Nota
'
A medicina é uma ciência em constante evolução. A medida que novas pesquisas e a experiência clínica ampliam
o nosso conhecimento, são necessárias modificações no tratamento e na farmacoterapia. Os organizadores desta
obra consultaram as fontes consideradas confiáveis, em um esforço para oferecer informações completas e, geral­
mente, de acordo com os padrões aceitos à época da publicação. Entretanto, tendo em vista a possibilidade de falha
humana ou de alterações nas ciências médicas, os leitores devem confirmar estas informações com outras fontes.
Por exemplo, e em particular, os leitores são aconselhados a conferir a bula de qualquer medicamento que preten­
dam administrar, para se certificarde que a informação contida neste livro está correta e de que não houve alteração
na dose recomendada nem nas contraindicações para o seu uso. Esta recomendação é particularmente importante
em relação a medicamentos novos ou raramente usados.
F233 Farmacologia ilustrada [recurso eletrônico] / Michelle A.
Clark ... [et ai.] ; tradução e revisão técnica: Augusto
Langeloh. - 5.ed.- Dados eletrônicos. - Porto Alegre :
Artmed, 2013.
Editado tabém como livro impresso em 2013.
ISBN 978-85-65852-69-2
1 . Farmacologia ilustrada. 1. Clark, Michelle A.
CDU 615-028.22
Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus - CRB 10/2052
michelle a. clark. PhD
Department of Pharmaceutical Sciences
Nova Southeastern University
College of Pharmacy
Fort Lauderdale, Florida
richard finkel. PharmD
Department of Pharmaceutical Sciences
Nova Southeastern University
College of Pharmacy
Fort Lauderdale, Florida
jose a. rey. PharmD. BCPP
Department of Pharmaceutical Sciences
Nova Southeastern University
College of Pharmacy
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karen whalen. PharmD. BCPS
Department of Pharmacotherapy & Translational
Research
University of Florida
College of Pharmacy
Gainesville, Florida
Versão impressa
desta obra: 2013
2013
-
EDIÇAO
Tradução e revisão técnica
desta edição:
Augusto Langeloh
Professor aposentado de Farmacologia do
Instituto de Ciências Básicas da Saúde da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(ICBS/ UFRGS).
Mestre e Doutor em Farmacologia pela
Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP).
Obra originalmente publicada sob o título
Lippincott's illustrated reviews: pharmacology, 5th edition
ISBN 9781451143201
Copyright © 201 1 Lippincott Williams & Wilkins, a Wolters Kluwer business. Lippincott Williams & Wilkins/Wolters Kluwer Health
did not participate in the translation of this title.
Published by arrangement with Lippincott Williams &Wilkins/Wolters Kluwer Health lnc. USA
Gerente editorial: Letícia Bispo de Lima
Colaboraram nesta edição
Editora: Mirian Raquel Fachinetto Cunha
Capa: Márcio Montice/li
Imagem da capa: ©Dreamstime.com /Saporob, 2009: Synapse
Leitura final: Magda Regina Schwartzhaupt Chaves
Editoração: Techbooks
Revisores da edição original:
T homas A. Panavelif, PhD
Department of Pharmacology
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William R. Wolowich, PharmD
Department of Pharmacy Practice
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Cooper Graphic
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Elizabeth Sherman, PharmD
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Luigi X. Cubeddu, M.D., PhD
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Robin Moorman Li, PharmD
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University of Florida
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Ruth E. Nemire, PharmD
Medco School of Pharmacy at Becton College
Fairleigh Dickinson University
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SonyTuteja, PharmD, BCPS
Department of Pharmaceutical Sciences and Experimental
Therapeutics
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Iowa City, Iowa
Thomas B. Whalen, M.D.
Diplomata, American Board of Anesthesiology
Diplomata, American Academy of Pain Management
Anesthesiology Associates of North Florida
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Department of Pharmacy Practice
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Somos gratos aos muitos amigos e colegas que generosamente contribuí­
ram com seu tempo e esforço para tornar este livro tão preciso e útil quanto
possível. Particularmente apreciamos os vários comentários úteis do Dr. W.
Jerry Merrell, os quais trouxeram maior clareza e precisão a esta obra. Os
editores e a equipe da LippincottWilliam & Wilkins atuaram como uma fonte
constante de encorajamento e organização. Particularmente queremos agra­
decer a grande ajuda, apoio e criatividade da nossa editora, Susan Rhyner,
cuja imaginação e atitude positiva não nos deixaram desanimar. A montagem
e a edição final deste livro foram otimizadas pelos esforços de Kelly Horvath.
Recursos didáticos
Em www.grupoa.com.br, professoresterão acesso às imagens da obra, em for­
mato PowerPoint® (em português), úteiscomo recurso didático em sala de aula.
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Em http://thepoint.lww.com/Harvey5e (em inglês), você terá acesso ao texto,
questões interativas e banco de imagens com as figuras do livro.
UNIDADE 1: Princípios da Terapia Farmacológica
Capítulo 1: Farmacocinética 1
Capítulo 2: Interações Fármaco-receptor e Farmacodinâmica 25
UNIDADE li: Fármacos que Afetam o Sistema Nervoso Autônomo
Capítulo 3: O Sistema Nervoso Autônomo 37
Capítulo 4: Agonistas Colinérgicos 47
Capítulo 5: Antagonistas Colinérgicos 59
Capítulo 6: Agonistas Adrenérgicos 69
Capítulo 7: Antagonistas Adrenérgicos 87
UNIDADE Ili: Fármacos que Atuam no Sistema Nervoso Central
Capítulo 8: Tratamento das Doenças Neurodegenerativas 99
Capítulo 9: Fármacos Ansiolíticos e Hipnóticos 111
Capítulo 1O: Estimulantes do Sistema Nervoso Central 123
Capítulo 11: Anestésicos 133
Capítulo 12: Fármacos Antidepressivos 151
Capítulo 13: Fármacos Antipsicóticos 161
Capítulo 14: Opioides 169
Capítulo 15: Epilepsia 181
UNIDADE IV: Fármacos que Afetam o Sistema Cardiovascular
Capítulo 16: Insuficiência Cardíaca 193
Capítulo 17: Fármacos Antiarrítmicos 207
Capítulo 18: Fármacos Antianginosos 219
Capítulo 19: Fármacos Anti-hipertensivos 227
Capítulo 20: Fármacos que Afetam o Sangue 243
Capítulo 21: Fármacos Anti-hiperlipêmicos 265
Capítulo 22: Fármacos Diuréticos 277
UNIDADE V: Fármacos que Afetam o Sistema Endócrino
Capítulo 23: Hipófise e Tireoide 291
Capítulo 24: Insulina e Outros Fármacos Hipoglicemiantes 301
Capítulo 25: Estrogênios e Androgênios 317
Capítulo 26: Hormônios Suprarrenais 331
,
UNIDADE VI: Fármacos que Afetam Outros Orgãos
Capítulo 27: Sistema Respiratório 339
Capítulo 28: Fármacos Antieméticos e Gastrintestinais 351
Capítulo 29: Outros Tratamentos 363
UNIDADE VII: Fármacos Quimioterápicos
Capítulo 30: Princípios do Tratamento Antimicrobiano 369
Capítulo 31: Inibidores da Parede Celular 381
Capítulo 32: Inibidores da Síntese Proteica 395
,
Capítulo 33: Quinolonas, Antagonistas do Acido Fálico e
Antissépticos do Trato Urinário 409
x Sumário
Capítulo 34: Fármacos Antimicobacterianos
Capítulo 35: Fármacos Antifúngicos
Capítulo 36: Fármacos Antiprotozoários
Capítulo 37: Fármacos Anti-helmínticos
Capítulo 38: Fármacos Antiviróticos
Capítulo 39: Fármacos Antineoplásicos
Capítulo 40: Fármacos lmunossupressores
UNIDADE VIII: Fármacos Anti-inflamatórios e Autacoides
Capítulo 41: Fármacos Anti-inflamatórios
Capítulo 42: Autacoides e Antagonistas de Autacoides
Capítulo 43: Toxicologia
Índice
421
429
441
455
461
481
513
525
549
559
571
1. RESUMO
. , .
acoc 1 ne 1ca
A farmacocinética estuda o que o organismo faz com o fármaco, ao passo
que a farmacodinâmica (ver Capítulo 2) descreve o que o fármaco faz no or­
ganismo. Uma vez administrado por uma das várias vias disponíveis, quatro
propriedades farmacocinéticas determinam a velocidade do início da ação, a
intensidade do efeito e a duração da ação do fármaco (Figura 1 .1):
• Absorção: primeiro, a absorção do fármaco desde o local de adminis­
tração (absorção) permite o acesso do agente terapêutico (seja direta
ou indiretamente) no plasma.
• Distribuição: segundo, o fármaco pode, então, reversivelmente, sair da
circulação sanguínea edistribuir-se nos líquidos intersticial e intracelular.
• Biotransformação ou metabolismo: terceiro, o fármaco pode ser bio­
transformado no fígado ou em outros tecidos.
• Eliminação: finalmente, o fármaco e seus metabólitos são eliminados
do organismo na urina, na bile ou nas fezes.
As variáveis farmacocinéticas permitem ao clínico elaborar e otimizar os regi­
mes terapêuticos, incluindo as decisões quanto àvia de administração de cada
fármaco, à quantidade e à frequência de cada dose e a duração do tratamento.
li. VIAS DE ADMINISTRAÇÃO DE FÁRMACOS
A via de administração é determinada primariamente pelas propriedades do
fármaco (p. ex., hidra ou lipossolubilidade, ionização) e pelos objetivos tera­
pêuticos (p. ex., a necessidade de um início rápido de ação, a necessidade de
tratamento por longo tempo, ou a restrição de acesso a um local específico).
As vias principais de administração de fármacos incluem a enteral, a parente­
ral e a tópica, entre outras. A Figura 1 .2 ilustra as subcategorias dessas vias,
bem como outros métodos de administração de fármacos.
( Fármaco no local da administração
)
Absorção
(entrada)
(Fármaco no plasma
)
�aDistribuição ]
Fármaco nos tecidos
iEIBiotransformaçãoJ
Metabólito(s) nos tecidos
Excreção
(saída)
Fármaco e metabólito(s)
na urina, na bile ou nas fezes
Figura 1 .1
Representação esquemática da absor­
ção, distribuição, biotransformação e
-
excreçao.
2 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Parenteral: IV, IM, SC
Sublingual
Inalação
-...i.__J e> •
Ora�
Adesivo
transdermal
Figura 1.2
Tópica

Vias comumente usadas para a admi­
nistração defármacos. IV = intravenosa;
IM = intramuscular; SC = subcutânea.
A. Enteral
A administração enteral ou administração pela boca é o modo mais seguro,
comum, conveniente e econômico de administrar os fármacos. Quando o fár­
maco é administrado por via oral, ele pode ser deglutido ou ser deixado sob a
língua (sublingual), facilitando a sua absorção direta na corrente sanguínea.
1. Oral. A administraçãodofármaco pela bocaofereceváriasvantagens
ao paciente. Os fármacos orais são autoadministrados facilmente e,
comparado com os fármacos administrados por via parenteral, têm
baixo risco de infecções sistêmicas, que podem complicar o trata­
mento. Além disso, a toxicidade e as dosagens excessivas por via
oral podem ser neutralizadas com antídotos, como o carvão ativado.
Porém, as vias envolvidas na absorção do fármaco são as mais com­
plicadas, e o baixo pH do estômago pode inativar alguns fármacos.
Uma amplavariedade de preparações orais édisponibilizada, incluin­
do preparações revestidas (entéricas) e de liberação prolongada.
a. Preparações revestidas (entéricas). O revestimento entérico é
uma proteção química que resiste àação dos líquidos e enzimas
no estômago, mas que se dissolve facilmente no intestino ante­
rior.Tais revestimentos são úteis para certos grupos defármacos
(p. ex., omeprazo� que é instável em meio ácido. O revestimento
entérico protege ofármacodo ácido gástrico liberando-o, porém,
no intestino (menos ácido), onde o revestimento se dissolve e
permite a liberação do fármaco. De modo similar, os fármacos
que têm efeito irritante no estômago, como o ácido acetilsalicíli­
co, podem ser revestidos com uma substância que vai se dissol­
ver só no intestino delgado, preservando, assim, o estômago.
b. Preparações de liberação prolongada. Estes medicamentos
têm revestimentos ou ingredientes especiais que controlam a ve­
locidade com que o fármaco é liberado do comprimido para o or­
ganismo. Tendo uma duração de ação mais longa, podem melho­
rar a adesão do paciente ao tratamento, porque a medicação não
precisa ser ingerida muito frequentemente. Além disso, as formas
de liberação prolongada podem manterasconcentrações na faixa
terapêutica aceitável por um período longo detempoem contraste
com as formas de liberação imediata, que podem resultar em pi­
cos e vales mais elevados nas concentrações plasmáticas.
Tais formulações de liberação prolongada são vantajosas para
os fármacos que têm meias-vidas curtas. Por exemplo, a meia­
-vida da morfina é de 2 a 4h em adultos.A morfi
na oral deve ser
administrada seis vezes em 24h para obter um efeito analgésico
contínuo. Entretanto, só duas doses são necessárias quando
são usados comprimidos de liberação controlada. Infelizmen­
te várias das formulações de liberação prolongada podem ter
sido desenvolvidas para obter uma vantagem comercial sobre
os produtos de liberação convencional, em vez de vantagens
clínicas comprovadas.
2. Sublingual. A colocação dofármaco sob a língua permite-lhe difun­
dir-se na rede capilar e, por isso, entrar diretamente na circulação
sistêmica. A administração de fármaco por essa via tem várias van­
tagens, incluindo a absorção rápida, a administração conveniente, a
baixa incidência de infecções, além de evitar que o fármaco passe
pelo ambiente agressivo do intestino e que a biotransformação de
primeira passagem ocorra (o fármaco é absorvido para a veia cava
superior). A via bucal (entre a bochecha e a gengiva) é similar à via
sublingual.
B. Parenteral
A via parenteral introduz diretamente o fármaco na circulação sistêmica
evitando as barreiras orgânicas. Ela é usada para fármacos que são pou­
co absorvidos no TGI (p. ex., heparina) e para aqueles que são instáveis
noTGI (p. ex., insulina). Essa administraçãotambém é usada no tratamen­
to do paciente inconscienteou quando se necessita de um início rápido de
ação.Além disso, a administração parenteral tem maior biodisponibilidade
e não está sujeita à biotransformação de primeira passagem ou ao agres­
sivo meio gastrintestinal. Ela também assegura o melhor controle sobre a
dose real de fármaco administrada ao organismo. Contudo, a administra­
ção parenteral é irreversível e pode causar dor, medo, lesões tissulares e
infecções. Há três principais vias de administração parenteral: a intravas­
cular (intravenosa ou intra-arterial), a intramuscular e a subcutânea (ver
Figura 1.2). Cada via apresenta vantagens e desvantagens.
1. Intravenosa (IV). A injeção IV é a via parenteral mais comum. Para
fármacos que não são absorvidos por via oral, como o bloqueador
neuromuscular atracúrio, em geral não há outra escolha. A via IV per­
mite um efeito rápido e um grau de controle máximo sobre os níveis
circulantes do fármaco. Quando injetado em bolus, toda a dose de fár­
maco é administrada na circulação sistêmica quase imediatamente. A
mesma dose pode ser administrada como uma infusão IV durante um
período prolongado, resultando em diminuição do pico de concentra­
ção plasmática e aumentando o tempo que o fármaco está presente
na circulação. A injeção IV é vantajosa para administrar fármacos que
podem causar irritação quando administrados por outras vias, porque
o fármaco se dilui no sangue rapidamente. Porém, diferentes dos fár­
macos usados noTGI, os que são injetados não podem ser retirados
por meiode estratégiascomoa ligação acarvão ativado.A administra­
ção IV pode inadvertidamente introduzir bactérias e outras partículas
de infecção por meiode contaminação no local da injeção. Ela também
pode precipitar componentesdo sangue, produzir hemólise ou causar
outras reações adversas pela liberação muito rápidadeconcentrações
elevadas do fármaco ao plasma e aos tecidos. Por isso, os pacientes
devem ser cuidadosamente monitorados quanto a reações desfavorá­
veis, e avelocidade de infusão deve ser cuidadosamente controlada.
2. lntramuscular (IM). Fármacos administrados por via IM podem estar
em soluções aquosas que sãoabsorvidas rapidamente (Figura 1 .3) ou
em preparações especializadas de depósito que são absorvidas len­
tamente. As preparações de depósito, com frequência, consistem em
uma suspensão dofármaco em um veículo não aquoso, como o polie­
tilenoglicol. À medida que o veículo se difunde para forado músculo, o
fármaco precipita-se no local da injeção. O fármaco então se dissolve
lentamente, fornecendo uma dose sustentada durante um período de
tempo prolongado. Exemplos de fármacos de liberação prolongada
são o haloperidolde liberação sustentada (ver p. 166) e o depósito de
medroxiprogesterona (ver p. 323). Estes fármacos produzem efeitos
neuroléptico e contraceptivo prolongado, respectivamente.
3. Subcutânea (SC). Essa via de administração, como a IM, requer
absorção por difusão simples e é um pouco mais lenta do que a via
IV. A injeção SC minimiza os riscos de hemólise ou trombose asso­
ciados à injeção IV e pode proporcionar efeitos lento, constante e
prolongado. Estavia não deve ser usada com fármacos que causam
irritação tissular, porque pode ocorrer dor intensa e necrose. (Nota:
quantidades mínimas de epinefrina, algumas vezes, são combina­
das com o fármaco administrado SC para restringir a sua área de
ação. A epinefrina atua como vasoconstritor local e diminui a re-
Injeção
subcutânea
Músculo
m
200
Farmacologia Ilustrada 3
Injeção
intramuscular
Epiderme
Tecido __
.....
subcutâneo
Derme
as
E
=
ã.
5 mg de midazolampor via
intravenosa
º�
C..J
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e
�
e
8
5 mg de
midazo/am intramuscular
O+----------�
o 30 60 90
Tempo (minutos)
Figura 1 .3
A. Representação esquemática de inje­
ções subcutânea e intramuscular.
B. Concentração plasmática de mida­
zolam após injeção intravenosa e intra­
muscular.
4 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Pele Cobertura
;;:;;:
;,i
.
uUllJ
�..•
t
Reservatório
de fármaco
Membrana liberadora
defármaco
Adesivo
de contato
Fármacosedifundindo do reservatório
para os tecidos subcutâneos
Figura 1.4
A. Representação esquemática de um
adesivo transcutâneo. 8. Adesivo trans­
cutâneo de nicotina aplicado no braço.
moção do fármaco, como a lidocaína, do local de administração.)
Outros exemplos de fármacos administrados por via SC incluem os
sólidos, como as hastes simples contendo o contraceptivo etono­
gestrel, que é implantado para uma atividade de longa duração (ver
p. 325), e bombas mecânicas programáveis que podem ser implan­
tadas para liberar insulina em pacientes diabéticos.
C. Outras
1. Inalação oral. A via inalatória oral e nasal (ver adiante) assegura a
rápida oferta do fármaco através da ampla superfície da membrana
mucosa do trato respiratório e do epitélio pulmonar, produzindo um
efeito quase tão rápido como com o obtido pela injeção IV. Essa
via de administração é usada para fármacos que são gases (p. ex.,
alguns anestésicos) ou aqueles que podem ser dispersos em um
aerossol. A via é particularmente eficaz e conveniente para pacien­
tes com problemas respiratórios (como asma ou doença pulmonar
obstrutiva crônica), pois o fármaco é ofertado diretamente no local
de ação, minimizando, assim, os efeitos sistêmicos. Exemplos de
fármacos administrados por esta via incluem os broncodilatadores,
como o albuterol, e os corticosteroides, como a fluticasona.
2. Inalação nasal. Esta via envolve a administração de fármacos dire­
tamente dentro do nariz. Incluem-se os descongestionantes nasais,
como a oximetazolina, e o corticosteroide anti-inflamatório furoato
de mometasona. A desmopressina é administrada porvia intranasal
notratamento do diabetes insípido. A calcitonina de salmão, um hor­
mônio peptídico usado no tratamento da osteoporose, também está
disponível como aerossol nasal.
3. lntratecal/intraventricular. A barreira hematencefálica (ver p. 1O)
retarda ou impede a entrada dos fármacos no sistema nervoso
central (SNC). Quando se deseja efeitos locais e rápidos, é neces­
sário introduzir o fármaco diretamente no líquido cerebrospinal. Por
exemplo, a anfoterici
na B intratecal é usada no tratamento da me­
ningite criptocócica (ver p. 430).
4. Tópica. A aplicação tópica é usada quando se deseja um efeito lo­
calizado do fármaco. Por exemplo, o clotrimazol é aplicado como
creme diretamente na pele no tratamento da dermatofitose.
5. Transdérmica. Essa via de administração proporciona efeitos sistê­
micos pela aplicação do fármaco na pele, em geral, por meio de um
adesivocutâneo (Figura 1.4).Avelocidade de absorção podevariarde
modo acentuado, dependendo das características físicas da pele no
local da aplicação e da lipossolubilidade dofármaco. Essavia é usada
com mais frequência para a oferta prolongada de fármacos, como o
fármaco antianginoso nitroglicerina, o antiemético escopolamina e os
adesivos de nicotina usados parafacilitaro parar de fumar.
6. Retal. Como 50°
/
o da drenagem da região retal não passam pela
circulação portal, a biotransformação dos fármacos pelo fígado é
minimizada. Como a via de administração sublingual, a via retal tem
a vantagem adicional de evitar a destruição do fármaco pelas enzi­
mas intestinais ou pelo baixo pH no estômago. Elatambém é útil se
o fármaco provoca êmese, quando administrado por via oral, ou se
o paciente já se encontra vomitando ou se está inconsciente. (Nota:
a via retal é usada comumente para a administração de antieméti­
cos.) Porém, com frequência, a absorção retal é erráticae incomple­
ta e vários fármacos irritam a mucosa retal. A Figura 1 .5 resume as
características das vias de administração comuns.
Oral
Intravenosa
Subcutânea
lntramuscular
Transdérmica
{adesivo)
Retal
lnalatória
Sublingual
Figura 1.5
•Variável; afetada por vários
fatores
•A absorção não é necessária
• Depende do diluente do
fármaco:
- soluções aquosas: Imediata;
-preparações de depósito:
liberação lenta e prolongada
•Depende dos diluentes do
fármaco:
- soluções aquosas: imediata;
- preparações de depósito:
liberação lenta e prolongada
• Lenta e prolongada
• Errática e variável
• Pode ocorrerabsorção
slstêmlca, o que nem sempre
é desejado
• Depende do fármaco:
Poucos fármacos (p. ex.,
nitroglicerina) têm absorção
sistêmica direta e rápida
A maioria dosfármacostem
absorção incompleta e
errática
•Via de administração segura e
mais comum, conveniente e
econômica
•Podeter efeitos imediatos
•Ideal para dosagens de altos volumes
•Adequada para substãnclas irritantes
e misturas complexas
•Valiosa para situações de emergência
• Permite a titulação da dosagem
•Ideal para fármacos proteicos de alta
massa moleculare peptídeos
•Adequada para fármacos de liberação
lenta
•Ideal para algumas suspensões pouco
solúveis
•Adequadase o volume é moderado
•Adequada para veículos oleosos e
certas substãncias irritantes
•Preferível à via IV se o paciente deve
se autoadministrar
•Evita oefeitode primeira passagem
•Conveniente e Indolor
•Ideal para fármacos llpofílicos e que
requerem administração
prolongada
•Ideal para fármacos que são elimina·
dos rapidamente do organismo
•Evita parcialmente o efeito de primeira
passagem
•Evita a destruição pela acidez gástrica
•Ideal se ofármaco causa êmese
•Ideal para pacientes com êmese ou
comatosos
•A absorção é rápida; podeter
efeitos imediatos
•Ideal para gases
• Éeficaz para pacientes com
problemas respiratórios
•A dose pode ser titulada
•Se oalvo do efeito é localizado nos pulmões:
são usadas doses menores comparadas
àquelas que usam as vias oral
ou parenteral
•Menos efeitos adversos slstêmlcos
•Evita oefeitode primeira passagem
• Evita a destruição pela acidez gástrica
•Mantém aestabilidade do fármaco,
porque asaliva tem pH relativamente
neutro
• Pode causarefeitos farmacológicos
imediatos
Farmacologia Ilustrada 5
• Absorção limitada de alguns fármacos
• Os alimentos podem Interferir na absorção
• É necessária aderência pelo paciente
• Os fármacos podem ser blotransformados
antes de serem absorvidos slstemlcamente
• Imprópria para substâncias oleosas
ou pouco absorvidas
• A injeção em bo/uspode resultar em
efeitos adversos
• A maioria das substâncias deve ser
injetada lentamente
• São necessárias técnicas de assepsia
estritas
• Dor e necrose se ofármaco é Irritante
• Inadequada para fármacos
administrados em volumes elevados
• Afeta certos testes de laboratório
(creatinaquinase)
• Pode ser dolorosa
• Pode causar hemorragia intramuscular
(evitar durante o tratamento com
anticoagulante)
• Alguns pacientes são alérgicos aos
adesivos, o que pode causar Irritação
• O fármaco deve ser multo lipofíllco
• Pode causar atraso no acesso ao local
de ação farmacológica
• Limitado a fármacos que podem ser
tomados em doses pequenas diárias
• O fármaco pode irritar a mucosa retal
• Não é uma via "bem aceita"
• Principal via deadlctos (o fármaco
pode acessar rapidamente o cérebro)
• Os pacientes podem ter dificuldade em
regular a dose
• Alguns pacientes têm dificuldades
no uso dos Inaladores
• Limitada a certos tipos de fármacos
• Limitada a fármacos que podem ser
tomados em pequenas doses
• Pode perder parte do fármaco se
deglutido
O padrão de absorção, as vantagens e as desvantagens das vias de administração mais comuns.
6 Clark, Finkel, Rey & Whalen
DDifusão passiva
Difusão passiva
defármaco hidros­
solúvel através de
um canal ou poro
aquoso
Difusão passiva
de um fármaco
lipossolúvel
dissolvido na
membrana
Fármaco Fármaco
t t
A4
� � Espaço
,,.. .,,,.,., extracelular
g
�w�
v���'.W)&� p:)(')!!
Citosol
BTransporte ativo
ATP ADP
Transportador
defármaco
mEndocitose
e.
C>VJ
Figura 1.6
Fármacogrande
I
Representação esquemática de fárma­
cos atravessando a membrana celular.
ATP = trifosfato de adenosina; ADP =
difosfato de adenosina.
Ili. ABSORÇÃO DE FÁRMACOS
Absorção é a transferênciade um fármaco do seu local de administração para
a corrente sanguínea por meio de um dos vários mecanismos. A velocidade
e a eficiência da absorção dependem de dois fatores: do ambiente onde o
fármaco é absorvido e das características, tanto química e como via de admi­
nistração (o que influencia sua biodisponibilidade). Para a via IV, a absorção
é completa, ou seja, toda a dose do fármaco alcança a circulação sistêmica
(100°
/
o). A administração do fármaco por outras vias pode resultar em absor­
ção parcial e, consequentemente, em menor biodisponibilidade.
A. Mecanismos de absorção de fármacos a partir doTGI
Dependendo das propriedades químicas, os fármacos podem ser absor­
vidos do TGI por difusão passiva, difusão facilitada, transporte ativo ou
por endocitose.
1. Difusão passiva. A força motriz da absorção passiva de um fárma­
co é o gradiente de concentração através da membrana que separa
os compartimentos do organismo; isto é, o fármaco se move da re­
gião com concentração elevada para a que tem baixa concentra­
ção. A difusão passiva não envolve transportador, não é saturável
e apresenta baixa especificidade estrutural. A grande maioria dos
fármacos tem acesso ao organismo por esse mecanismo. Fárma­
cos hidrossolúveis atravessam as membranas celulares através de
canais ou poros aquosos, e os lipossolúveis movem-se facilmente
através da maioria das membranas biológicas devido à sua solubili­
dade na bicamada lipídica (Figura 1 .6A).
2. Difusão facilitada. Outros fármacos podem entrar na célula por
meio de proteínas transportadoras transmembrana especializadas
que facilitam a passagem de grandes moléculas. Essas proteínas
transportadoras sofrem alterações conformacionais, permitindo a
passagem de fármacos ou moléculas endógenas para o interior da
célula, movendo-os de áreas de alta concentração paraáreade bai­
xa concentração. Esse processo é denominado difusão facilitada.
Ele não requer energia, pode ser saturado e inibido por compostos
que competem pelo transportador (Figura 1 .68).
3. Transporte ativo. Essa forma de entrada de fármacos também en­
volve transportadores proteicos específicos que atravessam a mem­
brana. Poucosfármacoscujas estruturas se assemelham às de meta­
bólitos de ocorrência natural sãotransportados através da membrana
celular usando esses transportadores proteicos específicos. O trans­
porte ativo dependente de energia é movido pela hidrólise de trifosfa­
tode adenosina (Figura 1.6C). Ele é capaz de moverfármacos contra
um gradiente de concentração - ou seja, de uma região com baixa
concentração de fármaco para uma com concentração mais elevada.
O processo tem cinética de saturação para o transportador que mui­
to se assemelha à apresentada pela reação enzima-substrato, que
mostra velocidade máxima em níveis elevados de substrato quando
todos os locais ativos estão ligados com substrato.1 Os sistemas de
transporte ativo são seletivos e podem ser inibidos competitivamente
por outras substâncias cotransportadas.
4. Endocitose e exocitose. Esses tipos de movimentação de fárma­
cos transportam fármacos excepcionalmente grandes através da
1
Ver Bioquí
mica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre cinética enzimática.
membrana celular. Na endocitose, as moléculas do fármaco são
engolfadas pela membrana e transportadas para o interior da cé­
lula pela compressão da vesícula cheia de fármaco (Figura 1 .6D).
A exocitose é o inverso da endocitose e é usada pelas células para
secretarvárias substâncias por um processo similarao da formação
de vesículas. A vitamina 812 é transportada através da parede in­
testinal por endocitose enquanto certos neurotransmissores (p. ex.,
norepinefrina) são armazenados em vesículas intracelulares ligadas
à membrana no terminal nervoso e liberados por exocitose.
B. Fatores que influenciam a absorção
1. Efeito do pH na absorção de fármacos. A maioria dos fármacos é
ácido fraco ou base fraca. Fármacos ácidos (HA) liberam um próton
(H+) causando a formação de um ânion (A-)
2
:
As bases fracas (8H+) também podem liberar um H+. Contudo, a
forma protonada dos fármacos básicos, em geral, é carregada, e a
perda do próton produz a base (8) não ionizada:
Um fármaco atravessa a membrana mais facilmente se ele estiver não
ionizado (Figura 1.7).Assim, para os ácidos fracos, aforma HA não io­
nizada consegue permearatravés das membranas, mas oA- nãocon­
segue. Para a base fraca, a forma não ionizada, 8, consegue penetrar
através das membranas celulares, contudo o 8H+ protonado não con­
segue. Por isso, a concentração efetiva da forma permeável de cada
fármaco no seu local de absorção é determinada pelas concentrações
relativas entre as formas ionizada e não ionizada. A relação entre as
duasformasé, porsuavez, determinada pelo pH no local de absorção
e pela força do ácido ou base fracos, que é representada pela cons­
tante de ionização, o pKª (Figura 1.8). (Nota: o pKª é uma medida da
força da interação de um composto com um próton. Quanto menor o
pKª de um fármaco, mais ácido ele é; quanto maior o pK8, mais bá­
sico é o fármaco.) O equilíbrio de distribuição é alcançado quando a
2
Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre equilíbrio ácido-base.
Farmacologia Ilustrada 7
mÁcido fraco
Membrana
lipídica
.
..
..
..
•
•••
+ A- ·.·.
H ..... . 1
� ··.::::
H
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o
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o
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Compartimento �
corporal & -
ª
-
Compartimento
corporal
l]Jease fraca
Membrana
o
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o
<>
g
<>
g
<>
g
<>
§
Compartimentol
corporal &
Figura 1.7
lipídica
Compartimento
corporal
A. Difusão da forma não ionizadade um
ácido fraco através da membrana lipídi­
ca. B. Difusão da forma não ionizada de
uma base fraca através da membrana
lipídica.
QuandoopHémenordoqueo
pKa,asformasprotonadas
HAeBH+predominam QuandopH= pKa,
[HA]=[A-]e
[BH+]= [B]
QuandoopHémaiordoqueo
pKa,asformasdesprotonadas
A-eBpredominam
�-....... ---�
2 pH 3 4 5 6 7 8 9 10 11
PKa
Figura 1.8
A distribuição de um fármaco entre sua forma ionizada e não ionizada depende do pH do ambiente e do pKª do
fármaco. Para exemplificar, o fármaco nesta figura foi imaginado com um pKª de 6,5.
8 Clark,Finkel,Rey& Whalen
1 1 11 1
ATP
Figura 1.9
Fármaco{extracelular)
1 11 '
Fármaco{intracelular)
As seis alças transmembrana da gli­
coproteína-P formam um canal central
para o bombeamento de fármacos de­
pendente de ATP para fora da célula.
forma permeável de um fármaco alcança uma concentração igual em
todos os espaços aquosos do organismo. (Nota: fármacos altamente
lipossolúveis atravessam de modo rápido a membrana celular e, em
geral, entram nos tecidos com uma velocidade determinada pelofluxo
sanguíneo.)
2. Fluxo de sangue no local de absorção. Como o fluxo de sangue
para o intestino é muito maior do que ofluxo para o estômago, a ab­
sorção no intestino é maior do que a que ocorre no estômago. (Nota:
o choque reduz drasticamente o fluxo sanguíneo aos tecidos cutâ­
neos, minimizando a absorção de administrações subcutâneas.)
3. Área ou superfície disponível para absorção. Com uma superfície
rica em bordas de escova contendo microvilosidades, o intestino tem
uma superfície cerca de 1 .000 vezes maior do que a do estômago,
tornando a absorção de fármacos pelo intestino mais eficiente.
4. Tempo de contato com a superfície de absorção. Se um fármaco
se desloca muito rápido ao longo do TGI, como pode ocorrer em
uma diarreia intensa, ele não é bem absorvido. Contudo, qualquer
retardo no transporte do fármaco do estômago para o intestino re­
duz a sua velocidade de absorção. (Nota: o tônus parassimpático
acelera o esvaziamento gástrico, e o tônus simpático [p. ex., cau­
sado pelo exercício ou por emoções estressantes] e os anticolinér­
gicos [p. ex., diciclomina] o retarda. Assim, a presença de alimento
no estômago dilui o fármaco e retarda o esvaziamento gástrico. Por­
tanto, quando um fármaco é ingerido com o alimento, em geral, será
absorvido mais lentamente.)
5. Expressão da glicoproteína-P. A glicoproteína P é uma proteína
transportadora transmembrana para vários fármacos, sendo res­
ponsável pelo transporte de várias moléculas, incluindo fármacos,
através da membrana celular (Figura 1 .9). É expressa por todo o
organismo e suas funções incluem:
• Nofígado:transportarfármacos paraa bilevisandoàsuaeliminação
• Nos rins: bombear fármacos para a urina visando à excreção
• Na placenta: transportar fármacos de volta para o sangue mater­
no, reduzindo, assim, a exposição do feto aos fármacos
• No intestino: transportar fármacos para o lúmen intestinal e redu­
zir a absorção
• Nos capilares do cérebro: bombear os fármacos de volta ao san-
gue, limitando seu acesso ao cérebro
Assim, nas áreas de expressão elevada, a glicoproteína-P diminui
a absorção de fármacos. Além de transportar vários fármacos para
fora das células, ela também está associada com a resistência a
vários fármacos (ver p. 485).
C. Biodisponibilidade
Biodisponibilidade é a fração do fármaco administrado que alcança a
circulação sistêmica. Por exemplo, se 100 mg de um fármaco forem ad­
ministrados por via oral e 70 mg desse fármaco forem absorvidos inal­
terados, a biodisponibilidade será 0,7 ou 70°
/
o. Determinar a biodisponi­
bilidade é importante para calcular a dosagem de fármaco para vias de
administração não IV. A via de administração do fármaco, bem como as
suas propriedades físicas e químicas afetam sua biodisponibilidade.
1. Determinação de biodisponibilidade. A biodisponibilidade é de­
terminada pela comparação dos níveis plasmáticos do fármaco de-
pois de uma via particular de administração (p. ex., administração
oral) com os níveis plasmáticos do fármaco obtidos por injeção IV,
na qual todo o fármaco entra na circulação rapidamente. Quando o
fármaco é administrado porvia oral, somente parte da dose aparece
no plasma. Lançando a concentração plasmática do fármaco contra
o tempo, pode-se mensurar a área sob a curva (ASC). Essa curva
reflete a extensão da absorção do fármaco. (Nota: por definição, isso
é 100°
/
o do fármaco injetado por via IV.) A biodisponibilidade de um
fármaco administrado porvia oral é a relação da área calculada para
a administração oral comparada com a área calculada para a injeção
IV quando as dosagens são equivalentes (Figura 1 .1O).
2. Fatores que influenciam a biodisponibilidade. Em contraste com
a administração IV, que confere 100°
/
o de biodisponibilidade, a admi­
nistração oral de um fármaco envolve frequentemente metabolismo
de primeira passagem. Esta biotransformação, além das caracte­
rísticas físicas e químicas do fármaco, determina a quantidade de
fármaco que alcança a circulação e a que velocidade.
a. Biotransformação hepática de primeira passagem. Quando
um fármaco é absorvido a partir do TGI, primeiro ele entra na cir­
culação portal antes de entrar na circulação sistêmica (ver Figura
1.11). Se o fármaco é rapidamente biotransformado no fígado ou
naparede intestinal durante esta passagem inicial, aquantidade de
fármaco inalterado que tem acesso à circulação sistêmica diminui.
(Nota: a biotransformação na primeira passagem pelo intestino ou
fígado limita a eficácia de vários fármacos quando usados por via
oral. Por exemplo, mais de 90°
/
o da nitroglicerina é depurada em
uma única passagem através do fígado, o que é a principal razão
porque este fármaco éadministrado porviasublingual.) Fármacos
que sofrem biotransformação de primeira passagem elevada de­
vem ser administrados em quantidade suficiente para assegurar
que fármaco ativo suficiente alcance a concentração desejada.
b. Solubilidade do fármaco. Fármacos muito hidrofílicos são pou­
co absorvidos devido à sua inabilidade em atravessar as mem­
branas celulares ricas em lipídeos. Fármacos extremamente hi­
drofóbicos são também pouco absorvidos, pois são totalmente
insolúveis nos líquidos aquosos do organismo e, portanto, não
têm acesso à superfície das células. Para que um fármaco seja
bem absorvido, ele deve ser basicamente hidrofóbico, mas teral­
guma solubilidade em soluções aquosas. Essa é uma das razões
pelas quais vários fármacos são ácidos fracos ou bases fracas.
c. Instabilidade química. Alguns fármacos, como a benzi/penici­
lina, são instáveis no pH gástrico. Outros, como a insulina, são
destruídos no TGI pelas enzimas.
d. Natureza da formulação do fármaco. A absorção do fármaco
pode ser alterada porfatores não relacionados com a sua estru­
tura química. Por exemplo, o tamanho da partícula, o tipo de sal,
o polimorfismo cristalino, o revestimento entérico e a presença
de excipientes (como os agentes aglutinantes e dispersantes)
podem influenciar a facilidade da dissolução e, por isso, alterar
a velocidade de absorção.
D. Bioequivalência
Duas preparações de fármacos relacionados são bioequivalentes se eles
apresentam biodisponibilidades comparáveis e tempos similares para al­
cançar o pico de concentração plasmática.
Farmacologia Ilustrada 9
Biodisponibilidade = ASC oral
ASC injetada
8
as
1§
:!!!
o
'ti
B
·-
;;
i
/ Fármaco
"' injetado
X 100
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ASC
(injetada)
Fármaco
Y
administrado
/...._porviaoral
i
"
e
8
e
Fármaco
administrado
Figura 1.1 0
ASC(oral)
Tempo
Determinação da biodisponibilidade de
um fármaco.
Os fármacos administrados
por IV entram diretamente
na circulação sistêmica e
têm acesso direto às demais
partes do organismo.
Circulação
portal

Oral
( )
Restante do
organismo
IV
Os fármacos administrados por
via oral são primeiro expostos
ao fígado e podem ser extensa­
mente biotransformados antes
de alcançar as demais regiões
do organismo.
Figura 1.11
A biotransformação de primeira passa­
gem pode ocorrer com fármacos admi­
nistrados por via oral. IV = intravenosa.
1O Clark, Finkel, Rey &Whalen
1 ,5
ri 1,25
·
-
...
'GI
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1
o
1111
�
J:I 0,75
fi
� 0,5 ._._,__
°
Fase de
º·25 distribuição
o 1
'+-ln'
Figura 1.12
Fase de
eliminação
2 3
Tempo
4
Concentrações dofármaco no soro após
uma injeção única do fármaco. Admite­
se que o fármaco se distribui e subse­
quentemente é eliminado.
E. Equivalência terapêutica
Dois medicamentos são terapeuticamente iguais se eles são farmaceu­
ticamente equivalentes com perfis clínicos e de segurança similares.
(Nota: a eficácia clínica com frequência depende da concentração sérica
máxima e do tempo necessário [após a administração] para alcançar o
pico de concentração. Portanto, dois fármacos que são bioequivalentes
podem não ser equivalentes terapeuticamente.)
IV. DISTRIBUIÇÃO DE FÁRMACOS
Distribuição de fármacos é o processo pelo qual um fármaco reversivelmente
abandona o leito vascular e entra no interstício (líquido extracelular) e, então,
nas células dos tecidos. Para o fármaco administrado por via IV, quando não
existe a absorção, a fase inicial (isto é, desde imediatamente após a adminis­
tração até a rápida queda na concentração) representa a fase de distribuição,
na qual o fármaco rapidamente desaparece da circulação e entra nos tecidos
(Figura 1 .12). Isto é seguido da fase de eliminação (ver p. 13), quando o fár­
maco no plasma está em equilíbrio com o fármaco nos tecidos. A passagem
do fármaco do plasma ao interstício depende principalmente do débito car­
díaco e do fluxo sanguíneo regional, da permeabilidade capilar, do volume do
tecido, do grau de ligação do fármaco às proteínas plasmáticas e tissulares e
da hidrofobicidade relativa do fármaco.
A. Fluxo sanguíneo
A velocidade do fluxo sanguíneo nos tecidoscapilaresvaria bastante como
resultado de uma distribuição desigual do débito cardíaco aos vários ór­
gãos. O fluxo sanguíneo para o cérebro, para o fígado e para os rins é
maior do que para os músculos esqueléticos. O tecido adiposo, a pele e
as vísceras têm fluxo sanguíneo ainda menor. A variação no fluxo de san­
gue explica parcialmente a curta duração da hipnose produzida por um
bolus de injeção IV de propofol (ver p. 144). O elevado fluxo sanguíneo,
junto com a elevada lipossolubilidade do propofo/, permite-lhe mover-se
de modo rápido para o SNC e produzir anestesia. A subsequente e lenta
distribuição aos músculos esqueléticos e ao tecido adiposo diminui a con­
centração plasmática de modo suficiente, de forma que a concentração
elevada no SNC se reduz e assim se recupera a consciência.
B. Permeabilidade capilar
A permeabilidade capilar é determinada pela estrutura capilar e pela na­
tureza química do fármaco. A estrutura capilar varia bastante em termos
de fração da membrana basal, que é exposta pelas junções com frestas
entre as células endoteliais. No fígado e no baço, grande parte da mem­
brana basal é exposta a capilares descontínuos e grandes, através dos
quais podem passar grandes proteínas plasmáticas (Figura 1 .13A). Isso
contrasta com o cérebro, onde a estrutura capilar é contínua e não exis­
tem fendas (Figura 1.138). Para entrar no cérebro, o fármaco precisa pas­
saratravés das células endoteliais dos capilares do SNC ou sertranspor­
tado ativamente. Porexemplo, otransportadorespecífico de aminoácidos
neutros transporta levodopa para o interior do cérebro. Em contraste, fár­
macos lipossolúveis entram facilmente no SNC, pois podem se dissolver
na membrana das células endoteliais. Fármacos ionizados ou polares em
geral fracassam em entrar no cérebro, pois são incapazes de atravessar
as células endoteliais do SNC, que não apresentam junção com fendas.
Essas células firmemente justapostas formam junções estreitadas que
constituem a barreira hematencefática.
C. Ligação de fármacos a proteínas plasmáticas e tecidos
1 . Ligação a proteínas plasmáticas. A ligação reversível às proteínas
plasmáticas sequestra os fármacos de forma não difusível e retarda
sua transferência para fora do compartimento vascular. A ligação é
relativamente não seletiva com a estrutura química e acontece em
locais da proteína onde em geral se ligam a compostos endógenos
como a bilirrubina.A albumina plasmática é a principal proteína liga­
dora e pode atuar como uma reserva de fármaco; isto é, à medida
que a concentração do fármaco livre diminui, devido à eliminação
por biotransformação ou excreção, o fármaco ligado se dissocia da
proteína. Isso mantém a concentração de fármaco livre como uma
fração constante do fármaco total no plasma.
2. Ligação a proteínas dos tecidos. Numerosos fármacos acumulam
nos tecidos levando a concentrações mais elevadas do fármaco no
tecido do que nos líquidos extracelulares e sangue. Os fármacos po­
dem acumular como resultado da ligação a lipídeos, proteínas ou
ácidos nucleicos.Osfármacos também podem sertransportados ati­
vamente aos tecidos. Estes reservatórios tissulares podem servir de
fonte principal de fármaco e prolongar sua ação ou, por outro lado,
podem causar toxicidade local ao fármaco. (Por exemplo, a acro­
leína, o metabólito da ciclofosfamida, é tóxica para os rins, pois se
acumula nas células renais.)
3. Hidrofobicidade. A natureza química do fármaco influencia forte­
mente a capacidade do fármaco de atravessar membranas celula­
res. Os fármacos hidrofóbicos se movem mais facilmente através
das membranas biológicas. Essesfármacos podem se dissolver nas
membranas lipídicas e, por isso, permeiam todaa superfície celular.
O principal fator que influencia a distriguição hidrofóbica de um fár­
maco é o fluxo de sangue para aquela área. Em contraste, os fárma­
cos hidrofílicos não penetram facilmente as membranas celulares e
devem passar através de junções com fendas.
D. Volume de distribuição
O volume de distribuição aparente, Vd, é o volume de líquido necessário para
conter todo o fármaco do organismo na mesma concentração mensurada no
plasma. Ele é calculado dividindo a dose que alcança a circulação sistêmica
pela concentração no plasma no tempo zero (C0).
Quantidade de fármaco no or
ganismo
Co
Embora o Vd não tenha base física ou fisiológica, pode ser útil para comparar
a distribuição de um fármaco com os volumes dos compartimentos de água
no organismo (Figura 1 .1 4).
1 . Distribuição no compartimento aquoso do organismo. Logo que
o fármaco entra no organismo, a partir de qualquer via de adminis­
tração, ele tem o potencial de distribuir-se em qualquer um dos três
compartimentos funcionalmente distintos de água, ou ser seques­
trado em um local celular.
a. Compartimento plasmático. Se um fármaco apresenta massa
molecular muito elevada ou se liga extensamente às proteínas
plasmáticas, ele é muito grande para se mover parafora através
das fendas endoteliais dos capilares e, assim, é efetivamente
aprisionado dentro do compartimento plasmático (vascular).
Farmacologia Ilustrada 1 1
rJ Estrutura das células
endoteliais no fígado
Grandesfendas permitem ampla
passagem dofármaco entreo sangue
e o interstício hepático.
r Junçãocom
fenda
l
Membrana
basal
Estrutura de um capilar
cerebral
Processo podal do astrócito )
Membrana basal
)
cerebral
Nasjunções estreitadas,
duas células vizinhas
seunemfisicamente
formando uma parede
contínuaque impede
a entrada devários
fármacos no cérebro. Junção
estreitada
P3 Permeabilidade de um
.:3 capilar cerebral
Figura 1 .13
Fármaco .........
········.:·..
Ionizado �:.:
•••
.
.�
Fármacos
llpossolúvels
Passagem medlada
c
1 :::;:;:
H
::::=
=:
>
portransportador
Corte transversal de capilares hepáti­
cos e cerebrais.
12 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Águacorporal total
Volume
intracelular
Volume
intersticial
,.+-- Plasma
--- Volume
intersticial
--- Volume
intracelular
42 litros
Volume
extracelular
Volume
plasmático
1o litros 4 litros
Figura 1.14
Tamanho relativo dosváriosvolumes de
distribuição de um indivíduo com 70 kg.
Como consequência, o fármaco se distribui em um volume (o
plasma) que é cercade 6°
/
o da massa corporal ou, em uma pes­
soa com 70 kg, cerca de 4 L de líquido. A heparina (ver p. 251)
mostra esse tipo de distribuição.
b. Líquido extracelular. Se um fármaco apresenta baixa massa
molecular, mas é hidrofílico, ele pode se mover através das fen­
das endoteliais dos capilares para o líquido intersticial. Contudo,
fármacos hidrofílicos não se movem através das membranas
celulares lipídicas para entrar na fase aquosa do interior da cé­
lula. Por isso, esses fármacos se distribuem em um volume que
é a soma da água plasmática e da água intersticial, as quais,
juntas, constituem o líquido extracelular. Isso corresponde a cer­
ca de 20°
/
o da massa corporal ou cerca de 14 L em uma pessoa
com 70 kg. Os antibióticos aminoglicosídeos (ver p. 399) mos­
tram esse tipo de distribuição.
c. Água corporal total. Se um fármacoapresenta baixa massa mo­
lecular e é hidrofóbico, ele não só pode se movimentar para o
interstício através das fendas, como também deslocar-se para o
líquido intracelularatravés das membranas celulares. Neste caso,
o fármaco se distribui em um volume de cerca de 60°
/
o da massa
corporal ou cerca de 42 L em uma pessoa com 70 kg. O etanol
apresenta esse volume de distribuição aparente (ver a seguir).
2. Volume de distribuição aparente. Um fármaco raramente se associa
de forma exclusiva a um único compartimento de água corporal. Ao
contrário, a grande maioria dos fármacos se distribui em vários com­
partimentos, com frequência ligando-se avidamente a componentes
celulares - como lipídeos (abundantes em adipócitos e membranas
celulares), proteínas (abundantes no plasma e no interior das célu­
las) e ácidos nucleicos (abundantes no núcleo das células). Por essa
razão, o volume no qual o fármaco se distribui é denominado volume
de distribuição aparente ouvd. ovdé uma variável farmacocinética útil
para calculara dose de carga de um fármaco.
3. Determinação do Vd. Como a depuração do fármaco geralmente
é um processo de primeira ordem, pode-se calcular o Vd. Primeira
ordem considera que umafração constante do fármaco é eliminada
na unidade de tempo. Este processo pode ser analisado de modo
mais fácil lançando-se em um gráfico o log da concentração do fár­
maco no plasma (CP) contra o tempo (Figura 1 .15). A concentração
do fármaco no plasma pode ser extrapolada para o tempo zero (o
momento da injeção) no eixo Y, para determinar C0, que é a con­
centração que teria sido alcançada se a fase de distribuição tivesse
ocorrido instantaneamente. Isso permite o cálculo do Vd como:
V
d = Dose
Co
Por exemplo, se 1O mg de um fármaco são injetados em um paciente,
e a concentração plasmática é extrapolada para o tempo zero, a con­
centraçãoé C0= 1 mg/L (Figura 1 .15), entãoVd = 1O mg/1 mg/L= 1O L.
4. Efeito de Vd na meia-vida (t112) do fármaco. Um Vd elevado tem
influência importante na meia-vida do fármaco, pois a sua elimina­
ção depende da quantidade de fármaco ofertada ao fígado ou aos
rins (ou outro órgão onde ocorre a biotransformação) por unidade
de tempo. A oferta de fármaco aos órgãos de eliminação depende
não só do fluxo sanguíneo, como também da fração de fármaco no
plasma. Se oVd é elevado, a maiorparte do fármaco está no espaço
extraplasmático e indisponível para os órgãos excretores. Portanto,
qualquer fator que aumente oVd pode levar a um aumento na meia­
-vida e prolongar a duração de ação do fármaco. (Nota: um valor
de Vd excepcionalmente elevado indica considerável sequestro do
fármaco em algum órgão ou compartimento do organismo.)
V. DEPURAÇÃO DE FÁRMACOS POR MEIO DA
-
BIOTRANSFORMAÇAO
Logo que o fármaco entra no organismo inicia-se o processo de eliminação,
que envolve três vias principais:1) a biotransformação hepática; 2) a elimina­
ção na bile; e 3) a eliminação na urina. Juntos, estes processos de elimina­
ção fazem cair exponencialmente a concentração do fármaco no plasma. Ou
seja, a cada unidade de tempo, uma fração constante de fármaco presente é
eliminada na unidade de tempo (Figura 1.1SA). A maioria dos fármacos é eli­
minada de acordo com uma cinética de primeira ordem, embora alguns, como
o ácido acetilsalicílico em altas doses, seja eliminado de acordo com cinética
de ordem zero ou não linear. A biotransformação gera produtos com maior
polaridade que facilita a eliminação. A depuração (clearance -
CL) estima a
quantia de fármaco depurada do organismo por unidade de tempo. A CL total
é uma estimativa que reflete todos os mecanismos de eliminação do fármaco
e é calculada por:
CL = 0,693 X Vjt112
onde ty2 é a meia-vida de eliminação do fármaco, Vd é ovolume de distribuição
aparente, e 0,693 é a constante log natural. A meia-vida do fármaco é usada
com frequência para mensurar a CL do fármaco porque, para vários fárma­
cos, Vd é uma constante.
A. Cinética da biotransformação
1 . Cinética de primeira ordem. A transformação metabólica dos fár­
macos é catalisada por enzimas, e a maioria das reações obedece
à cinética de Michaelis-Menten.3
v = velocidade de biotransformação do fármaco = �
:á:�
g
�
Na maioria das situações clínicas, a concentração do fármaco, [C],
é muito menor do que a constante de Michaelis, Km, e a equação se
reduz para:
v = velocidade de biotransformação do fármaco = Vm��C]
3Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre cinética Michaelis-Menten.
ê.
o
-
ai
E
UI
ai
-
a.
Farmacologia Ilustrada 13
Fasede Fasede
distribuição eliminação
,._,.__ �
-
-
-
........._
_:.,_
_
_
_
4
1
g 2
A maioria dosfármacos
apresenta diminuição
exponencial naconcen­
traçãoemfunção do
tempo, duranteafase
deeliminação.
o
•Ili
�
-=
e
8
e§
1
º �
=::::::::::
�
o 1 2 3 4
J.
Tempo
! - Injeçãorápidadofármaco
m
Extrapolação até o
tempo "O" forneceo C0,
ovalorhipotético de
concentração dofárma­
co previstosea distri­
buição fossealcançada
instantaneamente.
ai
E
UI
ai
-
a.
4
3
2
o
e Co=1
o
lCll
""
f!
'E
0,5
0,4
0,3
1
1
1
1
CI)
u
e
o
o 0,2 :'-ri
0,1
o 1
'
t
Injeçãorápida
dofármaco
t112 1
1
1
1
1
2 3
Tempo
A meia-vida(tempo necessário para
reduzirà metade a concentração do
fármaco no plasma) é igual a 0,69VJCL.
4
Figura 1 .15
Concentrações do fármaco no plasma
após uma injeção única de um fár­
maco no tempo = O. A. Os dados de
concentração foram lançados em uma
escala linear. B. Os dados de concen­
tração foram lançados em uma escala
logarítmica.
14 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Poucosfármacos, como ácido acetilsali­
cílico, etanole fenitoína,têm dosagens
muito elevadas. Por isso, a concentração
dofármaco no plasma é muito maior do
queo Km, eassuas biotransformações
são de ordem zero, isto é, constantee
independenteda dosedofármaco.
Paraa maioria dosfármacos, a concen­
tração no plasmaé muito menor do que
o Km ea eliminaçãoé deprimeiraordem,
istoé, proporcional à dosedofármaco.
Figura 1.16
Efeitos da dose do fármaco na veloci­
dade da sua biotransformação.
Fármaco
Isto é, a velocidade de biotransformação do fármaco é diretamente
proporcional à concentração do fármaco livre, e é observada uma
cinética de primeira ordem (Figura 1.16). Isso indica que uma fra­
ção constante do fármaco é biotransformada por unidade de tem­
po (isto é, a cada meia-vida, a concentração se reduz em 50o/
o). A
cinética de primeira ordem algumas vezes é referida clinicamente
como cinética linear.
2. Cinética de ordem zero. Com poucos fármacos, como o ácido acetil­
salicílico, o etanole a fenitoí
na, as doses são muito grandes. Por isso,
[C] é muito maiordo que Km, e a equação de velocidade se torna:
V = velocidade de biotransformação do fármaco = Vm[c�C]= Vmáx
A enzima é saturada pela concentração elevada de fármaco livre, e a
velocidade da biotransformação permanece constante notempo. Isso
é denominado cinética de ordem zero (também referida clinicamente
como cinética não linear). Uma quantidade constante do fármaco é
biotransformada por unidade de tempo e a velocidade de eliminação
é constante e não depende da concentração do fármaco.
B. Reações da biotransformação de fármaco
Os rins não conseguem eliminar os fármacos lipofílicos de modo eficien­
te, pois eles facilmente atravessam as membranas celulares e são reab­
sorvidos nos túbulos contorcidos distais. Por isso, os fármacos lipossolú­
veis primeiro devem serbiotransformados no fígado em substâncias mais
polares (hidrofílicas) usando dois grupos gerais de reações, denomina­
dos Fase 1 e Fase li (Figura 1 .17).
1. Fase 1. As reações de Fase 1 convertem moléculas lipofílicas em
moléculas mais polares, introduzindo ou desmascarando um grupo
funcional polar, como -OH ou -NH2• A biotransformação de Fase 1
pode aumentar, diminuir ou deixar inalterada a atividade farmacoló­
gica do fármaco.
a. Reações de Fase 1 utilizando o sistema P450. As reações de
Fase 1 envolvidas com mais frequência na biotransformação de
fármacos são catalisadas pelo sistema citocromo P450 (tam­
bém denominado oxidases microssomais de função mista):
Fármaco + 02 + NADPH + H+ � Fármacomoditicado + H20 + NADP+
Oxidação,
redução,
e/ou hidrólise
Algunsfármacosentram
diretamente na Fase li
de biotransformação.
� Produtos de
conjugação
Faseli
!li
Após aFase1, ofármaco pode serativado, perma­
necer inalteradoou, com maisfrequência, inativado.
O fármacoconjugado
geralmenteé inativo.
Figura 1.17
Biotransformação dos fármacos.
A oxidação ocorre com a ligação do fármaco à forma oxidada do
citocromo P450, e, então, o oxigênio é introduzido em uma etapa
redutora, acoplada a NADPH:citocromo P450 oxidorredutase. O
sistema P450 é importante para a biotransformação de vários
compostos endógenos (como esteroides, lipídeos, etc.) e para a
biotransformação de substâncias exógenas (xenobióticos). O ci­
tocromo P450, designado como CIP, é uma superfamília de iso­
zimas contendo heme que se localizam na maioria das células,
mas são encontradas principalmente no fígado e noTGI.
1) Nomenclatura. O nome da família é indicado por CIP acres­
cido de um algarismo arábico e seguido de letra maiúscula
para a subfamília, por exemplo, CIP3A (Figura 1 .18). Outro
número é acrescentado para indicar a isozima específica
como em CIP3A4.
2) Especificidade. Como há vários genes diferentes que codi­
ficam múltiplas enzimas diferentes, há várias isoformas P450
diferentes. Estas enzimas têm a capacidade de modificar um
grande número de substratos estruturalmente distintos. Além
disso, um fármaco individual pode ser substrato para mais de
uma isozima. Quatro isozimas são responsáveis pela gran­
de maioria das reações catalisadas pelo P450: CIP3A4/5,
CIP2D6, CIP2C8/9 e CIP1A2 (ver Figura 1 .18). Quantidades
consideráveis de CIP3A4 são encontradas na mucosa intes­
tinal, respondendo pela biotransformação de primeira passa­
gem de fármacos, como a clorpromazinae o clonazepam.
3) Variabilidade genética. As enzimas P450 exibem consi­
derável variabilidade genética entre indivíduos e grupos ra­
ciais. Variações na atividade P450 podem alterar a eficácia
dos fármacos e o risco de efeitos adversos. O CIP2D6, em
particular, revelou polimorfismo genético.
4
Mutações no Cl­
P2D6 resultam em capacidades muito baixas de biotransfor­
mar substratos. Algumas pessoas, por exemplo, não obtêm
benefício do analgésico opiáceo codeína, porque não têm a
enzima que o 0-desmetila para ativá-lo. A frequência des­
se polimorfismo em parte é determinada racialmente, com a
prevalência de 5 a 10°
/
o em brancos, europeus, comparada
com menos de 2°
/
o em asiáticos do sudoeste. Polimorfismos
similares foram caracterizados para a subfamília CIP2C. A
colocação de uma advertência em tarja preta no clopidogrel
pelo U.S. Food and Drug Administration salienta o significado
deste polimorfismo. Pacientes que são maus biotransforma­
dores CIP2C19 têm maior incidência de eventos cardiovas­
culares (p. ex., choque ou infarto do miocárdio) quando usam
c/opidogrel. Este fármaco é um pró-fármaco, e a ativação
pelo CIP2C19 é necessária para convertê-lo no metabólito
ativo. Embora o CIP3A4 exiba uma variabilidade entre indiví­
duos maiorque 1O vezes, nenhum polimorfismo foi identifica­
do para essa isozima P450.
4) Indutores. As enzimas dependentes de CIP450 são um alvo
importante de interaçõesfarmacocinéticas de fármacos. Uma
dessas interações é a indução de algumas isozimas CIP. Xe­
nobióticos (substâncias químicas que normalmente não são
4
Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre polimorfismo genético.
Farmacologia Ilustrada 15
CIP2C19
CIP2E1
4o/o----.
83 ----
CIP2D6 CIP2C8/9 CIP1A2
193
Figura 1 .18
163 1 1 3
CIP3A4/5
CIP2A6
33---'
363
CIP286
33----'
Contribuição relativa das isoformas de
citocromos P450 (CIP) na biotransfor­
mação de fármacos.
16 Clark, Finkel, Rey &Whalen
lsozima CIP2C9/1O
SUBSTRATOS COMUNS
Varfarina
Fenitoína
lbuprofeno
To/butamida
lsozima CIP2D6
SUBSTRATOS COMUNS
Desipramina
lmipramina
Haloperidol
Propano/oi
lsozima CIP3A4/5
SUBSTRATOS COMUNS
Carbamazepina
Ciclosporina
Eritromicina
Nifedipino
Verapamil
Figura 1.19
INDUTORES
Fenobarbital
Rifampicina
INDUTORES
Nenhum*
INDUTORES
Carbamazepina
Dexametasona
Fenobarbital
Fenitoína
Rifampicina
Algumas isozimas citocromo P450 re­
presentativas. CIP = citocromo P.
* Diferentemente da maioria das outras
enzimas CIP450, a CIP2D6 não é mui­
to suscetível à indução enzimática.
produzidas nem estão presentes no organismo) podem in­
duzir a atividade destas enzimas, induzindo a expressão de
genes que codificam a enzima ou provocando sua estabiliza­
ção. Certos fármacos (p. ex., fenobarbital, rifampicina e car­
bamazepina) são capazes de aumentar a síntese de uma ou
mais isozimas CIP. Isso resulta no aumento davelocidade de
biotransformação de fármacos e pode levar a reduções sig­
nificativas nas concentrações plasmáticas dos fármacos bio­
transformados por essas isoenzimas CIP, como mensurado
pela ASC (uma medida de exposição a fármacos), concomi­
tante com a redução do efeito farmacológico. Por exemplo, a
rifampicina, um fármaco antituberculose (ver p. 424), diminui
de modo significativo a concentração plasmática dos inibido­
res de HIV protease,5 diminuindo, assim, sua capacidade de
suprimir a maturação do vírus HIV. A Figura 1.19 lista alguns
dos mais importantes indutores para isozimas CIP represen­
tativas. As consequências do aumento da biotransformação
de fármacos incluem: 1) menor concentração do fármaco no
plasma; 2) menoratividade dofármaco, se o metabólito é ina­
tivo; 3) aumento da atividade, se o metabólito é ativo; e 4)
redução do efeitoterapêutico do fármaco.
5) Inibidores. A inibição da atividade das isozimas CIP é
uma fonte importante de interações de fármacos que leva
a efeitos adversos graves. A forma mais comum de inibição
é pela competição pela mesma isozima. Alguns fármacos,
contudo, são capazes de inibir reações para as quais nem
são substratos (p. ex., cetoconazol) provocando também in­
terações. Numerosos fármacos são capazes de inibir uma
ou mais vias de biotransformação CIP-dependente da varfa­
rina. Por exemplo, o omeprazol é um inibidor importante de
três das isozimas CIP responsáveis pela biotransformação
da varfarina. Se os dois fármacos são tomados juntos, a
concentração plasmática de varfarina aumenta, o que au­
menta a inibição da coagulação, o risco de hemorragias e
outros sangramentos graves. (Nota: os inibidores CIP mais
importantes são eritromicina, cetoconazol e ritonavir, pois
eles inibem várias isozimas CIP.) A cimetidina bloqueia a
biotransformação da teofilina, c/ozapina e vafari
na. Subs­
tâncias naturais também podem inibir a biotransformação
de fármacos inibindo a CIP3A4. Por exemplo, como o toran­
ja (grapefrui� e seu suco inibem a CIP3A4, fármacos como
nifedipina, claritromicina e sinvastatina, que são biotransfor­
mados por esse sistema, permanecem em maiorconcentra­
ção na circulação sistêmica com potencial de aumentar seu
efeito terapêutico e/ou tóxico.
b. Reações de Fase 1 que não envolvem o sistema P450. Essas
reações incluem a oxidação de aminas (p. ex., oxidação de ca­
tecolaminas ou histamina), a desidrogenação do álcool (p. ex.,
oxidação do etanol), as esterases (p. ex., biotransformação da
pravastatina no fígado) e a hidrólise (p. ex., procaína).
2. Fase li. Essa fase consiste em reações de conjugação. Se o me­
tabólito resultante da Fase 1 é suficientemente polar, ele pode ser
excretado pelos rins. Contudo, vários metabólitos de Fase 1 são
5
Ver Bioquí
mica Ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre inibidores de protease HIV.
muito lipofílicos para serem retidos pelos túbulos renais. Uma rea­
ção subsequente de conjugação com um substrato endógeno -
como ácido glicurônico, ácido sulfúrico, ácido acético ou amino­
ácido - produz um composto polar em geral mais hidrossolúvel e
terapeuticamente inativo. Uma exceção notável é o glicuronídeo-6-
-morfina, que é mais potente do que a morfina. A glicuronidação é
a reação de conjugação mais comum e mais importante. Os neo­
natos são deficientes nesse sistema de conjugação, tornando-os
particularmente vulneráveis a fármacos comoo c/oranfenico/, inati­
vado pelo acréscimo de ácido glicurônico, resultando na síndrome
do bebê cinzento (ver p. 405). (Nota: osfármacos que possuem um
grupo-OH, -NH2 ou -COOH podem entrar diretamente na Fase li
e ser conjugados sem uma reação de Fase 1 prévia.) Os fármacos
conjugados altamente polares podem então ser excretados pelos
rins ou com a bile.
3. Reversão da ordem das fases. Nem todos os fármacos sofrem
reações de Fase 1 e li nessa ordem. Por exemplo, a isoniazida é
acetilada inicialmente (reação de Fase li) e, então, hidrolisada a áci­
do nicotínico (reação de Fase 1).
VI. DEPURAÇÃO DE FÁRMACOS PELOS RINS
A eliminação de fármacos do organismo requer que a substância seja sufi­
cientemente polar para que a excreção seja eficiente. A remoção do fármaco
ocorre por meio de numerosas vias, sendo a mais importante por meio dos
rins na urina. Um paciente com insuficiência renal pode sofrer diálise extra­
corpórea, a qual remove pequenas moléculas, como fármacos.
A. Eliminação renal dos fármacos
Farmacologia Ilustrada 17
D
Ofármaco livreentra no
filtrado glomerular
Cápsulade
Bowman
� Secreção
U ativa
f!ll Reabsorção passiva
1E':i1 defármacos não
ionizadose
lipossolúveis,
queforam
concentrados
no interior do lúmen
em concentração
maior do que a do
espaço perivascular.
Túbulo
proximal
Alça de
Henle
Túbulo
distal
Túbulo
coletor
Na urina: fármaco
ionizado insolúvel
em lipídeos
A eliminação de fármacos pelos rins na urina envolve três processos: Figura 1 .20
filtração glomerular, secreção tubular ativa e reabsorção tubular passiva. Eliminação de fármacos pelos rins.
1 . Filtração glomerular. Os fármacos chegam aos rins pelas artérias
renais, que se dividem para formar o plexo capilar glomerular. Os
fármacos livres (não ligados à albumina) difundem-se através das
fendas capilares para o espaço de Bowman como parte do filtrado
glomerular (Figura 1 .20). A velocidade de filtração glomerular (125
mUmin) é cerca de 20°
/
o do fluxo plasmático renal (600 mUmin). A
lipossolubilidade e o pH não influenciam a passagem dos fármacos
para o filtrado glomerular. Entretanto, variações na velocidade de
filtração glomerular e ligação do fármaco às proteínas plasmáticas
podem afetar este processo.
2. Secreção tubular proximal. Os fármacos que não foram transfe­
ridos para o filtrado glomerular saem dos glomérulos através das
arteríolas eferentes, que se dividem formando um plexo capilar ao
redor do lúmen no túbulo proximal. A secreção ocorre primariamen­
te nos túbulos proximais por dois mecanismos de transporte ativo
(requerem transportador) que exigem energia, um para ânions (p.
ex., formas desprotonadas de ácidos fracos) e outro para cátions
(p. ex., formas protonadas de bases fracas). Cada um desses sis­
temas de transporte apresenta baixa especificidade e pode trans­
portar inúmeros compostos. Assim pode ocorrer competição entre
fármacos pelos transportadores em cada um dos sistemas (p. ex.,
ver probenecida, p. 547). (Nota: prematuros e recém-nascidos têm
esse mecanismo secretor tubular incompletamente desenvolvido e,
assim, podem retercertos fármacos.)
18 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Fármaco
Fármaco
Reabsorçãopassiva
defármaco não ioni­
zado, lipossolúvel
Figura 1 .21
Túbulo
proximal
Alçade
Henle
Túbulo
distal
Fármaco
Biotransformação
de Fase1eli
Metabólito ionizado
,..-_:>ou polar
. .
. .
. .
. .
. ..
·
.
.
. ..
.
.
..
......• ..
....
. .,
:-
.:..
.
Efeito da biotransformação de fárma­
cos na reabsorção no túbulo distal.
3. Reabsorção tubular distal. Enquanto o fármaco se desloca em
direção ao túbulo contorcido distal, sua concentração aumenta e
excede à do espaço perivascular. O fármaco, se neutro, pode di­
fundir-se para fora do lúmen, retornando à circulação sistêmica. A
manipulação do pH da urina, paraaumentaraforma ionizadadofár­
maco no lúmen, pode serfeita para minimizara extensão da retrodi­
fusão e, assim, aumentar a depuração de um fármaco indesejável.
Como regra geral, ácidos fracos podem ser eliminados alcalinizan­
do a urina, enquanto a eliminação de bases fracas pode seraumen­
tada poracidificação da urina. Esse processo é denominado "prisão
iônica". Por exemplo, um paciente apresentando dose excessiva de
fenobarbital (um ácido fraco) pode receber bicarbonato, que alca­
liniza a urina e mantém o fármaco ionizado, diminuindo, assim, a
reabsorção. Se a dosagem excessiva é com uma base fraca, como
a anfetamina, a acidificação da urina com NH4CI leva à protonação
do fármaco (i.e, se torna ionizado) e aumenta a sua excreção renal.
4. Papel da biotransformação de fármacos. A maioria dos fárma­
cos é lipossolúvel e, sem modificação química, se difundiria para
fora do lúmen tubular renal quando a sua concentração no filtrado
se torna maior do que a do espaço perivascular. Para minimizar
essa reabsorção, os fármacos são modificados em metabólitos
mais polares, principalmente, pelo fígado, usando dois tipos de
reações: as de Fase 1 (ver p. 14) - que envolvem o acréscimo de
grupos hidroxila ou a remoção de grupos bloqueadores das hidro­
xilas, carboxilas, ou grupo amino- e as de Fase 11 (ver p. 16) -que
usam conjugação com sulfato, glicina ou ácido glicurônico para
aumentar a polaridade do fármaco. Os conjugados são ionizados,
e as moléculas carregadas não conseguem difundir para fora do
lúmen renal (Figura 1 .21).
-
VII. DEPURAÇAO POR OUTRAS VIAS
As outras vias de depuração de fármacos incluem o intestino, a bile, os pul­
mões e o leite das lactantes, entre outras. As fezes estão envolvidas primaria­
mente com a eliminação dos fármacos ingeridos porvia oral e não absorvidos
ou fármacos que foram secretados diretamente no intestino ou na bile. No
trato intestinal, a maioria dos compostos não é reabsorvida e é eliminada
com as fezes. Os pulmões estão envolvidos primariamente na eliminação dos
gases anestésicos (p. ex., halotano e isoflurano). A eliminação de fármacos
no leite materno é clinicamente relevante como fonte potencial de efeitos in­
desejados no lactente. Um bebê em amamentação será exposto em alguma
extensão aos medicamentos e/ou seus metabólitos ingeridos pela sua mãe.
A excreção da maioria dos fármacos no suor, saliva, lágrimas, pelos e pele
ocorre em pequena extensão. Contudo, o depósito de fármacos nos pelos
(cabelo) e na pele tem sido usado como ferramenta forense em vários casos
criminais. A depuração corporal total, somando todos os métodos de depu­
ração, e a meia-vida do fármaco são medidas importantes de depuração de
fármacos, visando a prevenir a toxicidade.
A. Depuração corporal total
A depuração corporal total (sistêmica), CL101ª1 ou CL1, é a soma das de­
purações dos vários órgãos biotransformadores e eliminadores. Os rins
são, com frequência, os principais órgãos de excreção; contudo, o fígado
também contribui para a perda de fármaco por meio da biotransformação
e/ou da excreção com a bile. Um paciente com insuficiência renal pode,
algumas vezes, ser beneficiado pelo fármaco que é excretado por essa
via, indo para o intestino e saindo com as fezes, em vez da via renal. AI-
guns fármacos também podem ser reabsorvidos pela circulação entero­
-hepática, prolongando, assim, sua meia-vida.A depuraçãototal pode ser
calculada usando-se a seguinte equação:
Cl.iotal = CLhepática + CLrenal + CLpulmonar + CLoutras
onde CLhepática + CLrenal são tipicamente as mais importantes.
B. Situações clínicas que alteram a meia-vida do fármaco
Quando o paciente apresenta uma anormalidade que altera a meia-vida
,
dofármaco, são necessários ajustes nadosagem. E importante sercapaz
de prever em quais pacientes o fármaco provavelmente tem sua meia-vi­
da alterada. A meia-vida do fármaco é aumentada por: 1) diminuição do
fluxo plasmático renal ou do sanguíneo hepático (p. ex., em choque car­
diogênico, insuficiência cardíaca ou hemorragia); 2) diminuição na capa­
cidade de extrair o fármaco do plasma, por exemplo, na doença renal; e
3) diminuição da biotransformação, por exemplo, quando outros fármacos
inibem a biotransformação ou na insuficiência hepática, como na cirrose.
Ela pode ser diminuída por: 1) aumento do fluxo sanguíneo hepático; 2)
menor ligação às proteínas; e 3) aumento da biotransformação.
-
VIII. ESQUEMAS E OTIMIZAÇAO DAS DOSAGENS
Para iniciar o tratamento farmacológico, o clínico elabora um regime de dosifi­
cações administrado por infusão contínua ou em intervalos de tempo e dosa­
gem, dependendo deváriosfatores do paciente e do fármaco, incluindo o quão
rapidamente o estado de equilíbrio (velocidade de administração igual a de
excreção) deve ser alcançado. O regime pode ser ainda mais refinado ou oti­
mizado para obtero máximo de benefícios com o mínimo de efeitos adversos.
A. Regimes de infusão contínua
Otratamento pode consistirem uma administração simples dofármaco, por
exemplo, uma dose única de um fármaco indutor do sono, como o zolpi­
dem. Mais comumente, porém, otratamento consiste na administraçãocon­
tinuadade umfármaco, sejacomo uma infusão IV ou um esquemadedoses
fixas e intervalosfixos porvia oral (p. ex., "um comprimido a cada 4 horas"),
cada qual resultando no acúmulo do fármaco até alcançar um estado de
equilíbrio. O estado de equilíbrio é um ponto no qual a quantia de fármaco
que é administrada igualaa quantia que é eliminada, de forma que os níveis
plasmáticos etissulares permaneçam constantes no caso da administração
IV eflutuem em torno de um valor médio no caso de dosagem oral fixa.
1. Concentração plasmática do fármaco após infusão IV. Com a ad­
ministração IV contínua, a velocidade de entrada do fármaco no or­
ganismo é constante. Na maioria dos casos, a eliminação do fármaco
é de primeira ordem, ou seja, uma fração constante da substância é
depurada por unidade de tempo. Portanto, a velocidade do fármaco
que deixa o organismo aumenta proporcionalmente com o aumento
da concentração no plasma. Após o início da infusão IV, a concentra­
ção plasmática dofármaco aumentaaté que avelocidade dofármaco
eliminado do organismo equilibra precisamente a quantidade introdu­
zida (Figura 1 .22). Assim, o estado de equilíbrio é alcançado quando
a concentração plasmática do fármaco permanece constante.
a. Influência da velocidade de infusão do fármaco no estado de
equilíbrio. Pode serdemonstrado que a concentração plasmática
de equilíbrio é diretamente proporcional à velocidade de infusão.
Entrada
de
fármaco
Figura 1 .22
Farmacologia Ilustrada 19
No equilíbrio, a entrada (velocidade de
infusão) é igual à saída (velocidade de
eliminação).
20 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Nota: a maiorvelocidade de
infusão não altera otempo
necessário paraalcançar o
estado deequilíbrio; somente
a concentração deequilíbrio,
C55, se altera.
Figura 1 .23
Região de
equilíbrio �
Efeito da velocidade de infusão na con­
centração de equilíbrio do fármaco no
plasma. R0 = velocidade de infusão do
fármaco; C55 = concentração de equilí­
brio do fármaco.
Concentração de
Início da infusão
do fármaco
Por exemplo, se a velocidade de infusão duplica, a concentração
plasmáticafinalmente alcançada no estado deequilíbrioé duplica­
da (Figura 1 .23). Além disso, a concentração de equilíbrio é inver­
samente proporcional à depuração do fármaco. Assim, qualquer
fator que diminui a depuração, como doença hepática ou renal,
aumenta a concentração de equilíbrio de um fármaco infundido
(admitindo que Vd permaneça constante). Fatores que aumentam
a depuração do fármaco, como o aumento da biotransformação,
diminuem a concentração de equilíbrio dofármaco infundido.
b. Tempo necessário para alcançar a concentração de equilí­
brio do fármaco. A concentração do fármaco aumenta desde
zero, no início da infusão, até alcançar o nível de equilíbrio Css
(Figura 1.23). A velocidade para atingir o estado de equilíbrio é
alcançada por um processo de primeira ordem.
1) Acesso exponencial ao estado de equilíbrio. A constan­
te de velocidade para alcançar o estado de equilíbrio é a
constante de velocidade para a eliminação corporal total
do fármaco. Assim, 50°
/
o da concentração de equilíbrio fi­
nal do fármaco, observados após o tempo decorrido entre
a infusão (t) é igual a tv., em que tv. (meia-vida) é o tempo
necessário para que a concentração do fármaco se altere
em 50o/
o. Após outra meia-vida, a concentração do fármaco
alcança 75°
/
o do C55 (ver Figura 1 .24). A concentração do
fármaco é 90°
/
o da concentração de equilíbrio final em 3,3
vezes o t1-2. Assim, o fármaco vai alcançar o estado de equi­
líbrio em cerca de 4 meias-vidas.
2) Efeito da velocidade de infusão do fármaco. O único de­
terminante davelocidade quefaz com que ofármacoalcance
o estado de equilíbrio é t1-2, e essa velocidade é influenciada
somente pelos fatores que afetam a meia-vida. A velocida­
de para alcançar o estado de equilíbrio não é afetada pela
velocidade de infusão. Embora o aumento da velocidade de
Interrupção da infusão do
fármaco; iniciaa depuração
equilíbrio dofármac.o C88 = 100 -
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A depuração dofármaco
éexponencial com a
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infusão. Porexemplo, a
concentração dofármaco
cai a 50% do valor de
equilíbrio emt�.
Cinquenta porcento
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equilíbrio são alcan­
çados nat�.
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Noventa porcento da
concentração de
equilíbriosão alcança­
dos em 3,3 t�.
Velocidade para alcançar a concentração de equilíbrio de um fármaco no plasma.
infusão de um fármaco aumente concomitantemente a velo­
cidade com que uma determinada concentração plasmática
é alcançada, ele não interfere no tempo necessário para al­
cançar a concentração final de equilíbrio. Isto ocorre porque
a concentração de equilíbrio de um fármaco aumenta direta­
mente com a velocidade de infusão (ver Figura 1 .23).
3) Velocidade de declínio do fármaco quando a infusão é
interrompida. Quando a infusão é interrompida, a concen­
tração plasmática do fármaco diminui (se reduz) até zerar
com a mesmatrajetóriatemporal observada para alcançaro
equilíbrio (ver Figura 1 .24).
B. Regimes de dose fixa/intervalo de tempo fixo
A administração de um fármaco por doses fixas, em vez de infusão contí­
nua, com frequência é mais conveniente. Contudo, dosesfixas, administra­
das a intervalos de tempo também fixos, como com injeções IV múltiplas
ou administraçãooral múltipla, resultam em flutuaçõestempo-dependentes
nos níveis defármacocirculante, oquecontrasta com a ascensãocontínua
da concentração do fármaco observada na infusão contínua.
1. Injeções IV múltiplas. Quando um fármaco é administrado repeti­
damente a intervalos regulares, a concentração plasmática aumenta
até alcançar um estado de equilíbrio (Figura 1 .25). Como a maioria
dos fármacos é administrada a intervalos mais curtos do que cinco
meias-vidas e é eliminada exponencialmente com o tempo, algum
fármaco da primeira dose permanece no organismo no momento
em que a segunda dose é administrada, algum fármaco da segunda
dose permanece no momento da terceira dose, e assim por diante.
Portanto, ofármaco acumula até que, dentro do intervalo de tempo, a
velocidade de perda do fármaco (conduzida pela elevada concentra­
ção plasmática) equilibra exatamente a velocidade de administração
do fármaco- isto é, até que um estado de equilíbrio seja alcançado.
a. Efeitos da frequência de dosagem. A concentração plasmáti­
ca do fármaco oscila em torno de uma média. Doses menores e
intervalos mais curtos diminuem a amplitude das ondas de con­
centração do fármaco. Contudo, a concentração de equilíbrio do
fármaco e avelocidade na qual o equilíbrio é alcançado não são
afetadas pela frequência de dosagem.
b. Exemplos de obtenção de equilíbrio usando diferentes regi­
mes de dosagens. A curva B da Figura 1 .25 mostra a quantida­
de de fármaco no organismo quando 1 g é administrado porvia
IV para um paciente, e a dose é repetida a intervalos de tempo
que correspondem à meia-vida do fármaco. Ao final do primeiro
período de dosagem, permanece 0,5 unidade de fármaco da
primeira dose quando a segundaé administrada. Ao final do se­
gundo intervalo de dosagem, 0,75 unidade continuará presente
quando a terceira dose for administrada. A quantidade mínima
de fármaco durante o intervalo de dosagem aumenta progres­
sivamente e se aproxima do valor de 1 unidade, enquanto o va­
lor máximo alcança progressivamente 2 unidades logo após a
administração. Por isso, no estado de equilíbrio, 1 unidade de
fármaco é perdida durante o intervalo de dosagem, o que coin­
cide exatamente com a quantidade de fármaco que está sen­
do administrada; ou seja, a velocidade de fármaco "entrando" é
igual a que está "saindo". Como na infusão IV, 90°
/
o do valor de
equilíbrio é alcançado em 3,3 vezes ty2•
Farmacologia Ilustrada 21
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i = Injeção rápida dofármaco
Figura 1 .25
Concentração plasmática prevista para
um fármaco administrado por infusão
(A), duas injeções diárias (8) ou uma
injeção diária (C). O modelo considera
a rápida homogeneização em um com­
partimento corporal simples e uma tMi
de 1 2 horas.
22 Clark, Finkel, Rey &Whalen
DOSEFIXAREPETIDA
A administração oral repetida de umfár­
maco resultaem oscilações nas concen­
trações plasmáticas, as quaissão influen­
ciadastanto pela velocidadede absorção
dofármaco como pelasuavelocidade
deeliminação.
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Tempo (h)
DOSESIMPLESFIXA
Dosesimples dofármaco adminis­
trada porvia oral resultaem um pico
único na concentração plasmática,
seguido de um declínio contínuo nos
níveis do fármaco.
Figura 1 .26
Concentrações plasmáticas previstas
para um fármaco obtidas por repetidas
administrações orais.
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Tempo
ti;deeliminação
Iníciodadosagem
Figura 1 .27
Acúmulo de um fármaco administra­
do por via oral sem a dose de ataque
e com uma dose de ataque oral única
administrada em t=O.
2. Administrações orais múltiplas. A maioria dos fármacos administra­
dos em pacientes externos é indicada porvia oral em regimes de dose
fixa/intervalo fixo tal como uma dose específica tomada uma, duas ou
três vezes diariamente. Ao contrário da injeção IV, a absorção dos fár­
macos administrados por via oral pode ser lenta, e a concentração
plasmática do fármaco é influenciada tanto pela velocidade de absor­
ção quanto pela velocidade de eliminação do fármaco (Figura 1 .26).
C. Otimização da dose
O objetivo do tratamento com um certo fármaco é alcançar e manter a con­
centração dentro da janela terapêutica enquanto minimiza os efeitos adver­
sos. Com titulaçãocuidadosa, a maioria dos fármacos permite alcançareste
objetivo. Se a janela terapêutica (ver p. 35) de um fármaco é estreita (p. ex.,
digoxina, v
arf
arina e ciclosporina), a faixa de concentração plasmática na
qual o tratamento é eficaz deve ser definida. A dosagem necessária para
mantero tratamento deve sercomputada e administrada como dose de ma­
nutenção ou uma dose de carga (quando se necessita de efeito rápido) e a
concentração do fármaco é mensurada subsequentemente. A dosagem e a
frequência podem entãoserajustadas se nãoestiverem nafaixaterapêutica.
1. Dose de manutenção. Os fármacos em geral são administrados
para mantera concentração de equilíbrio najanela terapêutica. Para
alcançar uma dada concentração, são importantes a velocidade de
administração e a velocidade de eliminação do fármaco. São neces­
sárias 4 a 5 meias-vidas de um fármaco para alcançar concentra­
ções sistêmicas de equilíbrio. A velocidade de dosificação pode ser
determinada conhecendo-se a concentração desejada no plasma
(Cp), a depuração (CL) dofármaco da circulação sistêmica e a fração
(F) absorvida (biodisponibilidade).
Velocidade de dosificação = (Cpiasma desejada)(CL)
F
2. Dose de ataque. Um retardo na obtenção dos níveis plasmáticos
desejados do fármaco pode ser clinicamente inaceitável. Portanto,
uma dose de ataque (ou dose de carga) do fármaco pode ser injeta­
da como dose única para alcançar com rapidez os níveis plasmáti­
cos desejados, seguido de infusão, para manter o estado de equilí­
brio (dose de manutenção, Figura 1 .27). Em geral, a dose de ataque
pode ser calculada como:
Dose de ataque = (Vd) (concentração plasmática de equilíbrio
desejada)/F
Para infusão IV, cuja biodisponibilidade é 100°
/
o, a equação é:
Dose de ataque = (Vd) (concentração plasmática de equilíbrio
desejada)
Doses de ataque podem ser administradas como dose única ou
uma série de doses. As doses de ataque são administradas se o
tempo necessário para alcançar a meia-vida é relativamente longo
e o benefício terapêutico do fármaco é necessário imediatamente
(p. ex., lidocaína contra arritmias). As desvantagens ao uso de do­
ses de ataque incluem o aumento do risco de toxicidade e o tempo
mais longo necessário para a concentração do fármaco diminuir
caso se alcance uma concentração excessiva. A dose de ataque
é mais vantajosa para fármacos que são eliminados do organismo
de modo relativamente lento. Tais fármacos requerem somente bai­
xas doses de manutenção para manter o fármaco no organismo na
concentração terapêutica. Contudo, sem uma dose de ataque, seria
necessário muito tempo para que o fármaco alcançasse o valor te­
rapêutico correspondendo ao nível de equilíbrio.
3. Dose de ajuste. A quantidade de fármaco administrado em uma
dada condição é otimizada para um "paciente médio". Esta conduta
ignora a variabilidade entre pacientes, e, em alguns casos, os prin­
cípios farmacocinéticos podem ser usados para aperfeiçoar o tra­
tamento para cada indivíduo ou população de pacientes enquanto
minimiza os efeitos adversos ou toxicidades. Monitorando o fármaco
e correlacionando-o com o resultado terapêutico, tem-se outra fer­
ramenta para individualizar o tratamento. (Nota: para fármacos com
baixos índices terapêuticos, a concentração plasmática é mensura­
da e a dosagem ajustada.)
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O Vd é útil porque pode ser usado para calcular a quantidade de
fármaco necessária para obtera concentração plasmática deseja­
da. Por exemplo, se o débito cardíaco do paciente com insuficiên­
cia cardíaca não está bem controlado devido a nível plasmático
inadequado de digoxina. Suponha que a concentração do fárma­
co no plasma seja C1 e o nível desejado (concentração-alvo) de
digoxina (conhecida por meio de estudos clínicos) seja C2, uma
concentração mais alta. O clínico precisa saber quanto mais de
fármaco deve ser administrado para elevar a concentração circu­
lante de e, para c2.
(Vd) (C1) = quantidade de fármaco inicialmente presente no organismo
(Vd) (C2) = quantidadedefármaco necessária noorganismo paraobter
a concentração plasmática desejada
A diferença entre os dois valores é a dose necessária para igualarVd
(C2- C1).
A Figura 1 .28 mostra a evolução temporal da concentração do fár­
maco quando o tratamento é iniciado e quando a dose é alterada.
Infusão intravenosa
Dose oral
tv.deeliminação
A concentração no plasma durante
otratamento oral flutuaem torno da
concentração deequilíbrio obtida
com otratamento intravenoso.
Alteração da dosagem
Tempo
Figura 1 .28
Farmacologia Ilustrada 23
Dosagem duplicada
Quando a dosagem é duplicada,
diminuídaà metadeou interrom­
pidadurante a administração
equilibrada, otempo necessário
para alcançar novo estado de
equilíbrio é independentedavia
de administração.
A dosagemfoi diminuídaà metade
Acúmulo do fármaco após administração prolongada e após alterações na dosagem. A dosificação oral foi em intervalos
de 50°
/
o do ty,.
24 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
1.1 Um fármaco administrado em dose simples de 100 mg re­
sulta em uma concentração plasmática com pico de 20 µ,g/
mL. O volume de distribuição aparente é (suponha uma
distribuição rápida e uma eliminação desprezível antes da
mensuração do pico plasmático):
A. 0,5 L
B. 1 L
C. 2 L
D. 5 L
E. 10 L
1 .2 Um fármaco com meia-vida de 12 horas é administrado
em infusão IV contínua. Quanto tempo demora até o fár­
maco alcançar 90o/
o do nível final do estado de equilíbrio?
A. 18 horas
B. 24 horas
e. 30 horas
D. 40 horas
E. 90 horas
1 .3 Qual dos seguintes procedimentos resulta na duplicação
da concentração de equilíbrio de um fármaco?
A. Duplicar a velocidade de infusão.
B. Manter a velocidade de infusão, mas duplicar a dose
de ataque.
C. Duplicar a velocidade de infusão e duplicar a concen­
tração do fármaco infundido.
D. Triplicar a velocidade de infusão.
E. Quadruplicar a velocidade de infusão.
1 .4 Uma paciente com insuficiência cardíaca revela toxicidade
à digoxina. Ela recebeu 1 25 µ,g como dose-padrão. A con­
centração sérica é de 2 ng/mL (2µ,g/L). O nível terapêutico
alvo é de 0,8 ng/mL. Que dose esta paciente deveria ter
recebido?
A. 25 µ,g
B. 50 µ,g
e. 75 µ,g
D. 100 µ,g
E. 125 µ,g
1 .5 O acréscimo de ácido glicurônico a um fármaco:
A. Reduz sua hidrossolubilidade.
B. Geralmente leva à inativação do fármaco.
C. É um exemplo de reação de Fase 1.
D. Ocorre na mesma velocidade em adultos e neonatos.
E. Envolve o citocromo P450.
Resposta correta = D. Vd = D/C, em que D = quantidade total de fár­
maco no organismo, e C = a concentração plasmática. Assim, Vd =
100 mgl20 mglml = 100 mgl20 mgll = 5 l.
Resposta correta = D. Alcança-se 90°
/
o do equilíbrio final em (3,3) (tló)
= (3,3)(12) = -40 horas.
Resposta correta = A. A concentração de equilíbrio de um fármaco
é diretamente proporcional à velocidade de infusão. Aumentando a
dose de ataque, ocorre um aumento transitório no nível do fármaco,
mas o nível de equilíbrio permanece inalterado. Duplicar a velocidade
de infusão e a concentração do fármaco infundido leva a um aumento
de 4vezes na concentração de equilíbrio dofármaco.Triplicar ou qua­
druplicar a velocidade de infusão triplica ou quadruplica a concentra­
ção do equilíbrio do fármaco.
Respostacorreta = B.Vd = dose/C = 125µgl2 µgil = 62,5 l.Vd (C2-C1)
= dose que deve ser recebida = 62,5 (0,8 µgil - 2 µgil) = -75 µg.
Subtraia esta dose da dose-padrão. Nova dose a ser administrada =
125 µg - 75 µg = 50 µg.
Resposta correta = B. O acréscimo de ácido glicurônico impede o
reconhecimento do fármaco pelo seu receptor. O ácido glicurônico é
carregado, e o conjugado tem maior hidrossolubilidade. A conjugação
é uma reação de Fase li. Os neonatos são deficitários nas enzimas de
conjugação. O citocromo P450 está envolvido nas reações de Fase 1.
oes
,
ar aco-rece or e
• ..A. •
aco 1 na 1ca
1. RESUMO
A farmacodinâmica descreve as ações dos fármacos no organismo e as in­
fluências das suas concentrações na magnitude das respostas.A maioria dos
fármacos exerce seus efeitos, desejados ou indesejados, interagindo com
receptores (isto é, macromoléculas-alvo especializadas) presentes na super­
fície ou dentro da célula. O complexo fármaco-receptor (FR) inicia alterações
na atividade bioquímica e/ou molecular da célula por meio de um processo
denominado transdução de sinal (Figura 2.1).
-
li. TRANSDUÇAO DE SINAL
Os fármacos atuam como sinais, e seus receptores atuam como detectores
de sinais.Vários receptores sinalizam o reconhecimento de um ligante inician­
do uma série de reações que no final resultam em uma resposta intracelular
específica. (Nota: o termo "ligante" se refere a uma molécula pequena que se
fixa a um local em uma proteína receptora. O ligante pode ser uma molécula
de ocorrência natural ou um fármaco.) Moléculas "segundas mensageiras"
(também denominadas moléculas efetoras) são parte da cascata de eventos
que traduz a ligação da substância em uma resposta celular.
A. O complexo fármaco-receptor
As células têm diferentes tipos de receptores, cada qual específico para
um ligante particular e produzindo uma resposta única. O coração, por
exemplo, tem receptores de membrana que ligam e respondem à epinefri­
na ou norepinefrina, bem como receptores muscarínicos específicos para
acetilcolina. Esses receptores interagem de modo dinâmico para controlar
funções vitais do coração. A intensidade da resposta é proporcional ao
número de complexos FR:
Fármaco + Receptor P Complexo fármaco-receptor� Efeito biológico
O
Osreceptoresnãoocupadosnão
influenciamosprocessos
intracelulares.
''..,
:. ..
. :, . .
V
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aspropriedadesfísicase
químicasquelevamàinteração
commoléculascelulares,
causandorespostabiológica.
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:. ..
. : , . .
Figura 2.1
Transdução
desinal
Resposta
biológica
O reconhecimento de um fármaco pelo
receptor inicia a resposta biológica.
26 Clark, Finkel, Rey &Whalen
ft Canaisiônicos
W disparadosporligantes
Exemplo:
Receptorescolinérgicos
nicotínicos
,
lons
Esse conceito está estreitamente relacionado com a formação de comple­
xos entreenzimas esubstratos ou antígenos eanticorpos. Essas interações
têm vários aspectos comuns, provavelmente a mais notável seja a especifi­
cidade do receptor por um determinado ligante. Contudo, o receptor não só
tem a habilidade de reconhecer o ligante, mas também acopla ou transduz
essa ligação em uma resposta causando uma alteração conformacional ou
um efeito bioquímico. A maioria dos receptores é denominada para indicar
o tipo de fármaco que melhor interage com ele. Por exemplo, o receptor da
histamina é denominado receptor histamínico. Embora muito deste capítulo
esteja focado na interação dos fármacos com os receptores específicos, é
importante estar ciente de que nem todos os fármacos exercem seus efei­
tos interagindo com um receptor. Os antiácidos, por exemplo, neutralizam
quimicamente o excesso de ácido gástrico, reduzindo os sintomas de azia.
B. Estados receptores
Classicamente se pensava que a fixação de um ligante modificava os re­
ceptores de um estado inativo (R) para um ativado (R*). O receptor ativado
então interagia com moléculas efetoras intermediárias provocando o efeito
biológico. Este modelo é um esquema simples e intuitivo e é usado nas
ilustrações deste capítulo. Informações mais recentes sugerem que os re­
ceptores existem em dois estados, no mínimo, o inativo (R) e o ativo (R*)
que estão em equilíbrio reversível entre si. Na ausência do agonista, o R*
representa tipicamente uma pequenafraçãodototal da populaçãode recep­
tores (ou seja, oequilíbriofavorece o estado inativo). Fármacos que ocupam
o receptor podem estabilizar o receptor num certo estado conformacional.
Alguns fármacos podem causardeslocamentos similares noequilíbrio entre
R e R* como um ligante endógeno. Porexemplo, fármacos que atuam como
agonistas se ligam ao estado ativo dos receptores e, assim, rapidamente
deslocam o equilíbrio de R para R*. Outros fármacos podem induzir altera­
ções que podem ser diferentes dos ligantes endógenos. Essas alterações
tornam os receptores menos funcionais ou não funcionais.
� �ecept?resacoplados
l:il aprote1naG I'!! Rece�toresligados
� aenz1mas Receptores
intracelulares
Exemplo:
Adrenorreceptoresa ep Exemplo:
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Exemplo:
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Alteraçõesnopotencialde Fosforilaçãodeproteínas Fosforilaçãodeproteínas
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doreceptor Proteínasealteração
daexpressãogênica
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iônicanointeriordacélula :::]
EFEITOS INTRACELULARES
Figura 2.2
Mecanismos de sinalizaçãotransmembrana. A. O ligante se une a domínios extracelulares do canal estimulado por ligan­
te. B. O ligante se une a um domínio no receptor transmembrana, que está acoplado à proteína G. C. O ligante se une
ao domínio extracelular de um receptor que ativa uma enzima quinase. D. O ligante lipossolúvel difunde-se através da
membrana para interagir com seu receptor intracelular. R = proteína inativa.
C. Principais famílias de receptores
A farmacologia define o receptor como qualquer molécula biológica à qual
um fármaco se fixa e produz uma resposta mensurável. Assim, enzimas,
ácidos nucleicos e proteínas estruturais podem ser consideradas recep­
tores farmacológicos. Contudo, a fonte mais rica e terapeuticamente ex­
plorável de receptoresfarmacológicos são as proteínas responsáveis pela
transdução dos sinais extracelulares em respostas intracelulares. Esses
receptores podem ser divididos em quatro famílias: 1) canais iônicos dis­
parados por ligantes; 2) receptores acoplados à proteína G; 3) receptores
ligados a enzimas; e 4) receptores intracelulares (Figura 2.2). O tipo de
receptor com o qual o ligante vai interagir depende da natureza química
do ligante. Ligantes hidrofóbicos interagem com receptores que se situam
na superfície da célula (Figuras 2.2A, 8, C). Porém, eles podem entrar nas
células através da camada bimolecular de lipídeos da membrana celular
para interagir com receptores situados dentro das células (Figura 2.20).
1. Canais iônicos transmembrana disparados por ligantes. A primei­
ra família de receptores compreende os canais iônicos acionados por
ligantes, os quais são responsáveis pela regulação do fluxo de íons
através das membranas celulares (ver Figura 2.2A). A atividade des­
ses canais é regulada pela ligação de um ligante ao canal. A resposta
a esses receptores é muito rápida, durando poucos milissegundos.
Esses receptores intermediam diversas funções, incluindo neuro­
transmissão, condução cardíaca e contração muscular. Por exemplo,
a estimulação do receptor nicotínico pela acetilcolina resulta em um
influxo de sódio, na geração de um potencial de ação e na contração
do músculoesquelético.As benzodiazepinas aumentam a estimulação
do receptor ácido 'Y-aminobutírico (GABA) pelo GABA, resultando no
aumento do influxo de cloretos e na hiperpolarização da respectiva
célula. Embora não disparados por ligantes, canais iônicos, como os
canais de sódio disparados por voltagem, são importantes receptores
para diversas classes de fármacos, incluindo os anestésicos locais.
2. Receptores transmembrana acoplados à proteína G. A segunda
família de receptores consiste nos receptores acoplados à proteína
G. Esses receptores são constituídos de um peptídeo a-helicoidal que
tem sete regiões que se estendem através da membrana. Em geral, o
domínio extracelular deste receptor contém a área de fixação do lin­
gante (poucos ligantes interagem com o domínio transmembrana do
receptor). No lado intracelular, esses receptores são ligados à proteína
G (G5, Gi e outras), a qual tem três subunidades: uma subunidade a
que liga trifosfato de guanosina (GTP) e uma subunidade 13'Y (Figura
2.3). A fixação do ligante apropriado à região extracelular do receptor
ativa a proteína G de forma que o GTP substitui o difosfato de guano­
sina (GDP) na subunidade a. Ocorre a dissociação da proteína G, e
ambas as subunidades a-GTP e a subunidade 13'Y subsequentemente
interagem com outros efetores celulares, em geral uma enzima, uma
proteína ou um canal iônico. Esses efetores, então, ativam os segun­
dos mensageiros, que são responsáveis por ações adicionais no inte­
rior da célula. A estimulação desses receptores resulta em respostas
que duram desde vários segundos até minutos. Os receptores aco­
plados à proteína G são o tipo de receptores mais abundante, e sua
ativaçãoé responsável pelaaçãoda maioria dosagentesterapêuticos.
Processos mediados por receptoresacopladosàproteína G importan­
tes incluem a neurotransmissão, a olfação e avisão.
a. Segundos mensageiros. Esses mensageiros são essenciais
na condução e amplificação dos sinais oriundos de receptores
acoplados à proteína G. Uma via comum ativada pela G5 e por
Farmacologia Ilustrada 27
D Oreceptornãoocupadonão
interagecomaproteínaG8•
Espaço
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li.I presente,oreceptorreverteaseu
estadoderepouso.OGTPna
subunidadea éhidrolisadoaGDP,
eaadenililciclaseédesativada.
Figura 2.3
Adenilil­
ciclase
inativa
O reconhecimento do sinal químico pela
proteína G acoplada ao receptor de
membrana inicia um aumento (ou, me­
nos frequente, uma diminuição) da ativi­
dade da adenililciclase. PPi = pirofosfato
inorgânico; Pi = fosfato inorgânico.
28 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Receptor
da Insulina
(Inativo)
Tirosina
Tirosina
Insulina
O
A ligação da insulinaestimula a ativi­
dadetirosinaquinase do receptorno
domínio intracelulardasubunidade
13 do receptor de insulina.
Receptor
da Insulina
(Ativo)
0-Tirosina
()-Tirosina SRl-tir
SRl-tir-P-0
t::'11 Resíduos detirosina da
C;:tl subunidade 13 são
autofosforilados.
1:11 Atirosinaquinase do
l':.11 receptorfosforilaoutras
proteínas, por exemplo,
substratos do receptor de
insulina(SRI).
Ativação de múltiplas
vias sinalizadoras
r,'I Os SRIfosforilados promovem
li.li a ativação de outras
proteínas quinases efosfatases,
levando às ações biológicas
da insulina.
Figura 2.4
Efeitos biológicos
da insulina
Receptor da insulina.
outros tipos de proteínas G é a ativação da adenililciclase pelas
subunidades a-GTP, a qual resulta na produção de monofosfato
de adenosina cíclico (AMPe) - um segundo mensageiro que re­
gula a fosforilação de proteínas. As proteínas G também ativam
a fosfolipase C, que é responsável pela geração de dois outros
segundos mensageiros, o trifosfato-1,4,5 de inositol (IP3) e o dia­
cilglicerol (DAG). O IP3é responsável pela regulação das concen­
trações de cálcio intracelular livre, bem como de outras proteínas.
O DAG ativa várias enzimas, como a proteína quinase (PKC), no
interior da célula, levando a uma miríade de efeitos fisiológicos.
3. Receptores ligados a enzimas. A terceira principal família de recep­
tores consiste em uma proteína que atravessa a membrana uma vez
únicae podeformarvários dímerosou complexosde subunidades. Es­
tes receptores também têm atividade enzimática citosólica como um
componente integral da sua estruturaefunção (Figura 2.4).A união de
um ligante a um domínio extracelular ativa ou inibe a atividade dessa
enzima citosólica.A duração de respostaà estimulação desses recep­
tores é da ordem de minutos até horas. Metabolismo, crescimento e
diferenciaçãosãofunções biológicas importantes controladas poreste
tipo de receptores. Os receptores ligados a enzimas mais comuns (fa­
tor de crescimento epiderma!, fator de crescimento derivado de pla­
quetas, peptídeo natriurético atrial, insulina e outros) são os que têm
atividade tirosina quinase como parte da sua estrutura. Tipicamente,
após a ligação do ligante à subunidade receptora, o receptor sofre al­
teração conformacional, passandodasuaformaquinase inativa paraa
ativa. O receptorativado se autofosforila e fosforila os resíduos detiro­
sina em proteínas específicas.A introdução de um grupo fosfato pode
modificar de modo substancial a estrutura tridimensional da proteína­
-alvo, atuando, assim, como um interruptor molecular. Por exemplo,
quando o hormônio peptídico insulina se liga às duas subunidades re­
ceptoras, a sua atividade tirosina quinase intrínseca causa autofosfo­
rilação do próprio receptor. Por sua vez, o receptorfosforilado fosforila
moléculas-alvo - peptídeos substratos de receptor de insulina - que
subsequentemente ativam outrossinais celulares importantes, como o
IP3 ea proteína-quinase, ativada por mitogênese (MAP). Essacascata
de ativações resulta na multiplicação do sinal inicial, muitosemelhante
ao que ocorre com os receptores acoplados à proteína G.
4. Receptores intracelulares. A quarta família de receptores difere
consideravelmente das outras três, pois o receptor é totalmente in­
tracelular e, portanto, o ligante precisa difundir-se para o interior da
célula para interagir com ele (Figura 2.5). Isso causa exigências nas
propriedades físico-químicas do ligante, que precisa ser lipossolúvel
de modo suficiente para mover-se através da membrana celular. De­
vido à sua lipossolubilidade, estes ligantes são transportados pelo
organismo ligados em proteínas plasmáticas, como a albumina. Os
alvos primários destes complexos receptor-ligantes são os fatores de
transcrição. A ativação ou inativação destes fatores causa a transcri­
ção do DNA em RNA e a translação do RNA em uma série de proteí­
nas. Por exemplo, os hormônios esteroides exercem suas ações em
células-alvo por meio desse mecanismo receptor. A união do ligante
com seu receptor segue o padrão geral, no qual o receptor se ativa
devido à dissociação de uma variedade de proteínas. O complexo
ligante-receptorativado migraou se transloca ao núcleo, onde se une
a sequências específicas do DNA, resultando na regulação da ex­
pressão gênica. A evolução temporal da ativação e da resposta des­
ses receptores é muito mais longa do que os mecanismos descritos.
Devido à modificação da expressão gênica - e, por isso, da síntese
proteica-, as respostas celulares só são observadas após um tempo
considerável (30 minutos ou mais), ea duraçãoda resposta (horasou
dias) é muito maior do que das outras famílias de receptores. Outros
alvos dos ligantes intracelulares são proteínas estruturais, enzimas,
RNA e ribossomos. Por exemplo, a tubulina é o alvo de antineoplási­
cos como o paclitaxel (ver p. 500), a enzima di-hidrofolato redutase
é o alvo de antimicrobianos como a trimetoprima (ver p. 416), e a
subunidade 508 do ribossomo bacteriano éo alvode antibióticos ma­
crolídeos, como a eritromicina (ver p. 401).
D. Algumas características da transdução de sinais
A transdução de sinais tem dois aspectos importantes: 1) a capacidade
de amplificar sinais pequenos e 2) proteger a célula contra estimulação
•
excessiva.
1. Amplificação de sinais. Umacaracterística devários receptores, em
particular daqueles que respondem a hormônios, neurotransmisso­
res e peptídeos, é sua capacidade de amplificar a duração e a inten­
sidade do sinal. A família de receptores ligados à proteína G exem­
plifica várias das possíveis respostas iniciadas pelo ligante acoplado
ao seu receptor. Especificamente, dois fenômenos respondem pela
amplificação do sinal. Primeiro, um único complexo ligante-receptor
pode interagir com várias proteínas G, multiplicando, assim, o sinal
original váriasvezes. Segundo, a proteína G ativada persiste por mais
tempo que o complexo ligante-receptor original. Por exemplo, a liga­
ção do albuterol só existe por poucos milissegundos, mas a proteína
G ativada subsequente pode persistir porcentenas de milissegundos.
O sinal inicial é prolongado e amplificado adicionalmente pela intera­
çãoentre a proteína G eseus respectivos alvos intracelulares. Devido
a essa amplificação, apenas uma fração do total de receptores para
um ligante específico precisa ser ativada para evocar a resposta má-
,
ximada célula. E dito que ossistemas que exibem essacaracterística
possuem receptores de reserva. Receptores de reserva são exibidos
pelos receptores de insulina, onde se estima que 99°
/
o dos recepto­
res são "reserva". Isso constitui uma imensa reserva funcional que
garante que quantidades adequadas de glicose entrem na célula. Na
outra ponta da escala, está o coração humano, no qual cerca de 5 a
10°
/
o dototal de adrenorreceptores 13 sãode reserva. Uma implicação
importante dessa observação é que há pouca reserva funcional no
coração insuficiente; a maioria dos receptores precisa ser ocupada
para obter a contratilidade máxima.
2. Dessensibilização dos receptores. A administração repetida ou
contínua de um agonista (ou um antagonista) pode levar a altera­
ções na responsividade do receptor. Para evitar possíveis lesões
às células (p. ex., altas concentrações de cálcio iniciam a morte ce­
lular), vários mecanismos se desenvolveram para proteger a célula
da estimulação excessiva. Quando a administração repetida de um
fármaco resulta em efeitos menores, o fenômeno é denominado ta­
quifilaxia. O receptor se torna dessensibilizado à ação do fármaco
(Figura 2.6). Nesse fenômeno, o receptor permanece presente na
superfície da célula, mas não responde ao ligante. Os receptores
também podem ser dessensibilizados por estimulação contínua. A
ligação do agonista resulta em alterações moleculares no receptor
ligado à membrana, de forma que o receptor sofre endocitose e é
preservado de interações adicionais com o agonista. Esses recepto­
res podem ser reciclados para a superfície celular, restabelecendo
a sensibilidade ou, de modo alternativo, podem ser processados e
degradados, diminuindo o número total de receptores disponíveis.
Alguns receptores, particularmente os canais estimulados porvolta-
Farmacologia Ilustrada 29
Umfármaco lipossolúvel di
funde-se
através da membrana celularevai até o
núcleo da célula.
CÉLULA·
·ALVO
Receptor
inativo
Ofármaco se liga
a um receptor.
NÚCLEO
O complexo fármaco­
-receptorse ligaà
cromatina, ativando a
Fármaco
Fármaco
Fármaco
Complexo
receptor
ativado
CITOSOL
RNAm
transcrição de genes
especí
ficos. RNAm
!'------'------
-
----'
�
Proteínas específicas
�
Efeitos biológicos
Figura 2.5
Mecanismo de receptores intracelula­
res. RNAm = RNA mensageiro.
30 Clark, Finkel, Rey &Whalen
l!I
A administração repetidade
um agonista (como a epinefrina)
em curto período detempo
resulta na diminuição da
resposta dacélula.
l
:i
a:
Injeção repetidado fármaco
Após um período de repouso,
aadministração dofármaco
resultaem uma resposta
de intensidadeoriginal.
Figura 2.6
Dessensibilização de receptores.
rJ
100 Fármaco A
o
E
·-
·
=
E
o
-
·
-
GI
ãi 50
o
"O
E
&
m
CEso
e
/'1
8
...
o o 1
Q.
.,.
Ili.
gem, exigem um tempo finito (período de repouso) após a estimula­
ção antes de poderem ser ativados novamente. Durante essa fase
de recuperação, eles são "refratários" ou "não responsivos".
-
RELAÇOES DOSE-RESPOSTA
O agonista é definido como o fármaco que pode se ligar ao receptor e provo­
car um efeito biológico. Um agonista em geral mimetiza a ação de um ligante
endógeno original no seu receptor, como a norepinefrina nos receptores 131
cardíacos. A intensidade do efeito depende da concentração do fármaco no
local do receptor que, por sua vez, é determinada pela dose do fármaco ad­
ministrado e por fatores característicos do perfil farmacocinético do fármaco,
velocidades de absorção, distribuição e biotransformação.
A. Relações dose-resposta graduais
À medida que a concentração de um fármaco aumenta, a intensidade do
seu efeito farmacológicotambém aumenta.A respostaé um efeito gradual,
ou seja, ela é contínua e graduada. Lançando a intensidade da resposta
contra as doses de um fármaco, obtém-se um gráfico que apresenta o for­
mato geral apresentado na Figura 2.7A. A curva pode ser descrita como
uma hipérbole retangular- uma curva muito familiar em biologia, pois pode
ser aplicada a diversos eventos biológicos, como a ligação de fármacos,
a atividade enzimática e as respostas aos agentes farmacológicos. Duas
propriedades importantes dosfármacos, potência e eficácia, podem serde­
terminadas nas curvas dose-resposta graduadas.
1 . Potência. A primeira propriedade é a potência, uma medida da
quantidade de fármaco necessária para produzir um efeito de uma
dada intensidade.A concentração de fármaco que produz um efeito,
que é igual a 50°
/
o do máximo, é usada para determinar a potência;
comumente isso é designado como CE50•Na Figura 2.7, a CE50dos
fármacos A e B estão indicadas. O fármacoA é mais potente do que
o B porque menorquantidade de fármaco A é necessário para obter
50°
/
o do efeito. Assim, as preparações terapêuticas dos fármacos
refletem a potência. Por exemplo, candesartano e irbesartano são
bloqueadores de receptores da angiotensina, que são usados indi-
m
0 100
E
·-
·=
Fármaco B E
o Fármaco B
-
·
-
GI
ãi
.g 50 -
-
-
-
-
-
-
-
E
&
m
-
e CEso
8
...
o
Q. o
[Fármaco] log [Fármaco]
Figura 2.7
A CEsoé a concentração dofármaco
que produz uma resposta igual a 50°/o
da resposta máxima.
A potência dofármaco podeser
comparada usando a CEso: quanto
menora CEso, mais potenteé ofármaco.
O efeito da dose na intensidade da resposta farmacológica. A. Gráfico em escala linear. B. Lançamento semilogarítmico
dos mesmos dados. CE50= dose do fármaco que provoca 50°
/
o da resposta máxima.
vidualmente ou em associação para o tratamento da hipertensão.
O candesartano é mais potente que o irbesartano, pois a faixa de
doses do candesartano é de 4 a 32 mg, comparado com a faixa de
75 a 300 mg do irbesartano. O candesartano seria o fármaco A e
o irbesartano o fármaco B na Figura 2.7. Gráficos semilogarítmi­
cos são empregados com frequência, pois a faixa das doses (ou
concentrações) pode ter uma distribuição muito ampla. Lançando o
log da concentração, a faixa completa de doses pode ser lançada.
Como apresentado na Figura 2.78, as curvas assumem a forma
sigmoide, o que simplifica a interpretação da dose e resposta.
2. Eficácia. A segunda propriedade que pode ser determinada das cur­
vas dose-resposta é a eficácia do fármaco. Ela significa a habilidade
do fármaco de provocar a resposta farmacológica quando interage
com um receptor.A eficácia depende do número de complexos fárma­
correceptorformados eda eficiênciado acoplamentodesde a ativação
do receptor até a resposta celular. Em analogia com a velocidade má­
xima das reações catalisadas por enzimas, a resposta máxima (Emáx)
ou eficácia é mais importante do que a potência do fármaco. Um fár­
maco com maior eficácia é terapeuticamente mais benéfico do que
um que é mais potente. A eficácia máxima de um fármaco considera
que todos os receptoresestão ocupados pelofármaco e não se obterá
aumento na resposta se mais fármaco for administrado. Este conceito
só éválido se não existem"receptores de reserva" (ver p. 29).A Figura
2.8 mostra a resposta afármacos de diferentes potências e eficácias.
B. Efeito da concentração do fármaco nas ligações com o
receptor
A relação quantitativa entre a concentração do fármaco e a ocupação
dos receptores aplica a lei de ação das massas à cinética de ligação do
fármaco com as moléculas receptoras:
Fármaco + Receptor � Complexo fármaco-receptor--7 Efeito biológico
Admitindo que a ligação de uma molécula não altera a ligação de mo­
léculas subsequentes e aplicando a lei de ação das massas, pode-se
expressar matematicamente a relação entre a porcentagem (ou a fração)
de receptores ocupados e a concentração do fármaco:
[DR] _
[Rt]
[D]
Kd + [D]
(1)
em que [D] = a concentração do fármaco livre; [DR] = a concentração do
fármaco ligado; [R1] = a concentração total de receptores, que é igual à
soma dos receptores ocupados e dos receptores não ocupados (livres);
e Kd= a constante de dissociação de equilíbrio para o fármaco do recep­
tor. O valor Kd pode ser usado para determinar a afinidade do fármaco
pelo seu receptor. A afinidade descreve a força da interação (ligação)
entre o ligante e o seu receptor. Quanto maior o valor de Kd, mais fraca
é a interação e menor a afinidade. O fenômeno inverso ocorre quando o
fármaco tem um valorde Kd baixo.A fixação do ligante ao receptor é forte
e a afinidade elevada. A equação (1) define a curva que tem a forma de
uma hipérbole retangular (Figura 2.9A). À medida que a concentração do
fármaco livre aumenta, a relação entre a concentração do receptor ligado
e a concentração dos receptorestotais se aproxima da unidade.A ligação
Farmacologia Ilustrada 31
OfármacoA é mais
potentedoqueo
fármacoB,mastem
amesmaeficácia.
ofármacoc apre­
sentamenorpo­
tênciaemenor
eficáciadoqueos
fármacosAeB.
100
o
.Si
CJI
•O
õ50 - - - - ­
:s
o
-
·-
itl
Fármaco Fármaco
1 A - -
B
1
1
1- - - - - - - - - - -
1 1
á
1 _/ 1 rmaco
, 1 : e
• 1
o
Logdaconcentraçãodefármaco
t
CE50
do
fármacoA
Figura 2.8
t
CE50
do
fármacoB
t
CE50
do
fármacoe
Curvas dose-resposta típicas para fár­
macos que mostram diferenças em
potência e eficácia. (CE50 = dose do
fármaco que provoca 50o/
o da resposta
máxima.)
'iii' 1
o ......
"O Ul
m ·
-
e. .l!I
� g
o Ul
e � o,5
g e.
e. QI
� �
a: ......
......
Figura 2.9
Dose
Logdose
O efeito da dose na intensidade da liga­
ção do fármaco.
32 Clark, Finkel, Rey &Whalen
O agonista total provoca
a ativação total do receptor
nas concentrações
elevadas do fármaco.
A ligação do agonista parcial
resulta na ativação de menos
de 100'Y
o, mesmo em concen­
trações muito elevadas.
100
...
s 75
8
I!!
o
"O
Agonistaparcial
.g 50
�
·
-
>
·-
êt
25
Logdaconcentraçãodofármaco
O agonista inverso provoca
uma resposta aquém da linha
de base mensurada na
ausência de fármaco.
Neste exemplo, cerca de 12% dos
receptores têm atividade
constitutiva na ausência do
agonista.
Figura 2.10
Efeitos dos agonistas total, parcial e in­
verso na atividade do receptor.
do fármaco ao seu receptor inicia eventos que, no final, levam à resposta
biológica mensurável. Assim, não é surpresa que as curvas mostradas
na Figura 2.9 e aquelas que representam a relação entre dose e efeito
(vistas na Figura 2.7) sejam similares.
C. Relações da ligação do fármaco com o efeito farmacológico
O modelo matemático que descreve a concentração dofármaco e a ligação
ao receptor pode ser aplicado à dose (concentração do fármaco) e à res­
posta (ou efeito), desde que as seguintes premissas sejam atendidas: 1) o
tamanho da resposta é proporcional à quantidade de receptores ligados ou
ocupados; 2) o Emáx ocorre quando todos os receptores estão ocupados; e
3) a ligação dofármaco ao receptor não exibe cooperatividade. Nesse caso,
[E]
[Emáx1
[D]
- -
�
-
Kd + [D]
(2)
em que [E] = o efeito do fármaco na concentração [D] e [Emáxl = o efeito
máximo do fármaco.
IV. AGONISTAS
Um agonista se liga ao receptor e produz uma resposta biológica. Um ago­
nista pode mimetizar a resposta do ligante endógeno no receptor ou pode
provocar uma resposta diferente deste receptor e seu mecanismo.
A. Agonistas totais
Se um fármaco se liga a um receptor e produz a resposta biológica máxi­
ma que mimetiza a resposta do ligante endógeno, ele é denominado ago­
nista total (Figura 2.1 O). Os receptores existem nos estados conformacio­
nais ativo e inativoque estão em equilíbrio reversível entre si. Os fármacos
que ocupam o receptor podem estabilizá-lo em um determinado estado
conformacional. Assim, outra definição de agonista é um fármaco que se
liga ao receptor estabilizando-o no seu estado conformacional ativo. Por
exemplo, a fenilefrina é um agonista nos adrenoceptores a, porque provo­
ca efeitos que se assemelham à ação do ligante endógeno norepinefrina.
Após ligar-se ao adrenoceptor a, na membrana do músculo liso vascular,
a fenilefrina estabiliza o receptor em seu estado ativo. Isso mobiliza Ca
2
+
intracelular, causando interação dos filamentos de actina e miosina. O en­
curtamento das células musculares diminui o diâmetrodas arteríolas, cau­
sando um aumento na resistência ao fluxo sanguíneo, através dos vasos.
A pressão arterial aumenta para manter esse fluxo. Como esta descrição
breve ilustra, um agonista pode tervários efeitos que podem ser medidos,
incluindo ações em moléculas intracelulares, em células, em tecidos e no
organismo inteiro. Todas essas ações são atribuídas à interação da mo­
lécula do fármaco com a molécula receptora. Em geral, um agonista total
tem elevada afinidade pelo seu receptor e boa eficácia.
B. Agonistas parciais
Os agonistas parciais têm eficácia (atividade intrínseca) maior do que
zero, mas menordo que a de um agonistatotal (Figura 2.10). Mesmo que
todos os receptores sejam ocupados, os agonistas parciais não conse­
guem produzir um Emáx da mesma amplitude de um agonista total. Entre­
tanto, o agonista parcial pode ter uma afinidade que é maior, menor ou
equivalente à do agonistatotal. A característicasingular dessesfármacos
é que, sob condições apropriadas, o agonista parcial pode atuar como
um antagonista de um agonista total. Considere o que ocorreria com o
Emáx de receptor saturado com um agonista na presença de concentra­
çõescrescentes deagonista parcial (Figura 2.1 1). À medida que o núme­
ro de receptores ocupados pelo agonista parcial aumenta, o Emáx diminui
até alcançaro Emáx do agonista parcial. Esse potencial dos agonistas par­
ciais de atuar de modo agonístico ou antagonístico pode ser explorado
de forma terapêutica. Por exemplo, aripiprazol, um fármaco neuroléptico
atípico, é um agonista parcial em certos receptores de dopamina. As vias
dopaminérgicas que estiverem superativas tendem a ser inibidas pelo
agonista parcial, ao passo que as vias que estiverem subativas podem
ser estimuladas. Isso explica a habilidade do aripiprazolde reduzir vários
sintomas da esquizofrenia, com riscos mínimos de causar efeitos adver­
sos extrapiramidais (ver p. 152-157).
C. Agonistas inversos
Tipicamente os receptores livres são inativos e precisam da interação
com um agonista para assumir uma conformação ativa. Entretanto, al­
guns receptores revelam uma conversão espontânea de R para R* na
ausência de agonistas (isto é, eles podem ser ativos sem a presença de
um agonista). Esses receptores, mostram uma atividade constitutiva que
é parte da resposta basal mensurada na ausência de fármaco. Os ago­
nistas inversos, diferentemente dos agonistas totais, estabilizam a forma
R inativa. T
odos os receptores constitutivamente ativos são forçados ao
estado inativo pelo agonista inverso. Isto diminui o número de receptores
ativados para menos do que observado na ausência do fármaco (ver Fi­
gura 2.1O). Assim, os agonistas inversos revertem a atividade constitutiva
dos receptores e exercem um efeito farmacológico oposto aos agonistas.
V. ANTAGONISTAS
Antagonistas são fármacos que diminuem ou se opõem à ação de outro fár­
maco ou ligante endógeno. Um antagonista nãotem efeito na ausência de um
agonista. O antagonismo pode ocorrer de vários modos. Muitos antagonistas
atuam na mesma macromolécula receptora que o agonista. Entretanto, os an­
tagonistas não têm atividade intrínseca e, por isso, não provocam efeitos por
si próprios. Ainda que os antagonistas não tenham atividade intrínseca, eles
são capazes de se fixar avidamente aos receptores-alvo, porque possuem
forte afinidade.
A. Antagonistas competitivos
Se ambos, antagonista e agonista, se ligam ao mesmo local receptor,
eles são denominados "competitivos". O antagonista competitivo impede
que um agonista se ligue ao seu receptor e mantém este receptor no
estado conformacional inativo. Por exemplo, o anti-hipertensivo terazosi­
na compete com o ligante endógeno norepinefrina nos adrenoceptores
a1, diminuindo, assim, o tônus do músculo liso vascular e reduzindo a
pressão arterial. Lançando o efeito do antagonista competitivo em gráfi­
co, tem-se um deslocamento característico para a direita, da curva dose­
-resposta do agonista (Figura 2.1 2).
B. Antagonistas irreversíveis
Um antagonista irreversível causa uma redução do efeito máximo sem
deslocamento da curva no eixo das doses, a menosque existam, presen­
tes, receptores de reserva. O efeito do antagonista competitivo pode ser
superadocom adição de mais agonista. Ao contrário, o efeito dos antago-
Farmacologia Ilustrada 33
Agonlstatotal
Legenda: +
Agonlstaparcial •
Receptor
completamenteativo
Receptor
parcialmenteativo
Níveiselevadosdeagonlstapodem
ativartodososreceptoreseprovocar
estimulaçãoexcessivaIndesejada.
+�
Apresençadeagonistaparcial
deslocaalgumasmoléculasde
agonlsta,resultandonuma
reduçãonarespostado
receptor.
Respostatotal
Resposta
produzida ___..,�,
peloagonlsta
total
-10 -8 -6
Log(agonlstaparcial)
Respostaproduzida
peloagonlstaparcial
Emconcentraçãoelevadadeagonista
parcial,oagonlstaestácompleta­
mentedeslocadoeaatividadedo
receptoré determinadapelaatividade
intrínsecadoagonlstaparcial.
Figura 2.11
Efeitos dos agonistas parciais.
34 Clark, Finkel, Rey &Whalen
o
.�
CJI
•O
õ
:s
o
-
·
-
di
Fármacocom
antagonista
nãocompetitivo
Fármaco
isolado
)
Fármacocom
antagonista
competitivo
)
Concentraçãodofármaco
t
CEso
paraofármaco
isoladoouna
presençadeum
antagonista
nãocompetitivo
Figura 2.12
t
CEso
paraofármac.o
napresençade
umantagonista
competitivo
Efeitosdefármacosantagonistas. CE50=
dose do fármaco que provoca 50°
/
o da
resposta máxima.
nistas irreversíveis não pode sersuperado adicionando mais agonista. Os
antagonistas competitivos aumentam a DE50, enquanto os antagonistas
irreversíveis não o fazem (exceto que haja receptores de reserva). Há
dois mecanismos pelos quais um fármaco pode atuar como antagonis­
ta não competitivo. O antagonista pode ligar-se covalentemente ou com
afinidade muito alta ao local ativo do receptor (antagonista irreversível).
Esta irreversibilidade reduz o número de receptores disponíveis para o
agonista. O agonista não consegue deslocar o antagonista, mesmo que
a dose aumente. O segundo tipo de antagonistas se fixa em um local
("local alostérico") diferente do que o local de ligação do agonista. Este
antagonista alostérico impede o receptor de ser ativado mesmo quando
o agonista está fixado no local ativo. Se o antagonista se fixa a um lo­
cal diferente do que se liga o agonista, a interação é "alostérica". Existe
uma diferença na curva dose-resposta de um agonista na presença de
um antagonista competitivo e de um não competitivo. Na presença do
antagonista competitivo, a resposta máxima do agonista pode ser alcan­
çada aumentando a dose de agonista. O resultado é um aumento no
valor de CE50 e manutenção da eficácia do agonista (ver Figura 2.12). Na
presença de um antagonista não competitivo, a resposta máxima não é
observada mesmo aumentando a dose do agonista. Portanto, a diferença
fundamental entre o antagonista competitivo e o não competitivo é que no
competitivo o antagonista reduz a potência do agonista, e o não competi­
tivo reduz a eficácia do agonista.
C. Antagonismo funcional e químico
Um antagonista pode atuar em um receptor completamente separado,
iniciando eventos que são funcionalmente opostos aos do agonista. O
exemplo clássico é o antagonismo funcional pela epinefrina da bronco­
constrição induzida por histamina. A histamina se liga aos receptores H1
histamínicos na musculatura lisa bronquial, causando contração e es­
treitamento da árvore respiratória. A epinefrina é um agonista nos adre­
norreceptores 132 na musculatura lisa bronquial, que promove o relaxa­
mento do músculo. O antagonismo funcional também é conhecido como
"antagonismo fisiológico". O antagonismo químico evita as ações de um
agonista, modificando-o ou sequestrando-o, de modo que fica incapaz
de se ligar e de ativar seu receptor. Por exemplo, o sulfato de protamina
é um antagonista químico da heparina (ver p. 251). Ele é uma proteína
básica (com cargas positivas) que se fixa à heparina ácida (com cargas
negativas), prevenindo rapidamente seus efeitos terapêuticos, bem como
os tóxicos. (O antagonismo farmacocinético descreve a situação na qual
o antagonismo diminui de modo eficaz a concentração do fármaco ativo.
Isto pode acontecerquando a absorção do fármaco diminui ou se aumen­
tam a biotransformação e a excreção renal do fármaco.)
-
VI. RELAÇOES DOSE-RESPOSTA QUANTAIS
Outra relação dose-resposta importante é a da influência da intensidade
da dose na proporção da população que responda a essa dose. Essas
respostas são conhecidas como respostas quantais, pois, paracada indiví­
duo, o efeito se desenvolve ou não. Mesmo respostas graduais podem ser
consideradas quantais se um determinado nível de resposta gradual for
designado como o ponto no qual a resposta ocorre ou não. Por exemplo,
pode ser determinada uma relação dose-resposta quanta! na população
para o anti-hipertensivo atenolol. A resposta positiva é definida como uma
redução de no mínimo 5 mmHg na pressão sanguínea diastólica. Curvas
dose-resposta quantais são úteis na determinação das doses às quais a
maioria da população responde.
,
A. lndice terapêutico
O índice terapêutico (IT) de um fármaco é a relação da dose que produz
toxicidade com a dose que produz o efeito eficaz ou clinicamente deseja­
do em uma população de indivíduos:
Índice terapêutico = DT50 1 DE50
em que DT50 = a dose do fármaco que produz efeito tóxico em metade da
população, e DE50 = a dose do fármaco que produz uma resposta tera­
pêutica ou desejada na metade da população. O índice terapêutico é uma
mensuração da segurança do fármaco, pois um valor elevado indica uma
grande margem entre as doses que são efetivas e as que são tóxicas.
B. Determinação do índice terapêutico
O índice terapêutico é determinado pela mensuração da frequência da
resposta desejada e da resposta tóxica em várias doses do fármaco. Por
convenção, as doses que produzem o efeito terapêutico (DE50) e o efei­
to tóxico em 50°
/
o (DT50) da população são empregadas. Em humanos,
o índice terapêutico é determinado pelo uso de triagem do fármaco e
pela experiência clínica acumulada. Em geral, eles revelam uma faixa de
doses eficazes e uma faixa distinta (algumas vezes, com sobreposição)
de doses tóxicas. Embora alguns fármacos tenham índices terapêuticos
pequenos, eles são usados rotineiramente para tratar certas doenças.
Várias doenças letais, como linfomade Hodgkin, são tratadas com fárma­
cos que têm índice terapêutico pequeno; mas, porexemplo, o tratamento
de uma cefaleia simples com fármaco de índice terapêutico pequeno é
inaceitável. A Figura 2.13 mostra as respostas à varfari
na, um anticoa­
gulante oral com índice terapêutico pequeno, e à penicilina, um fármaco
antimicrobiano com índice terapêutico amplo.
1. Varfarina (exemplo de fármaco com índice terapêutico peque­
no). À medida que a dose de varfarina aumenta, uma maior fração
dos pacientes responde (para essefármaco, a resposta desejada é o
aumento de duas a três vezes na relação normalizada internacional
[INR]), até quefinalmente todos os pacientes respondem (ver Figura
2.13A). Contudo, nas doses mais elevadas de varfarina, ocorre uma
resposta tóxica, ou seja, um elevado grau de anticoagulação que
resulta em hemorragia. (Nota: quando o índice terapêutico é baixo,
é possível ter uma faixa de concentrações em que a resposta eficaz
e a tóxica se sobrepõem. Isto é, alguns pacientes têm hemorragia, e
outros alcançam o prolongamento desejado de duas a três vezes no
INR.) A variação na resposta do paciente é, portanto, mais provável
de ocorrer com um fármaco que tem índice terapêutico baixo, pois
as concentrações eficazes e tóxicas são similares. Fármacos com
índices terapêuticos pequenos - ou seja, fármacos para os quais a
dose é crucialmente importante - são aqueles cuja biodisponibilida­
de altera de modo crítico o efeito terapêutico (ver p. 8).
2. Penicilina (exemplo de fármaco com índice terapêutico amplo).
Para fármacos como a penicilina (ver Figura 2.138), é seguro e co­
mum administrar doses em excesso (com frequência, com excesso
de 1O vezes) daquela que é a minimamente necessária para alcan­
çar a resposta desejada. Nesse caso, a biodisponibilidade não alte­
ra criticamente os efeitos terapêuticos ou clínicos.
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Farmacologia Ilustrada 35
Varfarina: índice
terapêutico pequeno
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Efeito
terapêutico Efeito
desejado adverso
Logconcentraçãodo
fármaconoplasma
(unidadesarbitrárias)
(indesejado
Figura 2.13
Porcentagem cumulativa de pacientes
que respondem aos níveis plasmáticos
de varfarina e benzi/penicilina.
36 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
2.1 O fármaco X provoca uma contração máxima do músculo
cardíaco de modo similar à epinefrina. O fármaco X é con­
siderado um:
A. Agonista
B. Agonista parcial
C. Antagonista competitivo
D. Antagonista irreversível
E. Agonista inverso
2.2 Qual das seguintes afirmativas está correta?
A. Se 1O mg do fármaco A produzem a mesma resposta
que 100 mg do fármaco B, o fármaco A é mais eficaz
do que o fármaco B.
B. Quanto maior a eficácia, maior a potência do fármaco.
C. Na seleção de um fármaco, a potência em geral é mais
útil do que a eficácia.
D. O antagonismo competitivo aumenta a DE50•
E. Variações na resposta a um fármaco entre pessoas
diferentes ocorrem mais provavelmente com fármacos
que têm índice terapêutico amplo.
2.3 As variações na sensibilidade da população ao aumento de
doses de um fármaco devem ser estimadas por meio de:
A. Eficácia
B. Potência
c. Índice terapêutico
D. Curva dose-resposta gradual
E. Curva dose-resposta quanta!
2.4 Qual das seguintes afirmativas descreve de forma mais
precisa o sistema que tem receptores de reserva?
A. O número de receptores de reserva determina o efeito
, .
maxrmo.
B. Os receptores de reserva são sequestrados no citosol.
C. Uma simples interação fármaco-receptor resulta na ati­
vação de vários elementos da resposta celular.
D. Os receptores de reserva são ativos mesmo na pre­
sença do agonista.
E. A afinidade dos agonistas pelos receptores de reser­
va é menor do que sua afinidade pelos receptores que
não são de reserva.
Resposta correta = A. Um agonista mimetiza as ações do ligante en­
dógeno. Um agonistaparcial só produz um efeito parcial. Um antago­
nista bloquearia ou diminuiria os efeitos de um agonista endógeno
produzindo um efeitoopostoàquele do ligante endógeno. Um agonis­
ta inverso reverte a atividade constitutiva dos receptores e exerce um
efeitofarmacológico oposto do agonista.
Resposta correta = D. Na presença de um antagonista competitivo, é
necessária uma maior concentração de fármaco para provocar uma
determinada resposta. A eficácia e a potência podem variar inde­
pendentemente e, com frequência, a resposta máxima obtida é mais
importante do que a quantidade de fármaco necessária para obtê­
·la. Por exemplo, na alternativa A, não foi dada nenhuma informação
sobrea eficácia do fármacoA;assim, só pode-sedizerque o fármaco
A é mais potente do que o B. A variabilidade entre os pacientes na
farmacocinética de um fármacoé mais importanteclinicamente quan­
do a dose eficaz e a tóxica não são muito diferentes, como é o caso
de um fármaco que tem índice terapêutico pequeno.
Resposta correta = E. Somente curvas dose-resposta quantais dão
informações sobre diferenças na sensibilidade de indivíduos ao au­
mentode doses de um fármaco.
Resposta correta = C. Uma explicação para a existência de recepto­
res de reserva é que qualquer ligação agonista-receptor pode levarà
ativação de vários elementos de resposta celular. Assim, só uma pe­
quena fração do total de receptores precisa ser ativada para obter a
resposta celular máxima.As outras opções não descrevem sistemas
receptores de reserva em precisão.
ervoso
1. RESUMO
O sistema nervoso autônomo (SNA), junto com o sistema endócrino, coordena
a regulação e a integração das funções corporais. O sistema endócrino envia
sinais aos tecidos-alvo, variando os níveis de hormônios na corrente sanguínea.
O sistema nervoso exerce sua influência pela rápida transmissão de impulsos
elétricos nas fibras nervosas que terminam nas células efetoras, as quais res­
pondem especificamente à liberação de substâncias neurotransmissoras. Fár­
macos que produzem seu efeito terapêutico primário, mimetizando ou alterando
as funções do SNA, são denominados fármacos autonômicos e são discutidos
nos próximos quatrocapítulos. Esses fármacos autonômicosatuam estimulando
porçõesdo SNAou bloqueandoasações dos nervosautonômicos. Este capítulo
resume a fisiologia fundamental do SNA e descreve o papel dos neurotransmis­
sores na comunicação entre eventos extracelulares e alterações químicas no
interiorda célula.
Sistema nervoso
-
li. INTRODUÇAO AO SISTEMA NERVOSO
Sistema
nervoso
periférico
Divisão
eferente
Sistema
autonômo
-Entérico
Sistema
nervoso
central
Divisão
aferente
Sistema
somático
O sistema nervoso está dividido em duas seções anatômicas: o sistema nervo­
so central (SNC), que compreende o cérebro e a medula espinal, e o sistema -Parassimpático
. , .
-
nervoso periférico, que inclui os neurônios localizados fora do cérebro e da me- Simpatico
dula espinal - ou seja, qualquer nervo que entra ou sai do SNC (Figura 3.1). O
sistema nervoso periférico se subdivide em: eferente, os neurônios que trans- Figura 3·1
portam os sinais oriundos do cérebro e da medula espinal; e em aferente, os Organização do sistema nervoso.
neurônios que trazem as informações da periferia ao SNC. Os neurônios afe-
rentes trazem os impulsos sensoriais para modulara função da divisão eferen-
te por meio de arcos reflexos ou vias neurais que intermedeiam a ação reflexa.
A. Divisão funcional do sistema nervoso
A porção eferente do sistema nervoso periférico é dividida em dois sis­
temas funcionais principais: o sistema somático e o sistema autônomo
(ver Figura 3.1). Os neurônios eferentes somáticos estão envolvidos no
38 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Troncocerebral
oumedula
espinal
Corpocelular-+��e
D
Figura 3.2
Transmissorganglionar
•
�
Transmissorneuroefetor
Órgão
efetor
Neurônios eferentes do sistema nervo­
so autônomo.
controle voluntário de funções como a contração dos músculos esqueléti­
cos, essencial paraa locomoção. O sistema autônomo, porsua vez, regu­
la as exigências diárias das funções corporais vitais sem a participação
consciente do cérebro. Devido à natureza involuntáriado 8NA, bem como
das suas funções, ele também é denominado sistema nervoso visceral,
vegetativo ou involuntário. Ele é composto de neurônios eferentes que
inervam os músculos lisos das vísceras, o músculo cardíaco, o vascular e
as glândulas exócrinas, controlando, assim, a digestão, o débito cardíaco,
o fluxo sanguíneo e as secreções glandulares.
B. Anatomia do sistema nervoso autônomo
1 . Neurônios eferentes. O 8NA transporta impulsos nervosos do
8NC para os órgãos efetores por meio de dois tipos de neurônios
eferentes (Figura 3.2). O primeiro é o neurônio pré-ganglionar (seu
corpo celular está localizado no interior do 8NC). Os neurônios pré­
-ganglionares emergem do tronco cerebral ou da medula espinal e
fazem sinapse em gânglios (uma agregação de corpos celulares
de nervos localizados na periferia do sistema nervoso periférico).
Esses gânglios funcionam como um relé entre o neurônio pré-gan­
glionar e o pós-ganglionar. O neurônio pós-ganglionar tem corpo
celular no gânglio. Ele, em geral, é não mielinizado e termina nos ór­
gãos efetores, como músculos lisos das vísceras, músculo cardíaco
e glândulas exócrinas.
2. Neurônios aferentes. Os neurônios aferentes (fibras) do 8NA são
importantes na regulação reflexa desse sistema (p. ex., sentindo a
pressão nos seios carotídeos e no arco aórtico) e na sinalização do
8NC para influenciar os ramos eferentes do sistema para proceder
os ajustes.
3. Neurônios simpáticos. O 8NA eferente é dividido nos sistemas
nervosos simpático, parassimpático e entérico (ver Figura 3.1).
Anatomicamente, os neurônios simpáticos e parassimpáticos se
originam no 8NC e emergem de duas regiões diferentes da medu­
la espinal. Os neurônios pré-ganglionares do sistema simpático se
originam das regiões torácica e lombar da medula espinal (T1 à L2)
e fazem sinapse em duas cadeias de gânglios que correm próximos
e paralelos em cada lado da medula espinal. Os neurônios pré-gan­
glionares são curtos comparados com os pós-ganglionares. Os axô­
nios dos neurônios pós-ganglionares se estendem desses gânglios
até os tecidos que eles inervam e regulam (ver Capítulo 6). Devido à
sua origem, o sistema nervoso simpático também é denominado di­
visão toracolombar. Na maioria dos casos, as terminações nervosas
pré-ganglionares do sistema nervoso simpático ramificam-se muito,
permitindo que um neurônio pré-ganglionar interajacom vários neu­
rônios pós-ganglionares. Esta estruturação permite a esta divisão
do 8NA ativar numerosos órgãos efetores ao mesmo tempo. (Nota:
a medula suprarrenal, como os gânglios simpáticos, recebe fibras
pré-ganglionares do sistema simpático. Ela, sem axônios, em res­
posta à estimulação pelo neurotransmissor ganglionar acetilcolina,
influencia outros órgãos secretando o hormônio epinefrina, também
denominado adrenalina, e menores quantidades de norepinefrina
no sangue.)
4. Neurônios parassimpáticos. As fibras pré-ganglionares paras­
simpáticas emergem com os nervos craniais Ili (oculomotor), VII
(facial), IX (glossofaríngeo) e X (vago), bem como da região sacral
da medula espinal (82 a 84) e fazem sinapse nos gânglios próxi­
mos dos órgãos efetores. (O nervo vago contém 90o/o das fibras
parassimpáticas pré-ganglionares do organismo. Os neurônios
pós-ganglionares destes nervos inervam a maioria dos órgãos
nas cavidades torácica e abdominal.) Devido à origem do sistema
nervoso parassimpático, ele também é denominado divisão cra­
niossacral.Assim, em contraste com o sistema simpático, as fibras
pré-ganglionares são longas e as pós-ganglionares são curtas. Os
gânglios se situam próximos ou no interior do órgão inervado. Na
maioria dos casos, existe uma relação um-para-um entre os neu­
rônios pré e pós-ganglionares, permitindo uma resposta localizada
desta divisão.
5. Neurônios entéricos. O sistema nervoso entérico é a terceira divi­
são do SNA. Ele compreende uma coleção de fibras nervosas que
inervam o TGI, o pâncreas e a vesícula biliar, constituindo-se no
"cérebro do intestino". Esse sistema funciona independentemente
do SNC e controla a motilidade, as secreções exócrinas e endócri­
nas e a microcirculação do TGI. Ele é modulado tanto pelo sistema
nervoso simpático quanto pelo parassimpático.
C. Funções do sistema nervoso simpático
Embora continuamente ativa em algum grau (p. ex., na manutenção do
tônus do leito vascular), a divisão simpática tem a propriedade de ade­
quar a resposta às situações estressantes, como trauma, medo, hipogli­
cemia, frio e exercício (Figura 3.3).
OLHO
Emvermelho=efeitossimpáticos
Emazul=efeitosparassimpáticos
Contraçãodomúsculo
radialdaíris(pupiladilata)
Contraçãodomúsculo
esfincter(pupilacontrai)
contraçãodomúsculociliar
(cristalinoseacomodaparavisãopróxima)
TRAQUEIAEBRONQUÍOLOS
Dilatação
Constriçãoaumentamassecreções
MEDULASUPRARRENAL
Secreçãodeepinefrinaenorepinefrina
RINS
Secreçãodarenina(131 aumenta;
a1 diminui)
URETEREBEXIGA
Relaxaomúsculodetrusor;
contraçãodotrígonoedoesfincter
Contraçãododetrusor;
relaxamentodotrígonoedoesfincter
GENITÁLIA(MASCULINA)
Estimulaaejaculação
Estimulaaereção
Figura 3.3
Ação dos sistemas nervosos parassimpático e simpático nos órgãos efetores.
Farmacologia Ilustrada 39
GLÂNDULASLACRIMAIS
Estimulalacrimação
GLÂNDULASSALIVARES
Secreçãoespessa,viscosa
Secreçãoabundante,aquosa
CORAÇÃO
Aumentaafrequênciaeacontratilidade
Diminuiafrequênciaeacontratilidade
GASTRINTESTINAL
Diminuiamotilidadeeotônusmuscular;
contraçãodosesfíncteres
Aumentaamotilidadeeotônusmuscular
GENITÁLIA(FEMININA)
Relaxamentodoútero
VASOSSANGUÍNEOS
(músculoesquelético)
Dilatação
VASOSSANGUÍNEOS
(pele,membranasmucosas
eáreaesplãncnica)
Constrição
40 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Estímulos
"luteoufuja"
Descargasimpática
(difusa porque os neurônios
pós-ganglionares podem inervar
mais de um órgão)
Estímulos
"repouseedigira"
Descargaparassimpática
(localizada porque os neurônios
pós-ganglionares não são ramificados,
mas se dirigem a um órgão específico)
Asaçõessimpáticae
parassimpáticacom
frequênciaseopõem
Figura 3.4
As ações simpática e parassimpática
são desencadeadas por estímulos di­
ferentes.
1. Efeitos da estimulação da divisão simpática. O efeito do simpáti­
co é aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial, mobilizar
reservas de energia do organismo e aumentar o fluxo sanguíneo
para os músculos e o coração desviando-o da pele e dos órgãos
internos. A estimulação simpática resulta em dilatação das pupilas
e dos brônquios (Figura 3.3). Elatambém afeta a motilidade gastrin­
testinal e a função da bexiga e dos órgãos sexuais.
2. A resposta "lute ou fuja". As alterações experimentadas pelo orga­
nismo durante emergências têm sido referidas como respostas "lute
ou fuja" (Figura 3.4). Essas reações são iniciadas tanto por ativação
simpática direta dos órgãos efetores quanto por estimulação da me­
dula suprarrenal, liberando epinefrina e, em menor extensão, norepi­
nefrina.Os hormônios liberados pelasuprarrenal entram na circulação
sanguínea e promovem resposta nos órgãos efetores, que contêm re­
ceptores adrenérgicos (ver Figura 6.6). O sistema nervoso simpático
tende a funcionar como uma unidade e com frequência descarrega
como um sistema completo - por exemplo, durante um exercício in­
tenso ou em reações de medo (ver Figura 3.4). Esse sistema, com
sua distribuição difusa das fibras pós-ganglionares, está envolvido
com umaamplavariedade de atividadesfisiológicas. Embora não seja
essencial para avida, é um sistema importante que preparao organis­
mo para lidarcom situações incertas e estímulos inesperados.
D. Funções do sistema nervoso parassimpático
A divisão parassimpática está envolvida com a manutenção da homeos­
tasia do organismo. Para realizar esta atividade, mantém as funções
corporais essenciais, como os processos digestórios e a eliminação de
resíduos. A divisão parassimpática é necessária para a vida. Geralmente
ela atua para oporou para equilibrar as ações da divisão simpática e, em
geral, é dominante sobre o sistema simpático e situações de "repouse e
digira". O sistema parassimpático não é uma entidade funcional como tal
e nunca descarrega como um sistema completo. Se isso acontecer, ele
produz sintomas massivos, indesejáveis e desagradáveis, como micção
e defecação involuntária. De fato, apenas algumas fibras parassimpáticas
são ativadas separadamente, e o sistema funciona para afetar órgãos
específicos, como o estômago ou o olho.
E. Papel do sistema nervoso central no
controle das funções autônomas
Embora o SNA seja um sistema motor, ele requer impulsos sensoriais
de estruturas periféricas para proporcionar informações sobre o estado
das funções do organismo. Essa retroalimentação é proporcionada pelas
ondas de impulsos aferentes, originados nas vísceras e em outras estru­
turas inervadas pelo sistema autônomo, que vão até os centros integra­
dores no SNC - como, o hipotálamo, o bulbo e a medula espinal. Esses
centros respondem ao estímulo enviando impulsos reflexos eferentes por
meio do SNA (Figura 3.5).
1. Arcos reflexos. A maioria dos impulsos aferentes é transforma­
da em respostas reflexas sem envolvimento da consciência. Por
exemplo, uma redução da pressão arterial determina que neurônios
sensíveis à pressão (barorreceptores no coração, veia cava, arco
aórtico e seios carotídeos) enviem menos impulsos aos centros car­
diovasculares no cérebro. Isso determina uma resposta reflexa de
aumento do débito simpático ao coração e aos vasos e diminui o
débito parassimpático para o coração, resultando em um aumen­
to compensador da pressão arterial e taquicardia (ver Figura 3.5).
(Nota: em cada caso, o arco reflexo do SNA compreende um ramo
sensorial [aferente] e um ramo motor [eferente ou efetor]).
2. Emoções e o SNA. Estímulos que provocam sensações fortes,
como raiva, medo ou prazer, podem modificar a atividade do SNA.
F. Inervação pelo sistema nervoso autônomo
1 . Inervação dupla. A maioria dos órgãos do organismo é inervada
por ambas as divisões do SNA. Assim, a inervação parassimpáti­
ca vagai diminui a frequência cardíaca, e a inervação simpática a
aumenta. Apesar dessa inervação dual, um sistema em geral pre­
domina no controle da atividade de um dado órgão. Por exemplo,
no coração, o nervo vago é o fator predominante no controle da
frequência. Esse tipo de antagonismo é dinâmico e tem ajuste fino a
cada instante, visando ao controle homeostático da função orgâni­
ca. A atividade de um sistema representa a integração da influência
das duas divisões.
2. Órgãos que só recebem a inervação simpática. Embora a maioria
dos tecidos receba inervação dual, alguns órgãos efetores, como a
medulasuprarrenal, os rins, os músculos piloeretores e as glândulas
sudoríparas, recebem somente inervação do sistema simpático. O
controle da pressão arterial também é uma atividade principalmente
simpática, sem participação significativa do sistema parassimpático.
G. Sistema nervoso somático
O sistema nervoso somático eferente difere do sistema autônomo pelo
fato de um único neurônio motor mielinizado, originado no SNC, ir direta­
mente ao músculo esquelético sem a intermediação de gânglios. Como
já salientado, o sistema nervoso somático está sob controle voluntário, e
o autônomo é um sistema involuntário. Em geral, as respostas na divisão
somática são mais velozes do que as do SNA.
H. Resumo das diferenças entre os nervos simpáticos,
parassimpáticos e motores
As principais diferenças na organização anatômica dos neurônios levam
a variações nas funções de cada divisão (Figura 3.6). O sistema nervoso
simpático é amplamente distribuído, inerva praticamente todos os siste­
mas efetores do organismo. Em contraste, a distribuição dadivisão paras-
Farmacologia Ilustrada 41
D INFORMAÇÃO AFERENTE
Impulsossensoriaisdeorigemvisceral:
• Quedanapressãoarterial.
• Menorestiramentodos
barorreceptoresnoarcoaórtico.
• Menorfrequênciadosimpulsos
aferentesparaobulbo(troncocerebral).
fl RESPOSTA REFLEXA
Impulsoseferentesreflexosatravés
dosistemanervosoautônomocausam:
• Inibiçãodadivisãoparassimpática
eativaçãodadivisãosimpática.
• Aumentodaresistênciaperiféricae
dodébitocardíaco.
• Aumentoda pressãoarterial.
Figura 3.5
Arco reflexo barorreceptor responde à
diminuição da pressão arterial.
SIMPÁTICO PARASSIMPÁTICO •
Origem
Comprimento das fibras
Localização dos gânglios
Ramificação das fibras pré-ganglionares
Distribuição
Tipos de respostas
Figura 3.6
Região torácica e lombar da medula
espinal (toracolombar)
Pré-ganglionares curtas
Pós-ganglionares longas
Próximos à medula
Extensa
Ampla
Difusas
Características dos sistemas nervosos simpático e parassimpático.
•
Area cerebral e sacral da medula
espinal (craniossacral)
Pré-ganglionares longas
Pós-ganglioinares curtas
Próximo ou no interior do órgão efetor
Mínima
Limitada
Discretas
42 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Sinalizaçãoendócrina
Hormônio
 Célula­
-alvo
Vasosangu1neo
Contato direto
Célula
sinalizadora
Junção
estreitada
�élula-
"----"--J -aIvo
Sinalização sináptica
----:---
�
�
º
Cél!a I .....___....
Célula­
/-alvo
nervosa Neurotransmissor
Figura 3.7
Alguns mecanismos usados comumen­
te para a transmissão de sinais regula­
dores entre as células.
Ili.
simpática é mais limitada. As fibras pré-ganglionares simpáticastêm uma
influência muito mais ampla do que as fibras parassimpáticas e fazem
sinapse com um número maior de fibras pós-ganglionares. Este tipo de
organização permite a descarga difusa do sistema nervoso simpático. A
divisão parassimpática é mais circunscrita, com interações uma-a-uma,
e os gânglios estão próximos ou no interior do órgão que inervam. Isto
limita o número de ramificações que esta divisão consegue fazer. (Uma
exceção importante a este arranjo é encontrada no plexo mioentérico,
onde se verificou que um neurônio pré-ganglionar interage com 8.000
ou mais fibras pós-ganglionares.) O arranjo anatômico do sistema paras­
simpático resulta em funções distintas desta divisão. O sistema nervoso
somático inerva os músculos esqueléticos. Um axônio motor somático
é altamente ramificado e cada ramo inerva uma fibra muscular simples.
Assim, um neurônio motor somático pode inervar 100 fibras musculares.
Este arranjo leva à formação da unidade motora. A ausência de gânglios
e a mielinização dos nervos motores permite uma resposta rápida por
este sistema nervoso somático.
SINALIZAÇÃO QUÍMICA ENTRE AS CÉLULAS
A neurotransmissão no SNA é um exemplo de um processo mais geral de
sinalização química entre as células. Além da neurotransmissão, outros tipos
de sinalização química incluem a secreção de hormônios e a liberação de
mediadores locais (Figura 3.7).
A. Hormônios
Células endócrinas especializadas secretam hormônios na circulação,
onde eles se deslocam pelo organismo exercendo efeitos em células-alvo
amplamente distribuídas. (Hormônios sãodescritos nos Capítulos 23 a26.)
B. Mediadores locais
A maioria das células do organismo secreta substâncias químicas que
atuam localmente, ou seja, nas células do seu ambiente imediato. Como
esses sinalizadores químicos são destruídos ou removidos rapidamente,
eles não entram na circulação e não são distribuídos pelo organismo. A
histamina (ver p. 550) e as prostaglandinas (ver p. 549) são exemplos de
mediadores locais.
C. Neurotransmissores
Todos os neurônios são unidades anatômicas distintas e não há con­
tinuidade estrutural entre eles. A comunicação entre os neurônios - e
entre os neurônios e os órgãos efetores - ocorre por meio da emissão
de sinais químicos específicos, denominados neurotransmissores, pelos
terminais nervosos. Essa liberação é desencadeada pela chegada do
potencial de ação no terminal nervoso, levando à despolarização. Um
aumento no Ca
2
+ intracelular inicia a fusão das vesículas sinápticas com
a membrana pré-sináptica e a liberação do seu conteúdo. Os neurotrans­
missores difundem-se rapidamente pela fenda ou pelo espaço sináptico
entre os neurônios e combinam-se com receptores específicos na célula
pós-sináptica (alvo) (Figura 3.8; ver Capítulo 2).
1. Receptores de membrana. Todos os neurotransmissores e a maio­
ria dos hormônios e mediadores locais são muito hidrofílicos para
penetrara camada bimolecular lipídica das membranas plasmáticas
das células-alvo. Então, o sinal é mediado pela ligação a receptores
específicos na superfície celular dos órgãos-alvo. (Nota: o receptor é
Neurônio
pré-ganglionar
Transmissor
ganglionar
Transmissor
neuroefetor
Figura 3.8
Inervaçãosimpáticada
suprarrenal
Acetilcolina
•
Receptor
nicotínico
Suprarrenal
Epinefrina
liberadana
circulação
�
Receptor
adrenérgico
,
AUTÔNOMO
Simpático
Acetilcolina
•
Receptor
,,____.. nicotínico
Norepinefrina
Receptor
adrenérgico
Orgãos efetores
Parassimpático
Acetilcolina
•
Receptor
T---r nicotínico
Acetilcolina
Receptor
muscarínico
Farmacologia Ilustrada 43
SOMÁTICO
Semgânglio
Acetilcolina
•
�ceptor�
/nicotínico"-
Músculo esquelético
Resumo dos neurotransmissores liberados e dos tipos de receptores encontrados nos sistemas nervosos autônomo e
somático. (Nota: este diagrama não mostra que os gânglios parassimpáticos estão próximos ou na própria superfície
dos órgãos efetores e que as fibras pós-ganglionares em geral são mais curtas do que as fibras pré-ganglionares. Em
contraste, os gânglios do sistema nervoso simpático estão próximos da medula espinal. As fibras pós-ganglionares são
longas, permitindo uma ramificação extensa para inervar mais de um sistema orgânico. Essa disposição permite que o
sistema nervoso simpático envie impulsos como uma unidade.) * 80°
/
o de epinefrinae 20°
/
o de norepinefrina são liberados
da suprarrenal.
definido como um local de reconhecimento de uma substância. Ele
apresenta especificidade de ligação e é acoplado a processos que,
por fim, provocam uma resposta.) Os receptores, em sua maioria,
são proteínas.
2. Tipos de neurotransmissores. Embora mais de 50 moléculas
sinalizadoras tenham sido identificadas no sistema nervoso, seis
compostos - incluindo norepinefrina (e a muito relacionada epi­
nefrina), acetilcolina, dopamina, serotonina, histamina e ácido
'Y-aminobutírico - estão com mais frequência envolvidos com as
ações dos fármacos terapeuticamente úteis. Cada uma dessas
substâncias sinalizadoras se liga a uma família específicade recep­
tores.A acetilcolina e a norepinefrina são os principais sinalizadores
químicos no SNA, e uma ampla variedade de neurotransmissores
44 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Transmissor
pré-ganglionar
Transmissor
ganglionar
Transmissor
neuroefetor
Figura 3.9
Inervaçãosimpática
dasuprarrenal
Acetilcolina
•
Receptor
/�--... nicotínico
Suprarrenal
Epinefrinaliberada
nacirculação
l
...
Cf>;:.itor
adrenérgico
funciona no SNC. Não só esses neurotransmissores são liberados
na estimulação nervosa, mas também cotransmissores, como ade­
nosina, os quais frequentemente os acompanham e modulam o pro­
cesso de transmissão.
a. Acetilcolina. A fibra nervosa autônoma pode ser dividida em
dois grupos com base na natureza química do neurotransmissor
liberado. Se a transmissão é mediada pela acetilcolina, o neu­
rônio é denominado colinérgico (Figura 3.9 e Capítulos 4 e 5). A
acetilcolina intermedeia a transmissão do impulso nervoso atra­
vés dos gânglios autônomos nos sistemas nervosos simpático
e parassimpático. Ela é a neurotransmissora na suprarrenal. A
transmissão dos nervos pós-ganglionares autônomos para ór­
gãos efetores no sistema parassimpático e para alguns órgãos
do sistema simpático também envolve a liberação de acetilcoli­
na. No sistema nervoso somático, a transmissão najunção neu­
romuscular (ou seja, entre a fibra nervosa e o músculo voluntá­
rio) também é colinérgica (ver Figura 3.9).
AUTÔNOMO
Simpático
Acetilcolina
•
Receptor
.,..____,,nicotínico
Norepinefrina
ter.epor
adrenérg1co
Órgãos efetores
Parassimpático
Acetilcolina
•
Receptor
.,_...,, nicotínico
Acetilcolina
.•ecepto1
muscarínico
SOMÁTICO
Semgânglio
Acetilcolina
•
�
éceptor:::S:::
:::;:::: nicotínico�
Músculo esquelético
Neurônios colinérgicos (vermelho) e adrenérgicos (azul) encontrados nos sistemas nervoso autonômico e somático.
b. Norepinefrina e epinefrina. Quando a norepinefrina ou a epi­
nefrinaé o transmissor, a fibra é denominada adrenérgica (adre­
nalina é outro nome da epinefrina). No sistema simpático, a no­
repinefrina intermedeia a transmissão dos impulsos dos nervos
pós-ganglionares autônomos para o órgão efetor. A norepinefri­
na e os receptores adrenérgicos são discutidos nos Capítulos 6
e 7. Um resumo dos neuromediadores liberados e do tipo de re­
ceptores do sistema nervoso periférico é apresentado na Figu­
ra 3.9. (Nota: poucas fibras simpáticas, como as envolvidas na
sudoração, são colinérgicas, e, para simplificação, elas não são
representadas na figura. O músculo liso renal pós-ganglionar é
inervado pela dopamina.)
IV. SISTEMAS DE SEGUNDO MENSAGEIRO NA
RESPOSTA INTRACELULAR
A ligação dos sinalizadores químicos aos receptores ativa processos enzi­
máticos no interior da membrana celular. No final, esses processos resultam
em uma resposta celular, como a fosforilação de proteínas intracelulares ou
alterações na condutividade de canais iônicos. O neurotransmissor pode ser
imaginado como um sinal; e o receptor, como o detector do sinal e transdu­
tor. Moléculas segundas mensageiras, produzidas em resposta à ligação do
neurotransmissor, traduzem o sinal extracelular em uma resposta que pode
ser propagada mais adiante ou amplificada no interior da célula. Cada com­
ponente serve como um elo na comunicação entre eventos extracelulares e
alterações químicas no interior da célula (ver Capítulo 2).
A. Receptores de membrana que afetam a permeabilidade
.- .
1on1ca
Os receptores de neurotransmissores são proteínas de membrana que
disponibilizam o local de ligação que reconhece e responde à molécula
neurotransmissora. Alguns receptores, como os receptores pós-sinápti­
cos dos nervos e músculos, são ligados diretamente a canais iônicos de
membrana; assim, a ligação do neurotransmissor ocorre de modo rápido
(em fração de milissegundos) e afeta diretamente a permeabilidade iô­
nica (Figura 3.1OA). (Nota: o efeito da acetilcolina nesses canais iônicos
disparados porsubstância química é discutido na p. 27.)
B. Regulação envolvendo moléculas segundas mensageiras
Vários receptores não são acoplados diretamente a canais iônicos. Nes­
ses casos, o receptor sinaliza o reconhecimento da ligação de um neu­
rotransmissor iniciando uma série de reações, que no final resulta em
uma resposta intracelular específica. Moléculas segundas mensagei­
ras - assim denominadas porque intervêm entre a mensagem inicial (o
neurotransmissor ou hormônio) e o efeito final na célula - são parte de
uma cascata de eventos que traduzem a ligação do neurotransmissorem
uma resposta celular, em geral, por meio da intervenção de uma proteína
G. Os dois segundos mensageiros mais amplamente reconhecidos são
os sistemas adenililciclase e cálcio-fosfatidilinositol (Figura 3.108 e C).
(Nota: G5 é uma proteína envolvida na ativação da adenililciclase, e Gq
é uma subunidade que ativa a fosfolipase C para liberar diacilglicerol e
trifosfato de inositol [ver p. 27].)
Farmacologia Ilustrada 45
ft Recep�or!s�copiados
W acanais1on1cos
Neurotransmissor
Espaço
extracelular
Membrana
celular
Membranacelular
Citosol c1-
�
Alteraçõesnopotencialde
membranaouconcentração
iônicanointeriordacélula
r:'I Receptoresacoplados
l:il àadenililciclase
Q Hormônioou
� neurotransmissor

Adenililciclase
ativa
AMPc+ PPi
�
Fosforilaçãodeproteínas
f':! Receptoresacopladosao
� diacilgliceroleao
trifosfatodeinositol
ProteínaGq
Diacilglicerol
�
FosfolipaseC
Trifosfato
deinositol
Fosforilaçãodeproteína
eaumentodoCa2+intracelular
Figura 3.10
Três mecanismos pelos quais a ligação
com o neurotransmissor leva a um efeito
biológico.
46 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
3.1 Qual das seguintes afirmativas com relação ao sistema
nervoso parassimpático está correta?
A. O sistema parassimpático usa norepinefrina como
neurotransmissor.
B. O sistema parassimpático com frequência reage como
um sistema funcional unitário.
C. A divisão parassimpática está envolvida na acomoda­
ção da visão próxima, no movimento do alimento e na
micção.
D. As fibras pós-ganglionares da divisão parassimpática
são longas em comparação com as do sistema nervo­
so simpático.
E. O sistema parassimpático controla a secreção da su­
prarrenal.
3.2 Qual dos seguintes efeitos é característico da estimulação
parassimpática?
A. Diminuição da motilidade intestinal.
B. Inibição da secreção brônquica.
C. Contração do esfíncter muscular da íris (miose).
D. Contração do esfíncter da bexiga urinária.
E. Aumento da frequência cardíaca.
3.3 Qual das seguintes opções é característica do sistema
nervoso simpático?
A. Uma resposta localizada para ativação.
B. Ação mediada por receptores muscarínicos e nicotíni­
cos.
C. Efeitos mediados exclusivamente por norepinefrina
D. As respostas predominam durante atividade física ou
quando se é ameaçado.
E. Sujeito ao controle voluntário.
3.4 Um paciente se apresenta com salivação, lacrimejamen­
to, micção e defecação como efeito adverso de um me­
dicamento. Qual dos seguintes receptores intermedeia as
ações deste fármaco?
A. Receptores nicotínicos.
B. Receptores a.
C. Receptores muscarínicos.
D. Receptores 13.
Resposta correta = C. O sistema parassimpático mantém as funções
corporais essenciais, como visão, movimento do alimento e micção.
Ele usa acetilcolina, e não norepinefrina, como neurotransmissor e
reage como fibras discretas que são ativadas separadamente. As
fibras pós-ganglionares do sistema parassimpático são curtas em
comparação com as da divisão simpática. A suprarrenal está sob
controle do sistema simpático.
Resposta correta = C. O sistema nervoso parassimpático é essen­
cial namanutenção de atividades como a digestão e a eliminaçãode
resíduos. Assim, observa-se aumento da motilidade intestinal, facili­
tando o peristaltismo, o relaxamento do esfíncter vesical, permitindo
a micção, e o aumento das secreções brônquicas. O aumento dafre­
quência cardíacaé função do sistema nervoso simpático.
Respostacorreta = D. O sistemanervoso simpáticoé ativado porestí­
mulos"lute ou fuja". Paraobterativação rápida do sistema, o sistema
nervososimpáticofaz descarga unitária. Os receptores que medeiam
os efeitos do sistema nervoso simpático nos órgãos efetores são re­
ceptores tt e �- Como o sistema nervoso simpático é uma divisão do
sistema nervoso autônomo, ele não está sujeito ao controle voluntá­
rio, mas funciona sem nossa consciência.
Resposta correta = C. Os receptores muscarínicos do sistema ner­
voso parassimpático mantêm as funções essenciais do organismo,
como a digestão e a eliminação de resíduos. Os receptores nicotíni­
cos são um receptor para acetilcolina. Eles têm função principal nos
músculos esqueléticos, nos gânglios e na síntese de catecolaminas
na suprarrenal. Os receptores tt e � são receptores para norepinefri­
na e epinefrina e sua ativação não provoca estes efeitos.
. , •
o 1 ner ICOS
1. RESUMO
Os fármacos que afetam o sistema nervoso autônomo (SNA) são divididos
em dois grupos, de acordo com o tipo de neurônio envolvido nos seus me­
canismos de ação. Os fármacos colinérgicos (descritos neste capítulo e no
seguinte) atuam em receptores que são ativados pela acetilcolina (ACh), e os
fármacos adrenérgicos (discutidos nos Capítulos 6 e 7) atuam em receptores
que são estimulados pela norepinefrina ou epinefrina. Os fármacos colinérgi­
cos e adrenérgicos atuam estimulando ou bloqueando receptores do SNA. A
Figura 4.1 resume os agonistas colinérgicos discutidos neste capítulo.
li. O NEURÔNIO COLINÉRGICO
A fibra pré-ganglionar que termina na suprarrenal, o gânglio autônomo (tanto
parassimpático como simpático) e as fibras pós-ganglionares da divisão pa­
rassimpática usam acetilcolina como neurotransmissor (Figura 4.2). A divisão
pós-ganglionar simpática das glândulas sudoríparas também usa ACh. Além
disso, neurônios colinérgicos inervam os músculos do sistema somático e
também desempenham função importante no SNC. (Nota: pacientes com a
doença de Alzheimer têm perda significativa dos neurônios colinérgicos no
lobo temporal e no córtex entorrinal. A maioria dos fármacos disponíveis para
tratar essa doença são inibidores da acetilcolinesterase [ver p. 108].)
A. A neurotransmissão nos neurônios colinérgicos
A neurotransmissão nos neurônios colinérgicos envolve seis etapas sequen­
ciais: 1) síntese, 2) armazenamento, 3) liberação, 4) ligação da ACh ao recep­
tor, 5) degradação do neurotransmissor na fenda sináptica (ou seja, o espaço
entre os terminais nervosos e os receptores adjacentes localizados nos ner­
vos ou órgãos efetores), e 6) reciclagem de colina e acetato (Figura 4.3).
1. Síntese de acetilcolina. A colina é transportada do líquido extrace­
lular para o citoplasma do neurônio colinérgico por um sistema car­
regador dependente de energia que cotransporta sódio e pode ser
AÇÃO DIRETA
Acetilcolina
Betanecol
Carbacol
Cev
imelina
Pilocarpina
AÇÃO INDIRETA (reversíveis)
Ambenônio
Donepezila
Galantamina
Neostigmina
Fisostigmina
Piridostigmina
Rivastigmina
Tacri
na
AÇÃO INDIRETA (irreversíveis)
Ecotiofato
REATIVADOR DE
ACETILCOLINESTERASE
Pralidoxima
Figura 4.1
Resumo dos agonistas colinérgicos.
48 Clark, Finkel, Rey &Whalen
1
Figura 4.2
Inervação simpática
da suprarrenal
Acetilcolina
�
•
Receptor
nicotínico
Suprarrenal
Epinefrinaliberada
nacorrentesanguínea
--..
•
Receptor
adrenérgico
inibido por hemico/ínio. (Nota: acolinatem um nitrogênio quaternário
e carrega permanentemente umacarga positiva, e, dessaforma, não
consegue difundir-se através da membrana.) A captação da colina é
o passo limitante da síntese de ACh. A colina-acetiltransferase ca­
talisa a reação da colina com a acetilcoenzima A (CoA) para formar
ACh (um éster) no citosol. A acetil-CoA é originada da mitocôndria e
é produzida pela oxidação de piruvato e de ácidos graxos.
2. Armazenamento da acetilcolina em vesículas. A ACh é empa­
cotada em vesículas pré-sinápticas por um processo de transporte
ativo acoplado ao efluxo de prótons. A vesícula madura contém não
só ACh, mas também trifosfato de adenosina (ATP) e proteoglicano.
(Nota: foi sugerido que o ATP é um cotransmissor que atua em re­
ceptores pré-juncionais purinérgicos inibindo a liberação de ACh ou
norepinefrina.) A cotransmissão nos neurônios autônomos é uma
regra, e não a exceção. Isso significa que a maioria das vesículas
contém o neurotransmissor primário (neste caso, a ACh), e o co­
transmissor que aumenta ou diminui o efeito do neurotransmissor
primário. Os neurotransmissores em vesículas, ao longo do terminal
do nervo no neurônio pré-sináptico, parecem contas de um colar de
pérolas e são denominadas varicosidades.
3. Liberação da acetilcolina. Quando um potencial de ação, propa­
gado por canais de sódio voltagem-dependentes, chega ao termi-
AUTÔNOMO
Simpático
Acetilcolina
�
•
Receptor
.,__,.. nicot1nico
Norepinefrina
Receptor
adrenérgico
Órgãos efetores
Parassimpático
Acetilcolina
�
•
Receptor
---------.. nicot1nico
Acetilcolina
�
•
Receptor
, .
muscarin1co
SOMÁTICO
Semgânglio
Acetilcolina
�
•
�ceptor �
/nicotínico........._
Músculo estriado
Locais de ação dos agonistas colinérgicos nos sistemas nervosos autônomo e somático.
nal nervoso, abrem-se canais de cálcio voltagem-dependentes na
membrana pré-sináptica, causando um aumento na concentração
de cálcio intracelular. Níveis elevados de cálcio promovem a fusão
das vesículas sinápticas com a membrana celular e a liberação do
seu conteúdo no espaço sináptico. Essa liberação pode ser blo­
queada pela toxina botulínica. Em contraste, a toxina da aranha
viúva negra provoca a liberação de toda a ACh armazenada nas
vesículas esvaziando-as na fenda sináptica.
4. Ligação com o receptor. A ACh liberada das vesículas sinápticas
difunde-se através do espaço sináptico e se liga a um dos dois re­
ceptores pós-sinápticos na célula-alvo, ao receptor pré-sináptico na
membranado neurônio que liberou a ACh ou a outros receptores-al­
vo pré-sinápticos. Os receptores pós-sinápticos colinérgicos na su­
perfície dos órgãos efetores são divididos em duas classes - mus­
carínicos e nicotínicos (ver Figura 4.4 e p. 50). A ligação ao receptor
leva a uma resposta fisiológica no interior da célula, como o início
de um impulso nervoso na fibra pós-ganglionar ou a ativação de
enzimas específicas nas células efetoras mediados por moléculas
segundas mensageiras (ver p. 29 e a seguir).
Figura 4.3
� RECICLAGEM
IL!JI DA COLINA
• Acolinaécaptada
peloneurônio.
-
DEGRADAÇAO DA
ACETILCOLINA
• Aacetilcolinaérapidamente
hidrolisadapela
acetilcolinesterasena
fendasináptica.
Colina ----,"""'"""-. Colina
Na+_
___,
..,.._
_. Na+ (AcCoA
Ca2+
Acetilcolina
Ji
Jl
O1 1 Vesícula
/ 9sináptica
Ca2+
Colina
Acetato
Receptor
pré-sináptico
Acetilcolin
J
RESPOSTAINTRACELULAR
Farmacologia Ilustrada 49
SÍNTESE DE
ACETILCOLINA
• Otransportedecolinaé
inibidopelohemicolí
nio.
CAPTAÇÃO NAS
VESÍCULAS DE
ARMAZENAMENTO
• Aacetilcolinaestáprotegidada
degradaçãonointeriordavesícula.
IE,:1 LIBERAÇÃO DO
� NEUROTRANSMISSOR
• Liberaçãobloqueada
pelatoxinabotulínica.
• Ovenenodearanhascausa
liberaçãodeacetilcolina.
LIGAÇÃO AO
RECEPTOR
• Oreceptorpós-sinápticoé
ativadopelaligaçãocomo
neurotransmissor.
Síntese e liberação da acetilcolina do neurônio colinérgico. AcCoA = acetilcoenzima A.
50 Clark, Finkel, Rey &Whalen
rJ Receptores muscarínicos
Muscarina Acetilcolina Nicotina
... • •
l l '
m ®
= � = � IDifil
Alta +- Baixa
afinidade afinidade
m Receptores nicotínicos
Muscarina Acetilcolina Nicotina
... • •
' l l
=-� IIDIDJ e = ' =
Baixa +a Alta
afinidade afinidade
Figura 4.4
Tipos de receptores colinérgicos.
5. Degradação da acetilcolina. O sinal no local efetor pós-juncional
termina rapidamente devido à hidrólise da ACh pela AChE forman­
do colina e acetato na fenda sináptica (ver Figura 4.3). (Nota: a bu­
6.
tirilcolinesterase, às vezes denominada pseudocolinesterase, é en­
contrada no plasma, mas não desempenha função significativa na
terminação do efeito da ACh na sinapse.)
Reciclagem da colina. A colina pode ser recaptada pelo sistema
de transporte de alta afinidade, acoplado ao sódio, que a leva de
volta para o interiordo neurônio, onde elaé acetilada a ACh e arma­
zenada até ser liberada por um potencial de ação subsequente.
Ili. RECEPTORES COLINÉRGICOS (COLINOCEPTORES)
Duas famílias de receptores colinérgicos, designados muscarínicos e nicotí­
nicos, podem ser diferenciadas entre si com base em suas diferentes afinida­
des parafármacos que mimetizam a ação da ACh (fármacos colinomiméticos
ou parassimpaticomiméticos).
A. Receptores muscarínicos
Os receptores muscarínicos pertencem à classe dos receptores acopla­
dos à proteína G. Esses receptores, além de se ligarem à ACh, reconhe­
cem a muscarina, um alcaloide que está presente em certos cogumelos
venenosos. Porém, os receptores muscarínicos apresentam baixa afini­
dade pela nicotina (Figura 4.4A). Estudos de ligação e inibidores específi­
cos, bem como caracterização por DNAc, diferenciaram cinco subclasses
de receptores muscarínicos: M1, M2, M3, M4 e M5• Embora esses cinco
receptores tenham sido identificados por clonagem gênica, apenas os
receptores M1, M2 e M3 foram caracterizados funcionalmente.
1. Localizações dos receptores muscarínicos. Esses receptores se
localizam em gânglios dosistema nervoso periférico e nosórgãos efe­
toresautonômicos, comocoração, músculos lisos, cérebroeglândulas
exócrinas (ver Figura 3.3). Embora os cinco subtipos sejam encontra­
dos nos neurônios, receptores M1 também são encontrados nas célu­
las parietais gástricas; M2, nas células cardíacas e nos músculos lisos;
e M3, na bexiga, nas glândulas exócrinas e no músculo liso. (Nota: fár­
macos com ações muscarínicas preferencialmente estimulam recep­
tores muscarínicos nesses tecidos, mas, em concentrações elevadas,
podem mostraralguma atividade em receptores nicotínicos.)
2. Mecanismos de transdução do sinal pela acetilcolina. Inúmeros
mecanismos moleculares diferentes transmitem o sinal gerado na
ocupação do receptor pelaACh. Por exemplo, quando os receptores
M1 ou M3 são ativados, o receptorsofre uma mudança conformacio­
nal e interage com uma proteína G, designada Gq, a qual, por sua
vez, ativa a fosfolipase C.
1
Isso leva à hidrólise de fosfatidilinositol­
-(4,5)-bifosfato para produzir diacilglicerol (DAG) e trisfosfato (1 ,4,5)
de inositol (IP3). Ambos, IP3 e DAG são segundos mensageiros. O
trifosfato (1 ,4,5) de inositol causa aumento do Ca
2
+ intracelular (ver
Figura 3.1OC, p. 45). Esse cátion então pode estimular ou inibir en­
zimas ou causar hiperpolarizacão, secreção ou contração. O diacil­
glicerol ativa a proteína quinase C. Esta enzima fosforila inúmeras
proteínas no interior da célula. Em contraste, a ativação do subtipo
1Ver Bioquí
mica Ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre o trifosfato de inositol e a sinalização intracelular.
M2 no músculo cardíaco estimula a proteína G, denominada Gi, a
qual inibe a resposta da adenililciclase
2
e aumenta a condutância
do K+ (ver Figura 3.108, p. 45). O coração responde diminuindo a
velocidade e a força de contração.
3. Agonistas e antagonistas muscarínicos. Atualmente são feitos
esforços para desenvolver agonistas e antagonistas muscarínicos
que atuem em subtipos específicos de receptores. Por exemplo, pi­
renzepina, um fármaco anticolinérgico tricíclico, tem maior seletivi­
dade para inibir receptores muscarínicos M,, como os da mucosa
gástrica. Em doses terapêuticas, a pirenzepina não causa vários
dos efeitos adversos observados com outros fármacos não subtipo­
-específicos; contudo, ela produz taquicardia reflexa na infusão rá­
pida devido ao bloqueio dos receptores M2 cardíacos. Portanto, a
utilidade da pirenzepina como alternativa aos inibidores da bomba
de prótons no tratamento das úlceras gástricas e duodenais é ques­
tionável. A darifenacina é um antagonista de receptor muscarínico
competitivo com uma maior afinidade pelo receptor M3 do que pelos
outros receptores muscarínicos. Esse fármaco é usado no trata­
mento da bexiga hiperativa. (Nota: na atualidade, nenhum fármaco
clinicamente importante interage apenas com receptores M4 e M5.)
B. Receptores nicotínicos
Esses receptores, além de ligarem a ACh, reconhecem a nicotina,
mas têm baixa afinidade pela muscarina (ver Figura 4.48). O receptor
nicotínico é composto de cinco subunidades e funciona como um ca­
nal iônico disparado pelo ligante (ver Figura 3.1OA). A ligação de duas
moléculas de ACh provoca uma alteração conformacional que per­
mite a entrada de íons sódio, resultando na despolarização da célula
efetora. A nicotina em concentração baixa estimula o receptor e em
concentração alta o bloqueia. Os receptores nicotínicos estão locali­
zados no SNC, nasuprarrenal, nos gânglios autonômicos e najunção
neuromuscular (JNM). Os localizados na JNM algumas vezes são de­
signados NM, e os outros, NN. Os receptores nicotínicos dos gânglios
autônomos diferem daqueles situados na JNM. Por exemplo, os re­
ceptores ganglionares são bloqueados seletivamente pelo hexametô­
nio, e os da JNM são bloqueados especificamente pela tubocurarina.
IV. AGONISTAS COLINÉRGICOS DE AÇÃO DIRETA
Agonistas colinérgicos (também denominados parassimpaticomiméticos) mi­
metizam os efeitos da ACh ligando-se diretamente nos colinoceptores. Esses
fármacos grosseiramente podem serclassificados em doisgrupos: os ésteres da
colina, que incluem aACh, eosésteressintéticos da colina, como o carbacole o
betanecol. Osalcaloidesdeocorrência natural, comoapilocarpina, constituem o
segundo grupo (Figura 4.5).Todos os fármacos colinérgicos de ação direta têm
efeitos mais prolongados do que a acetilcolina. Alguns dos fármacos terapeu­
ticamente mais úteis (pilocarpina e betanecol) se ligam preferencialmente aos
receptores muscarínicos e algumas vezes são referidos como fármacos musca­
rínicos. (Nota:os receptores muscarínicosestão localizados primariamente, mas
não exclusivamente, nas junções neuroefetoras do sistema nervoso parassim­
pático.) Contudo, como um grupo, os agonistas de ação direta mostram pouca
especificidade nas suas ações, o que limita sua utilidade clínica.
2Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre a adenililciclase e a sinalização intracelular.
Farmacologia Ilustrada 51
Ligaçãohidrolisada
pelaacetilcolines­
terase.
Acetilcolina
O CH CH
li 1 3 / 3
H N -e-o - CH-Cl-l-
-N+-cH
2 "
2 " 3
Betanecol CH3
(derivadoda
acetilcolina)
Ésterdoácidocarbãmico;
resisteà hidrólisepela
acetilcolinesterase.
o
li / CH3
H2 N -e-o -e�- CH2N+-CH3
"
.::;.
o o
Carbacol CH3
(derivadoda
acetilcolina)
Pilocarpina
(produtonatural)
Figura 4.5
Comparação das estruturas de alguns
agonistas colinérgicos.
52 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Diarreia
Diaforese
Miose
Náusea
- -
v=�
Emergência --­
urinária
Figura 4.6
Alguns efeitos adversos observados
com os agonistas colinérgicos.
A. Acetilcolina
A acetilcolina é um composto amônia quaternário que não consegue
penetrar membranas. Embora seja o neurotransmissor de nervos paras­
simpáticos e somáticos, bem como dos gânglios autônomos, não tem
importância terapêutica devido à sua multiplicidade de ações (provocan­
do efeitos difusos) e à sua rápida inativação pelas colinesterases. A ACh
tem atividade muscarínica e nicotínica. Suas ações são citadas a seguir:
1. Diminuição da frequência e do débito cardíaco. As ações daACh
no coração mimetizam os efeitos da estimulação vagai. Por exem­
plo, se injetada IV, a ACh produz uma breve redução na frequência
cardíaca (cronotropismo negativo) e novolume sistólico como resul­
tado da redução dafrequênciade descargas no nó sinoatrial (NSA).
(Nota: deve ser lembrado que a atividade vagai normal regula o co­
ração pela liberação de ACh no NSA.)
2. Diminuição da pressão arterial. A injeção de ACh causavasodila­
tação e diminuição da pressão sanguínea por mecanismo indireto.
A ACh ativa receptores M3 situados nas células endoteliais que co­
brem o músculo liso dos vasos sanguíneos. Isso resulta na produ­
ção de óxido nítrico a partir de arginina.
3
(Nota: o óxido nítrico [NO]
também é denominado fator relaxante derivado do endotélio.) (Ver
p. 363 para mais informações sobre NO.) O NO então difunde-se
até as células musculares lisas dos vasos para estimular a produ­
ção de proteína-quinase G, levando à hiperpolarização e ao relaxa­
mento do músculo liso por meio da inibição dafosfodiesterase-3. Na
ausência da administração de fármacos colinérgicos, os receptores
vasculares não têm função conhecida, pois a ACh nunca é liberada
no sangue em quantidade significativa. A atropina bloqueia esses
receptores muscarínicos e evita que a ACh produza vasodilatação.
3. Outras ações. NoTGI, aACh aumenta a secreção salivare estimula
as secreções e a motilidade intestinal. As secreções bronquiais tam­
bém são aumentadas. Notrato geniturinário, a ACh aumenta otônus
do músculo detrusor da urina, causando emissão da urina. No olho,
a ACh estimula a contração do músculo ciliar para a visão próxima e
contrai o esfíncterda pupila, causando miose (constrição acentuada
da pupila). A ACh (em solução a 1°
/
o) é instilada na câmara anterior
do olho para produzir miose durante cirurgias oftálmicas.
B. Betanecol
O betanecol é um éster carbamoila não substituído, estruturalmente re­
lacionado com a ACh, na qual o acetato é substituído por carbamato e a
colina é metilada (ver Figura 4.5). Portanto, o betanecolnão é hidrolisado
pela AChE (devido à esterificação do ácido carbâmico), embora seja ina­
tivado por meio de hidrólise por outras colinesterases. Ele não tem ações
nicotínicas (pela presença do grupo metila), mas apresenta forte ativida­
de muscarínica. Suas principais ações são na musculatura lisa da bexiga
urinária e noTGI.Tem duração de ação de cerca de uma hora.
1. Ações. O betanecol estimula diretamente os receptores muscarí­
nicos, aumentando a motilidade e o tônus intestinal. Ele também
estimula o músculo detrusor da bexiga enquanto relaxa o trígono
e os esfíncteres. Esses efeitos aumentam a pressão de micção e
diminuem a capacidade da bexiga, causando expulsão da urina.
3Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para discussão sobre
as funções do óxido nítrico.
2. Aplicações terapêuticas. No tratamento urológico, o betanecolé
usado para estimular a bexiga atônica, particularmente na retenção
urinária não obstrutiva no pós-parto ou pós-operatório. O betaneco/
também pode ser usado no tratamento da atonia neurogênica, bem
como no megacólon.
3. Efeitos adversos. O betanecolcausa os efeitos da estimulação co­
linérgicageneralizada (Figura 4.6). Esses incluem sudoração (diafo­
rese), salivação, rubor, diminuição da pressão arterial, náuseas, dor
abdominal, diarreia e broncoespasmo. O sulfato de atropina pode
seradministrado para superaras graves respostas cardiovasculares
ou broncoconstritoras desse fármaco.
C. Carbacol (carbamilcolina)
O carbacol apresenta ações muscarínicas e nicotínicas. Ele não tem o
grupo metila presente no betanecol(ver Figura 4.5). Como o betaneco/, o
carbacolé um ésterdo ácido carbâmico e um mau substrato para aAChE
(ver Figura 4.5). Ele é biotransformado poroutras esterases, mas em uma
velocidade muito menor.
1 . Ações. O carbacoltem amplos efeitos nos sistemas cardiovascu­
lar e gastrintestinal devido à sua atividade estimulante ganglionar,
podendo primeiro estimular e depois deprimir esses sistemas. Ele
pode causar liberação de epinefrina da suprarrenal por sua ação
nicotínica. lnstilado localmente no olho, o carbacol mimetiza os efei­
tos da ACh, causando miose e espasmo de acomodação, no qual o
músculo ciliar permanece em um estado constante de contração.
2. Usos terapêuticos. Devido à sua alta potência, inespecificidade por
receptor e duração de ação relativamente longa, o carbaco/ raras
vezes é usado em terapêutica, exceto no olho, como fármaco mióti­
co no tratamento do glaucoma, por causar contração pupilar e uma
diminuição da pressão intraocular. O início da ação miótica é de 1O a
20 minutos. A pressão intraocular fica reduzida por 4 a 8 horas.
3. Efeitos adversos. Nas doses usadas em oftalmologia, pouco ou
nenhum efeito adverso ocorre devido à sua escassa penetrabilidade
sistêmica (o carbacol é uma amina quaternária).
D. Pilocarpina
O alcaloide pilocarpina é uma amina terciária e resiste à hidrólise pela
AChE (ver Figura 4.5). Comparado com a ACh e seus derivados, a pilo­
carpina é muito menos potente, mas por não possuircarga elétrica pene­
tra no SNC nas dosagens terapêuticas. A pilocarpina apresenta atividade
muscarínica e é usada primariamente em oftalmologia.
1 . Ações. Aplicada localmente na córnea, a pilocarpina produz rápida
miose e contração do músculo ciliar. Quando o olho fica em miose,
também ocorre espasmo de acomodação; a visão é fixada em algu­
ma distância particular, tornando impossível focalizar (Figura 4.7).
(Nota: esse é um efeito oposto ao da atropina, um bloqueador mus­
carínico, no olho [ver p. 59].) A pilocarpina é um dos mais potentes
estimulantes das secreções, como suor, lágrimas e saliva (é um se­
cretagogo), mas seu emprego para esses efeitos é limitado devido
à sua falta de seletividade. O fármaco é útil em promover salivação
nos pacientes com xerostomia (secura da mucosa oral) resultante
de irradiação na cabeça e no pescoço. A síndrome de Sjõgren, ca­
racterizada por xerostomia e falta de lágrimas, é tratada com com-
Farmacologia Ilustrada 53
Mlose
(Contração
da pupila)
.
.
Olhotratado
compi/ocarpina
Olhonãotratado
Mldriase
(Dilatação
da pupila)
Figura 4.7
·, Olhotratado
comatropina
Ações da pilocarpina e da atropina na
íris e no músculo ciliar do olho.
54 Clark, Finkel, Rey &Whalen
NEURÔNIO
•
il
••
-'-----------' ..___
_,/
Acetato -
�---------i-----·• Acetilcolina
Colina �
O 0
���i�� ,--,ç
>;;>;X;>·
Ecotiofato
Edrofônio
Neostigmina
Fisostigmina
Figura 4.8
RESPOSTA
INTRACELULAR
AUMENTADA
Mecanismos de ação dos agonistas co­
linérgicos indiretos (reversíveis).
primidos orais de pilocarpina e cevimelina, um fármaco colinérgico
que também tem o inconveniente de ser inespecífico.
2. Usos terapêuticos no glaucoma. A pilocarpina é usada no trata­
mento do glaucoma e é o fármaco de escolha na redução emergen­
cial da pressão intraocularde ângulo estreitoe de ângulo amplo (tam­
bém denominados ângulo fechado e ângulo aberto, respectivamente).
A pilocarpina é extremamente eficaz na abertura da rede trabecular
ao redor do canal de Schlemm, causando uma redução imediata na
pressão intraoculardevido à drenagem do humoraquoso. Essa ação
ocorre em minutos, dura de 4 a 8 horas e pode ser repetida. O orga­
nofosforado ecotiofato inibe a AChE e exerce o mesmo efeito com
duração mais longa. (Nota: os inibidores da anidrase carbônica, como
a acetazolamida, e o bloqueador [3-adrenérgico timo/oi são eficazes
no tratamento crônico do glaucoma, mas não são usados na redução
da pressão intraocular de emergência.) Aação miótica da pilocarpina
também é útil na reversão da midríase devido à atropina.
3. Efeitos adversos. A pilocarpi
na pode entrar no cérebro e causar dis­
túrbios do SNC. A intoxicação com este fármaco se caracteriza pelo
exagero de vários efeitos parassimpáticos, incluindo sudoração pro­
fusa (diaforese) e salivação. Os efeitos são similares ao produzidos
pelo consumo de cogumelos do gênero lnocybe. A administração pa­
renteral de atropi
na, em dosagem que consegue atravessar a barreira
cerebrospinal, é usado para antagonizara toxicidade dapilocarpina.
V. AGONISTAS COLINÉRGICOS DE AÇÃO INDIRETA:
INIBIDORES DE ACETILCOLINESTERASE
{REVERSÍVEIS)
A AChE é uma enzimaque especificamente hidrolisaa ACh a acetato e colina
e, dessaforma, termina com sua ação. Localiza-se no terminal nervoso, onde
está ligada à membrana pré e pós-sináptica. Os inibidores da AChE indireta­
mente proporcionam ação colinérgica, prolongando o tempo de sobrevida da
ACh produzida de forma endógena nos terminais nervosos colinérgicos. Isso
resulta no acúmulo de ACh na fenda sináptica (Figura 4.8). Esses fármacos
podem, assim, provocar uma resposta em todos os colinoceptores do orga­
nismo, incluindo os receptores muscarínicos e nicotínicos do SNA, bem como
nas JNM e no cérebro. Os inibidores reversíveis da AChE podem ser classifi­
cados como fármacos de ação curta ou intermediária.
A. Edrofônio
O edrofônio é o protótipo do inibidor de AchE de ação curta. O edrofônio
se liga de modo reversível ao centro ativo da AchE impedindo a hidrólise
da ACh. Ele é absorvido rapidamente e tem duração de ação curta de
1O a 20 min devido à eliminação renal rápida. O edrofônio é uma amina
,
quaternária e suas ações são limitadas à periferia. E usado no diagnóstico
da miastenia grave, que é uma doença autoimune causada por anticorpos
contra o receptor nicotínico nasJNMs. Isso causa sua degradação e reduz
o número de receptores disponíveis para interação com o neurotransmis­
sor.A injeção IV do edrofônio leva a um rápido aumento da força muscular.
Deve-se ter cuidado, pois o excesso desse fármaco pode provocar uma
crise colinérgica (a atropina é o antagonista). O edrofônio pode ser usado
também para avaliar o tratamento inibidor de colinesterase, para diferen­
ciar entre crises colinérgicas e miastênicas e para reverter os efeitos de
bloqueadores neuromusculares não depolarizantes após acirurgia. Devido
à disponibilidade de outrosfármacos, o usodo edrofôniosetornou limitado.
B. Fisostigmina
A fisostigmina é um éster nitrogenado do ácido carbâmico encontrado em
plantas e é uma amina terciária. Ela é um substrato da AChE, com quem
forma um intermediário carbamoilado relativamente estável, que, então,
se torna reversivelmente inativado. O resultado é a potenciação da ativi­
dade colinérgica em todo o organismo.
1 . Ações. A fisostigmina tem uma amplafaixade efeitos como resulta­
do de sua ação e estimula os receptores muscarínicos e nicotínicos
do SNA e os receptores nicotínicos da JNM. Sua duração de ação é
de cercade 2 a 4 horas, sendo considerada um fármaco de ação in­
termediária. A fisostigmina pode entrar no SNC e estimularos locais
colinérgicos.
2. Usos terapêuticos. A fisostigmina aumenta a motilidade do intes­
tino e da bexiga urinária, servindo no tratamento de atonia nos dois
órgãos (Figura 4.9).Aplicadatopicamente no olho, ela produz miose
e espasmo de acomodação, bem como diminuição da pressão in­
traocular. A fisostigmina é usada no tratamento do glaucoma, mas
a pilocarpina é mais eficaz. Ela é usada também no tratamento de
doses excessivas de fármacos com ações anticolinérgicas, como
atropina, fenotiazinas e antidepressivos tricíclicos.
3. Efeitos adversos. No SNC, a fisostigmina pode causar convulsões
quando são usadas dosagens elevadas. Bradicardia e queda da
pressão arterial também podem ocorrer. A inibição da AChE nas
JNM causa acúmulo de ACh e, no final, resulta em paralisia dos
músculos esqueléticos. Contudo, esses efeitos raramente são ob- Figura 4.9
Farmacologia Ilustrada 55
lk' Contração do
� músculo liso
' visceral
Miose
Hipotensão
Bradicardia
servados com doses terapêuticas. Algumas ações da fisostigmina.
C. Neostigmina
A neostigmina é um fármaco sintético que também é um éster do ácido
carbâmico e inibe reversivelmente a AChE de forma similar à da fisostig-
•
mina.
1 . Ações. Ao contrário da fisostigmina, a neostigmina tem um nitrogê­
nio quaternário, por isso, elaé mais polar, é pouco absorvida doTG1
e não entra no SNC. Seu efeito nos músculos esqueléticos é maior
do que o da fisostigmina e pode estimular a contratilidade antes de
paralisá-la. A neostigmina tem uma duração de ação intermediária,
em geral 30 minutos a 2 horas.
2. Usos terapêuticos. É usada para estimular a bexiga e o TGI e
como antagonista da tubocurarina e de outros fármacos bloquea­
dores musculares competitivos (ver p. 65). A neostigmina é usada
no tratamento sintomático da miastenia grave. A neostigmina e ou­
tros inibidores da AchE preservam a ACh endógena, que pode,
então, estimular uma número maiorde receptores da ACh na placa
motora.
3. Efeitos adversos. Os efeitos adversos da neostigmina incluem
os da estimulação colinérgica generalizada, como salivação, ru­
bor, redução da pressão arterial, náusea, dor abdominal, diarreia
e broncoespasmo. A neostigmina não causa efeitos adversos no
SNC e não é usada para tratar os efeitos tóxicos de fármacos an­
timuscarínicos de ação central, como a atropina. A neostigmina é
contraindicada quando há obstrução intestinal ou da bexiga. Ela
não deve ser usada em pacientes com peritonite ou doença intesti­
nal inflamatória.
56 Clark, Finkel, Rey &Whalen
FOSFORILAÇÃO
DA ENZIMA
e Enzimainativada
• Pralidoxima(PAM)pode
removeroinibidor
o
li
C!i5-0-P-O-C2H5
1
S-R
Ecotiofato
/0-H
Localativoda
acetilcolinesterase
RSH+-'1
Acetilcolinesterase
(inativa)
Envelhecimento
(perdadogrupa-
O
mentoalquila)
li
C!i5-0-P-OH
/
/o
Acetilcolinesterase
(irreversivelmenteinativa)
Figura 4.10
/
O·H
Acetilcolinesterase
(ativa)
Modificação covalente da acetilcolineste­
rase pelo ecotiofato; também é mostrada
a reativação da enzima com pra/idoxima.
+
R = (CH3)3N -CH2-CH2-
+
RSH = (CH3)3N -CH2-CH2-S-H
D. Piridostigmina e ambenônio
A piridostigmina e o ambenônio são outros inibidores de colinesterase
que são usados no tratamento crônico da miastenia grave. Suas dura­
ções de ação são intermediárias (3 a 6 horas e 4 a 8 horas, respectiva­
mente), mas mais longas do que a da neostigmina. Os efeitos adversos
desses fármacos são similares aos da neostigmina.
E. Tacrina, donepezila, rivastigmina e galantamina
Como já mencionado, os pacientes com a doença de Alzheimer têm de­
ficiência de neurônios colinérgicos no SNC. Essa observação levou ao
desenvolvimento de anticolinesterásicos como possíveis fármacos para
a perda da função cognitiva. A tacrina foi o primeiro disponível, mas foi
substituída poroutros devido à sua hepatotoxicidade. Apesar de donepe­
zila, rivastigmina e galantamina retardarem o avanço da doença, nenhum
evitou sua progressão. O efeito adverso primário desses fármacos é o
distúrbio gastrintestinal (ver p. 108).
VI. AGONISTAS COLINÉRGICOS DE AÇÃO INDIRETA:
ANTICOLINESTERÁSICOS {IRREVERSÍVEIS)
Inúmeros compostos organofosforados sintéticos apresentam a propriedade
de ligar-se covalentemente à AChE. O resultado é um aumento de longa du­
ração nos níveis de ACh em todos os locais onde ela é liberada.Vários des­
ses fármacos são extremamentetóxicos eforam desenvolvidos como agentes
"contranervos" com fins militares. Os compostos relacionados, como o para­
tion, são usados como inseticidas.
A. Ecotiofato
1 . Mecanismo de ação. O ecotiofato é um organofosforado que se
liga covalentemente à serina-OH no local ativo da AChE por meio
do seu grupo fosfato (Figura 4.1O). Quando isso ocorre, a enzima é
inativada permanentemente, e o restabelecimento da sua atividade
requer a síntese de novas moléculas de enzimas. A enzima fosfo­
rilada libera lentamente um de seus grupos etila. A perda do grupo
acila, o que é denominado envelhecimento, torna impossível para
os reativadores químicos, como a pralidoxima, romper a ligação en­
tre o fármaco remanescente e a enzima.
2. Ações. As ações do ecotiofato incluem estimulação colinérgica ge­
neralizada, paralisia da função motora (causando dificuldades res­
piratórias) e convulsões. Esse fármaco provoca intensa miose e por
isso tem uso terapêutico. A pressão intraocular cai pela facilitação
do efluxo do humor aquoso. A atropina em dosagem elevada pode
reverter vários dos efeitos muscarínicos e alguns dos centrais do
ecotiofato.
3. Usos terapêuticos. Um colírio de ecoti
ofatoé aplicadotopicamente
no olho para o tratamento crônico do glaucoma de ângulo aberto. O
ecotiofato não é um fármaco de primeira escolha no tratamento do
glaucoma. Além dos seus outros efeitos adversos, o risco de causar
catarata limita o seu uso. A Figura 4.1 1 apresenta um resumo das
ações de alguns dos agonistas colinérgicos.
Betanecol
•Usadonotratamentodaretençãodeurina
•Liga-sepreferencialmenteaos
receptoresmuscarínicos
Carbacol
•Produzmioseduranteacirurgiaocular
•Éusadotopicamenteparadiminuira
pressãointraoculardeânguloamploou
estreito,particularmenteempacientes
quesetornaramtolerantesà pi/ocsrpins
Pilocarpina
•Diminuiapressãointraocularno
glaucomadeânguloamploouestreito
•Liga-sepreferencialmentenos
receptoresmuscarínicos
•Éaminaterciárianãoionizadaque
podeentrarnoSNC
Figura 4.11
Fisostigmina
•Aumentaamotilidadeintestinaledabexiga
•Diminuiapressãointraocularnoglaucoma
•ReverteosefeitoscardíacosenoSNCdos
antidepressivostricíclicos
•Reverteosefeitosdastropins noSNC
•Éumaaminaterciárianãoionizada
quepodeentrarnoSNC
Neostigmi
na
•Previneadistençãoabdominal
pós-cirúrgicaearetençãodeurina
•Éusadanotratamentodamiasteniagrave
•Éusadacomoantagonistadatubocursrins
•Temaçãodelongaduração(2 a4 h)
Edrofônio
•Paraodiagnósticodemiasteniagrave
•Comoantagonistadatubocurarina
•Temaçãodecurtaduração(1O a20 min)
Farmacologia Ilustrada 57
Rivastigmina, galantamina,
donepezila
• Éusadacomotratmentodeprimeira
escolhacontraomaldeAlzheimer,
emboraconfirabenefíciosmodestos
• Nãodemonstrou reduçãonoscustos
comsaúdeouatrasona
institucionalização
• Podeserusadocommemsntins
(antagonistaN-metil-D-aspartato)
emdoençamoderadaà grave
Ecotiofato
•Éusadonotratamentodoglaucoma
deânguloamplo
•Temaçãodelongaduração(1semana)
Acetilcol
ina
•Nãotemusosterapêuticos
Resumo das ações de alguns agonistas colinérgicos. SNC = sistema nervoso central.
VII. TOXICOLOGIA DOS INIBIDORES DA
ACETILCOLINESTERASE
Nos EUA, os inibidores da AchE são usados comumente na agricultura como
inseticidas, o que tem gerado numerosos casos de intoxicações acidentais
com estas substâncias. Além disso, são usados com frequência com propo­
sito suicida e homicida. A toxicidade destas substâncias se manifesta com
sinais e sintomas nicotínicos e muscarínicos. Dependendo da substância, o
efeito pode ser periférico ou afetartodo o organismo.
A. Reativação da acetilcolinesterase. A pralidoxima (PAM) pode re­
ativar a AchE inibida. Contudo, ela é incapaz de entrar no SNC. A
presença de um grupo químico carregado permite que a pralidoxima
se aproxime do sítio aniônico na enzima, onde ela essencialmente
desloca o grupo fosfato do organofosforado e regenera a enzima. Se
administradaantes de ocorrero envelhecimento da enzima alquilada,
ela pode reverter o efeito do ecotiofato, exceto aqueles no SNC. Com
os novos fármacos, que produzem o envelhecimento do complexo
enzimático em segundos, a pralidoxima é menos eficaz. A pralidoxi­
ma é um fraco inibidor da colinesterase, mas em dosagens elevadas
pode causar efeitos adversos similares aos dos outros inibidores da
AChE (Figuras 4.6 e 4.9) Além disso, a pralidoxima não reverte a
toxicidade dos inibidores reversíveis de AchE (p. ex., fisostigmina).
B. Outros tratamentos. A atropina é administrada para prevenirosefei­
tos adversos muscarínicos destas substâncias. Tais efeitos incluem
aumento das secreções bronquiais e de saliva, broncoconstrição e
bradicardia. O diazepam também é administrado para diminuira con­
vulsão persistente causada por estas substâncias. Medidas gerais
de apoio, como a manutenção da patência das vias aéreas, oferta de
oxigênio e respiração assistida também podem ser necessárias.
58 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
4.1 Um paciente com um ataque agudo de glaucoma é tratado
com pilocarpina. A razão primária para sua eficácia nessa
condição é:
A. T
erminar com a ação da acetilcolinesterase.
B. Seletividade pelos receptores nicotínicos.
C. Habilidade de inibir as secreções, como lacrimal, sali­
var e de suor.
D. Habilidade de reduzir a pressão intraocular.
E. Incapacidade de entrar no cérebro.
4.2 Uma unidade militar sofreu ataque com um agente "con­
tranervos". Os sintomas exibidos são paralisia muscular,
secreção brônquica abundante, miose, bradicardia e con­
vulsões. Os sinais sugerem exposição a um organofosfo­
rado. Qual é o tratamento correto?
A. Não fazer nada até confirmar a natureza da substância
"contranervos".
B. Administrar atropina e tentar confirmar a natureza da
substância "contranervos".
C. Administrar atropina e 2-PAM (pralidoxima).
D. Administrar pralidoxima.
4.3 Um paciente sob avaliação de miastenia grave deve me­
lhorar a função neuromuscular depois de ser tratado com:
A. Donezepila
B. Edrofônio
C. Atropina
D. Ecotiofato
E. Neostigmina
4.4 O fármaco de escolha para o tratamento da salivação es­
cassa consequência de irradiação na cabeça e pescoço é:
A. Fisostigmina
B. Escopolamina
C. Carbacol
D. Acetilcolina
E. Pilocarpina
Resposta correta = D. A pilocarpina pode interromper o ataque agu­
do de glaucoma, pois causa constrição pupilar reduzindo a pressão
intraocular. Liga-se principalmente a receptores muscarínicos e pode
entrar no cérebro. Ela não é eficaz na inibição das secreções.
Resposta correta = C. Os organofosforados exercem seus efeitos
ligando-se irreversivelmente à acetilcolinesterase e, assim, pode
causar crise colinérgica. A administração de atropina bloqueia os
receptores muscarínicos;contudo, ela não reativa a enzima, que per­
manece bloqueada por longoperíodo de tempo. Portanto, é essencial
administrar também pralidoxima assim que possível para reativar a
enzima antes de ocorrer o envelhecimento. Só a administração de
pralidoxima não vai proteger o paciente contra os efeitos da acetilco­
lina resultantes da inibição da acetilcolinesterase.
Resposta correta = B. O edrofônio é um inibidor da acetilcolineste­
rase de ação curta usado no diagnóstico da miastenia grave. Ele é
um composto quaternário e não penetra no SNC. Donezepila, iso­
flurofato e neostigmina também são anticolinesterásicos, mas com
ações mais longas. A donezepila é usada no tratamento da doença
de Alzheimer. O ecotiofato tem alguma atividade no tratamento do
glaucoma de ângulo amplo. A neostigmina é usada no tratamento da
miastenia grave, mas não é empregada no seu diagnóstico. A atropi­
na é um antagonista colinérgico e, assim, terá efeitos opostos.
Resposta correta = E. A pilocarpina, por via oral, tem se mostrado
eficaz nesta situação. Os outros fármacos, exceto a escopolamina,
são agonistas colinérgicos. Contudo, sua habilidade de estimular a
salivação é menor doque a da pilocarpina, e seus outros efeitos são
mais desagradáveis.
. , •
o 1 ner ICOS
1. RESUMO
Os antagonistas colinérgicos (também denominados bloqueadores colinérgi­
cos, parassimpaticolíticos ou fármacos anticolinérgicos) ligam-se aos colinor­
receptores, mas não causam os usuais efeitos intracelulares mediados pelos
receptores. Os fármacos mais úteis bloqueiam seletivamente os receptores
muscarínicos dos nervos parassimpáticos. Os efeitos da inervação parassim­
pática são interrompidos, e as ações da estimulação simpática ficam sem
oposição. Um segundo grupo de fármacos, os bloqueadores ganglionares,
mostra preferência pelos receptores nicotínicos dos gânglios simpáticos e pa­
rassimpáticos. Clinicamente, os bloqueadores ganglionares são os fármacos
menos importantes entre os anticolinérgicos. Uma terceira família de com­
postos, os bloqueadores neuromusculares, interfere com a transmissão dos
impulsos eferentes aos músculos esqueléticos. Esses fármacos são empre­
gados como adjuvantes que relaxam a musculatura esquelética naanestesia,
durante a cirurgia, na entubação e vários procedimentos ortopédicos. A Figu­
ra 5.1 resume os antagonistas colinérgicos discutidos neste capítulo.
li. FÁRMACOS ANTIMUSCARÍNICOS
Os fármacos antimuscarínicos (p. ex., atropina e escopolamina) são assim
denominados porque bloqueiam os receptores muscarínicos (Figura 5.2),
causando inibição de todas as funções muscarínicas. Além disso, esses fár­
macos bloqueiam os poucos neurônios simpáticos excepcionais que são co­
linérgicos, como os que inervam as glândulas salivares e sudoríparas. Con­
trastando com os agonistas colinérgicos, cuja utilidade terapêutica é limitada,
os bloqueadores colinérgicos são úteis em várias situações clínicas. Como
não bloqueiam os receptores nicotínicos, os fármacos antimuscarínicos têm
pouca ou nenhuma ação nas junções neuromusculares (JNMs) e nos gân­
glios autonômicos. (Nota: vários anti-histamínicos e antidepressivos também
têm atividade antimuscarínica.)
Fármacos antimuscarínlcos
Atropina
Benztropina
Ci
clopentolato
Dar
ifenacina
Fesoterodina
lpratrópio
Oxibutinina
Escopolamina
Solifenacina
Tiotrópio
Tolterodi
na
Tri
exifenidila
Tropicamida
Tróspio, cloreto de
Bloqueadores ganglionares
Mecamilamina
Ni
cotina
Bloqueadores neuromusculares
Figura 5.1
Atracúri
o
Ci
satracúrio
Pancurônio
Rocurônio
Succi
nilcolina
Vecurônio
Resumo dos antagonistas colinérgicos.
60 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Inervaçãosimpática
dasuprarrenal
Neurônio
pré-ganglionar
Transmissor
ganglionar Acetilcolina
.J
•
AUTÔNOMO
Simpático
Acetilcolina
SOMÁTICO
Parassimpático
Acetilcolina Semgânglio
Locaisdeação
------/dosbloqueadores
ganglionares
Receptor______,_
,...____...nicotínico Receptor
............... nicotínico
Transmissor
neuroefetor
Localdeação
dosfármacos
antimuscarínicos
Figura 5.2
Suprarrenal
Epinefrinaenorepinefrina
liberadasna
correntesanguínea
o
Receptor
adrenérgico
Locais de ação dos antagonistas colinérgicos.
,
Norepinefrina
Receptor
adrenérgico
Orgãos efetores
Acetilcolina
.J
•
muscarínico
Localde
açãodos
bloqueadores
neuro­
musculares
Acetilcolina
.J
•
� Receptor�
/nicotínico-........:
Músculo estriado
A. Atropina
Escopo/amina
Figura 5.3
Atropina
.
..
. .
. .
. .
. .
Acetilcolina
. .
• • i••
.. .•..... .-·
.
-
·: ·
:·
..·
··
·-
·
-----
·-·
·
..
:
Receptor
muscarínico
Competição da atropina e escopo/a­
mina com a acetilcolina pelo receptor
, .
muscar1n1co.
A atropina é um alcaloide amina terciária da beladona com alta afinida­
de pelos receptores muscarínicos. Liga-se competitivamente e impede a
ligação da acetilcolina (ACh) a estes receptores (Figura 5.3). A atropina
atua central e perifericamente. Os seus efeitos duram cerca de 4 horas,
exceto quando aplicada topicamente no olho, onde seu efeito pode durar
dias. Os órgãos neuroefetores têm sensibilidade variável à atropina. Os
efeitos inibidores mais intensos ocorrem nos brônquios e nas secreções
de suor e saliva (Figura 5.4).
1 . Ações
a. Olho. A atropina bloqueia toda a atividade colinérgica no olho, re­
sultando em midríase persistente (dilatação da pupila, ver Figura
4.7, p. 53), ausência de resposta à luz e cicloplegia (incapacidade
de focar a visão para perto). Em pacientes com glaucoma de ân­
guloestreito, apressão intraocularpode aumentarperigosamente.
Em geral, os fármacos de ação mais curta, como o antimuscaríni­
co tropicamida ou um fármaco a-adrenérgico, como a f
enilefri
na,
são preferidos para provocar midríase nos examesoftalmológicos.
b. Trato gastrintestinal (TGI). A atropina (na forma do isômero
ativo, 1-hiosciamina) pode ser usada como antiespasmódico
para reduzir a atividade do TGI. A atropina e a escopolamina
(que é discutida a seguir) são provavelmente os fármacos mais
potentes disponíveis paraesse objetivo. Emboraa motilidade do
TGI seja reduzida, a produção de ácido clorídrico não é afetada
de forma significativa. Assim, a atropina não é eficaz na cura da
úlcera péptica. (Nota: a pirenzepina [ver p. 51], um antagonista
muscarínico M,, reduz a secreção gástrica em doses que não
antagonizam outros sistemas.) Além disso, as doses de atropina
que reduzem os espasmos também diminuem a secreção sali­
var, a acomodação ocular e a micção. Estes efeitos diminuem a
adesão do paciente ao tratamento com estas medicações.
c. Sistema urinário. Os fármacos tipo atropina também são em­
pregados para reduzir a hipermotilidade da bexiga. Ocasional­
mente ela ainda é usada na enurese (emissão involuntária da
urina) em crianças, mas os agonistas a-adrenérgicos com me­
nos efeitos adversos podem ser mais eficazes.
d. Cardiovascular. A atropina produz efeitos divergentes no sistema
cardiovascular, dependendo da dose (Figura 5.4). Em doses bai­
xas, o efeito predominante é a diminuição da frequência cardíaca
(bradicardia). Inicialmente atribuído à ativação central do efluxo
eferente vagai, sabe-se agora que o efeito resulta do bloqueio de
receptores M, nos neurônios inibitórios pré-juncionais (ou pré­
-sinápticos), permitindo então maior liberação de ACh. Em doses
mais elevadas, a atropina bloqueia os receptores M2 no nó sino­
atrial, e a frequência cardíaca aumenta modestamente. Isso em
geral requer 1 mg de atropi
na, que é uma dose mais alta do que a
administrada normalmente. A pressão arterial não é afetada, mas
em níveis tóxicos, a atropina dilata osvasos cutâneos.
e. Secreções. A atropina bloqueia as glândulas salivares, provo­
cando a secura das membranas mucosas orais (xerostomia).As
glândulas salivares são muito sensíveis à atropina. As glândulas
sudoríparas e lacrimais também são afetadas. (Nota: a inibição
da secreção de suor pode causar elevação da temperatura cor­
poral, o que pode ser perigoso em crianças e idosos.)
2. Usos terapêuticos
a. Oftálmico. No olho, a atropina tópica exerce efeito midriático
e cicloplégico, permitindo a mensuração de erros de refração
sem interferência da capacidade adaptativa do olho. (Nota: a
fenilefri
na ou fármacos a-adrenérgicos similares são preferidos
para a dilatação pupilar se não for necessária a cicloplegia.)
Antimuscarínicos de ação mais curta (ciclopentolato e tropica­
mida) substituíram largamente a atropina devido a prolongada
midríase que ela provoca (7 a 14 dias contra 6 a 24 h com os
outros fármacos). A atropina pode induzir crise aguda de dor
ocular devido ao súbito aumento da pressão ocular em indiví­
duos com glaucoma de ângulo estreito.
b. Antiespasmódico. A atropina (na forma do isômero ativo, 1-
-hiosciamina) é usada como antiespasmódico para relaxar o
TGI e a bexiga urinária.
c. Antagonista de agonistas colinérgicos. A atropina é usada
para o tratamento de doses excessivas de inseticidas inibidores
de colinesterase e de envenenamento poralguns tipos de cogu­
melos (certos cogumelos contêm substâncias colinérgicas que
bloqueiam as colinesterases). Doses maciças do antagonista
podem ser necessárias durante um longo período para neutra-
11!
·-
i
QI
"CI
>10mg
Farmacologia Ilustrada 61
Alucinações e
delírio; coma
gi 5 mg
Frequênciacardíaca
rápida; palpitações;
xerostomiaacentuada;
dilatação da pupila;
algumaturbidez na
visão próxima
8
2 mg
Levedepressão
0,5 mg cardíaca; alguma
xerostomia; inibição
dasudoração
Figura 5.4
Efeitos dose-dependentes da atropina.
62 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Contra
náuseas
causadas
devidoà...
Figura 5.5
o
o
Escopo/amina
Doença do
o movimento
o
o
A escopolamina é um fármaco anticine­
tósico eficaz.
Visão
borrada
Confusão
Midríase
Constipação
Retenção
urinária
Figura 5.6
D
,,
V
Efeitos adversos comumente observa­
dos com antagonistas colinérgicos.
lizar o envenenamento. A capacidade da atropina de entrar no
SNC é de particular importância. O fármaco também bloqueia
os efeitos do excesso de ACh resultante de inibidores de acetil­
colinesterase (AChE), como a fisostigmina.
d. Antissecretor. Algumas vezes, a atropina é usada como antis­
secretora para bloquear as secreções dotrato respiratório supe­
rior e inferior, previamente à cirurgia.
3. Farmacocinética. A atropina é bem absorvida, parcialmente bio­
transformada no fígado e eliminada primariamente na urina. Tem
uma meia vida de cerca de 4 horas.
4. Efeitos adversos. Dependendo da dose, a atropina pode causar
xerostomia, visão borrada, sensação de "areia nos olhos", taquicar­
dia e constipação. Os efeitos no SNC incluem intranquilidade, confu­
são, alucinações e delírio, que pode evoluir paradepressão, colapso
dos sistemas circulatório e respiratório e morte. Dosagens baixas
de inibidores de colinesterase, como a fisostigmina, podem ser usa­
dos para neutralizara toxicidade por atropina. Em indivíduos idosos,
o uso de atropina para induzir midríase e cicloplegia é considerado
muito arriscado, pois pode exacerbar uma crise de glaucoma em
alguém com a condição latente. Em outros indivíduos idosos, a atro­
pina pode causar retenção urinária, um efeito adverso incômodo.
Crianças são sensíveis aos efeitos da atropina, em particular ao
rápido aumento da temperatura corporal que ela pode causar. Isso
pode ser perigoso em crianças.
B. Escopolamina
A escopolamina -outro alcaloide aminaterciária de origem vegetal - pro­
duz efeitos periféricos similares aos da atropina. Contudo, a escopolami­
na tem maior ação no SNC (em contraste com a atropina, os efeitos são
observados com dosagens terapêuticas) e uma duração de ação mais
longa. A escopolamina apresenta algumas ações especiais, como indi­
cado a seguir.
1 . Ações. A escopolamina é um dos fármacos anticinetósicos mais efi­
cazes disponíveis (Figura 5.5). Ela também tem o efeito incomum de
bloquear a memória de curta duração. Em contraste com a atropina,
a escopolamina produz sedação, mas em doses mais elevadas pode
produzir excitação. Ela pode causar euforia e é sujeita a abuso.
2. Usos terapêuticos. Embora similarà atropina, os usos terapêuticos
da escopolamina se limitam à prevenção da doença do movimento
(cinetose) (para o que é particularmente eficaz) e ao bloqueio da
memória de curta duração. (Nota: como ocorre com todos os fárma­
cos usados contra a cinetose, a escopolamina é muito mais eficaz
profilaticamente do que para tratar o enjoo quando ele já está ocor­
rendo. A ação amnésica da escopolamina a torna um complemento
importante nos procedimentos anestésicos.)
3. Farmacocinética e efeitos adversos. Esses aspectos são simila­
res aos da atropina.
e. lpratrópio e tiotrópio
lpratrópio e tiotrópio são derivados quaternários da atropina usados
por inalação. Estes fármacos estão aprovados como broncodilatadores
para o tratamento de manutenção do broncoespasmo associado com a
doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), bronquite crônica e enfise-
ma. Estes fármacos também aguardam aprovação para o tratamento da
asma em pacientes que não toleram agonistas adrenérgicos. Devido às
suas cargas positivas, estes fármacos não entram na circulação sistêmi­
ca e nem no SNC, o que limitaseus efeitos ao sistema pulmonar. O tiotró­
pio é administrado uma vez ao dia, sendo a sua principal vantagem sobre
o ipratrópio, que requer dosagens de até quatro vezes ao dia. Ambos são
administrados por inalação. Características importantes dos antagonistas
muscarínicos estão resumidas nas Figuras 5.6 e 5.7.
D. Tropicamida e ciclopentolato
Esses fármacos são usados de modo similar à atropina como soluções
oftálmicas, como midríase e cicloplegia. A duração da ação é menor do
que a da atropina. A tropicamida produz midríase por 6 horas, e o cic/o­
pentolato, por 24 horas.
E. Benztropina e triexifenidila
Estes fármacos são antimuscarínicos de ação central usado por vários
anos para o tratamento da doença de Parkinson. Com o advento de ou­
tros fármacos (p. ex., /evodopalcarbidopa), foram amplamente substituí­
dos. Entretanto, benztropina e triexifenidilsão úteis como adjuvantes de
outros fármacos antiparkinsonianos para tratar todos os tipos de síndro­
mes de Parkinson, incluindo os sintomas extrapiramidais induzidos por
antipsicóticos. Estes fármacos podem ser úteis em pacientes geriátricos
que não toleram os estimulantes.
F. Darifenacina, fesoterodina, oxibutinina, solifenacina,
tolterodina e cloreto de tróspio
Estes fármacos tipo atropina, sintéticos, são usados no tratamento da
doença da bexiga superativa. Bloqueando os receptores muscarínicos
na bexiga, diminui a pressão intravesicular, aumenta a capacidade vesi­
cal e diminui a frequência de contrações da bexiga. Os efeitos adversos
desses fármacos incluem xerostomia, constipação evisão borrada, o que
limita a sua tolerância se usados continuamente. A oxibuti
nina está dis­
ponível como sistema transdérmico (adesivo cutâneo), que é mais bem
tolerado porque causa menos xerostomia do que as formulações orais e
tem melhor aceitação pelo paciente. As eficácias gerais destes fármacos
antimuscarínicos são similares.
Ili. BLOQUEADORES GANGLIONARES
Os bloqueadores ganglionares atuam especificamente nos receptores nico­
tínicos dos gânglios autônomos parassimpático e simpático. Alguns também
bloqueiam os canais iônicos dos gânglios autônomos. Esses fármacos não
mostram seletividade pelos gânglios parassimpático ou simpático, não sen­
do eficazes como antagonistas neuromusculares. Assim, esses fármacos
bloqueiam completamente os impulsos do SNA nos receptores nicotínicos.
Exceto a nicoti
na, os demais fármacos mencionados nesta categoria são an­
tagonistas não despolarizantes competitivos. As respostas aos bloqueadores
não despolarizantes são complexas e praticamente todas as respostas fisio­
lógicas podem ser previstas a partir do conhecimento do tônus predominante
em um determinado sistema orgânico. Por exemplo, o tônus predominante
nas arteríolas é simpático. Na presença do bloqueador não despolarizante,
este sistemaé mais afetado, resultando em vasodilatação. O sistema nervoso
parassimpático é o tônus predominante em vários sistemas orgânicos (ver p.
40). Assim, a presença do bloqueador ganglionar também provoca atonia da
bexiga e do TGI, cicloplegia, xerostomia e taquicardia. Por isso, o bloqueio
Farmacologia Ilustrada 63
Fármaco Usos terapêuticos
Bloqueadores muscarínicos
Triexifenidila
Benztropina
Darifenacina
Fesoterodina
Oxibutinina
Solifenacina
Tolterodina
Tróspio
Ciclopentolato
Tropicamida
Atropina•
Atropina•
Escopo/amina
lpratrópio
•Tratamento do mal de
Parkinson
•Tratamento da bexiga
urinária hiperativa
• Em oftalmologia, para
produzir midríasee
cicloplegiaantes da
refração
• Notratamento de distúrbios
espasmódicos dostratos GI
eurinário inferior
• Notratamento da intoxicação
com organofosforados
• Parasuprimiras secreções
respiratórias antes de
cirurgias
• Em obstetrícia, com
morfina, para produzir
amnésiaesedação
• Na prevenção dacinetose
• Tratamento da DPOC
Bloqueadores ganglionares
Nicotina • Nenhum
Figura 5.7
Resumo dos antagonistas colinérgicos.
*Fármaco contraindicado no glaucoma
de ângulo estreito. GI = gastrintestinal;
DPOC = doença pulmonar obstrutiva
A '
cronica.
64 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Nicotina
'
Dopamina
-
1 Prazer, supressão do apetite
'
'
Norepinefrina
-
1 Alerta, supressão do apetite
'
Acetilcolina
-
1 Alerta, melhora cognitiva
'
-
1 Glutamato 1
'
1
1
1
�1Aprendizado, melhora da memória1
-
1
' Serotonina 1
Modulação do humor, supressão
.. do apetite
'
'
p-endorfina
Diminuição da ansiedadee
datensão
GABA
Diminuição da ansiedadee
da tensão
Figura 5.8
Efeitos neuroquímicos da nicotina.
GABA = ácido 'Y-aminobutírico.
ganglionar raramente é usado em terapêutica, mas com frequência serve
como ferramenta na farmacologia experimental.
A. Nicotina
Um componente da fumaçado cigarro, a nicotina, é um tóxico com vários
efeitos indesejados, não tem utilidade terapêutica e é prejudicial à saúde.
(Nota: a nicoti
na está disponível na forma de adesivos, pastilhas, goma
de mascar e outras formas. Os adesivos são para aplicação na pele. O
fármaco é absorvido e é eficaz para reduzir a compulsão por nicotina nas
pessoas que desejam parar de fumar.) Dependendo da dose, a nicotina
despolariza os gânglios autônomos, resultando primeiro em estimulação
e depois em paralisia de todos os gânglios. O efeito estimulante é com­
plexo devido ao seu efeito tanto nos gânglios simpático como parassim­
pático. Os efeitos incluem aumento da pressão arterial e da frequência
cardíaca (devido à liberação do transmissor dos terminais adrenérgicos e
da suprarrenal) e aumento de peristaltismo e secreções. Em doses mais
elevadas, a pressão arterial cai devido ao bloqueio ganglionar, e a ati­
vidade na musculatura do TGI e da bexiga cessa. (Ver p. 1 24 para uma
discussão completa sobre nicotina.)
B. Mecamilamina
A mecamilamina produz bloqueio nicotínico competitivo nos gânglios. A
mecamilamina foi superada porfármacos com menos efeitos adversos.
IV. FÁRMACOS BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES
Esses fármacos bloqueiam a transmissão colinérgica entre o terminal nervo­
so motor e o receptor nicotínico na placa motora neuromuscular do músculo
esquelético (ver Figura 5.2). Eles são análogos estruturais da ACh e atuam
como antagonistas (tipo não despolarizante) ou agonistas (tipo despolarizan­
te) nos receptores da placa motora da JNM. Os bloqueadores neuromuscula­
res são clinicamente úteis durante a cirurgia para produzir relaxamento mus­
cular completo, evitando o emprego de dosagens mais altas de anestésico
para conseguir relaxamento comparável. Eles também são úteis nas cirurgias
ortopédicas e para facilitar a entubação na traqueia. Os relaxantes muscula­
res centrais são usados para o controle do tônus muscular espástico. Esses
fármacos incluem o di
azepam, que se liga aos receptores do ácido aminobu­
tírico (GABA), o dantroleno, que atua diretamente nos músculos, interferindo
com a liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático, e o baclofeno, que
provavelmente atua no receptor GABA no SNC.
A. Bloqueadores não despolarizantes (competitivos)
O primeiro fármaco encontrado capaz de bloquear a JNM foi o curare,
usado pelos caçadores nativos da América do Sul na região amazônica
para paralisara caça.A tubocurarinafoi purificada e introduzida na prática
clínica no início da década de 1940. Embora a tubocurarina seja consi­
derada o fármaco protótipo dessa classe, ela foi amplamente substituída
por outros fármacos devido aos seus efeitos adversos (ver Figura 5.1 1 ) e
não está mais disponível nos EUA. Os fármacos bloqueadores neuromus­
culares aumentaram significativamente a segurança da anestesia, pois
menos anestésico passou a ser necessário para conseguir relaxamento
muscular, e o paciente se recupera de forma mais rápida e completa após
a cirurgia. (Nota: dosagens mais elevadas de anestésicos podem provocar
paralisia respiratória e depressão cardíaca, aumentando o tempo de recu­
peração após a cirúrgia.) Os bloqueadores neuromusculares não devem
ser usados como substitutos de anestesias superficiais inadequadas.
1 . Mecanismo de ação
a. Em doses baixas. Os fármacos bloqueadores neuromuscu­
lares não despolarizantes interagem com o receptor nicotíni­
co para impedir a ligação da ACh (Figura 5.9). Assim, esses
fármacos impedem a despolarização da membrana da célula
musculare inibem a contração muscular. Como esses fármacos
competem com a ACh no receptor sem estimulá-lo, eles são
denominados bloqueadores competitivos. Sua ação pode ser
superada pelo aumento da concentração de ACh na fenda si­
náptica - por exemplo, com a administração de inibidores de
colinesterase, como neostigmina, piridostigmina ou edrofônio.
Os anestesiologistas em geral empregam essa estratégia para
diminuir a duração do bloqueio neuromuscular. Além disso, em
dosagens baixas, os músculos respondem em graus variados à
estimulação elétrica direta de um estimulador periférico, depen­
dendo da extensão do bloqueio neuromuscular.
b. Em doses elevadas. Os bloqueadores não despolarizantes po­
dem bloquear o canal iônico na placa motora. Isso leva a um
enfraquecimento adicional na transmissão neuromuscular e re­
duza habilidade dos inibidores de AChE em revertera ação dos
relaxantes musculares não despolarizantes. No bloqueio com­
pleto, não se observa estimulação elétrica direta.
2. Ações. Nem todos os músculos são igualmente sensíveis aos blo­
queadores competitivos. Os músculos pequenos de contração rápi­
dadaface e dos olhos são mais suscetíveis a esses fármacos e são
paralisados primeiro, seguidos pelos dedos. Depois, os músculos
dos membros, do pescoço e do tronco são paralisados. A seguir,
são atingidos os músculos intercostais e finalmente o diafragma.
Os músculos se recuperam na ordem inversa, primeiro o diafragma
e por último os músculos da face e dos olhos. Os fármacos que
liberam histamina (p. ex., atracúrio) podem produzir redução da
pressão arterial, vermelhidão e broncoconstrição.
3. Usos terapêuticos. Esses bloqueadores são usados terapeutica­
mente como fármacos adjuvantes da anestesia durante a cirurgia
para relaxar os músculos esqueléticos. Eles também são usados
para facilitar a entubação, bem como durante cirurgias ortopédicas
(p. ex., para alinhamento de fraturas e correção de deslocamentos).
4. Farmacocinética. Todos os fármacos bloqueadores neuromuscula­
res são injetados IV, pois sua absorção após administração via oral
é mínima. Esses fármacos possuem duas ou mais aminas quater­
nárias na sua volumosa estrutura, tornando-os ineficazes por via
oral. Eles penetram pouco nas membranas, não entram nas células
e nem atravessam a barreira hematoencefálica. Vários desses fár­
macos não são biotransformados e suas ações terminam por re­
distribuição (Figura 5.1O). Por exemplo, o pancurônio é excretado
inalterado na urina. O atracúrio é degradado espontaneamente no
plasma e por hidrólise de éster. (Nota: o atracúri
o é substituído pelo
seu isômero, cisatracúrio. Ele libera histamina e é biotransforma­
do na laudanosina, que pode provocar convulsões. O ci
satracúrio,
que tem as mesmas propriedades farmacocinéticas do atracúrio, é
menos propenso a causar esses efeitos.) Os fármacos aminoeste­
roides (vecurônio e rocurônio) são desacetilados no fígado, e suas
depurações são mais demoradas em pacientes com doença hepá­
tica. Esses fármacos também são excretados inalterados na bile. A
escolha do fármaco depende da urgência em obter o relaxamento
Farmacologia Ilustrada 65
Tubocurarina
.
