MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIAS ASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO
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:UNIDADE 1: A DEFICIÊNCIA E O DEFICIENTE NA HISTÓRIA - I
Olá aluno (a)!!!
Nesta primeira unidade iremos iniciar uma caminhada histórica na busca por compreendermos como o ser humano percebeu,
problematizou e desenvolveu relações com as pessoas deficientes.
O objetivo geral deste estudo é saber quais foram e quais sãos os condicionantes históricos, sociais, religiosos, filosóficos, econômicos
etc., que contribuíram e contribuem para a construção das percepções a respeito da deficiência e do deficiente nos espaços sociais e
educacionais.
Os temas abordados neste capítulo seguirão linearmente as várias fases da história da humanidade, enfocando especificamente as
sociedades primitivas, a civilização grega e romana, o povo judeu, a religião cristã, o mundo medieval e a história da deficiência e do deficiente
no Brasil.
Este estudo diacrônico é importante para sua formação como Técnico em Multimeios Didáticos, pois lhe possibilitará ter uma
compreensão mais ampla sobre os vários elementos que interferem no processo educativo.
Veja que a educação é um processo histórico que recebe influências de vários fatores e sua atual estruturação, formatos, meios
didáticos, metodologias e elementos acessórios, refletem os vários elementos pertencentes a esta caminhada.
A presença dos multimeios didáticos nos atuais processos e instituições educativas, através das tecnologias assistivas, evidenciam o
contexto tecnológico no qual se tornou imprescindível a presença de novas tecnologias no processo ensino-aprendizagem. Sendo assim, veja
que este módulo está dividido em quatro subtópicos:
1. Conceituando a deficiência e o deficiente
2. A deficiência nas sociedades primitivas
3. A questão da deficiência na civilização grega
4. A questão da deficiência em Roma
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Esperamos que estes conteúdos possam conceder a você uma visão mais ampla sobre a história da deficiência e dos deficientes e
possibilitem uma mais acurada apreciação sobre a construção dos processos educativos com vistas ao respeito dos direitos fundamentais das
pessoas deficientes e ao desenvolvimento humano.
Fique atento às várias oportunidades de aprendizagem, aprofundamento dos conteúdos, reflexões sobre os tópicos desenvolvidos e
oportunidades de avaliação do processo educativo. Os ícones abaixo sempre levarão vocês para novas experiências no maravilhoso mundo
do saber.
Bons estudos!!!
Prof. Dr. Israel Serique dos Santos
Hiperlinks de Texto
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1.1 CONCEITUANDO A DEFICIÊNCIA E O DEFICIENTE
Olá aluno (a)!!!
Quando definimos este componente para o Curso de Multimeios Didáticos, tínhamos em mente os
grandes desafios pelos quais passam diariamente aquelas pessoas que possuem alguma deficiência física.
Como sabemos, em nossa sociedade existe um número considerável de crianças, jovens, adultos e
anciãos que convivem com problemas relacionados à mobilidade, aprendizagem, comunicação,
desenvolvimento cognitivo etc., os quais necessitam de um cuidado todo especial do grupo social do qual
participam, dos sistemas e locais de ensino.
Sujeitas a certas limitações motoras, cognitivas e relacionais, por questões físicas, mentais ou
neurológicas, estas pessoas necessitam de todo apoio que possamos dar e de todos os artifícios tecnológicos
que nossa ciência pode produzir para dar-lhes uma melhor qualidade de vida e possiblidades de
desenvolvimento, interação, integração social e educação.
Quando estudamos a história universal, percebemos que a deficiência e o deficiente foram
visualizados e categorizados de formas distintas pelas mais variadas sociedades e em vários momentos
históricos. Segundo Fernandes, Schlesener e Mosquera,
[...] na história da humanidade a imagem que muitos deficientes carregavam era a imagem de
deformação do corpo e da mente. Tal imagem denunciava a imperfeição humana. Há relatos, segundo
Gugel (2007), de pais que abandonavam as crianças dentro de cestos ou outros lugares considerados
sagrados. Os que sobreviviam eram explorados nas cidades ou tornavam-se atrações de circos. O
nascimento de indivíduos com deficiência era encarado como castigo de Deus; eles eram vistos como
feiticeiros ou como bruxos. Eram seres diabólicos que deveriam ser castigados para poderem se purificar
(2011, p. 134).
Fonte: http://br.freepik.com/index.php?goto=74&idfoto=1005932&term=deficientes
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Esta breve descrição retrata uma parte ínfima daquilo que tem sido as necessidades e os desafios das pessoas com
deficiência no transcurso histórico da humanidade. A atual percepção e valorização das pessoas com deficiência é um
construto histórico que perpassa desde as sociedades primitivas até os nossos dias, que se desenvolve das explicações
animistas e míticas da existência até a atual percepção naturalista e científica do mundo.
Por este novo prisma, o deficiente é um ente com plenos direitos e especial cuidado da legislação do Estado; ele é
visualizado em sua humanidade e em suas necessidades especiais; sua relação com a sociedade é mediada por uma
legislação particular, a qual especifica sua condição e normatiza o modo pelo qual a sociedade deve se organizar, com
vistas ao suprimento de suas necessidades e o reconhecimento de sua paridade cidadã com os demais componentes da
sociedade.
Quanto ao conceito de deficiência, o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999 declara:
Art. 3o Para os efeitos deste Decreto, considera-se:
I - deficiência – toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que
gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano;
II - deficiência permanente – aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não
permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos; e
III - incapacidade – uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social, com necessidade de
equipamentos, adaptações, meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou
transmitir informações necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida.
(BRASIL, 1999).
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E, segundo ao Artigo 2°, da lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015,
Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental,
intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e
efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. (BRASIL, 2015).
Por estes parâmetros legais o deficiente tem assegurado a correta visualização de sua condição e, a partir disto, a
implementação de políticas públicas adequadas as suas necessidades especiais.
1.2 A DEFICIÊNCIA ENTRE OS POVOS PRIMITIVOS
Pensar as limitações físicas e cognitivas do ser humano na antiguidade é tarefa complexa de se realizar visto que,
neste período da história, o mundo, em sua totalidade, era percebido pelas lentes da religião, do sobrenatural.
Em cada sociedade estabelecida, o mito era a narrativa fundante que explicava o porquê das coisas. Ele
pronunciava não somente as origens do homem, da estrutura social, da tecnologia desenvolvida etc., mas também
justificava com eficácia o modo de vida estabelecido.
No mito, as pessoas encontravam a justificativa plausível para todas as realidades percebidas e experienciadas.
Por ele, o mundo se tornava um cosmo controlado pela vontade dos espíritos, dos heróis fundamentes ou deuses. Neste
sentido, tudo que existia e ocorria tinha relação direta com a vontade e ação destes entes.
Este princípio estava associado não somente à vida, à prosperidade, à vitória em campo de batalha, ao livramento
de um infortúnio, à saúde etc., mas também, à morte, à ruina financeira, às derrotas nas guerras, aos assaltos, às
enfermidades etc. Tudo tinha sua origem, desenvolvimento e fim a partir da vontade daqueles que existiam no âmbito
do mundo espiritual.
