Guia para a exploração
cirúrgica da cavidade
abdominal do equino
M.V. Esp. Me. Pedro Augusto Cordeiro Borges
PROFESSOR - IF GOIANO – CAMPUS URUTAÍ
1.Ao acessar a cavidade abdominal pela linha média, a primeira estrutura a ser exteriorizada é o ápice
do ceco, direcionado no sentido oral (cranialmente); caso a afecção em curso envolva obstrução de
intestino delgado, o ceco pode estar vazio o que dificulta sua visualização nesse momento. Existe
também a possibilidade de haver deslocamento desse órgão com o ápice direcionado no sentido aboral
(caudalmente), o que é denominado retroflexão de ceco
2. Na grande maioria das vezes o trato gastrointestinal estará consideravelmente distendido em virtude
do acúmulo de gases. Para facilitar a exploração do trato gastrointestinal é necessário então que se faça
a descompressão das alças; para isso, utiliza-se uma agulha 14G ou 16G, acoplada a um aparelho de
sucção. Essa agulha é inserida em um ângulo de 45 graus, através da muscular e serosa, sendo deslocada
a frente por 2 a 3 cm; após isso introduz-se a agulha através da mucosa. A realização dessa manobra,
desse modo, faz com que se crie um túnel entre as camadas intestinais, o que dispensa a necessidade de
sutura.
No momento de se retirar a agulha é
interessante que se coloque uma gaze
estéril no ponto de entrada da mesma, a fim
de evitar que qualquer conteúdo que tenha
extravasado possa ter contato com a alça
intestinal
3. O ápice do ceco é então movido no sentido aboral (caudalmente) e a tênia lateral identificada.
Palpando-se a tênia lateral, ao longo da extensão do ceco, irá se encontrar a prega ceco-cólica, na
junção com o cólon ventral direito; a partir daí pode se explorar o cólon maior, partindo em direção
ao lado esquerdo, até a entrada da pelve, onde se encontra a flexura pélvica, local comum de
compactações. A não identificação da prega ceco-cólica indica que há um deslocamento do cólon
maior, ou seja, o colón está fora da sua posição anatômica.
4.O cólon maior pode ser explorado partindo-se em direção ao lado esquerdo, até a entrada da pelve, onde
se encontra a flexura pélvica, local comum de compactações devido à grande mudança de diâmetro que há
na região e a inclinação dorsal; enquanto o cólon ventral esquerdo apresenta 25cm de diâmetro, o colón
dorsal tem apenas 8cm. A diferença dos cólons baseia-se nas suas características, ambos os cólons ventrais
apresentam saculações e quatro tênias, os cólons dorsais não apresentam saculações; e enquanto o dorsal
direito tem três tênias, o dorsal esquerdo tem apenas um
5. O cólon menor, no cavalo em decúbito dorsal, localiza-se no meio da cavidade abdominal, caudal
ao intestino delgado, uma parte do cólon menor pode ser exteriorizada e palpada no sentido aboral
em direção ao reto e no sentido oral em direção ao cólon transverso. O cólon menor é caracterizado
pela presença de duas tênias, uma mesentérica e uma antimesentérica bem como, quando preenchido
com fezes, pelas saculações com formato característico de “síbalas”. Quando está distendido as
pronunciadas saculações acabam não sendo perceptíveis e a identificação se da pelo posicionamento
anatômico e pela presença de duas tênias, uma aboral e outra oral.
6.Dirigindo-se oralmente a partir do cólon menor ou aboralmente seguindo o colón dorsal direito,
pode-se palpar o cólon transverso; este está aderido a parede abdominal e não pode ser exteriorizado.
O cólon transverso também é uma região de mudança brusca de diâmetro, na qual é comum a
ocorrência de obstruções, sobretudo por enterólitos que são concreções formadas a partir do acumulo
de minerais sobre um núcleo, que pode ser uma pedra de pequeno tamanho ingerida pelo animal no
pasto por exemplo.
7. Para explorar o intestino delgado, o ceco deve ser deslocado caudalmente pelo ápice e
a tênia dorsal é palpada em direção a cavidade abdominal até que se encontre a prega
ileocecal, que adere superfície antimesentérica do íleo ao ceco
Uma vez identificado, o íleo pode ser explorado por cerca de 50cm no sentido oral e
dando sequência a exploração pode se avaliar o jejuno que pode ter até 20 metros em um
cavalo adulto → o jejuno pode ser explorado até o duodeno e então se encontra prega
duodeno cólica que adere o íleo ao cólon menor.
