UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB
            DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS VII
                    SENHOR DO BONFIM - BA




REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS ESTUDANTES DE PEDAGOGIA SOBRE O
          TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO - TCC



                            Por

                       MONICA ANDRADE




                      Senhor do Bonfim
                           2008
MONICA ANDRADE




REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS ESTUDANTES DE PEDAGOGIA SOBRE O
          TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO - TCC




              Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia-
              campus VII como requisito parcial para conclusão do curso de
              licenciatura em pedagogia. Habilitação em Docência e Gestão
              de processos educativos.

              Orientador: Paulo Batista Machado, Ph.D.




                        Senhor do Bonfim
                             2008
MONICA ANDRADE




 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS ESTUDANTES DE PEDAGOGIA SOBRE O
           TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO - TCC




Aprovada em ____/ ____/ _____


_____________________________
       Orientador


______________________________
  Professor (a) avaliador (a)


______________________________
  Professor (a) avaliador (a)




                                Senhor do Bonfim
                                     2008
Ao meu pai, José augusto, companheiro eterno de
lutas, a quem devo tudo o que sou.

À Sônia, tia querida, pela generosidade e pelo
carinho.

Ao Jairo, pelo apoio incondicional e incentivo
constante que me fizeram continuar, quando parecia
impossível.

Aos meus colegas de curso e sujeitos de pesquisa.
Agradecimento



A Deus.

À Universidade do Estado da Bahia - UNEB.

Ao departamento de Educação do campus VII.

Ao professor Paulo Machado pelo carinho e delicadeza com que me conduziu neste
trabalho.

A todos os professores do curso de pedagogia, pelos ensinamentos e incentivos.

A todos que me ajudaram de alguma forma neste período importante de minha vida.
RESUMO


O presente estudo é resultado de experiências vivenciadas no curso de pedagogia
da Universidade do Estado da Bahia – departamento de educação - campus VII -
Senhor do Bonfim e teve como objetivos: Identificar e Analisar as representações
sociais dos estudantes de pedagogia da referida instituição sobre o Trabalho de
Conclusão de Curso – TCC. Para realização da pesquisa, baseamo-nos no
paradigma qualitativo, onde utilizamos como instrumentos de coleta de dados o
questionário e a técnica da associação livre de palavras. Neste estudo apoiamo-nos
em autores que discutem questões relacionadas ao curso de pedagogia, como
Libâneo (2001); Libâneo e Pimenta (2004); Saviani (2007); autores que discutem a
pesquisa e o trabalho científico, como Eco (1998); Salomon (1991); Ludke (2005);
Kramer (1998); Lakatos (1991); Gohn (2005); Oliveira (2003); e às representações
sociais com Anadón e Machado (2003); Minayo (2000); Guareschi e Jovechlovitch
(2000); Coutinho e Saldanha (2005). Os resultados da pesquisa mostram que os
estudantes representam o TCC como um trabalho difícil, complexo, desafiador,
desgastante, desnecessário e que as representações sociais dos mesmos estão
relacionadas a sentimentos negativos, conflitivos, decorrentes de um processo
ideológico que permeia as relações entre esses sujeitos e o contexto da instituição
do qual fazem parte.

Conceitos – chave: Pedagogia, Trabalho de Conclusão de Curso, Representações
Sociais.
SUMÁRIO



Apresentação
.....................................................................................................................................
08
Capítulo                      I               -               Esboçando                          o                Problema
...................................................................................................................................
10
                   1.1          Uma análise do TCC e seu papel na graduação
                                12
                   1.1.2        Algumas considerações referentes ao trabalho de
                                conclusão                    de            curso                na            universidade
                                ....................................................................................................
                                13
                   1.1.3        O estudante e o TCC – relação conflituosa
                                15
                   1.1.4        Delimitando                                        o                              problema
                                17

Capítulo II - Quadro Conceitual
                   2.1          O curso de pedagogia no Brasil – breve histórico
                                19
                   2.1.1        O debate em torno das diretrizes do curso de pedagogia –
                                a docência como base da formação do pedagogo
                                ....................................................................................................
                                22
                   2.1.2        A pesquisa como espaço de reflexão no curso de
                                pedagogia
                                25
                   2.2          O            trabalho                científico               na            universidade
                                ..................................................................................................
                                27
                   2.3          Monografia                        ou                  TCC?                    Conceitos...
                                ..................................................................................................
                                29
                   2.3.1        A monografia e o desafio na construção do
                                conhecimento                    pelo           educando                na         graduação
                                ....................................................................................................
                                33
                   2.4          As Representações Sociais na construção de nosso
                                objeto                                          de                                       estudo
                                35
Capítulo                      III                -                Procedimentos                             Metodológicos
.....................................................................................................................................
40
                      3.1       Lócus                                         da                                     Pesquisa
                                42
                      3.2       Sujeitos
                                43
                      3.3       Instrumentos e Estratégias
                      3.3.1 Questionário
                                44

Capítulo IV - Análise de dados e interpretação dos resultados
                      4.1       Perfil                    dos                    sujeitos                      pesquisados
                                46
                      4.1.1 Motivos                         de                escolha                    do                curso
                                48
                      4.2       As representações sociais emergindo no discurso dos
                                sujeitos                                      pesquisados.
                                ....................................................................................................
                                49
                      4.2.1 Categoria primeira lembrança referente ao TCC
                                50
                      4.2.2 Categoria construção do TCC e experiências adquiridas
                                na                                                                                 graduação
                                ....................................................................................................
                                52
                      4.2.3 Categoria                                      processo                                  avaliativo
                                53
                      4.2.4 As representações sociais dos estudantes de pedagogia
                                a        partir          da        associação                 livre         de        palavras
                                ....................................................................................................
                                54
                      4.3       Considerações necessárias ao nosso objeto de estudo
                                58
Considerações                                                                                                              Finais
.....................................................................................................................................
61
Referências
.....................................................................................................................................
66
Anexos
.....................................................................................................................................
68
APRESENTAÇÃO


         O presente trabalho trouxe como objetivos Analisar e Identificar as
Representações Sociais dos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado
da Bahia – Campus VII em Senhor do Bonfim-Ba sobre o Trabalho de Conclusão de
Curso.


         Assim, construímos nosso estudo a partir da discussão em torno da seguinte
questão de pesquisa: Quais as representações sociais que os estudantes de
pedagogia da Universidade do Estado da Bahia têm sobre o Trabalho de Conclusão
de Curso ou TCC?


         No intuito de responder a essa questão buscamos entre os estudantes
concluintes de um curso de pedagogia noturno oferecido pelo departamento de
educação da referida universidade colher elementos que fossem significativos e
pertinentes ao nosso objeto de estudo, nesse sentido foi aplicado questionário entre
estudantes que estavam em fase de conclusão do curso e, conseqüentemente
passando pelo processo de construção do TCC.


         Através da análise e interpretação dos resultados obtidos junto aos sujeitos
da pesquisa tornou-se possível identificar as Representações Sociais dos mesmos
bem como a construção desse trabalho que também se configura como um Trabalho
de Conclusão de Curso e que se encontra organizado na forma a seguir:


         No capítulo I, esboçamos nosso problema de pesquisa a partir da discussão
em torno da exigência de construção do TCC na graduação e mais especificamente
no curso de pedagogia, as condições em que essa produção é instituída e alguns
pontos críticos que envolvem a sua construção pelo estudante, onde delimitamos
nosso objeto de estudo – as representações sociais dos estudantes de pedagogia
sobre o TCC – e esclarecemos os objetivos da pesquisa, bem como a relevância
social e científica da mesma.
9




No capítulo II construímos o corpo teórico do presente estudo, onde trabalhamos
com os seguintes conceitos-chave: Pedagogia, Trabalho de Conclusão de Curso e
Representações Sociais. Onde procuramos dialogar com estudos realizados por
teóricos que trouxessem elementos basilares às discussões.


      No capítulo III traçamos o caminho metodológico a conduzir nosso trabalho,
onde explicitamos os pressupostos epistemológicos em que nos apoiamos,
explicitamos os instrumentos de coleta, os sujeitos e o lócus da pesquisa.


      No capítulo IV estão presentes os resultados do estudo, onde é feita uma
discussão e uma análise crítica em volta dos mesmos, e onde se procura
estabelecer uma relação com os objetivos que nos conduziram por esse trabalho.


      Fechando o trabalho, as considerações finais, onde procuramos fazer alguns
apontamentos no sentido de chamarmos à reflexão os sujeitos a quem esse trabalho
possa interessar e onde colocamos nosso ponto de vista sobre questões
fundamentais que surgiram nessa pesquisa.
10



                                   CAPÍTULO I



                        ESBOÇANDO O PROBLEMA



      Segundo alguns autores, gradativamente, desde o final dos anos 80, foi-se
consolidando como prática acadêmica a elaboração dos Trabalhos de Conclusão de
Curso – TCC - atividade proposta como alternativa de avaliação da capacidade de
síntese dos conhecimentos adquiridos pelo estudante durante sua graduação.


      Dessa forma, tem-se como princípio que na produção do referido trabalho
deverão emergir as concepções adquiridas durante esse período, a capacidade de
análise crítica através da pesquisa e produção científica, o domínio epistemológico
de seu campo de conhecimento e a contribuição que esse futuro profissional poderá
dar ao progresso da sociedade e das ciências.


      Surgindo da necessidade de elevação do nível de qualidade dos cursos de
graduação e pós - graduação e das respectivas instituições, o TCC representa mais
que mera atividade acadêmica, sendo um dos elementos preponderantes nos
critérios indicadores de qualidade das universidades, estando presente na maioria
dos cursos em nível superior: “se, inicialmente, a exigência desse trabalho situava-
se apenas em algumas áreas como Direito, Serviço Social, Psicologia, hoje é uma
exigência da quase totalidade dos cursos de graduação e de pós-graduação”.
(OLIVEIRA, 2003).


      Dessa forma, a exigência de elaboração desse tipo de trabalho vem sendo
instituída também na maioria dos cursos de formação de educadores no Brasil, onde
é posta a indissociabilidade entre ensino e pesquisa, aspecto considerado
fundamental para a construção de um modelo, um padrão de qualidade dos cursos
de bacharelado e licenciatura dentro das instituições de ensino.
11



      Conseqüentemente, nos últimos anos vêm se travando alguns debates não só
em torno dos TCC, mas também em torno dos cursos de pedagogia, em que os
mesmos tornaram-se alvo de reflexões e críticas ao serem apontadas dicotomias
entre teoria e prática, ensino e pesquisa, conhecimento específico e conhecimento
pedagógico. (OLIVEIRA, 2003).


      A partir desse contexto e da necessidade de se estabelecer uma
especificidade para o curso de pedagogia e discutir-se a identidade profissional do
pedagogo ações foram desenvolvidas no sentido de atender a essas especificidades
no campo legal, e, após um longo processo de discussão instituíram-se as Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia, exaradas pelo Conselho
nacional de Educação (CNE) em 2006, numa tentativa de estabelecimento de uma
base comum que institui a docência como principio fundamental da formação do
pedagogo e alarga o campo de atuação do mesmo.


      As diretrizes, dentro desse contexto vêm também reiterando a importância da
pesquisa como oportunidade de integralização de estudos realizados durante a
graduação e desenvolvimento da capacidade de análise crítica voltada para a
realidade educacional, onde o pedagogo deverá estar apto a trabalhar com a
centralidade de informações e habilidades. A exemplo, as diretrizes em seu artigo 3°
estabelecem o conhecimento da escola como organização complexa que tem a
função de promover a educação para e na cidadania e a pesquisa, a análise e a
aplicação dos resultados de investigações de interesse da área educacional.


      Mais adiante, em seu Artigo 8º, inciso III as diretrizes tratam da integração de
estudos através também da realização de atividades complementares em que se
inclui o Trabalho de Conclusão de Curso, que deveria ser resultado dessa
integração, produto de um trabalho progressivo que aconteceria no decorrer dos
estudos a partir das diversas experiências vivenciadas pelo pedagogo em sua
formação.

                     Atividades complementares envolvendo o planejamento e o
                     desenvolvimento progressivo do Trabalho de Conclusão de Curso,
                     atividades de monitoria, de iniciação científica e de extensão, diretamente
                     orientadas por membro do corpo docente da instituição de educação
                     superior decorrentes ou articuladas às disciplinas, áreas de conhecimentos,
12


                         seminários, eventos científico-culturais, estudos curriculares, de modo a
                         propiciar vivências em algumas modalidades e experiências.(...).


       Ao situarmos as discussões feitas até aqui dentro de nosso campo de estudo,
passaremos a discutir sobre o Trabalho de Conclusão de Curso tendo como base o
contexto em que se desdobra o nosso centro de interesse mais específico. Dessa
forma, passaremos a debater as questões referentes ao Trabalho de Conclusão de
Curso dentro da Universidade do Estado da Bahia – Campus VII, partindo da análise
das representações sociais dos sujeitos que estão ou estarão vivenciando essa
experiência em um campo especifico do conhecimento que é o curso de pedagogia.


1.1 - Uma análise do TCC e seu papel na graduação


       O Trabalho de Conclusão de Curso recebe variadas denominações a
depender da grade curricular dos cursos que o utilizam e das normas internas de
cada instituição, recebendo genericamente a acepção de monografia, ou seja,
trabalho individual sobre um único tema, desenvolvido em torno de um problema que
pode ser analisado e discutido com base somente em referenciais teóricos ou a
partir de pesquisa de campo, onde os resultados são discutidos e submetidos aos
crivos científicos e filosóficos.


       O regulamento do Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade do
Estado da Bahia, em seu capitulo II, referente às finalidades e objetivos, artigo 3º,
incisos I, II e III, reza o seguinte:

                                 Art. 3º - O Trabalho de Conclusão de Curso, tendo como finalidade
                         primeira estabelecer a articulação entre o ensino e a pesquisa, ao tempo
                         em que estimula a atividade de produção científica e técnica, tem por
                         objetivos     proporcionar     ao    aluno    oportunidades     para:
                         I - aprimorar a capacidade de analisar e interpretar criticamente fatos e
                         ocorrências da realidade, na sua área de conhecimento;

                         II - desenvolver as habilidades de expressão escrita na produção de texto
                         científico de cunho monográfico;

                         III - desenvolver habilidades para a utilização de outras formas de
                         expressão através do uso das diversas linguagens traduzidas, dentre os
                         vários trabalhos acadêmicos, em produtos da comunicação multimídia,
                         projetos urbanísticos, produtos turísticos, experiências laboratoriais e/ou
                         projetos educacionais.
13




      Percebemos através da definição dada acima que a monografia recebe uma
conotação diversa quando em alguns momentos é apontada como oportunidade de
exercer a criticidade na análise da realidade e em outros momentos torna-se apenas
um meio para avaliação da capacidade de sistematização e síntese do aluno
concluinte através da escrita dentro dos padrões e do rigor formal da academia.


      Dentro dessa concepção a monografia define-se como uma forma de trabalho
científico, e como tal devendo estar submetido a normas específicas tanto no
processo de definição e abordagem do problema, que deve ser original, seguindo
uma metodologia definida e estar dentro das normas técnicas que regem esse tipo
de produção.



      Espera-se que através da utilização de instrumentos teórico-metodológicos o
educador desenvolva mais que habilidades de produzir textos científicos devendo
aliar essa produção a uma função social, interpretando a realidade cotidiana, dando-
lhe significado, observando os acontecimentos, aliando-os à prática docente e
buscando respostas que venham enriquecer o trabalho como um todo.


1.1.2 Algumas considerações referentes ao trabalho de conclusão de curso na
universidade


Ao tempo em que os cursos de pedagogia têm privilegiado a pesquisa, procurando
incorporá-la às diversas atividades acadêmicas através das disciplinas de
metodologia do trabalho científico e dos estágios, com a produção de projetos de
pesquisa, artigos científicos, relatórios e enfim o Trabalho de Conclusão de Curso
(TCC) percebe-se que não há clareza por parte dos futuros docentes-pesquisadores
quanto à definição do conceito de pesquisa e a sua finalidade, como afirma Oliveira
(2003).


                     Tais atividades, apesar de contribuírem para despertar a curiosidade do
                     aluno, não chegam a representar o verdadeiro conceito de pesquisa, ou
                     seja, a pesquisa como fruto da curiosidade e da inquietação do indivíduo
                     ou de um grupo, que busca, através de atividades sistemáticas, a
                     profundidade de um determinado aspecto da realidade, tendo consciência
14


                       de que, para tanto, se faz mister decidir por uma orientação teórico-
                       metodológica, pois ela é quem determinará o que é e o que não é
                       importante pesquisar, e que visão de homem, de mundo e de sociedade
                       tem o pesquisador.(p.36).



        A produção do Trabalho de Conclusão de Curso geralmente acontece nos
últimos semestres da graduação devendo decorrer a escolha do tema e problema de
estudo a partir dos diversos projetos de pesquisa desenvolvidos durante o curso.
Mas na pratica vê-se que existe uma grande descontinuidade em relação às
temáticas abordadas nesses trabalhos e á temática abordada no TCC.


        Outros aspectos relevantes para a discussão, além da descontinuidade, se
referem aos problemas relacionados ao suporte institucional necessário durante
esse período, onde a falta de professores – orientadores dentro da linha de pesquisa
escolhida pelos alunos concluintes, indefinição de problema de pesquisa pelos
mesmos, precariedade de acervo bibliográfico, prazos de entrega e devolução dos
trabalhos, falta de espaço para a discussão que envolva os estudantes nas questões
referentes à estruturação dessas atividades, são algumas das dificuldades
enfrentadas por quem realiza os trabalhos científicos.


        Ratificando o que foi dito, as normas para estruturação de trabalhos
monográficos de conclusão de curso no departamento de educação – Campus VII
da Universidade Estadual da Bahia vem trazendo a seguinte questão relacionada à
escolha do problema de pesquisa:

                       A atenção especial deve ser dada ao problema de pesquisa, já que toda
                       pesquisa se inicia com algum tipo de problema, ou indagação. Nem todo
                       problema é passível de tratamento cientifico. Isso significa que para se
                       realizar uma pesquisa é necessário, em primeiro lugar verificar se o
                       problema cogitado se enquadra na categoria de cientifico. O aluno deve
                       escolher um problema dentro das possibilidades de orientação dos
                       professores do departamento e desenvolver trabalho sob orientação do
                       mesmo. (p. 2).


        Vimos que as limitações presentes no desenvolvimento da pesquisa científica
estão    ligadas   principalmente    às   deficiências     estruturais   na    maioria    das
universidades, que se expressam na fragilidade e fragmentação dos cursos, dentro
de um modelo de Universidade que geralmente segue padrões de ensino e pesquisa
15



não condizentes com a realidade e especificidades próprias de cada contexto
histórico e social em que se insere.


       Percebe-se que por vezes o critério adotado para a exigência referente à
produção de trabalhos científicos dentro da universidade tem seguido mais uma
razão técnico-burocrática que representado um espaço real de discussão, onde o
educador possa vir a ser mais que mero reprodutor de conhecimento.


       Outra questão relevante que cabe discutir é a pouca disponibilidade de
espaço e tempo para que a atividade de elaboração do Trabalho de Conclusão de
Curso seja mais significativa e integrada ao processo formativo do discente
universitário.


       Isso se torna evidente quando se percebe que geralmente não há dentro do
espaço em questão a prática de atividades abertas à comunidade acadêmica,
envolvendo professores – orientadores e orientandos onde aconteça um processo
de socialização e troca de experiências, divulgação dos temas trabalhados e das
fases de desenvolvimento dos projetos no decorrer do processo de elaboração dos
trabalhos de conclusão de curso, como está posto no capitulo III, artigo 7º, inciso 4º
do regulamento geral de TCC, que trata da supervisão e coordenação dos trabalhos
de conclusão de curso da Universidade do Estado da Bahia – UNEB.



1.1.3 O estudante e o TCC – relação conflituosa



       Nota-se nos discursos da maioria dos estudantes de pedagogia uma
ansiedade premente ante a elaboração de trabalhos científicos, talvez por uma
representação equivocada da produção científica, que vê a mesma como
capacidade restrita a alguns poucos “gênios”, superdotados, gerando sentimentos
de insegurança e incapacidade.


       Sabemos que estes momentos geralmente são fonte causadora de
expectativa e angústia naquele que produz o trabalho científico, sendo objeto de
16



preocupações para estudantes que se sentem incapacitados em desenvolvê-lo, seja
por falta de experiência no desenrolar de sua formação, seja pelo sentimento de
inabilidade em leituras e produções científicas.


      Nos corredores da universidade nos deparamos com estudantes discutindo
sobre o TCC, narrando histórias “aterrorizantes” de colegas que passaram pela
experiência, ouvimos declarações de medo, medo de não dar conta de produzir um
trabalho desse tipo, medo das bancas examinadoras, indefinição do tema e do
problema de pesquisa.


      Percebem-se também atitudes de fuga que demonstram o desejo de adiar ao
máximo possível a elaboração do trabalho, ficando muitos alunos para definirem seu
tema de pesquisa no último semestre da graduação, começando a escrever faltando
poucos dias para a entrega e apresentação ou trancando a disciplina de Monografia
por mais alguns períodos.


      Portanto, com base no exposto acima julgamos pertinente a realização de um
estudo que vá em busca do que estes estudantes pensam, quais são as suas
preocupações, as representações que constroem reconstroem socialmente acerca
do objeto, como vivenciam esse processo.


      Ao debater questões concernentes à produção do TCC pelos estudantes
universitários, privilegiaremos a discussão em torno do curso de pedagogia da
universidade mencionada no que se refere às representações sociais dos
concluintes acerca do trabalho monográfico.


      Ao pretendermos analisar as representações sociais dos estudantes de
pedagogia estaríamos percebendo os mesmos como sujeitos que elaboram formas
de conhecimento através de “interações sociais, através dos valores, das crenças,
dos estereótipos (...) partilhadas por um grupo social, no que concerne a diversos
objetos, dando lugar a uma visão comum das coisas”, produzindo um saber
elaborado pelo senso comum, que não surge no vazio, que se constrói a partir de
trocas cotidianas (ANADON E MACHADO, 2003).
17



      Deste modo, ao situarmos nosso estudo no campo das Representações
Sociais, procuraremos situá-las como conceitos que são produzidos nas relações
entre sujeitos que compartilham espaços e situações semelhantes, como é o caso
dos estudantes que fazem parte de um mesmo curso ou que estão passando pela
experiência de elaboração de um trabalho monográfico.


1.1.4 Delimitando o problema


      Pensando em algumas destas questões, experimentando as angústias
descritas, como estudante prestes a concluir o curso de pedagogia pela
Universidade do Estado da Bahia e conseqüentemente, passando pela experiência
de elaboração e apresentação do TCC, observando as reações de colegas, e
também de outros cursos, surge a seguinte questão de pesquisa: Quais as
representações sociais que os estudantes de pedagogia da Universidade do Estado
da Bahia - campus VII têm sobre o trabalho de conclusão de curso – TCC?


   No intuito de buscar respostas a essa indagação, definimos como objetivos de
nossa pesquisa:


   1. Identificar as representações sociais dos estudantes de pedagogia da
      Universidade do Estado da Bahia - Campus VII sobre o Trabalho de
      Conclusão de Curso.


   2. Analisar as representações sociais dos estudantes de pedagogia da
      Universidade do Estado da Bahia - Campus VII sobre o Trabalho de
      Conclusão de Curso.


   Cremos que a relevância desse estudo está em colaborar para que se dê voz
aos sujeitos da pesquisa sobre um problema que os interessa particularmente,
oferecendo subsídios para traçar-se um perfil, não conclusivo, da visão desses,
percebendo-se como os mesmos vêem a pesquisa acadêmica, como se vêem nesse
processo e quais os significados elaborados pelo chamado “senso comum”
18



construído a partir das interpretações e reconstruções da realidade, produzidas
dentro de um grupo, na relação entre seus pares.


   Acreditamos que a contribuição que podemos trazer com o presente estudo está
em tratarmos de uma questão que pouco é discutida no meio acadêmico e científico
sob a perspectiva dos sujeitos a quem o problema se destina e, dessa forma,
ensejar uma desmistificação da produção científica, ao tempo em que estaremos
trazendo elementos pertinentes para a discussão no sentido de se propiciar o
diálogo entre o sujeito e o conhecimento, entre o estudante e a universidade.
19



                                 CAPÍTULO II



                            QUADRO CONCEITUAL



      Ao identificarmos e analisarmos as representações sociais dos estudantes de
pedagogia sobre o Trabalho de Conclusão de Curso alguns conceitos chave
emergem com elementos norteadores da discussão em torno da qual se desenvolve
nosso problema de estudo.



      Dessa forma partiremos da discussão sobre o curso de pedagogia, fazendo
uma abordagem histórica do mesmo, a sua especificidade no campo das ciências da
educação, o debate em torno das novas diretrizes para o curso, como se inserem
essas discussões em nosso objeto de estudo. Assim sendo, estaremos analisando o
TCC, seu conceito, o papel do mesmo na formação do pedagogo, sua função
avaliativa e formadora e o princípio que põe o mesmo como espaço para a reflexão
crítica bem como preparação para a pesquisa na formação docente.



      Como eixo norteador da discussão, as Representações Sociais, que nos
conduzirão pelos significados, simbologias, crenças e imagens tecidas, construídas
e compartilhadas pelos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da
Bahia UNEB - Campus VII, Senhor do Bonfim, sobre a temática em questão.



2.1 O curso de pedagogia no Brasil – breve histórico



      Ao longo da historia da chamada civilização ocidental, a pedagogia foi se
firmando como correlato de educação, entendida como o modo de apreender ou de
instituir o processo educativo. Dessa maneira, a pedagogia se desenvolveu em
íntima relação com a prática educativa, constituindo-se em teoria ou ciência dessa
prática. (SAVIANI, 2007).
20



      Segundo Libâneo (2001) existe uma idéia de senso comum de que pedagogia
é o modo como se ensina, dessa forma, o pedagógico diria respeito ao
metodológico, aos procedimentos.



      Para o autor, a pedagogia é ao mesmo tempo um campo de conhecimento
sobre a problemática educativa na sua totalidade e historicidade e diretriz
orientadora da ação educativa.


                     Pedagogia é, então, o campo de conhecimento que se ocupa do estudo
                     sistemático da educação, isto é, do ato educativo, da prática educativa
                     concreta que se realiza na sociedade como um dos ingredientes básicos da
                     configuração da atividade humana. (Libâneo, p.22).


      A institucionalização da pedagogia no Brasil se deu primeiramente através da
criação dos chamados Institutos superiores de educação, “concebidos como
espaços de cultivo da educação encarada não apenas como objeto do ensino, mas
também da pesquisa” (SAVIANI, 2007). Depois a tarefa de formar bacharéis e
licenciados ficou a cargo das Faculdades Nacionais de Filosofia.



      A criação do Curso de Pedagogia no país se deu através do Decreto-lei n°
1190, de 1939, com a dupla função de formar o bacharel (ou técnico em educação)
e o licenciado, através da fórmula que ficou conhecida como “3+1”. Isto é, o
estudante de Pedagogia cursava nos três primeiros anos as disciplinas de
conteúdos científico-culturais, formando-se bacharel. Em seguida, continuava
estudando por mais um ano, cursando as disciplinas de natureza pedagógica, e se
licenciava.


                     Foram definidos, para todos os cursos, os respectivos currículos plenos.
                     Para o Curso de Pedagogia foi previsto o seguinte currículo: 1º ano:
                     Complementos de Matemática; História da filosofia; Sociologia;
                     Fundamentos Biológicos da educação; Psicologia Educacional; 2º ano:
                     Psicologia Educacional; Estatística Educacional; História da Educação;
                     Fundamentos Sociológicos da Educação; Administração Escolar; 3º ano:
                     Psicologia educacional; História da Educação; Administração Escolar;
                     Educação Comparada; Filosofia da Educação. Vê-se que Psicologia
                     Educacional se destaca, pois é a única disciplina que figura em todas as
                     séries. Em seguida posicionam-se História da Educação e Administração
                     Escolar, figurando em duas séries. Às demais disciplinas, reservaram-se
                     apenas um ano de estudo. (SAVIANI, 2007 p.117).
21



        Dessa forma, na ultima fase de seus estudos o bacharel em pedagogia
poderia licenciar-se cursando algumas disciplinas referentes à didática, ficando essa
organização até depois da regulamentação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional – LDB – n. 4.024, de 20 de dezembro de 1961.



        Decorreu também da promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da
educação nacional a organização do curso de pedagogia em quatro anos,
englobando o bacharelado e a licenciatura, o que corresponde, portanto, à duração
anterior. Dessa maneira as disciplinas de licenciatura poderiam ser cursadas
simultaneamente ao bacharelado.

