Noções de cidadania no Telecurso 2000:
        Plasticidade social ou construção de identidade?
                               Maria das Graças Pinto Coelho∗
                                           Abril de 2005


Índice                                               público a partir de suas próprias realidades
                                                     paradigmáticas. Os meios adiantam as re-
1   Introdução                                  1    formas do Estado, inclusive no campo da
2   O que é o Telecurso?                        3    educação, e pressionam para que os agen-
3   É comparando que se entende                 4    tes públicos funcionem como se estivessem
4   Motivando a autodeterminação                5    no mercado. O espaço público é modelado
5   A plasticidade flexível                      7    no ethos privado. Estabelece-se um sentido,
6   Contrapontos                               10    que no estudo de caso é revelado através de
7   Referências                                12    um engenhoso projeto de educação à distân-
                                                     cia - o Telecurso 2000 - ressaltado na plasti-
1       Introdução                                   cidade social brasileira. Nesse caso, a edu-
                                                     cação entra em um script paralelo, modelada
O estudo em evidência reflete uma iniciativa          docilmente pela performance midiática, sem
de educação a distância que em sua cons-             a oportunidade de ousar ressignificar-se na
tituição apresenta-se como um projeto de             abrangência do processo comunicacional.
formação social, portanto público, mas que              São experiências que ultrapassam alguns
na concepção é lançado como apêndice de              paradigmas que serviam à organização dos
desenvolvimento das políticas públicas no            protocolos de interação entre a educação e
país, interferindo nos protocolos educacio-          a comunicação - antes cindidas em duas ru-
nais e comunicacionais. Em tal contexto,             bricas com etiquetas específicas e diferencia-
os meios e processos comunicacionais uti-            das. é reconhecido que as duas áreas per-
lizam sofisticadíssimas técnicas de gerencia-         manecem divididas sim, no campo episte-
mento de opinião, promovendo suas natu-              mológico, mas juntas como interesse de su-
rezas performáticas e interferindo no espaço         porte às políticas públicas e privadas. Sofisti-
    ∗
    Professora Adjunta do Departamento de Co-        cadas técnicas são tecidas na direção da ma-
municação Social da Universidade Federal do Rio      nipulação simbólica.
Grande do Norte. Membro do Programa de Pós-             A junção da educação com a mídia serve,
graduação em Educação - PPGE-UFRN. Cordena-          ainda, para formar consumidores ungidos na
dora da Base de Pesquisa Gemini - Grupo de Estudos
de Mídia - UFRN-CNPq - gpcoelho@ufrnet.br            cultura de consumo de massa. As narrati-
2                                                             Maria das Graças Pinto Coelho


vas do “senso comum”, usadas por liberais e      Deve se levar em consideração o fato de que
conservadores, popularizadas nos textos cul-     esse é um projeto de formação social, port-
turais, ajudam a mobilizar o consentimento       anto circunscrito ao espaço público. E é este
às posições políticas hegemônicas, no caso       o movimento a ser considerado na análise
atual, toma corpo a retórica neoliberal con-     de projetos que utilizam os meios na edu-
tida no hipertexto midiático.                    cação, em circuito aberto de televisão, a par-
   De todo modo, a inserção do projeto Te-       tir de uma concepção híbrida da expressão
lecurso 2000 no espaço público brasileiro é      público-privado.
um fato, embora desperte controvérsia sobre         Como as estratégias culturais são orga-
a sua amplitude social. As decisões que in-      nizadas em torno de uma pedagogia pública?
fluenciaram o processo político de sua con-       Esta era a pergunta inicial para chegarmos
cepção nunca foram debatidas junto aos seg-      ao Telecurso. A partir daí o estudo repassou
mentos sociais que estão envolvidos direta       as diversas maneiras como a cultura se rela-
ou indiretamente com a educação de jovens        ciona com o poder e como e onde as funções
e adultos. O projeto queimou algumas etapas      culturais são simbólicas ou institucionais na
comunicacionais requeridas à sua implemen-       educação. Foi levada em consideração a
tação. Não levou em consideração a intera-       prática imediata da política cultural empre-
ção entre a formação da vontade institucio-      gada na estratégia proposta. A análise tam-
nalizada e os espaços públicos culturalmente     bém procurou responder quais as noções de
mobilizados. No que pese a chancela go-          diferença, de responsabilidade civil, comu-
vernamental, através dos Ministérios do Tra-     nitária e de pertencimento, que estão sendo
balho e Educação, o poder de decisão coube       produzidas em um determinado lugar, com
às organizações empresariais. Esta conduta       específicas formações discursivas e práticas,
por si só já representa um claro antagonismo     o que, segundo HALL (1996: p.4), são ele-
entre o seu locus de concepção/produção e o      mentos constitutivos de uma pedagogia púb-
espaço público onde ele é veiculado.A polê-      lica crítica.
mica se acirra quando se resgata a discussão        A política cultural de uma nação, ainda se-
sobre formação fundamental. Sua inserção         gundo HALL (1996), é, em parte, as estraté-
não é aceita por se tratar de um projeto de      gias que cada povo escolhe para regular e
educação à distância, supletiva, que por suas    distribuir o saber. Mas a capacidade de
próprias características não suporta seguir as   pensar politicamente é, também, mediada
trajetórias escolar fundamentais, iniciais, de   pelas formas como cada cultura é governada.
cultura geral e humanística.                     São os projetos culturais, resultantes dos sis-
   Partiu do segmento empresarial a idéia de     temas de cultura nacionais, que modelam as
conceber o Telecurso e, mais ainda, a arre-      práticas humanas, a conduta e a ação social
gimentação dos recursos que o viabilizaram.      do cidadão. Portanto, as formas como as pes-
Também coube ao empresariado nacional a          soas interagem com as instituições e em so-
condução do processo político. No entanto,       ciedade, dependem da maneira como os seus
a ausência de outros segmentos sociais no        sistemas culturais estão conduzindo questões
comando coloca em xeque a iniciativa de-         ligadas à identidade política e seus significa-
vido a sua abrangência político-pedagógica.      dos.

                                                                               www.bocc.ubi.pt
Plasticidade social ou construção de identidade?                                               3


   Ao mesmo tempo também é através do              que são distribuídos na forma de conheci-
reconhecimento de seus locus de produção,          mento social, sejam eles, culturais, técnicos,
realização e circulação, o campo midiático,        cognitivos, ou sócio-econômicos. Portanto,
que o Telecurso 2000 se credencia como             desde que se entenda o Telecurso 2000 como
um projeto cultural relevante para a tran-         sendo um projeto de formação social, gerado
sição econômica nacional. Através da natu-         em um sistema cultural próprio, seu pro-
reza de seu campo ele se insere no aspecto         duto final, a programação exibida, está sendo
tecnológico que sustenta a expansão das re-        monitorada através de uma agenda cultural
des de informação no processo de globali-          específica, onde se articulam os elementos
zação. Coincidentemente, reside nesse lócus        que compõem a cultura midiática, com as
o mundo em transição onde são negociadas           práticas sociais que estão sendo propostas.
as novas formas simbólicas que marcam os           São perseguidos os sentidos do conceito de
produtos culturais na atualidade. O projeto        cidadania nas três esferas do campo discur-
se apresenta em uma situação ímpar. É ao           sividades, narrativas e técnicas.
mesmo tempo objeto e sujeito da cultura de
informação.
                                                   2   O que é o Telecurso?
   Nesse caso, a cultura fornece inúme-
ras razões constitutivas para reconhecê-           O Telecurso 2000 foi originalmente conce-
lo como um projeto político-pedagógico-            bido para promover a escolaridade de dez
público. Mas para tanto, é necessário que          milhões de trabalhadores que oscilam entre o
se reconheçam suas estratégias de represen-        analfabetismo, a alfabetização instrumental
tação e interrupção da realidade, tal qual são     ou têm menos de oito anos de escolaridade.
apresentadas para o seu público-alvo na pro-       Implantado em 1995, hoje sua expansão não
gramação analisada. São atributos dessa re-        se restringe à educação supletiva do traba-
presentação, por exemplo, a construção da          lhador. Também está sendo usado como al-
identidade nacional veiculada pelo projeto         ternativa à educação formal em alguns esta-
de formação.                                       dos brasileiros. É resultado de uma parceria
   No entanto e, obviamente, a cultura é li-       entre o governo e o empresariado nacional.
vre para flutuar. Perpassa por vários signi-        Tem a chancela e o financiamento de organi-
ficados e é um campo social onde o po-              zações públicas e privadas.
der muda constantemente; onde identida-               Confrontado com os fenômenos observa-
des estão em permanente trânsito e onde a          dos na sociedade de informação, o Telecurso
agenda se situa na última tecnologia, no úl-       detém um discurso midiático natural, produ-
timo conhecimento. O projeto se impõe, so-         zido no lócus de sua própria concepção e vai
bretudo, como prática performativa à moder-        além. O Telecurso também possibilita a ar-
nidade dos meios. Pedagogia pública, ainda         ticulação necessária para a reflexão das três
segundo HALL (1997), envolve, sobrema-             forças que compõem as mudanças atuais. As
neira, práticas morais e políticas, mais do        duas primeiras - revolução tecnológica e a
que um simples procedimento técnico.               reestruturação do capitalismo mundial, re-
   Por outro lado, os sistemas culturais em        volucionam a organização produtiva em es-
suas várias interconexões emitem valores           cala global com implicações para o mundo