A porção mais próximal do jejuno, em torno de 25 a 30 cm e o duodeno não podem ser
totalmente exteriorizados
Durante a exploração do intestino delgado deve-se realizar uma manipulação cuidadosa,
de tal maneira que o seguimento exteriorizado seja sustentado pelo dedo indicador e
médio de ambas as mãos, em forma de pinça, evitando a compressão e comprometimento
vascular do segmento.
Quando o enterolito presente no cólon
transverso apresenta bordas regulares
deve se tentar desloca-lo para o cólon
maior e tentar retira-lo pela flexura
pélvica, já quando isso não é possível
deve se retira-lo pelo próprio cólon
transverso, com cuidado para não
contaminar a cavidade.
8.Outros órgãos de interesse ainda podem ser explorados, como o estomago que pode ser
palpado na porção cranial do lado esquerdo do abdômen. Quando a incisão na linha média
se estende até próximo da cartilagem xifoide ou quando o estomago encontra-se
consideravelmente distendido, é possível visualizar a curvatura maior do estomago.
9. Ainda é interessante que o cirurgião explore outras áreas de interesse clínico sobretudo
quando há suspeita de encarceramento de intestino delgado. Geralmente as cólicas de
intestino delgado apresentam-se clinicamente mais agressivas, causando um maior grau
de dor e depleção orgânica do animal, de maneira mais rápida. Do lado direito da cavidade
abdominal, na superfície visceral do fígado, entra a veia cava e o lobo caudal deve-se
palpar o forame epiploico. Sobretudo em animais mais idosos, onde uma hipotrofia do
fígado possibilita o aumento desse espaço e com isso permite que o encarceramento de
alças de intestino delgado ocorra mais fácil. Em pouco tempo, o encarceramento no
forame epiploico pode levar a grave isquemia e necrose do segmento de intestino delgado
encarcerado
Exploração da região do forame epiploico
Exploração da região do ligamento nefroesplênico
REFERÊNCIAS
1.Moore, Buchatan & Smith. The Glass Horse Equine Colic. 2007. University of
Georgia
2. White N a., Moore JN, Mair TS. The Equine Acute Abdomen 3ed. 2017. 906 p. Wiley
Blackweel

Texto - Guia para a exploração cirúrgica da cavidade abdominal do equino.pdf

  • 1.
    Guia para aexploração cirúrgica da cavidade abdominal do equino M.V. Esp. Me. Pedro Augusto Cordeiro Borges PROFESSOR - IF GOIANO – CAMPUS URUTAÍ
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    1.Ao acessar acavidade abdominal pela linha média, a primeira estrutura a ser exteriorizada é o ápice do ceco, direcionado no sentido oral (cranialmente); caso a afecção em curso envolva obstrução de intestino delgado, o ceco pode estar vazio o que dificulta sua visualização nesse momento. Existe também a possibilidade de haver deslocamento desse órgão com o ápice direcionado no sentido aboral (caudalmente), o que é denominado retroflexão de ceco 2. Na grande maioria das vezes o trato gastrointestinal estará consideravelmente distendido em virtude do acúmulo de gases. Para facilitar a exploração do trato gastrointestinal é necessário então que se faça a descompressão das alças; para isso, utiliza-se uma agulha 14G ou 16G, acoplada a um aparelho de sucção. Essa agulha é inserida em um ângulo de 45 graus, através da muscular e serosa, sendo deslocada a frente por 2 a 3 cm; após isso introduz-se a agulha através da mucosa. A realização dessa manobra, desse modo, faz com que se crie um túnel entre as camadas intestinais, o que dispensa a necessidade de sutura. No momento de se retirar a agulha é interessante que se coloque uma gaze estéril no ponto de entrada da mesma, a fim de evitar que qualquer conteúdo que tenha extravasado possa ter contato com a alça intestinal
  • 3.