        Após varias regulamentações implementadas pelo Conselho Federal de
Educação, entre as quais a que regulamentava a formação do especialista nas
várias habilitações (CFE 251/62), em 1969 a partir do parecer CFE 292/69 é abolida
a distinção entre licenciatura e bacharelado, mantendo-se a formação do
especialista em várias habilitações e estabelecendo que o formado em pedagogia
receba o titulo de licenciado. (LIBÂNEO, 2001).

        Segundo Saviani (2007), o aspecto mais característico da referida
regulamentação foi a introdução das habilitações visando a formar "especialistas"
nas quatro modalidades indicadas (Orientação Educacional, Administração Escolar,
Supervisão Escolar e Inspeção Escolar), além do professor para o ensino normal.

        Assim os cursos de pedagogia das diversas faculdades de educação no país
tinham um currículo unificado, uma base comum e uma parte diversificada. Essa
regulamentação do Curso de Pedagogia, não obstante as tentativas de modificação,
de iniciativa do próprio Conselho Federal de Educação e do movimento organizado
dos educadores em todo o país, permaneceu em vigor até a aprovação da nova Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (n. 9.394), em 20 de dezembro de
1996.

        Segundo Libâneo (2001), em meados da década de 1980, algumas
Faculdades de Educação, por influência de pesquisas e debates em encontros e
indicações do movimento nacional pela formação do educador suspenderam ou
suprimiram as habilitações convencionais (administração escolar, orientação
22



educacional, supervisão escolar, etc.), para investir num currículo centrado na
formação de professores para as series iniciais do ensino fundamental e curso de
magistério.

      A LDB 9394/96, em vigor até os dias atuais, em seu artigo 64 vem instituindo
a formação do professor da educação básica em instituições de nível superior e
ainda devendo ser habilitado para as funções de administração, planejamento,
inspeção, supervisão e orientação educacional:

                       Art. 64. A formação de profissionais de educação para administração,
                       planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a
                       educação básica, será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em
                       nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta
                       formação, a base comum nacional.




2.1.1 O debate em torno das diretrizes do curso de pedagogia – a docência
como base da formação do pedagogo.


      No processo de promulgação da LDB, é levantada a polêmica em torno da
formação do professor da educação básica, e se institui essa formação nos institutos
superiores de educação através do curso normal superior (art. 62 e 63), dando
espaço para que a pedagogia que vem reiterando ser a sua base a docência seja
descaracterizada. Essa docência se dando nas séries iniciais do ensino fundamental
e educação Infantil.

                       É claro que esse reducionismo, descaracterizando a pedagogia como
                       campo teórico-investigativo e identificando-a com uma licenciatura, teve
                       conseqüências na discussão sobre o papel das faculdades de educação.
                       Muitos não aceitam essa ligação, mas creio que nossa argumentação
                       ajuda a entender a questão. Uma vez dispensadas as habilitações e
                       reduzindo-se o papel das faculdades de educação a proporcionar
                       licenciatura para formar professores para as séries iniciais e para o curso
                       Normal, não se teria mais o curso de pedagogia (stricto sensu). Ou seja, já
                       não teria sentido a existência das faculdades de educação, bastando
                       transformá-las em centros de formação de professores. Não estaria aí a
                       origem da criação dos Institutos Superiores de Educação? (LIBÂNEO E
                       PIMENTA, 1999, p.252).




      Cabe destacar no processo das sucessivas reformulações do curso de
pedagogia no país o movimento empreendido pelos movimentos nacionais em prol
23



da formação do professor, estando presente no debate que se aprofundou nas
décadas seguintes a respeito da identidade do pedagogo no Brasil, identidade esta
fragmentada por um currículo e por uma profissionalização insatisfatórios para
realizar uma tarefa efetivamente educativa. (LIBÂNEO e PIMENTA, 1999).




       Assim, entendendo que as proposições trazidas no bojo das formulações do
curso de pedagogia não atendiam às especificidades educacionais presentes na
realidade brasileira e baseando-se no princípio de que a base da formação do
pedagogo é a docência, amplos debates foram empreendidos, principalmente
quando da promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB
9394/96), tanto em torno da identidade do curso de pedagogia quanto do pedagogo.



       Dentro dessas discussões surge o questionamento acerca da pedagogia
como campo de conhecimento, que possui estatuto próprio, ou mero curso
profissionalizante destinado à formação do professor das séries iniciais e matérias
pedagógicas e do pedagogo licenciado ou bacharel, atuando nos diversos espaços,
gerindo os diversos processos educativos presentes na sociedade.



       Atualmente os debates acerca das reformulações para o curso de pedagogia
giram em torno da tese de que o mesmo destina-se à formação de um profissional
habilitado a atuar no ensino em educação infantil e nas séries iniciais do ensino
fundamental, na organização e na gestão de sistemas, unidades e projetos
educacionais e na produção e difusão do conhecimento, em diversas áreas da
educação, tendo a docência como base obrigatória de sua formação e identidade
profissional.

                     Com uma história construída e consolidada no cotidiano das Faculdades e
                     Centros de Educação do país, o curso de graduação em Pedagogia, nos
                     anos 90, emergiu como o principal lócus da formação docente dos
                     educadores para atuar na educação básica, na Educação Infantil e nos Anos
                     Iniciais do Ensino Fundamental. Dentro desse escopo, a formação dos
                     profissionais da educação, no Curso de Pedagogia, constitui
                     reconhecidamente um dos principais requisitos para o desenvolvimento da
                     educação básica no país.(ANFOPE, ANPED, CEDES, 2004. Disponível em
                     www. anped. org. br).
24



      No âmbito da discussão sobre as novas diretrizes para o curso de pedagogia,
vozes têm se levantado no sentido de se contestar, sobretudo, o principio de que a
docência se constitui a base da formação do pedagogo. Neste sentido, podemos
destacar o pensamento de Libâneo e Pimenta (1999):

                     Com efeito, o princípio que se tornou o lema e o apelo político da Anfope é
                     conhecido: a docência constitui a base da identidade profissional de todo
                     educador, todos os cursos de formação do educador deverão ter uma base
                     comum: são todos professores. Conforme já afirmamos, esse princípio
                     levou à redução da formação do pedagogo à docência, à supressão em
                     alguns lugares da formação de especialistas (ou do pedagogo não
                     diretamente docente), ao esvaziamento da teoria pedagógica em virtude da
                     descaracterização do campo teórico-investigativo da pedagogia e das
                     demais ciências da educação, à retirada da universidade dos estudos
                     sistemáticos do campo científico da educação e, em conseqüência, da
                     formação do pedagogo para a pesquisa específica na área e para o
                     exercício profissional. (p. 249).



      Os autores vêm afirmando que a proposta trazida pelas diretrizes reincide em
“velhas problemáticas”, tais como "inchaço" do currículo, pretensões ambiciosas
quanto à diversidade de profissionais a serem formados, aligeiramento da formação,
empobrecimento na oferta de disciplinas e impossibilidade de se dar ao curso o
caráter de aprofundamento da ciência da educação para formar o pesquisador e o
especialista em educação. (LIBÂNEO E PIMENTA, 1999).


      O que se pode depreender das discussões levantadas até aqui é que os
cursos de pedagogia no país vêm passando por um longo processo de indefinição.
Ao tempo em que algumas correntes de pensamento defendem a sua especificidade
dentro da docência, outras defendem a posição de que o curso de pedagogia não
deveria se resumir somente à licenciatura.


      Enquanto existem posicionamentos que o colocam como destinado à
formação do professor aliada à formação do bacharel, outros apontam a
impossibilidade de se formar o especialista e o professor dentro de um currículo que
não preencheria as necessidades teórico - práticas e epistemológicas dessa
formação.


      Enquanto existem correntes de pensamento que apontam a necessidade de
se ter no curso de pedagogia uma preocupação em formar o professor que ao
25



mesmo teoriza, investiga e reflete sobre a prática educativa, levantam-se críticas
que apontam o caráter meramente tecnicista dessa formação.


      Dentro dessa diversidade de posicionamentos cabe cogitarmos sobre o
espaço dado à reflexão, à discussão que é empreendida pelo sujeito que vivencia
esses processos, a quem os resultados das sucessivas reformulações e
reestruturações dos cursos de pedagogia diretamente atingem, como o pedagogo, o
docente vê as questões que dizem respeito à sua formação.


2.1.2 A pesquisa como espaço de reflexão no curso de pedagogia


      A institucionalização dos cursos de pedagogia no país veio acompanhada
pelo debate em torno da problemática se este seria mero curso profissionalizante,
destinado a formar o professor, dotando-o de técnicas e método de ensino, ou se a
pedagogia se constitui em um campo educativo que também é espaço de reflexão,
teorização sobre a prática, sobre a realidade educacional.


      Nos tempos atuais o debate tem girado em torno da concepção de um curso
de pedagogia que possibilite a formação docente aliada à formação do sujeito que
não só saiba ensinar, transmitir o conhecimento, mas que também contribua para
sua elaboração / construção através da pesquisa, investigue, teorize sobre a
realidade, sobre a prática.


      Assim, têm sido recorrentes os debates em torno do papel da pesquisa na
formação docente, estando este princípio presente em leis e documentos, nos
currículos das licenciaturas em nível superior e no discurso de inúmeros pensadores
que se dedicam à educação em todo o mundo.


      Estudos têm apontado que a mesma deve estar presente não só no contexto
da formação como também aliada à prática do professor no cotidiano da sala de
aula, dessa forma, a maioria dos cursos de formação docente no país vem trazendo
como princípio a indissociabilidade entre ensino e pesquisa. (GOHN, 2005).
26



       As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em
pedagogia em seu Art. 3º Parágrafo único, inciso I vêm ratificando o principio da
pesquisa como elemento central na formação do pedagogo, bem como “a análise e
a aplicação dos resultados de investigações de interesse da área educacional’”.


       Em documento da Anfope, que debate sobre as diretrizes curriculares para o
curso de pedagogia, a pesquisa é aliada à prática pedagógica, esta entendida como
instrumento de iniciação à pesquisa e ao ensino e forma de articulação entre teoria e
prática.
                      A prática pedagógica, como instrumento de iniciação à pesquisa e ao
                      ensino, na forma de articulação teoria-prática, considera que a
                      formação profissional não deve se desvincular da pesquisa. A
                      reflexão sobre a realidade observada gera problematizações e
                      projetos de pesquisa entendidos como formas de iniciação à
                      pesquisa    educacional.    (ANFOPE,     2005.    Disponível    em
                      www.anped.org.br)


       De acordo com Oliveira (2003), desde o início dos anos 90, há um cuidado
em se olhar com mais atenção para aspectos do cotidiano dos cursos de graduação,
que antes se desenvolviam sem um planejamento explícito e ao critério da vontade
individual dos professores e coordenadores. “Entre esses aspectos destacam-se: a
iniciação científica, o estágio curricular e o trabalho de conclusão de curso”.



       A autora, ao analisar as concepções de egressos de um curso de pedagogia
sobre o TCC, defende a tese de que o mesmo se caracteriza como uma experiência
possibilitadora de iniciação à pesquisa e coloca que há uma grande mistificação da
mesma dentro da universidade:


                      A mistificação da pesquisa no campo universitário e, conseqüentemente, a
                      sua definição exclusivamente baseada em cânones científicos, configuram-
                      se como uma das principais dificuldades para realizar a formação de
                      professores na universidade, tomando a pesquisa como princípio formativo.
                      (OLIVEIRA, 2003, p.40).



       Essa mistificação também está relacionada às formas como os sujeitos têm
representado os processos que envolvem a produção/ reprodução do conhecimento,
compreendido a construção do trabalho científico, o papel que este desempenha na
sua formação.
27



2.2 O trabalho científico na universidade



       Ao buscarmos identificar e analisar as representações sociais dos estudantes
de pedagogia sobre o Trabalho de Conclusão de Curso estaremos direcionando a
discussão a partir do conceito de trabalho cientifico que é exigido pela universidade
para efetivação da formação do estudante de graduação e que, portanto possui
especificidades que o distinguem dos outros tipos de trabalhos científicos produzidos
no contexto da academia em cursos de pós-graduação, por exemplo.



       Na busca de referenciais que pudessem dar o aporte teórico necessário à
discussão em torno do TCC pudemos perceber que a literatura sobre o tema ainda é
um pouco escassa, resumindo-se em sua maioria aos manuais de metodologia
cientifica que vem caracterizando esse tipo de trabalho.



       Pela análise das obras encontradas pode-se perceber que o TCC é
caracterizado dentro da categoria de trabalho cientifico, portanto devendo estar
condicionado às formalidades próprias desse tipo de atividade, devendo ser
elaborado dentro de normas técnicas específicas, sendo um de seus princípios o
rigor formal.



        Eco, (1998) chama a atenção para o que qualificaria um estudo como
científico. Para tal, o mesmo devendo estar dentro dos seguintes requisitos, segundo
o autor:

                      1. O estudo se debruça sobre um objeto reconhecível e definido de tal
                      maneira que seja igualmente reconhecível pelos outros. 2. O estudo deve
                      dizer do objeto algo que ainda não foi dito ou rever sob uma óptica
                      diferente o que já se disse. 3. O estudo deve ser útil aos demais. 4. O
                      estudo deve fornecer elementos para a verificação e contestação das
                      hipóteses apresentadas. (p 21-23).


       Alguns autores apontam que apesar de alguns trabalhos feitos na
universidade poderem ser enquadrados na categoria de cientifico, não basta que os
mesmos apliquem o conhecimento científico a uma série de problemas da vida
humana, individual ou coletiva, ou seja, que alguns trabalhos apenas copiem da
28



ciência a metodologia de tratamento ou relacionam-se de alguma forma com a
ciência ao seguirem normas preestabelecidas para abordar e comunicar. “(...) a
atividade cientifica por excelência é a que procura a teoria dos fatos; é a atividade
que se identifica com a ciência pura” Salomon (1991).



       O autor afirma ainda que uma atividade é científica quando produz ciência ou
dela deriva ou acompanha seu modelo de tratamento e que em decorrência,
trabalho científico passa a designar a concreção de atividade cientifica, ou seja, a
pesquisa e o tratamento por escrito de questões abordadas metodologicamente.



       Assim, podemos perceber que no lócus acadêmico, trabalhos científicos
podem ser tanto resultados de atividades produzidas pelos alunos nas disciplinas de
um curso de graduação, como relatórios, artigos, projetos de pesquisa; quanto pode
ser a monografia produzida no final do curso, as dissertações de mestrado e as
teses de doutorado ao nível de pós-graduação, desde que estes estudos estejam
dentro de um padrão, de um método e sigam as normas específicas que possam
dar-lhes o estatuto de científico.



       Dessa forma o estudante da graduação deverá ser desde cedo introduzido no
campo da produção cientifica, onde o mesmo seja habituado a produzir, (e não
somente reproduzir) os padrões de cientificidade capazes de validarem os estudos
que porventura venha a desenvolver no desenrolar de sua carreira profissional, ou
no continuum de sua formação em cursos de pós-graduação, por exemplo, onde
possa vir a escolher o caminho da pesquisa como campo de atuação.



       Buscando subsídio para o que foi dito acima, vejamos o que diz Salomon
(1991) ao se referir à produção do trabalho científico pelo estudante de graduação:

                       (...) o fundamental no curso de graduação é criar uma mentalidade
                       cientifica, condição necessária para se formar o profissional de nível
                       superior. Da formação dessa mentalidade faz parte integrante e
                       insubstituível a realização pessoal do conhecimento científico. E para se
                       conseguir produzir o próprio conhecimento, ou seja, se adquirir ativamente
                       a ciência necessária à formação profissional, o caminho por excelência é o
                       trabalho científico. (Introdução, p.12).
29



       Neste sentido, Gohn (2005) vem trazendo considerações e elementos
importantes na compreensão acerca do pensamento científico que serve de guia
para a compreensão da “essência” dos fenômenos e para a apreensão de uma
realidade dialética:


                       Científico seria o pensamento que não se contente com a forma como o
                       conhecimento se manifesta pela situação, mas o questiona. Constrói-se a
                       partir da investigação dos fatos reais, distinguindo-se o que é “essencial”,
                       do que é “acessório”, ficar no essencial é necessário para se romper com
                       as representações ilusórias, imediatas. (p. 255).



       Dessa forma, tem-se colocado no meio acadêmico e científico a necessidade
do desenvolvimento pelo sujeito da capacidade de refletir, teorizar, problematizar,
construir o saber e com ele contribuir tanto para o seu desenvolvimento pessoal
quanto da sociedade em que se insere. É assim que se tornam cada vez mais
comuns as atividades acadêmicas que servem de exercício para a construção do
conhecimento e da reflexão pelos sujeitos em formação, entre essas atividades,
destaca-se o Trabalho de Conclusão de Curso ou Monografia.




2.3 Monografia ou TCC? Conceitos...



       Nas discussões sobre o que caracterizaria o trabalho científico dentro da
universidade vê-se que este apresenta diferentes denotações, denominações,
dependendo do tipo de trabalho que se desenvolve, dos objetivos que se buscam
atingir e dos métodos empregados na sua construção. No presente capitulo
estaremos nos debruçando sobre o conceito de TCC (Trabalho de Conclusão de
Curso) ou Monografia, como é mais comumente conhecido no jargão universitário,
mormente na graduação.


       Historicamente, o termo monografia tem sido conceituado de várias formas,
no entanto, há um consenso geral em defini-la como um trabalho escrito resultante
do estudo de um aspecto particular de determinado assunto. Segundo Lakatos e
Andrade (1991), essa definição tem sua origem no século XIX, a partir de um
método das ciências sociais que culminou com o trabalho “Monografia da família
30



operária”, publicado por Le Play em 1855. De acordo com as autoras “o método
empregado por Le Play partiu do princípio de que qualquer caso que se estude em
profundidade pode ser considerado representativo de muitos outros ou até de todos
os casos semelhantes”. (LAKATOS e ANDRADE, 1991).



       Ao analisarmos etimologicamente a palavra monografia vemos que a mesma
se forma a partir da junção dos termos mono (um) e graphein (escrita), sendo dessa
forma um trabalho cientifico que tem como um dos princípios a especificação, a
redução da abordagem a um só assunto, a um só problema. (SALOMON, 1991).



       Eco (1998) em sua obra “Como se faz uma tese” ao referir-se ao trabalho que
é desenvolvido quando se pretende obter o título de mestre ou doutor nas
universidades italianas traz elementos interessantes também no que se alude à
produção de um bom trabalho científico, seja ele de pós-graduação ou graduação.
Segundo o autor, “uma monografia é a abordagem de um só tema, como tal, se
opondo a uma ‘ historia de”, a um manual, a uma enciclopédia, (...) é uma análise de
um tema específico”.



       Dessa forma, cabe situarmos o conceito de monografia como produção
cientifica que parte da análise de um tema específico, no sentido que lhe é atribuído
por vários autores (dos quais, alguns veremos a seguir), que lhe atribuem variadas
significações a depender de cada contexto, onde recebe definições tanto num
sentido lato quanto num sentido estrito.



       Segundo Salomon (1999), em sentido lato, monografia é todo trabalho
científico de primeira mão, que resulte de pesquisa. Em sentido estrito, a monografia
se identifica com a tese, ou seja, tratamento escrito de um tema específico que
resulte de pesquisa científica com o escopo de apresentar uma contribuição
relevante e original à ciência.
31



      Vemos a partir da definição dada pelo autor que o termo monografia pode se
referir tanto ao trabalho final de conclusão de curso, quanto às dissertações de
mestrado e as teses de doutorado.



      Segundo Monteiro, (Apud OLIVEIRA, 2003), o que diferencia um Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC) de uma dissertação ou uma tese é o grau de exigência e
o nível de investigação e profundidade na sua elaboração. O autor ainda coloca que
a acepção Monografia pode ser atribuída a qualquer um desses trabalhos, embora o
senso comum atribua o sentido de dissertação ao trabalho que é realizado no
mestrado e de tese ao que é produzido no doutorado.



Ainda buscando caracterizações para o que chamamos de monografia, observemos
o que diz Inácio Filho (2005):


                      Podemos caracterizar a monografia como uma síntese de leituras,
                      observações, reflexões e críticas, desenvolvidas de forma metódica e
                      sistemática por um pesquisador que relata a um ou mais destinatários um
                      determinado escrito que seja o resultado de suas investigações, as quais,
                      por sua vez têm origem em suas inquietações acadêmicas. (p. 80).



      Assim sendo, pode-se depreender que no Trabalho de Conclusão de Curso,
espera-se do estudante que demonstre ser capaz de sintetizar informações,
discorrendo sobre um determinado problema de forma clara e concisa, utilizando-se
corretamente de determinados preceitos teórico-metodológicos, não deixando de
aliar essa produção a um olhar critico e a uma reflexão mais ou menos aprofundada
da realidade.



      Os princípios presentes acima vêm reafirmar o pressuposto de que a
produção da monografia (TCC) deverá ser o tipo de trabalho que dê um recorte
original a um tema através da sistematização e organização de dados disponíveis
pela sua relevância, em determinadas fontes, como afirma Inácio Filho (2005): “Da
busca, da reflexão e da crítica, resulta a monografia, que deverá conter mais fatos
que opiniões”.
32



       Para Lakatos (1991, p.152), as características que devem ser observadas ao
conceituar monografia são:


                       a) trabalho escrito, sistemático e completo;
                       b) tema específico ou particular de uma ciência ou parte dela;
                       c) estudo pormenorizado e exaustivo, abordando vários aspectos e ângulos
                       do caso;
                       d) tratamento extenso em profundidade, mas não em alcance;
                       e) metodologia científica
                       f) contribuição importante, original e pessoal à ciência.



       Dessa forma, o TCC pode se tornar uma experiência propiciadora tanto do
aprimoramento da capacidade de sistematização do estudante, como principalmente
do refinamento da capacidade de reflexão e da análise crítica através da síntese e
da re-elaboração dos conhecimentos por ele adquiridos em sua formação, apesar de
ainda serem poucas as produções na graduação que tragam realmente como marca
a originalidade.



       Nesse sentido, Eco, (1998) vem trazendo uma assertiva que pode ajudar a
esclarecer como a monografia pode ser uma oportunidade para o desenvolvimento
da reflexão crítica.


                       Pode-se utilizar a ocasião da tese (mesmo se o resto do curso foi
                       decepcionante ou frustrante) para se recuperar o sentido positivo e
                       progressivo do estudo, entendido não como coleta de noções, mas como
                       elaboração crítica de uma experiência, aquisição de uma capacidade (útil
                       para o futuro) de identificar os problemas e encará-los com método e expô-
                       los segundo certas técnicas de comunicação. (Introdução).


       Mais adiante, o autor ainda coloca:
                       Fazer uma tese significa, pois, aprender por ordem nas próprias idéias e
                       ordenar os dados. É uma experiência de trabalho metódico: quer dizer,
                       construir um “objeto” que, como princípio, possa também servir aos outros.
                       (...) assim, não importa tanto o tema da tese, quanto a experiência de
                       trabalho que ela comporta. (p.07).


       Oliveira (2003), em sua dissertação de mestrado, onde trata das concepções
de egressos de um curso de pedagogia sobre o Trabalho de Conclusão de Curso,
vem trazendo discussões que apontam o TCC como atividade que possibilita a
preparação para a pesquisa, embora poucos enveredem por esse caminho ao
33



término da graduação, mas que também pode contribuir para que desenvolvam uma
atividade científica em suas profissões e especialidades futuras. (p. 61).


                      A monografia, como resultado do estudo científico de um tema, vai
                      sistematizar o resultado das leituras, observações, críticas e reflexões
                      feitas pelo educando. Assim sendo, ela se configura como uma atividade
                      de pesquisa científica, em função dos recursos metodológicos que exige na
                      sua elaboração. Quando os temas para pesquisa não constituem uma
                      exigência de determinada disciplina, é recomendável que os temas
                      selecionados sejam relevantes para a vida acadêmica e condizente com o
                      estágio de desenvolvimento intelectual do aluno. (OLIVEIRA, 2003, P.59).



      Podemos inferir das conceituações até aqui apresentadas que o Trabalho de
Conclusão de Curso é uma experiência no sentido de introduzir o estudante na
produção técnico-científica, onde através da utilização de instrumentos teóricos e
sistemáticos o mesmo possa desenvolver a capacidade de análise e reflexão sobre
a realidade, ao mesmo tempo em que se torna um ensaio para a produção de
conhecimento que possa vir a realizar e dessa forma dar a sua contribuição ao
progresso da ciência, bem como poderá contribuir para que o futuro docente possa
desenvolver o espírito crítico e investigativo no desempenho de sua profissão, nos
seus espaços de atuação.




2.3.1 A monografia e o desafio na construção do conhecimento pelo educando
na graduação



      Sabemos que é a graduação o momento em que a maioria dos estudantes vai
deparar-se pela primeira vez com desafios como o de desenvolver uma pesquisa
científica, apropriar-se de instrumentos teóricos e metodológicos, lidar com formas
de conhecimento mais elaboradas, onde lhe vai ser exigido que assuma um papel
ativo, ou seja, que assuma uma postura contrária a tudo que ele aprendeu em suas
experiências anteriores com a educação formal, em que na maior parte do tempo
desempenhou um papel passivo.



      Assim, ao ingressar na universidade, o estudante se depara com um mundo
desconhecido para ele, em que será forçado a desenvolver uma percepção mais
34



profunda das coisas, onde lhe será exigido que saia da superfície dos fenômenos,
onde terá que lidar com a complexidade do saber científico e submeter-se às regras
do meio acadêmico, que incluem entre outras coisas o domínio de técnicas e de
instrumentos, e experiência de passar por uma banca examinadora configurando se
essas ocasiões como momentos geradores de tensão e ansiedade.


                     Se o processo de ensino-aprendizagem vivido na instituição e fora dela deu
                     ao aluno os instrumentos teórico-práticos para que este busque
                     conhecimentos empírico/conceituais, formule racionalmente questões e
                     trace relações inovadoras, então este aluno se aproveitará da autonomia
                     que estas formas de trabalho lhe propiciam. Sob essas condições, este
                     aluno não deverá encontrar maiores dificuldades para planejar, elaborar e
                     redigir trabalhos científicos monográficos ou quaisquer outros. Mas, se for
                     portador de concepções gerais e fixas eternamente acostumado a receber
                     e devolver generalidades e não situações problemáticas, como fruto de um
                     ensino centrado no modelo de transmissão-recepção, então o trabalho
                     monográfico se configurará, para ele, como um momento crítico.
                     (OLIVEIRA, 2003, P.136).


      Neste sentido, Oliveira (2003), ao citar alguns estudos que tem se voltado
para a discussão em torno do Trabalho de Conclusão de Curso, cita o trabalho de
Rios (1999) que em sua pesquisa enfocou o TCC sob a ótica avaliativa, investigando
o comportamento e estado emocional do aluno durante a elaboração do trabalho e
do processo de avaliação do mesmo, concluindo a autora que este é, por vezes, um
momento penoso para os alunos.


                     Em seu estudo, a autora também fez uma análise dos desafios
                     experimentados pelos alunos durante a elaboração do trabalho e aponta as
                     seguintes dificuldades: indefinição na escolha do tema; baixa motivação
                     pela atividade; desconhecimento dos critérios para aprovação do projeto;
                     acompanhamento restrito a um orientador; necessidade de ter maior
                     fundamentação teórico-metodológica; dificuldade de acesso à bibliografia
                     atualizada; burocracia, pouca receptividade nas instituições e demora na
                     devolução dos instrumentos de pesquisa, durante a coleta de dados;
                     necessidade financeira para digitação e reprodução do trabalho;
                     insegurança e nervosismo. (OLIVEIRA, 2003, P. 139).



      Oliveira (2003), coloca que, pelo fato de a monografia, geralmente, estar
relacionada com a conclusão de um curso, portanto, com o final de uma etapa, por
mais que o aluno tenha se beneficiado dos conhecimentos adquiridos, é inevitável
um sentimento de insegurança, pois que é uma experiência desconhecida para ele.
35


                     Os momentos de independência e a conseqüente            liberdade causam
                     insegurança, principalmente porque estão associados    à responsabilidade
                     por um futuro que no momento não é conhecido ou        apenas vagamente
                     vislumbrado e pelo qual se espera que as novas          habilidades sejam
                     demonstradas. (p.90)



       Ainda segundo a autora, muitos professores localizam as dificuldades dos
alunos na redação de trabalhos científicos na sua inexperiência em lidar com a
forma científica.


                     Imaginam que um curso de métodos e técnicas de pesquisa científica
                     poderia resolver todas as dificuldades que surgem. É preciso sair do
                     imediato na análise das dificuldades de planejamento e redação de
                     trabalhos científicos, ir mais fundo, esmiuçar essas dificuldades, explorar
                     as possibilidades que elas apresentam. Elas simplesmente estão
                     expressando a dificuldade que o aluno tem de participar da criação
                     científica. (p. 40)



       Podemos perceber que são poucos os estudos que se debruçam sobre uma
análise de como os sujeitos que passam pela experiência da graduação vêem,
apreendem, reproduzem re-elaboram, incorporam as experiências vividas nesse
período, especialmente estudos que desenvolvidos sob o foco das representações
sociais que os mesmos constroem, estabelecem a respeito.



