Cáritas Brasileira Regional do Piauí
           Projeto Fecundação




O sonho
construído
em mutirão
                   Uma experiência de
           convivência com o semiárido




          Teresina - Piauí - Brasil, 2010
O Sonho Construído em Mutirão:
Uma experiência de convivência com o semiárido

Direitos autorais - 2010 - Cáritas Brasileira Regional do Piauí
Permitida a reprodução desde que citada a fonte



Coordenação Colegiada
Secretária Geral: Hortência Mendes
Coordenador Político-Pedagógico: Adonias Rodrigues
Coordenadora Administrativa: Célia Araújo



Texto: Rosângela Ribeiro de Carvalho e João Evangelista Santos Oliveira
Edição e Projeto Gráfico: Mariana Gonçalves
Revisão: Assunção Sousa
Colaboração: Carlos Humberto Campos
Fotografias: Gildásio de Lima e Iran Morais
Impressão: Gráfica do Povo




                       Cáritas Brasileira Regional do Piauí
                  Rua Agnelo Pereira da Silva, 3135 – São João
                   Teresina – Piauí – Brasil – CEP: 64045-440
                             Telefone/fax: 32336302
                         E-mail: caritaspi@caritas.org.br
Dedicamos...



       Dedicamos esse trabalho às populações que habitam o semiári-
       do piauiense. Mulheres e homens, que ao longo de suas histórias
       individuais e coletivas, construíram uma cultura simples e bela.
       Com sua fé consolidaram crenças e credos. Com seu suor,
       criatividade, trabalho e forças, suas vidas foram entregues como
       oferendas para salvar o ambiente exuberante que existe nesse
       pedaço de chão: Sertão. Caatinga. Semiárido...
Sumário

Siglas                                          07
Quadros e Gráfico                               08
Prefácio                                        09
Apresentação                                    11

O SONHO
O projeto de sistematização                     15
Contextualizando o semiárido                    18
Indicadores sociais motivadores do projeto      20
Antecedentes históricos da experiência          22
A escolha de Coronel José Dias                  24
Localizando a experiência                       26

A CONSTRUÇÃO
Projeto Piloto de Coronel José Dias             33
Educar para Conviver                            34
Gestão                                          37
Recursos Hídricos                               42
Produção Agropecuária Apropriada                45
Educação Contextualizada                        47
Fundo Rotativo Solidário                        53

A REALIDADE
Impactos da experiência no ambiente semiárido   57
Significado da experiência                      60
A visão das pessoas envolvidas no projeto       63
Projeto Fecundação como Política Pública        69

Referências Bibliográficas                      71
Anexos                                          73
Fotografias                                     85
Siglas

ASA Brasil – Articulação no Semiárido Brasileiro
BAP – Bomba d’Água Popular
BNB – Banco do Nordeste do Brasil
CML – Projeto Cidadania no Mundo das Letras
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
COMDEPI – Companhia de Desenvolvimento do Piauí
ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente
ECSA – Educação para Convivência com o Semiárido
EMATER – Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural
EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
EPS – Economia Popular Solidária
FPCSA – Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido
GT – Grupo de Trabalho
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IDH – Índice de Desenvolvimento Humano
IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada
ONG – Organização Não-Governamental
ONU – Organização das Nações Unidas
P1+2 – Programa Uma Terra e Duas Águas
PACs – Projetos Alternativos Comunitários
PCSA – Programa de Convivência com o Semiárido
PDHC – Projeto Dom Helder Camara
PEA – População Economicamente Ativa
PIAJ – Programa Infância, Adolescência e Juventude
PMA – Planejamento, Monitoramento e Avaliação
PMDS – Plano Municipal de Desenvolvimento Sustentável
PME – Plano Municipal de Educação
PMRH – Plano Municipal de Recursos Hídricos
PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
PNE – Plano Nacional de Educação
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PSF – Programa Saúde da Família
RESAB – Rede Educação do Semiárido Brasileiro
SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas
SEMEC – Secretaria Municipal de Educação
SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária
STTR – Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
SUDENE – Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste
UFPI – Universidade Federal do Piauí
Quadros

QUADRO 01 – AÇÕES DE APOIO DA CÁRITAS PIAUÍ AO ACESSO A RECURSOS
HÍDRICOS – 1999 A 2000 (pag. 22)

QUADRO 02 – CONSEQUÊNCIAS DAS ESTIAGENS (pag. 27)

QUADRO 03 – MEDIDAS PLUVIOMÉTRICAS NO MUNICÍPIO DE CORONEL
JOSÉ DIAS DE 1994 A 1998 (MM) (pag. 29)

QUADRO 04 – PRIORIDADES DE AÇÕES DE CONVIVÊNCIA COM O
SEMIÁRIDO (pag. 30)

QUADRO 05 – ATIVIDADES NA EXECUÇÃO DO PROJETO FECUNDAÇÃO (pag. 38)

QUADRO 06 – PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO RECURSOS HÍDRICOS (pag. 43)

QUADRO 07 – PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA
APROPRIADA (pag. 46)

QUADRO 08 – DESCRIÇÃO DAS 09 OFICINAS PEDAGÓGICAS (pag. 49)




Gráfico
GRÁFICO 01 – ORIGEM DA ÁGUA UTILIZADA PELAS FAMÍLIAS DAS
LOCALIDADES RURAIS NO MUNICÍPIO DE CORONEL JOSÉ DIAS (pag. 28)
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Prefácio

          O Brasil possui seis grandes biomas: Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga (semiá-
rido), Mata Atlântica e os Pampas. Compreendemos um bioma como uma área territorial que
possui um conjunto de vida humana, vegetal e animal que cobre determinada região de forma
contínua, em condições geoclimáticas semelhantes, o que acaba formando uma diversidade
biológica muito própria.
          A caatinga, também conhecida como semiárido ou sertão brasileiro, cantada em
versos e prosas, é propagada como uma das regiões mais pobres do Brasil. As pesquisas
revelam que os Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) desta região estão abaixo da
média nacional, contrariando todo o seu potencial natural e cultural.
          A seca – fenômeno natural do semiárido – é sinônimo de tragédia, provoca grandes
problemas sociais, econômicos e políticos na região. Destrói as atividades agrícolas e pecuárias;
agrava o problema da falta d’água até mesmo para o consumo humano. Ocasiona a sede, a
fome e muitas mortes em consequências de doenças provocadas pelo consumo de águas
impuras e contaminadas. Essa situação de extrema pobreza e falta de uma política de assistên-
cia pública adequada, ao longo dos anos, tem sido a principal causa de migrações de popula-
ções inteiras, em regiões de pobreza acentuada – como é o caso do Estado do Piauí – para
outras regiões do país em busca da sobrevivência.
          Diante dessa realidade, a Cáritas Brasileira Regional Piauí, com a missão de promo-
ver, animar, organizar e participar efetivamente da prática da justiça e da solidariedade, contri-
buindo na construção de alternativas, vem procurando praticar e incentivar na sociedade ações
solidárias aos povos do semiárido, como forma de transformar uma situação de morte para
uma situação de vida. Com isso, a Cáritas implantou em 2001, no município de Coronel José
Dias (PI), o Projeto FECUNDAÇÃO com o objetivo de contribuir, com as famílias e comuni-
dades empobrecidas do semi-árido, para melhoria de suas condições de vida, através do acesso
à água de boa qualidade e em quantidade suficiente para o consumo humano; e do desenvolvi-
mento de conhecimentos e apropriação de saberes, habilidades e técnicas da agropecuária
apropriada para a convivência sustentável no Bioma Caatinga.
          Com este documento, a Cáritas Brasileira Regional Piauí busca retratar em imagens e
palavras o processo de transformação da história do povo de Coronel José Dias, a partir da
                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
intervenção do Projeto Fecundação, idealizado pela Cáritas Brasileira – Regional Piauí e
desenvolvido em parceria com os segmentos sociais do município.
          A vontade de resgatar os processos de construção da proposta, as formas de gestão, a
participação das pessoas envolvidas, o processo organizativo nas comunidades, os impactos e
os desafios, as relações sociais, políticas e institucionais estabelecidas, numa perspectiva de se
perceber a trajetória da experiência do Projeto Fecundação, vem sendo debatida no seio da
Cáritas Brasileira Regional Piauí e na Comissão Gestora do projeto, há algum tempo.
          Através do nosso olhar sob a trajetória desenvolvida pelo projeto buscamos retratar
os impactos sociais, ambientais e culturais desta experiência, mostrando as ações desenvolvi-
das, o caráter destas ações, os desafios que elas nos apresentam e a sua importância para o povo
do semiárido no município de Coronel José Dias.
10

                                                  Neste sentido, a sistematização assume como OBJETO, a experiência do Projeto
                                       Fecundação no município de Coronel José Dias e sua contribuição para a melhoria da convi-
                                       vência com o semiárido, buscando revelar os impactos da experiência no ambiente semiárido e
                                       sua importância para o Programa de Convivência com o Semiárido da Rede Cáritas.
                                                  Outra dimensão importante do Projeto FECUNDAÇÃO é a busca da construção do
                                       saber, através das experiências forjadas no meio do povo com o apoio de entidades não-
                                       governamentais, caracterizando a ausência de políticas públicas adequadas. Ou seja, compre-
                                       ender melhor o contexto do semiárido e a realidade vivida no dia-a-dia das populações sertane-
                                       jas, para, a partir daí, poder contribuir com maior segurança na elaboração de iniciativas de
                                       intervenção junto àquelas pessoas mais empobrecidas e necessitadas, e para a efetivação de
                                       uma proposta de desenvolvimento Territorial Sustentável, considerando principalmente as
                                       pessoas e o meio ambiente.


                                       Carlos Humberto Campos
                                       Sociólogo, Secretário Regional da Cáritas Brasileira Regional do Piauí (2002-2009)
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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Apresentação

           A Cáritas Brasileira Regional do Piauí agiu coletivamente na busca de melhores
condições de vida para as famílias excluídas, lançando mais uma semente que veio germinar no
solo do semiárido com suas diversas características: rasos, arenosos, argilosos, pedregosos, de
baixa e média fertilidade e que retém pouca água. Neste ambiente onde, à primeira impressão,
pareça ser inabitável, a semente chamada de Projeto Fecundação já rende frutos. Frutos que
podem ser apreciados ao longo desta publicação.
           O Projeto Fecundação, uma ação pioneira da Cáritas Brasileira, é resultado de um
conjunto de pessoas, identificadas como agentes, voluntários e voluntárias, técnicos e técnicas,
famílias agricultoras, professores e professoras, alunos e alunas, religiosos e religiosas, gestores
públicos, parlamentares, crianças e pessoas idosas. Todos protagonistas deste processo e
fazem da Cáritas Brasileira essa imensa Rede de Solidariedade. São pessoas que habitam no
ambiente semiárido do Estado do Piauí, no território da Serra da Capivara e especificamente
localizadas e radicadas no município de Coronel José Dias. Pessoas que se juntaram com o
compromisso maior da valorização da vida.
           Não se pode esquecer parceiros importantes como o Instituto Regional da Pequena
Agropecuária Apropriada – IRPAA, que repassou toda experiência em assessoria técnica
adquirida no apoio à agricultura familiar no Estado da Bahia, e a Cáritas Alemã que ofereceu
colaboração e aporte financeiro para viabilizar a proposta em todas as etapas do projeto. As
etapas se desenvolveram em oito anos de caminhada, garantindo o acúmulo de um conjunto
de informações que possibilitou a implantação e vivência da proposta de Educação para
Convivência com o Semiárido – ECSA em todo o país.
           Trata-se de um trabalho fincado em quatro eixos de ação: Gestão, Recursos Hídricos,
Produção Agropecuária Apropriada e Educação Contextualizada. Eixos que garantiram a
implantação de processos democráticos e participativos, água de qualidade para o consumo
das famílias, aumento e diversificação da produção de base agroecológica. Tudo através de
processos educativos que começaram pela desconstrução de paradigmas enraizados dentro da
educação formal de combate à seca e pela construção de novas concepções e possibilidades de
convivência com a região semiárida.
           Este trabalho mostra uma boa experiência sobre a convivência com a região semiári-
                                                                                                       O Sonho construído em mutirão
do e as condições criadas com as ações reforçam o debate de Desenvolvimento Sustentável e
Solidário, valorização da cultura, relações familiares e de gênero. Condições que afirmam o
protagonismo das pessoas como cidadãs, parte importante de uma democracia.
           Importante registrar a participação de todas as mulheres protagonistas nesse proces-
so. Elas estão no antes, durante e firmes na continuidade do projeto. Elas são maioria na
educação, como professoras ou mães e passaram a ver e a participar da vida da escola em que
filhos e filhas estudam. Presentes na produção, firmes na geração de renda passaram a produ-
zir os mais variados produtos derivados do Umbu, planta nativa da caatinga e sagrada, segundo
a cultura e os costumes locais.
           A experiência do Fecundação tem o cheiro da terra molhada com as primeiras
chuvas, tem a beleza da caatinga que se torna verde viva com uma gota d’água. Tem a criativi-
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                                       dade de um povo que também se adaptou para crescer e multiplicar. Tem a diversidade de
                                       conhecimentos construídos em mutirão que continua formando consciências. Tem toda uma
                                       gente simples, hospitaleira, que gosta de dançar, que tem valor, que ama seu chão e diz com
                                       segurança “daqui não saio não”.
                                                 Considerando as palavras do compositor João Bosco: “Vida é fazer todo sonho
                                       brilhar”, o Projeto Fecundação fez brilhar o sonho de moradores e moradoras de Coronel José
                                       Dias, pelas mãos de pessoas que acreditaram neste sonho.


                                       Rosângela Ribeiro de Carvalho - Professora da rede pública, ex-assessora do projeto
                                       Fecundação e organizadora desta sistematização

                                       João Evangelista Santos Oliveira - Coordenador do Programa de Convivência com o
                                       Semiárido - PCSA da Cáritas Brasileira Regional do Piauí
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
I




O Sonho
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O projeto de sistematização

                       “Quem não tem desejo não caminha, porque não sonha, não busca o
                                    novo, não muda” (Ana Maria & Susan Chiode, 2002)


          A sistematização da experiência teve início quando a equipe da Cáritas Brasileira
Regional Piauí expressou o desejo de construir um documento que pudesse retratar a expe-
riência, pelo seu caráter de mobilização social e de transformação da realidade.
          Tomando-se então como objeto da sistematização “A experiência do Projeto
Fecundação no município de Coronel José Dias e sua contribuição para a melhoria da convi-
vência com o semiárido”, buscou-se reviver a experiência, recuperando os processos vivencia-
dos a partir do registro dos passos dados pelo projeto, evidenciando a avaliação processual das
ações realizadas e as conclusões sistematizadas, a partir de relatórios e de outros documentos
produzidos pela comissão gestora do projeto e pelo PCSA – Programa de Convivência com o
Semiárido da Cáritas Brasileira Regional Piauí e Secretaria Municipal de Educação.
          A fala das pessoas envolvidas foi registrada numa perspectiva de possibilitar o
confronto dos dizeres de quem faz a experiência e de mostrá-las enquanto protagonistas deste
processo, pelo compromisso de construir novas perspectivas para a realidade em que vivem,
superando preconceitos em torno do semiárido, quebrando paradigmas e vivenciando novas
relações.
          Partiu-se da concepção de que a sistematização resgata os processos de mudanças e
os valores construídos numa determinada experiência, juntando fatos, ocorrências, depoi-
mentos e, sobretudo, sentimentos. “Como produção de saber da experiência, a sistematização
busca identificar as ideias, os sentimentos e as formas de fazer que ela esteja construindo ou
proporcionando aos diversos sujeitos envolvidos”. (SOUZA, 2000, p.35).
          Não se trata aqui de abrir um debate conceitual em torno da sistematização, mas de
evidenciar as referências tomadas para registrar a experiência do Projeto Fecundação, reafir-
mando a proposta de convivência com o semiárido num processo de construção coletiva, que
possibilita, a partir do conhecimento da realidade, refletir sobre suas vivências, valores e
atitudes, promovendo a desconstrução de saberes e fazeres.
                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
          Sistematizar aqui reúne avaliação e pesquisa, à medida que busca revelar nos dados
coletados a investigação do que foi realizado, diante do que foi planejado e ainda, refletir sobre
os resultados alcançados numa perspectiva de revelar as mudanças no modo de vida da
população e dos avanços e desafios encontrados ao longo da experiência.
          Neste sentido, ao fazer o resgate, o documento buscou também dar visibilidade às
ações de convivência com o semiárido, destacando a importância da experiência para o PCSA
desenvolvido pela rede Cáritas.
          Neste processo, foi importante a identificação de mudanças nas relações de gênero e
geração, a partir da implantação do projeto e de outros processos de novas relações em favor
da dignidade humana e do desenvolvimento sustentável.
          Isto só foi possível, a partir do consenso em torno da definição do objeto e do eixo
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                                       central da sistematização, o que possibilitou avançar neste propósito e adotar procedimentos
                                       teóricos metodológicos capazes de revelar o sentimento das pessoas envolvidas, através das
                                       entrevistas individuais e coletivas, que associadas à pesquisa bibliográfica, viabilizaram a
                                       análise documental da experiência.
                                                 Tal análise foi realizada sob um olhar crítico em que os elementos do discurso se
                                       encaminharam para um conjunto de informações que convergiram para um mesmo ponto: a
                                       introdução de novas práticas de convivência superando o paradigma de combate à seca.
                                                 Cada passo da sistematização envolveu diálogos, leituras, reflexão, seleção e muita
                                       emoção: angústias e incertezas diante das dificuldades em coletar as informações necessárias,
                                       mas também contentamento e satisfação pelo dever cumprido e, sobretudo, pelas certezas
                                       reveladas de uma experiência que deu certo e que mudou a vida de muita gente.
                                                Perguntas orientadoras:
                                                1. Em que consiste o Projeto Fecundação? (Objetivos e metas)
                                                2. Quais as linhas de ação desenvolvidas pelo projeto?
                                                3. Que ações foram desenvolvidas?
                                                4. Como as ações desenvolvidas contribuíram para a transformação da realidade do
                                                município?
                                                5. Quem são os protagonistas da experiência?
                                                6. O que pensam as pessoas envolvidas neste processo sobre os impactos do projeto
                                                na vida do município?
                                                7. Qual a compreensão das pessoas envolvidas em relação à mudança de paradigma
                                                no tocante à convivência com o semiárido e o combate à seca?
                                                8. Como as ações do projeto influenciaram nas relações de gênero e geração?
                                                9. O que representa a experiência para o Programa de Convivência com o Semiárido
                                                da rede Cáritas?
                                                10. Como era a vida das pessoas antes da implantação do projeto no município?
                                                11. Em relação às linhas de ação, que mudanças significativas foram efetivadas?
                                                    11.1 - Que mudanças ocorreram na educação do município a partir da ECSA?
                                                    (Organização/estrutura; índices/resultados de aprendizagem...)?
                                                   11.2 - O que representa para o município e para as famílias agricultoras e produto-
                                                   ras a adoção da agricultura e produção apropriada?
                                                12. De que forma pode-se perceber o fortalecimento da participação da sociedade
                                                civil na elaboração, implementação e controle social de políticas púbicas do municí-
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                                                pio?
                                                13. Em que medida as ações desenvolvidas pelo projeto possibilitaram aos partici-
                                                pantes serem protagonistas dessa experiência?
                                                14. Em que o Projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da
                                                região?
                                                Procedimentos Teórico-metodológicos:
                                                1. Antecedentes Históricos
                                                Processo de construção e contextualização do Projeto Fecundação
                                                2. Concepção do Objeto
                                                Os objetivos do Projeto Fecundação, a metodologia e as perspectivas
                                                3. Trabalho de Campo
17

   - Realização de entrevistas individuais e coletivas
   - Construção de Histórias de Vida dos sujeitos da experiência
   - Pesquisa bibliográfica
Procedimentos de análise e interpretação:
Categorias de análise: Convergências e divergências/ Presenças e ausências/
Tendências e associações/ Convivência e combate.
1. Análise documental (relatórios, slides, correspondências, documentários etc.)
2. Análise da experiência dos participantes (entrevistas individuais e coletivas,
depoimentos etc.)




                                                                                    O Sonho construído em mutirão
18




                                       Contextualizando o semiárido
                                                 O semiárido brasileiro é o maior do mundo e se estende por uma área de 975 mil km²,
                                       abrangendo mais de 86% da região nordeste e penetrando no norte do estado de Minas Gerais.
                                       É o semiárido com maior densidade demográfica do mundo. Nessa área vivem cerca de 26
                                       milhões de habitantes em 1.113 municípios, e dela faz parte a maior concentração de popula-
                                       ção rural do Brasil.
                                                 No Piauí a região semiárida abrange 125.692 km² - dos 252.378 km² totais do Estado -
                                       ocupando boa parte do setor central e sul, fazendo fronteira com os estados do Ceará,
                                       Pernambuco e Bahia, e correspondendo a 13,96% da área do semiárido brasileiro. Dados do
                                       Governo do Estado e da Universidade Federal do Piauí (UFPI) dão conta de que dos 224
                                       municípios piauienses, 156 estão localizados na região semiárida, com uma população de
                                       956.617 habitantes.
                                                 No semiárido brasileiro ocorrem uma ou duas estações de chuva, de quatro a cinco
                                       meses de duração. A pluviosidade varia entre 300 e 800 mm/ano. As temperaturas médias
                                       variam de 23 a 39º C, com forte evaporação potencial (mais de 2.000 mm/ano). Estudos
                                       revelam que metade da área da região semiárida é composta por embasamento cristalino, com
                                       acumulação de água apenas nas fraturas, e a outra metade é composta de terrenos sedimenta-
                                       res, com a boa capacidade de armazenamento de águas subterrâneas. Muitas vezes, quando a
                                       água é encontrada no subsolo, através da perfuração de poços, sejam eles tubulares, cacimbões
                                       ou artesianos, trata-se de uma água salobra, de péssima qualidade para o consumo humano e
                                       animal.
                                                 Os longos períodos de escassez de chuvas acontecem principalmente na época do
                                       plantio de arroz, feijão, mandioca e milho, culturas predominantes da região. Estudos mais
                                       recentes concluíram que esse problema agrava-se num ciclo de vinte a vinte anos, caracterizan-
                                       do períodos mais longos de estiagens, as chamadas “grandes secas”. As “grandes secas” são
                                       caracterizadas pelo esgotamento da umidade do solo, fenecimento das plantas por falta de
                                       água, depleção do suprimento de água subterrânea e redução e eventual cessação do fluxo dos
                                       cursos de água.
                                                 O Estado do Piauí é caracterizado por três regimes pluviométricos bem definidos,
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                                       que iniciam no mês de novembro na região Sul e prolonga-se até o mês de maio na região
                                       Norte. Em menos da metade do território piauiense (48,36%), as chuvas são superiores a
                                       1.000mm. Os cursos d’água apresentam regime hidrológico intermitente na estação chuvosa e
                                       permanecem completamente secos após a estação das chuvas, com curvas de recessão atingin-
                                       do rapidamente o ponto zero. O flagelo das secas ocorre quando as chuvas são insuficientes ou
                                       irregulares demais para permitir a produção que assegura a subsistência das famílias do semiá-
                                       rido que, mesmo em anos normais, já vivem em condições limites de pobreza.
                                                 Além de vulnerabilidade climática do semiárido, grande parte dos solos da região
                                       encontra-se degradada. Os recursos hídricos rumam à insuficiência. A água é o fator mais rico
                                       do semiárido, porque é um limitativo tanto da ocupação humana quanto das atividades agrope-
                                       cuárias. Os ecossistemas regionais são frágeis e não estão sento protegidos, pondo em risco a
                                       sobrevivência de muitas espécies de vegetais e animais, criando ainda riscos a ocupação
19

humana, associados, inclusive, a processo em curso, como a desertificação.
           Apesar dessas características gerais, o semiárido brasileiro é uma realidade complexa:
a EMPRAPA identificou cerca de 170 diferentes tipos de sistemas geoambientais (ecossiste-
mas). Essa complexidade exige mudanças nas formas de conceber e intervir nessa realidade. É
possível conviver com o semiárido apesar das fragilidades. Ter muita luminosidade, ter muito
calor e ter baixa unidade são elementos diferenciais para o desenvolvimento da região.
           O semiárido piauiense apresenta grandes potencialidades econômicas e sociais, entre
as quais podem ser mencionadas: solos adequados para práticas agrícolas apropriadas; áreas
sedimentadas com boa disponibilidade de águas subterrâneas; açudes públicos com elevadas
reservas de água; a rica biodiversidade da caatinga na qual se destaca o elevado potencial de
exploração; a agroindustrialização de produtos agrícolas e agropecuários, como a castanha de
caju e o mel da abelha; a irrigação dos vales úmidos, principalmente com a perenização dos rios;
o criatório animal; o turismo ecológico, cultural e religioso; as diversas práticas artesanais; o
extrativismo mineral e a localização de vários centros de pesquisas.
           Mas apesar dessas potencialidades, a região não consegue superar seus péssimos
indicadores sociais e nem autofinanciar seu desenvolvimento econômico, seja pela ausência de
poupança interna, seja pelo elevado déficit da balança comercial. Além desses fatores econô-
micos, a falta de conhecimento adequado do semiárido piauiense levou a introdução de
diversas atividades produtivas – agropecuárias extrativas e industriais – que não apresentam
sustentabilidade ambiental e nem se tornam vantagens competitivas dinâmicas.




                                                                                                    O Sonho construído em mutirão
20




                                       Indicadores sociais
                                       motivadores do projeto

                                                 A pobreza está disseminada por todo o Estado do Piauí e sabe-se que os dez maiores
                                       índices de indigência absoluta são verificados nos municípios mais populosos e que desempe-
                                       nham funções polarizadoras. Utilizando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de
                                       Domicilio (PNAD), realizada pelo IBGE em 1997, a População Econômicamente Ativa
                                       (PEA) do semiárido piauiense foi estimada em 538 mil pessoas, sendo que 41% não auferiam
                                       qualquer rendimento e cerca de 40% recebiam entre R$ 33,00 e R$ 100,00 por mês. Dessa
                                       população trabalhadora, 67% desenvolviam atividades ligadas à agricultura ou atividades afins.
                                                 Nesse contexto, foi possível identificar as principais problemáticas enfrentadas pela
                                       população empobrecida do semiárido: a dificuldade de aceso à água e a alimentos em quantida-
                                       des e com qualidade para o consumo humano, principalmente nos períodos de estiagem
                                       prolongada na região. Esse problema era fruto da estrutura excludente que predomina na área,
                                       baseando na concentração da terra e da água, além da dificuldade de acesso da agricultura
                                       familiar aos meios e recursos necessários a produção agrícola e pecuária.
                                                 A persistência desses problemas por centenas de anos conduz a identificação de suas
                                       causas. A principal delas, certamente, é a forma de intervenção do poder público nessa região.
                                       As políticas públicas são excludentes e inapropriadas ao semiárido, caracterizadas pelo caráter
                                       emergencial fragmentado e descontinuo das ações desenvolvidas nos momentos de calamida-
                                       de pública ocasionadas pelas estiagens prolongadas.
                                                 A intervenção estatal privilegia a construção de grandes obras hídricas que favorecem
                                       principalmente às empreiteiras, à grande propriedade rural e às agroindústrias que desenvol-
                                       vem a agricultura irrigada na região, sem considerar as condições específicas do meio ambiente
                                       e da população. As grandes barragens contribuem para a concentração da água, alagam faixas
                                       de terras cultiváveis, deslocam cidades inteiras e pioram as condições de vida das populações
                                       ribeirinhas que nunca são consideradas nos processos de planejamento. Já as grandes áreas de
                                       produção irrigadas são degradadoras dos ecossistemas do semiárido. Além do desmatamento
                                       para implantação das áreas de produção irrigada, constata-se que a utilização de métodos
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                                       inapropriados de irrigação e a utilização de produtos químicos contribuem para a formação de
                                       áreas desertas no semiárido.
                                                 De modo geral, as práticas agropecuárias (com tecnologias tradicionais e modernas)
                                       utilizadas no semiárido são inadequadas e degradadoras do meio ambiente. As queimadas
                                       desordenadas e uso de defensivos e fertilizantes químicos também ocasionam o empobreci-
                                       mento dos solos, pondo em risco os ecossistemas e a própria vida humana. Isso se deve ao fato
                                       de que a maioria da população do semiárido não tem um conhecimento adequado do seu meio
                                       ambiente, de suas potencialidades e limites e de estratégias de sobrevivência adequadas na
                                       região.
                                                 Além da dificuldade de acesso à água para o consumo humano em quantidade
                                       suficiente, as famílias residentes no semiárido consomem água de péssima qualidade, sem um
                                       tratamento adequado. Esse consumo de água tornou-se uma prática tradicional naturalizada,
21

embora tenha como consequência direta o aumento de inúmeras doenças, com elevados
índices de mortalidade infantil. A dificuldade de acesso à água para o consumo humano e
doméstico, além de ser determinada pela privatização e concentração das águas em grandes
reservatórios hídricos, está diretamente relacionada com uma cultura de desvalorização da
captação, armazenamento e tratamento da água da chuva.
          Diante dessas constatações de principais causas das problemáticas do semiárido,
poderiam parecer fáceis as soluções: tornar as políticas públicas apropriadas à região e promo-
ver a educação para a convivência com o semiárido. No entanto, a sociedade civil não tem
conseguido participar efetivamente dos processos de formulação de políticas públicas para a
região, apesar de ter dado alguns passos importantes nos processos de articulação de entidades
em nível dos Estados e na experimentação e disseminação de alternativas produtivas e de
recursos hídricos adaptados à realidade do semiárido.
          Na maioria dos municípios localizados no semiárido brasileiro, as organizações da
sociedade civil tem tido pouca capacidade de articulação para intervenção e controle social dos
programas implantados a nível local. A dificuldade de participação está relacionada com
diversas causas: a falta de capacitação, a pouca articulação, a fragilidade dos mecanismos de
participação popular (conselhos, fóruns, etc.) e o desconhecimento dos recursos que são
destinados e de como são aplicados. Nesse sentido, é urgente a melhoria na qualidade da
informação e dos canais de comunicação entre governo e sociedade civil, otimizando a difusão
de tecnologias apropriadas ao semiárido.
          No campo político-institucional, apesar dos recentes avanços no processo de demo-
cratização, organização da sociedade e mecanismos de participação social, ainda persistem, na
região do semiárido, práticas clientelistas e outras formas de apropriação privada do Estado. A
capacidade dos organismos públicos em atender com eficiência as demandas sociais é bastante
limitada em decorrência da baixa qualificação dos seus recursos humanos, das deficiências
organizacionais e dos mecanismos de gestão e insuficiências materiais e financeiras.




                                                                                                  O Sonho construído em mutirão
22




                                       Antecedentes históricos da
                                       experiência

                                                  A Cáritas Brasileira é um organismo ligado à Conferencia Nacional dos Bispos do
                                       Brasil (CNBB) que, testemunhando o Evangelho da Esperança de Jesus, compromete-se a
                                       promover e animar o serviço da solidariedade ecumênica libertadora, participar da defesa da
                                       vida, da organização popular e da construção de um projeto de sociedade, a partir dos excluí-
                                       dos e excluídas, contribuindo para a conquista da cidadania plena para todas as pessoas, a
                                       caminho do Reino de Deus.
                                                  A Cáritas tem tido uma presença constante nessa realidade do semiárido brasileiro,
                                       contribuindo com as famílias empobrecidas, através de diversas formas de atuação: na realiza-
                                       ção de campanhas de solidariedade nos momentos emergentes de calamidade pública, que
                                       agravam a situação estrutural de miséria e pobreza na região; no desenvolvimento de ações
                                       permanentes de formação e de apoio às organizações comunitárias; nas iniciativas comunitári-
                                       as de geração e melhoria de renda (com os projetos alternativos comunitários); na dissemina-
                                       ção de técnicas apropriadas de manejo de recursos hídricos; e no apoio efetivo (financeiro e
                                       material) para a construção de pequenos reservatórios de água da chuva, para manutenção,
                                       equipamento e recuperação de mananciais e reservatórios hídricos para abastecimento familiar.
                                                 Nos últimos anos, a Cáritas Brasileira tem tentado desenvolver uma intervenção pró-
                                       ativa na região (atuando sobre as causas dos problemas e não sobre suas consequências) através
                                       da formação para a cidadania, a universalização do acesso à água para o consumo humano e a
                                       produção como elementos estratégicos para melhoria da qualidade de vida na região.
                                                 Entre 1998 e 1999, a Cáritas Brasileira Regional Piauí coordenou a distribuição de
                                       1.100 (mil e cem) toneladas de alimentos para 55 mil famílias (cerca de 275 mil pessoas) que
                                       estavam em situação de calamidade. Foram realizadas ações permanentes de infraestrutura
                                       hídrica, apoiando a construção de 363 cisternas de placas (captação e armazenamento de água
                                       da chuva), equipando 17 poços artesianos, revestindo 12 poços e realizando 02 canalizações
                                       para facilitar o acesso das famílias e comunidades rurais à água para consumo humano. Além
                                       dessas ações diretas, a Cáritas realizou diversas atividades pedagógicas de capacitação de
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                       agentes pastorais e animadores de comunidade, aprofundando o conhecimento da realidade e
                                       das formas de convivência com o semiárido piauiense.

                                                                     QUADRO 01
                                                     AÇÕES DE APOIO DA CÁRITAS PIAUÍ AO ACESSO A
                                                            RECURSOS HÍDRICOS -1999 A 2000
                                        Tipo de ação              Cisternas Valor (R$) Famílias Pessoas Localidade Município

                                        Construção de cisternas      397   181.481,00     409      2.045       34           12

                                        Revestimento e
                                        equipamento de poços         18     41.318,49    5.554    30.000       13           11
23

           O programa de convivência com o semiárido não se resume à construção de cisternas
e outras ações de apoio hídrico e produtivo. As ações político-pedagógicas são prioritárias. Os
processos pedagógicos se referem tanto à disseminação de alternativas viáveis para a convivên-
cia com o semiárido e à realização de campanhas educativas para conhecimento adequado da
realidade, quanto ao respeito aos seus limites e aproveitamento de suas potencialidades.
Anualmente a Cáritas realiza atividades na “Semana da Água” junto com outras entidades, na
oportunidade em que chama a atenção para as diversas dimensões da problemática da água nos
nossos dias e mobiliza a sociedade para apoiar e lutar para que todas as famílias que residem no
semiárido piauiense possam a ter acesso à água de boa qualidade.
           Ainda no aspecto educativo merecem destaque as atividades de formação realizadas
no âmbito do PCSA. Foram realizados os cursos sobre manejo de recursos hídricos, tendo
como temática central “O uso e o tratamento d’água”, atendendo ao publico de todas as
dioceses do Piauí. A realização dos cursos foi de fundamental importância, pois as famílias
rurais ainda possuem muita dificuldade em entender e desenvolver tecnologias alternativas e
apropriadas para a convivência com o semiárido e mais precisamente para o manejo de recur-
sos hídricos. Esses cursos visam à formação de multiplicadores e multiplicadoras para o
desenvolvimento do trabalho na comunidade, na perspectiva de promover e desenvolver a
organização para a convivência com o semiárido.
           No aspecto sociopolítico, a Cáritas Brasileira Regional Piauí teve uma atuação
decisiva para a articulação do Fórum de Convivência com o Semiárido no Piauí (FPCSA). Esse
fórum conta com a participação de outras 12 organizações não governamentais do Piauí que
tem o compromisso político e ações voltadas para a convivência com o semiárido em nosso
Estado, possibilitando as parcerias e convênios que procuram canalizar recursos públicos para
a região, como por exemplo, um convênio firmado entre as ONGs e a SUDENE (Superinten-
dência para o Desenvolvimento do Nordeste), em que a Cáritas participa com a capacitação de
810 pessoas para a construção de cisternas de placas.
           Outra ação significativa do FPCSA ocorreu durante a semana da água em 2000. O
Fórum programou e realizou uma audiência pública na Assembléia Legislativa do Estado para
discutir sobre as políticas públicas para recursos hídricos do Piauí e as alternativas.
Participaram da audiência, representantes da Assembléia Legislativa, Secretaria de Recursos
Hídricos do Estado, SUDENE, COMDEPI, DEFESA CIVIL, Cáritas Brasileira e mais outras
ONGs. Dali resultou um compromisso e abertura por parte da Assembléia para a continuidade
dos debates sobre o tema acima referido.
           A partir dessa experiência em nível estadual, a Cáritas Brasileira Regional Piauí
percebeu que era necessário desenvolver um projeto piloto no âmbito de um município,
                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
possibilitando a integração dos sujeitos e das diversas ações de convivência com o semiárido
(recursos hídricos, produção agrícola e não agrícola, educação, construção de políticas públi-
cas apropriadas, serviços sociais básicos, etc.). A Cáritas acredita que a concentração de ações e
a produção de resultados significativos em um município possam ter uma maior capacidade de
impacto em nível de outros municípios do semiárido e das políticas públicas estaduais e
nacionais.
24




                                       A escolha de Coronel José Dias

                                                 Os processos de discussão foram sendo construídos e, a partir de abril de 2000, a
                                       Cáritas Brasileira Regional do Piauí definiu, pelas condições climáticas da região e pela disponi-
                                       bilidade da equipe regional, implantar o projeto na Diocese de São Raimundo Nonato. Diante
                                       disso, passou-se a analisar as condições dos municípios daquela região para receber as ações do
                                       projeto e, após estudos e reflexões, foi apresentado ao município de Coronel José Dias.
                                                 O município foi escolhido com base nos seguintes critérios: localização no semiárido
                                       com a incidência das problemáticas de convivência com a região; a possibilidade de continuida-
                                       de de ação através de parcerias com organizações da sociedade civil, movimentos sociais e o
                                       governo municipal; a existência de estrutura de apoio (Cáritas Diocesana ou entidade membro,
                                       apoio da Igreja local – paróquia); indicadores socioeconômicos: nível de renda, analfabetismo,
                                       mortalidade infantil e abastecimento de água.
                                                 A elaboração do projeto foi assumida pelos agentes da Cáritas e contou com a
                                       participação ativa de representantes da prefeitura municipal de Coronel José Dias, representan-
                                       tes das organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias das comunidades rurais do
                                       município. As principais atividades realizadas foram: um levantamento de informações em
                                       cada uma das localidades do município, identificando os aspectos sociais e econômicos da
                                       realidade local, as principais problemáticas, potencialidades e expectativas dos moradores e
                                       moradoras daquela região.
                                                 Em setembro de 2000, foi realizado um Seminário Municipal de Planejamento, com a
                                       participação de 95 pessoas, onde foi aprofundado o diagnóstico com a identificação das
                                       potencialidades municipais e os principais problemas enfrentados pelas famílias. Estes eventos
                                       realizados possibilitaram também a identificação de prioridades de ação, a consensualidade de
                                       objetivos e interesses e a afirmação de compromissos entre as diversas organizações partici-
                                       pantes. O seminário municipal, acima citado, foi planejado e realizado conjuntamente pela
                                       Cáritas Brasileira Regional Piauí, Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato, Paróquia de
                                       Coronel José Dias e pelo Governo Municipal que assumiu as atividades de articulação, trans-
                                       porte, alimentação e hospedagem das pessoas participantes, além de oferecer toda infraestru-
                                       tura necessária a realização do evento.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                Objetivos:
                                                A experiência teve como objetivo geral desenvolver um conjunto de ações articuladas
                                       que possibilitassem melhoria das condições de vida das famílias que residiam no semiárido do
                                       município e, a partir dos resultados alcançados, propor políticas públicas apropriadas ao
                                       semiárido nos níveis municipal e estadual.
                                                Objetivos específicos:
                                                    • Viabilizar o acesso a estruturas de captação e armazenamento de água de chuva e
                                                    o aproveitamento sustentável dos mananciais hídricos existentes no município;
                                                    • Favorecer o acesso a recursos e infraestrutura para o desenvolvimento de
                                                    iniciativas produtivas apropriadas ao semiárido favorecendo a melhoria de renda
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            das famílias;
            • Promover capacitação de agentes de desenvolvimento sustentável no município;
            • Fortalecer a participação da sociedade civil na elaboração, implementação e
            controle social de políticas públicas;
            • Garantir a visibilidade e difusão das ações e resultados.
            Assumiram-se também as seguintes diretrizes:
            • Difusão de alternativas;
            • Democratização das políticas públicas;
            • Fortalecimento das parcerias, alianças, articulações e afinidades;
            • Atenção especial às questões de gênero e gerações;
            • Educação para convivência com o semiárido e
            • Manejo adequado dos recursos naturais do semiárido.
          Ao ser apresentado, o projeto foi amplamente discutido pelas pessoas representantes
dos segmentos sociais dos municípios, as quais apresentaram interesse pelo desenvolvimento
das ações propostas.
          Foi esta comissão que cuidou da instalação do projeto e da sensibilização da comuni-
dade. No ano de 2001, após o Seminário de lançamento e apresentação do Projeto Piloto foi
aberto um concurso interno nas escolas da rede municipal para a escolha do nome do projeto.
          FECUNDAÇÃO, o nome escolhido fez jus à proposta de convivência com o
semiárido pela mística que envolve o próprio nome, conforme escreveu Iran Morais de
Oliveira, então coordenador do projeto, representante da Cáritas Diocesana de São Raimundo
Nonato:
                        No projeto Fecundação está a Fé daqueles/as que acreditam em Deus
                        e sabem que as situações que levam milhares de pessoas ao sofrimento
                        [...] não é o projeto que o Deus da vida preparou para os seus filhos e
                        filhas [...].
                        No projeto Fecundação, fecunda é a terra que se prepara, indepen-
                        dente do seu clima, pois guarda potenciais próprios e características
                        só existentes nela, que se bem trabalhados, conduzidos e aproveitados
                        faz fecundar condições de vida. [...] e germinar possibilidades,
                        caminhos que devolvam a confiança e que mudem situações de morte
                        em situações de vida.
                        O projeto Fecundação é promotor de uma AÇÃO libertadora,

                                                                                                  O Sonho construído em mutirão
                        democrática e contextualizada. [...] Ações que comprometem,
                        provocam participação, que respeitam gerações, culturas/saberes e
                        natureza num objetivo comum de promoção da vida. (OLIVEIRA,
                        Iran M. de. In Boletim Projeto fecundação JULHO/AGOSTO
                        2004).
        Foi com esta visão que o projeto deu os seus primeiros passos para efetivação da
proposta de convivência com o semiárido, buscando a promoção da vida e sendo sinal de
esperança construída na partilha e na solidariedade em Coronel José Dias.
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                                       Localizando a experiência

