Química Orgânica
  Florence M. Cordeiro de Farias  
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Química Orgânica
Histórico até a definição final
A utilização de compostos orgânicos é descrita desde a antiguidade. Pesquisas arqueológicas recentes
comprovaram a presença de vinhos em jarros encontrados em tumbas de faraós (3150 a.C.). Os papiros
egípcios de Ebers (cerca de 1500 a.C.), de Edwin Smith (cerca de 1600 a.C.) e de Brugsch (cerca de 1300
a.C.) descrevem inúmeras fórmulas medicinais cujos constituintes eram principalmente ervas. Os
próprios papiros eram feitos da celulose obtida a partir dos talos da planta papiro do Egito, planta
aquática da mesma família da tiririca, abundante nas margens do Rio Nilo. A Bíblia, no episódio de Noé
(Gênesis), fala no vinho. Os romanos e egípcios utilizavam os corantes índigo e alizarina. O índigo era
obtido a partir de plantas do gênero Indigofera (anil do campo, timbozinho) e atualmente é obtido por
síntese e utilizado principalmente para a coloração de “jeans”. A alizarina era retirada de raízes da rubia .
A alizarina foi o primeiro corante a ser sintetizado (obtido em laboratório) e hoje em dia é utilizado
principalmente como reagente químico.
Apesar dessa grande utilização, até o século XVIII era pouco o conhecimento que se tinha sobre as
propriedades e composição dos compostos orgânicos. A Química já era bastante estudada, mas a parte
que envolvia a composição e estrutura (átomos que existiam nas moléculas e as formas com que se
arrumavam nelas) dos compostos orgânicos era pouco conhecida. A importância da Química Orgânica
estava muito mais em sua fonte de obtenção (na época, animal ou vegetal) e em sua aplicabilidade em
medicina, do que na sua parte estrutural.
Havia pouca produção de materiais orgânicos e, na maioria das vezes, eram feitos domesticamente ou
em pequena escala. Poucas coisas como, por exemplo, a fabricação de sabão, o refino do açúcar,
processos de tingimento e destilação (separação de duas ou mais substâncias por aquecimento) eram
feitas em escalas maiores.
Poucos compostos orgânicos eram conhecidos em sua forma pura. Valerius Cordus (médico e botânico
alemão,1515-1544) descreveu, em 1540, a obtenção do éter por tratamento do álcool com ácido
sulfúrico – método ainda usado –, dentre outros. Em 1780, Scheele (químico farmacêutico sueco, 1742-
1786) desenvolveu um método químico para obter ácidos orgânicos a partir de plantas ou animais e
assim descobriu vários ácidos orgânicos, tais como, por exemplo, os ácidos benzoicos (isolados da
resina balsâmica obtida do benjoim: Styrax benjoin), utilizado hoje em dia para a preservação de
alimentos, e o ácido tartárico (Figura 1), isolado de extratos de uvas fermentadas.
 
 
 
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COOH
Ácido Benzóico
HOOC
COOH
OH
OH
Ácido tartárico
 
Figura 1: Estruturas do ácido benzoico e ácido tartárico.
 
O que podemos notar é que os compostos orgânicos eram obtidos, até então, de plantas ou animais. As
técnicas existentes na época não permitiam sua caracterização (isto é, como eram constituídos).
Lavoisier (químico francês, 1743-1794) já havia relatado que, diferente dos compostos químicos do
“reino mineral”, os compostos orgânicos eram constituídos principalmente de carbono e hidrogênio e,
frequentemente, também de nitrogênio e fósforo. Passou a ocorrer uma tendência a achar que a
Química Orgânica, embora fosse uma parte integrante da Química, era diferente. Na medida em que era
relacionada aos organismos vivos e aos compostos orgânicos, acreditava-se, eram produzidos apenas
por esses organismos. A Química Orgânica, como uma divisão da Química, foi proposta em 1777 por
Bergman (físico e matemático sueco, 1735-1784) e foi definida como a “Química dos organismos vivos”.
Em 1797, pela primeira vez, é tratada diferencialmente quando Gren (químico alemão,1760-1798)
publica um livro no qual os compostos orgânicos são tratados em um capítulo à parte. Nesse capítulo,
essas substâncias são definidas, na linguagem da época, “como princípios presentes em organismos
animais e vegetais e que não poderiam ser sintetizados artificialmente”.
Essa ideia permaneceu por várias décadas. Vários químicos achavam que a origem desses compostos
(seres vivos) os diferenciava dos compostos minerais. Esses últimos eram obtidos frequentemente em
estados mais puros e obedeciam à Lei das Proporções Constantes (também denominada Lei de Proust,
ela diz que, independente do modo pelo qual uma substância é obtida, a proporção, em massa, dos
elementos que participam de sua composição é sempre a mesma). Como, na época, as técnicas
existentes dificultavam a obtenção de compostos orgânicos puros, a presença de impurezas diversas
levava a resultados diferentes de análise elementar (proporção de cada átomo presente na molécula)
para um mesmo composto, então achou-se que não obedeciam à Lei das Proporções Constantes.
A origem do termo “Química Orgânica” vem da proposta de Berzelius (1779-1848), médico e químico
sueco, em 1807, para referir-se a todos os compostos descobertos a partir de organismos vivos.
Acreditava-se – teoria denominada de Vitalismo – que os compostos orgânicos eram obtidos pela
intermediação de uma força vital que existia apenas em plantas e animais. Esses compostos poderiam
ser extraídos e transformados uns nos outros, mas não poderiam ser obtidos a partir de outros
elementos do reino mineral (que não possuíam a força vital).
 
 
 
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A ideia do vitalismo começou a declinar quando Wöhler (1800-1882), médico e químico sueco, em 1828,
sintetizou a ureia (substância anteriormente isolada da urina de animais) a partir do cianato de amônia,
reação que ficou conhecida como Síntese de Wöhler (Figura 2). Na realidade, Wöhler desejava obter
cianato de amônia e, para isso, tratou cianato de chumbo com hidróxido de amônia. Para sua surpresa,
obteve um material sólido, que não mostrou as propriedades típicas dos cianatos. Ao analisar o que
havia ocorrido, descobriu que havia obtido ureia, idêntica àquela anteriormente isolada de urina. Na
realidade, a reação do cianato de chumbo com hidróxido de amônia forma cianato de amônia que, por
aquecimento, gera ureia:
 
   
Figura 2: Síntese de Wöhler
Wöhler, então, escreveu para Berzelius dizendo: “Devo contar-lhe que eu posso fazer ureia sem o uso de
rins animais ou humanos”. Realmente, a experiência de Wöhler foi de grande importância, mas ainda
houve o questionamento do fato de que, na realidade, esses compostos deveriam ter a força vital, pois
o hidróxido de amônia e o ácido ciânico (fonte do cianato de chumbo) eram obtidos de fontes animais
(origem orgânica). O reconhecimento de que a teoria da força vital não tem grande aplicabilidade na
Química Orgânica foi ocorrendo gradualmente, na medida em que novos compostos orgânicos foram
sendo reconhecidos e sintetizados.
À medida que o vitalismo perde forças, aquela definição anterior proposta por Bergman (química dos
organismos vivos) deixa de ser adequada e, então, Kekulé (1829-1896), químico alemão,(químico
alemão, 1829-1896) propõe a definição da Química Orgânica como o ramo da Química que estuda os
compostos de carbono. Essa afirmação está correta, contudo, nem todo composto que contém
carbono é orgânico. Por exemplo, o dióxido de carbono, o carbonato de sódio, o ácido carbônico,
dentre outros, não são orgânicos. Mas, todo composto orgânico contém carbono.
Por conveniência, o termo orgânica se mantém até hoje, buscando classificar um grande número de
compostos que possuem uma série de propriedades em comum. Diferente dos outros elementos, o
 
 
 
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átomo de carbono tem a capacidade de se ligar infinitamente entre si em um número ilimitado de
combinações, gerando, com essas ligações, milhares de compostos diferentes. Deve-se enfatizar,
contudo, que as divisões da Química nunca foram, nem se espera que venham a ser, mutuamente
exclusivas, pois o campo da Química é um só, e há uma tendência natural para a unificação e remoção
de barreiras artificiais. A divisão em Química Orgânica, inorgânica, analítica, físico-química e bioquímica
se faz buscando uma finalidade didática e em função do enfoque que se deseja dar a um determinado
problema.
Importância
A Química Orgânica está presente em qualquer atividade de nossas vidas. Nesse momento, por
exemplo, ao ler esse texto, tudo está sendo mediado por compostos orgânicos. Para conseguir
enxergar, seus olhos estão utilizando um composto orgânico (o cis-retinal) para converter a luz em um
impulso nervoso. Quando você mexe no “mouse”, no teclado, enfim, faz qualquer movimento (até
dormir) o seu organismo está fazendo uma reação química para transformar a glicose em energia. Para
que você possa raciocinar e entender esse texto ou perceber o mundo, os impulsos nervosos são
transmitidos entre os neurônios através da intermediação de moléculas orgânicas (neurotransmissores,
como, por exemplo, a serotonina).
A vida moderna está repleta de compostos orgânicos. A grande maioria dos medicamentos, vários
pesticidas, as fibras têxteis, os polímeros, os corantes...são moléculas orgânicas.
Como mostrado no breve resumo que se fez sobre a história da Química Orgânica, desde a pré-história
até meados do século XIX, os compostos orgânicos eram obtidos de organismos vivos. Atualmente,
apesar de muitas substâncias orgânicas naturais serem muito complexas e de difícil obtenção
laboratorial e, assim, ainda serem obtidas a partir de plantas ou animais, a maioria dos compostos
orgânicos são obtidos em laboratório. Os compostos são retirados dos organismos vivos (atualmente, o
ambiente marinho também tem se mostrado uma grande fonte de produtos orgânicos), estudados e
depois, se tiverem alguma aplicação, sintetizados. Assim, por exemplo, a gente já comentou que o
índigo, corante azul utilizado em “jeans”, antigamente era obtido de plantas. Porém, sua aplicação
industrial é tão grande que a obtenção da fonte natural não atenderia à demanda mundial. É aí que a
Química Orgânica moderna exerce o seu papel: atualmente, o índigo é obtido através de uma síntese
(chama-se síntese o processo de transformação de moléculas através de reações químicas para se obter
a molécula que se deseja). Dessa mesma forma, tem se sintetizado uma variedade enorme de
compostos orgânicos, cujo isolamento de fontes naturais tornaria o processo inviável economicamente.
Assim, vários compostos obtidos por síntese são exatamente iguais àqueles existentes nos
organismos vivos. Outras vezes, o químico faz algumas modificações nas moléculas naturais, obtendo
 
 
 
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compostos semelhantes (denominados derivados), mas que apresentam maior aplicabilidade do que o
produto natural. Por exemplo, o ácido salicílico é isolado do salgueiro (família de plantas do gênero
Salix) e apresenta atividade anti-inflamatória. No entanto, possui também um efeito corrosivo nas
paredes do estômago. Assim, o derivado ácido acetil salicílico (AAS) foi sintetizado e é utilizado como
medicamento anti-inflamatório que possui menos efeito colateral que o primeiro. Repare como eles são
parecidos (Figura 3):
OH
COOH
O
COOH
O
ÁCIDO SALICILICO ÁCIDO ACETIL SALICILICO
 
Figura 3: Estruturas do ácido salicílico e do AAS
 
Com o crescimento da Química Orgânica e o acúmulo de informações obtidas hoje em dia, várias
moléculas de grande utilidade são obtidas por síntese química, muitas vezes sem ter nenhuma
correlação com produtos naturais.
 
Fonte de compostos orgânicos
Mas, se a maioria dos compostos orgânicos atualmente são obtidos por síntese, quais são as matérias-
primas para a sua obtenção?
Os compostos orgânicos utilizados como matéria-prima atualmente são obtidos de produtos naturais
(por exemplo, no Brasil, o álcool é obtido da fermentação - reação química realizada por micro-
organismos – do açúcar da cana e é utilizado para a síntese de éter) e, principalmente, de materiais
fósseis.
Até o século XX, a principal fonte de compostos orgânicos era o carvão mineral (denominado hulha). A
destilação da hulha fornece três frações constituídas respectivamente de: 1) Um material gasoso
constituído principalmente de hidrogênio e dióxido de carbono, que era muito utilizado para
iluminação e aquecimento; 2) Material líquido, denominado de alcatrão da hulha, e que é a fonte de
compostos orgânicos, e 3) Material sólido, denominado coque, utilizado em siderurgia para a obtenção
 
 
 
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do ferro gusa (liga de ferro e carbono – designa-se liga uma mistura homogênea de metais) matéria-
prima utilizada para a produção do lingote de ferro.
No século XX, o petróleo passa a constituir a principal fonte de compostos orgânicos.
Além de carbono e hidrogênio, vários outros elementos também estão presentes nos compostos
orgânicos. A tabela periódica a seguir mostra os principais elementos constituintes de compostos
orgânicos, estando em vermelho os elementos presentes em maiores quantidades.
 
1                          14  15  16     
H
   
  C  N  O   
   
 
Si P  S  Cl   
                               
Br
 
                              I   
                                 
Tabela 1: Tabela Periódica
Assim, o gás metano (principal constituinte do gás natural) possui apenas carbono e hidrogênio. A
sacarose (açúcar comum) possui carbono, hidrogênio e oxigênio. A anfetamina, um estimulante do
sistema nervoso central, possui, além de carbono e hidrogênio, nitrogênio. O colágeno, a elastina e as
glicoproteínas são as fibras responsáveis pela sustentação da derme e contém silício em sua estrutura.
O NAD (nicotinamida-adenina-dinucleotídeo) é um agente oxidante biológico que contém fósforo em
sua estrutura. O cheiro desagradável exalado pelo gambá é devido a dois compostos orgânicos que
contém carbono, hidrogênio e enxofre em sua estrutura. O policloreto de vinila (PVC) utilizado para a
fabricação de canos é constituído de átomos de carbono, hidrogênio e cloro. O halomon é um
composto que contém, além de carbono e hidrogênio, bromo e cloro em sua estrutura. Foi isolado de
uma alga marinha e possui atividade antitumoral (possibilidade de uso na terapia contra o câncer). A
tiroxina é o hormônio produzido pela tiroide e contém, além de carbono, hidrogênio, oxigênio,
 
 
 
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nitrogênio e iodo em sua estrutura. Daqui a pouco, quando a gente entender como as moléculas são
representadas, vocês vão ver a estrutura desses compostos.
Ligações Químicas Covalentes
Antes de começarmos a analisar o átomo de carbono e os compostos orgânicos, devemos recordar
sucintamente o processo pelo qual ocorrem as ligações químicas covalentes, isto é, aquelas que se
fazem por compartilhamento de elétrons.
Os elétrons em um átomo estão distribuídos nos orbitais atômicos (orbital é uma dedução matemática
que define a região do espaço onde existe maior probabilidade de se encontrar elétrons). Os orbitais
possuem tamanho e níveis energéticos diferentes (quanto mais afastado do núcleo, maior e mais
energético é o orbital) e, em função disso, são subdivididos nos subníveis s, p, d e f. Para o estudo da
Química Orgânica, vamos nos limitar aos subníveis s e p.
Os orbitais s possuem a forma esférica, isto é, a probabilidade de encontrar elétrons é maior na região
do espaço definida por uma esfera:
 
 
Figura 4: a) ORBITAL 1s b) ORBITAL 1s (preto) e 2s (cinza)
 
Os orbitais p tem a forma de um haltere e, como são três, orientam-se no espaço ao longo dos eixos
cartesianos x, y e z (Figura 5):
 
 
 
 
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Figura 5: a) ORBITAL 2p b) ARRUMAÇÃO ESPACIAL DOS ORBITAIS 2px, 2py e 2pz
 
Os orbitais 3p e 4p possuem a mesma forma de haltere, só que se encontram mais afastados do núcleo
(e, então, são maiores e mais energéticos). A região do espaço entre os dois lobos do haltere é
denominada nodo e, nessa região, não há probabilidade de se encontrar elétrons. Os orbitais dos
subníveis s não possuem nodo. Para simplificar o desenho dos orbitais, normalmente eles são
apresentados da seguinte forma (Figura 6):
 
 
   
 
 
 
 
 
Figura 6: a) Representação dos orbitais s e p; b) Orbitais p orientados nos eixos cartesianos
 
Quando ocorre uma ligação química covalente, os orbitais atômicos do último nível (orbitais ocupados
pelos elétrons de valência) vão se aproximando, encontram-se, e formam um novo orbital (orbital
molecular) onde vão se posicionar os dois elétrons, que, agora passam a ser compartilhados pelos dois
núcleos dos átomos que se aproximaram, ou seja, os orbitais moleculares são ocupados pelos dois
elétrons que formam a ligação.
 
 
 
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Por exemplo, vamos ver como ocorre a formação da ligação entre dois átomos de hidrogênio para
formar a molécula do gás hidrogênio. Para obedecer a regra do octeto, cada átomo de hidrogênio deve
ficar com dois elétrons.
A distribuição eletrônica do átomo de hidrogênio (1
H) é 1s1
e, consequentemente, vai ocorrer uma
interação entre dois orbitais s:
 
1s
σ
ORBITAL MOLECULAR
1s
 
 
Figura 7
Observe que a interação entre estes dois orbitais ocorre segundo um mesmo eixo, ou seja, ocorre
uma interação linear dos dois orbitais. O orbital resultante desse tipo de interação é denominado
orbital sigma (σ) e a ligação resultante é denominada ligação sigma (σ). A representação estrutural
de uma ligação química é feita por um traço (-) e, assim, a molécula do hidrogênio é representada com a
seguinte fórmula estrutural: H-H.
Mas, se os orbitais são ocupados por elétrons e esses possuem carga negativa, como os orbitais se
aproximam, se cargas iguais tendem a se repelir?
Nota ao professor:
Para uma melhor compreensão do aluno do Ensino Médio, as representações
que se seguem não obedecem plenamente à TEORIA DA COMBINAÇÃO
LINEAR DOS ORBITAIS ATÔMICOS (CLOA) e, portanto, conceitos relativos à
formação de orbitais moleculares somente levam em conta os orbitais
ligantes, descartando-se a formação de antiligantes que não se aplicam às
necessidades dos alunos nessa fase de aprendizagem.
 
 
 
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O que ocorre é uma atração eletrostática (atração entre cargas opostas) entre o núcleo (carga positiva
devido aos prótons) e os orbitais (cargas negativas porque os elétrons estão aí). Assim, o núcleo de um
átomo atrai a nuvem eletrônica do outro até o momento em que a aproximação dos dois orbitais gera
uma repulsão eletrostática, e aí acaba o processo de formação da ligação. Nessa situação, há um
equilíbrio entre as forças de atração e repulsão, resultando numa distância internuclear de maior
estabilidade Essa distância internuclear é o que denominamos de comprimento (ou distância) da
ligação, cuja unidade mais utilizada é o Angstron (Ao
; 1 Ao
= 10 –10
m). O comprimento da ligação H-H é
de 0,74 Ao
.
Em um segundo exemplo, vamos ver como ocorre a formação da ligação da molécula do cloro, onde a
interação acontece entre dois elétrons que ocupam os orbitais 3p (17
Cl: 1s2
2s2
2p6
3s2
3p5
) :
σ
ORBITAIS ATÔMICOS 3p
ORBITAL MOLECULAR
3p
3p
 
 
Figura 8
 
Observe que, assim como para a formação da molécula de hidrogênio, a interação dos orbitais é linear,
segundo um mesmo eixo. Logo, a ligação que se forma também é uma ligação σ. O comprimento dessa
ligação é de 1,42 Ao
.
Na formação da molécula de ácido clorídrico (HCl) ocorre a interação entre um orbital 1s do hidrogênio
com um 3p do cloro:
 
 
 
 
 
 
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1s σORBITAL MOLECULAR3p  
 
Figura 9
 
Como para os outros exemplos, a interação dos orbitais ocorre linearmente, formando uma ligação σ. O
comprimento da ligação H-Cl é de 1,27 Ao
.
Nos exemplos vistos acima, todas as ligações ocorreram segundo um mesmo eixo, ou seja, foram
realizadas interpenetrações lineares de orbitais gerando ligações σ. Entretanto, nem sempre isso é
possível, pois quando mais de uma ligação é realizada entre dois átomos, uma delas ocorre segundo um
mesmo eixo, porém as demais, em função do próprio arranjo espacial dos orbitais, não podem ocorrer
dessa forma, visto que os demais orbitais envolvidos não estão alinhados segundo esse mesmo eixo,
mas sim em eixos normalmente paralelos. Sendo assim, a interpenetração não ocorre de forma linear e
as ligações são estabelecidas segundo eixos paralelos, distinguindo-se da sigma (σ) e são
denominadas de ligações pi (π):
Como exemplo, vamos ver a formação da molécula de nitrogênio (7N: 1s2
2s2
2p3
). Pela configuração
eletrônica do átomo, há três orbitais p, cada um com um elétron: 2px
1
2py
1
2pz
1
. Os orbitais 2px
1
(essa
escolha 2px foi arbitrária. A ligação poderia ser feita entre os 2py ou 2pz) se superpõem ao longo do eixo
x (eixo internuclear) e formam uma ligação σ:
 
 
 
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σORBITAIS ATÔMICOS2p ORBITAL MOLECULAR  
 
Figura 10
E as outras duas ligações?
As outras duas ligações são feitas por entrosamento orbitalar paralelo, perpendicular ao eixo da ligação
σ, formando duas ligações π:
 
ORBITAIS ATÔMICOS2py
ORBITAIS ATÔMICOS2pz
 
Figura 11: a) Representação dos orbitais na molécula de N2; b) Representação da molécula de N2.
 
Observem que, nesse entrosamento paralelo dos orbitais p, cria-se dois orbitais moleculares π que
originam, na molécula, regiões ricas em elétrons (orbitais π) que se posicionam acima e abaixo do plano
da ligação σ (Figura 11).
Portanto, uma das ligações covalentes entre dois átomos é chamada de sigma (σ) e as demais, entre
esses mesmos átomos, é chamada de pi (π). Assim, numa dupla ligação, é encontrada uma ligação
sigma (σ) e uma pi (π); numa tripla ligação, é encontrada uma ligação sigma (σ) e duas pi (π). Quando
não há presença de duplas ou triplas ligações nas moléculas todas são classificadas como sigma.
 
 
 
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Ligações Covalentes Polares e Apolares
Os elétrons nas ligações covalentes não são necessariamente compartilhados igualmente entre os dois
átomos que formam a ligação. Se um átomo for mais eletronegativo (eletronegatividade é a tendência
que possuem determinados átomos de atrair elétrons) que o outro, o átomo mais eletronegativo vai
puxar os elétrons para mais perto dele. Quando isso ocorre, dizemos que a distribuição eletrônica é
polarizada e a ligação é dita covalente polar. Por exemplo, na molécula de H-F, como o flúor é mais
eletronegativo que o hidrogênio, os elétrons da ligação vão estar mais próximos do flúor. Assim, a
ligação H-F é uma ligação covalente polar, na qual o flúor possui uma carga parcial negativa (a carga é
denominada parcial para distingui-la da carga formal, que é a carga real presente nos cátions e ânions).
As formas mais utilizadas para representar essa polarização são os símbolos δ+
δ‐
para representar
cargas parciais ou uma seta orientada no sentido do átomo menos eletronegativo para o mais
eletronegativo:
 
H F
δ
+
δ
-
H Fou  
 
Figura 12
Na tabela periódica, a eletronegatividade cresce da esquerda para a direita e de baixo para cima. Linus
Pauling (químico americano, 1901-1994) estudou muito as ligações químicas. A tabela da escala de
eletronegatividade de Linus Pauling é muito utilizada cotidianamente:
 
  E    E 
F  4,0  I  2,5 
O  3,5  C  2,5 
N  3,0  S  2,5 
Cl  3,0  H  2,1 
Br  2,8     
Tabela 2: Tabela de eletronegatividade de Linus Pauling
 
 
 
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O Átomo de Carbono
Hibridização
Hibridização sp3
O carbono encontra-se situado na família 14 da classificação periódica e possui número atômico igual a
6. Portanto, possui seis prótons em seu núcleo e seis elétrons em sua eletrosfera. Na natureza, são
encontrados três isótopos (isótopos são elementos químicos de um mesmo átomo, cuja diferença entre
eles está no número de nêutrons) do carbono de números de massa 12, 13 e 14, cada um deles com
número de nêutrons igual a 6, 7 e 8, respectivamente. O isótopo 12
C está presente em 99% dos átomos
de carbono existentes na Terra, enquanto o 13
C é encontrado no 1% restante. O 14
C é um radioisótopo
(um radioisótopo é um isótopo instável que emite energia ao se transformar no isótopo mais estável),
que ocorre na Terra na proporção de 1 para 1 trilhão (0,0000000001%) e é muito utilizado em processos
de datação de fósseis. A distribuição eletrônica por subníveis, em ordem crescente de energia para esse
elemento é 1s2
2s2
2p2.
 
energia
1s
2s
2px 2py 2pz
ORBITAIS ATÔMICOS DO CARBONO
(Distribuição Eletrônica)  
Figura 13
Se analisarmos a distribuição eletrônica do carbono (acima), e formos fazer o tratamento que estamos
habituados para as ligações químicas (regra do octeto), haveria duas possibilidades:
1) O carbono faria duas ligações usando os orbitais mono-ocupados e aí seria divalente e não
obedeceria a regra do octeto (ficaria com seis elétrons no último nível).
2) O carbono faria três ligações, sendo que em uma delas ambos os elétrons seriam cedidos por outro
átomo.
 
 
 
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Entretanto, Kekulé, em 1857, já havia mostrado experimentalmente que nos compostos orgânicos o
carbono é sempre tetravalente (isto é, faz quatro ligações) e essas quatro ligações são covalentes.
Assim, a molécula do metano (CH4) é formada por quatro ligações σ C-H idênticas, como mostrado na
fórmula estrutural plana (fórmula estrutural plana é uma representação molecular em que não nos
preocupamos em mostrar os ângulos que os orbitais moleculares fazem entre si):
C
H
H
H
H
 
Figura 14
Como explicar, então, essa tetravalência do carbono?
O modelo que usamos para isso é o que se denomina hibridização de orbitais. Nesse processo, ocorre
uma combinação dos quatro orbitais atômicos do último nível (2s + 2px + 2py + 2pz) formando quatro
novos orbitais atômicos idênticos. Como essa combinação ocorreu entre um orbital s e três orbitais p,
esses novos orbitais são designados sp3
:
 
+ + +
2s 2px 2py 2pz
sp3
sp3 sp
3
sp3
 
Figura 15
Analogicamente, esse processo pode ser comparado ao significado do termo hibridização em Biologia.
Por exemplo, uma mula é um híbrido resultante do acasalamento de duas espécies diferentes: jumento
 
 
 
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e égua. Ela não é um jumento, nem uma égua. É uma mula, espécie diferente, resultante da hibridização
de outras duas espécies.
Os orbitais atômicos híbridos sp3
não são orbitais s nem p, mas novos orbitais advindos da hibridização
daqueles.
A distribuição eletrônica nesses novos orbitais segue a regra de Hund (físico alemão, 1896-1997): ao ser
preenchido um subnível, cada orbital desse subnível recebe apenas um elétron. O orbital só receberá
um segundo elétron quando todos os orbitais daquele subnível já possuírem um elétron. Assim, após a
hibridização, cada orbital sp3
do carbono possuirá um elétron:
energia
1s
2s
2px 2py 2pz
ORBITAIS ATÔMICOS DO CARBONO
HIBRIDIZAÇÃO
energia
1s
2sp3
ORBITAIS ATÔMICOS HÍBRIDOS
DO CARBONO
2sp3 2sp3
2sp3
 
Figura 16
Com essa nova distribuição eletrônica fica fácil entender que na molécula do metano formam-se quatro
ligações σ resultantes da interação orbitalar de cada um dos orbitais híbridos do carbono com um
orbital s do hidrogênio.
 
C
H
H
H
H
Quatro ligações σ C-H
resultantes da interação
do orbital sp3
do C com o
s do hidrogênio.  
 
Figura 17
 
 
 
.  17 . 
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Química Orgânica 
Mas, de que forma (arranjo espacial) esses orbitais se posicionam em torno do núcleo do átomo de
carbono?
Os elétrons têm carga negativa e, por conta da repulsão eletrostática, os quatro orbitais vão querer estar
o mais afastados possível. A figura geométrica com quatro vértices onde estes estão o mais afastados
possível um do outro é o tetraedro e, assim, os quatro orbitais sp3
estão arrumados ao redor do
átomo de carbono em um arranjo tetraédrico:
 
 
Figura 18
 
A interação dos átomos de hidrogênio ocorrerá com o átomo de carbono nesse arranjo e daí resultará
que a molécula do metano possuirá, também, este arranjo:
 
 
Figura 19
Assim, a molécula do metano arranja-se espacialmente como um tetraedro e os ângulos formados por
suas ligações são de 109,5o
, característico de um tetraedro regular. Isso é bem visualizado no modelo
vareta e bola mostrado abaixo:
 
 
 
 
.  18 . 
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Química Orgânica 
 
109,5o
 
Figura 20
Para facilitar o desenho dessa representação estrutural do metano, usamos uma fórmula estrutural
conhecida como modelo cunha e traço, em que os dois vértices do tetraedro situados no plano do
papel são desenhados como uma linha comum. O vértice que se projeta para frente desse plano é
desenhado por uma cunha em negrito e o que se projeta para trás é representado por uma cunha
pontilhada:
 
H
C
H H
H
" para atrás" do plano do papel
"para a frente" do plano do papel  
 
Figura 21
 
Finalmente, deve-se ressaltar que esse modelo de hibridização orbitalar e arranjo tetraédrico em torno
do carbono é aplicável para qualquer composto orgânico no qual o carbono realiza quatro ligações σ.
Isso pode ser visto nos modelos vareta e bola e em cunha e traço para as moléculas do etano e
propano (Figura 22):
 
 
 
.  19 . 
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Química Orgânica 
H
C C
H
H
H
H
H
H
C
C
C
H
H H
H H
H
H
ETANO
PROPANO
 
Figura 22: Modelo vareta e bola e cunha e traço para as moléculas do etano e propano.
Hibridização sp2
:
Assim como já vimos para a molécula de nitrogênio, existem compostos orgânicos que possuem em
sua estrutura ligações π . Esse é o caso, por exemplo, dos gases etileno e acetileno:
 
H
C C
H
H
H
C C HH
σ
σ
σ
σ
σ
σ σ σ
π
π π
ETILENO ACETILENO 
Figura 23
 
Mas, a ligação π ocorre pelo entrosamento paralelo de orbitais p. No modelo de hibridização proposto
para moléculas do metano, e válido para todos os compostos que possuem carbono que só faz ligação
σ – ou seja, o modelo de formação de orbitais atômicos sp3
– não resta nenhum orbital p com apenas
um elétron, condição necessária para fazer uma ligação π.
Como ocorre a formação dessa ligação? Vamos iniciar explicando a molécula do etileno (com uma
ligação π):
Agora, ocorre uma hibridização entre o orbital 2s e apenas dois dos três orbitais p, gerando três orbitais
atômicos híbridos sp2
(repare que é a combinação de um orbital s com dois p, daí a designação sp2
) e
restando um p já ocupado anteriormente:
 
 
 
.  20 . 
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+ +
2s 2px 2py 2pz
sp2
sp2 sp2 2pz
 
 
Figura 24
 
Na figura acima, o processo foi mostrado sem o envolvimento do orbital 2pz. Essa escolha foi aleatória e
pode ocorrer com qualquer um dos três orbitais p.
Após a distribuição eletrônica nos orbitais híbridos fica fácil entender como ocorre a ligação C=C no
etileno:
 
energia
1s
2s
2px 2py 2pz
ORBITAIS ATÔMICOS DO CARBONO
HIBRIDIZAÇÃO
energia
1s
2sp2
ORBITAIS ATÔMICOS HÍBRIDOS
DO CARBONO
2sp2 2sp2
2p
 
 
Figura 25
 
Dos três orbitais sp2
, dois vão se ligar ao orbital s do hidrogênio e o terceiro vai se ligar ao outro átomo
de carbono, gerando as ligações σ. O orbital p vai se ligar ao outro orbital p, formando a ligação σ C‐C. 
 
 
 
.  21 . 
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Química Orgânica 
 
 
Figura 26
 
Observe que o entrosamento paralelo dos orbitais p gera uma nuvem eletrônica acima e abaixo do
plano definido pela ligação σ C-C.
Da mesma forma que vimos para o arranjo espacial dos orbitais sp3
, os orbitais sp2
, devido à repulsão
das cargas entre seus elétrons, posicionam-se no centro de um triângulo equilátero (ângulo de 120o
entre eles) e o orbital p fica perpendicular ao plano desse triângulo. A esse tipo de arranjo designamos
trigonal planar e a ligação C=C terá sempre esse arranjo (Figura 27):
 
 
 
Figura 27: a) Representação do C sp2: três orbitais sp2 arrumados em um triângulo equilátero e um orbital p
perpendicular a esse triângulo; b) Ângulo de 120º entre os orbitais sp2 e de 90º entre um orbital sp2 e o orbital p;
c) Arranjo orbitalar na molécula do etileno: H2C=CH2
Por que a ligação C=C é planar? Já comentamos que a ligação p ocorre por um entrosamento paralelo
de orbitais p. Para que fiquem paralelos, eles têm de estar no mesmo plano. Esse paralelismo tem uma
consequência importante para todas as moléculas que têm ligação π. Repare que na formação de
ligações σ o entrosamento orbitalar é linear, resultando em uma ligação que dizemos possuir simetria
cilíndrica, como podemos ver para a ligação C-C do etano: ACHO QUE NÃO DAR PARA EXCLUIR O
SÍMBOLO SIGMA POIS SÓ NESSA LIGAÇÃO O ENTRPOSAMENTO DA LIGAÇÃO È LINEAR.
 
 
 
.  22 . 
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Química Orgânica 
 
C C
H
H
H
H
H
H  
 
Figura 28
 
As ligações que possuem simetria cilíndrica possuem rotação livre e é isso o que ocorre, na realidade.
As moléculas não são entidades estáticas, estão sempre em constante movimento e as ligações
simples giram o tempo todo.
Mas, o que ocorreria se a ligação C=C girasse? Os orbitais p perderiam seu paralelismo, ou seja, não
aconteceria entrosamento orbitalar. Em outras palavras, a ligação química se quebraria (Figura 29). Por
conta disso, as ligações π não possuem rotação livre.
 
 
Figura 29: Quebra da ligação π em um suposto movimento de rotação
 
Hibridização sp:
Vamos ver agora o que ocorre com a molécula do acetileno que possui uma ligação tripla CΞC:
 
 
Como já vimos, uma ligação tripla significa uma ligação e duas . Para isso ocorrer, dois orbitais p
devem ficar fora do processo de hibridização, ou seja, a combinação orbitalar (hibridização) deve
ocorrer entre um orbital s e um orbital p. Por conta disso, os dois orbitais híbridos resultantes são
designados sp.
C C HH
 
 
 
.  23 . 
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+
2s 2px 2py 2pz
sp sp 2pz2py
 
 
Figura 30
 
A distribuição eletrônica do átomo de carbono após a hibridização sp mostra que existem dois orbitais
híbridos sp que farão duas ligações σ (no caso do acetileno, uma será com o carbono e a outra com o
hidrogênio) e dois orbitais p, que por entrosamento paralelo dois a dois formarão as duas ligações π. 
Lembre-se que os dois orbitais p são perpendiculares entre si e, consequentemente, após a formação
das duas ligações π essas também serão perpendiculares entre si. Assim, a molécula do acetileno
possui duas nuvens eletrônicas abaixo e acima do plano da ligação σ e outras duas nuvens eletrônicas
localizadas na frente e atrás desse plano:
 
 
Figura 31
 
Por analogia ao arranjo tetraédrico do carbono com orbitais híbridos sp3
e trigonal planar do carbono
com orbitais híbridos sp2
, os orbitais híbridos sp se arranjam de forma linear, um do lado oposto ao
outro, pois é nessa arrumação que as duas nuvens eletrônicas estarão o mais afastadas possível.
Já comentamos sobre a característica peculiar do átomo de carbono de realizar ligações C-C
infinitamente, gerando compostos diferentes ou, como costumam dizer os químicos, com uma
variedade enorme de cadeias carbônicas. É importante ficar claro que em uma mesma cadeia
carbônica podemos ter ligações simples (orbital sp3
), duplas (orbital sp2
) e triplas (orbital sp). Não
 
 
 
.  24 . 
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Química Orgânica 
precisamos fazer toda a análise orbitalar para prever como essas cadeias estão arrumadas no espaço.
Basta observar os tipos de ligações que os átomos de carbono estão fazendo: se o carbono só possuir
ligações simples, essas são todas σ e o carbono é tetraédrico (sp3
); se o carbono possuir ligação dupla,
uma é σ e a outra π e o carbono é trigonal planar (sp2
); se o carbono possuir ligação tripla, uma é σ e as
outras duas são π e o carbono é linear (sp).
Por exemplo, na molécula ao lado, os carbonos que
eu chamei de 1 e 2 são sp2
e trigonal planares. Os
carbonos 3 e 6 são sp3
e tetraédricos, enquanto os
carbonos 4 e 5 são sp e lineares.
Figura 32
 
Não é apenas no átomo de carbono que ocorre a
hibridização de orbitais. O modelo de hibridização pode ser
aplicado para explicar a ligação em qualquer átomo. Por
causa disso, outros átomos ligados ao carbono também
podem estar hibridizados. Na molécula da supercola, por
exemplo, o carbono e o nitrogênio da ligação CΞN são sp, o
oxigênio e o carbono da ligação C=O são sp2
e o carbono e
oxigênio da ligação C-O são sp3
.
O comprimento das ligações também é diferente, em função do tipo de ligação. Observe que uma
esfera (orbital s) está mais próxima do núcleo atômico que um haltere (orbital p). Por conta disso,
quanto maior for o caráter s do orbital híbrido, mais curta vai ser a ligação (vai estar mais perto do
núcleo). Assim, as ligações triplas onde a ligação σ (é ela quem define o comprimento da ligação por
conta do entrosamento linear) é formada pelo carbono sp (50% de s + 50% de p) são mais curtas que as
ligações duplas (sp2
: 33,3% s + 66,7% p), que, por sua vez, são mais curtas que as ligações simples (sp3
:
25% de s + 75% de p). Observe abaixo o comprimento (em vermelho) e os ângulos (em azul) das
ligações para o etano, etileno e acetileno: O QUE FOI EXCLUÍDO?
 
 
 
 
 
H
C
H C
H
C
C
C H
C
H H
H
H
1
2
3
4
5
6
 
H
C
H C
C
N
O
O C H
H H
Super-cola  
Figura 33
 
 
 
.  25 . 
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Química Orgânica 
 
 
 
Figura 34
 
Resumindo, em termos de comprimento de ligação: C-C > C=C > C C
 
 
Representação dos Compostos (“Desenhando As Moléculas”)
Quando estudamos Química Orgânica, o que buscamos é entender a maneira pela qual os átomos se
encontram nas moléculas (arranjo molecular), ou seja, como eles estão ligados entre si, as
propriedades químicas que são consequência dessa arrumação e a maneira pela qual as estruturas
moleculares se modificam quando ocorre uma reação química.
Para alcançar esses objetivos, o primeiro passo deve ser o entendimento das representações que
utilizamos para tentar descrever as moléculas. Em outras palavras, precisamos entender e aprender o
que queremos dizer quando representamos as moléculas por fórmulas. Devemos nos lembrar sempre
que a representação de uma coisa não é a coisa. Assim, por exemplo, a foto do namorado ou da
namorada não é o namorado ou a namorada: é a representação dele ou dela.
Os químicos utilizam diversas maneiras para representar as moléculas. Não existe uma mais correta que
a outra. O tipo de representação que usamos vai depender do problema que estamos analisando.
A fórmula molecular, por exemplo, apenas informa quais são e a quantidade dos átomos presentes em
uma molécula. Ela não informa nada sobre a estrutura (como os átomos estão ligados na molécula)
molecular. Por causa disso, é muito comum que duas moléculas diferentes possuam a mesma fórmula
molecular. Por exemplo, o álcool etílico (aquele que nós conhecemos simplesmente por álcool) e o éter
metílico são dois compostos completamente diferentes. Mas, repare que os dois possuem a mesma
fórmula molecular (C2H6O). Compostos diferentes que possuem a mesma fórmula molecular são
denominados isômeros.
 
 
 
.  26 . 
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Química Orgânica 
 
 
 
Figura 35
Como a fórmula molecular não informa nada sobre a estrutura molecular, não conseguimos, a partir
dela, entender o comportamento da molécula. Mas ela é muito útil quando, por exemplo, estamos
realizando cálculos estequiométricos (cálculo das quantidades de substâncias envolvidas em uma
reação química).
No entanto, na maioria das vezes em que estamos lidando com a Química, precisamos tentar entender
como as moléculas se comportam e, para isso, é fundamental que se represente como os átomos estão
unidos entre si dentro da molécula, isto é, precisamos representar a conectividade dos átomos. As
fórmulas que mostram essa conectividade são denominadas fórmulas estruturais. Compostos que
possuem fórmulas estruturais diferentes são diferentes.
Existem várias maneiras de se representar a fórmula estrutural de uma molécula. As mais usadas estão
mostradas a seguir para o álcool etílico:
 
 
 
Figura 36
 
 
 
 
.  27 . 
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As fórmulas estruturais condensadas e as fórmulas de traços mostram a conectividade dos átomos,
mas não mostram a geometria molecular (as moléculas são entidades tridimensionais e têm uma
arrumação no espaço). Observe, ao analisarmos a fórmula em traços, que a cadeia carbônica é
apresentada linearmente e não nos preocupamos com os ângulos das ligações. As fórmulas
condensadas e de traços nos dão basicamente as mesmas informações sobre a molécula.
A fórmula estrutural plana nos fornece mais informações sobre a geometria da cadeia carbônica. Na
realidade, tendo em vista os ângulos de 109,5º do carbono sp3
, as cadeias carbônicas se arrumam como
um zigue-zague (“sobe e desce”) e esse tipo de fórmula estrutural representa isso. Na fórmula
estrutural espacial, além da representação em zigue-zague das cadeias carbônicas, são também
mostradas as cunhas que representam os átomos que estão se posicionado nos outros dois vértices do
tetraedro. Nesse tipo de representação estrutural buscamos mostrar toda a geometria molecular.
A fórmula estrutural em traços (também chamada fórmula em bastão) é centrada na representação
das ligações e não dos átomos (repare que na representação do álcool etílico usando essa fórmula só
desenhamos o oxigênio e o hidrogênio ligados a ele).
As fórmulas em traços são desenhadas da seguinte maneira:
1a
etapa: Desenhe a cadeia de carbono como traços e em zigue-zague. Não represente o símbolo do
carbono (C) nem do hidrogênio (H) quando ele estiver ligado ao carbono. Entretanto, você não pode
esquecer nunca que o carbono é tetravalente. Assim, cada vértice da cadeia em zigue-zague representa
o átomo de carbono e se mais nada estiver escrito nela, significa que ali existem dois hidrogênios,
sendo um localizado para frente do plano criado pela cadeia e outro para trás desse plano, de acordo
com a geometria do tetraedro.
2a
etapa: Todos os átomos que não são carbonos devem ter os seus símbolos mostrados, bem como o
hidrogênio que não está ligado ao carbono.
Vamos entender isso com a fórmula em traços do álcool etílico:
 
 
 
.  28 . 
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O H
As extremidades da cadeia
representam
um átomo de carbono
Cada vértice do zigue-zague
representa um átomo de carbono
Este átomo de carbono
tem três hidrogenios ligados
a ele, pois só estamos mostrando
uma ligação (traço) e 4-1=3
Este átomo de carbono
tem dois hidrogenios ligados
a ele, pois estao sendo mostradas
duas ligaões : C-C e C-O e 4-2=2
Este hidrogênio deve ser desenhado porque
ele não está ligado ao carbono.
 
Figura 37
 
Por uma questão de simplificação, é muito comum a gente não desenhar o traço que representa a
ligação do hidrogênio com o heteroátomo (chamamos de heteroátomo a todo átomo da cadeia
carbônica que não é carbono ou hidrogênio):
 
As ligações duplas devem ser representadas por dois traços e as triplas por três traços:
 
OH
O
H
H H
O
O H
H
H  
 
H C C
H
H
H
H
H
 
Figura 38
 
Preste atenção que, no caso da ligação dupla, a cadeia foi desenhada em zigue-zague e, na ligação
tripla, fomos fiéis ao ângulo de 180o
(repare que desenhamos essa parte da molécula linearmente). Isso
porque é muito difícil distinguir desenhando um ângulo de 109,5o
de um de 120o
. O Importante é você
sempre lembrar que nessa parte da cadeia os carbonos possuem um arranjo trigonal planar.
OH Observe que não desenhamos o traço
que representa a ligação O-H  
 
 
 
.  29 . 
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Química Orgânica 
É muito comum a gente misturar a forma de representação em traços com a condensada na parte da
molécula que temos os heteroátomos:
H
H H
O
OH
H
H
COOH ou CO2H
 
Figura 39
Outra coisa que você vai ver muito são representações deste tipo:
NH2
, e aí fica a pergunta: ué, o carbono não é tetraédrico? Esse nitrogênio não está para
frente ou para trás do plano da cadeia carbônica? A resposta é: está sim. O que estamos dizendo nessa
representação é:
1) Não sabemos se o arranjo espacial desse nitrogênio (mais tarde vamos entender que ele estar para a
frente ou para trás do plano pode gerar compostos diferentes); ou
2) Para o estudo que estamos fazendo não faz diferença saber para que lado está o átomo de
nitrogênio.
As cadeias carbônicas não são sempre abertas. Elas também podem ser cíclicas e os ciclos também são
representados em traços:
 
C
C
C C
C
H H
H
H
H
H
H
H
H
H
C
C
C
C
C
C
H
H
H
H
H
H
 
Figura 40
As representações em traços possuem a vantagem de facilitar os desenhos das moléculas. Em virtude
da propriedade do carbono de realizar ligações C-C infinitamente, existem moléculas enormes e se
fossemos desenhar todos os átomos, além da perda de tempo, o resultado ia ser extremamente
confuso. Por exemplo, a molécula da palitoxina (Figura 41), uma toxina marinha extremamente
 
 
 
.  30 . 
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Química Orgânica 
venenosa isolada de corais da espécie Palythoa (ainda bem que até hoje não encontramos esse coral
nos nossos mares!), tem fórmula molecular C129H221O54N3:
 
 
Figura 41: a) Corais marinhos da espécie Palythoa caribaeorum; fórmula estrutural em traços da palitoxina.
 
