver as coisas com calma e
sabedoria, mas em certos momentos, ele se estressava.
Aí, dizia o que realmente pensava, era uma outra pessoa.
Zangava-se e dava a bronca em quem precisava. Porém,
depois de gritar, pedia desculpas pelo descontrole
momentâneo e procurava explicar o ocorrido. Frederico
não tinha a obrigação de dar satisfações a seus
colaboradores, entretanto ele se preocupava.Assim era a
forma do superintendente ser e de ensinar as pessoas, de
conquistar objetivos e realizar sonhos. Por onde passa,
ele deixa um rastro de sabedoria e amizade, que,
infelizmente, não são todos que sabem aproveitar.
65
VONTADE DE VENCER
Ao chegar na empresa, Doutor Frederico decidiu
começar o dia de uma maneira diferente, queria mudar
seu comportamento para ver a reação das pessoas que
trabalhavam com ele. Sentiu a necessidade de fazer isso,
já há algum tempo ele vinha percebendo que pessoas
dentro da empresa estavam lhe tratando de uma forma
diferente,atémesmopôdeouviralgumasfofocas.Como
decorrer dos dias, notou que realmente algo estava
acontecendo.Suaintuiçãoeramuitoaguçadaecomotinha
uma “proteção” muito forte, decidiu fazer um teste.
67
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO SETE
Antes de entrar no escritório, Frederico foi tomar
café da manhã em uma padaria próxima à avenida São
Luiz, pois queria encontrar velhos amigos. Ficou tão
empolgado com o ambiente da cidade agitada logo cedo,
que resolveu engraxar os sapatos na praça Dom José
Gaspar. Feliz com suas atitudes, subiu para sua sala com
alguns minutos de atraso.
Entrou sem dizer bom dia para ninguém.Apenas
respondia quem o cumprimentava. Foi direto para sua
sala, onde permaneceu por toda a manhã. Queria saber
quemrealmentesepreocupavacomele,quemeram“seus
amigos” e quem eram as pessoas que não gostavam da
sua forma de trabalhar, seus “inimigos”.
A atitude de Frederico chocou e as pessoas
estranharam.Algunsfuncionáriosnãoocumprimentaram,
68
THIAGO VENDITELLI CURY
pois acharam que tinha acontecido algo muito grave.
Somente algumas pessoas que o admiravam foram até a
saladeleparafalarbomdiaesaberoquehaviaacontecido.
Seus opositores, como já era previsível, sequer passaram
emfrenteàsuasala,tampoucoocumprimentaram.Logo,
ele pode perceber quem eram as pessoas com quem ele
deveria tomar cuidado.
Frederico foi em frente, superou aquele momento
e deu a volta por cima. Repetiu a mesma ação no dia
seguintee,maisumavez,areaçãodaspessoasfoiidêntica.
Só seus aliados falaram com ele.
Como não conseguiu conversar com Mariana no
dia combinado, resolveu chamá-la naquele momento.
Quando ela entrou na sala, o chefe solicitou café e água,
antes de dar início à conversa.
— Muito bem, Mariana, eu chamei você aqui para
lhe passar informações sobre algumas mudanças que
vamos ter de hoje em diante. Fique tranqüila, são coisas
boas e sei que posso contar com você.
As novas funções deixariam Mariana muito feliz;
ela não reclamaria de acúmulo de trabalho, ao contrário,
ficaria muito lisonjeada. Ele sabia também que ela não se
sentiriasuperioremrelaçãoaosoutroscolaboradores.Só
porqueestavacomestasnovasfunções,nãoseriamotivo
para se tornar uma pessoa orgulhosa, mas sim, feliz por
merecer e ter credibilidade para assumir novas funções.
— Como você já deve saber, estou bastante
atarefado com todas estas mudanças. Estou sem tempo
para cuidar de nossos eventos externos. Sendo assim,
passoparaasuaresponsabilidadecuidardestesepisódios,
desdepequenasreuniõesexternasatéosgrandeseventos.
Organizar,fazercotações,fecharcontratos,irpessoalmente
69
VONTADE DE VENCER
conferir a organização e também estar presente em todos
os eventos como responsável pela criação e organização.
— Não sei se posso dar conta do serviço, Doutor
Frederico!Tudoémuitonovoparamim!—disseMariana,
aindainsegura.
A reação de Mariana foi semelhante à de outras
pessoas: ter medo diante de novas tarefas, novas
obrigações. As pessoas não confiam em si mesmas, não
têm noção do seu potencial, As pessoas não acreditam
que, se recebem propostas para novos desafios, é porque
seus superiores as julgam capazes de cumprir as metas.
Um diretor de empresa, superintendente ou até mesmo
o dono da empresa, só vai delegar funções a pessoas
com responsabilidade, capacidade e conhecimento para
exercer a função.
— Fique calma, querida Mariana! Já diz o velho
ditado: “Nos dão o frio conforme o nosso cobertor”.
Se você está recebendo esta responsabilidade, é
totalmente capaz de cumpri-la, E isso eu sei que você é.
ApósouvirestaspalavrasdoDoutorFrederico,ela
sentiu-se melhor, mais calma e mais confiante.
— Está bem, se o senhor está dizendo, eu acredito.
O que devo fazer então?
Ele começou a passar as novas funções para que
iniciasse os seus trabalhos e, ao término de uma hora de
conversa, disse:
—Fiquetranqüila,Mariana,qualquerdúvidavenha
meprocurar.
Frederico sempre estava à disposição para ajudar
aspessoas,masnaquelasemanaestavarevendoumpouco
seus conceitos e decidindo quem ele realmente ajudaria.
Nunca negou apoio a ninguém, e não seria agora que ele
70
THIAGO VENDITELLI CURY
agiria diferente, apenas tomaria cuidado com algumas
pessoas ao seu redor. Por isso, já não era mais para todas as
pessoas que ele dizia estar sempre à disposição. Passou a
tomarcuidadocomoqueaspessoasfalavam.Infelizmente,
istoeranecessário,poisnãoeramtodosdegrandeconfiança.
Após delegar as funções para Mariana, ele
continuouasededicaràpalestra,queriaterminá-laomais
rápido possível.
Alguns dias se passaram, o serviço fluía
normalmente,pareciaqueapoeiratinhabaixadoeoclima
estava voltando ao normal, melhor do que na última
semana. Doutor Frederico chegou até a se perguntar se
realmente estava sendo coerente em duvidar de algumas
pessoas. Por não ter certeza ainda das coisas, resolveu
continuarcomseucomportamentopormaisalgumtempo.
Após duas semanas sem novidades, ele havia
concluído sua palestra. Como as coisas na empresa
estavam tranqüilas, ele teve mais tempo para aperfeiçoar
suas idéias e finalizar a exposição.
Frederico decidiu marcar a data para a primeira
palestra, já que as pessoas dentro da empresa, os amigos,
sua família e até mesmo os diretores, haviam aprovado o
tema e a forma de abordagem. Marcado o dia, era
necessário ter público. Delegou a função para Matheus,
que tinha muita habilidade para falar com as pessoas um
rapaz desinibido, ótimo vendedor.
Perto da data da palestra, a lista de presença estava
quasecompleta.Aapresentaçãoestavapraticamentepronta,
faltavamsomentealgunsreparoserevisaralgunsdetalhes.
Assim que terminou tudo, decidiu compartilhar
alguns tópicos com Carmem, sua consultora, e Andressa.
Eleconfiavamuitonelasepodiacontarcomaajudadeambas.
71
VONTADE DE VENCER
—Eupediquevocêsviessematéaquiparamostrar
alguns detalhes da minha palestra, que já está quase
pronta. Quero a opinião de vocês. Vejam e digam-me,
sinceramente, o que acham.
Carmem e Andressa analisaram atentamente o
conteúdo da palestra e exprimiram suas opiniões.
— Doutor Frederico, está perfeito! Tenho certeza
quetodosirãogostarmuitodoseuprojeto,eébemprovável
queelesqueiramfazerpartedeletambém–disseAndressa.
—Seráquechegaremosaesteponto?Porquevocê
acha que eles podem querer fazer parte do projeto? —
perguntou Doutor Frederico aAndressa.
— Porque isto que o senhor está fazendo, pode e
deve ser usado por qualquer pessoa, tanto em sua
empresa, como na sua vida particular. É um trabalho
novo no mercado e sabemos que dá resultados. Assim,
fica mais fácil obtermos parcerias nesse novo caminho
— ressaltou Carmem.
— Será que é para tanto, meninas? — perguntou
novamente.
—Claroqueé!—comentouCarmem—Etemmais
uma coisa: se este projeto der certo, vamos conseguir
alcançarnossasmetasmaisrapidamentedoqueprevemos.
— Está bem, já que você diz com tanta convicção,
eu acredito. Vamos trabalhar e organizar tudo para que
seja um sucesso absoluto — finalizou Frederico.
Faltavam apenas dois dias para o evento, quando
algumas pessoas começaram a se preocupar, queriam
saber o que realmente ia acontecer, qual era a finalidade
da reunião.Afinal, não era uma reunião somente com os
membros da empresa, já que os diretores das empresas
parceiras também estariam presentes. Todos temiam
72
THIAGO VENDITELLI CURY
mudançasnoquadrodefuncionários,demissões.Mesmo
com as palavras do Doutor Frederico, de que nada de
mais aconteceria, nem todos ficaram tranqüilos. Muitos
aindaduvidavamdaspalavrasedasaçõesdosupervisor.
O clima mudou novamente naquela empresa. A
desconfiança voltava a reinar em alguns ambientes,
principalmente onde estavam seus opositores.
No dia da palestra, houve um mutirão para que
para que tudo saísse perfeito. Alguns organizavam o
auditório,outrosajudavamaarrumaramesacomocoffee-
break, outros verificavam os detalhes.
Convidados, empresários e diretores chegavam a
todo o momento. Uma correria, mas com o trabalho em
equipe, tudo estava acontecendo como o planejado. Os
elogios passavam pelos ouvidos da organização: “a
arrumação está uma beleza”; “o café está uma delícia”;
“muito bom este evento, vamos ver agora como será o
conteúdo da apresentação”.
Doutor Frederico não se preocupava com o receio
do público, pois sabia que tudo estava correto, no seu
devidolugar.Eomaiorapoioqueeleprecisavaestavaali.
Aequipe de Frederico participava ativamente, ajudando
no que precisasse.
Após tomarem o café da manhã, ele decidiu dar
início à palestra.
— Senhoras e senhores, vamos começar! Sentem-
se, por favor!
Todos se dirigiram aos seus devidos lugares.
Terminaram de tomar café e, em tom amistoso, pediram
para o Doutor Frederico a autorização para voltarem à
mesaapósapalestra.Omotivoalegadoeraqueosquitutes
estavam muito saborosos. — Mas claro! — respondeu
73
VONTADE DE VENCER
Frederico. Assim que terminarmos a nossa palestra,
voltaremos ao café. Ele achou a idéia interessante, pois
teria um feedback das pessoas. O que elas acharam do
evento, quais seriam as sugestões e outros pontos
levantados na conversa com os empresários.
Ele começou sua palestra pedindo para que as
pessoas se apresentassem.
— Acho que podemos começar a nossa palestra
nosapresentandounsaosoutros.Digamdequeempresa
vocês são, o que vocês fazem e o que os motivou a virem
aqui. Temos algum voluntário para começar?
Ninguémsemanifestou,umsilênciototal.Pessoas
quetrabalhamnomesmoramodeserviçoscomvergonha
umas das outras.
— Bem, já que ninguém se manifestou, parece-me
que vocês estão um pouco tímidos. Para facilitar, eu
começo dizendo um pouco sobre esta empresa, e sobre o
quememotivouacriarestapalestra—ressaltouFrederico,
quebrando o silêncio no auditório.
— Em primeiro lugar, tive a idéia de montar este
eventoapartirdomomentoemquepercebiaquantidade
de pessoas que estavam ficando sem oportunidades no
mercado de trabalho. Na minha opinião, isto ocorre
devidoàfaltadeconsideraçãodogovernoetambémpela
faltadeoportunidadesparaestesprofissionais.Umaparte
disso é culpa nossa, que muitas vezes negamos para os
novos profissionais uma chance de demonstrarem o que
aprenderam em anos de estudo.
—Istopodemudar,enóspodemoscolaborarpara
esta mudança. É muito simples: podemos abrir as nossas
portas para novos profissionais sem nos preocuparmos
tantosevamostermaisgastos.Ouquealguémnovopode
74
THIAGO VENDITELLI CURY
“roubar nosso cargo”, ou o cargo de outras pessoas
dentrodasempresas.Competitividadesempreiráexistir
e cabe a nós defendermos o nosso lugar, darmos o nosso
melhor para continuarmos onde estamos e ainda
crescermos profissionalmente.
— Todas estas coisas me levaram a construir este
projeto, querer um mundo um pouco melhor. Acho que
podemos dar as nossas contribuições, podemos ajudar
muitaspessoasse,emprimeirolugar,mudarmosanossa
postura, a nossa maneira de agir e de pensar.
— Em segundo lugar, devemos criar um grupo
entre nós, para trocarmos idéias sobre o que podemos
fazer para mudar este quadro e para sabermos qual a
opinião das outras pessoas. Podemos ainda formar uma
comissão que possa auxiliar nossos colegas no
procedimento para novas contratações; podemos criar
cursos, reuniões mensais para as empresas que se unam
ao nosso projeto, mas para isso é necessário nos
juntarmos nesta empreitada, caminharmos lado-a-lado
em busca desses novos ideais, para sairmos ganhando.
Alguém tem alguma dúvida ou quer fazer alguma
colocação a respeito do que eu disse?
— Eu gostaria!— disse um senhor com voz baixa,
sentado no fundo do auditório, ainda um pouco tímido.
— Por favor, senhor, fique à vontade e nos diga
qual a sua opinião sobre este assunto.
—Emprimeirolugar,bomdiaatodos,meunome
é Rogério, sou dono de uma empresa que presta serviços
de Recursos Humanos de todos os tipos, desde
contratações até terceirização de departamento
Administrativo.Voufalarumpoucomaissobreotrabalho
que a minha empresa desenvolve. Uma firma não tem o
75
VONTADE DE VENCER
departamento de Recursos Humanos, por querer
economizarcustosoupornãoterespaçofísico,dessaforma
ela contrata nossos serviços e tudo o que diz respeito ao
RH será tratado diretamente por nós. E eu concordo
plenamente com o senhor Frederico, devemos colaborar
com este primeiro passo das pessoas! Se nós, que somos
experientesnomercadodetrabalho,fecharmosestasportas,
quemdaráoportunidadesaestaspessoas?Umempresário
novo no mercado de trabalho, com uma empresa sem
estrutura? Talvez, mas com certeza é bem mais fácil para
nós do que para eles. E veja que até mesmo estes novos
empresárioscomsuasnovasfirmas,aindasemsustentação,
abrem mais espaços para os novos profissionais do que
nós mesmos, que já temos uma “bagagem” maior.
—Antesmesmodecomeçarmosesteencontro,eu
estava conversando com um colega aqui presente sobre
este tema, dizendo que estou abrindo as portas da minha
empresa para recém-formados. Há dois meses, fiz um
anúncio no jornal a respeito de uma vaga para Gerente
Administrativo.Euqueriaumprofissionalrecém-formado
em administração. A vaga tinha um salário razoável,
benefícios,registroemcarteira,tudoconformealeieainda
com uma oportunidade de crescimento dentro da
empresa. E, ao meu ver, isto é o mais importante para o
recém-formado, uma oportunidade de crescimento. Ele
sabe que vai demorar um pouco para ganhar bem, vai ter
que começar de baixo até chegar em um patamar de
merecimento pelos seus esforços, mas ele precisa deste
começo, desta oportunidade de trabalho.
Todo jovem sempre sonha com o primeiro
emprego, se esforça, estuda, trabalha muitas vezes com
aquilo que não gosta de fazer só para poder pagar a
faculdade, e quando se forma, não tem oportunidade no
76
THIAGO VENDITELLI CURY
mercado de trabalho. Imaginem a frustração que este
profissional terá na sua vida! Ele, que está pronto para
colocar em prática tudo o que aprendeu na faculdade,
que dispõe de conhecimento e está disposto a mostrar
todo o seu talento. Não podemos fechar as portas para
estes jovens! Claro que não são todos os jovens que
pensam da mesma forma ou que têm a mesma
capacidade e vontade de aprender e mostrar o seu
talento. Mas posso dizer que a maioria deles se empenha
e tem o melhor rendimento na faculdade.
Quando eu e meus sócios tomamos essa decisão,
alguns colegas acharam uma loucura, disseram que nós
estaríamos colocando a empresa em risco. Eu,
particularmente,nãodeiouvidosecontinueicomaminha
posição. Hoje, a nossa empresa está colaborando para o
crescimento de uma pessoa, que tem um potencial
magnífico.Emdoismeses,elajáestádandocontinuidade
a um trabalho, onde vários profissionais tentaram
desenvolverenãotiveramsucesso.Esteéumprojetoque
está trazendo lucros para a minha empresa. Os recém-
formados estão com os aprendizados mais “frescos” na
cabeça, cheios de vontade para mostrar seu potencial.
Claroqueparatodaregraexistesuaexceção,comojádisse
antes, mas feita uma boa seleção, você poderá ter muitos
benefícios, e bons profissionais também.
— Obrigado, Rogério. É realmente essa postura
quedevemosterperanteomercadoeosrecém-formados.
Mais alguém, senhores?
E como as pessoas já se sentiam mais à vontade,
novas opiniões foram dadas, todas seguindo a mesma
linhaderaciocíniodasidéiasdoDoutorFrederico.Durante
trêshoras,osempresáriosficaramconversando,trocando
idéias, até que, no final da palestra, depois do Doutor
77
VONTADE DE VENCER
Frederico ter apresentado todas as pesquisas pertinentes
aoassunto,decidiramdecomumacordoque,daqueledia
em diante, formariam uma comissão de ajuda a novos e
antigos profissionais do ramo de Recursos Humanos. E,
quem sabe futuramente, dependendo do sucesso do
trabalho desenvolvido, abririam espaço para os
profissionais de outras áreas também. Deram o nome a
esteprojetode“ProgramadeQualificaçãoProfissional”.
Estacomissãofariaosseguintestrabalhosdeapoio:
auxiliarosempresáriosnasnovascontratações;esclarecer
dúvidas de outras empresas; implantar novos serviços;
ensinar os departamentos a conversarem entre si; ajudar
as pessoas a se relacionarem melhor umas com as outras;
fornecer todo apoio necessário para os estagiários e os
recém-formados, entre outras atribuições.
Com a formação do grupo, decidiram que as
reuniões seriam semanais, para obterem uma primeira
estrutura do projeto. Feito isto, as reuniões passariam a
serquinzenais,atéchagaremaumpatamarestável,onde
pudessem ser mensais, com suas devidas exceções, se
fosse preciso.
Após ter concluído o passo mais importante,
Doutor Frederico comunicaria à diretoria sobre os
acontecimentos e os resultados da sua palestra. Era
chegada a hora. Começou então a entrar em contato com
os diretores, solicitando uma reunião, o quanto antes
possível, para fazerem um balanço de suas atividades.
Esta reunião foi marcada para a semana seguinte.
Quando Frederico pôde respirar um pouco, após
semanas de trabalho e reuniões, ele se lembrou da
proposta que Matheus havia feito, uma troca de
conhecimentos entre os departamentos.
78
THIAGO VENDITELLI CURY
— Tenho que dar continuidade a esse trabalho. É
algo muito importante para a empresa e para o
crescimentodoscolaboradores.Mas,aindasim,achoque
podemos incrementar um pouco este projeto, e se além
datrocadeidéiasentreosdepartamentos,nósfizéssemos
também algumas definições de como evitar problemas?
Poderia ajudar ainda mais... Vou chamar Matheus aqui
para conversarmos - pensou Doutor Frederico, já com
idéiasnovasemsuacabeça.Elegostavadoseutrabalhoe
se sentia bem exercendo a função de superintendente,
exceto quando alguns diretores “ficavam no seu pé”.
Matheusatendeuochamadoprontamente.Entrou
na sala, fechou a porta e sentou-se, esperando pelas
orientações do chefe.
— Eu lhe chamei aqui para que possamos dar
continuidade às suas idéias de relacionamento entre os
colaboradores. Vamos começar relembrando suas idéias.
Tudo bem?
—Claro,DoutorFrederico!Sógostariadelhepedir
umfavor.Euprepareiunsgráficos,possolhemostrar?—
solicitouMatheus.
— Sem nenhum problema, meu rapaz. Deixe-me
vê-los! — concordou o superintendente, curioso.
FredericosabiaqueMatheustinhamuitopotencial
edeveriaserexplorado;eraumapessoanovanaempresa,
cheia de conhecimentos, e com muita vontade de expor
suas idéias. Pretendia ensiná-lo, ajudá-lo nas conclusões
das tarefas. Este era o tipo de trabalho que mais lhe dava
prazer. Em tantos anos de profissão, uma das coisas que
mais prezava era ajudar jovens em formação para
conseguirem melhores colocações. Sentia-se muito bem
emajudarpessoasàsuavolta.Sentia-sehonradoquando
79
VONTADE DE VENCER
ouvia os comentários dos amigos: “Você se lembra daquele
rapaz, jovem, que trabalhou na empresa que o Fred
administrava? Ele trabalhou lá durante anos, começou como
mensageiro e saiu de lá em uma posição muito mais alta!” Este
rapazabriusuaprópriaempresa,administraseusnegócios
e ainda presta consultoria para terceiros”. Sempre que
ouviaalgoassimdestetipo,Fredericosentia-seorgulhoso
em saber que tinha colaborado com o sucesso de alguma
pessoa. Todas estas lembranças se passavam na mente
dele enquanto Matheus mostrava seus gráficos.
— Meus parabéns, Matheus! Os gráficos estão
corretosemuitobemapresentados.Euaprovototalmente
a sua idéia e, ainda mais, quero complementá-la, com
alguns detalhes que acho importantes para que os
resultados sejam ainda mais garantidos.
—Quebomqueosenhorgostou,DoutorFrederico.
Eficomuitofelizporquerercomplementarmeutrabalho
com as suas idéias.
— Pois bem, meu jovem, o que eu gostaria de
acrescentar é o seguinte: na minha opinião, as pessoas
resolvem os problemas da maneira errada, e pelo modo
errado. E como é isto? Eu vejo um outro caminho para
solucionar as dificuldades. Existe uma “regra” para os
problemas, que pode ser quebrada. Basta ter atenção e
organização ao desenvolver um trabalho ou projeto.
— Como assim, Doutor Frederico? Não entendi
muito bem qual é a sua idéia!
— Explico melhor. Peguemos um problema
convencional de qualquer empresa, o orçamento, por
exemplo. Neste caso, temos três etapas: primeira etapa:
a causa, segunda etapa: o problema em si, e terceira e
última etapa: a conseqüência.
80
THIAGO VENDITELLI CURY
— Quando nos vemos frente a frente com o
problema, nos preocupamos em resolver a conseqüência
dele e não a causa. Se fizermos um planejamento melhor
epensarmoscomtranqüilidade,serámaisfácillidarcom
os contratempos que enfrentamos todos os dias.
Podemos resolver a causa, para que eles não voltem a
acontecer. Mas a maioria das pessoas se preocupa em
solucionar a conseqüência do problema e assim
indubitavelmente ele voltará a acontecer.
— Como pode, Doutor Frederico? Nunca tinha
ouvido falar de algo deste tipo! Quer dizer que um bom
planejamento e uma organização podem evitar um furo
noorçamentoouqualqueroutrotipodeproblemadentro
de uma empresa ou até mesmo na sua vida pessoal?
— Claro que sim! É lógica, igual à matemática!
Vejamos a seqüência de planos: você tem uma situação
na sua empresa que causa um problema e que traz uma
conseqüência. Então, se tentarmos resolver a
conseqüência, não chegaremos a lugar algum, porque o
problema vai continuar aparecendo. Mas se nós
resolvermosacausa,elenãoiráserepetir.Claroquepode
aparecer outra dificuldade, algo bem diferente, mas o
mesmo problema não vai se repetir, isso porque você
resolveu o que precisava. Eu costumo chamar isto de
“Ação Corretiva”.
Para que isto seja concluído com êxito precisamos
passar por no mínimo cinco etapas:
Primeira: Definir exatamente qual é o problema.
Segunda: Quais são as causas do problema.
Terceira: Fazer o registro de dados.
Quarta: As ações corretivas.
Quinta: Monitorar os resultados.
81
VONTADE DE VENCER
— Eu posso lhe afirmar, Matheus, que isto vai dar
certo. Vejamos o exemplo que eu vivenciei. A empresa
possuía um planejamento orçamentário. Logo que eu
assumi a gerência, o orçamento havia sido ultrapassado,
tinham estourado em alguns setores e em outros tinham
paralisado os trabalhos temporariamente para evitar
maiores furos até o final do ano.
— Eu sabia que o caso poderia ser revertido, mas
necessitavadaaprovaçãodesuperiores.Sendoassim,fui
até a pessoa responsável pelo financeiro, para saber a
quem deveria me reportar. Durante nossa reunião, fui
direto ao assunto, para que não perdêssemos tempo.
“Senhor Jorge, eu vi que a empresa está com um
furo no orçamento, e pelo que eu pude perceber,
podemos reverter este caso. Mas, para isso, preciso de
duas coisas: primeiro, que vocês confiem no meu
trabalho, e segundo, preciso de autonomia nas minhas
decisões. Assim, poderei fazer o que precisar, e trazer
benefícios e lucros para a empresa”.
82
THIAGO VENDITELLI CURY
—Quandotermineiminhascolocações,eleolhou-
me com uma feição contente, de quem não tinha
nenhuma esperança em relação à situação financeira da
empresa. E disse-me confiante:
—Poisbem,DoutorFrederico,osenhortemoque
precisa. Marcaremos uma reunião com a diretoria,
passaremosassuasidéiasparaosdemais.Seelestambém
aprovarem, daremos continuidade ao seu projeto.
—Muitoobrigadopelovotodeconfiança.Voume
dedicaraestetrabalhoparaconseguiralcançarosobjetivos
e recuperar a situação financeira da empresa.
— Está bem, Doutor Frederico, confio no seu
talento e na sua experiência. Espero que o senhor não
me decepcione.
83
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO OITO
— Após essa conversa com os diretores, fomos
tomar um café, e, logo que voltei, comecei a providenciar
toda a papelada necessária para a reunião. Liguei para os
diretores para marcar a data, fiz novas planilhas com
previsões e uma apresentação com as mudanças
necessárias para o sucesso do projeto. Quando chegou o
dia, eu estava muito nervoso, afinal estava colocando em
risco o meu emprego. Se os diretores não concordassem
comomeuprojeto,poderiaserdemitidonamesmahora.
Por isso, tomei muito cuidado com o que ia falar, fiz e
refiz todos os cálculos para que nada desse errado. Na
reunião, era a hora de mostrar meu talento e o meu
potencial, mas eu mal sabia que, por trás de tudo, tinham
pessoas que não queriam que eu estivesse naquele cargo.
Minha função era rever os furos da empresa e arrumar
84
THIAGO VENDITELLI CURY
soluções para os problemas. O que eu não tinha noção
era de que os furos eram causados por “desvio” dos
diretores e sócios da empresa.
— Fiz então a minha apresentação. Dediquei-me
aomáximoparaquenadasaísseerrado.Felizmente,tudo
correucomoeuprevia,aprovaramaminhaapresentação
e apoiaram o meu trabalho. Mas, por trás de toda a
aprovação, tinha uma pessoa que estava planejando algo
paramederrubar.Porém,eufuimaisforte,supereitodos
os obstáculos e, durante seis meses, pude mostrar meu
trabalho; fiz muito para trazer melhorias à empresa.
Resolvi o problema do orçamento, mudei alguns
conceitos, e logo que estava concluindo o meu trabalho,
quando já não agüentava mais tanta pressão por parte
destapessoa,pedidemissão.Essapessoamepressionava
muito,cobravademais,umasituaçãoinsustentável.Oque
quero dizer com tudo isto é que não devemos depender
do apoio dos outros para cumprirmos com as nossas
tarefas, com nossas obrigações. Devemos, sim, fazer as
coisas contando apenas com as nossas forças e também
com as forças superiores que todos nós temos. Se
colocarmosasuaidéiaempráticaemudarmosasatitudes,
Matheus, o sucesso será garantido.
Matheus ficou muito feliz com as palavras que
acabara de ouvir do Doutor Frederico. Estava orgulhoso
de si mesmo por colaborar com a empresa, tendo a
oportunidade de crescer profissionalmente.
— Matheus, pode iniciar os trabalhos e lembre-
se que, com planejamento e organização, tudo pode
dar certo.
—Muitoobrigado,DoutorFrederico.Sougratopela
confiança. Tenha a certeza de que não vou decepcioná-lo.
85
VONTADE DE VENCER
— Estou certo disso e sei que você irá cumprir com
suas obrigações tranqüilamente, e saiba que estou à
disposiçãoparaqualquerdúvida—disseDoutorFrederico,
confiante na força de vontade e no talento de Matheus.
Começaram as reuniões dos departamentos. Isso
durariaumtempo.Otrabalhoqueestavasendoproposto
para os colaboradores era de grande valia. Meses depois,
todos os departamentos já se conheciam.
Os resultados dessas conversas já eram visíveis.
Todos percebiam as melhoras que estavam surgindo
dentrodaempresa.Oorçamento,denegativopassoupara
positivo.Oclimadentrodaempresapareciaestarnormal,
comosenãohouvessediferenças,pareciaatéqueládentro
não existiam mais os dois grupos, o dos amigos e o dos
opositores de Doutor Frederico.
Sem que os aliados de Frederico percebessem o
queestavaacontecendo,osopositoresaindacontinuavam
com seus pensamentos e planos. Eles queriam que o
Doutor Frederico saísse da empresa, a todo custo. Por
isso, já haviam tramado com os superiores para colocar
tudoempráticaedemitirosuperintendente.Eopiorainda
estava para acontecer, os planos da diretoria incluíam a
dispensa de vários colaboradores Os diretores já sabiam
quemseriademitido,quandoea“justificativa”quedariam
a cada um deles.
Doutor Frederico estava muito feliz com o
desempenhodesuaequipeecontinuavacomaesperança
dequenadamaisaconteceria.Eleacreditavanissoporque
tinham dado a ele a autonomia necessária para tomar
decisões. Tinha a convicção de que a diretoria não o
demitiria ou mesmo abortaria o projeto.
Enquanto seus aliados trabalhavam em silêncio,
seus opositores tramavam. Na presença do Doutor
86
THIAGO VENDITELLI CURY
Frederico, eram de um jeito. Na ausência dele,
completamentediferentes.Essesadversáriossabiamoque
queriam, por isso tomavam o maior cuidado para que
ninguémpercebesseastramóiaseparaquenãodeixassem
escapar nada. Seria uma perda de tempo se alguma
informação vazasse.
Masamoçaqueserviadecúmplice,nãodariacom
a língua nos dentes. Ela tinha um caso com um dos
diretores, Armando, e a pobrezinha tinha certeza que
subiriadecargoassimqueFredericoeseusamigosfossem
demitidos. O sonho da moçoila era ver seu amado como
superintendente e ela como a secretária super eficiente.
Fazia tudo às vistas de todos, não dava a mínima
importância se alguém percebia suas fofocas. No fundo,
ela acreditava que ganharia mais adeptos, e daí receberia
maisprêmiosepresentesdoseuamado.Maselanãosabia
que era completamente descartável.
A diretoria já estava ansiosa pelo início do plano,
masparasortedealgunseazardeoutros,astramóiasteriam
que ser adiadas por mais algum tempo. Doutor Frederico
estava começando um novo projeto e, até que as funções
fossemdistribuídaseostrabalhosiniciados,levariaumcerto
tempo para aparecer os resultados. Se fossem bons,
esperariam mais alguns meses, se fossem ruins e a
conseqüêncianegativa,poderiamdemiti-loimediatamente.
O novo trabalho consistia em cobrar as empresas
inadimplentes. Desde que assumiu o cargo de
superintendente, o objetivo de Frederico era fazer com
que as empresas regularizassem suas situações. O plano
decobrançaseriaumsegundopasso,queaindanãoestava
traçado,masasempresasseriamavisadasdesuasdívidas,
buscando uma forma de saná-las.
87
VONTADE DE VENCER
Metade das empresas cadastradas no banco de
dados estava inadimplente. Se o processo de cobrança
funcionasse, o aumento no orçamento seria significativo,
o que daria a possibilidade de Frederico alcançar suas
metas e a diretoria da Junção continuar aprovando o seu
trabalho.Adiretoria,pormaisestranhoquepossaparecer,
nãoseesforçoumuitonamudançadaformadecobrança.
Mesmo assim, o projeto foi tocado e logo apareceram os
resultadospositivos.
AscoisascaminhavamtranqüilamenteparaDoutor
Frederico e sua equipe. E os bons fluídos já despertavam
a inteligência da turma da oposição. A dedicação no
projeto de cobrança era a suspeita que a opinião deles
poderia estar errada. “Será que nós nos enganamos?
Julgamosaspessoasdaformaerrada?Precipitadamente?
Antecipamo-nosetiramosnossasprópriasconclusões?”.
Podeser.Quandoseestánadúvidasobreocaráter
de uma pessoa, não se pode julgar sem ter certeza. Mas
osresultadoseramtãoevidentes,quenãoseriadiferente.
Se há certeza, é preciso tomar providências. Se não, é
melhor esperar. O tempo clareia as dúvidas.
O trabalho iniciado por Frederico precisaria da
colaboração e da força de quase todos os departamentos.
Seguindo a idéia de Matheus, foi implantada a
comunicação entre os setores. O resultado foi excelente.
