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RUBEM ALVES 
A COMPLICADA ARTE DE VER 
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio 
aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou 
para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, 
eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal 
sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia 
visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão 
de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser 
comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando 
cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto." 
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me 
levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes 
Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à 
Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a 
acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda 
disse de uma cebola igual àquela que lhe causou 
assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, 
Marcelo Zocchio 
você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver". 
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os 
de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina 
fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão 
que não pertence à física 
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". 
Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da 
sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa 
decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito 
trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo. 
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma 
pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. 
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as 
árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, 
heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche 
sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e 
toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro 
olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os 
ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram". 
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de 
Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, 
"seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": 
"De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao 
constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um 
humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de 
ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos 
objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. 
Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa 
dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo 
prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. 
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na 
caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas 
mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido 
do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para 
as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas 
quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas". 
Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir 
que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se 
dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus 
menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"... 
Rubem Alves, 71, educador, escritor. Livros novos para crianças e adultos-crianças: "Os Três Reis" 
(Loyola) e "Caindo na Real: Cinderela e Chapeuzinho Vermelho para o Tempo Atual" (Papirus).
SOBRE A MORTE E O MORRER 
Rubem Alves 
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? 
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário 
Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir 
embora... 
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca 
imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. 
Ela 
entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, 
sabia que a morte é onde mora a saudade. 
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar 
enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre 
humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a 
vida ser só isto...” 
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou 
medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. 
O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está 
chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” 
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos 
e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não 
sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas 
comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de 
anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas 
que se ama, em meio a visões de beleza. 
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As 
dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: 
"O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico 
olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?". 
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores 
que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho 
humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver 
feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética. 
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de 
repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que 
assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, 
apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu 
inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final. 
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da 
minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert 
Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais 
precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a 
bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que 
indicam a presença de ondas cerebrais? 
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de 
batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos 
humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir 
alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia. 
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, 
uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao 
pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me". 
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, 
mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo 
que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de
2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava 
que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se 
recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento. 
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para 
morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos 
sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova 
especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a morienterapia", o cuidado com os que estão 
morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que 
ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa 
nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços 
daquela mãe o morrer deixa de causar medo.(Rubem Alves, crônica publicada no jornal Folha de São 
Paulo, em 12/10/2003)
RUBEM ALVES 
A ARTE DE SABER LER 
Ela me olhou e disse: "Encontrei um lindo poema de Fernando Pessoa". Fiquei contente, porque 
gosto muito de Fernando Pessoa. Aí ela disse o primeiro verso. Fiquei mais contente ainda, porque 
era um poema que eu conhecia. Ato contínuo, ela abriu o livro e começou a ler. Epa! Senti-me mal. 
As palavras estavam certas. Mas ela tropeçava, parava onde não devia, não tinha ritmo nem música. 
Não, aquilo não era Fernando Pessoa, embora as palavras fossem suas. 
Senti o mesmo que já sentira em audições de alunos principiantes que, via de regra, são um 
sofrimento para os que ouvem, o maior desejo sendo que a música chegue ao fim e que a aflição 
termine. Percebi, então, que a arte de ler é exatamente igual à arte de tocar piano ou qualquer outro 
instrumento. 
Como é que se aprende a gostar de piano? O gostar começa pelo ouvir. É preciso ouvir o piano bem 
tocado. Há dois tipos de pianistas. Alguns, raros, como Nelson Freire, já nascem com o piano dentro 
deles. Eles e o piano são uma coisa só. O piano é uma extensão dos seus corpos. 
Outros, aos quais dou o nome de "pianeiros", são como eu, que me esforcei sem sucesso para ser 
pianista (consolo-me pensando que o mesmo aconteceu com Friedrich Nietzsche. Atreveu-se até 
mesmo a enviar algumas de suas composições ao famoso pianista Hans von Büllow, que as 
devolveu com o conselho de que ele deveria se dedicar à filosofia). 
Diferentemente dos pianistas, que nascem com o piano dentro do corpo, os "pianeiros" têm o piano 
do lado de fora. Esforçam-se por pôr o piano do lado de dentro, mas é inútil. As notas se aprendem, 
mas isso não é o bastante. Os dedos esbarram, erram, tropeçam, e aquilo que deveria ser uma 
experiência de prazer se transforma numa experiência de sofrimento não só para quem ouve mas 
também para quem toca. 
Um pianista, quando toca, não pensa nas notas. A partitura já está dentro dele. Ele se encontra num 
estado de "possessão". Nem pensa na técnica. A técnica ficou para trás, é um problema resolvido. 
Ele simplesmente "surfa" sobre as teclas seguindo o movimento das ondas. Pois é precisamente 
assim que se aprende o gosto pela leitura: ouvindo-se o artista —o que lê— interpretar o texto. 