..
. .
. .
• •
. .
Acetilcolina
: :
,·�
�"-.
"···········'
.
·:·
Na+
�·-
..
.
.
..
.....
.
.
...
íílm��?f
�
ô:X'L..
-
-
.....J....LJ�
Receptornicotínicona
junçãoneuromuscular
Figura 5.9
Mecanismo de ação dos fármacos blo­
queadores neuromusculares competi­
tivos.
Os fármacos não
entram facilmente
nas células
rocurônioe li
metabólito
s
aparecem (
principa;e7e
na bile 'Z!JW
A maioria dos 
fármacos é excre
tada
primariamente  (
inalterada na urina
Fármacos bloqueadores
neuromusculares
Figura 5.10
Farmacocinética dos fármacos blo­
queadores neuromusculares. IV = intra­
venoso.
66 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Tempo para alcançaro bloqueio
máximo
1 Tempo para recuperar 25º/oda
�
�
- resposta máxima (min)
Atracúrio 40
2
O ci
satracúr
iosedegradaespontaneamente
no plasmaeé oúnicobloqueadorneuro­
muscularnãodespolarizantecujadosagem
nãoprecisaser reduzidaempacientescom
insuficiênciarenal. Em geral,é usadoem
pacientescominsuficiênciaorgânica
múltipla, poissua biotransformaçãoé
independentedafunçãohepáticaou renal.
O cisatracúr
io é útilemventilaçãomecânica
de pacientescriticamentedoentes.
e. t • . ls
isa racur10 :
L
=:
sa
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
=:
:
Vagolítico (aumenta afrequência
cardíaca)
____
_
_
_
_
_
_;
Pancurônio ,._
�-
�6
-
-
-
-
-
-
-
Rocurônio 1-
/--'-
:
-
3-
-
�
Écomum adormuscularpós-cirúr­
gica; podeocorrerhiperpotassemiae
aumentodas pressõesintraoculare
intragástrica. O fármacopode
desencadearhipertermia maligna.
O iníciorápidodaaçãotornaa
succinilcolinaútilparaaentubação
traqueal em pacientescomconteúdo
gástrico.
S . ., ,. l.h1
ucc1n11co1na @]
Tubocurarina ,.__;8--�
Vecurônio ,._
�-
�
-
-
-..
Figura 5.11
Mecanismo de ação dos fármacos blo­
queadores neuromusculares despolari­
zantes.
muscular e a duração de efeito pretendida. O início e a duração de
ação, bem como outras características dos fármacos bloqueadores
neuromusculares são mostrados na Figura 5.1 1 .
5. Efeitos adversos. Em geral, os fármacos são seguros com efeitos
adversos mínimos. Os efeitos adversos dos fármacos bloqueadores
neuromusculares específicos são mostrados na Figura 5.1 1 .
6. Interações de fármacos
a. Inibidores de colinesterase. Fármacos como neostigmina, fi­
sostigmina, piridostigmina e edrofônio podem reverter a ação
dos bloqueadores neuromusculares não despolarizantes, mas,
com dosagens elevadas, os inibidores de colinesterase podem
causar um bloqueio despolarizante como resultado da concen­
tração elevada de ACh na placa motora. Se o bloqueador neu­
romuscular entrou no canal iônico, os inibidores de colinestera­
se são incapazes de reverter o bloqueio.
b. Anestésicos hidrocarbonetos halogenados. Fármacos como
o halotano potencializam o bloqueio neuromuscular por exerce­
rem umaação estabilizadora na JNM. Esses fármacos sensibili­
zam a JNM aos efeitos dos bloqueadores neuromusculares.
c. Antibióticos aminoglicosídeos. Fármacos como a gentamici­
na e a tobramicina inibem a liberação de ACh dos nervos co­
linérgicos por competição com os íons de cálcio. Eles atuam
sinergicamente com o pancurônio e outros bloqueadores com­
petitivos, aumentando o bloqueio.
d. Bloqueadores de canais de cálcio. Esses fármacos podem
aumentaro bloqueio neuromusculardos bloqueadores competi­
tivos, bem como os bloqueadores despolarizantes.
B. Fármacos despolarizantes
Os fármacos bloqueadores despolarizantes atuam por despolarização da
membrana plasmática dafibra muscular, similarà ação daACh. Entretan­
to, estesfármacos são mais resistentes à degradação pela AChE e assim
despolarizam as fibras musculares de modo mais persistente. A succi­
nilcolina é o único relaxante muscular depolarizante usado atualmente.
1. Mecanismo de ação. O bloqueador neuromuscular despolarizan­
te succinilcolina liga-se ao receptor nicotínico e atua como a ACh
despolarizando a junção (Figura 5.12). Ao contrário da ACh, que é
destruída instantaneamente pela AChE, o fármaco despolarizante
persiste em concentração elevada na fenda sináptica, permanecen­
do ligado ao receptor por um tempo maior e causando uma estimu­
lação constante do receptor. (Nota: a duração da ação da succinil­
colina depende da sua difusão da placa motora e da hidrólise pela
pseudocolinesterase plasmática.) O fármaco despolarizante inicial­
mente causa a abertura do canal de sódio associado ao receptor
nicotínico, o que resulta na despolarização do receptor (Fase 1). Isso
leva a abalos contráteis transitórios do músculo (fasciculações). A
ligação persistente torna o receptor incapaz de transmitir impulsos
adicionais. Com o tempo, a despolarização contínua dá origem a
uma repolarização gradual quando o canal de sódio se fecha ou
é bloqueado. Isso causa a resistência à despolarização (Fase 11) e
paralisia flácida.
2. Ações. A sequência de paralisia pode ser ligeiramente diferente,
mas como ocorre com os bloqueadores competitivos, os músculos
respiratórios são paralisados por último. A succinilcolina inicialmen­
te produz fasciculações musculares breves e, em doses elevadas,
bloqueio ganglionar, mas apresenta uma leve ação liberadora de
histamina. (Nota: a administração de pequena dose de bloqueador
neuromuscular não despolarizante previamente à succini/colina di­
minui ou previne as fasciculações que causam dor muscular.) Em
geral, a duração de ação da succinilcolina é extremamente curta,
pois o fármaco é rapidamente hidrolisado pelas pseudocolinestera­
ses do plasma. Contudo, a succinilcolina que alcança a JNM não é
biotransformada pela AChE, permitindo que o fármaco se ligue ao
receptores nicotínicos. A sua redistribuição ao plasma é necessária
para a biotransformação (o efeito terapêutico dura poucos minutos).
(Nota: variantes genéticas que têm níveis baixos ou ausentes de
pseudocolinesterase plasmática apresentam paralisia neuromuscu­
lar prolongada.)
3. Usos terapêuticos. Devido ao rápido início e à curta duração de
ação, a succinilcolina é útil quando a rápida entubação endotra­
queal é necessária durante a indução da anestesia (a ação rápida
é essencial se a aspiração do conteúdo gástrico deve ser evitada
durante a entubação). Ela também é usada durante tratamento com
choque eletroconvulsivo.
4. Farmacocinética. A succi
nilco/ina é injetada IV. Sua breve duração
de ação (alguns minutos) resulta da redistribuição e da rápida hidró­
lise pela pseudocolinesterase plasmática. Por isso, algumas vezes,
ela é administrada por infusão contínua para manter um efeito mais
longo. O efeito do fármaco desaparece rapidamente ao ser descon­
tinuado.
5. Efeitos adversos
a. Hipertermia. Quando o halotano (ver p. 1 38) é usado como
anestésico, a administração de succinilcolina às vezes causa
hipertermia maligna (com rigidez muscular, acidose metabólica,
taquicardia e hiperpirexia) em humanos geneticamente suscetí­
veis (ver Figura 5.1 1). Isso é tratado com o rápido resfriamento
do paciente e com a administração de dantroleno, que bloqueia
a liberação de Ca
2
+ do retículo sarcoplasmático das células
musculares, reduzindo, assim, a produção de calor e relaxando
o tônus muscular.
b. Apneia. A administração de succinilcolina a um paciente que é
deficiente genético de colinesterase plasmáticaou quetem uma
forma atípica da enzima pode levar à apneia prolongada devido
à paralisia do diafragma. A liberação rápida de potássio contri­
bui também para prolongar a apneia em pacientes com dese­
quilíbrios eletrolíticas que recebem este fármaco. Os pacientes
com desequilíbrios eletrolíticas sob tratamento com digoxina ou
diuréticos (como os pacientes com insuficiência cardíaca con­
gestiva) devem receber succinilcolina cautelosamente ou nem
recebê-la.
e. Hiperpotassemia. A succini/coli
na aumenta a liberação de po­
tássio das reservas intracelulares. Isso é particularmente peri­
goso em pacientes queimados ou com lesão tecidual extensa
nos quais o potássio é rapidamente perdido pelas células.
Farmacologia Ilustrada 67
FASE I
A membrana despolariza, resultando
em umadescarga inicial que produz
fasciculaçõestransitórias seguidas
de paralisiaflácida.
- - -
Succinilco/ina
Na+
Receptor nicotínico na
junção neuromuscular Na+
FASE li
A membrana repolariza, mas o
receptoré dessensibilizado
aos efeitos da acetilcolina.
Figura 5.12
Mecanismo de ação dos fármacos blo­
queadores neuromusculares despolari­
zantes.
68 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
5.1 Um homem com 75 anos que foi fumante é diagnosticado
com doença pulmonar obstrutiva crônica e sofre de bron­
coespasmos ocasionais. Qual dentre os seguintes fárma­
cos será eficaz no seu tratamento?
A. lpratrópio em aerossol
B. Adesivos de escopolamina
C. Mecamilamina
D. Oxigênio
E. Nicotina
5.2 Qual dos seguintes fármacos precipitaria uma crise de
glaucoma de ângulo amplo se instilado no olho?
A. Fisostigmina
B. Atropina
C. Pilocarpina
D. Ecotiofato
E. Tropicamida
5.3 A apneia prolongada algumas vezes observada em pa­
cientes operados nos quais foi empregada succinilcolina
como relaxante muscular é atribuída a:
A. Atonia urinária.
B. Níveis baixos de colinesterase plasmática.
C. Mutação na acetilcolinesterase.
D. Mutação no receptor nicotínico na junção neuromus­
cular.
E. Fraca ação de liberar histamina.
5.4 Um homem com 50 anos, trabalhador em uma fazenda, é
trazido à emergência. Ele foi encontrado confuso no po­
mar e desde então perdeu a consciência. A sua frequência
cardíaca é 45 e a pressão arterial é 80/40 mmHg. Ele está
suando e salivando profusamente. Qual dos seguintes tra­
tamentos é indicado?
A. Fisostigmina
B. Norepinefrina
C. Trimetafana
D. Atropina
E. Edrofônio
5.5 Os bloqueadores neuromusculares não despolarizantes
estão associados com todos seguintes aspectos, exceto:
A. Ativação inicial do receptor de ACh e despolarização
da placa motora.
B. Os efeitos são revertidos com os inibidores de acetilco-
linesterase.
e. Têm duração de ação intermediária a longa.
D. Ligam-se ao receptor da ACh, mas não o ativam.
E. A maioria destes fármacos tem efeitos cardiovascula­
res mínimos.
Resposta correta = A. Esse é o fármaco de escolha especialmente
em paciente que não tolera um agonista adrenérgico, que dilataria
os bronquíolos. O principal efeito da escopolamina é atropínico e ela
é um dos fármacos anticinetósicos mais eficazes. A mecamilamina
é um bloqueador ganglionar e é completamente inadequada para a
situação. O oxigênio melhoraria a aeração, mas não dilataria a mus­
culatura bronquial.A nicotina agrava esta condição.
Resposta correta = B. O efeito midriático da atropina pode resultar
em estreitamento do canal de Schlemm, levando a um aumento na
pressão intraocular. Fisostigmina, pilocarpina e ecotiofato causam
miose. Atropicamidaproduz midríase sem aumentara pressão intra­
oculardevidoà sua duração de ação mais curta.
Resposta correta = B. Esses pacientes têm uma deficiência genética
da colinesterase plasmática não específica que é necessária para
terminarcom aaçãoda succinilcolina.Asoutras alternativas nãopro­
vocam apneia.
Resposta correta = D. O paciente exibe sinais de estimulação coli­
nérgica.Comoele é um fazendeiro, o envenenamento com inseticida
é um diagnóstico provável. Assim, doses IV ou IM de atropina são
indicadas para antagonizar os sinais muscarínicos. A fisostigmina e
o edrofônio são inibidores de colinesterase e agravariam o problema.
A norepinefrina não é eficaz no combate à estimulação colinérgi­
ca. A trimetafana como bloqueador ganglionar também agravaria a
condição.
Resposta correta = A. Aos fármacos despolarizantes (succinilcolina)
é atribuída a ativação do receptor da ACh. As alternativas B, e e D
são corretas para os fármacos não despolarizantes. O pancurônio
pode causartaquicardiae hipertensão; o rocurônio e ovecurônio têm
perfil de segurançacardiovascular favorável.
, •
rener ICOS
1. RESUMO
Os fármacos adrenérgicos atuam em receptores que são estimulados pela no­
repinefrina ou pela epinefrina.Algunsfármacos adrenérgicos atuam diretamen­
te no receptor adrenérgico (adrenorreceptor), ativando-o e sendo denomina­
dos simpaticomiméticos. Outros, como será tratado no Capítulo 7, bloqueiam a
ação dos neurotransmissores nos receptores (simpaticolíticos), e outros afetam
a função adrenérgica, interrompendo a liberação de norepinefrina dos neurô­
nios adrenérgicos. Este capítulodescreve osfármacos que estimulam direta ou
indiretamente o adrenorreceptor (Figura 6.1).
li. O NEURÔNIO ADRENÉRGICO
Os neurônios adrenérgicos liberam norepinefrina como neurotransmissor
primário. Esses neurônios são encontrados no SNC e também no sistema
nervoso simpático, onde eles servem de ligação entre os gânglios e os ór­
gãos efetores. Os neurônios adrenérgicos e os receptores, localizados pré­
-sinapticamente no neurônio ou pós-sinapticamente no órgão efetor, são os
locais de ação dos fármacos adrenérgicos (Figura 6.2).
A. Neurotransmissão nos neurônios adrenérgicos
A neurotransmissão nos neurônios adrenérgicos é muito similar à descri­
ta para os neurônios colinérgicos (ver p. 47), exceto que a norepinefrina
é o neurotransmissor, em vez de acetilcolina. A neurotransmissão ocor­
re nos numerosos alargamentos semelhantes às contas de um rosário,
denominados varicosidades. O processo envolve cinco etapas: síntese,
armazenamento, liberação e ligação com o receptorda norepinefrina, se­
guido da remoção do neurotransmissor da fenda sináptica (Figura 6.3).
1 . Síntese de norepinefrina. A tirosina é transportada por um trans­
portador ligado a Na+ para o axoplasma do neurônio adrenérgico,
onde é hidroxilada a di-hidroxifenilalanina (DOPA) pela tirosina hi-
FÁRMACOS DEAÇÃODIRETA
Albuterol
Clonidi
na
Dobutamina"
Dopamina"
Epinefrina"
Feno/dopam
Formoterol
/soproterenol"
Metaproterenol"
Norepinefrina"
Fenilefrina
Salmeterol
Terbutalina
FÁRMACOSDE AÇÃO INDIRETA
Anfetamina
Cocaí
na
FÁRMACOS DE AC(ÃO DIRETA E INDIRETA
(AÇAOMISTA)
Figura 6.1
Efedri
na
Pseudoefedrina
Resumo dos agonistas adrenérgicos.
Fármacos assinalados com * são cate­
colaminas.
70 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Receptor
nicotínico
Suprarrenal
Epinefrina
liberada
na circulação
sanguínea
o
•
Receptor
adrenérgico
,
Receptor
nicotínico
Norepinefrina
Receptor
adrenérgico
Orgãos efetores
Figura 6.2
Locais de ação dos agonistas adrenér-
•
glCOS.
droxilase.
1
Essa é a etapa limitante da velocidade de síntese de
norepinefrina. A DOPA é descarboxilada pela dopadescarboxilase
(descarboxilase de L aminoácido aromático), formando dopamina
no citoplasma do neurônio pré-sináptico.
2. Armazenamento de norepinefrina em vesículas. A dopamina é en­
tãotransportada parao interiordasvesículas porum sistematranspor­
tador de aminas que também está envolvido na captação da norepi­
nefrina pré-formada. Esse sistema é bloqueado pela reserpi
na (ver p.
96).A dopamina é hidroxilada paraformara norepinefri
na pela enzima
dopamina hidroxilase. (Nota: as vesículas sinápticas contêm dopami­
na ou norepinefri
na mais trifosfato de adenosina [A
TP] e hidroxilase,
bem como outros cotransmissores.) Na suprarrenal, a norepinefri
na é
metilada à epinefrina e armazenada nas células cromafins junto com
norepinefrina. Sob estimulação, a suprarrenal libera cerca de 80°
/o de
epinefrina e 20°
/
o de norepinefrina diretamente na circulação.
3. Liberação de norepinefrina. A chegada do potencial de ação na
junção neuromuscular inicia a entrada de íons cálcio do líquido ex­
tracelular para o axoplasma. O aumento no cálcio causa afusão das
vesículas com a membrana celular e a liberação de seu conteúdo
(exocitose) na sinapse. Fármacos como a guanetidi
na bloqueiam
essa liberação (ver p. 96).
4. Ligação aos receptores. A norepinefrina liberada das vesículas
sinápticas difunde-se através do espaço sináptico e se liga aos re­
ceptores pós-sinápticos no órgão efetor ou aos receptores pré-si­
nápticos no terminal nervoso. O reconhecimento da norepinefrina
pelos receptores inicia uma cascata de eventos no interior da célu­
la, resultando na formação do segundo mensageiro intracelular que
atua como intermediário (transdutor) na comunicação entre o neuro­
transmissore aação gerada no interiorda célula efetora. Receptores
adrenérgicos usam o monofosfato cíclico de adenosina (AMP0) como
segundo mensageiro
2
e o ciclo do fosfatidilinositol
3
para transduzir o
sinal em um efeito. A norepinefrina também se liga a receptores pré­
-sinápticos que modulam a liberação do neurotransmissor.
5. Remoção da norepinefrina. A norepinefri
na pode 1) difundir-se
para fora da fenda sináptica e entrar na circulação geral; 2) ser me­
tabolizada a derivados 0-metilados pela catecol-0-metiltransferase
associada à membrana pós-sináptica na fenda sináptica ou 3) ser
capturada por um sistema de transporte que a bombeia de volta
para o neurônio. A captação neuronal envolve uma ATPase ativada
por Na+ ou K+ que pode ser inibida pelos antidepressivos tricíclicos,
como imipramina, ou pela cocaína (ver Figura 6.3). O mecanismo de
captação da norepinefrina para o interior do neurônio pré-sináptico
é o mecanismo primário paraterminar com os seus efeitos.
6. Possíveis destinos da norepinefrina captada. Logo que a nore­
pinefrina entra no citoplasma do neurônio adrenérgico, ela é capta­
da para o interior da vesícula através do sistema transportador de
aminas e é sequestrada para futura liberação por outro potencial
1
Ver Capítulo 21 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para
uma discussão sobre a síntese de DOPA.
2
Ver Capítulo 8 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma
discussão sobre sistema de segundo mensageiro AMPc.
3Ver Capítulo 17 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para
uma discussão sobre ciclo do fosfatidilinositol.
SÍNTESE DA
NOREPINEFRINA
• Ahidroxilação datirosinaé aetapa
limitante da velocidadedesíntese.
Tirosina
Na+
Tirosina
Na+
t
1.--�
DOPA
. /l- Metabólitos
Urina � inativos t
REMOÇÃO DA
NOREPINEFRINA
Dopamina
Dopamina
�
Jl � .....
Ca2+ � .....
Ca2+
�o
Vesícula
sináptica
Farmacologia Ilustrada 71
CAPTAÇÃO EM VESÍCULAS
DE ARMAZENAMENTO
• A dopaminaentrana
vesículaeéconvertida
em norepinefrina.
• A norepinefrina é protegida
dadegradação navesícula.
• Otransporte paraa vesícula
é inibido pela reserpina.
[:li LIBERAÇÃO DO
� NEUROTRANSMISSOR
• O influxo de cálcio causafusão
davesícula com a membrana
celular, um processo denominado
exocitose.
• A liberação é bloqueada por
guanetidinae bretílio.
• A norepinefrina liberadaé rapi­
damente captada pelo neurônio.
• A captação neuronal é inibida
pela cocaínae imipramina.
.....
.....
Receptor
pré-sináptico
Urina /l- Metabólitos
� inativos
� METABOLISMO
• A norepinefrinaé
metilada pela COMT
e oxidada pela MAO.
Figura 6.3
..... �
--
-
_!
1'Y.o,ep;nefrina
Catecol-0-
-metiltransferase
(COMT)
JJ
RESPOSTA INTRACELULAR
Síntese e liberação de norepinefrina do neurônio adrenérgico. MAO = monoamina oxidase.
de ação ou pode permanecer no citoplasma em um pool protegido.
Alternativamente, a norepinefrina pode ser oxidada pela monoami­
naoxidase (MAO), presente na mitocôndria neuronal. Os produtos
inativos do metabolismo da norepinefrina são excretados na urina,
como ácido vanililmandélico, metanefrina e normetanefrina.
B. Receptores adrenérgicos (adrenorreceptores)
No sistema nervoso simpático, várias classes de adrenorreceptores po­
dem ser diferenciadas farmacologicamente. Duas famílias de receptores,
designadas a e 13, foram inicialmente identificadas com base na respos­
ta aos agonistas adrenérgicos epinefrina, norepinefrina e isoproterenol.
O uso de fármacos bloqueadores específicos e a clonagem de genes
-
LIGAÇAO
AO RECEPTOR
• O receptor pós-sináptico
é ativado pela ligação
do neurotransmissor.
72 Clark, Finkel, Rey &Whalen
rJ Adrenorreceptores a
Norepinefrina
Epinefrina lsoproterenol
• • •
' ' l
IDlID �
= �
=�
=
Receptoro:
Alta � Baixa
afinidade
afinidade
l]J Adrenorreceptores J
Epinefrina
lsoproterenol Norepinefrina
• • •
' ' l
IDfill=+ n
1
1--+ {
filfilj� =
Receptor�
Alta +- Baixa
afinidade
afinidade
Figura 6.4
Tipos de receptores adrenérgicos.
revelaram as identidades moleculares de inúmeros subtipos de recepto­
res. Essas proteínas pertencem a uma família multigênica. Alterações na
estrutura primária dos receptores influenciam sua afinidade para vários
fármacos.
1 . Receptores a1 e a2• Os adrenorreceptores apresentam respostas
fracas ao agonista sintético isoproterenol, mas eles respondem às
catecolaminas naturais epinefri
na e norepinefrina (Figura 6.4). Para
os receptores a, a ordem de potência é epinefrina > norepinefri­
na >> isoproterenol. Os adrenorreceptores a são subdivididos em
dois grupos, a1 e a2, com base nas suas afinidades por agonistas e
bloqueadores a. Por exemplo, os receptores a1 têm maior afinidade
por fenilefri
na do que os receptores a2• Ao contrário, a clonidina se
liga seletivamente aos receptores a2 e tem menor efeito nos recep­
tores a1•
a. Receptores a1• Esses receptores estão presentes na membrana
pós-sinápticadosórgãos efetores e intermedeiam vários dos efei­
tos clássicos-originalmente designados como a-adrenérgicos-,
envolvendo contração de músculo liso.A ativação dos receptores
a1 inicia uma série de reações por meio da fosfolipase C ativada
pela proteína G, resultando na formação de inositol1 ,4,5trifosfato
(IP3) e de diacilglicerol (DAG) do fosfatidilinositol. O IP3 inicia a
liberação de Ca
2
+ do retículo endoplasmático para o citosol, e o
DAG ativa outras proteínas no interiorda célula (Figura 6.5).
b. Receptores a2• Esses receptores, localizados primariamente
nas terminações nervosas pré-sinápticas e em outras células,
como a célula do pâncreas e certas células musculares lisas
vasculares, controlam respectivamente a liberação do neurome­
diador adrenérgico e da insulina. Quando um nervo simpático
adrenérgico é estimulado, a norepinefrina liberada atravessa a
fenda sináptica e interage com o receptor a1• Uma porção da
norepinefrina liberada reage com os receptores a2 na membra­
na neuronal (ver Figura 6.5). A estimulação desse receptor a2
promove retroalimentação inibitória da liberação de norepine­
frina do neurônio adrenérgico estimulado. Esse efeito inibitório
diminui a liberação adicional do neurônio adrenérgico e serve
como um mecanismo modulador local para reduzir o débito de
neuromediador simpático quando há atividade simpática eleva­
da. (Nota: neste caso, esses receptores atuam como autorre­
ceptores inibitórios). Receptores a2 também são encontrados na
pré-sinapse dos neurônios parassimpáticos. A norepinefrina li­
berada de um neurônio pré-sináptico simpático pode difundir-se
e interagir com esses receptores, inibindo a liberação de acetil­
colina. (Nota: neste caso, tais receptores atuam como heterorre­
ceptores inibitórios). Este é outro mecanismo modular local para
controlar a atividade autônoma em certas áreas. Em contraste
com os receptores a1, os efeitos da ligação com os receptores
a2 são mediados pela inibição da adenililciclase e pela redução
nos níveis intracelulares de AMPc.
c. Subdivisões adicionais. Os receptores a1 e a2 são subdividi­
dos em a1A, a18, a1c e a10 e em a2A, a28, a2c e a20• Essa clas­
sificação estendida é necessária para entender a seletividade
de alguns fármacos. Porexemplo, tansu/osina é um antagonista
seletivo a1A e é usada para o tratamento da hiperplasia benigna
de próstata. O fármaco é útil clinicamente, pois atua sobre os
receptores a1Aencontrados primariamente notrato urinário e na
próstata.
2. Receptores (3. Os receptores 13 exibem um conjunto de respostas
diferentes daquelas dos receptores a. Eles se caracterizam por uma
intensa resposta ao isoproterenol, com menor sensibilidade para
epinefrina e norepinefrina (ver Figura 6.4). Para os receptores 13,
a ordem de potência é isoproterenol > epinefri
na > norepinefrina.
Os adrenorreceptores 13 podem ser subdivididos em três grupos
principais, 131, 132 e 133, com base nas afinidades pelos agonistas e
antagonistas, embora muitos outros tenham sido identificados por
clonagem gênica. (Nota: sabe-se que os receptores 133 estão en­
volvidos na lipólise, mas seu papel em outras reações específicas
permanece desconhecido.) Os receptores 131 têm aproximadamente
a mesma afinidade para epinefrina e norepinefrina, e os receptores
132 têm maior afinidade para epinefrina do que para norepinefrina.
Assim, os tecidos com predominância de receptores 132 (como os
vasos dos músculos esqueléticos) são particularmente responsivos
aos efeitos hormonais da epinefrina circulante liberada pela suprar­
renal. A ligação de um neurotransmissor a algum dos três recepto­
res 13 resulta na ativação de adenililciclase e, portanto, no aumento
da concentração de AMPc no interior da célula.
3. Distribuição dos receptores. Os órgãos e tecidos inervados adre­
nergicamente tendem a ter predominância de um tipo de receptor.
Por exemplo, os tecidos como os vasos dos músculos esqueléticos
têm os receptores a1 e 132, mas os 132 predominam. Outros tecidos
podem terexclusivamente um tipo de receptor, com número pratica­
mente insignificante de outros tipos de receptores adrenérgicos. Por
exemplo, o coração contém predominantemente receptores 131•
4. Respostas características mediadas pelos adrenorreceptores.
,
E útil organizar as respostas fisiológicas à estimulação adrenérgi-
ca de acordo com o tipo de receptor, pois vários fármacos estimu­
lam ou bloqueiam preferencialmente um tipo. A Figura 6.6 resume
os efeitos mais proeminentes mediados pelos adrenorreceptores.
Como generalização, a estimulação de receptores a, caracteristi­
camente provoca vasoconstrição (particularmente na pele e nas
vísceras abdominais) e um aumento na resistência periférica total
e na pressão arterial. A estimulação dos receptores 131 causa esti­
mulação cardíaca característica, ao passo que a estimulação dos
receptores 132 produz vasodilatação (no leito vascular esquelético) e
relaxamento bronquial.
( ADRENORRECEPTORES )
1
1 1 1
ª1 ª2 P1
- Inibição da liberação Taquicardia
- Vasoconstrição -
de norepinefrina
- Aumento da - Aumento da lipólise
Vesícula
sináptica
o
o
•
o
•
Farmacologia Ilustrada 73
Receptores a2
Aativação desses
receptores diminui a
produção deAMPc,
levando à inibição da
liberação adicional de
norepinefrinado
� .
neuron10.
ATP AMPc
...../'
Adenililciclase
Norepic::na
�
...-
--
�.

Fosfoino- O DA�
sitídeos :-=< --,/Ca2+ r---.
de membrana IP3
V
.>
Receptores a1
Aativação desses receptores aumenta
a produção de DAG e IP3, levando
ao aumento intracelular de íons
cálcio.
Figura 6.5
Segundos mensageiros intermedeiam
os efeitos dos receptores a. DAG =
diacilglicerol; IP3 = trifosfato de inositol;
ATP = trifosfato de adenosina; AMPC =
monofosfato cíclico de adenosina.
1
P2
1- Vasodilatação
1- Leve redução da
resistência periférica
resistência periférica - Inibição da - Aumento da contratilidade Broncodilatação
liberação de acetilcolina 1-
-
Aumento da pressão arterial
- Inibição da
- Midríase liberação de insulina
- Maiorfechamento do
esfíncter interno da
bexiga urinária
Figura 6.6
Principais efeitos mediados pelos adrenorreceptores a e 13.
do miocárdio
1-
-
Aumento da liberação
de renina ,__
1-
Aumento daglicogenólise
hepáticae muscular
Aumento da liberação
deglucagônio
Relaxamento da
musculatura uterina
74 Clark, Finkel, Rey &Whalen
HO
HO
HO �
HO
HO �
HO
HO �
HO Y"'
HO �
OH H
1 /
CH- CH2- N
"-cH3
Fenilefrina
OH H
1 /
.....__,,.,CH- CH- N
1 "
CH3 CH3
Efedrina
Norepinefrina
Epinefrina
OH H
1 /
CH-CH - N CH
2 " / 3
CH
"
/soproterenol CH3
Aafinidadepelos
receptores�aumentacom
oaumentodogrupoligado
aonitrogênioamínico.
Dopamina
Figura 6.7
Estrutura de vários agonistas adrenér­
gicos importantes. Os fármacos con­
tendo o anel catecólico estão represen­
tados em amarelo.
5. Dessensibilização de receptores. A exposição prolongada às ca­
tecolaminas reduz a sensibilidade desses receptores, um fenômeno
denominado dessensibilização. Três mecanismos tentam explicar
o fenômeno: 1) sequestro dos receptores de forma que ficam in­
disponíveis para interação com o ligante; 2) regulação para baixo
(down-regulation, dessensibilização), que é o desaparecimento do
receptor por destruição ou pordiminuição de síntese e 3) uma inca­
pacidade de acoplar-se à proteína G, pois o receptor foi fosforilado
no lado citoplasmático por uma das proteínas quinases do receptor
a- ou (3-adrenérgico.
Ili. CARACTERÍSTICAS DOS AGONISTAS
ADRENÉRGICOS
A maioria dos fármacos adrenérgicos é derivada dafeniletilamina (Figura 6.7).
Substituições no anel benzênico ou na cadeia lateral etilamina produzem uma
grande variedade de compostos com variadas habilidades de diferenciar en­
tre adrenorreceptores a e 13 e de penetrar no SNC. Dois aspectos estruturais
importantes desses fármacos são 1 ) o número e a localização das substitui­
ções nas OH no anel benzênico e 2) a natureza dos substitutos no nitrogênio
•
am1no.
A. Catecolaminas
As aminas simpaticomiméticas que contêm o grupo 3,4-di-hidroxibenze­
no (como epinefrina, norepinefrina, isoproterenol e dopamina) são de­
nominadas catecolaminas. Esses compostos apresentam em comum as
seguintes propriedades:
1 . Alta potência. Osfármacos que são derivados catecol (com grupos
-OH nas posições 3 e 4 do anel benzênico) mostram a maior potên­
cia na ativação direta dos receptores a e (3.
2. lnativação rápida. As catecolaminas não só são biotransformadas
pela COMT pós-sinapticamente e pela MAO intraneuronal, mas
também são biotransformadas em outros tecidos. Por exemplo, a
COMT está na parede intestinal, e a MAO, no fígado e na parede
intestinal. Assim, as catecolaminas têm um curto período de ação
quando administradas parenteralmente e são ineficazes quando ad­
ministradas por via oral, pois são inativadas.
3. Escassa penetração no SNC. As catecolaminas são polares e,
por isso, não penetram facilmente no SNC. Apesar disso, a maioria
desses fármacos tem alguns efeitos clínicos (ansiedade, tremores e
cefaleias) que são atribuídos à ação sobre o SNC.
B. Aminas não catecólicas
Compostos que não têm os grupos hidroxicatecólicos têm meias-vidas
mais longas, pois não são inativados pela COMT. Incluem-se fenilefri
na,
efedri
na e anfetamina. A fenilefri
na, que é um análogo da epinefrina, tem
só uma-OH na posição 3 do anel benzênico, e a efedri
na não tem hidro­
xilas, mas tem um grupo metila no carbono a. Eles são maus substratos
para a MAO e, assim, mostram ação prolongada, pois a MAO é uma via
importante de biotransformação. A maior lipossolubilidade de várias ami­
nas não catecólicas (devido à ausência dos grupos hidroxila que são po­
lares) permite maior acesso ao SNC. (Nota: a efedrina e a anfetamina po­
dem atuar indiretamente por liberação de catecolaminas armazenadas.)
C. Substituições no nitrogênio amínico
A natureza e o volume do substituto no nitrogênio amínico são impor­
tantes na determinação da seletividade J3 do agonista adrenérgico. Por
exemplo, a epinefrina, com um substituto -CH3 no nitrogênio amínico, é
mais potente nos receptores do que a norepinefrina, que tem uma amina
não substituída. De forma similar, o isoproterenol, que tem um substituto
isopropila -CH(CH3)2 no nitrogênio amínico (ver Figura 6.7), é um forte
J3-agonista com pouca atividade a (ver Figura 6.4).
D. Mecanismo de ação dos agonistas adrenérgicos
1 . Agonistas de ação direta. Esses fármacos atuam diretamente
nos receptores a ou J3, produzindo efeitos similares aos resultan­
tes da estimulação dos nervos simpáticos ou da liberação do hor­
mônio epinefrina da suprarrenal (Figura 6.8). Exemplos de agonis­
tas de ação direta incluem epinefrina, norepinefrina, isoproterenol
e fenilefrina.
2. Agonistas de ação indireta. Esses fármacos, que incluem anfe­
tamina, cocaína e tiramina, podem bloquear a captação de norepi­
nefrina (bloqueadores de captação) ou são captados pelo neurônio
pré-sináptico e causam a liberação de norepinefrina do pool cito­
plasmático ou das vesículas do neurônio adrenérgico (ver Figura
6.8). Como ocorre com a estimulação neuronal, a norepinefrinaatra­
vessa a sinapse e se liga aos receptores a ou J3. Exemplos de blo­
queador de captação e de liberador de norepinefrina são a cocaína
e as anfetaminas, respectivamente.
3. Agonistas de ação mista. Alguns agonistas, como a efedrina e seu
estereoisômero pseudoefedrina, têm a capacidade de estimular os
adrenorreceptores diretamente e de liberar norepinefrina do neurô­
nio adrenérgico (ver Figura 6.8).
IV. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO DIRETA
Os agonistas de ação direta se ligam aos receptores adrenérgicos sem inte­
ragir com o neurônio pré-sináptico. O receptor ativado inicia a síntese do se­
gundo mensageiro e dos sinais intracelulares subsequentes. Como um grupo,
esses fármacos são bastante usados clinicamente.
A. Epinefrina
A epinefrina é uma das quatro catecolaminas - epinefrina, norepinefrina,
dopamina e dobutamina -comumente usadas em tratamento. As três pri­
meiras ocorrem naturalmente no organismo como neurotransmissores, e
a última é um composto sintético. A epinefri
na é sintetizada da tirosina na
suprarrenal e é liberadajunto com pequenas quantidades de norepinefri
na
na corrente sanguínea. Ela interage com os receptores a e J3. Em doses
baixas, os efeitos J3 (vasodilatação) no leito vascular predominam, e em
altas doses, os efeitos a (vasoconstrição) são mais intensos.
Farmacologia Ilustrada 75
AÇÃO INDIRETA
Os fármacos aumentam a
liberação de norepinefrina
das vesículas.
NEURÔNIO
SINAPSE
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•
o AÇÃO
MISTA
Osfármacos
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..._
.,.. indiretamente•
......
AÇÃO DIRETA
MEMBRANA
PÓS-SINÁPTICA
DACÉLULA-ALVO
Os fármacos ativam
diretamente o receptor.
Figura 6.8
Locais de ação direta, indireta e mista
dos agonistas adrenérgicos.
76 Clark, Finkel, Rey &Whalen
A epinefrinaaumenta a
frequênciae aforça de
contração cardíaca.
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Alta
Baixa
A epinefrina
diminui a
resistência
periférica.
Figura 6.9
Infusão de
epinefrina
o 15
Tempo (min)
A pressão sistólica
aumenta, e a
pressão diastólica
reduz.
Efeitos cardiovasculares da infusão IV
de doses baixas de epinefrina.
1 . Ações
a. Cardiovascular. As principais ações da epinefri
na são no siste­
ma cardiovascular. A epinefri
na reforça a contratilidade do mio­
cárdio (inotropismo positivo: ação 131) e aumenta a frequência de
contração (cronotropismo positivo: ação 131). O débito cardíaco,
então, aumenta. Com esses efeitos, aumenta a demanda de oxi­
gênio pelo miocárdio. A epinefri
na ativa receptores 131 nos rins,
promovendo a liberação de renina. A renina é uma enzima envol­
vida na produção de angiotensina li, um vasoconstritor potente.
A epinefrina contrai as arteríolas da pele, mucosas e vísceras
(efeito a) e dilata os vasos que vão ao fígado e músculos esque­
léticos (efeito 132). O fluxo de sangue para os rins diminui. Portan­
to, o efeito cumulativo é um aumento na pressão arterial sistólica,
associado à ligeira redução na pressão diastólica (Figura 6.9).
b. Respiratória. A epinefrina causa poderosa broncodilatação
por ação direta na musculatura lisa bronquial (ação 132). Essa
ação alivia todas as broncoconstrições alérgicas ou induzidas
por histamina conhecidas. No caso de choque anafilático, isso
pode salvar a vida. Em indivíduos sofrendo de ataque agudo de
asma, a epinefrina rapidamente alivia a dispneia (respiração tra­
balhosa) e aumenta ovolume tidal (volume de gases inspirado e
expirado). A epinefrinatambém inibe a liberação de mediadores
da alergia, como a histamina dos mastócitos.
c. Hiperglicemia. A epinefrina tem um efeito hiperglicemiante sig­
nificativo, porque aumenta a glicogenólise no fígado (efeito 132),
aumenta a liberação de glucagônio (efeito 132) e diminui a libera­
ção de insulina (efeito a2). Esses efeitos são intermediados pelo
mecanismo do AMPc.
d. Lipólise. A epinefrina inicia a lipólise por meio de sua atividade
agonista nos receptores 13 dotecido adiposo, que, sob estimula­
ção, ativam a adenililciclase para aumentar os níveis de AMPc.
Esse estimula uma lipase hormônio-sensível, que hidrolisa tria­
cilgliceróis a ácidos graxos livres e glicerol.
4
2. Biotransformação. A epinefrina, como as outras catecolaminas, é
metabolizada por duas vias enzimáticas: MAO e COMT, que têm a
S-adenosilmetionina como cofator (ver Figura 6.3). Os metabólitos
finais encontrados na urina são a metanefrina e o ácido vanililman­
délico. (Nota: a urina também contém normetanefrina, um produto
do metabolismo da norepinefrina.)
3. Usos terapêuticos
a. Broncoespasmo. A epinefrina é o fármaco usado no tratamen­
to de emergência de qualquer condição do trato respiratório
quando a broncoconstrição compromete a troca respiratória.
Assim, no tratamento da asma aguda e do choque anafilático, a
epinefri
na é o fármaco de escolha; em poucos minutos após a
administração se, observa-se grande melhora das trocas respi­
ratórias e a administração pode ser repetidaapós poucas horas.
4
Ver o Capítulo 16 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para
uma discussão sobre a atividade da lipase hormônio-sensível.
Atualmente, contudo, agonistas J32 seletivos, como o albuterol,
são favorecidos no tratamento crônico da asma devido à dura­
ção de ação mais longa e aos efeitos cardíacos mínimos.
b. Choque anafilático. A epinefrina é o fármaco de escolha parao
tratamento das reações de hipersensibilidadetipo 1 em resposta
a alérgenos.
c. Parada cardíaca. A epinefrina pode ser empregada para res­
tabelecer o ritmo cardíaco em pacientes com parada cardíaca
independente da causa.
d. Anestésicos. As soluções de anestésicos locais em geral con­
têm 1 :100.000 partes de epinefri
na. O efeito do fármaco é au­
mentar bastante a duração da anestesia local. Isso ocorre pela
vasoconstrição no local de injeção, provocando a persistência
do anestésico no local de injeção antes de ser absorvido e bio­
transformado. Soluções muito diluídas de epinefrina (1 :100.000)
também podem ser usadas topicamente para promover a vaso­
constrição de membranas mucosas para controlaro porejamen­
to de sangue capilar.
4. Farmacocinética. A epinefrina tem início rápido, mas curta duração
de ação (devido à rápida degradação). A via de administração pre­
ferida é a intramuscular, devido à rápidaabsorção. Nas situações de
emergência, ela é administrada porvia IV para início mais rápido de
ação. Ela também pode ser administrada por via SC, endotraqueal,
por inalação ou topicamente no olho (Figura 6.1O). A administração
oral é ineficaz, pois a epinefri
na e as outras catecolaminas são inati­
vadas pelas enzimas intestinais. Somente metabólitos são excreta­
dos na urina.
5. Efeitos adversos
a. Distúrbios do SNC. A epinefrina pode produzir efeitos adversos
no SNC, incluindo ansiedade, medo, tensão, cefaleia e tremores.
b. Hemorragia. A epinefrina pode induzir hemorragia cerebral
como resultado do aumento acentuado da pressão arterial.
c. Arritmias cardíacas. A epinefri
na pode desencadear arritmias
cardíacas, particularmente se o paciente está recebendo digoxi
na.
d. Edema pulmonar. A epinefrina pode induzir edema pulmonar.
6. Interações de fármacos
a. Hipertireoidismo. A epinefrina pode ter efeitos cardiovascula­
res aumentados em pacientes com hipertireoidismo. Se for ne­
cessária para um paciente nessa condição, a dose deve ser re­
duzida. O mecanismo parece envolver produção aumentada de
receptores adrenérgicos nos vasos do indivíduo hipertireóideo,
levando a respostas hipersensíveis.
b. Cocaína. Na presença de cocaína, a epinefrina produz ações
cardiovasculares exageradas, porque a cocaína impede a cap­
tação das catecolaminas para o neurônio adrenérgico. Assim,
como a norepinefrina, a epinefrina permanece no local receptor
por mais tempo (ver Figura 6.3).
Farmacologia Ilustrada 77
Escassa
penetração
Aerossol no SNC
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Figura 6.10
Farmacocinética da epinefrina. SNC =
sistema nervoso central.
78 Clark, Finkel, Rey &Whalen
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Alta
Baixa
A norepinefrina
induz bradicardia reflexa.
Infusão de
norepinefrina
o 15
Tempo (min)
Anorepinefrinacontrai
todos osvasos sanguí­
neos, causando aumento
da resistência periférica.
A norepinefrina causa aumento
da pressão sistólicae da
pressão diastólica.
Figura 6.1 1
Efeitos cardiovasculares da infusão IV
de norepinefrina.
c. Diabetes. A epinefrina aumenta a liberação das reservas endó­
genas de glicose. No diabético, as dosagens de insulina devem
ser aumentadas.
d. p-bloqueadores. Estes fármacos impedem os efeitos da epine­
frina nos receptores J3, deixando a estimulação a sem oposição.
Isso pode causar aumento da resistência periférica e aumento
da pressão arterial.
e. Anestésicos inalatórios. Estes fármacos sensibilizam o cora­
ção aos efeitos da epinefrina, o que pode causar taquicardia.
B. Norepinefrina
Como a norepinefrina é o neurotransmissor dos nervos adrenérgicos,
teoricamente ela deveria estimular todos os tipos de receptores adrenér­
gicos. Na prática, quando o fármaco é administrado em doses terapêuti­
cas em humanos, o receptor a-adrenérgico é o que mais responde.
1 . Ações cardiovasculares
a. Vasoconstrição. A norepinefrina causa um aumento na resis­
tência periférica devido à intensa vasoconstrição da maior par­
te dos leitos vasculares, incluindo os rins (efeito a1). A pressão
arterial sistólica e a diastólica aumentam (Figura 6.1 1). (Nota: a
norepinefrina causa maior vasoconstrição do que a epinefrina
porque não causa vasodilatação compensatória pelos recepto­
res 132 dos vasos sanguíneos que suprem os músculos esquelé­
ticos, etc. A fraca atividade 132 da norepinefrina também explica
a razão pela qual ela não é eficaz no tratamento da asma.)
b. Reflexo barorreceptor. Em tecido cardíaco isolado, a norepine­
frina estimula a contratilidade cardíaca; contudo, in vivo, pouca
ou nenhumaestimulação é observada. Isso se deve ao aumento
da pressão arterial que induz um aumento reflexo na atividade
vagai pela estimulação dos barorreceptores. Essa bradicardia
reflexaé suficiente para neutralizaras ações locais da norepine­
frina no coração, embora a compensação reflexa não afete os
efeitos inotrópicos positivos do fármaco (ver Figura 6.1 1).
c. Efeito do pré-tratamento com atropina. Se a atropina, que
bloqueia os efeitos da transmissão vagai, é administrada antes
da norepinefri
na, então o seu efeito estimulante do coração é
evidenciado como taquicardia.
2. Usos terapêuticos. A norepinefri
na é usada no tratamento do cho­
que, pois aumenta a resistência vascular e, assim, a pressão arterial.
Outras ações não são consideradas clinicamente significativas. A no­
repi
nefrina nunca é usada contra a asma ou em associação com os
anestésicos locais. A norepinefri
na é um vasoconstritor potente e cau­
sa extravasamento (acidente vascular encefálico de sangue do vaso
para os tecidos) ao longo do local de injeção. O comprometimento da
circulação por norepinefri
na pode sertratado com oantagonistaa f
en­
tolamina. (Nota: quando a norepinefri
na é usada como fármaco, algu­
mas vezes ela é denominada /evarterenol.).
3. Farmacocinética. A norepinefrina pode ser administrada porvia IV
para início de ação rápido. O efeito dura 1 a 2 min após o fim da
infusão. Ela é pouco absorvida porvia SC e é destruída no intestino
se administrada porvia oral. O seu metabolismo é similar ao da epi­
nefrina.
4. Efeitos adversos. Os efeitos adversos da norepinefrina são simila­
res aos da epinefrina. Ela pode, ainda, causar palidez e necrose da
pele ao longo da veia injetada (devido à extrema vasoconstrição).
e. lsoproterenol
O isoproterenolé uma catecolamina sintética de ação direta que estimula
predominantemente os adrenorreceptores 131 e 132• Suafaltade seletivida­
de é uma de suas desvantagens e o motivo pelo qual raras vezes é usado
terapeuticamente. Sua ação em receptores a é insignificante.
1 . Ações
a. Cardiovascular. O isoproterenol produz intensaestimulação do
coração, aumentando suafrequência e força de contração, cau­
sando aumento do débito cardíaco (Figura 6.12). Ele é tão ativo
quanto a epinefrina e, por isso, é útil no tratamento do bloqueio
atrioventricular (AV) ou da parada cardíaca. O isoproterenol
também dilata as arteríolas dos músculos esqueléticos (efeito
132), diminuindo a resistência periférica. Devido à sua ação car­
díaca estimulante, pode aumentar levemente a pressão arterial
sistólica, mas reduz muito a pressão arterial média e a diastóli­
ca (Figura 6.12).
b. Pulmonar. Produtos contendo isoproterenol para uso por inala­
ção não estão mais disponíveis nos EUA.
c. Outros efeitos. Outras ações nos receptores 13, como aumento
da glicemia e da lipólise, podem ser demonstradas, mas não
são clinicamente significativas.
2. Usos terapêuticos. Atualmente, o isoproterenolpode seremprega­
do para estimular o coração em situações de emergência.
3. Farmacocinética. O isoproterenol é um substrato marginal para a
COMT e é resistente à ação da MAO.
4. Efeitos adversos. Os efeitos adversos do isoproterenolsão simila­
res aos da epinefri
na.
D. Dopamina
A dopamina - o metabólito precursor imediato da norepinefrina - ocorre
naturalmente no SNC nos gânglios basais, onde funciona como neuro­
transmissor, bem como na suprarrenal. Ela pode ativar receptores a e
13-adrenérgicos. Por exemplo, em doses mais elevadas, ela pode causar
vasoconstrição ativando receptores a,, ao passo que, em doses meno­
res, estimula os receptores cardíacos 131• Além disso, os receptores do­
paminérgicos D, e 02 se diferenciam dos receptores a e 13-adrenérgicos
e ocorrem no mesentérico periférico e nos leitos vasculares renais, onde
a ligação da dopamina produz vasodilatação. Os receptores 02 também
são encontrados nos neurônios adrenérgicos pré-sinápticos, onde sua
ativação interfere com a liberação de norepinefrina.
1 . Ações
a. Cardiovasculares. A dopamina exerce efeito estimulante nos
receptores 131 cardíacos com efeito inotrópico e cronotrópico
(ver Figura 6.13). Em concentrações muito elevadas, ela ativa
os receptores a, dos vasos, causando vasoconstrição.
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Alta
Farmacologia Ilustrada 79
O isoproterenolcausa
vasodilatação, mas aumenta
bastante a frequência e a
força de contração cardíaca.
Infusão de
isoproterenol
o 10
Tempo (min)
O isoproterenol causa
significativa diminuição
da resistência periférica.
Figura 6.12
O isoproterenolcausa
acentuada diminuição da
pressão diastólica, com
moderado aumento da
pressão sistólica.
Efeitos cardiovasculares da infusão IV
de isoproterenol.
80 Clark, Finkel, Rey &Whalen
lsoproterenol
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Broncodilatação
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Dopaminérgico
Dopamina
Figura 6.13
Vasodila­
tação
periférica
Aumento
do débito
cardíaco
Aumento
do fluxo
sanguíneo
Ações clinicamente importantes do iso­
proterenole da dopamina.
b. Renal e visceral. A dopamina dilata as arteríolas renais e es­
plâncnicas, ativando os receptores dopaminérgicos aumentando
assim o fluxo sanguíneo para os rins e para outras vísceras (ver
Figura 6.13). Esses receptores não são afetados por fármacos
bloqueadores a ou [3. Por isso, a dopamina é clinicamente útil no
tratamento do choque, no qual uma intensa atividade simpática
pode comprometera função renal. (Nota: receptores de dopamina
similares são encontrados nos gânglios autônomos e no SNC.)
2. Usos terapêuticos. A dopamina é o fármaco de escolha contra o
choque cardiogênico e séptico e é administrada por infusão contí­
nua. Ela aumenta a pressão arterial estimulando os receptores [31
no coração e os receptores a1 nos vasos sanguíneos, resultando no
aumento da resistência periférica. Ela também aumenta a perfusão
dos rins e das áreas esplâncnicas, como descrito. O aumento do flu­
xo sanguíneo renal aumenta a velocidade de filtração glomerular e
causa diurese sódica. Nesse aspecto, a dopamina é muito superior
à norepinefrina, que reduz o suprimento de sangue aos rins e pode
causarcolapso renal. A dopamina também é usada paratratar hipo­
tensão e insuficiência cardíaca congestivagrave, primariamente em
pacientes com resistência vascular periférica normal ou baixa e em
pacientes sob oligúria.
3. Efeitos adversos. Uma dose excessiva de dopamina produz os
mesmos efeitos da estimulação simpática. A dopamina é rapida­
mente biotransformada a ácido homovanílico pela MAO ou COMT,
e, portanto, seus efeitos adversos (náuseas, hipertensão e arrit­
mias) são de curta duração.
E. Fenoldopam
O feno/dopam é um agonista dos receptores de dopamina situados na
,
periferia e tem afinidade moderada pelos receptores a2• E empregado
como vasodilatador de ação rápida no tratamento da hipertensão grave
em pacientes hospitalizados, atuando nas artérias coronárias, arteríolas
renais e artérias mesentéricas. O feno/dopam é uma mistura racêmica,
sendo o isômero R o componente ativo. Ele sofre extensa biotransforma­
ção de primeira passagem e apresenta meia-vida de eliminação de 1 O
min após infusão IV. Com este fármaco, podem ser observados cefaleia,
rubor, tonturas, náuseas, êmese e taquicardia (devido à vasodilatação).
F. Dobutamina
1 . Ações. A dobutamina é uma catecolamina sintética de ação direta
que atua como agonista de receptor [31 • Ela está disponível como
mistura racêmica. Um dos estereoisômeros tem atividade estimu­
lante. Ela aumenta a frequência e o débito cardíaco com poucos
efeitos vasculares.
2. Usos terapêuticos. A dobutamina é usada para aumentar o débi­
to cardíaco na insuficiência cardíaca congestiva (ver p. 204), bem
como para causar efeito inotrópico após cirurgia cardíaca. O fár­
maco aumenta o débito cardíaco e não eleva significativamente a
demanda de oxigênio pelo miocárdio, a principal vantagem sobre os
outros fármacos simpaticomiméticos.
3. Efeitos adversos. A dobutamina deve ser usada com cautela na
fibrilação atrial, pois aumenta a condução AV. Outros efeitos adver­
sos são os mesmos da epinefrina. Pode-se desenvolver tolerância
no uso prolongado.
G. Oximetazolina
A oximetazolina é agonista adrenérgico sintético de ação direta que esti­
mula os receptores adrenérgicos a, e a2• Ela é usada localmente no olho
ou nas narinas como vasoconstritor. A oximetazolina está presente em vá­
rios descongestionantes nasais de ação curta (aplicados a cada 12 h) e
de venda livre, bem como em colírios para alívio davermelhidão dos olhos
associada com natação, resfriados ou lentes de contato. O mecanismo da
oximetazolina é a estimulação direta dos receptores a nos vasos sanguí­
neos que suprem a mucosa nasal e a conjuntiva, reduzindo ofluxo de san­
gue e diminuindo a congestão. A oximetazolina é absorvida independente
da via de administração e pode causar nervosismo, cefaleia e sono agita­
do. Quando administrada nas narinas, pode ocorrerqueimação da mucosa
nasal e espirros. Observa-se congestão rebote no uso prolongado.
H. Fenilefrina
A fenilefrina é um fármaco adrenérgico sintético de ação direta que se
liga primariamente aos receptores a,. Ela não é um derivado catecol e,
por isso, não é substrato da COMT. A fenilefrina é um vasoconstritor que
aumenta as pressões sistólica e diastólica. Ela não tem efeito direto no
coração, mas induz bradicardia reflexa quando administrada por via pa­
renteral. Ela é usada topicamente na mucosa nasal e em soluções oftál­
micas para obter midríase. A fenilefrina atua como descongestionante
nasal (aplicada a cada 4 h) e produz uma vasoconstrição prolongada.
Ela é usada para aumentar a pressão arterial e para terminar episódios
de taquicardia supraventricular (ela tem ação cardíaca rápida oriunda da
junção AV e do átrio). Doses elevadas podem causar cefaleia hipertensi­
va e irregularidades cardíacas.
1. Clonidina
A clonidina é um agonista a2 usado na hipertensão essencial para re­
duzir a pressão arterial por sua ação no SNC (ver p. 238). Ela pode ser
usada para minimizar os sintomas que acompanham a retirada dos opiá­
ceos, do cigarro ou das benzodiazepinas. A clonidi
na atua centralmente,
produzindo inibição dos centros vasomotores simpáticos, diminuindo a
estimulação simpática para a periferia. Os efeitos adversos mais comuns
da clonidina são letargia, sedação, constipação e xerostomia. Em geral,
tais efeitos diminuem com o progresso do tratamento ou a diminuição da
dosagem. A interrupção abrupta da medicação deve ser evitada, a fim de
prevenir a hipertensão de rebote.
J. Metaproterenol
O metaproterenol, embora quimicamente similar ao isoproterenol, não é
uma catecolamina e é resistente à metilação pela COMT. O emprego do
metaproteronol nos anos recentes diminuiu devido à disponibilidade de
outros agonistas 132 mais seletivos e de longa ação.
K. Albuterol e terbutalina
Albuterol, pirbuterol e terbutalina são fármacos agonistas 132 de ação cur­
ta usados primariamente como broncodilatadores e administrados em um
dispositivo inaladorde dosagem controlada (ver Figura 6.14). A terbutali
na
é usada extra-bula como relaxante uterino para evitar o parto prematuro.
Osefeitos adversos dos agonistas J32 são devidos à ativação excessiva dos
receptores J32, primariamente. Um dos efeitos adversos mais comuns é o
tremor, mas os pacientes tendem a desenvolver tolerância a este efeito.
Outros efeitos adversos incluem intranquilidade, apreensão e ansiedade.
Farmacologia Ilustrada 81
Início da brondilatação
Duração da broncodilatação
Epinefrina �
lsoproterenol �
Albuterol
Salmeterol
Terbutalina �
Figura 6.14
o 5
Horas
Bronco­
dilatação
10
Início e duração do efeito broncodilata­
dorde agonistas adrenérgicos inalados.
82 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Os efeitos adversos podem ser reduzidos iniciando o tratamento com do­
ses baixas e aumentando gradualmente de modo que se desenvolve a
tolerância aos tremores. Administrados por via sistêmica, podem causar
taquicardia ou arritmias (devido à ativação dos receptores 131), especial­
mente em pacientes com doença cardíacasubjacente. Os efeitos adversos
também aumentam se o paciente faz uso concomitante de inibidor de mo­
noamina oxidase (IMAOs). É recomendado um intervalo de cerca de duas
semanas entre ofim do uso do IMAO e o início do agonista de receptor 132•
L. Salmeterol e formoterol
Salmeterol e formoterol são broncodilatadores 132_adrenérgicos seletivos
e de longa ação. Uma dose única por um inalador dosável, como, por
exemplo, um inalador de pó, provê broncodilatação por 12 horas em com­
paração com menos de 3 horas obtidas com o albuterol. Ao contrário do
formoterol, o salmeterol tem um início de ação lento (ver Figura 6.14).
Essesfármacos não são recomendados como monoterápicos e são muito
eficazes associados com um corticosteroide. O salmeterol e o formoterol
são os fármacos de escolha para tratar a asma noturna em pacientes
sintomáticos que usam outra medicação contra asma. Os agonistas de
receptor 132 administrados por inalação não devem ser usados em exces­
so: foram registradas mortes devidas ao uso excessivo desta medicação.
V. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO INDIRETA
Agonistas adrenérgicos de ação indireta promovem a liberação de norepine­
frina dos terminais pré-sinápticos ou inibem a captação da norepinefrina (ver
Figura 6.8). Eles potencializam os efeitos da norepinefrina endógena, mas
não atuam diretamente nos receptores pós-sinápticos.
A. Anfetamina
A acentuada ação estimulante central da anfetamina com frequência é
considerada como sua única ação pelos adietes. Contudo, o fármaco
pode também aumentar significativamente a pressão arterial por ação
agonista a1 nos vasos, bem como por efeitos estimulantes 13 no coração.
Sua ação periférica é mediada primariamente pelo bloqueio da captação
de norepinefrina e a liberação das catecolaminas armazenadas; assim,
a anfetamina é um fármaco adrenérgico de ação indireta. As ações e os
usos da anfetamina são discutidos na página 127. Os efeitos estimulan­
tes da anfetamina e de seus derivados no SNC determinam seu uso no
tratamento da hiperatividade em crianças,na narcolepsia e no controle de
apetite. O seu uso durante a gestação deve serevitado devido aos efeitos
adversos no desenvolvimento do feto. A dextroanfetamina é o isômero
dextrorotatório da anfetamina. Metanfetamina, metilfenidrato e dexmetif­
fenidrato são outros fármacos de estrutura intimamente relacionados ou
que tem efeitos similares à anfetamina. São empregados para indicações
similares às da anfetamina.
B. Tiramina
A tiramina não é um fármaco clinicamente útil, mas é importante porque é
encontrada em alimentos fermentados, como alguns queijos evinhos (ver
p. 158). Ela é um subproduto do metabolismo da tirosina. Normalmen­
te, ela é oxidada pela MAO no TGI, mas, se o paciente está recebendo
inibidores da MAO, podem acontecer episódios vasopressores graves.
Como a anfetamina, a ti
ramina entra no terminal nervoso e desloca a no­
repinefrina armazenada. A catecolamina liberada, então, atua nos adre­
norreceptores.
C. Cocaína
A cocaína é o único anestésico local que bloqueia a ATPase ativada por
Na+/K+ (necessária para a captação neuronal da norepinefrina) na mem­
brana celular dos neurônios adrenérgicos. Consequentemente, a norepi­
nefrina acumula-se na fenda sináptica, resultando em aumento da ativi­
dade simpática e potenciação das ações da epinefri
na e norepinefrina.
Por isso, pequenas doses de catecolaminas produzem efeitos bastante
intensificados em indivíduos que usam cocaínacomparados com os efei­
tos naqueles que não usam.Além disso, a duração de ação da epinefrina
e da norepinefrina é prolongada. Semelhante às anfetaminas, a cocaína
pode aumentar a pressão arterial por ação agonista a1 e efeitos estimu­
lantes �· (Nota: a cocaína como estimulante do SNC e como droga é
discutida nas pp. 126-127).
VI. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO MISTA
Agonistas adrenérgicos de ação mista induzem a liberação de norepinefrina
dos terminais pré-sinápticos, ativando também os receptores adrenérgicos na
membrana pós-sináptica (ver Figura 6.8).
A. Efedrina e pseudoefedrina
A efedri
na e a pseudoefedrina são alcaloides vegetais, hoje produzidos
sinteticamente. Ambas são adrenérgicas de ação mista. Elas não só li­
beram a norepinefrina armazenada nos terminais nervosos (Figura 6.8),
como também estimulam diretamente os receptores a e �. Dessa for­
ma, elas produzem vários efeitos adrenérgicos que são similares aos da
epinefrina, embora menos potentes. A efedrina e a pseudoefedri
na não
são catecóis e são maus substratos para MAO e COMT. Portanto, esses
fármacos têm ação longa. A efedrina e a pseudoefedrina têm excelente
absorção porvia oral e penetram no SNC; contudo, apseudoefedri
natem
efeitos menores no SNC. A efedrina é eliminada praticamente inaltera­
da na urina, e a pseudoefedrina sofre biotransformação hepática incom­
pleta antes de sua eliminação na urina. A efedrina aumenta a pressão
arterial sistólica e diastólica por vasoconstrição e estimulação cardíaca.
Ela produz broncodilatação, mas é menos potente do que a epinefri
na e
o isoproterenol nesse aspecto e produz seu efeito mais lentamente. No
passado, ela foi usada contra a asma para prevenir ataques (em vez de
tratar os ataques agudos), embora a maioria dos especialistas recomen­
de outras medicações (ver Cap. 27). Ela produz uma leve estimulação do
SNC, aumentando o estado de alerta, diminuindo a fadiga e dificultando
o sono. Ela também melhora o desempenho atlético. A pseudoefedrina
é usada primariamente no tratamento da congestão nasal e sinusal e
congestão das trompas de Eustáquio, porvia oral. (Nota: o uso clínico da
efedrina está em declínio devido à disponibilidade de fármacos mais po­
tentes e melhores que causam menos efeitos adversos. Os fitoterápicos
contendo efedrina [principalmente produtos contendo Ephedra] foram ba­
nidos pelo FDA [Food and Drug Administration] nos EUA em abril de 2004
devido a reações cardiovasculares ameaçadoras à vida.) A pseudoefedri­
naé convertida em metanfetamina ilegalmente. Por isso, os produtos que
contêm pseudoefedrina têm certas restrições, e a comercialização deve
ser mantida sob controle rígido nos EUA. Características importantes dos
agonistas adrenérgicos estão resumidas nas Figuras 6.15, 6.16 e 6.17.
Farmacologia Ilustrada 83
v==�
I
I
1
1
1
�
/
/
v
=
=;=
o --.
o
Figura 6.15
Arritmia
Cefaleia
Hiperatividade
Insônia
Náusea
Tremores
Alguns efeitos adversos observados
com os agonistas adrenérgicos.
84 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Coração
• NóAVeSinusal
• Viasdecondução
• Miofibrilas
Músculolisovascular
Músculolisodosbrônquios
Rins
Fígado
Tecidoadiposo
Músculoesquelético
Olho,músculociliar
Tratogastrintestinal
Vesículabiliar
Bexiga,músculodetrusor
útero
Figura 6.16
t Automaticidade
t Velocidadedeconduçãoe
automaticidade
t Contratilidadeeautomaticidade
Vasodilatação
Broncodilatação
t Liberaçãoderenina
t Glicogenóliseegliconeogênese
t Lipólise
Contratilidade
t Captaçãodepotássio;glicogenólise
Dilataasartériasquevãoaomúsculo
Tremores
Relaxamento
t Motilidade
Relaxamento
Relaxamento
Relaxamento
Resumo dos receptores (3-adrenérgicos. AV = atrioventricular.
Receptorescolinérgicos
Receptorescolinérgicos
Receptoresa-adrenérgicos
Receptorescolinérgicos
Receptoresa1-adrenérgicos
Receptoresa1-adrenérgicos
Receptoresa2-adrenérgicos
-
Receptorescolinérgicos
Receptorescolinérgicos
Receptorescolinérgicos
Receptorescolinérgicos
Ocitocina
CATECOLAMINAS
• Rápido início de ação.
• Curta duração de ação.
• Não administradas por via oral.
• Não penetram a barreira
hematencefálica.
AMINAS NÃO CATECÓLICAS
Comparadas com as catecolaminas:
• Duração de ação mais longa.
• Todas podem ser administradas
por via oral.
Figura 6.17
Epinefrina
Norepinefrina
/soproterenol
Dopamina
Dobutamina
Oximetazoli
na
Fenilefrina
Metoxamina
Clonidi
na
Albuterol
Terbutalina
Salmeterol
Formoterol
Anfetamina
Efedrina
Pseudoefedrina
ª1• ª2
P1
P1. P2
Dopaminérgico
ª1• P1
P1
a, p, SNC
a, p, SNC
Farmacologia Ilustrada 85
Asma aguda
Choque anafilático
Na anestesia local para
aumentar a duração da ação
Tratamento do choque
Como estimulante cardíaco
Tratamento do choque
Tratamento da insuficiência
cardíaca congestiva
Elevação da pressão arterial
Tratamento da insuficiência
cardíaca congestiva
Como descongestionante nasal
Como descongestionante nasal
Elevação da pressão arterial
Tratamento da taquicardia
supraventricular paroxística
Tratamento da taquicardia
supraventricular
Tratamento da hipertensão
Tratamento do
broncoespasmo (ação curta)
Tratamento do
broncoespasmo (ação longa)
Como estimulante do SNC no
tratamento de crianças com
síndrome de déficit de atenção,
narcolepsia e controle de apetite
Como descongestionante nasal
Elevação da pressão arterial
Resumo dos usos terapêuticos dos agonistas adrenérgicos. SNC = sistema nervoso central.
86 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
6.1 Um homem de 68 anos chega na emergência com insu­
ficiência cardíaca aguda. Você decide que o paciente ne­
cessita de tratamento imediato para melhorar o desempe­
nho cardíaco. Qual dos seguintes fármacos será o mais
benéfico?
A. Albuterol
B. Dobutamina
C. Epinefrina
D. Norepinefrina
E. Fenilefrina
6.2 Qual dos seguintes fármacos geralmente está presente
nos medicamentos contra a congestão nasal?
A. Albuterol
B. Atropina
C. Epinefrina
D. Norepinefrina
E. Fenilefrina
6.3 Qual dos seguintes fármacos, quando administrado por via
IV, pode diminuir o fluxo sanguíneo para a pele, aumentar
o fluxo para os músculos esqueléticos e aumentar a fre­
quência e a força de contração cardíaca?
A. Epinefrina
B. lsoproterenol
C. Norepinefrina
D. Fenilefrina
E. T
erbutalina
6.4 Os seguintes círculos representam o diâmetro pupilar an­
tes e depois da aplicação tópica do fármaco X:
o
Controle Fármaco X
Qual dos seguintes é o fármaco X?
A. Fisostigmina
B. Acetilcolina
C. T
erbutalina
D. Fenilefrina
E. lsoproterenol
Resposta correta = B. A dobutamina aumenta o débito cardíaco
sem aumentar significativamente a frequência - uma condição que
agrava a insuficiência cardíaca. Como a epinefrina pode aumentar
significativamente a frequência cardíaca, em geral, ela não é usada
na insuficiência cardíaca aguda. A norepinefrina e a fenilefrina têm
efeito receptor a1 estimulante significativo. O consequente aumento
da pressão arterial pode agravar a insuficiência cardíaca. O albuterol
é um agonista receptor �2 seletivo, portanto, ele não melhora signifi­
cativamente a contratilidade cardíaca.
Resposta correta = E. A fenilefrina é um agonista a que faz a cons­
trição da mucosa nasal, diminuindo, assim, a resistência da via. A
norepinefrina e a epinefrina também fazem a constrição da mucosa,
mas têm uma duração de ação muito mais curta. O albuterol é um
�2-agonista e não tem efeito no volume da mucosa. A atropina é um
antagonista muscarínico que somente seca a mucosa - não produz
diminuição do volume.
Resposta correta = A. A epinefrina exógena estimula bem tanto os
receptores a como os �. levando à constrição dos vasos sanguíneos
em tecidos como a pele e dilatando outros vasos em tecidos como o
músculo esquelético. A epinefrina também tem efeitos crono e ino­
trópicos positivos no coração. A norepinefrina exógena só contrai os
vasos sanguíneos e causa bradicardia reflexa devido à sua intensa
propriedade estimulante a-adrenérgica. A fenilefrina tem efeitos si­
milares. O isoproterenol estimula os receptores � e não causa vaso­
constriçãodos vasos cutâneos.
Resposta correta = D. A fenilefrina é o únicofármaco da relação que
causa midríase, pois estimula os receptores a. A fisostigmina e a
acetilcolina causam constrição pupilar. Os bloqueadores terbutalina
e isoproterenol não influenciam o diâmetro pupilar.
, •
rener ICOS
1. RESUMO
Os antagonistas adrenérgicos (também denominados bloqueadores adrenér­
gicos ou simpaticolíticos) ligam-se aos adrenorreceptores, mas não iniciam
os usuais efeitos intracelulares mediados pelos receptores. Esses fármacos
ligam-se reversível ou irreversivelmente ao receptor, evitando, assim, sua ati­
vação pelas catecolaminas endógenas. Como os agonistas, os antagonistas
adrenérgicos são classificados de acordo com suas afinidades relativas para
os receptores O'. ou � no sistema nervoso periférico. Estes fármacos interferem
com as funções do sistema nervoso simpático. Numerosos antagonistas adre­
nérgicos têm papeis importantes na clínica, primariamente para tratardoenças
associadas com o sistema cardiovascular. (Nota: antagonistas que bloqueiam
os receptores dopaminérgicos são mais importantes no SNC e, portanto, são
considerados na respectiva seção [ver p. 161].) Os fármacos bloqueadores
adrenérgicos discutidos neste capítulo estão resumidos na Figura 7.1 .
li. BLOQUEADORES o.-ADRENÉRGICOS
Fármacos que bloqueiam os adrenorreceptores O'. afetam profundamente
a pressão arterial. Como o controle simpático normal dos vasos ocorre em
grande parte por ações agonistas nos receptores O'.-adrenérgicos, o bloqueio
desses receptores reduz o tônus simpático dos vasos sanguíneos, resultando
em menor resistência vascular periférica. Isso induz a taquicardia reflexa re­
sultante da redução da pressão arterial. A intensidade da resposta depende
do tonus simpático do indivíduo quando o fármaco é administrado. Os efei­
tos são mais intensos no indivíduo em estação e menos naqueles que estão
deitados. Pacientes hipovolêmicos também tem respostas mais acentuadas.
(Nota: os receptores �. incluindo os adrenorreceptores �1 cardíacos, não são
afetados pelo bloqueio O'..) Os bloqueadores Q'.-adrenérgicos, fenoxibenzamina
a-BLOQUEADORES
Alfuzoslna
Doxazoslna
Fenoxlbenzamlna
Fentolamlna
Prazos/na
Tansuloslna
Terazoslna
lolmblna
P-BLOQUEADORES
Acebutolol
Atenolol
Betaxolol
Bisopro/oi
Carteolol
Carvedllol
Esmolo/
Labetalol
Metoprolol
Nado/oi
Neblvolol
Penbutolol
Plndolol
Propranolol
Ti
mo/oi
FÁRMACOS QUEAFETAM A CAPTAÇÃO OU
A LIBERAÇÃO DENEUROTRANSMISSORES
Guanetldlna
Reserplna
e fentolamina, têm aplicações clínicas limitadas. figura 7.1
Resumo dos fármacos bloqueadores,
bem como os que afetam a captação
ou a liberação do neurotransmissor.
88 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Fenoxibenzamina
D
D Rápido
Adrenorreceptor
a1 inativadocovalentemente
Figura 7.2
lnativação covalente do adrenorrecep­
tor ex, pela fenoxibenzamina.
Bloqueadores a-adrenérgicos
não têm efeito nas ações do
isoproterenol, que é um
agonista 13 puro•
......
Pré- Pré-
-tratamento -tratamento
com com
Controle bloqueador bloqueador
Catecolaminas nãotratado Ot 13
200,. "
Jsoproterenol
,."./' � .,.,,
(mmHa o....
200
:./., -"-
./
!':
E
pinefrina
o
200
'",A_ .' -"-
Norepinefrina
�
....
o ....
Os bloqueadores
a-adrenérgicos revertem
a ação vasoconstritora
da epinefrina.
Figura 7.3
Resumo dos efeitos dos bloqueado­
res adrenérgicos nas alterações da
pressão arterial produzidas por isopro­
terenol, epinefrina e norepinefrina.
A. Fenoxibenzamina
A fenoxibenzamina é um fármaco não seletivo que se liga covalentemen­
te aos receptores ex1 e ex2 (Figura 7.2). O bloqueio é irreversível e não
competitivo, e o único mecanismo que o organismo pode usar para su­
perar o bloqueio é sintetizar novos adrenorreceptores, que exige um dia
ou mais. Por isso, as ações da fenoxibenzamina duram cercade 24 horas
após uma administração única. Depois que o fármaco é injetado, há um
atraso de poucas horas até o bloqueio ex se estabelecer.
1 . Ações
a. Efeitos cardiovasculares. Bloqueando os receptores ex, a fe­
noxibenzamina impede a vasoconstrição dos vasos sanguíneos
periféricos pelas catecolaminas endógenas. A redução da re­
sistência periférica provoca taquicardia reflexa. Além disso, o
bloqueio dos receptores inibitórios ex2 pré-sinápticos no coração
pode contribuir parao aumento do débito cardíaco. (Nota: esses
receptores, quando bloqueados, permitem a liberação de maior
quantidade de norepinefrina, a qual estimula os receptores J3 no
coração, aumentando o débito cardíaco.) Assim, o fármaco não
consegue manter a pressão arterial baixa na hipertensão, e seu
uso para esse objetivo foi interrompido.
b. Reversão da epinefrina. Todos os bloqueadores ex-adrenér­
gicos revertem as ações ex-agonistas da epinefrina. Por exem­
plo, a ação vasoconstritora da epinefri
na é interrompida, mas
a vasodilatação dos outros leitos vasculares causada por es­
timulação dos adrenorreceptores J3 não é bloqueada. Por isso,
na presença de fenoxibenzamina, a pressão arterial sistêmica
diminui em resposta à epinefrina (Figura 7.3). (Nota: as ações
da norepinefrina não são revertidas, mas diminuídas, pois a no­
repinefrina quase não tem ação J3-agonista na musculatura lisa
dos vasos.) A f
enoxibenzamina nãotem efeito nas ações do iso­
proterenol, que é um J3-agonista puro (ver Figura 7.3).
2. Usos terapêuticos. A fenoxibenzamina é usada no tratamento do fe­
ocromocitoma- um tumor de células derivadas da suprarrenal secre­
torade catecolamina.Antes da remoção cirúrgicadotumor, os pacien­
tes sãotratados com f
enoxibenzamina, para evitara crise hipertensiva
que pode resultar da manipulação do tecido. Esse fármaco também é
útil notratamento crônico desse tumor, particularmente quando as cé­
lulas secretoras de catecolaminas são difusas e, por isso, inoperáveis.
A fenoxibenzamina, algumas vezes, é eficaz notratamento da doença
de Raynaud, na geladura ou ulcerações causadas por frio intenso e
na acrocianose. A hiper-reflexia autônoma, que predispõe pacientes
paraplégicos a ataques, pode sertratada com f
enoxibenzamina.
3. Efeitos adversos. A fenoxibenzamina pode causar hipotensão pos­
tural, congestão nasal, náuseas e êmese. Ela pode inibir a ejacu­
lação. Ela também pode causar taquicardia reflexa, mediada pelo
reflexo barorreceptor. A fenoxibenzamina é contraindicada em pa­
cientes com perfusão coronariana diminuída.
B. Fentolamina
Em contraste com a fenoxibenzamina, a fentolamina produz um bloqueio
competitivo dos receptores ex, e ex2• Este efeito dura cerca de 4 horas com
uma administração única. Como a f
enoxibenzamina, a fentolamina provo­
ca hipotensão postural e reversão da epinefrina. A estimulação cardíaca
reflexa e a taquicardia induzidas por f
entolamina são mediadas pelo refie-
xo barorreceptor e pelo bloqueio dos receptores a2 dos nervos simpáticos
cardíacos. A fentolamina também pode causar arritmias e dor anginosa,
sendo contraindicada em pacientes com perfusão coronariana diminuída.
A f
entolamina é usada no tratamento de curta duração dofeocromocitoma.
Ela é usada também localmente para prevenira necrose dermal devida ao
vazamento de norepinefrina, bem como é usada para tratar a crise hiper­
tensiva devido à retirada abrupta de clonidina e da ingestão de alimentos
contendo tiramina por pacientes sob tratamento com inibidores da MAO.
A f
entolamina hoje raramente é usada no tratamento da impotência (pode
ser injetada nas cavernas penianas para dilataras artérias do pênis).
C. Prazosina, terazosina, doxazosina, tansulosina e alfuzosina
Prazosina, terazosina, doxazosina e tansu/osina são bloqueadores com­
petitivos seletivos do receptor a,. Em contraste com a fenoxibenzamina
e a fentolamina, os três primeiros fármacos são úteis no tratamento da
hipertensão. A tansulosina e a a/fuzosina são indicadas no tratamento da
hipertrofia prostática benigna (também denominada hiperplasia prostá­
tica benigna, ou HPB). A biotransformação leva a produtos inativos que
são excretados na urina, exceto os da doxazosina, que aparecem nas
fezes. Dentre esses fármacos, a doxazosina é o de ação mais longa.
1. Efeitos cardiovasculares. Todos esses fármacos diminuem a resis­
tência vascular periférica e a pressão arterial, causando relaxamento
dos músculos lisos arteriais e venosos. A tansu/osina tem o menor
efeito na pressão arterial. Ao contrário da f
enoxibenzamina e da fen­
tolamina, esses fármacos causam alterações mínimas no débito car­
díaco, no fluxosanguíneo renal e na velocidade defiltraçãoglomerular.
2. Usos terapêuticos. Indivíduos com pressão arterial elevada tra­
tados com um desses fármacos não se tornam tolerantes à sua
ação. Contudo, a primeira dose desses fármacos produz um efeito
hipotensor ortostático (Figura 7.4) exagerado que pode resultar em
síncope (desmaio). Essa ação, denominada efeito "primeira dose",
pode ser minimizada reduzindo-se a primeira dose para um terço
ou um quarto da dose normal e administrando-a na hora de deitar.
Estes fármacos melhoram o perfil lipídico e o metabolismo da glico­
se em pacientes hipertensos. A prazocina e outros são usados no
tratamento da insuficiência cardíaca congestiva. Por dilatarem arté­
rias e veias, esses fármacos diminuem a pré-carga e a pós-carga,
levando ao aumento do débito cardíaco e à redução da congestão
pulmonar. Diferente dos 13-bloqueadores, estes fármacos não reve­
laram prolongar a vida de pacientes com insuficiência cardíaca. Os
antagonistas a, são usados como uma alternativa para a cirurgia
em pacientes com HPB sintomática (Figura 7.5). O bloqueio dos
'
Farmacologia Ilustrada 89
Figura 7.4
A primeira dose de um bloqueador de
receptor a, pode provocar hipotensão
ortostática, a qual pode resultar em
síncope (desmaio).
ANTAGONISTAS u
1-ADRENERGICOS INIBIDORES DA 5a-REDUTASE
Reduçãonotamanhodapróstata
Picodoinício
ReduçãonoPSA
Disfunçãosexual
Efeitoshipotensores
Fármacoscomumenteusados
Figura 7.5
Não
2-4 semanas
Não
+
++
Tansu/osinaea/fuzosina
Sim
6-12 meses
Sim
++
Finasteridaedutasterida
Comparação de tratamentos na hiperplasia prostática benigna. PSA = antígeno prostático específico.
90 Clark, Finkel, Rey &Whalen
,,
Figura 7.6
Hipertensão
ortostática
Taquicardia
Vertigens
Disfunção
sexual
Alguns efeitos adversos comumente
observados com fármacos bloqueado­
res a-adrenérgicos não seletivos.
Esmolol 1 1Omin
Acebuto/ol
Pindo/ol
Metoprolol
Propranolol
Timo/oi
Labetalol
Carvedilol 7-10 h
Nebivo/ol 10-30 h
Nado/oi 14-24 h
Figura 7.7
Meias-vidas de eliminação de alguns
�-bloqueadores.
receptores a diminui o tônus na musculatura lisa do colo da bexiga
e da próstata e melhora o efluxo da urina. A tansu/osina é inibidor
dos receptores a1A (com alguma seletividade) encontrados no mús­
culo liso da próstata. Essa seletividade é responsável pelos efeitos
relativamente mínimos da tansu/osina na pressão arterial e seu uso
na HPB, mas raramente pode ocorrer tontura (ortostase). (Nota: a
finasterida e dutasterida inibem a Sa-redutase, impedindo a conver­
são de testosterona em di-hidrotestosterona. Estes fármacos estão
aprovados para o tratamento da HPB por reduzirem o volume da
próstata em certos pacientes (ver p. 329).
3. Efeitos adversos. Os bloqueadores a1 podem causar tontura, fal­
ta de energia, congestão nasal, cefaleia, sonolência e hipotensão
ortostática (embora em menor intensidade do que observado com
fenoxibenzamina e fentolamina). Estes fármacos não desenca­
deiam taquicardia reflexa na mesma extensão que os bloqueado­
res a não seletivos. Ocorre um efeito anti-hipertensivo adicional
quando a prazosina é administrada juntamente com um diurético
ou um bloqueador �. obrigando à redução da sua dose. Devido à
tendência de reter sódio (Na+) e líquido, a prazosina frequente­
mente é usada com um diurético. Estes fármacos não afetam a
função sexual masculina de modo tão acentuado quanto a fenoxi­
benzamina e a fentolamina. Entretanto, por bloquear os receptores
a nos duetos ejaculatórios e impedir a contração do músculo liso,
têm sido reladas inibição da ejaculação e ejaculação retrógrada. A
tansu/osina exige cautela quanto a "síndrome da íris flácida", uma
condição na qual a íris ondula em resposta à cirurgia intraoperató­
ria do olho. A Figura 7.6 resume alguns efeitos adversos observa­
dos com os bloqueadores a.
D. loimbina
A ioimbina é um bloqueador a2 competitivo e seletivo. Ela é componente
do córtex da planta Y
ohimbe e algumas vezes é usada como estimu­
lante sexual. (A eficácia da ioimbina no tratamento da impotência nun­
ca foi demonstrada claramente.) A ioimbina atua no SNC aumentando o
efluxo simpático para a periferia. Ela bloqueia diretamente os receptores
a2 e é usada para aliviar a vasoconstrição associada com a doença de
Reynaud. A ioimbina é contraindicada quando há alteração do SNC ou
cardiovascular, porque é um estimulante dessas estruturas.
Ili. FÁRMACOS BLOQUEADORES p-ADRENÉRGICOS
Todos os �-bloqueadores disponíveis clinicamente são antagonistas com­
petitivos. Os �-bloqueadores não seletivos podem bloquear os receptores
�1 e �2, e os antagonistas � cardiosseletivos bloqueiam primariamente os
receptores �1• (Nota: não existem antagonistas �2 úteis clinicamente.) Es­
ses fármacos também diferem na atividade simpaticomimética intrínseca
(ASI) nos efeitos no SNC e na farmacocinética (Figura 7.7). Embora todos
os �-bloqueadores reduzam a pressão arterial na hipertensão, eles não cau­
sam hipotensão postural, pois os adrenorreceptores a permanecem funcio­
nais. Assim, o controle simpático normal nos vasos é mantido. Os �-bloque­
adores também são eficazes no tratamento de angina, arritmias cardíacas,
infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca congestiva, hipertireoidismo e
glaucoma, bem como servem na profilaxia das enxaquecas. (Nota: os no­
mes de todos os �-bloqueadores terminam em "olol", exceto para o labetalol
e o carvedilol.)
A. Propranolol: um antagonista p não seletivo
O propranolol é o protótipo dos antagonistas �-adrenérgicos e bloqueia
os receptores �1 e �2 com mesma afinidade. Existem preparações de
liberação sustentada para administração uma vez ao dia.
1 . Ações
a. Cardiovascular. O propranololdiminui o débito cardíaco, tendo
efeitos cronotrópicos e inotrópicos negativos (Figura 7.8). Ele
deprime diretamente a atividade sinoatrial e atrioventricular. Em
geral, a bradicardia limita a sua dosagem. Durante exercício
ou estresse, quando o sistema nervoso simpático está ativa­
do, os �-bloqueadores atenuam o aumento da frequência car­
díaca esperada. O débito cardíaco, o trabalho e o consumo de
oxigênio são diminuídos pelo bloqueio dos receptores �1 e es­
ses efeitos são úteis no tratamento da angina (ver p. 222). Os
�-bloqueadores são eficazes para atenuar as arritmias cardía­
cas supraventriculares, mas, em geral, não são eficazes contra
as arritmias ventriculares (exceto as induzidas por exercício).
Em dosagens elevadas, o propranololpode causarefeito estabi­
lizadorde membrana no coração, mas esse efeito é insignifican­
te se o fármaco é administrado em dosagens terapêuticas.
b. Vasoconstrição periférica. O bloqueio dos receptores � im­
pede a vasodilatação mediada pelos receptores �2 (ver Figura
7.8). A redução no débito cardíaco leva à queda da pressão ar­
terial. Essa hipotensão inicia uma vasoconstrição periférica re­
flexa que causa diminuição do fluxo sanguíneo para a periferia.
Em pacientes hipertensos, a resistência periférica total retorna
ao normal ou diminui com o uso prolongado de propranolol. No
equilíbrio, há uma redução gradual das pressões arteriais sistó­
lica e diastólica nos pacientes hipertensos. Não ocorre hipoten­
são postural, pois os receptores a1-adrenérgicos que controlam
a resistência vascular não são afetados.
c. Broncoconstrição. O bloqueio dos receptores �2 nos pulmões
dos pacientes suscetíveis causa contração da musculatura lisa
bronquiolar (ver Figura 7.8). Isso pode precipitar uma crise res­
piratória em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica
(DPOC) ou asma. Por isso, os �-bloqueadores, em particular os
não seletivos, são contraindicados em pacientes com DPOC ou
asma.
d. Aumento na retenção de Na+. A diminuição da pressão arterial
causa redução na perfusão renal, resultando em aumento na
retenção de Na+ e no volume de plasma (ver Figura 7.8). Em
alguns casos, essa resposta compensatória tende a elevar a
pressão arterial. Para esses pacientes, os �-bloqueadores são
associados a um diurético para evitar a retenção de Na+.
e. Distúrbios no metabolismo da glicose. O bloqueio � diminui a
glicogenólise e asecreção de glucagônio. Por isso, se um pacien­
te com diabetes tipo 1 (antes denominado insulina-dependente)
precisa receber propranolol, é essencial monitorar cuidadosa­
mente a glicemia, pois pode ocorrer hipoglicemia acentuada de­
pois da injeçãode insulina.Os �-bloqueadores também atenuam
as respostas fisiológicas normais à hipoglicemia.
f. Bloqueio das ações do isoproterenol. Todos os �-bloquea­
dores, incluindo o propranolo/, têm a propriedade de bloquear
Farmacologia Ilustrada 91
Propranotot
�----.,
Propranotot
Propranotot
Propranotot
Figura 7.8
•
Bronco­
constrição
• •
Vasocons­
trição
periférica
reflexa
Maior
Na+ retenção
de sódio
Menor
frequência
Débito
Acebutolol
Atenolol
Metoprolol
Nebivolol
Ações do propranolol e de outros �-blo­
queadores.
92 Clark, Finkel, Rey &Whalen
as ações do isoproterenol no sistema cardiovascular. Assim, na
presença do bloqueador [3, o isoproterenol não produz sua típi­
ca estimulação cardíaca ou redução na pressão arterial média
e diastólica (ver Figura 7.3). (Nota: na presença do bloqueador
[3, a epinefrina não diminui a pressão diastólica ou estimula o
coração, mas sua ação vasoconstritora, mediada pelos recep­
tores a, permanece ativa. As ações da norepinefrina no sistema
cardiovascular são mediadas primariamente pelos receptores a
e, portanto, não são afetadas.)
2. Farmacocinética
Após administração oral, o propranolol é quase completamente
absorvido devido à sua alta lipofilicidade. Está sujeito ao efeito de
primeira passagem, e apenas cerca de 25°
/
o da dose administrada
alcança a circulação. O volume de distribuição do propranolol admi­
nistrado por via oral é grande (4 litros/kg), e o fármaco facilmente
atravessa a barreira hematencefálica. O propranololé extensamente
biotransformado, e a maioria dos metabólitos é excretada na urina.
3. Efeitos terapêuticos
a. Hipertensão. O propranolol não diminui a pressão arterial em
pessoas com pressão sanguínea normal. O propranolol dimi­
nui a pressão arterial na hipertensão por diversos mecanismos.
A redução do débito cardíaco é o mecanismo primário, mas a
inibição da liberação de renina pelos rins, a diminuição na resis­
tência periférica total no uso prolongado e a redução dos estí­
mulos simpáticos do SNC também contribuem para o seu efeito
anti-hipertensivo (ver p. 233).
b. Enxaqueca. O propranolol também é eficaz na redução dos
episódios de enxaqueca quando usado preventivamente (ver
p. 556). O valor dos [3-bloqueadores é maior no tratamento da
enxaqueca crônica, porque eles diminuem a incidência e a gra­
vidade dos ataques. (Nota: durante uma crise, é empregado o
sumatriptano, bem como outros fármacos.)
c. Hipertireoidismo. O propranolol e outros [3-bloqueadores são
eficazes em diminuir a ampla estimulação simpática que ocor­
re no hipertireoidismo. No hipertireoidismo agudo (tempestade
tireóidea), os [3-bloqueadores podem salvar a vida e proteger
contra arritmias cardíacas graves.
d. Angina pectoris. O propranololdiminui o oxigênio exigido pelo
coração e, por isso, é eficaz na redução da dor torácica de es­
forço, que é comum na angina. Assim, ele é útil no tratamento
crônico da angina estável, mas não no tratamento agudo. Esse
fármaco aumenta a tolerância ao exercício moderado, o que re­
flete na melhora do eletrocardiograma.
e. Infarto do miocárdio. O propranolol e outros [3-bloqueadores
têm efeito protetor no miocárdio. Assim, o paciente que teve um
infarto pode serprotegido contra um segundo ataque com o uso
profilático dos [3-bloqueadores. Além disso, a administração de
um [3-bloqueador imediatamente depois do infarto reduz o ta­
manho do infarto e acelera a recuperação. O mecanismo para
esses efeitos pode ser o bloqueio das ações de catecolaminas
circulantes, que aumentariam a demanda de oxigênio em um
músculo cardíaco já bastante isquêmico. O propranololtambém
reduz a incidência de morte arrítmica súbita após o infarto.
4. Efeitos adversos
a. Broncoconstrição. O propranolol apresenta um efeito adverso
grave e potencialmente fatal quando administrado a pacientes
com asma (Figura 7.9). A contração imediata da musculatura lisa
bronquiolar impede a entrada do ar nos pulmões. Mortes poras­
fixiaforam registradas em asmáticos que inadvertidamente rece­
beram o fármaco. Por isso, o propranolol nunca deve ser usado
no tratamento de qualquer indivíduo com DPOC ou asma.
b. Arritmias. O tratamento com J3-bloqueadores nunca deve ser
interrompido abruptamente devido ao risco de precipitar ar­
ritmias cardíacas, que podem ser graves. Os J3-bloqueadores
devem ser retirados gradualmente ao longo de algumas sema­
nas. O tratamento de longa duração com o J3-antagonista leva à
supersensibilização do receptor J3. Ao suspender o tratamento,
esse número aumentado de receptores pode agravar a angina
e/ou a hipertensão.
e. Comprometimento sexual. Como a função sexual masculina
ocorre pela ativação a-adrenérgica, os J3-bloqueadores não
afetam a ejaculação normal nem a função do esfíncter vesical
interno. Por outro lado, alguns homens reclamam de compro­
metimento da atividade sexual. As razões não estão claras, e o
efeito pode ser independente do bloqueio do receptor J3.
d. Distúrbios no metabolismo. O bloqueio J3 diminui a glicogenó­
lise e a secreção de glucagônio. Pode ocorrer hipoglicemia de
jejum.Além disso, os J3-bloqueadores podem prevenir os efeitos
contrarreguladores das catecolaminas durante a hipoglicemia.
A percepção de sintomas, como tremores, taquicardia e nervo­
sismo, são embotados. (Nota: J3-bloqueadores cardiosseletivos
são preferidos no tratamento de asmáticos que usam insulina
[ver antagonistas 131 seletivos].) A principal função dos recepto­
res J3 é mobilizar moléculas energéticas como os aminoácidos.
(Nota: as lipases nas células adiposas são ativadas, levando
ao metabolismo de triglicerídeos em ácidos graxos livres.) Os
pacientes que recebem J3-bloqueadores não seletivostêm maior
quantidade de lipoproteína de baixa densidade ("mau" coleste­
rol), aumento de triglicerídeos e redução de lipoproteína de alta
densidade ("bom" colesterol). Por outro lado, o perfil lipídico sé­
rico em pacientes com dislipidemia melhora com o uso de anta­
gonistas 131 seletivos, como o metoprolol.
e. Efeitos no SNC. O propranolol provoca numerosos efeitos no
SNC, incluindo depressão, tonturas, letargia, fadiga, fraqueza, dis­
túrbios visuais, alucinações, perda de memória de curta duração,
fragilidade emocional, sonhos intensos (incluindo pesadelos), di­
minuição da performance e depressão manifestada por insônia.
f. Interações. Os fármacos que interferem ou inibem a biotransfor­
mação do propranolo/, como cimetidina, f/uoxetina, paroxetina e ri­
tonavir, podem potencializarseus efeitosanti-hipertensivos. Osfár­
macos que estimulam ou induzem a sua biotransformação, como
barbitúricos, fenitoína e rifampicina, podem reduzirseus efeitos.
B. Timolol e nadolol: antagonistas J3 não seletivos
O timo/oie o nado/o/também bloqueiam adrenorreceptores J3, e 132 e são
mais potentes do que o propranolol. O nado/oitem uma duração de ação
muito longa (ver Figura 7.7). O timo/oi reduz a produção de humor aquo-
Farmacologia Ilustrada 93
Fadiga
,, 
"
Broncoconstrição ......
'-
...
;r
,,
Disfunção sexual
Arritmias
(após interrupção
abrupta do uso)
Figura 7.9
I
Je'
.-
...
.....
Efeitos adversos comumente observa­
dos em indivíduos tratados com propra­
nolol.
94 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Antagonistas
Ji-adrenérgicos
{tópicos)
Agonistas
a-adrenérgicos
{tópicos)
Agonistas
colinérgicos
{tópicos)
Análogostipo
prostaglandinas
{tópico)
Inibidoresdeanidrase
carbônica{tópicoe
sistêmico)
Figura 7.10
Betaxo/ol,carteo/ol,
levobunolol,metipranolol,
timo/oi
Aprac/onidina,brimonidina
Pilocarpina,carbaco/
Latanoprosta,travoprosta,
bimatoprosta
Dorzolamidaebrinzolamida
(tópica),acetazo/amidae
metazo/amida(oral)
Diminuemaprodução
dehumoraquoso
Diminuemaprodução
dehumoraquosoe
aumentamsuadrenagem
Aumentamadrenagem
dohumoraquoso
Aumentamadrenagem
dohumoraquoso
Diminuemaprodução
dehumoraquoso
Irritaçãoocular,contraindicadoem
pacientescomasma,doençasobstrutivas
dasviasaéreas,bradicardiaeinsuficiência
cardíacacongestiva.
Vermelhidãoeirritaçãoocular,reações
alérgicas,malestarecefaleia.
Dorocularounasobrancelha,aumento
damiopiaereduçãodavisão
Vermelhidãoeirritaçãoocular,aumento
dapigmentaçãodaírisecrescimento
excessivodospelos doscílios.
Miopiatemporária,nausea,diarreia,
perdadoapetiteegostoecálculosrenais
{fármacosorais).
Classe dos fármacos usados no tratamento do glaucoma.
so. Ele é usadotopicamente no tratamento do glaucomade ângulo amplo
crônico e, às vezes, no tratamento de hipertensão.
1 . Tratamento do glaucoma. Os J3-bloqueadores, como os de uso
tópico timo/o/, betaxolo/, carteolol, são eficazes na diminuição da
pressão intraglobular no glaucoma. Isso ocorre por diminuição da
secreção do humor aquoso pelo corpo ciliar. Vários pacientes com
glaucoma têm sido mantidos com estes fármacos por anos. Eles
não afetam a capacidade do olho de focalização próxima nem al­
teram o tamanho da pupila, como ocorre com os fármacos coli­
nérgicos. Administrados no olho, o início do efeito é em minutos e
perdura por 1 2 a 24 horas. Entretanto, em um glaucoma agudo, a pi­
locarpina continua sendo o fármaco de escolha. Os J3-bloqueadores
são usados somente na doença crônica. Outros fármacos usados
no tratamento do glaucoma estão resumidos na Figura 7.1O.
C. Acebutolol, atenolol, metoprolol, bisoprolol, betaxolol,
nebivolol e esmolol: antagonistas Jl1 seletivos
Os fármacos que bloqueiam preferencialmente os receptores J3, foram
desenvolvidos para eliminar o efeito broncoconstritor indesejado (efei­
to J32) do propranolol visto em pacientes asmáticos. Os J3-bloqueadores
cardiosseletivos, como acebutolo/, atenolole metoprolol, antagonizam os
receptores J31 em doses 50 a 100 vezes menores do que as necessárias
para bloquear os receptores J32• Essa cardiosseletividade é significativa
nas doses baixas e perdida nas doses elevadas. (Nota: o acebutololtem
alguma atividade agonista intrínseca.)
1 . Ações. Esses fármacos reduzem a pressão na hipertensão e au­
mentam a tolerância ao exercício na angina (ver Figura 7.8). O es­
molo/tem um efeito muito breve (ver Figura 7.7) devido à biotrans­
formação de uma ligação éster. Ele é usado somente por via IV,
se necessário, durante cirurgia ou procedimento diagnóstico (p. ex.,
cistoscopia). Em contraste com o propranolo/, os bloqueadores car­
dioespecíficos têm relativamente pouco efeito na função pulmonar,
na resistência periférica e no metabolismo de carboidratos. Apesar
disso, os pacientes com asma tratados com esses fármacos devem
ser monitorados cuidadosamente para garantir que a atividade res­
piratória não seja comprometida. O nebivololtem também proprie­
dades vasodilatadoras mediadas por óxido nítrico.
2. Uso terapêutico em hipertensão. Os �-bloqueadores cardiosse­
letivos são úteis nos pacientes hipertensos com função respiratória
comprometida. Como esses fármacos têm menor efeito nos recep­
tores �2 vasculares periféricos, o frio nas extremidades, um efeito
adverso comum do tratamento com �-bloqueadores, é menos fre­
quente. Os �-bloqueadores cardiosseletivos são úteis nos pacientes
diabéticos hipertensos que estão recebendo insulina ou hipoglice­
miantes orais.
D. Pindolol e acebutolol: antagonistas com atividade agonista
parcial
1 . Ações
a. Cardiovascular. O acebutolol (antagonista seletivo �,) e o pin­
dolol (bloqueador � não seletivo) não são antagonistas puros.
Ao contrário, eles têm a capacidade de estimular fracamente os
receptores �, e �2 (Figura 7.1 1) por terem leve atividade simpa­
ticomimética intrínseca (ASI). Esses agonistas parciais estimu­
lam o receptor � ao qual se ligam, mas inibem a estimulação
pelas catecolaminas endógenas mais potentes, epinefrina e
norepinefrina. O resultado dessa ação oposta é um efeito bem
diminuído na frequência e no débito cardíaco se comparado ao
efeito de �-bloqueadores sem ASI.
b. Diminuição dos efeitos metabólicos. Os bloqueadores com
ASI causam menos distúrbios no metabolismo de carboidratos
e lipídeos do que são observados com outros �-bloqueadores.
Por exemplo, estes fármacos não diminuem os níveis de HDL no
plasma.
2. Uso terapêutico na hipertensão. Os �-bloqueadores com ASI são
eficazes em pacientes hipertensos com bradicardia moderada, pois
uma redução adicional da frequência cardíaca com esses fármacos
é menos pronunciada. O metabolismo de carboidratos é menos afe­
tado com acebutolol e pindolol do que com propranolol, tornando
esses fármacos valiosos no tratamento de diabéticos. (Nota: os �,,,
-bloqueadores com ASI não são usados como fármacos antiarrítmi­
cos devido ao seu efeito agonista parcial.) A Figura 7.12 resume as
indicações para os �-bloqueadores.
E. Labetalol e carvedilol: antagonistas de adrenorreceptores
a e p
1 . Ações. O labetalole o carvedilolsão �-bloqueadores com ações
bloqueadoras ex, concomitantes que produzem vasodilatação pe­
riférica, reduzindo a pressão arterial. Eles contrastam com outros
�-bloqueadores que produzem vasoconstrição periférica e, por
isso, são úteis no tratamento de pacientes hipertensos para os
quais o aumento da resistência vascular periférica é indesejável.
Esses fármacos não alteram os níveis séricos de lipídeos ou de
glicose. O carvediloltambém diminui a peroxidação lipídica e o en­
grossamento da parede vascular, efeitos benéficos na insuficiência
cardíaca.
Farmacologia Ilustrada 95
a Agonistas
(p. ex., epinefr
ina)
Receptores131 e 132
Receptores131 e132 ativados
�
EFEITOSCELULARES
a Antagonistas
(p. ex., propranololj
.
...
. .
. .
• •
Epinefrina
: � i·.
. . ' '.
"
·
.........
.
:
·.
...··. :
....... ..
Receptores131 e 132
bloqueados, masnãoativados
li Agonistas parciais
(p. ex., pindo/o/e acebutololj
Receptores 131 e 132parcialmenteativados,
masincapazesde responderàscatecolaminas
maispotentes
Figura 7.11
EFEITOSCELULARES
DIMINUÍDOS
Comparação de agonistas, antago­
nistas e agonistas parciais dos adre­
norreceptores �·
96 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Hipertensão
Propranolol, metoprolol, timo/oie
outros bloqueadores 13 diminuem o
débito cardíaco e a secreção de renina.
Glaucoma
Timo/o/ e outros bloqueadores 13
diminuem a secreção de
humor aquoso.
Enxaqueca
O propranololapresenta
um efeito profilãtico.
I
e;
Tirotoxicose
O proprano/oldiminui
a frequência cardíaca e
o potencial para arritmias.
Profilaxiadearritmiasapós
infartodomiocárdio
Proprano/ol e metopro/oldiminuem o
débito cardíaco e a secreção de renina.
Taquicardiasupraventricular
Proprano/ole esmolo/diminuem a
velocidade de condução AV.
Anginapectoris
Proprano/ol, nado/o/e outros
bloqueadores 13 reduzem a frequência
e a força de contração cardíaca.
Figura 7.12
Algumas aplicações clínicas dos �-blo­
queadores. AV = atrioventricular.
2. Usos terapêuticos na hipertensão e insuficiência cardíaca. O
/abetalol é útil no tratamento dos pacientes hipertensos idosos ou
negros, nos quais o aumento da resistência periférica é indesejá­
vel. (Nota: em geral, a hipertensão em pacientes negros não é bem
controlada com os �-bloqueadores.) O labetalol pode ser usado
como uma alternativa à metildopa no tratamento da hipertensão in­
duzida pela gestação. Por via IV, o labetalol é usado também para
tratar emergências hipertensivas, pois pode baixar rapidamente a
pressão arterial (ver p. 240). A administração aguda de �-bloquea­
dores pode iniciar uma insuficiência cardíaca congestiva ou piorar
esta condição. Contudo, triagens clínicas amplas mostraram vanta­
gens clínicas do carvedilo/, bem como do metoprolole bisopro/oiem
pacientes com insuficiência cardíaca crônica estável. Estes fárma­
cos também reduziram a mortalidade e a hospitalização nesta po­
pulação. O carvedilol é usado também para prevenir a mortalidade
cardiovascular em pacientes com insuficiência cardíaca.
3. Efeitos adversos. Hipotensão ortostática e tonturas são associa­
das com o bloqueio c:x1• A Figura 7.13 resume as especificidades do
receptor e os usos dos antagonistas �-adrenérgicos.
IV. FÁRMACOS QUE AFETAM A LIBERAÇÃO OU A
-
CAPTAÇAO DO NEUROTRANSMISSOR
Como será notado na p. 1 27, alguns agonistas, como a anfetamina e a tira­
mina, não atuam diretamente no adrenorreceptor, mas exercem seus efeitos
indiretamente no neurônio adrenérgico, causando a liberação do neurotrans­
missor das vesículas de armazenamento. De modo similar, alguns fármacos
atuam no neurônio adrenérgico, interferindo na liberação do neurotransmissor
ou alterando a captação do neurotransmissor no nervo adrenérgico. Contudo,
devido ao advento de fármacos novos e mais potentes, com menos efeitos
adversos, estes fármacos raramente são usados em terapêutica. Estes fár­
macos são incluídos neste capítulo devido ao mecanismo de ação singular e
ao valor histórico.
A. Reserpina
A reserpina é um alcaloidevegetal que bloqueia otransporte dependente
de Mg
2
+/trifosfato de adenosina (ATP) de aminas biogênicas, norepinefri­
na, epinefrina, dopamina e serotonina, do citoplasma para as vesículas
de armazenamento no terminal nervoso adrenérgico de todos os tecidos
corporais. Isso causa a depleção das aminas biogênicas. Em geral, a fun­
ção simpática é bloqueada devido à baixa liberação de norepinefri
na. O
fármaco tem um início de ação lento, uma longa duração de ação e um
efeito que persiste porvários dias depois que o seu uso é interrompido.
B. Guanetidina
A guanetidina bloqueia a liberação de norepinefrina armazenada, bem
como a desloca das vesículas de armazenamento (provocando, assim,
um aumento transitório da pressão arterial). Isso leva à depleção gradual
de norepinefrina nos terminais nervosos, exceto nos localizados no SNC.
A guanetidina comumente causa hipotensão ortostática e interfere na
função sexual masculina. A depleção da amina causa supersensibilidade
à norepinefrina e pode causar crises hipertensivas em pacientes com
feocromocitoma.
Propranolol
Nado/oi
Timo/oi
Acebuto/o/1
Atenolol
Esmolo/
Metoprolol
Nebivo/ol
Pindo/o/1
Hipertensão
Cefaleia
Hipertireoidismo
Anginapectoris
Infartodomiocárdio
Hipertensão
Glaucoma
Hipertensão
Hipertensão
Hipertensão
Hipertensão
Hipertensão
Farmacologia Ilustrada 97
Carvedilol
Labeta/oi Insuficiênciacardíacacongestiva
Figura 7.13
Resumo dos antagonistas J3-adrenérgicos. NO = óxido nítrico.
1
Acebutolole pindololsão agonistas parciais.
C. Cocaína
A cocaína é um fármaco amplamente disponível e altamente viciante. O
mecanismo de ação primário que medeia os efeitos periféricos e centrais
da cocaína é o bloqueio da captação neuronal de monoaminas (norepi­
nefrina, serotonina e dopamina) para o interior dos terminais pré-sinap­
ticos dos quais estes neurotransmissores são liberados (Figura 10.6).
Este bloqueio é causado pela ligação da cocaína aos transportadores de
captação de monoaminas, que, assim, potencializa e prolonga as ações
periféricas e no SNC destas monoaminas. Em particular, o prolongamen­
to dos efeitos dopaminérgicos no sistema de prazer cerebral (sistema
límbico) produz a intensa euforia que a cocaína causa inicialmente. A in­
gestão crônicade cocaínaesgotaa dopamina. Este esgotamento dispara
o círculo vicioso da compulsão por cocaína que alivia temporariamente
a grave depressão. Ver p. 1 26 para discussão mais completa das ações
da cocaína.
98 Clark, Finkel, Rey &Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
7.1 O gráfico descreve as alterações na pressão arterial cau­
sadas pela administração por via IV de epinefrina antes e
após um fármaco X desconhecido.
160
�
Q) �
t: Cl
til J: 120
,g E
VJ E
lfJ �
� 80
a_
40
Controle Apóso
nãotratado fármacoX
Tempo
Epinefrina Epinefrina
Qual dos seguintes é mais provável que seja o fármaco X?
A. Atropina
B. Fenilefrina
C. Fisostigmina
D. Prazosina
E. Propranolol
7.2 Um homem de 38 anos iniciou recentemente uma mono­
terapia contra hipertensão leve. Na sua recente visita ao
consultório, queixou-se de cansaço e da incapacidade de
completar três sets de tênis. Qual dos seguintes fármacos
ele provavelmente está usando contra a hipertensão?
A. Albuterol
B. Atenolol
e. Efedrina
D. Fentolamina
E. Prazosina
7.3 Um homem asmático de 60 anos vem para uma revisão
de saúde (chekup) e se queixa que está tendo dificuldade
em "começar a urinar". O exame físico indica que o homem
tem pressão arterial de 160/100 mmHg e que a próstata
está ligeiramente aumentada. Qual dos seguintes fárma­
cos seria útil no tratamento dessas duas condições?
A. Doxazosina
B. Labetalol
C. Fentolamina
D. Propranolol
E. lsoproterenol
Resposta correta = D. A dose de epinefrina aumentou as pressões
sistólica e diastólica, mas como a epinefrina dilata alguns leitos vas­
culares e contrai outros, oaumento na pressãodiastólica não é muito
elevado. Há um acentuado aumento na pressão de pulso. Um blo­
queador a, como prazosina, impede os efeitos vasoconstritores pe­
riféricos da epinefrina, deixando os vasodilatadores (estimulação �2)
sem oposição. Isso resulta em uma acentuada redução na pressão
diastólica associadacom um leve aumento na pressão sistólica devi­
doaoaumentododébito cardíaco. Esse fenômenoé conhecidocomo
"a reversão da epinefrina" e é característico do efeito de bloqueado­
res a nos efeitos cardiovasculares da epinefrina. Nenhum dos outros
fármacos enumerados tem propriedade bloqueadora a e, por isso,
não podem produzir essa interação.
Resposta correta = 8. O atenolol é um �,-antagonista e é eficaz na
redução da pressão arterial em pacientes com hipertensão. Os efei­
tos adversos dos �-bloqueadores incluem fadiga e intolerância ao
exercício. O albuterol e aefedrinanãosãoanti-hipertensivos.Afento­
laminae aprazosina sãoanti-hipertensivos, mas esses sintomasnão
são efeitos adversos característicos dos antagonistas a.
Resposta correta = A. A doxazosina é um bloqueador competitivo do
receptor a1 e reduz a pressão arterial. Além disso, ela bloqueia os
receptores a nomúsculo liso no colo da bexiga e da próstata, melho­
rando o fluxo urinário. O labetalol e o propranolol, embora eficazes
para tratarahipertensão, sãocontraindicados em um asmático eeles
não melhoram o fluxo urinário. A fentolamina tem inúmeros efeitos
adversos que impedem seu emprego como anti-hipertensivo. O iso­
proterenol é um �-agonista e não é usado como anti-hipertensivo,
nem afeta afunção urinária.
1 oen
•
•
•
euro enera 1vas
1. RESUMO
A maioria dos fármacos que afetam o SNC atua alterando alguma etapa do
processo de neurotransmissão. Os fármacos que afetam o SNC podem atuar
pré-sinapticamente influenciando a produção, o armazenamento, a liberação
ou o término da ação dos neurotransmissores. Outros fármacos podem ativar
ou bloquear os receptores pós-sinápticos. Este capítulo apresenta uma visão
geral do SNC, com foco nos neurotransmissores que estão envolvidos nas
ações dos fármacos clinicamente úteis. Esses conceitos são importantes no
entendimento da etiologia e das estratégias de tratamento das doenças neu­
rodegenerativas que respondem ao tratamento medicamentoso: doenças de
Alzheimer e de Parkinson, esclerose múltipla (EM) e esclerose lateral amio­
trófica (ELA) (Figura 8.1).
-
li. A NEUROTRANSMISSAO NO SNC
Em vários aspectos, o funcionamento básico dos neurônios no SNC é similar
ao do sistema nervoso autônomo (SNA), descrito no Capítulo 3. Por exemplo,
a transmissão da informação no SNC e na periferia envolve a liberação de
neurotransmissores que se difundem através do espaço sináptico e se ligam
a receptores específicos no neurônio pós-sináptico. Em ambos os sistemas,
o reconhecimento do neurotransmissor pelo receptor de membrana do neu­
rônio pós-sináptico iniciaalterações intracelulares. Contudo, várias diferenças
existem entre os neurônios no SNA periférico e os neurônios no SNC. Os
circuitos do SNC são muito mais complexos do que os do SNA, e o número
de sinapses no SNC é muito maior. O SNC, ao contrário do SNA, contém uma
rede poderosa de neurônios inibitórios que estão constantemente ativos na
modulação da velocidade de transmissão neuronal. Além disso, o SNC se
comunica por mais de 1O (talvez cerca de 50) neurotransmissores diferentes.
Em contraste, o SNA usa somente dois neurotransmissores primários, a ace­
tilcolina e a norepinefri
na.
FÁRMACOS ANTIPARKINSON
Amantadina
Apomorf
ina
Benztropina
Biper
ideno
Bromocriptina
Carbidopa
Entacapona
Levodopa
Pramipexol
Prociclidina
Rasagilina
Ropinirol
Rotigotina
Se/egilina (Deprenila)
Tolcapona
Triexifenedil
FÁRMACOS ANTIALZHEIMER
Figura 8.1
Donepezila
Galantamina
Memantina
Rivastigmina
Tacrina
Resumo de fármacos usados no trata­
mento das doenças de Parkinson, de
Alzheimer, esclerose múltipla e escle­
rose lateral amiotrófica (ELA). (Conti­
nua na próxima página.)
100 Clark, Finkel, Rey & Whalen
FÁRMACOS ANTIESCLEROSE MÚLTIPLA
Azatioprina
Ciclofosfamida
Dalfampr
idina
Dexametasona
Fingolimode
G/atiramer
lnterferon fJ1a
lnterferon fJ1b
Mitoxantrona
Natali
zumabe
Prednisona
FÁRMACOS ANTI ELA
R
i
luzo/
Figura 8.1 (Continuação)
Resumo de fármacos usados no trata­
mento das doenças de Parkinson, de
Alzheimer, esclerose múltipla e escle­
rose lateral amiotrófica (ELA).
tJ Receptor vazio
(sem agonistas)
O receptor vazio é inativo, e o canal de
sódio associado permanecefechado.
MEMBRANA NEURONAL
PÓS-S1NÁPTICA
Na+
� +++
+++
Receptorde t- -
acetilcolina Canaldesódio
(fechado)
Ligação de
neuretransmissor
excitatório ao receptor
A ligação de acetilcolina causa a
abertura do canal de sódio.
+ +
Acetilcolina Na+
Receptorde
acetilcolina
Na+
Na+
+ +
Aentrada de Na+ despolariza a célula
e aumenta a excitabilidade neuronal.
Figura 8.2
A ligação do neurotransmissor excitató­
rio, acetilcolina, causa despolarização
do neurônio.
Ili. POTENCIAIS SINÁPTICOS
No SNC, os receptores da maioria das sinapses estão acoplados a canais
iônicos; ou seja, a ligação do neurotransmissor ao receptor de membrana
pós-sináptico resulta em uma rápida, mas transitória, abertura de canais
iônicos. A abertura permite que íons específicos, dentro ou fora da célu­
la, fluam conforme o gradiente de concentração. A alteração resultante na
composição iônica através da membrana do neurônio altera o potencial pós­
-sináptico, produzindo despolarização ou hiperpolarização da membrana
pós-sináptica, dependendo do íon específico que se move e da direção do
seu movimento.
A. Vias excitatórias
Os neurotransmissores podem ser classificados em excitatórias ou ini­
bitórios, dependendo da natureza da ação que provocam. A estimula­
ção de um neurônio excitatório causa movimento de íons que resulta
em uma despolarização da membrana pós-sináptica. Esses potenciais
pós-sinápticos excitatórias (PPSE) são gerados pelos seguintesfatores:
1) a estimulação de um neurônio excitatório causa a liberação de molé­
culas neurotransmissoras, como glutamato ou acetilcolina, que se ligam
aos receptores na membrana pós-sináptica. Isso causa um aumento
transitório na permeabilidade dos íons sódio (Na+). 2) O influxo de Na+
causa uma leve despolarização, ou PPSE, que desloca o potencial pós­
sináptico em direção ao limiar.3) Se o número de neurônios excitatórias
estimulados aumenta, mais neurotransmissor excitatório é liberado. Fi­
nalmente, isso determina que o PPSE da célula pós-sináptica ultrapas­
se o valor limiar, gerando-se um potencial de ação tudo-ou-nada. (Nota:
a geração de um impulso nervoso reflete a ativação de receptores si­
nápticos por centenas de moléculas neurotransmissoras excitatórias li­
beradas de várias fibras nervosas.) A Figura 8.2 mostra um exemplo de
uma via excitatória.
B. Vias inibitórias
A estimulação de neurônios inibitórios causa movimento de íons que re­
sulta na hiperpolarização da membrana pós-sináptica. Esses potenciais
pós-sinápticos inibitórios (PPSI) são gerados pelos seguintes fatores: 1)
a estimulação de neurônios inibitórios libera moléculas neurotransmis­
soras, como GABA ou glicina, que se ligam a receptores na membrana
pós-sináptica. Isso causa um aumento transitório na permeabilidade de
íons específicos, como potássio (K+) ou cloro (CI-). 2) O influxo de c1- ou
o efluxo de K+ causa uma leve hiperpolarização, ou PPSI, que afasta o
potencial pós-sináptico do seu limiar. Isso diminui a geração de potenciais
de ação. A Figura 8.3 mostra um exemplo de via inibitória.
C. Efeitos combinados de PPSE e PPSI
A maioria dos neurônios no SNC recebe PPSE e PPSI. Assim, vários
tipos diferentes de neurotransmissores podem atuar no mesmo neurônio,
mas cada um se liga ao seu próprio receptor específico. O resultado lí­
quido é a soma das ações individuais dos vários neurotransmissores no
neurônio. Os neurotransmissores não estão uniformemente distribuídos
no SNC, mas são localizados em agrupamentos específicos de neurô­
nios, cujos axônios podem fazer sinapse com regiões específicas do cé­
rebro. Vários tratos neuronais parecem codificados quimicamente, e isso
pode permitir grande oportunidade de modulação seletiva de certas vias
•
neuronais.
IV. DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS
As doenças neurodegenerativas do SNC incluem a doença de Parkinson, a
doença de Alzheimer, a EM e a ELA. Essas doenças graves são caracteri­
zadas pela perda progressiva de neurônios específicos em áreas cerebrais
discretas, resultando em distúrbios característicos de movimento, cognitivos,
ou ambos. Por exemplo, a doença de Alzheimer é caracterizada pela perda de
neurônios colinérgicos no núcleo basal de Maynert, e a doença de Parkinson
está associada à perda de neurônios dopaminérgicos na substância negra. A
doença mais prevalente é a deAlzheimer, afetando cerca de 4 milhões de pes­
soas, segundo estimativa feita em 2000. O número de casos deve aumentar
com o aumento da proporção de pessoas idosas na população.
-
V. REVISAO DA DOENÇA DE PARKINSON
A doença de Parkinson é um distúrbio neurológico progressivo do movimento
muscular, caracterizado por tremores, rigidez muscular, bradicinesia (lentidão
ao iniciare executar movimentos voluntários) e anormalidades posturais e de
marcha.A maioriados casos envolve pessoas com mais de 65 anos, entre as
quais a incidência é de 1 em 100 indivíduos.
A. Etiologia
A causa da doença de Parkinson é desconhecida para a maioria dos pa­
cientes. A doença está relacionada com a degeneração de neurônios do­
paminérgicos na substância negra com consequente redução das ações
da dopamina no corpo estriado - parte do sistema de gânglios basais
cerebrais que estão envolvidos no controle motor. A perda dos neurô­
nios de dopamina na substância negra se evidencia pela diminuição da
captação de precursores de dopamina nesta região, o que pode ser vi­
sualizado usando tomografia por emissão de posítrons e o análogo da
dopamina, f/uorodopa (Figura 8.4). Fatores genéticos não desempenham
papel dominante na etiologia da doença de Parkinson, embora possam
exercer alguma influência na suscetibilidade individual à doença. Parece
cada vez mais provável que um fator ambiental não identificado possater
papel na perda dos neurônios dopaminérgicos.
1 . Substância negra. A substância negra, parte do sistema extrapira­
midal, é a origem dos neurônios dopaminérgicos que terminam no
neostriado (representados em vermelho na Figura 8.5). Cada neu­
rônio dopaminérgico faz milhares de contatos sinápticos no interior
do neostriado e, assim, modula a atividade de um grande número
de células. Essas projeções dopaminérgicas da substância negra
disparam tonicamente, e não em resposta a um movimento muscu­
lar ou impulso sensorial específicos. Assim, o sistema dopaminérgi­
co parece servir como uma influência tônica, contínua na atividade
motora, em vez de participar em movimentos específicos.
2. Neostriado. Normalmente o neostriado está conectado à substân­
cia negra por neurônios (representados em laranja na Figura 8.5)
que secretam o transmissor inibitório GABA nas suas terminações
na substância negra. Por sua vez, células da substância negra en­
viam neurônios de volta ao neostriado (representados em vermelho
na Figura 8.5), que secretam o transmissor inibitório dopamina nas
suas terminações. Essas vias mutuamente inibitórias em geral man­
têm um grau de inibição das duas áreas distintas. Na doença de
Parkinson, a destruição das células na substância negra resulta na
degeneração dosterminais nervosos responsáveis pela secreção de
Farmacologia Ilustrada 101
Receptor vazio
(sem agonista)
O receptor vazio é inativo,
e o canal de cloro
estáfechado.
MEMBRANA
NEURONAL
PÓS-SINÁPTICA
+ +
ReceptordeGABA
-
lC�nal ;
e
cloro
(fechado)
Ligação de
neurotransmissor
inibitório ao receptor
A ligação de GABA
causa a abertura do
canal de cloro.
GABA
+ + +
ReceptorGABA
A entrada de CI-hiperpola­
riza a célula, dificultando
sua despolarização e, por
isso, reduzindo a excitabili­
dade neuronal.
Figura 8.3
+ + +
A ligação do neurotransmissor inibitório
ácido 'Y-aminobutírico (GABA) causa
hiperpolarização do neurônio.
102 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Figura 8.4
Varredura com tomografia por emissão
de posítrons do cérebro mostrando as
diferenças nos níveis de fluorodopa
(FDOPA) entre indivíduos com e sem
doença de Parkinson.
1'!"11 Perda do efeito inibitório
U da dopamina resulta em
maior produção de
acetilcolina, que estimula a
sinalização anormal,
comprometendo a motilidade.
Conexões ao músculo
através do córtex motor
e da medula espinal
NEURÔNIO
GABA INIBITÓRIO
�
-
- Neurônio -----1)1o�
.�
SUBSTÂNCIA
NEGRA -
O
Devido à morte celular, ocorre menor
liberação de dopamina no neostriado.
Figura 8.5
Função da substância negra na doença
de Parkinson. DA = dopamina; GABA =
ácido 'Y-aminobutírico; ACh = acetilco­
lina.
dopamina no neostriado. Assim, a influência moduladora inibitória
normal da dopamina nos neurônios colinérgicos no neostriado dimi­
nui significativamente, resultando em superprodução ou hiperativi­
dade relativa da acetilcolina pelos neurônios estimulantes (represen­
tados em verde na Figura 8.5). Isso inicia uma sequência de sinais
anormais, resultando na perda do controle do movimento muscular.
3. Parkinsonismo secundário. Os sintomas da doença de Parkinson
raramente aparecem depois de encefalite virai ou de múltiplas le­
sões vasculares pequenas. Fármacos como os fenotiazínicos e o
haloperido/, cuja principal ação farmacológica é o bloqueio de re­
ceptores da dopamina no cérebro, também produzem sintomas da
doença de Parkinson. Esses fármacos não devem ser usados em
pacientes parkinsonianos.
B. Estratégia de tratamento
VI.
Além daabundância em neurônios dopaminérgicos inibitórios, o neostria­
do também é rico em neurônios colinérgicos excitatórios que se opõem
à ação da dopamina (ver Figura 8.5). Vários dos sintomas da doença
de Parkinson refletem um desequilíbrio entre os neurônios colinérgicos
excitatórios e o número muito diminuído de neurônios dopaminérgicos
inibitórios. O tratamento é direcionado ao restabelecimento da dopamina
nos gânglios basais e à antagonização do efeito excitatório dos neurô­
nios colinérgicos, restabelecendo, assim, o equilíbrio normal dopamina/
acetilcolina. Como o tratamento de longa duração com levodopa é limita­
do pelas flutuações na resposta terapêutica, são procuradas estratégias
para manter os níveis de dopamina no SNC o mais constante possível.
FÁRMACOS USADOS NA DOENÇA DE PARKINSON
Osfármacos disponíveis atualmente oferecem alívio temporário dos sintomas
desta doença, mas eles não interrompem nem revertem a degeneração neu­
ronal causada pela doença.
A. Levodopa e carbidopa
O /evodopa é um precursor metabólico da dopamina (Figura 8.6). Ele res­
tabelece a neurotransmissão dopaminérgica no corpo estriado, aumen­
tando a síntese de dopamina nos neurônios ainda ativos da substância
negra. Em pacientes com doença inicial, o número de neurônios dopa­
minérgicos residuais na substância negra (geralmente cerca de 20°
/
o do
normal) é adequado para a conversão do /evodopa à dopamina. Assim,
nesses pacientes, a resposta ao levodopa é consistente, e o paciente
raramente se queixa de que os efeitos do fármaco desvanecem. Infeliz­
mente, com o tempo, o número de neurônios diminui, e menos células
são capazes de captar o levodopa exógeno e convertê-lo em dopami­
na para armazenamento e liberação subsequentes. Em consequência,
desenvolvem-se flutuações no controle motor. O alívio oferecido pelo /e­
vodopa é meramente sintomático e dura somente o tempo que o fármaco
está presente no organismo. Os efeitos do /evodopa no SNC podem ser
potencializados pela coadministração de carbidopa, um inibidorda dopa­
-descarboxilase que não atravessa a barreira hematencefálica.
1 . Mecanismo de ação
a. Levodopa. Como adoença de Parkinson resulta da faltade dopa­
mina em regiões específicas do cérebro, são feitos esforços para
reverteressadeficiência.A própriadopamina não atravessa a bar-
reira hematencefálica, mas seu precursor imediato, o levodopa, é
transportado ativamente para o SNC e transformado em dopami­
na no cérebro (ver Figura 8.6). Grandes quantidades de /evodopa
são necessárias, pois grande parte do fármaco é descarboxilada
à dopamina na periferia, resultando em efeitos colaterais que in­
cluem náusea, êmese, arritmias cardíacas e hipotensão.
b. Carbidopa. O carbidopa, um inibidor da dopa-descarboxilase,
diminui a biotransformação do /evodopa no TGI e nos tecidos
periféricos, aumentando, assim, a disponibilidade de levodopa
no SNC. Além disso o carbidopa diminui a dose de levodopa
necessária em 4 a 5 vezes e, consequentemente, diminui a gra­
vidade dos efeitos adversos resultantes da dopamina formada
na periferia.
2. Ações. O levodopa reduz a rigidez, os tremores e outros sintomas
da doença de Parkinson.
3. Usos terapêuticos. O levodopa em associação com o carbidopa é
um tratamento potente e eficaz disponível atualmente para tratar a
doença de Parkinson. Em cerca de dois terços dos pacientes, esse
tratamento reduz substancialmente a gravidade da doença nos pri­
meiros anos de uso. Os pacientes em geral diminuem a resposta
entre o terceiro e o quinto ano de tratamento.
4. Absorção e biotransformação. O fármaco é absorvido rapidamen­
te do intestino delgado (quando em jejum). O levodopa tem uma
meia-vida extremamente curta (1 a 2 horas), o que causa flutuação
nos níveis plasmáticos. Isso pode provocar flutuações na resposta
motora, que se correlaciona, em geral, com a concentração de le­
vodopa no plasma ou dá origem ao fenômeno "liga-desliga", mais
desagradável, no qual as flutuações motoras não se relacionam
Tirosina --+-- Tirosina
i
A. Distribuição do levodopaadministrado
Farmacologia Ilustrada 103
Dopa +--+----
i
Dopamina }Levodopa administrado
Vesícula
sináptica
Figura 8.6
Dopamina
• •
• •
•
Receptor de
dopamina
Metabolismonos
tecidosperiféricos
�
Metabolismo
noTGI
t(
Efeitosindesejados
B. Destino do levodopa administrado com carbidopa
Dopa
O Carbi- O
....,_ <··....... dopa .........
> ....
-
1 Levodopa administrado
Menormetabolismonos
tecidosperiféricos �
Menormetabolismo
t::t noTGI
Menosefeitosindesejados
Síntese de dopamina a partir do levodopa na ausência e na presença de carbidopa, um inibidor da dopamina-descarbo­
xilase nos tecidos periféricos.TGI = trato gastrintestinal.
104 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Anorexia
Náusea
e êmese
Taquicardia
Hipotensão
Problemas
psiquiátricos
Figura 8.7
Efeitos adversos do Jevodopa.
Efeitodiminuídodevido
aoaumentodometabolismo
periférico
Piridoxina
Levodopa
-
Inibidores
daMAO
Crisehipertensivadevidoao
aumentodecatecolaminas
Figura 8.8
Algumas interações de fármacos ob­
servadas com levodopa. MAO = mono­
amina oxidase.
com os níveis plasmáticos de modo simples. As flutuações motoras
fazem o paciente perder subitamente a mobilidade normal e apre­
sentar tremores, cãibras e imobilidade. A ingestão de refeições, em
particular as ricas em proteínas, interferem no transporte do levo­
dopa ao SNC. Os grandes aminoácidos neutros (p. ex., leucina e
isoleucina) competem com o levodopa pela absorção do intestino e
pelo transporte através da barreira hematencefálica. Assim, o levo­
dopa deve ser ingerido em jejum, geralmente 45 minutos antes da
refeição. A retirada do fármaco deve ser gradual.
5. Efeitos adversos
a. Efeitos periféricos. Anorexia, náusea e êmese ocorrem devido
à estimulação da zona disparadora química no bulbo (Figura
8.7).Taquicardia e extrassístoles ventriculares resultam da ação
da dopamina no coração. Também pode ocorrer hipotensão. A
ação adrenérgica na íris causa midríase e, em alguns indiví­
duos, discrasias sanguíneas e uma reação positiva ao teste de
Coombs. A saliva e a urina apresentam coloração marrom devi­
do ao pigmento melanina produzido pela oxidação da catecola-
.
mina.
b. Efeitos no SNC. Podem ocorreralucinações visuais e auditivas
e movimentos involuntários anormais (discinesia). Esses efeitos
no SNC são opostos aos sintomas da doença de Parkinson e
refletem a hiperatividade da dopamina nos receptores nos gân­
glios basais. O levodopa também pode alterar o humor, causar
depressão, psicose e ansiedade.
6. Interações de fármacos. A piridoxina (vitamina 86) aumenta
a hidrólise periférica do levodopa e diminui sua eficácia (Figura
8.8). A administração concomitante de levodopa e inibidores da
MAO (IMAO), como fenelzina, pode produzir uma crise hiper­
tensiva causada pelo aumento da produção de catecolaminas;
por isso, é necessário cautela quando usados simultaneamente.
Em vários pacientes psicóticos, o levodopa agrava os sintomas,
provavelmente pelo aumento de catecolaminas centrais. Em pa­
cientes com glaucoma, o fármaco pode causar um aumento na
pressão intraocular adicional. Pacientes cardíacos devem ser
cuidadosamente monitorados devido ao possível desenvolvi­
mento de arritmias. Em geral, fármacos neurolépticos são con­
traindicados em pacientes parkinsonianos, pois podem bloquear
os receptores da dopamina e provocarsíndrome parkinsoniana.
Contudo, dosagens baixas de certos fármacos neurolépticos
atípicos são empregados algumas vezes para tratar sintomas
psiquiátricos causados pelo levodopa.
B. Selegilina e rasagilina
A selegili
na, também denominada deprenila, em dosagens baixas a mo­
deradas inibe seletivamente a MAO tipo B (que metabolisa a dopamina),
mas não inibe a MAO tipoA (que metabolisa a norepinefrinae a serotoni­
na), a menos que administrada em dosagens acima das recomendadas
nas quais perde a sua seletividade. Assim, por diminuir o metabolismo
da dopamina, a selegilina aumenta os níveis de dopamina no cérebro
(Figura 8.9). Por isso, ela aumenta a ação do Jevodopa, e, quando esses
fármacos são administrados juntos, a selegilina reduz substancialmente
a dose necessária de Jevodopa. Diferente dos IMAO não seletivos, a se­
Jegilina, nas doses recomendadas, tem baixo potencial de causar crises
hipertensivas. Contudo, se ela é administrada em doses elevadas, perde
a seletividade, e o paciente fica sujeito ao risco de hipertensão grave. A
selegilina é biotransformada em metanfetamina e anfetamina, cujos efei­
tos estimulantes podem provocar insônia se for administrada depois da
metade da tarde (ver p. 158 para o uso da se/egili
na no tratamento da
depressão). A rasagili
na é um inibidor seletivo e irreversível da MAO tipo
B cerebral e tem cinco vezes a potência da selegilina. Ao contrário da
selegilina, ela não é biotransformada em substâncias tipo anfetamina.
C. Inibidores da catecol-0-metiltransferase
Normalmente, a metilação do /evodopa pela catecol-0-metiltransferase
(COMT) resultando em 3-0-metildopa é uma via menor na sua biotrans­
formação. Contudo, quando a atividade periférica da dopamina-descar­
boxilase é inibida pelo carbidopa, forma-se uma quantidade significativa
de 3-0-metildopa que compete com o /evodopa pelo transporte ativo no
SNC (Figura 8.1O). A inibição da COMT pelo entacapona ou tolcapona
reduz a concentração de 3-0-metildopa no plasma, aumenta a captação
central de levodopa e eleva as concentrações cerebrais de dopamina.
Demonstrou-se que os dois fármacos diminuem os sintomas de desvane­
cimento vistos em pacientes que recebem levodopa-carbidopa. Entaca­
pona e tolcapona são derivados nitrocatecólicos que inibem a COMT de
modo seletivo e reversível. Os dois fármacos diferem primariamente nas
suas farmacocinéticas e em alguns efeitos adversos.
1 . Farmacocinética. A absorção dos dois fármacos administrados por
via oral ocorre de forma fácil e não é influenciada pela alimentação.
Eles são extensamente ligados à albumina (> 98°
/
o) com limitado
volume de distribuição. A tolcapona difere da entacapona, pois pe­
netra a barreira hematencefálica e inibe a COMT no SNC. Contudo,
a inibição da COMT periférica parece ser a base de sua ação tera­
pêutica. A tolcapona tem duração de ação relativamente longa (pro­
vavelmente devido à sua afinidade pela enzima) comparada com a
entacapona, que requer dosagens mais frequentes. Ambos os fár­
macos são extensamente biotransformados e eliminados nas fezes
e na urina. A dosagem deve ser ajustada em pacientes com cirrose
moderada ou grave.
2. Efeitos adversos. Ambos os fármacos apresentam efeitos adver­
sos que são observados em pacientes que recebem /evodopa-car­
bidopa, incluindo diarreia, hipotensão postural, náusea, anorexia,
discinesias, alucinações e distúrbios do sono. Mais grave, a necrose
Farmacologia Ilustrada 105
Os níveis de
dopamina
aumentam
Oopamina
MAO B 0 <·0000'"'"' Se/egili
na
Metabólitos
Figura 8.9
Ação da selegili
na (depreni/a) no meta­
bolismo da dopamina. MAO B = mono­
amina oxidase tipo B.
Quando a atividade da dopamina-descarboxilase
periférica é inibida pelo carbidopa, forma-se uma
concentração significativa de 3-0-metildopa, que
compete com o /evodopa pelo transporte ativo no SNC.
A inibição da COMT pelo entacapona diminui a
concentração plasmática de 3-0-metildopa, aumenta
a captação central de levodopa e aumenta a
concentração cerebral de dopamina.
Levodopa
administrado
3-0-metildopa
Levodopa
+O<""""' Carbidopa
•
y
Biotransformação diminuída no
TGI e nos tecidos periféricos
Figura 8.10
Dopa
no SNC
3-0-metildopa '""""'"""•
•
-
-
A �
Entacapona .........,.. O � COMT O
Levodopa •
•
•
Levodopa � Dopa
administrado ": � noSNC
+ o�"""" Carbidopa
•
.
Biotransformação diminuída no
TGI e nos tecidos periféricos
Efeito do entacapona na concentração de dopa no sistema nervoso central (SNC). COMT = catecol-0-metiltransferase.
106 Clark, Finkel, Rey & Whalen
V
Sedação
V
Alucinações
Confusão
Náusea
Hipotensão
Figura 8.1 1
Alguns efeitos adversos dos agonistas
dopaminérgicos.
hepática fulminante está associada ao uso de tolcapona. Por isso,
esse fármaco só deve ser usado -junto com a monitoração da fun­
ção hepática apropriada - em pacientes nos quais outras possibili­
dades não deram certo. A entacapona não apresenta essatoxicida­
de e pode substituir a tolcapona.
D. Agonistas de receptor dopaminérgico
Esse grupo de compostos antiparkinson inclui a bromocri
ptina, um de­
rivado do ergot, e fármacos novos não ergot, ropiniro/, pramipexol e ro­
tigotina. Esses fármacos têm durações de ação mais longas do que o
levodopa e, assim, são eficazes em pacientes que exibem flutuações nas
suas respostas ao /evodopa. O tratamento inicial com os novos fármacos
estáassociado particularmente a menos risco de desenvolverdiscinesias
e flutuações motoras quando comparado com pacientes tratados desde
o início com /evodopa. Bromocri
ptina, pramipexol e ropinirolsão eficazes
em pacientes com doença de Parkinson avançada, complicada por flu­
tuações motoras e discinesias. Contudo, esses fármacos são ineficazes
em pacientes que não mostraram resposta terapêutica ao /evodopa. A
apomorfi
na é usada em estágios graves e avançados da doença como
um agonista dopaminérgico injetável para suplementar a medicação oral
comumente prescrita.
1 . Bromocriptina. A bromocriptina, derivada do alcaloide vasocons­
tritor ergotamina, é um agonista dopaminérgico. A dose é aumen­
tada gradualmente durante um período de 2 a 3 meses. Os efeitos
adversos graves limitam a utilidade dos agonistas da dopamina
(Figura 8.1 1). As ações da bromocriptina são similares às ações
do levodopa, exceto que alucinações, confusão, delírio, náusea e
hipotensão ortostática são mais comuns, ao passo que a discinesia
é menos proeminente. Em doença psiquiátrica, bromocriptina e le­
vodopa podem piorar as condições mentais. Essesfármacos podem
desenvolver graves problemas cardíacos, particularmente em pa­
cientes com uma históriade infarto do miocárdio. Em pacientes com
doençavascular periférica, ocorre agravamento dosvasoespasmos,
e em pacientes com úlcera péptica, ocorre piora da úlcera. Como a
bromocriptina é um derivado do ergot, ela tem potencial de causar
fibrose pulmonar e retroperitoneal.
2. Apomorfina, pramipexol, ropinirol e rotigotina. Esses são os
agonistas dopaminérgicos não ergot aprovados para o tratamento
da doença de Parkinson. Pramipexol e ropinirol são agonistas nos
receptores da dopamina. Apomorfina e rotigotina são novos ago­
nistas dopaminérgicos disponíveis para injeção e como sistemas
transdérmicos, respectivamente. A apomorfi
na é usada no trata­
mento agudo do fenômeno offde hipomobilidade. Esses fármacos
aliviam o déficit motor em pacientes que nunca foram tratados com
levodopa e em pacientes com doença de Parkinson avançada que
estão tomando Jevodopa. Os agonistas da dopamina podem retar­
dar a necessidade de usar o tratamento com levodopa no início
da doença de Parkinson e podem reduzir a dose de levodopa na
doença de Parkinson avançada. Ao contrário dos derivados da er­
gotamina, o pramipexole o ropinirolnão agravam os vasoespasmos
periféricos nem causam fibrose. Náusea, alucinações, insônia, ton­
turas, constipação e hipotensão ortostática estão entre os efeitos
adversos mais estressantes desses fármacos, mas as discinesias
são menos frequentes do que com levodopa (Figura 8.12). Deve­
-se enfatizar que o pramipexol depende da função renal para ser
eliminado. Por exemplo, a cimetidi
na, que inibe a secreção tubular
renal de bases orgânicas, aumenta a meia-vida do pramipexol em
40°
/
o. Os antibacterianos fluoroquinolonas (ver p. 409) e outros inibi­
dores das enzimas hepáticas CIP1A2 inibem a biotransformação do
ronipirole aumentam a ASC (área sob a curva concentração versus
tempo) em cerca de 80°
/
o. A rotigotina é um agonista da dopamina
usado no tratamento dos sinais e sintomas iniciais da doença de
Parkinson. Ela é administrada uma vez ao dia como um adesivo
transdérmico que assegura efeito por 24 h. A Figura 8.13 resume
algumas propriedades destes agonistas da dopamina.
E. Amantadina
Foi descoberto casualmente que o antivirótico amantadina, que é eficaz
no tratamento da gripe (ver p. 462), tem ação antiparkinson. A amanta­
dina tem vários efeitos em inúmeros neurotransmissores implicados no
parkinsonismo, incluindo maior liberação de dopamina, bloqueio de re­
ceptor colinérgico e inibição do receptor glutamato tipo N-metil-D-aspar­
tato (NMDA). Evidências atuais apoiam sua ação nos receptores NMDA
como a ação primária nas concentrações terapêuticas. (Nota: se a libe­
ração da dopamina alcança o máximo, a amantadina não tem efeito.) O
fármaco pode causar intranquilidade, agitação, confusão e alucinações e,
em doses elevadas, induzir psicose tóxica aguda. Hipotensão ortostática,
retenção urinária, edema periférico e xerostomia também podem ocor­
rer. A amantadina é menos eficaz do que o levodopa e desenvolve mais
facilmente tolerância a ela. Contudo, a amantadina tem menos efeitos
adversos. Elatem poucos efeitos nos tremores, mas é mais eficaz do que
os anticolinérgicos contra rigidez e bradicinesia.
F. Fármacos antimuscarínicos
Os fármacos antimuscarínicos são menos eficazes do que o /evodo­
pa e só têm papel auxiliar no tratamento da doença de Parkinson. As
ações de benztropina, triexifenidi/, prociclidina e biperideno são simila­
res, embora os pacientes possam responder de forma mais favorável a
um dos fármacos. Cada um desses fármacos pode induzir alterações de
comportamento e produzir xerostomia e problemas visuais, como todos
os antimuscarínicos. Eles interferem com o peristaltismo no TGI e são
contraindicados em pacientes com glaucoma, hiperplasia de próstata ou
estenose pilórica. O bloqueio da transmissão colinérgica provoca efeitos
similares ao aumento da transmissão dopaminérgica (de novo, devido ao
desequilíbrio na relação dopamina/acetilcolina) (ver Figura 8.5). Os efei­
tos adversos são similares aos causados pelas doses elevadas de atro­
pina - por exemplo, dilatação pupilar, confusão, alucinações, taquicardia
sinusal, retenção urinária, constipação e xerostomia.
Característica Pramlpexol 1 Roplnlrol
Biodisponibilidade >90% 55%
vd 7Ukg 7,5Ukg
Meia-vida 8horas1 6 horas
Metabolismo Desprezível Extensa
Eliminação Renal Rena12
Figura 8.13
75
:a
C5
õ
E
cn
18
u.
B
·-
'ã. 50
�
"
�
cn
i
·u
l!,25
CD
'ti
E
&
J!l
�
C5
Farmacologia Ilustrada 107
Os agonistas dopaminérgicos
retardam as complicações
motoras e geralmente são
iniciados antes do /evodopa
em pacientes quetêm doença
leve e menos idade no início,
pois pode retardar a necessi­
dade de começar o tratamento
com /evodopa.
Levodopa
Ropinirol
20°
/o
54°/o
Levodopa
Pramipexol
24,5°
/o
Q. o '------------
A 5 anos A 4 anos
Figura 8.12
Complicações motoras em pacientes
tratados com Jevodopa ou agonistas
dopaminérgicos.
1 Rotigotlna
45%
84Ukg
7horasª
Extensa
Rena12
Propriedades farmacocinéticas dos agonistas da dopamina:pramipexol, ropinirole rotigoti
na. Vd = volume de distribuição.
1 Alcança 12 horas em pacientes com mais de 65 anos;
2
Menos de 10°
/
o são excretados inalterados;
3
Administrado como
adesivo transdérmico uma vez ao dia.
108 Clark, Finkel, Rey & Whalen
y
=
=
�
Y= o
o
v==::-.i.
Figura 8.14
Bradicardia
Náusea
Diarreia
Anorexia
Mialgia
Efeitos adversos dos inibidores da ace­
tilcolinesterase.
VII. FÁRMACOS USADOS NA DOENÇA DE ALZHEIMER
As intervenções farmacológicas na doença de Alzheimer são apenas paliati­
vas e oferecem um benefício modesto e de curta duração. Nenhum dos fár­
macos disponíveis atualmente é capaz de alteraro processo neurodegenera­
tivo subjacente.A demênciatipo Alzheimer (em comparação com outrostipos
de demência que não serão referidas nesta discussão, como a demência
multi-infarto ou a demência corpo de Lewy) tem três aspectos distintos: 1) o
acúmulo de placas senis (acúmulo amiloide); 2) a formação de numerosos en­
trelaçados neurofibrilares e 3) a perdade neurônios corticais, particularmente
colinérgicos. Os tratamentos atuais visam a melhorara transmissão colinérgi­
ca no SNC ou evitar as ações excitotóxicas resultantes da superestimulação
dos receptores NMDA glutamato em certas áreas do cérebro.
A. Inibidores de acetilcolinesterase
Numerosos estudos relacionaram a perda progressiva de neurônios
colinérgicos e, presumidamente, da transmissão colinérgica no córtex
com a perda da memória, que é o sintoma característico da doença de
Alzheimer. Postula-se que a inibição da acetilcolinesterase (AChE) no
SNC melhora a transmissão colinérgica, pelo menos nos neurônios que
continuam funcionando. Atualmente, quatro inibidores reversíveis de
AChE estão aprovados para o tratamento da doença de Alzheimer leve
à moderada, compreendendo donezepila, galantamina, rivastigmina e ta­
cri
na. Exceto a galantamina, que é competitiva, todos são inibidores não
competitivos e parecem exibir alguma seletividade para a AChE no SNC
comparado à periferia. A galantamina também pode estar atuando como
um modulador alostérico do receptor nicotínico no SNC e, por isso, pode
aumentarsecundariamente a neurotransmissão colinérgica por outro me­
canismo. Na melhor hipótese, esses compostos oferecem uma redução
modesta na velocidade de perda da função cognitiva em pacientes com
Alzheimer. A rivastigmina é hidrolisada pela AChE ao metabólito carba­
milado e não tem interação com fármacos que alteram a atividade das
enzimas dependentes de P450. Os demaisfármacos são substratos para
a P450 e têm potencial para essa interação. Os efeitos adversos comuns
incluem náusea, êmese, diarreia, anorexia, tremores, bradicardia e cãi­
bras - todos previsíveis pela ação potencializadora da neurotransmissão
colinérgica (Figura 8.14). Diferente dos demais, a tacri
na é associada à
hepatotoxicidade.
B. Antagonistas do receptor NMDA
A estimulação de receptores de glutamato no SNC parece ser crítica
para a formação de certas memórias; contudo a superestimulação dos
receptores glutamato, particularmente do tipo NMDA, resulta em efeitos
excitotóxicos nos neurônios e parece ser um mecanismo dos processos
neurodegenerativos ou apoptóticos (morte celular programada). A liga­
ção do glutamato no receptor NMDA causa a abertura do canal iônico
associado e permite a entrada na célula de Na+ e particularmente de
Ca
2
+. Infelizmente, o excesso de Ca
2+ intracelular pode ativar inúmeros
processos que lesam o neurônio e levam à apoptose. Os antagonistas
do receptor NMDA-glutamato, com frequência, são neuroprotetores, evi­
tando a perda de neurônios após lesões isquêmicas e outras. A meman­
tina é um derivado adamantano dimetilado. Ela atua bloqueando fisica­
mente o canal iônico associado ao receptor NMDA, mas em dosagens
terapêuticas, somente uma fração desses receptores são efetivamente
bloqueados. Este bloqueio parcial permite à memantina limitar o influxo
de Ca
2
+ nos neurônios, de forma que não são alcançados níveis intra­
celulares tóxicos durante a superestimulação do receptor NMDA, bem
como a entrada de Ca
2
+ suficiente através dos canais não bloqueados,
para preservar os processos vitais que dependem do influxo de Ca
2
+ (ou
Na+). Isso contrasta com fármacos psicotóxicos, como a fenciclidina, que
ocupa e bloqueia praticamente todos estes canais. Em estudos de curta
duração, a memantina diminuiu a velocidade da perda de memória nas
demências de Alzheimer e nas associadas aos vasos, em pacientes com
perdas cognitivas moderadas a graves. Entretanto, não há evidências de
que a memantina impeça ou retarde a neurodegeneração em pacientes
com doença de Alzheimer ou que seja mais eficaz do que os inibido­
res de AChE. A memantina é bem tolerada, com poucos efeitos adver­
sos dose-dependentes. Os efeitos adversos esperados, como confusão,
agitação e intranquilidade, não se distinguem dos sintomas da doença
de Alzheimer. Devido ao mecanismo de ação diferente e aos possíveis
efeitos neuroprotetores, com frequência, a memantina é administrada em
associação com inibidor de AChE. Não há resultados de longa duração
disponíveis que mostrem efeitos significativos desta associação.
VIII. FÁRMACOS USADOS NA ESCLEROSE MÚLTIPLA
A esclerose múltipla (EM) é uma doença desmielinizante inflamatória autoimu­
ne do SNC. A evolução da EM é variável. Para alguns, a EM pode consistirem
um ou dois episódios neurológicos agudos. Em outros, é uma doença progres­
siva, reincidente e crônica que se estende por 1O a 20 anos. Historicamente,
medicamentos, como os corticosteroides (p. ex., dexametasona e prednisona),
foram usados para tratar os ataques agudos da doença. Outras medicações
que foram usadas incluem fármacos quimioterápicos, como ciclofosfamida e
azatioprina. Medicações novas aprovadas para o tratamento da EM incluem
o interferon �1a e o interferon �1b como moduladores do sistema imune dos
interferons e da resposta das célulasT auxiliares, que participam na resposta
inflamatória, que leva à desmielinização das bainhas dos axônios.
Mitoxantrona. Este fármaco, que é um análogo antraciclínico citotóxico que
pode matar células T, também pode ser usado. O principal alvo da mitoxan­
trona é modificar a resposta imune do organismo por meio da inibição dos
processos inflamatórios mediados por leucócitos que, eventualmente, levam
à lesão da bainha de mielina e à diminuição ou inadequação da comunica­
ção axonal entre células. Os efeitos adversos desta medicação podem incluir
depressão, reações locais à injeção ou infusão; aumento das enzimas hepáti­
cas; sintomas tipo gripe, como febre, mialgia e leucopenia.
Fingolimode é o primeiro fármaco oral que pode retardar a evolução da
incapacidade e diminuir a frequencia e gravidade dos sintomas na EM, ofe­
recendo aos pacientes uma alternativa aos tratamentos injetáveis disponí­
veis atualmente. O fingolimode altera a migração dos linfócitos resultando
em seu sequestro nos nódulos linfáticos. O fingolimode é eficaz na redução
da frequência das recaídas em pacientes com EM. Contudo este benefício
está associado com o aumento do risco de infecções que ameaçam a so­
brevivência.
Da/fampridina é um bloqueador de canais de potássio administrado por via
oral que melhora a capacidade de caminhar, em comparação com um pia­
cebo. É o primeiro fármaco aprovado para este uso. Os fármacos contra EM
atualmente aprovados são indicados para diminuira velocidade das recaídas
ou em alguns casos para prevenir o acúmulo de limitações.
Outros. Glatirameré um polipeptídeo sintético que se parece com a proteína
mielina e pode atuar como um "decoy" ao ataque das células T. O anticorpo
monoclonal natalizumabe também é indicado contra a EM em pacientes nos
quais os tratamentos de primeira escolha falharam.
Farmacologia Ilustrada 109
1 1O Clark, Finkel, Rey & Whalen
IX. FÁRMACOS USADOS NA ESCLEROSE LATERAL
,
AMIOTROFICA
Ainda que não indicado no tratamento da doença de Alzheimer, outro an­
tagonista de receptor de NMDA é indicado no manejo da esclerose lateral
amiotrófica (ELA). O riluzolbloqueia o glutamato, canais de sódio e de cálcio.
Ele pode aumentar o tempo de sobrevida e retardar a necessidade de apoio
ventilatório em portadores de ELA.
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
8.1 Qual das seguintes associações de fármacos antiparkin­
son é um tratamento adequado?
A. Amantadina, carbidopa e entacapona
B. Levodopa, carbidopa e entacapona
C. Pramipexol, carbidopa e entacapona
D. Ropinirol, selegilina e entacapona
E. Ropinirol, carbidopa e selegilina
8.2 Os efeitos adversos periféricos do levodopa, incluindo
náuseas, hipotensão e arritmias cardíacas, podem ser di­
minuídos incluindo qual dos seguintes fármacos no trata­
mento?
A. Amantadina
B. Bromocriptina
C. Carbidopa
D. Entacapona
E. Ropinirol
8.3 Qual dos seguintes fármacos antiparkinson pode causar
vasoespasmos periféricos?
A. Amantadina
B. Bromocriptina
C. Carbidopa
D. Entacapona
E. Ropinirol
8.4 Melhora modesta na memória dos pacientes com doença
de Alzheimer pode ocorrer com fármacos que aumentam a
transmissão em qual dos seguintes receptores?
A. Adrenérgico
B. Colinérgico
C. Dopaminérgico
D. GABAérgico
E. Serotonérgico
Resposta correta = B. Para reduzir a dose de levodopa e seus efeitos
adversos periféricos, coadministra-se carbidopa, um inibidor de des­
carboxilase periférico.Como resultado da associação, mais levodopa
fica disponível para a metabolização pela COMT, formando 3-metil­
dopa, que compete com o dopa pelo transporte ativo no SNC. Com
a administração da entacapona (um inibidor da COMT), o produto
competidor não se forma, e mais dopa entra no cérebro. As outras
escolhas não são apropriadas, pois nem a descarboxilase periférica,
nem a COMT ou a MAO metabolizam a amantadina ou os agonistas
da dopamina de ação direta, ropinirol e pramipexol.
Resposta correta = C. O carbidopa inibe a descarboxilação periféri­
ca do levodopa a dopamina, diminuindo assim os efeitos adversos
gastrintestinais ecardiovasculares do levodopa. Os demaisfármacos
relacionados nãodiminuem os efeitos adversos do levodopa.
Resposta correta = B. A bromocriptina é um agonista do receptorda
dopamina que pode causar vasoespasmo; ela é contraindicada em
pacientescom doençavascular periférica. O ropinirol estimula direta­
mente os receptores da dopamina, mas nãocausavasoespasmo. Os
outros fármacos não atuam diretamente em receptores dadopamina.
Resposta correta = B. Os inibidores da acetilcolinesterase, como a
rivastigmina, aumentam a transmissão colinérgica no SNC e podem
causar um pequeno atraso na progressão da doença de Alzheimer.
O aumento da transmissão em todos os demais tipos de receptores
listados não resulta em melhora da memória.
,
ar acos
1. RESUMO
A ansiedade é um estado desagradável de tensão, apreensão e inquietação -
um medo de origem àsvezes desconhecida.Ostranstornos mentais envolvendo
ansiedade são os mais comuns. Os sintomas físicos da ansiedade grave são
similares aos do medo (como taquicardia, sudoração, tremores e palpitações)
e envolvem a ativação simpática. Episódios de ansiedade leve são experiências
comuns na vida e nãojustificam tratamento. Contudo, os sintomas da ansiedade
intensa, crônica e debilitante podem ser tratados com fármacos ansiolíticos (ou
tranquilizantes menores) e/ou com algumaformadetratamentocomportamental
ou psíquica. Como muitos dos fármacos ansiolíticos causam alguma sedação,
eles, com frequência, funcionam clinicamente tanto como ansiolíticos quanto
hipnóticos (indutoresdosono).Além disso, algunstêm atividadeanticonvulsivan­
te. A Figura 9.1 resume os fármacos ansiolíticos e hipnóticos. Embora também
sejam indicados contra certos quadros de ansiedade, os inibidores seletivos de
captação de serotonina (ISCS) serão apresentados no Capítulo 12.
li. BENZODIAZEPÍNICOS
Os benzodiazepínicos são os fármacos ansiolíticos mais usados. Eles subs­
tituíram os barbitúricos e o meprobamato no tratamento da ansiedade por
serem fármacos mais seguros e eficazes (Figura 9.2).
A. Mecanismo de ação
Os alvos para as ações dos benzodiazepínicos são os receptores do GA­
BAA. (Nota: o GABA é o principal neurotransmissor inibitório no SNC.) Es­
ses receptores são compostos basicamente de famílias de subunidades
a, J3 e "'' das quais umacombinação de cinco ou mais se estende através
da membrana pós-sináptica (Figura 9.3). Dependendo do tipo e do núme­
ro de subunidades e da localização cerebral, a ativação dos receptores
resulta em diferentes efeitos farmacológicos. Os benzodiazepínicos mo­
dulam os efeitos GABA ligando-se a um local específico de alta afinidade,
BENZODIAZEPÍNICOS
Alprazolam
Clordiazepóxido
Clonazepam
Clorazepate
Diazepam
Estazolam
Flurazepam
Lorazepam
Midazolan
Oxazepam
Quasepam
Temazepam
Triazolam
ANTAGONISTA BENZODIAZEPÍNICO
Flumazenil
OUTROS FÁRMACOS ANSIOLÍTICOS
Antidepressivos
Buspirona
BARBITÚRICOS
Amobarbital
Pentobarbital
Fenobarbital
Secobarbital
Tiopental
OUTROS FÁRMACOS HIPNÓTICOS
Anti-histamínicos
Cloral, hidrato de
Eszopiclona
Etanol (álcool, álcool de grãos)
Ramelteona
Zaleplona
Zolpidem
Figura 9.1
Resumodosfármacos ansiolíticos e hip­
nóticos. (Continua na próxima página.)
112 Clark, Finkel, Rey & Whalen
TRATAMENTO DA DEPENDêNCIA DO ÁLCOOL
Acsmprosato
Oissuff
iram
Na/trexona
Figura 9.1 (Continuação)
Resumo dos fármacos ansiolíticos e hip­
nóticos.
As benzodiazepinas são relativa­
mente seguras, pois a dose letal é
mais de 1.000vezes maior do que
a dose terapêutica típica.
Morfi
na
Clorpromazi
na
Fenobarbital
Oiazepam
Figura 9.2
-
�
�
�
�
�
�
...... ,...,__,
o 20 40 1.000
Relação = dose letal
dose eficaz
Relação entre a dose letal e a dose
eficaz para morfina (um opioide, ver
Capítulo 14), c/orpromazina (um neuro­
léptico, ver Capítulo 13) e os fármacos
ansiolíticos e hipnóticos, fenobarbital e
diazepam.
na interface da subunidade a. e da subunidade 'Y2 (ver Figura 9.3). (Nota:
os locais de ligação, algumas vezes, são denominados receptores ben­
zodiazepínicos. Dois subtipos de receptores benzodiazepínicos comu­
mente encontrados no SNC são designados como receptores BZ1 e BZ2,
dependendo se na sua estrutura se encontram subunidades a.1 ou a.2,
respectivamente.) A localização dos receptores BZ no SNC é comparável
à dos neurônios GABA. A ligação do GABA ao seu receptor abre o canal
de c1-, o que aumenta a condutância do íon (ver Figura 9.3). Os benzo­
diazepínicos aumentam a frequência da abertura dos canais produzida
pelo GABA. O influxo de c1- causa uma leve hiperpolarização que afasta
o potencial pós-sináptico do valor limiar e, assim, inibe a formação de
potenciais de ação. (Nota: a ligação do benzodiazepínico ao seu receptor
aumentará a afinidade do GABA por seus locais de ligação [e vice-versa]
sem realmente alterar o número total de locais.) Os efeitos clínicos dos
vários benzodiazepínicos se correlacionam bem com cada afinidade de
ligação do fármaco pelo complexo receptor GABA-canal de íon cloreto.
B. Ações
Os benzodiazepínicos não têm atividade antipsicótica nem ação analgé­
sica e não afetam o SNA. Todos os benzodiazepínicos apresentam ações
em maior ou menor intensidade citadas a seguir.
1. Redução da ansiedade. Em doses baixas, os benzodiazepínicos
são ansiolíticos. O efeito é atribuído à potenciação seletiva datrans­
missão GABAérgica em neurônios que têm a subunidade a.2 no re­
ceptor GABAA, inibindo, assim, os circuitos neuronais no sistema
límbico cerebral.
2. Ações hipnóticas e sedativas. Todos os benzodiazepínicos usa­
dos para tratar ansiedade têm alguma propriedade sedativa, e al­
guns podem produzir hipnose (sono produzido "artificialmente") em
doses mais elevadas. Seus efeitos são mediados pelos receptores
a.1-GABAA.
3. Amnésia anterógrada. O bloqueio temporário da memória com o
uso dos benzodiazepínicos também é mediado pelos receptores a.1_
-GABAA e diminui a capacidade do paciente de aprender e de for­
mar novas memórias.
4. Anticonvulsivantes. Vários dos benzodiazepínicos têm atividade
anticonvulsivante e alguns são usados para tratar epilepsia (estado
epiléptico), e outros, distúrbios convulsivos. Esse efeito é parcial­
mente mediado pelos receptores a.1-GABAA.
5. Relaxamento muscular. Em doses elevadas, os benzodiazepínicos
diminuem a espasticidade do músculo esquelético, provavelmente
aumentando a inibição pré-sináptica na medula espinal, onde predo­
minam os receptores a.2-GABAA. O baclofeno é um relaxante muscu­
lar que parece atuar nos receptores GABA8 na medula espinal.
C. Usos terapêuticos
Os benzodiazepínicos individuais mostram pequenas diferenças em suas
propriedades ansiolíticas, anticonvulsivantes e sedativas. Contudo, a du­
ração de açãovaria bastante no grupo, e considerações farmacocinéticas
são importantes na escolha de uma delas.
1. Ansiedade. Os benzodiazepínicos são eficazes no tratamento dos
sintomas da ansiedade secundária ao transtorno de pânico, do
transtorno de ansiedade generalizada (TAG), do transtorno de an-
rJ Receptor vazio
(sem agonistas)
l]J Receptor ligado
com GABA
GABA
+
+
_ _ ...-.
............_
,
)
r
+
+
Farmacologia Ilustrada 1 1 3
O receptor vazio é inativo,
e o canal de cloreto acoplado
está fechado.
A ligação do GABA causa
abertura do canal de cloreto,
levando à hiperpolarização
da célula.
B Receptor
ligado com GABA
e benzodiazepínico
GABA
Benzodiazepínico
A entrada de c1- hiperpolariza a célula, tornando
mais difícil sua despolarização e, por isso, reduz
a excitabilidade neuronal.
Figura 9.3
+ + + + + +
l�
-"-..A..A.A-/
- -
Diagrama esquemático do complexo canal íon cloreto-GABA-benzodiazepínico.
siedade social e por performance, do transtorno de estresse pós­
-traumático, dotranstorno obsessivo-compulsivo e da ansiedade ex­
trema encontrada, às vezes, com fobias específicas, como o medo
de voar. Os benzodiazepínicos também são úteis no tratamento da
ansiedade que acompanha algumas formas de depressão e es­
quizofrenia. Esses fármacos não devem ser usados para aliviar o
estresse normal da vida diária. Eles devem ser reservados para a
ansiedade grave e contínua e, então, usados somente em períodos
curtos devido ao seu potencial de vício. Os benzodiazepínicos de
ação mais longa, como clonazepam, /orazepam e diazepam, são
preferidos nos pacientes com ansiedade que exigem tratamento por
tempo prolongado. Os efeitos ansiolíticos dos benzodiazepínicos
são menos sujeitos à tolerância do que os efeitos sedativo e hipnó­
tico. (Nota:tolerância- isto é, diminuição da respostacom doses re­
petidas - ocorre quando o uso se estende por mais do que uma ou
duas semanas. Hátolerânciacruzada entre esse grupo defármacos
e o etanol. Foi demonstrado que a tolerância está associada a uma
diminuição na densidade de receptores GABA.) Para o transtorno
de pânico, o alprazolam é eficaz para tratamentos curtos ou longos,
embora possa causar reações de abstinência em cerca de 30°
/
o dos
pacientes.
2. Distúrbios musculares. O diazepam é útil no tratamento de espas­
mos dos músculos esqueléticos, como os que ocorrem no estira­
mento, e no tratamento daespasticidade devidaa doenças degene­
rativas, como esclerose múltipla e paralisia cerebral.
A ligação do GABA é
potenciada pelo
benzodiazepínico, resultando
em maior entrada de
íons cloreto.
1 1 4 Clark, Finkel, Rey & Whalen
DURAÇÃO DE AÇÃO
DOS BENZODIAZEPÍNICOS
Figura 9.4
Açãolonga
dias
l-�
Clorazepato
C/ordiazepóxido
Diazepam
Flurazepam
Quazepam
Açãointermediária
10-20horas
Alprazolam
Estazo/am
Lorazepam
Temazepam
Açãocurta
3-8 horas
Oxazepam
Tr
iazolam
Comparação das durações de ação
dos benzodiazepínicos.
3. Amnésia. Em geral, os fármacos de ação curta são empregados
como pré-medicação para procedimentos desconfortáveis e provo­
cadores de ansiedade, como endoscopias, broncoscopias e certos
procedimentos odontológicos, bem como angioplastia. Eles pro­
vocam uma forma de sedação consciente, permitindo ao paciente
atender certas instruções durante esses procedimentos. O mida­
zolam é um benzodiazepínico empregado também na indução da
anestesia.
4. Convulsões. O clonazepam é usado ocasionalmente notratamento
de certos tipos de epilepsia, e o diazepam e o lorazepam são os
fármacos de escolha no controle do estado epiléptico e nas con­
vulsões epilépticas tipo grande mal (ver p. 184). Devido à tolerância
cruzada, clordi
azepóxido, clorazepato, diazepam e oxazepam são
úteis no tratamento agudo da abstinência ao álcool, reduzindo o
risco de convulsões associadas à abstinência.
5. Distúrbios do sono. Embora todos os benzodiazepínicos tenham
efeitos calmantes e sedativos, nem todos são úteis como hipnóticos.
Eles tendem a diminuir a latência para dormir e a aumentar o está­
gio dois do sono não REM (sem movimentos rápidos dos olhos). O
sono REM e o sono de ondas lentas são diminuídos. No tratamento
da insônia, é importante o equilíbrio entre o efeito sedativo neces­
sário na hora de dormir e a sedação residual ("ressaca") após o
despertar. Os benzodiazepínicos prescritos comumente contra os
distúrbios do sono incluem os de longa ação, flurazepam, os de
ação intermediária, temazepam, e os de curta ação, tri
azolam.
a. Flurazepam. Esse benzodiazepínico de longa ação reduz sig­
nificativamente o tempo de indução ao sono, o número de des­
pertares e aumenta a duração do sono. O flurazepam tem efeito
de longa ação (Figura 9.4) e causa pouca insônia de rebote. No
uso contínuo, esse fármaco mantém sua eficácia poraté quatro
semanas. Ele e seu metabólito ativo têm meia-vida de cerca de
85 horas, o que pode resultar em sedação durante o dia e acú­
mulo do fármaco.
b. Temazepam. Esse fármaco é útil em pacientes que acordam
frequentemente. Contudo, como o efeito sedativo máximo ocor­
re 1 a 3 horas após a dose oral, o fármaco deve ser administra­
do 1 a 2 horas antes da hora prevista para deitar.
e. Triazolam. Esse benzodiazepínico tem duração de ação re­
lativamente curta e, por isso, é usado para induzir o sono em
pacientes com insônia recorrente. O temazepam é útil contra a
insônia causada pela incapacidade de permanecer dormindo,
ao passo que o tri
azolam é eficaz no tratamento de indivíduos
que têm dificuldade em começar a dormir. Em poucos dias, de­
senvolve-se tolerância, e a suspensão do fármaco, em geral, re­
sulta em insônia de rebote, levando o paciente a procurar nova
prescrição ou usar dosagem maior. Portanto, esse fármaco é
melhor se usado de modo intermitente, em vez de diariamente.
Em geral, os hipnóticos só devem ser usados por tempo limita­
do, geralmente menos de 2 a 4 semanas.
D. Farmacocinética
1 . Absorção e distribuição. Os benzodiazepínicos são lipofílicos e
são rápida e completamente absorvidos após administração oral,
distribuindo-se portodo o organismo.
2. Duração de ação. A meia-vida dos benzodiazepínicos é muito im­
portante clinicamente, pois a duração da ação pode determinar a
utilidade terapêutica. Os benzodiazepínicos podem ser divididos
em grupos de curta, média e longa ação (ver Figura 9.4). Os ben­
zodiazepínicos de ação mais longa formam metabólitos ativos com
meias-vidas longas. Contudo, com alguns benzodiazepínicos, a
duração clínica da ação nem sempre se correlaciona com a meia­
-vida real (senão a dose de diazepam só poderia ser administrada
em dias alternados ou em intervalos ainda maiores, devido a seus
metabólitos ativos). Isso pode ser devido à velocidade de dissocia­
ção do receptor no SNC e subsequente redistribuição para outros
locais.
3. Destino. A maioria dos benzodiazepínicos, incluindo o clordiaze­
póxido e o diazepam, é biotransformada pelo sistema microssomal
hepático para compostos que também são ativos. Para esses ben­
zodiazepínicos, a meia-vida aparente representa a soma das ações
do fármaco principal e seus metabólitos. Os efeitos terminam não
só pela excreção, mas também por redistribuição. Os benzodiaze­
pínicos são excretados na urina como glicuronídeos ou metabóli­
tos oxidados. Todos os benzodiazepínicos atravessam a barreira
placentária e podem deprimir o SNC do neonato se administrados
antes do nascimento. Os lactantes também são expostos aos ben­
zodiazepínicos pelo leite materno.
E. Dependência
Pode-se desenvolverdependênciafísica e psicológica aos benzodiazepí­
nicos se doses elevadas são administradas por longos períodos. A inter­
rupção abrupta resulta em sintomas de abstinência, incluindo confusão,
ansiedade, agitação, intranquilidade, insônia, tensão e raramente convul­
sões. Como a meia-vida de alguns benzodiazepínicos é longa, os sinto­
mas de retirada podem ocorrer lentamente e durar por alguns dias após
a interrupção do uso. Os benzodiazepínicos com meia-vida de eliminação
curta, como o tri
azolam, induzem reações de abstinência mais abruptas
e graves do que as observadas com as de eliminação mais lenta, como o
flurazepam (Figura 9.5).
F. Efeitos adversos
1 . Sonolência e confusão. Esses são os dois efeitos adversos mais
comuns dos benzodiazepínicos. Ocorre ataxia em doses elevadas,
impedindo as atividades que exigem coordenação motora fina,
como dirigir. Pode ocorrer comprometimento cognitivo (diminuição
da evocação de memória e da retenção de novos conhecimentos)
com o uso dos benzodiazepínicos. O tri
azolam, um dos benzodia­
zepínicos mais potentes, de uso oral, tem a eliminação mais rápida
e com frequência apresenta rápido desenvolvimento de tolerância,
insôniada madrugada e ansiedade durante o dia, bem como amné­
sia e confusão.
2. Precauções. Os benzodiazepínicos devem ser usados com cautela
em pacientes com doença hepática, devendo ser evitados em pa­
cientes com glaucoma de ângulo estreito. Álcool e outros depresso­
res do SNC potencializam seus efeitos hipnótico-sedativos. Os ben­
zodiazepínicos são, contudo, consideravelmente menos perigosos
do que ansiolíticos e hipnóticos mais antigos. Como resultado, as
doses excessivas raramente são letais, a menos que outros depres­
sores do SNC, como álcool, sejam ingeridos simultaneamente.
Farmacologia Ilustrada 1 1 5
Os fármacos que são mais po­
tentes e rapidamente eliminados
(p. ex., tr
iazo/am) causam pro­
blemas de abstinência
mais frequentes e graves.
Tr
iazolam
Alprazolam
Temazepam
Diazepam
Flurazepam
o 20 40 60 80
Aumento no tempo
total de despertar a partir
do tempo basal (%)
Os fármacos menos potentes
e mais lentamente eliminados
(p. ex., f/urazepam) continuam
a estimular o sono mesmo
após a interrupção.
Figura 9.5
Frequência da insônia de rebote resul­
tante da interrupção dotratamento com
benzodiazepínicos.
1 1 6 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Inicia o tratamento com um benzodiazepínico como o lorazepam
1
o
Figura 9.6
Tratamento concomitante
com antidepressivo como
o escitalopram
14 Dias
28
10
Retirada gradual
do benzodiazepínico
42 56
Orientação de tratamento da ansiedade persistente.
Náuseas
Tonturas
Cefaleia
Diminuição da
concentração
Sonolência
17
Observe que a
buspirona mostra
menor interferência
com as funções mo­
toras, uma vantagem
que é particularmente
importante em pacien­
tes mais idosos.
11111
30
Fadiga -
-
-
-.
127
Buspirona � Alprazo/am
Figura 9.7
Comparação dos efeitos adversos co­
muns da buspironae do alprazolam. Os
resultados são expressos como por­
centagem dos pacientes que mostram
cada sintoma.
Ili. ANTAGONISTAS DE RECEPTOR BENZODIAZEPÍNICO
O flumazenil é um antagonista de receptor GABA que pode rapidamente
reverter os efeitos dos benzodiazepínicos. O fármaco está disponível ape­
nas para administração IV. O início de ação é rápido, mas a duração é curta,
com meia-vida de cerca de uma hora. Administrações frequentes podem ser
necessárias para manter a reversão dos benzodiazepínicos de longa ação.
A administração de flumazenil pode precipitar abstinência em pacientes de­
pendentes, ou causar convulsões se um benzodiazepínico está sendo usado
para controlar atividade convulsiva. As convulsões também podem aparecer
se o paciente ingere antidepressivos tricíclicos (ADT). Os efeitos adversos
mais comuns são tonturas, náusea, êmese e agitação.
IV. OUTROS FÁRMACOS ANSIOLÍTICOS
A. Antidepressivos
Vários antidepressivoscomprovam eficácia no manejode longa duraçãodos
sintomas de ansiedade crônica e devem ser considerados como fármacos
de primeira escolha, especialmente em pacientes com inclinação ao vício
ou dependência, ou históriade vício ou dependência de outras substâncias.
Os inibidores seletivos da captação de serotonina (ISCSs, como o escitalo­
pram) ou os inibidores seletivos da captação de serotonina e norepinefrina
(ISCSNs, como a venlafaxina) podem ser usados sós ou em associação
com uma dosagem baixa de benzodiazepínico durante as primeiras sema­
nas detratamento (Figura9.6).Após 4a 6 semanas, quandoo antidepressi­
vo começa seu efeito ansiolítico, a dosagem de benzodiazepínico pode ser
reduzida gradualmente. Os ISCS ou ISCSN têm menor potencial de gerar
dependência física do que os benzodiazepínicos, tornando-se o tratamento
de escolha contra oTAG. Ainda que só certos ISCS ou ISCSN tenham sido
aprovados pelo FDA para o tratamento doTAG, a eficácia destes fármacos
contra oTAG é um efeito de classe, provavelmente. Assim, a escolha entre
estes antidepressivos pode ser com base nos efeitos adversos e no custo.
Em geral, é necessário o tratamento por longo período dos antidepressi­
vos e benzodiazepínicos contra os transtornos de ansiedade para manter a
vantagem alcançada e evitaras recaídas.Ver Capítulo 12 para a discussão
sobre os fármacos antidepressivos.
B. Buspirona
A buspirona é útil no tratamento crônico do TAG e tem eficácia compa­
rável à dos benzodiazepínicos. Este fármaco não é eficaz no tratamento
de curta duração ou "conforme necessário" dos estados de ansiedade
agudos. As ações da buspirona parecem mediadas pelos receptores de
serotonina (5-HT,A), embora outros receptores possam estar envolvidos,
pois a buspirona mostra alguma afinidade pelos receptores DA2 da dopa­
mina e 5-HT2A da serotonina. Assim, seu mecanismo de ação difere do
mecanismo de ação dos benzodiazepínicos.Além disso, a buspirona não
tem as ações anticonvulsivantes e músculo-relaxantes dos benzodiaze­
pínicos e causa apenas sedação mínima. Contudo, ela causa hipotermia
e aumentos nos hormônios do crescimento e prolactina.A frequência dos
efeitos adversos é baixa, sendo os mais comuns cefaleia, tontura, nervo­
sismo e confusão mental. Sedação e disfunções cognitivas e psicomo­
toras são mínimas, e a dependência é improvável. Ela não potencializa
a depressão do SNC pelo álcool. A buspirona tem como desvantagem o
início de ação lento. A Figura 9.7 compara alguns dos efeitos adversos
comuns da buspirona com os do benzodiazepínico alprazolam.
V. BARBITÚRICOS
Os barbitúricos foram, no passado, a base do tratamento usado para sedar
o paciente ou para induzir e manter o sono. Hoje, os barbitúricos foram lar­
gamente substituídos pelos benzodiazepínicos, principalmente porque eles
induzem tolerância, enzimas biotransformadoras, dependência física e estão
associados a sintomas de abstinência muito graves. Além de tudo, destaca­
-se sua capacidade de causar coma em doses tóxicas. Certos barbitúricos,
como os de ação muito curta (p. ex., tiopenta�, continuam em uso para induzir
anestesia (ver p. 145).
A. Mecanismo de ação
A ação hipnótico-sedativa dos barbitúricos se deve à sua interação com
os receptores GABAA, potencializandoa transmissão GABAérgica.O local
de ligação é diferente daquele dos benzodiazepínicos. Os barbitúricos po­
tenciam a ação do GABA na entrada de cloreto no neurônio, prolongando
o tempo de abertura do canal de cloreto. Além disso, os barbitúricos po­
dem bloquear os receptores excitatórias glutamato. Concentrações anes­
tésicas de pentobarbitaltambém bloqueiam os canais de sódio de altafre­
quência.Todas essas ações moleculares diminuem a atividade neuronal.
B. Ações
Os barbitúricos são classificados de acordo com sua duração da ação
(Figura 9.8). Por exemplo, o tiopental, que atua em segundos e tem dura­
ção de ação de cercade 30 minutos, é usado na indução IV daanestesia.
Em contraste, o fenobarbital, que tem uma duração de ação maior que
um dia, é útil no tratamento de convulsões (ver p. 187). Pentobarbital,
secobarbitale amobarbitalsão barbitúricos de ação curta, eficazes como
sedativos e hipnóticos, mas não como ansiolíticos.
1. Depressão do SNC. Em doses baixas, os barbitúricos produzem
sedação (têm um efeito calmante e reduzem a excitação). Em doses
crescentes, eles causam hipnose, seguida de anestesia (perda das
sensações) e finalmente coma e morte. Assim, qualquer grau de de­
pressãodo SNC é possível, dependendoda dose. Os barbitúricos não
aumentam o limiar da dor e não têm propriedades analgésicas. Eles
podem inclusive exacerbara dor. O seu uso crônico leva à tolerância.
2. Depressão respiratória. Os barbitúricos suprimem as respostas à
hipoxia e dos quimiorreceptores ao C02• A dosagem excessiva é
seguida de depressão respiratória e morte.
Farmacologia Ilustrada 117
DURAÇÃO DE AÇÃO
DOS BARBITÚRICOS
Figura 9.8
Açãolonga
Fenobarbital
Açãocurta
3-8 horas
Pentobarbital
Secobarbital
Amobarbital
Açãoultracurta
20 minutos
Tiopental
Barbitúricos classificados de acordo
com sua duração de ação.
1 1 8 Clark, Finkel, Rey & Whalen
v
=
Figura 9.9
o
o
Sonolência
Náusea
Vertigem
Indução
enzimática
Efeitos adversos dos barbitúricos.
3. Indução enzimática. Os barbitúricos induzem as enzimas micros­
somais citocromo P450 (CIP450) hepáticas. Assim, a sua adminis­
tração crônica diminui a ação de vários fármacos que são biotrans­
formados pelo CIP450.
C. Usos terapêuticos
1 . Anestesia. A seleção de um barbitúrico é muito influenciada pela
duração de ação desejada. Os barbitúricos de ação ultracurta, como
o tiopental, são administrados porvia IV para induzir anestesia.
2. Anticonvulsivante. O fenobarbitalé usado no tratamento de longa
duração das convulsões tônico-clônicas, do estado epiléptico e da
eclâmpsia. Ele é considerado o fármaco de escolha para o trata­
mento de crianças jovens com convulsões febris recorrentes. Contu­
do, o fenobarbitalcompromete o desempenho cognitivo de crianças
e deve ser usado com cautela. O fenobarbitaltem atividade anticon­
vulsiva específica que se diferencia da depressão inespecífica do
SNC.
3. Ansiedade. Os barbitúricos têm sido usados como sedativos leves
para aliviar ansiedade, tensão nervosa e insônia. Quando usados
como hipnóticos, eles suprimem o sono REM mais do que outros
estágios. Contudo, a maioria foi substituída pelos benzodiazepínicos.
D. Farmacocinética
Os barbitúricos sãoabsorvidos porviaoral e distribuídos amplamente pelo
organismo. Todos os barbitúricos se redistribuem no organismo, do SNC
para as áreas esplâncnicas, para o músculo esquelético e, finalmente, para
o tecido adiposo. Esse movimento é importante na curta duração de ação
do tiopentale derivados de ação curta similar. Os barbitúricos atravessam
facilmente a placenta e podem deprimir o feto. Eles são biotransformados
no fígado, e os metabólitos inativos são excretados na urina.
E. Efeitos adversos
1 . SNC. Os barbitúricos causam sonolência, dificuldade de concentra­
ção e preguiça mental e física (Figura 9.9). Os efeitos depressores
do SNC são potencializados com os do etanol.
2. Ressaca farmacológica. Doses hipnóticas de barbitúricos produ­
zem a sensação de cansaço prolongada até bem depois de o pa­
ciente acordar. Essa ressaca pode reduzira capacidade do paciente
de atuar normalmente durante várias horas depois do despertar. Ás
vezes, ocorrem náuseas e tonturas.
3. Precauções. Como foi registrado, os barbitúricos induzem o siste­
ma CIP450 e, por isso, podem diminuira duração de ação de fárma­
cos que são biotransformados por essas enzimas. Os barbitúricos
aumentam a síntese de porfirinas e são contraindicados em pacien­
tes com partiria intermitente aguda.
4. Dependência física. A retirada abrupta dos barbitúricos pode
causar tremores, ansiedade, fraqueza, intranquilidade, náuseas e
êmese, convulsões, delírio e parada cardíaca. A abstinência é muito
mais grave do que a associada a opioide e pode resultar em morte.
5. Intoxicação. A intoxicação por barbitúricosfoi a causa-líderde mor­
te que ocorre devido à dosagem excessiva (overdose) de fármacos
durante várias décadas. Intensa depressão respiratória associada à
depressão cardiovascular central resulta em uma condição similar
ao choque, com respiração superficial e infrequente. O tratamento
consiste em assistência respiratória e lavagem gástrica se o fárma­
co foi recém-ingerido. (Nota: não existe antagonista específico para
os barbitúricos.) A alcalinização da urina auxilia na eliminação do
f
enobarbital.
VI. OUTROS FÁRMACOS HIPNÓTICOS
A. Zolpidem
O hipnótico zolpidem não tem estrutura benzodiazepínica, mas atua em
um subsetor da família de receptores benzodiazepínicos, BZ1• O zolpi­
dem não tem propriedades anticonvulsivantes ou músculo-relaxantes. Ele
apresenta poucos efeitos de abstinência, provoca insônia de rebote míni­
ma, e pouca ou nenhuma tolerância ocorre com oseu uso prolongado. Ele
é rapidamente absorvido do TGI, tem rápido início de ação, meia-vida de
eliminação curta (cerca de 2 a 3 horas) e efeito hipnótico decerca de 5 ho­
ras (Figura 9.1O). (Nota: atualmente existe disponível uma formulação de
liberação lenta.) O zolpidem sofre oxidação hepática a produtos inativos,
pelo sistema CIP450. Assim, fármacos como a rif
ampicina, que induzem
esse sistema enzimático, encurtam a meia-vida do zolpidem, e os fárma­
cos que inibem a isoenzima CIP3A4 podem aumentara sua meia-vida. Os
efeitos adversos incluem pesadelos, agitação, cefaleia, distúrbios gastrin­
testinais, tonturas e sonolência diurna. Diferente dos benzodiazepínicos,
nas dosagens usuais, os fármacos não benzodiazepínicos, zolpidem, za­
Jeplona e eszopiclona, não alteram significativamente os vários estágios
do sono e, assim, em geral são hipnóticos preferidos. Isto pode ser devido
à sua relativa seletividade pelo receptor BZ1•
B. Zaleplona
A zaleplona é muito similar ao zolpidem na sua ação hipnótica, mas
causa menos efeitos residuais em funções cognitivas e psicomotoras se
comparada com o zolpidem ou com os benzodiazepínicos. Isso pode ser
devido à sua rápida eliminação, com uma meia-vida de cerca de uma
hora. A zaleplona é biotransformada pelo CIP3A4 (ver p. 14).
C. Eszopiclona
A eszopiclona é um hipnótico não benzodiazepínico oral (também utiliza
o receptor BZ1 de modo similar ao zolpidem e à zaleplona) e também é
usado contra insônia. A eszopiclona é eficaz por até seis meses na com­
paração ao placebo. Ela é rapidamente absorvida (tempo para o pico, 1
hora), extensamente biotransformada por oxidação e desmetilação pelo
sistema CIP450 e excretada principalmente na urina. A sua meia-vida de
eliminação é de cerca de seis horas. Os efeitos adversos da eszopiclona
incluem ansiedade, xerostomia, cefaleia, edema periférico, sonolência e
gosto desagradável.
D. Ramelteona
A ramelteona é um agonista seletivo dos subtipos de receptores de mela­
tonina MT1 e MT2• Normalmente a luz que estimula a retina transmite um
sinal ao núcleo supraquiasmático (NSQ) do hipotálamo, o que ativa um
sinal por meio de via nervosa para a glândula pineal, que inibe a libera­
ção de melatonina. Quando surge a escuridão e a luz deixa de atingir a
retina, a liberação de melatonina pela pineal não é mais inibida, e a glân­
dula passa a secretar melatonina. A estimulação dos receptores MT1 e
Farmacologia Ilustrada 1 1 9
Zolpidem
Zaleplona 30 minutos
Eszopic/ona
20 minutos
Ramenteona
O Início Duração
Figura 9.10
Início e duração de ação dos não ben­
zodiazepínicos comumente usados
como fármacos hipnóticos.
120 Clark, Finkel, Rey & Whalen
NAD+ NADH NAD+ NADH
Etanol V Acetaldeído +l.Acetato
Figura 9.1 1
� O
A.
-
Dissulfiram
O dissulfiram causa
acúmulo de acetaldeído,
resultando em rubor,
taquicardia, hiperventila-
- ,
çao e nausea.
Biotransformação do etanol e o efeito
do dissulfiram. NAD+ = forma oxidada
do dinucleotídeo de nicotinamida-ade­
nina; NADH = forma reduzida do dinu­
cleotídeo de nicotinamida-adenina.
MT2 pela melatonina no NSQ induz e promove o sono e parece manter o
ritmo circadiano que regula o ciclo sono-vigília normal. A ramelteona é in­
dicada no tratamento da insônia nos casos em que a queixa primária é a
demora em pegar no sono (aumento do tempo de latência para dormir). O
potencial de abuso parece mínimo e não há evidências de dependência
ou abstinência. Por isso, a ramelteona pode ser administrada por longos
períodos. Os efeitos adversos incluem tonturas, fadiga e sonolência. A
ramelteona pode aumentar os níveis de prolactina.
E. Anti-histamínicos
Os anti-histamínicos de venda livre com propriedades sedativas, como
a difenidramina, hidroxi
zina e a doxilamina, são eficazes no tratamen­
to dos tipos leves de insônia. Contudo, esses fármacos geralmente são
ineficazes para todas as formas de insônia situacionais. Além disso, eles
apresentam inúmeros efeitos indesejados (como os efeitos anticolinér­
gicos) que os tornam menos úteis do que os benzodiazepínicos. Alguns
anti-histamínicos sedativos são comercializados em numerosos produtos
de venda livre.
F. Etanol
O etanol (álcool etílico) tem efeitos ansiolíticos e sedativos, mas o po­
tencial tóxico supera seus benefícios. O etanol é um depressor do SNC,
produzindo sedação e, finalmente, hipnose com dosagens elevadas.
Como ele tem uma curva dose-efeito baixa, ocorre sedação em uma
ampla faixa de doses. Ele é facilmente absorvido por via oral e tem um
volume de distribuição próximo ao da água total do organismo. O etanol
é biotransformado primariamente no fígado, primeiro a acetaldeído pela
álcool-desidrogenase e, então, a acetato pela aldeído-desidrogenase (Fi­
gura 9.1 1). A eliminação principal é pelos rins, mas parte é excretada
pelos pulmões. O etanol sinergiza com vários outros sedativos e pode
produzir depressão grave do SNC se usado junto com benzodiazepíni­
cos, anti-histamínicos ou barbitúricos. O seu consumo crônico pode le­
var à doença hepática grave, à gastrite e a deficiências nutricionais. A
cardiomiopatia também é uma consequência de consumo excessivo. O
tratamento de escolha para a abstinência do álcool são os benzodiazepí­
nicos. A carbamazepina é eficaz no tratamento de episódios convulsivos
durante a abstinência.
G. Fármacos usados para tratar a dependência ao álcool
1 . Dissulfiram. O di
ssulfiram bloqueia a oxidação do acetaldeído a
ácido acético inibindo a aldeído-desidrogenase (ver Figura 9.1 1).
Isso resulta no acúmulo do acetaldeído no sangue, causando rubor,
taquicardia, hiperventilação e náusea. O dissu/fi
ram tem alguma uti­
lidade em pacientes seriamente decididos a parar com a ingestão
de bebidas alcoólicas. Uma resposta condicionada é induzida, de
forma que o paciente se abstém do álcool para evitar os efeitos de­
sagradáveis do acúmulo de acetaldeído induzido pelo dissulfiram.
2. Naltrexona. A naltrexona é um antagonista opioide de longa ação
usadojuntamente com psicoterapia de apoio. Ela é melhortolerada
do que o dissulfiram e não produz as reações adversas que ele
causa.
3. Acamprosato. O acamprosato é um fármaco usado nos programas
de tratamento da dependência ao etanol com um mecanismo de
ação mal compreendido. Este fármaco deve ser usado junto com
psicoterapia de apoio.
Farmacologia Ilustrada 121
A Figura 9.12 resume as desvantagens e as vantagens terapêuticas de al­
guns dos fármacos ansiolíticos e hipnóticos.
Desvantagens terapêuticas
e Os benzodiazepínicos podem perturbar a
função intelectual e a destreza manual.
• Os benzodiazepínicos apresentam potencial de
dependência e podem ocorrer convulsões
na sua retirada.
• A interrupção com frequência resulta em
insônia de rebote.
• Início de ação mais lento do que os
benzodiazepínicos.
• Não apresenta atividade anticonvulsiva ou
músculo-relaxante.
• Não apresentam propriedades
anticonvulsivas ou músculo­
-relaxantes.
• Só tem efeitos mínimos nas medidas
objetivas de eficácia de sono.
• Os barbitúricos induzem tolerância, enzimas
biotransformadoras defármacos e dependência
física e apresentam graves sintomas de
abstinência.
Figura 9.12
Benzodiazepínicos
Clonazepam
Clorazepato
Clordiazepóxido
Dlazepam
Flurazepam
Quazepam
Alprazolam
Lorazepam
Temazepam
Outros fármacos
Buspirona
Eszopiclona
Hidroxlzina
Zaleplona
Zolpldem
Barbitúricos
Fenobarbltal
Pentobarbital
Secobarbltal
Amobarbltal
T
l
o
pental
Vantagens terapêuticas
• Uso potencial no tratamento crônico de crises
• Esses fármacos menos potentes e eliminados de
forma mais lenta não apresentam insônia de
rebote na interrupção do tratamento.
• Fármaco de escolha no tratamento dos distúrbios
de pãnico.
Não requerem biotransformação defase 1, portantotêm
menos interações com outrosfármacos esão mais
seguros em pacientes com insuficiência hepática.
• Útil no tratamento de longa duração contra a
ansiedade crônica com sintomas de irritabilidade
e hostilidade.
• Não potencializa a depressão do SNC pelo
álcool.
• Baixo potencial de dependência.
• Eficaz por até seis meses.
• Causam efeitos mínimos de abstinência.
e Causam insônia de rebote mínima.
e Pouca ou nenhuma tolerância ocorre com o uso
prolongado.
e Baixo potencial de abuso com efeitos de abstinência
e dependência mínimos.
• O fármaco pode ser usado por tempo prolongado.
• Rápido início de ação.
Vantagens e desvantagens terapêuticas de alguns fármacos ansiolíticos e hipnóticos. SNC = sistema nervoso central.
122 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
9.1 Qual das seguintes afirmativas está correta?
A. Os benzodiazepínicos abrem diretamente os canais de
cloreto.
B. Os benzodiazepínicos têm efeito analgésico.
C. A melhora clínica da ansiedade exige duas a quatro
semanas de tratamento com benzodiazepínicos.
D. Todos os benzodiazepínicos têm algum efeito sedativo.
E. Os benzodiazepínicos, como outros depressores do
SNC, facilmente provocam anestesia geral.
9.2 Qual dos seguintesfármacos é um hipnótico de ação curta?
A. Fenobarbital
B. Diazepam
C. Clordiazepóxido
D. Triazolam
E. Flurazepam
9.3 Qual das seguintes afirmativas está correta?
A. O fenobarbital tem propriedades analgésicas.
B. O diazepam e o fenobarbital induzem o sistema enzi­
mático P450.
e. o fenobarbital é útil no tratamento da porfiria intermi­
tente aguda.
D. O fenobarbital induz depressão respiratória, que é po­
tencializada pelo consumo de etanol.
E. A buspirona tem ações similares às dos benzodiazepí­
nicos.
9.4 Um homem de 45 anos ferido em um acidente de auto­
móvel chega à sala de emergência. A alcoolemia na ad­
missão é de 275 mg/dl. Os registros hospitalares revelam
internação prévia devido a convulsões relacionadas com
álcool. Sua esposa confirma que ele andou bebendo muito
nas últimas três semanas. Que tratamento deve ser inicia­
do se o paciente tiver síndrome de abstinência?
A. Nenhum
B. Lorazepam
C. Pentobarbital
D. Fenitoína
E. Buspirona
Resposta correta = D. Embora todos os benzodiazepínicos possam
causar sedação, os fármacos denominados "benzodiazepínicos"
na Figura 9.1 são usados no tratamento de distúrbios do sono. Os
benzodiazepínicos aumentam a ligação do GABA ao seu receptor,
que aumentaapermeabilidade aocloreto.Os benzodiazepínicosnão
aliviam a dor, mas podem reduzir a ansiedade associada àdor. Dife­
rentedosantidepressivostricíclicos e dos inibidoresda MAO, os ben­
zodiazepínicos são eficazes dentro de horas após a administração.
Os benzodiazepínicos não produzem anestesia geral e são, por isso,
fármacos relativamente seguros e com elevado índice terapêutico.
Resposta correta = D. O triazolam é um fármaco de ação ultracurta
usado como adjuvante da anestesia odontológica. Os demais fárma­
cos listados não são de ação curta.
Resposta correta = D.Os barbitúricos e o etanol são umaassociação
letal. O fenobarbital é incapaz de alterar o limiar da dor. Somente o
fenobarbital induzasíntese dosistemametabolizador CIP450 hepáti­
co. Ele é contraindicado notratamentoda porfiria intermitente aguda.
Abuspirona nãotem as propriedades anticonvulsivantes ou músculo­
-relaxantes dos benzodiazepínicos e causa apenas sedação mínima.
'
Resposta correta = B. E importante tratar as convulsões associadas
à abstinência do álcool. Os benzodiazepínicos, como o clordiazepó­
xido, o diazepam ou o de ação curta, lorazepam, são eficazes para
controlar esse problema. Eles são menos sedativos do que o pento­
barbital ou afenitoína.
ervoso
1. RESUMO
Este capítulo descreve dois grupos de fármacos que atuam primariamente
como estimulantes do sistema nervoso central (SNC). O primeiro grupo, os
estimulantes psicomotores, causa excitação e euforia, diminui a sensação de
fadiga e aumenta a atividade motora. O segundo grupo, os alucinógenos ou
psicotomiméticos, produz alterações profundas no raciocínio e no humor, com
pouco efeito sobre otronco cerebral e a medulaespinal.A Figura 10.1 resume
os estimulantes do SNC. Como grupo, os estimulantes do SNC têm distintos
usos clínicos e são importantes como fármacos de abuso, assim como são
os depressores do SNC descritos no Capítulo 9 e os narcóticos descritos no
Capítulo 14 (Figura 10.2).
li. ESTIMULANTES PSICOMOTORES
A. Metilxantinas
As metilxantinas incluem a teofilina, que é encontrada no chá, a teobro­
mina, encontrada no cacau, e a cafeína, que é o estimulante mais consu­
mido em todo o mundo, encontrada em alta concentração no café, mas
também presente no chá, em bebidas de cola, no chocolate e no cacau.
1 . Mecanismo de ação. Vários mecanismos foram propostos para as
ações das metilxantinas, incluindo translocação de cálcio extracelu­
lar, aumento de monofosfato cíclico de adenosina e de guanosina,
causado por inibição da fosfodiesterase e bloqueio dos receptores
de adenosina. O último explica melhoras ações observadas no con­
sumo de bebidas contendo cafeína.
2. Ações
a. SNC. A cafeína presente em uma a duas xícaras de café (100 a
200 mg) causa diminuição da fadiga e aumenta o alerta mental
como resultadoda estimulação do córtex e outras áreas do cére-
ESTIMULANTES PSICOMOTORES
Anfetamina
Armodafinila
Atomoxetina
Cafeína
Cocaína
Dexmetilfenidato
Dextroanfetamina
Lisdexanfetamina
Metilfenidato
Modafinila
Nicotina
Teofilina
Vareniclina
ALUCINÓGENOS
Dronabinol
Dietilamida do ácido li
sérgico (LSD)
Fenciclidina
T
etra-hidrocanabinol (THC)
Figura 10.1
Resumo dos estimulantes do SNC.
124 Clark, Finkel, Rey & Whalen
ESTIMULANTES
DOSNC
Cafeí
na
Nicotina
Cocaí
na
Anfetaminas
ALUCINÓGENOS
LSD
Cannabi
s
Fenciclidina
DEPRESSORES
DOSNC
Etanol
Barbitúricos
Benzodiazepínicos
NARCÓTICOS
Morfina
Heroí
na
Figura 10.2
Baixo Alto
Potencial relativo para dependência fí­
sica de substâncias comumente abusa­
das. LSD = dietilamida do ácido lisérgico.
Despertare
relaxamento
Paralisia
respiratória
Figura 10.3
Doses baixas de nicotina
V
Doses altas de nicotina
Ações da nicotina no SNC.
bro. O consumo de 1 ,5g de cafeína (12 a 15 xícaras de café) pro­
duz ansiedade e tremores. A medula espinal só é estimulada por
doses muito elevadas (2 a 5 g) de cafeína. Pode-se desenvolver
tolerância rapidamente às propriedades estimulantes da cafeína;
a abstinência consiste em sensação de fadiga e sedação.
b. Sistema cardiovascular. Doses altas de cafeína têm efeitos
inotrópico e cronotrópico positivos. (Nota: o aumento da con­
tratilidade pode ser prejudicial a pacientes com angina pecto­
ris. Em outros pacientes, o aumento da frequência pode causar
contrações ventriculares prematuras.)
c. Ação diurética. A cafeína tem ação diurética leve que aumenta
o débito urinário de sódio, cloreto e potássio.
d. Mucosa gástrica. Comotodas as metilxantinas estimulam a se­
creção de ácido clorídrico pela mucosa gástrica, os indivíduos
com úlcera péptica devem evitar alimentos e bebidas contendo
metilxantinas.
3. Usos terapêuticos. A cafeína e seus derivados relaxam o músculo
liso dos bronquíolos. (Nota: a teofilina, que antigamente era a base
do tratamento da asma, foi amplamente substituída por outros fár­
macos, como os 132-agonistas e os corticosteroides.)
4. Farmacocinética. As metilxantinas são bem absorvidas por via
oral. A cafeína se distribui portodo o organismo, incluindo o cérebro.
As metilxantinas atravessam a placenta e são secretadas no leite
materno. Todas são biotransformadas no fígado, em geral pela via
CIP1A2, e os metabólitos são excretados na urina.
5. Efeitos adversos. Doses moderadas de cafeína causam insônia,
ansiedade e agitação. Doses altas são necessárias para causar to­
xicidade, que se manifesta por êmese e convulsões. A dose letal é
cerca de 1O g de cafeína (cerca de 100 xícaras de café), que induz
arritmias cardíacas; assim, a morte por cafeína é altamente impro­
vável. Letargia, irritabilidade e cefaleia ocorrem em usuários que
consomem rotineiramente mais de 600 mg de cafeína por dia (em
torno de seis xícaras de café por dia) e, então, param subitamente.
B. Nicotina
A nicotina é o componente ativo do tabaco. Embora esse fármaco não
seja usadoterapeuticamente (exceto no tratamento para pararde fumar),
permanece sendo importante, pois ele segue a cafeína como estimulante
do SNC mais usado e só perde para o álcool como o fármaco mais abu­
sado. Em combinação com o alcatrão e o monóxido encontrados no fumo
do cigarro, a nicotina representa um grave fator de risco para doenças
pulmonares e cardiovasculares, vários cânceres e outras patologias. A
dependência não é facilmente controlada.
1 . Mecanismo de ação. Em doses baixas, a nicotina causa estimu­
lação ganglionar por despolarização. Em doses altas, ela causa
bloqueio ganglionar. Existem receptores de nicotina em numerosos
locais no SNC, os quais participam dos efeitos estimulantes.
2. Ações
a. SNC. A nicotina é muito solúvel em lipídeos e facilmente atra­
vessa a barreira hematencefálica. O consumo de cigarros ou
a administração de doses baixas de nicotina produzem algum
grau de euforia e estimulação, bem como relaxamento. A nicoti­
na melhora a atenção, o aprendizado, a resolução de problemas
e o tempo de reação. Doses elevadas de nicotina resultam em
paralisia respiratória central e grave hipotensão causada porpa­
ralisia bulbar (Figura 10.3). A nicotina também é um supressor
de apetite.
b. Efeitos periféricos. Os efeitos periféricos da nicotina são com­
plexos. A estimulação dos gânglios simpáticos, bem como da
suprarrenal, aumenta a pressão arterial e a frequênciacardíaca.
Assim, o uso do fumo é particularmente prejudicial para os hi­
pertensos.Vários pacientes com doença vascular periférica ex­
perimentam agravamento dos sintomas com o fumo. Por exem­
plo, a vasoconstrição induzida por nicotina pode diminuiro fluxo
sanguíneo nas coronárias e afetar adversamente o paciente
com angina. A estimulação dos gânglios parassimpáticos tam­
bém aumenta a atividade motora do intestino. Em doses eleva­
das, a pressão arterial cai, e a atividade cessa na musculatura
do TGI e da bexiga como resultado do bloqueio dos gânglios
parassimpáticos pela nicotina.
3. Farmacocinética. Como a nicotinaé muito lipossolúvel, a absorção
ocorre facilmente pela mucosa oral, pulmonar, gastrintestinal e pele.
A nicotina atravessa a placenta e é secretada no leite materno. Ao
inalar a fumaça do cigarro, o fumante recebe de 1 a 2 mg de nicoti­
na por cigarro (a maioria dos cigarros tem 6 a 8 mg de nicotina). A
dose letal aguda é de 60 mg. Mais de 90°
/
o da nicotina inalada na
fumaça é absorvida. A depuração da nicotina envolve a biotrans­
formação no pulmão e no fígado e a excreção urinária. A tolerância
aos efeitos tóxicos se desenvolve rapidamente, em geral dentro de
dias após o início do uso.
4. Efeitos adversos. Os efeitos da nicotina no SNC incluem irritabili­
dade e tremores.A nicotinatambém pode causarcólicas intestinais,
diarreia e aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. O
fumo aumenta a velocidade de biotransformação de inúmeros fár­
macos.
5. Síndrome de abstinência. Como outros fármacos estimulantes, a
nicotina é uma substância viciante; a dependência física se desen­
volve rapidamente e pode ser grave (Figura 10.4). A abstinência é
caracterizada por irritabilidade, ansiedade, intranquilidade, dificul­
dade de concentração, cefaleia e insônia. O apetite é afetado, e dor
gastrintestinal ocorre com frequência. (Nota: os programas para pa­
rar de fumar que associam tratamento farmacológico e comporta­
mental têm maiorsucesso.) Os adesivos transdérmicos e as gomas
de mascar contendo nicotina diminuem os sintomas de abstinência
e auxiliam os fumantes a parar de fumar. Por exemplo, a concentra­
ção de nicoti
na no sangue obtida com goma de mascar de nicotina
é cerca da metade do pico observado com o cigarro (Figura 10.5).A
bupropiona, um antidepressivo (ver p. 155), pode reduzir a compul­
são porfumar.
C. Vareniclina
A vareniclina é um agonista parcial nos receptores da ACh nicotínicos
neuronais. Por ser um agonista parcial nestes receptores, a vareniclina
produz menos efeitos eufóricos do que os produzidos pela nicotina (que é
um agonistatotal nestes receptores). Portanto, a vareniclina é útil para os
pacientes que querem pararde fumar, mas apresentam sintomas de abs-
Farmacologia Ilustrada 125
Potencial de
abuso
•
•
•
Nicotina
Figura 10.4
A nicotina tem potencial de abuso.
20
15 CIGARROS
10
5 /1113cigarro
::J J?
� o.._,_....__,__....___-'----'----'-
e
m
e
·- 20
õ
.!.!
e 15 GOMA DE MASCAR DE NICOTINA
-8
m
.!.! 1o
...
'GI
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!d'
�
8
8
5 _, ;,tabletes de goma de mascar
o��-�-�-�-�
-10 o 30 60 90 120
20
15 ADESIVO TRANSDÉRMICO
10
5
Aplicação
/do adesivo
o��------��..__
-10 o 30 60 90 120 600
Minutos
Figura 10.5
Concentração sérica de nicotina em in­
divíduos que fumam cigarros, mascam
goma ou recebem adesivo transdérmi­
co de nicotina.
126 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Figura 10.6
NEURÔNIO
RESPOSTA
AUMENTADA
Mecanismo de ação da cocaína.
Potencial de
abuso
V
Figura 10.7
Cocaína
Anfetamina
A cocaína e a anfetamina têm potencial
de abuso.
tinência. Além disso, ela atenua o efeito recompensador da nicotina se o
paciente tem uma recaída e usa o fumo. Os pacientes devem ser monito­
rados devido atendências suicidas, a pesadelos e a alterações de humor.
D. Cocaína
A cocaína é um fármaco facilmente acessível e muito viciante que é usa­
do por mais detrês milhões de pessoas nos Estados Unidos diariamente.
Devido ao seu potencial de abuso, a cocaína é classificada como um fár­
maco da Relação li pela Drug EnforcementAgency dos Estados Unidos.*
1. Mecanismo de ação. O mecanismode ação primário dos efeitoscen­
trais e periféricos da cocaína é o bloqueio da captação de monoami­
nas (norepinefrina, serotonina e dopamina) nos terminais pré-sinápti­
cos dos quais esses neurotransmissores são liberados (Figura 10.6).
Esse bloqueio ocorre pela ligação da cocaína aos transportadores da
captação monoaminérgica e, assim, potencializa e prolonga as ações
periféricas e no SNC dessas monoaminas. Em particular, o prolonga­
mentodosefeitos dadopamina nosistemacerebral de prazer (sistema
límbico) produz a intensa euforia que a cocaína causa inicialmente.
O consumo crônico de cocaína esgota a dopamina. Essa depleção
desencadeia o círculo vicioso pela compulsão por cocaína, oque tem­
porariamente alivia a depressão intensa (Figura 10.7).
2. Ações
a. SNC. Os efeitos comportamentais da cocaína resultam da po­
derosa estimulação do córtex e do tronco cerebral. A cocaína
aumenta agudamente a atenção mental e produz sensação de
bem-estar e euforia similar à causada por anfetamina. Como a
anfetamina, a cocaína pode produzir alucinações, ilusões e pa­
ranoia ou grandiosidade. A cocaína aumenta a atividade motora
e, em doses elevadas, causa tremores e convulsões, seguidos
de depressão respiratória e vasomotora.
b. Sistema nervoso simpático. Na periferia, a cocaínapotenciali­
za as ações da norepinefrina e produz a resposta "luta ou fuga"
característica daestimulação adrenérgica. A cocaínaestá asso­
ciada à taquicardia, hipertensão, dilatação pupilar e vasocons­
trição periférica. Evidências recentes sugerem que a habilidade
dos reflexos barorreceptores de neutralizar os efeitos hiperten­
sivos pode ser bloqueada.
c. Hipertermia. A cocaína é a única, entre os fármacos ilícitos,
que pode causar morte não só pela dose, mas também devido
à propensão de causar hipertermia. (Nota: as taxas de morta­
lidade por dosagem excessiva de cocaína aumentam em dias
quentes.) Mesmo pequenas doses de cocaína intranasal blo­
queiam a sudoração e a vasodilatação periférica. A percepção
do desconforto térmico também diminui.
3. Usos terapêuticos. A cocaínatem ação anestésica local que atual­
mente representa o único uso terapêutico racional. Por exemplo, a
cocaína é aplicada topicamente como anestésico local em cirurgias
de olhos, orelhas, nariz e garganta. Enquanto o efeito anestésico
local é devido ao bloqueio dos canais de sódio voltagem-dependen-
*N. de T. Na Portaria SVS/MS 344/98, de 12.05.1998, que estabelece normas sobre
fármacos, a cocaína integra a Lista F, lista das substâncias de uso proscrito no Brasil.
tes, a interação com canais de potássio pode contribuir com a pro­
priedade da cocaína de causararritmias cardíacas. (Nota: a cocaína
é o único anestésico local que causa vasoconstrição. Esse efeito é
responsável pela necrose e perfuração do septo nasal observadas
com a inalação crônica de pó de cocaína.)
4. Farmacocinética. Com frequência a cocaína é autoadministrada
por via oral (mascada), por inalação, fumo ou por injeção IV. O pico
ocorre em 15 a 20 minutos após a inalação do pó de cocaína, e o
efeito desaparece em 1 a 1,5 hora. Efeitos rápidos, mas de curta
duração, são obtidos por meio de injeção IV ou por fumar a forma
base livre da droga (crack). Como o início do efeito é mais rápido, o
potencial de dose excessiva e dependência é maior com a injeção
IV e com o fumo do crack. A cocaína é rapidamente desesterificada
e desmetilada à benzoilecgonina, que é excretada na urina. A de­
tecção dessa substância na urina identifica o usuário.
5. Efeitos adversos
a. Ansiedade. A resposta tóxica à ingestão aguda de cocaína
pode precipitar reações de ansiedade que incluem hipertensão,
taquicardia, sudoração e paranoia. (Nota: ocorre pouca tolerân­
cia aos efeitos tóxicos da cocaína no SNC, [p. ex., convulsões]
mesmo com uso prolongado). Devido à irritabilidade, vários
usuários usam a cocaína com álcool. Um produto da biotrans­
formação da cocaína e do etanol é o cocaetileno, que também é
psicoativo e, acredita-se, contribui para a cardiotoxicidade.
b. Depressão. Como com todos os fármacos estimulantes, a esti­
mulação do SNC pela cocaína é seguida por um período de de­
pressão mental. Os adietas abstêmios de cocaína apresentam
depressão física e emocional, bem como agitação. A agitação
pode sertratada com benzodiazepínicos ou fenotiazinas.
c. Tóxicos. A cocaína pode provocar convulsões, bem como ar­
ritmias cardíacas fatais (Figura 10.8). O uso de diazepam IV
pode ser necessário para controlar as convulsões induzidas por
cocaína. A incidência de infarto do miocárdio em usuários de
cocaína não está relacionada com a dose, a duração do uso
ou a via de administração. Não há marcador para identificar os
indivíduos que podem ter efeitos cardíacos ameaçadores à vida
após o uso de cocaína.
E. Anfetamina
A anfetamina é uma amina simpática que apresenta efeitos neurológi­
cos e clínicos similares aos da cocaína. A dextroanfetamina é o principal
membro dessa classe de compostos. A metanfetamina (também conheci­
da como 'speed'nos EUA) é um derivado da anfetamina disponível para
uso sob prescrição. Ela pode ser fumada e é preferida por vários adie­
tas. A 3,4-metileno-dioxi-metanfetamina (também denominada MDMA
ou ecstasy), um derivado sintético da metanfetamina com propriedades
alucinogênicas e estimulantes, é discutida na p. 567.
1 . Mecanismo de ação. Como a cocaína, os efeitos da anfetamina
no SNC e no sistema nervoso periférico são indiretos, isto é, am­
bos dependem da elevação dos níveis de catecolaminas nasfendas
sinápticas. A anfetamina, contudo, obtém seu efeito liberando esto­
ques intracelulares de catecolaminas (Figura 10.9). Como a anfeta­
mina também inibe a MAO, níveis elevados de catecolaminas são
V
Figura 10.8
Farmacologia Ilustrada 127
Euforia
Taquicardia
 1 I
' /"
-
--
-
Agitação
Hipertensão
Dispneia
Convulsão
Arritmias
cardíacas
Insuficiência
respiratória
Morte
Principais efeitos do uso da cocaína.
128 Clark, Finkel, Rey & Whalen
m Sem anfetamina
RESPOSTA
l]J Com anfetamina
Figura 10.9
RESPOSTA
AUMENTADA
Mecanismo de ação da anfetamina.
facilmente liberados para as fendas sinápticas. Apesar da diferença
no mecanismo de ação, os efeitos comportamentais da anfetamina
e de seus derivados são similares aos da cocaína.
2. Ações
a. SNC. Os principais efeitos comportamentais da anfetamina re­
sultam da liberação de dopamina e de norepinefrina. A anfeta­
mina estimula todo eixo cerebrospinal, córtex, tronco cerebral
e bulbo. Isso aumenta o estado de alerta, diminui a fadiga e
o apetite e causa insônia. Esses efeitos da anfetamina e seus
derivados justificam seu uso no tratamento de crianças hipe­
rativas, para a narcolepsia e o controle do apetite. Em doses
elevadas, a anfetamina pode causar psicoses e convulsões.
b. Sistema nervoso simpático. Além da sua ação acentuada no
SNC, a anfetaminaatua no sistema adrenérgico estimulando in­
diretamente os receptores com a liberação de norepinefrina.
3. Usos terapêuticos. Os fatores que limitam a utilidade terapêutica
da anfetamina incluem a dependência psico e fisiológica similar à
da cocaína e, com o uso crônico, o desenvolvimento de tolerância
aos efeitos eufóricos e anorexígenos.
a. Distúrbio de hiperatividade com déficit de atenção (DHDA).
Algumas crianças jovens são hipercinésicas e não têm capaci­
dade de se concentrar em uma atividade por mais que poucos
minutos.A dextroanfetaminae o derivado da anfetamina, metilfe­
nidato, são capazes de diminuirafalta de atenção e aliviarvários
dos problemas comportamentais associados a essa síndrome,
diminuindo também a hipercinesia que essas crianças apresen­
tam. A lisdexanfetamina é um pró-fármaco que é convertido no
fármaco ativo dextroanfetamina depois da absorção no TGI. A
lisdexanfetamina prolonga a atenção, permitindo melhor adapta­
ção à atmosfera escolar. A atomoxetina é um fármaco não esti­
mulante aprovado para o DHDA em crianças e adultos. (Nota: a
atomoxetina não deve sertomada por indivíduos sob tratamento
com IMAO e nem por pacientes com glaucoma de ângulo estrei­
to.) Ao contrário do metilfenidato, que bloqueia a captação de
dopamina, a atomoxetinaé um inibidorda captação de norepine­
fri
na, por isso, não causa vício e não é um fármaco controlado.
b. Narcolepsia. A narcolepsiaé um distúrbio do sono relativamen­
te raro caracterizado por incontroláveis surtos de sono durante
o dia. Algumas vezes, é acompanhado de catalepsia, perda do
controle muscular, ou mesmo paralisia provocadas por emo­
ções fortes, como risadas. Contudo, é a sonolência do paciente
que é combatida com fármacos como anfetamina ou metilfeni­
dato. Recentemente, novos fármacos, modafinila e seu deriva­
do enantiômero-R, armodafinila, se tornaram disponíveis para
tratar a narcolepsia. A modafinila produz menos efeitos psico­
ativos e eufóricos, bem como menos alterações do humor, da
percepção, do pensamento e das sensações, típicas em outros
estimulantes do SNC. Ela provoca vigília. O seu mecanismo de
ação permanece incerto, mas pode envolver os sistemas adre­
nérgicos e dopaminérgicos, embora tenha sido demonstrado
ser diferente do mecanismo de ação da anfetamina. A moda­
finila é eficaz por via oral. Ela distribui-se por todo o organismo
e sofre extensa biotransformação hepática. Os metabólitos são
excretados na urina. Cefaleia, náusea e rinite são os efeitos ad-
versos primários. Há algumas evidências indicando o potencial
de abuso e dependência física para a modafinila.
4. Farmacocinética. A anfetamina é completamente absorvida noTGI,
biotransformada no fígado e excretada na urina. (Nota: a administra­
ção de alcalinizantes da urina aumenta as moléculas não ionizadas
e retarda a excreção.) Os adietas em anfetamina a administram por
injeção IV ou afumam.A euforia causada pela anfetamina dura 4 a 6
horas, ou seja, 4 a 8 vezes mais do que o efeito da cocaína.
5. Efeitos adversos. As anfetaminas podem causar vício, levando à
dependência, àtolerânciae ao comportamento compulsivo pelo fár­
maco. Além disso, ela tem os seguintes efeitos indesejáveis.
a. Efeitos no SNC. Os efeitos indesejáveis da anfetamina incluem
insônia, irritabilidade, fraqueza, tonturas, tremores e reflexos
hiperativos (Figura 10.1O). A anfetamina também pode causar
confusão, delírio, pânico e tendências suicidas, em especial nos
pacientes doentes mentalmente. O uso crônico de anfetamina
produz um estado de "psicose anfetamínica"que se parece com
os episódios psicóticos associados com esquizofrenia. O uso
prolongado de anfetamina está associado à dependência psí­
quica e física, mas a tolerância aos seus efeitos pode ocorrer
dentro de poucas semanas. Doses excessivas de anfetamina
são tratadas com clorpromazi
na ou ha/operido/, que aliviam os
sintomas do SNC, bem como a hipertensão, devido aos efeitos
a-bloqueadores. O efeito anorexígeno da anfetamina é devido à
sua ação no centro alimentar hipotalâmico lateral.
b. Efeitos cardiovasculares. Além dos efeitos no SNC, a anfeta­
mina causa palpitações, arritmias cardíacas, hipertensão, dor
anginosa e colapso circulatório. Cefaleia, calafrios e sudoração
também podem ocorrer. Devido aos seus efeitos cardiovascula­
res, a anfetamina não deve ser administrada a pacientes com
doença cardiovascular e aos que recebem inibidores da MAO.
c. Efeitos noTGI. A anfetamina atua no TGI, causando anorexia,
náuseas, êmese, cólicas abdominais e diarreia. A administração
de bicarbonato de sódio aumentaa reabsorção de dextroanfeta­
mina dos túbulos renais para a circulação.
d. Contraindicações. Não devem sertratados com anfetamina os
pacientes com hipertensão, doença cardiovascular, hipertireoi­
dismo, glaucoma e nem os pacientes com história de abuso de
fármacos ou quaisquer outros sob tratamento com IMAO.
F. Metilfenidato
Farmacologia Ilustrada 129
PA
V
Figura 10.1O
o
o
Vertigem
Hipertensão
Insônia
Confusão
Potencial
de abuso
Náusea e
êmese
Diarreia
O metilfenidato tem propriedades estimulantes do SNC similares às da Efeitos adversos das anfetaminas.
anfetamina e também pode levar ao abuso, embora seu potencial de vi-
ciar seja controverso. Ele é um fármaco da Relação 11.* Atualmente, o
metilfenidato é um dosfármacos mais prescritos para crianças. Estima-se
que 4 a 6 milhões de crianças tomam metilfenidato diariamente nos Esta-
dos Unidos contra o DHDA. O isômerofarmacologicamente ativo, dexme-
tilfenidato, também está aprovado nos EUA para o tratamento do DHDA.
*N. deT. Refere-se ao controle de fármacos pela FDA nos Estados Unidos. No Brasil, o me­
tilfenidato é regulamentado pela Portaria SVS/MS nª 344, de 12 de maio de 1998, incluído
na Lista A3, lista das substâncias psicotrópicas (sujeitas à Notificação de Receita "A").
130 Clark, Finkel, Rey & Whalen
1 . Mecanismo de ação. Crianças com DHDA podem produzir fracos
sinais de dopamina, sugerindo que atividades geralmente interes­
santes oferecem pouca gratificação a essas crianças.O metilfenida­
to é um inibidor do transporte de dopamina e pode atuar por meio
do aumento de dopamina no espaço sináptico. (Nota: o metilfenida­
to pode ter menor potencial para abuso do que a cocaína, porque
ele entra no cérebro mais lentamente do que a cocaína e, assim,
não eleva os níveis de dopamina tão rapidamente.)
2. Usos terapêuticos. O metilfenidato é usado há décadas no trata­
mento do DHDA em crianças de 6 a 1 6 anos. Ele também é eficaz
no tratamento da narcolepsia, mas o dexmetilfenidato não é indica­
do no tratamento da narcolepsia.
3. Farmacocinética. Ambos, metilfenidato e dexmetilfenidato, são fa­
cilmente absorvidos por via oral. O metilfenidato está disponível em
uma formulação de cápsulas de liberação lenta e como adesivo cutâ­
neo. O produto desesterificado, ácido ritalínico, é excretado na urina.
4. Efeitos adversos. Os efeitos gastrintestinais são os mais comuns
e incluem dor abdominal e náuseas. Outras reações incluem ano­
rexia, insônia, nervosismo e febre. Em pacientes convulsivos, o me­
tilfenidato parece aumentar a frequência das convulsões, especial­
mente se o paciente está usando antidepressivos. O metilfenidato é
contraindicado em pacientes com glaucoma.
5. Interações de fármacos. Estudos mostraram que o metilfenidato
pode interferir na biotransformação de varfarina, fenitoína, fenobar­
bital, primidona e dos antidepressivos tricíclicos.
,
Ili. ALUCINOGENOS
Poucos fármacos têm, como ação primária, a capacidade de induzir estados
alterados de percepção remanescentes de sonhos. Vários desses estados
alterados são acompanhados de visões brilhantes e coloridas no ambiente e
por uma plasticidade de alterações constantes deformas e cores. O indivíduo
sob influência dessesfármacos é incapaz de tomardecisões normais, pois os
fármacos interferem com o pensamento racional. Esses fármacos são conhe­
cidos como alucinógenos ou psicotomiméticos.
A. Dietilamida do ácido lisérgico
Vários locais no SNC são afetados pela dietilamida do ácido lisérgico
(LSD), que apresenta atividade agonista da serotonina (SHT) nos recep­
tores pré-sinápticos 5HT1 do mesencéfalo e estimula os receptores 5HT2•
A ativação do sistema nervoso simpático também ocorre, causando mi­
dríase, aumento da pressão arterial, piloereção e aumento datemperatu­
ra corporal. Por via oral, baixas doses de LSD podem induziralucinações
com cores brilhantes.Também ocorre alteração do humor. Ocorrem tole­
rância e dependência física, mas dependência verdadeira é rara. Os efei­
tos adversos incluem hiper-reflexia, náuseas e fraqueza muscular. Doses
elevadas podem produzir alterações psicóticas de longa duração nos
indivíduos suscetíveis. O haloperidol e outros neurolépticos podem blo­
quear os efeitos alucinógenos do LSDe rapidamente abortara síndrome.
B. Tetra-hidrocanabinol
O principal alcaloide psicoativo contido na maconha é o li9-tetra-hidrocana­
binol (THC), que está disponível como dronabinol. Este fármaco é prescrito
Farmacologia Ilustrada 131
GABAou glutamato
ºº º
o
n o receptor ativado modula a
.----- li.li liberação dos neurotransmisso­
res inibitórios, como o GABA.
º�'''
'
�
r---
_ _ _ ___.__
_
_____._____
o o �
3
Os endocanabinoides se ligam
:
aos receptores canabinoides -
-
no neurônio pré-sináptico que
forma sinapse com o neurônio
estimulado.
Figura 10.11
NEURÔNIO
PÓS-SINÁPTICO
Endocanabinoides >......
Receptor de GABA
ou glutamato
Receptorcanabinoide. GABA = ácido 'Y-aminobutírico.
Receptor
canabinoide
pré-sináptico
Ca2+
o � Ca2+
D
Aexcitação do neurônio
pós-sináptico causa sua
despolarização e um
influxo de ca2+.
Etil Níveis elevados de Ca2+
U estimulam a síntese
e a liberação de
endocanabinoides.
v
=
=
�
Taquicardia
V
Hipertensão
PA •-v' I
v---=�
Alucinações
para tratar êmese e estimular o apetite. Dependendo da situação social, o
THC pode produzir euforia, seguida de sonolência e relaxamento. Além de
afetar adversamente a memória de curta duração e a atividade mental, o
THC diminui a força muscular e impede atividade motora que exija perícia,
como dirigir um automóvel. Sua ampla margem de efeitos inclui estimulação
do apetite, xerostomia, alucinações visuais, ilusões e aumento da atividade
sensitiva.Os receptores do THC, denominados receptores CB1, sãoencon­
trados em terminais nervosos pré-sinápticos inibidores que fazem sinapse
com os neurônios piramidais. O CB1 está acoplado à proteína G. É interes­
sante que, como ocorreu com os ligantes endógenos dos receptores opioi­
des, foram identificados endocanabinoides no SNC. Esses compostos, que
se ligam ao receptor CB1 , são derivados da membrana, sintetizados sob
demanda e podem atuar como neuromoduladores locais (Figura 10.11). A
ação do THC parece mediada pelos receptores CB1, mas isso permanece
sob investigação. Os efeitos do THC aparecem logo depois que a droga é
fumada, mas o efeito máximo demora cerca de 20 minutos para ocorrer.
Cerca de três horas depois, o efeito praticamente desapareceu. O drona­
binol é administrado por via oral e tem pico em 2 a 4 horas. Seus efeitos
psicoativos podem duraraté seis horas, mas o efeito estimulante do apetite
persiste por 24 horas. Ele é altamente lipossolúvel e tem um grande volume
de distribuição. O THCé extensamente biotransformado pelas oxidases de
função mista. Sua eliminação ocorre principalmente porvia biliar. Os efeitos
adversos incluem aumento da frequência cardíaca, redução da pressão ar­
terial e rubor das conjuntivas. Em doses elevadas, desenvolve-se psicose
tóxica (Figura 10.12). Ocorretolerância e leve dependência física com o uso
frequente e contínuo. O dronabinol é indicado como estimulante do apetite
para pacientes com Aids que estão perdendo massa corporal. Ele também
é usado algumas vezes contra a êmese grave causada por alguns fárma­
cos antineoplásicos. O antagonista do receptor CB1, rimonabanto, é eficaz
no tratamento da obesidade por diminuir o apetite e a massa corporal em
humanos. O rimonabanto não está disponível atualmente nos EUA, porque
nas triagens clínicas, provocou distúrbios psiquiátricos, como ansiedade e
depressão, o que pode limitarseu uso. Figura 10.12
Efeitos adversos do tetra-hidrocanabinol.
132 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questão para estudo
Escolha a resposta correta.
C. Fenciclidina
A fenciclidina (também conhecida como "pó dos anjos") inibe a captação
da dopamina, da SHT e da norepinefrina. A fenciclidina tem atividade
anticolinérgica, mas, surpreendentemente, causa hipersalivação. A fenci­
c/idina, que é análoga da cetamina, causa anestesia dissociativa (insen­
sibilidade à dor, sem perda de consciência) e analgesia. Nesse estado,
ela produz dormência das extremidades, andar rígido, fala enrolada e
rigidez muscular. Algumas vezes, ocorre comportamento hostil e bizarro.
Em dosagens mais altas, pode ocorrer anestesia, estupor e coma, mas,
estranhamente, os olhos permanecem abertos. A fenciclidina aumenta a
sensibilidade aos estímulos externos, e as ações no SNC persistem por
uma semana. Com frequência, desenvolve-se tolerância com uso conti­
nuado desse fármaco. A fenciclidina não tem aplicações terapêuticas, e
sua fabricação nos EUA é ilegal.
10.1 Um rapaz muito agitado, trazido pela polícia, dá entrada
no atendimento de emergência. O exame psiquiátrico re­
vela que ele cheirou cocaína váriasvezes nos últimos dias,
sendo a última vez há cerca de 1O horas. Foi administrado
um sedativo, e o paciente dormiu. Ofármaco que foi usado
para controlar a aparente abstinência de cocaína desse
paciente foi provavelmente:
Resposta correta = B. As propriedades ansiolíticas dos benzodiaze­
pínicos, como o lorazepam, os tornam os fármacos de escolha no
tratamento da ansiedade e agitação da abstinência de cocaína. O
lorazepam também tem propriedades hipnóticas. O fenobarbital
tem propriedades hipnóticas, mas as propriedades ansiolíticas são
inferiores às dos benzodiazepínicos. A cocaína poderia controlar a
agitação da abstinência, mas não é o tratamento adequado. A hidro­
xizina, um anti-histamínico, é eficaz como hipnótico e algumas vezes
é usada paratrataraansiedade, especialmentese a êmese é um dos
problemas. A fluoxetina é um antidepressivo sem efeitos imediatos
na ansiedade.
A. Fenobarbital
B. Lorazepam
C. Cocaína
D. Hidroxizina
E. Fluoxetina
, .
nes es1cos
1. RESUMO
A anestesia geral é um estado de depressão reversível do sistema nervoso
central (SNC) que resulta em perda da resposta e da percepção aos estí­
mulos externos. Cinco vantagens para os pacientes submetidos à cirurgia e
outros procedimentos médicos com anestesia:
• Sedação e diminuição da ansiedade.
• Perda da consciência e amnésia.
• Relaxamento da musculatura esquelética.
• Supressão dos reflexos indesejados.
• Analgesia.
Como nenhum fármaco apenas provoca todos os efeitos desejados, várias
classes de fármacos são utilizadas em combinação para produzir uma anes­
tesia ótima (Figura 1 1 .1). A medicação pré-anestésica serve para acalmar o
paciente, aliviar a dor e proteger contra os efeitos indesejados dos anesté­
sicos administrado na sequência ou no próprio procedimento cirúrgico. Os
relaxantes musculares esqueléticos facilitam a entubação da traqueia e su­
primem o tônus muscular até o grau necessário para a cirurgia. Anestésicos
gerais potentes são administrados por inalação e/ou por injeção intravenosa
(IV). Com exceção do óxido nitroso, os analgésicos inalados modernos são
hidrocarbonetos halogenados voláteis. Os anestésicos gerais IV consistem
em inúmeros fármacos quimicamente não relacionados, usados comumente
para a indução rápida da anestesia.
li. FATORES DO PACIENTE QUE INFLUENCIAM A
SELEÇÃO DA ANESTESIA
Durante o planejamento pré-operatório, são selecionados fármacos que for­
necerão um regime anestésico seguro e eficiente com base na natureza do
procedimento cirúrgico ou diagnóstico e no estado fisiológico, patológico e
farmacológico do paciente.
MEDICAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA
Antiácidos
Anticollnérgicos
Antiemétlcos
Anti-histamínicos
Benzodiazepínicos
Opioides
. ANESTÉSICOS GERAIS INALATÓRIOS
Desflurano
Halotano
/soflursno
Óxido nitroso
Sevoflurano
ANESTÉSICOS GERAIS INTRAVENOSOS
Barbitúricos
Benzodiazepínicos
Dexmedetomldlna
Etomldato
Cetamlna
Oploldes
Propofol
BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES
(VER CAPITULO5)
Ci
satracúrio, pancurónlo, rocurónlo,
succinilcollna, vecurónlo
ANESTÉSICOS LOCAIS: AMIDAS
Buplvacafna
Lldocafna
Meplvacafna
Roplvacafna
ANESTÉSICOS LOCAIS: ÉSTERES
Figura 1 1.1
C/oroprocafna
Procafna
Tetracarna
Resumo de fármacos comumente usa­
dos para anestesia.VerCapítulo 5 para
o resumo dos fármacos bloqueadores
neuromusculares.
134 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Algumas funções dos
adjuvantes na anestesia
Diminuição
da ansiedade
(Benzodiazepínicos)
Prevenção da
secreção gástrica
(Bloqueadores H2)
Evitar reações alérgicas
(Anti-histamínicos)
Evitar a aspiração do
conteúdo estomacal e
náuseas e êmese no
período pós-operatório
(Antieméticos)
Prover analgesia
(Opioides)
Evitar a bradicardia e a
secreção de líquidos
no trato respiratório
(Fármacos anticolinérgicos)
Facilitar a entubação e
o relaxamento
(Bloqueadores neuromusculares)
Figura 1 1 .2
Componentes da anestesia balanceada.
A. Situação dos sistemas orgânicos
1 . Sistema cardiovascular. Os anestésicos suprimem em graus va­
riados a função cardiovascular. Podem ocorrer lesões isquêmicas
nos tecidos por todo o organismo em consequência da redução da
pressão de perfusão se ocorrem episódios de hipotensão durante a
anestesia. O tratamento com fármacos vasoativos pode ser neces­
sário. Alguns anestésicos, como o halotano, podem sensibilizar o
coração aos efeitos arritmogênicos dos simpaticomiméticos.