Agora,aspessoassabiamquemeramosresponsáveispor
cada setor e o que exatamente eles faziam. Logo no
primeiromês,asligaçõeseramdiretamentepassadasaos
responsáveis, e todos atendiam somente ligações
referentes às suas funções.
Foi montada uma estratégia para começarem as
cobranças. O primeiro passo foi fazer um levantamento
88
THIAGO VENDITELLI CURY
dosinadimplentes;depoisverificaramoqueseriacobrado
equaisaspossíveismultaseformasdepagamento.Todas
as quartas-feiras, os colaboradores se reuniriam para
selecionar as empresas que seriam acionadas naquela
semanaeacertariamosdetalhes.Acartadecobrançaseria
o último passo desse processo.
Aidéiadeenviaracartadecobrançasónofinaldo
processo tinha um propósito: permitir que os devedores
tomassem ciência da dívida, proporcionando-lhes um
prazodepagamentoumpoucomaior.Seacarta-cobrança
fosse enviada diretamente, ela poderia ser ignorada e a
situaçãodeinadimplênciapermaneceriaigual.Eestenão
era o objetivo. Certamente, ao entrar em contato com o
devedor, explicando sobre os seus débitos, o responsável
pelofinanceirodaempresainadimplenteteriaalgunsdias
para se programar, e não ser “pego de surpresa” assim
que chegasse a carta-cobrança.
A idéia era boa e todo esforço estava valendo a
pena. O problema é que as tramóias continuavam e a
cabeça de Doutor Frederico poderia estar “a prêmio”,
antes que seu projeto fosse concluído.
O sucesso deste planejamento empresarial já
deixava muitas pessoas não favoráveis a esta política em
cimadomuro.Nãosabiamemqualladopermaneceriam:
dos aliados ou dos opositores.
A calmaria na Junção foi se dissipando e a
ansiedade tomou conta do ambiente. Os opositores já
sabiam que, a qualquer momento, o diretor de finanças e
o presidente procurariam pelo superintendente. Algum
tempo depois, com feições estranhas e de “poucos
amigos”,pediramparafalarcomosuperintendente.Mas,
parasorteouazardeFrederico,elenãoestavanaempresa
naquele momento.
89
VONTADE DE VENCER
O presidente e o diretor de finanças ficaram
perdidos, sem rumo. Como não encontraram o Doutor
Frederico na empresa, no horário de trabalho? “Onde ele
estará?” Eles fingiram que estavam lá por outro motivo,
mas não deixaram de demonstrar a ansiedade em querer
vê-lo. O presidente da empresa pediu então para que
Andressadesseumrecadoparaosuperintendenteassim
que ele chegasse:
— Andressa, por favor, assim que o Doutor
Frederico chegar, peça a ele para me ligar.
— Pode deixar, antes do almoço falarei com ele e
passarei o seu recado.
— Está bem. E mais uma coisa: por favor, traga na
minha sala o relatório da reunião da semana passada.
Querotiraralgumasdúvidas.
— Sim, senhor. Só um minuto e eu já vou — disse
Andressa,procurandoosdocumentos.Elaficouperdida,
pois não contava com o pedido de última hora.
— Aqui está o relatório que o senhor pediu.
— Obrigado, Andressa, pode ir agora.
Tal atitude não despertou suspeita entre os
colaboradores. Mas foi tudo um belo disfarce, afinal, os
documentos poderiam ser solicitados por e-mail, como
era feito costumeiramente. Os opositores de Frederico
fingiam não saber de nada. Mas o clima era de que algo
estava por acontecer.
Neste dia, Doutor Frederico havia chegado cedo,
deixadoalgunspertencesnasalaesaídoparaumareunião
com o pessoal da informática.Aintenção dele era buscar
programas de computadores adequados para o novo
sistema de cobrança.
90
THIAGO VENDITELLI CURY
Antesdoalmoço,DoutorFredericoligounaJunção
querendo falar comAndressa.
— Boa tarde, Andressa, tudo bem?
—Tudobem!Eosenhor,comoestãoascoisasporaí?
— Estão indo bem. Obrigado. Algum recado
para mim?
— Tem sim, mas acho que o senhor não vai gostar
muito...
— O que foi?
— O nosso presidente e o diretor financeiro
vieram aqui, no período da manhã, querendo falar com
o senhor. Quando souberam que o senhor não estava,
pediram-me alguns documentos e em seguida foram
embora. Achei que eles estavam muito estranhos. Os
documentos solicitados são sempre enviados por e-mail.
Achei a atitude deles suspeita.
— Fique tranqüila, por favor, dê-me o número do
telefone dele.
Andressa passou os telefones do presidente.
— Obrigado, Andressa. Mais tarde voltaremos a
nos falar.
— Está bem, Doutor Frederico, até mais tarde.
Frederico ligou imediatamente para o presidente.
Precisava saber porque ele estava a sua procura, com
tanta ansiedade.
O presidente atendeu a ligação aparentando
tranqüilidade.
— Boa tarde, Frederico, como está? —
cumprimentouopresidente.
— Estou bem. Obrigado. O senhor está à minha
procura? Posso ajudá-lo em algo?
91
VONTADE DE VENCER
— Pode sim. Você esta perto aqui da nossa matriz?
Estou no centro da cidade agora à tarde.
—Não,estouforadeSãoPaulo,resolvendoalgumas
coisas da Junção. Por quê?
— Nada de tão importante. Assim que chegar em
São Paulo, venha até a minha empresa, quero falar com
você pessoalmente. Está bem?
— Está bem! Estarei aí em três horas.
— Ótimo, estou aguardando!
—Até mais tarde, Frederico.
— Até mais.
Após a conversa, Doutor Frederico comentou com
Luiz, o amigo que o acompanhava.
— O que será que o Rui quer comigo, assim, às
pressas?
— Deve ser algo muito importante, para ele querer
vê-lo o mais rápido possível.
—Devesermesmo!Mastemosquefazerumacoisa
por vez. Não é mesmo, Luiz?
Luiz conhecia Frederico antes mesmo dele ir
trabalhar na Junção Recursos Humanos. Além de Luiz
prestar serviços para a empresa, ambos já haviam
trabalhado juntos em outros lugares, anos atrás. Tudo o
que era relacionado à área de comunicação, propaganda
e eventos, era Luiz quem cuidava, juntamente com
Mariana. Luiz trabalhava com Mariana, mas ele era
terceirizado.Semprequeaempresaprecisavadeserviços
emcomunicaçãovisual,Luizeracontatado.Naqueledia,
Luiz acompanhou Frederico para buscar novos
programas empresariais.
Fredericoresolveriaumacoisaporvez,comohavia
dito, e por isso não alterou o caminho previsto. Mas a
92
THIAGO VENDITELLI CURY
conversa com Rui não lhe saía da cabeça. Ele sabia do
risco que corria. Estava curioso e queria estar logo com o
presidente.
Sabiaquealgoaconteceria.Umasensaçãoestranha
tomava conta do seu peito. Fechou os olhos e pediu que
acontecesse o que fosse melhor, mas que os mais fracos
não sofressem. Ele se preocupava muito com o futuro da
sua equipe. Frederico só queria que, se realmente fosse
demitido,eletivesseapossibilidadedecomunicaraosseus
colaboradores, sem fofocas, sem distorção dos fatos.
Seguiuseucaminho,conversandocomoamigoLuiz
parasedistrairepassarotempomaisrápido.Mesmoassim,
o dia de Frederico seria longo e ele não chegaria antes do
anoitecernacidade.DecidiuligarparaCarmem.Pediu-lhe
que não o esperasse, pois ainda teria reunião com o Rui.
— Olá, Carmem, como estão as coisas por aí?
— Estão bem, como de costume, mas o senhor
faz falta aqui!
Ela sempre dizia que a empresa sem o Doutor
Frederico era como primavera sem flores, afinal, foi
ele quem deu mais vida aos trabalhos, mais força aos
colaboradores.
— Obrigado, Carmem, você é sempre gentil.
Faça-me um favor, providencie para amanhã os papéis
com os nossos resultados dos projetos nos últimos seis
meses. E também faça uma limpeza em minha mesa,
deixe tudo o que for pessoal de um lado e o que for da
empresa do outro. Por favor.
— Por que o senhor está me pedindo isto, Doutor
Frederico?
— Preciso disso pronto amanhã cedo. Você pode
fazer, Carmem?
93
VONTADE DE VENCER
— Posso sim. Amanhã cedo, estará tudo pronto
em sua mesa, assim que o senhor chegar.
—Muitoobrigado,Carmem.Maisumdetalhe:não
me espere! Chegarei tarde e amanhã cedo
conversamos.Tudobem?
— Está bem. Até amanhã, Doutor Frederico.
— Até amanhã, Carmem.
O clima dentro da empresa estava tenso demais. E
foi bom Frederico estar fora o dia inteiro. Assim, ele teve
uma oportunidade para se preparar para algo ruim que
pudesse vir a acontecer.
Logo que desligou o telefone, Carmem não
conseguia esconder o nervosismo. Sua equipe percebeu
que as coisas não estavam boas. Queriam saber o que o
Doutor Frederico havia dito no telefone.
— Carmem, diga logo. O que o Doutor Frederico
disse para você ficar deste jeito?
—Elepediuparaqueeuarrumasseospapéisdele
e também um relatório com os nossos resultados dos
últimos seis meses.
— O que será que vai acontecer? — indagou
Matheus, perdido na situação. Ele, que era o mais novo
membro da equipe, não sabia muito bem o que acontecia
pelos bastidores da empresa.
—Matheus—chamouCarmem—quandoDoutor
Frederico assumiu o cargo de superintendente, as coisas
eram bem diferentes. Vamos até a sala de reunião para
conversarmosmelhor.
Carmem, então, começou a contar para Matheus
como era a situação na Junção antes da contratação de
Frederico, e o que mudou com a chegada dele.
94
THIAGO VENDITELLI CURY
— No começo, quando entrei aqui, as coisas eram
bem diferentes. Não tínhamos nenhum benefício, não
podíamos ver nossos e-mails particulares, não tínhamos
premiação por tarefas ou metas alcançadas. Nada de
bom para os funcionários, a não ser cumprir com as
obrigações sem reclamar ou querer algo.
—Jásabíamosqueoentãosuperintendentenãoia
durar muito tempo, logo seria substituído. Isso de fato
aconteceu e o Doutor Frederico passou a ocupar o cargo,
apresentadoàdiretoriapelasupervisoradetreinamentos.
Ele demonstrou desde o começo ter capacidade e força
de vontade para assumir o cargo, queria muito mostrar
seus conhecimentos para todos na empresa. Com a saída
do outro superintendente, algumas pessoas se sentiram
ameaçadas, achavam que seriam demitidas assim que
ele assumisse o cargo. O objetivo do Doutor Frederico
não era mandar ninguém embora, mas, a pressão no
trabalho, as mudanças, os medos e a insegurança
fizeram com que o desenvolvimento das pessoas caísse
em qualidade e tempo.
— Desta forma, alguns chegaram a pedir
demissão por não agüentarem mais a pressão dentro
do trabalho. Uma dessas pessoas disse que não estava
mais produzindo como antigamente e queria ser
demitida. O Doutor Frederico não tinha essa intenção,
mas era um pedido pessoal, ele não poderia negar. O
superintendente falou com a diretoria e, mesmo contra
a vontade, resolveram aceitar o pedido de demissão.
Com a resposta positiva da diretoria, Doutor Frederico
demitiu a moça, mas deixou claro que estava atendendo
a um pedido dela.
— Essa situação continuou provocando medo em
outros funcionários e todos acharam que poderiam ser
95
VONTADE DE VENCER
demitidos igualmente. Doutor Frederico deixou bem
claro que este não era seu objetivo ali dentro. Não
demitiria ninguém no processo de adaptação dos seus
projetos, queria conhecer primeiro as pessoas que ali
trabalhavam, saber qual era o serviço que desenvolviam,
como o faziam.
97
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO NOVE
Matheus prestava atenção em cada palavra de
Carmem. Seus olhos esbugalhados engoliam as palavras
dacolega,buscandoopontofinaldeumahistória.Aquela
sala trazia a gélida sensação de que tudo poderia
desmoronar, a qualquer momento.
Carmem continuou a história.
—Ascoisascaminharambemduranteosprimeiros
meses. Ninguém foi demitido.Todos estavam abertos a
conhecer a maneira de trabalhar do Doutor Frederico.
Parecia que as coisas estavam fluindo bem, mas quando
ele tomou sua primeira iniciativa de fazer algumas
cobranças e as devidas regularizações, os problemas
começaramasurgir.Talvez,atéporestemotivo,algumas
pessoas, hoje, são contra os trabalhos dele. Influência de
comentários de alguém que não soube perder, ou subir
navida,dependendodecomoseolhaparaumasituação.
98
THIAGO VENDITELLI CURY
— Carmem, desculpe interromper, mas como
assim? Como se olha para uma situação?
Matheus sabia que sua pergunta não tinha nada a
ver com o que Carmem explicava no momento, mas,
curioso, queria entender o que a colega quis dizer.
— Matheus, você é uma pessoa esperta, vai
entender logo o que quero dizer. Por exemplo, quando
acontece algo diferente em nossas vidas, quando somos
demitidos de nosso emprego. Jamais esperamos que isto
vá acontecer, mas acontece. Temos nossas
responsabilidades pessoais, nossas contas para pagar, e,
quando isto ocorre, nos desesperamos, achamos que é o
fim do mundo. Pensamos sempre que o emprego está
difícil e que será complicada a situação. Se soubéssemos
lidar com as nossas dificuldades, e com os nossos medos,
poderíamos perceber que, se isto está acontecendo em
nossas vidas, é por que algo melhor pode nos aparecer
depois. Devemos tirar aprendizado de tudo aquilo que
vivemos, agradecermos pelo emprego, e pedir para que
novas oportunidades surjam em nossas vidas.
— Quem diria! — exclamou Matheus — Aprendi
tantoemtãopoucotempo.Nuncatinhapensadoporeste
lado. Comigo foi a mesma coisa. Quando fui demitido,
antes de entrar aqui, achei que o mundo tinha acabado
para mim. Como ia conseguir outro emprego? As coisas
estavam tão difíceis! Fiquei desesperado. Mesmo com o
apoio de familiares e amigos, as coisas pareciam não ter
uma solução. Durante todo o tempo, fiquei desesperado
enãoconseguiencontrarnenhumarespostaparaosmeus
problemas e medos. As coisas pioravam a cada dia; o
nervosismo era inevitável, eu estava sempre de mau
humor,brigandocomtodasaspessoasàminhavolta.Fora
queascontasestavamatrasadas,umaloucura.Minhavida
99
VONTADE DE VENCER
mudoudrasticamente,deumahoraparaaoutra.Eu,que
eraumapessoacalma,sorridente,trabalhadoraesempre
dispostaanovosdesafios,nãopudeperceberqueosmeus
hábitos estavam um pouco defasados.
— Como já fugimos do assunto em questão, como
assim defasados? — perguntou Carmem, curiosa pela
experiênciadeMatheus.
— Estavam defasados, no sentido de que eu não
dava o devido valor a algumas coisas em minha vida. Eu
preferia sair com os amigos a ficar em casa um dia da
semanacomaminhafamília;eusósabiapedir,e,quando
conseguia, não sabia nem agradecer — explicou o jovem.
—Duranteoperíodoemqueestivedesempregado,
pudeperceberqueéprecisoteroutrosvaloresparasechegar
ao equilíbrio. Após muitos conselhos de amigos, decidi
procurarajuda,jáque,sozinho,nãoconseguiamaisdarum
rumo em minha vida. Resolvi procurar uma terapia
alternativa. Busquei anúncios em jornais e revistas, até
que um dia, por indicação de um familiar, conheci uma
pessoa muito agradável. A maneira na qual esta pessoa
trabalhava me parecia a mais adequada para o momento
que estava vivendo.
— Eu fui, então, conhecer seu trabalho de perto.
Marcamosumaentrevistaondeeufalariaumpoucosobre
a minha vida e ela, um pouco sobre a sua formação. Ela
também me explicaria como era seu trabalho. Confesso
que fiquei um pouco ansioso. Queria ter certeza de que
estava fazendo a coisa certa. Pensava que somente os
loucos precisavam de terapia. Eu achava que, como não
tinhaproblemasmentais,aterapiaeradesnecessária.Dois
dias antes da data marcada, senti uma enorme vontade
dedesistir.Estavacommedo,ansiosopeloqueiaencontrar
naminhafrente.Nofundo,eunãoqueriasaberdosmeus
100
THIAGO VENDITELLI CURY
medos e conflitos. Para mim, o problema era o mundo, e
não eu. Todos os outros eram os culpados, menos eu.
— É fácil dizermos que a culpa pelos nossos
problemas é dos outros e não assumirmos as nossas
responsabilidades, o difícil é tomarmos controle das
nossas vidas. Mas, com o apoio de amigos e parentes,
criei coragem e fui para a entrevista.
—Quemdiriaquevocê,Matheus,umapessoatão
alegre e tão determinada já passou por isso — opinou
Carmem.
— Pois é, Carmem, as pessoas precisam de apoio
em suas vidas; precisam de forças que muitas vezes
sozinhaselasnãoconseguemalcançar.Emdeterminados
momentos de nossas vidas, acontecem situações que não
conseguimos resolver sozinhos. Por mais fortes que
julguemosser,pormaismadurosqueachamosquesomos,
precisamosdaajudadeoutraspessoas.Pessoasestasque,
por não estarem vivendo a mesma coisa que nós, podem
nosmostraralgumassaídas.Saídasquenãoconseguimos
perceber, justamente por estarmos vivendo o problema.
— No dia da entrevista com a terapeuta, fiquei
muito nervoso. Transpirava em excesso, mal conseguia
me alimentar. Muitas coisas passavam pela minha
cabeça. O que vou dizer? Como vou falar? E se eu tiver
vergonha de falar sobre algum assunto? Tantos medos,
inseguranças. Mas mesmo assim fui até o consultório
dela como o combinado. Logo que cheguei, toquei o
interfone, e para a minha surpresa, ela mesma veio abrir
a porta do consultório. Fiquei surpreso, não imaginava
que a própria terapeuta abriria a porta. Fui muito bem
atendido.AAna até me ofereceu água e café, mas minha
timidez não permitiu que eu aceitasse.
101
VONTADE DE VENCER
— Fomos para a sala dela, onde me ofereceu
novamente uma água. Desta vez, resolvi aceitar. Com a
boca seca de tanta ansiedade, precisava mesmo de um
gole de água.
— A entrevista passou mais rápido do que eu
esperava. Nem percebi o tempo passar e, quando vi,Ana
jámeadvertiadequeteríamosquedeixaralgunsassuntos
para o próximo encontro, na semana seguinte.
— Concluindo a história, depois de alguns meses
pude aprender muitas coisas sobre o mundo e como eu
estava olhando para ele. Pude perceber meus medos,
minhas decepções, receios, coisas que eu realmente
gostavadefazereoquedetestava.Atéentão,eunãotinha
conhecimento disso. Foi muito mais fácil lidar com o fato
de estar desempregado no momento, mais fácil ainda
voltar para o mercado de trabalho. Acho que, se eu não
tivesse ido até o consultório dela, e procurado ajuda,
poderia estar bem pior, estaria me culpando de muitas
coisas, culpando o mundo e as pessoas à minha volta, e
nadateriamudado.Talvezestivessedesempregadoainda.
Mas, hoje, sei que eu não estava desempregado e sim
“Disponível para o mercado de trabalho”.
— Como assim “Disponível para o mercado de
trabalho”, Matheus? O que você quer dizer com isto?
— Eu explico, Carmem, mas antes de qualquer
coisa, podemos ir almoçar? Estou faminto. Prometo que,
duranteoalmoço,eucontoparavocêestadiferença,algo
que eu aprendi com a terapeutaAna.
— Está bem. Também estou com fome. E, assim
que nós voltarmos do almoço, eu vou terminar de lhe
contar como começaram as brigas aqui na empresa.
— Com certeza. Vamos trocar experiências.
102
THIAGO VENDITELLI CURY
E assim foram almoçar. Carmem e Matheus
decidiramcomerumlanchenoEstadão,umalanchonete
famosa perto da empresa. Chegando ao local, e após
fazerem os pedidos, o rapaz continuou contando como
aprendeu a diferença entre estar desempregado e estar
“disponível para o mercado de trabalho”.
— Carmem, se eu perguntasse para você o que é
estar desempregado, o que você me responderia?
—Bem,eudiriaqueestardesempregadoéquando
você procura um trabalho, que possa trazer uma
remuneração para que você pague suas contas, se divirta
e possa sobreviver.
— Este trabalho também tem que lhe trazer
satisfação?
— Claro que sim! Você tem que fazer aquilo que
gosta, o que mais lhe dá prazer. Quando você está
desempregado,vocêprocuraporumtrabalhoondepossa
desenvolver suas funções, cumprindo com suas
obrigações,pondoempráticaseusaprendizadoseestudos
sendo beneficiado com um pagamento mensal. Uma
premiação pelo seu desempenho. É isso?
— Sim, isso mesmo.
—Poisbem,Carmem,eagoraeuperguntooqueé
estar “disponível para o mercado de trabalho”?
Carmempensou,pensou,e,semtercertezadesua
resposta, preferiu dizer que não sabia.
— Não sei exatamente o que seria isso. O que é?
—Quebom,assimpossoteensinaralgo!Retribuo
umpoucodetodososensinamentosquetenhoaprendido
com você. Veja bem, estar desempregado e “disponível
paraomercadodetrabalhoӎbasicamenteamesmacoisa.
Você procura por benefícios, algum lugar para por em
103
VONTADE DE VENCER
prática todo o seu conhecimento, só que o diferencial é
que você muda o seu foco. Você procura emprego não
como um desempregado, desesperado para pagar suas
contas,massimcomoumexcelenteprofissional,disposto
a novos desafios, e que queira fazer parte de alguma
empresa.Vocêmostratodasassuasqualificaçõesemuma
entrevista, como se estivesse se “vendendo” para a
empresa, querendo aquele emprego.
— Se você for selecionar alguns candidatos para
umavagadeAuxiliarAdministrativo,porexemplo.Após
analisar o currículo de todos os candidatos, você marca
uma entrevista com eles. O que você espera encontrar no
dia das entrevistas?
— Espero que eles venham bem apresentados e
saibam o que querem, dispostos a novas funções. Devem
ter o conhecimento em tudo aquilo que a vaga exigir e,
acimadetudo,quetenhamforçadevontadeemaprender
e que demonstrem dinamismo.
— Muito bem, Carmem, você acabou de traçar o
perfildoprofissionalquevocêprocura.Agoravemaparte
mais difícil. Uma pessoa chega na empresa, para a
primeira entrevista. “Por favor, a senhora Carmem?”.
Tímido,eleprocuraporvocê,nãosabeondeenfiarorosto,
de tanta vergonha. Faz de tudo para que as pessoas não
percebam a sua presença. Então, você o leva para a sala
de reuniões. Dando inicio à entrevista, você pergunta se
ele tem conhecimentos em informática. Qual a resposta?
— Não sei. Qual é Matheus?
— “Tenho sim senhora”. Ele responde cabisbaixo,
com a voz trêmula.
—Vocênãoquerintimidarocandidatoepulapara
a próxima pergunta, esperando ouvir uma resposta
melhor que a primeira.
104
THIAGO VENDITELLI CURY
— Fale-me sobre a sua experiência de trabalho.
Onde trabalhou e o que fazia nas outras empresas.
E ele responde: “Já trabalhei como montador,
auxiliar de escritório e em telemarketing”. Tudo isso sem
olhar nos seus olhos, falando baixo, quase sussurrando.
— Fale-me sobre a sua formação.
—Tenhoosegundograucompleto.Pensoemfazer
faculdade, e curso de montador de computadores.
—Você,cansada,jásemesperançaqueelevenhaa
lhedarumarespostasatisfatória,dizque,assimquetiver
uma posição dos diretores, entrará em contato. E logo
que ele sai, você rasga o currículo dele. E diz: “este não é o
profissional que eu procuro para trabalhar aqui na empresa”.
—Comcertezaeufariaissomesmo,Matheus.Mas
eu não entendi qual a diferença?
—Fiquecalma.Vocêentenderátudoagoramesmo.
Vamosutilizaromesmocaso.Vocêagendaumaentrevista
com o segundo candidato. No dia e horário marcado ele
chega na empresa. Você está em sua sala. Assim que ele
chega, todos percebem a sua presença, um rapaz alegre,
que cumprimenta todos os presentes.
—Bomdia,eutenhoumaentrevistamarcadacom
asenhoraCarmem.Vocêpoderiaavisá-laqueeucheguei,
por favor? — Ele diz isto à recepcionista.
— Nossa, já começou bem diferente!
Você vai até ele e diz: “vamos até a outra sala, por
favor”.
Assim que vocês entram na sala, ele, em sinal de
respeito, espera ser convidado a se sentar. Logo no início
da entrevista, você faz a primeira pergunta.
— Você tem conhecimentos em informática?
105
VONTADE DE VENCER
E,deprontidão,ocandidatoresponde:“Tenhosim,
senhora. Lido muito bem com todos os programas de
computador. Tenho conhecimentos em computação
gráfica, sei montar e desmontar uma máquina, sei
trabalhar com as suas configurações, monto programas
empresariais que emitem relatórios de custos e lucros,
entre algumas outras qualificações”.
Você fica surpresa com a resposta. Ele respondeu
tudo isto com a voz firme, olhando em seus olhos para
transmitir mais confiança. Empolgada, você parte para
a segunda pergunta. “Fale-me sobre a sua experiência
de trabalho”.
“Eu já trabalhei como montador de
computadores, era o responsável pela manutenção das
máquinasdeumaescola.Quandoalgumamáquinadava
problema, eu tinha que descobrir qual era o defeito,
comprar a peça e fazer a troca. Já trabalhei também como
auxiliar de escritório, lá eu era o responsável pelo serviço
de banco, entregar documentos, colher assinaturas dos
representantes e fornecedores, além de cuidar de todo o
arquivo morto da empresa. Trabalhei também como
operador de telemarketing, fazia venda de assinatura
de jornal pelo telefone. Por duas vezes consecutivas, fui
o campeão de vendas do mês”.
— Nossa! Quanta coisa você fazia na empresa! —
você até faz este comentário, porque está surpresa com
a descrição que ele está passando sobre sua experiência
profissional.
—Vamosemfrente,fale-mesobreasuaformação.
“Tenho o segundo grau completo e prestei
vestibular há pouco tempo. Preciso ingressar na
universidade, pois isto irá abrir muitas portas para mim.
106
THIAGO VENDITELLI CURY
Além disso, tenho diploma de montagem e manutenção
de computadores. E, para concluir, sou uma pessoa bem
disposta e preparada para novos desafios na minha
carreiraprofissional”.
— Está bem, assim que tivermos uma resposta
da nossa diretoria entraremos em contato. Muito
obrigado desde já.
Assim que o candidato vai embora você diz que
achou o profissional que tanto procurava.
— Incrível! É exatamente assim que as coisas
acontecem.
— É verdade, Carmem. As pessoas reclamam de
falta de emprego e do governo. Realmente, trabalho não
está fácil de conseguir, e se a pessoa ainda não faz a parte
dela para ter um, fica mais difícil ainda.
Se todas as pessoas procurassem empregos como
profissionais disponíveis para o mercado de trabalho, o
número de desempregados seria bem menor. O
comportamento e a maneira de se expressar são pontos
importantes numa entrevista de emprego. É necessário
demonstrar todas as suas qualificações para a vaga. É
preciso mostrar à pessoa que está lhe entrevistando que
você é o profissional indicado para aquela vaga.
— Vejamos um exemplo clássico do que leva as
pessoas a agirem desta forma: a maioria das pessoas se
comporta de maneira errada em relação às situações de
suas vidas. Veja o porquê: pensam que é a partir do
momento que elas têm alguma coisa, que elas vão fazer
por onde, para daí, sim, serem alguma coisa.
107
VONTADE DE VENCER
Isso é errado, porque não devemos agir pelo que
temos; nem pensarmos pelo que fazemos. Devemos agir
de acordo com aquilo que somos, para fazermos algo e
conquistarmos o que queremos.
—Mas,Matheus,eunãoentendimuitobemoque
você quis dizer. Explique-me melhor.
— Claro que sim, Carmem, com prazer. Vejamos
um exemplo nas empresas.
Normalmente, as pessoas sabem que devem se
108
THIAGO VENDITELLI CURY
empenhar mais nas suas tarefas e nas suas obrigações.
Mas elas acabam mantendo o mesmo comportamento e
a mesma atitude de sempre, porque dizem que ganham
poucoparamudarasuamaneiradetrabalhar.Aopensar
em se empenharem nas suas obrigações dizem: “se eu
ganhar mais e for mais reconhecido, aí sim eu vou me
empenhar mais nos meus afazeres...”
Amaneiracertadepensaré:“euvoumeempenhar
para desenvolver meus projetos com dedicação, pois sou
determinado e esforçado, assim obterei a promoção que
tantosonho,e,conseqüentemente,tereioaumentonomeu
salário, realizando-me profissionalmente”. É importante
queocandidatoreconheçasuasqualidadessemarrogância
ou prepotência, apenas tenha a consciência de suas
capacitações.
— Realmente, Matheus, eu pude aprender e
entendercomopensameagemoscandidatosaumavaga
deemprego.Muitoobrigadoporcompartilharsuasidéias
e aprendizados comigo. Fiquei feliz em saber mais sobre
como se portar perante o mercado de trabalho, que hoje
em dia é tão competitivo.
Quando acabaram de comer, já havia se passado
quinzeminutosdahoradealmoçoeelestinhamquevoltar
rapidamente para a empresa.
— Com tanta idéia interessante e um lanche
gostoso, acabamos perdendo a hora. Preciso terminar de
lhe contar como as brigas e as diferenças começaram
dentro da empresa, para você entender melhor como as
pessoas agem lá dentro — prosseguiu Carmem.
109
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO DEZ
— Matheus, sente-se. Vou terminar de te contar a
história. Onde paramos?
— Você me dizia o porquê das diferenças das
pessoas aqui dentro.
— Ah, sim! Como eu dizia, quando o Doutor
Frederico decidiu dar início às suas cobranças, ele não se
preocupoucomotipodaempresa,oqueelafaziaequem
era o dono. Se havia dívidas, tinha que pagar. Mas o que
elenãoesperavaeraencontrar,entrealistadedevedores,
empresas dos diretores da Junção. Para a sua surpresa, a
empresa do senhor Armando estava na lista. Ele, na sua
funçãodesuperintendenteelíderdoprojetodecobrança,
não poderia deixar passar isso em branco. Mesmo sendo
a inadimplente uma empresa do diretor administrativo.
110
THIAGO VENDITELLI CURY
NaprimeiraoportunidadequeoDoutorFrederico
teve, falou com o senhor Armando e explicou a sua
situação, mostrando-lhe o quanto a empresa dele devia.
Armando ficou furioso e achou um absurdo ser cobrado,
afinal, ele sempre apoiou nosso chefe. Eu pude ouvir a
indignação dele; ouvia da minha sala. Ele gritava assim:
“Como você tem coragem de me cobrar, depois de tudo
oqueeufizporvocê?Eulheapoiei,brigueipelasuacausa,
defendi com unhas e dentes seus princípios e você ainda
vemmedizeroquantoeudevo?Setiveralguémquedeve
alguma coisa aqui é você, que deve a mim, pela força e
pelo apoio que eu lhe dei quando você mais precisou”.
— Houve uma longa discussão entre os dois e,
daquele dia em diante, o senhor Armando passou a ir
contra os princípios do Doutor Frederico. Não o apoiava
mais, não era de acordo com as suas idéias. Ainda mais
depois que ele soube que o cargo que o Doutor Frederico
ocupava era para ser do irmão dele. Por essa razão, se
sentiaaindamaisofendidoecomraiva.Eledecidiuentão
que,daquelediaemdiante,fariatudoparaqueFrederico
fossedemitido,saíssedaempresacomumamãonafrente
e outra atrás. Daí vem a rivalidade e a diferença dos dois.
— Agora posso entender o porquê dos dois
viverem em atrito, não podem nem se ver no corredor
que mudam de direção.
— Pois é, Matheus, é por isso que nós tememos o
queelessãocapazesdefazerparatiraroDoutorFrederico
da empresa. Se ele sair, você pode ter certeza que todos
nós sairemos também, por questão de honra. Quem não
jogar no time deles, estará fora.
— Agora dá para entender porque um diretor de
uma conceituada empresa tem as atitudes que tem.
111
VONTADE DE VENCER
Resolve tudo da pior maneira possível, sem escrúpulos,
sem caráter, comprando as pessoas e usando do poder
que tem para alcançar seus objetivos.
Após saber disto, Matheus ficou chocado com a
vingança que estavam programando contra os aliados.
Ficou com medo.Afinal, se o Doutor Frederico saísse da
empresa,eleseriaoprimeirodalistaaserdemitido.Seria
“ponto de honra” para os outros demitir Matheus.
Depoisdemuitoconversarem,elesperceberamque
jáhaviasepassadoohoráriodeirembora.Fecharamtudo
e saíram. Mas a preocupação com Doutor Frederico
pairava no ar. O chefe não tinha dado notícia. Teria já
terminado a reunião com o Rui? Eles não sabiam, mas
não queriam incomodar. Esperariam o dia seguinte.
113
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO ONZE
No dia seguinte, Frederico chegou à empresa e
procurouRui.Eletinhaficadopresonaestradaporcausa
de um acidente e não conseguiu chegar no horário
combinado. Ligou para o presidente e foi até a matriz
para a reunião.Algumas horas depois, Frederico voltou,
pegou sua pasta e seu paletó e foi embora sem falar com
ninguém.