Tendo em mente este quadro, podemos, então, perceber a complexa situação na qual as pessoas com certas
limitações físicas, cognitivas, mentais ou neurológicas viviam. Neste tempo de desenvolvimento da sociedade e do
pensamento humano, era natural atribuir a estas pessoas algum desagravo, juízo, insatisfação ou indiferença dos deuses.
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Crianças que nasciam com certas deformidades, inaptas para as atividades comuns e/ou específicas da vida
adulta, eram vistas como sujeitas a alguma forma de maldição divina. Esta percepção resultava no seguinte quadro:
a. Um sistema excludente que vitimava as pessoas portadoras de deficiência a viveram à margem da
sociedade;
b. Uma cultura de morte que legitimava a morte de crianças já no nascimento;
c. Uma condição existencial na qual aqueles que possuíam alguma limitação absolviam a ideologia
excludente da sociedade e, portanto, consideravam natural a sua condição de alienação social.
Considerando-se o contexto hostil e precário no qual as sociedades antigas viviam, é possível perceber os fatores
históricos, sociais, econômicos e de sobrevivência que estavam ligados a esta cultura de expropriação, exclusão e morte.
A partir da consideração das necessidades emergentes, dos perigos de morte que arrodeavam os clãs, da
imprevisibilidade quanto ao amanhã e da limitação de ferramentas e das técnicas de sobrevivência, era natural para as
sociedades primitivas atribuir àqueles que possuíam alguma debilidade física o estigma de pessoa não adequada à
segurança e perpetuação do grupo. Nestes contextos, a presença dos deficientes era tolerada e o abandono uma ação
natural dentro do processo de sobrevivência.
Neste período histórico, devido ao caráter cíclico da natureza, totalmente fora do controle dos homens, os
deslocamentos do grupo eram constantes, sem que pudesse auxiliar aqueles que não se encontrassem em condições
de acompanhar o seu ritmo. Segundo Bianchetti (1998, p.27), “[...] em função desta prática, abandonavam aqueles
que não pudessem mover-se com agilidade, ou que tivessem alguma diferença que impedisse sua mudança de um
lugar para outro com rapidez”. Dentre estes abandonados, encontravam-se pessoas com deficiência. Este
procedimento não resultava de um sentimento de ódio ou de desprezo, mas decorria do processo de seleção natural,
a que os homens ainda se encontravam submetidos (PEE, 2013, p. 19).
As limitações físicas, cognitivas, neurológicas eram interpretadas como fragilidade do grupo, peso a ser
carregado, pessoa a ser sustentada. Neste contexto, o sistema religioso servia como meio eficaz de naturalização da
prática do infanticídio e da invisibilidade social daqueles que nasciam ou adquiriam na vida algum tipo de deficiência.
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Em sua obra “A epopeia ignorada: A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje”, Silva (1987, p.
29) afirma que a maior parte dos povos primitivos tinha o extermínio como solução para a presença de uma criança ou
adulto com deficiências física ou mental. Na mesma obra o autor descreve as seguintes situações:
Os índios Ajores [..] Devido ao nomadismo, todos os recém-nascidos com deficiências, ou mesmo aqueles não
desejados, são enterrados juntamente com a placenta, ao nascer. Os velhos Ajores, ou aqueles que devido às
circunstâncias ficaram deficientes, são enterrados vivos, por solicitação própria ou mesmo contra sua vontade.
Consideram alguns esse tipo de morte altamente desejável, pois a terra os protegerá contra tudo e contra todos.
Creek: Velhos doentes e vítimas de males crônicos eram mortos por misericórdia. Acreditavam os Creek que esses
velhos ou doentes poderiam acabar por cair nas mãos do inimigo e sofrer muito mais. Os demais idosos sempre foram
respeitados e mesmo reverenciados por todos os componentes da tribo.
Sendo assim, fica evidente que as sociedades primitivas tinham limitações consideráveis no trato com as pessoas
deficientes. Vivendo em tempos de grande precariedades e perigos, era-lhes natural entregar os deficientes à sorte do
destino.
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1.3 A QUESTÃO DA DEFICIÊNCIA NA CIVILIZAÇÃO GREGA
Ao considerarmos a questão da deficiência na civilização grega, é preciso que lembremos a cultura
religiosa na qual esta civilização floresceu. Em seu panteão era possível encontrar as mais variadas entidades
e expressões da divindade.
Neste mundo habitado pelos deuses, deusas e heróis fundantes, não faltavam aqueles personagens que
se identificavam com as mazelas e fragilidades humanas.
[...] na cultura grega, a qual era conhecida como uma cultura de deuses, também havia vestígios de que
existiam deficiências, inclusive os próprios deuses da Fortuna, do Amor e da Justiça são representados
como pessoas cegas (BRANDENBURG; LÜCKMEIER, 2013, p. 177).
Embora a literatura antiga ateste a presença da deficiência no panteão grego, esta realidade, entretanto,
não concedia às pessoas com estas fragilidades a condição de serem bem vistas e aceitas pela sociedade em
geral.
O estudo da estrutura social da civilização grega e dos valores éticos que nela se faziam presentes aponta
para a presença da prática do infanticídio em muitas cidades-Estado. Entre estas cidades, a mais conhecida foi
Esparta, a qual tinha em sua cultura e modo de ser, os valores relacionados à força, honra, conquista, guerra
etc.
Segundo Monteiro (2009, p. 7), nesta cidade, a valorização e o preparo militar tinham como fim utilitário
o treino e a qualificação dos jovens para a guerra. Nesta conjuntura, o sistema educacional e os valores sociais
colocavam considerável ênfase à força, à coragem e à obediência irrestrita. Considerando estes valores e
práticas sociais, Schmidt afirma que,
A finalidade da educação espartana era formar guerreiros. Com 7 anos de idade, os meninos eram
afastados das mães e ficavam até os 18 anos em escolas, onde aprendiam ginástica, esportes (corridas,
lutas usando o corpo, lançamento de dardos), a ler e escrever e a manejar armas. O método exigia
[...] nas sociedades escravistas,
grega e romana, verificou-se a
supervalorização do corpo
perfeito, da beleza e da força
física, pois estas dedicavam-se
predominantemente à guerra,
que tinha a finalidade de
conquistar escravos e manter a
ordem vigente. Nessas
sociedades, amparados em leis e
em costumes, se uma criança
apresentasse, ao nascer, algum
“defeito” que viesse a se
contrapor de alguma forma ao
ideal proposto era eliminada ou
abandonada sem que isso fosse
considerado crime (SILVA, 1986).
(PEE, 2013, p. 19).
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esforços: ficavam nus até nos dias frios, tomavam banho gelado, comiam pouco, apanhavam. Tudo isso
para que ficassem resistentes como o ferro. Capacidade de suportar o sofrimento físico, disciplina,
habilidade militar: esses eram os objetivos principais. (2011, p. 26).
Por isso, considerando estes objetivos e valores sociais, fica evidente que qualquer pessoa que não se
enquadrasse neste sistema de valores era vista como aquém das expectativas válidas e úteis para a sociedade.