                                                  O município de Coronel José Dias está localizado na mesorregião sudoeste piauien-
                                       se, microrregião de São Raimundo Nonato, no sopé do Parque Nacional da Serra da Capivara,
                                       a 550 km de Teresina – capital do Estado do Piauí –, área de domínio semiárido. Seus limites
                                       territoriais abrangem ao norte, o município de João Costa; ao sul, o Estado da Bahia e o
                                       município piauiense, Dirceu Arcoverde; A leste, o município de Dom Inocêncio e a oeste, os
                                       municípios de São Raimundo Nonato e São Lourenço do Piauí. Foi instalada no ano de 1992.
                                                  A população total do município é de 4.484 de habitantes, de acordo com o Censo
                                       Demográfico do IBGE (2009). Sua Área é de 1822 km² representando 0,7244 % do Estado,
                                       0,1172 % da Região e 0,0214 % de todo o território brasileiro. Seu Índice de Desenvolvimento
                                       Humano (IDH) é de 0,58 segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano/PNUD (2000). É
                                       fortemente concentrada na área rural (81%) do município que conta com a densidade demo-
                                       gráfica de 2,15 hab/km². A População Economicamente Ativa (PEA) atinge 55% da popula-
                                       ção total.
                                                  Do ponto de vista social, o município apresenta indicadores compatíveis com os
                                       registrados na área do semiárido piauiense. No aspecto da saúde, constatava-se que as princi-
                                       pais doenças que acometiam a população local eram as diarréias, as infecções respiratórias e as
                                       verminoses. Uma das causas da diarréia era a água consumida e a falta de saneamento adequa-
                                       do nas localidades rurais e na sede do município.
                                                  O setor educacional apresenta uma rede de ensino formada por 41 unidades, sendo 3
                                       na sede do município e 38 na zona rural. O acesso ao ensino fundamental é garantido à popula-
                                       ção na faixa etária correspondente, com um índice de 11,37% de evasão escolar ao longo do
                                       período letivo. O analfabetismo atinge 39% da população total, sendo que o analfabetismo da
                                       população com mais de 15 anos é de 31%.
                                                  A base econômica do município é a agricultura de subsistência, com destaque para o
                                       milho e feijão, e a pecuária de pequeno porte, com a criação de caprinos, ovinos e aves, além a
                                       criação de abelhas. A vegetação de caatinga, com a predominância da favela, o angico e o
                                       marmeleiro, favorece a criação de caprinos. As floradas existentes nas proximidades da Serra
                                       da Capivara favorecem a apicultura, com uma significativa produção de mel.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                  No município, há a predominância da agricultura familiar com base em pequenas
                                       propriedades rurais. O levantamento de dados realizados pela Cáritas nas localidades do
                                       município constatou a seguinte distribuição da população por situação ocupacional: a agricul-
                                       tura familiar desenvolvida em mini e pequenas propriedades predominam na maioria dos
                                       casos, seguida por famílias sem terra (diaristas, meeiros e parceiros) e assalariados e assalariadas
                                       (maioria do setor público).
                                                  O mesmo levantamento constatou que as principais fontes de renda identificadas no
                                       município são: a produção agrícola e pecuária, 48%, a aposentadoria de pessoas idosas, 41%, a
                                       ajuda de familiares ausentes, 7%; e o emprego público, 4%. Foi constatada também a faixa de
                                       renda da população: até ½ salário mínimo, 39%; mais de ½ até 1 salário mínimo, 58%; e entre 1
                                       a 2 salários mínimos, 3%.
                                                  As famílias que desenvolvem a agricultura familiar tinham grande dificuldade de
27

acesso às condições necessárias para desenvolver a atividade agrícola: a falta de crédito (custeio
e investimento, a assistência técnica, sementes, transporte para o escoamento de produção).
Os preços dos produtos eram baixos, estando a comercialização dependente do mercado
atravessador.
          Coronel José Dias é ladeado por serras, pelo lado oeste, com destaque para a Serra da
Capivara, onde está situado o Parque Nacional Serra da Capivara, Patrimônio Cultural da
Humanidade. O Parque Nacional está localizado em quatro municípios piauienses, sendo que
maior parte fica no município de Coronel José Dias, abrigando os mais importantes Sítios
Arqueológicos e as duas áreas de maior atração turística, que são o Desfiladeiro da Serra da
Capivara e a Pedra Furada.
          Por ser a porta de entrada para o Parque, o município de Coronel José Dias é dotado
de grande potencial para o Ecoturismo, embora não haja investimentos suficientes nesta área
capazes de equiparar a infraestrutura do município às condições de cidade turística.
Atualmente é o município vizinho, São Raimundo Nonato, que explora o ecoturismo cultural
com localização de um hotel, um Museu e fundações culturais. No entanto uma das entradas
do Parque tem acessos pela sede de Coronel José Dias, através da localidade Sitio do Mocó.
          Há também na sede do município uma pequena indústria cerâmica (telhas e blocos) e
um setor comercial bastante precário, atingindo apenas uma pequena parte da população. Esta
base econômica, no entanto, não tem sido o suficiente para a manutenção dos serviços públi-
cos no município. A administração do município é totalmente dependente do repasse de
recursos dos governos Estadual e Federal.
          Localizado em pleno semiárido piauiense, um dos principais problemas enfrentados
pela população local são as estiagens que agravam a precária situação de sobrevivência da
maioria das pessoas. O levantamento realizado pela Cáritas constatou as principais consequên-
cias desses períodos:

                                           QUADRO 02
                                   CONSEQUENCIAS DAS ESTIAGENS

                                   Tipo de consequência*                                      %
  - Falta de água para o consumo humano                                                       76
  - Falta de água para os rebanhos                                                            60
  - Dificuldade de acesso a alimentos para a família                                          60
  - Dificuldade de acesso a alimentos para os animais                                         67
  - Perda total das lavouras                                                                  60
                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
  - Perda parcial das lavouras                                                                24
  - Falta de trabalho                                                                         24
* Questão de múltiplas respostas: as pessoas entrevistadas indicavam até três consequências



         O acesso à água de boa qualidade é uma das dificuldades presentes não apenas nos
momentos de estiagem prolongada. O levantamento constatou que as principais fontes de
abastecimento de água da população das áreas rurais do município não eram adequadas.
28

                                                                 GRÁFICO 01
                                                ORIGEM DA ÁGUA UTILIZADA PELAS FAMÍLIAS DAS
                                            LOCALIDADES RURAIS DO MUNICÍPIO DE CORONEL JOSÉ DIAS


                                                                           Poços
                                                                           16%
                                                                                                   Cacimbas
                                                           Cisternas
                                                                                                   44%
                                                           17%


                                                                         Barragens
                                                                         23%




                                                 A dificuldade de acesso à água de boa qualidade para o consumo humano deve-se à
                                       escassez dos recursos hídricos no município. O território municipal é cortado pelos rios Piauí e
                                       São Lourenço e pelos riachos Mulungu, Lagos e cavaleiros. No entanto, estes rios e riachos são
                                       todos intermitentes e sofrem com o assoreamento e outros danos provocados nas suas
                                       imediações.
                                                 No que se refere às águas subterrâneas, constata-se que o solo cristalino dificulta a
                                       obtenção de água de boa qualidade através da perfuração de poços. Na maioria dos poços
                                       perfurados a água é salobra, imprópria para o consumo humano. No entanto, a 30 km do
                                       município encontra-se uma área sedimentar com água boa em abundância. Apenas um poço
                                       tinha água de boa qualidade servindo para o abastecimento da sede do município, que conta
                                       com um sistema de abastecimento através de dois chafarizes e carros pipas, sendo distribuída à
                                       população sem nenhum tratamento.
                                                 O município conta com pequenas barragens e açudes que favorecem o abastecimen-
                                       to de água para as famílias e pequenos rebanhos. A maioria destes barramentos demora pouco
                                       tempo com água, tendo em vista a rapidez e intensidade da evaporação, além de estarem
                                       assoreados, precisando urgentemente de reformas nas suas estruturas.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                 Nos períodos em que a chuva atrasa, a escassez de água se torna ainda mais grave,
                                       sendo preciso o transporte de água da barragem Petrônio Portela, localizada no município de
                                       São Raimundo Nonato, através de carros pipas. No período de estiagem prolongada, as
                                       principais formas de abastecimento são: carro pipa (64%) e os animais de carga (27%). O
                                       levantamento constatou também que as mulheres carregavam água das fontes para as residên-
                                       cias, andando longas distâncias.
                                                 Com a fragilidade desses mananciais hídricos acima apresentados, uma das possibili-
                                       dades apropriadas para acesso à água de boa qualidade no município é a captação e armazena-
                                       mento de água da chuva. De acordo com o quadro 04, a quantidade de chuvas varia de 460 a
                                       850 milímetros/ano, com uma média anual de 580 mm. As chuvas estão concentradas no
                                       período de dezembro a março, sendo irregularmente distribuídas a cada ano, o que dificulta
                                       significativamente as práticas agrícolas.
29

                           QUADRO 03
       MEDIDAS PLUVIOMÉTRICAS NO MUNICÍPIO DE 1994 A 1998 (mm)

Ano/mês            jan       fev      mar       abr       mai       jun       jul     ago       set      out      nov        dez      Total
 1994              78       124       175       30,1        -         -        -        -         -        -         -       8,3          463,4
 1995              52       131       33         72        32         -        -        -         -       42        42       107           569
 1996               -       96        229       106         -         -        -        -         -        -         -       84            542
 1997              218      75        374        66         -         -        -        -         -       57        57       21           855,5
 1998              129      148       30          -         -         -        -        -         -        -         -       199          505,6
Fonte: Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Recursos Hídricos. Banco de Dados Pluviométricos do Departamento de Hidrometeorologia


          Nos últimos anos, através do incentivo da Cáritas, tem sido implantadas cisternas
com sistema para captação de água da chuva nas residências localizadas no meio rural. A
prefeitura tem incentivado e apoiado esta iniciativa, favorecida pela captação de recursos do
Programa de Combate à Pobreza Rural – PCPR (Governo do Estado e Banco Mundial), tendo
sido construídas mais de 300 cisternas.
          O levantamento de informações realizado pela Cáritas em setembro de 2000 consta-
tou que as famílias residentes nas localidades que tiveram acesso às cisternas ressaltam as
seguintes melhorias: garantia do acesso e a qualidade da água consumida; aumento do tempo
disponível para outras atividades (antes ocupado para carregar água de longas distâncias); a
redução de doenças e a diminuição da dependência política das famílias em relação ao forneci-
mento de água (acesso a reservatórios, carros pipas etc.). No entanto, há o reconhecimento de
que esta quantidade de cisternas construídas é insuficiente para atender as demandas locais.
          O enfrentamento destas problemáticas acima apresentadas deve contar com a
participação de todos os setores sociais do município. O levantamento constatou que em
Coronel Jose Dias já existia um potencial organizativo que podia ser valorizado. Além do
Sindicado dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) existem cerca de 20 associa-
ções comunitárias e de pequenos trabalhadores e trabalhadoras rurais espalhadas pelo municí-
pio. A juventude participa com maior intensidade dessas organizações locais, tendo assumido a
liderança de algumas delas. O município também conta com alguns conselhos de gestão de
políticas públicas: saúde, educação, assistência social e desenvolvimento rural.
          Em duas das localidades pesquisadas já ocorria mobilização da população em busca
de soluções e atendimento de suas necessidades nos períodos de estiagem. Esta participação é
maior quando induzida, como é o caso de onze organizações comunitárias que afirmam ter
participado das atividades e planejamento das Frentes de Trabalho criadas no município, em
                                                                                                                                                  O Sonho construído em mutirão
1998.
          Outro exemplo deste potencial pôde ser medido pela participação de todas as
associações e de outras organizações locais na construção do projeto. No seminário realizado
em setembro de 2000, no município, os participantes identificaram estas problemáticas, mas
também reafirmaram a convicção de que é possível conviver com o semiárido, aproveitando de
modo sustentável suas potencialidades, com o uso de tecnologias de manejo de recursos
hídricos e de produção apropriada a esta realidade. O Quadro 04 expressa a opinião de quem
participa das associações comunitárias sobre as principais ações para conviver com a qualidade
de vida no semiárido.
30


                                                               QUADRO 04
                                          PRIORIDADES DE AÇÕES DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO

                                             Tipos de ações                                                   n.   %
                                       1 - acesso à água para abastecimento familiar, criações de animais e
                                       pequenas plantações:                                                   33   100
                                       - Cisternas                                                            18   54
                                       - Restaurar açudes e barragens                                         06   18
                                       - Perfurar e equipar poços                                             04   12
                                       - Construir barreiros e cacimbas                                       03   09
                                       - Tratar a água                                                        02   06
                                       2 - Produção agrícola                                                  14    42
                                       - Produção de alimentos (culturas de sequeiro)                         07    18
                                       - Culturas permanentes: caju, mamona, palma                            05    15
                                       - Beneficiamento da produção agrícola                                  02    06
                                       - Acesso a sementes apropriadas                                        01    03
                                       3 - Apoio à produção pecuária                                          20   61
                                       - Criação de caprinos e ovinos                                         08   24
                                       - Melhoria de rebanhos                                                 06   18
                                       - Criação de abelhas (apicultura)                                      03   09
                                       - Beneficiamento da produção de mel                                    03   09
                                       4 - Apoio às atividades agrícolas e pecuária                           12   36
                                       - Assistência técnica                                                  04   12
                                       - Uso de tecnologias apropriadas                                       02   06
                                       - Crédito para produção                                                02   06
                                       - Capacitação                                                          03   09
                                       - Organizações comunitárias                                            01   03
                                       5- Outras iniciativas de geração de renda                              09   27
                                       - Setor turístico                                                      03   09
                                       - Artesanato                                                           06   18
                                       6- Serviços sociais Básicos                                            05   15
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
II




A Construção
     Diretrizes Gerais do PCSA
33




Projeto Piloto de Coronel José Dias

           Conforme o Quadro 04 apresentado sobre a realidade do semiárido brasileiro, onde
foram destacados alguns dos principais problemas enfrentados pelas famílias e comunidades
empobrecidas da região, a Cáritas Brasileira Regional Piauí deu continuidade e ampliou a
intervenção nessa realidade, através de um projeto piloto voltado para a convivência harmôni-
ca e com qualidade de vida no semiárido brasileiro de acordo com os princípios do desenvolvi-
mento humano sustentável.
           Tratou-se de uma intervenção pró-ativa que precisou alguns princípios ou diretrizes
gerais orientadores dos objetivos a serem alcançados, bem como das atividades a serem
realizadas:
           a) Difusão de alternativas: a capacidade de transformar o alternativo em alterativo, ou
seja, a visibilidade do programa, a publicização e a disseminação de ações significativas que se
tornem referencias para a população local e para a formulação de políticas públicas apropria-
das à realidade do semiárido. Tomar como referência os impactos de implementação de
alternativas permanentes de convivência com o semiárido;
           b) Democratização das políticas públicas: aumento das capacidades organizativas,
fortalecimento das organizações comunitárias, desenvolvimento de conhecimento e do
controle e monitoramento das informações referentes ao semiárido e a aplicação de recursos
públicos. Inserir na agenda governamental um planejamento pró-ativo com a interiorização do
desenvolvimento e investimentos em infraestrutura social e econômica;
           c) Fortalecimento das parcerias, alianças, articulação e afinidades entre os diversos
órgãos da sociedade civil e do estado (nas esferas municipal, estadual e federal) que atuam na
região para realizar ações conjuntas que promovam impactos sociais e ambientais sustentáveis
em nível da região semiárida. Combinar ações para potencializar recursos e esforços;
           d) Atenção especifica às questões de gênero e gerações presentes no semiárido,
reconhecendo suas especialidades e buscando enfrentar processos culturais de exclusão, como
garantia de democratização e sustentabilidade das ações previstas no presente programa,
acesso das mulheres e jovens a programas de crédito e nos conselhos de políticas públicas;
           e) Educação para a convivência com o semiárido: ampliação das capacidades educa-
cionais (alfabetização, ensino básico para pessoas jovens e adultas, formação profissional e
                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
assistência técnica); valorização de conhecimentos básicos de convivência com a região;
geração e difusão de informações;
           f) Manejo adequado dos recursos do semiárido (hídricos e produtivos): busca
permanente de informações e monitoramento das previsões de seca; conservação, uso
sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais; uso de tecnologias apropriadas;
fortalecimento da agricultura familiar; garantia de segurança alimentar; universalização do
abastecimento de água para consumo humano; acesso ao crédito e canais de comercialização;
estímulos a unidades de beneficiamento da produção e empreendimentos não-agricolas.
34




                                       Educar para Conviver

                                                 O problema da água no mundo tem no semiárido um agravamento maior, pois se
                                       trata de uma realidade onde a água disponível é escassa combinada com a falta de políticas
                                       públicas apropriadas ao uso sustentável dos recursos disponíveis, bem como a construção de
                                       obras hídricas capazes de abastecer toda a comunidade.
                                                 Se por um lado a ação política do Estado brasileiro em todos os níveis não tem sido
                                       capaz de solucionar este problema, por outro lado, a população não tem encontrado formas
                                       para sair da acomodação e mudar essa realidade. Então, faz-se necessário criar novos hábitos,
                                       rompendo com velhos costumes que só contribuem para a perpetuação da situação de mendi-
                                       cância em que vive maioria da população do sertão, agravadas em épocas de estiagem.
                                                 Torna-se, portanto, necessário e urgente investir na educação e mais ainda, em uma
                                       educação de qualidade e contextualizada na região.

                                                                Investir em educação é um dos passos mais decisivos para a superação de tal
                                                                realidade: os dados indicam que cada quatro anos de estudo da mãe
                                                                corresponde à redução de 20 pontos na pobreza das crianças e adolescentes
                                                                [...] (CARVALHO, 2004: 21).

                                                 Viver melhor no semiárido significa conhecer melhor a realidade, perceber as suas
                                       fragilidades e a sua viabilidade no jeito de plantar, de criar, de produzir e de lidar com os
                                       recursos disponíveis na região e estabelecer novas formas de se relacionar com o meio ambiente.
                                                 A convivência com o semiárido consiste em aproveitar as potencialidades da região e
                                       transformá-las em novas perspectivas de vida. Existem plantas e animais que se adaptam
                                       melhor ao clima e à vegetação, assim como o beneficiamento de frutos e a captação da água da
                                       chuva propiciam melhor desenvolvimento e renda para as comunidades e, consequentemente,
                                       para o município.
                                                 É preciso investir na educação, porque é através desta que a população se apropriará
                                       de novas técnicas de criação, plantação, produção e de conhecimento da realidade.
                                       Desenvolvendo estas experiências alternativas, estará contribuindo “para uma convivência
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                                       mais solidária e sustentável com a região semiárida e com o meio ambiente em geral” (BRAGA,
                                       2004:28).
                                                 Isto terá um impacto grandioso na vida das pessoas no que se refere à valorização do
                                       lugar onde vivem e de si mesmas, enquanto pessoas capazes de mudar a realidade, evitando que
                                       as famílias se desagreguem pela busca de melhores condições de vida em outros lugares. Sabe-
                                       se que, “quando os trabalhadores do semiárido não conseguem produzir nem para comer ou
                                       dar comida aos seus animais, eles migram. Vão para outra região à procura de uma vida
                                       melhor” (LIMA &ABREU, 2005:15)
                                                 As condições de melhoria de vida estão no próprio lugar onde se vive. Basta acreditar
                                       em uma vida possível no semiárido a partir de um novo olhar para a realidade e um novo jeito
                                       de se viver, rompendo com a tradição do combate à seca e aprendendo a conviver com ela,
                                       numa perspectiva superadora das velhas práticas e instalação de novas capazes de garantir
35

qualidade de vida.
          A Educação para a Convivência com o Semiárido não é apenas uma ação social em
que as pessoas interagem entre si e vão passando novos conhecimentos informalmente. Esta
ação é necessária, mas não é suficiente. A escola será palco de novas práticas também, à medida
que, assuma a responsabilidade em difundir esta nova proposta, adotando metodologias
apropriadas e, sobretudo, que possibilite a construção de novos conhecimentos pautados na
realidade onde vivem.
          A educação escolar deve promover uma releitura da realidade do semiárido e contex-
tualizar o ensino de modo a se construir a convivência como um novo referencial para a região,
contribuindo para que as pessoas deste lugar aprendam a conviver consigo mesma, com as
outras pessoas e com o meio ambiente. Uma ação pedagógica efetiva poderá redimensionar a
relação sociedade-natureza e assim transformar um destino coletivo e um círculo vicioso de
degradação ambiental e pobreza em um espaço da vida e do aconchego. (BRAGA, 2004: 83- 84)
          A proposta de educação para a convivência com o semiárido está associada a um
projeto de sociedade onde se promova a dignidade humana, através de relações ecologicamen-
te saudáveis, economicamente justas e socialmente livres, condições necessárias para o desen-
volvimento sustentável, que está diretamente ligado ao atendimento das necessidades huma-
nas, sem causar prejuízos ao meio ambiente.
          Eis o grande desafio: conviver com o semiárido, a partir do conhecimento da realida-
de, das condições climáticas da região, do respeito à biodiversidade e da preservação do meio
ambiente, e criar condições de sustentabilidade econômica, social e ecológica dos seres ali
existentes.


Eixos de Atuação
        A partir das diretrizes, a Cáritas e as parcerias de elaboração e gestão do projeto,
seguindo a máxima de Educar para Conviver, decidiram delimitar os seguintes eixos de ação:
         •   Gestão
         •   Recursos Hídricos
         •   Produção Agropecuária Apropriada
         •   Educação Contextualizada

          Para cada eixo foi desenvolvida uma política de capacitação, que se constitui também

                                                                                                  O Sonho construído em mutirão
na formação de agentes multiplicadores e multiplicadoras da convivência com o semiárido nas
comunidades envolvidas no projeto. Embora professores e professoras assumam esta função
de forma mais intencional nas escolas onde trabalham a proposta de Educação
Contextualizada.
          Assumindo a dinâmica de intervenção na realidade a partir destes eixos, o Projeto
Fecundação conseguiu promover a discussão e, ao mesmo tempo, realizar as ações, integrando
campo e cidade e envolvendo homens e mulheres, crianças e jovens numa mesma perspectiva:
tornar melhor a vida em Coronel José Dias e proclamar as potencialidades do semiárido
brasileiro.
          Perpassando as ações desenvolvidas nos eixos de ação, buscou-se também trabalhar
as questões de gênero e geração, partindo do entendimento de que as relações “verticalizadas”
36

                                       e “patriarcais” são uma herança que se configura nas relações familiares e sociais de hoje. Desta
                                       forma, nos momentos de formação, esta temática buscou seu lugar na medida em que oportu-
                                       nizava questionamentos e reflexões quanto às relações de gênero e geração, promovendo-se
                                       um recorte, sobretudo em relação às condições da mulher.
                                                 Neste processo se entrelaçam questões sociais, culturais e de cidadania, com foco na
                                       política local, numa perspectiva de empoderamento das pessoas excluídas não somente de
                                       políticas públicas, mas também do poder de decisão.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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Gestão

          Na maioria dos municípios localizados no semiárido brasileiro, as organizações da
sociedade civil tem tido pouca capacidade de articulação para intervenção e controle social dos
programas implantados em nível local. A dificuldade de participação está relacionada com
diversas causas: a falta de capacitação, a pouca articulação, a fragilidade dos mecanismos de
participação popular (conselhos, fóruns, etc.) e o desconhecimento dos direitos, dos recursos
que são destinados e de como são aplicados. Nesse sentido, é que o Projeto Fecundação
trabalha o eixo Gestão: na perspectiva de empoderamento das pessoas, buscando a autonomia
e a sustentabilidade das ações desenvolvidas.
          O desafio de se constituir/construir uma gestão compartilhada do projeto foi
vivenciada desde o início da “gestação” do Projeto Fecundação. Segundo LÜCK (2001), o
próprio conceito de gestão já nos remete a uma idéia de participação, de um trabalho coletivo
de análise/reflexão sobre determinada situação que permite uma tomada de decisão sobre
como agir. Parte-se do princípio de que o sucesso de determinada proposição depende de uma
decisão conjunta do grupo envolvido, de forma recíproca, gerando um “todo” guiado por uma
“vontade coletiva”.
          Deste modo, buscou-se uma organização capaz de se responsabilizar pela execução e
animação do projeto e que fosse capaz de refletir e decidir de forma coletiva, sobre o processo
de construção das ações. Partiu-se da compreensão de que a gestão é um compromisso
coletivo do FAZER – REFLETIR – REFAZER.
          Para este exercício foi composta a comissão gestora do projeto fecundação, concebi-
da de forma a proporcionar a todas as pessoas envolvidas na experiência a apropriação de
saberes e fazeres no processo de execução da proposta. A comissão gestora do projeto fecun-
dação, desde a sua implantação no município foi composta por representantes da Cáritas
Diocesana de São Raimundo Nonato, da Igreja local, do sindicato dos trabalhadores, trabalha-
doras rurais e do poder público municipal. Figurando da seguinte forma:
         • 01 representante da Cáritas Regional
         • 01 representante da Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato
         • 01 representante da Prefeitura Municipal

                                                                                                  O Sonho construído em mutirão
         • 01 representante da Igreja
         • 01 representante do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
         • 02 representantes das associações de produtores e produtoras (um dos quais deveria
         ser, necessariamente, uma mulher)
          Essa comissão gestora foi instituída com atributos de deliberação em algumas ações
do programa: aprovação de projetos de recursos hídricos e produtivos apresentados pelas
associações; monitoramento do projeto; definição da aplicação de recursos da partilha solidá-
ria; mobilização de recursos locais e em outros níveis para a efetivação das ações previstas.
          Foi instalado no município um escritório do projeto fecundação para atender às
demandas latentes e dar suporte às ações previstas, promovendo a coordenação, a administra-
ção das ações e o apoio técnico de modo a viabilizar o planejamento e a execução do projeto.
38

                                                 Contratou-se inicialmente um técnico agrícola, sob a responsabilidade da prefeitura
                                       municipal, e um auxiliar técnico administrativo que viabilizaria o contato com os grupos
                                       organizados, conforme as ações. Estes profissionais faziam parte da comissão gestora e se
                                       responsabilizaram pelo processo de acompanhamento das ações que vinham sendo desenvol-
                                       vidas, inclusive as reuniões da comissão.
                                                 A gestão do projeto adotou a estratégia de PMA – Planejamento, Monitoramento e
                                       Avaliação para melhor acompanhar o desenvolvimento das ações. Foram realizadas duas
                                       oficinas de PMA com o objetivo de propiciar espaço de análise e planejamento do processo de
                                       implantação do projeto no município e de compreender esta ferramenta como estratégia de
                                       acompanhamento das ações, numa perspectiva de superar as fragilidades, a partir do exercício
                                       da avaliação, do monitoramento e do (re)planejamento das ações.
                                                 Para possibilitar esta dinâmica, foram criados Grupos de Trabalho (GT), como
                                       forma de contribuição no acompanhamento das ações planejadas. Participam dos grupos
                                       pessoas que, de uma forma ou de outra, tem interesse pelas ações do projeto e indicadas pelos
                                       membros da comissão gestora. O grande objetivo dos GTs é discutir e aprofundar as temáticas
                                       e garantir as condições e estratégias para a execução das atividades de cada eixo do projeto.
                                                 Foram constituídos os seguintes grupos:
                                                • GT de Educação;
                                                • GT de Produção;
                                                • GT de Recursos Hídricos;
                                                • GT de Gestão.
                                                Foi definido também o papel dos membros dos GTs:
                                                • Organização das atividades de acordo com o planejamento
                                                • Reuniões de trabalho para execução das atividades
                                                • Contatos com as entidades parceiras para a gestão do projeto
                                                • Participação nas reuniões ampliadas da Comissão Gestora e dos encontros de PMA
                                                • Elaboração do relatório anual de atividades do GT
                                                • Assiduidade e compromisso com as ações do projeto de ECSA

                                                                   QUADRO 05
                                                 ATIVIDADES NA EXECUÇÃO DO PROJETO FECUNDAÇÃO
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                 Atividade                                   Detalhamento
                                        • Reuniões mensais da        As reuniões são espaços de discussão e controle das ações e o
                                        comissão gestora             momento de reflexão e definição de ações estratégicas de acordo
                                                                     com a necessidade.

                                        • 04 oficinas de PMA         Os encontros de PMA ocorreram entre os anos de 2001 a 2004
                                                                     com o objetivo de Propiciar espaços de análise e planejamento do
                                                                     processo de implantação e de desenvolvimento do projeto.

                                        • Reuniões com               Os grupos de trabalho foram criados para darem suporte às ações
                                        coordenações dos Grupos      e promover o acompanhamento a cada eixo.
                                        de Trabalho da comissão
                                        gestora.
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           Atividade                                     Detalhamento
 • Inauguração da sede do     A sede foi inaugurada em dezembro de 2001 e seu funcionamento é
 projeto cedido pelo poder    uma parceria com o poder público local.
 público

 • Participação de membros    Atividade de mobilização social
 das comunidades em
 eventos externos

 • 01 Encontro de avaliação   A avaliação é parte do processo de apropriação das ações do
 trienal do projeto           projeto com o objetivo de alimentar o planejamento

 • 01 Oficina de teatro com   Realizada em maio de 2006 com o objetivo de envolver os jovens,
 a juventude                  alunos das escolas a se sensibilizarem com as técnicas teatrais e
                              trabalhar as temáticas do semiárido através do teatro

 • Visitas a parques e        Com o objetivo de envolver a comunidade no ambiente semiárido
 experiências                 local, a partir da realidade de preservação e do potencial turístico da
                              região.

 • Confecção de 250           As cartilhas foram distribuídas nos momentos de formação
 cartilhas sobre educação     promovidos nos eixos de ação.
 para convivência com o
 semiárido.

 • Grito das pessoas          Realizado no dia 07 de setembro de 2005, teve como principal
 excluídas                    objetivo envolver a classe estudantil e a sociedade em busca de
                              conhecimentos sobre este ato cívico e manifestarem os seus direitos
                              através de reivindicações.

 • Cursos de pintura em tela Com a duração de nove meses, os participantes aprenderam a pintar
                             utilizando várias técnicas, desenvolvendo um potencial maior em
                             pintura em tela, tendo como base o semiárido nordestino.

 • Capacitação de jovens em O curso foi ministrado pelo SEBRAE e destinado a guias turísticos,
 atendimento do turismo     em 2006, com o objetivo de capacitar 25 jovens como agentes
                            multiplicadores do potencial turístico da região.

         Além disso, foram realizadas atividades voltadas para as questões ambientais na                O Sonho construído em mutirão
semana do meio ambiente. O Projeto Fecundação confeccionou 1.000 folderes com algumas
dicas sobre água, lixo e fauna e apoiou a realização de concurso de coleta seletiva de lixo,
gincanas com temas ambientais, palestras educativas sobre fauna, flora, caça predatória,
patrimônio histórico e reciclagem de lixo, promovidas pela Secretaria do Meio Ambiente.

O PMA do Fecundação

          Compreendemos que o processo desencadeado pelo PMA possibilita perceber
significado da experiência para os sujeitos envolvidos e para a comunidade, ao tempo em que
40

                                       possibilita qualificar as ações desenvolvidas rumo aos objetivos propostos no projeto.
                                                 Partiu-se da compreensão elementar de que o PLANEJAMENTO é o detalhamento
                                       das ações a serem desenvolvidas, o MONITORAMENTO é o acompanhamento das ações,
                                       através de registros e informações, e a AVALIAÇÃO é a validação das ações, conforme
                                       pensadas e, na medida em que permite analisar as falhas e as potencialidades, possibilita um re-
                                       planejamento rumo aos objetivos propostos.
                                                 Conhecer os passos metodológicos a serem dados é a primeira ação que desencadeia
                                       a aplicação da metodologia no trabalho a ser desenvolvido, por isso a realização das oficinas,
                                       num exercício teórico-prático que permite, ao mesmo tempo, apropriar-se da ferramenta PMA
                                       e exercitá-la dentro do projeto.
                                                 O ato de planejar já é uma ação que faz parte do nosso cotidiano, se vamos sair de
                                       casa, planejamos o que fazer, se ficamos, também planejaremos o que será feito e com que
                                       propósito. Neste sentido, definimos o planejamento como uma tomada de decisão compro-
                                       metida com as expectativas que temos de algo a ser realizado e com os resultados que ela deve
                                       gerar.
                                                 Na concepção adotada pelo projeto fecundação, o planejamento é uma ferramenta
                                       de intervenção da realidade, na medida em que pressupõe inicialmente a análise da realidade
                                       para que se possam identificar os problemas nela existentes e refletir sobre a nossa capacidade
                                       de intervir. Um problema é sempre algo que incomoda, é uma situação indesejável. O desejo de
                                       mudar a realidade nos faz planejar e isso exige: definir objetivos, traçar metas e propor ações.
                                                 Definir OBJETIVOS é uma forma de antecipar os resultados e processos esperados
                                       de um plano de ações. As METAS são mais sólidas e são mensuráveis e por isso mesmo são
                                       expressas quantitativamente, estabelecendo prazos para não se perder de vista os resultados, de
                                       modo que os objetivos possam ser atingidos. As AÇÕES são as mudanças a serem realizadas e
                                       estão intrinsecamente ligadas às metas a serem alcançadas.
                                                 Um plano de ação contempla outros elementos que traduzem o planejamento, o
                                       processo de reflexão e de tomada de decisão, que estão interligados entre si, de modo a expres-
                                       sar o desejo de mudança.
                                                 Convém destacar que o planejamento feito com o propósito de intervir, necessaria-
                                       mente o caráter participativo se evidencia enquanto espaço privilegiado de discussão e tomada
                                       de decisões. Vale ressaltar que todo processo de planejamento envolve escolhas, decisões e
                                       responsabilidades, permitindo o surgimento de questões como: O que fazer? Por que fazer?
                                       Como fazer? Quando fazer? Quem irá fazer? Quem se responsabilizará pelos seus resultados?
                                                 O monitoramento é feito a partir das informações colhidas durante o processo de
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                                       aplicação do planejamento. É uma ferramenta utilizada para reconhecer as mudanças que estão
                                       sendo implementadas, através do registro de observações e de dados que irão subsidiar a
                                       avaliação e o re-planejamento. Importante ainda que estes instrumentais possam estabelecer
                                       uma relação direta com os indicadores de resultados, definidos também no processo de
                                       planejamento, desse modo é que o monitoramento busca sempre a relação entre o que foi
                                       planejado e o que foi executado.
                                                 No projeto fecundação, o monitoramento foi realizado, através de fichas, relatórios,
                                       pesquisa para o levantamento de dados sobre cada eixo de ação, revelando em que medida os
                                       resultados esperados foram sendo alcançados, buscando também revelar as dificuldades
                                       encontradas e os encaminhamentos feitos em relação ao que não foi realizado.
                                                 Quanto à avaliação, esta é uma ferramenta indispensável em qualquer atividade. É,
                                       através do olhar avaliativo, que se pode perceber as mudanças significativas, as fragilidades,
41

possibilitando ainda, uma reflexão sobre os rumos que estão sendo construídos e se estes são
de fato, o que se esperava construir.
           A avaliação nos permite refletir sobre nossa prática. Ela é um momento imprescindí-
vel para a sistematização. Estando centrada na prática, busca sempre a melhoria, o aperfeiçoa-
mento. Na avaliação, é preciso discernir o que são falhas a serem corrigidas e o que são limita-
ções a serem potencializadas. É a avaliação, com a ajuda do monitoramento, que vai dar um
novo impulso ao planejamento, guiando-o para os rumos pretendidos.
           Adotando o enfoque metodológico do PMA na gestão do projeto, a comissão
gestora, através de seus componentes, manteve um calendário ordinário de reuniões, que
permitia um acompanhamento sistemático das ações e a motivação dos sujeitos envolvidos a
também vivenciarem esta metodologia.




                                                                                                   O Sonho construído em mutirão
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                                       Recursos Hídricos

                                                  Que a água no planeta é farta, todos nós sabemos. Ela ocupa 2/3 da superfície terres-
                                       tre, mas apenas 3% deste volume de água é doce. Esta quantidade, mesmo sendo pequena, seria
                                       suficiente se não estivesse distribuída de forma muito irregular. Só para dar um exemplo, nos
                                       rios está apenas um milésimo da água do planeta. A maior parte das águas está nos pólos, isto é,
                                       muito longe para termos acesso a ela. (MALVEZZI & POLLETO, 2003, p. 23)
                                                  O problema da falta de água potável é, portanto, uma realidade para todo o planeta,
                                       mas a problemática da água no semiárido é mais agravante ainda devido ao clima. As chuvas
                                       irregulares e a grande incidência de raios solares fazem com que a evaporação seja mais intensa,
                                       influenciando na diminuição das reservas de água.
                                                  Associada à falta de água está a falta de cuidados com a água, assim como o acesso a
                                       fontes de água próprias para o consumo. Segundo a Organização das nações Unidas (ONU),
                                       “para cada 100 litros de água que nós usamos, 10 mil litros de água se tornam poluídas”¹.
                                                  A proposta de educação para a convivência com o semiárido prevê a criação de novas
                                       formas de abastecimento de água, bem como a divulgação dos cuidados no armazenamento e
                                       gerenciamento das águas, para que a água colhida no semiárido possa ser suficiente para
                                       cozinhar, beber e fazer a higiene, e para os animais.
                                                  Neste processo, o projeto Fecundação buscou a viabilização do acesso à água de
                                       qualidade, através das ações promovidas pelo eixo dos Recursos Hídricos, mobilizando as
                                       famílias para a construção de cisternas e limpeza das aguadas, visando à apropriação das
                                       tecnologias de baixo custo para “colher a água” e gerenciar o seu abastecimento.
                                                  Os 16 mil litros de água captada através do telhado das casas no período chuvoso
                                       garantem o abastecimento para até seis meses. E, dependendo do cuidado da família com sua
                                       cisterna, além de suficiente, ela também dispõe de uma água livre de microorganismos que
                                       possam provocar doenças e a mortalidade, principalmente, de crianças e pessoas idosas.
                                                  Resolvido o problema da água para o consumo humano, é a vez de pensar na água
                                       para a produção de alimentos, criação de animais e outras necessidades. Nesse sentido, o
                                       Projeto Fecundação possibilitou a construção de barragens subterrâneas, limpeza de açudes e
                                       barreiros, marcação de poços através da hidroestesia, instalação de Bombas d’Água Populares
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                                       – BAPs (programa desenvolvido em parceria com a Articulação no Semiárido Brasileiro –
                                       ASA Brasil).
                                                  Em 2009, o município de Coronel José Dias começou a receber cisternas calçadão,
                                       através do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), mais uma parceria com a ASA Brasil.
                                       Além da realização de cursos e seminários para capacitar as famílias para o bom aproveitamen-
                                       to dessa água que é armazenada, com capacitação de pedreiros para a construção de cisternas e
                                       barragens. Tudo isso visando ao aproveitamento dos recursos naturais com respeito ao meio
                                       ambiente e reafirmando a importância dessas ações para a saúde e o bem estar das gerações.


                                       ¹Cartilha “ÁGUA DE BEBER: encontros comunitários sobre o gerenciamento de águas”. Cáritas
                                       Brasileira, p.13
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                              QUADRO 06
             PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO RECURSOS HÍDRICOS


     Atividade                    Detalhamento                           Observações
Criada a Comissão de     Os diagnósticos foram feitos          O levantamento de recursos
RH e feitos diagnósticos dando início ao processo de           hídricos para ser contido no plano
hídricos                 elaboração do Plano Municipal         municipal encontra-se em fase de
                         de Recursos Hídricos (PMRH).          conclusão, falta uma pequena faixa
                                                               na zona rural e a sede.

Diagnóstico de recursos   A secretaria de saúde fez um         Água armazenada para o consumo
hídricos                  levantamento das barragens           humano e dessedentação dos
                          existentes no município – são 14     animais
                          barragens de médio porte.

Recuperação do            O sangradouro possibilita a          O sangradouro se encontrava
sangradouro da            vazão do excedente de água na        danificado e sem manutenção, e já
barragem do Berreiro      montante da barragem durante o       apresentava risco e danos para a
Grande                    reabastecimento evitando o           parede da barragem
                          rompimento da parede.

Construção de 01          Objetivo de reter a água no          A retenção da água no subsolo é
barragem subterrânea      subsolo para plantio durante o       resultado do barramento feito
                          período seco, construída em local    numa vala no solo até o nível da
                          em que as águas se deslocam por      rocha. O barramento é feito com
                          caminhos naturais e favoreça o       lona plástica.
                          cultivo de alimentos.                A barragem subterrânea foi a
                                                               primeira construída pela Cáritas no
                                                               regional

Limpeza de 02             Objetivo de aumentar a               As barragens com o passar dos
barragens                 capacidade de armazenamento de       anos a cada reabastecimento no
                          água e também melhorar a             período chuvoso vai sendo
                          qualidade da água.                   aterrada com deslocamento do
                                                               solo pela água.

                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
Realização de um curso    Participaram cerca de 20 famílias,   O curso é de fundamental
de Gerenciamento em       mas a participação não foi em        importância, visto que nas análises
Recursos Hídricos para    tempo integral, fato que gerou       feitas com água de várias cisternas
40 famílias do PSF –      uma discussão sobre a                aparecem coliformes fecais.
Programa Saúde na         mobilização.
Família.

Capacitação de 30         As capacitações foram feitas para    A contrapartida das comunidades
pedreiros no município    orientar os pedreiros na             na construção das cisternas é a
                          construção das cisternas.            mão-de-obra
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                                            Atividade                     Detalhamento                          Observações
                                       Construção de 700          Em mutirão onde cada família        Cisternas com capacidade entre
                                       cisternas                  entra com a contrapartida de        16 e 20m³ de água. Suficiente para
                                                                  escavação do buraco e acolhida      uma família de 05 pessoas beber e
                                                                  do pedreiro durante a construção    cozinhar durante o período seco
                                                                  da cisterna.

                                       Marcação de 03 poços       Técnica milenar de identificação    Com a técnica de hidroestesia as
                                       (hidroestesia)             da água no subsolo. Em Coronel      pessoas com sensibilidade
                                                                  Dias, o técnico do Fecundação,      energética conseguem identificar
                                                                  na época, Juvenal Antônio de        onde tem água, sua profundidade
                                                                  Sousa, foi treinado e chegou a      e qualidade. (o IRPAA trabalha
                                                                  marcar três poços cacimbões.        com esta temática, identifica e
                                                                                                      capacita agricultores/as)

                                       Seminário Gestão de        Para definir um plano diretor       Este seminário apontou como
                                       Recursos hídricos          para gestão dos recursos hídricos   meta a construção do PMRH,
                                                                  no município.                       mas que não foi possível ainda
                                                                                                      sua realização.