Todos ficaram atônitos. Não era normal uma
atitudedaquelas.Ochefesempredavasatisfaçãodeonde
ia. E a sua expressão não era das melhores. Andressa
tentouligarparaochefe,masseucelularestavadesligado.
Na sua casa, também ninguém atendia. A solução era
esperar o chefe aparecer.
Nooutrodia,atéocéuamanheceucinzento,talvez
precedendoacontecimentosruins.Carmemnãoconseguiu
114
THIAGO VENDITELLI CURY
dormirdireito.Aspreocupaçõescomaempresadeixaram
seu sono agitado. Por isso, levantou-se mais cedo,
preparou seus filhos para a escola e saiu para trabalhar
um pouco adiantada.
Andressa também ficou apreensiva com os fatos
do dia anterior, dormiu melhor que a colega, já que tinha
uma jornada dupla – trabalho e estudos. E o cansaço fez
com que, naquele dia, a secretária acordasse atrasada. E
estefatoafezentraremdesespero.“MeuDeus,justohoje
que está tudo de pernas para o ar na empresa, eu acordo
atrasada, preciso correr”, pensou a moça. Ela não queria
perder nem um momento na empresa, queria estar lá
assim que Doutor Frederico chegasse.
Logo queAndressa chegou na empresa, foi direto
àsaladoFredericoparaverseelejáhaviachegado.Como
não o encontrou, foi procurar por Carmem. Queria
conversar um pouco mais com a amiga. Elas queriam
estar enganadas, mas o medo era forte, e sentiam que
algo sério tinha acontecido com o Doutor Frederico.
Apósconversaremumpoucoetomaremocaféda
manhã,foramparasuasmesascomeçarodiadetrabalho
e esperar pelo Doutor Frederico. Ele, que nunca se
atrasava, já estava fora do horário. Elas estranharam. Ele
nem ao menos havia ligado para avisar. Muito estranho.
“Algo de grave deve ter acontecido”. Isso fez com que a
angústia delas aumentasse ainda mais.
Passadas duas horas de atraso, o telefone de
Carmem tocou. Era o Doutor Frederico, dizendo que
estava quase chegando na empresa e pedindo para que
ela não comentasse a ligação com ninguém.
Quinzeminutosdepois,elechegou.Nãofaloubom
dia, não passou nos outros departamentos como de
costume e não tomou café. Frederico foi direto para sua
115
VONTADE DE VENCER
sala, fechou a porta para que ninguém ouvisse o que ele
ia fazer ou com quem ia falar. Ele nunca fechou a porta
assim, a não ser quando tinha alguma reunião
importante. Sua primeira ação foi ordenar que Carmem
comparecesse imediatamente à sua sala.
Carmem entrou e percebeu que as notícias não
seriam boas, pelo menos para ela.
Durante três horas eles conversaram, de portas
fechadas, sem que ninguém os interrompesse. Doutor
Frederico pediu à recepcionista que não passasse
nenhuma ligação para ele, a não ser particular.
Todos na empresa estavam aflitos.Alguns, felizes
por já saberem o que estava acontecendo. Não dava mais
para esconder de ninguém, já era nítido que duas
correntes existiam ali dentro.
Depois de conversar com Carmem, Doutor
Frederico lhe solicitou um último favor. Pediu para que
ela não comentasse com as pessoas da empresa o que
tinha acontecido. Solicitou que Carmem deixasse que as
coisas fossem acontecendo normalmente. As pessoas,
mais cedo ou mais tarde, acabariam sabendo das
“novidades”. Logo que terminou a conversa com
Carmem, pediu para que Andressa fosse até a sua sala.
Andressa, quando viu a cara da amiga, já sabia o
que estaria por vir. Entrou e fechou a porta do mesmo
jeito que Carmem havia feito.Aconversa deles demorou
um pouco menos já que Frederico havia desabafado
anteriormentecomCarmem.Oquetodostemiamdepois
da conversa que o Doutor Frederico teve com o
presidente, realmente aconteceu.
Após ter contado para elas o que o presidente
queria com a reunião às pressas, Doutor Frederico
116
THIAGO VENDITELLI CURY
convidou Andressa, Carmem, Laiz e Matheus para um
últimoalmoçojuntos.Pelomenosadespedidadelecomo
superintendente da empresa. Porque, com certeza, eles
manteriam um laço de amizade e carinho.
Durante o almoço, conversaram bastante. Por
incrível que pareça, não falaram em nenhum momento
sobreaempresa,sobretrabalho,sobreoocorridooucoisas
do tipo. Eram apenas amigos.
Enquanto os aliados de Frederico saboreavam um
deliciosoalmoço,ascoisasnaempresacontinuavamcomo
nos últimos tempos. Fofocas, burburinhos, comentários
pelos corredores e risadinhas. Os opositores do ex-
superintendente pareciam estar felizes com a situação.
Depois do almoço, assim que Doutor Frederico
chegounaempresa,pegousuascoisasefoiembora.Nunca
havia feito isto antes. Os colaboradores estavam
espantados com a sua atitude, não sabiam ao certo o
porquê, mas sabiam que coisa boa não era.
Muitoatenciosamente,elesedespediudealgumas
pessoas,pegouospapéisquetinhapedidoparaCarmem
separar no dia anterior e foi embora.
Mas o que será que realmente aconteceu na
conversacomopresidente?Istoninguémjamaisirásaber,
só o que souberam foi o que Frederico disse a Carmem e
Andressanasreuniõesreservadas.
Quando Frederico chegou na empresa do
presidente para a reunião, estava presente também o
diretordeorçamentos.Umapessoamuitorespeitadapor
seu cargo e sua autoridade. Na falta do presidente em
eventos,eraodiretordeorçamentosquelherepresentava.
ElescomeçaramafalarparaFredericoquetinham
um objetivo, o de lhe propor uma nova maneira de
117
VONTADE DE VENCER
trabalhar. Queriam que ele fosse mais político nas suas
decisões,emenos“atrevido”comsuasidéias.Opresidente
considerava que a atitude de Frederico tinha sido
audaciosa, no que dizia respeito ao novo modo de
cobranças implantado por ele. Os dois falaram a respeito
do desentendimento que ele tinha tido com o senhor
Armandoedecomoeletratavaosfuncionários.Achavam
que ele dava liberdade demais para as pessoas dentro da
empresa, e que um funcionário deve saber o seu lugar.
“Não se pode dar asas para os funcionários, porque se
não eles irão voar”.
O presidente da Junção chegou até a pedir que ele
parasse com o projeto de cobrança, já que algumas
empresas devedoras eram de integrantes do quadro de
diretores, e não era muito político cobrar pessoas que
trabalhavam em conjunto com eles. Afinal, muitos eram
patrocinadores de eventos e ajudavam a empresa nas
horasdifíceis.
A reunião durou cerca de quatro horas. O
presidenteeseudiretorpressionaramFredericoparaque
ele mudasse sua maneira de liderar a equipe e
interrompesse a cobrança nas empresas dos outros
diretores. Queriam que ele fosse uma pessoa menos
preocupadacomobem-estardosfuncionários.Chegaram
até a falar que ele não teria mais autonomia nas decisões
e nas mudanças que desejasse fazer dentro da empresa.
ElescomunicaramaFredericoque,daquelediaemdiante,
ele deveria se reportar ao diretor administrativo antes de
fazer qualquer coisa.
Indignadocomaspalavrasdopresidente,apoiado
pelodiretordefinanças,DoutorFredericonãotinhaoutra
saída: ou mudava seu estilo de trabalhar e atendia aos
pedidosdopresidente,deixandodeladotudooquehavia
118
THIAGO VENDITELLI CURY
feito até aquele momento pelos seus colaboradores, ou
seria obrigado a se demitir. Sem pensar duas vezes, ele
discordou de tudo e disse que não mudaria seu estilo de
trabalho só para agradar a algumas pessoas. Neste caso,
emespecial,amudançaqueestavamlhepedindoerapara
que ele concordasse com as irregularidades das outras
empresas, e ainda deixasse de se empenhar pelo bem-
estar de seus colaboradores.
Já que ele não concordava com a decisão do
presidente, não tinha mais o que ser feito nem o que ser
falado.Daquelemomentoemdiante,eleestavademitido.
O presidente disse então que Frederico poderia
pegar suas coisas pessoais na empresa e aguardar uma
semana, para que a nova pessoa pudesse assumir o
seu lugar.
“Demaneiranenhuma!Eunãovouesperarmaisde
uma semana, vocês que já tinham tudo isto muito bem
planejado,comcertezajádevemteralgumapessoaemvista.
Euesperosomenteatéofimdasemana,apartirdeamanhã”.
O presidente estava de acordo. Pois o novo
funcionário realmente já estava escolhido e pronto para
iniciar suas atividades na empresa. O próximo
superintendentetambémsabiadetudooqueelesestavam
tramando, desde o início.
Por não concordar com a sujeira das pessoas, com
o trabalho desonesto, Doutor Frederico pagou o preço.
Algunspensamdiferente,mastudodependedoquevocê
realmente está disposto a fazer da sua vida. Seguir pelo
caminhodobem,ajudaraspessoasàsuavolta,continuar
com a honestidade e dormir com a cabeça tranqüila, ou
aindaescolherpelocaminho“domal”,deixardesercomo
você sempre foi, e acatar as ordens de superiores, mesmo
119
VONTADE DE VENCER
sabendo que a sua mudança de comportamento pode
prejudicar muitas pessoas ao seu redor.Acatar as ordens
desuperioresénecessáriodesdequeelasnãoinfluenciem
na sua maneira de ser e de agir.
Cabe a cada um escolher o que vai fazer com a sua
vida, só não vale reclamar das conseqüências das suas
decisões.
As pessoas que gostavam do Doutor Frederico
sentiram muito o fato dele ter sido demitido, mas ele
considerou a melhor decisão. Ele já não estava mais
agüentando tanta cobrança, tanta discussão.
121
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO DOZE
Muitas vezes, o que julgamos ser ruim para nós,
paraosoutroséalgobom.Paraoscolaboradores,eraruim
que o Doutor Frederico deixasse a empresa. Benefícios
poderiamacabar,novasregrasseriamimpostaspelonovo
funcionário, muitas mudanças e até mesmo demissões
poderiam acontecer.
Por outro lado, para o Doutor Frederico, o melhor
afazereradeixaraempresadecabeçaerguida,felizpelos
seus atos concretizados, mas triste por não poder dar
continuidade aos seus projetos ali dentro.
Ele não precisava se sujeitar àquelas condições.
Possuía muitos contatos, amigos empresários, que,
certamente,nãolhefechariamasportas.Poderiamuitobem
voltaratersuaempresadeconsultoria,atendendoasfirmas
122
THIAGO VENDITELLI CURY
de seus amigos e, assim, continuar os seus trabalhos e,
quem sabe, até levar sua equipe para trabalhar com ele.
Tudo é possível quando alguma coisa muda em
nossas vidas. Basta ter calma e saber como superar os
novos desafios.
No dia seguinte, Doutor Frederico chegou um
pouco mais tarde. Já que não era mais funcionário da
empresa, não tinha o porque chegar tão cedo. Seus
afazeres se tornaram poucos, suas obrigações menores
ainda,somenteeraprecisoarrumarseusobjetospessoais,
passar algumas coordenadas e ensinar o básico para o
novo superintendente.
Comoocombinado,onovofuncionáriochegouàs
dezhorasparaquepudessemconversarumpouco.Doutor
Frederico queria mostrar o que estava fazendo dentro da
empresa e queria, também, apresentar o novo
superintendente para os colaboradores e passar
informaçõesimportantesparaqueelepudesseassumiro
comando da empresa.
Os amigos de Frederico estavam ansiosos pelas
novidades. Queriam saber como seria dali para frente.
Estava chegando o dia em que o Doutor Frederico não
estaria mais presente na empresa, contra a vontade de
muitos. Eles teriam que dar continuidade nos seus
trabalhos e se adaptar ao novo superintendente.
Ao fim da semana, Doutor Frederico já havia
explicado todo o serviço para o novo funcionário, não
tinha mais nada a fazer dentro da empresa.Aúnica coisa
que ainda restava ser feita era apresentar para todos os
colaboradores quem assumiria o seu lugar.
Ele informou a todos que, no dia seguinte, faria
umareunião,noauditório,às15horas,equeeranecessário
123
VONTADE DE VENCER
que todos estivessem presentes. Afinal, seria seu último
dia na empresa.
No horário combinado, todos estavam presentes
noauditório.Mesmoosintegrantesdaaladosopositores
estavam nervosos, já que ninguém sabia o que Frederico
diria. Talvez por ele já estar fora da empresa, falasse tudo
o que sempre teve vontade de falar, ou talvez somente
fizesse a apresentação e não comentasse nada.
Doutor Frederico entrou no auditório
acompanhado do novo superintendente. Sentaram-se e
Fredericopediuaatençãodaspessoas“boatarde,queridos
amigos”. Disse isso em um tom bem sarcástico.
—Estamosaquiporquetenhoalgumasnovidades
para vocês. Algumas coisas irão mudar e posso garantir
que irão mudar para melhor. Como algumas pessoas já
devemsaber,adiretoriadecidiutrocardesuperintendente.
Aqui está ele, Francisco, e, de hoje em diante, ele irá
supervisionar todos vocês e do mesmo jeito que eu fiz.
Esta semana, nós conversamos bastante, pude conhecer
umpoucomaissobreeleesuasexperiênciasprofissionais,
que por sinal são tão boas quanto as minhas.
Compoucas,masbelaspalavras,DoutorFrederico
proferiuatrocadecargo.Fezissoparaevitarquealgunsse
revoltassem,ouatémesmoduvidassemdeseustrabalhos,
podendo assim provocar suas próprias demissões.
Passou a palavra para Francisco, que, ainda com
um pouco de vergonha, conseguiu discursar sobre o
seu perfil profissional e suas idéias. O novo
superintendente disse que o primeiro passo seria
conhecer todos os profissionais que ali trabalhavam,
para depois definir se continuariam com suas funções,
ou se haveria mudanças. Entretanto, esses não eram os
124
THIAGO VENDITELLI CURY
planos da diretoria, o que eles queriam era demitir o
maior número de pessoas, o mais rápido possível.
Francisco até que falava bem. Mas se tinha bom
caráter, os colaboradores só saberiam mais tarde. O que
estava acontecendo era inevitável. Doutor Frederico não
fazia mais parte daquela empresa, um fato que deveria
serencaradocomacabeçaerguida.Oex-superintendente
ainda pediu que todos os colaboradores dessem um voto
de confiança a Francisco.
Ao final da reunião com os colaboradores, era
visível a felicidade de alguns. Cinicamente, uma das
pessoas da ala dos opositores perguntou ao Doutor
Frederico o porquê aquilo estava acontecendo, fingindo
nãosaberdenada.“Algumaspessoasnãotêmescrúpulos
mesmo, se sujeitam a todo tipo de chantagem e
roubalheira e ainda se fingem de inocente, na maior cara
dura”, comentavam os aliados de Frederico.
Até que aquele dia terminasse, foi um sufoco para
muitosalidentro.Orelógiopoderiamarcarmeia-noite,mas
nãomarcariadezoitohoras.Pareciaquetodaaquelaangústia
nãotinhamaisfim,eaindaparapiorar,aquelanovapessoa
sentada na cadeira do Doutor Frederico transmitia uma
sensação de medo aos colaboradores fiéis ao antigo
superintendente.DoutorFredericojátinhaidoembora,mas
ainda voltaria no dia seguinte para receber sua rescisão, e,
definitivamente,despedir-sedoscolaboradores.
NoúltimodiaemqueFredericoestevenaempresa,
os colaboradores se juntaram para comprar um presente
paraele.Andressa,comacolaboraçãodetodos,comprou
umalindacaneta,poissabiaqueeleeraumcolecionador.
O presente era uma forma de agradecimento por tudo o
que ele tinha feito dentro da empresa.
125
VONTADE DE VENCER
Nofimdatarde,quandooDoutorFredericoestava
recolhendo seus últimos papéis, os colaboradores o
surpreenderam em sua sala com o presente e um cartão.
Após abrir o presente e ter agradecido,Andressa
disse algumas palavras em nome de todos ali presentes.
Umsimplespresente,comoformadeagradecimentopor
tudooqueelefez,epelograndeamigoqueeradealguns
alidentro.Daquelediaemdiante,asrelaçõesdeamizade
permaneceriam, mesmo não trabalhando mais juntos.
Andressa ressaltou o fato de que eles levariam para o
resto de suas vidas as coisas boas que haviam aprendido
com Frederico.
Fredericoficousurpresocomaatitude,aindamais
vindo de seus, agora, amigos. Sabia que o presente
verdadeiro era somente de alguns. Após as mensagens
pessoaisquealgunspreferiamescrever,eleseemocionou,
seus olhos se encheram de lágrimas, e, para disfarçar,
começou a rir dos recados.
O pior momento estava realmente chegando, ele
não estaria mais presente ali definitivamente. Os
funcionários não ouviriam mais um bom dia alegre, não
se sentiriam confortados nas horas difíceis do trabalho,
muito menos à vontade para brigarem por algum direito
ou melhoria. Tempos novos estavam para começar...
Novos planos, novos comandos, muitas adaptações.
Entretanto o medo e a insegurança tomavam conta das
cabeças dos admiradores de Frederico.
127
VONTADE DE VENCER
CAPÍTULO TREZE
Começou,então,umanovafasenaJunçãoRecursos
Humanos. No primeiro dia de trabalho do novo
superintendente, bem cedo, antes mesmo do horário de
inicio de trabalho, Francisco já estava na empresa. Ele
chamou em sua nova sala todos os colaboradores, para
dizer que, em breve, iriam conversar com mais calma, e
que estava à disposição. Podiam contar com ele para o
queprecisassem.
Ele chegou a falar com todos os colaboradores,
menoscomMatheus.Ninguémsabiaresponderomotivo,
mas até que ele se explicasse, o melhor que tinha a ser
feito era aguardar. Matheus não se preocupava com isso.
Eleacreditavaquetudoacabariabeme,nomomentocerto,
seria chamado para conversar. Se tudo procedia daquela
forma, é porque deveria ser assim.
128
THIAGO VENDITELLI CURY
Durante algumas semanas, as coisas pareciam
tranqüilas. Início de novos trabalhos, muitas reuniões,
ainda mais porque o novo superintendente tinha que se
reportar mais à diretoria do que o Doutor Frederico.
Todos temiam ser demitidos, mas Matheus
tranqüilizava seus amigos dizendo que ninguém seria
dispensadoantesdofimdoano,poissabiaqueaempresa
trocaria de endereço, indo para uma sede própria. E o
momento mais oportuno para demissões seria na
mudança, assim, já fariam a organização da nova sede
com o novo quadro de funcionários definido.
AlgumassemanassepassarameFranciscojáhavia
conversadocomtodososcolaboradores,atémaisdeuma
vez com alguns, menos com Matheus.
Matheus chegava até a pensar que o senhor
Francisco não queria falar com ele, por ser o funcionário
mais novo dentro da empresa, o que sabia menos dos
procedimentos.
MatheusdecidiuentãofalarcomFrancisco.Queria
saber o porquê da demora em conversar.
— Senhor Francisco, posso falar com o senhor um
minuto?
— Claro que pode, Matheus. Por favor, entre.
— Eu queria saber porque o senhor ainda não
me chamou para conversar, já que com os outros o
senhor já fez isso.
— Fique tranqüilo, Matheus, em breve
conversaremos. Eu ainda não o chamei porque estou
preparando algo novo para você.
O que as pessoas menos esperavam aconteceria.
Um dia, logo pela manhã, Francisco decidiu conversar
129
VONTADE DE VENCER
com Matheus. O superintendente foi até a sala onde
Matheus estava e pediu para que ele o acompanhasse.
Matheus,porsuavez,pensavaqueomomentoque
tanto esperava tinha chegado e que era a hora de
demonstrar todo o seu conhecimento, e poder ganhar a
confiança do novo superintendente, do mesmo jeito que
ganhou a confiança do Doutor Frederico.
— Por favor, sente-se, Matheus, vamos conversar
um pouco — disse o senhor Francisco, enquanto fechava
a porta de sua sala.
Antes de se sentar, Francisco já foi dizendo ao
jovem que a noticia que ele tinha para lhe dar não era
muito boa.
Neste momento, Matheus já sentia que sua hora
haviachegado.Suasmãoscomeçaramasuar,seucoração
batia mais forte, parecendo saltar pela boca, uma
ansiedade o dominava.
— Infelizmente, Matheus, com todas estas
mudanças,adiretoriaestácomnovosplanos.Comatroca
de superintendente, eles decidiram demitir você, já que,
além de ser o mais novo funcionário da empresa, o seu
contratodeexperiênciavenceamanhã.Porestemotivo,a
notícia que eu tenho para lhe dar é que você não faz mais
parte desta empresa, a partir de amanhã.
Matheus ficou indignado com o que acabara
de ouvir. Tudo o que ele menos imaginava aconteceu.
Ele foi demitido. Estava ali, frente a frente com sua
dura realidade.
Sem nenhuma preocupação, Francisco disse
friamente ao rapaz que ele estava demitido, sem saber o
que fazia dentro da empresa e para que havia sido
contratado.Absolutamentenada.SimplesmenteFrancisco
130
THIAGO VENDITELLI CURY
transmitiu o recado e, querendo sair da história como
“bonzinho”,dissequeestavasomentecumprindoordens.
Matheus não ficou quieto, tentou argumentar e
brigarporumasegundachance,masnãoobtevesucesso.
O jovem disse que seu potencial era maior do que todos
ali dentro puderam conhecer nos meses em que ele
trabalhou. Pediu por mais uma chance e se em mais três
meses não correspondesse às expectativas do novo
superintendente, aí, sim, concordaria com sua demissão.
Nada do que ele disse fez com que Francisco
mudassedeopinião.Ressaltouquenãocabiaaeledecidir
quem ia ficar ou quem ia sair. Somente cumpria ordens.
Inconformado com a decisão dos diretores e de
Francisco, que com certeza teve participação no contexto
dahistória,elesedirigiuaodepartamentofinanceiropara
assinar os papéis e receber a sua rescisão. Os amigos de
Matheus ficaram desesperados ao verem a sua feição de
nervosismo, correram atrás dele para saber o que tinha
acontecido, e quando ele disse que tinha sido demitido,
ninguémacreditou.
A única coisa que seus amigos podiam fazer
naquele momento era confortá-lo e dizer que ele podia
contar com o apoio de todos.
Tristeeraasituaçãoemqueeleseencontrava,mas,
comcalmaesabedoria,elepôdeperceberquesuamissão
estava cumprida ali dentro da empresa, mesmo que em
pouco tempo. Ele sabia que, se estava saindo, era porque
algo melhor estaria por vir. Pessoas novas para conhecer
e aprender com elas também. Ele sempre olhava o ponto
positivo das situações, isso fazia com que as pedras em
seucaminhosetornassemobstáculosparasuaevoluçãoe
não para sua destruição.
131
VONTADE DE VENCER
No dia em que Matheus foi demitido, ele poderia
assinarospapéiseirembora,maseledisseoqueaprendeu
com o Doutor Frederico: “Enquanto ocupasse a sua
cadeira, ele cumpriria com suas obrigações até o término
do expediente, para poder sair da empresa de cabeça
erguida como um vencedor, e não como um perdedor”.
Neste mesmo dia, os seus amigos o convidaram
paraalmoçar,comoformadeumadespedidadetrabalho,
mas jamais despedida de uma amizade. Ali dentro,
Matheus pôde conhecer pessoas maravilhosas, além de
Andressa, que já conhecia, pois estudavam juntos na
mesmafaculdade.Entãocontinuariasabendosobreoque
acontecia, como os seus amigos estavam, e como o novo
superintendenteestavatrabalhando.
Matheus não deixou de ter contato com os antigos
colegas,ligava,mandavae-mailse,quasetodasassextas-
feiras,almoçavamjuntos,paramatarassaudadesesaber
das novidades.
Porumlado,MatheuseFredericoderamazar,tendo
sido vítimas de pessoas ambiciosas e negativistas. Pode
ser. Mas ambos acreditavam que momentos melhores
estariam por vir e outras oportunidades apareceriam.
Depois da demissão, Doutor Frederico e Matheus
se tornaram pessoas mais experientes e mais sábias.
Ambostiveramumaoportunidadepararecomeçarafazer
o que sempre gostaram.
Doutor Frederico voltou a ser consultor pessoal,
algo que adorava fazer, e com isso teve mais tempo para
a sua família.
Matheus teve uma oportunidade de terminar seu
curso de formação em Programação Neurolingüística,
podendoassimalcançarumarealizaçãoprofissionalmaior
132
THIAGO VENDITELLI CURY
do que a que tinha previsto dentro da empresa. Pôde
contar também com o apoio de amigos e de seus pais,
que o ajudaram a tomar suas decisões e a encarar as
derrotas como degraus, degraus estes que serviram para
subir, não para descer.
Além de ter o apoio de amigos e familiares,
Matheus contou também com o apoio de sua “família
espiritual”,seusprotetores,sua“vozinterior”,quesempre
oauxiliavanassuasdecisõesenassuasnovasempreitadas.
Os amigos de Matheus e de Frederico que
continuaram dentro da empresa, passaram por várias
mudanças,novasfunções,novasregras.Elessabiamque,
do lado de fora, havia pessoas que oravam e torciam por
eles, desejando-lhes toda sorte do mundo.
Matheus e Doutor Frederico nunca mais voltaram
a se ver, mas se comunicavam por e-mail, colocavam as
novidades em dia, e sabiam um pouco o que cada um
estava fazendo. Ambos puderam até mesmo dar boas
gargalhadas das situações que passaram na Junção.
Mesmo com tudo o que aconteceu, eles não
guardarammágoasenemrancores,poisnãoserviriapara
nada. Continuaram amigos, seguindo com as suas vidas.
Melhores oportunidades apareceram, pois eles nunca
duvidaram do seu potencial. Sempre acreditaram em si
mesmos, e, sendo assim, não poderia ser diferente.
Alcançaramsucesso,felicidadenavidaeaauto-confiança.
133
VONTADE DE VENCER
Agradeço a todos e desejo-lhes crescimento
profissional,pessoalefamiliar.Esperoqueestelivrotenha
acrescentado algo de bom em suas vidas e no seu dia-a-
dia.Esperoqueatinjamseusobjetivoscomêxito,felicidade
eauto-confiança.
Fim
135
VONTADE DE VENCER
A ESCOLHA
Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer
antes que o relógio marque meia-noite.
E minha força é escolher como vou viver minha
vida a partir de hoje.
Minhaescolhaéoquevaiguiarmeuspassosemeus
caminhos.
Posso reclamar porque está chovendo ou posso
agradecer as águas por lavarem a poluição.
Possoficartristepornãoterdinheiro,oumesentir
encorajadoparaadministrarasminhasfinanças,evitando
desperdícios.
Posso reclamar sobre minha saúde, ou posso dar
graças por estar vivo.
Posso me queixar dos meus pais por não terem
dadotudooquequeria,oupossosergratoporternascido.
136
THIAGO VENDITELLI CURY
Posso reclamar por ter que ir trabalhar, ou posso
agradecer por ter um teto para morar.
Posso lamentar decepções com amigos ou me
entusiasmarcomapossibilidadedefazernovasamizades.
Se as coisas não saírem como planejei, posso ficar
feliz por ter hoje para recomeçar.
Sempre há uma segunda chance...
O dia está na minha frente, esperando para ser o
que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar
forma.
Saiba o que você quer para a sua vida, antes de
esculpirseusdesejos.
Pense, reflita, e assim que definir o que deseja, vá
atrás, conquiste seus sonhos e seus ideais, você merece...
Você é um vencedor!
Thiago Venditelli Cury

Vontade de vencer

  • 1.
    VONTADE DE VENCER OQUE FAZER PARA MELHORAR SUA VIDA NO TRABALHO?
  • 2.
    THIAGO VENDITELLI CURY VONTADEDE VENCER O QUE FAZER PARA MELHORAR SUA VIDA NO TRABALHO? Mídia Alternativa Comunicação e Editora São Paulo 2007
  • 3.
    Realização: Midia Alternativa Comunicação Diagramação: BetoMuniz Capa: Douglas de Souza Mídia Alternativa Comunicação e Editora Rua Dona Antônia de Queirós, 549 - sala 1103 Higienópolis - São Paulo - SP CEP: 01307-010 (11) 3231-2917 midia@malternativa.com.br www.malternativa.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ V988v Cury, Thiago Venditelli, 1985 - Vontade de vencer: o que fazer para melhorar sua vida no trabalho / Thiago Venditelli Cury. - São Paulo : Mídia Alternativa, 2007. 150p.:il. ISBN 978-85-98567-11-2 1. Relações trabalhistas. 2. Profissões - Desenvolvimento. 3. Ambiente de trabalho. I. Título. 07-1912. CDD: 650.13 CDU: 65.012:61 17.05.07 25.05.07 001899
  • 4.
    AGRADECIMENTOS Agradeço, em primeirolugar, a Deus, que me deu forçasparaseguiremfrente,protegendo-meeiluminando minha vida; mesmo com todas as pedras que surgiram emmeucaminho,conseguicontinuarminhajornadacom fé e esperança. Em segundo lugar, aos meus pais, Tufik Cury Neto e Ana Lucia Venditelli Cury, que me proporcionarammuitosmomentosfelizeseaprendizados durante a minha vida, pois, quando eu mais precisei de apoio, forças e orações, eles estavam lá, ao meu lado. Em terceiro lugar, aos meus avós, que mesmo cansados pela idade avançada, nunca me negaram um ensinamento ou uma palavra de apoio numa hora difícil. Emparticular,agradeçoaoapoioespiritualquemeuavô, já falecido, me proporciona todos os dias. Sei que sua missão em terra foi cumprida, e, agora, ele continua
  • 5.
    olhandopelasuafamíliadeumlugarmaiselevado,onde não há brigasnem intrigas, não há falsidade nem inimizade e todos se unem por um bem maior. E, por fim, não poderia deixar de agradecer aos meusamigosque,alémdeseremfontedeinspiraçãopara as minhas idéias, ajudaram-me com opiniões, críticas, elogios e muitas risadas. Obrigado a todos que estiveram ao meu lado durante esta jornada. E nunca se esqueçam: aconteça o que acontecer, semprevaleapenarecomeçar,deumamaneiradiferente. Agradeço em especial a todos os leitores. Espero que possam tirar proveito deste livro e levar para suas vidas uma nova luz, um novo brilho. Sucesso a todos!
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    SUMÁRIO INTRODUÇÃO ......................................................................................... 9 CAPÍTULOUM ....................................................................................... 11 CAPÍTULO DOIS ................................................................................... 19 CAPÍTULO TRÊS .................................................................................. 27 CAPÍTULO QUATRO ............................................................................. 33 CAPÍTULO CINCO ................................................................................ 43 CAPÍTULO SEIS .................................................................................. 55 CAPÍTULO SETE .................................................................................. 67 CAPÍTULO OITO .................................................................................. 83 CAPÍTULO NOVE .................................................................................. 97 CAPÍTULO DEZ ...................................................................................109 CAPÍTULO ONZE ................................................................................ 113 CAPÍTULO DOZE ................................................................................. 121 CAPÍTULO TREZE ...............................................................................127 A ESCOLHA ........................................................................................135
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    9 VONTADE DE VENCER INTRODUÇÃO Oque muitos pensam sobre um escritório, uma empresa,muitasvezesnãoéverdade.Existeumagrande divergência na opinião das pessoas, na maneira de agir, depensareatémesmodeliderarequipes.Algunstentam lidar com as pessoas como se elas fossem robôs, produtores em potencial, que não têm o direito de sentir, de terem problemas pessoais, de apresentarem idéias novas ou de emitirem sugestões. Estetempoestámudando.Omercadodetrabalho estácadavezmaiscompetitivoedestacam-seaquelesque são inovadores.Assim, as oportunidades de crescimento são maiores. É preciso que os empresários e os seus colaboradores atualizem-se dos novos mecanismos de trabalho. Nos dias de hoje, é preciso inovar para poder sobreviver. Por exemplo: perceba quantas padarias
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    10 THIAGO VENDITELLI CURY existemem seu bairro; a cada esquina podemos ver uma. O que torna uma melhor dentre as demais é o que ela oferece de diferente aos seus clientes. O consumidor não procura somente o melhor preço,eletambémprocuraomelhoratendimento,olocal mais organizado e também pessoas bem apresentadas e bem treinadas para atendê-lo. Para que isso aconteça, é necessário que você treine o seu funcionário, já que é ele quem tem o maior contato com o consumidor. Ele é o cartão de visita da sua empresa. Vale a pena investir na pessoa que colabora para a maximizaçãodosresultados.Funcionáriossatisfeitoscom o que fazem, trabalham melhor e produzem mais. E, sem dúvidaalguma,traráexcelentesresultados.