A partir desta conjuntura, toda criança que apresentasse qualquer forma ou indicação de inaptidão para
o desenvolvimento da educação, acima citada, era vista como não desejada, um peso à sociedade, um
elemento não qualificado para alcançar os valores e projetos da cidade-Estado.
Neste contexto, as limitações impostas por alguma deficiência se constituíam em justificativas plausíveis
para o sufocamento, afogamento e abandono, largamente praticado em muitas regiões nas quais a cultura
grega prevalecia.
Os sacrifícios de crianças com deficiência eram justificados, pois procuravam buscar um ideal de corpos
perfeitos. Elas eram jogadas em abismos ou abandonadas em cavernas e florestas, e, isso acontecia
principalmente em Esparta e essas eram praticas consideradas normais por muitos séculos de história da
humanidade (SILVA apud BRANDENBURG; LÜCKMEIER, 2013, p. 178).
Segundo Silva, este processo de exclusão e morte era executado por um grupo seleto de anciãos,
oficialmente escolhidos, os quais analisavam os recém-nascidos. Caso uma criança
[...] lhes parecia feia, disforme e franzina, como refere Plutarco, esses mesmos anciãos, em nome do
Estado e da linhagem de famílias que representavam, ficavam com a criança. Tomavam-na logo a seguir
e a levavam a um local chamado “Apothetai”, que significa ‘depósitos’. Tratava-se de um abismo situado
na cadeia de montanhas Taygetos, perto de Esparta, onde a criança era lançada e encontraria sua morte,
‘pois, tinham a opinião de que não era bom nem 20 para a criança nem para a república que ela vivesse,
visto como desde o nascimento não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a
vida’ (1987, p. 122).
Nesta Cidade-Estado, todo recém-
nascido que fosse filho da nobreza
necessitava ser, em conformidade
com as leis vigentes, examinada
por uma espécie de comissão
oficial formada por anciãos de
reconhecida autoridade, que se
reunia para tomar conhecimento
do novo cidadão. (PEE, 2013, p.
19).
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1.4 A QUESTÃO DA DEFICIÊNCIA EM ROMA
Quanto aos romanos, é possível dizer que no primeiro século havia a cultura, respaldada por um corpo
legal, de asfixiar ou afogar aqueles recém-nascidos que apresentavam alguma forma de anormalidade e
debilidade física. Aqueles que conseguiam se livrar deste sistema de morte eram submetidos à condição de
coisa a ser apresentada nos circos romanos.
Na tradição legal da cultura romana, a lei das doze tábuas era um sistema de leis que normatizava várias
áreas da vida pública e privada dos romanos. Segundo Silva (1987, p. 92), neste código legal existiam
orientações claras a respeito do tratamento que deveria ser dado às crianças que nasciam com características
inadequadas, como deformidades físicas ou aspectos que apontavam para a monstruosidade.
Da mesma forma, haveria para o “pater famílias” certo poder outorgado que lhe concedia a plena
decisão de matar seu filho, caso o recém-nascido indicasse alguma anomalia ou mutilação. Este poder,
entretanto, só poderia ser empregado após o pai apresentar o filho nascido a cinco testemunhas. Ainda
Segundo Silva,
Houve em épocas bem precisas da História Romana muitos nascimentos de crianças ou abortos de fetos
com deformações congênitas, devido a causas não identificadas. Segundo Plutarco "no ano 280 de Roma,
um temor supersticioso tinha invadido toda a cidade, porque as mulheres grávidas davam à luz crianças
quase todas elas defeituosas e imperfeitas em alguma parte do corpo, e não havia nenhuma que viesse a
termo" ("Publius Valerius Publicola", de Plutarco). Face à legislação vigente desde os tempos dos
primeiros reis de Roma, não se deve nutrir qualquer dúvida quanto ao destino desses recém-nascidos: a
lei de extermínio da vida incipiente, seja por afogamento, seja por outros meios, mesmo antes de
completado o nascimento com o corte do cordão umbilical, foi aplicada. Publícola, que era cônsul de
Roma, mandou consultar os livros Sibilinos, como era costumeiro fazer ao acontecer fatos misteriosos e
causadores de grandes desgraças. Fez a população romana oferecer sacrifícios especiais a Plutão, o deus
das profundezas do Inferno, para tentar eliminar o problema que afligia a todos. (1987, p. 86, 87).
Na Roma Antiga, tanto os nobres
como os plebeus tinham permissão
para sacrificar os filhos que nasciam
com algum tipo de deficiência.
(GARCIA; MAIA, 2012, p. 5).
Visão Histórica da Deficiência
https://www.youtube.com/watch?v=vV_YfnFb5G8
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Esta narrativa evidencia o quanto, na civilização romana, a problematização sobre a realidade e necessidades das
pessoas deficientes estava comprometida com os valores e princípios religiosos da época. Neste contexto e fase de
desenvolvimento do pensamento humano, poucas alternativas existiam para os deficientes na sociedade romana.
Aqueles que, no nascimento, escapavam da morte, ficavam submetidos a sistemas de exclusão e exploração os mais
diversos.
A exemplo desta condição de exploração, Silva (1987, p. 93) relata que muitas crianças eram colocadas com
pedintes, trazendo, assim, lucro para aqueles que as exploravam. Por igual modo, “[...] Cegos, surdos, deficientes
mentais, deficientes físicos e outros tipos de pessoas nascidas com malformações eram também de quando em quando
ligados a casas comerciais, a tavernas, a bordéis, bem como a atividades dos circos romanos, para serviços simples e às
vezes humilhantes, costume esse que foi adotado por muitos séculos na História da Humanidade.
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Em nossa sociedade existe um número considerável de crianças, jovens, adultos e anciãos que convivem com problemas relacionados à mobilidade, aprendizagem,
comunicação, desenvolvimento cognitivo etc., os quais necessitam de um cuidado todo especial do grupo social do qual participam, dos sistemas e locais de ensino.
Na história universal, a deficiência e o deficiente foram visualizados e categorizados de formas distintas pelas mais variadas sociedades e em vários momentos
históricos.
Na história da humanidade a imagem que muitos deficientes carregavam era a imagem de deformação do corpo e da mente. Há relatos de pais que abandonavam
as crianças dentro de cestos ou outros lugares considerados sagrados. Os que sobreviviam eram explorados nas cidades ou tornavam-se atrações de circos. O nascimento
de indivíduos com deficiência era encarado como castigo de Deus; eles eram vistos como feiticeiros ou como bruxos. Eram seres diabólicos que deveriam ser castigados
para poderem se purificar.
A atual percepção e valorização das pessoas com deficiência é um construto histórico que perpassa desde as sociedades primitivas até os nossos dias, que se
desenvolve das explicações animistas e míticas da existência até a atual percepção naturalista e científica do mundo.
Na atualidade, o deficiente é um ente com plenos direitos e especial cuidado da legislação do Estado; ele é visualizado em sua humanidade e em suas necessidades
especiais; sua relação com a sociedade é mediada por uma legislação particular, a qual especifica sua condição e normatiza o modo pelo qual a sociedade deve se
organizar, com vistas ao suprimento de suas necessidades e o reconhecimento de sua paridade cidadã com os demais componentes da sociedade.
Segundo o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, em seu Art. 3o
, deficiência é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica,
fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano.