                                       Limpeza do açude da        Com o objetivo de aumentar a        Estes reservatórios com
                                       Salininha                  capacidade de armazenamento de      sucessivas recargas de água
                                                                  água para consumo humano e          durante o período chuvoso
                                                                  animal.                             passam a ser aterrados em função
                                                                                                      do deslocamento do solo pela
                                                                                                      água.

                                       Levantamento de poços      A Bomba d`Água Popular – BAP        O GT de recursos hídricos
                                       nos 1º e 2º distritos de   (bomba manual instala em poços      percorreu as comunidades
                                       Coronel José Dias para     tubulares de baixa vazão que        identificando poços não
                                       o programa Bomba           permite a elevação da água).        equipados e públicos para a
                                       d’Água Popular.                                                instalação das BAPs. O
                                                                                                      levantamento se estendeu em toda
                                                                                                      a diocese onde foram instaladas
                                                                                                      cerca de 70 bombas.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                       Instalação de duas BAP     Instaladas em Coronel José Dias
                                                                  comunidade Veredas (segundo
                                                                  distrito)

                                       Realização de 08 cursos    Foram capacitados cerca de 180      Com duração de 2 a 3 dias as
                                       sobre tratamento e         multiplicadores.                    famílias beneficiadas recebem
                                       gestão de água                                                 informações teóricas e praticas
                                                                                                      sobre o uso da água e manejo e
                                                                                                      conservação da cisterna.

                                       Realização de 04         Realizada na comunidade com o         Com duração de três dias em cada
                                       oficinas para construção objetivo de capacitar os pedreiros    comunidade. Em mutirão, as
                                       de cisternas             com as técnicas de construção de      famílias garantem a escavação do
                                                                cisternas de placas.                  buraco para construção.
45




Produção Agropecuária Apropriada

          É importante que as famílias residentes no semiárido tomem conhecimento de que a
região é caracterizada por um baixo índice pluviométrico e com chuvas muito irregulares. Os
solos são rasos e cristalinos e estão sujeitos a desertificação, por isso não dão condições favorá-
veis ao cultivo de culturas anuais como o milho e o feijão, enquanto fonte geradora de renda.
          Em relação à agricultura familiar, a reflexão sobre o jeito de plantar no semiárido
também trouxe novas contribuições, principalmente no que se refere às queimadas, pelos
prejuízos que elas causam à natureza e ao meio ambiente.
                          Quando o produtor(a) faz a queimada, está matando todos os microorga-
                          nismos que vivem nos primeiros 30cm de 1m² do solo, o que corresponde a
                          mais de 600g de seres vivos nesses espaços, ficando o solo sem proteção,
                          fraco, duro, sem presença de vida e impermeável e obviamente, sem
                          fertilidade. (SOUSA, 2003)
          A prática de queimadas, o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos são algumas das
atividades que tem empobrecido e contaminado os solos e pondo em risco o ecossistema e a
vida humana. Nesse eixo, o projeto procurou fornecer aos agricultores e agricultoras as bases
para uma produção sustentável, através dos princípios da agroecologia e da agrobiodiversidade.
          A implantação de tecnologias apropriadas ao uso do solo busca o melhor aproveita-
mento para o plantio, como aproveitar a palha e o mato seco para evitar a perda da água pela
evaporação (cobertura morta) e plantar sob a orientação da curva de nível, evitando o plantio
no sentido da declividade de solo para aumentar a retenção da água.
          Conforme assinala João Evangelista Oliveira, coordenador do Programa de
Convivência com o Semiárido da Cáritas Brasileira Regional Piauí, “as tecnologias adotadas e
que estão sendo utilizadas na agricultura familiar são simples, de baixo custo, ambientalmente
harmônicas, socialmente mobilizadoras e no campo econômico primam pela sustentabilida-
de” (impresso, 2009 – anexo).
          Neste sentido é que as ações do projeto Fecundação em relação à produção apropria-
da tiveram como base a produção sustentável no semiárido, numa perspectiva de criar uma
nova mentalidade no jeito de produzir, proporcionando melhoria de renda das famílias.

                                                                                                      O Sonho construído em mutirão
          Para tanto, foi incentivada a criação de pequenos animais (caprinos, ovinos, aves e
suínos) que necessitam de pouca água para sobreviver; a melipolinicultura (criação de abelhas)
que aproveita a florada existente para a produção do mel, alimento bastante nutritivo e com
alto valor comercial; o beneficiamento de frutas com o aproveitamento de árvores nativas –
como umbu e caju – para a produção de polpas, doces, compotas, bombons e a famosa cajuína
do Piauí; cursos de artesanato; bancos de sementes e de proteínas. Tudo através de cursos de
capacitações que deram um incremento na qualidade e no valor da produção das famílias. E estas
aprenderam novas formas de comercialização, através da Economia Popular Solidária (EPS).
          No processo de formação e capacitação desenvolvido pelo Projeto Fecundação, além
do conhecimento acerca da história da criação dos animais, buscou-se também promover o
conhecimento de técnicas como: sistemas de criação e manejo do rebanho: condições sanitári-
as, reprodutivas, alimentares e cuidados nas instalações.
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                                                                 QUADRO 07
                                       PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA APROPRIADA

                                                                                     Agricultura

                                         • Inserção de sementes forrageiras na agricultura (sorgo, palma e feijão guandu) - 90 famílias;
                                         • Otimização das culturas de caju e umbu com compra de mudas para as famílias;
                                         • Curso de técnicas em fruticultura e Capacitação de 20 famílias;
                                         • Curso sobre manejo do solo e tecnologias apropriadas;
                                         • Aquisição de dois motores para máquinas de beneficiamento agrícola;
                                         • Plantação de 33,72 ha. de caju;
                                         • Capacitação de aproveitamento do potencial do caju;
                                         • 01 grupo de produtores de caju;
                                         • Aquisição de 62 bolas de arame para a melhoria das roças.

                                                                         Criação e manejo de animais
                                                                   Artesanato e comercialização de produtos

                                         • Curso de técnicas em artesanato e capacitação de 20 famílias;
                                         • Curso sobre gestão e comercialização do artesanato;
                                         • Oficina de produção de cajuína;
                                         • Organização dos produtores de umbu para criar a cooperativa de beneficiamento dos frutos;
                                         • Curso de fabricação de bombons de chocolate com recheio de umbu, castanha e goiaba;
                                         • Reunião com o grupo de famílias beneficiadoras de frutas para a discussão sobre identidade de
                                         possíveis canais de comercialização no mercado local para a produção existente nos grupos;
                                         • Reunião com o grupo de famílias que trabalham com o beneficiamento de frutas para nivelamento
                                         de conhecimentos sobre técnicas de venda;
                                         • 01 grupo de beneficiamento do umbu;
                                         • Curso de aperfeiçoamento dos produtos (cajuína, doces e outros) promovido pelo EMATER –
                                         capacitação de 20 famílias;
                                         • Capacitação de aproveitamento do potencial do caju;
                                         • Oficina de capacitação sobre defumados e embutidos de caprinos e ovinos com assessoria
                                         externa;
                                         • 01 curso de produção de remédios fitoterápico;
                                         • Criação de uma farmácia fitoterápica.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                Na medida em que as ações aconteciam, geravam novas demandas e outras atividades
                                       também foram sendo sugeridas, planejadas e executadas com o intuito de reforçar os objetivos
                                       do trabalho em relação à produção apropriada, bem como os objetivos do projeto. São elas:
                                                • Reuniões comunitárias sobre desenvolvimento sustentável;
                                                • Realização de encontro de intercâmbio sobre artesanato, caprinocultura, apicultura;
                                                • Aprovação em dezembro de 2005, junto ao BNB/ SENAES, do projeto de Fundos
                                       Produtivos Solidários;
                                                • Retomada dos acompanhamentos aos grupos produtivos;
                                                • Renegociação das devoluções junto aos grupos produtivos;
                                                • Apoio ao projeto Fitoterápico do grupo de mulheres, liderado pela Irmã Ana Maria;
                                                • Acampamento e monitoramento das atividades;
                                                • Participação no XII Seminário Piauiense de Apicultura.
47




Educação Contextualizada

          Várias construções teóricas em torno da educação contextualizada foram registradas
ao longo do processo de implantação do Projeto Fecundação, algumas, inclusive, deram
suporte às discussões nos espaços das oficinas pedagógicas, como é o caso dos textos trabalha-
dos pelo grupo de assessoria, sendo objetos de reflexão e de apropriação da temática, numa
perspectiva de alimentar o fazer pedagógico no semiárido.
          Destaque-se a contribuição do Instituto Regional da Pequena Agropecuária
Apropriada (IRPAA), pelos serviços de assessoria e parceria durante a execução do projeto e
da Rede Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB), pelas experiências acumuladas neste
processo que motivaram, e motivam, a vivência de uma prática pedagógica pautada na necessi-
dade de se conhecer a realidade, sobre ela refletir e para nela intervir, numa perspectiva de
desconstruir saberes internalizados em torno do semiárido, modificando-se “hábitos, atitudes,
valores, comportamentos e conceitos” (SOUSA e REIS, 2003, p.31).
          As oficinas pedagógicas foram espaços privilegiados de formação e atualização em
torno do conhecimento da proposta de Educação para a Convivência com o Semiárido,
incluindo-se a Educação Contextualizada como base para as mudanças mencionadas e da
necessidade de sua implementação nas escolas. Essas oficinas tiveram, portanto, caráter
teórico-prático, na medida em que oportunizaram aos professores, professoras, técnicos e
técnicas da educação obterem subsídios para o trabalho nas escolas e, a partir das experiências
desenvolvidas, refletirem sobre a prática pedagógica.
          De acordo com o IRPAA, as oficinas pedagógicas:

                         [...] são estruturadas sobre temas que abordam as questões mais específicas
                         como o clima, a água, a geografia, a produção, a estrutura fundiária. Esses
                         temas permitem uma abordagem pedagógica que relaciona esse novo saber
                         com a ação educativa em sala de aula [...] revendo conceitos e investigando
                         os diversos processos que permeiam o ensino-aprendizagem” (SOUSA e
                         REIS, 2003, p.12).

         As mudanças de atitudes no fazer escolar envolvem relações de ensino aprendizagem

                                                                                                       O Sonho construído em mutirão
não apenas entre professores, professoras, alunos e alunas, mas também a família e a comuni-
dade, na discussão dos processos educativos: planejamento, avaliação, disciplina, dentre
outros. É um processo difícil, porém desafiador, conforme têm manifestado, ao longo da
experiência do projeto, alguns professores e professoras²:

                         Os professores e professoras do município após a realização das oficinas
                         pedagógicas estão mais bem preparados e preparadas para trabalhar e já
                         estão colocando em prática esta nova proposta educacional que é aprender-


²Depoimentos feitos em setembro de 2003
48

                                                                 mos a conviver com o semiárido. E ensinar os alunos, alunas da rede
                                                                 municipal de ensino, juntamente com a comunidade, que a realidade
                                                                 climática do semiárido não podemos modificar, mas podemos desenvolver
                                                                 tecnologias alternativas para vivermos melhor nessa região. (José Roberto –
                                                                 então Secretário Municipal de Educação).

                                                                 Com a educação para a convivência com o semiárido está ocorrendo a
                                                                 promoção de conhecimentos e divulgação de nossas potencialidades para
                                                                 que todos valorizem seus elementos culturais e ambientais, partindo do
                                                                 contexto local, para que haja transformações significativas dentro do nosso
                                                                 convívio diário (Professora Mirian – U. E. Monsenhor Nestor).

                                                                 Com esta nova proposta estamos aprendendo de uma forma descontraída e
                                                                 agradável, com um melhor aprendizado, e que ao analisarmos a realidade
                                                                 dos outros percebemos que aqui é o melhor lugar do mundo (Profª. Regina
                                                                 - U. E. Monsenhor Nestor).

                                                Os alunos e alunas:

                                                                 A Educação para Convivência com o Semiárido tem nos ajudado a enten-
                                                                 der melhor o clima, a conviver com a seca e cuidar melhor da nossa proprie-
                                                                 dade (aluna Taiane da U. E. Monsenhor Nestor).

                                                                 A ECSA é importante para o nosso município, pois as pessoas estão
                                                                 aprendendo a sobreviver em sua comunidade e como cuidar melhor de sua
                                                                 roça e animais, e está ajudando a toda comunidade a entender melhor o
                                                                 semiárido (aluno Gilvonete da U. E. Monsenhor Nestor).

                                                E as famílias:

                                                                 Passei a conhecer o que era o semiárido a partir do ano de 2002, com a
                                                                 chegada do Projeto Fecundação, e hoje já estamos fazendo silagem,
                                                                 guardando alimentos para os animais (Sr. Gonçalo – comunidade
                                                                 Salininha).

                                                                 Estamos aprendendo a conviver no semiárido e desejamos que nossos
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                                 filhos vivam aqui e não tenham a necessidade de ir embora... (Srª. Maria do
                                                                 Socorro – comunidade Salitre).

                                                 Sob este eixo foram trabalhadas 09 oficinas pedagógicas, envolvendo os professores
                                       e professoras da rede municipal e estadual de ensino e gestores escolares, numa perspectiva de
                                       subsidiar estes profissionais na implementação da Educação Contextualizada no município a
                                       adotar a Pedagogia de Projetos como eixo da ação da escola, favorecendo a interdisciplinarida-
                                       de e transversalidade, e conduzindo o ensino aprendizagem à reflexão da realidade, à compre-
                                       ensão dos fatos e fenômenos a ela intrínsecos e ao compromisso de assumir novas atitudes
                                       diante da realidade e, assim, produzir conhecimentos.
                                                 As oficinas cobriram toda a rede municipal de ensino e, no período de 2002 a 2008,
                                       foram realizadas 09 oficinas pedagógicas, conforme descrição:
49




                             QUADRO 08
                DESCRIÇÃO DAS 09 OFICINAS PEDAGÓGICAS

Esp.      Temática                Período                         Detalhamento
 I     Clima e água          19 a 21 de abril   A partir da temática central, foram abordadas
                             de 2002            outras questões em relação à realidade do semiári-
                                                do, com o objetivo de sensibilizar os professores e
                                                professoras para a proposta de ECSA.

 II    Recursos          16 a 18 de agosto      Reforçou o debate em torno dos recursos hídricos,
       Hídricos: Clima de 2002                  buscando subsidiar professores e professoras para
       e água e Didática                        o trabalho interdisciplinar com a temática e
       do Planejamento                          discutiu-se sobre a didática do planejamento, numa
                                                perspectiva de refletir sobre a prática e de melhorar
                                                o planejamento e a sua aplicação em sala de aula.

III    A criação de          30 e 31 de         Foram apresentadas algumas experiências já
       caprinos e o          outubro de 2002    desenvolvidas em sala de aula, ressaltando o
       manejo de pasto                          esforço em aplicar a proposta apesar das dificulda-
                                                des encontradas. A temática central da oficina
                                                permitiu maiores conhecimentos sobre a criação
                                                de animais no semiárido.

IV     Os eixos              09 a 11 de abril   Com o objetivo de proporcionar conhecimentos
       norteadores da        de 2003            na teoria cognitiva, foram apresentados e discuti-
       proposta de                              dos os eixos norteadores da ECSA e, em seguida,
       ECSA: natureza;                          trabalhou-se sobre os conteúdos escolares numa
       cultura; trabalho e
                                                compreensão de que tudo que é trabalhado em sala
       sociedade/
       Conteúdos                                de aula constitui-se conteúdos, objeto de aprendi-
       escolares e                              zagem. Para reforçar os conhecimentos acerca do
       Agricultura                              Semiárido, foi apresentada uma exposição
       familiar                                 dialogada sobre a agricultura familiar.

 V     Pedagogia dos         04 a 06 de junho   A pedagogia dos projetos foi apresentada como

                                                                                                        O Sonho construído em mutirão
       projetos/             de 2003            sugestão para o direcionamento da prática
       Ecoturismo/                              pedagógica, numa perspectiva interdisciplinar das
       Aprofundament                            temáticas abordadas e como instrumento de
       o das temáticas:                         análise da realidade e de buscas coletivas de
       A criação de                             intervenção. O ecoturismo foi uma temática
       caprinos e                               introduzida, buscando refletir sobre as potenciali-
       Agricultura                              dades turísticas da região. Temáticas trabalhadas
       familiar                                 em oficinas anteriores foram retomadas com o
                                                objetivo de reforçar o conhecimento da realidade.
50

                                         Esp.       Temática           Período                          Detalhamento
                                          VI    Problematização    17 a 19 de         Discutiu-se inicialmente sobre o Projeto
                                                dos projetos       setembro de        Fecundação e a efetivação da proposta de
                                                didáticos e a      2003               Educação para a convivência com o semiárido.
                                                perspectiva para                      Foram apresentadas experiências com projetos
                                                o letramento                          didáticos desenvolvidas por algumas escolas e a
                                                escolar                               partir delas reflexões e orientações para melhorar
                                                contextualizado                       a prática, a partir dos projetos. Discutiu-se ainda
                                                                                      sobre a escolarização da escrita no semiárido
                                                                                      como perspectiva para letramento escolar
                                                                                      contextualizado.

                                         VII    Avaliação          24 a 26 de março   A educação do município foi objeto de avaliação
                                                diagnóstica da     de 2004            diagnóstica para perceber os passos dados em
                                                ECSA no                               torno da construção da proposta de ECSA.
                                                município e os                        Discutiu-se também sobre as questões norteado-
                                                princípios da                         ras e os princípios da formação continuada,
                                                formação                              processo pelo qual passam professores e profes-
                                                continuada                            soras por ocasião das oficinas pedagógicas.

                                         VIII   Currículo          26 e 27 de maio    Inicialmente foi feito uma discussão sobre o
                                                contextualizado,   de 2006            Currículo contextualizado e, em seguida, um
                                                os avanços e                          estudo do PME (Plano Municipal de Educação).
                                                novos desafios                        Para concluir os trabalhos, foi realizada uma
                                                da Educação                           avaliação da educação contextualizada no
                                                Contextualizada                       município, no intuito de descobrir e delinear os
                                                                                      novos rumos a serem tomados na caminhada do
                                                                                      processo com a educação.

                                          IX    Avaliação da     23 a 25 de           Realizou-se a discussão do texto final do plano,
                                                proposta de      outubro de 2006      com o objetivo de definir uma proposta de
                                                educação para a                       educação contextualizada ao semiárido para o
                                                convivência com                       PME e oportunizar a participação da comunidade
                                                o semiárido e da                      no processo de construção do plano. Ao final, foi
                                                aplicação do                          definida a equipe municipal de acompanhamento
                                                Plano Municipal                       do plano, com o compromisso de encaminhar as
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                de Educação                           discussões nas escolas e nas comunidades e de
                                                (PME) – Coronel                       acompanhar o processo de aprovação e imple-
                                                José Dias.                            mentação do plano.


                                                 As oficinas levaram os professores e professoras à compreensão dos três princípios
                                       básicos da convivência: CONHECER (a realidade socioeconômica-política-cultural e ambi-
                                       ental, compreendendo as relações e práticas sociais de classe, gênero e geração, bem como a
                                       biodiversidade do meio); REFLETIR (sobre esta realidade e produzir conhecimentos) e
                                       CONVIVER (fazer a interação dos conhecimentos produzidos com as mudanças pretendidas
                                       e educar para a convivência harmoniosa com as pessoas e com a natureza).
                                                 As temáticas desenvolvidas nas oficinas pedagógicas permitiam aos professores,
                                       professoras e demais participantes avaliarem a realidade educacional do município e provocar
51

mudanças nas escolas. Também possibilitaram a construção de propostas que subsidiaram o
Plano Municipal de Educação (PME) do município de Coronel José Dias, aprovado em 2003.
          Fruto deste processo de mudança foi o desenvolvimento de projetos didáticos
contextualizados, que teve início em 2002. As temáticas envolveram alunos, alunas, professo-
res e professoras em pesquisas da realidade que levaram à reflexão e a ações de caráter transfor-
mador.
          A Unidade Escolar Professora Raquel Ferreira de Oliveira desenvolveu o projeto
Folclore que motivou os alunos a pesquisarem sobre as manifestações folclóricas da região,
como forma de resgate da cultura local.
          A Unidade Escolar Monsenhor Nestor desenvolveu o projeto ‘Aprendendo com a
caatinga’ que possibilitou uma pesquisa sobre as plantas da caatinga e culminou com a realiza-
ção de uma campanha de preservação do meio ambiente.
          A Escola Manoel Agostinho de Castro do Povoado Lages da Pedra desenvolveu um
projeto sobre as plantas medicinais da caatinga e divulgou as receitas em um informativo.
          Outras escolas também desenvolveram projetos com temáticas diversificadas, mas
contextualizadas no semiárido possibilitando a construção coletiva e a problematização da
realidade, motivando o exercício da ação-reflexão-ação de modo a suscitar formas de interven-
ção e de mudanças.
          Conforme a equipe pedagógica do IRPPA, (Impresso, s.d: 2) o trabalho com a
pedagogia dos projetos “leva alunos/as e professores/as a perceber que há diferentes formas e
caminhos para o aprendizado”, contribuindo para que possam “agir com flexibilidade”,
“acolher a diversidade” e “compreender sua realidade pessoal e cultural”.
          Outras ações foram desenvolvidas no processo de implementação da proposta de
Educação Contextualizada, que revelam a organização da comunidade em torno da educação
no município e na busca de melhoria da qualidade de ensino, dentre elas é importante destacar
o processo de elaboração e aprovação na Câmara Municipal do Plano Municipal de Educação
(PME).
          O PME foi aprovado em 2003 pela Lei n° 078/2003, após ter sido debatido nas
escolas, em reuniões e seminários envolvendo estudantes, professores, professoras, demais
funcionários, funcionárias e as famílias. As diretrizes e ações propostas no PME de Coronel
José Dias foram alimentadas pelas discussões decorrentes das oficinas pedagógicas e pelo
desejo da comunidade escolar em ter uma Política Pública Municipal que norteasse a educação
no município.
          As discussões geradas em torno dos objetivos e diretrizes do plano, bem como do
diagnóstico educacional do município e de temas relacionados à concepção e prática da
                                                                                                    O Sonho construído em mutirão
educação contextualizada (interdisciplinaridade e transversalidade, valorização do magistério e
gestão escolar) encaminharam-se de modo a definir uma proposta de PME do município.
          A equipe municipal de acompanhamento do plano ficou assim definida:
         José Roberto Silva Costa – Secretário Municipal de Educação
         Juracy Almeida da Costa – Professor
         Filomena Neiva de Oliveira Santos – Professora
         Marluce da Silva Costa - Professora
         Constantino João de Oliveira - Professor
         Mirian Antonia de Sousa Oliveira - Professora
         Raimunda Oliveira Lima Costa - Professora
         Rosineide Brito de Oliveira – Professora
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                                                 O PME de Coronel José Dias é o primeiro no Piauí que afirma a educação contextua-
                                       lizada no semiárido como condição de ensino e aprendizagem para a melhoria da convivência
                                       com a região, e que delibera ressaltar as marcas de gênero na linguagem textual, reafirmando a
                                       predominante presença feminina na sociedade e negando os valores machistas implícitos na
                                       gramática e na literatura produzida por mulheres e homens ao longo da história.
                                                 O PME foi avaliado na IX Oficina Pedagógica para avaliação da proposta de ECSA e
                                       da sua aplicação prática. Na oficina foi apresentado aos professores e professoras, pelo então
                                       secretário de educação, os limites e possibilidades do plano, bem com as ações que estavam em
                                       execução até aquela data.
                                                 A educação contextualizada, a partir da experiência do Projeto Fecundação, tornou-
                                       se a fonte principal de dados e informações para subsidiar as políticas públicas, atender a
                                       demanda de vários segmentos sociais com interesse na temática e as entidades, tanto organiza-
                                       ções e redes articuladas dentro da convivência com o semiárido, como os órgãos de governos
                                       municipais e estaduais.
                                                 Atividades como as descritas abaixo também foram sendo realizadas, conforme a
                                       demanda apresentada seja por professores, professoras, alunos e alunas ou pela própria
                                       comunidade:
                                                • Duas oficinas de teatro e comunicação;
                                                • Semana da água (realizada no município com ampla participação da comunidade
                                                escolar);
                                                • Confecção de material de divulgação e apresentações em eventos (folder, informati-
                                                vo, banner, painel);
                                                • Participação na conferência da RESAB;
                                                • Realização de 04 oficinas de convivência com o semiárido com as famílias, envol-
                                                vendo 180 famílias;
                                                • Qualificação de 28 professoras e professores como agentes multiplicadores e
                                                multiplicadoras da proposta de convivência;
                                                • Oficina pedagógica com coordenadores e diretores de escolas;
                                                • Coordenação da exposição de pintura em tela;
                                                • Realização de duas atividades de manifestação cultural;
                                                • Parceria com município e com o Estado (PPCSA);
                                                • Atividades de integração família-escola;
                                                • Capacitação continuada do quadro docente;
                                                • Criação do sindicato de servidores públicos municipais;
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                • Visitas dos alunos ao parque e ao museu e pequenas oficinas;
                                                • Parceria com o Conselho Tutelar presente nas escolas;
                                                • Realização de projetos didáticos diversos como: estudo da caatinga, ecoturismo etc.
53




Fundo Rotativo Solidário

          A prática dos Fundos Rotativos Solidários tem uma longa história no Brasil, mas é a
partir dos anos 80 que essas ações ganham força junto aos movimentos sociais e diversas
igrejas. No início dessa década, percebia-se cada vez mais que as políticas e projetos assistenci-
ais pouco contribuíam para alterar as estruturas que geravam o empobrecimento. Situação que
ainda perdura na sociedade.
          Para mudar essa realidade, Cáritas Brasileira começou a apoiar os Projetos
Alternativos Comunitários (PACs). Esses projetos são pequenas iniciativas produtivas de
desenvolvimento e de infraestrutura comunitária, financiados com recursos da cooperação
internacional. Tais iniciativas eram executadas pelas famílias e grupos na própria comunidade e
contavam com a ajuda de pessoas que animavam a ação como voluntárias.
          A política formatada veio da necessidade de consolidar a idéia verdadeira de promo-
ção de cidadania, deixando para trás o assistencialismo, baseada na exigência de contrapartida
por parte de famílias e grupos beneficiados. Várias metodologias foram se configurando e
estimulando a criatividade na cultura das comunidades. Assim, o retorno que seria de repasse
integral do recurso aplicado, depois do tempo de carência, podia ser feito também através de
produtos, prestação de serviços, repasse de crias de animais para outras famílias, prática de
troca de produtos, banco de sementes e moeda social, entre outras.
          Nessa caminhada da convivência com o semiárido, foi criado em 2002, a Política de
Fundos do Projeto Fecundação que surge como uma estratégia de ação para potencializar a
sustentabilidade. O Fundo Rotativo Solidário foi direcionado para o eixo de Recursos Hídricos
e de Produção Agropecuária Apropriada, sendo repassados recursos para a construção de
cisternas e para produção de alimentos da cajucultura e ovinocaprinocultura.
          No ano de 2006, a prioridade foi o fortalecimento, a ampliação e a consolidação da
política de fundos. Para atingir este objetivo, a Cáritas recebeu apoio do Banco do Nordeste do
Brasil (BNB), através do projeto de Fundo Produtivo Solidário. Com ele, foi possível fortalecer
os grupos existentes, apoiando novos grupos produtivos, atendendo diretamente 90 famílias,
cerca de 450 pessoas beneficiadas. O apoio do BNB foi essencial para possibilitar o investi-
mento necessário para o aproveitamento racional das potencialidades do semiárido, gerando
renda, qualidade de vida, cidadania e construção novas relações com o clima.
          Os recursos do Fundo Rotativo Solidário garantiram o apoio financeiro a grupos             O Sonho construído em mutirão
produtivos, com caráter devolutivo. A devolução dos recursos passa a ser total (100% do valor
recebido) para os projetos produtivos de geração de renda. Indexados ao salário mínimo
vigente. O prazo para a devolução é de 04 anos com carência de até 02 anos.
          São objetivos centrais do Projeto de Fundos Solidários:
         • Melhorar as condições de vida das famílias, através da capacitação e de infraestrutu-
         ra de produção agropecuária;
         • Viabilizar a comercialização com a melhoria da qualidade dos produtos;
         • Preservar o ambiente;
         • Possibilitar a vivência da economia popular solidária.
54

                                                Os fundos produtivos são destinados a ações nas comunidades: Salininha, Salitre,
                                       Santa Teresa, Barra do Campestre, Borda, Sítio do Mocó e Santa Luzia.
                                                Entre os anos de 2006 a 2008, com os recursos do Fundo foram atendidos:
                                                • 09 grupos com criação de Pequenos animais;
                                                • 05 grupos de Caprinos e Ovinos - Salininha, Santa Teresa, Barra do Campestre,
                                                Borda e Poço do Angico;
                                                • 02 grupos de Apicultura - Salitre e Curral de Ramos – 22 famílias;
                                                • 02 grupos de avicultura: Sitio do Mocó e Santa Luzia 200 matrizes de aves – 10
                                                famílias;
                                                • 381 animais (caprinos e ovinos), 366 matrizes e 15 reprodutores;
                                                • 02 grupos atendidos com a criação de galinhas caipiras no Sítio do Mocó e em Santa
                                                Luzia - 10 famílias;
                                                • Poço do Angico: 09 famílias, 93 animais;
                                                • 134 famílias envolvidas;
                                                • 664 pessoas envolvidas.
                                                O projeto se configurou numa ação importante na busca da sustentabilidade das
                                       populações de comunidades vulneráveis no semiárido do Piauí e está sendo uma possibilidade
                                       concreta de acesso a crédito para famílias agricultoras na construção de um modelo de desen-
                                       volvimento solidário e sustentável, a partir da aplicação de fundos solidários produtivos locais.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
III




A Realidade
     Impactos da experiência
57




Impactos da experiência
no ambiente semiárido

           Conforme as estratégias metodológicas definidas pelo Programa de convivência com
o semiárido para o projeto Fecundação, os processos a serem desenvolvidos foram definidos e
expressos em quatro linhas centrais: recursos hídricos, iniciativas produtivas, capacitação de
agentes de desenvolvimento sustentável do semiárido e fortalecimento da participação da
sociedade civil nas políticas públicas. Essas linhas definiram os eixos de ação, a partir do
diagnóstico realizado no processo de implantação do projeto no município.
           A implantação da proposta de educação para convivência com o semiárido no
município de Coronel José Dias tornou-se realidade, através da aprovação e implementação do
Plano Municipal de Educação (PME). Este é um dos resultados mais significativos da expe-
riência, através das múltiplas ações desenvolvidas.
           No eixo dos Recursos Hídricos pensou-se em superar a problemática da água
vivenciada pelas pessoas daquela região, a partir da construção de um Plano Municipal de
Recursos Hídricos (PMRH) que orientasse as ações no município e que as famílias pudessem
ter acesso a água boa, de qualidade e suficiente para o consumo humano, animal e necessidades
domésticas e produtivas.
           Embora o PMRH não tenha sido concluído, com o levantamento diagnóstico da
realidade hídrica do município foi possível direcionar as ações neste eixo, no sentido de superar
as dificuldades de acesso à água de boa qualidade e em quantidade suficiente.
           Foram mobilizadas diretamente 333 famílias beneficiadas, parte com cisternas e
outra parte com ações em parceria como o projeto das Barraginhas que possibilitou a constru-
ção de 300 unidades no município de Coronel José Dias e que armazena água de chuva para a
produção de alimentos. As ações foram consolidadas e culminaram com outras parcerias que
visam a garantir o acesso à água para todas as famílias rurais.
           O acesso à água de qualidade contribuiu para a melhoria da saúde, acabando com o
surto de diarréia no município, amenizou a situação das pessoas com problemas de coluna e
houve também o melhor aproveitamento do tempo, diminuindo as preocupações, sobretudo
das mulheres para pegar água em longas distâncias.
           O acesso à água de qualidade para beber e cozinhar pela captação e armazenamento         O Sonho construído em mutirão
da água da chuva, através das cisternas, é uma realidade indiscutível. Por exemplo: uma cisterna
de 20m³ garante água suficiente para o consumo, apenas para beber, de 05 famílias (correspon-
dente a uma média de 30 pessoas) durante o período do verão.
           Neste processo, novos conceitos foram estabelecidos, novas relações foram constru-
ídas. O Projeto Fecundação rompeu os limites do seu território e promoveu mudanças cultura-
is capazes de construir novos referenciais de convivência, vivenciando-se um novo paradigma.
           A comunidade comemora e vivencia o acesso à água de qualidade. As cisternas e
demais equipamentos construídos testemunham a nova realidade. Avançou-se na articulação
para a construção do plano municipal neste setor, embora os passos dados tenham sido
limitados, no processo de conclusão do levantamento geral dos recursos hídricos, pelas
58

                                       dificuldades enfrentadas, sobretudo quanto à metodologia utilizada no que se refere às atribui-
                                       ções e funções das pessoas e órgãos envolvidos.
                                                 No eixo da produção, em razão da baixa renda obtida pelas famílias do município e da
                                       falta de apoio e incentivo às iniciativas produtivas apropriadas ao semiárido, buscou-se a
                                       otimização das condições de produção (caprinocultura, apicultura e agricultura) e a promoção
                                       da melhoria de renda da população, através da criação de uma Central de Apoio ao
                                       Beneficiamento e Comercialização das associações implantadas e em funcionamento, agregan-
                                       do valor aos produtos e obtendo melhores condições de vendas.
                                                 Desta forma, sinalizou-se para a implantação de 21 projetos de geração de renda,
                                       beneficiando 653 famílias. Além do aproveitamento do potencial turístico do município,
                                       valorizando a cultura local e promovendo o desenvolvimento sustentável da região.
                                                 Foram mobilizadas 277 famílias de produtores e produtoras que tiveram acesso a
                                       capacitações, apoio direto com os recursos do fundo, parte para produção na aquisição de
                                       animais e capacitações, realizadas através das oficinas sobre o processamento de embutidos e
                                       defumados de carne de caprino e ovino, produção de cajuína, carne vegetal e ração animal de
                                       caju, para melhorar a qualidade do produto.
                                                 O Projeto Fecundação implantou no município cerca de 20 projetos na área de
                                       produção e possibilitou a formação, a capacitação e apoio aos grupos de produção, sobretudo
                                       na área rural, proporcionando o melhoramento dos rebanhos, maiores cuidados com a criação
                                       e com a plantação e o beneficiamento dos frutos regionais, promovendo a geração de renda.
                                                 Os recursos do Fundo Produtivo Solidário mobilizaram mais três grupos que serão
                                       apoiados com projetos de criação de galinhas caipiras. Esses grupos passaram pelas capacita-
                                       ções e, após o levantamento de preços do produto, vislumbram a comercialização.
                                                 Na perspectiva da sustentabilidade econômica e social, buscou-se – através da ação
                                       de formação, capacitação e estruturação dos grupos de agricultores e agricultoras – fincar a
                                       base para o trabalho de Economia Popular Solidária (EPS). Esta base associa-se à demanda de
                                       comercialização, a partir da melhoria da qualidade do produto, da infraestrutura de comerciali-
                                       zação e do constante processo de capacitação.
                                                 No eixo da educação, – através da capacitação de agentes de desenvolvimento
                                       sustentável no semiárido, como forma de superação do desconhecimento da realidade com-
                                       plexa que envolve o clima e de métodos apropriados ao manejo de recursos hídricos e agrícolas
                                       – buscou-se a capacitação de professores e professoras para a introdução desta temática nas
                                       escolas do município, sendo estes agentes multiplicadores e multiplicadoras de métodos
                                       apropriados de convivência com o semiárido; pensou-se também na mobilização da sociedade
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                       através de Jornadas de Convivência para difundirem a proposta.
                                                 Pelas oficinas pedagógicas contemplou-se a formação de multiplicadores e multipli-
                                       cadoras para a convivência com a região, culminando com a construção do PME, uma referên-
                                       cia na educação para a convivência com o semiárido no município, que embora represente um
                                       resultado ainda tímido em políticas públicas, demonstra que este trabalho foi capaz de subsidi-
                                       ar professores e professoras para uma nova prática pedagógica contextualizada bem como
                                       orientar na condução e fiscalização do PME de Coronel José Dias.
                                                 Para o fortalecimento da participação da sociedade civil nas políticas públicas,
                                       pensou-se na criação de um fórum funcionando como espaço de articulação de sujeitos para
                                       negociação de propostas para o desenvolvimento; na promoção de ações integradas dos
                                       conselhos; na participação dos representantes da sociedade civil de forma mais qualificada e
                                       autônoma; em um Plano Municipal de Desenvolvimento Sustentável – PMDS, orientando as
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políticas locais; e a participação popular no orçamento público municipal.
           Entende-se que a comunidade de Coronel José Dias adquiriu condições melhores de
participação na vida do município, reivindicando políticas públicas de atenção à juventude, às
crianças e adolescentes, bem como de questões específicas ligadas à saúde e à educação. E o
cumprimento destas, na medida em que é notória a participação das pessoas nas atividades de
formação e capacitação, em grupos comunitários, no Programa de Garantia de Direitos da
Infância, Adolescência e Juventude (PIAJ), desenvolvido pela Cáritas com representantes de
segmentos sociais do município e conselhos de direitos.
           Apesar de não ter sido criado o PMDS, a ampla discussão que envolveu o PME – que
além das ações de caráter pedagógico também apresenta a dotação orçamentária para a educa-
ção do município, bem como a participação efetiva das pessoas representantes dos sindicatos e
grupos organizados da comunidade – é um processo de consolidação de uma nova visão de
participação social.
           Todas as atividades desenvolvidas nos eixos do Projeto Fecundação vão ao encontro
da preservação do ecossistema. No aspecto cultural, a ação é fortalecida com o peso da história
local, na Serra da Capivara como berço do homem americano e referência da pré-história da
humanidade, mistura de raças, ritmos e religiões. Um povo que desperta, a partir deste referen-
cial, para construir uma sociedade pautada no desenvolvimento local.




                                                                                                  O Sonho construído em mutirão
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                                       Significado da experiência

                                                 A experiência apresenta condições de sustentabilidade, a partir dos trabalhos assumi-
                                       dos pelas famílias envolvidas. Elas são protagonistas deste processo e demonstram, a partir
                                       dos novos conhecimentos adquiridos, que são capazes de dar sequência às demandas de
                                       continuidade da proposta de convivência.
                                                 Exemplo disso é a família do Sr. Sílvio, que mora na comunidade Borda, zona rural do
                                       município de Coronel José Dias. Sr. Sílvio foi beneficiado pelo projeto Fecundação, desde o
                                       início da sua implantação. Participou de diversas capacitações oferecidas pelo projeto e
                                       também da Escola de Formação de Lavradores e Lavradoras promovida pelo IRPAA, em
                                       Juazeiro (BA), que oportuniza aos participantes a capacitação para a convivência com o semi-
                                       árido, a partir da vivência de atividades na área da produção e dos recursos hídricos.
                                                 Hoje, a família do Sr. Sílvio desenvolve vários projetos em sua pequena propriedade
                                       como a apicultura e o manejo de caprinos e mantém uma horta com a água vinda da cisterna
                                       calçadão, construída pelo P1+2, parceria com a ASA Brasil. Além da sua cisterna caseira para
                                       uso doméstico, comercializa produtos do semiárido como mudas de mandacaru sem espinho.
                                                 Para Celmo, filho do Sr. Sílvio,

                                                                O projeto Fecundação criou várias alternativas de emprego e renda porque
                                                                aproveita o que tem na própria realidade: o artesanato local, o beneficia-
                                                                mento de frutos da região e a criação de animais adaptados ao semi-árido
                                                                (Depoimento colhido em outubro/09).

                                                  Novas possibilidades também surgiram para outros municípios do semiárido
                                       piauiense. No período de 2003 a 2005, o projeto Fecundação foi ampliado com o Programa de
                                       Ações Preventivas e Emergenciais de Convivência com o Semiárido, desenvolvendo ações
                                       correspondentes aos eixos já trabalhados em Coronel José Dias em mais seis municípios:
                                       Bonfim do Piauí, Flores do Piauí, Julio Borges, Lagoa do Barro do Piauí, Pio IX e São João da
                                       Varjota. Em 2006, foi a vez dos municípios de Isaías Coelho e Santa Rosa do Piauí serem
                                       integrados ao projeto. E em 2009, os municípios de São Lourenço e Itainópolis foram contem-
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                                       plados.
                                                  Nos primeiros seis municípios, a proposta de convivência com o semiárido foi
                                       trabalhada num recorte temporal menor. Mas acredita-se que a semente plantada foi fecunda-
                                       da, considerando que um novo olhar para o semiárido ali instalado se abre para novas perspec-
                                       tivas de relação com o ambiente no qual se vive.
                                                  Em atenção especifica às questões de gênero e gerações presentes na região, a expe-
                                       riência do Projeto Fecundação também enfatizou a participação das mulheres e da juventude,
                                       conduzindo à reflexão de situações de opressão e injustiça. Percebe-se o papel da mulher na
                                       sociedade, bem como o lugar das crianças jovens e adolescentes como sujeitos de direitos a
                                       serem preservados pelas suas condições peculiares e em processo de desenvolvimento.
                                                  É possível dizer do projeto, que ele movimentou as relações de gênero e geração, a
                                       partir das novas vivências provocadas pelas mudanças, por exemplo, nas formas de colher a
61

água. A mulher do sertão de Coronel José Dias não precisa mais “carregar água na cabeça”,
nem submeter suas crianças a este tipo de trabalho, como fazia antes, sobrando mais tempo
para se dedicar a outros afazeres como cuidar de si mesma, estudar, cuidar da educação de seus
filhos e filhas, e participar da geração de renda da família.
           Ressaltemos a experiência do município com os grupos de mulheres na produção,
através do artesanato, como o trabalho liderado pela dona Maura, do Sítio do Mocó. D. Maura
com outras mulheres produzem lindas peças do artesanato com referência à arte rupestre da
Serra da Capivara, valorizando o que tem na própria comunidade, agregando valores ao que é
da terra, aproveitando a potencialidade turística da região para gerar renda. O grupo de mulhe-
res está organizando uma cooperativa para favorecer a comercialização dos produtos e a
própria organização da produção e participa de atividades várias de organização e mobilização
tanto dentro como fora do município.
           Para dona Maura, o grande desafio para a sustentabilidade está no poder de mobiliza-
ção junto ao poder público: “Falta a prefeitura construir o centro de produção como espaço de
divulgação e de comercialização dos produtos”.
           Outra experiência importante também é a fabricação de remédios fitoterápicos, que
tem como animadora a religiosa Ana Maria, a partir da sua experiência com manuseio de
plantas e ervas medicinais. Foi criado um grupo de mulheres com tal fim e o apoio do Projeto
Fecundação possibilitou a aquisição de frascos de plásticos e de vidro para adequadamente
acondicionar os medicamentos. Os medicamentos começaram a ser comercializados no
município, com boa aceitação pela população, e são encontrados no salão da paróquia, numa
vitrine localizada no escritório do projeto Fecundação e com as mulheres participantes do
grupo.
           Através do Programa de Garantia de Direitos da Infância, Adolescência e Juventude
(PIAJ), um programa da rede Cáritas Nacional que conta com o apoio da Cáritas Suíça, da
CORDAID e do Fundo Nacional de Solidariedade (fundo da Campanha da Fraternidade),
crianças, adolescentes e jovens passaram a ter, a partir da escola e da comunidade, um novo
referencial de organização no município.
           No Piauí, o Programa é executado nas dioceses de São Raimundo Nonato, Bom
Jesus, Parnaíba, Picos e Teresina e consiste em um trabalho de prevenção à exploração e abuso
sexual de crianças e adolescentes, do trabalho infantil e gravidez precoce, bem como no
combate e prevenção do uso de drogas na juventude.
           As ações do Programa vão desde a formação em relação ao Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) às Políticas Públicas, Orçamento Criança, passando pela mobilização da
comunidade, escola, poder público local, desenvolvendo atividades de recreação, arte, cultura e
                                                                                                   O Sonho construído em mutirão
lazer, e promovendo o fortalecimento dos Conselhos. Tudo isso em consonância com a
Educação Contextualizada e com a convivência com o meio, colocando todas essas questões
dentro da temática transversal "Protagonismo das Gerações".
           Em Coronel José Dias, essa ação é desenvolvida com mais de 60 crianças, adolescen-
tes e jovens das famílias de trabalhadores e trabalhadoras do projeto Fecundação, pela aproxi-
mação de seus objetivos, na medida em que mobilizam a juventude, crianças e adolescentes
para a luta pelos seus direitos, tendo na escola um espaço privilegiado destas ações. A educação
é o maior espaço social aglutinador e, portanto, força social mobilizadora para o protagonismo
juvenil.
           O projeto Cidadania no Mundo das Letras (CML), ação desenvolvida dentro do
Projeto Dom Helder Câmara (PDHC) e em parceria com a Petrobrás, tem possibilitado a
62

                                       descoberta da cultura local em um prazeroso processo de leitura e contagem de histórias. O
                                       PDHC envolve as ações do PIAJ e outras ações de convivência com o semiárido, desenvolvi-
                                       das no território Serra da Capivara, que contempla os municípios de Coronel José Dias, São
                                       Raimundo Nonato e São João do Piauí.
                                                Segundo Marcos Pereira, pedagogo que acompanha as ações do PIAJ e coordena o
                                       CML, à luz das expectativas das comunidades envolvidas, o projeto:

                                                                É necessário para melhoria da leitura, escrita e interpretação entre as
                                                                crianças, adolescentes e jovens e, sobretudo, para a melhoria das relações
                                                                entre professores/as, alunos/as e toda a comunidade que busca dias
                                                                melhores para os seus filhos e filhas, através de um processo educativo
                                                                comprometido com a ética e com a cidadania (Depoimento feito em
                                                                novembro/2009).