Imagine o trabalho que daria desenhar a fórmula estrutural espacial dessa molécula. Tente e veja... você
vai desistir rapidinho!
Agora que já sabemos interpretar a representação das moléculas orgânicas, podemos visualizar (e
entender o que as representações querem dizer) as fórmulas estruturais das substâncias citadas no
início desse texto (Figura 42), quando aprendemos sobre os átomos que aparecem com mais frequência
nos compostos orgânicos (lembra, foi quando vimos os elementos da tabela periódica que mais
aparecem nos compostos orgânicos).
 
 
 
 
 
.  31 . 
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Cl Cl Cl Cl
Policloreto de vinila (PVC)
Polímero utilizado para a
fabricação de canos
O
N
H
O
NH2
OH
HH
OH
H
O
P O P
O
H
HH
OH
H
O
OH
N
N
N
N
O
O
O
O
NH2
Nicotinamida-adenina-dinucleotídeo
(NAD)
Cl
Cl Br
Br
Cl
Halomon
Medicamento utilizado
em quimioterapia (tratamento de cancer)
OI
HO
I
I
I
CO2H
NH2
Tiroxina
Hormônio produzido pela
tiróide
O O
OH
OH
HO
HO
O
HO
OH
OH
OH
Sacarose (açucar comum)
NH2
Anfetamina
(estimulante do SNC)
SH SH
2-buteno-tiol 3-metil-2-buteno-tiol
(substâncias exaladas pelo gambá)
 
 
Figura 42: Exemplos de representações de algumas moléculas orgânicas importantes.
 
Toda ciência, talvez para que as pessoas que trabalham com ela possam se identificar como um grupo,
possui uma linguagem própria. Com a Química não é diferente. Daqui a pouco nós vamos aprender a
nomear os compostos orgânicos. Mas, antes disso, devemos saber como se classificam as cadeias
orgânicas:
- Em função da presença ou não de ciclo (também chamamos de anel), a cadeia é classificada em cíclica
ou acíclica (ou aberta):
 
 
 
 
.  32 . 
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Química Orgânica 
 
 
 
Figura 43
- Em função da presença de ligações π entre os átomos de carbono, as cadeias são classificadas em
saturadas ou insaturadas. As cadeias insaturadas são as que possuem ligação π entre átomos de
carbono.
 
 
 
Figura 44
 
 
 
.  33 . 
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Química Orgânica 
Esta definição causa certa polêmica entre os químicos. A molécula de cadeia aberta constituída apenas
por átomos de carbono e hidrogênio tem sempre a fórmula molecular CnH2n+2, isto é, o número de
hidrogênios é sempre o dobro do de carbonos:
 
 
 
Figura 45
As moléculas desse tipo são ditas saturadas. A partir daí, insaturadas seriam aquelas que não obedecem
a essa regra. Observe nas moléculas:
 
Figura 46
 
A presença de uma ligação π diminui em 2 (C4H10 x
C4H8) o número de hidrogênios e diz-se que a
molécula tem uma insaturação. A presença de duas
ligações π (duas ligações duplas ou uma tripla)
diminui em 4 o número de hidrogênios e a molécula
tem duas insaturações. Mas, observe uma cadeia
cíclica:
 
        Figura 47
 
 
 
.  34 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
Também diminui em dois o número de hidrogênios, ou seja, a molécula tem uma insaturação e essa
cadeia cíclica seria dita insaturada, embora não tenha nenhuma ligação π.
Afinal, insaturação é quando tem ligação π entre átomos de carbono ou é diminuição do número de
hidrogênios em relação à molécula saturada? Para evitar essa confusão, tem sido uma tendência
designar cadeia insaturada apenas aquelas que possuem ligações π entre carbonos e, para o enfoque
de diminuição de hidrogênios, dizemos “cadeias com deficiência de hidrogênio”, caso em que se
incluem as cadeias cíclicas.
- Quanto à presença ou não de heteroátomos (lembrem-se: heteroátomos são átomos diferentes de
carbono e hidrogênio) na cadeia, estas são chamadas de cadeias homogêneas ou heterogêneas:
 
 
Figura 48
 
Normalmente, os ciclos contendo heteroátomos chamamos de heterociclos. Os outros seriam os
homociclos, que em geral a gente se refere apenas como ciclos (não usamos o prefixo “homo”).
 
 
 
.  35 . 
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Química Orgânica 
- As cadeias carbônicas podem ainda ser classificadas em ramificadas ou não ramificadas. Analise a
molécula abaixo:
 
Figura 49
Observe que o segundo carbono possui ligado a ele – além, é claro, do resto da cadeia – uma cadeia
menor, constituída de dois átomos de carbono. Essa cadeia menor nós chamamos de ramificação (em
analogia aos ramos de uma árvore que saem do tronco principal), e as cadeias que as contêm são
designadas ramificadas. A cadeia maior é chamada de cadeia principal.
Não é obrigatório que se desenhe a cadeia principal na horizontal. Essa é apenas a forma mais comum.
O importante é você saber que a cadeia principal é sempre a que contém maior número de átomos
de carbono. Abaixo, por exemplo, estão mostradas três representações da mesma molécula cuja cadeia
principal (destacada em vermelho) tem 6 átomos de carbono:
 
 
Figura 50
É importante que se tenha claro que só chamamos de ramificação cadeias carbônicas. Heteroátomos
ligados à cadeia carbônica não são considerados ramificações:
Cadeia ciclica insaturada
ramificada ( o ciclo é a
cadeia principal)
OH
Cadeia ciclica insaturada
não ramificada
N
Cadeia aciclica saturada
não ramificada
 
Figura 51
1 2
3
4
5  
 
 
 
.  36 . 
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Química Orgânica 
Em função do número de ramificações, o carbono sp3
é classificado em metílico, primário, secundário,
terciário ou quaternário. Carbono metílico não está ligado a nenhum carbono. Carbono primário está
ligado a um carbono, o secundário a dois, e assim sucessivamente:
OP
P
P P
Q
TS P
M
O
O
O
P
S
S
S
S
Q
M
M = METÍLICO
P = PRIMÁRIO
S= SECUNDÁRIO
T = TERCIÁRIO
Q = QUATERNÁRIO
 
Figura 52
Forças Intermoleculares
Até agora nós conversamos sobre as ligações que constituem as moléculas orgânicas. Mas, vamos
lembrar que nunca a gente se depara com uma única molécula. Quando eu pego um vidro de uma
substância qualquer, orgânica ou inorgânica, lá dentro, mesmo que o vidro seja bem pequenino, tenho
milhares de moléculas. Por exemplo, um mol de água pesa 18g. Como a densidade da água é igual a 1,
então 18g correspondem a 18 mL, ou seja, em 18 mL de água eu tenho 6,02 x 1023
(o no
de Avogrado)
moléculas de água! E aí vem a pergunta: será que essas moléculas interagem entre si ou uma não está
nem aí para a outra?
As moléculas interagem entre si através do que chamamos de forças ou ligações intermoleculares.
Para que a gente possa entender o que são essas forças, precisamos estudar o que vem a ser
polaridade de uma molécula.
Nós já vimos que uma ligação covalente polar é aquela em que o compartilhamento de elétrons não é
igual para os dois átomos porque o mais eletronegativo puxa os elétrons para mais perto dele. Com
isso, é criado um dipolo interno (uma parte fica com caráter positivo e outra com caráter negativo) na
ligação e, consequentemente, na molécula:
 
 
 
.  37 . 
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Química Orgânica 
O
H
O
H
δ+
δ
−
δ+
C-O
O-H
LIGAÇÕES POLARES ÁLCOOL ETÍLICO : MOLÉCULA POLAR
 
Figura 53
 
Observe que nós não consideramos a ligação C-H como um dipolo interno. A diferença de
eletronegatividade dos dois é tão pequena que praticamente não se cria esse dipolo. Na linguagem
química, a gente diz que a ligação C-H é apolar.
Entretanto, nem toda molécula que tem ligação polar é uma molécula polar. Nesse caso, nós temos que
avaliar dois aspectos: o arranjo espacial e o tamanho da molécula.
Arranjo espacial: vamos ver o que acontece com a molécula de CO2:
O sentido de um dos dipolos é oposto ao do outro. Assim, os dipolos se anulam e a molécula, apesar de
ter ligações polares, é apolar. Lembre-se que no CO2 o carbono faz duas ligações π (uma com cada
oxigênio) e, então, é hibridizado sp, logo, linear.
Na molécula CCl4 (tetracloreto de carbono) acontece uma coisa parecida. O arranjo da molécula é
tetraédrico e, lembrando-se da forma com que somamos vetores, os dois vetores resultantes estão em
sentido oposto, e assim se anulam. Então, embora ela tenha quatro ligações polares, é uma molécula
apolar:
 
Cl
Cl
Cl
Cl
Os vetores resultantes das duas somas
vetoriais se anulam
 
Figura 55
 
Outro fator que devemos analisar é o tamanho da molécula. Às vezes, uma molécula tem ligações
polares, mas a cadeia carbônica é tão grande que a molécula acaba se comportando como uma
O C O
  Figura 54 
 
 
 
.  38 . 
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molécula apolar. As gorduras (triglicerídeos), por exemplo, têm propriedades apolares, apesar de
possuírem várias ligações C-O e C=O (polares):
 
O
O
O
O
O
O
Triglicerídeo  
Figura 56
Bem, agora que a gente já sabe reconhecer se uma molécula é polar ou apolar, podemos entender as
forças intermoleculares. Essas forças ocorrem devido à interação entre as cargas reais ou parciais
(aquelas advindas da polaridade) de uma molécula interagindo com as cargas reais ou parciais de outra
molécula. Essa interação ocorre pela atração de uma carga positiva com uma negativa e ela é maior
quanto maior for a magnitude da carga e menor for a distância entre elas. Essas forças intermoleculares
são de cinco tipos: interação íon-íon, interação íon-dipolo, interação dipolo-dipolo, interação
dipolo-dipolo induzido, interação dipolo-induzido-dipolo-induzido.
A interação íon-íon é aquela que nós conhecemos como ligação iônica. Ela ocorre, por exemplo, entre
os íons cloreto e sódio no NaCl (sal de cozinha) e no lauril éter sulfato de sódio, um agente de limpeza
muito usado em xampus. São interações muito fortes:
 
 
 
 
 
 
 
 
  Figura 57
O
S
O
O-
Na+
Lauril eter sulfato de sodio
interação ío-íon
 
Na+
Na+
Na+
Na+
Na+
Cl-
Cl-
Cl-
Cl-
 
 
 
.  39 . 
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As interações íon-dipolo induzido são as que ocorrem entre uma espécie com carga real (cátion ou
ânion) e a carga parcial de outra molécula, como mostrado na interação do cátion de sódio com a carga
parcial negativa do átomo de oxigênio da água. Essas interações são moderadamente fortes.
 
Na+ O
H
H
δ−
δ+
δ
+
 
Figura 58
 
As interações dipolo-dipolo, como o próprio nome diz, são as que ocorrem entre o polo criado pela
carga parcial positiva de uma molécula com a carga parcial negativa de outra. É uma interação fraca. É a
que ocorre entre duas moléculas polares, mas sem carga. Veja na acetona:
 
δ−
δ+
δ+
O
Oδ−
 
Figura 59
Um tipo especial de atração dipo-dipolo é chamada de Ligação Hidrogênio. Nessa interação, o
hidrogênio é ligado a um átomo muito eletronegativo: F, O ou N é o polo positivo que é atraído pelo
polo negativo F, O ou N, de outra molécula (para ajudar a memorizar, lembrem-se de uma buzina: fon-
fon!):
O
H
H
O
H
H
Figura 60
 
 
 
.  40 . 
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Por exemplo, a dupla hélice do DNA é estabilizada pelas ligações hidrogênio entre as bases
nitrogenadas presas às duas cadeias:
 
Figura 61: a) Ligação hidrogênio entre as bases nitrogenadas (guanina e citosina) do DNA.
 
Como o hidrogênio é um átomo pequeno, as cargas parciais conseguem se aproximar muito,
resultando em uma atração mais forte que a dipolo-dipolo clássica.
A interação dipolo-dipolo induzido ocorre quando uma molécula polar se aproxima de uma outra,
apolar. Ao se aproximar, o dipolo da molécula polar faz com que ocorra uma distorção da nuvem
eletrônica da molécula apolar, induzindo um dipolo instantâneo:
 
O
H
H
δ−
δ
+
δ
+
I I
δ−
δ−
δ
+
δ
+
 
Figura 62
É uma interação mais fraca que a dipolo-dipolo.
A interação dipolo-induzido-dipolo-induzido (também chamada Força de London) ocorre entre
moléculas apolares e é a mais fraca delas. Como os elétrons estão em movimento constante, em um
determinado momento, uma molécula apolar – por exemplo, o etano (CH3CH3) – pode ter uma
distribuição não igualitária dos elétrons na ligação, ou seja, pode ser criado um dipolo momentâneo.
Esse dipolo pode, então, criar outro dipolo em uma molécula vizinha e esses dipolos se atraem:
 
 
 
.  41 . 
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δ− δ
+
δ−
δ−
δ+
δ+
H3C CH3
δ− δ+
δ−
δ−
δ+
δ+
H3C CH3
 
Figura 63
 
Essas duas últimas interações, que envolvem a formação de dipolo induzido, são chamadas juntas de
Forças de van der Waals. Essas forças são mais fracas, mas em moléculas grandes, isto é, com grande
superfície de contato entre elas, as Forças de van der Waals tem efeitos importantes. Por exemplo, são
Forças de van der Waals que seguram a lagartixa na parede (Figura 64): os dedos das lagartixas
terminam em milhões de filamentos pequenos, cada um com comprimento de cerca de 100
milionésimos do metro. Essas pequenas estruturas, por sua vez, estão subdivididas em mil partes ainda
menores, invisíveis a olho nu. Quando os répteis pressionam suas patas contra uma superfície, os
filamentos se espalham e cobrem uma área relativamente grande. Como os filamentos aumentam a
superfície de contato, um número maior de Forças de van der Waals atua entre a pata do animal e a
parede, garantindo uma adesão segura.
 
Figura 64: Filamentos existentes na pata da lagartixa
 
 
 
 
 
 
 
.  42 . 
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Propriedades Físicas: Ponto De Fusão, Ponto De Ebulição E Solubilidade.
Ponto de fusão
Ponto de fusão (P.F.) é a passagem de uma substância do estado sólido para o líquido. Quando estão
no estado sólido, as substâncias estão arrumadas ordenadamente em um cristal, ou seja, estão bem
pertinho umas das outras. Em outras palavras, as atrações entre elas estão maximizadas. Para que
elas fundam (passem para o estado líquido), as atrações intermoleculares devem ser enfraquecidas (o
que ocorre com o aquecimento), para que elas se mexam mais livremente, embora continuem sendo
atraídas entre si. Assim, quanto mais fortes forem as interações intermoleculares, mais difícil vai ser
separar as substâncias umas das outras, e então temos que aquecer mais, ou seja, maior vai ser o ponto
de fusão. Por causa disso, os sais (compostos com ligações iônicas) tipicamente fundem em
temperaturas muito maiores que compostos polares (com interações dipolo-dipolo), que, por sua vez,
fundem em temperaturas maiores que compostos apolares (com interações do tipo van der Waals). Isso
pode ser visto na tabela abaixo:
 
NaCl  P.F. = 801o
C Ligaçoes iônicas 
H2O  P.F.= 0o
C Ligação hidrogênio 
H
O
 
P.F. = ‐99o
C Dipolo‐Dipolo 
 
P.F. = ‐130o
C Forças de van Der Waals. 
 
Tabela 3
 
Ponto de Ebulição
Já o Ponto de Ebulição (P.E.) é a temperatura em que um composto passa do estado líquido (no qual as
moléculas estão mais afastadas) para o gasoso (no qual as moléculas estão mais afastadas ainda. No
estado gasoso praticamente não existem interações intermoleculares), isto é, é a temperatura em
que o composto ferve. Novamente, o que vai definir o grau de aproximação entre as moléculas são as
interações intermoleculares. Quanto mais fortes forem essas interações, mais alto vai ser o ponto de
ebulição. Observe os dois compostos mostrados na figura abaixo:
 
 
 
 
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P.E. = 39o
C P.E. = 117o
C
O
OH
 
Figura 65
Repare que os dois têm o mesmo no
de átomos de carbono, oxigênio e hidrogênio (lembrem-se: têm a
mesma fórmula molecular – C4H10O e, então, são isômeros), mas o primeiro tem um ponto de ebulição
muito menor que o segundo. Por quê? Porque no primeiro caso, as interações intermoleculares são
principalmente do tipo dipolo-dipolo, mais fracas que no segundo exemplo, no qual as moléculas
interagem entre si principalmente por ligações hidrogênio. Ora, se as moléculas estão unidas por uma
ligação mais forte, eu vou ter que dar mais calor para romper essas interações. Em outras palavras, o seu
ponto de ebulição é maior.
Solubilidade
Solubilidade é outra propriedade física que depende das interações intermoleculares. Mas, a coisa aqui
é um pouco diferente do que a gente viu para os pontos de fusão e ebulição, pois agora vamos misturar
moléculas de tipos diferentes, as moléculas do soluto e do solvente. Por exemplo, quando a gente
prepara “água com açúcar” o que fazemos é misturar as moléculas do açúcar (o soluto) com a água (o
solvente). A esse processo nós damos o nome de dissolução.
O que ocorre no processo de dissolução é que as interações intermoleculares existentes entre as
moléculas do soluto-soluto são substituídas por interações entre as moléculas do soluto - solvente.
Vamos então imaginar as situações que podem ocorrer:
1. Se o meu soluto é polar, ele deve fazer entre si interações, por exemplo, dipolo-
dipolo. Será que um solvente apolar, que faça tipicamente ligações tipo van der
Waals vai conseguir separar as interações dipolo-dipolo, mais fortes? Não.
2. Mas, se o meu soluto polar for misturado com um solvente polar que faça os
mesmos tipos de interações intermoleculares, aí provavelmente as interações
dipolo-dipolo das moléculas do soluto podem ser separadas e eu teria a dissolução.
3. Se o meu soluto é apolar e eu coloco um solvente polar, será que aí eu consigo
dissolver um no outro? Não, pois agora é o meu soluto que não vai conseguir vencer
as interações intermoleculares da molécula do solvente (não esqueça que as
moléculas do solvente também interagem entre si!).
 
 
 
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4. Já no caso em que tanto o soluto quanto o solvente são apolares ocorre a
dissolução, pois as interações devem ser do mesmo tipo.
A partir dessas observações, pode-se, com cuidado, aplicar uma regra que diz: “semelhante dissolve
semelhante” ou, em outras palavras, “polar dissolve polar e apolar dissolve apolar”. Mas, por que a
gente deve ter cuidado ao aplicar essa regra?
Olhe, por exemplo, a molécula abaixo, chamada ácido linoleico:
 
O
OH
Ácido Linoleico  
Figura 66
O óleo de soja é constituído principalmente de ácido linoleico e mais outras moléculas bem parecidas,
com uma cadeia carbônica grande e um grupo polar no final da cadeia. Aí, a gente poderia pensar: bom,
como tem aquele grupo polar e que faz ligação hidrogênio (repare que tem um hidrogênio ligado ao
átomo de oxigênio), então vai se dissolver em água que também é polar e também faz ligação
hidrogênio. Mas a gente sabe muito bem que se eu misturar água com óleo eles não vão se dissolver!
Ora, o que acontece é que a cadeia carbônica é muito grande e praticamente sem nenhuma polaridade.
Só um pedacinho da molécula tem polaridade, o que não é suficiente para separar as moléculas de
água umas das outras. Temos que nos lembrar sempre (como a gente já falou quando estudamos
polaridade das moléculas) que o tamanho das moléculas tem de ser analisado sempre que formos
avaliar a questão de polaridade e apolaridade.
Bom, até agora nós já estudamos as ligações químicas, o átomo de carbono, as ligações
intermoleculares e, no decorrer disso, vimos vários exemplos de moléculas orgânicas. Já citamos várias
vezes, também, que existe uma infinidade de moléculas orgânicas. Aí, a gente pode se perguntar: como
é que eu vou fazer para estudar e entender as propriedades químicas de todos estes compostos? Não
dá!!!
Felizmente, não é necessário aprender as propriedades químicas de cada composto orgânico
isoladamente. Os químicos orgânicos já perceberam que uma determinada arrumação de átomos leva a
propriedades químicas muito parecidas, independente de como a cadeia carbônica se arruma. Por
exemplo, os dois compostos mostrados na figura abaixo são diferentes, mas tem propriedades muito
parecidas.
 
 
 
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Química Orgânica 
 
OH OH 
 
Figura 67
Por exemplo, a polaridade da ligação O-H e sua capacidade de realizar ligação hidrogênio faz com que
eles tenham pontos de ebulição parecidos e maiores do que, por exemplo, de compostos similares, mas
que só tenham carbono e hidrogênio na sua estrutura.
À medida que formos estudando mais Química Orgânica, vamos perceber que as interações entre
cargas positivas e negativas são um dos fatores mais importantes para que ocorram as reações
químicas. Assim, normalmente as reações ocorrem nos locais polares das moléculas. No exemplo que
estamos discutindo, as reações ocorrem nas ligações O-H e C-O. As ligações C-C e C-H não são muito
reativas. Na realidade, em termos de reações químicas, não faz muita diferença o número ou a forma
com que estão arrumadas as ligações C-C e C-H.
De fato, os compostos mostrados na figura abaixo tem comportamento químico muito semelhante.
 
OH
OH
OH
OH
 
Figura 68
Com isso, em termos de propriedades químicas, as moléculas devem ser vistas como compostas por
duas partes:
Com isso, em termos de propriedades químicas, as moléculas devem ser vistas como compostas por
duas partes:
1) A cadeia carbônica, que como já vimos, tem grande influência nas propriedades físicas (P.E.,P.F.,
solubilidade), mas não interfere muito nas propriedades químicas (como vão reagir, isto é, na
reatividade);
 
 
 
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2) O grupo funcional, que é a parte da molécula responsável pela sua reatividade química. Nos
exemplos que a gente está discutindo todos os compostos têm o grupo funcional O-H, mas diferentes
cadeias carbônicas (que a gente vai representar por R). Assim, todos os compostos do nosso exemplo
são alcoóis (compostos orgânicos cujo grupo funcional é o OH) e são representados como ROH. Todos
os alcoóis têm reatividade química semelhante.
Esse conceito é muito importante e geralmente organizamos o estudo da Química Orgânica por grupo
funcional. Assim, a partir de agora vamos estudar com mais detalhes os principais grupos funcionais. A
tabela abaixo mostra os grupos funcionais que vão ser apresentados a partir de agora:
FÓRMULA GENÉRICA EXEMPLO NOME
RH ALCANOS (na realidade, alcanos
não possuem grupo funcional).
RCH=CHR (estes R podem ser
hidrogênio)
ALCENOS (o grupo funcional é a
ligação dupla C=C).
RR (estes R podem ser
hidrogênio)
ALCINOS (o grupo funcional é a
ligação tripla CΞC).
ArH ARENOS (um ciclo de seis átomos
de carbono com três ligações
duplas tem reatividade química
diferente dos alcenos e assim são
outro grupo funcional,
representados por Ar. Arenos,
também chamados de anéis
aromáticos, podem ter grupos
alquil ou outros grupos funcionais
ligados ao anel aromático).
RX (X é a letra que usamos em
Química Orgânica para
representar os halogênios)
Cl HALETOS DE ALQUILA
(O grupo funcional é a ligação C-
Halogênio).
ROH OH ALCOÓIS (o grupo funcional é o O-
H).
ArOH OH FENÓIS (quando o O-H está ligado
a um anel aromático, a reatividade
muda muito em comparação com
os alcoóis e então é outro grupo
 
 
 
.  47 . 
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funcional).
ROR O ÉTERES (o grupo funcional é C-O-
C).
RNH2 NH2 AMINAS (o grupo funcional é o
NH2. Estes dois hidrogênios
podem ser substituídos por outros
grupos alquil).
R
O
H O
H ALDEÍDOS (o grupo funcional é o
C=O, com pelo menos um
hidrogênio ligado ao carbono).
R
O
R
O CETONAS (o grupo funcional é o
C=O, com dois grupos alquil – ou
anel aromático - ligados ao
carbono).
R
O
OH H
O
OH
ÁCIDOS CARBOXÍLICOS (o grupo
funcional é o COOH).
R
O
Cl
O
Cl
CLORETOS DE ÁCIDO (o grupo
funcional é o COCl).
R
O
O
O
R
O
O
O ANIDRIDOS DE ÁCIDOS (o grupo
funcional é COOCO).
R
O
OR
O
O
ÉSTERES (o grupo funcional é
COOR).
R
O
NH2
O
NH2
AMIDAS (o grupo funcional é o
CONH2. Os hidrogênios ligados ao
nitrogênio podem ser substituídos
por alquil ou anel aromático).
RCΞN C
N
NITRILAS (o grupo funcional é o
CN).
 
Tabela 4
 
 
 
 
 
 
.  48 . 
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Funções Orgânicas
1. Hidrocarbonetos
Hidrocarbonetos, como o próprio nome já diz, são compostos que possuem apenas carbono e
hidrogênio em sua estrutura. O esquema abaixo mostra a classificação dos hidrocarbonetos:
 
HIDROCARBONETOS
ALIFÁTICOS
ALCANOS (ou parafinas)
CnH2n+2
ALCENOS (ou alquenos ou olefinas)
CnH2n
ALCINOS (ou alquinos)
CnH2n-2
ALICÍCLICOS
CICLOALCANOS
CICLOALCENOS
CICLOALCINOS
R-H
AROMÁTICOS
Ar-H
 
Figura 69
A gente conhece por aromáticos um grupo especial de hidrocarbonetos, que tem propriedades muito
diferentes devido às suas características estruturais. Daqui a pouco nós veremos um pouco mais quais
são essas características. Por enquanto, aqui estão duas regras que devemos aplicar para saber se um
composto é aromático:
- Os compostos aromáticos sempre são cíclicos e têm ligações duplas alternadas com ligações simples
em toda a volta do anel E:
- Todo composto aromático tem um número tal de elétrons π (cada ligação dupla tem dois elétrons π),
que se a gente aplicar a fórmula 4n+2 = no
de elétrons π, a resolução dessa equação deve dar, para os
compostos aromáticos, um valor de n inteiro (essa regra a gente conhece por Regra de Huckel).
 
 
 
.  49 . 
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Analise, por exemplo, a Figura 70. Os dois primeiros compostos são aromáticos, enquanto o terceiro,
apesar de ser cíclico e possuir ligações duplas alternadas, não é aromático, pois n na regra 4n+2 = no
de
elétrons π não é um no
inteiro. Já o quarto exemplo não é aromático, porque as ligações duplas não
estão em toda a volta do anel.
 
3 ligações duplas = 6 elétrons π
4n + 2 = 6
4n = 4
n = 1 (no.
inteiro)
5 igações duplas = 10 elétrons π
4n + 2 = 10
4n = 8
n = 2 (no.
inteiro)
4igações duplas = 8elétrons π
4n + 2 = 8
4n = 6
n = 6/4 (no.
não inteiro)
AROMÁTICO AROMÁTICO
ALIFÁTICO
3 ligações duplas = 6 elétrons π
4n + 2 = 6
4n = 4
n = 1 (no.
inteiro)
ALIFÁTICO  
Figura 70: Exemplos de aplicação da regra de Hückel.
 
Alcanos
Os alcanos são os hidrocarbonetos saturados de fórmula geral CnH2n+2.
Os alcanos ocorrem na natureza em depósitos de gás natural e no petróleo. O gás natural é constituído
principalmente de metano (CH4) e o petróleo é uma mistura complexa de vários hidrocarbonetos. Como
esses hidrocarbonetos presentes no petróleo têm aplicações muito diferentes, a gente precisa separar
o petróleo em misturas mais simples (dizemos que separamos o petróleo em várias frações, cada uma
delas com utilizações diferentes). Essa separação é feita por destilação e, no caso do petróleo, essa
destilação recebe o nome específico de refinação (refinaria de petróleo é o local onde se faz essa
destilação). Todas as frações obtidas no refinamento do petróleo contêm alcanos.
 
 
 
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Os alcanos são compostos apolares e estão entre os menos reativos diante dos reagentes mais comuns
de um laboratório de Química (lembrem-se que nós já comentamos que a reatividade normalmente 
está associada à existência de ligações polares nas moléculas). O próprio nome parafina, outra
designação usada para os alcanos, vem de uma expressão latina que significa “pouca afinidade”.
Mas a gente tem que tomar cuidado quando dizemos “pouco reativos”. Estamos nos referindo
basicamente a reações químicas nas quais misturamos duas ou mais substâncias com o intuito de obter
outras substâncias diferentes. Para isso, realmente, os alcanos não são muito utilizados.
Por outro lado, os alcanos sofrem reações de combustão – queima na presença de oxigênio ––
(Esquema 1), e essa é uma das reações mais praticadas por todos nós. Realizamos reações de
combustão quando acendemos um fogão a gás, ligamos um motor a gasolina, acendemos um isqueiro
Mas, reparem: o “produto” que a gente quer nessas reações é o calor (ou melhor dizendo, a energia) e
não o dióxido de carbono (CO2) e água.
 
CnH2n+2 + O2 CO2 + H2O + CALOR  
Esquema 1: Reação de combustão
 
Outra reação que a indústria petroquímica (indústria que utiliza as frações do petróleo como matéria-
prima) realiza muito com os alcanos é a chamada pirólise (quebra pela ação do calor) ou
craqueamento. Como a gente já viu, o petróleo dá origem a muitos produtos diferentes, mas a
quantidade em que esses produtos se encontram no petróleo em geral não atendem às necessidades
do mundo atual. Assim, as indústrias pegam as frações do refino que têm hidrocarbonetos mais
pesados (frações que destilam com P.E. maior que o da gasolina) e quebram esses hidrocarbonetos em
moléculas menores (mais leves), isto é, fazem o craqueamento para obter mais gasolina e outros
hidrocarbonetos menores e assim atender à demanda do sistema de consumo atual.
Bem, agora, antes da gente começar a ver as outras funções orgânicas, precisamos aprender a dar
nomes aos compostos orgânicos. Por quê?
Vamos imaginar como nós nos comunicaríamos se as coisas não tivessem nomes. Seria impossível
transmitir nossas ideias ou dúvidas ou esclarecimentos! E lógico, os nomes têm que ser palavras. Mas a
gente podia pensar: já que as fórmulas estruturais constituem uma perfeita identificação para cada
substância, por que os químicos não dispensam os nomes formados por palavras e utilizam as fórmulas
 
 
 
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Química Orgânica 
estruturais na comunicação em suas várias formas? Mas isso é impossível! Teríamos, no mínimo, que
decorar todas as estruturas. Além disso, tente, por exemplo, descrever a palitoxina (Figura 41), aquela
substância enorme isolada de corais e que fomos apresentados quando aprendíamos a desenhar
fórmulas estruturais em bastão, sem usar o seu nome. Conseguiu? Claro que não.
Por conta disso, os químicos perceberam que deveria ser desenvolvido um sistema organizado, um
conjunto de regras, para dar nomes às substâncias. A IUPAC (International Union of Pure and Applied
Chemistry) assumiu a responsabilidade de recomendar um sistema para nomear as substâncias. Na
realidade, a gente não diz que um composto possui nome: o termo correto é nomenclatura. Dar nome
a um composto orgânico consiste em nomenclaturar ou nomenclar esse composto.
Obs.: A União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) tem por objetivo intermediar
mundialmente aspectos das ciências químicas e contribuir para a aplicação da Química ao serviço da
humanidade. Por ser uma organização internacional, não governamental, a IUPAC atua como referência
em questões globais que envolvem as ciências químicas.
 
Em princípio, a nomenclatura utilizada para os compostos orgânicos tem como parâmetros três
aspectos de relevância:
1) Todo composto orgânico possui átomos de carbono.
2) Suas cadeias podem ou não apresentar ligações π entre átomos de carbono e podem ser cíclicas ou
não.
3) Os compostos orgânicos são classificados segundo o grupo funcional presente na molécula.
A partir dessas características pode-se estabelecer a base para a nomenclatura de qualquer substância
orgânica. Observe o esquema a seguir:
Composição da nomenclatura orgânica:
 
 
O prefixo encontra-se associado ao número de átomos de carbono existentes na cadeia principal do
composto.
O intermediário indica se a substância possui somente ligações simples entre os átomos de carbono ou
se há também a presença de duplas ou triplas ligações entre esses.
PREFIXO + INTERMEDIÁRIO + SUFIXO
 
 
 
.  52 . 
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O sufixo indica a que função pertence a substância.
Os prefixos que indicam o no
de carbonos estão mostrados na tabela a seguir:
 
Número de átomos de carbono Prefixo
1  met 
2  et 
3  prop 
4  but 
5  pent 
6  hex 
7  hept 
8  oct 
9  non 
10  dec 
11  undec 
12  dodec 
Tabela 5: Prefixos utilizados para a designação do no
de átomos de uma cadeia carbônica.
 
O prefixo correspondente aos compostos até quatro carbonos (Met, Et, Prop e But) infelizmente tem
de ser decorados, pois são nomes mantidos por tradição, sem nenhum aspecto lógico. Os outros
prefixos são de origem grega ou latina, tem correlação com o número e são os mesmos usados para as
figuras geométricas.
Quando se tratar de um composto cíclico, antes desses prefixos que indicam o no
de átomos de carbono
colocamos a palavra ciclo.
O intermediário nos diz se o composto possui ligação dupla ou tripla, conforme mostrado na tabela
abaixo:
 
 
 
.  53 . 
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Ligações entre os átomos de carbono Intermediário
C C
 
an 
C C
 
en 
C C
 
in 
 
Tabela 6: Designações usadas para a indicação do no
de insaturações em uma cadeia carbônica.
 
Cada função orgânica é nomenclaturada por um sufixo específico. À medida que formos conhecendo
essas funções seremos apresentados ao sufixo usado para designá-las.
Para os alcanos, usa-se o sufixo “ano”, conforme exemplificado na figura a seguir:
 
CH4 Metano
Etano
Propano
Butano
Met signif ica que tem um carbono
Ano signif ica que só tem ligação e é um alcano.
Ciclo-propano
Ciclo-butano
 
Figura 71
Quando nós aprendemos sobre cadeias carbônicas vimos que elas podem ser ramificadas. Vamos ver
agora como fazemos para dar a nomenclatura dos compostos que possuem ramificação.
As ramificações são designadas genericamente de grupo alquil, alquenil, alquinil ou aril, em função do
tipo de hidrocarboneto que lhes deram origem. Grupos alquil são partes da estrutura molecular que
correspondem a um alcano menos um hidrogênio. Assim, ao metano (CH4) corresponde o grupo metila
 
 
 
.  54 . 
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(CH3), ao etano (C2H6) corresponde o grupo etil (C2H5) e assim sucessivamente. A tabela abaixo mostra
alguns exemplos de nomenclatura dos grupos alquil, onde o traço mostra o átomo que se liga à cadeia
carbônica principal:
 
ALCANO  NOMENCLATURA GRUPO ALQUIL  NOMENCLATURA 
CH4  Metano  ‐CH3   METIL 
 
Etano  CH3CH2 ‐  ETIL 
 
Propano  CH3CH2CH2‐ 
 
n‐PROPIL 
iso‐PROPIL 
(ou sec‐PROPIL) 
 
Butano  CH3CH2CH2CH2‐ 
 
n‐BUTIL 
sec‐BUTIL 
 
Iso‐Butano 
 
CH3CCH3
CH3
 
iso‐BUTIL 
 
terc‐BUTIL 
 
Tabela 7: Nomenclatura utilizada para a designação de grupos alquil.
 
 
 
 
 
 
 
Observem que no caso do propano, e para todos os alcanos com mais de três carbonos, o
alcano pode “perder hidrogênio” de carbonos distintos, gerando grupos alquil diferentes
que, lógico, pois são coisas diferentes, devem ser nomenclaturados de forma diversa. A
recomendação IUPAC para esses casos é mais complexa e acabamos usando nomes triviais,
como, por exemplo, iso-propil. Denominamos nomenclatura trivial ou vulgar aquela
consagrada pelo uso, mas que, na maioria das vezes, não é consagrada pela IUPAC.
Assim, quando a gente coloca a letra n na frente da nomenclatura do radical alquila, estamos
dizendo que a ligação à cadeia carbônica se faz no carbono primário. Se for ao carbono
secundário usa-se sec e no terciário usa-se terc.
O termo iso significa “grupamento igual”. Observe que no isopropil o carbono que se liga à
cadeia carbônica possui duas metilas (dois grupamentos iguais) ligadas a ele.
 
 
 
.  55 . 
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Química Orgânica 
Para nomenclaturar um alcano ramificado, o primeiro passo é definir quem é a cadeia principal. Já
vimos que é a maior cadeia contínua (linear) que for possível encontrar na estrutura. É bom sempre
lembrar que “linear” é uma forma de dizer. A cadeia dos alcanos são arrumadas em zigue-zague com os
ângulos entre as ligações de cerca de 109,5o
.
Depois de localizarmos a cadeia principal, precisamos dizer em quais carbonos estão os substituintes.
Para isso, a cadeia carbônica é numerada começando pela extremidade que resultará em menores
números para as posições em que há substituições. A figura abaixo (Figura 72) mostra como aplicamos
essa regra:
1
2
3 4
123
4
1
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
2
3
4 5
6 7
8
9
10
1
12
2
3
4
5
3
45
6
7
8
6
7
8
CORRETO ERRADO
SUBSTITUINTE EM C-2 SUBSTITUINTE EM C-3
SUBSTITUINTES EM
C-4 E C-6
SUBSTITUINTES EM
C-5E C-7
DOIS SUBSTITUINTES EM
C-3 E UM EM C-6
DOIS SUBSTITUINTES EM
C-6 E UM EM C-3
 
Figura 72: Método para a determinação da cadeia principal de um alcano.
 
Depois de localizados os substituintes, a nomenclatura é feita da seguinte forma: grupo alquil,
precedido da numeração do carbono em que ele se encontra, seguido do nome do alcano. Assim, a
nomenclatura do primeiro exemplo mostrado seria:
 
 
 
 
 
.  56 . 
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Química Orgânica 
 
   
 
 
Figura 73
Algumas pessoas usam os números para indicar a posição do substituinte apenas quando ele é
realmente necessário. Observem o exemplo acima: só há uma possibilidade de colocação do grupo
metil e, assim, não está errado dizer apenas metilbutano.
Já no exemplo:
A numeração é imprescindível, pois se dissermos apenas
metil-pentano não teremos como saber se o composto é o 2
ou o 3-metil-pentano:
 
 
 
 
Quando existem dois ou mais substituintes diferentes, esses devem ser colocados em ordem alfabética
e não de numeração. Assim, no segundo exemplo, teríamos:
 
E não 4-metil-6-etildecano (afinal, o “e” vem antes do “m”).
 
 
 
 
1
23
4
2-metilbutano 
Usa‐se hífen para separar o número 
e o nome todo é escrito como uma 
única palavra.  
123
4
5
2-metilpentano 
1
2
34
5
3-metilpentano 
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
6-etil-4-metildecano
Figura 74
Figura 75
Figura 76
 
 
 
.  57 . 
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Química Orgânica 
Se os substituintes forem iguais, usamos os prefixos multiplicativos: di, tri, tetra... mas esses não são
considerados na colocação em ordem alfabética. Veja isso na nomenclatura das moléculas mostradas
abaixo:
   
 
 
 
A segunda classe de grupos funcionais que vamos estudar é a dos alcenos. No entanto, essas
substâncias possuem algumas características estruturais que só vamos compreender após estudarmos
outro fenômeno muito importante, que é o de isomeria.
Isomeria
Isômeros são compostos diferentes que possuem a mesma fórmula molecular. Como exemplo, com a
fórmula molecular C2H6O podemos desenhar duas moléculas:
 
 
 
Figura 79
Evidentemente, já estamos cansados de saber que são compostos distintos. O primeiro é o álcool
etílico, o álcool encontrado na cerveja, que é um líquido. O segundo, o éter metílico, é um gás que tem
sido testado como gás refrigerante em substituição aos freons (freons são compostos orgânicos
halogenados que eram utilizados como gases refrigerantes em “sprays”, geladeiras e cujo uso
indiscriminado levou à formação do buraco de ozônio). Esses dois compostos são isômeros.
Os isômeros podem ser de dois tipos: isômeros de constituição e estereoisômeros.
1
2
3
4
6
7
8
3,3,6-trimetiloctano 1
2
3
456
78
9
6-etil-4,4-dimetilnonano
 
OH
O
 
Figura 77
Figura 78
 
 
 
.  58 . 
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Química Orgânica 
Isômeros de constituição são isômeros cuja sequência de átomos ligados (quem se liga com quem)
são diferentes. Alguns livros mais antigos costumam chamar esse tipo de isomeria de “isomeria plana”.
Esse termo deve ser evitado, pois como já estamos carecas de saber, os alcanos, por exemplo, não tem
nada de planaridade! A Figura 80 mostra exemplos de isômeros de constituição.
C5H12
Observe que o primeiro composto não
possui ramificação, enquanto o segundo tem uma
metila no C-2.
C6H12
Note que o primeiro composto é um alceno
e o segundo é um ciclo-alcano
O
O
C4H10O
Veja que no primeiro composto o oxigênio
está ligado a dois grupos etil e no segundo está ligado
a um metil e um propil.
 
Figura 80: Exemplos de isômeros de constituição
 
Antigamente, a isomeria constitucional era classificada em vários subtipos. No entanto, como isso é
motivo de várias confusões devido a interpretações diferentes, a tendência tem sido a de abandonar
essa subdivisão. No entanto, como tem gente que ainda usa, devemos entender o que é, caso apareça
em algum texto. Vamos ver como se faz essa classificação:
 
Isomeria de função
Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular que pertençam a funções químicas distintas,
como exemplificadas abaixo:
 
 
 
 
Figura 81
OO
H
ALDEÍDO CETONA
 
 
 
.  59 . 
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Química Orgânica 
Isomeria de cadeia ou de núcleo
Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular e mesma função química que possuam cadeias
carbônicas distintas:
 
CADEIA NORMAL CADEIA RAMIFICADA  
Figura 82
Isomeria de posição
Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular, mesma função química e mesma cadeia
carbônica, porém, que possuam diferenças entre si na posição de grupamentos funcionais, ramificações
ou insaturações.
Figura 83
Isomeria de compensação ou metameria
Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular e mesma função química, em que o heteroátomo
encontra-se em diferentes posições.
O
O
OXIGÊNIO LIGADO
A METIL E PROPIL
OXIGÊNIO LIGADO
A DOIS ETIL
Figura 84
OH
OH
GRUPO FUNCIONAL
NO C-1
GRUPO FUNCIONAL
NO C-2  
RAMIFICAÇÃO
EM C-2
RAMIFICAÇÃO
EM C-3  
 
 
 
.  60 . 
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Estereoisômeros, por outro lado, são isômeros que possuem a mesma conectividade (a sequência dos
átomos ligados na molécula são exatamente as mesmas), mas cujas estruturas variam na forma com
que se arrumam no espaço.
Os estereoisômeros podem ser de dois tipos: enantiômeros e diastereoisômeros.
Qualquer coisa tem uma imagem no espelho (exceto os vampiros, é claro!). E qualquer coisa só é igual a
outra se essas imagens forem sobreponíveis. As mãos são exemplos clássicos de imagens especulares (a
mão esquerda é a imagem no espelho da mão direita e vice-versa) que não são sobreponíveis, e a nossa
mão direita não é igual à esquerda (Figura 85). As coisas que não são sobreponíveis à sua imagem
especular são denominadas quirais (quiral, em grego “cheir”, quer dizer mão).
Isso também é verdade para as moléculas. Sempre que uma molécula for diferente de sua imagem
especular, isto é, se as duas não forem sobreponíveis, temos um tipo de estereoisomeria que
denominamos de enantiomeria (e dizemos que as duas moléculas são enantiômeros).
Observe as moléculas abaixo (imagens especulares entre si) e veja que elas não são sobreponíveis:
 
Figura 85
Quaisquer outros tipos de compostos que sejam isômeros espaciais (estereoisômeros), mas que não são
imagem especular um do outro são ditos diastereoisômeros. Olhe, por exemplo, as duas moléculas
abaixo:
 
Br Br
Figura 86
 
 
 
.  61 . 
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Convençam-se de que elas são enantiômeros. Uma é a imagem especular da outra e são compostos
diferentes. Agora, olhem esta:
Br
Figura 87
Não é imagem especular de nenhuma das outras duas. Mas, a sequência de átomos das três são
idênticas. Logo, essa última é um diastereoisômero (isômero espacial que não é a imagem especular) de
cada uma das outras duas.
Um tipo especial de diastereoisômeros são os chamados isômeros geométricos.
Como a gente já viu, as ligações π ocorrem por sobreposição paralela de orbitais p. Por causa disso, elas
não giram livremente, pois a ligação dupla se quebraria. Analise a molécula do n-butano:
Como a ligação σ se faz pela interação linear segundo
um eixo, as ligações têm rotação livre e o n-butano está
o tempo todo se interconvertendo nas duas formas
espaciais mostradas no desenho (representado pelas
duas setas em sentido contrário). Isto é, as duas formas
são representações da mesma molécula. 
Já no caso do 2-buteno: , como essa rotação é impossível, não ocorre uma
interconversão de um no outro. São duas moléculas diferentes. São dois diastereoisômeros.
Diastereoisômeros que existem por causa da impossibilidade de rotação de suas ligações são
denominados isômeros geométricos.
Observe agora os ciclos abaixo:
Rotação livre Rotação livre
n-Butano  
Figura 88
 
 
 
.  62 . 
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Química Orgânica 
 
 
Figura 89
 
Esses sistemas cíclicos, embora não tenham ligação π, também não tem rotação livre por conta da
própria geometria do anel. Preste atenção que seria impossível eu colocar um grupo alquil que está
para frente do plano do tetraedro (lembra-se do que significa a linha grossa?) para trás desse plano sem 
quebrar o ciclo. Então, os dois ciclobutanos e os dois cicloexanos mostrados acima também são
exemplos de isômeros geométricos.
Bem, agora, depois dessa pausa para entender o que são isômeros, vamos retornar ao estudo das
funções orgânicas.
Alcenos (Ou Alquenos) Ou Olefinas
Alcenos são hidrocarbonetos que possuem uma ou mais ligações duplas em sua estrutura, ou seja, o
grupo funcional (parte da molécula que é responsável por suas propriedades químicas) de um alceno é
a C=C. O eteno, alceno mais simples que existe: H2C=CH2, por exemplo, reage com cloro ou bromo
formando compostos oleosos. Por causa disso, logo que se descobriu a propriedade desse composto,
ele recebeu o nome de gás oléfiant que significa “gás fazedor de óleo”. A extensão desse nome para
todos os compostos dessa classe é que explica o termo olefinas, sinônimo de alcenos.
Os alcenos mais simples (com apenas uma ligação dupla) são mais raros na natureza que os alcanos. O
eteno (também conhecido por etilideno) é produzido no processo de amadurecimento de frutas.
Quando a gente quer que a banana amadureça mais rapidamente, a embrulhamos em jornal para que o
eteno que vá sendo liberado, aos poucos se dissipe mais lentamente. Por questões de facilidade de
transporte e de armazenamento, as frutas são colhidas verdes e colocadas para amadurecer pela ação
do gás eteno.
 