Segundo o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, em seu Art. 3o
, deficiência permanente é aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de
tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos.
Segundo o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, em seu Art. 3o
, incapacidade é uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social,
com necessidade de equipamentos, adaptações, meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou transmitir informações
necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida.
Segundo ao Artigo 2°, da lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, a pessoa com deficiência é aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental,
intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as
demais pessoas.
Nas sociedades primitivas o mito era a narrativa fundante que explicava o porquê das coisas. Ele pronunciava não somente as origens do homem, da estrutura
social, da tecnologia desenvolvida etc., mas também justificava com eficácia o modo de vida estabelecido.
Crianças que nasciam com certas deformidades, inaptas para as atividades comuns e/ou específicas da vida adulta, eram vistas como sujeitas a alguma forma de
maldição divina. Esta percepção resultava no seguinte quadro: a. Um sistema excludente que vitimava as pessoas portadoras de deficiência a viveram à margem da
sociedade; b. Uma cultura de morte que legitimava a morte de crianças já no nascimento; c. Uma condição existencial na qual aqueles que possuíam alguma limitação
absolviam a ideologia excludente da sociedade e, portanto, consideravam natural a sua condição de alienação social.
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A partir da consideração das necessidades emergentes, dos perigos de morte que arrodeavam os clãs, da imprevisibilidade quanto ao amanhã e da limitação de
ferramentas e das técnicas de sobrevivência, era natural para as sociedades primitivas atribuir àqueles que possuíam alguma debilidade física o estigma de pessoa não
adequada à segurança e perpetuação do grupo.
A maior parte dos povos primitivos tinha o extermínio como solução para a presença de uma criança ou adulto com deficiências física ou mental. Os índios Ajores [..]
Devido ao nomadismo, todos os recém-nascidos com deficiências, ou mesmo aqueles não desejados, são enterrados juntamente com a placenta, ao nascer.
Velhos doentes e vítimas de males crônicos eram mortos por misericórdia. Acreditavam os Creek que esses velhos ou doentes poderiam acabar por cair nas mãos
do inimigo e sofrer muito mais. Os demais idosos sempre foram respeitados e mesmo reverenciados por todos os componentes da tribo.
As sociedades primitivas tinham limitações consideráveis no trato com as pessoas deficientes. Vivendo em tempos de grande precariedades e perigos, era-lhes
natural entregar os deficientes à sorte do destino.
Nas sociedades escravistas, grega e romana, verificou-se a supervalorização do corpo perfeito, da beleza e da força física, pois estas dedicavam-se
predominantemente à guerra, que tinha a finalidade de conquistar escravos e manter a ordem vigente. Nessas sociedades, amparados em leis e em costumes, se uma
criança apresentasse, ao nascer, algum “defeito” que viesse a se contrapor de alguma forma ao ideal proposto era eliminada ou abandonada sem que isso fosse considerado
crime.
Na cultura grega também havia vestígios de que existiam deficiências, inclusive os próprios deuses da Fortuna, do Amor e da Justiça são representados como pessoas
cegas. Entre estas cidades gregas, a mais conhecida foi Esparta, a qual tinha em sua cultura e modo de ser, os valores relacionados à força, honra, conquista, guerra etc. A
partir desta conjuntura, toda criança que apresentasse qualquer forma ou indicação de inaptidão para o desenvolvimento da educação, acima citada, era vista como não
desejada, um peso à sociedade, um elemento não qualificado para alcançar os valores e projetos da cidade-Estado.
Os sacrifícios de crianças com deficiência eram justificados, pois procuravam buscar um ideal de corpos perfeitos. Elas eram jogadas em abismos ou abandonadas
em cavernas e florestas, e, isso acontecia principalmente em Esparta e essas eram praticas consideradas normais por muitos séculos de história da humanidade.
Entre os romanos, no primeiro século, havia a cultura, respaldada por um corpo legal, de asfixiar ou afogar aqueles recém-nascidos que apresentavam alguma forma
de anormalidade e debilidade física. Aqueles que conseguiam se livrar deste sistema de morte eram submetidos à condição de coisa a ser apresentada nos circos romanos.
Na tradição legal da cultura romana, na lei das doze tábuas existiam orientações claras a respeito do tratamento que deveria ser dado às crianças que nasciam com
características inadequadas, como deformidades físicas ou aspectos que apontavam para a monstruosidade. O “pater famílias” tinha pleno poder de decisão de matar seu
filho, caso o recém-nascido indicasse alguma anomalia ou mutilação.
Na civilização romana, a problematização sobre a realidade e necessidades das pessoas deficientes estava comprometida com os valores e princípios religiosos da
época. Neste contexto, poucas alternativas existiam para os deficientes. Aqueles que, no nascimento, escapavam da morte, ficavam submetidos a sistemas de exclusão e
exploração os mais diversos. Cegos, surdos, deficientes mentais, deficientes físicos e outros tipos de pessoas nascidas com malformações eram também de quando em
quando ligados a casas comerciais, a tavernas, a bordéis, bem como a atividades dos circos romanos, para serviços simples e às vezes humilhantes.
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REFERÊNCIAS
BRANDENBURG, Laude Erandi; LÜCKMEIER, Cristina. A história da inclusão x exclusão social na perspectiva da educação inclusiva. Congresso estadual de teologia,
1., 2013, São Leopoldo. Anais do Congresso Estadual de Teologia. São Leopoldo: EST, v. 1, 2013. Postado em:
http://anais.est.edu.br/index.php/teologiars/article/view/191/149. Acessado em 05 de jul de 2017.
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FERNANDES, Lorena Barolo; SCHLESENER, Anita; MOSQUERA, Carlos. Breve histórico da deficiência e seus paradigmas. Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas
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jul 2017.
MONTEIRO, Alessandra Andrea. Corporeidade e educação física: Histórias que não se contam na escola! Universidade São Judas Tadeu programa de pós-graduação
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SILVA, Otto Marques. A epopeia ignorada: A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje. São Paulo: CEDAS, 1987.
Roma Antiga e as Pessoas com Deficiência: http://www.crfaster.com.br/Roma.htm
SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica. São Paulo: Nova Geração, 2011
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PEE (Org.). Pessoa com deficiência: aspectos teóricos e práticos. Cascavel: EDUNIOESTE, 2013. Postado em:
http://www5.unioeste.br/portal/arquivos/proex/pee/A_pessoa_com_deficiencia_aspectos_teoricos_e_praticos_primeira_reimpressao.pdf. Acessado em: 06 de jul
de 2017.