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4                                                                 Maria das Graças Pinto Coelho


do trabalho e para as nossas existências ao          atualidade. Por outro lado, reconheceu nos
deslocar para outras dimensões experiências          estudos culturais a possibilidade de matizar
de tempo e espaço. Uma terceira força, esta          o estilo posto na programação
contraditória, impulsiona a busca por identi-
dades. A reconstrução das identidades políti-
                                                     3   É comparando que se entende
cas, culturais, sociais, territoriais, religiosas,
éticas, nacionais, entre outras, está na ordem       A análise da programação observa como são
do dia e, curiosamente, coexiste com a ex-           negociados os significados postos no eixo
pansão do processo de globalização.                  “atitudes de cidadania” -, escolhido na pro-
   A reestruturação do capitalismo mun-              posta técnica-pedagógica do projeto. A ver-
dial impulsiona a reacomodação do Estado-            são considerada se apresenta no Caderno de
nação, bem representada pela mídia para as-          Capacitação 1 - Conhecendo o Telecurso
segurar a hegemonia do projeto político da           2000 -, (1999).
doutrina neoliberal. O fundamentalismo de               O Caderno de Capacitação 1, escolhido
mercado, contido na doutrina, transformou a          para abalizar a lógica de produção do Tele-
maneira como cada povo lida com a identi-            curso 2000 é mais recente e reproduz, em
dade e com a conexão entre resistência co-           parte, o documento técnico-pedagógico que
munitária e os novos movimentos sociais.             serviu de base de no lançamento do projeto
Esta terceira força é aferida na medida em           em circuito nacional em 1996. A mudança
que a categoria cidadania, como construto            fundamental diz respeito ao deslocamento
identitário, está sendo enfocada na análise do       das atitudes de cidadania dos princípios para
Projeto estudado.                                    o eixo temático principal. Nessa nova ver-
   Para tanto, foram extrapoladas as barrei-         são, as práticas cidadãs estão sendo apon-
ras do conceito mais conhecido, as três di-          tadas como um tema transversal a todas as
mensões clássicas de MARSHALL (1967):                disciplinas veiculadas na programação. Exa-
direitos e deveres civis, políticos e sociais,       tamente como acontecia com o tema tra-
onde se agrega uma nova dimensão, a cultu-           balho na versão que regia os fundamentos
ral. A regra foi reconsiderar o cidadão atual        do “Telecurso 2000 -Educação para o Tra-
a partir da expansão das redes de comuni-            balho”, em 1994. Na introdução, o docu-
cação e informação. Registrando sua lícita           mento técnico-pedagógico se apresenta as-
presença na rede imaginária do sistema de            sim: “participar da construção de uma so-
expansão global e observando as novas re-            ciedade mais justa e solidária exige oferecer
dimensões territoriais que o abrigam física, e       meios para que todos exerçam plenamente a
simbolicamente na sociedade atual.                   sua cidadania” (FRM: 1999, p.2).
   A proposta educativa do projeto Telecurso            A construção de noções de cidadania, que
foi revista estabelecendo relações entre po-         surge com todo vigor nos documentos de
der, ideologia e resistência na esfera social e      1999, relaciona-se diretamente com o pro-
em seu lócus de produção imanente. A pes-            jeto normatizador de educação nacional im-
quisa fez a conexão entre os sistemas cul-           plantado pelo Governo federal: os Parâme-
turais e os estudos de mídia e observou a            tros Curriculares Nacionais - PCNs; conce-
relevância que o campo midiático ocupa na            bido para estandardizar o sistema brasileiro

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de educação. Os PCNs convergem para uma            até sem lhes modificar a natureza, mas tam-
norma instrumental comum, apesar de re-            bém podem convergir.
conhecerem as diferenças regionais - cultu-           Em termos quantitativos, as fitas foram vi-
ral e econômico-social do país. É um projeto       stas na seqüência apresentada pelo projeto.
governamental audacioso porque se situa na         A única exceção desse procedimento refere-
discussão do processo de globalização em al-       se às aulas de matemática porque as fitas in-
guns aspectos - técnicos, econômicos e cul-        iciais apresentaram problemas no ambiente
turais - e tem como objetivo manter as ca-         onde foram requisitadas. Elas foram vistas a
racterísticas nacionais. Desperta a discussão      partir da aula 21 até a 60, de um total de 80
sobre identidades e pertencimento na socie-        aulas. História Geral e do Brasil, foi anali-
dade brasileira.                                   sada através das aulas 1 a 33, de um total de
   Entre os objetivos do Ensino Fundamen-          40 aulas; Ciências de 1 a 40, de um total de
tal, os Parâmetros Curriculares Nacionais          70 aulas; Geografia, de 1 a 37, de um total de
indicam que os alunos sejam capazes de:            50 aulas. A disciplina de Português foi vista
“compreender cidadania como participação           nos programas/aula de 1 a 36 e mais a fita
social e política, assim como exercício de di-     N0 6, que apresenta as aulas de 41 a 47 em
reitos e deveres políticos civis e sociais, ado-   um universo de 90 aulas. O estudo de Língua
tando, no dia-a-dia, atitudes de solidarie-        Estrangeira - Inglês - não foi considerado. A
dade, cooperação e repúdio às injustiças, re-      análise de expressão alcançou mais de 50 por
speitando o outro e exigindo para si o mesmo       cento dos programas apresentados.
respeito...” (MEC/SEF, 1998: p. 7). A pro-
posta dos Parâmetros é bem direta no que se
                                                   4   Motivando a autodeterminação
refere ao direito dos alunos brasileiros sobre
o acesso aos conhecimentos indispensáveis          Em princípio, verificamos a pertinência ou
para a construção de sua cidadania.                não da tese central proposta na normatização
   Cidadania é um fenômeno espacial e              dos PCN, onde se situam os parâmetros ins-
temporal, historicamente definido, mesmo            trumentais de desenvolvimento da cidadania
quando se apresenta enquanto entidade legal        nacional. Foi refletida uma lógica exeqüí-
e territorial, sobre a qual são associados di-     vel e predominante nas instituições nacionais
reitos e deveres. Tanto os Parâmetros Curri-       que permite aceitar a noção de integração ter-
culares Nacionais (PCNs), que normatizam a         ritorial contida na construção de identidades.
educação brasileira , como o Telecurso 2000,       Tal lógica admite que a formação da cidada-
elegeram a construção de noções de cida-           nia passa em primeira mão pelo reconheci-
dania como eixo principal na formação es-          mento das identidades nacionais, representa-
colar. Por essa razão, este trabalho escol-        das pelos grupos sociais nelas contidos.
heu confrontar o sentido de cidadania con-            Para tanto, repassamos a crise do conceito
tido em ambos os projetos. A comparação            de Estado-nação, ressaltada no processo de
é legítima. Os valores que estão sendo atri-       globalização de bens e serviços. A crise
buídos ao conceito de cidadania em ambos           joga contra uma unicidade entre identidades,
os projetos, o de educação nacional, e o Te-       nações e Estados. Por outro lado, o que se
lecurso 2000 podem divergir, algumas vezes         apreende do deslocamento do conceito do

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6                                                             Maria das Graças Pinto Coelho


Estado-nação é que na atualidade o Estado        quê e para quê isso acontece. Sobre o quem
luta incondicionalmente para reconstruir sua     e para quê, ele mesmo dá a pista: estaria con-
legitimação e instrumentalidade, juntando as     tido na resposta o grande conteúdo simbólico
sociedades civis locais para se projetar no      dessa identidade que está sendo construída,
processo de expansão das redes transnacio-       bem como o de seu significado para aqueles
nais.                                            que se identificam ou dela se excluem.
   Essa é uma estratégia articulada por parte       O autor identifica três formas de origens
dos governos mundiais para fazer fase aos        de construção de identidade:
imperativos globais comuns. Para tanto, são
usados os sistemas educacionais no sentido           • “Identidade legitimadora: introdu-
de promover coesão social e transmitir a               zida pelas instituições dominantes
idéia de identidade nacional. No caso do               da sociedade no intuito de expandir
Brasil, o projeto normativo é mais auda-               e racionalizar sua dominação em re-
cioso porque abre espaço para uma coalizão             lação aos atores sociais, tema este
de interesses sociais fundamentados em uma             que está no cerne da teoria de au-
identidade (re)construída.                             toridade e dominação de Sennett,6
   Para se entender o procedimento de recon-           e se aplica a diversas teorias do
strução é interessante se chegar à visão de            nacionalismo7 .
CASTELLS (1999: p. 60) sobre o assunto.              • Identidade de resistência: criada
Ele entende por identidade a fonte de signi-           por atores que se encontram em
ficado e experiência de um povo. Citando                posições/condições desvalorizadas
CALHOUN, CASTELLS (2001) apresenta o                   e/ou estigmatizadas pela lógica
conceito:                                              da dominação, construindo, assim,
                                                       trincheiras de resistência e sobrevi-
    Não temos conhecimento de um povo                  vência com base em princípios di-
    que não tenha nomes, idiomas ou cultu-             ferentes dos que permeiam as in-
    ras em que alguma forma de distinção               stituições da sociedade, ou mesmo
    entre o eu e o outro, nós e eles, não seja         opostos a estes últimos, conforme
    estabelecida... O autoconhecimento - in-           propõe Calhoun ao explicar o sur-
    variavelmente uma construção, não im-              gimento da política de identidade8 .
    porta o quanto possa parecer uma desco-
    berta - nunca está totalmente dissociado         • Identidade de projeto: quando
    da necessidade de ser conhecido, de mo-            os atores sociais, utilizando-se de
    dos específicos, pelos outros” - CAL-               qualquer tipo de material cultural ao
    HOUN apud CASTELLS (2001: p. 22).                  seu alcance, constroem uma nova
                                                       identidade capaz de redefinir sua
   Não é difícil concordar com o fato de que a         posição na sociedade e, ao fazê-
identidade cultural de um povo é construída.           lo, de buscar a transformação de
Ainda segundo CASTELLS (2001: p. 23),                  toda a estrutura social. Esse é o
a principal questão que envolve a discussão,           caso, por exemplo, do feminismo
diz respeito a como, por quem, a partir do             que abandona as trincheiras de re-