 
 
.  63 . 
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Química Orgânica 
Apesar dos alcenos serem mais difíceis de ser encontrados na natureza, são matéria-prima fundamental
para uma porção de indústrias. A obtenção deles é feita pelo craqueamento das frações
mais pesadas obtidas no refinamento do petróleo (se você não se lembra o que é isso, dê uma olhada
mais acima nesse texto, quando falamos dos alcanos).
Essa importância dos alcenos é porque as ligações C=C reagem entre si formando polímeros. Polímeros
são moléculas enormes (macromoléculas) obtidas por ligações de várias moléculas menores
(monômeros), que podem ou não ser iguais (quando os monômeros não são iguais são chamados de
copolímeros). No mundo de hoje, os polímeros com certeza são o material mais importante para a
confecção de várias coisas. A Figura 90 mostra alguns exemplos.
 
 
MONÔMERO POLÍMERO APLICAÇÃO (exemplo)
Propeno
(Nome comum=Propileno)
Polipropileno
Seringa de Injeção
Brinquedos
Auto-peças
(parachoque,pedais,..)
Eteno
(Nome comum=Etileno) Polietileno
Sacola plástica de
supermercado
Garrafa térmica
Frasco de detergente
Cl
2-cloro-eteno
(Nome coum = cloreto de vinila)
Cl Cl Cl Cl Cl
Policloreto de vinila (PVC)
Encanamentos
Filmes plásticos para
embalagem de alimentos
Garrafões de água
 
Figura 90: Exemplos de polímeros e suas aplicações
 
As regras de nomenclatura que a gente aprendeu para os alcanos serve de base para o caso dos
alcenos, mas temos que prestar atenção em vários aspectos em que há diferenças:
‐ A cadeia principal de um alceno é a maior que contém a ligação dupla.
 
 
 
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Química Orgânica 
Por exemplo,  no                                      , a cadeia principal é a que está destacada com vermelho,
com seis carbonos, e não a outra que possui oito carbonos.
 
 
‐ A cadeia principal é sempre numerada a partir da extremidade mais próxima à ligação dupla.
- A parte do nome que se refere à cadeia principal é formada de maneira parecida com a utilizada para
os alcanos, com duas diferenças:
- Ao invés de “ano” usamos o sufixo “eno”.
- Precisamos especificar a posição da ligação dupla, o que é feito por um número que deve ser colocado
imediatamente antes da terminação “eno”. A Figura 92 mostra alguns exemplos da nomenclatura de
alcenos:
 
1
2
3 4
5
6
ETENO PROPENO BUT-1-ENO BUT-2-ENO
2-METIL-PROPENO
21 3
2
4
1
3
2
41 3
2,3-DIMETIL-BUT-1-ENO
24
1
3
3-METIL-CICLOEXENO 
Figura 92: Exemplos de aplicação das regras de nomenclatura em alcenos
 
 
 
1
2 3
4
5
6
NOTA: A colocação do no
que indica a posição da ligação dupla imediatamente antes do sufixo
“eno” é a recomendação da IUPAC. Porém, muitas vezes você irá encontrá-la no início ou no fim
da cadeia principal. Por exemplo, tem gente que escreve 2-buteno ou ainda buteno-2. Isso não é
problema. O importante na nomenclatura é que ela nunca permita que você fique em dúvida
sobre qual é a estrutura do composto.
Figura 91
 
 
 
.  65 . 
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Quando a ligação dupla é um substituinte (grupo alquenil), usa-se o sufixo “enil”, como se pode ver na
Figura 93:
METENIL-CICLOEXENO ETENIL-BENZENO 
Figura 93: Exemplos de nomenclatura de grupos alquenil.
 
 
Os grupos alquenil mostrados abaixo são muito mais conhecidos por sua nomenclatura normal do que
pela estabelecida pelas regras da IUPAC (Figura 94):
 
 
Figura 94: Nomenclatura comum (trivial) de grupos alquenil
 
Isomeria Cis X Trans
Nós já vimos que a impossibilidade de rotação da ligação π faz com que os alcenos do tipo:
e
 sejam moléculas diferentes. Mas, como dar a nomenclatura delas para
que a gente possa saber quem é quem?
Quando dois substituintes iguais estão do mesmo lado, dizemos que a molécula é cis. Quando estão de
lados opostos, dizemos que a molécula é trans. Assim, teríamos:
 
C H 2
M E T ILE N O ou M E T ILID E N O M e tilen o -C iclop e n tan o
C H C H 2
V IN IL
V in il-b en ze n o
E sta m o lécu la é m a is co n he cid a
a in da co m o e stire no
C H C H 2
A L IL
H 2C
A lil-ciclo -he p ta no
 
 
 
 
.  66 . 
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trans-But-2-eno cis-But-2-eno
trans-Hex-3-eno cis-Hex-3-eno  
Figura 95
 
Pode não parecer tão óbvio, mas é claro que só existe isomeria cis x trans quando temos dois tipos de
substituintes no carbono da ligação dupla e que cada um deles seja diferente entre si. Repare nos
exemplos abaixo:
 
1-propeno
Não existe isomeria cisx trans porque o C-1 está ligado a
dois hidrogênios - substituintes iguais.
Não existe isomeria cisx trans porque o C-1 está ligado a
duas metilas - substituintes iguais.
2-metil-but-2-eno  
Figura 96
Mas, a nomenclatura cis x trans é muito fácil quando os substituintes são iguais. E, essa molécula é cis ou
trans?
 
 
 
Figura 97
 
 
 
 
 
.  67 . 
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Química Orgânica 
Isso antigamente causava muita confusão. Afinal, são três substituintes diferentes! Por conta disso,
criou-se a nomenclatura E, Z para ser aplicada a isômeros geométricos de alcenos e ela é feita da
seguinte maneira:
Em cada carbono da ligação dupla a gente analisa qual substituinte tem maior peso atômico. Quando
os substituintes de maior peso atômico estão para o mesmo lado, diz-se que a molécula é Z (essa letra
vem da palavra alemã “zusammen”, que quer dizer junto. Uma brincadeira fácil de guardar é: Z significa
“zunto”). Caso contrário, a molécula é E (do alemão “entgegen”, que significa oposto). Essas letras
devem ser colocadas entre parênteses.
Bom, é claro que você está pensando: que coisa doida! Não adiantou nada essa regra, pois nesse
exemplo todos os substituintes do C-1 são carbono de mesmo peso atômico! Bom, como empatou, vai-
se para o átomo do lado. Um substituinte é CH3 (carbono ligado a hidrogênio) e o outro é CH2CH3
(carbono ligado a dois hidrogênios e um carbono). Como o carbono tem maior peso atômico, quem
ganha é o grupo etil. No outro carbono da ligação dupla, um substituinte é carbono (CH3CH2CH2) e o
outro hidrogênio. Quem ganha é o metil. Como o etil de C-1 está do lado oposto ao propil do C-2, a
molécula é E. Veja outros exemplos na Figura 98:
 
(E)-3-metil-hept-2-eno (Z) - 3-metil-pent-2-eno
Cl
Br
I
(Z) - 1-bromo-1-iodo-2-cloro-propeno
 
Figura 98: Exemplos de aplicação da nomenclatura E, Z para alcenos.
 
 
 
 
Atualmente aconselha-se a usar a nomenclatura E, Z para os isômeros geométricos de alcenos, e a cis,
trans para os ciclo–alcanos. Nesse caso, a regra é muito parecida: quando os substituintes (mesmo
diferentes) estão para o mesmo lado (os dois para cima ou para baixo do plano do tetraedro), a
molécula é cis. Se estão em lados opostos, é trans. Alguns exemplos são mostrados a seguir (Figura 99):
NOTA: A nomenclatura E, Z tem outros desdobramentos (por exemplo, quando os
substituintes também são insaturados), mas isso foge aos objetivos deste texto.
 
 
 
.  68 . 
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Química Orgânica 
trans-1,2-dimetil-ciclobutano cis-1,2-dimetil-ciclobutano
trans-1-etil,2-metil-cicloexano cis-1-etil,2-metil-cicloexano  
Figura 99: Nomenclatura de isômeros geométricos em ciclo-alcenos
 
Polienos
Para a designação de compostos com mais de uma ligação π (polienos) usamos os prefixos di, tri, tetra,
como nos exemplos a seguir (Figura 100):
 
Buta-1,3-dieno Octa-1,4,6-trieno Ciclo-octatetraeno 
Figura 100: Nomenclatura de polienos
Os polienos são muito mais abundantes na natureza do que os alcenos com apenas uma ligação dupla.
Olhe alguns exemplos na Figura 101:
 
2,6,101-trimetil-Dodeca-2,6,911-tetraeno
(Nome comum: α-farneseno)
Encontrado na cera que envolve as
cascas de maçã
cis -2-etenil,1-but-1-enil-ciclopentano
(Nome comum: multifideno)
Composto responsável pela atração
sexual em sargaços (tipo de alga marinha)
 
Figura 101: Exemplos de polienos naturais.
 
 
 
.  69 . 
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Química Orgânica 
Em função da posição das ligações duplas, os polienos são classificados em:
- Isolados, que são aqueles em que as ligações duplas são afastadas por um ou mais carbonos
saturados (Figura 102). Eles têm um comportamento químico igual ao dos alcenos, com apenas uma
ligação dupla.
- Alenos (ou cumulados) onde duas ligações duplas são feitas a partir de um carbono sp. Essas duas
ligações duplas são perpendiculares entre si (lembrem-se que os orbitais p são definidos espacialmente
segundo os eixos x,y e z, que são perpendiculares entre si - Figura 102).
- Conjugados, onde as ligações duplas são separadas por apenas uma ligação simples. O termo
conjugação vem da palavra latina “conjugatio”, que significa união (Figura 102).
 
Lim oneno
S ubstância encontrada na laran ja
e resp onsáve l pelo se u cheiro .
D IE N O IS O LA D O
H
H
C C
H
H
P ropa-1,2-dieno
A LE N O
M uito utilizad o com o
rag ente em quím ica orgânica
β - C aroteno
P igm ento encontrado em vários legum es e frutas
com o cenoura, beterraba, m anga e m am ão.É o
precursor da vitam ina-A (se transform a em vitam ina
A no organism o)
P O LIE N O C O N JU G A D O  
Figura 102: Polienos isolado, cumulado e conjugado.
 
Os polienos conjugados recebem uma atenção especial em Química Orgânica devido às suas
características estruturais:
 
 
 
 
 
 
.  70 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
Vamos analisar como estão arrumados os orbitais p na formação das duas ligações π:
 
Como existem orbitais p em todos os carbonos vizinhos, no final ocorre
uma interação também desses orbitais do C-2 e C-3 (em vermelho no
desenho) e a gente diz que os elétrons estão deslocalizados no
sistema de quatro orbitais p. Essa deslocalização eletrônica é um fator
que estabiliza a molécula, isto é, as moléculas que possuem ligações
conjugadas têm um conteúdo energético menor do que os polienos
isolados e os alenos.
 
O exemplo mostrado foi para um dieno, mas isso pode ser estendido a qualquer polieno.
Um polieno natural muito importante é a borracha, que é o produto da coagulação adição do látex da
seringueira (Figura 104). Como a demanda mundial por borrachas com as mais diversas propriedades
de maleabilidade e resistência térmica é grande, além do produto natural não atender em quantidade à
necessidade atual, desenvolveu-se métodos de copolimerização do 1,3-butadieno com vários outros
monômeros, criando vários tipos de copolímeros que conhecemos por borracha sintética.
Borracha natural  
Figura 104
Figura 104: estrutura moléculas da borracha natural (as “cobrinhas” na extremidade da cadeia significam que essas
cadeias estão se repetindo)
 
Sistemas muito conjugados são coloridos. Observe alguns exemplos mostrados na Figura 105. Os
carotenos estão presentes em vários vegetais e causam as cores que variam do amarelo, laranja e
vermelho. A clorofila, substância responsável pela fotossíntese, é a causa da cor verde das plantas. A
melanina é um composto presente principalmente nos nossos olhos, pele, cabelo e pelos. Sua
concentração varia de pessoa para pessoa e é determinada geneticamente: quanto maior ela for, mais
escura será a pele, pelo ou cabelo das pessoas.
=
1
2
3
4
1
2
3
4
 
Figura 103
 
 
 
.  71 . 
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Química Orgânica 
β- Caroteno (cenoura, manga, mamão, beterraba)
O
HO
O OHBixina (urucum)
Licopeno (tomate e melancia)
CAROTENÓIDES:
N N
NN
O
O O
Mg
O
O
Clorofila
O
O
NN
O
Parte da molécula de Melanina
 
Figura 105: Exemplos de polienos conjugados naturais
 
Outra função orgânica que apresenta ligações π é a dos alcinos, que vamos estudar agora.
 
Alcinos (ou Alquinos)
Alcinos são hidrocarbonetos insaturados cujo grupo funcional é a ligação tripla CΞC com fórmula geral
CnH2n-2. Por ser constituída de duas ligações π, a reatividade química deles é muito parecida com a dos
alcenos.
Os alcinos são menos abundantes na natureza, mas existem grandes quantidades de produtos naturais
que contêm, além de outros grupos funcionais, a ligação CΞC. Alguns exemplos são o éster
diidromatricaria, primeiro produto natural contendo ligação tripla isolado (1826) da flor de camomila; a
capilina, existente em crisântemos e com atividade contra fungos; e o icitiotereol, veneno isolado de
 
 
 
.  72 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
sapos dendrobates (também conhecido por sapo-garimpeiro) que causa desde irritações na pele até
convulsões em mamíferos, dependendo da quantidade. Devido a esse efeito, é usado como veneno de
flechas por índios da Bacia do Baixo Amazonas (Figura 106).
 
Figura 106: Exemplos de alcinos naturais.
 
O etino, muito mais conhecido como acetileno: H-CΞC-H, é o alcino mais simples e também o mais
importante no mundo atual. Foi descoberto na Inglaterra (1836) e muito utilizado em iluminação (em
queimadores apropriados, o acetileno produz luz muito mais clara do que qualquer outro combustível).
Devido a sua grande capacidade de queima, liberando muito calor, é o gás utilizado em maçaricos de
solda.
Nas indústrias, é utilizado para a obtenção de outros compostos, que são matérias-primas importantes.
Por exemplo, o cloreto de vinila que, como já vimos, é o monômero do PVC, obtido a partir do acetileno.
O acetato de polivinila (PVA) é um polímero cujo monômero (acetato de vinila) é obtido também a
partir do PVA. A “cola branca” (cola escolar) e a “cola amarela” (cola de madeira) são exemplos de coisas
formadas por PVA (Figura 107).
 
 
 
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Química Orgânica 
O
O
O
O
O
O
PVA
O
O
Acetato de vinila
 
Figura 107: Monômero e polímero de PVA
 
O acetileno, assim como o eteno, também é utilizado para o amadurecimento de frutas.
O acetileno é obtido facilmente a partir do carvão mineral (coque): reação do carvão com óxido de
cálcio (cal virgem) em um forno elétrico (alta temperatura) produz carbeto de cálcio: CaC2 (um produto
sólido, parecido com uma pedra); o carbeto de cálcio, ao reagir com a água produz acetileno (Esquema
2):
CaC2 + 2 H2O HC CH + Ca(OH)2
 
Esquema 2: Obtenção do acetileno
 
Uma propriedade pouco comum do gás acetileno é que ele se decompõe com relativa facilidade
quando comprimido, causando explosões violentas e perigosas. Por causa disso, não é comercializado
na forma de cilindros de alta pressão, como oxigênio, nitrogênio e hidrogênio, etc.; são usados cilindros
de baixa pressão (parecido com os bujões de gás de cozinha, só que bem maiores) que contêm um
material absorvente (geralmente lã de vidro) e acetona: o acetileno é muito solúvel em acetona quando
levemente comprimido e isso permite que grande quantidade de gás seja armazenado sem usar
pressões altas.
A nomenclatura de alcinos é feita da mesma forma que para os alcenos, só que agora usando-se o
sufixo “ino”. A cadeia principal também é a maior cadeia que contiver a ligação tripla, a numeração
dessa cadeia se inicia pela terminação mais próxima à tripla e a numeração se inicia pelo átomo de
carbono que estiver mais próximo da ligação tripla:
 
 
 
 
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Química Orgânica 
Etino Propino Hex-2-ino
3-Propilocti-1-ino  
Figura 108
 
Evidentemente não existe isomeria cis, trans (ou E,Z) em alcinos.
Embora não seja a nomenclatura recomendada pela IUPAC, mais comumente usamos uma nomeação
baseada no acetileno:
 
Dimetil-acetilenoMetilacetileno Isopropil-metil-acetileno 
Figura 109
 
Quando existem no mesmo composto ligações duplas e triplas, normalmente atribui-se a menor
numeração à dupla. No entanto, a decisão deve ser feita em conjunto de duplas e triplas, mesmo que a
tripla fique com menor número que a dupla. Veja os exemplos abaixo:
 
1
2
3
4
56
Hex-1-en- 5-ino
1 2
3 4
5 6
7
8
Octa-(Z) -3,7-dien-1-ino
12
34
56
Hexa-(E)-1,3-dien-5-ino
 
Figura 110
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Química Orgânica 
Aromáticos
O benzeno é um composto muito especial em Química Orgânica. É um composto
extremamente estável e, por causa disso, benzenos substituídos são encontrados
amplamente na natureza e muito utilizados nas indústrias químicas.
 
 
 
O benzeno foi descoberto em 1825 por Faraday (químico inglês, 1791-1867) quando foi isolado como
subproduto da combustão do óleo de baleia usado na iluminação pública das ruas londrinas. Como ele
percebeu que o composto possuía o mesmo no
de átomos de carbono e hidrogênio denominou-o de
“hidrogênio carburetado”. Conta a história que alguns químicos defendiam a ideia de denominá-lo
“feno”, do grego “phainen”, que significa brilho ou brilhar, pois o mesmo havia sido obtido nos resíduos
da queima do gás utilizado para iluminação. Esse nome não pegou, mas é interessante notar que o
grupo aril (da mesma forma que grupo alquil designa o alcano menos um hidrogênio, o grupo aril
significa o aromático menos um hidrogênio) derivado do benzeno: C6H5- é chamado de fenil.
 
Em 1834, Mitscherlich deduziu que a sua fórmula molecular era C6H6 e
denominou-o de benzina, porque observou suas propriedades semelhantes às
do ácido benzoico, já conhecido e isolado da resina do benjoim.
Esses compostos com relação C/H baixa eram tipicamente encontrados em
óleos produzidos por plantas. Por causa disso, os químicos antigos chamavam
esses compostos de "aromáticos", devido ao agradável aroma que, em geral,
essas substâncias possuem. Dessa forma, eles eram distinguidos dos
"alifáticos", compostos onde a relação H/C é bem mais alta, que eram obtidos,
por exemplo, na degradação química de gorduras. Hoje, o termo “aromático”
não possui nenhuma correlação com odor.
 
Mas, somente em 1866 a estrutura correta do benzeno foi proposta por Kekulé, aquele mesmo químico
alemão que definiu Química Orgânica como a Química que estuda os compostos de carbono (lembra-
se?). Aí, fica a pergunta: caramba, por que foi tão complicado (levou muito tempo porque havia muita
discussão) para se descobrir a estrutura do benzeno?
 
Benzeno 
O OH
 
Ácido
Benzóico
 
Figura 111
Figura 112
 
 
 
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Química Orgânica 
O problema é que o benzeno apresenta características químicas muito diferentes do que seria
normalmente de se esperar. Olhe bem a estrutura que foi desenhada: repare que são ligações duplas
alternadas com ligações simples.
Os alcenos (inclusive os polienos) realizam classicamente um tipo de reação: sofrem ataque na ligação
dupla de reagentes ricos em elétrons (chamados eletrófilos. “Filo” significa amigo e então eletrófilo é
um “amigo de elétrons”, isto é, compostos que reagem com quem tem muito elétron, caso das ligações
insaturadas). Esses eletrófilos fazem reações de adição, transformando as ligações duplas em simples,
como no exemplo mostrado abaixo:
 
                
+ Br2
Br
Br  
Figura 113
 
Novamente, por correlação, pensaríamos: as ligações duplas do benzeno vão sofrer reação de adição de
bromo. Mas isso não aconteceu. Além da reação ser mais difícil, precisando do uso de um catalisador
(substância que se adiciona em uma reação só para aumentar a sua velocidade, o catalisador não entra
no produto da reação), o produto foi o de uma reação de substituição de hidrogênio por bromo e não
de adição igual ao dos alcenos:
+ Br2
FeBr3
Br
+ HBr
Catalisador
 
Figura 114
E mais: só se obteve um produto, o que indicava que todas as ligações tinham a mesma reatividade (as
ligações duplas reagiam igual às simples!). Mais tarde, descobriu-se outro fato intrigante: a gente já viu
que ligações simples são maiores que ligações duplas, mas, no benzeno, todas as ligações têm o mesmo
comprimento! Para ser mais preciso, todas medem 1,39 Ao
.
Outra coisa também causava muita surpresa: além da combustão (a estabilidade – conteúdo energético
de uma molécula – pode ser pela quantidade de energia liberada na queima até CO2 e água), outro
 
 
 
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Química Orgânica 
processo de avaliação da estabilidade é o calor de hidrogenação. Para isso, adiciona-se H2 a ligações
duplas e mede-se a quantidade de energia liberada (calor de hidrogenação).
Quando fizeram isso para o cicloexeno, observaram que o calor de hidrogenação era de 28,6 kcal/mol
(lê-se: quilocaloria por mol). Traduzindo: para cada mol de cicloexeno que é hidrogenado são liberadas
28,6 kcal:
+ H2
H
H
28,6 kcal/mol
 
Figura 115
O raciocínio dos químicos foi, então: se o benzeno tem três ligações duplas, eu vou encontrar um calor
de hidrogenação de 28,6 x 3 = 85,8 kcal/mol. Além de novamente ter de se usar um catalisador para
fazer essa reação, encontrou-se um valor de 49,3 kcal/mol, bem menor do que o esperado. Em outras
palavras, o conteúdo energético da molécula do benzeno é menor do que se esperava, isto é, o
benzeno tinha uma estabilidade excepcional.
Com essas características peculiares, várias estruturas cíclicas foram propostas para o benzeno, mas
nenhuma explicava completamente suas propriedades observadas experimentalmente. A estrutura
aceita atualmente baseou-se na proposta de Kekulé que, segundo conta a história, foi enunciada a
partir de um sonho.
“Eu estava sentado à mesa a escrever o meu compêndio, noutro sítio. Virei a cadeira para a lareira e comecei a
dormitar. Outra vez começaram os átomos às cambalhotas em frente dos meus olhos. Desta vez os grupos mais
pequenos mantinham-se modestamente à distância. A minha visão mental, aguçada por repetidas visões desta
espécie, podia distinguir agora estruturas maiores com variadas conformações; longas filas, por vezes alinhadas e
muito juntas; todas torcendo-se e voltando-se em movimentos serpenteantes. Mas olha! O que é aquilo? Um das
serpentes tinha filado a própria cauda e a forma que fazia rodopiava trocistamente diante dos meus olhos. Como
se se tivesse produzido um relâmpago, acordei;...passei o resto da noite a verificar as consequências da hipótese.
Aprendamos a sonhar, senhores, pois então talvez nos apercebamos da verdade". - Augusto Kekulé, 1865” (Texto
retirado do livro : BOYD, E.; MORRISON, R. Mol. In:______. Química orgânica. 12. ed. Lisboa: Fundacao
Calouste Gulbenkian, 1995. cap. 14.3, p. 701.).
 
 
 
 
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Química Orgânica 
Mas, lembrem-se do dito popular: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Muitas pessoas já dizem
que ele sonhou com cobras, mas na sua palestra original ele fala em “movimentos como os da
serpente”. A figura da “cobra mordendo o próprio rabo” é um símbolo relacionado à alquimia
(conhecemos como ouroboro) e que, dentre as várias interpretações dadas a ele, pode representar a
ideia de renovação em um estado mais elevado (e associada a movimento).
Outros historiadores acreditam que o sonho de Kekulé foi uma paródia sobre a “paródia dos macacos”,
que já era bem conhecida na época. Essa ilustração, com ligeiras modificações, apareceu na capa de 
uma revista de gozações alemã, em que zombavam sobre os textos publicados na “Revista da
Sociedade Química Alemã”. Observem que alguns macacos seguram os pés de seus colegas com ambas
as mãos (representando as ligações duplas entre os carbonos) e outros seguram com uma mão só. As
bananas aparecem nas figuras mais modernas, provavelmente indicando os átomos de hidrogênio.
Kekulé propôs, então, que o benzeno consistia de um sistema cíclico com seis átomos de carbono e que
ocorria um equilíbrio rápido (ou seja, uma molécula se transformava quase que instantaneamente uma
na outra; o equilíbrio químico é sempre representado por duas setas em sentidos contrários) de tal
modo que não se podia distinguir as ligações:
 
Figura 116
Hoje em dia sabe-se que não é um equilíbrio. Vamos ver a arrumação dos orbitais, que fica mais fácil
entendermos: 
 
   
 
 
Figura 117
1 2
3
4
5
6
 
 
 
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Hoje em dia sabe-se que não é um equilíbrio. Vamos ver a arrumação dos orbitais, que fica mais fácil
entendermos:
Da mesma forma que a gente já viu para os polienos conjugados, os elétrons não estão fixos em cada
uma das ligações π. Αfinal, olhando para o desenho ao lado, por que os elétrons iriam escolher o que
está à sua direita e não à sua esquerda para se ligar? Ora, tanto faz. Poderia ser tanto uma estrutura
quanto a outra, daquelas duas propostas no equilíbrio por Kekulé. Na realidade, os  elétrons  estão 
deslocalizados por todos os orbitais p (evidentemente os carbonos do benzeno são hibridizados sp2
),
ou seja, o sistema é todo conjugado. Essa deslocalização eletrônica por todo o anel gera uma nuvem
eletrônica acima e abaixo do plano desse ciclo.
Assim, não é um equilíbrio, conforme pensou Kekulé. Na realidade, o benzeno é um híbrido (não é uma
coisa nem outra, mas o somatório delas; é a mesma ideia de hibridização de orbitais) que, por questão
apenas de arranjarmos uma forma de desenhar a representação da molécula, é apresentada dessa
maneira.
Dizemos que o benzeno é um híbrido de ressonância (dizemos que temos estruturas de ressonância
quando a única diferença entre elas está na posição dos elétrons) das duas estruturas de Kekulé. A
notação apropriada para ressonância é com uma seta de duas pontas, conforme mostrado na Figura
118:
 
Figura 118: Representações das estruturas de Kekulé para o benzeno.
 
A representação com o círculo significa a nuvem eletrônica. Não existe uma representação mais
correta que a outra, embora a que mostra a nuvem esteja mais próxima do modelo proposto. Usa-se
uma ou outra, em função do que estamos discutindo.
Resumindo, e para ficar bem clara toda essa discussão: escrevemos as duas estruturas para o benzeno,
porque essa é uma maneira útil (e muito usada) de simbolizar a ressonância (também chamada de
mesomeria), para nos ajudar a compreender vários aspectos. No entanto, precisamos compreender
que o benzeno NÃO é ora uma, ora outra das duas estruturas: ele é AMBAS as estruturas
 
 
 
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Química Orgânica 
simultaneamente, ou ele é um HÍBRIDO das duas estruturas. Daí o significado do círculo dentro do
hexágono.
As duas estruturas diferentes que compõem o híbrido de ressonância são chamadas de formas
canônicas ou estruturas de ressonância ou contribuintes de ressonância.
Naturalmente, a gente conclui que nenhuma das ligações C-C do benzeno é dupla e nenhuma é
simples; todas ficam num meio termo entre duplas e simples e são todas iguais.
O ponto mais importante de tudo isso é que a ressonância contribui para estabilizar a molécula,
isto é, para diminuir sua energia potencial. Aquela diferença de calor de hidrogenação entre o
esperado e o encontrado que a gente já discutiu, é o que chamamos de energia de ressonância do
benzeno.
Bem, agora que a gente já compreendeu a molécula do benzeno, podemos estender essas
propriedades a outras moléculas. Vários compostos, hidrocarbonetos ou não, são aromáticos.
Quando a gente diz que é aromático, estamos afirmando que o composto possui essa estabilização
extra. Mas, como vou saber se á aromático ou não? Só se aparecer um anel igual ao do benzeno? A
resposta para essa última questão é não. Para ser aromático o composto deve:
- Ser cíclico. É claro, pois senão não teríamos a nuvem eletrônica fechada.
- Ser planar, pois, caso contrário, não teríamos o entrosamento de todos os orbitais p.
- Cálculos mais avançados de matemática, que não nos interessam, mostram que além dessas
condições, a estrutura deve obedecer à regra de Hückel. Nós já fomos apresentados a ela. É aquela que
diz que todo sistema aromático possui um no
tal de elétrons π que ao resolvermos a equação 4n+2= no
de elétrons π, o resultado dê um valor inteiro para n.
A Figura 119 mostra alguns exemplos de compostos aromáticos. Observe bem que várias funções
orgânicas podem estar presentes nos compostos aromáticos:
 
 
 
 
 
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Química Orgânica 
 
Figura 119: Exemplos de compostos aromáticos
Agora, vamos aprender como se faz a nomenclatura dos hidrocarbonetos aromáticos: a nomenclatura
dos anéis aromáticos derivados do benzeno com apenas um substituinte é feita colocando-se o
prefixo com o nome de substituinte seguido da palavra benzeno, como nos exemplos a seguir:
 
 
 
 
 
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Metilbenzeno
Nome comum : TOLUENO
1-metil-etilbenzeno
Isopropilbenzeno
Nome comum :CUMENO
Etenilbenzeno
Vinilbenzeno
Nome comum: ESTIRENO
 
Figura 120
Quando o anel aromático possui dois substituintes, esses são indicados ou por número ou por um
prefixo especial: 1,2 ou orto (o); 1,3 ou meta (m); 1,4 ou para(p). Veja:
 
1,2-dimeti-lbenzeno;
o-dimetil-benzeno
nome comum: o-xileno
1,3-dimeti-lbenzeno;
m-dimetil-benzeno
nome comum: m-xileno
1,4dimeti-lbenzeno;
p-dimetil-benzeno
nome comum: p-xileno
 
Figura 121
Quando os sistemas aromáticos são substituintes (na presença de outras funções ou quando a cadeia
carbônica é a cadeia principal) os grupos aril são nomeados, da mesma forma, com o uso do sufixo “il”.
Veja a tabela abaixo e observe que o grupo aril derivado do benzeno é designado fenil e o derivado do
tolueno é o benzil:
 
 
 
 
 
 
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Química Orgânica 
 
AROMÁTICO  NOMENCLATURA  GRUPO ARIL (Ar)  NOMENCLATURA 
 
Benzeno  C6H5‐  FENIL 
 
Tolueno  C6H5CH2‐  BENZIL 
Tabela 8: Nomenclatura dos grupos aril
A Figura 122 mostra exemplos desta nomenclatura :
 
 
 
 
 
Figura 122: Exemplos de nomenclatura nas quais os aromáticos são tratados como substituintes
 
Os compostos aromáticos policíclicos (com mais de um anel fundido) são conhecidos por sua
nomenclatura comum:
 
 
 
 
F 
Figura 123
NH2
2-fenil-hept-1-eno Fenilamina
Nome comum: ANILINA
NH2
Benzilamina
Naftaleno Antraceno Fenantreno
 
 
 
 
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Os compostos aromáticos mais simples são obtidos do alcatrão da hulha e do craqueamento do
petróleo. São muito utilizados como matérias-primas de polímeros e como tintas e vernizes.
O benzeno é matéria-prima importante para a síntese de outros compostos aromáticos (anilina, fenol,
etc.), de borracha sintética, tintas, etc. Não deve ser confundido com o que chamamos de benzina, que
é uma mistura de hidrocarbonetos. Apesar de muito utilizado, o benzeno é extremamente tóxico. Sua
forma hexagonal permite que ele entre nos pares de bases do DNA e cause mutações genéticas. Os
riscos com exposição por pouco tempo incluem problemas com o sistema nervoso, com o sistema
imunológico e anemia. A longo prazo, com a exposição constante, há perigos de câncer, principalmente
leucemia.
O tolueno foi isolado pela primeira vez do bálsamo de tolu (pau-de-incenso) e atualmente suas
principais fontes de obtenção são carvão e petróleo. É utilizado como matéria-prima para a produção
de derivados do benzeno, sacarina, detergentes, entre outros.
 
Os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PHA), principalmente o
benzopireno, estão muito associados à poluição (fumaça). É encontrado
na fumaça de chaminés, do cigarro, em alimentos defumados e no carvão.
A medida de sua concentração no ar é uma das técnicas de medida de
poluição. Assim como o benzeno, causa câncer.
 
 
Até agora, nós estudamos os compostos orgânicos que contêm apenas carbono e hidrogênio, bem
como os aromáticos que, como você já deve ter percebido, não é uma função orgânica, mas uma
propriedade química que pode ser encontrada em compostos orgânicos os mais diversos.
Vamos agora aprender um pouco sobre os compostos orgânicos que contêm heteroátomos.
2.Haletos Orgânicos
Como o próprio nome já nos diz, haletos de alquila ou arila são compostos orgânicos que possuem
um halogênio (X) ligado a um grupo alquila (RX) ou arila (ArX). O grupo funcional (aquela parte da
molécula que é responsável por sua reatividade) é a ligação C-X.
 
     Benzopireno 
Figura 124
 
 
 
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Química Orgânica 
Atualmente, um número enorme de compostos orgânicos halogenados são manufaturados para uso
comercial. Já falamos muito do cloreto de vinila, mas não custa lembrar que ele é o monômero para a
obtenção do PVC. Você consegue imaginar o mundo de hoje sem o PVC? Em função de aditivos que se
adiciona no processo de polimerização, o PVC pode ser rígido ou flexível, brilhante ou opaco, colorido
ou não, transparente ou fosco.
Com todas essas possibilidades, o PVC é utilizado em vários materiais, tais como: equipamentos
médico-cirúrgicos: bolsas de sangue (é o material que melhor conserva o sangue), tubos para
hemodiálise, embalagens de medicamentos; materiais de construção: telhas, portas e janelas, pisos,
encanamentos; embalagens de alimentos: garrafões de água, de óleo, filmes plásticos para
armazenamento.
Compostos orgânicos clorados também são muito utilizados como inseticidas. Mas, como está
comprovado que eles se acumulam no meio ambiente e são tóxicos, seu uso está cada vez diminuindo
mais. O DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano) e o lindano (usado para matar piolhos e lêndeas) são
exemplos de inseticidas desta classe:
 
Lindano
Cl
Cl
Cl
Cl
Cl
ClCl
Cl
Cl
ClCl
DDT
 
Figura 125
Compostos fluorados também têm importância como polímeros. O Teflon é um polímero fluorado
cujo monômero é o tetrafluoroetileno (F2C=CF2) e é muito utilizado em materiais antiaderentes
(utensílios de cozinha).
Os cloro-fluoro-carbonos (CFC´s), conhecidos por freons, foram até pouco tempo muito utilizados
como gases refrigerantes e propelentes de aerossóis. Até o início do século XX, os gases utilizados para
fins de refrigeração eram a amônia (NH3), cloreto de metila (CH3Cl) e dióxido de enxofre (SO2), todos
tóxicos. Quando, em 1932, descobriu-se os freons, o mundo comemorou. Eles eram inertes e não
tóxicos. Rapidamente foram utilizados como gases refrigerantes em geladeiras e ar-condicionados.
 
 
 
.  86 . 
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Química Orgânica 
Mas, em 1980, constatou-se que eram os responsáveis pelo buraco de ozônio. Os freons são estáveis e
inertes na troposfera, mas ao atingirem a estratosfera reagem com o ozônio, que é o nosso filtro
protetor das radiações ultravioletas do sol. Com isso, em 1° de janeiro de 1989 entrou em vigor o
chamado Protocolo de Montreal, no qual vários países signatários (inclusive o Brasil) se
comprometeram a substituir as substâncias que estavam reagindo com o ozônio. Desde 2003, no
Brasil, o CFC-12 (era o mais usado em geladeiras) está sendo substituído pelo R-134 A, sigla do 1,1,1,2-
tetrafluoretano, que parece não causar danos à camada de ozônio:
 
Cl
F F
Cl
CFC-12
F
FF
F
R-134 A
 
Figura 126
Os compostos de iodo e bromados são principalmente usados como matérias-primas em sínteses
industriais.
Um produto natural iodado importante é a tiroxina (Figura 108), hormônio regulador da tiroide,
biossintetizado (biossíntese é a obtenção de um produto em organismos vivos) a partir de um
aminoácido não iodado. A nossa maior fonte de iodo, importante para essa biossíntese, são os
alimentos. Por causa disso, para fornecer iodo ao organismo, no Brasil é obrigatória a adição de iodo ao
sal de cozinha.
O mar tem surpreendentemente nos fornecido produtos naturais bromados. O bromosferol (Figura
127) foi isolado de uma alga marinha.
 
 
 
 
Figura 127: Exemplos de compostos halogenados naturais.
OI
HO
I
I
I
CO2H
NH2
Tiroxina
Hormônio produzido pela
tiróide
Br
OH
H
H
Br
Bromosferol
 
 
 
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Química Orgânica 
A IUPAC aceita dois sistemas diferenciados para dar nome aos compostos halogenados. O mais usado
é aquele que trata os halogênios como substituintes usando-se os termos “fluoro”, “cloro”, “bromo” e
“iodo” e dando o nome da mesma forma que fazemos para os hidrocarbonetos:
CH3Cl
Clorometano
Br
2-bromopropano
I
2-iodo-2-metilbutano
F
Fluorocicloexano
 
Figura 128
No outro modo, usa-se os nomes “fluoreto”, “cloreto”, “brometo” e “iodeto” seguido da preposição “de”
e o nome do grupo orgânico:
 
CH3I
Iodeto de Metila
Cl
Cloreto de sec-propila
Cloreto de isopropila
CH2Cl2
Cloreto de metileno
Br
Brometo de benzila
 
Figura 129
Em função do carbono em que está o halogênio, os haletos são classificados em metílicos, primários,
secundários ou terciários:
 
CH3I
Cl
Haleto metílico
Br Haleto primário
Haleto secundário
F
Haleto terciário
 
Figura 130
 
 
 
.  88 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
Você deve ter percebido que, neste texto, muitas vezes usamos o nome comum. São nomes tão
consagrados, que fica difícil substituí-los pela nomenclatura IUPAC. O triclorometano, por exemplo, é
muito mais conhecido por clorofórmio: CHCl3.
O clorofórmio e o cloreto de etila (CH3CH2Cl) já foram muito utilizados como anestésicos gerais. Hoje,
devido à sua toxicidade, não são mais usados. Por causa da sensação de torpor e tontura que causam,
esses dois compostos são usados como drogas. O cloreto de etila é o constituinte principal do lança
perfume. Atualmente, no Brasil, a venda de clorofórmio é controlada pela Polícia Federal (temos que
pedir autorização especial para comprar e comprovar para o que usou) e o cloreto de etila é
considerado droga ilícita.
 
3. Alcoóis
Alcoóis são compostos orgânicos que possuem uma hidroxila (OH) ligada a um carbono sp3
.
Quando a gente pensa na palavra álcool, a primeira coisa que passa na cabeça da gente é o álcool
etílico, ou seja, o álcool presente nas bebidas alcoólicas. Os efeitos da euforia causada pelo álcool são
conhecidos há muitíssimo tempo, e o relato do uso de vinho é visto desde a antiguidade.
Provavelmente, a explicação por essa predileção resida no fato dele ser obtido por fermentação de
açúcares, um processo químico simples.
Mas, vários outros compostos importantes pertencem a essa classe funcional:
   
O mentol é encontrado em diversas espécies de hortelã. Atualmente, é obtido
tanto por extração das plantas, como principalmente por síntese. O mentol se
liga na língua a células que induzem, em nível cerebral, à sensação de frio. Por
causa desse efeito, é muito utilizado em balas, chicletes, cigarro, pastas de
dentes. Você já experimentou tomar água do filtro (“água quente”) chupando
uma bala de menta? Se não, experimente. Parece que a água estava na
geladeira!
OH
Mentol  
Figura 131
 
 
 
.  89 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
O colesterol é encontrado nas células de todos os animais. A maior parte desse colesterol é sintetizada
no próprio corpo, sendo apenas pequena parte dele adquirido pela alimentação. O colesterol é muito
importante para uma série de processos que ocorrem no organismo, mas é mais conhecido pela
associação com doenças cardiovasculares. O colesterol é feito principalmente no fígado e precisa sair
de lá e ir para outras células do organismo que estejam precisando dele. Para isso, deve ser
transportado pelo sangue, que é um meio aquoso. Mas o colesterol é insolúvel em água (lembre-se:
apesar de ter uma ligação O-H, polar, a cadeia carbônica dele é muito grande e, então, no final, ele não
é uma molécula polar). Por causa disso, se liga a outras moléculas (as chamadas lipoproteínas), que o
transportam para todas as células. Essas lipoproteínas é que são de dois tipos: as de baixa densidade (a
gente conhece pela sigla do termo em inglês: Low Density Protein: LDL), que parecem ser as
responsáveis por levar o colesterol para as artérias; e as de alta densidade (High Density Protein: HDL)
que, acredita-se, são as responsáveis por absorver os cristais de colesterol que não foram usados e
começam a se depositar nas paredes das artérias. Comumente, a gente fala da LDL como “colesterol
ruim” e HDL como “colesterol bom”. Mas, reparem: a molécula do colesterol é a mesma. O que varia são
as moléculas que o transportam.
 
O citronelol é um dos constituintes do óleo de citronela e é um bom
repelente de insetos. As velas e essências com citronela têm sido
muito utilizadas para afastar o mosquito da dengue.
 
 
 
Para nomenclaturar os alcoóis, determina-se como cadeia principal a cadeia mais longa que contém
a hidroxila e numera-se pela extremidade mais próxima que contiver essa função. O sufixo
característico da função álcool é “ol”. Quando necessário, indica-se a posição do grupo OH por um
número colocado imediatamente antes do sufixo “ol”.
Outra forma consiste em usar o nome do grupo alquil correspondente com o sufixo “ico” precedido da
palavra álcool. Essas duas formas estão mostradas na Figura 109.
Assim como a gente já viu para os haletos orgânicos, os alcoóis são classificados em metílico, primários,
secundários ou terciários (Figura 133) em função do carbono que está com a OH.
OH
Citronelol  
Figura 132
 
 
 
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CH3OH OH
Metanol Etanol
OH
Propan-2-ol
OH
2-Metilpropan-2-ol
terc-ButanolÁlcool metílico Álcool etílico Isopropanol
Álcool isopropílico Álcool terc-butílico
ÁLCOOL PRIMÁRIO
ÁLCOOL SECUNDÁRIO ÁLCOOL TERCIÁRIO
 
Figura 133: Nomenclatura e classificação dos alcoóis
O etanol é utilizado em bebidas alcoólicas, indústria de perfumaria, solventes, soluções para
assepsia, etc. No Brasil, é muito utilizado como combustível de motores de explosão (veículos
automotores).
O principal método nacional de obtenção do etanol é por fermentação da cana-de-açúcar
(Esquema 3). Fermentação é um processo de transformar um produto em outro pela ação de micro-
organismos que, nesse caso, chamamos de fermento. Para a fermentação da cana-de-açúcar, o mais
usado é o Sacharomices cerevisae, também conhecido como fermento do pão. O fermento na
presença de água transforma a sacarose (“açúcar”) em glicose que, então, é convertida em etanol.
C6H12O6 2 CH3CH2OH + 2 CO2
GLICOSE
C12H22O11
SACAROSE
+ H2O 2C6H12O6
GLICOSE
ETANOL
 
Esquema 3: Fermentação da cana-de-açúcar
 
 
HO
O O
OH
OH
HO
O
HO
OH
OH
OH
Sacarose (açucar comum)
HO
O OH
OH
OH
HO
Glicose
 
 
 
 
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Na década de setenta, o mundo assistiu a chamada “crise do petróleo”, quando a escassez elevou
muito o seu preço. Por causa disso, em 1975, o Brasil iniciou o programa “Pró-Álcool” ou “Programa
Nacional do Álcool”, que consistiu em incentivos para a substituição dos carros movidos à gasolina por
outros que utilizassem álcool etílico como combustível. Esse programa foi bem sucedido até a década
de 90, quando o preço do álcool, comparado ao da gasolina, deixou de ser vantajoso. Mas, levou ao
desenvolvimento de uma tecnologia nacional espetacular e o Brasil hoje é o maior produtor de álcool
combustível. A fabricação de carros “Flex”, que se movimentam com uma mistura de álcool e gasolina
pode ser vista como um retorno, de certa forma, desse programa.
Atualmente, no Brasil, várias pesquisas estão sendo feitas para a obtenção de etanol a partir da
mandioca doce. Esse tubérculo possui um teor de sacarose bem maior que a cana e os resultados dessa
pesquisa estão sendo promissores. Talvez, daqui a pouco tempo a gente esteja andando a carros
movidos a álcool de mandioca.
Em países como os Estados Unidos, onde não há essa disponibilidade de cana, o etanol é obtido a
partir do eteno.
Bom, a gente acabou de ver (falamos do álcool da mandioca) que a fermentação para a obtenção de
álcool não é feita só a partir da cana. As bebidas alcoólicas são obtidas da fermentação de vários
substratos. O vinho, por exemplo, é produto de fermentação de uvas. A cerveja, da cevada. A cachaça é
da cana mesmo. Agora, independente da sua fonte de obtenção, o etanol é um depressor (torna as
respostas mais lentas) do sistema nervoso central. Em doses pequenas, causa sensação de euforia e
diminui a nossa capacidade de coordenação motora (diminui nossa capacidade de respostas rápidas,
como, por exemplo, se precisarmos frear um carro rapidamente). Em doses maiores, pode levar à
morte.
O metanol (CH3OH), também conhecido por “álcool de madeira”, pode ser obtido por destilação de
madeira (celulose), mas, atualmente, é obtido principalmente a partir do carvão e água (uma mistura
que conhecemos por “gás de síntese”) ou por oxidação do metano. O metanol é usado como matéria-
prima para a produção de outras substâncias (como, por exemplo, o metanaldeído = formol), como
combustível de aviões a jato e carros de corrida e, nos Estados Unidos, como aditivo de gasolina. Há
alguns anos, quando a nossa produção de etanol não atendia à demanda do mercado, foi usado
também aqui como combustível. Mas, por ser muito tóxico, seu uso foi abolido.
Atualmente, adquiriu grande importância, pois é utilizado para a produção de biodiesel (vamos ver
isso quando estudarmos os ésteres).
 