Legislação brasileira sobre pessoas portadoras de deficiência. Brasília: Câmara dos Deputados, 2009.
file:///C:/Users/kelly_000/Downloads/legislacao_portadores_deficiencia_5ed.pdf
Declaração dos direitos das pessoas deficientes. http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/dec_def.pdf

tecnologias assistivas e educação

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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 2 :UNIDADE 1: A DEFICIÊNCIA E O DEFICIENTE NA HISTÓRIA - I Olá aluno (a)!!! Nesta primeira unidade iremos iniciar uma caminhada histórica na busca por compreendermos como o ser humano percebeu, problematizou e desenvolveu relações com as pessoas deficientes. O objetivo geral deste estudo é saber quais foram e quais sãos os condicionantes históricos, sociais, religiosos, filosóficos, econômicos etc., que contribuíram e contribuem para a construção das percepções a respeito da deficiência e do deficiente nos espaços sociais e educacionais. Os temas abordados neste capítulo seguirão linearmente as várias fases da história da humanidade, enfocando especificamente as sociedades primitivas, a civilização grega e romana, o povo judeu, a religião cristã, o mundo medieval e a história da deficiência e do deficiente no Brasil. Este estudo diacrônico é importante para sua formação como Técnico em Multimeios Didáticos, pois lhe possibilitará ter uma compreensão mais ampla sobre os vários elementos que interferem no processo educativo. Veja que a educação é um processo histórico que recebe influências de vários fatores e sua atual estruturação, formatos, meios didáticos, metodologias e elementos acessórios, refletem os vários elementos pertencentes a esta caminhada. A presença dos multimeios didáticos nos atuais processos e instituições educativas, através das tecnologias assistivas, evidenciam o contexto tecnológico no qual se tornou imprescindível a presença de novas tecnologias no processo ensino-aprendizagem. Sendo assim, veja que este módulo está dividido em quatro subtópicos: 1. Conceituando a deficiência e o deficiente 2. A deficiência nas sociedades primitivas 3. A questão da deficiência na civilização grega 4. A questão da deficiência em Roma
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 3 Esperamos que estes conteúdos possam conceder a você uma visão mais ampla sobre a história da deficiência e dos deficientes e possibilitem uma mais acurada apreciação sobre a construção dos processos educativos com vistas ao respeito dos direitos fundamentais das pessoas deficientes e ao desenvolvimento humano. Fique atento às várias oportunidades de aprendizagem, aprofundamento dos conteúdos, reflexões sobre os tópicos desenvolvidos e oportunidades de avaliação do processo educativo. Os ícones abaixo sempre levarão vocês para novas experiências no maravilhoso mundo do saber. Bons estudos!!! Prof. Dr. Israel Serique dos Santos Hiperlinks de Texto
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 4 1.1 CONCEITUANDO A DEFICIÊNCIA E O DEFICIENTE Olá aluno (a)!!! Quando definimos este componente para o Curso de Multimeios Didáticos, tínhamos em mente os grandes desafios pelos quais passam diariamente aquelas pessoas que possuem alguma deficiência física. Como sabemos, em nossa sociedade existe um número considerável de crianças, jovens, adultos e anciãos que convivem com problemas relacionados à mobilidade, aprendizagem, comunicação, desenvolvimento cognitivo etc., os quais necessitam de um cuidado todo especial do grupo social do qual participam, dos sistemas e locais de ensino. Sujeitas a certas limitações motoras, cognitivas e relacionais, por questões físicas, mentais ou neurológicas, estas pessoas necessitam de todo apoio que possamos dar e de todos os artifícios tecnológicos que nossa ciência pode produzir para dar-lhes uma melhor qualidade de vida e possiblidades de desenvolvimento, interação, integração social e educação. Quando estudamos a história universal, percebemos que a deficiência e o deficiente foram visualizados e categorizados de formas distintas pelas mais variadas sociedades e em vários momentos históricos. Segundo Fernandes, Schlesener e Mosquera, [...] na história da humanidade a imagem que muitos deficientes carregavam era a imagem de deformação do corpo e da mente. Tal imagem denunciava a imperfeição humana. Há relatos, segundo Gugel (2007), de pais que abandonavam as crianças dentro de cestos ou outros lugares considerados sagrados. Os que sobreviviam eram explorados nas cidades ou tornavam-se atrações de circos. O nascimento de indivíduos com deficiência era encarado como castigo de Deus; eles eram vistos como feiticeiros ou como bruxos. Eram seres diabólicos que deveriam ser castigados para poderem se purificar (2011, p. 134). Fonte: http://br.freepik.com/index.php?goto=74&idfoto=1005932&term=deficientes
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 5 Esta breve descrição retrata uma parte ínfima daquilo que tem sido as necessidades e os desafios das pessoas com deficiência no transcurso histórico da humanidade. A atual percepção e valorização das pessoas com deficiência é um construto histórico que perpassa desde as sociedades primitivas até os nossos dias, que se desenvolve das explicações animistas e míticas da existência até a atual percepção naturalista e científica do mundo. Por este novo prisma, o deficiente é um ente com plenos direitos e especial cuidado da legislação do Estado; ele é visualizado em sua humanidade e em suas necessidades especiais; sua relação com a sociedade é mediada por uma legislação particular, a qual especifica sua condição e normatiza o modo pelo qual a sociedade deve se organizar, com vistas ao suprimento de suas necessidades e o reconhecimento de sua paridade cidadã com os demais componentes da sociedade. Quanto ao conceito de deficiência, o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999 declara: Art. 3o Para os efeitos deste Decreto, considera-se: I - deficiência – toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano; II - deficiência permanente – aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos; e III - incapacidade – uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social, com necessidade de equipamentos, adaptações, meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou transmitir informações necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida. (BRASIL, 1999).
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 6 E, segundo ao Artigo 2°, da lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. (BRASIL, 2015). Por estes parâmetros legais o deficiente tem assegurado a correta visualização de sua condição e, a partir disto, a implementação de políticas públicas adequadas as suas necessidades especiais. 1.2 A DEFICIÊNCIA ENTRE OS POVOS PRIMITIVOS Pensar as limitações físicas e cognitivas do ser humano na antiguidade é tarefa complexa de se realizar visto que, neste período da história, o mundo, em sua totalidade, era percebido pelas lentes da religião, do sobrenatural. Em cada sociedade estabelecida, o mito era a narrativa fundante que explicava o porquê das coisas. Ele pronunciava não somente as origens do homem, da estrutura social, da tecnologia desenvolvida etc., mas também justificava com eficácia o modo de vida estabelecido. No mito, as pessoas encontravam a justificativa plausível para todas as realidades percebidas e experienciadas. Por ele, o mundo se tornava um cosmo controlado pela vontade dos espíritos, dos heróis fundamentes ou deuses. Neste sentido, tudo que existia e ocorria tinha relação direta com a vontade e ação destes entes. Este princípio estava associado não somente à vida, à prosperidade, à vitória em campo de batalha, ao livramento de um infortúnio, à saúde etc., mas também, à morte, à ruina financeira, às derrotas nas guerras, aos assaltos, às enfermidades etc. Tudo tinha sua origem, desenvolvimento e fim a partir da vontade daqueles que existiam no âmbito do mundo espiritual. Tendo em mente este quadro, podemos, então, perceber a complexa situação na qual as pessoas com certas limitações físicas, cognitivas, mentais ou neurológicas viviam. Neste tempo de desenvolvimento da sociedade e do pensamento humano, era natural atribuir a estas pessoas algum desagravo, juízo, insatisfação ou indiferença dos deuses.