                                                                               www.bocc.ubi.pt
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       sistência da identidade e dos direi-        dores convergem na construção do mito. Um
       tos da mulher para fazer frente ao          mito ungido em suas raízes históricas, em
       patriarcalismo, à família patriarcal        uma combinação forjada entre a população e
       e, assim, a toda a estrutura de pro-        as instituições. SILVA (1996), ressalta a “fle-
       dução, reprodução, sexualidade e            xibilidade” como sendo a identidade nacio-
       personalidade sobre a qual as so-           nal mais significativa. Essa idéia surge a par-
       ciedades historicamente se estabe-          tir de um comentário de FREYRE (1961) so-
       leceram (CASTELLS, 2001, p. 24).            bre a dinâmica que tem constituído o Brasil
                                                   desde 1500:
   Isto posto, resta identificar as razões con-
sideradas na (re)construção do significado           Considerada de modo geral, a formação
de identidade nacional do projeto normativo         brasileira tem sido, na verdade, como já
do Ministério de Educação brasileiro. Sem           salientamos às primeiras páginas deste
dúvidas, os PCN não chegaram a normati-             ensaio, um processo de equilíbrio de ant-
zação proposta do nada. Este foi um pro-            agonismos. Antagonismos de economia
cesso intencional de alteração do indivíduo,        e de cultura. A cultura européia e a in-
visando a implantação de um projeto de for-         dígena. A européia e a africana. A afri-
mação social, audacioso, tendo em vista que         cana e a indígena. A economia agrária e
sua finalidade principal foi a de transformar        a pastoril. A agrária e a mineira. O cató-
a coletividade onde ele atua. Obviamente,           lico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro.
também, que esta é uma estratégia articu-           O bandeirante e o senhor de engenho. O
lada porque negocia novos códigos cultu-            paulista e o emboaba. O pernambucano e
rais a partir da matéria prima fornecida pela       o mascate. O grande proprietário e o pa-
história. Então, historicamente, como o Bra-        ria. O bacharel e o analfabeto. Mas pre-
sil tece seu jogo de identidades refletido em        dominando sobre todos os antagonismos,
seu imaginário social?                              o mais geral e o mais profundo: o senhor
                                                    e o escravo (FREYRE 1961: p. 73).

5   A plasticidade flexível                            Referindo-se a fixação do imaginário do
                                                   ponto de vista institucional, SILVA (1996,
O estilo de vida do brasileiro, que tam-           p.33), evoca FAORO (1975), para lembrar
bém é uma construção histórica, para SILVA         que no processo de construção do mito os
(1996) se caracteriza principalmente pela sua      governantes tinham a preocupação de “er-
plasticidade, que contrasta com os saberes         guer um império com gente vil”. O ant-
divulgados pela escola, igreja, e entidades        agonismo “mais profundo”, observado por
destinadas à regulamentação do social. No          FREYRE (1961), ou seja, a relação do se-
entanto, o processo de formação cultural do        nhor com o escravo, é a mais arraigada das
povo brasileiro é motivo de muita especu-          tradições nacionais. é também a que mais
lação por parte de pensadores como Gilberto        se credencia na reflexão do imaginário social
Freyre - Casa Grande & Senzala (1961) e            brasileiro.
Sérgio Buarque de Holanda - Visão do Pa-              Um país legitima sua identidade nacional
raíso (1959). De modo que ambos os pensa-          quando de alguma forma suas instituições,

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8                                                             Maria das Graças Pinto Coelho


governos, tradições, refletem a história de       que a colocam em um lugar privilegiado no
sua população. E por várias razões históri-      ranking das desigualdades sócio-econômicas
cas, o passado escravocrata nacional não foi     mundiais.
expurgado. Vez ou outra, a cada novo passo          Conseqüentemente, o esforço proposto
rumo à autodeterminação, nossa escravocra-       pelo Estado, através das normas contidas nos
cia sai do armário e assusta a todos se pro-     PCN, deve levar em consideração a matéria
jetando em uma obscura sombra de passado.        prima histórica da construção. Em primeiro
Porque mesmo que a população, governo e          lugar, devido às peculiaridades expostas, a
instituições se unam na simulação de uma         nação, em última análise, não se vê represen-
nova identidade, as camadas mais pobres da       tada na noção de integração. Não existe uma
sociedade tratarão de desarticular o acordo,     identidade nacional que abra espaço para
lembrando a todos sua posição diferenciada.      uma coalizão de interesses sociais funda-
Sem uma redenção de fato, que incorpore          mentados em uma identidade (re)construída.
séculos de discriminação sócio-econômica e       Uma força social/política definida por uma
institucional, esse segmento populacional ja-    determinada identidade (ética, territorial, re-
mais vai se sentir representado nas decisões     ligiosa, tribal ou étnica) que possa ser trans-
que acontecem no centro do poder nacional.       formada nesta noção.
   Para o bem ou para o mal a história brasi-       Voltando para a idéia do construto, CAS-
leira carrega consigo uma imensa carga far-      TELLS (2001), o projeto nacional parece
sesca. Uma dissimulação das relações reais.      estar lidando com as três formas de origem
Algumas vezes, a farsa até se transverte em      propostas, no entanto, a identidade de pro-
um jogo envolvente para regojizo de todas        jeto, que permite a construção do sujeito,
as raças, cores e crenças. As identidades        pode estar sendo favorecida nos Parâme-
nacionais, enfocadas pelos historiadores, fre-   tros Curriculares Nacionais. Citando TOU-
qüentemente transbordam em contradições.         RAINE, CASTELLS (2001), dá uma idéia
HOLANDA (1995) exalta os valores do ho-          do que significa essa produção:
mem cordial, ungido nas relações coloniais,
                                                  Chamo de sujeito o desejo de ser um in-
como sendo o traço definitivo do caráter bra-
                                                  divíduo, de criar uma história pessoal,
sileiro. A polidez - traduzida recentemente
                                                  de atribuir significado a todo o conjunto
como “flexibilidade” - seria um mecanismo
                                                  de experiências da vida individual... A
de defesa ante a sociedade. A lhaneza no
                                                  transformação de indivíduos em sujeitos
trato, a generosidade e a hospitalidade, no
                                                  resulta da combinação necessária de duas
entender de HOLANDA (idem), é o convívio
                                                  afirmações: a dos indivíduos contra as
baseado na ética de fundo emotivo. Na ética
                                                  comunidades, e a dos indivíduos con-
que se confunde com a etiqueta. É a tradução
                                                  tra o mercado (CASTELLS, apud TOU-
do desejo do escravo de estabelecer intimi-
                                                  RAINE 2001, p. 26).
dades com o seu senhor. Seria, portanto,
uma convivência humana dissimulada pelo             Repassando essa seqüência, chega-se a um
sujeito para esconder as diferenças sociais,     resultado evidente: existe uma dinâmica nas
étnicas, ou mesmo econômicas que rondam a        identidades que as conduz a um trânsito per-
sociedade brasileira. As mesmas diferenças       manente. Por outro lado, também se torna

                                                                               www.bocc.ubi.pt
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claro que a constituição do senso de cidada-       de comunicação. Com a sua tradição oral
nia, proposto em ambos os projetos revistos,       inequívoca. O Telecurso 2000 tem um papel
somente acontece quando os alunos são ca-          fundamental na confecção do amálgama que
pazes de pensar os seus papéis enquanto su-        parece ser a representação que a sociedade
jeitos da história.                                faz dela mesma e projeta através dos meios.
   Para garantir o construto identitário do        Tem o mérito de trazer para o campo da edu-
aluno, ou seja, o exercício pleno de suas          cação os códigos culturais que os alunos têm
funções políticas, produtivas e culturais, am-     acesso em seu cotidiano.
bos os projetos precisam estar atentos a toda         Dito de forma simples, o Telecurso repre-
uma complexa compleição que articula a             senta exatamente o produto final de uma so-
noção de cidadania. Seria necessário desco-        ciedade que atravessa aceleradas mudanças
brir um princípio unificador dentro da nação        tecnológicas sobrevivendo aos seus próprios
que seja válido aos interesses e vontades co-      antagonismos. É a cara do Brasil rural, po-
muns. No entanto, a sombra obscura da for-         voado de antenas parabólicas, cuja popula-
mação cultural brasileira persiste e é preciso     ção permanece sentada em uma praça qual-
aprender a lidar com ela.                          quer, sem escolas, assistindo a última tele-
   Pensando na convivência pacífica se chega        novela. Melodramas reais, cujos enredos en-
à intersecção dos dois projetos que mais am-       fatizam as nossas contradições econômico-
bicionam a formação social brasileira. A co-       sociais, as passividades do presente, a guerra
mum união em torno de um mesmo ponto.              permanente e sem solução entre as elites e o
A aceitação de que a sociedade atual se-           povo.
ria o palco inequívoco de uma sociedade               É também no Telecurso que a sociedade
civil mediada pelo consumo e pela infor-           brasileira descobre que nenhum programa de
mação. Dessa forma, a flexibilidade plá-            televisão é poderoso o suficiente para en-
stica da formação brasileira, defendida por        terrar a realidade desigual que a sustenta.
SILVA (1996), estaria sendo reconhecida e          A televisão serve, no caso, para lembrar ao
exaltada. Nem a escola, nem as instituições,       telespectador que existe uma sociedade de
podem prescindir de incorporar ao processo         consumo de massas, estratificada, onde dois
de formação cultural do povo brasileiro, o         mundos convivem e se alternam contradito-
seu imaginário. O projeto normatizador ne-         riamente: o pensado e o vivido. Já a nor-
cessita integrar os fios que tecem a ficção e        matização dos PCN existem, e é bom que
a realidade, de maneira cuidadosa, para con-       existam, para lembrar a todos que é possí-
seguir articular uma amálgama definitiva li-        vel à construção de um mundo mais igual.
gando educação e imaginário. Descartando,          Um mundo povoado de sujeitos sociais, con-
portanto, a preocupação de formar apenas e         victos de seu papel na construção de um
através da racionalidade sábia, a serviço da       Estado de direito democrático. Cumprem a
humanização da vida.                               sua função de tentar harmonizar, de maneira
   Mas qual imaginário é esse que parece           simples, as dimensões simbólicas da socie-
estar em permanente conflito? Talvez seja o         dade, com seus processos produtivos e ope-
imaginário que surge na relação direta que o       racionais. Nesse caso, ele existe para nor-
país mantém com a televisão, com os meios