2. Sistema respiratório. A condição do sistema respiratório do pa­
ciente deve ser considerada para todos os anestésicos. Por exem­
plo, asma ou anormalidades de ventilação ou perfusão complicam
o controle na inalação do anestésico. Os anestésicos inalatórios de­
primem o sistema respiratório e atuam como broncodilatadores. Os
anestésicos IV e os opioides deprimem a respiração. Esses efeitos
na função pulmonar podem influenciar a ventilação e a oxigenação
adequadas durante a cirurgia e no pós-operatório.
3. Fígado e rins. Como o fígado e os rins influenciam a distribuição e
a eliminação em longo prazo dos fármacos anestésicos e também
podem ser alvo de efeitostóxicos, o estado fisiológico desses órgãos
deve ser considerado. A liberação de fluoreto, brometo e outros pro­
dutos metabólicos dos hidrocarbonetos halogenados podem afetar
esses órgãos, especialmente se os metabólitos se acumulam com a
administração repetida de anestésico ao longo de um curto período.
4. Sistema nervoso. A existência de distúrbios neurológicos (p. ex.,
epilepsia, miastenia grave, doença neuromuscular e comprometi­
mento da circulação cerebral) influencia a seleção do anestésico,
assim como o fato de o paciente apresentar história sugestiva de
sensibilidade à hipertermia maligna (ver p. 141).
5. Gravidez. Precauções especiais devem ser tomadas quando anes­
tésicos e fármacos adjuvantes forem administrados a umagestante.
No início da gestação, a principal preocupação é com os possíveis
efeitos na organogênese fetal. Foi relatado que o uso temporário de
óxido nitroso causa anemia aplástica no feto. Palato aberto ocorreu
em fetos de mulheres que receberam benzodiazepínicos no início
da gestação. Os benzodiazepínicos não devem ser utilizados roti­
neiramente durante o trabalho de parto, pois resulta em hipotensão
temporária e altera a termorregulação do recém-nascido.
B. Uso simultâneo de fármacos
1 . Fármacos adjuvantes múltiplos. Comumente, os pacientes ci­
rúrgicos recebem um ou mais dos seguintes pré-anestésicos: blo­
queadores H2, como a famotidina ou ranitidina, para reduzir a acidez
gástrica; benzodiazepínicos, como midazolam ou diazepam, para
diminuir a ansiedade e facilitar a amnésia, opioides, como a fentani­
/a, para analgesia; anti-histamínicos, como difenidramina, para evitar
reações alérgicas, antieméticos, como ondansetrona, para prevenir
náuseas e a possível aspiração do conteúdo estomacal, e/ou antico­
linérgicos, como o glicopirrolato, para evitar a bradicardia e a secre­
ção de líquidos no trato respiratório (Figura 1 1 .2). Esses fármacos
facilitam a indução suave da anestesia e, quando administrados jun­
tos, também reduzem a dose de anestésico necessária para manter
o nível desejado de anestesia cirúrgica. No entanto, essa administra­
ção simultâneatambém pode acentuarefeitos anestésicos indesejá­
veis (p. ex., hipoventilação) e provocarefeitos negativos que não são
observados quando cada fármaco é administrado individualmente.
2. Uso simultâneo de fármacos não anestésicos adicionais. Os
pacientes cirúrgicos podem estar cronicamente expostos a fárma­
cos para o tratamento de doença associada, bem como a drogas
de abuso que alteram a resposta aos anestésicos. Por exemplo, os
alcoólatras apresentam elevados índices de enzimas microssômi­
cas hepáticas envolvidas na biotransformação dos anestésicos, e
os adietas podem apresentar tolerância elevada aos opioides.
Ili. ESTÁGIOS E PROFUNDIDADE DA ANESTESIA
A anestesia geral pode ser dividida em três estágios: indução, manutenção
e recuperação. A indução é definida como o período que inicia com a admi­
nistração do anestésico potente e segue até o desenvolvimento da efetiva
anestesia cirúrgica no paciente. A manutenção assegura a continuidade da
anestesia cirúrgica. A recuperação é o tempo desde que a administração do
anestésico é suspensa até a recuperação da consciência e dos reflexos pro­
tetores fisiológicos. A indução da anestesia depende da velocidade com que
concentrações eficazes do anestésico alcançam o cérebro, ao passo que a
recuperação é essencialmente o inverso da indução e depende davelocidade
com a qual o anestésico se difunde no cérebro. A profundidade da anestesia
é a intensidade de depressão do SNC e é uma variável útil para individualizar
a anestesia.
A. Indução
A anestesia geral em adultos normalmente é induzida por um anesté­
sico IV como o propofo/, que produz inconsciência em um período de
30-40 segundos após a injeção. Nesse período, outros fármacos adicio­
nais inalatórios e/ou IV que incluem a combinação anestésica seleciona­
da podem ser administrados para produzir a profundidade desejada de
anestesia cirúrgica (Estágio Ili, ver adiante). (Nota: geralmente isso inclui
a administração simultânea de relaxante muscular esquelético porvia IV,
como rocurônio, vecurônio ou succinilcoli
na, parafacilitara entubação e o
relaxamento muscular.) Em crianças, quando não há acesso IV, é usada
indução por inalação com fármacos não pungentes, como halotano ou
sevoflurano, para induzira anestesia geral.
B. Manutenção
A manutenção é o período durante o qual o paciente está cirurgicamente
anestesiado. Após administrar a combinação anestésica selecionada, os
sinais vitais do paciente e sua resposta a variados estímulos são moni­
torados continuamente durante todo o procedimento cirúrgico para equi­
librar cuidadosamente a quantidade de fármaco inalado e/ou infundido
à profundidade da anestesia. Normalmente, a anestesia é mantida pela
administração de anestésicos voláteis que oferecem um bom controle da
profundidade da anestesia. Frequentemente, opioides como a fentanila
são utilizados para o controle da dorjuntamente com os anestésicos ina­
latórios, pois esses não são bons analgésicos. A infusão IV de vários
fármacos também pode ser usada durante a fase de manutenção.
C. Recuperação
No pós-operatório, a misturaanestésica é suspensa, e o paciente monito­
rado quanto ao retorno à consciência. Para a maioria dos anestésicos, a
recuperação é o inverso da indução; isto é, a redistribuição desde o local
de ação (e não sua biotransformação) é responsável pela recuperação.
Se o relaxante muscular esquelético não foi totalmente biotransformado,
pode ser usado um fármaco que o reverta. O anestesiologista continua
Farmacologia Ilustrada 135
1
Analgesia
li
Excitação
Ili
Anestesia
cirúrgica
IV
Paralisia
bulbar e
morte
Figura 1 1 .3
v=�
Estágios da anestesia. S.C. = sala de
. .
c1rurg1a.
136 Clark, Finkel, Rey & Whalen
a monitorar o paciente para ter certeza de que ele está totalmente recu­
perado e com as funções fisiológicas normais (p. ex., respiração espon­
tânea, pressão arterial e frequência cardíaca aceitáveis e reflexos intac­
tos, etc.). Os pacientes são observados quanto a reações tóxicas tardias,
como depressão respiratória pelos opioides administrados para controle
pós-operatório da dor.
D. Profundidade
A profundidade da anestesia tradicionalmente é dividida em quatro está­
gios sequenciais. Cada estágio é caracterizado pelo aumento da depres­
são do SNC, causada pelo acúmulo do anestésico no cérebro (Figura
1 1 .3). (Nota: esses estágios foram diferenciados e definidos com o anes­
tésico original éter, que produz um início de ação lento da anestesia. Com
os anestésicos modernos comumente utilizados, os estágios são difíceis
de serem caracterizados claramente devido ao início de ação rápido da
anestesia cirúrgica.)
1 . Estágio 1 - Analgesia. A perda da sensação de dor resulta da in­
terferência na transmissão sensorial no trato espinotalâmico. O pa­
ciente passa da consciência e capacidade de conversar para a so­
nolência. A amnésia e uma redução da consciência da dor ocorrem
à medida que se aproxima o Estágio 11.
2. Estágio li - Excitação. O paciente vivencia delírio e possivelmente
comportamento combativo. Há aumento e irregularidade na pressão
arterial e na respiração, com risco de laringoespasmo. Para diminuir
ou eliminar esse estágio da anestesia, é administrado um fármaco
de ação rápida, como o propofol, por via IV, antes de iniciar o anes­
tésico inalatório.
3. Estágio Ili - Anestesia cirúrgica. Há perda gradual do tônus mus­
cular e dos reflexos conforme o SNC é deprimido. Nesse estágio,
ocorrem respiração regular e relaxamento dos músculos esquelé­
ticos com eventual perda dos movimentos espontâneos. Esse é o
,
estágio ideal de anestesia para a cirurgia. E necessária a monito-
ração contínua cuidadosa para evitar o avanço indesejado para o
estágio IV.
4. Estágio IV- Paralisia bulbar. Durante esse estágio, ocorre depres­
são acentuada dos centros respiratórios e vasomotores. A morte
pode ocorrer rapidamente, a não ser que sejam tomadas medidas
para manter a circulação e a respiração.
IV. ANESTÉSICOS INALATÓRIOS
A inalação de gases é a base da anestesia, sendo utilizada primariamen­
te para a manutenção da anestesia após a administração de um fármaco
IV. Nenhum anestésico único é superior aos demais, em todas as situações.
Uma vantagem dos anestésicos inalatórios é que a profundidade da aneste­
sia pode ser rapidamente alterada se mudando a concentração inalada do
fármaco. Os anestésicos gerais inalatórios têm curvas dose-resposta muito
íngremes. Além disso, têm um índice terapêutico muito baixo (geralmente de
2 a 4), de modo que a diferença na concentração do fármaco que causa efei­
to nulo, anestesia cirúrgica e depressão cardíaca e respiratória acentuada é
pequena. Não existem antagonistas. Para minimizar o desperdício e diminuir
o custo, os anestésicos inalatórios potentes são oferecidos em sistemas de
recirculação contendo absorventes que removem o dióxido de carbono e per­
mitem a re-respiração do anestésico.
A. Características comuns dos anestésicos inalatórios
Os anestésicos inalatórios modernos são fármacos não inflamáveis e não
explosivos que incluem o óxido nitroso, bem como um grande número de
hidrocarbonetos halogenados voláteis. Como grupo, esses fármacos dimi­
nuem a resistência cerebrovascular, resultando em aumento da perfusão
do cérebro. Eles também causam broncodilatação e diminuem o volume­
-minuto (volume de ar que se move para dentro ou para fora dos pulmões
por unidade de tempo) e a vasoconstrição pulmonar hipóxica (aumento da
resistênciavascularpulmonarem regiões malventiladas dos pulmões, o que
permite o direcionamento do fluxo sanguíneo pulmonar para regiões com
maior teor de oxigênio). O movimento desses fármacos desde os pulmões
até os diferentescompartimentos corporais depende de sua solubilidade no
sangue e nos tecidos, bem como no fluxo sanguíneo. Esses fatores desem­
penham importante papel não só na indução, mastambém na recuperação.
B. Potência
A potência dos anestésicos inalatórios édefinidaquantitativamente como a
concentraçãoalveolar mínima (CAM). Essa é a concentração do gás anes­
tésico no ar expirado, necessária para eliminar o movimento em 50°
/
o dos
pacientes submetidos a uma incisão cutânea padronizada. (Nota: a CAM
é a dose eficaz média [DE50] do anestésico.) A CAM normalmente é ex­
pressa como a porcentagem de gás na mistura necessária para alcançar
o efeito. Numericamente, a CAM é pequena para os anestésicos potentes,
como o sevoflurano, e grande para os menos potentes, como o óxido nitro­
so (N02). Assim, o inverso da CAM é um índice de potência do anestésico.
Osvalores da CAM são úteis na comparação de efeitos farmacológicos de
diferentesanestésicos, porque um CAM alto é igual à baixa potência (Figu­
ra 1 1 .4). Note que só o óxido nitroso não consegue produzir umaanestesia
completa, pois a mistura com oxigênio suficiente não consegue alcançar
seu valor CAM. Quanto mais lipossolúvel é o anestésico, menor é a con­
centração necessária para produzir anestesia e, assim, maior é a potência
do anestésico. Fatores que podem aumentar a CAM (e tornar o paciente
menos sensível) incluem hipertermia (acima de 42°C), fármacos que au­
mentam as catecolaminas no SNC e abuso crônico de etanol. Fatores que
podem reduzir a CAM (e tornar o paciente mais sensível) incluem aumen­
to da idade, hipotermia, gestação, sepse, intoxicação aguda com etanol,
administração concomitante de anestésicos IV e agonistas de receptores
a2-adrenérgicos (como a clonidina e a dexmedetomidi
na).
C. Absorção e distribuição dos anestésicos inalatórios
O principal objetivo da anestesia por inalação é obter uma pressão parcial
cerebral (Pcr) constante e ótima do anestésico inalado (pressão parcial
de equilíbrio entre os alvéolos [PA] e o cérebro [Pcrl). Assim, os alvéolos
são "ajanela para o cérebro"dos anestésicos inalados. A pressão parcial
de um gás anestésico na origem da via respiratória é a força que leva o
anestésico para o interiordo espaço alveolar e dali para o sangue, o qual
transporta o fármaco para o cérebro e paravários outros compartimentos
do organismo. Como os gases se movem de um compartimento para o
outro de acordo com os gradientes de pressão parcial, o equilíbrio é al­
cançado quando a pressão parcial em cada um desses compartimentos
é equivalente àquela da mistura inalada. (Nota: no equilíbrio, a pressão
parcial alveolar= pressão parcial arterial = pressão parcial cerebral, ou PA
= Pª = Per·) O tempo necessário para se alcançar esse estado de equilí­
brio é determinado pelos seguintes fatores:
1. Saturação alveolar (wash-in). Esse termo se refere à substituição
dos gases pulmonares normais pela mistura anestésica inalada. O
tempo necessário para esse processo é diretamente proporcional
Farmacologia Ilustrada 137
Halotano
Sevoflurano 2º/o
Desflurano
Óxido
nitroso
o 2 4
CAM
6
 1 t
'
100
Porcentagemdegásanestésico
Figura 11.4
Concentrações alveolares mínimas
(CAM) dos gases anestésicos.
138 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Maissolúvel
nosangue
Halo­
tano
lso­
flurano
Sevo­
f/urano Óxido Des­
,........
__ nitroso f/urano
Coeficientedepartição
sangue/gás
Figura 11.5
Coeficientes de partição sangue/gás
de alguns anestésicos inalatórios.
à capacidade residual funcional do pulmão (o volume de gás rema­
nescente nos pulmões nofinal da expiração normal) e inversamente
proporcional à taxa ventilatória. Ele é independente das proprieda­
des físicas do gás.À medida que a pressão parcial se estabelece no
interior do pulmão, inicia-se a transferência do anestésico.
2. Captação do anestésico. A captação do anestésico é produto da
solubilidade do gás no sangue, do débito cardíaco e do gradiente
anestésico entre a pressão parcial alveolar e no sangue.
a. Solubilidade no sangue. A solubilidade é determinada por uma
propriedade física da molécula anestésica denominada coefi­
ciente de partição sangue/gás, que é a relação da concentração
do anestésico no sangue com a concentração do anestésico no
gás quando o anestésico está em equilíbrio entre os dois com­
partimentos (Figura 1 1 .5). Paraanestésicos inalatórios considere
o sangue como um reservatório farmacologicamente inativo. Fár­
macos com baixa ou alta solubilidade no sangue diferem na ve­
locidade com que induzem a anestesia. Porexemplo, quando um
gás anestésico com baixa solubilidade sanguínea, como o óxido
nitroso, difunde-se do alvéolo para a circulação, pouca quantida­
de do anestésico é dissolvida no sangue. Assim, o equilíbrio en­
tre o anestésico inalado e o sangue arterial ocorre rapidamente,
e relativamente poucas moléculas adicionais de anestésico são
necessárias para aumentar a pressão parcial anestésica arterial;
dessaforma, o estadode equilíbrio é rapidamente alcançado.As­
sim, fármacos com baixa solubilidade no sangue rapidamente o
saturam. Em contraste, um gás anestésico com alta solubilidade
sanguínea, como o halotano, dissolve-se mais no sangue, sen­
do necessárias grandes quantidades de anestésico e um tempo
mais longo para que a pressão parcial sanguínea se eleve. Isso
resulta em tempo de indução e de recuperação mais longos e
menos alterações na profundidade da anestesia em resposta a
alterações na concentração do fármaco inalado. A solubilidade
no sangue obedece à seguinte sequência: halotano > isoflurano
> sevoflurano > óxido nitroso > desf/urano.
b. Capacidade cardíaca. Odébito cardíaco (DC) afeta a remoçãodo
anestésiconostecidos periféricosque nãosãooseu local de ação.
Para os anestésicos inalatórios, DC elevados removem oanestési­
co dos alvéolos mais rapidamente (devido ao alto fluxo de sangue
através dos pulmões) e assim reduzem a velocidade de aumento
da concentração alveolar do gás. Em consequência, demora mais
para o gás alcançar o equilíbrio entre o alvéolo e o local de ação
no cérebro. Assim, para anestésicos inalados, DC altos = indução
mais lenta. Outra vez, lembre-se de que o sangue é um reservató­
rio farmacologicamente inativo para os anestésicos inalados. Um
DC baixo (choque) aceleraavelocidade de aumento daconcentra­
ção alveolardo gás, pois há menorcaptação (remoção para oste­
cidos periféricos) se opondo ao aumento. (Nota: para anestésicos
IV, ver p. 144 para uma explicação dos efeitos do DC.)
c. Gradiente de pressão parcial do anestésico de alveolar para
venoso. Essa é a força motriz da distribuição anestésica. Para to­
dos os propósitos práticos, apressão parcial do anestésico nos ca­
pilares terminais alveolares pode ser considerada igual à pressão
parcial alveolar do anestésico, se o paciente não apresenta uma
doença grave de difusão pulmonar. A circulação arterial distribui o
anestésico paravários tecidos, eo gradiente de pressão direciona
'
o gás anestésico livre para o interior dos tecidos. A medida que a
circulaçãovenosa retorna o sangue depletado de anestésico para
o pulmão, mais gás se move do pulmão para o sangue de acor­
do com a diferença de pressão parcial. Quanto maior a diferença
na concentração anestésica entre o sangue alveolar (arterial) e
o venoso, maior a captação e mais lenta a indução. Com passar
do tempo, a pressão parcial no sangue venoso se aproxima da
pressão parcial na mistura inspirada, ou seja, não ocorre mais ab­
sorção adicional de anestésico no pulmão.
3. Efeito de diferentes tipos de tecido na distribuição do anesté­
sico. O tempo necessário para um determinado tecido alcançar um
estado de equilíbrio com a pressão parcial de um gás anestésico na
mistura inspirada é inversamente proporcional ao fluxo sanguíneo
para aquele tecido (isto é, um fluxo mais rápido resulta em maior
rapidez em alcançar o estado de equilíbrio). Ele também é direta­
mente proporcional à capacidade do tecido de acumular o anesté­
sico (isto é, uma maior capacidade resulta na necessidade de mais
tempo para que seja alcançado o estado de equilíbrio). A capaci­
dade, por sua vez, é diretamente proporcional ao volume do tecido
e ao coeficiente de solubilidade no tecido/sangue das moléculas do
anestésico. Quatro compartimentosteciduais principais determinam
o tempo de captação do anestésico.
a. Cérebro, coração, fígado, rins e glândulas endócrinas. Es­
ses tecidos altamente irrigados alcançam rapidamente um esta­
do de equilíbrio com a pressão parcial do anestésico no sangue.
b. Músculos esqueléticos. Essestecidos são pouco irrigados du­
rante a anestesia. Isso e o fato de possuírem um grande volume
prolongam o tempo necessário para alcançar o estado de equi-
1íbrio.
c. Gordura. Esse tecido também é pouco irrigado. No entanto,
anestésicos gerais voláteis potentes são muito lipossolúveis.
Assim, a gordura apresenta uma grande capacidade de arma­
zenar anestésico. Essa combinação de chegada lenta com um
compartimento de grande capacidade prolonga o tempo neces­
sário para alcançar o estado de equilíbrio naquele tecido.
d. Ossos, ligamentos e cartilagens. Esses são tecidos pouco
vascularizados e apresentam uma capacidade relativamente
baixa para armazenar anestésicos. Dessa forma, eles desem­
penham um pequeno papel no tempo de distribuição do anesté-
. .
s1co no organismo.
4. Remoção (wash-out). Quando a administração de um anestésico
inalatório é interrompida, o organismo se torna a "origem" do anes­
tésico que vai para o espaço alveolar. Os mesmos fatores que in­
fluenciam a obtenção de um estado de equilíbrio com o anestésico
inspirado determinam o tempo necessário para a sua eliminação
do organismo. Assim, o óxido nitroso sai do organismo mais rapida­
mente do que o halotano (Figura 1 1 .6).
D. Mecanismo de ação
Não foi identificado nenhum receptor específico como o local de ação do
anestésico geral. Sem dúvida, ofato de fármacos não relacionados quimi­
camente produzirem o estado anestésico argumenta contra a existência
de tal receptor. O foco atual são as interações dos anestésicos inalatórios
com as proteínas que integram os canais iônicos. Por exemplo, o anesté­
sico geral aumenta a sensibilidade dos receptores de GABAA ao neuro-
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Farmacologia Ilustrada 139
Indução
Óxido nitroso
Oesflurano
Sevoflurano
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Halot.ano
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Minutos
Recuperação
Halot.ano
lsoflurano
Sevoflurano
Óxido nitroso Oesflurano
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o 10 20 30
Minutos
Figura 11.6
Alterações nas concentrações de al­
guns anestésicos inalatórios no sangue
alveolar ao longo do tempo.
140 Clark, Finkel, Rey & Whalen
a Sem anestésico
o
GABA
+ +
Aligação do GABAcausa
abertura do canal de íons
cloreto, levando à
hiperpolarização da célula.
.-1 + +
/
' 1
y· - -
c1+
ft Na presença de anestésico
lill inalatório
Aligação do GABAé
aumentada pelo anestésico
inalatório, resultando em
maior entrada de íons cloreto.
�
�-
GABA
+ + + + + +
Aentrada de CI- hiperpolariza
a célula, tornando mais difícil
a despolarização e, assim,
reduzindo a excitabilidade neural.
Figura 1 1 .7
Exemplo de modulação em um canal
de membrana estimulado por ligante
modulado por anestésicos inalatórios.
GABA = ácido -y-aminobutírico; CI- =
íons cloreto.
transmissor GABA em concentrações clinicamente eficazes do fármaco.
Isso causa um prolongamento da corrente inibitória de íons cloreto após
um pulso de liberação de GABA, diminuindo, assim, a excitabilidade neu­
ronal pós-sináptica (Figura 1 1 .7). Outros receptores também são afetados
pelos anestésicos voláteis. Por exemplo, a atividade dos receptores inibi­
tórios de glicina nos neurônios motores da medula espinal aumenta. Além
disso, os anestésicos inalatórios bloqueiam a corrente pós-sináptica exci­
tatória dos receptores nicotínicos. O mecanismo pelo qual os anestésicos
realizam essas funções moduladoras ainda não foi explicado.
E. Halotano
Esse fármaco é o protótipo com o qual os novos anestésicos inalatórios
têm sido comparados. Quando o halotano foi introduzido, sua capacidade
de induzir rapidamente o estado anestésico e permitir rápida recuperação
-e o fato de não ser explosivo-tornaram-no o anestésico de primeira es­
colha. No entanto, com o reconhecimento dos efeitos adversos discutidos
a seguir e a disponibilidade de outros anestésicos que causam menos
complicações, o halotanofoi amplamentesubstituído nos Estados Unidos.
1. Usos terapêuticos. O halotano é um anestésico potente, mas é um
analgésico relativamente fraco. Assim, normalmente ele é coadminis-
,
trado com óxido nitroso, opioides ou anestésicos locais. E um potente
broncodilatador. O halotano relaxa os músculos esqueléticos e uterino
e pode serutilizado em obstetríciaquando há indicaçãode relaxamen­
to uterino. Ele não é hepatotóxico em pacientes pediátricos (apesar
do efeito potencial em adultos, vera seguir), fato que, combinado com
seu odor agradável, o torna uma boa escolha para indução inalatória
em crianças, embora o sevof/urano seja atualmente o fármaco de es­
colha para a indução inalatória, se o custo nãofor um fator limitante.
2. Farmacocinética. O halotano é biotransformado por oxidação em
hidrocarbonetos tóxicos aos tecidos (por exemplo, trifluoretanol) e
íon brometo. Essas substâncias podem ser responsáveis pela rea­
ção de toxicidade que alguns pacientes (especialmente mulheres)
desenvolvem após a anestesia com esse fármaco. Essa reação
inicia com febre, seguida de anorexia, náusea e êmese, e o pa­
ciente pode demonstrar sinais de hepatite. (Nota: embora a incidên­
cia dessa reação seja baixa - aproximadamente de 1 em 10.000
indivíduos -, 50°
/
o dos pacientes atingidos podem morrer por necro­
se hepática. Para evitar essa condição, a anestesia com halotano
não é repetida em intervalos menores do que 2 a 3 semanas. Foi
descrito que todos os anestésicos inalatórios halogenados causam
hepatite, mas em uma incidência muito menordo que com halotano.
Por exemplo, o isof/uranotem uma incidência de 1 :500.000.)
3. Efeitos adversos
a. Efeitos cardíacos. Como outros hidrocarbonetos halogenados,
o halotano é vagomimético e causa bradicardia atropina-sen­
sível. Além disso, ele apresenta a propriedade indesejável de
causar arritmias cardíacas. (Nota: isso é especialmente grave
quando se desenvolve hipercapnia [aumento na pressão par­
cial arterial de dióxido de carbono] devido à diminuição da ven­
tilação alveolar ou ao aumento da concentração plasmática de
catecolaminas.) O halotano, como outros anestésicos haloge­
nados, produz hipotensão concentração-dependente. Se houver
necessidade de combater um episódio de hipotensão excessiva
durante a anestesia com halotano, é recomendado utilizar um
vasoconstritor de ação direta, como a fenilefrina.
b. Hipertermia maligna (HM). Em uma pequena porcentagem de
pacientes suscetíveis, a exposição a qualquer dos anestésicos hi­
drocarbonetos halogenados, bem como o bloqueador neuromus­
cular succinilcolina, têm potencial para induzir HM, uma condição
ameaçadora à sobrevivência. Nos indivíduos suscetíveis, esses
fármacos podem induzir um aumento drástico e descontrolado no
metabolismo oxidativo dos músculos esqueléticos, o que supera a
capacidade corporal de supriroxigênio, removerdióxido de carbo­
noe regularatemperatura corporal, eventualmente levandoaoco­
lapso circulatório e à morte se não for combatido imediatamente.
Investigações recentes identificaram um grande aumento da con­
centração de íons cálcio no mioplasma. Fortes evidências indicam
que a HM é devidaa um defeito no acoplamento excitação-contra­
ção. Vítimas de queimaduras e indivíduos portadores da distrofia
muscularde Duchenne, de miotonia, de osteogênese imperfeita e
dadoençado núcleo central são suscetíveis à HM.Asuscetibilida­
de à HM em geral é um distúrbio hereditário como um autossoma
dominante. Quando um paciente demonstra os sintomas caracte­
rísticos de HM, administra-se dantroleno à medida que a mistura
anestésica é retirada. Portanto, o dantrolenodeve estardisponível
sempre para ser usado em uma emergência. O paciente deve ser
monitorado cuidadosamente e receber apoio para os problemas
respiratórios, circulatóriose renais. O uso de dantrolenoe o ato de
evitaros agentes causadores (p. ex., os anestésicos voláteis halo­
genados e a succinilcolina) nos indivíduos suscetíveis reduziram
acentuadamente a mortalidade desta condição.
F. lsoflurano
Esse anestésico halogenado tem sido amplamente utilizado nos Estados
Unidos. Ele é uma molécula muito estável que sofre pouca biotransforma­
çãoe por isso não é hepatoou nefrotóxica. O isoflurano não induz arritmias
cardíacas e nãosensibiliza ocoração àação das catecolaminas. No entan­
to, como outros gases halogenados, provoca hipotensão concentração-de­
pendente devido àvasodilatação periférica. O isofluranotem odor pungen­
te e estimula os reflexos respiratórios (p. ex., apneia voluntária, salivação,
tosse e laringoespasmo) e, por isso, não é usado para a indução por ina­
lação. Com solubilidade sanguínea maior do que o desflurano e o sevof/u­
rano, o isoflurano é usado somente quando o custo é um fator limitante.
G. Desflurano
O desflurano promove início e recuperação anestésica muito rápidas devi­
do àsua baixa solubilidade no sangue, que é a menorentre os anestésicos
voláteis. A rapidez com a qual o desfluranocausa anestesia e recuperação
o tornou um anestésico bastante popular nas cirurgias ambulatoriais. En­
tretanto, ele apresenta baixa volatilidade e, assim, deve ser administrado
utilizando-se um vaporizador aquecido especial. Como o isoflurano, ele di­
minui a resistência vascular e irriga muito bem os principais tecidos. Por
ser irritante às vias aéreas e poder causar laringoespasmo, tosse e secre­
ções excessivas, o desflurano não é utilizado em induções por inalação.
Como é relativamente caro, não é usado para manter anestesias de longa
duração. Sua degradação é mínima, e, assim, a toxicidade tissularé rara.
H. Sevoflurano
O sevoflurano apresenta uma baixa pungência, permitindo rápida indu­
ção sem irritaras vias aéreas; assim, é possível o seu uso na indução por
inalação em pacientes pediátricos. Para esse propósito, ele está substi­
tuindo o halotano. O fármaco tem início e recuperação rápidos devido à
Farmacologia Ilustrada 141
142 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Arritmias
Voopamina
+
Norepinefrina
+
Epinefrina
Sensibilidade
àscatecolaminas
1
y
Débitocardíaco
V
Halotano lsoflurano Desflurano Sevoflurano
Aumentam
Aumentam
Diminui Diminuimenosdo
quecomhalotano Diminuimenosdo
quecomhalotano Diminuimenosdo
quecomhalotano
Pressãoarterial
Diminuideacordo
comadosagem Diminuideacordo
comadosagem Diminuideacordo
comadosagem Diminuideacordo
comadosagem
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Reflexos
respiratórios
Toxicidade
hepática
V
Figura 1 1 .8
Toxicidade
renal
Inibidos
Algumrisco
Baixorisco
Características de alguns anestésicos inalatórios.
Estimulação
inicial
Baixorisco
Baixorisco
Estimulação
inicial
Baixorisco
Baixorisco
Inibidos
Baixorisco
Algumrisco
baixa solubilidade no sangue. O sevofluranoé biotransformado nofígado,
e os compostos formados no circuito anestésico podem ser nefrotóxicos
se o fluxo de ar fresco é muito baixo.
1. Óxido nitroso
Óxido nitroso ("gás hilariante") é não irritante e analgésico potente, mas
um anestésico geral fraco. Porexemplo, com frequência, ele é empregado
em concentrações de 30-50°
/
o em combinação com oxigênio para anal­
gesia, particularmente em odontologia. No entanto, o óxido nitroso a 80°
/
o
(sem fármacos auxiliares) não produz anestesia cirúrgica. Por isso, comu­
mente é associado com outros fármacos mais potentes para obtenção de
anestesia indolor. O óxido nitroso é pouco solúvel no sangue e em outros
tecidos, fato que permite que ele se mova rapidamente para dentro e para
fora do organismo. (Nota: como o óxido nitroso é rapidamente captado do
gás alveolar, pode concentrar os anestésicos halogenados nos alvéolos
quando são administrados simultaneamente. Esse fenômeno é conhecido
como "efeito do segundo gás".) No interior de compartimentos fechados
do organismo, o óxido nitroso pode aumentar o volume (p. ex., causando
pneumotórax) ou aumentara pressão (p. ex., nas cavidades sinusais), isso
porque ele substitui o nitrogênio nos vários espaços aéreos mais rapida­
mente do que o nitrogênio os abandona. Além disso, sua velocidade de
movimentação lhe permite retardar a absorção de oxigênio durante a re­
cuperação, causando "hipoxia de difusão", a qual pode ser superada com
a administração de concentrações significativas de oxigênio durante a re­
cuperação. Esse anestésico não deprime a respiração, nem produz rela­
xamento muscular. Nas circunstâncias habituais de coadministração com
outros anestésicos, ele apresenta efeito de moderado a nulo sobre o siste­
ma cardiovascular ou sobre o aumento do fluxo sanguíneo cerebral, sendo
o menos hepatotóxico dos anestésicos inalatórios. Assim, provavelmente,
o óxido nitroso é o mais seguro dos anestésicos, desde que ele seja ad­
ministrado com pelo menos 20°
/
o de oxigênio simultaneamente. Algumas
características dos anestésicos inalatórios são resumidas na Figura 1 1 .8.
V. ANESTÉSICOS INTRAVENOSOS
Os anestésicos IV causam rápida indução da anestesia. Com frequência, isto
é descrito como acontecendo dentro do "tempo de circulação braço-cérebro",
ou o tempo que o fármaco gasta para ir do local de injeção (geralmente o
braço) até o cérebro, onde tem seu efeito. A anestesia é, então, mantida com
emprego de um fármaco inalatório apropriado. Os anestésicos IV podem ser
usados como agentes únicos para procedimentos curtos ou administrados
como infusão para auxiliar a manutenção da anestesia durante procedimen­
tos longos. Em dosagens baixas, podem ser usados para prover sedação.
A. Indução
Após entrar na circulação, parte do fármaco se liga às proteínas plasmáti­
cas, e o restante permanece sem ligação, ou "livre''. O grau de ligação às
proteínas depende das características físicas de cadafármaco, como o grau
de ionização ea lipossolubilidade.Ofármacoétransportadopelosangueve­
noso para o lado direito docoração, segue atravésda circulação pulmonare
via o ladoesquerdo docoração para acirculaçãosistêmica.A maiorparte do
debito cardíaco (70°
/
o) circula pelo cérebro, fígado e rins ("órgãos ricos em
vasos"). Assim, uma alta proporção do bolus de fármaco inicial é entregue
à circulação cerebral e então passa do sangue para o cérebro, de acordo
com o gradiente de concentração. A velocidade desta transferência depen­
de da concentração arterial do fármaco livre, da lipossolubilidade e do grau
de ionização do fármaco. As moléculas não ionizadas, lipossolúveis e não
Farmacologia Ilustrada 143
144 Clark, Finkel, Rey & Whalen
ligadas atravessam a barreira hematencefálica mais rapidamente. Logo que
ofármaco alcançou otecido do SNC, ele exerce seu efeito. Comoosanesté­
sicos inalatórios, o modo exato de ação dos anestésicos IV é desconhecido.
B. Recuperação
A recuperação dos anestésicos IV é devido à redistribuição a partir do
SNC. Após a inundação inicial do SNC e de outros tecidos bem vascula­
rizados com as moléculas não ionizadas, o fármaco começa a difundir-se
para outros tecidos com menor suprimento sanguíneo. Com esta cap­
tação tissular secundária, predominantemente pelos músculos esquelé­
ticos, a concentração do fármaco no plasma cai, permitindo a difusão
para fora do SNC, de acordo com o gradiente de concentração invertido.
Esta redistribuição inicial para outros tecidos leva à rápida recuperação
observada após a dose única de um fármaco indutor. A biotransformação
e a depuração plasmática só se tornam importantes após a infusão e
administrações repetidas do fármaco. O tecido adiposo pouco contribui
com a redistribuição inicial do fármaco livre após um bolus, devido à sua
escassa vascularização. Entretanto, após dosificações repetidas ou infu­
são, o equilíbrio com o tecido adiposo forma um reservatório de fármaco,
levando, com frequência, à recuperação demorada.
C. Efeito do débito cardíaco diminuído
Em circunstâncias nas quais o débito cardíaco (DC) está reduzido (p.
ex., em pacientes em choque, idosos, doença cardíaca, etc.), o orga­
nismo compensa dirigindo uma proporção maior de DC para a circula­
ção cerebral, de modo a conservar o fluxo de sangue no cérebro. Nestas
circunstâncias, uma maior proporção de qualquer fármaco vai entrar na
circulação cerebral. Como resultado, a dosagem do fármaco indutor deve
ser reduzida.Além disso, a redução no DC leva ao aumento do tempo de
circulação. Isto é, conforme o DC global é reduzido, o tempo gasto para
um fármaco indutor alcançaro cérebro e exercer seu efeito é prolongado.
A lentatitulação de uma dosagem reduzida defármaco IV é a chave para
a indução segura em pacientes com DC diminuído.
D. Propofol
O propofol é um fármaco sedativo/hipnótico IV utilizado na indução ou
manutenção da anestesia. O propofol é largamente usado e substituiu o
tiopentalcomo anestésico de primeira escolha para indução anestésica e
sedação por produzir um sentimento de euforia no paciente e não causar
náuseas e êmese no período pós-anestésico.
1 . Início. A indução da anestesia é suave e ocorre em 30 a 40 segun­
dos após a administração. Após um bolus IV, ocorre rápido equilíbrio
entre o plasma e o tecido altamente perfundido do cérebro, como
descrito. Os niveis plasmáticos diminuem rapidamente como resul­
tado da redistribuição, seguido de um período mais prolongado de
biotransformação hepática e depuração renal. A meia-vida de redis­
tribuição inicial é de 2 a 4 minutos.A farmacocinética do propofolnão
se altera por insuficiência hepática ou renal moderadas.
2. Ações. É necessária suplementação com narcóticos para analge­
sia. Embora o propofol facilite a depressão no SNC, às vezes ele
é acompanhado por fenômenos excitatórias, como fasciculações
musculares, movimentos espontâneos ou soluços. O propofol dimi­
nui a pressão arterial sem deprimir o miocárdio. Eletambém reduz a
pressão intracraniana, principalmente por vasodilatação sistêmica.
O propofol possui ação depressiva muito menor do que os anes­
tésicos voláteis sobre os potenciais evocados pelo SNC, como os
potenciais somatossensoriais evocados. Essa propriedade torna o
propofol muito útil em cirurgias como a de ressecção de tumores
espinais, nas quais os potenciais somatossensoriais evocados são
monitorados para avaliar a função da medula espinal.O propofolé
comumente infundido em dosagens baixas para obter sedação para
pacientes ambulatoriais. A incidência de náusea e êmese pós-ope­
ratória é muito baixa com o uso de propofol.
E. Fospropofol
O fospropofol é um fármaco hidrossolúvel novo, aprovado só para seda­
ção. No organismo, o fospropofolé biotransformado em propofole os seus
efeitos farmacológicos são atribuídos ao propofol (assim, o fospropofol é
um pró-fármaco do propofo�. Por isso, a concentração de propofolno san­
gue, após a administração de um bolus de fospropofo/, alcança valores
menores do que para uma dosagem equipotente de propofo/, e seu efeito
crítico é mais demorado. Como o fospropofolé hidrossolúvel, os problemas
associados com a formulação lipídica de propofol (como dor no local da
injeção IV e maior probabilidade de contaminação bacteriana) são menos
frequentes. Após a administração de fospropofo/, a perda de consciência
ocorre em 4 minutos, comparável a um tempo de circulação do propofol.
F. Barbitúricos
O tiopental é um anestésico potente, mas um analgésico fraco. Ele é um
barbitúrico de ação ultracurta com alta lipossolubilidade. Quando fármacos
como o tiopental e o metoexitalsão administrados por via IV, eles entram
rapidamente no SNC e deprimem sua função, em geral em menos de um
minuto. Entretanto, a difusão para fora do cérebro também ocorre rapida­
mente devido à redistribuição dofármaco paraoutrostecidosdo organismo,
incluindo os músculos esqueléticos e, por último, o tecido adiposo (Figura
11.9). A curta duração da ação anestésica é devida à diminuição da con­
centração de barbitúrico no cérebro para um nível inferior ao necessário
para manteraanestesia. Essesfármacos podempermanecer no organismo
por períodos relativamente longos após sua administração, já que somente
cerca de 15°
/
o da dose de barbitúricos que penetra na circulação são bio­
transformados pelo fígado a cada hora. Assim, a biotransformação do tio­
pentalé muito mais lenta do que sua redistribuição tecidual. Os barbitúricos
não possuem ação analgésica significativa e, assim, necessitam de algum
tipo de analgesia suplementar durante a anestesia para evitar alterações
indesejáveis na pressãoarterial e nasfunções autônomas. O tiopentalapre­
senta efeitos pouco significativos sobre o sistema cardiovascular, mas pode
contribuirpara hipotensão grave em pacientes hipovolêmicosou em choque.
Todos os barbitúricos podem causarapneia, tosse, espasmos da parede to­
rácica, laringoespasmoe broncoespasmo. (Nota: o último efeito adverso ne­
cessitaespecial consideraçãoem pacientesasmáticos.) Os barbitúricos são
contraindicados em pacientes portadores de partiria intermitente ou outra.
G. Benzodiazepínicos
Os benzodiazepínicos são utilizados junto com anestésicos para sedar
o paciente. O midazolam é o mais comumente empregado. São alterna­
tivos o diazepam e o lorazepam. Os três facilitam a amnésia ao mesmo
tempo em que causam sedação, aumentando os efeitos inibitórios de vá­
rios neurotransmissores, particularmente o GABA. Efeitos depressores
cardiovasculares mínimos são observados, mas todos são depressores
respiratórios potenciais (especialmente quando administrados porvia IV).
São biotransformados pelo fígado com meias-vidas de eliminação variá­
veis, e a eritromicina pode prolongar seus efeitos. Os benzodiazepínicos
podem induzir uma forma temporária de amnésia anterógrada na qual o
Farmacologia Ilustrada 145
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adiposo
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Minutos
Figura 11.9
Redistribuição do tiopental do cérebro
aos músculos e tecido adiposo.
146 Clark, Finkel, Rey & Whalen
paciente retém a memória de eventos passados, mas as novas informa­
ções não são transferidas para a memória de longa duração. Por isso, as
informações importantes do tratamento devem ser repetidas ao paciente
depois que os efeitos do fármaco desaparecem.
H. Opioides
Devido à sua propriedade analgésica, os opioides são empregados co­
mumente junto com anestésicos, como na associação com óxido nitroso
ou os anestésicos voláteis halogenados. A escolha do opioide para uso
peri-cirúrgico se baseia principalmente na duração de ação necessária.
Os opioides mais comumente empregados são a fentanila e os congêne­
res sufentanila e remifentanila, pois eles induzem a analgesia com maior
rapidez do que a morfina. Eles podem ser administrados por via IV, epi­
dural ou intratecal (no líquido cerebrospinal). Os opioides não são bons
amnésicos, e todos podem causar hipotensão, depressão respiratória e
rigidez muscular, bem como náuseas e êmese pós-anestésicos. Os efei­
tos dos opioides podem ser antagonizados pela naloxona (ver p. 178).
1. Etomidato
O etomidato é utilizado na indução da anestesia. Ele é um fármaco hip­
nótico que não possui atividade analgésica. Ele é pouco hidrossolúvel,
sendoformulado em uma solução de propilenoglicol.A indução é rápida, e
o fármaco tem ação curta. O etomidato é utilizado somente em pacientes
que apresentam doença coronariana ou disfunção cardiovascular, como
choque. O etomidato é hidrolisado no fígado. Entre suas vantagens, está
o efeito pequeno ou nulo sobre o coração e a circulação. Os efeitos adver­
sos incluem diminuição dos níveis plasmáticos de cortisol e aldosterona,
que podem persistir por até oito horas. Esse efeito é aparentemente devi­
do à inibição da 1 1-[3-hidroxilase. O etomidato não deve ser infundido por
um período longo, já que a supressão prolongada desses hormônios pode
ser perigosa. Pode ocorrer dor venosa no local de injeção, e movimentos
involuntários dos músculos esqueléticos não são incomuns. O último é
tratado com a administração de benzodiazepínicos e opioides.
J. Cetamina
A cetamina é um anestésico não barbitúrico de ação curta, que induz
um estado dissociativo, no qual o paciente fica inconsciente (mas pode
parecer acordado) e não sente dor. Essa anestesia dissociativa promove
sedação, amnésia e imobilidade. A cetamina interage com o receptor N­
-metil-D-aspartato (NMDA). Ela também estimula o efluxo simpático cen­
tral, o que, por sua vez, causa estimulação do coração com aumento da
pressão arterial e do débito cardíaco. Essa propriedade é especialmente
útil em pacientes em choque hipovolêmico ou cardiogênico, bem como
em pacientes asmáticos. Por isso, a cetamina é utilizada quando a de­
pressão circulatória não é desejável. Por outro lado, esses efeitos impe­
dem o uso da cetamina em pacientes hipertensos ou infartados. O fár­
maco é lipofílico e penetra a circulação cerebral bem rapidamente. Como
os barbitúricos, ele redistribui-se para outros órgãos e tecidos. A cetami­
na é biotransformada no fígado, mas pequenas quantidades podem ser
excretadas inalteradas. Ela é empregada principalmente em crianças e
idosos, em procedimentos de curta duração. No entanto, ela não é muito
utilizada, pois aumenta o fluxo sanguíneo cerebral e induz alucinações
pós-operatórias ("pesadelos"), particularmente em adultos.
K. Dexmedetomidina
A dexmedetomidina é uma medicação sedativa usada em unidades de
tratamento intensivo e poranestesiologistas. Ela é relativamente única em
Desvantagens terapêuticas
Figura 11.10
• Deve ser administrado com
vaporizadorespecial
• Anestesia incompleta
• Não causa relaxamento
muscular
• Deve ser usado com outros
anestésicos para se obter
anestesia cirúrgica
• Reduz o fluxo sanguíneo
hepático e renal
• Diminui a pressão arterial
• Sensibiliza o miocárdio à ação
das catecalominas
• Toxicidade hepática
• Arritmias
•
Possível toxicidade renal em
fluxos baixos
• Escassa analgesia
• Causa náuseas significativas
• Pouco relaxamento muscular
• Laringoespasmo
• Escassa analgesia
Anestésicos inalatórios
Desflurano
Óxido nitroso
Halotano
/soflurano
Sevoflurano
Anestésicos
intravenosos
Tiopental
Propofol
Dexmedetomidina
Desvantagens e vantagens terapêuticas de alguns anestésicos.
sua capacidade de provocar sedação sem causar depressão respiratória.
Como a clonidina, o mecanismo de ação é agonismo em receptores a2
em certas regiões do cérebro. A dexmedetomidi
na tem efeitos sedativos,
analgésico, simpaticolítico e ansiolítico que bloqueiam várias das respos­
tas cardiovasculares no período perioperatório. Ela reduz a necessidade
de anestésico volátil, sedativos e analgésicos do paciente sem causar
depressão respiratória significativa. Algumas vantagens e desvantagens
terapêuticas dos agentes anestésicos são resumidas na Figura 1 1 .1 O.
VI. BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES/
PARALISANTES
Os bloqueadores neuromusculares são usados para abolir reflexos visando a
facilitar a entubação traqueal e para obter relaxamento muscular necessário
para certos tipos de cirurgias. O mecanismo de ação é o bloqueio dos recep­
tores nicotínicos da acetilcolina na junção neuromuscular. Estes fármacos,
que incluem cisatracúrio, pancurônio, rocurônio, succinilcoli
na e vecurônio,
são descritos nas p. 64-67.
Farmacologia Ilustrada 147
Vantagens terapêuticas
•
Boa analgesia
•
Início e recuperação rápidos
•
Seguro, não irritante
•
Bom relaxamento muscular
•
Recuperação rápida
•
Débito cardíaco estável
•
Não aumenta a pressão
intracraniana
•
Não sensibiliza o coração
à epinefrina
•
Relaxamento da musculatura
lisa brõnquica, bom para
pacientes com asma
• Início e recuperação rápidos
•
Não irritante, útil em crianças
•
Rápido início de ação
•
Anestesia potente
•
Náuseas improváveis
•
Início rápido
•
Diminui a pressão intracraniana
•
Não causa depressão respiratória
•
Bloqueia reflexos cardiovascu­
lares indesejados
Figura 11.11
Estruturas representativas de anestési­
cos tipo éster e amida.
148 Clark, Finkel, Rey & Whalen
VII. ANESTÉSICOS LOCAIS
Os anestésicos locais bloqueiam as sensações, e em concentrações mais ele­
vadas, a atividade motora de uma área limitada do organismo. Eles são apli­
cados ou injetados para bloquear a condução nervosa de impulsos sensoriais
desde a periferia até o SNC. A anestesia local ocorre quando a propagação
dos potenciais de ação é bloqueada, de modo que a sensação não pode ser
transmitida desde o local de origem do estímulo até o cérebro. O anestésico
local atua bloqueando os canais iônicos de sódio impedindo o aumento transi­
tório na permeabilidade da membrana do nervo ao sódio, o que é necessário
para acontecer o potencial de ação. As técnicas de administração incluem
aplicação tópica, infiltração, bloqueios em anéis, bloqueios de nervos periféri­
cos e neuroaxiais (espinais, epidural ou caudal). As pequenas fibras nervosas
amielínicas que conduzem os impulsos de dor, temperatura e atividade autô­
noma são mais sensíveis à ação dos anestésicos locais. Estruturalmente, os
anestésicos locais têm características fundamentais em comum, incluindo um
grupo lipofílico ligado por uma amida ou ligaçãoéstera uma cadeia carbonada
que, por sua vez, está unido a um grupo hidrofílico (Figura 1 1 . 1 1). Os fár­
macos mais amplamente utilizados são bupivacaína, lidocaína, mepivacaína,
procaína e tetracaína, sendo a lidocaína a mais comumente empregada. A
bupivacaína se destaca porsua cardiotoxicidade.A mepivacaína não deve ser
usada na anestesia de gestantes devido à sua toxicidade aos recém-nascidos.
A. Biotransformação
A biotransformação das amidas ocorre primariamente no fígado. A pri/o­
caína também é biotransformada no plasma e nos rins, e um dos seus
metabólitos causa metemoglobinemia. Os ésteres são biotransformados
pela colinesterase do plasma (pseudocolinesterase). Pode-se esperar
que pacientes com deficiência de pseudocolinesterase biotransformam
os anestésicos locais do tipo éster mais lentamente. Contudo, em dosa­
gens normais, isso tem pouco significado clínico. A redução da função
hepática predispõe o paciente aos efeitos tóxicos, mas não aumenta sig­
nificativamente a duração de ação do anestésico local.
B. Início e duração de ação
O início e a duração da ação dos anestésicos locais são influenciadas por
vários fatores, incluindo o pH do tecido, o pKª do fármaco, a morfologia do
nervo, a concentração e a lipossolubilidade. Destes, os mais importantes
são o pH do tecido e o pKª do fármaco. No pH fisiológico, estes compostos
são ionizados. A forma ionizada interage com o receptor proteico do canal
de sódio inibindosuafunção e produzindo a anestesia local. O pH pode cair
em locais de infecção, o que causa retardo no início ou mesmo impede o
efeito. Dentro de limites, maiores concentração ou lipossolubilidade melho­
ram o efeito em algum grau. A duração da ação depende do tempo que o
anestésico permanece no nervo bloqueando os canais de sódio.
C. Ações
Os anestésicos locais causam vasodilatação, que leva à rápida difusão
para fora do local de ação e resulta em duração breve quando estes fár­
macos são administrados sós. Acrescentando o vasoconstritor epinefrina
ao anestésico local, a velocidade de difusão do anestésico e a absorção
diminuem. Isso minimiza a toxicidade sistêmica e aumenta a duração de
ação. A função hepática não afeta a duração de ação da anestesia lo­
cal, que é determinada pela redistribuição, e não por biotransformação.
Alguns dos anestésicos locais conferem benefícios adicionais, como o
efeito antiarrítmico da lidocaína quando administrada por via IV.
D. Reações alérgicas
O registro de reações alérgicas aos anestésicos locais é comum, mas as
investigações mostram que a maioria destas é de origem psicogênica.
Reações psicogênicas com frequênciasão mal diagnosticadas como rea­
ções alérgicas e também podem mimetizá-las, com sinais como urticaria,
edema e broncoespasmo. Alergias verdadeiras às amidas são muito ra­
ras, e o éster procaína é um pouco mais alergênico. A alergia a um éster
exclui o uso de outro éster, porque o componente alergênico é o produto
da biotransformação ácido p-aminobenzoico, e a biotransformação de to­
dos os ésteres resulta na produção deste composto. Em contraste, uma
alergia a uma amida não exclui o uso de outra. O paciente pode ser alér­
gico a outros compostos do anestésico local, como os conservantes nos
frascos de doses múltiplas.
E. Administração a crianças e idosos
Antes de administrar um anestésico local a uma criança, deve ser calcu­
lada a dose máxima com base na massa corporal da criança para evitar
o risco de dosagem excessiva. Não há diferenças significativas na res­
posta aos anestésicos locais entre adultos jovens ou idosos, e as doses
necessárias para cada bloqueio são as mesmas independentes da idade
do paciente. Entretanto, é prudente permanecer bem abaixo da dosagem
máxima recomendada em pacientes idosos que têm comprometimento
da função hepática. Como pode haver certo grau de comprometimen­
to cardiovascular em pacientes idosos, a redução da dose de epinefrina
pode ser prudente. Recomendações prévias, hoje consideradas incorre­
tas, excluiam o uso de anestésicos locais específicos em pacientes sus­
cetíveis à HM. Atualmente é bem aceito que todos os anestésicos locais
são seguros para estes pacientes.
F. Toxicidade sistêmica dos anestésicos locais
As concentrações tóxicas do fármaco no sangue podem ser devidas a
injeções repetidas ou ser resultado de uma injeção IV única e inadvertida.
Biotransformação Rápidapelacolinesteraseplasmática
Toxicidadesistêmica Poucoprovável
Reaçõesalérgicas Possível-formaderivadosdoPABA
Estabilidadeemsolução Hidrolisaemampolas(calor,sol)
Iníciodeação Lentacomoregrageral
MaiordoqueopHfisiológico(8,5-8,9)
POT�NCIA INÍCIO
Procaína Baixa Rápido
C/oroprocaína Baixa Rápido
Tetracaína Alta Lento
Lidocaína Baixa Rápido
Mepivacaína Baixa Moderado
Bupivacaína Alta Lento
Ropivacaína Alta Moderado
Figura 11.12
Farmacologia Ilustrada 149
Lenta,hepática
Maisprovável
Muitorara
Muitoestávelquimicamente
Moderadaàrápida
PróximodopHfisiológico(7,6-8,1)
DURAÇÃO
Curta
Curta
Longa(espinal)
Intermediária
Intermediária
Longa
Longa
Resumo das propriedades farmacológicas de alguns anestésicos locais. PABA = ácido p-aminobenzoico.
150 Clark, Finkel, Rey & Whalen
A aspiração antes de cada injeção é fundamental para a segurança. Os
sinais, os sintomas e o tempo da toxicidade sistêmica dos anestésicos
locais são imprevisíveis. O passo mais importante no tratamento da toxi­
cidade dos anestésicos locais é consideraro diagnóstico em qualquer pa­
ciente com estado mental alterado ou instabilidade cardiovascular após
a injeção do anestésico local. Os sintomas do SNC (seja excitação ou
depressão do SNC) podem seraparentes, mas também podem ser sutis,
não específicos ou ausentes. O tratamento da toxicidade sistêmica dos
anestésicos locais inclui a manutenção davia aérea, o apoio à respiração
e à circulação, o controle de convulsões e, se necessário, a ressuscitação
cardiopulmonar. A administração por infusão de emulsão lipídica a 20°
/
o
(tratamento de resgate lipídico) é conduta promissora no tratamento da
toxicidade dos anestésicos locais. Ver Figura 1 1 .1 2 para um resumo das
propriedades farmacológicas de alguns anestésicos locais.
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
1 1 .1 Qual dos seguintes fármacos é um potente analgésico,
mas um anestésico fraco?
A. Etomidato
B. Halotano
C. Midazolam
D. Óxido nitroso
E. Tiopental
1 1 .2 A potência dos anestésicos inalatórios é definida quantita­
tivamente como:
A. Coeficiente de partição sangue/gás
B. Resistência cérebro-vascular
C. Concentração alveolar mínima
D. Índice de volatilidade
E. Fator de sensibilidade
1 1 .3 A recuperação por fármacos de indução IV ocorre por:
A. Biotransformação hepática
B. Ligação a proteínas
C. Ionização
D. Redistribuição a partir de locais no SNC
E. Depuração plasmática
1 1 .4 Qual dos seguintes fármacos é um potente anestésico in­
travenoso, mas um analgésico fraco?
A. Propofol
B. Benzodiazepínicos
C. Cetamina
D. Etomidato
E. lsoflurano
1 1 .5 Os anestésicos locais:
A. Afetam somente as fibras nervosas pequenas e amielí-
nicas
B. Têm um grupo lipofílico e um hidrofílico
C. Têm uma ligação amida e uma éster
D. Não são afetados pelo pH do tecido nem pelo pK
ª
do
fármaco
E. Na sua forma ionizada, interagem com o receptor pro­
teico dos canais de cálcio
Resposta correta = D. O etomidato é um fármaco hipnótico, mas ca­
rece de atividade analgésica. O midazolam é um sedativo/amnésti­
co comum. O halotano e o tiopental são anestésicos potentes com
pouco efeito analgésico. O óxido nitroso proporciona boa analgesia,
mas é um anestésico fraco que precisa ser associado com outros
fármacos para completar a anestesia.
Resposta correta = C. A potência dos anestésicos inalatórios é de­
finida pela CAM, equivalente à dose eficaz média (DE50) dos anes­
tésicos. A partição sangue/gás determina a solubilidade do gás no
sangue. A resistência cérebro-vascular diminui com os anestésicos
inalatórios. O índice de volatilidade e o fatorde sensibilidade nãosão
termos associados com os anestésicos inalatórios.
Resposta correta = D. Após a "inundação" inicial do SNC com as
moléculas não ionizadas, elas difundem para outros tecidos. Com
a captação tecidual secundária, a concentração plasmática diminui,
permitindo que o fármaco difunda para fora do SNC. Esta redistribui­
ção inicial do fármaco para outros tecidos leva à rápida recuperação
observada após uma dosificação simples de um fármaco indutor IV.
A ligação às proteínas, a ionização e a lipossolubilidade afetam a
velocidade de transferência.
Respostacorreta =A. O propofol é um potente anestésico, mas é um
analgésico fraco. Ele é o anestésico geral intravenoso mais ampla­
mente utilizado. Ele tem grande lipossolubilidade. As outras opções
não atendem ao perfil.
Resposta correta = C. As fibras nervosas pequenas e amielínicas
que conduzem os impulsos de dor, temperatura e atividade autonô­
mica são as mais sensíveis à ação dos anestésicos locais, mas as
outras fibras também são afetadas. Os anestésicos locais têm um
grupo lipofílico unido por uma ligação amida ou éster a uma cadeia
de carbono que, por suavez, se une a um grupo hidrofílico.O inícioe
a duração de ação do anestésico local são influenciadas pelo pH do
tecidoe pelo pKª dofármaco. Os anestésicos locais atuam bloquean­
do os canais de sódio.
,
ar acos
•
ress 1vos
1. RESUMO
Os sintomas da depressão são sensações intensas de melancolia, desespe­
rança e desespero, bem como incapacidade de sentir prazer em atividades
usuais, alterações nos padrões de sono e apetite, perda de vigor e pensa­
mentos suicidas. A mania é caracterizada pelo comportamento oposto, ou
seja, entusiasmo, pensamentos e fala rápidos, extrema autoconfiança e dimi­
nuição de autocrítica. (Nota: a depressão e a mania são diferentes da esqui­
zofrenia (ver p. 161), a qual provoca transtornos do pensamento.)
li. MECANISMOS DOS FÁRMACOS ANTIDEPRESSIVOS
A maioria dos fármacos antidepressivos úteis clinicamente potencializa, direta
ou indiretamente, as ações da norepinefrina e/ou serotonina no cérebro. (Ver
Figura 12.1 para um resumo dos fármacos antidepressivos.) Isso, juntamente
com outras evidências, levou à teoria das aminas biogênicas, que propõe que
a depressão se deve às deficiências das monoaminas, como norepinefrina e
serotonina, em certos locais-chave do cérebro. A teoria propõe que a mania
é causada por produção excessiva desses neurotransmissores. Contudo, a
teoria das aminas para depressão e mania é muito simplista. Ela não explica
o motivo pelo qual os efeitos farmacológicos de qualquer antidepressivo e
antimania na neurotransmissão ocorrem imediatamente, ao passo que a evo­
lução temporal para a resposta terapêutica precisa de várias semanas. Além
disso, a potência dos antidepressivos no bloqueio dacaptação do neurotrans­
missor com frequência não se correlaciona com os efeitos antidepressivos
observados clinicamente. Isso sugere que a diminuição da captação do neu­
rotransmissor é só o efeito inicial do fármaco, que pode não ser diretamente
responsável pelos efeitos antidepressivos. Foi proposto que a densidade dos
receptores inibitórios pré-sinápticos no cérebro diminui em 2 a 4 semanas
com o uso do antidepressivo. Essa dessensibilização dos receptores inibitó­
rios permite maiorsíntese e liberação de neurotransmissores na fenda sináp­
tica e aumenta a sinalização nos neurônios pós-sinápticos, presumivelmente
levando à resposta terapêutica.
INIBIDORES SELETIVOS D
A CAPTAÇÃO
DE SEROTONINA (ISCS)
Citalopram
Escitalopram
Fluoxetina
Fluvoxamina
Paroxetina
Sertralina
INIBIDORES DA CAPTAÇÃO DE
SEROTONINAE NOREPINEFRINA (IRSN)
Desvenlafaxina
Duloxeti
na
Venlafaxi
na
ANTIDEPRESSIVOS ATÍPICOS
Bupropiona
Mirtazapina
Nefazodone
Trazodone
ANTIDEPRESSIVOS TRICÍCLICOS (ADT)
Amitriptilina
Amoxapina
Clomi
pramina
Desipramina
Doxepina
lmipramina
Maprotilina
Nortriptilina
Protriptilina
Trimi
pramina
INIBIDORES DA MONOAMINA OXIDASE
(IMAO)
Figura 12.1
/socarboxazida
Fenelzina
Se/egili
na
Tranilcipromina
Resumo dos antidepressivos (Continua
na próxima pági
na.)
152 Clark, Finkel, Rey & Whalen
FÁRMACOS USADOS PARA TRATAR
DISTÚRBIOS BIPOLARES E MANIA
,
Acido valproico
Carbamazepina
Lítio
Figura 12.1 (Continuação)
Resumo dos antidepressivos.
FÁRMACO INIBIÇÃO DA CAPTAÇÃO
Norepine-
Serotonina
frina
Inibidores seletivos
da captação de
serotonina
Fluoxetina o ++++
Inibidores da
captação de
noreplnefrlna e
serotonlna
Venlafaxlna ++* ++++
Duloxetlna ++++ ++++
Antidepressivo
tricíclico
lmipramlna ++++ +++
Figura 12.2
Especificidade relativa pelos recepto­
res de alguns fármacos antidepressi­
vos. ++++ = afinidade muito forte; +++
= afinidade forte; ++ = afinidade mode­
rada; + = afinidade fraca; O = pouca ou
nenhuma afinidade.
*A venlafaxina inibe a captação da no­
repinefrina apenas em doses altas.
Figura 12.3
Administração de
antidepressivo
Depressão
Início deação
2 a 12 semanas
Efeito
antidepressivo
O início do efeito terapêutico dos princi­
pais antidepressivos precisa de várias
semanas.
-
Ili. INIBIDORES SELETIVOS DA CAPTAÇAO DE
SEROTONINA
Os inibidores seletivos da captação da serotonina (ISCSs) são um grupo de
fármacos antidepressivos quimicamente heterogêneos que inibem especifica­
mente a captação da serotonina, apresentando uma seletividade 300 a 3.000
vezes maior para o transportador de serotonina do que para o de norepine­
frina. Isso contrasta com os antidepressivos tricíclicos (ADT, ver p. 155) que
inibem não seletivamente a captação de norepinefrina e serotonina (Figura
12.2). Ambas as classes de antidepressivos pouco bloqueiam o transportador
dedopamina.Além disso, os ISCSstêm escassa atividade bloqueadora em re­
ceptores muscarínicos, a-adrenérgicos e H1 histamínicos. Portanto, os efeitos
adversos comuns associados aos ADT, como hipotensão ortostática, sedação,
xerostomia e visão borrada, não são observados comumente com os ISCSs.
Como têm menos efeitos adversos e são relativamente seguros, mesmo em
dosagens excessivas, os ISCSs substituíram os ADT e os IMAO como fárma­
cos de escolha no tratamento da depressão. Os ISCSs incluem fluoxetina - o
fármaco protótipo, citalopram, escitalopram, f/uvoxamina, paroxetina e sertrali­
na. O citalopram e a f/uoxetinasão misturas racêmicas, das quais os respecti­
vos S-enantiômeros são os inibidores mais potentes da bomba de captaçãode
serotonina. O escitalopram é o S-enantiômero puro do citalopram.
A. Ações
Os ISCSs bloqueiam a captação de serotonina, levando ao aumento da
concentração do neurotransmissor na fenda sináptica e, finalmente, à
maior atividade neuronal pós-sináptica. Os antidepressivos, incluindo os
ISCSs, em geral precisam de duas semanas para produzir melhora signi­
ficativa no humor, e o benefício máximo pode demoraraté 12 semanas ou
mais (Figura 12.3). Contudo, nenhum dos antidepressivos é uniformemen­
te eficaz. Cerca de 40°
/
o dos pacientes deprimidos tratados com doses
adequadas defármaco antidepressivo durante 4 a 8 semanas não respon­
dem a ele. Os pacientes que não respondem a um antidepressivo podem
responder a outro, e aproximadamente 80°
/
o ou mais respondem a pelo
menos um antidepressivo. (Nota: em geral, esses fármacos não produzem
estimulação do SNC, nem melhoram o humor em indivíduos normais.)
B. Usos terapêuticos
A indicação primária dos ISCSs é a depressão, para a qual eles são tão
eficazes quanto os ADT. Vários outros transtornos psiquiátricos também
respondem favoravelmente aos ISCSs, incluindo transtorno obsessivo­
-compulsivo, transtorno de pânico, transtornos de ansiedade generaliza­
da, de estresse pós-traumático, de ansiedade social, transtorno disfórico
pré-menstrual e bulimia nervosa (para esta última indicação, só a fluoxe­
tina está aprovada).
C. Farmacocinética
Todos os ISCSs são bem absorvidos após administração oral. Os picos sé­
ricos ocorrem em média entre 2 e 8 horas. Alimentos tem pouca influência
naabsorção (excetocom a sertralina, cujaabsorçãoaumentacoma alimen­
tação). Somente a sertralina sofre biotransformação de primeira passagem
significativa. A maioria dos ISCSs tem meia-vida entre 16 e 36 horas. Ocor­
re extensa biotransformação pelo citocromo P450 (CIP450) e conjugação
com glicuronídeo ou sulfato. (Nota: em geral, esses metabólitos não contri­
buem para o efeito farmacológico.) A fluoxetina difere dos outros membros
da classe em dois aspectos. Primeiro, ela tem meia-vida muito maior (50
horas) e está disponível em uma preparação de liberação lenta, permitindo
uma dosagem semanal única. Segundo, o metabólito do S-enantiômero, S-
-norfluoxetina, étão potente quantoocompostooriginal.A meia-vidado me­
tabólito é muito longa, alcançando 1O dias. A f/uoxetina e a paroxetina são
potentes inibidores da isoenzima CIP450 (CIP2D6) hepática responsável
pela eliminação dos fármacos ADT, neurolépticos e alguns antiarrítmicos
e antagonistas [3-adrenérgicos. (Nota: cerca de 7°
/o da população branca
não têm essa enzima P450 e, por isso, biotransformam a f/uoxetina e ou­
tros substratos dessa enzima muito lentamente. Esses indivíduos podem
sercaracterizados na literatura como"maus metabolisadores".) Outrasenzi­
mascitocromais (CIP2C9/19, CIP3A4, CIP1A2) estãoenvolvidas com a bio­
transformação do ISCS e podemtambém serinibidasem vários graus pelos
ISCS. Assim, eles podem afetar a biotransformação de múltiplos fármacos.
A excreção dos ISCSs ocorre principalmente pelos rins, excetoa paroxetina
ea sertralina, as quaistambém podem sofrerexcreçãofecal (35e 50%, res­
pectivamente). As dosagens de todos esses fármacos devem ser ajustadas
para menos em pacientes com insuficiência hepática.
D. Efeitos adversos
Embora se considere que os ISCSs tenham efeitos adversos menos
graves do que os ADT e os IMAO, eles não estão livres de efeitos ad­
versos desagradáveis, como cefaleia, sudoração, ansiedade e agita­
ção, efeitos gastrintestinais (náuseas, êmese e diarreia), fraqueza e
cansaço, disfunções sexuais, alterações de massa corporal, distúrbios
do sono (insônia e sonolência) e interações farmacológicas potenciais
mencionadas (Figura 12.4).
1. Distúrbios do sono. A paroxetina e a fluvoxamina em geral são
mais sedativas do que estimulantes e elas podem ser úteis em pa­
cientes que têm dificuldade em dormir. Pacientes que se sentem
cansados ou se queixam de sonolência excessiva podem se bene­
ficiar de um dos antidepressivos mais estimulantes, como a fluoxeti­
na e a sertrali
na.
2. Disfunções sexuais. Perda de libido, retardo na ejaculação e anor­
gasmia são efeitos adversos de que poucos se queixam, notado
pelos clínicos com frequência, mas eles não são destacados na re­
lação dos efeitos adversos padrão. Uma opção para lidar com as
disfunções sexuais induzidas pelos ISCSs é substituir o antidepres­
sivo causador por outro com menos efeitos adversos sexuais, como
a bupropiona ou a mirtazapina. Alternativamente, a dosagem pode
ser diminuída. Em homens com disfunções eréteis e depressão,
o tratamento com sildenafila, vardenafila ou tadalafila (ver p. 363)
pode melhorar a função sexual.
3. Uso em crianças e adolescentes. Os antidepressivos devem ser
usados com cautela em crianças e adolescentes, pois cercade uma
entre 50 crianças torna-se suicida em consequência do tratamento
com ISCS. Pacientes pediátricos devem ser observados quanto ao
agravamento da depressão e à tendência suicida sempre que um
desses fármacos for iniciado ou sua dosagem for aumentada ou
diminuída. Fluoxetina, sertralina e f/uvoxamina são aprovados pela
FDA dos EUA, para o tratamento do transtorno obsessivo-compulsi­
vo em crianças, e a fluoxetina, para tratar a depressão na infância.
4. Dosagem excessiva. Em geral, a ingestão elevada de ISCSs não
causa arritmias cardíacas (comparado ao risco de arritmias dosADT),
mas convulsões podem ocorrer porque todos os antidepressivos po­
dem reduzir o limiar convulsivo. Todos os ISCSs têm potencial para
causar a síndrome da serotonina, que pode incluir sinais de hiperter­
mia, rigidez muscular, sudoração, mioclonia (abalos musculares clôni-
Farmacologia Ilustrada 153
v
=
-
,.=
o ===ti
o
Náusea
V
Ansiedade
Sonolência
Insônia
Disfunção
sexual
v=�
Interação
de fármacos
Figura 12.4
Alguns dos efeitos adversos comumen­
te observados com o uso dos inibidores
seletivos de captação de serotonina.
154 Clark, Finkel, Rey & Whalen
O fármaco antide­
pressivo bloqueia
a captação do
NEURÔNIO
neur
,,..
ot
_
ra
_
n
_
sm
_
i
_
ss
_
o
_
r.
_, PRÉ-SINÁPTICO
Serotonina
Norepineflina
/
_.....-Ven/afaxina
O
Duloxetina
NEURÔNIO
LJ=Ll FENDA
SINÁPTICA
PÓS- Resposta pós-sináptica
-SINÁPTICO
Figura 12.5
Mecanismo de ação proposto para os
fármacos antidepressivos inibidores de
captação de serotoninae norepinefrina.
cos), alterações do estado mental e dos sinais vitais quando usados
na presençade IMAO ou outrofármacoaltamente serotoninérgico. Por
isso, deve-se obedecera longos períodos de eliminação de cada clas­
se de fármaco antes de administraro de uma nova classe.
5. Síndrome da interrupção. Embora todos os ISCS tenham poten­
cial paracausar a síndrome de interrupção quando retirados subita­
mente, os fármacos com as meias-vidas menores e com metabóli­
tos inativos apresentam maior risco de causar esse efeito adverso.
A f/uoxetina tem o menor risco de causar a síndrome. Os possíveis
sinais e sintomas da síndrome da interrupção relacionada à sero­
tonina incluem cefaleia, mal-estar e sintomas de gripe, agitação e
irritabilidade, nervosismo e alterações no padrão de sono.
-
IV. INIBIDORES DA CAPTAÇAO DE SEROTONINA/
NOREPINEFRINA
V
enlafaxina, desvenlafaxina e duloxetina inibem a captação de serotonina e
norepinefrina (Figura 12.5). Esses fármacos, denominados inibidores de cap­
tação de serotonina e norepinefrina (ICSNs) seletivos, podem ser eficazes no
tratamento de depressão em pacientes nos quais os ISCSs foram ineficazes.
Além disso, a depressão com frequência é acompanhada de sintomas dolo­
rosos crônicos, como dor lombar e dor muscular, contra os quais os ISCSs
são relativamente ineficazes. Essas dores são, em parte, moduladas por vias
de serotonina e norepinefrina no SNC. Os ICSNs e os ADT, com sua dupla
ação de inibira captação de serotonina e de norepinefrina, algumas vezes são
eficazes no alívio dos sintomas físicos da dor neuropática, como a neuropatia
periférica diabética. Contudo os ICSNs, ao contrário dos ADT, têm pouca ati­
vidade em receptores adrenérgicos, muscarínicos ou histamínicos e, assim,
têm menos dos efeitos adversos mediados por esses receptores do que os
ADT (ver Figura 12.2). A venlafaxina, a desvenlafaxina e a duloxetina podem
causarsíndrome de interrupção se o tratamento é suspenso de modo súbito.
A. Venlafaxina e desvenlafaxina
A venlafaxina é um potente inibidor da captação de serotonina e, em do­
sagens médias e altas, é inibidor da captação de norepinefrina. Esse fár­
maco também é um inibidorfraco dacaptação de dopaminaem dosagens
elevadas. A venlafaxina produz inibição mínima das isozimas CIP450 e é
substrato da isoenzima CIP2D6. A meia-vida do composto original mais
seu metabólito ativo é cerca de 1 1 horas. A desvenlafaxi
na é o metabólito
ativo, desmetilado da venlafaxina. Os efeitos adversos mais comuns da
venlafaxina são náuseas, cefaleia, disfunções sexuais, tonturas, insônia,
sedação e constipação. Em doses elevadas, pode ocorrer aumento da
pressão arterial e da frequência cardíaca. Considera-se que a desvenla­
faxina não tem efeitos clínicos e adversos comparado com a venlafaxi
na.
B. Duloxetina
A duloxetina inibe a captação de serotonina e norepinefrina em todas
as dosagens. Ela é biotransformada no fígado a numerosos metabólitos.
A duloxetina não deve ser administrada em pacientes com insuficiência
hepática. Os metabólitos são excretados na urina, e o uso da duloxetina
não é recomendado em pacientes com doença renal em estágio terminal.
Alimentos retardam a sua absorção. A sua meia-vida é de aproximada­
mente 1 2 horas. Efeitos adversos gastrintestinais são comuns com esse
fármaco, incluindo náuseas, xerostomia e constipação. Diarreia e êmese
são observados com menos frequência. Insônia, tonturas, sonolência e
sudoração também são observadas. Também ocorre disfunção sexual e
o risco de aumento da pressão arterial ou dafrequênciacardíaca. A du/o­
xetina é um inibidor moderado das isoenzimas CIP2D6 e CIP3A4.
V. ANTIDEPRESSIVOS ATÍPICOS
Os antidepressivos atípicos são um grupo misto de fármacos que têm ação
em vários locais diferentes. Esse grupo inclui bupropiona, mirtazapina, nefa­
zodona e trazodona. Eles não são mais eficazes do que os ADT ou os ISCSs,
mas seus perfis de efeitos adversos são diferentes.
A. Bupropiona
Esse fármaco atua como um fraco inibidor da captação de dopamina e
norepinefina, aliviando os sintomas de depressão. Sua meia-vida curta
pode exigir mais de uma dosagem por dia ou uma administração de for­
mulações de liberação lenta. A bupropiona ajuda a diminuir a compul­
são por nicotina e atenua os sintomas de abstinência dos usuários que
tentam parar de fumar. Os efeitos adversos podem incluir xerostomia,
sudoração, nervosismo, tremores, baixa incidência de disfunções sexuais
e risco aumentado de convulsões em doses elevadas. A bupropiona é
biotransformada pelavia CIP2D6 e é consideradacomo de baixo risco de
interações com outros fármacos. A dosagem diária de bupropiona deve
se manter dentro das recomendações do fabricante para minimizar o ris­
co de convulsões que podem ocorrer nas dosagens acima das recomen­
dadas. Seu uso deve ser evitado em pacientes sob risco de convulsões
ou que sofrem de transtornos da alimentação (como a bulimia).
B. Mirtazapina
Esse fármaco aumenta a neurotransmissão por serotonina e norepinefrina
bloqueando os receptores a2 pré-sinápticos. Além disso, parte da atividade
antidepressiva é devida ao bloqueio de receptores 5HT2• Esse fármaco é
sedativo devido à sua potente atividade anti-histamínica, mas não causa os
efeitos adversos antimuscarínicos dosADT, nem interfere nafunçãosexual,
como os ISCSs. Frequentemente ocorre aumento do apetite e da massa
corporal (Figura 12.6). A mirtazapina é acentuadamente sedativa, o que é
uma vantagem em pacientes deprimidos com dificuldade em dormir.
C. Nefazodona e trazodona
Esses fármacos são inibidores fracos da captação de serotonina. Seus
efeitos terapêuticos parecem estar relacionados com a capacidade de
bloqueio dos receptores 5HT2A pós-sinápticos. Com o uso crônico, esses
fármacos podem insensibilizar autorreceptores pré-sinápticos SHT,A e,
assim, aumentar a liberação de serotonina. Os dois fármacos são seda­
tivos, provavelmente devido à potente atividade bloqueadora H,. A trazo­
dona foi associada ao priapismo, e a nefazodona, ao risco de hepatoto­
xicidade. Ambos os fármacos são antagonistas leves a moderados nos
receptores-a,, o que contribui para a ortostasia e tonturas.
VI. ANTIDEPRESSIVOSTRICÍCLICOS
Os antidepressivos tricíclicos (ADTs) bloqueiam a captação de norepinefrina
e serotonina no neurônio e, portanto, se fossem descobertos atualmente, po­
deriam ser adicionados aos ISCN, exceto pelas diferenças nos efeitos adver­
sos dessa nova classe de antidepressivos. Os ADTs incluem as aminas ter­
ciárias, imipramina (fármaco protótipo), amitriptilina, clomipramina, doxepina
e trimipramina. Os ADTs também incluem as aminas secundárias, desiprami­
na e nortriptilina (metabólitos N-desmetilados da imipramina e da amitri
ptilina,
Farmacologia Ilustrada 155
v==�
V
Figura 12.6
Zz
z
Aumento de
massa corporal
Sedação
Alguns efeitos adversos comumente
observados da mirtazapina.
156 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Aumento
de massa
corporal
Xerostomia
Constipação
Retenção
urinária
Visão
borrada
Taquicardia
Arritmias
Náuseas
Sonolência
Figura 12.7
V
,,
V
V
V
E
li E
o
o
Alguns dos efeitos adversos comumen­
te observados com os antidepressivos
tricíclicos.
respectivamente), e protriptilina. Maprotilinae amoxapinasão antidepressivos
"tetracíclicos" e comumente são incluídos na classe geral dos ADTs. Todos
têm eficácias terapêuticas similares, e a escolha do fármaco específico pode
depender de questões como tolerância do paciente aos efeitos adversos, a
respostas prévias, a condições médicas preexistentes e à duração de ação.
Pacientes que não respondem a um ADT podem se beneficiar de outrofárma­
co desse grupo. Esses fármacos são uma alternativa valiosa para pacientes
que não respondem aos ISCSs.
A. Mecanismo de ação
1 . Inibição da captação do neurotransmissor. Os ADTs e a amoxa­
pina são potentes inibidores da captação neuronal de norepinefrina
e serotonina no terminal nervoso pré-sináptico. Em concentrações
terapêuticas, eles não bloqueiam os transportadores de dopamina.
Bloqueando a principal via de remoção de neurotransmissor, os
ADTs causam aumento da concentração de monoaminas na fenda
sináptica, resultando no efeito antidepressivo. Maprotilina e desipra­
mina são inibidores relativamente seletivos da captação de norepi­
nefrina.
2. Bloqueio de receptores. Os ADTs também bloqueiam os recep­
tores serotonérgico, a-adrenérgico, histamínico e muscarínico (ver
Figura 12.3). Não é conhecido se alguma dessas ações é respon­
sável pelo efeito terapêutico. Contudo, as ações nesses receptores
provavelmente são responsáveis por muitos dos vários efeitos in­
desejados dos ADTs. A amoxapinatambém bloqueia os receptores
5-HT2 e D2•
B. Ações
Os ADTs melhoram o humor e o alerta mental, aumentam a atividade fí­
sica e reduzem a preocupação mórbida em 50 a 70°
/
o dos indivíduos com
depressão. O início da melhora do humor é lento, necessitando de duas
semanas ou mais (ver Figura 12.3). Em geral, esses fármacos não produ­
zem estimulação do SNC ou melhora do humor em indivíduos normais.
Dependência física e psicológica é registrada raramente; contudo, isso
requer retirada lenta para minimizar síndromes de interrupção e efeitos
colinérgicos rebote. Esses fármacos, como todos os antidepressivos, po­
dem ser usados para o tratamento prolongado da depressão.
C. Usos terapêuticos
Os ADTs são eficazes no tratamento de depressão moderada à grave.
Alguns pacientes com transtornos de pânico também respondem aos
ADTs. A imipraminaé usada para controlar a micção de crianças na cama
(com mais de 6 anos) por causar contração do esfíncter interno da bexi­
ga. Atualmente, ela é usada com cautela devido à indução de arritmias
cardíacas e de outros problemas cardiovasculares graves. OsADTs, parti­
cularmente a amitri
ptilina, têm sido usados para otratamento daenxaque­
ca e de síndromes de dor crônica (p. ex., dor neuropática) em inúmeras
condições em que a causa da dor é desconhecida. Dosagens baixas de
ADTs, especialmente doxepina, podem ser usados para tratara insônia.
D. Farmacocinética
OsADTs são bem absorvidos apósadministração oral. Porsua natureza li­
pofílica, eles são amplamente distribuídos e facilmente penetram o SNC. A
lipossolubilidade também causa as variadas meias-vidas desses fármacos
(p. ex., 4 a 17 horas para imipramina). Como consequência da biotransfor­
mação de primeira passagem muito variável, os ADTs têm biodisponibili-
dade baixa e inconsistente. Por isso, a resposta do paciente e as concen­
trações no plasma podem ser usadas para ajustar a dosagem. O período
inicial de tratamento geralmente é de 4 a 8 semanas. A dosagem pode ser
reduzida gradualmente para melhorar a tolerância, a menos que ocorra
recaída. Esses fármacos são biotransformados pelo sistema microssomal
hepático (e assim podem sersuscetíveis aosfármacos que induzem ou ini­
bem as isoenzimas CIP450) e são conjugados com ácido glicurônico. Por
fim, os ADTs são excretados como metabólitos inativos pelos rins.
E. Efeitos adversos
O bloqueio dos receptores muscarínicos leva à visão borrada, à xerosto­
mia, à retenção urinária, à taquicardia sinusal, à constipação e ao agrava­
mento do glaucoma estreito (Figura 12.7). Essesfármacos afetam também
a condução cardíaca de modo similar à quinidi
na, o que pode provocar
arritmias que ameaçam a sobrevida, se for tomada uma dose excessiva
de um dos fármacos. Os ADTs também bloqueiam os receptores a-adre­
nérgicos, causando hipotensão ortostática, tonturas e taquicardia reflexa.
Na clínica, esse é o problema mais grave nos idosos. A imipramina é a
mais provável, e a nortriptifina é a menos provável, de causar hipotensão
ortostática. A sedação pode ser importante, especialmente durante as
primeiras semanas do tratamento, e está relacionada com a capacidade
desses fármacos de bloquear os receptores H1 histamínicos. O aumento
de massa corporal é um dos efeitos adversos dos ADTs. Disfunção sexual,
como evidenciado por disfunção erétil no homem e anorgasmia na mulher,
ocorre em uma minoria significativa dos pacientes, mas a incidência é con­
siderada menordoque a de disfunções sexuais associadas com os ISCSs.
1. Precauções. Os ADTs (como todos os antidepressivos) devem ser
usados com cautela nos pacientes com transtorno bipolar, mesmo
durante seu estado depressivo, pois eles podem causar mudança
no comportamento maníaco. Os ADTs têm índice terapêutico es­
treito; porexemplo, 5 a 6 vezes a dose máxima diária de imipramina
pode ser letal. Os pacientes deprimidos que são suicidas devem
receber somente quantidades limitadas desses fármacos e ser mo­
nitorados de perto. Interações de fármacos com os ADTs são mos­
tradas na Figura 1 2.8. Os ADTs podem agravar certas condições
médicas, como angina instável, hiperplasia prostática benigna, epi­
lepsia e arritmias preexistentes. Deve-se ter cautela também com
seu uso em pacientes muito jovens ou muito idosos.
VII. INIBIDORES DA MONOAMINA OXIDASE
A monoaminaoxidase (MAO) é uma enzima mitocondrial encontrada em nervos
e outros tecidos, como fígado e intestino. No neurônio, a MAO funciona como
"válvula de segurança", desaminando oxidativamente e inativando qualquer ex­
cesso de moléculas de neurotransmissor(norepinefrina, dopamina eserotonina)
que possa vazar das vesículas sinápticas quando o neurônio está em repouso.
O inibidor de MAO (IMAO) pode inativar reversível ou irreversivelmente a enzi­
ma, permitindo que as moléculas do neurotransmissor fujam da degradação e,
assim, se acumulem no neurônio pré-sináptico e vazem para o espaço sináp­
tico. Acredita-se que isso causa a ativação dos receptores da norepinefrina e
da serotonina e pode ser responsável pela ação antidepressiva indireta desses
fármacos. Quatro IMAOs estão disponíveis atualmente para o tratamento da de­
pressão: fenelzina, tranilci
promina, isocarboxazida e o selegilina. (Esse último
fármaco era aprovado contra a doença de Parkinson, mas agora também está
aprovado contra a depressão e é o primeiro antidepressivo disponível na forma
de sistema de administraçãotransdérmica.) O uso de IMAO hoje é limitado devi­
do às complicadas dietas alimentares exigidas dos pacientes que os usam.
Farmacologia Ilustrada 157
Aumento mútuo:
hipertensão, hiperpirexia,
convulsões e coma
IMAO
Potencializa efeitos
das aminas biogênicas
por evitar sua remoção
dafenda sináptica
Fármacos
adrenérgicos
de ação direta
Antidepressivos
tricíclicos
Fármacos
adrenérgicos
de ação indireta
Etanol e outros
depressores
do SNC
Bloqueia os efeitos
dos fármacos
simpaticomiméticos
de ação indireta
evitando que o fármaco
alcance seu local de
Sedação ação intracelular
tóxica
Figura 12.8
Fármacos que interagem com os anti­
depressivos tricíclicos. SNC = sistema
nervoso central; MAO = monoamina
oxidase.
158 Clark, Finkel, Rey & Whalen
A Transmissão
monoaminérgica normal
AMAOinativaasmonoaminas
(norepinefrina, serotoninae
dopamina) quevazamda
Vesícula vesículasináptica.
sináptica
• •
•
•
•
Metabólitos
inativos
• j Norepinefrina

l Serotonina
Dopamina • FENDA
SINÁPTICA
NEURÔNIO
PÓS­
-SINÁPTICO
Vesícula
sináptica
•
•
Respostapós-sináptica
OsIMAOsevitamainativação
dasmonoaminasnointeriordo
neurônio,causandoadifusãode
umexcessodeneurotransmissor
paraafendasináptica.
Metabólitos
•
inativos
• j Norepinefrina
l Serotonina
�opamina
• FENDA
SINÁPTICA
NEURÔNIO
PÓS­
-SINÁPTICO Respostapós-sináptica
Figura 12.9
Mecanismo de ação dos inibidores da
monoamina oxidase (IMAOs).
A. Mecanismo de ação
A maioria dos IMAOs, como a fenelzina, forma complexos estáveis com
a enzima, causando inativação irreversível. Isso resulta em aumento dos
estoques de norepinefrina, serotonina e dopamina no interior dos neu­
rônios e subsequente difusão do excesso de neurotransmissor para a
fenda sináptica. (Figura 12.9). Esses fármacos inibem não só a MAO no
cérebro, mas também no fígado e no intestino, os quais catalisam de­
saminações oxidativas de fármacos e substâncias potencialmente tóxi­
cas, como a tiramina, que é encontrada em certos alimentos. Por isso, os
IMAOs mostram elevada incidência de interações com fármacos e com
alimentos. A selegilina administrada na forma de adesivo transdérmico
pode produzir menor inibição da MAO hepática e intestinal em dosagens
baixas, porque se evita a biotransformação de primeira passagem.
B. Ações
Embora a MAO esteja completamente inibida após alguns dias de trata­
mento, a ação antidepressiva dos IMAOs, como a dos ISCSs e ADTs, é
retardada em várias semanas. A se/egilinae a tranilcipromina apresentam
efeito estimulante tipo anfetamina, o qual pode causar agitação e insônia.
C. Usos terapêuticos
Os IMAOs são indicados para pacientes deprimidos que não respondem
ou são alérgicos aos ADTs ou que apresentam forte ansiedade. Os pa­
cientes com atividade psicomotora baixa podem se beneficiar das pro­
priedades estimulantes dos IMAOs. Essesfármacos também são úteis no
tratamento de estadosfóbicos. Uma subcategoriaespecial de depressão,
denominada depressão atípica, pode responderaos IMAOs preferencial­
mente.A depressão atípica é caracterizada por humor lábil, sensibilidade
à rejeição e distúrbios de apetite. Devido ao risco de interações fármaco­
-fármaco e fármaco-alimento, os IMAOs são considerados os fármacos
de última escolha em vários centros de tratamento.
D. Farmacocinética
Esses fármacos são bem absorvidos após administração oral, mas o efei­
to antidepressivo requer o mínimo de 2 a 4 semanas de tratamento. A
regeneração de enzima, quando inativada irreversivelmente, varia, mas
em geral ocorre várias semanas depois da administração do fármaco ser
suspensa. Assim, quando houver troca de antidepressivos, deve haver
um intervalo mínimo de duas semanas após o fim do tratamento com o
IMAOe o início de outro antidepressivo de qualqueroutraclasse. Os IMA­
Os são biotransformados e excretados rapidamente na urina.
E. Efeitos adversos
Efeitosadversos graves, com frequência imprevisíveis, devido a interações
com fármacos e alimentos limitam o amplo uso dos IMAOs. Por exemplo,
a tiramina, que está presente em certos alimentos, como queijos envelhe­
cidos e carnes, fígado de aves, peixe em conservas ou defumado, como
anchovas e sardinhas, e vinhos tintos, normalmente é inativada pela MAO
no intestino. Indivíduos tratados com IMAO são incapazes de degradar a
tiramina presente na dieta. A tiramina causa liberação de grande quanti­
dade de catecolaminas armazenadas nos terminais nervosos, resultando
na denominada "crise hipertensiva" com sinais e sintomas como cefaleia
occipital, rigidez no pescoço, taquicardia, náuseas, hipertensão, arritmias
cardíacas, convulsões e possivelmente colapso. Os pacientes precisam,
portanto, ser educados para evitar os alimentos contendo tiramina. A fen-
tolamina ou a prazosina são úteis no tratamento da hipertensão induzida
portiramina. (Nota: o tratamento com IMAO pode ser perigoso em pacien­
tes gravemente deprimidos e com tendência suicida. O consumo proposi­
tal de alimentos contendo tiramina é uma possibilidade.) Outros possíveis
efeitos adversos do tratamento com IMAO incluem sonolência, hipotensão
ortostática, visão borrada, xerostomia, disúria e constipação. Os IMAOs e
os ISCSs não devem sercoadministrados devido ao risco de"síndrome de
serotonina" que ameaça a vida. Ambos os tipos de fármacos precisam do
período de eliminação, de duas semanas no mínimo, antes da administra­
ção do fármaco do outro tipo, com exceção da fluoxetina, a qual deve ser
suspensa no mínimo seis semanas antes de iniciaro IMAO. A associação
de IMAOs com bupropiona pode causar convulsões. A Figura 12.1O resu­
me os efeitos adversos dos fármacos antidepressivos.
VIII. TRATAMENTO DA MANIA E DO DISTÚRBIO BIPOLAR
O tratamento do transtorno bipolar aumentou em anos recentes, devido ao
maior reconhecimento do transtorno e também pelo aumento do número de
medicamentos disponíveis para o tratamento, aprovados pelo FDA.
A. Lítio
Os sais de lítio são usados profilaticamente para o tratamento de pacien­
tes maníaco-depressivos e nos episódios de mania, e, por isso, são con­
siderados como "estabilizadores do humor". O lítio é eficaz no tratamento
de 60 a 80°
/
o dos pacientes que exibem mania e hipomania. Emboravários
processos celulares sejam alterados pelos sais de lítio, o seu mecanismo
de ação segue desconhecido. (Nota: acredita-se que o lítio atenue os si­
nais via receptores acoplados ao sistema desegundo mensageiro bifosfa­
to de fosfatidilinositol [PIP2]. O lítio interfere com a ressíntese [reciclagem]
do PIP2, levando à sua depleção relativa na membrana neuronal do SNC.
Os níveis de PIP2 nas membranas periféricas não são afetados pelo lítio.)
Ele é administrado por via oral, e o íon é excretado pelos rins. Os sais de
lítio podem ser tóxicos. O fator de segurança e o índice terapêutico são
extremamente baixos comparáveis aos da digoxina. Os efeitos adversos
podem incluir cefaleia, xerostomia, polidipsia, polifagia, distúrbios gastrin­
testinais (o lítio deve ser administrado com alimentação), tremor fino nas
mãos, tonturas, fadiga, reações dérmicas e sedação. Os efeitos adversos
devidos a níveis plasmáticos mais elevados incluem ataxia, fala enrola­
da, tremores grosseiros, confusão e convulsões. Xerostomia, polidipsia e
poliúria são queixas frequentes. (Nota: o diabetes insípido que resulta do
uso do lítio pode ser tratado com amilorida.) A função tireoideana pode
diminuir e deve ser monitorada. O lítio não causa efeitos observáveis em
indivíduos normais. Ele não é um sedativo, euforizante ou depressor.
B. Outros fármacos
Vários fármacos antiepilépticos, incluindo de modo destacado carbama­
zepina, ácido valproico e lamotrigina, foram identificados como "estabili­
zadores do humor'', aprovados pelo FDA, e são usados com sucesso no
tratamento do transtorno bipolar. Outros fármacos que podem amenizar
os sintomas de mania incluem os antipsicóticos antigos (p. ex., clorpro­
mazina e haloperido� e novos. Os antipsicóticos atípicos (risperidona,
olanzapina, zi
prasidona, aripiprazol, asenapina e quetiapina) também fo­
ram aprovados pelo FDA para o controle da mania. Os benzodiazepínicos
são usados com frequência como auxiliares do tratamento para a esta­
bilização aguda dos pacientes com mania. (Ver os respectivos capítulos
desses psicotrópicos para descrição mais detalhada.)
Farmacologia Ilustrada 159
Distúrbios
gastrintestinais
Sedação;podeser
útilcontraaagitação
INIBIDORESSELETIvos
DACAPTAÇÃO
DESEROTONINA
Citalopram -
Escitalopram
Fluoxetina
.
Fluvoxamina
Paroxetina -
-
Sertralina -
-
INIBIDORESDACAPTAÇÃO
DESEROTONINA
ENOREPINEFRINA
Duloxetina -
-
Venlafaxina -
Desven/afaxina -
-
ANTIDEPRESSIVOs
ATÍPICOS
Bupropiona
. .
Mirtazapina �
.
Nefazodona -
-
Trazodona
ANTIDEPRESSIVOs
TRIC[CLICOSIPOLIC[CLICOS
- Amitriptilina
-
Amoxapina
Clomipramina
Desipramina
-
Doxepina
- -
-
-
.
lmipramina
- -
.
Maprotilina
Nortriptili
na
Protriptilina
- Trimipramina
INIBIDORESDA
MONOAMINAOXIDASE
Fene/zina
Tranilcipromina
Ganho de
massa
Potencialelevado
parahipotensão
ortostática corporal
Figura 12.1O
Efeitos adversos de alguns fármacos
usados no tratamento da depressão.
160 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
12.1 Um professor de 55 anos começa a mostrar alterações no
humor. Ele está perdendo o interesse por seu trabalho e
desinteressou-se pelo jogo diário de tênis. Preocupava-se
com sentimentos de culpa, falta de valor e desesperança.
Além dos sintomas psiquiátricos, o paciente se queixa de
dores musculares pelo corpo. Exames físicos e laborato­
riais nada revelaram de significativo. Após seis semanas
de tratamento com fluoxetina, os sintomas do paciente
sumiram. Contudo, ele reclama de disfunção sexual. Qual
dos seguintes fármacos deve ser útil para esse paciente?
A. Fluvoxaminas
B. Sertralina
C. Citalopram
D. Mirtazapina
E. Lítio
12.2 Uma mulher de 25 anos tem longa história de sintomas de­
pressivos acompanhados de dores corporais. Os exames
físico e laboratorial não apresentaram alterações signifi­
cativas. Qual dos seguintes fármacos pode ser útil nessa
paciente?
A. Fluoxetina
B. Sertralina
C. Fenelzina
D. Mirtazapina
E. Duloxetina
12.3 Uma mulher de 51 anos com sintomas de depressão tam­
bém apresenta glaucoma de ângulo estreito. Qual dos se­
guintes antidepressivos deve ser evitado nessa paciente?
A. Amitriptilina
B. Sertralina
C. Bupropiona
D. Mirtazepina
E. Fluvoxamina
12.4 Um homem de 36 anos apresenta sintomas de comporta­
mento compulsivo. Se algo está fora de ordem, ele sente
que "o trabalho não será realizado com eficácia ou eficiên­
cia". Ele está consciente de que seu comportamento está
interferindo em sua capacidade de executar astarefas diá­
rias, mas não consegue se controlar. Qual dos seguintes
fármacos será mais útil para esse paciente?
A. lmipramina
B. Fluvoxamina
C. Amitriptilina
D. Tranilcipromina
E. Lítio
Resposta correta = D. A mirtazapina é praticamente isenta de efeitos
adversos sexuais. Entretanto, disfunções sexuais ocorrem comumen­
te com inibidores seletivos de captação de serotonina (fluvoxamina,
sertralina e citalopram), bem como com antidepressivos tricíclicos e
inibidores da captação de serotonina e norepinefrina. O lítio é usado
no tratamento da mania e transtorno bipolar.
Resposta correta = E. A duloxetina é um inibidor da captação de se­
rotonina e norepinefrina que pode ser usado em depressões acom­
panhadas de dorneuropática. Os inibidores seletivos de captaçãode
serotonina (fluoxetina e sertralina), os inibidores da MAO (fenelzina)
e os antidepressivos atípicos (mirtazapina) têm escassa atividade
contra dor neuropática.
Resposta correta = A. Devido à sua potente ação antimuscarínica, a
amitriptilina não deve ser administrada em pacientes com glaucoma
pelo risco de aumento agudo na pressão ocular. Os outros antide­
pressivos nãotêm atividade antagonista no receptormuscarínico.
Resposta correta= B. Os ISCSs são particularmente eficazes notra­
tamento dotranstorno obsessivo/compulsivo;afluvoxaminaé aprova­
da para essa condição. Os outros fármacos citados são ineficientes
no tratamento dotranstorno obsessivo/compulsivo.
,
ar
1. RESUMO
acos
. , .
S ICO ICOS
Os fármacos antipsicóticos (também denominados fármacos neurolépticos ou
tranquilizantes maiores) são usados principalmente para tratar esquizofrenia,
mas também são eficazes em outros estados psicóticos, incluindo estados de
mania com sintomas psicóticos, como grandiosidade ou paranoia, alucina­
ções e delírio. O uso de medicação antipsicótica envolve o difícil limite entre o
benefício de aliviar os sintomas psicóticos e o risco de uma ampla variedade
de transtornos pelos efeitos adversos. Os antipsicóticos não são curativos e
nem eliminam o transtorno crônico do pensamento, mas com frequênciadimi­
nuem a intensidade das alucinações e ilusões, permitindo que a pessoa com
esquizofreniafuncione em um ambiente que lhe apoie.
li. ESQUIZOFRENIA
A esquizofrenia é um tipo particularde psicose (ou seja, um transtorno mental
causado por alguma disfunção inerente do cérebro). Caracteriza-se por ilu­
sões, alucinações (com frequência, na forma de vozes) e transtornos de fala
ou pensamento. Esse transtorno mental é uma aflição comum, ocorrendo em
cerca de 1o/
o da população. A doença inicialmente afeta as pessoas no final
da adolescência ou início davida adulta e é um transtorno crônico e incapaci­
tante. A esquizofrenia tem forte componente genético e provavelmente reflete
alguma anormalidade bioquímicafundamental, possivelmente uma disfunção
das vias neuronais dopaminérgicas mesolímbicas ou mesocorticais.
Ili. FÁRMACOS ANTIPSICÓTICOS
Os fármacos antipsicóticos são divididos em primeira e segunda gerações
(Figura 13.1). O fármacos da primeira geração são subdivididos em "de alta"
e "de baixa potência", não só para indicar a eficácias clínica do fármaco, mas
também para indicar sua afinidade pelo receptor D2 da dopamina, o que, por
sua vez, influencia o seu perfil de efeitos adversos.
ANTIPSICÓTICOS DE PRIMEIRA GERAÇÃO
(baixa potência)
Clorpromazina
Proclorperazina
Tioridazina
ANTIPSICÓTICOS DE PRIMEIRA GERAÇÃO
(alta potência)
Flufenazina
Haloperidol
Pimozida
Tiotixeno
ANTIPSICÓTICOS DE SEGUNDA GERAÇÃO
Figura 13.1
Aripiprazol
Asenapina
C/ozapina
lloperidona
Lurasidona
Olanzapina
Quetiapina
Pali
peridona
Risperidona
Ziprasidona
Resumo dos fármacos antipsicóticos.
162 Clark, Finkel, Rey & Whalen
•
•
•
•
• •
•
Dopamina
Fármacos+
neurolépticos ft Dopamina
Figura 13.2
Receptorde
dopamina bloqueado
'
. '
' '
' '
' '
' '
' ..
...1
'.
1
·-·
RESPOSTA
INTRACELULAR
DIMINUÍDA
Ações bloqueadoras da dopamina dos
fármacos neurolépticos.
A. Antipsicóticos de primeira geração
Os antipsicóticos de primeira geração (também denominados antipsicóticos
tradicionais, típicos ou convencionais) são inibidores competitivos em vários
receptores, mas seu efeito antipsicótico reflete o bloqueio competitivo dos
receptores D2 da dopamina. Estes fármacos estão mais associados com
distúrbios do movimento, particularmente para fármacos que se ligam fir­
memente aos neurorreceptores dopaminérgicos, como o haloperido/, e é
menos verdadeiro para aqueles que se ligam fracamente, como a clorpro­
mazi
na. Clinicamente nenhum desses fármacos é mais eficaz do que outro.
B. Antipsicóticos de segunda geração
A segunda geração de fármacos antipsicóticos (também referida como an­
tipsicóticos "atípicos") têm menos sintomas extrapiramidais (SEP) do que
os de primeira geração, mas são associados com maior risco de efeitos
adversos metabólicos, como diabetes, hipercolesterolemia e aumento de
massa corporal.A segunda geraçãode fármacos deve sua atividade singu­
lar ao bloqueio dos receptores da serotonina e dopamina (e talvez outros).
1. Seleção do fármaco. O tratamento antipsicótico atual comumente
compreende um fármaco da segunda geração para minimizar o risco
de transtornos debilitantes do movimento associados com os fárma­
cos da primeira geração, que atuam primariamente no receptor D2 da
dopamina.Todos os antipsicóticos de segunda geração exibem eficá­
cia equivalente e ocasionalmente excedem à dos de primeira geração.
Contudo, foram detectadas diferenças consistentes na eficácia tera­
pêutica entre os fármacos de segunda geração e a resposta indivi­
dual do paciente, bem como as comorbidades, que devem ser usadas
como guia na escolhado fármaco. Osantipsicóticos de segunda-gera­
ção nãodevem serconsiderados intercambiáveis, porque os pacientes
podem responderdiferentemente a cada fármaco desta classe.
2. Pacientes refratários. Cerca de 20°
/
o dos pacientes com esquizo­
frenia apresenta resposta insuficiente a todos os antipsicóticos de
primeira e segunda gerações. Para estes pacientes, a clozapina re­
vela-se um antipsicótico eficazcom riscos mínimos de SEP.A cloza­
pina pode causarsupressão da medula óssea, convulsões e efeitos
cardiovasculares. O risco de agranulocitose grave requer frequente
contagem de leucócitos.
C. Mecanismo de ação
1. Atividade bloqueadora do receptor da dopamina no cérebro.
Todos os antipsicóticos de primeira e a maioria dos de segunda ge­
ração bloqueiam os receptores dadopamina no cérebro e na perife­
ria (Figura 13.2). A eficácia clínica do neuroléptico típico correlacio­
na-se intimamente com sua habilidade de bloquearo receptor D2 no
sistema mesolímbico do cérebro. As ações dos fármacos antipsicó­
ticos são antagonizadas pelos fármacos que aumentam a concen­
tração de dopamina na sinapse (p. ex., levodopa e anfetaminas), ou
mimetizam a dopamina nos locais de ligação pós-sinápticos (p. ex.,
bromocriptina).
2. Atividade bloqueadora do receptor de serotonina no cérebro. A
maioria dos fármacos de segunda geração parece exercer parte da
sua ação singular pela inibição de receptores de SHT, em particular
5HT2A. Assim, a clozapina tem alta afinidade pelos receptores D1,
04, 5HT2, muscarínicos e a-adrenérgicos, mas também é um anta­
gonista fraco no receptor D2 (Figura 13.3). A risperidona bloqueia
o receptor 5HT2A mais intensamente do que o receptor D2, assim
como a olanzapina. O antipsicótico de segunda geração, ari
pipra­
zol é um agonista parcial nos receptores D2 e 5HT1A, bem como
bloqueia os receptores SHT2A' A quetiapina bloqueia os receptores
D2 de modo mais potente do que os SHT2A, mas é um bloqueador
relativamente fraco em ambos os receptores. O seu baixo risco de
efeitos extrapiramidais também pode estar relacionado com o tem­
po de ligação ao receptor D2 relativamente curto.
B. Ações
As ações antipsicóticas dos antipsicóticos parecem refletir o bloqueio dos
receptores de dopamina e/ou serotonina. Contudo, vários desses fármacos
também bloqueiam receptorescolinérgicos, adrenérgicose histamínicos (Fi­
gura 13.4). Não éconhecido que função, se existiralguma, essas açõestêm
no alívio dos sintomas de psicose. Contudo, os efeitos adversos desses fár­
macos com frequência são o resultado de ações nesses outros receptores.
1. Ações antipsicóticas. Todos os antipsicóticos podem diminuir as
alucinações e ilusões (sintomas "positivos") associadas à esquizo­
frenia, bloqueando os receptores de dopamina no sistema mesolím­
bico do cérebro. Os sintomas "negativos", como falta de afeto, ane­
donia (não ter prazerem estímulos normalmente prazerosos), apatia
e falta da atenção, bem como déficit cognitivo, não respondem ao
tratamento particularmente com os antipsicóticos de primeira gera­
ção. Vários fármacos de segunda geração, como a clozapina, ali­
viam os sintomas negativos em alguma extensão.Todos osfármacos
também têm um efeito calmante e reduzem os movimentos físicos
espontâneos. Contrastando com os depressores do SNC, como os
barbitúricos, os antipsicóticos não deprimem tanto a função intelec­
tual do paciente, e a dificuldade de coordenação motora é mínima.
Os efeitos antipsicóticos em geral demoram vários dias e até se­
manas para acontecer, sugerindo que os efeitos terapêuticos estão
relacionados com alterações secundárias nas vias corticoestriatais.
2. Efeitos extrapiramidais. Distonias (contrações sustentadas dos
músculos levando a posturas distorcidas), sintomas tipo Parkinson,
acatisia (intranquilidade motora) e discinesia tardia (movimentos in­
voluntários de língua, lábios, pescoço, tronco e membros) ocorrem
FÁRMACOS
NEUROLÉPTICOS
Farmacologia Ilustrada 163
Afinidadesrelativasnosreceptores02
C/ozapi
na
Clorpromazina
Haloperidol
Baixa
afinidade
Alta
afinidade
Amaioriadosneurolépticostem
afinidadespelosreceptores
dopaminérgicos02proporcionais
à potênciaclínica.
Aclozapinasediferenciados
neurolépticostípicosporapresen­
tarafinidadesimilarpelosrecep­
toresdopaminérgicos01 e02•
Afinidadesrelativasnosreceptores01
C/ozapina
C/orpromazina D
Haloperidol D
Baixa
afinidade
Figura 13.3
Alta
afinidade
Afinidades relativas da clozapina, da
clorpromazina e do haloperidol nos re­
ceptores dopaminérgicos D1 e D2•
Particular-
mente
tioridazina,
c/orpromazina
Particularmente
c/orpromazina
Todos,mas
particularmente
haloperidol,
f/ufenazina,
tiotixeno
Risperidona,
c/ozapina
Particularmente
c/orpromazina,
c/ozapina
,,.
o
�'�-�� 'V
Colinérgico
(receptor
muscarínico)
Figura 13.4
Receptor
«-adrenérgico
,,.
o
Receptorde
dopamina
Receptorde
serotonina
Receptorde
histaminaH1
ReceptorGABA
Os fármacos antipsicóticos bloqueiam os receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos, bem como os adrenérgicos,
colinérgicos e histamínicos. GABA = ácido 'Y-aminobenzoico.
164 Clark, Finkel, Rey & Whalen
. . . Vertigens
Contraas
náuseas
devidaa. • .
,,
. . . Doençado
movimento
Contraas
náuseas
o
o
devidaa. • .
. . . Quimioterapia
docâncer
Contraas
náuseas
devidaa. • .
. . . Radioterapia
Figura 13.5
o
o
Mec/i
zina
Dimenidrinato
Escopolamina
Prometazina
o
o
o
o
Domper
idônio
Ha/oper
idol
Metoc/opramida
Proc/operazina
Tietilperazina
Domperidônio
Aplicações terapêuticas dos fármacos
antieméticos.
com o tratamento crônico. O bloqueio dos receptores de dopamina
na via nigroestriatal provavelmente causa esses movimentos inde­
sejados. Os antipsicóticos de segunda geração exibem menor inci­
dência desses sintomas.
3. Efeito antiemético. Com a exceção da aripiprazo/, a maioria dos
antipsicóticos tem efeito antiemético mediado pelo bloqueio dos re­
ceptores D2dopaminérgicos da zona quimiorreceptora disparadora
bulbar. (Ver p. 357 para uma discussão sobre êmese.) A Figura 13.5
resume o uso antiemético dos antipsicóticos, junto com as aplica­
ções terapêuticas dos outros fármacos que combatem a náusea.
(Nota: os antipsicóticos de segunda geração não são usados como
4.
5.
antieméticos.)
Efeitos anticolinérgicos. Alguns dos antipsicóticos, particularmen­
te tioridazina, clorpromazina, clozapina e olanzapina, produzem
efeitos anticolinérgicos, incluindo visão borrada, sedação, xerosto­
mia (com exceção da clozapina, que aumenta a salivação), confu­
são e inibição do músculo liso do TGI e urinário, levando à consti­
pação e à retenção urinária. Esses efeitos anticolinérgicos podem
reduziro risco de SEP destes fármacos.
Outros efeitos. O bloqueio dos receptores a-adrenérgicos causa hi­
potensão ortostática e cefaleia leve. Os antipsicóticos também alte­
ram os mecanismos de regulação datemperatura e podem produzir
poiquilotermia (condição na qual a temperatura corporal varia com
o ambiente). Na hipófise, os antipsicóticos bloqueiam os receptores
D2, levando ao aumento da liberação de prolactina. Esse aumento
é menos provável com os antipsicóticos de segunda geração. Se­
dação ocorre com os neurolépticos que são potentes bloqueadores
dos receptores de histamina H,, incluindo clorpromazinal, olanzapi­
na, quetiapina e clozapina. Também pode ocorrer disfunção sexual
com os neurolépticos devido a suas características de ligação com
vários receptores.
C. Usos terapêuticos
1. Tratamento da esquizofrenia. Os antipsicóticos são considerados
como os únicos fármacos eficazes no tratamento da esquizofrenia.
Nem todos os pacientes respondem a eles, e a completa normali­
zação do comportamento raramente é alcançada. Os antipsicóticos
de primeira geração são mais eficazes no tratamento dos sintomas
positivos da esquizofrenia (ilusões, alucinações, processamento
das ideias e agitação). Os novos fármacos com atividade bloque­
adora do receptor 5HT2A podem ser eficazes em muitos pacien­
tes que resistem aos neurolépticos tradicionais, especialmente no
tratamento dos sintomas negativos da esquizofrenia (isolamento
social, comprometimento das emoções, ambivalência e diminuição
da capacidade de se relacionar com as pessoas). Contudo, mesmo
os antipsicóticos de segunda geração não melhoram os sintomas
negativos da esquizofrenia consistentemente mais do que os fár­
macos típicos.
2. Prevenção da náusea e êmese graves. Os antipsicóticos anti­
gos (mais comumente a proclorperazi
na) são úteis no tratamento
da náusea induzida por fármacos (ver p. 358). Contudo, a náusea
originada do movimento deve ser tratada com sedativos, anti-hista­
mínicos e anticolinérgicos, em vez dos antipsicóticos, que são mais
potentes. (Nota: a escopolamina, administrada porviatransdérmica,
é o fármaco de escolha contra a doença do movimento.)
3. Outros usos. Os antipsicóticos podem ser usados como tranqui­
lizantes para lidar com o comportamento agitado e inconveniente
secundário a outros transtornos. Os antipsicóticos são associados
com os narcóticos analgésicos contra a dor crônica com ansiedade
grave. A clorpromazina é usada para tratar o soluço intratável. Em­
bora a prometazina não seja um bom antipsicótico, ela é usada no
combate ao prurido, devido às suas propriedades anti-histamínicas.
A pimozida é indicada primariamente no tratamento dos tiques tô­
nicos e motores da doença de Tourette. Todavia, a risperidona e o
haloperidoltambém são prescritos comumente contra estes tiques.
A ri
speridona e o aripiprazol estão aprovados para lidar com o com­
portamento inconveniente e a irritabilidade secundárias ao autismo.
D. Absorção e biotransformação
Após administração oral, os antipsicóticos mostram absorção variável
que não é afetada pelo alimento (exceto a ziprasidona e a paliperidona,
cujas absorções aumentam com a alimentação). Esses fármacos pas­
sam facilmente para o cérebro, têm amplo volume de distribuição, ligam­
-se a proteínas plasmáticas e são biotransformados, em geral pelo siste­
ma CIP450 no fígado, em várias substâncias diferentes, particularmente
as isoenzimas CIP2D6, CIP1A2 e CIP3A4. Alguns metabólitos são ati­
vos. Decanoato de f/ufenazina, decanoato de haloperido/, microesferas
de risperidona, palmitato de pali
peridona e pamoato de olanzapina são
formulações injetáveis de antipsicóticos de ação longa administrados por
via intramuscular profunda nos glúteos ou deltoides. Essas formulações
têm duração terapêutica de duas a quatro semanas e por isso são usa­
dos com frequência para tratar pacientes ambulatoriais e indivíduos que
não aderem à medicação oral. Contudo, os pacientes podem continuar
desenvolvendo SEP, mas o risco é menor com estas formulações inje­
táveis de longa duração comparados com suas respectivas formulações
orais. Os antipsicóticos produzem alguma tolerância, mas pouca depen­
dência física.
E. Efeitos adversos
Os efeitos adversos dos antipsicóticos ocorrem em praticamente todos
os pacientes e são significativos em cerca de 80°
/
o (Figura 13.6). Embora
esses fármacos tenham uma série de efeitos adversos, o seu índice tera­
pêutico é elevado.
1. Efeitos adversos extrapiramidais. No estriado, os efeitos inibitó­
rios dos neurônios dopaminérgicos normalmente são equilibrados
pelas ações excitatórias dos neurônios colinérgicos. O bloqueio dos
receptores de dopamina altera esse equilíbrio, causando um exces­
so relativo da influência colinérgica, que resulta em efeitos moto­
res extrapiramidais. O risco máximo de aparecimento de distúrbios
do movimento depende do tempo e da dosagem, com as distonias
ocorrendo dentro de poucas horas até dias de tratamento, acom­
panhadas das acatisias ocorrendo dentro de dias a semanas. Os
sintomas tipo Parkinson, de bradicinesia, rigidez e tremores, costu­
mam ocorrer dentro de semanas a meses do início do tratamento. A
discinesia tardia, que pode ser irreversível, pode ocorrer após me­
ses ou anos de tratamento.
a. Efeito dos fármacos anticolinérgicos. Se a atividade colinér­
gica também for bloqueada, estabelece-se um novo equilíbrio
mais próximo do normal, e os efeitos extrapiramidais são mini­
mizados. Isso pode ser obtido com a administração de um an­
ticolinérgico, como a benztropina. O "negócio" terapêutico terá
Farmacologia Ilustrada 165
Zz
z
v-=----..
Figura 13.6
Retenção
. , .
unnana
Aumento de
massa corporal
Convulsões
Sedação
Sintomas
extrapiramidais
Hipotensão
postural
Disfunção
sexual
Arritmias e morte
cardíaca súbita
Xerostomia
Efeitos adversos comumente observa­
dos em indivíduos tratados com antipsi­
cóticos.
166 Clark, Finkel, Rey & Whalen
menos SEP em troca de efeitos adversos do bloqueio do recep­
tor muscarínico. (Nota: algumas vezes, as ações tipo Parkinson
permanecem, apesar do uso do anticolinérgico.) Os fármacos
que apresentam forte atividade anticolinérgica, como a tioridazi­
na, mostram menos distúrbios extrapiramidais, pois a atividade
colinérgica é fortemente deprimida. Isso contrasta com o ha/o­
peridol e a flufenazina, que têm pouca atividade anticolinérgica
e produzem efeitos extrapiramidais mais frequentes, devido ao
bloqueio preferencial da transmissão dopaminérgica sem blo­
quear a atividade colinérgica. A acatisia pode responder melhor
aos 13-bloqueadores ou aos benzodiazepínicos do que a medi­
cação anticolinérgica.
2. Discinesia tardia. Os tratamentos de longa duração com os an­
tipsicóticos podem causar essa disfunção motora. Os pacientes
exibem movimentos involuntários, incluindo movimentos faciais
e bilaterais da mandíbula e movimentos de "caça à mosca" com
a língua. A interrupção prolongada do uso do antipsicótico pode
diminuir ou fazer desaparecer os sinais dentro de poucos meses.
Contudo, em muitos indivíduos, a discinesia tardia é irreversível e
persiste mesmo com a interrupção do tratamento. Postula-se que
a discinesia tardia resulta do aumento do número de receptores
de dopamina que são sintetizados como resposta compensatória
ao bloqueio do receptor por tempo muito prolongado. Isso torna os
neurônios supersensíveis às ações da dopamina e faz com que os
estímulos dopaminérgicos nessa estrutura superem os estímulos
colinérgicos, causando o movimento excessivo no paciente. A me­
dicação tradicional anti-SEP geralmente não melhora a discinesia
tardia e pode até piorar a condição.
3. Síndrome do antipsicótico maligno. Essa reação potencialmente
fatal aos antipsicóticos é caracterizada por rigidez muscular, febre,
alteração do estado mental, estupor, pressão arterial instável e mio­
globinemia. O tratamento necessita da interrupção do antipsicótico
e de tratamento de apoio. A administração de dantroleno ou bromo­
cri
ptina pode ser útil.
4. Outros efeitos. Ocorre sonolência devido à depressão do SNC e
aos efeitos anti-histamínicos, em geral durante as primeiras sema-
,
nas de tratamento. As vezes observa-se confusão. Os neurolépticos
com atividade antimuscarínica potente, com frequência, produzem
xerostomia, retenção urinária, constipação e perda de acomodação.
Outros podem bloquear os receptores a-adrenérgicos, resultando
em redução da pressão arterial e hipotensão ortostática. Os anti­
psicóticos deprimem o hipotálamo, afetando a termorregulação e
causando amenorreia, galactorreia, ginecomastia, infertilidade e
impotência. Aumento significativo da massa corporal com frequên­
cia é motivo para a não aderência ao tratamento. Também é reco­
mendado controlar a glicemia e lipidemia dos pacientes que tomam
antipsicóticos de segunda geração, pois eles têm o potencial de au­
mentar estas variáveis laboratoriais e exacerbar diabetes melito ou
hiperlipidemia preexistente.
5. Cautela e contraindicações. A agitação intensa que acompanha a
abstinência do álcool ou de outros fármacos pode ser agravada pe­
los antipsicóticos. A estabilização com sedativos simples, como um
benzodiazepínico, é o tratamento preferido. Todos os antipsicóticos
podem baixaro limiaràs convulsões e devem ser usados com caute­
la em pacientes com distúrbios convulsivos. Portanto, os antipsicóti­
cos podem agravara epilepsia preexistente e devem ser usados com
Farmacologia Ilustrada 167
cautela em pacientes epilépticos.A alta incidência de agranulocitose
com clozapina pode limitar seu uso em pacientes que são resisten­
tes a outros fármacos. Todos os antipsicóticos de segunda geração
recebem a advertência de que aumentam o risco de mortalidade
se usados em pacientes idosos com transtornos comportamentais
relacionados à demência e psicose. O uso de antipsicóticos em pa­
cientes com transtornos do humor deve ser monitorado quanto ao
seu agravamento e às ideias e comportamentos suicidas.
� 100
'#.
-
Pacientesrecebendooneuroléptico
atípicorisperidonaapresentam
menosrecaídasdoqueostratados
comha/operidol,umneuroléptico
típicodealtapotência.
Risperidona
a/operidol
F. Tratamento de manutenção
Pacientes que apresentaram dois ou mais episódios psicóticos secundá­
rios à esquizofrenia devem receber tratamento de manutenção por pelo
menos cinco anos, e alguns especialistas preferem indicartratamento por
tempo indefinido. Há grande ênfase em pesquisar e praticar a identifica­
ção e trataragressivamente o primeiro episódio psicótico para determinar
o benefício dos antipsicóticos nessa população. Doses baixas de anti­
psicóticos não são tão eficazes como as doses maiores no tratamento
de manutenção para prevenir recorrências. A taxa de recaídas pode ser
menorcom os fármacos da segunda geração (Figura 13.7).A Figura 13.8
resume os usos terapêuticos de alguns dos antipsicóticos.
º'---'--'--'--'--'--'--'---''-'--'--'-'--'--'--'--'
o Dias 800
Figura 13.7
Taxas de recaídas entre pacientes com
esquizofreniaapós tratamentode manu­
tenção com risperidona ou haloperidol.
C/orpromazina
Flufenazi
na
Haloperidol
:. • • : • :. : : •
Ar
i
pi
prazo/
Asenapina
C/ozapina
O/anzapina
Paliperidona
Quetiapina
Risperidona
Ziprasidona
Figura 13.8
Potencial moderadoaaltoparaSEP; potencialmoderadoaaltoparaaumentodemassacorporal, ortostasia,sedaçãoeefeitos
antimuscarínicos.
Aformulaçãooraltemaltopotencial paraSEP; baixopotencial paraaumentode massacorporal,sedaçãoeortostasia; potencial
baixoamoderadoparaefeitosantimuscarínicos; ousocomumé daformulaçãoLAI administradaa cada2a3 semanasem
pacientescomesquizofreniaeanamnesedenãoaderênciaaos regimesantipsicóticosorais.
Altopotencial paraSEP; baixopotencialparaaumentodemassacorporal; baixopotencial paraefeitosantiadrenérgicos(ortostasia)
eantimuscarínicos; baixopotencial paraaumentodemassacorporal ousedação; disponível emformulações LAI administradoa
cada4semanas.
Baixopotencial paraSEP; baixopotencial paraperdademassacorporal; baixopotencial parasedaçãoeefeitosantimuscarínicos;
aprovadotambém paraotratamento dotranstornobipolar;aprovadotambémparaotranstornoautistaemcriançasecomo
adjuvantenotratamentocontra depressão.
Baixo potencialpara SEP; baixo potencial paraperda de massacorporal; baixoamoderado potencial parasedação; baixo
potencialparaortostasia; aprovadotambém paraotratamentodotranstornobipolar; disponívelemformulaçãosublingual.
Potencial muitobaixoparaSEP; riscodediscrasiasdosangue(p. ex., agranulocitose= -1°
/o); riscodeconvulsões; riscode
miocardite; altopotencialpara:sialorreia, aumentodemassacorporal, efeitosantimuscarínicos, ortostasiaesedação.
BaixopotencialparaSEP; potencialmoderadoaaltoparaaumentodemassacorporal esedação; baixopotencial paraortostasia;
aprovadotambém paraotratamentodotranstorno bipolar; disponível comformulaçãoLAI administradaa cada2a4semanas.
Baixoamoderadopotencial paraSEP; baixopotencial paraaumentodemassacorporal; baixopotencialparasedação;
disponívelcomoformulaçãoLAI administradaacada4semanas;aprovadatambém parausoemtranstornosesquizoafetivos.
BaixopotencialparaSEP; potencial moderadoparaaumentodemassacorporal; potencial moderadoparaortostasia; potencial
moderadoa altoparasedação; aprovadotambém paraotratamentodetranstornobipolarecomotratamentoauxiliarcontraa
depressão.
Potencial baixoamoderado paraSEP; potencial baixoamoderadoparaaumentodemassacorporal; potencial baixoamoderado
paraortostasia; potencial baixo amoderadoparasedação; aprovadotambém paraotratamentodotranstornobipolar; aprovado
tambémparaotranstornoautistaemcrianças; disponívelcomoformulaçãoLAI administradaa cada2meses.
Baixopotencialparaefeitosextrapiramidais; contraindicadaem pacientescomanamnesede arritmiascardíacas; aumentode
massacorporal mínimo. Usadonotratamentodadepressãobipolar.
Resumo dos fármacos antipsicóticos comumente usados para tratar a esquizofrenia. SEP = sinais extrapiramidais;
LAI = longa ação, injetável.
168 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
13.1 Um menino adolescente foi recém-diagnosticado com es­
quizofrenia. Qual dos seguintes antipsicóticos pode melho­
rar sua apatia e baixa afetividade?
A. Clorpromazina
B. Flufenazina
C. Haloperidol
D. Risperidona
E. Tioridazina
13.2 Qual dos seguintes antipsicóticos é um agonista parcial
nos receptores 02 da dopamina?
A. Aripiprazol
B. Clozapina
C. Haloperidol
D. Risperidona
E. Tioridazina
13.3 Um homem de 21 anos iniciou recentemente tratamento
com pimozida contra a síndrome de Tourette. Ele é trazido
à emergência porseus pais, que descrevem que ele come­
çou a ter''tiques diferentes", como contrações prolongadas
dos músculos da face. Durante o exame, ele apresentou
opistótono (espasmo corporal no qual a cabeça e calca­
nhares são dobrados para trás e o corpo é arqueado para
frente; um tipo de efeito extrapiramidal). Qual dos seguin­
tes fármacos seria benéfico na redução desses sinais?
A. Benztropina
B. Bromocriptina
e. Lítio
D. Proclorperazina
E. Risperidona
13.4 Uma mulher de 28 anos com transtorno afetivo esquizoide
e dificuldade em dormir poderia ser beneficiada com qual
dos seguintes fármacos?
A. Aripiprazol
B. Clorpromazina
C. Haloperidol
D. Risperidona
E. Ziprasidona
Respostacorreta= D.A risperidonaé o únicoantipsicóticoda relação
que tem alguma utilidade em aliviar os sintomas negativos da esqui­
zofrenia.Todos os fármacos têm potencial de diminuiras alucinações
e os processos ilusórios.
Resposta correta = A. Aripiprazol é o fármaco que atua como ago­
nista parcial nos receptores 02• Teoricamente, esse fármaco deve
aumentar a ação nesses receptores, quando há baixa concentração
de dopamina, e deve bloquear as ações de concentrações elevadas
de dopamina. Os demais fármacos são somente antagonistas nos
receptores 02, sendo o haloperidol especialmente potente.
Resposta correta = A. O paciente está apresentando sinais extrapi­
ramidais devidos à pimozida, e um antagonista muscarínico como a
benztropina deve ser eficaz na redução dos sinais. Os outros fárma­
cos nãoterão efeitoou, nocasoda proclorperazina, podem aumentar
os sinais.
Resposta correta = B.A clorpromazina tem significativa atividade se­
dativa, bem como propriedades antipsicóticas. Das opções, ela é o
fármaco mais capaz de aliviar a principal queixa da paciente, incluin­
do sua insônia.
• •
101
1. RESUMO
Controlara dor é um dos maiores desafios da clínica médica. A doré definida
como uma sensação desagradável, que pode ser aguda ou crônica, e é con­
sequência de complexos processos neuroquímicos nos sistemas nervosos
periférico e central. A doré subjetiva, e o clínico deve basear-se na percepção
e na descrição do paciente. O alívio da dor depende do tipo específico da
dor: nociceptiva ou neurogênica. Em muitos casos, por exemplo, na dor artrí­
tica leve à moderada (dor nociceptiva), os anti-inflamatórios não esteroides
(AINEs; ver Capítulo 42) são eficazes. A dor neurogênica responde melhor
aos anticonvulsivantes (p. ex., pregabalina; ver p. 188), aos antidepressivos
tricíclicos (p. ex., amitri
ptilina; ver p. 156) ou aos inibidores da captação de
serotonina/norepinefrina (p. ex., duloxetina; ver p. 14) do que aos AINEs ou
aos opioides. No entanto, na dor maligna ou não maligna, intensa ou crô­
nica, geralmente os opioides são os fármacos de escolha. Os opioides são
compostos naturais ou sintéticos que produzem efeitos semelhantes aos da
morfina. (Nota: o termo "opiato" é reservado para fármacos, como morfina e
codeína, obtidos do extrato da papoula.) Todos os fármacos dessa categoria
agem se ligando a receptores específicos de opioides no SNC para produzir
efeitos que imitam a ação de neurotransmissores peptídeos endógenos (p.
ex., endorfinas, encefalinas e dinorfinas). Embora os opioides apresentem
um amplo espectro de efeitos, sua utilização principal é para aliviar a dor
intensa, independentemente da dor ser de cirurgia ou resultante de lesão ou
doença, como o câncer. Entretanto, sua ampla disponibilidade levou ao abuso
de opioides capazes de produzir euforia. Os antagonistas que podem reverter
as ações dos opioides também são muito importantes clinicamente para o
uso em casos de dosagem excessiva. A Figura 14.1 lista os agonistas e anta­
gonistas opioides discutidos neste capítulo.
li. RECEPTORES OPIOIDES
Os opioides interagem de forma estéreo-específica com receptores proteicos
na membrana de certas células do SNC, de terminais nervosos na periferia e
AGONISTAS POTENTES
Alfentanila
Fentanila
Heroí
na
Hidrocodona
Hidromorfona
Meperidina
Metadona
Morfi
na
Oxicodona
Oxymor
phone
Remifentanila
Sufentanila
Tapendatol
AGONISTAS MODERADOS/FRACOS
Codeí
na
AGONISTAS-ANTAGONISTAS MISTOS E
AGONISTAS PARCIAIS
Buprenorfina
Butorfanol
Nalbufina
Pentazoeina
ANTAGONISTAS
Nalmefeno
Naloxona
Naltrexona
OUTROS ANALGÉSICOS
Tramado/
Figura 14.1
Resumo dos analgésicos opioides e
antagonistas.
170 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Aativaçãodoreceptordeopioide
diminuioinfluxodeCa2•em
respostaaopotencialdeação.
Issodiminuialiberaçãode
neurotransmissoresexcitatórios,
comooglutamato.
NEURÔNIO
PRÉ-SINÁPTICO
Vesícula
sináptica
o
o
Resposta
excitatória
K•
o �
K•
Aativaçãodoreceptor
deopioideaumentao
efluxodeK•ediminuia
respostadoneurônio
pós-sinápticoaos
neurotransmissores
excitatórios.
NEURÔNIO
PÓS-SINÁPTICO
Figura 14.2
t
Mecanismo de ação do agonista do re­
ceptor µ, de opioide na medula espinal.
de células doTGI e de outras regiões anatômicas. Os efeitos mais importantes
dos opioides são mediados portrês principais famílias de receptores, designa­
das pelas letras gregas µ, (mü), K (capa) e S (delta). Cada família de receptor
apresenta uma especificidade diferente para os fármacos com os quais ela se
liga. As propriedades analgésicas dos opioides são mediadas principalmente
pelos receptores µ,; no entanto, os receptores K do corno dorsal também con­
tribuem (p. ex., butorfanole nalbufina) e devem seu efeito analgésico principal­
mente à ativação do receptor K. As encefalinas interagem mais seletivamente
com os receptores S na periferia. Os três receptores opioides são membros da
família de receptores acoplados à proteína G e inibem a adenililciclase. Eles
também estão associados a canais iônicos, aumentando o efluxo pós-sináp­
tico de K+ (hiperpolarização) ou reduzindo o influxo pré-sináptico de Ca
2
+, im­
pedindo, assim, o disparo neuronal e a liberação do transmissor (Figura 14.2).
Ili. AGONISTAS POTENTES
A morfina é o principal fármaco analgésico presente no ópio bruto, sendo o
protótipo do agonista potente. A codeína também está presente, em menores
concentrações, e é menos potente, tornando-a protótipo dos agonistas opioi­
des fracos. A morfina e vários outros opioides têm afinidade pelos receptores
µ,, e outros têm afinidades variáveis pelos receptores S e K.
A. Morfina
1. Mecanismo de ação. Os opioides exercem seus efeitos principais
interagindo com os receptores opioides no SNC e em outras es­
truturas anatômicas, como o TGI e a bexiga. Eles causam hiper­
polarização das células nervosas, inibição da descarga nervosa e
inibição pré-sináptica da liberação de neurotransmissor. A morfi
na
age nos receptores K nas lâminas 1 e li do corno dorsal da medula
espinal e reduz a liberação da substância P, que modula a percep­
ção da dor na medula espinal. Ela também parece inibir a liberação
de vários neurotransmissores excitatórias dos terminais nervosos
que levam a estímulos nociceptivos (dolorosos).
2. Ações
a. Analgesia. A morfi
na produz analgesia (alívio da dorsem perda
de consciência). Os opioides aliviam a dor elevando o limiar de
dor na medula espinal e, o que é mais importante, alterando a
percepção de dor do cérebro. Os pacientes tratados com morfi­
na ainda têm consciência da presença da dor, mas a sensação
não é desagradável. Entretanto, quando a morfina é administra­
da em um indivíduo sem dor, os efeitos podem ser desagradá­
veis e causar náuseas e êmese. A eficácia analgésica máxima
dos agonistas típicos é mostrada na Figura 14.3.
b. Euforia. A morfina produz umaforte sensação de contentamen­
to e bem-estar.A euforia pode sercausada peladesinibição dos
neurônios que contêm DA do tegumento ventral.
e. Respiração. A morfina causa depressão respiratória pela des­
sensibilização ao dióxido de carbono dos neurônios do centro
respiratório. Esse efeito pode ocorrer com doses normais de
morfi
na em pacientes "virgens" para morfina e acentuar à me­
dida que a dose aumenta até que, por fim, a respiração cessa.
A depressão respiratória é a causa mais comum de morte nos
casos de superdose aguda de opioides.A tolerância a este efei­
to se desenvolve rapidamente com dosificações repetidas o que
permite o uso seguro da morfi
na para otratamento dadorquan­
do a dosagem é titulada corretamente.
d. Depressão do reflexo da tosse. A morfina e a codeína pos­
suem propriedades antitussígenas. Em geral, a supressão da
tosse não se correlaciona bem com as propriedades analgési­
cas e de depressão respiratória dos opioides. Os receptores en­
volvidos naação antitussígena parecem serdiferentes daqueles
envolvidos na analgesia.
e. Miose. A pupila puntiforme, característica do uso da morfina,
resulta do estímulo dos receptores µ. e K. A morfina estimula o
núcleo de Edinger-Westphal do nervo oculomotor, o que cau­
sa aumento da estimulação parassimpática para o olho (Figura
14.4). Há pouca tolerância ao efeito, e todos os dependentes
de morfina apresentam pupilas puntiformes. (Nota: esse fato é
importante para o diagnóstico, já que muitas outras causas de
coma e depressão respiratória causam dilatação da pupila.)
f. Êmese. A morfi
na estimula diretamente a zona quimiorrecepto­
ra disparadora na área postrema que causa êmese.
g. Trato gastrintestinal. A morfina alivia a diarreia e a disenteria,
diminuindo a motilidade e aumentando o tônus do músculo liso
circular intestinal. Elatambém aumenta o tônus do esfíncteranal.
De uma maneira geral, a morfina e outros narcóticos provocam
constipação, com pouco desenvolvimento de tolerância. (Nota: a
associação laxante de venda livre do amolecedor de fezes do­
cusato com o laxante estimulante senna tem sido usado com
sucesso para tratar esta constipação induzida por opioides.) A
morfina também pode aumentar a pressão no trato biliar devido
à contração da vesícula biliar e à constrição do esfíncter biliar.
h. Cardiovascular. A morfi
na não exerce grandes efeitos sobre a
pressão arterial ou a frequência cardíaca, exceto em doses ele­
vadas, na qual podem ocorrer hipotensão e bradicardia. Devido
à depressão respiratória e à retenção de dióxido de carbono, os
vasos cerebrais se dilatam e aumentam a pressão do líquido ce­
rebrospinal. Assim, normalmente, a morfinaestá contraindicada
em indivíduos com lesão grave na cabeça ou no cérebro.
i. Liberação de histamina. A morfina provoca liberação de hista­
mina dos mastócitos, causando urticária, sudoração e vasodila­
tação. Como pode causar broncoconstrição, pacientes asmáti­
cos não devem receber o fármaco.
j. Ações hormonais. A morfina aumenta a liberação de hormônio
do crescimento e aumenta a secreção de prolactina. Elaaumen­
ta o hormônio antidiurético, levando, assim, à retenção urinária.
(Nota: como a morfina também pode inibir o reflexo de esvazia­
mento da bexiga urinária, pode ser necessária a cateterização.)
k. Parto. A morfina pode prolongar o segundo estágio do trabalho
de parto diminuindotemporariamente a força, a duração e a fre­
quência das contrações uterinas.
3. Usos terapêuticos
a. Analgesia. Mesmo com numerosas pesquisas, foram desenvol­
vidos poucos fármacos tão eficazes quanto a morfi
na no alívio
da dor. Os opioides induzem o sono e, em situações clínicas
Farmacologia Ilustrada 171
Alfentanila
Fentanila
Hidrocodona
Meperidina
Metadona
Morfina
Oxi
codona
Ramifentanila
Sufentanila
Buprenorfina
Nalbufina
Pentazoeina
Codeína
Figura 14.3
Baixa Alta
Comparação da eficácia máxima dos
analgésicos narcóticos comumente uti­
lizados.
Figura 14.4
A morfi
na causa aumento da estimula­
ção parassimpática no olho, resultando
na pupila puntiforme.
172 Clark, Finkel, Rey & Whalen
v===l
PA
Hipotensão
,,
Disforia
(ansiedade,
depressão e
mal-estar)
,,
Sedação
,,
Constipação
Retenção
urinária
Náusea
v=
V
Potencial
para
dependência
(vício)
Depressão
respiratória
Figura 14.5
�''
Z z
o
o
Efeitos adversos comumente observa­
dos em indivíduostratados com opioides.
b.
e.
nas quais há dor e o sono é necessário, eles podem ser utili­
zados para complementar a propriedade indutora de sono das
benzodiazepinas, como o temazepam. (Nota: normalmente os
sedativos-hipnóticos não são analgésicos e podem ter seu efei­
to sedativo diminuído na presença de dor.)
Tratamento da diarreia. A morfina reduz a motilidade e au­
menta o tônus da musculatura lisa circular intestinal. (Nota: isso
pode causar constipação. Produtos contendo morfina, como a
tintura de ópio e a tintura canforada de ópio [paregórico], têm
sido usados contra a diarreia.)
Alívio da tosse. Ainda que a morfina suprima o reflexo da tosse,
a codeína ou o dextrometorfano são mais utilizados com esse
objetivo. A codeína apresenta maior ação antitussígena do que a
morfina.
d. Tratamento do edema pulmonar agudo. A morfi
na por via IV
alivia a dispneia causada por edema pulmonar associado à fa­
lência ventricular esquerda - possivelmente pelo seu efeito va­
sodilatador.
4. Farmacocinética
a. Administração. Por causa da significativa biotransformação de
primeira passagem da morfina no fígado, as injeções IM, SC ou
IV produzem as respostas mais confiáveis. A absorção da mor­
fina doTGI é lenta e errática. Quando a morfina é usada por via
oral, em geral é administrada em uma forma de liberação lenta
,
para obter níveis plasmáticos mais consistentes. E importante
notar que a morfi
na tem perfil farmacocinético linear. Este com­
portamento farmacocinético permite que a dosagem seja mais
previsível e flexível. (Nota: nos casos de dor crônica associada
à doença neoplásica, é comum utilizar os comprimidos orais de
liberação lenta ou bombas que permitem ao paciente controlar
a dor pela autoadministração.)
b. Distribuição. A morfina entra rapidamente em todos os teci­
dos do organismo, inclusive no feto, e não deve ser utilizada
para analgesia durante o trabalho de parto. Recém-nascidos
de mães adietas apresentam dependência física de opioides,
manifestando sintomas de abstinência se o opioide não for ad­
ministrado. Somente uma pequena fração de morfina atravessa
a barreira hematencefálica, já que a morfinaé o fármaco menos
lipofílico dos opioides comuns. Nesse aspecto, a morfina con­
trasta com os opioides mais lipossolúveis, como a fentanila, e a
metadona, que penetram rapidamente o cérebro.
e. Destino. A morfina é conjugada com ácido glicurônico no fí­
gado. A morfina-6-glicuronato é um analgésico muito potente,
e o conjugado na posição 3 (morfina-3-glicuronato) não tem
atividade opioide, mas parece causar efeitos neuroexcitatórios
observados com doses altas de morfi
na. Os conjugados são
excretados primariamente na urina e pequenas quantidades
aparecem na bile. A duração de ação da morfina é de 4 a 6 ho­
ras quando administrada sistemicamente em indivíduos nunca
expostos, e é consideravelmente mais longa quando injetada
por via epidural, porque sua baixa lipofilicidade retarda a redis­
tribuição do espaço epidural. (Nota: a idade do paciente pode
influenciar a resposta à morfina. Pacientes idosos são mais sen­
síveis ao efeito analgésico, possivelmente devido à diminuição
do metabolismo ou a outros fatores, como a diminuição da mas­
sa corporal, da função renal, etc. Eles devem receber dosagens
menores. Os neonatos não devem receber morfinadevido à sua
baixa capacidade de conjugação.)
5. Efeitos adversos. Pode ocorrer grave depressão respiratória e re­
sultar em óbito o envenenamento agudo com opioides. Um efeito
grave é a parada das trocas respiratórias em pacientes com enfise­
ma ou corpulmonale. (Nota: se a morfina for utilizada nesses indi­
víduos, a respiração deve ser cuidadosamente monitorada.) Outros
efeitos incluem êmese, disforia e efeitos hipotensivos acentuados
por histamina (Figura 14.5). A elevação da pressão intracraniana,
particularmente em lesões na cabeça, pode ser grave. A morfina
aumenta a isquemia cerebral e espinal. Na hiperplasia prostática
benigna, a morfina pode causar retenção urinária aguda. Pacien­
tes com insuficiência suprarrenal ou mixedema podem apresentar
efeitos dos opioides mais intensos ou prolongados. A morfi
na deve
ser utilizada com cautela nos pacientes com asma brônquica, insu­
ficiência hepática ou comprometimento da função renal.
6. Tolerância e dependência física. O uso repetido da morfina pro­
duz tolerância aos seus efeitos depressor respiratório, analgésico,
eufórico e sedativo. No entanto, normalmente não se desenvolve
tolerância aos efeitos de constrição pupilar e de constipação. De­
pendência física e psicológica ocorre rapidamente com a morfina e
com alguns dos outros agonistas (ver Figura 14.3). A retirada pro­
duz umasérie de respostas autônomas, motoras e psicológicas que
incapacitam o indivíduo e causam sintomas graves (quase insupor­
táveis). Entretanto, é muito raro que os efeitos sejam tão intensos a
ponto de levar a óbito. (Nota: a desintoxicação de indivíduos depen­
dentes de morfina normalmente é alcançada pela administração via
oral de metadona, buprenorfina [ver adiante] ou clonidina.)
7. Interações farmacológicas. As interações de fármacos com morfi­
na parecem ser raras, contudo as ações depressivas da morfi
na são
acentuadas pelas fenotiazinas, pelos inibidores da monoamina oxida­
se (1MAO) e pelos antidepressivos tricíclicos (ver Figura 14.6).
B. Meperidina
A meperidina é um opioide sintético estruturalmente não relacionado à
morfi
na. Ela é utilizada contra a dor aguda.
1. Mecanismo de ação. A meperidi
na se liga aos receptores de opioi­
des, particularmente aos receptores µ. Também se liga de modo
eficaz aos receptores K.
2. Ações. A meperidina causa depressão da respiração de forma se­
melhante à morfina, mas não apresenta ação cardiovascular signifi­
cativa quando administrada por via oral. Na administração IV, a me­
peridina produz diminuição na resistência periférica e aumento no
fluxo sanguíneo periférico e pode aumentar a frequência cardíaca.
Como ocorre com a morfi
na, a meperidina dilata os vasos cerebrais,
aumenta a pressão do líquido cerebrospinal e contrai a musculatura
lisa (esse último menos intensamente do que a morfina). A meperi­
dina não causa pupila puntiforme, mas dilatação das pupilas devido
a uma ação anticolinérgica.
3. Utilização terapêutica. A meperidina produz analgesia, mas não
é recomendada para uso prolongado, porque seu metabólito ativo,
normeperidina tem propriedades neurotóxicas significativas. Ao
Farmacologia Ilustrada 173
Contraindicação
absoluta para
meperidina e contraindicação
relativa para outros
analgésicos
narcóticos devido à
alta incidência de
coma hiperpiréxico
Maior depressão
do SNC,
particularmente
depressão
respiratória
Inibidores Sedativos-
da MAO -hi nóticos
Antidepressivos Fármacos
tricíclicos neurolépticos
Maiorsedação;efeitosvariáveis
sobreadepressãorespiratória
Figura 14.6
1nteração de fármacos com analgési­
cos narcóticos. SNC = sistema nervoso
central; MAO = monoamina oxidase.
Legenda
Morfina
Meperidina
Fentanila
Figura 14.7
Tempoparaopicodeefeito
Duraçãodeação
15 minutos
2 a 4 horas
5 minutos
15 a 30 minutos
Tempo para o pico de efeito e duração
de ação de vários opioides administra­
dos porvia IV.
174 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Abuprenorfina é usada na desintoxi­
caçãode opioide, pois tem sintomas de
abstinência menos graves e de duração
mais curta comparado com a metadona.
i.-----""!'llr-Heroína,
Buprenorfina
Metadona
5 10
Diasdesdeaúltimadosificação
Os sintomas duram maiscom a
metadona, mas são menos intensos
do que os da abstinência de heroína.
Figura 14.8
15
Gravidade dos sintomas de abstinência
ao opioide após suspenção abrupta de
dosagens equivalentes de heroína, bu­
prenorfina e metadona.
contrário da morfi
na, a meperidina não é útil clinicamente no trata­
mento da diarreia ou da tosse. Ela produz menos retenção urinária
do que a morfina.
4. Farmacocinética. A meperidina é bem absorvida noTGI e está dis­
ponível para administração oral. No entanto, a meperidina é admi­
nistrada com maior frequência por via parenteral. Sua duração de
ação é de 2 a 4 horas, que é inferior à da morfina (Figura 14.7). No
fígado, a meperidina sofre N-desmetilação em normeperidina e é
excretada na urina.
5. Efeitos adversos. Doses elevadas ou repetidas de meperidina
podem causar ansiedade, tremores, espasmos musculares e, rara­
mente, convulsões devido ao acúmulo do metabólito normeperidi­
na. O fármaco difere dos opioides porque, quando administrado em
doses elevadas, dilata a pupila e causa reflexos hiperativos. Pode
ocorrer hipotensão grave quando o fármaco é administrado no pós­
-operatório. Devido à sua ação antimuscarínica (anticolinérgica), os
pacientes podem sentir a boca seca e a visão borrada. Quando o
fármaco é utilizado em conjunto com os principais antipsicóticos,
a depressão é muito aumentada. A administração a pacientes que
também utilizam IMAO ou dextrometorfano pode provocar reações
graves, como convulsões e hipertermia. A meperidi
na é considera­
da inadequada para uso em pacientes geriátricos e naqueles com
função renal insuficiente devido ao acúmulo de normeperidina. De­
vido à toxicidade associada com o uso de meperidi
na em idosos,
esta medicação foi incluida na relação de Beers desenvolvida para
identificar os fármacos que devem ser evitados em pacientes ido­
sos. Os efeitos adversos associados com normeperidina não são
reversíveis com administração de naloxona.
C. Metadona
A metadona é um opioide sintético, eficaz por via oral, com potência
equianalgésica variável comparada à da morfi
na, e a conversão entre
os dois fármacos não é linear. A metadona causa menos euforia e tem
duração de ação pouco maior.
1. Mecanismo de ação. As ações da metadona são mediadas pelos
receptores µ.. Além disso, a metadona é um antagonista do receptor
NMDA, o que é útil no tratamento da dor neurogênica.
2. Ações. A metadona é bem absorvida quando administrada por via
oral, diferente da morfi
na, que é apenas parcialmente absorvida no
TGI. Como a morfi
na, a metadona aumenta a pressão biliare causa
constipação (mas menos do que a morfi
na).
3. Utilização terapêutica. A metadona é usada como analgésico nas
dores nociceptivas e neurogênicas, bem como é usada na retirada
controlada dos dependentes de heroína e morfi
na. Por via oral, ela
substitui o opioide injetável. O paciente então vai recebendo doses
gradualmente menores de metadona. A metadona causa síndrome
de abstinência mais suave, contudo mais longa (dias a semanas),
do que a de outros opioides (Figura 14.8).
4. Farmacocinética. A metadona é bem absorvida após a adminis­
tração via oral. O fármaco é biotransformado no fígado e excretado
,
quase exclusivamente nas fezes. E importante entender a farma-
cocinética da metadona ao usar este fármaco devido às múltiplas
variáveis associadas. A metadona é muito lipossolúvel, levando ao
acúmulo nos tecidos gordurosos. A liberação lenta destes tecidos
faz a meia-vidavariar de 12 a 40 horas e foi registrado que pode se
estender até 150 horas. A duração efetiva da analgesia varia de 4 a
8 horas.Após dosificações repetidas, os níveis de metadona podem
acumular devido a longa meia-vida terminal, levando à toxicidade.
A biotransformação é variável, pois depende de múltiplas enzimas
CIP450, algumas das quais são afetadas por polimorfismo genético
conhecido e são suscetíveis a várias interações por fármacos.
5. Efeitos adversos. A metadona pode produzir dependência física,
similar à da morfina, mas causa menos neurotoxicidade do que ob­
servado com morfi
na, porque nãotem metabólitos ativos.A metado­
na pode causar torsade depointesem certas situações. A dosagem
excessiva pode acontecer quando quem prescreve não está atento
para a tolerância cruzada incompleta entre a metadona e outros
opioides, à longa meia-vida associada com a metadona e às nor­
mas próprias de titulação, para evitar o acúmulo, além das múltiplas
interações com fármacos que podem ocorrer com a metadona.
D. Fentanila
A fentanila, quimicamente relacionada à meperidina, apresenta 100 ve­
zes a potência analgésica da morfi
na, sendo utilizada na anestesia. Ela é
altamente lipofílica e apresenta rápido início de ação, mas curta duração
(15 a 30 minutos). Normalmente elaé administrada porvia IV, epidural ou
intratecal. A fentanila é utilizada por via epidural para induzir anestesia
(ver p. 146) e para analgesia pós-operatória e durante o parto. Também
estão disponíveis uma preparação oral transmucosa e um adesivo trans­
dérmico do fármaco.A preparação transmucosa é utilizada no tratamento
de pacientes com câncerque apresentam dor súbita e são tolerantes aos
opioides (Figura 14.9). O adesivo transdérmico deve ser utilizado com
cautela, pois se sabe que pode ocorrer óbito devido à hipoventilação.
(Nota: o adesivo transdérmico cria um reservatório do fármaco na pele.
Assim, o início da ação é retardado por 12 horas, e a duração é prolon­
gada.) Frequentemente a fentanila é usada durante cirurgias cardíacas,
já que ela tem efeitos negligenciáveis na contratilidade do miocárdio. A
fentanila é biotransformada em metabólitos inativos pelo sistema CIP450
3A4, e os fármacos que inibem essa isoenzima podem potencializar os
seus efeitos. A maior parte da fentanila e seus metabólitos são elimi­
nados pela urina. Os seus efeitos adversos são semelhantes aos dos
agonistas de receptores µ... Devido à hipoventilação com risco de vida,
o adesivo de fentanila é contraindicado no tratamento da dor aguda e
pós-operatória ou da dor que pode ser reduzida com outros analgésicos.
Diferentemente da meperidi
na, a fentanila causa constrição pupilar.
E. Sufentanila, alfentanila e remifentanila
Três fármacos relacionados à fentanila - sufentanila, alfentanila e remi­
fentanila -diferem em potência e destino metabólico. A sufentanila é ain­
da mais potente do que a fentanila, e os outros dois são menos potentes
e têm ação mais curta.
F. Heroína
A heroína não existe naturalmente. Ela é produzida pela diacetilação da
morfina, que leva à triplicação dasua potência. Sua maior lipossolubilida­
de permite-lhe atravessar a barreira hematencefálica mais rapidamente
do que a morfi
na, causando euforia mais exagerada quando injetada. A
heroína é convertida em morfina no organismo, mas seus efeitos duram
a metade do tempo. Ela não tem utilização médica aprovada nos Estados
Farmacologia Ilustrada 175
Aformatransmucosadafentani/aé aplicada
namucosabucalnaformadepastilhaque
opacientechupa.
Mucosa
oral -+-
Tecido
vascular
Figura 14.9
Matriz
contendo
fentanila
.
..
Matriz
contendo
fentanila
'-------.1 -- Saliva
Aplicação transmucosa de fentanila. As
pastilhas são usadas somente em pa­
cientes tolerantes aos opioides, como
pacientes com câncer que sentem do­
res episódicas. A absorção da forma
transmucosa bucal garante rápida ab­
sorção e um efeito mais prolongado do
que quando administrado pelo sistema
gastrintestinal após deglutição.
176 Clark, Finkel, Rey & Whalen
,, Dor
Analgesia
,,
Sedação
Euforia
Tosse seca
Figura 14.10
Algumas ações da codeína.
Zz
z
Unidos, mas é usada terapeuticamente em outros países contra a dor
grave do câncer.*
G. Oxicodona e oximorfona
A oxicodona é um derivado semissintético da morfi
na. Ela é ativa por
via oral e, algumas vezes, formulada com ácido acetilsalicílico (AAS) ou
com paracetamol. A oxicodona é usada no tratamento da dor moderada a
intensa, apresentando muitas propriedades em comum com a morfina. O
efeito analgésico oral é aproximadamente o dobro da morfi
na. Ela é bio­
transformada via CIP450 206 e 3A4. A excreção é por via renal. O abuso
das preparações de liberação lenta (ingestão dos comprimidos pulveriza-
,
dos) é associado a muitos óbitos. E importante que as formas com maior
dose desse tipo de preparação sejam utilizadas apenas por pacientes
com tolerância a opioides. A oximorfona é um narcótico analgésico com
potência similar à da hidromorfona (ver adiante). Está disponível em for­
mulações de liberação estendida e de ação intermediária. Não ocorrem
interações de fármacos clinicamente relevantes associadas com o siste­
ma enzimático CIP450 comparado com a oxicodona.
H. Hidromorfona e hidrocodona
Hidromorfona e hidrocodona são ativas por via oral e análogos semisin­
téticos da morfi
na e codeína, respectivamente. A hidromorfona por via
oral é cerca de 8 a 1O vezes mais potente do que a morfina oral como
analgésico e é usada mais frequentemente para tratar a dor grave. A hi­
dromorfona é preferida ante a morfi
na em pacientes com disfunção renal
devido ao menor acúmulo de metabólitos ativos comparado à morfina.
A hidrocodona é o éter metílico da hidromorfona, mas é um analgésico
mais fraco do que a hidromorfona. A potência analgésica da hidrocodona
oral é aproximadamente a da morfi
na. A hidrocodona é associada com
paracetamol ou ibuprofeno para tratar dor moderada a intensa. Ela tam­
bém é usada como antitussígeno. A hidrocodona é biotransformada no
fígado a vários metabólitos, um dos quais é a hidromorfona por ação da
CIP450 206 que pode ser afetada por interações com outros fármacos.
IV. AGONISTAS MODERADOS A FRACOS
A. Codeína
A ação analgésica da codeína deriva da sua conversão à morfi
na pelo
sistema enzimático CIP450 206, e os efeitos antitussígenos são devi­
dos à própria codeína. Portanto, a codeína é um analgésico muito menos
potente do que a morfina. A potência analgésica da codeína é cerca de
30°
/
o daquela da morfina. A codeína apresenta boa atividade antitussí­
gena em doses que não são analgésicas. Nas dosagens usadas comu­
mente, ela apresenta menor potencial para abuso do que a morfi
na. Ela
é utilizada frequentemente em combinação com ácido acetilsalicílico ou
com paracetamol. (Nota: na maioria das preparações contra tosse que
não necessitam de receita, a codeína é substituída por fármacos como o
dextrometorfano, um depressor da tosse sintético que relativamente não
possui propriedades analgésicas e tem relativo baixo potencial de abuso,
nas doses antitussígenas usuais.) A Figura 14.1O lista algumas ações da
codeína.
*
N. deT. A heroína não tem utilização médica aprovada no Brasil.
V. AGONISTAS-ANTAGONISTAS E AGONISTAS PARCIAIS
Os fármacos que estimulam um receptore bloqueiam outro são denominados
agonistas-antagonistas. Os efeitos desses fármacos dependem da exposição
prévia a opioides. Em indivíduos que não receberam opioides recentemente,
os agonistas-antagonistas apresentam atividade agonista e são utilizados no
alívio da dor. No paciente dependente de opioides, os fármacos agonistas­
-antagonistas podem apresentar principalmente efeitos bloqueadores (i.e.,
produzem sintomas de abstinência).
A. Pentazocina
A pentazoci
na age como agonista nos receptores K e é um antagonista
fraco nos receptores µ e S. Ela promove analgesiaativando receptores na
medula espinal e é empregada no alívio da dor moderada. Pode ser ad­
ministrada porvia oral ou parenteral.A pentazoci
na produz menos euforia
quando comparada à morfina. Em doses mais altas, provoca depressão
respiratória e reduz a atividade doTGI. Doses altas aumentam a pressão
arterial e podem causar alucinações, pesadelos, distaria, taquicardia e
tontura (devido a esses últimos efeitos, o uso de pentazocina diminuiu).
Na angina, a pentazocina aumenta a pressão aórtica média e a pressão
arterial pulmonare, assim, aumenta otrabalho do coração. O fármaco re­
duz ofluxo plasmático renal. Apesar de sua ação antagonista, apentazo­
cina não antagoniza a depressão respiratória causada pela morfina, mas
pode provocar a síndrome de abstinência no dependente desse fármaco.
Desenvolvem-se tolerância e dependência com o uso continuado.
B. Buprenorfina
A buprenorfina é classificada como agonista parcial e atua no receptor µ.
Ela atua como a morfina em pacientes que não usaram morfina, mas pode
precipitar a síndrome de abstinência em viciados em morfina. Um de seus
principais usos é na desintoxicação dos adietas de opioides, pois provo­
ca sintomas de abstinência mais suaves e curtos em comparação com a
metadona (Figura 14.08 e 14.1 1). Ela causa pouca sedação, depressão
respiratória e hipotensão, mesmo em doses elevadas. Em contraste com a
metadona, disponível apenas em clínicas especializadas, a buprenorfina é
aprovada paradesintoxicação ou manutenção ambulatorial. A buprenorfina
é administrada por via sublingual, parenteral ou transdérmica e tem longa
duração de ação devido à sua forte ligação ao receptor µ. Os comprimidos
desse fármaco são indicados no tratamento da dependência dos opioides
e estão disponíveis como monopreparado de buprenorfina (Subutex) e
também em associação com naloxone (Suboxone). A naloxona foi adicio­
nada à buprenorfina para evitar o abuso de buprenorfima via injeção IV.
Não há efeito clínico com uso de naloxona oral, mas na administração IV
ocorre antagonismo opoide e o paciente experimenta a abstinência. A for­
ma injetável e o adesivo transdérmico de uso semanal são indicados para
o alívio da dor moderada a intensa. A buprenorfina é biotransformada pelo
fígado e excretada na bile e na urina. Os efeitos adversos incluem depres­
são respiratória que não é facilmente revertida pela naloxona e redução
(ou, raramente, aumento) da pressão arterial, náuseas e tontura.
C. Nalbufina e butorfanol
A nalbufina e o butorfanol, como a pentazoci
na, têm um papel limitado
no tratamento da dor crônica. Nenhum desses fármacos está disponível
para administração oral. Sua predisposição para causar efeitos psicoto­
miméticos (ações que mimetizam os sintomas de psicose) é menor do
que a da pentazocina. A nalbufina não afeta o coração nem aumenta a
pressão arterial, em contraste com pentazoci
na e butorfanol. A vantagem
rJ
100
o
'B.
as
::::1 50
-
e
o
Q.
o
100
o
'B.
.ã 50
e
�
o
Farmacologia Ilustrada 177
Compulsãoporopioide
Piacebo

I
Buprenorfina
1 2 3
Semanas
Impressãodoindivíduo
sobreoestadogeral
4
o ���������
o
100
o
•Ili
u.
.ã 50
e
o
Q.
o
o
1 2 3
Semanas
Impressãodoclínico
sobreoestadogeral
Semanas
1 2 3
Figura 14.11
4
4
Pontuação da compulsão por opioide e
do estado geral em pacientes adietas
de opioide inscritos para tratamento em
consultóriocom buprenorfinaou placebo.
178 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Agonista
opioide
Wlfíf�ff?
'CJjYX,
ctY:J--
----------
-
__J
�
Receptor
deopioide
Receptor
deopioide
Aligaçãodanaloxonanãoativa
oreceptor;porisso,elareverte
osefeitosdosagonistasopioides,
comoamorfinaeaheroína.
Figura 14.12
Competição da naloxona com os ago­
nistas opioides.
dos três fármacos é a propriedade de eles apresentarem um efeito limite
na depressão respiratória.
VI. OUTROS ANALGÉSICOS
A. Tramado!
O tramado/ é um analgésico de ação central que se liga ao receptor
opioide µ.. O fármaco sofre extensa biotransformação via CIP450 206, re­
sultando em um metabólito ativo com afinidade muito maior pelo receptor
µ. do que o composto original. Além disso, ele inibe fracamente a capta­
ção de norepinefrinae serotonina. Esse fármaco é utilizado no manejo da
dor moderada a moderadamente intensa. Sua atividade depressora do
sistema respiratório é menor do que a da morfina. A naloxona (ver a se­
guir) só reverte parcialmente a analgesia provocada pelo tramado/ou seu
metabólito ativo. Foram relatadas reações anafilactoides. Podem ocorrer
interações entre fármacos, como com os inibidores seletivos da capta­
ção de serotonina e os antidepressivos tricíclicos ou dosagem excessiva,
resultando em excitação e convulsões. O tramado/ deve ser evitado em
pacientes que utilizam inibidores da monoamina oxidase.
B. Tapentadol
O tapentadol é um analgésico de ação central que se liga ao receptor
opioide µ. e é também um inibidor da captação de norepinefrina, ao que
se atribui um efeito aditivo à ação opioide.Tem sido usado para combater
dor moderada a intensa, crônica e aguda. As interações de fármacos são
limitadas com o tapentado/, pois parece que seu perfil farmacocinético
não inibe ou induz o sistema CIP450, já que é biotransformado princi­
palmente por glicuronidação. Como o tapentadol não produz metabólitos
ativos, não é necessário o reajuste de dosagem em insuficiências renais
leves a moderadas. O tapentadoldeve ser evitado em pacientes sob tra­
tamento com IMAO, inclusive nos últimos 14 dias. Atualmente o tapenta­
dol está disponível em formulação para liberação imediata.
VII. ANTAGONISTAS
Os antagonistas opioides se ligam com alta afinidade aos receptores opioi­
des, mas não ativam a resposta mediada pelo receptor. A administração de
antagonistas opioides não produzefeitos significativos em indivíduos normais.
No entanto, em pacientes dependentes de opioides, os antagonistas revertem
rapidamente o efeito dos agonistas, como a morfina e outros agonistas µ. to­
tais, e precipitam os sintomas de abstinência de opioides.
A. Naloxona
A naloxona é utilizada para reverter o coma e a depressão respiratória
da dose excessiva de opioides. Ela rapidamente desloca todas as molé­
culas opioides ligadas ao receptor e, assim, é capaz de reverter o efeito
da dose excessiva de morfina (Figura 14.12). Dentro de 30 segundos da
injeção IV de naloxona, a depressão respiratória e o coma característicos
da superdose de morfi
na são revertidos, reanimando o paciente etornan­
do-o alerta.A naloxona tem meia-vidade 30 a 81 minutos. (Nota: devido à
duração de ação relativamente curta da naloxona, um paciente deprimido
que tenha sido tratado e recuperado pode voltar a apresentar depressão
respiratória.) A naloxona é um antagonista competitivo nos receptores µ.,
K e õ, com afinidade 1O vezes maior pelos receptores µ. do que pelos K.
Isso pode explicar a razão pela qual a naloxona reverte rapidamente a
depressão respiratória com apenas uma reversão mínima da analgesia
resultante da estimulação dos receptores K pelo agonista na medula es­
pinal. A naloxona não produz efeitos farmacológicos em indivíduos nor­
mais, mas precipita os sintomas de abstinência nos adietas de opioides.
A Figura 14.13 resume alguns dos sinais e sintomas da abstinência aos
opioides. Não se observam efeitos clínicos com naloxona por via oral,
mas por administração IV, ocorre antagonistmo opioide e o paciente exi­
be abstinência. Isso explica o uso associado da naloxona com opioides
orais para deter o abuso de droga por via IV.
B. Naltrexona
A naltrexona tem ações similares às da naloxona. Ela apresenta duração
de ação mais longa do que a naloxona, e uma única dose oral de naltre­
xona bloqueia o efeito da heroína injetada por até 48 horas. A naltrexona
associada à clonidina (e, algumas vezes, à buprenorfina) é usada na de­
sintoxicação rápida de opioides. Ainda que também possa ser útil no trata­
mento do alcoolismo crônico por meio de um mecanismo desconhecido, as
benzodiazepinas e a clonidi
na são preferidas.A naltrexona é hepatotóxica.
Estágio 1: até 8 horas
V ,,
Estágio li: 8 a 24 horas Ansiedade Suplicando pela "droga"
,, ,,
�)
Ansiedade Insônia Distúrbios GI Rinorreia
Estágio Ili: até 3 dias
v
=--
-
.....
0
........
o
,,
PA
Taquicardia Náusea, êmese Hipertensão Diarreia
Calafrios Tremores Convulsões
Figura 14.13
Síndrome da abstinência aos opioides. GI = gastrintestinal.
Farmacologia Ilustrada 179
Midríase Diaforese
V
98,6---t
Febre
V
Espasmos musculares
180 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
14.1 Um jovem foi trazido para a emergência inconsciente e
apresentando constrição pupilar e depressão respiratória.
Observam-se marcas de picadas de agulhas nas pernas.
Você administra naltrexona, e o rapaz acorda. O fármaco
foi eficaz porque:
A. o paciente estava sofrendo de dose excessiva de um
benzodiazepínico.
B. a naltrexona antagoniza os opioides no receptor.
C. a naltrexona é um estimulante do SNC.
D. a naltrexona se liga ao opioide, inativando-o.
E. ele estava sob efeito de dosagem excessiva de mepe­
ridina.
14.2 Uma adieta de heroína ingressou em um programa de rea­
bilitação que exige a utilização de metadona. A metadona
é eficaz nessa situação porque:
A. é um antagonista nos receptores de morfina.
B. é um fármaco não narcótico.
C. tem maior duração de ação do que a heroína, resultan­
do em abstinência mais suave do que com a heroína.
D. não causa constipação.
E. não causa dependência.
14.3 Qual dasseguintes afirmações sobrea morfinaestá correta?
A. É utilizada terapeuticamente no alívio da dor causada
por lesões graves na cabeça.
B. Os sintomas de sua retirada podem ser aliviados pelo
uso da naloxona.
C. Causa diarreia.
D. É mais eficaz quando administrada por via oral.
E. Penetra rapidamente nos tecidos do organismo, inclu­
sive no feto em mulheres grávidas.
14.4 A dorde um paciente portador de câncer ósseo foi comba­
tida com uma bomba de morfina. No entanto, ele se tornou
tolerante à morfina. Qual dos seguintes fármacos pode ser
indicado para o controle de sua dor?
A. Meperidina
B. Codeína
C. Fentanila
D. Metadona
E. Buprenorfina
Resposta correta = B.As indicações são de que o paciente está sob
ação de dose excessiva de um opioide, como a heroína. A naltrexo­
na antagoniza o opioide deslocando-o do receptor. Sua utilização é
preferida ante a naloxona devido ao maior tempo de ação, agindo,
assim, durante o tempo que o opioide permanecer no organismo. A
meperidina causa dilatação da pupila.
Respostacorreta = C.A metadona é utilizadanos programas de rea­
bilitação como substituta da heroína. Ela tem ação analgésica e eu­
forigênica similar à heroína, é ativa porvia oral e pode sercontrolada
facilmente. Mais importante: tem ação longa, e a síndrome de absti­
nência vivida pela paciente à medida que o fármaco é gradualmente
retirado é muito mais suave do que seria com a heroína.A metadona
é um opioide sintético eficaz porvia oral e age nos receptores µ.. Ela
causaconstipação e pode causar dependência.
Resposta correta = E. A morfina provoca um aumento na pressão do
líquido cerebrospinal secundário à dilatação dos vasos cerebrais, e
seu uso está contraindicado em lesões graves na cabeça. A naloxo­
na é um antagonista de opioide e pode precipitar sintomas de abs­
tinência em indivíduos adictos de morfina. A morfina é administrada
por via parenteral, pois sua absorção do TGI é irregular. Ela causa
constipação.
Resposta correta = C. A fentanila é utilizada na anestesia. Ela provo­
ca analgesia e, normalmente, é injetada por via epidural. No entanto,
sua ação analgésicatambém é benéfica em pacientes portadores de
câncer. Elaestá disponível em adesivotransdérmico e em preparação
transmucosa oral. A meperidina e a codeína apresentam tolerância
cruzada com a morfina, e, assim, não serão eficazes.A buprenorfina,
como a metadona, é utilizada na desintoxicação poropioides, poden­
do precipitar síndrome de abstinência.
•
s1a
1. RESUMO
A epilepsia afeta aproximadamente 3°
/
o dos indivíduos quando eles alcançam
80 anos de idade. Cerca de 10°
/
o da populaçãotem pelo menos uma convulsão
durante sua vida. Globalmente, a epilepsia é o terceiro distúrbio neurológico
maiscomum, logo atrás da doença cérebro-vasculare da doença deAlzheimer.
A epilepsia não é uma entidade simples. Ao contrário, é um conjunto de dife­
rentestipos de convulsões e síndromes originadas porvários mecanismos que
têm em comum a descarga repentina, excessiva e sincronizada dos neurônios
cerebrais. Essa atividade elétrica anormal pode resultar em uma variedade
de eventos, incluindo perda de consciência, movimentos anormais, compor­
tamento atípico ou desigual ou percepção distorcida de duração limitada em
geral, mas recorrente se não tratada. O local de origem dos disparos neuronais
anormais determina os sintomas produzidos. Por exemplo, se o córtex motor
estiver envolvido, o paciente pode sofrer de movimentos anormais ou convul­
são generalizada. Ataques originados nos lobos parietal ou occipital podem
incluir alucinações visuais, auditivas e olfatórias. O tratamento por fármaco ou
porestimulação do nervo vagai são os meios mais eficazes para ocontrole dos
pacientes com epilepsia.A expectativaé de controlaros ataques completamen­
te em cerca de 70 a 80°
/o dos pacientes com uma medicação. Estima-se que
aproximadamente 1O a 15°
/
o dos pacientes necessitem mais de um fármaco e
talvez 10°
/
o possam não alcançar controle completo dos ataques. Um resumo
dos fármacos anticonvulsivantes é apresentado na Figura 15.1 .
li. CONVULSÕES IDIOPÁTICAS E SINTOMÁTICAS
,
Na maioria dos casos, a epilepsia não tem causa identificável. Areas focais
funcionalmente anormais podem ser ativadas por alterações em fatores fisio­
lógicos, como alteração nos gases sanguíneos, pH, eletrólitos e glicemia, e
alterações em fatores ambientais, como privação do sono, ingestão de álcool
e estresse. A descarga neuronal resulta do disparo de uma pequena popu­
lação de neurônios em alguma área específica do cérebro que é denomina­
da ''foco primário". Anatomicamente, essa área focal pode parecer comple-
Figura 15.1
Carbamazepina
Diazepam
Divalproex
Etosuximida
Felbamato
Fenitoí
na
Fenobarbital
Fosfenitoína
Gabapentina
Lacosamida
Lamotrigina
Levetiracetam
Lorazepam
Oxcarbazepina
Pr
imidona
Rufinamida
Ti
agabina
Topiramato
Vigabatrin
Zonisamida
Resumo dos fármacos (em ordem al­
fabética) utilizados no tratamento da
epilepsia.
182 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Podeserutilizadatomografiadecoerência
deemissãoúnicadefótonpara
medirofluxosanguíneoregionalno
cérebro.Aimagemmostraumaumento
dofluxosanguíneonolobotemporal
esquerdoassociadoaoestabelecimento
deumacrisenamesmaárea.
Figura 15.2
Região do cérebro de um indivíduo
epiléptico mostrando aumento do fluxo
sanguíneo durante uma crise.
CRISES
- PARCIAIS
(preservação da consciência)
,_ Simples(consciêncianormal)
-Complexas(consciência
alterada/semmemória)
-
GENERALIZADAS
(perda da consciência/sem memória)
,_Tônico-clônicas
,_Crisesdeausência
,_Mioclônicas
-Espasmoinfantil
-Estadoepiléptico
Estado Epiléptico
- Generalizado
(convulsivo ou não convulsivo)
- Estado Epiléptico Parcial
(perda da consciência/sem memória)
Figura 15.3
Classificação de crises epilépticas.
tamente normal. No entanto, progressos tecnológicos, como as técnicas de
neuroimagens como imagens por ressonância magnética (IRM), tomografia
por emissão de pósitron (TEP) e tomografia de coerência de emissão de fó­
ton simples (TCEFS), melhoraram a capacidade de detectar anormalidades
(Figura 15.2). A epilepsia pode ser denominada idiopática, se a etiologia é
desconhecida, ou sintomática, se é secundária a uma condição identificável.
Ainda que haja múltiplas síndromes epilépticas específicas que incluem ou­
tros sintomas além das crises, não é objetivo deste capítulo discuti-las.
A. Epilepsia idiopática
Quando não há evidência de causa anatômica específica para as crises,
comotraumatismo ou neoplasia, o diagnóstico pode ser de epilepsia idio­
pática ou criptogênica (primária). Essas crises podem resultar de uma
anormalidade herdada no SNC. Os pacientes são tratados cronicamente
com fármacos anticonvulsivantes ou estimulantes vagais. A maioria dos
casos de epilepsia são idiopáticas.
B. Epilepsia sintomática
Inúmeras causas, como o uso de fármacos ilícitos, tumores, traumatismo
encefálico, hipoglicemia, infecção meníngea e a retirada rápida de álcool
em um indivíduo alcoólatra, podem desencadearas crises. Quando ocor­
rem duas ou mais convulsões, o paciente pode ser diagnosticado com
epilepsia sintomática (secundária). O tratamento crônico com fármacos
anticonvulsivantes, a estimulação do nervo vago e a cirurgia são trata­
mentos apropriados e podem ser usados sozinhos ou em associação.
Em alguns casos, quando a causa de uma convulsão simples pode ser
determinada e corrigida, o tratamento não é necessário. Por exemplo, a
convulsão causada por hipotensão temporária ou por reação a fármaco
não é epilepsia e não requer tratamento crônico. Em outras situações,
fármacos anticonvulsivantes podem ser administrados até que a causa
primária das crises seja corrigida.
-
Ili. CLASSIFICAÇAO DAS CRISES
,
E importante classificar corretamente as crises para determinar o tratamento
apropriado. As crises são classificadas pelo local de origem, etiologia, corre­
lação eletrofisiológica e apresentação clínica. A lnternational Leaque Against
Epilepsy desenvolveu uma nomenclatura para descrever as crises. Esta clas­
sificação é considerada como padrão para descrever crises e síndromes epi­
lépticas (Figura 15.3). As crises são classificadas em dois grupos gerais: par­
ciais (ou focais) e generalizadas. O diagnóstico pode incluir a classificação da
crise em epilepsia parcial ou generalizada dependendo do início.
A. Parciais
A crise parcial envolve somente uma porção do cérebro, normalmente
parte de um lobo de um hemisfério. Os sinais de cadatipo de crise depen­
dem do local da descarga neuronal e da extensão que a atividade elétrica
se espalha nos demais neurônios do cérebro. Em geral, preserva-se a
consciência. Crises parciais podem evoluir, tornando se crises tônico-clô­
nicas generalizadas.
1. Parciais simples. Essas crises são causadas por um grupo de
neurônios hiperativos que apresentam atividade elétrica anormal, a
qual fica confinada em um local do cérebro. A descarga elétrica não
se alastra, e o paciente não perde a consciência. Com frequência, o
paciente apresenta atividade anormal em um dos membros ou em
um grupo muscular controlado pela região cerebral que apresenta
o distúrbio. O paciente também pode apresentar distorções senso­
riais. A atividade pode se alastrar. Crises parciais simples podem
ocorrer em qualquer idade.
2. Parciais complexas. Essas crises provocam alucinações senso­
riais complexas e distorção mental. A disfunção motora pode envol­
ver movimentos mastigatórios, diarreia e/ou micção. A consciência
se altera. A crise parcial simples pode se alastrar, tornar-se comple­
xa e então evoluir para uma convulsão generalizada secundária. As
crises parciais podem ocorrer em qualquer idade.
B. Generalizadas
As crises generalizadas podem iniciar localmente e então avançar, in­
cluindo descargas elétricas anormais pela totalidade de ambos os he­
misférios cerebrais. As crises generalizadas primárias podem ser con­
vulsivas ou não convulsivas, e o paciente normalmente apresenta perda
imediata daconsciência.
1. Tônico-clônicas. Estas crises resultam em perda da consciência,
seguida das fases tônica (de contração contínua) e clônica (de con­
tração rápida e relaxamento). A crise pode ser seguida por um pe­
ríodo de confusão e exaustão devido à depleção de glicose e dos
estoques energéticos.
2. Ausências. Essas crises envolvem uma perda breve, abrupta e au­
tolimitante da consciência. Em geral, inicia-se em pacientes de 3
a 5 anos de idade e perdura até a puberdade ou mais. O paciente
permanece com o olhar fixo e pisca rapidamente, o que dura de 3
a 5 segundos. A crise de ausência têm um padrão de descarga de
três picos e ondas por segundo no eletroencefalograma (EEG).
3. Mioclônicas. Essas crises consistem em episódios curtos de con­
tração muscular que podem ocorrer novamente por vários minutos.
Em geral, elas ocorrem após o despertar e se revelam como bre­
ves contrações espasmódicas dos membros. As crises mioclônicas
ocorrem em qualqueridade, mas em geral iniciam na puberdade ou
no adultojovem.
4. Crises febris. Crianças jovens podem desenvolver crises com en­
fermidades acompanhadas de febre elevada. Essa tendência pode
ocorrer também em irmãos. A crise febril consiste em convulsões
tônico-clônicas generalizadas de curta duração e não necessaria­
mente levam ao diagnóstico de epilepsia.
5. Estado epiléptico. No estado epiléptico, duas ou mais crises ocor­
rem sem recuperação plena daconsciência entre elas. Essas crises
podem ser parciais ou generalizadas primárias, convulsivas ou não
convulsivas. O estado epiléptico é ameaçador à sobrevida e exige
tratamento de emergência.
e. Mecanismo de ação dos fármacos antiepiléticos
Os fármacos que reduzem as crises realizam essa ação por meio de
mecanismos como: bloqueio dos canais voltagem-dependentes (Na+ ou
Ca2+), potenciação dos impulsos inibitórios GABAérgicos ou interferência
na transmissão excitatória do glutamato. Alguns anticonvulsivantes pa­
recem ter múltiplos alvos no SNC, ao passo que o mecanismo de ação
de outros permanece mal definido. Os anticonvulsivantes suprimem as
crises, mas não "curam" ou "previnem" a epilepsia.
Farmacologia Ilustrada 183
Diagnósticodeumanovaepilepsia
• Considere iniciar otratamento a
partirda segunda crise.
,
Fármacodeprimeiraescolha
• Escolha o fármaco apropriado para o
tipo de crise do paciente.
- Considere a toxicidade dosfármacos.
- Considere as características do
paciente.
• Titularadosagemgradualmente ao
máximotoleradoe/ouqueproduzo
controleidealdas cr
ises.
' •
•
As crisespersistem As crisesdesaparecem
'
Fármacodesegundaescolha
• Osegundofármaco étitulado até aconcen-
tração quecontrola as convulsões antes de
reduzireinterromperofármaco
anticonvulsivante original.
• Se opr
imeiro fármaco está associado com
efeitosadversos significativos, eledeveser
reduzido gradualmente enquantoo segundo
fármacoestásendo introduzido.
- •
As crisespersistem As crises desaparecem
•
Associação Tratamento
racionalde - - farmacológico
doisfármacos alternativo
• •
As cr
ises persistem As crises desaparecem
'
•
Considerea
estimulação
donervovago
Figura 15.4
Estratégias terapêuticas para controle
de uma epilepsia diagnosticada.
184 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Chave: Nomsdofármaco
Inicialmenteconsidere com base nas
características do paciente, no diagnóstico
e sintomase leveem consideração
problemas médicosconcorrentes.
EPILEPSIAPARCIAL
Parcial simples,
parcial complexa
com ou sem
generalização
secundária
Paciente idoso
Lamotrigina
Levetiracetam
Topiramato
Lamotrigina
1Nome do fármaco
J
Considere esta opçãose as
crises persistem ou se os
efeitosadversos do 1°fármaco
impedem o uso.
1Nome do fármaco1
Considereestaalternativa se as
crises persistem ou osefeitos
adversos impedem otratamento.
Diva/proex
Carbamazepina Gabapentina
---:>...... Oxcarbazepina
Fenitoina
Lacosamida
.
Pregabalina
········->.....
Zoni
samida
Tiagabina
1Estimulaçãovagai1
Considere quando aadesão aotratamento,
as interações farmacológicasou os efeitos
adversos impedem otratamento
farmacológico.
·······--->·..·!Estimulação vagai]........
---':>......1Gabapentina ]...._
_
__,
:>......(Carbamazepinal-·.....---':>·....1Estimulação vagait.......
EPILEPSIAGENERALIZADAPRIMÁRIA
Ausência
Mioclônica
Tônico-clônica
Estado
epilético
Divalproex
Lamotrigina
Divalproex
Levetiracetam
Lamotrigina
Levetiracetam
Topiramato
Benzo..
dlazeplnas
Fosfenitofna
SÍNDROMEEPILÉPTICA
Rolãndica benigna
Espasmos infantis
(síndrome de West)
Lennox-Gastaut
Figura 15.5
· Gabapentina
Lamotrigina
Corticotropina
Vigabatrina
Divalproex
Lamotrigina
Toplramato
----.>......[Topiramato ]...._
_
__,
>..····[ Etosuximida �...................................................................
_
_
____.
:>...... Lamotrigina
Topiramato
""- D
iva/proex
-
-
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Z
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---:>······ El����a����nas....................................................................
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
---.,.,.-........[Estimulação vagai,.......
----.:>·····�Eléirllituratoi> ]···························································································································
Carbamazepína
·······->..···· Levetiracetam
Topiramato
Benzodiazepinas
·······--->..··· Diva/proex
Topiramato
1LevetiracetamJ
--->..···r---
R
_
uft
_
n
_
a
_
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_
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_
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_
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V
igabatrina
Zoni
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. ---:>······������ina ····································································
->..···· Lamotrigina
Zonísamida
_
_
____.
""-...... Elenzodiazepinas .......-
-
----'
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v -
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v·.... Estimulação vagair......
Felbamato
Indicações terapêuticas para os fármacos anticonvulsivantes. Benzodiazepinas = diazepam e /orazepam.
IV. SELEÇÃO DO FÁRMACO
A escolha do tratamento farmacológico se baseia no tipo específico de crise
a ser combatida, variáveis específicas do paciente (p. ex., idade, condições
mórbidas simultâneas, estilo de vida e preferências pessoais) e características
do fármaco, incluindo custos e interações com outros fármacos. Por exemplo,
ataque parcial de crises são tratadas com medicamentos diferentes dos utili­
zados nas crises generalizadas primárias ainda que a relação de fármacos efi­
cazes se sobreponha. Muitos fármacos anticonvulsivantes podem ter a mesma
eficácia. A toxicidade do fármaco e as características do paciente são as prin­
cipais considerações ao se selecionar o fármaco e o plano de tratamento. Em
pacientes novos, recém-diagnosticados, é instituído tratamento com um único
fármaco (monoterapia) até que as crises sejam controladas ou que ocorram si­
nais detoxicidade (Figura 15.4). Comparados àqueles que recebem tratamento
associado, os pacientes submetidos à monoterapia apresentam maior adesão
e menor número de efeitos adversos. Se as crises não forem controladas com
o primeiro fármaco, deve ser considerada a monoterapia com um anticonvul­
sivante alternativo ou vários ou a estimulação do nervo vago (Figura 15.5). O
conhecimentodos anticonvulsivantes disponíveis, e seus mecanismos de ação,
farmacocinética, potencial de interação com outros fármacos eefeitos adversos
é essencial para o tratamento bem-sucedido do paciente. Há pacientes que
requerem a associação de medicamentos para o controle das convulsões.
V. FÁRMACOS ANTIEPILÉTICOS PRIMÁRIOS
Durante os últimos vinte anos, a Administração de Fármacos e Alimentos dos
EUA (FDA) aprovou muitos novos antiepiléticos. Alguns destes fármacos têm
vantagens em comparação com os anticonvulsivantes aprovados antes de 1990
emtermos de farmacocinética, tolerânciae riscode interaçõesfármaco-fármaco.
A relação de fármacos aprovados desde 1990 inclui gabapentina, /acosamida,
lamotrigi
na, /evetiracetam, oxcarbazepina, pregabalina, rufinamida, tiagabina,
topiramato e zonisamida. Estes são denominados de "segunda geração" quan­
do comparados com os antigos antiepiléticos, como carbamazepi
na, divalproex,
etosuximida, fenobarbital, fenitoína e ácido valproico. Contudo, os estudos clíni­
cos falharam em fornecerevidências que os fármacos de segunda geração são
significativamente melhores do que os fármacos antigos em termos de eficácia
e ausência de efeitos adversos. Por essa razão, os fármacos mais comumen­
te usados são descritos em ordem alfabética, em vez de tentar ordená-los por
eficácia. A Figura 15.6 mostra os efeitos adversos comuns dos antiepiléticos.
Os fármacos que têm aumento do risco de comportamento e de pensamentos
suicidas trazem uma advertência do FDA em tarja preta na bula.
A. Benzodiazepínicos
Os bezodiazepínicos se ligam aos receptores GABA inibitórios para redu­
zira taxa de disparos. Diazepam e lorazepam são usados com maior fre­
quência como fármacos auxiliares nas crises mioclônicas, bem como nas
crises parciais e nas tônico-clônicas generalizadas. O lorazepam (ver p.
1 1 4) tem meia-vida farmacocinética menor, mas permanece mais tempo
no cérebro do que o diazepam. O di
azepam está disponível para admi­
nistração retal para evitar ou interromper crises ou salvas tônico-clônicas
generalizadas prolongadas. Outros benzodiazepínicos podem ser usados
no tratamento de várias epilepsias, mas devem ser empregados somente
depois que a tentativa com monoterapia ou associação da maioria dos
outros fármacos anticonvulsivantes falharem.
B. Carbamazepina
A carbamazepina reduz a propagação dos impulsos anormais no cérebro,
bloqueando os canais de sódio, inibindo, assim, a geração de potenciais
de ação repetitivos no foco epiléptico e evitando seu alastramento. Ela é
eficaz notratamentodas crises parciais e das tônico-clônicas generalizadas
secundárias. Ela também é usada no tratamento da neuralgia do trigêmio
e no distúrbio bipolar. A carbamazepina tem absorção lenta e errática após
administração via oral e pode variar de genérico para genérico, resultando
em amplas variações de concentração sérica. Ela induz sua própria bio­
transformação e tem um metabólito ativo. A carbamazepina é substrato da
CIP3A4 com menor biotransformação pela CIP1A2 e CIP2C8. O metabólito
Farmacologia Ilustrada 185
V
=-
==:::=
º =ti
º
v==�
V
a+
V
Figura 15.6
Náuseas
e êmese
Sedação e
sonolência
Ataxia
Hiponatremia
Ganho ou
perda de
massa corporal
Teratogenicidade
Osteoporose
Principais efeitos adversos dos fárma­
cos anticonvulsivantes.
186 Clark, Finkel, Rey & Whalen
CIP1A2
CIP2C8
CIP2C9
CIP2C19
CIP3A4
Carbamazepina
Carbamazepina
Carbamazepina
Diva/proex
Fenobarbital
Fenitoí
na
Diva/proex
Felbamato
Fenobarbital
Fenitoína
Zonisamida
Carbamazepina
Etosuximida
Ti
agabina
Zonisamida
UDP-glicurosoniltransferase
Figura 15.7
Diva/proex
Lamotrigina
Lorazepam
Biotransformação dos fármacos anti­
convulsivantes pelas CIP.
epóxido corresponde a 25°
/
o da dose, é ativo e pode ser inibido por fárma­
cos que inibem a UDP-glicuronosiltransferase (UGT), levando à toxicidade
(Figura 15.7). A carbamazepina é um indutor das famílias de isoenzimas
CIP1A2, CIP2C eCIP3Aedaenzima UGT, que pode aumentaradepuração
e reduzir a eficácia dos fármacos que elas biotransformam. Ela não é bem
tolerada por idosos da mesmaforma que outros anticonvulsivantes disponí­
veis. Pode serdetectada hiponatremiaem alguns pacientes, particularmente
em idosos, o que pode indicara necessidade de troca de fármaco. Erupção
cutânea característica pode se desenvolver no início do tratamento, mas
não exige troca de fármaco. A carbamazepina não deve ser prescrita para
pacientes com crises de ausência, porque ela pode aumentá-las.
C. Etosuximida
A etosuximida reduz a propagação da atividade elétrica anormal no cé­
rebro, mais provavelmente inibindo os canais de cálcio tipoT. Ela é eficaz
somente no tratamento das crises de ausência generalizadas primárias
(ver Figura 15.5.). O uso da etosuximida é limitado devido ao seu espec­
tro muito estreito.
D. Felbamato
O felbamato apresenta um amplo espectro de ação anticonvulsivante. Múl­
tiplos mecanismos são propostos para sua ação, incluindo 1) bloqueio dos
canais de sódio dependentes de voltagem; 2) competição pelo local de li­
gação do coagonista glicina no receptor de NMDA; 3) bloqueio dos canais
de cálcio e 4) potenciação das ações do GABA. O felbamato é um inibidor
dos fármacos biotransformados pela CIP2C19 e [3-oxidação (Figura 15.7) e
induzosfármacos biotransformados pelo CIP3A4. Ele é reservado para uso
em epilepsias refratárias (particularmente a síndrome Lennox-Gastaut) de­
vidoao risco de anemia aplástica (cercade 1 :4.000) e insuficiência hepática.
E. Gabapentina
A gabapentina é um análogo do GABA. Contudo, ela não atua nos re­
ceptores GABA, não potencializa as suas ações e nem é convertida em
GABA. Seu mecanismo de ação preciso segue desconhecido. Ela é apro­
vada como tratamento auxiliar para crises parciais e no tratamento da
neuralgia pós-herpética. A gabapentina apresenta farmacocinética não
linear (ver p. 14) devido à sua captação do intestino por um sistema de
transporte saturável. Ela não se liga às proteínas plasmáticas e é excreta-
,
da inalterada pelos rins. E necessário diminuir suadosagem nas doenças
renais. A gabapentina é bem tolerada pela população idosa com crises
parciais devido aos seus efeitos adversos relativamente leves. Ela é tam­
bém uma boa escolha para os pacientes idosos devido a poucas ou total
ausência de interações farmacocinéticas.
F. Lacosamida
A lacosamida in vitro afeta canais de sódio disparados por voltagem re­
sultando na estabilização de membranas neuronais hiperexcitadas e ini­
bição de disparos neuronais repetitivos. A /acosamida se liga à proteína 2
mediadora da resposta colapsina (P2MRC), uma fosfoproteína expressa
princiaplmente no sistema nervoso e envolvida nadiferenciação neuronal
e controle do crescimento axonal.A função da ligação da P2MRC no con­
trole das convulsões é desconhecido. A /acosamida está aprovada para o
tratamento auxiliar de convulsões parciais. Em triagens clínicas, causou
euforia similar à produzida pelo alprazolam e é rotulada como fármaco
controlado (Relação V). Está disponível como uma formulação injetável.
O efeito adverso mais comum que limita o tratamento inclui tonturas, ce­
faleia e fadiga.
G. Lamotrigina
A lamotrigina bloqueia os canais de sódio, bem como os canais de cálcio
altavoltagem-dependentes. Ela éeficaz em umavariedade de tipos de con­
vulsões, incluindo crises parciais, generalizadas, crises de ausência típicas
e síndrome de Lennox-Gestaut. Elatambém é aprovada para uso no distúr­
bio bipolar. A lamotrigina é biotransformada principalmente a N2 glicuroní­
deo pela via da UGT. A sua meia-vida (de 24 a 35 horas) é reduzida pelos
fármacos indutores de enzimas (p. ex., a carbamazepina e a f
enitoína) e
aumentada em mais de 50°
/
o pelo acréscimo de valproato. A dosagem de
lamotrigina deve ser reduzida ao adicionaro valproato ao tratamento, a me­
nos que o valproato esteja sendo acrescentado em pequena dosagem para
reforçar a concentração sérica de lamotrigina. Foi registrado que a eleva­
ção rápidada concentração séricade lamotrigi
nacausaerupções cutâneas,
que, em alguns pacientes, pode evoluirpara uma reação grave, ameaçadora
à vida. A lamotrigina também é bem tolerada pela população idosa com
crises parciais devido aos seus efeitos adversos relativamente pequenos.
H. Levetiracetam
O leveti
racetam é aprovado para o tratamento auxiliarde crise de ataque
parcial, crises mioclônicas e crises tônico-clônicas primárias generaliza­
das em adultos e crianças. O mecanismo exato de ação anticonvulsivante
é desconhecido. O fármaço demonstra alta afinidade por uma proteína
vesicularsináptica (SV2A). Em camundongos, isso foi associado com po­
tente ação anticonvulsiva. Ele é bem absorvido por via oral e excretado
na urina e com a maior parte (66°
/
o) inalterada. O levetiracetam não inte­
rage com os sistemas metabólicos CIP ou UGT. Os efeitos adversos mais
frequentes incluem tontura, distúrbios do sono, cefaleia e fraqueza.
1. Oxcarbazepina
A oxcarbazepina é um pró-fármaco que é rapidamente reduzido ao meta­
bólito 10-monoidróxi (MHD), responsável pela atividade anticonvulsivante.
O MHD bloqueia canais de sódio prevenindo o alastramento das descargas
anormais. A modulação dos canais de cálciotambém é uma das hipóteses.
A oxcarbazepina está aprovada para uso em adultos e crianças com crises
de ataque parcial. Ela é uma indutora menos potente do CIP3A4 e do UGT
doquea carbamazepina. O perfil de efeitosadversos ésimilarao dos outros
antiepiléticos. Pode causar náusea, êmese, cefaleia e distúrbiosvisuais.
J. Fenobarbital
O fenobarbitalfoi sintetizado em 1902 e introduzido no mercado em 1912
por Bayer. Seu mecanismo de ação primário é a potenciação dos efeitos
inibitórios dos neurônios mediados por GABA (ver p. 113). Em epilepsia,
o fenobarbital deve ser usado primariamente no tratamento do estado
epiléptico.
K. Fenitoína e fosfenitoína
A fenitoína bloqueia os canais de sódio voltagem-dependentes, ligando­
-se seletivamente ao canal no estado inativo e tornando lenta a sua re­
cuperação. Em concentrações muito elevadas, a fenitoína pode bloquear
também os canais de cálcio voltagem-dependentes e interferir na libe­
ração de neurotransmissores monoaminérgicos. A fenitoína é eficaz no
tratamento das crises parciais, das tônico-clonicas generalizadas e no
tratamento do estado epiléptico (Figura 15.5). Ela se liga em 90°
/
o à al­
bumina do plasma e é indutora dos sistemas enzimáticos CIP2C, CIP3A
e UGT acelerando a biotransformação dos fármacos que são substrato
desses sistemas. A fenitoína apresenta biotransformação enzimática que
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Farmacologia Ilustrada 187
Quandoosistemade hidroxilação
hepáticosetornasaturado,
pequenosaumentosnadosede
fenitoínaprovocamumgrande
aumentonaconcentração
plasmáticadofármaco.
400
Dosagemdefenitoína(mg/dia)
800
Figura 15.8
Efeito não linear da dosagem de fenitoí­
nasobre a sua concentração plasmática.
188 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Figura 15.9
Hiperplasia gengival em paciente trata­
do com fenitoína.
satura em baixas concentrações plasmáticas; por isso, ter conhecimento
da farmacocinética de ordem zero e das variáveis da população é impor­
tante parafazero ajuste da dosagem. Pequenos aumentos na dose diária
podem produzir grande aumento na concentração plasmática, resultando
em toxicidade induzida (Figura 15.8). Ocorre depressão do SNC, parti­
cularmente no cerebelo e no sistema vestibular, causando nistagmo e
ataxia. Os idosos são muito suscetíveis a este efeito. Hiperplasia gengival
pode levar ao crescimento da gengiva sobre os dentes (Figura 15.9). O
uso portempo prolongado pode levarao desenvolvimento de neuropatias
periféricas e osteoporose. Embora a fenitoina seja o fármacos mais usa­
do contra a epilepsia mundialmente devido ao seu baixo custo por com­
primido, o custo dotratamento pode ser muito maiorquando se considera
o seu potencial para grave toxicidade e efeitos adversos.
A fosfenitoína é um pró-fármaco que rapidamente é convertido em feni­
toína no sangue, alcançando altos níveis de fenitoína em poucos minu­
tos. A fosfenitoína também pode ser administrada por via IM. Entretanto,
a fenitoína sódica nunca deve ser administrada por essa via, pois pode
causar lesão tissular e necrose. A fosfenitoína é o fármaco de escolha, e o
padrão para a administração, IV e IM. Devido a denominações com sons
e apresentações similares, há risco de ocorrerem erros de prescrições. A
denominação registrada da fosfenitoína é Cerebyx® que pode ser confun­
dida facilmente com Celebrex®, um inibidor de ciclooxigenase-2, ou com
Celexa®, um antidepressivo.
L. Pregabalina
A pregabalina se liga ao local a2-õ, uma subunidade auxiliar do canal
de cálcio disparado por voltagem no SNC, inibindo a liberação do neu­
rotransmissor excitatório. A função exata que isso tem no tratamento é
desconhecida, mas o fármaco comprovou eficácia nas crises de ataque
parcial, dor neuropática associada com a neuropatia periférica diabética,
neuralgia pós-herpética e fibromialgia. Mais de 90°
/
o da pregabalina é eli­
minada porvia renal, sem indicação de envolvimento do CIP. Sonolência,
visão borrada, aumento de massa corporal e edema periférico foram ob­
servados.
M. Rufinamida
A rufinamida in vitro atua nos canais de sódio. Está aprovada para o
tratamento auxiliar de convulsões associadas com a síndrome Lennox­
-Gastaut em crianças com mais de 4 anos e em adultos. A rufinamida é
um inibidor fraco da CIP2E1 e um indutorfraco da CIP3A4. Os alimentos
aumentam a absorção e a concentração pico no soro. As concentrações
séricas de rufinamida são afetadas por outras medicações anticonvulsi­
vas. Ela é induzida por carbamazepina e fenitoína e inibida quando ad­
ministrada com valproato. Mulheres usando anticoncepcionais devem ser
alertadas da possível ineficácia quando usado simultâneo com rufinami­
da. Os efeitos adversos incluem o potencial para diminuição do intervalo
QT. Pacientes com síndrome familiar de QT curtos não devem ser trata­
dos com rufinamida.
N. Tiagabina
A tiagabina bloqueia a captação de GABA pelos neurônios pré-sináp­
ticos, permitindo que haja uma maior quantidade de GABA disponível
para ligação com o receptor; assim, aumenta a atividade inibitória. A tia­
gabina é eficaz na diminuição do número de crises em pacientes com
epilepsia de ataques parciais. A ligação à albumina e à glicoproteína-a1
ácida é maior que 95°
/
o. A biotransformação é feita principalmente pela
família CIP3Ade enzimas. Os efeitos adversos incluem cansaço, tonturas
e distúrbios gastrintestinais. Há indicações da vigilância após o início da
comercialização, que ocorreram crises em pacientes que não apresenta­
vam epilepsia quandoo fármacofoi usado. A tiagabina não foi aprovada e
nem deve ser usada para nenhuma outra indicação.
O. Topiramato
O topiramato possui várias ações que devem contribuir no seu amplo es­
pectro de atividade anticonvulsivante. Ele bloqueia canais de sódio volta­
gem-dependentes e demonstrou-se que aumenta afrequência de abertura
dos canais de cloro ligando-se ao receptor GABAA. Correntes de cálcio
de alta voltagem (tipo L) são reduzidas pelo topiramato. Ele é um inibidor
de anidrase carbônica e pode atuar em receptores glutamato (NMDA). O
topiramatoé eficaz eaprovado para uso em epilepsias parciais e primárias
generalizadas. Ele também é aprovado no tratamento da enxaqueca. O to­
piramato é eliminado porvia renal e também tem metabólitos inativos. Ele
inibe a CIP2C19 e é induzido pela fenitoína e carbamazepina. Foi descrito
que a lamotrigina causa aumento da concentração de topiramato. A coad­
ministração do topiramato diminui o etinilestradiol. Por isso, mulheres que
recebem estefármaco devem ser aconselhadas ausar métodos adicionais
para controle da natalidade. Os efeitos adversos incluem sonolência, per­
da de massa corporal e parestesias. Foi descrita uma maior incidência de
cálculos renais do que na população não tratada. Glaucoma, oligo-hidrose
e hipertermia também foram observados. O último está especificamente
relacionado com a atividade da anidrase carbônica.
,
P. Acido valproico e divalproex
O ácido valproico está disponível como ácido livre. O divalproex sódico
é a associação de valproato de sódio e ácido valproico que é convertido
em valproato quando alcança o TGI. Ele foi desenvolvido para melhorar
a tolerância gastrintestinal do ácido valproico. Todos os sais disponíveis
são equivalentes em eficácia (ácido valproico e valproato de sódio). Os
produtos comerciais estão disponíveis em formulações com múltiplos
sais, dosagens e com liberação prolongada. Por isso, o risco de erros de
medicação é elevado, sendo essencial estar familiarizado com todas as
preparações. O mecanismo de ação proposto inclui o bloqueio de canais
de sódio, bloqueio de transaminase GABA e ação no canais de cálcio do
tipo T. Estes variados mecanismos proporcionam um amplo espectro de
atividadecontra as crises. Estes fármacos são eficazes para o tratamento
de crises parciais e generalizadas primárias. O valproato inibe o metabo­
lismo dos sistemas CIP2C9, UGT e epóxido hidrolase (ver Figura 15.7). O
valproato se liga à albumina (mais de 90°
/
o), o que causa uma interação
significativa com outros fármacos que se ligam fortemente a proteínas.
Toxicidade hepática rarapode causaraumento das enzimas hepáticas no
plasma, que devem ser monitoradas frequentemente. A teratogenicidade
também é uma grande preocupação. As mulheres em idade de gestação
devem sertratadas com outros fármacos e ser informadas sobre o poten­
cial de defeitos genéticos, incluindo anormalidades comportamentais e
cognitivas (Figura 15.1O) e defeitos de tubo neural.
Q. Vigabatrina
A vigabatrina atua como inibidor irreversível da ácido 'Y-aminobutírico
transaminase (GABAT). A GABAT é a enzima responsável pela meta­
bolização do GABA. A vigabatrina está associada com efeitos adversos
como a perda leve a moderada do campo visual em 30o/
o ou mais dos
pacientes. A vigabatrina só está disponível por meio de farmácias que
participam do Programa SHARE (1 88845 SHARE). Os médicos devem
se registrar no SHARE para prescrever a vigabatrina.
Farmacologia Ilustrada 189
QI
médio
Carbamazeplna • 97
Lamotrlglna
Fenitoína
V
alproato
• 100
80 85 90 95 100 105
QImédioaos3 anos
98
87
Aexposiçãoaovalproaton
o
ú
t
e
r
oestá
associadaaoaumentodoriscodo
comprometimentodasfunções
cognitivasaos 3 anosdeidade,quando
comparadocomoutrosfármacos
antiepiléptlcoscomumenteusados.
Ovalproatonãodeveserusadoem
mulherescompotencialdeengravidar.
Figura 15.1O
Função cognitiva aos 3 anos de idade
depois de exposição fetal a altas do­
sagens de fármacos antiepilépticos.
A média (quadrado preto) e 95% do in­
tervalo de confiança (linhas horizontais)
são mostrados para QI de crianças em
função dos fármacos antiepilépticos.
QI = quociente de inteligência.
190 Clark, Finkel, Rey & Whalen
rJ
o
m
Umgeradordepulsos
implantadoconectaaos
eletrodosquecirculam
onervovago.
Oestimuladordonervovago
gerapulsoselétricosque
estimulamonervovago.
Gerador
depulsos
*-- Eletrodos___,
-. Nervovago_J
Essaestimulaçãoelétricaprevine
aatividadeelétricaanormalque
podecausarascrises.
Opacienteativaoestimulador
quandopressenteacrise.
�-;·)
�
.... ir ,,,
Biscoito
Tirasdeespagueti
•
Figura 15.11
Estimulação do nervo vago. A. Localiza­
ção doestimulador implantado. B. Tama­
nho do aparelho.
R. Zonisamida
A zonisamida é um derivado sulfonamida com amplo espectro de ação.
Tem múltiplos efeitos no sistema neuronal, aceitos como envolvido na
geração das crises, incluindo bloqueio dos canais de sódiosvoltagem-de­
pendentes e correntes de cálcio tipo-T. Ela tem atividade limitada sobre a
anidrase carbônica. A reação cruzada com outras sulfonamidas deve ser
revisada, e seu emprego monitorado em pacientes com registro de aler­
gias. A zonisamida está aprovada para pacientes com crise parcial. Ela
é biotransformada pela isoenzima CIP3A4 e pode, em menor extensão,
serafetado pela CIP3A5 e CIP2C19.Além dos efeitos adversos típicos no
SNC, ofármaco pode causarcálculos renais. Foi registradaoligo-hidrose,
e os pacientes devem ser monitorados quanto ao aumento natemperatu­
ra corporal e redução da sudoração.
-
VI. ESTIMULAÇAO DO NERVO VAGO
A estimulação vagai (EV) requer o implante cirúrgico de um pequeno gera­
dor de impulsos com bateria e eletrodos para estimulação (Figura 15.11). O
aparelho é implantado e os eletrodos enrolados no nervo vago do paciente.
Este tratamento foi aprovado em 1997. O aparelho também está aprovado
para tratamento da depressão. O mecanismo de ação é desconhecido. Como
há o envolvimento difuso com circuitos neuronais, há uma variedade de me­
canismos pelos quais ele pode exercer seu efeito no controle de crises. A EV
é eficaz no tratamento das crises de ataques parciais e permite a redução
do tratamento farmacológico em alguns casos. Ela é uma alternativa para
pacientes que se revelam refratários a vários fármacos, naqueles que são
sensíveis aos vários efeitos adversos dos anticonvulsivantes e nos que têm
dificuldade em aderir ao esquema de tratamento. Contudo, a EV é um proce­
dimento invasivo e dispendioso.
-
VII. ESTIMULAÇAO CEREBRAL PROFUNDA
A estimulação cerebral profunda (ECP) usa um aparelhotipo marca-passo para
lançarestímulos elétricos ao núcleo anteriordotálamo.O tratamento está apro­
vado pelo FDA em condição de tratamento auxiliarpara convulsões em adultos
com epilepsia refratária a medicamentos. A ECP também está aprovada pelo
FDA para o tratamento do mal de Parkinson avançado e o tremor essencial.
-
VIII. EPILEPSIA NA GESTAÇAO
Mulheres epilépticas com frequência se preocupam com a gestação e com o
efeito que a medicação podeter no desenvolvimento fetal. O planejamento é o
componente mais importante.Todas as mulheres que consideram a gestação
devem receber dosagens elevadas de ácido fálico antes da concepção. Dival­
proexe os barbitúricos devem ser evitados. O tratamento das mulheres com
divalproexe barbitúricos deve sertrocado para outro fármaco antes da gesta­
ção, se possível. Se as crises estão controladas, a medicação de manutenção
pode ser reduzida, se possível, para a menordosagem que garanta o controle.
Se as crises não estão controladas, a medicação e as dosagens devem ser
ajustadas antes da gestação, se possível. A frequência e a gravidade das cri­
ses pode se alterar durante a gestação. É importante ser acompanhada pelo
obstetra e pelo neurologista. Nos EUA, todas as gestantes com epilepsia são
estimuladas para registrar-se no AED (Antiepileptic drug) Pregnancy Registry.
A Figura 15.12 resume mecanismos, efeitos adversos e comentários clínicos
dos fármacos antiepiléticos.
Farmacologia Ilustrada 191
• •
FÁRMACO MECANISMO DE AÇÃO EFEITOS ADVERSOS E COMENTÁRIOS
Carbamazepina
Divalproex
Etosuximida
,.
Felbamato
I•
Fenitoína
Gabapentina
Lacosamida
Lamotrigina
Levetiracetam
Oxcarbazepina
Pregabalina
Rufinamida
Tiagabina
Topiramato
Vigabatrina
Zonisamida
Figura 15.12
Bloqueia canais de Na•
Mecanismo múltiplo
Bloqueia canais de Ca2•
Hiponatremia, sonolência, fadiga, tonturas evisão turva. O usotambém está associado
com síndrome de Steven-Johnson. Discrasias do sangue: neutropenia, leucopenia,
trombocitopenia, pancitopenia eanemias.
Aumento de massa corporal, facilidade de lesões, náuseas, tremores, queda de pelos,
distúrbios TGI, lesão hepática, alopecia e sedação. Foram observados insuficiência
hepática, pancreatite e efeitosteratogênicos. Amplo espectro de atividade
anticonvul.siva.
Sonolência, hiperatividade, náuseas, sedação, distúrbios TGI, aumento de massa
corporal, letargia, LES e erupções. Podem ocorrer discrasias do sangue; deve serfeito
HCG periódico. A interrupção abrupta pode causar convulsões.
Insônia, tonturas, cefaleia, ataxia, aumento de massa corporal e irritabilidade. Anemia
Mecanismos múltiplos de ação aplástica e insuficiência hepática. Amplo espectro de atividade anticonvulsiva. Requer
o consentimento do paciente por escrito autorizando o uso.
Bloqueia canais de Na•
Desconhecido
Mecanismos múltiplos de ação
Mecanismos múltiplos de ação
Mecanismos múltiplos de ação
Bloqueia canais de Na•
Mecanismos múltiplos de ação
Desconhecido
Receptor GABA
Mecanismos múltiplos de ação
Ligação irreversível do GABA-T
Mecanismos múltiplos de ação
Hiperplasia gengival, confusão, fala enrolada, visão dupla, ataxia, sedação, tonturas e
hirsutismo. Síndrome de StevensJohnson, potencialmente fatal. Não recomendado
'
para uso crônico. E o tratamento primário para o estado epilético (fosfenitoína).
Leve sonolência, tonturas, ataxia, aumento de massa corporal e diarreia. Poucas
interações de fármacos. Cem porcento eliminados porvia renal.
Tonturas, fadiga e cefaleia. Poucas interações de fármacos. RelaçãoV (dos EUA).
Náusea, sonolência, tonturas, cefaleia ediplopia. Urticária (síndrome de Stevens-Johnson,
potencialmentefatal), Amplo espectro de atividade antioonvulsiva.
Sedação, tonturas, cefaleia, anorexia, fadiga, infecções e sintomas comportamentais.
Poucas interações com fármacos. Amplo espectro de atividade anticonvulsiva.
Náuseas, urticária, hiponatremia, cefaleia, sedação, tonturas, vertigens, ataxia e
diplopia.
Aumento de massa corporal, sonolência, tonturas, cefaleia, aumento de massa
corporal, diplopia e ataxia. Cem por cento de eliminação renal.
Diminui o intervalo QT. Interações múltiplas com outros fármacos.
Sedação, aumento de massa corporal, fadiga, cefaleia, tremor, tonturas e anorexia.
Múltiplas interações com outros fármacos.
Parestesia, perda de massa corporal, nervosismo, depressão, anorexia, ansiedade,
tre
.
mores e queixas cognitivas, cefaleia, oligoidrose. Poucas interações entre fármacos.
Amplo espectro de atividade anticonvulsiva.
Perda de visão, sonolência, fadiga, neuropatia periférica, aumento de massa corporal.
Disponível somente através do programa SHARE1•
Náuseas, anorexia, ataxia, confusão, dificuldade de concentração, sedação
parestesia e oligo-hidrose. Amplo espectro de atividade anticonvulsiva.
Resumo dos fármacos antiepilépticos. HGM = hemograma completo; GABA = ácido -y-aminobutírico;TGI = trato gastrin­
testinal; LES = lúpus eritematoso sistêmico.
1
Programa nos EUA que autoriza o médico a usar este fármaco.
192 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
15.1 Um menino com 9 anos de idade foi encaminhado para
avaliação neurológica devido a episódios de aparente
"confusão". Desde o último ano a criança vem sofrendo
episódios durante os quais apresenta olhar vago e não
responde aos questionamentos. Alem disso, parece levar
vários minutos até que se recupere dos episódios. Qual
das denominações a seguir melhor descreve as crises
desse paciente?
A. Parciais simples
B. Parciais complexas
c. Tônico-clônicas
D. De ausências
E. Mioclônicas
15.2 Qual dos seguintes tratamentos seria o mais apropriado
para o paciente descrito na questão anterior?
A. Etosuximida
B. Carbamazepina
C. Diazepam
D. Carbamazepina mais primidona
E. Observar e aguardar
15.3 O paciente descrito na Questão 15.1 foi tratado durante
seis meses com carbamazepina, mas recentemente voltou
a apresentar crises e com maior frequência. Considera-se
acrescentar um segundo fármaco ao regime medicamen­
toso do paciente. Qual dos seguintes fármacos menos pro­
vavelmente apresentará interação farmacocinética com a
carbamazepina?
A. Topiramato
B. Tiagabina
C. Levetiracetam
D. Lamotrigina
E. Zonisamida
Resposta correta = B. O paciente apresenta episódios de crises par­
ciais complexas. Esse tipo de crise prejudica a consciência e pode
ocorrer em qualquer faixa etária. Em geral, o olhar vago é acom­
panhado de comprometimento da consciência e da evocação. Se
questionado, o paciente pode responder de forma inapropriada ou
ininteligível. Movimentos automáticos são associados à maioria das
crises parciais complexas e envolvem a boca e a face (movimentos
de compressão dos lábios, mastigação degustação e deglutição),
membros superiores (movimentos de tatear, cutucar, dedilhar ou
apertar), vocalização (resmungos ou repetição de palavras e frases)
ou atos mais complexos (como caminhar ou misturar comida no pra­
to), podem estar presentessinais sutis de lateralização (comosorriso
assimétrico).
Resposta correta = B. O paciente sofreu várias crises, e o risco de não
iniciar o tratamento é substancialmente maior do que o risco de tratar
suas crises. Comoo menino apresentacomprometimento daconsciên­
ciaduranteascrises, elecorre risco de lesão duranteo episódio.Amo­
noterapia com fármacos primários é preferida para a maioria dos pa­
cientes. As vantagens da monoterapia incluem redução na frequência
deefeitosadversos, ausência de interações entrefármacosanticonvul­
sivantes, menorcusto e maioradesão ao tratamento. Aetsuximida e o
diazepam não são indicados para as crises parciais complexas.
Resposta correta = C. Dos fármacos citados, todos são aprovados
como auxiliares no tratamento de crises parciais complexas recorren­
tes, somente o levetiracetam não afeta a farmacocinética dos outros
anticonvulsivantes; nem as suas propriedades farmacocinéticas são
alteradas por outros fármacos significativamente. Entretanto, qual­
quer dos fármacos listados pode ser acrescentado dependendo do
,
planejamento e das características do paciente. E melhor considerar
a troca da carbamazepina pela lamotrigina, se existe a possibilidade
do paciente ter epilepsia primária generalizada, pois não há referên­
cia ao eletroencefalograma na Questão 15.1. O tratamento da epi­
lepsia é complexo, e o diagnóstico se baseia na anamnese e pode
requerer reavaliação quando o tratamento medicamentoso falha ou
as crises aumentam.
. . � .
nsu 1c1enc1a
,
1aca
1. RESUMO
A insuficiência cardíaca (IC) é uma alteração progressiva complexa na qual o
coração é incapaz de bombearsangue suficiente para supriras necessidades
do organismo. Seus principais sintomas são dispneia, fadiga e retenção de
líquido. A IC é decorrente de uma redução da capacidade do coração em en­
cher-se de sangue e/ou de ejetá-lo de forma adequada. Ela é frequentemente
acompanhada por aumento anormal do volume de sangue e de líquido in­
tersticial (por isso, o termo IC"congestiva", pois os sintomas incluem dispneia
devida à congestão pulmonar na IC esquerda e edema periférico na IC direi­
ta). As causas subjacentes da IC incluem doença cardíaca arteriosclerótica,
infarto do miocárdio, doença cardíaca hipertensiva, doençavalvularcardíaca,
cardiomiopatia dilatada e doença cardíaca congênita. A disfunção sistólica
esquerda secundária à doença arterial coronariana é a causa mais comum
de IC, atingindo cerca de 70°
/
o de todos os casos. O número de pacientes
recém-diagnosticados com IC é crescente, pois mais indivíduos sobrevivem
atualmente ao infarto agudo do miocárdio.
A. Papel dos mecanismos fisiológicos compensatórios na
evolução da IC
A ativação crônica do sistema nervoso simpático e do eixo renina-angio­
tensina-aldosterona está associada à remodelação do tecido cardíaco,
caracterizada pela perda de miócitos, hipertrofia e fibrose. Geometrica­
mente, o coração se torna menos elíptico e mais esférico, o que interfere
na sua capacidade de funcionar de forma eficiente como uma bomba.
Isso inicia a ativação neuro-humoral adicional, criando um círculo vicioso
que, se permanecer sem tratamento, leva à morte.
B. Objetivos da intervenção farmacológica na IC
Os objetivos são de aliviar os sintomas, tornar lenta a progressão da
doença e aumentara sobrevivência. De acordo com esses objetivos, seis
classes de fármacos têm se mostrado eficazes: 1) os inibidores do siste­
ma renina-angiotensina; 2) os bloqueadores de (3-adrenorreceptores; 3)
INIBIDORES DA ECA
Captopril
Enalapril
Fosinopril
Lisinopril
Quinapril
Ramipril
BLOQUEADORESDORECEPTOR
DEANGIOTENSINA
Candesartana
Losartana
Telmi
sartana
Valsartana
P·BLOQUEADORESDEADRENORRECEPTORES
Atenolol
Carvedilol
Metopro/oi
DIURÉTICOS
Bumetanida
Furosemida
Hidroc/ortiazida (HCTZ)
Metolazona
Figura 16.1
Resumo dos fármacos usados no tra­
tamento da insuficiência cardíaca. ECA
= enzima conversora de angiotensina.
(Continua na próxima página.)
194 Clark, Finkel, Rey & Whalen
VASODILATADORES DIRETOS
Hidralazina
Dinitrato de isossorbida
Mononitrado de i
sossorbida
Nitroprusseto de sódio
FÁRMACOS INOTRÓPICOS
Digoxina
Dobutamina
lnanrinona (antes anri
nona)
Milrinona
ANTAGONISTAS DA ALDOSTERONA
Eplerenona
Espironolactona
Figura 16.1 (Continuação)
Resumo dos fármacos usados notrata­
mento da insuficiência cardíaca.
os diuréticos; 4) os vasodilatadores diretos; 5) os fármacos inotrópicos e
6) os antagonistas da aldosterona (Figura 16.1). Dependendo da gravida­
de da IC e defatores individuais do paciente, umaou mais classes de fár­
macos são utilizadas. Os efeitos benéficos da intervenção farmacológica
incluem redução da carga no miocárdio, diminuição do volume de líquido
extracelular, aumento da contratilidade cardíaca e redução davelocidade
de remodelamento cardíaco. O conhecimento da fisiologia da contração
do músculo cardíaco é essencial para o entendimento da resposta com­
pensatória evocada pelo coração insuficiente, bem como para o entendi­
mento das ações dos fármacos usados no tratamento da IC.
-
li. FISIOLOGIA DA CONTRAÇAO MUSCULAR
O miocárdio, como o músculo liso e o esquelético, responde à estimulação pela
despolarização da membrana, aqual éseguidapeloencurtamentodas proteínas
contráteis e termina com relaxamento e retorno ao estado de repouso.Todavia,
diferente do músculo esquelético, que mostra contração graduada dependendo
do número de células musculares que são estimuladas, as células musculares
cardíacas são interconectadas em grupos que respondem ao estímulo como
uma unidade, contraindojuntas, mesmo que uma única célula seja estimulada.
A. Potencial de ação
As células musculares cardíacas são eletricamente excitáveis. Contudo,
diferente de células de outros músculos e nervos, as células do múscu­
lo cardíaco mostram um ritmo intrínseco espontâneo gerado por células
"marca-passo" especializadas, localizadas nos nós sinoatrial e atrioven­
tricular (AV). As células cardíacas apresentam também um longo poten­
cial de ação incomum, que pode ser dividido em cinco fases (0-4). A Fi­
gura 16.2 ilustra os principais íons que participam na despolarização e
polarização das células cardíacas. Esses íons passam através de canais
no sarcolema e, assim, criam uma corrente. Os canais abrem e fecham
em tempos diferentes durante o potencial de ação.Alguns respondem pri­
mariamente a mudanças na concentração iônica, e outros são sensíveis
ao trifosfato de adenosina ou à voltagem da membrana.
B. Contração cardíaca
A maquinaria contrátil da célula miocárdica é essencialmente a mesma
dos músculos estriados. A força de contração do músculo cardíaco rela­
ciona-se diretamente com a concentração de cálcio livre (não ligado) no
citosol. Assim, fármacos que aumentam os níveis desse cálcio (ou que
aumentam a sensibilidade da maquinaria contrátil ao cálcio) aumentam
a força de contração (efeito inotrópico). (Nota: os fármacos inotrópicos
aumentam a contratilidade do coração por alterar direta ou indiretamente
o mecanismo que controla a concentração de cálcio intracelular.)
1. Fontes de cálcio intracelular livre. O cálcio é proveniente de vá­
rias fontes. A primeira é externa à célula onde a abertura de canais
de cálcio voltagem sensíveis causa um aumento imediato no cálcio
citosólico livre. O cálcio pode entrar também em troca de sódio. O
retículo sarcoplasmático e a mitocôndria também liberam cálcio, o
que aumenta adicionalmente sua concentração no citoplasma (Fi­
gura 16.3).
2. Remoção do cálcio citosólico livre. Se os níveis de cálcio citosólico
livre se mantivessem elevados, o músculocardíaco permaneceria em
constante estado de contração, em vez de mostrar uma contração
periódica. Os mecanismos de remoção incluem duas alternativas.
+50
>
E
-
-
as o
·
-
u
e
GI
õ
a.
·50
FASEO: DESPOLARIZAÇÃORÁPIDA
• CanaisdeNa•abertos("canaisrápidos")resul·
tandoemumacorrenterápidaparaointerior.
• Adespolarizaçãoterminaquandooscanais
deNa•sãorapidamenteinativados.
• Acorrentedesódioébloqueadaporfármacos
antiarrítmicos,comoaquinidina.
2
o
3
0,5
Tempo(segundos)
Membrana
FASE3:REPOLARIZAÇÃO celular
• CanaisdeCa2•fechados. Ca2•
• CanaisdeK•abertos,resultando K•
emumacorrenteparaforaque
levaà repolarizaçãodamembrana.
• O resultadofinaldessaaçãonesse
pontoéoganhodeNa•eaperda
deK•.Essedesequilíbrioé Lado Lado
corrigidopelaNa•tK•-ATPase. externo interno
Figura 16.2
Farmacologia Ilustrada 195
FASE1: REPOLARIZAÇÃOPARCIAL
• Afaserápidainicialdarepolarizaçãodecorrede:
K•
1)inativaçãodoscanaisdeNa•.
2)canaisdeK•queabremefechamrapidamente,
causando umacorrentetransitóriaparafora.
4
1,0
K•
K•
FASE2:PLATÔ
• CanaisdeCa2•voltagem-sensíveisabertos,
resultandoemumacorrentelentaparao
interior(despolarização)queequilibraa
saídalentadeK•(polarização).
Ca2•
Ca2•
Lado
externo
Membrana
celular
Lado
interno
Ca2•
FASE4:CORRENTEESPONTÂNEA
• O aumentodadespolarização
resultadoincrementogradualna
permeabilidadeaosódio.
• Adespolarizaçãoespontânea
automaticamentelevaacélulaao
limiardonovopotencialdeação.
Potencial de ação de uma fibra de Purkinje. ATPase = adenosina trifosfatase.
196 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Canais lentos de Ca2+
voltagem-sensíveis
Ca2•
� OCa2•éremovidoporcaptaçãoparaoretículo
-----... E:Jlll sarcoplasmáticoeporextrusãodacélulapela
trocaentreCa2•1Na•.
ft Oequilíbriodesódio
U érestabelecidopela
-......_--"
Na•tK··ATPase.
Ca2• ------•llJi Ca2• Na• ------•llJi2Na• K
Figura 16.3
ReservasdeCa2•
(retículosarco­
plasmático)
f Ca2•livre
Miofibrilas
D
AentradadeCa2•proveniente
doladoexternodacéluladispara
aliberaçãode maiorquantidade
deCa2•doretículo
sarcoplasmático.
Aconcentraçãoaumentada
deCa2•iniciaoprocesso
contrátil.
Movimentos de íons durante a contração do músculo cardíaco. ATPase = adenosina trifosfatase.
a. Troca sódio-cálcio. O cálcio é removido por uma reação de
trocasódio-cálcio que reversivelmente troca íons cálcio por íons
sódio através da membrana celular (ver Figura 16.3). Essa inte­
ração no movimento dos íons cálcio e sódio é significativa, pois
as mudanças intracelulares de sódio podem afetar os níveis ce­
lulares de cálcio.
b. Captação de cálcio pelo retículo sarcoplasmático e pela mi­
tocôndria. O cálcio também é captado pelo retículo sarcoplas­
mático e pela mitocôndria. Mais de 99°
/
o do cálcio intracelular
estão localizados nessas organelas, e mesmo uma pequena al­
teração entre esses estoques e o cálcio livre pode levar a gran­
des alterações na concentração do cálcio citosólico livre.
C. Resposta fisiológica compensatória na IC
O coração insuficiente evoca três mecanismos compensatórios principais
para aumentar o débito cardíaco (Figura 16.4). Embora inicialmente be­
néficas, essas alterações, aofinal, resultam em comprometimento adicio­
nal dafunção cardíaca.
1. Aumento da atividade simpática. Os barorreceptores detectam a
diminuição da pressão arterial e ativam o sistema nervoso simpá­
tico. Em uma tentativa de manter a perfusão dos tecidos, esta esti­
mulação dos receptores J3-adrenérgicos resulta em um aumento da
frequência cardíaca e da força de contração do músculo cardíaco
(ver Figura 16.4). Além disso, a vasoconstrição (mediada por a, )
aumenta o retorno venoso e a pré-carga cardíaca. Essas respostas
compensatórias aumentam o trabalho do coração, o que, em longo
prazo, contribui para o declínio adicional na função cardíaca.
2. Ativação do sistema renina-angiotensina. A queda no débito car­
díaco diminui o fluxo sanguíneo aos rins, induzindo a liberação de
renina, com o resultante aumento na formação de angiotensina li
e liberação de aldosterona. Isso resulta no aumento da resistência
periférica e retenção de sódio e água. O volume de sangue aumen­
ta, e mais sangue retorna ao coração. Se o coração é incapaz de
bombear esse volume extra, a pressão venosa aumenta e ocorre
edema periférico e pulmonar (ver Figura 16.4). Essa resposta com­
pensatória aumenta o trabalho do coração e, dessa forma, pode
contribuir para o declínio posterior na função cardíaca.
3. Hipertrofia miocárdica. O coração aumenta em tamanho, e as
câmaras dilatam e se tornam mais globulares. Inicialmente, o es­
tiramento do músculo cardíaco leva a uma contração mais forte do
coração. Contudo, o alongamento excessivo das fibras resulta no
enfraquecimento das contrações, e a geometria diminui a capacida­
de de ejetaro sangue. Essetipo de insuficiência é denominado insu­
ficiência sistólica e resulta da incapacidade do ventrículo bombear
de forma eficiente. Menos comumente, os pacientes com IC podem
apresentar disfunção diastólica - um termo aplicado quando a ca­
pacidade do ventrículo em relaxar e receber sangue é prejudicada
por mudanças estruturais, como a hipertrofia. O engrossamento da
parede ventricular e a subsequente redução no volume ventricular
diminuem a capacidade do músculo cardíaco relaxar. Nesse caso,
o ventrículo não enche adequadamente, e a inadequação do débito
cardíaco é denominada IC diastólica- umacondição particularmen­
te comum de IC em mulheres idosas. A disfunção diastólica na sua
forma pura se caracteriza por sinais e sintomas de IC na presença
de função normal do ventrículo esquerdo. Todavia, as disfunções
sistólica e a diastólica comumente coexistem na IC.
D. IC descompensada
Se os mecanismos de adaptação restabelecem adequadamente o débito
cardíaco, a IC é dita compensada. Contudo, essas compensações au­
mentam o trabalho do coração e contribuem para o seu posteriordeclínio
na performance. Se os mecanismos adaptativos não conseguem manter
o débito cardíaco, a IC é dita descompensada.
E. Estratégias terapêuticas na IC
A IC crônica é tratada normalmente com redução da atividade física, die­
ta com baixa ingestão de sódio (< 1 .500 mg/dia), tratamento das con­
dições mórbidas coexistentes e uso criterioso de diuréticos, inibidores
do sistema renina-angiotensina e fármacos inotrópicos. Os fármacos que
podem precipitarou agravara IC, como anti-inflamatórios não esteroides,
álcool, bloqueadores de canais de cálcio, altas dosagens de �-bloquea­
dores e alguns antiarrítmicos, devem serevitados, se possível. Pacientes
com IC queixam-se de dispneia de esforço, ortopneia, dispneia noturna
paroxística, fadiga e edema.
Ili. INIBIDORES DO SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA
A IC causa ativação do sistema renina-angiotensina por meio de dois meca­
nismos: 1) aumento da liberação de renina pelas células justaglomerulares
nas arteríolas aferentes renais em resposta à diminuição da pressão de per­
fusão renal, resultante do coração insuficiente e 2) liberação de renina pelas
células justaglomerulares promovida por estimulação simpática e ativação
dos receptores �·A produção de angiotensina li, um potente vasoconstritor, e
Pressão
venosa
Farmacologia Ilustrada 197
1nsuflciêncla
cardíaca
Débito
cardíaco
Atividade
simpática Pressão
sanguínea
Filtração
capilar
Figura 16.4
Fluxo
sanguíneo
renal
Renina,
angiotensinali
Aldosterona
Retençãode
sódioeágua
Consequências cardiovasculares da in­
suficiência cardíaca.
198 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Angiotensinogênio
(°2-globulina no sangue)
Renina
(do rim)
Inibidores
Anglotenslna 1
(Inativa)
da ECA
1 , Anglotenslna li
diminuída
a subsequente estimulação da liberação de aldosterona que causa retenção
de sal e água levam ao aumento da pré-carga e da pós-carga, que é carac­
terístico da insuficiência cardíaca. Além disso, os níveis aumentados de an­
giotensina li e de aldosterona têm efeitos prejudiciais diretos no músculo car­
díaco, favorecendo o remodelamento, a fibrose e as alterações inflamatórias.
A. Inibidores da enzima conversora de angiotensina
Os inibidores da enzimaconversorade angiotensina (ECA) são os fárma­
cos de escolha na IC. Esses fármacos bloqueiam a enzima responsável
pelatransformação de angiotensina 1 no potentevasoconstritorangioten­
sina li (Figura 16.5). Eles também diminuem a velocidade de inativação
da bradicinina. (Nota: a vasodilatação resulta da combinação dos efeitos
de redução davasoconstrição causada pela diminuição dos níveis de an­
giotensina li e de aumento do potente efeito vasodilatador da bradicini­
na.) Pela redução dos níveis de angiotensina li circulante, os inibidores
da ECA também diminuem a secreção de aldosterona, resultando em
menor retenção de sódio e de água.
1. Ações sobre o coração. Os inibidores da ECA diminuem a resistên­
ciavascular, otônus venosoe a pressão arterial. Estesfármacos dimi­
nuem a pré e a pós-carga, resultando em aumento do débito cardíaco
(ver Figura 16.5). Os inibidores da ECAtambém abrandam o aumento
de epinefrina e aldosterona mediado pela angiotensina li, observado
na IC. Os inibidores da ECA melhoram os sinais clínicos e sintomas
em pacientes que recebem concomitantemente diuréticos tiazídicos
ou de alça e/ou digoxina. O uso de inibidores da ECA no tratamento
da IC diminuiu significativamente a morbidade e a mortalidade. Por
exemplo, a Figura 16.6 mostraque o inibidorda ECA enalaprildiminuiu
a mortalidade cumulativa em pacientes com IC congestiva. (Nota: a re­
duçãoda mortalidade se deve primariamente à diminuiçãodas mortes
causadas pela IC progressiva.) O tratamento com enalapriltambém
reduz arritmias fatais, infarto do miocárdio e derrame. Resultados se­
melhantes são obtidos com outros inibidores da ECA.
2. Indicações. Os inibidores da ECA podem ser considerados para tra­
tamento com fármaco único em pacientes que apresentam dispneia
leve de esforço e que não apresentam sinais ou sintomas de sobre­
carga de volume (edema). Importante: o uso de inibidores da ECA
está indicado em pacientesemtodosos estágiosde insuficiênciaven­
tricular esquerda. Os pacientes com as menores frações de ejeção
Estimulação do
sistema nervoso
simpático
Vasodilatação
de músculo liso
vascular
Nível de
bradicinina
V�..
1
-
-
-
---=
:::::::
-;;;;-1
'--
�
�
�
�
�
�
�
__j •
Os inibidores da ECA diminuem --------"1/
os níveis circulantes de angio- Inibidores lnibibe a degradação
..
tensina li, quetêm os quatro da ECA de bradicinina
principais efeitos mostrados.
Figura 16.5
Retenção de
sódio e água
Aumento do
débito cardíaco
Efeitos dos inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA). (Nota: a diminuição da retenção de sódio e água
resultade duas causas: diminuição da produção e liberação de aldosterona e diminuição de angiotensina li, que aumenta
a reabsorção de sódio atuando nos rins.)
apresentam os maiores benefícios com uso dos inibidores da ECA.