 
 
 
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4. Fenóis
Quando a função OH está ligada a carbonos sp2
, a reatividade desses compostos é
diferente e então não são classificados como alcoóis. Quando o carbono sp2
não é o
de um sistema aromático, a gente tem a classe dos enóis, que normalmente são
muito instáveis e se transformam rapidamente em aldeídos ou cetonas. Vamos
estudá-los quando virmos aquelas funções.
 
 
Quando a OH está diretamente ligada a um anel aromático, temos a classe dos fenóis.
Os fenóis são muito utilizados como desinfetantes (a creolina é uma mistura de fenóis e cresóis. Os 1, 2
e 3-metil-fenóis recebem o nome comum de cresóis) e como matéria-prima na preparação de resinas e
polímeros (a fórmica é uma resina obtida da polimerização do fenol com um aldeído, geralmente
formol), da aspirina e outros medicamentos e mais várias coisas.
O BHT (Butil-hidroxi-tolueno) e o BHA (Butil-hidroxi-anisol) são antioxidantes (evitam processos de
oxidação) muito usados em alimentos para evitar a rancificação de óleos e gorduras.
 
Figura 135
 
Na natureza, também encontramos vários compostos fenólicos. Vamos ver alguns:
O eugenol é encontrado no cravo-da-índia e na canela. Sabe aquela sensação esquisita que a gente tem
quando morde o cravo-da-índia da canjica ou do doce de abóbora? Quem causa isso é exatamente o
eugenol. Tem poder antisséptico e anestésico. Devido a esse poder antisséptico, os alimentos que fazem
uso do cravo em sua preparação estragam bem mais lentamente. E é por isso que eram tão importantes
na época dos grandes descobrimentos (lembram da “busca por especiarias”?), pois como ainda não
OH
FENOL 
OH
2,6-di-terc-butil-4-metil-fenol
BHT
OH
OCH3
2,6-di-terc-butil-4-metoxi-fenol
BHA
Figura 134
 
 
 
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haviam inventado a geladeira, os alimentos estragavam muito  rápido.  Por causa também dessas
propriedades antissépticas e anestésicas é misturado com óxido de zinco para preparar o cimento que o
dentista coloca em nossas cáries. Nunca repararam que aquilo tem cheiro e gosto de cravo-da-índia?
O tetraidrocanabinol (THC) é outro fenol muito conhecido. É o composto responsável pelas sensações
causadas pela maconha.
No Brasil, essa droga é ilegal, mas em alguns países é utilizada para diminuir a dor de pacientes
terminais (com câncer ou outras doenças).
Atualmente, em muitos lugares do mundo, há um movimento para a legalização da maconha. Muitos
usuários a consideram uma droga benigna. Além disso, alegam que sua legalização aboliria problemas
de tráfico. Mas, o fato é que é difícil a gente saber se os níveis de uso irão aumentar ou permanecerão os
mesmos depois da legalização. Além do mais, a maconha não é uma droga tão benéfica e segura assim,
pois existem estudos que relacionam seu uso a transtornos mentais, como psicose e esquizofrenia.
A maconha altera o funcionamento do sistema nervoso central, podendo modificar o
comportamento das pessoas que fazem uso dela. Ela vem de uma erva cujo nome científico é Cannabis
sativa, uma planta originária da Ásia, mas que se adapta bem em qualquer ambiente. O THC age no
encéfalo e pode gerar problemas de concentração e memória, dificultando o aprendizado e a execução
de tarefas como dirigir ou operar máquinas. Seu uso contínuo pode causar alteração da imunidade,
redução dos níveis de testosterona (hormônio sexual masculino), depressão, crises de pânico e redução
do interesse e motivação para a vida. Ela também pode causar uma hipersensibilidade a estímulos
sensoriais e a alterações de percepção de tempo. As doses elevadas causam perturbações da memória,
alterações do pensamento, sentimentos de estranheza, alucinações e despersonalização.
Os fenóis são nomenclaturados utilizando-se o nome do radical seguido da palavra “fenol”:
 
 
   
 
Figura 136
 
OH
2-etil-fenol
o-etil-fenol
OH
OH
p-hidroxi-fenol
Nome comum: Hidroquinona
OH
NO2
Cl
4-cloro-3-nitro-fenol
 
 
 
 
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Alguns nomes comuns dos fenóis foram mantidos pela IUPAC e estão mostrados abaixo:
 
 
 
 
 
   
Figura 137
5. Éteres
A função orgânica éter se caracteriza pela presença de um átomo de oxigênio entre duas cadeias
orgânicas alifáticas ou aromáticas. Pode ser vista como uma função derivada dos alcoóis e fenóis onde o
hidrogênio da hidroxila é substituído por uma cadeia carbônica:
R O R R-O-Ar Ar-O-Ar
 
Figura 138
 
A maior utilização que os éteres encontram são como solventes para tintas e vernizes. O éter etílico
(CH3CH2OCH2CH3) é o que conhecemos comumente como ”éter”. Já foi muito utilizado como anestésico
por inalação, mas não usamos mais, pois é muito inflamável e havia sempre o risco de incêndio nas salas
cirúrgicas. Atualmente foi substituído por outros como o halotano (1,1,1-trifluoro-2-bromo-2-
cloroetano).
A nomenclatura dos éteres é feita da seguinte forma: a menor cadeia carbônica é tratada como um
substituinte e usa-se a terminação “oxi” e o resto obedece às regras gerais vistas até aqui. Quando as
duas cadeias são idênticas, podemos usar a nomenclatura: éter + as cadeias com a terminação “ico” (ex:
éter etílico).
 
 
 
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O
Metoximetano
O
Metoxietano
O
1-Metoxipropano
O
2-metoxi-propano
O
O
1-etoxi-1-metoxicicloexano
O
4-etoxi-pent-1-eno
O
2-butoxi-benzeno
sec-butoxibenzeno
Éter metílico
 
Figura 139
Os éteres são muito usados como solventes porque são estáveis, isto é, pouco reativos. Mas o éter
cíclico de três membros é diferente (são denominados epóxidos). Como para fazer o anel de três tem-
se que “forçar a barra” (os ângulos de um triângulo são bem diferentes dos do tetraedro), a gente diz
que o sistema é tensionado. Por causa dessa tensão, ele adora sair reagindo para quebrar o anel. Essa
propriedade é explorada e eles são muito utilizados como matéria-prima.
O epóxido mais simples (sem nenhum substituinte no anel) é o que não tem
nenhum substituinte e é conhecido como óxido de etileno. É um gás que mata
bactérias e fungos e, por conta disso, é muito usado para a esterilização de
substâncias que não suportariam uma técnica de esterilização que usasse
aquecimento. A grande maioria dos materiais médicos é esterilizada com óxido
de etileno.
Mas, como já vimos acima, o principal uso do óxido de etileno é como matéria-prima para a obtenção
de outras substâncias, como, por exemplo, o etilenoglicol: HOCH2CH2OH. O etilenoglicol é usado como
refrigerante automotivo, anticongelante e, junto com o óxido de etileno, na produção de poliéteres. As
resinas epóxi (ex: O Durepoxi®
é uma resina epóxi que na hora do uso a gente mistura com um
endurecedor: poliamida) são um exemplo de poliéter.
O
 
Figura 140
 
 
 
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6. Aldeídos e Cetonas
Os aldeídos e cetonas são uma classe de compostos cuja função orgânica é a carbonila: C=O. Nos
aldeídos, o grupo funcional está ligado, de um lado, com um grupo alquil ou aril e, do outro, com um
hidrogênio. Nas cetonas, os dois lados da carbonila são ligados a cadeias carbônicas:
R
O
H Ar
O
H
R
O
R R
O
Ar Ar
O
Ar
ALDEÍDOS
CETONAS
 
Figura 141
Aldeídos e cetonas estão em um equilíbrio (transformação de um composto em outro) com compostos
isoméricos que pertencem à função enol (OH ligado a Csp2
). Esse equilíbrio é muito lento (ocorre muito
devagarzinho). Na maioria dos aldeídos e cetonas, a forma enólica é muito mais instável e então quase
não se forma. Por exemplo, quando eu pego uma garrafa de etanal eu tenho 99,9% das moléculas como
aldeído (chamamos genericamente de “forma ceto”, o isômero que contém a carbonila) e 0,01% das
moléculas como enol (“forma enol” – Esquema 4). Esse equilíbrio é chamado de tautomeria ceto-
enólica . A gente já viu que um equilíbrio químico é indicado por duas setas. Como a forma ceto é a que
tem em bem maior quantidade, a seta voltada para ela deve ser bem maior:
O
H
OH
H
Forma ceto Forma enol
ETANAL ETENOL
 
Esquema 4: Tautomeria ceto-enólica
 
 
 
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6.1. Aldeídos
Os aldeídos, assim como as cetonas, são, em termos de quantidade e variedades estruturais, uma das
classes de produtos naturais mais abundantes. Muitos deles vaporizam com facilidade e por causa disso
são muito utilizados em indústrias de perfumaria. Alguns exemplos de aldeídos naturais são mostrados
abaixo:
O cinamaldeído é encontrado na casca da canela. Sua principal
aplicação é na indústria alimentícia como flavorizante (substância que
se adiciona aos alimentos e medicamentos para lhes conferir odor e/ou
sabor) de sorvetes, balas, chicletes, doces e bebidas. Tem propriedades
antifúngicas e por isso também era uma especiaria muito valorizada na
época dos grandes descobrimentos.
Como aromatizante, é adicionado a perfumes com aromas doces ou frutado e em cosméticos,
especialmente em cremes, sabonetes e loções. É muito usado também em velas e incensos.
O citral, um dos constituintes mais comuns de perfumes com toques
cítricos, é, na verdade, uma mistura de dois aldeídos isoméricos: o
geranil e o neral. Repare que a diferença entre os dois está na
estereoquímica da ligação dupla: o geranial é Z, enquanto o neural é
E. Essa pequena diferença estrutural confere às duas moléculas
propriedades olfativas diferentes, já que o geranial possui um forte
odor cítrico, que remete ao limão, e o neral tem um odor menos
acentuado, porém mais adocicado. Além de seu uso na indústria de
perfumaria, essa mistura de aldeídos também é empregada na
indústria alimentícia para reforçar o sabor de limão de balas e outros
comestíveis.
Um aldeído extremamente importante para nós é o cis-retinal (Figura 36). Quando a luz entra no olho,
ela interage com uma substância chamada rodopsina. A rodopsina é uma mistura de uma proteína
(escotopsina) e cis-retinal. Essa interação (luz + rodopsina) transforma o cis-retinal em trans-retinal. Essa
reação leva apenas alguns trilionésimos de segundo e faz com que a rodopsina se converta em
metarodopsina II (“rodopsina ativada”). Esse composto produz impulsos elétricos que são transmitidos
ao cérebro e interpretados como luz. Esse é o mecanismo que faz com que a gente enxergue. O cis-
O
H
Cinamaldeído  
O
H
O
H
Geranial
Neral  
Figura 142
Figura 143
 
 
 
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retinal é formado a partir da vitamina A e é por isso que a falta dessa vitamina causa problemas de
visão.
OHcis-Retinal
O
H
trans-Retinal
OH
trans-Retinol
Vitamina A
 
Figura 144: Compostos envolvidos no mecanismo da visão.
 
A nomenclatura dos aldeídos é feita da mesma forma que para as outras funções, lembrando que a
cadeia principal é a que tem a C=O e usa-se o sufixo “al”. Alguns aldeídos tiveram seu nome comum
consagrados e a IUPAC aceita o seu uso. Esses nomes estão em azul, na Figura 107.
Quando, numa molécula, temos funções como OH, NO2 e NH2, além da C=O, esta é a preferencial para a
nomenclatura. As outras funções são nomeadas como substituintes.
 
 
 
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H
O
H
O
H
Etanal
ACETALDEÍDO
O
H
PropanalMetanal
FORMALDEÍDO PROPIONALDEÍDO
O
H
2-metil-propanal
ISOBUTIRALDEÍDO
OH
BENZALDEÍDO
O
H
4-metil-pent-3-enal
O
H
4-Hexil-hept-5-inal
OH
OH
m-hidroxi-benzaldeído
O
H
NH2
3-amino-butanal
O H
NO2
p-nitro-benzaldeido
 
Figura 145: Nomenclatura de aldeídos
 
Para aldeídos cíclicos, a IUPAC recomenda considerar o grupo CHO à parte: dá-se o nome do
hidrocarboneto correspondente seguido da palavra “carbaldeído”.
 
O H
Cicloexanocarbaldeído
O
H
3-alil-ciclopentanocarbaldeído
 
Figura 146
Com certeza, o aldeído que a gente mais ouve falar é o “formol”. O formaldeído é um gás. O que a
gente conhece por “formol” é uma solução aquosa contendo 37% do gás. Essa solução tem inúmeras
aplicações. É usado como preservativo (usamos formol para, por exemplo, embalsamar peças de
 
 
 
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cadáveres), desinfetante (Lysoform®) e antisséptico. Também é usado para fazer seda artificial, tintas, 
corantes, soluções de ureia (uma mistura de formol com mais ou menos 20% de ureia é muito usada
para polimerizações diversas), resinas melamínicas (são plásticos duros - vários utensílios de cozinha,
como conchas, são feitos dela; os quadros brancos são outro exemplo de uso dessa resina), vidros,
espelhos e explosivos. Pode, ainda, ser usado na confecção de germicidas e pesticidas.
O formol, além de gerar soluções explosivas, é tóxico. Em pequenas concentrações pode causar
dermatites alérgicas, tosse, perda do tecido capilar, lacrimação e visão embaçada. A exposição
constante pode levar até ao câncer no aparelho respiratório. Por causa disso, o uso de escovas
progressivas à base de formol foram proibidas no Brasil. Ela fazia mal a quem usa e principalmente ao
cabeleireiro, que ficava em exposição constante. Seu uso é permitido em cosmética como conservante
e em endurecedor de unhas, mas aí sua concentração é muito pequena.
O etanal (mais conhecido como acetaldeído) também é um conhecido seu, embora talvez você não
saiba. Quando a gente bebe (álcool etílico) o nosso organismo transforma primeiro o álcool em
acetaldeído e depois em ésteres diversos e ácido acético, formas pelas quais são eliminados. Quando a
gente bebe em excesso, as enzimas que fazem essa transformação não conseguem realizá-la toda, e aí a
gente acaba ficando com o acetaldeído no organismo. Esse aldeído é que causa enjôo, taquicardia, dor
de cabeça, tontura...enfim, todos aqueles sintomas que nós chamamos de ressaca. Vai dizer que você
nunca viu alguém com acetaldeído no organismo!
6.3. Cetonas
Como a gente já comentou, cetonas são uma classe de compostos orgânicos onde o grupo funcional
carbonila (C=O) está ligado a duas cadeias carbônicas. Da mesma forma que os aldeídos, estão muito
distribuídas na natureza e devido às suas propriedades voláteis são muito usadas em perfumarias.
Vamos ver algumas cetonas naturais:
A muscona é o principal componente do odor de almíscar (perfumes
de “Musk”) e na natureza é encontrada em cervos almiscareiros (veados
encontrados na Ásia). O macho possui uma glândula no abdômen que
secreta a muscona na época do acasalamento. Antigamente, os
perfumes eram feitos a partir do produto extraído do animal. Como é
necessário sacrificar o animal para a remoção dessa glândula e é uma
espécie que está em extinção, hoje, a muscona é obtida sinteticamente
ou substâncias com odor semelhantes são utilizadas pela indústria de
perfumaria.
O
Muscona  
Figura 147
 
 
 
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Os hormônios sexuais são substâncias produzidas nas gônadas:
testosterona nos testículos e progesterona e estrógeno nos ovários.
Durante a infância esses hormônios estão inibidos, tendo sua produção
iniciada durante a puberdade. São os responsáveis pelo aparecimento das
características sexuais secundárias: no homem, surgimento de pelos pelo
corpo (face, axila e região pubeana), aumento do tamanho peniano,
espessamento das cordas vocais, iniciação da espermatogênese
(produção de espermatozoide); na mulher, surgimento de pelo no corpo,
alargamento do quadril, desenvolvimento dos seios, início do ciclo
menstrual e ovogênese.
 
A biacetila é formada em vários processos de fermentação (vinho, cerveja) e é
encontrada também em derivados do leite. É um líquido amarelo que tem gosto
e cheiro muito parecidos com o da manteiga. Por conta disso, é adicionada à
margarina (para que ela fique parecida com manteiga), biscoitos do tipo “chips”,
produtos de confeitarias e na pipoca de micro-ondas.
 
As cetonas são nomenclaturadas utilizando-se o sufixo “ona”. Quando é necessário indicar a posição da
carbonila, o no
vem imediatamente antes da terminação “ona”.
Outra forma, também aceita pela IUPAC, considera a carbonila o centro da molécula e o nome é dado
colocando-se em ordem alfabética os dois grupos ligados à carbonila com o sufixo ilíca. As duas
possibilidades estão mostradas na Figura 150. Os nomes triviais, quando existem, estão colocados em
azul:
O
H
H
H
O
O
H
H
H
OH
Progesterona
Testosterona
O
O
Biacetila
Figura 148
Figura 149
 
 
 
.  102 . 
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O
Propanona
Cetona Dimetílica
ACETONA
O
Butanona
Cetona etílica e metílica
O
Pentan-3-ona
Cetona dietílica
O
Pentan-2-ona
Cetona metílica e propílica
O
Cetona fenílica e etílica
ACETOFENONA
O
Cetona difenílica
BENZOFENONA
O
2,5-dimetil-hexan-3-ona
Cetona isobutílica e isopropílica
O
O
Butanodiona
BIACETILA
O
O
Ciclohexan-1,2-diona
O
HO
1-hidroxi-pentan-2-ona
 
Figura 150: Nomenclatura de cetonas
A acetona é usada, principalmente, como solvente de esmaltes, vernizes e tintas. A acetona é muito
utilizada para a remoção de esmalte de unha e também como removedor de supercola. Pode ser usada
para polimento e limpeza de resinas de fibras de vidro e epóxi. Ela dissolve a maioria dos plásticos e
fibras sintéticas.
A butanona é produzida em pequenas quantidades por algumas frutas e vegetais. Nas indústrias, tem
grande aplicação como solventes e é usada também como denaturador do álcool etílico comercial:
substância que se adiciona ao álcool para modificar o seu gosto e assim evitar que seja utilizado como
bebida.
7. Ácidos Carboxílicos
O grupo funcional presente nos ácidos carboxílicos é a carboxila: COOH. O nome desse grupo funcional
é motivo de briga (no bom sentido, ninguém sai trocando socos por causa disso...) porque alguns
químicos dizem que é o mesmo grupo dos aldeídos e cetonas (carbonila), só que agora substituída por
uma hidroxila. No fundo, tanto faz. Chamar de carbonila ou carboxila não muda em nada as
propriedades dos ácidos carboxílicos. Eles são ditos ácidos, porque da mesma forma que os ácidos que
você estudou na Química Inorgânica, podem reagir com uma base formando um sal. Abaixo, você pode
ver um exemplo disso com o ácido acético:
 
 
 
.  103 . 
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Química Orgânica 
O
OH + NaOH
O
O Na + H2O
Ácido acético Hidróxido de sódio Acetato de sódio
ÁCIDO BASE SAL
 
Figura 151
Que tipos de compostos são produzidos no nosso metabolismo? Nós inalamos oxigênio e exalamos
dióxido de carbono, um produto de oxidação dos compostos orgânicos. Os ácidos carboxílicos também
são produtos de oxidação e assim são encontrados como produtos de metabolismo de todos os seres
vivos.
Um exemplo é o do ácido lático. Qualquer tarefa que o nosso corpo faz exige energia. Essa energia é
proveniente de uma molécula chamada ATP (trifosfato de adenosina). À medida que o nosso organismo
vai realizando suas funções, a ATP é degradada e depois restaurada por outra fonte energética que
pode ser, por exemplo, fosfocreatina (uma outra molécula geradora de energia), gorduras ou açúcares.
Conforme as necessidades energéticas vão surgindo, o
corpo primeiro usa o ATP para supri-las. Quando acaba
o ATP, ele usa a fosfocreatina para formar mais ATP.
Mas, uma hora também acaba a fosfocreatina e então o
nosso organismo escolhe outra fonte para produzir
mais ATP. Aí, ele pode usar as gorduras (triglicerídeos)
ou os carboidratos (glicose). Nessa escolha, dois fatores
são avaliados: a velocidade de produzir mais ATP e se
há ou não presença de oxigênio nessa produção.
Na presença de oxigênio, o organismo usa as gorduras para obter mais ATP, pois as gorduras geram mais
ATP que os carboidratos e sua fonte é quase ilimitada no nosso corpo. No entanto, se em ausência de
oxigênio ou se a gente precisar de velocidade para produzir ATP (isto é, se precisarmos que ele seja
formado rapidamente), o organismo irá optar pela glicose, que é o que acontece quando estamos
fazendo exercícios muito puxados. Esse modo de formação de ATP tem o inconveniente de formar ácido 
lático. O acúmulo de ácido lático nos músculos é o responsável pela dor no corpo que sentimos depois
que a gente forçou a barra na academia.
OH
O
OH
Ácido lático  
Figura 152
 
 
 
.  104 . 
Sala de Leitura 
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Quando o oxigênio volta a ficar disponível ou quando diminuímos o ritmo do esforço físico, o NAD+
transforma o ácido lático em ATP. Uma pessoa está com um condicionamento bom (não sente mais
dor quando faz exercícios puxados) quando o organismo já se adaptou e forma ácido lático com a
mesma velocidade com que o transforma em ATP, e aí ele não se acumula mais nos músculos.
Desde antes de Cristo encontra-se relatos do uso da
casca do salgueiro para o combate à febre e à dor. Mais
tarde, descobriu-se que nessa planta existe a salicilina
que, no nosso organismo, se transforma em ácido
salicílico, que é quem tem essas propriedades. O chato
desse ácido é que ele corrói as paredes do estômago,
então a indústria farmacêutica mudou um pouco a
estrutura dele, fazendo o ácido acetilsalicílico (AAS,
aspirina). Esse último ainda causa o mesmo problema,
mas bem menos do que o ácido salicílico.
A nomenclatura dos ácidos carboxílicos é feita usando-se a palavra “ácido” e adicionando-se o sufixo
“oico” ao grupo alquil ou aril. Outra forma é adicionar ao nome do grupo alquil (sem substituir o sufixo)
a palavra “carboxílico”. Muitos ácidos são muito mais conhecidos pelo seu nome trivial (em azul, na
Figura 154):
H
O
OH
Àcido metanóico
Àcido metanocarboxílico
ÁCIDO FÓRMICO
O
OH
Ácido etanóico
Àcido etanocarboxílixo
ÁCIDO ACÉTICO
O
OH
Ácido butanóico
Ácidobutanocarboxílico
ÁCIDO BUTÍRICO
O
OH
Ácido pentanóico
Ácido pentanocarboxílico
ÁCIDO VALÉRICO
O
OH
Ácido 2-metil-hexanóico
Àcido 2-mwtil-hexanocarboxílico
ÁCIDO 2~METIL-CAPRÓICO
O
OH
Ácido cicloexanóico
Ácido cicloexanocarboxílixo
O
OH
Ácido Propenóico
Ácido Propenocarboxílico
ÁCIDO ACRÍLICO
H2N
O
OH
Ácido 2-amino-etanóico
Ácido 2-amino-acético
GLICINA
OH
O OH
Ácido 2-hidroxi-benzóico
ÁCIDO SALÍCILICO
 
Figura 154: Nomenclatura dos ácidos
OH
COOH
OH
COOCCH3
OH
O
O OH
OH
OH
HO
Salicilina Ácido Salicilico AAS
 
Figura 153
 
 
 
.  105 . 
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Química Orgânica 
O ácido fórmico foi obtido pela primeira vez da maceração de formigas, daí o seu nome. A dor e
ardência que a gente sente com a picada de formigas é porque elas injetam esse ácido quando picam.
Ele é usado, hoje, na preparação de couros, como fixador de corantes e na coagulação do látex das
seringueiras para a obtenção da borracha.
O nome do ácido acético vem do latim “acetum”, que quer dizer azedo. O vinagre é uma solução
aquosa de ácido acético e é obtido por fermentação do álcool etílico na presença de bactérias. É usado
como matéria-prima para a obtenção de várias coisas, inclusive do ácido salicílico.
Com o desenvolvimento da indústria química e a necessidade da humanidade de cada vez mais obter
novas matérias, o homem precisou criar matérias-primas que fossem muito reativas, isto é, reagissem
com muitas coisas e rapidamente.
Com isso, duas funções orgânicas foram criadas pelo homem, que não são encontradas na natureza :
os haletos de acila (ou de ácido), onde o OH da carboxila foi substituído por um halogênio e os
anidridos de ácidos que, como o próprio nome diz, pela união de dois ácidos com perda de água.
Esses ácidos podem ser iguais ou não.
Estas funções são nomenclaturadas da mesma forma que os ácidos, colocando na frente a palavra
correspondente ao haleto (cloreto, iodeto, brometo; não existem fluoretos de acila) e o sufixo “oila” ou
anidrido:
 
O
Cl
Cloreto de acetila
Cloreto de etanoila
O
Br
Brometo de pentanoila
O
I
Iodeto de ciclopentanoila
O
O
O
Anidrido acético
Anidrido etanóico
O
O
O
Anidrido butanóico-etanóico
O
O
O
Anidrido butanodióico
ANIDRIDO SUCCÍNICO
 
Figura 155
 
 
 
.  106 . 
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Química Orgânica 
8. Ésteres
Quando o hidrogênio da carboxila dos ácidos (RCOOH) é substituído por um grupo alifático ou
aromático, temos um éster. Os ésteres de baixo peso molecular são líquidos voláteis e muitos são
responsáveis pela fragrância e sabor de flores e frutos. Por causa disso, são muito usados como
flavorizantes em alimentos e em cosméticos. Veja alguns exemplos:
O acetato de isoamila é encontrado em bananas e o produto
obtido sinteticamente é muito usado na indústria alimentícia (por
exemplo, biscoito de banana) e cosmética. Mas, cuidado! Apesar de
seu cheiro agradável, é um dos compostos liberados pelas abelhas,
atuando como um feromônio (feromônio são compostos químicos
usados para a comunicação entre indivíduos da mesma espécie) de
alerta, que mobiliza as abelhas para se unirem nas ferroadas ao
“invasor”, que pode ser você!
Outro éster muito usado na indústria de alimentos é o antranilato
de metila. Ele é o que dá o sabor e odor de uvas a sucos, balas,
chicletes, etc.
 
                                                     
Além da utilização como flavorizantes, ésteres também são muito usados como solventes de tintas e
vernizes. Vários ésteres são polímeros. A celulose encontrada em madeiras é um polímero de glicose
(várias moléculas de glicose ligadas entre si). Um éster da celulose é o acetato de celulose, muito
uitlizado para a fabricação de filtros de grande absorção (como o do cigarro) e de tecidos para forros,
guarda-chuvas, tapetes e outros produtos. O politereftalato de etileno (PET), outro polímero que é um
éster, e não precisaria nem dizer, é muito utilizado para a confecção de garrafas.
Muitos medicamentos também são ésteres. Se você reparar bem, o AAS que a gente viu quando
estudou a função ácido carboxílico, também é um éster. E olha que coisa interessante: quando o
mesmo ácido salicílico faz o éster na carboxila em vez de na hidroxila (caso do AAS), observe que, na
Figura 158, temos o salicilato de metila, um anti-inflamatório analgésico, que só deve ser usado por via
O
O
Acetato de isoamila 
O
O
NH2
Antranilato de metila
 
Figura 156
Figura 157
 
 
 
.  107 . 
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Química Orgânica 
tópica (é tóxico se ingerido em grande quantidade). O AAS não é um produto natural, mas o salicilato
de metila é encontrado em bétulas, árvores que não são encontradas no Brasil.
 
 
 
 
 
Figura 158: Ácido salicílico e seus ésteres derivados: salicilato de metila e AAS
 
A nomenclatura dos ésteres é feita da seguinte maneira: a cadeia principal é aquela que está ligada a
C=O e a designação é feita utilizando-se o sufixo “oato”. A outra cadeia é nomenclaturada usando-se a
terminação “ila”:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 159
 
OH
COOH
Ácido salicilico
O O
COOH
AAS
OH O
O
Salicilato de metila
 
O
O
Enoato de metila
Acetato de metila
O
O
Etanoato de etila
Acetato de etila
O
O
Propanoato de metila
O
O
Metanoato de fenila
Acetato de fenila
O
O
Fenolato de etila
O
O
But-2-enoato de sec-propila
But-2-enoato de isopropila
H
O
O
Metanoato de benzila
Formiato de benzila
O
O
2-etenill-cicloexanoato de metila
2-vinil-cicloexanoato de metila
 
 
 
 
.  108 . 
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Química Orgânica 
Lipídeos são substâncias naturais de origem biológica, que são insolúveis em água: óleos, gorduras e
ceras são os exemplos mais comuns. Óleos e gorduras são glicerídeos, isto é, são ésteres do glicerol (ou
glicerina):
 
          
Figura 160
Em geral, todas as três hidroxilas do glicerol estão esterificadas (isto é, formaram ésteres) de forma que
esses compostos são também conhecidos por triglicerídeos. Chamamos de óleo os triglicerídeos que
são líquidos à temperatura ambiente, e de gorduras os triglicerídeos que são sólidos. A Figura 41 mostra
um exemplo de um triglicerídeo:
O
O
O
O
O
O
 
Figura 161: Um triglicerídeo
Os ésteres podem ser quebrados (em Química a gente usa mais o termo “clivar”) formando o álcool e o
ácido correspondente. No caso dos triglicerídeos, os ácidos formados são chamados de ácidos graxos,
pois a palavra “graxa” significa gordura:
 
HO OH
OH
 
 
 
.  109 . 
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Química Orgânica 
O
O
O
O
O
O
CLIVAGEM
OH
OH
OH
HO
HO
HO
O
O
O
ÁCIDOS GRAXOSGLICEROL
+
com H2O
 
Figura 162
Os ácidos graxos são ácidos carboxílicos, geralmente com uma longa cadeia carbônica: a cadeia
carbônica pode ser saturada (alcânica) ou insaturada. Essa longa cadeia carbônica é que faz com que os
óleos e gorduras não sejem solúveis em água.
Os ácidos graxos naturais têm número par de carbonos porque sua biossíntese (síntese no organismo) é
feita por adição de dois átomos de carbono de cada vez e, quando insaturados, a ligação dupla é sempre
cis. Gorduras trans não são naturais.
A tabela abaixo mostra exemplos de ácidos graxos. A designação abreviada tem o seguinte significado:
o primeiro no
indica o no
de átomos de carbono, e o no
que vem após os dois pontos significa o n° de
C=C que tem na cadeia do ácido.O triângulo com um no
subscrito diz a posição dessas ligações duplas.
Número de 
carbonos 
Nome comum  Nomenclatura IUPAC  Designação 
abreviada 
Exemplos de 
ocorrência 
4  Butírico  Butanoico  C4:0  Leite, manteiga 
6  Caproico  Hexanoico  C6:0  Leite, manteiga 
12  Láurico  Dodecanoico  C12:0  Óleo de coco 
18  Esteárico  Octadecanoico  C18:0  Sebo animal 
18  Oleico  (9Z)‐Octadecenoico  Δ9
 C18:1  Azeite 
18  Linoleico  (9Z,12Z)‐Octadecadienoico  Δ9,12
 C18:2  Óleo de algodão, 
soja, amendoim, 
milho, girassol 
Tabela 9: Exemplos de ácidos graxos.
 
 
 
.  110 . 
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Química Orgânica 
Vocês já devem ter visto em rótulos de alguns alimentos a seguinte frase: contém ω-3 (essa letra grega a
gente chama de “ômega”). Essa é uma nomenclatura que se usa apenas para ácidos graxos insaturados,
onde o no
que aparece depois do ômega se refere à posição da ligação dupla mais afastada da carbonila,
mas numerando a cadeia de trás para a frente, isto é, começando a numerar a cadeia pelo extremo do
CH3 e não da COOH:
HO
O
1
2345
67
891011
12
13
14
15
16
17
18
1 2
3
4
5 6
7
8
9 10
11
1213
14
15 16
17
18 Numeração IUPAC
Numeração omega
ÁCIDO α-LINOLEICO
ω-3
 
Figura 163
E para que mais essa complicação? Essa numeração tem importância por questões biológicas,
principalmente para os nutricionistas. O corpo humano (aliás, os mamíferos em geral) pode sintetizar
quase todos os ácidos graxos de que precisa a partir dos açúcares e outras fontes alimentares. No
entanto, não conseguimos fazer os ácidos do tipo ω-3 e nem ω-6. Acontece que precisamos deles para
muitas finalidades: precisamos ingeri-los em nossa alimentação porque não somos capazes de fazê-los e
nossa saúde depende deles em grau apreciável. Por conta disso, são chamados de ácidos graxos
essenciais (em bioquímica, “essencial” significa uma molécula fundamental para a vida, mas que temos
de adquirir a partir de alimentos, porque não sintetizamos).
Ceras são ésteres de ácidos graxos com alcoóis mono-hidroxílicos (não vem do glicerol) de cadeia longa
ou com vários anéis. Na figura abaixo está a estrutura do palmitato de miricila (o no
entre parênteses
significa quantas vezes o CH2 se repete), o componente principal da cera de abelhas:
 
O
O
14 29
PALMITATO DE MIRICILA  
Figura 164
 
 
 
.  111 . 
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Os sabões (e sabonetes) são sais (usualmente de sódio) de ácidos graxos. Na maioria das vezes são
obtidos por clivagem de triglicerídeos com hidróxido de sódio (NaOH). No interior, ainda tem muita
gente que faz sabão de cinzas. Aí, a base é o hidróxido de potássio (KOH), que é o constituinte das
cinzas. Assim por exemplo, no sabão de coco temos muito sal:
 
O
O
Na
Laureato de sódio  
Figura 165
Agora, vamos entender como o sabão limpa:
Se a gente analisar a estrutura das moléculas do sabão, percebe que é constituída por uma parte
hidrofóbica (“que não gosta de água”), a cadeia carbônica, e uma parte hidrofílica, a extremidade polar
(COO-
Na+
). Essa estrutura faz com que essas moléculas em água apresentem a tendência a se agregar,
aproximando as cadeias hidrofóbicas umas das outras, excluindo a água desse grupo e deixando os
extremos hidrofílicos em contato com a água. Esse arranjo chamamos de micela.
A parte hidrofóbica da micela é que retira as sujeiras apolares, e a hidrofílica, as sujeiras polares. Por
isso, tomar banho sem sabonete não limpa! A água sozinha não retira gordura!
Esses mesmos triglicerídeos de vegetais (no Brasil, estamos testando muito com a mamona) são
utilizados para fazer biodiesel. No biodiesel, a parte alcoólica do triglicerídeo (o glicerol) é substituída
por um grupo metoxila (OCH3):
O
O
O
O
O
O
CLIVAGEM
OH
OH
OH
MeO
MeO
MeO
O
O
O
BIODIESELGLICEROL
+
com CH3OH
 
Figura 166
 
 
 
.  112 . 
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Um outro derivado do glicerol, que também é um éster, é o trinitrato de glicerina. Esse éster foi
sintetizado pela primeira vez por Ascario Sobreno, um químico italiano, no século XVIII. O problema é
que esse explosivo é um líquido muito sensível e detonava com qualquer movimento, impedindo,
inclusive, o seu transporte. Alfred Nobel, químico sueco, descobriu que se ele misturasse o trinitrato de
glicerina com um pó inerte (usou terra diatomácea: óxido de silício em pó) ela poderia ser manuseada
com facilidade. Estava descoberta a dinamite.
A descoberta da dinamite e sua ampla exploração industrial tornaram Alfred Nobel muito rico. Nobel
sempre foi um homem generoso, principalmente no que se diz respeito a atividades humanitárias e
científicas. Em seu testamento, Nobel deixou a maior parte de sua fortuna para o que veio a ser o mais
famoso prêmio internacional de ciências, o prêmio Nobel.
9. Aminas
Nossa atmosfera é composta basicamente por 20% de oxigênio e 80% de nitrogênio. Não precisamos
nem falar na importância do oxigênio. Mas, e o nitrogênio? Onde entra nessa história?
Ao contrário do oxigênio, que é ele próprio um dos “ingredientes” das oxidações biológicas (que vão
originar todos os compostos contendo oxigênio: álcool, éteres, ácidos, etc.) o nitrogênio (N2) em si é
relativamente inerte. No entanto, por um processo que a gente conhece por “fixação de nitrogênio” é
transformado em amônia (NH3), e daí se transforma em compostos orgânicos nitrogenados. As aminas
são substâncias nas quais os hidrogênios da amônia são substituídos por grupos alifáticos ou
aromáticos.
Em função dessa substituição, as aminas são classificadas em primárias, secundárias ou terciárias.
Compostos onde o nitrogênio está com quatro substituintes e, por conta disso, está positivo, são
denominados de sais de amônio quaternário:
 
 
 
 
.  113 . 
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Química Orgânica 
N
H
Coniina
AMINA SECUNDÁRIA
Constituinte principal do veneno de cicuta, uma planta
de origem européia. O filósofo Sócrates foi morto por
envenenamento com esta planta.
NH2
OH
HO
Dopamina
AMINA PRIMÁRIA
É um neurotransmissor (molécula sintetizada
e estocada nos neurônios que só é liberada quando
esse neurônio é estimulado, isto é, quando vai desen
cadear uma ação). Quando o cérebro perde a capacidade
de sintetizar a dopamina, temos a doença de Parkinson.
Uma superatividade dos neurônios que sintetizam a dopamina
gera a esquizofrenia.
N
Trietil-amina
AMINA TERCIÁRIA
Esta amina tem um cheiro muito desagradável.Éum dos
compostos liberados quando um peixe morre e começa
a se decompor. Ela realmente tem cheiro de peixe estragado!
N Cl
Cloreto de cetil-trimetil-amônio
SAL DE AMÕNIO QUATERNÁRIO
É um produto sintético utilizado em
condicionadores de cabelo e cremes rinse .
Figura 167
As aminas e outros compostos nitrogenados estão entre as moléculas orgânicas mais abundantes. Por
serem os constituintes de aminoácidos, proteínas e alcaloides são essenciais para a Bioquímica (ciência
que estuda a “química da vida”). Muitas, como os neurotransmissores, possuem atividade biológica.
Devido à essa gama de efeitos biológicos, são muito utilizadas como medicamentos.
Aminoácidos são compostos orgânicos que possuem em sua estrutura uma função amina e uma função
ácido carboxílico. Podem ou não ter outras funções além dessas. Abaixo (Figura 168) são mostrados
exemplos de α-aminoácidos (para os aminoácidos a gente chama os carbonos vizinhos ao COOH de α
β, γ, δ...) essenciais:
 
 
 
 
.  114 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
H2N COOH
Glicina
H2N COOH
SH
Cisteína
H2N COOH
Fenilalanina
N
H
H
O
OH
Prolina
α
α
α
α
 
Figura 168: Exemplos de α-aminoácidos essenciais
Proteínas são polímeros constituídos de vários aminoácidos encadeados por meio de uma ligação
peptídica (ligação que ocorre entre a C=O de uma carboxila e o NH de uma amina; é uma ligação
amídica:
N
H
O
). 
Figura 169
 
As proteínas são de importância primordial para os seres vivos e existem em todas as células vivas. Essa
importância pode ser avaliada pelo fato de que os ácidos nucleicos (DNA e RNA), responsáveis pela
hereditariedade, têm como papel principal a codificação (qual aminoácido vai se ligar com qual) da
síntese de proteínas.
A hemoglobina (que a gente abrevia como Hb) é uma proteína presente nas células vermelhas do
sangue (eritrócitos). É constituída por quatro cadeias de aminoácidos enovelados entre si (no total são
quase 600 aminoácidos). Na extremidade de cada uma dessas cadeias, existe um grande anel orgânico
heterocíclico constituído por vários ciclos nitrogenados. Esses nitrogênios fazem ligação coordenada
com um átomo de ferro e esse sistema cíclico todo é designado grupo “heme” . Com essa coordenação,
o ferro fica na forma Fe+2
e então tem capacidade de se ligar ao oxigênio. É dessa maneira que o
oxigênio é transportado para todo o nosso organismo. A morte por asfixia com monóxido de carbono
acontece porque, na sua presença, o Fe+2
do grupo heme se liga a ele ao invés do oxigênio, ou seja, o
oxigênio não é mais transportado para as nossas células.
 
 
 
.  115 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
Quando ocorre a morte, as várias proteínas animais se decompõem em várias outras substâncias. Duas
diaminas são exemplos desses compostos e aparecem em toda carne podre. São as responsáveis pelo
cheiro ruim que sentimos. O nome dessas aminas é bastante sugestivo:
 
H2N NH2
Cadaverina
H2N
NH2
1,4-diaminabutano1,5-diaminapentano
Putrescina
 
Figura 170
Apesar de nós a associarmos a coisas mortas, a cadaverina é encontrada em pequena quantidade no
sêmen e a putrescina no suor e na saliva.
Alcaloides são compostos orgânicos nitrogenados, encontrados basicamente em vegetais
(pouquíssimos alcaloides são descritos em animais). Um exemplo de alcaloide é a cocaína.
A cocaína é extraída das folhas de coca. A folha de coca (cujo consumo através do chá ou se mascando
feito chiclete leva apenas à absorção de uma dose minúscula) é usada há mais de 1.200 anos pelos
povos nativos da América do Sul, que a mastigavam para ajudar a suportar a fome, a sede e o cansaço.
Os incas e outros povos andinos a usaram para facilitar o trabalho em altas atitudes, onde a rarefação do
ar torna o trabalho árduo muito mais difícil.
N
H
Cl O
O
O
O
Cloridrato de cocaína  
Figura 171
 
 
 
.  116 . 
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Química Orgânica 
A forma com que é vendida como droga é o sal de amônio quaternário, e é muito perigosa, pois é muito
mais concentrada que aquela encontrada na folha. A cocaína já foi utilizada como anestésico, mas
devido a seus outros tantos efeitos, não é mais utilizada em medicina. Ao atuar ao nível do Sistema
Nervoso Central, causa euforia, mas também está comprovado que provoca complicações
cardiovasculares e neurológicas graves. Muitas pesquisas mostram a ocorrência de hemorragias
cerebrais devido ao abuso da cocaína. Alguns estudos comprovam que seu uso crônico pode acarretar
em atrofia cerebral, com consequentes déficits na atenção, concentração, aprendizado e memória
visual e verbal. Além disso tudo, a cocaína causa dependência química.
Uma outra forma na qual a cocaína é vendida é o crack, cinco vezes mais potente e, lógico, muito mais
perigoso. A gente já discutiu as interações intermoleculares e aí consegue entender o porquê. A
cocaína é o sal de amônio quaternário, enquanto o crack é a amina terciária. Como o cérebro é
protegido por uma barreira lipídica, quem chega mais no cérebro: o cloridrato de cocaína (um sal) ou a
molécula sem carga (o crack)?
Como muitos neurotransmissores são aminas, medicamentos que atuam no sistema nervoso
geralmente também têm essa função na sua estrutura. Um exemplo é a fluoxetina, que a gente conhece
mais pelo seu nome comercial: Prozac, um antidepressivo.
F3C N
H
Fluoxetina
 
Figura 172
Para se nomenclaturar as aminas primárias, adiciona-se ao fim do prefixo referente à cadeia carbônica a
palavra “amina”. Esse prefixo (nome da cadeia carbônica) pode ter a terminação “il” ou não. Para as
aminas secundárias e terciárias, considera-se como cadeia principal aquela que contém o átomo de
nitrogênio e o maior no
de carbonos. As outras cadeias são designadas com a letra “N” na frente:
 
 
 
.  117 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
NH2
Metanaimna
NH2
Etanamina
NH2
Propan-2-amina
NH2
Cicloexanamina
NH2
Metilamina Etilamina Cicloexilamina
Benzenoamina
Fenilamina
ANILINA
NH2
2-fenil-etanamina
2-fenil-etilamina
Benzilamina
NH2
(E)-4-metil-hex-3-en-2-amina
N
H
N-metil-butan-2-amina
N
N-etil-N,4-dimetil-hexan-3-amina
 
Figura 173
 
10. Amidas
As amidas são os compostos orgânicos que possuem uma carbonila (C=O) diretamente ligada a um
nitrogênio. Quando vimos a função amina fomos apresentados às proteínas, cujas ligações peptídicas
na realidade são amidas.
Da mesma forma que as aminas, são classificadas em primárias, secundárias ou terciárias:
 
 
 
 
 
Figura 174
O
NH2
Metanamida
AMIDA PRIMÁRIA
H
O
N
N,N-dimetil-formamida
AMIDA TERCIÁRIA
O
N
H
N-metil-ciloexanamida
AMIDA SECUNDÁRIA
 
 
 
 
.  118 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
As amidas têm aplicações como matérias-primas industriais, medicamentos, fertilizantes e na obtenção
de polímeros. As amidas cíclicas recebem a designação especial de lactamas. As penicilinas, por
exemplo, possuem um ciclo lactâmico:
N
H
N
ONH2
O
HO
Penilicina-G
S
COO K
O
 
Figura 175
As amidas são muito encontradas também na natureza. Embora hoje muitas sejam obtidas por síntese,
as próprias penicilinas são produzidas por fungos.
A piperina e a chavicina são alcaloides amídicos
encontrados na pimenta do reino. Observe que
uma é isômera da outra. Parece que a chavicina é
a responsável pelo sabor picante da pimenta do
reino. Você já comeu pimenta do reino pura? Se
fizer, vai reparar que arde bem mais do que
depois que foi cozida nos alimentos. Isso porque,
com o aquecimento, a chavicina se converte na
piperina, que é menos picante.
Já a capsaicina está presente na pimenta malagueta. Essa arde muito! Ela é o gás de pimenta, muito
usado pela polícia quando quer controlar agitações na rua.
Os polímeros de amidas são denominados de nylon. Existem vários tipos de nylon (diversas amidas são
usadas como monômeros). São usados na confecção de tênis, guarda-chuvas, “air-bags”, barracas de
acampamento, tecidos para vestuário, etc. Cerca de 10% dos materiais usados em um carro hoje são
feitos de poliamidas, que tem a vantagem de serem leves; diminuindo o peso do carro, a gente diminui
o gasto de combustível.
 