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matizar um projeto nacional e abrangente de      das as diversidades culturais apontadas, tam-
formação educacional.                            bém lhe diz respeito no processo educacional
   No entanto, pode se afirmar que a adoção       brasileiro. Resta saber como ele se enquadra
dos Parâmetros segue na contramão do mer-        nessa missão.
cado. “O pensamento elitista da identi-
dade nacional começa, assim, a afastar-se
                                                 6   Contrapontos
do território - que inclui povo e natureza -,
voltando-se para valores transnacionais, ad-     Este trabalho teve a preocupação de atribuir
vindos do “Outro”, definido como centrali-        sentidos aos vídeos de modo que eles fos-
dade hegemônica do capital” SODRÉ (2000,         sem apreendidos como qualquer outro mate-
p.130). Ainda segundo SODRÉ (op. Ci-             rial educacional. O que significa dizer que
tada), a virada do milênio revive o século de-   eles são matizados pelos valores, convicções
zenove, quando as elites nacionais selavam       e interesses daqueles que os desenvolvem.
seu pacto perpetuo e faziam um grande es-        Não podem, portanto, ser encarados como
forço de europeização a título de resgate de     produtos neutros. Eles se apropriem tanto
sua identidade pessoal e coletiva, fora das      dos valores presentes no campo midiático,
bases da política comunitária tradicional.       como dos valores educacionais. A linha de
   A parte mais relevante dos PCN é a            argumentação sobre a natureza do material
sua originalidade. No sentido da gênese.         apresentado nesse estudo atravessou valores
Eles articulam um novo compromisso com           econômicos, históricos, estéticos, técnicos,
a história da formação social do povo bra-       organizacionais, culturais, de produção ori-
sileiro. Seu arrojo reside na proposta que       entada, e ideológicos. Enquanto todos os
resgata o construto de cidadania, a partir da    critérios citados foram claramente importan-
re-construção de uma noção de identidade         tes para a sua concepção, o caráter ideoló-
nacional. Rompe com a inércia da escola que      gico da programação analisada sustentou a
esteve por muito tempo paralisada diante da      tensão analítica..
abrangência e sofisticação dos meios de in-          O locus midiático, as Organizações
formação e comunicação. Redime o sistema         Globo, recoloca os conceitos de ideologia
nacional de educação de haver passado ao         e hegemonia no foco central da análise.
largo, por várias décadas, da discussão que      Mesmo porque, como foi dito anteriormente,
envolve cultura de consumo de massas.            eles tipificam o papel dos meios de comu-
   Os PCN trabalham no sentido de encon-         nicação na sociedade atual. É exatamente
trar um equilíbrio entre formação e cultura      nesse campo onde se situa a mistificação das
de massas. Pensam a expansão dos meios de        relações de poder nas sociedades. A hege-
comunicação e informação como fato social,       monia se define pelo modo como as clas-
código e instituição. Por outro lado, o pro-     ses dominantes mantêm suas posições atra-
jeto que se utiliza dos meios de comunicação     vés do consentimento popular, moldado na
para aumentar a escolaridade dos trabalha-       representação que os meios fazem das clas-
dores brasileiros, o Telecurso 2000, também      ses não hegemônicas. Dessa forma, o campo
teve que se enquadrar nas normas para pros-      midiático produz associações simbólicas e
seguir ocupando um espaço que, reconheci-

                                                                              www.bocc.ubi.pt
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retóricas onde as ideologias se manifestam         apresentam uma mesma estrutura narrativa e
de forma definida e concreta.                       discursiva que se perfila em um alto valor
   As ideologias, como já foi sugerido, são        estético sem maiores compromissos com o
reproduzidas sistematicamente através das          processo histórico do qual eles fazem parte.
estruturas midiáticas. Os meios são persis-           No entanto, a contenção e a invisibili-
tentes modelos de cognição, interpretação,         dade dadas às diversidades brasileiras na
representação, de seleção, ênfase e exclusão,      programação analisada, em contrapartida a
em cuja simbologia se organizam rotineira-         ampla cobertura que é dada à plasticidade so-
mente discursos verbais e/ou visuais, com-         cial, é proporcional e sintomática da grande
prometidos com a manutenção do status so-          invisibilidade, a falta de transparência, que
cial dominante.                                    persiste na estrutura social do Brasil. Do
   Significativamente, e independente das in-       ponto de vista histórico, vale lembrar que a
tenções manifestas nos documentos oficiais          única real tentativa de refletir nossas diversi-
do Telecurso 2000, a programação analisada         dades na educação, do ponto de vista institu-
não foge à regra no que diz respeito a repro-      cional, foi feita agora, pós PCNs.
dução ideológica em discussão. O discurso é           Por outro lado, quando o Telecurso 2000
construído a partir da visão do produtor. Re-      é pensado através do seu caráter formativo,
vendo as lições de História - 1 a 8 - que se       é preciso acrescentar, em primeira mão, que
organizam em torno de um discurso politica-        as formas de vida social interpostas na pro-
mente correto por não imprimir preconceitos        gramação não se sobrepõem, não podem ser
em relação às etnias e culturas, sutilmente, a     interpretadas como um princípio superior ao
supremacia ideológica se confirma. A narra-         estágio de desenvolvimento econômico que
tiva que reconstitui a história pessoal de cada    mapeia a sociedade brasileira. O Telecurso é
um dos brasileiros esconde a diversidade cul-      apenas um programa supletivo de educação
tural e sócio-econômica de sua formação. O         à distância produzido para aumentar a esco-
brasileiro que sai do Rio de Janeiro para o in-    laridade do trabalhador que não teve acesso
terior da Bahia para resgatar sua história não     à escola ou a freqüentou menos do que o tér-
tem sotaque nordestino, desconhece as diver-       mino do primeiro ciclo fundamental.
sidades regionais e se perde como persona-            No entanto, devido as suas engrenagens de
gem amorfo de um mesmo padrão de quali-            elaboração, produção e circulação, já citadas
dade “global”.                                     em situações anteriores, ele se expande en-
   Na história que conta o passado escravo-        quanto mito. Há algumas correntes que de-
crata brasileiro não se ressaltam as iniqüi-       fendem a educação à distância por ela ser
dades sofridas pelo negro, como tampouco           mais barata e fácil de se multiplicar. Essa
se compara o passado com o presente. Não           premissa pode ser verdadeira desde que o
existe uma identidade negra a ser ressaltada       modelo invista em material pedagógico de
e as diversas etnias brasileiras são retratadas    qualidade e em um professor disponível para
como sendo únicas, ou melhor, integradas.          trabalhar junto com o aluno esse material em
E assim se desenrolam os programas recor-          tempo integral. Então, nessa perspectiva, o
tados para a análise. São produtos cindidos        mito do projeto econômico se esvai. Um
entre a estética e a formação social. Todos

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12                                                            Maria das Graças Pinto Coelho


professor bem formado, em tempo integral,        7   Referências
custa caro.
                                                 CASTELLS, Manoel. Critical Education in
   Um projeto de formação social que deseje
                                                    the New Age. Laham Md: Rowman &
alcançar objetivos compatíveis com a escola
                                                    Litlefield, 1999.
de formação integral precisa separar o mito
da realidade. O real na intenção de se fazer     CASTELLS, Manoel. O poder da identi-
educação de massas de qualidade não dis-            dade. Tradução Klauss Brandini Ger-
pensa a relação professor/aluno. Por outro          hardt. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
lado, o mito da técnica também se espalha
como um totem, recrutado para se expan-          BRASIL, Ministério da Educação e do Des-
dir em todos os significados construídos. O          porto. Secretaria de Educação Funda-
caráter performático dos meios é usado de           mental. Parâmetros curriculares nacio-
forma exaustiva. Essa substituição, ou des-         nais. Brasília: MEC/SEF, 1997.
locamento da intenção educativa em favor
da performance midiática, é mais observada       FAORO, Raymundo. Os donos do poder:
quando se juntam os dois projetos: o de for-        formação do patronato político brasi-
mação - o Telecurso 2000 - e o culturalista         leiro. Porto Alegre: Globo, 1976.
das Organizações Globo, descrito várias ve-      FIESP/SESI. Telecurso 2000: ensino suple-
zes pela empresa, e comentado por inúme-             tivo/treinamento. São Paulo, 1996.
ros cientistas sociais, cuja marca é o “padrão
Globo de qualidade”.                             FIESP/SESI. Fundamentos e diretrizes do
   Porque daí surge um produto híbrido               Telecurso 2000. São Paulo, 1994.
muito bem ressaltando em suas nuances
ideológicas. Que em nenhuma hipótese pode        FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala.
ser culpado por reproduzir um mesmo im-             Rio de Janeiro: José Olympio, 1961.
passe social vigente. Uma marca consta-          FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO / FE-
tada em todos os programas analisados é a           DERAÇÃO DAS INDUSTRIAS DO
da assunção técnica da programação. De              ESTADO DE SãO PAULO - Telecurso
todo modo, “o padrão Globo de qualidade”            2000. São Paulo: 1993 (datilografado).
sabe exatamente o que a audiência quer. Os
símbolos culturais arregimentados na pro-        FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO / FE-
gramação do Telecurso fazem sentido do              DERAÇÃO DAS INDUSTRIAS DO
ponto de vista do telespectador. Preenchem          ESTADO DE SãO PAULO - Caderno
o imaginário nacional diariamente e conse-          de capacitacao I: Conhecendo o Tele-
guem monopolizar a audiência. Resta ende-           curso 2000. Rio de Janeiro: Fundação
reçar, no entanto, a expectativa do público         Roberto Marinho, 1999.
para um projeto de formação social, suple-
tivo, ou não. Nessa perspectiva, poderia se      HALL, Stuart. Questions of cultural identity.
ver credenciado o processo de construção de         Thousand Oaks. Sage, 1996.
cidadania nacional, proposto pelos Parâme-
tros Curriculares Nacionais.

