CONVERSAS COM QUEM SABE EDUCAR
O REVERSO DA APRENDIZAGEM – Como lidar
com a criança que não aprende?
Giscarla Dantas1
A aprendizagem é um processo
inerente ao sujeito, que se inicia a partir do
nascimento, perdurando ao longo de todos
os estágios da vida. É o meio pelo qual as
experiências individuais produzem mudanças
no modo de agir e pensar, resultando em
uma construção social. Ocorre em várias
instâncias e de várias maneiras: alguns
aprendem com maior rapidez, enquanto
outros apresentam um ritmo mais lento na
apropriação do conhecimento e dos novos
saberes.
No entanto, existem também
aqueles que não aprendem, e os fatores que
influenciam esta condição podem ser os mais
diversos. Não aprender pode estar ligado,
por exemplo, a características individuais,
contextos familiares, maturação biológica,
desenvolvimento atípico, dentre outros
aspectos relevantes, e também a fatores
sociopolíticos, que permeiam o cotidiano da
comunidade escolar.
Maria Helena Souza Patto, uma
conhecida autora e pesquisadora sobre o
1
Pedagoga, Especialista em Educação Infantil,
Pós-graduada em Metodologia do Ensino e
Novas Tecnologias, Mestra e Doutoranda no
programa de Psicologia Escolar e do
Desenvolvimento Humano do Instituto de
Psicologia da USP, Consultora Educacional do
Colégio Avelino.
tema, afirma que é nas tramas do cotidiano
escolar que se pode perceber as reais razões
do insucesso na aprendizagem, e nesse
convívio com a diversidade é que se
apresentam de modo mais visível os
chamados “distúrbios”, as situações
limitadoras para o sujeito que não aprende.
Ele não realiza nenhuma das funções sociais
da educação, e acaba, sem dúvida, sendo
responsabilizado por esse contexto – mas
será mesmo que a “culpa” é do aluno? É ele
que não quer aprender, que é desatento, que
é disperso ou tem algum “problema”?
Para responder a esses
questionamentos, outros aspectos também
precisam ser levados em conta:
 AS CRIANÇAS APRENDEM TODAS
AO MESMO TEMPO?
 TODAS DA MESMA MANEIRA?
 POR QUE APRENDEM “MELHOR”
ALGUMAS COISAS DO QUE OUTRAS?
Em se tratando de aprendizagem,
pode-se afirmar que o sujeito só aprende
aquilo que faz sentido, que é interessante
para ele. Por exemplo, se for proposta uma
daquelas atividades conhecidas como
“decoreba”, o sujeito pode até decorar, mas
não vai aprender. Será um conhecimento
descartável, útil apenas para uma situação
imediata, e não para a vida.
O ser humano, por ser dotado de
inteligência – habilidade que faz referência a
quem sabe escolher – é capaz de
“selecionar” as melhores opções na hora de
resolver uma questão ou uma situação-
problema (e que nem sempre é a mesma
para todos os indivíduos). Como exemplo
disso temos os sujeitos que precisam de mais
tempo para resolver uma questão, ou que
utilizam estratégias diferentes de contagem,
ou ainda que fazem uso de hipóteses
concretas para chegar a um resultado
abstrato (contar nos dedos, usar tracinhos ou
objetos etc).
Percebe-se também que a primeira
atitude da família diante do quadro de
dificuldade de aprendizagem é recorrer ao
médico. O número de casos em que o
tratamento das questões desta ordem é
tratado com medicamentos é crescente, e há
um aumento progressivo no consumo das
substâncias psicoativas.
Sendo assim, qual o lugar do sujeito
que não aprende no decorrer deste
processo? De que maneira contemplar as
dificuldades de aprendizagem e seu impacto
no desenvolvimento do indivíduo?
Diversos teóricos consideram o
homem como ser inacabado, incompleto, em
uma realidade igualmente inacabada e em
processo de construção. Nessa perspectiva,
portanto, o sujeito está em permanente
processo de aprendizagem, ou seja, ele ainda
não aprendeu, mas vai aprender, está
aprendendo, no seu tempo. Cabe ao
professor investigar a natureza deste
desencontro na estrutura cognitiva, e à
Psicologia, em sua vasta contribuição à
escola, avaliar as causas e implicações deste
processo.
Este é um caminho que não deve ser
traçado isoladamente: é necessário também
levar em consideração os aspectos afetivos e
emocionais do sujeito frente ao
conhecimento, considerando a existência das
inteligências múltiplas, que favorece a
operação de saberes específicos sem
fragmentar o processo de aprendizagem.
Neste paradigma, aprender faz parte de um
processo interativo de construção e
reconstrução, que compreende a resolução
de problemas, adaptação a novas situações e
ampliação dos processos mentais a partir das
interações sociais.
Entender o sujeito como um ser
atuante, cuja vivência singular é construída a
partir das relações que estabelece com o
mundo em um processo progressivo de
desenvolvimento, permite uma visão mais
ampla de intervenção no contexto escolar.
Cabe a todos os sujeitos envolvidos no
acompanhamento do estudante – psicólogos,
pedagogos, familiares e demais mediadores –
a predisposição para uma escuta atenta às
suas necessidades, do ponto de vista físico,
emocional e social, envolvendo-se de forma
ativa na promoção do bem-estar e utilizando
ferramentas cooperativas para a superação
das dificuldades.