Figura 176
 
 
 
.  119 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
A nomenclatura das amidas é feita igualzinha a das aminas, mas agora substituindo a palavra “amina”
por “amida”:
 
Figura 177
11. Nitrilas
As nitrilas são compostos orgânicos que possuem o grupo funcional ciano (CΞN). A presença de nitrilas
na natureza é bem mais rara que o dos outros compostos nitrogenados. Quando existem,
normalmente são encontradas na forma de cianoidrinas:
C N
NITRILA
OH
C
N
H
CIANOIDRINA
 
Figura 178
são compostos onde o grupo CN está em um
carbono que também contém uma hidroxila.
Quando essa hidroxila pertence a um açúcar,
dizemos que é um glicosídeo cianogênico. Esses são
compostos tóxicos, pois liberam HCN e existem em
muitas plantas. 
 
 
 
.  120 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
O O
CN
OH
OH
HO
HO
LINAMARINA    
       Figura 179
Uma amida sintética muito importante é a acrilonitrila (H2C=CHCN), pois ela é monômero da
poliacrilonitrila.
A poliacrilonitrila (PAN) é um polímero muito utilizado em fibras têxteis (fibra acrílica), principalmente
para a confecção de roupas de inverno.
A PAN, quando aquecida acima de 180o
C, forma um resíduo preto com alto teor de carbono que é
muito utilizada porque é leve e altamente resistente. Esse resíduo é conhecido como fibra de carbono.
A nomenclatura das nitrilas é feita como a das amidas: adiciona-se a palavra ”nitrila” depois do nome do
hidrocarboneto. Quando a nitrila é um substituinte, usa-se a designação ciano:
CN
Etanonitrila
CN
Propanonitrila
CN
Metil-propanonitrila
COOH
CN
Ácido m-ciano-benzóico
 
Figura 180
Bem, acabamos por aqui. Nesse texto, fizemos um breve relato da história da Química Orgânica,
discutimos as propriedades do átomo de carbono, a forma como ele se liga para gerar as diversas
moléculas orgânicas e as consequências dessas ligações em termos de propriedades químicas.
Um glicosídeo cianogênico, chamado linamarina, é encontrado na
mandioca brava. Ela tem de ser bem cozida antes de consumida (para
degradar esse glicosídeo), pois pode levar à morte. Estima-se que cerca de
2.500 espécies de vegetais possuem glicosídeos cianogênicos como
mecanismo de defesa. Por isso, é comum ocorrer envenenamento de gato e
de pessoas por consumir essas plantas ou beber água onde raízes de
mandioca brava foram colocadas de molho.
 
 
 
.  121 . 
Sala de Leitura 
Química Orgânica 
Fomos apresentados também aos principais grupos funcionais (existem muitos outros). Você deve ter
reparado que a grande maioria dos compostos tem mais de um grupo funcional em sua estrutura e um
pode influenciar no outro.
Agora, uma questão para pensar: mesmo “esquecendo” as moléculas orgânicas presentes nos
organismos vivos, isto é, pensando naquelas que a tecnologia já criou, e a cada dia surgem mais
novidades, você consegue imaginar a sua vida sem Química?
 
 
 
 
 
 