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 7 Crianças que nasciam com certas deformidades, inaptas para as atividades comuns e/ou específicas da vida adulta, eram vistas como sujeitas a alguma forma de maldição divina. Esta percepção resultava no seguinte quadro: a. Um sistema excludente que vitimava as pessoas portadoras de deficiência a viveram à margem da sociedade; b. Uma cultura de morte que legitimava a morte de crianças já no nascimento; c. Uma condição existencial na qual aqueles que possuíam alguma limitação absolviam a ideologia excludente da sociedade e, portanto, consideravam natural a sua condição de alienação social. Considerando-se o contexto hostil e precário no qual as sociedades antigas viviam, é possível perceber os fatores históricos, sociais, econômicos e de sobrevivência que estavam ligados a esta cultura de expropriação, exclusão e morte. A partir da consideração das necessidades emergentes, dos perigos de morte que arrodeavam os clãs, da imprevisibilidade quanto ao amanhã e da limitação de ferramentas e das técnicas de sobrevivência, era natural para as sociedades primitivas atribuir àqueles que possuíam alguma debilidade física o estigma de pessoa não adequada à segurança e perpetuação do grupo. Nestes contextos, a presença dos deficientes era tolerada e o abandono uma ação natural dentro do processo de sobrevivência. Neste período histórico, devido ao caráter cíclico da natureza, totalmente fora do controle dos homens, os deslocamentos do grupo eram constantes, sem que pudesse auxiliar aqueles que não se encontrassem em condições de acompanhar o seu ritmo. Segundo Bianchetti (1998, p.27), “[...] em função desta prática, abandonavam aqueles que não pudessem mover-se com agilidade, ou que tivessem alguma diferença que impedisse sua mudança de um lugar para outro com rapidez”. Dentre estes abandonados, encontravam-se pessoas com deficiência. Este procedimento não resultava de um sentimento de ódio ou de desprezo, mas decorria do processo de seleção natural, a que os homens ainda se encontravam submetidos (PEE, 2013, p. 19). As limitações físicas, cognitivas, neurológicas eram interpretadas como fragilidade do grupo, peso a ser carregado, pessoa a ser sustentada. Neste contexto, o sistema religioso servia como meio eficaz de naturalização da prática do infanticídio e da invisibilidade social daqueles que nasciam ou adquiriam na vida algum tipo de deficiência.
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 8 Em sua obra “A epopeia ignorada: A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje”, Silva (1987, p. 29) afirma que a maior parte dos povos primitivos tinha o extermínio como solução para a presença de uma criança ou adulto com deficiências física ou mental. Na mesma obra o autor descreve as seguintes situações: Os índios Ajores [..] Devido ao nomadismo, todos os recém-nascidos com deficiências, ou mesmo aqueles não desejados, são enterrados juntamente com a placenta, ao nascer. Os velhos Ajores, ou aqueles que devido às circunstâncias ficaram deficientes, são enterrados vivos, por solicitação própria ou mesmo contra sua vontade. Consideram alguns esse tipo de morte altamente desejável, pois a terra os protegerá contra tudo e contra todos. Creek: Velhos doentes e vítimas de males crônicos eram mortos por misericórdia. Acreditavam os Creek que esses velhos ou doentes poderiam acabar por cair nas mãos do inimigo e sofrer muito mais. Os demais idosos sempre foram respeitados e mesmo reverenciados por todos os componentes da tribo. Sendo assim, fica evidente que as sociedades primitivas tinham limitações consideráveis no trato com as pessoas deficientes. Vivendo em tempos de grande precariedades e perigos, era-lhes natural entregar os deficientes à sorte do destino.
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 9 1.3 A QUESTÃO DA DEFICIÊNCIA NA CIVILIZAÇÃO GREGA Ao considerarmos a questão da deficiência na civilização grega, é preciso que lembremos a cultura religiosa na qual esta civilização floresceu. Em seu panteão era possível encontrar as mais variadas entidades e expressões da divindade. Neste mundo habitado pelos deuses, deusas e heróis fundantes, não faltavam aqueles personagens que se identificavam com as mazelas e fragilidades humanas. [...] na cultura grega, a qual era conhecida como uma cultura de deuses, também havia vestígios de que existiam deficiências, inclusive os próprios deuses da Fortuna, do Amor e da Justiça são representados como pessoas cegas (BRANDENBURG; LÜCKMEIER, 2013, p. 177). Embora a literatura antiga ateste a presença da deficiência no panteão grego, esta realidade, entretanto, não concedia às pessoas com estas fragilidades a condição de serem bem vistas e aceitas pela sociedade em geral. O estudo da estrutura social da civilização grega e dos valores éticos que nela se faziam presentes aponta para a presença da prática do infanticídio em muitas cidades-Estado. Entre estas cidades, a mais conhecida foi Esparta, a qual tinha em sua cultura e modo de ser, os valores relacionados à força, honra, conquista, guerra etc. Segundo Monteiro (2009, p. 7), nesta cidade, a valorização e o preparo militar tinham como fim utilitário o treino e a qualificação dos jovens para a guerra. Nesta conjuntura, o sistema educacional e os valores sociais colocavam considerável ênfase à força, à coragem e à obediência irrestrita. Considerando estes valores e práticas sociais, Schmidt afirma que, A finalidade da educação espartana era formar guerreiros. Com 7 anos de idade, os meninos eram afastados das mães e ficavam até os 18 anos em escolas, onde aprendiam ginástica, esportes (corridas, lutas usando o corpo, lançamento de dardos), a ler e escrever e a manejar armas. O método exigia [...] nas sociedades escravistas, grega e romana, verificou-se a supervalorização do corpo perfeito, da beleza e da força física, pois estas dedicavam-se predominantemente à guerra, que tinha a finalidade de conquistar escravos e manter a ordem vigente. Nessas sociedades, amparados em leis e em costumes, se uma criança apresentasse, ao nascer, algum “defeito” que viesse a se contrapor de alguma forma ao ideal proposto era eliminada ou abandonada sem que isso fosse considerado crime (SILVA, 1986). (PEE, 2013, p. 19).
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 10 esforços: ficavam nus até nos dias frios, tomavam banho gelado, comiam pouco, apanhavam. Tudo isso para que ficassem resistentes como o ferro. Capacidade de suportar o sofrimento físico, disciplina, habilidade militar: esses eram os objetivos principais. (2011, p. 26). Por isso, considerando estes objetivos e valores sociais, fica evidente que qualquer pessoa que não se enquadrasse neste sistema de valores era vista como aquém das expectativas válidas e úteis para a sociedade. A partir desta conjuntura, toda criança que apresentasse qualquer forma ou indicação de inaptidão para o desenvolvimento da educação, acima citada, era vista como não desejada, um peso à sociedade, um elemento não qualificado para alcançar os valores e projetos da cidade-Estado. Neste contexto, as limitações impostas por alguma deficiência se constituíam em justificativas plausíveis para o sufocamento, afogamento e abandono, largamente praticado em muitas regiões nas quais a cultura grega prevalecia. Os sacrifícios de crianças com deficiência eram justificados, pois procuravam buscar um ideal de corpos perfeitos. Elas eram jogadas em abismos ou abandonadas em cavernas e florestas, e, isso acontecia principalmente em Esparta e essas eram praticas consideradas normais por muitos séculos de história da humanidade (SILVA apud BRANDENBURG; LÜCKMEIER, 2013, p. 178). Segundo Silva, este processo de exclusão e morte era executado por um grupo seleto de anciãos, oficialmente escolhidos, os quais analisavam os recém-nascidos. Caso uma criança [...] lhes parecia feia, disforme e franzina, como refere Plutarco, esses mesmos anciãos, em nome do Estado e da linhagem de famílias que representavam, ficavam com a criança. Tomavam-na logo a seguir e a levavam a um local chamado “Apothetai”, que significa ‘depósitos’. Tratava-se de um abismo situado na cadeia de montanhas Taygetos, perto de Esparta, onde a criança era lançada e encontraria sua morte, ‘pois, tinham a opinião de que não era bom nem 20 para a criança nem para a república que ela vivesse, visto como desde o nascimento não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a vida’ (1987, p. 122). Nesta Cidade-Estado, todo recém- nascido que fosse filho da nobreza necessitava ser, em conformidade com as leis vigentes, examinada por uma espécie de comissão oficial formada por anciãos de reconhecida autoridade, que se reunia para tomar conhecimento do novo cidadão. (PEE, 2013, p. 19).