                                                                              www.bocc.ubi.pt
Plasticidade social ou construção de identidade?   13


HALL, Stuart. The emergence of cultural
   studies and the crises of the humanities.
   London: Cultural Studies, 1997.

HOLANDA, Sérgio. Visão do paraíso. Rio
   de Janeiro: José Olímpio, 1959.

MARSHALL, T.H. Citizenship and Social
   Class, London: Pluto Press, 1967.

SILVA, Juremir Machado. Os anjos da per-
    dição: futuro e presente na cultura bra-
    sileira. Porto Alegre: Sulina, 1996.

SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identi-
   dade, povo e mídia no Brasil. Petrópo-
   lis, RJ: Vozes, 1999.




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Nocoes de cidadania

  • 1.
    Noções de cidadaniano Telecurso 2000: Plasticidade social ou construção de identidade? Maria das Graças Pinto Coelho∗ Abril de 2005 Índice público a partir de suas próprias realidades paradigmáticas. Os meios adiantam as re- 1 Introdução 1 formas do Estado, inclusive no campo da 2 O que é o Telecurso? 3 educação, e pressionam para que os agen- 3 É comparando que se entende 4 tes públicos funcionem como se estivessem 4 Motivando a autodeterminação 5 no mercado. O espaço público é modelado 5 A plasticidade flexível 7 no ethos privado. Estabelece-se um sentido, 6 Contrapontos 10 que no estudo de caso é revelado através de 7 Referências 12 um engenhoso projeto de educação à distân- cia - o Telecurso 2000 - ressaltado na plasti- 1 Introdução cidade social brasileira. Nesse caso, a edu- cação entra em um script paralelo, modelada O estudo em evidência reflete uma iniciativa docilmente pela performance midiática, sem de educação a distância que em sua cons- a oportunidade de ousar ressignificar-se na tituição apresenta-se como um projeto de abrangência do processo comunicacional. formação social, portanto público, mas que São experiências que ultrapassam alguns na concepção é lançado como apêndice de paradigmas que serviam à organização dos desenvolvimento das políticas públicas no protocolos de interação entre a educação e país, interferindo nos protocolos educacio- a comunicação - antes cindidas em duas ru- nais e comunicacionais. Em tal contexto, bricas com etiquetas específicas e diferencia- os meios e processos comunicacionais uti- das. é reconhecido que as duas áreas per- lizam sofisticadíssimas técnicas de gerencia- manecem divididas sim, no campo episte- mento de opinião, promovendo suas natu- mológico, mas juntas como interesse de su- rezas performáticas e interferindo no espaço porte às políticas públicas e privadas. Sofisti- ∗ Professora Adjunta do Departamento de Co- cadas técnicas são tecidas na direção da ma- municação Social da Universidade Federal do Rio nipulação simbólica. Grande do Norte. Membro do Programa de Pós- A junção da educação com a mídia serve, graduação em Educação - PPGE-UFRN. Cordena- ainda, para formar consumidores ungidos na dora da Base de Pesquisa Gemini - Grupo de Estudos de Mídia - UFRN-CNPq - gpcoelho@ufrnet.br cultura de consumo de massa. As narrati-
  • 2.
    2 Maria das Graças Pinto Coelho vas do “senso comum”, usadas por liberais e Deve se levar em consideração o fato de que conservadores, popularizadas nos textos cul- esse é um projeto de formação social, port- turais, ajudam a mobilizar o consentimento anto circunscrito ao espaço público. E é este às posições políticas hegemônicas, no caso o movimento a ser considerado na análise atual, toma corpo a retórica neoliberal con- de projetos que utilizam os meios na edu- tida no hipertexto midiático. cação, em circuito aberto de televisão, a par- De todo modo, a inserção do projeto Te- tir de uma concepção híbrida da expressão lecurso 2000 no espaço público brasileiro é público-privado. um fato, embora desperte controvérsia sobre Como as estratégias culturais são orga- a sua amplitude social. As decisões que in- nizadas em torno de uma pedagogia pública? fluenciaram o processo político de sua con- Esta era a pergunta inicial para chegarmos cepção nunca foram debatidas junto aos seg- ao Telecurso. A partir daí o estudo repassou mentos sociais que estão envolvidos direta as diversas maneiras como a cultura se rela- ou indiretamente com a educação de jovens ciona com o poder e como e onde as funções e adultos. O projeto queimou algumas etapas culturais são simbólicas ou institucionais na comunicacionais requeridas à sua implemen- educação. Foi levada em consideração a tação. Não levou em consideração a intera- prática imediata da política cultural empre- ção entre a formação da vontade institucio- gada na estratégia proposta. A análise tam- nalizada e os espaços públicos culturalmente bém procurou responder quais as noções de mobilizados. No que pese a chancela go- diferença, de responsabilidade civil, comu- vernamental, através dos Ministérios do Tra- nitária e de pertencimento, que estão sendo balho e Educação, o poder de decisão coube produzidas em um determinado lugar, com às organizações empresariais. Esta conduta específicas formações discursivas e práticas, por si só já representa um claro antagonismo o que, segundo HALL (1996: p.4), são ele- entre o seu locus de concepção/produção e o mentos constitutivos de uma pedagogia púb- espaço público onde ele é veiculado.A polê- lica crítica. mica se acirra quando se resgata a discussão A política cultural de uma nação, ainda se- sobre formação fundamental. Sua inserção gundo HALL (1996), é, em parte, as estraté- não é aceita por se tratar de um projeto de gias que cada povo escolhe para regular e educação à distância, supletiva, que por suas distribuir o saber. Mas a capacidade de próprias características não suporta seguir as pensar politicamente é, também, mediada trajetórias escolar fundamentais, iniciais, de pelas formas como cada cultura é governada. cultura geral e humanística. São os projetos culturais, resultantes dos sis- Partiu do segmento empresarial a idéia de temas de cultura nacionais, que modelam as conceber o Telecurso e, mais ainda, a arre- práticas humanas, a conduta e a ação social gimentação dos recursos que o viabilizaram. do cidadão. Portanto, as formas como as pes- Também coube ao empresariado nacional a soas interagem com as instituições e em so- condução do processo político. No entanto, ciedade, dependem da maneira como os seus a ausência de outros segmentos sociais no sistemas culturais estão conduzindo questões comando coloca em xeque a iniciativa de- ligadas à identidade política e seus significa- vido a sua abrangência político-pedagógica. dos. www.bocc.ubi.pt
  • 3.
    Plasticidade social ouconstrução de identidade? 3 Ao mesmo tempo também é através do que são distribuídos na forma de conheci- reconhecimento de seus locus de produção, mento social, sejam eles, culturais, técnicos, realização e circulação, o campo midiático, cognitivos, ou sócio-econômicos. Portanto, que o Telecurso 2000 se credencia como desde que se entenda o Telecurso 2000 como um projeto cultural relevante para a tran- sendo um projeto de formação social, gerado sição econômica nacional. Através da natu- em um sistema cultural próprio, seu pro- reza de seu campo ele se insere no aspecto duto final, a programação exibida, está sendo tecnológico que sustenta a expansão das re- monitorada através de uma agenda cultural des de informação no processo de globali- específica, onde se articulam os elementos zação. Coincidentemente, reside nesse lócus que compõem a cultura midiática, com as o mundo em transição onde são negociadas práticas sociais que estão sendo propostas. as novas formas simbólicas que marcam os São perseguidos os sentidos do conceito de produtos culturais na atualidade. O projeto cidadania nas três esferas do campo discur- se apresenta em uma situação ímpar. É ao sividades, narrativas e técnicas. mesmo tempo objeto e sujeito da cultura de informação. 2 O que é o Telecurso? Nesse caso, a cultura fornece inúme- ras razões constitutivas para reconhecê- O Telecurso 2000 foi originalmente conce- lo como um projeto político-pedagógico- bido para promover a escolaridade de dez público. Mas para tanto, é necessário que milhões de trabalhadores que oscilam entre o se reconheçam suas estratégias de represen- analfabetismo, a alfabetização instrumental tação e interrupção da realidade, tal qual são ou têm menos de oito anos de escolaridade. apresentadas para o seu público-alvo na pro- Implantado em 1995, hoje sua expansão não gramação analisada. São atributos dessa re- se restringe à educação supletiva do traba- presentação, por exemplo, a construção da lhador. Também está sendo usado como al- identidade nacional veiculada pelo projeto ternativa à educação formal em alguns esta- de formação. dos brasileiros. É resultado de uma parceria No entanto e, obviamente, a cultura é li- entre o governo e o empresariado nacional. vre para flutuar. Perpassa por vários signi- Tem a chancela e o financiamento de organi- ficados e é um campo social onde o po- zações públicas e privadas. der muda constantemente; onde identida- Confrontado com os fenômenos observa- des estão em permanente trânsito e onde a dos na sociedade de informação, o Telecurso agenda se situa na última tecnologia, no úl- detém um discurso midiático natural, produ- timo conhecimento. O projeto se impõe, so- zido no lócus de sua própria concepção e vai bretudo, como prática performativa à moder- além. O Telecurso também possibilita a ar- nidade dos meios. Pedagogia pública, ainda ticulação necessária para a reflexão das três segundo HALL (1997), envolve, sobrema- forças que compõem as mudanças atuais. As neira, práticas morais e políticas, mais do duas primeiras - revolução tecnológica e a que um simples procedimento técnico. reestruturação do capitalismo mundial, re- Por outro lado, os sistemas culturais em volucionam a organização produtiva em es- suas várias interconexões emitem valores cala global com implicações para o mundo www.bocc.ubi.pt
  • 4.