Sl quimica organica

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    Química Orgânica   FlorenceM. Cordeiro de Farias                                                                  Este documento tem nível de compartilhamento de acordo com a licença 3.0 do Creative Commons. http://creativecommons.org.br http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/br/legalcode  
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          .  1 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Química Orgânica Histórico atéa definição final A utilização de compostos orgânicos é descrita desde a antiguidade. Pesquisas arqueológicas recentes comprovaram a presença de vinhos em jarros encontrados em tumbas de faraós (3150 a.C.). Os papiros egípcios de Ebers (cerca de 1500 a.C.), de Edwin Smith (cerca de 1600 a.C.) e de Brugsch (cerca de 1300 a.C.) descrevem inúmeras fórmulas medicinais cujos constituintes eram principalmente ervas. Os próprios papiros eram feitos da celulose obtida a partir dos talos da planta papiro do Egito, planta aquática da mesma família da tiririca, abundante nas margens do Rio Nilo. A Bíblia, no episódio de Noé (Gênesis), fala no vinho. Os romanos e egípcios utilizavam os corantes índigo e alizarina. O índigo era obtido a partir de plantas do gênero Indigofera (anil do campo, timbozinho) e atualmente é obtido por síntese e utilizado principalmente para a coloração de “jeans”. A alizarina era retirada de raízes da rubia . A alizarina foi o primeiro corante a ser sintetizado (obtido em laboratório) e hoje em dia é utilizado principalmente como reagente químico. Apesar dessa grande utilização, até o século XVIII era pouco o conhecimento que se tinha sobre as propriedades e composição dos compostos orgânicos. A Química já era bastante estudada, mas a parte que envolvia a composição e estrutura (átomos que existiam nas moléculas e as formas com que se arrumavam nelas) dos compostos orgânicos era pouco conhecida. A importância da Química Orgânica estava muito mais em sua fonte de obtenção (na época, animal ou vegetal) e em sua aplicabilidade em medicina, do que na sua parte estrutural. Havia pouca produção de materiais orgânicos e, na maioria das vezes, eram feitos domesticamente ou em pequena escala. Poucas coisas como, por exemplo, a fabricação de sabão, o refino do açúcar, processos de tingimento e destilação (separação de duas ou mais substâncias por aquecimento) eram feitas em escalas maiores. Poucos compostos orgânicos eram conhecidos em sua forma pura. Valerius Cordus (médico e botânico alemão,1515-1544) descreveu, em 1540, a obtenção do éter por tratamento do álcool com ácido sulfúrico – método ainda usado –, dentre outros. Em 1780, Scheele (químico farmacêutico sueco, 1742- 1786) desenvolveu um método químico para obter ácidos orgânicos a partir de plantas ou animais e assim descobriu vários ácidos orgânicos, tais como, por exemplo, os ácidos benzoicos (isolados da resina balsâmica obtida do benjoim: Styrax benjoin), utilizado hoje em dia para a preservação de alimentos, e o ácido tartárico (Figura 1), isolado de extratos de uvas fermentadas.
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          .  2 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  COOH Ácido Benzóico HOOC COOH OH OH Ácido tartárico   Figura1: Estruturas do ácido benzoico e ácido tartárico.   O que podemos notar é que os compostos orgânicos eram obtidos, até então, de plantas ou animais. As técnicas existentes na época não permitiam sua caracterização (isto é, como eram constituídos). Lavoisier (químico francês, 1743-1794) já havia relatado que, diferente dos compostos químicos do “reino mineral”, os compostos orgânicos eram constituídos principalmente de carbono e hidrogênio e, frequentemente, também de nitrogênio e fósforo. Passou a ocorrer uma tendência a achar que a Química Orgânica, embora fosse uma parte integrante da Química, era diferente. Na medida em que era relacionada aos organismos vivos e aos compostos orgânicos, acreditava-se, eram produzidos apenas por esses organismos. A Química Orgânica, como uma divisão da Química, foi proposta em 1777 por Bergman (físico e matemático sueco, 1735-1784) e foi definida como a “Química dos organismos vivos”. Em 1797, pela primeira vez, é tratada diferencialmente quando Gren (químico alemão,1760-1798) publica um livro no qual os compostos orgânicos são tratados em um capítulo à parte. Nesse capítulo, essas substâncias são definidas, na linguagem da época, “como princípios presentes em organismos animais e vegetais e que não poderiam ser sintetizados artificialmente”. Essa ideia permaneceu por várias décadas. Vários químicos achavam que a origem desses compostos (seres vivos) os diferenciava dos compostos minerais. Esses últimos eram obtidos frequentemente em estados mais puros e obedeciam à Lei das Proporções Constantes (também denominada Lei de Proust, ela diz que, independente do modo pelo qual uma substância é obtida, a proporção, em massa, dos elementos que participam de sua composição é sempre a mesma). Como, na época, as técnicas existentes dificultavam a obtenção de compostos orgânicos puros, a presença de impurezas diversas levava a resultados diferentes de análise elementar (proporção de cada átomo presente na molécula) para um mesmo composto, então achou-se que não obedeciam à Lei das Proporções Constantes. A origem do termo “Química Orgânica” vem da proposta de Berzelius (1779-1848), médico e químico sueco, em 1807, para referir-se a todos os compostos descobertos a partir de organismos vivos. Acreditava-se – teoria denominada de Vitalismo – que os compostos orgânicos eram obtidos pela intermediação de uma força vital que existia apenas em plantas e animais. Esses compostos poderiam ser extraídos e transformados uns nos outros, mas não poderiam ser obtidos a partir de outros elementos do reino mineral (que não possuíam a força vital).
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          .  3 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  A ideia dovitalismo começou a declinar quando Wöhler (1800-1882), médico e químico sueco, em 1828, sintetizou a ureia (substância anteriormente isolada da urina de animais) a partir do cianato de amônia, reação que ficou conhecida como Síntese de Wöhler (Figura 2). Na realidade, Wöhler desejava obter cianato de amônia e, para isso, tratou cianato de chumbo com hidróxido de amônia. Para sua surpresa, obteve um material sólido, que não mostrou as propriedades típicas dos cianatos. Ao analisar o que havia ocorrido, descobriu que havia obtido ureia, idêntica àquela anteriormente isolada de urina. Na realidade, a reação do cianato de chumbo com hidróxido de amônia forma cianato de amônia que, por aquecimento, gera ureia:       Figura 2: Síntese de Wöhler Wöhler, então, escreveu para Berzelius dizendo: “Devo contar-lhe que eu posso fazer ureia sem o uso de rins animais ou humanos”. Realmente, a experiência de Wöhler foi de grande importância, mas ainda houve o questionamento do fato de que, na realidade, esses compostos deveriam ter a força vital, pois o hidróxido de amônia e o ácido ciânico (fonte do cianato de chumbo) eram obtidos de fontes animais (origem orgânica). O reconhecimento de que a teoria da força vital não tem grande aplicabilidade na Química Orgânica foi ocorrendo gradualmente, na medida em que novos compostos orgânicos foram sendo reconhecidos e sintetizados. À medida que o vitalismo perde forças, aquela definição anterior proposta por Bergman (química dos organismos vivos) deixa de ser adequada e, então, Kekulé (1829-1896), químico alemão,(químico alemão, 1829-1896) propõe a definição da Química Orgânica como o ramo da Química que estuda os compostos de carbono. Essa afirmação está correta, contudo, nem todo composto que contém carbono é orgânico. Por exemplo, o dióxido de carbono, o carbonato de sódio, o ácido carbônico, dentre outros, não são orgânicos. Mas, todo composto orgânico contém carbono. Por conveniência, o termo orgânica se mantém até hoje, buscando classificar um grande número de compostos que possuem uma série de propriedades em comum. Diferente dos outros elementos, o
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          .  4 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  átomo de carbonotem a capacidade de se ligar infinitamente entre si em um número ilimitado de combinações, gerando, com essas ligações, milhares de compostos diferentes. Deve-se enfatizar, contudo, que as divisões da Química nunca foram, nem se espera que venham a ser, mutuamente exclusivas, pois o campo da Química é um só, e há uma tendência natural para a unificação e remoção de barreiras artificiais. A divisão em Química Orgânica, inorgânica, analítica, físico-química e bioquímica se faz buscando uma finalidade didática e em função do enfoque que se deseja dar a um determinado problema. Importância A Química Orgânica está presente em qualquer atividade de nossas vidas. Nesse momento, por exemplo, ao ler esse texto, tudo está sendo mediado por compostos orgânicos. Para conseguir enxergar, seus olhos estão utilizando um composto orgânico (o cis-retinal) para converter a luz em um impulso nervoso. Quando você mexe no “mouse”, no teclado, enfim, faz qualquer movimento (até dormir) o seu organismo está fazendo uma reação química para transformar a glicose em energia. Para que você possa raciocinar e entender esse texto ou perceber o mundo, os impulsos nervosos são transmitidos entre os neurônios através da intermediação de moléculas orgânicas (neurotransmissores, como, por exemplo, a serotonina). A vida moderna está repleta de compostos orgânicos. A grande maioria dos medicamentos, vários pesticidas, as fibras têxteis, os polímeros, os corantes...são moléculas orgânicas. Como mostrado no breve resumo que se fez sobre a história da Química Orgânica, desde a pré-história até meados do século XIX, os compostos orgânicos eram obtidos de organismos vivos. Atualmente, apesar de muitas substâncias orgânicas naturais serem muito complexas e de difícil obtenção laboratorial e, assim, ainda serem obtidas a partir de plantas ou animais, a maioria dos compostos orgânicos são obtidos em laboratório. Os compostos são retirados dos organismos vivos (atualmente, o ambiente marinho também tem se mostrado uma grande fonte de produtos orgânicos), estudados e depois, se tiverem alguma aplicação, sintetizados. Assim, por exemplo, a gente já comentou que o índigo, corante azul utilizado em “jeans”, antigamente era obtido de plantas. Porém, sua aplicação industrial é tão grande que a obtenção da fonte natural não atenderia à demanda mundial. É aí que a Química Orgânica moderna exerce o seu papel: atualmente, o índigo é obtido através de uma síntese (chama-se síntese o processo de transformação de moléculas através de reações químicas para se obter a molécula que se deseja). Dessa mesma forma, tem se sintetizado uma variedade enorme de compostos orgânicos, cujo isolamento de fontes naturais tornaria o processo inviável economicamente. Assim, vários compostos obtidos por síntese são exatamente iguais àqueles existentes nos organismos vivos. Outras vezes, o químico faz algumas modificações nas moléculas naturais, obtendo
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          .  5 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  compostos semelhantes (denominadosderivados), mas que apresentam maior aplicabilidade do que o produto natural. Por exemplo, o ácido salicílico é isolado do salgueiro (família de plantas do gênero Salix) e apresenta atividade anti-inflamatória. No entanto, possui também um efeito corrosivo nas paredes do estômago. Assim, o derivado ácido acetil salicílico (AAS) foi sintetizado e é utilizado como medicamento anti-inflamatório que possui menos efeito colateral que o primeiro. Repare como eles são parecidos (Figura 3): OH COOH O COOH O ÁCIDO SALICILICO ÁCIDO ACETIL SALICILICO   Figura 3: Estruturas do ácido salicílico e do AAS   Com o crescimento da Química Orgânica e o acúmulo de informações obtidas hoje em dia, várias moléculas de grande utilidade são obtidas por síntese química, muitas vezes sem ter nenhuma correlação com produtos naturais.   Fonte de compostos orgânicos Mas, se a maioria dos compostos orgânicos atualmente são obtidos por síntese, quais são as matérias- primas para a sua obtenção? Os compostos orgânicos utilizados como matéria-prima atualmente são obtidos de produtos naturais (por exemplo, no Brasil, o álcool é obtido da fermentação - reação química realizada por micro- organismos – do açúcar da cana e é utilizado para a síntese de éter) e, principalmente, de materiais fósseis. Até o século XX, a principal fonte de compostos orgânicos era o carvão mineral (denominado hulha). A destilação da hulha fornece três frações constituídas respectivamente de: 1) Um material gasoso constituído principalmente de hidrogênio e dióxido de carbono, que era muito utilizado para iluminação e aquecimento; 2) Material líquido, denominado de alcatrão da hulha, e que é a fonte de compostos orgânicos, e 3) Material sólido, denominado coque, utilizado em siderurgia para a obtenção
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          .  6 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  do ferro gusa(liga de ferro e carbono – designa-se liga uma mistura homogênea de metais) matéria- prima utilizada para a produção do lingote de ferro. No século XX, o petróleo passa a constituir a principal fonte de compostos orgânicos. Além de carbono e hidrogênio, vários outros elementos também estão presentes nos compostos orgânicos. A tabela periódica a seguir mostra os principais elementos constituintes de compostos orgânicos, estando em vermelho os elementos presentes em maiores quantidades.   1                          14  15  16      H       C  N  O          Si P  S  Cl                                    Br                                 I                                      Tabela 1: Tabela Periódica Assim, o gás metano (principal constituinte do gás natural) possui apenas carbono e hidrogênio. A sacarose (açúcar comum) possui carbono, hidrogênio e oxigênio. A anfetamina, um estimulante do sistema nervoso central, possui, além de carbono e hidrogênio, nitrogênio. O colágeno, a elastina e as glicoproteínas são as fibras responsáveis pela sustentação da derme e contém silício em sua estrutura. O NAD (nicotinamida-adenina-dinucleotídeo) é um agente oxidante biológico que contém fósforo em sua estrutura. O cheiro desagradável exalado pelo gambá é devido a dois compostos orgânicos que contém carbono, hidrogênio e enxofre em sua estrutura. O policloreto de vinila (PVC) utilizado para a fabricação de canos é constituído de átomos de carbono, hidrogênio e cloro. O halomon é um composto que contém, além de carbono e hidrogênio, bromo e cloro em sua estrutura. Foi isolado de uma alga marinha e possui atividade antitumoral (possibilidade de uso na terapia contra o câncer). A tiroxina é o hormônio produzido pela tiroide e contém, além de carbono, hidrogênio, oxigênio,
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          .  7 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  nitrogênio e iodoem sua estrutura. Daqui a pouco, quando a gente entender como as moléculas são representadas, vocês vão ver a estrutura desses compostos. Ligações Químicas Covalentes Antes de começarmos a analisar o átomo de carbono e os compostos orgânicos, devemos recordar sucintamente o processo pelo qual ocorrem as ligações químicas covalentes, isto é, aquelas que se fazem por compartilhamento de elétrons. Os elétrons em um átomo estão distribuídos nos orbitais atômicos (orbital é uma dedução matemática que define a região do espaço onde existe maior probabilidade de se encontrar elétrons). Os orbitais possuem tamanho e níveis energéticos diferentes (quanto mais afastado do núcleo, maior e mais energético é o orbital) e, em função disso, são subdivididos nos subníveis s, p, d e f. Para o estudo da Química Orgânica, vamos nos limitar aos subníveis s e p. Os orbitais s possuem a forma esférica, isto é, a probabilidade de encontrar elétrons é maior na região do espaço definida por uma esfera:     Figura 4: a) ORBITAL 1s b) ORBITAL 1s (preto) e 2s (cinza)   Os orbitais p tem a forma de um haltere e, como são três, orientam-se no espaço ao longo dos eixos cartesianos x, y e z (Figura 5):  
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          .  8 .  Sala de Leitura  Química Orgânica    Figura 5: a)ORBITAL 2p b) ARRUMAÇÃO ESPACIAL DOS ORBITAIS 2px, 2py e 2pz   Os orbitais 3p e 4p possuem a mesma forma de haltere, só que se encontram mais afastados do núcleo (e, então, são maiores e mais energéticos). A região do espaço entre os dois lobos do haltere é denominada nodo e, nessa região, não há probabilidade de se encontrar elétrons. Os orbitais dos subníveis s não possuem nodo. Para simplificar o desenho dos orbitais, normalmente eles são apresentados da seguinte forma (Figura 6):                   Figura 6: a) Representação dos orbitais s e p; b) Orbitais p orientados nos eixos cartesianos   Quando ocorre uma ligação química covalente, os orbitais atômicos do último nível (orbitais ocupados pelos elétrons de valência) vão se aproximando, encontram-se, e formam um novo orbital (orbital molecular) onde vão se posicionar os dois elétrons, que, agora passam a ser compartilhados pelos dois núcleos dos átomos que se aproximaram, ou seja, os orbitais moleculares são ocupados pelos dois elétrons que formam a ligação.
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          .  9 .  Sala de Leitura  Química Orgânica      Por exemplo, vamosver como ocorre a formação da ligação entre dois átomos de hidrogênio para formar a molécula do gás hidrogênio. Para obedecer a regra do octeto, cada átomo de hidrogênio deve ficar com dois elétrons. A distribuição eletrônica do átomo de hidrogênio (1 H) é 1s1 e, consequentemente, vai ocorrer uma interação entre dois orbitais s:   1s σ ORBITAL MOLECULAR 1s     Figura 7 Observe que a interação entre estes dois orbitais ocorre segundo um mesmo eixo, ou seja, ocorre uma interação linear dos dois orbitais. O orbital resultante desse tipo de interação é denominado orbital sigma (σ) e a ligação resultante é denominada ligação sigma (σ). A representação estrutural de uma ligação química é feita por um traço (-) e, assim, a molécula do hidrogênio é representada com a seguinte fórmula estrutural: H-H. Mas, se os orbitais são ocupados por elétrons e esses possuem carga negativa, como os orbitais se aproximam, se cargas iguais tendem a se repelir? Nota ao professor: Para uma melhor compreensão do aluno do Ensino Médio, as representações que se seguem não obedecem plenamente à TEORIA DA COMBINAÇÃO LINEAR DOS ORBITAIS ATÔMICOS (CLOA) e, portanto, conceitos relativos à formação de orbitais moleculares somente levam em conta os orbitais ligantes, descartando-se a formação de antiligantes que não se aplicam às necessidades dos alunos nessa fase de aprendizagem.
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          .  10 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O que ocorreé uma atração eletrostática (atração entre cargas opostas) entre o núcleo (carga positiva devido aos prótons) e os orbitais (cargas negativas porque os elétrons estão aí). Assim, o núcleo de um átomo atrai a nuvem eletrônica do outro até o momento em que a aproximação dos dois orbitais gera uma repulsão eletrostática, e aí acaba o processo de formação da ligação. Nessa situação, há um equilíbrio entre as forças de atração e repulsão, resultando numa distância internuclear de maior estabilidade Essa distância internuclear é o que denominamos de comprimento (ou distância) da ligação, cuja unidade mais utilizada é o Angstron (Ao ; 1 Ao = 10 –10 m). O comprimento da ligação H-H é de 0,74 Ao . Em um segundo exemplo, vamos ver como ocorre a formação da ligação da molécula do cloro, onde a interação acontece entre dois elétrons que ocupam os orbitais 3p (17 Cl: 1s2 2s2 2p6 3s2 3p5 ) : σ ORBITAIS ATÔMICOS 3p ORBITAL MOLECULAR 3p 3p     Figura 8   Observe que, assim como para a formação da molécula de hidrogênio, a interação dos orbitais é linear, segundo um mesmo eixo. Logo, a ligação que se forma também é uma ligação σ. O comprimento dessa ligação é de 1,42 Ao . Na formação da molécula de ácido clorídrico (HCl) ocorre a interação entre um orbital 1s do hidrogênio com um 3p do cloro:      
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          .  11 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  1s σORBITAL MOLECULAR3p    Figura 9   Como para os outros exemplos, a interação dos orbitais ocorre linearmente, formando uma ligação σ. O comprimento da ligação H-Cl é de 1,27 Ao . Nos exemplos vistos acima, todas as ligações ocorreram segundo um mesmo eixo, ou seja, foram realizadas interpenetrações lineares de orbitais gerando ligações σ. Entretanto, nem sempre isso é possível, pois quando mais de uma ligação é realizada entre dois átomos, uma delas ocorre segundo um mesmo eixo, porém as demais, em função do próprio arranjo espacial dos orbitais, não podem ocorrer dessa forma, visto que os demais orbitais envolvidos não estão alinhados segundo esse mesmo eixo, mas sim em eixos normalmente paralelos. Sendo assim, a interpenetração não ocorre de forma linear e as ligações são estabelecidas segundo eixos paralelos, distinguindo-se da sigma (σ) e são denominadas de ligações pi (π): Como exemplo, vamos ver a formação da molécula de nitrogênio (7N: 1s2 2s2 2p3 ). Pela configuração eletrônica do átomo, há três orbitais p, cada um com um elétron: 2px 1 2py 1 2pz 1 . Os orbitais 2px 1 (essa escolha 2px foi arbitrária. A ligação poderia ser feita entre os 2py ou 2pz) se superpõem ao longo do eixo x (eixo internuclear) e formam uma ligação σ:
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          .  12 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  σORBITAIS ATÔMICOS2p ORBITALMOLECULAR     Figura 10 E as outras duas ligações? As outras duas ligações são feitas por entrosamento orbitalar paralelo, perpendicular ao eixo da ligação σ, formando duas ligações π:   ORBITAIS ATÔMICOS2py ORBITAIS ATÔMICOS2pz   Figura 11: a) Representação dos orbitais na molécula de N2; b) Representação da molécula de N2.   Observem que, nesse entrosamento paralelo dos orbitais p, cria-se dois orbitais moleculares π que originam, na molécula, regiões ricas em elétrons (orbitais π) que se posicionam acima e abaixo do plano da ligação σ (Figura 11). Portanto, uma das ligações covalentes entre dois átomos é chamada de sigma (σ) e as demais, entre esses mesmos átomos, é chamada de pi (π). Assim, numa dupla ligação, é encontrada uma ligação sigma (σ) e uma pi (π); numa tripla ligação, é encontrada uma ligação sigma (σ) e duas pi (π). Quando não há presença de duplas ou triplas ligações nas moléculas todas são classificadas como sigma.
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          .  13 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Ligações Covalentes Polarese Apolares Os elétrons nas ligações covalentes não são necessariamente compartilhados igualmente entre os dois átomos que formam a ligação. Se um átomo for mais eletronegativo (eletronegatividade é a tendência que possuem determinados átomos de atrair elétrons) que o outro, o átomo mais eletronegativo vai puxar os elétrons para mais perto dele. Quando isso ocorre, dizemos que a distribuição eletrônica é polarizada e a ligação é dita covalente polar. Por exemplo, na molécula de H-F, como o flúor é mais eletronegativo que o hidrogênio, os elétrons da ligação vão estar mais próximos do flúor. Assim, a ligação H-F é uma ligação covalente polar, na qual o flúor possui uma carga parcial negativa (a carga é denominada parcial para distingui-la da carga formal, que é a carga real presente nos cátions e ânions). As formas mais utilizadas para representar essa polarização são os símbolos δ+ δ‐ para representar cargas parciais ou uma seta orientada no sentido do átomo menos eletronegativo para o mais eletronegativo:   H F δ + δ - H Fou     Figura 12 Na tabela periódica, a eletronegatividade cresce da esquerda para a direita e de baixo para cima. Linus Pauling (químico americano, 1901-1994) estudou muito as ligações químicas. A tabela da escala de eletronegatividade de Linus Pauling é muito utilizada cotidianamente:     E    E  F  4,0  I  2,5  O  3,5  C  2,5  N  3,0  S  2,5  Cl  3,0  H  2,1  Br  2,8      Tabela 2: Tabela de eletronegatividade de Linus Pauling
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          .  14 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O Átomo deCarbono Hibridização Hibridização sp3 O carbono encontra-se situado na família 14 da classificação periódica e possui número atômico igual a 6. Portanto, possui seis prótons em seu núcleo e seis elétrons em sua eletrosfera. Na natureza, são encontrados três isótopos (isótopos são elementos químicos de um mesmo átomo, cuja diferença entre eles está no número de nêutrons) do carbono de números de massa 12, 13 e 14, cada um deles com número de nêutrons igual a 6, 7 e 8, respectivamente. O isótopo 12 C está presente em 99% dos átomos de carbono existentes na Terra, enquanto o 13 C é encontrado no 1% restante. O 14 C é um radioisótopo (um radioisótopo é um isótopo instável que emite energia ao se transformar no isótopo mais estável), que ocorre na Terra na proporção de 1 para 1 trilhão (0,0000000001%) e é muito utilizado em processos de datação de fósseis. A distribuição eletrônica por subníveis, em ordem crescente de energia para esse elemento é 1s2 2s2 2p2.   energia 1s 2s 2px 2py 2pz ORBITAIS ATÔMICOS DO CARBONO (Distribuição Eletrônica)   Figura 13 Se analisarmos a distribuição eletrônica do carbono (acima), e formos fazer o tratamento que estamos habituados para as ligações químicas (regra do octeto), haveria duas possibilidades: 1) O carbono faria duas ligações usando os orbitais mono-ocupados e aí seria divalente e não obedeceria a regra do octeto (ficaria com seis elétrons no último nível). 2) O carbono faria três ligações, sendo que em uma delas ambos os elétrons seriam cedidos por outro átomo.
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          .  15 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Entretanto, Kekulé, em1857, já havia mostrado experimentalmente que nos compostos orgânicos o carbono é sempre tetravalente (isto é, faz quatro ligações) e essas quatro ligações são covalentes. Assim, a molécula do metano (CH4) é formada por quatro ligações σ C-H idênticas, como mostrado na fórmula estrutural plana (fórmula estrutural plana é uma representação molecular em que não nos preocupamos em mostrar os ângulos que os orbitais moleculares fazem entre si): C H H H H   Figura 14 Como explicar, então, essa tetravalência do carbono? O modelo que usamos para isso é o que se denomina hibridização de orbitais. Nesse processo, ocorre uma combinação dos quatro orbitais atômicos do último nível (2s + 2px + 2py + 2pz) formando quatro novos orbitais atômicos idênticos. Como essa combinação ocorreu entre um orbital s e três orbitais p, esses novos orbitais são designados sp3 :   + + + 2s 2px 2py 2pz sp3 sp3 sp 3 sp3   Figura 15 Analogicamente, esse processo pode ser comparado ao significado do termo hibridização em Biologia. Por exemplo, uma mula é um híbrido resultante do acasalamento de duas espécies diferentes: jumento
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          .  16 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  e égua. Elanão é um jumento, nem uma égua. É uma mula, espécie diferente, resultante da hibridização de outras duas espécies. Os orbitais atômicos híbridos sp3 não são orbitais s nem p, mas novos orbitais advindos da hibridização daqueles. A distribuição eletrônica nesses novos orbitais segue a regra de Hund (físico alemão, 1896-1997): ao ser preenchido um subnível, cada orbital desse subnível recebe apenas um elétron. O orbital só receberá um segundo elétron quando todos os orbitais daquele subnível já possuírem um elétron. Assim, após a hibridização, cada orbital sp3 do carbono possuirá um elétron: energia 1s 2s 2px 2py 2pz ORBITAIS ATÔMICOS DO CARBONO HIBRIDIZAÇÃO energia 1s 2sp3 ORBITAIS ATÔMICOS HÍBRIDOS DO CARBONO 2sp3 2sp3 2sp3   Figura 16 Com essa nova distribuição eletrônica fica fácil entender que na molécula do metano formam-se quatro ligações σ resultantes da interação orbitalar de cada um dos orbitais híbridos do carbono com um orbital s do hidrogênio.   C H H H H Quatro ligações σ C-H resultantes da interação do orbital sp3 do C com o s do hidrogênio.     Figura 17
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          .  17 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Mas, de queforma (arranjo espacial) esses orbitais se posicionam em torno do núcleo do átomo de carbono? Os elétrons têm carga negativa e, por conta da repulsão eletrostática, os quatro orbitais vão querer estar o mais afastados possível. A figura geométrica com quatro vértices onde estes estão o mais afastados possível um do outro é o tetraedro e, assim, os quatro orbitais sp3 estão arrumados ao redor do átomo de carbono em um arranjo tetraédrico:     Figura 18   A interação dos átomos de hidrogênio ocorrerá com o átomo de carbono nesse arranjo e daí resultará que a molécula do metano possuirá, também, este arranjo:     Figura 19 Assim, a molécula do metano arranja-se espacialmente como um tetraedro e os ângulos formados por suas ligações são de 109,5o , característico de um tetraedro regular. Isso é bem visualizado no modelo vareta e bola mostrado abaixo:  
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          .  18 .  Sala de Leitura  Química Orgânica    109,5o   Figura 20 Para facilitaro desenho dessa representação estrutural do metano, usamos uma fórmula estrutural conhecida como modelo cunha e traço, em que os dois vértices do tetraedro situados no plano do papel são desenhados como uma linha comum. O vértice que se projeta para frente desse plano é desenhado por uma cunha em negrito e o que se projeta para trás é representado por uma cunha pontilhada:   H C H H H " para atrás" do plano do papel "para a frente" do plano do papel     Figura 21   Finalmente, deve-se ressaltar que esse modelo de hibridização orbitalar e arranjo tetraédrico em torno do carbono é aplicável para qualquer composto orgânico no qual o carbono realiza quatro ligações σ. Isso pode ser visto nos modelos vareta e bola e em cunha e traço para as moléculas do etano e propano (Figura 22):
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          .  19 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  H C C H H H H H H C C C H H H HH H H ETANO PROPANO   Figura 22: Modelo vareta e bola e cunha e traço para as moléculas do etano e propano. Hibridização sp2 : Assim como já vimos para a molécula de nitrogênio, existem compostos orgânicos que possuem em sua estrutura ligações π . Esse é o caso, por exemplo, dos gases etileno e acetileno:   H C C H H H C C HH σ σ σ σ σ σ σ σ π π π ETILENO ACETILENO  Figura 23   Mas, a ligação π ocorre pelo entrosamento paralelo de orbitais p. No modelo de hibridização proposto para moléculas do metano, e válido para todos os compostos que possuem carbono que só faz ligação σ – ou seja, o modelo de formação de orbitais atômicos sp3 – não resta nenhum orbital p com apenas um elétron, condição necessária para fazer uma ligação π. Como ocorre a formação dessa ligação? Vamos iniciar explicando a molécula do etileno (com uma ligação π): Agora, ocorre uma hibridização entre o orbital 2s e apenas dois dos três orbitais p, gerando três orbitais atômicos híbridos sp2 (repare que é a combinação de um orbital s com dois p, daí a designação sp2 ) e restando um p já ocupado anteriormente:
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          .  20 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  + + 2s 2px2py 2pz sp2 sp2 sp2 2pz     Figura 24   Na figura acima, o processo foi mostrado sem o envolvimento do orbital 2pz. Essa escolha foi aleatória e pode ocorrer com qualquer um dos três orbitais p. Após a distribuição eletrônica nos orbitais híbridos fica fácil entender como ocorre a ligação C=C no etileno:   energia 1s 2s 2px 2py 2pz ORBITAIS ATÔMICOS DO CARBONO HIBRIDIZAÇÃO energia 1s 2sp2 ORBITAIS ATÔMICOS HÍBRIDOS DO CARBONO 2sp2 2sp2 2p     Figura 25   Dos três orbitais sp2 , dois vão se ligar ao orbital s do hidrogênio e o terceiro vai se ligar ao outro átomo de carbono, gerando as ligações σ. O orbital p vai se ligar ao outro orbital p, formando a ligação σ C‐C. 
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          .  21 .  Sala de Leitura  Química Orgânica      Figura 26   Observe queo entrosamento paralelo dos orbitais p gera uma nuvem eletrônica acima e abaixo do plano definido pela ligação σ C-C. Da mesma forma que vimos para o arranjo espacial dos orbitais sp3 , os orbitais sp2 , devido à repulsão das cargas entre seus elétrons, posicionam-se no centro de um triângulo equilátero (ângulo de 120o entre eles) e o orbital p fica perpendicular ao plano desse triângulo. A esse tipo de arranjo designamos trigonal planar e a ligação C=C terá sempre esse arranjo (Figura 27):       Figura 27: a) Representação do C sp2: três orbitais sp2 arrumados em um triângulo equilátero e um orbital p perpendicular a esse triângulo; b) Ângulo de 120º entre os orbitais sp2 e de 90º entre um orbital sp2 e o orbital p; c) Arranjo orbitalar na molécula do etileno: H2C=CH2 Por que a ligação C=C é planar? Já comentamos que a ligação p ocorre por um entrosamento paralelo de orbitais p. Para que fiquem paralelos, eles têm de estar no mesmo plano. Esse paralelismo tem uma consequência importante para todas as moléculas que têm ligação π. Repare que na formação de ligações σ o entrosamento orbitalar é linear, resultando em uma ligação que dizemos possuir simetria cilíndrica, como podemos ver para a ligação C-C do etano: ACHO QUE NÃO DAR PARA EXCLUIR O SÍMBOLO SIGMA POIS SÓ NESSA LIGAÇÃO O ENTRPOSAMENTO DA LIGAÇÃO È LINEAR.
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          .  22 .  Sala de Leitura  Química Orgânica    C C H H H H H H     Figura28   As ligações que possuem simetria cilíndrica possuem rotação livre e é isso o que ocorre, na realidade. As moléculas não são entidades estáticas, estão sempre em constante movimento e as ligações simples giram o tempo todo. Mas, o que ocorreria se a ligação C=C girasse? Os orbitais p perderiam seu paralelismo, ou seja, não aconteceria entrosamento orbitalar. Em outras palavras, a ligação química se quebraria (Figura 29). Por conta disso, as ligações π não possuem rotação livre.     Figura 29: Quebra da ligação π em um suposto movimento de rotação   Hibridização sp: Vamos ver agora o que ocorre com a molécula do acetileno que possui uma ligação tripla CΞC:     Como já vimos, uma ligação tripla significa uma ligação e duas . Para isso ocorrer, dois orbitais p devem ficar fora do processo de hibridização, ou seja, a combinação orbitalar (hibridização) deve ocorrer entre um orbital s e um orbital p. Por conta disso, os dois orbitais híbridos resultantes são designados sp. C C HH
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          .  23 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  + 2s 2px 2py2pz sp sp 2pz2py     Figura 30   A distribuição eletrônica do átomo de carbono após a hibridização sp mostra que existem dois orbitais híbridos sp que farão duas ligações σ (no caso do acetileno, uma será com o carbono e a outra com o hidrogênio) e dois orbitais p, que por entrosamento paralelo dois a dois formarão as duas ligações π.  Lembre-se que os dois orbitais p são perpendiculares entre si e, consequentemente, após a formação das duas ligações π essas também serão perpendiculares entre si. Assim, a molécula do acetileno possui duas nuvens eletrônicas abaixo e acima do plano da ligação σ e outras duas nuvens eletrônicas localizadas na frente e atrás desse plano:     Figura 31   Por analogia ao arranjo tetraédrico do carbono com orbitais híbridos sp3 e trigonal planar do carbono com orbitais híbridos sp2 , os orbitais híbridos sp se arranjam de forma linear, um do lado oposto ao outro, pois é nessa arrumação que as duas nuvens eletrônicas estarão o mais afastadas possível. Já comentamos sobre a característica peculiar do átomo de carbono de realizar ligações C-C infinitamente, gerando compostos diferentes ou, como costumam dizer os químicos, com uma variedade enorme de cadeias carbônicas. É importante ficar claro que em uma mesma cadeia carbônica podemos ter ligações simples (orbital sp3 ), duplas (orbital sp2 ) e triplas (orbital sp). Não
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          .  24 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  precisamos fazer todaa análise orbitalar para prever como essas cadeias estão arrumadas no espaço. Basta observar os tipos de ligações que os átomos de carbono estão fazendo: se o carbono só possuir ligações simples, essas são todas σ e o carbono é tetraédrico (sp3 ); se o carbono possuir ligação dupla, uma é σ e a outra π e o carbono é trigonal planar (sp2 ); se o carbono possuir ligação tripla, uma é σ e as outras duas são π e o carbono é linear (sp). Por exemplo, na molécula ao lado, os carbonos que eu chamei de 1 e 2 são sp2 e trigonal planares. Os carbonos 3 e 6 são sp3 e tetraédricos, enquanto os carbonos 4 e 5 são sp e lineares. Figura 32   Não é apenas no átomo de carbono que ocorre a hibridização de orbitais. O modelo de hibridização pode ser aplicado para explicar a ligação em qualquer átomo. Por causa disso, outros átomos ligados ao carbono também podem estar hibridizados. Na molécula da supercola, por exemplo, o carbono e o nitrogênio da ligação CΞN são sp, o oxigênio e o carbono da ligação C=O são sp2 e o carbono e oxigênio da ligação C-O são sp3 . O comprimento das ligações também é diferente, em função do tipo de ligação. Observe que uma esfera (orbital s) está mais próxima do núcleo atômico que um haltere (orbital p). Por conta disso, quanto maior for o caráter s do orbital híbrido, mais curta vai ser a ligação (vai estar mais perto do núcleo). Assim, as ligações triplas onde a ligação σ (é ela quem define o comprimento da ligação por conta do entrosamento linear) é formada pelo carbono sp (50% de s + 50% de p) são mais curtas que as ligações duplas (sp2 : 33,3% s + 66,7% p), que, por sua vez, são mais curtas que as ligações simples (sp3 : 25% de s + 75% de p). Observe abaixo o comprimento (em vermelho) e os ângulos (em azul) das ligações para o etano, etileno e acetileno: O QUE FOI EXCLUÍDO?           H C H C H C C C H C H H H H 1 2 3 4 5 6   H C H C C N O O C H H H Super-cola   Figura 33
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          .  25 .  Sala de Leitura  Química Orgânica        Figura 34   Resumindo, emtermos de comprimento de ligação: C-C > C=C > C C     Representação dos Compostos (“Desenhando As Moléculas”) Quando estudamos Química Orgânica, o que buscamos é entender a maneira pela qual os átomos se encontram nas moléculas (arranjo molecular), ou seja, como eles estão ligados entre si, as propriedades químicas que são consequência dessa arrumação e a maneira pela qual as estruturas moleculares se modificam quando ocorre uma reação química. Para alcançar esses objetivos, o primeiro passo deve ser o entendimento das representações que utilizamos para tentar descrever as moléculas. Em outras palavras, precisamos entender e aprender o que queremos dizer quando representamos as moléculas por fórmulas. Devemos nos lembrar sempre que a representação de uma coisa não é a coisa. Assim, por exemplo, a foto do namorado ou da namorada não é o namorado ou a namorada: é a representação dele ou dela. Os químicos utilizam diversas maneiras para representar as moléculas. Não existe uma mais correta que a outra. O tipo de representação que usamos vai depender do problema que estamos analisando. A fórmula molecular, por exemplo, apenas informa quais são e a quantidade dos átomos presentes em uma molécula. Ela não informa nada sobre a estrutura (como os átomos estão ligados na molécula) molecular. Por causa disso, é muito comum que duas moléculas diferentes possuam a mesma fórmula molecular. Por exemplo, o álcool etílico (aquele que nós conhecemos simplesmente por álcool) e o éter metílico são dois compostos completamente diferentes. Mas, repare que os dois possuem a mesma fórmula molecular (C2H6O). Compostos diferentes que possuem a mesma fórmula molecular são denominados isômeros.
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          .  26 .  Sala de Leitura  Química Orgânica        Figura 35 Como afórmula molecular não informa nada sobre a estrutura molecular, não conseguimos, a partir dela, entender o comportamento da molécula. Mas ela é muito útil quando, por exemplo, estamos realizando cálculos estequiométricos (cálculo das quantidades de substâncias envolvidas em uma reação química). No entanto, na maioria das vezes em que estamos lidando com a Química, precisamos tentar entender como as moléculas se comportam e, para isso, é fundamental que se represente como os átomos estão unidos entre si dentro da molécula, isto é, precisamos representar a conectividade dos átomos. As fórmulas que mostram essa conectividade são denominadas fórmulas estruturais. Compostos que possuem fórmulas estruturais diferentes são diferentes. Existem várias maneiras de se representar a fórmula estrutural de uma molécula. As mais usadas estão mostradas a seguir para o álcool etílico:       Figura 36  
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          .  27 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  As fórmulas estruturaiscondensadas e as fórmulas de traços mostram a conectividade dos átomos, mas não mostram a geometria molecular (as moléculas são entidades tridimensionais e têm uma arrumação no espaço). Observe, ao analisarmos a fórmula em traços, que a cadeia carbônica é apresentada linearmente e não nos preocupamos com os ângulos das ligações. As fórmulas condensadas e de traços nos dão basicamente as mesmas informações sobre a molécula. A fórmula estrutural plana nos fornece mais informações sobre a geometria da cadeia carbônica. Na realidade, tendo em vista os ângulos de 109,5º do carbono sp3 , as cadeias carbônicas se arrumam como um zigue-zague (“sobe e desce”) e esse tipo de fórmula estrutural representa isso. Na fórmula estrutural espacial, além da representação em zigue-zague das cadeias carbônicas, são também mostradas as cunhas que representam os átomos que estão se posicionado nos outros dois vértices do tetraedro. Nesse tipo de representação estrutural buscamos mostrar toda a geometria molecular. A fórmula estrutural em traços (também chamada fórmula em bastão) é centrada na representação das ligações e não dos átomos (repare que na representação do álcool etílico usando essa fórmula só desenhamos o oxigênio e o hidrogênio ligados a ele). As fórmulas em traços são desenhadas da seguinte maneira: 1a etapa: Desenhe a cadeia de carbono como traços e em zigue-zague. Não represente o símbolo do carbono (C) nem do hidrogênio (H) quando ele estiver ligado ao carbono. Entretanto, você não pode esquecer nunca que o carbono é tetravalente. Assim, cada vértice da cadeia em zigue-zague representa o átomo de carbono e se mais nada estiver escrito nela, significa que ali existem dois hidrogênios, sendo um localizado para frente do plano criado pela cadeia e outro para trás desse plano, de acordo com a geometria do tetraedro. 2a etapa: Todos os átomos que não são carbonos devem ter os seus símbolos mostrados, bem como o hidrogênio que não está ligado ao carbono. Vamos entender isso com a fórmula em traços do álcool etílico:
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          .  28 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O H As extremidadesda cadeia representam um átomo de carbono Cada vértice do zigue-zague representa um átomo de carbono Este átomo de carbono tem três hidrogenios ligados a ele, pois só estamos mostrando uma ligação (traço) e 4-1=3 Este átomo de carbono tem dois hidrogenios ligados a ele, pois estao sendo mostradas duas ligaões : C-C e C-O e 4-2=2 Este hidrogênio deve ser desenhado porque ele não está ligado ao carbono.   Figura 37   Por uma questão de simplificação, é muito comum a gente não desenhar o traço que representa a ligação do hidrogênio com o heteroátomo (chamamos de heteroátomo a todo átomo da cadeia carbônica que não é carbono ou hidrogênio):   As ligações duplas devem ser representadas por dois traços e as triplas por três traços:   OH O H H H O O H H H     H C C H H H H H   Figura 38   Preste atenção que, no caso da ligação dupla, a cadeia foi desenhada em zigue-zague e, na ligação tripla, fomos fiéis ao ângulo de 180o (repare que desenhamos essa parte da molécula linearmente). Isso porque é muito difícil distinguir desenhando um ângulo de 109,5o de um de 120o . O Importante é você sempre lembrar que nessa parte da cadeia os carbonos possuem um arranjo trigonal planar. OH Observe que não desenhamos o traço que representa a ligação O-H  
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          .  29 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  É muito comuma gente misturar a forma de representação em traços com a condensada na parte da molécula que temos os heteroátomos: H H H O OH H H COOH ou CO2H   Figura 39 Outra coisa que você vai ver muito são representações deste tipo: NH2 , e aí fica a pergunta: ué, o carbono não é tetraédrico? Esse nitrogênio não está para frente ou para trás do plano da cadeia carbônica? A resposta é: está sim. O que estamos dizendo nessa representação é: 1) Não sabemos se o arranjo espacial desse nitrogênio (mais tarde vamos entender que ele estar para a frente ou para trás do plano pode gerar compostos diferentes); ou 2) Para o estudo que estamos fazendo não faz diferença saber para que lado está o átomo de nitrogênio. As cadeias carbônicas não são sempre abertas. Elas também podem ser cíclicas e os ciclos também são representados em traços:   C C C C C H H H H H H H H H H C C C C C C H H H H H H   Figura 40 As representações em traços possuem a vantagem de facilitar os desenhos das moléculas. Em virtude da propriedade do carbono de realizar ligações C-C infinitamente, existem moléculas enormes e se fossemos desenhar todos os átomos, além da perda de tempo, o resultado ia ser extremamente confuso. Por exemplo, a molécula da palitoxina (Figura 41), uma toxina marinha extremamente
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          .  30 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  venenosa isolada decorais da espécie Palythoa (ainda bem que até hoje não encontramos esse coral nos nossos mares!), tem fórmula molecular C129H221O54N3:     Figura 41: a) Corais marinhos da espécie Palythoa caribaeorum; fórmula estrutural em traços da palitoxina.   Imagine o trabalho que daria desenhar a fórmula estrutural espacial dessa molécula. Tente e veja... você vai desistir rapidinho! Agora que já sabemos interpretar a representação das moléculas orgânicas, podemos visualizar (e entender o que as representações querem dizer) as fórmulas estruturais das substâncias citadas no início desse texto (Figura 42), quando aprendemos sobre os átomos que aparecem com mais frequência nos compostos orgânicos (lembra, foi quando vimos os elementos da tabela periódica que mais aparecem nos compostos orgânicos).    
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          .  31 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Cl Cl ClCl Policloreto de vinila (PVC) Polímero utilizado para a fabricação de canos O N H O NH2 OH HH OH H O P O P O H HH OH H O OH N N N N O O O O NH2 Nicotinamida-adenina-dinucleotídeo (NAD) Cl Cl Br Br Cl Halomon Medicamento utilizado em quimioterapia (tratamento de cancer) OI HO I I I CO2H NH2 Tiroxina Hormônio produzido pela tiróide O O OH OH HO HO O HO OH OH OH Sacarose (açucar comum) NH2 Anfetamina (estimulante do SNC) SH SH 2-buteno-tiol 3-metil-2-buteno-tiol (substâncias exaladas pelo gambá)     Figura 42: Exemplos de representações de algumas moléculas orgânicas importantes.   Toda ciência, talvez para que as pessoas que trabalham com ela possam se identificar como um grupo, possui uma linguagem própria. Com a Química não é diferente. Daqui a pouco nós vamos aprender a nomear os compostos orgânicos. Mas, antes disso, devemos saber como se classificam as cadeias orgânicas: - Em função da presença ou não de ciclo (também chamamos de anel), a cadeia é classificada em cíclica ou acíclica (ou aberta):  
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          .  32 .  Sala de Leitura  Química Orgânica        Figura 43 - Emfunção da presença de ligações π entre os átomos de carbono, as cadeias são classificadas em saturadas ou insaturadas. As cadeias insaturadas são as que possuem ligação π entre átomos de carbono.       Figura 44
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          .  33 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Esta definição causacerta polêmica entre os químicos. A molécula de cadeia aberta constituída apenas por átomos de carbono e hidrogênio tem sempre a fórmula molecular CnH2n+2, isto é, o número de hidrogênios é sempre o dobro do de carbonos:       Figura 45 As moléculas desse tipo são ditas saturadas. A partir daí, insaturadas seriam aquelas que não obedecem a essa regra. Observe nas moléculas:   Figura 46   A presença de uma ligação π diminui em 2 (C4H10 x C4H8) o número de hidrogênios e diz-se que a molécula tem uma insaturação. A presença de duas ligações π (duas ligações duplas ou uma tripla) diminui em 4 o número de hidrogênios e a molécula tem duas insaturações. Mas, observe uma cadeia cíclica:           Figura 47
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          .  34 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Também diminui emdois o número de hidrogênios, ou seja, a molécula tem uma insaturação e essa cadeia cíclica seria dita insaturada, embora não tenha nenhuma ligação π. Afinal, insaturação é quando tem ligação π entre átomos de carbono ou é diminuição do número de hidrogênios em relação à molécula saturada? Para evitar essa confusão, tem sido uma tendência designar cadeia insaturada apenas aquelas que possuem ligações π entre carbonos e, para o enfoque de diminuição de hidrogênios, dizemos “cadeias com deficiência de hidrogênio”, caso em que se incluem as cadeias cíclicas. - Quanto à presença ou não de heteroátomos (lembrem-se: heteroátomos são átomos diferentes de carbono e hidrogênio) na cadeia, estas são chamadas de cadeias homogêneas ou heterogêneas:     Figura 48   Normalmente, os ciclos contendo heteroátomos chamamos de heterociclos. Os outros seriam os homociclos, que em geral a gente se refere apenas como ciclos (não usamos o prefixo “homo”).
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          .  35 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  - As cadeiascarbônicas podem ainda ser classificadas em ramificadas ou não ramificadas. Analise a molécula abaixo:   Figura 49 Observe que o segundo carbono possui ligado a ele – além, é claro, do resto da cadeia – uma cadeia menor, constituída de dois átomos de carbono. Essa cadeia menor nós chamamos de ramificação (em analogia aos ramos de uma árvore que saem do tronco principal), e as cadeias que as contêm são designadas ramificadas. A cadeia maior é chamada de cadeia principal. Não é obrigatório que se desenhe a cadeia principal na horizontal. Essa é apenas a forma mais comum. O importante é você saber que a cadeia principal é sempre a que contém maior número de átomos de carbono. Abaixo, por exemplo, estão mostradas três representações da mesma molécula cuja cadeia principal (destacada em vermelho) tem 6 átomos de carbono:     Figura 50 É importante que se tenha claro que só chamamos de ramificação cadeias carbônicas. Heteroátomos ligados à cadeia carbônica não são considerados ramificações: Cadeia ciclica insaturada ramificada ( o ciclo é a cadeia principal) OH Cadeia ciclica insaturada não ramificada N Cadeia aciclica saturada não ramificada   Figura 51 1 2 3 4 5  
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          .  36 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Em função donúmero de ramificações, o carbono sp3 é classificado em metílico, primário, secundário, terciário ou quaternário. Carbono metílico não está ligado a nenhum carbono. Carbono primário está ligado a um carbono, o secundário a dois, e assim sucessivamente: OP P P P Q TS P M O O O P S S S S Q M M = METÍLICO P = PRIMÁRIO S= SECUNDÁRIO T = TERCIÁRIO Q = QUATERNÁRIO   Figura 52 Forças Intermoleculares Até agora nós conversamos sobre as ligações que constituem as moléculas orgânicas. Mas, vamos lembrar que nunca a gente se depara com uma única molécula. Quando eu pego um vidro de uma substância qualquer, orgânica ou inorgânica, lá dentro, mesmo que o vidro seja bem pequenino, tenho milhares de moléculas. Por exemplo, um mol de água pesa 18g. Como a densidade da água é igual a 1, então 18g correspondem a 18 mL, ou seja, em 18 mL de água eu tenho 6,02 x 1023 (o no de Avogrado) moléculas de água! E aí vem a pergunta: será que essas moléculas interagem entre si ou uma não está nem aí para a outra? As moléculas interagem entre si através do que chamamos de forças ou ligações intermoleculares. Para que a gente possa entender o que são essas forças, precisamos estudar o que vem a ser polaridade de uma molécula. Nós já vimos que uma ligação covalente polar é aquela em que o compartilhamento de elétrons não é igual para os dois átomos porque o mais eletronegativo puxa os elétrons para mais perto dele. Com isso, é criado um dipolo interno (uma parte fica com caráter positivo e outra com caráter negativo) na ligação e, consequentemente, na molécula:
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          .  37 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O H O H δ+ δ − δ+ C-O O-H LIGAÇÕES POLARES ÁLCOOLETÍLICO : MOLÉCULA POLAR   Figura 53   Observe que nós não consideramos a ligação C-H como um dipolo interno. A diferença de eletronegatividade dos dois é tão pequena que praticamente não se cria esse dipolo. Na linguagem química, a gente diz que a ligação C-H é apolar. Entretanto, nem toda molécula que tem ligação polar é uma molécula polar. Nesse caso, nós temos que avaliar dois aspectos: o arranjo espacial e o tamanho da molécula. Arranjo espacial: vamos ver o que acontece com a molécula de CO2: O sentido de um dos dipolos é oposto ao do outro. Assim, os dipolos se anulam e a molécula, apesar de ter ligações polares, é apolar. Lembre-se que no CO2 o carbono faz duas ligações π (uma com cada oxigênio) e, então, é hibridizado sp, logo, linear. Na molécula CCl4 (tetracloreto de carbono) acontece uma coisa parecida. O arranjo da molécula é tetraédrico e, lembrando-se da forma com que somamos vetores, os dois vetores resultantes estão em sentido oposto, e assim se anulam. Então, embora ela tenha quatro ligações polares, é uma molécula apolar:   Cl Cl Cl Cl Os vetores resultantes das duas somas vetoriais se anulam   Figura 55   Outro fator que devemos analisar é o tamanho da molécula. Às vezes, uma molécula tem ligações polares, mas a cadeia carbônica é tão grande que a molécula acaba se comportando como uma O C O   Figura 54 
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          .  38 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  molécula apolar. Asgorduras (triglicerídeos), por exemplo, têm propriedades apolares, apesar de possuírem várias ligações C-O e C=O (polares):   O O O O O O Triglicerídeo   Figura 56 Bem, agora que a gente já sabe reconhecer se uma molécula é polar ou apolar, podemos entender as forças intermoleculares. Essas forças ocorrem devido à interação entre as cargas reais ou parciais (aquelas advindas da polaridade) de uma molécula interagindo com as cargas reais ou parciais de outra molécula. Essa interação ocorre pela atração de uma carga positiva com uma negativa e ela é maior quanto maior for a magnitude da carga e menor for a distância entre elas. Essas forças intermoleculares são de cinco tipos: interação íon-íon, interação íon-dipolo, interação dipolo-dipolo, interação dipolo-dipolo induzido, interação dipolo-induzido-dipolo-induzido. A interação íon-íon é aquela que nós conhecemos como ligação iônica. Ela ocorre, por exemplo, entre os íons cloreto e sódio no NaCl (sal de cozinha) e no lauril éter sulfato de sódio, um agente de limpeza muito usado em xampus. São interações muito fortes:                   Figura 57 O S O O- Na+ Lauril eter sulfato de sodio interação ío-íon   Na+ Na+ Na+ Na+ Na+ Cl- Cl- Cl- Cl-
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          .  39 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  As interações íon-dipoloinduzido são as que ocorrem entre uma espécie com carga real (cátion ou ânion) e a carga parcial de outra molécula, como mostrado na interação do cátion de sódio com a carga parcial negativa do átomo de oxigênio da água. Essas interações são moderadamente fortes.   Na+ O H H δ− δ+ δ +   Figura 58   As interações dipolo-dipolo, como o próprio nome diz, são as que ocorrem entre o polo criado pela carga parcial positiva de uma molécula com a carga parcial negativa de outra. É uma interação fraca. É a que ocorre entre duas moléculas polares, mas sem carga. Veja na acetona:   δ− δ+ δ+ O Oδ−   Figura 59 Um tipo especial de atração dipo-dipolo é chamada de Ligação Hidrogênio. Nessa interação, o hidrogênio é ligado a um átomo muito eletronegativo: F, O ou N é o polo positivo que é atraído pelo polo negativo F, O ou N, de outra molécula (para ajudar a memorizar, lembrem-se de uma buzina: fon- fon!): O H H O H H Figura 60
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          .  40 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Por exemplo, adupla hélice do DNA é estabilizada pelas ligações hidrogênio entre as bases nitrogenadas presas às duas cadeias:   Figura 61: a) Ligação hidrogênio entre as bases nitrogenadas (guanina e citosina) do DNA.   Como o hidrogênio é um átomo pequeno, as cargas parciais conseguem se aproximar muito, resultando em uma atração mais forte que a dipolo-dipolo clássica. A interação dipolo-dipolo induzido ocorre quando uma molécula polar se aproxima de uma outra, apolar. Ao se aproximar, o dipolo da molécula polar faz com que ocorra uma distorção da nuvem eletrônica da molécula apolar, induzindo um dipolo instantâneo:   O H H δ− δ + δ + I I δ− δ− δ + δ +   Figura 62 É uma interação mais fraca que a dipolo-dipolo. A interação dipolo-induzido-dipolo-induzido (também chamada Força de London) ocorre entre moléculas apolares e é a mais fraca delas. Como os elétrons estão em movimento constante, em um determinado momento, uma molécula apolar – por exemplo, o etano (CH3CH3) – pode ter uma distribuição não igualitária dos elétrons na ligação, ou seja, pode ser criado um dipolo momentâneo. Esse dipolo pode, então, criar outro dipolo em uma molécula vizinha e esses dipolos se atraem:
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          .  41 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  δ− δ + δ− δ− δ+ δ+ H3C CH3 δ−δ+ δ− δ− δ+ δ+ H3C CH3   Figura 63   Essas duas últimas interações, que envolvem a formação de dipolo induzido, são chamadas juntas de Forças de van der Waals. Essas forças são mais fracas, mas em moléculas grandes, isto é, com grande superfície de contato entre elas, as Forças de van der Waals tem efeitos importantes. Por exemplo, são Forças de van der Waals que seguram a lagartixa na parede (Figura 64): os dedos das lagartixas terminam em milhões de filamentos pequenos, cada um com comprimento de cerca de 100 milionésimos do metro. Essas pequenas estruturas, por sua vez, estão subdivididas em mil partes ainda menores, invisíveis a olho nu. Quando os répteis pressionam suas patas contra uma superfície, os filamentos se espalham e cobrem uma área relativamente grande. Como os filamentos aumentam a superfície de contato, um número maior de Forças de van der Waals atua entre a pata do animal e a parede, garantindo uma adesão segura.   Figura 64: Filamentos existentes na pata da lagartixa        
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          .  42 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Propriedades Físicas: PontoDe Fusão, Ponto De Ebulição E Solubilidade. Ponto de fusão Ponto de fusão (P.F.) é a passagem de uma substância do estado sólido para o líquido. Quando estão no estado sólido, as substâncias estão arrumadas ordenadamente em um cristal, ou seja, estão bem pertinho umas das outras. Em outras palavras, as atrações entre elas estão maximizadas. Para que elas fundam (passem para o estado líquido), as atrações intermoleculares devem ser enfraquecidas (o que ocorre com o aquecimento), para que elas se mexam mais livremente, embora continuem sendo atraídas entre si. Assim, quanto mais fortes forem as interações intermoleculares, mais difícil vai ser separar as substâncias umas das outras, e então temos que aquecer mais, ou seja, maior vai ser o ponto de fusão. Por causa disso, os sais (compostos com ligações iônicas) tipicamente fundem em temperaturas muito maiores que compostos polares (com interações dipolo-dipolo), que, por sua vez, fundem em temperaturas maiores que compostos apolares (com interações do tipo van der Waals). Isso pode ser visto na tabela abaixo:   NaCl  P.F. = 801o C Ligaçoes iônicas  H2O  P.F.= 0o C Ligação hidrogênio  H O   P.F. = ‐99o C Dipolo‐Dipolo    P.F. = ‐130o C Forças de van Der Waals.    Tabela 3   Ponto de Ebulição Já o Ponto de Ebulição (P.E.) é a temperatura em que um composto passa do estado líquido (no qual as moléculas estão mais afastadas) para o gasoso (no qual as moléculas estão mais afastadas ainda. No estado gasoso praticamente não existem interações intermoleculares), isto é, é a temperatura em que o composto ferve. Novamente, o que vai definir o grau de aproximação entre as moléculas são as interações intermoleculares. Quanto mais fortes forem essas interações, mais alto vai ser o ponto de ebulição. Observe os dois compostos mostrados na figura abaixo:  