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 11 1.4 A QUESTÃO DA DEFICIÊNCIA EM ROMA Quanto aos romanos, é possível dizer que no primeiro século havia a cultura, respaldada por um corpo legal, de asfixiar ou afogar aqueles recém-nascidos que apresentavam alguma forma de anormalidade e debilidade física. Aqueles que conseguiam se livrar deste sistema de morte eram submetidos à condição de coisa a ser apresentada nos circos romanos. Na tradição legal da cultura romana, a lei das doze tábuas era um sistema de leis que normatizava várias áreas da vida pública e privada dos romanos. Segundo Silva (1987, p. 92), neste código legal existiam orientações claras a respeito do tratamento que deveria ser dado às crianças que nasciam com características inadequadas, como deformidades físicas ou aspectos que apontavam para a monstruosidade. Da mesma forma, haveria para o “pater famílias” certo poder outorgado que lhe concedia a plena decisão de matar seu filho, caso o recém-nascido indicasse alguma anomalia ou mutilação. Este poder, entretanto, só poderia ser empregado após o pai apresentar o filho nascido a cinco testemunhas. Ainda Segundo Silva, Houve em épocas bem precisas da História Romana muitos nascimentos de crianças ou abortos de fetos com deformações congênitas, devido a causas não identificadas. Segundo Plutarco "no ano 280 de Roma, um temor supersticioso tinha invadido toda a cidade, porque as mulheres grávidas davam à luz crianças quase todas elas defeituosas e imperfeitas em alguma parte do corpo, e não havia nenhuma que viesse a termo" ("Publius Valerius Publicola", de Plutarco). Face à legislação vigente desde os tempos dos primeiros reis de Roma, não se deve nutrir qualquer dúvida quanto ao destino desses recém-nascidos: a lei de extermínio da vida incipiente, seja por afogamento, seja por outros meios, mesmo antes de completado o nascimento com o corte do cordão umbilical, foi aplicada. Publícola, que era cônsul de Roma, mandou consultar os livros Sibilinos, como era costumeiro fazer ao acontecer fatos misteriosos e causadores de grandes desgraças. Fez a população romana oferecer sacrifícios especiais a Plutão, o deus das profundezas do Inferno, para tentar eliminar o problema que afligia a todos. (1987, p. 86, 87). Na Roma Antiga, tanto os nobres como os plebeus tinham permissão para sacrificar os filhos que nasciam com algum tipo de deficiência. (GARCIA; MAIA, 2012, p. 5). Visão Histórica da Deficiência https://www.youtube.com/watch?v=vV_YfnFb5G8
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 12 Esta narrativa evidencia o quanto, na civilização romana, a problematização sobre a realidade e necessidades das pessoas deficientes estava comprometida com os valores e princípios religiosos da época. Neste contexto e fase de desenvolvimento do pensamento humano, poucas alternativas existiam para os deficientes na sociedade romana. Aqueles que, no nascimento, escapavam da morte, ficavam submetidos a sistemas de exclusão e exploração os mais diversos. A exemplo desta condição de exploração, Silva (1987, p. 93) relata que muitas crianças eram colocadas com pedintes, trazendo, assim, lucro para aqueles que as exploravam. Por igual modo, “[...] Cegos, surdos, deficientes mentais, deficientes físicos e outros tipos de pessoas nascidas com malformações eram também de quando em quando ligados a casas comerciais, a tavernas, a bordéis, bem como a atividades dos circos romanos, para serviços simples e às vezes humilhantes, costume esse que foi adotado por muitos séculos na História da Humanidade.
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 13 Em nossa sociedade existe um número considerável de crianças, jovens, adultos e anciãos que convivem com problemas relacionados à mobilidade, aprendizagem, comunicação, desenvolvimento cognitivo etc., os quais necessitam de um cuidado todo especial do grupo social do qual participam, dos sistemas e locais de ensino. Na história universal, a deficiência e o deficiente foram visualizados e categorizados de formas distintas pelas mais variadas sociedades e em vários momentos históricos. Na história da humanidade a imagem que muitos deficientes carregavam era a imagem de deformação do corpo e da mente. Há relatos de pais que abandonavam as crianças dentro de cestos ou outros lugares considerados sagrados. Os que sobreviviam eram explorados nas cidades ou tornavam-se atrações de circos. O nascimento de indivíduos com deficiência era encarado como castigo de Deus; eles eram vistos como feiticeiros ou como bruxos. Eram seres diabólicos que deveriam ser castigados para poderem se purificar. A atual percepção e valorização das pessoas com deficiência é um construto histórico que perpassa desde as sociedades primitivas até os nossos dias, que se desenvolve das explicações animistas e míticas da existência até a atual percepção naturalista e científica do mundo. Na atualidade, o deficiente é um ente com plenos direitos e especial cuidado da legislação do Estado; ele é visualizado em sua humanidade e em suas necessidades especiais; sua relação com a sociedade é mediada por uma legislação particular, a qual especifica sua condição e normatiza o modo pelo qual a sociedade deve se organizar, com vistas ao suprimento de suas necessidades e o reconhecimento de sua paridade cidadã com os demais componentes da sociedade. Segundo o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, em seu Art. 3o , deficiência é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano. Segundo o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, em seu Art. 3o , deficiência permanente é aquela que ocorreu ou se estabilizou durante um período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos. Segundo o decreto Nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999, em seu Art. 3o , incapacidade é uma redução efetiva e acentuada da capacidade de integração social, com necessidade de equipamentos, adaptações, meios ou recursos especiais para que a pessoa portadora de deficiência possa receber ou transmitir informações necessárias ao seu bem-estar pessoal e ao desempenho de função ou atividade a ser exercida. Segundo ao Artigo 2°, da lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, a pessoa com deficiência é aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. Nas sociedades primitivas o mito era a narrativa fundante que explicava o porquê das coisas. Ele pronunciava não somente as origens do homem, da estrutura social, da tecnologia desenvolvida etc., mas também justificava com eficácia o modo de vida estabelecido. Crianças que nasciam com certas deformidades, inaptas para as atividades comuns e/ou específicas da vida adulta, eram vistas como sujeitas a alguma forma de maldição divina. Esta percepção resultava no seguinte quadro: a. Um sistema excludente que vitimava as pessoas portadoras de deficiência a viveram à margem da sociedade; b. Uma cultura de morte que legitimava a morte de crianças já no nascimento; c. Uma condição existencial na qual aqueles que possuíam alguma limitação absolviam a ideologia excludente da sociedade e, portanto, consideravam natural a sua condição de alienação social.