Não estou usando a palavra "interpretar" no sentido comum de dizer o que o autor queria dizer, mas 
não conseguiu, coisa que se tenta fazer nas aulas de literatura (o que é que o autor queria dizer? Ele 
queria dizer o que disse. Se quisesse dizer uma outra coisa, ele teria escrito essa outra coisa). Estou 
usando "interpretar" no sentido artístico, teatral. O "intérprete" é o possuído. É ele que faz viver — 
seja a partitura musical silenciosa, seja o texto teatral ou poético, silencioso na imobilidade da 
escrita. 
Disse William Shakespeare no segundo ato de Hamlet: "Não é incrível que um ator, por uma simples 
ficção, um sonho apaixonado, amolde tanto a sua alma à imaginação que todo se lhe transfigura o 
semblante, por completo o rosto lhe empalideça, lágrimas vertam dos seus olhos, suas palavras 
tremam, e inteiro o seu organismo se acomode a essa mesma ficção?". Tenho a impressão de que, 
se os jovens não gostam de ler, é porque não tiveram a experiência de ouvir a leitura feita por um 
possuído. 
Uma lembrança feliz que tenho do meu irmão Murilo, já encantado, era que ele lia para mim, 
menino, livros de aventura: "Náufragos de Bornéo", com um enorme gorila na capa, "Prisioneiros dos 
Pampas", com dois homens lutando à faca na capa. Isso aconteceu há 63 anos, e não esqueci. 
Ainda posso ouvir a sua voz possuída pela emoção. É a experiência de ouvir que nos faz querer 
dominar a técnica da leitura para poder penetrar na emoção do texto.
Há de se dominar a técnica da leitura da mesma forma que se domina a técnica do piano. Acontece 
que o domínio da técnica é cansativo e freqüentemente aborrecido. 
Antigamente, o aprendiz de piano tinha de gastar horas nos monótonos exercícios de mecanismo do 
Hannon. Mas mesmo os grandes pianistas que já dominaram a essência da técnica têm de gastar 
tempo e atenção debulhando as passagens complicadas que não podem ser pensadas ao ser 
tocadas. Todo pianista tem de dominar os estudos de Chopin, de dificuldades técnicas 
transcendentais, maravilhosos. 
Mas só têm paciência para suportar o aborrecimento da técnica aqueles que foram fascinados pela 
beleza da música. Estuda-se a técnica por amor à interpretação, que é o evento orgiástico de 
possessão. 
Por isso eu tenho sugerido a escolas e prefeituras que promovam "concertos de leitura" para seduzir 
os ouvintes à beleza da leitura. Não custam nada. Uma única coisa é necessária: o artista, o 
intérprete... 
Um concerto de leitura poderia se organizar assim: primeira parte, poemas da Adélia Prado (é 
impossível não gostar dela...); segunda parte, "O Afogado Mais Lindo do Mundo", conto de Gabriel 
García Márquez; terceira parte, haicais de Bashô. Acho que todo mundo gostaria e sairia decidido a 
dominar a arte da leitura. 
Rubem Alves, 70, é educador e psicanalista. É autor de "Quando Eu Era Menino" 
(Papirus), "Lições de Feitiçaria" (Loyola) e "Ao Professor, com o Meu Carinho" 
(Verus).Site: www.rubemalves.com.br

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  • 1. RUBEM ALVES A COMPLICADA ARTE DE VER Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto." Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, Marcelo Zocchio você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver". Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo. Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram". Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
  • 2. A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo. Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas". Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"... Rubem Alves, 71, educador, escritor. Livros novos para crianças e adultos-crianças: "Os Três Reis" (Loyola) e "Caindo na Real: Cinderela e Chapeuzinho Vermelho para o Tempo Atual" (Papirus).