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          .  43 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  P.E. = 39o CP.E. = 117o C O OH   Figura 65 Repare que os dois têm o mesmo no de átomos de carbono, oxigênio e hidrogênio (lembrem-se: têm a mesma fórmula molecular – C4H10O e, então, são isômeros), mas o primeiro tem um ponto de ebulição muito menor que o segundo. Por quê? Porque no primeiro caso, as interações intermoleculares são principalmente do tipo dipolo-dipolo, mais fracas que no segundo exemplo, no qual as moléculas interagem entre si principalmente por ligações hidrogênio. Ora, se as moléculas estão unidas por uma ligação mais forte, eu vou ter que dar mais calor para romper essas interações. Em outras palavras, o seu ponto de ebulição é maior. Solubilidade Solubilidade é outra propriedade física que depende das interações intermoleculares. Mas, a coisa aqui é um pouco diferente do que a gente viu para os pontos de fusão e ebulição, pois agora vamos misturar moléculas de tipos diferentes, as moléculas do soluto e do solvente. Por exemplo, quando a gente prepara “água com açúcar” o que fazemos é misturar as moléculas do açúcar (o soluto) com a água (o solvente). A esse processo nós damos o nome de dissolução. O que ocorre no processo de dissolução é que as interações intermoleculares existentes entre as moléculas do soluto-soluto são substituídas por interações entre as moléculas do soluto - solvente. Vamos então imaginar as situações que podem ocorrer: 1. Se o meu soluto é polar, ele deve fazer entre si interações, por exemplo, dipolo- dipolo. Será que um solvente apolar, que faça tipicamente ligações tipo van der Waals vai conseguir separar as interações dipolo-dipolo, mais fortes? Não. 2. Mas, se o meu soluto polar for misturado com um solvente polar que faça os mesmos tipos de interações intermoleculares, aí provavelmente as interações dipolo-dipolo das moléculas do soluto podem ser separadas e eu teria a dissolução. 3. Se o meu soluto é apolar e eu coloco um solvente polar, será que aí eu consigo dissolver um no outro? Não, pois agora é o meu soluto que não vai conseguir vencer as interações intermoleculares da molécula do solvente (não esqueça que as moléculas do solvente também interagem entre si!).
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          .  44 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  4. Já nocaso em que tanto o soluto quanto o solvente são apolares ocorre a dissolução, pois as interações devem ser do mesmo tipo. A partir dessas observações, pode-se, com cuidado, aplicar uma regra que diz: “semelhante dissolve semelhante” ou, em outras palavras, “polar dissolve polar e apolar dissolve apolar”. Mas, por que a gente deve ter cuidado ao aplicar essa regra? Olhe, por exemplo, a molécula abaixo, chamada ácido linoleico:   O OH Ácido Linoleico   Figura 66 O óleo de soja é constituído principalmente de ácido linoleico e mais outras moléculas bem parecidas, com uma cadeia carbônica grande e um grupo polar no final da cadeia. Aí, a gente poderia pensar: bom, como tem aquele grupo polar e que faz ligação hidrogênio (repare que tem um hidrogênio ligado ao átomo de oxigênio), então vai se dissolver em água que também é polar e também faz ligação hidrogênio. Mas a gente sabe muito bem que se eu misturar água com óleo eles não vão se dissolver! Ora, o que acontece é que a cadeia carbônica é muito grande e praticamente sem nenhuma polaridade. Só um pedacinho da molécula tem polaridade, o que não é suficiente para separar as moléculas de água umas das outras. Temos que nos lembrar sempre (como a gente já falou quando estudamos polaridade das moléculas) que o tamanho das moléculas tem de ser analisado sempre que formos avaliar a questão de polaridade e apolaridade. Bom, até agora nós já estudamos as ligações químicas, o átomo de carbono, as ligações intermoleculares e, no decorrer disso, vimos vários exemplos de moléculas orgânicas. Já citamos várias vezes, também, que existe uma infinidade de moléculas orgânicas. Aí, a gente pode se perguntar: como é que eu vou fazer para estudar e entender as propriedades químicas de todos estes compostos? Não dá!!! Felizmente, não é necessário aprender as propriedades químicas de cada composto orgânico isoladamente. Os químicos orgânicos já perceberam que uma determinada arrumação de átomos leva a propriedades químicas muito parecidas, independente de como a cadeia carbônica se arruma. Por exemplo, os dois compostos mostrados na figura abaixo são diferentes, mas tem propriedades muito parecidas.
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          .  45 .  Sala de Leitura  Química Orgânica    OH OH    Figura 67 Porexemplo, a polaridade da ligação O-H e sua capacidade de realizar ligação hidrogênio faz com que eles tenham pontos de ebulição parecidos e maiores do que, por exemplo, de compostos similares, mas que só tenham carbono e hidrogênio na sua estrutura. À medida que formos estudando mais Química Orgânica, vamos perceber que as interações entre cargas positivas e negativas são um dos fatores mais importantes para que ocorram as reações químicas. Assim, normalmente as reações ocorrem nos locais polares das moléculas. No exemplo que estamos discutindo, as reações ocorrem nas ligações O-H e C-O. As ligações C-C e C-H não são muito reativas. Na realidade, em termos de reações químicas, não faz muita diferença o número ou a forma com que estão arrumadas as ligações C-C e C-H. De fato, os compostos mostrados na figura abaixo tem comportamento químico muito semelhante.   OH OH OH OH   Figura 68 Com isso, em termos de propriedades químicas, as moléculas devem ser vistas como compostas por duas partes: Com isso, em termos de propriedades químicas, as moléculas devem ser vistas como compostas por duas partes: 1) A cadeia carbônica, que como já vimos, tem grande influência nas propriedades físicas (P.E.,P.F., solubilidade), mas não interfere muito nas propriedades químicas (como vão reagir, isto é, na reatividade);
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          .  46 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  2) O grupofuncional, que é a parte da molécula responsável pela sua reatividade química. Nos exemplos que a gente está discutindo todos os compostos têm o grupo funcional O-H, mas diferentes cadeias carbônicas (que a gente vai representar por R). Assim, todos os compostos do nosso exemplo são alcoóis (compostos orgânicos cujo grupo funcional é o OH) e são representados como ROH. Todos os alcoóis têm reatividade química semelhante. Esse conceito é muito importante e geralmente organizamos o estudo da Química Orgânica por grupo funcional. Assim, a partir de agora vamos estudar com mais detalhes os principais grupos funcionais. A tabela abaixo mostra os grupos funcionais que vão ser apresentados a partir de agora: FÓRMULA GENÉRICA EXEMPLO NOME RH ALCANOS (na realidade, alcanos não possuem grupo funcional). RCH=CHR (estes R podem ser hidrogênio) ALCENOS (o grupo funcional é a ligação dupla C=C). RR (estes R podem ser hidrogênio) ALCINOS (o grupo funcional é a ligação tripla CΞC). ArH ARENOS (um ciclo de seis átomos de carbono com três ligações duplas tem reatividade química diferente dos alcenos e assim são outro grupo funcional, representados por Ar. Arenos, também chamados de anéis aromáticos, podem ter grupos alquil ou outros grupos funcionais ligados ao anel aromático). RX (X é a letra que usamos em Química Orgânica para representar os halogênios) Cl HALETOS DE ALQUILA (O grupo funcional é a ligação C- Halogênio). ROH OH ALCOÓIS (o grupo funcional é o O- H). ArOH OH FENÓIS (quando o O-H está ligado a um anel aromático, a reatividade muda muito em comparação com os alcoóis e então é outro grupo
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          .  47 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  funcional). ROR O ÉTERES(o grupo funcional é C-O- C). RNH2 NH2 AMINAS (o grupo funcional é o NH2. Estes dois hidrogênios podem ser substituídos por outros grupos alquil). R O H O H ALDEÍDOS (o grupo funcional é o C=O, com pelo menos um hidrogênio ligado ao carbono). R O R O CETONAS (o grupo funcional é o C=O, com dois grupos alquil – ou anel aromático - ligados ao carbono). R O OH H O OH ÁCIDOS CARBOXÍLICOS (o grupo funcional é o COOH). R O Cl O Cl CLORETOS DE ÁCIDO (o grupo funcional é o COCl). R O O O R O O O ANIDRIDOS DE ÁCIDOS (o grupo funcional é COOCO). R O OR O O ÉSTERES (o grupo funcional é COOR). R O NH2 O NH2 AMIDAS (o grupo funcional é o CONH2. Os hidrogênios ligados ao nitrogênio podem ser substituídos por alquil ou anel aromático). RCΞN C N NITRILAS (o grupo funcional é o CN).   Tabela 4      
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          .  48 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Funções Orgânicas 1. Hidrocarbonetos Hidrocarbonetos,como o próprio nome já diz, são compostos que possuem apenas carbono e hidrogênio em sua estrutura. O esquema abaixo mostra a classificação dos hidrocarbonetos:   HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS ALCANOS (ou parafinas) CnH2n+2 ALCENOS (ou alquenos ou olefinas) CnH2n ALCINOS (ou alquinos) CnH2n-2 ALICÍCLICOS CICLOALCANOS CICLOALCENOS CICLOALCINOS R-H AROMÁTICOS Ar-H   Figura 69 A gente conhece por aromáticos um grupo especial de hidrocarbonetos, que tem propriedades muito diferentes devido às suas características estruturais. Daqui a pouco nós veremos um pouco mais quais são essas características. Por enquanto, aqui estão duas regras que devemos aplicar para saber se um composto é aromático: - Os compostos aromáticos sempre são cíclicos e têm ligações duplas alternadas com ligações simples em toda a volta do anel E: - Todo composto aromático tem um número tal de elétrons π (cada ligação dupla tem dois elétrons π), que se a gente aplicar a fórmula 4n+2 = no de elétrons π, a resolução dessa equação deve dar, para os compostos aromáticos, um valor de n inteiro (essa regra a gente conhece por Regra de Huckel).
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          .  49 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Analise, por exemplo,a Figura 70. Os dois primeiros compostos são aromáticos, enquanto o terceiro, apesar de ser cíclico e possuir ligações duplas alternadas, não é aromático, pois n na regra 4n+2 = no de elétrons π não é um no inteiro. Já o quarto exemplo não é aromático, porque as ligações duplas não estão em toda a volta do anel.   3 ligações duplas = 6 elétrons π 4n + 2 = 6 4n = 4 n = 1 (no. inteiro) 5 igações duplas = 10 elétrons π 4n + 2 = 10 4n = 8 n = 2 (no. inteiro) 4igações duplas = 8elétrons π 4n + 2 = 8 4n = 6 n = 6/4 (no. não inteiro) AROMÁTICO AROMÁTICO ALIFÁTICO 3 ligações duplas = 6 elétrons π 4n + 2 = 6 4n = 4 n = 1 (no. inteiro) ALIFÁTICO   Figura 70: Exemplos de aplicação da regra de Hückel.   Alcanos Os alcanos são os hidrocarbonetos saturados de fórmula geral CnH2n+2. Os alcanos ocorrem na natureza em depósitos de gás natural e no petróleo. O gás natural é constituído principalmente de metano (CH4) e o petróleo é uma mistura complexa de vários hidrocarbonetos. Como esses hidrocarbonetos presentes no petróleo têm aplicações muito diferentes, a gente precisa separar o petróleo em misturas mais simples (dizemos que separamos o petróleo em várias frações, cada uma delas com utilizações diferentes). Essa separação é feita por destilação e, no caso do petróleo, essa destilação recebe o nome específico de refinação (refinaria de petróleo é o local onde se faz essa destilação). Todas as frações obtidas no refinamento do petróleo contêm alcanos.
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          .  50 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Os alcanos sãocompostos apolares e estão entre os menos reativos diante dos reagentes mais comuns de um laboratório de Química (lembrem-se que nós já comentamos que a reatividade normalmente  está associada à existência de ligações polares nas moléculas). O próprio nome parafina, outra designação usada para os alcanos, vem de uma expressão latina que significa “pouca afinidade”. Mas a gente tem que tomar cuidado quando dizemos “pouco reativos”. Estamos nos referindo basicamente a reações químicas nas quais misturamos duas ou mais substâncias com o intuito de obter outras substâncias diferentes. Para isso, realmente, os alcanos não são muito utilizados. Por outro lado, os alcanos sofrem reações de combustão – queima na presença de oxigênio –– (Esquema 1), e essa é uma das reações mais praticadas por todos nós. Realizamos reações de combustão quando acendemos um fogão a gás, ligamos um motor a gasolina, acendemos um isqueiro Mas, reparem: o “produto” que a gente quer nessas reações é o calor (ou melhor dizendo, a energia) e não o dióxido de carbono (CO2) e água.   CnH2n+2 + O2 CO2 + H2O + CALOR   Esquema 1: Reação de combustão   Outra reação que a indústria petroquímica (indústria que utiliza as frações do petróleo como matéria- prima) realiza muito com os alcanos é a chamada pirólise (quebra pela ação do calor) ou craqueamento. Como a gente já viu, o petróleo dá origem a muitos produtos diferentes, mas a quantidade em que esses produtos se encontram no petróleo em geral não atendem às necessidades do mundo atual. Assim, as indústrias pegam as frações do refino que têm hidrocarbonetos mais pesados (frações que destilam com P.E. maior que o da gasolina) e quebram esses hidrocarbonetos em moléculas menores (mais leves), isto é, fazem o craqueamento para obter mais gasolina e outros hidrocarbonetos menores e assim atender à demanda do sistema de consumo atual. Bem, agora, antes da gente começar a ver as outras funções orgânicas, precisamos aprender a dar nomes aos compostos orgânicos. Por quê? Vamos imaginar como nós nos comunicaríamos se as coisas não tivessem nomes. Seria impossível transmitir nossas ideias ou dúvidas ou esclarecimentos! E lógico, os nomes têm que ser palavras. Mas a gente podia pensar: já que as fórmulas estruturais constituem uma perfeita identificação para cada substância, por que os químicos não dispensam os nomes formados por palavras e utilizam as fórmulas
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          .  51 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  estruturais na comunicaçãoem suas várias formas? Mas isso é impossível! Teríamos, no mínimo, que decorar todas as estruturas. Além disso, tente, por exemplo, descrever a palitoxina (Figura 41), aquela substância enorme isolada de corais e que fomos apresentados quando aprendíamos a desenhar fórmulas estruturais em bastão, sem usar o seu nome. Conseguiu? Claro que não. Por conta disso, os químicos perceberam que deveria ser desenvolvido um sistema organizado, um conjunto de regras, para dar nomes às substâncias. A IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry) assumiu a responsabilidade de recomendar um sistema para nomear as substâncias. Na realidade, a gente não diz que um composto possui nome: o termo correto é nomenclatura. Dar nome a um composto orgânico consiste em nomenclaturar ou nomenclar esse composto. Obs.: A União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) tem por objetivo intermediar mundialmente aspectos das ciências químicas e contribuir para a aplicação da Química ao serviço da humanidade. Por ser uma organização internacional, não governamental, a IUPAC atua como referência em questões globais que envolvem as ciências químicas.   Em princípio, a nomenclatura utilizada para os compostos orgânicos tem como parâmetros três aspectos de relevância: 1) Todo composto orgânico possui átomos de carbono. 2) Suas cadeias podem ou não apresentar ligações π entre átomos de carbono e podem ser cíclicas ou não. 3) Os compostos orgânicos são classificados segundo o grupo funcional presente na molécula. A partir dessas características pode-se estabelecer a base para a nomenclatura de qualquer substância orgânica. Observe o esquema a seguir: Composição da nomenclatura orgânica:     O prefixo encontra-se associado ao número de átomos de carbono existentes na cadeia principal do composto. O intermediário indica se a substância possui somente ligações simples entre os átomos de carbono ou se há também a presença de duplas ou triplas ligações entre esses. PREFIXO + INTERMEDIÁRIO + SUFIXO
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          .  52 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O sufixo indicaa que função pertence a substância. Os prefixos que indicam o no de carbonos estão mostrados na tabela a seguir:   Número de átomos de carbono Prefixo 1  met  2  et  3  prop  4  but  5  pent  6  hex  7  hept  8  oct  9  non  10  dec  11  undec  12  dodec  Tabela 5: Prefixos utilizados para a designação do no de átomos de uma cadeia carbônica.   O prefixo correspondente aos compostos até quatro carbonos (Met, Et, Prop e But) infelizmente tem de ser decorados, pois são nomes mantidos por tradição, sem nenhum aspecto lógico. Os outros prefixos são de origem grega ou latina, tem correlação com o número e são os mesmos usados para as figuras geométricas. Quando se tratar de um composto cíclico, antes desses prefixos que indicam o no de átomos de carbono colocamos a palavra ciclo. O intermediário nos diz se o composto possui ligação dupla ou tripla, conforme mostrado na tabela abaixo:
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          .  53 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Ligações entre os átomos de carbono Intermediário C C   an  CC   en  C C   in    Tabela 6: Designações usadas para a indicação do no de insaturações em uma cadeia carbônica.   Cada função orgânica é nomenclaturada por um sufixo específico. À medida que formos conhecendo essas funções seremos apresentados ao sufixo usado para designá-las. Para os alcanos, usa-se o sufixo “ano”, conforme exemplificado na figura a seguir:   CH4 Metano Etano Propano Butano Met signif ica que tem um carbono Ano signif ica que só tem ligação e é um alcano. Ciclo-propano Ciclo-butano   Figura 71 Quando nós aprendemos sobre cadeias carbônicas vimos que elas podem ser ramificadas. Vamos ver agora como fazemos para dar a nomenclatura dos compostos que possuem ramificação. As ramificações são designadas genericamente de grupo alquil, alquenil, alquinil ou aril, em função do tipo de hidrocarboneto que lhes deram origem. Grupos alquil são partes da estrutura molecular que correspondem a um alcano menos um hidrogênio. Assim, ao metano (CH4) corresponde o grupo metila
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          .  54 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  (CH3), ao etano(C2H6) corresponde o grupo etil (C2H5) e assim sucessivamente. A tabela abaixo mostra alguns exemplos de nomenclatura dos grupos alquil, onde o traço mostra o átomo que se liga à cadeia carbônica principal:   ALCANO  NOMENCLATURA GRUPO ALQUIL  NOMENCLATURA  CH4  Metano  ‐CH3   METIL    Etano  CH3CH2 ‐  ETIL    Propano  CH3CH2CH2‐    n‐PROPIL  iso‐PROPIL  (ou sec‐PROPIL)    Butano  CH3CH2CH2CH2‐    n‐BUTIL  sec‐BUTIL    Iso‐Butano    CH3CCH3 CH3   iso‐BUTIL    terc‐BUTIL    Tabela 7: Nomenclatura utilizada para a designação de grupos alquil.               Observem que no caso do propano, e para todos os alcanos com mais de três carbonos, o alcano pode “perder hidrogênio” de carbonos distintos, gerando grupos alquil diferentes que, lógico, pois são coisas diferentes, devem ser nomenclaturados de forma diversa. A recomendação IUPAC para esses casos é mais complexa e acabamos usando nomes triviais, como, por exemplo, iso-propil. Denominamos nomenclatura trivial ou vulgar aquela consagrada pelo uso, mas que, na maioria das vezes, não é consagrada pela IUPAC. Assim, quando a gente coloca a letra n na frente da nomenclatura do radical alquila, estamos dizendo que a ligação à cadeia carbônica se faz no carbono primário. Se for ao carbono secundário usa-se sec e no terciário usa-se terc. O termo iso significa “grupamento igual”. Observe que no isopropil o carbono que se liga à cadeia carbônica possui duas metilas (dois grupamentos iguais) ligadas a ele.
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          .  55 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Para nomenclaturar umalcano ramificado, o primeiro passo é definir quem é a cadeia principal. Já vimos que é a maior cadeia contínua (linear) que for possível encontrar na estrutura. É bom sempre lembrar que “linear” é uma forma de dizer. A cadeia dos alcanos são arrumadas em zigue-zague com os ângulos entre as ligações de cerca de 109,5o . Depois de localizarmos a cadeia principal, precisamos dizer em quais carbonos estão os substituintes. Para isso, a cadeia carbônica é numerada começando pela extremidade que resultará em menores números para as posições em que há substituições. A figura abaixo (Figura 72) mostra como aplicamos essa regra: 1 2 3 4 123 4 1 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 2 3 4 5 6 7 8 9 10 1 12 2 3 4 5 3 45 6 7 8 6 7 8 CORRETO ERRADO SUBSTITUINTE EM C-2 SUBSTITUINTE EM C-3 SUBSTITUINTES EM C-4 E C-6 SUBSTITUINTES EM C-5E C-7 DOIS SUBSTITUINTES EM C-3 E UM EM C-6 DOIS SUBSTITUINTES EM C-6 E UM EM C-3   Figura 72: Método para a determinação da cadeia principal de um alcano.   Depois de localizados os substituintes, a nomenclatura é feita da seguinte forma: grupo alquil, precedido da numeração do carbono em que ele se encontra, seguido do nome do alcano. Assim, a nomenclatura do primeiro exemplo mostrado seria:    
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          .  56 .  Sala de Leitura  Química Orgânica            Figura 73 Algumaspessoas usam os números para indicar a posição do substituinte apenas quando ele é realmente necessário. Observem o exemplo acima: só há uma possibilidade de colocação do grupo metil e, assim, não está errado dizer apenas metilbutano. Já no exemplo: A numeração é imprescindível, pois se dissermos apenas metil-pentano não teremos como saber se o composto é o 2 ou o 3-metil-pentano:         Quando existem dois ou mais substituintes diferentes, esses devem ser colocados em ordem alfabética e não de numeração. Assim, no segundo exemplo, teríamos:   E não 4-metil-6-etildecano (afinal, o “e” vem antes do “m”).         1 23 4 2-metilbutano  Usa‐se hífen para separar o número  e o nome todo é escrito como uma  única palavra.   123 4 5 2-metilpentano  1 2 34 5 3-metilpentano  1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 6-etil-4-metildecano Figura 74 Figura 75 Figura 76
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          .  57 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Se os substituintesforem iguais, usamos os prefixos multiplicativos: di, tri, tetra... mas esses não são considerados na colocação em ordem alfabética. Veja isso na nomenclatura das moléculas mostradas abaixo:           A segunda classe de grupos funcionais que vamos estudar é a dos alcenos. No entanto, essas substâncias possuem algumas características estruturais que só vamos compreender após estudarmos outro fenômeno muito importante, que é o de isomeria. Isomeria Isômeros são compostos diferentes que possuem a mesma fórmula molecular. Como exemplo, com a fórmula molecular C2H6O podemos desenhar duas moléculas:       Figura 79 Evidentemente, já estamos cansados de saber que são compostos distintos. O primeiro é o álcool etílico, o álcool encontrado na cerveja, que é um líquido. O segundo, o éter metílico, é um gás que tem sido testado como gás refrigerante em substituição aos freons (freons são compostos orgânicos halogenados que eram utilizados como gases refrigerantes em “sprays”, geladeiras e cujo uso indiscriminado levou à formação do buraco de ozônio). Esses dois compostos são isômeros. Os isômeros podem ser de dois tipos: isômeros de constituição e estereoisômeros. 1 2 3 4 6 7 8 3,3,6-trimetiloctano 1 2 3 456 78 9 6-etil-4,4-dimetilnonano   OH O   Figura 77 Figura 78
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          .  58 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Isômeros de constituiçãosão isômeros cuja sequência de átomos ligados (quem se liga com quem) são diferentes. Alguns livros mais antigos costumam chamar esse tipo de isomeria de “isomeria plana”. Esse termo deve ser evitado, pois como já estamos carecas de saber, os alcanos, por exemplo, não tem nada de planaridade! A Figura 80 mostra exemplos de isômeros de constituição. C5H12 Observe que o primeiro composto não possui ramificação, enquanto o segundo tem uma metila no C-2. C6H12 Note que o primeiro composto é um alceno e o segundo é um ciclo-alcano O O C4H10O Veja que no primeiro composto o oxigênio está ligado a dois grupos etil e no segundo está ligado a um metil e um propil.   Figura 80: Exemplos de isômeros de constituição   Antigamente, a isomeria constitucional era classificada em vários subtipos. No entanto, como isso é motivo de várias confusões devido a interpretações diferentes, a tendência tem sido a de abandonar essa subdivisão. No entanto, como tem gente que ainda usa, devemos entender o que é, caso apareça em algum texto. Vamos ver como se faz essa classificação:   Isomeria de função Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular que pertençam a funções químicas distintas, como exemplificadas abaixo:         Figura 81 OO H ALDEÍDO CETONA
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          .  59 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Isomeria de cadeiaou de núcleo Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular e mesma função química que possuam cadeias carbônicas distintas:   CADEIA NORMAL CADEIA RAMIFICADA   Figura 82 Isomeria de posição Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular, mesma função química e mesma cadeia carbônica, porém, que possuam diferenças entre si na posição de grupamentos funcionais, ramificações ou insaturações. Figura 83 Isomeria de compensação ou metameria Ocorre entre compostos de mesma fórmula molecular e mesma função química, em que o heteroátomo encontra-se em diferentes posições. O O OXIGÊNIO LIGADO A METIL E PROPIL OXIGÊNIO LIGADO A DOIS ETIL Figura 84 OH OH GRUPO FUNCIONAL NO C-1 GRUPO FUNCIONAL NO C-2   RAMIFICAÇÃO EM C-2 RAMIFICAÇÃO EM C-3  
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          .  60 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Estereoisômeros, por outrolado, são isômeros que possuem a mesma conectividade (a sequência dos átomos ligados na molécula são exatamente as mesmas), mas cujas estruturas variam na forma com que se arrumam no espaço. Os estereoisômeros podem ser de dois tipos: enantiômeros e diastereoisômeros. Qualquer coisa tem uma imagem no espelho (exceto os vampiros, é claro!). E qualquer coisa só é igual a outra se essas imagens forem sobreponíveis. As mãos são exemplos clássicos de imagens especulares (a mão esquerda é a imagem no espelho da mão direita e vice-versa) que não são sobreponíveis, e a nossa mão direita não é igual à esquerda (Figura 85). As coisas que não são sobreponíveis à sua imagem especular são denominadas quirais (quiral, em grego “cheir”, quer dizer mão). Isso também é verdade para as moléculas. Sempre que uma molécula for diferente de sua imagem especular, isto é, se as duas não forem sobreponíveis, temos um tipo de estereoisomeria que denominamos de enantiomeria (e dizemos que as duas moléculas são enantiômeros). Observe as moléculas abaixo (imagens especulares entre si) e veja que elas não são sobreponíveis:   Figura 85 Quaisquer outros tipos de compostos que sejam isômeros espaciais (estereoisômeros), mas que não são imagem especular um do outro são ditos diastereoisômeros. Olhe, por exemplo, as duas moléculas abaixo:   Br Br Figura 86
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          .  61 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Convençam-se de queelas são enantiômeros. Uma é a imagem especular da outra e são compostos diferentes. Agora, olhem esta: Br Figura 87 Não é imagem especular de nenhuma das outras duas. Mas, a sequência de átomos das três são idênticas. Logo, essa última é um diastereoisômero (isômero espacial que não é a imagem especular) de cada uma das outras duas. Um tipo especial de diastereoisômeros são os chamados isômeros geométricos. Como a gente já viu, as ligações π ocorrem por sobreposição paralela de orbitais p. Por causa disso, elas não giram livremente, pois a ligação dupla se quebraria. Analise a molécula do n-butano: Como a ligação σ se faz pela interação linear segundo um eixo, as ligações têm rotação livre e o n-butano está o tempo todo se interconvertendo nas duas formas espaciais mostradas no desenho (representado pelas duas setas em sentido contrário). Isto é, as duas formas são representações da mesma molécula.  Já no caso do 2-buteno: , como essa rotação é impossível, não ocorre uma interconversão de um no outro. São duas moléculas diferentes. São dois diastereoisômeros. Diastereoisômeros que existem por causa da impossibilidade de rotação de suas ligações são denominados isômeros geométricos. Observe agora os ciclos abaixo: Rotação livre Rotação livre n-Butano   Figura 88
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          .  62 .  Sala de Leitura  Química Orgânica      Figura 89   Esses sistemascíclicos, embora não tenham ligação π, também não tem rotação livre por conta da própria geometria do anel. Preste atenção que seria impossível eu colocar um grupo alquil que está para frente do plano do tetraedro (lembra-se do que significa a linha grossa?) para trás desse plano sem  quebrar o ciclo. Então, os dois ciclobutanos e os dois cicloexanos mostrados acima também são exemplos de isômeros geométricos. Bem, agora, depois dessa pausa para entender o que são isômeros, vamos retornar ao estudo das funções orgânicas. Alcenos (Ou Alquenos) Ou Olefinas Alcenos são hidrocarbonetos que possuem uma ou mais ligações duplas em sua estrutura, ou seja, o grupo funcional (parte da molécula que é responsável por suas propriedades químicas) de um alceno é a C=C. O eteno, alceno mais simples que existe: H2C=CH2, por exemplo, reage com cloro ou bromo formando compostos oleosos. Por causa disso, logo que se descobriu a propriedade desse composto, ele recebeu o nome de gás oléfiant que significa “gás fazedor de óleo”. A extensão desse nome para todos os compostos dessa classe é que explica o termo olefinas, sinônimo de alcenos. Os alcenos mais simples (com apenas uma ligação dupla) são mais raros na natureza que os alcanos. O eteno (também conhecido por etilideno) é produzido no processo de amadurecimento de frutas. Quando a gente quer que a banana amadureça mais rapidamente, a embrulhamos em jornal para que o eteno que vá sendo liberado, aos poucos se dissipe mais lentamente. Por questões de facilidade de transporte e de armazenamento, as frutas são colhidas verdes e colocadas para amadurecer pela ação do gás eteno.
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          .  63 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Apesar dos alcenosserem mais difíceis de ser encontrados na natureza, são matéria-prima fundamental para uma porção de indústrias. A obtenção deles é feita pelo craqueamento das frações mais pesadas obtidas no refinamento do petróleo (se você não se lembra o que é isso, dê uma olhada mais acima nesse texto, quando falamos dos alcanos). Essa importância dos alcenos é porque as ligações C=C reagem entre si formando polímeros. Polímeros são moléculas enormes (macromoléculas) obtidas por ligações de várias moléculas menores (monômeros), que podem ou não ser iguais (quando os monômeros não são iguais são chamados de copolímeros). No mundo de hoje, os polímeros com certeza são o material mais importante para a confecção de várias coisas. A Figura 90 mostra alguns exemplos.     MONÔMERO POLÍMERO APLICAÇÃO (exemplo) Propeno (Nome comum=Propileno) Polipropileno Seringa de Injeção Brinquedos Auto-peças (parachoque,pedais,..) Eteno (Nome comum=Etileno) Polietileno Sacola plástica de supermercado Garrafa térmica Frasco de detergente Cl 2-cloro-eteno (Nome coum = cloreto de vinila) Cl Cl Cl Cl Cl Policloreto de vinila (PVC) Encanamentos Filmes plásticos para embalagem de alimentos Garrafões de água   Figura 90: Exemplos de polímeros e suas aplicações   As regras de nomenclatura que a gente aprendeu para os alcanos serve de base para o caso dos alcenos, mas temos que prestar atenção em vários aspectos em que há diferenças: ‐ A cadeia principal de um alceno é a maior que contém a ligação dupla.
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          .  64 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Por exemplo,  no                                      , a cadeiaprincipal é a que está destacada com vermelho, com seis carbonos, e não a outra que possui oito carbonos.     ‐ A cadeia principal é sempre numerada a partir da extremidade mais próxima à ligação dupla. - A parte do nome que se refere à cadeia principal é formada de maneira parecida com a utilizada para os alcanos, com duas diferenças: - Ao invés de “ano” usamos o sufixo “eno”. - Precisamos especificar a posição da ligação dupla, o que é feito por um número que deve ser colocado imediatamente antes da terminação “eno”. A Figura 92 mostra alguns exemplos da nomenclatura de alcenos:   1 2 3 4 5 6 ETENO PROPENO BUT-1-ENO BUT-2-ENO 2-METIL-PROPENO 21 3 2 4 1 3 2 41 3 2,3-DIMETIL-BUT-1-ENO 24 1 3 3-METIL-CICLOEXENO  Figura 92: Exemplos de aplicação das regras de nomenclatura em alcenos       1 2 3 4 5 6 NOTA: A colocação do no que indica a posição da ligação dupla imediatamente antes do sufixo “eno” é a recomendação da IUPAC. Porém, muitas vezes você irá encontrá-la no início ou no fim da cadeia principal. Por exemplo, tem gente que escreve 2-buteno ou ainda buteno-2. Isso não é problema. O importante na nomenclatura é que ela nunca permita que você fique em dúvida sobre qual é a estrutura do composto. Figura 91
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          .  65 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Quando a ligaçãodupla é um substituinte (grupo alquenil), usa-se o sufixo “enil”, como se pode ver na Figura 93: METENIL-CICLOEXENO ETENIL-BENZENO  Figura 93: Exemplos de nomenclatura de grupos alquenil.     Os grupos alquenil mostrados abaixo são muito mais conhecidos por sua nomenclatura normal do que pela estabelecida pelas regras da IUPAC (Figura 94):     Figura 94: Nomenclatura comum (trivial) de grupos alquenil   Isomeria Cis X Trans Nós já vimos que a impossibilidade de rotação da ligação π faz com que os alcenos do tipo: e  sejam moléculas diferentes. Mas, como dar a nomenclatura delas para que a gente possa saber quem é quem? Quando dois substituintes iguais estão do mesmo lado, dizemos que a molécula é cis. Quando estão de lados opostos, dizemos que a molécula é trans. Assim, teríamos:   C H 2 M E T ILE N O ou M E T ILID E N O M e tilen o -C iclop e n tan o C H C H 2 V IN IL V in il-b en ze n o E sta m o lécu la é m a is co n he cid a a in da co m o e stire no C H C H 2 A L IL H 2C A lil-ciclo -he p ta no  
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          .  66 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  trans-But-2-eno cis-But-2-eno trans-Hex-3-eno cis-Hex-3-eno  Figura 95   Pode não parecer tão óbvio, mas é claro que só existe isomeria cis x trans quando temos dois tipos de substituintes no carbono da ligação dupla e que cada um deles seja diferente entre si. Repare nos exemplos abaixo:   1-propeno Não existe isomeria cisx trans porque o C-1 está ligado a dois hidrogênios - substituintes iguais. Não existe isomeria cisx trans porque o C-1 está ligado a duas metilas - substituintes iguais. 2-metil-but-2-eno   Figura 96 Mas, a nomenclatura cis x trans é muito fácil quando os substituintes são iguais. E, essa molécula é cis ou trans?       Figura 97    
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          .  67 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Isso antigamente causavamuita confusão. Afinal, são três substituintes diferentes! Por conta disso, criou-se a nomenclatura E, Z para ser aplicada a isômeros geométricos de alcenos e ela é feita da seguinte maneira: Em cada carbono da ligação dupla a gente analisa qual substituinte tem maior peso atômico. Quando os substituintes de maior peso atômico estão para o mesmo lado, diz-se que a molécula é Z (essa letra vem da palavra alemã “zusammen”, que quer dizer junto. Uma brincadeira fácil de guardar é: Z significa “zunto”). Caso contrário, a molécula é E (do alemão “entgegen”, que significa oposto). Essas letras devem ser colocadas entre parênteses. Bom, é claro que você está pensando: que coisa doida! Não adiantou nada essa regra, pois nesse exemplo todos os substituintes do C-1 são carbono de mesmo peso atômico! Bom, como empatou, vai- se para o átomo do lado. Um substituinte é CH3 (carbono ligado a hidrogênio) e o outro é CH2CH3 (carbono ligado a dois hidrogênios e um carbono). Como o carbono tem maior peso atômico, quem ganha é o grupo etil. No outro carbono da ligação dupla, um substituinte é carbono (CH3CH2CH2) e o outro hidrogênio. Quem ganha é o metil. Como o etil de C-1 está do lado oposto ao propil do C-2, a molécula é E. Veja outros exemplos na Figura 98:   (E)-3-metil-hept-2-eno (Z) - 3-metil-pent-2-eno Cl Br I (Z) - 1-bromo-1-iodo-2-cloro-propeno   Figura 98: Exemplos de aplicação da nomenclatura E, Z para alcenos.         Atualmente aconselha-se a usar a nomenclatura E, Z para os isômeros geométricos de alcenos, e a cis, trans para os ciclo–alcanos. Nesse caso, a regra é muito parecida: quando os substituintes (mesmo diferentes) estão para o mesmo lado (os dois para cima ou para baixo do plano do tetraedro), a molécula é cis. Se estão em lados opostos, é trans. Alguns exemplos são mostrados a seguir (Figura 99): NOTA: A nomenclatura E, Z tem outros desdobramentos (por exemplo, quando os substituintes também são insaturados), mas isso foge aos objetivos deste texto.
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          .  68 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  trans-1,2-dimetil-ciclobutano cis-1,2-dimetil-ciclobutano trans-1-etil,2-metil-cicloexano cis-1-etil,2-metil-cicloexano  Figura 99: Nomenclatura de isômeros geométricos em ciclo-alcenos   Polienos Para a designação de compostos com mais de uma ligação π (polienos) usamos os prefixos di, tri, tetra, como nos exemplos a seguir (Figura 100):   Buta-1,3-dieno Octa-1,4,6-trieno Ciclo-octatetraeno  Figura 100: Nomenclatura de polienos Os polienos são muito mais abundantes na natureza do que os alcenos com apenas uma ligação dupla. Olhe alguns exemplos na Figura 101:   2,6,101-trimetil-Dodeca-2,6,911-tetraeno (Nome comum: α-farneseno) Encontrado na cera que envolve as cascas de maçã cis -2-etenil,1-but-1-enil-ciclopentano (Nome comum: multifideno) Composto responsável pela atração sexual em sargaços (tipo de alga marinha)   Figura 101: Exemplos de polienos naturais.
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          .  69 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Em função daposição das ligações duplas, os polienos são classificados em: - Isolados, que são aqueles em que as ligações duplas são afastadas por um ou mais carbonos saturados (Figura 102). Eles têm um comportamento químico igual ao dos alcenos, com apenas uma ligação dupla. - Alenos (ou cumulados) onde duas ligações duplas são feitas a partir de um carbono sp. Essas duas ligações duplas são perpendiculares entre si (lembrem-se que os orbitais p são definidos espacialmente segundo os eixos x,y e z, que são perpendiculares entre si - Figura 102). - Conjugados, onde as ligações duplas são separadas por apenas uma ligação simples. O termo conjugação vem da palavra latina “conjugatio”, que significa união (Figura 102).   Lim oneno S ubstância encontrada na laran ja e resp onsáve l pelo se u cheiro . D IE N O IS O LA D O H H C C H H P ropa-1,2-dieno A LE N O M uito utilizad o com o rag ente em quím ica orgânica β - C aroteno P igm ento encontrado em vários legum es e frutas com o cenoura, beterraba, m anga e m am ão.É o precursor da vitam ina-A (se transform a em vitam ina A no organism o) P O LIE N O C O N JU G A D O   Figura 102: Polienos isolado, cumulado e conjugado.   Os polienos conjugados recebem uma atenção especial em Química Orgânica devido às suas características estruturais:      
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          .  70 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Vamos analisar comoestão arrumados os orbitais p na formação das duas ligações π:   Como existem orbitais p em todos os carbonos vizinhos, no final ocorre uma interação também desses orbitais do C-2 e C-3 (em vermelho no desenho) e a gente diz que os elétrons estão deslocalizados no sistema de quatro orbitais p. Essa deslocalização eletrônica é um fator que estabiliza a molécula, isto é, as moléculas que possuem ligações conjugadas têm um conteúdo energético menor do que os polienos isolados e os alenos.   O exemplo mostrado foi para um dieno, mas isso pode ser estendido a qualquer polieno. Um polieno natural muito importante é a borracha, que é o produto da coagulação adição do látex da seringueira (Figura 104). Como a demanda mundial por borrachas com as mais diversas propriedades de maleabilidade e resistência térmica é grande, além do produto natural não atender em quantidade à necessidade atual, desenvolveu-se métodos de copolimerização do 1,3-butadieno com vários outros monômeros, criando vários tipos de copolímeros que conhecemos por borracha sintética. Borracha natural   Figura 104 Figura 104: estrutura moléculas da borracha natural (as “cobrinhas” na extremidade da cadeia significam que essas cadeias estão se repetindo)   Sistemas muito conjugados são coloridos. Observe alguns exemplos mostrados na Figura 105. Os carotenos estão presentes em vários vegetais e causam as cores que variam do amarelo, laranja e vermelho. A clorofila, substância responsável pela fotossíntese, é a causa da cor verde das plantas. A melanina é um composto presente principalmente nos nossos olhos, pele, cabelo e pelos. Sua concentração varia de pessoa para pessoa e é determinada geneticamente: quanto maior ela for, mais escura será a pele, pelo ou cabelo das pessoas. = 1 2 3 4 1 2 3 4   Figura 103
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          .  71 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  β- Caroteno (cenoura,manga, mamão, beterraba) O HO O OHBixina (urucum) Licopeno (tomate e melancia) CAROTENÓIDES: N N NN O O O Mg O O Clorofila O O NN O Parte da molécula de Melanina   Figura 105: Exemplos de polienos conjugados naturais   Outra função orgânica que apresenta ligações π é a dos alcinos, que vamos estudar agora.   Alcinos (ou Alquinos) Alcinos são hidrocarbonetos insaturados cujo grupo funcional é a ligação tripla CΞC com fórmula geral CnH2n-2. Por ser constituída de duas ligações π, a reatividade química deles é muito parecida com a dos alcenos. Os alcinos são menos abundantes na natureza, mas existem grandes quantidades de produtos naturais que contêm, além de outros grupos funcionais, a ligação CΞC. Alguns exemplos são o éster diidromatricaria, primeiro produto natural contendo ligação tripla isolado (1826) da flor de camomila; a capilina, existente em crisântemos e com atividade contra fungos; e o icitiotereol, veneno isolado de
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          .  72 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  sapos dendrobates (tambémconhecido por sapo-garimpeiro) que causa desde irritações na pele até convulsões em mamíferos, dependendo da quantidade. Devido a esse efeito, é usado como veneno de flechas por índios da Bacia do Baixo Amazonas (Figura 106).   Figura 106: Exemplos de alcinos naturais.   O etino, muito mais conhecido como acetileno: H-CΞC-H, é o alcino mais simples e também o mais importante no mundo atual. Foi descoberto na Inglaterra (1836) e muito utilizado em iluminação (em queimadores apropriados, o acetileno produz luz muito mais clara do que qualquer outro combustível). Devido a sua grande capacidade de queima, liberando muito calor, é o gás utilizado em maçaricos de solda. Nas indústrias, é utilizado para a obtenção de outros compostos, que são matérias-primas importantes. Por exemplo, o cloreto de vinila que, como já vimos, é o monômero do PVC, obtido a partir do acetileno. O acetato de polivinila (PVA) é um polímero cujo monômero (acetato de vinila) é obtido também a partir do PVA. A “cola branca” (cola escolar) e a “cola amarela” (cola de madeira) são exemplos de coisas formadas por PVA (Figura 107).
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          .  73 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O O O O O O PVA O O Acetato de vinila   Figura107: Monômero e polímero de PVA   O acetileno, assim como o eteno, também é utilizado para o amadurecimento de frutas. O acetileno é obtido facilmente a partir do carvão mineral (coque): reação do carvão com óxido de cálcio (cal virgem) em um forno elétrico (alta temperatura) produz carbeto de cálcio: CaC2 (um produto sólido, parecido com uma pedra); o carbeto de cálcio, ao reagir com a água produz acetileno (Esquema 2): CaC2 + 2 H2O HC CH + Ca(OH)2   Esquema 2: Obtenção do acetileno   Uma propriedade pouco comum do gás acetileno é que ele se decompõe com relativa facilidade quando comprimido, causando explosões violentas e perigosas. Por causa disso, não é comercializado na forma de cilindros de alta pressão, como oxigênio, nitrogênio e hidrogênio, etc.; são usados cilindros de baixa pressão (parecido com os bujões de gás de cozinha, só que bem maiores) que contêm um material absorvente (geralmente lã de vidro) e acetona: o acetileno é muito solúvel em acetona quando levemente comprimido e isso permite que grande quantidade de gás seja armazenado sem usar pressões altas. A nomenclatura de alcinos é feita da mesma forma que para os alcenos, só que agora usando-se o sufixo “ino”. A cadeia principal também é a maior cadeia que contiver a ligação tripla, a numeração dessa cadeia se inicia pela terminação mais próxima à tripla e a numeração se inicia pelo átomo de carbono que estiver mais próximo da ligação tripla:  
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          .  74 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Etino Propino Hex-2-ino 3-Propilocti-1-ino  Figura 108   Evidentemente não existe isomeria cis, trans (ou E,Z) em alcinos. Embora não seja a nomenclatura recomendada pela IUPAC, mais comumente usamos uma nomeação baseada no acetileno:   Dimetil-acetilenoMetilacetileno Isopropil-metil-acetileno  Figura 109   Quando existem no mesmo composto ligações duplas e triplas, normalmente atribui-se a menor numeração à dupla. No entanto, a decisão deve ser feita em conjunto de duplas e triplas, mesmo que a tripla fique com menor número que a dupla. Veja os exemplos abaixo:   1 2 3 4 56 Hex-1-en- 5-ino 1 2 3 4 5 6 7 8 Octa-(Z) -3,7-dien-1-ino 12 34 56 Hexa-(E)-1,3-dien-5-ino   Figura 110            
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          .  75 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Aromáticos O benzeno éum composto muito especial em Química Orgânica. É um composto extremamente estável e, por causa disso, benzenos substituídos são encontrados amplamente na natureza e muito utilizados nas indústrias químicas.       O benzeno foi descoberto em 1825 por Faraday (químico inglês, 1791-1867) quando foi isolado como subproduto da combustão do óleo de baleia usado na iluminação pública das ruas londrinas. Como ele percebeu que o composto possuía o mesmo no de átomos de carbono e hidrogênio denominou-o de “hidrogênio carburetado”. Conta a história que alguns químicos defendiam a ideia de denominá-lo “feno”, do grego “phainen”, que significa brilho ou brilhar, pois o mesmo havia sido obtido nos resíduos da queima do gás utilizado para iluminação. Esse nome não pegou, mas é interessante notar que o grupo aril (da mesma forma que grupo alquil designa o alcano menos um hidrogênio, o grupo aril significa o aromático menos um hidrogênio) derivado do benzeno: C6H5- é chamado de fenil.   Em 1834, Mitscherlich deduziu que a sua fórmula molecular era C6H6 e denominou-o de benzina, porque observou suas propriedades semelhantes às do ácido benzoico, já conhecido e isolado da resina do benjoim. Esses compostos com relação C/H baixa eram tipicamente encontrados em óleos produzidos por plantas. Por causa disso, os químicos antigos chamavam esses compostos de "aromáticos", devido ao agradável aroma que, em geral, essas substâncias possuem. Dessa forma, eles eram distinguidos dos "alifáticos", compostos onde a relação H/C é bem mais alta, que eram obtidos, por exemplo, na degradação química de gorduras. Hoje, o termo “aromático” não possui nenhuma correlação com odor.   Mas, somente em 1866 a estrutura correta do benzeno foi proposta por Kekulé, aquele mesmo químico alemão que definiu Química Orgânica como a Química que estuda os compostos de carbono (lembra- se?). Aí, fica a pergunta: caramba, por que foi tão complicado (levou muito tempo porque havia muita discussão) para se descobrir a estrutura do benzeno?   Benzeno  O OH   Ácido Benzóico   Figura 111 Figura 112
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          .  76 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O problema éque o benzeno apresenta características químicas muito diferentes do que seria normalmente de se esperar. Olhe bem a estrutura que foi desenhada: repare que são ligações duplas alternadas com ligações simples. Os alcenos (inclusive os polienos) realizam classicamente um tipo de reação: sofrem ataque na ligação dupla de reagentes ricos em elétrons (chamados eletrófilos. “Filo” significa amigo e então eletrófilo é um “amigo de elétrons”, isto é, compostos que reagem com quem tem muito elétron, caso das ligações insaturadas). Esses eletrófilos fazem reações de adição, transformando as ligações duplas em simples, como no exemplo mostrado abaixo:                    + Br2 Br Br   Figura 113   Novamente, por correlação, pensaríamos: as ligações duplas do benzeno vão sofrer reação de adição de bromo. Mas isso não aconteceu. Além da reação ser mais difícil, precisando do uso de um catalisador (substância que se adiciona em uma reação só para aumentar a sua velocidade, o catalisador não entra no produto da reação), o produto foi o de uma reação de substituição de hidrogênio por bromo e não de adição igual ao dos alcenos: + Br2 FeBr3 Br + HBr Catalisador   Figura 114 E mais: só se obteve um produto, o que indicava que todas as ligações tinham a mesma reatividade (as ligações duplas reagiam igual às simples!). Mais tarde, descobriu-se outro fato intrigante: a gente já viu que ligações simples são maiores que ligações duplas, mas, no benzeno, todas as ligações têm o mesmo comprimento! Para ser mais preciso, todas medem 1,39 Ao . Outra coisa também causava muita surpresa: além da combustão (a estabilidade – conteúdo energético de uma molécula – pode ser pela quantidade de energia liberada na queima até CO2 e água), outro
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          .  77 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  processo de avaliaçãoda estabilidade é o calor de hidrogenação. Para isso, adiciona-se H2 a ligações duplas e mede-se a quantidade de energia liberada (calor de hidrogenação). Quando fizeram isso para o cicloexeno, observaram que o calor de hidrogenação era de 28,6 kcal/mol (lê-se: quilocaloria por mol). Traduzindo: para cada mol de cicloexeno que é hidrogenado são liberadas 28,6 kcal: + H2 H H 28,6 kcal/mol   Figura 115 O raciocínio dos químicos foi, então: se o benzeno tem três ligações duplas, eu vou encontrar um calor de hidrogenação de 28,6 x 3 = 85,8 kcal/mol. Além de novamente ter de se usar um catalisador para fazer essa reação, encontrou-se um valor de 49,3 kcal/mol, bem menor do que o esperado. Em outras palavras, o conteúdo energético da molécula do benzeno é menor do que se esperava, isto é, o benzeno tinha uma estabilidade excepcional. Com essas características peculiares, várias estruturas cíclicas foram propostas para o benzeno, mas nenhuma explicava completamente suas propriedades observadas experimentalmente. A estrutura aceita atualmente baseou-se na proposta de Kekulé que, segundo conta a história, foi enunciada a partir de um sonho. “Eu estava sentado à mesa a escrever o meu compêndio, noutro sítio. Virei a cadeira para a lareira e comecei a dormitar. Outra vez começaram os átomos às cambalhotas em frente dos meus olhos. Desta vez os grupos mais pequenos mantinham-se modestamente à distância. A minha visão mental, aguçada por repetidas visões desta espécie, podia distinguir agora estruturas maiores com variadas conformações; longas filas, por vezes alinhadas e muito juntas; todas torcendo-se e voltando-se em movimentos serpenteantes. Mas olha! O que é aquilo? Um das serpentes tinha filado a própria cauda e a forma que fazia rodopiava trocistamente diante dos meus olhos. Como se se tivesse produzido um relâmpago, acordei;...passei o resto da noite a verificar as consequências da hipótese. Aprendamos a sonhar, senhores, pois então talvez nos apercebamos da verdade". - Augusto Kekulé, 1865” (Texto retirado do livro : BOYD, E.; MORRISON, R. Mol. In:______. Química orgânica. 12. ed. Lisboa: Fundacao Calouste Gulbenkian, 1995. cap. 14.3, p. 701.).  
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          .  78 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Mas, lembrem-se dodito popular: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Muitas pessoas já dizem que ele sonhou com cobras, mas na sua palestra original ele fala em “movimentos como os da serpente”. A figura da “cobra mordendo o próprio rabo” é um símbolo relacionado à alquimia (conhecemos como ouroboro) e que, dentre as várias interpretações dadas a ele, pode representar a ideia de renovação em um estado mais elevado (e associada a movimento). Outros historiadores acreditam que o sonho de Kekulé foi uma paródia sobre a “paródia dos macacos”, que já era bem conhecida na época. Essa ilustração, com ligeiras modificações, apareceu na capa de  uma revista de gozações alemã, em que zombavam sobre os textos publicados na “Revista da Sociedade Química Alemã”. Observem que alguns macacos seguram os pés de seus colegas com ambas as mãos (representando as ligações duplas entre os carbonos) e outros seguram com uma mão só. As bananas aparecem nas figuras mais modernas, provavelmente indicando os átomos de hidrogênio. Kekulé propôs, então, que o benzeno consistia de um sistema cíclico com seis átomos de carbono e que ocorria um equilíbrio rápido (ou seja, uma molécula se transformava quase que instantaneamente uma na outra; o equilíbrio químico é sempre representado por duas setas em sentidos contrários) de tal modo que não se podia distinguir as ligações:   Figura 116 Hoje em dia sabe-se que não é um equilíbrio. Vamos ver a arrumação dos orbitais, que fica mais fácil entendermos:            Figura 117 1 2 3 4 5 6
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          .  79 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Hoje em diasabe-se que não é um equilíbrio. Vamos ver a arrumação dos orbitais, que fica mais fácil entendermos: Da mesma forma que a gente já viu para os polienos conjugados, os elétrons não estão fixos em cada uma das ligações π. Αfinal, olhando para o desenho ao lado, por que os elétrons iriam escolher o que está à sua direita e não à sua esquerda para se ligar? Ora, tanto faz. Poderia ser tanto uma estrutura quanto a outra, daquelas duas propostas no equilíbrio por Kekulé. Na realidade, os  elétrons  estão  deslocalizados por todos os orbitais p (evidentemente os carbonos do benzeno são hibridizados sp2 ), ou seja, o sistema é todo conjugado. Essa deslocalização eletrônica por todo o anel gera uma nuvem eletrônica acima e abaixo do plano desse ciclo. Assim, não é um equilíbrio, conforme pensou Kekulé. Na realidade, o benzeno é um híbrido (não é uma coisa nem outra, mas o somatório delas; é a mesma ideia de hibridização de orbitais) que, por questão apenas de arranjarmos uma forma de desenhar a representação da molécula, é apresentada dessa maneira. Dizemos que o benzeno é um híbrido de ressonância (dizemos que temos estruturas de ressonância quando a única diferença entre elas está na posição dos elétrons) das duas estruturas de Kekulé. A notação apropriada para ressonância é com uma seta de duas pontas, conforme mostrado na Figura 118:   Figura 118: Representações das estruturas de Kekulé para o benzeno.   A representação com o círculo significa a nuvem eletrônica. Não existe uma representação mais correta que a outra, embora a que mostra a nuvem esteja mais próxima do modelo proposto. Usa-se uma ou outra, em função do que estamos discutindo. Resumindo, e para ficar bem clara toda essa discussão: escrevemos as duas estruturas para o benzeno, porque essa é uma maneira útil (e muito usada) de simbolizar a ressonância (também chamada de mesomeria), para nos ajudar a compreender vários aspectos. No entanto, precisamos compreender que o benzeno NÃO é ora uma, ora outra das duas estruturas: ele é AMBAS as estruturas
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          .  80 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  simultaneamente, ou eleé um HÍBRIDO das duas estruturas. Daí o significado do círculo dentro do hexágono. As duas estruturas diferentes que compõem o híbrido de ressonância são chamadas de formas canônicas ou estruturas de ressonância ou contribuintes de ressonância. Naturalmente, a gente conclui que nenhuma das ligações C-C do benzeno é dupla e nenhuma é simples; todas ficam num meio termo entre duplas e simples e são todas iguais. O ponto mais importante de tudo isso é que a ressonância contribui para estabilizar a molécula, isto é, para diminuir sua energia potencial. Aquela diferença de calor de hidrogenação entre o esperado e o encontrado que a gente já discutiu, é o que chamamos de energia de ressonância do benzeno. Bem, agora que a gente já compreendeu a molécula do benzeno, podemos estender essas propriedades a outras moléculas. Vários compostos, hidrocarbonetos ou não, são aromáticos. Quando a gente diz que é aromático, estamos afirmando que o composto possui essa estabilização extra. Mas, como vou saber se á aromático ou não? Só se aparecer um anel igual ao do benzeno? A resposta para essa última questão é não. Para ser aromático o composto deve: - Ser cíclico. É claro, pois senão não teríamos a nuvem eletrônica fechada. - Ser planar, pois, caso contrário, não teríamos o entrosamento de todos os orbitais p. - Cálculos mais avançados de matemática, que não nos interessam, mostram que além dessas condições, a estrutura deve obedecer à regra de Hückel. Nós já fomos apresentados a ela. É aquela que diz que todo sistema aromático possui um no tal de elétrons π que ao resolvermos a equação 4n+2= no de elétrons π, o resultado dê um valor inteiro para n. A Figura 119 mostra alguns exemplos de compostos aromáticos. Observe bem que várias funções orgânicas podem estar presentes nos compostos aromáticos:    
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          .  81 .  Sala de Leitura  Química Orgânica    Figura 119: Exemplosde compostos aromáticos Agora, vamos aprender como se faz a nomenclatura dos hidrocarbonetos aromáticos: a nomenclatura dos anéis aromáticos derivados do benzeno com apenas um substituinte é feita colocando-se o prefixo com o nome de substituinte seguido da palavra benzeno, como nos exemplos a seguir:    
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          .  82 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Metilbenzeno Nome comum :TOLUENO 1-metil-etilbenzeno Isopropilbenzeno Nome comum :CUMENO Etenilbenzeno Vinilbenzeno Nome comum: ESTIRENO   Figura 120 Quando o anel aromático possui dois substituintes, esses são indicados ou por número ou por um prefixo especial: 1,2 ou orto (o); 1,3 ou meta (m); 1,4 ou para(p). Veja:   1,2-dimeti-lbenzeno; o-dimetil-benzeno nome comum: o-xileno 1,3-dimeti-lbenzeno; m-dimetil-benzeno nome comum: m-xileno 1,4dimeti-lbenzeno; p-dimetil-benzeno nome comum: p-xileno   Figura 121 Quando os sistemas aromáticos são substituintes (na presença de outras funções ou quando a cadeia carbônica é a cadeia principal) os grupos aril são nomeados, da mesma forma, com o uso do sufixo “il”. Veja a tabela abaixo e observe que o grupo aril derivado do benzeno é designado fenil e o derivado do tolueno é o benzil:      
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          .  83 .  Sala de Leitura  Química Orgânica    AROMÁTICO  NOMENCLATURA  GRUPO ARIL (Ar) NOMENCLATURA    Benzeno  C6H5‐  FENIL    Tolueno  C6H5CH2‐  BENZIL  Tabela 8: Nomenclatura dos grupos aril A Figura 122 mostra exemplos desta nomenclatura :           Figura 122: Exemplos de nomenclatura nas quais os aromáticos são tratados como substituintes   Os compostos aromáticos policíclicos (com mais de um anel fundido) são conhecidos por sua nomenclatura comum:         F  Figura 123 NH2 2-fenil-hept-1-eno Fenilamina Nome comum: ANILINA NH2 Benzilamina Naftaleno Antraceno Fenantreno  