       Dessa forma, no presente trabalho, estaremos buscando identificar as
representações sociais de estudantes concluintes de um curso de pedagogia que no
decorrer de sua formação vivenciaram o processo de construção de trabalhos
científicos, passando por alguns elementos que envolvem a iniciação à pesquisa, em
disciplinas, estágios e atividades extracurriculares e que conseqüentemente lidarão
pelo desafio de produzir uma monografia e expô-la diante de uma banca
examinadora.


       Cremos que um estudo focado nas representações sociais desses indivíduos
faz-se necessário e importante à medida que leva em consideração o fato de que os
mesmos, no contexto de sua formação, interagem vivenciam, compartilham
situações, aprendizados, sentimentos, percepções, estereótipos e, sobretudo
elaboram uma forma de saber particular, construído no cotidiano em que constroem
também representações sobre esse momento da sua graduação, onde entram
36



concepções preestabelecidas, e, sobretudo as experiências vivenciadas nestes
momentos.




2.4 As Representações Sociais na construção de nosso objeto de estudo



      O conceito de representações sociais emerge no âmbito da psicologia social
com a publicação de um estudo pioneiro desenvolvido por Serge Moscovici,
publicado em 1961: A psicanálise, sua imagem e seu público, no qual o autor
“mostra que é possível a construção de um conhecimento válido pelo senso comum
e que se pode apreender o conhecimento em uma dimensão psicossociológica”.
(ANADÓN e MACHADO, 2003).


      Embora o trabalho de Moscovici seja pioneiro no que se refere ao estudo das
representações sociais, o conceito por ele desenvolvido tem raízes nos estudos
desenvolvidos pelos fundadores da sociologia moderna, especialmente Durkheim
que é quem primeiramente introduz a noção de representações coletivas. Para ele
as categorias básicas do pensamento teriam origem na sociedade, e o
conhecimento só poderia ser encontrado na experiência social, ou seja, a vida social
seria a condição de todo pensamento organizado e vice-versa.



      Durkheim propôs como condição essencial na elaboração do conhecimento, a
formação de conceitos que são repartidos pelos membros do grupo, com origem nas
características da vida na coletividade. Para o sociólogo, a individualidade humana
se constitui a partir da sociedade.
Durkheim (apud MINAYO, 2000) coloca que:


                      As Representações coletivas traduzem a maneira como o grupo se pensa
                      nas suas relações com os objetos que o afetam. Para compreender como a
                      sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, precisamos
                      considerar a natureza da sociedade e não a dos indivíduos. (p.90)



      É nessa questão que Moscovici diverge de Durkheim e acrescenta novos
elementos à elaboração do conceito de representação social. Para ele o indivíduo
37



tem papel ativo e autônomo no processo de construção da sociedade, da mesma
forma que é criado por ela. Ele também tem participação na sua construção.


                     Diferentemente de Durkheim, que considerou as representações coletivas
                     de maneira estática e análoga às categorias puramente lógicas e
                     invariantes do espírito no qual estão incluídos todos os modos de
                     conhecimento, Moscovici os considera de uma maneira dinâmica (de
                     natureza móvel e circulante), mais como um modo específico de conhecer
                     e comunicar aquilo que se conhece. (ANADÓN e MACHADO, 2003, P.12).



       Segundo Anadón e Machado (2003):


                     Apoiando-se em Durkhiem, Moscovici vai mais além, e se debruça sobre
                     uma forma de conhecimento apropriada ao mundo contemporâneo na qual
                     predominam mudanças constantes e o pluralismo de idéias e de doutrinas,
                     quer políticas, quer religiosas, filosóficas e morais. (p. 11).



       Assim, dentro da especificidade do estudo de Moscovici (2003) emerge o
conceito de representação social: “conjunto de conceitos, afirmações e explicações
originadas no decurso do cotidiano, no decurso das comunicações interindividuais”.



       Esse “conjunto”, segundo Anadón e Machado (2003) vai designar uma forma
de conhecimento característico, o saber do senso comum, que, no entanto, não
surge pura e simplesmente no cotidiano, dessa forma, o saber do senso comum é
permeado também por “fragmentos de teoria científica transformadas para servir à
vida cotidiana”.


       Jodelet (apud ANADÓN e MACHADO, 2003), discute a importância de se
buscar compreender as representações sociais enquanto fenômenos cognitivos,
“que se dão a partir de conteúdos representativos colhidos em diferentes suportes,
como a linguagem, discursos, documentos, práticas, dispositivos materiais, etc”).



       Segundo definição apresentada por Jodelet (apud ANADÓN e MACHADO,
2003), as representações sociais são modalidades de conhecimento prático
orientadas para a comunicação e para a compreensão do contexto social, material e
ideológico em que vivemos.
38


                     Enquanto fenômenos cognitivos, as representações implicam em pertença
                     social dos indivíduos e implicações afetivas e normativas, interiorizações
                     de experiências, de práticas, de modelos de conduta e de pensamento,
                     socialmente inculcados ou transmitidos. (apud ANADÓN e MACHADO,
                     2003, P.41).


       Anadón e Machado, (2003), atentam para a análise da linguagem como modo
de investigação das representações sociais “porque ela permite que se coloque um
olhar sobre os mecanismos cognitivos presentes em sua elaboração”.



       Mais adiante os autores ainda colocam que no processo de identificação,
investigação das representações sociais faz-se necessário que atentemos para as
condições (sociais, institucionais) em que estas representações são construídas:


                     Tratando-se de colocar em evidência o caráter cognitivo e social das
                     representações sociais, dois princípios estão na base de nosso
                     procedimento de análise. Em um primeiro momento o estudo das
                     representações sociais exige que se examine a atividade a partir da qual se
                     constrói o saber, (...) tomar em conta o sujeito do conhecimento na
                     construção do sentido. (...). Em um segundo momento seu estudo exige o
                     exame das condições sociais e institucionais da produção e circulação
                     deste conhecimento em referência a uma prática visto que ela se oferece
                     como visão do mundo ao qual os sujeitos se referem para agirem
                     quotidianamente. (ANADÒN e MACHADO, 2003, p. 57).


       Coutinho (2005) coloca que as representações sociais são construídas pelas
interações e comunicações no interior de grupos sociais, refletindo a situação das
pessoas no que diz respeito aos assuntos que são alvo do seu cotidiano e que são
elaborados graças às redes de interações e comunicações mútuas, às experiências
práticas e às transmitidas oralmente, através da história oral, as conversações do
dia-a-dia, etc.


       Dessa forma, entrariam como elementos construtores das representações
sociais os valores, os estereótipos, os mitos, as atitudes, crenças, que são
construídos em conjunto por um determinado grupo social, perpassando essa
construção pelo “emaranhado de informações, opiniões, atitudes, expectativas, entre
outras variáveis veiculadas ao contexto social”. (COUTINHO, 2005).


       De acordo com Minayo (2000 p.108):
39


                        As Representações Sociais se manifestam em palavras, sentimentos e
                        condutas e se institucionalizam, portanto, podem e devem ser analisadas a
                        partir da compreensão das estruturas e dos comportamentos sociais. Sua
                        mediação privilegiada, porém é a linguagem, tomada como forma de
                        conhecimento e de interação social.



      A autora ainda acrescenta: “Fruto da vivência das contradições que permeiam
o dia-a-dia dos grupos sociais e suas expressões, marca o entendimento deles com
seus pares, seus contrários e com as instituições”.



      Assim, cremos que no contexto e no cotidiano de uma instituição como a
universidade, são construídas representações, que surgem no centro das relações
estabelecidas entre os diferentes sujeitos, que ali se encontram e que trazem
concepções de mundo, valores, crenças e estereótipos que se constroem e
reconstroem-se no contato com seus pares e com as diversas situações (por vezes
conflituosas) que permeiam os seus processos de formação.


      Dessa    forma,     consideramos        relevante    o    estudo    voltado     para    as
representações sociais dos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da
Bahia – campus VII acerca do Trabalho de Conclusão de Curso por entendermos
que esta é uma situação peculiar e conflituosa em que emergem tensões,
contradições, que circulam e influenciam os modos de pensar e interpretar a
realidade e que podem se determinantes na sua formação.
40



                                         CAPÍTULO III



                    PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS



       Ao desenvolvermos uma atividade de pesquisa, torna-se necessário que
optemos por um caminho, um método que propicie a orientação necessária e
adequada ao tipo de estudo que ora realizamos, assim, optamos no presente
trabalho pelo paradigma qualitativo por compreendermos ser o mesmo essencial ao
cumprimento dos objetivos do presente trabalho: Identificar e analisar as
representações sociais dos estudantes do curso de pedagogia da Universidade do
Estado da Bahia - Campus VII sobre o Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.



       O paradigma qualitativo de pesquisa surge nas ciências humanas e sociais,
em que se inclui a educação, como reação aos postulados positivistas, estes
priorizando excessivamente a racionalidade técnica, cientificista, no que diz respeito
a um modelo de ciência que se apóia meramente em aspectos, dados quantitativos
para interpretar a realidade, uma interpretação feita sem a contribuição dos sujeitos
que participam do processo de elaboração do conhecimento.



                       A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se
                       preocupa nas ciências sociais, com um nível de qualidade que não pode
                       ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados,
                       motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um
                       espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que
                       não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (FACHIN,
                       1993, P.23).


       Ao optarmos pelo paradigma qualitativo de pesquisa estamos eliminando a
dicotomização entre sujeito e objeto, onde o objeto de pesquisa se transforma em
sujeito, e não o contrário.


                       É possível explicar objetivamente o homem? Esta é certamente a grande
                       questão das ciências humanas e sociais. Se nas ciências naturais o objeto
                       de investigação sempre foi um produto acabado, separado, classificável,
                       seriável, neutro e por isso mesmo passível de objetivação, nas ciências
41


                      humanas e sociais o objeto é o próprio homem e suas relações, isto é, um
                      objeto em processo, inacabado, vivo, múltiplo e ideológico. Se nas ciências
                      naturais há uma relação de oposição entre sujeito e objeto e é dessa
                      oposição que surge o conhecimento, nas ciências humanas é impossível
                      fazer essa cisão sujeito/ objeto. (KRAMER, 1998 P.21).



       Nesta fala de Kramer, ficam claramente evidenciadas as particularidades de
uma postura epistemológica que põe o individuo no centro do processo de
construção do conhecimento, que percebe o mesmo como ser histórico, social,
inserido em uma cultura que ele mesmo contribui para construir e reconstruir. Onde
no processo investigativo, traz elementos que não podem se enquadrados,
categorizados em variáveis quantificáveis, generalizáveis.

       Neste sentido, vejamos o que diz Macedo (2006) ao afirmar que a realidade
não pode se interpretada com base somente em paradigmas normativos:



                      O mundo dos sentidos, dos significados, dos símbolos, dos mitos, das
                      representações, do imaginário, das ideologias, por exemplo, não se permite
                      ser compreendido por uma lógica dura, laboratorial. (p.37-38).


       Macedo (2006) ainda coloca que, “na emergência qualitativa aparece mais o
intensivo que o extensivo, sem, entretanto, cair na negação maniqueísta deste
último”.

       Embora busquemos priorizar nas ciências humanas e sociais o paradigma
qualitativo, não podemos abdicar totalmente da análise quantitativa, desmerecer a
sua praticidade, correndo o risco de aprisionarmo-nos em reducionismos e
dogmatismos epistemológicos.



       Podemos perceber que o paradigma qualitativo destitui a visão do sujeito
pesquisador como um ser neutro, superior e do sujeito pesquisado transformado em
variáveis, que desaparece nas generalizações. Destitui também o conceito de que o
único conhecimento valido é o conhecimento cientifico, neutro, sistematizado. Uma
visão que valoriza os saberes construídos nas relações cotidianas entre os
indivíduos. Como vem afirmando Nóvoa (2005):
42


                      A ciência pós-moderna tende a reinvestir o senso comum, não para com
                      ele se confundir, mas para se aproximar das realidades terrenas contra as
                      quais, em tempos, o discurso cientifico procurou edificar-se. A política
                      deste final de século procura reencontrar os sujeitos, não se limitando as
                      dominantes de contexto ou de estrutura. São duas evoluções decisivas,
                      também na arena educativa, na medida que sugerem um olhar mais
                      centrado sobre os professores, sobre as suas vidas e os seus projetos,
                      sobre suas crenças e atitudes, sobre seus valores e ideais. (p. 32).



      Cremos ser a pesquisa qualitativa de fundamental importância no presente
estudo   à   medida   que    permite     adentrarmos      nos    significados     construídos
coletivamente pelos sujeitos, ao tempo em que são postas como elo central e eixo
norteador da investigação as representações sociais que os mesmos elaboram em
conjunto.


3.1 Lócus da Pesquisa


      O presente estudo foi desenvolvido no Departamento de Educação, Campus
VII, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), localizado no município de Senhor
do Bonfim. O departamento, criado pelo Decreto nº 31.574, de 27/03/1985
originalmente fazia parte da antiga Faculdade de Educação de Senhor do Bonfim
(FESB), passando á condição de departamento somente em 1997 com a
reestruturação das universidades Estaduais da Bahia.



      Foi este também o ano da implantação do curso de Licenciatura Plena em
Pedagogia com Habilitação em Magistério das Matérias Pedagógicas do 2º Grau.
Com as novas reformulações dos cursos de pedagogia, em 1999, o curso de
pedagogia da UNEB passa a habilitar o futuro docente para o exercício em
Educação Infantil e Magistério em Séries Iniciais do Ensino Fundamental.



      Além do curso de pedagogia, que funciona nos períodos vespertino e noturno,
o departamento ainda oferece as licenciaturas em matemática e ciências biológicas
e os bacharelados em ciências contábeis e enfermagem, além de desenvolver
programas de formação continuada de professores que atuam nos municípios da
microrregião.
43



      Em 2004 o departamento passa a oferecer uma nova habilitação para o curso
de pedagogia (Licenciatura Plena em Pedagogia Docência e Gestão de Processos
Educativos), ainda em processo de aprovação, que passaria a formar um
profissional habilitado para atuar tanto na docência quanto na gestão de processos
educativos escolares e não escolares e na produção e difusão de conhecimento no
campo educacional.

      A partir da análise de projetos de curso de pedagogia no departamento de
educação, podemos perceber que a exigência da apresentação de monografia como
requisito para a conclusão e obtenção de grau é instituída no ano de 2001, onde a
turma de pedagogia com habilitação em educação infantil e séries apresentou seus
trabalhos e foram submetidos à apreciação de uma banca examinadora.


      Ao analisarmos os fluxogramas de disciplinas das habilitações oferecidas pelo
departamento, percebemos que a habilitação em educação infantil e séries iniciais
traz a disciplina monografia nos dois últimos semestres (7º e 8º) da graduação,
contabilizando uma carga horária de 75 e 90 horas respectivamente e a nova
habilitação (docência e gestão de processos educativos) apresenta uma carga
horária menor (60 horas), sendo que a disciplina só é oferecida no oitavo e último
semestre.


3.2 Sujeitos


      Os sujeitos pesquisados - estudantes dos cursos de pedagogia - foram
escolhidos     entre   aqueles   que   estavam   concluindo   sua     formação   e,
conseqüentemente, passando pelo processo de escrita, elaboração do TCC, e
matriculados na disciplina.

      Também participaram da pesquisa aqueles que haviam trancado e/ ou
desistido da disciplina no último semestre acadêmico. Todos fazendo o curso
noturno. Entre aqueles que estavam fazendo a disciplina Trabalho de Conclusão de
Curso, havia egressos da habilitação anterior (Educação Infantil e Magistério em
Séries Iniciais do Ensino Fundamental), bem como aqueles que se incluem na nova
habilitação (Pedagogia: Docência e Gestão de Processos Educativos).
44




      Os participantes da pesquisa foram escolhidos aleatoriamente, onde lhes foi
explicado o tema da pesquisa e entregue o questionário pessoalmente, onde foram
esclarecidas dúvidas quanto ao objeto da pesquisa e aos procedimentos a serem
seguidos na resposta e devolução do referido questionário.

      Assim, foram entregues 28 questionários entre os estudantes, dos quais, 20
foram devolvidos, havendo, dessa forma, morte de 29% na devolução dos mesmos,
embora tenha havido uma insistência para que fossem devolvidos em data
prefixada, algumas pessoas não entregaram, alegando esquecimento ou não
retornaram ao campus, tornando-se impossível a sua localização nas datas
previstas.



3.3 Instrumentos e Estratégias

3.3.1 Questionário

      Dada a especificidade do nosso estudo, que se volta para a identificação e
análise das representações sociais de um grupo característico (no caso, estudantes
de pedagogia) faz-se necessário que adotemos instrumentos de coleta e métodos
de análise que possam fornecer os elementos necessários á construção do presente
estudo, permitindo-nos ir ao encontro dos sujeitos e retirar deles os elementos que
subsidiem nosso trabalho.

      Segundo Anadón e Machado (2003): “A matéria primeira das representações
sociais é construída por repertórios de opiniões, julgamentos individuais, nos quais é
preciso reconstituir os princípios organizadores comuns a um conjunto de indivíduos
em particular”. Para os autores esta tarefa exige diferentes tipos de análise de
dados.

      Abric (apud ANADÓN e MACHADO, 2003) aponta que entre os mais
conhecidos procedimentos de coleta do conteúdo das representações sociais estão
os métodos ditos interrogativos e os métodos tidos como associativos. No presente
estudo, utilizamos como suporte para a coleta de dados junto aos nossos sujeitos de
pesquisa o questionário e associação livre de palavras.
45




      Para coleta de dados junto aos estudantes de pedagogia foi utilizado o
questionário pelo fato do referido instrumento abranger uma quantidade considerável
de indivíduos, bem como permitir uma organização do tempo disponível para a
realização da pesquisa junto a esses sujeitos.

      O questionário torna-se um interessante método de investigação quando se
deseja obter uma visão mais ou menos homogênea das compreensões, pontos de
vista de um determinado grupo social, de sujeitos que compartilham, vivenciam
situações, espaços cotidianos. “O questionário consiste num elenco de questões que
são apreciadas e submetidas a certo número de pessoas com o intuito de obter
respostas para a coleta de informações” (FACHIN, 1993).


3.3.2 Associação livre de palavras



      Aliada ao questionário, a técnica da associação livre de palavras, que,
segundo Anadón e Machado (2003) consiste em pedir ao sujeito que, a partir de
uma palavra-chave ou série de palavras produza todas as palavras, expressões ou
adjetivos que lhe venham à mente. Assim, partindo-se de um conceito-chave (TCC),
os sujeitos foram solicitados a elencar 10 palavras ou expressões afloradas no
primeiro momento, sendo dessa maneira levados a exteriorizar os conceitos, idéias,
sentimentos e expressões.

      Acreditamos que os presentes instrumentos foram importantes e necessários
em um contexto que não permitiu o contato mais estreito e aprofundado,
enriquecedor do trabalho, já que os sujeitos da pesquisa encontravam-se em locais
diferentes e distantes entre si, oportunizando-se os encontros apenas durante as
aulas no período noturno, já que a maioria trabalha durante o dia.

      Os instrumentos utilizados possibilitaram a compreensão das representações
sociais dos sujeitos pesquisados, permitindo que através de suas falas,
materializadas no papel, adentrássemos nas significações que os mesmos atribuem
ao TCC, significações necessárias à construção dessa pesquisa.
46



                                  CAPÍTULO IV



   ANÁLISE DE DADOS E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS


       O presente capítulo traz a descrição e análise dos dados obtidos junto aos
sujeitos da pesquisa, quando faremos uma interpretação dos resultados obtidos,
buscando atender à nossa indagação inicial norteadora do presente estudo: Quais
as representações sociais que os estudantes de pedagogia da Universidade do
Estado da Bahia - campus VII tem a respeito do Trabalho de Conclusão de Curso ou
TCC?

       Para realização da pesquisa foi aplicado 01 (um) questionário contendo cinco
(05) questões referentes ao perfil dos sujeitos pesquisados e mais oito (08) questões
concernentes ao nosso objeto de estudo, incluindo-se uma questão que engloba a
associação livre de palavras, buscando-se dessa forma chegar às representações
dos mesmos sobre o TCC.


4.1 Perfil dos sujeitos pesquisados



       Ao analisarmos o perfil dos sujeitos pesquisados pudemos perceber que 95%
são do sexo feminino e 5% são do sexo masculino:

                                                masculino
                                                    5%




                                     feminino
                                        95%




                     Gráfico 4.1: Sexo dos sujeitos pesquisados
47



       Com relação à faixa etária, constatamos que estão entre os 21 e 51 anos,
sendo que apenas um (01) apresenta idade entre 17 e 21 anos; sete (07) estão
entre os 22 e 26 anos; cinco (05) entre 27 e 31 anos; zero (0) entre os 32 e 36;
quatro (04) entre 37 e 41 anos; dois (02) entre 42 e 46 anos; um (01) entre 47 e 51
anos; zero com idade superior a 52 anos de idade; como podemos perceber no
gráfico:


                                5% 0% 5%                          17 a 21
                                                                  22 a 26
                                 9%                               27 a 31
                                                                  32 a 36
                               19%      38%
                                                                  37 a 41

                                 24%                              42 a 46
                          0%
                                                                  47 a 51
                                                                  superior 52




                   Gráfico 4.2: Faixa etária dos sujeitos pesquisados



       Em seguida foi solicitado que os mesmos informassem o local em que
residiam (zona urbana ou zona rural), onde se constatou que todos residem na zona
urbana.


       Ao informarem a função profissional, cerca de 44% dos sujeitos declararam
exercer a função docente, seguindo-se de 32% que se declararam servidores
públicos; 14% não exerciam nenhuma função profissional no momento da pesquisa;
5% informaram exercer a função de comerciantes; sendo também 5% o número
daqueles que declararam exercer funções autônomas.
48




                                                                      Professor
                                 14%

                           5%                                         Servidor público
                          5%
                                                    44%               Comerciante

                                                                      Autônomo

                            32%                                       Sem função
                                                                      profissional




                                Gráfico 3.4: Função profissional



      Também foi solicitado que informassem a habilitação em que estavam se
formando, sendo que, apenas quatro das pessoas que devolveram o questionário se
incluíram na habilitação Magistério em educação infantil e séries iniciais do ensino
fundamental, havendo uma ausência maior na devolução do instrumento entre esse
grupo, em decorrência da dificuldade de contato, já que a maioria compareceu
poucas vezes ao campus, lócus da pesquisa, durante o período noturno.



      Assim, 16 (80%) dos respondentes compunham a habilitação Docência e
gestão de processos educativos e 04 (20%) faziam parte da habilitação Magistério
em educação infantil e séries iniciais.



                                                                  Habilitação em Docência e
                          20%
                                                                  Gestão de Processos
                                                                  Educativos
                                                                  Habilitação Magistério em
                                            80%                   Educação Infantil e Séries
                                                                  Iniciais




                                       Gráfico 4.4: Habilitação



Dos vinte (20) estudantes que devolveram o questionário, oito (08) declaram ter
trancado a disciplina Trabalho de Conclusão de Curso, sendo os motivos
apresentados a questão do tempo disponível para entrega do TCC, dificuldades e
49



conciliar a construção da monografia com outras atividades (trabalho, estudo), falta
de orientadores no campus, “falta de preparo e disposição em fazê-lo”, "medo”.


      Podemos perceber que nas respostas apresentadas surgem algumas
questões/ problemas que serviram de ponto de partida para nosso estudo, em que
relatávamos   algumas      dessas    dificuldades     tanto    institucionais    quando     os
respondentes mencionam a ausência de orientação, quanto pessoais, em que o
sentimento de insegurança, aliado à pressão decorrente do curto espaço de tempo
de que dispõem para a construção e entrega da monografia tornam-se
impedimentos para uma relação mais tranqüila com o desenvolvimento desta
atividade pelo educando.




4.1.1 Motivos de escolha do curso



      Levados a expor o motivo pelo qual haviam escolhido cursar pedagogia, oito
(08) dos vinte participantes da pesquisa responderam ter escolhido fazer pedagogia
por afinidade/ identificação com a área, com o curso, com o ensino, com “as
questões da educação”.



      Chamou-nos a atenção o fato de as respostas tenham sido um pouco vagas,
não expressando na maioria das vezes o motivo da afinidade, por que se
identificavam com o curso.

                      Na verdade, como sempre gostei de matemática, pensei em fazer o curso/
                      vestibular para tal curso, após várias tentativas não conseguindo fiz o
                      vestibular para pedagogia, passei, estou terminando e tenho certeza que o
                      curso é a minha “cara” pois me identifiquei demais e acho que para
                      qualquer outro curso, deveríamos passar por pedagogia. (*EST. 01.).

                      Por questão de afinidade. Gosto de ser professora. (EST. 02).

                      Me identifico com as questões da educação. (EST. 03).


      Sete (07) participantes colocaram como motivo da escolha pelo curso a falta
de opção, por não haver um curso disponível na sua área de interesse no campus,
no local e horário (noturno), únicos a que poderiam ter acesso.
49


                       Falta de opção no campus ao meu alcance. (EST. 04).

                       Curso ministrado à noite. (único horário disponível). (EST. 05).


      Algumas    das     principais    dificuldades     enfrentadas            pelo   estudante   de
pedagogia, e em geral, por quem faz licenciatura, é a impossibilidade de conciliar o
estudo com uma ou múltiplas funções de trabalho, o que lhe deixa poucas
alternativas de realização pessoal, ao desenvolver um estudo na sua área de
interesse, o que acaba por se refletir na sua motivação no decorrer do curso.


      Surge também nas repostas dos sujeitos o desejo de especialização na sua
área de atuação profissional (docência), como uma forma de dar prosseguimento
aos estudos, sendo que a maioria dos que deram essa resposta havia feito
magistério no ensino médio ou atuavam como professores, apesar de não terem
uma formação na área.


                       Eu cursei anteriormente o magistério (equivalente ao curso normal) e quis
                       dar prosseguimento a minha educação na área de educação, educação
                       infantil, especialmente. (EST. 06).

                       Me especializar na área em que atuo.(EST. 07).




                                                         Identificação com o
                                                         curso
                                   25% 40%
                                                         Especializar-se
                                   35%
                                                         profissionalmente

                                                         Falta de opção




                          Gráfico 4.6: Motivo de escolha do curso



4.2   As   representações       sociais     emergindo          no      discurso       dos   sujeitos
pesquisados.


      Ao situarmos nossa questão inicial de pesquisa: “Quais as representações
sociais que os estudantes de pedagogia têm sobre o TCC?”, partimos do
pressuposto de que esta seria uma questão pertinente de se discutir, pois dessa
maneira estaríamos dando oportunidade a esses sujeitos de expressarem-se sobre
49



um problema que os preocupava diretamente, ao tempo em que estaríamos
passando a conhecer o que pensam, como representam socialmente esse processo
de sua formação que por vezes se torna um desafio complexo e conflitante.


      Dessa forma, a partir da análise das respostas dos estudantes, consideramos
as variáveis que emergiram com mais força no discurso dos mesmos e que se
tornam importantes à compreensão das representações sociais no presente estudo.



4.2.1 Categoria primeira lembrança referente ao TCC


      Perguntados sobre a primeira lembrança ao ingressar na universidade
relacionada ao TCC, as respostas se dividiram entre aquelas que lembravam do
mesmo como algo “muito difícil de fazer, quase impossível”, assustador, “um bicho
de sete cabeças”, e aqueles que declaram não ter nenhuma lembrança desse
período referente ao Trabalho de Conclusão de Curso.

                     Que seria uma atividade a ser realizada no final do curso um tanto quanto
                     difícil. “(EST. 08).

                     Como algo que não conseguiria fazer (EST. 09).

                     Um “bicho de sete cabeças”, falar em TCC, da maneira que é inicialmente
                     discutido, talvez, ou com certeza, influencia a angústia no final do curso,
                     passam a idéia de ser uma coisa impossível de fazer. (EST. 01).


      O que aparece com muita força no discurso dos estudantes é a presença da
figura do professor na composição da lembrança, este sendo citado como uma das
primeiras pessoas através das quais ouviram falar sobre o TCC, e destes
(professores) sempre se referindo ao mesmo como sendo um trabalho difícil e
complicado, uma exigência a ser cumprida pelo aluno no final do curso. Como
podemos perceber na fala dos estudantes.


                     Lembro que uma professora informou que teríamos que fazer um trabalho
                     e apresentá-lo diante de uma banca, que era difícil, mas isso só seria
                     exigido mais tarde, no último semestre. (EST. 04).