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 14 A partir da consideração das necessidades emergentes, dos perigos de morte que arrodeavam os clãs, da imprevisibilidade quanto ao amanhã e da limitação de ferramentas e das técnicas de sobrevivência, era natural para as sociedades primitivas atribuir àqueles que possuíam alguma debilidade física o estigma de pessoa não adequada à segurança e perpetuação do grupo. A maior parte dos povos primitivos tinha o extermínio como solução para a presença de uma criança ou adulto com deficiências física ou mental. Os índios Ajores [..] Devido ao nomadismo, todos os recém-nascidos com deficiências, ou mesmo aqueles não desejados, são enterrados juntamente com a placenta, ao nascer. Velhos doentes e vítimas de males crônicos eram mortos por misericórdia. Acreditavam os Creek que esses velhos ou doentes poderiam acabar por cair nas mãos do inimigo e sofrer muito mais. Os demais idosos sempre foram respeitados e mesmo reverenciados por todos os componentes da tribo. As sociedades primitivas tinham limitações consideráveis no trato com as pessoas deficientes. Vivendo em tempos de grande precariedades e perigos, era-lhes natural entregar os deficientes à sorte do destino. Nas sociedades escravistas, grega e romana, verificou-se a supervalorização do corpo perfeito, da beleza e da força física, pois estas dedicavam-se predominantemente à guerra, que tinha a finalidade de conquistar escravos e manter a ordem vigente. Nessas sociedades, amparados em leis e em costumes, se uma criança apresentasse, ao nascer, algum “defeito” que viesse a se contrapor de alguma forma ao ideal proposto era eliminada ou abandonada sem que isso fosse considerado crime. Na cultura grega também havia vestígios de que existiam deficiências, inclusive os próprios deuses da Fortuna, do Amor e da Justiça são representados como pessoas cegas. Entre estas cidades gregas, a mais conhecida foi Esparta, a qual tinha em sua cultura e modo de ser, os valores relacionados à força, honra, conquista, guerra etc. A partir desta conjuntura, toda criança que apresentasse qualquer forma ou indicação de inaptidão para o desenvolvimento da educação, acima citada, era vista como não desejada, um peso à sociedade, um elemento não qualificado para alcançar os valores e projetos da cidade-Estado. Os sacrifícios de crianças com deficiência eram justificados, pois procuravam buscar um ideal de corpos perfeitos. Elas eram jogadas em abismos ou abandonadas em cavernas e florestas, e, isso acontecia principalmente em Esparta e essas eram praticas consideradas normais por muitos séculos de história da humanidade. Entre os romanos, no primeiro século, havia a cultura, respaldada por um corpo legal, de asfixiar ou afogar aqueles recém-nascidos que apresentavam alguma forma de anormalidade e debilidade física. Aqueles que conseguiam se livrar deste sistema de morte eram submetidos à condição de coisa a ser apresentada nos circos romanos. Na tradição legal da cultura romana, na lei das doze tábuas existiam orientações claras a respeito do tratamento que deveria ser dado às crianças que nasciam com características inadequadas, como deformidades físicas ou aspectos que apontavam para a monstruosidade. O “pater famílias” tinha pleno poder de decisão de matar seu filho, caso o recém-nascido indicasse alguma anomalia ou mutilação. Na civilização romana, a problematização sobre a realidade e necessidades das pessoas deficientes estava comprometida com os valores e princípios religiosos da época. Neste contexto, poucas alternativas existiam para os deficientes. Aqueles que, no nascimento, escapavam da morte, ficavam submetidos a sistemas de exclusão e exploração os mais diversos. Cegos, surdos, deficientes mentais, deficientes físicos e outros tipos de pessoas nascidas com malformações eram também de quando em quando ligados a casas comerciais, a tavernas, a bordéis, bem como a atividades dos circos romanos, para serviços simples e às vezes humilhantes.
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    MULTIMEIOS DIDÁTICOS TECNOLOGIASASSISTIVAS EM EDUCAÇÃO 15 REFERÊNCIAS BRANDENBURG, Laude Erandi; LÜCKMEIER, Cristina. A história da inclusão x exclusão social na perspectiva da educação inclusiva. Congresso estadual de teologia, 1., 2013, São Leopoldo. Anais do Congresso Estadual de Teologia. São Leopoldo: EST, v. 1, 2013. Postado em: http://anais.est.edu.br/index.php/teologiars/article/view/191/149. Acessado em 05 de jul de 2017. BRASIL. DECRETO Nº 3.298, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1999. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3298.htm BRASIL. LEI Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm FERNANDES, Lorena Barolo; SCHLESENER, Anita; MOSQUERA, Carlos. Breve histórico da deficiência e seus paradigmas. Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares em Musicoterapia, Curitiba v.2, p.132 –144. 2011. Postado em: http://www.fap.pr.gov.br/arquivos/File/extensao/Arquivos2011/NEPIM/NEPIM_Volume_02/Art08_NEPIM_Vol02_BreveHistoricoDeficiencia.pdf. Acessado em: 06 de jul de 2017. GARCIA, Vinicius Gaspar; MAIA, Alexandre Gori. A inclusão das pessoas com deficiência e/ou limitação funcional no mercado de trabalho brasileiro em 2000 e 2010: Panorama e mudanças em uma década, 2012. Postado em: http://www.abep.nepo.unicamp.br/xviii/anais/files/ST15%5B89%5DABEP2012.pdf. Acessado em 07 de jul 2017. MONTEIRO, Alessandra Andrea. Corporeidade e educação física: Histórias que não se contam na escola! Universidade São Judas Tadeu programa de pós-graduação stricto sensu mestrado em Educação Física São Paulo, 2009 SILVA, Otto Marques. A epopeia ignorada: A Pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje. São Paulo: CEDAS, 1987. Roma Antiga e as Pessoas com Deficiência: http://www.crfaster.com.br/Roma.htm SCHMIDT, Mário. Nova História Crítica. São Paulo: Nova Geração, 2011 PUC-RIO. A deficiência através da história: da invisibilidade à cidadania: http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0812002_10_cap_02.pdf PEE (Org.). Pessoa com deficiência: aspectos teóricos e práticos. Cascavel: EDUNIOESTE, 2013. Postado em: http://www5.unioeste.br/portal/arquivos/proex/pee/A_pessoa_com_deficiencia_aspectos_teoricos_e_praticos_primeira_reimpressao.pdf. Acessado em: 06 de jul de 2017. Legislação brasileira sobre pessoas portadoras de deficiência. Brasília: Câmara dos Deputados, 2009. file:///C:/Users/kelly_000/Downloads/legislacao_portadores_deficiencia_5ed.pdf Declaração dos direitos das pessoas deficientes. http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/dec_def.pdf