                                                 Importante também destacar a mística e a espiritualidade como vivência do Projeto
                                       Fecundação – alimentada pela Cáritas Brasileira, através de momentos de oração e reflexão das
                                       ações à luz do projeto de Deus para todo o seu povo – que assumiu um caráter motivador para
                                       as pessoas beneficiárias do projeto. Fonte de fé inspira a esperança de que nesta terra prometi-
                                       da, haverá de correr leite e mel sob a proteção do criador e cuidada pelas suas criaturas de
                                       forma harmoniosa.
                                                 As ações desenvolvidas pelo projeto Fecundação mostram resultados satisfatórios
                                       pelo caráter de intervenção e mobilização social para o enfrentamento da realidade local e
                                       pelas mudanças implementadas.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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A visão das pessoas
envolvidas no projeto

          A sustentabilidade da experiência reside nas ações desenvolvidas pelo projeto em
todos os eixos, que propiciam a aquisição de conhecimentos e informações capazes de tornar
as pessoas protagonistas deste processo. Outro destaque está relacionado às parcerias estabe-
lecidas durante todo o processo de execução:

                         O poder público dando continuidade e apoio às ações, implementando e
                         executando ações como a construção de barraginhas. A parceria
                         Cáritas/ASA na implantação de cisternas calçadão e barragens subterrâne-
                         as e as ações da Igreja católica em relação ao empoderamento das pessoas,
                         especialmente à juventude e às famílias com projetos sociais (Depoimento
                         colhido durante a Oficina de Sistematização, dez. 2009).

          No eixo da gestão, é apontado como resultados significativos a gestão democrática,
viabilizada pela participação dos diversos segmentos sociais nos processos de planejamento e
execução das ações, acompanhadas pelos grupos de trabalho por eixo, valorizando assim, a
participação coletiva.
          Para buscar saber o que pensam as pessoas envolvidas neste processo, sobre os
impactos do projeto na vida do município, em dezembro de 2009, foi realizada uma oficina de
sistematização com pessoas beneficiárias do projeto Fecundação com cisternas, iniciativas
produtivas e educação contextualizada: professores e professoras; agricultores e agricultoras e
representantes de grupos de produção (remédios fitoterápicos, artesanato e beneficiamento
de frutos) e da comissão gestora do projeto: Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras
Rurais – STTR, Igreja Católica, Secretaria Municipal de Educação e PIAJ e chegou-se a uma
série de conclusões.
          Das pessoas envolvidas na área de produção e recursos hídricos, buscou-se saber o
que representa para o município e para as famílias agricultoras e produtoras a adoção da
agricultura e produção apropriada. As aguadas e as cisternas trouxeram saúde à população; as

                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
frutas geraram alimentos e renda, proporcionando uma alimentação de qualidade, a partir do
que é produzido no próprio local; a carne dos animais é saudável e houve um aumento da
criação de bode e da renda com o abate dos animais.
          Houve melhoria de renda, a partir do aproveitamento das plantas e animais apropria-
dos à região, através do aumento das roças de caju e mandioca e o melhoramento das pasta-
gens, bem como do incentivo à criação de abelhas. A assistência técnica ainda não é capaz de
atender às demandas e para que as políticas públicas no setor produtivo agropecuário sejam de
fato atendidas, é necessário que a Secretaria de Agricultura disponibilize uma equipe técnica,
para fazer o devido acompanhamento aos grupos de produção nesta área.
          O processo produtivo foi consolidado – embora ainda haja dificuldades na comercia-
lização – através da criação de estratégias de escoamento da produção. Como é o caso da
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                                       compra direta para a merenda escolar, que poderia absorver os produtos beneficiados advin-
                                       dos do caju (como a cajuína) o umbu, o maracujá bem como os embutidos e defumados de
                                       caprinos e ovinos e a farinha de mandioca. A casa de beneficiamento de frutas, por exemplo, é
                                       uma proposta que vem sendo discutida desde 2003, mas até agora não se efetivou.
                                                 Os grupos de produção precisam se reorganizar e rever toda a estrutura produtiva
                                       que foi implantada com o projeto Fecundação. Já há uma possibilidade, a partir dos apicultores,
                                       para que possam viabilizar suas criações para certificação.
                                                 Quanto à agricultura, falta investir mais em capacitações. Torna-se necessário o apoio
                                       do governo e que a prefeitura viabilize o acompanhamento às famílias agricultoras, orientando
                                       sobre o andamento dos projetos produtivos, principalmente em relação aos projetos já envia-
                                       dos e que não foram aprovados.
                                                   A realidade política do município, devido às constantes mudanças na prefeitura,
                                       dificulta o diálogo com as comunidades e o acompanhamento dos grupos. Para as pessoas, a
                                       Cáritas já fez sua parte, mas, para buscar as saídas, precisa-se de acompanhamento. Os partici-
                                       pantes da oficina afirmaram ser gratos à Cáritas pelos benefícios recebidos e por isso tentam
                                       dar continuidade à proposta de convivência.
                                                  Das professoras da rede municipal de educação presentes na oficina de sistematiza-
                                       ção e da representante da Secretaria Municipal de Educação (SEMEC) buscou-se saber em que
                                       a proposta de Educação para a Convivência com o Semiárido contribuiu para a prática pedagó-
                                       gica de cada uma delas, para a prática pedagógica da escola na qual atuam e para a educação no
                                       município.
                                                  Para Naildes, professora aposentada e representante da Igreja Católica na comissão
                                       gestora do projeto Fecundação, e Camila, professora e coordenadora do PIAJ, a contribuição
                                       está na aquisição de um novo conhecimento sobre o semiárido e como trabalhar o contexto
                                       como conteúdo escolar.

                                                                Pelas informações temos um grande avanço no sentido de falar para os
                                                                alunos de como conviver com o semiárido. Antes, o recurso era apenas o
                                                                livro didático. Depois, a própria realidade e o contexto também viraram
                                                                conteúdo. A abordagem com as famílias ficou mais fácil. A pedagogia dos
                                                                projetos facilitou a contextualização com várias disciplinas e desenvolve-
                                                                mos vários projetos envolvendo a escola (Naildes, professora).

                                                 Para Laurenice, professora, a contextualização a partir das capacitações - adquirindo
                                       conhecimento e levando os alunos, alunas e comunidade escolar para campo - contribuiu para
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                       a valorização do que existe na comunidade, através do desenvolvimento de projetos interdisci-
                                       plinares e da socialização do conhecimento.

                                                                No início, não foi fácil, principalmente por parte da comunidade escolar.
                                                                Foi um desafio, porém não somente eu, mas outros professores e professo-
                                                                ras hoje trabalham a realidade local fazendo o paralelo entre os conteúdos
                                                                apreendidos e os conteúdos apresentados nos livros didáticos (Profª.
                                                                Laurenice)

                                                 Para Filomena, coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação e
                                       representante da SEMEC na comissão gestora, as oficinas pedagógicas impulsionaram uma
                                       nova educação no município:
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                         A partir das oficinas pedagógicas, passamos a adotar a proposta de educa-
                         ção contextualizada para a convivência com o semiárido, levando em
                         consideração os saberes que nossos alunos e alunas já trazem consigo, bem
                         como, aproximar, através do conhecimento, a família para a escola. As aulas
                         passaram a ser embasadas em projetos didáticos, com envolvimento de
                         toda a comunidade escolar e, consequentemente, o resultado na aprendiza-
                         gem está bem visível. Tivemos alguns problemas como a resistência por
                         parte de alguns professores/as, mas, ao longo do desenvolvimento da
                         proposta, eles foram superados (Filomena, SEMEC).

          Em relação à contribuição da proposta de ECSA para a prática pedagógica da escola,
a participação das famílias, a interdisciplinaridade e o envolvimento dos professores e profes-
soras de forma coletiva a partir dos projetos – bem como a apropriação dos saberes pelos
alunos e alunas a partir da sua própria realidade, como fonte de conhecimento – representam a
grande contribuição para a escola do município.
          Está consolidada uma proposta de currículo escolar no município e o Plano
Municipal de Educação é a referência da educação contextualizada não somente para Coronel
José Dias, mas para os municípios circunvizinhos e para o país, considerando as inúmeras
participações em congressos e seminários nos quais a experiência foi apresentada.
          A grande limitação do projeto ainda é a mudança de gestão sem a garantia da continu-
idade dos profissionais. O desafio é garantir a capacitação de novos professores e professoras
que ingressaram na rede após a realização das oficinas pedagógicas e que não têm conhecimen-
to da proposta de ECSA.
          Numa roda de conversa, as pessoas participantes da oficina foram questionadas
sobre o seu aprendizado em relação à convivência com o semiárido e as respostas apontaram
para uma aprendizagem significativa de convivência e da consciência de que esta é a melhor
forma de se viver no semiárido.
          Qual a compreensão sobre a mudança de paradigma em relação à convivência com o
semiárido e o combate à seca? O conhecimento das potencialidades do semiárido levou à
valorização do lugar, provocando mudanças nas formas de ver e de se relacionar com a realida-
de e elevando a autoestima. Os cursos e capacitações ensinaram a mudar o jeito de plantar.
          Com os cursos as famílias passaram a valorizar o plantio de culturas que utilizam
pouca água e aprenderam formas de estocar água para suprir a necessidade. Aprenderam a
fazer e estocar a alimentação dos animais e a deixar de queimar o mandacaru, o qual pode ser
transformado em uma rica fonte de proteína para as criações.
          As pessoas aprenderam a conviver com o semiárido, aproveitando suas potencialida-
                                                                                                       O Sonho construído em mutirão
des, armazenando a água, cultivando plantas adaptadas e preparando a alimentação dos
animais. Como as famílias relatam, elas aprenderam a conviver, começando com a cisterna. Na
região não se bebe mais água suja. Saíram do sofrimento de carregar água na cabeça e, hoje,
toda casa tem uma cisterna.
          A valorização do lugar onde se vive levou a uma aceitação das condições de vida no
semiárido e a convivência foi como uma descoberta da vida possível na região. Essas famílias
passamos a aceitar morar no semiárido, não precisando mais sair para buscar uma vida melhor.
O combate à seca era um processo sofredor para as famílias.
          Que impactos o projeto causou na vida dos moradores e moradoras de Coronel José
Dias? As respostas obtidas demonstraram que as pessoas aprenderam a fazer o uso racional da
água, fato que ocorre inclusive na zona urbana e que as cisternas já definem bem o que é o
66

                                       Fecundação e o que o projeto representa para o município. Em relatos, ouve-se que a maioria
                                       das pessoas toma cuidado com a água, embora haja alguns casos de desperdício. Há, por
                                       exemplo, cisternas que não sustentam água porque as famílias não tiveram o devido cuidado
                                       com a limpeza e com os reparos.
                                                 A organização deve ser o caminho para retomar todas as ações que o projeto já
                                       implantou no município, pois apesar das conquistas e avanços, as falhas aconteceram e estas se
                                       devem à falta de organização das comunidades. “A dependência política das famílias foi
                                       reduzida, as pessoas buscam saídas, zelam seus benefícios (pintam a cisterna, cuidam da água,
                                       fazem a manutenção de seus chiqueiros)” (Filomena, SEMEC).
                                                 Como podemos perceber a melhoria da qualidade de ensino no município, após a
                                       implantação da ECSA? As respostas revelam falhas no próprio sistema de educação que causa
                                       resistências em alguns professores e professoras em relação à necessidade de se atualizarem
                                       profissionalmente, principalmente no que se referem ao domínio das novas tecnologias
                                       educacionais. O que pode ser visto hoje é que alunos e alunas saem na frente dos professores e
                                       professoras com relação ao uso da informática. Há professores e professoras que conhecem a
                                       ECSA, mas se acomodam e não se preocupam em se qualificar devidamente.
                                                 Além da atualização profissional a questão salarial também foi apresentada na
                                       discussão como um fator que, às vezes, dificulta o processo educacional porque, nos momen-
                                       tos de reivindicação, prejudica-se o ensino-aprendizagem. Embora tenha sido esclarecido o
                                       direito dos trabalhadores e trabalhadoras em reivindicarem e buscarem melhores condições de
                                       trabalho e isso inclui, necessariamente, a valorização do magistério.
                                                 Os princípios da educação contextualizada permanecem orientando a proposta
                                       pedagógica do município e notadamente, a prática pedagógica dos professores e professoras,
                                       promovendo-se o resgate da cultura local e a valorização do lugar onde se vive, mas é preciso
                                       melhorar a qualidade do ensino, sobretudo no que se refere às novas exigências tecnológicas,
                                       colocando-as a serviço do conhecimento, e à capacitação de novos professores e professoras.
                                                 Atualmente, são 78 professores e professoras na rede municipal de educação, 06
                                       ainda não tem graduação. Isto representa um percentual baixo (7,69%). No entanto a SEMEC
                                       preocupa-se com a formação profissional do corpo docente, visando à melhoria da qualidade
                                       de ensino em conformidade com o Plano Nacional de Educação (PNE), que exige a formação
                                       em nível superior num prazo de 10 anos, encerrando-se, portanto, em 2012.
                                                  Em que o projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da
                                       região? As capacitações promovidas nas áreas de produção apropriada, recursos hídricos e
                                       educação contextualizada como suporte para a continuidade das ações desenvolvidas, embora
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                                       algumas delas careçam de mais investimentos em acompanhamento técnico e infraestrutura,
                                       garantindo-se assim, a efetivação da proposta de convivência.
                                                 O acesso à água de beber, através das cisternas, permitiu ao jovem Celmo, mais
                                       tempo para estudar, e hoje é professor da rede municipal de educação onde experimenta a
                                       multiplicação da proposta de convivência, antes vivenciada apenas na propriedade de sua
                                       família onde planta, cria comercializa produtos artesanais e contribui no gerenciamento da
                                       água para beber, cozinhar os alimentos, plantar e matar a sede dos animais.
                                                 A experiência do projeto Fecundação promoveu a sustentabilidade na medida em
                                       que propagou o conhecimento do semiárido e possibilitou uma visão diferente de uma
                                       realidade, antes tida como terra ruim, seca e sem condições de prosperar.
                                                 Camilla, professora e coordenadora do PIAJ, sente-se beneficiada pelo projeto pela
                                       participação nas oficinas de defumados e embutidos e gratificada por poder contribuir com a
67

juventude: “o projeto contribuiu para a promoção da cultura através da capoeira, teatro e
outras festividades com as crianças e com a geração de renda, alcançada a partir das capacita-
ções em defumados e embutidos”.
          O Senhor Otávio, que participou do processo de instalação do projeto no município,
hoje se sente insatisfeito com a plantação de caju, pois segundo ele, trouxe prejuízos pessoais
em razão da falta de experiência com o solo e de apoio técnico especializado, mas reconhece o
potencial transformador da experiência, a partir dos benefícios trazidos: “o manejo de capri-
nos, o acesso a água e a geração de renda para muitas pessoas.”
          A professora Lucineide é quem diz: “A água - o tratamento, a captação, através das
cisternas, o armazenamento e os cuidados com a higienização - foi o grande benefício, assim
como o beneficiamento de frutas da região”.
          Para o Senhor Marciano, agricultor e beneficiário do projeto com cisterna de placa, o
conjunto das ações desenvolvidas contribuíram para o desenvolvimento do município.
“Todos os eixos contribuíram para o nosso crescimento, tanto que foi repassado para outros
municípios”.
          Para Naildes, professora, o conhecimento veio a partir das assessorias externas,
inclusive de outros países. Segundo ela, “a troca de experiências com outras realidades e
relações construídas com outras pessoas de culturas diferentes eleva a autoestima das pesso-
as”.
          Irmã Inês, representante da paróquia e animadora do PIAJ, expressou sua opinião
sobre a sustentabilidade da experiência:

                         contribuiu totalmente para a melhoria da qualidade de vida e para a cidada-
                         nia. A libertação de tanto sofrimento causado pela água é uma grande ajuda
                         para o ser humano. O PIAJ é fruto do processo de convivência. A mística da
                         Cáritas incentivou a vivência da cidadania e a valorização da pessoa humana
                         (Ir. Inês - PIAJ)

         O Senhor Sílvio afirmou a sua gratidão à Cáritas, que na opinião dele, é formada de
gente confiável e não escondeu a sua felicidade ao dizer que “a Cáritas é mãe. Foi muito
importante porque trouxe bastante benefícios. Só tenho a elogiar a iniciativa da Cáritas que
realmente ajudou a muita gente.”.
         Filomena, professora e coordenadora pedagógica da SEMEC, falou dos desafios de
se construir a sustentabilidade da região: “os pontos negativos nos impulsionam ao desafio. O
projeto Fecundação foi e ainda é, uma lição. O grande desafio é a organização das pessoas em
grupos, no sentido de organizar a produção e a comercialização”.
         Ivomar, membro da comissão gestora e técnico do EMATER, falou do processo de                   O Sonho construído em mutirão
democracia na construção do conhecimento para a execução das ações.

                         É o conhecimento um elemento forte de sustentabilidade do projeto
                         Fecundação e um instrumento de democracia. A sistematização é prova
                         deste processo. O fortalecimento da democracia é o que há de se destacar,
                         pelo caráter das ações. A herança maior é o conhecimento, expansão para
                         outras regiões, países etc., a participação que possibilita as pessoas serem
                         protagonistas deste processo é a grande força do projeto (Ivomar –
                         EMATER)
68

                                                 Laurenice, professora na Comunidade das Lages, desde 1995, falou do significado do
                                       acesso à água na comunidade e classificou como uma vitória muito grande para as famílias sair
                                       do sofrimento que representava a busca pela água. Destacou também a importância da
                                       Educação Contextualizada:

                                                                Não existia uma pratica de educação. Seguia-se o livro, professor e profes-
                                                                sora não poderiam criar. Com as capacitações/oficinas passamos a ter visão
                                                                diferente. Havia professores que tinham vergonha de se expressar, mas a
                                                                participação nas oficinas abriu horizontes. Ainda falta melhorar, mas as
                                                                pessoas incorporam e vivem a ECSA.”

                                                 Os depoimentos colhidos na entrevista coletiva pela comissão gestora e na oficina de
                                       sistematização revelaram a satisfação das pessoas com a experiência desenvolvida no municí-
                                       pio e o desejo de continuidade, e demonstraram a certeza de que chove em Coronel José Dias
                                       não somente água enquanto recurso natural, mas também a chuva do conhecimento, que
                                       transforma a vida no sertão.
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Projeto Fecundação
como Política Pública
           Hoje o projeto fecundação chega ao longo de sua trajetória como referência da
Cáritas em Educação Contextualizada na convivência com o semiárido, eixo fortalecedor da
construção de um novo referencial para a educação escolar. Esta ação tornou-se a fonte
principal de dados e informações para subsidiar as políticas públicas, atender a demanda de
vários segmentos sociais com interesse na temática e para as entidades, tanto organizações em
redes articuladas dentro da convivência com o semiárido como os órgãos de governos munici-
pais e estaduais.
           O grande desafio agora, é que as ações desenvolvidas pelo projeto Fecundação se
tornem políticas publicas de modo a garantir melhorias das condições de vida das populações
do semiárido.
           Esta é, portanto, uma experiência que, apesar das dificuldades, demonstra a capacida-
de de fecundar ações transformadoras de hábitos e costumes revelando a força e resistência do
povo do semiárido e, através deste processo de aprendizagem de um novo jeito de conviver
com a realidade, novas sementes estão sendo fecundadas com a esperança de continuar
produzindo novos frutos.
           Constituem-se, portanto, DESAFIOS de acordo com cada eixo de ação trabalhado:

GESTÃO
         • Ampliação das parcerias, viabilizando novos convênios;
         • Animação da comissão gestora para dar mais agilidade às ações;
         • Divulgação da experiência;
         • Melhor funcionamento dos grupos de trabalho por eixo;
         • Melhor comunicação com o regional da Cáritas;
         • Maior envolvimento da comunidade no projeto;
         • Vivenciar a gestão compartilhada;
         • Melhorar o relacionamento institucional: projeto e paróquia;

                                                                                                   O Sonho construído em mutirão
         • Desafiar o poder público a manter o apoio às ações;
         • Definir melhor o compromisso das parcerias;
         • Tornar o projeto uma política pública no município e no estado;
         • Dar sustentação às ações desenvolvidas pelo projeto;
         • Tornar a comunidade mais atuante e com maior compreensão do projeto;
         • Fazer uma avaliação dos impactos do projeto na comunidade;
         • Organização interna dos grupos de trabalho.

RECURSOS HÍDRICOS
         • Concluir o plano municipal de recursos hídricos;
         • Tornar a construção de cisternas uma política pública no município;
70

                                                • Viabilizar mais recursos para cisternas e demais obras hídricas;
                                                • Agregar os agentes de saúde nas ações deste eixo;
                                                • Melhorar a gestão dos recursos hídricos.

                                       PRODUÇÃO AGOPECUÁRIA APROPRIADA
                                                • Consolidar os grupos com a produção e melhoria do produto;
                                                • Viabilizar a comercialização na perspectiva da Economia Popular Solidária – EPS;
                                                • Integrar-se a redes de comercialização e produção agroecológica;
                                                • Consolidar o fundo produtivo solidário e rotativo;
                                                • Fortalecimento da organização dos grupos de produção;
                                                • Promover a auto-sustentação do projeto;
                                                • Compromisso coletivo com as práticas de preparação dos produtos e derivados;
                                                • Criação de novos grupos de produção de alimentos com o fundo solidário.

                                       EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA
                                                • Maior participação da família na escola;
                                                • Incentivo aos professores e professoras para a prática de leitura e atividades extra-
                                                classe;
                                                • Acompanhamento pedagógico aos planejamentos escolares;
                                                • Multiplicação da proposta oportunizando aos novos professores/as a apropriação
                                                da proposta de ECSA;
                                                • Construção dos projetos políticos pedagógicos da escola em consonância com a
                                                proposta pedagógica do município;
                                                • Planejamento participativo da proposta curricular do município;
                                                • Viabilizar o PME enquanto política pública.

                                                 Esta proposta é uma possibilidade de construção de uma cultura de solidariedade,
                                       pela experiência de relações democráticas e pela ampla divulgação do conhecimento, apontan-
                                       do perspectivas de sustentabilidade, através da continuidade das suas ações assumidas tanto no
                                       plano individual, como coletivo, ressaltando-se a responsabilidade do poder público em
                                       viabilizar as condições de vida digna à população.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
71


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                                       PROJETO FECUNDAÇÃO: Atas de reuniões da comissão gestora: 2001 – 2008
                                       PROJETO FECUNDAÇÃO: Slides: Experiência do Projeto Fecundação/ ações do projeto
                                       fecundação 2001 – 2008/ Água para produção
                                       PROJETO FECUNDAÇÃO: Vídeo-carta debate
                                       SOUSA, Ivânia Paula Freitas de; REIS, Edmerson dos Santos. (org.) Educação para a convi-
                                       vência com o semi-árido: re-encantando a educação com base nas experiências de Canudos,
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                                       OLIVEIRA, João Evangelista Santos. Produção de alimentos, tecnologia apropriada e segu-
                                       rança alimentar. Novembro, 2009 (anexo)
                                       SOUSA, Juvenal Antonio de. Agricultura familiar. In: Guia de orientações básicas de convi-
                                       vência com o semi-árido – tecnologias alternativas. Coronel José Dias – Piauí, julho/2003.
                                       Cartilha, p. 2
                                       UNIDADE ESCOLAR MONSENHOR NESTOR. Projeto Aprendendo com a caatinga.
                                       Coronel José Dias, setembro a novembro/2002 (Impresso).
                                       UNIDADE ESCOLAR MANOEL AGOSTINHO DE CASTRO, Plantas medicinais da
                                       caatinga - informativo. Coronel José Dias – Piauí (s/d); (Impresso)
                                       U. E PROFª. RAQUEL FERREIRA DE OLIVEIRA. Projeto Folclore – Relatório final.
                                       Coronel José Dias, 18 de agosto de 2002. (impresso)
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
Anexos




Textos,
depoimentos e
roteiros
75




Educação Contextualizada -
Educação Para Convivência com o Semiárido³

          O problema da Educação no Brasil é conjuntural e estrutural, um indicativo de que as
políticas educacionais devem atuar nos espaços de onde podem verter as bases estruturais dos
problemas educacionais, tais como: currículo não contextualizado, evasão escolar, falta de
qualificação e capacitação profissional, dentre outros problemas, que impedem e/ ou dificul-
tam o acesso universal à escola pública, as condições de permanência na escola, por isso a baixa
escolaridade e a oferta de ensino público e gratuito de qualidade.
          No semiárido, a referida problemática conta com a agravante da SECA, faceta
comum e muita conhecida, veiculada como a causa base de todos os problemas por que passa
esta região brasileira. A seca não é causa dos problemas sociais vivenciados no semiárido,
como também não é questão a ser combatida. A seca é fenômeno natural, agravado pela ação
humana de exploração e devastação do meio ambiente, apresentando-se hoje não como
problema a ser combatido, mas como uma condição de vida que exige ações e relações de
convivência, adequadas às especificidades da região. Carecendo, pois de que se desenvolvam
costumes e hábitos voltados para a construção e efetivação de uma relação de convivência, em
substituição à relação de exploração do meio assim como, carece de políticas públicas que
possam atuar na recuperação dos graves danos já provocados ao meio ambiente; preservar o
que ainda não foi destruído; estimular a criação de relações de convivência com o meio;
estimular o processo produtivo apropriado às condições do semiárido; planejar e democratizar
a gestão dos recursos hídricos.
          Uma Política Educacional apropriada à realidade semiárida, cuja natureza se traduza
na preparação das pessoas para a convivência com a realidade do semiárido, é um dos meios a
ser potencializado, em todas as suas dimensões, especialmente, a educação escolar, por ser o
lugar de produção e reprodução do saber de forma sistemática.
          O artigo 225 da Constituição Brasileira assegura o direito a todos a um “meio ambi-
ente ecologicamente equilibrado”, entendendo este como um “bem de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida” devendo o poder público e a coletividade “defendê-lo e
preservá-lo para presente e futura gerações”. Desta forma garante a necessidade de uma
“educação ambiental em todos os níveis de ensino”, bem como a “conscientização pública
                                                                                                   O Sonho construído em mutirão
para a preservação do meio ambiente”.
          A política educacional brasileira através da Lei de Diretrizes da Educação preconiza
um ensino contextualizado, conforme artigo 26: “os currículos de ensino fundamental e
médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada em cada sistema de ensino e
estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e
locais da sociedade e da clientela” e, em seu artigo 12, tratando da incumbência dos estabeleci-
mentos de ensino, prever também a articulação com as famílias e a comunidade, criando
processos de integração da sociedade com a escola. Tratando especificamente das populações

³O texto é parte do referido PME e define a Educação Contextualizada.
76

                                       rurais, característica predominante na realidade semiárida, a lei também dá abertura para as
                                       adaptações necessárias às suas peculiaridades, devendo adotar: “conteúdos curriculares e
                                       metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural” (alínea I,
                                       art. 28 da Lei 9.394/96).
                                                  Desta forma, a educação para a convivência com o semiárido é urgente e necessária
                                       na medida em que promove o conhecimento da realidade, evidenciando suas potencialidades,
                                       promovendo e valorizando toda e qualquer espécie de vida ali existente, buscando uma relação
                                       harmoniosa e de colaboração com a preservação da vida.
                                                  A proposta de educação para a convivência assume quatro eixos norteadores de sua
                                       prática: Natureza, Trabalho, Sociedade e Cultura, tendo como referência os quatro pilares para
                                       a educação: Conhecer, Fazer, Conviver e Ser.
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
77




Construir novas relações de gênero e geração
para uma boa convivência com o semiárido 4

                                                                              Hortência Mendes5

          Igualdade tem sido a tônica pela qual perpassou toda a teoria e a luta do movimento
feminista nacional e mundial historicamente. Igualdade de direitos. Igualdade de responsabili-
dades com a vida de todos os seres existentes no planeta. Igualdade de participação, de oportu-
nidades, de desenvolvimento de potencialidades físicas, espirituais, emocionais, sexuais e
intelectuais.
          A ONU – Organização das Nações Unidas estabeleceu a igualdade entre os sexos e a
autonomia das mulheres como uma das oito metas do milênio, com o fito de melhorar as
condições de vida de todos os povos. Sem autonomia é impossível construir igualdade, sem
igualdade, as condições de vida dos setores tratados desigualmente deixam muito a desejar.
          Promover e estabelecer a igualdade entre mulheres e homens, pessoas jovens e
idosas, negras e brancas, etc.; só é possível respeitando-se as diferenças e construindo a equida-
de de direitos. É na diferença entre gênero/raça e geração que se constrói a vida com toda a sua
rica diversidade e, no momento em que essas diferenças são respeitadas, como fator importan-
te na vida de cada pessoa, é que se inicia o processo de construção da cidadania real e plena.
          O movimento feminista desnudou as desigualdades existentes entre as mulheres e os
homens que geraram e ainda geram para as mulheres muitos problemas como: violência, tripla
jornada de trabalho, desemprego, subemprego, fome, miséria, analfabetismo, mortalidade
materna, pobreza, desigualdade salarial e morte, para mencionar alguns dos problemas.
          Durante décadas afinco, o movimento feminista denunciou para toda a sociedade
essa problemática e apontou saídas para coibir essa situação; mesmo assim, a situação só tem se
agravado a cada ano e, em que pese os avanços consideráveis, a situação de vida da mulher no
mundo e no Brasil ainda requer um tratamento especial e diferenciado em relação aos homens.
          O mesmo podemos dizer ao nos referimos às crianças, adolescentes, à juventude e
também às pessoas idosas. Os problemas relacionados a essas gerações são na sua maioria,
problemas relacionados aos desrespeitos à vida, à violência intrafamiliar, de rua e institucional.
Vivemos em um mundo de homens adultos normalmente brancos e ricos. As políticas, os
                                                                                                     O Sonho construído em mutirão
privilégios, as leis, as oportunidades, os direitos são voltados especial e prioritariamente para
esse público, e então se dão as desigualdade e as injustiças. A forma de fazer política como a
conhecemos em nosso País, historicamente, é marcadamente masculina e adulta, provavel-
mente por que faz pouco tempo – menos da metade de um século - que as mulheres e a juven-
tude ensaiaram uma participação mais efetiva na sociedade.
          Não estamos nos referindo apenas ao direito de votar e ser votada ou votado, mas, ao
fazer político de uma forma geral. Dirigir e organizar a sociedade de todas as formas, sob todos
os aspectos; econômico, político, social, religioso, educacional e cultural, passando também

4Texto produzido especialmente para este documento
5Coordenadora político-pedagógica da Cáritas Brasileira Regional do Piauí
78

                                       pela organização social do espaço familiar, enquanto espaço primeiro de socialização das
                                       pessoas. Todo esse processo durante séculos foi tarefa exclusiva dos homens adultos.
                                                  Às mulheres e à juventude foi relegado o espaço doméstico e periférico, por excelên-
                                       cia. Toda a engenharia e sinergia social é uma atividade masculina, chegando a se considerar em
                                       dado momento da história como algo genético. Acreditou-se por décadas que as mulheres
                                       eram incapazes de realizar tais ações, assim como as pessoas idosas, os jovens, adolescentes e as
                                       crianças eram tolhidas de todo e qualquer poder de decisão.
                                                  Durante séculos perdurou essa dicotomia de gênero e geração retrógrada. Às
                                       mulheres era destinado o espaço privado. Aos homens, o espaço público, tendo sido dado à
                                       palavra “público” significados diferentes conforme a quem é adjetivado. O homem público é
                                       aquele que toma as decisões, é o executivo, o político. A mulher pública é a prostituta que está à
                                       disposição de todos os homens (Michelle Pirrot).
                                                  Por tudo isso a política enquanto expressão da vontade de uma sociedade, em nosso
                                       país caminha sempre incompleta. As mulheres, maioria da população, não participam, não
                                       dirigem, não tomam as decisões. Fato que retira o poder das mãos de mais de 50% da popula-
                                       ção brasileira, sem contar com a juventude e adolescência.
                                                  Toda essa realidade é a mesma no nordeste que estava presente historicamente no
                                       imaginário do povo brasileiro, inclusive das populações que aqui viviam, como um nordeste de
                                       grandes secas, de fome, miséria, que provocavam, por sua vez, migrações de milhares de
                                       pessoas. Famílias inteiras se retiravam para outras regiões do país em busca de melhores dias.
                                                  Essa odisséia nordestina virou poema, música e sentimentos de dor e saudade. Ao
                                       sair, às famílias perdiam seu vínculo cultural, seus laços familiares, sua relação com o tipo de
                                       produção e das formas de trabalho aqui existentes. Muitas pessoas migravam para nunca mais
                                       voltar.
                                                  Com o passar do tempo esse fato foi se transformando e percebe-se hoje que a
                                       migração é vista e realizada enquanto uma demanda masculina. Migração é problema de
                                       homens. Eles é que iam embora, se permitiam mudar de vida, buscar novos horizontes, iam em
                                       busca de liberdade. Liberdade financeira, liberdade de compromissos. E essa sua liberdade
                                       nunca era vista como a escravidão para as mulheres.
                                                  As consequências desastrosas da migração atingem também as mulheres em cheio no
                                       sertão nordestino, por exemplo. Os homens iam embora, em busca de outra vida, e deixavam
                                       as mulheres sozinhas, a cuidar das famílias. Na maioria das vezes, eles não voltavam mais e suas
                                       famílias (muitas famílias) (segundo dados do IBGE, cerca de 15% de famílias com um só
                                       cônjuge, é chefiada por mulheres), ficavam e ainda ficam a mercê das mulheres, que por sua vez
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                       tinham que se redescobrir como dirigentes, lideranças, organizando e resolvendo todos os
                                       desafios impostos pela falta dos companheiros. Esse fenômeno da migração leva homens
                                       adultos, mas também jovem. Deixando pra trás mulheres, crianças, adolescentes e pessoas
                                       idosas.
                                                  As mulheres nunca eram reconhecidas como trabalhadoras, mesmo que sempre
                                       trabalharam, nunca ganharam e ainda não ganham nenhuma notoriedade por trabalhar dias
                                       inteiros em jornadas intermináveis entre a roça, o rio, a casa, a comunidade, a igreja. Não há
                                       políticas públicas para esse segmento social que durante muitas décadas viveu no anonimato,
                                       sustentando suas famílias sozinhas.
                                                  “Viúvas da seca” foi como ficaram conhecidas no semiárido nordestino. Mulheres
                                       que tiveram que romper com preconceitos, reaprenderam a ser uma nova mulher, pois tudo o
                                       que aprenderam na sua socialização (ser submissa, ser protegida, ser provida por outros), nada
79

disso dava mais conta da vida que elas tinham que levar depois que ficavam sozinhas, depois
que os homens migravam.
          Mais uma vez a desigualdade de gênero se impõe. Os homens mesmos, os mais
pobres, os migrantes ainda tem privilégios, saem, vão em busca do futuro melhor, de salário
melhor, de vida melhor, mesmo que não encontre nada disso. As mulheres ficam no lar, no
espaço privado, sem nenhuma estrutura, sem nenhum recurso extra, só com seu aprendizado
de ser uma nova mulher solitariamente.
          Cuidar da família é, na maioria das vezes, esquecer-se de si mesmas para as mulheres.
Pesquisas realizadas demonstram que as mulheres nordestinas, principalmente no semiárido,
comem menos que os homens e as crianças, pois são sempre elas que distribuem a comida em
casa e sempre são as últimas a comer. Primeiro os homens, depois as crianças, depois as
pessoas idosas e só aí a mãe pode comer do que sobrar.
          Essas mulheres também dormem menos, pois são as primeiras a acordar e as últimas
a irem para o descanso noturno. Se a família precisa de água e de outras coisas que estão fora de
casa é sempre a mulher que tem que providenciar, sempre bem cedo da manhã.
          Toda essa discrepância é muito nítida no semiárido piauiense. Para promover uma
nova relação de convivência com o clima, há de se ter como prevalência das ações, essas
questões político-culturais estabelecidas nas relações de gênero e geração.




                                                                                                    O Sonho construído em mutirão
80




                                       Produção de alimentos, tecnologia
                                       apropriada e segurança alimentar

                                                                                                        João Evangelista Santos Oliveira 6

                                                  A ação da Cáritas Brasileira Regional do Piauí no que refere à segurança alimentar e a
                                       produção de alimentos nos remete as inúmeras campanhas de arrecadação e distribuição de
                                       alimento já realizadas e, dentre elas, resgato aqui, a de 1998, onde foi arrecadado cerca de 1
                                       (um) milhão de quilos de alimentos e distribuídos para a população do semiárido piauiense.
                                                  As campanhas continuam, sejam em situação de estiagem ou de enchentes. A ação da
                                       Cáritas com a produção de alimento tem início com a mobilização das comunidades de base,
                                       isso lá na década de 80. Ali se fazia o trabalho de organização de grupos comunitários tendo
                                       como foco viabilizar um apoio para se produzir alimentos e também o seu beneficiamento.
                                                  Muito se fez até então, tivemos bons resultados, uma centena de grupos com projetos
                                       de roças comunitárias, casas de farinha, campos agrícolas, produção de pequenos animais,
                                       dentre outros. Concluímos que os pequenos agricultores de então, e hoje, denominados de
                                       agricultores familiares ainda têm muitos problemas para viabilizarem sua produção. Segundo o
                                       IBGE (censo 2006) cerca de 68% da produção de alimentos básicos vêm deste segmento. Isso
                                       mostra que a força gera economia, mas não gera distribuição que garanta segurança alimentar.
                                                  Dentre as dificuldades enfrentadas pelas famílias agricultoras para viabilizar a
                                       produção aparece a ausência de políticas que garantam a assistência técnica, a semente, a terra,
                                       tecnologias adequadas, crédito, etc. A conjuntura mudou, passaram-se governos e estes
                                       problemas continuam.
                                                  A ação da Cáritas vem vivenciando estes problemas. Buscamos várias maneiras de
                                       enfrentá-los, percebemos dois caminhos: o primeiro, insistir na organização, fortalecimento da
                                       comunidade e na apropriação de conhecimento; o segundo, o caminho da construção do
                                       conhecimento que se começou a ver a relação com o meio ambiente e a adoção de tecnologias
                                       apropriadas, através de processos agroecológicos.
                                                  Diante desta caminhada de vida, a ação da Cáritas no semiárido solidifica com a
                                       implantação do projeto Fecundação, e com ele veio a consolidação da proposta de Educação
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                       para a Convivência com o semiárido – ECSA.
                                                  Com o projeto Fecundação, a produção de alimentos se fortalece, as famílias passam
                                       a adotar as tecnologias apropriadas para a convivência com o semiárido.
                                                  Veio então a mobilização das famílias, os eventos de formação, as visitas, com estes
                                       conhecimentos sendo introduzidos. A produção de alimentos envereda pelo caminho da
                                       diversificação. As famílias começam a adotar as tecnologias. Começamos com as plantas
                                       adaptadas como o cajueiro, as pastagens cultivadas com sorgo e guandu. As famílias agriculto-
                                       ras já utilizavam a palma como planta adaptada num processo de troca de conhecimento e
                                       construindo “passos de convivência”.