                     Verdadeiro terrorismo por parte dos professores, a todo momento os
                     professores nos falavam do TCC e as dificuldades que encontraríamos.
                     (EST. 05).
49


                     Que desde o início, todos os professores alertaram para a escolha do
                     tema. (EST. 12).


      A partir das análises feitas até aqui, podemos perceber que o princípio de que
há uma mistificação no meio acadêmico com relação à pesquisa, à produção
científica fica aqui evidenciado, uma mistificação que vem de um pensamento
enraizado que vai sendo inculcado no decorrer das experiências cotidianas, como
um elemento ideológico.


      Nesse sentido podemos perceber que o elemento ideológico que age na
construção das representações sociais dos sujeitos responde ao que vem sendo
posto por Jodelet (Apud ANADÓN e MACHADO, 2003): “enquanto fenômenos
cognitivos implicam em pertença social dos indivíduos e implicações afetivas, e
normativas, interiorizações de experiências, de práticas, de modelos de conduta e
de pensamento socialmente inculcadas ou transmitidas”.



      Outro dado importante, que também surge com freqüência nas respostas dos
sujeitos pesquisados, e que poderá contribuir para uma compreensão das
representações sociais dos mesmos, é a lembrança estar atrelada às falas,
conversações cotidianas vivenciadas, partilhadas pelos sujeitos da pesquisa, no
contato com colegas de curso que também passaram pelo processo de construção
do TCC:
                     Lembro da fala de alguns universitários descrevendo a monografia (TCC)
                     como o que se tem de pior no curso. (EST 10).

                     Imaginei algo muito “doloroso” de ser construído, pelo fato de ouvir de
                     outras pessoas. (EST 11).

                     Todo mundo falar que tem medo da disciplina. (EST. 04).



Podemos perceber que as falas dos estudantes vêm corroborar o que foi dito por
Coutinho (2005):
                     As representações sociais são construídas pelas interações e
                     comunicações no interior de grupos sociais, refletindo a situação das
                     pessoas no que diz respeito aos assuntos que são alvo do seu cotidiano e
                     que são elaborados graças às redes de interações e comunicações mútuas
                     (...) um emaranhado de informações, opiniões, atitudes, expectativas, entre
                     outras variáveis veiculadas ao contexto social. (p 26-27).
49



      Dessa maneira, fica evidenciado que através das trocas cotidianas nos
diversos espaços que compartilham, os sujeitos constroem representações sociais
que estão diretamente relacionadas aos contextos e situações em que estão
inseridos.


      Assim, a situação em que se encontram os sujeitos que vivenciam a
expectativa de construção de um trabalho como o TCC, torna-se um campo fértil
para que essas representações venham acompanhadas pelas preocupações que
acompanham esse período.




4.2.2 Categoria construção do TCC e experiências adquiridas na graduação.


      No intuito de percebermos como as representações dos sujeitos pesquisados
se relacionavam com as experiências adquiridas na universidade, com a construção
do pensamento e da prática científica, perguntamos aos mesmos o que mais os
havia marcado em sua formação no curso de pedagogia com relação à pesquisa e
produção de trabalhos científicos.


      Nos discursos trazidos pelos sujeitos, surgem como aspectos significativos e
como pontos positivos da produção científica e da pesquisa desenvolvidas durante o
curso o “desenvolvimento de idéias”, a “experiência adquirida em cada local de
pesquisa”, a “abertura do olhar”, a reflexão, a “mudança de posições”, “a produção
de artigos e projetos”, “o desenvolvimento da expressão oral e escrita” a “descoberta
do que seria um trabalho científico”, o enriquecimento de sua prática como
educadores.


      Através das leituras dos autores que subsidiaram as discussões feitas neste
trabalho e da análise dos discursos dos sujeitos da pesquisa, pudemos apreender
que a pesquisa e a construção de trabalhos científicos é percebida como algumas
das experiências vividas na universidade que levam ao amadurecimento do
educando, por favorecer a participação ativa deste na construção e produção do
conhecimento. É o que vem sendo confirmado por Oliveira (2003).
49


                      É fato que o aprofundamento teórico ajuda a indagar a prática e simultaneamente,
                      as (re) leituras da prática indicam outras questões à teoria, gerando novos e mais
                      complexos conhecimentos e sinalizando permanentemente o ainda não saber,
                      convite à ampliação do conhecimento. (, P.99).



4.2.3 Categoria processo avaliativo


Um dos caracteres representativos trazidos pelos sujeitos pesquisados foi a forma
como colocam o processo avaliativo assinalado pela “banca examinadora”,
representando o momento da apresentação do TCC como “desgastante”,
“desnecessário", “burocrático”, “aterrorizante”, “mera formalidade” e a banca como
“exigente”, “opressiva”, “traumatizante”.


                      Traumatizante, pela exigência que trava qualquer discussão para a
                      apresentação por “vontade de apresentar”. Quanto à Banca Examinadora é
                      o que realmente representa o momento de apresentação. Vai examinar em
                      um encontro todo o desempenho de 7 ou 8 semestres em um momento.
                      (EST. 01).

                      Aterrorizante, pelo fato de que a banca pressiona muito e ficamos muito
                      nervosos. (EST. 03).

                      Ao mesmo tempo que acho importante a apresentação do trabalho aos
                      professores, por conta da colaboração destes com críticas, etc, reconheço
                      que muitas vezes o que aparece é a vaidade dos docentes, que disputam
                      atenções, com críticas nem sempre construtivas.(EST. 04).


      De acordo com Oliveira:


                      Se o processo de ensino-aprendizagem vivido na instituição e fora dela deu
                      ao aluno os instrumentos teórico-práticos para que este busque
                      conhecimentos empíricos / conceituais, formule racionalmente questões e
                      trace relações inovadoras, então este aluno se aproveitará da autonomia
                      que estas formas de trabalho lhe propiciam.Mas, se for portador de
                      concepções gerais e fixas eternamente acostumado a receber e devolver
                      generalidades e não situações problemáticas, como fruto de um ensino
                      centrado no modelo de transmissão-recepção, então o trabalho
                      monográfico se configurará, para ele, como um momento crítico. (P.136).


      Percebemos que ao mesmo tempo em que a maioria dos participantes da
pesquisa coloca o momento da apresentação com desnecessário, alguns dos
sujeitos apontam o momento de defesa diante de uma banca como algo pertinente
ao processo de construção do TCC, sendo a apresentação:

                      Uma exigência razoável e válida, uma vez que nos faz vencer, superar o
                      receio da apresentação em público. (EST. 08).
49



                      Relevante, uma vez que, a maioria das áreas de formação universitária
                      precisarão de uma boa performance em oratória, e a defesa deste trabalho
                      ajudará. Por outro lado, se construímos, não há por que não defendê-lo.
                      (EST. 10).


      Um aspecto, que fica implícito nos discursos apresentados uma compreensão
da apresentação como uma forma de desenvolver a habilidade de expor-se
oralmente em público, como podemos perceber na fala do EST. 10 em que aparece
a palavra oratória. Dessa maneira, fica evidenciado o medo de se exporem, de
serem julgados pela performance no momento da apresentação.


      Entre os aspectos positivos expressos no discurso dos estudantes aparece
também o desejo de prosseguirem com o estudo do tema abordado no TCC, onde
haveria um aprofundamento das reflexões vivenciadas durante esse período de
construção nas próximas etapas da formação (pós-graduação), assim, a
continuidade   dos   estudos,    a    busca    por    aperfeiçoamento       profissional,   o
aperfeiçoamento da pratica após a graduação, é um dos fatores abalizados pela
literatura, e também pelos participantes deste estudo, como contribuição do
Trabalho de Conclusão de Curso ao desenvolvimento pessoal.

      Essa compreensão vem reafirmar o pensamento de Eco (1998), que assevera
ser possível valer-se da ocasião da monografia “para se recuperar o sentido positivo
e progressivo do estudo como elaboração crítica de uma experiência, aquisição de
uma capacidade útil para o futuro”.


4.3 As representações sociais dos estudantes de pedagogia a partir da
associação livre de palavras


      Para que obtivéssemos uma percepção mais clara das representações
sociais dos sujeitos da pesquisa, procuramos fazer com que através da associação
de conceitos relacionados ao Trabalho de Conclusão de Curso, os estudantes
fizessem aflorar o que representava para ele este momento. Assim, os estudantes
foram solicitados a responder a seguinte questão: Quando se fala em TCC, quais
são as primeiras 10 palavras que lhe vem à mente?
49



      Na análise individual das palavras elencadas pelos sujeitos, foram levadas em
consideração as palavras que mais se repetiram e a ordem em que as mesmas
apareceram nas respostas. A partir da análise podemos perceber que as palavras,
conceitos que mais emergiram nas respostas foram: tempo, dificuldade, pesquisa,
estresse, leitura, medo, ansiedade, conclusão, escrita e alívio.



                     Palavras     N. ocorrências Percentuais
                     TEMPO              10          50%
                     DIFICULDADE        08          29%
                     PESQUISA           07          26%
                     ANSIEDADE          07          26%
                     MEDO               06          23%
                     STRESS             06          23%
                     LEITURA            06          23%
                     CONCLUSÃO          03          15%
                     CONHECIMENTO       03          15%
                     ESCRITA            03          15%
                     ALÍVIO             03          15%
               Tabela 4.1: Palavras mais citadas na associação livre de palavras.


      Outras palavras que afloraram na associação feita pelos entrevistados, em
menor número, com duas ocorrências cada, foram: burocracia, construção,
dedicação, desespero, dúvida, esforço, estudo, obrigação, tema, trabalho, vitória.


      Observamos que há uma certa heterogeneidade nos conceitos listados pelos
sujeitos e que, embora as palavras e expressões se diferenciem, não havendo uma
coincidência    acentuada      na   exposição     das   mesmas,      todas    apontam    uma
representação permeada por conflitos, contradições, tensões, onde se revela que
são poucas as palavras dos sujeitos pesquisados que caracterizam a construção do
TCC como uma realização positiva.

      De acordo com as discussões que trouxemos na construção desse trabalho
esse conflito poderia estar evidenciando uma representação que é “fruto da vivência
das contradições que permeiam o dia-a-dia dos grupos sociais e suas expressões” e
que “marca o entendimento deles com seus pares, seus contrários e com as
instituições”. (MINAYO, 2000).
49



      Nota-se que a palavra que aparece em destaque, como a mais citada pelos
participantes foi tempo, mostrando que esta é uma preocupação presente no
cotidiano dos estudantes que convivem com as pressões exercidas pela instituição
universitária, pressões materializadas em cronogramas, prazos para entrega e a
conciliação com as demais atividades que exigem dedicação e esforço do estudante
universitário, principalmente na construção e entrega do TCC.

       A esse respeito podemos trazer o pensamento de Libâneo e Pimenta (1999),
ao se referirem a velhas problemáticas, tais como:


                     Inchaço do currículo, pretensões ambiciosas quanto à diversidade de
                     profissionais a serem formados, aligeiramento da formação,
                     empobrecimento na oferta de disciplinas e impossibilidade de se dar ao
                     curso o caráter de aprofundamento da ciência da educação para formar o
                     pesquisador e o especialista em educação.



      Para ilustrar o que foi dito, consideremos a ordem que alguns dos sujeitos
pesquisados estabeleceram na distribuição das palavras e expressões, no momento
de responder ao questionário:

                     Tempo disponível, ansiedade, angústia, prazo de entrega, pesquisa
                     conhecimentos novos, superação, alívio, vitória, conquista. (EST. 08).

                     Desespero, tempo para fazer, prazo para entrega, acompanhamento,
                     teóricos, leitura, disciplina, determinação, entrega total, alívio. (EST. 01).

                     Dificuldade, tempo, medo (EST. 12).


      Sabemos que apesar de o TCC ser uma exigência conhecida pelo estudante
desde o primeiro momento que ingressa na universidade, este só vai desenvolvê-lo
no período mais próximo ao final do curso, embora vá ao longo de sua formação se
apropriando dos elementos necessários ao aprimoramento da capacidade de
reflexão, necessária á construção desse trabalho.


       Um processo que não se dá somente na parte final da graduação, com vem
colocando Oliveira (2003): “A monografia, como resultado do estudo científico de um
tema, vai sistematizar o resultado das leituras, observações, críticas e reflexões
feitas pelo educando no decorrer de sua formação”.
49



      Podemos perceber que a ordem apresentada pelo EST. 08 e segue uma
seqüência progressiva do processo de construção do TCC e de significação, em que
são mesclados tanto elementos que evidenciam aspectos conflitivos, preocupantes,
quanto conceitos que evidenciam a superação e a conquista no final do processo,
bem como a continuidade que também é expressa pelo EST. 04:


                        Monografia, escrita, leitura, argumentação, exame, banca, exposição,
                        pesquisa, artigo, publicação.


   Chama-nos à atenção a ordem e o número de ocorrências da palavra pesquisa
nas associações, onde pudemos perceber que menos da metade (sete) dos
respondentes fez alusão à mesma e que quando aparece está entre as últimas
palavras mencionadas. Isso evidencia uma certa contradição entre o que está posto
nos discursos oficiais e o que está posto na visão do estudante que vivencia o
processo da pesquisa, mas que não estabelece uma relação de proximidade, de
entendimento sobre a mesma na construção do TCC.


                        A mistificação da pesquisa no campo universitário e, conseqüentemente, a
                        sua definição exclusivamente baseada em cânones científicos, configuram-
                        se como uma das principais dificuldades para realizar a formação de
                        professores na universidade, tomando a pesquisa como princípio formativo.
                        (OLIVEIRA, 2003, p.40).



      Um fato interessante que constatamos na análise foi que um número
expressivo (metade dos respondentes) não completou as dez palavras solicitadas,
declarando estes que não lhe ocorriam mais nenhuma outra no momento de
responder, dessa forma houve estudantes que citaram apenas quatro ou cinco das
dez palavras pedidas.

      As lacunas deixadas pelos sujeitos nos fazem pensar nas contradições que
estariam se evidenciando neste momento o que nos remete ao questionamento: se
a elaboração do TCC desperta longos discursos, que se repetem no departamento e
que circulam largamente em diversos momentos, por que essa dificuldade em
apontar as dez palavras pedidas?

      Não estaria aí a tipificação do desânimo ou da impossibilidade que vem sendo
reiteradas vezes referenciada pelos estudantes?
49



      Podemos observar que foram muitas as referências a sentimentos negativos
provocados pela atividade; os aspectos negativos manifestando-se por enunciações
que denotam estados emocionais conflitantes, tais como ansiedade, dificuldade,
medo, stress, dúvida, tensão, apreensão, insegurança, punição, castigo, punição,
obrigação, avaliação, sofrimento, indiferença, etc.

                        Como a monografia, geralmente, está relacionada com a conclusão de um
                        curso, portanto, com o final de uma etapa, por mais que o aluno tenha se
                        beneficiado dos conhecimentos adquiridos, é inevitável um sentimento de
                        insegurança, pois o desconhecido causa insegurança.(OLIVEIRA, 2003,
                        p.90).


      Assim, inferimos que o estado emocional vivido nessa etapa de formação,
geralmente, está relacionado às dificuldades encontradas durante esse período de
trabalho e pelo fato de os alunos estarem sendo avaliados e disso depender a
conclusão do curso, disso decorrendo a representação sobre o TCC como algo
penoso, difícil, árduo, complexo, intenso. Um último obstáculo a ser superado na
concretização de sua formação.




4.3 Considerações necessárias ao nosso objeto de estudo



      Ao    procurarmos      identificar   junto   aos   estudantes      de   pedagogia      as
representações sociais dos mesmos no que diz respeito ao Trabalho de Conclusão
de Curso, levamos em consideração que as mesmas dizem respeito a um “conjunto
de conceitos, afirmações e explicações originadas no decurso do cotidiano, no
decurso das comunicações interindividuais” Moscovici (2003).

      Pudemos perceber que os sujeito pesquisados representam o TCC como um
trabalho   difícil,   complexo,   desafiador,      desgastante,     desnecessário,      “quase
impossível”, “amedrontador”, ao mesmo tempo em que consideram-no como
importante, quando se reportam á experiência que o trabalho traz, à “abertura do
olhar”, “enriquecimento de idéias” advindos da produção, das leituras e da reflexão
que esse momento propicia. Entrando como elementos mais conflitivos para eles, as
pressões exteriores, a necessidade de exposição, o julgamento pelo qual precisarão
ser submetidos.
49




       Percebe-se que as representações trazidas pelos sujeitos pesquisados são
em sua maioria composta por elementos negativos atribuídos ao momento da
construção do trabalho, momento de maior tensão, em que o estudante vivencia a
pressão exercida pela iminência da conclusão do curso, prazos de entrega dos
trabalhos e pela ansiedade provocada pelo receio da avaliação final, representada
pela exposição e o conseqüente julgamento do trabalho pela banca examinadora.

       Vimos que as representações sociais que os mesmos constroem são
concebidas através das experiências advindas das relações instituídas na
universidade, através do intercambio com seus pares, com professores, com as
vivências hauridas no cotidiano dos trabalhos desenvolvidos durante a graduação e
que giram sempre em torno do medo e insegurança na construção do trabalho
científico.

       Assim, as representações sociais construídas pelos sujeitos, emergem em
meio a estereótipos que estão relacionados a um contexto social e a uma situação
particular, que se desenrola no seio das instituições, no caso, a universidade, e em
meio a uma situação conflitante, desafiadora que é a pesquisa e produção de um
trabalho científico.
                       O estudo das representações sociais exige o exame das condições sociais
                       e institucionais da produção e circulação deste conhecimento em referência
                       a uma prática visto que ela se oferece como visão do mundo ao qual os
                       sujeitos se referem para agirem quotidianamente. (ANADÒN e MACHADO,
                       2003, p. 57).



       Os estereótipos evidenciados em palavras e expressões, tais como “bicho-de-
sete-cabeças” “terrorismo”, “trabalho difícil” “impossível” demonstram que há um
elemento ideológico que perpassa essas representações, que acabam por produzir
uma série de crenças que são construídas a partir de diversas circunstâncias que
envolvem o intercâmbio, ou seja, a influência mútua entre os sujeitos e as situações
que envolvem a construção, apresentação do TCC, gerando interpretações,
concepções, mistificações que vão se perpetuando nessas relações.


Percebemos também que surgem representações positivas, especialmente no que
concerne ao caráter de conclusão que representa a produção do trabalho no término
49



do curso, isso fica evidenciado quando surgem as palavras vitória, conquista, alívio,
superação.

O caráter positivo do TCC também está relacionado à conquista de conhecimentos,
alargamento da visão, mudança de posicionamentos, enriquecimento da prática.

      Compreendemos que as representações sociais dos estudantes de
pedagogia ficaram claramente evidenciadas através de suas palavras, sentimentos,
atitudes e expectativas e imagens que transmitiram tão vivamente em seus
discursos, tanto no momento da pesquisa como nas relações de todos os dias,
destarte, acreditamos que essa pesquisa conseguiu alcançar seu objetivo inicial e
que se torna um manifesto de que algumas visões e concepções que precisam ser
transformadas e repensadas para que a relação entre os indivíduos e o crescimento
seja menos conflituosa e mais significativa.
49



                         CONSIDERAÇÕES FINAIS

      Ao delinearmos nosso problema de pesquisa, partimos do pressuposto de
que o estudo das representações sociais dos estudantes concluintes do curso de
pedagogia do campus VII da Universidade do Estado da Bahia em Senhor do
Bonfim sobre o Trabalho de conclusão de Curso tornava-se relevante porque
propiciaria o encontro, o diálogo entre os sujeitos pesquisados e a universidade, e,
através da análise das representações sociais por eles elaboradas poderíamos
conhecer o que pensam, o que sentem, como interpretam essa questão polêmica
que diz respeito à produção de uma monografia como requisito final de avaliação na
graduação.

      Assim, a nossa questão de pesquisa partiu da idéia e da observação de que
existe uma relação conflituosa, inquietante entre o estudante e a monografia, em
que o mesmo expressava sentimentos de apreensão, temor e angústia com relação
à mesma e que essas demonstrações sempre afloravam em conversas, discussões
no cotidiano da universidade, conversas entre estudantes que estavam passando
pelo processo de construção do trabalho, em vias de concluírem a graduação e
entre aqueles que estavam chegando ao curso.

      Percebíamos também que essa preocupação não era exclusividade do curso
de pedagogia, alunos de todos os cursos estavam sempre expressando sentimento
parecido. Decorrente disso surgiu a preocupação e o interesse em desenvolvermos
um estudo voltado para o TCC e as representações sociais dos estudantes de
pedagogia, um estudo que ousamos chamar de metalingüístico, (já que esta é
também uma monografia, de uma aluna do curso de pedagogia).

      Portanto, ao chegarmos ao termo deste trabalho podemos, não concluir,
porque nada é totalmente conclusivo, definitivo, acabado, mas podemos indicar
aspectos que foram pertinentes à discussão e que serviram de esboço para algumas
considerações interessantes.

      Deste modo, ao analisarmos os discursos evidenciados pelos estudantes
concluintes do curso de pedagogia percebemos que o TCC representa para eles um
momento complexo, conturbado, angustiante e que existe certa mistificação
49



relacionada ao mesmo e aos processos que lhes são diretamente relacionados,
como por exemplo, o caráter avaliativo, as condições em que acontece e as
pressões exercidas pela universidade, e que essas representações são geradas no
decorrer dos intercursos cotidianos realizados pelos sujeitos com seus pares e com
as instituições através das pessoas que a representam.

         Assim sendo, consideramos relevante apontar algumas questões que seriam
pertinentes se levar em conta no processo de reflexão que este trabalho visa
proporcionar:

         As representações sociais dos estudantes estariam relacionadas somente a
ocasião que estavam vivenciando, ou, seja, teriam sido forjadas sob a pressão
relacionada à produção e entrega do TCC, ou seriam fruto de uma visão
equivocada, que é transmitida aos mesmos desde o primeiro momento que
ingressam na universidade?

         A universidade tem contribuído para que o estudante encare a produção do
TCC como uma forma de enriquecer seus conhecimentos, ou tem dado ênfase
meramente aos aspectos técnicos / burocráticos voltados para o rigor formal e para
a capacidade de expor com clareza e objetividade pressupostos cientificistas que
pouco tem relação com os anseios do sujeito que produz?

         Até que ponto tem-se trabalhado no meio acadêmico para que o sujeito que
se inicia na produção científica encare a mesma como um processo natural,
necessário ao seu desenvolvimento e não a veja como algo inatingível, reservado
somente a uns poucos “gênios iluminados”, algo destinado ao crescimento pessoal
do individuo e não como uma punição, uma sanção avaliativa?

         Percebemos que têm sido poucas as ações no sentido de se procurar tornar o
processo de construção, de criação, seja na pré-escola ou na universidade um ato
natural, sem sofrimentos e angústias e que, nós, educandos, futuros educadores,
ainda não aprendemos a nos relacionarmos sem sofrimento com a construção do
saber.
49



      Saímos das escolas, das universidades sem termos adquirido a real
compreensão sobre a tal “construção do conhecimento”, e levamos conosco esse
sentimento de estranheza, de inadequação, de distanciamento, desconforto em lidar
com as formas “complexificadas” de conhecimento e acabaremos por reproduzir,
transmitir, esses mesmos sentimentos, a um sem-número de outros tantos
indivíduos.

      Não estamos querendo afirmar que a produção e apresentação de trabalhos
científicos deveriam ser suprimidas, retiradas dos cursos de graduação, com isso
estaríamos voltando à condição de meros receptores e reprodutores de formas de
conhecimento engessadas, que seriam cada vez mais “sacralizadas”, voltando a um
modelo de universidade que separa o “pensar” do “fazer”.

      Cremos ser de fundamental importância o exercício da reflexão, que é
propiciado pela união entre teoria e prática e que busca subsídios no pensamento
que é construído pela ciência, alcançado pela pesquisa e que tenha também (e não
somente) como base o rigor formal.

      Acreditamos que o estudante deve ser estimulado a produzir o conhecimento
desde suas primeiras experiências com a educação formal e principalmente na
universidade, na graduação, onde ele se iniciará nas formas mais elaboradas,
específicas do saber e onde inicia realmente seu processo de autonomia intelectual.

      Mas, consideramos que se torna de fundamental importância a ação no meio
acadêmico no sentido de fazer-se com que o estudante passe a encarar esses
momentos como um processo natural, ajudando-os a perceber a real importância
desses momentos de construção e de estar aberto a críticas construtivas que o
ajudarão a ascender, evoluir intelectualmente e como sujeito.

      Algumas ações nesse sentido já têm sido desenvolvidas, porém não com
constância e a coesão necessárias, onde as principais ações que se destacam são
os seminários, as produções de artigos, projetos de pesquisa, os estágios
curriculares integrados à pesquisa e á prática pedagógica, mas percebe-se que
essas atividades já trazem em seu bojo as mesmas problemáticas existentes na
49



construção do Trabalho de Conclusão de Curso e que acabam contribuindo, em
alguns casos, para a intensificação de algumas visões, ideologias equivocadas.

      Na busca de elementos que poderiam contribuir para a construção desse
trabalho encontramos, posto no regulamento referente ao Trabalho de Conclusão de
Curso da universidade que foi lócus da pesquisa, indicativos de ações que poderiam
ser desenvolvidas e que poderiam ser uma alternativa para que esses momentos de
construção fossem mais significativos e menos traumáticos.

      Dessa forma, ao trazer em seu regulamento a realização de atividades
abertas à comunidade acadêmica (reuniões, encontros, palestras e seminários)
envolvendo professores-orientadores e orientandos onde aconteceria um processo
de socialização e troca de experiências, divulgação dos temas trabalhados e das
fases de desenvolvimento dos projetos no decorrer do processo de elaboração dos
trabalhos de conclusão de curso desponta-se a possibilidade de um trabalho de
reversão na construção dessa imagem negativa, conflituosa que é passada
continuamente pela própria instituição universitária. Bastando para isso que se
comecem a realizar ações nesse sentido.

      Ousamos, ao chegar à conclusão desse trabalho que se tornou tão
significativo, sugerir, apontar ações que poderiam ser desenvolvidas por esta
instituição para que os próximos estudantes, não só de pedagogia, a lidarem com a
experiência de construção de um trabalho desse jaez passem a vê-lo como uma
conquista importante, resultado do seu crescimento como pessoa e como sujeito
que constrói o conhecimento e que se auto-realiza com essa construção.

      Poder-se-ia rever a questão do TCC como única forma de avaliação do aluno
concluinte no final do curso, onde se buscaria constituir outras estratégias de
avaliação   que   estabelecessem    uma   relação   entre    essa   produção     e   o
desenvolvimento do educando no decorrer da formação.

      Destarte, cremos que o processo de construção do TCC pelo estudante
precisa ser desvinculado do caráter de obrigatoriedade, ao menos na parte que se
refere à defesa exclusiva para uma banca examinadora que tem como único objetivo
julgar o resultado que é exposto naquele momento e que não leva em consideração
49



o processo de crescimento vivenciado pelo aluno, pois geralmente, as pessoas que
compõem a banca não acompanharam o desenvolvimento, a trajetória daquele
aluno por inteiro.

       Ações deveriam ser realizadas pela universidade junto aos estudantes para
que se fizesse uma revisão do conceito de TCC como caráter meramente punitivo
como está expresso na fala incisiva de um dos sujeitos dessa pesquisa:

                     Considero (o TCC) uma atividade totalmente ultrapassada. (...) ouvimos
                     falar tanto na universidade de mudanças e renovações, mas a própria
                     UNEB se utiliza de métodos antigos como estes para aprovar ou reprovar
                     alunos. Elaborar e apresentar o TCC me dá uma sensação de punição e
                     não aprendizagem. (EST. 05).



       Com o discurso contundente reproduzido acima concluímos esse trabalho e
esperamos que o mesmo possa contribuir na construção de um diálogo entre
aqueles que se interessam por essa problemática, (discentes, docentes e
comunidade acadêmica como um todo) e que seja o prenúncio de outras ações que
venham acrescentar, incrementar essa discussão.
49



                               REFERÊNCIAS



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__________; Lei 9394/96 de 20 de novembro de 1993. Dispõe sobre as Diretrizes e
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49



                                QUESTIONÁRIO


    Caro (a) colega:

    Este questionário é um instrumento relativo à pesquisa que realizo nos
    quadros do TCC, enquanto concluinte do Curso de Pedagogia.

    Agradeço a valiosa colaboração, e não, precisa assinar. Manteremos o devido
    sigilo, em uma postura ética enquanto pesquisadora.