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    11 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOUM Avida se faz de sonhos, vontades, realizações e, é claro, de rotina. E o maior desafio de todos nós é transformaressarotinadetrabalho,deestudosedetarefas domésticas em prazer. Nosso objetivo é vencer. Vencer medos, superar obstáculos, ir além a fim de termos algo paracontar,transmitirconhecimentoseajudarosoutros. Talvez o mais difícil seja combater estas aflições no ambientedetrabalho.Aselvadepedraemquevivemosé um mundo competitivo, cheio de entranhas e de ações mesquinhas e ilícitas, para que cada um tire a maior vantagem para si próprio. Mas se começarmos a mudar um pouco este conceito, com atitudes mais amáveis, a competição se tornará mais saudável, sem desgastes, apenas melhorando a qualidade do trabalho e se empenhando mais. Frederico aplicava essa vontade de
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    12 THIAGO VENDITELLI CURY vencernos seus funcionários. Queria estimulá-los. Fazer decadaumdelesumverdadeiroprofissionaldesucesso. Doutor Frederico é advogado e administrador de empresas, foi diretor e consultor de grandes multinacionais. Hoje, é superintendente na Junção Recursos Humanos. Ele procurava sempre contemplar seus dias com pensamentos que o fizessem sentir-se melhor e em condições de exigir a mesma força daqueles que trabalhavam com ele. “A cada novo dia temos a oportunidade de aprender algo novo, de fazer algo que não fizemos no dia anterior”. E era com esse pensamento que ele saía de casa, enfrentava a paulicéia desvairada e ainda chegava bem humorado à Trivial Recursos Humanos, distribuindo sorrisos e desejando bom dia. Frederico acreditava que, com esse comportamento, as pessoas teriam um dia melhor, com mais alegria. Elas trabalhariam mais empolgadas, pois muitas poderiam nem ter recebido um bom dia ao sair de casa. Talvez tivesse razão. Por causa da correria do dia- a-dia,muitagentesaidecasasemreceberumasaudação. As razões são várias: talvez porque acordem atrasadas, por falta de costume, por problemas de relacionamento emcasaou,simplesmente,pormoraremsozinhas.Alguns acham que com ou sem bom dia é a mesma coisa. Doutor Frederico sempre acreditou que desejar bom dia, ser educado e atencioso com os outros era um comportamento essencial, e isso nunca lhe custou nada. Lógicoque,comotodoebomserhumano,àsvezes, isto não acontecia como o esperado.Algumas pessoas de mau humor já traziam de casa um rosto amargo, pois, ao saírem,algumacoisajátinhadadoerradoeavontadeera de nem ter saído da cama. Isso já aconteceu comigo, com
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    13 VONTADE DE VENCER você,com todo mundo, não é verdade? Pois é, Doutor Frederico também tinha dias assim, de “acordar com o pé esquerdo”, mas ele lidava com estas situações de maneiras diferentes. Nesses dias de sua vida, com maestria e sabedoria, ele conseguia contornar essas situações e seguir em frente. Sabendo que tudo o que acontece à nossa volta é um aprendizado, ele procurava não se estressar com fatos assim.Além disso, ele tentava fazer com que todos os colaboradores da empresa se empenhassem em seus trabalhos. Esseempenhodentrodoambientedetrabalhotinha base em uma diretriz do Doutor Frederico: denominar o funcionário como colaborador. Todos aqueles que trabalhavam ao seu redor eram colaboradores. Ele dizia que, se você chamasse um funcionário de empregado, ele poderia cumprir muito bem as suas funções. Mas, se este indivíduofossechamadodecolaborador,omesmotrabalho seriafeito,sóquecommuitomaisempenhoegosto.Desta maneira, o trabalhador teria a certeza de que não só cumpriria suas funções, mas também colaboraria com o crescimento da empresa. Sendo assim, os lucros aumentariam, os objetivos seriam alcançados e o colaborador cresceria junto com a empresa. Seus funcionários aprovavam a atitude de Doutor Frederico. — Comopodeagirassim?Preocupar-setantocom os funcionários! Nunca vi alguém trabalhar com esse objetivo. Todos que conheci só se preocupavam com a produção e, se não alcançássemos as metas, era bronca na certa. Apesar de observações positivas, mudanças causam burburinhos – não só na empresa, mas em todos
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    14 THIAGO VENDITELLI CURY oslugares. E na Junção não foi diferente, alguns não gostaram e pouco admiravam uma pessoa que se preocupava com os outros. Frederico se importava tanto com os seus colaboradores que se dedicava também a melhorias para eles. Umadasgrandesmudançasqueeleproporcionou aos colaboradores foi o café da manhã, todos os dias, dentro da empresa. Com um cardápio caprichado, seus colaboradores podiam sair de casa com mais calma para tomaremseucafédamanhãcomseusamigosdetrabalho. Essa iniciativa fez com que o número de pessoas que se atrasavam diminuísse bastante. Logo, o desempenhonotrabalhotambémmelhorou,fazendocom que,conseqüentemente,oresultadofinanceirodaempresa aumentasse. Percebendo toda esta melhora, Doutor Frederico resolveu compartilhar de todos os benefícios com seus colegas de trabalho, diretores e até mesmo com apresidênciadaempresa,buscandodifundirsuasidéias. Frederico convocou a diretoria para uma reunião, onde passaria todas as informações de seus projetos, e juntos traçariam novas metas. A diretoria aprovou as decisões de Frederico. Fizeram alguns ajustes e desenharam uma nova meta. Com isso, começava uma nova jornada. Doutor Frederico convocou todos os seus colaboradores a participarem de um café da manhã especial, onde entrariam uma hora mais cedo, comeriam algodiferentedohabitual,edepoiselecomunicariaquais eram seus novos planos e objetivos. Após a reunião com a diretoria e o café da manhã com os colaboradores, um período de testes para o novo modelo de trabalho foi traçado. Ao final três meses,
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    15 VONTADE DE VENCER haverianova reunião para apresentar um balanço da políticadetrabalhoimplantadaeosresultadosdoprojeto. Todosestavamempolgados.Umnovoânimofazia- se presente e isso era algo que não se via há muito tempo naquela empresa. Isto trouxe de volta a esperança para todos aqueles que trabalhavam por algum ideal, e não simplesmente por dinheiro e ganância, como era o caso dealgumaspessoasládentro.Maistardesaberemosquem são e porquê agiam desta forma. Para que todos pudessem ter um parâmetro, um planejamento,DoutorFredericopreparou,noperíododa manhã, uma planilha onde especificou claramente os planos e as metas. Colocou os valores e uma idéia que incentivariaaindamaisseuscolaboradores:umbenefício, uma premiação em dinheiro, medida em porcentagem, nofinaldoanovigente.Quantomaisprogredissem,mais ganhariam em benefícios no final do ano. Estametaficoutraçadadaseguinteforma:quando alcançassem o primeiro objetivo, receberiam uma premiação;seconseguissemosegundoobjetivo,umanova premiação um pouco maior, e assim sucessivamente. A notícia correu por todos os departamentos, a nova meta estava na boca do povo e as conversas paralelas começaram a surgir. Muitos diziam que isto era impossível, jamais alcançariamosobjetivosdaformaqueeleestavapropondo. Outros acreditavam tanto no Doutor Frederico que não duvidaramdaplenapossibilidadedealcançarseusobjetivos e ainda serem beneficiados pelos seus esforços. QuandoDoutorFredericoterminouseusrelatórios sobreosnovosobjetivos,resolveumontaralgumaspastas com o seu projeto, e também com algumas frases de
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    16 THIAGO VENDITELLI CURY entusiasmo,que combinavam com as características de cada um de seus colaboradores. Ao terminar de montar as pastas, dirigiu-se a cada um dos departamentos da empresa,distribuindo-as. Ele dizia que o contato mais próximo com os colaboradores era fundamental para o bom andamento de seus projetos. Enquanto conversava com as pessoas, ele ressaltava que elas poderiam fazer algo de diferente para alcançar seus objetivos. Como exemplo, ele costumava usar a seguinte frase: “Todos os dias, eu me levanto e leio a lista dos nomes mais ricos do mundo. Se meu nome não está lá, vou trabalhar”. Como ele participava das atividades de todos os departamentos, e conhecia todos muito bem, ele podia dar feedback, mas o que ele preferia mesmo era fazer com que a própria pessoa percebesse seu erro, e lhe dissesse como poderia ser consertado. Na maioria das vezes, Doutor Frederico chamava ocolaboradorparaumareunião,ondefalavadaseguinte forma: “Aqui encontramos algo que poderia ser diferente, ou até mesmo mais arrojado; você saberia me dizer onde podemos mudaralgo?”.Comestaatitude,elepretendiacriardesafios eexplorarosconhecimentoseasvontadesdocolaborador. Quando era necessário chamar a atenção de um colaborador, ele dizia onde a pessoa havia errado e, em seguida, o quanto ela era importante para o crescimento da empresa, do quanto era capaz e que possuía conhecimento para realizar aquela tarefa. Desta forma, as pessoas à sua volta não desistiam de seus ideais e não sedesanimavam. Fredericosabiamuitobemcomochamaraatenção de um colaborador. Procurava sempre fazer seus
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    17 VONTADE DE VENCER comentáriosousuasrepreensõesemumlocalreservado, ondeninguém mais pudesse ouvir o que estava sendo dito, para não causar constrangimentos e nem expor a imagem da pessoa. Fazia isto por saber que muitos profissionais costumavam chamar a atenção de um empregado na frente de qualquer pessoa, causando timidez, constrangimento, vergonha e até raiva nas pessoas. Este não era seu objetivo, por isso agia de uma forma diferente dos outros. O contato com cada trabalhador resultou em grande aceitação e um retorno bem acima do esperado, o que deu a Frederico a certeza de que os colaboradores já estavam prontos para começar a ingressar nos novos objetivos.Estapreparaçãonãofoifácil,umatarefaárdua, mas de grande valia, afinal o feedback era positivo. Todos osesforçosestavamvalendoapena,porqueosresultados eram visíveis dentro da empresa. Durante vários dias, as pessoas conversavam, trocavamidéias,comentavamsobreoandamentodeseus trabalhos e das dificuldades que estavam encontrando. Porém, no meio de toda esta empolgação, sempre existia uma ou outra pessoa que não queria saber de nada, que queria somente subir na vida pelo lado mais fácil, o lado da corrupção, da roubalheira. Enfim, uma situação que existeemvárioslugares,assimcomonaJunção,eeraisso o que o Doutor Frederico queria mudar. Sabendodequenemtodosconcordavamcomsuas idéias,DoutorFredericoficouatentoàspessoasqueagiam desta maneira, tomando o devido cuidado para que ninguém atrapalhasse seus trabalhos. Ele não queria que nada desse errado. Queria ter a certeza que ao final de todo o seu esforço as pessoas reconhecessem o que ele havia feito pela empresa e também pelos que nela
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    18 THIAGO VENDITELLI CURY trabalhavam.Infelizmente, não era com qualquer colaboradorqueDoutorFredericopodiacontar,sabiaque algumas pessoas ali dentro eram “perigosas”. Assim foi conquistandoaconfiançadaspessoascertas,aquelasque dispunham a seguir o seu modelo de trabalho, os seus projetos. Mesmo com esta dúvida em relação a algumas pessoas, ele não deixou de auxiliar ninguém dentro da empresa. Ao contrário, continuava à disposição de qualquer um que precisasse de sua ajuda, sendo uma necessidade sincera ou não. Após todas as mudanças, a rotina do Doutor Frederico se alterou um pouco, e para melhor. Quanto mais os associados ficavam sabendo dos novos projetos, mais eles queriam participar das reuniões que ele proporcionava. O objetivo deles era se aliarem ao modo de trabalhar de Frederico, e acompanhar a sua evolução no mercado de trabalho, podendo assim aprender muito com as pessoas que colaboravam para este crescimento. As empresas associadas e os respectivos profissionais sabiam que a troca de experiências e a ajuda mútua enriqueceriam não só o cotidiano de trabalho, mas também a vida pessoal, uma vez que muitos não tiveram apoio para começar a carreira.
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    19 VONTADE DE VENCER CAPÍTULODOIS Adiretoria começou a perceber o quão valioso era otrabalhoqueDoutorFredericodesenvolvia.Lógicoque perceberam isso não só por causa do aumento nos lucros daempresa,mastambémporqueosclientesnãoparavam de comentar como os serviços e o atendimento melhoraram significativamente, os colaboradores trabalhavam mais felizes, mais empolgados e o quanto as representações estavam contentes com os trabalhos. As melhorias que Doutor Frederico conquistou eramcompletamentevisíveis.Pessoasfelizesnoambiente detrabalhoedívidasdoscredoressendoquitadas,graças ao novo modelo de cobrança que ele implantou. Quando osclientesvisitavamaempresa,erammaisbemrecebidos e melhor atendidos, em razão de um treinamento praticado em uma semana, sempre uma hora antes do
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    20 THIAGO VENDITELLI CURY expediente,sobre o tema: “Como atender bem o seu cliente para que ele traga mais clientes”. Algumas semanas se passaram e tudo caminhava tranqüilamente, como era esperado. Doutor Frederico deixouumcanalabertoparaquequalquerpessoapudesse procurá-lonomomentoemqueprecisasse.“Jáqueelenos deuestaliberdade,vamosatéele”,diziamosfuncionários mais preocupados com o andamento dos projetos. As pessoas o procuravam, tiravam suas dúvidas, e algumas, um pouco mais ousadas, experimentavam dar sugestões. DoutorFrederico,comsuasabedoria,muitasvezes aproveitava as idéias de seus companheiros, dando uma incrementada em algumas delas. Sua formação garantia amparo legal, pois possuía total conhecimento da área financeira,embasandoaexecuçãoeoplanejamento,com chances mínimas de erro. Mas ele era prevenido, sempre contavacomeventuaisdificuldadesquepudessemocorrer, como problemas no orçamento e processos judiciários. Suavastaexperiênciapermitia-lheumatranqüilidadepara enfrentar os problemas. Mesmo que alguma pedra aparecessenoseucaminho,elepoderiaretirá-lacomcalma e sabedoria, para que nada desse errado. Ele se preocupou também em qualificar a rede de computadores da empresa, promovendo melhoras significativas no sistema de informações e no arquivo eletrônico, além de mudanças no site. Visava o aumento da produtividade, realizava mais reuniões do que de costume para manter sempre atualizados os novos projetos e os resultados. Entre tantas melhorias, seriam necessárias novas contratações. Enquanto tudo isto acontecia na empresa, os diretores conversavam entre si, trocavam opiniões sobre como a situação estava melhorando e como as atitudes do
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    21 VONTADE DE VENCER DoutorFrederico estavam trazendo lucros para a Junção Recursos Humanos, entre outras coisas. Decidiram, então,contratarmaispessoasparaajudarnocrescimento da empresa. Os membros da diretoria sabiam que era necessário acompanhar o ritmo do superintendente com a contratação de novos funcionários. Se ele cria novos departamentos, é preciso contratar ou promover algumas pessoas. Após muitas conversas e inúmeras reuniões, a diretoria chegou a um acordo de que deveriam contratar três novas pessoas e promover duas. Quando a decisão foi transmitida ao Doutor Frederico, ele se sentiu muito orgulhoso por saber que seu trabalho estava sendo reconhecido,equeseusesforçosestavamacarretandoem novas contratações. Isso era gratificante. Foram decididas as novas vagas e o pessoal a ser promovido,afinal,havianaJunçãopessoasquebuscavam sempreoseucrescimentopessoaleprofissional;nadamais justodoquepromoverosmaiscompetentesparaasnovas funções.Regrasforamimpostaseadiretoriafariaasnovas contratações;entretanto,DoutorFredericotomouafrente da situação e resolveu que ele mesmo faria as entrevistas com os candidatos e, conseqüentemente, as escolhas dos novos contratados. —Comopossoexerceraminhafunçãoaquidentro, se vocês não me dão liberdade para isso? - disse Doutor Frederico, querendo mostrar o quanto queria trabalhar para o crescimento da empresa, e de todos os colaboradores também, fossem eles novos ou antigos. A argumentação do Doutor Frederico deixou alguns diretores contrariados, mas eles permitiram que ele fizesse as contratações. Após as devidas seleções de
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    22 THIAGO VENDITELLI CURY currículos,aspessoasselecionadasforamchamadaspara umaentrevista,ondeeleconversava,nomínimo,comuma pessoapor dia. Duranteasentrevistas,pôdeconhecerváriostipos deprofissionais.Pessoasdispostasacrescer,querendoalgo melhor em suas vidas e também pessoas tímidas, com medodonovo,medodedesafios,pessoasquenãosabiam seexpressar.Claroqueosselecionadosseriamosquemais tinham interesse em crescer, em ter novos desafios em suas vidas profissionais. Não que estas pessoas “menos” qualificadas não sejam profissionais capazes de exercer asfunções,sóqueelaslevariammaistempoparafazeros trabalhos como ele gostaria, por isso, os melhores qualificados seriam os primeiros contratados. Após a formação dos setores e o andamento do projeto, seriam feitas novas contratações. Tendoacertezadaescolhafeita,elecomunicouaos colaboradores quem seriam as novas pessoas a trabalhar na empresa. Solicitou a Carmem, responsável pelo departamento de cadastros, que avisasse aos candidatos selecionadosqueprovidenciassemseusdocumentospara a contratação. Foidecididotambémquemseriamaspessoaspara auxiliar os novos colaboradores nas suas funções, quem ensinaria como o era o funcionamento e o cotidiano da empresa. Esta pessoa responsável por ajudar o novo colaborador a se adaptar era denominada pelo Doutor Frederico como “padrinho” ou “madrinha”. Durantequinzedias,os“padrinhos”deixavamum pouco os seus afazeres de lado para auxiliar o novo colaborador.DoutorFredericohaviaimplantadoestaidéia na empresa, para que as pessoas se conhecessem melhor, promovendoumauniãomaiorecriandolaçosdeamizade.
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    23 VONTADE DE VENCER Essaatitude tinha tudo para dar certo. É possível fazer novos amigos onde trabalhamos, nos relacionar melhor com uma pessoa de nossa equipe, simplesmente pelo fato de almoçarmos juntos ou de irmos embora no mesmo ônibus. Existem pessoas dentro de empresas que moram no mesmo bairro e nem sequer sabem disso, porque não conversam ou não se relacionam muito bem umas com as outras. Logo após estas denominações, os novos colaboradores foram destinados aos seus setores, e também as devidas promoções foram feitas: uma pessoa foi promovida para o setor financeiro; o outro, para o administrativo. Em relação aos novos, um foi para o administrativo,outroparaosetordevendaseumamoça para a recepção. Doutor Frederico ressaltava que a recepção é uma parte importante da empresa, pois é o local que as pessoas chegam e devem ser bem recebidas. Segundo suas palavras “a recepção é a primeira impressão que uma pessoa tem da empresa”. Todos receberam ajuda dos antigos funcionários. Doutor Frederico aprovou a ajuda dada aos colaboradores novos, e disse, em tom de elogio, a todos: “se todas as pessoas soubessem passar um pouco de seus conhecimentos ao próximo, aos seus amigos, tanto na vida profissional como na vida pessoal, estas poderiam desfrutar de benefícios maravilhosos, como a gratificação de poder observar uma pessoa cumprindo uma tarefa com sucesso, e ter a certeza de que se hoje esta pessoa é capaz de exercer esta função, foi porque teve o auxilio de um de vocês”. Naquela empresa, a solidariedade e o gosto por ensinar o próximo faziam parte de um objetivo a ser
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    24 THIAGO VENDITELLI CURY cumpridodia após dia, mas, infelizmente, não eram todas as pessoas que pensavam desta forma. Algumas delas queriam realizar seus objetivos pelo lado mais “fácil” da vida. Para os novos contratados, o simples fato de obterem um treinamento, de serem capacitados a desenvolver tarefas e de poderem assumir responsabilidades iguais às dos outros profissionais, era muitovalioso.Osbenefíciosadquiridosdestaajudaedeste ensinamentorefletiriamcoletivamentedentrodaempresa e também na sociedade. Doutor Frederico preocupava-se também em conscientizar seus colaboradores de que era preciso a cooperação com estas novas pessoas. Percebendo mais umavezoresultadopositivodeseusatos,eledecidiuentão promover uma palestra onde trataria de assuntos de conscientizaçãoparaestanecessidadedecompartilharos ensinamentos e seus conhecimentos. Um de seus argumentosera: “Se nós, que somos os representantes da sociedade, tratássemos os novos profissionais com olhar de humanidade e não de simples empregados, muitas pessoas teriam mais conhecimento hoje em dia. Assim, logicamente, teríamos um número menor de pessoas desempregadas”. “Nãoqueestaresponsabilidadesejanossa,maspodemos cumprir com as nossas obrigações, podemos contribuir com a nossa parte, por isso estou criando estas palestras de conscientização das pessoas para este novo tempo; o tempo de ensinamento”. Pensando em como poderia começar seu novo trabalho, Doutor Frederico decidiu pedir a opinião de alguns amigos do ramo, para saber quais as dificuldades
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    25 VONTADE DE VENCER queeles encontravam no mercado de trabalho. Procurou saber também como as empresas de seus amigos agiam emrelaçãoaestasnovascontrataçõeseaoutrosassuntos. Logoqueconseguiureunirasinformaçõesqueseus amigos empresários lhe forneceram com muito prazer, começouacolocarsuasidéiasnopapel.Enquantoescrevia, não podia deixar de recordar do seu passado, dos seus ensinamentoseaprendizados.Lembrou-sedasprimeiras pessoas que passaram pela sua vida profissional, seus primeiros chefes, seus amigos de trabalho e até mesmo de professores da universidade. Fredericoqueriacolocarumpoucodasuahistória pessoal nesta nova empreitada. “Precisamos de novas idéias, de novas propostas, de contestações que mudem o posicionamento do setor empregatício e dos empresáriosemgeral.Temosqueeliminarospreconceitos queaindaexistemsobreosnovosprofissionais,todostêm totalcapacidadedeaprender,algunscommaisfacilidade, outros com mais dificuldade, mas ninguém é impossibilitadodeaprenderalgonovo.Ainclusãodestas pessoas não é somente um assunto empresarial, mas também um assunto social”.
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    27 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOTRÊS No que diz respeito a operacionalidade das novas contratações, a capacitação é essencial para dar início à uma nova jornada. A praxe do mercado é permanecer com o quadro de funcionários já existentes, sem aumentar o número de pessoas trabalhando em suas dependências, já que isso aumentaria os custos e acarretaria em riscos financeiros. Entretanto, Doutor Frederico acredita que se devem dar novas chances às pessoas que estão começando suas carreiras profissionais, principalmente àqueles que têm visão de empregabilidade. E o que é empregabilidade? “Empregabilidadesãoosdiferenciaisdeumprofissional quefazemcomqueelesemantenhaouserecoloquerapidamente no mercado de trabalho, onde as pessoas têm a oportunidade demostrarsuasqualificações,fazendocomquesejamescolhidas para exercer suas funções”.
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    28 THIAGO VENDITELLI CURY EstaeraumagrandebrigaqueoDoutorFrederico estavacomprando com os diretores, os supervisores e o presidente,mostraralgodiferentedoqueelesacreditaram ser o correto durante todas as suas vidas. Concluída a primeira parte do projeto, Frederico decidiu que era a hora de convocar uma reunião com a diretoria da empresa. Pediu a Andressa, sua secretária, que marcasse o encontro com os diretores para quarta- feiradasemanaseguinte.Afinal,mesmocomaautonomia que lhe foi dada, ele devia satisfações e esclarecimentos aos seus superiores. Apresentaria o projeto de inserção de novos profissionais no mercado de trabalho. Uma hora depois, Andressa comunicou ao chefe queestavatudoacertadoeareuniãoconfirmada.“Muito bom,Andressa,vocêémuitoeficiente”.Eleprezavamuito a capacidade de seus colaboradores e por isso fazia questãodelhesdarum feedback.Esteretornoeraessencial para que continuassem exercendo suas obrigações da mesma forma, ou até melhor. DoutorFredericosentia-sesatisfeitoporternasua equipe pessoas tão habilidosas. Sentia-se ainda mais recompensado por saber que quase todas as pessoas da empresa começaram de baixo, aprenderam de tudo um pouco e tiveram o apoio de outros colaboradores para chegarem onde estão, e isto fazia com que ele se empenhasse ainda mais em seu projeto. Enquanto o dia da reunião não chegava, Doutor Frederico aproveitava seu tempo livre para continuar a colocarnopapelsuasmaisnovasidéias.Elefaziapesquisas demercadorelacionadascomnovascontratações,buscava informaçõesemlivros,jornais,revistasdaáreadeRecursos Humanos,entretantosoutroslugares,alémdeconversar
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    29 VONTADE DE VENCER muitocom amigos e conhecidos. Chegou até a pedir a opiniãodeseusfamiliares,oqueelespensavamarespeito doassunto,ecomopercebiamoretornodestanovaatitude para as empresas. Com o passar da semana, Doutor Frederico foi concretizando seu trabalho, mas sem se esquecer em momento algum dos seus colaboradores. Ele sempre estava presente em todos os departamentos, prestando o auxilioquehaviaprometidoaeles,paraquecontinuassem a cumprir suas metas com sucesso. Na terça-feira, um dia antes da reunião com a diretoria, Doutor Frederico preparou a apresentação que usaria. Revisou todo o seu trabalho, corrigiu erros, acrescentoumaisalgunsdetalhese,quandoestavacomo projeto pronto, pôde respirar tranqüilo: “Mais uma vez, trabalho cumprido com excelência”. Poderia agora pensar com calma na maneira que apresentariaseunovoprojetoàdiretoria,comoiniciariaa sua abordagem, como exporia suas pesquisas sem que causasse tumulto e discussões.Afinal, o que as pesquisas de mercado apresentavam não era nem um pouco parecido com a atitude dos empresários ali presentes. Decidiu então pedir a ajuda de Andressa, já que ela sabia detalhadamente como os diretores preferiam observar uma apresentação. Aproveitou a ajuda da secretária e pediu a opinião em alguns pontos de seu projeto. — Doutor Frederico, está maravilhoso! O projeto éperfeitoeaapresentaçãonãopoderiaestarmelhor.Está tudo de acordo com o que os diretores gostam. — Andressa, muito obrigado por sua ajuda. Se os resultados desta reunião forem positivos, como
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    30 THIAGO VENDITELLI CURY esperamos,você vai ver como tudo irá mudar aqui nesta empresa e em outras também. —Certamenteseusprojetostrarãobonsresultados para esta empresa, Doutor, e o senhor será reconhecido por seu trabalho, dedicação e esforço neste e em outros projetos. — Querida Andressa, todos estes projetos que estou desenvolvendo aqui na empresa não são pelo reconhecimento das pessoas, mas sim pelos meus ideais. Nãoháprazermaiordoqueasatisfaçãodeverumprojeto dando certo e as pessoas se beneficiando com os resultados.Logicamente,serreconhecidoéalgobom,mas não podemos esperar do outro algum tipo de reconhecimentoparanossentirmosbem,“nuncadevemos fazer da opinião do outro o termômetro da nossa auto-estima”. — Doutor Frederico, como é bom ouvir e compartilhar dos seus ensinamentos. Trabalhar com o senhor é como uma escola para mim. Sempre que venho paraotrabalho,logoquandoacordo,mepergunto:Oque eu vou aprender hoje? Com o que vou poder contribuir paraocrescimentodaquelesquetrabalhamcomigoepara o meu crescimento pessoal também? — Comecei a pensar assim depois que o senhor veio trabalhar aqui. Pude conhecer vários tipos de superintendentes e nunca tinha visto alguém com a sabedoriaqueosenhortem.Seestaspessoasquepassaram pela empresa tivessem tido a mesma dedicação em criar projetos, de lutarem por algum ideal, como o senhor está fazendo, as coisas poderiam estar melhores para todos nós há algum tempo. Mas os outros profissionais não colocavam esta sabedoria para fora, guardavam todo o seu conhecimento para eles mesmos.
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    31 VONTADE DE VENCER —Pois é, Andressa, muitas vezes as pessoas pensam que, se compartilharem algo bom com seus colegas, estarão colocando seus cargos em risco; mesmo lhesajudando,passandoseusconhecimentosparafrente, continuarão correndo riscos, podendo ter seus cargos “roubados”.Muitosempresáriosqueeuconheçopensam que,secompartilharemdealgoqueaprenderamemsuas vidas, podem estar dando a chave do sucesso para o outro “de mãos beijadas” ou “de graça”, e não percebem que temos que transmitir o nosso conhecimento e as nossas técnicas. Se nós nos prendermos a estas “técnicas velhas”, deixaremos também de aprender coisas novas. Pessoas que sabem algo a mais do que nós também não irão compartilhar seus conhecimentos conosco. E aí? O que faremos para recuperar o tempo perdido? — O que eles ainda não se deram conta é que qualquer pessoa pode fazer isso, até mesmo a própria diretoria da empresa pode decidir se é necessário trocar de profissional, e não apenas mudar por mudar, como já aconteceram várias vezes. Então,Andressa, enquanto eu estiver ocupando a minha cadeira de superintendente, sempre farei tudo o que estiver ao meu alcance para o crescimento da empresa e dos colaboradores. Espantada com tanta coragem e dedicação, Andressa decidiu permanecer em silêncio por alguns instantes, como se não tivesse palavras para descrever o quão importante era o aprendizado que obtinha diariamente com Frederico. Logo após ouvir o que o superintendente disse, Andressa resolveu ir mais longe com os seus questionamentos, aproveitando a ênfase que ele havia dado ao assunto.
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    32 THIAGO VENDITELLI CURY —DoutorFrederico,oquepodemosfazerparaque osdiretores das empresas realmente queiram nos ajudar? — Não podemos fazer nada, além de expressarmos as nossas idéias. Então, teremos que aguardar a colaboração deles. O que eu realmente gostaria de fazer era, simplesmente, estalar os dedos e fazer com que as coisas ficassem diferentes e mudassem para melhor.Assim, eu teria mais tempo para desfrutar dos resultados. Mas isto não me levaria a nada, pois como saberia definir o que é superar um desafio? O que é conquistar algo que tanto se deseja? Como eu compreenderia o que é ser bem sucedido na vida? Se as coisas são fáceis, os esforços não valeriam de nada, as opiniões não seriam aceitas! As regras seriam quebradas. Por isso, a única coisa que nos resta é fazer a nossa parte e esperar que eles cumpram com a deles. Aconversa fluía tão bem que nem perceberam a hora do almoço chegar. Doutor Frederico convidou Andressa para almoçar, pois, como um homem esperto, ele sabia que, de estômago vazio, é mais difícil criar novas idéias.
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    33 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOQUATRO Enquanto Frederico e Andressa iam para o restaurante, muito freqüentado pelos funcionários da empresa e “eleito” por eles como sendo a mais deliciosa massa da região, aproveitaram para colocar a conversa em dia. Afinal, no horário de almoço é que eles podiam conversarsobrecoisasquenãodiziamrespeitoàempresa. Mas quem disse que eles conseguiam não falar de trabalho? Andressa, em sua primeira frase fora do ambiente de serviço perguntou: — Doutor Frederico, como as pessoas estão reagindo com a sua maneira de trabalhar? Como está sendo a aceitação dos seus projetos? — Bem, pelo menos ao meu ver, os nossos colaboradoresestãosatisfeitos.Todosestãocontentescom aminhamaneiradeprovidenciarasdevidasmudançase
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    34 THIAGO VENDITELLI CURY comomeujeitodetratarcarinhosamenteaspessoas.Acho queelas nunca tinham trabalhado com alguém que tem como primeira ação da manhã, logo ao pisar na empresa, desejarumbomdia.Algumasatitudessurpreendem!Mas este meu comportamento é o que todos nós deveríamos ter diariamente em nossas vidas, com todas as pessoas à nossavolta.Nãonoscustanadadesejarumbomdiaeser educado com nossos amigos, familiares, companheiros de trabalho, entre tantas outras pessoas que convivemos durante os nossos dias. Andressa, impressionada com as palavras de Doutor Frederico, quis saber mais sobre como, quando e onde ele havia aprendido todas estas coisas. —Comoosenhorconquistouestejeitodeser,esta forma carismática de tratar as pessoas à sua volta? – perguntou a secretária ansiosa por mais informações, já que via no chefe um modelo de profissional. — Antes de responder-lhe, posso-lhe fazer uma pergunta,Andressa? — Claro que pode, Doutor Frederico. — Para você, o que é o Auto-Conhecimento? — Doutor Frederico, que pergunta difícil! E tambémbemdiferente,porsinal!—titubeandoumpouco, mas continuando logo em seguida — Para mim, Auto- Conhecimento, é quando sabemos o que queremos para a nossa vida, é o que sabemos de nós mesmos, o que gostamos, que dia da semana preferimos e o porquê preferimos. Também é o tipo de cheiro que mais nos agrada, estas coisas... Por quê? — Você não está errada, Andressa, mas Auto- Conhecimentoétambémumamaneiradeolharmospara dentro de nós mesmos, para o nosso próprio interior,
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    35 VONTADE DE VENCER percebendoqualéanossaessência,osnossospadrões,as nossasexperiências de vida, a cultura social. Somente assim podemos encontrar um sentido para nossas vidas. Quando nós conseguimos alcançar todas estas coisas dentro de nós mesmos, poderemos definir uma maneira de agir, qual o melhor comportamento que podemos ter, de que forma desfrutaremos nossas vidas e como vamos superar os nossos desafios e obstáculos. Andressa ficou pensativa. Desmembrava aquele aprendizado, atentando para cada palavra. Enquanto a moça refletia, ambos resolveram pedir a comida. O garçom aproximou-se, sugeriu alguns pratos. Pediram capelete ao molho branco e um vinho para acompanhar. — Onde paramos nossa conversa,Andressa? — O senhor estava falando sobre Auto- Conhecimento. — Claro! Deixe-me lhe explicar. Todos nós temos uma intuição, algo que nos diz o que devemos fazer ou não, como devemos agir em determinadas situações, etc. Nós já nascemos com esta intuição. A única coisa que temosafazerduranteanossavidaéaprendermosacolocá- laemprática.Eucostumodizerqueestaintuiçãoéa“voz do nosso coração”. — “Voz do nosso coração”, como assim? — Veja bem, Andressa, quando você está com dúvida, por exemplo, em decidir por alguma coisa, algo que queira muito, mas não tem certeza se deve fazer ou não,oqueacontece?Nestemomento,separarporalguns instantes e pensar se deve realmente fazer, você vai ouvir uma voz interior que lhe dirá o que deve ser feito. Você pode acreditar que a resposta estará certa. Isto porque o seu coração jamais irá mentir para você, não é mesmo?