Texto 1 o reverso da aprendizagem

  • 1.
    CONVERSAS COM QUEMSABE EDUCAR O REVERSO DA APRENDIZAGEM – Como lidar com a criança que não aprende? Giscarla Dantas1 A aprendizagem é um processo inerente ao sujeito, que se inicia a partir do nascimento, perdurando ao longo de todos os estágios da vida. É o meio pelo qual as experiências individuais produzem mudanças no modo de agir e pensar, resultando em uma construção social. Ocorre em várias instâncias e de várias maneiras: alguns aprendem com maior rapidez, enquanto outros apresentam um ritmo mais lento na apropriação do conhecimento e dos novos saberes. No entanto, existem também aqueles que não aprendem, e os fatores que influenciam esta condição podem ser os mais diversos. Não aprender pode estar ligado, por exemplo, a características individuais, contextos familiares, maturação biológica, desenvolvimento atípico, dentre outros aspectos relevantes, e também a fatores sociopolíticos, que permeiam o cotidiano da comunidade escolar. Maria Helena Souza Patto, uma conhecida autora e pesquisadora sobre o 1 Pedagoga, Especialista em Educação Infantil, Pós-graduada em Metodologia do Ensino e Novas Tecnologias, Mestra e Doutoranda no programa de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano do Instituto de Psicologia da USP, Consultora Educacional do Colégio Avelino. tema, afirma que é nas tramas do cotidiano escolar que se pode perceber as reais razões do insucesso na aprendizagem, e nesse convívio com a diversidade é que se apresentam de modo mais visível os chamados “distúrbios”, as situações limitadoras para o sujeito que não aprende. Ele não realiza nenhuma das funções sociais da educação, e acaba, sem dúvida, sendo responsabilizado por esse contexto – mas será mesmo que a “culpa” é do aluno? É ele que não quer aprender, que é desatento, que é disperso ou tem algum “problema”? Para responder a esses questionamentos, outros aspectos também precisam ser levados em conta:  AS CRIANÇAS APRENDEM TODAS AO MESMO TEMPO?  TODAS DA MESMA MANEIRA?  POR QUE APRENDEM “MELHOR” ALGUMAS COISAS DO QUE OUTRAS? Em se tratando de aprendizagem, pode-se afirmar que o sujeito só aprende aquilo que faz sentido, que é interessante para ele. Por exemplo, se for proposta uma daquelas atividades conhecidas como “decoreba”, o sujeito pode até decorar, mas não vai aprender. Será um conhecimento descartável, útil apenas para uma situação imediata, e não para a vida.
  • 2.
    O ser humano,por ser dotado de inteligência – habilidade que faz referência a quem sabe escolher – é capaz de “selecionar” as melhores opções na hora de resolver uma questão ou uma situação- problema (e que nem sempre é a mesma para todos os indivíduos). Como exemplo disso temos os sujeitos que precisam de mais tempo para resolver uma questão, ou que utilizam estratégias diferentes de contagem, ou ainda que fazem uso de hipóteses concretas para chegar a um resultado abstrato (contar nos dedos, usar tracinhos ou objetos etc). Percebe-se também que a primeira atitude da família diante do quadro de dificuldade de aprendizagem é recorrer ao médico. O número de casos em que o tratamento das questões desta ordem é tratado com medicamentos é crescente, e há um aumento progressivo no consumo das substâncias psicoativas. Sendo assim, qual o lugar do sujeito que não aprende no decorrer deste processo? De que maneira contemplar as dificuldades de aprendizagem e seu impacto no desenvolvimento do indivíduo? Diversos teóricos consideram o homem como ser inacabado, incompleto, em uma realidade igualmente inacabada e em processo de construção. Nessa perspectiva, portanto, o sujeito está em permanente processo de aprendizagem, ou seja, ele ainda não aprendeu, mas vai aprender, está aprendendo, no seu tempo. Cabe ao professor investigar a natureza deste desencontro na estrutura cognitiva, e à Psicologia, em sua vasta contribuição à escola, avaliar as causas e implicações deste processo. Este é um caminho que não deve ser traçado isoladamente: é necessário também levar em consideração os aspectos afetivos e emocionais do sujeito frente ao conhecimento, considerando a existência das inteligências múltiplas, que favorece a operação de saberes específicos sem fragmentar o processo de aprendizagem. Neste paradigma, aprender faz parte de um processo interativo de construção e reconstrução, que compreende a resolução de problemas, adaptação a novas situações e ampliação dos processos mentais a partir das interações sociais. Entender o sujeito como um ser atuante, cuja vivência singular é construída a partir das relações que estabelece com o mundo em um processo progressivo de desenvolvimento, permite uma visão mais ampla de intervenção no contexto escolar. Cabe a todos os sujeitos envolvidos no acompanhamento do estudante – psicólogos, pedagogos, familiares e demais mediadores – a predisposição para uma escuta atenta às suas necessidades, do ponto de vista físico, emocional e social, envolvendo-se de forma ativa na promoção do bem-estar e utilizando ferramentas cooperativas para a superação das dificuldades.