    Antecipadamente grata,

    Mônica Andrade



                                DADOS PESSOAIS
1. IDADE:

(   ) 17 a 21 anos                                 (    ) 37a 41 anos
(   ) 22 a 26 anos                                 (    ) 42 a 46 anos
(   ) 27 a 31 anos                                 (    ) 47 a 51 anos
(   ) 32 a 36 anos                                 (    ) superior a 52 anos


2. SEXO:


(   ) FEMININO                                     (    ) MASCULINO



3. LOCAL ONDE MORA:
(   ) zona rural                                   (     ) zona urbana


4. FUNÇÃO PROFISSIONAL QUE DESEMPENHA ATUALMENTE:
________________________________________________________________
________________________________________________________________


5. CURSO/HABILITAÇÃO:
________________________________________________________________
________________________________________________________________
49



6. QUE RAZÕES O (A) LEVARAM A CURSAR PEDAGOGIA?
________________________________________________________________
________________________________________________________________


7. ASSINALE UMA DAS ALTERNATIVAS: COM RELAÇÃO À DISCIPLINA DE
   MONOGRAFIA

   (     ) estou cursando   (   ) tranquei matrícula   (   ) abandonei a
disciplina


8. CASO TENHA TRANCADO A DISCIPLI NA OU ABANDONADO O QUE O (A)
   LEVOU A FAZER ISTO?
________________________________________________________________
________________________________________________________________


9. QUANDO SE FALA EM TCC, QUAIS AS PRIMEIRAS 10 PALAVRAS QUE LHE
   VÊM À MENTE?



       1. __________________            6. __________________
       2. __________________            7. __________________
       3. __________________            8. __________________
       4. __________________            9. __________________
       5. __________________            10. __________________



10. QUAL A SUA PRIMEIRA LEMBRANÇA, AO INGRESSAR NA UNIVERSIDADE,
    REFERENTE AO TCC?
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________


11. O QUE VOCÊ ACHA DA EXIGÊNCIA DE SE FAZER UM TRABALHO DE
    CONCLUSAO DE CURSO E APRESENTÁ-LO DIANTE DE UMA BANCA
    EXAMINADORA?
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
49



12. HÁ ALGUMA RELAÇÃO ENTRE AS EXPERIÊNCIAS, VIVÊNCIAS (NAS
DISCIPLINAS, RELAÇÕES COM PROFESSORES, ESTÁGIOS, SEMINARIOS)
ADQUIRIDAS NO DECORRER DE SUA FORMAÇÃO NO CURSO DE PEDAGOGIA
E SEU TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (MONOGRAFIA)?

_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________


13. VOCÊ ACHA QUE O SEU TCC TERÁ ALGUMA RELAÇÃO COM A SUA VIDA
    APÓS A GRADUAÇÃO? DE QUE FORMA?

_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
_____________________________________________________________________