    4 Maria das Graças Pinto Coelho do trabalho e para as nossas existências ao atualidade. Por outro lado, reconheceu nos deslocar para outras dimensões experiências estudos culturais a possibilidade de matizar de tempo e espaço. Uma terceira força, esta o estilo posto na programação contraditória, impulsiona a busca por identi- dades. A reconstrução das identidades políti- 3 É comparando que se entende cas, culturais, sociais, territoriais, religiosas, éticas, nacionais, entre outras, está na ordem A análise da programação observa como são do dia e, curiosamente, coexiste com a ex- negociados os significados postos no eixo pansão do processo de globalização. “atitudes de cidadania” -, escolhido na pro- A reestruturação do capitalismo mun- posta técnica-pedagógica do projeto. A ver- dial impulsiona a reacomodação do Estado- são considerada se apresenta no Caderno de nação, bem representada pela mídia para as- Capacitação 1 - Conhecendo o Telecurso segurar a hegemonia do projeto político da 2000 -, (1999). doutrina neoliberal. O fundamentalismo de O Caderno de Capacitação 1, escolhido mercado, contido na doutrina, transformou a para abalizar a lógica de produção do Tele- maneira como cada povo lida com a identi- curso 2000 é mais recente e reproduz, em dade e com a conexão entre resistência co- parte, o documento técnico-pedagógico que munitária e os novos movimentos sociais. serviu de base de no lançamento do projeto Esta terceira força é aferida na medida em em circuito nacional em 1996. A mudança que a categoria cidadania, como construto fundamental diz respeito ao deslocamento identitário, está sendo enfocada na análise do das atitudes de cidadania dos princípios para Projeto estudado. o eixo temático principal. Nessa nova ver- Para tanto, foram extrapoladas as barrei- são, as práticas cidadãs estão sendo apon- ras do conceito mais conhecido, as três di- tadas como um tema transversal a todas as mensões clássicas de MARSHALL (1967): disciplinas veiculadas na programação. Exa- direitos e deveres civis, políticos e sociais, tamente como acontecia com o tema tra- onde se agrega uma nova dimensão, a cultu- balho na versão que regia os fundamentos ral. A regra foi reconsiderar o cidadão atual do “Telecurso 2000 -Educação para o Tra- a partir da expansão das redes de comuni- balho”, em 1994. Na introdução, o docu- cação e informação. Registrando sua lícita mento técnico-pedagógico se apresenta as- presença na rede imaginária do sistema de sim: “participar da construção de uma so- expansão global e observando as novas re- ciedade mais justa e solidária exige oferecer dimensões territoriais que o abrigam física, e meios para que todos exerçam plenamente a simbolicamente na sociedade atual. sua cidadania” (FRM: 1999, p.2). A proposta educativa do projeto Telecurso A construção de noções de cidadania, que foi revista estabelecendo relações entre po- surge com todo vigor nos documentos de der, ideologia e resistência na esfera social e 1999, relaciona-se diretamente com o pro- em seu lócus de produção imanente. A pes- jeto normatizador de educação nacional im- quisa fez a conexão entre os sistemas cul- plantado pelo Governo federal: os Parâme- turais e os estudos de mídia e observou a tros Curriculares Nacionais - PCNs; conce- relevância que o campo midiático ocupa na bido para estandardizar o sistema brasileiro www.bocc.ubi.pt
  • 5.
    Plasticidade social ouconstrução de identidade? 5 de educação. Os PCNs convergem para uma até sem lhes modificar a natureza, mas tam- norma instrumental comum, apesar de re- bém podem convergir. conhecerem as diferenças regionais - cultu- Em termos quantitativos, as fitas foram vi- ral e econômico-social do país. É um projeto stas na seqüência apresentada pelo projeto. governamental audacioso porque se situa na A única exceção desse procedimento refere- discussão do processo de globalização em al- se às aulas de matemática porque as fitas in- guns aspectos - técnicos, econômicos e cul- iciais apresentaram problemas no ambiente turais - e tem como objetivo manter as ca- onde foram requisitadas. Elas foram vistas a racterísticas nacionais. Desperta a discussão partir da aula 21 até a 60, de um total de 80 sobre identidades e pertencimento na socie- aulas. História Geral e do Brasil, foi anali- dade brasileira. sada através das aulas 1 a 33, de um total de Entre os objetivos do Ensino Fundamen- 40 aulas; Ciências de 1 a 40, de um total de tal, os Parâmetros Curriculares Nacionais 70 aulas; Geografia, de 1 a 37, de um total de indicam que os alunos sejam capazes de: 50 aulas. A disciplina de Português foi vista “compreender cidadania como participação nos programas/aula de 1 a 36 e mais a fita social e política, assim como exercício de di- N0 6, que apresenta as aulas de 41 a 47 em reitos e deveres políticos civis e sociais, ado- um universo de 90 aulas. O estudo de Língua tando, no dia-a-dia, atitudes de solidarie- Estrangeira - Inglês - não foi considerado. A dade, cooperação e repúdio às injustiças, re- análise de expressão alcançou mais de 50 por speitando o outro e exigindo para si o mesmo cento dos programas apresentados. respeito...” (MEC/SEF, 1998: p. 7). A pro- posta dos Parâmetros é bem direta no que se 4 Motivando a autodeterminação refere ao direito dos alunos brasileiros sobre o acesso aos conhecimentos indispensáveis Em princípio, verificamos a pertinência ou para a construção de sua cidadania. não da tese central proposta na normatização Cidadania é um fenômeno espacial e dos PCN, onde se situam os parâmetros ins- temporal, historicamente definido, mesmo trumentais de desenvolvimento da cidadania quando se apresenta enquanto entidade legal nacional. Foi refletida uma lógica exeqüí- e territorial, sobre a qual são associados di- vel e predominante nas instituições nacionais reitos e deveres. Tanto os Parâmetros Curri- que permite aceitar a noção de integração ter- culares Nacionais (PCNs), que normatizam a ritorial contida na construção de identidades. educação brasileira , como o Telecurso 2000, Tal lógica admite que a formação da cidada- elegeram a construção de noções de cida- nia passa em primeira mão pelo reconheci- dania como eixo principal na formação es- mento das identidades nacionais, representa- colar. Por essa razão, este trabalho escol- das pelos grupos sociais nelas contidos. heu confrontar o sentido de cidadania con- Para tanto, repassamos a crise do conceito tido em ambos os projetos. A comparação de Estado-nação, ressaltada no processo de é legítima. Os valores que estão sendo atri- globalização de bens e serviços. A crise buídos ao conceito de cidadania em ambos joga contra uma unicidade entre identidades, os projetos, o de educação nacional, e o Te- nações e Estados. Por outro lado, o que se lecurso 2000 podem divergir, algumas vezes apreende do deslocamento do conceito do www.bocc.ubi.pt
  • 6.
    6 Maria das Graças Pinto Coelho Estado-nação é que na atualidade o Estado quê e para quê isso acontece. Sobre o quem luta incondicionalmente para reconstruir sua e para quê, ele mesmo dá a pista: estaria con- legitimação e instrumentalidade, juntando as tido na resposta o grande conteúdo simbólico sociedades civis locais para se projetar no dessa identidade que está sendo construída, processo de expansão das redes transnacio- bem como o de seu significado para aqueles nais. que se identificam ou dela se excluem. Essa é uma estratégia articulada por parte O autor identifica três formas de origens dos governos mundiais para fazer fase aos de construção de identidade: imperativos globais comuns. Para tanto, são usados os sistemas educacionais no sentido • “Identidade legitimadora: introdu- de promover coesão social e transmitir a zida pelas instituições dominantes idéia de identidade nacional. No caso do da sociedade no intuito de expandir Brasil, o projeto normativo é mais auda- e racionalizar sua dominação em re- cioso porque abre espaço para uma coalizão lação aos atores sociais, tema este de interesses sociais fundamentados em uma que está no cerne da teoria de au- identidade (re)construída. toridade e dominação de Sennett,6 Para se entender o procedimento de recon- e se aplica a diversas teorias do strução é interessante se chegar à visão de nacionalismo7 . CASTELLS (1999: p. 60) sobre o assunto. • Identidade de resistência: criada Ele entende por identidade a fonte de signi- por atores que se encontram em ficado e experiência de um povo. Citando posições/condições desvalorizadas CALHOUN, CASTELLS (2001) apresenta o e/ou estigmatizadas pela lógica conceito: da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevi- Não temos conhecimento de um povo vência com base em princípios di- que não tenha nomes, idiomas ou cultu- ferentes dos que permeiam as in- ras em que alguma forma de distinção stituições da sociedade, ou mesmo entre o eu e o outro, nós e eles, não seja opostos a estes últimos, conforme estabelecida... O autoconhecimento - in- propõe Calhoun ao explicar o sur- variavelmente uma construção, não im- gimento da política de identidade8 . porta o quanto possa parecer uma desco- berta - nunca está totalmente dissociado • Identidade de projeto: quando da necessidade de ser conhecido, de mo- os atores sociais, utilizando-se de dos específicos, pelos outros” - CAL- qualquer tipo de material cultural ao HOUN apud CASTELLS (2001: p. 22). seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua Não é difícil concordar com o fato de que a posição na sociedade e, ao fazê- identidade cultural de um povo é construída. lo, de buscar a transformação de Ainda segundo CASTELLS (2001: p. 23), toda a estrutura social. Esse é o a principal questão que envolve a discussão, caso, por exemplo, do feminismo diz respeito a como, por quem, a partir do que abandona as trincheiras de re- www.bocc.ubi.pt
  • 7.