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          .  84 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Os compostos aromáticosmais simples são obtidos do alcatrão da hulha e do craqueamento do petróleo. São muito utilizados como matérias-primas de polímeros e como tintas e vernizes. O benzeno é matéria-prima importante para a síntese de outros compostos aromáticos (anilina, fenol, etc.), de borracha sintética, tintas, etc. Não deve ser confundido com o que chamamos de benzina, que é uma mistura de hidrocarbonetos. Apesar de muito utilizado, o benzeno é extremamente tóxico. Sua forma hexagonal permite que ele entre nos pares de bases do DNA e cause mutações genéticas. Os riscos com exposição por pouco tempo incluem problemas com o sistema nervoso, com o sistema imunológico e anemia. A longo prazo, com a exposição constante, há perigos de câncer, principalmente leucemia. O tolueno foi isolado pela primeira vez do bálsamo de tolu (pau-de-incenso) e atualmente suas principais fontes de obtenção são carvão e petróleo. É utilizado como matéria-prima para a produção de derivados do benzeno, sacarina, detergentes, entre outros.   Os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PHA), principalmente o benzopireno, estão muito associados à poluição (fumaça). É encontrado na fumaça de chaminés, do cigarro, em alimentos defumados e no carvão. A medida de sua concentração no ar é uma das técnicas de medida de poluição. Assim como o benzeno, causa câncer.     Até agora, nós estudamos os compostos orgânicos que contêm apenas carbono e hidrogênio, bem como os aromáticos que, como você já deve ter percebido, não é uma função orgânica, mas uma propriedade química que pode ser encontrada em compostos orgânicos os mais diversos. Vamos agora aprender um pouco sobre os compostos orgânicos que contêm heteroátomos. 2.Haletos Orgânicos Como o próprio nome já nos diz, haletos de alquila ou arila são compostos orgânicos que possuem um halogênio (X) ligado a um grupo alquila (RX) ou arila (ArX). O grupo funcional (aquela parte da molécula que é responsável por sua reatividade) é a ligação C-X.        Benzopireno  Figura 124
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          .  85 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Atualmente, um númeroenorme de compostos orgânicos halogenados são manufaturados para uso comercial. Já falamos muito do cloreto de vinila, mas não custa lembrar que ele é o monômero para a obtenção do PVC. Você consegue imaginar o mundo de hoje sem o PVC? Em função de aditivos que se adiciona no processo de polimerização, o PVC pode ser rígido ou flexível, brilhante ou opaco, colorido ou não, transparente ou fosco. Com todas essas possibilidades, o PVC é utilizado em vários materiais, tais como: equipamentos médico-cirúrgicos: bolsas de sangue (é o material que melhor conserva o sangue), tubos para hemodiálise, embalagens de medicamentos; materiais de construção: telhas, portas e janelas, pisos, encanamentos; embalagens de alimentos: garrafões de água, de óleo, filmes plásticos para armazenamento. Compostos orgânicos clorados também são muito utilizados como inseticidas. Mas, como está comprovado que eles se acumulam no meio ambiente e são tóxicos, seu uso está cada vez diminuindo mais. O DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano) e o lindano (usado para matar piolhos e lêndeas) são exemplos de inseticidas desta classe:   Lindano Cl Cl Cl Cl Cl ClCl Cl Cl ClCl DDT   Figura 125 Compostos fluorados também têm importância como polímeros. O Teflon é um polímero fluorado cujo monômero é o tetrafluoroetileno (F2C=CF2) e é muito utilizado em materiais antiaderentes (utensílios de cozinha). Os cloro-fluoro-carbonos (CFC´s), conhecidos por freons, foram até pouco tempo muito utilizados como gases refrigerantes e propelentes de aerossóis. Até o início do século XX, os gases utilizados para fins de refrigeração eram a amônia (NH3), cloreto de metila (CH3Cl) e dióxido de enxofre (SO2), todos tóxicos. Quando, em 1932, descobriu-se os freons, o mundo comemorou. Eles eram inertes e não tóxicos. Rapidamente foram utilizados como gases refrigerantes em geladeiras e ar-condicionados.
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          .  86 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Mas, em 1980,constatou-se que eram os responsáveis pelo buraco de ozônio. Os freons são estáveis e inertes na troposfera, mas ao atingirem a estratosfera reagem com o ozônio, que é o nosso filtro protetor das radiações ultravioletas do sol. Com isso, em 1° de janeiro de 1989 entrou em vigor o chamado Protocolo de Montreal, no qual vários países signatários (inclusive o Brasil) se comprometeram a substituir as substâncias que estavam reagindo com o ozônio. Desde 2003, no Brasil, o CFC-12 (era o mais usado em geladeiras) está sendo substituído pelo R-134 A, sigla do 1,1,1,2- tetrafluoretano, que parece não causar danos à camada de ozônio:   Cl F F Cl CFC-12 F FF F R-134 A   Figura 126 Os compostos de iodo e bromados são principalmente usados como matérias-primas em sínteses industriais. Um produto natural iodado importante é a tiroxina (Figura 108), hormônio regulador da tiroide, biossintetizado (biossíntese é a obtenção de um produto em organismos vivos) a partir de um aminoácido não iodado. A nossa maior fonte de iodo, importante para essa biossíntese, são os alimentos. Por causa disso, para fornecer iodo ao organismo, no Brasil é obrigatória a adição de iodo ao sal de cozinha. O mar tem surpreendentemente nos fornecido produtos naturais bromados. O bromosferol (Figura 127) foi isolado de uma alga marinha.         Figura 127: Exemplos de compostos halogenados naturais. OI HO I I I CO2H NH2 Tiroxina Hormônio produzido pela tiróide Br OH H H Br Bromosferol
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          .  87 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  A IUPAC aceitadois sistemas diferenciados para dar nome aos compostos halogenados. O mais usado é aquele que trata os halogênios como substituintes usando-se os termos “fluoro”, “cloro”, “bromo” e “iodo” e dando o nome da mesma forma que fazemos para os hidrocarbonetos: CH3Cl Clorometano Br 2-bromopropano I 2-iodo-2-metilbutano F Fluorocicloexano   Figura 128 No outro modo, usa-se os nomes “fluoreto”, “cloreto”, “brometo” e “iodeto” seguido da preposição “de” e o nome do grupo orgânico:   CH3I Iodeto de Metila Cl Cloreto de sec-propila Cloreto de isopropila CH2Cl2 Cloreto de metileno Br Brometo de benzila   Figura 129 Em função do carbono em que está o halogênio, os haletos são classificados em metílicos, primários, secundários ou terciários:   CH3I Cl Haleto metílico Br Haleto primário Haleto secundário F Haleto terciário   Figura 130
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          .  88 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Você deve terpercebido que, neste texto, muitas vezes usamos o nome comum. São nomes tão consagrados, que fica difícil substituí-los pela nomenclatura IUPAC. O triclorometano, por exemplo, é muito mais conhecido por clorofórmio: CHCl3. O clorofórmio e o cloreto de etila (CH3CH2Cl) já foram muito utilizados como anestésicos gerais. Hoje, devido à sua toxicidade, não são mais usados. Por causa da sensação de torpor e tontura que causam, esses dois compostos são usados como drogas. O cloreto de etila é o constituinte principal do lança perfume. Atualmente, no Brasil, a venda de clorofórmio é controlada pela Polícia Federal (temos que pedir autorização especial para comprar e comprovar para o que usou) e o cloreto de etila é considerado droga ilícita.   3. Alcoóis Alcoóis são compostos orgânicos que possuem uma hidroxila (OH) ligada a um carbono sp3 . Quando a gente pensa na palavra álcool, a primeira coisa que passa na cabeça da gente é o álcool etílico, ou seja, o álcool presente nas bebidas alcoólicas. Os efeitos da euforia causada pelo álcool são conhecidos há muitíssimo tempo, e o relato do uso de vinho é visto desde a antiguidade. Provavelmente, a explicação por essa predileção resida no fato dele ser obtido por fermentação de açúcares, um processo químico simples. Mas, vários outros compostos importantes pertencem a essa classe funcional:     O mentol é encontrado em diversas espécies de hortelã. Atualmente, é obtido tanto por extração das plantas, como principalmente por síntese. O mentol se liga na língua a células que induzem, em nível cerebral, à sensação de frio. Por causa desse efeito, é muito utilizado em balas, chicletes, cigarro, pastas de dentes. Você já experimentou tomar água do filtro (“água quente”) chupando uma bala de menta? Se não, experimente. Parece que a água estava na geladeira! OH Mentol   Figura 131
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          .  89 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O colesterol éencontrado nas células de todos os animais. A maior parte desse colesterol é sintetizada no próprio corpo, sendo apenas pequena parte dele adquirido pela alimentação. O colesterol é muito importante para uma série de processos que ocorrem no organismo, mas é mais conhecido pela associação com doenças cardiovasculares. O colesterol é feito principalmente no fígado e precisa sair de lá e ir para outras células do organismo que estejam precisando dele. Para isso, deve ser transportado pelo sangue, que é um meio aquoso. Mas o colesterol é insolúvel em água (lembre-se: apesar de ter uma ligação O-H, polar, a cadeia carbônica dele é muito grande e, então, no final, ele não é uma molécula polar). Por causa disso, se liga a outras moléculas (as chamadas lipoproteínas), que o transportam para todas as células. Essas lipoproteínas é que são de dois tipos: as de baixa densidade (a gente conhece pela sigla do termo em inglês: Low Density Protein: LDL), que parecem ser as responsáveis por levar o colesterol para as artérias; e as de alta densidade (High Density Protein: HDL) que, acredita-se, são as responsáveis por absorver os cristais de colesterol que não foram usados e começam a se depositar nas paredes das artérias. Comumente, a gente fala da LDL como “colesterol ruim” e HDL como “colesterol bom”. Mas, reparem: a molécula do colesterol é a mesma. O que varia são as moléculas que o transportam.   O citronelol é um dos constituintes do óleo de citronela e é um bom repelente de insetos. As velas e essências com citronela têm sido muito utilizadas para afastar o mosquito da dengue.       Para nomenclaturar os alcoóis, determina-se como cadeia principal a cadeia mais longa que contém a hidroxila e numera-se pela extremidade mais próxima que contiver essa função. O sufixo característico da função álcool é “ol”. Quando necessário, indica-se a posição do grupo OH por um número colocado imediatamente antes do sufixo “ol”. Outra forma consiste em usar o nome do grupo alquil correspondente com o sufixo “ico” precedido da palavra álcool. Essas duas formas estão mostradas na Figura 109. Assim como a gente já viu para os haletos orgânicos, os alcoóis são classificados em metílico, primários, secundários ou terciários (Figura 133) em função do carbono que está com a OH. OH Citronelol   Figura 132
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          .  90 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  CH3OH OH Metanol Etanol OH Propan-2-ol OH 2-Metilpropan-2-ol terc-ButanolÁlcoolmetílico Álcool etílico Isopropanol Álcool isopropílico Álcool terc-butílico ÁLCOOL PRIMÁRIO ÁLCOOL SECUNDÁRIO ÁLCOOL TERCIÁRIO   Figura 133: Nomenclatura e classificação dos alcoóis O etanol é utilizado em bebidas alcoólicas, indústria de perfumaria, solventes, soluções para assepsia, etc. No Brasil, é muito utilizado como combustível de motores de explosão (veículos automotores). O principal método nacional de obtenção do etanol é por fermentação da cana-de-açúcar (Esquema 3). Fermentação é um processo de transformar um produto em outro pela ação de micro- organismos que, nesse caso, chamamos de fermento. Para a fermentação da cana-de-açúcar, o mais usado é o Sacharomices cerevisae, também conhecido como fermento do pão. O fermento na presença de água transforma a sacarose (“açúcar”) em glicose que, então, é convertida em etanol. C6H12O6 2 CH3CH2OH + 2 CO2 GLICOSE C12H22O11 SACAROSE + H2O 2C6H12O6 GLICOSE ETANOL   Esquema 3: Fermentação da cana-de-açúcar     HO O O OH OH HO O HO OH OH OH Sacarose (açucar comum) HO O OH OH OH HO Glicose  
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          .  91 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Na década desetenta, o mundo assistiu a chamada “crise do petróleo”, quando a escassez elevou muito o seu preço. Por causa disso, em 1975, o Brasil iniciou o programa “Pró-Álcool” ou “Programa Nacional do Álcool”, que consistiu em incentivos para a substituição dos carros movidos à gasolina por outros que utilizassem álcool etílico como combustível. Esse programa foi bem sucedido até a década de 90, quando o preço do álcool, comparado ao da gasolina, deixou de ser vantajoso. Mas, levou ao desenvolvimento de uma tecnologia nacional espetacular e o Brasil hoje é o maior produtor de álcool combustível. A fabricação de carros “Flex”, que se movimentam com uma mistura de álcool e gasolina pode ser vista como um retorno, de certa forma, desse programa. Atualmente, no Brasil, várias pesquisas estão sendo feitas para a obtenção de etanol a partir da mandioca doce. Esse tubérculo possui um teor de sacarose bem maior que a cana e os resultados dessa pesquisa estão sendo promissores. Talvez, daqui a pouco tempo a gente esteja andando a carros movidos a álcool de mandioca. Em países como os Estados Unidos, onde não há essa disponibilidade de cana, o etanol é obtido a partir do eteno. Bom, a gente acabou de ver (falamos do álcool da mandioca) que a fermentação para a obtenção de álcool não é feita só a partir da cana. As bebidas alcoólicas são obtidas da fermentação de vários substratos. O vinho, por exemplo, é produto de fermentação de uvas. A cerveja, da cevada. A cachaça é da cana mesmo. Agora, independente da sua fonte de obtenção, o etanol é um depressor (torna as respostas mais lentas) do sistema nervoso central. Em doses pequenas, causa sensação de euforia e diminui a nossa capacidade de coordenação motora (diminui nossa capacidade de respostas rápidas, como, por exemplo, se precisarmos frear um carro rapidamente). Em doses maiores, pode levar à morte. O metanol (CH3OH), também conhecido por “álcool de madeira”, pode ser obtido por destilação de madeira (celulose), mas, atualmente, é obtido principalmente a partir do carvão e água (uma mistura que conhecemos por “gás de síntese”) ou por oxidação do metano. O metanol é usado como matéria- prima para a produção de outras substâncias (como, por exemplo, o metanaldeído = formol), como combustível de aviões a jato e carros de corrida e, nos Estados Unidos, como aditivo de gasolina. Há alguns anos, quando a nossa produção de etanol não atendia à demanda do mercado, foi usado também aqui como combustível. Mas, por ser muito tóxico, seu uso foi abolido. Atualmente, adquiriu grande importância, pois é utilizado para a produção de biodiesel (vamos ver isso quando estudarmos os ésteres).  
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          .  92 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  4. Fenóis Quando afunção OH está ligada a carbonos sp2 , a reatividade desses compostos é diferente e então não são classificados como alcoóis. Quando o carbono sp2 não é o de um sistema aromático, a gente tem a classe dos enóis, que normalmente são muito instáveis e se transformam rapidamente em aldeídos ou cetonas. Vamos estudá-los quando virmos aquelas funções.     Quando a OH está diretamente ligada a um anel aromático, temos a classe dos fenóis. Os fenóis são muito utilizados como desinfetantes (a creolina é uma mistura de fenóis e cresóis. Os 1, 2 e 3-metil-fenóis recebem o nome comum de cresóis) e como matéria-prima na preparação de resinas e polímeros (a fórmica é uma resina obtida da polimerização do fenol com um aldeído, geralmente formol), da aspirina e outros medicamentos e mais várias coisas. O BHT (Butil-hidroxi-tolueno) e o BHA (Butil-hidroxi-anisol) são antioxidantes (evitam processos de oxidação) muito usados em alimentos para evitar a rancificação de óleos e gorduras.   Figura 135   Na natureza, também encontramos vários compostos fenólicos. Vamos ver alguns: O eugenol é encontrado no cravo-da-índia e na canela. Sabe aquela sensação esquisita que a gente tem quando morde o cravo-da-índia da canjica ou do doce de abóbora? Quem causa isso é exatamente o eugenol. Tem poder antisséptico e anestésico. Devido a esse poder antisséptico, os alimentos que fazem uso do cravo em sua preparação estragam bem mais lentamente. E é por isso que eram tão importantes na época dos grandes descobrimentos (lembram da “busca por especiarias”?), pois como ainda não OH FENOL  OH 2,6-di-terc-butil-4-metil-fenol BHT OH OCH3 2,6-di-terc-butil-4-metoxi-fenol BHA Figura 134
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          .  93 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  haviam inventado ageladeira, os alimentos estragavam muito  rápido.  Por causa também dessas propriedades antissépticas e anestésicas é misturado com óxido de zinco para preparar o cimento que o dentista coloca em nossas cáries. Nunca repararam que aquilo tem cheiro e gosto de cravo-da-índia? O tetraidrocanabinol (THC) é outro fenol muito conhecido. É o composto responsável pelas sensações causadas pela maconha. No Brasil, essa droga é ilegal, mas em alguns países é utilizada para diminuir a dor de pacientes terminais (com câncer ou outras doenças). Atualmente, em muitos lugares do mundo, há um movimento para a legalização da maconha. Muitos usuários a consideram uma droga benigna. Além disso, alegam que sua legalização aboliria problemas de tráfico. Mas, o fato é que é difícil a gente saber se os níveis de uso irão aumentar ou permanecerão os mesmos depois da legalização. Além do mais, a maconha não é uma droga tão benéfica e segura assim, pois existem estudos que relacionam seu uso a transtornos mentais, como psicose e esquizofrenia. A maconha altera o funcionamento do sistema nervoso central, podendo modificar o comportamento das pessoas que fazem uso dela. Ela vem de uma erva cujo nome científico é Cannabis sativa, uma planta originária da Ásia, mas que se adapta bem em qualquer ambiente. O THC age no encéfalo e pode gerar problemas de concentração e memória, dificultando o aprendizado e a execução de tarefas como dirigir ou operar máquinas. Seu uso contínuo pode causar alteração da imunidade, redução dos níveis de testosterona (hormônio sexual masculino), depressão, crises de pânico e redução do interesse e motivação para a vida. Ela também pode causar uma hipersensibilidade a estímulos sensoriais e a alterações de percepção de tempo. As doses elevadas causam perturbações da memória, alterações do pensamento, sentimentos de estranheza, alucinações e despersonalização. Os fenóis são nomenclaturados utilizando-se o nome do radical seguido da palavra “fenol”:           Figura 136   OH 2-etil-fenol o-etil-fenol OH OH p-hidroxi-fenol Nome comum: Hidroquinona OH NO2 Cl 4-cloro-3-nitro-fenol  
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          .  94 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Alguns nomes comunsdos fenóis foram mantidos pela IUPAC e estão mostrados abaixo:               Figura 137 5. Éteres A função orgânica éter se caracteriza pela presença de um átomo de oxigênio entre duas cadeias orgânicas alifáticas ou aromáticas. Pode ser vista como uma função derivada dos alcoóis e fenóis onde o hidrogênio da hidroxila é substituído por uma cadeia carbônica: R O R R-O-Ar Ar-O-Ar   Figura 138   A maior utilização que os éteres encontram são como solventes para tintas e vernizes. O éter etílico (CH3CH2OCH2CH3) é o que conhecemos comumente como ”éter”. Já foi muito utilizado como anestésico por inalação, mas não usamos mais, pois é muito inflamável e havia sempre o risco de incêndio nas salas cirúrgicas. Atualmente foi substituído por outros como o halotano (1,1,1-trifluoro-2-bromo-2- cloroetano). A nomenclatura dos éteres é feita da seguinte forma: a menor cadeia carbônica é tratada como um substituinte e usa-se a terminação “oxi” e o resto obedece às regras gerais vistas até aqui. Quando as duas cadeias são idênticas, podemos usar a nomenclatura: éter + as cadeias com a terminação “ico” (ex: éter etílico).
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          .  95 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O Metoximetano O Metoxietano O 1-Metoxipropano O 2-metoxi-propano O O 1-etoxi-1-metoxicicloexano O 4-etoxi-pent-1-eno O 2-butoxi-benzeno sec-butoxibenzeno Éter metílico   Figura 139 Oséteres são muito usados como solventes porque são estáveis, isto é, pouco reativos. Mas o éter cíclico de três membros é diferente (são denominados epóxidos). Como para fazer o anel de três tem- se que “forçar a barra” (os ângulos de um triângulo são bem diferentes dos do tetraedro), a gente diz que o sistema é tensionado. Por causa dessa tensão, ele adora sair reagindo para quebrar o anel. Essa propriedade é explorada e eles são muito utilizados como matéria-prima. O epóxido mais simples (sem nenhum substituinte no anel) é o que não tem nenhum substituinte e é conhecido como óxido de etileno. É um gás que mata bactérias e fungos e, por conta disso, é muito usado para a esterilização de substâncias que não suportariam uma técnica de esterilização que usasse aquecimento. A grande maioria dos materiais médicos é esterilizada com óxido de etileno. Mas, como já vimos acima, o principal uso do óxido de etileno é como matéria-prima para a obtenção de outras substâncias, como, por exemplo, o etilenoglicol: HOCH2CH2OH. O etilenoglicol é usado como refrigerante automotivo, anticongelante e, junto com o óxido de etileno, na produção de poliéteres. As resinas epóxi (ex: O Durepoxi® é uma resina epóxi que na hora do uso a gente mistura com um endurecedor: poliamida) são um exemplo de poliéter. O   Figura 140
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          .  96 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  6. Aldeídos eCetonas Os aldeídos e cetonas são uma classe de compostos cuja função orgânica é a carbonila: C=O. Nos aldeídos, o grupo funcional está ligado, de um lado, com um grupo alquil ou aril e, do outro, com um hidrogênio. Nas cetonas, os dois lados da carbonila são ligados a cadeias carbônicas: R O H Ar O H R O R R O Ar Ar O Ar ALDEÍDOS CETONAS   Figura 141 Aldeídos e cetonas estão em um equilíbrio (transformação de um composto em outro) com compostos isoméricos que pertencem à função enol (OH ligado a Csp2 ). Esse equilíbrio é muito lento (ocorre muito devagarzinho). Na maioria dos aldeídos e cetonas, a forma enólica é muito mais instável e então quase não se forma. Por exemplo, quando eu pego uma garrafa de etanal eu tenho 99,9% das moléculas como aldeído (chamamos genericamente de “forma ceto”, o isômero que contém a carbonila) e 0,01% das moléculas como enol (“forma enol” – Esquema 4). Esse equilíbrio é chamado de tautomeria ceto- enólica . A gente já viu que um equilíbrio químico é indicado por duas setas. Como a forma ceto é a que tem em bem maior quantidade, a seta voltada para ela deve ser bem maior: O H OH H Forma ceto Forma enol ETANAL ETENOL   Esquema 4: Tautomeria ceto-enólica
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          .  97 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  6.1. Aldeídos Os aldeídos,assim como as cetonas, são, em termos de quantidade e variedades estruturais, uma das classes de produtos naturais mais abundantes. Muitos deles vaporizam com facilidade e por causa disso são muito utilizados em indústrias de perfumaria. Alguns exemplos de aldeídos naturais são mostrados abaixo: O cinamaldeído é encontrado na casca da canela. Sua principal aplicação é na indústria alimentícia como flavorizante (substância que se adiciona aos alimentos e medicamentos para lhes conferir odor e/ou sabor) de sorvetes, balas, chicletes, doces e bebidas. Tem propriedades antifúngicas e por isso também era uma especiaria muito valorizada na época dos grandes descobrimentos. Como aromatizante, é adicionado a perfumes com aromas doces ou frutado e em cosméticos, especialmente em cremes, sabonetes e loções. É muito usado também em velas e incensos. O citral, um dos constituintes mais comuns de perfumes com toques cítricos, é, na verdade, uma mistura de dois aldeídos isoméricos: o geranil e o neral. Repare que a diferença entre os dois está na estereoquímica da ligação dupla: o geranial é Z, enquanto o neural é E. Essa pequena diferença estrutural confere às duas moléculas propriedades olfativas diferentes, já que o geranial possui um forte odor cítrico, que remete ao limão, e o neral tem um odor menos acentuado, porém mais adocicado. Além de seu uso na indústria de perfumaria, essa mistura de aldeídos também é empregada na indústria alimentícia para reforçar o sabor de limão de balas e outros comestíveis. Um aldeído extremamente importante para nós é o cis-retinal (Figura 36). Quando a luz entra no olho, ela interage com uma substância chamada rodopsina. A rodopsina é uma mistura de uma proteína (escotopsina) e cis-retinal. Essa interação (luz + rodopsina) transforma o cis-retinal em trans-retinal. Essa reação leva apenas alguns trilionésimos de segundo e faz com que a rodopsina se converta em metarodopsina II (“rodopsina ativada”). Esse composto produz impulsos elétricos que são transmitidos ao cérebro e interpretados como luz. Esse é o mecanismo que faz com que a gente enxergue. O cis- O H Cinamaldeído   O H O H Geranial Neral   Figura 142 Figura 143
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          .  98 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  retinal é formadoa partir da vitamina A e é por isso que a falta dessa vitamina causa problemas de visão. OHcis-Retinal O H trans-Retinal OH trans-Retinol Vitamina A   Figura 144: Compostos envolvidos no mecanismo da visão.   A nomenclatura dos aldeídos é feita da mesma forma que para as outras funções, lembrando que a cadeia principal é a que tem a C=O e usa-se o sufixo “al”. Alguns aldeídos tiveram seu nome comum consagrados e a IUPAC aceita o seu uso. Esses nomes estão em azul, na Figura 107. Quando, numa molécula, temos funções como OH, NO2 e NH2, além da C=O, esta é a preferencial para a nomenclatura. As outras funções são nomeadas como substituintes.
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          .  99 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  H O H O H Etanal ACETALDEÍDO O H PropanalMetanal FORMALDEÍDO PROPIONALDEÍDO O H 2-metil-propanal ISOBUTIRALDEÍDO OH BENZALDEÍDO O H 4-metil-pent-3-enal O H 4-Hexil-hept-5-inal OH OH m-hidroxi-benzaldeído O H NH2 3-amino-butanal O H NO2 p-nitro-benzaldeido   Figura145: Nomenclatura de aldeídos   Para aldeídos cíclicos, a IUPAC recomenda considerar o grupo CHO à parte: dá-se o nome do hidrocarboneto correspondente seguido da palavra “carbaldeído”.   O H Cicloexanocarbaldeído O H 3-alil-ciclopentanocarbaldeído   Figura 146 Com certeza, o aldeído que a gente mais ouve falar é o “formol”. O formaldeído é um gás. O que a gente conhece por “formol” é uma solução aquosa contendo 37% do gás. Essa solução tem inúmeras aplicações. É usado como preservativo (usamos formol para, por exemplo, embalsamar peças de
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          .  100 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  cadáveres), desinfetante (Lysoform®)e antisséptico. Também é usado para fazer seda artificial, tintas,  corantes, soluções de ureia (uma mistura de formol com mais ou menos 20% de ureia é muito usada para polimerizações diversas), resinas melamínicas (são plásticos duros - vários utensílios de cozinha, como conchas, são feitos dela; os quadros brancos são outro exemplo de uso dessa resina), vidros, espelhos e explosivos. Pode, ainda, ser usado na confecção de germicidas e pesticidas. O formol, além de gerar soluções explosivas, é tóxico. Em pequenas concentrações pode causar dermatites alérgicas, tosse, perda do tecido capilar, lacrimação e visão embaçada. A exposição constante pode levar até ao câncer no aparelho respiratório. Por causa disso, o uso de escovas progressivas à base de formol foram proibidas no Brasil. Ela fazia mal a quem usa e principalmente ao cabeleireiro, que ficava em exposição constante. Seu uso é permitido em cosmética como conservante e em endurecedor de unhas, mas aí sua concentração é muito pequena. O etanal (mais conhecido como acetaldeído) também é um conhecido seu, embora talvez você não saiba. Quando a gente bebe (álcool etílico) o nosso organismo transforma primeiro o álcool em acetaldeído e depois em ésteres diversos e ácido acético, formas pelas quais são eliminados. Quando a gente bebe em excesso, as enzimas que fazem essa transformação não conseguem realizá-la toda, e aí a gente acaba ficando com o acetaldeído no organismo. Esse aldeído é que causa enjôo, taquicardia, dor de cabeça, tontura...enfim, todos aqueles sintomas que nós chamamos de ressaca. Vai dizer que você nunca viu alguém com acetaldeído no organismo! 6.3. Cetonas Como a gente já comentou, cetonas são uma classe de compostos orgânicos onde o grupo funcional carbonila (C=O) está ligado a duas cadeias carbônicas. Da mesma forma que os aldeídos, estão muito distribuídas na natureza e devido às suas propriedades voláteis são muito usadas em perfumarias. Vamos ver algumas cetonas naturais: A muscona é o principal componente do odor de almíscar (perfumes de “Musk”) e na natureza é encontrada em cervos almiscareiros (veados encontrados na Ásia). O macho possui uma glândula no abdômen que secreta a muscona na época do acasalamento. Antigamente, os perfumes eram feitos a partir do produto extraído do animal. Como é necessário sacrificar o animal para a remoção dessa glândula e é uma espécie que está em extinção, hoje, a muscona é obtida sinteticamente ou substâncias com odor semelhantes são utilizadas pela indústria de perfumaria. O Muscona   Figura 147
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          .  101 .  Sala de Leitura  Química Orgânica    Os hormônios sexuaissão substâncias produzidas nas gônadas: testosterona nos testículos e progesterona e estrógeno nos ovários. Durante a infância esses hormônios estão inibidos, tendo sua produção iniciada durante a puberdade. São os responsáveis pelo aparecimento das características sexuais secundárias: no homem, surgimento de pelos pelo corpo (face, axila e região pubeana), aumento do tamanho peniano, espessamento das cordas vocais, iniciação da espermatogênese (produção de espermatozoide); na mulher, surgimento de pelo no corpo, alargamento do quadril, desenvolvimento dos seios, início do ciclo menstrual e ovogênese.   A biacetila é formada em vários processos de fermentação (vinho, cerveja) e é encontrada também em derivados do leite. É um líquido amarelo que tem gosto e cheiro muito parecidos com o da manteiga. Por conta disso, é adicionada à margarina (para que ela fique parecida com manteiga), biscoitos do tipo “chips”, produtos de confeitarias e na pipoca de micro-ondas.   As cetonas são nomenclaturadas utilizando-se o sufixo “ona”. Quando é necessário indicar a posição da carbonila, o no vem imediatamente antes da terminação “ona”. Outra forma, também aceita pela IUPAC, considera a carbonila o centro da molécula e o nome é dado colocando-se em ordem alfabética os dois grupos ligados à carbonila com o sufixo ilíca. As duas possibilidades estão mostradas na Figura 150. Os nomes triviais, quando existem, estão colocados em azul: O H H H O O H H H OH Progesterona Testosterona O O Biacetila Figura 148 Figura 149
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          .  102 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O Propanona Cetona Dimetílica ACETONA O Butanona Cetona etílicae metílica O Pentan-3-ona Cetona dietílica O Pentan-2-ona Cetona metílica e propílica O Cetona fenílica e etílica ACETOFENONA O Cetona difenílica BENZOFENONA O 2,5-dimetil-hexan-3-ona Cetona isobutílica e isopropílica O O Butanodiona BIACETILA O O Ciclohexan-1,2-diona O HO 1-hidroxi-pentan-2-ona   Figura 150: Nomenclatura de cetonas A acetona é usada, principalmente, como solvente de esmaltes, vernizes e tintas. A acetona é muito utilizada para a remoção de esmalte de unha e também como removedor de supercola. Pode ser usada para polimento e limpeza de resinas de fibras de vidro e epóxi. Ela dissolve a maioria dos plásticos e fibras sintéticas. A butanona é produzida em pequenas quantidades por algumas frutas e vegetais. Nas indústrias, tem grande aplicação como solventes e é usada também como denaturador do álcool etílico comercial: substância que se adiciona ao álcool para modificar o seu gosto e assim evitar que seja utilizado como bebida. 7. Ácidos Carboxílicos O grupo funcional presente nos ácidos carboxílicos é a carboxila: COOH. O nome desse grupo funcional é motivo de briga (no bom sentido, ninguém sai trocando socos por causa disso...) porque alguns químicos dizem que é o mesmo grupo dos aldeídos e cetonas (carbonila), só que agora substituída por uma hidroxila. No fundo, tanto faz. Chamar de carbonila ou carboxila não muda em nada as propriedades dos ácidos carboxílicos. Eles são ditos ácidos, porque da mesma forma que os ácidos que você estudou na Química Inorgânica, podem reagir com uma base formando um sal. Abaixo, você pode ver um exemplo disso com o ácido acético:
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          .  103 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O OH + NaOH O ONa + H2O Ácido acético Hidróxido de sódio Acetato de sódio ÁCIDO BASE SAL   Figura 151 Que tipos de compostos são produzidos no nosso metabolismo? Nós inalamos oxigênio e exalamos dióxido de carbono, um produto de oxidação dos compostos orgânicos. Os ácidos carboxílicos também são produtos de oxidação e assim são encontrados como produtos de metabolismo de todos os seres vivos. Um exemplo é o do ácido lático. Qualquer tarefa que o nosso corpo faz exige energia. Essa energia é proveniente de uma molécula chamada ATP (trifosfato de adenosina). À medida que o nosso organismo vai realizando suas funções, a ATP é degradada e depois restaurada por outra fonte energética que pode ser, por exemplo, fosfocreatina (uma outra molécula geradora de energia), gorduras ou açúcares. Conforme as necessidades energéticas vão surgindo, o corpo primeiro usa o ATP para supri-las. Quando acaba o ATP, ele usa a fosfocreatina para formar mais ATP. Mas, uma hora também acaba a fosfocreatina e então o nosso organismo escolhe outra fonte para produzir mais ATP. Aí, ele pode usar as gorduras (triglicerídeos) ou os carboidratos (glicose). Nessa escolha, dois fatores são avaliados: a velocidade de produzir mais ATP e se há ou não presença de oxigênio nessa produção. Na presença de oxigênio, o organismo usa as gorduras para obter mais ATP, pois as gorduras geram mais ATP que os carboidratos e sua fonte é quase ilimitada no nosso corpo. No entanto, se em ausência de oxigênio ou se a gente precisar de velocidade para produzir ATP (isto é, se precisarmos que ele seja formado rapidamente), o organismo irá optar pela glicose, que é o que acontece quando estamos fazendo exercícios muito puxados. Esse modo de formação de ATP tem o inconveniente de formar ácido  lático. O acúmulo de ácido lático nos músculos é o responsável pela dor no corpo que sentimos depois que a gente forçou a barra na academia. OH O OH Ácido lático   Figura 152
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          .  104 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Quando o oxigêniovolta a ficar disponível ou quando diminuímos o ritmo do esforço físico, o NAD+ transforma o ácido lático em ATP. Uma pessoa está com um condicionamento bom (não sente mais dor quando faz exercícios puxados) quando o organismo já se adaptou e forma ácido lático com a mesma velocidade com que o transforma em ATP, e aí ele não se acumula mais nos músculos. Desde antes de Cristo encontra-se relatos do uso da casca do salgueiro para o combate à febre e à dor. Mais tarde, descobriu-se que nessa planta existe a salicilina que, no nosso organismo, se transforma em ácido salicílico, que é quem tem essas propriedades. O chato desse ácido é que ele corrói as paredes do estômago, então a indústria farmacêutica mudou um pouco a estrutura dele, fazendo o ácido acetilsalicílico (AAS, aspirina). Esse último ainda causa o mesmo problema, mas bem menos do que o ácido salicílico. A nomenclatura dos ácidos carboxílicos é feita usando-se a palavra “ácido” e adicionando-se o sufixo “oico” ao grupo alquil ou aril. Outra forma é adicionar ao nome do grupo alquil (sem substituir o sufixo) a palavra “carboxílico”. Muitos ácidos são muito mais conhecidos pelo seu nome trivial (em azul, na Figura 154): H O OH Àcido metanóico Àcido metanocarboxílico ÁCIDO FÓRMICO O OH Ácido etanóico Àcido etanocarboxílixo ÁCIDO ACÉTICO O OH Ácido butanóico Ácidobutanocarboxílico ÁCIDO BUTÍRICO O OH Ácido pentanóico Ácido pentanocarboxílico ÁCIDO VALÉRICO O OH Ácido 2-metil-hexanóico Àcido 2-mwtil-hexanocarboxílico ÁCIDO 2~METIL-CAPRÓICO O OH Ácido cicloexanóico Ácido cicloexanocarboxílixo O OH Ácido Propenóico Ácido Propenocarboxílico ÁCIDO ACRÍLICO H2N O OH Ácido 2-amino-etanóico Ácido 2-amino-acético GLICINA OH O OH Ácido 2-hidroxi-benzóico ÁCIDO SALÍCILICO   Figura 154: Nomenclatura dos ácidos OH COOH OH COOCCH3 OH O O OH OH OH HO Salicilina Ácido Salicilico AAS   Figura 153
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          .  105 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O ácido fórmicofoi obtido pela primeira vez da maceração de formigas, daí o seu nome. A dor e ardência que a gente sente com a picada de formigas é porque elas injetam esse ácido quando picam. Ele é usado, hoje, na preparação de couros, como fixador de corantes e na coagulação do látex das seringueiras para a obtenção da borracha. O nome do ácido acético vem do latim “acetum”, que quer dizer azedo. O vinagre é uma solução aquosa de ácido acético e é obtido por fermentação do álcool etílico na presença de bactérias. É usado como matéria-prima para a obtenção de várias coisas, inclusive do ácido salicílico. Com o desenvolvimento da indústria química e a necessidade da humanidade de cada vez mais obter novas matérias, o homem precisou criar matérias-primas que fossem muito reativas, isto é, reagissem com muitas coisas e rapidamente. Com isso, duas funções orgânicas foram criadas pelo homem, que não são encontradas na natureza : os haletos de acila (ou de ácido), onde o OH da carboxila foi substituído por um halogênio e os anidridos de ácidos que, como o próprio nome diz, pela união de dois ácidos com perda de água. Esses ácidos podem ser iguais ou não. Estas funções são nomenclaturadas da mesma forma que os ácidos, colocando na frente a palavra correspondente ao haleto (cloreto, iodeto, brometo; não existem fluoretos de acila) e o sufixo “oila” ou anidrido:   O Cl Cloreto de acetila Cloreto de etanoila O Br Brometo de pentanoila O I Iodeto de ciclopentanoila O O O Anidrido acético Anidrido etanóico O O O Anidrido butanóico-etanóico O O O Anidrido butanodióico ANIDRIDO SUCCÍNICO   Figura 155
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          .  106 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  8. Ésteres Quando ohidrogênio da carboxila dos ácidos (RCOOH) é substituído por um grupo alifático ou aromático, temos um éster. Os ésteres de baixo peso molecular são líquidos voláteis e muitos são responsáveis pela fragrância e sabor de flores e frutos. Por causa disso, são muito usados como flavorizantes em alimentos e em cosméticos. Veja alguns exemplos: O acetato de isoamila é encontrado em bananas e o produto obtido sinteticamente é muito usado na indústria alimentícia (por exemplo, biscoito de banana) e cosmética. Mas, cuidado! Apesar de seu cheiro agradável, é um dos compostos liberados pelas abelhas, atuando como um feromônio (feromônio são compostos químicos usados para a comunicação entre indivíduos da mesma espécie) de alerta, que mobiliza as abelhas para se unirem nas ferroadas ao “invasor”, que pode ser você! Outro éster muito usado na indústria de alimentos é o antranilato de metila. Ele é o que dá o sabor e odor de uvas a sucos, balas, chicletes, etc.                                                         Além da utilização como flavorizantes, ésteres também são muito usados como solventes de tintas e vernizes. Vários ésteres são polímeros. A celulose encontrada em madeiras é um polímero de glicose (várias moléculas de glicose ligadas entre si). Um éster da celulose é o acetato de celulose, muito uitlizado para a fabricação de filtros de grande absorção (como o do cigarro) e de tecidos para forros, guarda-chuvas, tapetes e outros produtos. O politereftalato de etileno (PET), outro polímero que é um éster, e não precisaria nem dizer, é muito utilizado para a confecção de garrafas. Muitos medicamentos também são ésteres. Se você reparar bem, o AAS que a gente viu quando estudou a função ácido carboxílico, também é um éster. E olha que coisa interessante: quando o mesmo ácido salicílico faz o éster na carboxila em vez de na hidroxila (caso do AAS), observe que, na Figura 158, temos o salicilato de metila, um anti-inflamatório analgésico, que só deve ser usado por via O O Acetato de isoamila  O O NH2 Antranilato de metila   Figura 156 Figura 157
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          .  107 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  tópica (é tóxicose ingerido em grande quantidade). O AAS não é um produto natural, mas o salicilato de metila é encontrado em bétulas, árvores que não são encontradas no Brasil.           Figura 158: Ácido salicílico e seus ésteres derivados: salicilato de metila e AAS   A nomenclatura dos ésteres é feita da seguinte maneira: a cadeia principal é aquela que está ligada a C=O e a designação é feita utilizando-se o sufixo “oato”. A outra cadeia é nomenclaturada usando-se a terminação “ila”:                   Figura 159   OH COOH Ácido salicilico O O COOH AAS OH O O Salicilato de metila   O O Enoato de metila Acetato de metila O O Etanoato de etila Acetato de etila O O Propanoato de metila O O Metanoato de fenila Acetato de fenila O O Fenolato de etila O O But-2-enoato de sec-propila But-2-enoato de isopropila H O O Metanoato de benzila Formiato de benzila O O 2-etenill-cicloexanoato de metila 2-vinil-cicloexanoato de metila  
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          .  108 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Lipídeos são substânciasnaturais de origem biológica, que são insolúveis em água: óleos, gorduras e ceras são os exemplos mais comuns. Óleos e gorduras são glicerídeos, isto é, são ésteres do glicerol (ou glicerina):              Figura 160 Em geral, todas as três hidroxilas do glicerol estão esterificadas (isto é, formaram ésteres) de forma que esses compostos são também conhecidos por triglicerídeos. Chamamos de óleo os triglicerídeos que são líquidos à temperatura ambiente, e de gorduras os triglicerídeos que são sólidos. A Figura 41 mostra um exemplo de um triglicerídeo: O O O O O O   Figura 161: Um triglicerídeo Os ésteres podem ser quebrados (em Química a gente usa mais o termo “clivar”) formando o álcool e o ácido correspondente. No caso dos triglicerídeos, os ácidos formados são chamados de ácidos graxos, pois a palavra “graxa” significa gordura:   HO OH OH
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          .  109 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O O O O O O CLIVAGEM OH OH OH HO HO HO O O O ÁCIDOS GRAXOSGLICEROL + com H2O   Figura162 Os ácidos graxos são ácidos carboxílicos, geralmente com uma longa cadeia carbônica: a cadeia carbônica pode ser saturada (alcânica) ou insaturada. Essa longa cadeia carbônica é que faz com que os óleos e gorduras não sejem solúveis em água. Os ácidos graxos naturais têm número par de carbonos porque sua biossíntese (síntese no organismo) é feita por adição de dois átomos de carbono de cada vez e, quando insaturados, a ligação dupla é sempre cis. Gorduras trans não são naturais. A tabela abaixo mostra exemplos de ácidos graxos. A designação abreviada tem o seguinte significado: o primeiro no indica o no de átomos de carbono, e o no que vem após os dois pontos significa o n° de C=C que tem na cadeia do ácido.O triângulo com um no subscrito diz a posição dessas ligações duplas. Número de  carbonos  Nome comum  Nomenclatura IUPAC  Designação  abreviada  Exemplos de  ocorrência  4  Butírico  Butanoico  C4:0  Leite, manteiga  6  Caproico  Hexanoico  C6:0  Leite, manteiga  12  Láurico  Dodecanoico  C12:0  Óleo de coco  18  Esteárico  Octadecanoico  C18:0  Sebo animal  18  Oleico  (9Z)‐Octadecenoico  Δ9  C18:1  Azeite  18  Linoleico  (9Z,12Z)‐Octadecadienoico  Δ9,12  C18:2  Óleo de algodão,  soja, amendoim,  milho, girassol  Tabela 9: Exemplos de ácidos graxos.
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          .  110 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Vocês já devemter visto em rótulos de alguns alimentos a seguinte frase: contém ω-3 (essa letra grega a gente chama de “ômega”). Essa é uma nomenclatura que se usa apenas para ácidos graxos insaturados, onde o no que aparece depois do ômega se refere à posição da ligação dupla mais afastada da carbonila, mas numerando a cadeia de trás para a frente, isto é, começando a numerar a cadeia pelo extremo do CH3 e não da COOH: HO O 1 2345 67 891011 12 13 14 15 16 17 18 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 1213 14 15 16 17 18 Numeração IUPAC Numeração omega ÁCIDO α-LINOLEICO ω-3   Figura 163 E para que mais essa complicação? Essa numeração tem importância por questões biológicas, principalmente para os nutricionistas. O corpo humano (aliás, os mamíferos em geral) pode sintetizar quase todos os ácidos graxos de que precisa a partir dos açúcares e outras fontes alimentares. No entanto, não conseguimos fazer os ácidos do tipo ω-3 e nem ω-6. Acontece que precisamos deles para muitas finalidades: precisamos ingeri-los em nossa alimentação porque não somos capazes de fazê-los e nossa saúde depende deles em grau apreciável. Por conta disso, são chamados de ácidos graxos essenciais (em bioquímica, “essencial” significa uma molécula fundamental para a vida, mas que temos de adquirir a partir de alimentos, porque não sintetizamos). Ceras são ésteres de ácidos graxos com alcoóis mono-hidroxílicos (não vem do glicerol) de cadeia longa ou com vários anéis. Na figura abaixo está a estrutura do palmitato de miricila (o no entre parênteses significa quantas vezes o CH2 se repete), o componente principal da cera de abelhas:   O O 14 29 PALMITATO DE MIRICILA   Figura 164
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          .  111 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Os sabões (esabonetes) são sais (usualmente de sódio) de ácidos graxos. Na maioria das vezes são obtidos por clivagem de triglicerídeos com hidróxido de sódio (NaOH). No interior, ainda tem muita gente que faz sabão de cinzas. Aí, a base é o hidróxido de potássio (KOH), que é o constituinte das cinzas. Assim por exemplo, no sabão de coco temos muito sal:   O O Na Laureato de sódio   Figura 165 Agora, vamos entender como o sabão limpa: Se a gente analisar a estrutura das moléculas do sabão, percebe que é constituída por uma parte hidrofóbica (“que não gosta de água”), a cadeia carbônica, e uma parte hidrofílica, a extremidade polar (COO- Na+ ). Essa estrutura faz com que essas moléculas em água apresentem a tendência a se agregar, aproximando as cadeias hidrofóbicas umas das outras, excluindo a água desse grupo e deixando os extremos hidrofílicos em contato com a água. Esse arranjo chamamos de micela. A parte hidrofóbica da micela é que retira as sujeiras apolares, e a hidrofílica, as sujeiras polares. Por isso, tomar banho sem sabonete não limpa! A água sozinha não retira gordura! Esses mesmos triglicerídeos de vegetais (no Brasil, estamos testando muito com a mamona) são utilizados para fazer biodiesel. No biodiesel, a parte alcoólica do triglicerídeo (o glicerol) é substituída por um grupo metoxila (OCH3): O O O O O O CLIVAGEM OH OH OH MeO MeO MeO O O O BIODIESELGLICEROL + com CH3OH   Figura 166
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          .  112 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Um outro derivadodo glicerol, que também é um éster, é o trinitrato de glicerina. Esse éster foi sintetizado pela primeira vez por Ascario Sobreno, um químico italiano, no século XVIII. O problema é que esse explosivo é um líquido muito sensível e detonava com qualquer movimento, impedindo, inclusive, o seu transporte. Alfred Nobel, químico sueco, descobriu que se ele misturasse o trinitrato de glicerina com um pó inerte (usou terra diatomácea: óxido de silício em pó) ela poderia ser manuseada com facilidade. Estava descoberta a dinamite. A descoberta da dinamite e sua ampla exploração industrial tornaram Alfred Nobel muito rico. Nobel sempre foi um homem generoso, principalmente no que se diz respeito a atividades humanitárias e científicas. Em seu testamento, Nobel deixou a maior parte de sua fortuna para o que veio a ser o mais famoso prêmio internacional de ciências, o prêmio Nobel. 9. Aminas Nossa atmosfera é composta basicamente por 20% de oxigênio e 80% de nitrogênio. Não precisamos nem falar na importância do oxigênio. Mas, e o nitrogênio? Onde entra nessa história? Ao contrário do oxigênio, que é ele próprio um dos “ingredientes” das oxidações biológicas (que vão originar todos os compostos contendo oxigênio: álcool, éteres, ácidos, etc.) o nitrogênio (N2) em si é relativamente inerte. No entanto, por um processo que a gente conhece por “fixação de nitrogênio” é transformado em amônia (NH3), e daí se transforma em compostos orgânicos nitrogenados. As aminas são substâncias nas quais os hidrogênios da amônia são substituídos por grupos alifáticos ou aromáticos. Em função dessa substituição, as aminas são classificadas em primárias, secundárias ou terciárias. Compostos onde o nitrogênio está com quatro substituintes e, por conta disso, está positivo, são denominados de sais de amônio quaternário:  
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          .  113 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  N H Coniina AMINA SECUNDÁRIA Constituinte principaldo veneno de cicuta, uma planta de origem européia. O filósofo Sócrates foi morto por envenenamento com esta planta. NH2 OH HO Dopamina AMINA PRIMÁRIA É um neurotransmissor (molécula sintetizada e estocada nos neurônios que só é liberada quando esse neurônio é estimulado, isto é, quando vai desen cadear uma ação). Quando o cérebro perde a capacidade de sintetizar a dopamina, temos a doença de Parkinson. Uma superatividade dos neurônios que sintetizam a dopamina gera a esquizofrenia. N Trietil-amina AMINA TERCIÁRIA Esta amina tem um cheiro muito desagradável.Éum dos compostos liberados quando um peixe morre e começa a se decompor. Ela realmente tem cheiro de peixe estragado! N Cl Cloreto de cetil-trimetil-amônio SAL DE AMÕNIO QUATERNÁRIO É um produto sintético utilizado em condicionadores de cabelo e cremes rinse . Figura 167 As aminas e outros compostos nitrogenados estão entre as moléculas orgânicas mais abundantes. Por serem os constituintes de aminoácidos, proteínas e alcaloides são essenciais para a Bioquímica (ciência que estuda a “química da vida”). Muitas, como os neurotransmissores, possuem atividade biológica. Devido à essa gama de efeitos biológicos, são muito utilizadas como medicamentos. Aminoácidos são compostos orgânicos que possuem em sua estrutura uma função amina e uma função ácido carboxílico. Podem ou não ter outras funções além dessas. Abaixo (Figura 168) são mostrados exemplos de α-aminoácidos (para os aminoácidos a gente chama os carbonos vizinhos ao COOH de α β, γ, δ...) essenciais:  
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          .  114 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  H2N COOH Glicina H2N COOH SH Cisteína H2NCOOH Fenilalanina N H H O OH Prolina α α α α   Figura 168: Exemplos de α-aminoácidos essenciais Proteínas são polímeros constituídos de vários aminoácidos encadeados por meio de uma ligação peptídica (ligação que ocorre entre a C=O de uma carboxila e o NH de uma amina; é uma ligação amídica: N H O ).  Figura 169   As proteínas são de importância primordial para os seres vivos e existem em todas as células vivas. Essa importância pode ser avaliada pelo fato de que os ácidos nucleicos (DNA e RNA), responsáveis pela hereditariedade, têm como papel principal a codificação (qual aminoácido vai se ligar com qual) da síntese de proteínas. A hemoglobina (que a gente abrevia como Hb) é uma proteína presente nas células vermelhas do sangue (eritrócitos). É constituída por quatro cadeias de aminoácidos enovelados entre si (no total são quase 600 aminoácidos). Na extremidade de cada uma dessas cadeias, existe um grande anel orgânico heterocíclico constituído por vários ciclos nitrogenados. Esses nitrogênios fazem ligação coordenada com um átomo de ferro e esse sistema cíclico todo é designado grupo “heme” . Com essa coordenação, o ferro fica na forma Fe+2 e então tem capacidade de se ligar ao oxigênio. É dessa maneira que o oxigênio é transportado para todo o nosso organismo. A morte por asfixia com monóxido de carbono acontece porque, na sua presença, o Fe+2 do grupo heme se liga a ele ao invés do oxigênio, ou seja, o oxigênio não é mais transportado para as nossas células.
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          .  115 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Quando ocorre amorte, as várias proteínas animais se decompõem em várias outras substâncias. Duas diaminas são exemplos desses compostos e aparecem em toda carne podre. São as responsáveis pelo cheiro ruim que sentimos. O nome dessas aminas é bastante sugestivo:   H2N NH2 Cadaverina H2N NH2 1,4-diaminabutano1,5-diaminapentano Putrescina   Figura 170 Apesar de nós a associarmos a coisas mortas, a cadaverina é encontrada em pequena quantidade no sêmen e a putrescina no suor e na saliva. Alcaloides são compostos orgânicos nitrogenados, encontrados basicamente em vegetais (pouquíssimos alcaloides são descritos em animais). Um exemplo de alcaloide é a cocaína. A cocaína é extraída das folhas de coca. A folha de coca (cujo consumo através do chá ou se mascando feito chiclete leva apenas à absorção de uma dose minúscula) é usada há mais de 1.200 anos pelos povos nativos da América do Sul, que a mastigavam para ajudar a suportar a fome, a sede e o cansaço. Os incas e outros povos andinos a usaram para facilitar o trabalho em altas atitudes, onde a rarefação do ar torna o trabalho árduo muito mais difícil. N H Cl O O O O Cloridrato de cocaína   Figura 171
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          .  116 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  A forma comque é vendida como droga é o sal de amônio quaternário, e é muito perigosa, pois é muito mais concentrada que aquela encontrada na folha. A cocaína já foi utilizada como anestésico, mas devido a seus outros tantos efeitos, não é mais utilizada em medicina. Ao atuar ao nível do Sistema Nervoso Central, causa euforia, mas também está comprovado que provoca complicações cardiovasculares e neurológicas graves. Muitas pesquisas mostram a ocorrência de hemorragias cerebrais devido ao abuso da cocaína. Alguns estudos comprovam que seu uso crônico pode acarretar em atrofia cerebral, com consequentes déficits na atenção, concentração, aprendizado e memória visual e verbal. Além disso tudo, a cocaína causa dependência química. Uma outra forma na qual a cocaína é vendida é o crack, cinco vezes mais potente e, lógico, muito mais perigoso. A gente já discutiu as interações intermoleculares e aí consegue entender o porquê. A cocaína é o sal de amônio quaternário, enquanto o crack é a amina terciária. Como o cérebro é protegido por uma barreira lipídica, quem chega mais no cérebro: o cloridrato de cocaína (um sal) ou a molécula sem carga (o crack)? Como muitos neurotransmissores são aminas, medicamentos que atuam no sistema nervoso geralmente também têm essa função na sua estrutura. Um exemplo é a fluoxetina, que a gente conhece mais pelo seu nome comercial: Prozac, um antidepressivo. F3C N H Fluoxetina   Figura 172 Para se nomenclaturar as aminas primárias, adiciona-se ao fim do prefixo referente à cadeia carbônica a palavra “amina”. Esse prefixo (nome da cadeia carbônica) pode ter a terminação “il” ou não. Para as aminas secundárias e terciárias, considera-se como cadeia principal aquela que contém o átomo de nitrogênio e o maior no de carbonos. As outras cadeias são designadas com a letra “N” na frente:
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          .  117 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  NH2 Metanaimna NH2 Etanamina NH2 Propan-2-amina NH2 Cicloexanamina NH2 Metilamina Etilamina Cicloexilamina Benzenoamina Fenilamina ANILINA NH2 2-fenil-etanamina 2-fenil-etilamina Benzilamina NH2 (E)-4-metil-hex-3-en-2-amina N H N-metil-butan-2-amina N N-etil-N,4-dimetil-hexan-3-amina   Figura173   10. Amidas As amidas são os compostos orgânicos que possuem uma carbonila (C=O) diretamente ligada a um nitrogênio. Quando vimos a função amina fomos apresentados às proteínas, cujas ligações peptídicas na realidade são amidas. Da mesma forma que as aminas, são classificadas em primárias, secundárias ou terciárias:           Figura 174 O NH2 Metanamida AMIDA PRIMÁRIA H O N N,N-dimetil-formamida AMIDA TERCIÁRIA O N H N-metil-ciloexanamida AMIDA SECUNDÁRIA  
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          .  118 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  As amidas têmaplicações como matérias-primas industriais, medicamentos, fertilizantes e na obtenção de polímeros. As amidas cíclicas recebem a designação especial de lactamas. As penicilinas, por exemplo, possuem um ciclo lactâmico: N H N ONH2 O HO Penilicina-G S COO K O   Figura 175 As amidas são muito encontradas também na natureza. Embora hoje muitas sejam obtidas por síntese, as próprias penicilinas são produzidas por fungos. A piperina e a chavicina são alcaloides amídicos encontrados na pimenta do reino. Observe que uma é isômera da outra. Parece que a chavicina é a responsável pelo sabor picante da pimenta do reino. Você já comeu pimenta do reino pura? Se fizer, vai reparar que arde bem mais do que depois que foi cozida nos alimentos. Isso porque, com o aquecimento, a chavicina se converte na piperina, que é menos picante. Já a capsaicina está presente na pimenta malagueta. Essa arde muito! Ela é o gás de pimenta, muito usado pela polícia quando quer controlar agitações na rua. Os polímeros de amidas são denominados de nylon. Existem vários tipos de nylon (diversas amidas são usadas como monômeros). São usados na confecção de tênis, guarda-chuvas, “air-bags”, barracas de acampamento, tecidos para vestuário, etc. Cerca de 10% dos materiais usados em um carro hoje são feitos de poliamidas, que tem a vantagem de serem leves; diminuindo o peso do carro, a gente diminui o gasto de combustível.   Figura 176
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          .  119 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  A nomenclatura dasamidas é feita igualzinha a das aminas, mas agora substituindo a palavra “amina” por “amida”:   Figura 177 11. Nitrilas As nitrilas são compostos orgânicos que possuem o grupo funcional ciano (CΞN). A presença de nitrilas na natureza é bem mais rara que o dos outros compostos nitrogenados. Quando existem, normalmente são encontradas na forma de cianoidrinas: C N NITRILA OH C N H CIANOIDRINA   Figura 178 são compostos onde o grupo CN está em um carbono que também contém uma hidroxila. Quando essa hidroxila pertence a um açúcar, dizemos que é um glicosídeo cianogênico. Esses são compostos tóxicos, pois liberam HCN e existem em muitas plantas. 
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          .  120 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  O O CN OH OH HO HO LINAMARINA            Figura179 Uma amida sintética muito importante é a acrilonitrila (H2C=CHCN), pois ela é monômero da poliacrilonitrila. A poliacrilonitrila (PAN) é um polímero muito utilizado em fibras têxteis (fibra acrílica), principalmente para a confecção de roupas de inverno. A PAN, quando aquecida acima de 180o C, forma um resíduo preto com alto teor de carbono que é muito utilizada porque é leve e altamente resistente. Esse resíduo é conhecido como fibra de carbono. A nomenclatura das nitrilas é feita como a das amidas: adiciona-se a palavra ”nitrila” depois do nome do hidrocarboneto. Quando a nitrila é um substituinte, usa-se a designação ciano: CN Etanonitrila CN Propanonitrila CN Metil-propanonitrila COOH CN Ácido m-ciano-benzóico   Figura 180 Bem, acabamos por aqui. Nesse texto, fizemos um breve relato da história da Química Orgânica, discutimos as propriedades do átomo de carbono, a forma como ele se liga para gerar as diversas moléculas orgânicas e as consequências dessas ligações em termos de propriedades químicas. Um glicosídeo cianogênico, chamado linamarina, é encontrado na mandioca brava. Ela tem de ser bem cozida antes de consumida (para degradar esse glicosídeo), pois pode levar à morte. Estima-se que cerca de 2.500 espécies de vegetais possuem glicosídeos cianogênicos como mecanismo de defesa. Por isso, é comum ocorrer envenenamento de gato e de pessoas por consumir essas plantas ou beber água onde raízes de mandioca brava foram colocadas de molho.
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          .  121 .  Sala de Leitura  Química Orgânica  Fomos apresentados tambémaos principais grupos funcionais (existem muitos outros). Você deve ter reparado que a grande maioria dos compostos tem mais de um grupo funcional em sua estrutura e um pode influenciar no outro. Agora, uma questão para pensar: mesmo “esquecendo” as moléculas orgânicas presentes nos organismos vivos, isto é, pensando naquelas que a tecnologia já criou, e a cada dia surgem mais novidades, você consegue imaginar a sua vida sem Química?