Monografia Mônica Pedagogia 2004

  • 1.
    UNIVERSIDADE DO ESTADODA BAHIA - UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS VII SENHOR DO BONFIM - BA REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS ESTUDANTES DE PEDAGOGIA SOBRE O TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO - TCC Por MONICA ANDRADE Senhor do Bonfim 2008
  • 2.
    MONICA ANDRADE REPRESENTAÇÕES SOCIAISDOS ESTUDANTES DE PEDAGOGIA SOBRE O TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO - TCC Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia- campus VII como requisito parcial para conclusão do curso de licenciatura em pedagogia. Habilitação em Docência e Gestão de processos educativos. Orientador: Paulo Batista Machado, Ph.D. Senhor do Bonfim 2008
  • 3.
    MONICA ANDRADE REPRESENTAÇÕESSOCIAIS DOS ESTUDANTES DE PEDAGOGIA SOBRE O TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO - TCC Aprovada em ____/ ____/ _____ _____________________________ Orientador ______________________________ Professor (a) avaliador (a) ______________________________ Professor (a) avaliador (a) Senhor do Bonfim 2008
  • 4.
    Ao meu pai,José augusto, companheiro eterno de lutas, a quem devo tudo o que sou. À Sônia, tia querida, pela generosidade e pelo carinho. Ao Jairo, pelo apoio incondicional e incentivo constante que me fizeram continuar, quando parecia impossível. Aos meus colegas de curso e sujeitos de pesquisa.
  • 5.
    Agradecimento A Deus. À Universidadedo Estado da Bahia - UNEB. Ao departamento de Educação do campus VII. Ao professor Paulo Machado pelo carinho e delicadeza com que me conduziu neste trabalho. A todos os professores do curso de pedagogia, pelos ensinamentos e incentivos. A todos que me ajudaram de alguma forma neste período importante de minha vida.
  • 6.
    RESUMO O presente estudoé resultado de experiências vivenciadas no curso de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia – departamento de educação - campus VII - Senhor do Bonfim e teve como objetivos: Identificar e Analisar as representações sociais dos estudantes de pedagogia da referida instituição sobre o Trabalho de Conclusão de Curso – TCC. Para realização da pesquisa, baseamo-nos no paradigma qualitativo, onde utilizamos como instrumentos de coleta de dados o questionário e a técnica da associação livre de palavras. Neste estudo apoiamo-nos em autores que discutem questões relacionadas ao curso de pedagogia, como Libâneo (2001); Libâneo e Pimenta (2004); Saviani (2007); autores que discutem a pesquisa e o trabalho científico, como Eco (1998); Salomon (1991); Ludke (2005); Kramer (1998); Lakatos (1991); Gohn (2005); Oliveira (2003); e às representações sociais com Anadón e Machado (2003); Minayo (2000); Guareschi e Jovechlovitch (2000); Coutinho e Saldanha (2005). Os resultados da pesquisa mostram que os estudantes representam o TCC como um trabalho difícil, complexo, desafiador, desgastante, desnecessário e que as representações sociais dos mesmos estão relacionadas a sentimentos negativos, conflitivos, decorrentes de um processo ideológico que permeia as relações entre esses sujeitos e o contexto da instituição do qual fazem parte. Conceitos – chave: Pedagogia, Trabalho de Conclusão de Curso, Representações Sociais.
  • 7.
    SUMÁRIO Apresentação ..................................................................................................................................... 08 Capítulo I - Esboçando o Problema ................................................................................................................................... 10 1.1 Uma análise do TCC e seu papel na graduação 12 1.1.2 Algumas considerações referentes ao trabalho de conclusão de curso na universidade .................................................................................................... 13 1.1.3 O estudante e o TCC – relação conflituosa 15 1.1.4 Delimitando o problema 17 Capítulo II - Quadro Conceitual 2.1 O curso de pedagogia no Brasil – breve histórico 19 2.1.1 O debate em torno das diretrizes do curso de pedagogia – a docência como base da formação do pedagogo .................................................................................................... 22 2.1.2 A pesquisa como espaço de reflexão no curso de pedagogia 25 2.2 O trabalho científico na universidade .................................................................................................. 27 2.3 Monografia ou TCC? Conceitos... .................................................................................................. 29 2.3.1 A monografia e o desafio na construção do conhecimento pelo educando na graduação .................................................................................................... 33 2.4 As Representações Sociais na construção de nosso objeto de estudo 35
  • 8.
    Capítulo III - Procedimentos Metodológicos ..................................................................................................................................... 40 3.1 Lócus da Pesquisa 42 3.2 Sujeitos 43 3.3 Instrumentos e Estratégias 3.3.1 Questionário 44 Capítulo IV - Análise de dados e interpretação dos resultados 4.1 Perfil dos sujeitos pesquisados 46 4.1.1 Motivos de escolha do curso 48 4.2 As representações sociais emergindo no discurso dos sujeitos pesquisados. .................................................................................................... 49 4.2.1 Categoria primeira lembrança referente ao TCC 50 4.2.2 Categoria construção do TCC e experiências adquiridas na graduação .................................................................................................... 52 4.2.3 Categoria processo avaliativo 53 4.2.4 As representações sociais dos estudantes de pedagogia a partir da associação livre de palavras .................................................................................................... 54 4.3 Considerações necessárias ao nosso objeto de estudo 58 Considerações Finais ..................................................................................................................................... 61 Referências ..................................................................................................................................... 66 Anexos ..................................................................................................................................... 68
  • 9.
    APRESENTAÇÃO O presente trabalho trouxe como objetivos Analisar e Identificar as Representações Sociais dos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia – Campus VII em Senhor do Bonfim-Ba sobre o Trabalho de Conclusão de Curso. Assim, construímos nosso estudo a partir da discussão em torno da seguinte questão de pesquisa: Quais as representações sociais que os estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia têm sobre o Trabalho de Conclusão de Curso ou TCC? No intuito de responder a essa questão buscamos entre os estudantes concluintes de um curso de pedagogia noturno oferecido pelo departamento de educação da referida universidade colher elementos que fossem significativos e pertinentes ao nosso objeto de estudo, nesse sentido foi aplicado questionário entre estudantes que estavam em fase de conclusão do curso e, conseqüentemente passando pelo processo de construção do TCC. Através da análise e interpretação dos resultados obtidos junto aos sujeitos da pesquisa tornou-se possível identificar as Representações Sociais dos mesmos bem como a construção desse trabalho que também se configura como um Trabalho de Conclusão de Curso e que se encontra organizado na forma a seguir: No capítulo I, esboçamos nosso problema de pesquisa a partir da discussão em torno da exigência de construção do TCC na graduação e mais especificamente no curso de pedagogia, as condições em que essa produção é instituída e alguns pontos críticos que envolvem a sua construção pelo estudante, onde delimitamos nosso objeto de estudo – as representações sociais dos estudantes de pedagogia sobre o TCC – e esclarecemos os objetivos da pesquisa, bem como a relevância social e científica da mesma.
  • 10.
    9 No capítulo IIconstruímos o corpo teórico do presente estudo, onde trabalhamos com os seguintes conceitos-chave: Pedagogia, Trabalho de Conclusão de Curso e Representações Sociais. Onde procuramos dialogar com estudos realizados por teóricos que trouxessem elementos basilares às discussões. No capítulo III traçamos o caminho metodológico a conduzir nosso trabalho, onde explicitamos os pressupostos epistemológicos em que nos apoiamos, explicitamos os instrumentos de coleta, os sujeitos e o lócus da pesquisa. No capítulo IV estão presentes os resultados do estudo, onde é feita uma discussão e uma análise crítica em volta dos mesmos, e onde se procura estabelecer uma relação com os objetivos que nos conduziram por esse trabalho. Fechando o trabalho, as considerações finais, onde procuramos fazer alguns apontamentos no sentido de chamarmos à reflexão os sujeitos a quem esse trabalho possa interessar e onde colocamos nosso ponto de vista sobre questões fundamentais que surgiram nessa pesquisa.
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    10 CAPÍTULO I ESBOÇANDO O PROBLEMA Segundo alguns autores, gradativamente, desde o final dos anos 80, foi-se consolidando como prática acadêmica a elaboração dos Trabalhos de Conclusão de Curso – TCC - atividade proposta como alternativa de avaliação da capacidade de síntese dos conhecimentos adquiridos pelo estudante durante sua graduação. Dessa forma, tem-se como princípio que na produção do referido trabalho deverão emergir as concepções adquiridas durante esse período, a capacidade de análise crítica através da pesquisa e produção científica, o domínio epistemológico de seu campo de conhecimento e a contribuição que esse futuro profissional poderá dar ao progresso da sociedade e das ciências. Surgindo da necessidade de elevação do nível de qualidade dos cursos de graduação e pós - graduação e das respectivas instituições, o TCC representa mais que mera atividade acadêmica, sendo um dos elementos preponderantes nos critérios indicadores de qualidade das universidades, estando presente na maioria dos cursos em nível superior: “se, inicialmente, a exigência desse trabalho situava- se apenas em algumas áreas como Direito, Serviço Social, Psicologia, hoje é uma exigência da quase totalidade dos cursos de graduação e de pós-graduação”. (OLIVEIRA, 2003). Dessa forma, a exigência de elaboração desse tipo de trabalho vem sendo instituída também na maioria dos cursos de formação de educadores no Brasil, onde é posta a indissociabilidade entre ensino e pesquisa, aspecto considerado fundamental para a construção de um modelo, um padrão de qualidade dos cursos de bacharelado e licenciatura dentro das instituições de ensino.
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    11 Conseqüentemente, nos últimos anos vêm se travando alguns debates não só em torno dos TCC, mas também em torno dos cursos de pedagogia, em que os mesmos tornaram-se alvo de reflexões e críticas ao serem apontadas dicotomias entre teoria e prática, ensino e pesquisa, conhecimento específico e conhecimento pedagógico. (OLIVEIRA, 2003). A partir desse contexto e da necessidade de se estabelecer uma especificidade para o curso de pedagogia e discutir-se a identidade profissional do pedagogo ações foram desenvolvidas no sentido de atender a essas especificidades no campo legal, e, após um longo processo de discussão instituíram-se as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia, exaradas pelo Conselho nacional de Educação (CNE) em 2006, numa tentativa de estabelecimento de uma base comum que institui a docência como principio fundamental da formação do pedagogo e alarga o campo de atuação do mesmo. As diretrizes, dentro desse contexto vêm também reiterando a importância da pesquisa como oportunidade de integralização de estudos realizados durante a graduação e desenvolvimento da capacidade de análise crítica voltada para a realidade educacional, onde o pedagogo deverá estar apto a trabalhar com a centralidade de informações e habilidades. A exemplo, as diretrizes em seu artigo 3° estabelecem o conhecimento da escola como organização complexa que tem a função de promover a educação para e na cidadania e a pesquisa, a análise e a aplicação dos resultados de investigações de interesse da área educacional. Mais adiante, em seu Artigo 8º, inciso III as diretrizes tratam da integração de estudos através também da realização de atividades complementares em que se inclui o Trabalho de Conclusão de Curso, que deveria ser resultado dessa integração, produto de um trabalho progressivo que aconteceria no decorrer dos estudos a partir das diversas experiências vivenciadas pelo pedagogo em sua formação. Atividades complementares envolvendo o planejamento e o desenvolvimento progressivo do Trabalho de Conclusão de Curso, atividades de monitoria, de iniciação científica e de extensão, diretamente orientadas por membro do corpo docente da instituição de educação superior decorrentes ou articuladas às disciplinas, áreas de conhecimentos,
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    12 seminários, eventos científico-culturais, estudos curriculares, de modo a propiciar vivências em algumas modalidades e experiências.(...). Ao situarmos as discussões feitas até aqui dentro de nosso campo de estudo, passaremos a discutir sobre o Trabalho de Conclusão de Curso tendo como base o contexto em que se desdobra o nosso centro de interesse mais específico. Dessa forma, passaremos a debater as questões referentes ao Trabalho de Conclusão de Curso dentro da Universidade do Estado da Bahia – Campus VII, partindo da análise das representações sociais dos sujeitos que estão ou estarão vivenciando essa experiência em um campo especifico do conhecimento que é o curso de pedagogia. 1.1 - Uma análise do TCC e seu papel na graduação O Trabalho de Conclusão de Curso recebe variadas denominações a depender da grade curricular dos cursos que o utilizam e das normas internas de cada instituição, recebendo genericamente a acepção de monografia, ou seja, trabalho individual sobre um único tema, desenvolvido em torno de um problema que pode ser analisado e discutido com base somente em referenciais teóricos ou a partir de pesquisa de campo, onde os resultados são discutidos e submetidos aos crivos científicos e filosóficos. O regulamento do Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade do Estado da Bahia, em seu capitulo II, referente às finalidades e objetivos, artigo 3º, incisos I, II e III, reza o seguinte: Art. 3º - O Trabalho de Conclusão de Curso, tendo como finalidade primeira estabelecer a articulação entre o ensino e a pesquisa, ao tempo em que estimula a atividade de produção científica e técnica, tem por objetivos proporcionar ao aluno oportunidades para: I - aprimorar a capacidade de analisar e interpretar criticamente fatos e ocorrências da realidade, na sua área de conhecimento; II - desenvolver as habilidades de expressão escrita na produção de texto científico de cunho monográfico; III - desenvolver habilidades para a utilização de outras formas de expressão através do uso das diversas linguagens traduzidas, dentre os vários trabalhos acadêmicos, em produtos da comunicação multimídia, projetos urbanísticos, produtos turísticos, experiências laboratoriais e/ou projetos educacionais.
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    13 Percebemos através da definição dada acima que a monografia recebe uma conotação diversa quando em alguns momentos é apontada como oportunidade de exercer a criticidade na análise da realidade e em outros momentos torna-se apenas um meio para avaliação da capacidade de sistematização e síntese do aluno concluinte através da escrita dentro dos padrões e do rigor formal da academia. Dentro dessa concepção a monografia define-se como uma forma de trabalho científico, e como tal devendo estar submetido a normas específicas tanto no processo de definição e abordagem do problema, que deve ser original, seguindo uma metodologia definida e estar dentro das normas técnicas que regem esse tipo de produção. Espera-se que através da utilização de instrumentos teórico-metodológicos o educador desenvolva mais que habilidades de produzir textos científicos devendo aliar essa produção a uma função social, interpretando a realidade cotidiana, dando- lhe significado, observando os acontecimentos, aliando-os à prática docente e buscando respostas que venham enriquecer o trabalho como um todo. 1.1.2 Algumas considerações referentes ao trabalho de conclusão de curso na universidade Ao tempo em que os cursos de pedagogia têm privilegiado a pesquisa, procurando incorporá-la às diversas atividades acadêmicas através das disciplinas de metodologia do trabalho científico e dos estágios, com a produção de projetos de pesquisa, artigos científicos, relatórios e enfim o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) percebe-se que não há clareza por parte dos futuros docentes-pesquisadores quanto à definição do conceito de pesquisa e a sua finalidade, como afirma Oliveira (2003). Tais atividades, apesar de contribuírem para despertar a curiosidade do aluno, não chegam a representar o verdadeiro conceito de pesquisa, ou seja, a pesquisa como fruto da curiosidade e da inquietação do indivíduo ou de um grupo, que busca, através de atividades sistemáticas, a profundidade de um determinado aspecto da realidade, tendo consciência
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    14 de que, para tanto, se faz mister decidir por uma orientação teórico- metodológica, pois ela é quem determinará o que é e o que não é importante pesquisar, e que visão de homem, de mundo e de sociedade tem o pesquisador.(p.36). A produção do Trabalho de Conclusão de Curso geralmente acontece nos últimos semestres da graduação devendo decorrer a escolha do tema e problema de estudo a partir dos diversos projetos de pesquisa desenvolvidos durante o curso. Mas na pratica vê-se que existe uma grande descontinuidade em relação às temáticas abordadas nesses trabalhos e á temática abordada no TCC. Outros aspectos relevantes para a discussão, além da descontinuidade, se referem aos problemas relacionados ao suporte institucional necessário durante esse período, onde a falta de professores – orientadores dentro da linha de pesquisa escolhida pelos alunos concluintes, indefinição de problema de pesquisa pelos mesmos, precariedade de acervo bibliográfico, prazos de entrega e devolução dos trabalhos, falta de espaço para a discussão que envolva os estudantes nas questões referentes à estruturação dessas atividades, são algumas das dificuldades enfrentadas por quem realiza os trabalhos científicos. Ratificando o que foi dito, as normas para estruturação de trabalhos monográficos de conclusão de curso no departamento de educação – Campus VII da Universidade Estadual da Bahia vem trazendo a seguinte questão relacionada à escolha do problema de pesquisa: A atenção especial deve ser dada ao problema de pesquisa, já que toda pesquisa se inicia com algum tipo de problema, ou indagação. Nem todo problema é passível de tratamento cientifico. Isso significa que para se realizar uma pesquisa é necessário, em primeiro lugar verificar se o problema cogitado se enquadra na categoria de cientifico. O aluno deve escolher um problema dentro das possibilidades de orientação dos professores do departamento e desenvolver trabalho sob orientação do mesmo. (p. 2). Vimos que as limitações presentes no desenvolvimento da pesquisa científica estão ligadas principalmente às deficiências estruturais na maioria das universidades, que se expressam na fragilidade e fragmentação dos cursos, dentro de um modelo de Universidade que geralmente segue padrões de ensino e pesquisa
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    15 não condizentes coma realidade e especificidades próprias de cada contexto histórico e social em que se insere. Percebe-se que por vezes o critério adotado para a exigência referente à produção de trabalhos científicos dentro da universidade tem seguido mais uma razão técnico-burocrática que representado um espaço real de discussão, onde o educador possa vir a ser mais que mero reprodutor de conhecimento. Outra questão relevante que cabe discutir é a pouca disponibilidade de espaço e tempo para que a atividade de elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso seja mais significativa e integrada ao processo formativo do discente universitário. Isso se torna evidente quando se percebe que geralmente não há dentro do espaço em questão a prática de atividades abertas à comunidade acadêmica, envolvendo professores – orientadores e orientandos onde aconteça um processo de socialização e troca de experiências, divulgação dos temas trabalhados e das fases de desenvolvimento dos projetos no decorrer do processo de elaboração dos trabalhos de conclusão de curso, como está posto no capitulo III, artigo 7º, inciso 4º do regulamento geral de TCC, que trata da supervisão e coordenação dos trabalhos de conclusão de curso da Universidade do Estado da Bahia – UNEB. 1.1.3 O estudante e o TCC – relação conflituosa Nota-se nos discursos da maioria dos estudantes de pedagogia uma ansiedade premente ante a elaboração de trabalhos científicos, talvez por uma representação equivocada da produção científica, que vê a mesma como capacidade restrita a alguns poucos “gênios”, superdotados, gerando sentimentos de insegurança e incapacidade. Sabemos que estes momentos geralmente são fonte causadora de expectativa e angústia naquele que produz o trabalho científico, sendo objeto de
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    16 preocupações para estudantesque se sentem incapacitados em desenvolvê-lo, seja por falta de experiência no desenrolar de sua formação, seja pelo sentimento de inabilidade em leituras e produções científicas. Nos corredores da universidade nos deparamos com estudantes discutindo sobre o TCC, narrando histórias “aterrorizantes” de colegas que passaram pela experiência, ouvimos declarações de medo, medo de não dar conta de produzir um trabalho desse tipo, medo das bancas examinadoras, indefinição do tema e do problema de pesquisa. Percebem-se também atitudes de fuga que demonstram o desejo de adiar ao máximo possível a elaboração do trabalho, ficando muitos alunos para definirem seu tema de pesquisa no último semestre da graduação, começando a escrever faltando poucos dias para a entrega e apresentação ou trancando a disciplina de Monografia por mais alguns períodos. Portanto, com base no exposto acima julgamos pertinente a realização de um estudo que vá em busca do que estes estudantes pensam, quais são as suas preocupações, as representações que constroem reconstroem socialmente acerca do objeto, como vivenciam esse processo. Ao debater questões concernentes à produção do TCC pelos estudantes universitários, privilegiaremos a discussão em torno do curso de pedagogia da universidade mencionada no que se refere às representações sociais dos concluintes acerca do trabalho monográfico. Ao pretendermos analisar as representações sociais dos estudantes de pedagogia estaríamos percebendo os mesmos como sujeitos que elaboram formas de conhecimento através de “interações sociais, através dos valores, das crenças, dos estereótipos (...) partilhadas por um grupo social, no que concerne a diversos objetos, dando lugar a uma visão comum das coisas”, produzindo um saber elaborado pelo senso comum, que não surge no vazio, que se constrói a partir de trocas cotidianas (ANADON E MACHADO, 2003).
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    17 Deste modo, ao situarmos nosso estudo no campo das Representações Sociais, procuraremos situá-las como conceitos que são produzidos nas relações entre sujeitos que compartilham espaços e situações semelhantes, como é o caso dos estudantes que fazem parte de um mesmo curso ou que estão passando pela experiência de elaboração de um trabalho monográfico. 1.1.4 Delimitando o problema Pensando em algumas destas questões, experimentando as angústias descritas, como estudante prestes a concluir o curso de pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia e conseqüentemente, passando pela experiência de elaboração e apresentação do TCC, observando as reações de colegas, e também de outros cursos, surge a seguinte questão de pesquisa: Quais as representações sociais que os estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia - campus VII têm sobre o trabalho de conclusão de curso – TCC? No intuito de buscar respostas a essa indagação, definimos como objetivos de nossa pesquisa: 1. Identificar as representações sociais dos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia - Campus VII sobre o Trabalho de Conclusão de Curso. 2. Analisar as representações sociais dos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia - Campus VII sobre o Trabalho de Conclusão de Curso. Cremos que a relevância desse estudo está em colaborar para que se dê voz aos sujeitos da pesquisa sobre um problema que os interessa particularmente, oferecendo subsídios para traçar-se um perfil, não conclusivo, da visão desses, percebendo-se como os mesmos vêem a pesquisa acadêmica, como se vêem nesse processo e quais os significados elaborados pelo chamado “senso comum”
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    18 construído a partirdas interpretações e reconstruções da realidade, produzidas dentro de um grupo, na relação entre seus pares. Acreditamos que a contribuição que podemos trazer com o presente estudo está em tratarmos de uma questão que pouco é discutida no meio acadêmico e científico sob a perspectiva dos sujeitos a quem o problema se destina e, dessa forma, ensejar uma desmistificação da produção científica, ao tempo em que estaremos trazendo elementos pertinentes para a discussão no sentido de se propiciar o diálogo entre o sujeito e o conhecimento, entre o estudante e a universidade.
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    19 CAPÍTULO II QUADRO CONCEITUAL Ao identificarmos e analisarmos as representações sociais dos estudantes de pedagogia sobre o Trabalho de Conclusão de Curso alguns conceitos chave emergem com elementos norteadores da discussão em torno da qual se desenvolve nosso problema de estudo. Dessa forma partiremos da discussão sobre o curso de pedagogia, fazendo uma abordagem histórica do mesmo, a sua especificidade no campo das ciências da educação, o debate em torno das novas diretrizes para o curso, como se inserem essas discussões em nosso objeto de estudo. Assim sendo, estaremos analisando o TCC, seu conceito, o papel do mesmo na formação do pedagogo, sua função avaliativa e formadora e o princípio que põe o mesmo como espaço para a reflexão crítica bem como preparação para a pesquisa na formação docente. Como eixo norteador da discussão, as Representações Sociais, que nos conduzirão pelos significados, simbologias, crenças e imagens tecidas, construídas e compartilhadas pelos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia UNEB - Campus VII, Senhor do Bonfim, sobre a temática em questão. 2.1 O curso de pedagogia no Brasil – breve histórico Ao longo da historia da chamada civilização ocidental, a pedagogia foi se firmando como correlato de educação, entendida como o modo de apreender ou de instituir o processo educativo. Dessa maneira, a pedagogia se desenvolveu em íntima relação com a prática educativa, constituindo-se em teoria ou ciência dessa prática. (SAVIANI, 2007).
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    20 Segundo Libâneo (2001) existe uma idéia de senso comum de que pedagogia é o modo como se ensina, dessa forma, o pedagógico diria respeito ao metodológico, aos procedimentos. Para o autor, a pedagogia é ao mesmo tempo um campo de conhecimento sobre a problemática educativa na sua totalidade e historicidade e diretriz orientadora da ação educativa. Pedagogia é, então, o campo de conhecimento que se ocupa do estudo sistemático da educação, isto é, do ato educativo, da prática educativa concreta que se realiza na sociedade como um dos ingredientes básicos da configuração da atividade humana. (Libâneo, p.22). A institucionalização da pedagogia no Brasil se deu primeiramente através da criação dos chamados Institutos superiores de educação, “concebidos como espaços de cultivo da educação encarada não apenas como objeto do ensino, mas também da pesquisa” (SAVIANI, 2007). Depois a tarefa de formar bacharéis e licenciados ficou a cargo das Faculdades Nacionais de Filosofia. A criação do Curso de Pedagogia no país se deu através do Decreto-lei n° 1190, de 1939, com a dupla função de formar o bacharel (ou técnico em educação) e o licenciado, através da fórmula que ficou conhecida como “3+1”. Isto é, o estudante de Pedagogia cursava nos três primeiros anos as disciplinas de conteúdos científico-culturais, formando-se bacharel. Em seguida, continuava estudando por mais um ano, cursando as disciplinas de natureza pedagógica, e se licenciava. Foram definidos, para todos os cursos, os respectivos currículos plenos. Para o Curso de Pedagogia foi previsto o seguinte currículo: 1º ano: Complementos de Matemática; História da filosofia; Sociologia; Fundamentos Biológicos da educação; Psicologia Educacional; 2º ano: Psicologia Educacional; Estatística Educacional; História da Educação; Fundamentos Sociológicos da Educação; Administração Escolar; 3º ano: Psicologia educacional; História da Educação; Administração Escolar; Educação Comparada; Filosofia da Educação. Vê-se que Psicologia Educacional se destaca, pois é a única disciplina que figura em todas as séries. Em seguida posicionam-se História da Educação e Administração Escolar, figurando em duas séries. Às demais disciplinas, reservaram-se apenas um ano de estudo. (SAVIANI, 2007 p.117).
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    21 Dessa forma, na ultima fase de seus estudos o bacharel em pedagogia poderia licenciar-se cursando algumas disciplinas referentes à didática, ficando essa organização até depois da regulamentação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB – n. 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Decorreu também da promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional a organização do curso de pedagogia em quatro anos, englobando o bacharelado e a licenciatura, o que corresponde, portanto, à duração anterior. Dessa maneira as disciplinas de licenciatura poderiam ser cursadas simultaneamente ao bacharelado. Após varias regulamentações implementadas pelo Conselho Federal de Educação, entre as quais a que regulamentava a formação do especialista nas várias habilitações (CFE 251/62), em 1969 a partir do parecer CFE 292/69 é abolida a distinção entre licenciatura e bacharelado, mantendo-se a formação do especialista em várias habilitações e estabelecendo que o formado em pedagogia receba o titulo de licenciado. (LIBÂNEO, 2001). Segundo Saviani (2007), o aspecto mais característico da referida regulamentação foi a introdução das habilitações visando a formar "especialistas" nas quatro modalidades indicadas (Orientação Educacional, Administração Escolar, Supervisão Escolar e Inspeção Escolar), além do professor para o ensino normal. Assim os cursos de pedagogia das diversas faculdades de educação no país tinham um currículo unificado, uma base comum e uma parte diversificada. Essa regulamentação do Curso de Pedagogia, não obstante as tentativas de modificação, de iniciativa do próprio Conselho Federal de Educação e do movimento organizado dos educadores em todo o país, permaneceu em vigor até a aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (n. 9.394), em 20 de dezembro de 1996. Segundo Libâneo (2001), em meados da década de 1980, algumas Faculdades de Educação, por influência de pesquisas e debates em encontros e indicações do movimento nacional pela formação do educador suspenderam ou suprimiram as habilitações convencionais (administração escolar, orientação
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    22 educacional, supervisão escolar,etc.), para investir num currículo centrado na formação de professores para as series iniciais do ensino fundamental e curso de magistério. A LDB 9394/96, em vigor até os dias atuais, em seu artigo 64 vem instituindo a formação do professor da educação básica em instituições de nível superior e ainda devendo ser habilitado para as funções de administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional: Art. 64. A formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica, será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional. 2.1.1 O debate em torno das diretrizes do curso de pedagogia – a docência como base da formação do pedagogo. No processo de promulgação da LDB, é levantada a polêmica em torno da formação do professor da educação básica, e se institui essa formação nos institutos superiores de educação através do curso normal superior (art. 62 e 63), dando espaço para que a pedagogia que vem reiterando ser a sua base a docência seja descaracterizada. Essa docência se dando nas séries iniciais do ensino fundamental e educação Infantil. É claro que esse reducionismo, descaracterizando a pedagogia como campo teórico-investigativo e identificando-a com uma licenciatura, teve conseqüências na discussão sobre o papel das faculdades de educação. Muitos não aceitam essa ligação, mas creio que nossa argumentação ajuda a entender a questão. Uma vez dispensadas as habilitações e reduzindo-se o papel das faculdades de educação a proporcionar licenciatura para formar professores para as séries iniciais e para o curso Normal, não se teria mais o curso de pedagogia (stricto sensu). Ou seja, já não teria sentido a existência das faculdades de educação, bastando transformá-las em centros de formação de professores. Não estaria aí a origem da criação dos Institutos Superiores de Educação? (LIBÂNEO E PIMENTA, 1999, p.252). Cabe destacar no processo das sucessivas reformulações do curso de pedagogia no país o movimento empreendido pelos movimentos nacionais em prol
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    23 da formação doprofessor, estando presente no debate que se aprofundou nas décadas seguintes a respeito da identidade do pedagogo no Brasil, identidade esta fragmentada por um currículo e por uma profissionalização insatisfatórios para realizar uma tarefa efetivamente educativa. (LIBÂNEO e PIMENTA, 1999). Assim, entendendo que as proposições trazidas no bojo das formulações do curso de pedagogia não atendiam às especificidades educacionais presentes na realidade brasileira e baseando-se no princípio de que a base da formação do pedagogo é a docência, amplos debates foram empreendidos, principalmente quando da promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96), tanto em torno da identidade do curso de pedagogia quanto do pedagogo. Dentro dessas discussões surge o questionamento acerca da pedagogia como campo de conhecimento, que possui estatuto próprio, ou mero curso profissionalizante destinado à formação do professor das séries iniciais e matérias pedagógicas e do pedagogo licenciado ou bacharel, atuando nos diversos espaços, gerindo os diversos processos educativos presentes na sociedade. Atualmente os debates acerca das reformulações para o curso de pedagogia giram em torno da tese de que o mesmo destina-se à formação de um profissional habilitado a atuar no ensino em educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental, na organização e na gestão de sistemas, unidades e projetos educacionais e na produção e difusão do conhecimento, em diversas áreas da educação, tendo a docência como base obrigatória de sua formação e identidade profissional. Com uma história construída e consolidada no cotidiano das Faculdades e Centros de Educação do país, o curso de graduação em Pedagogia, nos anos 90, emergiu como o principal lócus da formação docente dos educadores para atuar na educação básica, na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Dentro desse escopo, a formação dos profissionais da educação, no Curso de Pedagogia, constitui reconhecidamente um dos principais requisitos para o desenvolvimento da educação básica no país.(ANFOPE, ANPED, CEDES, 2004. Disponível em www. anped. org. br).
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    24 No âmbito da discussão sobre as novas diretrizes para o curso de pedagogia, vozes têm se levantado no sentido de se contestar, sobretudo, o principio de que a docência se constitui a base da formação do pedagogo. Neste sentido, podemos destacar o pensamento de Libâneo e Pimenta (1999): Com efeito, o princípio que se tornou o lema e o apelo político da Anfope é conhecido: a docência constitui a base da identidade profissional de todo educador, todos os cursos de formação do educador deverão ter uma base comum: são todos professores. Conforme já afirmamos, esse princípio levou à redução da formação do pedagogo à docência, à supressão em alguns lugares da formação de especialistas (ou do pedagogo não diretamente docente), ao esvaziamento da teoria pedagógica em virtude da descaracterização do campo teórico-investigativo da pedagogia e das demais ciências da educação, à retirada da universidade dos estudos sistemáticos do campo científico da educação e, em conseqüência, da formação do pedagogo para a pesquisa específica na área e para o exercício profissional. (p. 249). Os autores vêm afirmando que a proposta trazida pelas diretrizes reincide em “velhas problemáticas”, tais como "inchaço" do currículo, pretensões ambiciosas quanto à diversidade de profissionais a serem formados, aligeiramento da formação, empobrecimento na oferta de disciplinas e impossibilidade de se dar ao curso o caráter de aprofundamento da ciência da educação para formar o pesquisador e o especialista em educação. (LIBÂNEO E PIMENTA, 1999). O que se pode depreender das discussões levantadas até aqui é que os cursos de pedagogia no país vêm passando por um longo processo de indefinição. Ao tempo em que algumas correntes de pensamento defendem a sua especificidade dentro da docência, outras defendem a posição de que o curso de pedagogia não deveria se resumir somente à licenciatura. Enquanto existem posicionamentos que o colocam como destinado à formação do professor aliada à formação do bacharel, outros apontam a impossibilidade de se formar o especialista e o professor dentro de um currículo que não preencheria as necessidades teórico - práticas e epistemológicas dessa formação. Enquanto existem correntes de pensamento que apontam a necessidade de se ter no curso de pedagogia uma preocupação em formar o professor que ao
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    25 mesmo teoriza, investigae reflete sobre a prática educativa, levantam-se críticas que apontam o caráter meramente tecnicista dessa formação. Dentro dessa diversidade de posicionamentos cabe cogitarmos sobre o espaço dado à reflexão, à discussão que é empreendida pelo sujeito que vivencia esses processos, a quem os resultados das sucessivas reformulações e reestruturações dos cursos de pedagogia diretamente atingem, como o pedagogo, o docente vê as questões que dizem respeito à sua formação. 2.1.2 A pesquisa como espaço de reflexão no curso de pedagogia A institucionalização dos cursos de pedagogia no país veio acompanhada pelo debate em torno da problemática se este seria mero curso profissionalizante, destinado a formar o professor, dotando-o de técnicas e método de ensino, ou se a pedagogia se constitui em um campo educativo que também é espaço de reflexão, teorização sobre a prática, sobre a realidade educacional. Nos tempos atuais o debate tem girado em torno da concepção de um curso de pedagogia que possibilite a formação docente aliada à formação do sujeito que não só saiba ensinar, transmitir o conhecimento, mas que também contribua para sua elaboração / construção através da pesquisa, investigue, teorize sobre a realidade, sobre a prática. Assim, têm sido recorrentes os debates em torno do papel da pesquisa na formação docente, estando este princípio presente em leis e documentos, nos currículos das licenciaturas em nível superior e no discurso de inúmeros pensadores que se dedicam à educação em todo o mundo. Estudos têm apontado que a mesma deve estar presente não só no contexto da formação como também aliada à prática do professor no cotidiano da sala de aula, dessa forma, a maioria dos cursos de formação docente no país vem trazendo como princípio a indissociabilidade entre ensino e pesquisa. (GOHN, 2005).
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    26 As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em pedagogia em seu Art. 3º Parágrafo único, inciso I vêm ratificando o principio da pesquisa como elemento central na formação do pedagogo, bem como “a análise e a aplicação dos resultados de investigações de interesse da área educacional’”. Em documento da Anfope, que debate sobre as diretrizes curriculares para o curso de pedagogia, a pesquisa é aliada à prática pedagógica, esta entendida como instrumento de iniciação à pesquisa e ao ensino e forma de articulação entre teoria e prática. A prática pedagógica, como instrumento de iniciação à pesquisa e ao ensino, na forma de articulação teoria-prática, considera que a formação profissional não deve se desvincular da pesquisa. A reflexão sobre a realidade observada gera problematizações e projetos de pesquisa entendidos como formas de iniciação à pesquisa educacional. (ANFOPE, 2005. Disponível em www.anped.org.br) De acordo com Oliveira (2003), desde o início dos anos 90, há um cuidado em se olhar com mais atenção para aspectos do cotidiano dos cursos de graduação, que antes se desenvolviam sem um planejamento explícito e ao critério da vontade individual dos professores e coordenadores. “Entre esses aspectos destacam-se: a iniciação científica, o estágio curricular e o trabalho de conclusão de curso”. A autora, ao analisar as concepções de egressos de um curso de pedagogia sobre o TCC, defende a tese de que o mesmo se caracteriza como uma experiência possibilitadora de iniciação à pesquisa e coloca que há uma grande mistificação da mesma dentro da universidade: A mistificação da pesquisa no campo universitário e, conseqüentemente, a sua definição exclusivamente baseada em cânones científicos, configuram- se como uma das principais dificuldades para realizar a formação de professores na universidade, tomando a pesquisa como princípio formativo. (OLIVEIRA, 2003, p.40). Essa mistificação também está relacionada às formas como os sujeitos têm representado os processos que envolvem a produção/ reprodução do conhecimento, compreendido a construção do trabalho científico, o papel que este desempenha na sua formação.