Na IC, dependendo dagravidadedadoença, os inibidoresda ECApo­
dem ser usados associados com diuréticos, [3-bloqueadores, digoxi
na
e antagonistas da aldosterona. Pacientes que tenham tido infarto do
miocárdio recente também se beneficiam com o tratamento de longo
prazo com inibidor da ECA. É recomendado que o inibidor da ECA
seja iniciado imediatamente após o infarto do miocárdio (Ver p. 234
para o uso de inibidores da ECA no tratamento da hipertensão.)
3. Farmacocinética. Todos os inibidores da ECA são absorvidos de
forma adequada, mas não completamente, após a administração
via oral. Como a presença de alimento pode diminuir a absorção
dos fármacos, eles devem ser tomados com estômago vazio. Com
exceção do captopri/, os inibidores da ECA são pró-fármacos que
necessitam de ativação por hidrólise pelas enzimas hepáticas. A
eliminação renal da molécula ativa é importante para a maioria dos
inibidores da ECA, sendo exceção o fosinopril. A meia-vida plasmá­
tica dos compostos ativos varia de 2 a 12 horas, embora a inibição
da ECA possa ser muito maior. Os compostos novos como ramipril
e fosinopril requerem somente uma única dosagem por dia.
4. Efeitos adversos. Incluem-se hipotensão postural, insuficiência renal,
hiperpotassemia, angioedema e tosse seca persistente. A possibilida­
de de hipotensão sintomática com o uso de inibidores da ECA requer
monitoração cuidadosa. Os inibidores da ECA não devem ser usados
em mulheres gestantes, pois estes fármacos sãotóxicos para ofeto.
B. Bloqueadores de receptor de angiotensina
Os bloqueadores de receptor de angiotensina (BRAs) são compostos
não peptídicos ativos por via oral que são antagonistas competitivos ex­
tremamente potentes do receptor tipo 1 de angiotensina. O /osartana é
o fármaco protótipo. Os BRAs têm a vantagem teórica de bloqueio mais
completo da ação da angiotensina, pois os inibidores da ECA inibem so­
mente uma enzima responsável pela produção de angiotensina li. Além
disso, eles não afetam os níveis de bradicinina.Apesarde os BRAsterem
ações semelhantes às dos inibidores da ECA, eles não são terapeutica­
mente idênticos. Mesmo assim, os BRAs são substitutos dos inibidores
da ECA nos pacientes que não conseguem tolerar os inibidores.
1. Ações sobre o sistema cardiovascular. Todos os BRAs são apro­
vados para o tratamento da hipertensão com base na sua eficácia
clínica em reduzir a pressão arterial e diminuira morbidade e a mor­
talidade associadas à hipertensão. Como indicado, seu uso na IC
é como substituto dos inibidores da ECA nos pacientes com tosse
intensa ou angioedema.
2. Farmacocinética. Todos os fármacos BRAs são ativos por via oral
e requerem somente uma administração por dia. O losartana, o
primeiro membro aprovado da classe, difere dos demais, pois so­
fre extensa biotransformação de primeira passagem pelo fígado,
incluindo a conversão em seu metabólito ativo. Os demais fárma­
cos apresentam metabólitos inativos. A eliminação de metabólitos
e compostos originais ocorre na urina e nas fezes; a proporção
depende de cada fármaco individualmente. Todos sofrem elevada
ligação com proteínas plasmáticas (mais de 90°
/
o) e, exceto o can­
desartana, apresentam grande volume de distribuição.
3. Efeitos adversos. Os BRAs têm perfil de efeitos adversos seme­
lhante ao dos inibidores da ECA, mas não provocam tosse. Como
com os inibidores da ECA, eles são contraindicados na gestação.
Farmacologia Ilustrada 199
100
�
'#. 80
-
m
.ii!: Placebo
1ii
-
:::1
E
60
:::1
u
-! 40 Enalapril
m
"O
·
-
-
m
t:
o 20
::&
o
o 3 6 9 12
Tempo(meses)
Figura 16.6
Efeitos do enalapril na mortalidade de
pacientes com insuficiência cardíaca
congestiva.
200 Clark, Finkel, Rey & Whalen
O metopro/olreduz a
20 mortalidade em pacientes
com insuficiência
�
cardíaca.
#.
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�����---.....
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i
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·
­
-
g 5
:li
o
Placebo
6 12
Acompanhamento(meses)
Figura 16.7
18
Mortalidade cumulativa em pacientes
com insuficiência cardíaca tratados
com placebo ou metoprolol.
IV. p-BLOQUEADORES
Embora pareça contraditório administrar fármaco com atividade inotrópica ne­
gativa ao paciente com IC, vários estudos clínicos têm claramente demonstrado
a melhora do funcionamento sistólico e a reversão do remodelamento cardíaco
em pacientes que recebem [3-bloqueadores. Esses benefícios ocorrem apesar
do eventual agravamento inicial dos sintomas. O benefício dos [3-bloqueadores
é atribuído, em parte, à sua propriedade de prevenir as mudanças que ocorrem
em virtude da ativação crônica do sistema nervoso simpático, incluindo dimi­
nuição da frequência cardíaca e inibição da liberação de renina. Além disso, os
[3-bloqueadores previnemtambémosefeitos prejudiciaisdiretosda norepinefrina
na fibra muscularcardíaca, diminuindo o remodelamento, a hipertrofia ea morte
celular. Dois [3-bloqueadores são aprovados para uso na IC: o carvedilol e o me­
toprolol de ação prolongada. Ocarvedilol é um antagonistade [3-adrenorreceptor
não seletivo que também bloqueia [3-adrenorreceptores, o metoprolol é um anta­
gonista [31 seletivo. (Nota: a farmacologia dos [3-bloqueadores está descrita em
detalhes no Capítulo 7.) O bloqueio f3 é recomendado para todos os pacientes
com doença cardíaca, exceto aqueles que apresentam alto risco, mas nãoapre­
sentam sintomas, ou aqueles com IC aguda. O carvedilol e o metoprolol dimi­
nuem a morbilidade e a mortalidade associada a IC. O tratamento deve iniciar
com baixas dosagens e gradualmente ser titulada a dosagem eficaz com base
natolerância dopaciente.Obviamente, o pacienteque étambém hipertensoterá
um benefício adicional com [3-bloqueadores.A Figura 16.7 mostra o efeito bené­
fico do tratamento com metoprolol em pacientes com IC.
V. DIURÉTICOS
Os diuréticos aliviam a congestão pulmonar e o edema periférico. Esses fár­
macos também são úteis na redução dos sintomas da sobrecarga de volume,
incluindo ortopneia e dispneia paroxística noturna. Os diuréticos diminuem o
volume plasmático e, subsequentemente, diminuem o retorno venoso ao cora­
ção (pré-carga). Isso diminui a cargade trabalho cardíaco e a demanda de oxi­
gênio. Os diuréticos podem diminuir também a pós-carga pela redução do vo­
lume plasmático, reduzindo, assim, a pressão arterial. Os diuréticos tiazídicos
são relativamente fracos e perdem eficácia em pacientes com depuração de
creatinina inferiora 50 mUmin. Os diuréticos de alça são usados em pacientes
que necessitam diurese intensa e em pacientes com insuficiência renal. Os
diuréticos de alça são os diuréticos mais comumente usados na IC. (Nota: a
dosagem excessiva dos diuréticos de alça pode levarà hipovolemia profunda.)
VI. VASODILATADORES DIRETOS
A dilatação devasos sanguíneos venosos levaa uma diminuição na pré-carga
cardíaca pelo aumento da capacitância venosa; dilatadores arteriais reduzem
a resistência arteriolar sistêmica e diminuem a pós-carga. Os nitratos são os
dilatadores venosos comumente usados em pacientes com IC congestiva. Se
o paciente é intolerante aos inibidores da ECA ou aos [3-bloqueadores, ou
se é necessária uma resposta vasodilatadora adicional, pode ser usada a
associação de hidralazina e di
nitrato de isossorbida. Esta associação é muito
eficaz em pacientes negros com IC. A hidralazi
na diminui a pós-carga e o ni­
trato orgânico reduz a pré-carga. (Nota: os bloqueadores de canais de cálcio
devem ser evitados em pacientes com IC.)
VII. FÁRMACOS INOTRÓPICOS
Fármacos inotrópicos positivos aumentam a contratilidade do músculo car­
díaco e, dessa forma, aumentam o débito cardíaco. Embora esses fármacos
atuem por diferentes mecanismos, em todos os casos a ação inotrópica é o
resultado do aumento da concentração de cálcio citoplasmático, o qual au­
menta a contratilidade do músculo cardíaco.
A. Glicosídeos digitálicos
Os glicosídeos cardíacos são frequentemente chamados digitálicos ou
glicosídeos digitálicos, pois a maioria dos fármacos é proveniente da
planta digita/is (dedaleira). Eles são um grupo de compostos quimica­
mente similares que podem aumentar a contratilidade do músculo car­
díaco e, em vista disso, são amplamente usados no tratamento da IC.
Como osfármacos antiarrítmicos descritos no Capítulo 17, os glicosídeos
cardíacos influenciam os fluxos de íons sódio e cálcio no músculo car­
díaco e, dessa forma, aumentam a contração do miocárdio atrial e ven­
tricular (ação inotrópica positiva). Os glicosídeos digitálicos têm somente
uma pequena margem entre a dosagem terapeuticamente eficaz e a que
é tóxicaou mesmo fatal. Portanto, os fármacos têm um índice terapêutico
reduzido. O digitálico mais amplamente usado é a digoxina.
1. Mecanismo de ação
a. Regulação da concentração de cálcio citosólico. A concentra­
ção de cálcio livre no citosol nofinal da contração precisa diminuir
para que o músculo cardíaco relaxe. O trocador Na+1ca
2
+ desem­
penha um papel importante nesse processo, promovendo a saída
de Ca
2
+ do miócito em troca de Na+ (Figura 16.8). O gradiente
de concentração para ambos os íons é o principal determinante
do movimento iônico geral. Inibindo a capacidade do miócito em
bombear ativamente o Na+ da célula, os glicosídeos cardíacos
diminuem o gradiente de concentração de Na+ e, consequente­
mente, a capacidade do trocador Na+/Ca
2
+ em promover a saída
de cálcio da célula. Além disso, o nível celular elevado de Na+ é
trocado porCa
2
+extracelularpela bomba Na+/Ca
2
+, aumentando o
cálcio intracelular. Como mais Ca
2
+ fica retido no espaço intrace­
lular, ocorre um pequeno, mas importante, aumento fisiológico de
Ca
2
+ livre, que fica disponível para o próximociclode contraçãodo
músculocardíaco, aumentando, dessaforma, a contratilidade car­
díaca. Como a Na+/K+ATPase troca 2 Na+por 1 K+, ela restabele­
ce a concentração iônica e o potencial de repouso da membrana.
Quando a Na+/K+ATPase é fortemente inibida pela digoxina (e por
Na•1ca2•trocador
'
t Ca2• livre
Miofibrilas
Figura 16.8
Ca2•
..
n A concentraçãointracelularde Na•aumenta,e
E';:ll ogradientedeconcentração,atravésda
membrana,diminui.
� OaumentodoNa•diminuiaforçamotrizdotrocador
E:,111 deNa·1ca2••Então,hádiminuiçãodaexclusãodeCa2•
paraoespaçoextracelular.
Mecanismo de ação da digoxina. ATPase = adenosina trifosfatase.
Farmacologia Ilustrada 201
D
Osdigitãlicosinibem
astrocasNa•1K•
pelaNa·1K··ATPase.
202 Clark, Finkel,Rey& Whalen
oCORAÇÃO NORMAL
• Dentro de limites, quando o músculo cardíaco
é estirado, sua força de contração aumenta,
e, com isso, o débito cardíaco aumenta.
• Todavia, se o ventrículo for superestirado,
o efeito da contração ventricular diminui.
• O é o ponto normal de funcionamento
no coração sadio.
o
�
·-
2.
longo tempo), o potencial de repouso da membrana pode aumen­
tar (- 70 mV em vez de - 90 mV), o que torna a membrana mais
excitável, aumentando o risco de arritmias (toxicidade).
b. Aumento da contratilidade do músculo cardíaco. A adminis­
tração de glicosídeos digitálicos aumenta a força de contração
cardíaca, causando um débito cardíaco mais próximo ao do co­
ração normal (Figura 16.9). Um aumento na contração do mio­
cárdio leva à redução do volume diastólico final, aumentando,
dessa forma, a eficiência da contração (aumento da fração de
ejeção). A consequente melhora da circulação leva à redução
da atividade simpática, que, então, reduz a resistência periférica.
Juntos, esses efeitos causam reduçãoda frequência cardíaca. O
tônus vagai também é aumentado; então, a frequência cardíaca
diminui, e a demanda de oxigênio pelo miocárdio é reduzida. A
digoxina retarda a velocidade de condução através do nó AV, o
que é responsável pelo seu uso na fibrilação atrial. (Nota: no co­
ração normal, o efeito inotrópico positivo dos glicosídeos digitáli­
cos é neutralizado pelos reflexos autônomos compensatórios.)
Usos terapêuticos. O tratamento com digoxina está indicado em
pacientes com disfunção sistólicaventricularesquerdagrave depois
de iniciado o tratamento com inibidor da ECA e diurético. A digoxina
não está indicada em pacientes com IC diastólica ou direita. A prin-
o TRATAMENTO COM DIGOXINA
• A administração de digoxina desloca a curva
defunção ventricular para próximo do normal.
• A maior contratilidade ([3para (!]) leva ao
aumento do débito cardíaco.
• A diminuição dos reflexos simpáticos e do
tônus vascular causa diminuição na pressão
ventricular diastólica final ([il para �).
Normal
'O
8
o
�
--
--
-
-
--
rn
�
· -
.....
-
rn...t:
IC tratada com digioxina
Figura 16.9
-
:s
i!
Sintomasde �
débitoinadequado,
comofadiga
IC não tratada
Pressão ventricular diastólicafinal
INSUFICIÊNCIA CARDÍACA
DESCOMPENSADA
• Redução inicial da contratilidade ( rJpara 0)
devido à IC.
• Sintomas de débito cardíaco baixo se desenvolvem
- por exemplo, dispneia e edema.
Sintomas de pressão
venosa excessiva
� INSUFICIÊNCIA CARDÍACA
� COMPENSADA
• Aumento da pressão ventricular diastólica final
( m para [3) no esforço de manter um débito
cardíaco adequado.
• O aumento da pressão ventricular diastólica final
causa sintomas de congestão - por exemplo, dispneia.
Curvas de função ventricular no coração normal, na insuficiência cardíaca (IC) e na IC tratada com digoxina.
cipal indicação da digoxina é na IC com fibrilação atrial. A dobuta­
mina, outro fármaco inotrópico, pode ser administrada porvia IV no
hospital, mas, até o momento, não existe outro fármaco inotrópico
ativo por via oral tão eficaz quanto a digoxi
na. Pacientes com IC
leve a moderada frequentemente responderão ao tratamento com
inibidores da ECA e diuréticos, não necessitando da digoxina.
3. Farmacocinética. Todos os glicosídeos digitálicos possuem as mes­
mas ações farmacológicas, mas variam em potência e farmacocinéti­
ca (Figura 16.1O). A digoxina é o único glicosídeo digitálico disponível
nos EUA. A digoxi
na é muito potente, com índice terapêutico estreito
e longa meia-vida de cerca de 36 horas. A digoxina é eliminada princi­
palmente de forma inalterada pelos rins, exigindo ajuste de dosagem
com base na depuração de creatinina. Ela tem amplo volume de dis­
tribuição porque acumula nos músculos.A dosagem de digoxina é ba­
seada na massacorporal magra. É usado o regime de dose de ataque
quando é necessária digitalização aguda. A digitoxina tem tempo de
meia-vida muito mais longo e é extensamente biotransformada pelo
fígado antes da excreção nas fezes, e os pacientes com doença he­
pática podem necessitar de redução das doses. Isso cria dificuldades
para controlarofármaco, resultando na suasubstituição pela digoxi
na.
4. Efeitos adversos. A toxicidade da digoxina é uma das reações
adversas a fármacos mais comumente encontradas. Os efeitos ad­
versos podem ser controlados suspendendo o uso do glicosídeo
cardíaco, medindo o nível sérico de potássio (a diminuição do K+
aumenta o potencial de cardiotoxicidade), e, se indicado, adminis­
trando suplementos de potássio. Em geral, a diminuição dos níveis
séricos de potássio predispõe o paciente à toxicidade à digoxina.
Os níveis de digoxina devem ser cuidadosamente monitorados na
presença de insuficiência renal, e o ajuste de dosagem pode ser
necessário. A intoxicação grave que resulta em taquicardia ventricu­
lar pode necessitar da administração de antiarrítmicos e do uso de
anticorpos à digoxi
na (digoxina imuno Fab), que se ligam e inativam
o fármaco. Os tipos de efeitos adversos são citados a seguir.
a. Efeitos cardíacos. O efeito adverso cardíaco comum é a arrit­
mia, caracterizado por tornar lenta a condução atrioventricular
associado com arritmias atriais. A diminuição do potássio in­
tracelular é o fator predisponente primário nesses efeitos.
b. Efeitos gastrintestinais. Anorexia, náusea e êmese são os
efeitos adversos comumente encontrados.
c. Efeitos sobre o sistema nervoso central. Inclui cefaleia, fadi­
ga, confusão, visão borrada, alteração da percepção de cores e
halos em objetos escuros.
5. Fatores predisponentes à toxicidade por digoxina
a. Distúrbios eletrolíticos. A hipopotassemia pode precipitargra­
ves arritmias. A redução dos níveis de potássio sérico é mais
frequentemente observada em pacientes que recebem diuréti­
cos tiazídicos ou de alça, o que pode, em geral, serevitado pelo
uso de diuréticos poupadores de potássio ou por suplementa­
ção com cloreto de potássio. Hipercalcemia e hipomagnesemia
também predispõem à toxicidade da digoxina.
Farmacologia Ilustrada 203
Digoxina
Digitoxina
Ligação
à proteína
Iníciode
ação
Meia­
-vida
o
o
o
Figura 16.1O
1
50
Percentual
20 40
Minutos
2 3
Dias
100
60
4 5
Comparação das propriedades da di­
goxina e da digitoxina.
Podeocorreraumento
daconcentraçãode
digoxina nodecorrer
dotratamento
Amiodarona
Eritromicina
Quinidina
Tetraciclina
Verapamil
Maior potencial de
cardiotoxicidade
Níveisreduzidosde
potássiosérico
Corticosteroides
Diuréticostiazídicos
Diuréticosdealça
b. Fármacos. Quinidina, verapamil e amiodarona, para citar al-
guns, podem causar intoxicação por digoxina, deslocando-a dos Figura 16.11
locais de ligação na proteína tecidual ou por competição com Fármacos que interagem com digoxina.
204 Clark, Finkel, Rey & Whalen
-
CanaislentosdeCa2•
voltagem-sensíveis
Ca2•
Ca2•
p
Miofibrilas
ela pela excreção renal. Como consequência, os níveis de di­
goxina plasmática podem aumentar de 70 a 100°
/
o, necessitan­
do redução de dosagem. Diuréticos espoliadores de potássio,
corticosteroides e uma variedade de outros fármacos também
podem aumentara toxicidade da digoxina (Figura 16.11). Hipoti­
reoidismo, hipoxia, insuficiência renal e miocardite também são
fatores predisponentes à toxicidade por digoxina.
B. Agonistas Jl-adrenérgicos
A estimulação [3-adrenérgica melhora o desempenho cardíaco, causando
efeitos inotrópicos positivos e vasodilatação. A dobutamina é o fármaco
inotrópico mais comumente usado além da digoxi
na. Ela aumenta o mono­
fosfato cíclico de adenosina (AMPc) intracelular, o que resulta na ativação
da proteína-quinase. Os canais lentos de cálcio constituem um local impor­
tante de fosforilação pela proteína-quinase. Quandofosforilados, a entrada
de íon cálcio nas células miocárdicas aumenta, estimulando, assim, a con­
tração (Figura 16.12). A dobutaminadeve seradministrada por infusão IV e
é usada primariamente no tratamento de IC aguda em ambiente hospitalar.
C. Inibidores da fosfodiesterase
lnanrinona (anteriormente anrinona) e milrinona são inibidores da fos­
fodiesterase que aumentam a concentração intracelular de AMPc (ver
Figura 16.12). Isso resulta no aumento intracelular de cálcio e, dessa
forma, na contratilidade cardíaca, como discutido para os agonistas
[3-adrenérgicos. O tratamento prolongado com inamri
nona ou milrinona
pode ser associado ao aumento substancial do risco de mortalidade. En­
tretanto, o uso IV da milri
nona por período curto não está associado a
aumento da mortalidade, e podem ser obtidas algumas vantagens sinto­
máticas quando ela for usada em pacientes com IC refratária.
r:11 Afosforilaçãodocanaldecálcio
� aumentaofluxodecálciopara
dentrodacélula,causandoaumento
daforçadecontraçãodomúsculo
cardíaco.
D
Aligaçãodeumagonista
13-adrenérgico,comodopaminaou
dobutamina,ativaaadenililciclase,
'Localdefosforilação
aumentaofluxo
de Ca2•parao
interiordacélula
queproduzAMPc.
Receptor
p-adrenérgico
�
------n��?f!lff
f
;
Proteína-quinase+-----..
(ativa)
Proteína-quinase ------'.
(inativa)
r;'I OAMPcativaaproteína-quinase,
U que,porsuavez,fosforilao
canaldecálcio.
AMPc ATP
....,. O <·•11111111111111111111 Inibidoresda
AMP
fosfodiesterase
(p.ex.,milrinona)
Aumentodaforça
decontração R Osinibidoresdafosfodiesteraseimpedema
Ili.li hidrólisedoAMPce,assim,prolongama
açãodaproteína-quinase.
Figura 16.12
Locais de ação para os agonistas adrenérgicos no músculo cardíaco. AMP = monofosfato de adenosina; ATP = trifosfato
de adenosina; AMPe = monofosfato cíclico de adenosina; P = fosfato.
ESTÁGIOB
ESTÁGIOA Doença
Risco altosem cardíaca
sintomas estruturalsem
sintomas
ESTÁGIOC
Doençacardíaca
estrutural com
sintomas
. .
prev1os
oucorrentes
Farmacologia Ilustrada 205
�
"" V� Restriçãodesódionadieta;diuréticosedlgoxlna
- -
� InibidoresdaECAep-bloqueadoresemtodosospacientes
7 � InibidoresdaECAouBRAsemtodosospacientes;p-bloqueadoresempacientesselecionados
� � Tratarhipertensão,diabetes,dislipidemia;inibidoresdaECAouBRAsemalgunspacientes
� Reduçãodosfatoresderisco,educaçãodopaciente
Figura 16.13
Opções de tratamento para vários estágios da insuficiência cardíaca. ECA = enzima conversora de angiotensina; BRAs
= bloqueadores de receptores da angiotensina. O estágio D (sintomas refratários que exigem intervenções especiais)
não é mostrado.
VIII. ANTAGONISTAS DA ALDOSTERONA
Pacientes com doença cardíaca avançada apresentam níveis elevados de al­
dosterona devido à estimulação da angiotensina 11 e à redução da depuração
hepática do hormônio. A espironolactona é um antagonista direto da aldos­
terona; dessa forma, ela previne a retenção de sal, a hipertrofia miocárdica
e a hipopotassemia. O tratamento com espironolactona deve ser reservado
para os casos mais avançados de IC. Como ela promove retenção de potás­
sio, os pacientes não devem receber suplementação de potássio. Os efeitos
adversos incluem distúrbios gástricos, como gastrite e úlcera péptica, efeitos
sobre o SNC, como letargia e confusão, e alterações endócrinas, como gine­
comastia, diminuição de libido e irregularidades menstruais. A eplerona é um
antagonista competitivo da aldosterona nos receptores mineralocorticoides.
Embora tenha ação similar a espironolactona no receptor da aldosterona, a
eplerona apresenta menor incidência de efeitos adversos endócrinos devido
à sua menor afinidade pelos receptores de glicocorticoides, androgênios e
progesterona. A eplerenona reduz a mortalidade em pacientes com disfunção
ventricular esquerda sistólica e IC após infarto agudo do miocárdio.
IX. ORDEM DOTRATAMENTO
Os especialistas classificam a IC em quatro estágios, do menos grave ao
mais grave. A Figura 16.13 mostra uma estratégia de tratamento usando
essa classificação e os fármacos descritos neste capítulo. Note que à me­
dida que a doença progride, é iniciada a politerapia. Pacientes com IC ma­
nifesta com frequência recebem primeiro diuréticos de alça para alívio dos
sinais ou sintomas do excesso de volume, como dispneia e edema periférico.
São acrescentados inibidores de ECA ou, se estes não são tolerados, BRAs
depois da otimização do tratamento diurético. A dosagem deve ser titulada
gradualmente até o máximo tolerado e/ou a que produz os efeitos ideais
no débito cardíaco. São iniciados os �-bloqueadores depois que o paciente
esteja estabilizado com os inibidores da ECA e, novamente, iniciado com
dosagens baixas e titulado até os níveis ótimos. A digoxina é iniciada em
pacientes que continuam a ter sintomas de IC, apesar dos vários fármacos já
iniciados. Por exemplo, a Figura 16.14 mostraque o tratamento com digoxina
mais um diurético e mais um inibidorda ECA em pacientes com IC é superior
aotratamento com diurético isolado ou um diurético mais um digitálico ou um
inibidor da ECA.
Pacientes que recebem tratamento triplo são
menos propensos a apresentar agravamento
da insuficiência cardíaca quando comparados
com qualquer um dos outrostrêsgrupos de
tratamento.
Digoxina + diurético + Inibidor da E
C
A
s 100
;
li B
� .!! 80
... 'E!
gi B
.g .!!
! � 60
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.. ..
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t
Dlgoxlna + diurético
,#
Inibidor da ECA + diurético t
Diuré
t ico
o -'-------r--�-�----r--
o 30 60 90 120
Dias após o Início do tratamento
Figura 16.14
Uso de vários fármacos no tratamento
da insuficiência cardíaca. ECA = enzi­
ma conversora de angiotensina.
206 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
16.1 A digoxina apresenta um intenso efeito nas concentrações
intracelulares de Na+, K+ e Ca2+ no miócito. Esses efeitos
são causados pela digoxina inibindo:
A. a Ca2+ATPase do retículo sarcoplasmático.
B. a Na+/K+ATPase da membrana do miócito.
C. a fosfodiesterase cardíaca.
D. o receptor 131 cardíaco.
E. a liberação justaglomerular de renina.
16.2 O aumento compensatório na frequência cardíaca e na
liberação de renina que ocorre na insuficiência cardíaca
pode ser atenuado com qual dos seguintes fármacos?
A. Milrinona
B. Digoxina
C. Dobutamina
D. Enalapril
E. Metoprolol
16.3 Um homem de 58 anos é admitido em um hospital com
insuficiência cardíaca aguda e edema pulmonar. Qual dos
seguintes fármacos seria mais útil no tratamento do ede­
ma pulmonar?
A. Digoxina
B. Dobutamina
C. Furosemida
D. Minoxidil
E. Espironolactona
16.4 Um homem de 46 anos dá entrada na emergência. Ele in­
geriu mais de 90 comprimidos de digoxina (0,25 mg cada),
aproximadamente três horas antes do atendimento. Seu
pulso está entre 50 e 60 batimentos por minuto, e o eletro­
cardiograma mostra bloqueio cardíaco de terceiro grau. A
concentração de K+ no soro está normal. Qual dos seguin­
tes tratamentos é o mais importante para iniciar o trata­
mento do paciente?
A. Digoxina imuno Fab
B. Sais de potássio
C. Lidocaína
D. Fenitoína
E. Amiodarona
Resposta correta = B. A digoxina se liga à Na•/ K•ATPase e bloqueia
suaação. Isso leva a um aumento desódio intracelular.Adiminuiçãodo
gradiente de sódio resulta em menos Ca2• sofrendo extrusão da célula
viatroca Na•1ca2•. A digoxina não se liga à Ca2•ATPase não tem efeito
diretosobrefosfodiesterase, receptores �1 ou liberação de renina.
Resposta correta= E.O metoprolol, um antagonista �,-seletivo, impede
o aumento da frequência cardíaca e a liberação de renina resultantes
da estimulação simpática, que ocorre compensatoriamente à redução
do débito cardíaco na insuficiência cardíaca. O enalapril é um inibidor
da ECA que aumenta a liberação de renina. A dobutamina aumenta a
contratilidade cardíaca, mas não diminui a frequência, nem interfere na
liberação de renina. A digoxina diminui a frequência cardíaca, por seu
efeitovagomimético, masnãodiminui a liberação de renina.
Respostacorreta= C.Afurosemidatem a capacidade de dilatarvasos
no contexto da insuficiência cardíaca aguda. Ela também mobiliza o
líquido do edema e promove sua excreção. A dobutamina aumenta a
contratilidade, mas não alivia de forma significativa o edema pulmo­
nar. A digoxina atua muito lentamente e não apresenta efeito vasodi­
latador. O minoxidil diminui a pressão arterial e causa taquicardia re­
flexa. A espironolactona nãocausa alívio do edemapulmonar agudo.
Respostacorreta = A. No paciente gravemente intoxicado, a redução
da concentração plasmática de digoxina é primordial e pode ser ob­
tida com a administração de anticorpos antidigoxina. A concentração
de potássio, se baixa, pode ser elevada. Os antiarrítmicos são úteis
quando necessários, mas não sãonesse caso. A amiodarona pioraa
intoxicação por digoxina por deslocá-la da ligação com as proteínas
teciduais e competindo com ela pela excreção renal. O verapamil au­
menta a frequência cardíaca.
,
ar acos
•
ICOS
1. RESUMO
Em contraste ao músculo esquelético, que só contrai quando recebe um es­
tímulo, o coração contém células especializadas que apresentam automa­
ticidade; isso significa que podem gerar potenciais de ação rítmicos intrin­
secamente na ausência de estímulo externo. Essas células "marca-passo"
diferem de outras células miocárdicas, devido à despolarização espontânea
lenta durante a diástole (Fase 4), causada por uma corrente positiva para o
seu interior transportada por fluxos de íons sódio e cálcio. Essa despolariza­
ção é mais rápida no nó sinoatrial (SA) (local normal de início do potencial
de ação) e diminui ao longo das vias de condução normal, passando pelo nó
atrioventricular (AV) aos feixes de His e ao sistemade Purkinje. Disfunções da
geração ou da condução do impulso em qualquer dos vários locais no cora­
ção podem causar anormalidade no ritmo cardíaco. A Figura 17.1 resume os
fármacos usados no tratamento das arritmias cardíacas.
li. INTRODUÇÃO ÀS ARRITMIAS
As arritmias são conceitualmente simples. Disfunções causam anormalidades
na formação e condução de impulsos no miocárdio. Entretanto, na clínica, as
arritmias se apresentam como uma família complexa de distúrbios com uma
variedade de sintomas. Por exemplo, as arritmias cardíacas podem levar o
coração a bater muito lentamente (bradicardia) ou muito rapidamente (taqui­
cardia) e bater regularmente (taquicardia sinusal ou bradicardia sinusal) ou ir­
regularmente (fibrilação atrial).A cavidade cardíaca onde inicia a arritmia con­
fere sua denominação: taquicardia atrial para a arritmia rápida originada nos
átrios. Impulsos que se originam de outros locais que não o nó SA e impulsos
que se deslocam ao longo de vias acessórias (extra) que causam despolari­
zações de desvio (reentradaAV, síndrome deWolff-Parkinson-White) também
podem causar arritmias. Para dar sentido a esse grande grupo de distúrbios,
é útil organizar as arritmias em grupos de acordo com o local anatômico da
anormalidade - o átrio, o nó AV ou os ventrículos. A Figura 17.2 resume vá­
rias arritmias atriais, da junção AV e ventriculares que ocorrem comumente.
+
CLASSE 1(Bloqueadores de canais deNa )
Disopiramida (IA)
Flecainida (IC)
Lidocaína (18)
Mexiletina (18)
Procainamida (IA)
Propafenona (/C)
Quinidina (IA)
CLASSE li (bloqueadores deJJ-adrenorreceptor)
Esmolo/
Metopro/oi
Propranolol
+
CLASSE Ili (bloqueadores de canais de K )
Amiodarona
Dofetilida
Dronedarona
Sotalol
+
CLASSE IV (bloqueadores decanais deCa )
Diltiazem
Verapamil
OUTROS FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS
Figura 17.1
Adenosina
Digoxi
na
Resumo dos fármacos antiarrítmicos.
208 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Essaarritmiacomumenvolvefocosectópicos
múltiplosdecélulasatriais,criandoummovi­
mentocaóticodeimpulsosatravésdoátrio.
Arespostaventricularérápida(100a150
batimentosporminuto)eirregular.Odébito
cardíacoestádiminuídoeaintolerânciaao
exercícioécomum.
Os�-bloqueadoressãousadosnafibrilação
atrialporquediminuemafrequênciacardíaca
epromovemaconversãoaoritmosinusal.
Otratamentodelongaduraçãoedosagem
baixacomanticoagulantereduzoriscode
ataquecardíacoqueestáassociadocoma
fibrilaçãoatrial.
FÁRMACOSANTIARRÍTMICOS
TIPODE
ARRITMIA
ARRITMIAS
ATRIAIS
PALPITAÇÃO ..........
(FLU1TER)ATRIAL
FIBRILAÇÃO
ATRIAL
TAQUICARDIAS
SUPRAVENTRICULARES
REENTRADANO
NÓAV ......
,__
Classe1
Quinidina
Classli ClasseIli
Propranolol
Amlodarona
Propranolol
Dofetilida
Propranolol
ClasseIV Outros
Verapamll ··· ·· ,_
[_
o
_
;
g
_
o
_
'}(
_
i
n
_
a
__,
]
.......[.....
_
0
1
_
·
1t
_
i
a
z
_
em
_
_,}......... Tratamento
antlcoagulante
.. · .....· ·
[ Digoxina
]
Acondução
éretardada
atravésdo
nóAV
com
propranolol,
verapamíl
oudigoxina.
TAQUICARDIA .
'-
SUPRAVENTRICULAR Adenosina
·······································································································� ll'
era,,amil �-·········
AGUDA
TAQUICARDIAS
VENTRICULARES
TAQUICARDIA
VENTRICULAR
AGUDA
FIBRILAÇÃO
VENTRICULAR
(quenãoresponde
à desfibrilaçãoelétrica)
Lldocafna
...........[ Lidocaína J.....................................
�
-
-
-
�
Amlodarona
Amlodarona
Essaarritmiaéacausacomumdemorteempacientesquetiveram
infartodomiocárdio.Odébitocardíacoestácomprometido,ea
taquicardiapodeevoluirparafibrilaçãoventricular.Portanto,a
taquicardiaventricularexigecuidadoimediato.
Figura 17.2
Legenda:
Eplnefrlna
Nomedo fármaco Fármacocomumente
usado
!N
o
m
e d
o fármaco
: Fármacoalternativo
Indicações terapêuticas para algumas arritmias comumente encontradas. AV = atrioventricular.
Embora não mostrado aqui, cada uma das anormalidades pode ser dividida
em subgrupos, dependendo dos achados no eletrocardiograma (ECG).
A. Causas de arritmias
A maioria das arritmias resultade aberrações na geração do impulso (au­
tomaticidade anormal) ou de um defeito na condução do impulso.
1. Automaticidade anormal. O nó SA tem a maior velocidade de
despolarização de Fase 4 e, por isso, exibe maior frequência de
descarga comparada com a automaticidade exibida em outras cé­
lulas marca-passo. Assim, o nó SA normalmente estabelece o ritmo
de contração do miocárdio, e marca-passos latentes são despola­
rizados pelos impulsos provenientes do nó SA. Contudo, se outros
locais do coração que não o nó SA aumentam sua automaticidade,
eles podem gerar estímulos competitivos e causar arritmias. Auto­
maticidade anormaltambém pode ocorrer se as células miocárdicas
forem lesadas (p. ex., por hipoxia ou desequilíbrio de potássio). Es­
sas células podem permanecer parcialmente despolarizadas duran­
te a diástole e, assim, alcançaro limiarde disparo antes das células
SA normais. Desse modo, ser induzidas descargas automáticas
•
anormais.
2. Efeito dos fármacos sobre a automaticidade. A maioria dos fár­
macos antiarrítmicos suprime a automaticidade pelo bloqueio dos
canais de Na+ ou Ca
2
+, reduzindo a proporção desses íons em re­
lação ao K+. Isso diminui a inclinação da despolarização da Fase
4 (diastólica) e/ ou aumenta o limiar de descargas para uma volta­
gem menos negativa. Os antiarrítmicos diminuem a frequência de
descargas. Esse efeito é mais acentuado nas células com atividade
marca-passo ectópico do que nas células normais.
3. Anormalidades na condução de impulso. Os impulsos provenien­
tes dos marca-passos mais altos normalmente são conduzidos por
vias que se bifurcam para ativar toda a superfície ventricular (Fi­
gura 17.3). Pode ocorrer um fenômeno denominado reentrada se
um bloqueio unidirecional causado por lesão miocárdica ou por pro­
longamento do período refratário resultar em uma via de condução
anormal. A reentrada é a causa mais comum das arritmias e pode
ocorrer em qualquer nível do sistema de condução cardíaca. Por
exemplo, considere uma única fibra de Purkinje com duas vias de
condução ao músculo ventricular. Um impulso normalmente transita
por ambos os ramos da via de condução. Todavia, se a lesão mio­
cárdica resultar em um bloqueio unidirecional, o impulso somente
pode serconduzido pelavia 1 (ver Figura 17.3). Se o bloqueio davia
2 é somente para a frente, o impulso pode transitar de forma retró­
grada pela 2 e reentrar no ponto de bifurcação. Esse curto-circuito
resulta em reexcitação do músculo ventricular, causando contração
prematura ou arritmia ventricular sustentada.
4. Efeitos de fármacos nas anormalidades de condução. Os fár­
macos antiarrítmicos impedem a reentrada, reduzindo a velocidade
de condução (fármacos da classe 1) e/ou aumentando o período re­
fratário (fármacos daclasse Ili). Dessa forma, convertem o bloqueio
unidirecional em bloqueio bidirecional.
B. Fármacos antiarrítmicos
Como descrito, os fármacos antiarrítmicos podem modificar a geração e
a condução de impulsos. Mais de uma dúzia de fármacos que são poten­
cialmente úteis no tratamento de arritmias estão disponíveis. Entretanto,
Farmacologia Ilustrada 209
A. Normal
Impulso
nervoso
Parede
ventricular
B. Bloqueio
unidirecional
Oimpulsoé
bloqueado
emuma
direção
Figura 17.3
Oimpulsodesloca-se
nadireçãoretrógrada
e reentranaviade
condução,causando
umbatimentocardíaco
extraouirregular.
Representação esquemática da reen­
trada.
21O Clark, Finkel, Rey & Whalen
IA
18
IC
li
Ili
IV
Figura 17.4
somente um número limitado desses fármacos é benéfico clinicamente
no tratamento de arritmias específicas. Porexemplo, a resolução imediata
de taquicardia ventricular pela /idocaína ou de taquicardia supraventricu­
lar por adenosina ou verapamilsão exemplos nos quais o tratamento an­
tiarrítmico resulta em diminuição da morbidade. Em contraste, vários dos
fármacos antiarrítmicos apresentam ações pró-arrítmicas, ou seja, cau­
sam arritmias perigosas. A eficácia de muitos antiarrítmicos permanece
sem comprovação em triagens randomizadas controladas com placebo.
(Nota: o implante de desfibriladores cardioversores está setornando mais
usado no tratamento dessas condições.)
Ili. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE 1
Os fármacos antiarrítmicos podem ser classificados de acordo com seu efeito
predominante sobre o potencial de ação (Figura 17.4). Embora essa classifi­
cação seja conveniente, ela não é inteiramente definida, pois vários fármacos
apresentam ações relacionadas com mais de uma classe ou podem apre­
sentar metabólitos ativos com ação em uma classe diferente. Os fármacos
antiarrítmicos da classe 1 atuam bloqueando canais de sódio (Na+) sensíveis
à voltagem, pelo mesmo mecanismo dos anestésicos locais. A diminuição da
velocidade de entrada de sódio reduz a velocidade de elevação da Fase O do
potencial de ação. (Nota: em doses terapêuticas, esses fármacos apresentam
pouco efeito na membrana em repouso completamente polarizada devido à
sua maior afinidade pelos canais ativos e inativos do que pelos canais em
repouso.) Os antiarrítmicos daclasse 1, portanto, geralmente causam diminui­
ção da excitabilidade e da velocidade de condução. O uso dos bloqueadores
de canais de sódio vem declinando continuamente devido aos seus possíveis
efeitos pró-arritmogênicos, particularmente em pacientes com função ventri­
cular esquerda reduzida e doença cardíaca isquêmica.
A. Uso-dependência
Os fármacos da classe 1 ligam-se mais rapidamente aos canais de sódio
abertos ou inativados do que os completamente repolarizados após a re­
cuperação do ciclo de despolarização prévio. Portanto, esses fármacos
apresentam maior grau de bloqueio em tecidos que são frequentemente
despolarizados (p. ex., durante a taquicardia, quando os canais de sódio
abrem com frequência). Essa propriedade é denominada dependência­
-de-uso (ou dependência-de-estado), e ela possibilita que essesfármacos
Bloqueador de canais de Na•
Bloqueador de canais de Na•
Bloqueador de canais de Na•
Bloqueador de p-adrenorreceptor
Bloqueador de canais de K•
Bloqueador de canais de Ca2•
Torna lenta a despolarização de Fase O nas fibras
musculares dos ventrículos.
Encurta a repolarização de Fase 3 nas fibras
musculares dos ventrículos.
Torna muito lenta a despolarização de Fase O nas
fibras musculares dos ventrículos.
Inibe a despolarização de Fase 4nos nós
SA e AV.
Prolonga a repolarização de Fase 3 nas fibras
musculares dos ventrículos.
Inibe o potencial de ação nos nós SA e AV.
Ações de fármacos antiarrítmicos. SA = sinoatrial; AV = atrioventricular.
bloqueiem células que estão disparando em umafrequênciaanormalmen­
te elevada, sem interferir com a frequência normal baixa de batimentos
cardíacos. Os fármacos da classe 1 são subdivididos em três grupos de
acordo com seus efeitos na duração do potencial de ação.Os fármacos da
classe IA reduzem a velocidade de despolarização do potencial de ação
(reduzindo, assim, a velocidade de condução), prolongam o potencial de
ação e aumentam o período refratário efetivo do ventrículo. Eles apre­
sentam uma velocidade intermediária de associação aos canais de sódio
ativados/inativados e uma velocidade intermediária de dissociação dos
canais em repouso. O prolongamento da duração do potencial de ação e o
aumento no período eficaz ventricularsãodevidos à atividadede classe Ili
simultânea. Os fármacos da classe IB apresentam poucos efeitos na velo­
cidade de despolarização; eles diminuem a duração do potencial de ação
encurtando a repolarização. Eles interagem rapidamente com os canais
de sódio. Os fármacos da classe IC deprimem acentuadamente a veloci­
dade dedespolarização do potencial de ação da membrana. Dessa forma,
eles causam redução acentuada na velocidade de condução, mas têm
pouco efeito na duração do potencial de ação da membrana ou no período
refratário efetivo ventricular. Eles se ligam lentamente aos canais de sódio.
B. Arritmias
A inibição dos canais de potássio (atividade de classe 111) alarga o poten­
cial de ação, levando ao prolongamento do intervalo QT no ECG. Esse
efeito aumenta o risco de desenvolver taquiarritmias ventriculares fatais
(torsade de pointes). A causa mais comum do prolongamento QT é a
indução por fármacos, embora também possa ser genética. O prolonga­
mento QTnão é observado só com antiarrítmicos da classe Ili. Fármacos
como cisaprida, grepafloxacino, terfenadina e astemizol foram retirados
do mercado devido a arritmias graves e fatais. Eritromicina, claritromici­
na, pentamidina, moxifloxacino, levofloxacino, imipramina, desipramina,
amitriptilina, doxepina, tioridazina, mesoridazina, haloperido/, risperido­
na, zoprasidona e quetiapina são alguns dos fármacos que prolongam o
intervalo QT. Deve-setercautela ao associardiversosfármacos com efei­
to no intervalo QT (p. ex., quinidi
na com /evofloxacino) ou usando esses
fármacos associados com antifúngicos azóis (fluconazol e itraconazo�.
Esse último inibe a biotransformação de fármacos causando grande au­
mento nas concentrações plasmáticas.
e. Quinidina
A quinidi
na é o fármaco protótipo da classe IA. Devido à sua atividade de
classe Ili simultânea, ela pode desencadeararritmias como a taquicardia
ventricular polimórfica (torsade de pointes), que podem degenerar em
fibrilação ventricular. Devido ao potencial tóxico da quinidina, os anta­
gonistas de canais de cálcio, como a amiodarona e o verapamil, estão
substituindo de forma crescente a quinidina no uso clínico.
1. Mecanismo de ação. A quinidina se liga aos canais de sódio aber­
tos e inativados, impedindo o influxo de sódio e reduzindo, dessa
forma, a velocidade de entrada rápida durante a Fase O (Figura
17.5). Ela também diminui a inclinação de despolarização espontâ­
nea da Fase 4 e inibe as trocas de potássio. Devido a essas razões,
ela diminui a velocidade de condução e aumenta a refratariedade.
2. Usos terapêuticos. A quinidi
na é usada no tratamento de uma
grande variedade de arritmias, incluindo taquiarritmias atrial, jun­
cional AV e ventricular. A quinidina é usada para manter o ritmo
sinusal após cardioversão com corrente diretada palpitação (flutter)
ou fibrilação atrial e para evitar taquicardia ventricular frequente.
Farmacologia Ilustrada 211
OsfármacosdaclasseIAtornam
lentaadespolarizaçãodaFaseO.
Alémdisso,elesprolongamo
potencialdeaçãodevidoàsua
atividadedeclasseIli.
-
-
-
- -
- -
--as lll�
Período
l�
tár10
efe
t
�
�e3(�)
l11terior
K+ Correntes
K+ diastólicas
K+ Na+
Correntes K+
depotencial
deação
Membrana -
......______ -
2+ r
I
Ca
Ca2•
a2•
e Ca2•
Ca2•
Quinidina,procainamidae
disopiramidabloqueiamos
canaisde sódioabertosou
inativados.Essesfármacos
apresentamvelocidade
intermediáriadeassociação
comcanaisdesódio.
Figura 17.5
Diagrama dos efeitos de fármacos da
classe IA. INa e IK são correntes trans­
membrana decorrentes do movimento
de Na+ e K+, respectivamente.
212 Clark, Finkel, Rey & Whalen
3. Farmacocinética. O sulfato de quinidi
na é rápido e quase comple­
tamente absorvido após administração via oral. Ele sofre extensa
biotransformação porenzimas hepáticas citocromo P450, formando
metabólitos ativos.
4. Efeitos adversos. O efeito adverso potencial da quinidina (ou de
qualquer fármaco antiarrítmico) é o desenvolvimento de arritmia
(torsades de pointes). A quinidi
na pode causar bloqueio SA e AV
ou assistolia. Em concentrações tóxicas, pode induzir taquicardia
ventricular. Náusea, êmese e diarreia são observados comumente.
Doses elevadas de quinidina podem induzir sintomas de cinchonis­
mo (p. ex., visão turva, zumbido, cefaleia, desorientação e psicose).
O fármaco apresenta uma leve ação bloqueadora o:-adrenérgica,
bem como efeitos do tipo atropina. A quinidi
na pode aumentar a
concentração de equilíbrio da digoxina deslocando-a dos sítios de
ligação tecidual (efeito menor) e diminuindo sua depuração renal
(efeito principal).
D. Procainamida
1 . Ações. Esse fármaco da classe IA é um derivado do anestésico
local procaína e tem ações semelhantes às da quinidina.
2. Farmacocinética. A procainamida é bem absorvida após a admi­
nistração via oral. (Nota: a via IV é usada raramente, pois causa
hipotensão se a infusãofor muito rápida.) Aprocainamida apresenta
uma meia-vida relativamente curta, de 2 a 3 horas. Parte do fár­
maco é acetilada no fígado em N-acetilprocainamida (NAPA), que
apresenta pouco efeito na polarização máximadasfibras de Purkin­
je, mas prolonga a duração do potencial de ação. Assim, a NAPA
tem as propriedades e os efeitos adversos de um fármaco daclasse
Ili. A NAPA é eliminada pelos rins, e as dosagens de procainamida
precisam ser ajustadas em pacientes com insuficiência renal.
3. Efeitos adversos. Com o uso crônico, a procainamida causa uma
elevada incidência de efeitos adversos, incluindo síndrome do tipo
lúpus eritematoso reversível, que se desenvolve em 25 a 30°
/
o dos
pacientes. As concentrações tóxicas de procainamida podem cau­
sar assistolia ou indução de arritmias ventriculares. Os efeitos ad­
versos no SNC incluem depressão, alucinação e psicose. Com esse
fármaco, a intolerância gastrintestinal é menos frequente do que
com quinidi
na.
E. Disopiramida
1 . Ações. Esse fármaco da classe IA apresenta ações similares às
da quinidina. A disopiramida produz efeito inotrópico negativo maior
do que o fraco efeito exercido por quinidina e procainamida, e, ao
contrário desses dois, a disopiramida causa vasoconstrição pe­
riférica. Ela pode produzir diminuição clinicamente importante na
contratilidade miocárdica em pacientes com comprometimento pre­
existente da função ventricular esquerda. A disopiramida é usada
no tratamento de arritmias ventriculares, como uma alternativa à
procainamida ou quinidi
na. Como a procainamida e a quinidina, ela
apresenta atividade de classe Ili.
2. Farmacocinética. Aproximadamente metade do fármaco ingerido
por via oral é excretado inalterado pelos rins. Cerca de 30°
/
o do fár­
maco são convertidos no fígado ao metabólito mono-N-desalquilado
menos ativo.
3. Efeitos adversos. A di
sopiramida mostra efeitos de atividade anti­
colinérgica (p. ex., xerostomia, retenção de urina, visão embaçada e
constipação).
F. Lidocaína
A lidocaína é um fármaco da classe 18. Os fármacos da classe 18 se
associam e se dissociam rapidamente nos canais de sódio. Assim, as
ações dos fármacos da classe 18 se manifestam quando a célula car­
díaca está despolarizada ou disparando rapidamente. Os fármacos da
classe 18 são particularmente úteis no tratamento de arritmias ventricula­
res. A lidocaína foi o fármaco de escolha para o tratamento emergencial
de arritmias cardíacas.
1. Ações. A lidocaína, um anestésico local, encurta a repolarização de
Fase 3 e diminui a duração do potencial de ação (Figura 17.6).
2. Usos terapêuticos. A lidocaína é útil no tratamento de arritmias
ventriculares que aparecem durante a isquemia miocárdica, como
a vivenciada durante o infarto do miocárdio. Ela não reduz a velo­
cidade de condução de forma marcante e, dessa forma, apresenta
poucos efeitos nas arritmias atrial ou juncional AV.
3. Farmacocinética. A lidocaína é administrada por via IV devido à
extensa biotransformação de primeira passagem no fígado, que im­
pede a administração oral. O fármaco é desalquilado e eliminado
quase completamente pelo fígado; consequentemente, o ajuste de
dosagem pode ser necessário em pacientes com disfunção hepá­
tica, ou em pacientes que estão usando fármacos que reduzem o
fluxo sanguíneo hepático, como o propranolol.
4. Efeitos adversos. A /idocaína apresenta uma ampla relação entre
efeito tóxico e efeito terapêutico. Ela pouco interfere na função ven­
tricular esquerda e nãotem efeito inotrópico negativo. Os efeitos so­
bre o SNC incluem sonolência, fala enrolada, parestesia, agitação,
confusão e convulsões. Pode ocorrertambém arritmia cardíaca.
G. Mexiletina e tocainida
Esses fármacos da classe 18 têm ações semelhantes às da lidocaína e
podem seradministrados porvia oral. A mexiletinaé usada notratamento
crônico de arritmias ventriculares associadas ao infarto do miocárdio pré­
vio. A tocainida é usada no tratamento de taquiarritmias ventriculares e
apresenta toxicidade pulmonar, que pode levar à fibrose pulmonar.
H. Flecainida
A flecainida é um fármaco da classe IC. Esses fármacos se dissociam
lentamente dos canais de sódio em repouso e têm efeitos proeminentes,
mesmo em frequências cardíacas normais. Eles são aprovados nas ar­
ritmias ventriculares refratárias, na prevenção da fibrilação/f/utter atrial
paroxística associada com sintomas desabilitantes e na taquicardia su­
praventricular paroxística. Entretanto, resultados recentes lançaram sé­
rias dúvidas na segurança dos fármacos da classe IC.
1. Ações. A flecainida suprime a ascensão da Fase O nas fibras de
Purkinje e miocárdicas (Figura 17.7). Isso causa redução acentuada
da velocidade de condução em todo o tecido cardíaco, com pouco
efeito na duração do potencial de ação e no período refratário. A
automaticidade é reduzida pelo aumento do potencial limiar, em vez
da diminuição na inclinação da despolarização na Fase 4.
Farmacologia Ilustrada 213
OsfármacosdaclasseIB
encurtamarepolarização
deFase3ediminuema
duraçãodopotencial
deação.
�Srn�
l�
Odo
retra
�I
ef
et
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Correntes
te+ te+ diastóllcas
Correntes K+
depotencial
deação
Membrana
-
-
--
-
,
_
- -
-
r
Ca2•
Ca2•
Ca2+ Ca2•
Ca2•
Lidocaína mex
iletlna e tocalnlda
bloqueiamos canaisdesódio
abertosouinativados.
Essesfármacosapresentam
velocidaderápidadeassociação
comcanaisdesódio.
Figura 17.6
Diagrama dos efeitos dos fármacos da
Classe 18. INa e IK são correntes trans­
membranas decorrentes do movimento
de Na+ e K+, respectivamente.
214 Clark, Finkel, Rey & Whalen
OsfármacosdaclasseIC
tornamadespolarizaçãode
FaseO marcadamentelenta.
-
-
l�
do
refrat
�
efetivo
-
-
-
-
-
-
-
-
-
Correntes
......
...
Inter/o
K+
� diastólicas
Correntes K':
depotencial
deação
Ca2• Ca2•
2'
Ca• c82.
Ca2•
Flecainida epropafenona
bloqueiamoscanaisdesódio
abertosouinativados.Esses
fármacosapresentamveloci­
dadebaixadeassociaçãoaos
canaisdesódio.
Figura 17.7
Diagrama dos efeitos dos fármacos da
classe IC. INa e IK são correntes trans­
membranas decorrentes do movimento
de Na+ e K+, respectivamente.
2. Usos terapêuticos. A flecainida é útil no tratamento de arritmias
ventriculares refratárias. Ela é particularmente útil na supressão de
contração ventricular prematura. A flecainida apresenta efeito ino­
trópico negativo e pode agravar a insuficiência cardíaca congestiva.
3. Farmacocinética. A flecainida é absorvida por via oral, sofre bio­
transformação mínima e tem meia-vida de 16 a 20 horas.
4. Efeitos adversos. A flecainida pode causar tontura, visão emba­
çada, cefaleia e náusea. Como outros fármacos da classe IC, a f/e­
cainida pode agravar arritmias preexistentes ou induzir taquicardia
ventricular potencialmente fatal e é resistente ao tratamento.
1. Propafenona
Esse fármaco da classe IC tem ações semelhantes às da flecainida. A
propafenona, como a flecainida, reduz a velocidade de condução em
todos os tecidos cardíacos e é considerado um antiarrítmico de amplo
espectro.
IV. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE li
Osfármacos daclasse 11 são antagonistas adrenérgicos. Eles reduzem a des­
polarização de Fase 4, deprimem, assim, a automaticidade, prolongam a con­
dução AV e diminuem a frequência e a contratilidade cardíacas. Os fármacos
da classe li são úteis no tratamento de taquiarritmias causadas por aumento
da atividade simpática. Eles também são usados contra palpitação e fibrilação
atrial e contra a taquicardia de reentrada no nó AV. (Nota: em contraste com
os bloqueadores de canais de sódio, os bloqueadores e os compostos da
classe Ili, como sotalole amiodarona, têm uso crescente.)
A. Propranolol
O propranolol reduz a incidência de arritmias súbitas fatais depois do
infarto do miocárdio (a causa mais comum de morte nesse grupo de pa­
cientes). Ele reduz a taxa de mortalidade no primeiro ano após um ata­
que cardíaco, significativamente, em parte devido à sua capacidade de
prevenir arritmias ventriculares.
B. Metoprolol
O metoprololé o antagonista J3-adrenérgico mais amplamente usado no
tratamento de arritmias cardíacas. Comparado ao propranolol, ele reduz
o risco de broncoespasmo. Como o propranolol, é extensamente bio­
transformado e tem ampla penetração no SNC.
C. Esmolol
O esmolo/ é um J3-bloqueador de ação muito curta usado por via IV no
tratamento de arritmias agudas que ocorrem durante cirurgias ou situa­
ções emergenciais.
V. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE Ili
Osfármacos da classe Ili bloqueiam os canais de potássio (K+) e, assim, dimi­
nuem o efluxo de potássio durante a repolarização das células cardíacas. Es­
ses fármacos prolongam a duração do potencial de ação sem alterar a Fase
O de despolarização ou o potencial de repouso da membrana (Figura 17.8).
Ao contrário, eles prolongam o período refratário efetivo aumentando a refra­
tariedade.Todos os fármacos da classe Ili têm potencial de induzir arritmias.
A. Amiodarona
1. Ações. A amiodarona contém iodo e é estruturalmente relacionada
com a tiroxina. Ela apresenta efeitos complexos, mostrando ações
de fármacos das classes 1, li, Ili e IV. Seu efeito dominante é o pro­
longamento da duração do potencial de ação e do período refratá­
rio. A amiodarona tem atividade antianginosa e antiarrítmica.
2. Usos terapêuticos. A amiodarona é eficaz no tratamento de ta­
quiarritmias supraventriculares e ventriculares refratárias graves. A
amiodarona tem sido a base do tratamento da fibrilação atrial (FA).
A amiodarona revelou-se eficaz em manter o ritmo sinusal. Apesar
do seu perfil de efeitos adversos, ela é o antiarrítmico mais comu­
mente empregado.
3. Farmacocinética. A amiodarona é absorvida incompletamente
após a administração oral. O fármaco é incomum por apresentar
meia-vida de várias semanas e se distribui extensamente no tecido
adiposo. Os efeitos clínicos completos podem não ser obtidos até
seis semanas após o início do tratamento, a menos que sejam em­
pregadas doses de ataque.
4. Efeitos adversos. A amiodarona apresenta umavariedade de efei­
tos tóxicos. Após o uso prolongado, mais da metade dos pacientes
apresentam efeitos adversos que são suficientemente graves para
suspender o uso.Todavia, o uso de dosagens baixas diminui a toxi­
cidade e mantém a eficácia clínica. Alguns dos efeitos adversos são
fibrose intersticial pulmonar, intolerância gastrintestinal, tremores,
ataxia, tontura, hiper ou hipotireoidismo, toxicidade hepática, fotos­
sensibilidade, neuropatia, fraqueza muscular e coloração azulada
da pele causada pelo acúmulo cutâneo de iodeto.
B. Dronedarona
A dronedarona é um derivado benzofurano da amiodarona que é menos
lipofílico, tem menor acúmulo tecidual e meia-vida sérica menor que a
amiodarona. Não tem moléculas de iodo que são responsáveis pelas dis­
funções tireóideas associadas com a amiodarona. Como a amiodarona,
a dronedarona tem ações das classes 1, 11, 111 e IV. A maioria dos efeitos
adversos é de natureza GI e inclui náuseas, êmese e diarreia. Um recen­
te estudo de 7 meses em pacientes com fibrilação atrial revelou que a
dronedarona é menos eficaz que a amiodarona em diminuir a recorrência
de FA, mas tem perfil de segurança maiorespecificamente com relação a
eventos tireóideos e neurológicos e não interage com os anticoagulantes
orais. Entretanto, são necessários mais estudos comparativos de longa
duração com a amiodarona para definiro papel da dronedarona no trata­
mento da fibrilação atrial.
C. Sotalol
O sotalo/, embora sendo um fármaco da classe Ili de antiarrítmicos,
também apresenta atividade J3-bloqueadora não seletiva e potente. O
sotalol tem dois estereoisômeros com diferentes atividades farmaco­
lógicas. O isômero levorotatório (isotalo� é responsável pela atividade
J3-bloqueadora, e o d-sotalo/, pela ação antiarrítmica de classe Ili. Está
bem estabelecido que os J3-bloqueadores reduzem a mortalidade asso­
ciada ao infarto agudo do miocárdio.
Farmacologia Ilustrada 215
OsfármacosdaclasseIli
prolongamarepolarização
deFase3,semalterar
aFaseO.
Período
refratário
efetivo
- - _
...____,._
-
-
-
-
-
-
Fase 3
(IK)-
Exteriorj
�l
Membrana
......
...
Interior
Ca2•
Na•
Correntes
ic+ lc+ diastólicas
-.::---- lc+
lc+
Correntes
depotencial
deação
Amiodarona, dofetilida e
sotalolbloqueiamos
canaisdepotássio.
Figura 17.8
Diagrama dos efeitos dos fármacos da
classe 111. INa e IK são correntes trans­
membranas decorrentes do movimento
de Na+ e K+, respectivamente.
216 Clark, Finkel, Rey & Whalen
100
Figura 17.9
Outrosfármacos:
lmipramina
Mexiletina
Procainamida
Propafenona
Quinidina
2
Ano
3
Sotalol
4
Comparação do sotalol com cinco ou­
tros fármacos com relação aos óbitos
decorrentes de arritmias cardíacas.
1 . Ações. O sotalol bloqueia a corrente de saída rápida de potássio,
conhecida como retificação retardada. Esse bloqueio prolonga a
despolarização e a duração do potencial de ação, prolongando, as­
sim, o período refratário efetivo.
2. Usos terapêuticos. Os �-bloqueadores são usados no tratamento
de longa duração para diminuir a taxa de morte súbita após infarto
agudo do miocárdio. Os �-bloqueadores têm habilidade modesta
em suprimir os batimentos ectópicos e reduzir a demanda miocár­
dicade oxigênio. Eles apresentam potente efeito antifibrilatório, par­
ticularmente no miocárdio isquêmico. O sotalol é mais eficaz em
prevenir a recorrência de arritmia e em diminuir a mortalidade do
que imipramina, mexiletina, procainamida, propafenona e quinidina
em pacientes com taquicardia ventricularsustentada (Figura 17.9).
3. Efeitos adversos. O sotalol apresenta a menor frequência de efei­
tos adversos agudos ou de longo prazo. Como todos os fármacos
que prolongam o intervalo QT, a síndrome torsade de pointes é um
potencial efeito adverso grave, observado em 3 a 4°
/
o dos pacientes.
D. Dofetilida
A dofetilida pode ser usada como fármaco antiarrítmico de primeira linha
em pacientes com fibrilação atrial persistente e insuficiência cardíaca ou
em pacientes com doença arterial coronariana com comprometimento
da função ventricular esquerda. Devido ao risco de pró-arritmia, o início
do uso de dofetilida é limitado ao paciente hospitalizado e restrito para
prescritores que completaram a sessão de treinamento específica com o
fabricante. Junto com amiodarona e �-bloqueadores, a dofetilida é o úni­
co antiarrítmico recomendado pelos especialistas para o tratamento da
fibrilação atrial em ampla faixa de pacientes. A meia-vida é de 1 O horas.
Sua excreção é na urina, sendo 80°
/
o naforma inalterada e 20°
/
o na forma
de metabólitos inativos ou minimamente ativos.
VI. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE IV
Os fármacos da classe IV são bloqueadores de canais de cálcio (ver p. 236).
Eles diminuem a corrente de entrada do cálcio (Ca
2
+), resultando em diminui­
ção da velocidade de despolarização espontânea da Fase 4. Eles também
diminuem a velocidade de condução em tecidos que dependem de correntes
de cálcio, como o nó AV (Figura 17.1O). Embora haja canais de cálcio volta­
gem-sensíveis em muitos tecidos diferentes, o principal efeito dos bloqueado­
res de canais de cálcio ocorre no músculo liso vascular e no coração.
A. Verapamil e diltiazem
O verapamil apresenta maior ação no coração do que no músculo liso
vascular, ao passo que o nifedi
pino, um bloqueador de canal de cálcio
usado no tratamento da hipertensão (ver p. 236), exerce um efeito mais
intenso no músculo liso vasculardo que no coração. O diltiazemtem uma
ação intermediária.
1. Ações. O cálcio entra nas células porcanais voltagem-sensíveis e por
canais operados por receptores que são controlados pela ligação de
agonistas, como as catecolaminas, a receptores de membrana. Os
bloqueadores de canais de cálcio, como verapamil e diltiazem, são
mais eficazes sobre os canais voltagem-sensíveis, causando diminui­
ção na corrente lenta para o interiorda célula que dispara a contração
cardíaca. Verapamil e diltiazem somente se ligam a canais abertos
despolarizados, impedindo a repolarização até que o fármaco se dis­
socie do canal. Portanto, esses fármacos são "uso-dependentes", ou
seja, eles bloqueiam mais efetivamente quando o coração está baten­
do rapidamente, pois, no coração batendo normalmente, os canais de
cálcio têm tempo para repolarizar, e o fármaco ligado se dissocia do
canal antes do próximo pulso de condução. Diminuindo a corrente de
cálcio para o interior, verapamil e diltiazem reduzem a velocidade de
condução e prolongam o período refratário efetivo em tecidos depen­
dentesdecorrentes de cálcio, como o nóAV. Portanto, essesfármacos
são eficazes no tratamento de arritmias que precisam passar por teci­
dos cardíacos dependentes de cálcio.
2. Usos terapêuticos. O verapamil e o diltiazem são mais eficazes
contraarritmias atriais do que contra asventriculares. Eles são úteis
no tratamento de taquicardia supraventricular de reentrada e na re­
dução da frequência ventricular na palpitação (flutter) e fibrilação
atriais (redução davelocidade ventricular). Além disso, esses fárma­
cos são usados no tratamento de hipertensão e angina.
3. Farmacocinética. O verapamil e o diltiazem são absorvidos após
administração via oral. O verapamil é extensamente biotransforma­
do pelo fígado: portanto, deve-se ter cuidado quando esse fármaco
é administrado em pacientes com disfunção hepática.
4. Efeitos adversos. Overapamile o diltiazemtêm propriedade inotrópi­
ca negativa e, por isso, podem sercontraindicados em pacientes com
função cardíaca deprimida preexistente. Ambos os fármacos também
podem diminuir a pressão arterial devido à vasodilatação periférica -
um efeito que é até benéfico notratamento da hipertensão.
VII. OUTROS FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS
A. Digoxina
A digoxina diminui o período refratário nas células miocárdicas atriais
e ventriculares ao mesmo tempo em que aumenta o período refratário
efetivo e diminui a velocidade de condução no nódulo AV. A digoxina é
usada no controle davelocidade de respostaventricular nafibrilação e na
palpitação atrial. Em concentrações tóxicas, a digoxina causa batimentos
ventriculares ectópicos que podem resultar em taquicardia e fibrilação
ventriculares. (Nota: essa arritmia normalmente é tratada com /idocaína
ou fenitoína.)
B. Adenosina
A adenosina é um nucleosídeo de ocorrência natural que, em doses altas,
diminui a velocidade de condução, prolonga o período refratário e diminui
a automaticidade no nó AV.A adenosina porvia IV é ofármaco de escolha
para abolir taquicardia supraventricular aguda. Ela tem baixa toxicidade,
mas causa rubor, dor torácica e hipotensão. A adenosina tem uma dura­
ção de ação extremamente curta (aproximadamente 15 segundos).
Farmacologia Ilustrada 217
OsfármacosdaclasseIVtornam
lentaadespolarizaçãodeFase4
espontâneaediminuema
velocidadedeconduçãoem
tecidosdependentesdecorrentes
decálcio,comoonóAV.
Selll
fárl'llac�
0 rnv -
-
-
-
-
-
-
Fase o
-
-
-
-
-
-
-
-
ITQ;J�
t
Notar
Açãodo
Exterior
Na•
PerrOdo
refratá .
efet· rio
l/o
Correntes
depotencial
deação
Qrupo IV
K+ Correntes
diastólicas
r
Verapamil, diltiazem e
nifedipino bloqueiam
oscanaisdecálcio
abertosouinativados.
1
�
Na•
Figura 17.1O
Diagrama dos efeitos dos fármacos da
classe IV. lca e IK são correntes trans­
membranas decorrentes do movimento
de ca+ e K+, respectivamente.
218 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
17.1 Um homem de 66 anos teve um infarto do miocárdio. Qual
dos seguintes fármacos deveria ser o tratamento antiarrít­
mico profilático apropriado?
A. Lidocaína
B. Metoprolol
C. Procainamida
D. Quinidina
E. Verapamil
17.2 A supressão de arritmias resultantes de um foco de reen­
trada é mais provável de ocorrer se o fármaco:
A. apresenta efeitos vagomiméticos no nó AV.
B. é um 13-bloqueador.
C. converte um bloqueio unidirecional em um bloqueio bi­
direcional.
D. reduz a velocidade de condução através do átrio.
E. apresenta efeitos tipo atropina no nó AV.
17.3 Um homem de 57anos está sendo tratado de uma arritmia
atrial. Ele se queixa de cefaleia, tontura e zumbido. Qual
dos seguintes fármacos antiarrítmicos é o mais provável
de causar esses sintomas?
A. Amiodarona
B. Procainamida
C. Propranolol
D. Quinidina
E. Verapamil
17.4 Uma mulher de 58 anos está sendo tratada para a supres­
são crônica de uma arritmia ventricular. Após dois meses
de tratamento, ela se queixa de cansaço o tempo inteiro. O
exame revela uma frequência cardíaca de repouso de 1O
batimentos por minuto abaixo de sua frequência cardíaca
prévia. Sua pele está fria e úmida. Os resultados dos tes­
tes laboratoriais indicam níveis de tiroxina baixo e de hor­
mônio estimulante da tireoide elevado. Qual dos fármacos
antiarrítmicos a seguir é a causa provável desses sinais e
sintomas?
A. Amiodarona
B. Procainamida
C. Propranolol
D. Quinidina
E. Verapamil
Resposta correta = B. Os �-bloqueadores, como metoprolol, previ­
nem arritmias cardíacas que ocorrem subsequentes ao infarto do
miocárdio. Nenhum dos outros fármacos se mostrou particularmente
eficaz naprevenção de arritmias pós-infarto.
Resposta correta = C. Ateoria atual afirma que a arritmia de reentrada
é causada por lesão do músculo cardíaco, de forma que a velocidade
decondução através da área lesada é reduzida em uma única direção.
Um fármaco que previna aconduçãoem ambas asdireçõesatravésda
área lesionada interrompe aarritmiade reentrada. Os antiarrítmicosda
classe 1, como a lidocaína, são capazes de produzirbloqueio bidirecio­
nal. As outras escolhas não apresentam qualquer efeito direto na dire­
ção do bloqueio decondução através do músculocardíaco lesionado.
Resposta correta = D. O grupo de sintomas de cefaleia, tontura e
zumbido é característico de cinchonismo, que é causadopelaquinidi­
na. Os outros fármacos apresentam efeitos adversos característicos,
mas não esse grupo de efeitos em particular.
Resposta correta = A. A paciente exibe sintomas de hipotireoidismo,
que frequentemente está associado ao uso de amiodarona. O pro­
pranolol poderia reduzir a frequência cardíaca, mas não produziria
mudanças na função da tireoide. É improvável que um dos outros
antiarrítmicos causem hipotireoidismo.
,
ar acos
•
1 nosos
1. RESUMO
A doença aterosclerótica das artérias coronárias, também denominada
doença das artérias coronárias ou doença do coração isquêmico, é a cau­
sa mais comum de mortalidade em todo o mundo. Os pacientes comumente
morrem por insuficiência da bomba devido a um infarto do miocárdio (necrose
tecidual) ou devido à arritmia fatal. A doença das artérias coronárias pode se
apresentar de diferentes formas, como angina de peito, síndrome coronária
aguda, arritmias, respiração curta e outras.Anginapectoris (ou angina de pei­
to) é um quadro repentino e grave caracterizado por dor comprimindo o peito
que se irradia pelo pescoço, pela mandíbula, pelas costas e pelos braços. Ela
é causada pelo fluxo sanguíneo coronariano que é insuficiente para suprir
a demanda de oxigênio do miocárdio, levando à isquemia. O desequilíbrio
entre oferta e demanda de oxigênio pode resultar de esforço, de espasmo
do músculo liso vascular ou pela obstrução de vasos sanguíneos por lesões
ateroscleróticas. Esses episódios transitórios (15 segundos a 15 minutos) de
isquemia miocárdica não causam morte celular, como ocorre no infarto do
miocárdio. A isquemia crônica pode levar à deterioração da função cardíaca,
levando, por sua vez, à insuficiência cardíaca, a arritmias e à morte súbi­
ta. Três classes de fármacos, usados isoladamente ou em associação, são
usados comumente no tratamento de pacientes com angina estável: nitratos
orgânicos, �-bloqueadores e bloqueadores de canais de cálcio (Figura 18.1).
Esses fármacos diminuem a demanda de oxigênio pelo coração afetando a
pressão arterial, o retorno venoso, a frequência e a contratilidade cardíacas.
Mudanças no estilo de vida e nos fatores de risco, especialmente parar de
fumar, também são importantes no tratamento da angina. (Nota: além dos
fármacos para o tratamento da angina, outras opções incluem a angioplastia
e as pontes de safena nas artérias coronárias.)
li. TIPOS DE ANGINA
A angina pectoris apresenta três padrões sobrepostos: 1) angina induzida por
esforço, estável, clássica ou típica; 2) angina instável e 3) angina de repouso,
NITRATOS ORGÂNICOS
•
•
Di
nitrato de isossorbida
Mononitrato de isossorbida
Nitroglicerina
P-BLOQUEADORES
Acebutolol
Atenolol
Metoprolol
Propranolol
BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO
Amlodipino
Diltiazem
Felodipi
no
Nicardipino
Nifedipino
Verapamil
BLOQUEADOR DE CANAIS DE SÓDIO
Ranolazi
na
Figura 18.1
Resumo dos fármacos antianginosos.
220 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Nitratos
administrados ) Nitritos
Figura 18.2
) Óxido
nítrico ) GMPc )
Desfosforilação
dascadeiasleves )
J
demiosina
-
Relaxamento
do músculo
lisovascular
Efeitos de nitratos e nitritos sobre o músculo liso. GMPe = monofosfato-3'-5'-cíclico de guanosina.
vasoespástica, variante ou Prinzmetal. Elas são causadas por várias combina­
ções de aumentoda demanda miocárdica e diminuiçãode perfusão miocárdica.
A. Angina induzida por esforço, clássica ou estável
A angina clássica é a forma mais comum de angina e, por essa razão, é
denominada também angi
na pectoris típica. Ela é caracterizada por uma
sensação de queimação, peso ou pressão no peito de curta duração. Ela
é causada pela redução da perfusão coronariana devida à obstrução fixa
da artéria coronária produzida por aterosclerose. Devido à obstrução fixa,
o suprimento de sangue não consegue aumentar, e o coração se torna
vulnerável à isquemia quando há aumento da demanda, como a produzida
durante exercício físico, excitação emocional ou qualquer outra causa que
aumente a carga de trabalho cardíaco. A angina pectori
s típica é aliviada
de imediato com repouso ou nitroglicerina, o que diminui a demanda do
miocárdio por oxigênio. Quando o padrão da dor torácica e a intensidade
do esforço necessário para iniciaras dores torácicas não se alteram de um
dia para outro ou de semana para outra, a angina é denominada "angina
estável". Alguns episódios isquêmicos podem não estar associados com
dor (angina silente). (Nota: o diagnóstico é feito com monitoração Holter.)
B. Angina instável
A angina instável é classificada entre a angina estável e o infarto do mio­
cárdio. Na angina instável, a dor torácica ocorre com maior frequência,
duração e intensidade e é desencadeada pelo esforço progressivamente
menor. Qualquerepisódio de angina de repouso com mais de 20 minutos,
qualquer novo aparecimento de angina ou aumento da angina (crescen­
do), e mesmo o desenvolvimento súbito de falta de ar, é sugestivo de
angina instável. Os sintomas não aliviam com repouso ou nitrogliceri
na.
A angina instável exige hospitalização e tratamento mais agressivo para
evitar a morte e a evolução ao infarto do miocárdio.
C. Angina de Prinzmetal, variante, vasoespástica ou de repouso
A angina de Prinzmetal é um padrão incomum de angina episódica que
ocorre em repouso e resulta de espasmo da artéria coronária. Os sinto­
mas são causados pela diminuição do fluxo sanguíneo ao músculo car­
díaco pelo espasmo da artéria coronária. Emboraos indivíduos com essa
forma de angina possam apresentar aterosclerose coronariana signifi­
cativa, os ataques de angina não são relacionados com atividade física,
frequência cardíaca ou pressão arterial. A angina de Prinzmetal em geral
responde prontamente aos vasodilatadores coronários como nitrogliceri­
na e bloqueadores de canais de cálcio.
D. Formas mistas de angina
Pacientes com doença coronária avançada podem apresentarepisódios de
angina durante esforço, bem como em repouso, sugerindo a presença de
obstruçãofixa associada com disfunção arterial e doença vasoespástica.
E. Síndrome coronariana aguda
A síndrome coronariana aguda é umaemergênciaque resulta comumen­
te da ruptura de uma placa aterosclerótica e trombose parcial ou com­
pleta de uma artéria coronária. A maioria dos casos decorre da ruptura
de uma lesão aterosclerótica tipificada por um grande grupo de lipídeos,
numerosas células inflamatórias e umacapa fina efibrosa (placaflexível).
Este evento é seguido de ativação das plaquetas da cascata de coagu­
lação e vasoconstrição. O processo culmina em trombose intraluminal e
oclusão vascular. Se o trombo obstrui a maior parte do vaso e se a oclu­
são não é combatida, pode ocorrer necrose do músculo cardíaco (infarto
do miocárdio). A síndrome coronariana aguda pode se apresentar como
infarto do miocárdio com elevação do segmento ST (sigla em inglês,
STEMI), infarto do miocárdio sem elevação do segmento ST (NSTEMI)
ou como angina instável, onde não estão presentes aumento das enzi­
mas ou de biomarcadores da necrose do miocárdio.
Ili. NITRATOS ORGÂNICOS
Os nitratos orgânicos (e nitritos) usados notratamento da anginapectori
ssão
ésteres simples de ácido nítrico e nitroso com glicerol. Eles diferem em volati­
lidade. Porexemplo, o di
nitrato de isossorbida e o mononitrato de isossorbida
são sólidos na temperatura ambiente, a nitroglicerina é apenas moderada­
mente volátil, e o nitrato de amila é extremamente volátil. Esses compostos
causam rápida redução nademanda miocárdia de oxigênio, seguido por alívio
rápido dos sintomas. Eles são eficazes na angina estável e na instável, bem
como na angina pectoris vari
ante.
A. Mecanismo de ação
Os nitratos inibem avasoconstrição ou o espasmo coronariano aumentan­
do a perfusão do miocárdio e assim aliviam a angina vasoespástica. Além
disso, os nitratos relaxam as veias (venodilatação), diminuindo a pré-car­
ga e o consumo cardíaco de oxigênio. Devido a esta ação, os nitratos são
eficazes no tratamento da angina de esforço (angina clássica). Os nitratos
orgânicos, como a nitroglicerina, também conhecida como trinitrato de
glicerila, parecem relaxar o músculo liso vascular por sua conversão in­
tracelular em íons nitrito, e, então, a óxido nítrico, que, por sua vez, ativa a
guanilato-ciclase e aumenta o monofosfato de guanosina cíclico (GMPc)1•
O GMPc aumentado leva à desfosforilação das cadeias leves de miosina,
resultando em relaxamento do músculo liso vascular (Figura 18.2).
B. Efeitos sobre o sistema cardiovascular
Todos esses fármacos são eficazes, mas diferem no início de ação e na
velocidade de eliminação. Para o alívio imediato de um ataque de angina
em andamento, provocado por exercício ou estresse emocional, o fárma­
co de escolha é a nitrogliceri
na sublingual (ou na forma de nebulizador).
Em doses terapêuticas, a nitroglicerina tem dois efeitos principais. Pri­
meiro, ela causa dilatação de grandes veias, resultando em acúmulo do
sangue nas veias. Isso diminui a pré-carga (retornovenoso ao coração) e
reduz o trabalho do coração. Segundo, a nitrogli
cerina dilata os vasos co­
ronarianos, proporcionando aumento naoferta de sangue parao músculo
cardíaco. A nitroglicerina diminui o consumo de oxigênio pelo miocárdio
em virtude da diminuição do trabalho cardíaco.
�
1Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para discussão sobre
� função do óxido nítrico na produção do GMPc.
Legenda:
Farmacologia Ilustrada 221
Iníciodeação
Duraçãodeação
Nitroglicerina
Comprimido
sublingualou
nebulização
Oral,
liberação
sustentada
Transdérmica
2 minutos
25 minutos
35 minutos
30 minutos
Dinitrato de isossorbida
Sublingual
Oral,
liberação
lenta
30 minutos
Mononitrato de isossorbida
Oral,
liberação
prolongada
Figura 18.3
30 minutos
Tempo para o pico de efeito e a dura­
ção de ação de algumas preparações
comuns de nitratos orgânicos.
222 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Obstruçãode50"/o
Potencialpara
angina
A.Vasoespasmofranco
Obstruçãode99%
Anginaemrepouso
B.Tônus vascular aumentado
(p.ex., duranteexercício)
Obstruçãode70"/o
Anginainduzida
porexercício
e.Tônus vascular diminuído
(p.ex., com o uso de vasodilatadores)
Obstruçãode30"/o
( Semangina )
Figura 18.4
Fluxo de sangue na artéria coronária
parcialmente bloqueado com placas
ateroscleróticas.
C. Farmacocinética
O tempo de estabelecimento da ação varia de um minuto para a nitro­
glicerina a mais de uma hora para o mononitrato de isossorbida (Figu­
ra 18.3). A nitroglicerina sofre significativa biotransformação de primeira
passagem no fígado. Dessa forma, é comum a sua utilização por via su­
blingual ou adesivo transdérmico, evitando, assim, essa via de elimina­
ção. O mononitrato de isossorbida deve a sua maior biodisponibilidade e
a longa duração de ação à sua estabilidade frente a hidrólise hepática. O
dinitrato de isossorbida porvia oral sofre desnitratação a dois mononitra­
tos, ambos com atividade antianginosa.
D. Efeitos adversos
O efeito adverso mais comum da nitroglicerina, bem como dos demais
nitratos, é a cefaleia. De 30 a 60°
/
o dos pacientes que recebem tratamento
intermitentecom nitratos de longa ação desenvolvem cefaleia. Doses altas
de nitratos orgânicos também podem causar hipotensão postural, rubor
facial e taquicardia. Os inibidores de fosfodiesterase V como sildenafila,
tardenafila e vardenafila potencializam a ação dos nitratos. Para evitar a
perigosa hipotensão que pode ocorrer, essa associação é contraindicada.
E. Tolerância
IV.
A tolerância às ações dos nitratos se desenvolve rapidamente. Os vasos
sanguíneos se tornam dessensibilizados à vasodilatação. A tolerância pode
ser evitada estabelecendo-se um dia de "intervalo livre de nitrato" para res­
tabelecer a sensibilidade ao fármaco. Esse intervalo é de 1O a 12 horas,
em geral à noite, pois a demanda sobre o coração está diminuída nesse
período. O adesivo de nitroglicerina é usado por 12 horas e, então, é remo­
vido por 12 horas. Entretanto, a angina de Prinzmetal se agrava no início da
manhã, provavelmente pelo aumentocircadiano dascatecolaminas. Portan­
to, o intervalo livre de nitrato nesses pacientes deve ocorrer nofinal datarde.
Os pacientes que continuam apresentando angina, apesar do tratamento
com nitrato, podem se beneficiar com acréscimo de um fármaco de outra
classe.
BLOQUEADORES p-ADRENÉRGICOS
Os bloqueadores [3-adrenérgicos diminuem a demanda de oxigênio do miocár­
dio reduzindo a frequência e a força de contração do coração. Eles suprimem
a ativação do coração bloqueando os receptores [31 e reduzem o trabalho do
coraçãodiminuindoafrequência, a contratilidadee odébitocardíaco ea pressão
arterial. Com os [3-bloqueadores, a demanda de oxigênio pelo miocárdio se re­
duz durante o exercício e o repouso. Por estes efeitos, os [3-bloqueadores são
os fármacos de escolha para tratar a angina de esforço. Os [3-bloqueadores di­
minuem a frequência e a gravidade dos ataques de angina. Os [3-bloqueadores
são ineficazes contra a angina vasoespástica e não devem ser usados. O pro­
pranolol é o protótipo dessa classe de compostos, mas não é cardiosseletivo.
Por isso, outros [3-bloqueadores, como metoprolol e atenolol, são preferidos.
(Nota: todos os [3-bloqueadores em doses elevadas são não seletivos e podem
inibir receptores [32• Isso é particularmente importante de ser lembrado no caso
de pacientes asmáticos.) Fármacos com atividade simpaticomimética intrínse­
ca (p. ex., pindolol) são menos eficazes e devem ser evitados na angina. De
modo semelhante, os [3-bloqueadores isentos de atividade simpaticomimética
intrínseca são particularmente úteis no tratamento de pacientes com infarto do
miocárdio e prolongam a sobrevivência (p. ex., metoprolo�. Em pacientes com
angina clássica (angina de esforço), os [3-bloqueadores podem ser usados com
nitratos para aumentar a duração do exercício e a tolerância. Eles são, todavia,
contraindicados em pacientes com asma, diabetes, bradicardia grave, doença
vascular periférica e doença pulmonar obstrutiva crônica. (Nota: é importante
não interromper abruptamente o uso do [3-bloqueador. A dosagem deve ser re­
duzidagradualmente por2 a 3semanas para evitar rebotes deangina, infarto do
miocárdio e hipertensão.)
V. BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO
O cálcio é essencial para a contração muscular. O influxo de cálcio aumenta na
isquemia devido à despolarização da membrana provocada pela hipoxia. Isso,
porsuavez, promove a atividade de várias enzimas que consomem trifosfatode
adenosina, esgotando, assim, os estoques de energia e agravando a isquemia.
Os bloqueadores de canais de cálcio protegem o tecido inibindo a entrada de
cálcio nas células cardíacas e musculares lisas dos leitos arteriais coronarianos
e sistêmicos.Todos os bloqueadores de canais de cálcio são, portanto, vasodi­
latadores arteriolares que causam diminuição do tônus dos músculos lisos e da
resistência vascular. (Ver na p. 236 a descrição do mecanismo de ação desse
grupodefármacos.) Em doses clínicas, essesfármacos afetam primariamente a
resistênciade músculos lisos arteriolares coronarianos e periféricos. Seu uso no
tratamento da angina de esforço depende da redução do consumo de oxigênio
pelo miocárdio resultante da diminuição da pós-carga. Sua eficácia na angina
vasoespástica é devido ao relaxamento das artérias coronárias. (Nota: o vera­
pamilafeta principalmente o miocárdio, e o nifedipi
no exerce maior efeito nos
músculos lisos nos vasos periféricos. O diltiazemapresenta ação intermediária.)
Todos os bloqueadores de canais de cálcio reduzem a pressão arterial. Eles
podem agravar a insuficiência cardíaca devido ao seu efeito inotrópico negativo.
(Nota: a angina variante causada por espasmo coronariano espontâneo, seja
em trabalho ou repouso [Figura 18.4] e não por aumento da demanda de oxi­
gênio pelo miocárdio, é controlada pelos nitratos orgânicos ou bloqueadores de
canais de cálcio. Os [3-bloqueadores são contraindicados.)
A. Nifedipino
O nifedi
pino, um derivado da di-hidropiridina, funciona principalmente
como vasodilatador arteriolar. Esse fármaco apresenta efeito mínimo na
condução e na frequência cardíacas. O nifedipino é administrado por via
oral, normalmente naforma de comprimidos de liberação prolongada. Ele
sofre biotransformação hepática em produtos que são eliminados com
a urina e fezes. O efeito vasodilatador do nifedipino é útil no tratamento
da angina de Prinzmetal causada por espasmo coronariano espontâneo.
O nifedi
pino pode causar rubor, cefaleia, hipotensão e edema periféri­
co como efeitos adversos decorrentes de sua atividade vasodilatadora.
Como com todos os bloqueadores de canais de cálcio, a constipação
é um problema. Como apresenta pouca ou nenhuma ação antagonista
simpática, o nifedi
pinopode causartaquicardia reflexa se avasodilatação
periférica é intensa. (Nota: o consenso geral é que as di-hidropiridinas de
ação curta devem ser evitadas na doença arterial coronariana devido a
evidências de aumento de mortalidade após infarto do miocárdio e au­
mento de infartos do miocárdio agudo em pacientes hipertensos.)
B. Verapamil
A difenil-alquilamina verapamil reduz diretamente a velocidade de con­
dução atrioventricular (AV) cardíaca, diminui a frequência e contratilidade
cardíaca, a pressão arterial e a demanda de oxigênio. O verapamilcausa
maior efeito inotrópico negativo do que o nifedi
pino, mas é um vasodilata­
dor mais fraco. Como é extensamente biotransformado pelo fígado, deve­
-se ter cuidado em ajustar a dosagem em pacientes com disfunção hepá­
tica. O verapamilé contraindicado em pacientes com depressão da função
Farmacologia Ilustrada 223
224 Clark, Finkel, Rey & Whalen
DOENÇA CONCOMITANTE FÁRMACOS NORMALMENTE USADOS
NO TRATAMENTO DA ANGINA
NENHUMA
,
INFARTODOMIOCARDIO
RECENTE
ASMA,DPOC
HIPERTENSÃO
DIABETES
DOENÇA
-
RENALCRONICA
Figura 18.5
Nitratosdeação longa
Nitratosdeação longa
Nitratosdeação longa
Nitratosdeaçãolonga
Nitratosdeação longa
Nitratosdeação longa
[
Legenda:
13-Bloqueadores
13-Bloqueadores
JJ-Bloqueadores
13-Bloqueadores ]
Classedofármaco
Bloqueadores
decanais deca2•
Bloqueadores
decanais deca2•
Bloqueadores
decanais deca2•
Bloqueadores
de canais deca2•
Bloqueadores
de canais deca2•
[Classe do fármaco]
Fármacoscomumenteusados Fármacosmenoseficazes
Tratamento da angina em pacientes com doenças concomitantes. DPOC = doença pulmonar obstrutiva crônica.
cardíaca preexistente ou anormalidades de conduçãoAV. Ele também cau­
saconstipação. O verapamildeve ser usado com cautela em pacientes que
estão tomando digoxina, pois ele aumenta os níveis desse fármaco.
C. Diltiazem
O diltiazem apresenta efeitos cardiovasculares que são similares aos do
verapamil. Ambos os fármacos diminuem a velocidade de condução AV e
reduzem ataxa de disparos do nó marca-passo sinusal.O diltiazem reduz
a frequência cardíaca, embora em menor extensão do que o verapamil,
e também diminui a pressão arterial. Além disso, o diltiazem pode aliviar
o espasmo coronariano e, portanto, é particularmente útil em pacientes
com angina variante. Ele é extensamente biotransformado nofígado.A in­
cidência de efeitos adversos é baixa (a mesmados demais bloqueadores
de canais de cálcio). As interações com outros fármacos são as mesmas
indicadas para o verapamil.
,
VI. BLOQUEADORES DE CANAIS DE SODIO
A. Ranolazina
A ranolazina inibe a últimafase dacorrente de sódio (INatardia) melhoran­
do a equação suprimento-e-demanda de oxigênio. A inibição da INatardia
reduz a sobre-carga intracelular de sódio e cálcio, melhorando, assim, a
disfunção diastólica. A ranozalinaé indicada para o tratamento da angina
crônica e pode ser usada só ou em combinação com outros tratamentos
tradicionais, mas, mais frequentemente, é usada como opção nos pacien­
tes em que outros tratamentos anginosos falharam. A ranozalina não é
usada no tratamento de ataque agudo de angina.
A Figura 18.5 resume otratamento daangina em pacientes com doenças
concomitantes e a Figura 18.6 fornece normas de tratamento para pa­
cientes com angina estável.
Nitroglicerinadeaçãobreveparao
alíviodossintomasagudos
(sublingualoubucalconforme
necessário).Naausênciade
contraindicação,todosospacientes
devemsertratadoscomdoses
baixasdeácidoacetilsalict1ico,
75a162 mgpordia.
t
Aanamnesesugereangina
vasoespástica(Prinzmetal).
Não
t
Sim '
Sim
BloqueadordecanaldeCa2•
Nitratodelongaação.
Osjl-bloqueadoressãocontraindicados?
(OsJl-bloqueadoresnãosão
recomendadosnospacientescom
asma,DPOC,diabetes,doençavascular
periféricasintomática,bloqueio
cardíacodeprimeirograu.)
BloqueadordecanaisdeCa2•.
Figura 18.6
Não
.
t
IniciartratamentocomJl-bloqueador
comfármacocardiosseletivo,como
atenololoumetoprolol.
Não
',
Iniciartratamentocombinado:
acrescentebloqueadorde canais
deCa2•ounitratodeaçãolonga.
Não
',
Iniciarotratamentotriplo:
Acrescenteousubstituaaranozalina.
•
•
Ossintomassão
controladosapós
otimizaçãodadosagem.
Não
',
Iniciartratamentocombinado
acrescentandonitratodeação
longaouranozalina.
•
Ossintomassão
controladosapós
otimizaçãodadosagem.
Ossintomassão
controladosapós
otimizaçãodadosagem.
Sim
Sim -
Farmacologia Ilustrada 225
Sim
'.
Acompanheregularmente
paraavaliarfatoresde
riscoearesposta
aotratamento.
Acompanheregularmente
paraavaliarfatoresde
riscoearesposta
aotratamento.
Acompanheregularmente
paraavaliarfatoresde
riscoearesposta
ao tratamento.
Normas para o tratamento visando à redução dos sintomas de pacientes com angina estável. DPOC = doença pulmonar
obstrutiva crônica.
226 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
18.1 Um paciente de 56 anos se queixa de dor no peito após
a realização de qualquer exercício contínuo. O diagnósti­
co é de angina aterosclerótica. Foi prescrita nitroglicerina
sublingual para o tratamento da dor aguda no peito. Qual
entre os seguintes efeitos adversos pode ocorrer nesse
paciente?
A. Hipertensão
B. Cefaleia pulsante
C. Bradicardia
D. Disfunção sexual
E. Anemia
18.2 O paciente descrito na Questão 1 8.1 recebe também a
prescrição de propranolol para prevenir os episódios de
angina. O [3-bloqueador é adicionado ao tratamento para
evitar qual dos efeitos adversos da nitroglicerina sublin­
gual?
A. Tontura
B. Metemoglobinemia
C. Cefaleia pulsante
D. Taquicardia reflexa
E. Edema
18.3 Um homem de 68 anos vem sendo tratado com sucesso
contra uma angina induzida por exercício durante vários
anos. Recentemente ele tem se queixado de acordar du­
rante a noite com dor no peito. Qual dos seguintes fárma­
cos poderia ser mais útil na prevenção da angina noturna
do paciente?
A. Nitrato de amila
B. Nitroglicerina (sublingual)
C. Nitroglicerina (transdermal)
D. Esmolol
E. Hidralazina
Resposta correta = B. A nitroglicerina causa cefaleia pulsante em 30
a 60o/
o dos pacientes que estão tomando o fármaco. As outras alter­
nativas são incorretas.
Respostacorreta= D.A nitroglicerinapodecausartaquicardia reflexa
em decorrência de suas propriedades vasodilatadoras. Esse reflexo
é bloqueado pelo propranolol. Os demais efeitos adversos ou não
são evitados pelo propranolol ou não são causados pela nitroglice­
rina (edema).
Reposta correta = C. A nitroglicerina transdérmico pode manter os
níveis séricos por períodos de até 24 horas. Entretanto, como ocorre
tolerância, é recomendado queo adesivoseja removidoapós 1O a 12
horas para recuperar a sensibilidade. Nitrato de amila, nitroglicerina
sublingual e esmolol têm curta duração de ação. A hidralazina pode
precipitar um ataque de angina.
,
ar acos
• •
1 er ens 1vos
1. RESUMO
A hipertensão é definida como uma pressão sanguínea sistólica contínua
maior do que 140 mmHg e/ou uma pressão sanguínea diastólica contínua
maior do que 90 mmHg. A hipertensão resulta do aumento do tônus do mús­
culo liso arteriolar vascular periférico, que leva ao aumento da resistência
arteriolar e à redução da capacitância do sistema venoso. Na maioria dos
casos, a causa do aumento do tônus vascular é desconhecida. A pressão
arterial elevada é uma alteração extremamente comum, afetando cerca de
15°
/
o da população dos Estados Unidos (60 milhões de pessoas). Embora
muitos desses indivíduos não apresentem sintomas, a hipertensão crônica
(tanto sistólica quanto diastólica) pode levar à acidente vascular encefálico
(derrame), à insuficiência cardíaca congestiva, ao infarto do miocárdio e à
lesão renal. A morbidade e a mortalidade diminuem significativamente quan­
do a hipertensão é diagnosticada precocemente e tratada de modo adequa­
do. Os fármacos usados no tratamento da hipertensão são citados na Figura
19.1 . Reconhecendo o caráter progressivo da hipertensão, ela é classificada
em quatro categorias com o objetivo de orientar o tratamento (Figura 19.2).
Figura 19.1
a-BLOQUEADORES
Doxazosina
Prazosina
Terazosina
OUTROS
Clonidi
na
Diazoxido
Hidralazina
Labeta/oi
a-Meti/dopa
Minoxidil
Nitroprussiato desódio
INIBIDORES DE RENINA
Alisquireno
BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO
Anlodipino
Diltiazem
Felodipino
lsradipino
Nicardipino
Nifedipino
Nisoldi
pino
Verapamil
Resumo dos fármacos anti-hipertensivos. ECA = enzima conversora de angiotensina.
DIURÉTICOS
Amilorida
Bumetanida
C/ortalidona
Eplerenona
Furosemida
Hidroc/orti
azida
Meto/azona
Espironolactona
Tr
iantereno
P·BLOQUEADORES
Atenolol
Carvedilol
Labeta/oi
Metoprolol
Nado/oi
Nebivolol
Propranolol
Timo/oi
INIBIDORES DA ECA
Benazepril
Captopril
Enalapril
Fosinopril
Lisinopril
Monoexipril
Quinapril
Ramipril
BLOQUEADORES DE RECEPTOR
DAANGIOTENSINA li
Ali
sartana medoxomil
Candesartana
Eprosartana
lrbesartana
Losartana
Olmesartana
Telmisartana
Valsartana
228 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Sistólica Diastólica
mmHg mmHg
Normal <120 e <80
Pré-hipertensão 120- ou 80-
139 89
Estágio1 140-
159 ou 90-
99
Estágioli > 160 ou > 100
Figura 19.2
Classificação da pressão arterial com
base no trabalho do 7° Relatório da
Joint National Committee on Preven­
tion, Detection, Evaluation, and Treat­
ment of High Blood Pressure (JNC7).
PRESSÃO ARTERIAL
Controladapor
DÉBITO
CARDÍACO RESISTÊNCIA
PERIFÉRICA
Frequência
cardíaca
Controladapor
Pressãode
enchimento
Tônus
arteriolar
Contratilidade
Controlada
por
Volumede Tônus
sangue venoso
Figura 19.3
Principais fatores que influenciam a
pressão arterial.
-
li. ETIOLOGIA DA HIPERTENSAO
Embora a hipertensão possa ocorrer secundariamente a outras doenças,
mais de 90°
/
o dos pacientes apresentam hipertensão essencial, uma alte­
ração de origem desconhecida que afeta os mecanismos de regulação da
pressão arterial. A existência de hipertensão na família aumenta a probabi­
lidade de que o indivíduo terá uma pressão arterial maior do que a normal e
desenvolverá doença hipertensiva. A incidência de hipertensão essencial é
quatro vezes maiorentre negros do que entre brancos e ocorre mais frequen­
temente em homens de meia idade do que em mulheres de meia idade e a
prevalência aumenta com a idade e a obesidade. Fatores ambientais, como
estilo de vida estressante, ingestão elevada de sódio com a dieta e fumo, au­
mentam a predisposição do indivíduo à hipertensão.
-
Ili. MECANISMOS DE CONTROLE DA PRESSAO
ARTERIAL
A pressão arterial é regulada dentro de uma faixa estreita para prover perfu­
são adequada aos tecidos sem causar lesões ao sistema vascular, particu­
larmente à túnica íntima arterial (endotélio). Ela é diretamente proporcional
ao débito cardíaco e à resistência vascular periférica (Figura 19.3). O débito
cardíaco e a resistência periférica são controlados principalmente por dois
mecanismos sobrepostos de controle: os barorreflexos e o sistema renina-an­
giotensina-aldosterona (Figura 1 9.4). A maioria dos fármacos anti-hipertensi­
vos diminui a pressão arterial, reduzindo o débito cardíaco e/ou diminuindo a
resistência periférica.
A. Barorreceptores e sistema nervoso simpático
Os barorreflexos atuam alterando a atividade do sistema nervoso sim­
pático. Por isso, são responsáveis pela regulação rápida, momento a
momento, da pressão arterial. Uma queda da pressão determina que os
neurônios sensíveis à pressão (barorreceptores do arco aórtico e seios
carotídeos) remetam menos impulsos aos centros cardiovasculares na
medula espinal. Isso determina uma resposta reflexa imediata de au­
mento do estímulo simpático e diminuição parassimpática ao coração e
aos vasos, resultando em vasoconstrição e aumento do débito cardíaco.
Essas mudanças resultam em um aumento compensatório da pressão
sanguínea (ver Figura 1 9.4).
B. Sistema renina-angiotensina-aldosterona
Os rins são responsáveis pelo controle da pressão arterial em lon­
go prazo ajustando o volume sanguíneo. Os barorreceptores nos rins
respondem à pressão arterial reduzida e à estimulação simpática de
adrenorreceptores-�,. liberando a enzima renina (ver Figura 19.4). lnges­
tão baixa e aumento da perda de sódio também aumentam a liberação
de renina. Essa peptidase converte angiotensinogênio em angiotensina
1, que é convertida, por suavez, em angiotensina li na presença da ECA.
A angiotensina li é um vasoconstritor mais potente, contraindo arteríolas
e veias, causando aumento na pressão arterial. A angiotensina 11 exerce
ação vasoconstritora preferencial nas arteríolas eferentes do glomérulo
renal, aumentando a filtração glomerular. Além disso, a angiotensina 11
estimula a secreção de aldosterona, levando ao aumento da reabsorção
renal de sódio e ao aumento dovolume sanguíneo, o que contribui para o
aumento adicional da pressão arterial. Esses efeitos são mediados pela
estimulação dos receptores AT1 da angiotensina li.
Respostamediadapelosistemanervososimpático
Atividade
simpática
Fluxo
sanguíneorenal
Velocidadede
filtraçãoglomerular
Ativaçãode
adrenorreceptores-111
nocoração
Ativaçãode
adrenorreceptores-a1
nosmúsculoslisos
Ativaçãodos
adrenorreceptores-111
nosrins
Renina
Retençãode
sódioeágua
Aldosterona
Respostamediadapelosistemarenina-angiotensina-aldosterona
Figura 19.4
Débito
cardíaco
Aumentodo
retornovenoso
Resistência
periférica
Angiotensinali
Volume
sanguíneo
Farmacologia Ilustrada 229
Resposta do sistema nervoso autônomo e do sistema renina-angiotensina-aldosterona à diminuição da pressão arterial.
IV. ESTRATÉGIAS DETRATAMENTO
O objetivo do tratamento anti-hipertensivo é reduzir a morbidade cardiovascu­
lar e renal e a mortalidade. A relação entre a pressão arterial e o risco de um
eventocardiovascularé contínua e, assim, mesmo reduzindo a pressão arterial
moderadamente elevada, reduz-se a doença cardiovascularsignificativamente.
A nova classificação, "pré-hipertensão", reconhece essa relação e enfatiza a
necessidade de diminuir a pressão arterial na população geral com medidas
educativas e adoçãode condutas de redução da pressão.A hipertensão mode­
rada pode sercontrolada algumas vezes com um únicofármaco, mas a maioria
dos pacientes requer mais de um fármaco para obter o controle. As recomen­
dações atuais são de iniciar o tratamento com um diurético tiazídico, a menos
que haja razão que determine o emprego de outra classe de fármaco (Figura
19.5). Se a pressão arterial não é controlada adequadamente, é acrescentado
um segundo fármaco, selecionado com base nos efeitos adversos mínimos do
regime combinadoe procurando uma pressão arterial apropriada (Figura 19.6).
Pode ser acrescentado um 13-bloqueador, se o fármaco inicial foi um diurético,
e vice-versa. Um vasodilatador pode ser acrescentado como terceiro fármaco
para aqueles pacientes que continuam sem alcançar uma pressão arterial vi­
sada. Quando são usados inibidores da enzima conversora de angiotensina li
ou bloqueadores de receptorAT1 da angiotensina li para iniciar otratamento, o
diurético é o segundo fármaco acrescentado mais comumente.
A. Cuidados individualizados
Certos subgrupos da população hipertensa respondem melhor a uma
classe de fármacos do que à outra. Por exemplo, pacientes negros res­
pondem bem aos diuréticos e bloqueadores de canais de cálcio, mas
o monotratamento com 13-bloqueadores ou inibidores da ECA com fre­
quência é menos eficaz. De modo similar, bloqueadores de canais de
230 Clark, Finkel, Rey & Whalen
�
DOENÇA
CONCOMITANTE CLASSESDEFÁRMACOSINDICADOSNOTRATAMENTODAHIPERTENSÃO
ANGINA PECTOR/S
[ Diuréticos
l [3-Bloqueadores Inibidores da ECA Bloqueadores
- de canais de ca2+
DEALTORISCO
- DIABETES
1 Diuréticos
1 [[3-Bloqueadores ] Inibidores da ECA
1 BRAs
1
Bloqueadores
de canais de ca2+
,__ AVERECORRENTE [ Diuréticos
l Inibidores da ECA
1 1 1 1
INSUFICIENCIACARDÍACA Diuré
t icos [3-Bloqueadores Inibidores da ECA BRAs
Antagonistas de
,__ receptor de
aldosterona
INFARTODO Antagonistas de
,__
MIOCÁRDIOPRÉVIO [3-Bloqueadores Inibidores da ECA receptor de
aldosterona
'-
DOENÇA
RENALCRÔNICA Inibidores da ECA
1 BRAs
1
Figura 19.5
Tratamento da hipertensão em pacientes com doenças concomitantes. As classes de fármacos em caixas azuis asse­
guram melhor resultado (p. ex., diabetes ou doença renal) independente da pressão arterial. (Nota: os bloqueadores
de receptores de angiotensina [SRA] são uma alternativa aos inibidores da enzima conversora de angiotensina [ECA].
AVE = acidente vascularencefálico.
Angina
Diabetes
Hiperlipidemia
Insuficiência
cardíaca
Infartodo
miocárdioprévio
Alteraçãorenal
Asma
Figura 19.6
o 5 10 15
Porcentagemdepacientes
hipertensoscomadoença
concomitanteindicada
Frequência de doenças concomitantes
entre a população de pacientes hiper­
tensos.
cálcio, inibidores da ECA e diuréticos são apropriados para o tratamento
da hipertensão em pacientes idosos, ao passo que os 13-bloqueadores e
os a-antagonistas são menos tolerados. Além disso, a hipertensão pode
coexistir com outras doenças que podem ser agravadas por alguns dos
fármacos anti-hipertensivos. Nesses casos, é importante encontraro me­
lhorfármaco anti-hipertensivo para cada paciente em particular. A Figura
19.5 mostra o tratamento preferido em pacientes hipertensos com várias
doenças concomitantes, e a Figura 1 9.6 mostra a frequência de doenças
concomitantes na população de pacientes hipertensos.
B. Adesão do paciente ao tratamento anti-hipertensivo
A falta de adesão do paciente é a causa mais comum para a falha do
tratamento anti-hipertensivo. O paciente hipertenso normalmente é assin­
tomático e é diagnosticado por triagem de rotina, antes da ocorrência de
lesão óbvia sobre um órgão-alvo. Dessa forma, o tratamento em geral é
direcionado para evitar as sequelas futuras da doença, em vez de aliviar
algum desconforto atual no paciente. Os efeitos adversos associados ao
tratamento anti-hipertensivo podem influenciar mais os pacientes do que
as vantagens futuras. Por exemplo, os 13-bloqueadores podem diminuir a
libido e induzirdisfunções eréteis em homens, particularmente os de meia­
-idade e idosos. Essa disfunção sexual induzida pelo fármaco pode levar
o paciente a interromper o tratamento. Assim, é importante aumentar a
adesão do paciente selecionando cuidadosamente o regime de fármacos
que reduz osefeitos adversos e minimiza o número de dosificações neces­
sárias cadadia. A associação de dois ou trêsfármacos em um comprimido
único, em associação dose-fixa, revelou melhorar a adesão ao tratamento
e o número de pacientes que alcançaram a pressão arterial desejada. A
Figura 19.7 mostra as normas do tratamento contra a hipertensão.
Farmacologia Ilustrada 231
Hipertensãorecém-diagnosticada
',
Modificaçãodoestilodevida
•'Peso'-manteramassacorporal normal (IMC 18,5-24,9)
• Dieta-TCHD-ricaemfrutas,vegetais,grãos, produtoslácteosdesnatados,semgordura,
colesterolesódio
•Sais- reduziroNa+nadietaparamenosde 2,4g/diaou6 g/diaNaCI
• Exercício-atividadeaeróbiaregularcomocaminhar(30min/dia namaioriadosdias)
•Álcool-limitara menosde2drinques/diaparahomense 1 drinque/diaparamulheres
'
' •
•
Alcançou o Nãoalcançoua pressãoarterial pretendida(<140/90mmHg)
valorpretendido (<130/80 mmHgparaaquelescomdiabetesoudoençarenal crônica)
.
,
Monitorar
•
'
HipertensãoEstágio1
(PAS 140-159mmHg) ou
PAD90-99mmHg)
• Diuréticodotipotiazidapara
amaioriadospacientes
• Considereinibidoresda ECA,
BRA, �-bloqueadores,
BCCaou umaassociação
'
•
Alcançadooobjetivo
'
'
Monitorar
Figura 19.7
'
f
Escolhadofármac.oinicial
•
•
Semcondiçõesagravantes
'
•
HipertensãoEstágioli
(PAS;;;. 160mmHgou
PAD;;;. 100 mmHg)
•Associaçãodedoisfármacos
paraamaioriadospacientes
•Considereum diuréticotipo
tiazidamais inibidoresdaECA,
BRA, �-bloqueadoresou BCCa
'
•
Alcançadooobjetivo
•
'
Monitorar
- Sem alcançarapressãoarterialdesejada -
- -
•
'
Otimizarasdosagense/ou acrescentarfármaco
adicional atéalcançara pressãoarterial pretendida.
'
,
Comcondiçõesagravantes
'•
Fármacosparacondições
agravantes
(verFigura19.5)
• Insuficiência cardíaca
• Pós-infartodo miocárdio
• Doençacoronáriadealtorisco
• Diabetes
• Doençarenalcrônica
• PrevençãodeAVE recorrente
'
Alcançadooobjetivo
'
Monitorar
Normas para o tratamento da hipertensão. TCHD = tentativa de controlar a hipertensão por meio de uma dieta. BCCa =
bloqueador de canais de cálcio; BRA = bloqueador de receptor de angiotensina; ECA = enzima conversora de angioten­
sina; PAD = pressão arterial diastólica; PAS = pressão arterial sistólica; AVE = acidente vascular encefálico.
V. DIURÉTICOS
Os diuréticos podem ser usados como tratamento farmacológico de primeira
escolha para hipertensão, a menos que alguma razão obrigue a escolha de
outro fármaco. O tratamento com doses baixas de diuréticos é seguro, barato
e eficaz na prevenção de derrame, infarto do miocárdio e insuficiência car­
díaca congestiva, todos os quais podem causar morte. Resultados recentes
sugerem que os diuréticos são superiores aos bloqueadores para tratar a
hipertensão em idosos.
A. Diuréticos tiazídicos
Todos os diuréticos orais são eficazes notratamento da hipertensão, mas
os tiazídicos têm sido os mais amplamente usados.
232 Clark,Finkel,Rey& Whalen
Diuréticos
tiazídicos
a
Res.istência
periférica
a
a
Retençãode
sódioeágua
Volume
sanguíneo
Débito
cardíaco
Diminuiçãona
pressãosanguínea
Figura 19.8
J
Alguns efeitos adversos dos diuréticos
tiazídicos.
1. Ações. Os diuréticos tiazídicos, como a hidroc/orotiazida e a clor­
talidona, diminuem a pressão arterial inicialmente por aumentar a
excreção de sódio e água. Isso causa uma redução do volume ex­
tracelular, resultando em diminuição do débito cardíaco e do fluxo
sanguíneo renal (Figura 19.8). Com tratamento prolongado, o volu­
me plasmático volta ao valor normal, mas a resistência periférica
diminui. Os diuréticos poupadores de potássio são frequentemen­
te associados aos tiazídicos para reduzir a espoliação do potássio
causada pelos tiazídicos.
2. Usos terapêuticos. Os diuréticos tiazídicos diminuem a pressão ar­
terial tanto na posição supina quanto de pé, e raramente é observada
hipotensão postural, exceto em pacientes idosos com redução de vo­
lemia. Essesfármacos neutralizam a retenção de sódioe água obser­
vada com os outros fármacos usados no tratamento da hipertensão
(p. ex., hidralazina). Os tiazídicos são, portanto, úteis no tratamento
combinado com uma variedade de outros fármacos anti-hipertensi­
vos, incluindo �-bloqueadores, inibidores da ECA, bloqueadores de
receptor de angiotensina (BRA) e diuréticos poupadores de potássio.
Os diuréticos tiazídicos são particularmente úteis no tratamento de
pacientes negros ou idosos. Com exceção da metazoli
na, os diuréti­
cos tiazídicos não são eficazes em pacientes com função renal ina­
dequada (depuração de creatinina menor que 50 mUmin). Nesses
pacientes, podem ser necessários diuréticos de alça.
3. Farmacocinética. Os diuréticos tiazídicos são ativos por via oral.
Asvelocidades deabsorção e eliminaçãovariam consideravelmente,
embora nenhuma vantagem nítida exista entre eles.Todos os tiazídi­
cos são substrato para o sistema secretor de ácido orgânico do ne­
fron e, como tal, podem competircom o ácido úrico pela eliminação.
4. Efeitos adversos. Os diuréticos tiazídicos induzem hipopotassemia
e hiperuricemia em 70°
/
o dos pacientes e hiperglicemia em 10°
/
o. Po­
dem causar ataque agudo de gota. Hipomagnesemia pode ocorrer
também. Os níveis séricos de potássio devem ser cuidadosamen­
te monitorados em pacientes predispostos a arritmias cardíacas
(particularmente indivíduos com hipertrofia ventricular esquerda,
doença cardíaca isquêmica ou insuficiência cardíaca crônica) e nos
pacientes que estão sendo tratados concomitantemente com diuré­
ticos tiazídicos e digoxina. A incidênciade efeitos adversos se reduz
quando empregada dosagem baixa de diurético (6,25 a 25 mg/dia
de hidroclortiazida).
B. Diuréticos de alça
Os diuréticos de alça (furosemida, bumetanida e torsemida) atuam rapi­
damente, mesmo em pacientes com função renal pobre ou naqueles que
não responderam aos tiazídicos ou a outros diuréticos. Os diuréticos de
alça causam diminuição da resistênciavascular renal e aumento do fluxo
sanguíneo renal. (Nota: os diuréticos de alça aumentam o conteúdo de
Ca
2
+ na urina, os diuréticos tiazídicos o diminuem.)
C. Diuréticos poupadores de potássio
Amilorida e triantereno (inibidores do transporte de sódio epitelial nos
duetos distais e coletores), bem como espironolactona e eplerenona (an­
tagonistas de receptor da aldosterona) reduzem a perda de potássio na
urina. A espironolactona tem a vantagem adicional de diminuira remode­
lação cardíaca que ocorre na insuficiência cardíaca. (A discussão com­
pleta dos diuréticos se encontra no Capítulo 22.)
VI. AGENTES BLOQUEADORES DE
P-ADRENORRECEPTORES
Atualmente os J3-bloqueadores são recomendados como tratamento de
primeira escolha contra a hipertensão quando está presente umadoença
concomitante (ver Fig. 19.5), por exemplo, em pacientes com infarto do
miocárdio ou com infarto prévio. Esses fármacos são eficazes, mas apre­
sentam algumas contraindicações.
A. Ações
Os J3-bloqueadores reduzem a pressão arterial primariamente pela dimi­
nuição do débito cardíaco (Figura 1 9.9). Eles também podem diminuir o
efluxo simpático do SNC e inibira liberação de reninados rins, reduzindo,
assim, a formação de angiotensina li e a secreção de aldosterona. O pro­
tótipo dos J3-bloqueadores é o propranolo/, que atua em receptores-J31 e
J32• Bloqueadores seletivos de receptores J31, como metoprolole atenolol,
estão entre os J3-bloqueadores mais comumente prescritos. O nebivololé
um bloqueador seletivo de receptores J31 que aumenta também a produ­
ção de óxido nítrico, levando à vasodilatação. Os J3-bloqueadores seleti­
vos devem ser administrados cautelosamente em pacientes hipertensos
que também têm asma. Os J3-bloqueadores não seletivos, como propra­
nolol e nado/o/, são contraindicados devido ao bloqueio da broncodilata­
ção mediada por J32• (Ver p. 222 para a discussão sobre J3-bloqueadores.)
Os J3-bloqueadores devem ser usados com cautela no tratamento de pa­
cientes com insuficiência cardíaca aguda ou doença vascular periférica.
B. Usos terapêuticos
1. Subgrupos de população hipertensa. Os J3-bloqueadores são mais
eficazes no tratamento de pacientes brancos do que de negros, sen­
do também mais eficazes em pacientes jovens do que em idosos.
(Nota: condições que desaconselham o uso de J3-bloqueadores [p. ex.,
doença pulmonar obstrutiva crônica grave, insuficiência cardíaca con­
gestiva crônicaedoençavascularperiféricaoclusivasintomáticagrave]
são mais comumente encontradas em pacientes idosos e diabéticos.)
2. Pacientes hipertensos com doenças concomitantes. Os J3-blo­
queadores são úteis no tratamento de condições que podem coexis-
Bloqueadoresde
p-adrenorreceptores
Figura 19.9
Ativaçãode
adrenorreceptores
131 nocoração Débitocardíaco
Resistência
periférica
t
a Renina l Angiotensinali
[J
D Aldosterona
__,
J/
Retençãode
sódioeágua -----+[)
Volume
sanguíneo
Efeitos dos fármacos bloqueadores dos J3-adrenorreceptores.
Farmacologia Ilustrada 233
234 Clark, Finkel, Rey & Whalen
v=�
v---..
v-
-
Figura 19.1O
Hipotensão
Bradicardia
Fadiga
Insônia
Disfunção
sexual
Alguns efeitos adversos dos fármacos
�-bloqueadores.
tir com hipertensão, como taquiarritmia supraventricular, infarto do
miocárdio prévio, angina pectoris e insuficiência cardíaca crônica.
Os �-bloqueadores são usados também para prevenir a enxaqueca
e a cefaleia em salvas.
C. Farmacocinética
Os �-bloqueadores são ativos porvia oral. O propranololsofre biotransfor­
mação de primeira passagem extensa e altamente variável. Os bloqueado­
res podem demorarvárias semanas até desenvolverem seu efeito pleno.
D. Efeitos adversos
1. Efeitos comuns. Os �-bloqueadores podem causar bradicardia e
efeitos colaterais no SNC, como fadiga, letargia, insônia e alucina­
ções. Esses fármacos também podem causar hipotensão (Figura
19.1O). Os �-bloqueadores podem diminuir a libido e causar impo­
tência. (Nota: a disfunção sexual provocada pode reduzir acentua­
damente a adesão do paciente ao tratamento.)
2. Alterações nos padrões lipídicos séricos. Os �-bloqueadores po­
dem desregular o metabolismo lipídico, diminuindo a lipoproteína de
alta densidade colesterol e aumentando os triglicérides plasmáticos.
3. Retirada do fármaco. A retirada abrupta dos �-bloqueadores pode
causar angina, infarto do miocárdio e mesmo a morte súbita de pa­
cientes com doença cardíaca isquêmica. Por isso, a dosagem desses
fármacos deve ser reduzida gradualmente ao longo de duas atrês se­
manas em pacientes com hipertensão e doença cardíaca isquêmica.
VII. INIBIDORES DA ECA
Os inibidores da ECA, como enalaprilou lisinopril, são recomendados quando
os fármacos de primeira escolha (diuréticos e �-bloqueadores) estão con­
traindicados ou são ineficazes, ou se existem razões que os indicam como no
diabetes melito.
A. Ações
Os inibidores da ECA diminuem a pressão arterial reduzindo a resistên­
cia vascular periférica sem aumentar reflexamente o débito, a frequência
ou a contratilidade cardíaca. Esses fármacos bloqueiam a ECA que hidro­
lisa a angiotensina 1 para formar o potente vasoconstritor angiotensina li
(Figura 19.11). A enzima conversora também é responsável pela degra­
dação da bradicinina que aumenta a produção de óxido nítrico e pros­
taciclinas nos vasos sanguíneos. Ambos, óxido nítrico e prostaciclinas,
são potentes vasodilatadores. Os inibidores da ECA diminuem os níveis
de angiotensina li e aumentam os de bradicinina. Ocorre vasodilatação
de arteríolas e veias como resultado da combinação de efeitos de vaso­
constrição diminuída causada pela redução dos níveis de angiotensina
li e potente vasodilatação devido ao aumento da bradicinina. Reduzindo
os níveis de angiotensina li circulante, os inibidores da ECA também di­
minuem a secreção de aldosterona, resultando em menor retenção de
sódio e água. Os inibidores da ECA diminuem a pré-carga e a pós-carga
cardíaca, reduzindo, assim, o trabalho cardíaco.
B. Usos terapêuticos
Como os �-bloqueadores, os inibidores da ECA são mais eficazes em
pacientes hipertensos brancos e jovens.Todavia, quando associados com
Angiotensinogênio
(globulina a2 no sangue)
[J
Estimulação do l
sistema nervoso
simpático
Renina
(�s rins)
D
ECA
Vasodilatação
J
do músculo
liso vascular
Angiotensina 1 -
....
1
--
• Angiotensina li
(inativa)
O
diminuída ..........__ Produção de .., [J �;�gJi
�
o
Figura 19.11
......_ aldosterona ---t
p
•
"' e água
reduzida
-
--=
-
-
-
-'
-
Inibição da degradação t Níveis de
InibidoresdaECA -
-
--
:.....
-
.....;:;
__
....;...
_
__.
.
. _
_
b
_
ra
_
d
_
ic
_
in
_
in
_
a
_
_,
de bradicinina
Efeitos dos inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA).
um diurético, sua eficáciaé semelhante em pacientes hipertensos brancos
e negros. Junto com os BRA, os inibidores da ECA retardam a progressão
da nefropatia diabética, diminuem a albuminúria e são, assim, indicação
obrigatória para pacientes com nefropatia diabética. Os efeitos benéficos
na função renal podem resultar da diminuição da pressão intraglomerular
devido àvasodilatação daarteríola eferente. Os inibidores da ECAsão pa­
drão no cuidado de pacientes após o infarto do miocárdio e são fármacos
de primeira escolha no tratamento de pacientes com disfunções sistólicas.
O tratamento é iniciado 24 horas após o fim do infarto. O tratamento crôni­
co com inibidores da ECA obtém redução sustentada da pressão arterial,
regressão da hiperttrofia ventricular esquerda e prevenção do remodela­
mento ventricular, após infarto do miocárdio. Os inibidores da ECA são
os fármacos de primeira escolha no tratamento da insuficiência cardíaca,
paratratarpacientes hipertensos com doença renal crônica e para pacien­
tes com risco elevado de doença arterial coronariana.
C. Efeitos adversos
Os efeitos adversos comuns incluem tosse seca, exantema, febre, altera­
ção do paladar, hipotensão (em estados hipovolêmicos) e hiperpotassemia
(Figura 19.12). A tosse seca, que ocorre em aproximadamente 10°/o dos
pacientes, parece ser devida ao aumento dos níveis de bradicinina na ár­
vore pulmonar e ocorre mais frequentemente em mulheres e não fumantes
e com inibidores da ECA de longa duração. A tosse desaparece poucos
dias apósa descontinuação dotratamento.Os níveis de potássio devem ser
monitorados. São contraindicados a suplementação de potássio (ou dietas
ricas em potássio) e o uso de diuréticos poupadores de potássio. O níveis
de creatinina no soro devem ser monitorados, particularmente em pacientes
com doença renal subjacente. O angioedema é raro, mas é potencialmente
fatal e também pode ser atribuído ao aumento dos níveis de bradicinina.
Pode ocorrer insuficiência renal reversível em pacientes com estenose bi­
lateral na artéria renal tratados com inibidor da ECA. Os inibidores da ECA
podem induzir malformações fetais e não devem ser usados em gestantes.
VIII. BLOQUEADORES DE RECEPTORES
DE ANGIOTENSINA li
Os BRA são alternativos aos inibidores da ECA. Esses fármacos bloqueiam
os receptores AT1 diminuindo a ativação desses receptores pela angiotensina
li. A losartana é o protótipo dos BRAs e, correntemente, há seis outros BRAs.
Seus efeitos farmacológicos são similares aos dos inibidores da ECA por pro­
duzirem dilatação arteriolare venosa e bloqueio da secreção de aldosterona,
Farmacologia Ilustrada 235
Tosseseca
Hiperpotassemia
Erupção
cutânea
Hipotensão
Febre
Figura 19.12
Diminuição
da pressão
arterial
a
Alguns efeitos adversos comuns dos
inibidores da enzima conversora de an­
giotensina.
236 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Ir.ti Dilataçã
_
o de vasos
W coronar1anos
Nifedipino 1
Verapamil 1
Diltiazem 1
1
1
Ação Ação
fraca forte
m Condução AV
Poucoefeito
Nifedipino ]�
Verapamil 1
'-----
;:::::!
Diltiazem 1
.____.
Diminuída Aumentada
f'!!I Frequência de
.:.1 efeitos adversos
Nifedipino 1 1 18°/o
:=:
=
=
=
==:-
-
�
Verapamil ._
l_
_
_
__,
I 9°/o
Diltiazem D 2°/o
Infrequente
Figura 19.13
Frequente
Ações dos bloqueadores de canais de
cálcio. AV = atrioventricular.
reduzindo, assim, a pressão arterial e diminuindo a retenção de sal e água.
Os BRAs não aumentam os níveis de bradicinina. Eles diminuem a nefro­
toxicidade do diabetes, sendo, assim, um tratamento atraente a diabéticos
hipertensos. Seus efeitos adversos são semelhantes aos dos inibidores da
ECA, embora o risco de tosse e angioedema seja significativamente menor.
Os BRAs também são fetotóxicos e não devem ser usados por mulheres ges­
tantes. (Nota: os BRAs são discutidos no Capítulo 16.)
IX. INIBIDORES DE RENINA
O inibidor seletivo de renina, ali
squireno, está disponível para o tratamento da
hipertensão. O a/isquireno inibe diretamente a renina e, assim, atua mais pre­
cocemente no sistema renina-angiotensina-aldosterona do que os inibidores
de ECA ou BRAs. Ele reduz a pressão arterial com eficácia similar aos BRAs,
inibidores da ECA e tiazidas. O alisquireno pode ser associado com outros
anti-hipertensivos, como diuréticos, inibidores da ECA, BRAs ou bloqueado­
res de canais de cálcio. O alisquireno pode causar diarreia, em especial em
dosagens elevadas. Ele também pode causar tosse e angioedema, mas pro­
vavelmente com menos frequência do que os inibidores da ECA. Como os ini­
bidores da ECA e os BRA, o a/iquireno é contraindicado durante a gestação.
O alisquireno está disponível em associação de doses fixas com valsartana,
bem como com hidroclortiazida. A hiperpotassemiafoi significativamente mais
comum em pacientes que receberam alisquireno e valsartana. O aliquireno é
biotransformado pela CIP3A4 e é sujeito a interações de fármacos.
X. BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO
Os bloqueadores de canais de cálcio são recomendados quando os fárma­
cos de primeira escolha estão contraindicados ou são ineficazes. Eles são
eficazes no tratamento da hipertensão em pacientes com angina ou diabetes.
Doses elevadas de bloqueadores de canais de cálcio de curtaduração devem
ser evitadas devido ao maior risco de infarto do miocárdio por vasodilatação
excessiva e acentuada estimulação cardíaca reflexa.
A. Classes de bloqueadores de canais de cálcio
Os bloqueadores de canais de cálcio são divididos em três classes quími­
cas, cada uma com propriedades farmacocinéticas e indicações clínicas
diferentes (Figura 19.13).
1. Difenilalquilaminas. O verapamil é o único representante dessa
classe aprovado nos Estados Unidos atualmente. O verapamil é o
menos seletivo dos bloqueadores de canais de cálcio e apresenta
efeitos significativos nas células cardíacas e do músculo liso vascu­
lar. Ele é usado também notratamento da angina, das taquiarritmias
supraventriculares e para prevenir a enxaqueca e a cefaleia em sal­
vas. Bloqueio atrioventricular de primeiro grau e constipação são
efeitos adversos dose-dependentes do verapamil.
2. Benzotiazepina. O diltiazem é o único membro dessa classe que
está aprovado nos Estados Unidos atualmente. Como o verapamil,
o dilti
azem afeta tanto as células cardíacas quanto do músculo liso
vascular, mas apresenta efeito inotrópico cardíaco negativo menos
pronunciado comparado ao efeito do verapamil. O diltiazem apre­
senta um perfil de efeitos adversos favorável.
3. Di-hidropiridinas. Essaclasse de bloqueadores de canais de cálcio
em rápida expansão inclui o nifedipino de primeira geração e cinco
Farmacologia Ilustrada 237
fármacos de segunda geração para o tratamento de doença cardio­
vascular: anlodipino, felodi
pino, isradipino, nicardi
pino e nisoldipi­
no. Esses bloqueadores de canais de cálcio de segunda geração
diferem na farmacocinética, nos usos aprovados e nas interações
farmacológicas.Todas as di-hidropiridinas apresentam muito maior
afinidade pelos canais de cálcio vasculares do que pelos canais de
cálcio do coração. Elas são, por isso, particularmente atrativas no
tratamento da hipertensão. As di-hidropiridinas têm a vantagem de
interagir pouco com outros fármacos cardiovasculares, como a di­
goxina ou a varfarina, que são frequentemente usados em conjunto
com bloqueadores de canais de cálcio.
B. Ações
A concentração intracelular de cálcio tem um papel importante na ma­
nutenção do tônus da musculatura lisa e na contração do miocárdio. O
cálcio entra nas células musculares através de canais de cálcio voltagem­
-sensíveis. Isso dispara a liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático
e da mitocôndria, que aumenta adicionalmente o nível de cálcio citosó­
lico. Os antagonistas de canais de cálcio bloqueiam a entrada de cálcio
por se ligarem aos canais de cálcio do tipo L no coração e nos músculos
lisos dos vasos arteriolares coronarianos e periféricos. Isso causa o rela­
xamento do músculo liso vascular, dilatando principalmente as arteríolas.
Os bloqueadores de canais de cálcio não dilatam veias.
C. Usos terapêuticos
Os bloqueadores de canais de cálcio apresentam um efeito natriurético
intrínseco e, dessa forma, normalmente não requerem a adição de um
diurético. Esses fármacos são úteis no tratamento de pacientes hiper­
tensos que tem também asma, diabetes, angina e/ou doença vascular
periférica (Figura 19.14). Pessoas negras hipertensas respondem bem
aos bloqueadores de canais de cálcio.
-
INDICAÇOES
-
TERAPEUTICAS
BLOQUEADORESDECANAISDECÁLCIOAPROVADOS
HIPERTENSÃO Verapamll Dlltiazem
ANGINA Verapamll Dlltiazem
TAQUIARRITMIA
SUPRAVENTRICULAR Verapamll Dlltiazem
SEGURONAIC
LEVEAMODERADA
SEGUROCOM
13-BLOQUEADORES [ Díltíazem J
LEGENDA: Fármaco
[ Fármaco
l
Indicaçãoaprovada Usocomcautela
Figura 19.14
Nlfedlplno Felodlplno
Nlfedlplno
Felodípíno
Nifedlpino Felodlplno
Isradlplno Anlodlplno
Anlodiplno
lsradí
píno Anlodí
píno
lsradiplno Anlodlplno
Algumas aplicações terapêuticas dos bloqueadores de canais de cálcio. IC = insuficiência cardíaca.
Nlcardiplno
Nlcardiplno
Nlcardiplno
238 Clark, Finkel, Rey & Whalen
,,
_
___..
Rubor
,,
Constipação
Vertigem
Cefaleia
Fadiga
Hipotensão
Figura 19.15
Alguns efeitos adversos comuns dos
bloqueadores de canais de cálcio.
D. Farmacocinética
A maioria desses fármacos apresenta meia-vida curta (3 a 8 horas) após
a administração via oral. Preparações de liberação sustentada estão dis­
poníveis e permitem dosificação única por dia. O anlodipino tem meia­
-vida muito longa e não requerformulação de liberação estendida.
E. Efeitos adversos
Constipação ocorre em cerca de 10°
/
o dos pacientes tratados com vera­
pamil. Tontura, cefaleia e sensação de fadiga causada pela redução da
pressão arterial ocorrem com di-hidropiridinas mais frequentemente (Fi­
gura 19.15). O verapamil deve ser evitado em pacientes com insuficiência
cardíaca congestiva ou com bloqueio atrioventricular devido aos efeitos
inotrópicos (força de contração do músculo cardíaco) e dromotrópicos (ve­
locidade de condução) negativos. A nifedipina causa crescimento gengival.
XI. AGENTES BLOQUEADORES
DE ADRENORRECEPTORES a
Prazosina, doxazosina e terazosina produzem bloqueio competitivo de
adrenorreceptores-ex1• Eles diminuem a resistência vascular periférica e re­
duzem a pressão arterial por relaxarem os músculos lisos de artérias e veias.
Esses fármacos causam mudanças mínimas no débito cardíaco, fluxo san­
guíneo renal e velocidade de filtração glomerular. Por isso, não ocorre taqui­
cardia no tratamento prolongado, mas retenção de sal e água. Pode ocorrer
hipotensão postural em alguns indivíduos. Os ex-bloqueadores podem ser
usados para tratar hipertensão leve a moderada e são prescritos associados
ao propranolol e/ou a um diurético para efeitos aditivos. Taquicardia reflexa
e síncope na primeira dose são efeitos adversos praticamente universais. O
uso concomitante de um �-bloqueador pode ser necessário para abrandar a
taquicardia reflexa de curto prazo. Devido ao perfil de efeitos adversos, ao de­
senvolvimento de tolerância e ao advento de anti-hipertensivos mais seguros,
os ex-bloqueadores são usados raramente no tratamento da hipertensão. A
tansu/osina tem sido usada no tratamento da hiperplasia benigna de próstata
por ser um bloqueador-ex1 com maior seletividade pelo músculo prostático.
XII. FÁRMACOS BLOQUEADORES
DE ADRENORRECEPTORES a E p
O labetalol e o carvedilol bloqueiam os receptores ex1, �1 e �2• O carvedilol,
embora eficaz como anti-hipertensivo é usado principalmente no tratamento
da insuficiênciacardíaca.O carvedilo/, bem como o metoprolol, um antagonis­
ta �1 seletivo, revelaram ser capazes de reduzir a morbidade e a mortalidade
associada à insuficiência cardíaca.
XIII. ADRENÉRGICOS DE AÇÃO CENTRAL
A. Clonidina
Esse agonista ex2 diminui o efluxo adrenérgico central, reduzindo a taxa
de disparos dos nervos simpáticos e a quantidade de norepinefrina libe­
rada. A clonidina é usada primariamente no tratamento da hipertensão
leve a moderada que não responde adequadamente ao tratamento com
dois ou mais fármacos. A clonidi
na não reduz o fluxo sanguíneo renal
ou a filtração glomerular e, portanto, é útil no tratamento da hipertensão
complicada por doença renal. A clonidina é bem absorvida após admi-
nistração via oral e é excretada pelos rins. Como pode causar retenção
de sódio e água, a clonidina pode ser administrada associada com um
diurético. Os efeitos adversos geralmente são leves, mas pode produzir
sedação, xerostomia e constipação. Ocorre hipertensão de rebote após
interrupção súbita da clonidi
na. Ela deve ser retirada lentamente se o
clínico deseja mudar o fármaco.
B. a-Metildopa
Esse agonista-a2 é convertido em metilnorepinefrina no SNC, causando
diminuição do efluxo adrenérgico. Isso leva à redução da resistência peri­
féricatotal e à diminuição da pressão arterial. O débito cardíaco e o fluxo
sanguíneo para os órgãos vitais não diminuem. Como o fluxo sanguíneo
aos rins não diminui, a a-meti/dopa apresentaespecial valor no tratamen­
to de pacientes hipertensos com insuficiência renal. Os efeitos adversos
mais comuns do a-meti/dopa são sedação e sonolência. A a-metildopa
tem sido usada em hipertensas grávidas.
XIV. VASODILATADORES
Os relaxantes de músculos lisos de ação direta, como a hidralazina e o mi­
noxidi/, tradicionalmente não são usados como fármacos primários no tra­
tamento da hipertensão. Estes vasodilatadores produzem relaxamento do
músculo liso vascular, o que diminui a resistência e, dessa forma, a pressão
arterial. Parte significativa da ação hipotensora destes fármacos é devido à
ativação de canais de potássio, aumentando o efluxo de potássio e induzindo
hiperpolarização da membranados músculos lisos. Quando a membranaestá
hiperpolarizada, o influxo de cálcio é inibido e o músculo liso arteriolar rela­
xa. Esses fármacos produzem estimulação reflexa do coração, resultando em
aumentos reflexos da contratilidade miocárdica, da frequência cardíaca e do
consumo de oxigênio. Essas ações podem causar angina pectori
s, infarto do
miocárdio ou insuficiência cardíaca em indivíduos predispostos. Os vasodila­
tadores também aumentam a concentração plasmática de renina, causando
retenção de sódio e água. Esses efeitos colaterais indesejados podem ser
bloqueados pelo uso concomitante de um diurético e um J3-bloqueador.
A. Hidralazina
Esse fármaco causa vasodilatação direta, agindo primariamente nas ar­
térias e arteríolas. Isso resulta na diminuição da resistência periférica,
que, por sua vez, inicia a elevação reflexa da frequência cardíaca e do
débito cardíaco. A hidralazina é usada no tratamento de hipertensão mo­
deradamente grave. Ela é administrada quase sempre em associação a
um J3-bloqueador, como o propranolol, metoprololou atenolol (para com­
pensar a taquicardia reflexa), e um diurético (para reduzir a retenção de
sódio). Juntos, os três fármacos diminuem o débito cardíaco, o volume
plasmático e a resistência vascular periférica. A monoterapia com hidrala­
zi
na é um método aceito no controle da hipertensão induzida pela gesta­
ção. Os efeitos adversos do tratamento com hidralazi
na incluem cefaleia,
taquicardia, náusea, sudoração, arritmia e precipitação de angina. Uma
síndrome semelhante ao lúpus pode ocorrer com doses elevadas, mas é
reversível com a interrupção do uso do fármaco.
B. Minoxidil
Esse fármaco causa dilatação dos vasos de resistência (arteríolas), mas
não nos vasos de capacitância (vênulas). O minoxidil é administrado
por via oral para o tratamento de hipertensão grave à maligna, refratá­
ria a outros fármacos. A taquicardia reflexa e a retenção de líquidos po-
Farmacologia Ilustrada 239
240 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Legenda:
Nitroprussiato �
Labeta/oi
Feno/dopam
Nicardipino
Figura 19.16
Início de ação
Duração de ação
Imediato
1 a 2 minutos
5 a 1O minutos
2 a 5 minutos
5a 1O minutos
Tempo até alcançar o pico de efeito e
a duração de ação de alguns fármacos
usados na emergência hipertensiva.
dem ser graves e exigir o uso simultâneo de um diurético de alça e um
�-bloqueador. O minoxidil causa séria retenção de sódio e água, acarre­
tando sobrecarga de volume, edema e insuficiência cardíaca congestiva.
(Nota: otratamento com minoxidiltambém causa hipertricose [crescimen­
to dos pelos do corpo]. Atualmente, esse fármaco é usado topicamente
no tratamento da calvície masculina.)
XV. EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA
A emergência hipertensiva é uma situação rara, mas ameaçadora à sobrevi­
vência, na qual a pressão arterial diastólica é maior do que 150 mmHg (com
pressão arterial sistólica acima de 21O mmHg) em uma pessoa de outra for­
ma saudável ou uma pressão arterial diastólica maior que 130 mmHg em um
indivíduo com complicações preexistentes, como encefalopatia, hemorragia
cerebral, insuficiência ventricular esquerda ou estenose aórtica. O objetivo
terapêutico é a rápida redução da pressão arterial.
A. Nitroprussiato de sódio
O nitroprussiato é administrado por via IV e causa vasodilatação rápida
com taquicardia reflexa. Ele é capaz de reduzir a pressão arterial em to­
dos os pacientes independente da causade hipertensão (Figura 19.16). O
fármaco apresenta poucos efeitosforadosistemavascular, atuando igual­
mente nos músculos lisos arteriais e venosos. (Nota: como o nitroprus­
siato também atua nas veias pode reduzir a pré-carga cardíaca.) O nitro­
prussiatoé rapidamente biotransformado (meia-vida de minutos) e requer
infusão contínua para manter sua ação anti-hipertensiva. O nitroprussiato
de sódio causa poucos efeitos adversos, exceto a hipotensão causada
por dosagem excessiva. A biotransformação do nitroprussiato resulta na
produção de íon cianeto. Embora a toxicidade por cianeto seja rara, ela
pode sertratadacom a infusão de tiossulfato de sódio para produzirtiocia­
nato, que é menos tóxico e é eliminado pelos rins. (Nota: o nitroprussiato
é tóxico se administrado por via oral devido à sua hidrólise a cianeto.) O
nitroprussiato é sensível à luz e, em solução, deve ser protegido da luz.
B. Labetalol
Labetalol é um bloqueador a e � e é administrado em bolus ou infusão
porvia IV nas emergências hipertensivas. O labetalolnão causa taquicar­
dia reflexa. Ele apresenta a contraindicação de ser um bloqueador não
seletivo. A principal limitação é a longa meia-vida, o que impede a titula­
ção rápida (ver Figura 19.16).
C. Fenoldopam
Feno/dopam é um agonista periférico de receptor de dopamina1 admi­
nistrado por infusão IV. Diferentemente dos outros anti-hipertensivos pa­
renterais, o feno/dopam mantém ou aumenta a perfusão renal, enquanto
diminui a pressão arterial. O fenoldopan relaxa principalmente os vasos
renais (artéria renal, arteríolas aferente e eferente) e mesentéricos arte­
riais, com ação vasodilatadora menor nas artérias coronárias e cerebrais
e nas veias (vasos de capacitância). A ação diurética do feno/dopam é
causada principalmente pelo aumento do fluxo de sangue renal. O feno/­
dopam pode ser usado com segurança em todas as emergências hiper­
tensivas e pode ser particularmente benéfico em pacientes com insufi­
ciência renal. O fármaco é contraindicado em pacientes com glaucoma.
D. Nicardipino
Nicardi
pino é um bloqueador de canais de cálcio que pode ser adminis­
trado por infusão IV.A dosagem inicial é 5 mg/h, que pode seraumentada
até o máximo de 15 mg/h. A principal limitação do nicardipino no trata­
mento da emergência hipertensiva é sua longa meia-vida (cerca de 8 h),
que impede a titulação rápida.
-
XVI. HIPERTENSAO RESISTENTE
A hipertensão resistente é a pressão arterial elevada que não responde
ao tratamento. É definida como a pressão arterial que permanece elevada
(acima do objetivo), apesar da administração de um regime ideal de três
fármacos que inclui um diurético. As causas mais comuns de hipertensão re­
sistente são: baixa aderência ao tratamento; consumo excessivo de etanol;
condições concomitantes (diabetes, obesidade, apneia do sono, ingestão
excessiva de sal e/ou síndrome metabólica); uso de simpaticomiméticos,
fármacos anti-inflamatórios não esteroides ou medicação antidepressiva;
fármacos e/ou dosagens insuficientes e uso de fármacos com mecanismos
de ação similares.
-
XVII. POPULAÇOES ESPECIAIS
A. Raça e idade
Há algumas diferenças previsíveis na resposta aos fármacos anti-hiper­
tensivos entre grupos de pacientes, o que pode ser resumido pelas se­
guintes normas (AB/CD):
Pacientes jovens (e brancos) inicie com inibidor de ECA (A) ou
13-bloqueador (B).
• Pacientes idosos (e negros) inicie com bloqueador de canais de cálcio
(C) ou diurético (D).
B. Gestação
A hipertensão leve associada com a pré-eclâmpsia não requertratamen­
to, geralmente. Hipertensão grave (pressão sistólica > 150 mmHg) e
pressão diastólica > 100 mmgHg) é tratada com labetalol de modo agu­
do para prevenir complicações cerebrovasculares maternas. Evite inibi­
dores da ECA e aliquerino, porque esses fármacos podem causar lesões
ou morte fetais. O nitroprussieto é contraindicado nos estágios finais da
gestação devido à possível intoxicação fetal com cianeto se usado por
mais de 4 horas.
XVIII. TRATAMENTO COMBINADO
O tratamento combinado da hipertensão com fármacos separados ou as­
sociados em dose fixa pode reduzir a pressão arterial mais rapidamente e
com efeitos adversos mínimos. Deve-se considerar iniciar o tratamento com
dois anti-hipertensivos naqueles pacientes cuja pressão arterial esteja 20/1O
mmHg acima do objetivo. A associação de baixas doses de um diurético tia­
zídico com um 13-bloqueador, um inibidor da ECA ou um BRA tem efeitos
sinérgicos e controla a pressão arterial em até 85°
/
o dos pacientes. Algumas
preparações disponíveis são apresentadas na Figura 19.17.
Farmacologia Ilustrada 241
ASSOCIAÇÃOBLOQUEADORp-
DIURÉTICO
Atenolol + c/ortalldona
Bisopro/oi + hldroclortlazlda
Metoprolol + hldroclortlazlda
Nado/oi + bendroflumetlazlda
Propranolol + hldroclortlazlda
ASSOCIAÇÃOIECA-DIURÉTICO
Benazeprll + hldroclortlazlda
Captoprll + hldroclortlazlda
Enalaprll + hldroclortlazlda
Fosinoprll + hldroclortlazlda
Moexiprll + hldroclortlazlda
Lisinoprll + hldroclortlazlda
Quinaprll + hldroclortlazlda
ASSOCIAÇÃOBRA-DIURÉTICO
Candesartana + hldroclortlazlda
Eprosartana + hldroclortlazlda
lrbesartana + hldroclortlazlda
Losartana + hldroclortlazlda
Olmesartana + hldroclortlazlda
Telmisartana + hldroclortlazlda
Valsartana + hldroclortlazlda
Figura 19.17
Resumo das associações de fármacos
anti-hipertensivos. IECA = inibidores
da enzima conversora de angiotensina;
BRA = bloqueador de receptor de an­
giotensina.
242 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
19.1 Um homem de 45 anos foi diagnosticado como hiperten­
so e iniciou monoterapia destinada a reduzir a resistência
periférica e prevenir a retenção de NaCI e água. Ele de­
senvolveu tosse persistente. Qual dos seguintes fármacos
poderiater os mesmos benefícios, mas sem causartosse?
A. Losartana
B. Nifedipino
C. Prazosina
D. Propranolol
E. Enalapril
19.2 Qual dos seguintes fármacos pode causar uma queda sú­
bita na pressão arterial e desfalecimento na administração
inicial?
A. Atenolol
B. Hidroclorotiazida
C. Metoprolol
D. Prazosina
E. Verapamil
19.3 Qual dos seguintes fármacos anti-hipertensivos pode pro­
vocar uma crise hipertensiva após a retirada abrupta do
tratamento?
A. Clonidina
B. Diltiazem
C. Enalapril
D. Losartana
E. Hidroclorotiazida
19.4 Um paciente hipertenso de 48 anos vem sendo tratado
com sucesso com um diurético tiazídico durante os últimos
cinco anos. Nos últimos três meses, sua pressão diastóli­
ca aumentou continuamente, e ele iniciou uma medicação
adicional contra a hipertensão. Ele se queixa de várias ve­
zes não ter conseguido obter ereção e faz algum tempo
que não consegue completar três sets de uma partida de
tênis. Qual dos seguintes fármacos é mais provavelmente
a segunda medicação anti-hipertensiva deste paciente?
A. Captopril
B. Losartana
C. Minoxidil
D. Metoprolol
E. Nifedipino
Resposta correta = A. A tosse é o efeito adverso de um inibidor da
ECA. Losartana é um bloqueador de receptor de angiotensina que
apresenta as mesmas vantagens do inibidor da ECA, mas não pro­
vocará tosse. Nifedipino, prazosina e propranolol não causam este
efeito adverso. O enalapril também causatosse.
Resposta correta = D.A prazosinaproduz hipotensãona primeira ad­
ministração, presumivelmente pelo bloqueio de receptores a1• Esse
efeito é minimizado iniciando a administração do fármaco em doses
pequenas e divididas.Os outrosfármacos não apresentam esse efei­
to adverso.
Resposta correta = A. Ocorre aumento da atividade do sistema ner­
voso simpático se o tratamento com clonidina é interrompido abrup­
tamente após administração prolongada. Pode ocorrer aumento des­
controlado da pressãoarterial.A dosagem daclonidina deve diminuir
gradualmente enquanto outro fármaco anti-hipertensivo é iniciado.
Os outros fármacos da lista não produzem esse fenômeno.
Resposta correta = D. O perfil de efeitos adversos dos �-bloquea­
dores como o metoprolol é caracterizado pela interferência no de­
sempenho sexual e pela redução da tolerância aoexercício. Nenhum
dos outros fármacos é capazde produziressa combinação de efeitos
adversos.
,
ar acos
o
1. RESUMO
Este capítulo descreve os fármacos que são úteis no tratamento de importan­
tes disfunções do sangue: trombose, sangramento, problemas de circulação
e anemia. Trombose - a formação de um coágulo indesejado dentro dos va­
sos sanguíneos - é a anormalidade mais comum da hemostasia. Os distúrbios
trombóticos incluem infarto agudo do miocárdio, trombose de veias profundas,
embolia pulmonar e derrame cerebral isquêmico agudo. Estes são tratados
com fármacos anticoagulantes e os fibrinolíticos. Os distúrbios de sangramento
envolvendo falhas da hemostasia são menos comuns que as doenças trombo­
embólicas. Esses distúrbios incluem hemofilia, que é tratada com transfusão
de Fator VIII preparado por técnicas de DNA recombinante, e deficiência de
vitamina K, que étratada com suplemento dessa vitamina na dieta.As anemias
causadas por deficiências nutricionais, como a comumente encontrada ane­
mia por deficiência de ferro, podem ser tratadas com suplementação na dieta
ou farmacêutica. Contudo, indivíduos com anemias de base genética, como a
anemia falciforme, podem se beneficiar de tratamento adicional. A Figura 20.1
resume os fármacos usados no tratamento de disfunções no sangue.
li. TROMBO VERSUS ÊMBOLO
,
E importante diferenciartrombo de êmbolo: um coágulo que adere a uma pa-
rede vascular é denominado "trombo", e um coágulo intravascular que flutua
no sangue é denominado "êmbolo".Assim, um trombo destacado setorna um
êmbolo. Tanto o trombo quanto o êmbolo são perigosos, pois podem ocluir o
vaso e privar os tecidos de oxigênio e nutrientes. A trombose arterial ocor­
re mais frequentemente em vasos de calibre médio tornados trombogênicos
por lesões superficiais das células endoteliais causadas por aterosclerose. A
trombose arterial, em geral, consiste em um coágulo rico em plaquetas. Em
contraste, um trombo venoso é iniciado pela estase do sangue ou ativação
inapropriada da cascata da coagulação, comumente como resultado de um
defeito nos mecanismos de defesa da hemostasia normal. Em geral, a trom­
bose venosaenvolve um coágulo que é rico em fibrina, com menos plaquetas
do que as observadas no coágulo arterial.
INIBIDORESPLAQUETÁRIOS
Abci
ximabe
Acido acetilsalic11ico
Cilostazol
C/opidogrel
Dipir
idamol
Eptifibatida
Prasugrel
Ticlopidina
Tirofibana
ANTICOAGULANTES
Argatrobana
Dabigatrana
Dalteparina
Enoxaparina
Fondaparinux
Heparina
Lepirudina
Tinzaparina
Varfarina
FÁRMACOSTROMBOLÍTICOS
Altep/ase (tRA)
Retep/ase
Estreptoquinase
Uroquinase
TRATAMENTODASHEMORRAGIAS
•
Acido aminocaproico
Aprotinina
Sulfato deprotamina
•
Acido tranexâmico
Vitamina K(fitonadiona)
TRATAMENTODAANEMIA
Cianocobalamina (vitamina 812)
Eritropoietina
•
Acido fálico
Ferro
TRATAMENTODAANEMIAFALCIFORME
Figura 20.1
Hidroxiurei
a
Pentoxifilina
Resumo dos fármacos usados no trata­
mento das disfunções do sangue.
244 Clark, Finkel, Rey & Whalen
OPlaquetas em repouso
Célulasendoteliais
Plaquetas
.. intactasesadias
em repouso ........._�. ::-
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: ··...
.: ···.... colágeno
: ··...
: ·····
. ..
: ··...
: ···..
: ·····
ReceptoresdeGP llb/llla
inativos
Prostaciclina
Óxido nítrico
Célulasendoteliais
• Oendotélio intacto e
sadio libera prostaciclina
no plasma.
• A prostaciclinase liga aos recep­
toresde membrana das plaquetas,
causando síntese deAMPc.
• O AMPcestabiliza os receptores
de GP llb/llla inativose inibe a
liberação degrânulos contendo
agentesde aglutinação
plaquetária ou Ca2•.
EJ Adesão plaquetária
• Plaque
t
as em repouso
�'
•
�'
••
As plaquetasativadas
cobrem e seaderem à
superfíciesubendotelial
exposta do endotélio
lesado
Fibras decolágeno
Figura 20.2
Ili. RESPOSTA PLAQUETÁRIA À LESÃO VASCULAR
O traumatismo físico ao sistema vascular, como uma punção ou um corte,
inicia uma série complexa de interações entre plaquetas, células endoteliais
e a cascata da coagulação. Estas interações levam à hemostasia ou à in­
terrupção na perda de sangue a partir de vasos sanguineos danificados. As
plaquetas são centrais neste processo. Inicialmente ocorre um vasoespasmo
no vaso danificado para prevenir perda de sangue adicional. A etapa seguinte
envolve a formação de tampão de fibrina e plaquetas (coágulo) no local da
punção. A criação de um trombo indesejado envolve várias das mesmas eta­
pas da coagulação, exceto que o estímulo disparador é uma condição patoló­
gica no sistema vascular, em vez de um traumatismo físico externo.
A. Plaquetas em repouso
As plaquetas atuam como sentinelas vasculares, monitorando a integri­
dade do endotélio. Na ausênciade lesão, as plaquetas em repouso circu­
lam livremente, pois a sinalização química indica que o sistema vascular
não está lesado (Figura 20.2).
1. Mediadores químicos sintetizados pelas células endoteliais.
Mediadores químicos, como prostaciclinas e óxido nítrico, são sin­
tetizados pelas células endoteliais intactas e atuam como inibidores
da aglutinação das plaquetas. As prostaciclinas (prostaglandina 12)
atuam ligando-se a receptores de membrana plaquetários que es­
tão acoplados à síntese de AMPe• um mensageiro intracelular
1
(ver
Figura 20.2). Níveis elevados de AMPe intracelular estão associados
a uma diminuição de cálcio intracelular. Isso evita a aglutinação das
plaquetas e a subsequente liberação de fatores de agregação pla­
quetária. (Nota: o fármaco di
piridamol inibe a fosfodiesterase, que
inativa o AMPe e, assim, prolonga sua vida ativa.) As células endote­
liais danificadas sintetizam menos prostaciclinas, resultando em uma
1 Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre mensagens intracelulares.
O Ativação plaquetária m Aglutinação plaquetária
,•
.·
.
••••
:/.-,.. TromboxanoA2
.----=, ADP
Serotonina
PAF
Mediadoresquímicos
liberados pelas plaquetas
• • �• • •
c:c::c1
 c::c:::o
�
I
As plaquetas ativadas
liberam mediadores químicos
Plaquetas
recrutadas
para dentro do
tampão plaquetário
• •
••
•
•
•••
Tromboxano Az
ADP
Serotonina
PAF •
•
• .
.
.
•
•
•
•••
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•
•
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··
·...··.....
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,•
.·
••
•••••
••••
.··
••••
••
·····...
••••••••••••
Formação do coágulo hemostático. GP = glicoproteína; ATP = trifosfato de adenosina; AMPe= monofosfato cíclico de
adenosina; ADP = difosfato de adenosina; PAF = fator de ativação plaquetário. (Conti
nua na próxima página.)
redução localizada nos níveis de prostaciclina. A ligação da prostaci­
clina aos receptores plaquetários diminui, resultando em níveis mais
baixos de AMPe intracelular, o que leva à aglutinação plaquetária.
2. Papéis da trombina, do tromboxano e do colágeno. A membrana
das plaquetas também tem receptores que podem ligar trombina,
tromboxanos
2
e colágeno exposto
3
• Nos vasos normais intactos, os
níveis de trombina e tromboxano são baixos, e o endotélio intacto
cobre o colágeno nas camadas subendoteliais. Os correspondentes
receptores das plaquetas estão, portanto, desocupados e permane­
cem inativos; como consequência, não se inicia ativação ou agrega­
ção plaquetária. Contudo, quando ocupados, cada um desses tipos
de receptores inicia uma série de reações que levam à liberação na
circulação de grânulos intracelulares pelas plaquetas. Por fim, isso
estimula a aglutinação das plaquetas.
B. Adesão plaquetária
Quando o endotélio está lesado, as plaquetas aderem ao colágeno do
subendotélio exposto e praticamente o cobrem (ver Figura 20.2). Isso
inicia uma série complexa de reações químicas, resultando na ativação
plaquetária.
C. Ativação plaquetária
.
·
.
.
..
........
.....
Os receptores na superfície das plaquetas aderentes são ativados pelo
colágeno do tecido conectivo subjacente. Isso causa alterações morfoló­
gicas nas plaquetas (Figura 20.3) e a liberação de grânulos de plaquetas
contendo mediadores químicos, como ADP, tromboxano A2, serotonina,
fator de aglutinação plaquetária e trombina (ver Figura 20.2). Essas mo­
léculas sinalizadoras se ligam aos receptores na membrana externa das
.
..
2 Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre síntese de tromboxanos.
3 Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre colágeno.
TromboxanoA2
Trombina ADP
FlbrlnogAnlo
Figura 20.2 (Continuação)
Formação do coágulo hemostático. PAF = Fator de ativação plaquetário.
Farmacologia Ilustrada 245
m Fibrinólise
Ativadorde
plasminogêniotecidual
.!J.
PI · ê · 0 PI · Peptídeos
asm1nog n10 "' asm1na /defibrina
� .!J. �
���
,
_
�
_
- �
------
� �
r.11 Formação do tampão
li:il de fibrina
� Protrombina
t
Trombina
��
���
:c::os
� �
coagulação 0 o 0 Fibrinogênio "' Fibrina
�
no plasma
O <·""'"' Heparina
Coágulofibrina-plaqueta
Receptoresde
GP llb/lllaativos
�
s
,
�

 

 

���
Trombina,tromboxano A2,ADPe outros
mediadores liberados das plaquetasativadas
se ligam ao colágeno do subendotélioe
aumentam os níveis deCa2•.
246 Clark,Finkel,Rey& Whalen
Plaquetaemrepouso
Plaquetaativada
Figura 20.3
Micrografias por escaneio eletrônico de
plaquetas.
�AUvaçio plaquotério
� Fibrinogênio
Aglutinação plaquetária t
� 4
Receptores
ativos �4
Figura 20.4
Ativação e aglutinação de plaquetas.
GP = glicoproteína.
Figura 20.5
Acido
acetllsallcDlco
O ácido acetilsalicílico inibe irreversivel­
mente a ciclo-oxigenase-1 .
plaquetas em repouso circulantes vizinhas. Esses receptores funcionam
como sensores que são ativados pelos sinais enviados das plaquetas
aderentes. As plaquetas previamente dormentes se tornam ativas e ini­
ciam a aglutinação. Estas ações são mediadas por vários sistemas men­
sageiros que, no final, resultam na elevação dos níveis de Ca
2
+ e na dimi­
nuição da concentração de AMPe dentro da plaqueta.
D. Aglutinação das plaquetas
O aumento do cálcio citosólico que acompanha a ativação é devido à
liberação de estoques sequestrados no interior da plaqueta (ver Figura
20.2). Isso leva 1) à liberação de grânulos de plaquetas contendo media­
dores, como ADP e serotonina, que ativam outras plaquetas; 2) à ativa­
ção da síntese de tromboxano A2; 3) à ativação dos receptores de glico­
proteínas (GP) llb/llla que ligam fibrinogênio e, finalmente, regulam as
interações plaquetas-plaquetas e a formação dotrombo (ver Figura 20.2).
O fibrinogênio, uma GP plasmática solúvel, liga-se simultaneamente aos
receptores de GP llb/llla de duas plaquetas vizinhas, resultando na liga­
ção cruzada das plaquetas e na sua aglutinação. Isso leva a uma avalan­
che de aglutinação plaquetária, pois cada plaqueta ativada pode recrutar
outras plaquetas (Figura 20.4).
E. Formação do coágulo
A estimulação local da cascata de coagulação pelos fatores teciduais li­
berados dos tecidos lesados e pelos mediadores da superfície das pla­
quetas resulta na formação de trombina (Fator llA), uma serina protease.
A trombina, por sua vez, catalisa a hidrólise do fibrinogênio em fibrina,
que é incorporada no tampão. Ligações cruzadas subsequentes das tiras
de fibrina estabilizam o coágulo e formam um tampão fibrina-plaquetas
hemostático (ver Figura 20.2).
F. Fibrinólise
Durante a formação do tampão, a via fibrinolítica é ativada localmente. O
plasminogênio é processado enzimaticamente à plasmina (fibrinolisina)
pelos ativadores de plasminogênio nos tecidos (ver Figura 20.2). A pias­
mina limita o crescimento do coágulo e dissolve a rede de fibrina à medi­
da que ocorre a cicatrização. Atualmente, inúmeras enzimas fibrinolíticas
estão disponíveis para otratamento de infarto do miocárdio, êmbolos pul­
monares e choques isquêmicos.
IV. INIBIDORES DA AGLUTINAÇÃO PLAQUETÁRIA
Os inibidores da aglutinação plaquetária diminuem a formação ou a ação dos
sinais químicos promotores da aglutinação. A última etapa nessa resposta
ao traumatismo vascular depende de uma família de receptores de GP de
membrana que - após a ativação - podem ligar proteínas adesivas, como
o fibrinogênio, o fator de von Willebrand e a fibronectina. O mais importante
desses receptores é o GP llb/llla que, no final, regula a interação plaqueta­
-plaqueta e a formação do trombo. Assim, agentes ativadores de plaquetas,
como tromboxano A2, ADP, trombina, serotonina e colágeno, promovem as
alterações conformacionais necessárias para o receptor de GP llb/llla fixar
os ligantes, particularmente o fibrinogênio. O fibrinogênio simultaneamente
se liga aos receptores de GP llb/llla em duas plaquetas vizinhas, resultando
na ligação cruzada entre as plaquetas e na aglutinação (ver Figura 20.4). Os
inibidores da aglutinação de plaquetas descritos a seguir inibem a ciclo-oxige­
nase-1 (COX-1) ou bloqueiam os receptores de GP llb/llla ou ADP, interferin­
do, assim, no sinal que promove a aglutinação plaquetária. Como estas subs-
tâncias têm diferentes mecanismos de ação, efeitos sinérgicos ou aditivos
podem ser obtidos quando fármacos de classes diferentes são associados.
Esses fármacos são benéficos na prevenção e no tratamento de doenças
cardiovasculares oclusivas, na manutenção de transplantes vasculares e na
patência arterial e como auxiliares aos inibidores de trombina ou tratamento
trombolítico no infarto do miocárdio.
,
A. Acido acetilsalicílico
A estimulaçãodas plaquetas portrombina, colágeno eADP resulta naativa­
ção das fosfolipases de membrana das plaquetas que liberam ácido araqui­
dônico dos fosfolipídeos da membrana.
4
O ácido araquidônico é convertido
inicialmente em prostaglandina H2 pela COX-1 (Figura 20.5), e essa étrans­
formada em tromboxano A2, que é liberado no plasma. O tromboxano A2
produzido pelas plaquetas aglutinantes promove o processo de aglutinação
que é essencial para a rápida formação do tampão hemostático. O ácido
acetilsalicílico (AAS) inibe a síntese de tromboxano� a partirdo ácido ara­
quidônico nas plaquetas acetilando irreversivelmente a serina, impedindo
o araquidonato ligar-se no sítio ativo e, assim, inibe a COX-1 (Figura 20.6).
Isso desloca o equilíbrio dos mediadores químicos em favordos efeitos an­
tiaglutinantes da prostaciclina (PGl2), impedindo, assim, a aglutinação pla­
quetária. O efeito inibitório é rápido, aparentemente ocorrendo na circulação
porta. A supressão da tromboxano A2sintetase e a consequente supressão
da aglutinação das plaquetas induzida pelo AASpersistem por toda a vida
da plaqueta anucleada - que é 7 a 1O dias aproximadamente. A adminis­
tração repetida do AAS tem efeito acumulativo na função das plaquetas.
O AAS atualmente é usado no tratamento profilático da isquemia cerebral
transitória, para reduzir a incidência de infartos do miocárdio recorrentes e
para diminuir a mortalidade nos pacientes pré- e pós-infartados. A dosa­
gem de AASrecomendada varia de 50 a 325 mg, sendo determinada pelos
efeitos adversos. Dosagens mais altas de AASaumenta a toxicidade, bem
como a probabilidade de o AAS inibir também a produção de prostaciclina.
A 'aspirina do bebê'como era conhecida tem 81 mg de AASe é a mais em­
pregada nos EUA. O tempo de sangramento é alongado com o tratamento
com AAS, causando complicações que incluem um aumento da incidência
de choque hemorrágico, bem como de sangramento gastrintestinal (GI), es­
pecialmente com as dosagens mais elevadas.OAASé usado, comfrequên­
cia, em combinação com outros fármacos anticoagulantes, como heparina
ou clopidogrel. Fármacos anti-inflamatórios não esteroides (AINES), como
o ibuprofeno, inibem a COX-1 por competição transitória no sítio catalítico.
O ibuprofeno, setomadoconcomitante com AASou duas horasantes, pode
impediro acesso do AASao resíduo serina e, assim, antagonizar a inibição
das plaquetas pelo AAS. Por isso, o AAS deve ser ingerido 30 minutos no
mínimo antes ou pelo menos 8 horas após o ibuprofeno. Embora o celecoxi­
be (um inibidorseletivo de COX-2;ver Capítulo 39) não interfira naatividade
antiaglutinante do AAS, háalgumaevidência de que ele pode contribuirpara
os eventos cardiovasculares deslocando o equilíbrio dos mediadores quí­
micos em favor do tromboxano A2• O AASé o único AINE que tem eficácia
antitrombótica irreversível.
B. Ticlopidina, clopidogrel e prasugrel
Ticlopidina, clopidogrel e prasugrel são tienopiridinas muito relacionadas
que também bloqueiam a aqlutinação das plaquetas, mas por mecanis­
mo diferente do AAS.
4Ver Bioquí
mica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre a função da fosfolipase ligada à membrana.
Farmacologia Ilustrada 247
Ciclo-oxigenase-1
plaquetária
:º •
•
•
•
•
•
•
•
Ciclo-oxigenase-1 ·•·.
.
.
COOH
?'
I
O,
C
_...CH3
� g
Ácido
acetilsalicl1ico
COOH
?'
I
OH
�
acetilada ·
.
.
•
···...
··.....··.
�;do sal;cmco
Polipeptídeos da
ciclo-oxigenase-1
H � H
-N- CH -C -N- CH -
1 11
CH2 O
"
O,
C
,.. CH3
li
o
Figura 20.6
Cadeia
lateral
serina
Acetilação da ciclo-oxigenase-1 pelo
AAS.
� 0 �
A.
�ca2•
� �
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--
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1
1
1
1
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f
f
ffUtllUI . • . IUUUUU

�
Receptores
GPdellb/llla
ativos ADP
t
•..,
..,,,. ina
Clopidogrel
Prasugrel
Células endoteliais lesadas
A ticlopidina, o clopidogreleo
prasugrelinibem a aglutinação
plaquetária mediada porADP.
Figura 20.7
Mecanismo de ação de ticlopidina, c/o­
pidogreleprasugre/. GP= glicoproteína.
248 Clark, Finkel, Rey & Whalen
1 . Mecanismo de ação. Esses fármacos inibem irreversivelmente a
ligação do ADP aos seus receptores nas plaquetas e, assim, inibem
a ativação dos receptores de GP llb/llla necessários para que as
plaquetas se liguem ao fibrinogênio e umas às outras (Figura 20.7).
2. Usos terapêuticos. Embora a ticlopidina e o clopidogrel sejam si­
milares na estrutura e no mecanismo de ação, seus usos terapêu­
ticos são diferentes. A ticlopidi
na está aprovada para a prevenção
de ataques isquêmicos transitórios e derrames aos pacientes com
evento trombótico cerebral prévio. Ela também é empregada como
fármaco auxiliar com o AASapós a implantação de stent coronário
para diminuir a incidência de trombose pelo stent. Todavia, devido
às reações adversas hematológicas com risco de vida, incluindo
neutropenia e agranulocitose, púrpura trombocitopênica trombótica
(PTT) e anemia aplástica, em geral a ticlopidina é reservada aos
pacientes intolerantes a outros tratamentos. O clopidogrel é apro­
vado para a prevenção de eventos ateroscleróticos que seguem ao
infarto do miocárdio recente, derrame e doença arterial periférica
estabelecida. Ele também está aprovado para a profilaxia de even­
tos trombóticos na síndrome coronária aguda (angina instável ou
infarto do miocárdio não onda Q). Além disso, o clopidogrelé usado
para prevenir eventos trombóticos associados com intervenção co­
ronária percutânea com ou sem stentcoronário. Comparado com a
ticlopidina, o clopidogrelé o fármaco preferido nos eventos isquêmi­
cos cardíacos, porque existem mais dados apoiando seu uso nos
pacientes cardíacos. O clopidogreltambém tem perfil de efeitos ad­
versos melhor, embora também possa provocar PTT. O prasugrel é
o antagonista de receptor ADP mais recente. Está aprovado para
diminuiros eventos trombóticos cardiovasculares em pacientes com
síndrome coronária aguda (angina instável, infarto do miocárdio
sem elevação ST e infartos do miocárdio com elevação ST que é
tratada com intervenção coronária percutânea). Em triagens clíni­
cas, o prasugrelfoi mais eficaz do que o c/opidogrel na redução da
morte cardiovascular, ataque cardíaco não fatal e derrame nãofatal.
3. Farmacocinética. Os alimentos interferem na absorção da ticlopi­
dina, mas não na do clopidogrel e prasugrel. Após ingestão oral, os
três fármacos são extensamente ligados às proteínas plasmáticas.
Eles sofrem biotransformação hepática pelo sistema citocromo P450
(CIP450) a metabólitos ativos. O efeito máximo é alcançado em 3 a
5 dias; mas quando o tratamento é suspenso, o sistema plaquetário
requer umtempo parase recuperar.A eliminaçãodosfármacose seus
metabólitos ocorrem porvia renal e fecal.A ticlopidinatem umaadver­
tência em tarja preta, do FDA, quanto aos graves efeitos adversos he­
matológicos associados com seu uso. Os três fármacos prolongam o
sangramento e não possuem antídoto, mas o sangramento é mais co­
mum com prasugrel. Os graves efeitos adversos da ticlopidina incluem
neutropenia, PTI e anemia aplástica exigindo frequente monitoração
do sangue, especialmente durante os três primeiros meses de trata­
mento. O clopidogrelcausa menos efeitos adversos, e a incidência de
neutropenia é menor. Contudo, PTTfoi registrada como um dosefeitos
adversos para o clopidrogrele a ticlopidina. Embora não descrita para
o prasugrel, aTTP é possível. O c/opidogreltem advertencia em tarja
preta para os pacientes que são maus biotransformadores. O clopido­
grel é um pró-fármaco e seu efeito terapêutico depende inteiramen­
te no metabólito ativo.O polimorfismo genético do CIP450 2C19 que
transforma primariamente o clopidogrel leva a menos metabólito ativo,
propriedades farmacocinéticas variáveis e resposta clínica reduzida
em pacientes que são maus biotransformadores. Os denominados
"maus biotransformadores" do clopidogrel com síndrome coronária
aguda ou que estão sob intervenção conorária subcutânea revelaram
as maiores taxas de eventos cardiovasculares quando tratados com
dosagens-padrão de clopidogrel comparado com metabolizadores
normais. Atualmente há testes para identificar maus biotransforma­
dores, e é recomendado que outros antiplaquetários ou estratégias
sejam usadas. O principal efeito adverso do prasugrelé a hemorragia,
que pode serfatal. O prasugreltem advertência em tarja preta quanto
a hemorragias, derrames e suspensão abrupta do uso em pacientes
que serão submetidos à intervenção coronária percutânea. Como es­
tes fármacos podem inibir o sistema CIP450, eles podem interferir na
biotransformação de fármacos como fenitoína, varfarina, uvastatina e
tamoxifeno, se ingeridos concomitantemente.Jáfoi relatadatoxicidade
pela fenitoí
na quando tomada com ticlopidina.
C. Abciximabe
O conhecimento do papel decisivo do receptor plaquetário de GP llb/llla
no estímulo da aglutinação das plaquetas gerou esforços para bloquear
esse receptor nas plaquetas ativadas. Por sua vez, isso levou ao desen­
volvimento de um anticorpo monoclonal quimérico, abci
ximabe, composto
de regiões constantes da imunoglobulina humana ligadas aos fragmentos
Fab de um anticorpo monoclonal murino contra o complexo GP llb/llla.
Ligando-se ao GP llb/llla, o anticorpo bloqueia a ligação do fibrinogênio
e do fator de von Willebrand e, consequentemente, não acontece a aglu­
tinação (Figura 20.8). O abciximabe é administrado por via IV junto com
hepari
na ou AAS como um auxiliar nas intervenções coronarianas per­
cutâneas para prevenção das complicações isquêmicas cardíacas. Está
aprovado também para a angina instável e para uso profilático no infarto
do miocárdio. Após interromper a infusão, a função plaquetária gradual­
mente retorna ao normal, com o efeito antiplaquetário persistindo por 24
a 48 horas. O principal efeito adverso do tratamento com abci
ximabe é o
potencial para sangramentos, especialmente se o fármaco é usado com
anticoagulantes ou se o paciente tem uma condição clínica hemorrágica.
O abci
ximabe é caro, limitando seu uso em algumas situações.
D. Eptifibatida e tirofibana
Esses dois fármacos antiplaquetários atuam de forma similar ao abcixi­
mabe -bloqueando o receptor de GP llb/llla (ver Figura 20.8). A eptifiba­
tida é um peptídeo cíclico que se liga ao GP llb/llla no local de interação
com a sequência arginina-glicina-ácido aspártico do fibrinogênio. O tiro­
fibana não é um peptídeo, mas bloqueia o mesmo local que a eptifibati­
da. Esses fármacos, como o abciximabe, podem diminuir a incidência de
complicaçõestrombóticas associadas a síndromes coronarianas agudas.
Quando a infusão IV é suspensa, esses fármacos são rapidamente elimi­
nados do plasma, mas seu efeito pode persistir poraté 4 horas. (Nota: só
existem formulações IV, pois as preparações orais destes bloqueadores
de GP llb/ Ilia são muito tóxicas.) A eptifibatida e seu metabólito são ex­
cretados pelos rins. A tirofibana é excretada, principalmente inalterada,
pelos rins e nas fezes. O principal efeito adverso dos dois fármacos é o
sangramento. A Figura 20.9 resume os efeitos dos antagonistas de re­
ceptor de GP llb/llla na mortalidade e no infarto do miocárdio.
E. Dipiridamol
O dipiridamol, um vasodilatador coronariano, é usado profilaticamen­
te no tratamento da angina pectoris. Em geral, ele é administrado com
AAS ou com varfarina. O di
piridamolaumenta os níveis intracelulares de
AMPc inibindo o nucleotídeo cíclico fosfodiesterase, resultando em dimi-
Farmacologia Ilustrada 249
Receptoresde
GPllb/llla
ativos
o
Fibrinogênio ) O O
-
-
-
�
�
�
�
�
r----7 'lltJ
111111.1
Abci
ximabe, eptifibatida e
tirofibana bloqueiam os recep­
tores de GP llb/llladas plaquetas.
Figura 20.8
Mecanismo de ação dos bloqueadores
dos receptores de glicoproteína (GP)
llb/llla.
MORTE OU INFARTO DO
MIOCÁRDIO NÃO FATAL
Abci
xi
mabe
Eptifibatida
Tirofibana
Legenda:
Figura 20.9
- Tratamento-padrão
mais antagonistas de
receptores de GP llb/llla
Tratamento-padrão
Efeitos dos antagonistas de receptores
de glicoproteína (GP) llb/llla na inci­
dência de morte ou infarto do miocárdio
não fatal após angioplastia coronariana
transluminal percutânea. (Nota: os dados
são de vários estudos; assim, a incidên­
cia registrada de complicações com o
tratamento-padrão, como com a hepari­
na, não é a mesma para cada fármaco.)
250 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Estesfatoressão
inativados pelo
complexo heparina­
·antitrombina
Via intrínseca
XII �
�
o
�
XI
/c1
m
o
�
/41"
o
EI ' Xa
)
.,
"
A síntese destes
fatores é inibida
peloscumarfnicos
Via
extrínseca
VIia

o
,
'
EI
Protrombina (li)
o
�( )
-
.
Tr
ombina (lla)
o �
�
Fibrinogênio ---• Abrina:;
;�
Figura 20.1O
Formação do coágulo de fibrina.
nuição da síntese de tromboxano A2• Ele pode potencializar o efeito da
PGl2 no antagonismo da adesividade das plaquetas e, assim, diminuir a
aderência das plaquetas às superfícies trombogênicas (ver Figura 20.2).
Os escassos resultados disponíveis sugerem que o dipiridamol acres­
centa uma contribuição antitrombótica marginal comparado com a ação
do AAS. Contudo, quando associado à varfarina, o dipiridamol é eficaz
na inibição da embolia das válvulas cardíacas prostéticas. O dipiridamol
é descrito como "inadequado" para uso em idosos como fármaco único
devido aos problemas GI e de ortostasia.
F. Cilostazol
V.
O cilostazolé um antiplaquetário oral que tem também atividade vasodi­
latadora. É aprovado pelo FDA para diminuir os sintomas da claudicação
intermitente. Os usos não aprovados pelo FDA do cilostazol incluem o
tratamento da doença de Buerger, a esclerose vascular complicadora do
diabetes melito e a melhora dos sintomas em pacientes com isquemia
cerebral crônica. O cilostazolé estensamente biotransformado no fígado,
e a via primária de eliminação é com a urina e as fezes. Dois de seus
metabólitos são ativos. O cilostazol e seus metabólitos ativos inibem a
fosfodiesterase tipo Ili que previne a degradação do AMPe, aumentando,
assim, os níveis de AMPe nas plaquetas e tecidosvasculares. O aumento
nos níveis de AMPe nas plaquetas e nos vasos previne a aglutinação das
plaquetas e promove a vasodilatação respectivamente. O cilostazolaltera
de modo favorável o perfil lipídico, causando diminuição nos triglicérides
plasmáticos e aumentando a lipoproteína de alta densidade colesterol.
Os efeitos adversos mais comuns observados com cilostazol são cefa­
leia e efeitos GI (diarreia, fezes anormais, dispepsia e dor abdominal).
O cilostazol e seus metabólitos são contraindicados em pacientes com
insuficiência cardíaca congestiva de qualquer gravidade. Deve ser usado
com cautela em pacientes que usam outros inibidores de fosfodiesterase
Ili e pacientes com a história de qualquer doença cardíaca.
-
COAGULAÇAO DO SANGUE
O processo de coagulação que gera trombina consiste em duas vias inter-re­
lacionadas - os sistemas extrínseco e intrínseco. O sistema extrínseco, que
provavelmente é o mais importante in vivo, é iniciado pela ativação do Fator
de coagulação VII por um fator tecidual ou tromboplastina. O fator tecidual é
uma lipoproteínaexpressa pelas células endoteliais ativadas, leucócitos ativa­
dos, fibroblastos subendoteliais e células musculares lisas subendoteliais no
local da lesão vascular. O sistema intrínseco é iniciado pela ativação do Fator
de coagulaçãoXI1, seguindo seu contato in vitrocom vidro ou superfícies alta­
mente carregadas. ln vivo, estavia pode ser iniciada pelo contato do FatorXII
com células superficiais contendo fosfolipídeos.
A. Formação da fibrina
O sistema extrínseco e o intrínseco envolvem uma cascata de reações
enzimáticas quetransformam sequencialmenteváriosfatores plasmáticos
(pró-enzimas) em suas formas ativas (enzimas). No final, eles produzem
o Fator Xa, que converte protrombina (Fator li) em trombina (Fator lla;
Figura 20.1O). A trombina tem um papel-chave na coagulação, pois ela é
responsável pela geração de fibrina, que é a GP que forma a matriz tipo
tela do coágulo de sangue. Se a trombina não é formada ou sua função é
impedida (p. ex., pela antitrombina Ili), a coagulação é inibida. Cada etapa
do processo de ativação é catalítico; por exemplo, uma unidade de Fator
ativado Xa pode gerar, potencialmente, 40 unidades de trombina, o que
resulta na produção de grande quantidade de fibrina no local da lesão.
B. Papel das superfícies celulares
Cada reação envolvida com a cascata da coagulação ocorre em uma
superfície celular ativada localizada, onde o complexo proteína-proteína
com base em fosfolipídeo se formou. Este complexo consiste em super­
fícies de membranas providas de fosfolipídeos (primariamente fosfa­
tidil-serina) de plaquetas ativadas ou células endoteliais ativadas, uma
enzima (um fator de coagulação ativado), um substrato (a pró-enzima
do fator de coagulação seguinte na cadeia) e de um cofator. O cálcio é
essencial nesse processo, unindo fosfolipídeos aniônicos a resíduos de
ácido 'Y-carboxiglutâmico dos fatores de coagulação. (Nota: a remoção do
cálcio com quelantes, como o citrato ou ácido tetraetilenodiamina acético,
é usado para evitar a coagulação em tubo de ensaio).
C. Inibidores de coagulação
,
E importante que a coagulação fique restrita ao local da lesão vascular.
Endogenamente existem vários inibidores dos fatores de coagulação, in­
cluindo proteína C, proteína S, antitrombina Ili e inibidor da via do fator
tissular. O mecanismo de ação dos vários fármacos anticoagulantes, in­
cluindo heparinae fármacos relacionados à heparina, envolve a ativação
desses inibidores endógenos (primariamente antitrombina Ili).
VI. ANTICOAGULANTES
Os fármacos anticoagulantes inibem a ação dos fatores de coagulação (os
inibidores de trombina, como a heparina e os fármacos heparina-relaciona­
dos) ou interferem na síntese dos fatores de coagulação (os antagonistas da
vitamina K, como a varfarina).
A. Inibidores de trombina: heparina e heparinas de baixa
massa molecular
A heparina é um anticoagulante injetável de ação rápida que é usado com
frequência para interferir agudamente na formação de trombos. Ela nor­
malmente ocorre como uma macromolécula complexada com histamina
nos mastócitos, onde sua função fisiológica é desconhecida. Para uso co­
mercial, a heparina é extraída da mucosa intestinal suína. A heparina não
fracionada é uma mistura de cadeias retas, glicosaminoglicanos aniônicos
com uma ampla faixa de massas moleculares (Figura 20.11). Ela é muito
ácida devido à presença de sulfato e grupos de ácido carboxílico (Figura
Antitrombina
cs -
�4!��� -
� cs
Figura 20.13
Fatoresde
coagulação
inativos
)li

A hepari
naacelera a inativação dos fatores de coagulação pela antitrombina.
Farmacologia Ilustrada 251
o
'B.
Ili
...
li
u
e
8
o
HBMMs Heparina
10.000 20.000
Massa molecular
Figura 20.11
30.000
Distribuição das massas moleculares
típicas das heparinas de baixa massa
molecular (HBMM) e da heparina.
H
...o
coo-
º H
H OH
H
o...
H HNSO:)
Ácido13-D-glicurônico Sulfatodeglicosamina
Figura 20.12
Componente dissacarídeo da heparina
mostrando as cargas negativas decor­
rentes dos grupos carboxila e sulfato.
A heparinasedissocia
do complexoternário e
podeser reutilizada.
. . ; ;
Fatoresde
coagulação
inativos
252 Clark, Finkel, Rey & Whalen
ft Heparina
W nãofracionada
Heparina
J
Antitrombina
IFllft©Jll' �(!
� <J
OOo / ,P
!
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v 
hr-
-....
l A hepar
inanão
fracionadaacelera
a interação da
antitrombina com
atrombinae o
FatorXa.
°oº rY
__, Ooocoo<P°
A interaçãodaantitrombinacom a
heparinaea HBMMé mediada por
umasequência de pentassacarídeos.
/º
�w�ooc>ooOc;O
�D
Trombina

m
Antitrombina
HBMM
�
IF�©ll' �� HBMMacelera
HBMM
@ � <J
seletivamente a
o
I
()
interação da
antitrombina
l l com o FatorXa.
.. ..
Figura 20.14
A heparina e a heparina de baixa massa molecular (HBMM) intermedeiam a inativação da trombina ou do FatorXa.
Meia-vida
intravenosa
Resposta
anticoagulante
Biodisponibilidade
Principais efeitos
adversos
Local de
tratamento
Figura 20.15
2 horas 4 horas
Variável Previsível
200/o 90%
Sangramentos Sangramentos
frequentes menosfrequentes
Hospital Hospital e
paciente externo
Algumas propriedades da heparina e
das heparinas de baixa massa molecu­
lar(HBMM).
20.12). (Nota: nesta discussão, o termo heparina indica a forma não fracio­
nada do fármaco.) O conhecimento de que formas de heparina de baixa
massa molecular(HBMM) também conseguem atuarcomo anticoagulantes
levou ao isolamento da enoxaparina, a primeira HBMM(< 6.000) disponível
nos Estados Unidos. As HBMMs são compostos heterogêneos (elas têm
um terço do tamanho da heparina não fracionada) produzidos pela despo­
limerização química ou enzimática da heparina não fracionada. Como são
isentas de desvantagens associadas ao polímero, estão substituindo o uso
da heparinaem várias situações clínicas.A heparina é usada na prevenção
de trombose venosa e no tratamento de uma variedade de doenças trom­
bóticas, como embolia pulmonar e infarto agudo do miocárdio.
1. Mecanismo de ação. A heparina atua em inúmeros alvos molecula­
res, mas seu efeito anticoagulante é consequência da ligação à anti­
trombina Ili, com a rápida inativação subsequente dos fatores de coa­
gulação (Figura 20.13). A antitrombina Ili é uma a-globulina e inibe
serina-proteases, incluindo vários dos fatores de coagulação- sendo
os mais importantes a trombina (Fator lla) e o Fator Xa (ver Figura
20.1O). Na ausência de heparina, a antitrombina Ili interage lentamen­
te com a trombina e o FatorXa. As moléculas de heparina se ligam à
antitrombina Ili, induzindo alteração conformacional que acelera sua
velocidade de ação cerca de mil vezes. A heparina também serve de
molde catalítico para a interação da antitrombina Ili e os fatores de
coagulação ativados. Ela atua comoverdadeiro catalisador, permitindo
que a antitrombina Ili se combine rapidamente com a trombina circu­
lante e o Fator Xa e os iniba (Figura 20.14). Em contraste, as HBMMs
complexam com a antitrombina Ili e inativam o Fator Xa (incluindo o
localizado nassuperfíciesdas plaquetas), mas não se ligam tão avida­
mente à trombina. Sem dúvida, a ativação das plaquetas em repouso
é menos provável com as HBMMs do que com a heparina. (Nota: a
sequência de pentassacarídeo presente na heparina e nas HBMMs
permite sua ligação à antitrombina Ili [ver Figura 20.14].)
2. Usos terapêuticos. A heparina e as HBMMs limitam a expansão
dos trombos evitando a formação de fibrina. A heparina é o prin­
cipal fármaco antitrombótico para o tratamento da trombose aguda
de veias profundas e do embolismo pulmonar. A incidência de epi-
sódios tromboembólicos recorrentes também diminui. Clinicamente,
a heparina é usada profilaticamente para prevenir trombos venosos
pós-cirúrgicos em pacientes submetidos à cirurgia eletiva (p. ex.,
prótese de bacia) e naqueles que estão na fase aguda de um infarto
do miocárdio. A retrotrombose arterial coronariana após o tratamen­
to trombolítico é reduzida com heparina. Esse fármaco também é
usado nos aparelhos de circulação extracorpórea (p. ex., máquinas
de diálise) para prevenir a trombose. A heparina e as HBMMs são
os anticoagulantes de escolha para o tratamento da gestante com
válvula cardíaca prostética ou tromboembolismo venoso, pois esses
fármacos não atravessam a placenta (devido ao grande tamanho e
carga negativa). A heparinatem avantagem do rápido início de ação
e que também termina rápido na suspensão do tratamento. Contu­
do, isso está sendo superado pelas HBMMs, como a enoxaparina
e a dalteparina, pois esses fármacos podem ser convenientemente
injetadas por via SC no paciente com base na sua massa corpórea,
têm efeitos terapêuticos e perfil farmacocinético previsíveis (Figura
20.15). Especificamente, a HBMMnão requera mesma monitoração
intensa que a heparina, exige; em consequência, elas poupam tem­
po e custos laboratoriais e de enfermagem. Essas vantagenstornam
as HBMMúteis para pacientes hospitalizados e ambulatoriais.
3. Farmacocinética
a. Absorção. Enquanto o efeito anticoagulande da heparina ocorre
minutos após aadministração porvia IV (ou em 1 a 2 horas após
injeção SC), a atividade antifatorXa máxima das HBMMsocorre
em cercade4 horas após a injeção SC. (Nota: Isso é comparável
aos anticoagulantes antagonistas da vitamina K, como a varfari­
na, cuja atividade exige de 8 a 12 horas.) A heparina precisa ser
administrada por via parenteral, em locais se profundos ou por
via IV, pois ela não atravessa membranas com facilidade (Figura
20.16). As HBMMs são administradas por via SC. (Nota: a ad­
ministração de ambos os fármacos por via IM é contraindicada
devido à formação de hematoma.) A heparina com frequência
é administrada por via IV em bolus para obter anticoagulação
imediata. Isso é seguido de doses menores ou infusão contínua
de heparina por 7 a 1O dias, titulando a dose de forma que o
tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPa) seja 1 ,5 a 2,5
vezes o valor controle normal. Normalmente não é preciso obter
um índice desses com as HBMMs, pois os níveis plasmáticos e
a farmacocinéticadesses fármacos são previsíveis.Todavia, aos
pacientes com insuficiência renal, a dosagem deve ser reduzida
para compensar a diminuição da função renal.
b. Distribuição. No sangue, a hepari
na se liga a várias proteínas
que neutralizam sua atividade, causando, assim, resistência ao
fármaco e farmacocinética imprevisível. A ligação da heparina
às proteínas plasmáticas é variável em pacientes com doença
tromboembólioca. Embora geralmente restrita à circulação, a
heparina é captada pelo sistema monócitos/macrófagos e sofre
despolimerização e dessulfatação a produtos inativos. (Nota: a
hepari
na tem meia-vida mais longa em pacientes com cirrose
hepática.) Os metabólitos inativos, bem como alguma hepari­
na e HBMMs são excretados na urina. Portanto, a insuficiência
renal também prolonga a meia-vida. Nem a heparina nem as
HBMMs atravessam a barreira placentária. A meia-vida da he­
parina é de cerca de 1,5 hora, ao passo que das HBMMsé duas
a quatro vezes mais longa, variando de 3 a 7 horas.
Farmacologia Ilustrada 253
Heparinae HBMMsão na
maior parte confinadas no
sistemavascular
A heparina 'i'
e a HBMM �
parcialmente
degradadas
aparecem
na urina.
Figura 20.16
Heparina:
1v,se
profunda
HBMMs:
se
Administração e destino da heparina e
das heparinas de baixa massa molecu­
lar(HBMM).
y-----=�
I
Sangramento
Hipersensibilidade
Trombocitopenia
Figura 20.17
Efeitos adversos da heparina.
254 Clark, Finkel, Rey & Whalen
A /epirudinafica
confinadano
sistemavascular
Figura 20.18
IV
Administração de Jepirudina. IV = intra­
venoso.
4. Efeitos adversos. Apesar da expectativa de menos efeitos adver­
sos com as HBMM, verificou-se que as complicações são similares
às observadas com a hepari
na. Todavia, os problemas tromboem­
bólicos são menos comuns.
a. Hemorragias. A principal complicação do tratamento com he­
parina é a hemorragia (Figura 20.17). A monitoração cuidadosa
do tempo de sangramento é necessária para minimizar esse
problema. O sangramento excessivo pode ser controlado pela
interrupção do uso da heparina ou pela administração de sulfa­
to de protamina. Infundido lentamente, este último fármaco se
combina ionicamente com a heparina paraformar um complexo
1 :1 estável e inativo. É muito importante que a dosagem de pro­
tamina seja titulada cuidadosamente (1 mg para cada 100 uni­
dade de heparina administrada), porque o sulfato de heparina é
um anticoagulante fraco e o excesso pode iniciar sangramento
ou piorar o potencial hemorrágico.
b. Reações de hipersensibilidade. As preparações de heparina
são obtidas de suínos e, assim, podem ser antigênicas. Possí­
veis reações adversas incluem calafrios, febre, urticária e cho­
que anafilático.
e. Trombose. A administração crônica ou intermitente de heparina
pode levar à redução da atividade da antitrombina Ili, diminuin­
do, assim, a inativação dos fatores de coagulação e aumentan­
do o risco de trombose. Para minimizar esse risco, são empre­
gados, em geral, tratamentos com doses baixas de heparina.
d. Trombocitopenia. Essa condição, na qual o sangue circulan­
te contém um número anormalmente pequeno de plaquetas, é
uma anormalidade comum entre os pacientes hospitalizados
que recebem heparina. O tratamento com hepari
na deve ser
interrompido em pacientes que apresentam grave trombocito­
penia. A heparina pode ser substituída poroutro anticoagulante,
como dabigatrana, Jepirudina ou argatrobana (ver a seguir).
e. Outros: a heparina pode produzir resultados anormais de tes­
tes de função hepática, bem como osteoporose, observada em
pacientes tratados por longo período.
f. Contraindicações. A heparina é contraindicada para pacientes
que são hipersensíveis a ela ou têm distúrbios de coagulação,
são alcoólatras ou que tiveram recentemente ou terão cirurgia
no cérebro, no olho ou na medula espinal.
B. Inibidores de trombina: etexilato de dabigatrana
O etexilato de dabigatrana é o pró-fármaco da molécula ativa dabiga­
trana que é um inibidor direto da trombina aprovado atualmente para
prevenir derrames e embolismo sistêmico em pacientes com fibrilação
atrial. A dabigatrana é o primeiro anticoagulante oral em 50 anos a ser
aprovado após a descoberta da varfarina. A dabigatrana não requer
monitoração de rotina (INR), e comparada com varfarina, tem poucas
interações com outros fármacos. O principal efeito adverso é o sangra­
mento, como com outros anticoagulantes. Efeitos adversos GI também
podem ocorrer com este fármaco. Devido à sua eficácia, à biodisponibi­
lidade oral e a propriedades farmacocinéticas previsíveis, a dabigatrana
pode ser uma alternativa à enoxaparina para a profilaxia de trombos na
cirurgia ortopédica.
C. Outros anticoagulantes parenterais
1. Lepirudina. Um antagonista direto e altamente específico de trom­
bina, a lepirudina é um polipeptídeo intimamente relacionado com a
hirudina -um inibidorde trombina presente na saliva da sanguessu­
ga. A lepirudi
na é produzida em células de fungos por tecnologia de
DNA recombinante. Uma molécula de /epirudinase liga a uma molé­
cula detrombina, bloqueando a sua atividade trombogênica. Elatem
pouco efeito na aglutinação plaquetária. Administrada por via IV (Fi­
gura 20.18), a lepirudina é eficaz no tratamento da trombocitopenia
induzida por heparina (TIH) e de outros distúrbios tromboembólicos
e podeevitarcomplicaçõestromboembólicas adicionais.A lepirudina
tem meia-vida de cerca de uma hora e sofre hidrólise. Ela e seus
fragmentos são eliminados na urina. O sangramento é o principal
efeito adverso do tratamento com lepirudina e pode ser agravado
pelo tratamento trombolítico simultâneo, como com estreptoquinase
ou alteplase. Cerca de metade dos pacientes que recebem lepirudi­
na desenvolve anticorpos. Contudo, o complexo fármaco-anticorpo
mantém sua atividade anticoagulante. Como a eliminação renal do
complexo é mais lenta do que a do fármaco livre, o efeito anticoagu-
,
lante pode ser maior. E importante monitoraroTIPa ea função renal
quando o paciente está recebendo lepirudina.
2. Argatrobana. Argatrobana é um anticoagulante oral. Ela é uma
pequena molécula sintética que inibe diretamente a trombina. A
argatrobana é usada preventivamente no tratamento da trombose
em pacientes com TIH e aprovada para uso durante intervenções
coronárias percutâneas em pacientes que apresentam ou estão
sob risco deTIH. A argatrobana é biotransformada no fígado e tem
meia-vida de 39 a 51 min. É monitorada pelo TIPa. A hemoglobina
e o hematócrito também devem ser monitorados. Como a argatro­
bana é biotransformada no fígado, ela pode ser usada em pacien­
tes com disfunção renal, mas deve ser usada com cautela nos que
apresentam insuficiência hepática. Como com os outros fármacos
dessa classe, o principal efeito adverso é a hemorragia.
3. Fondaparinux. Esse é o primeiro de uma nova classe de anticoa­
gulantes pentassacarídeos totalmente sintético sem variabilidade na
atividade biológica. O fondaparinuxfoi aprovado pelo FDA recente­
mente para uso na profilaxia da trombose de veias profundas que
podem levar à embolia pulmonar em pacientes submetidos a cirur­
gias de fratura de bacia, prótese de cabeça de fêmur ou de joelho.
Também é usado junto com varfarina para o tratamento do embolis­
mo pulmonar agudo e trombose de veias profundas. Esse fármaco
inibe seletivamente só o Fator Xa. Ligando-se seletivamente a anti­
trombina Ili, o foundaparinuxpotencializa (300 a 1 .000 vezes) a neu­
tralização inata do FatorXa pela antitrombina Ili. Ele é bem absorvi­
do da via se com perfil farmacocinético previsível. o foundaparinux
,
requer menos monitoração do que a heparina. E eliminado com a
urina principalmente inalterado com meia-vida de eliminação de 17 a
21 horas. Ele é contraindicado em pacientes com insuficiência renal
grave (depuração de creatinina menor que 30 mUmin). Episódios
de sangramento são o seu principal efeito adverso.Trombocitopenia,
em particularatrombocitopeniaTipo li, nãoconstitui problema e este
fármaco pode ser usado em pacientes comTIH.
D. Antagonistas da vitamina K
Os anticoagulantes cumarínicos, que incluem a varfarina, comumente
usada, e o dicumarol (antigamente bisidroxicumarina), raramente usa-
Farmacologia Ilustrada 255
256 Clark, Finkel, Rey & Whalen
vvvv- C-CH-NH �
" '
·' Precursores
O ÇH2 polipeptídicos
ÇH2 dos Fatores de
coo- coagulação li,VII,
IXe X
Vitamina K
reduzida NADP•
Vitamina K
epóxido
oxidado
o ...(•1111111 Varfarlna
NADPH
Fatores de
/ coagulação
vvvv- C-CH-NH -.,rvvv Jr ativos li,VII, IXeX
" .
O CH2
'
CH
/ '---..._
coo- coo-
Figura 20.19
Resíduos
'Y-carboxiglutamila
Mecanismos de ação da varfarina.
NADP+ = forma oxidada do fosfato de
nicotinamida-adenina dinucleotídeo;
NADPH = forma reduzida do fosfato de
nicotinamidaadenina dinucleotídeo.
do. Ambos devem sua ação à sua capacidade de antagonizar a função
de cofator da vitamina K. A única cumarina terapeuticamente relevante
é a varfarina. Inicialmente usada como raticida, a varfarina hoje é mui­
to usada clinicamente como anticoagulante oral. Com a disponibilização
das HBMMs e os inibidores da aglutinação das plaquetas, contudo, o uso
dos antagonistas da vitamina K está diminuindo. A morbidade potencial
associada ao uso da varfarina torna importante identificar os pacientes
que realmente estão em risco de trombose. (Nota: na década de 1990,
foi adotada a Relação Internacional Normalizada (INR na sigla em inglês)
para monitorar a concentração de varfarina. O INR corrige as variações
que ocorrerm com diferentes reagentes tromboplastinas entre diferentes
hospitais ou quando o hospital recebe novos lotes de reagentes.) Mesmo
a monitoração cuidadosa para manter o INR de 2 a 3 para a maioria dos
pacientes não impede complicações de sangramento em vários pacientes.
1. Mecanismo de ação. Vários dos fatores de coagulação proteicos
(incluindo os Fatores li, VII, IX e X; ver Figura 20.10) precisam da
vitamina K como um cofator para sua síntese pelo fígado. Esses
fatores sofrem uma modificação pós-translacional dependente de
vitamina K, na qual alguns de seus resíduos de ácido glutâmico são
carboxilados para formar resíduos de ácido 'Y-carboxiglutâmico (Fi­
gura 20.19). Os resíduos de 'Y-carboxiglutamil ligam íons cálcio, que
são essenciais paraa interação entre os fatores de coagulação e as
membranas plaquetárias. Nas reações de carboxilação, a carboxila­
se dependente de vitamina K fixa C02 para formar os novos grupos
COOH no ácido glutâmico. O cofatorvitamina K reduzido é converti­
do em epóxido de vitamina K durante a reação. A vitamina Ké rege­
nerada do epóxido pela vitamina K epóxido-redutase -a enzima que
é inibida pela varfarina. O tratamento com varfarina resulta na pro­
dução de fatores de coagulação menos ativos (de 1 O a 40°
/
o do nor­
mal), pois lhes faltam suficientes cadeias laterais 'Y-carboxiglutamil.
Diferente da heparina, os efeitos anticoagulantes da varfarina não
são observados até 8 a 1 2 horas depois da administração, mas o
pico do efeito pode demorar até 72 a 96 horas, tempo necessário
para esgotaro estoque de fatores de coagulação circulantes. O efei­
to anticoagulante da varfarina pode sersuperado pelaadministração
de vitamina K. Contudo, a reversão após a administração de vitami­
na Kdemoracerca de 24 horas (tempo necessário paradegradação
de todos os fatores de coagulação sintetizados).
2. Usos terapêuticos. A varfarina é usada para prevenir a progres­
são ou a recorrência de trombose aguda de veias profundas ou de
embolia pulmonar, após o tratamento inicial com heparina. Ela é
também usada para a prevenção do tromboembolismo venoso du­
rante cirurgias ortopédicas ou ginecológicas. Profilaticamente, ela é
usada em pacientes com infarto agudo do miocárdio, válvulas car­
díacas prostéticas e fibrilação atrial crônica.
3. Farmacocinética
a. Absorção. A varfari
na é rapidamente absorvida após adminis­
tração via oral (100°
/
o de biodisponibilidade com pouca variação
individual). Embora alimentos possam retardar a sua absorção,
eles não alteram a extensão da absorção. A varfarina liga-se
99°
/
o à albumina plasmática, o que evita suadifusão para o líqui­
do cerebrospinal, para a urina e para o leite materno. Contudo,
fármacos que tenham maior afinidade pelo local de ligação da
albumina, como as sulfonamidas, podem deslocaros anticoagu­
lantes e levar a um aumento transitório da atividade. Fármacos
que afetam a ligação da varfarina às proteínas plasmáticas pro-
movem interações evariabilidade na respostaterapêuticaà var­
farina. A varfari
na atravessa facilmente a placenta. A meia-vida
média é de cerca de 40 horas, mas este valor é muito variável
entre indivíduos. O tempo de protrombina, uma medida da via
extrínseca, pode ser usado para monitorar o tratamento com
varfarina. O objetivo do tratamento com varfarina é um INR de
2 ou 3 para a maioria das indicações e 2,5 a 3,5 em pacientes
com válvulas cardíacas mecânicas. A varfarina tem índice tera­
pêutico estreito e, portanto é importante que o INR seja mantido
na faixa ideal.Valores de INR acima ou abaixo da faixa aumen­
tam o risco de trombose e hemorragia respectivamente.
b. Destino. Os produtos da biotransformação da varfarina, catali­
sados pelo sistema CIP450, são inativos. Após conjugação ao
ácido glicurônico, são excretados na urina e nas fezes. Os fár­
macos que afetam a biotranformação da varfarina podem alterar
seus efeitos terapêuticos.
4. Efeitos adversos
a. Hemorragias. A principal reação indesejada causada pelo trata­
mento com varfarinaé a hemorragia, e a embalagem dos medica­
mentos que a contém tem advertência em tarja preta alertando
para o risco. Por isso, é importante monitorar com frequência e
ajustar o efeito do anticoagulante. Pequenos sangramentos po­
dem sertratados com a retirada do fármaco e a administração de
vitamina K1 oral, mas hemorragias exigem doses maiores de vita­
mina administradas por via IV. Sangue total, plasma congelado e
concentrados plasmáticosdosfatores sanguíneostambém podem
ser usados para revertera ação da varfarina rapidamente. Lesões
de pele e necrose são complicações raras e observadas primaria­
mente em mulheres. Síndrome da língua púrpura, uma coloração
violácea da língua muito dolorosa, causada porêmbolos de coles­
terol, também foi observada notratamento com varfarina.
b. Interações com fármacos e outras. A varfari
na tem numero­
sas interações que podem potencializar ou atenuar seu efeito
anticoagulante. A relação de fármacos de interação é extensa.
Um resumo das interações mais importantes é apresentado na
Figura 20.20. Numerosos outros fatores influenciam a resposta
terapêutica à varfarina. Estes fatores incluem alterações am­
bientais, dieta, estado físico e medicações. Pode ser necessário
monitorara resposta do paciente mais amiude com mensuração
do tempo de protrombina/INR se um ou mais dos fatores lista­
dos estão presentes.
c. Doenças. Deficiência de vitamina K, doenças hepáticas que
impedem a síntese dos fatores de coagulação ou afetam a bio­
transformação da varfarina e estados hipermetabólicos que au­
mentam o catabolismo dos fatores da coagulação dependentes
de vitamina K podem influenciar o estado hipoprotrombinêmico
do paciente e aumentar a resposta aos anticoagulantes orais.
Outras doenças, como neoplasias, hiperlipidemia e hipotireoi­
dismo, também afetam a resposta do paciente à varfarina.
d. Contraindicações. A varfarina nunca deve ser usada durante
a gestação, pois ela é teratogênica e pode causar aborto, bem
como defeitos no parto (Classificação do FDA na gestação: X).
Se o tratamento anticoagulante é necessário durante a gesta­
ção, deve-se administrar hepari
na ou HBMM.
Farmacologia Ilustrada 257
Ácido acetilsslic11ico
Inibição da
aglutinação plaquetária
Potenciali
zação dos
anticoagulantes
Inibição da
biotransformação
da varfarina
Intoxicação aguda
porálcool
Ci
metidina
Cloranfenicol
Cotrimoxazo/
Dissu/firam
Metronidazo/
Varfarina
Consumo crônico
deálcool
Barbitúricos
G/utetimida
Griseofulvina
Rifampicina
Estimulação da
biotransformação
de varfarina
Atenuação da
anticoagulação
Figura 20.20
Fármacos que afetam o efeito anticoa­
gulante da varfarina.
Plasminogênio
o �
o �
O -�
Plasmina Produtos de
Fibrina ----+) degradação
dafibrina
Figura 20.21
Ativação do plasminogênio pelos fár­
macos trombolíticos.
258 Clark, Finkel, Rey & Whalen
A. ANTIGENICIDADE
Altep/ase
Estreptoquinase
Uroquinase
Baixa
B. ESPECIFICIDADE DA FIBRINA
Altep/ase
Estreptoquinase
Uroquinase
Baixa
C. MEIA-VIDA
Altep/ase
Estreptoquinase
Uroquinase
o 10 20
Minutos
Figura 20.22
Alta
Alta
30
Comparação entre enzimas trombolíti­
cas.
tJPacientenãotratado
Sangue
Trombo
Tampão
hemostático
m Pacientetratadocom
ativadordeplasminogênio
)
Sangue Trombo
diminuído
)
Sangramento
Figura 20.23
Degradação de um trombo indesejado
e um tampão hemostático útil pelos ati­
vadores de plasminogênio.
VII. FÁRMACOSTROMBOLÍTICOS
A doença tromboembólica aguda em determinados pacientes pode sertratada
com a administração de fármacos que ativam a conversão de plasminogênio
em plasmina- uma serina-protease que hidrolisafibrina e, assim, dissolve coá­
gulos (Figura 20.21). A estreptoquinase, um dos primeiros desses fármacos
aprovados, causa um estado fibrinolítico sistêmico que pode levar a problemas
de sangramento. O alteplase atua mais localizadamente na fibrina trombótica
para produzirfibrinólise.A uroquinase é produzida naturalmente nos rins huma­
nos e converte diretamente plasminogênio em plasmina ativa. A Figura 20.22
compara os fármacos trombolíticos comumente usados. A experiência clínica
mostrou eficáciasimilarentre estreptoquinase e alteplase. Infelizmente, otrata­
mento trombolítico é malsucedido em cerca de 20°
/
o das artérias infartadas, e
cerca de 15°
/
o das artérias que são abertas tornam a fechar outravez. No caso
de infarto agudo do miocárdio, os fármacos trombolíticos são reservados para
as situações nas quais a angioplastia não é uma opção ou até que o paciente
possa ser levado ao local que tenha condições de realizar intervenções coroná­
rias percutâneas. Os fibrinolíticos podem lisartrombos patológicos e normais.
A. Características comuns dos fármacos trombolíticos
1 . Mecanismo de ação. Os trombolíticos apresentam algumas carac­
terísticas comuns.Todos atuam direta ou indiretamente convertendo
plasminogênio em plasmina, que, então, hidrolisa a fibrina, lisando,
assim, os trombos (ver Figura 20.21). A dissolução do coágulo e
a reperfusão ocorrem com maior frequência quando o tratamento
é iniciado logo após a formação do trombo, pois ele se torna mais
resistente à lise à medida que envelhece. Infelizmente, um maior
número de trombos pode ocorrer enquanto o trombo se dissolve,
levando a uma maior agregação das plaquetas e trombose. Estraté­
gias para evitaressa situação incluem a administração de fármacos
antiplaquetários, como oAAS, ou antitrombóticos, como a heparina.
2. Usos terapêuticos. Usados originalmente para o tratamento de
trombose de veias profundas e embolismo pulmonar grave, os trom­
bolíticos hoje são usados menos frequentemente para essas condi­
ções. Sua tendência de causar hemorragias também comprometeu
seu uso no tratamento do infarto agudo do miocárdio ou trombose
arterial periférica. Contudo, os trombolíticos são úteis para restabe­
lecer a função de cateteres e anastomoses (shunts) lisando os coá­
gulos que causam a oclusão. Os trombolíticos também são usados
para dissolver coágulos que resultam em acidente vascular encefá­
lico (AVE).
3. Farmacocinética. Para o infarto do miocárdio, a aplicação intraco­
ronariana do fármaco é a forma mais confiável em termos de obter
a recanalização. Contudo, a cateterização cardíaca pode não ser
possível nas 2 a 6 horas de "janela terapêutica", após as quais a re­
cuperação miocárdica significativa se torna menos provável. Assim,
os trombolíticos, em geral, são administrados por via IV, pois essa
via é rápida, barata e não tem os riscos da cateterização.
4. Efeitos adversos. Os trombolíticos não diferenciam entre a fibri­
na de um trombo indesejado e a fibrina de um tampão hemostáti­
co benéfico. Assim, a hemorragia é o principal efeito adverso. Por
exemplo, uma lesão prévia insuspeita, como a úlcera péptica, pode
sangrarapós a injeção de um trombolítico (Figura 20.23). Esses fár­
macos são contraindicados em pacientes com ferimentos em cica­
trização, gestação, história de AVE, tumor cerebral, traumatismo na
cabeça, sangramento intracranial e câncer metastático. A presen-
ça contínua do estímulo trombogênico pode causar retrotrombose
após a lise do coágulo inicial.
B. Alteplase
Alteplase(era conhecidacomo ativadordoplasminogênio tipo tecidualou
APt) é uma serina-protease originalmente derivada de cultura de células
de melanoma humano. Atualmente, ela é obtida como produto de tecno­
logia de DNA recombinante.
1 . Mecanismo de ação. A alteplase tem baixa afinidade pelo plasmi­
nogênio livre no plasma, mas ativa rapidamente o plasminogênio
que está ligado à fibrina em um trombo ou um tampão hemostático.
Assim, a alteplase é considerada ''fibrina seletiva" e, em doses bai­
xas, tem a vantagem de lisar apenas a fibrina, sem a indesejada
degradação de outras proteínas - notadamente fibrinogênio. Isso
contrasta com a estreptoquinase, que atua no plasminogênio livre e
induz um estado fibrinolítico geral. (Nota: na dosagem de alteplase
usada atualmente na clínica, o plasminogênio circulante pode ser
ativado, resultando em hemorragia.)
2. Usos terapêuticos. A alteplase é aprovada para o tratamento de
infarto do miocárdio, embolismo pulmonar massivo e choque isquê­
mico agudo. Ela parece superior à estreptoquinase em dissolver coá­
gulos antigos e pode ser aprovada para outras aplicações. A altep/a­
se, administrada dentro de três horas do início do AVE isquêmico,
melhora significativamente o resultado clínico - ou seja, a habilidade
do paciente de realizar as tarefas diárias (Figura 20.24). Reteplase
(Retavase®) é similar ao alteplase e pode serusado como alternativa.
3. Farmacocinética. A alteplasetem uma meia-vida muito curta (de 5
a 30 minutos) e por isso é administrada como dose total de 0,9 mg/
kg, sendo 10°
/
o da dose total injetado por via IV como um bo/us, e o
restante do fármaco é administrado durante 60 minutos.
4. Efeitos adversos. Podem ocorrer sangramentos, incluindo hemor-
Farmacologia Ilustrada 259
Mínima ou nenhuma
incapacidade
A/teplase
Incapacidade
moderada
1
Incapacidade
grave
 M�rte
13o/o 13%
.
.
.
·
.
.· . :'
-
-
-
-
�
___,_
..
_
_
.
Placebo 38º/o 16% 17% 28o/o
Porcentagem dos pacientes
Figura 20.24
Resultado, após 12 meses, dos pacien­
tes de choque tratados com alteplase
dentro de 3 horas do iníciodos sintomas
comparados aos tratados com placebo.
Estreptoquinase Plasminogênio
l
.._
_
_
_
_
_
_
_
_
_.
)
l
Complexo
plasminogênio-estreptoquínase
JJ
Plasminogênio o ) Plasmina
JJ
Fibrina
o Produtos de
degradação
dafibrina
ragias gastrintestinais e cerebrais. Figura 20.25
C. Estreptoquinase
A estreptoquinase é uma proteína extracelular purificada de caldos de
cultura de estreptococos (3-hemolíticos do grupo e.
1 . Mecanismo de ação. A estreptoquinase não tem atividade enzi­
mática; ao contrário, ela forma um complexo um-a-um ativo com
o plasminogênio. Esse complexo enzimaticamente ativo converte o
plasminogênio não complexado na enzima ativa plasmina (Figura
20.25). Além da hidrólise dos tampões de fibrina, o complexo tam­
bém catalisa a degradação do fibrinogênio, bem como dos Fatores
V e VII de coagulação (Figura 20.26).
2. Usos terapêuticos. A estreptoquinase é aprovada para uso em em­
bolia pulmonaraguda, trombose de veias profundas, infarto agudodo
miocárdio, trombose arterial e oclusão de acesso de anastomoses.
3. Farmacocinética. O tratamento com estreptoquinase é instituído
dentro de quatro horas do infarto do miocárdio, sendo infundida du­
rante uma hora. Sua meia-vida é de menos de 30 minutos. O tempo
de tromboplastina é monitorado e mantido entre 2 e 5 vezes o valor
controle. Na interrupção dotratamento, heparina ou anticoagulantes
orais podem ser administrados.
Mecanismo de açãoda estreptoquinase.
Fibrinogênio
o
Produtos de
degradação
dafibrina
JJ
Estado 1ítico
Complexo
plasminogênio­
-estreptoquínase
Fibrina
o
Produtos de
degradação
da fibrina
JJ
Dissolução do coágulo
Figura 20.26
A estreptoquinase degrada a fibrina e o
fibrinogênio.
260 Clark, Finkel, Rey & Whalen
4. Efeitos adversos
a. Hemorragias. A ativação do plasminogênio circulante pela es­
treptoquinase leva a níveis elevados de plasmina, o que pode
desencadearsangramentos pela dissolução de tampões hemos­
táticos (ver Figura20.23). Nos raros casos de hemorragias amea­
çadoras à vida, deve ser administrado ácido aminocaproico.
b. Hipersensibilidade. A estreptoquinase é uma proteína estra­
nha e é antigênica. Ocorre urticária, febre e raramente anafi­
laxia. Como a maioria dos indivíduos alguma vez teve infecção
estreptocócica, anticorpos contra estreptoquinase provavelmen­
te estão presentes na maioria dos pacientes. Esses anticorpos
podem combinar com a estreptoquinase e neutralizar suas
propriedades fibrinolíticas. Portanto, quantidades suficientes
de estreptoquinase devem ser administradas para superar os
anticorpos e assegurar concentrações terapêuticas de plasmi­
na. Febre, reações alérgicas e fracasso terapêutico podem ser
associados à presença de anticorpos antiestreptococos no pa­
ciente. A incidência de reações alérgicas é de cerca de 3°
/
o.
D. Anistreplase (complexo ativador plasminogênio
estreptoquinase anisoilado)
O anistreplase é um complexo pré-formado de estreptoquinase e plas­
minogênio e é considerado um pró-fármaco. A estreptoquinase deve ser
liberada e somente o plasminogênio ao qual estava associado será con­
vertido em plasmina.
E. Uroquinase
A uroquinase é produzida naturalmente no organismo pelos rins. A uro­
quinase terapêutica é isolada de células renais humanas e tem baixa
antigenicidade.
a. Mecanismo de ação. A uroquinase hidrolisa diretamente a liga­
ção arginina-valina do plasminogênio, formando plasmina.
b. Uso terapêutico. A uroquinasesó está aprovada para a lise de
êmbolos pulmonares. Usos extra-bula incluem o tratamento de
infartos agudos do miocárdio, tromboembolismo arterial, trom­
bose artéria coronária e trombose de veias profundas.
c. Farmacocinética. A uroquinase tem duração de ação curta e é
rapidamente depurada pelo fígado (os rins são uma via de eli­
minação menor). Assim, a meia-vidada uroquinase no plasma é
de 20 min aproximadamente. A meia-vida pode ser prolongada
em pacientes com insuficiência hepática.
d. Efeitos adversos. O efeito adverso registrado com maior fre­
quência é a hemorragia. Reações alérgicas ou anafiláticas tam­
bém têm sido registradas raramente.
VIII. FÁRMACOS USADOS PARATRATAR HEMORRAGIAS
Os problemas de sangramentos podem ter sua origem em condições patoló­
gicas de ocorrência natural, como a hemofilia, ou resultar de estados fibrino­
líticos que aparecem depois de cirurgia gastrintestinal ou prostatectomia. O
uso de anticoagulantes também pode resultar em hemorragia. Certas proteí­
nas naturais e a vitamina K, bem como antagonistas sintéticos são eficazes
no controle desses sangramentos. Porexemplo, a hemofilia é a consequência
de uma deficiência de fatores de coagulação plasmáticos, mais frequente­
mente os Fatores VI11 e IX. Preparações concentradas desses fatores estão
disponíveis a partir de doadores humanos. Contudo, essas preparações têm o
risco de transferirem infecções virais. A transfusão de sangue também é uma
opção para o tratamento das hemorragias graves.
,
A. Acido aminocaproico e ácido tranexâmico
Os estados fibrinolíticos podem ser controlados pela administração do
ácido aminocaproico ou ácido tranexâmico. Ambos são fármacos sinté­
ticos, ativos por via oral, são excretados na urina e inibem a ativação do
plasminogênio. O ácido tranexâmico é dez vezes mais potente do que o
ácido aminocaproico. O efeito adverso potencial étrombose intravascular.
B. Sulfato de protamina
O sulfato de protamina antagoniza o efeito anticoagulante da heparina.
Essa proteína é derivada do esperma ou dos testículos de peixes e é rica
em arginina, o que explica o caráter básico. A protamina de cargas po­
sitivas interage com a heparina de cargas negativas, formando um com­
plexo estável sem atividade anticoagulante. Os efeitos adversos da admi­
nistração da protamina incluem hipersensibilidade, bem como dispneia,
rubor, bradicardia e hipotensão, quando injetada rapidamente.
C. Vitamina K
Que a administração de fitonadiona (vitamina K1) pode controlar sangra­
mentos decorrentes de anticoagulantes orais não causa surpresa, pois
essas substâncias atuam interferindo com a ação da vitamina (ver Figura
20.19). A resposta à vitamina K é lenta, requerendo cerca de 24 horas
(tempo para sintetizar novos fatores de coagulação). Assim, se for neces­
sária hemostasia imediata, deve sertransfundido plasma congeladofresco.
D. Aprotinina
A aprotinina é um inibidor serina-protease que interrompe sangramen­
tos pelo bloqueio da plasmina. Ela pode inibir a estreptoquinase. A apro­
tina tem permissão de uso em investigação limitado em pacientes sob
risco de perdas de sangue e transfusão durante colocação de pontes e
implantes em artérias coronárias, se não houver outras alternativas. A
aprotinina pode causar disfunção renal e reações de hipersensibilidade
(anafiláticas). Além disso, a aprotinina não deve ser administrada a pa­
cientes que foram expostos a este fármaco nos 12 meses prévios, devido
à possibilidade de reações anafiláticas.
IX. FÁRMACOS USADOS PARATRATAR ANEMIA
A anemia é definida como a concentração plasmática de hemoglobinaabaixo
do normal, resultante de uma diminuição do número de eritrócitos circulantes
ou de um conteúdo anormalmente baixo de hemoglobinatotal por unidade de
volume de sangue. A anemia pode ser causada por perda crônica de sangue,
anormalidades da medula óssea, aumento da hemólise, infecções, tumores,
deficiências endócrinas, insuficiência renal e inúmeras outras doenças. A
anemia pode ser corrigida, ao menos temporariamente, pela transfusão de
sangue total. Um grande número de fármacos causa efeitos tóxicos nas célu­
las sanguíneas, na produção de hemoglobina ou nos órgãos eritropoiéticos,
o que pode causar anemia. Além disso, anemias nutricionais são causadas
por deficiências de substâncias como ferro, ácido fálico e cianocobalamina
(vitamina 812) que são necessárias para a eritropoiese normal.
Farmacologia Ilustrada 261
262 Clark, Finkel, Rey & Whalen
TRATAMENTO
MEDICAMENTOSO
•Tratamento com fármacos
quesão inibidores da
di-hidrofolato-redutase.
MÁABSORÇÃO
• Patologia do intestino
delgado.
• Alcoolismo.
DEFICIÊNCIASNADIETA
• Durantea gestação.
• Durantea lactação.
�
DEFICIÊNCIA
DE FOLATO
Biossíntese de
aminoácidos
Síntesede
purinas
Síntesede
pirimidinas
Síntese de
DNAe RNA
Anemia
megaloblástica
Figura 20.27
Causas e consequências da falta de
ácido fálico.
A. Ferro
O ferro é armazenado nas células da mucosa intestinal comoferritina (um
complexo ferroproteína) até que ele seja necessário para o organismo. A
deficiência de ferro resulta de perdas de sangue agudas ou crônicas, da
ingestão insuficiente durante períodos de crescimento rápido em crian­
ças ou em mulheres grávidas ou com menstruação intensa. Assim, a defi­
ciência de ferro resulta de um equilíbrio negativo decorrente da perda dos
estoques de ferro e/ou da ingestão inadequada, culminando em anemia
microcítica hipocrômica (eritrócitos de tamanho pequeno e com pouco
ferro). A suplementação de sulfato ferroso é necessária para corrigir a
deficiência. Distúrbios gastrintestinais causados por irritação local são os
efeitos adversos mais comuns da suplementação de ferro, quando po­
dem ser usadas formulações parenterais de ferro, como o ferrodextrano.
B. Ácido fólico (folato)
O uso primário do ácido fólicoéo tratamento de estadosdeficitários que se
originam da ingestão inadequada da vitamina. A deficiência de folato pode
ser causada por: 1) aumento da demanda (p. ex., gestação e lactação); 2)
baixa absorção causada por patologia do intestino delgado; 3) alcoolismo
ou 4) tratamento com fármacos que são inibidores da di-hidrofolato-redu­
tase (p. ex., metotrexato, pirimetamina e trimetoprima) em cujo caso deve
ser usada a forma reduzida ou ativa da vitamina (ácido folínico, também
denominado leucovorin cálcico). O resultado primárioda deficiência de áci­
do fólico é a anemia megaloblástica (eritrócitos de grande tamanho), que
é causada pela diminuição da síntese de purinas e pirimidinas. Isso leva
à incapacidade do tecido eritropoiético de produzir DNA e, dessa forma,
proliferar (Figura 20.27). (Nota: para evitar complicações neurológicas da
deficiência de vitamina 812, é importante avaliara base da anemia megalo­
blástica antes de instituir o tratamento.Tanto a deficiência de vitamina 812
como a de to/ato podem causar sintomas similares [ver adiante].) O ácido
fó
lico é bem absorvido no jejuno, a menos que esteja presente alguma
patologia. Se quantidades excessivas da vitamina são ingeridas, elas são
excretadas na urina e nas fezes. O ácido fólico administrado por via oral
não é tóxico. Não foram registrados efeitos adversos substanciais além de
raras reações de hipersensibilidade na injeção parenteral.
C. Cianocobalamina (vitamina 812)
Deficiências de cianocobalamina podem resultar de baixa oferta na dieta
ou, mais comum, de má absorção da vitamina devido à insuficiência das
células parietais gástricas de produzir fator intrínseco (como na anemia
perniciosa) ou à perda da atividade do receptor necessária para a absor­
ção intestinal da vitamina. O fator intrínseco é uma glicoproteína produ­
zida pelas células parietais do estômago e é necessário para absorção
da vitamina 812• Pacientes com cirurgia bariátrica (tratamento cirúrgico
GI contra obesidade) necessitam de suplementação de vitamina 812 em
dose elevada por via oral, sublingual ou, uma vez por mês, por via pa­
renteral. Síndromes de má absorção inespecífica ou ressecção gástri­
ca também podem causar deficiências de cianocobalamina. A vitamina
pode ser administrada oralmente (nas deficiências nutricionais) ou por
via IM ou SC profunda (contra a anemia perniciosa). (Nota: a administra­
ção somente de ácido fólico reverte as anormalidades hematológicas e,
assim, mascara as deficiências de cianocobalamina, a qual pode, então,
evoluir para grave disfunção e doença neurológica. A causa da anemia
megaloblástica precisa ser determinada para ser específica em termos
de tratamento. Dessaforma, a anemia megaloblástica não deve ser trata­
da apenas com ácido fólico, mas com a associação de to/ato e vitamina
812.) O tratamento deve continuar portodaa vida do paciente se ele sofre
de anemia perniciosa. Esta vitamina não é tóxica, mesmo em grandes
dosagens. Raramente são registrados cefaleia, nauseas, êmese e rinite
com a administração intranasal.
D. Eritropoietina e darbepoetina
A eritropoieti
na é uma GP, normalmente produzida nos rins, que regula a
proliferação dos eritrócitos e sua diferenciação na medula óssea. A eritro­
poietina humana, produzida pela técnica de DNA recombinante, é eficaz
no tratamento da anemia causada pelo estágio terminal da doença renal,
anemia associada com a infecção pelo vírus da imunodeficiência adqui­
rida e anemia em alguns pacientes com câncer. A darbepoetina é uma
versão de longaação da eritropoietina da qual difere pela adição de duas
cadeias de carboidratos que melhoram sua atividade biológica. Assim, a
darbepoeti
na tem menor depuração e meia-vida cerca de três vezes a da
eritropoietina. Devido ao início de ação demorado, a darbepoetina não
tem valor no tratamento agudo da anemia. A suplementação com ferro
pode ser necessária para assegurar uma resposta adequada. A proteína
em geral é administrada por via IV nos pacientes de diálise renal, mas
a via SC é preferida. Os efeitos adversos em geral são bem tolerados e
podem incluir aumento da pressão arterial e artralgia em alguns casos.
(Nota: o aumento da pressão arterial pode ser devida ao aumento da
resistência vascular periférica e/ou à viscosidade sanguínea.) Quando a
eritropoietina é usada para obterconcentração de hemoglobina maior de
12 g/dl, são observados eventos cardiovasculares graves (como trom­
bose e hipertensão grave), aumento do risco de morte, redução do tem­
po de progressão de tumor e diminuição da sobrevida. A recomendação
para todos os pacientes que recebem eritropoietina é usar a menor do­
sagem eficaz que não exceda um nível de hemoglobina de 12 g/dl e não
deve subir mais que 1 g/dl no período de 2 semanas.
,
X. FARMACOS USADOS PARATRATAR
A ANEMIA FALCIFORME
A. Hidroxiureia
Triagens clínicas mostraram que a hidroxiureia pode aliviar o curso dolo­
roso da anemia falciforme (Figura 20.28). A hidroxiureia também é usada
atualmente para tratar a leucemia mielógena crônica e a policitemia vera.
Na anemia falciforme, o fármaco aparentemente aumenta os níveis de
hemoglobina fetal, diluindo, assim, a hemoglobina anormal (HbS). Esse
processo demora vários meses. A polimerização da HbS é retardada nos
pacientes tratados, de forma que a crise dolorosa provocada pela obstru­
ção dos capilares e anoxia tissulardeixa de sercausada pelaanemia falci­
forme. Efeitos adversos da hidroxiureia incluem supressão da medula ós-
,
sea evasculite cutânea. E importante que a hidroxiureia seja administrada
sob supervisão de clínico experiente no tratamento da anemia falciforme.
B. Pentoxifilina
A pentoxifilina é um derivado da metilxantina denominado "modificador
reológico". Ela aumenta a deformabilidade dos eritrócitos (aumenta a fle­
xibilidade dos eritrócitos) e diminui a viscosidade do sangue. Isso diminui
a resistência vascular sistêmica total, melhora o fluxo de sangue e au­
menta a oxigenação tissular em pacientes com doença vascular periféri­
ca. A pentoxifilina é indicada no tratamento da claudicação intermitente
onde pode, modestamente, controlar a função e os sintomas. Os usos
extra-bula incluem a melhoria nos sintomas psicopatológicos em pacien­
tes com insuficiência cerebrovascular. Ela foi estudada nas angiopatias
Farmacologia Ilustrada 263
Em 12 meses,75o/o dos pacientes
tratados tiveram episódios de dor,
comparados com 90%dos
pacientes do grupo placebo.
o 100
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e o
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o o 12
11.
Meses
Figura 20.28
24
Efeito do tratamento com hidroxiureia
na porcentagem de pacientes de ane­
mia falciforme que apresentam o pri­
meiro episódio doloroso.
264 Clark, Finkel, Rey & Whalen
diabéticas, ataques isquêmicos transitórios, úlceras nas pernas, anemia
falciforme, infartos e fenômeno de Raynaud. Está disponível em compri­
midos de liberação controlada ou prolongada e é tomada como um com­
primido três vezes por dia com o alimento.
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
20.1 Uma mulher de 22 anos que apresenta dor e inchaço na
perna direita deu entrada na emergência. A ultrassono­
grafia mostrou trombose na veia poplítea. A paciente, que
estava no segundo trimestre de gestação, foi tratada du­
rante sete dias com heparina não fracionada por via IV. A
dor sumiu durante o tratamento, e a paciente recebeu alta
no 8º dia. Qual dos seguintes fármacos para o tratamento
domiciliar seria o mais apropriado para essa paciente que
mora a cerca de 160 km do hospital mais próximo?
A. Varfarina
B. Ácido acetilsalicílico (AAS)
C. Alteplase
D. Heparina não fracionada
E. Heparina de baixa massa molecular (HBMM)
20.2 Um homem de 60 anos é diagnosticado com trombose
de veia profunda. O paciente foi tratado com um bolus de
heparina e foi iniciada venóclise com heparina. Uma hora
depois, ele estava sangrando profusamente no local da
infusão IV. O uso da heparina foi suspenso, mas o sangra­
mento continuou. Foi administrado protamina porvia IV e o
sangramento parou. A protamina:
A. Degradou a heparina.
B. lnativou a antitrombina.
C. Ativou a cascata da coagulação.
D. Ativou o ativador de plasminogênio tecidual.
E. Combinou-se ionicamente com a heparina.
20.3 Um homem de 54 anos com prótese de válvula aórtica
queixou-se ao seu médico de família de fezes escuras e
pastosas. O exame físico e os sinais vitais não apresen­
tavam alterações significativas, exceto pelas hemorragias
subconjuntivais e as gengivas sangrantes. As fezes foram
positivas para heme, e observou-se hematúria. O paciente
estava sendo tratado com varfarina por via oral desde a
colocação da válvula há um ano. O tempo de protrombina
está significativamente elevado. Qual dos seguintes trata­
mentos assegura a mais rápida recuperação dos sangra­
mentos secundários ao tratamento com varfarina?
A. Vitamina K por via IV.
B. Transfusão de plasma congelado fresco.
C. Protamina por via IV.
D. Suspensão imediata do tratamento com varfarina.
E. Administração IV de anticorpos antivarfarina.
Resposta correta = E. A HBMM tem resposta confiável e pode ser
administrada por via se em pacientes selecionados que recebem
treinamento na técnica de injeção.A HBMM não atravessa a placen­
ta e não apresenta efeitos teratogênicos. Ao contrário, a varfarina
é teratogênica e contraindicada em gestantes. O AAS, que inibe a
aglutinaçãoplaquetária, tem pouco efeito natrombose venosa, que é
compostadefibrinacom apenas poucas plaquetas.A alteplase nãoé
indicada paratrombose de veias profundas.
Respostacorreta = E. O sangramento excessivo pode ser controlado
com a interrupção daadministração daheparina ecom usode sulfato
de protamina. Infundida lentamente, a protamina combina-se ionica­
mente com a heparina, formando um complexo inativo e estável. Os
outros efeitos listados não sãodo sulfato de protamina.
Resposta correta= B. Sangue total, plasma congelado ou concentra­
do plasmático dos fatores sanguíneos podem ser empregados para
deterahemorragiarapidamente. Pequenos sangramentos são contro­
lados com a suspensão davarfarina e a administração de fitonadiona
por via oral; todavia, sangramentos graves exigem doses maiores da
vitamina administrada por via IV. Contudo, a reversão pela adminis­
tração de vitamina K demora cercade 24 horas. A protamina é usada
para neutralizar a dosagem excessiva de heparina, e não a de varfa­
rina. A suspensão imediata da varfarina não terá um efeito imediato,
pois os efeitos anticoagulantes davarfarina duram entre 5 e 7 dias.