                                       6Coordenador do Programa de Convivência com o Semiárido - PCSA da Cáritas Brasileira Regional do
                                       Piauí
81

          A produção de alimentos começa a dar frutos, pois com a adoção de tecnologias
apropriadas pelos grupos, buscamos a aproximação plena com a natureza, com o ambiente
semiárido, disso resultou a diversificação da produção. A experiência do fecundação registra a
produção de “comida” vindo dos roçados, dos quintais, das hortas familiares, de caprinos e
ovinos, da apicultura, das “galinhas caipiras” dos porcos e das frutas nativas (produção
verticalizada do umbu) e (produção verticalizada do caju). Toda esta potencialidade veio a tona
com a presença viva do projeto Fecundação.
          As tecnologias adotadas e que estão sendo utilizadas na agricultura familiar são
simples, de baixo custo, ambientalmente harmônicas, socialmente mobilizadoras e no campo
econômico primam pela sustentabilidade. As famílias que estão vivenciando estes processos
confirmam a importância de usar a cobertura orgânica para reter água no solo, a importância
dos inúmeros reservatórios de água (cisternas, barreiros, barragens subterrâneas, açudes...). As
formas de captação de água, ao lado ou ao redor das plantas como as microbacias. A bomba
d`água popular – BAP (bomba manual instalada em poços tubulares de baixa vazão que
permite a elevação da água). Seleção e armazenamento de sementes, plantio de forrageiras
como a leucena e uso racional da mata ou com maior intervenção no bioma caatinga.
Aproveitamento do esterco dos animais no cultivo de alimentos.
          A produção de alimentos é uma realidade, garante para as famílias a geração de renda
e segurança alimentar é resultado da organização e do uso de varias tecnologias adotadas e
valorizadas. Neste processo que consideramos consolidado junto aos grupos de famílias
envolvidas, o projeto Fecundação viabilizou como alimento primeiro o acesso a água de
qualidade. Veio com os recursos hídricos eixo prioritário da ação da Cáritas e mobilizou as
famílias para “fazerem água”. Isso significou e resultou na apropriação das tecnologias de
construção de cisternas, “água de beber e para cozinhar”.




                                                                                                   O Sonho construído em mutirão
82




                                       Depoimento

                                                  “Pessoalmente, aceitei o desafio de contribuir com este processo pelo fato de ter
                                       vivenciado parte (boa parte) da experiência, quando exercia a assessoria pedagógica do projeto
                                       através da Cáritas. Retornar à experiência, assumindo este papel é como se estivesse resgatando
                                       uma dívida com a entidade, com o projeto e com a população do semiárido, pelo fato de, ter me
                                       afastado do projeto ainda em andamento (2004), em razão de compromissos profissionais
                                       assumidos em outra instância e que não podia fazer uma recusa, nem tampouco conciliá-los,
                                       pois se tratava de um concurso público.
                                                  Considero o documento final de sistematização como um pouco de cada um e cada
                                       uma de nós, que contribuímos para a sua viabilização e, sobretudo, para a viabilização do
                                       projeto fecundação.”

                                       Rosângela Ribeiro de Carvalho - Professora da rede pública, ex-assessora do projeto
                                       Fecundação e organizadora desta sistematização
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
83




Roteiro para entrevista

                     ENTREVISTA COLETIVA - COMISSÃO GESTORA

01 – EM RELAÇÃO AO ACOMPANHAMENTO DAS AÇÕES DO PROJETO:
- Como vem sendo desenvolvidos o acompanhamento e o monitoramento das ações em cada eixo do
projeto: Educação – Recursos Hídricos - Produção - Gestão
- Quais as maiores dificuldades encontradas no desenvolvimento do projeto Fecundação?
- Que resultados, vocês consideram significativos neste processo?
- É possível perceber o fortalecimento da participação da sociedade civil na elaboração, implementação
e controle social de políticas púbicas do município? De que forma?

02- EM RELAÇÃO Á QUEBRA DE PARADIGMAS:
- Que atitudes/ações dos sujeitos da experiência no município revelam mudanças de comportamento
em relação ao modo de vida no semiárido?

03- EM RELAÇÃO ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS:
- A relação entre poder público e população revela alguma mudança neste processo de implantação do
projeto?
- Que sustentabilidade tem as suas ações, caso o projeto Fecundação saia do município?
- Que mudanças foram efetivadas pelo poder público na educação do município, após a aprovação do
PME?

ENTREVISTA COLETIVA - OFICINA DE SISTEMATIZAÇÃO
1. O que representa para o município e para as famílias agricultoras e produtoras a adoção da agricultura
e produção apropriada?
2. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a sua prática
pedagógica?
3. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a prática
pedagógica da escola?
4. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a educação do
município?
5. Qual a compreensão de vocês sobre a mudança de paradigma em relação à convivência com o
semiárido e o combate à seca?
6. Que impactos o projeto causou na vida dos moradores de Coronel José Dias?
7. Como podemos perceber a melhoria da qualidade de ensino no município após a implantação da               O Sonho construído em mutirão
ECSA?
8. Em que o Projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da região?

ENTREVISTA COM AGRICULTORES (AS)/ PEQUENOS PRODUTORES (AS) RURAIS:
01- Você continua plantando ou cuidando de sua criação da mesma forma que há 10 anos atrás?
02- Se houve alguma mudança, o que mudou? Por quê?
03- As condições de trabalho hoje podem ser consideradas melhores ou piores que antes? Por quê?
04- E as condições de vida podem ser consideradas melhores ou piores que antes? Por quê?
05- Como você vê o acesso à água, hoje, no município? Como era antes?
06- Você deixaria o município para morar em outro lugar. Por quê?
Fecundar é fazer brotar
o alimento da terra...




Fotografias
87




  Tive sede e me
  destes de beber
    (Mt 25,35)


                    O Sonho construído em mutirão



A busca
da água
Cáritas Brasileira Regional do Piauí                    88




                                               piloto
                                       para o projeto
                                        A preparação
89




Lançamento do
      projeto




                O Sonho construído em mutirão




Escritório do
  projeto no
município de
Coronel José
         Dias
Cáritas Brasileira Regional do Piauí              90




                                       da água
                                       A bênção
91




Limpeza da barragem da
 comunidade São Pedro




      Produtores de Mel da
        Comunidade Salitre

                             O Sonho construído em mutirão
92




                                            Beneficiamento
                                                  de frutas




                                                                           Produção de cajuína




                                         Produção de mudas de
                                       caju - Fazenda Maravilha
Cáritas Brasileira Regional do Piauí




                                                                  Intercâmbio de
                                                                  experiências - visita a
                                                                  Uauá (BA)
93




   Montagem
  dos apriscos




                 Estoque
                 de silo




                           O Sonho construído em mutirão




Manejo de
 caprinos
Cáritas Brasileira Regional do Piauí                 94




                                       pedagógicas
                                          Oficinas
95




Semana
Cultural




           Teatro




                                        O Sonho construído em mutirão




                    Atividades
                    extracurriculares
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                                       Tive fome e me
                                       destes de comer
                                          (Mt 25,35)
Cáritas Brasileira Regional do Piauí
97




      ...fecundar é fazer brotar um
sentimento de convivência de dentro
          de cada pessoa que vive no
                          semiárido.