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    27 2.2 O trabalhocientífico na universidade Ao buscarmos identificar e analisar as representações sociais dos estudantes de pedagogia sobre o Trabalho de Conclusão de Curso estaremos direcionando a discussão a partir do conceito de trabalho cientifico que é exigido pela universidade para efetivação da formação do estudante de graduação e que, portanto possui especificidades que o distinguem dos outros tipos de trabalhos científicos produzidos no contexto da academia em cursos de pós-graduação, por exemplo. Na busca de referenciais que pudessem dar o aporte teórico necessário à discussão em torno do TCC pudemos perceber que a literatura sobre o tema ainda é um pouco escassa, resumindo-se em sua maioria aos manuais de metodologia cientifica que vem caracterizando esse tipo de trabalho. Pela análise das obras encontradas pode-se perceber que o TCC é caracterizado dentro da categoria de trabalho cientifico, portanto devendo estar condicionado às formalidades próprias desse tipo de atividade, devendo ser elaborado dentro de normas técnicas específicas, sendo um de seus princípios o rigor formal. Eco, (1998) chama a atenção para o que qualificaria um estudo como científico. Para tal, o mesmo devendo estar dentro dos seguintes requisitos, segundo o autor: 1. O estudo se debruça sobre um objeto reconhecível e definido de tal maneira que seja igualmente reconhecível pelos outros. 2. O estudo deve dizer do objeto algo que ainda não foi dito ou rever sob uma óptica diferente o que já se disse. 3. O estudo deve ser útil aos demais. 4. O estudo deve fornecer elementos para a verificação e contestação das hipóteses apresentadas. (p 21-23). Alguns autores apontam que apesar de alguns trabalhos feitos na universidade poderem ser enquadrados na categoria de cientifico, não basta que os mesmos apliquem o conhecimento científico a uma série de problemas da vida humana, individual ou coletiva, ou seja, que alguns trabalhos apenas copiem da
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    28 ciência a metodologiade tratamento ou relacionam-se de alguma forma com a ciência ao seguirem normas preestabelecidas para abordar e comunicar. “(...) a atividade cientifica por excelência é a que procura a teoria dos fatos; é a atividade que se identifica com a ciência pura” Salomon (1991). O autor afirma ainda que uma atividade é científica quando produz ciência ou dela deriva ou acompanha seu modelo de tratamento e que em decorrência, trabalho científico passa a designar a concreção de atividade cientifica, ou seja, a pesquisa e o tratamento por escrito de questões abordadas metodologicamente. Assim, podemos perceber que no lócus acadêmico, trabalhos científicos podem ser tanto resultados de atividades produzidas pelos alunos nas disciplinas de um curso de graduação, como relatórios, artigos, projetos de pesquisa; quanto pode ser a monografia produzida no final do curso, as dissertações de mestrado e as teses de doutorado ao nível de pós-graduação, desde que estes estudos estejam dentro de um padrão, de um método e sigam as normas específicas que possam dar-lhes o estatuto de científico. Dessa forma o estudante da graduação deverá ser desde cedo introduzido no campo da produção cientifica, onde o mesmo seja habituado a produzir, (e não somente reproduzir) os padrões de cientificidade capazes de validarem os estudos que porventura venha a desenvolver no desenrolar de sua carreira profissional, ou no continuum de sua formação em cursos de pós-graduação, por exemplo, onde possa vir a escolher o caminho da pesquisa como campo de atuação. Buscando subsídio para o que foi dito acima, vejamos o que diz Salomon (1991) ao se referir à produção do trabalho científico pelo estudante de graduação: (...) o fundamental no curso de graduação é criar uma mentalidade cientifica, condição necessária para se formar o profissional de nível superior. Da formação dessa mentalidade faz parte integrante e insubstituível a realização pessoal do conhecimento científico. E para se conseguir produzir o próprio conhecimento, ou seja, se adquirir ativamente a ciência necessária à formação profissional, o caminho por excelência é o trabalho científico. (Introdução, p.12).
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    29 Neste sentido, Gohn (2005) vem trazendo considerações e elementos importantes na compreensão acerca do pensamento científico que serve de guia para a compreensão da “essência” dos fenômenos e para a apreensão de uma realidade dialética: Científico seria o pensamento que não se contente com a forma como o conhecimento se manifesta pela situação, mas o questiona. Constrói-se a partir da investigação dos fatos reais, distinguindo-se o que é “essencial”, do que é “acessório”, ficar no essencial é necessário para se romper com as representações ilusórias, imediatas. (p. 255). Dessa forma, tem-se colocado no meio acadêmico e científico a necessidade do desenvolvimento pelo sujeito da capacidade de refletir, teorizar, problematizar, construir o saber e com ele contribuir tanto para o seu desenvolvimento pessoal quanto da sociedade em que se insere. É assim que se tornam cada vez mais comuns as atividades acadêmicas que servem de exercício para a construção do conhecimento e da reflexão pelos sujeitos em formação, entre essas atividades, destaca-se o Trabalho de Conclusão de Curso ou Monografia. 2.3 Monografia ou TCC? Conceitos... Nas discussões sobre o que caracterizaria o trabalho científico dentro da universidade vê-se que este apresenta diferentes denotações, denominações, dependendo do tipo de trabalho que se desenvolve, dos objetivos que se buscam atingir e dos métodos empregados na sua construção. No presente capitulo estaremos nos debruçando sobre o conceito de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) ou Monografia, como é mais comumente conhecido no jargão universitário, mormente na graduação. Historicamente, o termo monografia tem sido conceituado de várias formas, no entanto, há um consenso geral em defini-la como um trabalho escrito resultante do estudo de um aspecto particular de determinado assunto. Segundo Lakatos e Andrade (1991), essa definição tem sua origem no século XIX, a partir de um método das ciências sociais que culminou com o trabalho “Monografia da família
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    30 operária”, publicado porLe Play em 1855. De acordo com as autoras “o método empregado por Le Play partiu do princípio de que qualquer caso que se estude em profundidade pode ser considerado representativo de muitos outros ou até de todos os casos semelhantes”. (LAKATOS e ANDRADE, 1991). Ao analisarmos etimologicamente a palavra monografia vemos que a mesma se forma a partir da junção dos termos mono (um) e graphein (escrita), sendo dessa forma um trabalho cientifico que tem como um dos princípios a especificação, a redução da abordagem a um só assunto, a um só problema. (SALOMON, 1991). Eco (1998) em sua obra “Como se faz uma tese” ao referir-se ao trabalho que é desenvolvido quando se pretende obter o título de mestre ou doutor nas universidades italianas traz elementos interessantes também no que se alude à produção de um bom trabalho científico, seja ele de pós-graduação ou graduação. Segundo o autor, “uma monografia é a abordagem de um só tema, como tal, se opondo a uma ‘ historia de”, a um manual, a uma enciclopédia, (...) é uma análise de um tema específico”. Dessa forma, cabe situarmos o conceito de monografia como produção cientifica que parte da análise de um tema específico, no sentido que lhe é atribuído por vários autores (dos quais, alguns veremos a seguir), que lhe atribuem variadas significações a depender de cada contexto, onde recebe definições tanto num sentido lato quanto num sentido estrito. Segundo Salomon (1999), em sentido lato, monografia é todo trabalho científico de primeira mão, que resulte de pesquisa. Em sentido estrito, a monografia se identifica com a tese, ou seja, tratamento escrito de um tema específico que resulte de pesquisa científica com o escopo de apresentar uma contribuição relevante e original à ciência.
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    31 Vemos a partir da definição dada pelo autor que o termo monografia pode se referir tanto ao trabalho final de conclusão de curso, quanto às dissertações de mestrado e as teses de doutorado. Segundo Monteiro, (Apud OLIVEIRA, 2003), o que diferencia um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de uma dissertação ou uma tese é o grau de exigência e o nível de investigação e profundidade na sua elaboração. O autor ainda coloca que a acepção Monografia pode ser atribuída a qualquer um desses trabalhos, embora o senso comum atribua o sentido de dissertação ao trabalho que é realizado no mestrado e de tese ao que é produzido no doutorado. Ainda buscando caracterizações para o que chamamos de monografia, observemos o que diz Inácio Filho (2005): Podemos caracterizar a monografia como uma síntese de leituras, observações, reflexões e críticas, desenvolvidas de forma metódica e sistemática por um pesquisador que relata a um ou mais destinatários um determinado escrito que seja o resultado de suas investigações, as quais, por sua vez têm origem em suas inquietações acadêmicas. (p. 80). Assim sendo, pode-se depreender que no Trabalho de Conclusão de Curso, espera-se do estudante que demonstre ser capaz de sintetizar informações, discorrendo sobre um determinado problema de forma clara e concisa, utilizando-se corretamente de determinados preceitos teórico-metodológicos, não deixando de aliar essa produção a um olhar critico e a uma reflexão mais ou menos aprofundada da realidade. Os princípios presentes acima vêm reafirmar o pressuposto de que a produção da monografia (TCC) deverá ser o tipo de trabalho que dê um recorte original a um tema através da sistematização e organização de dados disponíveis pela sua relevância, em determinadas fontes, como afirma Inácio Filho (2005): “Da busca, da reflexão e da crítica, resulta a monografia, que deverá conter mais fatos que opiniões”.
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    32 Para Lakatos (1991, p.152), as características que devem ser observadas ao conceituar monografia são: a) trabalho escrito, sistemático e completo; b) tema específico ou particular de uma ciência ou parte dela; c) estudo pormenorizado e exaustivo, abordando vários aspectos e ângulos do caso; d) tratamento extenso em profundidade, mas não em alcance; e) metodologia científica f) contribuição importante, original e pessoal à ciência. Dessa forma, o TCC pode se tornar uma experiência propiciadora tanto do aprimoramento da capacidade de sistematização do estudante, como principalmente do refinamento da capacidade de reflexão e da análise crítica através da síntese e da re-elaboração dos conhecimentos por ele adquiridos em sua formação, apesar de ainda serem poucas as produções na graduação que tragam realmente como marca a originalidade. Nesse sentido, Eco, (1998) vem trazendo uma assertiva que pode ajudar a esclarecer como a monografia pode ser uma oportunidade para o desenvolvimento da reflexão crítica. Pode-se utilizar a ocasião da tese (mesmo se o resto do curso foi decepcionante ou frustrante) para se recuperar o sentido positivo e progressivo do estudo, entendido não como coleta de noções, mas como elaboração crítica de uma experiência, aquisição de uma capacidade (útil para o futuro) de identificar os problemas e encará-los com método e expô- los segundo certas técnicas de comunicação. (Introdução). Mais adiante, o autor ainda coloca: Fazer uma tese significa, pois, aprender por ordem nas próprias idéias e ordenar os dados. É uma experiência de trabalho metódico: quer dizer, construir um “objeto” que, como princípio, possa também servir aos outros. (...) assim, não importa tanto o tema da tese, quanto a experiência de trabalho que ela comporta. (p.07). Oliveira (2003), em sua dissertação de mestrado, onde trata das concepções de egressos de um curso de pedagogia sobre o Trabalho de Conclusão de Curso, vem trazendo discussões que apontam o TCC como atividade que possibilita a preparação para a pesquisa, embora poucos enveredem por esse caminho ao
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    33 término da graduação,mas que também pode contribuir para que desenvolvam uma atividade científica em suas profissões e especialidades futuras. (p. 61). A monografia, como resultado do estudo científico de um tema, vai sistematizar o resultado das leituras, observações, críticas e reflexões feitas pelo educando. Assim sendo, ela se configura como uma atividade de pesquisa científica, em função dos recursos metodológicos que exige na sua elaboração. Quando os temas para pesquisa não constituem uma exigência de determinada disciplina, é recomendável que os temas selecionados sejam relevantes para a vida acadêmica e condizente com o estágio de desenvolvimento intelectual do aluno. (OLIVEIRA, 2003, P.59). Podemos inferir das conceituações até aqui apresentadas que o Trabalho de Conclusão de Curso é uma experiência no sentido de introduzir o estudante na produção técnico-científica, onde através da utilização de instrumentos teóricos e sistemáticos o mesmo possa desenvolver a capacidade de análise e reflexão sobre a realidade, ao mesmo tempo em que se torna um ensaio para a produção de conhecimento que possa vir a realizar e dessa forma dar a sua contribuição ao progresso da ciência, bem como poderá contribuir para que o futuro docente possa desenvolver o espírito crítico e investigativo no desempenho de sua profissão, nos seus espaços de atuação. 2.3.1 A monografia e o desafio na construção do conhecimento pelo educando na graduação Sabemos que é a graduação o momento em que a maioria dos estudantes vai deparar-se pela primeira vez com desafios como o de desenvolver uma pesquisa científica, apropriar-se de instrumentos teóricos e metodológicos, lidar com formas de conhecimento mais elaboradas, onde lhe vai ser exigido que assuma um papel ativo, ou seja, que assuma uma postura contrária a tudo que ele aprendeu em suas experiências anteriores com a educação formal, em que na maior parte do tempo desempenhou um papel passivo. Assim, ao ingressar na universidade, o estudante se depara com um mundo desconhecido para ele, em que será forçado a desenvolver uma percepção mais
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    34 profunda das coisas,onde lhe será exigido que saia da superfície dos fenômenos, onde terá que lidar com a complexidade do saber científico e submeter-se às regras do meio acadêmico, que incluem entre outras coisas o domínio de técnicas e de instrumentos, e experiência de passar por uma banca examinadora configurando se essas ocasiões como momentos geradores de tensão e ansiedade. Se o processo de ensino-aprendizagem vivido na instituição e fora dela deu ao aluno os instrumentos teórico-práticos para que este busque conhecimentos empírico/conceituais, formule racionalmente questões e trace relações inovadoras, então este aluno se aproveitará da autonomia que estas formas de trabalho lhe propiciam. Sob essas condições, este aluno não deverá encontrar maiores dificuldades para planejar, elaborar e redigir trabalhos científicos monográficos ou quaisquer outros. Mas, se for portador de concepções gerais e fixas eternamente acostumado a receber e devolver generalidades e não situações problemáticas, como fruto de um ensino centrado no modelo de transmissão-recepção, então o trabalho monográfico se configurará, para ele, como um momento crítico. (OLIVEIRA, 2003, P.136). Neste sentido, Oliveira (2003), ao citar alguns estudos que tem se voltado para a discussão em torno do Trabalho de Conclusão de Curso, cita o trabalho de Rios (1999) que em sua pesquisa enfocou o TCC sob a ótica avaliativa, investigando o comportamento e estado emocional do aluno durante a elaboração do trabalho e do processo de avaliação do mesmo, concluindo a autora que este é, por vezes, um momento penoso para os alunos. Em seu estudo, a autora também fez uma análise dos desafios experimentados pelos alunos durante a elaboração do trabalho e aponta as seguintes dificuldades: indefinição na escolha do tema; baixa motivação pela atividade; desconhecimento dos critérios para aprovação do projeto; acompanhamento restrito a um orientador; necessidade de ter maior fundamentação teórico-metodológica; dificuldade de acesso à bibliografia atualizada; burocracia, pouca receptividade nas instituições e demora na devolução dos instrumentos de pesquisa, durante a coleta de dados; necessidade financeira para digitação e reprodução do trabalho; insegurança e nervosismo. (OLIVEIRA, 2003, P. 139). Oliveira (2003), coloca que, pelo fato de a monografia, geralmente, estar relacionada com a conclusão de um curso, portanto, com o final de uma etapa, por mais que o aluno tenha se beneficiado dos conhecimentos adquiridos, é inevitável um sentimento de insegurança, pois que é uma experiência desconhecida para ele.
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    35 Os momentos de independência e a conseqüente liberdade causam insegurança, principalmente porque estão associados à responsabilidade por um futuro que no momento não é conhecido ou apenas vagamente vislumbrado e pelo qual se espera que as novas habilidades sejam demonstradas. (p.90) Ainda segundo a autora, muitos professores localizam as dificuldades dos alunos na redação de trabalhos científicos na sua inexperiência em lidar com a forma científica. Imaginam que um curso de métodos e técnicas de pesquisa científica poderia resolver todas as dificuldades que surgem. É preciso sair do imediato na análise das dificuldades de planejamento e redação de trabalhos científicos, ir mais fundo, esmiuçar essas dificuldades, explorar as possibilidades que elas apresentam. Elas simplesmente estão expressando a dificuldade que o aluno tem de participar da criação científica. (p. 40) Podemos perceber que são poucos os estudos que se debruçam sobre uma análise de como os sujeitos que passam pela experiência da graduação vêem, apreendem, reproduzem re-elaboram, incorporam as experiências vividas nesse período, especialmente estudos que desenvolvidos sob o foco das representações sociais que os mesmos constroem, estabelecem a respeito. Dessa forma, no presente trabalho, estaremos buscando identificar as representações sociais de estudantes concluintes de um curso de pedagogia que no decorrer de sua formação vivenciaram o processo de construção de trabalhos científicos, passando por alguns elementos que envolvem a iniciação à pesquisa, em disciplinas, estágios e atividades extracurriculares e que conseqüentemente lidarão pelo desafio de produzir uma monografia e expô-la diante de uma banca examinadora. Cremos que um estudo focado nas representações sociais desses indivíduos faz-se necessário e importante à medida que leva em consideração o fato de que os mesmos, no contexto de sua formação, interagem vivenciam, compartilham situações, aprendizados, sentimentos, percepções, estereótipos e, sobretudo elaboram uma forma de saber particular, construído no cotidiano em que constroem também representações sobre esse momento da sua graduação, onde entram
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    36 concepções preestabelecidas, e,sobretudo as experiências vivenciadas nestes momentos. 2.4 As Representações Sociais na construção de nosso objeto de estudo O conceito de representações sociais emerge no âmbito da psicologia social com a publicação de um estudo pioneiro desenvolvido por Serge Moscovici, publicado em 1961: A psicanálise, sua imagem e seu público, no qual o autor “mostra que é possível a construção de um conhecimento válido pelo senso comum e que se pode apreender o conhecimento em uma dimensão psicossociológica”. (ANADÓN e MACHADO, 2003). Embora o trabalho de Moscovici seja pioneiro no que se refere ao estudo das representações sociais, o conceito por ele desenvolvido tem raízes nos estudos desenvolvidos pelos fundadores da sociologia moderna, especialmente Durkheim que é quem primeiramente introduz a noção de representações coletivas. Para ele as categorias básicas do pensamento teriam origem na sociedade, e o conhecimento só poderia ser encontrado na experiência social, ou seja, a vida social seria a condição de todo pensamento organizado e vice-versa. Durkheim propôs como condição essencial na elaboração do conhecimento, a formação de conceitos que são repartidos pelos membros do grupo, com origem nas características da vida na coletividade. Para o sociólogo, a individualidade humana se constitui a partir da sociedade. Durkheim (apud MINAYO, 2000) coloca que: As Representações coletivas traduzem a maneira como o grupo se pensa nas suas relações com os objetos que o afetam. Para compreender como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, precisamos considerar a natureza da sociedade e não a dos indivíduos. (p.90) É nessa questão que Moscovici diverge de Durkheim e acrescenta novos elementos à elaboração do conceito de representação social. Para ele o indivíduo
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    37 tem papel ativoe autônomo no processo de construção da sociedade, da mesma forma que é criado por ela. Ele também tem participação na sua construção. Diferentemente de Durkheim, que considerou as representações coletivas de maneira estática e análoga às categorias puramente lógicas e invariantes do espírito no qual estão incluídos todos os modos de conhecimento, Moscovici os considera de uma maneira dinâmica (de natureza móvel e circulante), mais como um modo específico de conhecer e comunicar aquilo que se conhece. (ANADÓN e MACHADO, 2003, P.12). Segundo Anadón e Machado (2003): Apoiando-se em Durkhiem, Moscovici vai mais além, e se debruça sobre uma forma de conhecimento apropriada ao mundo contemporâneo na qual predominam mudanças constantes e o pluralismo de idéias e de doutrinas, quer políticas, quer religiosas, filosóficas e morais. (p. 11). Assim, dentro da especificidade do estudo de Moscovici (2003) emerge o conceito de representação social: “conjunto de conceitos, afirmações e explicações originadas no decurso do cotidiano, no decurso das comunicações interindividuais”. Esse “conjunto”, segundo Anadón e Machado (2003) vai designar uma forma de conhecimento característico, o saber do senso comum, que, no entanto, não surge pura e simplesmente no cotidiano, dessa forma, o saber do senso comum é permeado também por “fragmentos de teoria científica transformadas para servir à vida cotidiana”. Jodelet (apud ANADÓN e MACHADO, 2003), discute a importância de se buscar compreender as representações sociais enquanto fenômenos cognitivos, “que se dão a partir de conteúdos representativos colhidos em diferentes suportes, como a linguagem, discursos, documentos, práticas, dispositivos materiais, etc”). Segundo definição apresentada por Jodelet (apud ANADÓN e MACHADO, 2003), as representações sociais são modalidades de conhecimento prático orientadas para a comunicação e para a compreensão do contexto social, material e ideológico em que vivemos.
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    38 Enquanto fenômenos cognitivos, as representações implicam em pertença social dos indivíduos e implicações afetivas e normativas, interiorizações de experiências, de práticas, de modelos de conduta e de pensamento, socialmente inculcados ou transmitidos. (apud ANADÓN e MACHADO, 2003, P.41). Anadón e Machado, (2003), atentam para a análise da linguagem como modo de investigação das representações sociais “porque ela permite que se coloque um olhar sobre os mecanismos cognitivos presentes em sua elaboração”. Mais adiante os autores ainda colocam que no processo de identificação, investigação das representações sociais faz-se necessário que atentemos para as condições (sociais, institucionais) em que estas representações são construídas: Tratando-se de colocar em evidência o caráter cognitivo e social das representações sociais, dois princípios estão na base de nosso procedimento de análise. Em um primeiro momento o estudo das representações sociais exige que se examine a atividade a partir da qual se constrói o saber, (...) tomar em conta o sujeito do conhecimento na construção do sentido. (...). Em um segundo momento seu estudo exige o exame das condições sociais e institucionais da produção e circulação deste conhecimento em referência a uma prática visto que ela se oferece como visão do mundo ao qual os sujeitos se referem para agirem quotidianamente. (ANADÒN e MACHADO, 2003, p. 57). Coutinho (2005) coloca que as representações sociais são construídas pelas interações e comunicações no interior de grupos sociais, refletindo a situação das pessoas no que diz respeito aos assuntos que são alvo do seu cotidiano e que são elaborados graças às redes de interações e comunicações mútuas, às experiências práticas e às transmitidas oralmente, através da história oral, as conversações do dia-a-dia, etc. Dessa forma, entrariam como elementos construtores das representações sociais os valores, os estereótipos, os mitos, as atitudes, crenças, que são construídos em conjunto por um determinado grupo social, perpassando essa construção pelo “emaranhado de informações, opiniões, atitudes, expectativas, entre outras variáveis veiculadas ao contexto social”. (COUTINHO, 2005). De acordo com Minayo (2000 p.108):
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    39 As Representações Sociais se manifestam em palavras, sentimentos e condutas e se institucionalizam, portanto, podem e devem ser analisadas a partir da compreensão das estruturas e dos comportamentos sociais. Sua mediação privilegiada, porém é a linguagem, tomada como forma de conhecimento e de interação social. A autora ainda acrescenta: “Fruto da vivência das contradições que permeiam o dia-a-dia dos grupos sociais e suas expressões, marca o entendimento deles com seus pares, seus contrários e com as instituições”. Assim, cremos que no contexto e no cotidiano de uma instituição como a universidade, são construídas representações, que surgem no centro das relações estabelecidas entre os diferentes sujeitos, que ali se encontram e que trazem concepções de mundo, valores, crenças e estereótipos que se constroem e reconstroem-se no contato com seus pares e com as diversas situações (por vezes conflituosas) que permeiam os seus processos de formação. Dessa forma, consideramos relevante o estudo voltado para as representações sociais dos estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia – campus VII acerca do Trabalho de Conclusão de Curso por entendermos que esta é uma situação peculiar e conflituosa em que emergem tensões, contradições, que circulam e influenciam os modos de pensar e interpretar a realidade e que podem se determinantes na sua formação.
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    40 CAPÍTULO III PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Ao desenvolvermos uma atividade de pesquisa, torna-se necessário que optemos por um caminho, um método que propicie a orientação necessária e adequada ao tipo de estudo que ora realizamos, assim, optamos no presente trabalho pelo paradigma qualitativo por compreendermos ser o mesmo essencial ao cumprimento dos objetivos do presente trabalho: Identificar e analisar as representações sociais dos estudantes do curso de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia - Campus VII sobre o Trabalho de Conclusão de Curso – TCC. O paradigma qualitativo de pesquisa surge nas ciências humanas e sociais, em que se inclui a educação, como reação aos postulados positivistas, estes priorizando excessivamente a racionalidade técnica, cientificista, no que diz respeito a um modelo de ciência que se apóia meramente em aspectos, dados quantitativos para interpretar a realidade, uma interpretação feita sem a contribuição dos sujeitos que participam do processo de elaboração do conhecimento. A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa nas ciências sociais, com um nível de qualidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. (FACHIN, 1993, P.23). Ao optarmos pelo paradigma qualitativo de pesquisa estamos eliminando a dicotomização entre sujeito e objeto, onde o objeto de pesquisa se transforma em sujeito, e não o contrário. É possível explicar objetivamente o homem? Esta é certamente a grande questão das ciências humanas e sociais. Se nas ciências naturais o objeto de investigação sempre foi um produto acabado, separado, classificável, seriável, neutro e por isso mesmo passível de objetivação, nas ciências
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    41 humanas e sociais o objeto é o próprio homem e suas relações, isto é, um objeto em processo, inacabado, vivo, múltiplo e ideológico. Se nas ciências naturais há uma relação de oposição entre sujeito e objeto e é dessa oposição que surge o conhecimento, nas ciências humanas é impossível fazer essa cisão sujeito/ objeto. (KRAMER, 1998 P.21). Nesta fala de Kramer, ficam claramente evidenciadas as particularidades de uma postura epistemológica que põe o individuo no centro do processo de construção do conhecimento, que percebe o mesmo como ser histórico, social, inserido em uma cultura que ele mesmo contribui para construir e reconstruir. Onde no processo investigativo, traz elementos que não podem se enquadrados, categorizados em variáveis quantificáveis, generalizáveis. Neste sentido, vejamos o que diz Macedo (2006) ao afirmar que a realidade não pode se interpretada com base somente em paradigmas normativos: O mundo dos sentidos, dos significados, dos símbolos, dos mitos, das representações, do imaginário, das ideologias, por exemplo, não se permite ser compreendido por uma lógica dura, laboratorial. (p.37-38). Macedo (2006) ainda coloca que, “na emergência qualitativa aparece mais o intensivo que o extensivo, sem, entretanto, cair na negação maniqueísta deste último”. Embora busquemos priorizar nas ciências humanas e sociais o paradigma qualitativo, não podemos abdicar totalmente da análise quantitativa, desmerecer a sua praticidade, correndo o risco de aprisionarmo-nos em reducionismos e dogmatismos epistemológicos. Podemos perceber que o paradigma qualitativo destitui a visão do sujeito pesquisador como um ser neutro, superior e do sujeito pesquisado transformado em variáveis, que desaparece nas generalizações. Destitui também o conceito de que o único conhecimento valido é o conhecimento cientifico, neutro, sistematizado. Uma visão que valoriza os saberes construídos nas relações cotidianas entre os indivíduos. Como vem afirmando Nóvoa (2005):
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    42 A ciência pós-moderna tende a reinvestir o senso comum, não para com ele se confundir, mas para se aproximar das realidades terrenas contra as quais, em tempos, o discurso cientifico procurou edificar-se. A política deste final de século procura reencontrar os sujeitos, não se limitando as dominantes de contexto ou de estrutura. São duas evoluções decisivas, também na arena educativa, na medida que sugerem um olhar mais centrado sobre os professores, sobre as suas vidas e os seus projetos, sobre suas crenças e atitudes, sobre seus valores e ideais. (p. 32). Cremos ser a pesquisa qualitativa de fundamental importância no presente estudo à medida que permite adentrarmos nos significados construídos coletivamente pelos sujeitos, ao tempo em que são postas como elo central e eixo norteador da investigação as representações sociais que os mesmos elaboram em conjunto. 3.1 Lócus da Pesquisa O presente estudo foi desenvolvido no Departamento de Educação, Campus VII, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), localizado no município de Senhor do Bonfim. O departamento, criado pelo Decreto nº 31.574, de 27/03/1985 originalmente fazia parte da antiga Faculdade de Educação de Senhor do Bonfim (FESB), passando á condição de departamento somente em 1997 com a reestruturação das universidades Estaduais da Bahia. Foi este também o ano da implantação do curso de Licenciatura Plena em Pedagogia com Habilitação em Magistério das Matérias Pedagógicas do 2º Grau. Com as novas reformulações dos cursos de pedagogia, em 1999, o curso de pedagogia da UNEB passa a habilitar o futuro docente para o exercício em Educação Infantil e Magistério em Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Além do curso de pedagogia, que funciona nos períodos vespertino e noturno, o departamento ainda oferece as licenciaturas em matemática e ciências biológicas e os bacharelados em ciências contábeis e enfermagem, além de desenvolver programas de formação continuada de professores que atuam nos municípios da microrregião.
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    43 Em 2004 o departamento passa a oferecer uma nova habilitação para o curso de pedagogia (Licenciatura Plena em Pedagogia Docência e Gestão de Processos Educativos), ainda em processo de aprovação, que passaria a formar um profissional habilitado para atuar tanto na docência quanto na gestão de processos educativos escolares e não escolares e na produção e difusão de conhecimento no campo educacional. A partir da análise de projetos de curso de pedagogia no departamento de educação, podemos perceber que a exigência da apresentação de monografia como requisito para a conclusão e obtenção de grau é instituída no ano de 2001, onde a turma de pedagogia com habilitação em educação infantil e séries apresentou seus trabalhos e foram submetidos à apreciação de uma banca examinadora. Ao analisarmos os fluxogramas de disciplinas das habilitações oferecidas pelo departamento, percebemos que a habilitação em educação infantil e séries iniciais traz a disciplina monografia nos dois últimos semestres (7º e 8º) da graduação, contabilizando uma carga horária de 75 e 90 horas respectivamente e a nova habilitação (docência e gestão de processos educativos) apresenta uma carga horária menor (60 horas), sendo que a disciplina só é oferecida no oitavo e último semestre. 3.2 Sujeitos Os sujeitos pesquisados - estudantes dos cursos de pedagogia - foram escolhidos entre aqueles que estavam concluindo sua formação e, conseqüentemente, passando pelo processo de escrita, elaboração do TCC, e matriculados na disciplina. Também participaram da pesquisa aqueles que haviam trancado e/ ou desistido da disciplina no último semestre acadêmico. Todos fazendo o curso noturno. Entre aqueles que estavam fazendo a disciplina Trabalho de Conclusão de Curso, havia egressos da habilitação anterior (Educação Infantil e Magistério em Séries Iniciais do Ensino Fundamental), bem como aqueles que se incluem na nova habilitação (Pedagogia: Docência e Gestão de Processos Educativos).
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    44 Os participantes da pesquisa foram escolhidos aleatoriamente, onde lhes foi explicado o tema da pesquisa e entregue o questionário pessoalmente, onde foram esclarecidas dúvidas quanto ao objeto da pesquisa e aos procedimentos a serem seguidos na resposta e devolução do referido questionário. Assim, foram entregues 28 questionários entre os estudantes, dos quais, 20 foram devolvidos, havendo, dessa forma, morte de 29% na devolução dos mesmos, embora tenha havido uma insistência para que fossem devolvidos em data prefixada, algumas pessoas não entregaram, alegando esquecimento ou não retornaram ao campus, tornando-se impossível a sua localização nas datas previstas. 3.3 Instrumentos e Estratégias 3.3.1 Questionário Dada a especificidade do nosso estudo, que se volta para a identificação e análise das representações sociais de um grupo característico (no caso, estudantes de pedagogia) faz-se necessário que adotemos instrumentos de coleta e métodos de análise que possam fornecer os elementos necessários á construção do presente estudo, permitindo-nos ir ao encontro dos sujeitos e retirar deles os elementos que subsidiem nosso trabalho. Segundo Anadón e Machado (2003): “A matéria primeira das representações sociais é construída por repertórios de opiniões, julgamentos individuais, nos quais é preciso reconstituir os princípios organizadores comuns a um conjunto de indivíduos em particular”. Para os autores esta tarefa exige diferentes tipos de análise de dados. Abric (apud ANADÓN e MACHADO, 2003) aponta que entre os mais conhecidos procedimentos de coleta do conteúdo das representações sociais estão os métodos ditos interrogativos e os métodos tidos como associativos. No presente estudo, utilizamos como suporte para a coleta de dados junto aos nossos sujeitos de pesquisa o questionário e associação livre de palavras.
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    45 Para coleta de dados junto aos estudantes de pedagogia foi utilizado o questionário pelo fato do referido instrumento abranger uma quantidade considerável de indivíduos, bem como permitir uma organização do tempo disponível para a realização da pesquisa junto a esses sujeitos. O questionário torna-se um interessante método de investigação quando se deseja obter uma visão mais ou menos homogênea das compreensões, pontos de vista de um determinado grupo social, de sujeitos que compartilham, vivenciam situações, espaços cotidianos. “O questionário consiste num elenco de questões que são apreciadas e submetidas a certo número de pessoas com o intuito de obter respostas para a coleta de informações” (FACHIN, 1993). 3.3.2 Associação livre de palavras Aliada ao questionário, a técnica da associação livre de palavras, que, segundo Anadón e Machado (2003) consiste em pedir ao sujeito que, a partir de uma palavra-chave ou série de palavras produza todas as palavras, expressões ou adjetivos que lhe venham à mente. Assim, partindo-se de um conceito-chave (TCC), os sujeitos foram solicitados a elencar 10 palavras ou expressões afloradas no primeiro momento, sendo dessa maneira levados a exteriorizar os conceitos, idéias, sentimentos e expressões. Acreditamos que os presentes instrumentos foram importantes e necessários em um contexto que não permitiu o contato mais estreito e aprofundado, enriquecedor do trabalho, já que os sujeitos da pesquisa encontravam-se em locais diferentes e distantes entre si, oportunizando-se os encontros apenas durante as aulas no período noturno, já que a maioria trabalha durante o dia. Os instrumentos utilizados possibilitaram a compreensão das representações sociais dos sujeitos pesquisados, permitindo que através de suas falas, materializadas no papel, adentrássemos nas significações que os mesmos atribuem ao TCC, significações necessárias à construção dessa pesquisa.
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    46 CAPÍTULO IV ANÁLISE DE DADOS E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS O presente capítulo traz a descrição e análise dos dados obtidos junto aos sujeitos da pesquisa, quando faremos uma interpretação dos resultados obtidos, buscando atender à nossa indagação inicial norteadora do presente estudo: Quais as representações sociais que os estudantes de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia - campus VII tem a respeito do Trabalho de Conclusão de Curso ou TCC? Para realização da pesquisa foi aplicado 01 (um) questionário contendo cinco (05) questões referentes ao perfil dos sujeitos pesquisados e mais oito (08) questões concernentes ao nosso objeto de estudo, incluindo-se uma questão que engloba a associação livre de palavras, buscando-se dessa forma chegar às representações dos mesmos sobre o TCC. 4.1 Perfil dos sujeitos pesquisados Ao analisarmos o perfil dos sujeitos pesquisados pudemos perceber que 95% são do sexo feminino e 5% são do sexo masculino: masculino 5% feminino 95% Gráfico 4.1: Sexo dos sujeitos pesquisados
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    47 Com relação à faixa etária, constatamos que estão entre os 21 e 51 anos, sendo que apenas um (01) apresenta idade entre 17 e 21 anos; sete (07) estão entre os 22 e 26 anos; cinco (05) entre 27 e 31 anos; zero (0) entre os 32 e 36; quatro (04) entre 37 e 41 anos; dois (02) entre 42 e 46 anos; um (01) entre 47 e 51 anos; zero com idade superior a 52 anos de idade; como podemos perceber no gráfico: 5% 0% 5% 17 a 21 22 a 26 9% 27 a 31 32 a 36 19% 38% 37 a 41 24% 42 a 46 0% 47 a 51 superior 52 Gráfico 4.2: Faixa etária dos sujeitos pesquisados Em seguida foi solicitado que os mesmos informassem o local em que residiam (zona urbana ou zona rural), onde se constatou que todos residem na zona urbana. Ao informarem a função profissional, cerca de 44% dos sujeitos declararam exercer a função docente, seguindo-se de 32% que se declararam servidores públicos; 14% não exerciam nenhuma função profissional no momento da pesquisa; 5% informaram exercer a função de comerciantes; sendo também 5% o número daqueles que declararam exercer funções autônomas.