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    36 THIAGO VENDITELLI CURY —Achoquesim.Nuncatenteifazeristo,mascreio quenósnãonosenganamoscomascoisas.Achoquetudo acontececomo deveria acontecer, se eu escolho por algo, masnofimvejoquefoiaescolhaerrada,nãofuienganada, fui alertada a não errar novamente.Acredito que seja um aprendizado,paraquenapróximaoportunidadeeupossa fazer do jeito certo. — Perfeito! Mesmo assim, com esta sua facilidade em compreender o raciocínio das coisas, não pense que é fácil ouvir uma voz interior, algo que você não vê, somente pode ouvir e sentir. As pessoas têm medo, acham que é coisa do outro mundo, mas ninguém se dá conta de que um dia já passaram por algo parecido. Elas não se atentam aos detalhes e este acontecimento acaba passando desapercebido. Ninguém nunca pára e pensa “como eu decidi por algo sem ter a certeza de que era o melhor a ser feito?”. E pode acreditar que era a sua intuição lhe dizendo o que fazer. — Doutor Frederico, quantos ensinamentos maravilhosos estou aprendendo! Espero que o senhor não tire férias nunca, assim lhe verei sempre e não deixarei de aprender. — Querida Andressa, você sempre irá aprender coisas novas seja comigo, ou com outra pessoa. A nossa vida é feita de aprendizados. Com alguns, nos identificamos mais, com outros não nos damos tão bem assim, mas sempre estamos aprendendo algo. Quando conhecemos algumas pessoas, não é por acaso que elas apareceram. Se conhecermos um amigo novo, e nos identificamos muito com ele, por exemplo, é que temos algo importante para aprender com ele, ou até mesmo temos algo a lhe ensinar. Ou, de repente, se deixamos de nos encontrar com uma pessoa, é porque o que tínhamos
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    37 VONTADE DE VENCER queaprendercomelaterminou,eoquetínhamosaensinar tambémse encerrou. Espero que você faça bom uso das minhas palavras, e que sempre conte com a minha ajuda para o que precisar. Enquanto almoçavam, o silêncio pairava sobre aquela mesa, a comida estava tão gostosa que as únicas palavrasquepodiamserouvidaseram:“Porfavor,passe- me o sal”. “Por favor, traga-me uma garrafa de água”. Naquele momento, o assunto tão interessante foi interrompido pela imensa vontade de comer. O almoço não durou mais do que 40 minutos, e assimqueterminaramdecomer,DoutorFredericopediu um cafezinho. Andressa quis um pedaço de bolo de chocolate como sobremesa. Apóspediremaconta,AndressasugeriuaoDoutor Fredericoque,aochegaremàempresa,conversassemum poucomais,chamandoCarmem,agoracoordenadorado departamento administrativo, para interagir. Os três não teriam nenhum compromisso importante e trocariam idéiassobreoambientedetrabalhoeaconvivênciainterna. Ao chegarem no escritório, adiantaram algumas tarefas pendentes para que pudessem se reunir sem nenhumcontratempo.Logoqueterminaram,Andressae Carmem prepararam alguns documentos para serem vistos durante a reunião. Frederico estava ansioso para expor suas novas idéias às moças. Os três dirigiram-se à sala de reuniões e pediram para que não fossem incomodados. Apesar de não ser um assunto confidencial, era melhor não perderem o fio da meada com interrupções. A porta fechada da sala de reunião despertou a curiosidade das pessoas dentro do escritório. Os ânimos
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    38 THIAGO VENDITELLI CURY ficaramaguçados. “O que será que está acontecendo? Porta fechada e não querem ser interrompidos? Algo estranho pode estar começando a acontecer”. Alguns, maisexagerados,diziam:“Temosquenosprevenir,seeles vão se unir, nós também devemos fazer uma aliança”. Como ninguém imaginava o que era discutido naquela sala, os mais preocupados tiraram suas próprias conclusõesetomaramatitudessobreaconversamisteriosa dos três. E eles iriam se defender! Não sabiam o que ia acontecer daquele dia em diante, mas na opinião deles, era necessário se prevenir. Eles pensavam que, se os assuntosdareuniãofossemdeinteressedetodos,Doutor Frederico deveria fazer uma reunião coletiva, e não de portas fechadas e a um “público” limitado. Se prevenir contra o quê? Eles estavam se precipitando,jáqueosplanosdeDoutorFredericotinham como objetivo trazer o bem-estar para todos dentro da empresa. Mas eles decidiram, antecipadamente e sem conhecimento dos fatos, se armar contra o superintendente,CarmemeAndressa. Oqueseráquelevouestaspessoasapensaremmal do Doutor Frederico? Provavelmente a influência que algunsexercemsobreoutros.Talvezfossesomentefofoca. Doutor Frederico foi julgado sem motivos e pagaria um preço por esse julgamento. Essaatitudesedeuporqueo“medo”estánamente daspessoas.Seelasconfiassememsimesmas,nãoteriam motivos para julgar o Doutor Frederico como uma má pessoa, com más intenções. Elas viram o perigo, onde existia somente a bondade. “Cada um vê aquilo de acordo com os óculos que usa”. Sem que Doutor Frederico percebesse, algumas pessoas começavam a olhar para ele de uma maneira
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    39 VONTADE DE VENCER diferente,achavam que ele estaria tramando algo ou reunindoforçasaseufavor.Destamaneira,começarama tratá-lo de uma forma mais retraída, com um pouco de desconfiança, com o “pé atrás”. Ninguém poderia imaginar que algo deste tipo pudesse acontecer. Talvez, com os antigos diretores, mas não com o Doutor Frederico. No princípio, ninguém percebeu nada, pois as observações eram feitas às escondidas.Apósotérminodareunião,DoutorFrederico, Andressa e Carmem começaram a trabalhar de uma maneiramaisalegreemaisempolgada,provocandomais desconfiança nas outras pessoas. “Vamosprestarmuitaatençãonocomportamento deles, vamos nos atentar em como serão as coisas daqui para frente”, diziam os opositores. Os dias foram se passando, o trabalho seguia normalmente e ninguém desconfiava de nada. Para a maioria das pessoas, as coisas estavam normais e melhorariam em breve. Enquanto isso, outros pensavam em como destruir o superintendente que, em tão pouco tempodeempresa,jápromoviasignificativasmudanças. Eles desconfiavam das reais intenções de Frederico. EstamosatentosaosnovosmovimentosdoDoutor Frederico e sua turma. Se eles querem nos derrubar, podemos fazer isto primeiro. As pessoas tiram suas próprias conclusões e relatam falsos acontecimentos. A desconfiança em Fredericoeratãograndequeninguémsepreocupoucom ofatodequepoderiamprejudicaralguémou,atémesmo, elespróprios.Maisalgunsdiasseseguiramsemquenada viesse à tona. Tudo parecia normal. Enquanto alguns estavam felizes e aguardando as mudanças, outros
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    40 THIAGO VENDITELLI CURY estavampreocupados, tensos, não disfarçando a ansiedade sobre o que estaria para acontecer. Osprocedimentosqueforammudados,aospoucos foram dando resultados, e, por sinal, bons resultados. Os modos de cobrança foram alterados, assim como o funcionamentoemalgunsdepartamentos.Ospromovidos já trabalhavam nas novas funções, e os contratados já se encontravam familiarizados com o trabalho. Quase todos os dias, Doutor Frederico reunia-se comalgumaspessoasdosdepartamentosparasabercomo estava o andamento das novas funções. Ele queria saber tambémseelastinhamdúvidas,comoosclientesestavam reagindo e como estavam as inscrições para os novos treinamentos que a empresa oferecia. Em relação aos cadastros das empresas, ele quis saber se estavam sendo feitosdeacordocomasnovasregras.Fredericopediuum relatório das empresas que estavam inadimplentes e que agora regularizavam a situação depois dos novos procedimentos de cobrança. Comojáfoiditoantes,areformulaçãonosquadros daempresaenvolveucontrataçõesemudançasdefunção. A recepcionista foi promovida a auxiliar administrativa. Omensageiropassouaserauxiliarfinanceiro,nosetorde contas a pagar. Para o setor de vendas e cobranças foi contratado Matheus, um rapaz jovem, mas experiente. Além dele, foi contratada uma moça para o lugar da antiga recepcionista e um novo mensageiro. Todos estavam em caráter de experiência, e teriam que mostrar vontade de crescer para assegurarem o posto. Naempresa,ooffice-boyerachamadomensageiro. Todosdiziamqueanovanomenclaturaeraumaevolução
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    41 VONTADE DE VENCER dooffice-boy tradicional. O mensageiro fazia quase os mesmos serviços de um boy, mas com uma apresentação diferente,deroupasocial,porlidarcomdiretores,grandes empresáriosedonosdemultinacionais;eleseriaacarada empresa na rua. Doutor Frederico sempre ressaltava: “O mensageiro é quem leva a empresa para as outras pessoas, se ele não estiver bem apresentado, estará passando a idéia de que a empresa não é bem apresentável para os outros”. Após a implantação da nova organização, Doutor Frederico foi conversar pessoalmente com os colaboradorespromovidosecontratados.Elequeriasaber como eles estavam se adaptando, o que estava faltando, seprecisavamdasuaajuda.Enfim,queriaqueosnovatos se sentissem à vontade. As contratações feitas por Frederico foram planejadas para atuar flexivelmente, ou seja, o novo funcionáriotinhaasuafunçãoespecífica,maseletambém atuaria em outros setores. Então, durante duas semanas, o superintendente fez um rodízio de tarefas a fim de analisarondecadaumseencaixavamelhor.Porexemplo, caso Matheus se adaptasse melhor com a área de vendas, inicialmente, ficaria nesta função. A partir das mudanças implantadas, as tarefas fluíam normalmente na empresa. Funcionários novos cumpriam suas obrigações, cafés da manhã eram realizados durante toda a semana e a produtividade aumentouconsideravelmente.Maisempresasassociadas participavam dos treinamentos e reuniões aconteciam como nunca dentro da empresa. Tudo parecia tranqüilo. Em um belo dia, Doutor Frederico acordou inspiradoparanovosdesafiosemsuacarreiraprofissional eresolveuagitarumpoucoocotidianodaempresa.Novos
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    42 THIAGO VENDITELLI CURY desafios,mas sem se esquecer de seu projeto de montar umcursoouumapalestraquetratassedaconscientização das pessoas em relação às novas contratações. Além disso, era preciso conscientizá-los da importância em passar seus conhecimentos para frente, trocar experiências e aprendizados. Quando chegou ao trabalho, convocou alguns funcionários para uma reunião, sem que eles soubessem o assunto em pauta. Todos ficaram agitados, correndo para um lado e para o outro, buscando relatórios dos últimos seis meses, providenciando os documentos que foram solicitados, buscando as informações no sistema, imprimindorelatóriosdeúltimahora.Umaloucuralogo de manhã. Mas era isto mesmo que ele queria, saber o quanto essas pessoas estavam dispostas a se empenharem em novos desafios. Tudo para ser apresentado no café da manhã do dia seguinte. — Neste café da manhã, iremos abordar as novas mudanças e o porquê de eu estar querendo colocar em prática todas essas idéias. Vamos falar um pouco sobre comoaspessoasestãoencarandoestesnovosdesafios,se vocês estão encontrando alguma dificuldade, qual a repercussão deste novo projeto fora da empresa e como os outros profissionais estão encarando as nossas mudanças.Conversaremosumpoucotambém.Algobem diferente da rotina de vocês, pelo menos no período da manhã — brincou Doutor Frederico, para quebrar o gelo que se instalava naquela sala — Afinal, todas as pessoas presentes temiam o que estava para acontecer. Uma reuniãodeúltimahora,comumcafédamanhã,realmente, era bem estranho.
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    43 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOCINCO TodosficaramespantadoscomaatitudedoDoutor Frederico, mas, com certeza, estariam presentes naquele café da manhã “especial”. Ao final do dia, com muito trabalho e dedicação, todos os objetivos haviam sido alcançados e suas solicitações atendidas. Doutor Frederico decidiu trabalhar até um pouco maistarde,paraprepararumaapresentaçãoondepudesse mostrar aos colaboradores que eles faziam parte de uma equipe, que o trabalho deles era muito importante para a empresa.Queriacriaralgumtextoquelhesproporcionasse uma sensação boa, uma motivação, para buscarem mais resultadosealcançaremseusideaismaisfacilmente,tanto profissionalmentequantoemsuasvidaspessoais.Colocou no papel tudo o que estava em sua mente. Ao final
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    44 THIAGO VENDITELLI CURY daquelashoras a sós em sua sala, redigiu um bom texto, que lhe deu a certeza de sucesso garantido na manhã seguinte.Inseriualgumasfrasesparameditação,paraque aspessoasrefletissemsobreseusideais,sobreseussonhos e suas vontades. A apresentação contava com um vídeo motivacional e algumas animações. Sua idéia era promoverumaespéciededebate,maseleaindanãotinha tudo formulado. Como já era tarde, decidiu pensar a respeito no caminho de casa. Nocaminho,ligouparasuaesposaepediuqueela preparasse um jantar especial e abrisse uma garrafa de vinho, para comemorarem mais um objetivo que ele conseguiu realizar dentro da empresa. Sua felicidade naquele dia era evidente, pois tinha aprendido muitas coisas, mas ele não sabia que o maior aprendizado ainda estaria por vir. Ao parar o carro no semáforo, viu um homem pedindo esmola. Ele aparentava mais ou menos uns 35 anos de idade, cabisbaixo, com uma roupa velha e de pés descalços. Parecia perigoso, afinal, à noite, em um local escuro, com histórico de assaltos, a suspeita era grande. Mas isso não o inibiu. Conforme foi se aproximando do semáforo fechado, o superintendente começou a pensar nostrocadosquetinhanobolso.Fredericosempreajudava aspessoasdando-lhesalgunstrocados,massemprepedia para que elas comprassem comidas ao invés de bebidas oudrogas.Nãopodiagarantirqueospedintesseguiriam seu conselho, mas, ao menos, cumpria a sua parte. Assim que foi apanhar a carteira, sentiu a necessidadedefazeralgoamaisporaquelapessoa,queria ajudarmaisdoqueapenasdandounstrocados.Semsaber
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    45 VONTADE DE VENCER comofazer, abaixou o vidro do carro e perguntou para o pedinte, que parecia faminto e com frio: —Comopossoajudá-lo,semserdando-lhedinheiro? — O senhor gostaria mesmo de me ajudar? — perguntou o mendigo surpreso com o tipo de pergunta. Afinal, não é todos os dias que vemos pessoas tendo esta atitude. — Claro que quero! Sei que o senhor precisa de algo a mais do que uns trocados, algo que lhe dê esperança! Talvez mais forças para os seus dias... — sugeriu Doutor Frederico, ansioso pela resposta do mendigo, que já não parecia ser tão perigoso. Frederico não tinha esse comportamento todos os dias de sua vida, mas, naquele momento, escutou a voz do seu coração e percebeu que deveria fazer algo por aquela pessoa. Imediatamente,omendigorespondeuapergunta, antes que acendesse a luz verde do semáforo e ele não pudesse dizer tudo aquilo que gostaria que fosse diferente neste país. — “O senhor pode lutar por um mundo melhor, pode lutar para que meus filhos tenham uma oportunidade de estudar, um futuro melhor que o meu. Se o senhor fizer isto, já vai estar me ajudando mais do que imagina”. Após ouvir, Doutor Frederico ficou sem palavras, estático por algum tempo. Em fração de segundos, um filme passou em sua cabeça: lembrou-se dos seus filhos; dasoportunidadesquetiveramquandoeramcrianças,da segurança ao brincarem, dos bons estudos, dos cursos e em todas as outras coisas que lhes transformaram em profissionais competentes. Naquele momento, ele não tinha noção do número de pessoas que gostariam de ter
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    46 THIAGO VENDITELLI CURY asmesmas coisas que seus filhos tiveram. Frederico, porém, sabia que muitos estavam na mesma situação do mendigo. Pessoas que, por não terem conseguido uma oportunidade de estudo, não puderam ter um emprego melhor, um trabalho digno e uma vida decente. Elesabiamuitobemquenãoeramtodasaspessoas queseenquadravamnasmesmascircunstâncias,algumas realmente não fizeram por onde para serem bem sucedidas na vida. Existem aquelas que se entregam à bebidaeaojogo,perdemtudo—casa,família,empresas, dinheiro — e acabam na rua, pedindo esmolas, se humilhando por uma nova oportunidade. Mesmo sabendo que essas pessoas erravam, ele acreditava que elas mereciam uma segunda chance. Frederico queria ajudar, mas sabia também que o governo tinha responsabilidades diante da pobreza. Mesmo com os pedidos do mendigo para que ele lutasse por um mundo melhor, proporcionando mais oportunidades para os seus filhos, Doutor Frederico não se contentou e quis ajudar. Deu ao pedinte dez reais e disse-lhequeodinheiroeraparalevarleiteepãoparasua família, que o resto deixasse por sua conta; tudo o que fosse possível, ele faria, e, com certeza, assim que os resultados aparecessem, o mendigo se lembraria dele. O mendigo agradeceu, ficou muito feliz, mas mesmoassimpediuquenãoseesquecessedeseupedido especial: gostaria de ver seus filhos formados, com oportunidades iguais às que o superintendente teve. O semáforoabriueDoutorFredericoseguiuemfrente,feliz por ter ajudado, pensando muito na cena ocorrida. Quandochegouemcasa,cumprimentouosfilhos, beijouaesposaefoilogoxeretandonaspanelasparasaber o cardápio do jantar.
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    47 VONTADE DE VENCER Fredericotinha uma esposa amorosa e companheira, que o apoiava em todas as suas decisões, estando sempre ao seu lado. O casal tinha três filhos, dedicados, amigos e integrados com os acontecimentos da família. Enquanto colocavam a mesa para o jantar, os rapazes perguntaram ao pai como havia sido seu dia. Após ter contado o que havia se passado, os jovens lhe disseram que tudo o que o pai fez um dia por eles, seria retribuído e eles dariam toda a ajuda, o apoio e a força que fossem necessários. —Pai,hojeétempoderetribuirmosoqueosenhor fez por nós, sempre conte com o nosso apoio e a nossa ajuda para o que o senhor precisar. — Meus filhos, já que vocês tocaram no assunto, eu gostaria de pedir a ajuda de vocês. — Pode pedir, pai, faremos o que o senhor precisar. Nós o ajudaremos com muito orgulho. Frederico soube criar seus filhos para que se tornassem grandes homens, e orgulhava-se muito em ver seu “trabalho” concluído. Podia dormir todos os dias tranqüilamente,sabendoqueosgarotosestavamcriados, construindo suas famílias, realizando os seus sonhos, conquistando objetivos na vida. — Hoje, vindo para casa, deparei-me com um senhor pedindo esmola no semáforo, e, quando quis ajudá-lo, ele me pediu para que lutasse por um mundo melhor, onde seus filhos tivessem mais oportunidades do que as que ele teve em sua vida. Queria que eu fizesse algumacoisaeaindatomou-mecomoexemplo.Gostaria de ver seus filhos tendo as mesmas oportunidades que eu tive em minha vida.
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    48 THIAGO VENDITELLI CURY —Pai, que homem consciente! Não somente ele, mas muitos outros andarilhos da cidade merecem ajuda e oportunidades! — ressaltou um dos rapazes. Eassimdecorreuojantar.Todospalpitavamsobre como ajudar pessoas, o que pode ser feito pelo próximo e concordaram que, acima de tudo, é muito importante o apoio da família. E aquela família estaria empenhada em ajudaraquelepobrehomemperdidonasruasdeSãoPaulo Frederico sentiu-se aliviado. Sabia que algumas coisas já estavam sendo feitas. Ele não desistira de lutar a cada dia por um mundo melhor. Ele faria a sua parte. Terminado o jantar, seus filhos agradeceram pela “valiosa conversa” que tiveram naquela noite. Enquanto se preparava para dormir, decidiu inserir na sua palestra alguma coisa sobre esta situação do país. Acrescentaria algo para demonstrar que cada um pode fazer sua parte porummundomelhor.Elenãosabiaoquediriaarespeito, somente tinha a certeza de que as palavras certas seriam ditas no momento adequado. Doutor Frederico contava sempre com o apoio de alguém maior, alguém que ele dizia ser seu protetor para todas as horas. Quando se sentia mal, sabia que alguém estava ali por perto para protegê-lo. Ele tinha o hábito de rezar a toda hora, entrando em contato com este “alguém maior”. Sempre disse que não importava a denominação que damos a esta energia, a esta força maior, mas o que realmente importava era o que sentíamos e no que acreditávamos.Achava que todos deveriam crer em algo que ajudasse nas horas mais difíceis da nossa vida. As pessoas ao seu redor poderiam até tentar derrubá-lo,poderiam“puxaroseutapete”,masoqueele realmente acreditava, era que uma “Força Superior” não deixaria que nada de ruim lhe acontecesse. Essa “Força
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    49 VONTADE DE VENCER Superior”é a nossa Fé. Aquilo que acreditamos nos momentosquemaisprecisamos,aquiloaquerecorremos nos momentos mais difíceis e agradecemos nos momentos mais fáceis. Finalmente, foi se deitar, e, como já era de costume, agradeceu pelas conquistas e aprendizados, pedindo proteção e uma boa noite de descanso para ele eparatodaasuafamília.Aolevantar-se,pediriaproteção e discernimento para suas decisões e obrigações. Um dos seus ideais era mostrar às pessoas como era bom ter o hábito de agradecer, ter fé, independentemente de suas crenças. Tudo para ter uma esperança de um mundo melhor e buscar os sonhos e objetivos almejados. Doutor Frederico levantou-se bem cedo, disposto comosempre,tomoubanhoesearrumouparairtrabalhar. Na mesa da cozinha, um belo café da manhã reforçado já o aguardava e, além disso, o diferencial de todos os dias, suafamíliareunidaàmesa.Muitasvezessaíamatrasados, com pressa e nem tomavam café da manhã em casa. Feliz, ele agradeceu a presença da família e afirmouqueodiaseriamaravilhosoerepletodesucesso. Entrou na garagem, pegou o carro e seguiu para o trabalho pelo mesmo caminho de todos os dias, enfrentando um trânsito caótico. Mas aquele dia era especial. Mesmo um trânsito ruim não acabaria com o seu bom humor, preferiu cortar caminho para chegar mais cedo à empresa para testar a apresentação e se certificar de que não estava faltando nada para o café da manhã dos colaboradores. Ele chegou no horário, preparou tudo o que precisava,conferiusuaapresentação,certificou-sedeque
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    50 THIAGO VENDITELLI CURY ocafé estava pronto, e enquanto confirmava os últimos detalhes, os colaboradores começaram a chegar. Após cerca de trinta minutos, Doutor Frederico começou sua palestra, mesmo sabendo que algumas pessoas ainda não haviam chegado. Ele teria que iniciar a exposição conforme o combinado, não poderia deixar os que chegaram no horário esperando por causa dos atrasados. - Muito bem, senhoras e senhores aqui presentes, sentem-se,porfavor,paraquepossamosdarinícioànossa palestra. Mas, continuem comendo, não precisam ter pressa, somente vamos dar inicio à nossa conversa para não ultrapassarmos muito do horário. Doutor Frederico agradeceu a presença de todos, naquelemomento,foradohoráriodetrabalhoeressaltou que a reunião seria muito valiosa. Logo que começou a falar, ele pediu a opinião de algumas pessoas a respeito dos temas expostos. —Senhores,euvousugeriralgumascoisasequero a opinião de vocês a respeito do que eu disser. — Carmem, primeiramente você, o que acha da nossa proposta de fazer um coffee-break para os empresáriosqueparticipamconoscodasnossasatividades e dos nossos objetivos? Aqueles que nos apóiam e são nossos aliados nesta busca de novos ideais? — Bem, Doutor Frederico, eu acho uma idéia válida.Paraquepossamosoferecernovosserviços,novas oportunidades de mercado, precisamos do apoio dos diversosprofissionais.Énecessárioqueaspessoasopinem, que elas digam o que está faltando no mercado de trabalho, o que elas acham necessário que seja reformulado. Até mesmo novas idéias, como, por
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    51 VONTADE DE VENCER exemplo,este evento que estamos realizando hoje. Deveriam ser feitas mais reuniões assim. Com este objetivo, nós, profissionais, saberemos onde devemos aperfeiçoar, o que devemos manter e como podemos inovar nosso trabalho. —Carmem,admirávelseucomentário!Esomente para concluir, podemos criar também um grupo interno aqui na nossa empresa, para que os profissionais aliados a nós possam efetuar consultas e também dar suas opiniões,unirforçaspornovosideais,utilizarnossoespaço físico para suas reuniões, eventos e várias outras coisas. Mais alguém gostaria de fazer algum comentário sobre o assunto em questão? — Eu gostaria, Doutor Frederico! — chamou Roberto, do departamento jurídico. —Naminhaopinião,achoquepodemosmelhorar o nosso departamento jurídico, já que é um dos serviços mais fortes prestados pela nossa empresa. Poderíamos melhorar o nosso atendimento aos clientes, com a contratação de novos advogados e até mesmo de alguns estagiários.Aomeuver,poderíamosoferecermaiscursos naáreajurídica,comcustosespeciaisàsempresasparceiras nas representações, trazendo mais pessoas e firmas para perto de nós. Com esta atitude, podemos aumentar o número de clientes e também o nosso orçamento. É um investimento relativamente pequeno em relação aos benefícios que teremos em um futuro próximo. —Muitobem,senhorRoberto,maisumaexcelente idéia de crescimento para a nossa empresa. Mais alguém gostaria de comentar algo? Como ninguém se manifestou, Doutor Frederico resolveu seguir em frente com os temas, já que o assunto
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    52 THIAGO VENDITELLI CURY emquestão naquele momento não necessitava de mais modificações. —Nósjátemosalgumasmetasaseremcumpridas e estamos estabelecendo mais algumas neste momento. Comopodemosfazerparaquenadafiqueparatrás?Afinal, nãopodemosfazeralgonovoenosesquecermosdoquejá começamos. —DoutorFrederico,eutenhoumasugestão.Posso expô-la ao grupo? Perguntou Matheus, o rapaz recém- contratado para a área de vendas. —Claroquepode,Matheus!Porfavor,qualéasua idéia? — Eu sei que todos os departamentos têm as suas obrigaçõeseassuasmetas,cadaumaquitemoseuobjetivo, tantoprofissionalquantopessoal.Achoquepodemosfazer algo diferente para alcançarmos essa meta, com mais rapidez e facilidade. Podemos nos unir e ajudar uns aos outros. QuandoMatheusdisseisso,todosficaramsurpresos comoseucomentário.Eburburinhossurgiramnaplatéia. —Comopôdesugeriralgodestetipo?Elenãosabe o que está dizendo! — Será que ele pensa que é fácil fazer o que fazemos? E ainda ter que nos conhecer melhor? Ele está louco! Osquemaiscriticavameachavamaidéiaruimeram osquenãosepreocupavamcomocrescimentodaempresa, nem com o bem-estar de seus colegas de trabalho. —Porfavor,senhores,mantenhamacalma.Euainda nem terminei de falar qual é a minha idéia. Sei que para muitos pode parecer impossível de acontecer, mas com
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    53 VONTADE DE VENCER organizaçãoe dedicação podemos conseguir bons resultados para a empresa e para cada um de nós em particular. Doutor Frederico, posso continuar? —Claroquesim,Matheus!Porfavor,prossigacom suaidéia. — Como eu dizia, se cada um de nós soubesse, no mínimo, um pouco do que o outro faz, de qual departamento ele é responsável, poderíamos nos comunicar melhor, nos reportar às pessoas certas, sem antes passarmos pelos departamentos errados. Já pensaram se, quando fossemos pegar o nosso salário, procurássemos o departamento de marketing para saber quandoiríamosreceberonossodinheiro?Achoqueseria um pouco difícil de obter esta resposta ali. — Bem, o que quero dizer, de uma maneira geral, éoqueaconteceemváriasempresas,faltadecomunicação interna. Vejamos um exemplo. Se cada um de nós fosse falar diretamente com o departamento correto e com a pessoacerta,deacordocomainformaçãoqueprecisamos, ficaria mais fácil e menos cansativo para os demais. Isso se chama “Comunicação Interna”.
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    55 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOSEIS Osfuncionáriostinhamosolhosarregalados.Oque Matheus dizia era algo novo na empresa. A expressão ComunicaçãoInternanuncahaviasidopensadanaJunção RecursosHumanos.Apreocupaçãodetodoseracumprir suas tarefas e receber o dinheiro no final do mês. Não era necessário conhecer pessoas e departamentos. Mas Matheus foi firme e seguiu em frente. —Seumapessoaligaaquinaempresa,epedepara falar com o departamento administrativo, a secretária irá perguntar com quem especificamente ele deseja falar. Correto? E se ele não souber com quem ele quer falar? Se nãotiveronomedealguém,asecretáriatransferiráaligação para qualquer ramal da administração. Não é verdade? — Sim — responderam os outros colaboradores, interagindo com Matheus.