                                       O Sonho construído em mutirão
Miolo fecundação

Miolo fecundação

  • 1.
    Cáritas Brasileira Regionaldo Piauí Projeto Fecundação O sonho construído em mutirão Uma experiência de convivência com o semiárido Teresina - Piauí - Brasil, 2010
  • 2.
    O Sonho Construídoem Mutirão: Uma experiência de convivência com o semiárido Direitos autorais - 2010 - Cáritas Brasileira Regional do Piauí Permitida a reprodução desde que citada a fonte Coordenação Colegiada Secretária Geral: Hortência Mendes Coordenador Político-Pedagógico: Adonias Rodrigues Coordenadora Administrativa: Célia Araújo Texto: Rosângela Ribeiro de Carvalho e João Evangelista Santos Oliveira Edição e Projeto Gráfico: Mariana Gonçalves Revisão: Assunção Sousa Colaboração: Carlos Humberto Campos Fotografias: Gildásio de Lima e Iran Morais Impressão: Gráfica do Povo Cáritas Brasileira Regional do Piauí Rua Agnelo Pereira da Silva, 3135 – São João Teresina – Piauí – Brasil – CEP: 64045-440 Telefone/fax: 32336302 E-mail: caritaspi@caritas.org.br
  • 4.
    Dedicamos... Dedicamos esse trabalho às populações que habitam o semiári- do piauiense. Mulheres e homens, que ao longo de suas histórias individuais e coletivas, construíram uma cultura simples e bela. Com sua fé consolidaram crenças e credos. Com seu suor, criatividade, trabalho e forças, suas vidas foram entregues como oferendas para salvar o ambiente exuberante que existe nesse pedaço de chão: Sertão. Caatinga. Semiárido...
  • 5.
    Sumário Siglas 07 Quadros e Gráfico 08 Prefácio 09 Apresentação 11 O SONHO O projeto de sistematização 15 Contextualizando o semiárido 18 Indicadores sociais motivadores do projeto 20 Antecedentes históricos da experiência 22 A escolha de Coronel José Dias 24 Localizando a experiência 26 A CONSTRUÇÃO Projeto Piloto de Coronel José Dias 33 Educar para Conviver 34 Gestão 37 Recursos Hídricos 42 Produção Agropecuária Apropriada 45 Educação Contextualizada 47 Fundo Rotativo Solidário 53 A REALIDADE Impactos da experiência no ambiente semiárido 57 Significado da experiência 60 A visão das pessoas envolvidas no projeto 63 Projeto Fecundação como Política Pública 69 Referências Bibliográficas 71 Anexos 73 Fotografias 85
  • 7.
    Siglas ASA Brasil –Articulação no Semiárido Brasileiro BAP – Bomba d’Água Popular BNB – Banco do Nordeste do Brasil CML – Projeto Cidadania no Mundo das Letras CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil COMDEPI – Companhia de Desenvolvimento do Piauí ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente ECSA – Educação para Convivência com o Semiárido EMATER – Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária EPS – Economia Popular Solidária FPCSA – Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido GT – Grupo de Trabalho IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDH – Índice de Desenvolvimento Humano IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada ONG – Organização Não-Governamental ONU – Organização das Nações Unidas P1+2 – Programa Uma Terra e Duas Águas PACs – Projetos Alternativos Comunitários PCSA – Programa de Convivência com o Semiárido PDHC – Projeto Dom Helder Camara PEA – População Economicamente Ativa PIAJ – Programa Infância, Adolescência e Juventude PMA – Planejamento, Monitoramento e Avaliação PMDS – Plano Municipal de Desenvolvimento Sustentável PME – Plano Municipal de Educação PMRH – Plano Municipal de Recursos Hídricos PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNE – Plano Nacional de Educação PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PSF – Programa Saúde da Família RESAB – Rede Educação do Semiárido Brasileiro SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas SEMEC – Secretaria Municipal de Educação SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária STTR – Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais SUDENE – Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste UFPI – Universidade Federal do Piauí
  • 8.
    Quadros QUADRO 01 –AÇÕES DE APOIO DA CÁRITAS PIAUÍ AO ACESSO A RECURSOS HÍDRICOS – 1999 A 2000 (pag. 22) QUADRO 02 – CONSEQUÊNCIAS DAS ESTIAGENS (pag. 27) QUADRO 03 – MEDIDAS PLUVIOMÉTRICAS NO MUNICÍPIO DE CORONEL JOSÉ DIAS DE 1994 A 1998 (MM) (pag. 29) QUADRO 04 – PRIORIDADES DE AÇÕES DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO (pag. 30) QUADRO 05 – ATIVIDADES NA EXECUÇÃO DO PROJETO FECUNDAÇÃO (pag. 38) QUADRO 06 – PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO RECURSOS HÍDRICOS (pag. 43) QUADRO 07 – PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA APROPRIADA (pag. 46) QUADRO 08 – DESCRIÇÃO DAS 09 OFICINAS PEDAGÓGICAS (pag. 49) Gráfico GRÁFICO 01 – ORIGEM DA ÁGUA UTILIZADA PELAS FAMÍLIAS DAS LOCALIDADES RURAIS NO MUNICÍPIO DE CORONEL JOSÉ DIAS (pag. 28)
  • 9.
    09 Prefácio O Brasil possui seis grandes biomas: Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga (semiá- rido), Mata Atlântica e os Pampas. Compreendemos um bioma como uma área territorial que possui um conjunto de vida humana, vegetal e animal que cobre determinada região de forma contínua, em condições geoclimáticas semelhantes, o que acaba formando uma diversidade biológica muito própria. A caatinga, também conhecida como semiárido ou sertão brasileiro, cantada em versos e prosas, é propagada como uma das regiões mais pobres do Brasil. As pesquisas revelam que os Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) desta região estão abaixo da média nacional, contrariando todo o seu potencial natural e cultural. A seca – fenômeno natural do semiárido – é sinônimo de tragédia, provoca grandes problemas sociais, econômicos e políticos na região. Destrói as atividades agrícolas e pecuárias; agrava o problema da falta d’água até mesmo para o consumo humano. Ocasiona a sede, a fome e muitas mortes em consequências de doenças provocadas pelo consumo de águas impuras e contaminadas. Essa situação de extrema pobreza e falta de uma política de assistên- cia pública adequada, ao longo dos anos, tem sido a principal causa de migrações de popula- ções inteiras, em regiões de pobreza acentuada – como é o caso do Estado do Piauí – para outras regiões do país em busca da sobrevivência. Diante dessa realidade, a Cáritas Brasileira Regional Piauí, com a missão de promo- ver, animar, organizar e participar efetivamente da prática da justiça e da solidariedade, contri- buindo na construção de alternativas, vem procurando praticar e incentivar na sociedade ações solidárias aos povos do semiárido, como forma de transformar uma situação de morte para uma situação de vida. Com isso, a Cáritas implantou em 2001, no município de Coronel José Dias (PI), o Projeto FECUNDAÇÃO com o objetivo de contribuir, com as famílias e comuni- dades empobrecidas do semi-árido, para melhoria de suas condições de vida, através do acesso à água de boa qualidade e em quantidade suficiente para o consumo humano; e do desenvolvi- mento de conhecimentos e apropriação de saberes, habilidades e técnicas da agropecuária apropriada para a convivência sustentável no Bioma Caatinga. Com este documento, a Cáritas Brasileira Regional Piauí busca retratar em imagens e palavras o processo de transformação da história do povo de Coronel José Dias, a partir da O Sonho construído em mutirão intervenção do Projeto Fecundação, idealizado pela Cáritas Brasileira – Regional Piauí e desenvolvido em parceria com os segmentos sociais do município. A vontade de resgatar os processos de construção da proposta, as formas de gestão, a participação das pessoas envolvidas, o processo organizativo nas comunidades, os impactos e os desafios, as relações sociais, políticas e institucionais estabelecidas, numa perspectiva de se perceber a trajetória da experiência do Projeto Fecundação, vem sendo debatida no seio da Cáritas Brasileira Regional Piauí e na Comissão Gestora do projeto, há algum tempo. Através do nosso olhar sob a trajetória desenvolvida pelo projeto buscamos retratar os impactos sociais, ambientais e culturais desta experiência, mostrando as ações desenvolvi- das, o caráter destas ações, os desafios que elas nos apresentam e a sua importância para o povo do semiárido no município de Coronel José Dias.
  • 10.
    10 Neste sentido, a sistematização assume como OBJETO, a experiência do Projeto Fecundação no município de Coronel José Dias e sua contribuição para a melhoria da convi- vência com o semiárido, buscando revelar os impactos da experiência no ambiente semiárido e sua importância para o Programa de Convivência com o Semiárido da Rede Cáritas. Outra dimensão importante do Projeto FECUNDAÇÃO é a busca da construção do saber, através das experiências forjadas no meio do povo com o apoio de entidades não- governamentais, caracterizando a ausência de políticas públicas adequadas. Ou seja, compre- ender melhor o contexto do semiárido e a realidade vivida no dia-a-dia das populações sertane- jas, para, a partir daí, poder contribuir com maior segurança na elaboração de iniciativas de intervenção junto àquelas pessoas mais empobrecidas e necessitadas, e para a efetivação de uma proposta de desenvolvimento Territorial Sustentável, considerando principalmente as pessoas e o meio ambiente. Carlos Humberto Campos Sociólogo, Secretário Regional da Cáritas Brasileira Regional do Piauí (2002-2009) Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 11.
    11 Apresentação A Cáritas Brasileira Regional do Piauí agiu coletivamente na busca de melhores condições de vida para as famílias excluídas, lançando mais uma semente que veio germinar no solo do semiárido com suas diversas características: rasos, arenosos, argilosos, pedregosos, de baixa e média fertilidade e que retém pouca água. Neste ambiente onde, à primeira impressão, pareça ser inabitável, a semente chamada de Projeto Fecundação já rende frutos. Frutos que podem ser apreciados ao longo desta publicação. O Projeto Fecundação, uma ação pioneira da Cáritas Brasileira, é resultado de um conjunto de pessoas, identificadas como agentes, voluntários e voluntárias, técnicos e técnicas, famílias agricultoras, professores e professoras, alunos e alunas, religiosos e religiosas, gestores públicos, parlamentares, crianças e pessoas idosas. Todos protagonistas deste processo e fazem da Cáritas Brasileira essa imensa Rede de Solidariedade. São pessoas que habitam no ambiente semiárido do Estado do Piauí, no território da Serra da Capivara e especificamente localizadas e radicadas no município de Coronel José Dias. Pessoas que se juntaram com o compromisso maior da valorização da vida. Não se pode esquecer parceiros importantes como o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA, que repassou toda experiência em assessoria técnica adquirida no apoio à agricultura familiar no Estado da Bahia, e a Cáritas Alemã que ofereceu colaboração e aporte financeiro para viabilizar a proposta em todas as etapas do projeto. As etapas se desenvolveram em oito anos de caminhada, garantindo o acúmulo de um conjunto de informações que possibilitou a implantação e vivência da proposta de Educação para Convivência com o Semiárido – ECSA em todo o país. Trata-se de um trabalho fincado em quatro eixos de ação: Gestão, Recursos Hídricos, Produção Agropecuária Apropriada e Educação Contextualizada. Eixos que garantiram a implantação de processos democráticos e participativos, água de qualidade para o consumo das famílias, aumento e diversificação da produção de base agroecológica. Tudo através de processos educativos que começaram pela desconstrução de paradigmas enraizados dentro da educação formal de combate à seca e pela construção de novas concepções e possibilidades de convivência com a região semiárida. Este trabalho mostra uma boa experiência sobre a convivência com a região semiári- O Sonho construído em mutirão do e as condições criadas com as ações reforçam o debate de Desenvolvimento Sustentável e Solidário, valorização da cultura, relações familiares e de gênero. Condições que afirmam o protagonismo das pessoas como cidadãs, parte importante de uma democracia. Importante registrar a participação de todas as mulheres protagonistas nesse proces- so. Elas estão no antes, durante e firmes na continuidade do projeto. Elas são maioria na educação, como professoras ou mães e passaram a ver e a participar da vida da escola em que filhos e filhas estudam. Presentes na produção, firmes na geração de renda passaram a produ- zir os mais variados produtos derivados do Umbu, planta nativa da caatinga e sagrada, segundo a cultura e os costumes locais. A experiência do Fecundação tem o cheiro da terra molhada com as primeiras chuvas, tem a beleza da caatinga que se torna verde viva com uma gota d’água. Tem a criativi-
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    12 dade de um povo que também se adaptou para crescer e multiplicar. Tem a diversidade de conhecimentos construídos em mutirão que continua formando consciências. Tem toda uma gente simples, hospitaleira, que gosta de dançar, que tem valor, que ama seu chão e diz com segurança “daqui não saio não”. Considerando as palavras do compositor João Bosco: “Vida é fazer todo sonho brilhar”, o Projeto Fecundação fez brilhar o sonho de moradores e moradoras de Coronel José Dias, pelas mãos de pessoas que acreditaram neste sonho. Rosângela Ribeiro de Carvalho - Professora da rede pública, ex-assessora do projeto Fecundação e organizadora desta sistematização João Evangelista Santos Oliveira - Coordenador do Programa de Convivência com o Semiárido - PCSA da Cáritas Brasileira Regional do Piauí Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    15 O projeto desistematização “Quem não tem desejo não caminha, porque não sonha, não busca o novo, não muda” (Ana Maria & Susan Chiode, 2002) A sistematização da experiência teve início quando a equipe da Cáritas Brasileira Regional Piauí expressou o desejo de construir um documento que pudesse retratar a expe- riência, pelo seu caráter de mobilização social e de transformação da realidade. Tomando-se então como objeto da sistematização “A experiência do Projeto Fecundação no município de Coronel José Dias e sua contribuição para a melhoria da convi- vência com o semiárido”, buscou-se reviver a experiência, recuperando os processos vivencia- dos a partir do registro dos passos dados pelo projeto, evidenciando a avaliação processual das ações realizadas e as conclusões sistematizadas, a partir de relatórios e de outros documentos produzidos pela comissão gestora do projeto e pelo PCSA – Programa de Convivência com o Semiárido da Cáritas Brasileira Regional Piauí e Secretaria Municipal de Educação. A fala das pessoas envolvidas foi registrada numa perspectiva de possibilitar o confronto dos dizeres de quem faz a experiência e de mostrá-las enquanto protagonistas deste processo, pelo compromisso de construir novas perspectivas para a realidade em que vivem, superando preconceitos em torno do semiárido, quebrando paradigmas e vivenciando novas relações. Partiu-se da concepção de que a sistematização resgata os processos de mudanças e os valores construídos numa determinada experiência, juntando fatos, ocorrências, depoi- mentos e, sobretudo, sentimentos. “Como produção de saber da experiência, a sistematização busca identificar as ideias, os sentimentos e as formas de fazer que ela esteja construindo ou proporcionando aos diversos sujeitos envolvidos”. (SOUZA, 2000, p.35). Não se trata aqui de abrir um debate conceitual em torno da sistematização, mas de evidenciar as referências tomadas para registrar a experiência do Projeto Fecundação, reafir- mando a proposta de convivência com o semiárido num processo de construção coletiva, que possibilita, a partir do conhecimento da realidade, refletir sobre suas vivências, valores e atitudes, promovendo a desconstrução de saberes e fazeres. O Sonho construído em mutirão Sistematizar aqui reúne avaliação e pesquisa, à medida que busca revelar nos dados coletados a investigação do que foi realizado, diante do que foi planejado e ainda, refletir sobre os resultados alcançados numa perspectiva de revelar as mudanças no modo de vida da população e dos avanços e desafios encontrados ao longo da experiência. Neste sentido, ao fazer o resgate, o documento buscou também dar visibilidade às ações de convivência com o semiárido, destacando a importância da experiência para o PCSA desenvolvido pela rede Cáritas. Neste processo, foi importante a identificação de mudanças nas relações de gênero e geração, a partir da implantação do projeto e de outros processos de novas relações em favor da dignidade humana e do desenvolvimento sustentável. Isto só foi possível, a partir do consenso em torno da definição do objeto e do eixo
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    16 central da sistematização, o que possibilitou avançar neste propósito e adotar procedimentos teóricos metodológicos capazes de revelar o sentimento das pessoas envolvidas, através das entrevistas individuais e coletivas, que associadas à pesquisa bibliográfica, viabilizaram a análise documental da experiência. Tal análise foi realizada sob um olhar crítico em que os elementos do discurso se encaminharam para um conjunto de informações que convergiram para um mesmo ponto: a introdução de novas práticas de convivência superando o paradigma de combate à seca. Cada passo da sistematização envolveu diálogos, leituras, reflexão, seleção e muita emoção: angústias e incertezas diante das dificuldades em coletar as informações necessárias, mas também contentamento e satisfação pelo dever cumprido e, sobretudo, pelas certezas reveladas de uma experiência que deu certo e que mudou a vida de muita gente. Perguntas orientadoras: 1. Em que consiste o Projeto Fecundação? (Objetivos e metas) 2. Quais as linhas de ação desenvolvidas pelo projeto? 3. Que ações foram desenvolvidas? 4. Como as ações desenvolvidas contribuíram para a transformação da realidade do município? 5. Quem são os protagonistas da experiência? 6. O que pensam as pessoas envolvidas neste processo sobre os impactos do projeto na vida do município? 7. Qual a compreensão das pessoas envolvidas em relação à mudança de paradigma no tocante à convivência com o semiárido e o combate à seca? 8. Como as ações do projeto influenciaram nas relações de gênero e geração? 9. O que representa a experiência para o Programa de Convivência com o Semiárido da rede Cáritas? 10. Como era a vida das pessoas antes da implantação do projeto no município? 11. Em relação às linhas de ação, que mudanças significativas foram efetivadas? 11.1 - Que mudanças ocorreram na educação do município a partir da ECSA? (Organização/estrutura; índices/resultados de aprendizagem...)? 11.2 - O que representa para o município e para as famílias agricultoras e produto- ras a adoção da agricultura e produção apropriada? 12. De que forma pode-se perceber o fortalecimento da participação da sociedade civil na elaboração, implementação e controle social de políticas púbicas do municí- Cáritas Brasileira Regional do Piauí pio? 13. Em que medida as ações desenvolvidas pelo projeto possibilitaram aos partici- pantes serem protagonistas dessa experiência? 14. Em que o Projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da região? Procedimentos Teórico-metodológicos: 1. Antecedentes Históricos Processo de construção e contextualização do Projeto Fecundação 2. Concepção do Objeto Os objetivos do Projeto Fecundação, a metodologia e as perspectivas 3. Trabalho de Campo
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    17 - Realização de entrevistas individuais e coletivas - Construção de Histórias de Vida dos sujeitos da experiência - Pesquisa bibliográfica Procedimentos de análise e interpretação: Categorias de análise: Convergências e divergências/ Presenças e ausências/ Tendências e associações/ Convivência e combate. 1. Análise documental (relatórios, slides, correspondências, documentários etc.) 2. Análise da experiência dos participantes (entrevistas individuais e coletivas, depoimentos etc.) O Sonho construído em mutirão
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    18 Contextualizando o semiárido O semiárido brasileiro é o maior do mundo e se estende por uma área de 975 mil km², abrangendo mais de 86% da região nordeste e penetrando no norte do estado de Minas Gerais. É o semiárido com maior densidade demográfica do mundo. Nessa área vivem cerca de 26 milhões de habitantes em 1.113 municípios, e dela faz parte a maior concentração de popula- ção rural do Brasil. No Piauí a região semiárida abrange 125.692 km² - dos 252.378 km² totais do Estado - ocupando boa parte do setor central e sul, fazendo fronteira com os estados do Ceará, Pernambuco e Bahia, e correspondendo a 13,96% da área do semiárido brasileiro. Dados do Governo do Estado e da Universidade Federal do Piauí (UFPI) dão conta de que dos 224 municípios piauienses, 156 estão localizados na região semiárida, com uma população de 956.617 habitantes. No semiárido brasileiro ocorrem uma ou duas estações de chuva, de quatro a cinco meses de duração. A pluviosidade varia entre 300 e 800 mm/ano. As temperaturas médias variam de 23 a 39º C, com forte evaporação potencial (mais de 2.000 mm/ano). Estudos revelam que metade da área da região semiárida é composta por embasamento cristalino, com acumulação de água apenas nas fraturas, e a outra metade é composta de terrenos sedimenta- res, com a boa capacidade de armazenamento de águas subterrâneas. Muitas vezes, quando a água é encontrada no subsolo, através da perfuração de poços, sejam eles tubulares, cacimbões ou artesianos, trata-se de uma água salobra, de péssima qualidade para o consumo humano e animal. Os longos períodos de escassez de chuvas acontecem principalmente na época do plantio de arroz, feijão, mandioca e milho, culturas predominantes da região. Estudos mais recentes concluíram que esse problema agrava-se num ciclo de vinte a vinte anos, caracterizan- do períodos mais longos de estiagens, as chamadas “grandes secas”. As “grandes secas” são caracterizadas pelo esgotamento da umidade do solo, fenecimento das plantas por falta de água, depleção do suprimento de água subterrânea e redução e eventual cessação do fluxo dos cursos de água. O Estado do Piauí é caracterizado por três regimes pluviométricos bem definidos, Cáritas Brasileira Regional do Piauí que iniciam no mês de novembro na região Sul e prolonga-se até o mês de maio na região Norte. Em menos da metade do território piauiense (48,36%), as chuvas são superiores a 1.000mm. Os cursos d’água apresentam regime hidrológico intermitente na estação chuvosa e permanecem completamente secos após a estação das chuvas, com curvas de recessão atingin- do rapidamente o ponto zero. O flagelo das secas ocorre quando as chuvas são insuficientes ou irregulares demais para permitir a produção que assegura a subsistência das famílias do semiá- rido que, mesmo em anos normais, já vivem em condições limites de pobreza. Além de vulnerabilidade climática do semiárido, grande parte dos solos da região encontra-se degradada. Os recursos hídricos rumam à insuficiência. A água é o fator mais rico do semiárido, porque é um limitativo tanto da ocupação humana quanto das atividades agrope- cuárias. Os ecossistemas regionais são frágeis e não estão sento protegidos, pondo em risco a sobrevivência de muitas espécies de vegetais e animais, criando ainda riscos a ocupação
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    19 humana, associados, inclusive,a processo em curso, como a desertificação. Apesar dessas características gerais, o semiárido brasileiro é uma realidade complexa: a EMPRAPA identificou cerca de 170 diferentes tipos de sistemas geoambientais (ecossiste- mas). Essa complexidade exige mudanças nas formas de conceber e intervir nessa realidade. É possível conviver com o semiárido apesar das fragilidades. Ter muita luminosidade, ter muito calor e ter baixa unidade são elementos diferenciais para o desenvolvimento da região. O semiárido piauiense apresenta grandes potencialidades econômicas e sociais, entre as quais podem ser mencionadas: solos adequados para práticas agrícolas apropriadas; áreas sedimentadas com boa disponibilidade de águas subterrâneas; açudes públicos com elevadas reservas de água; a rica biodiversidade da caatinga na qual se destaca o elevado potencial de exploração; a agroindustrialização de produtos agrícolas e agropecuários, como a castanha de caju e o mel da abelha; a irrigação dos vales úmidos, principalmente com a perenização dos rios; o criatório animal; o turismo ecológico, cultural e religioso; as diversas práticas artesanais; o extrativismo mineral e a localização de vários centros de pesquisas. Mas apesar dessas potencialidades, a região não consegue superar seus péssimos indicadores sociais e nem autofinanciar seu desenvolvimento econômico, seja pela ausência de poupança interna, seja pelo elevado déficit da balança comercial. Além desses fatores econô- micos, a falta de conhecimento adequado do semiárido piauiense levou a introdução de diversas atividades produtivas – agropecuárias extrativas e industriais – que não apresentam sustentabilidade ambiental e nem se tornam vantagens competitivas dinâmicas. O Sonho construído em mutirão
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    20 Indicadores sociais motivadores do projeto A pobreza está disseminada por todo o Estado do Piauí e sabe-se que os dez maiores índices de indigência absoluta são verificados nos municípios mais populosos e que desempe- nham funções polarizadoras. Utilizando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (PNAD), realizada pelo IBGE em 1997, a População Econômicamente Ativa (PEA) do semiárido piauiense foi estimada em 538 mil pessoas, sendo que 41% não auferiam qualquer rendimento e cerca de 40% recebiam entre R$ 33,00 e R$ 100,00 por mês. Dessa população trabalhadora, 67% desenvolviam atividades ligadas à agricultura ou atividades afins. Nesse contexto, foi possível identificar as principais problemáticas enfrentadas pela população empobrecida do semiárido: a dificuldade de aceso à água e a alimentos em quantida- des e com qualidade para o consumo humano, principalmente nos períodos de estiagem prolongada na região. Esse problema era fruto da estrutura excludente que predomina na área, baseando na concentração da terra e da água, além da dificuldade de acesso da agricultura familiar aos meios e recursos necessários a produção agrícola e pecuária. A persistência desses problemas por centenas de anos conduz a identificação de suas causas. A principal delas, certamente, é a forma de intervenção do poder público nessa região. As políticas públicas são excludentes e inapropriadas ao semiárido, caracterizadas pelo caráter emergencial fragmentado e descontinuo das ações desenvolvidas nos momentos de calamida- de pública ocasionadas pelas estiagens prolongadas. A intervenção estatal privilegia a construção de grandes obras hídricas que favorecem principalmente às empreiteiras, à grande propriedade rural e às agroindústrias que desenvol- vem a agricultura irrigada na região, sem considerar as condições específicas do meio ambiente e da população. As grandes barragens contribuem para a concentração da água, alagam faixas de terras cultiváveis, deslocam cidades inteiras e pioram as condições de vida das populações ribeirinhas que nunca são consideradas nos processos de planejamento. Já as grandes áreas de produção irrigadas são degradadoras dos ecossistemas do semiárido. Além do desmatamento para implantação das áreas de produção irrigada, constata-se que a utilização de métodos Cáritas Brasileira Regional do Piauí inapropriados de irrigação e a utilização de produtos químicos contribuem para a formação de áreas desertas no semiárido. De modo geral, as práticas agropecuárias (com tecnologias tradicionais e modernas) utilizadas no semiárido são inadequadas e degradadoras do meio ambiente. As queimadas desordenadas e uso de defensivos e fertilizantes químicos também ocasionam o empobreci- mento dos solos, pondo em risco os ecossistemas e a própria vida humana. Isso se deve ao fato de que a maioria da população do semiárido não tem um conhecimento adequado do seu meio ambiente, de suas potencialidades e limites e de estratégias de sobrevivência adequadas na região. Além da dificuldade de acesso à água para o consumo humano em quantidade suficiente, as famílias residentes no semiárido consomem água de péssima qualidade, sem um tratamento adequado. Esse consumo de água tornou-se uma prática tradicional naturalizada,
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    21 embora tenha comoconsequência direta o aumento de inúmeras doenças, com elevados índices de mortalidade infantil. A dificuldade de acesso à água para o consumo humano e doméstico, além de ser determinada pela privatização e concentração das águas em grandes reservatórios hídricos, está diretamente relacionada com uma cultura de desvalorização da captação, armazenamento e tratamento da água da chuva. Diante dessas constatações de principais causas das problemáticas do semiárido, poderiam parecer fáceis as soluções: tornar as políticas públicas apropriadas à região e promo- ver a educação para a convivência com o semiárido. No entanto, a sociedade civil não tem conseguido participar efetivamente dos processos de formulação de políticas públicas para a região, apesar de ter dado alguns passos importantes nos processos de articulação de entidades em nível dos Estados e na experimentação e disseminação de alternativas produtivas e de recursos hídricos adaptados à realidade do semiárido. Na maioria dos municípios localizados no semiárido brasileiro, as organizações da sociedade civil tem tido pouca capacidade de articulação para intervenção e controle social dos programas implantados a nível local. A dificuldade de participação está relacionada com diversas causas: a falta de capacitação, a pouca articulação, a fragilidade dos mecanismos de participação popular (conselhos, fóruns, etc.) e o desconhecimento dos recursos que são destinados e de como são aplicados. Nesse sentido, é urgente a melhoria na qualidade da informação e dos canais de comunicação entre governo e sociedade civil, otimizando a difusão de tecnologias apropriadas ao semiárido. No campo político-institucional, apesar dos recentes avanços no processo de demo- cratização, organização da sociedade e mecanismos de participação social, ainda persistem, na região do semiárido, práticas clientelistas e outras formas de apropriação privada do Estado. A capacidade dos organismos públicos em atender com eficiência as demandas sociais é bastante limitada em decorrência da baixa qualificação dos seus recursos humanos, das deficiências organizacionais e dos mecanismos de gestão e insuficiências materiais e financeiras. O Sonho construído em mutirão
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    22 Antecedentes históricos da experiência A Cáritas Brasileira é um organismo ligado à Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que, testemunhando o Evangelho da Esperança de Jesus, compromete-se a promover e animar o serviço da solidariedade ecumênica libertadora, participar da defesa da vida, da organização popular e da construção de um projeto de sociedade, a partir dos excluí- dos e excluídas, contribuindo para a conquista da cidadania plena para todas as pessoas, a caminho do Reino de Deus. A Cáritas tem tido uma presença constante nessa realidade do semiárido brasileiro, contribuindo com as famílias empobrecidas, através de diversas formas de atuação: na realiza- ção de campanhas de solidariedade nos momentos emergentes de calamidade pública, que agravam a situação estrutural de miséria e pobreza na região; no desenvolvimento de ações permanentes de formação e de apoio às organizações comunitárias; nas iniciativas comunitári- as de geração e melhoria de renda (com os projetos alternativos comunitários); na dissemina- ção de técnicas apropriadas de manejo de recursos hídricos; e no apoio efetivo (financeiro e material) para a construção de pequenos reservatórios de água da chuva, para manutenção, equipamento e recuperação de mananciais e reservatórios hídricos para abastecimento familiar. Nos últimos anos, a Cáritas Brasileira tem tentado desenvolver uma intervenção pró- ativa na região (atuando sobre as causas dos problemas e não sobre suas consequências) através da formação para a cidadania, a universalização do acesso à água para o consumo humano e a produção como elementos estratégicos para melhoria da qualidade de vida na região. Entre 1998 e 1999, a Cáritas Brasileira Regional Piauí coordenou a distribuição de 1.100 (mil e cem) toneladas de alimentos para 55 mil famílias (cerca de 275 mil pessoas) que estavam em situação de calamidade. Foram realizadas ações permanentes de infraestrutura hídrica, apoiando a construção de 363 cisternas de placas (captação e armazenamento de água da chuva), equipando 17 poços artesianos, revestindo 12 poços e realizando 02 canalizações para facilitar o acesso das famílias e comunidades rurais à água para consumo humano. Além dessas ações diretas, a Cáritas realizou diversas atividades pedagógicas de capacitação de Cáritas Brasileira Regional do Piauí agentes pastorais e animadores de comunidade, aprofundando o conhecimento da realidade e das formas de convivência com o semiárido piauiense. QUADRO 01 AÇÕES DE APOIO DA CÁRITAS PIAUÍ AO ACESSO A RECURSOS HÍDRICOS -1999 A 2000 Tipo de ação Cisternas Valor (R$) Famílias Pessoas Localidade Município Construção de cisternas 397 181.481,00 409 2.045 34 12 Revestimento e equipamento de poços 18 41.318,49 5.554 30.000 13 11
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    23 O programa de convivência com o semiárido não se resume à construção de cisternas e outras ações de apoio hídrico e produtivo. As ações político-pedagógicas são prioritárias. Os processos pedagógicos se referem tanto à disseminação de alternativas viáveis para a convivên- cia com o semiárido e à realização de campanhas educativas para conhecimento adequado da realidade, quanto ao respeito aos seus limites e aproveitamento de suas potencialidades. Anualmente a Cáritas realiza atividades na “Semana da Água” junto com outras entidades, na oportunidade em que chama a atenção para as diversas dimensões da problemática da água nos nossos dias e mobiliza a sociedade para apoiar e lutar para que todas as famílias que residem no semiárido piauiense possam a ter acesso à água de boa qualidade. Ainda no aspecto educativo merecem destaque as atividades de formação realizadas no âmbito do PCSA. Foram realizados os cursos sobre manejo de recursos hídricos, tendo como temática central “O uso e o tratamento d’água”, atendendo ao publico de todas as dioceses do Piauí. A realização dos cursos foi de fundamental importância, pois as famílias rurais ainda possuem muita dificuldade em entender e desenvolver tecnologias alternativas e apropriadas para a convivência com o semiárido e mais precisamente para o manejo de recur- sos hídricos. Esses cursos visam à formação de multiplicadores e multiplicadoras para o desenvolvimento do trabalho na comunidade, na perspectiva de promover e desenvolver a organização para a convivência com o semiárido. No aspecto sociopolítico, a Cáritas Brasileira Regional Piauí teve uma atuação decisiva para a articulação do Fórum de Convivência com o Semiárido no Piauí (FPCSA). Esse fórum conta com a participação de outras 12 organizações não governamentais do Piauí que tem o compromisso político e ações voltadas para a convivência com o semiárido em nosso Estado, possibilitando as parcerias e convênios que procuram canalizar recursos públicos para a região, como por exemplo, um convênio firmado entre as ONGs e a SUDENE (Superinten- dência para o Desenvolvimento do Nordeste), em que a Cáritas participa com a capacitação de 810 pessoas para a construção de cisternas de placas. Outra ação significativa do FPCSA ocorreu durante a semana da água em 2000. O Fórum programou e realizou uma audiência pública na Assembléia Legislativa do Estado para discutir sobre as políticas públicas para recursos hídricos do Piauí e as alternativas. Participaram da audiência, representantes da Assembléia Legislativa, Secretaria de Recursos Hídricos do Estado, SUDENE, COMDEPI, DEFESA CIVIL, Cáritas Brasileira e mais outras ONGs. Dali resultou um compromisso e abertura por parte da Assembléia para a continuidade dos debates sobre o tema acima referido. A partir dessa experiência em nível estadual, a Cáritas Brasileira Regional Piauí percebeu que era necessário desenvolver um projeto piloto no âmbito de um município, O Sonho construído em mutirão possibilitando a integração dos sujeitos e das diversas ações de convivência com o semiárido (recursos hídricos, produção agrícola e não agrícola, educação, construção de políticas públi- cas apropriadas, serviços sociais básicos, etc.). A Cáritas acredita que a concentração de ações e a produção de resultados significativos em um município possam ter uma maior capacidade de impacto em nível de outros municípios do semiárido e das políticas públicas estaduais e nacionais.
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    24 A escolha de Coronel José Dias Os processos de discussão foram sendo construídos e, a partir de abril de 2000, a Cáritas Brasileira Regional do Piauí definiu, pelas condições climáticas da região e pela disponi- bilidade da equipe regional, implantar o projeto na Diocese de São Raimundo Nonato. Diante disso, passou-se a analisar as condições dos municípios daquela região para receber as ações do projeto e, após estudos e reflexões, foi apresentado ao município de Coronel José Dias. O município foi escolhido com base nos seguintes critérios: localização no semiárido com a incidência das problemáticas de convivência com a região; a possibilidade de continuida- de de ação através de parcerias com organizações da sociedade civil, movimentos sociais e o governo municipal; a existência de estrutura de apoio (Cáritas Diocesana ou entidade membro, apoio da Igreja local – paróquia); indicadores socioeconômicos: nível de renda, analfabetismo, mortalidade infantil e abastecimento de água. A elaboração do projeto foi assumida pelos agentes da Cáritas e contou com a participação ativa de representantes da prefeitura municipal de Coronel José Dias, representan- tes das organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias das comunidades rurais do município. As principais atividades realizadas foram: um levantamento de informações em cada uma das localidades do município, identificando os aspectos sociais e econômicos da realidade local, as principais problemáticas, potencialidades e expectativas dos moradores e moradoras daquela região. Em setembro de 2000, foi realizado um Seminário Municipal de Planejamento, com a participação de 95 pessoas, onde foi aprofundado o diagnóstico com a identificação das potencialidades municipais e os principais problemas enfrentados pelas famílias. Estes eventos realizados possibilitaram também a identificação de prioridades de ação, a consensualidade de objetivos e interesses e a afirmação de compromissos entre as diversas organizações partici- pantes. O seminário municipal, acima citado, foi planejado e realizado conjuntamente pela Cáritas Brasileira Regional Piauí, Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato, Paróquia de Coronel José Dias e pelo Governo Municipal que assumiu as atividades de articulação, trans- porte, alimentação e hospedagem das pessoas participantes, além de oferecer toda infraestru- tura necessária a realização do evento. Cáritas Brasileira Regional do Piauí Objetivos: A experiência teve como objetivo geral desenvolver um conjunto de ações articuladas que possibilitassem melhoria das condições de vida das famílias que residiam no semiárido do município e, a partir dos resultados alcançados, propor políticas públicas apropriadas ao semiárido nos níveis municipal e estadual. Objetivos específicos: • Viabilizar o acesso a estruturas de captação e armazenamento de água de chuva e o aproveitamento sustentável dos mananciais hídricos existentes no município; • Favorecer o acesso a recursos e infraestrutura para o desenvolvimento de iniciativas produtivas apropriadas ao semiárido favorecendo a melhoria de renda
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    25 das famílias; • Promover capacitação de agentes de desenvolvimento sustentável no município; • Fortalecer a participação da sociedade civil na elaboração, implementação e controle social de políticas públicas; • Garantir a visibilidade e difusão das ações e resultados. Assumiram-se também as seguintes diretrizes: • Difusão de alternativas; • Democratização das políticas públicas; • Fortalecimento das parcerias, alianças, articulações e afinidades; • Atenção especial às questões de gênero e gerações; • Educação para convivência com o semiárido e • Manejo adequado dos recursos naturais do semiárido. Ao ser apresentado, o projeto foi amplamente discutido pelas pessoas representantes dos segmentos sociais dos municípios, as quais apresentaram interesse pelo desenvolvimento das ações propostas. Foi esta comissão que cuidou da instalação do projeto e da sensibilização da comuni- dade. No ano de 2001, após o Seminário de lançamento e apresentação do Projeto Piloto foi aberto um concurso interno nas escolas da rede municipal para a escolha do nome do projeto. FECUNDAÇÃO, o nome escolhido fez jus à proposta de convivência com o semiárido pela mística que envolve o próprio nome, conforme escreveu Iran Morais de Oliveira, então coordenador do projeto, representante da Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato: No projeto Fecundação está a Fé daqueles/as que acreditam em Deus e sabem que as situações que levam milhares de pessoas ao sofrimento [...] não é o projeto que o Deus da vida preparou para os seus filhos e filhas [...]. No projeto Fecundação, fecunda é a terra que se prepara, indepen- dente do seu clima, pois guarda potenciais próprios e características só existentes nela, que se bem trabalhados, conduzidos e aproveitados faz fecundar condições de vida. [...] e germinar possibilidades, caminhos que devolvam a confiança e que mudem situações de morte em situações de vida. O projeto Fecundação é promotor de uma AÇÃO libertadora, O Sonho construído em mutirão democrática e contextualizada. [...] Ações que comprometem, provocam participação, que respeitam gerações, culturas/saberes e natureza num objetivo comum de promoção da vida. (OLIVEIRA, Iran M. de. In Boletim Projeto fecundação JULHO/AGOSTO 2004). Foi com esta visão que o projeto deu os seus primeiros passos para efetivação da proposta de convivência com o semiárido, buscando a promoção da vida e sendo sinal de esperança construída na partilha e na solidariedade em Coronel José Dias.
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    26 Localizando a experiência O município de Coronel José Dias está localizado na mesorregião sudoeste piauien- se, microrregião de São Raimundo Nonato, no sopé do Parque Nacional da Serra da Capivara, a 550 km de Teresina – capital do Estado do Piauí –, área de domínio semiárido. Seus limites territoriais abrangem ao norte, o município de João Costa; ao sul, o Estado da Bahia e o município piauiense, Dirceu Arcoverde; A leste, o município de Dom Inocêncio e a oeste, os municípios de São Raimundo Nonato e São Lourenço do Piauí. Foi instalada no ano de 1992. A população total do município é de 4.484 de habitantes, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE (2009). Sua Área é de 1822 km² representando 0,7244 % do Estado, 0,1172 % da Região e 0,0214 % de todo o território brasileiro. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,58 segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano/PNUD (2000). É fortemente concentrada na área rural (81%) do município que conta com a densidade demo- gráfica de 2,15 hab/km². A População Economicamente Ativa (PEA) atinge 55% da popula- ção total. Do ponto de vista social, o município apresenta indicadores compatíveis com os registrados na área do semiárido piauiense. No aspecto da saúde, constatava-se que as princi- pais doenças que acometiam a população local eram as diarréias, as infecções respiratórias e as verminoses. Uma das causas da diarréia era a água consumida e a falta de saneamento adequa- do nas localidades rurais e na sede do município. O setor educacional apresenta uma rede de ensino formada por 41 unidades, sendo 3 na sede do município e 38 na zona rural. O acesso ao ensino fundamental é garantido à popula- ção na faixa etária correspondente, com um índice de 11,37% de evasão escolar ao longo do período letivo. O analfabetismo atinge 39% da população total, sendo que o analfabetismo da população com mais de 15 anos é de 31%. A base econômica do município é a agricultura de subsistência, com destaque para o milho e feijão, e a pecuária de pequeno porte, com a criação de caprinos, ovinos e aves, além a criação de abelhas. A vegetação de caatinga, com a predominância da favela, o angico e o marmeleiro, favorece a criação de caprinos. As floradas existentes nas proximidades da Serra da Capivara favorecem a apicultura, com uma significativa produção de mel. Cáritas Brasileira Regional do Piauí No município, há a predominância da agricultura familiar com base em pequenas propriedades rurais. O levantamento de dados realizados pela Cáritas nas localidades do município constatou a seguinte distribuição da população por situação ocupacional: a agricul- tura familiar desenvolvida em mini e pequenas propriedades predominam na maioria dos casos, seguida por famílias sem terra (diaristas, meeiros e parceiros) e assalariados e assalariadas (maioria do setor público). O mesmo levantamento constatou que as principais fontes de renda identificadas no município são: a produção agrícola e pecuária, 48%, a aposentadoria de pessoas idosas, 41%, a ajuda de familiares ausentes, 7%; e o emprego público, 4%. Foi constatada também a faixa de renda da população: até ½ salário mínimo, 39%; mais de ½ até 1 salário mínimo, 58%; e entre 1 a 2 salários mínimos, 3%. As famílias que desenvolvem a agricultura familiar tinham grande dificuldade de
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    27 acesso às condiçõesnecessárias para desenvolver a atividade agrícola: a falta de crédito (custeio e investimento, a assistência técnica, sementes, transporte para o escoamento de produção). Os preços dos produtos eram baixos, estando a comercialização dependente do mercado atravessador. Coronel José Dias é ladeado por serras, pelo lado oeste, com destaque para a Serra da Capivara, onde está situado o Parque Nacional Serra da Capivara, Patrimônio Cultural da Humanidade. O Parque Nacional está localizado em quatro municípios piauienses, sendo que maior parte fica no município de Coronel José Dias, abrigando os mais importantes Sítios Arqueológicos e as duas áreas de maior atração turística, que são o Desfiladeiro da Serra da Capivara e a Pedra Furada. Por ser a porta de entrada para o Parque, o município de Coronel José Dias é dotado de grande potencial para o Ecoturismo, embora não haja investimentos suficientes nesta área capazes de equiparar a infraestrutura do município às condições de cidade turística. Atualmente é o município vizinho, São Raimundo Nonato, que explora o ecoturismo cultural com localização de um hotel, um Museu e fundações culturais. No entanto uma das entradas do Parque tem acessos pela sede de Coronel José Dias, através da localidade Sitio do Mocó. Há também na sede do município uma pequena indústria cerâmica (telhas e blocos) e um setor comercial bastante precário, atingindo apenas uma pequena parte da população. Esta base econômica, no entanto, não tem sido o suficiente para a manutenção dos serviços públi- cos no município. A administração do município é totalmente dependente do repasse de recursos dos governos Estadual e Federal. Localizado em pleno semiárido piauiense, um dos principais problemas enfrentados pela população local são as estiagens que agravam a precária situação de sobrevivência da maioria das pessoas. O levantamento realizado pela Cáritas constatou as principais consequên- cias desses períodos: QUADRO 02 CONSEQUENCIAS DAS ESTIAGENS Tipo de consequência* % - Falta de água para o consumo humano 76 - Falta de água para os rebanhos 60 - Dificuldade de acesso a alimentos para a família 60 - Dificuldade de acesso a alimentos para os animais 67 - Perda total das lavouras 60 O Sonho construído em mutirão - Perda parcial das lavouras 24 - Falta de trabalho 24 * Questão de múltiplas respostas: as pessoas entrevistadas indicavam até três consequências O acesso à água de boa qualidade é uma das dificuldades presentes não apenas nos momentos de estiagem prolongada. O levantamento constatou que as principais fontes de abastecimento de água da população das áreas rurais do município não eram adequadas.
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    28 GRÁFICO 01 ORIGEM DA ÁGUA UTILIZADA PELAS FAMÍLIAS DAS LOCALIDADES RURAIS DO MUNICÍPIO DE CORONEL JOSÉ DIAS Poços 16% Cacimbas Cisternas 44% 17% Barragens 23% A dificuldade de acesso à água de boa qualidade para o consumo humano deve-se à escassez dos recursos hídricos no município. O território municipal é cortado pelos rios Piauí e São Lourenço e pelos riachos Mulungu, Lagos e cavaleiros. No entanto, estes rios e riachos são todos intermitentes e sofrem com o assoreamento e outros danos provocados nas suas imediações. No que se refere às águas subterrâneas, constata-se que o solo cristalino dificulta a obtenção de água de boa qualidade através da perfuração de poços. Na maioria dos poços perfurados a água é salobra, imprópria para o consumo humano. No entanto, a 30 km do município encontra-se uma área sedimentar com água boa em abundância. Apenas um poço tinha água de boa qualidade servindo para o abastecimento da sede do município, que conta com um sistema de abastecimento através de dois chafarizes e carros pipas, sendo distribuída à população sem nenhum tratamento. O município conta com pequenas barragens e açudes que favorecem o abastecimen- to de água para as famílias e pequenos rebanhos. A maioria destes barramentos demora pouco tempo com água, tendo em vista a rapidez e intensidade da evaporação, além de estarem assoreados, precisando urgentemente de reformas nas suas estruturas. Cáritas Brasileira Regional do Piauí Nos períodos em que a chuva atrasa, a escassez de água se torna ainda mais grave, sendo preciso o transporte de água da barragem Petrônio Portela, localizada no município de São Raimundo Nonato, através de carros pipas. No período de estiagem prolongada, as principais formas de abastecimento são: carro pipa (64%) e os animais de carga (27%). O levantamento constatou também que as mulheres carregavam água das fontes para as residên- cias, andando longas distâncias. Com a fragilidade desses mananciais hídricos acima apresentados, uma das possibili- dades apropriadas para acesso à água de boa qualidade no município é a captação e armazena- mento de água da chuva. De acordo com o quadro 04, a quantidade de chuvas varia de 460 a 850 milímetros/ano, com uma média anual de 580 mm. As chuvas estão concentradas no período de dezembro a março, sendo irregularmente distribuídas a cada ano, o que dificulta significativamente as práticas agrícolas.
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    29 QUADRO 03 MEDIDAS PLUVIOMÉTRICAS NO MUNICÍPIO DE 1994 A 1998 (mm) Ano/mês jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez Total 1994 78 124 175 30,1 - - - - - - - 8,3 463,4 1995 52 131 33 72 32 - - - - 42 42 107 569 1996 - 96 229 106 - - - - - - - 84 542 1997 218 75 374 66 - - - - - 57 57 21 855,5 1998 129 148 30 - - - - - - - - 199 505,6 Fonte: Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Recursos Hídricos. Banco de Dados Pluviométricos do Departamento de Hidrometeorologia Nos últimos anos, através do incentivo da Cáritas, tem sido implantadas cisternas com sistema para captação de água da chuva nas residências localizadas no meio rural. A prefeitura tem incentivado e apoiado esta iniciativa, favorecida pela captação de recursos do Programa de Combate à Pobreza Rural – PCPR (Governo do Estado e Banco Mundial), tendo sido construídas mais de 300 cisternas. O levantamento de informações realizado pela Cáritas em setembro de 2000 consta- tou que as famílias residentes nas localidades que tiveram acesso às cisternas ressaltam as seguintes melhorias: garantia do acesso e a qualidade da água consumida; aumento do tempo disponível para outras atividades (antes ocupado para carregar água de longas distâncias); a redução de doenças e a diminuição da dependência política das famílias em relação ao forneci- mento de água (acesso a reservatórios, carros pipas etc.). No entanto, há o reconhecimento de que esta quantidade de cisternas construídas é insuficiente para atender as demandas locais. O enfrentamento destas problemáticas acima apresentadas deve contar com a participação de todos os setores sociais do município. O levantamento constatou que em Coronel Jose Dias já existia um potencial organizativo que podia ser valorizado. Além do Sindicado dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) existem cerca de 20 associa- ções comunitárias e de pequenos trabalhadores e trabalhadoras rurais espalhadas pelo municí- pio. A juventude participa com maior intensidade dessas organizações locais, tendo assumido a liderança de algumas delas. O município também conta com alguns conselhos de gestão de políticas públicas: saúde, educação, assistência social e desenvolvimento rural. Em duas das localidades pesquisadas já ocorria mobilização da população em busca de soluções e atendimento de suas necessidades nos períodos de estiagem. Esta participação é maior quando induzida, como é o caso de onze organizações comunitárias que afirmam ter participado das atividades e planejamento das Frentes de Trabalho criadas no município, em O Sonho construído em mutirão 1998. Outro exemplo deste potencial pôde ser medido pela participação de todas as associações e de outras organizações locais na construção do projeto. No seminário realizado em setembro de 2000, no município, os participantes identificaram estas problemáticas, mas também reafirmaram a convicção de que é possível conviver com o semiárido, aproveitando de modo sustentável suas potencialidades, com o uso de tecnologias de manejo de recursos hídricos e de produção apropriada a esta realidade. O Quadro 04 expressa a opinião de quem participa das associações comunitárias sobre as principais ações para conviver com a qualidade de vida no semiárido.
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    30 QUADRO 04 PRIORIDADES DE AÇÕES DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO Tipos de ações n. % 1 - acesso à água para abastecimento familiar, criações de animais e pequenas plantações: 33 100 - Cisternas 18 54 - Restaurar açudes e barragens 06 18 - Perfurar e equipar poços 04 12 - Construir barreiros e cacimbas 03 09 - Tratar a água 02 06 2 - Produção agrícola 14 42 - Produção de alimentos (culturas de sequeiro) 07 18 - Culturas permanentes: caju, mamona, palma 05 15 - Beneficiamento da produção agrícola 02 06 - Acesso a sementes apropriadas 01 03 3 - Apoio à produção pecuária 20 61 - Criação de caprinos e ovinos 08 24 - Melhoria de rebanhos 06 18 - Criação de abelhas (apicultura) 03 09 - Beneficiamento da produção de mel 03 09 4 - Apoio às atividades agrícolas e pecuária 12 36 - Assistência técnica 04 12 - Uso de tecnologias apropriadas 02 06 - Crédito para produção 02 06 - Capacitação 03 09 - Organizações comunitárias 01 03 5- Outras iniciativas de geração de renda 09 27 - Setor turístico 03 09 - Artesanato 06 18 6- Serviços sociais Básicos 05 15 Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    II A Construção Diretrizes Gerais do PCSA
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    33 Projeto Piloto deCoronel José Dias Conforme o Quadro 04 apresentado sobre a realidade do semiárido brasileiro, onde foram destacados alguns dos principais problemas enfrentados pelas famílias e comunidades empobrecidas da região, a Cáritas Brasileira Regional Piauí deu continuidade e ampliou a intervenção nessa realidade, através de um projeto piloto voltado para a convivência harmôni- ca e com qualidade de vida no semiárido brasileiro de acordo com os princípios do desenvolvi- mento humano sustentável. Tratou-se de uma intervenção pró-ativa que precisou alguns princípios ou diretrizes gerais orientadores dos objetivos a serem alcançados, bem como das atividades a serem realizadas: a) Difusão de alternativas: a capacidade de transformar o alternativo em alterativo, ou seja, a visibilidade do programa, a publicização e a disseminação de ações significativas que se tornem referencias para a população local e para a formulação de políticas públicas apropria- das à realidade do semiárido. Tomar como referência os impactos de implementação de alternativas permanentes de convivência com o semiárido; b) Democratização das políticas públicas: aumento das capacidades organizativas, fortalecimento das organizações comunitárias, desenvolvimento de conhecimento e do controle e monitoramento das informações referentes ao semiárido e a aplicação de recursos públicos. Inserir na agenda governamental um planejamento pró-ativo com a interiorização do desenvolvimento e investimentos em infraestrutura social e econômica; c) Fortalecimento das parcerias, alianças, articulação e afinidades entre os diversos órgãos da sociedade civil e do estado (nas esferas municipal, estadual e federal) que atuam na região para realizar ações conjuntas que promovam impactos sociais e ambientais sustentáveis em nível da região semiárida. Combinar ações para potencializar recursos e esforços; d) Atenção especifica às questões de gênero e gerações presentes no semiárido, reconhecendo suas especialidades e buscando enfrentar processos culturais de exclusão, como garantia de democratização e sustentabilidade das ações previstas no presente programa, acesso das mulheres e jovens a programas de crédito e nos conselhos de políticas públicas; e) Educação para a convivência com o semiárido: ampliação das capacidades educa- cionais (alfabetização, ensino básico para pessoas jovens e adultas, formação profissional e O Sonho construído em mutirão assistência técnica); valorização de conhecimentos básicos de convivência com a região; geração e difusão de informações; f) Manejo adequado dos recursos do semiárido (hídricos e produtivos): busca permanente de informações e monitoramento das previsões de seca; conservação, uso sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais; uso de tecnologias apropriadas; fortalecimento da agricultura familiar; garantia de segurança alimentar; universalização do abastecimento de água para consumo humano; acesso ao crédito e canais de comercialização; estímulos a unidades de beneficiamento da produção e empreendimentos não-agricolas.