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    48 Professor 14% 5% Servidor público 5% 44% Comerciante Autônomo 32% Sem função profissional Gráfico 3.4: Função profissional Também foi solicitado que informassem a habilitação em que estavam se formando, sendo que, apenas quatro das pessoas que devolveram o questionário se incluíram na habilitação Magistério em educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, havendo uma ausência maior na devolução do instrumento entre esse grupo, em decorrência da dificuldade de contato, já que a maioria compareceu poucas vezes ao campus, lócus da pesquisa, durante o período noturno. Assim, 16 (80%) dos respondentes compunham a habilitação Docência e gestão de processos educativos e 04 (20%) faziam parte da habilitação Magistério em educação infantil e séries iniciais. Habilitação em Docência e 20% Gestão de Processos Educativos Habilitação Magistério em 80% Educação Infantil e Séries Iniciais Gráfico 4.4: Habilitação Dos vinte (20) estudantes que devolveram o questionário, oito (08) declaram ter trancado a disciplina Trabalho de Conclusão de Curso, sendo os motivos apresentados a questão do tempo disponível para entrega do TCC, dificuldades e
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    49 conciliar a construçãoda monografia com outras atividades (trabalho, estudo), falta de orientadores no campus, “falta de preparo e disposição em fazê-lo”, "medo”. Podemos perceber que nas respostas apresentadas surgem algumas questões/ problemas que serviram de ponto de partida para nosso estudo, em que relatávamos algumas dessas dificuldades tanto institucionais quando os respondentes mencionam a ausência de orientação, quanto pessoais, em que o sentimento de insegurança, aliado à pressão decorrente do curto espaço de tempo de que dispõem para a construção e entrega da monografia tornam-se impedimentos para uma relação mais tranqüila com o desenvolvimento desta atividade pelo educando. 4.1.1 Motivos de escolha do curso Levados a expor o motivo pelo qual haviam escolhido cursar pedagogia, oito (08) dos vinte participantes da pesquisa responderam ter escolhido fazer pedagogia por afinidade/ identificação com a área, com o curso, com o ensino, com “as questões da educação”. Chamou-nos a atenção o fato de as respostas tenham sido um pouco vagas, não expressando na maioria das vezes o motivo da afinidade, por que se identificavam com o curso. Na verdade, como sempre gostei de matemática, pensei em fazer o curso/ vestibular para tal curso, após várias tentativas não conseguindo fiz o vestibular para pedagogia, passei, estou terminando e tenho certeza que o curso é a minha “cara” pois me identifiquei demais e acho que para qualquer outro curso, deveríamos passar por pedagogia. (*EST. 01.). Por questão de afinidade. Gosto de ser professora. (EST. 02). Me identifico com as questões da educação. (EST. 03). Sete (07) participantes colocaram como motivo da escolha pelo curso a falta de opção, por não haver um curso disponível na sua área de interesse no campus, no local e horário (noturno), únicos a que poderiam ter acesso.
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    49 Falta de opção no campus ao meu alcance. (EST. 04). Curso ministrado à noite. (único horário disponível). (EST. 05). Algumas das principais dificuldades enfrentadas pelo estudante de pedagogia, e em geral, por quem faz licenciatura, é a impossibilidade de conciliar o estudo com uma ou múltiplas funções de trabalho, o que lhe deixa poucas alternativas de realização pessoal, ao desenvolver um estudo na sua área de interesse, o que acaba por se refletir na sua motivação no decorrer do curso. Surge também nas repostas dos sujeitos o desejo de especialização na sua área de atuação profissional (docência), como uma forma de dar prosseguimento aos estudos, sendo que a maioria dos que deram essa resposta havia feito magistério no ensino médio ou atuavam como professores, apesar de não terem uma formação na área. Eu cursei anteriormente o magistério (equivalente ao curso normal) e quis dar prosseguimento a minha educação na área de educação, educação infantil, especialmente. (EST. 06). Me especializar na área em que atuo.(EST. 07). Identificação com o curso 25% 40% Especializar-se 35% profissionalmente Falta de opção Gráfico 4.6: Motivo de escolha do curso 4.2 As representações sociais emergindo no discurso dos sujeitos pesquisados. Ao situarmos nossa questão inicial de pesquisa: “Quais as representações sociais que os estudantes de pedagogia têm sobre o TCC?”, partimos do pressuposto de que esta seria uma questão pertinente de se discutir, pois dessa maneira estaríamos dando oportunidade a esses sujeitos de expressarem-se sobre
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    49 um problema queos preocupava diretamente, ao tempo em que estaríamos passando a conhecer o que pensam, como representam socialmente esse processo de sua formação que por vezes se torna um desafio complexo e conflitante. Dessa forma, a partir da análise das respostas dos estudantes, consideramos as variáveis que emergiram com mais força no discurso dos mesmos e que se tornam importantes à compreensão das representações sociais no presente estudo. 4.2.1 Categoria primeira lembrança referente ao TCC Perguntados sobre a primeira lembrança ao ingressar na universidade relacionada ao TCC, as respostas se dividiram entre aquelas que lembravam do mesmo como algo “muito difícil de fazer, quase impossível”, assustador, “um bicho de sete cabeças”, e aqueles que declaram não ter nenhuma lembrança desse período referente ao Trabalho de Conclusão de Curso. Que seria uma atividade a ser realizada no final do curso um tanto quanto difícil. “(EST. 08). Como algo que não conseguiria fazer (EST. 09). Um “bicho de sete cabeças”, falar em TCC, da maneira que é inicialmente discutido, talvez, ou com certeza, influencia a angústia no final do curso, passam a idéia de ser uma coisa impossível de fazer. (EST. 01). O que aparece com muita força no discurso dos estudantes é a presença da figura do professor na composição da lembrança, este sendo citado como uma das primeiras pessoas através das quais ouviram falar sobre o TCC, e destes (professores) sempre se referindo ao mesmo como sendo um trabalho difícil e complicado, uma exigência a ser cumprida pelo aluno no final do curso. Como podemos perceber na fala dos estudantes. Lembro que uma professora informou que teríamos que fazer um trabalho e apresentá-lo diante de uma banca, que era difícil, mas isso só seria exigido mais tarde, no último semestre. (EST. 04). Verdadeiro terrorismo por parte dos professores, a todo momento os professores nos falavam do TCC e as dificuldades que encontraríamos. (EST. 05).
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    49 Que desde o início, todos os professores alertaram para a escolha do tema. (EST. 12). A partir das análises feitas até aqui, podemos perceber que o princípio de que há uma mistificação no meio acadêmico com relação à pesquisa, à produção científica fica aqui evidenciado, uma mistificação que vem de um pensamento enraizado que vai sendo inculcado no decorrer das experiências cotidianas, como um elemento ideológico. Nesse sentido podemos perceber que o elemento ideológico que age na construção das representações sociais dos sujeitos responde ao que vem sendo posto por Jodelet (Apud ANADÓN e MACHADO, 2003): “enquanto fenômenos cognitivos implicam em pertença social dos indivíduos e implicações afetivas, e normativas, interiorizações de experiências, de práticas, de modelos de conduta e de pensamento socialmente inculcadas ou transmitidas”. Outro dado importante, que também surge com freqüência nas respostas dos sujeitos pesquisados, e que poderá contribuir para uma compreensão das representações sociais dos mesmos, é a lembrança estar atrelada às falas, conversações cotidianas vivenciadas, partilhadas pelos sujeitos da pesquisa, no contato com colegas de curso que também passaram pelo processo de construção do TCC: Lembro da fala de alguns universitários descrevendo a monografia (TCC) como o que se tem de pior no curso. (EST 10). Imaginei algo muito “doloroso” de ser construído, pelo fato de ouvir de outras pessoas. (EST 11). Todo mundo falar que tem medo da disciplina. (EST. 04). Podemos perceber que as falas dos estudantes vêm corroborar o que foi dito por Coutinho (2005): As representações sociais são construídas pelas interações e comunicações no interior de grupos sociais, refletindo a situação das pessoas no que diz respeito aos assuntos que são alvo do seu cotidiano e que são elaborados graças às redes de interações e comunicações mútuas (...) um emaranhado de informações, opiniões, atitudes, expectativas, entre outras variáveis veiculadas ao contexto social. (p 26-27).
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    49 Dessa maneira, fica evidenciado que através das trocas cotidianas nos diversos espaços que compartilham, os sujeitos constroem representações sociais que estão diretamente relacionadas aos contextos e situações em que estão inseridos. Assim, a situação em que se encontram os sujeitos que vivenciam a expectativa de construção de um trabalho como o TCC, torna-se um campo fértil para que essas representações venham acompanhadas pelas preocupações que acompanham esse período. 4.2.2 Categoria construção do TCC e experiências adquiridas na graduação. No intuito de percebermos como as representações dos sujeitos pesquisados se relacionavam com as experiências adquiridas na universidade, com a construção do pensamento e da prática científica, perguntamos aos mesmos o que mais os havia marcado em sua formação no curso de pedagogia com relação à pesquisa e produção de trabalhos científicos. Nos discursos trazidos pelos sujeitos, surgem como aspectos significativos e como pontos positivos da produção científica e da pesquisa desenvolvidas durante o curso o “desenvolvimento de idéias”, a “experiência adquirida em cada local de pesquisa”, a “abertura do olhar”, a reflexão, a “mudança de posições”, “a produção de artigos e projetos”, “o desenvolvimento da expressão oral e escrita” a “descoberta do que seria um trabalho científico”, o enriquecimento de sua prática como educadores. Através das leituras dos autores que subsidiaram as discussões feitas neste trabalho e da análise dos discursos dos sujeitos da pesquisa, pudemos apreender que a pesquisa e a construção de trabalhos científicos é percebida como algumas das experiências vividas na universidade que levam ao amadurecimento do educando, por favorecer a participação ativa deste na construção e produção do conhecimento. É o que vem sendo confirmado por Oliveira (2003).
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    49 É fato que o aprofundamento teórico ajuda a indagar a prática e simultaneamente, as (re) leituras da prática indicam outras questões à teoria, gerando novos e mais complexos conhecimentos e sinalizando permanentemente o ainda não saber, convite à ampliação do conhecimento. (, P.99). 4.2.3 Categoria processo avaliativo Um dos caracteres representativos trazidos pelos sujeitos pesquisados foi a forma como colocam o processo avaliativo assinalado pela “banca examinadora”, representando o momento da apresentação do TCC como “desgastante”, “desnecessário", “burocrático”, “aterrorizante”, “mera formalidade” e a banca como “exigente”, “opressiva”, “traumatizante”. Traumatizante, pela exigência que trava qualquer discussão para a apresentação por “vontade de apresentar”. Quanto à Banca Examinadora é o que realmente representa o momento de apresentação. Vai examinar em um encontro todo o desempenho de 7 ou 8 semestres em um momento. (EST. 01). Aterrorizante, pelo fato de que a banca pressiona muito e ficamos muito nervosos. (EST. 03). Ao mesmo tempo que acho importante a apresentação do trabalho aos professores, por conta da colaboração destes com críticas, etc, reconheço que muitas vezes o que aparece é a vaidade dos docentes, que disputam atenções, com críticas nem sempre construtivas.(EST. 04). De acordo com Oliveira: Se o processo de ensino-aprendizagem vivido na instituição e fora dela deu ao aluno os instrumentos teórico-práticos para que este busque conhecimentos empíricos / conceituais, formule racionalmente questões e trace relações inovadoras, então este aluno se aproveitará da autonomia que estas formas de trabalho lhe propiciam.Mas, se for portador de concepções gerais e fixas eternamente acostumado a receber e devolver generalidades e não situações problemáticas, como fruto de um ensino centrado no modelo de transmissão-recepção, então o trabalho monográfico se configurará, para ele, como um momento crítico. (P.136). Percebemos que ao mesmo tempo em que a maioria dos participantes da pesquisa coloca o momento da apresentação com desnecessário, alguns dos sujeitos apontam o momento de defesa diante de uma banca como algo pertinente ao processo de construção do TCC, sendo a apresentação: Uma exigência razoável e válida, uma vez que nos faz vencer, superar o receio da apresentação em público. (EST. 08).
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    49 Relevante, uma vez que, a maioria das áreas de formação universitária precisarão de uma boa performance em oratória, e a defesa deste trabalho ajudará. Por outro lado, se construímos, não há por que não defendê-lo. (EST. 10). Um aspecto, que fica implícito nos discursos apresentados uma compreensão da apresentação como uma forma de desenvolver a habilidade de expor-se oralmente em público, como podemos perceber na fala do EST. 10 em que aparece a palavra oratória. Dessa maneira, fica evidenciado o medo de se exporem, de serem julgados pela performance no momento da apresentação. Entre os aspectos positivos expressos no discurso dos estudantes aparece também o desejo de prosseguirem com o estudo do tema abordado no TCC, onde haveria um aprofundamento das reflexões vivenciadas durante esse período de construção nas próximas etapas da formação (pós-graduação), assim, a continuidade dos estudos, a busca por aperfeiçoamento profissional, o aperfeiçoamento da pratica após a graduação, é um dos fatores abalizados pela literatura, e também pelos participantes deste estudo, como contribuição do Trabalho de Conclusão de Curso ao desenvolvimento pessoal. Essa compreensão vem reafirmar o pensamento de Eco (1998), que assevera ser possível valer-se da ocasião da monografia “para se recuperar o sentido positivo e progressivo do estudo como elaboração crítica de uma experiência, aquisição de uma capacidade útil para o futuro”. 4.3 As representações sociais dos estudantes de pedagogia a partir da associação livre de palavras Para que obtivéssemos uma percepção mais clara das representações sociais dos sujeitos da pesquisa, procuramos fazer com que através da associação de conceitos relacionados ao Trabalho de Conclusão de Curso, os estudantes fizessem aflorar o que representava para ele este momento. Assim, os estudantes foram solicitados a responder a seguinte questão: Quando se fala em TCC, quais são as primeiras 10 palavras que lhe vem à mente?
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    49 Na análise individual das palavras elencadas pelos sujeitos, foram levadas em consideração as palavras que mais se repetiram e a ordem em que as mesmas apareceram nas respostas. A partir da análise podemos perceber que as palavras, conceitos que mais emergiram nas respostas foram: tempo, dificuldade, pesquisa, estresse, leitura, medo, ansiedade, conclusão, escrita e alívio. Palavras N. ocorrências Percentuais TEMPO 10 50% DIFICULDADE 08 29% PESQUISA 07 26% ANSIEDADE 07 26% MEDO 06 23% STRESS 06 23% LEITURA 06 23% CONCLUSÃO 03 15% CONHECIMENTO 03 15% ESCRITA 03 15% ALÍVIO 03 15% Tabela 4.1: Palavras mais citadas na associação livre de palavras. Outras palavras que afloraram na associação feita pelos entrevistados, em menor número, com duas ocorrências cada, foram: burocracia, construção, dedicação, desespero, dúvida, esforço, estudo, obrigação, tema, trabalho, vitória. Observamos que há uma certa heterogeneidade nos conceitos listados pelos sujeitos e que, embora as palavras e expressões se diferenciem, não havendo uma coincidência acentuada na exposição das mesmas, todas apontam uma representação permeada por conflitos, contradições, tensões, onde se revela que são poucas as palavras dos sujeitos pesquisados que caracterizam a construção do TCC como uma realização positiva. De acordo com as discussões que trouxemos na construção desse trabalho esse conflito poderia estar evidenciando uma representação que é “fruto da vivência das contradições que permeiam o dia-a-dia dos grupos sociais e suas expressões” e que “marca o entendimento deles com seus pares, seus contrários e com as instituições”. (MINAYO, 2000).
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    49 Nota-se que a palavra que aparece em destaque, como a mais citada pelos participantes foi tempo, mostrando que esta é uma preocupação presente no cotidiano dos estudantes que convivem com as pressões exercidas pela instituição universitária, pressões materializadas em cronogramas, prazos para entrega e a conciliação com as demais atividades que exigem dedicação e esforço do estudante universitário, principalmente na construção e entrega do TCC. A esse respeito podemos trazer o pensamento de Libâneo e Pimenta (1999), ao se referirem a velhas problemáticas, tais como: Inchaço do currículo, pretensões ambiciosas quanto à diversidade de profissionais a serem formados, aligeiramento da formação, empobrecimento na oferta de disciplinas e impossibilidade de se dar ao curso o caráter de aprofundamento da ciência da educação para formar o pesquisador e o especialista em educação. Para ilustrar o que foi dito, consideremos a ordem que alguns dos sujeitos pesquisados estabeleceram na distribuição das palavras e expressões, no momento de responder ao questionário: Tempo disponível, ansiedade, angústia, prazo de entrega, pesquisa conhecimentos novos, superação, alívio, vitória, conquista. (EST. 08). Desespero, tempo para fazer, prazo para entrega, acompanhamento, teóricos, leitura, disciplina, determinação, entrega total, alívio. (EST. 01). Dificuldade, tempo, medo (EST. 12). Sabemos que apesar de o TCC ser uma exigência conhecida pelo estudante desde o primeiro momento que ingressa na universidade, este só vai desenvolvê-lo no período mais próximo ao final do curso, embora vá ao longo de sua formação se apropriando dos elementos necessários ao aprimoramento da capacidade de reflexão, necessária á construção desse trabalho. Um processo que não se dá somente na parte final da graduação, com vem colocando Oliveira (2003): “A monografia, como resultado do estudo científico de um tema, vai sistematizar o resultado das leituras, observações, críticas e reflexões feitas pelo educando no decorrer de sua formação”.
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    49 Podemos perceber que a ordem apresentada pelo EST. 08 e segue uma seqüência progressiva do processo de construção do TCC e de significação, em que são mesclados tanto elementos que evidenciam aspectos conflitivos, preocupantes, quanto conceitos que evidenciam a superação e a conquista no final do processo, bem como a continuidade que também é expressa pelo EST. 04: Monografia, escrita, leitura, argumentação, exame, banca, exposição, pesquisa, artigo, publicação. Chama-nos à atenção a ordem e o número de ocorrências da palavra pesquisa nas associações, onde pudemos perceber que menos da metade (sete) dos respondentes fez alusão à mesma e que quando aparece está entre as últimas palavras mencionadas. Isso evidencia uma certa contradição entre o que está posto nos discursos oficiais e o que está posto na visão do estudante que vivencia o processo da pesquisa, mas que não estabelece uma relação de proximidade, de entendimento sobre a mesma na construção do TCC. A mistificação da pesquisa no campo universitário e, conseqüentemente, a sua definição exclusivamente baseada em cânones científicos, configuram- se como uma das principais dificuldades para realizar a formação de professores na universidade, tomando a pesquisa como princípio formativo. (OLIVEIRA, 2003, p.40). Um fato interessante que constatamos na análise foi que um número expressivo (metade dos respondentes) não completou as dez palavras solicitadas, declarando estes que não lhe ocorriam mais nenhuma outra no momento de responder, dessa forma houve estudantes que citaram apenas quatro ou cinco das dez palavras pedidas. As lacunas deixadas pelos sujeitos nos fazem pensar nas contradições que estariam se evidenciando neste momento o que nos remete ao questionamento: se a elaboração do TCC desperta longos discursos, que se repetem no departamento e que circulam largamente em diversos momentos, por que essa dificuldade em apontar as dez palavras pedidas? Não estaria aí a tipificação do desânimo ou da impossibilidade que vem sendo reiteradas vezes referenciada pelos estudantes?
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    49 Podemos observar que foram muitas as referências a sentimentos negativos provocados pela atividade; os aspectos negativos manifestando-se por enunciações que denotam estados emocionais conflitantes, tais como ansiedade, dificuldade, medo, stress, dúvida, tensão, apreensão, insegurança, punição, castigo, punição, obrigação, avaliação, sofrimento, indiferença, etc. Como a monografia, geralmente, está relacionada com a conclusão de um curso, portanto, com o final de uma etapa, por mais que o aluno tenha se beneficiado dos conhecimentos adquiridos, é inevitável um sentimento de insegurança, pois o desconhecido causa insegurança.(OLIVEIRA, 2003, p.90). Assim, inferimos que o estado emocional vivido nessa etapa de formação, geralmente, está relacionado às dificuldades encontradas durante esse período de trabalho e pelo fato de os alunos estarem sendo avaliados e disso depender a conclusão do curso, disso decorrendo a representação sobre o TCC como algo penoso, difícil, árduo, complexo, intenso. Um último obstáculo a ser superado na concretização de sua formação. 4.3 Considerações necessárias ao nosso objeto de estudo Ao procurarmos identificar junto aos estudantes de pedagogia as representações sociais dos mesmos no que diz respeito ao Trabalho de Conclusão de Curso, levamos em consideração que as mesmas dizem respeito a um “conjunto de conceitos, afirmações e explicações originadas no decurso do cotidiano, no decurso das comunicações interindividuais” Moscovici (2003). Pudemos perceber que os sujeito pesquisados representam o TCC como um trabalho difícil, complexo, desafiador, desgastante, desnecessário, “quase impossível”, “amedrontador”, ao mesmo tempo em que consideram-no como importante, quando se reportam á experiência que o trabalho traz, à “abertura do olhar”, “enriquecimento de idéias” advindos da produção, das leituras e da reflexão que esse momento propicia. Entrando como elementos mais conflitivos para eles, as pressões exteriores, a necessidade de exposição, o julgamento pelo qual precisarão ser submetidos.
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    49 Percebe-se que as representações trazidas pelos sujeitos pesquisados são em sua maioria composta por elementos negativos atribuídos ao momento da construção do trabalho, momento de maior tensão, em que o estudante vivencia a pressão exercida pela iminência da conclusão do curso, prazos de entrega dos trabalhos e pela ansiedade provocada pelo receio da avaliação final, representada pela exposição e o conseqüente julgamento do trabalho pela banca examinadora. Vimos que as representações sociais que os mesmos constroem são concebidas através das experiências advindas das relações instituídas na universidade, através do intercambio com seus pares, com professores, com as vivências hauridas no cotidiano dos trabalhos desenvolvidos durante a graduação e que giram sempre em torno do medo e insegurança na construção do trabalho científico. Assim, as representações sociais construídas pelos sujeitos, emergem em meio a estereótipos que estão relacionados a um contexto social e a uma situação particular, que se desenrola no seio das instituições, no caso, a universidade, e em meio a uma situação conflitante, desafiadora que é a pesquisa e produção de um trabalho científico. O estudo das representações sociais exige o exame das condições sociais e institucionais da produção e circulação deste conhecimento em referência a uma prática visto que ela se oferece como visão do mundo ao qual os sujeitos se referem para agirem quotidianamente. (ANADÒN e MACHADO, 2003, p. 57). Os estereótipos evidenciados em palavras e expressões, tais como “bicho-de- sete-cabeças” “terrorismo”, “trabalho difícil” “impossível” demonstram que há um elemento ideológico que perpassa essas representações, que acabam por produzir uma série de crenças que são construídas a partir de diversas circunstâncias que envolvem o intercâmbio, ou seja, a influência mútua entre os sujeitos e as situações que envolvem a construção, apresentação do TCC, gerando interpretações, concepções, mistificações que vão se perpetuando nessas relações. Percebemos também que surgem representações positivas, especialmente no que concerne ao caráter de conclusão que representa a produção do trabalho no término
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    49 do curso, issofica evidenciado quando surgem as palavras vitória, conquista, alívio, superação. O caráter positivo do TCC também está relacionado à conquista de conhecimentos, alargamento da visão, mudança de posicionamentos, enriquecimento da prática. Compreendemos que as representações sociais dos estudantes de pedagogia ficaram claramente evidenciadas através de suas palavras, sentimentos, atitudes e expectativas e imagens que transmitiram tão vivamente em seus discursos, tanto no momento da pesquisa como nas relações de todos os dias, destarte, acreditamos que essa pesquisa conseguiu alcançar seu objetivo inicial e que se torna um manifesto de que algumas visões e concepções que precisam ser transformadas e repensadas para que a relação entre os indivíduos e o crescimento seja menos conflituosa e mais significativa.
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    49 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao delinearmos nosso problema de pesquisa, partimos do pressuposto de que o estudo das representações sociais dos estudantes concluintes do curso de pedagogia do campus VII da Universidade do Estado da Bahia em Senhor do Bonfim sobre o Trabalho de conclusão de Curso tornava-se relevante porque propiciaria o encontro, o diálogo entre os sujeitos pesquisados e a universidade, e, através da análise das representações sociais por eles elaboradas poderíamos conhecer o que pensam, o que sentem, como interpretam essa questão polêmica que diz respeito à produção de uma monografia como requisito final de avaliação na graduação. Assim, a nossa questão de pesquisa partiu da idéia e da observação de que existe uma relação conflituosa, inquietante entre o estudante e a monografia, em que o mesmo expressava sentimentos de apreensão, temor e angústia com relação à mesma e que essas demonstrações sempre afloravam em conversas, discussões no cotidiano da universidade, conversas entre estudantes que estavam passando pelo processo de construção do trabalho, em vias de concluírem a graduação e entre aqueles que estavam chegando ao curso. Percebíamos também que essa preocupação não era exclusividade do curso de pedagogia, alunos de todos os cursos estavam sempre expressando sentimento parecido. Decorrente disso surgiu a preocupação e o interesse em desenvolvermos um estudo voltado para o TCC e as representações sociais dos estudantes de pedagogia, um estudo que ousamos chamar de metalingüístico, (já que esta é também uma monografia, de uma aluna do curso de pedagogia). Portanto, ao chegarmos ao termo deste trabalho podemos, não concluir, porque nada é totalmente conclusivo, definitivo, acabado, mas podemos indicar aspectos que foram pertinentes à discussão e que serviram de esboço para algumas considerações interessantes. Deste modo, ao analisarmos os discursos evidenciados pelos estudantes concluintes do curso de pedagogia percebemos que o TCC representa para eles um momento complexo, conturbado, angustiante e que existe certa mistificação
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    49 relacionada ao mesmoe aos processos que lhes são diretamente relacionados, como por exemplo, o caráter avaliativo, as condições em que acontece e as pressões exercidas pela universidade, e que essas representações são geradas no decorrer dos intercursos cotidianos realizados pelos sujeitos com seus pares e com as instituições através das pessoas que a representam. Assim sendo, consideramos relevante apontar algumas questões que seriam pertinentes se levar em conta no processo de reflexão que este trabalho visa proporcionar: As representações sociais dos estudantes estariam relacionadas somente a ocasião que estavam vivenciando, ou, seja, teriam sido forjadas sob a pressão relacionada à produção e entrega do TCC, ou seriam fruto de uma visão equivocada, que é transmitida aos mesmos desde o primeiro momento que ingressam na universidade? A universidade tem contribuído para que o estudante encare a produção do TCC como uma forma de enriquecer seus conhecimentos, ou tem dado ênfase meramente aos aspectos técnicos / burocráticos voltados para o rigor formal e para a capacidade de expor com clareza e objetividade pressupostos cientificistas que pouco tem relação com os anseios do sujeito que produz? Até que ponto tem-se trabalhado no meio acadêmico para que o sujeito que se inicia na produção científica encare a mesma como um processo natural, necessário ao seu desenvolvimento e não a veja como algo inatingível, reservado somente a uns poucos “gênios iluminados”, algo destinado ao crescimento pessoal do individuo e não como uma punição, uma sanção avaliativa? Percebemos que têm sido poucas as ações no sentido de se procurar tornar o processo de construção, de criação, seja na pré-escola ou na universidade um ato natural, sem sofrimentos e angústias e que, nós, educandos, futuros educadores, ainda não aprendemos a nos relacionarmos sem sofrimento com a construção do saber.
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    49 Saímos das escolas, das universidades sem termos adquirido a real compreensão sobre a tal “construção do conhecimento”, e levamos conosco esse sentimento de estranheza, de inadequação, de distanciamento, desconforto em lidar com as formas “complexificadas” de conhecimento e acabaremos por reproduzir, transmitir, esses mesmos sentimentos, a um sem-número de outros tantos indivíduos. Não estamos querendo afirmar que a produção e apresentação de trabalhos científicos deveriam ser suprimidas, retiradas dos cursos de graduação, com isso estaríamos voltando à condição de meros receptores e reprodutores de formas de conhecimento engessadas, que seriam cada vez mais “sacralizadas”, voltando a um modelo de universidade que separa o “pensar” do “fazer”. Cremos ser de fundamental importância o exercício da reflexão, que é propiciado pela união entre teoria e prática e que busca subsídios no pensamento que é construído pela ciência, alcançado pela pesquisa e que tenha também (e não somente) como base o rigor formal. Acreditamos que o estudante deve ser estimulado a produzir o conhecimento desde suas primeiras experiências com a educação formal e principalmente na universidade, na graduação, onde ele se iniciará nas formas mais elaboradas, específicas do saber e onde inicia realmente seu processo de autonomia intelectual. Mas, consideramos que se torna de fundamental importância a ação no meio acadêmico no sentido de fazer-se com que o estudante passe a encarar esses momentos como um processo natural, ajudando-os a perceber a real importância desses momentos de construção e de estar aberto a críticas construtivas que o ajudarão a ascender, evoluir intelectualmente e como sujeito. Algumas ações nesse sentido já têm sido desenvolvidas, porém não com constância e a coesão necessárias, onde as principais ações que se destacam são os seminários, as produções de artigos, projetos de pesquisa, os estágios curriculares integrados à pesquisa e á prática pedagógica, mas percebe-se que essas atividades já trazem em seu bojo as mesmas problemáticas existentes na
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    49 construção do Trabalhode Conclusão de Curso e que acabam contribuindo, em alguns casos, para a intensificação de algumas visões, ideologias equivocadas. Na busca de elementos que poderiam contribuir para a construção desse trabalho encontramos, posto no regulamento referente ao Trabalho de Conclusão de Curso da universidade que foi lócus da pesquisa, indicativos de ações que poderiam ser desenvolvidas e que poderiam ser uma alternativa para que esses momentos de construção fossem mais significativos e menos traumáticos. Dessa forma, ao trazer em seu regulamento a realização de atividades abertas à comunidade acadêmica (reuniões, encontros, palestras e seminários) envolvendo professores-orientadores e orientandos onde aconteceria um processo de socialização e troca de experiências, divulgação dos temas trabalhados e das fases de desenvolvimento dos projetos no decorrer do processo de elaboração dos trabalhos de conclusão de curso desponta-se a possibilidade de um trabalho de reversão na construção dessa imagem negativa, conflituosa que é passada continuamente pela própria instituição universitária. Bastando para isso que se comecem a realizar ações nesse sentido. Ousamos, ao chegar à conclusão desse trabalho que se tornou tão significativo, sugerir, apontar ações que poderiam ser desenvolvidas por esta instituição para que os próximos estudantes, não só de pedagogia, a lidarem com a experiência de construção de um trabalho desse jaez passem a vê-lo como uma conquista importante, resultado do seu crescimento como pessoa e como sujeito que constrói o conhecimento e que se auto-realiza com essa construção. Poder-se-ia rever a questão do TCC como única forma de avaliação do aluno concluinte no final do curso, onde se buscaria constituir outras estratégias de avaliação que estabelecessem uma relação entre essa produção e o desenvolvimento do educando no decorrer da formação. Destarte, cremos que o processo de construção do TCC pelo estudante precisa ser desvinculado do caráter de obrigatoriedade, ao menos na parte que se refere à defesa exclusiva para uma banca examinadora que tem como único objetivo julgar o resultado que é exposto naquele momento e que não leva em consideração
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    49 o processo decrescimento vivenciado pelo aluno, pois geralmente, as pessoas que compõem a banca não acompanharam o desenvolvimento, a trajetória daquele aluno por inteiro. Ações deveriam ser realizadas pela universidade junto aos estudantes para que se fizesse uma revisão do conceito de TCC como caráter meramente punitivo como está expresso na fala incisiva de um dos sujeitos dessa pesquisa: Considero (o TCC) uma atividade totalmente ultrapassada. (...) ouvimos falar tanto na universidade de mudanças e renovações, mas a própria UNEB se utiliza de métodos antigos como estes para aprovar ou reprovar alunos. Elaborar e apresentar o TCC me dá uma sensação de punição e não aprendizagem. (EST. 05). Com o discurso contundente reproduzido acima concluímos esse trabalho e esperamos que o mesmo possa contribuir na construção de um diálogo entre aqueles que se interessam por essa problemática, (discentes, docentes e comunidade acadêmica como um todo) e que seja o prenúncio de outras ações que venham acrescentar, incrementar essa discussão.
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    49 REFERÊNCIAS ANADÓN, Marta & MACHADO, P.B: Reflexões teórico - metodológicas sobre as representações sociais. Salvador: Editora UNEB, 2003. BRASIL. A definição das Diretrizes para o curso de Pedagogia – Posicionamento da Anfope, Anped/Cedes. Disponível em: < http://www.anped.org.br>. Acesso em: 20.04. 2008. __________; Lei 9394/96 de 20 de novembro de 1993. Dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. COUTINHO, Maria da penha de Lima e SALDANHA, Ana Alayde Werban: Representação social e praticas de pesquisa. João Pessoa: ed. Universitária/ UFPB, 2005. ECO, Humberto: Como se faz uma tese. – 14ª ed. São Paulo, Perspectiva: 1998. EVANGELISTA, Roberto Muricy: A Monografia no curso de matemática. UNEB, 2005.40 p. FACHIN, Odília: Fundamentos de Metodologia – São Paulo: Atlas, 1993. FAZENDA Ivani. (org.): A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento. – 7ª. Ed. São Paulo: Papirus, 2005. Coleção práxis. INÁCIO FILHO, Geraldo: A monografia na universidade. 8ª. Ed. São Paulo: Papirus, 2005. GOHN, Maria da Glória M.: A pesquisa na produção do conhecimento: questões metodológicas. EccoS – Revista Científica, São Paulo, v. 7, n. 2, p 253-274, jul. /dez., 2005. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em 27-04-08. GUARESCHI, P. A. & JOVCHELOVITCH, S. (org). Textos em representações sociais. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000. KRAMER, Sonia: Leitura e escrita de professores: Da prática de pesquisa à prática de formação. Revista Brasileira de Educação. Jan/fev/Mar/Abr 1998 N º 7. disponível em: www.anped.com. acesso em 27-04-08. LAKATOS, Eva Maria; ANDRADE, Marina Marconi de: Fundamentos da metodologia científica – 3. ª ed. São Paulo: Atlas, 1991. LIBÂNEO, José Carlos: Pedagogia e Pedagogos para quê? - 4ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2001.
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    49 ______; PIMENTA, SelmaGarrido. Formação dos profissionais da educação: visão crítica e perspectivas de mudança. Pp. 239-277 Disponível em: http://www.anped.org.br>. Acesso em: 20.05. 2004. LÜDKE, Menga: A pesquisa na formação do professor. In: FAZENDA Ivani. (org.): A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento. – 7ª. Ed. São Paulo: Papirus, 2005. Coleção práxis. MACEDO, Roberto Sidnei: Etnopesquisa crítica, Etnopesquisa formação. Brasília: Líber livro editora, 2006. MINAYO, M. Cecília de Souza: O conceito de representações sociais dentro da sociologia clássica. In: GUARESCHI, P. A. & JOVCHELOVITCH, S. Textos em representações sociais. 6ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2000. NÓVOA, António: Diz-me como ensinas, dir-te-ei quem és e vice-versa. In FAZENDA Ivani. (org.): A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento. – 7ª. Ed. Pp 29-41. São Paulo: Papirus, 2005. Coleção práxis. OLIVEIRA, G. A. Pereira de: A concepção de egressos de um curso de pedagogia acerca da contribuição do Trabalho de Conclusão de Curso. 2003.136 p. Dissertação de Mestrado (Mestrado em educação) – Faculdade de Educação da Universidade estadual de Campinas, Campinas. SALOMON, Décio Vieira: Como se faz uma monografia. - 2ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. SAVIANI, Dermeval: Pedagogia: o espaço da educação na universidade. P. 99- 134. Cad. Pesquisa. V.37 n.130 São Paulo jan. /abr. 2007. Disponível em www.scielo.br. Acesso em 20-05-08.
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    49 QUESTIONÁRIO Caro (a) colega: Este questionário é um instrumento relativo à pesquisa que realizo nos quadros do TCC, enquanto concluinte do Curso de Pedagogia. Agradeço a valiosa colaboração, e não, precisa assinar. Manteremos o devido sigilo, em uma postura ética enquanto pesquisadora. Antecipadamente grata, Mônica Andrade DADOS PESSOAIS 1. IDADE: ( ) 17 a 21 anos ( ) 37a 41 anos ( ) 22 a 26 anos ( ) 42 a 46 anos ( ) 27 a 31 anos ( ) 47 a 51 anos ( ) 32 a 36 anos ( ) superior a 52 anos 2. SEXO: ( ) FEMININO ( ) MASCULINO 3. LOCAL ONDE MORA: ( ) zona rural ( ) zona urbana 4. FUNÇÃO PROFISSIONAL QUE DESEMPENHA ATUALMENTE: ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 5. CURSO/HABILITAÇÃO: ________________________________________________________________ ________________________________________________________________
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    49 6. QUE RAZÕESO (A) LEVARAM A CURSAR PEDAGOGIA? ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 7. ASSINALE UMA DAS ALTERNATIVAS: COM RELAÇÃO À DISCIPLINA DE MONOGRAFIA ( ) estou cursando ( ) tranquei matrícula ( ) abandonei a disciplina 8. CASO TENHA TRANCADO A DISCIPLI NA OU ABANDONADO O QUE O (A) LEVOU A FAZER ISTO? ________________________________________________________________ ________________________________________________________________ 9. QUANDO SE FALA EM TCC, QUAIS AS PRIMEIRAS 10 PALAVRAS QUE LHE VÊM À MENTE? 1. __________________ 6. __________________ 2. __________________ 7. __________________ 3. __________________ 8. __________________ 4. __________________ 9. __________________ 5. __________________ 10. __________________ 10. QUAL A SUA PRIMEIRA LEMBRANÇA, AO INGRESSAR NA UNIVERSIDADE, REFERENTE AO TCC? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ 11. O QUE VOCÊ ACHA DA EXIGÊNCIA DE SE FAZER UM TRABALHO DE CONCLUSAO DE CURSO E APRESENTÁ-LO DIANTE DE UMA BANCA EXAMINADORA? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________
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    49 12. HÁ ALGUMARELAÇÃO ENTRE AS EXPERIÊNCIAS, VIVÊNCIAS (NAS DISCIPLINAS, RELAÇÕES COM PROFESSORES, ESTÁGIOS, SEMINARIOS) ADQUIRIDAS NO DECORRER DE SUA FORMAÇÃO NO CURSO DE PEDAGOGIA E SEU TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (MONOGRAFIA)? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ 13. VOCÊ ACHA QUE O SEU TCC TERÁ ALGUMA RELAÇÃO COM A SUA VIDA APÓS A GRADUAÇÃO? DE QUE FORMA? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________