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    56 THIAGO VENDITELLI CURY ODoutor Frederico não disse nada, queria ver até onde o jovem rapaz queria chegar. Tinha a certeza que seria uma coisa boa e, curioso para testá-lo, deixou que elecontinuasse. — Pois bem — continuou Matheus — se a atendentesouberalgunsdetalhessobreosdepartamentos, ela poderá perguntar para a outra pessoa na linha qual a informação que ela deseja. E quando a pessoa confirmar o que quer, ela transferirá a ligação para a pessoa certa. — A partir do momento em que eu sei um pouco do que cada departamento cuida e quem são as pessoas responsáveis por cada tipo de serviço, eu posso poupar um pouco mais de tempo, tanto do meu, como do da outra pessoa. Além disso, a qualidade no atendimento irámelhorarmuito.Porqueperdemostempocomligações malencaminhadaseatendimentosmaldados.Aspessoas esperam demais por uma informação. — Temos que saber disto antes do cliente chegar até nós, para que no exato momento do atendimento, possamossermaisatenciososcomeles,facilitandoonosso trabalho e o de nossos colegas. Com isso, deixamos o cliente satisfeito, oferecendo serviços e atendimento de altaqualidade.Hojeemdia,temosexemplosclarosdeste tipodecomportamentoemoutrasempresas.Essapostura realmente funciona. Pode não ser a solução para todos os nossos problemas, mas com certeza alguma coisa irá mudar aqui dentro da Junção. Doutor Frederico aproveitou o ânimo do novo rapazparatestarseusconhecimentosesaberatéondeele chegaria com sua idéia, sem que ele precisasse interferir. — Muito boa idéia, Matheus, mas você poderia me dar um exemplo de como poderíamos desenvolver
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    57 VONTADE DE VENCER estetipo de atividade aqui dentro? Pois acho que esta dúvida pode ser a de outras pessoas. — Claro que sim, Doutor Frederico, com o maior prazer! Na minha opinião, podemos nos comunicar melhor a partir do momento em que eu sei o que o departamento vizinho faz. Vamos utilizar um exemplo: eu sou funcionário do financeiro, mas não sei ao certo o que faz o departamento de cadastro e quem é o responsável. O mesmo acontece com todas as outras seções. Falta “Comunicação Interna” entre as pessoas, e a minha sugestão é que façamos o seguinte: em primeiro lugar, podemos nos reunir uma hora antes do nosso expediente aqui no auditório para nos conhecer melhor. E como podemos fazer isto? É simples, a cada semana, os integrantes de um departamento nos apresentam seus setores, dizendo o que cada um faz e dá um pequeno resumo do seu trabalho e, posteriormente, esclareceasdúvidasdoscompanheiros.Éclaroqueesteé um trabalho um pouco demorado, mas o resultado é garantido. Acredito que o esforço vale a pena. Podemos fazer o sorteio de qual será a ordem dos setores a expor. Assim, todos terão a oportunidade de falar um pouco sobre a sua função e o seu departamento. Desta forma, todos saberão um pouco dos seus colegas e poderemos noscomunicarmelhor. Assim que Matheus terminou de explicar a sua idéia, que seria adaptada da melhor forma para aquela empresa, Doutor Frederico agradeceu a ajuda do colaborador. — Com certeza, será um movimento grande para todos os colaboradores, e certamente fará diferença em nosso dia-a-dia. Mais uma vez, as atitudes e o empenho
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    58 THIAGO VENDITELLI CURY estãome surpreendendo — disse Doutor Frederico, contente com as novas ações e percepções de seus colaboradores. — Mais alguém quer falar algo ou sugerir alguma outra coisa que possa nos ajudar? Como ninguém quis comentar mais nada, Doutor Fredericodeucontinuidadecomaprogramaçãodoevento. — Vamos dar seqüência às nossas atividades. Eu gostaria de passar um vídeo que mostra um pouco dos resultadosobtidosemoutrasempresascomotrabalhoem conjunto, como disse Matheus. Este vídeo expõe alguns resultadospositivosdotrabalhoemequipeedaimportância de conhecer uns aos outros, saber o que o colega faz, por qual setor ele é responsável, como atender melhor o seu cliente e obter melhores resultados a partir desta postura. É um vídeo interessante, que explica de maneira clara e objetivaosprincipaisaspectosdeumaempresaquecresce no mercado de trabalho. Além do vídeo, temos também uma pesquisa, que mostra a opinião da população em relação a estas novas atitudes nas empresas. Foram feitas duas perguntas para os entrevistados: 1— “O que vocês gostariam que mudasse na empresa na qual você trabalha?”. 2— “Se tais mudanças fossem feitas, como você reagiria,ecomoseriaoseumododetrabalhar?”. —Antesdemostrar,querodizer-lhesparaficarem tranqüilos.Todosestesnovosplanoseidéiasqueestamos discutindo serão passados para o papel. Faremos um planejamentoemontaremosumainfra-estruturaquesirva de diretriz para todos nós, incluindo a mim. Doutor Frederico pediu para que iniciassem ao vídeodetrintaminutos.Apósaexibição,eleperguntouo
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    59 VONTADE DE VENCER queoscolaboradoresacharameoqueaprenderamcoma fita.As respostas foram semelhantes. — “Aprendemos que a qualidade e o bom atendimento dependem de cada um de nós, e temos que fazer a nossa parte, para que possamos alcançar nossos objetivos”. — Muito bem, senhoras e senhores, vejo que o vídeofoiproveitoso,e,paraencerrar,eugostariadecontar uma história para vocês. Prometo que não irá demorar. Todos permaneciam atentos às palavras do Doutor Frederico. — Uma vez, um amigo me deu um convite para assistir a uma palestra bem interessante. O palestrante iniciou o encontro segurando uma nota de cem reais na mão. Na sala, havia mais ou menos 160 pessoas, entre grandesempresários,funcionáriospúblicos,vendedores, autônomoseoutros.Comanotadecemreaisnamão,ele levantou o braço e perguntou “quem quer esta nota de cem reais?”. Várias pessoas começaram a gritar: — Eu quero! Eu quero! — “Eu darei esta nota a um de vocês, mas antes me deixem fazer isto” e começou a amassar a nota, como se estivesse amassando um papel velho. E assim, perguntou outra vez. “Quem ainda quer esta nota?” — As mãos continuaram erguidas e os gritos cada vez mais altos. “E se eu fizer isso?” — E ele deixou a nota cair no chão e começou a pisar em cima. Pisava de um lado, pisava do outro e depois que a nota estava totalmente amassada e suja, ele perguntou novamente: “E agora quem ainda quer esta nota?”. Todas as mãos continuaram erguidas e os gritos ainda mais altos. Quando o palestrante disse: Meus
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    60 THIAGO VENDITELLI CURY amigos,aprendam esta lição: “Não importa o que eu faça com o dinheiro, posso amassá-lo, posso sujá-lo e vocês ainda irão querer esta nota, porque ela não perderá o seu valor, ela sempre irá valer cem reais”. Após ouvir esta frase, eu fiquei pensando por algunsinstantes.Oqueaspessoasfazemconsigomesmas ecomosoutroséigualaoqueelefezcomodinheiro.Isso acontececonoscononossodia-a-dia.Muitasvezes,somos amassados,pisoteados,passadosparatrás,ficamossujos, nossentimoshumilhados,fracassadosederrotados.Estas situações ocorrem em razão das decisões que temos que tomar em nossas vidas, ou por obstáculos que surgem emnossoscaminhos,talvezporarriscarmos.Setomarmos decisões e, infelizmente, por qualquer motivo, o planejamento dá errado, nos sentimos sem importância, incapazesdeacertar.Nossentimosdesvalorizados.Porém, nãoimportaoqueaconteceuouoquevaiacontecer,nunca perderemos o nosso valor perante o universo. Estejamos sujosoulimpos,amassadosouinteiros,nadadissomuda aimportânciaquetemosparao“mundo”eparaosoutros, mesmoqueelesnãoreconheçamonossoverdadeirovalor. O preço de nossas vidas não é pelo que fazemos ou pelo que sabemos, mas sim pelo que somos, e como demonstramos quem somos. Através do nosso caráter, danossadignidadeedanossaposturadiantedosdesafios équesuperamososobstáculosimpostospelanossavida. Quandoeutermineideouvirestaspalavrasnoseminário, fiquei por alguns instantes pensando a respeito do que o palestrante acabara de falar. E percebi que, muitas vezes, nós valorizamos as pessoas pelo que elas sabem, pela maneira que se vestem ou agem, mas não pelo que realmente são. No fundo, são pessoas maravilhosas que merecem o nosso respeito e a nossa admiração, como
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    61 VONTADE DE VENCER qualqueroutra pessoa, seja ela tendo o melhor desempenho ou não, seja ela errando ou não. “Todos somos iguais”. Ao fim do discurso, Frederico foi aplaudido de pé por todos os colaboradores, emocionados com suas palavras. Eles tinham a certeza de que, daquele dia em diante, mudariam seus conceitos e a maneira de olharem para as pessoas. A palestra surtiu efeito. Nos dias seguintes, as pessoas passaram a se entreolhar com mais sinceridade, com menos desconfiança. Os colaboradores perceberam quetodossãosereshumanosemerecemomesmorespeito e a mesma consideração. Essas atitudes também devem ser aplicadas aos pedintes nas ruas, àqueles que moram emcasasmaissimplesqueasnossaseatémesmoaquem tem cargo mais baixo que o nosso. Mas, infelizmente, nem todos mudaram seus comportamentos. Havia um grupinho que desconfiava que Doutor Frederico planejava algo de ruim. Eles continuaram olhando torto, sempre com o pé atrás, evitando que Frederico soubesse dos trabalhos que estavam desenvolvendo, distanciando-se ainda de Carmem e deAndressa. O que eles menos imaginavam estava por acontecer.Umbelodia,umdosaliadosdeFredericoouviu uma conversa do pessoal da oposição. Todo o cuidado com as tramóias acabou indo por água a baixo. Laís, a moça responsável pelos treinamentos, passava pelo grupinho e acabou ouvindo tudo! Ela ficou atônita! Completamente perplexa e indignada! Os opositores de Doutor Frederico estavam planejando contar as suas “conclusões” para a diretoria.
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    62 THIAGO VENDITELLI CURY Queriamobteroapoiodossuperioresdentrodaempresa. Assim,seria mais fácil chegarem ao objetivo final. Uma das meninas do grupo opositor tinha um contatomaispróximocomumdosdiretoresdaempresa. Essa aproximação daria chances para que eles convencessemestediretordequeoDoutorFredericonão era a pessoa ideal para o cargo e para os trabalhos que eles, os diretores e o presidente, queriam desenvolver dentro da empresa. Diante dessa situação, alguns poderiam se perguntar como um diretor de uma empresa se deixaria levarporumafofocadestas.Comoeleseriacapazdejulgar a capacidade e a competência de um profissional? Interesse, é claro. Passado o evento, Doutor Frederico voltou a se dedicaraosseustrabalhosdiários.Eleplanejavacriaruma palestra de conscientização, com o objetivo de fazer com queoscolaboradorespudessempassarosconhecimentos para os outros. Frederico dizia que as pessoas recém- formadas necessitavam de alguém que lhes ensinasse coisas novas do mercado de trabalho. Ele acreditava que, com essa atitude, poderia haver diminuição do desempregoetambémmelhoradaptaçãodocolaborador às suas funções. O objetivo de Frederico era mostrar que passar o conhecimentoadiantesótrazbenefíciosequetodosteriam condições de progredirem na carreira. Entre tantas tarefas, como criar palestras e cuidar da evolução dos seus colaboradores, Frederico ainda cuidava dos eventos que a empresa participava. Estes eventos aconteciam fora da sede e normalmente duravam vários dias. Como estava ficando atarefado, o
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    63 VONTADE DE VENCER superintendentedecidiu passar esta responsabilidade para algum colaborador de confiança. Ele precisava que tudo estivesse bem organizado, porque os eventos são a imagem da empresa perante outras organizações e tudo deve estar impecavelmente perfeito, a não ser quando ocorre algum imprevisto. A primeira pessoa que veio à sua mente foi Mariana, responsável pela parte de criação das revistas que a empresa fornecia para seus associados. Mariana tambémcuidavadosanúnciosemjornaisepropagandas, entre outras funções relacionadas com a área de Marketing.Fredericoacreditavaqueelaseriaapessoamais indicada para a função e decidiu chamá-la para uma conversa. Marcou uma reunião com a moça para logo cedo, no dia seguinte. Deixou tudo pronto para passar a Mariana, mas, mesmoassim,resolveuficarumpoucomaisnoescritório, afimdeincrementarasuapalestra.Àquelahora,osilêncio do ambiente inspirava suas idéias. Naquela atmosfera, Frederico começou a traçar as diretrizes para seu projeto, que incluía a melhora no ambiente empresarial e a expansão da idéia para outros empresários. UmadascoisasqueDoutorFredericoabordariaem sua palestra seria as criticas que os chefes e supervisores fazemaosseusfuncionários.Osupervisorqueriadizerque épossívelcorrigirumerrosemutilizaçãodeofensaverbal e grosseria. Frederico acreditava que a amabilidade no tratamento das pessoas pode trazer melhores resultados. Doutor Frederico falaria ainda sobre o comportamento das pessoas dentro das empresas, da importância de um bom relacionamento interno entre os departamentos, da qualidade do atendimento e de como traçar os objetivos para sua equipe e sua empresa.
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    64 THIAGO VENDITELLI CURY Enquantoeleescreviasuasidéias,pensouemcriar uminstitutoondepoderiaajudaraspessoasasetornarem melhoresprofissionaisparaomercadodetrabalho.Neste instituto,seriam promovidos cursos, palestras, reuniões de apoio para os profissionais interessados, entre outras atividades. A idéia de Frederico era contar com o apoio deamigos,jáqueotrabalhoeravoluntárioegratuitopara os interessados. Ele pensava em beneficiar a fatia da população que não tem acesso a este tipo de qualificação. Este projeto seria para longo prazo, mas Frederico já começara a traçar seus planos, pensando no futuro. Aofinalizar,Fredericofoiparacasa,poissuafamília o esperava. Ele precisava descansar, pois o dia seguinte estava cheio de tarefas a serem cumpridas. As novidades do dia seguinte não provocariam modificações em seu humor. Ele teria novos desafios, aprendizados, além de imprevistos, que resolveria com calma, sensatez e sabedoria. Você pode estar se perguntando: “Este homem existe mesmo?” “Como pode alguém que tem problemas não se estressar”. Realmente, Frederico se estressava bem pouco. Procurava sempre resolver as coisas com calma e sabedoria, mas em certos momentos, ele se estressava. Aí, dizia o que realmente pensava, era uma outra pessoa. Zangava-se e dava a bronca em quem precisava. Porém, depois de gritar, pedia desculpas pelo descontrole momentâneo e procurava explicar o ocorrido. Frederico não tinha a obrigação de dar satisfações a seus colaboradores, entretanto ele se preocupava.Assim era a forma do superintendente ser e de ensinar as pessoas, de conquistar objetivos e realizar sonhos. Por onde passa, ele deixa um rastro de sabedoria e amizade, que, infelizmente, não são todos que sabem aproveitar.
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    65 VONTADE DE VENCER Aochegar na empresa, Doutor Frederico decidiu começar o dia de uma maneira diferente, queria mudar seu comportamento para ver a reação das pessoas que trabalhavam com ele. Sentiu a necessidade de fazer isso, já há algum tempo ele vinha percebendo que pessoas dentro da empresa estavam lhe tratando de uma forma diferente,atémesmopôdeouviralgumasfofocas.Como decorrer dos dias, notou que realmente algo estava acontecendo.Suaintuiçãoeramuitoaguçadaecomotinha uma “proteção” muito forte, decidiu fazer um teste.
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    67 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOSETE Antes de entrar no escritório, Frederico foi tomar café da manhã em uma padaria próxima à avenida São Luiz, pois queria encontrar velhos amigos. Ficou tão empolgado com o ambiente da cidade agitada logo cedo, que resolveu engraxar os sapatos na praça Dom José Gaspar. Feliz com suas atitudes, subiu para sua sala com alguns minutos de atraso. Entrou sem dizer bom dia para ninguém.Apenas respondia quem o cumprimentava. Foi direto para sua sala, onde permaneceu por toda a manhã. Queria saber quemrealmentesepreocupavacomele,quemeram“seus amigos” e quem eram as pessoas que não gostavam da sua forma de trabalhar, seus “inimigos”. A atitude de Frederico chocou e as pessoas estranharam.Algunsfuncionáriosnãoocumprimentaram,
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    68 THIAGO VENDITELLI CURY poisacharam que tinha acontecido algo muito grave. Somente algumas pessoas que o admiravam foram até a saladeleparafalarbomdiaesaberoquehaviaacontecido. Seus opositores, como já era previsível, sequer passaram emfrenteàsuasala,tampoucoocumprimentaram.Logo, ele pode perceber quem eram as pessoas com quem ele deveria tomar cuidado. Frederico foi em frente, superou aquele momento e deu a volta por cima. Repetiu a mesma ação no dia seguintee,maisumavez,areaçãodaspessoasfoiidêntica. Só seus aliados falaram com ele. Como não conseguiu conversar com Mariana no dia combinado, resolveu chamá-la naquele momento. Quando ela entrou na sala, o chefe solicitou café e água, antes de dar início à conversa. — Muito bem, Mariana, eu chamei você aqui para lhe passar informações sobre algumas mudanças que vamos ter de hoje em diante. Fique tranqüila, são coisas boas e sei que posso contar com você. As novas funções deixariam Mariana muito feliz; ela não reclamaria de acúmulo de trabalho, ao contrário, ficaria muito lisonjeada. Ele sabia também que ela não se sentiriasuperioremrelaçãoaosoutroscolaboradores.Só porqueestavacomestasnovasfunções,nãoseriamotivo para se tornar uma pessoa orgulhosa, mas sim, feliz por merecer e ter credibilidade para assumir novas funções. — Como você já deve saber, estou bastante atarefado com todas estas mudanças. Estou sem tempo para cuidar de nossos eventos externos. Sendo assim, passoparaasuaresponsabilidadecuidardestesepisódios, desdepequenasreuniõesexternasatéosgrandeseventos. Organizar,fazercotações,fecharcontratos,irpessoalmente
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    69 VONTADE DE VENCER conferira organização e também estar presente em todos os eventos como responsável pela criação e organização. — Não sei se posso dar conta do serviço, Doutor Frederico!Tudoémuitonovoparamim!—disseMariana, aindainsegura. A reação de Mariana foi semelhante à de outras pessoas: ter medo diante de novas tarefas, novas obrigações. As pessoas não confiam em si mesmas, não têm noção do seu potencial, As pessoas não acreditam que, se recebem propostas para novos desafios, é porque seus superiores as julgam capazes de cumprir as metas. Um diretor de empresa, superintendente ou até mesmo o dono da empresa, só vai delegar funções a pessoas com responsabilidade, capacidade e conhecimento para exercer a função. — Fique calma, querida Mariana! Já diz o velho ditado: “Nos dão o frio conforme o nosso cobertor”. Se você está recebendo esta responsabilidade, é totalmente capaz de cumpri-la, E isso eu sei que você é. ApósouvirestaspalavrasdoDoutorFrederico,ela sentiu-se melhor, mais calma e mais confiante. — Está bem, se o senhor está dizendo, eu acredito. O que devo fazer então? Ele começou a passar as novas funções para que iniciasse os seus trabalhos e, ao término de uma hora de conversa, disse: —Fiquetranqüila,Mariana,qualquerdúvidavenha meprocurar. Frederico sempre estava à disposição para ajudar aspessoas,masnaquelasemanaestavarevendoumpouco seus conceitos e decidindo quem ele realmente ajudaria. Nunca negou apoio a ninguém, e não seria agora que ele
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    70 THIAGO VENDITELLI CURY agiriadiferente, apenas tomaria cuidado com algumas pessoas ao seu redor. Por isso, já não era mais para todas as pessoas que ele dizia estar sempre à disposição. Passou a tomarcuidadocomoqueaspessoasfalavam.Infelizmente, istoeranecessário,poisnãoeramtodosdegrandeconfiança. Após delegar as funções para Mariana, ele continuouasededicaràpalestra,queriaterminá-laomais rápido possível. Alguns dias se passaram, o serviço fluía normalmente,pareciaqueapoeiratinhabaixadoeoclima estava voltando ao normal, melhor do que na última semana. Doutor Frederico chegou até a se perguntar se realmente estava sendo coerente em duvidar de algumas pessoas. Por não ter certeza ainda das coisas, resolveu continuarcomseucomportamentopormaisalgumtempo. Após duas semanas sem novidades, ele havia concluído sua palestra. Como as coisas na empresa estavam tranqüilas, ele teve mais tempo para aperfeiçoar suas idéias e finalizar a exposição. Frederico decidiu marcar a data para a primeira palestra, já que as pessoas dentro da empresa, os amigos, sua família e até mesmo os diretores, haviam aprovado o tema e a forma de abordagem. Marcado o dia, era necessário ter público. Delegou a função para Matheus, que tinha muita habilidade para falar com as pessoas um rapaz desinibido, ótimo vendedor. Perto da data da palestra, a lista de presença estava quasecompleta.Aapresentaçãoestavapraticamentepronta, faltavamsomentealgunsreparoserevisaralgunsdetalhes. Assim que terminou tudo, decidiu compartilhar alguns tópicos com Carmem, sua consultora, e Andressa. Eleconfiavamuitonelasepodiacontarcomaajudadeambas.
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    71 VONTADE DE VENCER —Eupediquevocêsviessematéaquiparamostrar algunsdetalhes da minha palestra, que já está quase pronta. Quero a opinião de vocês. Vejam e digam-me, sinceramente, o que acham. Carmem e Andressa analisaram atentamente o conteúdo da palestra e exprimiram suas opiniões. — Doutor Frederico, está perfeito! Tenho certeza quetodosirãogostarmuitodoseuprojeto,eébemprovável queelesqueiramfazerpartedeletambém–disseAndressa. —Seráquechegaremosaesteponto?Porquevocê acha que eles podem querer fazer parte do projeto? — perguntou Doutor Frederico aAndressa. — Porque isto que o senhor está fazendo, pode e deve ser usado por qualquer pessoa, tanto em sua empresa, como na sua vida particular. É um trabalho novo no mercado e sabemos que dá resultados. Assim, fica mais fácil obtermos parcerias nesse novo caminho — ressaltou Carmem. — Será que é para tanto, meninas? — perguntou novamente. —Claroqueé!—comentouCarmem—Etemmais uma coisa: se este projeto der certo, vamos conseguir alcançarnossasmetasmaisrapidamentedoqueprevemos. — Está bem, já que você diz com tanta convicção, eu acredito. Vamos trabalhar e organizar tudo para que seja um sucesso absoluto — finalizou Frederico. Faltavam apenas dois dias para o evento, quando algumas pessoas começaram a se preocupar, queriam saber o que realmente ia acontecer, qual era a finalidade da reunião.Afinal, não era uma reunião somente com os membros da empresa, já que os diretores das empresas parceiras também estariam presentes. Todos temiam
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    72 THIAGO VENDITELLI CURY mudançasnoquadrodefuncionários,demissões.Mesmo comas palavras do Doutor Frederico, de que nada de mais aconteceria, nem todos ficaram tranqüilos. Muitos aindaduvidavamdaspalavrasedasaçõesdosupervisor. O clima mudou novamente naquela empresa. A desconfiança voltava a reinar em alguns ambientes, principalmente onde estavam seus opositores. No dia da palestra, houve um mutirão para que para que tudo saísse perfeito. Alguns organizavam o auditório,outrosajudavamaarrumaramesacomocoffee- break, outros verificavam os detalhes. Convidados, empresários e diretores chegavam a todo o momento. Uma correria, mas com o trabalho em equipe, tudo estava acontecendo como o planejado. Os elogios passavam pelos ouvidos da organização: “a arrumação está uma beleza”; “o café está uma delícia”; “muito bom este evento, vamos ver agora como será o conteúdo da apresentação”. Doutor Frederico não se preocupava com o receio do público, pois sabia que tudo estava correto, no seu devidolugar.Eomaiorapoioqueeleprecisavaestavaali. Aequipe de Frederico participava ativamente, ajudando no que precisasse. Após tomarem o café da manhã, ele decidiu dar início à palestra. — Senhoras e senhores, vamos começar! Sentem- se, por favor! Todos se dirigiram aos seus devidos lugares. Terminaram de tomar café e, em tom amistoso, pediram para o Doutor Frederico a autorização para voltarem à mesaapósapalestra.Omotivoalegadoeraqueosquitutes estavam muito saborosos. — Mas claro! — respondeu
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    73 VONTADE DE VENCER Frederico.Assim que terminarmos a nossa palestra, voltaremos ao café. Ele achou a idéia interessante, pois teria um feedback das pessoas. O que elas acharam do evento, quais seriam as sugestões e outros pontos levantados na conversa com os empresários. Ele começou sua palestra pedindo para que as pessoas se apresentassem. — Acho que podemos começar a nossa palestra nosapresentandounsaosoutros.Digamdequeempresa vocês são, o que vocês fazem e o que os motivou a virem aqui. Temos algum voluntário para começar? Ninguémsemanifestou,umsilênciototal.Pessoas quetrabalhamnomesmoramodeserviçoscomvergonha umas das outras. — Bem, já que ninguém se manifestou, parece-me que vocês estão um pouco tímidos. Para facilitar, eu começo dizendo um pouco sobre esta empresa, e sobre o quememotivouacriarestapalestra—ressaltouFrederico, quebrando o silêncio no auditório. — Em primeiro lugar, tive a idéia de montar este eventoapartirdomomentoemquepercebiaquantidade de pessoas que estavam ficando sem oportunidades no mercado de trabalho. Na minha opinião, isto ocorre devidoàfaltadeconsideraçãodogovernoetambémpela faltadeoportunidadesparaestesprofissionais.Umaparte disso é culpa nossa, que muitas vezes negamos para os novos profissionais uma chance de demonstrarem o que aprenderam em anos de estudo. —Istopodemudar,enóspodemoscolaborarpara esta mudança. É muito simples: podemos abrir as nossas portas para novos profissionais sem nos preocuparmos tantosevamostermaisgastos.Ouquealguémnovopode
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    74 THIAGO VENDITELLI CURY “roubarnosso cargo”, ou o cargo de outras pessoas dentrodasempresas.Competitividadesempreiráexistir e cabe a nós defendermos o nosso lugar, darmos o nosso melhor para continuarmos onde estamos e ainda crescermos profissionalmente. — Todas estas coisas me levaram a construir este projeto, querer um mundo um pouco melhor. Acho que podemos dar as nossas contribuições, podemos ajudar muitaspessoasse,emprimeirolugar,mudarmosanossa postura, a nossa maneira de agir e de pensar. — Em segundo lugar, devemos criar um grupo entre nós, para trocarmos idéias sobre o que podemos fazer para mudar este quadro e para sabermos qual a opinião das outras pessoas. Podemos ainda formar uma comissão que possa auxiliar nossos colegas no procedimento para novas contratações; podemos criar cursos, reuniões mensais para as empresas que se unam ao nosso projeto, mas para isso é necessário nos juntarmos nesta empreitada, caminharmos lado-a-lado em busca desses novos ideais, para sairmos ganhando. Alguém tem alguma dúvida ou quer fazer alguma colocação a respeito do que eu disse? — Eu gostaria!— disse um senhor com voz baixa, sentado no fundo do auditório, ainda um pouco tímido. — Por favor, senhor, fique à vontade e nos diga qual a sua opinião sobre este assunto. —Emprimeirolugar,bomdiaatodos,meunome é Rogério, sou dono de uma empresa que presta serviços de Recursos Humanos de todos os tipos, desde contratações até terceirização de departamento Administrativo.Voufalarumpoucomaissobreotrabalho que a minha empresa desenvolve. Uma firma não tem o
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    75 VONTADE DE VENCER departamentode Recursos Humanos, por querer economizarcustosoupornãoterespaçofísico,dessaforma ela contrata nossos serviços e tudo o que diz respeito ao RH será tratado diretamente por nós. E eu concordo plenamente com o senhor Frederico, devemos colaborar com este primeiro passo das pessoas! Se nós, que somos experientesnomercadodetrabalho,fecharmosestasportas, quemdaráoportunidadesaestaspessoas?Umempresário novo no mercado de trabalho, com uma empresa sem estrutura? Talvez, mas com certeza é bem mais fácil para nós do que para eles. E veja que até mesmo estes novos empresárioscomsuasnovasfirmas,aindasemsustentação, abrem mais espaços para os novos profissionais do que nós mesmos, que já temos uma “bagagem” maior. —Antesmesmodecomeçarmosesteencontro,eu estava conversando com um colega aqui presente sobre este tema, dizendo que estou abrindo as portas da minha empresa para recém-formados. Há dois meses, fiz um anúncio no jornal a respeito de uma vaga para Gerente Administrativo.Euqueriaumprofissionalrecém-formado em administração. A vaga tinha um salário razoável, benefícios,registroemcarteira,tudoconformealeieainda com uma oportunidade de crescimento dentro da empresa. E, ao meu ver, isto é o mais importante para o recém-formado, uma oportunidade de crescimento. Ele sabe que vai demorar um pouco para ganhar bem, vai ter que começar de baixo até chegar em um patamar de merecimento pelos seus esforços, mas ele precisa deste começo, desta oportunidade de trabalho. Todo jovem sempre sonha com o primeiro emprego, se esforça, estuda, trabalha muitas vezes com aquilo que não gosta de fazer só para poder pagar a faculdade, e quando se forma, não tem oportunidade no
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    76 THIAGO VENDITELLI CURY mercadode trabalho. Imaginem a frustração que este profissional terá na sua vida! Ele, que está pronto para colocar em prática tudo o que aprendeu na faculdade, que dispõe de conhecimento e está disposto a mostrar todo o seu talento. Não podemos fechar as portas para estes jovens! Claro que não são todos os jovens que pensam da mesma forma ou que têm a mesma capacidade e vontade de aprender e mostrar o seu talento. Mas posso dizer que a maioria deles se empenha e tem o melhor rendimento na faculdade. Quando eu e meus sócios tomamos essa decisão, alguns colegas acharam uma loucura, disseram que nós estaríamos colocando a empresa em risco. Eu, particularmente,nãodeiouvidosecontinueicomaminha posição. Hoje, a nossa empresa está colaborando para o crescimento de uma pessoa, que tem um potencial magnífico.Emdoismeses,elajáestádandocontinuidade a um trabalho, onde vários profissionais tentaram desenvolverenãotiveramsucesso.Esteéumprojetoque está trazendo lucros para a minha empresa. Os recém- formados estão com os aprendizados mais “frescos” na cabeça, cheios de vontade para mostrar seu potencial. Claroqueparatodaregraexistesuaexceção,comojádisse antes, mas feita uma boa seleção, você poderá ter muitos benefícios, e bons profissionais também. — Obrigado, Rogério. É realmente essa postura quedevemosterperanteomercadoeosrecém-formados. Mais alguém, senhores? E como as pessoas já se sentiam mais à vontade, novas opiniões foram dadas, todas seguindo a mesma linhaderaciocíniodasidéiasdoDoutorFrederico.Durante trêshoras,osempresáriosficaramconversando,trocando idéias, até que, no final da palestra, depois do Doutor
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    77 VONTADE DE VENCER Fredericoter apresentado todas as pesquisas pertinentes aoassunto,decidiramdecomumacordoque,daqueledia em diante, formariam uma comissão de ajuda a novos e antigos profissionais do ramo de Recursos Humanos. E, quem sabe futuramente, dependendo do sucesso do trabalho desenvolvido, abririam espaço para os profissionais de outras áreas também. Deram o nome a esteprojetode“ProgramadeQualificaçãoProfissional”. Estacomissãofariaosseguintestrabalhosdeapoio: auxiliarosempresáriosnasnovascontratações;esclarecer dúvidas de outras empresas; implantar novos serviços; ensinar os departamentos a conversarem entre si; ajudar as pessoas a se relacionarem melhor umas com as outras; fornecer todo apoio necessário para os estagiários e os recém-formados, entre outras atribuições. Com a formação do grupo, decidiram que as reuniões seriam semanais, para obterem uma primeira estrutura do projeto. Feito isto, as reuniões passariam a serquinzenais,atéchagaremaumpatamarestável,onde pudessem ser mensais, com suas devidas exceções, se fosse preciso. Após ter concluído o passo mais importante, Doutor Frederico comunicaria à diretoria sobre os acontecimentos e os resultados da sua palestra. Era chegada a hora. Começou então a entrar em contato com os diretores, solicitando uma reunião, o quanto antes possível, para fazerem um balanço de suas atividades. Esta reunião foi marcada para a semana seguinte. Quando Frederico pôde respirar um pouco, após semanas de trabalho e reuniões, ele se lembrou da proposta que Matheus havia feito, uma troca de conhecimentos entre os departamentos.
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    78 THIAGO VENDITELLI CURY —Tenho que dar continuidade a esse trabalho. É algo muito importante para a empresa e para o crescimentodoscolaboradores.Mas,aindasim,achoque podemos incrementar um pouco este projeto, e se além datrocadeidéiasentreosdepartamentos,nósfizéssemos também algumas definições de como evitar problemas? Poderia ajudar ainda mais... Vou chamar Matheus aqui para conversarmos - pensou Doutor Frederico, já com idéiasnovasemsuacabeça.Elegostavadoseutrabalhoe se sentia bem exercendo a função de superintendente, exceto quando alguns diretores “ficavam no seu pé”. Matheusatendeuochamadoprontamente.Entrou na sala, fechou a porta e sentou-se, esperando pelas orientações do chefe. — Eu lhe chamei aqui para que possamos dar continuidade às suas idéias de relacionamento entre os colaboradores. Vamos começar relembrando suas idéias. Tudo bem? —Claro,DoutorFrederico!Sógostariadelhepedir umfavor.Euprepareiunsgráficos,possolhemostrar?— solicitouMatheus. — Sem nenhum problema, meu rapaz. Deixe-me vê-los! — concordou o superintendente, curioso. FredericosabiaqueMatheustinhamuitopotencial edeveriaserexplorado;eraumapessoanovanaempresa, cheia de conhecimentos, e com muita vontade de expor suas idéias. Pretendia ensiná-lo, ajudá-lo nas conclusões das tarefas. Este era o tipo de trabalho que mais lhe dava prazer. Em tantos anos de profissão, uma das coisas que mais prezava era ajudar jovens em formação para conseguirem melhores colocações. Sentia-se muito bem emajudarpessoasàsuavolta.Sentia-sehonradoquando
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    79 VONTADE DE VENCER ouviaos comentários dos amigos: “Você se lembra daquele rapaz, jovem, que trabalhou na empresa que o Fred administrava? Ele trabalhou lá durante anos, começou como mensageiro e saiu de lá em uma posição muito mais alta!” Este rapazabriusuaprópriaempresa,administraseusnegócios e ainda presta consultoria para terceiros”. Sempre que ouviaalgoassimdestetipo,Fredericosentia-seorgulhoso em saber que tinha colaborado com o sucesso de alguma pessoa. Todas estas lembranças se passavam na mente dele enquanto Matheus mostrava seus gráficos. — Meus parabéns, Matheus! Os gráficos estão corretosemuitobemapresentados.Euaprovototalmente a sua idéia e, ainda mais, quero complementá-la, com alguns detalhes que acho importantes para que os resultados sejam ainda mais garantidos. —Quebomqueosenhorgostou,DoutorFrederico. Eficomuitofelizporquerercomplementarmeutrabalho com as suas idéias. — Pois bem, meu jovem, o que eu gostaria de acrescentar é o seguinte: na minha opinião, as pessoas resolvem os problemas da maneira errada, e pelo modo errado. E como é isto? Eu vejo um outro caminho para solucionar as dificuldades. Existe uma “regra” para os problemas, que pode ser quebrada. Basta ter atenção e organização ao desenvolver um trabalho ou projeto. — Como assim, Doutor Frederico? Não entendi muito bem qual é a sua idéia! — Explico melhor. Peguemos um problema convencional de qualquer empresa, o orçamento, por exemplo. Neste caso, temos três etapas: primeira etapa: a causa, segunda etapa: o problema em si, e terceira e última etapa: a conseqüência.
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    80 THIAGO VENDITELLI CURY —Quando nos vemos frente a frente com o problema, nos preocupamos em resolver a conseqüência dele e não a causa. Se fizermos um planejamento melhor epensarmoscomtranqüilidade,serámaisfácillidarcom os contratempos que enfrentamos todos os dias. Podemos resolver a causa, para que eles não voltem a acontecer. Mas a maioria das pessoas se preocupa em solucionar a conseqüência do problema e assim indubitavelmente ele voltará a acontecer. — Como pode, Doutor Frederico? Nunca tinha ouvido falar de algo deste tipo! Quer dizer que um bom planejamento e uma organização podem evitar um furo noorçamentoouqualqueroutrotipodeproblemadentro de uma empresa ou até mesmo na sua vida pessoal? — Claro que sim! É lógica, igual à matemática! Vejamos a seqüência de planos: você tem uma situação na sua empresa que causa um problema e que traz uma conseqüência. Então, se tentarmos resolver a conseqüência, não chegaremos a lugar algum, porque o problema vai continuar aparecendo. Mas se nós resolvermosacausa,elenãoiráserepetir.Claroquepode aparecer outra dificuldade, algo bem diferente, mas o mesmo problema não vai se repetir, isso porque você resolveu o que precisava. Eu costumo chamar isto de “Ação Corretiva”. Para que isto seja concluído com êxito precisamos passar por no mínimo cinco etapas: Primeira: Definir exatamente qual é o problema. Segunda: Quais são as causas do problema. Terceira: Fazer o registro de dados. Quarta: As ações corretivas. Quinta: Monitorar os resultados.