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    34 Educar para Conviver O problema da água no mundo tem no semiárido um agravamento maior, pois se trata de uma realidade onde a água disponível é escassa combinada com a falta de políticas públicas apropriadas ao uso sustentável dos recursos disponíveis, bem como a construção de obras hídricas capazes de abastecer toda a comunidade. Se por um lado a ação política do Estado brasileiro em todos os níveis não tem sido capaz de solucionar este problema, por outro lado, a população não tem encontrado formas para sair da acomodação e mudar essa realidade. Então, faz-se necessário criar novos hábitos, rompendo com velhos costumes que só contribuem para a perpetuação da situação de mendi- cância em que vive maioria da população do sertão, agravadas em épocas de estiagem. Torna-se, portanto, necessário e urgente investir na educação e mais ainda, em uma educação de qualidade e contextualizada na região. Investir em educação é um dos passos mais decisivos para a superação de tal realidade: os dados indicam que cada quatro anos de estudo da mãe corresponde à redução de 20 pontos na pobreza das crianças e adolescentes [...] (CARVALHO, 2004: 21). Viver melhor no semiárido significa conhecer melhor a realidade, perceber as suas fragilidades e a sua viabilidade no jeito de plantar, de criar, de produzir e de lidar com os recursos disponíveis na região e estabelecer novas formas de se relacionar com o meio ambiente. A convivência com o semiárido consiste em aproveitar as potencialidades da região e transformá-las em novas perspectivas de vida. Existem plantas e animais que se adaptam melhor ao clima e à vegetação, assim como o beneficiamento de frutos e a captação da água da chuva propiciam melhor desenvolvimento e renda para as comunidades e, consequentemente, para o município. É preciso investir na educação, porque é através desta que a população se apropriará de novas técnicas de criação, plantação, produção e de conhecimento da realidade. Desenvolvendo estas experiências alternativas, estará contribuindo “para uma convivência Cáritas Brasileira Regional do Piauí mais solidária e sustentável com a região semiárida e com o meio ambiente em geral” (BRAGA, 2004:28). Isto terá um impacto grandioso na vida das pessoas no que se refere à valorização do lugar onde vivem e de si mesmas, enquanto pessoas capazes de mudar a realidade, evitando que as famílias se desagreguem pela busca de melhores condições de vida em outros lugares. Sabe- se que, “quando os trabalhadores do semiárido não conseguem produzir nem para comer ou dar comida aos seus animais, eles migram. Vão para outra região à procura de uma vida melhor” (LIMA &ABREU, 2005:15) As condições de melhoria de vida estão no próprio lugar onde se vive. Basta acreditar em uma vida possível no semiárido a partir de um novo olhar para a realidade e um novo jeito de se viver, rompendo com a tradição do combate à seca e aprendendo a conviver com ela, numa perspectiva superadora das velhas práticas e instalação de novas capazes de garantir
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    35 qualidade de vida. A Educação para a Convivência com o Semiárido não é apenas uma ação social em que as pessoas interagem entre si e vão passando novos conhecimentos informalmente. Esta ação é necessária, mas não é suficiente. A escola será palco de novas práticas também, à medida que, assuma a responsabilidade em difundir esta nova proposta, adotando metodologias apropriadas e, sobretudo, que possibilite a construção de novos conhecimentos pautados na realidade onde vivem. A educação escolar deve promover uma releitura da realidade do semiárido e contex- tualizar o ensino de modo a se construir a convivência como um novo referencial para a região, contribuindo para que as pessoas deste lugar aprendam a conviver consigo mesma, com as outras pessoas e com o meio ambiente. Uma ação pedagógica efetiva poderá redimensionar a relação sociedade-natureza e assim transformar um destino coletivo e um círculo vicioso de degradação ambiental e pobreza em um espaço da vida e do aconchego. (BRAGA, 2004: 83- 84) A proposta de educação para a convivência com o semiárido está associada a um projeto de sociedade onde se promova a dignidade humana, através de relações ecologicamen- te saudáveis, economicamente justas e socialmente livres, condições necessárias para o desen- volvimento sustentável, que está diretamente ligado ao atendimento das necessidades huma- nas, sem causar prejuízos ao meio ambiente. Eis o grande desafio: conviver com o semiárido, a partir do conhecimento da realida- de, das condições climáticas da região, do respeito à biodiversidade e da preservação do meio ambiente, e criar condições de sustentabilidade econômica, social e ecológica dos seres ali existentes. Eixos de Atuação A partir das diretrizes, a Cáritas e as parcerias de elaboração e gestão do projeto, seguindo a máxima de Educar para Conviver, decidiram delimitar os seguintes eixos de ação: • Gestão • Recursos Hídricos • Produção Agropecuária Apropriada • Educação Contextualizada Para cada eixo foi desenvolvida uma política de capacitação, que se constitui também O Sonho construído em mutirão na formação de agentes multiplicadores e multiplicadoras da convivência com o semiárido nas comunidades envolvidas no projeto. Embora professores e professoras assumam esta função de forma mais intencional nas escolas onde trabalham a proposta de Educação Contextualizada. Assumindo a dinâmica de intervenção na realidade a partir destes eixos, o Projeto Fecundação conseguiu promover a discussão e, ao mesmo tempo, realizar as ações, integrando campo e cidade e envolvendo homens e mulheres, crianças e jovens numa mesma perspectiva: tornar melhor a vida em Coronel José Dias e proclamar as potencialidades do semiárido brasileiro. Perpassando as ações desenvolvidas nos eixos de ação, buscou-se também trabalhar as questões de gênero e geração, partindo do entendimento de que as relações “verticalizadas”
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    36 e “patriarcais” são uma herança que se configura nas relações familiares e sociais de hoje. Desta forma, nos momentos de formação, esta temática buscou seu lugar na medida em que oportu- nizava questionamentos e reflexões quanto às relações de gênero e geração, promovendo-se um recorte, sobretudo em relação às condições da mulher. Neste processo se entrelaçam questões sociais, culturais e de cidadania, com foco na política local, numa perspectiva de empoderamento das pessoas excluídas não somente de políticas públicas, mas também do poder de decisão. Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    37 Gestão Na maioria dos municípios localizados no semiárido brasileiro, as organizações da sociedade civil tem tido pouca capacidade de articulação para intervenção e controle social dos programas implantados em nível local. A dificuldade de participação está relacionada com diversas causas: a falta de capacitação, a pouca articulação, a fragilidade dos mecanismos de participação popular (conselhos, fóruns, etc.) e o desconhecimento dos direitos, dos recursos que são destinados e de como são aplicados. Nesse sentido, é que o Projeto Fecundação trabalha o eixo Gestão: na perspectiva de empoderamento das pessoas, buscando a autonomia e a sustentabilidade das ações desenvolvidas. O desafio de se constituir/construir uma gestão compartilhada do projeto foi vivenciada desde o início da “gestação” do Projeto Fecundação. Segundo LÜCK (2001), o próprio conceito de gestão já nos remete a uma idéia de participação, de um trabalho coletivo de análise/reflexão sobre determinada situação que permite uma tomada de decisão sobre como agir. Parte-se do princípio de que o sucesso de determinada proposição depende de uma decisão conjunta do grupo envolvido, de forma recíproca, gerando um “todo” guiado por uma “vontade coletiva”. Deste modo, buscou-se uma organização capaz de se responsabilizar pela execução e animação do projeto e que fosse capaz de refletir e decidir de forma coletiva, sobre o processo de construção das ações. Partiu-se da compreensão de que a gestão é um compromisso coletivo do FAZER – REFLETIR – REFAZER. Para este exercício foi composta a comissão gestora do projeto fecundação, concebi- da de forma a proporcionar a todas as pessoas envolvidas na experiência a apropriação de saberes e fazeres no processo de execução da proposta. A comissão gestora do projeto fecun- dação, desde a sua implantação no município foi composta por representantes da Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato, da Igreja local, do sindicato dos trabalhadores, trabalha- doras rurais e do poder público municipal. Figurando da seguinte forma: • 01 representante da Cáritas Regional • 01 representante da Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato • 01 representante da Prefeitura Municipal O Sonho construído em mutirão • 01 representante da Igreja • 01 representante do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais • 02 representantes das associações de produtores e produtoras (um dos quais deveria ser, necessariamente, uma mulher) Essa comissão gestora foi instituída com atributos de deliberação em algumas ações do programa: aprovação de projetos de recursos hídricos e produtivos apresentados pelas associações; monitoramento do projeto; definição da aplicação de recursos da partilha solidá- ria; mobilização de recursos locais e em outros níveis para a efetivação das ações previstas. Foi instalado no município um escritório do projeto fecundação para atender às demandas latentes e dar suporte às ações previstas, promovendo a coordenação, a administra- ção das ações e o apoio técnico de modo a viabilizar o planejamento e a execução do projeto.
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    38 Contratou-se inicialmente um técnico agrícola, sob a responsabilidade da prefeitura municipal, e um auxiliar técnico administrativo que viabilizaria o contato com os grupos organizados, conforme as ações. Estes profissionais faziam parte da comissão gestora e se responsabilizaram pelo processo de acompanhamento das ações que vinham sendo desenvol- vidas, inclusive as reuniões da comissão. A gestão do projeto adotou a estratégia de PMA – Planejamento, Monitoramento e Avaliação para melhor acompanhar o desenvolvimento das ações. Foram realizadas duas oficinas de PMA com o objetivo de propiciar espaço de análise e planejamento do processo de implantação do projeto no município e de compreender esta ferramenta como estratégia de acompanhamento das ações, numa perspectiva de superar as fragilidades, a partir do exercício da avaliação, do monitoramento e do (re)planejamento das ações. Para possibilitar esta dinâmica, foram criados Grupos de Trabalho (GT), como forma de contribuição no acompanhamento das ações planejadas. Participam dos grupos pessoas que, de uma forma ou de outra, tem interesse pelas ações do projeto e indicadas pelos membros da comissão gestora. O grande objetivo dos GTs é discutir e aprofundar as temáticas e garantir as condições e estratégias para a execução das atividades de cada eixo do projeto. Foram constituídos os seguintes grupos: • GT de Educação; • GT de Produção; • GT de Recursos Hídricos; • GT de Gestão. Foi definido também o papel dos membros dos GTs: • Organização das atividades de acordo com o planejamento • Reuniões de trabalho para execução das atividades • Contatos com as entidades parceiras para a gestão do projeto • Participação nas reuniões ampliadas da Comissão Gestora e dos encontros de PMA • Elaboração do relatório anual de atividades do GT • Assiduidade e compromisso com as ações do projeto de ECSA QUADRO 05 ATIVIDADES NA EXECUÇÃO DO PROJETO FECUNDAÇÃO Cáritas Brasileira Regional do Piauí Atividade Detalhamento • Reuniões mensais da As reuniões são espaços de discussão e controle das ações e o comissão gestora momento de reflexão e definição de ações estratégicas de acordo com a necessidade. • 04 oficinas de PMA Os encontros de PMA ocorreram entre os anos de 2001 a 2004 com o objetivo de Propiciar espaços de análise e planejamento do processo de implantação e de desenvolvimento do projeto. • Reuniões com Os grupos de trabalho foram criados para darem suporte às ações coordenações dos Grupos e promover o acompanhamento a cada eixo. de Trabalho da comissão gestora.
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    39 Atividade Detalhamento • Inauguração da sede do A sede foi inaugurada em dezembro de 2001 e seu funcionamento é projeto cedido pelo poder uma parceria com o poder público local. público • Participação de membros Atividade de mobilização social das comunidades em eventos externos • 01 Encontro de avaliação A avaliação é parte do processo de apropriação das ações do trienal do projeto projeto com o objetivo de alimentar o planejamento • 01 Oficina de teatro com Realizada em maio de 2006 com o objetivo de envolver os jovens, a juventude alunos das escolas a se sensibilizarem com as técnicas teatrais e trabalhar as temáticas do semiárido através do teatro • Visitas a parques e Com o objetivo de envolver a comunidade no ambiente semiárido experiências local, a partir da realidade de preservação e do potencial turístico da região. • Confecção de 250 As cartilhas foram distribuídas nos momentos de formação cartilhas sobre educação promovidos nos eixos de ação. para convivência com o semiárido. • Grito das pessoas Realizado no dia 07 de setembro de 2005, teve como principal excluídas objetivo envolver a classe estudantil e a sociedade em busca de conhecimentos sobre este ato cívico e manifestarem os seus direitos através de reivindicações. • Cursos de pintura em tela Com a duração de nove meses, os participantes aprenderam a pintar utilizando várias técnicas, desenvolvendo um potencial maior em pintura em tela, tendo como base o semiárido nordestino. • Capacitação de jovens em O curso foi ministrado pelo SEBRAE e destinado a guias turísticos, atendimento do turismo em 2006, com o objetivo de capacitar 25 jovens como agentes multiplicadores do potencial turístico da região. Além disso, foram realizadas atividades voltadas para as questões ambientais na O Sonho construído em mutirão semana do meio ambiente. O Projeto Fecundação confeccionou 1.000 folderes com algumas dicas sobre água, lixo e fauna e apoiou a realização de concurso de coleta seletiva de lixo, gincanas com temas ambientais, palestras educativas sobre fauna, flora, caça predatória, patrimônio histórico e reciclagem de lixo, promovidas pela Secretaria do Meio Ambiente. O PMA do Fecundação Compreendemos que o processo desencadeado pelo PMA possibilita perceber significado da experiência para os sujeitos envolvidos e para a comunidade, ao tempo em que
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    40 possibilita qualificar as ações desenvolvidas rumo aos objetivos propostos no projeto. Partiu-se da compreensão elementar de que o PLANEJAMENTO é o detalhamento das ações a serem desenvolvidas, o MONITORAMENTO é o acompanhamento das ações, através de registros e informações, e a AVALIAÇÃO é a validação das ações, conforme pensadas e, na medida em que permite analisar as falhas e as potencialidades, possibilita um re- planejamento rumo aos objetivos propostos. Conhecer os passos metodológicos a serem dados é a primeira ação que desencadeia a aplicação da metodologia no trabalho a ser desenvolvido, por isso a realização das oficinas, num exercício teórico-prático que permite, ao mesmo tempo, apropriar-se da ferramenta PMA e exercitá-la dentro do projeto. O ato de planejar já é uma ação que faz parte do nosso cotidiano, se vamos sair de casa, planejamos o que fazer, se ficamos, também planejaremos o que será feito e com que propósito. Neste sentido, definimos o planejamento como uma tomada de decisão compro- metida com as expectativas que temos de algo a ser realizado e com os resultados que ela deve gerar. Na concepção adotada pelo projeto fecundação, o planejamento é uma ferramenta de intervenção da realidade, na medida em que pressupõe inicialmente a análise da realidade para que se possam identificar os problemas nela existentes e refletir sobre a nossa capacidade de intervir. Um problema é sempre algo que incomoda, é uma situação indesejável. O desejo de mudar a realidade nos faz planejar e isso exige: definir objetivos, traçar metas e propor ações. Definir OBJETIVOS é uma forma de antecipar os resultados e processos esperados de um plano de ações. As METAS são mais sólidas e são mensuráveis e por isso mesmo são expressas quantitativamente, estabelecendo prazos para não se perder de vista os resultados, de modo que os objetivos possam ser atingidos. As AÇÕES são as mudanças a serem realizadas e estão intrinsecamente ligadas às metas a serem alcançadas. Um plano de ação contempla outros elementos que traduzem o planejamento, o processo de reflexão e de tomada de decisão, que estão interligados entre si, de modo a expres- sar o desejo de mudança. Convém destacar que o planejamento feito com o propósito de intervir, necessaria- mente o caráter participativo se evidencia enquanto espaço privilegiado de discussão e tomada de decisões. Vale ressaltar que todo processo de planejamento envolve escolhas, decisões e responsabilidades, permitindo o surgimento de questões como: O que fazer? Por que fazer? Como fazer? Quando fazer? Quem irá fazer? Quem se responsabilizará pelos seus resultados? O monitoramento é feito a partir das informações colhidas durante o processo de Cáritas Brasileira Regional do Piauí aplicação do planejamento. É uma ferramenta utilizada para reconhecer as mudanças que estão sendo implementadas, através do registro de observações e de dados que irão subsidiar a avaliação e o re-planejamento. Importante ainda que estes instrumentais possam estabelecer uma relação direta com os indicadores de resultados, definidos também no processo de planejamento, desse modo é que o monitoramento busca sempre a relação entre o que foi planejado e o que foi executado. No projeto fecundação, o monitoramento foi realizado, através de fichas, relatórios, pesquisa para o levantamento de dados sobre cada eixo de ação, revelando em que medida os resultados esperados foram sendo alcançados, buscando também revelar as dificuldades encontradas e os encaminhamentos feitos em relação ao que não foi realizado. Quanto à avaliação, esta é uma ferramenta indispensável em qualquer atividade. É, através do olhar avaliativo, que se pode perceber as mudanças significativas, as fragilidades,
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    41 possibilitando ainda, umareflexão sobre os rumos que estão sendo construídos e se estes são de fato, o que se esperava construir. A avaliação nos permite refletir sobre nossa prática. Ela é um momento imprescindí- vel para a sistematização. Estando centrada na prática, busca sempre a melhoria, o aperfeiçoa- mento. Na avaliação, é preciso discernir o que são falhas a serem corrigidas e o que são limita- ções a serem potencializadas. É a avaliação, com a ajuda do monitoramento, que vai dar um novo impulso ao planejamento, guiando-o para os rumos pretendidos. Adotando o enfoque metodológico do PMA na gestão do projeto, a comissão gestora, através de seus componentes, manteve um calendário ordinário de reuniões, que permitia um acompanhamento sistemático das ações e a motivação dos sujeitos envolvidos a também vivenciarem esta metodologia. O Sonho construído em mutirão
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    42 Recursos Hídricos Que a água no planeta é farta, todos nós sabemos. Ela ocupa 2/3 da superfície terres- tre, mas apenas 3% deste volume de água é doce. Esta quantidade, mesmo sendo pequena, seria suficiente se não estivesse distribuída de forma muito irregular. Só para dar um exemplo, nos rios está apenas um milésimo da água do planeta. A maior parte das águas está nos pólos, isto é, muito longe para termos acesso a ela. (MALVEZZI & POLLETO, 2003, p. 23) O problema da falta de água potável é, portanto, uma realidade para todo o planeta, mas a problemática da água no semiárido é mais agravante ainda devido ao clima. As chuvas irregulares e a grande incidência de raios solares fazem com que a evaporação seja mais intensa, influenciando na diminuição das reservas de água. Associada à falta de água está a falta de cuidados com a água, assim como o acesso a fontes de água próprias para o consumo. Segundo a Organização das nações Unidas (ONU), “para cada 100 litros de água que nós usamos, 10 mil litros de água se tornam poluídas”¹. A proposta de educação para a convivência com o semiárido prevê a criação de novas formas de abastecimento de água, bem como a divulgação dos cuidados no armazenamento e gerenciamento das águas, para que a água colhida no semiárido possa ser suficiente para cozinhar, beber e fazer a higiene, e para os animais. Neste processo, o projeto Fecundação buscou a viabilização do acesso à água de qualidade, através das ações promovidas pelo eixo dos Recursos Hídricos, mobilizando as famílias para a construção de cisternas e limpeza das aguadas, visando à apropriação das tecnologias de baixo custo para “colher a água” e gerenciar o seu abastecimento. Os 16 mil litros de água captada através do telhado das casas no período chuvoso garantem o abastecimento para até seis meses. E, dependendo do cuidado da família com sua cisterna, além de suficiente, ela também dispõe de uma água livre de microorganismos que possam provocar doenças e a mortalidade, principalmente, de crianças e pessoas idosas. Resolvido o problema da água para o consumo humano, é a vez de pensar na água para a produção de alimentos, criação de animais e outras necessidades. Nesse sentido, o Projeto Fecundação possibilitou a construção de barragens subterrâneas, limpeza de açudes e barreiros, marcação de poços através da hidroestesia, instalação de Bombas d’Água Populares Cáritas Brasileira Regional do Piauí – BAPs (programa desenvolvido em parceria com a Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA Brasil). Em 2009, o município de Coronel José Dias começou a receber cisternas calçadão, através do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), mais uma parceria com a ASA Brasil. Além da realização de cursos e seminários para capacitar as famílias para o bom aproveitamen- to dessa água que é armazenada, com capacitação de pedreiros para a construção de cisternas e barragens. Tudo isso visando ao aproveitamento dos recursos naturais com respeito ao meio ambiente e reafirmando a importância dessas ações para a saúde e o bem estar das gerações. ¹Cartilha “ÁGUA DE BEBER: encontros comunitários sobre o gerenciamento de águas”. Cáritas Brasileira, p.13
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    43 QUADRO 06 PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO RECURSOS HÍDRICOS Atividade Detalhamento Observações Criada a Comissão de Os diagnósticos foram feitos O levantamento de recursos RH e feitos diagnósticos dando início ao processo de hídricos para ser contido no plano hídricos elaboração do Plano Municipal municipal encontra-se em fase de de Recursos Hídricos (PMRH). conclusão, falta uma pequena faixa na zona rural e a sede. Diagnóstico de recursos A secretaria de saúde fez um Água armazenada para o consumo hídricos levantamento das barragens humano e dessedentação dos existentes no município – são 14 animais barragens de médio porte. Recuperação do O sangradouro possibilita a O sangradouro se encontrava sangradouro da vazão do excedente de água na danificado e sem manutenção, e já barragem do Berreiro montante da barragem durante o apresentava risco e danos para a Grande reabastecimento evitando o parede da barragem rompimento da parede. Construção de 01 Objetivo de reter a água no A retenção da água no subsolo é barragem subterrânea subsolo para plantio durante o resultado do barramento feito período seco, construída em local numa vala no solo até o nível da em que as águas se deslocam por rocha. O barramento é feito com caminhos naturais e favoreça o lona plástica. cultivo de alimentos. A barragem subterrânea foi a primeira construída pela Cáritas no regional Limpeza de 02 Objetivo de aumentar a As barragens com o passar dos barragens capacidade de armazenamento de anos a cada reabastecimento no água e também melhorar a período chuvoso vai sendo qualidade da água. aterrada com deslocamento do solo pela água. O Sonho construído em mutirão Realização de um curso Participaram cerca de 20 famílias, O curso é de fundamental de Gerenciamento em mas a participação não foi em importância, visto que nas análises Recursos Hídricos para tempo integral, fato que gerou feitas com água de várias cisternas 40 famílias do PSF – uma discussão sobre a aparecem coliformes fecais. Programa Saúde na mobilização. Família. Capacitação de 30 As capacitações foram feitas para A contrapartida das comunidades pedreiros no município orientar os pedreiros na na construção das cisternas é a construção das cisternas. mão-de-obra
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    44 Atividade Detalhamento Observações Construção de 700 Em mutirão onde cada família Cisternas com capacidade entre cisternas entra com a contrapartida de 16 e 20m³ de água. Suficiente para escavação do buraco e acolhida uma família de 05 pessoas beber e do pedreiro durante a construção cozinhar durante o período seco da cisterna. Marcação de 03 poços Técnica milenar de identificação Com a técnica de hidroestesia as (hidroestesia) da água no subsolo. Em Coronel pessoas com sensibilidade Dias, o técnico do Fecundação, energética conseguem identificar na época, Juvenal Antônio de onde tem água, sua profundidade Sousa, foi treinado e chegou a e qualidade. (o IRPAA trabalha marcar três poços cacimbões. com esta temática, identifica e capacita agricultores/as) Seminário Gestão de Para definir um plano diretor Este seminário apontou como Recursos hídricos para gestão dos recursos hídricos meta a construção do PMRH, no município. mas que não foi possível ainda sua realização. Limpeza do açude da Com o objetivo de aumentar a Estes reservatórios com Salininha capacidade de armazenamento de sucessivas recargas de água água para consumo humano e durante o período chuvoso animal. passam a ser aterrados em função do deslocamento do solo pela água. Levantamento de poços A Bomba d`Água Popular – BAP O GT de recursos hídricos nos 1º e 2º distritos de (bomba manual instala em poços percorreu as comunidades Coronel José Dias para tubulares de baixa vazão que identificando poços não o programa Bomba permite a elevação da água). equipados e públicos para a d’Água Popular. instalação das BAPs. O levantamento se estendeu em toda a diocese onde foram instaladas cerca de 70 bombas. Cáritas Brasileira Regional do Piauí Instalação de duas BAP Instaladas em Coronel José Dias comunidade Veredas (segundo distrito) Realização de 08 cursos Foram capacitados cerca de 180 Com duração de 2 a 3 dias as sobre tratamento e multiplicadores. famílias beneficiadas recebem gestão de água informações teóricas e praticas sobre o uso da água e manejo e conservação da cisterna. Realização de 04 Realizada na comunidade com o Com duração de três dias em cada oficinas para construção objetivo de capacitar os pedreiros comunidade. Em mutirão, as de cisternas com as técnicas de construção de famílias garantem a escavação do cisternas de placas. buraco para construção.
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    45 Produção Agropecuária Apropriada É importante que as famílias residentes no semiárido tomem conhecimento de que a região é caracterizada por um baixo índice pluviométrico e com chuvas muito irregulares. Os solos são rasos e cristalinos e estão sujeitos a desertificação, por isso não dão condições favorá- veis ao cultivo de culturas anuais como o milho e o feijão, enquanto fonte geradora de renda. Em relação à agricultura familiar, a reflexão sobre o jeito de plantar no semiárido também trouxe novas contribuições, principalmente no que se refere às queimadas, pelos prejuízos que elas causam à natureza e ao meio ambiente. Quando o produtor(a) faz a queimada, está matando todos os microorga- nismos que vivem nos primeiros 30cm de 1m² do solo, o que corresponde a mais de 600g de seres vivos nesses espaços, ficando o solo sem proteção, fraco, duro, sem presença de vida e impermeável e obviamente, sem fertilidade. (SOUSA, 2003) A prática de queimadas, o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos são algumas das atividades que tem empobrecido e contaminado os solos e pondo em risco o ecossistema e a vida humana. Nesse eixo, o projeto procurou fornecer aos agricultores e agricultoras as bases para uma produção sustentável, através dos princípios da agroecologia e da agrobiodiversidade. A implantação de tecnologias apropriadas ao uso do solo busca o melhor aproveita- mento para o plantio, como aproveitar a palha e o mato seco para evitar a perda da água pela evaporação (cobertura morta) e plantar sob a orientação da curva de nível, evitando o plantio no sentido da declividade de solo para aumentar a retenção da água. Conforme assinala João Evangelista Oliveira, coordenador do Programa de Convivência com o Semiárido da Cáritas Brasileira Regional Piauí, “as tecnologias adotadas e que estão sendo utilizadas na agricultura familiar são simples, de baixo custo, ambientalmente harmônicas, socialmente mobilizadoras e no campo econômico primam pela sustentabilida- de” (impresso, 2009 – anexo). Neste sentido é que as ações do projeto Fecundação em relação à produção apropria- da tiveram como base a produção sustentável no semiárido, numa perspectiva de criar uma nova mentalidade no jeito de produzir, proporcionando melhoria de renda das famílias. O Sonho construído em mutirão Para tanto, foi incentivada a criação de pequenos animais (caprinos, ovinos, aves e suínos) que necessitam de pouca água para sobreviver; a melipolinicultura (criação de abelhas) que aproveita a florada existente para a produção do mel, alimento bastante nutritivo e com alto valor comercial; o beneficiamento de frutas com o aproveitamento de árvores nativas – como umbu e caju – para a produção de polpas, doces, compotas, bombons e a famosa cajuína do Piauí; cursos de artesanato; bancos de sementes e de proteínas. Tudo através de cursos de capacitações que deram um incremento na qualidade e no valor da produção das famílias. E estas aprenderam novas formas de comercialização, através da Economia Popular Solidária (EPS). No processo de formação e capacitação desenvolvido pelo Projeto Fecundação, além do conhecimento acerca da história da criação dos animais, buscou-se também promover o conhecimento de técnicas como: sistemas de criação e manejo do rebanho: condições sanitári- as, reprodutivas, alimentares e cuidados nas instalações.
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    46 QUADRO 07 PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA APROPRIADA Agricultura • Inserção de sementes forrageiras na agricultura (sorgo, palma e feijão guandu) - 90 famílias; • Otimização das culturas de caju e umbu com compra de mudas para as famílias; • Curso de técnicas em fruticultura e Capacitação de 20 famílias; • Curso sobre manejo do solo e tecnologias apropriadas; • Aquisição de dois motores para máquinas de beneficiamento agrícola; • Plantação de 33,72 ha. de caju; • Capacitação de aproveitamento do potencial do caju; • 01 grupo de produtores de caju; • Aquisição de 62 bolas de arame para a melhoria das roças. Criação e manejo de animais Artesanato e comercialização de produtos • Curso de técnicas em artesanato e capacitação de 20 famílias; • Curso sobre gestão e comercialização do artesanato; • Oficina de produção de cajuína; • Organização dos produtores de umbu para criar a cooperativa de beneficiamento dos frutos; • Curso de fabricação de bombons de chocolate com recheio de umbu, castanha e goiaba; • Reunião com o grupo de famílias beneficiadoras de frutas para a discussão sobre identidade de possíveis canais de comercialização no mercado local para a produção existente nos grupos; • Reunião com o grupo de famílias que trabalham com o beneficiamento de frutas para nivelamento de conhecimentos sobre técnicas de venda; • 01 grupo de beneficiamento do umbu; • Curso de aperfeiçoamento dos produtos (cajuína, doces e outros) promovido pelo EMATER – capacitação de 20 famílias; • Capacitação de aproveitamento do potencial do caju; • Oficina de capacitação sobre defumados e embutidos de caprinos e ovinos com assessoria externa; • 01 curso de produção de remédios fitoterápico; • Criação de uma farmácia fitoterápica. Cáritas Brasileira Regional do Piauí Na medida em que as ações aconteciam, geravam novas demandas e outras atividades também foram sendo sugeridas, planejadas e executadas com o intuito de reforçar os objetivos do trabalho em relação à produção apropriada, bem como os objetivos do projeto. São elas: • Reuniões comunitárias sobre desenvolvimento sustentável; • Realização de encontro de intercâmbio sobre artesanato, caprinocultura, apicultura; • Aprovação em dezembro de 2005, junto ao BNB/ SENAES, do projeto de Fundos Produtivos Solidários; • Retomada dos acompanhamentos aos grupos produtivos; • Renegociação das devoluções junto aos grupos produtivos; • Apoio ao projeto Fitoterápico do grupo de mulheres, liderado pela Irmã Ana Maria; • Acampamento e monitoramento das atividades; • Participação no XII Seminário Piauiense de Apicultura.
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    47 Educação Contextualizada Várias construções teóricas em torno da educação contextualizada foram registradas ao longo do processo de implantação do Projeto Fecundação, algumas, inclusive, deram suporte às discussões nos espaços das oficinas pedagógicas, como é o caso dos textos trabalha- dos pelo grupo de assessoria, sendo objetos de reflexão e de apropriação da temática, numa perspectiva de alimentar o fazer pedagógico no semiárido. Destaque-se a contribuição do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), pelos serviços de assessoria e parceria durante a execução do projeto e da Rede Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB), pelas experiências acumuladas neste processo que motivaram, e motivam, a vivência de uma prática pedagógica pautada na necessi- dade de se conhecer a realidade, sobre ela refletir e para nela intervir, numa perspectiva de desconstruir saberes internalizados em torno do semiárido, modificando-se “hábitos, atitudes, valores, comportamentos e conceitos” (SOUSA e REIS, 2003, p.31). As oficinas pedagógicas foram espaços privilegiados de formação e atualização em torno do conhecimento da proposta de Educação para a Convivência com o Semiárido, incluindo-se a Educação Contextualizada como base para as mudanças mencionadas e da necessidade de sua implementação nas escolas. Essas oficinas tiveram, portanto, caráter teórico-prático, na medida em que oportunizaram aos professores, professoras, técnicos e técnicas da educação obterem subsídios para o trabalho nas escolas e, a partir das experiências desenvolvidas, refletirem sobre a prática pedagógica. De acordo com o IRPAA, as oficinas pedagógicas: [...] são estruturadas sobre temas que abordam as questões mais específicas como o clima, a água, a geografia, a produção, a estrutura fundiária. Esses temas permitem uma abordagem pedagógica que relaciona esse novo saber com a ação educativa em sala de aula [...] revendo conceitos e investigando os diversos processos que permeiam o ensino-aprendizagem” (SOUSA e REIS, 2003, p.12). As mudanças de atitudes no fazer escolar envolvem relações de ensino aprendizagem O Sonho construído em mutirão não apenas entre professores, professoras, alunos e alunas, mas também a família e a comuni- dade, na discussão dos processos educativos: planejamento, avaliação, disciplina, dentre outros. É um processo difícil, porém desafiador, conforme têm manifestado, ao longo da experiência do projeto, alguns professores e professoras²: Os professores e professoras do município após a realização das oficinas pedagógicas estão mais bem preparados e preparadas para trabalhar e já estão colocando em prática esta nova proposta educacional que é aprender- ²Depoimentos feitos em setembro de 2003
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    48 mos a conviver com o semiárido. E ensinar os alunos, alunas da rede municipal de ensino, juntamente com a comunidade, que a realidade climática do semiárido não podemos modificar, mas podemos desenvolver tecnologias alternativas para vivermos melhor nessa região. (José Roberto – então Secretário Municipal de Educação). Com a educação para a convivência com o semiárido está ocorrendo a promoção de conhecimentos e divulgação de nossas potencialidades para que todos valorizem seus elementos culturais e ambientais, partindo do contexto local, para que haja transformações significativas dentro do nosso convívio diário (Professora Mirian – U. E. Monsenhor Nestor). Com esta nova proposta estamos aprendendo de uma forma descontraída e agradável, com um melhor aprendizado, e que ao analisarmos a realidade dos outros percebemos que aqui é o melhor lugar do mundo (Profª. Regina - U. E. Monsenhor Nestor). Os alunos e alunas: A Educação para Convivência com o Semiárido tem nos ajudado a enten- der melhor o clima, a conviver com a seca e cuidar melhor da nossa proprie- dade (aluna Taiane da U. E. Monsenhor Nestor). A ECSA é importante para o nosso município, pois as pessoas estão aprendendo a sobreviver em sua comunidade e como cuidar melhor de sua roça e animais, e está ajudando a toda comunidade a entender melhor o semiárido (aluno Gilvonete da U. E. Monsenhor Nestor). E as famílias: Passei a conhecer o que era o semiárido a partir do ano de 2002, com a chegada do Projeto Fecundação, e hoje já estamos fazendo silagem, guardando alimentos para os animais (Sr. Gonçalo – comunidade Salininha). Estamos aprendendo a conviver no semiárido e desejamos que nossos Cáritas Brasileira Regional do Piauí filhos vivam aqui e não tenham a necessidade de ir embora... (Srª. Maria do Socorro – comunidade Salitre). Sob este eixo foram trabalhadas 09 oficinas pedagógicas, envolvendo os professores e professoras da rede municipal e estadual de ensino e gestores escolares, numa perspectiva de subsidiar estes profissionais na implementação da Educação Contextualizada no município a adotar a Pedagogia de Projetos como eixo da ação da escola, favorecendo a interdisciplinarida- de e transversalidade, e conduzindo o ensino aprendizagem à reflexão da realidade, à compre- ensão dos fatos e fenômenos a ela intrínsecos e ao compromisso de assumir novas atitudes diante da realidade e, assim, produzir conhecimentos. As oficinas cobriram toda a rede municipal de ensino e, no período de 2002 a 2008, foram realizadas 09 oficinas pedagógicas, conforme descrição:
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    49 QUADRO 08 DESCRIÇÃO DAS 09 OFICINAS PEDAGÓGICAS Esp. Temática Período Detalhamento I Clima e água 19 a 21 de abril A partir da temática central, foram abordadas de 2002 outras questões em relação à realidade do semiári- do, com o objetivo de sensibilizar os professores e professoras para a proposta de ECSA. II Recursos 16 a 18 de agosto Reforçou o debate em torno dos recursos hídricos, Hídricos: Clima de 2002 buscando subsidiar professores e professoras para e água e Didática o trabalho interdisciplinar com a temática e do Planejamento discutiu-se sobre a didática do planejamento, numa perspectiva de refletir sobre a prática e de melhorar o planejamento e a sua aplicação em sala de aula. III A criação de 30 e 31 de Foram apresentadas algumas experiências já caprinos e o outubro de 2002 desenvolvidas em sala de aula, ressaltando o manejo de pasto esforço em aplicar a proposta apesar das dificulda- des encontradas. A temática central da oficina permitiu maiores conhecimentos sobre a criação de animais no semiárido. IV Os eixos 09 a 11 de abril Com o objetivo de proporcionar conhecimentos norteadores da de 2003 na teoria cognitiva, foram apresentados e discuti- proposta de dos os eixos norteadores da ECSA e, em seguida, ECSA: natureza; trabalhou-se sobre os conteúdos escolares numa cultura; trabalho e compreensão de que tudo que é trabalhado em sala sociedade/ Conteúdos de aula constitui-se conteúdos, objeto de aprendi- escolares e zagem. Para reforçar os conhecimentos acerca do Agricultura Semiárido, foi apresentada uma exposição familiar dialogada sobre a agricultura familiar. V Pedagogia dos 04 a 06 de junho A pedagogia dos projetos foi apresentada como O Sonho construído em mutirão projetos/ de 2003 sugestão para o direcionamento da prática Ecoturismo/ pedagógica, numa perspectiva interdisciplinar das Aprofundament temáticas abordadas e como instrumento de o das temáticas: análise da realidade e de buscas coletivas de A criação de intervenção. O ecoturismo foi uma temática caprinos e introduzida, buscando refletir sobre as potenciali- Agricultura dades turísticas da região. Temáticas trabalhadas familiar em oficinas anteriores foram retomadas com o objetivo de reforçar o conhecimento da realidade.
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    50 Esp. Temática Período Detalhamento VI Problematização 17 a 19 de Discutiu-se inicialmente sobre o Projeto dos projetos setembro de Fecundação e a efetivação da proposta de didáticos e a 2003 Educação para a convivência com o semiárido. perspectiva para Foram apresentadas experiências com projetos o letramento didáticos desenvolvidas por algumas escolas e a escolar partir delas reflexões e orientações para melhorar contextualizado a prática, a partir dos projetos. Discutiu-se ainda sobre a escolarização da escrita no semiárido como perspectiva para letramento escolar contextualizado. VII Avaliação 24 a 26 de março A educação do município foi objeto de avaliação diagnóstica da de 2004 diagnóstica para perceber os passos dados em ECSA no torno da construção da proposta de ECSA. município e os Discutiu-se também sobre as questões norteado- princípios da ras e os princípios da formação continuada, formação processo pelo qual passam professores e profes- continuada soras por ocasião das oficinas pedagógicas. VIII Currículo 26 e 27 de maio Inicialmente foi feito uma discussão sobre o contextualizado, de 2006 Currículo contextualizado e, em seguida, um os avanços e estudo do PME (Plano Municipal de Educação). novos desafios Para concluir os trabalhos, foi realizada uma da Educação avaliação da educação contextualizada no Contextualizada município, no intuito de descobrir e delinear os novos rumos a serem tomados na caminhada do processo com a educação. IX Avaliação da 23 a 25 de Realizou-se a discussão do texto final do plano, proposta de outubro de 2006 com o objetivo de definir uma proposta de educação para a educação contextualizada ao semiárido para o convivência com PME e oportunizar a participação da comunidade o semiárido e da no processo de construção do plano. Ao final, foi aplicação do definida a equipe municipal de acompanhamento Plano Municipal do plano, com o compromisso de encaminhar as Cáritas Brasileira Regional do Piauí de Educação discussões nas escolas e nas comunidades e de (PME) – Coronel acompanhar o processo de aprovação e imple- José Dias. mentação do plano. As oficinas levaram os professores e professoras à compreensão dos três princípios básicos da convivência: CONHECER (a realidade socioeconômica-política-cultural e ambi- ental, compreendendo as relações e práticas sociais de classe, gênero e geração, bem como a biodiversidade do meio); REFLETIR (sobre esta realidade e produzir conhecimentos) e CONVIVER (fazer a interação dos conhecimentos produzidos com as mudanças pretendidas e educar para a convivência harmoniosa com as pessoas e com a natureza). As temáticas desenvolvidas nas oficinas pedagógicas permitiam aos professores, professoras e demais participantes avaliarem a realidade educacional do município e provocar
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    51 mudanças nas escolas.Também possibilitaram a construção de propostas que subsidiaram o Plano Municipal de Educação (PME) do município de Coronel José Dias, aprovado em 2003. Fruto deste processo de mudança foi o desenvolvimento de projetos didáticos contextualizados, que teve início em 2002. As temáticas envolveram alunos, alunas, professo- res e professoras em pesquisas da realidade que levaram à reflexão e a ações de caráter transfor- mador. A Unidade Escolar Professora Raquel Ferreira de Oliveira desenvolveu o projeto Folclore que motivou os alunos a pesquisarem sobre as manifestações folclóricas da região, como forma de resgate da cultura local. A Unidade Escolar Monsenhor Nestor desenvolveu o projeto ‘Aprendendo com a caatinga’ que possibilitou uma pesquisa sobre as plantas da caatinga e culminou com a realiza- ção de uma campanha de preservação do meio ambiente. A Escola Manoel Agostinho de Castro do Povoado Lages da Pedra desenvolveu um projeto sobre as plantas medicinais da caatinga e divulgou as receitas em um informativo. Outras escolas também desenvolveram projetos com temáticas diversificadas, mas contextualizadas no semiárido possibilitando a construção coletiva e a problematização da realidade, motivando o exercício da ação-reflexão-ação de modo a suscitar formas de interven- ção e de mudanças. Conforme a equipe pedagógica do IRPPA, (Impresso, s.d: 2) o trabalho com a pedagogia dos projetos “leva alunos/as e professores/as a perceber que há diferentes formas e caminhos para o aprendizado”, contribuindo para que possam “agir com flexibilidade”, “acolher a diversidade” e “compreender sua realidade pessoal e cultural”. Outras ações foram desenvolvidas no processo de implementação da proposta de Educação Contextualizada, que revelam a organização da comunidade em torno da educação no município e na busca de melhoria da qualidade de ensino, dentre elas é importante destacar o processo de elaboração e aprovação na Câmara Municipal do Plano Municipal de Educação (PME). O PME foi aprovado em 2003 pela Lei n° 078/2003, após ter sido debatido nas escolas, em reuniões e seminários envolvendo estudantes, professores, professoras, demais funcionários, funcionárias e as famílias. As diretrizes e ações propostas no PME de Coronel José Dias foram alimentadas pelas discussões decorrentes das oficinas pedagógicas e pelo desejo da comunidade escolar em ter uma Política Pública Municipal que norteasse a educação no município. As discussões geradas em torno dos objetivos e diretrizes do plano, bem como do diagnóstico educacional do município e de temas relacionados à concepção e prática da O Sonho construído em mutirão educação contextualizada (interdisciplinaridade e transversalidade, valorização do magistério e gestão escolar) encaminharam-se de modo a definir uma proposta de PME do município. A equipe municipal de acompanhamento do plano ficou assim definida: José Roberto Silva Costa – Secretário Municipal de Educação Juracy Almeida da Costa – Professor Filomena Neiva de Oliveira Santos – Professora Marluce da Silva Costa - Professora Constantino João de Oliveira - Professor Mirian Antonia de Sousa Oliveira - Professora Raimunda Oliveira Lima Costa - Professora Rosineide Brito de Oliveira – Professora
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    52 O PME de Coronel José Dias é o primeiro no Piauí que afirma a educação contextua- lizada no semiárido como condição de ensino e aprendizagem para a melhoria da convivência com a região, e que delibera ressaltar as marcas de gênero na linguagem textual, reafirmando a predominante presença feminina na sociedade e negando os valores machistas implícitos na gramática e na literatura produzida por mulheres e homens ao longo da história. O PME foi avaliado na IX Oficina Pedagógica para avaliação da proposta de ECSA e da sua aplicação prática. Na oficina foi apresentado aos professores e professoras, pelo então secretário de educação, os limites e possibilidades do plano, bem com as ações que estavam em execução até aquela data. A educação contextualizada, a partir da experiência do Projeto Fecundação, tornou- se a fonte principal de dados e informações para subsidiar as políticas públicas, atender a demanda de vários segmentos sociais com interesse na temática e as entidades, tanto organiza- ções e redes articuladas dentro da convivência com o semiárido, como os órgãos de governos municipais e estaduais. Atividades como as descritas abaixo também foram sendo realizadas, conforme a demanda apresentada seja por professores, professoras, alunos e alunas ou pela própria comunidade: • Duas oficinas de teatro e comunicação; • Semana da água (realizada no município com ampla participação da comunidade escolar); • Confecção de material de divulgação e apresentações em eventos (folder, informati- vo, banner, painel); • Participação na conferência da RESAB; • Realização de 04 oficinas de convivência com o semiárido com as famílias, envol- vendo 180 famílias; • Qualificação de 28 professoras e professores como agentes multiplicadores e multiplicadoras da proposta de convivência; • Oficina pedagógica com coordenadores e diretores de escolas; • Coordenação da exposição de pintura em tela; • Realização de duas atividades de manifestação cultural; • Parceria com município e com o Estado (PPCSA); • Atividades de integração família-escola; • Capacitação continuada do quadro docente; • Criação do sindicato de servidores públicos municipais; Cáritas Brasileira Regional do Piauí • Visitas dos alunos ao parque e ao museu e pequenas oficinas; • Parceria com o Conselho Tutelar presente nas escolas; • Realização de projetos didáticos diversos como: estudo da caatinga, ecoturismo etc.
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    53 Fundo Rotativo Solidário A prática dos Fundos Rotativos Solidários tem uma longa história no Brasil, mas é a partir dos anos 80 que essas ações ganham força junto aos movimentos sociais e diversas igrejas. No início dessa década, percebia-se cada vez mais que as políticas e projetos assistenci- ais pouco contribuíam para alterar as estruturas que geravam o empobrecimento. Situação que ainda perdura na sociedade. Para mudar essa realidade, Cáritas Brasileira começou a apoiar os Projetos Alternativos Comunitários (PACs). Esses projetos são pequenas iniciativas produtivas de desenvolvimento e de infraestrutura comunitária, financiados com recursos da cooperação internacional. Tais iniciativas eram executadas pelas famílias e grupos na própria comunidade e contavam com a ajuda de pessoas que animavam a ação como voluntárias. A política formatada veio da necessidade de consolidar a idéia verdadeira de promo- ção de cidadania, deixando para trás o assistencialismo, baseada na exigência de contrapartida por parte de famílias e grupos beneficiados. Várias metodologias foram se configurando e estimulando a criatividade na cultura das comunidades. Assim, o retorno que seria de repasse integral do recurso aplicado, depois do tempo de carência, podia ser feito também através de produtos, prestação de serviços, repasse de crias de animais para outras famílias, prática de troca de produtos, banco de sementes e moeda social, entre outras. Nessa caminhada da convivência com o semiárido, foi criado em 2002, a Política de Fundos do Projeto Fecundação que surge como uma estratégia de ação para potencializar a sustentabilidade. O Fundo Rotativo Solidário foi direcionado para o eixo de Recursos Hídricos e de Produção Agropecuária Apropriada, sendo repassados recursos para a construção de cisternas e para produção de alimentos da cajucultura e ovinocaprinocultura. No ano de 2006, a prioridade foi o fortalecimento, a ampliação e a consolidação da política de fundos. Para atingir este objetivo, a Cáritas recebeu apoio do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), através do projeto de Fundo Produtivo Solidário. Com ele, foi possível fortalecer os grupos existentes, apoiando novos grupos produtivos, atendendo diretamente 90 famílias, cerca de 450 pessoas beneficiadas. O apoio do BNB foi essencial para possibilitar o investi- mento necessário para o aproveitamento racional das potencialidades do semiárido, gerando renda, qualidade de vida, cidadania e construção novas relações com o clima. Os recursos do Fundo Rotativo Solidário garantiram o apoio financeiro a grupos O Sonho construído em mutirão produtivos, com caráter devolutivo. A devolução dos recursos passa a ser total (100% do valor recebido) para os projetos produtivos de geração de renda. Indexados ao salário mínimo vigente. O prazo para a devolução é de 04 anos com carência de até 02 anos. São objetivos centrais do Projeto de Fundos Solidários: • Melhorar as condições de vida das famílias, através da capacitação e de infraestrutu- ra de produção agropecuária; • Viabilizar a comercialização com a melhoria da qualidade dos produtos; • Preservar o ambiente; • Possibilitar a vivência da economia popular solidária.
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    54 Os fundos produtivos são destinados a ações nas comunidades: Salininha, Salitre, Santa Teresa, Barra do Campestre, Borda, Sítio do Mocó e Santa Luzia. Entre os anos de 2006 a 2008, com os recursos do Fundo foram atendidos: • 09 grupos com criação de Pequenos animais; • 05 grupos de Caprinos e Ovinos - Salininha, Santa Teresa, Barra do Campestre, Borda e Poço do Angico; • 02 grupos de Apicultura - Salitre e Curral de Ramos – 22 famílias; • 02 grupos de avicultura: Sitio do Mocó e Santa Luzia 200 matrizes de aves – 10 famílias; • 381 animais (caprinos e ovinos), 366 matrizes e 15 reprodutores; • 02 grupos atendidos com a criação de galinhas caipiras no Sítio do Mocó e em Santa Luzia - 10 famílias; • Poço do Angico: 09 famílias, 93 animais; • 134 famílias envolvidas; • 664 pessoas envolvidas. O projeto se configurou numa ação importante na busca da sustentabilidade das populações de comunidades vulneráveis no semiárido do Piauí e está sendo uma possibilidade concreta de acesso a crédito para famílias agricultoras na construção de um modelo de desen- volvimento solidário e sustentável, a partir da aplicação de fundos solidários produtivos locais. Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    III A Realidade Impactos da experiência
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    57 Impactos da experiência noambiente semiárido Conforme as estratégias metodológicas definidas pelo Programa de convivência com o semiárido para o projeto Fecundação, os processos a serem desenvolvidos foram definidos e expressos em quatro linhas centrais: recursos hídricos, iniciativas produtivas, capacitação de agentes de desenvolvimento sustentável do semiárido e fortalecimento da participação da sociedade civil nas políticas públicas. Essas linhas definiram os eixos de ação, a partir do diagnóstico realizado no processo de implantação do projeto no município. A implantação da proposta de educação para convivência com o semiárido no município de Coronel José Dias tornou-se realidade, através da aprovação e implementação do Plano Municipal de Educação (PME). Este é um dos resultados mais significativos da expe- riência, através das múltiplas ações desenvolvidas. No eixo dos Recursos Hídricos pensou-se em superar a problemática da água vivenciada pelas pessoas daquela região, a partir da construção de um Plano Municipal de Recursos Hídricos (PMRH) que orientasse as ações no município e que as famílias pudessem ter acesso a água boa, de qualidade e suficiente para o consumo humano, animal e necessidades domésticas e produtivas. Embora o PMRH não tenha sido concluído, com o levantamento diagnóstico da realidade hídrica do município foi possível direcionar as ações neste eixo, no sentido de superar as dificuldades de acesso à água de boa qualidade e em quantidade suficiente. Foram mobilizadas diretamente 333 famílias beneficiadas, parte com cisternas e outra parte com ações em parceria como o projeto das Barraginhas que possibilitou a constru- ção de 300 unidades no município de Coronel José Dias e que armazena água de chuva para a produção de alimentos. As ações foram consolidadas e culminaram com outras parcerias que visam a garantir o acesso à água para todas as famílias rurais. O acesso à água de qualidade contribuiu para a melhoria da saúde, acabando com o surto de diarréia no município, amenizou a situação das pessoas com problemas de coluna e houve também o melhor aproveitamento do tempo, diminuindo as preocupações, sobretudo das mulheres para pegar água em longas distâncias. O acesso à água de qualidade para beber e cozinhar pela captação e armazenamento O Sonho construído em mutirão da água da chuva, através das cisternas, é uma realidade indiscutível. Por exemplo: uma cisterna de 20m³ garante água suficiente para o consumo, apenas para beber, de 05 famílias (correspon- dente a uma média de 30 pessoas) durante o período do verão. Neste processo, novos conceitos foram estabelecidos, novas relações foram constru- ídas. O Projeto Fecundação rompeu os limites do seu território e promoveu mudanças cultura- is capazes de construir novos referenciais de convivência, vivenciando-se um novo paradigma. A comunidade comemora e vivencia o acesso à água de qualidade. As cisternas e demais equipamentos construídos testemunham a nova realidade. Avançou-se na articulação para a construção do plano municipal neste setor, embora os passos dados tenham sido limitados, no processo de conclusão do levantamento geral dos recursos hídricos, pelas
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    58 dificuldades enfrentadas, sobretudo quanto à metodologia utilizada no que se refere às atribui- ções e funções das pessoas e órgãos envolvidos. No eixo da produção, em razão da baixa renda obtida pelas famílias do município e da falta de apoio e incentivo às iniciativas produtivas apropriadas ao semiárido, buscou-se a otimização das condições de produção (caprinocultura, apicultura e agricultura) e a promoção da melhoria de renda da população, através da criação de uma Central de Apoio ao Beneficiamento e Comercialização das associações implantadas e em funcionamento, agregan- do valor aos produtos e obtendo melhores condições de vendas. Desta forma, sinalizou-se para a implantação de 21 projetos de geração de renda, beneficiando 653 famílias. Além do aproveitamento do potencial turístico do município, valorizando a cultura local e promovendo o desenvolvimento sustentável da região. Foram mobilizadas 277 famílias de produtores e produtoras que tiveram acesso a capacitações, apoio direto com os recursos do fundo, parte para produção na aquisição de animais e capacitações, realizadas através das oficinas sobre o processamento de embutidos e defumados de carne de caprino e ovino, produção de cajuína, carne vegetal e ração animal de caju, para melhorar a qualidade do produto. O Projeto Fecundação implantou no município cerca de 20 projetos na área de produção e possibilitou a formação, a capacitação e apoio aos grupos de produção, sobretudo na área rural, proporcionando o melhoramento dos rebanhos, maiores cuidados com a criação e com a plantação e o beneficiamento dos frutos regionais, promovendo a geração de renda. Os recursos do Fundo Produtivo Solidário mobilizaram mais três grupos que serão apoiados com projetos de criação de galinhas caipiras. Esses grupos passaram pelas capacita- ções e, após o levantamento de preços do produto, vislumbram a comercialização. Na perspectiva da sustentabilidade econômica e social, buscou-se – através da ação de formação, capacitação e estruturação dos grupos de agricultores e agricultoras – fincar a base para o trabalho de Economia Popular Solidária (EPS). Esta base associa-se à demanda de comercialização, a partir da melhoria da qualidade do produto, da infraestrutura de comerciali- zação e do constante processo de capacitação. No eixo da educação, – através da capacitação de agentes de desenvolvimento sustentável no semiárido, como forma de superação do desconhecimento da realidade com- plexa que envolve o clima e de métodos apropriados ao manejo de recursos hídricos e agrícolas – buscou-se a capacitação de professores e professoras para a introdução desta temática nas escolas do município, sendo estes agentes multiplicadores e multiplicadoras de métodos apropriados de convivência com o semiárido; pensou-se também na mobilização da sociedade Cáritas Brasileira Regional do Piauí através de Jornadas de Convivência para difundirem a proposta. Pelas oficinas pedagógicas contemplou-se a formação de multiplicadores e multipli- cadoras para a convivência com a região, culminando com a construção do PME, uma referên- cia na educação para a convivência com o semiárido no município, que embora represente um resultado ainda tímido em políticas públicas, demonstra que este trabalho foi capaz de subsidi- ar professores e professoras para uma nova prática pedagógica contextualizada bem como orientar na condução e fiscalização do PME de Coronel José Dias. Para o fortalecimento da participação da sociedade civil nas políticas públicas, pensou-se na criação de um fórum funcionando como espaço de articulação de sujeitos para negociação de propostas para o desenvolvimento; na promoção de ações integradas dos conselhos; na participação dos representantes da sociedade civil de forma mais qualificada e autônoma; em um Plano Municipal de Desenvolvimento Sustentável – PMDS, orientando as