    3. O ápicedo ceco é então movido no sentido aboral (caudalmente) e a tênia lateral identificada. Palpando-se a tênia lateral, ao longo da extensão do ceco, irá se encontrar a prega ceco-cólica, na junção com o cólon ventral direito; a partir daí pode se explorar o cólon maior, partindo em direção ao lado esquerdo, até a entrada da pelve, onde se encontra a flexura pélvica, local comum de compactações. A não identificação da prega ceco-cólica indica que há um deslocamento do cólon maior, ou seja, o colón está fora da sua posição anatômica. 4.O cólon maior pode ser explorado partindo-se em direção ao lado esquerdo, até a entrada da pelve, onde se encontra a flexura pélvica, local comum de compactações devido à grande mudança de diâmetro que há na região e a inclinação dorsal; enquanto o cólon ventral esquerdo apresenta 25cm de diâmetro, o colón dorsal tem apenas 8cm. A diferença dos cólons baseia-se nas suas características, ambos os cólons ventrais apresentam saculações e quatro tênias, os cólons dorsais não apresentam saculações; e enquanto o dorsal direito tem três tênias, o dorsal esquerdo tem apenas um
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    5. O cólonmenor, no cavalo em decúbito dorsal, localiza-se no meio da cavidade abdominal, caudal ao intestino delgado, uma parte do cólon menor pode ser exteriorizada e palpada no sentido aboral em direção ao reto e no sentido oral em direção ao cólon transverso. O cólon menor é caracterizado pela presença de duas tênias, uma mesentérica e uma antimesentérica bem como, quando preenchido com fezes, pelas saculações com formato característico de “síbalas”. Quando está distendido as pronunciadas saculações acabam não sendo perceptíveis e a identificação se da pelo posicionamento anatômico e pela presença de duas tênias, uma aboral e outra oral. 6.Dirigindo-se oralmente a partir do cólon menor ou aboralmente seguindo o colón dorsal direito, pode-se palpar o cólon transverso; este está aderido a parede abdominal e não pode ser exteriorizado. O cólon transverso também é uma região de mudança brusca de diâmetro, na qual é comum a ocorrência de obstruções, sobretudo por enterólitos que são concreções formadas a partir do acumulo de minerais sobre um núcleo, que pode ser uma pedra de pequeno tamanho ingerida pelo animal no pasto por exemplo.
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    7. Para exploraro intestino delgado, o ceco deve ser deslocado caudalmente pelo ápice e a tênia dorsal é palpada em direção a cavidade abdominal até que se encontre a prega ileocecal, que adere superfície antimesentérica do íleo ao ceco Uma vez identificado, o íleo pode ser explorado por cerca de 50cm no sentido oral e dando sequência a exploração pode se avaliar o jejuno que pode ter até 20 metros em um cavalo adulto → o jejuno pode ser explorado até o duodeno e então se encontra prega duodeno cólica que adere o íleo ao cólon menor. A porção mais próximal do jejuno, em torno de 25 a 30 cm e o duodeno não podem ser totalmente exteriorizados Durante a exploração do intestino delgado deve-se realizar uma manipulação cuidadosa, de tal maneira que o seguimento exteriorizado seja sustentado pelo dedo indicador e médio de ambas as mãos, em forma de pinça, evitando a compressão e comprometimento vascular do segmento. Quando o enterolito presente no cólon transverso apresenta bordas regulares deve se tentar desloca-lo para o cólon maior e tentar retira-lo pela flexura pélvica, já quando isso não é possível deve se retira-lo pelo próprio cólon transverso, com cuidado para não contaminar a cavidade.
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    8.Outros órgãos deinteresse ainda podem ser explorados, como o estomago que pode ser palpado na porção cranial do lado esquerdo do abdômen. Quando a incisão na linha média se estende até próximo da cartilagem xifoide ou quando o estomago encontra-se consideravelmente distendido, é possível visualizar a curvatura maior do estomago.
  • 7.
    9. Ainda éinteressante que o cirurgião explore outras áreas de interesse clínico sobretudo quando há suspeita de encarceramento de intestino delgado. Geralmente as cólicas de intestino delgado apresentam-se clinicamente mais agressivas, causando um maior grau de dor e depleção orgânica do animal, de maneira mais rápida. Do lado direito da cavidade abdominal, na superfície visceral do fígado, entra a veia cava e o lobo caudal deve-se palpar o forame epiploico. Sobretudo em animais mais idosos, onde uma hipotrofia do fígado possibilita o aumento desse espaço e com isso permite que o encarceramento de alças de intestino delgado ocorra mais fácil. Em pouco tempo, o encarceramento no forame epiploico pode levar a grave isquemia e necrose do segmento de intestino delgado encarcerado Exploração da região do forame epiploico Exploração da região do ligamento nefroesplênico
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    REFERÊNCIAS 1.Moore, Buchatan &Smith. The Glass Horse Equine Colic. 2007. University of Georgia 2. White N a., Moore JN, Mair TS. The Equine Acute Abdomen 3ed. 2017. 906 p. Wiley Blackweel