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    81 VONTADE DE VENCER —Eu posso lhe afirmar, Matheus, que isto vai dar certo. Vejamos o exemplo que eu vivenciei. A empresa possuía um planejamento orçamentário. Logo que eu assumi a gerência, o orçamento havia sido ultrapassado, tinham estourado em alguns setores e em outros tinham paralisado os trabalhos temporariamente para evitar maiores furos até o final do ano. — Eu sabia que o caso poderia ser revertido, mas necessitavadaaprovaçãodesuperiores.Sendoassim,fui até a pessoa responsável pelo financeiro, para saber a quem deveria me reportar. Durante nossa reunião, fui direto ao assunto, para que não perdêssemos tempo. “Senhor Jorge, eu vi que a empresa está com um furo no orçamento, e pelo que eu pude perceber, podemos reverter este caso. Mas, para isso, preciso de duas coisas: primeiro, que vocês confiem no meu trabalho, e segundo, preciso de autonomia nas minhas decisões. Assim, poderei fazer o que precisar, e trazer benefícios e lucros para a empresa”.
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    82 THIAGO VENDITELLI CURY —Quandotermineiminhascolocações,eleolhou- mecom uma feição contente, de quem não tinha nenhuma esperança em relação à situação financeira da empresa. E disse-me confiante: —Poisbem,DoutorFrederico,osenhortemoque precisa. Marcaremos uma reunião com a diretoria, passaremosassuasidéiasparaosdemais.Seelestambém aprovarem, daremos continuidade ao seu projeto. —Muitoobrigadopelovotodeconfiança.Voume dedicaraestetrabalhoparaconseguiralcançarosobjetivos e recuperar a situação financeira da empresa. — Está bem, Doutor Frederico, confio no seu talento e na sua experiência. Espero que o senhor não me decepcione.
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    83 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOOITO — Após essa conversa com os diretores, fomos tomar um café, e, logo que voltei, comecei a providenciar toda a papelada necessária para a reunião. Liguei para os diretores para marcar a data, fiz novas planilhas com previsões e uma apresentação com as mudanças necessárias para o sucesso do projeto. Quando chegou o dia, eu estava muito nervoso, afinal estava colocando em risco o meu emprego. Se os diretores não concordassem comomeuprojeto,poderiaserdemitidonamesmahora. Por isso, tomei muito cuidado com o que ia falar, fiz e refiz todos os cálculos para que nada desse errado. Na reunião, era a hora de mostrar meu talento e o meu potencial, mas eu mal sabia que, por trás de tudo, tinham pessoas que não queriam que eu estivesse naquele cargo. Minha função era rever os furos da empresa e arrumar
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    84 THIAGO VENDITELLI CURY soluçõespara os problemas. O que eu não tinha noção era de que os furos eram causados por “desvio” dos diretores e sócios da empresa. — Fiz então a minha apresentação. Dediquei-me aomáximoparaquenadasaísseerrado.Felizmente,tudo correucomoeuprevia,aprovaramaminhaapresentação e apoiaram o meu trabalho. Mas, por trás de toda a aprovação, tinha uma pessoa que estava planejando algo paramederrubar.Porém,eufuimaisforte,supereitodos os obstáculos e, durante seis meses, pude mostrar meu trabalho; fiz muito para trazer melhorias à empresa. Resolvi o problema do orçamento, mudei alguns conceitos, e logo que estava concluindo o meu trabalho, quando já não agüentava mais tanta pressão por parte destapessoa,pedidemissão.Essapessoamepressionava muito,cobravademais,umasituaçãoinsustentável.Oque quero dizer com tudo isto é que não devemos depender do apoio dos outros para cumprirmos com as nossas tarefas, com nossas obrigações. Devemos, sim, fazer as coisas contando apenas com as nossas forças e também com as forças superiores que todos nós temos. Se colocarmosasuaidéiaempráticaemudarmosasatitudes, Matheus, o sucesso será garantido. Matheus ficou muito feliz com as palavras que acabara de ouvir do Doutor Frederico. Estava orgulhoso de si mesmo por colaborar com a empresa, tendo a oportunidade de crescer profissionalmente. — Matheus, pode iniciar os trabalhos e lembre- se que, com planejamento e organização, tudo pode dar certo. —Muitoobrigado,DoutorFrederico.Sougratopela confiança. Tenha a certeza de que não vou decepcioná-lo.
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    85 VONTADE DE VENCER —Estou certo disso e sei que você irá cumprir com suas obrigações tranqüilamente, e saiba que estou à disposiçãoparaqualquerdúvida—disseDoutorFrederico, confiante na força de vontade e no talento de Matheus. Começaram as reuniões dos departamentos. Isso durariaumtempo.Otrabalhoqueestavasendoproposto para os colaboradores era de grande valia. Meses depois, todos os departamentos já se conheciam. Os resultados dessas conversas já eram visíveis. Todos percebiam as melhoras que estavam surgindo dentrodaempresa.Oorçamento,denegativopassoupara positivo.Oclimadentrodaempresapareciaestarnormal, comosenãohouvessediferenças,pareciaatéqueládentro não existiam mais os dois grupos, o dos amigos e o dos opositores de Doutor Frederico. Sem que os aliados de Frederico percebessem o queestavaacontecendo,osopositoresaindacontinuavam com seus pensamentos e planos. Eles queriam que o Doutor Frederico saísse da empresa, a todo custo. Por isso, já haviam tramado com os superiores para colocar tudoempráticaedemitirosuperintendente.Eopiorainda estava para acontecer, os planos da diretoria incluíam a dispensa de vários colaboradores Os diretores já sabiam quemseriademitido,quandoea“justificativa”quedariam a cada um deles. Doutor Frederico estava muito feliz com o desempenhodesuaequipeecontinuavacomaesperança dequenadamaisaconteceria.Eleacreditavanissoporque tinham dado a ele a autonomia necessária para tomar decisões. Tinha a convicção de que a diretoria não o demitiria ou mesmo abortaria o projeto. Enquanto seus aliados trabalhavam em silêncio, seus opositores tramavam. Na presença do Doutor
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    86 THIAGO VENDITELLI CURY Frederico,eram de um jeito. Na ausência dele, completamentediferentes.Essesadversáriossabiamoque queriam, por isso tomavam o maior cuidado para que ninguémpercebesseastramóiaseparaquenãodeixassem escapar nada. Seria uma perda de tempo se alguma informação vazasse. Masamoçaqueserviadecúmplice,nãodariacom a língua nos dentes. Ela tinha um caso com um dos diretores, Armando, e a pobrezinha tinha certeza que subiriadecargoassimqueFredericoeseusamigosfossem demitidos. O sonho da moçoila era ver seu amado como superintendente e ela como a secretária super eficiente. Fazia tudo às vistas de todos, não dava a mínima importância se alguém percebia suas fofocas. No fundo, ela acreditava que ganharia mais adeptos, e daí receberia maisprêmiosepresentesdoseuamado.Maselanãosabia que era completamente descartável. A diretoria já estava ansiosa pelo início do plano, masparasortedealgunseazardeoutros,astramóiasteriam que ser adiadas por mais algum tempo. Doutor Frederico estava começando um novo projeto e, até que as funções fossemdistribuídaseostrabalhosiniciados,levariaumcerto tempo para aparecer os resultados. Se fossem bons, esperariam mais alguns meses, se fossem ruins e a conseqüêncianegativa,poderiamdemiti-loimediatamente. O novo trabalho consistia em cobrar as empresas inadimplentes. Desde que assumiu o cargo de superintendente, o objetivo de Frederico era fazer com que as empresas regularizassem suas situações. O plano decobrançaseriaumsegundopasso,queaindanãoestava traçado,masasempresasseriamavisadasdesuasdívidas, buscando uma forma de saná-las.
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    87 VONTADE DE VENCER Metadedas empresas cadastradas no banco de dados estava inadimplente. Se o processo de cobrança funcionasse, o aumento no orçamento seria significativo, o que daria a possibilidade de Frederico alcançar suas metas e a diretoria da Junção continuar aprovando o seu trabalho.Adiretoria,pormaisestranhoquepossaparecer, nãoseesforçoumuitonamudançadaformadecobrança. Mesmo assim, o projeto foi tocado e logo apareceram os resultadospositivos. AscoisascaminhavamtranqüilamenteparaDoutor Frederico e sua equipe. E os bons fluídos já despertavam a inteligência da turma da oposição. A dedicação no projeto de cobrança era a suspeita que a opinião deles poderia estar errada. “Será que nós nos enganamos? Julgamosaspessoasdaformaerrada?Precipitadamente? Antecipamo-nosetiramosnossasprópriasconclusões?”. Podeser.Quandoseestánadúvidasobreocaráter de uma pessoa, não se pode julgar sem ter certeza. Mas osresultadoseramtãoevidentes,quenãoseriadiferente. Se há certeza, é preciso tomar providências. Se não, é melhor esperar. O tempo clareia as dúvidas. O trabalho iniciado por Frederico precisaria da colaboração e da força de quase todos os departamentos. Seguindo a idéia de Matheus, foi implantada a comunicação entre os setores. O resultado foi excelente. Agora,aspessoassabiamquemeramosresponsáveispor cada setor e o que exatamente eles faziam. Logo no primeiromês,asligaçõeseramdiretamentepassadasaos responsáveis, e todos atendiam somente ligações referentes às suas funções. Foi montada uma estratégia para começarem as cobranças. O primeiro passo foi fazer um levantamento
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    88 THIAGO VENDITELLI CURY dosinadimplentes;depoisverificaramoqueseriacobrado equaisaspossíveismultaseformasdepagamento.Todas asquartas-feiras, os colaboradores se reuniriam para selecionar as empresas que seriam acionadas naquela semanaeacertariamosdetalhes.Acartadecobrançaseria o último passo desse processo. Aidéiadeenviaracartadecobrançasónofinaldo processo tinha um propósito: permitir que os devedores tomassem ciência da dívida, proporcionando-lhes um prazodepagamentoumpoucomaior.Seacarta-cobrança fosse enviada diretamente, ela poderia ser ignorada e a situaçãodeinadimplênciapermaneceriaigual.Eestenão era o objetivo. Certamente, ao entrar em contato com o devedor, explicando sobre os seus débitos, o responsável pelofinanceirodaempresainadimplenteteriaalgunsdias para se programar, e não ser “pego de surpresa” assim que chegasse a carta-cobrança. A idéia era boa e todo esforço estava valendo a pena. O problema é que as tramóias continuavam e a cabeça de Doutor Frederico poderia estar “a prêmio”, antes que seu projeto fosse concluído. O sucesso deste planejamento empresarial já deixava muitas pessoas não favoráveis a esta política em cimadomuro.Nãosabiamemqualladopermaneceriam: dos aliados ou dos opositores. A calmaria na Junção foi se dissipando e a ansiedade tomou conta do ambiente. Os opositores já sabiam que, a qualquer momento, o diretor de finanças e o presidente procurariam pelo superintendente. Algum tempo depois, com feições estranhas e de “poucos amigos”,pediramparafalarcomosuperintendente.Mas, parasorteouazardeFrederico,elenãoestavanaempresa naquele momento.
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    89 VONTADE DE VENCER Opresidente e o diretor de finanças ficaram perdidos, sem rumo. Como não encontraram o Doutor Frederico na empresa, no horário de trabalho? “Onde ele estará?” Eles fingiram que estavam lá por outro motivo, mas não deixaram de demonstrar a ansiedade em querer vê-lo. O presidente da empresa pediu então para que Andressadesseumrecadoparaosuperintendenteassim que ele chegasse: — Andressa, por favor, assim que o Doutor Frederico chegar, peça a ele para me ligar. — Pode deixar, antes do almoço falarei com ele e passarei o seu recado. — Está bem. E mais uma coisa: por favor, traga na minha sala o relatório da reunião da semana passada. Querotiraralgumasdúvidas. — Sim, senhor. Só um minuto e eu já vou — disse Andressa,procurandoosdocumentos.Elaficouperdida, pois não contava com o pedido de última hora. — Aqui está o relatório que o senhor pediu. — Obrigado, Andressa, pode ir agora. Tal atitude não despertou suspeita entre os colaboradores. Mas foi tudo um belo disfarce, afinal, os documentos poderiam ser solicitados por e-mail, como era feito costumeiramente. Os opositores de Frederico fingiam não saber de nada. Mas o clima era de que algo estava por acontecer. Neste dia, Doutor Frederico havia chegado cedo, deixadoalgunspertencesnasalaesaídoparaumareunião com o pessoal da informática.Aintenção dele era buscar programas de computadores adequados para o novo sistema de cobrança.
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    90 THIAGO VENDITELLI CURY Antesdoalmoço,DoutorFredericoligounaJunção querendofalar comAndressa. — Boa tarde, Andressa, tudo bem? —Tudobem!Eosenhor,comoestãoascoisasporaí? — Estão indo bem. Obrigado. Algum recado para mim? — Tem sim, mas acho que o senhor não vai gostar muito... — O que foi? — O nosso presidente e o diretor financeiro vieram aqui, no período da manhã, querendo falar com o senhor. Quando souberam que o senhor não estava, pediram-me alguns documentos e em seguida foram embora. Achei que eles estavam muito estranhos. Os documentos solicitados são sempre enviados por e-mail. Achei a atitude deles suspeita. — Fique tranqüila, por favor, dê-me o número do telefone dele. Andressa passou os telefones do presidente. — Obrigado, Andressa. Mais tarde voltaremos a nos falar. — Está bem, Doutor Frederico, até mais tarde. Frederico ligou imediatamente para o presidente. Precisava saber porque ele estava a sua procura, com tanta ansiedade. O presidente atendeu a ligação aparentando tranqüilidade. — Boa tarde, Frederico, como está? — cumprimentouopresidente. — Estou bem. Obrigado. O senhor está à minha procura? Posso ajudá-lo em algo?
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    91 VONTADE DE VENCER —Pode sim. Você esta perto aqui da nossa matriz? Estou no centro da cidade agora à tarde. —Não,estouforadeSãoPaulo,resolvendoalgumas coisas da Junção. Por quê? — Nada de tão importante. Assim que chegar em São Paulo, venha até a minha empresa, quero falar com você pessoalmente. Está bem? — Está bem! Estarei aí em três horas. — Ótimo, estou aguardando! —Até mais tarde, Frederico. — Até mais. Após a conversa, Doutor Frederico comentou com Luiz, o amigo que o acompanhava. — O que será que o Rui quer comigo, assim, às pressas? — Deve ser algo muito importante, para ele querer vê-lo o mais rápido possível. —Devesermesmo!Mastemosquefazerumacoisa por vez. Não é mesmo, Luiz? Luiz conhecia Frederico antes mesmo dele ir trabalhar na Junção Recursos Humanos. Além de Luiz prestar serviços para a empresa, ambos já haviam trabalhado juntos em outros lugares, anos atrás. Tudo o que era relacionado à área de comunicação, propaganda e eventos, era Luiz quem cuidava, juntamente com Mariana. Luiz trabalhava com Mariana, mas ele era terceirizado.Semprequeaempresaprecisavadeserviços emcomunicaçãovisual,Luizeracontatado.Naqueledia, Luiz acompanhou Frederico para buscar novos programas empresariais. Fredericoresolveriaumacoisaporvez,comohavia dito, e por isso não alterou o caminho previsto. Mas a
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    92 THIAGO VENDITELLI CURY conversacom Rui não lhe saía da cabeça. Ele sabia do risco que corria. Estava curioso e queria estar logo com o presidente. Sabiaquealgoaconteceria.Umasensaçãoestranha tomava conta do seu peito. Fechou os olhos e pediu que acontecesse o que fosse melhor, mas que os mais fracos não sofressem. Ele se preocupava muito com o futuro da sua equipe. Frederico só queria que, se realmente fosse demitido,eletivesseapossibilidadedecomunicaraosseus colaboradores, sem fofocas, sem distorção dos fatos. Seguiuseucaminho,conversandocomoamigoLuiz parasedistrairepassarotempomaisrápido.Mesmoassim, o dia de Frederico seria longo e ele não chegaria antes do anoitecernacidade.DecidiuligarparaCarmem.Pediu-lhe que não o esperasse, pois ainda teria reunião com o Rui. — Olá, Carmem, como estão as coisas por aí? — Estão bem, como de costume, mas o senhor faz falta aqui! Ela sempre dizia que a empresa sem o Doutor Frederico era como primavera sem flores, afinal, foi ele quem deu mais vida aos trabalhos, mais força aos colaboradores. — Obrigado, Carmem, você é sempre gentil. Faça-me um favor, providencie para amanhã os papéis com os nossos resultados dos projetos nos últimos seis meses. E também faça uma limpeza em minha mesa, deixe tudo o que for pessoal de um lado e o que for da empresa do outro. Por favor. — Por que o senhor está me pedindo isto, Doutor Frederico? — Preciso disso pronto amanhã cedo. Você pode fazer, Carmem?
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    93 VONTADE DE VENCER —Posso sim. Amanhã cedo, estará tudo pronto em sua mesa, assim que o senhor chegar. —Muitoobrigado,Carmem.Maisumdetalhe:não me espere! Chegarei tarde e amanhã cedo conversamos.Tudobem? — Está bem. Até amanhã, Doutor Frederico. — Até amanhã, Carmem. O clima dentro da empresa estava tenso demais. E foi bom Frederico estar fora o dia inteiro. Assim, ele teve uma oportunidade para se preparar para algo ruim que pudesse vir a acontecer. Logo que desligou o telefone, Carmem não conseguia esconder o nervosismo. Sua equipe percebeu que as coisas não estavam boas. Queriam saber o que o Doutor Frederico havia dito no telefone. — Carmem, diga logo. O que o Doutor Frederico disse para você ficar deste jeito? —Elepediuparaqueeuarrumasseospapéisdele e também um relatório com os nossos resultados dos últimos seis meses. — O que será que vai acontecer? — indagou Matheus, perdido na situação. Ele, que era o mais novo membro da equipe, não sabia muito bem o que acontecia pelos bastidores da empresa. —Matheus—chamouCarmem—quandoDoutor Frederico assumiu o cargo de superintendente, as coisas eram bem diferentes. Vamos até a sala de reunião para conversarmosmelhor. Carmem, então, começou a contar para Matheus como era a situação na Junção antes da contratação de Frederico, e o que mudou com a chegada dele.
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    94 THIAGO VENDITELLI CURY —No começo, quando entrei aqui, as coisas eram bem diferentes. Não tínhamos nenhum benefício, não podíamos ver nossos e-mails particulares, não tínhamos premiação por tarefas ou metas alcançadas. Nada de bom para os funcionários, a não ser cumprir com as obrigações sem reclamar ou querer algo. —Jásabíamosqueoentãosuperintendentenãoia durar muito tempo, logo seria substituído. Isso de fato aconteceu e o Doutor Frederico passou a ocupar o cargo, apresentadoàdiretoriapelasupervisoradetreinamentos. Ele demonstrou desde o começo ter capacidade e força de vontade para assumir o cargo, queria muito mostrar seus conhecimentos para todos na empresa. Com a saída do outro superintendente, algumas pessoas se sentiram ameaçadas, achavam que seriam demitidas assim que ele assumisse o cargo. O objetivo do Doutor Frederico não era mandar ninguém embora, mas, a pressão no trabalho, as mudanças, os medos e a insegurança fizeram com que o desenvolvimento das pessoas caísse em qualidade e tempo. — Desta forma, alguns chegaram a pedir demissão por não agüentarem mais a pressão dentro do trabalho. Uma dessas pessoas disse que não estava mais produzindo como antigamente e queria ser demitida. O Doutor Frederico não tinha essa intenção, mas era um pedido pessoal, ele não poderia negar. O superintendente falou com a diretoria e, mesmo contra a vontade, resolveram aceitar o pedido de demissão. Com a resposta positiva da diretoria, Doutor Frederico demitiu a moça, mas deixou claro que estava atendendo a um pedido dela. — Essa situação continuou provocando medo em outros funcionários e todos acharam que poderiam ser
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    95 VONTADE DE VENCER demitidosigualmente. Doutor Frederico deixou bem claro que este não era seu objetivo ali dentro. Não demitiria ninguém no processo de adaptação dos seus projetos, queria conhecer primeiro as pessoas que ali trabalhavam, saber qual era o serviço que desenvolviam, como o faziam.
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    97 VONTADE DE VENCER CAPÍTULONOVE Matheus prestava atenção em cada palavra de Carmem. Seus olhos esbugalhados engoliam as palavras dacolega,buscandoopontofinaldeumahistória.Aquela sala trazia a gélida sensação de que tudo poderia desmoronar, a qualquer momento. Carmem continuou a história. —Ascoisascaminharambemduranteosprimeiros meses. Ninguém foi demitido.Todos estavam abertos a conhecer a maneira de trabalhar do Doutor Frederico. Parecia que as coisas estavam fluindo bem, mas quando ele tomou sua primeira iniciativa de fazer algumas cobranças e as devidas regularizações, os problemas começaramasurgir.Talvez,atéporestemotivo,algumas pessoas, hoje, são contra os trabalhos dele. Influência de comentários de alguém que não soube perder, ou subir navida,dependendodecomoseolhaparaumasituação.
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    98 THIAGO VENDITELLI CURY —Carmem, desculpe interromper, mas como assim? Como se olha para uma situação? Matheus sabia que sua pergunta não tinha nada a ver com o que Carmem explicava no momento, mas, curioso, queria entender o que a colega quis dizer. — Matheus, você é uma pessoa esperta, vai entender logo o que quero dizer. Por exemplo, quando acontece algo diferente em nossas vidas, quando somos demitidos de nosso emprego. Jamais esperamos que isto vá acontecer, mas acontece. Temos nossas responsabilidades pessoais, nossas contas para pagar, e, quando isto ocorre, nos desesperamos, achamos que é o fim do mundo. Pensamos sempre que o emprego está difícil e que será complicada a situação. Se soubéssemos lidar com as nossas dificuldades, e com os nossos medos, poderíamos perceber que, se isto está acontecendo em nossas vidas, é por que algo melhor pode nos aparecer depois. Devemos tirar aprendizado de tudo aquilo que vivemos, agradecermos pelo emprego, e pedir para que novas oportunidades surjam em nossas vidas. — Quem diria! — exclamou Matheus — Aprendi tantoemtãopoucotempo.Nuncatinhapensadoporeste lado. Comigo foi a mesma coisa. Quando fui demitido, antes de entrar aqui, achei que o mundo tinha acabado para mim. Como ia conseguir outro emprego? As coisas estavam tão difíceis! Fiquei desesperado. Mesmo com o apoio de familiares e amigos, as coisas pareciam não ter uma solução. Durante todo o tempo, fiquei desesperado enãoconseguiencontrarnenhumarespostaparaosmeus problemas e medos. As coisas pioravam a cada dia; o nervosismo era inevitável, eu estava sempre de mau humor,brigandocomtodasaspessoasàminhavolta.Fora queascontasestavamatrasadas,umaloucura.Minhavida
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    99 VONTADE DE VENCER mudoudrasticamente,deumahoraparaaoutra.Eu,que eraumapessoacalma,sorridente,trabalhadoraesempre dispostaanovosdesafios,nãopudeperceberqueosmeus hábitosestavam um pouco defasados. — Como já fugimos do assunto em questão, como assim defasados? — perguntou Carmem, curiosa pela experiênciadeMatheus. — Estavam defasados, no sentido de que eu não dava o devido valor a algumas coisas em minha vida. Eu preferia sair com os amigos a ficar em casa um dia da semanacomaminhafamília;eusósabiapedir,e,quando conseguia, não sabia nem agradecer — explicou o jovem. —Duranteoperíodoemqueestivedesempregado, pudeperceberqueéprecisoteroutrosvaloresparasechegar ao equilíbrio. Após muitos conselhos de amigos, decidi procurarajuda,jáque,sozinho,nãoconseguiamaisdarum rumo em minha vida. Resolvi procurar uma terapia alternativa. Busquei anúncios em jornais e revistas, até que um dia, por indicação de um familiar, conheci uma pessoa muito agradável. A maneira na qual esta pessoa trabalhava me parecia a mais adequada para o momento que estava vivendo. — Eu fui, então, conhecer seu trabalho de perto. Marcamosumaentrevistaondeeufalariaumpoucosobre a minha vida e ela, um pouco sobre a sua formação. Ela também me explicaria como era seu trabalho. Confesso que fiquei um pouco ansioso. Queria ter certeza de que estava fazendo a coisa certa. Pensava que somente os loucos precisavam de terapia. Eu achava que, como não tinhaproblemasmentais,aterapiaeradesnecessária.Dois dias antes da data marcada, senti uma enorme vontade dedesistir.Estavacommedo,ansiosopeloqueiaencontrar naminhafrente.Nofundo,eunãoqueriasaberdosmeus
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    100 THIAGO VENDITELLI CURY medose conflitos. Para mim, o problema era o mundo, e não eu. Todos os outros eram os culpados, menos eu. — É fácil dizermos que a culpa pelos nossos problemas é dos outros e não assumirmos as nossas responsabilidades, o difícil é tomarmos controle das nossas vidas. Mas, com o apoio de amigos e parentes, criei coragem e fui para a entrevista. —Quemdiriaquevocê,Matheus,umapessoatão alegre e tão determinada já passou por isso — opinou Carmem. — Pois é, Carmem, as pessoas precisam de apoio em suas vidas; precisam de forças que muitas vezes sozinhaselasnãoconseguemalcançar.Emdeterminados momentos de nossas vidas, acontecem situações que não conseguimos resolver sozinhos. Por mais fortes que julguemosser,pormaismadurosqueachamosquesomos, precisamosdaajudadeoutraspessoas.Pessoasestasque, por não estarem vivendo a mesma coisa que nós, podem nosmostraralgumassaídas.Saídasquenãoconseguimos perceber, justamente por estarmos vivendo o problema. — No dia da entrevista com a terapeuta, fiquei muito nervoso. Transpirava em excesso, mal conseguia me alimentar. Muitas coisas passavam pela minha cabeça. O que vou dizer? Como vou falar? E se eu tiver vergonha de falar sobre algum assunto? Tantos medos, inseguranças. Mas mesmo assim fui até o consultório dela como o combinado. Logo que cheguei, toquei o interfone, e para a minha surpresa, ela mesma veio abrir a porta do consultório. Fiquei surpreso, não imaginava que a própria terapeuta abriria a porta. Fui muito bem atendido.AAna até me ofereceu água e café, mas minha timidez não permitiu que eu aceitasse.
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    101 VONTADE DE VENCER —Fomos para a sala dela, onde me ofereceu novamente uma água. Desta vez, resolvi aceitar. Com a boca seca de tanta ansiedade, precisava mesmo de um gole de água. — A entrevista passou mais rápido do que eu esperava. Nem percebi o tempo passar e, quando vi,Ana jámeadvertiadequeteríamosquedeixaralgunsassuntos para o próximo encontro, na semana seguinte. — Concluindo a história, depois de alguns meses pude aprender muitas coisas sobre o mundo e como eu estava olhando para ele. Pude perceber meus medos, minhas decepções, receios, coisas que eu realmente gostavadefazereoquedetestava.Atéentão,eunãotinha conhecimento disso. Foi muito mais fácil lidar com o fato de estar desempregado no momento, mais fácil ainda voltar para o mercado de trabalho. Acho que, se eu não tivesse ido até o consultório dela, e procurado ajuda, poderia estar bem pior, estaria me culpando de muitas coisas, culpando o mundo e as pessoas à minha volta, e nadateriamudado.Talvezestivessedesempregadoainda. Mas, hoje, sei que eu não estava desempregado e sim “Disponível para o mercado de trabalho”. — Como assim “Disponível para o mercado de trabalho”, Matheus? O que você quer dizer com isto? — Eu explico, Carmem, mas antes de qualquer coisa, podemos ir almoçar? Estou faminto. Prometo que, duranteoalmoço,eucontoparavocêestadiferença,algo que eu aprendi com a terapeutaAna. — Está bem. Também estou com fome. E, assim que nós voltarmos do almoço, eu vou terminar de lhe contar como começaram as brigas aqui na empresa. — Com certeza. Vamos trocar experiências.
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    102 THIAGO VENDITELLI CURY Eassim foram almoçar. Carmem e Matheus decidiramcomerumlanchenoEstadão,umalanchonete famosa perto da empresa. Chegando ao local, e após fazerem os pedidos, o rapaz continuou contando como aprendeu a diferença entre estar desempregado e estar “disponível para o mercado de trabalho”. — Carmem, se eu perguntasse para você o que é estar desempregado, o que você me responderia? —Bem,eudiriaqueestardesempregadoéquando você procura um trabalho, que possa trazer uma remuneração para que você pague suas contas, se divirta e possa sobreviver. — Este trabalho também tem que lhe trazer satisfação? — Claro que sim! Você tem que fazer aquilo que gosta, o que mais lhe dá prazer. Quando você está desempregado,vocêprocuraporumtrabalhoondepossa desenvolver suas funções, cumprindo com suas obrigações,pondoempráticaseusaprendizadoseestudos sendo beneficiado com um pagamento mensal. Uma premiação pelo seu desempenho. É isso? — Sim, isso mesmo. —Poisbem,Carmem,eagoraeuperguntooqueé estar “disponível para o mercado de trabalho”? Carmempensou,pensou,e,semtercertezadesua resposta, preferiu dizer que não sabia. — Não sei exatamente o que seria isso. O que é? —Quebom,assimpossoteensinaralgo!Retribuo umpoucodetodososensinamentosquetenhoaprendido com você. Veja bem, estar desempregado e “disponível paraomercadodetrabalho”ébasicamenteamesmacoisa. Você procura por benefícios, algum lugar para por em
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    103 VONTADE DE VENCER práticatodo o seu conhecimento, só que o diferencial é que você muda o seu foco. Você procura emprego não como um desempregado, desesperado para pagar suas contas,massimcomoumexcelenteprofissional,disposto a novos desafios, e que queira fazer parte de alguma empresa.Vocêmostratodasassuasqualificaçõesemuma entrevista, como se estivesse se “vendendo” para a empresa, querendo aquele emprego. — Se você for selecionar alguns candidatos para umavagadeAuxiliarAdministrativo,porexemplo.Após analisar o currículo de todos os candidatos, você marca uma entrevista com eles. O que você espera encontrar no dia das entrevistas? — Espero que eles venham bem apresentados e saibam o que querem, dispostos a novas funções. Devem ter o conhecimento em tudo aquilo que a vaga exigir e, acimadetudo,quetenhamforçadevontadeemaprender e que demonstrem dinamismo. — Muito bem, Carmem, você acabou de traçar o perfildoprofissionalquevocêprocura.Agoravemaparte mais difícil. Uma pessoa chega na empresa, para a primeira entrevista. “Por favor, a senhora Carmem?”. Tímido,eleprocuraporvocê,nãosabeondeenfiarorosto, de tanta vergonha. Faz de tudo para que as pessoas não percebam a sua presença. Então, você o leva para a sala de reuniões. Dando inicio à entrevista, você pergunta se ele tem conhecimentos em informática. Qual a resposta? — Não sei. Qual é Matheus? — “Tenho sim senhora”. Ele responde cabisbaixo, com a voz trêmula. —Vocênãoquerintimidarocandidatoepulapara a próxima pergunta, esperando ouvir uma resposta melhor que a primeira.
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    104 THIAGO VENDITELLI CURY —Fale-me sobre a sua experiência de trabalho. Onde trabalhou e o que fazia nas outras empresas. E ele responde: “Já trabalhei como montador, auxiliar de escritório e em telemarketing”. Tudo isso sem olhar nos seus olhos, falando baixo, quase sussurrando. — Fale-me sobre a sua formação. —Tenhoosegundograucompleto.Pensoemfazer faculdade, e curso de montador de computadores. —Você,cansada,jásemesperançaqueelevenhaa lhedarumarespostasatisfatória,dizque,assimquetiver uma posição dos diretores, entrará em contato. E logo que ele sai, você rasga o currículo dele. E diz: “este não é o profissional que eu procuro para trabalhar aqui na empresa”. —Comcertezaeufariaissomesmo,Matheus.Mas eu não entendi qual a diferença? —Fiquecalma.Vocêentenderátudoagoramesmo. Vamosutilizaromesmocaso.Vocêagendaumaentrevista com o segundo candidato. No dia e horário marcado ele chega na empresa. Você está em sua sala. Assim que ele chega, todos percebem a sua presença, um rapaz alegre, que cumprimenta todos os presentes. —Bomdia,eutenhoumaentrevistamarcadacom asenhoraCarmem.Vocêpoderiaavisá-laqueeucheguei, por favor? — Ele diz isto à recepcionista. — Nossa, já começou bem diferente! Você vai até ele e diz: “vamos até a outra sala, por favor”. Assim que vocês entram na sala, ele, em sinal de respeito, espera ser convidado a se sentar. Logo no início da entrevista, você faz a primeira pergunta. — Você tem conhecimentos em informática?
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    105 VONTADE DE VENCER E,deprontidão,ocandidatoresponde:“Tenhosim, senhora.Lido muito bem com todos os programas de computador. Tenho conhecimentos em computação gráfica, sei montar e desmontar uma máquina, sei trabalhar com as suas configurações, monto programas empresariais que emitem relatórios de custos e lucros, entre algumas outras qualificações”. Você fica surpresa com a resposta. Ele respondeu tudo isto com a voz firme, olhando em seus olhos para transmitir mais confiança. Empolgada, você parte para a segunda pergunta. “Fale-me sobre a sua experiência de trabalho”. “Eu já trabalhei como montador de computadores, era o responsável pela manutenção das máquinasdeumaescola.Quandoalgumamáquinadava problema, eu tinha que descobrir qual era o defeito, comprar a peça e fazer a troca. Já trabalhei também como auxiliar de escritório, lá eu era o responsável pelo serviço de banco, entregar documentos, colher assinaturas dos representantes e fornecedores, além de cuidar de todo o arquivo morto da empresa. Trabalhei também como operador de telemarketing, fazia venda de assinatura de jornal pelo telefone. Por duas vezes consecutivas, fui o campeão de vendas do mês”. — Nossa! Quanta coisa você fazia na empresa! — você até faz este comentário, porque está surpresa com a descrição que ele está passando sobre sua experiência profissional. —Vamosemfrente,fale-mesobreasuaformação. “Tenho o segundo grau completo e prestei vestibular há pouco tempo. Preciso ingressar na universidade, pois isto irá abrir muitas portas para mim.