,
ar acos
• ..A. •
1 e ICOS
1. RESUMO
A doença cardíaca coronariana (DCC) é a causa de cerca da metade de to­
das as mortes nos Estados Unidos. A incidência de DCC está relacionada
com níveis elevados da lipoproteína de baixa densidade (LDL) colesterol e
triacilgliceróis e com níveis baixos de lipoproteína de alta densidade (HDL)
colesterol. Outros fatores de risco para DCC incluem o fumo, a hipertensão, a
obesidade e o diabetes. Os níveis de colesterol podem estar elevados como
resultado do estilo de vida do indivíduo (p. ex., por falta de exercícios físicos
e pelo consumo de uma dieta rica em ácidos graxos saturados). As hiperli­
pemias também podem resultar de um simples defeito genético que compro­
mete o metabolismo das lipoproteínas ou, mais comumente, de uma combi­
nação de fatores genéticos e estilo de vida. Alterações adequadas no estilo
de vida associadas ao tratamento farmacológico podem levar ao declínio da
progressão das placas coronarianas, à regressão de lesões preexistentes e à
redução da mortalidade decorrente de DCC em 30 a 40°
/
o. Os fármacos anti­
-hiperlipêmicos precisam ser utilizados por tempo indefinido porquê, quando
o tratamento é interrompido, os níveis plasmáticos de lipídeos retornam aos
valores pré-tratamento. Esses fármacos estão listados na Figura 21 .1. A Fi­
gura 21.2 ilustra o metabolismo normal das lipoproteínas plasmáticas e as
características das principais hiperlipemias genéticas.
li. OBJETIVOS DOTRATAMENTO
Os lipídeos plasmáticos consistem principalmente em lipoproteínas - comple­
xos macromoleculares esféricos de lipídeos e proteínas específicas (apolipo­
-proteínas). As lipoproteínas clinicamente importantes, listadas em ordem de­
crescente de aterogenicidade, são LDL, lipoproteína de densidade muito baixa
(VLDL), quilomícrons e HDL. A ocorrência de DCC está associada de forma
positiva ao alto colesterol total no sangue e, ainda mais fortemente, ao LDL
colesterol elevado. Contrastando com o LDL colesterol, altos níveis de HDL
colesterol estão associados a um menor risco de doenças cardíacas (Figura
21 .3). A diminuição do nível de LDL é o objetivo principal do tratamento de re-
INIBIDORESDAHMG-COA(ESTATINAS)
Atorvastatina
Fluvastatina
Lovastati
na
Pitavastatina
Pravastatina
Rosuvastatina
Sinvastati
na
FIBRATOS
Genfibrozila
Fenofibrato
NIACINA
Ni
aci
na
INIBIDORESDAABSORÇÃODO
COLESTEROL
Ezetimiba
SEQUESTRANTESDEÁCIDOSBILIARES
Co/esevelam
Co/estipol
Co/estiramina
ÁCIDOSGRAXOSÔMEGA-3
,
Acidas docoexaenoico e eicosapentaenoico
Figura 21.1
Resumo dos fármacos anti-hiperlipê­
micos. HMG = 3-hidroxi-3-metilglutaril
coenzima A.
266 Clark, Finkel, Rey & Whalen
INTESTINO
DELGADO
Quilomícron
nascente
FÍGADO
I.____-> Quilomícron
A mucosa intestinal secretaquilomícrons
ricos emTG (produzidos principalmente
a partirde lipídeos da dieta); ofígado
secreta partículas deVLDL ricas emTG.
VLDL
Legenda:Proteína
Fosfollpídeo
Triacllgllceróis
Colesterol eésteres
decolesterlla
TECIDOS,
(P. EX.,OADIPOSO)
VLDL CAPILARES
Figura 21.2
Os quilomícrons
remanescentes
1!
1 1
1
11.
;::::
.....
se ligam a receptores
específicos nofígado,
ondesofrem endocitose.
As LDLsse ligam a receptores
específicos nostecidos extra-
-hepáticose nofígado, onde
sofrem endocitose.
Quilomícron
remanescente
Lipoproteína
lipase
Lipase
lipoproteica
extracelular,
ativadaporapo
Cll,degradaTG
emquilomícron
eVLDL.
Ácidos
graxos livres
Metabolismo das lipoproteínas plasmáticas e doenças genéticas relacionadas. Os algarismos romanos nos círculos
brancos se referem a tipos genéticos específicos de hiperlipidemias resumidos na página seguinte. CM = quilomícrons,
TG = triacilglicerol; VLDL = lipoproteína de densidade muito baixa; LDL = lipoproteína de baixa densidade; IDL = lipopro­
teína de densidade intermediária; apo Cll = apolipoproteína Cll encontrada nos quilomícrons e naVLDL. (Continua na
próxima página.)
Farmacologia Ilustrada 267
Tipo 1 (HIPERQUILOMICRONEMIA FAMILIAR)
• Hiperquilomicronemia massivaemjejum, mesmo após ingestão normal degorduras
nadieta, resultando em grandeelevação nos níveis plasmáticos deTG.
• Deficiência de lipoproteína lipaseou deapolipoproteína Cll normal (raro).
Quilomícron
• OTipo 1 nãoestáassociado a aumento de doenças coronarianas cardíacas.
•Tratamento: dieta pobre em gorduras. Nenhumtratamentofarmacológico éeficazcontra hiperlipidemiaTipo 1.
Tipo llA (HIPERCOLESTEROLEMIA FAMILIAR)
• LDL elevada com níveis normais deVLDL devido a um bloqueio nadegradação da LDL.
Isso resulta no aumento do colesterol plasmático, masem níveis normais deTG.
• Causada pordefeitos nasíntese ou no processamento dos receptores de LDL.
• Grande aceleração de doenças cardíacas isquêmicas.
•Tratamento: dieta. Heterozigotos: colestiraminae niacinaou uma estatina.
Tipo 118 (HIPERLIPIDEMIA FAMILIAR COMBINADA [MISTA])
• Semelhante aoTipo llA, exceto pelo fato de os níveis deVLDLtambémestarem
aumentados, resultandoem aumento dos níveis plasmáticos deTG ede colesterol.
•A causa é a produção excessivadeVLDL pelofígado.
• Relativamente comum.
•Tratamento: dieta.Tratamentofarmacológico semelhante ao doTipo llA.
Tipo Ili (DISBETALIPOPROTEINEMIA FAMILIAR)
• Concentraçõesséricas de IDL aumentadas, resultando em aumento dos níveis deTG ecolesterol.
• A causaé a produção excessiva ou a pouca utilização de IDL devido à apolipoproteína E mutante.
• Nos pacientes de meia idade desenvolvem-sexantomas edoenças vasculares aceleradas.
•Tratamento: dieta. Otratamentofarmacológico inclui niacinae fenofibratoou uma estatina.
Tipo IV (HIPERTRIGLICERIDEMIA FAMILIAR)
• Os níveis deVLDL estão aumentados, ao passo queos de LDL estão normais ou diminuídos,
resultando em níveis normais ou elevados de colesterol e níveis muitoelevados deTG circulante.
• A causaé a produção excessivae/ou a diminuição da remoção deTG daVLDL do soro.
• Éumadoença relativamente comum.Apresenta poucas manifestações clínicas além da
aceleração de doença cardíaca isquêmica. Pacientes portadores desse distúrbio
frequentementesão obesos, diabéticose hiperuricêmicos.
•Tratamento: dieta. Se necessário,o tratamentofarmacológico inclui ni
acinae/ou fenofibrato.
Tipo V (HIPERTRIGLICERIDEMIA FAMILIAR MISTA)
• Níveis séricos deVLDL e quilomícrons elevados. LDL normal ou reduzida. Isso resulta
naelevação dos níveis de colesterol e na grande elevação dos deTG.
•A causaé o aumento na produção ou a redução nadepuração daVLDL e dos
quilomícrons. Em geral, é um defeito genético.
• Ocorre mais comumenteem adultos obesose/ou diabéticos.
•Tratamento: dieta. Se necessário,o tratamentofarmacológico inclui ni
acinae/ou
fenofibratoou umaestatina.
Figura 21.2 (Continuação)
VLDL
VLDL
Quilomícron VLDL
268 Clark, Finkel, Rey & Whalen
3,0
o
8
cu 2,0
"CI
8
.!!!
a: 1,0
Figura 21.3
LDLelevadae HDL baixa
sãofatores de risco
para DCC.
Efeito da LDL e da HDL circulantes
sobre o risco de doença cardíaca co­
ronariana (DCC). LDL = lipoproteína de
baixa densidade; HDL = lipoproteínade
alta densidade.
Colesterol total
30 60
Colesterol de LDL
-dução do colesterol. A Figura 21.4 mostra os objetivos atuais do tratamento
da hiperlipidemia. As recomendações para a redução do LDL colesterol para
níveis específicos são influenciadas pela coexistência de DCC e pelo número
de outros fatores de risco cardíaco. Quanto maior o risco geral de doença car­
díaca, mais enérgico é o tratamento recomendado para reduzir a LDL.
A. Opções de tratamento contra a hipercolesterolemia
Em pacientes com hiperlipemia moderada, alterações do estilo de vida,
como dieta, prática de exercícios e redução da massa corporal, podem le­
vara uma modesta redução nos níveis de LDLe no aumento nos níveis de
HDL. No entanto, a maioria dos pacientes não está disposta a alterarseus
hábitos de modosuficiente, a fim de alcançaro objetivo, sendo necessário
tratamentofarmacológico. Pacientes com níveis de LDLacima de 160 mg/
dL, apresentando mais um fator de risco importante, como hipertensão,
diabetes, fumo ou história familiar de DCC, são candidatos ao tratamento
farmacológico. Pacientes com dois ou mais fatores de risco adicionais de­
vem receber tratamento enérgico, visando a reduzir o nível de LDL para
menos do que 100 mg/ dL e, em alguns pacientes, até 70 mg/mL.
B. Opções de tratamento contra a hipertriacilglicerolemia
Níveis elevados de triacilglicerol (triglicéride) estão independentemente
associados a um maior risco de DCC. Dieta e exercícios físicos são as
principais formas de combater a hipertriacilglicerolemia. Se indicados,
niacina e derivados do ácido fíbri
co são os mais eficazes na redução dos
níveis de triacilglicerol. A redução do triacilglicerol é um benefício secun­
dário das estatinas (o benefício primário é a redução do colesterol LDL).
(Nota: o principal componente doVLDL é constituído de triacilglicerol.)
Ili. FÁRMACOS QUE REDUZEM A CONCENTRAÇÃO DE
LIPOPROTEÍNAS SÉRICAS
1
100
Os fármacos anti-hiperlipêmicos combatem o problema dos altos níveis de
lipídeos séricos por meio de estratégias complementares. Alguns desses
200
t
Desejável .
Limite
•
.
.
1
130 160 200
130 160
t t
240
l
•
.
•
•
•
1
230
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1
M
í
h
ii·
>
1 1 1
260
1
300
Desejável � Limite
•
•
•
•
30
Colesterol de HDL
Figura 21.4
35
§�l�·l1�!J.·dLimite
1 1
1
30
60
60
� Desejável
1 1 1 1
60
1
1
100 130 160 200 230 260 300
1 1
�
100 130 160 200 230
Lipoproteína plasmática (mg/dL)
Níveis de lipoproteína a serem alcançados por meio de dieta ou tratamento farmacológico para prevenção de doença
cardíaca coronariana. (Nota: níveis mais baixos de colesterol total e de colesterol LDLsão recomendados para pacientes
com histórico de doença cardíaca.)
fármacos reduzem a produção de lipoproteínastransportadoras de coleste­
rol e triglicérides, e outros aumentam a degradação da lipoproteína. Outros
ainda reduzem a absorção de colesterol ou aumentam diretamente a sua
remoçãodo organismo. Esses fármacos podem ser usados individualmente
ou associados. Entretanto, os fármacos anti-hiperlipêmicos sempre devem
ser associados a uma baixa ingestão de gorduras saturadas e gorduras
trans, e o conteúdo calórico da dieta deve ser monitorado.
A. Inibidores da HMG CoA redutase
Os inibidores da 3-hidroxi-3-metilglutaril (HMG) coenzima A (CoA) re­
dutase (mais conhecidos como estatinas) reduzem os níveis elevados
de colesterol de LDL, resultando em redução substancial de eventos
coronarianos e de morte por DCC. Esse grupo de fármacos anti-hiper­
lipêmicos inibe o primeiro passo da síntese do colesterol, que envolve
ação enzimática, constituindo o tratamento de primeira escolha e o mais
eficaz para pacientes com colesterol LDL elevado. Os benefícios tera­
pêuticos incluem estabilização das placas, melhora da função endotelial
coronariana, inibição da formação do trombo plaquetário e atividade anti­
-inflamatória. A vantagem de reduzir o nível de colesterol com o uso das
estatinas já foi demonstrada em: 1) pacientes portadores de DCC com
ou sem hiperlipemia; 2) homens com hiperlipemia não acompanhada de
DCC e 3) homens e mulheres com níveis médios de colesterol total e de
LDL sem diagnóstico de DCC.
1 . Mecanismos de ação
a. Inibição da HMG CoA redutase. Lovastatina, sinvastatina, pra­
vastatina, atorvastatina, fluvastatina, pitavastatina e rosuvasta-
SANGUE
Receptorde LDL
t
 )
MEMBRANA PLASMÁTICA
XXXXXXX)( DNA
o
RNAm
1-- Ribossomo
LDL
)
O baixo colesterol
intracelular
estimula a síntese
de receptores
de LDL.
Colesterol
,4-
,
'
,4-
,
'
Ácido mevalônico
Farmacologia Ilustrada 269
Oaumento do número
de receptores de LDL
promove aabsorção
da LDLdosangue. VLDL
�
- - 1
' .
......------.......,.,/,.....,:----�
' '
' '
' '
' '
'
WLDL
CoA <-, : ,-> 2NADPH+ 2H•
O baixo colesterol
intracelulardiminui a
secreção deVLDL.
RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO
Figura 21.5
As estatinas inibem a HMG CoA redutase,
levando à diminuição daconcentração de
colesterol no interior da célula.
" '
;•
"'---. ,
!O<"'""'"" Inibidores da HMG CoA redutase
•
"
' '
' '
: - 2NADP•
HMGCoA ...: ...: Acetato
Inibição da HMG CoA redutase pelas estatinas. HMG CoA = 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzima A; LDL = lipoproteína de
baixa densidade;VLDL = lipoproteína de densidade muito baixa.
270 Clark, Finkel, Rey & Whalen
- 20
m
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-
i 2
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e.
o
1m
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!
C(
-40 -36
LDL
Figura 21.6
16
HDL
O Placebo
• Sinvastatina
(BO mg)
-33
TG
Efeito da sinvastati
na sobre os lipídeos
séricos de 130 pacientes portadores de
diabetes Tipo 2, tratados durante seis
semanas. HDL = lipoproteína de alta
densidade; LDL = lipoproteína de baixa
densidade;TG = triacilglicerol.
tina são análogos do HMG, o precursor do colesterol. A /ovas­
tatina e a sinvastatina são lactonas que são hidrolisadas em
fármaco ativo. A pravastatina e a fluvastati
na são ativas como
tal. Devido à sua grande afinidade pelaenzima, todas competem
efetivamente para inibir a HMG CoA redutase, a etapa limitante
da síntese do colesterol. Inibindo a síntese de novo do coleste­
rol, elas esgotam o seu suprimento intracelular (Figura 21 .5). Pi­
tavastatina, rosuvastatina e atorvastati
na são as estatinas mais
potentes na redução do colesterol LDL, seguidas por sinvastati­
na e pravastatina e, então, lovastatina e f/uvastatina.
b. Aumento nos receptores de LDL. O esgotamento do coles­
terol intracelular leva a célula a aumentar na superfície o nú­
mero de receptores específicos de LDL que podem ligar o LDL
circulante e internalizá-lo. Assim, o resultado final é a redução
do colesterol plasmático, tanto pela diminuição de sua síntese
como pelo aumento do catabolismo do LDL. (Nota: como esses
fármacos sofrem acentuada extração de primeira passagem no
fígado, seu efeito dominante se dá nesse órgão.) Os inibidores
da HMG CoA redutase, como a colestiramina que sequestra
ácidos biliares, podem aumentaros níveis de HDL no plasma de
alguns pacientes, resultando em redução adicional no risco de
DCC.Também ocorre redução dos triglicérides.
2. Usos terapêuticos. Esses fármacos são eficazes na redução dos
níveis plasmáticos de colesterol em todos os tipos de hiperlipidemias
(Figura 21.6). No entanto, pacientes homozigotos para hipercoleste­
rolemia familiar não têm receptores de LDL e, dessa forma, se bene­
ficiam muito menos dotratamento com esses fármacos. (Nota: esses
fármacos frequentemente são administrados em associação a outros
fármacos anti-hiperlipidêmicos; ver a seguir.) Note que cerca de um
quarto dos pacientes tratados com esses fármacos ainda apresenta
eventos coronarianos, apesarda proteção obtida pela reduçãodo co­
lesterol. Assim, estratégias adicionais, como dieta e prática de exercí­
cios, ou fármacos adicionais podem ser justificados.
3. Farmacocinética. A pravastati
na e a f/uvastati
na são quase com­
pletamente absorvidas após a administração via oral; 30 a 50°
/
o
Característica Atorvastatina Fluvastatlna Lovastatlna Pravastatina Rosuvastatlna Slnvastatlna
Redução decolesterol de
LDL sérico produzido (0/o)
Redução detriacilglicerol
sérico produzido (%)
Aumento de colesterol de
HDL sérico produzido (0/o)
Meia-vida plasmática (horas)
Penetração no sistema
nervoso central
Excreção renal da
doseabsorvida (0/o)
Figura 21.7
50 24
29 10
6 8
14 1 a2
Não Não
2 < 6
34 34 50 41
16 24 18 18
9 12 8 12
2 1 a2 19 1 a2
Sim Não Não Sim
10 20 10 13
Resumo dos inibidores da 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzimaA (HMG-CoA) redutase. HDL= lipoproteína de alta densida­
de; LDL = lipoproteína de baixa densidade.
das doses orais de /ovastati
na e sinvastatina são absorvidas. A pra­
vastatina e a f/uvastatina são ativas nas suas formas originais, e
a lovastatina e a sinvastatina necessitam ser hidrolisadas a suas
formas ácidas. Todos são biotransformados, havendo manutenção
da atividade em alguns dos metabólitos. A excreção ocorre princi­
palmente pela bile e pelas fezes, mas também ocorre alguma elimi­
nação urinária. Suas meias-vidas variam de 1 ,5 a 2 horas. Algumas
características das estatinas estão resumidas na Figura 21 .7.
,
4. Efeitos adversos. E notável que, durante a triagem da sinvastatina
e da /ovastatina por cinco anos, foram relatados poucos efeitos ad­
versos, relacionados às funções hepática e muscular (Figura 21 .8).
a. Fígado. Anormalidades bioquímicas na função hepática ocor­
reram com o uso de inibidores da HMG CoA redutase. Assim, é
prudente avaliar a função hepática e mensurar periodicamente
os níveis plasmáticos de transaminase. Eles retornam ao nor­
mal com a suspensão do fármaco. (Nota: a insuficiência hepáti­
ca pode causar acúmulo do fármaco.)
b. Músculo. Raramente foram relatadas miopatia e rabdomiólise
(desintegração ou dissolução do músculo). Na maioria desses
casos, os pacientes sofriam de insuficiência renal ou estavam
recebendo ciclosporina, itraconazo/, eritromicina, genfibrozila
ou niacina. Os níveis plasmáticos de creatinaquinase devem ser
avaliados regularmente.
c. Interações farmacológicas. Os inibidores da HMG CoA redu­
tase podem aumentar os níveis de varfarina. Dessa forma, é
importante avaliar frequentemente a relação normalizada inter­
nacional (INR).
d. Contraindicações. Essesfármacos são contraindicados duran­
te a gravidez e a lactação. Eles não devem ser utilizados em
crianças e adolescentes.
B. Niacina (ácido nicotínico)
A niacina pode reduzir os níveis de LDL (o transportador do "mau" coles­
terol) em 1O a 20°
/
o e é o fármaco mais eficaz para aumentar os níveis
de HDL (o transportador do "bom" colesterol). A niacina pode ser usada
em combinação com as estatinas, estando disponível umaassociação de
dose fixa de lovastatina e niacina de longa duração de ação.
1. Mecanismo de ação. Com doses na faixa de gramas, a niaci
na ini­
be fortemente a lipólise no tecido adiposo -o principal produtor dos
ácidos graxos livres circulantes. O fígado normalmente utiliza esses
ácidos graxos livres como principais precursores na síntese do tria­
cilglicerol. Dessa forma, a redução na concentração de VLDL tam­
bém resulta na redução daconcentração plasmática de LDL. Assim,
tanto o triacilglicerol (no VLDL) quanto o colesterol plasmáticos (no
VLDL e no LDL) são reduzidos (Figura 21 .1O). Além disso, o trata­
mento com niacina aumenta os níveis de colesterol HDL. A niacina
também pode reverter algumas disfunções das células endoteliais
que contribuem para a trombose associada à hipercolesterolemia e
à aterosclerose, acentuando a secreção de ativadordo plasminogê­
nio tecidual e reduzindo o nível de fibrinogênio no plasma.
2. Usos terapêuticos. A niacina reduz os níveis plasmáticos de coles­
terol ede triacilglicerol. Dessaforma, ela é particularmente útil notra­
tamento das hiperlipidemias familiares. A niacina também é utilizada
Farmacologia Ilustrada 271
y-=�
Figura 21.8
1nsuficiência
hepática
Miopatia
Contraindicado
duranteagravidez
Alguns efeitos adversos dos inibidores
da 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzima A
(HMG CoA) redutase.
TECIDO
ADIPOSO
Triacilglicerol
'
'
'
'
T 8 -<·111111111"111111 Niacina
y
Ácidos graxos
1 1
1 1
1 '�
-
Ácidos graxos
'
'
'
y
Trlacilglicerol
FÍGADO
Figura 21.9
'
'
'
y
VLDL
,... I
' /
;
VLDL
1 1
,... I
 /
;
LDL
A niacina inibe a lipólise no tecido adi­
poso, resultando na redução da síntese
hepática de VLDL e da produção de
LDL no plasma.
272 Clark, Finkel, Rey & Whalen
300
Total
�
..J
32
CJI
.§. 200- LDL
-
e
J!I
li 100
-
o HDL
o
� . . . .
1 2 3 4
Meses
Figura 21.1O
. .
5 6
Níveis plasmáticos de colesterol em pa­
cientes hiperlipêmicos durante o trata­
mento com niacina. LDL = lipoproteína
de baixadensidade; HDL = lipoproteína
de alta densidade.
Quilomícron
TECIDOS
Capilares (p.ex., ADIPOSO)
�"""" Genfibrozila
Lipoproteína
lipase
IDL
Quilomícrons
remanescentes.......-
Figura 21.11
,
Acidos
graxos
livres
Ativação da lipoproteína lipase pelo
genfibrozila. VLDL = lipoproteína de
densidade muito baixa; IDL = lipopro­
teína de densidade intermediária.
3.
no tratamento de outras hipercolesterolemias graves, frequentemen­
te associadaa outros anti-hiperlipêmicos. Além disso, elaé ofármaco
anti-hiperlipidêmico mais potente para elevar os níveis plasmáticos
de HDL, que é a sua indicação de uso clínico mais comum.
Farmacocinética. A niaci
na é administrada por via oral. No organis
mo, ela é convertida em nicotinamida, que é incorporada ao cofator
nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD+). A niacina, o derivado
nicotinamida e outros metabólitos são excretados na urina. (Nota: a
nicotinamida isolada não reduz os níveis lipídicos plasmáticos.)
4. Efeitos adversos. Os efeitos adversos mais comuns da niacina são
intenso rubor cutâneo (acompanhado por uma desconfortável sen­
sação de calor) e prurido. A administração de ácido acetilsalicílico
previamente à niacina reduz o rubor, que é mediado por prostaglan­
dinas. A formulação de liberação lentada niaci
na, administrada uma
vez ao dia ao deitar, reduz os desconfortáveis efeitos adversos ini­
ciais.Alguns pacientes também sentem náuseas e dor abdominal.A
niacina inibe a secreção tubular de ácido úrico, predispondo, assim,
à hiperuricemia e à gota.Também foram relatadas hepatotoxicidade
e intolerância à glicose.
C. Os fibratos: fenofibrato e genfibrozila
O fenofibrato e o genfibrozila são derivados do ácido fíbrico que reduzem
os triacilgliceróis e aumentam os níveis de HDL do plasma. Ambos têm
o mesmo mecanismo de ação. No entanto, o fenofibrato é mais eficaz do
que o genfibrozila na redução dos níveis plasmáticos de colesterol LDL
e triglicérides.
1. Mecanismo de ação. Os receptores ativados pelo proliferador de
peroxissomo (RAPPs) são membros da família de supergenes de
receptores nucleares que regula o metabolismo lipídico. Os RAPPs
funcionam como fatores de transcrição ativados pelo ligante. Eles
são ativados ao ligarem-se aos seus ligantes naturais (ácidos gra­
xos ou eicosanoides) ou a fármacos hipolipidêmicos. A seguir, eles
se ligam aos elementos de resposta proliferadores de peroxissomo,
localizados em numerosos promotores de genes. Os RAPPs regu­
lam, particularmente, a expressão de genes codificadores de proteí­
nas envolvidas na estrutura e função das lipoproteínas.A expressão
de genes mediada por fibrato leva, em última instância, à redução
das concentrações de triacilglicerol pelo aumento da expressão da
lipoproteína lipase (Figura 21 .11) e pela diminuição da concentra­
ção de apo C-11. Os fibratos também aumentam o nível de colesterol
HDL pelo aumento da expressão de apo AI e apo All. O fenofibrato
é um pró-fármaco que produz um metabólito ativo, o ácido fenofíbri­
co, responsável por seus efeitos principais.
2. Usos terapêuticos. Os fibratos são utilizados no tratamento das hi­
pertriacilglicerolemias, provocando uma diminuição significativa nos
níveis plasmáticos de triacilglicerol. O f
enofibrato e o genfibrozila são
particularmente úteis no tratamento da hiperlipemia Tipo Ili (disbeta­
lipoproteinemia), na qual se acumulam as partículas lipoproteicas de
densidade intermediária. Pacientes portadores de hipertriacilglicero­
lemia (doença Tipo IV [com elevada VLDL] ou Tipo V [com elevados
VLDLequilomícrons]) que não respondem àdieta eaoutrosfármacos
também podem se beneficiardotratamento com esses fármacos.
3. Farmacocinética. Ambos os fármacos são completamente absor­
vidos após administração via oral. O genfibrozila e o fenofibrato se
distribuem amplamente, ligados à albumina. Os dois fármacos so­
frem extensa biotransformação, sendo excretados pela urina na for­
ma de conjugados glicuronídeos.
4. Efeitos adversos
a. Efeitos gastrintestinais (GI). Os efeitos adversos mais comuns
são distúrbios GI leves. Eles diminuem à medida que o trata­
mento avança.
b. Litíase. Como esses fármacos aumentam a excreção biliar de
colesterol, há uma predisposição à formação de cálculos biliares.
c. Músculos. Pode ocorrer miosite (inflamação de um músculovo­
luntário) com os dois fármacos; assim, deve-se avaliar a presen­
ça de fraqueza e sensibilidade muscular. Pacientes com insufi­
ciência renal apresentam maior risco. Foram relatadas miopatia
e rabdomiólise em alguns pacientes que recebiam, ao mesmo
tempo, genfibrozila e lovastatina.
d. Interações farmacológicas. Ambos os fibratos competem com
os anticoagulantes do tipo cumarina por sítios de ligação nas
proteínas plasmáticas, e, assim, há potencialização transitória
da atividade anticoagulante. Por isso, o INR deve ser monito­
rado quando o paciente estiver utilizando ambos os fármacos.
De forma semelhante, esses fármacos podem elevartransitoria­
mente os níveis de sulfonilúreias.
e. Contraindicações. A segurança desses fármacos durante a gra­
videz e a lactação ainda não foi estabelecida. Eles não devem ser
usados em pacientes portadores de disfunção renal ou hepática
grave ou em pacientes com doença preexistente na vesícula biliar.
D. Resinas que se ligam aos ácidos biliares
Os sequestradores de ácidos biliares (resinas) reduzem significativamen­
te o colesterol LDL, embora seus benefícios sejam menores do que os
obtidos com as estatinas.
1. Mecanismo de ação. A colestiramina, o colestipol e o colesevelam
são resinas que realizam trocas de ânions e que se ligam aos áci­
dos e sais biliares com carga negativa no intestino delgado (Figura
21.12). O complexo resina/ácido biliaré excretado nas fezes, evitan­
do, dessa forma, que os ácidos biliares retornem ao fígado através
da circulação enteroepática. A redução da concentração de ácidos
graxos faz com que os hepatócitos aumentem a conversão de co­
lesterol em ácidos biliares, restabelecendo o suprimento desses
compostos, componentes essenciais da bile. Consequentemente,
a concentração de colesterol intracelular diminui, o que ativa uma
maior absorção de colesterol contendo partículas LDL, levando a
uma redução do LDL plasmático. (Nota: esse aumento na absorção
é mediado por maior ativação dos receptores de LDL da superfície
celular.) Em alguns pacientes também se observa um leve aumento
nos níveis plasmáticos de HDL. O resultadofinal dessa sequência de
eventos é a redução da concentração plasmática de colesterol total.
2. Usos terapêuticos. As resinas que ligam ácidos graxos são os fár­
macos de escolha (frequentemente combinados com modificações
da dieta ou com niacina) no tratamento das hiperlipidemiasTipo llA
e Tipo 118. (Nota: em alguns raros indivíduos homozigotos para o
Tipo llA - isto é, nos quais não há receptores funcionais de LDL -,
Farmacologia Ilustrada 273
ft Pacientehiperlipêmico
W nãotratado
Fígado
,..--
____
_
_
Colesterol
Intestino
delgado,,.--...
!
!
Sais
Ácidose
sais biliares
biliares
A maior parte dos ácidose
sais biliaressecretados no
intestinoé reabsorvida.
r:'IPacientehiperlipêmicotratadocom
1:1resinasligantesaácidosbiliares
Colesterol
t Ácidos e
Sais ,---�
·- �-sais biliares
biliares  :---::��-��-�
Fezes
Complexo
insolúvel
A co/estiramina, o co/esti
polou o
co/esevelamformam um complexo
insolúvel com os ácidosesais
biliares, impedindosua reabsorção
no intestino.
Figura 21.12
Mecanismo de ação das resinas ligado­
ras de ácidos biliares.
274 Clark, Finkel, Rey & Whalen
--+ Média
B
Dieta Dieta+ Dieta+
Figura 21.13
Lovastatina Lovastatina+
Co/estipol
Resposta do colesterol total plasmático
à dieta (com baixo colesterol e baixa
gordura saturada) e a fármacos anti­
-hiperlipêmicos em pacientes portado­
res de hipercolesterolemia heterozigota
familiar.
esses fármacos têm pouco efeito sobre os níveis plasmáticos de
LDL.) A colestiramina também pode aliviar o prurido causado pelo
acúmulo de ácidos biliares em pacientes com obstrução biliar. Elas
também são usadas contra diarreia.
3. Farmacocinética. A colestiramina, o colestipole o colesevelamsão
administrados por via oral. Como são insolúveis em água e muito
grandes (a massa molecular é maior do que 106), esses fármacos
não são absorvidos e nem alterados metabolicamente no intestino.
Em vez disso, eles são totalmente excretados nas fezes.
4. Efeitos adversos
a. Efeitos GI. Os efeitos adversos mais comuns são distúrbios GI,
como constipação, náuseas e flatulência. O colesevelam apre­
senta efeitos GI menores do que os outros sequestradores dos
ácidos biliares.
b. Deficiência de absorção. Em altas doses, a colestiramina e o
colestipolprejudicam a absorção das vitaminas lipossolúveis (A,
D, E e K).
c. Interações farmacológicas. A colestiramina e o colestipol in­
terferem na absorção intestinal de vários fármacos - por exem­
plo, tetracicli
na, fenobarbital, digoxi
na, varfarina, pravastati
na,
fluvastatina, ácido acetilsa/icílico e diuréticos tiazídicos. Assim,
esses fármacos devem ser administrados pelo menos uma ou
duas horas antes, ou quatro a seis horas depois das resinas que
se ligam aos ácidos biliares.
E. Inibidores da absorção de colesterol
A ezetimiba inibe seletivamente a absorção de colesterol da dieta e da bile
no intestino delgado, diminuindo a oferta de colesterol intestinal para o fíga­
do. Isso reduz as reservas de colesterol hepático e aumenta a remoção de
colesterol do sangue. Ela reduzo colesterol LDLem 17°
/
o eostriacilgliceróis
em 6°
/
o eaumentaocolesterol HDLem 1 ,3°
/
o.A ezetimibaé biotransformada
principalmente no intestino delgado e no fígado por meio da conjugação de
glicuronídeos (uma reação de Fase li), com subsequente eliminação biliar
e renal.Tanto a ezetimibaquanto o glicuronídeo são lentamente eliminados
do plasma, com uma meia-vida de aproximadamente 22 horas. A ezetimiba
não apresenta efeitos clinicamente significativos nas concentrações plas­
máticas de vitaminas lipossolúveis A, D e E. Pacientes com insuficiência
hepática moderada a grave não devem sertratados com ezetimiba.
F. Tratamento farmacológico combinado
Frequentemente, é necessário usar dois fármacos anti-hiperlipidêmicos
para alcançar os níveis lipídicos plasmáticos almejados com o tratamen­
to. Por exemplo, nas hiperlipidemias Tipo li, comumente os pacientes
são tratados com a associação de niacina a um fármaco que se liga aos
ácidos biliares, como a colestiramina. (Nota: lembre-se de que a colesti­
ramina provoca aumento nos receptores que eliminam o LDL circulante
do plasma, e a niacina reduz a síntese de VLDL e, assim, também a
síntese de LDL.) A combinação de um inibidor da HMG CoA redutase
com um ligante aos ácidos biliares também se revelou muito útil na redu­
ção dos níveis de colesterol de LDL (Figura 21.13). Atualmente, sinvas­
tatina e ezetimiba, bem como a sinvastatina e a niacina são associadas
em um comprimido para tratar o colesterol LDL elevado. Contudo, são
necessárias mais informações clínicas para determinar se a associação
estatina-ezetimiba proporciona benefícios iguais ou melhores, a longo
Farmacologia Ilustrada 275
prazo, do que o uso de uma dosagem elevada de uma estatina. Enquan­
to esta incerteza persiste, vários especialistas recomendam maximizar
a dosagem de estatina e acrescentar niacina ou fibratos para alcançar
nos níveis de colesterol-HDL e triglicérides desejados. A associação de
fármacos, entretanto, não é isenta de riscos. Atoxicidade hepáticae mus­
cularocorre com maiorfrequência com a associação de fármacos que di­
minuem os lipídeos.A Figura 21 . 1 4 resume algumas ações dos fármacos
anti-hiperlipêmicos.
As normas para o tratamento das hiperlipidemias são apresentadas na
Figura 21 .15.
TIPO DE FÁRMACO EFEITOSOBRE EFEITO SOBRE EFEITO SOBRE
Inibidores da HMG CoA
redutase (estatinas)
Fibratos
Niacina
Sequestradores deácidos biliares
Inibidordaabsorção
de colesterol
Figura 21.14
LDL HDL TRIACILGLICERÓIS
tt
ttt
tt
ttt
tttt
t
t
ttt
Mínimo
Características das famílias de fármacos anti-hiperlipidêmicos. HDL = lipoproteína de alta densidade; HMG-CoA = 3-hi­
droxi-3-metilglutaril coenzima A; LDL = lipoproteína de baixa densidade.
Nível de colesterol elevado Nível de colesterol normal
(LDL maiordo que 130 mg/dl) (LDL= 130 mg/dl ou menos)
' '
, ' '
Sem risco1 1 Riscos Presençade
doençacardíaca
1 '
, '
Mudanças no estilo devida (dieta, exercício)*
'
, '
t
Objetivoalcançado Não alcançado Considere
'
t
1Monitorar
'
Objetivoalcançado
-
•
Nível de LDL elevado
1
Considereacrescentar
't
Ezetimiba, niacinaou
colesevelam
Figura 21.15
1 '
,
Estatina -
�
•
(titulara dosagem)
(Monitorar
1
,
) 1Não alcançado
'
t
Nível deLDL baixo
1
Considere acrescentar
't
Ni
acinaouco/esevelam
(ououtrosequestrante
deácidosbili
ares)
'
, '
Riscos Sem risco
'
'
(Semtratamento
'
Nível detriglicérides elevado
1
Considereacrescentar
'f
Niacina, fenofibratoou
ácidos graxos ômega-2
)
Normas para otratamento das hiperlipidemias. *Note que a dieta e os exercícios são componentes detodos os tratamen­
tos contra a hiperlipidemia. LDL = lipoproteína de baixa-densidade.
276 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
21.1 Qual dos seguintes efeitos adversos é o mais comum no
tratamento com fármacos anti-hiperlipidêmicos?
A. Elevação da pressão arterial.
B. Distúrbios gastrintestinais.
C. Problemas neurológicos.
D. Palpitações cardíacas.
E. Cefaleia de tipo enxaqueca.
21.2 Qual das seguintes hiperlipidemias se caracteriza por ele­
vados níveis plasmáticos de quilomícrons e não possui ne­
nhum tratamento farmacológico disponível para a redução
dos níveis de lipoproteínas plasmáticas?
A. Tipo 1
B. Tipo li
c. Tipo 111
D. Tipo IV
E. Tipo V
21.3 Qual dos seguintes fármacos reduz a síntese de novo de
colesterol inibindo a enzima 3-hidroxi-3-metilglutaril coen­
zima A redutase?
A. Fenofibrato
B. Niacina
C. Colestiramina
D. Lovastatina
E. Genfibrozila
21.4 Qual dos seguintes fármacos provoca redução da síntese
hepática de triacilglicerol limitando os ácidos graxos livres
necessários para o processo?
A. Niacina
B. Fenofibrato
c. Colestiramina
D. Genfibrozila
E. Lovastatina
21.5 Qual dos seguintes fármacos se liga aos ácidos biliares
no intestino, evitando, assim, que os ácidos retornem ao
fígado pela circulação enteroepática?
A. Niacina
B. Fenofibrato
c. Colestiramina
D. Fluvastatina
E. Lovastatina
Resposta correta = B. Os distúrbios gastrintestinais ocorrem frequen­
temente como efeito adverso do tratamentocom fármacos anti-hiperli­
pidêmicos. As outras escolhas não são considerados efeitos comuns.
Resposta correta = A. A hiperlipidemiaTipo 1 (hiperquilomicronemia)
é tratadacom dieta pobre em gorduras. Nenhumtratamentofarmaco­
lógico é eficaz contra esse distúrbio.
Resposta correta = D. O fenofibrato e o genfibrozila aumentam a
atividade da lipase lipoproteína, aumentando, assim, a remoção de
lipoproteína de densidade muito baixa (VLDL) do plasma. A niacina
inibe a lipólisenotecidoadiposo, eliminando, assim, os componentes
necessários para a produção hepática de triacilglicerol e, assim, a
VLDL.A colestiramina reduz a quantidade de ácidos biliares que vol­
tam aofígado pelacirculação enterohepática.
Resposta correta = A. Com dose na faixa de gramas, a niacina inibe
energicamente a lipólise no tecido adiposo, o principal produtor dos
ácidos graxos livres circulantes. O fígado normalmente usa esses
ácidos graxoscirculantes como principal precursorna síntese de tria­
cilgliceróis. Assim, a niacina causa redução na síntese hepática de
triacilgliceróis necessários para a produção de VLDL. Os fármacos
das outras escolhas não inibem a lipólise notecido adiposo.
Resposta correta = C. A colestiramina é uma resina trocadora de
ânions que fixa no intestino delgado os ácidos e sais biliares com
carga negativa. O complexo resina-ácido biliar é excretado com as
fezes, evitando, assim, que os ácidosbiliares retornem aofígadopela
circulaçãoenteroepática. Os fármacos das outras escolhas nãofixam
ácidos biliares no intestino.
,
ar acos
1. RESUMO
Fármacos que aumentam o fluxo urinário são denominados diuréticos. Esses
fármacos inibem os transportadores renais de íons e diminuem a reabsorção
de Na+ em diferentes partes do néfron. Como resultado, os íons Na+ e outros,
como o c1-, entram na urina em quantidades maiores do que a quantidade
normal juntamente com água, que é carregada passivamente para manter
o equilíbrio osmótico. Assim, os diuréticos aumentam o volume de urina e
frequentemente alteram seu pH, bem como a composição iônica da urina e
do sangue. A eficácia das diferentes classes de diuréticos varia consideravel­
mente, com o aumento dasecreção de Na+ variando de menos de 2°
/
o paraos
diuréticos fracos, poupadores de potássio, até mais de 20°
/
o para os potentes
diuréticos de alça. Além desses inibidores do transporte de íons, há os diuré­
ticos osmóticos que evitam a reabsorção de água, bem como os antagonistas
da aldosterona e os inibidores da anidrase carbônica. Os principais usos clí­
nicos dos diuréticos são no tratamento de alterações que envolvem a reten­
ção anormal de líquidos (edema) ou no tratamento da hipertensão, na qual a
ação diurética causa uma diminuição inicial do volume de sangue seguido de
queda da resistência periférica, levando à redução da pressão arterial. Neste
capítulo, os fármacos diuréticos (Figura 22.1) são discutidos de acordo com
sua frequência de uso.
li. REGULAÇÃO NORMAL DOS LÍQUIDOS E
,
ELETROLITOS PELOS RINS
Aproximadamente 16 a 20°
/
o do plasma sanguíneo que chega aos rins são
filtrados dos capilares glomerulares para o interior das cápsulas de Bowman.
O filtrado, embora normalmente livre de proteínas e células sanguíneas, con­
tém a maioria dos componentes plasmáticos de baixa massa molecular em
concentração aproximadamente igual à do plasma. Isso inclui glicose, bicar­
bonato de sódio, aminoácidos e outros solutos orgânicos, bem como eletró­
litos, Na+, K+ e c1-. Os rins regulam a composição iônica e o volume de urina
por reabsorção ativa ou secreção de íons e/ou reabsorção passiva de água
DIURÉTICOSTIAZÍDICOS
C/orotiazida
C/ortalidona
Hidroc/ortiazida (HCTZ)
lndapamida
Meto/azona
DIURÉTICOSDEALÇA
,
Acido etacrí
nico
Bumetanida
Furosemida
Torsemida
DIURÉTICOSPOUPADORESDEPOTÁSSIO
Amilorida
Eplerenona
Espironolactona
T
ri
amtereno
INIBIDORESDEANIDRASECARBÔNICA
Acetazolamida
DIURÉTICOSOSMÓTICOS
Figura 22.1
Manitol
Ureia
Resumo dos fármacos diuréticos.
278 Clark, Finkel, Rey & Whalen
ACET
AZOLAMIDA TIAZÍDICOS
•UminibidordaanidrasecarbônicaqueinibeareabsorçãodeHC03-
notúbulocontorcidoproximal.
•InibemareabsorçãodeNa•ec1-notúbulocontorcido
distal,resultandoemretençãodeáguanotúbulo.
•Propriedadesdiuréticasfracas.
BUMET
ANIDA, FUROSEMIDA,
TORSEMIDA, ÁCIDO ET
ACR
Í
NICO
•Osdiuréticosdealçainibemo
cotransportedeNa•1K·12crna
porçãoascendentedaalçadeHenle,
resultandoemretençãodeNa+,cr
eáguanotúbulo.
•Essesfármacossãoos
diuréticosmaiseficazes.
Figura 22.2
Túbulo
contorciCio
proximal
Alçade
Henle
descendente
• Diuréticosmaiscomumenteusadosnotratamento
dahipertensão.
Alçade
Henle
ascendente
Túbulo
contorcido
distal
Túbuloe
duetocoletor
ESP/RONOLACTONA,
AMILOR/DA,
TRIANTERENO
•Espirono/actona, um
antagonistadaaldosterona,
inibeareabsorçãode Na•
asecreçãodeK•mediadas
pelaaldosterona.
•Amilorida etri
antereno
bloqueiamoscanaisdeNa•.
• Essesdiuréticospodemevitar
aperdadeK•queocorrecomos
diuréticostiazídicosedealça.
Localizações principais de trocas de íons e água no néfron, mostrando os locais de ação dos fármacos diuréticos.
em cinco zonas funcionais ao longo do néfron: 1) túbulo contorcido proximal,
2) porção descendente da alça de Henle, 3) porção ascendente da alça de
Henle, 4) túbulo contorcido distal e 5) túbulo e dueto coletor (Figura 22.2).
A. Túbulo contorcido proximal
No extensotúbulo contorcido proximal, localizado no córtex renal, pratica­
mente toda glicose, bicarbonato, aminoácidos e outros metabólitos são
reabsorvidos.Aproximadamente dois terços do Na+também são reabsor­
vidos. O cloreto entra no lúmen do túbulo em troca de um ânion, como o
oxalato, bem como de forma paracelularatravés do lúmen. A água segue
passivamente, do lúmen parao sangue, para manter o equilíbrio osmolar.
Se não fosse a reabsorção extensa de solutos e água no túbulo proximal,
o organismo dos mamíferos poderia rapidamente se tornar desidratado
e perder sua osmolaridade normal. O Na+ reabsorvido é bombeado para
o interstício pela Na+/K+-adenosina trifosfatase (ATPase), mantendo, as­
sim, os níveis normais de Na+ e K+ na célula. A anidrase carbônica na
membrana luminal e nas células do túbulo proximal modula a reabsorção
de bicarbonato (ver acetazolamida a seguir). A presença de substâncias
como manitol e glicose resulta em aumento da osmolaridade do líquido
tubular e evita a reabsorção adicional de água, resultando em diurese
osmótica.
1 . Sistemas secretores de ácidos e bases. Os sistemas de se­
creção de ácidos e bases orgânicos estão localizados no túbulo
proximal (Figura 22.3). O sistema secretor de ácidos orgânicos,
localizado no terço médio, secreta uma variedade de ácidos orgâ­
nicos, como o ácido úrico, alguns antibióticos e diuréticos, do leito
sanguíneo para o interior do lúmen do túbulo proximal. A maioria
dos fármacos diuréticos entra no líquido tubular por esse sistema.
O sistema secretor de ácidos orgânicos é saturável, e os diuréticos
da corrente sanguínea competem pelatransferência com os ácidos
orgânicos endógenos, como o ácido úrico. Isso explica a hiperu­
ricemia observada com certos diuréticos, como a furosemida e a
hidroclorotiazida. Inúmeras outras interações também podem ocor­
rer. Por exemplo, a probenecida interfere na secreção de penicilina.
O sistema secretor de bases orgânicas é responsável pela secre­
ção de creatinina e colina e se localiza nos segmentos superior e
médio do túbulo proximal.
B. Ramo descendente da alça de Henle
O filtrado remanescente, que é isotônico, avança para a porção descen­
dente da alça de Henle e penetra na parte medular dos rins. A osmola­
ridade aumenta ao longo da porção descendente da alça de Henle, em
decorrência do mecanismo de contracorrente, que é responsável pela
reabsorção de água. Isso resulta em um líquido tubular com uma concen­
tração de sal triplicada. Os diuréticos osmóticos exercem parte de sua
ação nessa região (ver Figura 22.2).
C. Porção ascendente da alça de Henle
As células do epitélio tubular ascendente são únicas na condição de im­
-permeáveis à água. A reabsorção ativa de Na+, K+ e c1- é mediada por
um cotransportadorde Na+/K+12c1-. Mg
2
+e Ca
2
+ entram no líquido intersti­
cial pelavia paracelular.A alça ascendente é, portanto, uma região de di­
luição do néfron. Aproximadamente 25 a 30°
/
o do cloreto de sódio tubular
voltam para o líquido intersticial, auxiliando, dessaforma, na manutenção
da osmolaridade elevada do líquido. Como a porção ascendente da alça
de Henle é o principal local de reabsorção de sal, fármacos que afetam
esse local, como os diuréticos de alça (ver Figura 22.2), são os mais efi­
cazes entre todas as classes de diuréticos.
D. Túbulo contorcido distal
As células do túbulo contorcido distal também são impermeáveis à água.
Aproximadamente 10°
/
o do cloreto de sódio filtrado são reabsorvidos por
meio de transporte de Na+/CI- que é sensível aos diuréticos tiazídicos.
A reabsorção de cálcio ocorre pela passagem através de um canal e,
então, ele étransportado por mecanismo detroca Na+/Ca
2
+ parao líquido
intersticial. Portanto, esse mecanismo difere daquele da alça de Henle.
Adicionalmente, a excreção de Ca
2
+ é regulada pelo hormônio da parati­
reoide nessa porção do túbulo.
E. Túbulo e dueto coletor
As células principais do túbulo e do dueto coletor são responsáveis pelo
transporte de Na+, K+ e água, e as células intercaladas são responsá­
veis pela secreção de H+. O sódio entra nas células principais através
de canais (canais de sódio epiteliais) que são inibidos pelo amilorida e
triantereno. Uma vez no interior da célula, a reabsorção do sódio depen­
de de Na+/K+-ATPase para ser transportado ao sangue. Os receptores
de aldosterona nas células principais influenciam a reabsorção de Na+
e a secreção de K+. Os receptores do hormônio antidiurético (HAD ou
vasopressina) promovem a reabsorção de água dos túbulos e duetos co­
letores (ver Figura 22.3). Essa ação é mediada pelo monofosfato cíclico
de adenosina.
Farmacologia Ilustrada 279
Legenda....._ Reabsorção
._ Secreção
Osistemasecretororgânicode
ácidosebasessecretauma
variedadedeácidosorgânicos
(incluindoamaioriadosfármacos
diuréticos)dacorrentesanguínea
paraolúmendotúbuloproximal.
Glicose
Aminoácidos
cr
Na+
Aldosterona
Hormônio
antidiurético
Figura 22.3
Túbulo
proximal
AlçadeHenle
ascendente
Túbulo
contorcido
distal
Túbuloe
duetocoletor
Locais de transporte de solutos e água
através do néfron.
280 Clark, Finkel, Rey & Whalen
-
Ili. FUNÇAO RENAL NAS DOENÇAS
A. Estados edematosos
Em muitas doenças, a quantidade de cloreto de sódio reabsorvido pelos
túbulos renais é anormalmente elevada. Isso leva à retenção de água, ao
aumento do volume de sangue e à expansão do compartimento de líqui­
do extravascular, resultando em edema dos tecidos. Diferentes causas de
edemas comumente encontrados incluem as citadas a seguir:
1 . Insuficiência cardíaca. A incapacidade do coração insuficiente de
manter o débito cardíaco adequado leva o rim a responder como se
houvesse uma diminuição no volume sanguíneo (hipovolemia). O
rim, como parte do mecanismo compensatório normal, retém mais
sal e água como forma de aumentar o volume de sangue e elevar a
quantidade de sangue que retorna ao coração. Todavia, o coração
doente não consegue aumentaro débito, e ovolumevascular eleva­
do resulta em edema (ver p. 193 com relação às causas e ao trata­
mento da insuficiência cardíaca). Comumente são usados diuréticos
de alça.
2. Ascite hepática. Ascite, o acúmulo de líquidos na cavidade abdo­
minal, é uma complicação comum da cirrose hepática.
a. Pressão sanguínea portal elevada. O fluxo sanguíneo no
sistema portal é frequentemente obstruído na cirrose, resul­
tando em aumento da pressão sanguínea portal. Além disso,
a pressão osmótica coloidal do sangue é reduzida em decor­
rência da dificuldade de síntese de proteínas plasmáticas pelo
fígado doente. A pressão sanguínea portal aumentada e a os­
molaridade sanguínea diminuída causam a saída de líquido do
sistema vascular portal e seu acúmulo no abdome.
b. Hiperaldosteronismo secundário. A retenção de líquido tam­
bém é promovida por níveis elevados de aldosterona circulante
decorrente do volume reduzido de sangue. Esse hiperaldoste­
ronismo secundário também resulta da capacidade diminuída
do fígado em inativar o hormônio esteroide e leva ao aumento
de Na+ e à reabsorção de água, ao aumento do volume vascu­
lar e à exacerbação do acúmulo de líquido (ver Figura 22.3). O
diurético poupador de potássio espironolactona é eficaz nessa
condição, mas os diuréticos de alça normalmente não são.
3. Síndrome nefrótica. Quando alterada por doença, a membrana
glomerular permite a entrada de proteínas plasmáticas no ultrafil­
trado glomerular. A perda de proteína do plasma reduz a pressão
coloidosmótica, resultando em edema. A redução do volume plas­
mático estimula a secreção de aldosterona pelo sistema renina­
-angiotensina-aldosterona. Isso leva à retenção de Na+ e líquido,
agravando o edema.
4. Edema pré-menstrual. O edema associado à menstruação é re­
sultante do desequilíbrio hormonal, como o excesso de estrogênio,
que facilita a perda de líquido para o espaço extracelular. Os diuréti­
cos podem reduzir o edema.
B. Estados não edematosos
Os diuréticos também apresentam amplo uso no tratamento de doenças
não edematosas.
1. Hipertensão. Os tiazídicos são amplamente usados no tratamento
de hipertensão, em decorrência de sua capacidade de não só reduzir
ovolume sanguíneo, mastambém de dilataras arteríolas (ver p.231).
2. Hipercalcemia. A gravidade dessa condição requer uma ação rápi­
da. Normalmente, os diuréticos de alça são usados, pois promovem
a excreção de cálcio. Todavia, é importante entender que a hipovo­
lemia pode neutralizar o efeito desejado; portanto, também deve ser
infundida salina normal para manter o volume sanguíneo.
3. Diabetes insípido. Quando os pacientes sofrem de poliúria e po­
lidipsia associadas ao diabetes, eles normalmente respondem aos
diuréticostiazídicos. Essetratamento, aparentemente paradoxal, de­
pende da habilidade dos tiazídicos de reduzir o volume plasmático,
dessa forma causando queda na velocidade de filtração glomerular
e promovendo a reabsorção de Na+ e água. O volume de urina que
entra no segmento diluidore o subsequentefluxo urinário é reduzido.
IV. AGENTESTIAZÍDICOS E CORRELATOS
Os tiazídicos são os fármacos diuréticos mais amplamente utilizados. Eles
são derivados da sulfonamida e, como tal, são relacionados em estrutura com
os inibidores da anidrase carbônica. Todavia, os tiazídicos apresentam ati­
vidade diurética maior do que a acetazolamida (ver a seguir) e atuam nos
rins por meio de mecanismos diferentes.Todos os tiazídicos afetam o túbulo
distal, e todos apresentam efeito diurético máximo semelhante, diferindo so­
mente em potência (expressa em miligramas). (Nota: eles são algumas vezes
chamados de diuréticos máximos, de teto ou potentes, pois o aumento da
dosagem, acima do normal, não promove resposta diuréticaadicional.) Como
a ação dos diuréticos de alça, os tiazídicos dependem parcialmente da sín­
tese renal de prostaglandina por um mecanismo ainda não completamente
entendido.
A. Tiazidas
A cloroti
azida foi o primeiro diurético moderno ativo por via oral e ca­
paz de afetar o edema grave da cirrose e da insuficiência cardíaca com
um mínimo de efeitos adversos. Suas propriedades são representativas
do grupo dos tiazídicos, embora atualmente os derivados novos, como
a hidroclorotiazida e a clortalidona, sejam usados mais comumente. A
hidroclorotiazida tem capacidade muito menor de inibir a anidrase car­
bônica, comparada com a cloroti
azida. Ela é também mais potente, de
forma que a dose necessária é consideravelmente menor do que a da
cloroti
azida. Por outro lado, a eficácia é exatamente a mesma do outro
fármaco da família. Em todos os demais aspectos, ela assemelha-se à
clorotiazida. (Nota: clorotiazida, indapamida e metolazona são referidos
como diuréticos do tipo tiazídico, pois contêm resíduos sulfonamidas na
sua estrutura química, e seu mecanismo de ação é semelhante.Todavia,
esses fármacos não são tiazídicos verdadeiros.)
1. Mecanismo de ação. Os derivados tiazídicos atuam principalmente
na região cortical da alça ascendente de Henle e no túbulo distal,
diminuindo a reabsorção de Na+, aparentemente pela inibição de
um cotransportador de Na+1c1- na membrana luminal dos túbulos
(ver Figura 22.2). Eles apresentam um menor efeito no túbulo pro­
ximal. Como resultado, esses fármacos aumentam a concentração
de Na+ e c1- no líquido tubular. O equilíbrio ácido-base normalmente
não é afetado. (Nota: como o local de ação dos derivados tiazídicos
é a membrana luminal, esses fármacos precisam ser excretados no
Farmacologia Ilustrada 281
282 Clark, Finkel, Rey & Whalen
ca2•
Figura 22.4
Volume
de urina
Mudanças relativas na composição da
urina induzidas pelos diuréticos tiazí­
dicos.
2.
lúmen tubular para serem eficazes. Portanto, quando a função renal
está diminuída, os diuréticos tiazídicos perdem eficácia.)
Ações
a. Aumento da excreção de Na+ e c1-. Os diuréticos tiazídicos
causam diurese com aumento da excreção de Na+ e c1-, que
pode resultar na excreção de urina muito hiperosmolar. Esse
último efeito é singular; é improvável que as outras classes de
diuréticos produzam urina hiperosmolar. A ação diurética não é
afetada pelo estado ácido-base do organismo, nem a hidroc/o­
roti
azida altera o estado ácido-base do sangue. As mudanças
relativas na composição iônica da urinadurante o uso detiazídi­
cos são apresentadas na Figura 22.4.
b. Perda de K+. Como os tiazídicos aumentam o Na+ no filtrado,
que chega ao túbulo distal, mais K+ também é trocado por Na+,
resultando em perda contínua de K+ do organismo com o uso
prolongado desses fármacos. Portanto, é imperativo medir o K+
sérico com frequência (mais frequentemente no início do trata­
mento), para assegurar que não ocorra hipopotassemia.
c. Perda de Mg2+. Pode ocorrer deficiência de magnésio no uso
crônico de diuréticos tiazídicos, exigindo suplementação, par­
ticularmente nos idosos. O mecanismo da magnesiúria não é
conhecido.
d. Diminuição da excreção urinária de cálcio. Os diuréticos tia­
zídicos diminuem o conteúdo de Ca
2
+ na urina promovendo sua
reabsorção. Este efeito contrasta com os diuréticos de alça, que
aumentam a concentração de Ca
2
+ na urina. (Nota: há evidên­
cias de estudos epidemiológicos que o uso de tiazídicos preser­
va a densidade mineral óssea nas costelas e na coluna, e de
que o risco de fraturas de costelas é reduzido em um terço.)
e. Redução da resistência vascular periférica. Ocorre redução
inicial na pressão arterial em resposta à diminuição do volume
sanguíneo e, com isso, à diminuição do débito cardíaco. Com
o tratamento contínuo, ocorre recuperação do volume. Todavia,
o efeito hipotensivo persiste como resultado da diminuição da
resistência vascular periférica, causada pelo relaxamento do
músculo liso arteriolar.
3. Usos terapêuticos
a. Hipertensão. Clinicamente, há muito tempo os tiazídicos têm
sido a principal medicação anti-hipertensiva, pois são baratos,
fáceis de administrar e bem tolerados. Eles são eficazes na re­
dução da pressão arterial sistólica e diastólica por longos perío­
dos na maioria dos pacientes com hipertensão leve a moderada
(ver p. 227 para detalhes sobre o tratamento da hipertensão).
Com as tiazidas, a pressão arterial se estabiliza em nível mais
baixo e pode ser mantida indefinidamente com uma dose diária
do fármaco, que causa diminuição da resistência periférica, sem
apresentar efeitos diuréticos. Muitos pacientes podem receber
tiazídicos unicamente de forma contínua por anos, embora um
pequeno percentual necessite de medicação adicional, como os
bloqueadores adrenérgicos inibidores da enzima conversora de
angiotensina (ECA) ou bloqueadores do receptor de angioten­
sina. (Nota: as ações hipotensoras dos inibidores da ECA são
aumentadas quando usadas em associação aos tiazídicos.)
b. Insuficiência cardíaca. Os diuréticos de alça são os diuréticos
de escolha para a reduzir o volume extracelular na insuficiência
cardíaca. Os diuréticos tiazídicos podem ser acrescentados se
for necessária diurese adicional.
c. Hipercalciúria. Os tiazídicos podem ser úteis no tratamento
Farmacologia Ilustrada 283
Hipopotassemia
da hipercalciúria idiopática, pois inibem a excreção urinária de
,,
Ca
2
+. 1sso é particularmente benéfico para pacientes com cálcu- =
=
=
=
�
los de oxalato de cálcio no trato urinário.
d. Diabetes insípido. Os tiazídicos têm a capacidade única de pro­
duzirurina hiperosmolar. Eles podem substituiro hormônio antidiu­
rético notratamentode pacientescom diabetes insípido nefrogêni­
co. Ovolume de urinade tais indivíduos pode cairde 1 1 Udia para
aproximadamente 3 Udia, quandotratados com o fármaco.
4. Farmacocinética. Os tiazídicos são eficazes por via oral. A maio­
ria deles leva uma a três semanas para reduzir de modo estável a
pressão arterial e apresenta uma meia-vida biológica prolongada.
Todos os tiazídicos são secretados pelo sistema secretor de ácido
orgânico renal (ver Figura 22.3).
5. Efeitos adversos. A maioria dos efeitos adversos envolve proble­
mas no equilíbrio hidreletrolítico.
a. Depleção de potássio. Hipopotassemia é o problema encon­
trado com mais frequência com o uso de diuréticos tiazídicos
e pode predispor pacientes sob tratamento com digoxina a ar­
ritmias ventriculares (Figura 22.5). Frequentemente, o K+ pode
ser suprido somente pela dieta, com o aumento da ingestão de
frutas cítricas, bananas e ameixas. Em alguns casos, pode ser
necessária a suplementação de sais de K+. A ativação do siste­
ma renina angiotensina-aldosterona pela diminuição do volume
intracelular contribui significativamente para as perdas urinárias
de K+. Sob essas circunstâncias, a deficiência de K+ pode ser
superada com espironolactona, que interfere na ação da aldos­
terona, ou pela administração de triantereno ou amilorida, que
atua retendo K+. Dietas pobres em sódio abrandam a depleção
de potássio causada pelos diuréticos tiazídicos.
b. Hiponatremia. Esse grave efeito adverso pode se desenvol­
ver devido à elevação de HAD, resultante da hipovolemia, bem
como devido à diminuição da capacidade diluidora do rim e ao
aumento da sede. Limitar a ingestão de água e reduzir a dose
do diurético pode evitar essa condição.
c. Hiperuricemia. Os tiazídicos aumentam o ácido úrico sérico
pela diminuição da quantidade de ácido excretado pelo sistema
secretor de ácido orgânico. Sendo insolúvel, o ácido úrico se
deposita nas articulações e pode ocorrer uma crise de gota em
,
indivíduos predispostos. E importante, portanto, realizarexames
de sangue periódicos para avaliar os níveis de ácido úrico.
d. Diminuição de volume. Isso pode causar hipotensão ortostáti­
ca ou tonturas leves.
e. Hipercalcemia. Os tiazídicos inibem a secreção de Ca
2
+, algu­
mas vezes levando à elevação dos níveis de Ca
2
+ no sangue.
f. Hiperglicemia. Pacientes com diabetes melito que estão rece­
bendo tiazídicos para o tratamento da hipertensão podem se
Hiperuricemia
Ácido úrico
Hipotensão
Hiponatremia
,,
Hipercalcemia
Ca2+
Figura 22.5
Resumo de alguns efeitos adversos
observados comumente com os diuré­
ticos tiazídicos. PA = pressão arterial.
284 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Na•
K•
Figura 22.6
Mudanças relativas na composição da
urina induzidas pelos diuréticos de alça.
tornar hiperglicêmicos e têm dificuldade de manter glicemia
adequada. Esse efeito se deve à dificuldade de liberação de in­
sulina e à captação tecidual de glicose.
g. Hiperlipemia. Os tiazídicos podem causar aumento de 5 a 15°
/
o
na concentração sérica de colesterol, bem como aumento de lipo­
proteínas séricas de baixa densidade. Os níveis lipídicos, todavia,
podem retornar ao normal com o tratamento de longo prazo.
h. Hipersensibilidade. Supressão da medula óssea, dermatite,
vasculite necrosante e nefrite intersticial são muito raras. lndiví­
-duos hipersensíveis às suitastambém podem ser alérgicos aos
diuréticos tiazídicos.
B. Análogos dos tiazídicos
Esses compostos são desprovidos de estrutura tiazídica, mas, como os
tiazídicos, apresentam grupo sulfonamídico não substituído e comparti­
lham seu mecanismo de ação.
1. Clortalidona. A clortalidona é um derivado não tiazídico que se
comporta farmacologicamente como a hidroclorotiazida. Ela apre­
senta duração de ação bastante longa e, por isso, frequentemente
é usada no tratamento da hipertensão. Ela é administrada uma vez
pordia para essa indicação.
2. Metolazona. A metolazona é mais potente do que os tiazídicos e,
diferente deles, causa excreção de Na+ na insuficiência renal avan­
çada.
3. lndapamida. A indapamida é um diurético não tiazídico lipossolú­
vel que apresenta duração de ação prolongada. Em doses baixas,
ela apresenta ação anti-hipertensiva significativa com efeitos diu­
réticos mínimos. A indapamida é biotransformada e excretada pelo
trato gastrintestinal e pelos rins. Ela é, por isso, menos propensa a
acumular-se em pacientes com insuficiência renal e pode ser útil no
tratamento desses pacientes.
V. DIURÉTICOS DE ALÇA OU POTENTES
Bumetanida, furosemida, torsemida e ácido etacrínico são quatro diuréticos
que apresentam sua ação principal no ramo ascendente da alça de Henle
(ver Figura 22.2). Comparados com todas as outras classes de diuréticos,
esses fármacos apresentam a maior eficácia na mobilização de Na+ e c1- do
organismo. Eles produzem abundante quantidade de urina. A furosemida é o
mais usado do grupo. O ácido etacrínico apresenta uma curva dose-resposta
mais íngreme do que a da furosemida, mas apresenta mais efeitos adversos
do que os observados com os outros diuréticos de alça, e, por isso, seu uso
é limitado. A bumetanida é muito mais potente que a furosemida, e seu uso
está aumentando.
A. Bumetanida, furosemida, torsemida e ácido etacrínico
1. Mecanismo de ação. Os diuréticos de alça inibem o cotransporte
de Na+/K+/2CI- na membrana luminal, na porção ascendente da alça
de Henle. Dessa forma, a reabsorção desses íons diminui (Figura
22.6). Os diuréticos de alça são os diuréticos mais eficazes, pois
sua porção ascendente é responsável pela reabsorção de 25 a 30°
/
o
do NaCI filtrado, e os locais a jusante não conseguem compensar o
aumento do Na+.
2. Ações. Os diuréticos de alça atuam rapidamente, mesmo em pa­
cientes que apresentam função renal prejudicada ou em pacientes
que não responderam aos tiazídicos ou outros diuréticos. As altera­
ções nacomposição da urina induzidas pelos diuréticos de alça são
mostradas na Figura 22.6. (Nota: os diuréticos de alça aumentam
o conteúdo de Ca
2
+ na urina, e os diuréticos tiazídicos diminuem a
concentração de Ca
2
+ na urina. Em pacientes com concentrações
séricas de Ca
2
+ normais, não ocorre hipocalcemia, pois o Ca
2
+ é
reabsorvido no túbulo contorcido distal. Todavia, pode ocorrer hi­
pomagnesemia devido à perda de Mg
2
+.) Os diuréticos de alça di­
minuem a resistência vascular renal e aumentam o fluxo sanguí­
neo renal. Além disso, os diuréticos de alça aumentam a síntese de
prostaglandinas.As prostaglandinas exercem um papel na suaação
diurética, e AINES, como a indometacina, que interferem na sua
síntese, podem reduzir a ação diurética desses fármacos.
3. Usos terapêuticos. Os diuréticos de alça são os fármacos de escolha
para a redução de edema pulmonar agudo da insuficiência cardíaca.
Devido ao seu rápido início de ação, particularmente quando adminis­
trados porvia IV, essesfármacos são úteis nas situações de emergên­
cia, como edema pulmonar agudo, que exigem uma diurese rápida e
intensa.Osdiuréticosde alça (acompanhados de hidratação) são úteis
notratamento da hipercalcemia, pois estimulam a excreçãotubular de
Ca
2
+. Eles também são úteis notratamento da hiperpotassemia.
4. Farmacocinética. Os diuréticos de alça são administrados por via
oral ou parenteral. Sua duração de ação é relativamente curta (2 a 4
horas). Eles são secretados na urina.
,,
?
•
Farmacologia Ilustrada 285
Ototoxicidade
5. Efeitos adversos. Os efeitos adversos dos diuréticos de alça estão
y
-=
=
=
=
�
resumidos na Figura 22.7.
a. Ototoxicidade. A audição pode ser adversamente afetada pe­
los diuréticos de alça, particularmente quando usados em con­
junto com antibióticos aminoglicosídeos. O tratamento prolon­
gado pode resultar em lesão permanente. O ácido etacrínico é
o fármaco mais propenso a causar surdez. A função vestibular
é menos suscetível, mas isso pode acontecer no uso associado
com o antibiótico.
b. Hiperuricemia. A furosemida e o ácido etacrínico competem
com o ácido úrico pelos sistemas secretores renal e biliar, blo­
queando, assim, sua secreção e, dessa forma, causando ou
agravando os ataques de gota.
e. Hipovolemia aguda. Os diuréticos de alça causam redução
rápida e grave do volume sanguíneo, com possibilidade de hi­
potensão, choque e arritmias cardíacas. Pode ocorrer hipercal­
cemia sob essas condições.
d. Depleção de potássio. A elevada oferta de Na+ no túbulo co­
letor resulta no aumento da troca tubular de Na+ por K+, com a
possibilidade de indução de hipopotassemia. A perda de K+ das
células na troca por H+ leva à alcalose com hipopotassemia. A
depleção de potássio pode ser evitada pelo uso de diuréticos
poupadores de potássio ou pela suplementação de K+ na dieta.
e. Hipomagnesemia. A combinação de uso crônico de diuréticos
de alça com ingestão reduzida de Mg
2
+ pode levar à hipomag­
nesemia, particularmente em idosos. Isso pode sercorrigido por
suplementação oral.
Hiperuricemia
Ácido úrico
Hipotensão
Hipopotassemia
Hipomagnesemia
Figura 22.7
Resumode alguns dos efeitos adversos
observados comumente com os diuréti­
cos de alça. PA = pressão arterial.
286 Clark, Finkel, Rey & Whalen
K•
Figura 22.8
Volume
deurina
Mudanças relativas na composição da
urina induzidas pelos diuréticos poupa­
dores de potássio.
VI. DIURÉTICOS POUPADORES DE POTÁSSIO
Os diuréticos poupadores de potássio atuam no túbulo coletor inibindo a
reabsorção de Na+ e a excreção de K+ (Figura 22.8). O principal uso dos
poupadores de potássio é no tratamento da hipertensão, mais frequente-
,
mente em associação com um tiazídico. E extremamente importante que
os pacientes em tratamento com algum diurético poupador de potássio
sejam cuidadosamente monitorados quanto aos níveis de potássio. A su­
plementação exógena de potássio normalmente é descontinuada quando
se inicia o tratamento com diuréticos poupadores de potássio. Estes diu­
réticos devem ser evitados em pacientes com disfunção renal devido ao
aumento do risco de hiperpotassemia.
A. Antagonistas de aldosterona: espironolactona e eplerenona
1. Mecanismo de ação. A espironolactona é um esteroide sintético
que antagoniza a aldosterona no receptor intracelular citoplasmáti­
co.O complexo espironolactona-receptoré inativo. Ou seja, ele evita
translocação do complexo receptor para o interior do núcleo das
células-alvo e por isso ele não pode se ligarao DNA. Isso resulta na
falha da produção de proteínas que normalmente são sintetizadas
em resposta à aldosterona. Essas proteínas mediadoras em geral
estimulam a troca Na+/K+ no túbulo coletor. Assim, a falta de proteí­
nas mediadoras evita a reabsorção de Na+ e, por consequência, a
secreção de K+ e H+.
2. Ações. Na maioria dos estados edematosos, os níveis sanguíneos
de aldosterona são elevados, o que colabora na retenção de Na+.
Quando a espironolactona é administrada ao paciente com níveis
circulantes de aldosterona elevados, esse diurético antagoniza a ati­
vidade do hormônio, resultando na retenção de K+ e na excreção de
Na+ (ver Figura 22.8). Em pacientes que não apresentam níveis cir­
culantes de aldosterona significativos, como os com doença de Addi­
son (insuficiência suprarrenal primária), não ocorre qualquer efeito
diurético com esse fármaco. Em comum com os tiazídicos e os diu­
réticos de alça, o efeito da espironolactonadepende da síntese renal
de prostaglandina. A eplerenona é um novo antagonista de receptor
de aldosterona com ações comparáveis às da espironolactona. Ela
pode ter menos efeitos endócrinos que a espironolactona.
3. Usos terapêuticos
a. Diurético. Embora a espironolactonatenha uma baixa eficácia na
mobilização de Na+ do organismo em comparação com os outros
diuréticos, elatema útil propriedade de causarretençãode K+. Em
decorrência dessa ação, a espironolactonafrequentemente é ad­
ministrada junto com o diurético tiazídico ou de alça, para evitar a
excreção de K+, que, de outra forma, ocorre com esses fármacos.
Ela é o diurético de escolha em pacientes com cirrose hepática.
b. Hiperaldosteronismo secundário. A espironolactonaé o único
diurético poupador de potássio usado rotineiramente de forma
isolada para induzir um balanço geral negativo de sal. Ela é par­
ticularmente eficazem situações clínicas associadas ao hiperal­
dosteronismo secundário.
c. Insuficiência cardíaca. A espironolactona evita o remodela­
mento que ocorre como compensação na insuficiência cardíaca
progressiva. Seu uso diminuiu a mortalidade associada com a
insuficiência cardíaca.
4. Farmacocinética. A espironolactona é completamente absorvida
por via oral e é fortemente ligada às proteínas. Ela é rapidamente
convertida no metabólito ativo, a canrenona. A ação da espironolac­
tona é amplamente decorrente do efeito da canrenona, que tem ati­
vidade bloqueadora de mineralocorticoide. A espironolactona induz
o citocromo hepático P450.
5. Efeitos adversos. A espironolactona frequentemente causa distúr­
bios gástricos, podendo causar úlcera péptica. Como se assemelha
quimicamente a alguns esteroides sexuais, a espironolactona pode
atuar em receptores em outros órgãos, induzindo ginecomastia em
homens e irregularidades menstruais em mulheres; portanto, o fár­
maco não deve ser administrado de forma crônica em doses ele­
vadas. A espironolactona é mais eficaz nos estados edematosos
leves, nos quais ela é administrada durante poucos dias. Em doses
baixas, ela pode ser usada cronicamente, com poucos efeitos ad­
versos. Podem ocorrer hiperpotassemia, náuseas, letargia e confu­
são mental.
B. Triantereno e amilorida
O triantereno e a amilorida bloqueiam os canais de transporte de Na+,
resultando em diminuição na troca Na+/K+. Embora apresentem ação diu­
rética poupadora de K+ semelhante à da espironolactona, a capacidade
desses fármacos de bloquear os locais de troca Na+/K+ no túbulo coletor
não depende da presençade aldosterona. Dessa forma, eles apresentam
atividade mesmo em indivíduos com doença de Addison. Como a espiro­
nolactona, o triantereno e a amilorida não são diuréticos muito eficientes.
Tanto o tri
antereno quanto a amilorida são frequentemente usados em
associação a outros diuréticos, em geral devido à sua propriedade pou­
padora de potássio. Por exemplo, muito semelhante à espironolactona,
eles previnem a perdade K+que ocorre com os tiazídicos e a furosemida.
Os efeitos adversos do triantereno são cãibras nas pernas e o possível
aumento do nitrogênio ureico sanguíneo, bem como retenção de ácido
úrico e K+.
VII. INIBIDORES DA ANIDRASE CARBÔNICA
A acetazolamida inibe a enzima anidrase carbônica nas células epiteliais do
túbulo proximal. Os inibidores da anidrase carbônica são usados com mais
frequência porsuas outras ações farmacológicas do que por seu efeito diuré­
tico, pois são muito menos eficazes do que os diuréticos tiazídicos ou de alça.
A. Acetazolamida
1 . Mecanismo de ação. A acetazolamida inibe a anidrase carbônica
localizada intracelularmente (citoplasma) e na membrana apical do
epitélio tubular proximal (Figura 22.9). (Nota: a anidrase carbônica
catalisaa reação entre C02 e H20, produzindo H2C03, que esponta­
neamente se ioniza em H+ e HCO 3- [bicarbonato].) A diminuição na
capacidade detrocaentre Na+ por H+ na presença de acetazolamida
resulta em umadiurese leve.Além disso, o HC03-é retido no lúmen,
com acentuada elevação no pH urinário. A perda de HC03- causa
acidose metabólica hiperclorêmica e redução da eficácia diurética
após alguns dias de tratamento. As mudanças na composição de
eletrólitos urinários, induzidas pela acetazolamida, estão resumidas
na Figura 22.1O. A excreção de fosfato é aumentada por mecanismo
desconhecido.
Farmacologia Ilustrada 287
Lúmen
H20 + C02
___.________, t
Anidrase
carbônica
Célula epitelial
do túbulo renal
Figura 22.9
Sangue
Papel da anidrase carbônica na reten­
ção de sódio pelas células epiteliais do
túbulo renal.
Figura 22.1O
HC0-
3
Volume
de urina
Mudanças relativas na composição da
urina induzidas pela acetazolamida.
288 Clark, Finkel, Rey & Whalen
LEGENDA
Diuréticostiazídicos
Diuréticosdealça
Diuréticospoupadoresde K•
Acetazolamida
ExcreçãodeNa•
ExcreçãodeK•
ExcreçãodeCa2•
Volumedeurina
J
Figura 22.11
Resumo das mudanças relativas na
composição da urina causadas pelos
fármacos diuréticos.
2. Usos terapêuticos
a. Tratamento do glaucoma. O uso mais comum da acetazola­
mida é reduzir a pressão intraocular elevada no glaucoma de
ângulo amplo. A acetazolamida diminui a produção de humor
aquoso, provavelmente pelo bloqueio da anidrase carbônica no
corpo ciliar do olho. Ela é útil no tratamento crônico de glauco­
ma, mas não deve ser usada na crise aguda. Os inibidores da
anidrase carbônica tópicos, como dorzolamida e brinzolamida,
têm a vantagem de não causar qualquer efeito sistêmico.
b. Doença das montanhas. Menos comumente, a acetazolamida
pode ser usada na profilaxia da doença aguda das montanhas,
que afeta indivíduos saudáveis e fisicamente ativos que sobem
rapidamente a altitudes acima de 3.000 metros. A acetazolami­
da administrada no período noturno, durante cinco dias antes
da subida, evita a fraqueza, a dificuldade respiratória, a verti­
gem, a náusea e o edema cerebral e pulmonar, característicos
da síndrome.
3. Farmacocinética. A acetazolamida é administrada uma a quatro
vezes por dia, por via oral. Ela é secretada pelo túbulo proximal.
4. Efeitos adversos. Podem ocorreracidose metabólica (leve), deple­
ção de potássio, formação de cálculos renais, sonolência e pareste­
sia. O fármaco deve ser evitado em pacientes com cirrose hepática,
pois pode levar à diminuição da excreção de NH4+.
VIII. DIURÉTICOS OSMÓTICOS
Inúmeras substâncias químicas hidrofílicas simples que são filtradas pelos
glomérulos, como manitol e ureia, resultam em algum grau de diurese. Isso
se deve à sua propriedade de carregar águaconsigo para o interiordo líquido
tubular. Se a substância que é filtrada sofre pouca ou nenhuma reabsorção
subsequente, então ela causará um aumento no débito urinário. Somente
uma pequena quantidade de sal adicional é excretada. Como os diuréticos
osmóticos são usados para aumentar a excreção de água, em vez de Na+,
eles não são úteis no tratamento de condições nas quais ocorre retenção
de Na+. Eles são usados para manter o fluxo urinário, após a ingestão de
substâncias tóxicas agudas, capazes de produzir insuficiência renal aguda.
Os diuréticos osmóticos são o principal tratamento em pacientes com aumen­
to de pressão intracraniana ou com insuficiência renal aguda decorrente de
choque, toxicidade pordrogas e traumatismo. A manutenção do fluxo urinário
preserva a função renal em longo prazo e pode salvar o paciente da diálise.
(Nota: o manitolnão é absorvido quando administrado porvia oral e deve ser
usado só porvia IV.) Os efeitos adversos incluem expansão da água extrace­
lular e desidratação, bem como hipo ou hipernatremia. A expansão da água
extracelularocorre porque a presença de manitolno líquido extracelular retira
água das células e causa hiponatremia até acontecer a diurese. Pode ocorrer
desidratação caso a água não for reposta adequadamente. Devido ao seu
efeito osmótico, esses fármacos são usados em pacientes com aumento da
pressão intracraniana.
A Figura 22.1 1 resume as mudanças relativas na composição da urina induzi­
das porfármacos diuréticos.
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
22.1 Uma paciente idosa com anamnese de doença cardíaca e
que está tendo dificuldade em respirar é levada ao atendi­
mento de emergência. O exame revela edema pulmonar.
Qual dos seguintes tratamentos está indicado?
A. Espironolactona
B. Furosemida
C. Acetazolamida
D. Clortalidona
E. Hidroclorotiazida
22.2 Um grupo de colegas estudantes planeja escalar uma
montanha nos Andes. Qual dos seguintes fármacos pode­
ria ser adequado para prevenir a doença das montanhas?
A. Um diurético tiazídico
B. Um anticolinérgico
C. Um inibidor da anidrase carbônica
D. Um diurético de alça
E. Um 13-bloqueador
22.3 Um alcoólatradesenvolveu cirrose hepática. Para controlar
a ascite e o edema, qual dos fármacos a seguir deve ser
prescrito?
A. Hidroclorotiazida
B. Acetazolamida
C. Espironolactona
D. Furosemida
E. Clortalidona
22.4 Um homem de 55 anos com cálculos renais recebeu um
diurético para diminuir a excreção de cálcio.Todavia, após
algumas semanas, ele desenvolveu uma crise de gota.
Que diurético ele estava recebendo?
A. Furosemida.
B. Hidroclorotiazida.
C. Espironolactona.
D. Triantereno.
E. Ureia.
22.5 Uma mulher de 75 anos com hipertensão está sendo trata­
da com um tiazídico. Sua pressão arterial responde e mos­
tra 120/76 mmHg. Após vários meses de medicação, elase
queixa de estar cansada e fraca. O exame bioquímico do
sangue indica valores baixos para qual componente?
A. Cálcio
B. Ácido úrico
C. Potássio
D. Sódio
E. Glicose
Farmacologia Ilustrada 289
Resposta correta = 8. Essa é uma situação potencialmente fatal. É
importante administrar um diurético que irá reduzir o acúmulo de lí­
quidos nos pulmões e, dessa forma, melhorar a oxigenação e a fun­
ção cardíaca. Os diuréticos de alça são mais eficazes na remoção
de grandes volumes de líquido do organismo e são o tratamento de
escolha nessa situação. A furosemida normalmente é administrada
porvia IV.As outras escolhas são inadequadas.
Resposta correta = C. A acetazolamida é usada profilaticamente du­
rante vários dias antes da subida acima de 3.000 metros. Esse trata­
mento previne problemas cerebrais e pulmonares associados com a
síndrome, bem como outras dificuldades, como náusea.
Respostacorreta= C.A espironolactonaé muitoeficaz notratamento
de edema hepático. Esses pacientes com frequência são resistentes
à ação diurética dos diuréticos de alça, embora a associação com
espironolactona possa ser benéfica. Os outros diuréticos não estão
indicados.
Resposta correta = 8. A hidroclorotiazida é eficaz em aumentar a
reabsorção de cálcio e, assim, diminuir a quantidade de cálcio ex­
cretada e diminuir a formação de cálculos renais que contêm fosfato
de cálcio ou oxalato de cálcio. Entretanto, a hidroclorotiazidatambém
pode inibir a excreção de ácido úrico e causar seu acúmulo, levando
a uma crise de gota em alguns indivíduos. A furosemida aumenta a
excreção de cálcio, e os diuréticos poupadores de K+, a espironolac­
tona e o triantereno, não apresentam esse efeito.
Resposta correta = C.A hipopotassemia é um efeito adverso comum
dos tiazídicos e causa fadiga e letargia nos pacientes. A suplemen­
tação com cloreto de potássio ou com alimentos ricos em K+ corrige
o problema. Alternativamente, pode-se adicionar um diurético poupa­
dorde potássio como a espironolactona. Cálcio, ácido úrico e glicose
normalmente sãoaumentados pelos diuréticos tiazídicos.A perda de
sódio não enfraquece o paciente.
290 Clark, Finkel, Rey & Whalen
22.6 Qual dos seguintes diuréticos está contraindicado em um
paciente com hiperpotassemia?
A. Acetazolamida
B. Clorotiazida
e. Ácido etacrínico
D. Clortalidona
E. Espironolactona
22.7 Qual deve ser o tratamento inicial de escolha para lidar
com a hipertensão de uma mulher afro-americana com
história de gota e grave hipopotassemia?
A. Hidroclorotiazida
B. Espironolactona
C. Valsartano
D. Atenolol
E. Enalapril
Resposta correta = E.A espironolactona atua no túbulo coletor inibin­
do a reabsorção de Na• e a excreção de K•. É extremamente impor­
tante que os pacientes tratados com qualquer um dos diuréticos pou­
padores de potássiotenham seus níveis de potássio cuidadosamente
monitorados. A suplementação exógena de potássio em geral é sus­
pensa quando se inicia o tratamento com diurético poupador de po­
tássio e a espironolactona é contraindicada em pacientes com hiper­
potassemia. Os demais fármacos promovem a excreção de potássio.
Resposta correta = B. Pacientes afro-americanos com hipertensão
respondem mal aovalsartano, atenolol e enalapril. A hidroclortiazida
em geral é considerada o fármaco de primeira escolha. Contudo, já
que a paciente tem história de hipopotassemia e gota, a espirona­
lactona é o fármaco de escolha. Adicionalmente, o efeito hormonal
feminilizanteda espironolactona pode ser problemático para homens,
mas não em mulheres.
•
1
1. RESUMO
• •
1 reo 1
O sistema neuroendócrino, controlado pela hipófise e pelo hipotálamo, coor­
dena as funções corporais transmitindo mensagens entre células individuais
e tecidos. Isso contrasta com o sistema nervoso que se comunica localmente
por impulsos elétricos e neurotransmissores direcionados de neurônio a neu­
rônio ou a órgãos-alvo específicos, como os músculos e as glândulas. Os im­
pulsos nervosos geralmente atuam em milissegundos. O sistema endócrino
libera hormônios na corrente sanguínea, que transporta esses mensageiros
químicos para as células-alvo por todo o organismo. Os hormônios têm um
tempo de resposta muito maior do que os impulsos nervosos, exigindo de se­
gundos a dias, ou mais, para causar uma resposta que pode durar semanas
ou meses. Os dois sistemas regulatórios são intimamente relacionados. Por
exemplo, em várias situações, a liberação dos hormônios é estimulada ou
inibida pelo sistema nervoso, e alguns hormônios podem estimular ou inibir
impulsos nervosos. Os Capítulos 24 a 26 focalizam fármacos que afetam a
síntese e/ou a secreção de hormônios específicos e suas ações. Neste capí­
tulo, é apresentado resumidamente o papel central dos hormônios hipotalâ­
micos e hipofisários na regulação das funções corporais (Figura 23.1). Além
disso, são discutidos os fármacos que afetam a síntese e/ou a secreção dos
hormônios da tireoide.
li. HORMÔNIOS HIPOTALÂMICOS E DA HIPÓFISE
ANTERIOR
Os hormônios secretados pelo hipotálamo e pela hipófise são todos peptídeos
ou proteínas de baixa massa molecular que atuam se ligando a locais específi­
cos nos seustecidos-alvo.Os hormônios da hipófise anteriorsão regulados por
neuropeptídeos que são denominados fatores ou hormônios "liberadores" ou
"inibidores". Eles são produzidos nos corpos celulares no hipotálamo e alcan­
çam as células da hipófise pelo sistema portal hipofisário (Figura 23.2). A inte­
ração dos hormônios liberadores com seus receptores resulta na ativação dos
genes que promovem a síntese das proteínas precursoras. Então, esses pre-
HORMÔNIOSHIPOTALÃMICOSE
DAHIPÓFISEANTERIOR
Gonadotropina coriônica humana
Corticotropina
Cosintropina
Folitropina alfa
Folitropina beta
Gonadorrelina
Goserrelina
Hi
strelina
Leupro/ida
Menotropinas
Nafarrelina
Octreotida
Pegvisomanto
Somatropina
Urofolitropina
HORMÔNIOSDAHIPÓFISEPOSTERIOR
Desmopressina
Ocitocina
Vasopressina (ADH)
FÁRMACOSQUEAFETAMATIREOIDE
lodo e iodeto depotássio
Liotironina
Levotiroxina
Metimazol
Propiltiouracil(PTU)
Liotrix
Figura 23.1
Alguns dos hormônios e fármacos que
afetam o hipotálamo, a hipófise e a ti­
reoide.
292 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Hormôniodo
crescimento
i
Fígado
Fatoresde
crescimento
tipoinsulina
Figura 23.2
ACTH
•
,,--..
Suprarrenal
Glicocorticoides,
mineralocorticoides
eandrogênios
TSH
Tireoide
Tiroxina
HIPOTÁLAMO
TRH
FSH
@
Estrogênio
�------- Hipófiseanterior
LH
(mulheres)
Ovário
1
Progesterona
Testículos
Testosterona
Prolactina
Glândula
mamária
Hormônios liberadores hipotalâmicos e ações dos hormônios da hipófise anterior. GHRH = hormônio liberadordo hormô­
nio do crescimento;TRH = hormônio liberador de tirotropina; CRH = hormônio liberador de corticotropina; GnRH (LHRH)
= hormônio liberador de gonadotropina (hormônio liberador de hormônio luteinizante); PIH = hormônio inibidor de pro­
lactina (dopamina) e PRH = hormônio liberador de prolactina; ACTH = hormônio adrenocorticotrópico; TSH = hormônio
estimulante de tirotropina; FSH = hormônio folículo-estimulante e LH = hormônio luteinizante.
cursores proteicos sofrem modificações pós-translacionais para produzir hor­
mônios que são lançados na circulação. (Nota: ao contrário dos hormônios da
hipófise posterior, os hormônios da anterior nãosão armazenadosem grânulos
antes da liberação.) Cada hormônio regulador hipotalâmico controla a libera­
ção de um hormônio específico da hipófise anterior. Os hormônios liberadores
hipotalâmicos são usados primariamente para procedimentos diagnósticos (ou
seja, para determinar insuficiência hipofisária). (Nota: o hipotálamo também
sintetizaas proteínas precursoras dos hormônios vasopressina e ocitocina, que
são transportados para a hipófise posterior, onde são armazenados até a libe­
ração.) Embora inúmeras preparações de hormônios hipofisários sejam usa­
das terapeuticamente contra deficiências hormonais específicas (os exemplos
aparecem adiante), a maioria desses fármacos tem aplicações terapêuticas
limitadas. Os hormônios da hipófise anterior e posterior são administrados por
via IM, SC ou intranasal, mas nunca oral, pois sua natureza peptídica torna-os
suscetíveis à destruição pelas enzimas proteolíticas doTGI.
A. Hormônio adrenocorticotrópico (corticotropina)
O hormônio liberador de corticotropina (CRH, de corticotropin-releasing
hormone) é responsável pela síntese e liberação do peptídeo pró-opio­
melanocortina pela hipófise (Figura 23.3). O hormônio adrenocorticotró­
pico (ACTH, de adrenocorticotropic hormone), ou corticotropina, é um
produto do processamento pós-translacional desse polipeptídeo precur­
sor. (Nota: o CRH é usado no diagnóstico para diferenciarentre síndrome
de Cushing e células ectópicas produtoras de ACTH.) Outros produtos
do pró-opiomelanocortina são o hormônio 'Y-melanócito estimulante e as
�-lipotropinas, precursoras das endorfinas. Normalmente, o ACTH é libe­
rado da hipófise em pulsos com um predomínio de ritmo diurno, a maior
concentração acontecendo aproximadamente às 6 horas e a menor ao
anoitecer. O estresse estimula a secreção, e o cortisol suprime sua libe­
ração, atuando via retroalimentação negativa.
1 . Mecanismo de ação. O órgão-alvo do ACTH é a suprarrenal, onde
ele se liga a receptores específicos na superfície celular. O receptor
ocupado ativa processos acoplados à proteína G para aumentar o
AMPe• que, por sua vez, estimula a etapa limitante da síntese do
adrenocorticosteroide (de colesterol a pregnenolona). Essa via ter­
mina com a síntese e a liberação dos adrenocorticosteroides e dos
androgênios suprarrenais (ver Figura 23.3).
2. Usos terapêuticos. A disponibilidade de adrenocorticosteroides
sintéticos com propriedades específicas limitou o uso da corticotro­
pina, principalmente como ferramenta diagnóstica para diferenciar
entre insuficiência suprarrenal primária (doença de Addison asso­
ciada à atrofia suprarrenal) e insuficiência suprarrenal secundária
(causada pela secreção inadequada de ACTH pela hipófise). Pre­
parações de corticotropina terapêuticas são extraídas da hipófise
anterior de animais domésticos ou ACTH humano sintético. Este
último, a cosintropina, que consiste nos 24 aminoácidos aminoter­
minais do hormônio, é preferido para o diagnóstico da insuficiência
suprarrenal. O ACTH é usado no tratamento da esclerose múltipla e
do espasmo infantil (síndromeWest).
3. Efeitos adversos. A toxicidade é similar à dos glicocorticoides e in­
cluem osteoporose, hipertensão, edema periférico, hipopotassemia,
distúrbios emocionais e aumento do risco de infecções.
B. Hormônio do crescimento (somatotropina)
A somatotropina é um grande polipeptídeo que é liberado pela hipófise
anterior em resposta ao hormônio liberador do hormônio do crescimento
produzido no hipotálamo (verFigura23.2).A secreção do hormôniodo cres­
cimento (GH, de growth hormone) é inibida por outro hormônio hipofisário,
a somatostatina (ver a seguir). O GH é liberado de modo pulsátil, com os
níveis mais elevados ocorrendo durante o sono. Com a idade, a secreção
de GH diminui, sendo acompanhada de uma redução na massa muscular
magra. A somatotropina influencia uma ampla variedade de processos bio­
químicos; por exemplo, pela estimulação da síntese proteica são promovi­
dos a proliferação celular e o crescimento ósseo. O aumento da produção
de hidroxiprolina a partir da prolina reforça a síntese de cartilagem. O GH
humano sintético é produzido portecnologia de DNA recombinante e deno­
minado somatropi
na. O GH de fontes animais é ineficaz no homem.
1 . Mecanismo de ação. Embora vários efeitos fisiológicos do GH se­
jam exercidos diretamente nos seus alvos, outros são mediados
pelas somatomedinas - fatores de crescimento tipo insulina 1 e li
(IGF-1 e IGF-11, de insuli
n-like growth factor). (Nota: na acromegalia
[uma síndrome do excesso de hormônio do crescimento], os níveis
de IGF-1 são consistentemente elevados, refletindo GH elevado.)
2. Usos terapêuticos. A somatotropina é usada no tratamento da de­
ficiência de GH no crescimento em crianças. É importante estabele-
,
,
Farmacologia Ilustrada 293
,
HIPOTÁLAMO
LOBO
POSTERIOR.--
CRH
HIPÓFISE
,
SUPRARRENAL
,
,
,
,
,
,
· - .
• •
•
•
•
•
LOBO
ANTERIOR
Pró-oplo­
melano­
cortina
ºt
ACTH
· - .
• • •
........
Colesterol -
-
º
-
-
)
• Pregnenolona
Desmolase i
SUPRARRENAL
Ações
anti-inflamatórias
Aumentaa
gliconeogênese
Aumenta
ahidrólise
de proteínas
Progesterona
�
t
Cortisol
Cortisol
Figura 23.3
Secreção e ações do hormônio adreno­
corticotrópico (ACTH). CRH = hormô­
nio liberador de corticotropina.
294 Clark, Finkel, Rey & Whalen
HIPOTÁLAMO
Moduladores
deliberação i..-"'
deFSHeLH
Leupro/ida
Goserrelina
Nafarrelina
Histrelina
GnRH
HIPÓFISE
Figura 23.4
LOBO
ANTERIOR
FSH,LH
o
FSH,LH
Secreção do hormônio folículo-estimu­
lante (FSH) e do hormônio luteinizante
(LH). GnRH = hormônio liberador de
gonadotropina.
cer se o déficit de GH é realmente devido ao hipopituitarismo, pois
outros fatores, como estado normal da tireoide, são essenciais para
o sucesso do tratamento com somatotropina. A somatotropina é in­
dicada também para a falta de crescimento devido à síndrome de
Prader-Willi, combater a síndrome de caquexia daAids, a síndrome
do intestino curto e a reposição de GH em adultos com deficiência
confirmada deste hormônio. (Nota: após estudo publicado em 1 990
indicando que a administração de GH a homens com mais de 60
anos, por 6 meses, aumenta a massa corporal, a densidade óssea
e a espessura da pele, enquanto diminui o tecido adiposo, o GH
também passou a ser denominado hormônio antienvelhecimento.
Isso levou ao abuso por alguns atletas sequiosos de melhorar seu
desempenho. O GH não está aprovado para esse propósito, e al­
gumas pessoas que o usaram desenvolveram diabetes.) Embora
a meia-vida do GH seja curta (cerca de 25 minutos), ele induz a
liberação de IGF-1 (antigamente denominado somatomedina C) do
fígado, que é responsável pelas ações semelhantes a GH subse­
quentes. A somatropina não deve ser usada em pacientes pediátri­
cos com epífises fechadas. Deve ser evitada também em pacientes
com pressão intracraniana aumentada, retinopatia diabética e em
pacientes obesos com síndrome Prader-Willi.
C. Somatostatina (hormônio inibidor do hormônio do
crescimento)
Na hipófise, a somatostatina se liga a receptores próprios, SSTR2 e
SSTRS, que suprimem a liberação de hormônio tireoide estimulante e
GH. Originalmente isolada do hipotálamo, a somatostati
na é um polipep­
tídeo pequeno que também é encontrado em neurônios pelo organismo,
bem como no intestino e no pâncreas. A somatostatina, portanto, tem
inúmeras ações. Por exemplo, ela não só inibe a liberação de GH, mas
também a de insulina, glucagônio e gastrina. O ocreotídeo é um octapep­
tídeo sintético análogo da somatostatina. Sua meia-vida é maior do que
a do composto natural e há disponível uma forma de depósito. A solução
injetável e a formulação de depósito suprimem GH e IGF-1 por 1 2 horas e
6 semanas, respectivamente. Elas são úteis no tratamento da acromega­
lia causada por tumores secretores de hormônio e na diarreia secretória
associada a tumores produtores de peptídeo intestinal vasoativo (VIPo­
mas). Os efeitos adversos do ocreotídeo são diarreia, dor abdominal,
flatulência, náuseas e esteatorreia. O esvaziamento da vesícula biliar é
retardado, podendo ocorrer cálculos biliares assintomáticos de coleste­
rol no tratamento de longa duração. (Nota: um análogo do GH humano
ligado a um polímero de polietilenoglicol, pegvisomanto, é empregado no
tratamento da acromegalia refratáriaa outros modos de intervenção, seja
cirúrgica, radiológica ou farmacológica. Ele atua como antagonista em
um dos receptores do GH e resulta na normalização dos níveis de IGF-1.)
D. Hormônio liberador de gonadotropina (hormônio liberador
de hormônio luteinizante)
O hormônio liberador de gonadotropina (GnRH), também denominado
gonadorrelina, é um decapeptídeo obtido do hipotálamo. A secreção
pulsátil do GnRH é essencial para a liberação dos hormônios folículo­
-estimulante (FSH, de follic/e-stimulati
ng hormone) e luteinizante (LH,
de luteinizing hormone) da hipófise, ao passo que a administração con­
tínua inibe a liberação das gonadotropinas. Inúmeros análogos sintéti­
cos, como /euprolida, goserrelina, nafarrelina e histrelina, atuam como
agonistas nos receptores do GnRH (Figura 23.4). Eles são eficazes em
suprimir a produção de hormônios gonadais quando administrados con-
tinuamente e, assim, são eficazes no tratamento de câncer prostático,
endometriose e puberdade precoce. Em mulheres, os análogos causam
fogachos e sudoração, bem como diminuição da libido, depressão e cis­
tos ovarianos. Eles são contraindicados na gestação e amamentação. No
homem, inicialmente eles causam aumento na testosterona, o que pode
ocasionar dor óssea; há também a possibilidade de ocorrer fogachos,
edema, ginecomastia e diminuição da libido.
E. Gonadotropinas: gonadotropina menopausa! humana,
hormônio folículo-estimulante e gonadotropina
coriônica humana
As gonadotropinas são glicoproteínas produzidas pela hipófise anterior.
A regulação dos hormônios esteroidais gonadais depende delas. Elas
são usadas no tratamento da infertilidade no homem e na mulher. As
menotropinas (gonadotropina menopausa/ humana ou hMG, de human
menopausa/gonadotropin) são obtidas da urina da mulher menopausada
e contêm FSH e LH. A gonadotropina coriônica (hCG, de human cho­
rionic gonadotropin) é um hormônio placentário estruturalmente relacio-
,
nado ao LH que é um agonista do receptor LH. E excretado na urina. A
urofolitropina é FSH obtido da mulher após a menopausa e é isenta de
LH. A folitropina alfa e a folitropina beta são FSH humano produzidos
usando tecnologia de DNA recombinante. Todos esses hormônios são
usados por via IM ou SC. A injeção de hMG ou FSH por um período de 5
a 12 dias causa crescimento e maturação do folículo ovariano e, com a
subsequente injeção de hCG, ocorre ovulação. Em homens com falta de
gonadotropinas, o tratamento com hCG causa maturação sexual externa
e, com a injeção subsequente de hMG, ou foli
pronina ocorre espermato­
gênese. Em mulheres, os efeitos adversos incluem crescimento ovariano
e possível hipovolemia. Nascimentos múltiplos não são incomuns.Os ho­
mens podem desenvolver ginecomastia.
F. Prolactina
A prolactina é um hormônio peptídico secretado pela hipófise anterior e
com estrutura similar ao GH. Sua secreção é inibida pela dopamina via
receptores 02• A função primária da prolactina é estimular e manter a
lactação. Além disso, eladiminui o impulso sexual e a função reprodutiva.
O hormônio se dá em um receptor transmembrana que ativa a tirosina­
quinase promovendo a fosforilação da tirosina e ativação gênica. Não há
fármacos disponíveis para condições hipoprolactinêmicas. Contudo, a hi­
perprolactinemia, que estáassociada à galactorreia e hipogonadismo, de
maneirageral étratada com agonistas de receptor D2, como a bromocrip­
tina e a cabergolina. Os dois fármacos também têm uso no tratamento
de microadenomas, macroprolactinomas hipofisários e hiperprolactine­
mia. Entre os efeitos adversos estão náuseas, cefaleia e, algumas vezes,
transtornos psiquátricos.
Ili. HORMÔNIOS DA HIPÓFISE POSTERIOR
Em contraste com os hormônios do lobo anterior da hipófise, os do lobo
posterior, vasopressina e ocitocina, não são regulados por hormônios li­
beradores. Eles são sintetizados no hipotálamo, transportados para a hi­
pófise posterior e liberados em resposta a sinais fisiológicos específicos,
como osmolaridade plasmática elevada ou parto. Ambos são nonapep­
tídeos com estrutura circular decorrente de ponte dissulfeto. A redução
do dissulfeto inativa esses hormônios. Eles são suscetíveis à hidrólise
proteolítica e, assim, administrados porvia parenteral. Ambos têm meias­
-vidas muito curtas. As suas ações estão resumidas na Figura 23.5.
Farmacologia Ilustrada 295
296 Clark, Finkel, Rey & Whalen
HIPOTÁLAMO
LOBO
POSTERIOR.--'
....--JL,V,asopressina
Ocitocina
LOBO
ANTERIOR
HIPÓFISE
o
6
Contração Ejeção
o
uterina doleite
Túbulo
proximal
Ramo
ascendenteda
alçadeHenle
Túbulo
contorcido
distal
Reabsorção
Túbulo
coletor
Figura 23.5
Ações da ocitocina e da vasopressina.
A. Ocitocina
A ocitocina, originalmente extraída de hipófises posteriores de animais,
agora é sintetizada. Seu único uso é obstétrico, no qual ela é empregada
para estimular contrações uterinas para induzirou reforçar o parto. (Nota:
a sensibilidade do útero à ocitocina aumenta com a duração da gestação
quando está sob domínio estrogênico.) Para induzir o parto, a ocitocina
é administrada porvia IV. A ocitoci
na causa ejeção do leite contraindo as
células mioepiteliais ao redor do alvéolo mamário. Embora toxicidades
sejam incomuns quando o fármaco é usado de forma adequada, foram
registrados casos de hipertensão, ruptura uterina, retenção de água e
morte fetal. Os efeitos antidiurético e pressórico da ocitocina são muito
menores do que os da vasopressina. (Nota: a ocitocina é contraindicada
na apresentação fetal anormal, estresse fetal e partos prematuros.)
B. Vasopressina
A vasopressina (ou hormônio antidiurético, HAD) é relacionada estrutu­
ralmente com a ocitocina. O nonapeptídeo sintético substituiu os extra­
tos de hipófise posterior de animais. A vasopressina tem efeito antidiuré­
tico e vasopressor (ver Figura 23.5). Nos rins, ela se liga ao receptor V2
aumentando a permeabilidade e a reabsorção de água nos túbulos cole­
tores. Assim, o principal uso da vasopressina étratar o diabetes insípido.
Ela também tem uso na parada cardíaca e no controle do sangramento
devido a varizes esofágicas ou divertículos de colo. Outros efeitos da
vasopressina são mediados pelo receptorV1 , que se encontra no fígado,
no músculo liso vascular (onde causa constrição) e em outros tecidos.
Como esperado, a principal toxicidade da vasopressina é a intoxicação
aquosa e a hiponatremia.Também podem ocorrer cefaleia, broncocons­
trição e tremores. Deve haver cautela ao tratar pacientes com doença
arterial coronariana, epilepsia e asma. Para evitar os efeitos pressores,
a vasopressina foi modificada à desmopressina (vasopressina-1-desa­
mino-8-d-arginina), que tem atividade mínima no receptorV,, livrando-a
amplamente dos efeitos pressóricos. Atualmente esse análogo é preferi­
do contra o diabetes insípido e a enurese noturna, além de teração mais
longa do que a vasopressina. A desmopressina é administrada conve­
nientemente por via intranasal ou oral. Entretanto, a formulação nasal
não é mais indicada contra a enurese devido aos registros de convul­
sões em crianças que usaram o spraynasal. Pode ocorrer irritação local
com a formulação nasal.
IV. HORMÔNIOSTIREÓIDEOS
A glândula tireoide facilita o crescimento normal e a maturação, mantendo um
nível de metabolismo nos tecidos que é o ideal para sua função normal. Os
dois principais hormônios tireóideos são a tri-iodotironina (T3, a forma mais
ativa) e a tiroxina (T
.J. Embora a tireoide não seja essencial para a vida, se­
creções inadequadas dos hormônios tireóideos (hipotireoidismo) resultam em
bradicardia, baixa resistência ao frio e lentidão na atividade mental e física
(em crianças, isso pode causar retardo mental e nanismo). Contudo, se houver
secreção excessiva de hormôniostireóideos (hipertireoidismo), podem ocorrer
taquicardia e arritmias cardíacas, debilitação corporal, nervosismo, tremores
e produção excessiva de calor. (Nota: a glândula tireoide também secreta o
hormônio calcitonina- um hormônio que reduz o nível sérico de cálcio.)
A. Síntese e secreção dos hormônios tireóideos
A glândula tireoide é composta de múltiplos folículos que consistem em
uma simples camada de células epiteliais circundando um lúmen preen-
PLASMA CÉLULATIREOIDE
S
íntese de
tlroglobullna
Aminoácidos -
-
-
-
-
-
-==;
:--
-
-
-
--,
Farmacologia Ilustrada 297
COLOIDE
OH ::::::=�-- Resíduosdetirosina
o
CH2
Propiltiouracil
Metimazol
Tiroglobulina
OH
o'
o
1 o1
11-lz
H - C -NH+
1 3
coo-
OH
1 01
o
1 01
q1-1.z
H - C- N1i3+
1
coo-
Tri-iodotironina Tiroxina
(Ta) (T4)
Figura 23.6
Iodeto
elevado
Peroxidase
-------+
12
Liberação proteolítica
dos hormônios
Biossíntese dos hormônios tireóideos.
lodinação
HO
o
1o 1
chido com tiroglobulina, que é aforma de armazenamento dos hormônios
tireóideos. O resumo das etapas na síntese e secreção dos hormônios
tireóideos está representado na Figura 23.6.
1. Regulação da síntese. A função tireóidea é controlada por um hor­
mônio trópico, o hormônio estimulante da tireoide (tirotropina ou TSH,
de thyroid-stímulatíng hormone). O TSH é uma glicoproteína, estru­
turalmente relacionada ao LH e FSH, sintetizada pela hipófise ante­
rior (ver Figura 23.2). A geração de TSH é regulada pelo hormônio
liberador de tirotropina hipotalâmico (TRH, de thyrotropin-releasíng
hormone). A ação doTSH é mediada pelo AMPe e leva à estimulação
da captação de iodeto (1-). A oxidação a iodo (12) pela peroxidase é
seguida da iodinaçãodastirosinas natireoglobulina. (Nota: anticorpos
à peroxidasetireoideana sãodiagnósticos da tireoidite de Hashimoto.)
A condensação de dois resíduos di-iodotirosina dá origem a T
4, e a
condensação do resíduo monoiodotirosina com o di-iodotirosina gera
o T3, que continuam ligados à proteína. Os hormônios são liberados
após clivagem proteolítica da tireoglobulina.
2. Regulação da secreção. A secreção de TSH pela hipófise ante­
rior é estimulada pelo TRH hipotalâmico. Ocorre retroalimentação
negativa do TRH quando há níveis elevados de hormônio tireóideo
circulante. (Nota: em doses farmacológicas, dopamína, somatostatí­
na ou glicocorticoides também podem suprimira secreção deTSH.)
A maioria do hormônio (T3 e T4) no plasma está ligada à globulina
ligadora de tiroxina.
OH
o
Condensação
Propiltiouracil
Metimazol
298 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Fenitoí
na
Rifampicina
Fenobarbital
Figura 23.7
Indução
enzimátic
Metabólitos
A indução enzimática pode aumentar
a metabolização dos hormônios tireói­
deos. T3 = tri-iodotironina; T4 = tiroxina.
B. Mecanismo de ação
A T3 e a T
4 precisam dissociar-se das proteínas plasmáticas ligadoras de
tiroxina antes de entrar nas células, seja por difusão ou transporte ativo.
Na célula, a T
4 é desiodinada enzimaticamente a T
3, que entra no núcleo
e se liga a receptores específicos.A ativação desses receptores promove
a formação de RNA e a subsequente síntese de proteínas, que são as
responsáveis pelos efeitos daT4•
C. Farmacocinética
Tanto T3 quanto T4 são absorvidas após administraçãovia oral.Alimentos,
preparações com cálcio e antiácidos contendo alumínio podem diminuir a
absorção de T
4, mas não de T3• A T
4 é convertida em T
3 por uma de duas
desiodinases, dependendo do tecido. Os hormônios são metabolizados
pelo sistema microssomal P450. Os fármacos que induzem as enzimas
P450, como fenitoína, rifampicina e fenobarbital, aceleram o metabolismo
dos hormônios tireóideos (Figura 23.7).
D. Tratamento do hipotireoidismo
O hipotireoidismo em geral resulta da destruição autoimune da glândula
ou da peroxidase e é diagnosticado pelo alto nível de TSH. Ele é tratado
com levotiroxina (T4). O fármaco é administrado uma vez por dia devido
à sua longa meia-vida. O estado de equilíbrio é alcançado em 6 a 8 se­
manas. A toxicidade depende dos níveis de T
4 e se manifesta por nervo­
sismo, palpitações cardíacas e taquicardia, intolerância ao calor e perda
inexplicada de massa corporal.
E. Tratamento do hipertireoidismo (tirotoxicose)
Quantidades excessivas de hormônio tireóideo na circulação estão as­
sociadas a inúmeras doenças, incluindo Mal de Graves, adenoma tóxico
e bócio. Nessas situações, os níveis de TSH estão reduzidos devido à
retroalimentação negativa. O objetivo do tratamento é diminuir a síntese
e/ou a liberação do hormônio excessivo. Isso pode ser alcançado remo­
vendo parte ou toda a glândula tireoide, inibindo a síntese dos hormônios
ou bloqueando a liberação dos hormônios dos folículos.
1. Remoção de parte ou de toda a tireoide. Isso pode ser realizado
por cirurgia ou destruição da glândula por partículas emitidas pelo
iodeto radiotivo (113
1), que é captado seletivamente pelas células
foliculares tireóideas. Pacientes mais jovens são tratados com o
isótopo sem o tratamento prévio com metimazol (ver a seguir), ao
passo que o oposto é o caso dos pacientes idosos. A maioria dos
pacientes se torna hipotireóidea como resultado desse fármaco e
necessita de tratamento com levotiroxi
na.
2. Inibição da síntese do hormônio tireóideo. As tioaminas, propil­
tiouraci/ e metimazo/, são concentradas na tireoide, onde inibem os
processos oxidativos exigidos para a iodinação dos grupos tirosila e
a condensação (ou acoplamento) das iodotirosinas para formar T
3 e
T4 (ver Figura 23.6). O propiltiouraciltambém bloqueia a conversão
de T
4 em T3• (Nota: esses fármacos não têm efeito na tiroglobulinajá
armazenada na glândula; por isso, a observação de efeitos clínicos
desses fármacos é postergada até que os estoques de tiroglobulina
sejam esgotados. Figura 23.8.) As tioamidas são bem absorvidas do
TGI, mas têm meias-vidas curtas.Várias doses de propiltiouraci/são
necessárias por dia. O metimazol é administrado em 3 dosificações
diárias iguais, com intervalos de aproximadamente 8 horas. Podem
ocorrer recaídas. Efeitos adversos relativamente raros incluem agra­
nulocitose, urticária e edema. Devido ao potencial de toxicidade he­
pática ou insuficiência hepática o propiltiouracil deve ser reservado
aos pacientes que são intolerantes ao metimazol.
3. Crise tireóidea. A crise tireóidea se apresenta com sintomas ex­
tremos de hipertireoidismo. As opções terapêuticas contra a crise
tireoidea são as mesmas do hipertireoidismo, exceto que os fár­
macos devem ser administrados em dosagens maiores e mais fre­
quentes. �-bloqueadores que não têm atividade simpaticomimética,
como o propranolo/, são eficazes em controlar a estimulação sim­
pática generalizada que ocorre no hipertireoidismo.A administração
IV é eficaz no tratamento da crise tireóidea. A alternativa para pa­
cientes que sofrem de insuficiência cardíaca grave ou asma é o blo­
queador de canais de cálcio, dilti
azem. Outros fármacos usados no
tratamento da crise tireóidea incluem propiltiouracil, iodedos, meios
de contraste iodinados (que rapidamente inibem a conversão deT4
aT3), e glicocorticoides (para proteger contra o choque).
4. Bloqueio da liberação dos hormônios. Uma dose farmacológi­
ca de iodeto inibe a iodinação das tirosinas (o denominado "Efeito
Wolff-Chaikoff agudo"), mas este efeito dura poucos dias. O mais
importante é que os iodetos também inibem a liberação dos hormô­
nios tireóideos da tiroglobulina por mecanismo não entendido. Atual­
mente, o iodeto raramente é usado como tratamento único. Contudo,
ele é usado no tratamento da crise tireotóxica (crise tireóidea) po­
tencialmente fatal ou prévio à cirurgia, pois diminui a vascularização
da glândula tireoide. O iodeto não é útil para tratamentos de longa
duração, pois a tireoide deixa de responder ao fármaco em poucas
semanas. O iodeto é administrado por via oral. Os efeitos adversos
são relativamente desprezíveis e incluem lesões, feridas na mucosa
oral e garganta, tumefação da língua ou laringe, erupções e ulcera­
ções das membranas mucosas e gosto metálico na boca.
ln
o
-8 100
·
-
'º
e
·
-
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CI)
CI)
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Farmacologia Ilustrada 299
Metimazol
Propiltiouracil
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_
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_
__._
_
___._
_
__,
11. 10 20 30 40 50
Tempo,semanas
Figura 23.8
Tempo necessário para que pacientes
com hipertireoidismo devido ao Mal de
Graves se tornem eutireóideos com
concentrações deT4 eT3 normais.
300 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Questões para estudo
Escolha a resposta correta.
23.1 Os sintomas de hipertireoidismo incluem todos os citados
a seguir, exceto:
A. Taquicardia
B. Nervosismo
C. Intolerância ao frio
D. Emagrecimento
E. Tremores
23.2 Qual das alternativas descreve melhor o efeito do propil­
tiouracil na produção do hormônio tireóideo?
A. Bloqueia a liberação de hormônio liberadordetirotropina.
B. Inibe a captação de iodeto pelas células tireóideas.
C. Previne a liberação de hormônio tireóideo datiroglobu­
lina.
D. Bloqueiaa iodinação e o acoplamento das tirosinas em
tireoglobulina para formar os hormônios tireóideos.
E. Bloqueia a liberação do hormônio da glândula tireoide.
23.3 O hipertireoidismo pode ser tratado com todos os seguin­
tes, exceto:
A. Tri-iodotironina.
B. Remoção cirúrgica da glândula tireoide.
C. Iodeto.
D. Propiltiouracil.
E. Metimazol.
23.4 Qual dos seguintes hormônios é não peptídico permitindo
o uso oral?
A. Hormônio adrenocorticotrófico
B. Hormônio do crescimento
C. Hormônio liberagor de gonadotrofinas (GnRH)
D. Tiroxina
E. Hormônio liberador de corticotropina
23.5 Qual dos seguintes fármacos está relacionado INCORRE­
TAMENTE com sua indicação clínica?
A. Desmopressina: tratamento do diabetes insípido.
B. Octreotida: tratamento da diarreia associada com tu-
mores secretores de peptídeo intestinal vasoativo.
C. Ocitocina: indução do parto.
D. hCG: tratamento da infertilidade no homem e na mulher.
E. Pegvisomanto: tratamento da baixa estatura no ho­
mem e na mulher.
Respostacorreta = C. O indivíduo com hipertireoidismo comfrequên­
cia experimenta excessiva produção de calor. As outras opções são
todas sintomas de hipertireoidismo.
Resposta correta = D. O propiltiouracil bloqueia a síntese de hormô­
nios tireóideos, mas não afeta a captação de iodeto, a clivagem pro­
teolítica da tiroglobulina ou a liberação dos hormônios da glândula
tireoide. Os hormônios tireóideos inibem a secreção do hormônio
estimulante da tireoide da hipófise anterior.
Resposta correta = A. A tri-iodotironina é um hormônio tireóideo que
é produzido em excesso no hipertireoidismo. As demais opções são
tratamentos contra o hipertireoidismo.
Respostacorreta = D. Embora atiroxinaseja derivadado aminoácido
tirosina, ela não é um peptídeo e é estável no estômago ácido. As
demais opções são inadequadas.
Resposta correta = E. O pegvisomanto é um antagonista nos recep­
tores do hormônio do crescimento e usado para tratar acromegalia.
As demais opções estão relacionadas corretamente com seus usos
clínicos.
•
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• •
1 ice
1. RESUMO
O pâncreas é uma glândula endócrina que produz os hormônios peptídicos,
insulina, glucagon e somatostatina, e uma glândula exócrina que produz en­
zimas digestivas. Os hormônios peptídicos são secretados das células locali­
zadas nas ilhotas de Langerhans (células 13 produzem insulina, células o. pro­
duzem glucagon e células S produzem somatostatina). Esses hormônios têm
um importante papel na regulação das atividades metabólicas do organismo,
particularmente na homeostasia da glicose.
1
A hiperinsulinemia (decorrente,
p. ex., de um insulinoma) pode causar grave hipoglicemia. A falta relativa ou
absoluta de insulina, como no diabetes melito, pode causar grave hiperglice­
mia. Se esta condição não for tratada, podem resultar retinopatia, nefropatia,
neuropatia e complicações cardiovasculares. A administração de insulina ou
fármacos hipoglicemiantes orais ou injetáveis (Figura 24.1) pode evitar a mor­
bidade e reduzir a mortalidade associada ao diabetes.
li. DIABETES MELITO
A incidência de diabetes está crescendo rapidamente em todo o mundo; por
exemplo, estima-se que mais de 250 milhões de pessoas sofram com diabetes
e a prevalência deve exceder os 350 milhões até 2030. Nos Estados Unidos,
cerca de 23,6 milhões de pessoas sofrem de diabetes, e essa é uma das
maiores causas de morbidade e mortalidade. O diabetes não é uma doença
simples. Ele é um grupo heterogêneo de síndromes caracterizadas por eleva­
ção da glicemia causada pordeficiência absolutaou relativa de insulina. (Nota:
a liberação inadequada de insulina comumente é agravada pelo excesso de
glucagon.) A American Diabete Association (ADA) reconhece quatro classi­
ficações clínicas do diabetes: diabetes tipo 1 (anteriormente diabetes melito
dependente de insulina), diabetes tipo 2 (anteriormente, diabetes melito não
�
1Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
� sobre a insulina na homeostasia da glicose.
INSULINA
Insulina asparte
Insulina detemir
Insulina glargina
Insulina glulisina
Insulina lispro
Insulina NPH suspensão
Insulina regular
. ANÁLOGODA AMILINA
Pranlintida
FÁRMACOSORAIS
Acarbose
Glimepirida
Gli
pizida
Glibenclamida
Metformina
Miglitol
Nateglinida
Pioglitazona
Repaglinida
Rosiglitazona
Saxagliptina
Sitagli
ptina
Tolbutamida
INCRETINAMIMÉTICOS
Figura 24.1
Exenatida
Liraglutida
Resumo dos fármacos usados no trata­
mento do diabetes.
302 Clark, Finkel, Rey & Whalen
Tipo 1 Tipo 2
Idadeno Geralmente Frequentemente
início duranteainfância acimados
oua puberdade. 35anos.
Estado Frequentemente Geralmente
nutricional subnutrido. presençade
noinício obesidade.
Prevalência 5a 10%dos 90a95°/odos
diabéticos diabéticos
diagnosticados. diagnosticados.
Predisposição Moderada. Muitoforte.
genética
Defeitoou Ascélulas13são Incapacidadedas
deficiência destruídas, células13de
eliminandoa produzir
produçãode quantidades
insulina. apropriadasde
insulina; resistência
àinsulina;outros
defeitos.
Figura 24.2
Comparação entre os diabetes tipo 1 e
tipo 2.
Indivíduosnormais
m
e
·
­
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e
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Diabetestipo2
Diabetestipo1
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o Minutos
I 
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r:r
Infusãode glicose
Figura 24.3
1
Liberação de insulina que ocorre em
resposta a uma carga de glicose por
via IV em indivíduos normais e em pa­
cientes diabéticos.
dependente de insulina), diabetes gestacional e diabetes devida a outras cau­
sas (p. ex., defeito genético ou medicações)
2
• A Figura 24.2 resume as carac­
terísticas do diabetes tipo 1 e tipo 2. O diabetes gestacional é definido como
intolerância aos carboidratos com início ou primeiro reconhecimento durante a
,
gestação. E importante manter controle glicêmico adequado durante a gesta-
ção, pois o diabetes gestacional descontrolado pode causar macrossomiafetal
(corpo anormalmente grande), distocia de ombro (dificuldade no parto), bem
como hipoglicemia neonatal. Dieta, exercício e/ou administração de insulina
são eficazes nessa condição. Gliburida e metformina podem ser alternativas
razoavelmente seguras ao tratamento com insulina para o diabetes gestacio­
nal. Contudo, grandes estudos randomizados são necessários para avaliarde­
finitivamente o resultado neonatal e o regime de dosagem ideal.
A. Diabetes tipo 1
O diabetes tipo 1 atinge mais comumente indivíduos adultos jovens ou
que estão na puberdade, mas algumas formas latentes podem ocorrer
mais tardiamente. A doença se caracteriza por uma falta absoluta de in­
sulina causada por extensa necrose das células J3. A perda da função
das células J3 em geral é atribuída a processos autoimunes direcionados
contra essas células e pode ser deflagrada por invasão virai ou ação de
toxinas. Como resultado da destruição dessas células, o pâncreas deixa
de responder à glicose, e o diabetes tipo 1 mostra os sintomas clássicos
da deficiência de insuli
na (polidipsia, polifagia, poliúria e perda de massa
corporal). O diabetes tipo 1 exige insuli
na exógena para evitar o estado
catabólico que resulta e é caracterizado pela hiperglicemiae a cetoacido­
se ameaçadora à sobrevida.
1. Causas do diabetes tipo 1 . No período pós-absortivo, são man­
tidos níveis baixos basais de insulina circulante pela secreção
constante das células J3. Isso suprime a lipólise, a proteólise e a
glicogenólise. Uma onda de secreção de insulina ocorre dentro de
2 minutos da ingestão do alimento, em resposta ao aumento transi­
tório dos níveis de glicose e aminoácidos circulantes. Isso dura por
até 15 minutos e é seguido de secreção pós-prandial de insuli
na.
Contudo, não possuindo células J3 funcionais, o diabético tipo 1 nun­
ca consegue manter um nível de secreção basal de insulina e nem
responde às variações de energia circulantes (Figura 24.3). O de­
senvolvimento e a evolução da neuropatia, nefropatia e retinopatia
estão relacionados diretamente com o grau de controle glicêmico
(medido como glicemia e/ou hemoglobina A1c [HbA,c]).
3
2. Tratamento. A pessoacom diabetes tipo 1 depende da insulina exó­
gena (injetada) paracontrolara hiperglicemia, evitara cetoacidose e
manter níveis aceitáveis de hemoglobina glicosilada (HbA1c)· (Nota:
a velocidade de formação de HbA1c é proporcional à média da gli­
cemia nos três meses prévios. Por isso a HbA1c serve como medida
de quão bem o tratamento normalizou a glicemia no paciente dia­
bético.) O objetivo da administração de insulina ao diabético tipo 1
é manter a concentração de glicose tão próxima do normal quanto
possível e evitar as variações amplas entre seus níveis de glicose
que podem contribuir para as complicações de longo prazo. O uso
de monitores de glicemia domésticos facilita a automonitoração fre-
2
Ver Bioquí
mica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre o diabetes tipo 1 e tipo 2.
3Ver Bioquí
mica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
sobre hemoglobina A1c.
quente e o tratamento com as injeções de insulina. A infusão SC
contínua de insuli
na, também da bombade insulina, é outro método
de administração usado. Esse método pode ser mais conveniente
para alguns pacientes, eliminando as múltiplas injeções diárias de
insulina. A bomba é programada para oferecer a quantidade basal
de secreção de insulina e também permite ao paciente controlar a
administração de bolus de insuli
na para compensar uma glicemia
elevada ou em antecipação às necessidades pós-prandiais. Outros
métodos de administração de insulina, como transdérmica, bucal e
intranasal, estão sob investigação. A amilina é um hormônio que é
cossecretado com a insulina pelas células � do pâncreas, após a
alimentação. A pranlintida é um análogo sintético da amilina e pode
ser usada como auxiliar do tratamento com insulina.
B. Diabetes tipo 2
A maioria dos diabéticos tem o tipo 2 dadoença, o qual é influenciado por
fatores genéticos, idade, obesidade e resistência periférica à insulina, e
não por um processo autoimune ou virai. As alterações metabólicas ob­
servadas são mais leves do que as descritas para o tipo 1 (p. ex., os pa­
cientes dotipo 2 normalmente são não cetóticos), mas as consequências
clínicas de longo prazo podem ser tão devastadoras quanto as do tipo 1
(p. ex., complicações vasculares e infecção subsequente podem levar à
amputação dos membros inferiores).
1 . Causa. No diabetes tipo 2, o pâncreas mantém alguma função das
células �. mas a secreção de insulina é variável e insuficiente para
manter a homeostasia da glicose (ver Figura 24.3). A quantidade
de células � pode se reduzir gradualmente no diabetes tipo 2. Em
contraste com os pacientes com diabetes tipo 1 , os com tipo 2 com
frequência são obesos. (Nota: nem todos os indivíduos obesos se
tornam diabéticos.) O diabetes tipo 2 com frequência é acompanha­
do da falta de sensibilidade dos órgãos-alvo à insulina endógena e
exógena (Figura 24.4). Essa resistência à insulina é considerada
como a maior causa desse tipo de diabetes.
2. Tratamento. O objetivo no tratamento do diabetes tipo 2 é manter a
glicemia dentro da faixa normal e evitar o desenvolvimento das com­
plicações de longo prazo da doença. Redução de massa corporal,
exercícios e modificação da dieta diminuem a resistência à insulina
e corrigem a hiperglicemia do diabetes tipo 2 em alguns pacientes.
Contudo, a maioria dos pacientes é dependente da intervenção far­
macológica com hipoglicemiantes orais. Enquanto a doença evolui, a
função das células diminui, e o tratamento com insulina passa a ser
necessário para alcançar níveis glicêmicos satisfatórios (Figura 24.5).
Ili. A INSULINA E OS SEUS ANÁLOGOS
A insulina é um hormônio polipeptídico consistindo em duas cadeias peptídi­
cas unidas por pontes dissulfeto. Ela é sintetizada como um precursor (pró­
-insulina) que sofre hidrólise proteolítica para formar insulina e peptídeo e,
ambos secretados pelas células do pâncreas
4
• (Nota: Como a insulina sofre
extração hepática significativa, sua concentração plasmática circulante não
reflete a produção insulina acuradamente. Assim, a mensuração do peptídeo
C circulante é um indicador melhor dos níveis de insuli
na.)
�
4
Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão
� sobre a síntese e a secreção de insulina.

Farmacologia Ilustrada 303
O Resistência à insulina nos
tecidos periféricos
FÍGADO
Produção
aumentada
deglicose
Glicose
.
.
.
•
•
. .
. .
. .
. .
.
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. .
� ....
..
TECIDO
ADIPOSO
..,  Captação
  diminuída
, ""? deglicose
•.
.
MÚSCULO
r:I Secreção inadequada de
U insulina pelas células �
PÂNCREAS
t
'·
• •
:::: :::: ·::- Insulina
...
. .
.
Figura 24.4
Principais fatores que contribuem para
a hiperglicemia observada no diabetes
tipo 2.
T
olerância
à glicose
Normal insuficiente 1 Diabetes tipo 2
O a 5 5 a 1 5 Maisde
anos anos 15 anos
Sem Dieta Dieta Tratamento Injeções
tratamento mais associado múltiplas
metformina de insulina
Gravidade crescente da doença
Figura 24.5
Duração do diabetes tipo 2, suficiência
da insulina endógena e sequência re­
comendada do tratamento.
304 Clark,Finkel,Rey& Whalen
,,
Sintomascausados
pelahipoglicemia
Cefaleia
Taquicardia
Ansiedade
D
Confusão
- -
Vertigens Diaforese
Lipodistrofia Hipersensibilidade
Figura 24.6
Efeitos adversos observados com insu­
lina. (Nota: a lipodistrofia é uma atrofia
ou hipertrofia do tecido gorduroso sub­
cutâneo, localizada no local da injeção.)
A. Secreção de insulina
A secreção de insulina é regulada não só pelos níveis sanguíneos de
glicose, mas também porcertos aminoácidos, outros hormônios e media­
dores autonômicos. A secreção é mais comumente iniciada pela hipergli­
cemia. A glicose é captada pelo transportador de glicose nas células �
do pâncreas. Ali a glicose é fosforilada pela glicoquinase, que atua como
um sensor de glicose. Os produtos do metabolismo da glicose entram na
cadeia respiratória mitocondrial e geram trifosfato de adenosina (ATP). O
aumento dos níveis de ATP causa um bloqueio nos canais de K+, levan­
do à despolarização de membrana e ao influxo de Ca
2
+. O aumento no
Ca
2
+ intracelular causa exocitose pulsátil de insulina. As sulfonilureias e
as glitinidas devem seu efeito hipoglicemiante à inibição dos canais de
K+. (Nota: a glicose administrada por injeção tem um efeito mais fraco na
secreção de insulina do que a glicose ingerida por via oral. Ingerida via
oral, a glicose estimula a produção do hormônios incretina pelo intestino,
que, por sua vez, estimula a secreção de insuli
na pelo pâncreas.)
B. Fontes de insulina
A insuli
na humana é produzida portecnologia de DNA recombinante usan­
do cepas especiais de Escherichia coliou fungos alterados geneticamente
para contero gene para a insulina humana. Modificações da sequência de
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  • 2.
    Nota ' A medicina éuma ciência em constante evolução. A medida que novas pesquisas e a experiência clínica ampliam o nosso conhecimento, são necessárias modificações no tratamento e na farmacoterapia. Os organizadores desta obra consultaram as fontes consideradas confiáveis, em um esforço para oferecer informações completas e, geral­ mente, de acordo com os padrões aceitos à época da publicação. Entretanto, tendo em vista a possibilidade de falha humana ou de alterações nas ciências médicas, os leitores devem confirmar estas informações com outras fontes. Por exemplo, e em particular, os leitores são aconselhados a conferir a bula de qualquer medicamento que preten­ dam administrar, para se certificarde que a informação contida neste livro está correta e de que não houve alteração na dose recomendada nem nas contraindicações para o seu uso. Esta recomendação é particularmente importante em relação a medicamentos novos ou raramente usados. F233 Farmacologia ilustrada [recurso eletrônico] / Michelle A. Clark ... [et ai.] ; tradução e revisão técnica: Augusto Langeloh. - 5.ed.- Dados eletrônicos. - Porto Alegre : Artmed, 2013. Editado tabém como livro impresso em 2013. ISBN 978-85-65852-69-2 1 . Farmacologia ilustrada. 1. Clark, Michelle A. CDU 615-028.22 Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus - CRB 10/2052
  • 3.
    michelle a. clark.PhD Department of Pharmaceutical Sciences Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida richard finkel. PharmD Department of Pharmaceutical Sciences Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida jose a. rey. PharmD. BCPP Department of Pharmaceutical Sciences Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida karen whalen. PharmD. BCPS Department of Pharmacotherapy & Translational Research University of Florida College of Pharmacy Gainesville, Florida Versão impressa desta obra: 2013 2013 - EDIÇAO Tradução e revisão técnica desta edição: Augusto Langeloh Professor aposentado de Farmacologia do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ICBS/ UFRGS). Mestre e Doutor em Farmacologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
  • 4.
    Obra originalmente publicadasob o título Lippincott's illustrated reviews: pharmacology, 5th edition ISBN 9781451143201 Copyright © 201 1 Lippincott Williams & Wilkins, a Wolters Kluwer business. Lippincott Williams & Wilkins/Wolters Kluwer Health did not participate in the translation of this title. Published by arrangement with Lippincott Williams &Wilkins/Wolters Kluwer Health lnc. USA Gerente editorial: Letícia Bispo de Lima Colaboraram nesta edição Editora: Mirian Raquel Fachinetto Cunha Capa: Márcio Montice/li Imagem da capa: ©Dreamstime.com /Saporob, 2009: Synapse Leitura final: Magda Regina Schwartzhaupt Chaves Editoração: Techbooks Revisores da edição original: T homas A. Panavelif, PhD Department of Pharmacology Nova Southeastern University College of Medical Sciences Fort Lauderdale, Florida William R. Wolowich, PharmD Department of Pharmacy Practice Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Ilustrações e design gráfico originais: Michael Cooper Cooper Graphic www.cooper247.com Claire Hess Hess2 Design Louisvil/e, Kentucky Reservados todos os direitos de publicação, em língua portuguesa, à ARTMED EDITORA LTDA., uma empresa do GRUPO A EDUCAÇÃO S.A. Av. Jerônimo de Ornelas, 670-Santana 90040-340-Porto Alegre-RS Fone: (51) 3027-7000 Fax: (51) 3027-7070 É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora. Unidade São Paulo Av. Embaixador Macedo Soares, 1O.735-Pavilhão 5-Cond. Espace Center Vila Anastácio-05095-035-São Paulo-SP Fone: (11) 3665-1100 Fax: (11) 3667-1333 SAC 0800 703-3444-www.grupoa.com.br IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL
  • 5.
    Ana Maria Castejon,PhD Department of Pharmaceutical Sciences Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Appu Rathinavelu, PhD Rumbaugh Goodwin lnstitute for Cancer Research Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Carol Motycka, PharmD Department of Pharmacotherapy and Translational Research University of Florida College of Pharmacy Jacksonville, Florida David Gazze, PhD Department of Pharmaceutical Sciences Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Elizabeth Sherman, PharmD Department of Pharmacy Practice Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Jane McLaughlin-Middlekauff, PharmD Department of Pharmacy Practice Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Kathleen K. Graham, PharmD Children's Diagnostic & Treatment Center and Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Kathy Fuller, PharmD, BCNSP Pharmacotherapy Management Center Gare lmprovement Plus XLHealth Corporation Baltimore, Maryland Luigi X. Cubeddu, M.D., PhD Department of Pharmaceutical Sciences Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Rais Ansari, PhD Department of Pharmaceutical Sciences Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida Robin Moorman Li, PharmD Department of Pharmacotherapy and Translational Research University of Florida College of Pharmacy Jacksonville, Florida Ruth E. Nemire, PharmD Medco School of Pharmacy at Becton College Fairleigh Dickinson University Madison, New Jersey SonyTuteja, PharmD, BCPS Department of Pharmaceutical Sciences and Experimental Therapeutics University of Iowa College of Pharmacy Iowa City, Iowa Thomas B. Whalen, M.D. Diplomata, American Board of Anesthesiology Diplomata, American Academy of Pain Management Anesthesiology Associates of North Florida Gainesville, Florida Timothy Gauthier, PharmD Department of Pharmacy Practice Nova Southeastern University College of Pharmacy Fort Lauderdale, Florida
  • 7.
    Somos gratos aosmuitos amigos e colegas que generosamente contribuí­ ram com seu tempo e esforço para tornar este livro tão preciso e útil quanto possível. Particularmente apreciamos os vários comentários úteis do Dr. W. Jerry Merrell, os quais trouxeram maior clareza e precisão a esta obra. Os editores e a equipe da LippincottWilliam & Wilkins atuaram como uma fonte constante de encorajamento e organização. Particularmente queremos agra­ decer a grande ajuda, apoio e criatividade da nossa editora, Susan Rhyner, cuja imaginação e atitude positiva não nos deixaram desanimar. A montagem e a edição final deste livro foram otimizadas pelos esforços de Kelly Horvath. Recursos didáticos Em www.grupoa.com.br, professoresterão acesso às imagens da obra, em for­ mato PowerPoint® (em português), úteiscomo recurso didático em sala de aula. / 1·--·-­ ------- - - ... -- -·- -- - -- - ---�-- -..... 1 1 ; n•ot � ...... . ... .... .. . -- == -­ --- =--...- o.1 "4 "'"" _��=' =,• ' E � • ��� � - � '--· � ··· - � iZ ._ """ --�-·- -. =:_··_ - _·� _ -__, /� wwaw - - '"-- - -= . ="' · ""' · -""" = � - � -- � - ----- � ---- ....___ ----- � -·­ f-·- ,_., --- 1D •ore··ca.o.ufJIPlt11 .....,..____ ·��-"'"""" ·----- - - ­ . _ ..__.. _ ....,_ --·--- -----­ ·---- .........-__.. �................ .--.. -...-... . - - - --·- ... ...... .... .. , .... ......... . .,,.............. !a -- - - Em http://thepoint.lww.com/Harvey5e (em inglês), você terá acesso ao texto, questões interativas e banco de imagens com as figuras do livro.
  • 9.
    UNIDADE 1: Princípiosda Terapia Farmacológica Capítulo 1: Farmacocinética 1 Capítulo 2: Interações Fármaco-receptor e Farmacodinâmica 25 UNIDADE li: Fármacos que Afetam o Sistema Nervoso Autônomo Capítulo 3: O Sistema Nervoso Autônomo 37 Capítulo 4: Agonistas Colinérgicos 47 Capítulo 5: Antagonistas Colinérgicos 59 Capítulo 6: Agonistas Adrenérgicos 69 Capítulo 7: Antagonistas Adrenérgicos 87 UNIDADE Ili: Fármacos que Atuam no Sistema Nervoso Central Capítulo 8: Tratamento das Doenças Neurodegenerativas 99 Capítulo 9: Fármacos Ansiolíticos e Hipnóticos 111 Capítulo 1O: Estimulantes do Sistema Nervoso Central 123 Capítulo 11: Anestésicos 133 Capítulo 12: Fármacos Antidepressivos 151 Capítulo 13: Fármacos Antipsicóticos 161 Capítulo 14: Opioides 169 Capítulo 15: Epilepsia 181 UNIDADE IV: Fármacos que Afetam o Sistema Cardiovascular Capítulo 16: Insuficiência Cardíaca 193 Capítulo 17: Fármacos Antiarrítmicos 207 Capítulo 18: Fármacos Antianginosos 219 Capítulo 19: Fármacos Anti-hipertensivos 227 Capítulo 20: Fármacos que Afetam o Sangue 243 Capítulo 21: Fármacos Anti-hiperlipêmicos 265 Capítulo 22: Fármacos Diuréticos 277 UNIDADE V: Fármacos que Afetam o Sistema Endócrino Capítulo 23: Hipófise e Tireoide 291 Capítulo 24: Insulina e Outros Fármacos Hipoglicemiantes 301 Capítulo 25: Estrogênios e Androgênios 317 Capítulo 26: Hormônios Suprarrenais 331 , UNIDADE VI: Fármacos que Afetam Outros Orgãos Capítulo 27: Sistema Respiratório 339 Capítulo 28: Fármacos Antieméticos e Gastrintestinais 351 Capítulo 29: Outros Tratamentos 363 UNIDADE VII: Fármacos Quimioterápicos Capítulo 30: Princípios do Tratamento Antimicrobiano 369 Capítulo 31: Inibidores da Parede Celular 381 Capítulo 32: Inibidores da Síntese Proteica 395 , Capítulo 33: Quinolonas, Antagonistas do Acido Fálico e Antissépticos do Trato Urinário 409
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    x Sumário Capítulo 34:Fármacos Antimicobacterianos Capítulo 35: Fármacos Antifúngicos Capítulo 36: Fármacos Antiprotozoários Capítulo 37: Fármacos Anti-helmínticos Capítulo 38: Fármacos Antiviróticos Capítulo 39: Fármacos Antineoplásicos Capítulo 40: Fármacos lmunossupressores UNIDADE VIII: Fármacos Anti-inflamatórios e Autacoides Capítulo 41: Fármacos Anti-inflamatórios Capítulo 42: Autacoides e Antagonistas de Autacoides Capítulo 43: Toxicologia Índice 421 429 441 455 461 481 513 525 549 559 571
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    1. RESUMO . ,. acoc 1 ne 1ca A farmacocinética estuda o que o organismo faz com o fármaco, ao passo que a farmacodinâmica (ver Capítulo 2) descreve o que o fármaco faz no or­ ganismo. Uma vez administrado por uma das várias vias disponíveis, quatro propriedades farmacocinéticas determinam a velocidade do início da ação, a intensidade do efeito e a duração da ação do fármaco (Figura 1 .1): • Absorção: primeiro, a absorção do fármaco desde o local de adminis­ tração (absorção) permite o acesso do agente terapêutico (seja direta ou indiretamente) no plasma. • Distribuição: segundo, o fármaco pode, então, reversivelmente, sair da circulação sanguínea edistribuir-se nos líquidos intersticial e intracelular. • Biotransformação ou metabolismo: terceiro, o fármaco pode ser bio­ transformado no fígado ou em outros tecidos. • Eliminação: finalmente, o fármaco e seus metabólitos são eliminados do organismo na urina, na bile ou nas fezes. As variáveis farmacocinéticas permitem ao clínico elaborar e otimizar os regi­ mes terapêuticos, incluindo as decisões quanto àvia de administração de cada fármaco, à quantidade e à frequência de cada dose e a duração do tratamento. li. VIAS DE ADMINISTRAÇÃO DE FÁRMACOS A via de administração é determinada primariamente pelas propriedades do fármaco (p. ex., hidra ou lipossolubilidade, ionização) e pelos objetivos tera­ pêuticos (p. ex., a necessidade de um início rápido de ação, a necessidade de tratamento por longo tempo, ou a restrição de acesso a um local específico). As vias principais de administração de fármacos incluem a enteral, a parente­ ral e a tópica, entre outras. A Figura 1 .2 ilustra as subcategorias dessas vias, bem como outros métodos de administração de fármacos. ( Fármaco no local da administração ) Absorção (entrada) (Fármaco no plasma ) �aDistribuição ] Fármaco nos tecidos iEIBiotransformaçãoJ Metabólito(s) nos tecidos Excreção (saída) Fármaco e metabólito(s) na urina, na bile ou nas fezes Figura 1 .1 Representação esquemática da absor­ ção, distribuição, biotransformação e - excreçao.
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    2 Clark, Finkel,Rey & Whalen Parenteral: IV, IM, SC Sublingual Inalação -...i.__J e> • Ora� Adesivo transdermal Figura 1.2 Tópica Vias comumente usadas para a admi­ nistração defármacos. IV = intravenosa; IM = intramuscular; SC = subcutânea. A. Enteral A administração enteral ou administração pela boca é o modo mais seguro, comum, conveniente e econômico de administrar os fármacos. Quando o fár­ maco é administrado por via oral, ele pode ser deglutido ou ser deixado sob a língua (sublingual), facilitando a sua absorção direta na corrente sanguínea. 1. Oral. A administraçãodofármaco pela bocaofereceváriasvantagens ao paciente. Os fármacos orais são autoadministrados facilmente e, comparado com os fármacos administrados por via parenteral, têm baixo risco de infecções sistêmicas, que podem complicar o trata­ mento. Além disso, a toxicidade e as dosagens excessivas por via oral podem ser neutralizadas com antídotos, como o carvão ativado. Porém, as vias envolvidas na absorção do fármaco são as mais com­ plicadas, e o baixo pH do estômago pode inativar alguns fármacos. Uma amplavariedade de preparações orais édisponibilizada, incluin­ do preparações revestidas (entéricas) e de liberação prolongada. a. Preparações revestidas (entéricas). O revestimento entérico é uma proteção química que resiste àação dos líquidos e enzimas no estômago, mas que se dissolve facilmente no intestino ante­ rior.Tais revestimentos são úteis para certos grupos defármacos (p. ex., omeprazo� que é instável em meio ácido. O revestimento entérico protege ofármacodo ácido gástrico liberando-o, porém, no intestino (menos ácido), onde o revestimento se dissolve e permite a liberação do fármaco. De modo similar, os fármacos que têm efeito irritante no estômago, como o ácido acetilsalicíli­ co, podem ser revestidos com uma substância que vai se dissol­ ver só no intestino delgado, preservando, assim, o estômago. b. Preparações de liberação prolongada. Estes medicamentos têm revestimentos ou ingredientes especiais que controlam a ve­ locidade com que o fármaco é liberado do comprimido para o or­ ganismo. Tendo uma duração de ação mais longa, podem melho­ rar a adesão do paciente ao tratamento, porque a medicação não precisa ser ingerida muito frequentemente. Além disso, as formas de liberação prolongada podem manterasconcentrações na faixa terapêutica aceitável por um período longo detempoem contraste com as formas de liberação imediata, que podem resultar em pi­ cos e vales mais elevados nas concentrações plasmáticas. Tais formulações de liberação prolongada são vantajosas para os fármacos que têm meias-vidas curtas. Por exemplo, a meia­ -vida da morfina é de 2 a 4h em adultos.A morfi na oral deve ser administrada seis vezes em 24h para obter um efeito analgésico contínuo. Entretanto, só duas doses são necessárias quando são usados comprimidos de liberação controlada. Infelizmen­ te várias das formulações de liberação prolongada podem ter sido desenvolvidas para obter uma vantagem comercial sobre os produtos de liberação convencional, em vez de vantagens clínicas comprovadas. 2. Sublingual. A colocação dofármaco sob a língua permite-lhe difun­ dir-se na rede capilar e, por isso, entrar diretamente na circulação sistêmica. A administração de fármaco por essa via tem várias van­ tagens, incluindo a absorção rápida, a administração conveniente, a baixa incidência de infecções, além de evitar que o fármaco passe pelo ambiente agressivo do intestino e que a biotransformação de primeira passagem ocorra (o fármaco é absorvido para a veia cava superior). A via bucal (entre a bochecha e a gengiva) é similar à via sublingual.
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    B. Parenteral A viaparenteral introduz diretamente o fármaco na circulação sistêmica evitando as barreiras orgânicas. Ela é usada para fármacos que são pou­ co absorvidos no TGI (p. ex., heparina) e para aqueles que são instáveis noTGI (p. ex., insulina). Essa administraçãotambém é usada no tratamen­ to do paciente inconscienteou quando se necessita de um início rápido de ação.Além disso, a administração parenteral tem maior biodisponibilidade e não está sujeita à biotransformação de primeira passagem ou ao agres­ sivo meio gastrintestinal. Ela também assegura o melhor controle sobre a dose real de fármaco administrada ao organismo. Contudo, a administra­ ção parenteral é irreversível e pode causar dor, medo, lesões tissulares e infecções. Há três principais vias de administração parenteral: a intravas­ cular (intravenosa ou intra-arterial), a intramuscular e a subcutânea (ver Figura 1.2). Cada via apresenta vantagens e desvantagens. 1. Intravenosa (IV). A injeção IV é a via parenteral mais comum. Para fármacos que não são absorvidos por via oral, como o bloqueador neuromuscular atracúrio, em geral não há outra escolha. A via IV per­ mite um efeito rápido e um grau de controle máximo sobre os níveis circulantes do fármaco. Quando injetado em bolus, toda a dose de fár­ maco é administrada na circulação sistêmica quase imediatamente. A mesma dose pode ser administrada como uma infusão IV durante um período prolongado, resultando em diminuição do pico de concentra­ ção plasmática e aumentando o tempo que o fármaco está presente na circulação. A injeção IV é vantajosa para administrar fármacos que podem causar irritação quando administrados por outras vias, porque o fármaco se dilui no sangue rapidamente. Porém, diferentes dos fár­ macos usados noTGI, os que são injetados não podem ser retirados por meiode estratégiascomoa ligação acarvão ativado.A administra­ ção IV pode inadvertidamente introduzir bactérias e outras partículas de infecção por meiode contaminação no local da injeção. Ela também pode precipitar componentesdo sangue, produzir hemólise ou causar outras reações adversas pela liberação muito rápidadeconcentrações elevadas do fármaco ao plasma e aos tecidos. Por isso, os pacientes devem ser cuidadosamente monitorados quanto a reações desfavorá­ veis, e avelocidade de infusão deve ser cuidadosamente controlada. 2. lntramuscular (IM). Fármacos administrados por via IM podem estar em soluções aquosas que sãoabsorvidas rapidamente (Figura 1 .3) ou em preparações especializadas de depósito que são absorvidas len­ tamente. As preparações de depósito, com frequência, consistem em uma suspensão dofármaco em um veículo não aquoso, como o polie­ tilenoglicol. À medida que o veículo se difunde para forado músculo, o fármaco precipita-se no local da injeção. O fármaco então se dissolve lentamente, fornecendo uma dose sustentada durante um período de tempo prolongado. Exemplos de fármacos de liberação prolongada são o haloperidolde liberação sustentada (ver p. 166) e o depósito de medroxiprogesterona (ver p. 323). Estes fármacos produzem efeitos neuroléptico e contraceptivo prolongado, respectivamente. 3. Subcutânea (SC). Essa via de administração, como a IM, requer absorção por difusão simples e é um pouco mais lenta do que a via IV. A injeção SC minimiza os riscos de hemólise ou trombose asso­ ciados à injeção IV e pode proporcionar efeitos lento, constante e prolongado. Estavia não deve ser usada com fármacos que causam irritação tissular, porque pode ocorrer dor intensa e necrose. (Nota: quantidades mínimas de epinefrina, algumas vezes, são combina­ das com o fármaco administrado SC para restringir a sua área de ação. A epinefrina atua como vasoconstritor local e diminui a re- Injeção subcutânea Músculo m 200 Farmacologia Ilustrada 3 Injeção intramuscular Epiderme Tecido __ ..... subcutâneo Derme as E = ã. 5 mg de midazolampor via intravenosa º� C..J ·�-§, 100 I!!.s. e � e 8 5 mg de midazo/am intramuscular O+----------� o 30 60 90 Tempo (minutos) Figura 1 .3 A. Representação esquemática de inje­ ções subcutânea e intramuscular. B. Concentração plasmática de mida­ zolam após injeção intravenosa e intra­ muscular.
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    4 Clark, Finkel,Rey & Whalen Pele Cobertura ;;:;;: ;,i . uUllJ �..• t Reservatório de fármaco Membrana liberadora defármaco Adesivo de contato Fármacosedifundindo do reservatório para os tecidos subcutâneos Figura 1.4 A. Representação esquemática de um adesivo transcutâneo. 8. Adesivo trans­ cutâneo de nicotina aplicado no braço. moção do fármaco, como a lidocaína, do local de administração.) Outros exemplos de fármacos administrados por via SC incluem os sólidos, como as hastes simples contendo o contraceptivo etono­ gestrel, que é implantado para uma atividade de longa duração (ver p. 325), e bombas mecânicas programáveis que podem ser implan­ tadas para liberar insulina em pacientes diabéticos. C. Outras 1. Inalação oral. A via inalatória oral e nasal (ver adiante) assegura a rápida oferta do fármaco através da ampla superfície da membrana mucosa do trato respiratório e do epitélio pulmonar, produzindo um efeito quase tão rápido como com o obtido pela injeção IV. Essa via de administração é usada para fármacos que são gases (p. ex., alguns anestésicos) ou aqueles que podem ser dispersos em um aerossol. A via é particularmente eficaz e conveniente para pacien­ tes com problemas respiratórios (como asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica), pois o fármaco é ofertado diretamente no local de ação, minimizando, assim, os efeitos sistêmicos. Exemplos de fármacos administrados por esta via incluem os broncodilatadores, como o albuterol, e os corticosteroides, como a fluticasona. 2. Inalação nasal. Esta via envolve a administração de fármacos dire­ tamente dentro do nariz. Incluem-se os descongestionantes nasais, como a oximetazolina, e o corticosteroide anti-inflamatório furoato de mometasona. A desmopressina é administrada porvia intranasal notratamento do diabetes insípido. A calcitonina de salmão, um hor­ mônio peptídico usado no tratamento da osteoporose, também está disponível como aerossol nasal. 3. lntratecal/intraventricular. A barreira hematencefálica (ver p. 1O) retarda ou impede a entrada dos fármacos no sistema nervoso central (SNC). Quando se deseja efeitos locais e rápidos, é neces­ sário introduzir o fármaco diretamente no líquido cerebrospinal. Por exemplo, a anfoterici na B intratecal é usada no tratamento da me­ ningite criptocócica (ver p. 430). 4. Tópica. A aplicação tópica é usada quando se deseja um efeito lo­ calizado do fármaco. Por exemplo, o clotrimazol é aplicado como creme diretamente na pele no tratamento da dermatofitose. 5. Transdérmica. Essa via de administração proporciona efeitos sistê­ micos pela aplicação do fármaco na pele, em geral, por meio de um adesivocutâneo (Figura 1.4).Avelocidade de absorção podevariarde modo acentuado, dependendo das características físicas da pele no local da aplicação e da lipossolubilidade dofármaco. Essavia é usada com mais frequência para a oferta prolongada de fármacos, como o fármaco antianginoso nitroglicerina, o antiemético escopolamina e os adesivos de nicotina usados parafacilitaro parar de fumar. 6. Retal. Como 50° / o da drenagem da região retal não passam pela circulação portal, a biotransformação dos fármacos pelo fígado é minimizada. Como a via de administração sublingual, a via retal tem a vantagem adicional de evitar a destruição do fármaco pelas enzi­ mas intestinais ou pelo baixo pH no estômago. Elatambém é útil se o fármaco provoca êmese, quando administrado por via oral, ou se o paciente já se encontra vomitando ou se está inconsciente. (Nota: a via retal é usada comumente para a administração de antieméti­ cos.) Porém, com frequência, a absorção retal é erráticae incomple­ ta e vários fármacos irritam a mucosa retal. A Figura 1 .5 resume as características das vias de administração comuns.
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    Oral Intravenosa Subcutânea lntramuscular Transdérmica {adesivo) Retal lnalatória Sublingual Figura 1.5 •Variável; afetadapor vários fatores •A absorção não é necessária • Depende do diluente do fármaco: - soluções aquosas: Imediata; -preparações de depósito: liberação lenta e prolongada •Depende dos diluentes do fármaco: - soluções aquosas: imediata; - preparações de depósito: liberação lenta e prolongada • Lenta e prolongada • Errática e variável • Pode ocorrerabsorção slstêmlca, o que nem sempre é desejado • Depende do fármaco: Poucos fármacos (p. ex., nitroglicerina) têm absorção sistêmica direta e rápida A maioria dosfármacostem absorção incompleta e errática •Via de administração segura e mais comum, conveniente e econômica •Podeter efeitos imediatos •Ideal para dosagens de altos volumes •Adequada para substãnclas irritantes e misturas complexas •Valiosa para situações de emergência • Permite a titulação da dosagem •Ideal para fármacos proteicos de alta massa moleculare peptídeos •Adequada para fármacos de liberação lenta •Ideal para algumas suspensões pouco solúveis •Adequadase o volume é moderado •Adequada para veículos oleosos e certas substãncias irritantes •Preferível à via IV se o paciente deve se autoadministrar •Evita oefeitode primeira passagem •Conveniente e Indolor •Ideal para fármacos llpofílicos e que requerem administração prolongada •Ideal para fármacos que são elimina· dos rapidamente do organismo •Evita parcialmente o efeito de primeira passagem •Evita a destruição pela acidez gástrica •Ideal se ofármaco causa êmese •Ideal para pacientes com êmese ou comatosos •A absorção é rápida; podeter efeitos imediatos •Ideal para gases • Éeficaz para pacientes com problemas respiratórios •A dose pode ser titulada •Se oalvo do efeito é localizado nos pulmões: são usadas doses menores comparadas àquelas que usam as vias oral ou parenteral •Menos efeitos adversos slstêmlcos •Evita oefeitode primeira passagem • Evita a destruição pela acidez gástrica •Mantém aestabilidade do fármaco, porque asaliva tem pH relativamente neutro • Pode causarefeitos farmacológicos imediatos Farmacologia Ilustrada 5 • Absorção limitada de alguns fármacos • Os alimentos podem Interferir na absorção • É necessária aderência pelo paciente • Os fármacos podem ser blotransformados antes de serem absorvidos slstemlcamente • Imprópria para substâncias oleosas ou pouco absorvidas • A injeção em bo/uspode resultar em efeitos adversos • A maioria das substâncias deve ser injetada lentamente • São necessárias técnicas de assepsia estritas • Dor e necrose se ofármaco é Irritante • Inadequada para fármacos administrados em volumes elevados • Afeta certos testes de laboratório (creatinaquinase) • Pode ser dolorosa • Pode causar hemorragia intramuscular (evitar durante o tratamento com anticoagulante) • Alguns pacientes são alérgicos aos adesivos, o que pode causar Irritação • O fármaco deve ser multo lipofíllco • Pode causar atraso no acesso ao local de ação farmacológica • Limitado a fármacos que podem ser tomados em doses pequenas diárias • O fármaco pode irritar a mucosa retal • Não é uma via "bem aceita" • Principal via deadlctos (o fármaco pode acessar rapidamente o cérebro) • Os pacientes podem ter dificuldade em regular a dose • Alguns pacientes têm dificuldades no uso dos Inaladores • Limitada a certos tipos de fármacos • Limitada a fármacos que podem ser tomados em pequenas doses • Pode perder parte do fármaco se deglutido O padrão de absorção, as vantagens e as desvantagens das vias de administração mais comuns.
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    6 Clark, Finkel,Rey & Whalen DDifusão passiva Difusão passiva defármaco hidros­ solúvel através de um canal ou poro aquoso Difusão passiva de um fármaco lipossolúvel dissolvido na membrana Fármaco Fármaco t t A4 � � Espaço ,,.. .,,,.,., extracelular g �w� v���'.W)&� p:)(')!! Citosol BTransporte ativo ATP ADP Transportador defármaco mEndocitose e. C>VJ Figura 1.6 Fármacogrande I Representação esquemática de fárma­ cos atravessando a membrana celular. ATP = trifosfato de adenosina; ADP = difosfato de adenosina. Ili. ABSORÇÃO DE FÁRMACOS Absorção é a transferênciade um fármaco do seu local de administração para a corrente sanguínea por meio de um dos vários mecanismos. A velocidade e a eficiência da absorção dependem de dois fatores: do ambiente onde o fármaco é absorvido e das características, tanto química e como via de admi­ nistração (o que influencia sua biodisponibilidade). Para a via IV, a absorção é completa, ou seja, toda a dose do fármaco alcança a circulação sistêmica (100° / o). A administração do fármaco por outras vias pode resultar em absor­ ção parcial e, consequentemente, em menor biodisponibilidade. A. Mecanismos de absorção de fármacos a partir doTGI Dependendo das propriedades químicas, os fármacos podem ser absor­ vidos do TGI por difusão passiva, difusão facilitada, transporte ativo ou por endocitose. 1. Difusão passiva. A força motriz da absorção passiva de um fárma­ co é o gradiente de concentração através da membrana que separa os compartimentos do organismo; isto é, o fármaco se move da re­ gião com concentração elevada para a que tem baixa concentra­ ção. A difusão passiva não envolve transportador, não é saturável e apresenta baixa especificidade estrutural. A grande maioria dos fármacos tem acesso ao organismo por esse mecanismo. Fárma­ cos hidrossolúveis atravessam as membranas celulares através de canais ou poros aquosos, e os lipossolúveis movem-se facilmente através da maioria das membranas biológicas devido à sua solubili­ dade na bicamada lipídica (Figura 1 .6A). 2. Difusão facilitada. Outros fármacos podem entrar na célula por meio de proteínas transportadoras transmembrana especializadas que facilitam a passagem de grandes moléculas. Essas proteínas transportadoras sofrem alterações conformacionais, permitindo a passagem de fármacos ou moléculas endógenas para o interior da célula, movendo-os de áreas de alta concentração paraáreade bai­ xa concentração. Esse processo é denominado difusão facilitada. Ele não requer energia, pode ser saturado e inibido por compostos que competem pelo transportador (Figura 1 .68). 3. Transporte ativo. Essa forma de entrada de fármacos também en­ volve transportadores proteicos específicos que atravessam a mem­ brana. Poucosfármacoscujas estruturas se assemelham às de meta­ bólitos de ocorrência natural sãotransportados através da membrana celular usando esses transportadores proteicos específicos. O trans­ porte ativo dependente de energia é movido pela hidrólise de trifosfa­ tode adenosina (Figura 1.6C). Ele é capaz de moverfármacos contra um gradiente de concentração - ou seja, de uma região com baixa concentração de fármaco para uma com concentração mais elevada. O processo tem cinética de saturação para o transportador que mui­ to se assemelha à apresentada pela reação enzima-substrato, que mostra velocidade máxima em níveis elevados de substrato quando todos os locais ativos estão ligados com substrato.1 Os sistemas de transporte ativo são seletivos e podem ser inibidos competitivamente por outras substâncias cotransportadas. 4. Endocitose e exocitose. Esses tipos de movimentação de fárma­ cos transportam fármacos excepcionalmente grandes através da 1 Ver Bioquí mica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre cinética enzimática.
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    membrana celular. Naendocitose, as moléculas do fármaco são engolfadas pela membrana e transportadas para o interior da cé­ lula pela compressão da vesícula cheia de fármaco (Figura 1 .6D). A exocitose é o inverso da endocitose e é usada pelas células para secretarvárias substâncias por um processo similarao da formação de vesículas. A vitamina 812 é transportada através da parede in­ testinal por endocitose enquanto certos neurotransmissores (p. ex., norepinefrina) são armazenados em vesículas intracelulares ligadas à membrana no terminal nervoso e liberados por exocitose. B. Fatores que influenciam a absorção 1. Efeito do pH na absorção de fármacos. A maioria dos fármacos é ácido fraco ou base fraca. Fármacos ácidos (HA) liberam um próton (H+) causando a formação de um ânion (A-) 2 : As bases fracas (8H+) também podem liberar um H+. Contudo, a forma protonada dos fármacos básicos, em geral, é carregada, e a perda do próton produz a base (8) não ionizada: Um fármaco atravessa a membrana mais facilmente se ele estiver não ionizado (Figura 1.7).Assim, para os ácidos fracos, aforma HA não io­ nizada consegue permearatravés das membranas, mas oA- nãocon­ segue. Para a base fraca, a forma não ionizada, 8, consegue penetrar através das membranas celulares, contudo o 8H+ protonado não con­ segue. Por isso, a concentração efetiva da forma permeável de cada fármaco no seu local de absorção é determinada pelas concentrações relativas entre as formas ionizada e não ionizada. A relação entre as duasformasé, porsuavez, determinada pelo pH no local de absorção e pela força do ácido ou base fracos, que é representada pela cons­ tante de ionização, o pKª (Figura 1.8). (Nota: o pKª é uma medida da força da interação de um composto com um próton. Quanto menor o pKª de um fármaco, mais ácido ele é; quanto maior o pK8, mais bá­ sico é o fármaco.) O equilíbrio de distribuição é alcançado quando a 2 Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre equilíbrio ácido-base. Farmacologia Ilustrada 7 mÁcido fraco Membrana lipídica . .. .. .. • ••• + A- ·.·. H ..... . 1 � ··.:::: H <> o o o o o o o g <> <> i Compartimento � corporal & - ª - Compartimento corporal l]Jease fraca Membrana o <> o <> g <> g <> g <> § Compartimentol corporal & Figura 1.7 lipídica Compartimento corporal A. Difusão da forma não ionizadade um ácido fraco através da membrana lipídi­ ca. B. Difusão da forma não ionizada de uma base fraca através da membrana lipídica. QuandoopHémenordoqueo pKa,asformasprotonadas HAeBH+predominam QuandopH= pKa, [HA]=[A-]e [BH+]= [B] QuandoopHémaiordoqueo pKa,asformasdesprotonadas A-eBpredominam �-....... ---� 2 pH 3 4 5 6 7 8 9 10 11 PKa Figura 1.8 A distribuição de um fármaco entre sua forma ionizada e não ionizada depende do pH do ambiente e do pKª do fármaco. Para exemplificar, o fármaco nesta figura foi imaginado com um pKª de 6,5.
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    8 Clark,Finkel,Rey& Whalen 11 11 1 ATP Figura 1.9 Fármaco{extracelular) 1 11 ' Fármaco{intracelular) As seis alças transmembrana da gli­ coproteína-P formam um canal central para o bombeamento de fármacos de­ pendente de ATP para fora da célula. forma permeável de um fármaco alcança uma concentração igual em todos os espaços aquosos do organismo. (Nota: fármacos altamente lipossolúveis atravessam de modo rápido a membrana celular e, em geral, entram nos tecidos com uma velocidade determinada pelofluxo sanguíneo.) 2. Fluxo de sangue no local de absorção. Como o fluxo de sangue para o intestino é muito maior do que ofluxo para o estômago, a ab­ sorção no intestino é maior do que a que ocorre no estômago. (Nota: o choque reduz drasticamente o fluxo sanguíneo aos tecidos cutâ­ neos, minimizando a absorção de administrações subcutâneas.) 3. Área ou superfície disponível para absorção. Com uma superfície rica em bordas de escova contendo microvilosidades, o intestino tem uma superfície cerca de 1 .000 vezes maior do que a do estômago, tornando a absorção de fármacos pelo intestino mais eficiente. 4. Tempo de contato com a superfície de absorção. Se um fármaco se desloca muito rápido ao longo do TGI, como pode ocorrer em uma diarreia intensa, ele não é bem absorvido. Contudo, qualquer retardo no transporte do fármaco do estômago para o intestino re­ duz a sua velocidade de absorção. (Nota: o tônus parassimpático acelera o esvaziamento gástrico, e o tônus simpático [p. ex., cau­ sado pelo exercício ou por emoções estressantes] e os anticolinér­ gicos [p. ex., diciclomina] o retarda. Assim, a presença de alimento no estômago dilui o fármaco e retarda o esvaziamento gástrico. Por­ tanto, quando um fármaco é ingerido com o alimento, em geral, será absorvido mais lentamente.) 5. Expressão da glicoproteína-P. A glicoproteína P é uma proteína transportadora transmembrana para vários fármacos, sendo res­ ponsável pelo transporte de várias moléculas, incluindo fármacos, através da membrana celular (Figura 1 .9). É expressa por todo o organismo e suas funções incluem: • Nofígado:transportarfármacos paraa bilevisandoàsuaeliminação • Nos rins: bombear fármacos para a urina visando à excreção • Na placenta: transportar fármacos de volta para o sangue mater­ no, reduzindo, assim, a exposição do feto aos fármacos • No intestino: transportar fármacos para o lúmen intestinal e redu­ zir a absorção • Nos capilares do cérebro: bombear os fármacos de volta ao san- gue, limitando seu acesso ao cérebro Assim, nas áreas de expressão elevada, a glicoproteína-P diminui a absorção de fármacos. Além de transportar vários fármacos para fora das células, ela também está associada com a resistência a vários fármacos (ver p. 485). C. Biodisponibilidade Biodisponibilidade é a fração do fármaco administrado que alcança a circulação sistêmica. Por exemplo, se 100 mg de um fármaco forem ad­ ministrados por via oral e 70 mg desse fármaco forem absorvidos inal­ terados, a biodisponibilidade será 0,7 ou 70° / o. Determinar a biodisponi­ bilidade é importante para calcular a dosagem de fármaco para vias de administração não IV. A via de administração do fármaco, bem como as suas propriedades físicas e químicas afetam sua biodisponibilidade. 1. Determinação de biodisponibilidade. A biodisponibilidade é de­ terminada pela comparação dos níveis plasmáticos do fármaco de-
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    pois de umavia particular de administração (p. ex., administração oral) com os níveis plasmáticos do fármaco obtidos por injeção IV, na qual todo o fármaco entra na circulação rapidamente. Quando o fármaco é administrado porvia oral, somente parte da dose aparece no plasma. Lançando a concentração plasmática do fármaco contra o tempo, pode-se mensurar a área sob a curva (ASC). Essa curva reflete a extensão da absorção do fármaco. (Nota: por definição, isso é 100° / o do fármaco injetado por via IV.) A biodisponibilidade de um fármaco administrado porvia oral é a relação da área calculada para a administração oral comparada com a área calculada para a injeção IV quando as dosagens são equivalentes (Figura 1 .1O). 2. Fatores que influenciam a biodisponibilidade. Em contraste com a administração IV, que confere 100° / o de biodisponibilidade, a admi­ nistração oral de um fármaco envolve frequentemente metabolismo de primeira passagem. Esta biotransformação, além das caracte­ rísticas físicas e químicas do fármaco, determina a quantidade de fármaco que alcança a circulação e a que velocidade. a. Biotransformação hepática de primeira passagem. Quando um fármaco é absorvido a partir do TGI, primeiro ele entra na cir­ culação portal antes de entrar na circulação sistêmica (ver Figura 1.11). Se o fármaco é rapidamente biotransformado no fígado ou naparede intestinal durante esta passagem inicial, aquantidade de fármaco inalterado que tem acesso à circulação sistêmica diminui. (Nota: a biotransformação na primeira passagem pelo intestino ou fígado limita a eficácia de vários fármacos quando usados por via oral. Por exemplo, mais de 90° / o da nitroglicerina é depurada em uma única passagem através do fígado, o que é a principal razão porque este fármaco éadministrado porviasublingual.) Fármacos que sofrem biotransformação de primeira passagem elevada de­ vem ser administrados em quantidade suficiente para assegurar que fármaco ativo suficiente alcance a concentração desejada. b. Solubilidade do fármaco. Fármacos muito hidrofílicos são pou­ co absorvidos devido à sua inabilidade em atravessar as mem­ branas celulares ricas em lipídeos. Fármacos extremamente hi­ drofóbicos são também pouco absorvidos, pois são totalmente insolúveis nos líquidos aquosos do organismo e, portanto, não têm acesso à superfície das células. Para que um fármaco seja bem absorvido, ele deve ser basicamente hidrofóbico, mas teral­ guma solubilidade em soluções aquosas. Essa é uma das razões pelas quais vários fármacos são ácidos fracos ou bases fracas. c. Instabilidade química. Alguns fármacos, como a benzi/penici­ lina, são instáveis no pH gástrico. Outros, como a insulina, são destruídos no TGI pelas enzimas. d. Natureza da formulação do fármaco. A absorção do fármaco pode ser alterada porfatores não relacionados com a sua estru­ tura química. Por exemplo, o tamanho da partícula, o tipo de sal, o polimorfismo cristalino, o revestimento entérico e a presença de excipientes (como os agentes aglutinantes e dispersantes) podem influenciar a facilidade da dissolução e, por isso, alterar a velocidade de absorção. D. Bioequivalência Duas preparações de fármacos relacionados são bioequivalentes se eles apresentam biodisponibilidades comparáveis e tempos similares para al­ cançar o pico de concentração plasmática. Farmacologia Ilustrada 9 Biodisponibilidade = ASC oral ASC injetada 8 as 1§ :!!! o 'ti B ·- ;; i / Fármaco "' injetado X 100 as ã. o •Ili � J:i ASC (injetada) Fármaco Y administrado /...._porviaoral i " e 8 e Fármaco administrado Figura 1.1 0 ASC(oral) Tempo Determinação da biodisponibilidade de um fármaco. Os fármacos administrados por IV entram diretamente na circulação sistêmica e têm acesso direto às demais partes do organismo. Circulação portal Oral ( ) Restante do organismo IV Os fármacos administrados por via oral são primeiro expostos ao fígado e podem ser extensa­ mente biotransformados antes de alcançar as demais regiões do organismo. Figura 1.11 A biotransformação de primeira passa­ gem pode ocorrer com fármacos admi­ nistrados por via oral. IV = intravenosa.
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    1O Clark, Finkel,Rey &Whalen 1 ,5 ri 1,25 · - ... 'GI UI 1 o 1111 � J:I 0,75 fi � 0,5 ._._,__ ° Fase de º·25 distribuição o 1 '+-ln' Figura 1.12 Fase de eliminação 2 3 Tempo 4 Concentrações dofármaco no soro após uma injeção única do fármaco. Admite­ se que o fármaco se distribui e subse­ quentemente é eliminado. E. Equivalência terapêutica Dois medicamentos são terapeuticamente iguais se eles são farmaceu­ ticamente equivalentes com perfis clínicos e de segurança similares. (Nota: a eficácia clínica com frequência depende da concentração sérica máxima e do tempo necessário [após a administração] para alcançar o pico de concentração. Portanto, dois fármacos que são bioequivalentes podem não ser equivalentes terapeuticamente.) IV. DISTRIBUIÇÃO DE FÁRMACOS Distribuição de fármacos é o processo pelo qual um fármaco reversivelmente abandona o leito vascular e entra no interstício (líquido extracelular) e, então, nas células dos tecidos. Para o fármaco administrado por via IV, quando não existe a absorção, a fase inicial (isto é, desde imediatamente após a adminis­ tração até a rápida queda na concentração) representa a fase de distribuição, na qual o fármaco rapidamente desaparece da circulação e entra nos tecidos (Figura 1 .12). Isto é seguido da fase de eliminação (ver p. 13), quando o fár­ maco no plasma está em equilíbrio com o fármaco nos tecidos. A passagem do fármaco do plasma ao interstício depende principalmente do débito car­ díaco e do fluxo sanguíneo regional, da permeabilidade capilar, do volume do tecido, do grau de ligação do fármaco às proteínas plasmáticas e tissulares e da hidrofobicidade relativa do fármaco. A. Fluxo sanguíneo A velocidade do fluxo sanguíneo nos tecidoscapilaresvaria bastante como resultado de uma distribuição desigual do débito cardíaco aos vários ór­ gãos. O fluxo sanguíneo para o cérebro, para o fígado e para os rins é maior do que para os músculos esqueléticos. O tecido adiposo, a pele e as vísceras têm fluxo sanguíneo ainda menor. A variação no fluxo de san­ gue explica parcialmente a curta duração da hipnose produzida por um bolus de injeção IV de propofol (ver p. 144). O elevado fluxo sanguíneo, junto com a elevada lipossolubilidade do propofo/, permite-lhe mover-se de modo rápido para o SNC e produzir anestesia. A subsequente e lenta distribuição aos músculos esqueléticos e ao tecido adiposo diminui a con­ centração plasmática de modo suficiente, de forma que a concentração elevada no SNC se reduz e assim se recupera a consciência. B. Permeabilidade capilar A permeabilidade capilar é determinada pela estrutura capilar e pela na­ tureza química do fármaco. A estrutura capilar varia bastante em termos de fração da membrana basal, que é exposta pelas junções com frestas entre as células endoteliais. No fígado e no baço, grande parte da mem­ brana basal é exposta a capilares descontínuos e grandes, através dos quais podem passar grandes proteínas plasmáticas (Figura 1 .13A). Isso contrasta com o cérebro, onde a estrutura capilar é contínua e não exis­ tem fendas (Figura 1.138). Para entrar no cérebro, o fármaco precisa pas­ saratravés das células endoteliais dos capilares do SNC ou sertranspor­ tado ativamente. Porexemplo, otransportadorespecífico de aminoácidos neutros transporta levodopa para o interior do cérebro. Em contraste, fár­ macos lipossolúveis entram facilmente no SNC, pois podem se dissolver na membrana das células endoteliais. Fármacos ionizados ou polares em geral fracassam em entrar no cérebro, pois são incapazes de atravessar as células endoteliais do SNC, que não apresentam junção com fendas. Essas células firmemente justapostas formam junções estreitadas que constituem a barreira hematencefática.
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    C. Ligação defármacos a proteínas plasmáticas e tecidos 1 . Ligação a proteínas plasmáticas. A ligação reversível às proteínas plasmáticas sequestra os fármacos de forma não difusível e retarda sua transferência para fora do compartimento vascular. A ligação é relativamente não seletiva com a estrutura química e acontece em locais da proteína onde em geral se ligam a compostos endógenos como a bilirrubina.A albumina plasmática é a principal proteína liga­ dora e pode atuar como uma reserva de fármaco; isto é, à medida que a concentração do fármaco livre diminui, devido à eliminação por biotransformação ou excreção, o fármaco ligado se dissocia da proteína. Isso mantém a concentração de fármaco livre como uma fração constante do fármaco total no plasma. 2. Ligação a proteínas dos tecidos. Numerosos fármacos acumulam nos tecidos levando a concentrações mais elevadas do fármaco no tecido do que nos líquidos extracelulares e sangue. Os fármacos po­ dem acumular como resultado da ligação a lipídeos, proteínas ou ácidos nucleicos.Osfármacos também podem sertransportados ati­ vamente aos tecidos. Estes reservatórios tissulares podem servir de fonte principal de fármaco e prolongar sua ação ou, por outro lado, podem causar toxicidade local ao fármaco. (Por exemplo, a acro­ leína, o metabólito da ciclofosfamida, é tóxica para os rins, pois se acumula nas células renais.) 3. Hidrofobicidade. A natureza química do fármaco influencia forte­ mente a capacidade do fármaco de atravessar membranas celula­ res. Os fármacos hidrofóbicos se movem mais facilmente através das membranas biológicas. Essesfármacos podem se dissolver nas membranas lipídicas e, por isso, permeiam todaa superfície celular. O principal fator que influencia a distriguição hidrofóbica de um fár­ maco é o fluxo de sangue para aquela área. Em contraste, os fárma­ cos hidrofílicos não penetram facilmente as membranas celulares e devem passar através de junções com fendas. D. Volume de distribuição O volume de distribuição aparente, Vd, é o volume de líquido necessário para conter todo o fármaco do organismo na mesma concentração mensurada no plasma. Ele é calculado dividindo a dose que alcança a circulação sistêmica pela concentração no plasma no tempo zero (C0). Quantidade de fármaco no or ganismo Co Embora o Vd não tenha base física ou fisiológica, pode ser útil para comparar a distribuição de um fármaco com os volumes dos compartimentos de água no organismo (Figura 1 .1 4). 1 . Distribuição no compartimento aquoso do organismo. Logo que o fármaco entra no organismo, a partir de qualquer via de adminis­ tração, ele tem o potencial de distribuir-se em qualquer um dos três compartimentos funcionalmente distintos de água, ou ser seques­ trado em um local celular. a. Compartimento plasmático. Se um fármaco apresenta massa molecular muito elevada ou se liga extensamente às proteínas plasmáticas, ele é muito grande para se mover parafora através das fendas endoteliais dos capilares e, assim, é efetivamente aprisionado dentro do compartimento plasmático (vascular). Farmacologia Ilustrada 1 1 rJ Estrutura das células endoteliais no fígado Grandesfendas permitem ampla passagem dofármaco entreo sangue e o interstício hepático. r Junçãocom fenda l Membrana basal Estrutura de um capilar cerebral Processo podal do astrócito ) Membrana basal ) cerebral Nasjunções estreitadas, duas células vizinhas seunemfisicamente formando uma parede contínuaque impede a entrada devários fármacos no cérebro. Junção estreitada P3 Permeabilidade de um .:3 capilar cerebral Figura 1 .13 Fármaco ......... ········.:·.. Ionizado �:.: ••• . .� Fármacos llpossolúvels Passagem medlada c 1 :::;:;: H ::::= =: > portransportador Corte transversal de capilares hepáti­ cos e cerebrais.
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    12 Clark, Finkel,Rey &Whalen Águacorporal total Volume intracelular Volume intersticial ,.+-- Plasma --- Volume intersticial --- Volume intracelular 42 litros Volume extracelular Volume plasmático 1o litros 4 litros Figura 1.14 Tamanho relativo dosváriosvolumes de distribuição de um indivíduo com 70 kg. Como consequência, o fármaco se distribui em um volume (o plasma) que é cercade 6° / o da massa corporal ou, em uma pes­ soa com 70 kg, cerca de 4 L de líquido. A heparina (ver p. 251) mostra esse tipo de distribuição. b. Líquido extracelular. Se um fármaco apresenta baixa massa molecular, mas é hidrofílico, ele pode se mover através das fen­ das endoteliais dos capilares para o líquido intersticial. Contudo, fármacos hidrofílicos não se movem através das membranas celulares lipídicas para entrar na fase aquosa do interior da cé­ lula. Por isso, esses fármacos se distribuem em um volume que é a soma da água plasmática e da água intersticial, as quais, juntas, constituem o líquido extracelular. Isso corresponde a cer­ ca de 20° / o da massa corporal ou cerca de 14 L em uma pessoa com 70 kg. Os antibióticos aminoglicosídeos (ver p. 399) mos­ tram esse tipo de distribuição. c. Água corporal total. Se um fármacoapresenta baixa massa mo­ lecular e é hidrofóbico, ele não só pode se movimentar para o interstício através das fendas, como também deslocar-se para o líquido intracelularatravés das membranas celulares. Neste caso, o fármaco se distribui em um volume de cerca de 60° / o da massa corporal ou cerca de 42 L em uma pessoa com 70 kg. O etanol apresenta esse volume de distribuição aparente (ver a seguir). 2. Volume de distribuição aparente. Um fármaco raramente se associa de forma exclusiva a um único compartimento de água corporal. Ao contrário, a grande maioria dos fármacos se distribui em vários com­ partimentos, com frequência ligando-se avidamente a componentes celulares - como lipídeos (abundantes em adipócitos e membranas celulares), proteínas (abundantes no plasma e no interior das célu­ las) e ácidos nucleicos (abundantes no núcleo das células). Por essa razão, o volume no qual o fármaco se distribui é denominado volume de distribuição aparente ouvd. ovdé uma variável farmacocinética útil para calculara dose de carga de um fármaco. 3. Determinação do Vd. Como a depuração do fármaco geralmente é um processo de primeira ordem, pode-se calcular o Vd. Primeira ordem considera que umafração constante do fármaco é eliminada na unidade de tempo. Este processo pode ser analisado de modo mais fácil lançando-se em um gráfico o log da concentração do fár­ maco no plasma (CP) contra o tempo (Figura 1 .15). A concentração do fármaco no plasma pode ser extrapolada para o tempo zero (o momento da injeção) no eixo Y, para determinar C0, que é a con­ centração que teria sido alcançada se a fase de distribuição tivesse ocorrido instantaneamente. Isso permite o cálculo do Vd como: V d = Dose Co Por exemplo, se 1O mg de um fármaco são injetados em um paciente, e a concentração plasmática é extrapolada para o tempo zero, a con­ centraçãoé C0= 1 mg/L (Figura 1 .15), entãoVd = 1O mg/1 mg/L= 1O L. 4. Efeito de Vd na meia-vida (t112) do fármaco. Um Vd elevado tem influência importante na meia-vida do fármaco, pois a sua elimina­ ção depende da quantidade de fármaco ofertada ao fígado ou aos rins (ou outro órgão onde ocorre a biotransformação) por unidade de tempo. A oferta de fármaco aos órgãos de eliminação depende não só do fluxo sanguíneo, como também da fração de fármaco no
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    plasma. Se oVdé elevado, a maiorparte do fármaco está no espaço extraplasmático e indisponível para os órgãos excretores. Portanto, qualquer fator que aumente oVd pode levar a um aumento na meia­ -vida e prolongar a duração de ação do fármaco. (Nota: um valor de Vd excepcionalmente elevado indica considerável sequestro do fármaco em algum órgão ou compartimento do organismo.) V. DEPURAÇÃO DE FÁRMACOS POR MEIO DA - BIOTRANSFORMAÇAO Logo que o fármaco entra no organismo inicia-se o processo de eliminação, que envolve três vias principais:1) a biotransformação hepática; 2) a elimina­ ção na bile; e 3) a eliminação na urina. Juntos, estes processos de elimina­ ção fazem cair exponencialmente a concentração do fármaco no plasma. Ou seja, a cada unidade de tempo, uma fração constante de fármaco presente é eliminada na unidade de tempo (Figura 1.1SA). A maioria dos fármacos é eli­ minada de acordo com uma cinética de primeira ordem, embora alguns, como o ácido acetilsalicílico em altas doses, seja eliminado de acordo com cinética de ordem zero ou não linear. A biotransformação gera produtos com maior polaridade que facilita a eliminação. A depuração (clearance - CL) estima a quantia de fármaco depurada do organismo por unidade de tempo. A CL total é uma estimativa que reflete todos os mecanismos de eliminação do fármaco e é calculada por: CL = 0,693 X Vjt112 onde ty2 é a meia-vida de eliminação do fármaco, Vd é ovolume de distribuição aparente, e 0,693 é a constante log natural. A meia-vida do fármaco é usada com frequência para mensurar a CL do fármaco porque, para vários fárma­ cos, Vd é uma constante. A. Cinética da biotransformação 1 . Cinética de primeira ordem. A transformação metabólica dos fár­ macos é catalisada por enzimas, e a maioria das reações obedece à cinética de Michaelis-Menten.3 v = velocidade de biotransformação do fármaco = � :á:� g � Na maioria das situações clínicas, a concentração do fármaco, [C], é muito menor do que a constante de Michaelis, Km, e a equação se reduz para: v = velocidade de biotransformação do fármaco = Vm��C] 3Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre cinética Michaelis-Menten. ê. o - ai E UI ai - a. Farmacologia Ilustrada 13 Fasede Fasede distribuição eliminação ,._,.__ � - - - ........._ _:.,_ _ _ _ 4 1 g 2 A maioria dosfármacos apresenta diminuição exponencial naconcen­ traçãoemfunção do tempo, duranteafase deeliminação. o •Ili � -= e 8 e§ 1 º � =:::::::::: � o 1 2 3 4 J. Tempo ! - Injeçãorápidadofármaco m Extrapolação até o tempo "O" forneceo C0, ovalorhipotético de concentração dofárma­ co previstosea distri­ buição fossealcançada instantaneamente. ai E UI ai - a. 4 3 2 o e Co=1 o lCll "" f! 'E 0,5 0,4 0,3 1 1 1 1 CI) u e o o 0,2 :'-ri 0,1 o 1 ' t Injeçãorápida dofármaco t112 1 1 1 1 1 2 3 Tempo A meia-vida(tempo necessário para reduzirà metade a concentração do fármaco no plasma) é igual a 0,69VJCL. 4 Figura 1 .15 Concentrações do fármaco no plasma após uma injeção única de um fár­ maco no tempo = O. A. Os dados de concentração foram lançados em uma escala linear. B. Os dados de concen­ tração foram lançados em uma escala logarítmica.
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    14 Clark, Finkel,Rey &Whalen Poucosfármacos, como ácido acetilsali­ cílico, etanole fenitoína,têm dosagens muito elevadas. Por isso, a concentração dofármaco no plasma é muito maior do queo Km, eassuas biotransformações são de ordem zero, isto é, constantee independenteda dosedofármaco. Paraa maioria dosfármacos, a concen­ tração no plasmaé muito menor do que o Km ea eliminaçãoé deprimeiraordem, istoé, proporcional à dosedofármaco. Figura 1.16 Efeitos da dose do fármaco na veloci­ dade da sua biotransformação. Fármaco Isto é, a velocidade de biotransformação do fármaco é diretamente proporcional à concentração do fármaco livre, e é observada uma cinética de primeira ordem (Figura 1.16). Isso indica que uma fra­ ção constante do fármaco é biotransformada por unidade de tem­ po (isto é, a cada meia-vida, a concentração se reduz em 50o/ o). A cinética de primeira ordem algumas vezes é referida clinicamente como cinética linear. 2. Cinética de ordem zero. Com poucos fármacos, como o ácido acetil­ salicílico, o etanole a fenitoí na, as doses são muito grandes. Por isso, [C] é muito maiordo que Km, e a equação de velocidade se torna: V = velocidade de biotransformação do fármaco = Vm[c�C]= Vmáx A enzima é saturada pela concentração elevada de fármaco livre, e a velocidade da biotransformação permanece constante notempo. Isso é denominado cinética de ordem zero (também referida clinicamente como cinética não linear). Uma quantidade constante do fármaco é biotransformada por unidade de tempo e a velocidade de eliminação é constante e não depende da concentração do fármaco. B. Reações da biotransformação de fármaco Os rins não conseguem eliminar os fármacos lipofílicos de modo eficien­ te, pois eles facilmente atravessam as membranas celulares e são reab­ sorvidos nos túbulos contorcidos distais. Por isso, os fármacos lipossolú­ veis primeiro devem serbiotransformados no fígado em substâncias mais polares (hidrofílicas) usando dois grupos gerais de reações, denomina­ dos Fase 1 e Fase li (Figura 1 .17). 1. Fase 1. As reações de Fase 1 convertem moléculas lipofílicas em moléculas mais polares, introduzindo ou desmascarando um grupo funcional polar, como -OH ou -NH2• A biotransformação de Fase 1 pode aumentar, diminuir ou deixar inalterada a atividade farmacoló­ gica do fármaco. a. Reações de Fase 1 utilizando o sistema P450. As reações de Fase 1 envolvidas com mais frequência na biotransformação de fármacos são catalisadas pelo sistema citocromo P450 (tam­ bém denominado oxidases microssomais de função mista): Fármaco + 02 + NADPH + H+ � Fármacomoditicado + H20 + NADP+ Oxidação, redução, e/ou hidrólise Algunsfármacosentram diretamente na Fase li de biotransformação. � Produtos de conjugação Faseli !li Após aFase1, ofármaco pode serativado, perma­ necer inalteradoou, com maisfrequência, inativado. O fármacoconjugado geralmenteé inativo. Figura 1.17 Biotransformação dos fármacos.
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    A oxidação ocorrecom a ligação do fármaco à forma oxidada do citocromo P450, e, então, o oxigênio é introduzido em uma etapa redutora, acoplada a NADPH:citocromo P450 oxidorredutase. O sistema P450 é importante para a biotransformação de vários compostos endógenos (como esteroides, lipídeos, etc.) e para a biotransformação de substâncias exógenas (xenobióticos). O ci­ tocromo P450, designado como CIP, é uma superfamília de iso­ zimas contendo heme que se localizam na maioria das células, mas são encontradas principalmente no fígado e noTGI. 1) Nomenclatura. O nome da família é indicado por CIP acres­ cido de um algarismo arábico e seguido de letra maiúscula para a subfamília, por exemplo, CIP3A (Figura 1 .18). Outro número é acrescentado para indicar a isozima específica como em CIP3A4. 2) Especificidade. Como há vários genes diferentes que codi­ ficam múltiplas enzimas diferentes, há várias isoformas P450 diferentes. Estas enzimas têm a capacidade de modificar um grande número de substratos estruturalmente distintos. Além disso, um fármaco individual pode ser substrato para mais de uma isozima. Quatro isozimas são responsáveis pela gran­ de maioria das reações catalisadas pelo P450: CIP3A4/5, CIP2D6, CIP2C8/9 e CIP1A2 (ver Figura 1 .18). Quantidades consideráveis de CIP3A4 são encontradas na mucosa intes­ tinal, respondendo pela biotransformação de primeira passa­ gem de fármacos, como a clorpromazinae o clonazepam. 3) Variabilidade genética. As enzimas P450 exibem consi­ derável variabilidade genética entre indivíduos e grupos ra­ ciais. Variações na atividade P450 podem alterar a eficácia dos fármacos e o risco de efeitos adversos. O CIP2D6, em particular, revelou polimorfismo genético. 4 Mutações no Cl­ P2D6 resultam em capacidades muito baixas de biotransfor­ mar substratos. Algumas pessoas, por exemplo, não obtêm benefício do analgésico opiáceo codeína, porque não têm a enzima que o 0-desmetila para ativá-lo. A frequência des­ se polimorfismo em parte é determinada racialmente, com a prevalência de 5 a 10° / o em brancos, europeus, comparada com menos de 2° / o em asiáticos do sudoeste. Polimorfismos similares foram caracterizados para a subfamília CIP2C. A colocação de uma advertência em tarja preta no clopidogrel pelo U.S. Food and Drug Administration salienta o significado deste polimorfismo. Pacientes que são maus biotransforma­ dores CIP2C19 têm maior incidência de eventos cardiovas­ culares (p. ex., choque ou infarto do miocárdio) quando usam c/opidogrel. Este fármaco é um pró-fármaco, e a ativação pelo CIP2C19 é necessária para convertê-lo no metabólito ativo. Embora o CIP3A4 exiba uma variabilidade entre indiví­ duos maiorque 1O vezes, nenhum polimorfismo foi identifica­ do para essa isozima P450. 4) Indutores. As enzimas dependentes de CIP450 são um alvo importante de interaçõesfarmacocinéticas de fármacos. Uma dessas interações é a indução de algumas isozimas CIP. Xe­ nobióticos (substâncias químicas que normalmente não são 4 Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre polimorfismo genético. Farmacologia Ilustrada 15 CIP2C19 CIP2E1 4o/o----. 83 ---- CIP2D6 CIP2C8/9 CIP1A2 193 Figura 1 .18 163 1 1 3 CIP3A4/5 CIP2A6 33---' 363 CIP286 33----' Contribuição relativa das isoformas de citocromos P450 (CIP) na biotransfor­ mação de fármacos.
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    16 Clark, Finkel,Rey &Whalen lsozima CIP2C9/1O SUBSTRATOS COMUNS Varfarina Fenitoína lbuprofeno To/butamida lsozima CIP2D6 SUBSTRATOS COMUNS Desipramina lmipramina Haloperidol Propano/oi lsozima CIP3A4/5 SUBSTRATOS COMUNS Carbamazepina Ciclosporina Eritromicina Nifedipino Verapamil Figura 1.19 INDUTORES Fenobarbital Rifampicina INDUTORES Nenhum* INDUTORES Carbamazepina Dexametasona Fenobarbital Fenitoína Rifampicina Algumas isozimas citocromo P450 re­ presentativas. CIP = citocromo P. * Diferentemente da maioria das outras enzimas CIP450, a CIP2D6 não é mui­ to suscetível à indução enzimática. produzidas nem estão presentes no organismo) podem in­ duzir a atividade destas enzimas, induzindo a expressão de genes que codificam a enzima ou provocando sua estabiliza­ ção. Certos fármacos (p. ex., fenobarbital, rifampicina e car­ bamazepina) são capazes de aumentar a síntese de uma ou mais isozimas CIP. Isso resulta no aumento davelocidade de biotransformação de fármacos e pode levar a reduções sig­ nificativas nas concentrações plasmáticas dos fármacos bio­ transformados por essas isoenzimas CIP, como mensurado pela ASC (uma medida de exposição a fármacos), concomi­ tante com a redução do efeito farmacológico. Por exemplo, a rifampicina, um fármaco antituberculose (ver p. 424), diminui de modo significativo a concentração plasmática dos inibido­ res de HIV protease,5 diminuindo, assim, sua capacidade de suprimir a maturação do vírus HIV. A Figura 1.19 lista alguns dos mais importantes indutores para isozimas CIP represen­ tativas. As consequências do aumento da biotransformação de fármacos incluem: 1) menor concentração do fármaco no plasma; 2) menoratividade dofármaco, se o metabólito é ina­ tivo; 3) aumento da atividade, se o metabólito é ativo; e 4) redução do efeitoterapêutico do fármaco. 5) Inibidores. A inibição da atividade das isozimas CIP é uma fonte importante de interações de fármacos que leva a efeitos adversos graves. A forma mais comum de inibição é pela competição pela mesma isozima. Alguns fármacos, contudo, são capazes de inibir reações para as quais nem são substratos (p. ex., cetoconazol) provocando também in­ terações. Numerosos fármacos são capazes de inibir uma ou mais vias de biotransformação CIP-dependente da varfa­ rina. Por exemplo, o omeprazol é um inibidor importante de três das isozimas CIP responsáveis pela biotransformação da varfarina. Se os dois fármacos são tomados juntos, a concentração plasmática de varfarina aumenta, o que au­ menta a inibição da coagulação, o risco de hemorragias e outros sangramentos graves. (Nota: os inibidores CIP mais importantes são eritromicina, cetoconazol e ritonavir, pois eles inibem várias isozimas CIP.) A cimetidina bloqueia a biotransformação da teofilina, c/ozapina e vafari na. Subs­ tâncias naturais também podem inibir a biotransformação de fármacos inibindo a CIP3A4. Por exemplo, como o toran­ ja (grapefrui� e seu suco inibem a CIP3A4, fármacos como nifedipina, claritromicina e sinvastatina, que são biotransfor­ mados por esse sistema, permanecem em maiorconcentra­ ção na circulação sistêmica com potencial de aumentar seu efeito terapêutico e/ou tóxico. b. Reações de Fase 1 que não envolvem o sistema P450. Essas reações incluem a oxidação de aminas (p. ex., oxidação de ca­ tecolaminas ou histamina), a desidrogenação do álcool (p. ex., oxidação do etanol), as esterases (p. ex., biotransformação da pravastatina no fígado) e a hidrólise (p. ex., procaína). 2. Fase li. Essa fase consiste em reações de conjugação. Se o me­ tabólito resultante da Fase 1 é suficientemente polar, ele pode ser excretado pelos rins. Contudo, vários metabólitos de Fase 1 são 5 Ver Bioquí mica Ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre inibidores de protease HIV.
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    muito lipofílicos paraserem retidos pelos túbulos renais. Uma rea­ ção subsequente de conjugação com um substrato endógeno - como ácido glicurônico, ácido sulfúrico, ácido acético ou amino­ ácido - produz um composto polar em geral mais hidrossolúvel e terapeuticamente inativo. Uma exceção notável é o glicuronídeo-6- -morfina, que é mais potente do que a morfina. A glicuronidação é a reação de conjugação mais comum e mais importante. Os neo­ natos são deficientes nesse sistema de conjugação, tornando-os particularmente vulneráveis a fármacos comoo c/oranfenico/, inati­ vado pelo acréscimo de ácido glicurônico, resultando na síndrome do bebê cinzento (ver p. 405). (Nota: osfármacos que possuem um grupo-OH, -NH2 ou -COOH podem entrar diretamente na Fase li e ser conjugados sem uma reação de Fase 1 prévia.) Os fármacos conjugados altamente polares podem então ser excretados pelos rins ou com a bile. 3. Reversão da ordem das fases. Nem todos os fármacos sofrem reações de Fase 1 e li nessa ordem. Por exemplo, a isoniazida é acetilada inicialmente (reação de Fase li) e, então, hidrolisada a áci­ do nicotínico (reação de Fase 1). VI. DEPURAÇÃO DE FÁRMACOS PELOS RINS A eliminação de fármacos do organismo requer que a substância seja sufi­ cientemente polar para que a excreção seja eficiente. A remoção do fármaco ocorre por meio de numerosas vias, sendo a mais importante por meio dos rins na urina. Um paciente com insuficiência renal pode sofrer diálise extra­ corpórea, a qual remove pequenas moléculas, como fármacos. A. Eliminação renal dos fármacos Farmacologia Ilustrada 17 D Ofármaco livreentra no filtrado glomerular Cápsulade Bowman � Secreção U ativa f!ll Reabsorção passiva 1E':i1 defármacos não ionizadose lipossolúveis, queforam concentrados no interior do lúmen em concentração maior do que a do espaço perivascular. Túbulo proximal Alça de Henle Túbulo distal Túbulo coletor Na urina: fármaco ionizado insolúvel em lipídeos A eliminação de fármacos pelos rins na urina envolve três processos: Figura 1 .20 filtração glomerular, secreção tubular ativa e reabsorção tubular passiva. Eliminação de fármacos pelos rins. 1 . Filtração glomerular. Os fármacos chegam aos rins pelas artérias renais, que se dividem para formar o plexo capilar glomerular. Os fármacos livres (não ligados à albumina) difundem-se através das fendas capilares para o espaço de Bowman como parte do filtrado glomerular (Figura 1 .20). A velocidade de filtração glomerular (125 mUmin) é cerca de 20° / o do fluxo plasmático renal (600 mUmin). A lipossolubilidade e o pH não influenciam a passagem dos fármacos para o filtrado glomerular. Entretanto, variações na velocidade de filtração glomerular e ligação do fármaco às proteínas plasmáticas podem afetar este processo. 2. Secreção tubular proximal. Os fármacos que não foram transfe­ ridos para o filtrado glomerular saem dos glomérulos através das arteríolas eferentes, que se dividem formando um plexo capilar ao redor do lúmen no túbulo proximal. A secreção ocorre primariamen­ te nos túbulos proximais por dois mecanismos de transporte ativo (requerem transportador) que exigem energia, um para ânions (p. ex., formas desprotonadas de ácidos fracos) e outro para cátions (p. ex., formas protonadas de bases fracas). Cada um desses sis­ temas de transporte apresenta baixa especificidade e pode trans­ portar inúmeros compostos. Assim pode ocorrer competição entre fármacos pelos transportadores em cada um dos sistemas (p. ex., ver probenecida, p. 547). (Nota: prematuros e recém-nascidos têm esse mecanismo secretor tubular incompletamente desenvolvido e, assim, podem retercertos fármacos.)
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    18 Clark, Finkel,Rey &Whalen Fármaco Fármaco Reabsorçãopassiva defármaco não ioni­ zado, lipossolúvel Figura 1 .21 Túbulo proximal Alçade Henle Túbulo distal Fármaco Biotransformação de Fase1eli Metabólito ionizado ,..-_:>ou polar . . . . . . . . . .. · . . . .. . . .. ......• .. .... . ., :- .:.. . Efeito da biotransformação de fárma­ cos na reabsorção no túbulo distal. 3. Reabsorção tubular distal. Enquanto o fármaco se desloca em direção ao túbulo contorcido distal, sua concentração aumenta e excede à do espaço perivascular. O fármaco, se neutro, pode di­ fundir-se para fora do lúmen, retornando à circulação sistêmica. A manipulação do pH da urina, paraaumentaraforma ionizadadofár­ maco no lúmen, pode serfeita para minimizara extensão da retrodi­ fusão e, assim, aumentar a depuração de um fármaco indesejável. Como regra geral, ácidos fracos podem ser eliminados alcalinizan­ do a urina, enquanto a eliminação de bases fracas pode seraumen­ tada poracidificação da urina. Esse processo é denominado "prisão iônica". Por exemplo, um paciente apresentando dose excessiva de fenobarbital (um ácido fraco) pode receber bicarbonato, que alca­ liniza a urina e mantém o fármaco ionizado, diminuindo, assim, a reabsorção. Se a dosagem excessiva é com uma base fraca, como a anfetamina, a acidificação da urina com NH4CI leva à protonação do fármaco (i.e, se torna ionizado) e aumenta a sua excreção renal. 4. Papel da biotransformação de fármacos. A maioria dos fárma­ cos é lipossolúvel e, sem modificação química, se difundiria para fora do lúmen tubular renal quando a sua concentração no filtrado se torna maior do que a do espaço perivascular. Para minimizar essa reabsorção, os fármacos são modificados em metabólitos mais polares, principalmente, pelo fígado, usando dois tipos de reações: as de Fase 1 (ver p. 14) - que envolvem o acréscimo de grupos hidroxila ou a remoção de grupos bloqueadores das hidro­ xilas, carboxilas, ou grupo amino- e as de Fase 11 (ver p. 16) -que usam conjugação com sulfato, glicina ou ácido glicurônico para aumentar a polaridade do fármaco. Os conjugados são ionizados, e as moléculas carregadas não conseguem difundir para fora do lúmen renal (Figura 1 .21). - VII. DEPURAÇAO POR OUTRAS VIAS As outras vias de depuração de fármacos incluem o intestino, a bile, os pul­ mões e o leite das lactantes, entre outras. As fezes estão envolvidas primaria­ mente com a eliminação dos fármacos ingeridos porvia oral e não absorvidos ou fármacos que foram secretados diretamente no intestino ou na bile. No trato intestinal, a maioria dos compostos não é reabsorvida e é eliminada com as fezes. Os pulmões estão envolvidos primariamente na eliminação dos gases anestésicos (p. ex., halotano e isoflurano). A eliminação de fármacos no leite materno é clinicamente relevante como fonte potencial de efeitos in­ desejados no lactente. Um bebê em amamentação será exposto em alguma extensão aos medicamentos e/ou seus metabólitos ingeridos pela sua mãe. A excreção da maioria dos fármacos no suor, saliva, lágrimas, pelos e pele ocorre em pequena extensão. Contudo, o depósito de fármacos nos pelos (cabelo) e na pele tem sido usado como ferramenta forense em vários casos criminais. A depuração corporal total, somando todos os métodos de depu­ ração, e a meia-vida do fármaco são medidas importantes de depuração de fármacos, visando a prevenir a toxicidade. A. Depuração corporal total A depuração corporal total (sistêmica), CL101ª1 ou CL1, é a soma das de­ purações dos vários órgãos biotransformadores e eliminadores. Os rins são, com frequência, os principais órgãos de excreção; contudo, o fígado também contribui para a perda de fármaco por meio da biotransformação e/ou da excreção com a bile. Um paciente com insuficiência renal pode, algumas vezes, ser beneficiado pelo fármaco que é excretado por essa via, indo para o intestino e saindo com as fezes, em vez da via renal. AI-
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    guns fármacos tambémpodem ser reabsorvidos pela circulação entero­ -hepática, prolongando, assim, sua meia-vida.A depuraçãototal pode ser calculada usando-se a seguinte equação: Cl.iotal = CLhepática + CLrenal + CLpulmonar + CLoutras onde CLhepática + CLrenal são tipicamente as mais importantes. B. Situações clínicas que alteram a meia-vida do fármaco Quando o paciente apresenta uma anormalidade que altera a meia-vida , dofármaco, são necessários ajustes nadosagem. E importante sercapaz de prever em quais pacientes o fármaco provavelmente tem sua meia-vi­ da alterada. A meia-vida do fármaco é aumentada por: 1) diminuição do fluxo plasmático renal ou do sanguíneo hepático (p. ex., em choque car­ diogênico, insuficiência cardíaca ou hemorragia); 2) diminuição na capa­ cidade de extrair o fármaco do plasma, por exemplo, na doença renal; e 3) diminuição da biotransformação, por exemplo, quando outros fármacos inibem a biotransformação ou na insuficiência hepática, como na cirrose. Ela pode ser diminuída por: 1) aumento do fluxo sanguíneo hepático; 2) menor ligação às proteínas; e 3) aumento da biotransformação. - VIII. ESQUEMAS E OTIMIZAÇAO DAS DOSAGENS Para iniciar o tratamento farmacológico, o clínico elabora um regime de dosifi­ cações administrado por infusão contínua ou em intervalos de tempo e dosa­ gem, dependendo deváriosfatores do paciente e do fármaco, incluindo o quão rapidamente o estado de equilíbrio (velocidade de administração igual a de excreção) deve ser alcançado. O regime pode ser ainda mais refinado ou oti­ mizado para obtero máximo de benefícios com o mínimo de efeitos adversos. A. Regimes de infusão contínua Otratamento pode consistirem uma administração simples dofármaco, por exemplo, uma dose única de um fármaco indutor do sono, como o zolpi­ dem. Mais comumente, porém, otratamento consiste na administraçãocon­ tinuadade umfármaco, sejacomo uma infusão IV ou um esquemadedoses fixas e intervalosfixos porvia oral (p. ex., "um comprimido a cada 4 horas"), cada qual resultando no acúmulo do fármaco até alcançar um estado de equilíbrio. O estado de equilíbrio é um ponto no qual a quantia de fármaco que é administrada igualaa quantia que é eliminada, de forma que os níveis plasmáticos etissulares permaneçam constantes no caso da administração IV eflutuem em torno de um valor médio no caso de dosagem oral fixa. 1. Concentração plasmática do fármaco após infusão IV. Com a ad­ ministração IV contínua, a velocidade de entrada do fármaco no or­ ganismo é constante. Na maioria dos casos, a eliminação do fármaco é de primeira ordem, ou seja, uma fração constante da substância é depurada por unidade de tempo. Portanto, a velocidade do fármaco que deixa o organismo aumenta proporcionalmente com o aumento da concentração no plasma. Após o início da infusão IV, a concentra­ ção plasmática dofármaco aumentaaté que avelocidade dofármaco eliminado do organismo equilibra precisamente a quantidade introdu­ zida (Figura 1 .22). Assim, o estado de equilíbrio é alcançado quando a concentração plasmática do fármaco permanece constante. a. Influência da velocidade de infusão do fármaco no estado de equilíbrio. Pode serdemonstrado que a concentração plasmática de equilíbrio é diretamente proporcional à velocidade de infusão. Entrada de fármaco Figura 1 .22 Farmacologia Ilustrada 19 No equilíbrio, a entrada (velocidade de infusão) é igual à saída (velocidade de eliminação).
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    20 Clark, Finkel,Rey &Whalen Nota: a maiorvelocidade de infusão não altera otempo necessário paraalcançar o estado deequilíbrio; somente a concentração deequilíbrio, C55, se altera. Figura 1 .23 Região de equilíbrio � Efeito da velocidade de infusão na con­ centração de equilíbrio do fármaco no plasma. R0 = velocidade de infusão do fármaco; C55 = concentração de equilí­ brio do fármaco. Concentração de Início da infusão do fármaco Por exemplo, se a velocidade de infusão duplica, a concentração plasmáticafinalmente alcançada no estado deequilíbrioé duplica­ da (Figura 1 .23). Além disso, a concentração de equilíbrio é inver­ samente proporcional à depuração do fármaco. Assim, qualquer fator que diminui a depuração, como doença hepática ou renal, aumenta a concentração de equilíbrio de um fármaco infundido (admitindo que Vd permaneça constante). Fatores que aumentam a depuração do fármaco, como o aumento da biotransformação, diminuem a concentração de equilíbrio dofármaco infundido. b. Tempo necessário para alcançar a concentração de equilí­ brio do fármaco. A concentração do fármaco aumenta desde zero, no início da infusão, até alcançar o nível de equilíbrio Css (Figura 1.23). A velocidade para atingir o estado de equilíbrio é alcançada por um processo de primeira ordem. 1) Acesso exponencial ao estado de equilíbrio. A constan­ te de velocidade para alcançar o estado de equilíbrio é a constante de velocidade para a eliminação corporal total do fármaco. Assim, 50° / o da concentração de equilíbrio fi­ nal do fármaco, observados após o tempo decorrido entre a infusão (t) é igual a tv., em que tv. (meia-vida) é o tempo necessário para que a concentração do fármaco se altere em 50o/ o. Após outra meia-vida, a concentração do fármaco alcança 75° / o do C55 (ver Figura 1 .24). A concentração do fármaco é 90° / o da concentração de equilíbrio final em 3,3 vezes o t1-2. Assim, o fármaco vai alcançar o estado de equi­ líbrio em cerca de 4 meias-vidas. 2) Efeito da velocidade de infusão do fármaco. O único de­ terminante davelocidade quefaz com que ofármacoalcance o estado de equilíbrio é t1-2, e essa velocidade é influenciada somente pelos fatores que afetam a meia-vida. A velocida­ de para alcançar o estado de equilíbrio não é afetada pela velocidade de infusão. Embora o aumento da velocidade de Interrupção da infusão do fármaco; iniciaa depuração equilíbrio dofármac.o C88 = 100 - - - - - - - - - - � � 90 � � � � � � --- - A depuração dofármaco éexponencial com a mesmaconstante de tempo quedurantea infusão. Porexemplo, a concentração dofármaco cai a 50% do valor de equilíbrio emt�. Cinquenta porcento da concentração de equilíbrio são alcan­ çados nat�. Figura 1 .24 m .!.! ;; 75 1-----: E Ul o .!!! u e. Ili o E 50 1--� 'B.·lii I!! � e "' B e 8 o o 2t,n- _ _ _ ..,. 3,3t1n-------...+ � Tempo o Noventa porcento da concentração de equilíbriosão alcança­ dos em 3,3 t�. Velocidade para alcançar a concentração de equilíbrio de um fármaco no plasma.
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    infusão de umfármaco aumente concomitantemente a velo­ cidade com que uma determinada concentração plasmática é alcançada, ele não interfere no tempo necessário para al­ cançar a concentração final de equilíbrio. Isto ocorre porque a concentração de equilíbrio de um fármaco aumenta direta­ mente com a velocidade de infusão (ver Figura 1 .23). 3) Velocidade de declínio do fármaco quando a infusão é interrompida. Quando a infusão é interrompida, a concen­ tração plasmática do fármaco diminui (se reduz) até zerar com a mesmatrajetóriatemporal observada para alcançaro equilíbrio (ver Figura 1 .24). B. Regimes de dose fixa/intervalo de tempo fixo A administração de um fármaco por doses fixas, em vez de infusão contí­ nua, com frequência é mais conveniente. Contudo, dosesfixas, administra­ das a intervalos de tempo também fixos, como com injeções IV múltiplas ou administraçãooral múltipla, resultam em flutuaçõestempo-dependentes nos níveis defármacocirculante, oquecontrasta com a ascensãocontínua da concentração do fármaco observada na infusão contínua. 1. Injeções IV múltiplas. Quando um fármaco é administrado repeti­ damente a intervalos regulares, a concentração plasmática aumenta até alcançar um estado de equilíbrio (Figura 1 .25). Como a maioria dos fármacos é administrada a intervalos mais curtos do que cinco meias-vidas e é eliminada exponencialmente com o tempo, algum fármaco da primeira dose permanece no organismo no momento em que a segunda dose é administrada, algum fármaco da segunda dose permanece no momento da terceira dose, e assim por diante. Portanto, ofármaco acumula até que, dentro do intervalo de tempo, a velocidade de perda do fármaco (conduzida pela elevada concentra­ ção plasmática) equilibra exatamente a velocidade de administração do fármaco- isto é, até que um estado de equilíbrio seja alcançado. a. Efeitos da frequência de dosagem. A concentração plasmáti­ ca do fármaco oscila em torno de uma média. Doses menores e intervalos mais curtos diminuem a amplitude das ondas de con­ centração do fármaco. Contudo, a concentração de equilíbrio do fármaco e avelocidade na qual o equilíbrio é alcançado não são afetadas pela frequência de dosagem. b. Exemplos de obtenção de equilíbrio usando diferentes regi­ mes de dosagens. A curva B da Figura 1 .25 mostra a quantida­ de de fármaco no organismo quando 1 g é administrado porvia IV para um paciente, e a dose é repetida a intervalos de tempo que correspondem à meia-vida do fármaco. Ao final do primeiro período de dosagem, permanece 0,5 unidade de fármaco da primeira dose quando a segundaé administrada. Ao final do se­ gundo intervalo de dosagem, 0,75 unidade continuará presente quando a terceira dose for administrada. A quantidade mínima de fármaco durante o intervalo de dosagem aumenta progres­ sivamente e se aproxima do valor de 1 unidade, enquanto o va­ lor máximo alcança progressivamente 2 unidades logo após a administração. Por isso, no estado de equilíbrio, 1 unidade de fármaco é perdida durante o intervalo de dosagem, o que coin­ cide exatamente com a quantidade de fármaco que está sen­ do administrada; ou seja, a velocidade de fármaco "entrando" é igual a que está "saindo". Como na infusão IV, 90° / o do valor de equilíbrio é alcançado em 3,3 vezes ty2• Farmacologia Ilustrada 21 íii' Injeção de duas .!!! unidades do ... ·� fármaco uma € 3 vez ao dia j � '2 2 :::i - o E cn ·- e ei 1 o o e Injeção de uma unidade do fármaco duas vezes ao dia o (J Ili E O Infusão contínuade duas --unidades defármaco ao dia ... •as - -! 1 1 GI 1 1 'ti Ili 'ti l · - - e Ili o :::i 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 t t t 1 1 1 1 2 3 o Dias i = Injeção rápida dofármaco Figura 1 .25 Concentração plasmática prevista para um fármaco administrado por infusão (A), duas injeções diárias (8) ou uma injeção diária (C). O modelo considera a rápida homogeneização em um com­ partimento corporal simples e uma tMi de 1 2 horas.
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    22 Clark, Finkel,Rey &Whalen DOSEFIXAREPETIDA A administração oral repetida de umfár­ maco resultaem oscilações nas concen­ trações plasmáticas, as quaissão influen­ ciadastanto pela velocidadede absorção dofármaco como pelasuavelocidade deeliminação. 8 ca e :!!! � 2,0 o Ul "O ·! B·e 1,5 ·- - ;; :s E .. = :1,0 ã.-8 o m •ca :szo 5 ()< e , ca ::::i .::: - i u e o o 20 30 40 50 60 70 Tempo (h) DOSESIMPLESFIXA Dosesimples dofármaco adminis­ trada porvia oral resultaem um pico único na concentração plasmática, seguido de um declínio contínuo nos níveis do fármaco. Figura 1 .26 Concentrações plasmáticas previstas para um fármaco obtidas por repetidas administrações orais. ftl 5 Comdosedeataque m - D. o e o fil E :e .g o 1111 ()o f! - i u e o o 'Semdosedeataque Tempo ti;deeliminação Iníciodadosagem Figura 1 .27 Acúmulo de um fármaco administra­ do por via oral sem a dose de ataque e com uma dose de ataque oral única administrada em t=O. 2. Administrações orais múltiplas. A maioria dos fármacos administra­ dos em pacientes externos é indicada porvia oral em regimes de dose fixa/intervalo fixo tal como uma dose específica tomada uma, duas ou três vezes diariamente. Ao contrário da injeção IV, a absorção dos fár­ macos administrados por via oral pode ser lenta, e a concentração plasmática do fármaco é influenciada tanto pela velocidade de absor­ ção quanto pela velocidade de eliminação do fármaco (Figura 1 .26). C. Otimização da dose O objetivo do tratamento com um certo fármaco é alcançar e manter a con­ centração dentro da janela terapêutica enquanto minimiza os efeitos adver­ sos. Com titulaçãocuidadosa, a maioria dos fármacos permite alcançareste objetivo. Se a janela terapêutica (ver p. 35) de um fármaco é estreita (p. ex., digoxina, v arf arina e ciclosporina), a faixa de concentração plasmática na qual o tratamento é eficaz deve ser definida. A dosagem necessária para mantero tratamento deve sercomputada e administrada como dose de ma­ nutenção ou uma dose de carga (quando se necessita de efeito rápido) e a concentração do fármaco é mensurada subsequentemente. A dosagem e a frequência podem entãoserajustadas se nãoestiverem nafaixaterapêutica. 1. Dose de manutenção. Os fármacos em geral são administrados para mantera concentração de equilíbrio najanela terapêutica. Para alcançar uma dada concentração, são importantes a velocidade de administração e a velocidade de eliminação do fármaco. São neces­ sárias 4 a 5 meias-vidas de um fármaco para alcançar concentra­ ções sistêmicas de equilíbrio. A velocidade de dosificação pode ser determinada conhecendo-se a concentração desejada no plasma (Cp), a depuração (CL) dofármaco da circulação sistêmica e a fração (F) absorvida (biodisponibilidade). Velocidade de dosificação = (Cpiasma desejada)(CL) F 2. Dose de ataque. Um retardo na obtenção dos níveis plasmáticos desejados do fármaco pode ser clinicamente inaceitável. Portanto, uma dose de ataque (ou dose de carga) do fármaco pode ser injeta­ da como dose única para alcançar com rapidez os níveis plasmáti­ cos desejados, seguido de infusão, para manter o estado de equilí­ brio (dose de manutenção, Figura 1 .27). Em geral, a dose de ataque pode ser calculada como: Dose de ataque = (Vd) (concentração plasmática de equilíbrio desejada)/F Para infusão IV, cuja biodisponibilidade é 100° / o, a equação é: Dose de ataque = (Vd) (concentração plasmática de equilíbrio desejada) Doses de ataque podem ser administradas como dose única ou uma série de doses. As doses de ataque são administradas se o tempo necessário para alcançar a meia-vida é relativamente longo e o benefício terapêutico do fármaco é necessário imediatamente (p. ex., lidocaína contra arritmias). As desvantagens ao uso de do­ ses de ataque incluem o aumento do risco de toxicidade e o tempo mais longo necessário para a concentração do fármaco diminuir caso se alcance uma concentração excessiva. A dose de ataque é mais vantajosa para fármacos que são eliminados do organismo
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    de modo relativamentelento. Tais fármacos requerem somente bai­ xas doses de manutenção para manter o fármaco no organismo na concentração terapêutica. Contudo, sem uma dose de ataque, seria necessário muito tempo para que o fármaco alcançasse o valor te­ rapêutico correspondendo ao nível de equilíbrio. 3. Dose de ajuste. A quantidade de fármaco administrado em uma dada condição é otimizada para um "paciente médio". Esta conduta ignora a variabilidade entre pacientes, e, em alguns casos, os prin­ cípios farmacocinéticos podem ser usados para aperfeiçoar o tra­ tamento para cada indivíduo ou população de pacientes enquanto minimiza os efeitos adversos ou toxicidades. Monitorando o fármaco e correlacionando-o com o resultado terapêutico, tem-se outra fer­ ramenta para individualizar o tratamento. (Nota: para fármacos com baixos índices terapêuticos, a concentração plasmática é mensura­ da e a dosagem ajustada.) Ili i i5. o e 8 Ili ê :!!! o 't:I o 1111 � J:I 8 e 8 O Vd é útil porque pode ser usado para calcular a quantidade de fármaco necessária para obtera concentração plasmática deseja­ da. Por exemplo, se o débito cardíaco do paciente com insuficiên­ cia cardíaca não está bem controlado devido a nível plasmático inadequado de digoxina. Suponha que a concentração do fárma­ co no plasma seja C1 e o nível desejado (concentração-alvo) de digoxina (conhecida por meio de estudos clínicos) seja C2, uma concentração mais alta. O clínico precisa saber quanto mais de fármaco deve ser administrado para elevar a concentração circu­ lante de e, para c2. (Vd) (C1) = quantidade de fármaco inicialmente presente no organismo (Vd) (C2) = quantidadedefármaco necessária noorganismo paraobter a concentração plasmática desejada A diferença entre os dois valores é a dose necessária para igualarVd (C2- C1). A Figura 1 .28 mostra a evolução temporal da concentração do fár­ maco quando o tratamento é iniciado e quando a dose é alterada. Infusão intravenosa Dose oral tv.deeliminação A concentração no plasma durante otratamento oral flutuaem torno da concentração deequilíbrio obtida com otratamento intravenoso. Alteração da dosagem Tempo Figura 1 .28 Farmacologia Ilustrada 23 Dosagem duplicada Quando a dosagem é duplicada, diminuídaà metadeou interrom­ pidadurante a administração equilibrada, otempo necessário para alcançar novo estado de equilíbrio é independentedavia de administração. A dosagemfoi diminuídaà metade Acúmulo do fármaco após administração prolongada e após alterações na dosagem. A dosificação oral foi em intervalos de 50° / o do ty,.
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    24 Clark, Finkel,Rey &Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 1.1 Um fármaco administrado em dose simples de 100 mg re­ sulta em uma concentração plasmática com pico de 20 µ,g/ mL. O volume de distribuição aparente é (suponha uma distribuição rápida e uma eliminação desprezível antes da mensuração do pico plasmático): A. 0,5 L B. 1 L C. 2 L D. 5 L E. 10 L 1 .2 Um fármaco com meia-vida de 12 horas é administrado em infusão IV contínua. Quanto tempo demora até o fár­ maco alcançar 90o/ o do nível final do estado de equilíbrio? A. 18 horas B. 24 horas e. 30 horas D. 40 horas E. 90 horas 1 .3 Qual dos seguintes procedimentos resulta na duplicação da concentração de equilíbrio de um fármaco? A. Duplicar a velocidade de infusão. B. Manter a velocidade de infusão, mas duplicar a dose de ataque. C. Duplicar a velocidade de infusão e duplicar a concen­ tração do fármaco infundido. D. Triplicar a velocidade de infusão. E. Quadruplicar a velocidade de infusão. 1 .4 Uma paciente com insuficiência cardíaca revela toxicidade à digoxina. Ela recebeu 1 25 µ,g como dose-padrão. A con­ centração sérica é de 2 ng/mL (2µ,g/L). O nível terapêutico alvo é de 0,8 ng/mL. Que dose esta paciente deveria ter recebido? A. 25 µ,g B. 50 µ,g e. 75 µ,g D. 100 µ,g E. 125 µ,g 1 .5 O acréscimo de ácido glicurônico a um fármaco: A. Reduz sua hidrossolubilidade. B. Geralmente leva à inativação do fármaco. C. É um exemplo de reação de Fase 1. D. Ocorre na mesma velocidade em adultos e neonatos. E. Envolve o citocromo P450. Resposta correta = D. Vd = D/C, em que D = quantidade total de fár­ maco no organismo, e C = a concentração plasmática. Assim, Vd = 100 mgl20 mglml = 100 mgl20 mgll = 5 l. Resposta correta = D. Alcança-se 90° / o do equilíbrio final em (3,3) (tló) = (3,3)(12) = -40 horas. Resposta correta = A. A concentração de equilíbrio de um fármaco é diretamente proporcional à velocidade de infusão. Aumentando a dose de ataque, ocorre um aumento transitório no nível do fármaco, mas o nível de equilíbrio permanece inalterado. Duplicar a velocidade de infusão e a concentração do fármaco infundido leva a um aumento de 4vezes na concentração de equilíbrio dofármaco.Triplicar ou qua­ druplicar a velocidade de infusão triplica ou quadruplica a concentra­ ção do equilíbrio do fármaco. Respostacorreta = B.Vd = dose/C = 125µgl2 µgil = 62,5 l.Vd (C2-C1) = dose que deve ser recebida = 62,5 (0,8 µgil - 2 µgil) = -75 µg. Subtraia esta dose da dose-padrão. Nova dose a ser administrada = 125 µg - 75 µg = 50 µg. Resposta correta = B. O acréscimo de ácido glicurônico impede o reconhecimento do fármaco pelo seu receptor. O ácido glicurônico é carregado, e o conjugado tem maior hidrossolubilidade. A conjugação é uma reação de Fase li. Os neonatos são deficitários nas enzimas de conjugação. O citocromo P450 está envolvido nas reações de Fase 1.
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    oes , ar aco-rece ore • ..A. • aco 1 na 1ca 1. RESUMO A farmacodinâmica descreve as ações dos fármacos no organismo e as in­ fluências das suas concentrações na magnitude das respostas.A maioria dos fármacos exerce seus efeitos, desejados ou indesejados, interagindo com receptores (isto é, macromoléculas-alvo especializadas) presentes na super­ fície ou dentro da célula. O complexo fármaco-receptor (FR) inicia alterações na atividade bioquímica e/ou molecular da célula por meio de um processo denominado transdução de sinal (Figura 2.1). - li. TRANSDUÇAO DE SINAL Os fármacos atuam como sinais, e seus receptores atuam como detectores de sinais.Vários receptores sinalizam o reconhecimento de um ligante inician­ do uma série de reações que no final resultam em uma resposta intracelular específica. (Nota: o termo "ligante" se refere a uma molécula pequena que se fixa a um local em uma proteína receptora. O ligante pode ser uma molécula de ocorrência natural ou um fármaco.) Moléculas "segundas mensageiras" (também denominadas moléculas efetoras) são parte da cascata de eventos que traduz a ligação da substância em uma resposta celular. A. O complexo fármaco-receptor As células têm diferentes tipos de receptores, cada qual específico para um ligante particular e produzindo uma resposta única. O coração, por exemplo, tem receptores de membrana que ligam e respondem à epinefri­ na ou norepinefrina, bem como receptores muscarínicos específicos para acetilcolina. Esses receptores interagem de modo dinâmico para controlar funções vitais do coração. A intensidade da resposta é proporcional ao número de complexos FR: Fármaco + Receptor P Complexo fármaco-receptor� Efeito biológico O Osreceptoresnãoocupadosnão influenciamosprocessos intracelulares. ''.., :. .. . :, . . V Osreceptoresocupadosalteram aspropriedadesfísicase químicasquelevamàinteração commoléculascelulares, causandorespostabiológica. �-:;::::::::.�F�maco :. .. . : , . . Figura 2.1 Transdução desinal Resposta biológica O reconhecimento de um fármaco pelo receptor inicia a resposta biológica.
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    26 Clark, Finkel,Rey &Whalen ft Canaisiônicos W disparadosporligantes Exemplo: Receptorescolinérgicos nicotínicos , lons Esse conceito está estreitamente relacionado com a formação de comple­ xos entreenzimas esubstratos ou antígenos eanticorpos. Essas interações têm vários aspectos comuns, provavelmente a mais notável seja a especifi­ cidade do receptor por um determinado ligante. Contudo, o receptor não só tem a habilidade de reconhecer o ligante, mas também acopla ou transduz essa ligação em uma resposta causando uma alteração conformacional ou um efeito bioquímico. A maioria dos receptores é denominada para indicar o tipo de fármaco que melhor interage com ele. Por exemplo, o receptor da histamina é denominado receptor histamínico. Embora muito deste capítulo esteja focado na interação dos fármacos com os receptores específicos, é importante estar ciente de que nem todos os fármacos exercem seus efei­ tos interagindo com um receptor. Os antiácidos, por exemplo, neutralizam quimicamente o excesso de ácido gástrico, reduzindo os sintomas de azia. B. Estados receptores Classicamente se pensava que a fixação de um ligante modificava os re­ ceptores de um estado inativo (R) para um ativado (R*). O receptor ativado então interagia com moléculas efetoras intermediárias provocando o efeito biológico. Este modelo é um esquema simples e intuitivo e é usado nas ilustrações deste capítulo. Informações mais recentes sugerem que os re­ ceptores existem em dois estados, no mínimo, o inativo (R) e o ativo (R*) que estão em equilíbrio reversível entre si. Na ausência do agonista, o R* representa tipicamente uma pequenafraçãodototal da populaçãode recep­ tores (ou seja, oequilíbriofavorece o estado inativo). Fármacos que ocupam o receptor podem estabilizar o receptor num certo estado conformacional. Alguns fármacos podem causardeslocamentos similares noequilíbrio entre R e R* como um ligante endógeno. Porexemplo, fármacos que atuam como agonistas se ligam ao estado ativo dos receptores e, assim, rapidamente deslocam o equilíbrio de R para R*. Outros fármacos podem induzir altera­ ções que podem ser diferentes dos ligantes endógenos. Essas alterações tornam os receptores menos funcionais ou não funcionais. � �ecept?resacoplados l:il aprote1naG I'!! Rece�toresligados � aenz1mas Receptores intracelulares Exemplo: Adrenorreceptoresa ep Exemplo: Receptoresdeinsulina Oi n R�R-P l I l I l I Exemplo: Receptoresesteroides l l r Ãmnm I I l I I - , -v- J t; Alteraçõesnopotencialde Fosforilaçãodeproteínas Fosforilaçãodeproteínas J doreceptor Proteínasealteração daexpressãogênica membranaouconcentração iônicanointeriordacélula :::] EFEITOS INTRACELULARES Figura 2.2 Mecanismos de sinalizaçãotransmembrana. A. O ligante se une a domínios extracelulares do canal estimulado por ligan­ te. B. O ligante se une a um domínio no receptor transmembrana, que está acoplado à proteína G. C. O ligante se une ao domínio extracelular de um receptor que ativa uma enzima quinase. D. O ligante lipossolúvel difunde-se através da membrana para interagir com seu receptor intracelular. R = proteína inativa.
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    C. Principais famíliasde receptores A farmacologia define o receptor como qualquer molécula biológica à qual um fármaco se fixa e produz uma resposta mensurável. Assim, enzimas, ácidos nucleicos e proteínas estruturais podem ser consideradas recep­ tores farmacológicos. Contudo, a fonte mais rica e terapeuticamente ex­ plorável de receptoresfarmacológicos são as proteínas responsáveis pela transdução dos sinais extracelulares em respostas intracelulares. Esses receptores podem ser divididos em quatro famílias: 1) canais iônicos dis­ parados por ligantes; 2) receptores acoplados à proteína G; 3) receptores ligados a enzimas; e 4) receptores intracelulares (Figura 2.2). O tipo de receptor com o qual o ligante vai interagir depende da natureza química do ligante. Ligantes hidrofóbicos interagem com receptores que se situam na superfície da célula (Figuras 2.2A, 8, C). Porém, eles podem entrar nas células através da camada bimolecular de lipídeos da membrana celular para interagir com receptores situados dentro das células (Figura 2.20). 1. Canais iônicos transmembrana disparados por ligantes. A primei­ ra família de receptores compreende os canais iônicos acionados por ligantes, os quais são responsáveis pela regulação do fluxo de íons através das membranas celulares (ver Figura 2.2A). A atividade des­ ses canais é regulada pela ligação de um ligante ao canal. A resposta a esses receptores é muito rápida, durando poucos milissegundos. Esses receptores intermediam diversas funções, incluindo neuro­ transmissão, condução cardíaca e contração muscular. Por exemplo, a estimulação do receptor nicotínico pela acetilcolina resulta em um influxo de sódio, na geração de um potencial de ação e na contração do músculoesquelético.As benzodiazepinas aumentam a estimulação do receptor ácido 'Y-aminobutírico (GABA) pelo GABA, resultando no aumento do influxo de cloretos e na hiperpolarização da respectiva célula. Embora não disparados por ligantes, canais iônicos, como os canais de sódio disparados por voltagem, são importantes receptores para diversas classes de fármacos, incluindo os anestésicos locais. 2. Receptores transmembrana acoplados à proteína G. A segunda família de receptores consiste nos receptores acoplados à proteína G. Esses receptores são constituídos de um peptídeo a-helicoidal que tem sete regiões que se estendem através da membrana. Em geral, o domínio extracelular deste receptor contém a área de fixação do lin­ gante (poucos ligantes interagem com o domínio transmembrana do receptor). No lado intracelular, esses receptores são ligados à proteína G (G5, Gi e outras), a qual tem três subunidades: uma subunidade a que liga trifosfato de guanosina (GTP) e uma subunidade 13'Y (Figura 2.3). A fixação do ligante apropriado à região extracelular do receptor ativa a proteína G de forma que o GTP substitui o difosfato de guano­ sina (GDP) na subunidade a. Ocorre a dissociação da proteína G, e ambas as subunidades a-GTP e a subunidade 13'Y subsequentemente interagem com outros efetores celulares, em geral uma enzima, uma proteína ou um canal iônico. Esses efetores, então, ativam os segun­ dos mensageiros, que são responsáveis por ações adicionais no inte­ rior da célula. A estimulação desses receptores resulta em respostas que duram desde vários segundos até minutos. Os receptores aco­ plados à proteína G são o tipo de receptores mais abundante, e sua ativaçãoé responsável pelaaçãoda maioria dosagentesterapêuticos. Processos mediados por receptoresacopladosàproteína G importan­ tes incluem a neurotransmissão, a olfação e avisão. a. Segundos mensageiros. Esses mensageiros são essenciais na condução e amplificação dos sinais oriundos de receptores acoplados à proteína G. Uma via comum ativada pela G5 e por Farmacologia Ilustrada 27 D Oreceptornãoocupadonão interagecomaproteínaG8• Espaço A extra- /? 'itV Hormônioou celular l'l neurotransmissor J 'I Membrana celular � A" � tvv ""'V1-'- ::li:;.. "" Z) Citosol GTP D ProteínaGs unidaao GDP Adenilil­ ciclase inativa Adenilil­ ciclase inativa ft a Gsdissociaeativaa 1':.11 adenililciclase. Adenilil­ ciclase ativa AMPc+ PPi n Quandoohormônionãoestámais li.I presente,oreceptorreverteaseu estadoderepouso.OGTPna subunidadea éhidrolisadoaGDP, eaadenililciclaseédesativada. Figura 2.3 Adenilil­ ciclase inativa O reconhecimento do sinal químico pela proteína G acoplada ao receptor de membrana inicia um aumento (ou, me­ nos frequente, uma diminuição) da ativi­ dade da adenililciclase. PPi = pirofosfato inorgânico; Pi = fosfato inorgânico.