    Plasticidade social ouconstrução de identidade? 7 sistência da identidade e dos direi- dores convergem na construção do mito. Um tos da mulher para fazer frente ao mito ungido em suas raízes históricas, em patriarcalismo, à família patriarcal uma combinação forjada entre a população e e, assim, a toda a estrutura de pro- as instituições. SILVA (1996), ressalta a “fle- dução, reprodução, sexualidade e xibilidade” como sendo a identidade nacio- personalidade sobre a qual as so- nal mais significativa. Essa idéia surge a par- ciedades historicamente se estabe- tir de um comentário de FREYRE (1961) so- leceram (CASTELLS, 2001, p. 24). bre a dinâmica que tem constituído o Brasil desde 1500: Isto posto, resta identificar as razões con- sideradas na (re)construção do significado Considerada de modo geral, a formação de identidade nacional do projeto normativo brasileira tem sido, na verdade, como já do Ministério de Educação brasileiro. Sem salientamos às primeiras páginas deste dúvidas, os PCN não chegaram a normati- ensaio, um processo de equilíbrio de ant- zação proposta do nada. Este foi um pro- agonismos. Antagonismos de economia cesso intencional de alteração do indivíduo, e de cultura. A cultura européia e a in- visando a implantação de um projeto de for- dígena. A européia e a africana. A afri- mação social, audacioso, tendo em vista que cana e a indígena. A economia agrária e sua finalidade principal foi a de transformar a pastoril. A agrária e a mineira. O cató- a coletividade onde ele atua. Obviamente, lico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. também, que esta é uma estratégia articu- O bandeirante e o senhor de engenho. O lada porque negocia novos códigos cultu- paulista e o emboaba. O pernambucano e rais a partir da matéria prima fornecida pela o mascate. O grande proprietário e o pa- história. Então, historicamente, como o Bra- ria. O bacharel e o analfabeto. Mas pre- sil tece seu jogo de identidades refletido em dominando sobre todos os antagonismos, seu imaginário social? o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo (FREYRE 1961: p. 73). 5 A plasticidade flexível Referindo-se a fixação do imaginário do ponto de vista institucional, SILVA (1996, O estilo de vida do brasileiro, que tam- p.33), evoca FAORO (1975), para lembrar bém é uma construção histórica, para SILVA que no processo de construção do mito os (1996) se caracteriza principalmente pela sua governantes tinham a preocupação de “er- plasticidade, que contrasta com os saberes guer um império com gente vil”. O ant- divulgados pela escola, igreja, e entidades agonismo “mais profundo”, observado por destinadas à regulamentação do social. No FREYRE (1961), ou seja, a relação do se- entanto, o processo de formação cultural do nhor com o escravo, é a mais arraigada das povo brasileiro é motivo de muita especu- tradições nacionais. é também a que mais lação por parte de pensadores como Gilberto se credencia na reflexão do imaginário social Freyre - Casa Grande & Senzala (1961) e brasileiro. Sérgio Buarque de Holanda - Visão do Pa- Um país legitima sua identidade nacional raíso (1959). De modo que ambos os pensa- quando de alguma forma suas instituições, www.bocc.ubi.pt
  • 8.
    8 Maria das Graças Pinto Coelho governos, tradições, refletem a história de que a colocam em um lugar privilegiado no sua população. E por várias razões históri- ranking das desigualdades sócio-econômicas cas, o passado escravocrata nacional não foi mundiais. expurgado. Vez ou outra, a cada novo passo Conseqüentemente, o esforço proposto rumo à autodeterminação, nossa escravocra- pelo Estado, através das normas contidas nos cia sai do armário e assusta a todos se pro- PCN, deve levar em consideração a matéria jetando em uma obscura sombra de passado. prima histórica da construção. Em primeiro Porque mesmo que a população, governo e lugar, devido às peculiaridades expostas, a instituições se unam na simulação de uma nação, em última análise, não se vê represen- nova identidade, as camadas mais pobres da tada na noção de integração. Não existe uma sociedade tratarão de desarticular o acordo, identidade nacional que abra espaço para lembrando a todos sua posição diferenciada. uma coalizão de interesses sociais funda- Sem uma redenção de fato, que incorpore mentados em uma identidade (re)construída. séculos de discriminação sócio-econômica e Uma força social/política definida por uma institucional, esse segmento populacional ja- determinada identidade (ética, territorial, re- mais vai se sentir representado nas decisões ligiosa, tribal ou étnica) que possa ser trans- que acontecem no centro do poder nacional. formada nesta noção. Para o bem ou para o mal a história brasi- Voltando para a idéia do construto, CAS- leira carrega consigo uma imensa carga far- TELLS (2001), o projeto nacional parece sesca. Uma dissimulação das relações reais. estar lidando com as três formas de origem Algumas vezes, a farsa até se transverte em propostas, no entanto, a identidade de pro- um jogo envolvente para regojizo de todas jeto, que permite a construção do sujeito, as raças, cores e crenças. As identidades pode estar sendo favorecida nos Parâme- nacionais, enfocadas pelos historiadores, fre- tros Curriculares Nacionais. Citando TOU- qüentemente transbordam em contradições. RAINE, CASTELLS (2001), dá uma idéia HOLANDA (1995) exalta os valores do ho- do que significa essa produção: mem cordial, ungido nas relações coloniais, Chamo de sujeito o desejo de ser um in- como sendo o traço definitivo do caráter bra- divíduo, de criar uma história pessoal, sileiro. A polidez - traduzida recentemente de atribuir significado a todo o conjunto como “flexibilidade” - seria um mecanismo de experiências da vida individual... A de defesa ante a sociedade. A lhaneza no transformação de indivíduos em sujeitos trato, a generosidade e a hospitalidade, no resulta da combinação necessária de duas entender de HOLANDA (idem), é o convívio afirmações: a dos indivíduos contra as baseado na ética de fundo emotivo. Na ética comunidades, e a dos indivíduos con- que se confunde com a etiqueta. É a tradução tra o mercado (CASTELLS, apud TOU- do desejo do escravo de estabelecer intimi- RAINE 2001, p. 26). dades com o seu senhor. Seria, portanto, uma convivência humana dissimulada pelo Repassando essa seqüência, chega-se a um sujeito para esconder as diferenças sociais, resultado evidente: existe uma dinâmica nas étnicas, ou mesmo econômicas que rondam a identidades que as conduz a um trânsito per- sociedade brasileira. As mesmas diferenças manente. Por outro lado, também se torna www.bocc.ubi.pt
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    Plasticidade social ouconstrução de identidade? 9 claro que a constituição do senso de cidada- de comunicação. Com a sua tradição oral nia, proposto em ambos os projetos revistos, inequívoca. O Telecurso 2000 tem um papel somente acontece quando os alunos são ca- fundamental na confecção do amálgama que pazes de pensar os seus papéis enquanto su- parece ser a representação que a sociedade jeitos da história. faz dela mesma e projeta através dos meios. Para garantir o construto identitário do Tem o mérito de trazer para o campo da edu- aluno, ou seja, o exercício pleno de suas cação os códigos culturais que os alunos têm funções políticas, produtivas e culturais, am- acesso em seu cotidiano. bos os projetos precisam estar atentos a toda Dito de forma simples, o Telecurso repre- uma complexa compleição que articula a senta exatamente o produto final de uma so- noção de cidadania. Seria necessário desco- ciedade que atravessa aceleradas mudanças brir um princípio unificador dentro da nação tecnológicas sobrevivendo aos seus próprios que seja válido aos interesses e vontades co- antagonismos. É a cara do Brasil rural, po- muns. No entanto, a sombra obscura da for- voado de antenas parabólicas, cuja popula- mação cultural brasileira persiste e é preciso ção permanece sentada em uma praça qual- aprender a lidar com ela. quer, sem escolas, assistindo a última tele- Pensando na convivência pacífica se chega novela. Melodramas reais, cujos enredos en- à intersecção dos dois projetos que mais am- fatizam as nossas contradições econômico- bicionam a formação social brasileira. A co- sociais, as passividades do presente, a guerra mum união em torno de um mesmo ponto. permanente e sem solução entre as elites e o A aceitação de que a sociedade atual se- povo. ria o palco inequívoco de uma sociedade É também no Telecurso que a sociedade civil mediada pelo consumo e pela infor- brasileira descobre que nenhum programa de mação. Dessa forma, a flexibilidade plá- televisão é poderoso o suficiente para en- stica da formação brasileira, defendida por terrar a realidade desigual que a sustenta. SILVA (1996), estaria sendo reconhecida e A televisão serve, no caso, para lembrar ao exaltada. Nem a escola, nem as instituições, telespectador que existe uma sociedade de podem prescindir de incorporar ao processo consumo de massas, estratificada, onde dois de formação cultural do povo brasileiro, o mundos convivem e se alternam contradito- seu imaginário. O projeto normatizador ne- riamente: o pensado e o vivido. Já a nor- cessita integrar os fios que tecem a ficção e matização dos PCN existem, e é bom que a realidade, de maneira cuidadosa, para con- existam, para lembrar a todos que é possí- seguir articular uma amálgama definitiva li- vel à construção de um mundo mais igual. gando educação e imaginário. Descartando, Um mundo povoado de sujeitos sociais, con- portanto, a preocupação de formar apenas e victos de seu papel na construção de um através da racionalidade sábia, a serviço da Estado de direito democrático. Cumprem a humanização da vida. sua função de tentar harmonizar, de maneira Mas qual imaginário é esse que parece simples, as dimensões simbólicas da socie- estar em permanente conflito? Talvez seja o dade, com seus processos produtivos e ope- imaginário que surge na relação direta que o racionais. Nesse caso, ele existe para nor- país mantém com a televisão, com os meios www.bocc.ubi.pt