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    106 THIAGO VENDITELLI CURY Alémdisso, tenho diploma de montagem e manutenção de computadores. E, para concluir, sou uma pessoa bem disposta e preparada para novos desafios na minha carreiraprofissional”. — Está bem, assim que tivermos uma resposta da nossa diretoria entraremos em contato. Muito obrigado desde já. Assim que o candidato vai embora você diz que achou o profissional que tanto procurava. — Incrível! É exatamente assim que as coisas acontecem. — É verdade, Carmem. As pessoas reclamam de falta de emprego e do governo. Realmente, trabalho não está fácil de conseguir, e se a pessoa ainda não faz a parte dela para ter um, fica mais difícil ainda. Se todas as pessoas procurassem empregos como profissionais disponíveis para o mercado de trabalho, o número de desempregados seria bem menor. O comportamento e a maneira de se expressar são pontos importantes numa entrevista de emprego. É necessário demonstrar todas as suas qualificações para a vaga. É preciso mostrar à pessoa que está lhe entrevistando que você é o profissional indicado para aquela vaga. — Vejamos um exemplo clássico do que leva as pessoas a agirem desta forma: a maioria das pessoas se comporta de maneira errada em relação às situações de suas vidas. Veja o porquê: pensam que é a partir do momento que elas têm alguma coisa, que elas vão fazer por onde, para daí, sim, serem alguma coisa.
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    107 VONTADE DE VENCER Issoé errado, porque não devemos agir pelo que temos; nem pensarmos pelo que fazemos. Devemos agir de acordo com aquilo que somos, para fazermos algo e conquistarmos o que queremos. —Mas,Matheus,eunãoentendimuitobemoque você quis dizer. Explique-me melhor. — Claro que sim, Carmem, com prazer. Vejamos um exemplo nas empresas. Normalmente, as pessoas sabem que devem se
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    108 THIAGO VENDITELLI CURY empenharmais nas suas tarefas e nas suas obrigações. Mas elas acabam mantendo o mesmo comportamento e a mesma atitude de sempre, porque dizem que ganham poucoparamudarasuamaneiradetrabalhar.Aopensar em se empenharem nas suas obrigações dizem: “se eu ganhar mais e for mais reconhecido, aí sim eu vou me empenhar mais nos meus afazeres...” Amaneiracertadepensaré:“euvoumeempenhar para desenvolver meus projetos com dedicação, pois sou determinado e esforçado, assim obterei a promoção que tantosonho,e,conseqüentemente,tereioaumentonomeu salário, realizando-me profissionalmente”. É importante queocandidatoreconheçasuasqualidadessemarrogância ou prepotência, apenas tenha a consciência de suas capacitações. — Realmente, Matheus, eu pude aprender e entendercomopensameagemoscandidatosaumavaga deemprego.Muitoobrigadoporcompartilharsuasidéias e aprendizados comigo. Fiquei feliz em saber mais sobre como se portar perante o mercado de trabalho, que hoje em dia é tão competitivo. Quando acabaram de comer, já havia se passado quinzeminutosdahoradealmoçoeelestinhamquevoltar rapidamente para a empresa. — Com tanta idéia interessante e um lanche gostoso, acabamos perdendo a hora. Preciso terminar de lhe contar como as brigas e as diferenças começaram dentro da empresa, para você entender melhor como as pessoas agem lá dentro — prosseguiu Carmem.
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    109 VONTADE DE VENCER CAPÍTULODEZ — Matheus, sente-se. Vou terminar de te contar a história. Onde paramos? — Você me dizia o porquê das diferenças das pessoas aqui dentro. — Ah, sim! Como eu dizia, quando o Doutor Frederico decidiu dar início às suas cobranças, ele não se preocupoucomotipodaempresa,oqueelafaziaequem era o dono. Se havia dívidas, tinha que pagar. Mas o que elenãoesperavaeraencontrar,entrealistadedevedores, empresas dos diretores da Junção. Para a sua surpresa, a empresa do senhor Armando estava na lista. Ele, na sua funçãodesuperintendenteelíderdoprojetodecobrança, não poderia deixar passar isso em branco. Mesmo sendo a inadimplente uma empresa do diretor administrativo.
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    110 THIAGO VENDITELLI CURY NaprimeiraoportunidadequeoDoutorFrederico teve,falou com o senhor Armando e explicou a sua situação, mostrando-lhe o quanto a empresa dele devia. Armando ficou furioso e achou um absurdo ser cobrado, afinal, ele sempre apoiou nosso chefe. Eu pude ouvir a indignação dele; ouvia da minha sala. Ele gritava assim: “Como você tem coragem de me cobrar, depois de tudo oqueeufizporvocê?Eulheapoiei,brigueipelasuacausa, defendi com unhas e dentes seus princípios e você ainda vemmedizeroquantoeudevo?Setiveralguémquedeve alguma coisa aqui é você, que deve a mim, pela força e pelo apoio que eu lhe dei quando você mais precisou”. — Houve uma longa discussão entre os dois e, daquele dia em diante, o senhor Armando passou a ir contra os princípios do Doutor Frederico. Não o apoiava mais, não era de acordo com as suas idéias. Ainda mais depois que ele soube que o cargo que o Doutor Frederico ocupava era para ser do irmão dele. Por essa razão, se sentiaaindamaisofendidoecomraiva.Eledecidiuentão que,daquelediaemdiante,fariatudoparaqueFrederico fossedemitido,saíssedaempresacomumamãonafrente e outra atrás. Daí vem a rivalidade e a diferença dos dois. — Agora posso entender o porquê dos dois viverem em atrito, não podem nem se ver no corredor que mudam de direção. — Pois é, Matheus, é por isso que nós tememos o queelessãocapazesdefazerparatiraroDoutorFrederico da empresa. Se ele sair, você pode ter certeza que todos nós sairemos também, por questão de honra. Quem não jogar no time deles, estará fora. — Agora dá para entender porque um diretor de uma conceituada empresa tem as atitudes que tem.
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    111 VONTADE DE VENCER Resolvetudo da pior maneira possível, sem escrúpulos, sem caráter, comprando as pessoas e usando do poder que tem para alcançar seus objetivos. Após saber disto, Matheus ficou chocado com a vingança que estavam programando contra os aliados. Ficou com medo.Afinal, se o Doutor Frederico saísse da empresa,eleseriaoprimeirodalistaaserdemitido.Seria “ponto de honra” para os outros demitir Matheus. Depoisdemuitoconversarem,elesperceberamque jáhaviasepassadoohoráriodeirembora.Fecharamtudo e saíram. Mas a preocupação com Doutor Frederico pairava no ar. O chefe não tinha dado notícia. Teria já terminado a reunião com o Rui? Eles não sabiam, mas não queriam incomodar. Esperariam o dia seguinte.
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    113 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOONZE No dia seguinte, Frederico chegou à empresa e procurouRui.Eletinhaficadopresonaestradaporcausa de um acidente e não conseguiu chegar no horário combinado. Ligou para o presidente e foi até a matriz para a reunião.Algumas horas depois, Frederico voltou, pegou sua pasta e seu paletó e foi embora sem falar com ninguém. Todos ficaram atônitos. Não era normal uma atitudedaquelas.Ochefesempredavasatisfaçãodeonde ia. E a sua expressão não era das melhores. Andressa tentouligarparaochefe,masseucelularestavadesligado. Na sua casa, também ninguém atendia. A solução era esperar o chefe aparecer. Nooutrodia,atéocéuamanheceucinzento,talvez precedendoacontecimentosruins.Carmemnãoconseguiu
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    114 THIAGO VENDITELLI CURY dormirdireito.Aspreocupaçõescomaempresadeixaram seusono agitado. Por isso, levantou-se mais cedo, preparou seus filhos para a escola e saiu para trabalhar um pouco adiantada. Andressa também ficou apreensiva com os fatos do dia anterior, dormiu melhor que a colega, já que tinha uma jornada dupla – trabalho e estudos. E o cansaço fez com que, naquele dia, a secretária acordasse atrasada. E estefatoafezentraremdesespero.“MeuDeus,justohoje que está tudo de pernas para o ar na empresa, eu acordo atrasada, preciso correr”, pensou a moça. Ela não queria perder nem um momento na empresa, queria estar lá assim que Doutor Frederico chegasse. Logo queAndressa chegou na empresa, foi direto àsaladoFredericoparaverseelejáhaviachegado.Como não o encontrou, foi procurar por Carmem. Queria conversar um pouco mais com a amiga. Elas queriam estar enganadas, mas o medo era forte, e sentiam que algo sério tinha acontecido com o Doutor Frederico. Apósconversaremumpoucoetomaremocaféda manhã,foramparasuasmesascomeçarodiadetrabalho e esperar pelo Doutor Frederico. Ele, que nunca se atrasava, já estava fora do horário. Elas estranharam. Ele nem ao menos havia ligado para avisar. Muito estranho. “Algo de grave deve ter acontecido”. Isso fez com que a angústia delas aumentasse ainda mais. Passadas duas horas de atraso, o telefone de Carmem tocou. Era o Doutor Frederico, dizendo que estava quase chegando na empresa e pedindo para que ela não comentasse a ligação com ninguém. Quinzeminutosdepois,elechegou.Nãofaloubom dia, não passou nos outros departamentos como de costume e não tomou café. Frederico foi direto para sua
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    115 VONTADE DE VENCER sala,fechou a porta para que ninguém ouvisse o que ele ia fazer ou com quem ia falar. Ele nunca fechou a porta assim, a não ser quando tinha alguma reunião importante. Sua primeira ação foi ordenar que Carmem comparecesse imediatamente à sua sala. Carmem entrou e percebeu que as notícias não seriam boas, pelo menos para ela. Durante três horas eles conversaram, de portas fechadas, sem que ninguém os interrompesse. Doutor Frederico pediu à recepcionista que não passasse nenhuma ligação para ele, a não ser particular. Todos na empresa estavam aflitos.Alguns, felizes por já saberem o que estava acontecendo. Não dava mais para esconder de ninguém, já era nítido que duas correntes existiam ali dentro. Depois de conversar com Carmem, Doutor Frederico lhe solicitou um último favor. Pediu para que ela não comentasse com as pessoas da empresa o que tinha acontecido. Solicitou que Carmem deixasse que as coisas fossem acontecendo normalmente. As pessoas, mais cedo ou mais tarde, acabariam sabendo das “novidades”. Logo que terminou a conversa com Carmem, pediu para que Andressa fosse até a sua sala. Andressa, quando viu a cara da amiga, já sabia o que estaria por vir. Entrou e fechou a porta do mesmo jeito que Carmem havia feito.Aconversa deles demorou um pouco menos já que Frederico havia desabafado anteriormentecomCarmem.Oquetodostemiamdepois da conversa que o Doutor Frederico teve com o presidente, realmente aconteceu. Após ter contado para elas o que o presidente queria com a reunião às pressas, Doutor Frederico
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    116 THIAGO VENDITELLI CURY convidouAndressa, Carmem, Laiz e Matheus para um últimoalmoçojuntos.Pelomenosadespedidadelecomo superintendente da empresa. Porque, com certeza, eles manteriam um laço de amizade e carinho. Durante o almoço, conversaram bastante. Por incrível que pareça, não falaram em nenhum momento sobreaempresa,sobretrabalho,sobreoocorridooucoisas do tipo. Eram apenas amigos. Enquanto os aliados de Frederico saboreavam um deliciosoalmoço,ascoisasnaempresacontinuavamcomo nos últimos tempos. Fofocas, burburinhos, comentários pelos corredores e risadinhas. Os opositores do ex- superintendente pareciam estar felizes com a situação. Depois do almoço, assim que Doutor Frederico chegounaempresa,pegousuascoisasefoiembora.Nunca havia feito isto antes. Os colaboradores estavam espantados com a sua atitude, não sabiam ao certo o porquê, mas sabiam que coisa boa não era. Muitoatenciosamente,elesedespediudealgumas pessoas,pegouospapéisquetinhapedidoparaCarmem separar no dia anterior e foi embora. Mas o que será que realmente aconteceu na conversacomopresidente?Istoninguémjamaisirásaber, só o que souberam foi o que Frederico disse a Carmem e Andressanasreuniõesreservadas. Quando Frederico chegou na empresa do presidente para a reunião, estava presente também o diretordeorçamentos.Umapessoamuitorespeitadapor seu cargo e sua autoridade. Na falta do presidente em eventos,eraodiretordeorçamentosquelherepresentava. ElescomeçaramafalarparaFredericoquetinham um objetivo, o de lhe propor uma nova maneira de
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    117 VONTADE DE VENCER trabalhar.Queriam que ele fosse mais político nas suas decisões,emenos“atrevido”comsuasidéias.Opresidente considerava que a atitude de Frederico tinha sido audaciosa, no que dizia respeito ao novo modo de cobranças implantado por ele. Os dois falaram a respeito do desentendimento que ele tinha tido com o senhor Armandoedecomoeletratavaosfuncionários.Achavam que ele dava liberdade demais para as pessoas dentro da empresa, e que um funcionário deve saber o seu lugar. “Não se pode dar asas para os funcionários, porque se não eles irão voar”. O presidente da Junção chegou até a pedir que ele parasse com o projeto de cobrança, já que algumas empresas devedoras eram de integrantes do quadro de diretores, e não era muito político cobrar pessoas que trabalhavam em conjunto com eles. Afinal, muitos eram patrocinadores de eventos e ajudavam a empresa nas horasdifíceis. A reunião durou cerca de quatro horas. O presidenteeseudiretorpressionaramFredericoparaque ele mudasse sua maneira de liderar a equipe e interrompesse a cobrança nas empresas dos outros diretores. Queriam que ele fosse uma pessoa menos preocupadacomobem-estardosfuncionários.Chegaram até a falar que ele não teria mais autonomia nas decisões e nas mudanças que desejasse fazer dentro da empresa. ElescomunicaramaFredericoque,daquelediaemdiante, ele deveria se reportar ao diretor administrativo antes de fazer qualquer coisa. Indignadocomaspalavrasdopresidente,apoiado pelodiretordefinanças,DoutorFredericonãotinhaoutra saída: ou mudava seu estilo de trabalhar e atendia aos pedidosdopresidente,deixandodeladotudooquehavia
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    118 THIAGO VENDITELLI CURY feitoaté aquele momento pelos seus colaboradores, ou seria obrigado a se demitir. Sem pensar duas vezes, ele discordou de tudo e disse que não mudaria seu estilo de trabalho só para agradar a algumas pessoas. Neste caso, emespecial,amudançaqueestavamlhepedindoerapara que ele concordasse com as irregularidades das outras empresas, e ainda deixasse de se empenhar pelo bem- estar de seus colaboradores. Já que ele não concordava com a decisão do presidente, não tinha mais o que ser feito nem o que ser falado.Daquelemomentoemdiante,eleestavademitido. O presidente disse então que Frederico poderia pegar suas coisas pessoais na empresa e aguardar uma semana, para que a nova pessoa pudesse assumir o seu lugar. “Demaneiranenhuma!Eunãovouesperarmaisde uma semana, vocês que já tinham tudo isto muito bem planejado,comcertezajádevemteralgumapessoaemvista. Euesperosomenteatéofimdasemana,apartirdeamanhã”. O presidente estava de acordo. Pois o novo funcionário realmente já estava escolhido e pronto para iniciar suas atividades na empresa. O próximo superintendentetambémsabiadetudooqueelesestavam tramando, desde o início. Por não concordar com a sujeira das pessoas, com o trabalho desonesto, Doutor Frederico pagou o preço. Algunspensamdiferente,mastudodependedoquevocê realmente está disposto a fazer da sua vida. Seguir pelo caminhodobem,ajudaraspessoasàsuavolta,continuar com a honestidade e dormir com a cabeça tranqüila, ou aindaescolherpelocaminho“domal”,deixardesercomo você sempre foi, e acatar as ordens de superiores, mesmo
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    119 VONTADE DE VENCER sabendoque a sua mudança de comportamento pode prejudicar muitas pessoas ao seu redor.Acatar as ordens desuperioresénecessáriodesdequeelasnãoinfluenciem na sua maneira de ser e de agir. Cabe a cada um escolher o que vai fazer com a sua vida, só não vale reclamar das conseqüências das suas decisões. As pessoas que gostavam do Doutor Frederico sentiram muito o fato dele ter sido demitido, mas ele considerou a melhor decisão. Ele já não estava mais agüentando tanta cobrança, tanta discussão.
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    121 VONTADE DE VENCER CAPÍTULODOZE Muitas vezes, o que julgamos ser ruim para nós, paraosoutroséalgobom.Paraoscolaboradores,eraruim que o Doutor Frederico deixasse a empresa. Benefícios poderiamacabar,novasregrasseriamimpostaspelonovo funcionário, muitas mudanças e até mesmo demissões poderiam acontecer. Por outro lado, para o Doutor Frederico, o melhor afazereradeixaraempresadecabeçaerguida,felizpelos seus atos concretizados, mas triste por não poder dar continuidade aos seus projetos ali dentro. Ele não precisava se sujeitar àquelas condições. Possuía muitos contatos, amigos empresários, que, certamente,nãolhefechariamasportas.Poderiamuitobem voltaratersuaempresadeconsultoria,atendendoasfirmas
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    122 THIAGO VENDITELLI CURY deseus amigos e, assim, continuar os seus trabalhos e, quem sabe, até levar sua equipe para trabalhar com ele. Tudo é possível quando alguma coisa muda em nossas vidas. Basta ter calma e saber como superar os novos desafios. No dia seguinte, Doutor Frederico chegou um pouco mais tarde. Já que não era mais funcionário da empresa, não tinha o porque chegar tão cedo. Seus afazeres se tornaram poucos, suas obrigações menores ainda,somenteeraprecisoarrumarseusobjetospessoais, passar algumas coordenadas e ensinar o básico para o novo superintendente. Comoocombinado,onovofuncionáriochegouàs dezhorasparaquepudessemconversarumpouco.Doutor Frederico queria mostrar o que estava fazendo dentro da empresa e queria, também, apresentar o novo superintendente para os colaboradores e passar informaçõesimportantesparaqueelepudesseassumiro comando da empresa. Os amigos de Frederico estavam ansiosos pelas novidades. Queriam saber como seria dali para frente. Estava chegando o dia em que o Doutor Frederico não estaria mais presente na empresa, contra a vontade de muitos. Eles teriam que dar continuidade nos seus trabalhos e se adaptar ao novo superintendente. Ao fim da semana, Doutor Frederico já havia explicado todo o serviço para o novo funcionário, não tinha mais nada a fazer dentro da empresa.Aúnica coisa que ainda restava ser feita era apresentar para todos os colaboradores quem assumiria o seu lugar. Ele informou a todos que, no dia seguinte, faria umareunião,noauditório,às15horas,equeeranecessário
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    123 VONTADE DE VENCER quetodos estivessem presentes. Afinal, seria seu último dia na empresa. No horário combinado, todos estavam presentes noauditório.Mesmoosintegrantesdaaladosopositores estavam nervosos, já que ninguém sabia o que Frederico diria. Talvez por ele já estar fora da empresa, falasse tudo o que sempre teve vontade de falar, ou talvez somente fizesse a apresentação e não comentasse nada. Doutor Frederico entrou no auditório acompanhado do novo superintendente. Sentaram-se e Fredericopediuaatençãodaspessoas“boatarde,queridos amigos”. Disse isso em um tom bem sarcástico. —Estamosaquiporquetenhoalgumasnovidades para vocês. Algumas coisas irão mudar e posso garantir que irão mudar para melhor. Como algumas pessoas já devemsaber,adiretoriadecidiutrocardesuperintendente. Aqui está ele, Francisco, e, de hoje em diante, ele irá supervisionar todos vocês e do mesmo jeito que eu fiz. Esta semana, nós conversamos bastante, pude conhecer umpoucomaissobreeleesuasexperiênciasprofissionais, que por sinal são tão boas quanto as minhas. Compoucas,masbelaspalavras,DoutorFrederico proferiuatrocadecargo.Fezissoparaevitarquealgunsse revoltassem,ouatémesmoduvidassemdeseustrabalhos, podendo assim provocar suas próprias demissões. Passou a palavra para Francisco, que, ainda com um pouco de vergonha, conseguiu discursar sobre o seu perfil profissional e suas idéias. O novo superintendente disse que o primeiro passo seria conhecer todos os profissionais que ali trabalhavam, para depois definir se continuariam com suas funções, ou se haveria mudanças. Entretanto, esses não eram os
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    124 THIAGO VENDITELLI CURY planosda diretoria, o que eles queriam era demitir o maior número de pessoas, o mais rápido possível. Francisco até que falava bem. Mas se tinha bom caráter, os colaboradores só saberiam mais tarde. O que estava acontecendo era inevitável. Doutor Frederico não fazia mais parte daquela empresa, um fato que deveria serencaradocomacabeçaerguida.Oex-superintendente ainda pediu que todos os colaboradores dessem um voto de confiança a Francisco. Ao final da reunião com os colaboradores, era visível a felicidade de alguns. Cinicamente, uma das pessoas da ala dos opositores perguntou ao Doutor Frederico o porquê aquilo estava acontecendo, fingindo nãosaberdenada.“Algumaspessoasnãotêmescrúpulos mesmo, se sujeitam a todo tipo de chantagem e roubalheira e ainda se fingem de inocente, na maior cara dura”, comentavam os aliados de Frederico. Até que aquele dia terminasse, foi um sufoco para muitosalidentro.Orelógiopoderiamarcarmeia-noite,mas nãomarcariadezoitohoras.Pareciaquetodaaquelaangústia nãotinhamaisfim,eaindaparapiorar,aquelanovapessoa sentada na cadeira do Doutor Frederico transmitia uma sensação de medo aos colaboradores fiéis ao antigo superintendente.DoutorFredericojátinhaidoembora,mas ainda voltaria no dia seguinte para receber sua rescisão, e, definitivamente,despedir-sedoscolaboradores. NoúltimodiaemqueFredericoestevenaempresa, os colaboradores se juntaram para comprar um presente paraele.Andressa,comacolaboraçãodetodos,comprou umalindacaneta,poissabiaqueeleeraumcolecionador. O presente era uma forma de agradecimento por tudo o que ele tinha feito dentro da empresa.
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    125 VONTADE DE VENCER Nofimdatarde,quandooDoutorFredericoestava recolhendoseus últimos papéis, os colaboradores o surpreenderam em sua sala com o presente e um cartão. Após abrir o presente e ter agradecido,Andressa disse algumas palavras em nome de todos ali presentes. Umsimplespresente,comoformadeagradecimentopor tudooqueelefez,epelograndeamigoqueeradealguns alidentro.Daquelediaemdiante,asrelaçõesdeamizade permaneceriam, mesmo não trabalhando mais juntos. Andressa ressaltou o fato de que eles levariam para o resto de suas vidas as coisas boas que haviam aprendido com Frederico. Fredericoficousurpresocomaatitude,aindamais vindo de seus, agora, amigos. Sabia que o presente verdadeiro era somente de alguns. Após as mensagens pessoaisquealgunspreferiamescrever,eleseemocionou, seus olhos se encheram de lágrimas, e, para disfarçar, começou a rir dos recados. O pior momento estava realmente chegando, ele não estaria mais presente ali definitivamente. Os funcionários não ouviriam mais um bom dia alegre, não se sentiriam confortados nas horas difíceis do trabalho, muito menos à vontade para brigarem por algum direito ou melhoria. Tempos novos estavam para começar... Novos planos, novos comandos, muitas adaptações. Entretanto o medo e a insegurança tomavam conta das cabeças dos admiradores de Frederico.
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    127 VONTADE DE VENCER CAPÍTULOTREZE Começou,então,umanovafasenaJunçãoRecursos Humanos. No primeiro dia de trabalho do novo superintendente, bem cedo, antes mesmo do horário de inicio de trabalho, Francisco já estava na empresa. Ele chamou em sua nova sala todos os colaboradores, para dizer que, em breve, iriam conversar com mais calma, e que estava à disposição. Podiam contar com ele para o queprecisassem. Ele chegou a falar com todos os colaboradores, menoscomMatheus.Ninguémsabiaresponderomotivo, mas até que ele se explicasse, o melhor que tinha a ser feito era aguardar. Matheus não se preocupava com isso. Eleacreditavaquetudoacabariabeme,nomomentocerto, seria chamado para conversar. Se tudo procedia daquela forma, é porque deveria ser assim.
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    128 THIAGO VENDITELLI CURY Durantealgumas semanas, as coisas pareciam tranqüilas. Início de novos trabalhos, muitas reuniões, ainda mais porque o novo superintendente tinha que se reportar mais à diretoria do que o Doutor Frederico. Todos temiam ser demitidos, mas Matheus tranqüilizava seus amigos dizendo que ninguém seria dispensadoantesdofimdoano,poissabiaqueaempresa trocaria de endereço, indo para uma sede própria. E o momento mais oportuno para demissões seria na mudança, assim, já fariam a organização da nova sede com o novo quadro de funcionários definido. AlgumassemanassepassarameFranciscojáhavia conversadocomtodososcolaboradores,atémaisdeuma vez com alguns, menos com Matheus. Matheus chegava até a pensar que o senhor Francisco não queria falar com ele, por ser o funcionário mais novo dentro da empresa, o que sabia menos dos procedimentos. MatheusdecidiuentãofalarcomFrancisco.Queria saber o porquê da demora em conversar. — Senhor Francisco, posso falar com o senhor um minuto? — Claro que pode, Matheus. Por favor, entre. — Eu queria saber porque o senhor ainda não me chamou para conversar, já que com os outros o senhor já fez isso. — Fique tranqüilo, Matheus, em breve conversaremos. Eu ainda não o chamei porque estou preparando algo novo para você. O que as pessoas menos esperavam aconteceria. Um dia, logo pela manhã, Francisco decidiu conversar
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    129 VONTADE DE VENCER comMatheus. O superintendente foi até a sala onde Matheus estava e pediu para que ele o acompanhasse. Matheus,porsuavez,pensavaqueomomentoque tanto esperava tinha chegado e que era a hora de demonstrar todo o seu conhecimento, e poder ganhar a confiança do novo superintendente, do mesmo jeito que ganhou a confiança do Doutor Frederico. — Por favor, sente-se, Matheus, vamos conversar um pouco — disse o senhor Francisco, enquanto fechava a porta de sua sala. Antes de se sentar, Francisco já foi dizendo ao jovem que a noticia que ele tinha para lhe dar não era muito boa. Neste momento, Matheus já sentia que sua hora haviachegado.Suasmãoscomeçaramasuar,seucoração batia mais forte, parecendo saltar pela boca, uma ansiedade o dominava. — Infelizmente, Matheus, com todas estas mudanças,adiretoriaestácomnovosplanos.Comatroca de superintendente, eles decidiram demitir você, já que, além de ser o mais novo funcionário da empresa, o seu contratodeexperiênciavenceamanhã.Porestemotivo,a notícia que eu tenho para lhe dar é que você não faz mais parte desta empresa, a partir de amanhã. Matheus ficou indignado com o que acabara de ouvir. Tudo o que ele menos imaginava aconteceu. Ele foi demitido. Estava ali, frente a frente com sua dura realidade. Sem nenhuma preocupação, Francisco disse friamente ao rapaz que ele estava demitido, sem saber o que fazia dentro da empresa e para que havia sido contratado.Absolutamentenada.SimplesmenteFrancisco
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    130 THIAGO VENDITELLI CURY transmitiuo recado e, querendo sair da história como “bonzinho”,dissequeestavasomentecumprindoordens. Matheus não ficou quieto, tentou argumentar e brigarporumasegundachance,masnãoobtevesucesso. O jovem disse que seu potencial era maior do que todos ali dentro puderam conhecer nos meses em que ele trabalhou. Pediu por mais uma chance e se em mais três meses não correspondesse às expectativas do novo superintendente, aí, sim, concordaria com sua demissão. Nada do que ele disse fez com que Francisco mudassedeopinião.Ressaltouquenãocabiaaeledecidir quem ia ficar ou quem ia sair. Somente cumpria ordens. Inconformado com a decisão dos diretores e de Francisco, que com certeza teve participação no contexto dahistória,elesedirigiuaodepartamentofinanceiropara assinar os papéis e receber a sua rescisão. Os amigos de Matheus ficaram desesperados ao verem a sua feição de nervosismo, correram atrás dele para saber o que tinha acontecido, e quando ele disse que tinha sido demitido, ninguémacreditou. A única coisa que seus amigos podiam fazer naquele momento era confortá-lo e dizer que ele podia contar com o apoio de todos. Tristeeraasituaçãoemqueeleseencontrava,mas, comcalmaesabedoria,elepôdeperceberquesuamissão estava cumprida ali dentro da empresa, mesmo que em pouco tempo. Ele sabia que, se estava saindo, era porque algo melhor estaria por vir. Pessoas novas para conhecer e aprender com elas também. Ele sempre olhava o ponto positivo das situações, isso fazia com que as pedras em seucaminhosetornassemobstáculosparasuaevoluçãoe não para sua destruição.
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    131 VONTADE DE VENCER Nodia em que Matheus foi demitido, ele poderia assinarospapéiseirembora,maseledisseoqueaprendeu com o Doutor Frederico: “Enquanto ocupasse a sua cadeira, ele cumpriria com suas obrigações até o término do expediente, para poder sair da empresa de cabeça erguida como um vencedor, e não como um perdedor”. Neste mesmo dia, os seus amigos o convidaram paraalmoçar,comoformadeumadespedidadetrabalho, mas jamais despedida de uma amizade. Ali dentro, Matheus pôde conhecer pessoas maravilhosas, além de Andressa, que já conhecia, pois estudavam juntos na mesmafaculdade.Entãocontinuariasabendosobreoque acontecia, como os seus amigos estavam, e como o novo superintendenteestavatrabalhando. Matheus não deixou de ter contato com os antigos colegas,ligava,mandavae-mailse,quasetodasassextas- feiras,almoçavamjuntos,paramatarassaudadesesaber das novidades. Porumlado,MatheuseFredericoderamazar,tendo sido vítimas de pessoas ambiciosas e negativistas. Pode ser. Mas ambos acreditavam que momentos melhores estariam por vir e outras oportunidades apareceriam. Depois da demissão, Doutor Frederico e Matheus se tornaram pessoas mais experientes e mais sábias. Ambostiveramumaoportunidadepararecomeçarafazer o que sempre gostaram. Doutor Frederico voltou a ser consultor pessoal, algo que adorava fazer, e com isso teve mais tempo para a sua família. Matheus teve uma oportunidade de terminar seu curso de formação em Programação Neurolingüística, podendoassimalcançarumarealizaçãoprofissionalmaior
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    132 THIAGO VENDITELLI CURY doque a que tinha previsto dentro da empresa. Pôde contar também com o apoio de amigos e de seus pais, que o ajudaram a tomar suas decisões e a encarar as derrotas como degraus, degraus estes que serviram para subir, não para descer. Além de ter o apoio de amigos e familiares, Matheus contou também com o apoio de sua “família espiritual”,seusprotetores,sua“vozinterior”,quesempre oauxiliavanassuasdecisõesenassuasnovasempreitadas. Os amigos de Matheus e de Frederico que continuaram dentro da empresa, passaram por várias mudanças,novasfunções,novasregras.Elessabiamque, do lado de fora, havia pessoas que oravam e torciam por eles, desejando-lhes toda sorte do mundo. Matheus e Doutor Frederico nunca mais voltaram a se ver, mas se comunicavam por e-mail, colocavam as novidades em dia, e sabiam um pouco o que cada um estava fazendo. Ambos puderam até mesmo dar boas gargalhadas das situações que passaram na Junção. Mesmo com tudo o que aconteceu, eles não guardarammágoasenemrancores,poisnãoserviriapara nada. Continuaram amigos, seguindo com as suas vidas. Melhores oportunidades apareceram, pois eles nunca duvidaram do seu potencial. Sempre acreditaram em si mesmos, e, sendo assim, não poderia ser diferente. Alcançaramsucesso,felicidadenavidaeaauto-confiança.
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    133 VONTADE DE VENCER Agradeçoa todos e desejo-lhes crescimento profissional,pessoalefamiliar.Esperoqueestelivrotenha acrescentado algo de bom em suas vidas e no seu dia-a- dia.Esperoqueatinjamseusobjetivoscomêxito,felicidade eauto-confiança. Fim
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    135 VONTADE DE VENCER AESCOLHA Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia-noite. E minha força é escolher como vou viver minha vida a partir de hoje. Minhaescolhaéoquevaiguiarmeuspassosemeus caminhos. Posso reclamar porque está chovendo ou posso agradecer as águas por lavarem a poluição. Possoficartristepornãoterdinheiro,oumesentir encorajadoparaadministrarasminhasfinanças,evitando desperdícios. Posso reclamar sobre minha saúde, ou posso dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem dadotudooquequeria,oupossosergratoporternascido.
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    136 THIAGO VENDITELLI CURY Possoreclamar por ter que ir trabalhar, ou posso agradecer por ter um teto para morar. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmarcomapossibilidadedefazernovasamizades. Se as coisas não saírem como planejei, posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. Sempre há uma segunda chance... O dia está na minha frente, esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Saiba o que você quer para a sua vida, antes de esculpirseusdesejos. Pense, reflita, e assim que definir o que deseja, vá atrás, conquiste seus sonhos e seus ideais, você merece... Você é um vencedor! Thiago Venditelli Cury