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    59 políticas locais; ea participação popular no orçamento público municipal. Entende-se que a comunidade de Coronel José Dias adquiriu condições melhores de participação na vida do município, reivindicando políticas públicas de atenção à juventude, às crianças e adolescentes, bem como de questões específicas ligadas à saúde e à educação. E o cumprimento destas, na medida em que é notória a participação das pessoas nas atividades de formação e capacitação, em grupos comunitários, no Programa de Garantia de Direitos da Infância, Adolescência e Juventude (PIAJ), desenvolvido pela Cáritas com representantes de segmentos sociais do município e conselhos de direitos. Apesar de não ter sido criado o PMDS, a ampla discussão que envolveu o PME – que além das ações de caráter pedagógico também apresenta a dotação orçamentária para a educa- ção do município, bem como a participação efetiva das pessoas representantes dos sindicatos e grupos organizados da comunidade – é um processo de consolidação de uma nova visão de participação social. Todas as atividades desenvolvidas nos eixos do Projeto Fecundação vão ao encontro da preservação do ecossistema. No aspecto cultural, a ação é fortalecida com o peso da história local, na Serra da Capivara como berço do homem americano e referência da pré-história da humanidade, mistura de raças, ritmos e religiões. Um povo que desperta, a partir deste referen- cial, para construir uma sociedade pautada no desenvolvimento local. O Sonho construído em mutirão
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    60 Significado da experiência A experiência apresenta condições de sustentabilidade, a partir dos trabalhos assumi- dos pelas famílias envolvidas. Elas são protagonistas deste processo e demonstram, a partir dos novos conhecimentos adquiridos, que são capazes de dar sequência às demandas de continuidade da proposta de convivência. Exemplo disso é a família do Sr. Sílvio, que mora na comunidade Borda, zona rural do município de Coronel José Dias. Sr. Sílvio foi beneficiado pelo projeto Fecundação, desde o início da sua implantação. Participou de diversas capacitações oferecidas pelo projeto e também da Escola de Formação de Lavradores e Lavradoras promovida pelo IRPAA, em Juazeiro (BA), que oportuniza aos participantes a capacitação para a convivência com o semi- árido, a partir da vivência de atividades na área da produção e dos recursos hídricos. Hoje, a família do Sr. Sílvio desenvolve vários projetos em sua pequena propriedade como a apicultura e o manejo de caprinos e mantém uma horta com a água vinda da cisterna calçadão, construída pelo P1+2, parceria com a ASA Brasil. Além da sua cisterna caseira para uso doméstico, comercializa produtos do semiárido como mudas de mandacaru sem espinho. Para Celmo, filho do Sr. Sílvio, O projeto Fecundação criou várias alternativas de emprego e renda porque aproveita o que tem na própria realidade: o artesanato local, o beneficia- mento de frutos da região e a criação de animais adaptados ao semi-árido (Depoimento colhido em outubro/09). Novas possibilidades também surgiram para outros municípios do semiárido piauiense. No período de 2003 a 2005, o projeto Fecundação foi ampliado com o Programa de Ações Preventivas e Emergenciais de Convivência com o Semiárido, desenvolvendo ações correspondentes aos eixos já trabalhados em Coronel José Dias em mais seis municípios: Bonfim do Piauí, Flores do Piauí, Julio Borges, Lagoa do Barro do Piauí, Pio IX e São João da Varjota. Em 2006, foi a vez dos municípios de Isaías Coelho e Santa Rosa do Piauí serem integrados ao projeto. E em 2009, os municípios de São Lourenço e Itainópolis foram contem- Cáritas Brasileira Regional do Piauí plados. Nos primeiros seis municípios, a proposta de convivência com o semiárido foi trabalhada num recorte temporal menor. Mas acredita-se que a semente plantada foi fecunda- da, considerando que um novo olhar para o semiárido ali instalado se abre para novas perspec- tivas de relação com o ambiente no qual se vive. Em atenção especifica às questões de gênero e gerações presentes na região, a expe- riência do Projeto Fecundação também enfatizou a participação das mulheres e da juventude, conduzindo à reflexão de situações de opressão e injustiça. Percebe-se o papel da mulher na sociedade, bem como o lugar das crianças jovens e adolescentes como sujeitos de direitos a serem preservados pelas suas condições peculiares e em processo de desenvolvimento. É possível dizer do projeto, que ele movimentou as relações de gênero e geração, a partir das novas vivências provocadas pelas mudanças, por exemplo, nas formas de colher a
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    61 água. A mulherdo sertão de Coronel José Dias não precisa mais “carregar água na cabeça”, nem submeter suas crianças a este tipo de trabalho, como fazia antes, sobrando mais tempo para se dedicar a outros afazeres como cuidar de si mesma, estudar, cuidar da educação de seus filhos e filhas, e participar da geração de renda da família. Ressaltemos a experiência do município com os grupos de mulheres na produção, através do artesanato, como o trabalho liderado pela dona Maura, do Sítio do Mocó. D. Maura com outras mulheres produzem lindas peças do artesanato com referência à arte rupestre da Serra da Capivara, valorizando o que tem na própria comunidade, agregando valores ao que é da terra, aproveitando a potencialidade turística da região para gerar renda. O grupo de mulhe- res está organizando uma cooperativa para favorecer a comercialização dos produtos e a própria organização da produção e participa de atividades várias de organização e mobilização tanto dentro como fora do município. Para dona Maura, o grande desafio para a sustentabilidade está no poder de mobiliza- ção junto ao poder público: “Falta a prefeitura construir o centro de produção como espaço de divulgação e de comercialização dos produtos”. Outra experiência importante também é a fabricação de remédios fitoterápicos, que tem como animadora a religiosa Ana Maria, a partir da sua experiência com manuseio de plantas e ervas medicinais. Foi criado um grupo de mulheres com tal fim e o apoio do Projeto Fecundação possibilitou a aquisição de frascos de plásticos e de vidro para adequadamente acondicionar os medicamentos. Os medicamentos começaram a ser comercializados no município, com boa aceitação pela população, e são encontrados no salão da paróquia, numa vitrine localizada no escritório do projeto Fecundação e com as mulheres participantes do grupo. Através do Programa de Garantia de Direitos da Infância, Adolescência e Juventude (PIAJ), um programa da rede Cáritas Nacional que conta com o apoio da Cáritas Suíça, da CORDAID e do Fundo Nacional de Solidariedade (fundo da Campanha da Fraternidade), crianças, adolescentes e jovens passaram a ter, a partir da escola e da comunidade, um novo referencial de organização no município. No Piauí, o Programa é executado nas dioceses de São Raimundo Nonato, Bom Jesus, Parnaíba, Picos e Teresina e consiste em um trabalho de prevenção à exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes, do trabalho infantil e gravidez precoce, bem como no combate e prevenção do uso de drogas na juventude. As ações do Programa vão desde a formação em relação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) às Políticas Públicas, Orçamento Criança, passando pela mobilização da comunidade, escola, poder público local, desenvolvendo atividades de recreação, arte, cultura e O Sonho construído em mutirão lazer, e promovendo o fortalecimento dos Conselhos. Tudo isso em consonância com a Educação Contextualizada e com a convivência com o meio, colocando todas essas questões dentro da temática transversal "Protagonismo das Gerações". Em Coronel José Dias, essa ação é desenvolvida com mais de 60 crianças, adolescen- tes e jovens das famílias de trabalhadores e trabalhadoras do projeto Fecundação, pela aproxi- mação de seus objetivos, na medida em que mobilizam a juventude, crianças e adolescentes para a luta pelos seus direitos, tendo na escola um espaço privilegiado destas ações. A educação é o maior espaço social aglutinador e, portanto, força social mobilizadora para o protagonismo juvenil. O projeto Cidadania no Mundo das Letras (CML), ação desenvolvida dentro do Projeto Dom Helder Câmara (PDHC) e em parceria com a Petrobrás, tem possibilitado a
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    62 descoberta da cultura local em um prazeroso processo de leitura e contagem de histórias. O PDHC envolve as ações do PIAJ e outras ações de convivência com o semiárido, desenvolvi- das no território Serra da Capivara, que contempla os municípios de Coronel José Dias, São Raimundo Nonato e São João do Piauí. Segundo Marcos Pereira, pedagogo que acompanha as ações do PIAJ e coordena o CML, à luz das expectativas das comunidades envolvidas, o projeto: É necessário para melhoria da leitura, escrita e interpretação entre as crianças, adolescentes e jovens e, sobretudo, para a melhoria das relações entre professores/as, alunos/as e toda a comunidade que busca dias melhores para os seus filhos e filhas, através de um processo educativo comprometido com a ética e com a cidadania (Depoimento feito em novembro/2009). Importante também destacar a mística e a espiritualidade como vivência do Projeto Fecundação – alimentada pela Cáritas Brasileira, através de momentos de oração e reflexão das ações à luz do projeto de Deus para todo o seu povo – que assumiu um caráter motivador para as pessoas beneficiárias do projeto. Fonte de fé inspira a esperança de que nesta terra prometi- da, haverá de correr leite e mel sob a proteção do criador e cuidada pelas suas criaturas de forma harmoniosa. As ações desenvolvidas pelo projeto Fecundação mostram resultados satisfatórios pelo caráter de intervenção e mobilização social para o enfrentamento da realidade local e pelas mudanças implementadas. Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    63 A visão daspessoas envolvidas no projeto A sustentabilidade da experiência reside nas ações desenvolvidas pelo projeto em todos os eixos, que propiciam a aquisição de conhecimentos e informações capazes de tornar as pessoas protagonistas deste processo. Outro destaque está relacionado às parcerias estabe- lecidas durante todo o processo de execução: O poder público dando continuidade e apoio às ações, implementando e executando ações como a construção de barraginhas. A parceria Cáritas/ASA na implantação de cisternas calçadão e barragens subterrâne- as e as ações da Igreja católica em relação ao empoderamento das pessoas, especialmente à juventude e às famílias com projetos sociais (Depoimento colhido durante a Oficina de Sistematização, dez. 2009). No eixo da gestão, é apontado como resultados significativos a gestão democrática, viabilizada pela participação dos diversos segmentos sociais nos processos de planejamento e execução das ações, acompanhadas pelos grupos de trabalho por eixo, valorizando assim, a participação coletiva. Para buscar saber o que pensam as pessoas envolvidas neste processo, sobre os impactos do projeto na vida do município, em dezembro de 2009, foi realizada uma oficina de sistematização com pessoas beneficiárias do projeto Fecundação com cisternas, iniciativas produtivas e educação contextualizada: professores e professoras; agricultores e agricultoras e representantes de grupos de produção (remédios fitoterápicos, artesanato e beneficiamento de frutos) e da comissão gestora do projeto: Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais – STTR, Igreja Católica, Secretaria Municipal de Educação e PIAJ e chegou-se a uma série de conclusões. Das pessoas envolvidas na área de produção e recursos hídricos, buscou-se saber o que representa para o município e para as famílias agricultoras e produtoras a adoção da agricultura e produção apropriada. As aguadas e as cisternas trouxeram saúde à população; as O Sonho construído em mutirão frutas geraram alimentos e renda, proporcionando uma alimentação de qualidade, a partir do que é produzido no próprio local; a carne dos animais é saudável e houve um aumento da criação de bode e da renda com o abate dos animais. Houve melhoria de renda, a partir do aproveitamento das plantas e animais apropria- dos à região, através do aumento das roças de caju e mandioca e o melhoramento das pasta- gens, bem como do incentivo à criação de abelhas. A assistência técnica ainda não é capaz de atender às demandas e para que as políticas públicas no setor produtivo agropecuário sejam de fato atendidas, é necessário que a Secretaria de Agricultura disponibilize uma equipe técnica, para fazer o devido acompanhamento aos grupos de produção nesta área. O processo produtivo foi consolidado – embora ainda haja dificuldades na comercia- lização – através da criação de estratégias de escoamento da produção. Como é o caso da
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    64 compra direta para a merenda escolar, que poderia absorver os produtos beneficiados advin- dos do caju (como a cajuína) o umbu, o maracujá bem como os embutidos e defumados de caprinos e ovinos e a farinha de mandioca. A casa de beneficiamento de frutas, por exemplo, é uma proposta que vem sendo discutida desde 2003, mas até agora não se efetivou. Os grupos de produção precisam se reorganizar e rever toda a estrutura produtiva que foi implantada com o projeto Fecundação. Já há uma possibilidade, a partir dos apicultores, para que possam viabilizar suas criações para certificação. Quanto à agricultura, falta investir mais em capacitações. Torna-se necessário o apoio do governo e que a prefeitura viabilize o acompanhamento às famílias agricultoras, orientando sobre o andamento dos projetos produtivos, principalmente em relação aos projetos já envia- dos e que não foram aprovados. A realidade política do município, devido às constantes mudanças na prefeitura, dificulta o diálogo com as comunidades e o acompanhamento dos grupos. Para as pessoas, a Cáritas já fez sua parte, mas, para buscar as saídas, precisa-se de acompanhamento. Os partici- pantes da oficina afirmaram ser gratos à Cáritas pelos benefícios recebidos e por isso tentam dar continuidade à proposta de convivência. Das professoras da rede municipal de educação presentes na oficina de sistematiza- ção e da representante da Secretaria Municipal de Educação (SEMEC) buscou-se saber em que a proposta de Educação para a Convivência com o Semiárido contribuiu para a prática pedagó- gica de cada uma delas, para a prática pedagógica da escola na qual atuam e para a educação no município. Para Naildes, professora aposentada e representante da Igreja Católica na comissão gestora do projeto Fecundação, e Camila, professora e coordenadora do PIAJ, a contribuição está na aquisição de um novo conhecimento sobre o semiárido e como trabalhar o contexto como conteúdo escolar. Pelas informações temos um grande avanço no sentido de falar para os alunos de como conviver com o semiárido. Antes, o recurso era apenas o livro didático. Depois, a própria realidade e o contexto também viraram conteúdo. A abordagem com as famílias ficou mais fácil. A pedagogia dos projetos facilitou a contextualização com várias disciplinas e desenvolve- mos vários projetos envolvendo a escola (Naildes, professora). Para Laurenice, professora, a contextualização a partir das capacitações - adquirindo conhecimento e levando os alunos, alunas e comunidade escolar para campo - contribuiu para Cáritas Brasileira Regional do Piauí a valorização do que existe na comunidade, através do desenvolvimento de projetos interdisci- plinares e da socialização do conhecimento. No início, não foi fácil, principalmente por parte da comunidade escolar. Foi um desafio, porém não somente eu, mas outros professores e professo- ras hoje trabalham a realidade local fazendo o paralelo entre os conteúdos apreendidos e os conteúdos apresentados nos livros didáticos (Profª. Laurenice) Para Filomena, coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação e representante da SEMEC na comissão gestora, as oficinas pedagógicas impulsionaram uma nova educação no município:
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    65 A partir das oficinas pedagógicas, passamos a adotar a proposta de educa- ção contextualizada para a convivência com o semiárido, levando em consideração os saberes que nossos alunos e alunas já trazem consigo, bem como, aproximar, através do conhecimento, a família para a escola. As aulas passaram a ser embasadas em projetos didáticos, com envolvimento de toda a comunidade escolar e, consequentemente, o resultado na aprendiza- gem está bem visível. Tivemos alguns problemas como a resistência por parte de alguns professores/as, mas, ao longo do desenvolvimento da proposta, eles foram superados (Filomena, SEMEC). Em relação à contribuição da proposta de ECSA para a prática pedagógica da escola, a participação das famílias, a interdisciplinaridade e o envolvimento dos professores e profes- soras de forma coletiva a partir dos projetos – bem como a apropriação dos saberes pelos alunos e alunas a partir da sua própria realidade, como fonte de conhecimento – representam a grande contribuição para a escola do município. Está consolidada uma proposta de currículo escolar no município e o Plano Municipal de Educação é a referência da educação contextualizada não somente para Coronel José Dias, mas para os municípios circunvizinhos e para o país, considerando as inúmeras participações em congressos e seminários nos quais a experiência foi apresentada. A grande limitação do projeto ainda é a mudança de gestão sem a garantia da continu- idade dos profissionais. O desafio é garantir a capacitação de novos professores e professoras que ingressaram na rede após a realização das oficinas pedagógicas e que não têm conhecimen- to da proposta de ECSA. Numa roda de conversa, as pessoas participantes da oficina foram questionadas sobre o seu aprendizado em relação à convivência com o semiárido e as respostas apontaram para uma aprendizagem significativa de convivência e da consciência de que esta é a melhor forma de se viver no semiárido. Qual a compreensão sobre a mudança de paradigma em relação à convivência com o semiárido e o combate à seca? O conhecimento das potencialidades do semiárido levou à valorização do lugar, provocando mudanças nas formas de ver e de se relacionar com a realida- de e elevando a autoestima. Os cursos e capacitações ensinaram a mudar o jeito de plantar. Com os cursos as famílias passaram a valorizar o plantio de culturas que utilizam pouca água e aprenderam formas de estocar água para suprir a necessidade. Aprenderam a fazer e estocar a alimentação dos animais e a deixar de queimar o mandacaru, o qual pode ser transformado em uma rica fonte de proteína para as criações. As pessoas aprenderam a conviver com o semiárido, aproveitando suas potencialida- O Sonho construído em mutirão des, armazenando a água, cultivando plantas adaptadas e preparando a alimentação dos animais. Como as famílias relatam, elas aprenderam a conviver, começando com a cisterna. Na região não se bebe mais água suja. Saíram do sofrimento de carregar água na cabeça e, hoje, toda casa tem uma cisterna. A valorização do lugar onde se vive levou a uma aceitação das condições de vida no semiárido e a convivência foi como uma descoberta da vida possível na região. Essas famílias passamos a aceitar morar no semiárido, não precisando mais sair para buscar uma vida melhor. O combate à seca era um processo sofredor para as famílias. Que impactos o projeto causou na vida dos moradores e moradoras de Coronel José Dias? As respostas obtidas demonstraram que as pessoas aprenderam a fazer o uso racional da água, fato que ocorre inclusive na zona urbana e que as cisternas já definem bem o que é o
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    66 Fecundação e o que o projeto representa para o município. Em relatos, ouve-se que a maioria das pessoas toma cuidado com a água, embora haja alguns casos de desperdício. Há, por exemplo, cisternas que não sustentam água porque as famílias não tiveram o devido cuidado com a limpeza e com os reparos. A organização deve ser o caminho para retomar todas as ações que o projeto já implantou no município, pois apesar das conquistas e avanços, as falhas aconteceram e estas se devem à falta de organização das comunidades. “A dependência política das famílias foi reduzida, as pessoas buscam saídas, zelam seus benefícios (pintam a cisterna, cuidam da água, fazem a manutenção de seus chiqueiros)” (Filomena, SEMEC). Como podemos perceber a melhoria da qualidade de ensino no município, após a implantação da ECSA? As respostas revelam falhas no próprio sistema de educação que causa resistências em alguns professores e professoras em relação à necessidade de se atualizarem profissionalmente, principalmente no que se referem ao domínio das novas tecnologias educacionais. O que pode ser visto hoje é que alunos e alunas saem na frente dos professores e professoras com relação ao uso da informática. Há professores e professoras que conhecem a ECSA, mas se acomodam e não se preocupam em se qualificar devidamente. Além da atualização profissional a questão salarial também foi apresentada na discussão como um fator que, às vezes, dificulta o processo educacional porque, nos momen- tos de reivindicação, prejudica-se o ensino-aprendizagem. Embora tenha sido esclarecido o direito dos trabalhadores e trabalhadoras em reivindicarem e buscarem melhores condições de trabalho e isso inclui, necessariamente, a valorização do magistério. Os princípios da educação contextualizada permanecem orientando a proposta pedagógica do município e notadamente, a prática pedagógica dos professores e professoras, promovendo-se o resgate da cultura local e a valorização do lugar onde se vive, mas é preciso melhorar a qualidade do ensino, sobretudo no que se refere às novas exigências tecnológicas, colocando-as a serviço do conhecimento, e à capacitação de novos professores e professoras. Atualmente, são 78 professores e professoras na rede municipal de educação, 06 ainda não tem graduação. Isto representa um percentual baixo (7,69%). No entanto a SEMEC preocupa-se com a formação profissional do corpo docente, visando à melhoria da qualidade de ensino em conformidade com o Plano Nacional de Educação (PNE), que exige a formação em nível superior num prazo de 10 anos, encerrando-se, portanto, em 2012. Em que o projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da região? As capacitações promovidas nas áreas de produção apropriada, recursos hídricos e educação contextualizada como suporte para a continuidade das ações desenvolvidas, embora Cáritas Brasileira Regional do Piauí algumas delas careçam de mais investimentos em acompanhamento técnico e infraestrutura, garantindo-se assim, a efetivação da proposta de convivência. O acesso à água de beber, através das cisternas, permitiu ao jovem Celmo, mais tempo para estudar, e hoje é professor da rede municipal de educação onde experimenta a multiplicação da proposta de convivência, antes vivenciada apenas na propriedade de sua família onde planta, cria comercializa produtos artesanais e contribui no gerenciamento da água para beber, cozinhar os alimentos, plantar e matar a sede dos animais. A experiência do projeto Fecundação promoveu a sustentabilidade na medida em que propagou o conhecimento do semiárido e possibilitou uma visão diferente de uma realidade, antes tida como terra ruim, seca e sem condições de prosperar. Camilla, professora e coordenadora do PIAJ, sente-se beneficiada pelo projeto pela participação nas oficinas de defumados e embutidos e gratificada por poder contribuir com a
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    67 juventude: “o projetocontribuiu para a promoção da cultura através da capoeira, teatro e outras festividades com as crianças e com a geração de renda, alcançada a partir das capacita- ções em defumados e embutidos”. O Senhor Otávio, que participou do processo de instalação do projeto no município, hoje se sente insatisfeito com a plantação de caju, pois segundo ele, trouxe prejuízos pessoais em razão da falta de experiência com o solo e de apoio técnico especializado, mas reconhece o potencial transformador da experiência, a partir dos benefícios trazidos: “o manejo de capri- nos, o acesso a água e a geração de renda para muitas pessoas.” A professora Lucineide é quem diz: “A água - o tratamento, a captação, através das cisternas, o armazenamento e os cuidados com a higienização - foi o grande benefício, assim como o beneficiamento de frutas da região”. Para o Senhor Marciano, agricultor e beneficiário do projeto com cisterna de placa, o conjunto das ações desenvolvidas contribuíram para o desenvolvimento do município. “Todos os eixos contribuíram para o nosso crescimento, tanto que foi repassado para outros municípios”. Para Naildes, professora, o conhecimento veio a partir das assessorias externas, inclusive de outros países. Segundo ela, “a troca de experiências com outras realidades e relações construídas com outras pessoas de culturas diferentes eleva a autoestima das pesso- as”. Irmã Inês, representante da paróquia e animadora do PIAJ, expressou sua opinião sobre a sustentabilidade da experiência: contribuiu totalmente para a melhoria da qualidade de vida e para a cidada- nia. A libertação de tanto sofrimento causado pela água é uma grande ajuda para o ser humano. O PIAJ é fruto do processo de convivência. A mística da Cáritas incentivou a vivência da cidadania e a valorização da pessoa humana (Ir. Inês - PIAJ) O Senhor Sílvio afirmou a sua gratidão à Cáritas, que na opinião dele, é formada de gente confiável e não escondeu a sua felicidade ao dizer que “a Cáritas é mãe. Foi muito importante porque trouxe bastante benefícios. Só tenho a elogiar a iniciativa da Cáritas que realmente ajudou a muita gente.”. Filomena, professora e coordenadora pedagógica da SEMEC, falou dos desafios de se construir a sustentabilidade da região: “os pontos negativos nos impulsionam ao desafio. O projeto Fecundação foi e ainda é, uma lição. O grande desafio é a organização das pessoas em grupos, no sentido de organizar a produção e a comercialização”. Ivomar, membro da comissão gestora e técnico do EMATER, falou do processo de O Sonho construído em mutirão democracia na construção do conhecimento para a execução das ações. É o conhecimento um elemento forte de sustentabilidade do projeto Fecundação e um instrumento de democracia. A sistematização é prova deste processo. O fortalecimento da democracia é o que há de se destacar, pelo caráter das ações. A herança maior é o conhecimento, expansão para outras regiões, países etc., a participação que possibilita as pessoas serem protagonistas deste processo é a grande força do projeto (Ivomar – EMATER)
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    68 Laurenice, professora na Comunidade das Lages, desde 1995, falou do significado do acesso à água na comunidade e classificou como uma vitória muito grande para as famílias sair do sofrimento que representava a busca pela água. Destacou também a importância da Educação Contextualizada: Não existia uma pratica de educação. Seguia-se o livro, professor e profes- sora não poderiam criar. Com as capacitações/oficinas passamos a ter visão diferente. Havia professores que tinham vergonha de se expressar, mas a participação nas oficinas abriu horizontes. Ainda falta melhorar, mas as pessoas incorporam e vivem a ECSA.” Os depoimentos colhidos na entrevista coletiva pela comissão gestora e na oficina de sistematização revelaram a satisfação das pessoas com a experiência desenvolvida no municí- pio e o desejo de continuidade, e demonstraram a certeza de que chove em Coronel José Dias não somente água enquanto recurso natural, mas também a chuva do conhecimento, que transforma a vida no sertão. Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    69 Projeto Fecundação como PolíticaPública Hoje o projeto fecundação chega ao longo de sua trajetória como referência da Cáritas em Educação Contextualizada na convivência com o semiárido, eixo fortalecedor da construção de um novo referencial para a educação escolar. Esta ação tornou-se a fonte principal de dados e informações para subsidiar as políticas públicas, atender a demanda de vários segmentos sociais com interesse na temática e para as entidades, tanto organizações em redes articuladas dentro da convivência com o semiárido como os órgãos de governos munici- pais e estaduais. O grande desafio agora, é que as ações desenvolvidas pelo projeto Fecundação se tornem políticas publicas de modo a garantir melhorias das condições de vida das populações do semiárido. Esta é, portanto, uma experiência que, apesar das dificuldades, demonstra a capacida- de de fecundar ações transformadoras de hábitos e costumes revelando a força e resistência do povo do semiárido e, através deste processo de aprendizagem de um novo jeito de conviver com a realidade, novas sementes estão sendo fecundadas com a esperança de continuar produzindo novos frutos. Constituem-se, portanto, DESAFIOS de acordo com cada eixo de ação trabalhado: GESTÃO • Ampliação das parcerias, viabilizando novos convênios; • Animação da comissão gestora para dar mais agilidade às ações; • Divulgação da experiência; • Melhor funcionamento dos grupos de trabalho por eixo; • Melhor comunicação com o regional da Cáritas; • Maior envolvimento da comunidade no projeto; • Vivenciar a gestão compartilhada; • Melhorar o relacionamento institucional: projeto e paróquia; O Sonho construído em mutirão • Desafiar o poder público a manter o apoio às ações; • Definir melhor o compromisso das parcerias; • Tornar o projeto uma política pública no município e no estado; • Dar sustentação às ações desenvolvidas pelo projeto; • Tornar a comunidade mais atuante e com maior compreensão do projeto; • Fazer uma avaliação dos impactos do projeto na comunidade; • Organização interna dos grupos de trabalho. RECURSOS HÍDRICOS • Concluir o plano municipal de recursos hídricos; • Tornar a construção de cisternas uma política pública no município;
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    70 • Viabilizar mais recursos para cisternas e demais obras hídricas; • Agregar os agentes de saúde nas ações deste eixo; • Melhorar a gestão dos recursos hídricos. PRODUÇÃO AGOPECUÁRIA APROPRIADA • Consolidar os grupos com a produção e melhoria do produto; • Viabilizar a comercialização na perspectiva da Economia Popular Solidária – EPS; • Integrar-se a redes de comercialização e produção agroecológica; • Consolidar o fundo produtivo solidário e rotativo; • Fortalecimento da organização dos grupos de produção; • Promover a auto-sustentação do projeto; • Compromisso coletivo com as práticas de preparação dos produtos e derivados; • Criação de novos grupos de produção de alimentos com o fundo solidário. EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA • Maior participação da família na escola; • Incentivo aos professores e professoras para a prática de leitura e atividades extra- classe; • Acompanhamento pedagógico aos planejamentos escolares; • Multiplicação da proposta oportunizando aos novos professores/as a apropriação da proposta de ECSA; • Construção dos projetos políticos pedagógicos da escola em consonância com a proposta pedagógica do município; • Planejamento participativo da proposta curricular do município; • Viabilizar o PME enquanto política pública. Esta proposta é uma possibilidade de construção de uma cultura de solidariedade, pela experiência de relações democráticas e pela ampla divulgação do conhecimento, apontan- do perspectivas de sustentabilidade, através da continuidade das suas ações assumidas tanto no plano individual, como coletivo, ressaltando-se a responsabilidade do poder público em viabilizar as condições de vida digna à população. Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    71 Referências Bibliográficas BRITO, Walderes.Encontros comunitários sobre o gerenciamento de águas. CEBI/Cáritas Brasileira, 2004. BRAGA, Osmar Rufino. Educação e convivência com o semi-árido: introdução aos funda- mentos do trabalho polítcio-educativo no semi-árido brasileiro. In: Educação no contexto do semi-árido brasileiro. KÜSTER, Ângela & MATTOS, Beatriz (Orgs.). Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, 2004. CÁRITAS BRASILEIRA. Água de beber – Encontros comunitários sobre o gerenciamento de águas (s/d). CÁRITAS BRASILEIRA. Projeto Fecundação – uma ação pedagógica de intervenção na política de convivência com o semi-árido. In: Caderno de experiências apresentadas no Seminário sobre desenvolvimento solidário e sustentável. (s/d) p. 11 a 13. CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Planejamentos do Projeto Fecundação, 2002 a 2009. (impresso). CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Programa de convivência com o semi- árido piauiense – Projeto piloto de Coronel José Dias, setembro de 2000. (Impresso). CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Relatórios das oficinas pedagógicas, 2002 a 2006. (impresso). CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Relatórios de atividades do projeto fecundação 2006 a 2008. (impresso). CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Relatórios de encontros de PMA, 2001 a 2004. (impresso). CARVALHO, Lucineide Dourado. A emergência da lógica da “Convivência com o semi- árido” e a construção de uma nova territorialidade. In: Educação para a convivência com o semi-árido – Reflexões teórico-práticas. (ORG. RESAB): 2004. GONÇALVES, Ana Maria: PERPÉTUO, Suzan Chiode. Dinâmica de grupos na formação de lideranças. 7ª ed. DP&A: 2002. IRPAA. A busca da água no sertão – convivendo com o semi-árido. Juazeiro, 2001. IRPAA.- Equipe Pedagógica. Pedagogia de Projetos. IMPRESSO: s/d. IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada. Plano de Formação Continuada – Educação para a convivência com o semi-arido. Equipe Pedagógica, março de 2003 (Impresso). LIMA, Maria de Moura Fé; ABREU, Irlane Gonçalves de. O semi-árido piauiense: vamos O Sonho construído em mutirão conhecê-lo? Teresina: Nova Expansão, 2006. LÜCK, Heloísa et. Alli. A Escola participativa – o trabalho do gestor escolar. 5ª ed. Rio de janeiro: DP&A, 2001. MALVEZZI & POLLETO. Bendita água – Cartilha produzida pela Cáritas Brasileira e Comissão Pastoral da Terra-CPT para a Semana da Água. Brasília, março de 2003. P. 23 MATTOS, Beatriz H. O. de Mello. Natureza e sociedade no semi-árido brasileiro: um processo de aprendizagem social? In: Educação no contexto do semi-árido brasileiro. KÜSTER, Ângela & MATTOS, Beatriz (organizadoras). Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, 2004. OLIVEIRA, Iran Morais de. In: Editorial. Boletim Projeto Fecundação JULHO/AGOSTO 2004 PME – Plano Municipal de Educação – Aprovado em 2003 pela Lei n° 078/2003, Coronel José Dias - Piauí, novembro / 2003. (Impresso)
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    72 PROJETO FECUNDAÇÃO: Atas de reuniões da comissão gestora: 2001 – 2008 PROJETO FECUNDAÇÃO: Slides: Experiência do Projeto Fecundação/ ações do projeto fecundação 2001 – 2008/ Água para produção PROJETO FECUNDAÇÃO: Vídeo-carta debate SOUSA, Ivânia Paula Freitas de; REIS, Edmerson dos Santos. (org.) Educação para a convi- vência com o semi-árido: re-encantando a educação com base nas experiências de Canudos, Uauá e Curaçá. São Paulo: Petrópolis, 2003. SOUZA, João Francisco. Por que sistematizar? In: O que é sistematização? Uma pergunta. Diversas respostas. CADERNO 1. CUT: São Paulo: 2000. P.35 SME – Secretaria Municipal de Educação. Educação para a convivência com o semi-árido – “A caminhada em Coronel José Dias”. Setembro/2003 - cartilha SME. Informativos da Secretaria Municipal de Educação: AGOSTO/2002; NVEMBRO/2002; JUNHO/2003; OUTUBRO/2003 – Coronel José Dias OLIVEIRA, João Evangelista Santos. Produção de alimentos, tecnologia apropriada e segu- rança alimentar. Novembro, 2009 (anexo) SOUSA, Juvenal Antonio de. Agricultura familiar. In: Guia de orientações básicas de convi- vência com o semi-árido – tecnologias alternativas. Coronel José Dias – Piauí, julho/2003. Cartilha, p. 2 UNIDADE ESCOLAR MONSENHOR NESTOR. Projeto Aprendendo com a caatinga. Coronel José Dias, setembro a novembro/2002 (Impresso). UNIDADE ESCOLAR MANOEL AGOSTINHO DE CASTRO, Plantas medicinais da caatinga - informativo. Coronel José Dias – Piauí (s/d); (Impresso) U. E PROFª. RAQUEL FERREIRA DE OLIVEIRA. Projeto Folclore – Relatório final. Coronel José Dias, 18 de agosto de 2002. (impresso) Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    75 Educação Contextualizada - EducaçãoPara Convivência com o Semiárido³ O problema da Educação no Brasil é conjuntural e estrutural, um indicativo de que as políticas educacionais devem atuar nos espaços de onde podem verter as bases estruturais dos problemas educacionais, tais como: currículo não contextualizado, evasão escolar, falta de qualificação e capacitação profissional, dentre outros problemas, que impedem e/ ou dificul- tam o acesso universal à escola pública, as condições de permanência na escola, por isso a baixa escolaridade e a oferta de ensino público e gratuito de qualidade. No semiárido, a referida problemática conta com a agravante da SECA, faceta comum e muita conhecida, veiculada como a causa base de todos os problemas por que passa esta região brasileira. A seca não é causa dos problemas sociais vivenciados no semiárido, como também não é questão a ser combatida. A seca é fenômeno natural, agravado pela ação humana de exploração e devastação do meio ambiente, apresentando-se hoje não como problema a ser combatido, mas como uma condição de vida que exige ações e relações de convivência, adequadas às especificidades da região. Carecendo, pois de que se desenvolvam costumes e hábitos voltados para a construção e efetivação de uma relação de convivência, em substituição à relação de exploração do meio assim como, carece de políticas públicas que possam atuar na recuperação dos graves danos já provocados ao meio ambiente; preservar o que ainda não foi destruído; estimular a criação de relações de convivência com o meio; estimular o processo produtivo apropriado às condições do semiárido; planejar e democratizar a gestão dos recursos hídricos. Uma Política Educacional apropriada à realidade semiárida, cuja natureza se traduza na preparação das pessoas para a convivência com a realidade do semiárido, é um dos meios a ser potencializado, em todas as suas dimensões, especialmente, a educação escolar, por ser o lugar de produção e reprodução do saber de forma sistemática. O artigo 225 da Constituição Brasileira assegura o direito a todos a um “meio ambi- ente ecologicamente equilibrado”, entendendo este como um “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” devendo o poder público e a coletividade “defendê-lo e preservá-lo para presente e futura gerações”. Desta forma garante a necessidade de uma “educação ambiental em todos os níveis de ensino”, bem como a “conscientização pública O Sonho construído em mutirão para a preservação do meio ambiente”. A política educacional brasileira através da Lei de Diretrizes da Educação preconiza um ensino contextualizado, conforme artigo 26: “os currículos de ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade e da clientela” e, em seu artigo 12, tratando da incumbência dos estabeleci- mentos de ensino, prever também a articulação com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola. Tratando especificamente das populações ³O texto é parte do referido PME e define a Educação Contextualizada.
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    76 rurais, característica predominante na realidade semiárida, a lei também dá abertura para as adaptações necessárias às suas peculiaridades, devendo adotar: “conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural” (alínea I, art. 28 da Lei 9.394/96). Desta forma, a educação para a convivência com o semiárido é urgente e necessária na medida em que promove o conhecimento da realidade, evidenciando suas potencialidades, promovendo e valorizando toda e qualquer espécie de vida ali existente, buscando uma relação harmoniosa e de colaboração com a preservação da vida. A proposta de educação para a convivência assume quatro eixos norteadores de sua prática: Natureza, Trabalho, Sociedade e Cultura, tendo como referência os quatro pilares para a educação: Conhecer, Fazer, Conviver e Ser. Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    77 Construir novas relaçõesde gênero e geração para uma boa convivência com o semiárido 4 Hortência Mendes5 Igualdade tem sido a tônica pela qual perpassou toda a teoria e a luta do movimento feminista nacional e mundial historicamente. Igualdade de direitos. Igualdade de responsabili- dades com a vida de todos os seres existentes no planeta. Igualdade de participação, de oportu- nidades, de desenvolvimento de potencialidades físicas, espirituais, emocionais, sexuais e intelectuais. A ONU – Organização das Nações Unidas estabeleceu a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres como uma das oito metas do milênio, com o fito de melhorar as condições de vida de todos os povos. Sem autonomia é impossível construir igualdade, sem igualdade, as condições de vida dos setores tratados desigualmente deixam muito a desejar. Promover e estabelecer a igualdade entre mulheres e homens, pessoas jovens e idosas, negras e brancas, etc.; só é possível respeitando-se as diferenças e construindo a equida- de de direitos. É na diferença entre gênero/raça e geração que se constrói a vida com toda a sua rica diversidade e, no momento em que essas diferenças são respeitadas, como fator importan- te na vida de cada pessoa, é que se inicia o processo de construção da cidadania real e plena. O movimento feminista desnudou as desigualdades existentes entre as mulheres e os homens que geraram e ainda geram para as mulheres muitos problemas como: violência, tripla jornada de trabalho, desemprego, subemprego, fome, miséria, analfabetismo, mortalidade materna, pobreza, desigualdade salarial e morte, para mencionar alguns dos problemas. Durante décadas afinco, o movimento feminista denunciou para toda a sociedade essa problemática e apontou saídas para coibir essa situação; mesmo assim, a situação só tem se agravado a cada ano e, em que pese os avanços consideráveis, a situação de vida da mulher no mundo e no Brasil ainda requer um tratamento especial e diferenciado em relação aos homens. O mesmo podemos dizer ao nos referimos às crianças, adolescentes, à juventude e também às pessoas idosas. Os problemas relacionados a essas gerações são na sua maioria, problemas relacionados aos desrespeitos à vida, à violência intrafamiliar, de rua e institucional. Vivemos em um mundo de homens adultos normalmente brancos e ricos. As políticas, os O Sonho construído em mutirão privilégios, as leis, as oportunidades, os direitos são voltados especial e prioritariamente para esse público, e então se dão as desigualdade e as injustiças. A forma de fazer política como a conhecemos em nosso País, historicamente, é marcadamente masculina e adulta, provavel- mente por que faz pouco tempo – menos da metade de um século - que as mulheres e a juven- tude ensaiaram uma participação mais efetiva na sociedade. Não estamos nos referindo apenas ao direito de votar e ser votada ou votado, mas, ao fazer político de uma forma geral. Dirigir e organizar a sociedade de todas as formas, sob todos os aspectos; econômico, político, social, religioso, educacional e cultural, passando também 4Texto produzido especialmente para este documento 5Coordenadora político-pedagógica da Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    78 pela organização social do espaço familiar, enquanto espaço primeiro de socialização das pessoas. Todo esse processo durante séculos foi tarefa exclusiva dos homens adultos. Às mulheres e à juventude foi relegado o espaço doméstico e periférico, por excelên- cia. Toda a engenharia e sinergia social é uma atividade masculina, chegando a se considerar em dado momento da história como algo genético. Acreditou-se por décadas que as mulheres eram incapazes de realizar tais ações, assim como as pessoas idosas, os jovens, adolescentes e as crianças eram tolhidas de todo e qualquer poder de decisão. Durante séculos perdurou essa dicotomia de gênero e geração retrógrada. Às mulheres era destinado o espaço privado. Aos homens, o espaço público, tendo sido dado à palavra “público” significados diferentes conforme a quem é adjetivado. O homem público é aquele que toma as decisões, é o executivo, o político. A mulher pública é a prostituta que está à disposição de todos os homens (Michelle Pirrot). Por tudo isso a política enquanto expressão da vontade de uma sociedade, em nosso país caminha sempre incompleta. As mulheres, maioria da população, não participam, não dirigem, não tomam as decisões. Fato que retira o poder das mãos de mais de 50% da popula- ção brasileira, sem contar com a juventude e adolescência. Toda essa realidade é a mesma no nordeste que estava presente historicamente no imaginário do povo brasileiro, inclusive das populações que aqui viviam, como um nordeste de grandes secas, de fome, miséria, que provocavam, por sua vez, migrações de milhares de pessoas. Famílias inteiras se retiravam para outras regiões do país em busca de melhores dias. Essa odisséia nordestina virou poema, música e sentimentos de dor e saudade. Ao sair, às famílias perdiam seu vínculo cultural, seus laços familiares, sua relação com o tipo de produção e das formas de trabalho aqui existentes. Muitas pessoas migravam para nunca mais voltar. Com o passar do tempo esse fato foi se transformando e percebe-se hoje que a migração é vista e realizada enquanto uma demanda masculina. Migração é problema de homens. Eles é que iam embora, se permitiam mudar de vida, buscar novos horizontes, iam em busca de liberdade. Liberdade financeira, liberdade de compromissos. E essa sua liberdade nunca era vista como a escravidão para as mulheres. As consequências desastrosas da migração atingem também as mulheres em cheio no sertão nordestino, por exemplo. Os homens iam embora, em busca de outra vida, e deixavam as mulheres sozinhas, a cuidar das famílias. Na maioria das vezes, eles não voltavam mais e suas famílias (muitas famílias) (segundo dados do IBGE, cerca de 15% de famílias com um só cônjuge, é chefiada por mulheres), ficavam e ainda ficam a mercê das mulheres, que por sua vez Cáritas Brasileira Regional do Piauí tinham que se redescobrir como dirigentes, lideranças, organizando e resolvendo todos os desafios impostos pela falta dos companheiros. Esse fenômeno da migração leva homens adultos, mas também jovem. Deixando pra trás mulheres, crianças, adolescentes e pessoas idosas. As mulheres nunca eram reconhecidas como trabalhadoras, mesmo que sempre trabalharam, nunca ganharam e ainda não ganham nenhuma notoriedade por trabalhar dias inteiros em jornadas intermináveis entre a roça, o rio, a casa, a comunidade, a igreja. Não há políticas públicas para esse segmento social que durante muitas décadas viveu no anonimato, sustentando suas famílias sozinhas. “Viúvas da seca” foi como ficaram conhecidas no semiárido nordestino. Mulheres que tiveram que romper com preconceitos, reaprenderam a ser uma nova mulher, pois tudo o que aprenderam na sua socialização (ser submissa, ser protegida, ser provida por outros), nada
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    79 disso dava maisconta da vida que elas tinham que levar depois que ficavam sozinhas, depois que os homens migravam. Mais uma vez a desigualdade de gênero se impõe. Os homens mesmos, os mais pobres, os migrantes ainda tem privilégios, saem, vão em busca do futuro melhor, de salário melhor, de vida melhor, mesmo que não encontre nada disso. As mulheres ficam no lar, no espaço privado, sem nenhuma estrutura, sem nenhum recurso extra, só com seu aprendizado de ser uma nova mulher solitariamente. Cuidar da família é, na maioria das vezes, esquecer-se de si mesmas para as mulheres. Pesquisas realizadas demonstram que as mulheres nordestinas, principalmente no semiárido, comem menos que os homens e as crianças, pois são sempre elas que distribuem a comida em casa e sempre são as últimas a comer. Primeiro os homens, depois as crianças, depois as pessoas idosas e só aí a mãe pode comer do que sobrar. Essas mulheres também dormem menos, pois são as primeiras a acordar e as últimas a irem para o descanso noturno. Se a família precisa de água e de outras coisas que estão fora de casa é sempre a mulher que tem que providenciar, sempre bem cedo da manhã. Toda essa discrepância é muito nítida no semiárido piauiense. Para promover uma nova relação de convivência com o clima, há de se ter como prevalência das ações, essas questões político-culturais estabelecidas nas relações de gênero e geração. O Sonho construído em mutirão
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    80 Produção de alimentos, tecnologia apropriada e segurança alimentar João Evangelista Santos Oliveira 6 A ação da Cáritas Brasileira Regional do Piauí no que refere à segurança alimentar e a produção de alimentos nos remete as inúmeras campanhas de arrecadação e distribuição de alimento já realizadas e, dentre elas, resgato aqui, a de 1998, onde foi arrecadado cerca de 1 (um) milhão de quilos de alimentos e distribuídos para a população do semiárido piauiense. As campanhas continuam, sejam em situação de estiagem ou de enchentes. A ação da Cáritas com a produção de alimento tem início com a mobilização das comunidades de base, isso lá na década de 80. Ali se fazia o trabalho de organização de grupos comunitários tendo como foco viabilizar um apoio para se produzir alimentos e também o seu beneficiamento. Muito se fez até então, tivemos bons resultados, uma centena de grupos com projetos de roças comunitárias, casas de farinha, campos agrícolas, produção de pequenos animais, dentre outros. Concluímos que os pequenos agricultores de então, e hoje, denominados de agricultores familiares ainda têm muitos problemas para viabilizarem sua produção. Segundo o IBGE (censo 2006) cerca de 68% da produção de alimentos básicos vêm deste segmento. Isso mostra que a força gera economia, mas não gera distribuição que garanta segurança alimentar. Dentre as dificuldades enfrentadas pelas famílias agricultoras para viabilizar a produção aparece a ausência de políticas que garantam a assistência técnica, a semente, a terra, tecnologias adequadas, crédito, etc. A conjuntura mudou, passaram-se governos e estes problemas continuam. A ação da Cáritas vem vivenciando estes problemas. Buscamos várias maneiras de enfrentá-los, percebemos dois caminhos: o primeiro, insistir na organização, fortalecimento da comunidade e na apropriação de conhecimento; o segundo, o caminho da construção do conhecimento que se começou a ver a relação com o meio ambiente e a adoção de tecnologias apropriadas, através de processos agroecológicos. Diante desta caminhada de vida, a ação da Cáritas no semiárido solidifica com a implantação do projeto Fecundação, e com ele veio a consolidação da proposta de Educação Cáritas Brasileira Regional do Piauí para a Convivência com o semiárido – ECSA. Com o projeto Fecundação, a produção de alimentos se fortalece, as famílias passam a adotar as tecnologias apropriadas para a convivência com o semiárido. Veio então a mobilização das famílias, os eventos de formação, as visitas, com estes conhecimentos sendo introduzidos. A produção de alimentos envereda pelo caminho da diversificação. As famílias começam a adotar as tecnologias. Começamos com as plantas adaptadas como o cajueiro, as pastagens cultivadas com sorgo e guandu. As famílias agriculto- ras já utilizavam a palma como planta adaptada num processo de troca de conhecimento e construindo “passos de convivência”. 6Coordenador do Programa de Convivência com o Semiárido - PCSA da Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    81 A produção de alimentos começa a dar frutos, pois com a adoção de tecnologias apropriadas pelos grupos, buscamos a aproximação plena com a natureza, com o ambiente semiárido, disso resultou a diversificação da produção. A experiência do fecundação registra a produção de “comida” vindo dos roçados, dos quintais, das hortas familiares, de caprinos e ovinos, da apicultura, das “galinhas caipiras” dos porcos e das frutas nativas (produção verticalizada do umbu) e (produção verticalizada do caju). Toda esta potencialidade veio a tona com a presença viva do projeto Fecundação. As tecnologias adotadas e que estão sendo utilizadas na agricultura familiar são simples, de baixo custo, ambientalmente harmônicas, socialmente mobilizadoras e no campo econômico primam pela sustentabilidade. As famílias que estão vivenciando estes processos confirmam a importância de usar a cobertura orgânica para reter água no solo, a importância dos inúmeros reservatórios de água (cisternas, barreiros, barragens subterrâneas, açudes...). As formas de captação de água, ao lado ou ao redor das plantas como as microbacias. A bomba d`água popular – BAP (bomba manual instalada em poços tubulares de baixa vazão que permite a elevação da água). Seleção e armazenamento de sementes, plantio de forrageiras como a leucena e uso racional da mata ou com maior intervenção no bioma caatinga. Aproveitamento do esterco dos animais no cultivo de alimentos. A produção de alimentos é uma realidade, garante para as famílias a geração de renda e segurança alimentar é resultado da organização e do uso de varias tecnologias adotadas e valorizadas. Neste processo que consideramos consolidado junto aos grupos de famílias envolvidas, o projeto Fecundação viabilizou como alimento primeiro o acesso a água de qualidade. Veio com os recursos hídricos eixo prioritário da ação da Cáritas e mobilizou as famílias para “fazerem água”. Isso significou e resultou na apropriação das tecnologias de construção de cisternas, “água de beber e para cozinhar”. O Sonho construído em mutirão
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    82 Depoimento “Pessoalmente, aceitei o desafio de contribuir com este processo pelo fato de ter vivenciado parte (boa parte) da experiência, quando exercia a assessoria pedagógica do projeto através da Cáritas. Retornar à experiência, assumindo este papel é como se estivesse resgatando uma dívida com a entidade, com o projeto e com a população do semiárido, pelo fato de, ter me afastado do projeto ainda em andamento (2004), em razão de compromissos profissionais assumidos em outra instância e que não podia fazer uma recusa, nem tampouco conciliá-los, pois se tratava de um concurso público. Considero o documento final de sistematização como um pouco de cada um e cada uma de nós, que contribuímos para a sua viabilização e, sobretudo, para a viabilização do projeto fecundação.” Rosângela Ribeiro de Carvalho - Professora da rede pública, ex-assessora do projeto Fecundação e organizadora desta sistematização Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    83 Roteiro para entrevista ENTREVISTA COLETIVA - COMISSÃO GESTORA 01 – EM RELAÇÃO AO ACOMPANHAMENTO DAS AÇÕES DO PROJETO: - Como vem sendo desenvolvidos o acompanhamento e o monitoramento das ações em cada eixo do projeto: Educação – Recursos Hídricos - Produção - Gestão - Quais as maiores dificuldades encontradas no desenvolvimento do projeto Fecundação? - Que resultados, vocês consideram significativos neste processo? - É possível perceber o fortalecimento da participação da sociedade civil na elaboração, implementação e controle social de políticas púbicas do município? De que forma? 02- EM RELAÇÃO Á QUEBRA DE PARADIGMAS: - Que atitudes/ações dos sujeitos da experiência no município revelam mudanças de comportamento em relação ao modo de vida no semiárido? 03- EM RELAÇÃO ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS: - A relação entre poder público e população revela alguma mudança neste processo de implantação do projeto? - Que sustentabilidade tem as suas ações, caso o projeto Fecundação saia do município? - Que mudanças foram efetivadas pelo poder público na educação do município, após a aprovação do PME? ENTREVISTA COLETIVA - OFICINA DE SISTEMATIZAÇÃO 1. O que representa para o município e para as famílias agricultoras e produtoras a adoção da agricultura e produção apropriada? 2. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a sua prática pedagógica? 3. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a prática pedagógica da escola? 4. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a educação do município? 5. Qual a compreensão de vocês sobre a mudança de paradigma em relação à convivência com o semiárido e o combate à seca? 6. Que impactos o projeto causou na vida dos moradores de Coronel José Dias? 7. Como podemos perceber a melhoria da qualidade de ensino no município após a implantação da O Sonho construído em mutirão ECSA? 8. Em que o Projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da região? ENTREVISTA COM AGRICULTORES (AS)/ PEQUENOS PRODUTORES (AS) RURAIS: 01- Você continua plantando ou cuidando de sua criação da mesma forma que há 10 anos atrás? 02- Se houve alguma mudança, o que mudou? Por quê? 03- As condições de trabalho hoje podem ser consideradas melhores ou piores que antes? Por quê? 04- E as condições de vida podem ser consideradas melhores ou piores que antes? Por quê? 05- Como você vê o acesso à água, hoje, no município? Como era antes? 06- Você deixaria o município para morar em outro lugar. Por quê?
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    Fecundar é fazerbrotar o alimento da terra... Fotografias
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    87 Tivesede e me destes de beber (Mt 25,35) O Sonho construído em mutirão A busca da água
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    Cáritas Brasileira Regionaldo Piauí 88 piloto para o projeto A preparação
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    89 Lançamento do projeto O Sonho construído em mutirão Escritório do projeto no município de Coronel José Dias
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    Cáritas Brasileira Regionaldo Piauí 90 da água A bênção
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    91 Limpeza da barragemda comunidade São Pedro Produtores de Mel da Comunidade Salitre O Sonho construído em mutirão
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    92 Beneficiamento de frutas Produção de cajuína Produção de mudas de caju - Fazenda Maravilha Cáritas Brasileira Regional do Piauí Intercâmbio de experiências - visita a Uauá (BA)
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    93 Montagem dos apriscos Estoque de silo O Sonho construído em mutirão Manejo de caprinos
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    Cáritas Brasileira Regionaldo Piauí 94 pedagógicas Oficinas
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    95 Semana Cultural Teatro O Sonho construído em mutirão Atividades extracurriculares
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    96 Tive fome e me destes de comer (Mt 25,35) Cáritas Brasileira Regional do Piauí
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    97 ...fecundar é fazer brotar um sentimento de convivência de dentro de cada pessoa que vive no semiárido. O Sonho construído em mutirão