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    28 Clark, Finkel,Rey &Whalen Receptor da Insulina (Inativo) Tirosina Tirosina Insulina O A ligação da insulinaestimula a ativi­ dadetirosinaquinase do receptorno domínio intracelulardasubunidade 13 do receptor de insulina. Receptor da Insulina (Ativo) 0-Tirosina ()-Tirosina SRl-tir SRl-tir-P-0 t::'11 Resíduos detirosina da C;:tl subunidade 13 são autofosforilados. 1:11 Atirosinaquinase do l':.11 receptorfosforilaoutras proteínas, por exemplo, substratos do receptor de insulina(SRI). Ativação de múltiplas vias sinalizadoras r,'I Os SRIfosforilados promovem li.li a ativação de outras proteínas quinases efosfatases, levando às ações biológicas da insulina. Figura 2.4 Efeitos biológicos da insulina Receptor da insulina. outros tipos de proteínas G é a ativação da adenililciclase pelas subunidades a-GTP, a qual resulta na produção de monofosfato de adenosina cíclico (AMPe) - um segundo mensageiro que re­ gula a fosforilação de proteínas. As proteínas G também ativam a fosfolipase C, que é responsável pela geração de dois outros segundos mensageiros, o trifosfato-1,4,5 de inositol (IP3) e o dia­ cilglicerol (DAG). O IP3é responsável pela regulação das concen­ trações de cálcio intracelular livre, bem como de outras proteínas. O DAG ativa várias enzimas, como a proteína quinase (PKC), no interior da célula, levando a uma miríade de efeitos fisiológicos. 3. Receptores ligados a enzimas. A terceira principal família de recep­ tores consiste em uma proteína que atravessa a membrana uma vez únicae podeformarvários dímerosou complexosde subunidades. Es­ tes receptores também têm atividade enzimática citosólica como um componente integral da sua estruturaefunção (Figura 2.4).A união de um ligante a um domínio extracelular ativa ou inibe a atividade dessa enzima citosólica.A duração de respostaà estimulação desses recep­ tores é da ordem de minutos até horas. Metabolismo, crescimento e diferenciaçãosãofunções biológicas importantes controladas poreste tipo de receptores. Os receptores ligados a enzimas mais comuns (fa­ tor de crescimento epiderma!, fator de crescimento derivado de pla­ quetas, peptídeo natriurético atrial, insulina e outros) são os que têm atividade tirosina quinase como parte da sua estrutura. Tipicamente, após a ligação do ligante à subunidade receptora, o receptor sofre al­ teração conformacional, passandodasuaformaquinase inativa paraa ativa. O receptorativado se autofosforila e fosforila os resíduos detiro­ sina em proteínas específicas.A introdução de um grupo fosfato pode modificar de modo substancial a estrutura tridimensional da proteína­ -alvo, atuando, assim, como um interruptor molecular. Por exemplo, quando o hormônio peptídico insulina se liga às duas subunidades re­ ceptoras, a sua atividade tirosina quinase intrínseca causa autofosfo­ rilação do próprio receptor. Por sua vez, o receptorfosforilado fosforila moléculas-alvo - peptídeos substratos de receptor de insulina - que subsequentemente ativam outrossinais celulares importantes, como o IP3 ea proteína-quinase, ativada por mitogênese (MAP). Essacascata de ativações resulta na multiplicação do sinal inicial, muitosemelhante ao que ocorre com os receptores acoplados à proteína G. 4. Receptores intracelulares. A quarta família de receptores difere consideravelmente das outras três, pois o receptor é totalmente in­ tracelular e, portanto, o ligante precisa difundir-se para o interior da célula para interagir com ele (Figura 2.5). Isso causa exigências nas propriedades físico-químicas do ligante, que precisa ser lipossolúvel de modo suficiente para mover-se através da membrana celular. De­ vido à sua lipossolubilidade, estes ligantes são transportados pelo organismo ligados em proteínas plasmáticas, como a albumina. Os alvos primários destes complexos receptor-ligantes são os fatores de transcrição. A ativação ou inativação destes fatores causa a transcri­ ção do DNA em RNA e a translação do RNA em uma série de proteí­ nas. Por exemplo, os hormônios esteroides exercem suas ações em células-alvo por meio desse mecanismo receptor. A união do ligante com seu receptor segue o padrão geral, no qual o receptor se ativa devido à dissociação de uma variedade de proteínas. O complexo ligante-receptorativado migraou se transloca ao núcleo, onde se une a sequências específicas do DNA, resultando na regulação da ex­ pressão gênica. A evolução temporal da ativação e da resposta des­ ses receptores é muito mais longa do que os mecanismos descritos. Devido à modificação da expressão gênica - e, por isso, da síntese proteica-, as respostas celulares só são observadas após um tempo
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    considerável (30 minutosou mais), ea duraçãoda resposta (horasou dias) é muito maior do que das outras famílias de receptores. Outros alvos dos ligantes intracelulares são proteínas estruturais, enzimas, RNA e ribossomos. Por exemplo, a tubulina é o alvo de antineoplási­ cos como o paclitaxel (ver p. 500), a enzima di-hidrofolato redutase é o alvo de antimicrobianos como a trimetoprima (ver p. 416), e a subunidade 508 do ribossomo bacteriano éo alvode antibióticos ma­ crolídeos, como a eritromicina (ver p. 401). D. Algumas características da transdução de sinais A transdução de sinais tem dois aspectos importantes: 1) a capacidade de amplificar sinais pequenos e 2) proteger a célula contra estimulação • excessiva. 1. Amplificação de sinais. Umacaracterística devários receptores, em particular daqueles que respondem a hormônios, neurotransmisso­ res e peptídeos, é sua capacidade de amplificar a duração e a inten­ sidade do sinal. A família de receptores ligados à proteína G exem­ plifica várias das possíveis respostas iniciadas pelo ligante acoplado ao seu receptor. Especificamente, dois fenômenos respondem pela amplificação do sinal. Primeiro, um único complexo ligante-receptor pode interagir com várias proteínas G, multiplicando, assim, o sinal original váriasvezes. Segundo, a proteína G ativada persiste por mais tempo que o complexo ligante-receptor original. Por exemplo, a liga­ ção do albuterol só existe por poucos milissegundos, mas a proteína G ativada subsequente pode persistir porcentenas de milissegundos. O sinal inicial é prolongado e amplificado adicionalmente pela intera­ çãoentre a proteína G eseus respectivos alvos intracelulares. Devido a essa amplificação, apenas uma fração do total de receptores para um ligante específico precisa ser ativada para evocar a resposta má- , ximada célula. E dito que ossistemas que exibem essacaracterística possuem receptores de reserva. Receptores de reserva são exibidos pelos receptores de insulina, onde se estima que 99° / o dos recepto­ res são "reserva". Isso constitui uma imensa reserva funcional que garante que quantidades adequadas de glicose entrem na célula. Na outra ponta da escala, está o coração humano, no qual cerca de 5 a 10° / o dototal de adrenorreceptores 13 sãode reserva. Uma implicação importante dessa observação é que há pouca reserva funcional no coração insuficiente; a maioria dos receptores precisa ser ocupada para obter a contratilidade máxima. 2. Dessensibilização dos receptores. A administração repetida ou contínua de um agonista (ou um antagonista) pode levar a altera­ ções na responsividade do receptor. Para evitar possíveis lesões às células (p. ex., altas concentrações de cálcio iniciam a morte ce­ lular), vários mecanismos se desenvolveram para proteger a célula da estimulação excessiva. Quando a administração repetida de um fármaco resulta em efeitos menores, o fenômeno é denominado ta­ quifilaxia. O receptor se torna dessensibilizado à ação do fármaco (Figura 2.6). Nesse fenômeno, o receptor permanece presente na superfície da célula, mas não responde ao ligante. Os receptores também podem ser dessensibilizados por estimulação contínua. A ligação do agonista resulta em alterações moleculares no receptor ligado à membrana, de forma que o receptor sofre endocitose e é preservado de interações adicionais com o agonista. Esses recepto­ res podem ser reciclados para a superfície celular, restabelecendo a sensibilidade ou, de modo alternativo, podem ser processados e degradados, diminuindo o número total de receptores disponíveis. Alguns receptores, particularmente os canais estimulados porvolta- Farmacologia Ilustrada 29 Umfármaco lipossolúvel di funde-se através da membrana celularevai até o núcleo da célula. CÉLULA· ·ALVO Receptor inativo Ofármaco se liga a um receptor. NÚCLEO O complexo fármaco­ -receptorse ligaà cromatina, ativando a Fármaco Fármaco Fármaco Complexo receptor ativado CITOSOL RNAm transcrição de genes especí ficos. RNAm !'------'------ - ----' � Proteínas específicas � Efeitos biológicos Figura 2.5 Mecanismo de receptores intracelula­ res. RNAm = RNA mensageiro.
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    30 Clark, Finkel,Rey &Whalen l!I A administração repetidade um agonista (como a epinefrina) em curto período detempo resulta na diminuição da resposta dacélula. l :i a: Injeção repetidado fármaco Após um período de repouso, aadministração dofármaco resultaem uma resposta de intensidadeoriginal. Figura 2.6 Dessensibilização de receptores. rJ 100 Fármaco A o E ·- · = E o - · - GI ãi 50 o "O E & m CEso e /'1 8 ... o o 1 Q. .,. Ili. gem, exigem um tempo finito (período de repouso) após a estimula­ ção antes de poderem ser ativados novamente. Durante essa fase de recuperação, eles são "refratários" ou "não responsivos". - RELAÇOES DOSE-RESPOSTA O agonista é definido como o fármaco que pode se ligar ao receptor e provo­ car um efeito biológico. Um agonista em geral mimetiza a ação de um ligante endógeno original no seu receptor, como a norepinefrina nos receptores 131 cardíacos. A intensidade do efeito depende da concentração do fármaco no local do receptor que, por sua vez, é determinada pela dose do fármaco ad­ ministrado e por fatores característicos do perfil farmacocinético do fármaco, velocidades de absorção, distribuição e biotransformação. A. Relações dose-resposta graduais À medida que a concentração de um fármaco aumenta, a intensidade do seu efeito farmacológicotambém aumenta.A respostaé um efeito gradual, ou seja, ela é contínua e graduada. Lançando a intensidade da resposta contra as doses de um fármaco, obtém-se um gráfico que apresenta o for­ mato geral apresentado na Figura 2.7A. A curva pode ser descrita como uma hipérbole retangular- uma curva muito familiar em biologia, pois pode ser aplicada a diversos eventos biológicos, como a ligação de fármacos, a atividade enzimática e as respostas aos agentes farmacológicos. Duas propriedades importantes dosfármacos, potência e eficácia, podem serde­ terminadas nas curvas dose-resposta graduadas. 1 . Potência. A primeira propriedade é a potência, uma medida da quantidade de fármaco necessária para produzir um efeito de uma dada intensidade.A concentração de fármaco que produz um efeito, que é igual a 50° / o do máximo, é usada para determinar a potência; comumente isso é designado como CE50•Na Figura 2.7, a CE50dos fármacos A e B estão indicadas. O fármacoA é mais potente do que o B porque menorquantidade de fármaco A é necessário para obter 50° / o do efeito. Assim, as preparações terapêuticas dos fármacos refletem a potência. Por exemplo, candesartano e irbesartano são bloqueadores de receptores da angiotensina, que são usados indi- m 0 100 E ·- ·= Fármaco B E o Fármaco B - · - GI ãi .g 50 - - - - - - - - E & m - e CEso 8 ... o Q. o [Fármaco] log [Fármaco] Figura 2.7 A CEsoé a concentração dofármaco que produz uma resposta igual a 50°/o da resposta máxima. A potência dofármaco podeser comparada usando a CEso: quanto menora CEso, mais potenteé ofármaco. O efeito da dose na intensidade da resposta farmacológica. A. Gráfico em escala linear. B. Lançamento semilogarítmico dos mesmos dados. CE50= dose do fármaco que provoca 50° / o da resposta máxima.
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    vidualmente ou emassociação para o tratamento da hipertensão. O candesartano é mais potente que o irbesartano, pois a faixa de doses do candesartano é de 4 a 32 mg, comparado com a faixa de 75 a 300 mg do irbesartano. O candesartano seria o fármaco A e o irbesartano o fármaco B na Figura 2.7. Gráficos semilogarítmi­ cos são empregados com frequência, pois a faixa das doses (ou concentrações) pode ter uma distribuição muito ampla. Lançando o log da concentração, a faixa completa de doses pode ser lançada. Como apresentado na Figura 2.78, as curvas assumem a forma sigmoide, o que simplifica a interpretação da dose e resposta. 2. Eficácia. A segunda propriedade que pode ser determinada das cur­ vas dose-resposta é a eficácia do fármaco. Ela significa a habilidade do fármaco de provocar a resposta farmacológica quando interage com um receptor.A eficácia depende do número de complexos fárma­ correceptorformados eda eficiênciado acoplamentodesde a ativação do receptor até a resposta celular. Em analogia com a velocidade má­ xima das reações catalisadas por enzimas, a resposta máxima (Emáx) ou eficácia é mais importante do que a potência do fármaco. Um fár­ maco com maior eficácia é terapeuticamente mais benéfico do que um que é mais potente. A eficácia máxima de um fármaco considera que todos os receptoresestão ocupados pelofármaco e não se obterá aumento na resposta se mais fármaco for administrado. Este conceito só éválido se não existem"receptores de reserva" (ver p. 29).A Figura 2.8 mostra a resposta afármacos de diferentes potências e eficácias. B. Efeito da concentração do fármaco nas ligações com o receptor A relação quantitativa entre a concentração do fármaco e a ocupação dos receptores aplica a lei de ação das massas à cinética de ligação do fármaco com as moléculas receptoras: Fármaco + Receptor � Complexo fármaco-receptor--7 Efeito biológico Admitindo que a ligação de uma molécula não altera a ligação de mo­ léculas subsequentes e aplicando a lei de ação das massas, pode-se expressar matematicamente a relação entre a porcentagem (ou a fração) de receptores ocupados e a concentração do fármaco: [DR] _ [Rt] [D] Kd + [D] (1) em que [D] = a concentração do fármaco livre; [DR] = a concentração do fármaco ligado; [R1] = a concentração total de receptores, que é igual à soma dos receptores ocupados e dos receptores não ocupados (livres); e Kd= a constante de dissociação de equilíbrio para o fármaco do recep­ tor. O valor Kd pode ser usado para determinar a afinidade do fármaco pelo seu receptor. A afinidade descreve a força da interação (ligação) entre o ligante e o seu receptor. Quanto maior o valor de Kd, mais fraca é a interação e menor a afinidade. O fenômeno inverso ocorre quando o fármaco tem um valorde Kd baixo.A fixação do ligante ao receptor é forte e a afinidade elevada. A equação (1) define a curva que tem a forma de uma hipérbole retangular (Figura 2.9A). À medida que a concentração do fármaco livre aumenta, a relação entre a concentração do receptor ligado e a concentração dos receptorestotais se aproxima da unidade.A ligação Farmacologia Ilustrada 31 OfármacoA é mais potentedoqueo fármacoB,mastem amesmaeficácia. ofármacoc apre­ sentamenorpo­ tênciaemenor eficáciadoqueos fármacosAeB. 100 o .Si CJI •O õ50 - - - - ­ :s o - ·- itl Fármaco Fármaco 1 A - - B 1 1 1- - - - - - - - - - - 1 1 á 1 _/ 1 rmaco , 1 : e • 1 o Logdaconcentraçãodefármaco t CE50 do fármacoA Figura 2.8 t CE50 do fármacoB t CE50 do fármacoe Curvas dose-resposta típicas para fár­ macos que mostram diferenças em potência e eficácia. (CE50 = dose do fármaco que provoca 50o/ o da resposta máxima.) 'iii' 1 o ...... "O Ul m · - e. .l!I � g o Ul e � o,5 g e. e. QI � � a: ...... ...... Figura 2.9 Dose Logdose O efeito da dose na intensidade da liga­ ção do fármaco.
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    32 Clark, Finkel,Rey &Whalen O agonista total provoca a ativação total do receptor nas concentrações elevadas do fármaco. A ligação do agonista parcial resulta na ativação de menos de 100'Y o, mesmo em concen­ trações muito elevadas. 100 ... s 75 8 I!! o "O Agonistaparcial .g 50 � · - > ·- êt 25 Logdaconcentraçãodofármaco O agonista inverso provoca uma resposta aquém da linha de base mensurada na ausência de fármaco. Neste exemplo, cerca de 12% dos receptores têm atividade constitutiva na ausência do agonista. Figura 2.10 Efeitos dos agonistas total, parcial e in­ verso na atividade do receptor. do fármaco ao seu receptor inicia eventos que, no final, levam à resposta biológica mensurável. Assim, não é surpresa que as curvas mostradas na Figura 2.9 e aquelas que representam a relação entre dose e efeito (vistas na Figura 2.7) sejam similares. C. Relações da ligação do fármaco com o efeito farmacológico O modelo matemático que descreve a concentração dofármaco e a ligação ao receptor pode ser aplicado à dose (concentração do fármaco) e à res­ posta (ou efeito), desde que as seguintes premissas sejam atendidas: 1) o tamanho da resposta é proporcional à quantidade de receptores ligados ou ocupados; 2) o Emáx ocorre quando todos os receptores estão ocupados; e 3) a ligação dofármaco ao receptor não exibe cooperatividade. Nesse caso, [E] [Emáx1 [D] - - � - Kd + [D] (2) em que [E] = o efeito do fármaco na concentração [D] e [Emáxl = o efeito máximo do fármaco. IV. AGONISTAS Um agonista se liga ao receptor e produz uma resposta biológica. Um ago­ nista pode mimetizar a resposta do ligante endógeno no receptor ou pode provocar uma resposta diferente deste receptor e seu mecanismo. A. Agonistas totais Se um fármaco se liga a um receptor e produz a resposta biológica máxi­ ma que mimetiza a resposta do ligante endógeno, ele é denominado ago­ nista total (Figura 2.1 O). Os receptores existem nos estados conformacio­ nais ativo e inativoque estão em equilíbrio reversível entre si. Os fármacos que ocupam o receptor podem estabilizá-lo em um determinado estado conformacional. Assim, outra definição de agonista é um fármaco que se liga ao receptor estabilizando-o no seu estado conformacional ativo. Por exemplo, a fenilefrina é um agonista nos adrenoceptores a, porque provo­ ca efeitos que se assemelham à ação do ligante endógeno norepinefrina. Após ligar-se ao adrenoceptor a, na membrana do músculo liso vascular, a fenilefrina estabiliza o receptor em seu estado ativo. Isso mobiliza Ca 2 + intracelular, causando interação dos filamentos de actina e miosina. O en­ curtamento das células musculares diminui o diâmetrodas arteríolas, cau­ sando um aumento na resistência ao fluxo sanguíneo, através dos vasos. A pressão arterial aumenta para manter esse fluxo. Como esta descrição breve ilustra, um agonista pode tervários efeitos que podem ser medidos, incluindo ações em moléculas intracelulares, em células, em tecidos e no organismo inteiro. Todas essas ações são atribuídas à interação da mo­ lécula do fármaco com a molécula receptora. Em geral, um agonista total tem elevada afinidade pelo seu receptor e boa eficácia. B. Agonistas parciais Os agonistas parciais têm eficácia (atividade intrínseca) maior do que zero, mas menordo que a de um agonistatotal (Figura 2.10). Mesmo que todos os receptores sejam ocupados, os agonistas parciais não conse­ guem produzir um Emáx da mesma amplitude de um agonista total. Entre­ tanto, o agonista parcial pode ter uma afinidade que é maior, menor ou equivalente à do agonistatotal. A característicasingular dessesfármacos
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    é que, sobcondições apropriadas, o agonista parcial pode atuar como um antagonista de um agonista total. Considere o que ocorreria com o Emáx de receptor saturado com um agonista na presença de concentra­ çõescrescentes deagonista parcial (Figura 2.1 1). À medida que o núme­ ro de receptores ocupados pelo agonista parcial aumenta, o Emáx diminui até alcançaro Emáx do agonista parcial. Esse potencial dos agonistas par­ ciais de atuar de modo agonístico ou antagonístico pode ser explorado de forma terapêutica. Por exemplo, aripiprazol, um fármaco neuroléptico atípico, é um agonista parcial em certos receptores de dopamina. As vias dopaminérgicas que estiverem superativas tendem a ser inibidas pelo agonista parcial, ao passo que as vias que estiverem subativas podem ser estimuladas. Isso explica a habilidade do aripiprazolde reduzir vários sintomas da esquizofrenia, com riscos mínimos de causar efeitos adver­ sos extrapiramidais (ver p. 152-157). C. Agonistas inversos Tipicamente os receptores livres são inativos e precisam da interação com um agonista para assumir uma conformação ativa. Entretanto, al­ guns receptores revelam uma conversão espontânea de R para R* na ausência de agonistas (isto é, eles podem ser ativos sem a presença de um agonista). Esses receptores, mostram uma atividade constitutiva que é parte da resposta basal mensurada na ausência de fármaco. Os ago­ nistas inversos, diferentemente dos agonistas totais, estabilizam a forma R inativa. T odos os receptores constitutivamente ativos são forçados ao estado inativo pelo agonista inverso. Isto diminui o número de receptores ativados para menos do que observado na ausência do fármaco (ver Fi­ gura 2.1O). Assim, os agonistas inversos revertem a atividade constitutiva dos receptores e exercem um efeito farmacológico oposto aos agonistas. V. ANTAGONISTAS Antagonistas são fármacos que diminuem ou se opõem à ação de outro fár­ maco ou ligante endógeno. Um antagonista nãotem efeito na ausência de um agonista. O antagonismo pode ocorrer de vários modos. Muitos antagonistas atuam na mesma macromolécula receptora que o agonista. Entretanto, os an­ tagonistas não têm atividade intrínseca e, por isso, não provocam efeitos por si próprios. Ainda que os antagonistas não tenham atividade intrínseca, eles são capazes de se fixar avidamente aos receptores-alvo, porque possuem forte afinidade. A. Antagonistas competitivos Se ambos, antagonista e agonista, se ligam ao mesmo local receptor, eles são denominados "competitivos". O antagonista competitivo impede que um agonista se ligue ao seu receptor e mantém este receptor no estado conformacional inativo. Por exemplo, o anti-hipertensivo terazosi­ na compete com o ligante endógeno norepinefrina nos adrenoceptores a1, diminuindo, assim, o tônus do músculo liso vascular e reduzindo a pressão arterial. Lançando o efeito do antagonista competitivo em gráfi­ co, tem-se um deslocamento característico para a direita, da curva dose­ -resposta do agonista (Figura 2.1 2). B. Antagonistas irreversíveis Um antagonista irreversível causa uma redução do efeito máximo sem deslocamento da curva no eixo das doses, a menosque existam, presen­ tes, receptores de reserva. O efeito do antagonista competitivo pode ser superadocom adição de mais agonista. Ao contrário, o efeito dos antago- Farmacologia Ilustrada 33 Agonlstatotal Legenda: + Agonlstaparcial • Receptor completamenteativo Receptor parcialmenteativo Níveiselevadosdeagonlstapodem ativartodososreceptoreseprovocar estimulaçãoexcessivaIndesejada. +� Apresençadeagonistaparcial deslocaalgumasmoléculasde agonlsta,resultandonuma reduçãonarespostado receptor. Respostatotal Resposta produzida ___..,�, peloagonlsta total -10 -8 -6 Log(agonlstaparcial) Respostaproduzida peloagonlstaparcial Emconcentraçãoelevadadeagonista parcial,oagonlstaestácompleta­ mentedeslocadoeaatividadedo receptoré determinadapelaatividade intrínsecadoagonlstaparcial. Figura 2.11 Efeitos dos agonistas parciais.
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    34 Clark, Finkel,Rey &Whalen o .� CJI •O õ :s o - · - di Fármacocom antagonista nãocompetitivo Fármaco isolado ) Fármacocom antagonista competitivo ) Concentraçãodofármaco t CEso paraofármaco isoladoouna presençadeum antagonista nãocompetitivo Figura 2.12 t CEso paraofármac.o napresençade umantagonista competitivo Efeitosdefármacosantagonistas. CE50= dose do fármaco que provoca 50° / o da resposta máxima. nistas irreversíveis não pode sersuperado adicionando mais agonista. Os antagonistas competitivos aumentam a DE50, enquanto os antagonistas irreversíveis não o fazem (exceto que haja receptores de reserva). Há dois mecanismos pelos quais um fármaco pode atuar como antagonis­ ta não competitivo. O antagonista pode ligar-se covalentemente ou com afinidade muito alta ao local ativo do receptor (antagonista irreversível). Esta irreversibilidade reduz o número de receptores disponíveis para o agonista. O agonista não consegue deslocar o antagonista, mesmo que a dose aumente. O segundo tipo de antagonistas se fixa em um local ("local alostérico") diferente do que o local de ligação do agonista. Este antagonista alostérico impede o receptor de ser ativado mesmo quando o agonista está fixado no local ativo. Se o antagonista se fixa a um lo­ cal diferente do que se liga o agonista, a interação é "alostérica". Existe uma diferença na curva dose-resposta de um agonista na presença de um antagonista competitivo e de um não competitivo. Na presença do antagonista competitivo, a resposta máxima do agonista pode ser alcan­ çada aumentando a dose de agonista. O resultado é um aumento no valor de CE50 e manutenção da eficácia do agonista (ver Figura 2.12). Na presença de um antagonista não competitivo, a resposta máxima não é observada mesmo aumentando a dose do agonista. Portanto, a diferença fundamental entre o antagonista competitivo e o não competitivo é que no competitivo o antagonista reduz a potência do agonista, e o não competi­ tivo reduz a eficácia do agonista. C. Antagonismo funcional e químico Um antagonista pode atuar em um receptor completamente separado, iniciando eventos que são funcionalmente opostos aos do agonista. O exemplo clássico é o antagonismo funcional pela epinefrina da bronco­ constrição induzida por histamina. A histamina se liga aos receptores H1 histamínicos na musculatura lisa bronquial, causando contração e es­ treitamento da árvore respiratória. A epinefrina é um agonista nos adre­ norreceptores 132 na musculatura lisa bronquial, que promove o relaxa­ mento do músculo. O antagonismo funcional também é conhecido como "antagonismo fisiológico". O antagonismo químico evita as ações de um agonista, modificando-o ou sequestrando-o, de modo que fica incapaz de se ligar e de ativar seu receptor. Por exemplo, o sulfato de protamina é um antagonista químico da heparina (ver p. 251). Ele é uma proteína básica (com cargas positivas) que se fixa à heparina ácida (com cargas negativas), prevenindo rapidamente seus efeitos terapêuticos, bem como os tóxicos. (O antagonismo farmacocinético descreve a situação na qual o antagonismo diminui de modo eficaz a concentração do fármaco ativo. Isto pode acontecerquando a absorção do fármaco diminui ou se aumen­ tam a biotransformação e a excreção renal do fármaco.) - VI. RELAÇOES DOSE-RESPOSTA QUANTAIS Outra relação dose-resposta importante é a da influência da intensidade da dose na proporção da população que responda a essa dose. Essas respostas são conhecidas como respostas quantais, pois, paracada indiví­ duo, o efeito se desenvolve ou não. Mesmo respostas graduais podem ser consideradas quantais se um determinado nível de resposta gradual for designado como o ponto no qual a resposta ocorre ou não. Por exemplo, pode ser determinada uma relação dose-resposta quanta! na população para o anti-hipertensivo atenolol. A resposta positiva é definida como uma redução de no mínimo 5 mmHg na pressão sanguínea diastólica. Curvas dose-resposta quantais são úteis na determinação das doses às quais a maioria da população responde.
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    , A. lndice terapêutico Oíndice terapêutico (IT) de um fármaco é a relação da dose que produz toxicidade com a dose que produz o efeito eficaz ou clinicamente deseja­ do em uma população de indivíduos: Índice terapêutico = DT50 1 DE50 em que DT50 = a dose do fármaco que produz efeito tóxico em metade da população, e DE50 = a dose do fármaco que produz uma resposta tera­ pêutica ou desejada na metade da população. O índice terapêutico é uma mensuração da segurança do fármaco, pois um valor elevado indica uma grande margem entre as doses que são efetivas e as que são tóxicas. B. Determinação do índice terapêutico O índice terapêutico é determinado pela mensuração da frequência da resposta desejada e da resposta tóxica em várias doses do fármaco. Por convenção, as doses que produzem o efeito terapêutico (DE50) e o efei­ to tóxico em 50° / o (DT50) da população são empregadas. Em humanos, o índice terapêutico é determinado pelo uso de triagem do fármaco e pela experiência clínica acumulada. Em geral, eles revelam uma faixa de doses eficazes e uma faixa distinta (algumas vezes, com sobreposição) de doses tóxicas. Embora alguns fármacos tenham índices terapêuticos pequenos, eles são usados rotineiramente para tratar certas doenças. Várias doenças letais, como linfomade Hodgkin, são tratadas com fárma­ cos que têm índice terapêutico pequeno; mas, porexemplo, o tratamento de uma cefaleia simples com fármaco de índice terapêutico pequeno é inaceitável. A Figura 2.13 mostra as respostas à varfari na, um anticoa­ gulante oral com índice terapêutico pequeno, e à penicilina, um fármaco antimicrobiano com índice terapêutico amplo. 1. Varfarina (exemplo de fármaco com índice terapêutico peque­ no). À medida que a dose de varfarina aumenta, uma maior fração dos pacientes responde (para essefármaco, a resposta desejada é o aumento de duas a três vezes na relação normalizada internacional [INR]), até quefinalmente todos os pacientes respondem (ver Figura 2.13A). Contudo, nas doses mais elevadas de varfarina, ocorre uma resposta tóxica, ou seja, um elevado grau de anticoagulação que resulta em hemorragia. (Nota: quando o índice terapêutico é baixo, é possível ter uma faixa de concentrações em que a resposta eficaz e a tóxica se sobrepõem. Isto é, alguns pacientes têm hemorragia, e outros alcançam o prolongamento desejado de duas a três vezes no INR.) A variação na resposta do paciente é, portanto, mais provável de ocorrer com um fármaco que tem índice terapêutico baixo, pois as concentrações eficazes e tóxicas são similares. Fármacos com índices terapêuticos pequenos - ou seja, fármacos para os quais a dose é crucialmente importante - são aqueles cuja biodisponibilida­ de altera de modo crítico o efeito terapêutico (ver p. 8). 2. Penicilina (exemplo de fármaco com índice terapêutico amplo). Para fármacos como a penicilina (ver Figura 2.138), é seguro e co­ mum administrar doses em excesso (com frequência, com excesso de 1O vezes) daquela que é a minimamente necessária para alcan­ çar a resposta desejada. Nesse caso, a biodisponibilidade não alte­ ra criticamente os efeitos terapêuticos ou clínicos. cn J!! ii100 · - u ! CP Farmacologia Ilustrada 35 Varfarina: índice terapêutico pequeno Janela terapêutica ,---A--.. 'O 50 Efe�o E terapêutico Efeito & desej�do adverso � 1 (indesejado) � º � � � ---- � � � � o a. cn � 100 CP 'ij li -8 E50 i e B ê5 o a. Logconcentraçãodo fármaconoplasma (unidadesarbitrárias) Penicilina: índice terapêutico amplo Janela terapêutica Efeito terapêutico Efeito desejado adverso Logconcentraçãodo fármaconoplasma (unidadesarbitrárias) (indesejado Figura 2.13 Porcentagem cumulativa de pacientes que respondem aos níveis plasmáticos de varfarina e benzi/penicilina.
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    36 Clark, Finkel,Rey &Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 2.1 O fármaco X provoca uma contração máxima do músculo cardíaco de modo similar à epinefrina. O fármaco X é con­ siderado um: A. Agonista B. Agonista parcial C. Antagonista competitivo D. Antagonista irreversível E. Agonista inverso 2.2 Qual das seguintes afirmativas está correta? A. Se 1O mg do fármaco A produzem a mesma resposta que 100 mg do fármaco B, o fármaco A é mais eficaz do que o fármaco B. B. Quanto maior a eficácia, maior a potência do fármaco. C. Na seleção de um fármaco, a potência em geral é mais útil do que a eficácia. D. O antagonismo competitivo aumenta a DE50• E. Variações na resposta a um fármaco entre pessoas diferentes ocorrem mais provavelmente com fármacos que têm índice terapêutico amplo. 2.3 As variações na sensibilidade da população ao aumento de doses de um fármaco devem ser estimadas por meio de: A. Eficácia B. Potência c. Índice terapêutico D. Curva dose-resposta gradual E. Curva dose-resposta quanta! 2.4 Qual das seguintes afirmativas descreve de forma mais precisa o sistema que tem receptores de reserva? A. O número de receptores de reserva determina o efeito , . maxrmo. B. Os receptores de reserva são sequestrados no citosol. C. Uma simples interação fármaco-receptor resulta na ati­ vação de vários elementos da resposta celular. D. Os receptores de reserva são ativos mesmo na pre­ sença do agonista. E. A afinidade dos agonistas pelos receptores de reser­ va é menor do que sua afinidade pelos receptores que não são de reserva. Resposta correta = A. Um agonista mimetiza as ações do ligante en­ dógeno. Um agonistaparcial só produz um efeito parcial. Um antago­ nista bloquearia ou diminuiria os efeitos de um agonista endógeno produzindo um efeitoopostoàquele do ligante endógeno. Um agonis­ ta inverso reverte a atividade constitutiva dos receptores e exerce um efeitofarmacológico oposto do agonista. Resposta correta = D. Na presença de um antagonista competitivo, é necessária uma maior concentração de fármaco para provocar uma determinada resposta. A eficácia e a potência podem variar inde­ pendentemente e, com frequência, a resposta máxima obtida é mais importante do que a quantidade de fármaco necessária para obtê­ ·la. Por exemplo, na alternativa A, não foi dada nenhuma informação sobrea eficácia do fármacoA;assim, só pode-sedizerque o fármaco A é mais potente do que o B. A variabilidade entre os pacientes na farmacocinética de um fármacoé mais importanteclinicamente quan­ do a dose eficaz e a tóxica não são muito diferentes, como é o caso de um fármaco que tem índice terapêutico pequeno. Resposta correta = E. Somente curvas dose-resposta quantais dão informações sobre diferenças na sensibilidade de indivíduos ao au­ mentode doses de um fármaco. Resposta correta = C. Uma explicação para a existência de recepto­ res de reserva é que qualquer ligação agonista-receptor pode levarà ativação de vários elementos de resposta celular. Assim, só uma pe­ quena fração do total de receptores precisa ser ativada para obter a resposta celular máxima.As outras opções não descrevem sistemas receptores de reserva em precisão.
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    ervoso 1. RESUMO O sistemanervoso autônomo (SNA), junto com o sistema endócrino, coordena a regulação e a integração das funções corporais. O sistema endócrino envia sinais aos tecidos-alvo, variando os níveis de hormônios na corrente sanguínea. O sistema nervoso exerce sua influência pela rápida transmissão de impulsos elétricos nas fibras nervosas que terminam nas células efetoras, as quais res­ pondem especificamente à liberação de substâncias neurotransmissoras. Fár­ macos que produzem seu efeito terapêutico primário, mimetizando ou alterando as funções do SNA, são denominados fármacos autonômicos e são discutidos nos próximos quatrocapítulos. Esses fármacos autonômicosatuam estimulando porçõesdo SNAou bloqueandoasações dos nervosautonômicos. Este capítulo resume a fisiologia fundamental do SNA e descreve o papel dos neurotransmis­ sores na comunicação entre eventos extracelulares e alterações químicas no interiorda célula. Sistema nervoso - li. INTRODUÇAO AO SISTEMA NERVOSO Sistema nervoso periférico Divisão eferente Sistema autonômo -Entérico Sistema nervoso central Divisão aferente Sistema somático O sistema nervoso está dividido em duas seções anatômicas: o sistema nervo­ so central (SNC), que compreende o cérebro e a medula espinal, e o sistema -Parassimpático . , . - nervoso periférico, que inclui os neurônios localizados fora do cérebro e da me- Simpatico dula espinal - ou seja, qualquer nervo que entra ou sai do SNC (Figura 3.1). O sistema nervoso periférico se subdivide em: eferente, os neurônios que trans- Figura 3·1 portam os sinais oriundos do cérebro e da medula espinal; e em aferente, os Organização do sistema nervoso. neurônios que trazem as informações da periferia ao SNC. Os neurônios afe- rentes trazem os impulsos sensoriais para modulara função da divisão eferen- te por meio de arcos reflexos ou vias neurais que intermedeiam a ação reflexa. A. Divisão funcional do sistema nervoso A porção eferente do sistema nervoso periférico é dividida em dois sis­ temas funcionais principais: o sistema somático e o sistema autônomo (ver Figura 3.1). Os neurônios eferentes somáticos estão envolvidos no
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    38 Clark, Finkel,Rey &Whalen Troncocerebral oumedula espinal Corpocelular-+��e D Figura 3.2 Transmissorganglionar • � Transmissorneuroefetor Órgão efetor Neurônios eferentes do sistema nervo­ so autônomo. controle voluntário de funções como a contração dos músculos esqueléti­ cos, essencial paraa locomoção. O sistema autônomo, porsua vez, regu­ la as exigências diárias das funções corporais vitais sem a participação consciente do cérebro. Devido à natureza involuntáriado 8NA, bem como das suas funções, ele também é denominado sistema nervoso visceral, vegetativo ou involuntário. Ele é composto de neurônios eferentes que inervam os músculos lisos das vísceras, o músculo cardíaco, o vascular e as glândulas exócrinas, controlando, assim, a digestão, o débito cardíaco, o fluxo sanguíneo e as secreções glandulares. B. Anatomia do sistema nervoso autônomo 1 . Neurônios eferentes. O 8NA transporta impulsos nervosos do 8NC para os órgãos efetores por meio de dois tipos de neurônios eferentes (Figura 3.2). O primeiro é o neurônio pré-ganglionar (seu corpo celular está localizado no interior do 8NC). Os neurônios pré­ -ganglionares emergem do tronco cerebral ou da medula espinal e fazem sinapse em gânglios (uma agregação de corpos celulares de nervos localizados na periferia do sistema nervoso periférico). Esses gânglios funcionam como um relé entre o neurônio pré-gan­ glionar e o pós-ganglionar. O neurônio pós-ganglionar tem corpo celular no gânglio. Ele, em geral, é não mielinizado e termina nos ór­ gãos efetores, como músculos lisos das vísceras, músculo cardíaco e glândulas exócrinas. 2. Neurônios aferentes. Os neurônios aferentes (fibras) do 8NA são importantes na regulação reflexa desse sistema (p. ex., sentindo a pressão nos seios carotídeos e no arco aórtico) e na sinalização do 8NC para influenciar os ramos eferentes do sistema para proceder os ajustes. 3. Neurônios simpáticos. O 8NA eferente é dividido nos sistemas nervosos simpático, parassimpático e entérico (ver Figura 3.1). Anatomicamente, os neurônios simpáticos e parassimpáticos se originam no 8NC e emergem de duas regiões diferentes da medu­ la espinal. Os neurônios pré-ganglionares do sistema simpático se originam das regiões torácica e lombar da medula espinal (T1 à L2) e fazem sinapse em duas cadeias de gânglios que correm próximos e paralelos em cada lado da medula espinal. Os neurônios pré-gan­ glionares são curtos comparados com os pós-ganglionares. Os axô­ nios dos neurônios pós-ganglionares se estendem desses gânglios até os tecidos que eles inervam e regulam (ver Capítulo 6). Devido à sua origem, o sistema nervoso simpático também é denominado di­ visão toracolombar. Na maioria dos casos, as terminações nervosas pré-ganglionares do sistema nervoso simpático ramificam-se muito, permitindo que um neurônio pré-ganglionar interajacom vários neu­ rônios pós-ganglionares. Esta estruturação permite a esta divisão do 8NA ativar numerosos órgãos efetores ao mesmo tempo. (Nota: a medula suprarrenal, como os gânglios simpáticos, recebe fibras pré-ganglionares do sistema simpático. Ela, sem axônios, em res­ posta à estimulação pelo neurotransmissor ganglionar acetilcolina, influencia outros órgãos secretando o hormônio epinefrina, também denominado adrenalina, e menores quantidades de norepinefrina no sangue.) 4. Neurônios parassimpáticos. As fibras pré-ganglionares paras­ simpáticas emergem com os nervos craniais Ili (oculomotor), VII (facial), IX (glossofaríngeo) e X (vago), bem como da região sacral da medula espinal (82 a 84) e fazem sinapse nos gânglios próxi­ mos dos órgãos efetores. (O nervo vago contém 90o/o das fibras
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    parassimpáticas pré-ganglionares doorganismo. Os neurônios pós-ganglionares destes nervos inervam a maioria dos órgãos nas cavidades torácica e abdominal.) Devido à origem do sistema nervoso parassimpático, ele também é denominado divisão cra­ niossacral.Assim, em contraste com o sistema simpático, as fibras pré-ganglionares são longas e as pós-ganglionares são curtas. Os gânglios se situam próximos ou no interior do órgão inervado. Na maioria dos casos, existe uma relação um-para-um entre os neu­ rônios pré e pós-ganglionares, permitindo uma resposta localizada desta divisão. 5. Neurônios entéricos. O sistema nervoso entérico é a terceira divi­ são do SNA. Ele compreende uma coleção de fibras nervosas que inervam o TGI, o pâncreas e a vesícula biliar, constituindo-se no "cérebro do intestino". Esse sistema funciona independentemente do SNC e controla a motilidade, as secreções exócrinas e endócri­ nas e a microcirculação do TGI. Ele é modulado tanto pelo sistema nervoso simpático quanto pelo parassimpático. C. Funções do sistema nervoso simpático Embora continuamente ativa em algum grau (p. ex., na manutenção do tônus do leito vascular), a divisão simpática tem a propriedade de ade­ quar a resposta às situações estressantes, como trauma, medo, hipogli­ cemia, frio e exercício (Figura 3.3). OLHO Emvermelho=efeitossimpáticos Emazul=efeitosparassimpáticos Contraçãodomúsculo radialdaíris(pupiladilata) Contraçãodomúsculo esfincter(pupilacontrai) contraçãodomúsculociliar (cristalinoseacomodaparavisãopróxima) TRAQUEIAEBRONQUÍOLOS Dilatação Constriçãoaumentamassecreções MEDULASUPRARRENAL Secreçãodeepinefrinaenorepinefrina RINS Secreçãodarenina(131 aumenta; a1 diminui) URETEREBEXIGA Relaxaomúsculodetrusor; contraçãodotrígonoedoesfincter Contraçãododetrusor; relaxamentodotrígonoedoesfincter GENITÁLIA(MASCULINA) Estimulaaejaculação Estimulaaereção Figura 3.3 Ação dos sistemas nervosos parassimpático e simpático nos órgãos efetores. Farmacologia Ilustrada 39 GLÂNDULASLACRIMAIS Estimulalacrimação GLÂNDULASSALIVARES Secreçãoespessa,viscosa Secreçãoabundante,aquosa CORAÇÃO Aumentaafrequênciaeacontratilidade Diminuiafrequênciaeacontratilidade GASTRINTESTINAL Diminuiamotilidadeeotônusmuscular; contraçãodosesfíncteres Aumentaamotilidadeeotônusmuscular GENITÁLIA(FEMININA) Relaxamentodoútero VASOSSANGUÍNEOS (músculoesquelético) Dilatação VASOSSANGUÍNEOS (pele,membranasmucosas eáreaesplãncnica) Constrição
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    40 Clark, Finkel,Rey &Whalen Estímulos "luteoufuja" Descargasimpática (difusa porque os neurônios pós-ganglionares podem inervar mais de um órgão) Estímulos "repouseedigira" Descargaparassimpática (localizada porque os neurônios pós-ganglionares não são ramificados, mas se dirigem a um órgão específico) Asaçõessimpáticae parassimpáticacom frequênciaseopõem Figura 3.4 As ações simpática e parassimpática são desencadeadas por estímulos di­ ferentes. 1. Efeitos da estimulação da divisão simpática. O efeito do simpáti­ co é aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial, mobilizar reservas de energia do organismo e aumentar o fluxo sanguíneo para os músculos e o coração desviando-o da pele e dos órgãos internos. A estimulação simpática resulta em dilatação das pupilas e dos brônquios (Figura 3.3). Elatambém afeta a motilidade gastrin­ testinal e a função da bexiga e dos órgãos sexuais. 2. A resposta "lute ou fuja". As alterações experimentadas pelo orga­ nismo durante emergências têm sido referidas como respostas "lute ou fuja" (Figura 3.4). Essas reações são iniciadas tanto por ativação simpática direta dos órgãos efetores quanto por estimulação da me­ dula suprarrenal, liberando epinefrina e, em menor extensão, norepi­ nefrina.Os hormônios liberados pelasuprarrenal entram na circulação sanguínea e promovem resposta nos órgãos efetores, que contêm re­ ceptores adrenérgicos (ver Figura 6.6). O sistema nervoso simpático tende a funcionar como uma unidade e com frequência descarrega como um sistema completo - por exemplo, durante um exercício in­ tenso ou em reações de medo (ver Figura 3.4). Esse sistema, com sua distribuição difusa das fibras pós-ganglionares, está envolvido com umaamplavariedade de atividadesfisiológicas. Embora não seja essencial para avida, é um sistema importante que preparao organis­ mo para lidarcom situações incertas e estímulos inesperados. D. Funções do sistema nervoso parassimpático A divisão parassimpática está envolvida com a manutenção da homeos­ tasia do organismo. Para realizar esta atividade, mantém as funções corporais essenciais, como os processos digestórios e a eliminação de resíduos. A divisão parassimpática é necessária para a vida. Geralmente ela atua para oporou para equilibrar as ações da divisão simpática e, em geral, é dominante sobre o sistema simpático e situações de "repouse e digira". O sistema parassimpático não é uma entidade funcional como tal e nunca descarrega como um sistema completo. Se isso acontecer, ele produz sintomas massivos, indesejáveis e desagradáveis, como micção e defecação involuntária. De fato, apenas algumas fibras parassimpáticas são ativadas separadamente, e o sistema funciona para afetar órgãos específicos, como o estômago ou o olho. E. Papel do sistema nervoso central no controle das funções autônomas Embora o SNA seja um sistema motor, ele requer impulsos sensoriais de estruturas periféricas para proporcionar informações sobre o estado das funções do organismo. Essa retroalimentação é proporcionada pelas ondas de impulsos aferentes, originados nas vísceras e em outras estru­ turas inervadas pelo sistema autônomo, que vão até os centros integra­ dores no SNC - como, o hipotálamo, o bulbo e a medula espinal. Esses centros respondem ao estímulo enviando impulsos reflexos eferentes por meio do SNA (Figura 3.5). 1. Arcos reflexos. A maioria dos impulsos aferentes é transforma­ da em respostas reflexas sem envolvimento da consciência. Por exemplo, uma redução da pressão arterial determina que neurônios sensíveis à pressão (barorreceptores no coração, veia cava, arco aórtico e seios carotídeos) enviem menos impulsos aos centros car­ diovasculares no cérebro. Isso determina uma resposta reflexa de aumento do débito simpático ao coração e aos vasos e diminui o débito parassimpático para o coração, resultando em um aumen­ to compensador da pressão arterial e taquicardia (ver Figura 3.5).
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    (Nota: em cadacaso, o arco reflexo do SNA compreende um ramo sensorial [aferente] e um ramo motor [eferente ou efetor]). 2. Emoções e o SNA. Estímulos que provocam sensações fortes, como raiva, medo ou prazer, podem modificar a atividade do SNA. F. Inervação pelo sistema nervoso autônomo 1 . Inervação dupla. A maioria dos órgãos do organismo é inervada por ambas as divisões do SNA. Assim, a inervação parassimpáti­ ca vagai diminui a frequência cardíaca, e a inervação simpática a aumenta. Apesar dessa inervação dual, um sistema em geral pre­ domina no controle da atividade de um dado órgão. Por exemplo, no coração, o nervo vago é o fator predominante no controle da frequência. Esse tipo de antagonismo é dinâmico e tem ajuste fino a cada instante, visando ao controle homeostático da função orgâni­ ca. A atividade de um sistema representa a integração da influência das duas divisões. 2. Órgãos que só recebem a inervação simpática. Embora a maioria dos tecidos receba inervação dual, alguns órgãos efetores, como a medulasuprarrenal, os rins, os músculos piloeretores e as glândulas sudoríparas, recebem somente inervação do sistema simpático. O controle da pressão arterial também é uma atividade principalmente simpática, sem participação significativa do sistema parassimpático. G. Sistema nervoso somático O sistema nervoso somático eferente difere do sistema autônomo pelo fato de um único neurônio motor mielinizado, originado no SNC, ir direta­ mente ao músculo esquelético sem a intermediação de gânglios. Como já salientado, o sistema nervoso somático está sob controle voluntário, e o autônomo é um sistema involuntário. Em geral, as respostas na divisão somática são mais velozes do que as do SNA. H. Resumo das diferenças entre os nervos simpáticos, parassimpáticos e motores As principais diferenças na organização anatômica dos neurônios levam a variações nas funções de cada divisão (Figura 3.6). O sistema nervoso simpático é amplamente distribuído, inerva praticamente todos os siste­ mas efetores do organismo. Em contraste, a distribuição dadivisão paras- Farmacologia Ilustrada 41 D INFORMAÇÃO AFERENTE Impulsossensoriaisdeorigemvisceral: • Quedanapressãoarterial. • Menorestiramentodos barorreceptoresnoarcoaórtico. • Menorfrequênciadosimpulsos aferentesparaobulbo(troncocerebral). fl RESPOSTA REFLEXA Impulsoseferentesreflexosatravés dosistemanervosoautônomocausam: • Inibiçãodadivisãoparassimpática eativaçãodadivisãosimpática. • Aumentodaresistênciaperiféricae dodébitocardíaco. • Aumentoda pressãoarterial. Figura 3.5 Arco reflexo barorreceptor responde à diminuição da pressão arterial. SIMPÁTICO PARASSIMPÁTICO • Origem Comprimento das fibras Localização dos gânglios Ramificação das fibras pré-ganglionares Distribuição Tipos de respostas Figura 3.6 Região torácica e lombar da medula espinal (toracolombar) Pré-ganglionares curtas Pós-ganglionares longas Próximos à medula Extensa Ampla Difusas Características dos sistemas nervosos simpático e parassimpático. • Area cerebral e sacral da medula espinal (craniossacral) Pré-ganglionares longas Pós-ganglioinares curtas Próximo ou no interior do órgão efetor Mínima Limitada Discretas
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    42 Clark, Finkel,Rey &Whalen Sinalizaçãoendócrina Hormônio Célula­ -alvo Vasosangu1neo Contato direto Célula sinalizadora Junção estreitada �élula- "----"--J -aIvo Sinalização sináptica ----:--- � � º Cél!a I .....___.... Célula­ /-alvo nervosa Neurotransmissor Figura 3.7 Alguns mecanismos usados comumen­ te para a transmissão de sinais regula­ dores entre as células. Ili. simpática é mais limitada. As fibras pré-ganglionares simpáticastêm uma influência muito mais ampla do que as fibras parassimpáticas e fazem sinapse com um número maior de fibras pós-ganglionares. Este tipo de organização permite a descarga difusa do sistema nervoso simpático. A divisão parassimpática é mais circunscrita, com interações uma-a-uma, e os gânglios estão próximos ou no interior do órgão que inervam. Isto limita o número de ramificações que esta divisão consegue fazer. (Uma exceção importante a este arranjo é encontrada no plexo mioentérico, onde se verificou que um neurônio pré-ganglionar interage com 8.000 ou mais fibras pós-ganglionares.) O arranjo anatômico do sistema paras­ simpático resulta em funções distintas desta divisão. O sistema nervoso somático inerva os músculos esqueléticos. Um axônio motor somático é altamente ramificado e cada ramo inerva uma fibra muscular simples. Assim, um neurônio motor somático pode inervar 100 fibras musculares. Este arranjo leva à formação da unidade motora. A ausência de gânglios e a mielinização dos nervos motores permite uma resposta rápida por este sistema nervoso somático. SINALIZAÇÃO QUÍMICA ENTRE AS CÉLULAS A neurotransmissão no SNA é um exemplo de um processo mais geral de sinalização química entre as células. Além da neurotransmissão, outros tipos de sinalização química incluem a secreção de hormônios e a liberação de mediadores locais (Figura 3.7). A. Hormônios Células endócrinas especializadas secretam hormônios na circulação, onde eles se deslocam pelo organismo exercendo efeitos em células-alvo amplamente distribuídas. (Hormônios sãodescritos nos Capítulos 23 a26.) B. Mediadores locais A maioria das células do organismo secreta substâncias químicas que atuam localmente, ou seja, nas células do seu ambiente imediato. Como esses sinalizadores químicos são destruídos ou removidos rapidamente, eles não entram na circulação e não são distribuídos pelo organismo. A histamina (ver p. 550) e as prostaglandinas (ver p. 549) são exemplos de mediadores locais. C. Neurotransmissores Todos os neurônios são unidades anatômicas distintas e não há con­ tinuidade estrutural entre eles. A comunicação entre os neurônios - e entre os neurônios e os órgãos efetores - ocorre por meio da emissão de sinais químicos específicos, denominados neurotransmissores, pelos terminais nervosos. Essa liberação é desencadeada pela chegada do potencial de ação no terminal nervoso, levando à despolarização. Um aumento no Ca 2 + intracelular inicia a fusão das vesículas sinápticas com a membrana pré-sináptica e a liberação do seu conteúdo. Os neurotrans­ missores difundem-se rapidamente pela fenda ou pelo espaço sináptico entre os neurônios e combinam-se com receptores específicos na célula pós-sináptica (alvo) (Figura 3.8; ver Capítulo 2). 1. Receptores de membrana. Todos os neurotransmissores e a maio­ ria dos hormônios e mediadores locais são muito hidrofílicos para penetrara camada bimolecular lipídica das membranas plasmáticas das células-alvo. Então, o sinal é mediado pela ligação a receptores específicos na superfície celular dos órgãos-alvo. (Nota: o receptor é
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    Neurônio pré-ganglionar Transmissor ganglionar Transmissor neuroefetor Figura 3.8 Inervaçãosimpáticada suprarrenal Acetilcolina • Receptor nicotínico Suprarrenal Epinefrina liberadana circulação � Receptor adrenérgico , AUTÔNOMO Simpático Acetilcolina • Receptor ,,____.. nicotínico Norepinefrina Receptor adrenérgico Orgãosefetores Parassimpático Acetilcolina • Receptor T---r nicotínico Acetilcolina Receptor muscarínico Farmacologia Ilustrada 43 SOMÁTICO Semgânglio Acetilcolina • �ceptor� /nicotínico"- Músculo esquelético Resumo dos neurotransmissores liberados e dos tipos de receptores encontrados nos sistemas nervosos autônomo e somático. (Nota: este diagrama não mostra que os gânglios parassimpáticos estão próximos ou na própria superfície dos órgãos efetores e que as fibras pós-ganglionares em geral são mais curtas do que as fibras pré-ganglionares. Em contraste, os gânglios do sistema nervoso simpático estão próximos da medula espinal. As fibras pós-ganglionares são longas, permitindo uma ramificação extensa para inervar mais de um sistema orgânico. Essa disposição permite que o sistema nervoso simpático envie impulsos como uma unidade.) * 80° / o de epinefrinae 20° / o de norepinefrina são liberados da suprarrenal. definido como um local de reconhecimento de uma substância. Ele apresenta especificidade de ligação e é acoplado a processos que, por fim, provocam uma resposta.) Os receptores, em sua maioria, são proteínas. 2. Tipos de neurotransmissores. Embora mais de 50 moléculas sinalizadoras tenham sido identificadas no sistema nervoso, seis compostos - incluindo norepinefrina (e a muito relacionada epi­ nefrina), acetilcolina, dopamina, serotonina, histamina e ácido 'Y-aminobutírico - estão com mais frequência envolvidos com as ações dos fármacos terapeuticamente úteis. Cada uma dessas substâncias sinalizadoras se liga a uma família específicade recep­ tores.A acetilcolina e a norepinefrina são os principais sinalizadores químicos no SNA, e uma ampla variedade de neurotransmissores
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    44 Clark, Finkel,Rey &Whalen Transmissor pré-ganglionar Transmissor ganglionar Transmissor neuroefetor Figura 3.9 Inervaçãosimpática dasuprarrenal Acetilcolina • Receptor /�--... nicotínico Suprarrenal Epinefrinaliberada nacirculação l ... Cf>;:.itor adrenérgico funciona no SNC. Não só esses neurotransmissores são liberados na estimulação nervosa, mas também cotransmissores, como ade­ nosina, os quais frequentemente os acompanham e modulam o pro­ cesso de transmissão. a. Acetilcolina. A fibra nervosa autônoma pode ser dividida em dois grupos com base na natureza química do neurotransmissor liberado. Se a transmissão é mediada pela acetilcolina, o neu­ rônio é denominado colinérgico (Figura 3.9 e Capítulos 4 e 5). A acetilcolina intermedeia a transmissão do impulso nervoso atra­ vés dos gânglios autônomos nos sistemas nervosos simpático e parassimpático. Ela é a neurotransmissora na suprarrenal. A transmissão dos nervos pós-ganglionares autônomos para ór­ gãos efetores no sistema parassimpático e para alguns órgãos do sistema simpático também envolve a liberação de acetilcoli­ na. No sistema nervoso somático, a transmissão najunção neu­ romuscular (ou seja, entre a fibra nervosa e o músculo voluntá­ rio) também é colinérgica (ver Figura 3.9). AUTÔNOMO Simpático Acetilcolina • Receptor .,..____,,nicotínico Norepinefrina ter.epor adrenérg1co Órgãos efetores Parassimpático Acetilcolina • Receptor .,_...,, nicotínico Acetilcolina .•ecepto1 muscarínico SOMÁTICO Semgânglio Acetilcolina • � éceptor:::S::: :::;:::: nicotínico� Músculo esquelético Neurônios colinérgicos (vermelho) e adrenérgicos (azul) encontrados nos sistemas nervoso autonômico e somático.
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    b. Norepinefrina eepinefrina. Quando a norepinefrina ou a epi­ nefrinaé o transmissor, a fibra é denominada adrenérgica (adre­ nalina é outro nome da epinefrina). No sistema simpático, a no­ repinefrina intermedeia a transmissão dos impulsos dos nervos pós-ganglionares autônomos para o órgão efetor. A norepinefri­ na e os receptores adrenérgicos são discutidos nos Capítulos 6 e 7. Um resumo dos neuromediadores liberados e do tipo de re­ ceptores do sistema nervoso periférico é apresentado na Figu­ ra 3.9. (Nota: poucas fibras simpáticas, como as envolvidas na sudoração, são colinérgicas, e, para simplificação, elas não são representadas na figura. O músculo liso renal pós-ganglionar é inervado pela dopamina.) IV. SISTEMAS DE SEGUNDO MENSAGEIRO NA RESPOSTA INTRACELULAR A ligação dos sinalizadores químicos aos receptores ativa processos enzi­ máticos no interior da membrana celular. No final, esses processos resultam em uma resposta celular, como a fosforilação de proteínas intracelulares ou alterações na condutividade de canais iônicos. O neurotransmissor pode ser imaginado como um sinal; e o receptor, como o detector do sinal e transdu­ tor. Moléculas segundas mensageiras, produzidas em resposta à ligação do neurotransmissor, traduzem o sinal extracelular em uma resposta que pode ser propagada mais adiante ou amplificada no interior da célula. Cada com­ ponente serve como um elo na comunicação entre eventos extracelulares e alterações químicas no interior da célula (ver Capítulo 2). A. Receptores de membrana que afetam a permeabilidade .- . 1on1ca Os receptores de neurotransmissores são proteínas de membrana que disponibilizam o local de ligação que reconhece e responde à molécula neurotransmissora. Alguns receptores, como os receptores pós-sinápti­ cos dos nervos e músculos, são ligados diretamente a canais iônicos de membrana; assim, a ligação do neurotransmissor ocorre de modo rápido (em fração de milissegundos) e afeta diretamente a permeabilidade iô­ nica (Figura 3.1OA). (Nota: o efeito da acetilcolina nesses canais iônicos disparados porsubstância química é discutido na p. 27.) B. Regulação envolvendo moléculas segundas mensageiras Vários receptores não são acoplados diretamente a canais iônicos. Nes­ ses casos, o receptor sinaliza o reconhecimento da ligação de um neu­ rotransmissor iniciando uma série de reações, que no final resulta em uma resposta intracelular específica. Moléculas segundas mensagei­ ras - assim denominadas porque intervêm entre a mensagem inicial (o neurotransmissor ou hormônio) e o efeito final na célula - são parte de uma cascata de eventos que traduzem a ligação do neurotransmissorem uma resposta celular, em geral, por meio da intervenção de uma proteína G. Os dois segundos mensageiros mais amplamente reconhecidos são os sistemas adenililciclase e cálcio-fosfatidilinositol (Figura 3.108 e C). (Nota: G5 é uma proteína envolvida na ativação da adenililciclase, e Gq é uma subunidade que ativa a fosfolipase C para liberar diacilglicerol e trifosfato de inositol [ver p. 27].) Farmacologia Ilustrada 45 ft Recep�or!s�copiados W acanais1on1cos Neurotransmissor Espaço extracelular Membrana celular Membranacelular Citosol c1- � Alteraçõesnopotencialde membranaouconcentração iônicanointeriordacélula r:'I Receptoresacoplados l:il àadenililciclase Q Hormônioou � neurotransmissor Adenililciclase ativa AMPc+ PPi � Fosforilaçãodeproteínas f':! Receptoresacopladosao � diacilgliceroleao trifosfatodeinositol ProteínaGq Diacilglicerol � FosfolipaseC Trifosfato deinositol Fosforilaçãodeproteína eaumentodoCa2+intracelular Figura 3.10 Três mecanismos pelos quais a ligação com o neurotransmissor leva a um efeito biológico.
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    46 Clark, Finkel,Rey &Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 3.1 Qual das seguintes afirmativas com relação ao sistema nervoso parassimpático está correta? A. O sistema parassimpático usa norepinefrina como neurotransmissor. B. O sistema parassimpático com frequência reage como um sistema funcional unitário. C. A divisão parassimpática está envolvida na acomoda­ ção da visão próxima, no movimento do alimento e na micção. D. As fibras pós-ganglionares da divisão parassimpática são longas em comparação com as do sistema nervo­ so simpático. E. O sistema parassimpático controla a secreção da su­ prarrenal. 3.2 Qual dos seguintes efeitos é característico da estimulação parassimpática? A. Diminuição da motilidade intestinal. B. Inibição da secreção brônquica. C. Contração do esfíncter muscular da íris (miose). D. Contração do esfíncter da bexiga urinária. E. Aumento da frequência cardíaca. 3.3 Qual das seguintes opções é característica do sistema nervoso simpático? A. Uma resposta localizada para ativação. B. Ação mediada por receptores muscarínicos e nicotíni­ cos. C. Efeitos mediados exclusivamente por norepinefrina D. As respostas predominam durante atividade física ou quando se é ameaçado. E. Sujeito ao controle voluntário. 3.4 Um paciente se apresenta com salivação, lacrimejamen­ to, micção e defecação como efeito adverso de um me­ dicamento. Qual dos seguintes receptores intermedeia as ações deste fármaco? A. Receptores nicotínicos. B. Receptores a. C. Receptores muscarínicos. D. Receptores 13. Resposta correta = C. O sistema parassimpático mantém as funções corporais essenciais, como visão, movimento do alimento e micção. Ele usa acetilcolina, e não norepinefrina, como neurotransmissor e reage como fibras discretas que são ativadas separadamente. As fibras pós-ganglionares do sistema parassimpático são curtas em comparação com as da divisão simpática. A suprarrenal está sob controle do sistema simpático. Resposta correta = C. O sistema nervoso parassimpático é essen­ cial namanutenção de atividades como a digestão e a eliminaçãode resíduos. Assim, observa-se aumento da motilidade intestinal, facili­ tando o peristaltismo, o relaxamento do esfíncter vesical, permitindo a micção, e o aumento das secreções brônquicas. O aumento dafre­ quência cardíacaé função do sistema nervoso simpático. Respostacorreta = D. O sistemanervoso simpáticoé ativado porestí­ mulos"lute ou fuja". Paraobterativação rápida do sistema, o sistema nervososimpáticofaz descarga unitária. Os receptores que medeiam os efeitos do sistema nervoso simpático nos órgãos efetores são re­ ceptores tt e �- Como o sistema nervoso simpático é uma divisão do sistema nervoso autônomo, ele não está sujeito ao controle voluntá­ rio, mas funciona sem nossa consciência. Resposta correta = C. Os receptores muscarínicos do sistema ner­ voso parassimpático mantêm as funções essenciais do organismo, como a digestão e a eliminação de resíduos. Os receptores nicotíni­ cos são um receptor para acetilcolina. Eles têm função principal nos músculos esqueléticos, nos gânglios e na síntese de catecolaminas na suprarrenal. Os receptores tt e � são receptores para norepinefri­ na e epinefrina e sua ativação não provoca estes efeitos.
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    . , • o1 ner ICOS 1. RESUMO Os fármacos que afetam o sistema nervoso autônomo (SNA) são divididos em dois grupos, de acordo com o tipo de neurônio envolvido nos seus me­ canismos de ação. Os fármacos colinérgicos (descritos neste capítulo e no seguinte) atuam em receptores que são ativados pela acetilcolina (ACh), e os fármacos adrenérgicos (discutidos nos Capítulos 6 e 7) atuam em receptores que são estimulados pela norepinefrina ou epinefrina. Os fármacos colinérgi­ cos e adrenérgicos atuam estimulando ou bloqueando receptores do SNA. A Figura 4.1 resume os agonistas colinérgicos discutidos neste capítulo. li. O NEURÔNIO COLINÉRGICO A fibra pré-ganglionar que termina na suprarrenal, o gânglio autônomo (tanto parassimpático como simpático) e as fibras pós-ganglionares da divisão pa­ rassimpática usam acetilcolina como neurotransmissor (Figura 4.2). A divisão pós-ganglionar simpática das glândulas sudoríparas também usa ACh. Além disso, neurônios colinérgicos inervam os músculos do sistema somático e também desempenham função importante no SNC. (Nota: pacientes com a doença de Alzheimer têm perda significativa dos neurônios colinérgicos no lobo temporal e no córtex entorrinal. A maioria dos fármacos disponíveis para tratar essa doença são inibidores da acetilcolinesterase [ver p. 108].) A. A neurotransmissão nos neurônios colinérgicos A neurotransmissão nos neurônios colinérgicos envolve seis etapas sequen­ ciais: 1) síntese, 2) armazenamento, 3) liberação, 4) ligação da ACh ao recep­ tor, 5) degradação do neurotransmissor na fenda sináptica (ou seja, o espaço entre os terminais nervosos e os receptores adjacentes localizados nos ner­ vos ou órgãos efetores), e 6) reciclagem de colina e acetato (Figura 4.3). 1. Síntese de acetilcolina. A colina é transportada do líquido extrace­ lular para o citoplasma do neurônio colinérgico por um sistema car­ regador dependente de energia que cotransporta sódio e pode ser AÇÃO DIRETA Acetilcolina Betanecol Carbacol Cev imelina Pilocarpina AÇÃO INDIRETA (reversíveis) Ambenônio Donepezila Galantamina Neostigmina Fisostigmina Piridostigmina Rivastigmina Tacri na AÇÃO INDIRETA (irreversíveis) Ecotiofato REATIVADOR DE ACETILCOLINESTERASE Pralidoxima Figura 4.1 Resumo dos agonistas colinérgicos.
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    48 Clark, Finkel,Rey &Whalen 1 Figura 4.2 Inervação simpática da suprarrenal Acetilcolina � • Receptor nicotínico Suprarrenal Epinefrinaliberada nacorrentesanguínea --.. • Receptor adrenérgico inibido por hemico/ínio. (Nota: acolinatem um nitrogênio quaternário e carrega permanentemente umacarga positiva, e, dessaforma, não consegue difundir-se através da membrana.) A captação da colina é o passo limitante da síntese de ACh. A colina-acetiltransferase ca­ talisa a reação da colina com a acetilcoenzima A (CoA) para formar ACh (um éster) no citosol. A acetil-CoA é originada da mitocôndria e é produzida pela oxidação de piruvato e de ácidos graxos. 2. Armazenamento da acetilcolina em vesículas. A ACh é empa­ cotada em vesículas pré-sinápticas por um processo de transporte ativo acoplado ao efluxo de prótons. A vesícula madura contém não só ACh, mas também trifosfato de adenosina (ATP) e proteoglicano. (Nota: foi sugerido que o ATP é um cotransmissor que atua em re­ ceptores pré-juncionais purinérgicos inibindo a liberação de ACh ou norepinefrina.) A cotransmissão nos neurônios autônomos é uma regra, e não a exceção. Isso significa que a maioria das vesículas contém o neurotransmissor primário (neste caso, a ACh), e o co­ transmissor que aumenta ou diminui o efeito do neurotransmissor primário. Os neurotransmissores em vesículas, ao longo do terminal do nervo no neurônio pré-sináptico, parecem contas de um colar de pérolas e são denominadas varicosidades. 3. Liberação da acetilcolina. Quando um potencial de ação, propa­ gado por canais de sódio voltagem-dependentes, chega ao termi- AUTÔNOMO Simpático Acetilcolina � • Receptor .,__,.. nicot1nico Norepinefrina Receptor adrenérgico Órgãos efetores Parassimpático Acetilcolina � • Receptor ---------.. nicot1nico Acetilcolina � • Receptor , . muscarin1co SOMÁTICO Semgânglio Acetilcolina � • �ceptor � /nicotínico........._ Músculo estriado Locais de ação dos agonistas colinérgicos nos sistemas nervosos autônomo e somático.
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    nal nervoso, abrem-secanais de cálcio voltagem-dependentes na membrana pré-sináptica, causando um aumento na concentração de cálcio intracelular. Níveis elevados de cálcio promovem a fusão das vesículas sinápticas com a membrana celular e a liberação do seu conteúdo no espaço sináptico. Essa liberação pode ser blo­ queada pela toxina botulínica. Em contraste, a toxina da aranha viúva negra provoca a liberação de toda a ACh armazenada nas vesículas esvaziando-as na fenda sináptica. 4. Ligação com o receptor. A ACh liberada das vesículas sinápticas difunde-se através do espaço sináptico e se liga a um dos dois re­ ceptores pós-sinápticos na célula-alvo, ao receptor pré-sináptico na membranado neurônio que liberou a ACh ou a outros receptores-al­ vo pré-sinápticos. Os receptores pós-sinápticos colinérgicos na su­ perfície dos órgãos efetores são divididos em duas classes - mus­ carínicos e nicotínicos (ver Figura 4.4 e p. 50). A ligação ao receptor leva a uma resposta fisiológica no interior da célula, como o início de um impulso nervoso na fibra pós-ganglionar ou a ativação de enzimas específicas nas células efetoras mediados por moléculas segundas mensageiras (ver p. 29 e a seguir). Figura 4.3 � RECICLAGEM IL!JI DA COLINA • Acolinaécaptada peloneurônio. - DEGRADAÇAO DA ACETILCOLINA • Aacetilcolinaérapidamente hidrolisadapela acetilcolinesterasena fendasináptica. Colina ----,"""'"""-. Colina Na+_ ___, ..,.._ _. Na+ (AcCoA Ca2+ Acetilcolina Ji Jl O1 1 Vesícula / 9sináptica Ca2+ Colina Acetato Receptor pré-sináptico Acetilcolin J RESPOSTAINTRACELULAR Farmacologia Ilustrada 49 SÍNTESE DE ACETILCOLINA • Otransportedecolinaé inibidopelohemicolí nio. CAPTAÇÃO NAS VESÍCULAS DE ARMAZENAMENTO • Aacetilcolinaestáprotegidada degradaçãonointeriordavesícula. IE,:1 LIBERAÇÃO DO � NEUROTRANSMISSOR • Liberaçãobloqueada pelatoxinabotulínica. • Ovenenodearanhascausa liberaçãodeacetilcolina. LIGAÇÃO AO RECEPTOR • Oreceptorpós-sinápticoé ativadopelaligaçãocomo neurotransmissor. Síntese e liberação da acetilcolina do neurônio colinérgico. AcCoA = acetilcoenzima A.
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    50 Clark, Finkel,Rey &Whalen rJ Receptores muscarínicos Muscarina Acetilcolina Nicotina ... • • l l ' m ® = � = � IDifil Alta +- Baixa afinidade afinidade m Receptores nicotínicos Muscarina Acetilcolina Nicotina ... • • ' l l =-� IIDIDJ e = ' = Baixa +a Alta afinidade afinidade Figura 4.4 Tipos de receptores colinérgicos. 5. Degradação da acetilcolina. O sinal no local efetor pós-juncional termina rapidamente devido à hidrólise da ACh pela AChE forman­ do colina e acetato na fenda sináptica (ver Figura 4.3). (Nota: a bu­ 6. tirilcolinesterase, às vezes denominada pseudocolinesterase, é en­ contrada no plasma, mas não desempenha função significativa na terminação do efeito da ACh na sinapse.) Reciclagem da colina. A colina pode ser recaptada pelo sistema de transporte de alta afinidade, acoplado ao sódio, que a leva de volta para o interiordo neurônio, onde elaé acetilada a ACh e arma­ zenada até ser liberada por um potencial de ação subsequente. Ili. RECEPTORES COLINÉRGICOS (COLINOCEPTORES) Duas famílias de receptores colinérgicos, designados muscarínicos e nicotí­ nicos, podem ser diferenciadas entre si com base em suas diferentes afinida­ des parafármacos que mimetizam a ação da ACh (fármacos colinomiméticos ou parassimpaticomiméticos). A. Receptores muscarínicos Os receptores muscarínicos pertencem à classe dos receptores acopla­ dos à proteína G. Esses receptores, além de se ligarem à ACh, reconhe­ cem a muscarina, um alcaloide que está presente em certos cogumelos venenosos. Porém, os receptores muscarínicos apresentam baixa afini­ dade pela nicotina (Figura 4.4A). Estudos de ligação e inibidores específi­ cos, bem como caracterização por DNAc, diferenciaram cinco subclasses de receptores muscarínicos: M1, M2, M3, M4 e M5• Embora esses cinco receptores tenham sido identificados por clonagem gênica, apenas os receptores M1, M2 e M3 foram caracterizados funcionalmente. 1. Localizações dos receptores muscarínicos. Esses receptores se localizam em gânglios dosistema nervoso periférico e nosórgãos efe­ toresautonômicos, comocoração, músculos lisos, cérebroeglândulas exócrinas (ver Figura 3.3). Embora os cinco subtipos sejam encontra­ dos nos neurônios, receptores M1 também são encontrados nas célu­ las parietais gástricas; M2, nas células cardíacas e nos músculos lisos; e M3, na bexiga, nas glândulas exócrinas e no músculo liso. (Nota: fár­ macos com ações muscarínicas preferencialmente estimulam recep­ tores muscarínicos nesses tecidos, mas, em concentrações elevadas, podem mostraralguma atividade em receptores nicotínicos.) 2. Mecanismos de transdução do sinal pela acetilcolina. Inúmeros mecanismos moleculares diferentes transmitem o sinal gerado na ocupação do receptor pelaACh. Por exemplo, quando os receptores M1 ou M3 são ativados, o receptorsofre uma mudança conformacio­ nal e interage com uma proteína G, designada Gq, a qual, por sua vez, ativa a fosfolipase C. 1 Isso leva à hidrólise de fosfatidilinositol­ -(4,5)-bifosfato para produzir diacilglicerol (DAG) e trisfosfato (1 ,4,5) de inositol (IP3). Ambos, IP3 e DAG são segundos mensageiros. O trifosfato (1 ,4,5) de inositol causa aumento do Ca 2 + intracelular (ver Figura 3.1OC, p. 45). Esse cátion então pode estimular ou inibir en­ zimas ou causar hiperpolarizacão, secreção ou contração. O diacil­ glicerol ativa a proteína quinase C. Esta enzima fosforila inúmeras proteínas no interior da célula. Em contraste, a ativação do subtipo 1Ver Bioquí mica Ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre o trifosfato de inositol e a sinalização intracelular.
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    M2 no músculocardíaco estimula a proteína G, denominada Gi, a qual inibe a resposta da adenililciclase 2 e aumenta a condutância do K+ (ver Figura 3.108, p. 45). O coração responde diminuindo a velocidade e a força de contração. 3. Agonistas e antagonistas muscarínicos. Atualmente são feitos esforços para desenvolver agonistas e antagonistas muscarínicos que atuem em subtipos específicos de receptores. Por exemplo, pi­ renzepina, um fármaco anticolinérgico tricíclico, tem maior seletivi­ dade para inibir receptores muscarínicos M,, como os da mucosa gástrica. Em doses terapêuticas, a pirenzepina não causa vários dos efeitos adversos observados com outros fármacos não subtipo­ -específicos; contudo, ela produz taquicardia reflexa na infusão rá­ pida devido ao bloqueio dos receptores M2 cardíacos. Portanto, a utilidade da pirenzepina como alternativa aos inibidores da bomba de prótons no tratamento das úlceras gástricas e duodenais é ques­ tionável. A darifenacina é um antagonista de receptor muscarínico competitivo com uma maior afinidade pelo receptor M3 do que pelos outros receptores muscarínicos. Esse fármaco é usado no trata­ mento da bexiga hiperativa. (Nota: na atualidade, nenhum fármaco clinicamente importante interage apenas com receptores M4 e M5.) B. Receptores nicotínicos Esses receptores, além de ligarem a ACh, reconhecem a nicotina, mas têm baixa afinidade pela muscarina (ver Figura 4.48). O receptor nicotínico é composto de cinco subunidades e funciona como um ca­ nal iônico disparado pelo ligante (ver Figura 3.1OA). A ligação de duas moléculas de ACh provoca uma alteração conformacional que per­ mite a entrada de íons sódio, resultando na despolarização da célula efetora. A nicotina em concentração baixa estimula o receptor e em concentração alta o bloqueia. Os receptores nicotínicos estão locali­ zados no SNC, nasuprarrenal, nos gânglios autonômicos e najunção neuromuscular (JNM). Os localizados na JNM algumas vezes são de­ signados NM, e os outros, NN. Os receptores nicotínicos dos gânglios autônomos diferem daqueles situados na JNM. Por exemplo, os re­ ceptores ganglionares são bloqueados seletivamente pelo hexametô­ nio, e os da JNM são bloqueados especificamente pela tubocurarina. IV. AGONISTAS COLINÉRGICOS DE AÇÃO DIRETA Agonistas colinérgicos (também denominados parassimpaticomiméticos) mi­ metizam os efeitos da ACh ligando-se diretamente nos colinoceptores. Esses fármacos grosseiramente podem serclassificados em doisgrupos: os ésteres da colina, que incluem aACh, eosésteressintéticos da colina, como o carbacole o betanecol. Osalcaloidesdeocorrência natural, comoapilocarpina, constituem o segundo grupo (Figura 4.5).Todos os fármacos colinérgicos de ação direta têm efeitos mais prolongados do que a acetilcolina. Alguns dos fármacos terapeu­ ticamente mais úteis (pilocarpina e betanecol) se ligam preferencialmente aos receptores muscarínicos e algumas vezes são referidos como fármacos musca­ rínicos. (Nota:os receptores muscarínicosestão localizados primariamente, mas não exclusivamente, nas junções neuroefetoras do sistema nervoso parassim­ pático.) Contudo, como um grupo, os agonistas de ação direta mostram pouca especificidade nas suas ações, o que limita sua utilidade clínica. 2Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre a adenililciclase e a sinalização intracelular. Farmacologia Ilustrada 51 Ligaçãohidrolisada pelaacetilcolines­ terase. Acetilcolina O CH CH li 1 3 / 3 H N -e-o - CH-Cl-l- -N+-cH 2 " 2 " 3 Betanecol CH3 (derivadoda acetilcolina) Ésterdoácidocarbãmico; resisteà hidrólisepela acetilcolinesterase. o li / CH3 H2 N -e-o -e�- CH2N+-CH3 " .::;. o o Carbacol CH3 (derivadoda acetilcolina) Pilocarpina (produtonatural) Figura 4.5 Comparação das estruturas de alguns agonistas colinérgicos.
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    52 Clark, Finkel,Rey &Whalen Diarreia Diaforese Miose Náusea - - v=� Emergência --­ urinária Figura 4.6 Alguns efeitos adversos observados com os agonistas colinérgicos. A. Acetilcolina A acetilcolina é um composto amônia quaternário que não consegue penetrar membranas. Embora seja o neurotransmissor de nervos paras­ simpáticos e somáticos, bem como dos gânglios autônomos, não tem importância terapêutica devido à sua multiplicidade de ações (provocan­ do efeitos difusos) e à sua rápida inativação pelas colinesterases. A ACh tem atividade muscarínica e nicotínica. Suas ações são citadas a seguir: 1. Diminuição da frequência e do débito cardíaco. As ações daACh no coração mimetizam os efeitos da estimulação vagai. Por exem­ plo, se injetada IV, a ACh produz uma breve redução na frequência cardíaca (cronotropismo negativo) e novolume sistólico como resul­ tado da redução dafrequênciade descargas no nó sinoatrial (NSA). (Nota: deve ser lembrado que a atividade vagai normal regula o co­ ração pela liberação de ACh no NSA.) 2. Diminuição da pressão arterial. A injeção de ACh causavasodila­ tação e diminuição da pressão sanguínea por mecanismo indireto. A ACh ativa receptores M3 situados nas células endoteliais que co­ brem o músculo liso dos vasos sanguíneos. Isso resulta na produ­ ção de óxido nítrico a partir de arginina. 3 (Nota: o óxido nítrico [NO] também é denominado fator relaxante derivado do endotélio.) (Ver p. 363 para mais informações sobre NO.) O NO então difunde-se até as células musculares lisas dos vasos para estimular a produ­ ção de proteína-quinase G, levando à hiperpolarização e ao relaxa­ mento do músculo liso por meio da inibição dafosfodiesterase-3. Na ausência da administração de fármacos colinérgicos, os receptores vasculares não têm função conhecida, pois a ACh nunca é liberada no sangue em quantidade significativa. A atropina bloqueia esses receptores muscarínicos e evita que a ACh produza vasodilatação. 3. Outras ações. NoTGI, aACh aumenta a secreção salivare estimula as secreções e a motilidade intestinal. As secreções bronquiais tam­ bém são aumentadas. Notrato geniturinário, a ACh aumenta otônus do músculo detrusor da urina, causando emissão da urina. No olho, a ACh estimula a contração do músculo ciliar para a visão próxima e contrai o esfíncterda pupila, causando miose (constrição acentuada da pupila). A ACh (em solução a 1° / o) é instilada na câmara anterior do olho para produzir miose durante cirurgias oftálmicas. B. Betanecol O betanecol é um éster carbamoila não substituído, estruturalmente re­ lacionado com a ACh, na qual o acetato é substituído por carbamato e a colina é metilada (ver Figura 4.5). Portanto, o betanecolnão é hidrolisado pela AChE (devido à esterificação do ácido carbâmico), embora seja ina­ tivado por meio de hidrólise por outras colinesterases. Ele não tem ações nicotínicas (pela presença do grupo metila), mas apresenta forte ativida­ de muscarínica. Suas principais ações são na musculatura lisa da bexiga urinária e noTGI.Tem duração de ação de cerca de uma hora. 1. Ações. O betanecol estimula diretamente os receptores muscarí­ nicos, aumentando a motilidade e o tônus intestinal. Ele também estimula o músculo detrusor da bexiga enquanto relaxa o trígono e os esfíncteres. Esses efeitos aumentam a pressão de micção e diminuem a capacidade da bexiga, causando expulsão da urina. 3Ver Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para discussão sobre as funções do óxido nítrico.
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    2. Aplicações terapêuticas.No tratamento urológico, o betanecolé usado para estimular a bexiga atônica, particularmente na retenção urinária não obstrutiva no pós-parto ou pós-operatório. O betaneco/ também pode ser usado no tratamento da atonia neurogênica, bem como no megacólon. 3. Efeitos adversos. O betanecolcausa os efeitos da estimulação co­ linérgicageneralizada (Figura 4.6). Esses incluem sudoração (diafo­ rese), salivação, rubor, diminuição da pressão arterial, náuseas, dor abdominal, diarreia e broncoespasmo. O sulfato de atropina pode seradministrado para superaras graves respostas cardiovasculares ou broncoconstritoras desse fármaco. C. Carbacol (carbamilcolina) O carbacol apresenta ações muscarínicas e nicotínicas. Ele não tem o grupo metila presente no betanecol(ver Figura 4.5). Como o betaneco/, o carbacolé um ésterdo ácido carbâmico e um mau substrato para aAChE (ver Figura 4.5). Ele é biotransformado poroutras esterases, mas em uma velocidade muito menor. 1 . Ações. O carbacoltem amplos efeitos nos sistemas cardiovascu­ lar e gastrintestinal devido à sua atividade estimulante ganglionar, podendo primeiro estimular e depois deprimir esses sistemas. Ele pode causar liberação de epinefrina da suprarrenal por sua ação nicotínica. lnstilado localmente no olho, o carbacol mimetiza os efei­ tos da ACh, causando miose e espasmo de acomodação, no qual o músculo ciliar permanece em um estado constante de contração. 2. Usos terapêuticos. Devido à sua alta potência, inespecificidade por receptor e duração de ação relativamente longa, o carbaco/ raras vezes é usado em terapêutica, exceto no olho, como fármaco mióti­ co no tratamento do glaucoma, por causar contração pupilar e uma diminuição da pressão intraocular. O início da ação miótica é de 1O a 20 minutos. A pressão intraocular fica reduzida por 4 a 8 horas. 3. Efeitos adversos. Nas doses usadas em oftalmologia, pouco ou nenhum efeito adverso ocorre devido à sua escassa penetrabilidade sistêmica (o carbacol é uma amina quaternária). D. Pilocarpina O alcaloide pilocarpina é uma amina terciária e resiste à hidrólise pela AChE (ver Figura 4.5). Comparado com a ACh e seus derivados, a pilo­ carpina é muito menos potente, mas por não possuircarga elétrica pene­ tra no SNC nas dosagens terapêuticas. A pilocarpina apresenta atividade muscarínica e é usada primariamente em oftalmologia. 1 . Ações. Aplicada localmente na córnea, a pilocarpina produz rápida miose e contração do músculo ciliar. Quando o olho fica em miose, também ocorre espasmo de acomodação; a visão é fixada em algu­ ma distância particular, tornando impossível focalizar (Figura 4.7). (Nota: esse é um efeito oposto ao da atropina, um bloqueador mus­ carínico, no olho [ver p. 59].) A pilocarpina é um dos mais potentes estimulantes das secreções, como suor, lágrimas e saliva (é um se­ cretagogo), mas seu emprego para esses efeitos é limitado devido à sua falta de seletividade. O fármaco é útil em promover salivação nos pacientes com xerostomia (secura da mucosa oral) resultante de irradiação na cabeça e no pescoço. A síndrome de Sjõgren, ca­ racterizada por xerostomia e falta de lágrimas, é tratada com com- Farmacologia Ilustrada 53 Mlose (Contração da pupila) . . Olhotratado compi/ocarpina Olhonãotratado Mldriase (Dilatação da pupila) Figura 4.7 ·, Olhotratado comatropina Ações da pilocarpina e da atropina na íris e no músculo ciliar do olho.
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    54 Clark, Finkel,Rey &Whalen NEURÔNIO • il •• -'-----------' ..___ _,/ Acetato - �---------i-----·• Acetilcolina Colina � O 0 ���i�� ,--,ç >;;>;X;>· Ecotiofato Edrofônio Neostigmina Fisostigmina Figura 4.8 RESPOSTA INTRACELULAR AUMENTADA Mecanismos de ação dos agonistas co­ linérgicos indiretos (reversíveis). primidos orais de pilocarpina e cevimelina, um fármaco colinérgico que também tem o inconveniente de ser inespecífico. 2. Usos terapêuticos no glaucoma. A pilocarpina é usada no trata­ mento do glaucoma e é o fármaco de escolha na redução emergen­ cial da pressão intraocularde ângulo estreitoe de ângulo amplo (tam­ bém denominados ângulo fechado e ângulo aberto, respectivamente). A pilocarpina é extremamente eficaz na abertura da rede trabecular ao redor do canal de Schlemm, causando uma redução imediata na pressão intraoculardevido à drenagem do humoraquoso. Essa ação ocorre em minutos, dura de 4 a 8 horas e pode ser repetida. O orga­ nofosforado ecotiofato inibe a AChE e exerce o mesmo efeito com duração mais longa. (Nota: os inibidores da anidrase carbônica, como a acetazolamida, e o bloqueador [3-adrenérgico timo/oi são eficazes no tratamento crônico do glaucoma, mas não são usados na redução da pressão intraocular de emergência.) Aação miótica da pilocarpina também é útil na reversão da midríase devido à atropina. 3. Efeitos adversos. A pilocarpi na pode entrar no cérebro e causar dis­ túrbios do SNC. A intoxicação com este fármaco se caracteriza pelo exagero de vários efeitos parassimpáticos, incluindo sudoração pro­ fusa (diaforese) e salivação. Os efeitos são similares ao produzidos pelo consumo de cogumelos do gênero lnocybe. A administração pa­ renteral de atropi na, em dosagem que consegue atravessar a barreira cerebrospinal, é usado para antagonizara toxicidade dapilocarpina. V. AGONISTAS COLINÉRGICOS DE AÇÃO INDIRETA: INIBIDORES DE ACETILCOLINESTERASE {REVERSÍVEIS) A AChE é uma enzimaque especificamente hidrolisaa ACh a acetato e colina e, dessaforma, termina com sua ação. Localiza-se no terminal nervoso, onde está ligada à membrana pré e pós-sináptica. Os inibidores da AChE indireta­ mente proporcionam ação colinérgica, prolongando o tempo de sobrevida da ACh produzida de forma endógena nos terminais nervosos colinérgicos. Isso resulta no acúmulo de ACh na fenda sináptica (Figura 4.8). Esses fármacos podem, assim, provocar uma resposta em todos os colinoceptores do orga­ nismo, incluindo os receptores muscarínicos e nicotínicos do SNA, bem como nas JNM e no cérebro. Os inibidores reversíveis da AChE podem ser classifi­ cados como fármacos de ação curta ou intermediária. A. Edrofônio O edrofônio é o protótipo do inibidor de AchE de ação curta. O edrofônio se liga de modo reversível ao centro ativo da AchE impedindo a hidrólise da ACh. Ele é absorvido rapidamente e tem duração de ação curta de 1O a 20 min devido à eliminação renal rápida. O edrofônio é uma amina , quaternária e suas ações são limitadas à periferia. E usado no diagnóstico da miastenia grave, que é uma doença autoimune causada por anticorpos contra o receptor nicotínico nasJNMs. Isso causa sua degradação e reduz o número de receptores disponíveis para interação com o neurotransmis­ sor.A injeção IV do edrofônio leva a um rápido aumento da força muscular. Deve-se ter cuidado, pois o excesso desse fármaco pode provocar uma crise colinérgica (a atropina é o antagonista). O edrofônio pode ser usado também para avaliar o tratamento inibidor de colinesterase, para diferen­ ciar entre crises colinérgicas e miastênicas e para reverter os efeitos de bloqueadores neuromusculares não depolarizantes após acirurgia. Devido à disponibilidade de outrosfármacos, o usodo edrofôniosetornou limitado.
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    B. Fisostigmina A fisostigminaé um éster nitrogenado do ácido carbâmico encontrado em plantas e é uma amina terciária. Ela é um substrato da AChE, com quem forma um intermediário carbamoilado relativamente estável, que, então, se torna reversivelmente inativado. O resultado é a potenciação da ativi­ dade colinérgica em todo o organismo. 1 . Ações. A fisostigmina tem uma amplafaixade efeitos como resulta­ do de sua ação e estimula os receptores muscarínicos e nicotínicos do SNA e os receptores nicotínicos da JNM. Sua duração de ação é de cercade 2 a 4 horas, sendo considerada um fármaco de ação in­ termediária. A fisostigmina pode entrar no SNC e estimularos locais colinérgicos. 2. Usos terapêuticos. A fisostigmina aumenta a motilidade do intes­ tino e da bexiga urinária, servindo no tratamento de atonia nos dois órgãos (Figura 4.9).Aplicadatopicamente no olho, ela produz miose e espasmo de acomodação, bem como diminuição da pressão in­ traocular. A fisostigmina é usada no tratamento do glaucoma, mas a pilocarpina é mais eficaz. Ela é usada também no tratamento de doses excessivas de fármacos com ações anticolinérgicas, como atropina, fenotiazinas e antidepressivos tricíclicos. 3. Efeitos adversos. No SNC, a fisostigmina pode causar convulsões quando são usadas dosagens elevadas. Bradicardia e queda da pressão arterial também podem ocorrer. A inibição da AChE nas JNM causa acúmulo de ACh e, no final, resulta em paralisia dos músculos esqueléticos. Contudo, esses efeitos raramente são ob- Figura 4.9 Farmacologia Ilustrada 55 lk' Contração do � músculo liso ' visceral Miose Hipotensão Bradicardia servados com doses terapêuticas. Algumas ações da fisostigmina. C. Neostigmina A neostigmina é um fármaco sintético que também é um éster do ácido carbâmico e inibe reversivelmente a AChE de forma similar à da fisostig- • mina. 1 . Ações. Ao contrário da fisostigmina, a neostigmina tem um nitrogê­ nio quaternário, por isso, elaé mais polar, é pouco absorvida doTG1 e não entra no SNC. Seu efeito nos músculos esqueléticos é maior do que o da fisostigmina e pode estimular a contratilidade antes de paralisá-la. A neostigmina tem uma duração de ação intermediária, em geral 30 minutos a 2 horas. 2. Usos terapêuticos. É usada para estimular a bexiga e o TGI e como antagonista da tubocurarina e de outros fármacos bloquea­ dores musculares competitivos (ver p. 65). A neostigmina é usada no tratamento sintomático da miastenia grave. A neostigmina e ou­ tros inibidores da AchE preservam a ACh endógena, que pode, então, estimular uma número maiorde receptores da ACh na placa motora. 3. Efeitos adversos. Os efeitos adversos da neostigmina incluem os da estimulação colinérgica generalizada, como salivação, ru­ bor, redução da pressão arterial, náusea, dor abdominal, diarreia e broncoespasmo. A neostigmina não causa efeitos adversos no SNC e não é usada para tratar os efeitos tóxicos de fármacos an­ timuscarínicos de ação central, como a atropina. A neostigmina é contraindicada quando há obstrução intestinal ou da bexiga. Ela não deve ser usada em pacientes com peritonite ou doença intesti­ nal inflamatória.
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    56 Clark, Finkel,Rey &Whalen FOSFORILAÇÃO DA ENZIMA e Enzimainativada • Pralidoxima(PAM)pode removeroinibidor o li C!i5-0-P-O-C2H5 1 S-R Ecotiofato /0-H Localativoda acetilcolinesterase RSH+-'1 Acetilcolinesterase (inativa) Envelhecimento (perdadogrupa- O mentoalquila) li C!i5-0-P-OH / /o Acetilcolinesterase (irreversivelmenteinativa) Figura 4.10 / O·H Acetilcolinesterase (ativa) Modificação covalente da acetilcolineste­ rase pelo ecotiofato; também é mostrada a reativação da enzima com pra/idoxima. + R = (CH3)3N -CH2-CH2- + RSH = (CH3)3N -CH2-CH2-S-H D. Piridostigmina e ambenônio A piridostigmina e o ambenônio são outros inibidores de colinesterase que são usados no tratamento crônico da miastenia grave. Suas dura­ ções de ação são intermediárias (3 a 6 horas e 4 a 8 horas, respectiva­ mente), mas mais longas do que a da neostigmina. Os efeitos adversos desses fármacos são similares aos da neostigmina. E. Tacrina, donepezila, rivastigmina e galantamina Como já mencionado, os pacientes com a doença de Alzheimer têm de­ ficiência de neurônios colinérgicos no SNC. Essa observação levou ao desenvolvimento de anticolinesterásicos como possíveis fármacos para a perda da função cognitiva. A tacrina foi o primeiro disponível, mas foi substituída poroutros devido à sua hepatotoxicidade. Apesar de donepe­ zila, rivastigmina e galantamina retardarem o avanço da doença, nenhum evitou sua progressão. O efeito adverso primário desses fármacos é o distúrbio gastrintestinal (ver p. 108). VI. AGONISTAS COLINÉRGICOS DE AÇÃO INDIRETA: ANTICOLINESTERÁSICOS {IRREVERSÍVEIS) Inúmeros compostos organofosforados sintéticos apresentam a propriedade de ligar-se covalentemente à AChE. O resultado é um aumento de longa du­ ração nos níveis de ACh em todos os locais onde ela é liberada.Vários des­ ses fármacos são extremamentetóxicos eforam desenvolvidos como agentes "contranervos" com fins militares. Os compostos relacionados, como o para­ tion, são usados como inseticidas. A. Ecotiofato 1 . Mecanismo de ação. O ecotiofato é um organofosforado que se liga covalentemente à serina-OH no local ativo da AChE por meio do seu grupo fosfato (Figura 4.1O). Quando isso ocorre, a enzima é inativada permanentemente, e o restabelecimento da sua atividade requer a síntese de novas moléculas de enzimas. A enzima fosfo­ rilada libera lentamente um de seus grupos etila. A perda do grupo acila, o que é denominado envelhecimento, torna impossível para os reativadores químicos, como a pralidoxima, romper a ligação en­ tre o fármaco remanescente e a enzima. 2. Ações. As ações do ecotiofato incluem estimulação colinérgica ge­ neralizada, paralisia da função motora (causando dificuldades res­ piratórias) e convulsões. Esse fármaco provoca intensa miose e por isso tem uso terapêutico. A pressão intraocular cai pela facilitação do efluxo do humor aquoso. A atropina em dosagem elevada pode reverter vários dos efeitos muscarínicos e alguns dos centrais do ecotiofato. 3. Usos terapêuticos. Um colírio de ecoti ofatoé aplicadotopicamente no olho para o tratamento crônico do glaucoma de ângulo aberto. O ecotiofato não é um fármaco de primeira escolha no tratamento do glaucoma. Além dos seus outros efeitos adversos, o risco de causar catarata limita o seu uso. A Figura 4.1 1 apresenta um resumo das ações de alguns dos agonistas colinérgicos.
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    Betanecol •Usadonotratamentodaretençãodeurina •Liga-sepreferencialmenteaos receptoresmuscarínicos Carbacol •Produzmioseduranteacirurgiaocular •Éusadotopicamenteparadiminuira pressãointraoculardeânguloamploou estreito,particularmenteempacientes quesetornaramtolerantesà pi/ocsrpins Pilocarpina •Diminuiapressãointraocularno glaucomadeânguloamploouestreito •Liga-sepreferencialmentenos receptoresmuscarínicos •Éaminaterciárianãoionizadaque podeentrarnoSNC Figura 4.11 Fisostigmina •Aumentaamotilidadeintestinaledabexiga •Diminuiapressãointraocularnoglaucoma •ReverteosefeitoscardíacosenoSNCdos antidepressivostricíclicos •ReverteosefeitosdastropinsnoSNC •Éumaaminaterciárianãoionizada quepodeentrarnoSNC Neostigmi na •Previneadistençãoabdominal pós-cirúrgicaearetençãodeurina •Éusadanotratamentodamiasteniagrave •Éusadacomoantagonistadatubocursrins •Temaçãodelongaduração(2 a4 h) Edrofônio •Paraodiagnósticodemiasteniagrave •Comoantagonistadatubocurarina •Temaçãodecurtaduração(1O a20 min) Farmacologia Ilustrada 57 Rivastigmina, galantamina, donepezila • Éusadacomotratmentodeprimeira escolhacontraomaldeAlzheimer, emboraconfirabenefíciosmodestos • Nãodemonstrou reduçãonoscustos comsaúdeouatrasona institucionalização • Podeserusadocommemsntins (antagonistaN-metil-D-aspartato) emdoençamoderadaà grave Ecotiofato •Éusadonotratamentodoglaucoma deânguloamplo •Temaçãodelongaduração(1semana) Acetilcol ina •Nãotemusosterapêuticos Resumo das ações de alguns agonistas colinérgicos. SNC = sistema nervoso central. VII. TOXICOLOGIA DOS INIBIDORES DA ACETILCOLINESTERASE Nos EUA, os inibidores da AchE são usados comumente na agricultura como inseticidas, o que tem gerado numerosos casos de intoxicações acidentais com estas substâncias. Além disso, são usados com frequência com propo­ sito suicida e homicida. A toxicidade destas substâncias se manifesta com sinais e sintomas nicotínicos e muscarínicos. Dependendo da substância, o efeito pode ser periférico ou afetartodo o organismo. A. Reativação da acetilcolinesterase. A pralidoxima (PAM) pode re­ ativar a AchE inibida. Contudo, ela é incapaz de entrar no SNC. A presença de um grupo químico carregado permite que a pralidoxima se aproxime do sítio aniônico na enzima, onde ela essencialmente desloca o grupo fosfato do organofosforado e regenera a enzima. Se administradaantes de ocorrero envelhecimento da enzima alquilada, ela pode reverter o efeito do ecotiofato, exceto aqueles no SNC. Com os novos fármacos, que produzem o envelhecimento do complexo enzimático em segundos, a pralidoxima é menos eficaz. A pralidoxi­ ma é um fraco inibidor da colinesterase, mas em dosagens elevadas pode causar efeitos adversos similares aos dos outros inibidores da AChE (Figuras 4.6 e 4.9) Além disso, a pralidoxima não reverte a toxicidade dos inibidores reversíveis de AchE (p. ex., fisostigmina). B. Outros tratamentos. A atropina é administrada para prevenirosefei­ tos adversos muscarínicos destas substâncias. Tais efeitos incluem aumento das secreções bronquiais e de saliva, broncoconstrição e bradicardia. O diazepam também é administrado para diminuira con­ vulsão persistente causada por estas substâncias. Medidas gerais de apoio, como a manutenção da patência das vias aéreas, oferta de oxigênio e respiração assistida também podem ser necessárias.
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    58 Clark, Finkel,Rey &Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 4.1 Um paciente com um ataque agudo de glaucoma é tratado com pilocarpina. A razão primária para sua eficácia nessa condição é: A. T erminar com a ação da acetilcolinesterase. B. Seletividade pelos receptores nicotínicos. C. Habilidade de inibir as secreções, como lacrimal, sali­ var e de suor. D. Habilidade de reduzir a pressão intraocular. E. Incapacidade de entrar no cérebro. 4.2 Uma unidade militar sofreu ataque com um agente "con­ tranervos". Os sintomas exibidos são paralisia muscular, secreção brônquica abundante, miose, bradicardia e con­ vulsões. Os sinais sugerem exposição a um organofosfo­ rado. Qual é o tratamento correto? A. Não fazer nada até confirmar a natureza da substância "contranervos". B. Administrar atropina e tentar confirmar a natureza da substância "contranervos". C. Administrar atropina e 2-PAM (pralidoxima). D. Administrar pralidoxima. 4.3 Um paciente sob avaliação de miastenia grave deve me­ lhorar a função neuromuscular depois de ser tratado com: A. Donezepila B. Edrofônio C. Atropina D. Ecotiofato E. Neostigmina 4.4 O fármaco de escolha para o tratamento da salivação es­ cassa consequência de irradiação na cabeça e pescoço é: A. Fisostigmina B. Escopolamina C. Carbacol D. Acetilcolina E. Pilocarpina Resposta correta = D. A pilocarpina pode interromper o ataque agu­ do de glaucoma, pois causa constrição pupilar reduzindo a pressão intraocular. Liga-se principalmente a receptores muscarínicos e pode entrar no cérebro. Ela não é eficaz na inibição das secreções. Resposta correta = C. Os organofosforados exercem seus efeitos ligando-se irreversivelmente à acetilcolinesterase e, assim, pode causar crise colinérgica. A administração de atropina bloqueia os receptores muscarínicos;contudo, ela não reativa a enzima, que per­ manece bloqueada por longoperíodo de tempo. Portanto, é essencial administrar também pralidoxima assim que possível para reativar a enzima antes de ocorrer o envelhecimento. Só a administração de pralidoxima não vai proteger o paciente contra os efeitos da acetilco­ lina resultantes da inibição da acetilcolinesterase. Resposta correta = B. O edrofônio é um inibidor da acetilcolineste­ rase de ação curta usado no diagnóstico da miastenia grave. Ele é um composto quaternário e não penetra no SNC. Donezepila, iso­ flurofato e neostigmina também são anticolinesterásicos, mas com ações mais longas. A donezepila é usada no tratamento da doença de Alzheimer. O ecotiofato tem alguma atividade no tratamento do glaucoma de ângulo amplo. A neostigmina é usada no tratamento da miastenia grave, mas não é empregada no seu diagnóstico. A atropi­ na é um antagonista colinérgico e, assim, terá efeitos opostos. Resposta correta = E. A pilocarpina, por via oral, tem se mostrado eficaz nesta situação. Os outros fármacos, exceto a escopolamina, são agonistas colinérgicos. Contudo, sua habilidade de estimular a salivação é menor doque a da pilocarpina, e seus outros efeitos são mais desagradáveis.
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    . , • o1 ner ICOS 1. RESUMO Os antagonistas colinérgicos (também denominados bloqueadores colinérgi­ cos, parassimpaticolíticos ou fármacos anticolinérgicos) ligam-se aos colinor­ receptores, mas não causam os usuais efeitos intracelulares mediados pelos receptores. Os fármacos mais úteis bloqueiam seletivamente os receptores muscarínicos dos nervos parassimpáticos. Os efeitos da inervação parassim­ pática são interrompidos, e as ações da estimulação simpática ficam sem oposição. Um segundo grupo de fármacos, os bloqueadores ganglionares, mostra preferência pelos receptores nicotínicos dos gânglios simpáticos e pa­ rassimpáticos. Clinicamente, os bloqueadores ganglionares são os fármacos menos importantes entre os anticolinérgicos. Uma terceira família de com­ postos, os bloqueadores neuromusculares, interfere com a transmissão dos impulsos eferentes aos músculos esqueléticos. Esses fármacos são empre­ gados como adjuvantes que relaxam a musculatura esquelética naanestesia, durante a cirurgia, na entubação e vários procedimentos ortopédicos. A Figu­ ra 5.1 resume os antagonistas colinérgicos discutidos neste capítulo. li. FÁRMACOS ANTIMUSCARÍNICOS Os fármacos antimuscarínicos (p. ex., atropina e escopolamina) são assim denominados porque bloqueiam os receptores muscarínicos (Figura 5.2), causando inibição de todas as funções muscarínicas. Além disso, esses fár­ macos bloqueiam os poucos neurônios simpáticos excepcionais que são co­ linérgicos, como os que inervam as glândulas salivares e sudoríparas. Con­ trastando com os agonistas colinérgicos, cuja utilidade terapêutica é limitada, os bloqueadores colinérgicos são úteis em várias situações clínicas. Como não bloqueiam os receptores nicotínicos, os fármacos antimuscarínicos têm pouca ou nenhuma ação nas junções neuromusculares (JNMs) e nos gân­ glios autonômicos. (Nota: vários anti-histamínicos e antidepressivos também têm atividade antimuscarínica.) Fármacos antimuscarínlcos Atropina Benztropina Ci clopentolato Dar ifenacina Fesoterodina lpratrópio Oxibutinina Escopolamina Solifenacina Tiotrópio Tolterodi na Tri exifenidila Tropicamida Tróspio, cloreto de Bloqueadores ganglionares Mecamilamina Ni cotina Bloqueadores neuromusculares Figura 5.1 Atracúri o Ci satracúrio Pancurônio Rocurônio Succi nilcolina Vecurônio Resumo dos antagonistas colinérgicos.
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    60 Clark, Finkel,Rey &Whalen Inervaçãosimpática dasuprarrenal Neurônio pré-ganglionar Transmissor ganglionar Acetilcolina .J • AUTÔNOMO Simpático Acetilcolina SOMÁTICO Parassimpático Acetilcolina Semgânglio Locaisdeação ------/dosbloqueadores ganglionares Receptor______,_ ,...____...nicotínico Receptor ............... nicotínico Transmissor neuroefetor Localdeação dosfármacos antimuscarínicos Figura 5.2 Suprarrenal Epinefrinaenorepinefrina liberadasna correntesanguínea o Receptor adrenérgico Locais de ação dos antagonistas colinérgicos. , Norepinefrina Receptor adrenérgico Orgãos efetores Acetilcolina .J • muscarínico Localde açãodos bloqueadores neuro­ musculares Acetilcolina .J • � Receptor� /nicotínico-........: Músculo estriado A. Atropina Escopo/amina Figura 5.3 Atropina . .. . . . . . . . . Acetilcolina . . • • i•• .. .•..... .-· . - ·: · :· ..· ·· ·- · ----- ·-· · .. : Receptor muscarínico Competição da atropina e escopo/a­ mina com a acetilcolina pelo receptor , . muscar1n1co. A atropina é um alcaloide amina terciária da beladona com alta afinida­ de pelos receptores muscarínicos. Liga-se competitivamente e impede a ligação da acetilcolina (ACh) a estes receptores (Figura 5.3). A atropina atua central e perifericamente. Os seus efeitos duram cerca de 4 horas, exceto quando aplicada topicamente no olho, onde seu efeito pode durar dias. Os órgãos neuroefetores têm sensibilidade variável à atropina. Os efeitos inibidores mais intensos ocorrem nos brônquios e nas secreções de suor e saliva (Figura 5.4). 1 . Ações a. Olho. A atropina bloqueia toda a atividade colinérgica no olho, re­ sultando em midríase persistente (dilatação da pupila, ver Figura 4.7, p. 53), ausência de resposta à luz e cicloplegia (incapacidade de focar a visão para perto). Em pacientes com glaucoma de ân­ guloestreito, apressão intraocularpode aumentarperigosamente. Em geral, os fármacos de ação mais curta, como o antimuscaríni­ co tropicamida ou um fármaco a-adrenérgico, como a f enilefri na, são preferidos para provocar midríase nos examesoftalmológicos. b. Trato gastrintestinal (TGI). A atropina (na forma do isômero ativo, 1-hiosciamina) pode ser usada como antiespasmódico para reduzir a atividade do TGI. A atropina e a escopolamina (que é discutida a seguir) são provavelmente os fármacos mais
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    potentes disponíveis paraesseobjetivo. Emboraa motilidade do TGI seja reduzida, a produção de ácido clorídrico não é afetada de forma significativa. Assim, a atropina não é eficaz na cura da úlcera péptica. (Nota: a pirenzepina [ver p. 51], um antagonista muscarínico M,, reduz a secreção gástrica em doses que não antagonizam outros sistemas.) Além disso, as doses de atropina que reduzem os espasmos também diminuem a secreção sali­ var, a acomodação ocular e a micção. Estes efeitos diminuem a adesão do paciente ao tratamento com estas medicações. c. Sistema urinário. Os fármacos tipo atropina também são em­ pregados para reduzir a hipermotilidade da bexiga. Ocasional­ mente ela ainda é usada na enurese (emissão involuntária da urina) em crianças, mas os agonistas a-adrenérgicos com me­ nos efeitos adversos podem ser mais eficazes. d. Cardiovascular. A atropina produz efeitos divergentes no sistema cardiovascular, dependendo da dose (Figura 5.4). Em doses bai­ xas, o efeito predominante é a diminuição da frequência cardíaca (bradicardia). Inicialmente atribuído à ativação central do efluxo eferente vagai, sabe-se agora que o efeito resulta do bloqueio de receptores M, nos neurônios inibitórios pré-juncionais (ou pré­ -sinápticos), permitindo então maior liberação de ACh. Em doses mais elevadas, a atropina bloqueia os receptores M2 no nó sino­ atrial, e a frequência cardíaca aumenta modestamente. Isso em geral requer 1 mg de atropi na, que é uma dose mais alta do que a administrada normalmente. A pressão arterial não é afetada, mas em níveis tóxicos, a atropina dilata osvasos cutâneos. e. Secreções. A atropina bloqueia as glândulas salivares, provo­ cando a secura das membranas mucosas orais (xerostomia).As glândulas salivares são muito sensíveis à atropina. As glândulas sudoríparas e lacrimais também são afetadas. (Nota: a inibição da secreção de suor pode causar elevação da temperatura cor­ poral, o que pode ser perigoso em crianças e idosos.) 2. Usos terapêuticos a. Oftálmico. No olho, a atropina tópica exerce efeito midriático e cicloplégico, permitindo a mensuração de erros de refração sem interferência da capacidade adaptativa do olho. (Nota: a fenilefri na ou fármacos a-adrenérgicos similares são preferidos para a dilatação pupilar se não for necessária a cicloplegia.) Antimuscarínicos de ação mais curta (ciclopentolato e tropica­ mida) substituíram largamente a atropina devido a prolongada midríase que ela provoca (7 a 14 dias contra 6 a 24 h com os outros fármacos). A atropina pode induzir crise aguda de dor ocular devido ao súbito aumento da pressão ocular em indiví­ duos com glaucoma de ângulo estreito. b. Antiespasmódico. A atropina (na forma do isômero ativo, 1- -hiosciamina) é usada como antiespasmódico para relaxar o TGI e a bexiga urinária. c. Antagonista de agonistas colinérgicos. A atropina é usada para o tratamento de doses excessivas de inseticidas inibidores de colinesterase e de envenenamento poralguns tipos de cogu­ melos (certos cogumelos contêm substâncias colinérgicas que bloqueiam as colinesterases). Doses maciças do antagonista podem ser necessárias durante um longo período para neutra- 11! ·- i QI "CI >10mg Farmacologia Ilustrada 61 Alucinações e delírio; coma gi 5 mg Frequênciacardíaca rápida; palpitações; xerostomiaacentuada; dilatação da pupila; algumaturbidez na visão próxima 8 2 mg Levedepressão 0,5 mg cardíaca; alguma xerostomia; inibição dasudoração Figura 5.4 Efeitos dose-dependentes da atropina.
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    62 Clark, Finkel,Rey &Whalen Contra náuseas causadas devidoà... Figura 5.5 o o Escopo/amina Doença do o movimento o o A escopolamina é um fármaco anticine­ tósico eficaz. Visão borrada Confusão Midríase Constipação Retenção urinária Figura 5.6 D ,, V Efeitos adversos comumente observa­ dos com antagonistas colinérgicos. lizar o envenenamento. A capacidade da atropina de entrar no SNC é de particular importância. O fármaco também bloqueia os efeitos do excesso de ACh resultante de inibidores de acetil­ colinesterase (AChE), como a fisostigmina. d. Antissecretor. Algumas vezes, a atropina é usada como antis­ secretora para bloquear as secreções dotrato respiratório supe­ rior e inferior, previamente à cirurgia. 3. Farmacocinética. A atropina é bem absorvida, parcialmente bio­ transformada no fígado e eliminada primariamente na urina. Tem uma meia vida de cerca de 4 horas. 4. Efeitos adversos. Dependendo da dose, a atropina pode causar xerostomia, visão borrada, sensação de "areia nos olhos", taquicar­ dia e constipação. Os efeitos no SNC incluem intranquilidade, confu­ são, alucinações e delírio, que pode evoluir paradepressão, colapso dos sistemas circulatório e respiratório e morte. Dosagens baixas de inibidores de colinesterase, como a fisostigmina, podem ser usa­ dos para neutralizara toxicidade por atropina. Em indivíduos idosos, o uso de atropina para induzir midríase e cicloplegia é considerado muito arriscado, pois pode exacerbar uma crise de glaucoma em alguém com a condição latente. Em outros indivíduos idosos, a atro­ pina pode causar retenção urinária, um efeito adverso incômodo. Crianças são sensíveis aos efeitos da atropina, em particular ao rápido aumento da temperatura corporal que ela pode causar. Isso pode ser perigoso em crianças. B. Escopolamina A escopolamina -outro alcaloide aminaterciária de origem vegetal - pro­ duz efeitos periféricos similares aos da atropina. Contudo, a escopolami­ na tem maior ação no SNC (em contraste com a atropina, os efeitos são observados com dosagens terapêuticas) e uma duração de ação mais longa. A escopolamina apresenta algumas ações especiais, como indi­ cado a seguir. 1 . Ações. A escopolamina é um dos fármacos anticinetósicos mais efi­ cazes disponíveis (Figura 5.5). Ela também tem o efeito incomum de bloquear a memória de curta duração. Em contraste com a atropina, a escopolamina produz sedação, mas em doses mais elevadas pode produzir excitação. Ela pode causar euforia e é sujeita a abuso. 2. Usos terapêuticos. Embora similarà atropina, os usos terapêuticos da escopolamina se limitam à prevenção da doença do movimento (cinetose) (para o que é particularmente eficaz) e ao bloqueio da memória de curta duração. (Nota: como ocorre com todos os fárma­ cos usados contra a cinetose, a escopolamina é muito mais eficaz profilaticamente do que para tratar o enjoo quando ele já está ocor­ rendo. A ação amnésica da escopolamina a torna um complemento importante nos procedimentos anestésicos.) 3. Farmacocinética e efeitos adversos. Esses aspectos são simila­ res aos da atropina. e. lpratrópio e tiotrópio lpratrópio e tiotrópio são derivados quaternários da atropina usados por inalação. Estes fármacos estão aprovados como broncodilatadores para o tratamento de manutenção do broncoespasmo associado com a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), bronquite crônica e enfise-
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    ma. Estes fármacostambém aguardam aprovação para o tratamento da asma em pacientes que não toleram agonistas adrenérgicos. Devido às suas cargas positivas, estes fármacos não entram na circulação sistêmi­ ca e nem no SNC, o que limitaseus efeitos ao sistema pulmonar. O tiotró­ pio é administrado uma vez ao dia, sendo a sua principal vantagem sobre o ipratrópio, que requer dosagens de até quatro vezes ao dia. Ambos são administrados por inalação. Características importantes dos antagonistas muscarínicos estão resumidas nas Figuras 5.6 e 5.7. D. Tropicamida e ciclopentolato Esses fármacos são usados de modo similar à atropina como soluções oftálmicas, como midríase e cicloplegia. A duração da ação é menor do que a da atropina. A tropicamida produz midríase por 6 horas, e o cic/o­ pentolato, por 24 horas. E. Benztropina e triexifenidila Estes fármacos são antimuscarínicos de ação central usado por vários anos para o tratamento da doença de Parkinson. Com o advento de ou­ tros fármacos (p. ex., /evodopalcarbidopa), foram amplamente substituí­ dos. Entretanto, benztropina e triexifenidilsão úteis como adjuvantes de outros fármacos antiparkinsonianos para tratar todos os tipos de síndro­ mes de Parkinson, incluindo os sintomas extrapiramidais induzidos por antipsicóticos. Estes fármacos podem ser úteis em pacientes geriátricos que não toleram os estimulantes. F. Darifenacina, fesoterodina, oxibutinina, solifenacina, tolterodina e cloreto de tróspio Estes fármacos tipo atropina, sintéticos, são usados no tratamento da doença da bexiga superativa. Bloqueando os receptores muscarínicos na bexiga, diminui a pressão intravesicular, aumenta a capacidade vesi­ cal e diminui a frequência de contrações da bexiga. Os efeitos adversos desses fármacos incluem xerostomia, constipação evisão borrada, o que limita a sua tolerância se usados continuamente. A oxibuti nina está dis­ ponível como sistema transdérmico (adesivo cutâneo), que é mais bem tolerado porque causa menos xerostomia do que as formulações orais e tem melhor aceitação pelo paciente. As eficácias gerais destes fármacos antimuscarínicos são similares. Ili. BLOQUEADORES GANGLIONARES Os bloqueadores ganglionares atuam especificamente nos receptores nico­ tínicos dos gânglios autônomos parassimpático e simpático. Alguns também bloqueiam os canais iônicos dos gânglios autônomos. Esses fármacos não mostram seletividade pelos gânglios parassimpático ou simpático, não sen­ do eficazes como antagonistas neuromusculares. Assim, esses fármacos bloqueiam completamente os impulsos do SNA nos receptores nicotínicos. Exceto a nicoti na, os demais fármacos mencionados nesta categoria são an­ tagonistas não despolarizantes competitivos. As respostas aos bloqueadores não despolarizantes são complexas e praticamente todas as respostas fisio­ lógicas podem ser previstas a partir do conhecimento do tônus predominante em um determinado sistema orgânico. Por exemplo, o tônus predominante nas arteríolas é simpático. Na presença do bloqueador não despolarizante, este sistemaé mais afetado, resultando em vasodilatação. O sistema nervoso parassimpático é o tônus predominante em vários sistemas orgânicos (ver p. 40). Assim, a presença do bloqueador ganglionar também provoca atonia da bexiga e do TGI, cicloplegia, xerostomia e taquicardia. Por isso, o bloqueio Farmacologia Ilustrada 63 Fármaco Usos terapêuticos Bloqueadores muscarínicos Triexifenidila Benztropina Darifenacina Fesoterodina Oxibutinina Solifenacina Tolterodina Tróspio Ciclopentolato Tropicamida Atropina• Atropina• Escopo/amina lpratrópio •Tratamento do mal de Parkinson •Tratamento da bexiga urinária hiperativa • Em oftalmologia, para produzir midríasee cicloplegiaantes da refração • Notratamento de distúrbios espasmódicos dostratos GI eurinário inferior • Notratamento da intoxicação com organofosforados • Parasuprimiras secreções respiratórias antes de cirurgias • Em obstetrícia, com morfina, para produzir amnésiaesedação • Na prevenção dacinetose • Tratamento da DPOC Bloqueadores ganglionares Nicotina • Nenhum Figura 5.7 Resumo dos antagonistas colinérgicos. *Fármaco contraindicado no glaucoma de ângulo estreito. GI = gastrintestinal; DPOC = doença pulmonar obstrutiva A ' cronica.
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    64 Clark, Finkel,Rey &Whalen Nicotina ' Dopamina - 1 Prazer, supressão do apetite ' ' Norepinefrina - 1 Alerta, supressão do apetite ' Acetilcolina - 1 Alerta, melhora cognitiva ' - 1 Glutamato 1 ' 1 1 1 �1Aprendizado, melhora da memória1 - 1 ' Serotonina 1 Modulação do humor, supressão .. do apetite ' ' p-endorfina Diminuição da ansiedadee datensão GABA Diminuição da ansiedadee da tensão Figura 5.8 Efeitos neuroquímicos da nicotina. GABA = ácido 'Y-aminobutírico. ganglionar raramente é usado em terapêutica, mas com frequência serve como ferramenta na farmacologia experimental. A. Nicotina Um componente da fumaçado cigarro, a nicotina, é um tóxico com vários efeitos indesejados, não tem utilidade terapêutica e é prejudicial à saúde. (Nota: a nicoti na está disponível na forma de adesivos, pastilhas, goma de mascar e outras formas. Os adesivos são para aplicação na pele. O fármaco é absorvido e é eficaz para reduzir a compulsão por nicotina nas pessoas que desejam parar de fumar.) Dependendo da dose, a nicotina despolariza os gânglios autônomos, resultando primeiro em estimulação e depois em paralisia de todos os gânglios. O efeito estimulante é com­ plexo devido ao seu efeito tanto nos gânglios simpático como parassim­ pático. Os efeitos incluem aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca (devido à liberação do transmissor dos terminais adrenérgicos e da suprarrenal) e aumento de peristaltismo e secreções. Em doses mais elevadas, a pressão arterial cai devido ao bloqueio ganglionar, e a ati­ vidade na musculatura do TGI e da bexiga cessa. (Ver p. 1 24 para uma discussão completa sobre nicotina.) B. Mecamilamina A mecamilamina produz bloqueio nicotínico competitivo nos gânglios. A mecamilamina foi superada porfármacos com menos efeitos adversos. IV. FÁRMACOS BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES Esses fármacos bloqueiam a transmissão colinérgica entre o terminal nervo­ so motor e o receptor nicotínico na placa motora neuromuscular do músculo esquelético (ver Figura 5.2). Eles são análogos estruturais da ACh e atuam como antagonistas (tipo não despolarizante) ou agonistas (tipo despolarizan­ te) nos receptores da placa motora da JNM. Os bloqueadores neuromuscula­ res são clinicamente úteis durante a cirurgia para produzir relaxamento mus­ cular completo, evitando o emprego de dosagens mais altas de anestésico para conseguir relaxamento comparável. Eles também são úteis nas cirurgias ortopédicas e para facilitar a entubação na traqueia. Os relaxantes muscula­ res centrais são usados para o controle do tônus muscular espástico. Esses fármacos incluem o di azepam, que se liga aos receptores do ácido aminobu­ tírico (GABA), o dantroleno, que atua diretamente nos músculos, interferindo com a liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático, e o baclofeno, que provavelmente atua no receptor GABA no SNC. A. Bloqueadores não despolarizantes (competitivos) O primeiro fármaco encontrado capaz de bloquear a JNM foi o curare, usado pelos caçadores nativos da América do Sul na região amazônica para paralisara caça.A tubocurarinafoi purificada e introduzida na prática clínica no início da década de 1940. Embora a tubocurarina seja consi­ derada o fármaco protótipo dessa classe, ela foi amplamente substituída por outros fármacos devido aos seus efeitos adversos (ver Figura 5.1 1 ) e não está mais disponível nos EUA. Os fármacos bloqueadores neuromus­ culares aumentaram significativamente a segurança da anestesia, pois menos anestésico passou a ser necessário para conseguir relaxamento muscular, e o paciente se recupera de forma mais rápida e completa após a cirurgia. (Nota: dosagens mais elevadas de anestésicos podem provocar paralisia respiratória e depressão cardíaca, aumentando o tempo de recu­ peração após a cirúrgia.) Os bloqueadores neuromusculares não devem ser usados como substitutos de anestesias superficiais inadequadas.
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    1 . Mecanismode ação a. Em doses baixas. Os fármacos bloqueadores neuromuscu­ lares não despolarizantes interagem com o receptor nicotíni­ co para impedir a ligação da ACh (Figura 5.9). Assim, esses fármacos impedem a despolarização da membrana da célula musculare inibem a contração muscular. Como esses fármacos competem com a ACh no receptor sem estimulá-lo, eles são denominados bloqueadores competitivos. Sua ação pode ser superada pelo aumento da concentração de ACh na fenda si­ náptica - por exemplo, com a administração de inibidores de colinesterase, como neostigmina, piridostigmina ou edrofônio. Os anestesiologistas em geral empregam essa estratégia para diminuir a duração do bloqueio neuromuscular. Além disso, em dosagens baixas, os músculos respondem em graus variados à estimulação elétrica direta de um estimulador periférico, depen­ dendo da extensão do bloqueio neuromuscular. b. Em doses elevadas. Os bloqueadores não despolarizantes po­ dem bloquear o canal iônico na placa motora. Isso leva a um enfraquecimento adicional na transmissão neuromuscular e re­ duza habilidade dos inibidores de AChE em revertera ação dos relaxantes musculares não despolarizantes. No bloqueio com­ pleto, não se observa estimulação elétrica direta. 2. Ações. Nem todos os músculos são igualmente sensíveis aos blo­ queadores competitivos. Os músculos pequenos de contração rápi­ dadaface e dos olhos são mais suscetíveis a esses fármacos e são paralisados primeiro, seguidos pelos dedos. Depois, os músculos dos membros, do pescoço e do tronco são paralisados. A seguir, são atingidos os músculos intercostais e finalmente o diafragma. Os músculos se recuperam na ordem inversa, primeiro o diafragma e por último os músculos da face e dos olhos. Os fármacos que liberam histamina (p. ex., atracúrio) podem produzir redução da pressão arterial, vermelhidão e broncoconstrição. 3. Usos terapêuticos. Esses bloqueadores são usados terapeutica­ mente como fármacos adjuvantes da anestesia durante a cirurgia para relaxar os músculos esqueléticos. Eles também são usados para facilitar a entubação, bem como durante cirurgias ortopédicas (p. ex., para alinhamento de fraturas e correção de deslocamentos). 4. Farmacocinética. Todos os fármacos bloqueadores neuromuscula­ res são injetados IV, pois sua absorção após administração via oral é mínima. Esses fármacos possuem duas ou mais aminas quater­ nárias na sua volumosa estrutura, tornando-os ineficazes por via oral. Eles penetram pouco nas membranas, não entram nas células e nem atravessam a barreira hematoencefálica. Vários desses fár­ macos não são biotransformados e suas ações terminam por re­ distribuição (Figura 5.1O). Por exemplo, o pancurônio é excretado inalterado na urina. O atracúrio é degradado espontaneamente no plasma e por hidrólise de éster. (Nota: o atracúri o é substituído pelo seu isômero, cisatracúrio. Ele libera histamina e é biotransforma­ do na laudanosina, que pode provocar convulsões. O ci satracúrio, que tem as mesmas propriedades farmacocinéticas do atracúrio, é menos propenso a causar esses efeitos.) Os fármacos aminoeste­ roides (vecurônio e rocurônio) são desacetilados no fígado, e suas depurações são mais demoradas em pacientes com doença hepá­ tica. Esses fármacos também são excretados inalterados na bile. A escolha do fármaco depende da urgência em obter o relaxamento Farmacologia Ilustrada 65 Tubocurarina . .. . . . . • • . . Acetilcolina : : ,·� �"-. "···········' . ·:· Na+ �·- .. . . .. ..... . . ... íílm��?f � ô:X'L.. - - .....J....LJ� Receptornicotínicona junçãoneuromuscular Figura 5.9 Mecanismo de ação dos fármacos blo­ queadores neuromusculares competi­ tivos. Os fármacos não entram facilmente nas células rocurônioe li metabólito s aparecem ( principa;e7e na bile 'Z!JW A maioria dos fármacos é excre tada primariamente ( inalterada na urina Fármacos bloqueadores neuromusculares Figura 5.10 Farmacocinética dos fármacos blo­ queadores neuromusculares. IV = intra­ venoso.
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    66 Clark, Finkel,Rey &Whalen Tempo para alcançaro bloqueio máximo 1 Tempo para recuperar 25º/oda � � - resposta máxima (min) Atracúrio 40 2 O ci satracúr iosedegradaespontaneamente no plasmaeé oúnicobloqueadorneuro­ muscularnãodespolarizantecujadosagem nãoprecisaser reduzidaempacientescom insuficiênciarenal. Em geral,é usadoem pacientescominsuficiênciaorgânica múltipla, poissua biotransformaçãoé independentedafunçãohepáticaou renal. O cisatracúr io é útilemventilaçãomecânica de pacientescriticamentedoentes. e. t • . ls isa racur10 : L =: sa =: =: =: =: =: =: =: =: =: =: =: =: =: =: : Vagolítico (aumenta afrequência cardíaca) ____ _ _ _ _ _ _; Pancurônio ,._ �- �6 - - - - - - - Rocurônio 1- /--'- : - 3- - � Écomum adormuscularpós-cirúr­ gica; podeocorrerhiperpotassemiae aumentodas pressõesintraoculare intragástrica. O fármacopode desencadearhipertermia maligna. O iníciorápidodaaçãotornaa succinilcolinaútilparaaentubação traqueal em pacientescomconteúdo gástrico. S . ., ,. l.h1 ucc1n11co1na @] Tubocurarina ,.__;8--� Vecurônio ,._ �- � - - -.. Figura 5.11 Mecanismo de ação dos fármacos blo­ queadores neuromusculares despolari­ zantes. muscular e a duração de efeito pretendida. O início e a duração de ação, bem como outras características dos fármacos bloqueadores neuromusculares são mostrados na Figura 5.1 1 . 5. Efeitos adversos. Em geral, os fármacos são seguros com efeitos adversos mínimos. Os efeitos adversos dos fármacos bloqueadores neuromusculares específicos são mostrados na Figura 5.1 1 . 6. Interações de fármacos a. Inibidores de colinesterase. Fármacos como neostigmina, fi­ sostigmina, piridostigmina e edrofônio podem reverter a ação dos bloqueadores neuromusculares não despolarizantes, mas, com dosagens elevadas, os inibidores de colinesterase podem causar um bloqueio despolarizante como resultado da concen­ tração elevada de ACh na placa motora. Se o bloqueador neu­ romuscular entrou no canal iônico, os inibidores de colinestera­ se são incapazes de reverter o bloqueio. b. Anestésicos hidrocarbonetos halogenados. Fármacos como o halotano potencializam o bloqueio neuromuscular por exerce­ rem umaação estabilizadora na JNM. Esses fármacos sensibili­ zam a JNM aos efeitos dos bloqueadores neuromusculares. c. Antibióticos aminoglicosídeos. Fármacos como a gentamici­ na e a tobramicina inibem a liberação de ACh dos nervos co­ linérgicos por competição com os íons de cálcio. Eles atuam sinergicamente com o pancurônio e outros bloqueadores com­ petitivos, aumentando o bloqueio. d. Bloqueadores de canais de cálcio. Esses fármacos podem aumentaro bloqueio neuromusculardos bloqueadores competi­ tivos, bem como os bloqueadores despolarizantes. B. Fármacos despolarizantes Os fármacos bloqueadores despolarizantes atuam por despolarização da membrana plasmática dafibra muscular, similarà ação daACh. Entretan­ to, estesfármacos são mais resistentes à degradação pela AChE e assim despolarizam as fibras musculares de modo mais persistente. A succi­ nilcolina é o único relaxante muscular depolarizante usado atualmente. 1. Mecanismo de ação. O bloqueador neuromuscular despolarizan­ te succinilcolina liga-se ao receptor nicotínico e atua como a ACh despolarizando a junção (Figura 5.12). Ao contrário da ACh, que é destruída instantaneamente pela AChE, o fármaco despolarizante persiste em concentração elevada na fenda sináptica, permanecen­ do ligado ao receptor por um tempo maior e causando uma estimu­ lação constante do receptor. (Nota: a duração da ação da succinil­ colina depende da sua difusão da placa motora e da hidrólise pela pseudocolinesterase plasmática.) O fármaco despolarizante inicial­ mente causa a abertura do canal de sódio associado ao receptor nicotínico, o que resulta na despolarização do receptor (Fase 1). Isso leva a abalos contráteis transitórios do músculo (fasciculações). A ligação persistente torna o receptor incapaz de transmitir impulsos adicionais. Com o tempo, a despolarização contínua dá origem a uma repolarização gradual quando o canal de sódio se fecha ou é bloqueado. Isso causa a resistência à despolarização (Fase 11) e paralisia flácida.
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    2. Ações. Asequência de paralisia pode ser ligeiramente diferente, mas como ocorre com os bloqueadores competitivos, os músculos respiratórios são paralisados por último. A succinilcolina inicialmen­ te produz fasciculações musculares breves e, em doses elevadas, bloqueio ganglionar, mas apresenta uma leve ação liberadora de histamina. (Nota: a administração de pequena dose de bloqueador neuromuscular não despolarizante previamente à succini/colina di­ minui ou previne as fasciculações que causam dor muscular.) Em geral, a duração de ação da succinilcolina é extremamente curta, pois o fármaco é rapidamente hidrolisado pelas pseudocolinestera­ ses do plasma. Contudo, a succinilcolina que alcança a JNM não é biotransformada pela AChE, permitindo que o fármaco se ligue ao receptores nicotínicos. A sua redistribuição ao plasma é necessária para a biotransformação (o efeito terapêutico dura poucos minutos). (Nota: variantes genéticas que têm níveis baixos ou ausentes de pseudocolinesterase plasmática apresentam paralisia neuromuscu­ lar prolongada.) 3. Usos terapêuticos. Devido ao rápido início e à curta duração de ação, a succinilcolina é útil quando a rápida entubação endotra­ queal é necessária durante a indução da anestesia (a ação rápida é essencial se a aspiração do conteúdo gástrico deve ser evitada durante a entubação). Ela também é usada durante tratamento com choque eletroconvulsivo. 4. Farmacocinética. A succi nilco/ina é injetada IV. Sua breve duração de ação (alguns minutos) resulta da redistribuição e da rápida hidró­ lise pela pseudocolinesterase plasmática. Por isso, algumas vezes, ela é administrada por infusão contínua para manter um efeito mais longo. O efeito do fármaco desaparece rapidamente ao ser descon­ tinuado. 5. Efeitos adversos a. Hipertermia. Quando o halotano (ver p. 1 38) é usado como anestésico, a administração de succinilcolina às vezes causa hipertermia maligna (com rigidez muscular, acidose metabólica, taquicardia e hiperpirexia) em humanos geneticamente suscetí­ veis (ver Figura 5.1 1). Isso é tratado com o rápido resfriamento do paciente e com a administração de dantroleno, que bloqueia a liberação de Ca 2 + do retículo sarcoplasmático das células musculares, reduzindo, assim, a produção de calor e relaxando o tônus muscular. b. Apneia. A administração de succinilcolina a um paciente que é deficiente genético de colinesterase plasmáticaou quetem uma forma atípica da enzima pode levar à apneia prolongada devido à paralisia do diafragma. A liberação rápida de potássio contri­ bui também para prolongar a apneia em pacientes com dese­ quilíbrios eletrolíticas que recebem este fármaco. Os pacientes com desequilíbrios eletrolíticas sob tratamento com digoxina ou diuréticos (como os pacientes com insuficiência cardíaca con­ gestiva) devem receber succinilcolina cautelosamente ou nem recebê-la. e. Hiperpotassemia. A succini/coli na aumenta a liberação de po­ tássio das reservas intracelulares. Isso é particularmente peri­ goso em pacientes queimados ou com lesão tecidual extensa nos quais o potássio é rapidamente perdido pelas células. Farmacologia Ilustrada 67 FASE I A membrana despolariza, resultando em umadescarga inicial que produz fasciculaçõestransitórias seguidas de paralisiaflácida. - - - Succinilco/ina Na+ Receptor nicotínico na junção neuromuscular Na+ FASE li A membrana repolariza, mas o receptoré dessensibilizado aos efeitos da acetilcolina. Figura 5.12 Mecanismo de ação dos fármacos blo­ queadores neuromusculares despolari­ zantes.
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    68 Clark, Finkel,Rey &Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 5.1 Um homem com 75 anos que foi fumante é diagnosticado com doença pulmonar obstrutiva crônica e sofre de bron­ coespasmos ocasionais. Qual dentre os seguintes fárma­ cos será eficaz no seu tratamento? A. lpratrópio em aerossol B. Adesivos de escopolamina C. Mecamilamina D. Oxigênio E. Nicotina 5.2 Qual dos seguintes fármacos precipitaria uma crise de glaucoma de ângulo amplo se instilado no olho? A. Fisostigmina B. Atropina C. Pilocarpina D. Ecotiofato E. Tropicamida 5.3 A apneia prolongada algumas vezes observada em pa­ cientes operados nos quais foi empregada succinilcolina como relaxante muscular é atribuída a: A. Atonia urinária. B. Níveis baixos de colinesterase plasmática. C. Mutação na acetilcolinesterase. D. Mutação no receptor nicotínico na junção neuromus­ cular. E. Fraca ação de liberar histamina. 5.4 Um homem com 50 anos, trabalhador em uma fazenda, é trazido à emergência. Ele foi encontrado confuso no po­ mar e desde então perdeu a consciência. A sua frequência cardíaca é 45 e a pressão arterial é 80/40 mmHg. Ele está suando e salivando profusamente. Qual dos seguintes tra­ tamentos é indicado? A. Fisostigmina B. Norepinefrina C. Trimetafana D. Atropina E. Edrofônio 5.5 Os bloqueadores neuromusculares não despolarizantes estão associados com todos seguintes aspectos, exceto: A. Ativação inicial do receptor de ACh e despolarização da placa motora. B. Os efeitos são revertidos com os inibidores de acetilco- linesterase. e. Têm duração de ação intermediária a longa. D. Ligam-se ao receptor da ACh, mas não o ativam. E. A maioria destes fármacos tem efeitos cardiovascula­ res mínimos. Resposta correta = A. Esse é o fármaco de escolha especialmente em paciente que não tolera um agonista adrenérgico, que dilataria os bronquíolos. O principal efeito da escopolamina é atropínico e ela é um dos fármacos anticinetósicos mais eficazes. A mecamilamina é um bloqueador ganglionar e é completamente inadequada para a situação. O oxigênio melhoraria a aeração, mas não dilataria a mus­ culatura bronquial.A nicotina agrava esta condição. Resposta correta = B. O efeito midriático da atropina pode resultar em estreitamento do canal de Schlemm, levando a um aumento na pressão intraocular. Fisostigmina, pilocarpina e ecotiofato causam miose. Atropicamidaproduz midríase sem aumentara pressão intra­ oculardevidoà sua duração de ação mais curta. Resposta correta = B. Esses pacientes têm uma deficiência genética da colinesterase plasmática não específica que é necessária para terminarcom aaçãoda succinilcolina.Asoutras alternativas nãopro­ vocam apneia. Resposta correta = D. O paciente exibe sinais de estimulação coli­ nérgica.Comoele é um fazendeiro, o envenenamento com inseticida é um diagnóstico provável. Assim, doses IV ou IM de atropina são indicadas para antagonizar os sinais muscarínicos. A fisostigmina e o edrofônio são inibidores de colinesterase e agravariam o problema. A norepinefrina não é eficaz no combate à estimulação colinérgi­ ca. A trimetafana como bloqueador ganglionar também agravaria a condição. Resposta correta = A. Aos fármacos despolarizantes (succinilcolina) é atribuída a ativação do receptor da ACh. As alternativas B, e e D são corretas para os fármacos não despolarizantes. O pancurônio pode causartaquicardiae hipertensão; o rocurônio e ovecurônio têm perfil de segurançacardiovascular favorável.
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    , • rener ICOS 1.RESUMO Os fármacos adrenérgicos atuam em receptores que são estimulados pela no­ repinefrina ou pela epinefrina.Algunsfármacos adrenérgicos atuam diretamen­ te no receptor adrenérgico (adrenorreceptor), ativando-o e sendo denomina­ dos simpaticomiméticos. Outros, como será tratado no Capítulo 7, bloqueiam a ação dos neurotransmissores nos receptores (simpaticolíticos), e outros afetam a função adrenérgica, interrompendo a liberação de norepinefrina dos neurô­ nios adrenérgicos. Este capítulodescreve osfármacos que estimulam direta ou indiretamente o adrenorreceptor (Figura 6.1). li. O NEURÔNIO ADRENÉRGICO Os neurônios adrenérgicos liberam norepinefrina como neurotransmissor primário. Esses neurônios são encontrados no SNC e também no sistema nervoso simpático, onde eles servem de ligação entre os gânglios e os ór­ gãos efetores. Os neurônios adrenérgicos e os receptores, localizados pré­ -sinapticamente no neurônio ou pós-sinapticamente no órgão efetor, são os locais de ação dos fármacos adrenérgicos (Figura 6.2). A. Neurotransmissão nos neurônios adrenérgicos A neurotransmissão nos neurônios adrenérgicos é muito similar à descri­ ta para os neurônios colinérgicos (ver p. 47), exceto que a norepinefrina é o neurotransmissor, em vez de acetilcolina. A neurotransmissão ocor­ re nos numerosos alargamentos semelhantes às contas de um rosário, denominados varicosidades. O processo envolve cinco etapas: síntese, armazenamento, liberação e ligação com o receptorda norepinefrina, se­ guido da remoção do neurotransmissor da fenda sináptica (Figura 6.3). 1 . Síntese de norepinefrina. A tirosina é transportada por um trans­ portador ligado a Na+ para o axoplasma do neurônio adrenérgico, onde é hidroxilada a di-hidroxifenilalanina (DOPA) pela tirosina hi- FÁRMACOS DEAÇÃODIRETA Albuterol Clonidi na Dobutamina" Dopamina" Epinefrina" Feno/dopam Formoterol /soproterenol" Metaproterenol" Norepinefrina" Fenilefrina Salmeterol Terbutalina FÁRMACOSDE AÇÃO INDIRETA Anfetamina Cocaí na FÁRMACOS DE AC(ÃO DIRETA E INDIRETA (AÇAOMISTA) Figura 6.1 Efedri na Pseudoefedrina Resumo dos agonistas adrenérgicos. Fármacos assinalados com * são cate­ colaminas.
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    70 Clark, Finkel,Rey &Whalen Receptor nicotínico Suprarrenal Epinefrina liberada na circulação sanguínea o • Receptor adrenérgico , Receptor nicotínico Norepinefrina Receptor adrenérgico Orgãos efetores Figura 6.2 Locais de ação dos agonistas adrenér- • glCOS. droxilase. 1 Essa é a etapa limitante da velocidade de síntese de norepinefrina. A DOPA é descarboxilada pela dopadescarboxilase (descarboxilase de L aminoácido aromático), formando dopamina no citoplasma do neurônio pré-sináptico. 2. Armazenamento de norepinefrina em vesículas. A dopamina é en­ tãotransportada parao interiordasvesículas porum sistematranspor­ tador de aminas que também está envolvido na captação da norepi­ nefrina pré-formada. Esse sistema é bloqueado pela reserpi na (ver p. 96).A dopamina é hidroxilada paraformara norepinefri na pela enzima dopamina hidroxilase. (Nota: as vesículas sinápticas contêm dopami­ na ou norepinefri na mais trifosfato de adenosina [A TP] e hidroxilase, bem como outros cotransmissores.) Na suprarrenal, a norepinefri na é metilada à epinefrina e armazenada nas células cromafins junto com norepinefrina. Sob estimulação, a suprarrenal libera cerca de 80° /o de epinefrina e 20° / o de norepinefrina diretamente na circulação. 3. Liberação de norepinefrina. A chegada do potencial de ação na junção neuromuscular inicia a entrada de íons cálcio do líquido ex­ tracelular para o axoplasma. O aumento no cálcio causa afusão das vesículas com a membrana celular e a liberação de seu conteúdo (exocitose) na sinapse. Fármacos como a guanetidi na bloqueiam essa liberação (ver p. 96). 4. Ligação aos receptores. A norepinefrina liberada das vesículas sinápticas difunde-se através do espaço sináptico e se liga aos re­ ceptores pós-sinápticos no órgão efetor ou aos receptores pré-si­ nápticos no terminal nervoso. O reconhecimento da norepinefrina pelos receptores inicia uma cascata de eventos no interior da célu­ la, resultando na formação do segundo mensageiro intracelular que atua como intermediário (transdutor) na comunicação entre o neuro­ transmissore aação gerada no interiorda célula efetora. Receptores adrenérgicos usam o monofosfato cíclico de adenosina (AMP0) como segundo mensageiro 2 e o ciclo do fosfatidilinositol 3 para transduzir o sinal em um efeito. A norepinefrina também se liga a receptores pré­ -sinápticos que modulam a liberação do neurotransmissor. 5. Remoção da norepinefrina. A norepinefri na pode 1) difundir-se para fora da fenda sináptica e entrar na circulação geral; 2) ser me­ tabolizada a derivados 0-metilados pela catecol-0-metiltransferase associada à membrana pós-sináptica na fenda sináptica ou 3) ser capturada por um sistema de transporte que a bombeia de volta para o neurônio. A captação neuronal envolve uma ATPase ativada por Na+ ou K+ que pode ser inibida pelos antidepressivos tricíclicos, como imipramina, ou pela cocaína (ver Figura 6.3). O mecanismo de captação da norepinefrina para o interior do neurônio pré-sináptico é o mecanismo primário paraterminar com os seus efeitos. 6. Possíveis destinos da norepinefrina captada. Logo que a nore­ pinefrina entra no citoplasma do neurônio adrenérgico, ela é capta­ da para o interior da vesícula através do sistema transportador de aminas e é sequestrada para futura liberação por outro potencial 1 Ver Capítulo 21 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre a síntese de DOPA. 2 Ver Capítulo 8 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre sistema de segundo mensageiro AMPc. 3Ver Capítulo 17 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre ciclo do fosfatidilinositol.
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    SÍNTESE DA NOREPINEFRINA • Ahidroxilaçãodatirosinaé aetapa limitante da velocidadedesíntese. Tirosina Na+ Tirosina Na+ t 1.--� DOPA . /l- Metabólitos Urina � inativos t REMOÇÃO DA NOREPINEFRINA Dopamina Dopamina � Jl � ..... Ca2+ � ..... Ca2+ �o Vesícula sináptica Farmacologia Ilustrada 71 CAPTAÇÃO EM VESÍCULAS DE ARMAZENAMENTO • A dopaminaentrana vesículaeéconvertida em norepinefrina. • A norepinefrina é protegida dadegradação navesícula. • Otransporte paraa vesícula é inibido pela reserpina. [:li LIBERAÇÃO DO � NEUROTRANSMISSOR • O influxo de cálcio causafusão davesícula com a membrana celular, um processo denominado exocitose. • A liberação é bloqueada por guanetidinae bretílio. • A norepinefrina liberadaé rapi­ damente captada pelo neurônio. • A captação neuronal é inibida pela cocaínae imipramina. ..... ..... Receptor pré-sináptico Urina /l- Metabólitos � inativos � METABOLISMO • A norepinefrinaé metilada pela COMT e oxidada pela MAO. Figura 6.3 ..... � -- - _! 1'Y.o,ep;nefrina Catecol-0- -metiltransferase (COMT) JJ RESPOSTA INTRACELULAR Síntese e liberação de norepinefrina do neurônio adrenérgico. MAO = monoamina oxidase. de ação ou pode permanecer no citoplasma em um pool protegido. Alternativamente, a norepinefrina pode ser oxidada pela monoami­ naoxidase (MAO), presente na mitocôndria neuronal. Os produtos inativos do metabolismo da norepinefrina são excretados na urina, como ácido vanililmandélico, metanefrina e normetanefrina. B. Receptores adrenérgicos (adrenorreceptores) No sistema nervoso simpático, várias classes de adrenorreceptores po­ dem ser diferenciadas farmacologicamente. Duas famílias de receptores, designadas a e 13, foram inicialmente identificadas com base na respos­ ta aos agonistas adrenérgicos epinefrina, norepinefrina e isoproterenol. O uso de fármacos bloqueadores específicos e a clonagem de genes - LIGAÇAO AO RECEPTOR • O receptor pós-sináptico é ativado pela ligação do neurotransmissor.
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    72 Clark, Finkel,Rey &Whalen rJ Adrenorreceptores a Norepinefrina Epinefrina lsoproterenol • • • ' ' l IDlID � = � =� = Receptoro: Alta � Baixa afinidade afinidade l]J Adrenorreceptores J Epinefrina lsoproterenol Norepinefrina • • • ' ' l IDfill=+ n 1 1--+ { filfilj� = Receptor� Alta +- Baixa afinidade afinidade Figura 6.4 Tipos de receptores adrenérgicos. revelaram as identidades moleculares de inúmeros subtipos de recepto­ res. Essas proteínas pertencem a uma família multigênica. Alterações na estrutura primária dos receptores influenciam sua afinidade para vários fármacos. 1 . Receptores a1 e a2• Os adrenorreceptores apresentam respostas fracas ao agonista sintético isoproterenol, mas eles respondem às catecolaminas naturais epinefri na e norepinefrina (Figura 6.4). Para os receptores a, a ordem de potência é epinefrina > norepinefri­ na >> isoproterenol. Os adrenorreceptores a são subdivididos em dois grupos, a1 e a2, com base nas suas afinidades por agonistas e bloqueadores a. Por exemplo, os receptores a1 têm maior afinidade por fenilefri na do que os receptores a2• Ao contrário, a clonidina se liga seletivamente aos receptores a2 e tem menor efeito nos recep­ tores a1• a. Receptores a1• Esses receptores estão presentes na membrana pós-sinápticadosórgãos efetores e intermedeiam vários dos efei­ tos clássicos-originalmente designados como a-adrenérgicos-, envolvendo contração de músculo liso.A ativação dos receptores a1 inicia uma série de reações por meio da fosfolipase C ativada pela proteína G, resultando na formação de inositol1 ,4,5trifosfato (IP3) e de diacilglicerol (DAG) do fosfatidilinositol. O IP3 inicia a liberação de Ca 2 + do retículo endoplasmático para o citosol, e o DAG ativa outras proteínas no interiorda célula (Figura 6.5). b. Receptores a2• Esses receptores, localizados primariamente nas terminações nervosas pré-sinápticas e em outras células, como a célula do pâncreas e certas células musculares lisas vasculares, controlam respectivamente a liberação do neurome­ diador adrenérgico e da insulina. Quando um nervo simpático adrenérgico é estimulado, a norepinefrina liberada atravessa a fenda sináptica e interage com o receptor a1• Uma porção da norepinefrina liberada reage com os receptores a2 na membra­ na neuronal (ver Figura 6.5). A estimulação desse receptor a2 promove retroalimentação inibitória da liberação de norepine­ frina do neurônio adrenérgico estimulado. Esse efeito inibitório diminui a liberação adicional do neurônio adrenérgico e serve como um mecanismo modulador local para reduzir o débito de neuromediador simpático quando há atividade simpática eleva­ da. (Nota: neste caso, esses receptores atuam como autorre­ ceptores inibitórios). Receptores a2 também são encontrados na pré-sinapse dos neurônios parassimpáticos. A norepinefrina li­ berada de um neurônio pré-sináptico simpático pode difundir-se e interagir com esses receptores, inibindo a liberação de acetil­ colina. (Nota: neste caso, tais receptores atuam como heterorre­ ceptores inibitórios). Este é outro mecanismo modular local para controlar a atividade autônoma em certas áreas. Em contraste com os receptores a1, os efeitos da ligação com os receptores a2 são mediados pela inibição da adenililciclase e pela redução nos níveis intracelulares de AMPc. c. Subdivisões adicionais. Os receptores a1 e a2 são subdividi­ dos em a1A, a18, a1c e a10 e em a2A, a28, a2c e a20• Essa clas­ sificação estendida é necessária para entender a seletividade de alguns fármacos. Porexemplo, tansu/osina é um antagonista seletivo a1A e é usada para o tratamento da hiperplasia benigna de próstata. O fármaco é útil clinicamente, pois atua sobre os receptores a1Aencontrados primariamente notrato urinário e na próstata.
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    2. Receptores (3.Os receptores 13 exibem um conjunto de respostas diferentes daquelas dos receptores a. Eles se caracterizam por uma intensa resposta ao isoproterenol, com menor sensibilidade para epinefrina e norepinefrina (ver Figura 6.4). Para os receptores 13, a ordem de potência é isoproterenol > epinefri na > norepinefrina. Os adrenorreceptores 13 podem ser subdivididos em três grupos principais, 131, 132 e 133, com base nas afinidades pelos agonistas e antagonistas, embora muitos outros tenham sido identificados por clonagem gênica. (Nota: sabe-se que os receptores 133 estão en­ volvidos na lipólise, mas seu papel em outras reações específicas permanece desconhecido.) Os receptores 131 têm aproximadamente a mesma afinidade para epinefrina e norepinefrina, e os receptores 132 têm maior afinidade para epinefrina do que para norepinefrina. Assim, os tecidos com predominância de receptores 132 (como os vasos dos músculos esqueléticos) são particularmente responsivos aos efeitos hormonais da epinefrina circulante liberada pela suprar­ renal. A ligação de um neurotransmissor a algum dos três recepto­ res 13 resulta na ativação de adenililciclase e, portanto, no aumento da concentração de AMPc no interior da célula. 3. Distribuição dos receptores. Os órgãos e tecidos inervados adre­ nergicamente tendem a ter predominância de um tipo de receptor. Por exemplo, os tecidos como os vasos dos músculos esqueléticos têm os receptores a1 e 132, mas os 132 predominam. Outros tecidos podem terexclusivamente um tipo de receptor, com número pratica­ mente insignificante de outros tipos de receptores adrenérgicos. Por exemplo, o coração contém predominantemente receptores 131• 4. Respostas características mediadas pelos adrenorreceptores. , E útil organizar as respostas fisiológicas à estimulação adrenérgi- ca de acordo com o tipo de receptor, pois vários fármacos estimu­ lam ou bloqueiam preferencialmente um tipo. A Figura 6.6 resume os efeitos mais proeminentes mediados pelos adrenorreceptores. Como generalização, a estimulação de receptores a, caracteristi­ camente provoca vasoconstrição (particularmente na pele e nas vísceras abdominais) e um aumento na resistência periférica total e na pressão arterial. A estimulação dos receptores 131 causa esti­ mulação cardíaca característica, ao passo que a estimulação dos receptores 132 produz vasodilatação (no leito vascular esquelético) e relaxamento bronquial. ( ADRENORRECEPTORES ) 1 1 1 1 ª1 ª2 P1 - Inibição da liberação Taquicardia - Vasoconstrição - de norepinefrina - Aumento da - Aumento da lipólise Vesícula sináptica o o • o • Farmacologia Ilustrada 73 Receptores a2 Aativação desses receptores diminui a produção deAMPc, levando à inibição da liberação adicional de norepinefrinado � . neuron10. ATP AMPc ...../' Adenililciclase Norepic::na � ...- -- �. Fosfoino- O DA� sitídeos :-=< --,/Ca2+ r---. de membrana IP3 V .> Receptores a1 Aativação desses receptores aumenta a produção de DAG e IP3, levando ao aumento intracelular de íons cálcio. Figura 6.5 Segundos mensageiros intermedeiam os efeitos dos receptores a. DAG = diacilglicerol; IP3 = trifosfato de inositol; ATP = trifosfato de adenosina; AMPC = monofosfato cíclico de adenosina. 1 P2 1- Vasodilatação 1- Leve redução da resistência periférica resistência periférica - Inibição da - Aumento da contratilidade Broncodilatação liberação de acetilcolina 1- - Aumento da pressão arterial - Inibição da - Midríase liberação de insulina - Maiorfechamento do esfíncter interno da bexiga urinária Figura 6.6 Principais efeitos mediados pelos adrenorreceptores a e 13. do miocárdio 1- - Aumento da liberação de renina ,__ 1- Aumento daglicogenólise hepáticae muscular Aumento da liberação deglucagônio Relaxamento da musculatura uterina
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    74 Clark, Finkel,Rey &Whalen HO HO HO � HO HO � HO HO � HO Y"' HO � OH H 1 / CH- CH2- N "-cH3 Fenilefrina OH H 1 / .....__,,.,CH- CH- N 1 " CH3 CH3 Efedrina Norepinefrina Epinefrina OH H 1 / CH-CH - N CH 2 " / 3 CH " /soproterenol CH3 Aafinidadepelos receptores�aumentacom oaumentodogrupoligado aonitrogênioamínico. Dopamina Figura 6.7 Estrutura de vários agonistas adrenér­ gicos importantes. Os fármacos con­ tendo o anel catecólico estão represen­ tados em amarelo. 5. Dessensibilização de receptores. A exposição prolongada às ca­ tecolaminas reduz a sensibilidade desses receptores, um fenômeno denominado dessensibilização. Três mecanismos tentam explicar o fenômeno: 1) sequestro dos receptores de forma que ficam in­ disponíveis para interação com o ligante; 2) regulação para baixo (down-regulation, dessensibilização), que é o desaparecimento do receptor por destruição ou pordiminuição de síntese e 3) uma inca­ pacidade de acoplar-se à proteína G, pois o receptor foi fosforilado no lado citoplasmático por uma das proteínas quinases do receptor a- ou (3-adrenérgico. Ili. CARACTERÍSTICAS DOS AGONISTAS ADRENÉRGICOS A maioria dos fármacos adrenérgicos é derivada dafeniletilamina (Figura 6.7). Substituições no anel benzênico ou na cadeia lateral etilamina produzem uma grande variedade de compostos com variadas habilidades de diferenciar en­ tre adrenorreceptores a e 13 e de penetrar no SNC. Dois aspectos estruturais importantes desses fármacos são 1 ) o número e a localização das substitui­ ções nas OH no anel benzênico e 2) a natureza dos substitutos no nitrogênio • am1no. A. Catecolaminas As aminas simpaticomiméticas que contêm o grupo 3,4-di-hidroxibenze­ no (como epinefrina, norepinefrina, isoproterenol e dopamina) são de­ nominadas catecolaminas. Esses compostos apresentam em comum as seguintes propriedades: 1 . Alta potência. Osfármacos que são derivados catecol (com grupos -OH nas posições 3 e 4 do anel benzênico) mostram a maior potên­ cia na ativação direta dos receptores a e (3. 2. lnativação rápida. As catecolaminas não só são biotransformadas pela COMT pós-sinapticamente e pela MAO intraneuronal, mas também são biotransformadas em outros tecidos. Por exemplo, a COMT está na parede intestinal, e a MAO, no fígado e na parede intestinal. Assim, as catecolaminas têm um curto período de ação quando administradas parenteralmente e são ineficazes quando ad­ ministradas por via oral, pois são inativadas. 3. Escassa penetração no SNC. As catecolaminas são polares e, por isso, não penetram facilmente no SNC. Apesar disso, a maioria desses fármacos tem alguns efeitos clínicos (ansiedade, tremores e cefaleias) que são atribuídos à ação sobre o SNC. B. Aminas não catecólicas Compostos que não têm os grupos hidroxicatecólicos têm meias-vidas mais longas, pois não são inativados pela COMT. Incluem-se fenilefri na, efedri na e anfetamina. A fenilefri na, que é um análogo da epinefrina, tem só uma-OH na posição 3 do anel benzênico, e a efedri na não tem hidro­ xilas, mas tem um grupo metila no carbono a. Eles são maus substratos para a MAO e, assim, mostram ação prolongada, pois a MAO é uma via importante de biotransformação. A maior lipossolubilidade de várias ami­ nas não catecólicas (devido à ausência dos grupos hidroxila que são po­ lares) permite maior acesso ao SNC. (Nota: a efedrina e a anfetamina po­ dem atuar indiretamente por liberação de catecolaminas armazenadas.)
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    C. Substituições nonitrogênio amínico A natureza e o volume do substituto no nitrogênio amínico são impor­ tantes na determinação da seletividade J3 do agonista adrenérgico. Por exemplo, a epinefrina, com um substituto -CH3 no nitrogênio amínico, é mais potente nos receptores do que a norepinefrina, que tem uma amina não substituída. De forma similar, o isoproterenol, que tem um substituto isopropila -CH(CH3)2 no nitrogênio amínico (ver Figura 6.7), é um forte J3-agonista com pouca atividade a (ver Figura 6.4). D. Mecanismo de ação dos agonistas adrenérgicos 1 . Agonistas de ação direta. Esses fármacos atuam diretamente nos receptores a ou J3, produzindo efeitos similares aos resultan­ tes da estimulação dos nervos simpáticos ou da liberação do hor­ mônio epinefrina da suprarrenal (Figura 6.8). Exemplos de agonis­ tas de ação direta incluem epinefrina, norepinefrina, isoproterenol e fenilefrina. 2. Agonistas de ação indireta. Esses fármacos, que incluem anfe­ tamina, cocaína e tiramina, podem bloquear a captação de norepi­ nefrina (bloqueadores de captação) ou são captados pelo neurônio pré-sináptico e causam a liberação de norepinefrina do pool cito­ plasmático ou das vesículas do neurônio adrenérgico (ver Figura 6.8). Como ocorre com a estimulação neuronal, a norepinefrinaatra­ vessa a sinapse e se liga aos receptores a ou J3. Exemplos de blo­ queador de captação e de liberador de norepinefrina são a cocaína e as anfetaminas, respectivamente. 3. Agonistas de ação mista. Alguns agonistas, como a efedrina e seu estereoisômero pseudoefedrina, têm a capacidade de estimular os adrenorreceptores diretamente e de liberar norepinefrina do neurô­ nio adrenérgico (ver Figura 6.8). IV. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO DIRETA Os agonistas de ação direta se ligam aos receptores adrenérgicos sem inte­ ragir com o neurônio pré-sináptico. O receptor ativado inicia a síntese do se­ gundo mensageiro e dos sinais intracelulares subsequentes. Como um grupo, esses fármacos são bastante usados clinicamente. A. Epinefrina A epinefrina é uma das quatro catecolaminas - epinefrina, norepinefrina, dopamina e dobutamina -comumente usadas em tratamento. As três pri­ meiras ocorrem naturalmente no organismo como neurotransmissores, e a última é um composto sintético. A epinefri na é sintetizada da tirosina na suprarrenal e é liberadajunto com pequenas quantidades de norepinefri na na corrente sanguínea. Ela interage com os receptores a e J3. Em doses baixas, os efeitos J3 (vasodilatação) no leito vascular predominam, e em altas doses, os efeitos a (vasoconstrição) são mais intensos. Farmacologia Ilustrada 75 AÇÃO INDIRETA Os fármacos aumentam a liberação de norepinefrina das vesículas. NEURÔNIO SINAPSE · ­ • o AÇÃO MISTA Osfármacos '-----! atuam direta e ..._ .,.. indiretamente• ...... AÇÃO DIRETA MEMBRANA PÓS-SINÁPTICA DACÉLULA-ALVO Os fármacos ativam diretamente o receptor. Figura 6.8 Locais de ação direta, indireta e mista dos agonistas adrenérgicos.
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    76 Clark, Finkel,Rey &Whalen A epinefrinaaumenta a frequênciae aforça de contração cardíaca. � -8 .5 m E ·- ... u o ,ij .s. ::::1 o i.!! ... ::::1 u.. D. iã · - 100 [ so[ 180 60 Alta Baixa A epinefrina diminui a resistência periférica. Figura 6.9 Infusão de epinefrina o 15 Tempo (min) A pressão sistólica aumenta, e a pressão diastólica reduz. Efeitos cardiovasculares da infusão IV de doses baixas de epinefrina. 1 . Ações a. Cardiovascular. As principais ações da epinefri na são no siste­ ma cardiovascular. A epinefri na reforça a contratilidade do mio­ cárdio (inotropismo positivo: ação 131) e aumenta a frequência de contração (cronotropismo positivo: ação 131). O débito cardíaco, então, aumenta. Com esses efeitos, aumenta a demanda de oxi­ gênio pelo miocárdio. A epinefri na ativa receptores 131 nos rins, promovendo a liberação de renina. A renina é uma enzima envol­ vida na produção de angiotensina li, um vasoconstritor potente. A epinefrina contrai as arteríolas da pele, mucosas e vísceras (efeito a) e dilata os vasos que vão ao fígado e músculos esque­ léticos (efeito 132). O fluxo de sangue para os rins diminui. Portan­ to, o efeito cumulativo é um aumento na pressão arterial sistólica, associado à ligeira redução na pressão diastólica (Figura 6.9). b. Respiratória. A epinefrina causa poderosa broncodilatação por ação direta na musculatura lisa bronquial (ação 132). Essa ação alivia todas as broncoconstrições alérgicas ou induzidas por histamina conhecidas. No caso de choque anafilático, isso pode salvar a vida. Em indivíduos sofrendo de ataque agudo de asma, a epinefrina rapidamente alivia a dispneia (respiração tra­ balhosa) e aumenta ovolume tidal (volume de gases inspirado e expirado). A epinefrinatambém inibe a liberação de mediadores da alergia, como a histamina dos mastócitos. c. Hiperglicemia. A epinefrina tem um efeito hiperglicemiante sig­ nificativo, porque aumenta a glicogenólise no fígado (efeito 132), aumenta a liberação de glucagônio (efeito 132) e diminui a libera­ ção de insulina (efeito a2). Esses efeitos são intermediados pelo mecanismo do AMPc. d. Lipólise. A epinefrina inicia a lipólise por meio de sua atividade agonista nos receptores 13 dotecido adiposo, que, sob estimula­ ção, ativam a adenililciclase para aumentar os níveis de AMPc. Esse estimula uma lipase hormônio-sensível, que hidrolisa tria­ cilgliceróis a ácidos graxos livres e glicerol. 4 2. Biotransformação. A epinefrina, como as outras catecolaminas, é metabolizada por duas vias enzimáticas: MAO e COMT, que têm a S-adenosilmetionina como cofator (ver Figura 6.3). Os metabólitos finais encontrados na urina são a metanefrina e o ácido vanililman­ délico. (Nota: a urina também contém normetanefrina, um produto do metabolismo da norepinefrina.) 3. Usos terapêuticos a. Broncoespasmo. A epinefrina é o fármaco usado no tratamen­ to de emergência de qualquer condição do trato respiratório quando a broncoconstrição compromete a troca respiratória. Assim, no tratamento da asma aguda e do choque anafilático, a epinefri na é o fármaco de escolha; em poucos minutos após a administração se, observa-se grande melhora das trocas respi­ ratórias e a administração pode ser repetidaapós poucas horas. 4 Ver o Capítulo 16 de Bioquímica /lustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre a atividade da lipase hormônio-sensível.
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    Atualmente, contudo, agonistasJ32 seletivos, como o albuterol, são favorecidos no tratamento crônico da asma devido à dura­ ção de ação mais longa e aos efeitos cardíacos mínimos. b. Choque anafilático. A epinefrina é o fármaco de escolha parao tratamento das reações de hipersensibilidadetipo 1 em resposta a alérgenos. c. Parada cardíaca. A epinefrina pode ser empregada para res­ tabelecer o ritmo cardíaco em pacientes com parada cardíaca independente da causa. d. Anestésicos. As soluções de anestésicos locais em geral con­ têm 1 :100.000 partes de epinefri na. O efeito do fármaco é au­ mentar bastante a duração da anestesia local. Isso ocorre pela vasoconstrição no local de injeção, provocando a persistência do anestésico no local de injeção antes de ser absorvido e bio­ transformado. Soluções muito diluídas de epinefrina (1 :100.000) também podem ser usadas topicamente para promover a vaso­ constrição de membranas mucosas para controlaro porejamen­ to de sangue capilar. 4. Farmacocinética. A epinefrina tem início rápido, mas curta duração de ação (devido à rápida degradação). A via de administração pre­ ferida é a intramuscular, devido à rápidaabsorção. Nas situações de emergência, ela é administrada porvia IV para início mais rápido de ação. Ela também pode ser administrada por via SC, endotraqueal, por inalação ou topicamente no olho (Figura 6.1O). A administração oral é ineficaz, pois a epinefri na e as outras catecolaminas são inati­ vadas pelas enzimas intestinais. Somente metabólitos são excreta­ dos na urina. 5. Efeitos adversos a. Distúrbios do SNC. A epinefrina pode produzir efeitos adversos no SNC, incluindo ansiedade, medo, tensão, cefaleia e tremores. b. Hemorragia. A epinefrina pode induzir hemorragia cerebral como resultado do aumento acentuado da pressão arterial. c. Arritmias cardíacas. A epinefri na pode desencadear arritmias cardíacas, particularmente se o paciente está recebendo digoxi na. d. Edema pulmonar. A epinefrina pode induzir edema pulmonar. 6. Interações de fármacos a. Hipertireoidismo. A epinefrina pode ter efeitos cardiovascula­ res aumentados em pacientes com hipertireoidismo. Se for ne­ cessária para um paciente nessa condição, a dose deve ser re­ duzida. O mecanismo parece envolver produção aumentada de receptores adrenérgicos nos vasos do indivíduo hipertireóideo, levando a respostas hipersensíveis. b. Cocaína. Na presença de cocaína, a epinefrina produz ações cardiovasculares exageradas, porque a cocaína impede a cap­ tação das catecolaminas para o neurônio adrenérgico. Assim, como a norepinefrina, a epinefrina permanece no local receptor por mais tempo (ver Figura 6.3). Farmacologia Ilustrada 77 Escassa penetração Aerossol no SNC �=,....,_... ,,,..--....._ I Os meUj R� 11 1 itos aparecem v v na urina Figura 6.10 Farmacocinética da epinefrina. SNC = sistema nervoso central.
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    78 Clark, Finkel,Rey &Whalen i - ::::1 a. .g :5 100 t as E ··- ... " o ,ij .e: 50 ::::1 l iã 180 ·e � e; as J:: ·i � 120 cn - � 60 Alta Baixa A norepinefrina induz bradicardia reflexa. Infusão de norepinefrina o 15 Tempo (min) Anorepinefrinacontrai todos osvasos sanguí­ neos, causando aumento da resistência periférica. A norepinefrina causa aumento da pressão sistólicae da pressão diastólica. Figura 6.1 1 Efeitos cardiovasculares da infusão IV de norepinefrina. c. Diabetes. A epinefrina aumenta a liberação das reservas endó­ genas de glicose. No diabético, as dosagens de insulina devem ser aumentadas. d. p-bloqueadores. Estes fármacos impedem os efeitos da epine­ frina nos receptores J3, deixando a estimulação a sem oposição. Isso pode causar aumento da resistência periférica e aumento da pressão arterial. e. Anestésicos inalatórios. Estes fármacos sensibilizam o cora­ ção aos efeitos da epinefrina, o que pode causar taquicardia. B. Norepinefrina Como a norepinefrina é o neurotransmissor dos nervos adrenérgicos, teoricamente ela deveria estimular todos os tipos de receptores adrenér­ gicos. Na prática, quando o fármaco é administrado em doses terapêuti­ cas em humanos, o receptor a-adrenérgico é o que mais responde. 1 . Ações cardiovasculares a. Vasoconstrição. A norepinefrina causa um aumento na resis­ tência periférica devido à intensa vasoconstrição da maior par­ te dos leitos vasculares, incluindo os rins (efeito a1). A pressão arterial sistólica e a diastólica aumentam (Figura 6.1 1). (Nota: a norepinefrina causa maior vasoconstrição do que a epinefrina porque não causa vasodilatação compensatória pelos recepto­ res 132 dos vasos sanguíneos que suprem os músculos esquelé­ ticos, etc. A fraca atividade 132 da norepinefrina também explica a razão pela qual ela não é eficaz no tratamento da asma.) b. Reflexo barorreceptor. Em tecido cardíaco isolado, a norepine­ frina estimula a contratilidade cardíaca; contudo, in vivo, pouca ou nenhumaestimulação é observada. Isso se deve ao aumento da pressão arterial que induz um aumento reflexo na atividade vagai pela estimulação dos barorreceptores. Essa bradicardia reflexaé suficiente para neutralizaras ações locais da norepine­ frina no coração, embora a compensação reflexa não afete os efeitos inotrópicos positivos do fármaco (ver Figura 6.1 1). c. Efeito do pré-tratamento com atropina. Se a atropina, que bloqueia os efeitos da transmissão vagai, é administrada antes da norepinefri na, então o seu efeito estimulante do coração é evidenciado como taquicardia. 2. Usos terapêuticos. A norepinefri na é usada no tratamento do cho­ que, pois aumenta a resistência vascular e, assim, a pressão arterial. Outras ações não são consideradas clinicamente significativas. A no­ repi nefrina nunca é usada contra a asma ou em associação com os anestésicos locais. A norepinefri na é um vasoconstritor potente e cau­ sa extravasamento (acidente vascular encefálico de sangue do vaso para os tecidos) ao longo do local de injeção. O comprometimento da circulação por norepinefri na pode sertratado com oantagonistaa f en­ tolamina. (Nota: quando a norepinefri na é usada como fármaco, algu­ mas vezes ela é denominada /evarterenol.). 3. Farmacocinética. A norepinefrina pode ser administrada porvia IV para início de ação rápido. O efeito dura 1 a 2 min após o fim da infusão. Ela é pouco absorvida porvia SC e é destruída no intestino se administrada porvia oral. O seu metabolismo é similar ao da epi­ nefrina.
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    4. Efeitos adversos.Os efeitos adversos da norepinefrina são simila­ res aos da epinefrina. Ela pode, ainda, causar palidez e necrose da pele ao longo da veia injetada (devido à extrema vasoconstrição). e. lsoproterenol O isoproterenolé uma catecolamina sintética de ação direta que estimula predominantemente os adrenorreceptores 131 e 132• Suafaltade seletivida­ de é uma de suas desvantagens e o motivo pelo qual raras vezes é usado terapeuticamente. Sua ação em receptores a é insignificante. 1 . Ações a. Cardiovascular. O isoproterenol produz intensaestimulação do coração, aumentando suafrequência e força de contração, cau­ sando aumento do débito cardíaco (Figura 6.12). Ele é tão ativo quanto a epinefrina e, por isso, é útil no tratamento do bloqueio atrioventricular (AV) ou da parada cardíaca. O isoproterenol também dilata as arteríolas dos músculos esqueléticos (efeito 132), diminuindo a resistência periférica. Devido à sua ação car­ díaca estimulante, pode aumentar levemente a pressão arterial sistólica, mas reduz muito a pressão arterial média e a diastóli­ ca (Figura 6.12). b. Pulmonar. Produtos contendo isoproterenol para uso por inala­ ção não estão mais disponíveis nos EUA. c. Outros efeitos. Outras ações nos receptores 13, como aumento da glicemia e da lipólise, podem ser demonstradas, mas não são clinicamente significativas. 2. Usos terapêuticos. Atualmente, o isoproterenolpode seremprega­ do para estimular o coração em situações de emergência. 3. Farmacocinética. O isoproterenol é um substrato marginal para a COMT e é resistente à ação da MAO. 4. Efeitos adversos. Os efeitos adversos do isoproterenolsão simila­ res aos da epinefri na. D. Dopamina A dopamina - o metabólito precursor imediato da norepinefrina - ocorre naturalmente no SNC nos gânglios basais, onde funciona como neuro­ transmissor, bem como na suprarrenal. Ela pode ativar receptores a e 13-adrenérgicos. Por exemplo, em doses mais elevadas, ela pode causar vasoconstrição ativando receptores a,, ao passo que, em doses meno­ res, estimula os receptores cardíacos 131• Além disso, os receptores do­ paminérgicos D, e 02 se diferenciam dos receptores a e 13-adrenérgicos e ocorrem no mesentérico periférico e nos leitos vasculares renais, onde a ligação da dopamina produz vasodilatação. Os receptores 02 também são encontrados nos neurônios adrenérgicos pré-sinápticos, onde sua ativação interfere com a liberação de norepinefrina. 1 . Ações a. Cardiovasculares. A dopamina exerce efeito estimulante nos receptores 131 cardíacos com efeito inotrópico e cronotrópico (ver Figura 6.13). Em concentrações muito elevadas, ela ativa os receptores a, dos vasos, causando vasoconstrição. � -! .5 .!!! � 100 t .� ! & o 50 I!! .!!! u.. à 180 iii ·- .. cu � t: CJI m :I: 120 o E 1m E ia - � 60 m ·u B e ·e <CU 1ií ·cu ·- � Ul .. cu cu a: D. Alta Farmacologia Ilustrada 79 O isoproterenolcausa vasodilatação, mas aumenta bastante a frequência e a força de contração cardíaca. Infusão de isoproterenol o 10 Tempo (min) O isoproterenol causa significativa diminuição da resistência periférica. Figura 6.12 O isoproterenolcausa acentuada diminuição da pressão diastólica, com moderado aumento da pressão sistólica. Efeitos cardiovasculares da infusão IV de isoproterenol.
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    80 Clark, Finkel,Rey &Whalen lsoproterenol ' IJ ' Broncodilatação .. 1 • ,, Dopaminérgico Dopamina Figura 6.13 Vasodila­ tação periférica Aumento do débito cardíaco Aumento do fluxo sanguíneo Ações clinicamente importantes do iso­ proterenole da dopamina. b. Renal e visceral. A dopamina dilata as arteríolas renais e es­ plâncnicas, ativando os receptores dopaminérgicos aumentando assim o fluxo sanguíneo para os rins e para outras vísceras (ver Figura 6.13). Esses receptores não são afetados por fármacos bloqueadores a ou [3. Por isso, a dopamina é clinicamente útil no tratamento do choque, no qual uma intensa atividade simpática pode comprometera função renal. (Nota: receptores de dopamina similares são encontrados nos gânglios autônomos e no SNC.) 2. Usos terapêuticos. A dopamina é o fármaco de escolha contra o choque cardiogênico e séptico e é administrada por infusão contí­ nua. Ela aumenta a pressão arterial estimulando os receptores [31 no coração e os receptores a1 nos vasos sanguíneos, resultando no aumento da resistência periférica. Ela também aumenta a perfusão dos rins e das áreas esplâncnicas, como descrito. O aumento do flu­ xo sanguíneo renal aumenta a velocidade de filtração glomerular e causa diurese sódica. Nesse aspecto, a dopamina é muito superior à norepinefrina, que reduz o suprimento de sangue aos rins e pode causarcolapso renal. A dopamina também é usada paratratar hipo­ tensão e insuficiência cardíaca congestivagrave, primariamente em pacientes com resistência vascular periférica normal ou baixa e em pacientes sob oligúria. 3. Efeitos adversos. Uma dose excessiva de dopamina produz os mesmos efeitos da estimulação simpática. A dopamina é rapida­ mente biotransformada a ácido homovanílico pela MAO ou COMT, e, portanto, seus efeitos adversos (náuseas, hipertensão e arrit­ mias) são de curta duração. E. Fenoldopam O feno/dopam é um agonista dos receptores de dopamina situados na , periferia e tem afinidade moderada pelos receptores a2• E empregado como vasodilatador de ação rápida no tratamento da hipertensão grave em pacientes hospitalizados, atuando nas artérias coronárias, arteríolas renais e artérias mesentéricas. O feno/dopam é uma mistura racêmica, sendo o isômero R o componente ativo. Ele sofre extensa biotransforma­ ção de primeira passagem e apresenta meia-vida de eliminação de 1 O min após infusão IV. Com este fármaco, podem ser observados cefaleia, rubor, tonturas, náuseas, êmese e taquicardia (devido à vasodilatação). F. Dobutamina 1 . Ações. A dobutamina é uma catecolamina sintética de ação direta que atua como agonista de receptor [31 • Ela está disponível como mistura racêmica. Um dos estereoisômeros tem atividade estimu­ lante. Ela aumenta a frequência e o débito cardíaco com poucos efeitos vasculares. 2. Usos terapêuticos. A dobutamina é usada para aumentar o débi­ to cardíaco na insuficiência cardíaca congestiva (ver p. 204), bem como para causar efeito inotrópico após cirurgia cardíaca. O fár­ maco aumenta o débito cardíaco e não eleva significativamente a demanda de oxigênio pelo miocárdio, a principal vantagem sobre os outros fármacos simpaticomiméticos. 3. Efeitos adversos. A dobutamina deve ser usada com cautela na fibrilação atrial, pois aumenta a condução AV. Outros efeitos adver­ sos são os mesmos da epinefrina. Pode-se desenvolver tolerância no uso prolongado.
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    G. Oximetazolina A oximetazolinaé agonista adrenérgico sintético de ação direta que esti­ mula os receptores adrenérgicos a, e a2• Ela é usada localmente no olho ou nas narinas como vasoconstritor. A oximetazolina está presente em vá­ rios descongestionantes nasais de ação curta (aplicados a cada 12 h) e de venda livre, bem como em colírios para alívio davermelhidão dos olhos associada com natação, resfriados ou lentes de contato. O mecanismo da oximetazolina é a estimulação direta dos receptores a nos vasos sanguí­ neos que suprem a mucosa nasal e a conjuntiva, reduzindo ofluxo de san­ gue e diminuindo a congestão. A oximetazolina é absorvida independente da via de administração e pode causar nervosismo, cefaleia e sono agita­ do. Quando administrada nas narinas, pode ocorrerqueimação da mucosa nasal e espirros. Observa-se congestão rebote no uso prolongado. H. Fenilefrina A fenilefrina é um fármaco adrenérgico sintético de ação direta que se liga primariamente aos receptores a,. Ela não é um derivado catecol e, por isso, não é substrato da COMT. A fenilefrina é um vasoconstritor que aumenta as pressões sistólica e diastólica. Ela não tem efeito direto no coração, mas induz bradicardia reflexa quando administrada por via pa­ renteral. Ela é usada topicamente na mucosa nasal e em soluções oftál­ micas para obter midríase. A fenilefrina atua como descongestionante nasal (aplicada a cada 4 h) e produz uma vasoconstrição prolongada. Ela é usada para aumentar a pressão arterial e para terminar episódios de taquicardia supraventricular (ela tem ação cardíaca rápida oriunda da junção AV e do átrio). Doses elevadas podem causar cefaleia hipertensi­ va e irregularidades cardíacas. 1. Clonidina A clonidina é um agonista a2 usado na hipertensão essencial para re­ duzir a pressão arterial por sua ação no SNC (ver p. 238). Ela pode ser usada para minimizar os sintomas que acompanham a retirada dos opiá­ ceos, do cigarro ou das benzodiazepinas. A clonidi na atua centralmente, produzindo inibição dos centros vasomotores simpáticos, diminuindo a estimulação simpática para a periferia. Os efeitos adversos mais comuns da clonidina são letargia, sedação, constipação e xerostomia. Em geral, tais efeitos diminuem com o progresso do tratamento ou a diminuição da dosagem. A interrupção abrupta da medicação deve ser evitada, a fim de prevenir a hipertensão de rebote. J. Metaproterenol O metaproterenol, embora quimicamente similar ao isoproterenol, não é uma catecolamina e é resistente à metilação pela COMT. O emprego do metaproteronol nos anos recentes diminuiu devido à disponibilidade de outros agonistas 132 mais seletivos e de longa ação. K. Albuterol e terbutalina Albuterol, pirbuterol e terbutalina são fármacos agonistas 132 de ação cur­ ta usados primariamente como broncodilatadores e administrados em um dispositivo inaladorde dosagem controlada (ver Figura 6.14). A terbutali na é usada extra-bula como relaxante uterino para evitar o parto prematuro. Osefeitos adversos dos agonistas J32 são devidos à ativação excessiva dos receptores J32, primariamente. Um dos efeitos adversos mais comuns é o tremor, mas os pacientes tendem a desenvolver tolerância a este efeito. Outros efeitos adversos incluem intranquilidade, apreensão e ansiedade. Farmacologia Ilustrada 81 Início da brondilatação Duração da broncodilatação Epinefrina � lsoproterenol � Albuterol Salmeterol Terbutalina � Figura 6.14 o 5 Horas Bronco­ dilatação 10 Início e duração do efeito broncodilata­ dorde agonistas adrenérgicos inalados.
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    82 Clark, Finkel,Rey &Whalen Os efeitos adversos podem ser reduzidos iniciando o tratamento com do­ ses baixas e aumentando gradualmente de modo que se desenvolve a tolerância aos tremores. Administrados por via sistêmica, podem causar taquicardia ou arritmias (devido à ativação dos receptores 131), especial­ mente em pacientes com doença cardíacasubjacente. Os efeitos adversos também aumentam se o paciente faz uso concomitante de inibidor de mo­ noamina oxidase (IMAOs). É recomendado um intervalo de cerca de duas semanas entre ofim do uso do IMAO e o início do agonista de receptor 132• L. Salmeterol e formoterol Salmeterol e formoterol são broncodilatadores 132_adrenérgicos seletivos e de longa ação. Uma dose única por um inalador dosável, como, por exemplo, um inalador de pó, provê broncodilatação por 12 horas em com­ paração com menos de 3 horas obtidas com o albuterol. Ao contrário do formoterol, o salmeterol tem um início de ação lento (ver Figura 6.14). Essesfármacos não são recomendados como monoterápicos e são muito eficazes associados com um corticosteroide. O salmeterol e o formoterol são os fármacos de escolha para tratar a asma noturna em pacientes sintomáticos que usam outra medicação contra asma. Os agonistas de receptor 132 administrados por inalação não devem ser usados em exces­ so: foram registradas mortes devidas ao uso excessivo desta medicação. V. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO INDIRETA Agonistas adrenérgicos de ação indireta promovem a liberação de norepine­ frina dos terminais pré-sinápticos ou inibem a captação da norepinefrina (ver Figura 6.8). Eles potencializam os efeitos da norepinefrina endógena, mas não atuam diretamente nos receptores pós-sinápticos. A. Anfetamina A acentuada ação estimulante central da anfetamina com frequência é considerada como sua única ação pelos adietes. Contudo, o fármaco pode também aumentar significativamente a pressão arterial por ação agonista a1 nos vasos, bem como por efeitos estimulantes 13 no coração. Sua ação periférica é mediada primariamente pelo bloqueio da captação de norepinefrina e a liberação das catecolaminas armazenadas; assim, a anfetamina é um fármaco adrenérgico de ação indireta. As ações e os usos da anfetamina são discutidos na página 127. Os efeitos estimulan­ tes da anfetamina e de seus derivados no SNC determinam seu uso no tratamento da hiperatividade em crianças,na narcolepsia e no controle de apetite. O seu uso durante a gestação deve serevitado devido aos efeitos adversos no desenvolvimento do feto. A dextroanfetamina é o isômero dextrorotatório da anfetamina. Metanfetamina, metilfenidrato e dexmetif­ fenidrato são outros fármacos de estrutura intimamente relacionados ou que tem efeitos similares à anfetamina. São empregados para indicações similares às da anfetamina. B. Tiramina A tiramina não é um fármaco clinicamente útil, mas é importante porque é encontrada em alimentos fermentados, como alguns queijos evinhos (ver p. 158). Ela é um subproduto do metabolismo da tirosina. Normalmen­ te, ela é oxidada pela MAO no TGI, mas, se o paciente está recebendo inibidores da MAO, podem acontecer episódios vasopressores graves. Como a anfetamina, a ti ramina entra no terminal nervoso e desloca a no­ repinefrina armazenada. A catecolamina liberada, então, atua nos adre­ norreceptores.
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    C. Cocaína A cocaínaé o único anestésico local que bloqueia a ATPase ativada por Na+/K+ (necessária para a captação neuronal da norepinefrina) na mem­ brana celular dos neurônios adrenérgicos. Consequentemente, a norepi­ nefrina acumula-se na fenda sináptica, resultando em aumento da ativi­ dade simpática e potenciação das ações da epinefri na e norepinefrina. Por isso, pequenas doses de catecolaminas produzem efeitos bastante intensificados em indivíduos que usam cocaínacomparados com os efei­ tos naqueles que não usam.Além disso, a duração de ação da epinefrina e da norepinefrina é prolongada. Semelhante às anfetaminas, a cocaína pode aumentar a pressão arterial por ação agonista a1 e efeitos estimu­ lantes �· (Nota: a cocaína como estimulante do SNC e como droga é discutida nas pp. 126-127). VI. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO MISTA Agonistas adrenérgicos de ação mista induzem a liberação de norepinefrina dos terminais pré-sinápticos, ativando também os receptores adrenérgicos na membrana pós-sináptica (ver Figura 6.8). A. Efedrina e pseudoefedrina A efedri na e a pseudoefedrina são alcaloides vegetais, hoje produzidos sinteticamente. Ambas são adrenérgicas de ação mista. Elas não só li­ beram a norepinefrina armazenada nos terminais nervosos (Figura 6.8), como também estimulam diretamente os receptores a e �. Dessa for­ ma, elas produzem vários efeitos adrenérgicos que são similares aos da epinefrina, embora menos potentes. A efedrina e a pseudoefedri na não são catecóis e são maus substratos para MAO e COMT. Portanto, esses fármacos têm ação longa. A efedrina e a pseudoefedrina têm excelente absorção porvia oral e penetram no SNC; contudo, apseudoefedri natem efeitos menores no SNC. A efedrina é eliminada praticamente inaltera­ da na urina, e a pseudoefedrina sofre biotransformação hepática incom­ pleta antes de sua eliminação na urina. A efedrina aumenta a pressão arterial sistólica e diastólica por vasoconstrição e estimulação cardíaca. Ela produz broncodilatação, mas é menos potente do que a epinefri na e o isoproterenol nesse aspecto e produz seu efeito mais lentamente. No passado, ela foi usada contra a asma para prevenir ataques (em vez de tratar os ataques agudos), embora a maioria dos especialistas recomen­ de outras medicações (ver Cap. 27). Ela produz uma leve estimulação do SNC, aumentando o estado de alerta, diminuindo a fadiga e dificultando o sono. Ela também melhora o desempenho atlético. A pseudoefedrina é usada primariamente no tratamento da congestão nasal e sinusal e congestão das trompas de Eustáquio, porvia oral. (Nota: o uso clínico da efedrina está em declínio devido à disponibilidade de fármacos mais po­ tentes e melhores que causam menos efeitos adversos. Os fitoterápicos contendo efedrina [principalmente produtos contendo Ephedra] foram ba­ nidos pelo FDA [Food and Drug Administration] nos EUA em abril de 2004 devido a reações cardiovasculares ameaçadoras à vida.) A pseudoefedri­ naé convertida em metanfetamina ilegalmente. Por isso, os produtos que contêm pseudoefedrina têm certas restrições, e a comercialização deve ser mantida sob controle rígido nos EUA. Características importantes dos agonistas adrenérgicos estão resumidas nas Figuras 6.15, 6.16 e 6.17. Farmacologia Ilustrada 83 v==� I I 1 1 1 � / / v = =;= o --. o Figura 6.15 Arritmia Cefaleia Hiperatividade Insônia Náusea Tremores Alguns efeitos adversos observados com os agonistas adrenérgicos.
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    84 Clark, Finkel,Rey &Whalen Coração • NóAVeSinusal • Viasdecondução • Miofibrilas Músculolisovascular Músculolisodosbrônquios Rins Fígado Tecidoadiposo Músculoesquelético Olho,músculociliar Tratogastrintestinal Vesículabiliar Bexiga,músculodetrusor útero Figura 6.16 t Automaticidade t Velocidadedeconduçãoe automaticidade t Contratilidadeeautomaticidade Vasodilatação Broncodilatação t Liberaçãoderenina t Glicogenóliseegliconeogênese t Lipólise Contratilidade t Captaçãodepotássio;glicogenólise Dilataasartériasquevãoaomúsculo Tremores Relaxamento t Motilidade Relaxamento Relaxamento Relaxamento Resumo dos receptores (3-adrenérgicos. AV = atrioventricular. Receptorescolinérgicos Receptorescolinérgicos Receptoresa-adrenérgicos Receptorescolinérgicos Receptoresa1-adrenérgicos Receptoresa1-adrenérgicos Receptoresa2-adrenérgicos - Receptorescolinérgicos Receptorescolinérgicos Receptorescolinérgicos Receptorescolinérgicos Ocitocina
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    CATECOLAMINAS • Rápido iníciode ação. • Curta duração de ação. • Não administradas por via oral. • Não penetram a barreira hematencefálica. AMINAS NÃO CATECÓLICAS Comparadas com as catecolaminas: • Duração de ação mais longa. • Todas podem ser administradas por via oral. Figura 6.17 Epinefrina Norepinefrina /soproterenol Dopamina Dobutamina Oximetazoli na Fenilefrina Metoxamina Clonidi na Albuterol Terbutalina Salmeterol Formoterol Anfetamina Efedrina Pseudoefedrina ª1• ª2 P1 P1. P2 Dopaminérgico ª1• P1 P1 a, p, SNC a, p, SNC Farmacologia Ilustrada 85 Asma aguda Choque anafilático Na anestesia local para aumentar a duração da ação Tratamento do choque Como estimulante cardíaco Tratamento do choque Tratamento da insuficiência cardíaca congestiva Elevação da pressão arterial Tratamento da insuficiência cardíaca congestiva Como descongestionante nasal Como descongestionante nasal Elevação da pressão arterial Tratamento da taquicardia supraventricular paroxística Tratamento da taquicardia supraventricular Tratamento da hipertensão Tratamento do broncoespasmo (ação curta) Tratamento do broncoespasmo (ação longa) Como estimulante do SNC no tratamento de crianças com síndrome de déficit de atenção, narcolepsia e controle de apetite Como descongestionante nasal Elevação da pressão arterial Resumo dos usos terapêuticos dos agonistas adrenérgicos. SNC = sistema nervoso central.
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    86 Clark, Finkel,Rey &Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 6.1 Um homem de 68 anos chega na emergência com insu­ ficiência cardíaca aguda. Você decide que o paciente ne­ cessita de tratamento imediato para melhorar o desempe­ nho cardíaco. Qual dos seguintes fármacos será o mais benéfico? A. Albuterol B. Dobutamina C. Epinefrina D. Norepinefrina E. Fenilefrina 6.2 Qual dos seguintes fármacos geralmente está presente nos medicamentos contra a congestão nasal? A. Albuterol B. Atropina C. Epinefrina D. Norepinefrina E. Fenilefrina 6.3 Qual dos seguintes fármacos, quando administrado por via IV, pode diminuir o fluxo sanguíneo para a pele, aumentar o fluxo para os músculos esqueléticos e aumentar a fre­ quência e a força de contração cardíaca? A. Epinefrina B. lsoproterenol C. Norepinefrina D. Fenilefrina E. T erbutalina 6.4 Os seguintes círculos representam o diâmetro pupilar an­ tes e depois da aplicação tópica do fármaco X: o Controle Fármaco X Qual dos seguintes é o fármaco X? A. Fisostigmina B. Acetilcolina C. T erbutalina D. Fenilefrina E. lsoproterenol Resposta correta = B. A dobutamina aumenta o débito cardíaco sem aumentar significativamente a frequência - uma condição que agrava a insuficiência cardíaca. Como a epinefrina pode aumentar significativamente a frequência cardíaca, em geral, ela não é usada na insuficiência cardíaca aguda. A norepinefrina e a fenilefrina têm efeito receptor a1 estimulante significativo. O consequente aumento da pressão arterial pode agravar a insuficiência cardíaca. O albuterol é um agonista receptor �2 seletivo, portanto, ele não melhora signifi­ cativamente a contratilidade cardíaca. Resposta correta = E. A fenilefrina é um agonista a que faz a cons­ trição da mucosa nasal, diminuindo, assim, a resistência da via. A norepinefrina e a epinefrina também fazem a constrição da mucosa, mas têm uma duração de ação muito mais curta. O albuterol é um �2-agonista e não tem efeito no volume da mucosa. A atropina é um antagonista muscarínico que somente seca a mucosa - não produz diminuição do volume. Resposta correta = A. A epinefrina exógena estimula bem tanto os receptores a como os �. levando à constrição dos vasos sanguíneos em tecidos como a pele e dilatando outros vasos em tecidos como o músculo esquelético. A epinefrina também tem efeitos crono e ino­ trópicos positivos no coração. A norepinefrina exógena só contrai os vasos sanguíneos e causa bradicardia reflexa devido à sua intensa propriedade estimulante a-adrenérgica. A fenilefrina tem efeitos si­ milares. O isoproterenol estimula os receptores � e não causa vaso­ constriçãodos vasos cutâneos. Resposta correta = D. A fenilefrina é o únicofármaco da relação que causa midríase, pois estimula os receptores a. A fisostigmina e a acetilcolina causam constrição pupilar. Os bloqueadores terbutalina e isoproterenol não influenciam o diâmetro pupilar.
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    , • rener ICOS 1.RESUMO Os antagonistas adrenérgicos (também denominados bloqueadores adrenér­ gicos ou simpaticolíticos) ligam-se aos adrenorreceptores, mas não iniciam os usuais efeitos intracelulares mediados pelos receptores. Esses fármacos ligam-se reversível ou irreversivelmente ao receptor, evitando, assim, sua ati­ vação pelas catecolaminas endógenas. Como os agonistas, os antagonistas adrenérgicos são classificados de acordo com suas afinidades relativas para os receptores O'. ou � no sistema nervoso periférico. Estes fármacos interferem com as funções do sistema nervoso simpático. Numerosos antagonistas adre­ nérgicos têm papeis importantes na clínica, primariamente para tratardoenças associadas com o sistema cardiovascular. (Nota: antagonistas que bloqueiam os receptores dopaminérgicos são mais importantes no SNC e, portanto, são considerados na respectiva seção [ver p. 161].) Os fármacos bloqueadores adrenérgicos discutidos neste capítulo estão resumidos na Figura 7.1 . li. BLOQUEADORES o.-ADRENÉRGICOS Fármacos que bloqueiam os adrenorreceptores O'. afetam profundamente a pressão arterial. Como o controle simpático normal dos vasos ocorre em grande parte por ações agonistas nos receptores O'.-adrenérgicos, o bloqueio desses receptores reduz o tônus simpático dos vasos sanguíneos, resultando em menor resistência vascular periférica. Isso induz a taquicardia reflexa re­ sultante da redução da pressão arterial. A intensidade da resposta depende do tonus simpático do indivíduo quando o fármaco é administrado. Os efei­ tos são mais intensos no indivíduo em estação e menos naqueles que estão deitados. Pacientes hipovolêmicos também tem respostas mais acentuadas. (Nota: os receptores �. incluindo os adrenorreceptores �1 cardíacos, não são afetados pelo bloqueio O'..) Os bloqueadores Q'.-adrenérgicos, fenoxibenzamina a-BLOQUEADORES Alfuzoslna Doxazoslna Fenoxlbenzamlna Fentolamlna Prazos/na Tansuloslna Terazoslna lolmblna P-BLOQUEADORES Acebutolol Atenolol Betaxolol Bisopro/oi Carteolol Carvedllol Esmolo/ Labetalol Metoprolol Nado/oi Neblvolol Penbutolol Plndolol Propranolol Ti mo/oi FÁRMACOS QUEAFETAM A CAPTAÇÃO OU A LIBERAÇÃO DENEUROTRANSMISSORES Guanetldlna Reserplna e fentolamina, têm aplicações clínicas limitadas. figura 7.1 Resumo dos fármacos bloqueadores, bem como os que afetam a captação ou a liberação do neurotransmissor.
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    88 Clark, Finkel,Rey &Whalen Fenoxibenzamina D D Rápido Adrenorreceptor a1 inativadocovalentemente Figura 7.2 lnativação covalente do adrenorrecep­ tor ex, pela fenoxibenzamina. Bloqueadores a-adrenérgicos não têm efeito nas ações do isoproterenol, que é um agonista 13 puro• ...... Pré- Pré- -tratamento -tratamento com com Controle bloqueador bloqueador Catecolaminas nãotratado Ot 13 200,. " Jsoproterenol ,."./' � .,.,, (mmHa o.... 200 :./., -"- ./ !': E pinefrina o 200 '",A_ .' -"- Norepinefrina � .... o .... Os bloqueadores a-adrenérgicos revertem a ação vasoconstritora da epinefrina. Figura 7.3 Resumo dos efeitos dos bloqueado­ res adrenérgicos nas alterações da pressão arterial produzidas por isopro­ terenol, epinefrina e norepinefrina. A. Fenoxibenzamina A fenoxibenzamina é um fármaco não seletivo que se liga covalentemen­ te aos receptores ex1 e ex2 (Figura 7.2). O bloqueio é irreversível e não competitivo, e o único mecanismo que o organismo pode usar para su­ perar o bloqueio é sintetizar novos adrenorreceptores, que exige um dia ou mais. Por isso, as ações da fenoxibenzamina duram cercade 24 horas após uma administração única. Depois que o fármaco é injetado, há um atraso de poucas horas até o bloqueio ex se estabelecer. 1 . Ações a. Efeitos cardiovasculares. Bloqueando os receptores ex, a fe­ noxibenzamina impede a vasoconstrição dos vasos sanguíneos periféricos pelas catecolaminas endógenas. A redução da re­ sistência periférica provoca taquicardia reflexa. Além disso, o bloqueio dos receptores inibitórios ex2 pré-sinápticos no coração pode contribuir parao aumento do débito cardíaco. (Nota: esses receptores, quando bloqueados, permitem a liberação de maior quantidade de norepinefrina, a qual estimula os receptores J3 no coração, aumentando o débito cardíaco.) Assim, o fármaco não consegue manter a pressão arterial baixa na hipertensão, e seu uso para esse objetivo foi interrompido. b. Reversão da epinefrina. Todos os bloqueadores ex-adrenér­ gicos revertem as ações ex-agonistas da epinefrina. Por exem­ plo, a ação vasoconstritora da epinefri na é interrompida, mas a vasodilatação dos outros leitos vasculares causada por es­ timulação dos adrenorreceptores J3 não é bloqueada. Por isso, na presença de fenoxibenzamina, a pressão arterial sistêmica diminui em resposta à epinefrina (Figura 7.3). (Nota: as ações da norepinefrina não são revertidas, mas diminuídas, pois a no­ repinefrina quase não tem ação J3-agonista na musculatura lisa dos vasos.) A f enoxibenzamina nãotem efeito nas ações do iso­ proterenol, que é um J3-agonista puro (ver Figura 7.3). 2. Usos terapêuticos. A fenoxibenzamina é usada no tratamento do fe­ ocromocitoma- um tumor de células derivadas da suprarrenal secre­ torade catecolamina.Antes da remoção cirúrgicadotumor, os pacien­ tes sãotratados com f enoxibenzamina, para evitara crise hipertensiva que pode resultar da manipulação do tecido. Esse fármaco também é útil notratamento crônico desse tumor, particularmente quando as cé­ lulas secretoras de catecolaminas são difusas e, por isso, inoperáveis. A fenoxibenzamina, algumas vezes, é eficaz notratamento da doença de Raynaud, na geladura ou ulcerações causadas por frio intenso e na acrocianose. A hiper-reflexia autônoma, que predispõe pacientes paraplégicos a ataques, pode sertratada com f enoxibenzamina. 3. Efeitos adversos. A fenoxibenzamina pode causar hipotensão pos­ tural, congestão nasal, náuseas e êmese. Ela pode inibir a ejacu­ lação. Ela também pode causar taquicardia reflexa, mediada pelo reflexo barorreceptor. A fenoxibenzamina é contraindicada em pa­ cientes com perfusão coronariana diminuída. B. Fentolamina Em contraste com a fenoxibenzamina, a fentolamina produz um bloqueio competitivo dos receptores ex, e ex2• Este efeito dura cerca de 4 horas com uma administração única. Como a f enoxibenzamina, a fentolamina provo­ ca hipotensão postural e reversão da epinefrina. A estimulação cardíaca reflexa e a taquicardia induzidas por f entolamina são mediadas pelo refie-
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    xo barorreceptor epelo bloqueio dos receptores a2 dos nervos simpáticos cardíacos. A fentolamina também pode causar arritmias e dor anginosa, sendo contraindicada em pacientes com perfusão coronariana diminuída. A f entolamina é usada no tratamento de curta duração dofeocromocitoma. Ela é usada também localmente para prevenira necrose dermal devida ao vazamento de norepinefrina, bem como é usada para tratar a crise hiper­ tensiva devido à retirada abrupta de clonidina e da ingestão de alimentos contendo tiramina por pacientes sob tratamento com inibidores da MAO. A f entolamina hoje raramente é usada no tratamento da impotência (pode ser injetada nas cavernas penianas para dilataras artérias do pênis). C. Prazosina, terazosina, doxazosina, tansulosina e alfuzosina Prazosina, terazosina, doxazosina e tansu/osina são bloqueadores com­ petitivos seletivos do receptor a,. Em contraste com a fenoxibenzamina e a fentolamina, os três primeiros fármacos são úteis no tratamento da hipertensão. A tansulosina e a a/fuzosina são indicadas no tratamento da hipertrofia prostática benigna (também denominada hiperplasia prostá­ tica benigna, ou HPB). A biotransformação leva a produtos inativos que são excretados na urina, exceto os da doxazosina, que aparecem nas fezes. Dentre esses fármacos, a doxazosina é o de ação mais longa. 1. Efeitos cardiovasculares. Todos esses fármacos diminuem a resis­ tência vascular periférica e a pressão arterial, causando relaxamento dos músculos lisos arteriais e venosos. A tansu/osina tem o menor efeito na pressão arterial. Ao contrário da f enoxibenzamina e da fen­ tolamina, esses fármacos causam alterações mínimas no débito car­ díaco, no fluxosanguíneo renal e na velocidade defiltraçãoglomerular. 2. Usos terapêuticos. Indivíduos com pressão arterial elevada tra­ tados com um desses fármacos não se tornam tolerantes à sua ação. Contudo, a primeira dose desses fármacos produz um efeito hipotensor ortostático (Figura 7.4) exagerado que pode resultar em síncope (desmaio). Essa ação, denominada efeito "primeira dose", pode ser minimizada reduzindo-se a primeira dose para um terço ou um quarto da dose normal e administrando-a na hora de deitar. Estes fármacos melhoram o perfil lipídico e o metabolismo da glico­ se em pacientes hipertensos. A prazocina e outros são usados no tratamento da insuficiência cardíaca congestiva. Por dilatarem arté­ rias e veias, esses fármacos diminuem a pré-carga e a pós-carga, levando ao aumento do débito cardíaco e à redução da congestão pulmonar. Diferente dos 13-bloqueadores, estes fármacos não reve­ laram prolongar a vida de pacientes com insuficiência cardíaca. Os antagonistas a, são usados como uma alternativa para a cirurgia em pacientes com HPB sintomática (Figura 7.5). O bloqueio dos ' Farmacologia Ilustrada 89 Figura 7.4 A primeira dose de um bloqueador de receptor a, pode provocar hipotensão ortostática, a qual pode resultar em síncope (desmaio). ANTAGONISTAS u 1-ADRENERGICOS INIBIDORES DA 5a-REDUTASE Reduçãonotamanhodapróstata Picodoinício ReduçãonoPSA Disfunçãosexual Efeitoshipotensores Fármacoscomumenteusados Figura 7.5 Não 2-4 semanas Não + ++ Tansu/osinaea/fuzosina Sim 6-12 meses Sim ++ Finasteridaedutasterida Comparação de tratamentos na hiperplasia prostática benigna. PSA = antígeno prostático específico.
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    90 Clark, Finkel,Rey &Whalen ,, Figura 7.6 Hipertensão ortostática Taquicardia Vertigens Disfunção sexual Alguns efeitos adversos comumente observados com fármacos bloqueado­ res a-adrenérgicos não seletivos. Esmolol 1 1Omin Acebuto/ol Pindo/ol Metoprolol Propranolol Timo/oi Labetalol Carvedilol 7-10 h Nebivo/ol 10-30 h Nado/oi 14-24 h Figura 7.7 Meias-vidas de eliminação de alguns �-bloqueadores. receptores a diminui o tônus na musculatura lisa do colo da bexiga e da próstata e melhora o efluxo da urina. A tansu/osina é inibidor dos receptores a1A (com alguma seletividade) encontrados no mús­ culo liso da próstata. Essa seletividade é responsável pelos efeitos relativamente mínimos da tansu/osina na pressão arterial e seu uso na HPB, mas raramente pode ocorrer tontura (ortostase). (Nota: a finasterida e dutasterida inibem a Sa-redutase, impedindo a conver­ são de testosterona em di-hidrotestosterona. Estes fármacos estão aprovados para o tratamento da HPB por reduzirem o volume da próstata em certos pacientes (ver p. 329). 3. Efeitos adversos. Os bloqueadores a1 podem causar tontura, fal­ ta de energia, congestão nasal, cefaleia, sonolência e hipotensão ortostática (embora em menor intensidade do que observado com fenoxibenzamina e fentolamina). Estes fármacos não desenca­ deiam taquicardia reflexa na mesma extensão que os bloqueado­ res a não seletivos. Ocorre um efeito anti-hipertensivo adicional quando a prazosina é administrada juntamente com um diurético ou um bloqueador �. obrigando à redução da sua dose. Devido à tendência de reter sódio (Na+) e líquido, a prazosina frequente­ mente é usada com um diurético. Estes fármacos não afetam a função sexual masculina de modo tão acentuado quanto a fenoxi­ benzamina e a fentolamina. Entretanto, por bloquear os receptores a nos duetos ejaculatórios e impedir a contração do músculo liso, têm sido reladas inibição da ejaculação e ejaculação retrógrada. A tansu/osina exige cautela quanto a "síndrome da íris flácida", uma condição na qual a íris ondula em resposta à cirurgia intraoperató­ ria do olho. A Figura 7.6 resume alguns efeitos adversos observa­ dos com os bloqueadores a. D. loimbina A ioimbina é um bloqueador a2 competitivo e seletivo. Ela é componente do córtex da planta Y ohimbe e algumas vezes é usada como estimu­ lante sexual. (A eficácia da ioimbina no tratamento da impotência nun­ ca foi demonstrada claramente.) A ioimbina atua no SNC aumentando o efluxo simpático para a periferia. Ela bloqueia diretamente os receptores a2 e é usada para aliviar a vasoconstrição associada com a doença de Reynaud. A ioimbina é contraindicada quando há alteração do SNC ou cardiovascular, porque é um estimulante dessas estruturas. Ili. FÁRMACOS BLOQUEADORES p-ADRENÉRGICOS Todos os �-bloqueadores disponíveis clinicamente são antagonistas com­ petitivos. Os �-bloqueadores não seletivos podem bloquear os receptores �1 e �2, e os antagonistas � cardiosseletivos bloqueiam primariamente os receptores �1• (Nota: não existem antagonistas �2 úteis clinicamente.) Es­ ses fármacos também diferem na atividade simpaticomimética intrínseca (ASI) nos efeitos no SNC e na farmacocinética (Figura 7.7). Embora todos os �-bloqueadores reduzam a pressão arterial na hipertensão, eles não cau­ sam hipotensão postural, pois os adrenorreceptores a permanecem funcio­ nais. Assim, o controle simpático normal nos vasos é mantido. Os �-bloque­ adores também são eficazes no tratamento de angina, arritmias cardíacas, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca congestiva, hipertireoidismo e glaucoma, bem como servem na profilaxia das enxaquecas. (Nota: os no­ mes de todos os �-bloqueadores terminam em "olol", exceto para o labetalol e o carvedilol.)
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    A. Propranolol: umantagonista p não seletivo O propranolol é o protótipo dos antagonistas �-adrenérgicos e bloqueia os receptores �1 e �2 com mesma afinidade. Existem preparações de liberação sustentada para administração uma vez ao dia. 1 . Ações a. Cardiovascular. O propranololdiminui o débito cardíaco, tendo efeitos cronotrópicos e inotrópicos negativos (Figura 7.8). Ele deprime diretamente a atividade sinoatrial e atrioventricular. Em geral, a bradicardia limita a sua dosagem. Durante exercício ou estresse, quando o sistema nervoso simpático está ativa­ do, os �-bloqueadores atenuam o aumento da frequência car­ díaca esperada. O débito cardíaco, o trabalho e o consumo de oxigênio são diminuídos pelo bloqueio dos receptores �1 e es­ ses efeitos são úteis no tratamento da angina (ver p. 222). Os �-bloqueadores são eficazes para atenuar as arritmias cardía­ cas supraventriculares, mas, em geral, não são eficazes contra as arritmias ventriculares (exceto as induzidas por exercício). Em dosagens elevadas, o propranololpode causarefeito estabi­ lizadorde membrana no coração, mas esse efeito é insignifican­ te se o fármaco é administrado em dosagens terapêuticas. b. Vasoconstrição periférica. O bloqueio dos receptores � im­ pede a vasodilatação mediada pelos receptores �2 (ver Figura 7.8). A redução no débito cardíaco leva à queda da pressão ar­ terial. Essa hipotensão inicia uma vasoconstrição periférica re­ flexa que causa diminuição do fluxo sanguíneo para a periferia. Em pacientes hipertensos, a resistência periférica total retorna ao normal ou diminui com o uso prolongado de propranolol. No equilíbrio, há uma redução gradual das pressões arteriais sistó­ lica e diastólica nos pacientes hipertensos. Não ocorre hipoten­ são postural, pois os receptores a1-adrenérgicos que controlam a resistência vascular não são afetados. c. Broncoconstrição. O bloqueio dos receptores �2 nos pulmões dos pacientes suscetíveis causa contração da musculatura lisa bronquiolar (ver Figura 7.8). Isso pode precipitar uma crise res­ piratória em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou asma. Por isso, os �-bloqueadores, em particular os não seletivos, são contraindicados em pacientes com DPOC ou asma. d. Aumento na retenção de Na+. A diminuição da pressão arterial causa redução na perfusão renal, resultando em aumento na retenção de Na+ e no volume de plasma (ver Figura 7.8). Em alguns casos, essa resposta compensatória tende a elevar a pressão arterial. Para esses pacientes, os �-bloqueadores são associados a um diurético para evitar a retenção de Na+. e. Distúrbios no metabolismo da glicose. O bloqueio � diminui a glicogenólise e asecreção de glucagônio. Por isso, se um pacien­ te com diabetes tipo 1 (antes denominado insulina-dependente) precisa receber propranolol, é essencial monitorar cuidadosa­ mente a glicemia, pois pode ocorrer hipoglicemia acentuada de­ pois da injeçãode insulina.Os �-bloqueadores também atenuam as respostas fisiológicas normais à hipoglicemia. f. Bloqueio das ações do isoproterenol. Todos os �-bloquea­ dores, incluindo o propranolo/, têm a propriedade de bloquear Farmacologia Ilustrada 91 Propranotot �----., Propranotot Propranotot Propranotot Figura 7.8 • Bronco­ constrição • • Vasocons­ trição periférica reflexa Maior Na+ retenção de sódio Menor frequência Débito Acebutolol Atenolol Metoprolol Nebivolol Ações do propranolol e de outros �-blo­ queadores.
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    92 Clark, Finkel,Rey &Whalen as ações do isoproterenol no sistema cardiovascular. Assim, na presença do bloqueador [3, o isoproterenol não produz sua típi­ ca estimulação cardíaca ou redução na pressão arterial média e diastólica (ver Figura 7.3). (Nota: na presença do bloqueador [3, a epinefrina não diminui a pressão diastólica ou estimula o coração, mas sua ação vasoconstritora, mediada pelos recep­ tores a, permanece ativa. As ações da norepinefrina no sistema cardiovascular são mediadas primariamente pelos receptores a e, portanto, não são afetadas.) 2. Farmacocinética Após administração oral, o propranolol é quase completamente absorvido devido à sua alta lipofilicidade. Está sujeito ao efeito de primeira passagem, e apenas cerca de 25° / o da dose administrada alcança a circulação. O volume de distribuição do propranolol admi­ nistrado por via oral é grande (4 litros/kg), e o fármaco facilmente atravessa a barreira hematencefálica. O propranololé extensamente biotransformado, e a maioria dos metabólitos é excretada na urina. 3. Efeitos terapêuticos a. Hipertensão. O propranolol não diminui a pressão arterial em pessoas com pressão sanguínea normal. O propranolol dimi­ nui a pressão arterial na hipertensão por diversos mecanismos. A redução do débito cardíaco é o mecanismo primário, mas a inibição da liberação de renina pelos rins, a diminuição na resis­ tência periférica total no uso prolongado e a redução dos estí­ mulos simpáticos do SNC também contribuem para o seu efeito anti-hipertensivo (ver p. 233). b. Enxaqueca. O propranolol também é eficaz na redução dos episódios de enxaqueca quando usado preventivamente (ver p. 556). O valor dos [3-bloqueadores é maior no tratamento da enxaqueca crônica, porque eles diminuem a incidência e a gra­ vidade dos ataques. (Nota: durante uma crise, é empregado o sumatriptano, bem como outros fármacos.) c. Hipertireoidismo. O propranolol e outros [3-bloqueadores são eficazes em diminuir a ampla estimulação simpática que ocor­ re no hipertireoidismo. No hipertireoidismo agudo (tempestade tireóidea), os [3-bloqueadores podem salvar a vida e proteger contra arritmias cardíacas graves. d. Angina pectoris. O propranololdiminui o oxigênio exigido pelo coração e, por isso, é eficaz na redução da dor torácica de es­ forço, que é comum na angina. Assim, ele é útil no tratamento crônico da angina estável, mas não no tratamento agudo. Esse fármaco aumenta a tolerância ao exercício moderado, o que re­ flete na melhora do eletrocardiograma. e. Infarto do miocárdio. O propranolol e outros [3-bloqueadores têm efeito protetor no miocárdio. Assim, o paciente que teve um infarto pode serprotegido contra um segundo ataque com o uso profilático dos [3-bloqueadores. Além disso, a administração de um [3-bloqueador imediatamente depois do infarto reduz o ta­ manho do infarto e acelera a recuperação. O mecanismo para esses efeitos pode ser o bloqueio das ações de catecolaminas circulantes, que aumentariam a demanda de oxigênio em um músculo cardíaco já bastante isquêmico. O propranololtambém reduz a incidência de morte arrítmica súbita após o infarto.
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    4. Efeitos adversos a.Broncoconstrição. O propranolol apresenta um efeito adverso grave e potencialmente fatal quando administrado a pacientes com asma (Figura 7.9). A contração imediata da musculatura lisa bronquiolar impede a entrada do ar nos pulmões. Mortes poras­ fixiaforam registradas em asmáticos que inadvertidamente rece­ beram o fármaco. Por isso, o propranolol nunca deve ser usado no tratamento de qualquer indivíduo com DPOC ou asma. b. Arritmias. O tratamento com J3-bloqueadores nunca deve ser interrompido abruptamente devido ao risco de precipitar ar­ ritmias cardíacas, que podem ser graves. Os J3-bloqueadores devem ser retirados gradualmente ao longo de algumas sema­ nas. O tratamento de longa duração com o J3-antagonista leva à supersensibilização do receptor J3. Ao suspender o tratamento, esse número aumentado de receptores pode agravar a angina e/ou a hipertensão. e. Comprometimento sexual. Como a função sexual masculina ocorre pela ativação a-adrenérgica, os J3-bloqueadores não afetam a ejaculação normal nem a função do esfíncter vesical interno. Por outro lado, alguns homens reclamam de compro­ metimento da atividade sexual. As razões não estão claras, e o efeito pode ser independente do bloqueio do receptor J3. d. Distúrbios no metabolismo. O bloqueio J3 diminui a glicogenó­ lise e a secreção de glucagônio. Pode ocorrer hipoglicemia de jejum.Além disso, os J3-bloqueadores podem prevenir os efeitos contrarreguladores das catecolaminas durante a hipoglicemia. A percepção de sintomas, como tremores, taquicardia e nervo­ sismo, são embotados. (Nota: J3-bloqueadores cardiosseletivos são preferidos no tratamento de asmáticos que usam insulina [ver antagonistas 131 seletivos].) A principal função dos recepto­ res J3 é mobilizar moléculas energéticas como os aminoácidos. (Nota: as lipases nas células adiposas são ativadas, levando ao metabolismo de triglicerídeos em ácidos graxos livres.) Os pacientes que recebem J3-bloqueadores não seletivostêm maior quantidade de lipoproteína de baixa densidade ("mau" coleste­ rol), aumento de triglicerídeos e redução de lipoproteína de alta densidade ("bom" colesterol). Por outro lado, o perfil lipídico sé­ rico em pacientes com dislipidemia melhora com o uso de anta­ gonistas 131 seletivos, como o metoprolol. e. Efeitos no SNC. O propranolol provoca numerosos efeitos no SNC, incluindo depressão, tonturas, letargia, fadiga, fraqueza, dis­ túrbios visuais, alucinações, perda de memória de curta duração, fragilidade emocional, sonhos intensos (incluindo pesadelos), di­ minuição da performance e depressão manifestada por insônia. f. Interações. Os fármacos que interferem ou inibem a biotransfor­ mação do propranolo/, como cimetidina, f/uoxetina, paroxetina e ri­ tonavir, podem potencializarseus efeitosanti-hipertensivos. Osfár­ macos que estimulam ou induzem a sua biotransformação, como barbitúricos, fenitoína e rifampicina, podem reduzirseus efeitos. B. Timolol e nadolol: antagonistas J3 não seletivos O timo/oie o nado/o/também bloqueiam adrenorreceptores J3, e 132 e são mais potentes do que o propranolol. O nado/oitem uma duração de ação muito longa (ver Figura 7.7). O timo/oi reduz a produção de humor aquo- Farmacologia Ilustrada 93 Fadiga ,, " Broncoconstrição ...... '- ... ;r ,, Disfunção sexual Arritmias (após interrupção abrupta do uso) Figura 7.9 I Je' .- ... ..... Efeitos adversos comumente observa­ dos em indivíduos tratados com propra­ nolol.
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    94 Clark, Finkel,Rey &Whalen Antagonistas Ji-adrenérgicos {tópicos) Agonistas a-adrenérgicos {tópicos) Agonistas colinérgicos {tópicos) Análogostipo prostaglandinas {tópico) Inibidoresdeanidrase carbônica{tópicoe sistêmico) Figura 7.10 Betaxo/ol,carteo/ol, levobunolol,metipranolol, timo/oi Aprac/onidina,brimonidina Pilocarpina,carbaco/ Latanoprosta,travoprosta, bimatoprosta Dorzolamidaebrinzolamida (tópica),acetazo/amidae metazo/amida(oral) Diminuemaprodução dehumoraquoso Diminuemaprodução dehumoraquosoe aumentamsuadrenagem Aumentamadrenagem dohumoraquoso Aumentamadrenagem dohumoraquoso Diminuemaprodução dehumoraquoso Irritaçãoocular,contraindicadoem pacientescomasma,doençasobstrutivas dasviasaéreas,bradicardiaeinsuficiência cardíacacongestiva. Vermelhidãoeirritaçãoocular,reações alérgicas,malestarecefaleia. Dorocularounasobrancelha,aumento damiopiaereduçãodavisão Vermelhidãoeirritaçãoocular,aumento dapigmentaçãodaírisecrescimento excessivodospelos doscílios. Miopiatemporária,nausea,diarreia, perdadoapetiteegostoecálculosrenais {fármacosorais). Classe dos fármacos usados no tratamento do glaucoma. so. Ele é usadotopicamente no tratamento do glaucomade ângulo amplo crônico e, às vezes, no tratamento de hipertensão. 1 . Tratamento do glaucoma. Os J3-bloqueadores, como os de uso tópico timo/o/, betaxolo/, carteolol, são eficazes na diminuição da pressão intraglobular no glaucoma. Isso ocorre por diminuição da secreção do humor aquoso pelo corpo ciliar. Vários pacientes com glaucoma têm sido mantidos com estes fármacos por anos. Eles não afetam a capacidade do olho de focalização próxima nem al­ teram o tamanho da pupila, como ocorre com os fármacos coli­ nérgicos. Administrados no olho, o início do efeito é em minutos e perdura por 1 2 a 24 horas. Entretanto, em um glaucoma agudo, a pi­ locarpina continua sendo o fármaco de escolha. Os J3-bloqueadores são usados somente na doença crônica. Outros fármacos usados no tratamento do glaucoma estão resumidos na Figura 7.1O. C. Acebutolol, atenolol, metoprolol, bisoprolol, betaxolol, nebivolol e esmolol: antagonistas Jl1 seletivos Os fármacos que bloqueiam preferencialmente os receptores J3, foram desenvolvidos para eliminar o efeito broncoconstritor indesejado (efei­ to J32) do propranolol visto em pacientes asmáticos. Os J3-bloqueadores cardiosseletivos, como acebutolo/, atenolole metoprolol, antagonizam os receptores J31 em doses 50 a 100 vezes menores do que as necessárias para bloquear os receptores J32• Essa cardiosseletividade é significativa nas doses baixas e perdida nas doses elevadas. (Nota: o acebutololtem alguma atividade agonista intrínseca.) 1 . Ações. Esses fármacos reduzem a pressão na hipertensão e au­ mentam a tolerância ao exercício na angina (ver Figura 7.8). O es­ molo/tem um efeito muito breve (ver Figura 7.7) devido à biotrans­ formação de uma ligação éster. Ele é usado somente por via IV, se necessário, durante cirurgia ou procedimento diagnóstico (p. ex., cistoscopia). Em contraste com o propranolo/, os bloqueadores car­ dioespecíficos têm relativamente pouco efeito na função pulmonar,
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    na resistência periféricae no metabolismo de carboidratos. Apesar disso, os pacientes com asma tratados com esses fármacos devem ser monitorados cuidadosamente para garantir que a atividade res­ piratória não seja comprometida. O nebivololtem também proprie­ dades vasodilatadoras mediadas por óxido nítrico. 2. Uso terapêutico em hipertensão. Os �-bloqueadores cardiosse­ letivos são úteis nos pacientes hipertensos com função respiratória comprometida. Como esses fármacos têm menor efeito nos recep­ tores �2 vasculares periféricos, o frio nas extremidades, um efeito adverso comum do tratamento com �-bloqueadores, é menos fre­ quente. Os �-bloqueadores cardiosseletivos são úteis nos pacientes diabéticos hipertensos que estão recebendo insulina ou hipoglice­ miantes orais. D. Pindolol e acebutolol: antagonistas com atividade agonista parcial 1 . Ações a. Cardiovascular. O acebutolol (antagonista seletivo �,) e o pin­ dolol (bloqueador � não seletivo) não são antagonistas puros. Ao contrário, eles têm a capacidade de estimular fracamente os receptores �, e �2 (Figura 7.1 1) por terem leve atividade simpa­ ticomimética intrínseca (ASI). Esses agonistas parciais estimu­ lam o receptor � ao qual se ligam, mas inibem a estimulação pelas catecolaminas endógenas mais potentes, epinefrina e norepinefrina. O resultado dessa ação oposta é um efeito bem diminuído na frequência e no débito cardíaco se comparado ao efeito de �-bloqueadores sem ASI. b. Diminuição dos efeitos metabólicos. Os bloqueadores com ASI causam menos distúrbios no metabolismo de carboidratos e lipídeos do que são observados com outros �-bloqueadores. Por exemplo, estes fármacos não diminuem os níveis de HDL no plasma. 2. Uso terapêutico na hipertensão. Os �-bloqueadores com ASI são eficazes em pacientes hipertensos com bradicardia moderada, pois uma redução adicional da frequência cardíaca com esses fármacos é menos pronunciada. O metabolismo de carboidratos é menos afe­ tado com acebutolol e pindolol do que com propranolol, tornando esses fármacos valiosos no tratamento de diabéticos. (Nota: os �,,, -bloqueadores com ASI não são usados como fármacos antiarrítmi­ cos devido ao seu efeito agonista parcial.) A Figura 7.12 resume as indicações para os �-bloqueadores. E. Labetalol e carvedilol: antagonistas de adrenorreceptores a e p 1 . Ações. O labetalole o carvedilolsão �-bloqueadores com ações bloqueadoras ex, concomitantes que produzem vasodilatação pe­ riférica, reduzindo a pressão arterial. Eles contrastam com outros �-bloqueadores que produzem vasoconstrição periférica e, por isso, são úteis no tratamento de pacientes hipertensos para os quais o aumento da resistência vascular periférica é indesejável. Esses fármacos não alteram os níveis séricos de lipídeos ou de glicose. O carvediloltambém diminui a peroxidação lipídica e o en­ grossamento da parede vascular, efeitos benéficos na insuficiência cardíaca. Farmacologia Ilustrada 95 a Agonistas (p. ex., epinefr ina) Receptores131 e 132 Receptores131 e132 ativados � EFEITOSCELULARES a Antagonistas (p. ex., propranololj . ... . . . . • • Epinefrina : � i·. . . ' '. " · ......... . : ·. ...··. : ....... .. Receptores131 e 132 bloqueados, masnãoativados li Agonistas parciais (p. ex., pindo/o/e acebutololj Receptores 131 e 132parcialmenteativados, masincapazesde responderàscatecolaminas maispotentes Figura 7.11 EFEITOSCELULARES DIMINUÍDOS Comparação de agonistas, antago­ nistas e agonistas parciais dos adre­ norreceptores �·
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    96 Clark, Finkel,Rey &Whalen Hipertensão Propranolol, metoprolol, timo/oie outros bloqueadores 13 diminuem o débito cardíaco e a secreção de renina. Glaucoma Timo/o/ e outros bloqueadores 13 diminuem a secreção de humor aquoso. Enxaqueca O propranololapresenta um efeito profilãtico. I e; Tirotoxicose O proprano/oldiminui a frequência cardíaca e o potencial para arritmias. Profilaxiadearritmiasapós infartodomiocárdio Proprano/ol e metopro/oldiminuem o débito cardíaco e a secreção de renina. Taquicardiasupraventricular Proprano/ole esmolo/diminuem a velocidade de condução AV. Anginapectoris Proprano/ol, nado/o/e outros bloqueadores 13 reduzem a frequência e a força de contração cardíaca. Figura 7.12 Algumas aplicações clínicas dos �-blo­ queadores. AV = atrioventricular. 2. Usos terapêuticos na hipertensão e insuficiência cardíaca. O /abetalol é útil no tratamento dos pacientes hipertensos idosos ou negros, nos quais o aumento da resistência periférica é indesejá­ vel. (Nota: em geral, a hipertensão em pacientes negros não é bem controlada com os �-bloqueadores.) O labetalol pode ser usado como uma alternativa à metildopa no tratamento da hipertensão in­ duzida pela gestação. Por via IV, o labetalol é usado também para tratar emergências hipertensivas, pois pode baixar rapidamente a pressão arterial (ver p. 240). A administração aguda de �-bloquea­ dores pode iniciar uma insuficiência cardíaca congestiva ou piorar esta condição. Contudo, triagens clínicas amplas mostraram vanta­ gens clínicas do carvedilo/, bem como do metoprolole bisopro/oiem pacientes com insuficiência cardíaca crônica estável. Estes fárma­ cos também reduziram a mortalidade e a hospitalização nesta po­ pulação. O carvedilol é usado também para prevenir a mortalidade cardiovascular em pacientes com insuficiência cardíaca. 3. Efeitos adversos. Hipotensão ortostática e tonturas são associa­ das com o bloqueio c:x1• A Figura 7.13 resume as especificidades do receptor e os usos dos antagonistas �-adrenérgicos. IV. FÁRMACOS QUE AFETAM A LIBERAÇÃO OU A - CAPTAÇAO DO NEUROTRANSMISSOR Como será notado na p. 1 27, alguns agonistas, como a anfetamina e a tira­ mina, não atuam diretamente no adrenorreceptor, mas exercem seus efeitos indiretamente no neurônio adrenérgico, causando a liberação do neurotrans­ missor das vesículas de armazenamento. De modo similar, alguns fármacos atuam no neurônio adrenérgico, interferindo na liberação do neurotransmissor ou alterando a captação do neurotransmissor no nervo adrenérgico. Contudo, devido ao advento de fármacos novos e mais potentes, com menos efeitos adversos, estes fármacos raramente são usados em terapêutica. Estes fár­ macos são incluídos neste capítulo devido ao mecanismo de ação singular e ao valor histórico. A. Reserpina A reserpina é um alcaloidevegetal que bloqueia otransporte dependente de Mg 2 +/trifosfato de adenosina (ATP) de aminas biogênicas, norepinefri­ na, epinefrina, dopamina e serotonina, do citoplasma para as vesículas de armazenamento no terminal nervoso adrenérgico de todos os tecidos corporais. Isso causa a depleção das aminas biogênicas. Em geral, a fun­ ção simpática é bloqueada devido à baixa liberação de norepinefri na. O fármaco tem um início de ação lento, uma longa duração de ação e um efeito que persiste porvários dias depois que o seu uso é interrompido. B. Guanetidina A guanetidina bloqueia a liberação de norepinefrina armazenada, bem como a desloca das vesículas de armazenamento (provocando, assim, um aumento transitório da pressão arterial). Isso leva à depleção gradual de norepinefrina nos terminais nervosos, exceto nos localizados no SNC. A guanetidina comumente causa hipotensão ortostática e interfere na função sexual masculina. A depleção da amina causa supersensibilidade à norepinefrina e pode causar crises hipertensivas em pacientes com feocromocitoma.
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    Propranolol Nado/oi Timo/oi Acebuto/o/1 Atenolol Esmolo/ Metoprolol Nebivo/ol Pindo/o/1 Hipertensão Cefaleia Hipertireoidismo Anginapectoris Infartodomiocárdio Hipertensão Glaucoma Hipertensão Hipertensão Hipertensão Hipertensão Hipertensão Farmacologia Ilustrada 97 Carvedilol Labeta/oiInsuficiênciacardíacacongestiva Figura 7.13 Resumo dos antagonistas J3-adrenérgicos. NO = óxido nítrico. 1 Acebutolole pindololsão agonistas parciais. C. Cocaína A cocaína é um fármaco amplamente disponível e altamente viciante. O mecanismo de ação primário que medeia os efeitos periféricos e centrais da cocaína é o bloqueio da captação neuronal de monoaminas (norepi­ nefrina, serotonina e dopamina) para o interior dos terminais pré-sinap­ ticos dos quais estes neurotransmissores são liberados (Figura 10.6). Este bloqueio é causado pela ligação da cocaína aos transportadores de captação de monoaminas, que, assim, potencializa e prolonga as ações periféricas e no SNC destas monoaminas. Em particular, o prolongamen­ to dos efeitos dopaminérgicos no sistema de prazer cerebral (sistema límbico) produz a intensa euforia que a cocaína causa inicialmente. A in­ gestão crônicade cocaínaesgotaa dopamina. Este esgotamento dispara o círculo vicioso da compulsão por cocaína que alivia temporariamente a grave depressão. Ver p. 1 26 para discussão mais completa das ações da cocaína.