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    10 Maria das Graças Pinto Coelho matizar um projeto nacional e abrangente de das as diversidades culturais apontadas, tam- formação educacional. bém lhe diz respeito no processo educacional No entanto, pode se afirmar que a adoção brasileiro. Resta saber como ele se enquadra dos Parâmetros segue na contramão do mer- nessa missão. cado. “O pensamento elitista da identi- dade nacional começa, assim, a afastar-se 6 Contrapontos do território - que inclui povo e natureza -, voltando-se para valores transnacionais, ad- Este trabalho teve a preocupação de atribuir vindos do “Outro”, definido como centrali- sentidos aos vídeos de modo que eles fos- dade hegemônica do capital” SODRÉ (2000, sem apreendidos como qualquer outro mate- p.130). Ainda segundo SODRÉ (op. Ci- rial educacional. O que significa dizer que tada), a virada do milênio revive o século de- eles são matizados pelos valores, convicções zenove, quando as elites nacionais selavam e interesses daqueles que os desenvolvem. seu pacto perpetuo e faziam um grande es- Não podem, portanto, ser encarados como forço de europeização a título de resgate de produtos neutros. Eles se apropriem tanto sua identidade pessoal e coletiva, fora das dos valores presentes no campo midiático, bases da política comunitária tradicional. como dos valores educacionais. A linha de A parte mais relevante dos PCN é a argumentação sobre a natureza do material sua originalidade. No sentido da gênese. apresentado nesse estudo atravessou valores Eles articulam um novo compromisso com econômicos, históricos, estéticos, técnicos, a história da formação social do povo bra- organizacionais, culturais, de produção ori- sileiro. Seu arrojo reside na proposta que entada, e ideológicos. Enquanto todos os resgata o construto de cidadania, a partir da critérios citados foram claramente importan- re-construção de uma noção de identidade tes para a sua concepção, o caráter ideoló- nacional. Rompe com a inércia da escola que gico da programação analisada sustentou a esteve por muito tempo paralisada diante da tensão analítica.. abrangência e sofisticação dos meios de in- O locus midiático, as Organizações formação e comunicação. Redime o sistema Globo, recoloca os conceitos de ideologia nacional de educação de haver passado ao e hegemonia no foco central da análise. largo, por várias décadas, da discussão que Mesmo porque, como foi dito anteriormente, envolve cultura de consumo de massas. eles tipificam o papel dos meios de comu- Os PCN trabalham no sentido de encon- nicação na sociedade atual. É exatamente trar um equilíbrio entre formação e cultura nesse campo onde se situa a mistificação das de massas. Pensam a expansão dos meios de relações de poder nas sociedades. A hege- comunicação e informação como fato social, monia se define pelo modo como as clas- código e instituição. Por outro lado, o pro- ses dominantes mantêm suas posições atra- jeto que se utiliza dos meios de comunicação vés do consentimento popular, moldado na para aumentar a escolaridade dos trabalha- representação que os meios fazem das clas- dores brasileiros, o Telecurso 2000, também ses não hegemônicas. Dessa forma, o campo teve que se enquadrar nas normas para pros- midiático produz associações simbólicas e seguir ocupando um espaço que, reconheci- www.bocc.ubi.pt
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    Plasticidade social ouconstrução de identidade? 11 retóricas onde as ideologias se manifestam apresentam uma mesma estrutura narrativa e de forma definida e concreta. discursiva que se perfila em um alto valor As ideologias, como já foi sugerido, são estético sem maiores compromissos com o reproduzidas sistematicamente através das processo histórico do qual eles fazem parte. estruturas midiáticas. Os meios são persis- No entanto, a contenção e a invisibili- tentes modelos de cognição, interpretação, dade dadas às diversidades brasileiras na representação, de seleção, ênfase e exclusão, programação analisada, em contrapartida a em cuja simbologia se organizam rotineira- ampla cobertura que é dada à plasticidade so- mente discursos verbais e/ou visuais, com- cial, é proporcional e sintomática da grande prometidos com a manutenção do status so- invisibilidade, a falta de transparência, que cial dominante. persiste na estrutura social do Brasil. Do Significativamente, e independente das in- ponto de vista histórico, vale lembrar que a tenções manifestas nos documentos oficiais única real tentativa de refletir nossas diversi- do Telecurso 2000, a programação analisada dades na educação, do ponto de vista institu- não foge à regra no que diz respeito a repro- cional, foi feita agora, pós PCNs. dução ideológica em discussão. O discurso é Por outro lado, quando o Telecurso 2000 construído a partir da visão do produtor. Re- é pensado através do seu caráter formativo, vendo as lições de História - 1 a 8 - que se é preciso acrescentar, em primeira mão, que organizam em torno de um discurso politica- as formas de vida social interpostas na pro- mente correto por não imprimir preconceitos gramação não se sobrepõem, não podem ser em relação às etnias e culturas, sutilmente, a interpretadas como um princípio superior ao supremacia ideológica se confirma. A narra- estágio de desenvolvimento econômico que tiva que reconstitui a história pessoal de cada mapeia a sociedade brasileira. O Telecurso é um dos brasileiros esconde a diversidade cul- apenas um programa supletivo de educação tural e sócio-econômica de sua formação. O à distância produzido para aumentar a esco- brasileiro que sai do Rio de Janeiro para o in- laridade do trabalhador que não teve acesso terior da Bahia para resgatar sua história não à escola ou a freqüentou menos do que o tér- tem sotaque nordestino, desconhece as diver- mino do primeiro ciclo fundamental. sidades regionais e se perde como persona- No entanto, devido as suas engrenagens de gem amorfo de um mesmo padrão de quali- elaboração, produção e circulação, já citadas dade “global”. em situações anteriores, ele se expande en- Na história que conta o passado escravo- quanto mito. Há algumas correntes que de- crata brasileiro não se ressaltam as iniqüi- fendem a educação à distância por ela ser dades sofridas pelo negro, como tampouco mais barata e fácil de se multiplicar. Essa se compara o passado com o presente. Não premissa pode ser verdadeira desde que o existe uma identidade negra a ser ressaltada modelo invista em material pedagógico de e as diversas etnias brasileiras são retratadas qualidade e em um professor disponível para como sendo únicas, ou melhor, integradas. trabalhar junto com o aluno esse material em E assim se desenrolam os programas recor- tempo integral. Então, nessa perspectiva, o tados para a análise. São produtos cindidos mito do projeto econômico se esvai. Um entre a estética e a formação social. Todos www.bocc.ubi.pt
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    12 Maria das Graças Pinto Coelho professor bem formado, em tempo integral, 7 Referências custa caro. CASTELLS, Manoel. Critical Education in Um projeto de formação social que deseje the New Age. Laham Md: Rowman & alcançar objetivos compatíveis com a escola Litlefield, 1999. de formação integral precisa separar o mito da realidade. O real na intenção de se fazer CASTELLS, Manoel. O poder da identi- educação de massas de qualidade não dis- dade. Tradução Klauss Brandini Ger- pensa a relação professor/aluno. Por outro hardt. São Paulo: Paz e Terra, 2001. lado, o mito da técnica também se espalha como um totem, recrutado para se expan- BRASIL, Ministério da Educação e do Des- dir em todos os significados construídos. O porto. Secretaria de Educação Funda- caráter performático dos meios é usado de mental. Parâmetros curriculares nacio- forma exaustiva. Essa substituição, ou des- nais. Brasília: MEC/SEF, 1997. locamento da intenção educativa em favor da performance midiática, é mais observada FAORO, Raymundo. Os donos do poder: quando se juntam os dois projetos: o de for- formação do patronato político brasi- mação - o Telecurso 2000 - e o culturalista leiro. Porto Alegre: Globo, 1976. das Organizações Globo, descrito várias ve- FIESP/SESI. Telecurso 2000: ensino suple- zes pela empresa, e comentado por inúme- tivo/treinamento. São Paulo, 1996. ros cientistas sociais, cuja marca é o “padrão Globo de qualidade”. FIESP/SESI. Fundamentos e diretrizes do Porque daí surge um produto híbrido Telecurso 2000. São Paulo, 1994. muito bem ressaltando em suas nuances ideológicas. Que em nenhuma hipótese pode FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. ser culpado por reproduzir um mesmo im- Rio de Janeiro: José Olympio, 1961. passe social vigente. Uma marca consta- FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO / FE- tada em todos os programas analisados é a DERAÇÃO DAS INDUSTRIAS DO da assunção técnica da programação. De ESTADO DE SãO PAULO - Telecurso todo modo, “o padrão Globo de qualidade” 2000. São Paulo: 1993 (datilografado). sabe exatamente o que a audiência quer. Os símbolos culturais arregimentados na pro- FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO / FE- gramação do Telecurso fazem sentido do DERAÇÃO DAS INDUSTRIAS DO ponto de vista do telespectador. Preenchem ESTADO DE SãO PAULO - Caderno o imaginário nacional diariamente e conse- de capacitacao I: Conhecendo o Tele- guem monopolizar a audiência. Resta ende- curso 2000. Rio de Janeiro: Fundação reçar, no entanto, a expectativa do público Roberto Marinho, 1999. para um projeto de formação social, suple- tivo, ou não. Nessa perspectiva, poderia se HALL, Stuart. Questions of cultural identity. ver credenciado o processo de construção de Thousand Oaks. Sage, 1996. cidadania nacional, proposto pelos Parâme- tros Curriculares Nacionais. www.bocc.ubi.pt
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    Plasticidade social ouconstrução de identidade? 13 HALL, Stuart. The emergence of cultural studies and the crises of the humanities. London: Cultural Studies, 1997. HOLANDA, Sérgio. Visão do paraíso. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1959. MARSHALL, T.H. Citizenship and Social Class, London: Pluto Press, 1967. SILVA, Juremir Machado. Os anjos da per- dição: futuro e presente na cultura bra- sileira. Porto Alegre: Sulina, 1996. SODRÉ, Muniz. Claros e escuros: identi- dade, povo e mídia no Brasil. Petrópo- lis, RJ: Vozes, 1999. www.bocc.ubi.pt