  • 3. SOBRE A MORTE E O MORRER Rubem Alves O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora... Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade. Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...” Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?". Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética. Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final. Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais? Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia. Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me". Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de
  • 4. 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento. Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.(Rubem Alves, crônica publicada no jornal Folha de São Paulo, em 12/10/2003)
  • 5. RUBEM ALVES A ARTE DE SABER LER Ela me olhou e disse: "Encontrei um lindo poema de Fernando Pessoa". Fiquei contente, porque gosto muito de Fernando Pessoa. Aí ela disse o primeiro verso. Fiquei mais contente ainda, porque era um poema que eu conhecia. Ato contínuo, ela abriu o livro e começou a ler. Epa! Senti-me mal. As palavras estavam certas. Mas ela tropeçava, parava onde não devia, não tinha ritmo nem música. Não, aquilo não era Fernando Pessoa, embora as palavras fossem suas. Senti o mesmo que já sentira em audições de alunos principiantes que, via de regra, são um sofrimento para os que ouvem, o maior desejo sendo que a música chegue ao fim e que a aflição termine. Percebi, então, que a arte de ler é exatamente igual à arte de tocar piano ou qualquer outro instrumento. Como é que se aprende a gostar de piano? O gostar começa pelo ouvir. É preciso ouvir o piano bem tocado. Há dois tipos de pianistas. Alguns, raros, como Nelson Freire, já nascem com o piano dentro deles. Eles e o piano são uma coisa só. O piano é uma extensão dos seus corpos. Outros, aos quais dou o nome de "pianeiros", são como eu, que me esforcei sem sucesso para ser pianista (consolo-me pensando que o mesmo aconteceu com Friedrich Nietzsche. Atreveu-se até mesmo a enviar algumas de suas composições ao famoso pianista Hans von Büllow, que as devolveu com o conselho de que ele deveria se dedicar à filosofia). Diferentemente dos pianistas, que nascem com o piano dentro do corpo, os "pianeiros" têm o piano do lado de fora. Esforçam-se por pôr o piano do lado de dentro, mas é inútil. As notas se aprendem, mas isso não é o bastante. Os dedos esbarram, erram, tropeçam, e aquilo que deveria ser uma experiência de prazer se transforma numa experiência de sofrimento não só para quem ouve mas também para quem toca. Um pianista, quando toca, não pensa nas notas. A partitura já está dentro dele. Ele se encontra num estado de "possessão". Nem pensa na técnica. A técnica ficou para trás, é um problema resolvido. Ele simplesmente "surfa" sobre as teclas seguindo o movimento das ondas. Pois é precisamente assim que se aprende o gosto pela leitura: ouvindo-se o artista —o que lê— interpretar o texto. Não estou usando a palavra "interpretar" no sentido comum de dizer o que o autor queria dizer, mas não conseguiu, coisa que se tenta fazer nas aulas de literatura (o que é que o autor queria dizer? Ele queria dizer o que disse. Se quisesse dizer uma outra coisa, ele teria escrito essa outra coisa). Estou usando "interpretar" no sentido artístico, teatral. O "intérprete" é o possuído. É ele que faz viver — seja a partitura musical silenciosa, seja o texto teatral ou poético, silencioso na imobilidade da escrita. Disse William Shakespeare no segundo ato de Hamlet: "Não é incrível que um ator, por uma simples ficção, um sonho apaixonado, amolde tanto a sua alma à imaginação que todo se lhe transfigura o semblante, por completo o rosto lhe empalideça, lágrimas vertam dos seus olhos, suas palavras tremam, e inteiro o seu organismo se acomode a essa mesma ficção?". Tenho a impressão de que, se os jovens não gostam de ler, é porque não tiveram a experiência de ouvir a leitura feita por um possuído. Uma lembrança feliz que tenho do meu irmão Murilo, já encantado, era que ele lia para mim, menino, livros de aventura: "Náufragos de Bornéo", com um enorme gorila na capa, "Prisioneiros dos Pampas", com dois homens lutando à faca na capa. Isso aconteceu há 63 anos, e não esqueci. Ainda posso ouvir a sua voz possuída pela emoção. É a experiência de ouvir que nos faz querer dominar a técnica da leitura para poder penetrar na emoção do texto.
  • 6. Há de se dominar a técnica da leitura da mesma forma que se domina a técnica do piano. Acontece que o domínio da técnica é cansativo e freqüentemente aborrecido. Antigamente, o aprendiz de piano tinha de gastar horas nos monótonos exercícios de mecanismo do Hannon. Mas mesmo os grandes pianistas que já dominaram a essência da técnica têm de gastar tempo e atenção debulhando as passagens complicadas que não podem ser pensadas ao ser tocadas. Todo pianista tem de dominar os estudos de Chopin, de dificuldades técnicas transcendentais, maravilhosos. Mas só têm paciência para suportar o aborrecimento da técnica aqueles que foram fascinados pela beleza da música. Estuda-se a técnica por amor à interpretação, que é o evento orgiástico de possessão. Por isso eu tenho sugerido a escolas e prefeituras que promovam "concertos de leitura" para seduzir os ouvintes à beleza da leitura. Não custam nada. Uma única coisa é necessária: o artista, o intérprete... Um concerto de leitura poderia se organizar assim: primeira parte, poemas da Adélia Prado (é impossível não gostar dela...); segunda parte, "O Afogado Mais Lindo do Mundo", conto de Gabriel García Márquez; terceira parte, haicais de Bashô. Acho que todo mundo gostaria e sairia decidido a dominar a arte da leitura. Rubem Alves, 70, é educador e psicanalista. É autor de "Quando Eu Era Menino" (Papirus), "Lições de Feitiçaria" (Loyola) e "Ao Professor, com o Meu Carinho" (Verus).Site: www.rubemalves.com.br