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    98 Clark, Finkel,Rey &Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 7.1 O gráfico descreve as alterações na pressão arterial cau­ sadas pela administração por via IV de epinefrina antes e após um fármaco X desconhecido. 160 � Q) � t: Cl til J: 120 ,g E VJ E lfJ � � 80 a_ 40 Controle Apóso nãotratado fármacoX Tempo Epinefrina Epinefrina Qual dos seguintes é mais provável que seja o fármaco X? A. Atropina B. Fenilefrina C. Fisostigmina D. Prazosina E. Propranolol 7.2 Um homem de 38 anos iniciou recentemente uma mono­ terapia contra hipertensão leve. Na sua recente visita ao consultório, queixou-se de cansaço e da incapacidade de completar três sets de tênis. Qual dos seguintes fármacos ele provavelmente está usando contra a hipertensão? A. Albuterol B. Atenolol e. Efedrina D. Fentolamina E. Prazosina 7.3 Um homem asmático de 60 anos vem para uma revisão de saúde (chekup) e se queixa que está tendo dificuldade em "começar a urinar". O exame físico indica que o homem tem pressão arterial de 160/100 mmHg e que a próstata está ligeiramente aumentada. Qual dos seguintes fárma­ cos seria útil no tratamento dessas duas condições? A. Doxazosina B. Labetalol C. Fentolamina D. Propranolol E. lsoproterenol Resposta correta = D. A dose de epinefrina aumentou as pressões sistólica e diastólica, mas como a epinefrina dilata alguns leitos vas­ culares e contrai outros, oaumento na pressãodiastólica não é muito elevado. Há um acentuado aumento na pressão de pulso. Um blo­ queador a, como prazosina, impede os efeitos vasoconstritores pe­ riféricos da epinefrina, deixando os vasodilatadores (estimulação �2) sem oposição. Isso resulta em uma acentuada redução na pressão diastólica associadacom um leve aumento na pressão sistólica devi­ doaoaumentododébito cardíaco. Esse fenômenoé conhecidocomo "a reversão da epinefrina" e é característico do efeito de bloqueado­ res a nos efeitos cardiovasculares da epinefrina. Nenhum dos outros fármacos enumerados tem propriedade bloqueadora a e, por isso, não podem produzir essa interação. Resposta correta = 8. O atenolol é um �,-antagonista e é eficaz na redução da pressão arterial em pacientes com hipertensão. Os efei­ tos adversos dos �-bloqueadores incluem fadiga e intolerância ao exercício. O albuterol e aefedrinanãosãoanti-hipertensivos.Afento­ laminae aprazosina sãoanti-hipertensivos, mas esses sintomasnão são efeitos adversos característicos dos antagonistas a. Resposta correta = A. A doxazosina é um bloqueador competitivo do receptor a1 e reduz a pressão arterial. Além disso, ela bloqueia os receptores a nomúsculo liso no colo da bexiga e da próstata, melho­ rando o fluxo urinário. O labetalol e o propranolol, embora eficazes para tratarahipertensão, sãocontraindicados em um asmático eeles não melhoram o fluxo urinário. A fentolamina tem inúmeros efeitos adversos que impedem seu emprego como anti-hipertensivo. O iso­ proterenol é um �-agonista e não é usado como anti-hipertensivo, nem afeta afunção urinária.
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    1 oen • • • euro enera1vas 1. RESUMO A maioria dos fármacos que afetam o SNC atua alterando alguma etapa do processo de neurotransmissão. Os fármacos que afetam o SNC podem atuar pré-sinapticamente influenciando a produção, o armazenamento, a liberação ou o término da ação dos neurotransmissores. Outros fármacos podem ativar ou bloquear os receptores pós-sinápticos. Este capítulo apresenta uma visão geral do SNC, com foco nos neurotransmissores que estão envolvidos nas ações dos fármacos clinicamente úteis. Esses conceitos são importantes no entendimento da etiologia e das estratégias de tratamento das doenças neu­ rodegenerativas que respondem ao tratamento medicamentoso: doenças de Alzheimer e de Parkinson, esclerose múltipla (EM) e esclerose lateral amio­ trófica (ELA) (Figura 8.1). - li. A NEUROTRANSMISSAO NO SNC Em vários aspectos, o funcionamento básico dos neurônios no SNC é similar ao do sistema nervoso autônomo (SNA), descrito no Capítulo 3. Por exemplo, a transmissão da informação no SNC e na periferia envolve a liberação de neurotransmissores que se difundem através do espaço sináptico e se ligam a receptores específicos no neurônio pós-sináptico. Em ambos os sistemas, o reconhecimento do neurotransmissor pelo receptor de membrana do neu­ rônio pós-sináptico iniciaalterações intracelulares. Contudo, várias diferenças existem entre os neurônios no SNA periférico e os neurônios no SNC. Os circuitos do SNC são muito mais complexos do que os do SNA, e o número de sinapses no SNC é muito maior. O SNC, ao contrário do SNA, contém uma rede poderosa de neurônios inibitórios que estão constantemente ativos na modulação da velocidade de transmissão neuronal. Além disso, o SNC se comunica por mais de 1O (talvez cerca de 50) neurotransmissores diferentes. Em contraste, o SNA usa somente dois neurotransmissores primários, a ace­ tilcolina e a norepinefri na. FÁRMACOS ANTIPARKINSON Amantadina Apomorf ina Benztropina Biper ideno Bromocriptina Carbidopa Entacapona Levodopa Pramipexol Prociclidina Rasagilina Ropinirol Rotigotina Se/egilina (Deprenila) Tolcapona Triexifenedil FÁRMACOS ANTIALZHEIMER Figura 8.1 Donepezila Galantamina Memantina Rivastigmina Tacrina Resumo de fármacos usados no trata­ mento das doenças de Parkinson, de Alzheimer, esclerose múltipla e escle­ rose lateral amiotrófica (ELA). (Conti­ nua na próxima página.)
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    100 Clark, Finkel,Rey & Whalen FÁRMACOS ANTIESCLEROSE MÚLTIPLA Azatioprina Ciclofosfamida Dalfampr idina Dexametasona Fingolimode G/atiramer lnterferon fJ1a lnterferon fJ1b Mitoxantrona Natali zumabe Prednisona FÁRMACOS ANTI ELA R i luzo/ Figura 8.1 (Continuação) Resumo de fármacos usados no trata­ mento das doenças de Parkinson, de Alzheimer, esclerose múltipla e escle­ rose lateral amiotrófica (ELA). tJ Receptor vazio (sem agonistas) O receptor vazio é inativo, e o canal de sódio associado permanecefechado. MEMBRANA NEURONAL PÓS-S1NÁPTICA Na+ � +++ +++ Receptorde t- - acetilcolina Canaldesódio (fechado) Ligação de neuretransmissor excitatório ao receptor A ligação de acetilcolina causa a abertura do canal de sódio. + + Acetilcolina Na+ Receptorde acetilcolina Na+ Na+ + + Aentrada de Na+ despolariza a célula e aumenta a excitabilidade neuronal. Figura 8.2 A ligação do neurotransmissor excitató­ rio, acetilcolina, causa despolarização do neurônio. Ili. POTENCIAIS SINÁPTICOS No SNC, os receptores da maioria das sinapses estão acoplados a canais iônicos; ou seja, a ligação do neurotransmissor ao receptor de membrana pós-sináptico resulta em uma rápida, mas transitória, abertura de canais iônicos. A abertura permite que íons específicos, dentro ou fora da célu­ la, fluam conforme o gradiente de concentração. A alteração resultante na composição iônica através da membrana do neurônio altera o potencial pós­ -sináptico, produzindo despolarização ou hiperpolarização da membrana pós-sináptica, dependendo do íon específico que se move e da direção do seu movimento. A. Vias excitatórias Os neurotransmissores podem ser classificados em excitatórias ou ini­ bitórios, dependendo da natureza da ação que provocam. A estimula­ ção de um neurônio excitatório causa movimento de íons que resulta em uma despolarização da membrana pós-sináptica. Esses potenciais pós-sinápticos excitatórias (PPSE) são gerados pelos seguintesfatores: 1) a estimulação de um neurônio excitatório causa a liberação de molé­ culas neurotransmissoras, como glutamato ou acetilcolina, que se ligam aos receptores na membrana pós-sináptica. Isso causa um aumento transitório na permeabilidade dos íons sódio (Na+). 2) O influxo de Na+ causa uma leve despolarização, ou PPSE, que desloca o potencial pós­ sináptico em direção ao limiar.3) Se o número de neurônios excitatórias estimulados aumenta, mais neurotransmissor excitatório é liberado. Fi­ nalmente, isso determina que o PPSE da célula pós-sináptica ultrapas­ se o valor limiar, gerando-se um potencial de ação tudo-ou-nada. (Nota: a geração de um impulso nervoso reflete a ativação de receptores si­ nápticos por centenas de moléculas neurotransmissoras excitatórias li­ beradas de várias fibras nervosas.) A Figura 8.2 mostra um exemplo de uma via excitatória. B. Vias inibitórias A estimulação de neurônios inibitórios causa movimento de íons que re­ sulta na hiperpolarização da membrana pós-sináptica. Esses potenciais pós-sinápticos inibitórios (PPSI) são gerados pelos seguintes fatores: 1) a estimulação de neurônios inibitórios libera moléculas neurotransmis­ soras, como GABA ou glicina, que se ligam a receptores na membrana pós-sináptica. Isso causa um aumento transitório na permeabilidade de íons específicos, como potássio (K+) ou cloro (CI-). 2) O influxo de c1- ou o efluxo de K+ causa uma leve hiperpolarização, ou PPSI, que afasta o potencial pós-sináptico do seu limiar. Isso diminui a geração de potenciais de ação. A Figura 8.3 mostra um exemplo de via inibitória. C. Efeitos combinados de PPSE e PPSI A maioria dos neurônios no SNC recebe PPSE e PPSI. Assim, vários tipos diferentes de neurotransmissores podem atuar no mesmo neurônio, mas cada um se liga ao seu próprio receptor específico. O resultado lí­ quido é a soma das ações individuais dos vários neurotransmissores no neurônio. Os neurotransmissores não estão uniformemente distribuídos no SNC, mas são localizados em agrupamentos específicos de neurô­ nios, cujos axônios podem fazer sinapse com regiões específicas do cé­ rebro. Vários tratos neuronais parecem codificados quimicamente, e isso pode permitir grande oportunidade de modulação seletiva de certas vias • neuronais.
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    IV. DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS Asdoenças neurodegenerativas do SNC incluem a doença de Parkinson, a doença de Alzheimer, a EM e a ELA. Essas doenças graves são caracteri­ zadas pela perda progressiva de neurônios específicos em áreas cerebrais discretas, resultando em distúrbios característicos de movimento, cognitivos, ou ambos. Por exemplo, a doença de Alzheimer é caracterizada pela perda de neurônios colinérgicos no núcleo basal de Maynert, e a doença de Parkinson está associada à perda de neurônios dopaminérgicos na substância negra. A doença mais prevalente é a deAlzheimer, afetando cerca de 4 milhões de pes­ soas, segundo estimativa feita em 2000. O número de casos deve aumentar com o aumento da proporção de pessoas idosas na população. - V. REVISAO DA DOENÇA DE PARKINSON A doença de Parkinson é um distúrbio neurológico progressivo do movimento muscular, caracterizado por tremores, rigidez muscular, bradicinesia (lentidão ao iniciare executar movimentos voluntários) e anormalidades posturais e de marcha.A maioriados casos envolve pessoas com mais de 65 anos, entre as quais a incidência é de 1 em 100 indivíduos. A. Etiologia A causa da doença de Parkinson é desconhecida para a maioria dos pa­ cientes. A doença está relacionada com a degeneração de neurônios do­ paminérgicos na substância negra com consequente redução das ações da dopamina no corpo estriado - parte do sistema de gânglios basais cerebrais que estão envolvidos no controle motor. A perda dos neurô­ nios de dopamina na substância negra se evidencia pela diminuição da captação de precursores de dopamina nesta região, o que pode ser vi­ sualizado usando tomografia por emissão de posítrons e o análogo da dopamina, f/uorodopa (Figura 8.4). Fatores genéticos não desempenham papel dominante na etiologia da doença de Parkinson, embora possam exercer alguma influência na suscetibilidade individual à doença. Parece cada vez mais provável que um fator ambiental não identificado possater papel na perda dos neurônios dopaminérgicos. 1 . Substância negra. A substância negra, parte do sistema extrapira­ midal, é a origem dos neurônios dopaminérgicos que terminam no neostriado (representados em vermelho na Figura 8.5). Cada neu­ rônio dopaminérgico faz milhares de contatos sinápticos no interior do neostriado e, assim, modula a atividade de um grande número de células. Essas projeções dopaminérgicas da substância negra disparam tonicamente, e não em resposta a um movimento muscu­ lar ou impulso sensorial específicos. Assim, o sistema dopaminérgi­ co parece servir como uma influência tônica, contínua na atividade motora, em vez de participar em movimentos específicos. 2. Neostriado. Normalmente o neostriado está conectado à substân­ cia negra por neurônios (representados em laranja na Figura 8.5) que secretam o transmissor inibitório GABA nas suas terminações na substância negra. Por sua vez, células da substância negra en­ viam neurônios de volta ao neostriado (representados em vermelho na Figura 8.5), que secretam o transmissor inibitório dopamina nas suas terminações. Essas vias mutuamente inibitórias em geral man­ têm um grau de inibição das duas áreas distintas. Na doença de Parkinson, a destruição das células na substância negra resulta na degeneração dosterminais nervosos responsáveis pela secreção de Farmacologia Ilustrada 101 Receptor vazio (sem agonista) O receptor vazio é inativo, e o canal de cloro estáfechado. MEMBRANA NEURONAL PÓS-SINÁPTICA + + ReceptordeGABA - lC�nal ; e cloro (fechado) Ligação de neurotransmissor inibitório ao receptor A ligação de GABA causa a abertura do canal de cloro. GABA + + + ReceptorGABA A entrada de CI-hiperpola­ riza a célula, dificultando sua despolarização e, por isso, reduzindo a excitabili­ dade neuronal. Figura 8.3 + + + A ligação do neurotransmissor inibitório ácido 'Y-aminobutírico (GABA) causa hiperpolarização do neurônio.
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    102 Clark, Finkel,Rey & Whalen Figura 8.4 Varredura com tomografia por emissão de posítrons do cérebro mostrando as diferenças nos níveis de fluorodopa (FDOPA) entre indivíduos com e sem doença de Parkinson. 1'!"11 Perda do efeito inibitório U da dopamina resulta em maior produção de acetilcolina, que estimula a sinalização anormal, comprometendo a motilidade. Conexões ao músculo através do córtex motor e da medula espinal NEURÔNIO GABA INIBITÓRIO � - - Neurônio -----1)1o� .� SUBSTÂNCIA NEGRA - O Devido à morte celular, ocorre menor liberação de dopamina no neostriado. Figura 8.5 Função da substância negra na doença de Parkinson. DA = dopamina; GABA = ácido 'Y-aminobutírico; ACh = acetilco­ lina. dopamina no neostriado. Assim, a influência moduladora inibitória normal da dopamina nos neurônios colinérgicos no neostriado dimi­ nui significativamente, resultando em superprodução ou hiperativi­ dade relativa da acetilcolina pelos neurônios estimulantes (represen­ tados em verde na Figura 8.5). Isso inicia uma sequência de sinais anormais, resultando na perda do controle do movimento muscular. 3. Parkinsonismo secundário. Os sintomas da doença de Parkinson raramente aparecem depois de encefalite virai ou de múltiplas le­ sões vasculares pequenas. Fármacos como os fenotiazínicos e o haloperido/, cuja principal ação farmacológica é o bloqueio de re­ ceptores da dopamina no cérebro, também produzem sintomas da doença de Parkinson. Esses fármacos não devem ser usados em pacientes parkinsonianos. B. Estratégia de tratamento VI. Além daabundância em neurônios dopaminérgicos inibitórios, o neostria­ do também é rico em neurônios colinérgicos excitatórios que se opõem à ação da dopamina (ver Figura 8.5). Vários dos sintomas da doença de Parkinson refletem um desequilíbrio entre os neurônios colinérgicos excitatórios e o número muito diminuído de neurônios dopaminérgicos inibitórios. O tratamento é direcionado ao restabelecimento da dopamina nos gânglios basais e à antagonização do efeito excitatório dos neurô­ nios colinérgicos, restabelecendo, assim, o equilíbrio normal dopamina/ acetilcolina. Como o tratamento de longa duração com levodopa é limita­ do pelas flutuações na resposta terapêutica, são procuradas estratégias para manter os níveis de dopamina no SNC o mais constante possível. FÁRMACOS USADOS NA DOENÇA DE PARKINSON Osfármacos disponíveis atualmente oferecem alívio temporário dos sintomas desta doença, mas eles não interrompem nem revertem a degeneração neu­ ronal causada pela doença. A. Levodopa e carbidopa O /evodopa é um precursor metabólico da dopamina (Figura 8.6). Ele res­ tabelece a neurotransmissão dopaminérgica no corpo estriado, aumen­ tando a síntese de dopamina nos neurônios ainda ativos da substância negra. Em pacientes com doença inicial, o número de neurônios dopa­ minérgicos residuais na substância negra (geralmente cerca de 20° / o do normal) é adequado para a conversão do /evodopa à dopamina. Assim, nesses pacientes, a resposta ao levodopa é consistente, e o paciente raramente se queixa de que os efeitos do fármaco desvanecem. Infeliz­ mente, com o tempo, o número de neurônios diminui, e menos células são capazes de captar o levodopa exógeno e convertê-lo em dopami­ na para armazenamento e liberação subsequentes. Em consequência, desenvolvem-se flutuações no controle motor. O alívio oferecido pelo /e­ vodopa é meramente sintomático e dura somente o tempo que o fármaco está presente no organismo. Os efeitos do /evodopa no SNC podem ser potencializados pela coadministração de carbidopa, um inibidorda dopa­ -descarboxilase que não atravessa a barreira hematencefálica. 1 . Mecanismo de ação a. Levodopa. Como adoença de Parkinson resulta da faltade dopa­ mina em regiões específicas do cérebro, são feitos esforços para reverteressadeficiência.A própriadopamina não atravessa a bar-
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    reira hematencefálica, masseu precursor imediato, o levodopa, é transportado ativamente para o SNC e transformado em dopami­ na no cérebro (ver Figura 8.6). Grandes quantidades de /evodopa são necessárias, pois grande parte do fármaco é descarboxilada à dopamina na periferia, resultando em efeitos colaterais que in­ cluem náusea, êmese, arritmias cardíacas e hipotensão. b. Carbidopa. O carbidopa, um inibidor da dopa-descarboxilase, diminui a biotransformação do /evodopa no TGI e nos tecidos periféricos, aumentando, assim, a disponibilidade de levodopa no SNC. Além disso o carbidopa diminui a dose de levodopa necessária em 4 a 5 vezes e, consequentemente, diminui a gra­ vidade dos efeitos adversos resultantes da dopamina formada na periferia. 2. Ações. O levodopa reduz a rigidez, os tremores e outros sintomas da doença de Parkinson. 3. Usos terapêuticos. O levodopa em associação com o carbidopa é um tratamento potente e eficaz disponível atualmente para tratar a doença de Parkinson. Em cerca de dois terços dos pacientes, esse tratamento reduz substancialmente a gravidade da doença nos pri­ meiros anos de uso. Os pacientes em geral diminuem a resposta entre o terceiro e o quinto ano de tratamento. 4. Absorção e biotransformação. O fármaco é absorvido rapidamen­ te do intestino delgado (quando em jejum). O levodopa tem uma meia-vida extremamente curta (1 a 2 horas), o que causa flutuação nos níveis plasmáticos. Isso pode provocar flutuações na resposta motora, que se correlaciona, em geral, com a concentração de le­ vodopa no plasma ou dá origem ao fenômeno "liga-desliga", mais desagradável, no qual as flutuações motoras não se relacionam Tirosina --+-- Tirosina i A. Distribuição do levodopaadministrado Farmacologia Ilustrada 103 Dopa +--+---- i Dopamina }Levodopa administrado Vesícula sináptica Figura 8.6 Dopamina • • • • • Receptor de dopamina Metabolismonos tecidosperiféricos � Metabolismo noTGI t( Efeitosindesejados B. Destino do levodopa administrado com carbidopa Dopa O Carbi- O ....,_ <··....... dopa ......... > .... - 1 Levodopa administrado Menormetabolismonos tecidosperiféricos � Menormetabolismo t::t noTGI Menosefeitosindesejados Síntese de dopamina a partir do levodopa na ausência e na presença de carbidopa, um inibidor da dopamina-descarbo­ xilase nos tecidos periféricos.TGI = trato gastrintestinal.
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    104 Clark, Finkel,Rey & Whalen Anorexia Náusea e êmese Taquicardia Hipotensão Problemas psiquiátricos Figura 8.7 Efeitos adversos do Jevodopa. Efeitodiminuídodevido aoaumentodometabolismo periférico Piridoxina Levodopa - Inibidores daMAO Crisehipertensivadevidoao aumentodecatecolaminas Figura 8.8 Algumas interações de fármacos ob­ servadas com levodopa. MAO = mono­ amina oxidase. com os níveis plasmáticos de modo simples. As flutuações motoras fazem o paciente perder subitamente a mobilidade normal e apre­ sentar tremores, cãibras e imobilidade. A ingestão de refeições, em particular as ricas em proteínas, interferem no transporte do levo­ dopa ao SNC. Os grandes aminoácidos neutros (p. ex., leucina e isoleucina) competem com o levodopa pela absorção do intestino e pelo transporte através da barreira hematencefálica. Assim, o levo­ dopa deve ser ingerido em jejum, geralmente 45 minutos antes da refeição. A retirada do fármaco deve ser gradual. 5. Efeitos adversos a. Efeitos periféricos. Anorexia, náusea e êmese ocorrem devido à estimulação da zona disparadora química no bulbo (Figura 8.7).Taquicardia e extrassístoles ventriculares resultam da ação da dopamina no coração. Também pode ocorrer hipotensão. A ação adrenérgica na íris causa midríase e, em alguns indiví­ duos, discrasias sanguíneas e uma reação positiva ao teste de Coombs. A saliva e a urina apresentam coloração marrom devi­ do ao pigmento melanina produzido pela oxidação da catecola- . mina. b. Efeitos no SNC. Podem ocorreralucinações visuais e auditivas e movimentos involuntários anormais (discinesia). Esses efeitos no SNC são opostos aos sintomas da doença de Parkinson e refletem a hiperatividade da dopamina nos receptores nos gân­ glios basais. O levodopa também pode alterar o humor, causar depressão, psicose e ansiedade. 6. Interações de fármacos. A piridoxina (vitamina 86) aumenta a hidrólise periférica do levodopa e diminui sua eficácia (Figura 8.8). A administração concomitante de levodopa e inibidores da MAO (IMAO), como fenelzina, pode produzir uma crise hiper­ tensiva causada pelo aumento da produção de catecolaminas; por isso, é necessário cautela quando usados simultaneamente. Em vários pacientes psicóticos, o levodopa agrava os sintomas, provavelmente pelo aumento de catecolaminas centrais. Em pa­ cientes com glaucoma, o fármaco pode causar um aumento na pressão intraocular adicional. Pacientes cardíacos devem ser cuidadosamente monitorados devido ao possível desenvolvi­ mento de arritmias. Em geral, fármacos neurolépticos são con­ traindicados em pacientes parkinsonianos, pois podem bloquear os receptores da dopamina e provocarsíndrome parkinsoniana. Contudo, dosagens baixas de certos fármacos neurolépticos atípicos são empregados algumas vezes para tratar sintomas psiquiátricos causados pelo levodopa. B. Selegilina e rasagilina A selegili na, também denominada deprenila, em dosagens baixas a mo­ deradas inibe seletivamente a MAO tipo B (que metabolisa a dopamina), mas não inibe a MAO tipoA (que metabolisa a norepinefrinae a serotoni­ na), a menos que administrada em dosagens acima das recomendadas nas quais perde a sua seletividade. Assim, por diminuir o metabolismo da dopamina, a selegilina aumenta os níveis de dopamina no cérebro (Figura 8.9). Por isso, ela aumenta a ação do Jevodopa, e, quando esses fármacos são administrados juntos, a selegilina reduz substancialmente a dose necessária de Jevodopa. Diferente dos IMAO não seletivos, a se­ Jegilina, nas doses recomendadas, tem baixo potencial de causar crises hipertensivas. Contudo, se ela é administrada em doses elevadas, perde
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    a seletividade, eo paciente fica sujeito ao risco de hipertensão grave. A selegilina é biotransformada em metanfetamina e anfetamina, cujos efei­ tos estimulantes podem provocar insônia se for administrada depois da metade da tarde (ver p. 158 para o uso da se/egili na no tratamento da depressão). A rasagili na é um inibidor seletivo e irreversível da MAO tipo B cerebral e tem cinco vezes a potência da selegilina. Ao contrário da selegilina, ela não é biotransformada em substâncias tipo anfetamina. C. Inibidores da catecol-0-metiltransferase Normalmente, a metilação do /evodopa pela catecol-0-metiltransferase (COMT) resultando em 3-0-metildopa é uma via menor na sua biotrans­ formação. Contudo, quando a atividade periférica da dopamina-descar­ boxilase é inibida pelo carbidopa, forma-se uma quantidade significativa de 3-0-metildopa que compete com o /evodopa pelo transporte ativo no SNC (Figura 8.1O). A inibição da COMT pelo entacapona ou tolcapona reduz a concentração de 3-0-metildopa no plasma, aumenta a captação central de levodopa e eleva as concentrações cerebrais de dopamina. Demonstrou-se que os dois fármacos diminuem os sintomas de desvane­ cimento vistos em pacientes que recebem levodopa-carbidopa. Entaca­ pona e tolcapona são derivados nitrocatecólicos que inibem a COMT de modo seletivo e reversível. Os dois fármacos diferem primariamente nas suas farmacocinéticas e em alguns efeitos adversos. 1 . Farmacocinética. A absorção dos dois fármacos administrados por via oral ocorre de forma fácil e não é influenciada pela alimentação. Eles são extensamente ligados à albumina (> 98° / o) com limitado volume de distribuição. A tolcapona difere da entacapona, pois pe­ netra a barreira hematencefálica e inibe a COMT no SNC. Contudo, a inibição da COMT periférica parece ser a base de sua ação tera­ pêutica. A tolcapona tem duração de ação relativamente longa (pro­ vavelmente devido à sua afinidade pela enzima) comparada com a entacapona, que requer dosagens mais frequentes. Ambos os fár­ macos são extensamente biotransformados e eliminados nas fezes e na urina. A dosagem deve ser ajustada em pacientes com cirrose moderada ou grave. 2. Efeitos adversos. Ambos os fármacos apresentam efeitos adver­ sos que são observados em pacientes que recebem /evodopa-car­ bidopa, incluindo diarreia, hipotensão postural, náusea, anorexia, discinesias, alucinações e distúrbios do sono. Mais grave, a necrose Farmacologia Ilustrada 105 Os níveis de dopamina aumentam Oopamina MAO B 0 <·0000'"'"' Se/egili na Metabólitos Figura 8.9 Ação da selegili na (depreni/a) no meta­ bolismo da dopamina. MAO B = mono­ amina oxidase tipo B. Quando a atividade da dopamina-descarboxilase periférica é inibida pelo carbidopa, forma-se uma concentração significativa de 3-0-metildopa, que compete com o /evodopa pelo transporte ativo no SNC. A inibição da COMT pelo entacapona diminui a concentração plasmática de 3-0-metildopa, aumenta a captação central de levodopa e aumenta a concentração cerebral de dopamina. Levodopa administrado 3-0-metildopa Levodopa +O<""""' Carbidopa • y Biotransformação diminuída no TGI e nos tecidos periféricos Figura 8.10 Dopa no SNC 3-0-metildopa '""""'"""• • - - A � Entacapona .........,.. O � COMT O Levodopa • • • Levodopa � Dopa administrado ": � noSNC + o�"""" Carbidopa • . Biotransformação diminuída no TGI e nos tecidos periféricos Efeito do entacapona na concentração de dopa no sistema nervoso central (SNC). COMT = catecol-0-metiltransferase.
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    106 Clark, Finkel,Rey & Whalen V Sedação V Alucinações Confusão Náusea Hipotensão Figura 8.1 1 Alguns efeitos adversos dos agonistas dopaminérgicos. hepática fulminante está associada ao uso de tolcapona. Por isso, esse fármaco só deve ser usado -junto com a monitoração da fun­ ção hepática apropriada - em pacientes nos quais outras possibili­ dades não deram certo. A entacapona não apresenta essatoxicida­ de e pode substituir a tolcapona. D. Agonistas de receptor dopaminérgico Esse grupo de compostos antiparkinson inclui a bromocri ptina, um de­ rivado do ergot, e fármacos novos não ergot, ropiniro/, pramipexol e ro­ tigotina. Esses fármacos têm durações de ação mais longas do que o levodopa e, assim, são eficazes em pacientes que exibem flutuações nas suas respostas ao /evodopa. O tratamento inicial com os novos fármacos estáassociado particularmente a menos risco de desenvolverdiscinesias e flutuações motoras quando comparado com pacientes tratados desde o início com /evodopa. Bromocri ptina, pramipexol e ropinirolsão eficazes em pacientes com doença de Parkinson avançada, complicada por flu­ tuações motoras e discinesias. Contudo, esses fármacos são ineficazes em pacientes que não mostraram resposta terapêutica ao /evodopa. A apomorfi na é usada em estágios graves e avançados da doença como um agonista dopaminérgico injetável para suplementar a medicação oral comumente prescrita. 1 . Bromocriptina. A bromocriptina, derivada do alcaloide vasocons­ tritor ergotamina, é um agonista dopaminérgico. A dose é aumen­ tada gradualmente durante um período de 2 a 3 meses. Os efeitos adversos graves limitam a utilidade dos agonistas da dopamina (Figura 8.1 1). As ações da bromocriptina são similares às ações do levodopa, exceto que alucinações, confusão, delírio, náusea e hipotensão ortostática são mais comuns, ao passo que a discinesia é menos proeminente. Em doença psiquiátrica, bromocriptina e le­ vodopa podem piorar as condições mentais. Essesfármacos podem desenvolver graves problemas cardíacos, particularmente em pa­ cientes com uma históriade infarto do miocárdio. Em pacientes com doençavascular periférica, ocorre agravamento dosvasoespasmos, e em pacientes com úlcera péptica, ocorre piora da úlcera. Como a bromocriptina é um derivado do ergot, ela tem potencial de causar fibrose pulmonar e retroperitoneal. 2. Apomorfina, pramipexol, ropinirol e rotigotina. Esses são os agonistas dopaminérgicos não ergot aprovados para o tratamento da doença de Parkinson. Pramipexol e ropinirol são agonistas nos receptores da dopamina. Apomorfina e rotigotina são novos ago­ nistas dopaminérgicos disponíveis para injeção e como sistemas transdérmicos, respectivamente. A apomorfi na é usada no trata­ mento agudo do fenômeno offde hipomobilidade. Esses fármacos aliviam o déficit motor em pacientes que nunca foram tratados com levodopa e em pacientes com doença de Parkinson avançada que estão tomando Jevodopa. Os agonistas da dopamina podem retar­ dar a necessidade de usar o tratamento com levodopa no início da doença de Parkinson e podem reduzir a dose de levodopa na doença de Parkinson avançada. Ao contrário dos derivados da er­ gotamina, o pramipexole o ropinirolnão agravam os vasoespasmos periféricos nem causam fibrose. Náusea, alucinações, insônia, ton­ turas, constipação e hipotensão ortostática estão entre os efeitos adversos mais estressantes desses fármacos, mas as discinesias são menos frequentes do que com levodopa (Figura 8.12). Deve­ -se enfatizar que o pramipexol depende da função renal para ser eliminado. Por exemplo, a cimetidi na, que inibe a secreção tubular
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    renal de basesorgânicas, aumenta a meia-vida do pramipexol em 40° / o. Os antibacterianos fluoroquinolonas (ver p. 409) e outros inibi­ dores das enzimas hepáticas CIP1A2 inibem a biotransformação do ronipirole aumentam a ASC (área sob a curva concentração versus tempo) em cerca de 80° / o. A rotigotina é um agonista da dopamina usado no tratamento dos sinais e sintomas iniciais da doença de Parkinson. Ela é administrada uma vez ao dia como um adesivo transdérmico que assegura efeito por 24 h. A Figura 8.13 resume algumas propriedades destes agonistas da dopamina. E. Amantadina Foi descoberto casualmente que o antivirótico amantadina, que é eficaz no tratamento da gripe (ver p. 462), tem ação antiparkinson. A amanta­ dina tem vários efeitos em inúmeros neurotransmissores implicados no parkinsonismo, incluindo maior liberação de dopamina, bloqueio de re­ ceptor colinérgico e inibição do receptor glutamato tipo N-metil-D-aspar­ tato (NMDA). Evidências atuais apoiam sua ação nos receptores NMDA como a ação primária nas concentrações terapêuticas. (Nota: se a libe­ ração da dopamina alcança o máximo, a amantadina não tem efeito.) O fármaco pode causar intranquilidade, agitação, confusão e alucinações e, em doses elevadas, induzir psicose tóxica aguda. Hipotensão ortostática, retenção urinária, edema periférico e xerostomia também podem ocor­ rer. A amantadina é menos eficaz do que o levodopa e desenvolve mais facilmente tolerância a ela. Contudo, a amantadina tem menos efeitos adversos. Elatem poucos efeitos nos tremores, mas é mais eficaz do que os anticolinérgicos contra rigidez e bradicinesia. F. Fármacos antimuscarínicos Os fármacos antimuscarínicos são menos eficazes do que o /evodo­ pa e só têm papel auxiliar no tratamento da doença de Parkinson. As ações de benztropina, triexifenidi/, prociclidina e biperideno são simila­ res, embora os pacientes possam responder de forma mais favorável a um dos fármacos. Cada um desses fármacos pode induzir alterações de comportamento e produzir xerostomia e problemas visuais, como todos os antimuscarínicos. Eles interferem com o peristaltismo no TGI e são contraindicados em pacientes com glaucoma, hiperplasia de próstata ou estenose pilórica. O bloqueio da transmissão colinérgica provoca efeitos similares ao aumento da transmissão dopaminérgica (de novo, devido ao desequilíbrio na relação dopamina/acetilcolina) (ver Figura 8.5). Os efei­ tos adversos são similares aos causados pelas doses elevadas de atro­ pina - por exemplo, dilatação pupilar, confusão, alucinações, taquicardia sinusal, retenção urinária, constipação e xerostomia. Característica Pramlpexol 1 Roplnlrol Biodisponibilidade >90% 55% vd 7Ukg 7,5Ukg Meia-vida 8horas1 6 horas Metabolismo Desprezível Extensa Eliminação Renal Rena12 Figura 8.13 75 :a C5 õ E cn 18 u. B ·- 'ã. 50 � " � cn i ·u l!,25 CD 'ti E & J!l � C5 Farmacologia Ilustrada 107 Os agonistas dopaminérgicos retardam as complicações motoras e geralmente são iniciados antes do /evodopa em pacientes quetêm doença leve e menos idade no início, pois pode retardar a necessi­ dade de começar o tratamento com /evodopa. Levodopa Ropinirol 20° /o 54°/o Levodopa Pramipexol 24,5° /o Q. o '------------ A 5 anos A 4 anos Figura 8.12 Complicações motoras em pacientes tratados com Jevodopa ou agonistas dopaminérgicos. 1 Rotigotlna 45% 84Ukg 7horasª Extensa Rena12 Propriedades farmacocinéticas dos agonistas da dopamina:pramipexol, ropinirole rotigoti na. Vd = volume de distribuição. 1 Alcança 12 horas em pacientes com mais de 65 anos; 2 Menos de 10° / o são excretados inalterados; 3 Administrado como adesivo transdérmico uma vez ao dia.
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    108 Clark, Finkel,Rey & Whalen y = = � Y= o o v==::-.i. Figura 8.14 Bradicardia Náusea Diarreia Anorexia Mialgia Efeitos adversos dos inibidores da ace­ tilcolinesterase. VII. FÁRMACOS USADOS NA DOENÇA DE ALZHEIMER As intervenções farmacológicas na doença de Alzheimer são apenas paliati­ vas e oferecem um benefício modesto e de curta duração. Nenhum dos fár­ macos disponíveis atualmente é capaz de alteraro processo neurodegenera­ tivo subjacente.A demênciatipo Alzheimer (em comparação com outrostipos de demência que não serão referidas nesta discussão, como a demência multi-infarto ou a demência corpo de Lewy) tem três aspectos distintos: 1) o acúmulo de placas senis (acúmulo amiloide); 2) a formação de numerosos en­ trelaçados neurofibrilares e 3) a perdade neurônios corticais, particularmente colinérgicos. Os tratamentos atuais visam a melhorara transmissão colinérgi­ ca no SNC ou evitar as ações excitotóxicas resultantes da superestimulação dos receptores NMDA glutamato em certas áreas do cérebro. A. Inibidores de acetilcolinesterase Numerosos estudos relacionaram a perda progressiva de neurônios colinérgicos e, presumidamente, da transmissão colinérgica no córtex com a perda da memória, que é o sintoma característico da doença de Alzheimer. Postula-se que a inibição da acetilcolinesterase (AChE) no SNC melhora a transmissão colinérgica, pelo menos nos neurônios que continuam funcionando. Atualmente, quatro inibidores reversíveis de AChE estão aprovados para o tratamento da doença de Alzheimer leve à moderada, compreendendo donezepila, galantamina, rivastigmina e ta­ cri na. Exceto a galantamina, que é competitiva, todos são inibidores não competitivos e parecem exibir alguma seletividade para a AChE no SNC comparado à periferia. A galantamina também pode estar atuando como um modulador alostérico do receptor nicotínico no SNC e, por isso, pode aumentarsecundariamente a neurotransmissão colinérgica por outro me­ canismo. Na melhor hipótese, esses compostos oferecem uma redução modesta na velocidade de perda da função cognitiva em pacientes com Alzheimer. A rivastigmina é hidrolisada pela AChE ao metabólito carba­ milado e não tem interação com fármacos que alteram a atividade das enzimas dependentes de P450. Os demaisfármacos são substratos para a P450 e têm potencial para essa interação. Os efeitos adversos comuns incluem náusea, êmese, diarreia, anorexia, tremores, bradicardia e cãi­ bras - todos previsíveis pela ação potencializadora da neurotransmissão colinérgica (Figura 8.14). Diferente dos demais, a tacri na é associada à hepatotoxicidade. B. Antagonistas do receptor NMDA A estimulação de receptores de glutamato no SNC parece ser crítica para a formação de certas memórias; contudo a superestimulação dos receptores glutamato, particularmente do tipo NMDA, resulta em efeitos excitotóxicos nos neurônios e parece ser um mecanismo dos processos neurodegenerativos ou apoptóticos (morte celular programada). A liga­ ção do glutamato no receptor NMDA causa a abertura do canal iônico associado e permite a entrada na célula de Na+ e particularmente de Ca 2 +. Infelizmente, o excesso de Ca 2+ intracelular pode ativar inúmeros processos que lesam o neurônio e levam à apoptose. Os antagonistas do receptor NMDA-glutamato, com frequência, são neuroprotetores, evi­ tando a perda de neurônios após lesões isquêmicas e outras. A meman­ tina é um derivado adamantano dimetilado. Ela atua bloqueando fisica­ mente o canal iônico associado ao receptor NMDA, mas em dosagens terapêuticas, somente uma fração desses receptores são efetivamente bloqueados. Este bloqueio parcial permite à memantina limitar o influxo de Ca 2 + nos neurônios, de forma que não são alcançados níveis intra­ celulares tóxicos durante a superestimulação do receptor NMDA, bem
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    como a entradade Ca 2 + suficiente através dos canais não bloqueados, para preservar os processos vitais que dependem do influxo de Ca 2 + (ou Na+). Isso contrasta com fármacos psicotóxicos, como a fenciclidina, que ocupa e bloqueia praticamente todos estes canais. Em estudos de curta duração, a memantina diminuiu a velocidade da perda de memória nas demências de Alzheimer e nas associadas aos vasos, em pacientes com perdas cognitivas moderadas a graves. Entretanto, não há evidências de que a memantina impeça ou retarde a neurodegeneração em pacientes com doença de Alzheimer ou que seja mais eficaz do que os inibido­ res de AChE. A memantina é bem tolerada, com poucos efeitos adver­ sos dose-dependentes. Os efeitos adversos esperados, como confusão, agitação e intranquilidade, não se distinguem dos sintomas da doença de Alzheimer. Devido ao mecanismo de ação diferente e aos possíveis efeitos neuroprotetores, com frequência, a memantina é administrada em associação com inibidor de AChE. Não há resultados de longa duração disponíveis que mostrem efeitos significativos desta associação. VIII. FÁRMACOS USADOS NA ESCLEROSE MÚLTIPLA A esclerose múltipla (EM) é uma doença desmielinizante inflamatória autoimu­ ne do SNC. A evolução da EM é variável. Para alguns, a EM pode consistirem um ou dois episódios neurológicos agudos. Em outros, é uma doença progres­ siva, reincidente e crônica que se estende por 1O a 20 anos. Historicamente, medicamentos, como os corticosteroides (p. ex., dexametasona e prednisona), foram usados para tratar os ataques agudos da doença. Outras medicações que foram usadas incluem fármacos quimioterápicos, como ciclofosfamida e azatioprina. Medicações novas aprovadas para o tratamento da EM incluem o interferon �1a e o interferon �1b como moduladores do sistema imune dos interferons e da resposta das célulasT auxiliares, que participam na resposta inflamatória, que leva à desmielinização das bainhas dos axônios. Mitoxantrona. Este fármaco, que é um análogo antraciclínico citotóxico que pode matar células T, também pode ser usado. O principal alvo da mitoxan­ trona é modificar a resposta imune do organismo por meio da inibição dos processos inflamatórios mediados por leucócitos que, eventualmente, levam à lesão da bainha de mielina e à diminuição ou inadequação da comunica­ ção axonal entre células. Os efeitos adversos desta medicação podem incluir depressão, reações locais à injeção ou infusão; aumento das enzimas hepáti­ cas; sintomas tipo gripe, como febre, mialgia e leucopenia. Fingolimode é o primeiro fármaco oral que pode retardar a evolução da incapacidade e diminuir a frequencia e gravidade dos sintomas na EM, ofe­ recendo aos pacientes uma alternativa aos tratamentos injetáveis disponí­ veis atualmente. O fingolimode altera a migração dos linfócitos resultando em seu sequestro nos nódulos linfáticos. O fingolimode é eficaz na redução da frequência das recaídas em pacientes com EM. Contudo este benefício está associado com o aumento do risco de infecções que ameaçam a so­ brevivência. Da/fampridina é um bloqueador de canais de potássio administrado por via oral que melhora a capacidade de caminhar, em comparação com um pia­ cebo. É o primeiro fármaco aprovado para este uso. Os fármacos contra EM atualmente aprovados são indicados para diminuira velocidade das recaídas ou em alguns casos para prevenir o acúmulo de limitações. Outros. Glatirameré um polipeptídeo sintético que se parece com a proteína mielina e pode atuar como um "decoy" ao ataque das células T. O anticorpo monoclonal natalizumabe também é indicado contra a EM em pacientes nos quais os tratamentos de primeira escolha falharam. Farmacologia Ilustrada 109
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    1 1O Clark,Finkel, Rey & Whalen IX. FÁRMACOS USADOS NA ESCLEROSE LATERAL , AMIOTROFICA Ainda que não indicado no tratamento da doença de Alzheimer, outro an­ tagonista de receptor de NMDA é indicado no manejo da esclerose lateral amiotrófica (ELA). O riluzolbloqueia o glutamato, canais de sódio e de cálcio. Ele pode aumentar o tempo de sobrevida e retardar a necessidade de apoio ventilatório em portadores de ELA. Questões para estudo Escolha a resposta correta. 8.1 Qual das seguintes associações de fármacos antiparkin­ son é um tratamento adequado? A. Amantadina, carbidopa e entacapona B. Levodopa, carbidopa e entacapona C. Pramipexol, carbidopa e entacapona D. Ropinirol, selegilina e entacapona E. Ropinirol, carbidopa e selegilina 8.2 Os efeitos adversos periféricos do levodopa, incluindo náuseas, hipotensão e arritmias cardíacas, podem ser di­ minuídos incluindo qual dos seguintes fármacos no trata­ mento? A. Amantadina B. Bromocriptina C. Carbidopa D. Entacapona E. Ropinirol 8.3 Qual dos seguintes fármacos antiparkinson pode causar vasoespasmos periféricos? A. Amantadina B. Bromocriptina C. Carbidopa D. Entacapona E. Ropinirol 8.4 Melhora modesta na memória dos pacientes com doença de Alzheimer pode ocorrer com fármacos que aumentam a transmissão em qual dos seguintes receptores? A. Adrenérgico B. Colinérgico C. Dopaminérgico D. GABAérgico E. Serotonérgico Resposta correta = B. Para reduzir a dose de levodopa e seus efeitos adversos periféricos, coadministra-se carbidopa, um inibidor de des­ carboxilase periférico.Como resultado da associação, mais levodopa fica disponível para a metabolização pela COMT, formando 3-metil­ dopa, que compete com o dopa pelo transporte ativo no SNC. Com a administração da entacapona (um inibidor da COMT), o produto competidor não se forma, e mais dopa entra no cérebro. As outras escolhas não são apropriadas, pois nem a descarboxilase periférica, nem a COMT ou a MAO metabolizam a amantadina ou os agonistas da dopamina de ação direta, ropinirol e pramipexol. Resposta correta = C. O carbidopa inibe a descarboxilação periféri­ ca do levodopa a dopamina, diminuindo assim os efeitos adversos gastrintestinais ecardiovasculares do levodopa. Os demaisfármacos relacionados nãodiminuem os efeitos adversos do levodopa. Resposta correta = B. A bromocriptina é um agonista do receptorda dopamina que pode causar vasoespasmo; ela é contraindicada em pacientescom doençavascular periférica. O ropinirol estimula direta­ mente os receptores da dopamina, mas nãocausavasoespasmo. Os outros fármacos não atuam diretamente em receptores dadopamina. Resposta correta = B. Os inibidores da acetilcolinesterase, como a rivastigmina, aumentam a transmissão colinérgica no SNC e podem causar um pequeno atraso na progressão da doença de Alzheimer. O aumento da transmissão em todos os demais tipos de receptores listados não resulta em melhora da memória.
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    , ar acos 1. RESUMO Aansiedade é um estado desagradável de tensão, apreensão e inquietação - um medo de origem àsvezes desconhecida.Ostranstornos mentais envolvendo ansiedade são os mais comuns. Os sintomas físicos da ansiedade grave são similares aos do medo (como taquicardia, sudoração, tremores e palpitações) e envolvem a ativação simpática. Episódios de ansiedade leve são experiências comuns na vida e nãojustificam tratamento. Contudo, os sintomas da ansiedade intensa, crônica e debilitante podem ser tratados com fármacos ansiolíticos (ou tranquilizantes menores) e/ou com algumaformadetratamentocomportamental ou psíquica. Como muitos dos fármacos ansiolíticos causam alguma sedação, eles, com frequência, funcionam clinicamente tanto como ansiolíticos quanto hipnóticos (indutoresdosono).Além disso, algunstêm atividadeanticonvulsivan­ te. A Figura 9.1 resume os fármacos ansiolíticos e hipnóticos. Embora também sejam indicados contra certos quadros de ansiedade, os inibidores seletivos de captação de serotonina (ISCS) serão apresentados no Capítulo 12. li. BENZODIAZEPÍNICOS Os benzodiazepínicos são os fármacos ansiolíticos mais usados. Eles subs­ tituíram os barbitúricos e o meprobamato no tratamento da ansiedade por serem fármacos mais seguros e eficazes (Figura 9.2). A. Mecanismo de ação Os alvos para as ações dos benzodiazepínicos são os receptores do GA­ BAA. (Nota: o GABA é o principal neurotransmissor inibitório no SNC.) Es­ ses receptores são compostos basicamente de famílias de subunidades a, J3 e "'' das quais umacombinação de cinco ou mais se estende através da membrana pós-sináptica (Figura 9.3). Dependendo do tipo e do núme­ ro de subunidades e da localização cerebral, a ativação dos receptores resulta em diferentes efeitos farmacológicos. Os benzodiazepínicos mo­ dulam os efeitos GABA ligando-se a um local específico de alta afinidade, BENZODIAZEPÍNICOS Alprazolam Clordiazepóxido Clonazepam Clorazepate Diazepam Estazolam Flurazepam Lorazepam Midazolan Oxazepam Quasepam Temazepam Triazolam ANTAGONISTA BENZODIAZEPÍNICO Flumazenil OUTROS FÁRMACOS ANSIOLÍTICOS Antidepressivos Buspirona BARBITÚRICOS Amobarbital Pentobarbital Fenobarbital Secobarbital Tiopental OUTROS FÁRMACOS HIPNÓTICOS Anti-histamínicos Cloral, hidrato de Eszopiclona Etanol (álcool, álcool de grãos) Ramelteona Zaleplona Zolpidem Figura 9.1 Resumodosfármacos ansiolíticos e hip­ nóticos. (Continua na próxima página.)
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    112 Clark, Finkel,Rey & Whalen TRATAMENTO DA DEPENDêNCIA DO ÁLCOOL Acsmprosato Oissuff iram Na/trexona Figura 9.1 (Continuação) Resumo dos fármacos ansiolíticos e hip­ nóticos. As benzodiazepinas são relativa­ mente seguras, pois a dose letal é mais de 1.000vezes maior do que a dose terapêutica típica. Morfi na Clorpromazi na Fenobarbital Oiazepam Figura 9.2 - � � � � � � ...... ,...,__, o 20 40 1.000 Relação = dose letal dose eficaz Relação entre a dose letal e a dose eficaz para morfina (um opioide, ver Capítulo 14), c/orpromazina (um neuro­ léptico, ver Capítulo 13) e os fármacos ansiolíticos e hipnóticos, fenobarbital e diazepam. na interface da subunidade a. e da subunidade 'Y2 (ver Figura 9.3). (Nota: os locais de ligação, algumas vezes, são denominados receptores ben­ zodiazepínicos. Dois subtipos de receptores benzodiazepínicos comu­ mente encontrados no SNC são designados como receptores BZ1 e BZ2, dependendo se na sua estrutura se encontram subunidades a.1 ou a.2, respectivamente.) A localização dos receptores BZ no SNC é comparável à dos neurônios GABA. A ligação do GABA ao seu receptor abre o canal de c1-, o que aumenta a condutância do íon (ver Figura 9.3). Os benzo­ diazepínicos aumentam a frequência da abertura dos canais produzida pelo GABA. O influxo de c1- causa uma leve hiperpolarização que afasta o potencial pós-sináptico do valor limiar e, assim, inibe a formação de potenciais de ação. (Nota: a ligação do benzodiazepínico ao seu receptor aumentará a afinidade do GABA por seus locais de ligação [e vice-versa] sem realmente alterar o número total de locais.) Os efeitos clínicos dos vários benzodiazepínicos se correlacionam bem com cada afinidade de ligação do fármaco pelo complexo receptor GABA-canal de íon cloreto. B. Ações Os benzodiazepínicos não têm atividade antipsicótica nem ação analgé­ sica e não afetam o SNA. Todos os benzodiazepínicos apresentam ações em maior ou menor intensidade citadas a seguir. 1. Redução da ansiedade. Em doses baixas, os benzodiazepínicos são ansiolíticos. O efeito é atribuído à potenciação seletiva datrans­ missão GABAérgica em neurônios que têm a subunidade a.2 no re­ ceptor GABAA, inibindo, assim, os circuitos neuronais no sistema límbico cerebral. 2. Ações hipnóticas e sedativas. Todos os benzodiazepínicos usa­ dos para tratar ansiedade têm alguma propriedade sedativa, e al­ guns podem produzir hipnose (sono produzido "artificialmente") em doses mais elevadas. Seus efeitos são mediados pelos receptores a.1-GABAA. 3. Amnésia anterógrada. O bloqueio temporário da memória com o uso dos benzodiazepínicos também é mediado pelos receptores a.1_ -GABAA e diminui a capacidade do paciente de aprender e de for­ mar novas memórias. 4. Anticonvulsivantes. Vários dos benzodiazepínicos têm atividade anticonvulsivante e alguns são usados para tratar epilepsia (estado epiléptico), e outros, distúrbios convulsivos. Esse efeito é parcial­ mente mediado pelos receptores a.1-GABAA. 5. Relaxamento muscular. Em doses elevadas, os benzodiazepínicos diminuem a espasticidade do músculo esquelético, provavelmente aumentando a inibição pré-sináptica na medula espinal, onde predo­ minam os receptores a.2-GABAA. O baclofeno é um relaxante muscu­ lar que parece atuar nos receptores GABA8 na medula espinal. C. Usos terapêuticos Os benzodiazepínicos individuais mostram pequenas diferenças em suas propriedades ansiolíticas, anticonvulsivantes e sedativas. Contudo, a du­ ração de açãovaria bastante no grupo, e considerações farmacocinéticas são importantes na escolha de uma delas. 1. Ansiedade. Os benzodiazepínicos são eficazes no tratamento dos sintomas da ansiedade secundária ao transtorno de pânico, do transtorno de ansiedade generalizada (TAG), do transtorno de an-
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    rJ Receptor vazio (semagonistas) l]J Receptor ligado com GABA GABA + + _ _ ...-. ............_ , ) r + + Farmacologia Ilustrada 1 1 3 O receptor vazio é inativo, e o canal de cloreto acoplado está fechado. A ligação do GABA causa abertura do canal de cloreto, levando à hiperpolarização da célula. B Receptor ligado com GABA e benzodiazepínico GABA Benzodiazepínico A entrada de c1- hiperpolariza a célula, tornando mais difícil sua despolarização e, por isso, reduz a excitabilidade neuronal. Figura 9.3 + + + + + + l� -"-..A..A.A-/ - - Diagrama esquemático do complexo canal íon cloreto-GABA-benzodiazepínico. siedade social e por performance, do transtorno de estresse pós­ -traumático, dotranstorno obsessivo-compulsivo e da ansiedade ex­ trema encontrada, às vezes, com fobias específicas, como o medo de voar. Os benzodiazepínicos também são úteis no tratamento da ansiedade que acompanha algumas formas de depressão e es­ quizofrenia. Esses fármacos não devem ser usados para aliviar o estresse normal da vida diária. Eles devem ser reservados para a ansiedade grave e contínua e, então, usados somente em períodos curtos devido ao seu potencial de vício. Os benzodiazepínicos de ação mais longa, como clonazepam, /orazepam e diazepam, são preferidos nos pacientes com ansiedade que exigem tratamento por tempo prolongado. Os efeitos ansiolíticos dos benzodiazepínicos são menos sujeitos à tolerância do que os efeitos sedativo e hipnó­ tico. (Nota:tolerância- isto é, diminuição da respostacom doses re­ petidas - ocorre quando o uso se estende por mais do que uma ou duas semanas. Hátolerânciacruzada entre esse grupo defármacos e o etanol. Foi demonstrado que a tolerância está associada a uma diminuição na densidade de receptores GABA.) Para o transtorno de pânico, o alprazolam é eficaz para tratamentos curtos ou longos, embora possa causar reações de abstinência em cerca de 30° / o dos pacientes. 2. Distúrbios musculares. O diazepam é útil no tratamento de espas­ mos dos músculos esqueléticos, como os que ocorrem no estira­ mento, e no tratamento daespasticidade devidaa doenças degene­ rativas, como esclerose múltipla e paralisia cerebral. A ligação do GABA é potenciada pelo benzodiazepínico, resultando em maior entrada de íons cloreto.
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    1 1 4Clark, Finkel, Rey & Whalen DURAÇÃO DE AÇÃO DOS BENZODIAZEPÍNICOS Figura 9.4 Açãolonga dias l-� Clorazepato C/ordiazepóxido Diazepam Flurazepam Quazepam Açãointermediária 10-20horas Alprazolam Estazo/am Lorazepam Temazepam Açãocurta 3-8 horas Oxazepam Tr iazolam Comparação das durações de ação dos benzodiazepínicos. 3. Amnésia. Em geral, os fármacos de ação curta são empregados como pré-medicação para procedimentos desconfortáveis e provo­ cadores de ansiedade, como endoscopias, broncoscopias e certos procedimentos odontológicos, bem como angioplastia. Eles pro­ vocam uma forma de sedação consciente, permitindo ao paciente atender certas instruções durante esses procedimentos. O mida­ zolam é um benzodiazepínico empregado também na indução da anestesia. 4. Convulsões. O clonazepam é usado ocasionalmente notratamento de certos tipos de epilepsia, e o diazepam e o lorazepam são os fármacos de escolha no controle do estado epiléptico e nas con­ vulsões epilépticas tipo grande mal (ver p. 184). Devido à tolerância cruzada, clordi azepóxido, clorazepato, diazepam e oxazepam são úteis no tratamento agudo da abstinência ao álcool, reduzindo o risco de convulsões associadas à abstinência. 5. Distúrbios do sono. Embora todos os benzodiazepínicos tenham efeitos calmantes e sedativos, nem todos são úteis como hipnóticos. Eles tendem a diminuir a latência para dormir e a aumentar o está­ gio dois do sono não REM (sem movimentos rápidos dos olhos). O sono REM e o sono de ondas lentas são diminuídos. No tratamento da insônia, é importante o equilíbrio entre o efeito sedativo neces­ sário na hora de dormir e a sedação residual ("ressaca") após o despertar. Os benzodiazepínicos prescritos comumente contra os distúrbios do sono incluem os de longa ação, flurazepam, os de ação intermediária, temazepam, e os de curta ação, tri azolam. a. Flurazepam. Esse benzodiazepínico de longa ação reduz sig­ nificativamente o tempo de indução ao sono, o número de des­ pertares e aumenta a duração do sono. O flurazepam tem efeito de longa ação (Figura 9.4) e causa pouca insônia de rebote. No uso contínuo, esse fármaco mantém sua eficácia poraté quatro semanas. Ele e seu metabólito ativo têm meia-vida de cerca de 85 horas, o que pode resultar em sedação durante o dia e acú­ mulo do fármaco. b. Temazepam. Esse fármaco é útil em pacientes que acordam frequentemente. Contudo, como o efeito sedativo máximo ocor­ re 1 a 3 horas após a dose oral, o fármaco deve ser administra­ do 1 a 2 horas antes da hora prevista para deitar. e. Triazolam. Esse benzodiazepínico tem duração de ação re­ lativamente curta e, por isso, é usado para induzir o sono em pacientes com insônia recorrente. O temazepam é útil contra a insônia causada pela incapacidade de permanecer dormindo, ao passo que o tri azolam é eficaz no tratamento de indivíduos que têm dificuldade em começar a dormir. Em poucos dias, de­ senvolve-se tolerância, e a suspensão do fármaco, em geral, re­ sulta em insônia de rebote, levando o paciente a procurar nova prescrição ou usar dosagem maior. Portanto, esse fármaco é melhor se usado de modo intermitente, em vez de diariamente. Em geral, os hipnóticos só devem ser usados por tempo limita­ do, geralmente menos de 2 a 4 semanas. D. Farmacocinética 1 . Absorção e distribuição. Os benzodiazepínicos são lipofílicos e são rápida e completamente absorvidos após administração oral, distribuindo-se portodo o organismo.
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    2. Duração deação. A meia-vida dos benzodiazepínicos é muito im­ portante clinicamente, pois a duração da ação pode determinar a utilidade terapêutica. Os benzodiazepínicos podem ser divididos em grupos de curta, média e longa ação (ver Figura 9.4). Os ben­ zodiazepínicos de ação mais longa formam metabólitos ativos com meias-vidas longas. Contudo, com alguns benzodiazepínicos, a duração clínica da ação nem sempre se correlaciona com a meia­ -vida real (senão a dose de diazepam só poderia ser administrada em dias alternados ou em intervalos ainda maiores, devido a seus metabólitos ativos). Isso pode ser devido à velocidade de dissocia­ ção do receptor no SNC e subsequente redistribuição para outros locais. 3. Destino. A maioria dos benzodiazepínicos, incluindo o clordiaze­ póxido e o diazepam, é biotransformada pelo sistema microssomal hepático para compostos que também são ativos. Para esses ben­ zodiazepínicos, a meia-vida aparente representa a soma das ações do fármaco principal e seus metabólitos. Os efeitos terminam não só pela excreção, mas também por redistribuição. Os benzodiaze­ pínicos são excretados na urina como glicuronídeos ou metabóli­ tos oxidados. Todos os benzodiazepínicos atravessam a barreira placentária e podem deprimir o SNC do neonato se administrados antes do nascimento. Os lactantes também são expostos aos ben­ zodiazepínicos pelo leite materno. E. Dependência Pode-se desenvolverdependênciafísica e psicológica aos benzodiazepí­ nicos se doses elevadas são administradas por longos períodos. A inter­ rupção abrupta resulta em sintomas de abstinência, incluindo confusão, ansiedade, agitação, intranquilidade, insônia, tensão e raramente convul­ sões. Como a meia-vida de alguns benzodiazepínicos é longa, os sinto­ mas de retirada podem ocorrer lentamente e durar por alguns dias após a interrupção do uso. Os benzodiazepínicos com meia-vida de eliminação curta, como o tri azolam, induzem reações de abstinência mais abruptas e graves do que as observadas com as de eliminação mais lenta, como o flurazepam (Figura 9.5). F. Efeitos adversos 1 . Sonolência e confusão. Esses são os dois efeitos adversos mais comuns dos benzodiazepínicos. Ocorre ataxia em doses elevadas, impedindo as atividades que exigem coordenação motora fina, como dirigir. Pode ocorrer comprometimento cognitivo (diminuição da evocação de memória e da retenção de novos conhecimentos) com o uso dos benzodiazepínicos. O tri azolam, um dos benzodia­ zepínicos mais potentes, de uso oral, tem a eliminação mais rápida e com frequência apresenta rápido desenvolvimento de tolerância, insôniada madrugada e ansiedade durante o dia, bem como amné­ sia e confusão. 2. Precauções. Os benzodiazepínicos devem ser usados com cautela em pacientes com doença hepática, devendo ser evitados em pa­ cientes com glaucoma de ângulo estreito. Álcool e outros depresso­ res do SNC potencializam seus efeitos hipnótico-sedativos. Os ben­ zodiazepínicos são, contudo, consideravelmente menos perigosos do que ansiolíticos e hipnóticos mais antigos. Como resultado, as doses excessivas raramente são letais, a menos que outros depres­ sores do SNC, como álcool, sejam ingeridos simultaneamente. Farmacologia Ilustrada 1 1 5 Os fármacos que são mais po­ tentes e rapidamente eliminados (p. ex., tr iazo/am) causam pro­ blemas de abstinência mais frequentes e graves. Tr iazolam Alprazolam Temazepam Diazepam Flurazepam o 20 40 60 80 Aumento no tempo total de despertar a partir do tempo basal (%) Os fármacos menos potentes e mais lentamente eliminados (p. ex., f/urazepam) continuam a estimular o sono mesmo após a interrupção. Figura 9.5 Frequência da insônia de rebote resul­ tante da interrupção dotratamento com benzodiazepínicos.
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    1 1 6Clark, Finkel, Rey & Whalen Inicia o tratamento com um benzodiazepínico como o lorazepam 1 o Figura 9.6 Tratamento concomitante com antidepressivo como o escitalopram 14 Dias 28 10 Retirada gradual do benzodiazepínico 42 56 Orientação de tratamento da ansiedade persistente. Náuseas Tonturas Cefaleia Diminuição da concentração Sonolência 17 Observe que a buspirona mostra menor interferência com as funções mo­ toras, uma vantagem que é particularmente importante em pacien­ tes mais idosos. 11111 30 Fadiga - - - -. 127 Buspirona � Alprazo/am Figura 9.7 Comparação dos efeitos adversos co­ muns da buspironae do alprazolam. Os resultados são expressos como por­ centagem dos pacientes que mostram cada sintoma. Ili. ANTAGONISTAS DE RECEPTOR BENZODIAZEPÍNICO O flumazenil é um antagonista de receptor GABA que pode rapidamente reverter os efeitos dos benzodiazepínicos. O fármaco está disponível ape­ nas para administração IV. O início de ação é rápido, mas a duração é curta, com meia-vida de cerca de uma hora. Administrações frequentes podem ser necessárias para manter a reversão dos benzodiazepínicos de longa ação. A administração de flumazenil pode precipitar abstinência em pacientes de­ pendentes, ou causar convulsões se um benzodiazepínico está sendo usado para controlar atividade convulsiva. As convulsões também podem aparecer se o paciente ingere antidepressivos tricíclicos (ADT). Os efeitos adversos mais comuns são tonturas, náusea, êmese e agitação. IV. OUTROS FÁRMACOS ANSIOLÍTICOS A. Antidepressivos Vários antidepressivoscomprovam eficácia no manejode longa duraçãodos sintomas de ansiedade crônica e devem ser considerados como fármacos de primeira escolha, especialmente em pacientes com inclinação ao vício ou dependência, ou históriade vício ou dependência de outras substâncias. Os inibidores seletivos da captação de serotonina (ISCSs, como o escitalo­ pram) ou os inibidores seletivos da captação de serotonina e norepinefrina (ISCSNs, como a venlafaxina) podem ser usados sós ou em associação com uma dosagem baixa de benzodiazepínico durante as primeiras sema­ nas detratamento (Figura9.6).Após 4a 6 semanas, quandoo antidepressi­ vo começa seu efeito ansiolítico, a dosagem de benzodiazepínico pode ser reduzida gradualmente. Os ISCS ou ISCSN têm menor potencial de gerar dependência física do que os benzodiazepínicos, tornando-se o tratamento de escolha contra oTAG. Ainda que só certos ISCS ou ISCSN tenham sido aprovados pelo FDA para o tratamento doTAG, a eficácia destes fármacos contra oTAG é um efeito de classe, provavelmente. Assim, a escolha entre estes antidepressivos pode ser com base nos efeitos adversos e no custo. Em geral, é necessário o tratamento por longo período dos antidepressi­ vos e benzodiazepínicos contra os transtornos de ansiedade para manter a vantagem alcançada e evitaras recaídas.Ver Capítulo 12 para a discussão sobre os fármacos antidepressivos. B. Buspirona A buspirona é útil no tratamento crônico do TAG e tem eficácia compa­ rável à dos benzodiazepínicos. Este fármaco não é eficaz no tratamento de curta duração ou "conforme necessário" dos estados de ansiedade
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    agudos. As açõesda buspirona parecem mediadas pelos receptores de serotonina (5-HT,A), embora outros receptores possam estar envolvidos, pois a buspirona mostra alguma afinidade pelos receptores DA2 da dopa­ mina e 5-HT2A da serotonina. Assim, seu mecanismo de ação difere do mecanismo de ação dos benzodiazepínicos.Além disso, a buspirona não tem as ações anticonvulsivantes e músculo-relaxantes dos benzodiaze­ pínicos e causa apenas sedação mínima. Contudo, ela causa hipotermia e aumentos nos hormônios do crescimento e prolactina.A frequência dos efeitos adversos é baixa, sendo os mais comuns cefaleia, tontura, nervo­ sismo e confusão mental. Sedação e disfunções cognitivas e psicomo­ toras são mínimas, e a dependência é improvável. Ela não potencializa a depressão do SNC pelo álcool. A buspirona tem como desvantagem o início de ação lento. A Figura 9.7 compara alguns dos efeitos adversos comuns da buspirona com os do benzodiazepínico alprazolam. V. BARBITÚRICOS Os barbitúricos foram, no passado, a base do tratamento usado para sedar o paciente ou para induzir e manter o sono. Hoje, os barbitúricos foram lar­ gamente substituídos pelos benzodiazepínicos, principalmente porque eles induzem tolerância, enzimas biotransformadoras, dependência física e estão associados a sintomas de abstinência muito graves. Além de tudo, destaca­ -se sua capacidade de causar coma em doses tóxicas. Certos barbitúricos, como os de ação muito curta (p. ex., tiopenta�, continuam em uso para induzir anestesia (ver p. 145). A. Mecanismo de ação A ação hipnótico-sedativa dos barbitúricos se deve à sua interação com os receptores GABAA, potencializandoa transmissão GABAérgica.O local de ligação é diferente daquele dos benzodiazepínicos. Os barbitúricos po­ tenciam a ação do GABA na entrada de cloreto no neurônio, prolongando o tempo de abertura do canal de cloreto. Além disso, os barbitúricos po­ dem bloquear os receptores excitatórias glutamato. Concentrações anes­ tésicas de pentobarbitaltambém bloqueiam os canais de sódio de altafre­ quência.Todas essas ações moleculares diminuem a atividade neuronal. B. Ações Os barbitúricos são classificados de acordo com sua duração da ação (Figura 9.8). Por exemplo, o tiopental, que atua em segundos e tem dura­ ção de ação de cercade 30 minutos, é usado na indução IV daanestesia. Em contraste, o fenobarbital, que tem uma duração de ação maior que um dia, é útil no tratamento de convulsões (ver p. 187). Pentobarbital, secobarbitale amobarbitalsão barbitúricos de ação curta, eficazes como sedativos e hipnóticos, mas não como ansiolíticos. 1. Depressão do SNC. Em doses baixas, os barbitúricos produzem sedação (têm um efeito calmante e reduzem a excitação). Em doses crescentes, eles causam hipnose, seguida de anestesia (perda das sensações) e finalmente coma e morte. Assim, qualquer grau de de­ pressãodo SNC é possível, dependendoda dose. Os barbitúricos não aumentam o limiar da dor e não têm propriedades analgésicas. Eles podem inclusive exacerbara dor. O seu uso crônico leva à tolerância. 2. Depressão respiratória. Os barbitúricos suprimem as respostas à hipoxia e dos quimiorreceptores ao C02• A dosagem excessiva é seguida de depressão respiratória e morte. Farmacologia Ilustrada 117 DURAÇÃO DE AÇÃO DOS BARBITÚRICOS Figura 9.8 Açãolonga Fenobarbital Açãocurta 3-8 horas Pentobarbital Secobarbital Amobarbital Açãoultracurta 20 minutos Tiopental Barbitúricos classificados de acordo com sua duração de ação.
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    1 1 8Clark, Finkel, Rey & Whalen v = Figura 9.9 o o Sonolência Náusea Vertigem Indução enzimática Efeitos adversos dos barbitúricos. 3. Indução enzimática. Os barbitúricos induzem as enzimas micros­ somais citocromo P450 (CIP450) hepáticas. Assim, a sua adminis­ tração crônica diminui a ação de vários fármacos que são biotrans­ formados pelo CIP450. C. Usos terapêuticos 1 . Anestesia. A seleção de um barbitúrico é muito influenciada pela duração de ação desejada. Os barbitúricos de ação ultracurta, como o tiopental, são administrados porvia IV para induzir anestesia. 2. Anticonvulsivante. O fenobarbitalé usado no tratamento de longa duração das convulsões tônico-clônicas, do estado epiléptico e da eclâmpsia. Ele é considerado o fármaco de escolha para o trata­ mento de crianças jovens com convulsões febris recorrentes. Contu­ do, o fenobarbitalcompromete o desempenho cognitivo de crianças e deve ser usado com cautela. O fenobarbitaltem atividade anticon­ vulsiva específica que se diferencia da depressão inespecífica do SNC. 3. Ansiedade. Os barbitúricos têm sido usados como sedativos leves para aliviar ansiedade, tensão nervosa e insônia. Quando usados como hipnóticos, eles suprimem o sono REM mais do que outros estágios. Contudo, a maioria foi substituída pelos benzodiazepínicos. D. Farmacocinética Os barbitúricos sãoabsorvidos porviaoral e distribuídos amplamente pelo organismo. Todos os barbitúricos se redistribuem no organismo, do SNC para as áreas esplâncnicas, para o músculo esquelético e, finalmente, para o tecido adiposo. Esse movimento é importante na curta duração de ação do tiopentale derivados de ação curta similar. Os barbitúricos atravessam facilmente a placenta e podem deprimir o feto. Eles são biotransformados no fígado, e os metabólitos inativos são excretados na urina. E. Efeitos adversos 1 . SNC. Os barbitúricos causam sonolência, dificuldade de concentra­ ção e preguiça mental e física (Figura 9.9). Os efeitos depressores do SNC são potencializados com os do etanol. 2. Ressaca farmacológica. Doses hipnóticas de barbitúricos produ­ zem a sensação de cansaço prolongada até bem depois de o pa­ ciente acordar. Essa ressaca pode reduzira capacidade do paciente de atuar normalmente durante várias horas depois do despertar. Ás vezes, ocorrem náuseas e tonturas. 3. Precauções. Como foi registrado, os barbitúricos induzem o siste­ ma CIP450 e, por isso, podem diminuira duração de ação de fárma­ cos que são biotransformados por essas enzimas. Os barbitúricos aumentam a síntese de porfirinas e são contraindicados em pacien­ tes com partiria intermitente aguda. 4. Dependência física. A retirada abrupta dos barbitúricos pode causar tremores, ansiedade, fraqueza, intranquilidade, náuseas e êmese, convulsões, delírio e parada cardíaca. A abstinência é muito mais grave do que a associada a opioide e pode resultar em morte. 5. Intoxicação. A intoxicação por barbitúricosfoi a causa-líderde mor­ te que ocorre devido à dosagem excessiva (overdose) de fármacos durante várias décadas. Intensa depressão respiratória associada à
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    depressão cardiovascular centralresulta em uma condição similar ao choque, com respiração superficial e infrequente. O tratamento consiste em assistência respiratória e lavagem gástrica se o fárma­ co foi recém-ingerido. (Nota: não existe antagonista específico para os barbitúricos.) A alcalinização da urina auxilia na eliminação do f enobarbital. VI. OUTROS FÁRMACOS HIPNÓTICOS A. Zolpidem O hipnótico zolpidem não tem estrutura benzodiazepínica, mas atua em um subsetor da família de receptores benzodiazepínicos, BZ1• O zolpi­ dem não tem propriedades anticonvulsivantes ou músculo-relaxantes. Ele apresenta poucos efeitos de abstinência, provoca insônia de rebote míni­ ma, e pouca ou nenhuma tolerância ocorre com oseu uso prolongado. Ele é rapidamente absorvido do TGI, tem rápido início de ação, meia-vida de eliminação curta (cerca de 2 a 3 horas) e efeito hipnótico decerca de 5 ho­ ras (Figura 9.1O). (Nota: atualmente existe disponível uma formulação de liberação lenta.) O zolpidem sofre oxidação hepática a produtos inativos, pelo sistema CIP450. Assim, fármacos como a rif ampicina, que induzem esse sistema enzimático, encurtam a meia-vida do zolpidem, e os fárma­ cos que inibem a isoenzima CIP3A4 podem aumentara sua meia-vida. Os efeitos adversos incluem pesadelos, agitação, cefaleia, distúrbios gastrin­ testinais, tonturas e sonolência diurna. Diferente dos benzodiazepínicos, nas dosagens usuais, os fármacos não benzodiazepínicos, zolpidem, za­ Jeplona e eszopiclona, não alteram significativamente os vários estágios do sono e, assim, em geral são hipnóticos preferidos. Isto pode ser devido à sua relativa seletividade pelo receptor BZ1• B. Zaleplona A zaleplona é muito similar ao zolpidem na sua ação hipnótica, mas causa menos efeitos residuais em funções cognitivas e psicomotoras se comparada com o zolpidem ou com os benzodiazepínicos. Isso pode ser devido à sua rápida eliminação, com uma meia-vida de cerca de uma hora. A zaleplona é biotransformada pelo CIP3A4 (ver p. 14). C. Eszopiclona A eszopiclona é um hipnótico não benzodiazepínico oral (também utiliza o receptor BZ1 de modo similar ao zolpidem e à zaleplona) e também é usado contra insônia. A eszopiclona é eficaz por até seis meses na com­ paração ao placebo. Ela é rapidamente absorvida (tempo para o pico, 1 hora), extensamente biotransformada por oxidação e desmetilação pelo sistema CIP450 e excretada principalmente na urina. A sua meia-vida de eliminação é de cerca de seis horas. Os efeitos adversos da eszopiclona incluem ansiedade, xerostomia, cefaleia, edema periférico, sonolência e gosto desagradável. D. Ramelteona A ramelteona é um agonista seletivo dos subtipos de receptores de mela­ tonina MT1 e MT2• Normalmente a luz que estimula a retina transmite um sinal ao núcleo supraquiasmático (NSQ) do hipotálamo, o que ativa um sinal por meio de via nervosa para a glândula pineal, que inibe a libera­ ção de melatonina. Quando surge a escuridão e a luz deixa de atingir a retina, a liberação de melatonina pela pineal não é mais inibida, e a glân­ dula passa a secretar melatonina. A estimulação dos receptores MT1 e Farmacologia Ilustrada 1 1 9 Zolpidem Zaleplona 30 minutos Eszopic/ona 20 minutos Ramenteona O Início Duração Figura 9.10 Início e duração de ação dos não ben­ zodiazepínicos comumente usados como fármacos hipnóticos.
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    120 Clark, Finkel,Rey & Whalen NAD+ NADH NAD+ NADH Etanol V Acetaldeído +l.Acetato Figura 9.1 1 � O A. - Dissulfiram O dissulfiram causa acúmulo de acetaldeído, resultando em rubor, taquicardia, hiperventila- - , çao e nausea. Biotransformação do etanol e o efeito do dissulfiram. NAD+ = forma oxidada do dinucleotídeo de nicotinamida-ade­ nina; NADH = forma reduzida do dinu­ cleotídeo de nicotinamida-adenina. MT2 pela melatonina no NSQ induz e promove o sono e parece manter o ritmo circadiano que regula o ciclo sono-vigília normal. A ramelteona é in­ dicada no tratamento da insônia nos casos em que a queixa primária é a demora em pegar no sono (aumento do tempo de latência para dormir). O potencial de abuso parece mínimo e não há evidências de dependência ou abstinência. Por isso, a ramelteona pode ser administrada por longos períodos. Os efeitos adversos incluem tonturas, fadiga e sonolência. A ramelteona pode aumentar os níveis de prolactina. E. Anti-histamínicos Os anti-histamínicos de venda livre com propriedades sedativas, como a difenidramina, hidroxi zina e a doxilamina, são eficazes no tratamen­ to dos tipos leves de insônia. Contudo, esses fármacos geralmente são ineficazes para todas as formas de insônia situacionais. Além disso, eles apresentam inúmeros efeitos indesejados (como os efeitos anticolinér­ gicos) que os tornam menos úteis do que os benzodiazepínicos. Alguns anti-histamínicos sedativos são comercializados em numerosos produtos de venda livre. F. Etanol O etanol (álcool etílico) tem efeitos ansiolíticos e sedativos, mas o po­ tencial tóxico supera seus benefícios. O etanol é um depressor do SNC, produzindo sedação e, finalmente, hipnose com dosagens elevadas. Como ele tem uma curva dose-efeito baixa, ocorre sedação em uma ampla faixa de doses. Ele é facilmente absorvido por via oral e tem um volume de distribuição próximo ao da água total do organismo. O etanol é biotransformado primariamente no fígado, primeiro a acetaldeído pela álcool-desidrogenase e, então, a acetato pela aldeído-desidrogenase (Fi­ gura 9.1 1). A eliminação principal é pelos rins, mas parte é excretada pelos pulmões. O etanol sinergiza com vários outros sedativos e pode produzir depressão grave do SNC se usado junto com benzodiazepíni­ cos, anti-histamínicos ou barbitúricos. O seu consumo crônico pode le­ var à doença hepática grave, à gastrite e a deficiências nutricionais. A cardiomiopatia também é uma consequência de consumo excessivo. O tratamento de escolha para a abstinência do álcool são os benzodiazepí­ nicos. A carbamazepina é eficaz no tratamento de episódios convulsivos durante a abstinência. G. Fármacos usados para tratar a dependência ao álcool 1 . Dissulfiram. O di ssulfiram bloqueia a oxidação do acetaldeído a ácido acético inibindo a aldeído-desidrogenase (ver Figura 9.1 1). Isso resulta no acúmulo do acetaldeído no sangue, causando rubor, taquicardia, hiperventilação e náusea. O dissu/fi ram tem alguma uti­ lidade em pacientes seriamente decididos a parar com a ingestão de bebidas alcoólicas. Uma resposta condicionada é induzida, de forma que o paciente se abstém do álcool para evitar os efeitos de­ sagradáveis do acúmulo de acetaldeído induzido pelo dissulfiram. 2. Naltrexona. A naltrexona é um antagonista opioide de longa ação usadojuntamente com psicoterapia de apoio. Ela é melhortolerada do que o dissulfiram e não produz as reações adversas que ele causa. 3. Acamprosato. O acamprosato é um fármaco usado nos programas de tratamento da dependência ao etanol com um mecanismo de ação mal compreendido. Este fármaco deve ser usado junto com psicoterapia de apoio.
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    Farmacologia Ilustrada 121 AFigura 9.12 resume as desvantagens e as vantagens terapêuticas de al­ guns dos fármacos ansiolíticos e hipnóticos. Desvantagens terapêuticas e Os benzodiazepínicos podem perturbar a função intelectual e a destreza manual. • Os benzodiazepínicos apresentam potencial de dependência e podem ocorrer convulsões na sua retirada. • A interrupção com frequência resulta em insônia de rebote. • Início de ação mais lento do que os benzodiazepínicos. • Não apresenta atividade anticonvulsiva ou músculo-relaxante. • Não apresentam propriedades anticonvulsivas ou músculo­ -relaxantes. • Só tem efeitos mínimos nas medidas objetivas de eficácia de sono. • Os barbitúricos induzem tolerância, enzimas biotransformadoras defármacos e dependência física e apresentam graves sintomas de abstinência. Figura 9.12 Benzodiazepínicos Clonazepam Clorazepato Clordiazepóxido Dlazepam Flurazepam Quazepam Alprazolam Lorazepam Temazepam Outros fármacos Buspirona Eszopiclona Hidroxlzina Zaleplona Zolpldem Barbitúricos Fenobarbltal Pentobarbital Secobarbltal Amobarbltal T l o pental Vantagens terapêuticas • Uso potencial no tratamento crônico de crises • Esses fármacos menos potentes e eliminados de forma mais lenta não apresentam insônia de rebote na interrupção do tratamento. • Fármaco de escolha no tratamento dos distúrbios de pãnico. Não requerem biotransformação defase 1, portantotêm menos interações com outrosfármacos esão mais seguros em pacientes com insuficiência hepática. • Útil no tratamento de longa duração contra a ansiedade crônica com sintomas de irritabilidade e hostilidade. • Não potencializa a depressão do SNC pelo álcool. • Baixo potencial de dependência. • Eficaz por até seis meses. • Causam efeitos mínimos de abstinência. e Causam insônia de rebote mínima. e Pouca ou nenhuma tolerância ocorre com o uso prolongado. e Baixo potencial de abuso com efeitos de abstinência e dependência mínimos. • O fármaco pode ser usado por tempo prolongado. • Rápido início de ação. Vantagens e desvantagens terapêuticas de alguns fármacos ansiolíticos e hipnóticos. SNC = sistema nervoso central.
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    122 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 9.1 Qual das seguintes afirmativas está correta? A. Os benzodiazepínicos abrem diretamente os canais de cloreto. B. Os benzodiazepínicos têm efeito analgésico. C. A melhora clínica da ansiedade exige duas a quatro semanas de tratamento com benzodiazepínicos. D. Todos os benzodiazepínicos têm algum efeito sedativo. E. Os benzodiazepínicos, como outros depressores do SNC, facilmente provocam anestesia geral. 9.2 Qual dos seguintesfármacos é um hipnótico de ação curta? A. Fenobarbital B. Diazepam C. Clordiazepóxido D. Triazolam E. Flurazepam 9.3 Qual das seguintes afirmativas está correta? A. O fenobarbital tem propriedades analgésicas. B. O diazepam e o fenobarbital induzem o sistema enzi­ mático P450. e. o fenobarbital é útil no tratamento da porfiria intermi­ tente aguda. D. O fenobarbital induz depressão respiratória, que é po­ tencializada pelo consumo de etanol. E. A buspirona tem ações similares às dos benzodiazepí­ nicos. 9.4 Um homem de 45 anos ferido em um acidente de auto­ móvel chega à sala de emergência. A alcoolemia na ad­ missão é de 275 mg/dl. Os registros hospitalares revelam internação prévia devido a convulsões relacionadas com álcool. Sua esposa confirma que ele andou bebendo muito nas últimas três semanas. Que tratamento deve ser inicia­ do se o paciente tiver síndrome de abstinência? A. Nenhum B. Lorazepam C. Pentobarbital D. Fenitoína E. Buspirona Resposta correta = D. Embora todos os benzodiazepínicos possam causar sedação, os fármacos denominados "benzodiazepínicos" na Figura 9.1 são usados no tratamento de distúrbios do sono. Os benzodiazepínicos aumentam a ligação do GABA ao seu receptor, que aumentaapermeabilidade aocloreto.Os benzodiazepínicosnão aliviam a dor, mas podem reduzir a ansiedade associada àdor. Dife­ rentedosantidepressivostricíclicos e dos inibidoresda MAO, os ben­ zodiazepínicos são eficazes dentro de horas após a administração. Os benzodiazepínicos não produzem anestesia geral e são, por isso, fármacos relativamente seguros e com elevado índice terapêutico. Resposta correta = D. O triazolam é um fármaco de ação ultracurta usado como adjuvante da anestesia odontológica. Os demais fárma­ cos listados não são de ação curta. Resposta correta = D.Os barbitúricos e o etanol são umaassociação letal. O fenobarbital é incapaz de alterar o limiar da dor. Somente o fenobarbital induzasíntese dosistemametabolizador CIP450 hepáti­ co. Ele é contraindicado notratamentoda porfiria intermitente aguda. Abuspirona nãotem as propriedades anticonvulsivantes ou músculo­ -relaxantes dos benzodiazepínicos e causa apenas sedação mínima. ' Resposta correta = B. E importante tratar as convulsões associadas à abstinência do álcool. Os benzodiazepínicos, como o clordiazepó­ xido, o diazepam ou o de ação curta, lorazepam, são eficazes para controlar esse problema. Eles são menos sedativos do que o pento­ barbital ou afenitoína.
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    ervoso 1. RESUMO Este capítulodescreve dois grupos de fármacos que atuam primariamente como estimulantes do sistema nervoso central (SNC). O primeiro grupo, os estimulantes psicomotores, causa excitação e euforia, diminui a sensação de fadiga e aumenta a atividade motora. O segundo grupo, os alucinógenos ou psicotomiméticos, produz alterações profundas no raciocínio e no humor, com pouco efeito sobre otronco cerebral e a medulaespinal.A Figura 10.1 resume os estimulantes do SNC. Como grupo, os estimulantes do SNC têm distintos usos clínicos e são importantes como fármacos de abuso, assim como são os depressores do SNC descritos no Capítulo 9 e os narcóticos descritos no Capítulo 14 (Figura 10.2). li. ESTIMULANTES PSICOMOTORES A. Metilxantinas As metilxantinas incluem a teofilina, que é encontrada no chá, a teobro­ mina, encontrada no cacau, e a cafeína, que é o estimulante mais consu­ mido em todo o mundo, encontrada em alta concentração no café, mas também presente no chá, em bebidas de cola, no chocolate e no cacau. 1 . Mecanismo de ação. Vários mecanismos foram propostos para as ações das metilxantinas, incluindo translocação de cálcio extracelu­ lar, aumento de monofosfato cíclico de adenosina e de guanosina, causado por inibição da fosfodiesterase e bloqueio dos receptores de adenosina. O último explica melhoras ações observadas no con­ sumo de bebidas contendo cafeína. 2. Ações a. SNC. A cafeína presente em uma a duas xícaras de café (100 a 200 mg) causa diminuição da fadiga e aumenta o alerta mental como resultadoda estimulação do córtex e outras áreas do cére- ESTIMULANTES PSICOMOTORES Anfetamina Armodafinila Atomoxetina Cafeína Cocaína Dexmetilfenidato Dextroanfetamina Lisdexanfetamina Metilfenidato Modafinila Nicotina Teofilina Vareniclina ALUCINÓGENOS Dronabinol Dietilamida do ácido li sérgico (LSD) Fenciclidina T etra-hidrocanabinol (THC) Figura 10.1 Resumo dos estimulantes do SNC.
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    124 Clark, Finkel,Rey & Whalen ESTIMULANTES DOSNC Cafeí na Nicotina Cocaí na Anfetaminas ALUCINÓGENOS LSD Cannabi s Fenciclidina DEPRESSORES DOSNC Etanol Barbitúricos Benzodiazepínicos NARCÓTICOS Morfina Heroí na Figura 10.2 Baixo Alto Potencial relativo para dependência fí­ sica de substâncias comumente abusa­ das. LSD = dietilamida do ácido lisérgico. Despertare relaxamento Paralisia respiratória Figura 10.3 Doses baixas de nicotina V Doses altas de nicotina Ações da nicotina no SNC. bro. O consumo de 1 ,5g de cafeína (12 a 15 xícaras de café) pro­ duz ansiedade e tremores. A medula espinal só é estimulada por doses muito elevadas (2 a 5 g) de cafeína. Pode-se desenvolver tolerância rapidamente às propriedades estimulantes da cafeína; a abstinência consiste em sensação de fadiga e sedação. b. Sistema cardiovascular. Doses altas de cafeína têm efeitos inotrópico e cronotrópico positivos. (Nota: o aumento da con­ tratilidade pode ser prejudicial a pacientes com angina pecto­ ris. Em outros pacientes, o aumento da frequência pode causar contrações ventriculares prematuras.) c. Ação diurética. A cafeína tem ação diurética leve que aumenta o débito urinário de sódio, cloreto e potássio. d. Mucosa gástrica. Comotodas as metilxantinas estimulam a se­ creção de ácido clorídrico pela mucosa gástrica, os indivíduos com úlcera péptica devem evitar alimentos e bebidas contendo metilxantinas. 3. Usos terapêuticos. A cafeína e seus derivados relaxam o músculo liso dos bronquíolos. (Nota: a teofilina, que antigamente era a base do tratamento da asma, foi amplamente substituída por outros fár­ macos, como os 132-agonistas e os corticosteroides.) 4. Farmacocinética. As metilxantinas são bem absorvidas por via oral. A cafeína se distribui portodo o organismo, incluindo o cérebro. As metilxantinas atravessam a placenta e são secretadas no leite materno. Todas são biotransformadas no fígado, em geral pela via CIP1A2, e os metabólitos são excretados na urina. 5. Efeitos adversos. Doses moderadas de cafeína causam insônia, ansiedade e agitação. Doses altas são necessárias para causar to­ xicidade, que se manifesta por êmese e convulsões. A dose letal é cerca de 1O g de cafeína (cerca de 100 xícaras de café), que induz arritmias cardíacas; assim, a morte por cafeína é altamente impro­ vável. Letargia, irritabilidade e cefaleia ocorrem em usuários que consomem rotineiramente mais de 600 mg de cafeína por dia (em torno de seis xícaras de café por dia) e, então, param subitamente. B. Nicotina A nicotina é o componente ativo do tabaco. Embora esse fármaco não seja usadoterapeuticamente (exceto no tratamento para pararde fumar), permanece sendo importante, pois ele segue a cafeína como estimulante do SNC mais usado e só perde para o álcool como o fármaco mais abu­ sado. Em combinação com o alcatrão e o monóxido encontrados no fumo do cigarro, a nicotina representa um grave fator de risco para doenças pulmonares e cardiovasculares, vários cânceres e outras patologias. A dependência não é facilmente controlada. 1 . Mecanismo de ação. Em doses baixas, a nicotina causa estimu­ lação ganglionar por despolarização. Em doses altas, ela causa bloqueio ganglionar. Existem receptores de nicotina em numerosos locais no SNC, os quais participam dos efeitos estimulantes. 2. Ações a. SNC. A nicotina é muito solúvel em lipídeos e facilmente atra­ vessa a barreira hematencefálica. O consumo de cigarros ou a administração de doses baixas de nicotina produzem algum
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    grau de euforiae estimulação, bem como relaxamento. A nicoti­ na melhora a atenção, o aprendizado, a resolução de problemas e o tempo de reação. Doses elevadas de nicotina resultam em paralisia respiratória central e grave hipotensão causada porpa­ ralisia bulbar (Figura 10.3). A nicotina também é um supressor de apetite. b. Efeitos periféricos. Os efeitos periféricos da nicotina são com­ plexos. A estimulação dos gânglios simpáticos, bem como da suprarrenal, aumenta a pressão arterial e a frequênciacardíaca. Assim, o uso do fumo é particularmente prejudicial para os hi­ pertensos.Vários pacientes com doença vascular periférica ex­ perimentam agravamento dos sintomas com o fumo. Por exem­ plo, a vasoconstrição induzida por nicotina pode diminuiro fluxo sanguíneo nas coronárias e afetar adversamente o paciente com angina. A estimulação dos gânglios parassimpáticos tam­ bém aumenta a atividade motora do intestino. Em doses eleva­ das, a pressão arterial cai, e a atividade cessa na musculatura do TGI e da bexiga como resultado do bloqueio dos gânglios parassimpáticos pela nicotina. 3. Farmacocinética. Como a nicotinaé muito lipossolúvel, a absorção ocorre facilmente pela mucosa oral, pulmonar, gastrintestinal e pele. A nicotina atravessa a placenta e é secretada no leite materno. Ao inalar a fumaça do cigarro, o fumante recebe de 1 a 2 mg de nicoti­ na por cigarro (a maioria dos cigarros tem 6 a 8 mg de nicotina). A dose letal aguda é de 60 mg. Mais de 90° / o da nicotina inalada na fumaça é absorvida. A depuração da nicotina envolve a biotrans­ formação no pulmão e no fígado e a excreção urinária. A tolerância aos efeitos tóxicos se desenvolve rapidamente, em geral dentro de dias após o início do uso. 4. Efeitos adversos. Os efeitos da nicotina no SNC incluem irritabili­ dade e tremores.A nicotinatambém pode causarcólicas intestinais, diarreia e aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. O fumo aumenta a velocidade de biotransformação de inúmeros fár­ macos. 5. Síndrome de abstinência. Como outros fármacos estimulantes, a nicotina é uma substância viciante; a dependência física se desen­ volve rapidamente e pode ser grave (Figura 10.4). A abstinência é caracterizada por irritabilidade, ansiedade, intranquilidade, dificul­ dade de concentração, cefaleia e insônia. O apetite é afetado, e dor gastrintestinal ocorre com frequência. (Nota: os programas para pa­ rar de fumar que associam tratamento farmacológico e comporta­ mental têm maiorsucesso.) Os adesivos transdérmicos e as gomas de mascar contendo nicotina diminuem os sintomas de abstinência e auxiliam os fumantes a parar de fumar. Por exemplo, a concentra­ ção de nicoti na no sangue obtida com goma de mascar de nicotina é cerca da metade do pico observado com o cigarro (Figura 10.5).A bupropiona, um antidepressivo (ver p. 155), pode reduzir a compul­ são porfumar. C. Vareniclina A vareniclina é um agonista parcial nos receptores da ACh nicotínicos neuronais. Por ser um agonista parcial nestes receptores, a vareniclina produz menos efeitos eufóricos do que os produzidos pela nicotina (que é um agonistatotal nestes receptores). Portanto, a vareniclina é útil para os pacientes que querem pararde fumar, mas apresentam sintomas de abs- Farmacologia Ilustrada 125 Potencial de abuso • • • Nicotina Figura 10.4 A nicotina tem potencial de abuso. 20 15 CIGARROS 10 5 /1113cigarro ::J J? � o.._,_....__,__....___-'----'----'- e m e ·- 20 õ .!.! e 15 GOMA DE MASCAR DE NICOTINA -8 m .!.! 1o ... 'GI UI o 1m !d' � 8 8 5 _, ;,tabletes de goma de mascar o��-�-�-�-� -10 o 30 60 90 120 20 15 ADESIVO TRANSDÉRMICO 10 5 Aplicação /do adesivo o��------��..__ -10 o 30 60 90 120 600 Minutos Figura 10.5 Concentração sérica de nicotina em in­ divíduos que fumam cigarros, mascam goma ou recebem adesivo transdérmi­ co de nicotina.
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    126 Clark, Finkel,Rey & Whalen Figura 10.6 NEURÔNIO RESPOSTA AUMENTADA Mecanismo de ação da cocaína. Potencial de abuso V Figura 10.7 Cocaína Anfetamina A cocaína e a anfetamina têm potencial de abuso. tinência. Além disso, ela atenua o efeito recompensador da nicotina se o paciente tem uma recaída e usa o fumo. Os pacientes devem ser monito­ rados devido atendências suicidas, a pesadelos e a alterações de humor. D. Cocaína A cocaína é um fármaco facilmente acessível e muito viciante que é usa­ do por mais detrês milhões de pessoas nos Estados Unidos diariamente. Devido ao seu potencial de abuso, a cocaína é classificada como um fár­ maco da Relação li pela Drug EnforcementAgency dos Estados Unidos.* 1. Mecanismo de ação. O mecanismode ação primário dos efeitoscen­ trais e periféricos da cocaína é o bloqueio da captação de monoami­ nas (norepinefrina, serotonina e dopamina) nos terminais pré-sinápti­ cos dos quais esses neurotransmissores são liberados (Figura 10.6). Esse bloqueio ocorre pela ligação da cocaína aos transportadores da captação monoaminérgica e, assim, potencializa e prolonga as ações periféricas e no SNC dessas monoaminas. Em particular, o prolonga­ mentodosefeitos dadopamina nosistemacerebral de prazer (sistema límbico) produz a intensa euforia que a cocaína causa inicialmente. O consumo crônico de cocaína esgota a dopamina. Essa depleção desencadeia o círculo vicioso pela compulsão por cocaína, oque tem­ porariamente alivia a depressão intensa (Figura 10.7). 2. Ações a. SNC. Os efeitos comportamentais da cocaína resultam da po­ derosa estimulação do córtex e do tronco cerebral. A cocaína aumenta agudamente a atenção mental e produz sensação de bem-estar e euforia similar à causada por anfetamina. Como a anfetamina, a cocaína pode produzir alucinações, ilusões e pa­ ranoia ou grandiosidade. A cocaína aumenta a atividade motora e, em doses elevadas, causa tremores e convulsões, seguidos de depressão respiratória e vasomotora. b. Sistema nervoso simpático. Na periferia, a cocaínapotenciali­ za as ações da norepinefrina e produz a resposta "luta ou fuga" característica daestimulação adrenérgica. A cocaínaestá asso­ ciada à taquicardia, hipertensão, dilatação pupilar e vasocons­ trição periférica. Evidências recentes sugerem que a habilidade dos reflexos barorreceptores de neutralizar os efeitos hiperten­ sivos pode ser bloqueada. c. Hipertermia. A cocaína é a única, entre os fármacos ilícitos, que pode causar morte não só pela dose, mas também devido à propensão de causar hipertermia. (Nota: as taxas de morta­ lidade por dosagem excessiva de cocaína aumentam em dias quentes.) Mesmo pequenas doses de cocaína intranasal blo­ queiam a sudoração e a vasodilatação periférica. A percepção do desconforto térmico também diminui. 3. Usos terapêuticos. A cocaínatem ação anestésica local que atual­ mente representa o único uso terapêutico racional. Por exemplo, a cocaína é aplicada topicamente como anestésico local em cirurgias de olhos, orelhas, nariz e garganta. Enquanto o efeito anestésico local é devido ao bloqueio dos canais de sódio voltagem-dependen- *N. de T. Na Portaria SVS/MS 344/98, de 12.05.1998, que estabelece normas sobre fármacos, a cocaína integra a Lista F, lista das substâncias de uso proscrito no Brasil.
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    tes, a interaçãocom canais de potássio pode contribuir com a pro­ priedade da cocaína de causararritmias cardíacas. (Nota: a cocaína é o único anestésico local que causa vasoconstrição. Esse efeito é responsável pela necrose e perfuração do septo nasal observadas com a inalação crônica de pó de cocaína.) 4. Farmacocinética. Com frequência a cocaína é autoadministrada por via oral (mascada), por inalação, fumo ou por injeção IV. O pico ocorre em 15 a 20 minutos após a inalação do pó de cocaína, e o efeito desaparece em 1 a 1,5 hora. Efeitos rápidos, mas de curta duração, são obtidos por meio de injeção IV ou por fumar a forma base livre da droga (crack). Como o início do efeito é mais rápido, o potencial de dose excessiva e dependência é maior com a injeção IV e com o fumo do crack. A cocaína é rapidamente desesterificada e desmetilada à benzoilecgonina, que é excretada na urina. A de­ tecção dessa substância na urina identifica o usuário. 5. Efeitos adversos a. Ansiedade. A resposta tóxica à ingestão aguda de cocaína pode precipitar reações de ansiedade que incluem hipertensão, taquicardia, sudoração e paranoia. (Nota: ocorre pouca tolerân­ cia aos efeitos tóxicos da cocaína no SNC, [p. ex., convulsões] mesmo com uso prolongado). Devido à irritabilidade, vários usuários usam a cocaína com álcool. Um produto da biotrans­ formação da cocaína e do etanol é o cocaetileno, que também é psicoativo e, acredita-se, contribui para a cardiotoxicidade. b. Depressão. Como com todos os fármacos estimulantes, a esti­ mulação do SNC pela cocaína é seguida por um período de de­ pressão mental. Os adietas abstêmios de cocaína apresentam depressão física e emocional, bem como agitação. A agitação pode sertratada com benzodiazepínicos ou fenotiazinas. c. Tóxicos. A cocaína pode provocar convulsões, bem como ar­ ritmias cardíacas fatais (Figura 10.8). O uso de diazepam IV pode ser necessário para controlar as convulsões induzidas por cocaína. A incidência de infarto do miocárdio em usuários de cocaína não está relacionada com a dose, a duração do uso ou a via de administração. Não há marcador para identificar os indivíduos que podem ter efeitos cardíacos ameaçadores à vida após o uso de cocaína. E. Anfetamina A anfetamina é uma amina simpática que apresenta efeitos neurológi­ cos e clínicos similares aos da cocaína. A dextroanfetamina é o principal membro dessa classe de compostos. A metanfetamina (também conheci­ da como 'speed'nos EUA) é um derivado da anfetamina disponível para uso sob prescrição. Ela pode ser fumada e é preferida por vários adie­ tas. A 3,4-metileno-dioxi-metanfetamina (também denominada MDMA ou ecstasy), um derivado sintético da metanfetamina com propriedades alucinogênicas e estimulantes, é discutida na p. 567. 1 . Mecanismo de ação. Como a cocaína, os efeitos da anfetamina no SNC e no sistema nervoso periférico são indiretos, isto é, am­ bos dependem da elevação dos níveis de catecolaminas nasfendas sinápticas. A anfetamina, contudo, obtém seu efeito liberando esto­ ques intracelulares de catecolaminas (Figura 10.9). Como a anfeta­ mina também inibe a MAO, níveis elevados de catecolaminas são V Figura 10.8 Farmacologia Ilustrada 127 Euforia Taquicardia 1 I ' /" - -- - Agitação Hipertensão Dispneia Convulsão Arritmias cardíacas Insuficiência respiratória Morte Principais efeitos do uso da cocaína.
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    128 Clark, Finkel,Rey & Whalen m Sem anfetamina RESPOSTA l]J Com anfetamina Figura 10.9 RESPOSTA AUMENTADA Mecanismo de ação da anfetamina. facilmente liberados para as fendas sinápticas. Apesar da diferença no mecanismo de ação, os efeitos comportamentais da anfetamina e de seus derivados são similares aos da cocaína. 2. Ações a. SNC. Os principais efeitos comportamentais da anfetamina re­ sultam da liberação de dopamina e de norepinefrina. A anfeta­ mina estimula todo eixo cerebrospinal, córtex, tronco cerebral e bulbo. Isso aumenta o estado de alerta, diminui a fadiga e o apetite e causa insônia. Esses efeitos da anfetamina e seus derivados justificam seu uso no tratamento de crianças hipe­ rativas, para a narcolepsia e o controle do apetite. Em doses elevadas, a anfetamina pode causar psicoses e convulsões. b. Sistema nervoso simpático. Além da sua ação acentuada no SNC, a anfetaminaatua no sistema adrenérgico estimulando in­ diretamente os receptores com a liberação de norepinefrina. 3. Usos terapêuticos. Os fatores que limitam a utilidade terapêutica da anfetamina incluem a dependência psico e fisiológica similar à da cocaína e, com o uso crônico, o desenvolvimento de tolerância aos efeitos eufóricos e anorexígenos. a. Distúrbio de hiperatividade com déficit de atenção (DHDA). Algumas crianças jovens são hipercinésicas e não têm capaci­ dade de se concentrar em uma atividade por mais que poucos minutos.A dextroanfetaminae o derivado da anfetamina, metilfe­ nidato, são capazes de diminuirafalta de atenção e aliviarvários dos problemas comportamentais associados a essa síndrome, diminuindo também a hipercinesia que essas crianças apresen­ tam. A lisdexanfetamina é um pró-fármaco que é convertido no fármaco ativo dextroanfetamina depois da absorção no TGI. A lisdexanfetamina prolonga a atenção, permitindo melhor adapta­ ção à atmosfera escolar. A atomoxetina é um fármaco não esti­ mulante aprovado para o DHDA em crianças e adultos. (Nota: a atomoxetina não deve sertomada por indivíduos sob tratamento com IMAO e nem por pacientes com glaucoma de ângulo estrei­ to.) Ao contrário do metilfenidato, que bloqueia a captação de dopamina, a atomoxetinaé um inibidorda captação de norepine­ fri na, por isso, não causa vício e não é um fármaco controlado. b. Narcolepsia. A narcolepsiaé um distúrbio do sono relativamen­ te raro caracterizado por incontroláveis surtos de sono durante o dia. Algumas vezes, é acompanhado de catalepsia, perda do controle muscular, ou mesmo paralisia provocadas por emo­ ções fortes, como risadas. Contudo, é a sonolência do paciente que é combatida com fármacos como anfetamina ou metilfeni­ dato. Recentemente, novos fármacos, modafinila e seu deriva­ do enantiômero-R, armodafinila, se tornaram disponíveis para tratar a narcolepsia. A modafinila produz menos efeitos psico­ ativos e eufóricos, bem como menos alterações do humor, da percepção, do pensamento e das sensações, típicas em outros estimulantes do SNC. Ela provoca vigília. O seu mecanismo de ação permanece incerto, mas pode envolver os sistemas adre­ nérgicos e dopaminérgicos, embora tenha sido demonstrado ser diferente do mecanismo de ação da anfetamina. A moda­ finila é eficaz por via oral. Ela distribui-se por todo o organismo e sofre extensa biotransformação hepática. Os metabólitos são excretados na urina. Cefaleia, náusea e rinite são os efeitos ad-
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    versos primários. Háalgumas evidências indicando o potencial de abuso e dependência física para a modafinila. 4. Farmacocinética. A anfetamina é completamente absorvida noTGI, biotransformada no fígado e excretada na urina. (Nota: a administra­ ção de alcalinizantes da urina aumenta as moléculas não ionizadas e retarda a excreção.) Os adietas em anfetamina a administram por injeção IV ou afumam.A euforia causada pela anfetamina dura 4 a 6 horas, ou seja, 4 a 8 vezes mais do que o efeito da cocaína. 5. Efeitos adversos. As anfetaminas podem causar vício, levando à dependência, àtolerânciae ao comportamento compulsivo pelo fár­ maco. Além disso, ela tem os seguintes efeitos indesejáveis. a. Efeitos no SNC. Os efeitos indesejáveis da anfetamina incluem insônia, irritabilidade, fraqueza, tonturas, tremores e reflexos hiperativos (Figura 10.1O). A anfetamina também pode causar confusão, delírio, pânico e tendências suicidas, em especial nos pacientes doentes mentalmente. O uso crônico de anfetamina produz um estado de "psicose anfetamínica"que se parece com os episódios psicóticos associados com esquizofrenia. O uso prolongado de anfetamina está associado à dependência psí­ quica e física, mas a tolerância aos seus efeitos pode ocorrer dentro de poucas semanas. Doses excessivas de anfetamina são tratadas com clorpromazi na ou ha/operido/, que aliviam os sintomas do SNC, bem como a hipertensão, devido aos efeitos a-bloqueadores. O efeito anorexígeno da anfetamina é devido à sua ação no centro alimentar hipotalâmico lateral. b. Efeitos cardiovasculares. Além dos efeitos no SNC, a anfeta­ mina causa palpitações, arritmias cardíacas, hipertensão, dor anginosa e colapso circulatório. Cefaleia, calafrios e sudoração também podem ocorrer. Devido aos seus efeitos cardiovascula­ res, a anfetamina não deve ser administrada a pacientes com doença cardiovascular e aos que recebem inibidores da MAO. c. Efeitos noTGI. A anfetamina atua no TGI, causando anorexia, náuseas, êmese, cólicas abdominais e diarreia. A administração de bicarbonato de sódio aumentaa reabsorção de dextroanfeta­ mina dos túbulos renais para a circulação. d. Contraindicações. Não devem sertratados com anfetamina os pacientes com hipertensão, doença cardiovascular, hipertireoi­ dismo, glaucoma e nem os pacientes com história de abuso de fármacos ou quaisquer outros sob tratamento com IMAO. F. Metilfenidato Farmacologia Ilustrada 129 PA V Figura 10.1O o o Vertigem Hipertensão Insônia Confusão Potencial de abuso Náusea e êmese Diarreia O metilfenidato tem propriedades estimulantes do SNC similares às da Efeitos adversos das anfetaminas. anfetamina e também pode levar ao abuso, embora seu potencial de vi- ciar seja controverso. Ele é um fármaco da Relação 11.* Atualmente, o metilfenidato é um dosfármacos mais prescritos para crianças. Estima-se que 4 a 6 milhões de crianças tomam metilfenidato diariamente nos Esta- dos Unidos contra o DHDA. O isômerofarmacologicamente ativo, dexme- tilfenidato, também está aprovado nos EUA para o tratamento do DHDA. *N. deT. Refere-se ao controle de fármacos pela FDA nos Estados Unidos. No Brasil, o me­ tilfenidato é regulamentado pela Portaria SVS/MS nª 344, de 12 de maio de 1998, incluído na Lista A3, lista das substâncias psicotrópicas (sujeitas à Notificação de Receita "A").
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    130 Clark, Finkel,Rey & Whalen 1 . Mecanismo de ação. Crianças com DHDA podem produzir fracos sinais de dopamina, sugerindo que atividades geralmente interes­ santes oferecem pouca gratificação a essas crianças.O metilfenida­ to é um inibidor do transporte de dopamina e pode atuar por meio do aumento de dopamina no espaço sináptico. (Nota: o metilfenida­ to pode ter menor potencial para abuso do que a cocaína, porque ele entra no cérebro mais lentamente do que a cocaína e, assim, não eleva os níveis de dopamina tão rapidamente.) 2. Usos terapêuticos. O metilfenidato é usado há décadas no trata­ mento do DHDA em crianças de 6 a 1 6 anos. Ele também é eficaz no tratamento da narcolepsia, mas o dexmetilfenidato não é indica­ do no tratamento da narcolepsia. 3. Farmacocinética. Ambos, metilfenidato e dexmetilfenidato, são fa­ cilmente absorvidos por via oral. O metilfenidato está disponível em uma formulação de cápsulas de liberação lenta e como adesivo cutâ­ neo. O produto desesterificado, ácido ritalínico, é excretado na urina. 4. Efeitos adversos. Os efeitos gastrintestinais são os mais comuns e incluem dor abdominal e náuseas. Outras reações incluem ano­ rexia, insônia, nervosismo e febre. Em pacientes convulsivos, o me­ tilfenidato parece aumentar a frequência das convulsões, especial­ mente se o paciente está usando antidepressivos. O metilfenidato é contraindicado em pacientes com glaucoma. 5. Interações de fármacos. Estudos mostraram que o metilfenidato pode interferir na biotransformação de varfarina, fenitoína, fenobar­ bital, primidona e dos antidepressivos tricíclicos. , Ili. ALUCINOGENOS Poucos fármacos têm, como ação primária, a capacidade de induzir estados alterados de percepção remanescentes de sonhos. Vários desses estados alterados são acompanhados de visões brilhantes e coloridas no ambiente e por uma plasticidade de alterações constantes deformas e cores. O indivíduo sob influência dessesfármacos é incapaz de tomardecisões normais, pois os fármacos interferem com o pensamento racional. Esses fármacos são conhe­ cidos como alucinógenos ou psicotomiméticos. A. Dietilamida do ácido lisérgico Vários locais no SNC são afetados pela dietilamida do ácido lisérgico (LSD), que apresenta atividade agonista da serotonina (SHT) nos recep­ tores pré-sinápticos 5HT1 do mesencéfalo e estimula os receptores 5HT2• A ativação do sistema nervoso simpático também ocorre, causando mi­ dríase, aumento da pressão arterial, piloereção e aumento datemperatu­ ra corporal. Por via oral, baixas doses de LSD podem induziralucinações com cores brilhantes.Também ocorre alteração do humor. Ocorrem tole­ rância e dependência física, mas dependência verdadeira é rara. Os efei­ tos adversos incluem hiper-reflexia, náuseas e fraqueza muscular. Doses elevadas podem produzir alterações psicóticas de longa duração nos indivíduos suscetíveis. O haloperidol e outros neurolépticos podem blo­ quear os efeitos alucinógenos do LSDe rapidamente abortara síndrome. B. Tetra-hidrocanabinol O principal alcaloide psicoativo contido na maconha é o li9-tetra-hidrocana­ binol (THC), que está disponível como dronabinol. Este fármaco é prescrito
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    Farmacologia Ilustrada 131 GABAouglutamato ºº º o n o receptor ativado modula a .----- li.li liberação dos neurotransmisso­ res inibitórios, como o GABA. º�''' ' � r--- _ _ _ ___.__ _ _____._____ o o � 3 Os endocanabinoides se ligam : aos receptores canabinoides - - no neurônio pré-sináptico que forma sinapse com o neurônio estimulado. Figura 10.11 NEURÔNIO PÓS-SINÁPTICO Endocanabinoides >...... Receptor de GABA ou glutamato Receptorcanabinoide. GABA = ácido 'Y-aminobutírico. Receptor canabinoide pré-sináptico Ca2+ o � Ca2+ D Aexcitação do neurônio pós-sináptico causa sua despolarização e um influxo de ca2+. Etil Níveis elevados de Ca2+ U estimulam a síntese e a liberação de endocanabinoides. v = = � Taquicardia V Hipertensão PA •-v' I v---=� Alucinações para tratar êmese e estimular o apetite. Dependendo da situação social, o THC pode produzir euforia, seguida de sonolência e relaxamento. Além de afetar adversamente a memória de curta duração e a atividade mental, o THC diminui a força muscular e impede atividade motora que exija perícia, como dirigir um automóvel. Sua ampla margem de efeitos inclui estimulação do apetite, xerostomia, alucinações visuais, ilusões e aumento da atividade sensitiva.Os receptores do THC, denominados receptores CB1, sãoencon­ trados em terminais nervosos pré-sinápticos inibidores que fazem sinapse com os neurônios piramidais. O CB1 está acoplado à proteína G. É interes­ sante que, como ocorreu com os ligantes endógenos dos receptores opioi­ des, foram identificados endocanabinoides no SNC. Esses compostos, que se ligam ao receptor CB1 , são derivados da membrana, sintetizados sob demanda e podem atuar como neuromoduladores locais (Figura 10.11). A ação do THC parece mediada pelos receptores CB1, mas isso permanece sob investigação. Os efeitos do THC aparecem logo depois que a droga é fumada, mas o efeito máximo demora cerca de 20 minutos para ocorrer. Cerca de três horas depois, o efeito praticamente desapareceu. O drona­ binol é administrado por via oral e tem pico em 2 a 4 horas. Seus efeitos psicoativos podem duraraté seis horas, mas o efeito estimulante do apetite persiste por 24 horas. Ele é altamente lipossolúvel e tem um grande volume de distribuição. O THCé extensamente biotransformado pelas oxidases de função mista. Sua eliminação ocorre principalmente porvia biliar. Os efeitos adversos incluem aumento da frequência cardíaca, redução da pressão ar­ terial e rubor das conjuntivas. Em doses elevadas, desenvolve-se psicose tóxica (Figura 10.12). Ocorretolerância e leve dependência física com o uso frequente e contínuo. O dronabinol é indicado como estimulante do apetite para pacientes com Aids que estão perdendo massa corporal. Ele também é usado algumas vezes contra a êmese grave causada por alguns fárma­ cos antineoplásicos. O antagonista do receptor CB1, rimonabanto, é eficaz no tratamento da obesidade por diminuir o apetite e a massa corporal em humanos. O rimonabanto não está disponível atualmente nos EUA, porque nas triagens clínicas, provocou distúrbios psiquiátricos, como ansiedade e depressão, o que pode limitarseu uso. Figura 10.12 Efeitos adversos do tetra-hidrocanabinol.
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    132 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questão para estudo Escolha a resposta correta. C. Fenciclidina A fenciclidina (também conhecida como "pó dos anjos") inibe a captação da dopamina, da SHT e da norepinefrina. A fenciclidina tem atividade anticolinérgica, mas, surpreendentemente, causa hipersalivação. A fenci­ c/idina, que é análoga da cetamina, causa anestesia dissociativa (insen­ sibilidade à dor, sem perda de consciência) e analgesia. Nesse estado, ela produz dormência das extremidades, andar rígido, fala enrolada e rigidez muscular. Algumas vezes, ocorre comportamento hostil e bizarro. Em dosagens mais altas, pode ocorrer anestesia, estupor e coma, mas, estranhamente, os olhos permanecem abertos. A fenciclidina aumenta a sensibilidade aos estímulos externos, e as ações no SNC persistem por uma semana. Com frequência, desenvolve-se tolerância com uso conti­ nuado desse fármaco. A fenciclidina não tem aplicações terapêuticas, e sua fabricação nos EUA é ilegal. 10.1 Um rapaz muito agitado, trazido pela polícia, dá entrada no atendimento de emergência. O exame psiquiátrico re­ vela que ele cheirou cocaína váriasvezes nos últimos dias, sendo a última vez há cerca de 1O horas. Foi administrado um sedativo, e o paciente dormiu. Ofármaco que foi usado para controlar a aparente abstinência de cocaína desse paciente foi provavelmente: Resposta correta = B. As propriedades ansiolíticas dos benzodiaze­ pínicos, como o lorazepam, os tornam os fármacos de escolha no tratamento da ansiedade e agitação da abstinência de cocaína. O lorazepam também tem propriedades hipnóticas. O fenobarbital tem propriedades hipnóticas, mas as propriedades ansiolíticas são inferiores às dos benzodiazepínicos. A cocaína poderia controlar a agitação da abstinência, mas não é o tratamento adequado. A hidro­ xizina, um anti-histamínico, é eficaz como hipnótico e algumas vezes é usada paratrataraansiedade, especialmentese a êmese é um dos problemas. A fluoxetina é um antidepressivo sem efeitos imediatos na ansiedade. A. Fenobarbital B. Lorazepam C. Cocaína D. Hidroxizina E. Fluoxetina
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    , . nes es1cos 1.RESUMO A anestesia geral é um estado de depressão reversível do sistema nervoso central (SNC) que resulta em perda da resposta e da percepção aos estí­ mulos externos. Cinco vantagens para os pacientes submetidos à cirurgia e outros procedimentos médicos com anestesia: • Sedação e diminuição da ansiedade. • Perda da consciência e amnésia. • Relaxamento da musculatura esquelética. • Supressão dos reflexos indesejados. • Analgesia. Como nenhum fármaco apenas provoca todos os efeitos desejados, várias classes de fármacos são utilizadas em combinação para produzir uma anes­ tesia ótima (Figura 1 1 .1). A medicação pré-anestésica serve para acalmar o paciente, aliviar a dor e proteger contra os efeitos indesejados dos anesté­ sicos administrado na sequência ou no próprio procedimento cirúrgico. Os relaxantes musculares esqueléticos facilitam a entubação da traqueia e su­ primem o tônus muscular até o grau necessário para a cirurgia. Anestésicos gerais potentes são administrados por inalação e/ou por injeção intravenosa (IV). Com exceção do óxido nitroso, os analgésicos inalados modernos são hidrocarbonetos halogenados voláteis. Os anestésicos gerais IV consistem em inúmeros fármacos quimicamente não relacionados, usados comumente para a indução rápida da anestesia. li. FATORES DO PACIENTE QUE INFLUENCIAM A SELEÇÃO DA ANESTESIA Durante o planejamento pré-operatório, são selecionados fármacos que for­ necerão um regime anestésico seguro e eficiente com base na natureza do procedimento cirúrgico ou diagnóstico e no estado fisiológico, patológico e farmacológico do paciente. MEDICAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA Antiácidos Anticollnérgicos Antiemétlcos Anti-histamínicos Benzodiazepínicos Opioides . ANESTÉSICOS GERAIS INALATÓRIOS Desflurano Halotano /soflursno Óxido nitroso Sevoflurano ANESTÉSICOS GERAIS INTRAVENOSOS Barbitúricos Benzodiazepínicos Dexmedetomldlna Etomldato Cetamlna Oploldes Propofol BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES (VER CAPITULO5) Ci satracúrio, pancurónlo, rocurónlo, succinilcollna, vecurónlo ANESTÉSICOS LOCAIS: AMIDAS Buplvacafna Lldocafna Meplvacafna Roplvacafna ANESTÉSICOS LOCAIS: ÉSTERES Figura 1 1.1 C/oroprocafna Procafna Tetracarna Resumo de fármacos comumente usa­ dos para anestesia.VerCapítulo 5 para o resumo dos fármacos bloqueadores neuromusculares.
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    134 Clark, Finkel,Rey & Whalen Algumas funções dos adjuvantes na anestesia Diminuição da ansiedade (Benzodiazepínicos) Prevenção da secreção gástrica (Bloqueadores H2) Evitar reações alérgicas (Anti-histamínicos) Evitar a aspiração do conteúdo estomacal e náuseas e êmese no período pós-operatório (Antieméticos) Prover analgesia (Opioides) Evitar a bradicardia e a secreção de líquidos no trato respiratório (Fármacos anticolinérgicos) Facilitar a entubação e o relaxamento (Bloqueadores neuromusculares) Figura 1 1 .2 Componentes da anestesia balanceada. A. Situação dos sistemas orgânicos 1 . Sistema cardiovascular. Os anestésicos suprimem em graus va­ riados a função cardiovascular. Podem ocorrer lesões isquêmicas nos tecidos por todo o organismo em consequência da redução da pressão de perfusão se ocorrem episódios de hipotensão durante a anestesia. O tratamento com fármacos vasoativos pode ser neces­ sário. Alguns anestésicos, como o halotano, podem sensibilizar o coração aos efeitos arritmogênicos dos simpaticomiméticos. 2. Sistema respiratório. A condição do sistema respiratório do pa­ ciente deve ser considerada para todos os anestésicos. Por exem­ plo, asma ou anormalidades de ventilação ou perfusão complicam o controle na inalação do anestésico. Os anestésicos inalatórios de­ primem o sistema respiratório e atuam como broncodilatadores. Os anestésicos IV e os opioides deprimem a respiração. Esses efeitos na função pulmonar podem influenciar a ventilação e a oxigenação adequadas durante a cirurgia e no pós-operatório. 3. Fígado e rins. Como o fígado e os rins influenciam a distribuição e a eliminação em longo prazo dos fármacos anestésicos e também podem ser alvo de efeitostóxicos, o estado fisiológico desses órgãos deve ser considerado. A liberação de fluoreto, brometo e outros pro­ dutos metabólicos dos hidrocarbonetos halogenados podem afetar esses órgãos, especialmente se os metabólitos se acumulam com a administração repetida de anestésico ao longo de um curto período. 4. Sistema nervoso. A existência de distúrbios neurológicos (p. ex., epilepsia, miastenia grave, doença neuromuscular e comprometi­ mento da circulação cerebral) influencia a seleção do anestésico, assim como o fato de o paciente apresentar história sugestiva de sensibilidade à hipertermia maligna (ver p. 141). 5. Gravidez. Precauções especiais devem ser tomadas quando anes­ tésicos e fármacos adjuvantes forem administrados a umagestante. No início da gestação, a principal preocupação é com os possíveis efeitos na organogênese fetal. Foi relatado que o uso temporário de óxido nitroso causa anemia aplástica no feto. Palato aberto ocorreu em fetos de mulheres que receberam benzodiazepínicos no início da gestação. Os benzodiazepínicos não devem ser utilizados roti­ neiramente durante o trabalho de parto, pois resulta em hipotensão temporária e altera a termorregulação do recém-nascido. B. Uso simultâneo de fármacos 1 . Fármacos adjuvantes múltiplos. Comumente, os pacientes ci­ rúrgicos recebem um ou mais dos seguintes pré-anestésicos: blo­ queadores H2, como a famotidina ou ranitidina, para reduzir a acidez gástrica; benzodiazepínicos, como midazolam ou diazepam, para diminuir a ansiedade e facilitar a amnésia, opioides, como a fentani­ /a, para analgesia; anti-histamínicos, como difenidramina, para evitar reações alérgicas, antieméticos, como ondansetrona, para prevenir náuseas e a possível aspiração do conteúdo estomacal, e/ou antico­ linérgicos, como o glicopirrolato, para evitar a bradicardia e a secre­ ção de líquidos no trato respiratório (Figura 1 1 .2). Esses fármacos facilitam a indução suave da anestesia e, quando administrados jun­ tos, também reduzem a dose de anestésico necessária para manter o nível desejado de anestesia cirúrgica. No entanto, essa administra­ ção simultâneatambém pode acentuarefeitos anestésicos indesejá­ veis (p. ex., hipoventilação) e provocarefeitos negativos que não são observados quando cada fármaco é administrado individualmente.
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    2. Uso simultâneode fármacos não anestésicos adicionais. Os pacientes cirúrgicos podem estar cronicamente expostos a fárma­ cos para o tratamento de doença associada, bem como a drogas de abuso que alteram a resposta aos anestésicos. Por exemplo, os alcoólatras apresentam elevados índices de enzimas microssômi­ cas hepáticas envolvidas na biotransformação dos anestésicos, e os adietas podem apresentar tolerância elevada aos opioides. Ili. ESTÁGIOS E PROFUNDIDADE DA ANESTESIA A anestesia geral pode ser dividida em três estágios: indução, manutenção e recuperação. A indução é definida como o período que inicia com a admi­ nistração do anestésico potente e segue até o desenvolvimento da efetiva anestesia cirúrgica no paciente. A manutenção assegura a continuidade da anestesia cirúrgica. A recuperação é o tempo desde que a administração do anestésico é suspensa até a recuperação da consciência e dos reflexos pro­ tetores fisiológicos. A indução da anestesia depende da velocidade com que concentrações eficazes do anestésico alcançam o cérebro, ao passo que a recuperação é essencialmente o inverso da indução e depende davelocidade com a qual o anestésico se difunde no cérebro. A profundidade da anestesia é a intensidade de depressão do SNC e é uma variável útil para individualizar a anestesia. A. Indução A anestesia geral em adultos normalmente é induzida por um anesté­ sico IV como o propofo/, que produz inconsciência em um período de 30-40 segundos após a injeção. Nesse período, outros fármacos adicio­ nais inalatórios e/ou IV que incluem a combinação anestésica seleciona­ da podem ser administrados para produzir a profundidade desejada de anestesia cirúrgica (Estágio Ili, ver adiante). (Nota: geralmente isso inclui a administração simultânea de relaxante muscular esquelético porvia IV, como rocurônio, vecurônio ou succinilcoli na, parafacilitara entubação e o relaxamento muscular.) Em crianças, quando não há acesso IV, é usada indução por inalação com fármacos não pungentes, como halotano ou sevoflurano, para induzira anestesia geral. B. Manutenção A manutenção é o período durante o qual o paciente está cirurgicamente anestesiado. Após administrar a combinação anestésica selecionada, os sinais vitais do paciente e sua resposta a variados estímulos são moni­ torados continuamente durante todo o procedimento cirúrgico para equi­ librar cuidadosamente a quantidade de fármaco inalado e/ou infundido à profundidade da anestesia. Normalmente, a anestesia é mantida pela administração de anestésicos voláteis que oferecem um bom controle da profundidade da anestesia. Frequentemente, opioides como a fentanila são utilizados para o controle da dorjuntamente com os anestésicos ina­ latórios, pois esses não são bons analgésicos. A infusão IV de vários fármacos também pode ser usada durante a fase de manutenção. C. Recuperação No pós-operatório, a misturaanestésica é suspensa, e o paciente monito­ rado quanto ao retorno à consciência. Para a maioria dos anestésicos, a recuperação é o inverso da indução; isto é, a redistribuição desde o local de ação (e não sua biotransformação) é responsável pela recuperação. Se o relaxante muscular esquelético não foi totalmente biotransformado, pode ser usado um fármaco que o reverta. O anestesiologista continua Farmacologia Ilustrada 135 1 Analgesia li Excitação Ili Anestesia cirúrgica IV Paralisia bulbar e morte Figura 1 1 .3 v=� Estágios da anestesia. S.C. = sala de . . c1rurg1a.
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    136 Clark, Finkel,Rey & Whalen a monitorar o paciente para ter certeza de que ele está totalmente recu­ perado e com as funções fisiológicas normais (p. ex., respiração espon­ tânea, pressão arterial e frequência cardíaca aceitáveis e reflexos intac­ tos, etc.). Os pacientes são observados quanto a reações tóxicas tardias, como depressão respiratória pelos opioides administrados para controle pós-operatório da dor. D. Profundidade A profundidade da anestesia tradicionalmente é dividida em quatro está­ gios sequenciais. Cada estágio é caracterizado pelo aumento da depres­ são do SNC, causada pelo acúmulo do anestésico no cérebro (Figura 1 1 .3). (Nota: esses estágios foram diferenciados e definidos com o anes­ tésico original éter, que produz um início de ação lento da anestesia. Com os anestésicos modernos comumente utilizados, os estágios são difíceis de serem caracterizados claramente devido ao início de ação rápido da anestesia cirúrgica.) 1 . Estágio 1 - Analgesia. A perda da sensação de dor resulta da in­ terferência na transmissão sensorial no trato espinotalâmico. O pa­ ciente passa da consciência e capacidade de conversar para a so­ nolência. A amnésia e uma redução da consciência da dor ocorrem à medida que se aproxima o Estágio 11. 2. Estágio li - Excitação. O paciente vivencia delírio e possivelmente comportamento combativo. Há aumento e irregularidade na pressão arterial e na respiração, com risco de laringoespasmo. Para diminuir ou eliminar esse estágio da anestesia, é administrado um fármaco de ação rápida, como o propofol, por via IV, antes de iniciar o anes­ tésico inalatório. 3. Estágio Ili - Anestesia cirúrgica. Há perda gradual do tônus mus­ cular e dos reflexos conforme o SNC é deprimido. Nesse estágio, ocorrem respiração regular e relaxamento dos músculos esquelé­ ticos com eventual perda dos movimentos espontâneos. Esse é o , estágio ideal de anestesia para a cirurgia. E necessária a monito- ração contínua cuidadosa para evitar o avanço indesejado para o estágio IV. 4. Estágio IV- Paralisia bulbar. Durante esse estágio, ocorre depres­ são acentuada dos centros respiratórios e vasomotores. A morte pode ocorrer rapidamente, a não ser que sejam tomadas medidas para manter a circulação e a respiração. IV. ANESTÉSICOS INALATÓRIOS A inalação de gases é a base da anestesia, sendo utilizada primariamen­ te para a manutenção da anestesia após a administração de um fármaco IV. Nenhum anestésico único é superior aos demais, em todas as situações. Uma vantagem dos anestésicos inalatórios é que a profundidade da aneste­ sia pode ser rapidamente alterada se mudando a concentração inalada do fármaco. Os anestésicos gerais inalatórios têm curvas dose-resposta muito íngremes. Além disso, têm um índice terapêutico muito baixo (geralmente de 2 a 4), de modo que a diferença na concentração do fármaco que causa efei­ to nulo, anestesia cirúrgica e depressão cardíaca e respiratória acentuada é pequena. Não existem antagonistas. Para minimizar o desperdício e diminuir o custo, os anestésicos inalatórios potentes são oferecidos em sistemas de recirculação contendo absorventes que removem o dióxido de carbono e per­ mitem a re-respiração do anestésico.
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    A. Características comunsdos anestésicos inalatórios Os anestésicos inalatórios modernos são fármacos não inflamáveis e não explosivos que incluem o óxido nitroso, bem como um grande número de hidrocarbonetos halogenados voláteis. Como grupo, esses fármacos dimi­ nuem a resistência cerebrovascular, resultando em aumento da perfusão do cérebro. Eles também causam broncodilatação e diminuem o volume­ -minuto (volume de ar que se move para dentro ou para fora dos pulmões por unidade de tempo) e a vasoconstrição pulmonar hipóxica (aumento da resistênciavascularpulmonarem regiões malventiladas dos pulmões, o que permite o direcionamento do fluxo sanguíneo pulmonar para regiões com maior teor de oxigênio). O movimento desses fármacos desde os pulmões até os diferentescompartimentos corporais depende de sua solubilidade no sangue e nos tecidos, bem como no fluxo sanguíneo. Esses fatores desem­ penham importante papel não só na indução, mastambém na recuperação. B. Potência A potência dos anestésicos inalatórios édefinidaquantitativamente como a concentraçãoalveolar mínima (CAM). Essa é a concentração do gás anes­ tésico no ar expirado, necessária para eliminar o movimento em 50° / o dos pacientes submetidos a uma incisão cutânea padronizada. (Nota: a CAM é a dose eficaz média [DE50] do anestésico.) A CAM normalmente é ex­ pressa como a porcentagem de gás na mistura necessária para alcançar o efeito. Numericamente, a CAM é pequena para os anestésicos potentes, como o sevoflurano, e grande para os menos potentes, como o óxido nitro­ so (N02). Assim, o inverso da CAM é um índice de potência do anestésico. Osvalores da CAM são úteis na comparação de efeitos farmacológicos de diferentesanestésicos, porque um CAM alto é igual à baixa potência (Figu­ ra 1 1 .4). Note que só o óxido nitroso não consegue produzir umaanestesia completa, pois a mistura com oxigênio suficiente não consegue alcançar seu valor CAM. Quanto mais lipossolúvel é o anestésico, menor é a con­ centração necessária para produzir anestesia e, assim, maior é a potência do anestésico. Fatores que podem aumentar a CAM (e tornar o paciente menos sensível) incluem hipertermia (acima de 42°C), fármacos que au­ mentam as catecolaminas no SNC e abuso crônico de etanol. Fatores que podem reduzir a CAM (e tornar o paciente mais sensível) incluem aumen­ to da idade, hipotermia, gestação, sepse, intoxicação aguda com etanol, administração concomitante de anestésicos IV e agonistas de receptores a2-adrenérgicos (como a clonidina e a dexmedetomidi na). C. Absorção e distribuição dos anestésicos inalatórios O principal objetivo da anestesia por inalação é obter uma pressão parcial cerebral (Pcr) constante e ótima do anestésico inalado (pressão parcial de equilíbrio entre os alvéolos [PA] e o cérebro [Pcrl). Assim, os alvéolos são "ajanela para o cérebro"dos anestésicos inalados. A pressão parcial de um gás anestésico na origem da via respiratória é a força que leva o anestésico para o interiordo espaço alveolar e dali para o sangue, o qual transporta o fármaco para o cérebro e paravários outros compartimentos do organismo. Como os gases se movem de um compartimento para o outro de acordo com os gradientes de pressão parcial, o equilíbrio é al­ cançado quando a pressão parcial em cada um desses compartimentos é equivalente àquela da mistura inalada. (Nota: no equilíbrio, a pressão parcial alveolar= pressão parcial arterial = pressão parcial cerebral, ou PA = Pª = Per·) O tempo necessário para se alcançar esse estado de equilí­ brio é determinado pelos seguintes fatores: 1. Saturação alveolar (wash-in). Esse termo se refere à substituição dos gases pulmonares normais pela mistura anestésica inalada. O tempo necessário para esse processo é diretamente proporcional Farmacologia Ilustrada 137 Halotano Sevoflurano 2º/o Desflurano Óxido nitroso o 2 4 CAM 6 1 t ' 100 Porcentagemdegásanestésico Figura 11.4 Concentrações alveolares mínimas (CAM) dos gases anestésicos.
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    138 Clark, Finkel,Rey & Whalen Maissolúvel nosangue Halo­ tano lso­ flurano Sevo­ f/urano Óxido Des­ ,........ __ nitroso f/urano Coeficientedepartição sangue/gás Figura 11.5 Coeficientes de partição sangue/gás de alguns anestésicos inalatórios. à capacidade residual funcional do pulmão (o volume de gás rema­ nescente nos pulmões nofinal da expiração normal) e inversamente proporcional à taxa ventilatória. Ele é independente das proprieda­ des físicas do gás.À medida que a pressão parcial se estabelece no interior do pulmão, inicia-se a transferência do anestésico. 2. Captação do anestésico. A captação do anestésico é produto da solubilidade do gás no sangue, do débito cardíaco e do gradiente anestésico entre a pressão parcial alveolar e no sangue. a. Solubilidade no sangue. A solubilidade é determinada por uma propriedade física da molécula anestésica denominada coefi­ ciente de partição sangue/gás, que é a relação da concentração do anestésico no sangue com a concentração do anestésico no gás quando o anestésico está em equilíbrio entre os dois com­ partimentos (Figura 1 1 .5). Paraanestésicos inalatórios considere o sangue como um reservatório farmacologicamente inativo. Fár­ macos com baixa ou alta solubilidade no sangue diferem na ve­ locidade com que induzem a anestesia. Porexemplo, quando um gás anestésico com baixa solubilidade sanguínea, como o óxido nitroso, difunde-se do alvéolo para a circulação, pouca quantida­ de do anestésico é dissolvida no sangue. Assim, o equilíbrio en­ tre o anestésico inalado e o sangue arterial ocorre rapidamente, e relativamente poucas moléculas adicionais de anestésico são necessárias para aumentar a pressão parcial anestésica arterial; dessaforma, o estadode equilíbrio é rapidamente alcançado.As­ sim, fármacos com baixa solubilidade no sangue rapidamente o saturam. Em contraste, um gás anestésico com alta solubilidade sanguínea, como o halotano, dissolve-se mais no sangue, sen­ do necessárias grandes quantidades de anestésico e um tempo mais longo para que a pressão parcial sanguínea se eleve. Isso resulta em tempo de indução e de recuperação mais longos e menos alterações na profundidade da anestesia em resposta a alterações na concentração do fármaco inalado. A solubilidade no sangue obedece à seguinte sequência: halotano > isoflurano > sevoflurano > óxido nitroso > desf/urano. b. Capacidade cardíaca. Odébito cardíaco (DC) afeta a remoçãodo anestésiconostecidos periféricosque nãosãooseu local de ação. Para os anestésicos inalatórios, DC elevados removem oanestési­ co dos alvéolos mais rapidamente (devido ao alto fluxo de sangue através dos pulmões) e assim reduzem a velocidade de aumento da concentração alveolar do gás. Em consequência, demora mais para o gás alcançar o equilíbrio entre o alvéolo e o local de ação no cérebro. Assim, para anestésicos inalados, DC altos = indução mais lenta. Outra vez, lembre-se de que o sangue é um reservató­ rio farmacologicamente inativo para os anestésicos inalados. Um DC baixo (choque) aceleraavelocidade de aumento daconcentra­ ção alveolardo gás, pois há menorcaptação (remoção para oste­ cidos periféricos) se opondo ao aumento. (Nota: para anestésicos IV, ver p. 144 para uma explicação dos efeitos do DC.) c. Gradiente de pressão parcial do anestésico de alveolar para venoso. Essa é a força motriz da distribuição anestésica. Para to­ dos os propósitos práticos, apressão parcial do anestésico nos ca­ pilares terminais alveolares pode ser considerada igual à pressão parcial alveolar do anestésico, se o paciente não apresenta uma doença grave de difusão pulmonar. A circulação arterial distribui o anestésico paravários tecidos, eo gradiente de pressão direciona ' o gás anestésico livre para o interior dos tecidos. A medida que a
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    circulaçãovenosa retorna osangue depletado de anestésico para o pulmão, mais gás se move do pulmão para o sangue de acor­ do com a diferença de pressão parcial. Quanto maior a diferença na concentração anestésica entre o sangue alveolar (arterial) e o venoso, maior a captação e mais lenta a indução. Com passar do tempo, a pressão parcial no sangue venoso se aproxima da pressão parcial na mistura inspirada, ou seja, não ocorre mais ab­ sorção adicional de anestésico no pulmão. 3. Efeito de diferentes tipos de tecido na distribuição do anesté­ sico. O tempo necessário para um determinado tecido alcançar um estado de equilíbrio com a pressão parcial de um gás anestésico na mistura inspirada é inversamente proporcional ao fluxo sanguíneo para aquele tecido (isto é, um fluxo mais rápido resulta em maior rapidez em alcançar o estado de equilíbrio). Ele também é direta­ mente proporcional à capacidade do tecido de acumular o anesté­ sico (isto é, uma maior capacidade resulta na necessidade de mais tempo para que seja alcançado o estado de equilíbrio). A capaci­ dade, por sua vez, é diretamente proporcional ao volume do tecido e ao coeficiente de solubilidade no tecido/sangue das moléculas do anestésico. Quatro compartimentosteciduais principais determinam o tempo de captação do anestésico. a. Cérebro, coração, fígado, rins e glândulas endócrinas. Es­ ses tecidos altamente irrigados alcançam rapidamente um esta­ do de equilíbrio com a pressão parcial do anestésico no sangue. b. Músculos esqueléticos. Essestecidos são pouco irrigados du­ rante a anestesia. Isso e o fato de possuírem um grande volume prolongam o tempo necessário para alcançar o estado de equi- 1íbrio. c. Gordura. Esse tecido também é pouco irrigado. No entanto, anestésicos gerais voláteis potentes são muito lipossolúveis. Assim, a gordura apresenta uma grande capacidade de arma­ zenar anestésico. Essa combinação de chegada lenta com um compartimento de grande capacidade prolonga o tempo neces­ sário para alcançar o estado de equilíbrio naquele tecido. d. Ossos, ligamentos e cartilagens. Esses são tecidos pouco vascularizados e apresentam uma capacidade relativamente baixa para armazenar anestésicos. Dessa forma, eles desem­ penham um pequeno papel no tempo de distribuição do anesté- . . s1co no organismo. 4. Remoção (wash-out). Quando a administração de um anestésico inalatório é interrompida, o organismo se torna a "origem" do anes­ tésico que vai para o espaço alveolar. Os mesmos fatores que in­ fluenciam a obtenção de um estado de equilíbrio com o anestésico inspirado determinam o tempo necessário para a sua eliminação do organismo. Assim, o óxido nitroso sai do organismo mais rapida­ mente do que o halotano (Figura 1 1 .6). D. Mecanismo de ação Não foi identificado nenhum receptor específico como o local de ação do anestésico geral. Sem dúvida, ofato de fármacos não relacionados quimi­ camente produzirem o estado anestésico argumenta contra a existência de tal receptor. O foco atual são as interações dos anestésicos inalatórios com as proteínas que integram os canais iônicos. Por exemplo, o anesté­ sico geral aumenta a sensibilidade dos receptores de GABAA ao neuro- _:100 as "C l! · - i e ...·- .!! o ola! CI) "" � l! as e .i � 50 "" e as o ::: u e as CI) "C � E o CI) o cn !! e � ... o Farmacologia Ilustrada 139 Indução Óxido nitroso Oesflurano Sevoflurano /sof/urano Halot.ano .s o -4-----------� 100 ãi ·e; ·- e ·- as ... "C as - E o CI) � cn- 50 !! as c .g � "" ... as o ... ri. 'E � e o u o 10 20 30 Minutos Recuperação Halot.ano lsoflurano Sevoflurano Óxido nitroso Oesflurano o --4-----------� o 10 20 30 Minutos Figura 11.6 Alterações nas concentrações de al­ guns anestésicos inalatórios no sangue alveolar ao longo do tempo.
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    140 Clark, Finkel,Rey & Whalen a Sem anestésico o GABA + + Aligação do GABAcausa abertura do canal de íons cloreto, levando à hiperpolarização da célula. .-1 + + / ' 1 y· - - c1+ ft Na presença de anestésico lill inalatório Aligação do GABAé aumentada pelo anestésico inalatório, resultando em maior entrada de íons cloreto. � �- GABA + + + + + + Aentrada de CI- hiperpolariza a célula, tornando mais difícil a despolarização e, assim, reduzindo a excitabilidade neural. Figura 1 1 .7 Exemplo de modulação em um canal de membrana estimulado por ligante modulado por anestésicos inalatórios. GABA = ácido -y-aminobutírico; CI- = íons cloreto. transmissor GABA em concentrações clinicamente eficazes do fármaco. Isso causa um prolongamento da corrente inibitória de íons cloreto após um pulso de liberação de GABA, diminuindo, assim, a excitabilidade neu­ ronal pós-sináptica (Figura 1 1 .7). Outros receptores também são afetados pelos anestésicos voláteis. Por exemplo, a atividade dos receptores inibi­ tórios de glicina nos neurônios motores da medula espinal aumenta. Além disso, os anestésicos inalatórios bloqueiam a corrente pós-sináptica exci­ tatória dos receptores nicotínicos. O mecanismo pelo qual os anestésicos realizam essas funções moduladoras ainda não foi explicado. E. Halotano Esse fármaco é o protótipo com o qual os novos anestésicos inalatórios têm sido comparados. Quando o halotano foi introduzido, sua capacidade de induzir rapidamente o estado anestésico e permitir rápida recuperação -e o fato de não ser explosivo-tornaram-no o anestésico de primeira es­ colha. No entanto, com o reconhecimento dos efeitos adversos discutidos a seguir e a disponibilidade de outros anestésicos que causam menos complicações, o halotanofoi amplamentesubstituído nos Estados Unidos. 1. Usos terapêuticos. O halotano é um anestésico potente, mas é um analgésico relativamente fraco. Assim, normalmente ele é coadminis- , trado com óxido nitroso, opioides ou anestésicos locais. E um potente broncodilatador. O halotano relaxa os músculos esqueléticos e uterino e pode serutilizado em obstetríciaquando há indicaçãode relaxamen­ to uterino. Ele não é hepatotóxico em pacientes pediátricos (apesar do efeito potencial em adultos, vera seguir), fato que, combinado com seu odor agradável, o torna uma boa escolha para indução inalatória em crianças, embora o sevof/urano seja atualmente o fármaco de es­ colha para a indução inalatória, se o custo nãofor um fator limitante. 2. Farmacocinética. O halotano é biotransformado por oxidação em hidrocarbonetos tóxicos aos tecidos (por exemplo, trifluoretanol) e íon brometo. Essas substâncias podem ser responsáveis pela rea­ ção de toxicidade que alguns pacientes (especialmente mulheres) desenvolvem após a anestesia com esse fármaco. Essa reação inicia com febre, seguida de anorexia, náusea e êmese, e o pa­ ciente pode demonstrar sinais de hepatite. (Nota: embora a incidên­ cia dessa reação seja baixa - aproximadamente de 1 em 10.000 indivíduos -, 50° / o dos pacientes atingidos podem morrer por necro­ se hepática. Para evitar essa condição, a anestesia com halotano não é repetida em intervalos menores do que 2 a 3 semanas. Foi descrito que todos os anestésicos inalatórios halogenados causam hepatite, mas em uma incidência muito menordo que com halotano. Por exemplo, o isof/uranotem uma incidência de 1 :500.000.) 3. Efeitos adversos a. Efeitos cardíacos. Como outros hidrocarbonetos halogenados, o halotano é vagomimético e causa bradicardia atropina-sen­ sível. Além disso, ele apresenta a propriedade indesejável de causar arritmias cardíacas. (Nota: isso é especialmente grave quando se desenvolve hipercapnia [aumento na pressão par­ cial arterial de dióxido de carbono] devido à diminuição da ven­ tilação alveolar ou ao aumento da concentração plasmática de catecolaminas.) O halotano, como outros anestésicos haloge­ nados, produz hipotensão concentração-dependente. Se houver necessidade de combater um episódio de hipotensão excessiva durante a anestesia com halotano, é recomendado utilizar um vasoconstritor de ação direta, como a fenilefrina.
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    b. Hipertermia maligna(HM). Em uma pequena porcentagem de pacientes suscetíveis, a exposição a qualquer dos anestésicos hi­ drocarbonetos halogenados, bem como o bloqueador neuromus­ cular succinilcolina, têm potencial para induzir HM, uma condição ameaçadora à sobrevivência. Nos indivíduos suscetíveis, esses fármacos podem induzir um aumento drástico e descontrolado no metabolismo oxidativo dos músculos esqueléticos, o que supera a capacidade corporal de supriroxigênio, removerdióxido de carbo­ noe regularatemperatura corporal, eventualmente levandoaoco­ lapso circulatório e à morte se não for combatido imediatamente. Investigações recentes identificaram um grande aumento da con­ centração de íons cálcio no mioplasma. Fortes evidências indicam que a HM é devidaa um defeito no acoplamento excitação-contra­ ção. Vítimas de queimaduras e indivíduos portadores da distrofia muscularde Duchenne, de miotonia, de osteogênese imperfeita e dadoençado núcleo central são suscetíveis à HM.Asuscetibilida­ de à HM em geral é um distúrbio hereditário como um autossoma dominante. Quando um paciente demonstra os sintomas caracte­ rísticos de HM, administra-se dantroleno à medida que a mistura anestésica é retirada. Portanto, o dantrolenodeve estardisponível sempre para ser usado em uma emergência. O paciente deve ser monitorado cuidadosamente e receber apoio para os problemas respiratórios, circulatóriose renais. O uso de dantrolenoe o ato de evitaros agentes causadores (p. ex., os anestésicos voláteis halo­ genados e a succinilcolina) nos indivíduos suscetíveis reduziram acentuadamente a mortalidade desta condição. F. lsoflurano Esse anestésico halogenado tem sido amplamente utilizado nos Estados Unidos. Ele é uma molécula muito estável que sofre pouca biotransforma­ çãoe por isso não é hepatoou nefrotóxica. O isoflurano não induz arritmias cardíacas e nãosensibiliza ocoração àação das catecolaminas. No entan­ to, como outros gases halogenados, provoca hipotensão concentração-de­ pendente devido àvasodilatação periférica. O isofluranotem odor pungen­ te e estimula os reflexos respiratórios (p. ex., apneia voluntária, salivação, tosse e laringoespasmo) e, por isso, não é usado para a indução por ina­ lação. Com solubilidade sanguínea maior do que o desflurano e o sevof/u­ rano, o isoflurano é usado somente quando o custo é um fator limitante. G. Desflurano O desflurano promove início e recuperação anestésica muito rápidas devi­ do àsua baixa solubilidade no sangue, que é a menorentre os anestésicos voláteis. A rapidez com a qual o desfluranocausa anestesia e recuperação o tornou um anestésico bastante popular nas cirurgias ambulatoriais. En­ tretanto, ele apresenta baixa volatilidade e, assim, deve ser administrado utilizando-se um vaporizador aquecido especial. Como o isoflurano, ele di­ minui a resistência vascular e irriga muito bem os principais tecidos. Por ser irritante às vias aéreas e poder causar laringoespasmo, tosse e secre­ ções excessivas, o desflurano não é utilizado em induções por inalação. Como é relativamente caro, não é usado para manter anestesias de longa duração. Sua degradação é mínima, e, assim, a toxicidade tissularé rara. H. Sevoflurano O sevoflurano apresenta uma baixa pungência, permitindo rápida indu­ ção sem irritaras vias aéreas; assim, é possível o seu uso na indução por inalação em pacientes pediátricos. Para esse propósito, ele está substi­ tuindo o halotano. O fármaco tem início e recuperação rápidos devido à Farmacologia Ilustrada 141
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    142 Clark, Finkel,Rey & Whalen Arritmias Voopamina + Norepinefrina + Epinefrina Sensibilidade àscatecolaminas 1 y Débitocardíaco V Halotano lsoflurano Desflurano Sevoflurano Aumentam Aumentam Diminui Diminuimenosdo quecomhalotano Diminuimenosdo quecomhalotano Diminuimenosdo quecomhalotano Pressãoarterial Diminuideacordo comadosagem Diminuideacordo comadosagem Diminuideacordo comadosagem Diminuideacordo comadosagem 1 ! ,,>r � � , - ! '"' ';f 1 - " r ._.. Reflexos respiratórios Toxicidade hepática V Figura 1 1 .8 Toxicidade renal Inibidos Algumrisco Baixorisco Características de alguns anestésicos inalatórios. Estimulação inicial Baixorisco Baixorisco Estimulação inicial Baixorisco Baixorisco Inibidos Baixorisco Algumrisco
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    baixa solubilidade nosangue. O sevofluranoé biotransformado nofígado, e os compostos formados no circuito anestésico podem ser nefrotóxicos se o fluxo de ar fresco é muito baixo. 1. Óxido nitroso Óxido nitroso ("gás hilariante") é não irritante e analgésico potente, mas um anestésico geral fraco. Porexemplo, com frequência, ele é empregado em concentrações de 30-50° / o em combinação com oxigênio para anal­ gesia, particularmente em odontologia. No entanto, o óxido nitroso a 80° / o (sem fármacos auxiliares) não produz anestesia cirúrgica. Por isso, comu­ mente é associado com outros fármacos mais potentes para obtenção de anestesia indolor. O óxido nitroso é pouco solúvel no sangue e em outros tecidos, fato que permite que ele se mova rapidamente para dentro e para fora do organismo. (Nota: como o óxido nitroso é rapidamente captado do gás alveolar, pode concentrar os anestésicos halogenados nos alvéolos quando são administrados simultaneamente. Esse fenômeno é conhecido como "efeito do segundo gás".) No interior de compartimentos fechados do organismo, o óxido nitroso pode aumentar o volume (p. ex., causando pneumotórax) ou aumentara pressão (p. ex., nas cavidades sinusais), isso porque ele substitui o nitrogênio nos vários espaços aéreos mais rapida­ mente do que o nitrogênio os abandona. Além disso, sua velocidade de movimentação lhe permite retardar a absorção de oxigênio durante a re­ cuperação, causando "hipoxia de difusão", a qual pode ser superada com a administração de concentrações significativas de oxigênio durante a re­ cuperação. Esse anestésico não deprime a respiração, nem produz rela­ xamento muscular. Nas circunstâncias habituais de coadministração com outros anestésicos, ele apresenta efeito de moderado a nulo sobre o siste­ ma cardiovascular ou sobre o aumento do fluxo sanguíneo cerebral, sendo o menos hepatotóxico dos anestésicos inalatórios. Assim, provavelmente, o óxido nitroso é o mais seguro dos anestésicos, desde que ele seja ad­ ministrado com pelo menos 20° / o de oxigênio simultaneamente. Algumas características dos anestésicos inalatórios são resumidas na Figura 1 1 .8. V. ANESTÉSICOS INTRAVENOSOS Os anestésicos IV causam rápida indução da anestesia. Com frequência, isto é descrito como acontecendo dentro do "tempo de circulação braço-cérebro", ou o tempo que o fármaco gasta para ir do local de injeção (geralmente o braço) até o cérebro, onde tem seu efeito. A anestesia é, então, mantida com emprego de um fármaco inalatório apropriado. Os anestésicos IV podem ser usados como agentes únicos para procedimentos curtos ou administrados como infusão para auxiliar a manutenção da anestesia durante procedimen­ tos longos. Em dosagens baixas, podem ser usados para prover sedação. A. Indução Após entrar na circulação, parte do fármaco se liga às proteínas plasmáti­ cas, e o restante permanece sem ligação, ou "livre''. O grau de ligação às proteínas depende das características físicas de cadafármaco, como o grau de ionização ea lipossolubilidade.Ofármacoétransportadopelosangueve­ noso para o lado direito docoração, segue atravésda circulação pulmonare via o ladoesquerdo docoração para acirculaçãosistêmica.A maiorparte do debito cardíaco (70° / o) circula pelo cérebro, fígado e rins ("órgãos ricos em vasos"). Assim, uma alta proporção do bolus de fármaco inicial é entregue à circulação cerebral e então passa do sangue para o cérebro, de acordo com o gradiente de concentração. A velocidade desta transferência depen­ de da concentração arterial do fármaco livre, da lipossolubilidade e do grau de ionização do fármaco. As moléculas não ionizadas, lipossolúveis e não Farmacologia Ilustrada 143
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    144 Clark, Finkel,Rey & Whalen ligadas atravessam a barreira hematencefálica mais rapidamente. Logo que ofármaco alcançou otecido do SNC, ele exerce seu efeito. Comoosanesté­ sicos inalatórios, o modo exato de ação dos anestésicos IV é desconhecido. B. Recuperação A recuperação dos anestésicos IV é devido à redistribuição a partir do SNC. Após a inundação inicial do SNC e de outros tecidos bem vascula­ rizados com as moléculas não ionizadas, o fármaco começa a difundir-se para outros tecidos com menor suprimento sanguíneo. Com esta cap­ tação tissular secundária, predominantemente pelos músculos esquelé­ ticos, a concentração do fármaco no plasma cai, permitindo a difusão para fora do SNC, de acordo com o gradiente de concentração invertido. Esta redistribuição inicial para outros tecidos leva à rápida recuperação observada após a dose única de um fármaco indutor. A biotransformação e a depuração plasmática só se tornam importantes após a infusão e administrações repetidas do fármaco. O tecido adiposo pouco contribui com a redistribuição inicial do fármaco livre após um bolus, devido à sua escassa vascularização. Entretanto, após dosificações repetidas ou infu­ são, o equilíbrio com o tecido adiposo forma um reservatório de fármaco, levando, com frequência, à recuperação demorada. C. Efeito do débito cardíaco diminuído Em circunstâncias nas quais o débito cardíaco (DC) está reduzido (p. ex., em pacientes em choque, idosos, doença cardíaca, etc.), o orga­ nismo compensa dirigindo uma proporção maior de DC para a circula­ ção cerebral, de modo a conservar o fluxo de sangue no cérebro. Nestas circunstâncias, uma maior proporção de qualquer fármaco vai entrar na circulação cerebral. Como resultado, a dosagem do fármaco indutor deve ser reduzida.Além disso, a redução no DC leva ao aumento do tempo de circulação. Isto é, conforme o DC global é reduzido, o tempo gasto para um fármaco indutor alcançaro cérebro e exercer seu efeito é prolongado. A lentatitulação de uma dosagem reduzida defármaco IV é a chave para a indução segura em pacientes com DC diminuído. D. Propofol O propofol é um fármaco sedativo/hipnótico IV utilizado na indução ou manutenção da anestesia. O propofol é largamente usado e substituiu o tiopentalcomo anestésico de primeira escolha para indução anestésica e sedação por produzir um sentimento de euforia no paciente e não causar náuseas e êmese no período pós-anestésico. 1 . Início. A indução da anestesia é suave e ocorre em 30 a 40 segun­ dos após a administração. Após um bolus IV, ocorre rápido equilíbrio entre o plasma e o tecido altamente perfundido do cérebro, como descrito. Os niveis plasmáticos diminuem rapidamente como resul­ tado da redistribuição, seguido de um período mais prolongado de biotransformação hepática e depuração renal. A meia-vida de redis­ tribuição inicial é de 2 a 4 minutos.A farmacocinética do propofolnão se altera por insuficiência hepática ou renal moderadas. 2. Ações. É necessária suplementação com narcóticos para analge­ sia. Embora o propofol facilite a depressão no SNC, às vezes ele é acompanhado por fenômenos excitatórias, como fasciculações musculares, movimentos espontâneos ou soluços. O propofol dimi­ nui a pressão arterial sem deprimir o miocárdio. Eletambém reduz a pressão intracraniana, principalmente por vasodilatação sistêmica. O propofol possui ação depressiva muito menor do que os anes­ tésicos voláteis sobre os potenciais evocados pelo SNC, como os
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    potenciais somatossensoriais evocados.Essa propriedade torna o propofol muito útil em cirurgias como a de ressecção de tumores espinais, nas quais os potenciais somatossensoriais evocados são monitorados para avaliar a função da medula espinal.O propofolé comumente infundido em dosagens baixas para obter sedação para pacientes ambulatoriais. A incidência de náusea e êmese pós-ope­ ratória é muito baixa com o uso de propofol. E. Fospropofol O fospropofol é um fármaco hidrossolúvel novo, aprovado só para seda­ ção. No organismo, o fospropofolé biotransformado em propofole os seus efeitos farmacológicos são atribuídos ao propofol (assim, o fospropofol é um pró-fármaco do propofo�. Por isso, a concentração de propofolno san­ gue, após a administração de um bolus de fospropofo/, alcança valores menores do que para uma dosagem equipotente de propofo/, e seu efeito crítico é mais demorado. Como o fospropofolé hidrossolúvel, os problemas associados com a formulação lipídica de propofol (como dor no local da injeção IV e maior probabilidade de contaminação bacteriana) são menos frequentes. Após a administração de fospropofo/, a perda de consciência ocorre em 4 minutos, comparável a um tempo de circulação do propofol. F. Barbitúricos O tiopental é um anestésico potente, mas um analgésico fraco. Ele é um barbitúrico de ação ultracurta com alta lipossolubilidade. Quando fármacos como o tiopental e o metoexitalsão administrados por via IV, eles entram rapidamente no SNC e deprimem sua função, em geral em menos de um minuto. Entretanto, a difusão para fora do cérebro também ocorre rapida­ mente devido à redistribuição dofármaco paraoutrostecidosdo organismo, incluindo os músculos esqueléticos e, por último, o tecido adiposo (Figura 11.9). A curta duração da ação anestésica é devida à diminuição da con­ centração de barbitúrico no cérebro para um nível inferior ao necessário para manteraanestesia. Essesfármacos podempermanecer no organismo por períodos relativamente longos após sua administração, já que somente cerca de 15° / o da dose de barbitúricos que penetra na circulação são bio­ transformados pelo fígado a cada hora. Assim, a biotransformação do tio­ pentalé muito mais lenta do que sua redistribuição tecidual. Os barbitúricos não possuem ação analgésica significativa e, assim, necessitam de algum tipo de analgesia suplementar durante a anestesia para evitar alterações indesejáveis na pressãoarterial e nasfunções autônomas. O tiopentalapre­ senta efeitos pouco significativos sobre o sistema cardiovascular, mas pode contribuirpara hipotensão grave em pacientes hipovolêmicosou em choque. Todos os barbitúricos podem causarapneia, tosse, espasmos da parede to­ rácica, laringoespasmoe broncoespasmo. (Nota: o último efeito adverso ne­ cessitaespecial consideraçãoem pacientesasmáticos.) Os barbitúricos são contraindicados em pacientes portadores de partiria intermitente ou outra. G. Benzodiazepínicos Os benzodiazepínicos são utilizados junto com anestésicos para sedar o paciente. O midazolam é o mais comumente empregado. São alterna­ tivos o diazepam e o lorazepam. Os três facilitam a amnésia ao mesmo tempo em que causam sedação, aumentando os efeitos inibitórios de vá­ rios neurotransmissores, particularmente o GABA. Efeitos depressores cardiovasculares mínimos são observados, mas todos são depressores respiratórios potenciais (especialmente quando administrados porvia IV). São biotransformados pelo fígado com meias-vidas de eliminação variá­ veis, e a eritromicina pode prolongar seus efeitos. Os benzodiazepínicos podem induzir uma forma temporária de amnésia anterógrada na qual o Farmacologia Ilustrada 145 � - - m 100 CQ ·- - u e:: ·- Sangue &.5 .� Ili - o � � O "O 'B. E Cérebro Músculo f! & 50 - m e _ CP e g B o ... o 8. - adiposo o 1 10 100 1.000 Minutos Figura 11.9 Redistribuição do tiopental do cérebro aos músculos e tecido adiposo.
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    146 Clark, Finkel,Rey & Whalen paciente retém a memória de eventos passados, mas as novas informa­ ções não são transferidas para a memória de longa duração. Por isso, as informações importantes do tratamento devem ser repetidas ao paciente depois que os efeitos do fármaco desaparecem. H. Opioides Devido à sua propriedade analgésica, os opioides são empregados co­ mumente junto com anestésicos, como na associação com óxido nitroso ou os anestésicos voláteis halogenados. A escolha do opioide para uso peri-cirúrgico se baseia principalmente na duração de ação necessária. Os opioides mais comumente empregados são a fentanila e os congêne­ res sufentanila e remifentanila, pois eles induzem a analgesia com maior rapidez do que a morfina. Eles podem ser administrados por via IV, epi­ dural ou intratecal (no líquido cerebrospinal). Os opioides não são bons amnésicos, e todos podem causar hipotensão, depressão respiratória e rigidez muscular, bem como náuseas e êmese pós-anestésicos. Os efei­ tos dos opioides podem ser antagonizados pela naloxona (ver p. 178). 1. Etomidato O etomidato é utilizado na indução da anestesia. Ele é um fármaco hip­ nótico que não possui atividade analgésica. Ele é pouco hidrossolúvel, sendoformulado em uma solução de propilenoglicol.A indução é rápida, e o fármaco tem ação curta. O etomidato é utilizado somente em pacientes que apresentam doença coronariana ou disfunção cardiovascular, como choque. O etomidato é hidrolisado no fígado. Entre suas vantagens, está o efeito pequeno ou nulo sobre o coração e a circulação. Os efeitos adver­ sos incluem diminuição dos níveis plasmáticos de cortisol e aldosterona, que podem persistir por até oito horas. Esse efeito é aparentemente devi­ do à inibição da 1 1-[3-hidroxilase. O etomidato não deve ser infundido por um período longo, já que a supressão prolongada desses hormônios pode ser perigosa. Pode ocorrer dor venosa no local de injeção, e movimentos involuntários dos músculos esqueléticos não são incomuns. O último é tratado com a administração de benzodiazepínicos e opioides. J. Cetamina A cetamina é um anestésico não barbitúrico de ação curta, que induz um estado dissociativo, no qual o paciente fica inconsciente (mas pode parecer acordado) e não sente dor. Essa anestesia dissociativa promove sedação, amnésia e imobilidade. A cetamina interage com o receptor N­ -metil-D-aspartato (NMDA). Ela também estimula o efluxo simpático cen­ tral, o que, por sua vez, causa estimulação do coração com aumento da pressão arterial e do débito cardíaco. Essa propriedade é especialmente útil em pacientes em choque hipovolêmico ou cardiogênico, bem como em pacientes asmáticos. Por isso, a cetamina é utilizada quando a de­ pressão circulatória não é desejável. Por outro lado, esses efeitos impe­ dem o uso da cetamina em pacientes hipertensos ou infartados. O fár­ maco é lipofílico e penetra a circulação cerebral bem rapidamente. Como os barbitúricos, ele redistribui-se para outros órgãos e tecidos. A cetami­ na é biotransformada no fígado, mas pequenas quantidades podem ser excretadas inalteradas. Ela é empregada principalmente em crianças e idosos, em procedimentos de curta duração. No entanto, ela não é muito utilizada, pois aumenta o fluxo sanguíneo cerebral e induz alucinações pós-operatórias ("pesadelos"), particularmente em adultos. K. Dexmedetomidina A dexmedetomidina é uma medicação sedativa usada em unidades de tratamento intensivo e poranestesiologistas. Ela é relativamente única em
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    Desvantagens terapêuticas Figura 11.10 •Deve ser administrado com vaporizadorespecial • Anestesia incompleta • Não causa relaxamento muscular • Deve ser usado com outros anestésicos para se obter anestesia cirúrgica • Reduz o fluxo sanguíneo hepático e renal • Diminui a pressão arterial • Sensibiliza o miocárdio à ação das catecalominas • Toxicidade hepática • Arritmias • Possível toxicidade renal em fluxos baixos • Escassa analgesia • Causa náuseas significativas • Pouco relaxamento muscular • Laringoespasmo • Escassa analgesia Anestésicos inalatórios Desflurano Óxido nitroso Halotano /soflurano Sevoflurano Anestésicos intravenosos Tiopental Propofol Dexmedetomidina Desvantagens e vantagens terapêuticas de alguns anestésicos. sua capacidade de provocar sedação sem causar depressão respiratória. Como a clonidina, o mecanismo de ação é agonismo em receptores a2 em certas regiões do cérebro. A dexmedetomidi na tem efeitos sedativos, analgésico, simpaticolítico e ansiolítico que bloqueiam várias das respos­ tas cardiovasculares no período perioperatório. Ela reduz a necessidade de anestésico volátil, sedativos e analgésicos do paciente sem causar depressão respiratória significativa. Algumas vantagens e desvantagens terapêuticas dos agentes anestésicos são resumidas na Figura 1 1 .1 O. VI. BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES/ PARALISANTES Os bloqueadores neuromusculares são usados para abolir reflexos visando a facilitar a entubação traqueal e para obter relaxamento muscular necessário para certos tipos de cirurgias. O mecanismo de ação é o bloqueio dos recep­ tores nicotínicos da acetilcolina na junção neuromuscular. Estes fármacos, que incluem cisatracúrio, pancurônio, rocurônio, succinilcoli na e vecurônio, são descritos nas p. 64-67. Farmacologia Ilustrada 147 Vantagens terapêuticas • Boa analgesia • Início e recuperação rápidos • Seguro, não irritante • Bom relaxamento muscular • Recuperação rápida • Débito cardíaco estável • Não aumenta a pressão intracraniana • Não sensibiliza o coração à epinefrina • Relaxamento da musculatura lisa brõnquica, bom para pacientes com asma • Início e recuperação rápidos • Não irritante, útil em crianças • Rápido início de ação • Anestesia potente • Náuseas improváveis • Início rápido • Diminui a pressão intracraniana • Não causa depressão respiratória • Bloqueia reflexos cardiovascu­ lares indesejados Figura 11.11 Estruturas representativas de anestési­ cos tipo éster e amida.
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    148 Clark, Finkel,Rey & Whalen VII. ANESTÉSICOS LOCAIS Os anestésicos locais bloqueiam as sensações, e em concentrações mais ele­ vadas, a atividade motora de uma área limitada do organismo. Eles são apli­ cados ou injetados para bloquear a condução nervosa de impulsos sensoriais desde a periferia até o SNC. A anestesia local ocorre quando a propagação dos potenciais de ação é bloqueada, de modo que a sensação não pode ser transmitida desde o local de origem do estímulo até o cérebro. O anestésico local atua bloqueando os canais iônicos de sódio impedindo o aumento transi­ tório na permeabilidade da membrana do nervo ao sódio, o que é necessário para acontecer o potencial de ação. As técnicas de administração incluem aplicação tópica, infiltração, bloqueios em anéis, bloqueios de nervos periféri­ cos e neuroaxiais (espinais, epidural ou caudal). As pequenas fibras nervosas amielínicas que conduzem os impulsos de dor, temperatura e atividade autô­ noma são mais sensíveis à ação dos anestésicos locais. Estruturalmente, os anestésicos locais têm características fundamentais em comum, incluindo um grupo lipofílico ligado por uma amida ou ligaçãoéstera uma cadeia carbonada que, por sua vez, está unido a um grupo hidrofílico (Figura 1 1 . 1 1). Os fár­ macos mais amplamente utilizados são bupivacaína, lidocaína, mepivacaína, procaína e tetracaína, sendo a lidocaína a mais comumente empregada. A bupivacaína se destaca porsua cardiotoxicidade.A mepivacaína não deve ser usada na anestesia de gestantes devido à sua toxicidade aos recém-nascidos. A. Biotransformação A biotransformação das amidas ocorre primariamente no fígado. A pri/o­ caína também é biotransformada no plasma e nos rins, e um dos seus metabólitos causa metemoglobinemia. Os ésteres são biotransformados pela colinesterase do plasma (pseudocolinesterase). Pode-se esperar que pacientes com deficiência de pseudocolinesterase biotransformam os anestésicos locais do tipo éster mais lentamente. Contudo, em dosa­ gens normais, isso tem pouco significado clínico. A redução da função hepática predispõe o paciente aos efeitos tóxicos, mas não aumenta sig­ nificativamente a duração de ação do anestésico local. B. Início e duração de ação O início e a duração da ação dos anestésicos locais são influenciadas por vários fatores, incluindo o pH do tecido, o pKª do fármaco, a morfologia do nervo, a concentração e a lipossolubilidade. Destes, os mais importantes são o pH do tecido e o pKª do fármaco. No pH fisiológico, estes compostos são ionizados. A forma ionizada interage com o receptor proteico do canal de sódio inibindosuafunção e produzindo a anestesia local. O pH pode cair em locais de infecção, o que causa retardo no início ou mesmo impede o efeito. Dentro de limites, maiores concentração ou lipossolubilidade melho­ ram o efeito em algum grau. A duração da ação depende do tempo que o anestésico permanece no nervo bloqueando os canais de sódio. C. Ações Os anestésicos locais causam vasodilatação, que leva à rápida difusão para fora do local de ação e resulta em duração breve quando estes fár­ macos são administrados sós. Acrescentando o vasoconstritor epinefrina ao anestésico local, a velocidade de difusão do anestésico e a absorção diminuem. Isso minimiza a toxicidade sistêmica e aumenta a duração de ação. A função hepática não afeta a duração de ação da anestesia lo­ cal, que é determinada pela redistribuição, e não por biotransformação. Alguns dos anestésicos locais conferem benefícios adicionais, como o efeito antiarrítmico da lidocaína quando administrada por via IV.
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    D. Reações alérgicas Oregistro de reações alérgicas aos anestésicos locais é comum, mas as investigações mostram que a maioria destas é de origem psicogênica. Reações psicogênicas com frequênciasão mal diagnosticadas como rea­ ções alérgicas e também podem mimetizá-las, com sinais como urticaria, edema e broncoespasmo. Alergias verdadeiras às amidas são muito ra­ ras, e o éster procaína é um pouco mais alergênico. A alergia a um éster exclui o uso de outro éster, porque o componente alergênico é o produto da biotransformação ácido p-aminobenzoico, e a biotransformação de to­ dos os ésteres resulta na produção deste composto. Em contraste, uma alergia a uma amida não exclui o uso de outra. O paciente pode ser alér­ gico a outros compostos do anestésico local, como os conservantes nos frascos de doses múltiplas. E. Administração a crianças e idosos Antes de administrar um anestésico local a uma criança, deve ser calcu­ lada a dose máxima com base na massa corporal da criança para evitar o risco de dosagem excessiva. Não há diferenças significativas na res­ posta aos anestésicos locais entre adultos jovens ou idosos, e as doses necessárias para cada bloqueio são as mesmas independentes da idade do paciente. Entretanto, é prudente permanecer bem abaixo da dosagem máxima recomendada em pacientes idosos que têm comprometimento da função hepática. Como pode haver certo grau de comprometimen­ to cardiovascular em pacientes idosos, a redução da dose de epinefrina pode ser prudente. Recomendações prévias, hoje consideradas incorre­ tas, excluiam o uso de anestésicos locais específicos em pacientes sus­ cetíveis à HM. Atualmente é bem aceito que todos os anestésicos locais são seguros para estes pacientes. F. Toxicidade sistêmica dos anestésicos locais As concentrações tóxicas do fármaco no sangue podem ser devidas a injeções repetidas ou ser resultado de uma injeção IV única e inadvertida. Biotransformação Rápidapelacolinesteraseplasmática Toxicidadesistêmica Poucoprovável Reaçõesalérgicas Possível-formaderivadosdoPABA Estabilidadeemsolução Hidrolisaemampolas(calor,sol) Iníciodeação Lentacomoregrageral MaiordoqueopHfisiológico(8,5-8,9) POT�NCIA INÍCIO Procaína Baixa Rápido C/oroprocaína Baixa Rápido Tetracaína Alta Lento Lidocaína Baixa Rápido Mepivacaína Baixa Moderado Bupivacaína Alta Lento Ropivacaína Alta Moderado Figura 11.12 Farmacologia Ilustrada 149 Lenta,hepática Maisprovável Muitorara Muitoestávelquimicamente Moderadaàrápida PróximodopHfisiológico(7,6-8,1) DURAÇÃO Curta Curta Longa(espinal) Intermediária Intermediária Longa Longa Resumo das propriedades farmacológicas de alguns anestésicos locais. PABA = ácido p-aminobenzoico.
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    150 Clark, Finkel,Rey & Whalen A aspiração antes de cada injeção é fundamental para a segurança. Os sinais, os sintomas e o tempo da toxicidade sistêmica dos anestésicos locais são imprevisíveis. O passo mais importante no tratamento da toxi­ cidade dos anestésicos locais é consideraro diagnóstico em qualquer pa­ ciente com estado mental alterado ou instabilidade cardiovascular após a injeção do anestésico local. Os sintomas do SNC (seja excitação ou depressão do SNC) podem seraparentes, mas também podem ser sutis, não específicos ou ausentes. O tratamento da toxicidade sistêmica dos anestésicos locais inclui a manutenção davia aérea, o apoio à respiração e à circulação, o controle de convulsões e, se necessário, a ressuscitação cardiopulmonar. A administração por infusão de emulsão lipídica a 20° / o (tratamento de resgate lipídico) é conduta promissora no tratamento da toxicidade dos anestésicos locais. Ver Figura 1 1 .1 2 para um resumo das propriedades farmacológicas de alguns anestésicos locais. Questões para estudo Escolha a resposta correta. 1 1 .1 Qual dos seguintes fármacos é um potente analgésico, mas um anestésico fraco? A. Etomidato B. Halotano C. Midazolam D. Óxido nitroso E. Tiopental 1 1 .2 A potência dos anestésicos inalatórios é definida quantita­ tivamente como: A. Coeficiente de partição sangue/gás B. Resistência cérebro-vascular C. Concentração alveolar mínima D. Índice de volatilidade E. Fator de sensibilidade 1 1 .3 A recuperação por fármacos de indução IV ocorre por: A. Biotransformação hepática B. Ligação a proteínas C. Ionização D. Redistribuição a partir de locais no SNC E. Depuração plasmática 1 1 .4 Qual dos seguintes fármacos é um potente anestésico in­ travenoso, mas um analgésico fraco? A. Propofol B. Benzodiazepínicos C. Cetamina D. Etomidato E. lsoflurano 1 1 .5 Os anestésicos locais: A. Afetam somente as fibras nervosas pequenas e amielí- nicas B. Têm um grupo lipofílico e um hidrofílico C. Têm uma ligação amida e uma éster D. Não são afetados pelo pH do tecido nem pelo pK ª do fármaco E. Na sua forma ionizada, interagem com o receptor pro­ teico dos canais de cálcio Resposta correta = D. O etomidato é um fármaco hipnótico, mas ca­ rece de atividade analgésica. O midazolam é um sedativo/amnésti­ co comum. O halotano e o tiopental são anestésicos potentes com pouco efeito analgésico. O óxido nitroso proporciona boa analgesia, mas é um anestésico fraco que precisa ser associado com outros fármacos para completar a anestesia. Resposta correta = C. A potência dos anestésicos inalatórios é de­ finida pela CAM, equivalente à dose eficaz média (DE50) dos anes­ tésicos. A partição sangue/gás determina a solubilidade do gás no sangue. A resistência cérebro-vascular diminui com os anestésicos inalatórios. O índice de volatilidade e o fatorde sensibilidade nãosão termos associados com os anestésicos inalatórios. Resposta correta = D. Após a "inundação" inicial do SNC com as moléculas não ionizadas, elas difundem para outros tecidos. Com a captação tecidual secundária, a concentração plasmática diminui, permitindo que o fármaco difunda para fora do SNC. Esta redistribui­ ção inicial do fármaco para outros tecidos leva à rápida recuperação observada após uma dosificação simples de um fármaco indutor IV. A ligação às proteínas, a ionização e a lipossolubilidade afetam a velocidade de transferência. Respostacorreta =A. O propofol é um potente anestésico, mas é um analgésico fraco. Ele é o anestésico geral intravenoso mais ampla­ mente utilizado. Ele tem grande lipossolubilidade. As outras opções não atendem ao perfil. Resposta correta = C. As fibras nervosas pequenas e amielínicas que conduzem os impulsos de dor, temperatura e atividade autonô­ mica são as mais sensíveis à ação dos anestésicos locais, mas as outras fibras também são afetadas. Os anestésicos locais têm um grupo lipofílico unido por uma ligação amida ou éster a uma cadeia de carbono que, por suavez, se une a um grupo hidrofílico.O inícioe a duração de ação do anestésico local são influenciadas pelo pH do tecidoe pelo pKª dofármaco. Os anestésicos locais atuam bloquean­ do os canais de sódio.
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    , ar acos • ress 1vos 1.RESUMO Os sintomas da depressão são sensações intensas de melancolia, desespe­ rança e desespero, bem como incapacidade de sentir prazer em atividades usuais, alterações nos padrões de sono e apetite, perda de vigor e pensa­ mentos suicidas. A mania é caracterizada pelo comportamento oposto, ou seja, entusiasmo, pensamentos e fala rápidos, extrema autoconfiança e dimi­ nuição de autocrítica. (Nota: a depressão e a mania são diferentes da esqui­ zofrenia (ver p. 161), a qual provoca transtornos do pensamento.) li. MECANISMOS DOS FÁRMACOS ANTIDEPRESSIVOS A maioria dos fármacos antidepressivos úteis clinicamente potencializa, direta ou indiretamente, as ações da norepinefrina e/ou serotonina no cérebro. (Ver Figura 12.1 para um resumo dos fármacos antidepressivos.) Isso, juntamente com outras evidências, levou à teoria das aminas biogênicas, que propõe que a depressão se deve às deficiências das monoaminas, como norepinefrina e serotonina, em certos locais-chave do cérebro. A teoria propõe que a mania é causada por produção excessiva desses neurotransmissores. Contudo, a teoria das aminas para depressão e mania é muito simplista. Ela não explica o motivo pelo qual os efeitos farmacológicos de qualquer antidepressivo e antimania na neurotransmissão ocorrem imediatamente, ao passo que a evo­ lução temporal para a resposta terapêutica precisa de várias semanas. Além disso, a potência dos antidepressivos no bloqueio dacaptação do neurotrans­ missor com frequência não se correlaciona com os efeitos antidepressivos observados clinicamente. Isso sugere que a diminuição da captação do neu­ rotransmissor é só o efeito inicial do fármaco, que pode não ser diretamente responsável pelos efeitos antidepressivos. Foi proposto que a densidade dos receptores inibitórios pré-sinápticos no cérebro diminui em 2 a 4 semanas com o uso do antidepressivo. Essa dessensibilização dos receptores inibitó­ rios permite maiorsíntese e liberação de neurotransmissores na fenda sináp­ tica e aumenta a sinalização nos neurônios pós-sinápticos, presumivelmente levando à resposta terapêutica. INIBIDORES SELETIVOS D A CAPTAÇÃO DE SEROTONINA (ISCS) Citalopram Escitalopram Fluoxetina Fluvoxamina Paroxetina Sertralina INIBIDORES DA CAPTAÇÃO DE SEROTONINAE NOREPINEFRINA (IRSN) Desvenlafaxina Duloxeti na Venlafaxi na ANTIDEPRESSIVOS ATÍPICOS Bupropiona Mirtazapina Nefazodone Trazodone ANTIDEPRESSIVOS TRICÍCLICOS (ADT) Amitriptilina Amoxapina Clomi pramina Desipramina Doxepina lmipramina Maprotilina Nortriptilina Protriptilina Trimi pramina INIBIDORES DA MONOAMINA OXIDASE (IMAO) Figura 12.1 /socarboxazida Fenelzina Se/egili na Tranilcipromina Resumo dos antidepressivos (Continua na próxima pági na.)
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    152 Clark, Finkel,Rey & Whalen FÁRMACOS USADOS PARA TRATAR DISTÚRBIOS BIPOLARES E MANIA , Acido valproico Carbamazepina Lítio Figura 12.1 (Continuação) Resumo dos antidepressivos. FÁRMACO INIBIÇÃO DA CAPTAÇÃO Norepine- Serotonina frina Inibidores seletivos da captação de serotonina Fluoxetina o ++++ Inibidores da captação de noreplnefrlna e serotonlna Venlafaxlna ++* ++++ Duloxetlna ++++ ++++ Antidepressivo tricíclico lmipramlna ++++ +++ Figura 12.2 Especificidade relativa pelos recepto­ res de alguns fármacos antidepressi­ vos. ++++ = afinidade muito forte; +++ = afinidade forte; ++ = afinidade mode­ rada; + = afinidade fraca; O = pouca ou nenhuma afinidade. *A venlafaxina inibe a captação da no­ repinefrina apenas em doses altas. Figura 12.3 Administração de antidepressivo Depressão Início deação 2 a 12 semanas Efeito antidepressivo O início do efeito terapêutico dos princi­ pais antidepressivos precisa de várias semanas. - Ili. INIBIDORES SELETIVOS DA CAPTAÇAO DE SEROTONINA Os inibidores seletivos da captação da serotonina (ISCSs) são um grupo de fármacos antidepressivos quimicamente heterogêneos que inibem especifica­ mente a captação da serotonina, apresentando uma seletividade 300 a 3.000 vezes maior para o transportador de serotonina do que para o de norepine­ frina. Isso contrasta com os antidepressivos tricíclicos (ADT, ver p. 155) que inibem não seletivamente a captação de norepinefrina e serotonina (Figura 12.2). Ambas as classes de antidepressivos pouco bloqueiam o transportador dedopamina.Além disso, os ISCSstêm escassa atividade bloqueadora em re­ ceptores muscarínicos, a-adrenérgicos e H1 histamínicos. Portanto, os efeitos adversos comuns associados aos ADT, como hipotensão ortostática, sedação, xerostomia e visão borrada, não são observados comumente com os ISCSs. Como têm menos efeitos adversos e são relativamente seguros, mesmo em dosagens excessivas, os ISCSs substituíram os ADT e os IMAO como fárma­ cos de escolha no tratamento da depressão. Os ISCSs incluem fluoxetina - o fármaco protótipo, citalopram, escitalopram, f/uvoxamina, paroxetina e sertrali­ na. O citalopram e a f/uoxetinasão misturas racêmicas, das quais os respecti­ vos S-enantiômeros são os inibidores mais potentes da bomba de captaçãode serotonina. O escitalopram é o S-enantiômero puro do citalopram. A. Ações Os ISCSs bloqueiam a captação de serotonina, levando ao aumento da concentração do neurotransmissor na fenda sináptica e, finalmente, à maior atividade neuronal pós-sináptica. Os antidepressivos, incluindo os ISCSs, em geral precisam de duas semanas para produzir melhora signi­ ficativa no humor, e o benefício máximo pode demoraraté 12 semanas ou mais (Figura 12.3). Contudo, nenhum dos antidepressivos é uniformemen­ te eficaz. Cerca de 40° / o dos pacientes deprimidos tratados com doses adequadas defármaco antidepressivo durante 4 a 8 semanas não respon­ dem a ele. Os pacientes que não respondem a um antidepressivo podem responder a outro, e aproximadamente 80° / o ou mais respondem a pelo menos um antidepressivo. (Nota: em geral, esses fármacos não produzem estimulação do SNC, nem melhoram o humor em indivíduos normais.) B. Usos terapêuticos A indicação primária dos ISCSs é a depressão, para a qual eles são tão eficazes quanto os ADT. Vários outros transtornos psiquiátricos também respondem favoravelmente aos ISCSs, incluindo transtorno obsessivo­ -compulsivo, transtorno de pânico, transtornos de ansiedade generaliza­ da, de estresse pós-traumático, de ansiedade social, transtorno disfórico pré-menstrual e bulimia nervosa (para esta última indicação, só a fluoxe­ tina está aprovada). C. Farmacocinética Todos os ISCSs são bem absorvidos após administração oral. Os picos sé­ ricos ocorrem em média entre 2 e 8 horas. Alimentos tem pouca influência naabsorção (excetocom a sertralina, cujaabsorçãoaumentacoma alimen­ tação). Somente a sertralina sofre biotransformação de primeira passagem significativa. A maioria dos ISCSs tem meia-vida entre 16 e 36 horas. Ocor­ re extensa biotransformação pelo citocromo P450 (CIP450) e conjugação com glicuronídeo ou sulfato. (Nota: em geral, esses metabólitos não contri­ buem para o efeito farmacológico.) A fluoxetina difere dos outros membros da classe em dois aspectos. Primeiro, ela tem meia-vida muito maior (50 horas) e está disponível em uma preparação de liberação lenta, permitindo uma dosagem semanal única. Segundo, o metabólito do S-enantiômero, S-
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    -norfluoxetina, étão potentequantoocompostooriginal.A meia-vidado me­ tabólito é muito longa, alcançando 1O dias. A f/uoxetina e a paroxetina são potentes inibidores da isoenzima CIP450 (CIP2D6) hepática responsável pela eliminação dos fármacos ADT, neurolépticos e alguns antiarrítmicos e antagonistas [3-adrenérgicos. (Nota: cerca de 7° /o da população branca não têm essa enzima P450 e, por isso, biotransformam a f/uoxetina e ou­ tros substratos dessa enzima muito lentamente. Esses indivíduos podem sercaracterizados na literatura como"maus metabolisadores".) Outrasenzi­ mascitocromais (CIP2C9/19, CIP3A4, CIP1A2) estãoenvolvidas com a bio­ transformação do ISCS e podemtambém serinibidasem vários graus pelos ISCS. Assim, eles podem afetar a biotransformação de múltiplos fármacos. A excreção dos ISCSs ocorre principalmente pelos rins, excetoa paroxetina ea sertralina, as quaistambém podem sofrerexcreçãofecal (35e 50%, res­ pectivamente). As dosagens de todos esses fármacos devem ser ajustadas para menos em pacientes com insuficiência hepática. D. Efeitos adversos Embora se considere que os ISCSs tenham efeitos adversos menos graves do que os ADT e os IMAO, eles não estão livres de efeitos ad­ versos desagradáveis, como cefaleia, sudoração, ansiedade e agita­ ção, efeitos gastrintestinais (náuseas, êmese e diarreia), fraqueza e cansaço, disfunções sexuais, alterações de massa corporal, distúrbios do sono (insônia e sonolência) e interações farmacológicas potenciais mencionadas (Figura 12.4). 1. Distúrbios do sono. A paroxetina e a fluvoxamina em geral são mais sedativas do que estimulantes e elas podem ser úteis em pa­ cientes que têm dificuldade em dormir. Pacientes que se sentem cansados ou se queixam de sonolência excessiva podem se bene­ ficiar de um dos antidepressivos mais estimulantes, como a fluoxeti­ na e a sertrali na. 2. Disfunções sexuais. Perda de libido, retardo na ejaculação e anor­ gasmia são efeitos adversos de que poucos se queixam, notado pelos clínicos com frequência, mas eles não são destacados na re­ lação dos efeitos adversos padrão. Uma opção para lidar com as disfunções sexuais induzidas pelos ISCSs é substituir o antidepres­ sivo causador por outro com menos efeitos adversos sexuais, como a bupropiona ou a mirtazapina. Alternativamente, a dosagem pode ser diminuída. Em homens com disfunções eréteis e depressão, o tratamento com sildenafila, vardenafila ou tadalafila (ver p. 363) pode melhorar a função sexual. 3. Uso em crianças e adolescentes. Os antidepressivos devem ser usados com cautela em crianças e adolescentes, pois cercade uma entre 50 crianças torna-se suicida em consequência do tratamento com ISCS. Pacientes pediátricos devem ser observados quanto ao agravamento da depressão e à tendência suicida sempre que um desses fármacos for iniciado ou sua dosagem for aumentada ou diminuída. Fluoxetina, sertralina e f/uvoxamina são aprovados pela FDA dos EUA, para o tratamento do transtorno obsessivo-compulsi­ vo em crianças, e a fluoxetina, para tratar a depressão na infância. 4. Dosagem excessiva. Em geral, a ingestão elevada de ISCSs não causa arritmias cardíacas (comparado ao risco de arritmias dosADT), mas convulsões podem ocorrer porque todos os antidepressivos po­ dem reduzir o limiar convulsivo. Todos os ISCSs têm potencial para causar a síndrome da serotonina, que pode incluir sinais de hiperter­ mia, rigidez muscular, sudoração, mioclonia (abalos musculares clôni- Farmacologia Ilustrada 153 v = - ,.= o ===ti o Náusea V Ansiedade Sonolência Insônia Disfunção sexual v=� Interação de fármacos Figura 12.4 Alguns dos efeitos adversos comumen­ te observados com o uso dos inibidores seletivos de captação de serotonina.
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    154 Clark, Finkel,Rey & Whalen O fármaco antide­ pressivo bloqueia a captação do NEURÔNIO neur ,,.. ot _ ra _ n _ sm _ i _ ss _ o _ r. _, PRÉ-SINÁPTICO Serotonina Norepineflina / _.....-Ven/afaxina O Duloxetina NEURÔNIO LJ=Ll FENDA SINÁPTICA PÓS- Resposta pós-sináptica -SINÁPTICO Figura 12.5 Mecanismo de ação proposto para os fármacos antidepressivos inibidores de captação de serotoninae norepinefrina. cos), alterações do estado mental e dos sinais vitais quando usados na presençade IMAO ou outrofármacoaltamente serotoninérgico. Por isso, deve-se obedecera longos períodos de eliminação de cada clas­ se de fármaco antes de administraro de uma nova classe. 5. Síndrome da interrupção. Embora todos os ISCS tenham poten­ cial paracausar a síndrome de interrupção quando retirados subita­ mente, os fármacos com as meias-vidas menores e com metabóli­ tos inativos apresentam maior risco de causar esse efeito adverso. A f/uoxetina tem o menor risco de causar a síndrome. Os possíveis sinais e sintomas da síndrome da interrupção relacionada à sero­ tonina incluem cefaleia, mal-estar e sintomas de gripe, agitação e irritabilidade, nervosismo e alterações no padrão de sono. - IV. INIBIDORES DA CAPTAÇAO DE SEROTONINA/ NOREPINEFRINA V enlafaxina, desvenlafaxina e duloxetina inibem a captação de serotonina e norepinefrina (Figura 12.5). Esses fármacos, denominados inibidores de cap­ tação de serotonina e norepinefrina (ICSNs) seletivos, podem ser eficazes no tratamento de depressão em pacientes nos quais os ISCSs foram ineficazes. Além disso, a depressão com frequência é acompanhada de sintomas dolo­ rosos crônicos, como dor lombar e dor muscular, contra os quais os ISCSs são relativamente ineficazes. Essas dores são, em parte, moduladas por vias de serotonina e norepinefrina no SNC. Os ICSNs e os ADT, com sua dupla ação de inibira captação de serotonina e de norepinefrina, algumas vezes são eficazes no alívio dos sintomas físicos da dor neuropática, como a neuropatia periférica diabética. Contudo os ICSNs, ao contrário dos ADT, têm pouca ati­ vidade em receptores adrenérgicos, muscarínicos ou histamínicos e, assim, têm menos dos efeitos adversos mediados por esses receptores do que os ADT (ver Figura 12.2). A venlafaxina, a desvenlafaxina e a duloxetina podem causarsíndrome de interrupção se o tratamento é suspenso de modo súbito. A. Venlafaxina e desvenlafaxina A venlafaxina é um potente inibidor da captação de serotonina e, em do­ sagens médias e altas, é inibidor da captação de norepinefrina. Esse fár­ maco também é um inibidorfraco dacaptação de dopaminaem dosagens elevadas. A venlafaxina produz inibição mínima das isozimas CIP450 e é substrato da isoenzima CIP2D6. A meia-vida do composto original mais seu metabólito ativo é cerca de 1 1 horas. A desvenlafaxi na é o metabólito ativo, desmetilado da venlafaxina. Os efeitos adversos mais comuns da venlafaxina são náuseas, cefaleia, disfunções sexuais, tonturas, insônia, sedação e constipação. Em doses elevadas, pode ocorrer aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. Considera-se que a desvenla­ faxina não tem efeitos clínicos e adversos comparado com a venlafaxi na. B. Duloxetina A duloxetina inibe a captação de serotonina e norepinefrina em todas as dosagens. Ela é biotransformada no fígado a numerosos metabólitos. A duloxetina não deve ser administrada em pacientes com insuficiência hepática. Os metabólitos são excretados na urina, e o uso da duloxetina não é recomendado em pacientes com doença renal em estágio terminal. Alimentos retardam a sua absorção. A sua meia-vida é de aproximada­ mente 1 2 horas. Efeitos adversos gastrintestinais são comuns com esse fármaco, incluindo náuseas, xerostomia e constipação. Diarreia e êmese são observados com menos frequência. Insônia, tonturas, sonolência e sudoração também são observadas. Também ocorre disfunção sexual e
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    o risco deaumento da pressão arterial ou dafrequênciacardíaca. A du/o­ xetina é um inibidor moderado das isoenzimas CIP2D6 e CIP3A4. V. ANTIDEPRESSIVOS ATÍPICOS Os antidepressivos atípicos são um grupo misto de fármacos que têm ação em vários locais diferentes. Esse grupo inclui bupropiona, mirtazapina, nefa­ zodona e trazodona. Eles não são mais eficazes do que os ADT ou os ISCSs, mas seus perfis de efeitos adversos são diferentes. A. Bupropiona Esse fármaco atua como um fraco inibidor da captação de dopamina e norepinefina, aliviando os sintomas de depressão. Sua meia-vida curta pode exigir mais de uma dosagem por dia ou uma administração de for­ mulações de liberação lenta. A bupropiona ajuda a diminuir a compul­ são por nicotina e atenua os sintomas de abstinência dos usuários que tentam parar de fumar. Os efeitos adversos podem incluir xerostomia, sudoração, nervosismo, tremores, baixa incidência de disfunções sexuais e risco aumentado de convulsões em doses elevadas. A bupropiona é biotransformada pelavia CIP2D6 e é consideradacomo de baixo risco de interações com outros fármacos. A dosagem diária de bupropiona deve se manter dentro das recomendações do fabricante para minimizar o ris­ co de convulsões que podem ocorrer nas dosagens acima das recomen­ dadas. Seu uso deve ser evitado em pacientes sob risco de convulsões ou que sofrem de transtornos da alimentação (como a bulimia). B. Mirtazapina Esse fármaco aumenta a neurotransmissão por serotonina e norepinefrina bloqueando os receptores a2 pré-sinápticos. Além disso, parte da atividade antidepressiva é devida ao bloqueio de receptores 5HT2• Esse fármaco é sedativo devido à sua potente atividade anti-histamínica, mas não causa os efeitos adversos antimuscarínicos dosADT, nem interfere nafunçãosexual, como os ISCSs. Frequentemente ocorre aumento do apetite e da massa corporal (Figura 12.6). A mirtazapina é acentuadamente sedativa, o que é uma vantagem em pacientes deprimidos com dificuldade em dormir. C. Nefazodona e trazodona Esses fármacos são inibidores fracos da captação de serotonina. Seus efeitos terapêuticos parecem estar relacionados com a capacidade de bloqueio dos receptores 5HT2A pós-sinápticos. Com o uso crônico, esses fármacos podem insensibilizar autorreceptores pré-sinápticos SHT,A e, assim, aumentar a liberação de serotonina. Os dois fármacos são seda­ tivos, provavelmente devido à potente atividade bloqueadora H,. A trazo­ dona foi associada ao priapismo, e a nefazodona, ao risco de hepatoto­ xicidade. Ambos os fármacos são antagonistas leves a moderados nos receptores-a,, o que contribui para a ortostasia e tonturas. VI. ANTIDEPRESSIVOSTRICÍCLICOS Os antidepressivos tricíclicos (ADTs) bloqueiam a captação de norepinefrina e serotonina no neurônio e, portanto, se fossem descobertos atualmente, po­ deriam ser adicionados aos ISCN, exceto pelas diferenças nos efeitos adver­ sos dessa nova classe de antidepressivos. Os ADTs incluem as aminas ter­ ciárias, imipramina (fármaco protótipo), amitriptilina, clomipramina, doxepina e trimipramina. Os ADTs também incluem as aminas secundárias, desiprami­ na e nortriptilina (metabólitos N-desmetilados da imipramina e da amitri ptilina, Farmacologia Ilustrada 155 v==� V Figura 12.6 Zz z Aumento de massa corporal Sedação Alguns efeitos adversos comumente observados da mirtazapina.
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    156 Clark, Finkel,Rey & Whalen Aumento de massa corporal Xerostomia Constipação Retenção urinária Visão borrada Taquicardia Arritmias Náuseas Sonolência Figura 12.7 V ,, V V V E li E o o Alguns dos efeitos adversos comumen­ te observados com os antidepressivos tricíclicos. respectivamente), e protriptilina. Maprotilinae amoxapinasão antidepressivos "tetracíclicos" e comumente são incluídos na classe geral dos ADTs. Todos têm eficácias terapêuticas similares, e a escolha do fármaco específico pode depender de questões como tolerância do paciente aos efeitos adversos, a respostas prévias, a condições médicas preexistentes e à duração de ação. Pacientes que não respondem a um ADT podem se beneficiar de outrofárma­ co desse grupo. Esses fármacos são uma alternativa valiosa para pacientes que não respondem aos ISCSs. A. Mecanismo de ação 1 . Inibição da captação do neurotransmissor. Os ADTs e a amoxa­ pina são potentes inibidores da captação neuronal de norepinefrina e serotonina no terminal nervoso pré-sináptico. Em concentrações terapêuticas, eles não bloqueiam os transportadores de dopamina. Bloqueando a principal via de remoção de neurotransmissor, os ADTs causam aumento da concentração de monoaminas na fenda sináptica, resultando no efeito antidepressivo. Maprotilina e desipra­ mina são inibidores relativamente seletivos da captação de norepi­ nefrina. 2. Bloqueio de receptores. Os ADTs também bloqueiam os recep­ tores serotonérgico, a-adrenérgico, histamínico e muscarínico (ver Figura 12.3). Não é conhecido se alguma dessas ações é respon­ sável pelo efeito terapêutico. Contudo, as ações nesses receptores provavelmente são responsáveis por muitos dos vários efeitos in­ desejados dos ADTs. A amoxapinatambém bloqueia os receptores 5-HT2 e D2• B. Ações Os ADTs melhoram o humor e o alerta mental, aumentam a atividade fí­ sica e reduzem a preocupação mórbida em 50 a 70° / o dos indivíduos com depressão. O início da melhora do humor é lento, necessitando de duas semanas ou mais (ver Figura 12.3). Em geral, esses fármacos não produ­ zem estimulação do SNC ou melhora do humor em indivíduos normais. Dependência física e psicológica é registrada raramente; contudo, isso requer retirada lenta para minimizar síndromes de interrupção e efeitos colinérgicos rebote. Esses fármacos, como todos os antidepressivos, po­ dem ser usados para o tratamento prolongado da depressão. C. Usos terapêuticos Os ADTs são eficazes no tratamento de depressão moderada à grave. Alguns pacientes com transtornos de pânico também respondem aos ADTs. A imipraminaé usada para controlar a micção de crianças na cama (com mais de 6 anos) por causar contração do esfíncter interno da bexi­ ga. Atualmente, ela é usada com cautela devido à indução de arritmias cardíacas e de outros problemas cardiovasculares graves. OsADTs, parti­ cularmente a amitri ptilina, têm sido usados para otratamento daenxaque­ ca e de síndromes de dor crônica (p. ex., dor neuropática) em inúmeras condições em que a causa da dor é desconhecida. Dosagens baixas de ADTs, especialmente doxepina, podem ser usados para tratara insônia. D. Farmacocinética OsADTs são bem absorvidos apósadministração oral. Porsua natureza li­ pofílica, eles são amplamente distribuídos e facilmente penetram o SNC. A lipossolubilidade também causa as variadas meias-vidas desses fármacos (p. ex., 4 a 17 horas para imipramina). Como consequência da biotransfor­ mação de primeira passagem muito variável, os ADTs têm biodisponibili-
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    dade baixa einconsistente. Por isso, a resposta do paciente e as concen­ trações no plasma podem ser usadas para ajustar a dosagem. O período inicial de tratamento geralmente é de 4 a 8 semanas. A dosagem pode ser reduzida gradualmente para melhorar a tolerância, a menos que ocorra recaída. Esses fármacos são biotransformados pelo sistema microssomal hepático (e assim podem sersuscetíveis aosfármacos que induzem ou ini­ bem as isoenzimas CIP450) e são conjugados com ácido glicurônico. Por fim, os ADTs são excretados como metabólitos inativos pelos rins. E. Efeitos adversos O bloqueio dos receptores muscarínicos leva à visão borrada, à xerosto­ mia, à retenção urinária, à taquicardia sinusal, à constipação e ao agrava­ mento do glaucoma estreito (Figura 12.7). Essesfármacos afetam também a condução cardíaca de modo similar à quinidi na, o que pode provocar arritmias que ameaçam a sobrevida, se for tomada uma dose excessiva de um dos fármacos. Os ADTs também bloqueiam os receptores a-adre­ nérgicos, causando hipotensão ortostática, tonturas e taquicardia reflexa. Na clínica, esse é o problema mais grave nos idosos. A imipramina é a mais provável, e a nortriptifina é a menos provável, de causar hipotensão ortostática. A sedação pode ser importante, especialmente durante as primeiras semanas do tratamento, e está relacionada com a capacidade desses fármacos de bloquear os receptores H1 histamínicos. O aumento de massa corporal é um dos efeitos adversos dos ADTs. Disfunção sexual, como evidenciado por disfunção erétil no homem e anorgasmia na mulher, ocorre em uma minoria significativa dos pacientes, mas a incidência é con­ siderada menordoque a de disfunções sexuais associadas com os ISCSs. 1. Precauções. Os ADTs (como todos os antidepressivos) devem ser usados com cautela nos pacientes com transtorno bipolar, mesmo durante seu estado depressivo, pois eles podem causar mudança no comportamento maníaco. Os ADTs têm índice terapêutico es­ treito; porexemplo, 5 a 6 vezes a dose máxima diária de imipramina pode ser letal. Os pacientes deprimidos que são suicidas devem receber somente quantidades limitadas desses fármacos e ser mo­ nitorados de perto. Interações de fármacos com os ADTs são mos­ tradas na Figura 1 2.8. Os ADTs podem agravar certas condições médicas, como angina instável, hiperplasia prostática benigna, epi­ lepsia e arritmias preexistentes. Deve-se ter cautela também com seu uso em pacientes muito jovens ou muito idosos. VII. INIBIDORES DA MONOAMINA OXIDASE A monoaminaoxidase (MAO) é uma enzima mitocondrial encontrada em nervos e outros tecidos, como fígado e intestino. No neurônio, a MAO funciona como "válvula de segurança", desaminando oxidativamente e inativando qualquer ex­ cesso de moléculas de neurotransmissor(norepinefrina, dopamina eserotonina) que possa vazar das vesículas sinápticas quando o neurônio está em repouso. O inibidor de MAO (IMAO) pode inativar reversível ou irreversivelmente a enzi­ ma, permitindo que as moléculas do neurotransmissor fujam da degradação e, assim, se acumulem no neurônio pré-sináptico e vazem para o espaço sináp­ tico. Acredita-se que isso causa a ativação dos receptores da norepinefrina e da serotonina e pode ser responsável pela ação antidepressiva indireta desses fármacos. Quatro IMAOs estão disponíveis atualmente para o tratamento da de­ pressão: fenelzina, tranilci promina, isocarboxazida e o selegilina. (Esse último fármaco era aprovado contra a doença de Parkinson, mas agora também está aprovado contra a depressão e é o primeiro antidepressivo disponível na forma de sistema de administraçãotransdérmica.) O uso de IMAO hoje é limitado devi­ do às complicadas dietas alimentares exigidas dos pacientes que os usam. Farmacologia Ilustrada 157 Aumento mútuo: hipertensão, hiperpirexia, convulsões e coma IMAO Potencializa efeitos das aminas biogênicas por evitar sua remoção dafenda sináptica Fármacos adrenérgicos de ação direta Antidepressivos tricíclicos Fármacos adrenérgicos de ação indireta Etanol e outros depressores do SNC Bloqueia os efeitos dos fármacos simpaticomiméticos de ação indireta evitando que o fármaco alcance seu local de Sedação ação intracelular tóxica Figura 12.8 Fármacos que interagem com os anti­ depressivos tricíclicos. SNC = sistema nervoso central; MAO = monoamina oxidase.
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    158 Clark, Finkel,Rey & Whalen A Transmissão monoaminérgica normal AMAOinativaasmonoaminas (norepinefrina, serotoninae dopamina) quevazamda Vesícula vesículasináptica. sináptica • • • • • Metabólitos inativos • j Norepinefrina l Serotonina Dopamina • FENDA SINÁPTICA NEURÔNIO PÓS­ -SINÁPTICO Vesícula sináptica • • Respostapós-sináptica OsIMAOsevitamainativação dasmonoaminasnointeriordo neurônio,causandoadifusãode umexcessodeneurotransmissor paraafendasináptica. Metabólitos • inativos • j Norepinefrina l Serotonina �opamina • FENDA SINÁPTICA NEURÔNIO PÓS­ -SINÁPTICO Respostapós-sináptica Figura 12.9 Mecanismo de ação dos inibidores da monoamina oxidase (IMAOs). A. Mecanismo de ação A maioria dos IMAOs, como a fenelzina, forma complexos estáveis com a enzima, causando inativação irreversível. Isso resulta em aumento dos estoques de norepinefrina, serotonina e dopamina no interior dos neu­ rônios e subsequente difusão do excesso de neurotransmissor para a fenda sináptica. (Figura 12.9). Esses fármacos inibem não só a MAO no cérebro, mas também no fígado e no intestino, os quais catalisam de­ saminações oxidativas de fármacos e substâncias potencialmente tóxi­ cas, como a tiramina, que é encontrada em certos alimentos. Por isso, os IMAOs mostram elevada incidência de interações com fármacos e com alimentos. A selegilina administrada na forma de adesivo transdérmico pode produzir menor inibição da MAO hepática e intestinal em dosagens baixas, porque se evita a biotransformação de primeira passagem. B. Ações Embora a MAO esteja completamente inibida após alguns dias de trata­ mento, a ação antidepressiva dos IMAOs, como a dos ISCSs e ADTs, é retardada em várias semanas. A se/egilinae a tranilcipromina apresentam efeito estimulante tipo anfetamina, o qual pode causar agitação e insônia. C. Usos terapêuticos Os IMAOs são indicados para pacientes deprimidos que não respondem ou são alérgicos aos ADTs ou que apresentam forte ansiedade. Os pa­ cientes com atividade psicomotora baixa podem se beneficiar das pro­ priedades estimulantes dos IMAOs. Essesfármacos também são úteis no tratamento de estadosfóbicos. Uma subcategoriaespecial de depressão, denominada depressão atípica, pode responderaos IMAOs preferencial­ mente.A depressão atípica é caracterizada por humor lábil, sensibilidade à rejeição e distúrbios de apetite. Devido ao risco de interações fármaco­ -fármaco e fármaco-alimento, os IMAOs são considerados os fármacos de última escolha em vários centros de tratamento. D. Farmacocinética Esses fármacos são bem absorvidos após administração oral, mas o efei­ to antidepressivo requer o mínimo de 2 a 4 semanas de tratamento. A regeneração de enzima, quando inativada irreversivelmente, varia, mas em geral ocorre várias semanas depois da administração do fármaco ser suspensa. Assim, quando houver troca de antidepressivos, deve haver um intervalo mínimo de duas semanas após o fim do tratamento com o IMAOe o início de outro antidepressivo de qualqueroutraclasse. Os IMA­ Os são biotransformados e excretados rapidamente na urina. E. Efeitos adversos Efeitosadversos graves, com frequência imprevisíveis, devido a interações com fármacos e alimentos limitam o amplo uso dos IMAOs. Por exemplo, a tiramina, que está presente em certos alimentos, como queijos envelhe­ cidos e carnes, fígado de aves, peixe em conservas ou defumado, como anchovas e sardinhas, e vinhos tintos, normalmente é inativada pela MAO no intestino. Indivíduos tratados com IMAO são incapazes de degradar a tiramina presente na dieta. A tiramina causa liberação de grande quanti­ dade de catecolaminas armazenadas nos terminais nervosos, resultando na denominada "crise hipertensiva" com sinais e sintomas como cefaleia occipital, rigidez no pescoço, taquicardia, náuseas, hipertensão, arritmias cardíacas, convulsões e possivelmente colapso. Os pacientes precisam, portanto, ser educados para evitar os alimentos contendo tiramina. A fen-
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    tolamina ou aprazosina são úteis no tratamento da hipertensão induzida portiramina. (Nota: o tratamento com IMAO pode ser perigoso em pacien­ tes gravemente deprimidos e com tendência suicida. O consumo proposi­ tal de alimentos contendo tiramina é uma possibilidade.) Outros possíveis efeitos adversos do tratamento com IMAO incluem sonolência, hipotensão ortostática, visão borrada, xerostomia, disúria e constipação. Os IMAOs e os ISCSs não devem sercoadministrados devido ao risco de"síndrome de serotonina" que ameaça a vida. Ambos os tipos de fármacos precisam do período de eliminação, de duas semanas no mínimo, antes da administra­ ção do fármaco do outro tipo, com exceção da fluoxetina, a qual deve ser suspensa no mínimo seis semanas antes de iniciaro IMAO. A associação de IMAOs com bupropiona pode causar convulsões. A Figura 12.1O resu­ me os efeitos adversos dos fármacos antidepressivos. VIII. TRATAMENTO DA MANIA E DO DISTÚRBIO BIPOLAR O tratamento do transtorno bipolar aumentou em anos recentes, devido ao maior reconhecimento do transtorno e também pelo aumento do número de medicamentos disponíveis para o tratamento, aprovados pelo FDA. A. Lítio Os sais de lítio são usados profilaticamente para o tratamento de pacien­ tes maníaco-depressivos e nos episódios de mania, e, por isso, são con­ siderados como "estabilizadores do humor". O lítio é eficaz no tratamento de 60 a 80° / o dos pacientes que exibem mania e hipomania. Emboravários processos celulares sejam alterados pelos sais de lítio, o seu mecanismo de ação segue desconhecido. (Nota: acredita-se que o lítio atenue os si­ nais via receptores acoplados ao sistema desegundo mensageiro bifosfa­ to de fosfatidilinositol [PIP2]. O lítio interfere com a ressíntese [reciclagem] do PIP2, levando à sua depleção relativa na membrana neuronal do SNC. Os níveis de PIP2 nas membranas periféricas não são afetados pelo lítio.) Ele é administrado por via oral, e o íon é excretado pelos rins. Os sais de lítio podem ser tóxicos. O fator de segurança e o índice terapêutico são extremamente baixos comparáveis aos da digoxina. Os efeitos adversos podem incluir cefaleia, xerostomia, polidipsia, polifagia, distúrbios gastrin­ testinais (o lítio deve ser administrado com alimentação), tremor fino nas mãos, tonturas, fadiga, reações dérmicas e sedação. Os efeitos adversos devidos a níveis plasmáticos mais elevados incluem ataxia, fala enrola­ da, tremores grosseiros, confusão e convulsões. Xerostomia, polidipsia e poliúria são queixas frequentes. (Nota: o diabetes insípido que resulta do uso do lítio pode ser tratado com amilorida.) A função tireoideana pode diminuir e deve ser monitorada. O lítio não causa efeitos observáveis em indivíduos normais. Ele não é um sedativo, euforizante ou depressor. B. Outros fármacos Vários fármacos antiepilépticos, incluindo de modo destacado carbama­ zepina, ácido valproico e lamotrigina, foram identificados como "estabili­ zadores do humor'', aprovados pelo FDA, e são usados com sucesso no tratamento do transtorno bipolar. Outros fármacos que podem amenizar os sintomas de mania incluem os antipsicóticos antigos (p. ex., clorpro­ mazina e haloperido� e novos. Os antipsicóticos atípicos (risperidona, olanzapina, zi prasidona, aripiprazol, asenapina e quetiapina) também fo­ ram aprovados pelo FDA para o controle da mania. Os benzodiazepínicos são usados com frequência como auxiliares do tratamento para a esta­ bilização aguda dos pacientes com mania. (Ver os respectivos capítulos desses psicotrópicos para descrição mais detalhada.) Farmacologia Ilustrada 159 Distúrbios gastrintestinais Sedação;podeser útilcontraaagitação INIBIDORESSELETIvos DACAPTAÇÃO DESEROTONINA Citalopram - Escitalopram Fluoxetina . Fluvoxamina Paroxetina - - Sertralina - - INIBIDORESDACAPTAÇÃO DESEROTONINA ENOREPINEFRINA Duloxetina - - Venlafaxina - Desven/afaxina - - ANTIDEPRESSIVOs ATÍPICOS Bupropiona . . Mirtazapina � . Nefazodona - - Trazodona ANTIDEPRESSIVOs TRIC[CLICOSIPOLIC[CLICOS - Amitriptilina - Amoxapina Clomipramina Desipramina - Doxepina - - - - . lmipramina - - . Maprotilina Nortriptili na Protriptilina - Trimipramina INIBIDORESDA MONOAMINAOXIDASE Fene/zina Tranilcipromina Ganho de massa Potencialelevado parahipotensão ortostática corporal Figura 12.1O Efeitos adversos de alguns fármacos usados no tratamento da depressão.
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    160 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 12.1 Um professor de 55 anos começa a mostrar alterações no humor. Ele está perdendo o interesse por seu trabalho e desinteressou-se pelo jogo diário de tênis. Preocupava-se com sentimentos de culpa, falta de valor e desesperança. Além dos sintomas psiquiátricos, o paciente se queixa de dores musculares pelo corpo. Exames físicos e laborato­ riais nada revelaram de significativo. Após seis semanas de tratamento com fluoxetina, os sintomas do paciente sumiram. Contudo, ele reclama de disfunção sexual. Qual dos seguintes fármacos deve ser útil para esse paciente? A. Fluvoxaminas B. Sertralina C. Citalopram D. Mirtazapina E. Lítio 12.2 Uma mulher de 25 anos tem longa história de sintomas de­ pressivos acompanhados de dores corporais. Os exames físico e laboratorial não apresentaram alterações signifi­ cativas. Qual dos seguintes fármacos pode ser útil nessa paciente? A. Fluoxetina B. Sertralina C. Fenelzina D. Mirtazapina E. Duloxetina 12.3 Uma mulher de 51 anos com sintomas de depressão tam­ bém apresenta glaucoma de ângulo estreito. Qual dos se­ guintes antidepressivos deve ser evitado nessa paciente? A. Amitriptilina B. Sertralina C. Bupropiona D. Mirtazepina E. Fluvoxamina 12.4 Um homem de 36 anos apresenta sintomas de comporta­ mento compulsivo. Se algo está fora de ordem, ele sente que "o trabalho não será realizado com eficácia ou eficiên­ cia". Ele está consciente de que seu comportamento está interferindo em sua capacidade de executar astarefas diá­ rias, mas não consegue se controlar. Qual dos seguintes fármacos será mais útil para esse paciente? A. lmipramina B. Fluvoxamina C. Amitriptilina D. Tranilcipromina E. Lítio Resposta correta = D. A mirtazapina é praticamente isenta de efeitos adversos sexuais. Entretanto, disfunções sexuais ocorrem comumen­ te com inibidores seletivos de captação de serotonina (fluvoxamina, sertralina e citalopram), bem como com antidepressivos tricíclicos e inibidores da captação de serotonina e norepinefrina. O lítio é usado no tratamento da mania e transtorno bipolar. Resposta correta = E. A duloxetina é um inibidor da captação de se­ rotonina e norepinefrina que pode ser usado em depressões acom­ panhadas de dorneuropática. Os inibidores seletivos de captaçãode serotonina (fluoxetina e sertralina), os inibidores da MAO (fenelzina) e os antidepressivos atípicos (mirtazapina) têm escassa atividade contra dor neuropática. Resposta correta = A. Devido à sua potente ação antimuscarínica, a amitriptilina não deve ser administrada em pacientes com glaucoma pelo risco de aumento agudo na pressão ocular. Os outros antide­ pressivos nãotêm atividade antagonista no receptormuscarínico. Resposta correta= B. Os ISCSs são particularmente eficazes notra­ tamento dotranstorno obsessivo/compulsivo;afluvoxaminaé aprova­ da para essa condição. Os outros fármacos citados são ineficientes no tratamento dotranstorno obsessivo/compulsivo.
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    , ar 1. RESUMO acos . ,. S ICO ICOS Os fármacos antipsicóticos (também denominados fármacos neurolépticos ou tranquilizantes maiores) são usados principalmente para tratar esquizofrenia, mas também são eficazes em outros estados psicóticos, incluindo estados de mania com sintomas psicóticos, como grandiosidade ou paranoia, alucina­ ções e delírio. O uso de medicação antipsicótica envolve o difícil limite entre o benefício de aliviar os sintomas psicóticos e o risco de uma ampla variedade de transtornos pelos efeitos adversos. Os antipsicóticos não são curativos e nem eliminam o transtorno crônico do pensamento, mas com frequênciadimi­ nuem a intensidade das alucinações e ilusões, permitindo que a pessoa com esquizofreniafuncione em um ambiente que lhe apoie. li. ESQUIZOFRENIA A esquizofrenia é um tipo particularde psicose (ou seja, um transtorno mental causado por alguma disfunção inerente do cérebro). Caracteriza-se por ilu­ sões, alucinações (com frequência, na forma de vozes) e transtornos de fala ou pensamento. Esse transtorno mental é uma aflição comum, ocorrendo em cerca de 1o/ o da população. A doença inicialmente afeta as pessoas no final da adolescência ou início davida adulta e é um transtorno crônico e incapaci­ tante. A esquizofrenia tem forte componente genético e provavelmente reflete alguma anormalidade bioquímicafundamental, possivelmente uma disfunção das vias neuronais dopaminérgicas mesolímbicas ou mesocorticais. Ili. FÁRMACOS ANTIPSICÓTICOS Os fármacos antipsicóticos são divididos em primeira e segunda gerações (Figura 13.1). O fármacos da primeira geração são subdivididos em "de alta" e "de baixa potência", não só para indicar a eficácias clínica do fármaco, mas também para indicar sua afinidade pelo receptor D2 da dopamina, o que, por sua vez, influencia o seu perfil de efeitos adversos. ANTIPSICÓTICOS DE PRIMEIRA GERAÇÃO (baixa potência) Clorpromazina Proclorperazina Tioridazina ANTIPSICÓTICOS DE PRIMEIRA GERAÇÃO (alta potência) Flufenazina Haloperidol Pimozida Tiotixeno ANTIPSICÓTICOS DE SEGUNDA GERAÇÃO Figura 13.1 Aripiprazol Asenapina C/ozapina lloperidona Lurasidona Olanzapina Quetiapina Pali peridona Risperidona Ziprasidona Resumo dos fármacos antipsicóticos.
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    162 Clark, Finkel,Rey & Whalen • • • • • • • Dopamina Fármacos+ neurolépticos ft Dopamina Figura 13.2 Receptorde dopamina bloqueado ' . ' ' ' ' ' ' ' ' ' ' .. ...1 '. 1 ·-· RESPOSTA INTRACELULAR DIMINUÍDA Ações bloqueadoras da dopamina dos fármacos neurolépticos. A. Antipsicóticos de primeira geração Os antipsicóticos de primeira geração (também denominados antipsicóticos tradicionais, típicos ou convencionais) são inibidores competitivos em vários receptores, mas seu efeito antipsicótico reflete o bloqueio competitivo dos receptores D2 da dopamina. Estes fármacos estão mais associados com distúrbios do movimento, particularmente para fármacos que se ligam fir­ memente aos neurorreceptores dopaminérgicos, como o haloperido/, e é menos verdadeiro para aqueles que se ligam fracamente, como a clorpro­ mazi na. Clinicamente nenhum desses fármacos é mais eficaz do que outro. B. Antipsicóticos de segunda geração A segunda geração de fármacos antipsicóticos (também referida como an­ tipsicóticos "atípicos") têm menos sintomas extrapiramidais (SEP) do que os de primeira geração, mas são associados com maior risco de efeitos adversos metabólicos, como diabetes, hipercolesterolemia e aumento de massa corporal.A segunda geraçãode fármacos deve sua atividade singu­ lar ao bloqueio dos receptores da serotonina e dopamina (e talvez outros). 1. Seleção do fármaco. O tratamento antipsicótico atual comumente compreende um fármaco da segunda geração para minimizar o risco de transtornos debilitantes do movimento associados com os fárma­ cos da primeira geração, que atuam primariamente no receptor D2 da dopamina.Todos os antipsicóticos de segunda geração exibem eficá­ cia equivalente e ocasionalmente excedem à dos de primeira geração. Contudo, foram detectadas diferenças consistentes na eficácia tera­ pêutica entre os fármacos de segunda geração e a resposta indivi­ dual do paciente, bem como as comorbidades, que devem ser usadas como guia na escolhado fármaco. Osantipsicóticos de segunda-gera­ ção nãodevem serconsiderados intercambiáveis, porque os pacientes podem responderdiferentemente a cada fármaco desta classe. 2. Pacientes refratários. Cerca de 20° / o dos pacientes com esquizo­ frenia apresenta resposta insuficiente a todos os antipsicóticos de primeira e segunda gerações. Para estes pacientes, a clozapina re­ vela-se um antipsicótico eficazcom riscos mínimos de SEP.A cloza­ pina pode causarsupressão da medula óssea, convulsões e efeitos cardiovasculares. O risco de agranulocitose grave requer frequente contagem de leucócitos. C. Mecanismo de ação 1. Atividade bloqueadora do receptor da dopamina no cérebro. Todos os antipsicóticos de primeira e a maioria dos de segunda ge­ ração bloqueiam os receptores dadopamina no cérebro e na perife­ ria (Figura 13.2). A eficácia clínica do neuroléptico típico correlacio­ na-se intimamente com sua habilidade de bloquearo receptor D2 no sistema mesolímbico do cérebro. As ações dos fármacos antipsicó­ ticos são antagonizadas pelos fármacos que aumentam a concen­ tração de dopamina na sinapse (p. ex., levodopa e anfetaminas), ou mimetizam a dopamina nos locais de ligação pós-sinápticos (p. ex., bromocriptina). 2. Atividade bloqueadora do receptor de serotonina no cérebro. A maioria dos fármacos de segunda geração parece exercer parte da sua ação singular pela inibição de receptores de SHT, em particular 5HT2A. Assim, a clozapina tem alta afinidade pelos receptores D1, 04, 5HT2, muscarínicos e a-adrenérgicos, mas também é um anta­ gonista fraco no receptor D2 (Figura 13.3). A risperidona bloqueia o receptor 5HT2A mais intensamente do que o receptor D2, assim
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    como a olanzapina.O antipsicótico de segunda geração, ari pipra­ zol é um agonista parcial nos receptores D2 e 5HT1A, bem como bloqueia os receptores SHT2A' A quetiapina bloqueia os receptores D2 de modo mais potente do que os SHT2A, mas é um bloqueador relativamente fraco em ambos os receptores. O seu baixo risco de efeitos extrapiramidais também pode estar relacionado com o tem­ po de ligação ao receptor D2 relativamente curto. B. Ações As ações antipsicóticas dos antipsicóticos parecem refletir o bloqueio dos receptores de dopamina e/ou serotonina. Contudo, vários desses fármacos também bloqueiam receptorescolinérgicos, adrenérgicose histamínicos (Fi­ gura 13.4). Não éconhecido que função, se existiralguma, essas açõestêm no alívio dos sintomas de psicose. Contudo, os efeitos adversos desses fár­ macos com frequência são o resultado de ações nesses outros receptores. 1. Ações antipsicóticas. Todos os antipsicóticos podem diminuir as alucinações e ilusões (sintomas "positivos") associadas à esquizo­ frenia, bloqueando os receptores de dopamina no sistema mesolím­ bico do cérebro. Os sintomas "negativos", como falta de afeto, ane­ donia (não ter prazerem estímulos normalmente prazerosos), apatia e falta da atenção, bem como déficit cognitivo, não respondem ao tratamento particularmente com os antipsicóticos de primeira gera­ ção. Vários fármacos de segunda geração, como a clozapina, ali­ viam os sintomas negativos em alguma extensão.Todos osfármacos também têm um efeito calmante e reduzem os movimentos físicos espontâneos. Contrastando com os depressores do SNC, como os barbitúricos, os antipsicóticos não deprimem tanto a função intelec­ tual do paciente, e a dificuldade de coordenação motora é mínima. Os efeitos antipsicóticos em geral demoram vários dias e até se­ manas para acontecer, sugerindo que os efeitos terapêuticos estão relacionados com alterações secundárias nas vias corticoestriatais. 2. Efeitos extrapiramidais. Distonias (contrações sustentadas dos músculos levando a posturas distorcidas), sintomas tipo Parkinson, acatisia (intranquilidade motora) e discinesia tardia (movimentos in­ voluntários de língua, lábios, pescoço, tronco e membros) ocorrem FÁRMACOS NEUROLÉPTICOS Farmacologia Ilustrada 163 Afinidadesrelativasnosreceptores02 C/ozapi na Clorpromazina Haloperidol Baixa afinidade Alta afinidade Amaioriadosneurolépticostem afinidadespelosreceptores dopaminérgicos02proporcionais à potênciaclínica. Aclozapinasediferenciados neurolépticostípicosporapresen­ tarafinidadesimilarpelosrecep­ toresdopaminérgicos01 e02• Afinidadesrelativasnosreceptores01 C/ozapina C/orpromazina D Haloperidol D Baixa afinidade Figura 13.3 Alta afinidade Afinidades relativas da clozapina, da clorpromazina e do haloperidol nos re­ ceptores dopaminérgicos D1 e D2• Particular- mente tioridazina, c/orpromazina Particularmente c/orpromazina Todos,mas particularmente haloperidol, f/ufenazina, tiotixeno Risperidona, c/ozapina Particularmente c/orpromazina, c/ozapina ,,. o �'�-�� 'V Colinérgico (receptor muscarínico) Figura 13.4 Receptor «-adrenérgico ,,. o Receptorde dopamina Receptorde serotonina Receptorde histaminaH1 ReceptorGABA Os fármacos antipsicóticos bloqueiam os receptores dopaminérgicos e serotoninérgicos, bem como os adrenérgicos, colinérgicos e histamínicos. GABA = ácido 'Y-aminobenzoico.
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    164 Clark, Finkel,Rey & Whalen . . . Vertigens Contraas náuseas devidaa. • . ,, . . . Doençado movimento Contraas náuseas o o devidaa. • . . . . Quimioterapia docâncer Contraas náuseas devidaa. • . . . . Radioterapia Figura 13.5 o o Mec/i zina Dimenidrinato Escopolamina Prometazina o o o o Domper idônio Ha/oper idol Metoc/opramida Proc/operazina Tietilperazina Domperidônio Aplicações terapêuticas dos fármacos antieméticos. com o tratamento crônico. O bloqueio dos receptores de dopamina na via nigroestriatal provavelmente causa esses movimentos inde­ sejados. Os antipsicóticos de segunda geração exibem menor inci­ dência desses sintomas. 3. Efeito antiemético. Com a exceção da aripiprazo/, a maioria dos antipsicóticos tem efeito antiemético mediado pelo bloqueio dos re­ ceptores D2dopaminérgicos da zona quimiorreceptora disparadora bulbar. (Ver p. 357 para uma discussão sobre êmese.) A Figura 13.5 resume o uso antiemético dos antipsicóticos, junto com as aplica­ ções terapêuticas dos outros fármacos que combatem a náusea. (Nota: os antipsicóticos de segunda geração não são usados como 4. 5. antieméticos.) Efeitos anticolinérgicos. Alguns dos antipsicóticos, particularmen­ te tioridazina, clorpromazina, clozapina e olanzapina, produzem efeitos anticolinérgicos, incluindo visão borrada, sedação, xerosto­ mia (com exceção da clozapina, que aumenta a salivação), confu­ são e inibição do músculo liso do TGI e urinário, levando à consti­ pação e à retenção urinária. Esses efeitos anticolinérgicos podem reduziro risco de SEP destes fármacos. Outros efeitos. O bloqueio dos receptores a-adrenérgicos causa hi­ potensão ortostática e cefaleia leve. Os antipsicóticos também alte­ ram os mecanismos de regulação datemperatura e podem produzir poiquilotermia (condição na qual a temperatura corporal varia com o ambiente). Na hipófise, os antipsicóticos bloqueiam os receptores D2, levando ao aumento da liberação de prolactina. Esse aumento é menos provável com os antipsicóticos de segunda geração. Se­ dação ocorre com os neurolépticos que são potentes bloqueadores dos receptores de histamina H,, incluindo clorpromazinal, olanzapi­ na, quetiapina e clozapina. Também pode ocorrer disfunção sexual com os neurolépticos devido a suas características de ligação com vários receptores. C. Usos terapêuticos 1. Tratamento da esquizofrenia. Os antipsicóticos são considerados como os únicos fármacos eficazes no tratamento da esquizofrenia. Nem todos os pacientes respondem a eles, e a completa normali­ zação do comportamento raramente é alcançada. Os antipsicóticos de primeira geração são mais eficazes no tratamento dos sintomas positivos da esquizofrenia (ilusões, alucinações, processamento das ideias e agitação). Os novos fármacos com atividade bloque­ adora do receptor 5HT2A podem ser eficazes em muitos pacien­ tes que resistem aos neurolépticos tradicionais, especialmente no tratamento dos sintomas negativos da esquizofrenia (isolamento social, comprometimento das emoções, ambivalência e diminuição da capacidade de se relacionar com as pessoas). Contudo, mesmo os antipsicóticos de segunda geração não melhoram os sintomas negativos da esquizofrenia consistentemente mais do que os fár­ macos típicos. 2. Prevenção da náusea e êmese graves. Os antipsicóticos anti­ gos (mais comumente a proclorperazi na) são úteis no tratamento da náusea induzida por fármacos (ver p. 358). Contudo, a náusea originada do movimento deve ser tratada com sedativos, anti-hista­ mínicos e anticolinérgicos, em vez dos antipsicóticos, que são mais potentes. (Nota: a escopolamina, administrada porviatransdérmica, é o fármaco de escolha contra a doença do movimento.)
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    3. Outros usos.Os antipsicóticos podem ser usados como tranqui­ lizantes para lidar com o comportamento agitado e inconveniente secundário a outros transtornos. Os antipsicóticos são associados com os narcóticos analgésicos contra a dor crônica com ansiedade grave. A clorpromazina é usada para tratar o soluço intratável. Em­ bora a prometazina não seja um bom antipsicótico, ela é usada no combate ao prurido, devido às suas propriedades anti-histamínicas. A pimozida é indicada primariamente no tratamento dos tiques tô­ nicos e motores da doença de Tourette. Todavia, a risperidona e o haloperidoltambém são prescritos comumente contra estes tiques. A ri speridona e o aripiprazol estão aprovados para lidar com o com­ portamento inconveniente e a irritabilidade secundárias ao autismo. D. Absorção e biotransformação Após administração oral, os antipsicóticos mostram absorção variável que não é afetada pelo alimento (exceto a ziprasidona e a paliperidona, cujas absorções aumentam com a alimentação). Esses fármacos pas­ sam facilmente para o cérebro, têm amplo volume de distribuição, ligam­ -se a proteínas plasmáticas e são biotransformados, em geral pelo siste­ ma CIP450 no fígado, em várias substâncias diferentes, particularmente as isoenzimas CIP2D6, CIP1A2 e CIP3A4. Alguns metabólitos são ati­ vos. Decanoato de f/ufenazina, decanoato de haloperido/, microesferas de risperidona, palmitato de pali peridona e pamoato de olanzapina são formulações injetáveis de antipsicóticos de ação longa administrados por via intramuscular profunda nos glúteos ou deltoides. Essas formulações têm duração terapêutica de duas a quatro semanas e por isso são usa­ dos com frequência para tratar pacientes ambulatoriais e indivíduos que não aderem à medicação oral. Contudo, os pacientes podem continuar desenvolvendo SEP, mas o risco é menor com estas formulações inje­ táveis de longa duração comparados com suas respectivas formulações orais. Os antipsicóticos produzem alguma tolerância, mas pouca depen­ dência física. E. Efeitos adversos Os efeitos adversos dos antipsicóticos ocorrem em praticamente todos os pacientes e são significativos em cerca de 80° / o (Figura 13.6). Embora esses fármacos tenham uma série de efeitos adversos, o seu índice tera­ pêutico é elevado. 1. Efeitos adversos extrapiramidais. No estriado, os efeitos inibitó­ rios dos neurônios dopaminérgicos normalmente são equilibrados pelas ações excitatórias dos neurônios colinérgicos. O bloqueio dos receptores de dopamina altera esse equilíbrio, causando um exces­ so relativo da influência colinérgica, que resulta em efeitos moto­ res extrapiramidais. O risco máximo de aparecimento de distúrbios do movimento depende do tempo e da dosagem, com as distonias ocorrendo dentro de poucas horas até dias de tratamento, acom­ panhadas das acatisias ocorrendo dentro de dias a semanas. Os sintomas tipo Parkinson, de bradicinesia, rigidez e tremores, costu­ mam ocorrer dentro de semanas a meses do início do tratamento. A discinesia tardia, que pode ser irreversível, pode ocorrer após me­ ses ou anos de tratamento. a. Efeito dos fármacos anticolinérgicos. Se a atividade colinér­ gica também for bloqueada, estabelece-se um novo equilíbrio mais próximo do normal, e os efeitos extrapiramidais são mini­ mizados. Isso pode ser obtido com a administração de um an­ ticolinérgico, como a benztropina. O "negócio" terapêutico terá Farmacologia Ilustrada 165 Zz z v-=----.. Figura 13.6 Retenção . , . unnana Aumento de massa corporal Convulsões Sedação Sintomas extrapiramidais Hipotensão postural Disfunção sexual Arritmias e morte cardíaca súbita Xerostomia Efeitos adversos comumente observa­ dos em indivíduos tratados com antipsi­ cóticos.
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    166 Clark, Finkel,Rey & Whalen menos SEP em troca de efeitos adversos do bloqueio do recep­ tor muscarínico. (Nota: algumas vezes, as ações tipo Parkinson permanecem, apesar do uso do anticolinérgico.) Os fármacos que apresentam forte atividade anticolinérgica, como a tioridazi­ na, mostram menos distúrbios extrapiramidais, pois a atividade colinérgica é fortemente deprimida. Isso contrasta com o ha/o­ peridol e a flufenazina, que têm pouca atividade anticolinérgica e produzem efeitos extrapiramidais mais frequentes, devido ao bloqueio preferencial da transmissão dopaminérgica sem blo­ quear a atividade colinérgica. A acatisia pode responder melhor aos 13-bloqueadores ou aos benzodiazepínicos do que a medi­ cação anticolinérgica. 2. Discinesia tardia. Os tratamentos de longa duração com os an­ tipsicóticos podem causar essa disfunção motora. Os pacientes exibem movimentos involuntários, incluindo movimentos faciais e bilaterais da mandíbula e movimentos de "caça à mosca" com a língua. A interrupção prolongada do uso do antipsicótico pode diminuir ou fazer desaparecer os sinais dentro de poucos meses. Contudo, em muitos indivíduos, a discinesia tardia é irreversível e persiste mesmo com a interrupção do tratamento. Postula-se que a discinesia tardia resulta do aumento do número de receptores de dopamina que são sintetizados como resposta compensatória ao bloqueio do receptor por tempo muito prolongado. Isso torna os neurônios supersensíveis às ações da dopamina e faz com que os estímulos dopaminérgicos nessa estrutura superem os estímulos colinérgicos, causando o movimento excessivo no paciente. A me­ dicação tradicional anti-SEP geralmente não melhora a discinesia tardia e pode até piorar a condição. 3. Síndrome do antipsicótico maligno. Essa reação potencialmente fatal aos antipsicóticos é caracterizada por rigidez muscular, febre, alteração do estado mental, estupor, pressão arterial instável e mio­ globinemia. O tratamento necessita da interrupção do antipsicótico e de tratamento de apoio. A administração de dantroleno ou bromo­ cri ptina pode ser útil. 4. Outros efeitos. Ocorre sonolência devido à depressão do SNC e aos efeitos anti-histamínicos, em geral durante as primeiras sema- , nas de tratamento. As vezes observa-se confusão. Os neurolépticos com atividade antimuscarínica potente, com frequência, produzem xerostomia, retenção urinária, constipação e perda de acomodação. Outros podem bloquear os receptores a-adrenérgicos, resultando em redução da pressão arterial e hipotensão ortostática. Os anti­ psicóticos deprimem o hipotálamo, afetando a termorregulação e causando amenorreia, galactorreia, ginecomastia, infertilidade e impotência. Aumento significativo da massa corporal com frequên­ cia é motivo para a não aderência ao tratamento. Também é reco­ mendado controlar a glicemia e lipidemia dos pacientes que tomam antipsicóticos de segunda geração, pois eles têm o potencial de au­ mentar estas variáveis laboratoriais e exacerbar diabetes melito ou hiperlipidemia preexistente. 5. Cautela e contraindicações. A agitação intensa que acompanha a abstinência do álcool ou de outros fármacos pode ser agravada pe­ los antipsicóticos. A estabilização com sedativos simples, como um benzodiazepínico, é o tratamento preferido. Todos os antipsicóticos podem baixaro limiaràs convulsões e devem ser usados com caute­ la em pacientes com distúrbios convulsivos. Portanto, os antipsicóti­ cos podem agravara epilepsia preexistente e devem ser usados com
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    Farmacologia Ilustrada 167 cautelaem pacientes epilépticos.A alta incidência de agranulocitose com clozapina pode limitar seu uso em pacientes que são resisten­ tes a outros fármacos. Todos os antipsicóticos de segunda geração recebem a advertência de que aumentam o risco de mortalidade se usados em pacientes idosos com transtornos comportamentais relacionados à demência e psicose. O uso de antipsicóticos em pa­ cientes com transtornos do humor deve ser monitorado quanto ao seu agravamento e às ideias e comportamentos suicidas. � 100 '#. - Pacientesrecebendooneuroléptico atípicorisperidonaapresentam menosrecaídasdoqueostratados comha/operidol,umneuroléptico típicodealtapotência. Risperidona a/operidol F. Tratamento de manutenção Pacientes que apresentaram dois ou mais episódios psicóticos secundá­ rios à esquizofrenia devem receber tratamento de manutenção por pelo menos cinco anos, e alguns especialistas preferem indicartratamento por tempo indefinido. Há grande ênfase em pesquisar e praticar a identifica­ ção e trataragressivamente o primeiro episódio psicótico para determinar o benefício dos antipsicóticos nessa população. Doses baixas de anti­ psicóticos não são tão eficazes como as doses maiores no tratamento de manutenção para prevenir recorrências. A taxa de recaídas pode ser menorcom os fármacos da segunda geração (Figura 13.7).A Figura 13.8 resume os usos terapêuticos de alguns dos antipsicóticos. º'---'--'--'--'--'--'--'---''-'--'--'-'--'--'--'--' o Dias 800 Figura 13.7 Taxas de recaídas entre pacientes com esquizofreniaapós tratamentode manu­ tenção com risperidona ou haloperidol. C/orpromazina Flufenazi na Haloperidol :. • • : • :. : : • Ar i pi prazo/ Asenapina C/ozapina O/anzapina Paliperidona Quetiapina Risperidona Ziprasidona Figura 13.8 Potencial moderadoaaltoparaSEP; potencialmoderadoaaltoparaaumentodemassacorporal, ortostasia,sedaçãoeefeitos antimuscarínicos. Aformulaçãooraltemaltopotencial paraSEP; baixopotencial paraaumentode massacorporal,sedaçãoeortostasia; potencial baixoamoderadoparaefeitosantimuscarínicos; ousocomumé daformulaçãoLAI administradaa cada2a3 semanasem pacientescomesquizofreniaeanamnesedenãoaderênciaaos regimesantipsicóticosorais. Altopotencial paraSEP; baixopotencialparaaumentodemassacorporal; baixopotencial paraefeitosantiadrenérgicos(ortostasia) eantimuscarínicos; baixopotencial paraaumentodemassacorporal ousedação; disponível emformulações LAI administradoa cada4semanas. Baixopotencial paraSEP; baixopotencial paraperdademassacorporal; baixopotencial parasedaçãoeefeitosantimuscarínicos; aprovadotambém paraotratamento dotranstornobipolar;aprovadotambémparaotranstornoautistaemcriançasecomo adjuvantenotratamentocontra depressão. Baixo potencialpara SEP; baixo potencial paraperda de massacorporal; baixoamoderado potencial parasedação; baixo potencialparaortostasia; aprovadotambém paraotratamentodotranstornobipolar; disponívelemformulaçãosublingual. Potencial muitobaixoparaSEP; riscodediscrasiasdosangue(p. ex., agranulocitose= -1° /o); riscodeconvulsões; riscode miocardite; altopotencialpara:sialorreia, aumentodemassacorporal, efeitosantimuscarínicos, ortostasiaesedação. BaixopotencialparaSEP; potencialmoderadoaaltoparaaumentodemassacorporal esedação; baixopotencial paraortostasia; aprovadotambém paraotratamentodotranstorno bipolar; disponível comformulaçãoLAI administradaa cada2a4semanas. Baixoamoderadopotencial paraSEP; baixopotencial paraaumentodemassacorporal; baixopotencialparasedação; disponívelcomoformulaçãoLAI administradaacada4semanas;aprovadatambém parausoemtranstornosesquizoafetivos. BaixopotencialparaSEP; potencial moderadoparaaumentodemassacorporal; potencial moderadoparaortostasia; potencial moderadoa altoparasedação; aprovadotambém paraotratamentodetranstornobipolarecomotratamentoauxiliarcontraa depressão. Potencial baixoamoderado paraSEP; potencial baixoamoderadoparaaumentodemassacorporal; potencial baixoamoderado paraortostasia; potencial baixo amoderadoparasedação; aprovadotambém paraotratamentodotranstornobipolar; aprovado tambémparaotranstornoautistaemcrianças; disponívelcomoformulaçãoLAI administradaa cada2meses. Baixopotencialparaefeitosextrapiramidais; contraindicadaem pacientescomanamnesede arritmiascardíacas; aumentode massacorporal mínimo. Usadonotratamentodadepressãobipolar. Resumo dos fármacos antipsicóticos comumente usados para tratar a esquizofrenia. SEP = sinais extrapiramidais; LAI = longa ação, injetável.
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    168 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 13.1 Um menino adolescente foi recém-diagnosticado com es­ quizofrenia. Qual dos seguintes antipsicóticos pode melho­ rar sua apatia e baixa afetividade? A. Clorpromazina B. Flufenazina C. Haloperidol D. Risperidona E. Tioridazina 13.2 Qual dos seguintes antipsicóticos é um agonista parcial nos receptores 02 da dopamina? A. Aripiprazol B. Clozapina C. Haloperidol D. Risperidona E. Tioridazina 13.3 Um homem de 21 anos iniciou recentemente tratamento com pimozida contra a síndrome de Tourette. Ele é trazido à emergência porseus pais, que descrevem que ele come­ çou a ter''tiques diferentes", como contrações prolongadas dos músculos da face. Durante o exame, ele apresentou opistótono (espasmo corporal no qual a cabeça e calca­ nhares são dobrados para trás e o corpo é arqueado para frente; um tipo de efeito extrapiramidal). Qual dos seguin­ tes fármacos seria benéfico na redução desses sinais? A. Benztropina B. Bromocriptina e. Lítio D. Proclorperazina E. Risperidona 13.4 Uma mulher de 28 anos com transtorno afetivo esquizoide e dificuldade em dormir poderia ser beneficiada com qual dos seguintes fármacos? A. Aripiprazol B. Clorpromazina C. Haloperidol D. Risperidona E. Ziprasidona Respostacorreta= D.A risperidonaé o únicoantipsicóticoda relação que tem alguma utilidade em aliviar os sintomas negativos da esqui­ zofrenia.Todos os fármacos têm potencial de diminuiras alucinações e os processos ilusórios. Resposta correta = A. Aripiprazol é o fármaco que atua como ago­ nista parcial nos receptores 02• Teoricamente, esse fármaco deve aumentar a ação nesses receptores, quando há baixa concentração de dopamina, e deve bloquear as ações de concentrações elevadas de dopamina. Os demais fármacos são somente antagonistas nos receptores 02, sendo o haloperidol especialmente potente. Resposta correta = A. O paciente está apresentando sinais extrapi­ ramidais devidos à pimozida, e um antagonista muscarínico como a benztropina deve ser eficaz na redução dos sinais. Os outros fárma­ cos nãoterão efeitoou, nocasoda proclorperazina, podem aumentar os sinais. Resposta correta = B.A clorpromazina tem significativa atividade se­ dativa, bem como propriedades antipsicóticas. Das opções, ela é o fármaco mais capaz de aliviar a principal queixa da paciente, incluin­ do sua insônia.
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    • • 101 1. RESUMO Controlarador é um dos maiores desafios da clínica médica. A doré definida como uma sensação desagradável, que pode ser aguda ou crônica, e é con­ sequência de complexos processos neuroquímicos nos sistemas nervosos periférico e central. A doré subjetiva, e o clínico deve basear-se na percepção e na descrição do paciente. O alívio da dor depende do tipo específico da dor: nociceptiva ou neurogênica. Em muitos casos, por exemplo, na dor artrí­ tica leve à moderada (dor nociceptiva), os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs; ver Capítulo 42) são eficazes. A dor neurogênica responde melhor aos anticonvulsivantes (p. ex., pregabalina; ver p. 188), aos antidepressivos tricíclicos (p. ex., amitri ptilina; ver p. 156) ou aos inibidores da captação de serotonina/norepinefrina (p. ex., duloxetina; ver p. 14) do que aos AINEs ou aos opioides. No entanto, na dor maligna ou não maligna, intensa ou crô­ nica, geralmente os opioides são os fármacos de escolha. Os opioides são compostos naturais ou sintéticos que produzem efeitos semelhantes aos da morfina. (Nota: o termo "opiato" é reservado para fármacos, como morfina e codeína, obtidos do extrato da papoula.) Todos os fármacos dessa categoria agem se ligando a receptores específicos de opioides no SNC para produzir efeitos que imitam a ação de neurotransmissores peptídeos endógenos (p. ex., endorfinas, encefalinas e dinorfinas). Embora os opioides apresentem um amplo espectro de efeitos, sua utilização principal é para aliviar a dor intensa, independentemente da dor ser de cirurgia ou resultante de lesão ou doença, como o câncer. Entretanto, sua ampla disponibilidade levou ao abuso de opioides capazes de produzir euforia. Os antagonistas que podem reverter as ações dos opioides também são muito importantes clinicamente para o uso em casos de dosagem excessiva. A Figura 14.1 lista os agonistas e anta­ gonistas opioides discutidos neste capítulo. li. RECEPTORES OPIOIDES Os opioides interagem de forma estéreo-específica com receptores proteicos na membrana de certas células do SNC, de terminais nervosos na periferia e AGONISTAS POTENTES Alfentanila Fentanila Heroí na Hidrocodona Hidromorfona Meperidina Metadona Morfi na Oxicodona Oxymor phone Remifentanila Sufentanila Tapendatol AGONISTAS MODERADOS/FRACOS Codeí na AGONISTAS-ANTAGONISTAS MISTOS E AGONISTAS PARCIAIS Buprenorfina Butorfanol Nalbufina Pentazoeina ANTAGONISTAS Nalmefeno Naloxona Naltrexona OUTROS ANALGÉSICOS Tramado/ Figura 14.1 Resumo dos analgésicos opioides e antagonistas.
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    170 Clark, Finkel,Rey & Whalen Aativaçãodoreceptordeopioide diminuioinfluxodeCa2•em respostaaopotencialdeação. Issodiminuialiberaçãode neurotransmissoresexcitatórios, comooglutamato. NEURÔNIO PRÉ-SINÁPTICO Vesícula sináptica o o Resposta excitatória K• o � K• Aativaçãodoreceptor deopioideaumentao efluxodeK•ediminuia respostadoneurônio pós-sinápticoaos neurotransmissores excitatórios. NEURÔNIO PÓS-SINÁPTICO Figura 14.2 t Mecanismo de ação do agonista do re­ ceptor µ, de opioide na medula espinal. de células doTGI e de outras regiões anatômicas. Os efeitos mais importantes dos opioides são mediados portrês principais famílias de receptores, designa­ das pelas letras gregas µ, (mü), K (capa) e S (delta). Cada família de receptor apresenta uma especificidade diferente para os fármacos com os quais ela se liga. As propriedades analgésicas dos opioides são mediadas principalmente pelos receptores µ,; no entanto, os receptores K do corno dorsal também con­ tribuem (p. ex., butorfanole nalbufina) e devem seu efeito analgésico principal­ mente à ativação do receptor K. As encefalinas interagem mais seletivamente com os receptores S na periferia. Os três receptores opioides são membros da família de receptores acoplados à proteína G e inibem a adenililciclase. Eles também estão associados a canais iônicos, aumentando o efluxo pós-sináp­ tico de K+ (hiperpolarização) ou reduzindo o influxo pré-sináptico de Ca 2 +, im­ pedindo, assim, o disparo neuronal e a liberação do transmissor (Figura 14.2). Ili. AGONISTAS POTENTES A morfina é o principal fármaco analgésico presente no ópio bruto, sendo o protótipo do agonista potente. A codeína também está presente, em menores concentrações, e é menos potente, tornando-a protótipo dos agonistas opioi­ des fracos. A morfina e vários outros opioides têm afinidade pelos receptores µ,, e outros têm afinidades variáveis pelos receptores S e K. A. Morfina 1. Mecanismo de ação. Os opioides exercem seus efeitos principais interagindo com os receptores opioides no SNC e em outras es­ truturas anatômicas, como o TGI e a bexiga. Eles causam hiper­ polarização das células nervosas, inibição da descarga nervosa e inibição pré-sináptica da liberação de neurotransmissor. A morfi na age nos receptores K nas lâminas 1 e li do corno dorsal da medula espinal e reduz a liberação da substância P, que modula a percep­ ção da dor na medula espinal. Ela também parece inibir a liberação de vários neurotransmissores excitatórias dos terminais nervosos que levam a estímulos nociceptivos (dolorosos). 2. Ações a. Analgesia. A morfi na produz analgesia (alívio da dorsem perda de consciência). Os opioides aliviam a dor elevando o limiar de dor na medula espinal e, o que é mais importante, alterando a percepção de dor do cérebro. Os pacientes tratados com morfi­ na ainda têm consciência da presença da dor, mas a sensação não é desagradável. Entretanto, quando a morfina é administra­ da em um indivíduo sem dor, os efeitos podem ser desagradá­ veis e causar náuseas e êmese. A eficácia analgésica máxima dos agonistas típicos é mostrada na Figura 14.3. b. Euforia. A morfina produz umaforte sensação de contentamen­ to e bem-estar.A euforia pode sercausada peladesinibição dos neurônios que contêm DA do tegumento ventral. e. Respiração. A morfina causa depressão respiratória pela des­ sensibilização ao dióxido de carbono dos neurônios do centro respiratório. Esse efeito pode ocorrer com doses normais de morfi na em pacientes "virgens" para morfina e acentuar à me­ dida que a dose aumenta até que, por fim, a respiração cessa. A depressão respiratória é a causa mais comum de morte nos casos de superdose aguda de opioides.A tolerância a este efei­ to se desenvolve rapidamente com dosificações repetidas o que
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    permite o usoseguro da morfi na para otratamento dadorquan­ do a dosagem é titulada corretamente. d. Depressão do reflexo da tosse. A morfina e a codeína pos­ suem propriedades antitussígenas. Em geral, a supressão da tosse não se correlaciona bem com as propriedades analgési­ cas e de depressão respiratória dos opioides. Os receptores en­ volvidos naação antitussígena parecem serdiferentes daqueles envolvidos na analgesia. e. Miose. A pupila puntiforme, característica do uso da morfina, resulta do estímulo dos receptores µ. e K. A morfina estimula o núcleo de Edinger-Westphal do nervo oculomotor, o que cau­ sa aumento da estimulação parassimpática para o olho (Figura 14.4). Há pouca tolerância ao efeito, e todos os dependentes de morfina apresentam pupilas puntiformes. (Nota: esse fato é importante para o diagnóstico, já que muitas outras causas de coma e depressão respiratória causam dilatação da pupila.) f. Êmese. A morfi na estimula diretamente a zona quimiorrecepto­ ra disparadora na área postrema que causa êmese. g. Trato gastrintestinal. A morfina alivia a diarreia e a disenteria, diminuindo a motilidade e aumentando o tônus do músculo liso circular intestinal. Elatambém aumenta o tônus do esfíncteranal. De uma maneira geral, a morfina e outros narcóticos provocam constipação, com pouco desenvolvimento de tolerância. (Nota: a associação laxante de venda livre do amolecedor de fezes do­ cusato com o laxante estimulante senna tem sido usado com sucesso para tratar esta constipação induzida por opioides.) A morfina também pode aumentar a pressão no trato biliar devido à contração da vesícula biliar e à constrição do esfíncter biliar. h. Cardiovascular. A morfi na não exerce grandes efeitos sobre a pressão arterial ou a frequência cardíaca, exceto em doses ele­ vadas, na qual podem ocorrer hipotensão e bradicardia. Devido à depressão respiratória e à retenção de dióxido de carbono, os vasos cerebrais se dilatam e aumentam a pressão do líquido ce­ rebrospinal. Assim, normalmente, a morfinaestá contraindicada em indivíduos com lesão grave na cabeça ou no cérebro. i. Liberação de histamina. A morfina provoca liberação de hista­ mina dos mastócitos, causando urticária, sudoração e vasodila­ tação. Como pode causar broncoconstrição, pacientes asmáti­ cos não devem receber o fármaco. j. Ações hormonais. A morfina aumenta a liberação de hormônio do crescimento e aumenta a secreção de prolactina. Elaaumen­ ta o hormônio antidiurético, levando, assim, à retenção urinária. (Nota: como a morfina também pode inibir o reflexo de esvazia­ mento da bexiga urinária, pode ser necessária a cateterização.) k. Parto. A morfina pode prolongar o segundo estágio do trabalho de parto diminuindotemporariamente a força, a duração e a fre­ quência das contrações uterinas. 3. Usos terapêuticos a. Analgesia. Mesmo com numerosas pesquisas, foram desenvol­ vidos poucos fármacos tão eficazes quanto a morfi na no alívio da dor. Os opioides induzem o sono e, em situações clínicas Farmacologia Ilustrada 171 Alfentanila Fentanila Hidrocodona Meperidina Metadona Morfina Oxi codona Ramifentanila Sufentanila Buprenorfina Nalbufina Pentazoeina Codeína Figura 14.3 Baixa Alta Comparação da eficácia máxima dos analgésicos narcóticos comumente uti­ lizados. Figura 14.4 A morfi na causa aumento da estimula­ ção parassimpática no olho, resultando na pupila puntiforme.
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    172 Clark, Finkel,Rey & Whalen v===l PA Hipotensão ,, Disforia (ansiedade, depressão e mal-estar) ,, Sedação ,, Constipação Retenção urinária Náusea v= V Potencial para dependência (vício) Depressão respiratória Figura 14.5 �'' Z z o o Efeitos adversos comumente observa­ dos em indivíduostratados com opioides. b. e. nas quais há dor e o sono é necessário, eles podem ser utili­ zados para complementar a propriedade indutora de sono das benzodiazepinas, como o temazepam. (Nota: normalmente os sedativos-hipnóticos não são analgésicos e podem ter seu efei­ to sedativo diminuído na presença de dor.) Tratamento da diarreia. A morfina reduz a motilidade e au­ menta o tônus da musculatura lisa circular intestinal. (Nota: isso pode causar constipação. Produtos contendo morfina, como a tintura de ópio e a tintura canforada de ópio [paregórico], têm sido usados contra a diarreia.) Alívio da tosse. Ainda que a morfina suprima o reflexo da tosse, a codeína ou o dextrometorfano são mais utilizados com esse objetivo. A codeína apresenta maior ação antitussígena do que a morfina. d. Tratamento do edema pulmonar agudo. A morfi na por via IV alivia a dispneia causada por edema pulmonar associado à fa­ lência ventricular esquerda - possivelmente pelo seu efeito va­ sodilatador. 4. Farmacocinética a. Administração. Por causa da significativa biotransformação de primeira passagem da morfina no fígado, as injeções IM, SC ou IV produzem as respostas mais confiáveis. A absorção da mor­ fina doTGI é lenta e errática. Quando a morfina é usada por via oral, em geral é administrada em uma forma de liberação lenta , para obter níveis plasmáticos mais consistentes. E importante notar que a morfi na tem perfil farmacocinético linear. Este com­ portamento farmacocinético permite que a dosagem seja mais previsível e flexível. (Nota: nos casos de dor crônica associada à doença neoplásica, é comum utilizar os comprimidos orais de liberação lenta ou bombas que permitem ao paciente controlar a dor pela autoadministração.) b. Distribuição. A morfina entra rapidamente em todos os teci­ dos do organismo, inclusive no feto, e não deve ser utilizada para analgesia durante o trabalho de parto. Recém-nascidos de mães adietas apresentam dependência física de opioides, manifestando sintomas de abstinência se o opioide não for ad­ ministrado. Somente uma pequena fração de morfina atravessa a barreira hematencefálica, já que a morfinaé o fármaco menos lipofílico dos opioides comuns. Nesse aspecto, a morfina con­ trasta com os opioides mais lipossolúveis, como a fentanila, e a metadona, que penetram rapidamente o cérebro. e. Destino. A morfina é conjugada com ácido glicurônico no fí­ gado. A morfina-6-glicuronato é um analgésico muito potente, e o conjugado na posição 3 (morfina-3-glicuronato) não tem atividade opioide, mas parece causar efeitos neuroexcitatórios observados com doses altas de morfi na. Os conjugados são excretados primariamente na urina e pequenas quantidades aparecem na bile. A duração de ação da morfina é de 4 a 6 ho­ ras quando administrada sistemicamente em indivíduos nunca expostos, e é consideravelmente mais longa quando injetada por via epidural, porque sua baixa lipofilicidade retarda a redis­ tribuição do espaço epidural. (Nota: a idade do paciente pode influenciar a resposta à morfina. Pacientes idosos são mais sen­ síveis ao efeito analgésico, possivelmente devido à diminuição
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    do metabolismo oua outros fatores, como a diminuição da mas­ sa corporal, da função renal, etc. Eles devem receber dosagens menores. Os neonatos não devem receber morfinadevido à sua baixa capacidade de conjugação.) 5. Efeitos adversos. Pode ocorrer grave depressão respiratória e re­ sultar em óbito o envenenamento agudo com opioides. Um efeito grave é a parada das trocas respiratórias em pacientes com enfise­ ma ou corpulmonale. (Nota: se a morfina for utilizada nesses indi­ víduos, a respiração deve ser cuidadosamente monitorada.) Outros efeitos incluem êmese, disforia e efeitos hipotensivos acentuados por histamina (Figura 14.5). A elevação da pressão intracraniana, particularmente em lesões na cabeça, pode ser grave. A morfina aumenta a isquemia cerebral e espinal. Na hiperplasia prostática benigna, a morfina pode causar retenção urinária aguda. Pacien­ tes com insuficiência suprarrenal ou mixedema podem apresentar efeitos dos opioides mais intensos ou prolongados. A morfi na deve ser utilizada com cautela nos pacientes com asma brônquica, insu­ ficiência hepática ou comprometimento da função renal. 6. Tolerância e dependência física. O uso repetido da morfina pro­ duz tolerância aos seus efeitos depressor respiratório, analgésico, eufórico e sedativo. No entanto, normalmente não se desenvolve tolerância aos efeitos de constrição pupilar e de constipação. De­ pendência física e psicológica ocorre rapidamente com a morfina e com alguns dos outros agonistas (ver Figura 14.3). A retirada pro­ duz umasérie de respostas autônomas, motoras e psicológicas que incapacitam o indivíduo e causam sintomas graves (quase insupor­ táveis). Entretanto, é muito raro que os efeitos sejam tão intensos a ponto de levar a óbito. (Nota: a desintoxicação de indivíduos depen­ dentes de morfina normalmente é alcançada pela administração via oral de metadona, buprenorfina [ver adiante] ou clonidina.) 7. Interações farmacológicas. As interações de fármacos com morfi­ na parecem ser raras, contudo as ações depressivas da morfi na são acentuadas pelas fenotiazinas, pelos inibidores da monoamina oxida­ se (1MAO) e pelos antidepressivos tricíclicos (ver Figura 14.6). B. Meperidina A meperidina é um opioide sintético estruturalmente não relacionado à morfi na. Ela é utilizada contra a dor aguda. 1. Mecanismo de ação. A meperidi na se liga aos receptores de opioi­ des, particularmente aos receptores µ. Também se liga de modo eficaz aos receptores K. 2. Ações. A meperidina causa depressão da respiração de forma se­ melhante à morfina, mas não apresenta ação cardiovascular signifi­ cativa quando administrada por via oral. Na administração IV, a me­ peridina produz diminuição na resistência periférica e aumento no fluxo sanguíneo periférico e pode aumentar a frequência cardíaca. Como ocorre com a morfi na, a meperidina dilata os vasos cerebrais, aumenta a pressão do líquido cerebrospinal e contrai a musculatura lisa (esse último menos intensamente do que a morfina). A meperi­ dina não causa pupila puntiforme, mas dilatação das pupilas devido a uma ação anticolinérgica. 3. Utilização terapêutica. A meperidina produz analgesia, mas não é recomendada para uso prolongado, porque seu metabólito ativo, normeperidina tem propriedades neurotóxicas significativas. Ao Farmacologia Ilustrada 173 Contraindicação absoluta para meperidina e contraindicação relativa para outros analgésicos narcóticos devido à alta incidência de coma hiperpiréxico Maior depressão do SNC, particularmente depressão respiratória Inibidores Sedativos- da MAO -hi nóticos Antidepressivos Fármacos tricíclicos neurolépticos Maiorsedação;efeitosvariáveis sobreadepressãorespiratória Figura 14.6 1nteração de fármacos com analgési­ cos narcóticos. SNC = sistema nervoso central; MAO = monoamina oxidase. Legenda Morfina Meperidina Fentanila Figura 14.7 Tempoparaopicodeefeito Duraçãodeação 15 minutos 2 a 4 horas 5 minutos 15 a 30 minutos Tempo para o pico de efeito e duração de ação de vários opioides administra­ dos porvia IV.
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    174 Clark, Finkel,Rey & Whalen Abuprenorfina é usada na desintoxi­ caçãode opioide, pois tem sintomas de abstinência menos graves e de duração mais curta comparado com a metadona. i.-----""!'llr-Heroína, Buprenorfina Metadona 5 10 Diasdesdeaúltimadosificação Os sintomas duram maiscom a metadona, mas são menos intensos do que os da abstinência de heroína. Figura 14.8 15 Gravidade dos sintomas de abstinência ao opioide após suspenção abrupta de dosagens equivalentes de heroína, bu­ prenorfina e metadona. contrário da morfi na, a meperidina não é útil clinicamente no trata­ mento da diarreia ou da tosse. Ela produz menos retenção urinária do que a morfina. 4. Farmacocinética. A meperidina é bem absorvida noTGI e está dis­ ponível para administração oral. No entanto, a meperidina é admi­ nistrada com maior frequência por via parenteral. Sua duração de ação é de 2 a 4 horas, que é inferior à da morfina (Figura 14.7). No fígado, a meperidina sofre N-desmetilação em normeperidina e é excretada na urina. 5. Efeitos adversos. Doses elevadas ou repetidas de meperidina podem causar ansiedade, tremores, espasmos musculares e, rara­ mente, convulsões devido ao acúmulo do metabólito normeperidi­ na. O fármaco difere dos opioides porque, quando administrado em doses elevadas, dilata a pupila e causa reflexos hiperativos. Pode ocorrer hipotensão grave quando o fármaco é administrado no pós­ -operatório. Devido à sua ação antimuscarínica (anticolinérgica), os pacientes podem sentir a boca seca e a visão borrada. Quando o fármaco é utilizado em conjunto com os principais antipsicóticos, a depressão é muito aumentada. A administração a pacientes que também utilizam IMAO ou dextrometorfano pode provocar reações graves, como convulsões e hipertermia. A meperidi na é considera­ da inadequada para uso em pacientes geriátricos e naqueles com função renal insuficiente devido ao acúmulo de normeperidina. De­ vido à toxicidade associada com o uso de meperidi na em idosos, esta medicação foi incluida na relação de Beers desenvolvida para identificar os fármacos que devem ser evitados em pacientes ido­ sos. Os efeitos adversos associados com normeperidina não são reversíveis com administração de naloxona. C. Metadona A metadona é um opioide sintético, eficaz por via oral, com potência equianalgésica variável comparada à da morfi na, e a conversão entre os dois fármacos não é linear. A metadona causa menos euforia e tem duração de ação pouco maior. 1. Mecanismo de ação. As ações da metadona são mediadas pelos receptores µ.. Além disso, a metadona é um antagonista do receptor NMDA, o que é útil no tratamento da dor neurogênica. 2. Ações. A metadona é bem absorvida quando administrada por via oral, diferente da morfi na, que é apenas parcialmente absorvida no TGI. Como a morfi na, a metadona aumenta a pressão biliare causa constipação (mas menos do que a morfi na). 3. Utilização terapêutica. A metadona é usada como analgésico nas dores nociceptivas e neurogênicas, bem como é usada na retirada controlada dos dependentes de heroína e morfi na. Por via oral, ela substitui o opioide injetável. O paciente então vai recebendo doses gradualmente menores de metadona. A metadona causa síndrome de abstinência mais suave, contudo mais longa (dias a semanas), do que a de outros opioides (Figura 14.8). 4. Farmacocinética. A metadona é bem absorvida após a adminis­ tração via oral. O fármaco é biotransformado no fígado e excretado , quase exclusivamente nas fezes. E importante entender a farma- cocinética da metadona ao usar este fármaco devido às múltiplas variáveis associadas. A metadona é muito lipossolúvel, levando ao
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    acúmulo nos tecidosgordurosos. A liberação lenta destes tecidos faz a meia-vidavariar de 12 a 40 horas e foi registrado que pode se estender até 150 horas. A duração efetiva da analgesia varia de 4 a 8 horas.Após dosificações repetidas, os níveis de metadona podem acumular devido a longa meia-vida terminal, levando à toxicidade. A biotransformação é variável, pois depende de múltiplas enzimas CIP450, algumas das quais são afetadas por polimorfismo genético conhecido e são suscetíveis a várias interações por fármacos. 5. Efeitos adversos. A metadona pode produzir dependência física, similar à da morfina, mas causa menos neurotoxicidade do que ob­ servado com morfi na, porque nãotem metabólitos ativos.A metado­ na pode causar torsade depointesem certas situações. A dosagem excessiva pode acontecer quando quem prescreve não está atento para a tolerância cruzada incompleta entre a metadona e outros opioides, à longa meia-vida associada com a metadona e às nor­ mas próprias de titulação, para evitar o acúmulo, além das múltiplas interações com fármacos que podem ocorrer com a metadona. D. Fentanila A fentanila, quimicamente relacionada à meperidina, apresenta 100 ve­ zes a potência analgésica da morfi na, sendo utilizada na anestesia. Ela é altamente lipofílica e apresenta rápido início de ação, mas curta duração (15 a 30 minutos). Normalmente elaé administrada porvia IV, epidural ou intratecal. A fentanila é utilizada por via epidural para induzir anestesia (ver p. 146) e para analgesia pós-operatória e durante o parto. Também estão disponíveis uma preparação oral transmucosa e um adesivo trans­ dérmico do fármaco.A preparação transmucosa é utilizada no tratamento de pacientes com câncerque apresentam dor súbita e são tolerantes aos opioides (Figura 14.9). O adesivo transdérmico deve ser utilizado com cautela, pois se sabe que pode ocorrer óbito devido à hipoventilação. (Nota: o adesivo transdérmico cria um reservatório do fármaco na pele. Assim, o início da ação é retardado por 12 horas, e a duração é prolon­ gada.) Frequentemente a fentanila é usada durante cirurgias cardíacas, já que ela tem efeitos negligenciáveis na contratilidade do miocárdio. A fentanila é biotransformada em metabólitos inativos pelo sistema CIP450 3A4, e os fármacos que inibem essa isoenzima podem potencializar os seus efeitos. A maior parte da fentanila e seus metabólitos são elimi­ nados pela urina. Os seus efeitos adversos são semelhantes aos dos agonistas de receptores µ... Devido à hipoventilação com risco de vida, o adesivo de fentanila é contraindicado no tratamento da dor aguda e pós-operatória ou da dor que pode ser reduzida com outros analgésicos. Diferentemente da meperidi na, a fentanila causa constrição pupilar. E. Sufentanila, alfentanila e remifentanila Três fármacos relacionados à fentanila - sufentanila, alfentanila e remi­ fentanila -diferem em potência e destino metabólico. A sufentanila é ain­ da mais potente do que a fentanila, e os outros dois são menos potentes e têm ação mais curta. F. Heroína A heroína não existe naturalmente. Ela é produzida pela diacetilação da morfina, que leva à triplicação dasua potência. Sua maior lipossolubilida­ de permite-lhe atravessar a barreira hematencefálica mais rapidamente do que a morfi na, causando euforia mais exagerada quando injetada. A heroína é convertida em morfina no organismo, mas seus efeitos duram a metade do tempo. Ela não tem utilização médica aprovada nos Estados Farmacologia Ilustrada 175 Aformatransmucosadafentani/aé aplicada namucosabucalnaformadepastilhaque opacientechupa. Mucosa oral -+- Tecido vascular Figura 14.9 Matriz contendo fentanila . .. Matriz contendo fentanila '-------.1 -- Saliva Aplicação transmucosa de fentanila. As pastilhas são usadas somente em pa­ cientes tolerantes aos opioides, como pacientes com câncer que sentem do­ res episódicas. A absorção da forma transmucosa bucal garante rápida ab­ sorção e um efeito mais prolongado do que quando administrado pelo sistema gastrintestinal após deglutição.
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    176 Clark, Finkel,Rey & Whalen ,, Dor Analgesia ,, Sedação Euforia Tosse seca Figura 14.10 Algumas ações da codeína. Zz z Unidos, mas é usada terapeuticamente em outros países contra a dor grave do câncer.* G. Oxicodona e oximorfona A oxicodona é um derivado semissintético da morfi na. Ela é ativa por via oral e, algumas vezes, formulada com ácido acetilsalicílico (AAS) ou com paracetamol. A oxicodona é usada no tratamento da dor moderada a intensa, apresentando muitas propriedades em comum com a morfina. O efeito analgésico oral é aproximadamente o dobro da morfi na. Ela é bio­ transformada via CIP450 206 e 3A4. A excreção é por via renal. O abuso das preparações de liberação lenta (ingestão dos comprimidos pulveriza- , dos) é associado a muitos óbitos. E importante que as formas com maior dose desse tipo de preparação sejam utilizadas apenas por pacientes com tolerância a opioides. A oximorfona é um narcótico analgésico com potência similar à da hidromorfona (ver adiante). Está disponível em for­ mulações de liberação estendida e de ação intermediária. Não ocorrem interações de fármacos clinicamente relevantes associadas com o siste­ ma enzimático CIP450 comparado com a oxicodona. H. Hidromorfona e hidrocodona Hidromorfona e hidrocodona são ativas por via oral e análogos semisin­ téticos da morfi na e codeína, respectivamente. A hidromorfona por via oral é cerca de 8 a 1O vezes mais potente do que a morfina oral como analgésico e é usada mais frequentemente para tratar a dor grave. A hi­ dromorfona é preferida ante a morfi na em pacientes com disfunção renal devido ao menor acúmulo de metabólitos ativos comparado à morfina. A hidrocodona é o éter metílico da hidromorfona, mas é um analgésico mais fraco do que a hidromorfona. A potência analgésica da hidrocodona oral é aproximadamente a da morfi na. A hidrocodona é associada com paracetamol ou ibuprofeno para tratar dor moderada a intensa. Ela tam­ bém é usada como antitussígeno. A hidrocodona é biotransformada no fígado a vários metabólitos, um dos quais é a hidromorfona por ação da CIP450 206 que pode ser afetada por interações com outros fármacos. IV. AGONISTAS MODERADOS A FRACOS A. Codeína A ação analgésica da codeína deriva da sua conversão à morfi na pelo sistema enzimático CIP450 206, e os efeitos antitussígenos são devi­ dos à própria codeína. Portanto, a codeína é um analgésico muito menos potente do que a morfina. A potência analgésica da codeína é cerca de 30° / o daquela da morfina. A codeína apresenta boa atividade antitussí­ gena em doses que não são analgésicas. Nas dosagens usadas comu­ mente, ela apresenta menor potencial para abuso do que a morfi na. Ela é utilizada frequentemente em combinação com ácido acetilsalicílico ou com paracetamol. (Nota: na maioria das preparações contra tosse que não necessitam de receita, a codeína é substituída por fármacos como o dextrometorfano, um depressor da tosse sintético que relativamente não possui propriedades analgésicas e tem relativo baixo potencial de abuso, nas doses antitussígenas usuais.) A Figura 14.1O lista algumas ações da codeína. * N. deT. A heroína não tem utilização médica aprovada no Brasil.
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    V. AGONISTAS-ANTAGONISTAS EAGONISTAS PARCIAIS Os fármacos que estimulam um receptore bloqueiam outro são denominados agonistas-antagonistas. Os efeitos desses fármacos dependem da exposição prévia a opioides. Em indivíduos que não receberam opioides recentemente, os agonistas-antagonistas apresentam atividade agonista e são utilizados no alívio da dor. No paciente dependente de opioides, os fármacos agonistas­ -antagonistas podem apresentar principalmente efeitos bloqueadores (i.e., produzem sintomas de abstinência). A. Pentazocina A pentazoci na age como agonista nos receptores K e é um antagonista fraco nos receptores µ e S. Ela promove analgesiaativando receptores na medula espinal e é empregada no alívio da dor moderada. Pode ser ad­ ministrada porvia oral ou parenteral.A pentazoci na produz menos euforia quando comparada à morfina. Em doses mais altas, provoca depressão respiratória e reduz a atividade doTGI. Doses altas aumentam a pressão arterial e podem causar alucinações, pesadelos, distaria, taquicardia e tontura (devido a esses últimos efeitos, o uso de pentazocina diminuiu). Na angina, a pentazocina aumenta a pressão aórtica média e a pressão arterial pulmonare, assim, aumenta otrabalho do coração. O fármaco re­ duz ofluxo plasmático renal. Apesar de sua ação antagonista, apentazo­ cina não antagoniza a depressão respiratória causada pela morfina, mas pode provocar a síndrome de abstinência no dependente desse fármaco. Desenvolvem-se tolerância e dependência com o uso continuado. B. Buprenorfina A buprenorfina é classificada como agonista parcial e atua no receptor µ. Ela atua como a morfina em pacientes que não usaram morfina, mas pode precipitar a síndrome de abstinência em viciados em morfina. Um de seus principais usos é na desintoxicação dos adietas de opioides, pois provo­ ca sintomas de abstinência mais suaves e curtos em comparação com a metadona (Figura 14.08 e 14.1 1). Ela causa pouca sedação, depressão respiratória e hipotensão, mesmo em doses elevadas. Em contraste com a metadona, disponível apenas em clínicas especializadas, a buprenorfina é aprovada paradesintoxicação ou manutenção ambulatorial. A buprenorfina é administrada por via sublingual, parenteral ou transdérmica e tem longa duração de ação devido à sua forte ligação ao receptor µ. Os comprimidos desse fármaco são indicados no tratamento da dependência dos opioides e estão disponíveis como monopreparado de buprenorfina (Subutex) e também em associação com naloxone (Suboxone). A naloxona foi adicio­ nada à buprenorfina para evitar o abuso de buprenorfima via injeção IV. Não há efeito clínico com uso de naloxona oral, mas na administração IV ocorre antagonismo opoide e o paciente experimenta a abstinência. A for­ ma injetável e o adesivo transdérmico de uso semanal são indicados para o alívio da dor moderada a intensa. A buprenorfina é biotransformada pelo fígado e excretada na bile e na urina. Os efeitos adversos incluem depres­ são respiratória que não é facilmente revertida pela naloxona e redução (ou, raramente, aumento) da pressão arterial, náuseas e tontura. C. Nalbufina e butorfanol A nalbufina e o butorfanol, como a pentazoci na, têm um papel limitado no tratamento da dor crônica. Nenhum desses fármacos está disponível para administração oral. Sua predisposição para causar efeitos psicoto­ miméticos (ações que mimetizam os sintomas de psicose) é menor do que a da pentazocina. A nalbufina não afeta o coração nem aumenta a pressão arterial, em contraste com pentazoci na e butorfanol. A vantagem rJ 100 o 'B. as ::::1 50 - e o Q. o 100 o 'B. .ã 50 e � o Farmacologia Ilustrada 177 Compulsãoporopioide Piacebo I Buprenorfina 1 2 3 Semanas Impressãodoindivíduo sobreoestadogeral 4 o ��������� o 100 o •Ili u. .ã 50 e o Q. o o 1 2 3 Semanas Impressãodoclínico sobreoestadogeral Semanas 1 2 3 Figura 14.11 4 4 Pontuação da compulsão por opioide e do estado geral em pacientes adietas de opioide inscritos para tratamento em consultóriocom buprenorfinaou placebo.
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    178 Clark, Finkel,Rey & Whalen Agonista opioide Wlfíf�ff? 'CJjYX, ctY:J-- ---------- - __J � Receptor deopioide Receptor deopioide Aligaçãodanaloxonanãoativa oreceptor;porisso,elareverte osefeitosdosagonistasopioides, comoamorfinaeaheroína. Figura 14.12 Competição da naloxona com os ago­ nistas opioides. dos três fármacos é a propriedade de eles apresentarem um efeito limite na depressão respiratória. VI. OUTROS ANALGÉSICOS A. Tramado! O tramado/ é um analgésico de ação central que se liga ao receptor opioide µ.. O fármaco sofre extensa biotransformação via CIP450 206, re­ sultando em um metabólito ativo com afinidade muito maior pelo receptor µ. do que o composto original. Além disso, ele inibe fracamente a capta­ ção de norepinefrinae serotonina. Esse fármaco é utilizado no manejo da dor moderada a moderadamente intensa. Sua atividade depressora do sistema respiratório é menor do que a da morfina. A naloxona (ver a se­ guir) só reverte parcialmente a analgesia provocada pelo tramado/ou seu metabólito ativo. Foram relatadas reações anafilactoides. Podem ocorrer interações entre fármacos, como com os inibidores seletivos da capta­ ção de serotonina e os antidepressivos tricíclicos ou dosagem excessiva, resultando em excitação e convulsões. O tramado/ deve ser evitado em pacientes que utilizam inibidores da monoamina oxidase. B. Tapentadol O tapentadol é um analgésico de ação central que se liga ao receptor opioide µ. e é também um inibidor da captação de norepinefrina, ao que se atribui um efeito aditivo à ação opioide.Tem sido usado para combater dor moderada a intensa, crônica e aguda. As interações de fármacos são limitadas com o tapentado/, pois parece que seu perfil farmacocinético não inibe ou induz o sistema CIP450, já que é biotransformado princi­ palmente por glicuronidação. Como o tapentadol não produz metabólitos ativos, não é necessário o reajuste de dosagem em insuficiências renais leves a moderadas. O tapentadoldeve ser evitado em pacientes sob tra­ tamento com IMAO, inclusive nos últimos 14 dias. Atualmente o tapenta­ dol está disponível em formulação para liberação imediata. VII. ANTAGONISTAS Os antagonistas opioides se ligam com alta afinidade aos receptores opioi­ des, mas não ativam a resposta mediada pelo receptor. A administração de antagonistas opioides não produzefeitos significativos em indivíduos normais. No entanto, em pacientes dependentes de opioides, os antagonistas revertem rapidamente o efeito dos agonistas, como a morfina e outros agonistas µ. to­ tais, e precipitam os sintomas de abstinência de opioides. A. Naloxona A naloxona é utilizada para reverter o coma e a depressão respiratória da dose excessiva de opioides. Ela rapidamente desloca todas as molé­ culas opioides ligadas ao receptor e, assim, é capaz de reverter o efeito da dose excessiva de morfina (Figura 14.12). Dentro de 30 segundos da injeção IV de naloxona, a depressão respiratória e o coma característicos da superdose de morfi na são revertidos, reanimando o paciente etornan­ do-o alerta.A naloxona tem meia-vidade 30 a 81 minutos. (Nota: devido à duração de ação relativamente curta da naloxona, um paciente deprimido que tenha sido tratado e recuperado pode voltar a apresentar depressão respiratória.) A naloxona é um antagonista competitivo nos receptores µ., K e õ, com afinidade 1O vezes maior pelos receptores µ. do que pelos K. Isso pode explicar a razão pela qual a naloxona reverte rapidamente a
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    depressão respiratória comapenas uma reversão mínima da analgesia resultante da estimulação dos receptores K pelo agonista na medula es­ pinal. A naloxona não produz efeitos farmacológicos em indivíduos nor­ mais, mas precipita os sintomas de abstinência nos adietas de opioides. A Figura 14.13 resume alguns dos sinais e sintomas da abstinência aos opioides. Não se observam efeitos clínicos com naloxona por via oral, mas por administração IV, ocorre antagonistmo opioide e o paciente exi­ be abstinência. Isso explica o uso associado da naloxona com opioides orais para deter o abuso de droga por via IV. B. Naltrexona A naltrexona tem ações similares às da naloxona. Ela apresenta duração de ação mais longa do que a naloxona, e uma única dose oral de naltre­ xona bloqueia o efeito da heroína injetada por até 48 horas. A naltrexona associada à clonidina (e, algumas vezes, à buprenorfina) é usada na de­ sintoxicação rápida de opioides. Ainda que também possa ser útil no trata­ mento do alcoolismo crônico por meio de um mecanismo desconhecido, as benzodiazepinas e a clonidi na são preferidas.A naltrexona é hepatotóxica. Estágio 1: até 8 horas V ,, Estágio li: 8 a 24 horas Ansiedade Suplicando pela "droga" ,, ,, �) Ansiedade Insônia Distúrbios GI Rinorreia Estágio Ili: até 3 dias v =-- - ..... 0 ........ o ,, PA Taquicardia Náusea, êmese Hipertensão Diarreia Calafrios Tremores Convulsões Figura 14.13 Síndrome da abstinência aos opioides. GI = gastrintestinal. Farmacologia Ilustrada 179 Midríase Diaforese V 98,6---t Febre V Espasmos musculares
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    180 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 14.1 Um jovem foi trazido para a emergência inconsciente e apresentando constrição pupilar e depressão respiratória. Observam-se marcas de picadas de agulhas nas pernas. Você administra naltrexona, e o rapaz acorda. O fármaco foi eficaz porque: A. o paciente estava sofrendo de dose excessiva de um benzodiazepínico. B. a naltrexona antagoniza os opioides no receptor. C. a naltrexona é um estimulante do SNC. D. a naltrexona se liga ao opioide, inativando-o. E. ele estava sob efeito de dosagem excessiva de mepe­ ridina. 14.2 Uma adieta de heroína ingressou em um programa de rea­ bilitação que exige a utilização de metadona. A metadona é eficaz nessa situação porque: A. é um antagonista nos receptores de morfina. B. é um fármaco não narcótico. C. tem maior duração de ação do que a heroína, resultan­ do em abstinência mais suave do que com a heroína. D. não causa constipação. E. não causa dependência. 14.3 Qual dasseguintes afirmações sobrea morfinaestá correta? A. É utilizada terapeuticamente no alívio da dor causada por lesões graves na cabeça. B. Os sintomas de sua retirada podem ser aliviados pelo uso da naloxona. C. Causa diarreia. D. É mais eficaz quando administrada por via oral. E. Penetra rapidamente nos tecidos do organismo, inclu­ sive no feto em mulheres grávidas. 14.4 A dorde um paciente portador de câncer ósseo foi comba­ tida com uma bomba de morfina. No entanto, ele se tornou tolerante à morfina. Qual dos seguintes fármacos pode ser indicado para o controle de sua dor? A. Meperidina B. Codeína C. Fentanila D. Metadona E. Buprenorfina Resposta correta = B.As indicações são de que o paciente está sob ação de dose excessiva de um opioide, como a heroína. A naltrexo­ na antagoniza o opioide deslocando-o do receptor. Sua utilização é preferida ante a naloxona devido ao maior tempo de ação, agindo, assim, durante o tempo que o opioide permanecer no organismo. A meperidina causa dilatação da pupila. Respostacorreta = C.A metadona é utilizadanos programas de rea­ bilitação como substituta da heroína. Ela tem ação analgésica e eu­ forigênica similar à heroína, é ativa porvia oral e pode sercontrolada facilmente. Mais importante: tem ação longa, e a síndrome de absti­ nência vivida pela paciente à medida que o fármaco é gradualmente retirado é muito mais suave do que seria com a heroína.A metadona é um opioide sintético eficaz porvia oral e age nos receptores µ.. Ela causaconstipação e pode causar dependência. Resposta correta = E. A morfina provoca um aumento na pressão do líquido cerebrospinal secundário à dilatação dos vasos cerebrais, e seu uso está contraindicado em lesões graves na cabeça. A naloxo­ na é um antagonista de opioide e pode precipitar sintomas de abs­ tinência em indivíduos adictos de morfina. A morfina é administrada por via parenteral, pois sua absorção do TGI é irregular. Ela causa constipação. Resposta correta = C. A fentanila é utilizada na anestesia. Ela provo­ ca analgesia e, normalmente, é injetada por via epidural. No entanto, sua ação analgésicatambém é benéfica em pacientes portadores de câncer. Elaestá disponível em adesivotransdérmico e em preparação transmucosa oral. A meperidina e a codeína apresentam tolerância cruzada com a morfina, e, assim, não serão eficazes.A buprenorfina, como a metadona, é utilizada na desintoxicação poropioides, poden­ do precipitar síndrome de abstinência.
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    • s1a 1. RESUMO A epilepsiaafeta aproximadamente 3° / o dos indivíduos quando eles alcançam 80 anos de idade. Cerca de 10° / o da populaçãotem pelo menos uma convulsão durante sua vida. Globalmente, a epilepsia é o terceiro distúrbio neurológico maiscomum, logo atrás da doença cérebro-vasculare da doença deAlzheimer. A epilepsia não é uma entidade simples. Ao contrário, é um conjunto de dife­ rentestipos de convulsões e síndromes originadas porvários mecanismos que têm em comum a descarga repentina, excessiva e sincronizada dos neurônios cerebrais. Essa atividade elétrica anormal pode resultar em uma variedade de eventos, incluindo perda de consciência, movimentos anormais, compor­ tamento atípico ou desigual ou percepção distorcida de duração limitada em geral, mas recorrente se não tratada. O local de origem dos disparos neuronais anormais determina os sintomas produzidos. Por exemplo, se o córtex motor estiver envolvido, o paciente pode sofrer de movimentos anormais ou convul­ são generalizada. Ataques originados nos lobos parietal ou occipital podem incluir alucinações visuais, auditivas e olfatórias. O tratamento por fármaco ou porestimulação do nervo vagai são os meios mais eficazes para ocontrole dos pacientes com epilepsia.A expectativaé de controlaros ataques completamen­ te em cerca de 70 a 80° /o dos pacientes com uma medicação. Estima-se que aproximadamente 1O a 15° / o dos pacientes necessitem mais de um fármaco e talvez 10° / o possam não alcançar controle completo dos ataques. Um resumo dos fármacos anticonvulsivantes é apresentado na Figura 15.1 . li. CONVULSÕES IDIOPÁTICAS E SINTOMÁTICAS , Na maioria dos casos, a epilepsia não tem causa identificável. Areas focais funcionalmente anormais podem ser ativadas por alterações em fatores fisio­ lógicos, como alteração nos gases sanguíneos, pH, eletrólitos e glicemia, e alterações em fatores ambientais, como privação do sono, ingestão de álcool e estresse. A descarga neuronal resulta do disparo de uma pequena popu­ lação de neurônios em alguma área específica do cérebro que é denomina­ da ''foco primário". Anatomicamente, essa área focal pode parecer comple- Figura 15.1 Carbamazepina Diazepam Divalproex Etosuximida Felbamato Fenitoí na Fenobarbital Fosfenitoína Gabapentina Lacosamida Lamotrigina Levetiracetam Lorazepam Oxcarbazepina Pr imidona Rufinamida Ti agabina Topiramato Vigabatrin Zonisamida Resumo dos fármacos (em ordem al­ fabética) utilizados no tratamento da epilepsia.
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    182 Clark, Finkel,Rey & Whalen Podeserutilizadatomografiadecoerência deemissãoúnicadefótonpara medirofluxosanguíneoregionalno cérebro.Aimagemmostraumaumento dofluxosanguíneonolobotemporal esquerdoassociadoaoestabelecimento deumacrisenamesmaárea. Figura 15.2 Região do cérebro de um indivíduo epiléptico mostrando aumento do fluxo sanguíneo durante uma crise. CRISES - PARCIAIS (preservação da consciência) ,_ Simples(consciêncianormal) -Complexas(consciência alterada/semmemória) - GENERALIZADAS (perda da consciência/sem memória) ,_Tônico-clônicas ,_Crisesdeausência ,_Mioclônicas -Espasmoinfantil -Estadoepiléptico Estado Epiléptico - Generalizado (convulsivo ou não convulsivo) - Estado Epiléptico Parcial (perda da consciência/sem memória) Figura 15.3 Classificação de crises epilépticas. tamente normal. No entanto, progressos tecnológicos, como as técnicas de neuroimagens como imagens por ressonância magnética (IRM), tomografia por emissão de pósitron (TEP) e tomografia de coerência de emissão de fó­ ton simples (TCEFS), melhoraram a capacidade de detectar anormalidades (Figura 15.2). A epilepsia pode ser denominada idiopática, se a etiologia é desconhecida, ou sintomática, se é secundária a uma condição identificável. Ainda que haja múltiplas síndromes epilépticas específicas que incluem ou­ tros sintomas além das crises, não é objetivo deste capítulo discuti-las. A. Epilepsia idiopática Quando não há evidência de causa anatômica específica para as crises, comotraumatismo ou neoplasia, o diagnóstico pode ser de epilepsia idio­ pática ou criptogênica (primária). Essas crises podem resultar de uma anormalidade herdada no SNC. Os pacientes são tratados cronicamente com fármacos anticonvulsivantes ou estimulantes vagais. A maioria dos casos de epilepsia são idiopáticas. B. Epilepsia sintomática Inúmeras causas, como o uso de fármacos ilícitos, tumores, traumatismo encefálico, hipoglicemia, infecção meníngea e a retirada rápida de álcool em um indivíduo alcoólatra, podem desencadearas crises. Quando ocor­ rem duas ou mais convulsões, o paciente pode ser diagnosticado com epilepsia sintomática (secundária). O tratamento crônico com fármacos anticonvulsivantes, a estimulação do nervo vago e a cirurgia são trata­ mentos apropriados e podem ser usados sozinhos ou em associação. Em alguns casos, quando a causa de uma convulsão simples pode ser determinada e corrigida, o tratamento não é necessário. Por exemplo, a convulsão causada por hipotensão temporária ou por reação a fármaco não é epilepsia e não requer tratamento crônico. Em outras situações, fármacos anticonvulsivantes podem ser administrados até que a causa primária das crises seja corrigida. - Ili. CLASSIFICAÇAO DAS CRISES , E importante classificar corretamente as crises para determinar o tratamento apropriado. As crises são classificadas pelo local de origem, etiologia, corre­ lação eletrofisiológica e apresentação clínica. A lnternational Leaque Against Epilepsy desenvolveu uma nomenclatura para descrever as crises. Esta clas­ sificação é considerada como padrão para descrever crises e síndromes epi­ lépticas (Figura 15.3). As crises são classificadas em dois grupos gerais: par­ ciais (ou focais) e generalizadas. O diagnóstico pode incluir a classificação da crise em epilepsia parcial ou generalizada dependendo do início. A. Parciais A crise parcial envolve somente uma porção do cérebro, normalmente parte de um lobo de um hemisfério. Os sinais de cadatipo de crise depen­ dem do local da descarga neuronal e da extensão que a atividade elétrica se espalha nos demais neurônios do cérebro. Em geral, preserva-se a consciência. Crises parciais podem evoluir, tornando se crises tônico-clô­ nicas generalizadas. 1. Parciais simples. Essas crises são causadas por um grupo de neurônios hiperativos que apresentam atividade elétrica anormal, a qual fica confinada em um local do cérebro. A descarga elétrica não se alastra, e o paciente não perde a consciência. Com frequência, o paciente apresenta atividade anormal em um dos membros ou em
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    um grupo muscularcontrolado pela região cerebral que apresenta o distúrbio. O paciente também pode apresentar distorções senso­ riais. A atividade pode se alastrar. Crises parciais simples podem ocorrer em qualquer idade. 2. Parciais complexas. Essas crises provocam alucinações senso­ riais complexas e distorção mental. A disfunção motora pode envol­ ver movimentos mastigatórios, diarreia e/ou micção. A consciência se altera. A crise parcial simples pode se alastrar, tornar-se comple­ xa e então evoluir para uma convulsão generalizada secundária. As crises parciais podem ocorrer em qualquer idade. B. Generalizadas As crises generalizadas podem iniciar localmente e então avançar, in­ cluindo descargas elétricas anormais pela totalidade de ambos os he­ misférios cerebrais. As crises generalizadas primárias podem ser con­ vulsivas ou não convulsivas, e o paciente normalmente apresenta perda imediata daconsciência. 1. Tônico-clônicas. Estas crises resultam em perda da consciência, seguida das fases tônica (de contração contínua) e clônica (de con­ tração rápida e relaxamento). A crise pode ser seguida por um pe­ ríodo de confusão e exaustão devido à depleção de glicose e dos estoques energéticos. 2. Ausências. Essas crises envolvem uma perda breve, abrupta e au­ tolimitante da consciência. Em geral, inicia-se em pacientes de 3 a 5 anos de idade e perdura até a puberdade ou mais. O paciente permanece com o olhar fixo e pisca rapidamente, o que dura de 3 a 5 segundos. A crise de ausência têm um padrão de descarga de três picos e ondas por segundo no eletroencefalograma (EEG). 3. Mioclônicas. Essas crises consistem em episódios curtos de con­ tração muscular que podem ocorrer novamente por vários minutos. Em geral, elas ocorrem após o despertar e se revelam como bre­ ves contrações espasmódicas dos membros. As crises mioclônicas ocorrem em qualqueridade, mas em geral iniciam na puberdade ou no adultojovem. 4. Crises febris. Crianças jovens podem desenvolver crises com en­ fermidades acompanhadas de febre elevada. Essa tendência pode ocorrer também em irmãos. A crise febril consiste em convulsões tônico-clônicas generalizadas de curta duração e não necessaria­ mente levam ao diagnóstico de epilepsia. 5. Estado epiléptico. No estado epiléptico, duas ou mais crises ocor­ rem sem recuperação plena daconsciência entre elas. Essas crises podem ser parciais ou generalizadas primárias, convulsivas ou não convulsivas. O estado epiléptico é ameaçador à sobrevida e exige tratamento de emergência. e. Mecanismo de ação dos fármacos antiepiléticos Os fármacos que reduzem as crises realizam essa ação por meio de mecanismos como: bloqueio dos canais voltagem-dependentes (Na+ ou Ca2+), potenciação dos impulsos inibitórios GABAérgicos ou interferência na transmissão excitatória do glutamato. Alguns anticonvulsivantes pa­ recem ter múltiplos alvos no SNC, ao passo que o mecanismo de ação de outros permanece mal definido. Os anticonvulsivantes suprimem as crises, mas não "curam" ou "previnem" a epilepsia. Farmacologia Ilustrada 183 Diagnósticodeumanovaepilepsia • Considere iniciar otratamento a partirda segunda crise. , Fármacodeprimeiraescolha • Escolha o fármaco apropriado para o tipo de crise do paciente. - Considere a toxicidade dosfármacos. - Considere as características do paciente. • Titularadosagemgradualmente ao máximotoleradoe/ouqueproduzo controleidealdas cr ises. ' • • As crisespersistem As crisesdesaparecem ' Fármacodesegundaescolha • Osegundofármaco étitulado até aconcen- tração quecontrola as convulsões antes de reduzireinterromperofármaco anticonvulsivante original. • Se opr imeiro fármaco está associado com efeitosadversos significativos, eledeveser reduzido gradualmente enquantoo segundo fármacoestásendo introduzido. - • As crisespersistem As crises desaparecem • Associação Tratamento racionalde - - farmacológico doisfármacos alternativo • • As cr ises persistem As crises desaparecem ' • Considerea estimulação donervovago Figura 15.4 Estratégias terapêuticas para controle de uma epilepsia diagnosticada.
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    184 Clark, Finkel,Rey & Whalen Chave: Nomsdofármaco Inicialmenteconsidere com base nas características do paciente, no diagnóstico e sintomase leveem consideração problemas médicosconcorrentes. EPILEPSIAPARCIAL Parcial simples, parcial complexa com ou sem generalização secundária Paciente idoso Lamotrigina Levetiracetam Topiramato Lamotrigina 1Nome do fármaco J Considere esta opçãose as crises persistem ou se os efeitosadversos do 1°fármaco impedem o uso. 1Nome do fármaco1 Considereestaalternativa se as crises persistem ou osefeitos adversos impedem otratamento. Diva/proex Carbamazepina Gabapentina ---:>...... Oxcarbazepina Fenitoina Lacosamida . Pregabalina ········->..... Zoni samida Tiagabina 1Estimulaçãovagai1 Considere quando aadesão aotratamento, as interações farmacológicasou os efeitos adversos impedem otratamento farmacológico. ·······--->·..·!Estimulação vagai]........ ---':>......1Gabapentina ]...._ _ __, :>......(Carbamazepinal-·.....---':>·....1Estimulação vagait....... EPILEPSIAGENERALIZADAPRIMÁRIA Ausência Mioclônica Tônico-clônica Estado epilético Divalproex Lamotrigina Divalproex Levetiracetam Lamotrigina Levetiracetam Topiramato Benzo.. dlazeplnas Fosfenitofna SÍNDROMEEPILÉPTICA Rolãndica benigna Espasmos infantis (síndrome de West) Lennox-Gastaut Figura 15.5 · Gabapentina Lamotrigina Corticotropina Vigabatrina Divalproex Lamotrigina Toplramato ----.>......[Topiramato ]...._ _ __, >..····[ Etosuximida �................................................................... _ _ ____. :>...... Lamotrigina Topiramato ""- D iva/proex - - - v ......,__ Z o - n - i s _ a _ m _ id - a - --< ---:>······ El����a����nas.................................................................... - - - - - - - - - - - - - - ---.,.,.-........[Estimulação vagai,....... ----.:>·····�Eléirllituratoi> ]··························································································································· Carbamazepína ·······->..···· Levetiracetam Topiramato Benzodiazepinas ·······--->..··· Diva/proex Topiramato 1LevetiracetamJ --->..···r--- R _ uft _ n _ a _ m _ id _ a _ -< V igabatrina Zoni samida . ---:>······������ina ···································································· ->..···· Lamotrigina Zonísamida _ _ ____. ""-...... Elenzodiazepinas .......- - ----' ""- 1 1 v - - - v·.... Estimulação vagair...... Felbamato Indicações terapêuticas para os fármacos anticonvulsivantes. Benzodiazepinas = diazepam e /orazepam. IV. SELEÇÃO DO FÁRMACO A escolha do tratamento farmacológico se baseia no tipo específico de crise a ser combatida, variáveis específicas do paciente (p. ex., idade, condições mórbidas simultâneas, estilo de vida e preferências pessoais) e características do fármaco, incluindo custos e interações com outros fármacos. Por exemplo, ataque parcial de crises são tratadas com medicamentos diferentes dos utili­ zados nas crises generalizadas primárias ainda que a relação de fármacos efi­ cazes se sobreponha. Muitos fármacos anticonvulsivantes podem ter a mesma
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    eficácia. A toxicidadedo fármaco e as características do paciente são as prin­ cipais considerações ao se selecionar o fármaco e o plano de tratamento. Em pacientes novos, recém-diagnosticados, é instituído tratamento com um único fármaco (monoterapia) até que as crises sejam controladas ou que ocorram si­ nais detoxicidade (Figura 15.4). Comparados àqueles que recebem tratamento associado, os pacientes submetidos à monoterapia apresentam maior adesão e menor número de efeitos adversos. Se as crises não forem controladas com o primeiro fármaco, deve ser considerada a monoterapia com um anticonvul­ sivante alternativo ou vários ou a estimulação do nervo vago (Figura 15.5). O conhecimentodos anticonvulsivantes disponíveis, e seus mecanismos de ação, farmacocinética, potencial de interação com outros fármacos eefeitos adversos é essencial para o tratamento bem-sucedido do paciente. Há pacientes que requerem a associação de medicamentos para o controle das convulsões. V. FÁRMACOS ANTIEPILÉTICOS PRIMÁRIOS Durante os últimos vinte anos, a Administração de Fármacos e Alimentos dos EUA (FDA) aprovou muitos novos antiepiléticos. Alguns destes fármacos têm vantagens em comparação com os anticonvulsivantes aprovados antes de 1990 emtermos de farmacocinética, tolerânciae riscode interaçõesfármaco-fármaco. A relação de fármacos aprovados desde 1990 inclui gabapentina, /acosamida, lamotrigi na, /evetiracetam, oxcarbazepina, pregabalina, rufinamida, tiagabina, topiramato e zonisamida. Estes são denominados de "segunda geração" quan­ do comparados com os antigos antiepiléticos, como carbamazepi na, divalproex, etosuximida, fenobarbital, fenitoína e ácido valproico. Contudo, os estudos clíni­ cos falharam em fornecerevidências que os fármacos de segunda geração são significativamente melhores do que os fármacos antigos em termos de eficácia e ausência de efeitos adversos. Por essa razão, os fármacos mais comumen­ te usados são descritos em ordem alfabética, em vez de tentar ordená-los por eficácia. A Figura 15.6 mostra os efeitos adversos comuns dos antiepiléticos. Os fármacos que têm aumento do risco de comportamento e de pensamentos suicidas trazem uma advertência do FDA em tarja preta na bula. A. Benzodiazepínicos Os bezodiazepínicos se ligam aos receptores GABA inibitórios para redu­ zira taxa de disparos. Diazepam e lorazepam são usados com maior fre­ quência como fármacos auxiliares nas crises mioclônicas, bem como nas crises parciais e nas tônico-clônicas generalizadas. O lorazepam (ver p. 1 1 4) tem meia-vida farmacocinética menor, mas permanece mais tempo no cérebro do que o diazepam. O di azepam está disponível para admi­ nistração retal para evitar ou interromper crises ou salvas tônico-clônicas generalizadas prolongadas. Outros benzodiazepínicos podem ser usados no tratamento de várias epilepsias, mas devem ser empregados somente depois que a tentativa com monoterapia ou associação da maioria dos outros fármacos anticonvulsivantes falharem. B. Carbamazepina A carbamazepina reduz a propagação dos impulsos anormais no cérebro, bloqueando os canais de sódio, inibindo, assim, a geração de potenciais de ação repetitivos no foco epiléptico e evitando seu alastramento. Ela é eficaz notratamentodas crises parciais e das tônico-clônicas generalizadas secundárias. Ela também é usada no tratamento da neuralgia do trigêmio e no distúrbio bipolar. A carbamazepina tem absorção lenta e errática após administração via oral e pode variar de genérico para genérico, resultando em amplas variações de concentração sérica. Ela induz sua própria bio­ transformação e tem um metabólito ativo. A carbamazepina é substrato da CIP3A4 com menor biotransformação pela CIP1A2 e CIP2C8. O metabólito Farmacologia Ilustrada 185 V =- ==:::= º =ti º v==� V a+ V Figura 15.6 Náuseas e êmese Sedação e sonolência Ataxia Hiponatremia Ganho ou perda de massa corporal Teratogenicidade Osteoporose Principais efeitos adversos dos fárma­ cos anticonvulsivantes.
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    186 Clark, Finkel,Rey & Whalen CIP1A2 CIP2C8 CIP2C9 CIP2C19 CIP3A4 Carbamazepina Carbamazepina Carbamazepina Diva/proex Fenobarbital Fenitoí na Diva/proex Felbamato Fenobarbital Fenitoína Zonisamida Carbamazepina Etosuximida Ti agabina Zonisamida UDP-glicurosoniltransferase Figura 15.7 Diva/proex Lamotrigina Lorazepam Biotransformação dos fármacos anti­ convulsivantes pelas CIP. epóxido corresponde a 25° / o da dose, é ativo e pode ser inibido por fárma­ cos que inibem a UDP-glicuronosiltransferase (UGT), levando à toxicidade (Figura 15.7). A carbamazepina é um indutor das famílias de isoenzimas CIP1A2, CIP2C eCIP3Aedaenzima UGT, que pode aumentaradepuração e reduzir a eficácia dos fármacos que elas biotransformam. Ela não é bem tolerada por idosos da mesmaforma que outros anticonvulsivantes disponí­ veis. Pode serdetectada hiponatremiaem alguns pacientes, particularmente em idosos, o que pode indicara necessidade de troca de fármaco. Erupção cutânea característica pode se desenvolver no início do tratamento, mas não exige troca de fármaco. A carbamazepina não deve ser prescrita para pacientes com crises de ausência, porque ela pode aumentá-las. C. Etosuximida A etosuximida reduz a propagação da atividade elétrica anormal no cé­ rebro, mais provavelmente inibindo os canais de cálcio tipoT. Ela é eficaz somente no tratamento das crises de ausência generalizadas primárias (ver Figura 15.5.). O uso da etosuximida é limitado devido ao seu espec­ tro muito estreito. D. Felbamato O felbamato apresenta um amplo espectro de ação anticonvulsivante. Múl­ tiplos mecanismos são propostos para sua ação, incluindo 1) bloqueio dos canais de sódio dependentes de voltagem; 2) competição pelo local de li­ gação do coagonista glicina no receptor de NMDA; 3) bloqueio dos canais de cálcio e 4) potenciação das ações do GABA. O felbamato é um inibidor dos fármacos biotransformados pela CIP2C19 e [3-oxidação (Figura 15.7) e induzosfármacos biotransformados pelo CIP3A4. Ele é reservado para uso em epilepsias refratárias (particularmente a síndrome Lennox-Gastaut) de­ vidoao risco de anemia aplástica (cercade 1 :4.000) e insuficiência hepática. E. Gabapentina A gabapentina é um análogo do GABA. Contudo, ela não atua nos re­ ceptores GABA, não potencializa as suas ações e nem é convertida em GABA. Seu mecanismo de ação preciso segue desconhecido. Ela é apro­ vada como tratamento auxiliar para crises parciais e no tratamento da neuralgia pós-herpética. A gabapentina apresenta farmacocinética não linear (ver p. 14) devido à sua captação do intestino por um sistema de transporte saturável. Ela não se liga às proteínas plasmáticas e é excreta- , da inalterada pelos rins. E necessário diminuir suadosagem nas doenças renais. A gabapentina é bem tolerada pela população idosa com crises parciais devido aos seus efeitos adversos relativamente leves. Ela é tam­ bém uma boa escolha para os pacientes idosos devido a poucas ou total ausência de interações farmacocinéticas. F. Lacosamida A lacosamida in vitro afeta canais de sódio disparados por voltagem re­ sultando na estabilização de membranas neuronais hiperexcitadas e ini­ bição de disparos neuronais repetitivos. A /acosamida se liga à proteína 2 mediadora da resposta colapsina (P2MRC), uma fosfoproteína expressa princiaplmente no sistema nervoso e envolvida nadiferenciação neuronal e controle do crescimento axonal.A função da ligação da P2MRC no con­ trole das convulsões é desconhecido. A /acosamida está aprovada para o tratamento auxiliar de convulsões parciais. Em triagens clínicas, causou euforia similar à produzida pelo alprazolam e é rotulada como fármaco controlado (Relação V). Está disponível como uma formulação injetável. O efeito adverso mais comum que limita o tratamento inclui tonturas, ce­ faleia e fadiga.
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    G. Lamotrigina A lamotriginabloqueia os canais de sódio, bem como os canais de cálcio altavoltagem-dependentes. Ela éeficaz em umavariedade de tipos de con­ vulsões, incluindo crises parciais, generalizadas, crises de ausência típicas e síndrome de Lennox-Gestaut. Elatambém é aprovada para uso no distúr­ bio bipolar. A lamotrigina é biotransformada principalmente a N2 glicuroní­ deo pela via da UGT. A sua meia-vida (de 24 a 35 horas) é reduzida pelos fármacos indutores de enzimas (p. ex., a carbamazepina e a f enitoína) e aumentada em mais de 50° / o pelo acréscimo de valproato. A dosagem de lamotrigina deve ser reduzida ao adicionaro valproato ao tratamento, a me­ nos que o valproato esteja sendo acrescentado em pequena dosagem para reforçar a concentração sérica de lamotrigina. Foi registrado que a eleva­ ção rápidada concentração séricade lamotrigi nacausaerupções cutâneas, que, em alguns pacientes, pode evoluirpara uma reação grave, ameaçadora à vida. A lamotrigina também é bem tolerada pela população idosa com crises parciais devido aos seus efeitos adversos relativamente pequenos. H. Levetiracetam O leveti racetam é aprovado para o tratamento auxiliarde crise de ataque parcial, crises mioclônicas e crises tônico-clônicas primárias generaliza­ das em adultos e crianças. O mecanismo exato de ação anticonvulsivante é desconhecido. O fármaço demonstra alta afinidade por uma proteína vesicularsináptica (SV2A). Em camundongos, isso foi associado com po­ tente ação anticonvulsiva. Ele é bem absorvido por via oral e excretado na urina e com a maior parte (66° / o) inalterada. O levetiracetam não inte­ rage com os sistemas metabólicos CIP ou UGT. Os efeitos adversos mais frequentes incluem tontura, distúrbios do sono, cefaleia e fraqueza. 1. Oxcarbazepina A oxcarbazepina é um pró-fármaco que é rapidamente reduzido ao meta­ bólito 10-monoidróxi (MHD), responsável pela atividade anticonvulsivante. O MHD bloqueia canais de sódio prevenindo o alastramento das descargas anormais. A modulação dos canais de cálciotambém é uma das hipóteses. A oxcarbazepina está aprovada para uso em adultos e crianças com crises de ataque parcial. Ela é uma indutora menos potente do CIP3A4 e do UGT doquea carbamazepina. O perfil de efeitosadversos ésimilarao dos outros antiepiléticos. Pode causar náusea, êmese, cefaleia e distúrbiosvisuais. J. Fenobarbital O fenobarbitalfoi sintetizado em 1902 e introduzido no mercado em 1912 por Bayer. Seu mecanismo de ação primário é a potenciação dos efeitos inibitórios dos neurônios mediados por GABA (ver p. 113). Em epilepsia, o fenobarbital deve ser usado primariamente no tratamento do estado epiléptico. K. Fenitoína e fosfenitoína A fenitoína bloqueia os canais de sódio voltagem-dependentes, ligando­ -se seletivamente ao canal no estado inativo e tornando lenta a sua re­ cuperação. Em concentrações muito elevadas, a fenitoína pode bloquear também os canais de cálcio voltagem-dependentes e interferir na libe­ ração de neurotransmissores monoaminérgicos. A fenitoína é eficaz no tratamento das crises parciais, das tônico-clonicas generalizadas e no tratamento do estado epiléptico (Figura 15.5). Ela se liga em 90° / o à al­ bumina do plasma e é indutora dos sistemas enzimáticos CIP2C, CIP3A e UGT acelerando a biotransformação dos fármacos que são substrato desses sistemas. A fenitoína apresenta biotransformação enzimática que ::J � 30 ::1. - m u ;:! •m � 20 - e. o 'B. � 10 e B e 8 o Farmacologia Ilustrada 187 Quandoosistemade hidroxilação hepáticosetornasaturado, pequenosaumentosnadosede fenitoínaprovocamumgrande aumentonaconcentração plasmáticadofármaco. 400 Dosagemdefenitoína(mg/dia) 800 Figura 15.8 Efeito não linear da dosagem de fenitoí­ nasobre a sua concentração plasmática.
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    188 Clark, Finkel,Rey & Whalen Figura 15.9 Hiperplasia gengival em paciente trata­ do com fenitoína. satura em baixas concentrações plasmáticas; por isso, ter conhecimento da farmacocinética de ordem zero e das variáveis da população é impor­ tante parafazero ajuste da dosagem. Pequenos aumentos na dose diária podem produzir grande aumento na concentração plasmática, resultando em toxicidade induzida (Figura 15.8). Ocorre depressão do SNC, parti­ cularmente no cerebelo e no sistema vestibular, causando nistagmo e ataxia. Os idosos são muito suscetíveis a este efeito. Hiperplasia gengival pode levar ao crescimento da gengiva sobre os dentes (Figura 15.9). O uso portempo prolongado pode levarao desenvolvimento de neuropatias periféricas e osteoporose. Embora a fenitoina seja o fármacos mais usa­ do contra a epilepsia mundialmente devido ao seu baixo custo por com­ primido, o custo dotratamento pode ser muito maiorquando se considera o seu potencial para grave toxicidade e efeitos adversos. A fosfenitoína é um pró-fármaco que rapidamente é convertido em feni­ toína no sangue, alcançando altos níveis de fenitoína em poucos minu­ tos. A fosfenitoína também pode ser administrada por via IM. Entretanto, a fenitoína sódica nunca deve ser administrada por essa via, pois pode causar lesão tissular e necrose. A fosfenitoína é o fármaco de escolha, e o padrão para a administração, IV e IM. Devido a denominações com sons e apresentações similares, há risco de ocorrerem erros de prescrições. A denominação registrada da fosfenitoína é Cerebyx® que pode ser confun­ dida facilmente com Celebrex®, um inibidor de ciclooxigenase-2, ou com Celexa®, um antidepressivo. L. Pregabalina A pregabalina se liga ao local a2-õ, uma subunidade auxiliar do canal de cálcio disparado por voltagem no SNC, inibindo a liberação do neu­ rotransmissor excitatório. A função exata que isso tem no tratamento é desconhecida, mas o fármaco comprovou eficácia nas crises de ataque parcial, dor neuropática associada com a neuropatia periférica diabética, neuralgia pós-herpética e fibromialgia. Mais de 90° / o da pregabalina é eli­ minada porvia renal, sem indicação de envolvimento do CIP. Sonolência, visão borrada, aumento de massa corporal e edema periférico foram ob­ servados. M. Rufinamida A rufinamida in vitro atua nos canais de sódio. Está aprovada para o tratamento auxiliar de convulsões associadas com a síndrome Lennox­ -Gastaut em crianças com mais de 4 anos e em adultos. A rufinamida é um inibidor fraco da CIP2E1 e um indutorfraco da CIP3A4. Os alimentos aumentam a absorção e a concentração pico no soro. As concentrações séricas de rufinamida são afetadas por outras medicações anticonvulsi­ vas. Ela é induzida por carbamazepina e fenitoína e inibida quando ad­ ministrada com valproato. Mulheres usando anticoncepcionais devem ser alertadas da possível ineficácia quando usado simultâneo com rufinami­ da. Os efeitos adversos incluem o potencial para diminuição do intervalo QT. Pacientes com síndrome familiar de QT curtos não devem ser trata­ dos com rufinamida. N. Tiagabina A tiagabina bloqueia a captação de GABA pelos neurônios pré-sináp­ ticos, permitindo que haja uma maior quantidade de GABA disponível para ligação com o receptor; assim, aumenta a atividade inibitória. A tia­ gabina é eficaz na diminuição do número de crises em pacientes com epilepsia de ataques parciais. A ligação à albumina e à glicoproteína-a1 ácida é maior que 95° / o. A biotransformação é feita principalmente pela família CIP3Ade enzimas. Os efeitos adversos incluem cansaço, tonturas
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    e distúrbios gastrintestinais.Há indicações da vigilância após o início da comercialização, que ocorreram crises em pacientes que não apresenta­ vam epilepsia quandoo fármacofoi usado. A tiagabina não foi aprovada e nem deve ser usada para nenhuma outra indicação. O. Topiramato O topiramato possui várias ações que devem contribuir no seu amplo es­ pectro de atividade anticonvulsivante. Ele bloqueia canais de sódio volta­ gem-dependentes e demonstrou-se que aumenta afrequência de abertura dos canais de cloro ligando-se ao receptor GABAA. Correntes de cálcio de alta voltagem (tipo L) são reduzidas pelo topiramato. Ele é um inibidor de anidrase carbônica e pode atuar em receptores glutamato (NMDA). O topiramatoé eficaz eaprovado para uso em epilepsias parciais e primárias generalizadas. Ele também é aprovado no tratamento da enxaqueca. O to­ piramato é eliminado porvia renal e também tem metabólitos inativos. Ele inibe a CIP2C19 e é induzido pela fenitoína e carbamazepina. Foi descrito que a lamotrigina causa aumento da concentração de topiramato. A coad­ ministração do topiramato diminui o etinilestradiol. Por isso, mulheres que recebem estefármaco devem ser aconselhadas ausar métodos adicionais para controle da natalidade. Os efeitos adversos incluem sonolência, per­ da de massa corporal e parestesias. Foi descrita uma maior incidência de cálculos renais do que na população não tratada. Glaucoma, oligo-hidrose e hipertermia também foram observados. O último está especificamente relacionado com a atividade da anidrase carbônica. , P. Acido valproico e divalproex O ácido valproico está disponível como ácido livre. O divalproex sódico é a associação de valproato de sódio e ácido valproico que é convertido em valproato quando alcança o TGI. Ele foi desenvolvido para melhorar a tolerância gastrintestinal do ácido valproico. Todos os sais disponíveis são equivalentes em eficácia (ácido valproico e valproato de sódio). Os produtos comerciais estão disponíveis em formulações com múltiplos sais, dosagens e com liberação prolongada. Por isso, o risco de erros de medicação é elevado, sendo essencial estar familiarizado com todas as preparações. O mecanismo de ação proposto inclui o bloqueio de canais de sódio, bloqueio de transaminase GABA e ação no canais de cálcio do tipo T. Estes variados mecanismos proporcionam um amplo espectro de atividadecontra as crises. Estes fármacos são eficazes para o tratamento de crises parciais e generalizadas primárias. O valproato inibe o metabo­ lismo dos sistemas CIP2C9, UGT e epóxido hidrolase (ver Figura 15.7). O valproato se liga à albumina (mais de 90° / o), o que causa uma interação significativa com outros fármacos que se ligam fortemente a proteínas. Toxicidade hepática rarapode causaraumento das enzimas hepáticas no plasma, que devem ser monitoradas frequentemente. A teratogenicidade também é uma grande preocupação. As mulheres em idade de gestação devem sertratadas com outros fármacos e ser informadas sobre o poten­ cial de defeitos genéticos, incluindo anormalidades comportamentais e cognitivas (Figura 15.1O) e defeitos de tubo neural. Q. Vigabatrina A vigabatrina atua como inibidor irreversível da ácido 'Y-aminobutírico transaminase (GABAT). A GABAT é a enzima responsável pela meta­ bolização do GABA. A vigabatrina está associada com efeitos adversos como a perda leve a moderada do campo visual em 30o/ o ou mais dos pacientes. A vigabatrina só está disponível por meio de farmácias que participam do Programa SHARE (1 88845 SHARE). Os médicos devem se registrar no SHARE para prescrever a vigabatrina. Farmacologia Ilustrada 189 QI médio Carbamazeplna • 97 Lamotrlglna Fenitoína V alproato • 100 80 85 90 95 100 105 QImédioaos3 anos 98 87 Aexposiçãoaovalproaton o ú t e r oestá associadaaoaumentodoriscodo comprometimentodasfunções cognitivasaos 3 anosdeidade,quando comparadocomoutrosfármacos antiepiléptlcoscomumenteusados. Ovalproatonãodeveserusadoem mulherescompotencialdeengravidar. Figura 15.1O Função cognitiva aos 3 anos de idade depois de exposição fetal a altas do­ sagens de fármacos antiepilépticos. A média (quadrado preto) e 95% do in­ tervalo de confiança (linhas horizontais) são mostrados para QI de crianças em função dos fármacos antiepilépticos. QI = quociente de inteligência.
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    190 Clark, Finkel,Rey & Whalen rJ o m Umgeradordepulsos implantadoconectaaos eletrodosquecirculam onervovago. Oestimuladordonervovago gerapulsoselétricosque estimulamonervovago. Gerador depulsos *-- Eletrodos___, -. Nervovago_J Essaestimulaçãoelétricaprevine aatividadeelétricaanormalque podecausarascrises. Opacienteativaoestimulador quandopressenteacrise. �-;·) � .... ir ,,, Biscoito Tirasdeespagueti • Figura 15.11 Estimulação do nervo vago. A. Localiza­ ção doestimulador implantado. B. Tama­ nho do aparelho. R. Zonisamida A zonisamida é um derivado sulfonamida com amplo espectro de ação. Tem múltiplos efeitos no sistema neuronal, aceitos como envolvido na geração das crises, incluindo bloqueio dos canais de sódiosvoltagem-de­ pendentes e correntes de cálcio tipo-T. Ela tem atividade limitada sobre a anidrase carbônica. A reação cruzada com outras sulfonamidas deve ser revisada, e seu emprego monitorado em pacientes com registro de aler­ gias. A zonisamida está aprovada para pacientes com crise parcial. Ela é biotransformada pela isoenzima CIP3A4 e pode, em menor extensão, serafetado pela CIP3A5 e CIP2C19.Além dos efeitos adversos típicos no SNC, ofármaco pode causarcálculos renais. Foi registradaoligo-hidrose, e os pacientes devem ser monitorados quanto ao aumento natemperatu­ ra corporal e redução da sudoração. - VI. ESTIMULAÇAO DO NERVO VAGO A estimulação vagai (EV) requer o implante cirúrgico de um pequeno gera­ dor de impulsos com bateria e eletrodos para estimulação (Figura 15.11). O aparelho é implantado e os eletrodos enrolados no nervo vago do paciente. Este tratamento foi aprovado em 1997. O aparelho também está aprovado para tratamento da depressão. O mecanismo de ação é desconhecido. Como há o envolvimento difuso com circuitos neuronais, há uma variedade de me­ canismos pelos quais ele pode exercer seu efeito no controle de crises. A EV é eficaz no tratamento das crises de ataques parciais e permite a redução do tratamento farmacológico em alguns casos. Ela é uma alternativa para pacientes que se revelam refratários a vários fármacos, naqueles que são sensíveis aos vários efeitos adversos dos anticonvulsivantes e nos que têm dificuldade em aderir ao esquema de tratamento. Contudo, a EV é um proce­ dimento invasivo e dispendioso. - VII. ESTIMULAÇAO CEREBRAL PROFUNDA A estimulação cerebral profunda (ECP) usa um aparelhotipo marca-passo para lançarestímulos elétricos ao núcleo anteriordotálamo.O tratamento está apro­ vado pelo FDA em condição de tratamento auxiliarpara convulsões em adultos com epilepsia refratária a medicamentos. A ECP também está aprovada pelo FDA para o tratamento do mal de Parkinson avançado e o tremor essencial. - VIII. EPILEPSIA NA GESTAÇAO Mulheres epilépticas com frequência se preocupam com a gestação e com o efeito que a medicação podeter no desenvolvimento fetal. O planejamento é o componente mais importante.Todas as mulheres que consideram a gestação devem receber dosagens elevadas de ácido fálico antes da concepção. Dival­ proexe os barbitúricos devem ser evitados. O tratamento das mulheres com divalproexe barbitúricos deve sertrocado para outro fármaco antes da gesta­ ção, se possível. Se as crises estão controladas, a medicação de manutenção pode ser reduzida, se possível, para a menordosagem que garanta o controle. Se as crises não estão controladas, a medicação e as dosagens devem ser ajustadas antes da gestação, se possível. A frequência e a gravidade das cri­ ses pode se alterar durante a gestação. É importante ser acompanhada pelo obstetra e pelo neurologista. Nos EUA, todas as gestantes com epilepsia são estimuladas para registrar-se no AED (Antiepileptic drug) Pregnancy Registry. A Figura 15.12 resume mecanismos, efeitos adversos e comentários clínicos dos fármacos antiepiléticos.
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    Farmacologia Ilustrada 191 •• FÁRMACO MECANISMO DE AÇÃO EFEITOS ADVERSOS E COMENTÁRIOS Carbamazepina Divalproex Etosuximida ,. Felbamato I• Fenitoína Gabapentina Lacosamida Lamotrigina Levetiracetam Oxcarbazepina Pregabalina Rufinamida Tiagabina Topiramato Vigabatrina Zonisamida Figura 15.12 Bloqueia canais de Na• Mecanismo múltiplo Bloqueia canais de Ca2• Hiponatremia, sonolência, fadiga, tonturas evisão turva. O usotambém está associado com síndrome de Steven-Johnson. Discrasias do sangue: neutropenia, leucopenia, trombocitopenia, pancitopenia eanemias. Aumento de massa corporal, facilidade de lesões, náuseas, tremores, queda de pelos, distúrbios TGI, lesão hepática, alopecia e sedação. Foram observados insuficiência hepática, pancreatite e efeitosteratogênicos. Amplo espectro de atividade anticonvul.siva. Sonolência, hiperatividade, náuseas, sedação, distúrbios TGI, aumento de massa corporal, letargia, LES e erupções. Podem ocorrer discrasias do sangue; deve serfeito HCG periódico. A interrupção abrupta pode causar convulsões. Insônia, tonturas, cefaleia, ataxia, aumento de massa corporal e irritabilidade. Anemia Mecanismos múltiplos de ação aplástica e insuficiência hepática. Amplo espectro de atividade anticonvulsiva. Requer o consentimento do paciente por escrito autorizando o uso. Bloqueia canais de Na• Desconhecido Mecanismos múltiplos de ação Mecanismos múltiplos de ação Mecanismos múltiplos de ação Bloqueia canais de Na• Mecanismos múltiplos de ação Desconhecido Receptor GABA Mecanismos múltiplos de ação Ligação irreversível do GABA-T Mecanismos múltiplos de ação Hiperplasia gengival, confusão, fala enrolada, visão dupla, ataxia, sedação, tonturas e hirsutismo. Síndrome de StevensJohnson, potencialmente fatal. Não recomendado ' para uso crônico. E o tratamento primário para o estado epilético (fosfenitoína). Leve sonolência, tonturas, ataxia, aumento de massa corporal e diarreia. Poucas interações de fármacos. Cem porcento eliminados porvia renal. Tonturas, fadiga e cefaleia. Poucas interações de fármacos. RelaçãoV (dos EUA). Náusea, sonolência, tonturas, cefaleia ediplopia. Urticária (síndrome de Stevens-Johnson, potencialmentefatal), Amplo espectro de atividade antioonvulsiva. Sedação, tonturas, cefaleia, anorexia, fadiga, infecções e sintomas comportamentais. Poucas interações com fármacos. Amplo espectro de atividade anticonvulsiva. Náuseas, urticária, hiponatremia, cefaleia, sedação, tonturas, vertigens, ataxia e diplopia. Aumento de massa corporal, sonolência, tonturas, cefaleia, aumento de massa corporal, diplopia e ataxia. Cem por cento de eliminação renal. Diminui o intervalo QT. Interações múltiplas com outros fármacos. Sedação, aumento de massa corporal, fadiga, cefaleia, tremor, tonturas e anorexia. Múltiplas interações com outros fármacos. Parestesia, perda de massa corporal, nervosismo, depressão, anorexia, ansiedade, tre . mores e queixas cognitivas, cefaleia, oligoidrose. Poucas interações entre fármacos. Amplo espectro de atividade anticonvulsiva. Perda de visão, sonolência, fadiga, neuropatia periférica, aumento de massa corporal. Disponível somente através do programa SHARE1• Náuseas, anorexia, ataxia, confusão, dificuldade de concentração, sedação parestesia e oligo-hidrose. Amplo espectro de atividade anticonvulsiva. Resumo dos fármacos antiepilépticos. HGM = hemograma completo; GABA = ácido -y-aminobutírico;TGI = trato gastrin­ testinal; LES = lúpus eritematoso sistêmico. 1 Programa nos EUA que autoriza o médico a usar este fármaco.
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    192 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 15.1 Um menino com 9 anos de idade foi encaminhado para avaliação neurológica devido a episódios de aparente "confusão". Desde o último ano a criança vem sofrendo episódios durante os quais apresenta olhar vago e não responde aos questionamentos. Alem disso, parece levar vários minutos até que se recupere dos episódios. Qual das denominações a seguir melhor descreve as crises desse paciente? A. Parciais simples B. Parciais complexas c. Tônico-clônicas D. De ausências E. Mioclônicas 15.2 Qual dos seguintes tratamentos seria o mais apropriado para o paciente descrito na questão anterior? A. Etosuximida B. Carbamazepina C. Diazepam D. Carbamazepina mais primidona E. Observar e aguardar 15.3 O paciente descrito na Questão 15.1 foi tratado durante seis meses com carbamazepina, mas recentemente voltou a apresentar crises e com maior frequência. Considera-se acrescentar um segundo fármaco ao regime medicamen­ toso do paciente. Qual dos seguintes fármacos menos pro­ vavelmente apresentará interação farmacocinética com a carbamazepina? A. Topiramato B. Tiagabina C. Levetiracetam D. Lamotrigina E. Zonisamida Resposta correta = B. O paciente apresenta episódios de crises par­ ciais complexas. Esse tipo de crise prejudica a consciência e pode ocorrer em qualquer faixa etária. Em geral, o olhar vago é acom­ panhado de comprometimento da consciência e da evocação. Se questionado, o paciente pode responder de forma inapropriada ou ininteligível. Movimentos automáticos são associados à maioria das crises parciais complexas e envolvem a boca e a face (movimentos de compressão dos lábios, mastigação degustação e deglutição), membros superiores (movimentos de tatear, cutucar, dedilhar ou apertar), vocalização (resmungos ou repetição de palavras e frases) ou atos mais complexos (como caminhar ou misturar comida no pra­ to), podem estar presentessinais sutis de lateralização (comosorriso assimétrico). Resposta correta = B. O paciente sofreu várias crises, e o risco de não iniciar o tratamento é substancialmente maior do que o risco de tratar suas crises. Comoo menino apresentacomprometimento daconsciên­ ciaduranteascrises, elecorre risco de lesão duranteo episódio.Amo­ noterapia com fármacos primários é preferida para a maioria dos pa­ cientes. As vantagens da monoterapia incluem redução na frequência deefeitosadversos, ausência de interações entrefármacosanticonvul­ sivantes, menorcusto e maioradesão ao tratamento. Aetsuximida e o diazepam não são indicados para as crises parciais complexas. Resposta correta = C. Dos fármacos citados, todos são aprovados como auxiliares no tratamento de crises parciais complexas recorren­ tes, somente o levetiracetam não afeta a farmacocinética dos outros anticonvulsivantes; nem as suas propriedades farmacocinéticas são alteradas por outros fármacos significativamente. Entretanto, qual­ quer dos fármacos listados pode ser acrescentado dependendo do , planejamento e das características do paciente. E melhor considerar a troca da carbamazepina pela lamotrigina, se existe a possibilidade do paciente ter epilepsia primária generalizada, pois não há referên­ cia ao eletroencefalograma na Questão 15.1. O tratamento da epi­ lepsia é complexo, e o diagnóstico se baseia na anamnese e pode requerer reavaliação quando o tratamento medicamentoso falha ou as crises aumentam.
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    . . �. nsu 1c1enc1a , 1aca 1. RESUMO A insuficiência cardíaca (IC) é uma alteração progressiva complexa na qual o coração é incapaz de bombearsangue suficiente para supriras necessidades do organismo. Seus principais sintomas são dispneia, fadiga e retenção de líquido. A IC é decorrente de uma redução da capacidade do coração em en­ cher-se de sangue e/ou de ejetá-lo de forma adequada. Ela é frequentemente acompanhada por aumento anormal do volume de sangue e de líquido in­ tersticial (por isso, o termo IC"congestiva", pois os sintomas incluem dispneia devida à congestão pulmonar na IC esquerda e edema periférico na IC direi­ ta). As causas subjacentes da IC incluem doença cardíaca arteriosclerótica, infarto do miocárdio, doença cardíaca hipertensiva, doençavalvularcardíaca, cardiomiopatia dilatada e doença cardíaca congênita. A disfunção sistólica esquerda secundária à doença arterial coronariana é a causa mais comum de IC, atingindo cerca de 70° / o de todos os casos. O número de pacientes recém-diagnosticados com IC é crescente, pois mais indivíduos sobrevivem atualmente ao infarto agudo do miocárdio. A. Papel dos mecanismos fisiológicos compensatórios na evolução da IC A ativação crônica do sistema nervoso simpático e do eixo renina-angio­ tensina-aldosterona está associada à remodelação do tecido cardíaco, caracterizada pela perda de miócitos, hipertrofia e fibrose. Geometrica­ mente, o coração se torna menos elíptico e mais esférico, o que interfere na sua capacidade de funcionar de forma eficiente como uma bomba. Isso inicia a ativação neuro-humoral adicional, criando um círculo vicioso que, se permanecer sem tratamento, leva à morte. B. Objetivos da intervenção farmacológica na IC Os objetivos são de aliviar os sintomas, tornar lenta a progressão da doença e aumentara sobrevivência. De acordo com esses objetivos, seis classes de fármacos têm se mostrado eficazes: 1) os inibidores do siste­ ma renina-angiotensina; 2) os bloqueadores de (3-adrenorreceptores; 3) INIBIDORES DA ECA Captopril Enalapril Fosinopril Lisinopril Quinapril Ramipril BLOQUEADORESDORECEPTOR DEANGIOTENSINA Candesartana Losartana Telmi sartana Valsartana P·BLOQUEADORESDEADRENORRECEPTORES Atenolol Carvedilol Metopro/oi DIURÉTICOS Bumetanida Furosemida Hidroc/ortiazida (HCTZ) Metolazona Figura 16.1 Resumo dos fármacos usados no tra­ tamento da insuficiência cardíaca. ECA = enzima conversora de angiotensina. (Continua na próxima página.)
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    194 Clark, Finkel,Rey & Whalen VASODILATADORES DIRETOS Hidralazina Dinitrato de isossorbida Mononitrado de i sossorbida Nitroprusseto de sódio FÁRMACOS INOTRÓPICOS Digoxina Dobutamina lnanrinona (antes anri nona) Milrinona ANTAGONISTAS DA ALDOSTERONA Eplerenona Espironolactona Figura 16.1 (Continuação) Resumo dos fármacos usados notrata­ mento da insuficiência cardíaca. os diuréticos; 4) os vasodilatadores diretos; 5) os fármacos inotrópicos e 6) os antagonistas da aldosterona (Figura 16.1). Dependendo da gravida­ de da IC e defatores individuais do paciente, umaou mais classes de fár­ macos são utilizadas. Os efeitos benéficos da intervenção farmacológica incluem redução da carga no miocárdio, diminuição do volume de líquido extracelular, aumento da contratilidade cardíaca e redução davelocidade de remodelamento cardíaco. O conhecimento da fisiologia da contração do músculo cardíaco é essencial para o entendimento da resposta com­ pensatória evocada pelo coração insuficiente, bem como para o entendi­ mento das ações dos fármacos usados no tratamento da IC. - li. FISIOLOGIA DA CONTRAÇAO MUSCULAR O miocárdio, como o músculo liso e o esquelético, responde à estimulação pela despolarização da membrana, aqual éseguidapeloencurtamentodas proteínas contráteis e termina com relaxamento e retorno ao estado de repouso.Todavia, diferente do músculo esquelético, que mostra contração graduada dependendo do número de células musculares que são estimuladas, as células musculares cardíacas são interconectadas em grupos que respondem ao estímulo como uma unidade, contraindojuntas, mesmo que uma única célula seja estimulada. A. Potencial de ação As células musculares cardíacas são eletricamente excitáveis. Contudo, diferente de células de outros músculos e nervos, as células do múscu­ lo cardíaco mostram um ritmo intrínseco espontâneo gerado por células "marca-passo" especializadas, localizadas nos nós sinoatrial e atrioven­ tricular (AV). As células cardíacas apresentam também um longo poten­ cial de ação incomum, que pode ser dividido em cinco fases (0-4). A Fi­ gura 16.2 ilustra os principais íons que participam na despolarização e polarização das células cardíacas. Esses íons passam através de canais no sarcolema e, assim, criam uma corrente. Os canais abrem e fecham em tempos diferentes durante o potencial de ação.Alguns respondem pri­ mariamente a mudanças na concentração iônica, e outros são sensíveis ao trifosfato de adenosina ou à voltagem da membrana. B. Contração cardíaca A maquinaria contrátil da célula miocárdica é essencialmente a mesma dos músculos estriados. A força de contração do músculo cardíaco rela­ ciona-se diretamente com a concentração de cálcio livre (não ligado) no citosol. Assim, fármacos que aumentam os níveis desse cálcio (ou que aumentam a sensibilidade da maquinaria contrátil ao cálcio) aumentam a força de contração (efeito inotrópico). (Nota: os fármacos inotrópicos aumentam a contratilidade do coração por alterar direta ou indiretamente o mecanismo que controla a concentração de cálcio intracelular.) 1. Fontes de cálcio intracelular livre. O cálcio é proveniente de vá­ rias fontes. A primeira é externa à célula onde a abertura de canais de cálcio voltagem sensíveis causa um aumento imediato no cálcio citosólico livre. O cálcio pode entrar também em troca de sódio. O retículo sarcoplasmático e a mitocôndria também liberam cálcio, o que aumenta adicionalmente sua concentração no citoplasma (Fi­ gura 16.3). 2. Remoção do cálcio citosólico livre. Se os níveis de cálcio citosólico livre se mantivessem elevados, o músculocardíaco permaneceria em constante estado de contração, em vez de mostrar uma contração periódica. Os mecanismos de remoção incluem duas alternativas.
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    +50 > E - - as o · - u e GI õ a. ·50 FASEO: DESPOLARIZAÇÃORÁPIDA •CanaisdeNa•abertos("canaisrápidos")resul· tandoemumacorrenterápidaparaointerior. • Adespolarizaçãoterminaquandooscanais deNa•sãorapidamenteinativados. • Acorrentedesódioébloqueadaporfármacos antiarrítmicos,comoaquinidina. 2 o 3 0,5 Tempo(segundos) Membrana FASE3:REPOLARIZAÇÃO celular • CanaisdeCa2•fechados. Ca2• • CanaisdeK•abertos,resultando K• emumacorrenteparaforaque levaà repolarizaçãodamembrana. • O resultadofinaldessaaçãonesse pontoéoganhodeNa•eaperda deK•.Essedesequilíbrioé Lado Lado corrigidopelaNa•tK•-ATPase. externo interno Figura 16.2 Farmacologia Ilustrada 195 FASE1: REPOLARIZAÇÃOPARCIAL • Afaserápidainicialdarepolarizaçãodecorrede: K• 1)inativaçãodoscanaisdeNa•. 2)canaisdeK•queabremefechamrapidamente, causando umacorrentetransitóriaparafora. 4 1,0 K• K• FASE2:PLATÔ • CanaisdeCa2•voltagem-sensíveisabertos, resultandoemumacorrentelentaparao interior(despolarização)queequilibraa saídalentadeK•(polarização). Ca2• Ca2• Lado externo Membrana celular Lado interno Ca2• FASE4:CORRENTEESPONTÂNEA • O aumentodadespolarização resultadoincrementogradualna permeabilidadeaosódio. • Adespolarizaçãoespontânea automaticamentelevaacélulaao limiardonovopotencialdeação. Potencial de ação de uma fibra de Purkinje. ATPase = adenosina trifosfatase.
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    196 Clark, Finkel,Rey & Whalen Canais lentos de Ca2+ voltagem-sensíveis Ca2• � OCa2•éremovidoporcaptaçãoparaoretículo -----... E:Jlll sarcoplasmáticoeporextrusãodacélulapela trocaentreCa2•1Na•. ft Oequilíbriodesódio U érestabelecidopela -......_--" Na•tK··ATPase. Ca2• ------•llJi Ca2• Na• ------•llJi2Na• K Figura 16.3 ReservasdeCa2• (retículosarco­ plasmático) f Ca2•livre Miofibrilas D AentradadeCa2•proveniente doladoexternodacéluladispara aliberaçãode maiorquantidade deCa2•doretículo sarcoplasmático. Aconcentraçãoaumentada deCa2•iniciaoprocesso contrátil. Movimentos de íons durante a contração do músculo cardíaco. ATPase = adenosina trifosfatase. a. Troca sódio-cálcio. O cálcio é removido por uma reação de trocasódio-cálcio que reversivelmente troca íons cálcio por íons sódio através da membrana celular (ver Figura 16.3). Essa inte­ ração no movimento dos íons cálcio e sódio é significativa, pois as mudanças intracelulares de sódio podem afetar os níveis ce­ lulares de cálcio. b. Captação de cálcio pelo retículo sarcoplasmático e pela mi­ tocôndria. O cálcio também é captado pelo retículo sarcoplas­ mático e pela mitocôndria. Mais de 99° / o do cálcio intracelular estão localizados nessas organelas, e mesmo uma pequena al­ teração entre esses estoques e o cálcio livre pode levar a gran­ des alterações na concentração do cálcio citosólico livre. C. Resposta fisiológica compensatória na IC O coração insuficiente evoca três mecanismos compensatórios principais para aumentar o débito cardíaco (Figura 16.4). Embora inicialmente be­ néficas, essas alterações, aofinal, resultam em comprometimento adicio­ nal dafunção cardíaca. 1. Aumento da atividade simpática. Os barorreceptores detectam a diminuição da pressão arterial e ativam o sistema nervoso simpá­ tico. Em uma tentativa de manter a perfusão dos tecidos, esta esti­ mulação dos receptores J3-adrenérgicos resulta em um aumento da frequência cardíaca e da força de contração do músculo cardíaco (ver Figura 16.4). Além disso, a vasoconstrição (mediada por a, ) aumenta o retorno venoso e a pré-carga cardíaca. Essas respostas compensatórias aumentam o trabalho do coração, o que, em longo prazo, contribui para o declínio adicional na função cardíaca.
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    2. Ativação dosistema renina-angiotensina. A queda no débito car­ díaco diminui o fluxo sanguíneo aos rins, induzindo a liberação de renina, com o resultante aumento na formação de angiotensina li e liberação de aldosterona. Isso resulta no aumento da resistência periférica e retenção de sódio e água. O volume de sangue aumen­ ta, e mais sangue retorna ao coração. Se o coração é incapaz de bombear esse volume extra, a pressão venosa aumenta e ocorre edema periférico e pulmonar (ver Figura 16.4). Essa resposta com­ pensatória aumenta o trabalho do coração e, dessa forma, pode contribuir para o declínio posterior na função cardíaca. 3. Hipertrofia miocárdica. O coração aumenta em tamanho, e as câmaras dilatam e se tornam mais globulares. Inicialmente, o es­ tiramento do músculo cardíaco leva a uma contração mais forte do coração. Contudo, o alongamento excessivo das fibras resulta no enfraquecimento das contrações, e a geometria diminui a capacida­ de de ejetaro sangue. Essetipo de insuficiência é denominado insu­ ficiência sistólica e resulta da incapacidade do ventrículo bombear de forma eficiente. Menos comumente, os pacientes com IC podem apresentar disfunção diastólica - um termo aplicado quando a ca­ pacidade do ventrículo em relaxar e receber sangue é prejudicada por mudanças estruturais, como a hipertrofia. O engrossamento da parede ventricular e a subsequente redução no volume ventricular diminuem a capacidade do músculo cardíaco relaxar. Nesse caso, o ventrículo não enche adequadamente, e a inadequação do débito cardíaco é denominada IC diastólica- umacondição particularmen­ te comum de IC em mulheres idosas. A disfunção diastólica na sua forma pura se caracteriza por sinais e sintomas de IC na presença de função normal do ventrículo esquerdo. Todavia, as disfunções sistólica e a diastólica comumente coexistem na IC. D. IC descompensada Se os mecanismos de adaptação restabelecem adequadamente o débito cardíaco, a IC é dita compensada. Contudo, essas compensações au­ mentam o trabalho do coração e contribuem para o seu posteriordeclínio na performance. Se os mecanismos adaptativos não conseguem manter o débito cardíaco, a IC é dita descompensada. E. Estratégias terapêuticas na IC A IC crônica é tratada normalmente com redução da atividade física, die­ ta com baixa ingestão de sódio (< 1 .500 mg/dia), tratamento das con­ dições mórbidas coexistentes e uso criterioso de diuréticos, inibidores do sistema renina-angiotensina e fármacos inotrópicos. Os fármacos que podem precipitarou agravara IC, como anti-inflamatórios não esteroides, álcool, bloqueadores de canais de cálcio, altas dosagens de �-bloquea­ dores e alguns antiarrítmicos, devem serevitados, se possível. Pacientes com IC queixam-se de dispneia de esforço, ortopneia, dispneia noturna paroxística, fadiga e edema. Ili. INIBIDORES DO SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA A IC causa ativação do sistema renina-angiotensina por meio de dois meca­ nismos: 1) aumento da liberação de renina pelas células justaglomerulares nas arteríolas aferentes renais em resposta à diminuição da pressão de per­ fusão renal, resultante do coração insuficiente e 2) liberação de renina pelas células justaglomerulares promovida por estimulação simpática e ativação dos receptores �·A produção de angiotensina li, um potente vasoconstritor, e Pressão venosa Farmacologia Ilustrada 197 1nsuflciêncla cardíaca Débito cardíaco Atividade simpática Pressão sanguínea Filtração capilar Figura 16.4 Fluxo sanguíneo renal Renina, angiotensinali Aldosterona Retençãode sódioeágua Consequências cardiovasculares da in­ suficiência cardíaca.
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    198 Clark, Finkel,Rey & Whalen Angiotensinogênio (°2-globulina no sangue) Renina (do rim) Inibidores Anglotenslna 1 (Inativa) da ECA 1 , Anglotenslna li diminuída a subsequente estimulação da liberação de aldosterona que causa retenção de sal e água levam ao aumento da pré-carga e da pós-carga, que é carac­ terístico da insuficiência cardíaca. Além disso, os níveis aumentados de an­ giotensina li e de aldosterona têm efeitos prejudiciais diretos no músculo car­ díaco, favorecendo o remodelamento, a fibrose e as alterações inflamatórias. A. Inibidores da enzima conversora de angiotensina Os inibidores da enzimaconversorade angiotensina (ECA) são os fárma­ cos de escolha na IC. Esses fármacos bloqueiam a enzima responsável pelatransformação de angiotensina 1 no potentevasoconstritorangioten­ sina li (Figura 16.5). Eles também diminuem a velocidade de inativação da bradicinina. (Nota: a vasodilatação resulta da combinação dos efeitos de redução davasoconstrição causada pela diminuição dos níveis de an­ giotensina li e de aumento do potente efeito vasodilatador da bradicini­ na.) Pela redução dos níveis de angiotensina li circulante, os inibidores da ECA também diminuem a secreção de aldosterona, resultando em menor retenção de sódio e de água. 1. Ações sobre o coração. Os inibidores da ECA diminuem a resistên­ ciavascular, otônus venosoe a pressão arterial. Estesfármacos dimi­ nuem a pré e a pós-carga, resultando em aumento do débito cardíaco (ver Figura 16.5). Os inibidores da ECAtambém abrandam o aumento de epinefrina e aldosterona mediado pela angiotensina li, observado na IC. Os inibidores da ECA melhoram os sinais clínicos e sintomas em pacientes que recebem concomitantemente diuréticos tiazídicos ou de alça e/ou digoxina. O uso de inibidores da ECA no tratamento da IC diminuiu significativamente a morbidade e a mortalidade. Por exemplo, a Figura 16.6 mostraque o inibidorda ECA enalaprildiminuiu a mortalidade cumulativa em pacientes com IC congestiva. (Nota: a re­ duçãoda mortalidade se deve primariamente à diminuiçãodas mortes causadas pela IC progressiva.) O tratamento com enalapriltambém reduz arritmias fatais, infarto do miocárdio e derrame. Resultados se­ melhantes são obtidos com outros inibidores da ECA. 2. Indicações. Os inibidores da ECA podem ser considerados para tra­ tamento com fármaco único em pacientes que apresentam dispneia leve de esforço e que não apresentam sinais ou sintomas de sobre­ carga de volume (edema). Importante: o uso de inibidores da ECA está indicado em pacientesemtodosos estágiosde insuficiênciaven­ tricular esquerda. Os pacientes com as menores frações de ejeção Estimulação do sistema nervoso simpático Vasodilatação de músculo liso vascular Nível de bradicinina V�.. 1 - - - ---= ::::::: -;;;;-1 '-- � � � � � � � __j • Os inibidores da ECA diminuem --------"1/ os níveis circulantes de angio- Inibidores lnibibe a degradação .. tensina li, quetêm os quatro da ECA de bradicinina principais efeitos mostrados. Figura 16.5 Retenção de sódio e água Aumento do débito cardíaco Efeitos dos inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA). (Nota: a diminuição da retenção de sódio e água resultade duas causas: diminuição da produção e liberação de aldosterona e diminuição de angiotensina li, que aumenta a reabsorção de sódio atuando nos rins.)
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    apresentam os maioresbenefícios com uso dos inibidores da ECA. Na IC, dependendo dagravidadedadoença, os inibidoresda ECApo­ dem ser usados associados com diuréticos, [3-bloqueadores, digoxi na e antagonistas da aldosterona. Pacientes que tenham tido infarto do miocárdio recente também se beneficiam com o tratamento de longo prazo com inibidor da ECA. É recomendado que o inibidor da ECA seja iniciado imediatamente após o infarto do miocárdio (Ver p. 234 para o uso de inibidores da ECA no tratamento da hipertensão.) 3. Farmacocinética. Todos os inibidores da ECA são absorvidos de forma adequada, mas não completamente, após a administração via oral. Como a presença de alimento pode diminuir a absorção dos fármacos, eles devem ser tomados com estômago vazio. Com exceção do captopri/, os inibidores da ECA são pró-fármacos que necessitam de ativação por hidrólise pelas enzimas hepáticas. A eliminação renal da molécula ativa é importante para a maioria dos inibidores da ECA, sendo exceção o fosinopril. A meia-vida plasmá­ tica dos compostos ativos varia de 2 a 12 horas, embora a inibição da ECA possa ser muito maior. Os compostos novos como ramipril e fosinopril requerem somente uma única dosagem por dia. 4. Efeitos adversos. Incluem-se hipotensão postural, insuficiência renal, hiperpotassemia, angioedema e tosse seca persistente. A possibilida­ de de hipotensão sintomática com o uso de inibidores da ECA requer monitoração cuidadosa. Os inibidores da ECA não devem ser usados em mulheres gestantes, pois estes fármacos sãotóxicos para ofeto. B. Bloqueadores de receptor de angiotensina Os bloqueadores de receptor de angiotensina (BRAs) são compostos não peptídicos ativos por via oral que são antagonistas competitivos ex­ tremamente potentes do receptor tipo 1 de angiotensina. O /osartana é o fármaco protótipo. Os BRAs têm a vantagem teórica de bloqueio mais completo da ação da angiotensina, pois os inibidores da ECA inibem so­ mente uma enzima responsável pela produção de angiotensina li. Além disso, eles não afetam os níveis de bradicinina.Apesarde os BRAsterem ações semelhantes às dos inibidores da ECA, eles não são terapeutica­ mente idênticos. Mesmo assim, os BRAs são substitutos dos inibidores da ECA nos pacientes que não conseguem tolerar os inibidores. 1. Ações sobre o sistema cardiovascular. Todos os BRAs são apro­ vados para o tratamento da hipertensão com base na sua eficácia clínica em reduzir a pressão arterial e diminuira morbidade e a mor­ talidade associadas à hipertensão. Como indicado, seu uso na IC é como substituto dos inibidores da ECA nos pacientes com tosse intensa ou angioedema. 2. Farmacocinética. Todos os fármacos BRAs são ativos por via oral e requerem somente uma administração por dia. O losartana, o primeiro membro aprovado da classe, difere dos demais, pois so­ fre extensa biotransformação de primeira passagem pelo fígado, incluindo a conversão em seu metabólito ativo. Os demais fárma­ cos apresentam metabólitos inativos. A eliminação de metabólitos e compostos originais ocorre na urina e nas fezes; a proporção depende de cada fármaco individualmente. Todos sofrem elevada ligação com proteínas plasmáticas (mais de 90° / o) e, exceto o can­ desartana, apresentam grande volume de distribuição. 3. Efeitos adversos. Os BRAs têm perfil de efeitos adversos seme­ lhante ao dos inibidores da ECA, mas não provocam tosse. Como com os inibidores da ECA, eles são contraindicados na gestação. Farmacologia Ilustrada 199 100 � '#. 80 - m .ii!: Placebo 1ii - :::1 E 60 :::1 u -! 40 Enalapril m "O · - - m t: o 20 ::& o o 3 6 9 12 Tempo(meses) Figura 16.6 Efeitos do enalapril na mortalidade de pacientes com insuficiência cardíaca congestiva.
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    200 Clark, Finkel,Rey & Whalen O metopro/olreduz a 20 mortalidade em pacientes com insuficiência � cardíaca. #. � �����---..... m .ii!: 15 1ií - :::J E :::J u 10 i 't:I · ­ - g 5 :li o Placebo 6 12 Acompanhamento(meses) Figura 16.7 18 Mortalidade cumulativa em pacientes com insuficiência cardíaca tratados com placebo ou metoprolol. IV. p-BLOQUEADORES Embora pareça contraditório administrar fármaco com atividade inotrópica ne­ gativa ao paciente com IC, vários estudos clínicos têm claramente demonstrado a melhora do funcionamento sistólico e a reversão do remodelamento cardíaco em pacientes que recebem [3-bloqueadores. Esses benefícios ocorrem apesar do eventual agravamento inicial dos sintomas. O benefício dos [3-bloqueadores é atribuído, em parte, à sua propriedade de prevenir as mudanças que ocorrem em virtude da ativação crônica do sistema nervoso simpático, incluindo dimi­ nuição da frequência cardíaca e inibição da liberação de renina. Além disso, os [3-bloqueadores previnemtambémosefeitos prejudiciaisdiretosda norepinefrina na fibra muscularcardíaca, diminuindo o remodelamento, a hipertrofia ea morte celular. Dois [3-bloqueadores são aprovados para uso na IC: o carvedilol e o me­ toprolol de ação prolongada. Ocarvedilol é um antagonistade [3-adrenorreceptor não seletivo que também bloqueia [3-adrenorreceptores, o metoprolol é um anta­ gonista [31 seletivo. (Nota: a farmacologia dos [3-bloqueadores está descrita em detalhes no Capítulo 7.) O bloqueio f3 é recomendado para todos os pacientes com doença cardíaca, exceto aqueles que apresentam alto risco, mas nãoapre­ sentam sintomas, ou aqueles com IC aguda. O carvedilol e o metoprolol dimi­ nuem a morbilidade e a mortalidade associada a IC. O tratamento deve iniciar com baixas dosagens e gradualmente ser titulada a dosagem eficaz com base natolerância dopaciente.Obviamente, o pacienteque étambém hipertensoterá um benefício adicional com [3-bloqueadores.A Figura 16.7 mostra o efeito bené­ fico do tratamento com metoprolol em pacientes com IC. V. DIURÉTICOS Os diuréticos aliviam a congestão pulmonar e o edema periférico. Esses fár­ macos também são úteis na redução dos sintomas da sobrecarga de volume, incluindo ortopneia e dispneia paroxística noturna. Os diuréticos diminuem o volume plasmático e, subsequentemente, diminuem o retorno venoso ao cora­ ção (pré-carga). Isso diminui a cargade trabalho cardíaco e a demanda de oxi­ gênio. Os diuréticos podem diminuir também a pós-carga pela redução do vo­ lume plasmático, reduzindo, assim, a pressão arterial. Os diuréticos tiazídicos são relativamente fracos e perdem eficácia em pacientes com depuração de creatinina inferiora 50 mUmin. Os diuréticos de alça são usados em pacientes que necessitam diurese intensa e em pacientes com insuficiência renal. Os diuréticos de alça são os diuréticos mais comumente usados na IC. (Nota: a dosagem excessiva dos diuréticos de alça pode levarà hipovolemia profunda.) VI. VASODILATADORES DIRETOS A dilatação devasos sanguíneos venosos levaa uma diminuição na pré-carga cardíaca pelo aumento da capacitância venosa; dilatadores arteriais reduzem a resistência arteriolar sistêmica e diminuem a pós-carga. Os nitratos são os dilatadores venosos comumente usados em pacientes com IC congestiva. Se o paciente é intolerante aos inibidores da ECA ou aos [3-bloqueadores, ou se é necessária uma resposta vasodilatadora adicional, pode ser usada a associação de hidralazina e di nitrato de isossorbida. Esta associação é muito eficaz em pacientes negros com IC. A hidralazi na diminui a pós-carga e o ni­ trato orgânico reduz a pré-carga. (Nota: os bloqueadores de canais de cálcio devem ser evitados em pacientes com IC.) VII. FÁRMACOS INOTRÓPICOS Fármacos inotrópicos positivos aumentam a contratilidade do músculo car­ díaco e, dessa forma, aumentam o débito cardíaco. Embora esses fármacos
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    atuem por diferentesmecanismos, em todos os casos a ação inotrópica é o resultado do aumento da concentração de cálcio citoplasmático, o qual au­ menta a contratilidade do músculo cardíaco. A. Glicosídeos digitálicos Os glicosídeos cardíacos são frequentemente chamados digitálicos ou glicosídeos digitálicos, pois a maioria dos fármacos é proveniente da planta digita/is (dedaleira). Eles são um grupo de compostos quimica­ mente similares que podem aumentar a contratilidade do músculo car­ díaco e, em vista disso, são amplamente usados no tratamento da IC. Como osfármacos antiarrítmicos descritos no Capítulo 17, os glicosídeos cardíacos influenciam os fluxos de íons sódio e cálcio no músculo car­ díaco e, dessa forma, aumentam a contração do miocárdio atrial e ven­ tricular (ação inotrópica positiva). Os glicosídeos digitálicos têm somente uma pequena margem entre a dosagem terapeuticamente eficaz e a que é tóxicaou mesmo fatal. Portanto, os fármacos têm um índice terapêutico reduzido. O digitálico mais amplamente usado é a digoxina. 1. Mecanismo de ação a. Regulação da concentração de cálcio citosólico. A concentra­ ção de cálcio livre no citosol nofinal da contração precisa diminuir para que o músculo cardíaco relaxe. O trocador Na+1ca 2 + desem­ penha um papel importante nesse processo, promovendo a saída de Ca 2 + do miócito em troca de Na+ (Figura 16.8). O gradiente de concentração para ambos os íons é o principal determinante do movimento iônico geral. Inibindo a capacidade do miócito em bombear ativamente o Na+ da célula, os glicosídeos cardíacos diminuem o gradiente de concentração de Na+ e, consequente­ mente, a capacidade do trocador Na+/Ca 2 + em promover a saída de cálcio da célula. Além disso, o nível celular elevado de Na+ é trocado porCa 2 +extracelularpela bomba Na+/Ca 2 +, aumentando o cálcio intracelular. Como mais Ca 2 + fica retido no espaço intrace­ lular, ocorre um pequeno, mas importante, aumento fisiológico de Ca 2 + livre, que fica disponível para o próximociclode contraçãodo músculocardíaco, aumentando, dessaforma, a contratilidade car­ díaca. Como a Na+/K+ATPase troca 2 Na+por 1 K+, ela restabele­ ce a concentração iônica e o potencial de repouso da membrana. Quando a Na+/K+ATPase é fortemente inibida pela digoxina (e por Na•1ca2•trocador ' t Ca2• livre Miofibrilas Figura 16.8 Ca2• .. n A concentraçãointracelularde Na•aumenta,e E';:ll ogradientedeconcentração,atravésda membrana,diminui. � OaumentodoNa•diminuiaforçamotrizdotrocador E:,111 deNa·1ca2••Então,hádiminuiçãodaexclusãodeCa2• paraoespaçoextracelular. Mecanismo de ação da digoxina. ATPase = adenosina trifosfatase. Farmacologia Ilustrada 201 D Osdigitãlicosinibem astrocasNa•1K• pelaNa·1K··ATPase.
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    202 Clark, Finkel,Rey&Whalen oCORAÇÃO NORMAL • Dentro de limites, quando o músculo cardíaco é estirado, sua força de contração aumenta, e, com isso, o débito cardíaco aumenta. • Todavia, se o ventrículo for superestirado, o efeito da contração ventricular diminui. • O é o ponto normal de funcionamento no coração sadio. o � ·- 2. longo tempo), o potencial de repouso da membrana pode aumen­ tar (- 70 mV em vez de - 90 mV), o que torna a membrana mais excitável, aumentando o risco de arritmias (toxicidade). b. Aumento da contratilidade do músculo cardíaco. A adminis­ tração de glicosídeos digitálicos aumenta a força de contração cardíaca, causando um débito cardíaco mais próximo ao do co­ ração normal (Figura 16.9). Um aumento na contração do mio­ cárdio leva à redução do volume diastólico final, aumentando, dessa forma, a eficiência da contração (aumento da fração de ejeção). A consequente melhora da circulação leva à redução da atividade simpática, que, então, reduz a resistência periférica. Juntos, esses efeitos causam reduçãoda frequência cardíaca. O tônus vagai também é aumentado; então, a frequência cardíaca diminui, e a demanda de oxigênio pelo miocárdio é reduzida. A digoxina retarda a velocidade de condução através do nó AV, o que é responsável pelo seu uso na fibrilação atrial. (Nota: no co­ ração normal, o efeito inotrópico positivo dos glicosídeos digitáli­ cos é neutralizado pelos reflexos autônomos compensatórios.) Usos terapêuticos. O tratamento com digoxina está indicado em pacientes com disfunção sistólicaventricularesquerdagrave depois de iniciado o tratamento com inibidor da ECA e diurético. A digoxina não está indicada em pacientes com IC diastólica ou direita. A prin- o TRATAMENTO COM DIGOXINA • A administração de digoxina desloca a curva defunção ventricular para próximo do normal. • A maior contratilidade ([3para (!]) leva ao aumento do débito cardíaco. • A diminuição dos reflexos simpáticos e do tônus vascular causa diminuição na pressão ventricular diastólica final ([il para �). Normal 'O 8 o � -- -- - - -- rn � · - ..... - rn...t: IC tratada com digioxina Figura 16.9 - :s i! Sintomasde � débitoinadequado, comofadiga IC não tratada Pressão ventricular diastólicafinal INSUFICIÊNCIA CARDÍACA DESCOMPENSADA • Redução inicial da contratilidade ( rJpara 0) devido à IC. • Sintomas de débito cardíaco baixo se desenvolvem - por exemplo, dispneia e edema. Sintomas de pressão venosa excessiva � INSUFICIÊNCIA CARDÍACA � COMPENSADA • Aumento da pressão ventricular diastólica final ( m para [3) no esforço de manter um débito cardíaco adequado. • O aumento da pressão ventricular diastólica final causa sintomas de congestão - por exemplo, dispneia. Curvas de função ventricular no coração normal, na insuficiência cardíaca (IC) e na IC tratada com digoxina.
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    cipal indicação dadigoxina é na IC com fibrilação atrial. A dobuta­ mina, outro fármaco inotrópico, pode ser administrada porvia IV no hospital, mas, até o momento, não existe outro fármaco inotrópico ativo por via oral tão eficaz quanto a digoxi na. Pacientes com IC leve a moderada frequentemente responderão ao tratamento com inibidores da ECA e diuréticos, não necessitando da digoxina. 3. Farmacocinética. Todos os glicosídeos digitálicos possuem as mes­ mas ações farmacológicas, mas variam em potência e farmacocinéti­ ca (Figura 16.1O). A digoxina é o único glicosídeo digitálico disponível nos EUA. A digoxi na é muito potente, com índice terapêutico estreito e longa meia-vida de cerca de 36 horas. A digoxina é eliminada princi­ palmente de forma inalterada pelos rins, exigindo ajuste de dosagem com base na depuração de creatinina. Ela tem amplo volume de dis­ tribuição porque acumula nos músculos.A dosagem de digoxina é ba­ seada na massacorporal magra. É usado o regime de dose de ataque quando é necessária digitalização aguda. A digitoxina tem tempo de meia-vida muito mais longo e é extensamente biotransformada pelo fígado antes da excreção nas fezes, e os pacientes com doença he­ pática podem necessitar de redução das doses. Isso cria dificuldades para controlarofármaco, resultando na suasubstituição pela digoxi na. 4. Efeitos adversos. A toxicidade da digoxina é uma das reações adversas a fármacos mais comumente encontradas. Os efeitos ad­ versos podem ser controlados suspendendo o uso do glicosídeo cardíaco, medindo o nível sérico de potássio (a diminuição do K+ aumenta o potencial de cardiotoxicidade), e, se indicado, adminis­ trando suplementos de potássio. Em geral, a diminuição dos níveis séricos de potássio predispõe o paciente à toxicidade à digoxina. Os níveis de digoxina devem ser cuidadosamente monitorados na presença de insuficiência renal, e o ajuste de dosagem pode ser necessário. A intoxicação grave que resulta em taquicardia ventricu­ lar pode necessitar da administração de antiarrítmicos e do uso de anticorpos à digoxi na (digoxina imuno Fab), que se ligam e inativam o fármaco. Os tipos de efeitos adversos são citados a seguir. a. Efeitos cardíacos. O efeito adverso cardíaco comum é a arrit­ mia, caracterizado por tornar lenta a condução atrioventricular associado com arritmias atriais. A diminuição do potássio in­ tracelular é o fator predisponente primário nesses efeitos. b. Efeitos gastrintestinais. Anorexia, náusea e êmese são os efeitos adversos comumente encontrados. c. Efeitos sobre o sistema nervoso central. Inclui cefaleia, fadi­ ga, confusão, visão borrada, alteração da percepção de cores e halos em objetos escuros. 5. Fatores predisponentes à toxicidade por digoxina a. Distúrbios eletrolíticos. A hipopotassemia pode precipitargra­ ves arritmias. A redução dos níveis de potássio sérico é mais frequentemente observada em pacientes que recebem diuréti­ cos tiazídicos ou de alça, o que pode, em geral, serevitado pelo uso de diuréticos poupadores de potássio ou por suplementa­ ção com cloreto de potássio. Hipercalcemia e hipomagnesemia também predispõem à toxicidade da digoxina. Farmacologia Ilustrada 203 Digoxina Digitoxina Ligação à proteína Iníciode ação Meia­ -vida o o o Figura 16.1O 1 50 Percentual 20 40 Minutos 2 3 Dias 100 60 4 5 Comparação das propriedades da di­ goxina e da digitoxina. Podeocorreraumento daconcentraçãode digoxina nodecorrer dotratamento Amiodarona Eritromicina Quinidina Tetraciclina Verapamil Maior potencial de cardiotoxicidade Níveisreduzidosde potássiosérico Corticosteroides Diuréticostiazídicos Diuréticosdealça b. Fármacos. Quinidina, verapamil e amiodarona, para citar al- guns, podem causar intoxicação por digoxina, deslocando-a dos Figura 16.11 locais de ligação na proteína tecidual ou por competição com Fármacos que interagem com digoxina.
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    204 Clark, Finkel,Rey & Whalen - CanaislentosdeCa2• voltagem-sensíveis Ca2• Ca2• p Miofibrilas ela pela excreção renal. Como consequência, os níveis de di­ goxina plasmática podem aumentar de 70 a 100° / o, necessitan­ do redução de dosagem. Diuréticos espoliadores de potássio, corticosteroides e uma variedade de outros fármacos também podem aumentara toxicidade da digoxina (Figura 16.11). Hipoti­ reoidismo, hipoxia, insuficiência renal e miocardite também são fatores predisponentes à toxicidade por digoxina. B. Agonistas Jl-adrenérgicos A estimulação [3-adrenérgica melhora o desempenho cardíaco, causando efeitos inotrópicos positivos e vasodilatação. A dobutamina é o fármaco inotrópico mais comumente usado além da digoxi na. Ela aumenta o mono­ fosfato cíclico de adenosina (AMPc) intracelular, o que resulta na ativação da proteína-quinase. Os canais lentos de cálcio constituem um local impor­ tante de fosforilação pela proteína-quinase. Quandofosforilados, a entrada de íon cálcio nas células miocárdicas aumenta, estimulando, assim, a con­ tração (Figura 16.12). A dobutaminadeve seradministrada por infusão IV e é usada primariamente no tratamento de IC aguda em ambiente hospitalar. C. Inibidores da fosfodiesterase lnanrinona (anteriormente anrinona) e milrinona são inibidores da fos­ fodiesterase que aumentam a concentração intracelular de AMPc (ver Figura 16.12). Isso resulta no aumento intracelular de cálcio e, dessa forma, na contratilidade cardíaca, como discutido para os agonistas [3-adrenérgicos. O tratamento prolongado com inamri nona ou milrinona pode ser associado ao aumento substancial do risco de mortalidade. En­ tretanto, o uso IV da milri nona por período curto não está associado a aumento da mortalidade, e podem ser obtidas algumas vantagens sinto­ máticas quando ela for usada em pacientes com IC refratária. r:11 Afosforilaçãodocanaldecálcio � aumentaofluxodecálciopara dentrodacélula,causandoaumento daforçadecontraçãodomúsculo cardíaco. D Aligaçãodeumagonista 13-adrenérgico,comodopaminaou dobutamina,ativaaadenililciclase, 'Localdefosforilação aumentaofluxo de Ca2•parao interiordacélula queproduzAMPc. Receptor p-adrenérgico � ------n��?f!lff f ; Proteína-quinase+-----.. (ativa) Proteína-quinase ------'. (inativa) r;'I OAMPcativaaproteína-quinase, U que,porsuavez,fosforilao canaldecálcio. AMPc ATP ....,. O <·•11111111111111111111 Inibidoresda AMP fosfodiesterase (p.ex.,milrinona) Aumentodaforça decontração R Osinibidoresdafosfodiesteraseimpedema Ili.li hidrólisedoAMPce,assim,prolongama açãodaproteína-quinase. Figura 16.12 Locais de ação para os agonistas adrenérgicos no músculo cardíaco. AMP = monofosfato de adenosina; ATP = trifosfato de adenosina; AMPe = monofosfato cíclico de adenosina; P = fosfato.
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    ESTÁGIOB ESTÁGIOA Doença Risco altosemcardíaca sintomas estruturalsem sintomas ESTÁGIOC Doençacardíaca estrutural com sintomas . . prev1os oucorrentes Farmacologia Ilustrada 205 � "" V� Restriçãodesódionadieta;diuréticosedlgoxlna - - � InibidoresdaECAep-bloqueadoresemtodosospacientes 7 � InibidoresdaECAouBRAsemtodosospacientes;p-bloqueadoresempacientesselecionados � � Tratarhipertensão,diabetes,dislipidemia;inibidoresdaECAouBRAsemalgunspacientes � Reduçãodosfatoresderisco,educaçãodopaciente Figura 16.13 Opções de tratamento para vários estágios da insuficiência cardíaca. ECA = enzima conversora de angiotensina; BRAs = bloqueadores de receptores da angiotensina. O estágio D (sintomas refratários que exigem intervenções especiais) não é mostrado. VIII. ANTAGONISTAS DA ALDOSTERONA Pacientes com doença cardíaca avançada apresentam níveis elevados de al­ dosterona devido à estimulação da angiotensina 11 e à redução da depuração hepática do hormônio. A espironolactona é um antagonista direto da aldos­ terona; dessa forma, ela previne a retenção de sal, a hipertrofia miocárdica e a hipopotassemia. O tratamento com espironolactona deve ser reservado para os casos mais avançados de IC. Como ela promove retenção de potás­ sio, os pacientes não devem receber suplementação de potássio. Os efeitos adversos incluem distúrbios gástricos, como gastrite e úlcera péptica, efeitos sobre o SNC, como letargia e confusão, e alterações endócrinas, como gine­ comastia, diminuição de libido e irregularidades menstruais. A eplerona é um antagonista competitivo da aldosterona nos receptores mineralocorticoides. Embora tenha ação similar a espironolactona no receptor da aldosterona, a eplerona apresenta menor incidência de efeitos adversos endócrinos devido à sua menor afinidade pelos receptores de glicocorticoides, androgênios e progesterona. A eplerenona reduz a mortalidade em pacientes com disfunção ventricular esquerda sistólica e IC após infarto agudo do miocárdio. IX. ORDEM DOTRATAMENTO Os especialistas classificam a IC em quatro estágios, do menos grave ao mais grave. A Figura 16.13 mostra uma estratégia de tratamento usando essa classificação e os fármacos descritos neste capítulo. Note que à me­ dida que a doença progride, é iniciada a politerapia. Pacientes com IC ma­ nifesta com frequência recebem primeiro diuréticos de alça para alívio dos sinais ou sintomas do excesso de volume, como dispneia e edema periférico. São acrescentados inibidores de ECA ou, se estes não são tolerados, BRAs depois da otimização do tratamento diurético. A dosagem deve ser titulada gradualmente até o máximo tolerado e/ou a que produz os efeitos ideais no débito cardíaco. São iniciados os �-bloqueadores depois que o paciente esteja estabilizado com os inibidores da ECA e, novamente, iniciado com dosagens baixas e titulado até os níveis ótimos. A digoxina é iniciada em pacientes que continuam a ter sintomas de IC, apesar dos vários fármacos já iniciados. Por exemplo, a Figura 16.14 mostraque o tratamento com digoxina mais um diurético e mais um inibidorda ECA em pacientes com IC é superior aotratamento com diurético isolado ou um diurético mais um digitálico ou um inibidor da ECA. Pacientes que recebem tratamento triplo são menos propensos a apresentar agravamento da insuficiência cardíaca quando comparados com qualquer um dos outrostrêsgrupos de tratamento. Digoxina + diurético + Inibidor da E C A s 100 ; li B � .!! 80 ... 'E! gi B .g .!! ! � 60 > !! = u E oi= G> ãl gi.5 40 .. .. �'O � 20 t Dlgoxlna + diurético ,# Inibidor da ECA + diurético t Diuré t ico o -'-------r--�-�----r-- o 30 60 90 120 Dias após o Início do tratamento Figura 16.14 Uso de vários fármacos no tratamento da insuficiência cardíaca. ECA = enzi­ ma conversora de angiotensina.
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    206 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 16.1 A digoxina apresenta um intenso efeito nas concentrações intracelulares de Na+, K+ e Ca2+ no miócito. Esses efeitos são causados pela digoxina inibindo: A. a Ca2+ATPase do retículo sarcoplasmático. B. a Na+/K+ATPase da membrana do miócito. C. a fosfodiesterase cardíaca. D. o receptor 131 cardíaco. E. a liberação justaglomerular de renina. 16.2 O aumento compensatório na frequência cardíaca e na liberação de renina que ocorre na insuficiência cardíaca pode ser atenuado com qual dos seguintes fármacos? A. Milrinona B. Digoxina C. Dobutamina D. Enalapril E. Metoprolol 16.3 Um homem de 58 anos é admitido em um hospital com insuficiência cardíaca aguda e edema pulmonar. Qual dos seguintes fármacos seria mais útil no tratamento do ede­ ma pulmonar? A. Digoxina B. Dobutamina C. Furosemida D. Minoxidil E. Espironolactona 16.4 Um homem de 46 anos dá entrada na emergência. Ele in­ geriu mais de 90 comprimidos de digoxina (0,25 mg cada), aproximadamente três horas antes do atendimento. Seu pulso está entre 50 e 60 batimentos por minuto, e o eletro­ cardiograma mostra bloqueio cardíaco de terceiro grau. A concentração de K+ no soro está normal. Qual dos seguin­ tes tratamentos é o mais importante para iniciar o trata­ mento do paciente? A. Digoxina imuno Fab B. Sais de potássio C. Lidocaína D. Fenitoína E. Amiodarona Resposta correta = B. A digoxina se liga à Na•/ K•ATPase e bloqueia suaação. Isso leva a um aumento desódio intracelular.Adiminuiçãodo gradiente de sódio resulta em menos Ca2• sofrendo extrusão da célula viatroca Na•1ca2•. A digoxina não se liga à Ca2•ATPase não tem efeito diretosobrefosfodiesterase, receptores �1 ou liberação de renina. Resposta correta= E.O metoprolol, um antagonista �,-seletivo, impede o aumento da frequência cardíaca e a liberação de renina resultantes da estimulação simpática, que ocorre compensatoriamente à redução do débito cardíaco na insuficiência cardíaca. O enalapril é um inibidor da ECA que aumenta a liberação de renina. A dobutamina aumenta a contratilidade cardíaca, mas não diminui a frequência, nem interfere na liberação de renina. A digoxina diminui a frequência cardíaca, por seu efeitovagomimético, masnãodiminui a liberação de renina. Respostacorreta= C.Afurosemidatem a capacidade de dilatarvasos no contexto da insuficiência cardíaca aguda. Ela também mobiliza o líquido do edema e promove sua excreção. A dobutamina aumenta a contratilidade, mas não alivia de forma significativa o edema pulmo­ nar. A digoxina atua muito lentamente e não apresenta efeito vasodi­ latador. O minoxidil diminui a pressão arterial e causa taquicardia re­ flexa. A espironolactona nãocausa alívio do edemapulmonar agudo. Respostacorreta = A. No paciente gravemente intoxicado, a redução da concentração plasmática de digoxina é primordial e pode ser ob­ tida com a administração de anticorpos antidigoxina. A concentração de potássio, se baixa, pode ser elevada. Os antiarrítmicos são úteis quando necessários, mas não sãonesse caso. A amiodarona pioraa intoxicação por digoxina por deslocá-la da ligação com as proteínas teciduais e competindo com ela pela excreção renal. O verapamil au­ menta a frequência cardíaca.
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    , ar acos • ICOS 1. RESUMO Emcontraste ao músculo esquelético, que só contrai quando recebe um es­ tímulo, o coração contém células especializadas que apresentam automa­ ticidade; isso significa que podem gerar potenciais de ação rítmicos intrin­ secamente na ausência de estímulo externo. Essas células "marca-passo" diferem de outras células miocárdicas, devido à despolarização espontânea lenta durante a diástole (Fase 4), causada por uma corrente positiva para o seu interior transportada por fluxos de íons sódio e cálcio. Essa despolariza­ ção é mais rápida no nó sinoatrial (SA) (local normal de início do potencial de ação) e diminui ao longo das vias de condução normal, passando pelo nó atrioventricular (AV) aos feixes de His e ao sistemade Purkinje. Disfunções da geração ou da condução do impulso em qualquer dos vários locais no cora­ ção podem causar anormalidade no ritmo cardíaco. A Figura 17.1 resume os fármacos usados no tratamento das arritmias cardíacas. li. INTRODUÇÃO ÀS ARRITMIAS As arritmias são conceitualmente simples. Disfunções causam anormalidades na formação e condução de impulsos no miocárdio. Entretanto, na clínica, as arritmias se apresentam como uma família complexa de distúrbios com uma variedade de sintomas. Por exemplo, as arritmias cardíacas podem levar o coração a bater muito lentamente (bradicardia) ou muito rapidamente (taqui­ cardia) e bater regularmente (taquicardia sinusal ou bradicardia sinusal) ou ir­ regularmente (fibrilação atrial).A cavidade cardíaca onde inicia a arritmia con­ fere sua denominação: taquicardia atrial para a arritmia rápida originada nos átrios. Impulsos que se originam de outros locais que não o nó SA e impulsos que se deslocam ao longo de vias acessórias (extra) que causam despolari­ zações de desvio (reentradaAV, síndrome deWolff-Parkinson-White) também podem causar arritmias. Para dar sentido a esse grande grupo de distúrbios, é útil organizar as arritmias em grupos de acordo com o local anatômico da anormalidade - o átrio, o nó AV ou os ventrículos. A Figura 17.2 resume vá­ rias arritmias atriais, da junção AV e ventriculares que ocorrem comumente. + CLASSE 1(Bloqueadores de canais deNa ) Disopiramida (IA) Flecainida (IC) Lidocaína (18) Mexiletina (18) Procainamida (IA) Propafenona (/C) Quinidina (IA) CLASSE li (bloqueadores deJJ-adrenorreceptor) Esmolo/ Metopro/oi Propranolol + CLASSE Ili (bloqueadores de canais de K ) Amiodarona Dofetilida Dronedarona Sotalol + CLASSE IV (bloqueadores decanais deCa ) Diltiazem Verapamil OUTROS FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS Figura 17.1 Adenosina Digoxi na Resumo dos fármacos antiarrítmicos.
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    208 Clark, Finkel,Rey & Whalen Essaarritmiacomumenvolvefocosectópicos múltiplosdecélulasatriais,criandoummovi­ mentocaóticodeimpulsosatravésdoátrio. Arespostaventricularérápida(100a150 batimentosporminuto)eirregular.Odébito cardíacoestádiminuídoeaintolerânciaao exercícioécomum. Os�-bloqueadoressãousadosnafibrilação atrialporquediminuemafrequênciacardíaca epromovemaconversãoaoritmosinusal. Otratamentodelongaduraçãoedosagem baixacomanticoagulantereduzoriscode ataquecardíacoqueestáassociadocoma fibrilaçãoatrial. FÁRMACOSANTIARRÍTMICOS TIPODE ARRITMIA ARRITMIAS ATRIAIS PALPITAÇÃO .......... (FLU1TER)ATRIAL FIBRILAÇÃO ATRIAL TAQUICARDIAS SUPRAVENTRICULARES REENTRADANO NÓAV ...... ,__ Classe1 Quinidina Classli ClasseIli Propranolol Amlodarona Propranolol Dofetilida Propranolol ClasseIV Outros Verapamll ··· ·· ,_ [_ o _ ; g _ o _ '}( _ i n _ a __, ] .......[..... _ 0 1 _ · 1t _ i a z _ em _ _,}......... Tratamento antlcoagulante .. · .....· · [ Digoxina ] Acondução éretardada atravésdo nóAV com propranolol, verapamíl oudigoxina. TAQUICARDIA . '- SUPRAVENTRICULAR Adenosina ·······································································································� ll' era,,amil �-········· AGUDA TAQUICARDIAS VENTRICULARES TAQUICARDIA VENTRICULAR AGUDA FIBRILAÇÃO VENTRICULAR (quenãoresponde à desfibrilaçãoelétrica) Lldocafna ...........[ Lidocaína J..................................... � - - - � Amlodarona Amlodarona Essaarritmiaéacausacomumdemorteempacientesquetiveram infartodomiocárdio.Odébitocardíacoestácomprometido,ea taquicardiapodeevoluirparafibrilaçãoventricular.Portanto,a taquicardiaventricularexigecuidadoimediato. Figura 17.2 Legenda: Eplnefrlna Nomedo fármaco Fármacocomumente usado !N o m e d o fármaco : Fármacoalternativo Indicações terapêuticas para algumas arritmias comumente encontradas. AV = atrioventricular.
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    Embora não mostradoaqui, cada uma das anormalidades pode ser dividida em subgrupos, dependendo dos achados no eletrocardiograma (ECG). A. Causas de arritmias A maioria das arritmias resultade aberrações na geração do impulso (au­ tomaticidade anormal) ou de um defeito na condução do impulso. 1. Automaticidade anormal. O nó SA tem a maior velocidade de despolarização de Fase 4 e, por isso, exibe maior frequência de descarga comparada com a automaticidade exibida em outras cé­ lulas marca-passo. Assim, o nó SA normalmente estabelece o ritmo de contração do miocárdio, e marca-passos latentes são despola­ rizados pelos impulsos provenientes do nó SA. Contudo, se outros locais do coração que não o nó SA aumentam sua automaticidade, eles podem gerar estímulos competitivos e causar arritmias. Auto­ maticidade anormaltambém pode ocorrer se as células miocárdicas forem lesadas (p. ex., por hipoxia ou desequilíbrio de potássio). Es­ sas células podem permanecer parcialmente despolarizadas duran­ te a diástole e, assim, alcançaro limiarde disparo antes das células SA normais. Desse modo, ser induzidas descargas automáticas • anormais. 2. Efeito dos fármacos sobre a automaticidade. A maioria dos fár­ macos antiarrítmicos suprime a automaticidade pelo bloqueio dos canais de Na+ ou Ca 2 +, reduzindo a proporção desses íons em re­ lação ao K+. Isso diminui a inclinação da despolarização da Fase 4 (diastólica) e/ ou aumenta o limiar de descargas para uma volta­ gem menos negativa. Os antiarrítmicos diminuem a frequência de descargas. Esse efeito é mais acentuado nas células com atividade marca-passo ectópico do que nas células normais. 3. Anormalidades na condução de impulso. Os impulsos provenien­ tes dos marca-passos mais altos normalmente são conduzidos por vias que se bifurcam para ativar toda a superfície ventricular (Fi­ gura 17.3). Pode ocorrer um fenômeno denominado reentrada se um bloqueio unidirecional causado por lesão miocárdica ou por pro­ longamento do período refratário resultar em uma via de condução anormal. A reentrada é a causa mais comum das arritmias e pode ocorrer em qualquer nível do sistema de condução cardíaca. Por exemplo, considere uma única fibra de Purkinje com duas vias de condução ao músculo ventricular. Um impulso normalmente transita por ambos os ramos da via de condução. Todavia, se a lesão mio­ cárdica resultar em um bloqueio unidirecional, o impulso somente pode serconduzido pelavia 1 (ver Figura 17.3). Se o bloqueio davia 2 é somente para a frente, o impulso pode transitar de forma retró­ grada pela 2 e reentrar no ponto de bifurcação. Esse curto-circuito resulta em reexcitação do músculo ventricular, causando contração prematura ou arritmia ventricular sustentada. 4. Efeitos de fármacos nas anormalidades de condução. Os fár­ macos antiarrítmicos impedem a reentrada, reduzindo a velocidade de condução (fármacos da classe 1) e/ou aumentando o período re­ fratário (fármacos daclasse Ili). Dessa forma, convertem o bloqueio unidirecional em bloqueio bidirecional. B. Fármacos antiarrítmicos Como descrito, os fármacos antiarrítmicos podem modificar a geração e a condução de impulsos. Mais de uma dúzia de fármacos que são poten­ cialmente úteis no tratamento de arritmias estão disponíveis. Entretanto, Farmacologia Ilustrada 209 A. Normal Impulso nervoso Parede ventricular B. Bloqueio unidirecional Oimpulsoé bloqueado emuma direção Figura 17.3 Oimpulsodesloca-se nadireçãoretrógrada e reentranaviade condução,causando umbatimentocardíaco extraouirregular. Representação esquemática da reen­ trada.
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    21O Clark, Finkel,Rey & Whalen IA 18 IC li Ili IV Figura 17.4 somente um número limitado desses fármacos é benéfico clinicamente no tratamento de arritmias específicas. Porexemplo, a resolução imediata de taquicardia ventricular pela /idocaína ou de taquicardia supraventricu­ lar por adenosina ou verapamilsão exemplos nos quais o tratamento an­ tiarrítmico resulta em diminuição da morbidade. Em contraste, vários dos fármacos antiarrítmicos apresentam ações pró-arrítmicas, ou seja, cau­ sam arritmias perigosas. A eficácia de muitos antiarrítmicos permanece sem comprovação em triagens randomizadas controladas com placebo. (Nota: o implante de desfibriladores cardioversores está setornando mais usado no tratamento dessas condições.) Ili. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE 1 Os fármacos antiarrítmicos podem ser classificados de acordo com seu efeito predominante sobre o potencial de ação (Figura 17.4). Embora essa classifi­ cação seja conveniente, ela não é inteiramente definida, pois vários fármacos apresentam ações relacionadas com mais de uma classe ou podem apre­ sentar metabólitos ativos com ação em uma classe diferente. Os fármacos antiarrítmicos da classe 1 atuam bloqueando canais de sódio (Na+) sensíveis à voltagem, pelo mesmo mecanismo dos anestésicos locais. A diminuição da velocidade de entrada de sódio reduz a velocidade de elevação da Fase O do potencial de ação. (Nota: em doses terapêuticas, esses fármacos apresentam pouco efeito na membrana em repouso completamente polarizada devido à sua maior afinidade pelos canais ativos e inativos do que pelos canais em repouso.) Os antiarrítmicos daclasse 1, portanto, geralmente causam diminui­ ção da excitabilidade e da velocidade de condução. O uso dos bloqueadores de canais de sódio vem declinando continuamente devido aos seus possíveis efeitos pró-arritmogênicos, particularmente em pacientes com função ventri­ cular esquerda reduzida e doença cardíaca isquêmica. A. Uso-dependência Os fármacos da classe 1 ligam-se mais rapidamente aos canais de sódio abertos ou inativados do que os completamente repolarizados após a re­ cuperação do ciclo de despolarização prévio. Portanto, esses fármacos apresentam maior grau de bloqueio em tecidos que são frequentemente despolarizados (p. ex., durante a taquicardia, quando os canais de sódio abrem com frequência). Essa propriedade é denominada dependência­ -de-uso (ou dependência-de-estado), e ela possibilita que essesfármacos Bloqueador de canais de Na• Bloqueador de canais de Na• Bloqueador de canais de Na• Bloqueador de p-adrenorreceptor Bloqueador de canais de K• Bloqueador de canais de Ca2• Torna lenta a despolarização de Fase O nas fibras musculares dos ventrículos. Encurta a repolarização de Fase 3 nas fibras musculares dos ventrículos. Torna muito lenta a despolarização de Fase O nas fibras musculares dos ventrículos. Inibe a despolarização de Fase 4nos nós SA e AV. Prolonga a repolarização de Fase 3 nas fibras musculares dos ventrículos. Inibe o potencial de ação nos nós SA e AV. Ações de fármacos antiarrítmicos. SA = sinoatrial; AV = atrioventricular.
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    bloqueiem células queestão disparando em umafrequênciaanormalmen­ te elevada, sem interferir com a frequência normal baixa de batimentos cardíacos. Os fármacos da classe 1 são subdivididos em três grupos de acordo com seus efeitos na duração do potencial de ação.Os fármacos da classe IA reduzem a velocidade de despolarização do potencial de ação (reduzindo, assim, a velocidade de condução), prolongam o potencial de ação e aumentam o período refratário efetivo do ventrículo. Eles apre­ sentam uma velocidade intermediária de associação aos canais de sódio ativados/inativados e uma velocidade intermediária de dissociação dos canais em repouso. O prolongamento da duração do potencial de ação e o aumento no período eficaz ventricularsãodevidos à atividadede classe Ili simultânea. Os fármacos da classe IB apresentam poucos efeitos na velo­ cidade de despolarização; eles diminuem a duração do potencial de ação encurtando a repolarização. Eles interagem rapidamente com os canais de sódio. Os fármacos da classe IC deprimem acentuadamente a veloci­ dade dedespolarização do potencial de ação da membrana. Dessa forma, eles causam redução acentuada na velocidade de condução, mas têm pouco efeito na duração do potencial de ação da membrana ou no período refratário efetivo ventricular. Eles se ligam lentamente aos canais de sódio. B. Arritmias A inibição dos canais de potássio (atividade de classe 111) alarga o poten­ cial de ação, levando ao prolongamento do intervalo QT no ECG. Esse efeito aumenta o risco de desenvolver taquiarritmias ventriculares fatais (torsade de pointes). A causa mais comum do prolongamento QT é a indução por fármacos, embora também possa ser genética. O prolonga­ mento QTnão é observado só com antiarrítmicos da classe Ili. Fármacos como cisaprida, grepafloxacino, terfenadina e astemizol foram retirados do mercado devido a arritmias graves e fatais. Eritromicina, claritromici­ na, pentamidina, moxifloxacino, levofloxacino, imipramina, desipramina, amitriptilina, doxepina, tioridazina, mesoridazina, haloperido/, risperido­ na, zoprasidona e quetiapina são alguns dos fármacos que prolongam o intervalo QT. Deve-setercautela ao associardiversosfármacos com efei­ to no intervalo QT (p. ex., quinidi na com /evofloxacino) ou usando esses fármacos associados com antifúngicos azóis (fluconazol e itraconazo�. Esse último inibe a biotransformação de fármacos causando grande au­ mento nas concentrações plasmáticas. e. Quinidina A quinidi na é o fármaco protótipo da classe IA. Devido à sua atividade de classe Ili simultânea, ela pode desencadeararritmias como a taquicardia ventricular polimórfica (torsade de pointes), que podem degenerar em fibrilação ventricular. Devido ao potencial tóxico da quinidina, os anta­ gonistas de canais de cálcio, como a amiodarona e o verapamil, estão substituindo de forma crescente a quinidina no uso clínico. 1. Mecanismo de ação. A quinidina se liga aos canais de sódio aber­ tos e inativados, impedindo o influxo de sódio e reduzindo, dessa forma, a velocidade de entrada rápida durante a Fase O (Figura 17.5). Ela também diminui a inclinação de despolarização espontâ­ nea da Fase 4 e inibe as trocas de potássio. Devido a essas razões, ela diminui a velocidade de condução e aumenta a refratariedade. 2. Usos terapêuticos. A quinidi na é usada no tratamento de uma grande variedade de arritmias, incluindo taquiarritmias atrial, jun­ cional AV e ventricular. A quinidina é usada para manter o ritmo sinusal após cardioversão com corrente diretada palpitação (flutter) ou fibrilação atrial e para evitar taquicardia ventricular frequente. Farmacologia Ilustrada 211 OsfármacosdaclasseIAtornam lentaadespolarizaçãodaFaseO. Alémdisso,elesprolongamo potencialdeaçãodevidoàsua atividadedeclasseIli. - - - - - - - --as lll� Período l� tár10 efe t � �e3(�) l11terior K+ Correntes K+ diastólicas K+ Na+ Correntes K+ depotencial deação Membrana - ......______ - 2+ r I Ca Ca2• a2• e Ca2• Ca2• Quinidina,procainamidae disopiramidabloqueiamos canaisde sódioabertosou inativados.Essesfármacos apresentamvelocidade intermediáriadeassociação comcanaisdesódio. Figura 17.5 Diagrama dos efeitos de fármacos da classe IA. INa e IK são correntes trans­ membrana decorrentes do movimento de Na+ e K+, respectivamente.
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    212 Clark, Finkel,Rey & Whalen 3. Farmacocinética. O sulfato de quinidi na é rápido e quase comple­ tamente absorvido após administração via oral. Ele sofre extensa biotransformação porenzimas hepáticas citocromo P450, formando metabólitos ativos. 4. Efeitos adversos. O efeito adverso potencial da quinidina (ou de qualquer fármaco antiarrítmico) é o desenvolvimento de arritmia (torsades de pointes). A quinidi na pode causar bloqueio SA e AV ou assistolia. Em concentrações tóxicas, pode induzir taquicardia ventricular. Náusea, êmese e diarreia são observados comumente. Doses elevadas de quinidina podem induzir sintomas de cinchonis­ mo (p. ex., visão turva, zumbido, cefaleia, desorientação e psicose). O fármaco apresenta uma leve ação bloqueadora o:-adrenérgica, bem como efeitos do tipo atropina. A quinidi na pode aumentar a concentração de equilíbrio da digoxina deslocando-a dos sítios de ligação tecidual (efeito menor) e diminuindo sua depuração renal (efeito principal). D. Procainamida 1 . Ações. Esse fármaco da classe IA é um derivado do anestésico local procaína e tem ações semelhantes às da quinidina. 2. Farmacocinética. A procainamida é bem absorvida após a admi­ nistração via oral. (Nota: a via IV é usada raramente, pois causa hipotensão se a infusãofor muito rápida.) Aprocainamida apresenta uma meia-vida relativamente curta, de 2 a 3 horas. Parte do fár­ maco é acetilada no fígado em N-acetilprocainamida (NAPA), que apresenta pouco efeito na polarização máximadasfibras de Purkin­ je, mas prolonga a duração do potencial de ação. Assim, a NAPA tem as propriedades e os efeitos adversos de um fármaco daclasse Ili. A NAPA é eliminada pelos rins, e as dosagens de procainamida precisam ser ajustadas em pacientes com insuficiência renal. 3. Efeitos adversos. Com o uso crônico, a procainamida causa uma elevada incidência de efeitos adversos, incluindo síndrome do tipo lúpus eritematoso reversível, que se desenvolve em 25 a 30° / o dos pacientes. As concentrações tóxicas de procainamida podem cau­ sar assistolia ou indução de arritmias ventriculares. Os efeitos ad­ versos no SNC incluem depressão, alucinação e psicose. Com esse fármaco, a intolerância gastrintestinal é menos frequente do que com quinidi na. E. Disopiramida 1 . Ações. Esse fármaco da classe IA apresenta ações similares às da quinidina. A disopiramida produz efeito inotrópico negativo maior do que o fraco efeito exercido por quinidina e procainamida, e, ao contrário desses dois, a disopiramida causa vasoconstrição pe­ riférica. Ela pode produzir diminuição clinicamente importante na contratilidade miocárdica em pacientes com comprometimento pre­ existente da função ventricular esquerda. A disopiramida é usada no tratamento de arritmias ventriculares, como uma alternativa à procainamida ou quinidi na. Como a procainamida e a quinidina, ela apresenta atividade de classe Ili. 2. Farmacocinética. Aproximadamente metade do fármaco ingerido por via oral é excretado inalterado pelos rins. Cerca de 30° / o do fár­ maco são convertidos no fígado ao metabólito mono-N-desalquilado menos ativo.
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    3. Efeitos adversos.A di sopiramida mostra efeitos de atividade anti­ colinérgica (p. ex., xerostomia, retenção de urina, visão embaçada e constipação). F. Lidocaína A lidocaína é um fármaco da classe 18. Os fármacos da classe 18 se associam e se dissociam rapidamente nos canais de sódio. Assim, as ações dos fármacos da classe 18 se manifestam quando a célula car­ díaca está despolarizada ou disparando rapidamente. Os fármacos da classe 18 são particularmente úteis no tratamento de arritmias ventricula­ res. A lidocaína foi o fármaco de escolha para o tratamento emergencial de arritmias cardíacas. 1. Ações. A lidocaína, um anestésico local, encurta a repolarização de Fase 3 e diminui a duração do potencial de ação (Figura 17.6). 2. Usos terapêuticos. A lidocaína é útil no tratamento de arritmias ventriculares que aparecem durante a isquemia miocárdica, como a vivenciada durante o infarto do miocárdio. Ela não reduz a velo­ cidade de condução de forma marcante e, dessa forma, apresenta poucos efeitos nas arritmias atrial ou juncional AV. 3. Farmacocinética. A lidocaína é administrada por via IV devido à extensa biotransformação de primeira passagem no fígado, que im­ pede a administração oral. O fármaco é desalquilado e eliminado quase completamente pelo fígado; consequentemente, o ajuste de dosagem pode ser necessário em pacientes com disfunção hepá­ tica, ou em pacientes que estão usando fármacos que reduzem o fluxo sanguíneo hepático, como o propranolol. 4. Efeitos adversos. A /idocaína apresenta uma ampla relação entre efeito tóxico e efeito terapêutico. Ela pouco interfere na função ven­ tricular esquerda e nãotem efeito inotrópico negativo. Os efeitos so­ bre o SNC incluem sonolência, fala enrolada, parestesia, agitação, confusão e convulsões. Pode ocorrertambém arritmia cardíaca. G. Mexiletina e tocainida Esses fármacos da classe 18 têm ações semelhantes às da lidocaína e podem seradministrados porvia oral. A mexiletinaé usada notratamento crônico de arritmias ventriculares associadas ao infarto do miocárdio pré­ vio. A tocainida é usada no tratamento de taquiarritmias ventriculares e apresenta toxicidade pulmonar, que pode levar à fibrose pulmonar. H. Flecainida A flecainida é um fármaco da classe IC. Esses fármacos se dissociam lentamente dos canais de sódio em repouso e têm efeitos proeminentes, mesmo em frequências cardíacas normais. Eles são aprovados nas ar­ ritmias ventriculares refratárias, na prevenção da fibrilação/f/utter atrial paroxística associada com sintomas desabilitantes e na taquicardia su­ praventricular paroxística. Entretanto, resultados recentes lançaram sé­ rias dúvidas na segurança dos fármacos da classe IC. 1. Ações. A flecainida suprime a ascensão da Fase O nas fibras de Purkinje e miocárdicas (Figura 17.7). Isso causa redução acentuada da velocidade de condução em todo o tecido cardíaco, com pouco efeito na duração do potencial de ação e no período refratário. A automaticidade é reduzida pelo aumento do potencial limiar, em vez da diminuição na inclinação da despolarização na Fase 4. Farmacologia Ilustrada 213 OsfármacosdaclasseIB encurtamarepolarização deFase3ediminuema duraçãodopotencial deação. �Srn� l� Odo retra �I ef et ivo o Correntes te+ te+ diastóllcas Correntes K+ depotencial deação Membrana - - -- - , _ - - - r Ca2• Ca2• Ca2+ Ca2• Ca2• Lidocaína mex iletlna e tocalnlda bloqueiamos canaisdesódio abertosouinativados. Essesfármacosapresentam velocidaderápidadeassociação comcanaisdesódio. Figura 17.6 Diagrama dos efeitos dos fármacos da Classe 18. INa e IK são correntes trans­ membranas decorrentes do movimento de Na+ e K+, respectivamente.
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    214 Clark, Finkel,Rey & Whalen OsfármacosdaclasseIC tornamadespolarizaçãode FaseO marcadamentelenta. - - l� do refrat � efetivo - - - - - - - - - Correntes ...... ... Inter/o K+ � diastólicas Correntes K': depotencial deação Ca2• Ca2• 2' Ca• c82. Ca2• Flecainida epropafenona bloqueiamoscanaisdesódio abertosouinativados.Esses fármacosapresentamveloci­ dadebaixadeassociaçãoaos canaisdesódio. Figura 17.7 Diagrama dos efeitos dos fármacos da classe IC. INa e IK são correntes trans­ membranas decorrentes do movimento de Na+ e K+, respectivamente. 2. Usos terapêuticos. A flecainida é útil no tratamento de arritmias ventriculares refratárias. Ela é particularmente útil na supressão de contração ventricular prematura. A flecainida apresenta efeito ino­ trópico negativo e pode agravar a insuficiência cardíaca congestiva. 3. Farmacocinética. A flecainida é absorvida por via oral, sofre bio­ transformação mínima e tem meia-vida de 16 a 20 horas. 4. Efeitos adversos. A flecainida pode causar tontura, visão emba­ çada, cefaleia e náusea. Como outros fármacos da classe IC, a f/e­ cainida pode agravar arritmias preexistentes ou induzir taquicardia ventricular potencialmente fatal e é resistente ao tratamento. 1. Propafenona Esse fármaco da classe IC tem ações semelhantes às da flecainida. A propafenona, como a flecainida, reduz a velocidade de condução em todos os tecidos cardíacos e é considerado um antiarrítmico de amplo espectro. IV. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE li Osfármacos daclasse 11 são antagonistas adrenérgicos. Eles reduzem a des­ polarização de Fase 4, deprimem, assim, a automaticidade, prolongam a con­ dução AV e diminuem a frequência e a contratilidade cardíacas. Os fármacos da classe li são úteis no tratamento de taquiarritmias causadas por aumento da atividade simpática. Eles também são usados contra palpitação e fibrilação atrial e contra a taquicardia de reentrada no nó AV. (Nota: em contraste com os bloqueadores de canais de sódio, os bloqueadores e os compostos da classe Ili, como sotalole amiodarona, têm uso crescente.) A. Propranolol O propranolol reduz a incidência de arritmias súbitas fatais depois do infarto do miocárdio (a causa mais comum de morte nesse grupo de pa­ cientes). Ele reduz a taxa de mortalidade no primeiro ano após um ata­ que cardíaco, significativamente, em parte devido à sua capacidade de prevenir arritmias ventriculares. B. Metoprolol O metoprololé o antagonista J3-adrenérgico mais amplamente usado no tratamento de arritmias cardíacas. Comparado ao propranolol, ele reduz o risco de broncoespasmo. Como o propranolol, é extensamente bio­ transformado e tem ampla penetração no SNC. C. Esmolol O esmolo/ é um J3-bloqueador de ação muito curta usado por via IV no tratamento de arritmias agudas que ocorrem durante cirurgias ou situa­ ções emergenciais. V. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE Ili Osfármacos da classe Ili bloqueiam os canais de potássio (K+) e, assim, dimi­ nuem o efluxo de potássio durante a repolarização das células cardíacas. Es­ ses fármacos prolongam a duração do potencial de ação sem alterar a Fase O de despolarização ou o potencial de repouso da membrana (Figura 17.8).
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    Ao contrário, elesprolongam o período refratário efetivo aumentando a refra­ tariedade.Todos os fármacos da classe Ili têm potencial de induzir arritmias. A. Amiodarona 1. Ações. A amiodarona contém iodo e é estruturalmente relacionada com a tiroxina. Ela apresenta efeitos complexos, mostrando ações de fármacos das classes 1, li, Ili e IV. Seu efeito dominante é o pro­ longamento da duração do potencial de ação e do período refratá­ rio. A amiodarona tem atividade antianginosa e antiarrítmica. 2. Usos terapêuticos. A amiodarona é eficaz no tratamento de ta­ quiarritmias supraventriculares e ventriculares refratárias graves. A amiodarona tem sido a base do tratamento da fibrilação atrial (FA). A amiodarona revelou-se eficaz em manter o ritmo sinusal. Apesar do seu perfil de efeitos adversos, ela é o antiarrítmico mais comu­ mente empregado. 3. Farmacocinética. A amiodarona é absorvida incompletamente após a administração oral. O fármaco é incomum por apresentar meia-vida de várias semanas e se distribui extensamente no tecido adiposo. Os efeitos clínicos completos podem não ser obtidos até seis semanas após o início do tratamento, a menos que sejam em­ pregadas doses de ataque. 4. Efeitos adversos. A amiodarona apresenta umavariedade de efei­ tos tóxicos. Após o uso prolongado, mais da metade dos pacientes apresentam efeitos adversos que são suficientemente graves para suspender o uso.Todavia, o uso de dosagens baixas diminui a toxi­ cidade e mantém a eficácia clínica. Alguns dos efeitos adversos são fibrose intersticial pulmonar, intolerância gastrintestinal, tremores, ataxia, tontura, hiper ou hipotireoidismo, toxicidade hepática, fotos­ sensibilidade, neuropatia, fraqueza muscular e coloração azulada da pele causada pelo acúmulo cutâneo de iodeto. B. Dronedarona A dronedarona é um derivado benzofurano da amiodarona que é menos lipofílico, tem menor acúmulo tecidual e meia-vida sérica menor que a amiodarona. Não tem moléculas de iodo que são responsáveis pelas dis­ funções tireóideas associadas com a amiodarona. Como a amiodarona, a dronedarona tem ações das classes 1, 11, 111 e IV. A maioria dos efeitos adversos é de natureza GI e inclui náuseas, êmese e diarreia. Um recen­ te estudo de 7 meses em pacientes com fibrilação atrial revelou que a dronedarona é menos eficaz que a amiodarona em diminuir a recorrência de FA, mas tem perfil de segurança maiorespecificamente com relação a eventos tireóideos e neurológicos e não interage com os anticoagulantes orais. Entretanto, são necessários mais estudos comparativos de longa duração com a amiodarona para definiro papel da dronedarona no trata­ mento da fibrilação atrial. C. Sotalol O sotalo/, embora sendo um fármaco da classe Ili de antiarrítmicos, também apresenta atividade J3-bloqueadora não seletiva e potente. O sotalol tem dois estereoisômeros com diferentes atividades farmaco­ lógicas. O isômero levorotatório (isotalo� é responsável pela atividade J3-bloqueadora, e o d-sotalo/, pela ação antiarrítmica de classe Ili. Está bem estabelecido que os J3-bloqueadores reduzem a mortalidade asso­ ciada ao infarto agudo do miocárdio. Farmacologia Ilustrada 215 OsfármacosdaclasseIli prolongamarepolarização deFase3,semalterar aFaseO. Período refratário efetivo - - _ ...____,._ - - - - - - Fase 3 (IK)- Exteriorj �l Membrana ...... ... Interior Ca2• Na• Correntes ic+ lc+ diastólicas -.::---- lc+ lc+ Correntes depotencial deação Amiodarona, dofetilida e sotalolbloqueiamos canaisdepotássio. Figura 17.8 Diagrama dos efeitos dos fármacos da classe 111. INa e IK são correntes trans­ membranas decorrentes do movimento de Na+ e K+, respectivamente.
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    216 Clark, Finkel,Rey & Whalen 100 Figura 17.9 Outrosfármacos: lmipramina Mexiletina Procainamida Propafenona Quinidina 2 Ano 3 Sotalol 4 Comparação do sotalol com cinco ou­ tros fármacos com relação aos óbitos decorrentes de arritmias cardíacas. 1 . Ações. O sotalol bloqueia a corrente de saída rápida de potássio, conhecida como retificação retardada. Esse bloqueio prolonga a despolarização e a duração do potencial de ação, prolongando, as­ sim, o período refratário efetivo. 2. Usos terapêuticos. Os �-bloqueadores são usados no tratamento de longa duração para diminuir a taxa de morte súbita após infarto agudo do miocárdio. Os �-bloqueadores têm habilidade modesta em suprimir os batimentos ectópicos e reduzir a demanda miocár­ dicade oxigênio. Eles apresentam potente efeito antifibrilatório, par­ ticularmente no miocárdio isquêmico. O sotalol é mais eficaz em prevenir a recorrência de arritmia e em diminuir a mortalidade do que imipramina, mexiletina, procainamida, propafenona e quinidina em pacientes com taquicardia ventricularsustentada (Figura 17.9). 3. Efeitos adversos. O sotalol apresenta a menor frequência de efei­ tos adversos agudos ou de longo prazo. Como todos os fármacos que prolongam o intervalo QT, a síndrome torsade de pointes é um potencial efeito adverso grave, observado em 3 a 4° / o dos pacientes. D. Dofetilida A dofetilida pode ser usada como fármaco antiarrítmico de primeira linha em pacientes com fibrilação atrial persistente e insuficiência cardíaca ou em pacientes com doença arterial coronariana com comprometimento da função ventricular esquerda. Devido ao risco de pró-arritmia, o início do uso de dofetilida é limitado ao paciente hospitalizado e restrito para prescritores que completaram a sessão de treinamento específica com o fabricante. Junto com amiodarona e �-bloqueadores, a dofetilida é o úni­ co antiarrítmico recomendado pelos especialistas para o tratamento da fibrilação atrial em ampla faixa de pacientes. A meia-vida é de 1 O horas. Sua excreção é na urina, sendo 80° / o naforma inalterada e 20° / o na forma de metabólitos inativos ou minimamente ativos. VI. FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS DA CLASSE IV Os fármacos da classe IV são bloqueadores de canais de cálcio (ver p. 236). Eles diminuem a corrente de entrada do cálcio (Ca 2 +), resultando em diminui­ ção da velocidade de despolarização espontânea da Fase 4. Eles também diminuem a velocidade de condução em tecidos que dependem de correntes de cálcio, como o nó AV (Figura 17.1O). Embora haja canais de cálcio volta­ gem-sensíveis em muitos tecidos diferentes, o principal efeito dos bloqueado­ res de canais de cálcio ocorre no músculo liso vascular e no coração. A. Verapamil e diltiazem O verapamil apresenta maior ação no coração do que no músculo liso vascular, ao passo que o nifedi pino, um bloqueador de canal de cálcio usado no tratamento da hipertensão (ver p. 236), exerce um efeito mais intenso no músculo liso vasculardo que no coração. O diltiazemtem uma ação intermediária. 1. Ações. O cálcio entra nas células porcanais voltagem-sensíveis e por canais operados por receptores que são controlados pela ligação de agonistas, como as catecolaminas, a receptores de membrana. Os
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    bloqueadores de canaisde cálcio, como verapamil e diltiazem, são mais eficazes sobre os canais voltagem-sensíveis, causando diminui­ ção na corrente lenta para o interiorda célula que dispara a contração cardíaca. Verapamil e diltiazem somente se ligam a canais abertos despolarizados, impedindo a repolarização até que o fármaco se dis­ socie do canal. Portanto, esses fármacos são "uso-dependentes", ou seja, eles bloqueiam mais efetivamente quando o coração está baten­ do rapidamente, pois, no coração batendo normalmente, os canais de cálcio têm tempo para repolarizar, e o fármaco ligado se dissocia do canal antes do próximo pulso de condução. Diminuindo a corrente de cálcio para o interior, verapamil e diltiazem reduzem a velocidade de condução e prolongam o período refratário efetivo em tecidos depen­ dentesdecorrentes de cálcio, como o nóAV. Portanto, essesfármacos são eficazes no tratamento de arritmias que precisam passar por teci­ dos cardíacos dependentes de cálcio. 2. Usos terapêuticos. O verapamil e o diltiazem são mais eficazes contraarritmias atriais do que contra asventriculares. Eles são úteis no tratamento de taquicardia supraventricular de reentrada e na re­ dução da frequência ventricular na palpitação (flutter) e fibrilação atriais (redução davelocidade ventricular). Além disso, esses fárma­ cos são usados no tratamento de hipertensão e angina. 3. Farmacocinética. O verapamil e o diltiazem são absorvidos após administração via oral. O verapamil é extensamente biotransforma­ do pelo fígado: portanto, deve-se ter cuidado quando esse fármaco é administrado em pacientes com disfunção hepática. 4. Efeitos adversos. Overapamile o diltiazemtêm propriedade inotrópi­ ca negativa e, por isso, podem sercontraindicados em pacientes com função cardíaca deprimida preexistente. Ambos os fármacos também podem diminuir a pressão arterial devido à vasodilatação periférica - um efeito que é até benéfico notratamento da hipertensão. VII. OUTROS FÁRMACOS ANTIARRÍTMICOS A. Digoxina A digoxina diminui o período refratário nas células miocárdicas atriais e ventriculares ao mesmo tempo em que aumenta o período refratário efetivo e diminui a velocidade de condução no nódulo AV. A digoxina é usada no controle davelocidade de respostaventricular nafibrilação e na palpitação atrial. Em concentrações tóxicas, a digoxina causa batimentos ventriculares ectópicos que podem resultar em taquicardia e fibrilação ventriculares. (Nota: essa arritmia normalmente é tratada com /idocaína ou fenitoína.) B. Adenosina A adenosina é um nucleosídeo de ocorrência natural que, em doses altas, diminui a velocidade de condução, prolonga o período refratário e diminui a automaticidade no nó AV.A adenosina porvia IV é ofármaco de escolha para abolir taquicardia supraventricular aguda. Ela tem baixa toxicidade, mas causa rubor, dor torácica e hipotensão. A adenosina tem uma dura­ ção de ação extremamente curta (aproximadamente 15 segundos). Farmacologia Ilustrada 217 OsfármacosdaclasseIVtornam lentaadespolarizaçãodeFase4 espontâneaediminuema velocidadedeconduçãoem tecidosdependentesdecorrentes decálcio,comoonóAV. Selll fárl'llac� 0 rnv - - - - - - - Fase o - - - - - - - - ITQ;J� t Notar Açãodo Exterior Na• PerrOdo refratá . efet· rio l/o Correntes depotencial deação Qrupo IV K+ Correntes diastólicas r Verapamil, diltiazem e nifedipino bloqueiam oscanaisdecálcio abertosouinativados. 1 � Na• Figura 17.1O Diagrama dos efeitos dos fármacos da classe IV. lca e IK são correntes trans­ membranas decorrentes do movimento de ca+ e K+, respectivamente.
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    218 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 17.1 Um homem de 66 anos teve um infarto do miocárdio. Qual dos seguintes fármacos deveria ser o tratamento antiarrít­ mico profilático apropriado? A. Lidocaína B. Metoprolol C. Procainamida D. Quinidina E. Verapamil 17.2 A supressão de arritmias resultantes de um foco de reen­ trada é mais provável de ocorrer se o fármaco: A. apresenta efeitos vagomiméticos no nó AV. B. é um 13-bloqueador. C. converte um bloqueio unidirecional em um bloqueio bi­ direcional. D. reduz a velocidade de condução através do átrio. E. apresenta efeitos tipo atropina no nó AV. 17.3 Um homem de 57anos está sendo tratado de uma arritmia atrial. Ele se queixa de cefaleia, tontura e zumbido. Qual dos seguintes fármacos antiarrítmicos é o mais provável de causar esses sintomas? A. Amiodarona B. Procainamida C. Propranolol D. Quinidina E. Verapamil 17.4 Uma mulher de 58 anos está sendo tratada para a supres­ são crônica de uma arritmia ventricular. Após dois meses de tratamento, ela se queixa de cansaço o tempo inteiro. O exame revela uma frequência cardíaca de repouso de 1O batimentos por minuto abaixo de sua frequência cardíaca prévia. Sua pele está fria e úmida. Os resultados dos tes­ tes laboratoriais indicam níveis de tiroxina baixo e de hor­ mônio estimulante da tireoide elevado. Qual dos fármacos antiarrítmicos a seguir é a causa provável desses sinais e sintomas? A. Amiodarona B. Procainamida C. Propranolol D. Quinidina E. Verapamil Resposta correta = B. Os �-bloqueadores, como metoprolol, previ­ nem arritmias cardíacas que ocorrem subsequentes ao infarto do miocárdio. Nenhum dos outros fármacos se mostrou particularmente eficaz naprevenção de arritmias pós-infarto. Resposta correta = C. Ateoria atual afirma que a arritmia de reentrada é causada por lesão do músculo cardíaco, de forma que a velocidade decondução através da área lesada é reduzida em uma única direção. Um fármaco que previna aconduçãoem ambas asdireçõesatravésda área lesionada interrompe aarritmiade reentrada. Os antiarrítmicosda classe 1, como a lidocaína, são capazes de produzirbloqueio bidirecio­ nal. As outras escolhas não apresentam qualquer efeito direto na dire­ ção do bloqueio decondução através do músculocardíaco lesionado. Resposta correta = D. O grupo de sintomas de cefaleia, tontura e zumbido é característico de cinchonismo, que é causadopelaquinidi­ na. Os outros fármacos apresentam efeitos adversos característicos, mas não esse grupo de efeitos em particular. Resposta correta = A. A paciente exibe sintomas de hipotireoidismo, que frequentemente está associado ao uso de amiodarona. O pro­ pranolol poderia reduzir a frequência cardíaca, mas não produziria mudanças na função da tireoide. É improvável que um dos outros antiarrítmicos causem hipotireoidismo.
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    , ar acos • 1 nosos 1.RESUMO A doença aterosclerótica das artérias coronárias, também denominada doença das artérias coronárias ou doença do coração isquêmico, é a cau­ sa mais comum de mortalidade em todo o mundo. Os pacientes comumente morrem por insuficiência da bomba devido a um infarto do miocárdio (necrose tecidual) ou devido à arritmia fatal. A doença das artérias coronárias pode se apresentar de diferentes formas, como angina de peito, síndrome coronária aguda, arritmias, respiração curta e outras.Anginapectoris (ou angina de pei­ to) é um quadro repentino e grave caracterizado por dor comprimindo o peito que se irradia pelo pescoço, pela mandíbula, pelas costas e pelos braços. Ela é causada pelo fluxo sanguíneo coronariano que é insuficiente para suprir a demanda de oxigênio do miocárdio, levando à isquemia. O desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio pode resultar de esforço, de espasmo do músculo liso vascular ou pela obstrução de vasos sanguíneos por lesões ateroscleróticas. Esses episódios transitórios (15 segundos a 15 minutos) de isquemia miocárdica não causam morte celular, como ocorre no infarto do miocárdio. A isquemia crônica pode levar à deterioração da função cardíaca, levando, por sua vez, à insuficiência cardíaca, a arritmias e à morte súbi­ ta. Três classes de fármacos, usados isoladamente ou em associação, são usados comumente no tratamento de pacientes com angina estável: nitratos orgânicos, �-bloqueadores e bloqueadores de canais de cálcio (Figura 18.1). Esses fármacos diminuem a demanda de oxigênio pelo coração afetando a pressão arterial, o retorno venoso, a frequência e a contratilidade cardíacas. Mudanças no estilo de vida e nos fatores de risco, especialmente parar de fumar, também são importantes no tratamento da angina. (Nota: além dos fármacos para o tratamento da angina, outras opções incluem a angioplastia e as pontes de safena nas artérias coronárias.) li. TIPOS DE ANGINA A angina pectoris apresenta três padrões sobrepostos: 1) angina induzida por esforço, estável, clássica ou típica; 2) angina instável e 3) angina de repouso, NITRATOS ORGÂNICOS • • Di nitrato de isossorbida Mononitrato de isossorbida Nitroglicerina P-BLOQUEADORES Acebutolol Atenolol Metoprolol Propranolol BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO Amlodipino Diltiazem Felodipi no Nicardipino Nifedipino Verapamil BLOQUEADOR DE CANAIS DE SÓDIO Ranolazi na Figura 18.1 Resumo dos fármacos antianginosos.
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    220 Clark, Finkel,Rey & Whalen Nitratos administrados ) Nitritos Figura 18.2 ) Óxido nítrico ) GMPc ) Desfosforilação dascadeiasleves ) J demiosina - Relaxamento do músculo lisovascular Efeitos de nitratos e nitritos sobre o músculo liso. GMPe = monofosfato-3'-5'-cíclico de guanosina. vasoespástica, variante ou Prinzmetal. Elas são causadas por várias combina­ ções de aumentoda demanda miocárdica e diminuiçãode perfusão miocárdica. A. Angina induzida por esforço, clássica ou estável A angina clássica é a forma mais comum de angina e, por essa razão, é denominada também angi na pectoris típica. Ela é caracterizada por uma sensação de queimação, peso ou pressão no peito de curta duração. Ela é causada pela redução da perfusão coronariana devida à obstrução fixa da artéria coronária produzida por aterosclerose. Devido à obstrução fixa, o suprimento de sangue não consegue aumentar, e o coração se torna vulnerável à isquemia quando há aumento da demanda, como a produzida durante exercício físico, excitação emocional ou qualquer outra causa que aumente a carga de trabalho cardíaco. A angina pectori s típica é aliviada de imediato com repouso ou nitroglicerina, o que diminui a demanda do miocárdio por oxigênio. Quando o padrão da dor torácica e a intensidade do esforço necessário para iniciaras dores torácicas não se alteram de um dia para outro ou de semana para outra, a angina é denominada "angina estável". Alguns episódios isquêmicos podem não estar associados com dor (angina silente). (Nota: o diagnóstico é feito com monitoração Holter.) B. Angina instável A angina instável é classificada entre a angina estável e o infarto do mio­ cárdio. Na angina instável, a dor torácica ocorre com maior frequência, duração e intensidade e é desencadeada pelo esforço progressivamente menor. Qualquerepisódio de angina de repouso com mais de 20 minutos, qualquer novo aparecimento de angina ou aumento da angina (crescen­ do), e mesmo o desenvolvimento súbito de falta de ar, é sugestivo de angina instável. Os sintomas não aliviam com repouso ou nitrogliceri na. A angina instável exige hospitalização e tratamento mais agressivo para evitar a morte e a evolução ao infarto do miocárdio. C. Angina de Prinzmetal, variante, vasoespástica ou de repouso A angina de Prinzmetal é um padrão incomum de angina episódica que ocorre em repouso e resulta de espasmo da artéria coronária. Os sinto­ mas são causados pela diminuição do fluxo sanguíneo ao músculo car­ díaco pelo espasmo da artéria coronária. Emboraos indivíduos com essa forma de angina possam apresentar aterosclerose coronariana signifi­ cativa, os ataques de angina não são relacionados com atividade física, frequência cardíaca ou pressão arterial. A angina de Prinzmetal em geral responde prontamente aos vasodilatadores coronários como nitrogliceri­ na e bloqueadores de canais de cálcio. D. Formas mistas de angina Pacientes com doença coronária avançada podem apresentarepisódios de angina durante esforço, bem como em repouso, sugerindo a presença de obstruçãofixa associada com disfunção arterial e doença vasoespástica.
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    E. Síndrome coronarianaaguda A síndrome coronariana aguda é umaemergênciaque resulta comumen­ te da ruptura de uma placa aterosclerótica e trombose parcial ou com­ pleta de uma artéria coronária. A maioria dos casos decorre da ruptura de uma lesão aterosclerótica tipificada por um grande grupo de lipídeos, numerosas células inflamatórias e umacapa fina efibrosa (placaflexível). Este evento é seguido de ativação das plaquetas da cascata de coagu­ lação e vasoconstrição. O processo culmina em trombose intraluminal e oclusão vascular. Se o trombo obstrui a maior parte do vaso e se a oclu­ são não é combatida, pode ocorrer necrose do músculo cardíaco (infarto do miocárdio). A síndrome coronariana aguda pode se apresentar como infarto do miocárdio com elevação do segmento ST (sigla em inglês, STEMI), infarto do miocárdio sem elevação do segmento ST (NSTEMI) ou como angina instável, onde não estão presentes aumento das enzi­ mas ou de biomarcadores da necrose do miocárdio. Ili. NITRATOS ORGÂNICOS Os nitratos orgânicos (e nitritos) usados notratamento da anginapectori ssão ésteres simples de ácido nítrico e nitroso com glicerol. Eles diferem em volati­ lidade. Porexemplo, o di nitrato de isossorbida e o mononitrato de isossorbida são sólidos na temperatura ambiente, a nitroglicerina é apenas moderada­ mente volátil, e o nitrato de amila é extremamente volátil. Esses compostos causam rápida redução nademanda miocárdia de oxigênio, seguido por alívio rápido dos sintomas. Eles são eficazes na angina estável e na instável, bem como na angina pectoris vari ante. A. Mecanismo de ação Os nitratos inibem avasoconstrição ou o espasmo coronariano aumentan­ do a perfusão do miocárdio e assim aliviam a angina vasoespástica. Além disso, os nitratos relaxam as veias (venodilatação), diminuindo a pré-car­ ga e o consumo cardíaco de oxigênio. Devido a esta ação, os nitratos são eficazes no tratamento da angina de esforço (angina clássica). Os nitratos orgânicos, como a nitroglicerina, também conhecida como trinitrato de glicerila, parecem relaxar o músculo liso vascular por sua conversão in­ tracelular em íons nitrito, e, então, a óxido nítrico, que, por sua vez, ativa a guanilato-ciclase e aumenta o monofosfato de guanosina cíclico (GMPc)1• O GMPc aumentado leva à desfosforilação das cadeias leves de miosina, resultando em relaxamento do músculo liso vascular (Figura 18.2). B. Efeitos sobre o sistema cardiovascular Todos esses fármacos são eficazes, mas diferem no início de ação e na velocidade de eliminação. Para o alívio imediato de um ataque de angina em andamento, provocado por exercício ou estresse emocional, o fárma­ co de escolha é a nitrogliceri na sublingual (ou na forma de nebulizador). Em doses terapêuticas, a nitroglicerina tem dois efeitos principais. Pri­ meiro, ela causa dilatação de grandes veias, resultando em acúmulo do sangue nas veias. Isso diminui a pré-carga (retornovenoso ao coração) e reduz o trabalho do coração. Segundo, a nitrogli cerina dilata os vasos co­ ronarianos, proporcionando aumento naoferta de sangue parao músculo cardíaco. A nitroglicerina diminui o consumo de oxigênio pelo miocárdio em virtude da diminuição do trabalho cardíaco. � 1Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para discussão sobre � função do óxido nítrico na produção do GMPc. Legenda: Farmacologia Ilustrada 221 Iníciodeação Duraçãodeação Nitroglicerina Comprimido sublingualou nebulização Oral, liberação sustentada Transdérmica 2 minutos 25 minutos 35 minutos 30 minutos Dinitrato de isossorbida Sublingual Oral, liberação lenta 30 minutos Mononitrato de isossorbida Oral, liberação prolongada Figura 18.3 30 minutos Tempo para o pico de efeito e a dura­ ção de ação de algumas preparações comuns de nitratos orgânicos.
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    222 Clark, Finkel,Rey & Whalen Obstruçãode50"/o Potencialpara angina A.Vasoespasmofranco Obstruçãode99% Anginaemrepouso B.Tônus vascular aumentado (p.ex., duranteexercício) Obstruçãode70"/o Anginainduzida porexercício e.Tônus vascular diminuído (p.ex., com o uso de vasodilatadores) Obstruçãode30"/o ( Semangina ) Figura 18.4 Fluxo de sangue na artéria coronária parcialmente bloqueado com placas ateroscleróticas. C. Farmacocinética O tempo de estabelecimento da ação varia de um minuto para a nitro­ glicerina a mais de uma hora para o mononitrato de isossorbida (Figu­ ra 18.3). A nitroglicerina sofre significativa biotransformação de primeira passagem no fígado. Dessa forma, é comum a sua utilização por via su­ blingual ou adesivo transdérmico, evitando, assim, essa via de elimina­ ção. O mononitrato de isossorbida deve a sua maior biodisponibilidade e a longa duração de ação à sua estabilidade frente a hidrólise hepática. O dinitrato de isossorbida porvia oral sofre desnitratação a dois mononitra­ tos, ambos com atividade antianginosa. D. Efeitos adversos O efeito adverso mais comum da nitroglicerina, bem como dos demais nitratos, é a cefaleia. De 30 a 60° / o dos pacientes que recebem tratamento intermitentecom nitratos de longa ação desenvolvem cefaleia. Doses altas de nitratos orgânicos também podem causar hipotensão postural, rubor facial e taquicardia. Os inibidores de fosfodiesterase V como sildenafila, tardenafila e vardenafila potencializam a ação dos nitratos. Para evitar a perigosa hipotensão que pode ocorrer, essa associação é contraindicada. E. Tolerância IV. A tolerância às ações dos nitratos se desenvolve rapidamente. Os vasos sanguíneos se tornam dessensibilizados à vasodilatação. A tolerância pode ser evitada estabelecendo-se um dia de "intervalo livre de nitrato" para res­ tabelecer a sensibilidade ao fármaco. Esse intervalo é de 1O a 12 horas, em geral à noite, pois a demanda sobre o coração está diminuída nesse período. O adesivo de nitroglicerina é usado por 12 horas e, então, é remo­ vido por 12 horas. Entretanto, a angina de Prinzmetal se agrava no início da manhã, provavelmente pelo aumentocircadiano dascatecolaminas. Portan­ to, o intervalo livre de nitrato nesses pacientes deve ocorrer nofinal datarde. Os pacientes que continuam apresentando angina, apesar do tratamento com nitrato, podem se beneficiar com acréscimo de um fármaco de outra classe. BLOQUEADORES p-ADRENÉRGICOS Os bloqueadores [3-adrenérgicos diminuem a demanda de oxigênio do miocár­ dio reduzindo a frequência e a força de contração do coração. Eles suprimem a ativação do coração bloqueando os receptores [31 e reduzem o trabalho do coraçãodiminuindoafrequência, a contratilidadee odébitocardíaco ea pressão arterial. Com os [3-bloqueadores, a demanda de oxigênio pelo miocárdio se re­ duz durante o exercício e o repouso. Por estes efeitos, os [3-bloqueadores são os fármacos de escolha para tratar a angina de esforço. Os [3-bloqueadores di­ minuem a frequência e a gravidade dos ataques de angina. Os [3-bloqueadores são ineficazes contra a angina vasoespástica e não devem ser usados. O pro­ pranolol é o protótipo dessa classe de compostos, mas não é cardiosseletivo. Por isso, outros [3-bloqueadores, como metoprolol e atenolol, são preferidos. (Nota: todos os [3-bloqueadores em doses elevadas são não seletivos e podem inibir receptores [32• Isso é particularmente importante de ser lembrado no caso de pacientes asmáticos.) Fármacos com atividade simpaticomimética intrínse­ ca (p. ex., pindolol) são menos eficazes e devem ser evitados na angina. De modo semelhante, os [3-bloqueadores isentos de atividade simpaticomimética intrínseca são particularmente úteis no tratamento de pacientes com infarto do miocárdio e prolongam a sobrevivência (p. ex., metoprolo�. Em pacientes com angina clássica (angina de esforço), os [3-bloqueadores podem ser usados com nitratos para aumentar a duração do exercício e a tolerância. Eles são, todavia,
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    contraindicados em pacientescom asma, diabetes, bradicardia grave, doença vascular periférica e doença pulmonar obstrutiva crônica. (Nota: é importante não interromper abruptamente o uso do [3-bloqueador. A dosagem deve ser re­ duzidagradualmente por2 a 3semanas para evitar rebotes deangina, infarto do miocárdio e hipertensão.) V. BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO O cálcio é essencial para a contração muscular. O influxo de cálcio aumenta na isquemia devido à despolarização da membrana provocada pela hipoxia. Isso, porsuavez, promove a atividade de várias enzimas que consomem trifosfatode adenosina, esgotando, assim, os estoques de energia e agravando a isquemia. Os bloqueadores de canais de cálcio protegem o tecido inibindo a entrada de cálcio nas células cardíacas e musculares lisas dos leitos arteriais coronarianos e sistêmicos.Todos os bloqueadores de canais de cálcio são, portanto, vasodi­ latadores arteriolares que causam diminuição do tônus dos músculos lisos e da resistência vascular. (Ver na p. 236 a descrição do mecanismo de ação desse grupodefármacos.) Em doses clínicas, essesfármacos afetam primariamente a resistênciade músculos lisos arteriolares coronarianos e periféricos. Seu uso no tratamento da angina de esforço depende da redução do consumo de oxigênio pelo miocárdio resultante da diminuição da pós-carga. Sua eficácia na angina vasoespástica é devido ao relaxamento das artérias coronárias. (Nota: o vera­ pamilafeta principalmente o miocárdio, e o nifedipi no exerce maior efeito nos músculos lisos nos vasos periféricos. O diltiazemapresenta ação intermediária.) Todos os bloqueadores de canais de cálcio reduzem a pressão arterial. Eles podem agravar a insuficiência cardíaca devido ao seu efeito inotrópico negativo. (Nota: a angina variante causada por espasmo coronariano espontâneo, seja em trabalho ou repouso [Figura 18.4] e não por aumento da demanda de oxi­ gênio pelo miocárdio, é controlada pelos nitratos orgânicos ou bloqueadores de canais de cálcio. Os [3-bloqueadores são contraindicados.) A. Nifedipino O nifedi pino, um derivado da di-hidropiridina, funciona principalmente como vasodilatador arteriolar. Esse fármaco apresenta efeito mínimo na condução e na frequência cardíacas. O nifedipino é administrado por via oral, normalmente naforma de comprimidos de liberação prolongada. Ele sofre biotransformação hepática em produtos que são eliminados com a urina e fezes. O efeito vasodilatador do nifedipino é útil no tratamento da angina de Prinzmetal causada por espasmo coronariano espontâneo. O nifedi pino pode causar rubor, cefaleia, hipotensão e edema periféri­ co como efeitos adversos decorrentes de sua atividade vasodilatadora. Como com todos os bloqueadores de canais de cálcio, a constipação é um problema. Como apresenta pouca ou nenhuma ação antagonista simpática, o nifedi pinopode causartaquicardia reflexa se avasodilatação periférica é intensa. (Nota: o consenso geral é que as di-hidropiridinas de ação curta devem ser evitadas na doença arterial coronariana devido a evidências de aumento de mortalidade após infarto do miocárdio e au­ mento de infartos do miocárdio agudo em pacientes hipertensos.) B. Verapamil A difenil-alquilamina verapamil reduz diretamente a velocidade de con­ dução atrioventricular (AV) cardíaca, diminui a frequência e contratilidade cardíaca, a pressão arterial e a demanda de oxigênio. O verapamilcausa maior efeito inotrópico negativo do que o nifedi pino, mas é um vasodilata­ dor mais fraco. Como é extensamente biotransformado pelo fígado, deve­ -se ter cuidado em ajustar a dosagem em pacientes com disfunção hepá­ tica. O verapamilé contraindicado em pacientes com depressão da função Farmacologia Ilustrada 223
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    224 Clark, Finkel,Rey & Whalen DOENÇA CONCOMITANTE FÁRMACOS NORMALMENTE USADOS NO TRATAMENTO DA ANGINA NENHUMA , INFARTODOMIOCARDIO RECENTE ASMA,DPOC HIPERTENSÃO DIABETES DOENÇA - RENALCRONICA Figura 18.5 Nitratosdeação longa Nitratosdeação longa Nitratosdeação longa Nitratosdeaçãolonga Nitratosdeação longa Nitratosdeação longa [ Legenda: 13-Bloqueadores 13-Bloqueadores JJ-Bloqueadores 13-Bloqueadores ] Classedofármaco Bloqueadores decanais deca2• Bloqueadores decanais deca2• Bloqueadores decanais deca2• Bloqueadores de canais deca2• Bloqueadores de canais deca2• [Classe do fármaco] Fármacoscomumenteusados Fármacosmenoseficazes Tratamento da angina em pacientes com doenças concomitantes. DPOC = doença pulmonar obstrutiva crônica. cardíaca preexistente ou anormalidades de conduçãoAV. Ele também cau­ saconstipação. O verapamildeve ser usado com cautela em pacientes que estão tomando digoxina, pois ele aumenta os níveis desse fármaco. C. Diltiazem O diltiazem apresenta efeitos cardiovasculares que são similares aos do verapamil. Ambos os fármacos diminuem a velocidade de condução AV e reduzem ataxa de disparos do nó marca-passo sinusal.O diltiazem reduz a frequência cardíaca, embora em menor extensão do que o verapamil, e também diminui a pressão arterial. Além disso, o diltiazem pode aliviar o espasmo coronariano e, portanto, é particularmente útil em pacientes com angina variante. Ele é extensamente biotransformado nofígado.A in­ cidência de efeitos adversos é baixa (a mesmados demais bloqueadores de canais de cálcio). As interações com outros fármacos são as mesmas indicadas para o verapamil. , VI. BLOQUEADORES DE CANAIS DE SODIO A. Ranolazina A ranolazina inibe a últimafase dacorrente de sódio (INatardia) melhoran­ do a equação suprimento-e-demanda de oxigênio. A inibição da INatardia reduz a sobre-carga intracelular de sódio e cálcio, melhorando, assim, a disfunção diastólica. A ranozalinaé indicada para o tratamento da angina crônica e pode ser usada só ou em combinação com outros tratamentos tradicionais, mas, mais frequentemente, é usada como opção nos pacien­ tes em que outros tratamentos anginosos falharam. A ranozalina não é usada no tratamento de ataque agudo de angina.
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    A Figura 18.5resume otratamento daangina em pacientes com doenças concomitantes e a Figura 18.6 fornece normas de tratamento para pa­ cientes com angina estável. Nitroglicerinadeaçãobreveparao alíviodossintomasagudos (sublingualoubucalconforme necessário).Naausênciade contraindicação,todosospacientes devemsertratadoscomdoses baixasdeácidoacetilsalict1ico, 75a162 mgpordia. t Aanamnesesugereangina vasoespástica(Prinzmetal). Não t Sim ' Sim BloqueadordecanaldeCa2• Nitratodelongaação. Osjl-bloqueadoressãocontraindicados? (OsJl-bloqueadoresnãosão recomendadosnospacientescom asma,DPOC,diabetes,doençavascular periféricasintomática,bloqueio cardíacodeprimeirograu.) BloqueadordecanaisdeCa2•. Figura 18.6 Não . t IniciartratamentocomJl-bloqueador comfármacocardiosseletivo,como atenololoumetoprolol. Não ', Iniciartratamentocombinado: acrescentebloqueadorde canais deCa2•ounitratodeaçãolonga. Não ', Iniciarotratamentotriplo: Acrescenteousubstituaaranozalina. • • Ossintomassão controladosapós otimizaçãodadosagem. Não ', Iniciartratamentocombinado acrescentandonitratodeação longaouranozalina. • Ossintomassão controladosapós otimizaçãodadosagem. Ossintomassão controladosapós otimizaçãodadosagem. Sim Sim - Farmacologia Ilustrada 225 Sim '. Acompanheregularmente paraavaliarfatoresde riscoearesposta aotratamento. Acompanheregularmente paraavaliarfatoresde riscoearesposta aotratamento. Acompanheregularmente paraavaliarfatoresde riscoearesposta ao tratamento. Normas para o tratamento visando à redução dos sintomas de pacientes com angina estável. DPOC = doença pulmonar obstrutiva crônica.
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    226 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 18.1 Um paciente de 56 anos se queixa de dor no peito após a realização de qualquer exercício contínuo. O diagnósti­ co é de angina aterosclerótica. Foi prescrita nitroglicerina sublingual para o tratamento da dor aguda no peito. Qual entre os seguintes efeitos adversos pode ocorrer nesse paciente? A. Hipertensão B. Cefaleia pulsante C. Bradicardia D. Disfunção sexual E. Anemia 18.2 O paciente descrito na Questão 1 8.1 recebe também a prescrição de propranolol para prevenir os episódios de angina. O [3-bloqueador é adicionado ao tratamento para evitar qual dos efeitos adversos da nitroglicerina sublin­ gual? A. Tontura B. Metemoglobinemia C. Cefaleia pulsante D. Taquicardia reflexa E. Edema 18.3 Um homem de 68 anos vem sendo tratado com sucesso contra uma angina induzida por exercício durante vários anos. Recentemente ele tem se queixado de acordar du­ rante a noite com dor no peito. Qual dos seguintes fárma­ cos poderia ser mais útil na prevenção da angina noturna do paciente? A. Nitrato de amila B. Nitroglicerina (sublingual) C. Nitroglicerina (transdermal) D. Esmolol E. Hidralazina Resposta correta = B. A nitroglicerina causa cefaleia pulsante em 30 a 60o/ o dos pacientes que estão tomando o fármaco. As outras alter­ nativas são incorretas. Respostacorreta= D.A nitroglicerinapodecausartaquicardia reflexa em decorrência de suas propriedades vasodilatadoras. Esse reflexo é bloqueado pelo propranolol. Os demais efeitos adversos ou não são evitados pelo propranolol ou não são causados pela nitroglice­ rina (edema). Reposta correta = C. A nitroglicerina transdérmico pode manter os níveis séricos por períodos de até 24 horas. Entretanto, como ocorre tolerância, é recomendado queo adesivoseja removidoapós 1O a 12 horas para recuperar a sensibilidade. Nitrato de amila, nitroglicerina sublingual e esmolol têm curta duração de ação. A hidralazina pode precipitar um ataque de angina.
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    , ar acos • • 1er ens 1vos 1. RESUMO A hipertensão é definida como uma pressão sanguínea sistólica contínua maior do que 140 mmHg e/ou uma pressão sanguínea diastólica contínua maior do que 90 mmHg. A hipertensão resulta do aumento do tônus do mús­ culo liso arteriolar vascular periférico, que leva ao aumento da resistência arteriolar e à redução da capacitância do sistema venoso. Na maioria dos casos, a causa do aumento do tônus vascular é desconhecida. A pressão arterial elevada é uma alteração extremamente comum, afetando cerca de 15° / o da população dos Estados Unidos (60 milhões de pessoas). Embora muitos desses indivíduos não apresentem sintomas, a hipertensão crônica (tanto sistólica quanto diastólica) pode levar à acidente vascular encefálico (derrame), à insuficiência cardíaca congestiva, ao infarto do miocárdio e à lesão renal. A morbidade e a mortalidade diminuem significativamente quan­ do a hipertensão é diagnosticada precocemente e tratada de modo adequa­ do. Os fármacos usados no tratamento da hipertensão são citados na Figura 19.1 . Reconhecendo o caráter progressivo da hipertensão, ela é classificada em quatro categorias com o objetivo de orientar o tratamento (Figura 19.2). Figura 19.1 a-BLOQUEADORES Doxazosina Prazosina Terazosina OUTROS Clonidi na Diazoxido Hidralazina Labeta/oi a-Meti/dopa Minoxidil Nitroprussiato desódio INIBIDORES DE RENINA Alisquireno BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO Anlodipino Diltiazem Felodipino lsradipino Nicardipino Nifedipino Nisoldi pino Verapamil Resumo dos fármacos anti-hipertensivos. ECA = enzima conversora de angiotensina. DIURÉTICOS Amilorida Bumetanida C/ortalidona Eplerenona Furosemida Hidroc/orti azida Meto/azona Espironolactona Tr iantereno P·BLOQUEADORES Atenolol Carvedilol Labeta/oi Metoprolol Nado/oi Nebivolol Propranolol Timo/oi INIBIDORES DA ECA Benazepril Captopril Enalapril Fosinopril Lisinopril Monoexipril Quinapril Ramipril BLOQUEADORES DE RECEPTOR DAANGIOTENSINA li Ali sartana medoxomil Candesartana Eprosartana lrbesartana Losartana Olmesartana Telmisartana Valsartana
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    228 Clark, Finkel,Rey & Whalen Sistólica Diastólica mmHg mmHg Normal <120 e <80 Pré-hipertensão 120- ou 80- 139 89 Estágio1 140- 159 ou 90- 99 Estágioli > 160 ou > 100 Figura 19.2 Classificação da pressão arterial com base no trabalho do 7° Relatório da Joint National Committee on Preven­ tion, Detection, Evaluation, and Treat­ ment of High Blood Pressure (JNC7). PRESSÃO ARTERIAL Controladapor DÉBITO CARDÍACO RESISTÊNCIA PERIFÉRICA Frequência cardíaca Controladapor Pressãode enchimento Tônus arteriolar Contratilidade Controlada por Volumede Tônus sangue venoso Figura 19.3 Principais fatores que influenciam a pressão arterial. - li. ETIOLOGIA DA HIPERTENSAO Embora a hipertensão possa ocorrer secundariamente a outras doenças, mais de 90° / o dos pacientes apresentam hipertensão essencial, uma alte­ ração de origem desconhecida que afeta os mecanismos de regulação da pressão arterial. A existência de hipertensão na família aumenta a probabi­ lidade de que o indivíduo terá uma pressão arterial maior do que a normal e desenvolverá doença hipertensiva. A incidência de hipertensão essencial é quatro vezes maiorentre negros do que entre brancos e ocorre mais frequen­ temente em homens de meia idade do que em mulheres de meia idade e a prevalência aumenta com a idade e a obesidade. Fatores ambientais, como estilo de vida estressante, ingestão elevada de sódio com a dieta e fumo, au­ mentam a predisposição do indivíduo à hipertensão. - Ili. MECANISMOS DE CONTROLE DA PRESSAO ARTERIAL A pressão arterial é regulada dentro de uma faixa estreita para prover perfu­ são adequada aos tecidos sem causar lesões ao sistema vascular, particu­ larmente à túnica íntima arterial (endotélio). Ela é diretamente proporcional ao débito cardíaco e à resistência vascular periférica (Figura 19.3). O débito cardíaco e a resistência periférica são controlados principalmente por dois mecanismos sobrepostos de controle: os barorreflexos e o sistema renina-an­ giotensina-aldosterona (Figura 1 9.4). A maioria dos fármacos anti-hipertensi­ vos diminui a pressão arterial, reduzindo o débito cardíaco e/ou diminuindo a resistência periférica. A. Barorreceptores e sistema nervoso simpático Os barorreflexos atuam alterando a atividade do sistema nervoso sim­ pático. Por isso, são responsáveis pela regulação rápida, momento a momento, da pressão arterial. Uma queda da pressão determina que os neurônios sensíveis à pressão (barorreceptores do arco aórtico e seios carotídeos) remetam menos impulsos aos centros cardiovasculares na medula espinal. Isso determina uma resposta reflexa imediata de au­ mento do estímulo simpático e diminuição parassimpática ao coração e aos vasos, resultando em vasoconstrição e aumento do débito cardíaco. Essas mudanças resultam em um aumento compensatório da pressão sanguínea (ver Figura 1 9.4). B. Sistema renina-angiotensina-aldosterona Os rins são responsáveis pelo controle da pressão arterial em lon­ go prazo ajustando o volume sanguíneo. Os barorreceptores nos rins respondem à pressão arterial reduzida e à estimulação simpática de adrenorreceptores-�,. liberando a enzima renina (ver Figura 19.4). lnges­ tão baixa e aumento da perda de sódio também aumentam a liberação de renina. Essa peptidase converte angiotensinogênio em angiotensina 1, que é convertida, por suavez, em angiotensina li na presença da ECA. A angiotensina li é um vasoconstritor mais potente, contraindo arteríolas e veias, causando aumento na pressão arterial. A angiotensina 11 exerce ação vasoconstritora preferencial nas arteríolas eferentes do glomérulo renal, aumentando a filtração glomerular. Além disso, a angiotensina 11 estimula a secreção de aldosterona, levando ao aumento da reabsorção renal de sódio e ao aumento dovolume sanguíneo, o que contribui para o aumento adicional da pressão arterial. Esses efeitos são mediados pela estimulação dos receptores AT1 da angiotensina li.
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    Respostamediadapelosistemanervososimpático Atividade simpática Fluxo sanguíneorenal Velocidadede filtraçãoglomerular Ativaçãode adrenorreceptores-111 nocoração Ativaçãode adrenorreceptores-a1 nosmúsculoslisos Ativaçãodos adrenorreceptores-111 nosrins Renina Retençãode sódioeágua Aldosterona Respostamediadapelosistemarenina-angiotensina-aldosterona Figura 19.4 Débito cardíaco Aumentodo retornovenoso Resistência periférica Angiotensinali Volume sanguíneo Farmacologia Ilustrada229 Resposta do sistema nervoso autônomo e do sistema renina-angiotensina-aldosterona à diminuição da pressão arterial. IV. ESTRATÉGIAS DETRATAMENTO O objetivo do tratamento anti-hipertensivo é reduzir a morbidade cardiovascu­ lar e renal e a mortalidade. A relação entre a pressão arterial e o risco de um eventocardiovascularé contínua e, assim, mesmo reduzindo a pressão arterial moderadamente elevada, reduz-se a doença cardiovascularsignificativamente. A nova classificação, "pré-hipertensão", reconhece essa relação e enfatiza a necessidade de diminuir a pressão arterial na população geral com medidas educativas e adoçãode condutas de redução da pressão.A hipertensão mode­ rada pode sercontrolada algumas vezes com um únicofármaco, mas a maioria dos pacientes requer mais de um fármaco para obter o controle. As recomen­ dações atuais são de iniciar o tratamento com um diurético tiazídico, a menos que haja razão que determine o emprego de outra classe de fármaco (Figura 19.5). Se a pressão arterial não é controlada adequadamente, é acrescentado um segundo fármaco, selecionado com base nos efeitos adversos mínimos do regime combinadoe procurando uma pressão arterial apropriada (Figura 19.6). Pode ser acrescentado um 13-bloqueador, se o fármaco inicial foi um diurético, e vice-versa. Um vasodilatador pode ser acrescentado como terceiro fármaco para aqueles pacientes que continuam sem alcançar uma pressão arterial vi­ sada. Quando são usados inibidores da enzima conversora de angiotensina li ou bloqueadores de receptorAT1 da angiotensina li para iniciar otratamento, o diurético é o segundo fármaco acrescentado mais comumente. A. Cuidados individualizados Certos subgrupos da população hipertensa respondem melhor a uma classe de fármacos do que à outra. Por exemplo, pacientes negros res­ pondem bem aos diuréticos e bloqueadores de canais de cálcio, mas o monotratamento com 13-bloqueadores ou inibidores da ECA com fre­ quência é menos eficaz. De modo similar, bloqueadores de canais de
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    230 Clark, Finkel,Rey & Whalen � DOENÇA CONCOMITANTE CLASSESDEFÁRMACOSINDICADOSNOTRATAMENTODAHIPERTENSÃO ANGINA PECTOR/S [ Diuréticos l [3-Bloqueadores Inibidores da ECA Bloqueadores - de canais de ca2+ DEALTORISCO - DIABETES 1 Diuréticos 1 [[3-Bloqueadores ] Inibidores da ECA 1 BRAs 1 Bloqueadores de canais de ca2+ ,__ AVERECORRENTE [ Diuréticos l Inibidores da ECA 1 1 1 1 INSUFICIENCIACARDÍACA Diuré t icos [3-Bloqueadores Inibidores da ECA BRAs Antagonistas de ,__ receptor de aldosterona INFARTODO Antagonistas de ,__ MIOCÁRDIOPRÉVIO [3-Bloqueadores Inibidores da ECA receptor de aldosterona '- DOENÇA RENALCRÔNICA Inibidores da ECA 1 BRAs 1 Figura 19.5 Tratamento da hipertensão em pacientes com doenças concomitantes. As classes de fármacos em caixas azuis asse­ guram melhor resultado (p. ex., diabetes ou doença renal) independente da pressão arterial. (Nota: os bloqueadores de receptores de angiotensina [SRA] são uma alternativa aos inibidores da enzima conversora de angiotensina [ECA]. AVE = acidente vascularencefálico. Angina Diabetes Hiperlipidemia Insuficiência cardíaca Infartodo miocárdioprévio Alteraçãorenal Asma Figura 19.6 o 5 10 15 Porcentagemdepacientes hipertensoscomadoença concomitanteindicada Frequência de doenças concomitantes entre a população de pacientes hiper­ tensos. cálcio, inibidores da ECA e diuréticos são apropriados para o tratamento da hipertensão em pacientes idosos, ao passo que os 13-bloqueadores e os a-antagonistas são menos tolerados. Além disso, a hipertensão pode coexistir com outras doenças que podem ser agravadas por alguns dos fármacos anti-hipertensivos. Nesses casos, é importante encontraro me­ lhorfármaco anti-hipertensivo para cada paciente em particular. A Figura 19.5 mostra o tratamento preferido em pacientes hipertensos com várias doenças concomitantes, e a Figura 1 9.6 mostra a frequência de doenças concomitantes na população de pacientes hipertensos. B. Adesão do paciente ao tratamento anti-hipertensivo A falta de adesão do paciente é a causa mais comum para a falha do tratamento anti-hipertensivo. O paciente hipertenso normalmente é assin­ tomático e é diagnosticado por triagem de rotina, antes da ocorrência de lesão óbvia sobre um órgão-alvo. Dessa forma, o tratamento em geral é direcionado para evitar as sequelas futuras da doença, em vez de aliviar algum desconforto atual no paciente. Os efeitos adversos associados ao tratamento anti-hipertensivo podem influenciar mais os pacientes do que as vantagens futuras. Por exemplo, os 13-bloqueadores podem diminuir a libido e induzirdisfunções eréteis em homens, particularmente os de meia­ -idade e idosos. Essa disfunção sexual induzida pelo fármaco pode levar o paciente a interromper o tratamento. Assim, é importante aumentar a adesão do paciente selecionando cuidadosamente o regime de fármacos que reduz osefeitos adversos e minimiza o número de dosificações neces­ sárias cadadia. A associação de dois ou trêsfármacos em um comprimido único, em associação dose-fixa, revelou melhorar a adesão ao tratamento e o número de pacientes que alcançaram a pressão arterial desejada. A Figura 19.7 mostra as normas do tratamento contra a hipertensão.
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    Farmacologia Ilustrada 231 Hipertensãorecém-diagnosticada ', Modificaçãodoestilodevida •'Peso'-manteramassacorporalnormal (IMC 18,5-24,9) • Dieta-TCHD-ricaemfrutas,vegetais,grãos, produtoslácteosdesnatados,semgordura, colesterolesódio •Sais- reduziroNa+nadietaparamenosde 2,4g/diaou6 g/diaNaCI • Exercício-atividadeaeróbiaregularcomocaminhar(30min/dia namaioriadosdias) •Álcool-limitara menosde2drinques/diaparahomense 1 drinque/diaparamulheres ' ' • • Alcançou o Nãoalcançoua pressãoarterial pretendida(<140/90mmHg) valorpretendido (<130/80 mmHgparaaquelescomdiabetesoudoençarenal crônica) . , Monitorar • ' HipertensãoEstágio1 (PAS 140-159mmHg) ou PAD90-99mmHg) • Diuréticodotipotiazidapara amaioriadospacientes • Considereinibidoresda ECA, BRA, �-bloqueadores, BCCaou umaassociação ' • Alcançadooobjetivo ' ' Monitorar Figura 19.7 ' f Escolhadofármac.oinicial • • Semcondiçõesagravantes ' • HipertensãoEstágioli (PAS;;;. 160mmHgou PAD;;;. 100 mmHg) •Associaçãodedoisfármacos paraamaioriadospacientes •Considereum diuréticotipo tiazidamais inibidoresdaECA, BRA, �-bloqueadoresou BCCa ' • Alcançadooobjetivo • ' Monitorar - Sem alcançarapressãoarterialdesejada - - - • ' Otimizarasdosagense/ou acrescentarfármaco adicional atéalcançara pressãoarterial pretendida. ' , Comcondiçõesagravantes '• Fármacosparacondições agravantes (verFigura19.5) • Insuficiência cardíaca • Pós-infartodo miocárdio • Doençacoronáriadealtorisco • Diabetes • Doençarenalcrônica • PrevençãodeAVE recorrente ' Alcançadooobjetivo ' Monitorar Normas para o tratamento da hipertensão. TCHD = tentativa de controlar a hipertensão por meio de uma dieta. BCCa = bloqueador de canais de cálcio; BRA = bloqueador de receptor de angiotensina; ECA = enzima conversora de angioten­ sina; PAD = pressão arterial diastólica; PAS = pressão arterial sistólica; AVE = acidente vascular encefálico. V. DIURÉTICOS Os diuréticos podem ser usados como tratamento farmacológico de primeira escolha para hipertensão, a menos que alguma razão obrigue a escolha de outro fármaco. O tratamento com doses baixas de diuréticos é seguro, barato e eficaz na prevenção de derrame, infarto do miocárdio e insuficiência car­ díaca congestiva, todos os quais podem causar morte. Resultados recentes sugerem que os diuréticos são superiores aos bloqueadores para tratar a hipertensão em idosos. A. Diuréticos tiazídicos Todos os diuréticos orais são eficazes notratamento da hipertensão, mas os tiazídicos têm sido os mais amplamente usados.
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    232 Clark,Finkel,Rey& Whalen Diuréticos tiazídicos a Res.istência periférica a a Retençãode sódioeágua Volume sanguíneo Débito cardíaco Diminuiçãona pressãosanguínea Figura19.8 J Alguns efeitos adversos dos diuréticos tiazídicos. 1. Ações. Os diuréticos tiazídicos, como a hidroc/orotiazida e a clor­ talidona, diminuem a pressão arterial inicialmente por aumentar a excreção de sódio e água. Isso causa uma redução do volume ex­ tracelular, resultando em diminuição do débito cardíaco e do fluxo sanguíneo renal (Figura 19.8). Com tratamento prolongado, o volu­ me plasmático volta ao valor normal, mas a resistência periférica diminui. Os diuréticos poupadores de potássio são frequentemen­ te associados aos tiazídicos para reduzir a espoliação do potássio causada pelos tiazídicos. 2. Usos terapêuticos. Os diuréticos tiazídicos diminuem a pressão ar­ terial tanto na posição supina quanto de pé, e raramente é observada hipotensão postural, exceto em pacientes idosos com redução de vo­ lemia. Essesfármacos neutralizam a retenção de sódioe água obser­ vada com os outros fármacos usados no tratamento da hipertensão (p. ex., hidralazina). Os tiazídicos são, portanto, úteis no tratamento combinado com uma variedade de outros fármacos anti-hipertensi­ vos, incluindo �-bloqueadores, inibidores da ECA, bloqueadores de receptor de angiotensina (BRA) e diuréticos poupadores de potássio. Os diuréticos tiazídicos são particularmente úteis no tratamento de pacientes negros ou idosos. Com exceção da metazoli na, os diuréti­ cos tiazídicos não são eficazes em pacientes com função renal ina­ dequada (depuração de creatinina menor que 50 mUmin). Nesses pacientes, podem ser necessários diuréticos de alça. 3. Farmacocinética. Os diuréticos tiazídicos são ativos por via oral. Asvelocidades deabsorção e eliminaçãovariam consideravelmente, embora nenhuma vantagem nítida exista entre eles.Todos os tiazídi­ cos são substrato para o sistema secretor de ácido orgânico do ne­ fron e, como tal, podem competircom o ácido úrico pela eliminação. 4. Efeitos adversos. Os diuréticos tiazídicos induzem hipopotassemia e hiperuricemia em 70° / o dos pacientes e hiperglicemia em 10° / o. Po­ dem causar ataque agudo de gota. Hipomagnesemia pode ocorrer também. Os níveis séricos de potássio devem ser cuidadosamen­ te monitorados em pacientes predispostos a arritmias cardíacas (particularmente indivíduos com hipertrofia ventricular esquerda, doença cardíaca isquêmica ou insuficiência cardíaca crônica) e nos pacientes que estão sendo tratados concomitantemente com diuré­ ticos tiazídicos e digoxina. A incidênciade efeitos adversos se reduz quando empregada dosagem baixa de diurético (6,25 a 25 mg/dia de hidroclortiazida). B. Diuréticos de alça Os diuréticos de alça (furosemida, bumetanida e torsemida) atuam rapi­ damente, mesmo em pacientes com função renal pobre ou naqueles que não responderam aos tiazídicos ou a outros diuréticos. Os diuréticos de alça causam diminuição da resistênciavascular renal e aumento do fluxo sanguíneo renal. (Nota: os diuréticos de alça aumentam o conteúdo de Ca 2 + na urina, os diuréticos tiazídicos o diminuem.) C. Diuréticos poupadores de potássio Amilorida e triantereno (inibidores do transporte de sódio epitelial nos duetos distais e coletores), bem como espironolactona e eplerenona (an­ tagonistas de receptor da aldosterona) reduzem a perda de potássio na urina. A espironolactona tem a vantagem adicional de diminuira remode­ lação cardíaca que ocorre na insuficiência cardíaca. (A discussão com­ pleta dos diuréticos se encontra no Capítulo 22.)
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    VI. AGENTES BLOQUEADORESDE P-ADRENORRECEPTORES Atualmente os J3-bloqueadores são recomendados como tratamento de primeira escolha contra a hipertensão quando está presente umadoença concomitante (ver Fig. 19.5), por exemplo, em pacientes com infarto do miocárdio ou com infarto prévio. Esses fármacos são eficazes, mas apre­ sentam algumas contraindicações. A. Ações Os J3-bloqueadores reduzem a pressão arterial primariamente pela dimi­ nuição do débito cardíaco (Figura 1 9.9). Eles também podem diminuir o efluxo simpático do SNC e inibira liberação de reninados rins, reduzindo, assim, a formação de angiotensina li e a secreção de aldosterona. O pro­ tótipo dos J3-bloqueadores é o propranolo/, que atua em receptores-J31 e J32• Bloqueadores seletivos de receptores J31, como metoprolole atenolol, estão entre os J3-bloqueadores mais comumente prescritos. O nebivololé um bloqueador seletivo de receptores J31 que aumenta também a produ­ ção de óxido nítrico, levando à vasodilatação. Os J3-bloqueadores seleti­ vos devem ser administrados cautelosamente em pacientes hipertensos que também têm asma. Os J3-bloqueadores não seletivos, como propra­ nolol e nado/o/, são contraindicados devido ao bloqueio da broncodilata­ ção mediada por J32• (Ver p. 222 para a discussão sobre J3-bloqueadores.) Os J3-bloqueadores devem ser usados com cautela no tratamento de pa­ cientes com insuficiência cardíaca aguda ou doença vascular periférica. B. Usos terapêuticos 1. Subgrupos de população hipertensa. Os J3-bloqueadores são mais eficazes no tratamento de pacientes brancos do que de negros, sen­ do também mais eficazes em pacientes jovens do que em idosos. (Nota: condições que desaconselham o uso de J3-bloqueadores [p. ex., doença pulmonar obstrutiva crônica grave, insuficiência cardíaca con­ gestiva crônicaedoençavascularperiféricaoclusivasintomáticagrave] são mais comumente encontradas em pacientes idosos e diabéticos.) 2. Pacientes hipertensos com doenças concomitantes. Os J3-blo­ queadores são úteis no tratamento de condições que podem coexis- Bloqueadoresde p-adrenorreceptores Figura 19.9 Ativaçãode adrenorreceptores 131 nocoração Débitocardíaco Resistência periférica t a Renina l Angiotensinali [J D Aldosterona __, J/ Retençãode sódioeágua -----+[) Volume sanguíneo Efeitos dos fármacos bloqueadores dos J3-adrenorreceptores. Farmacologia Ilustrada 233
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    234 Clark, Finkel,Rey & Whalen v=� v---.. v- - Figura 19.1O Hipotensão Bradicardia Fadiga Insônia Disfunção sexual Alguns efeitos adversos dos fármacos �-bloqueadores. tir com hipertensão, como taquiarritmia supraventricular, infarto do miocárdio prévio, angina pectoris e insuficiência cardíaca crônica. Os �-bloqueadores são usados também para prevenir a enxaqueca e a cefaleia em salvas. C. Farmacocinética Os �-bloqueadores são ativos porvia oral. O propranololsofre biotransfor­ mação de primeira passagem extensa e altamente variável. Os bloqueado­ res podem demorarvárias semanas até desenvolverem seu efeito pleno. D. Efeitos adversos 1. Efeitos comuns. Os �-bloqueadores podem causar bradicardia e efeitos colaterais no SNC, como fadiga, letargia, insônia e alucina­ ções. Esses fármacos também podem causar hipotensão (Figura 19.1O). Os �-bloqueadores podem diminuir a libido e causar impo­ tência. (Nota: a disfunção sexual provocada pode reduzir acentua­ damente a adesão do paciente ao tratamento.) 2. Alterações nos padrões lipídicos séricos. Os �-bloqueadores po­ dem desregular o metabolismo lipídico, diminuindo a lipoproteína de alta densidade colesterol e aumentando os triglicérides plasmáticos. 3. Retirada do fármaco. A retirada abrupta dos �-bloqueadores pode causar angina, infarto do miocárdio e mesmo a morte súbita de pa­ cientes com doença cardíaca isquêmica. Por isso, a dosagem desses fármacos deve ser reduzida gradualmente ao longo de duas atrês se­ manas em pacientes com hipertensão e doença cardíaca isquêmica. VII. INIBIDORES DA ECA Os inibidores da ECA, como enalaprilou lisinopril, são recomendados quando os fármacos de primeira escolha (diuréticos e �-bloqueadores) estão con­ traindicados ou são ineficazes, ou se existem razões que os indicam como no diabetes melito. A. Ações Os inibidores da ECA diminuem a pressão arterial reduzindo a resistên­ cia vascular periférica sem aumentar reflexamente o débito, a frequência ou a contratilidade cardíaca. Esses fármacos bloqueiam a ECA que hidro­ lisa a angiotensina 1 para formar o potente vasoconstritor angiotensina li (Figura 19.11). A enzima conversora também é responsável pela degra­ dação da bradicinina que aumenta a produção de óxido nítrico e pros­ taciclinas nos vasos sanguíneos. Ambos, óxido nítrico e prostaciclinas, são potentes vasodilatadores. Os inibidores da ECA diminuem os níveis de angiotensina li e aumentam os de bradicinina. Ocorre vasodilatação de arteríolas e veias como resultado da combinação de efeitos de vaso­ constrição diminuída causada pela redução dos níveis de angiotensina li e potente vasodilatação devido ao aumento da bradicinina. Reduzindo os níveis de angiotensina li circulante, os inibidores da ECA também di­ minuem a secreção de aldosterona, resultando em menor retenção de sódio e água. Os inibidores da ECA diminuem a pré-carga e a pós-carga cardíaca, reduzindo, assim, o trabalho cardíaco. B. Usos terapêuticos Como os �-bloqueadores, os inibidores da ECA são mais eficazes em pacientes hipertensos brancos e jovens.Todavia, quando associados com
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    Angiotensinogênio (globulina a2 nosangue) [J Estimulação do l sistema nervoso simpático Renina (�s rins) D ECA Vasodilatação J do músculo liso vascular Angiotensina 1 - .... 1 -- • Angiotensina li (inativa) O diminuída ..........__ Produção de .., [J �;�gJi � o Figura 19.11 ......_ aldosterona ---t p • "' e água reduzida - --= - - - -' - Inibição da degradação t Níveis de InibidoresdaECA - - -- :..... - .....;:; __ ....;... _ __. . . _ _ b _ ra _ d _ ic _ in _ in _ a _ _, de bradicinina Efeitos dos inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA). um diurético, sua eficáciaé semelhante em pacientes hipertensos brancos e negros. Junto com os BRA, os inibidores da ECA retardam a progressão da nefropatia diabética, diminuem a albuminúria e são, assim, indicação obrigatória para pacientes com nefropatia diabética. Os efeitos benéficos na função renal podem resultar da diminuição da pressão intraglomerular devido àvasodilatação daarteríola eferente. Os inibidores da ECAsão pa­ drão no cuidado de pacientes após o infarto do miocárdio e são fármacos de primeira escolha no tratamento de pacientes com disfunções sistólicas. O tratamento é iniciado 24 horas após o fim do infarto. O tratamento crôni­ co com inibidores da ECA obtém redução sustentada da pressão arterial, regressão da hiperttrofia ventricular esquerda e prevenção do remodela­ mento ventricular, após infarto do miocárdio. Os inibidores da ECA são os fármacos de primeira escolha no tratamento da insuficiência cardíaca, paratratarpacientes hipertensos com doença renal crônica e para pacien­ tes com risco elevado de doença arterial coronariana. C. Efeitos adversos Os efeitos adversos comuns incluem tosse seca, exantema, febre, altera­ ção do paladar, hipotensão (em estados hipovolêmicos) e hiperpotassemia (Figura 19.12). A tosse seca, que ocorre em aproximadamente 10°/o dos pacientes, parece ser devida ao aumento dos níveis de bradicinina na ár­ vore pulmonar e ocorre mais frequentemente em mulheres e não fumantes e com inibidores da ECA de longa duração. A tosse desaparece poucos dias apósa descontinuação dotratamento.Os níveis de potássio devem ser monitorados. São contraindicados a suplementação de potássio (ou dietas ricas em potássio) e o uso de diuréticos poupadores de potássio. O níveis de creatinina no soro devem ser monitorados, particularmente em pacientes com doença renal subjacente. O angioedema é raro, mas é potencialmente fatal e também pode ser atribuído ao aumento dos níveis de bradicinina. Pode ocorrer insuficiência renal reversível em pacientes com estenose bi­ lateral na artéria renal tratados com inibidor da ECA. Os inibidores da ECA podem induzir malformações fetais e não devem ser usados em gestantes. VIII. BLOQUEADORES DE RECEPTORES DE ANGIOTENSINA li Os BRA são alternativos aos inibidores da ECA. Esses fármacos bloqueiam os receptores AT1 diminuindo a ativação desses receptores pela angiotensina li. A losartana é o protótipo dos BRAs e, correntemente, há seis outros BRAs. Seus efeitos farmacológicos são similares aos dos inibidores da ECA por pro­ duzirem dilatação arteriolare venosa e bloqueio da secreção de aldosterona, Farmacologia Ilustrada 235 Tosseseca Hiperpotassemia Erupção cutânea Hipotensão Febre Figura 19.12 Diminuição da pressão arterial a Alguns efeitos adversos comuns dos inibidores da enzima conversora de an­ giotensina.
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    236 Clark, Finkel,Rey & Whalen Ir.ti Dilataçã _ o de vasos W coronar1anos Nifedipino 1 Verapamil 1 Diltiazem 1 1 1 Ação Ação fraca forte m Condução AV Poucoefeito Nifedipino ]� Verapamil 1 '----- ;:::::! Diltiazem 1 .____. Diminuída Aumentada f'!!I Frequência de .:.1 efeitos adversos Nifedipino 1 1 18°/o :=: = = = ==:- - � Verapamil ._ l_ _ _ __, I 9°/o Diltiazem D 2°/o Infrequente Figura 19.13 Frequente Ações dos bloqueadores de canais de cálcio. AV = atrioventricular. reduzindo, assim, a pressão arterial e diminuindo a retenção de sal e água. Os BRAs não aumentam os níveis de bradicinina. Eles diminuem a nefro­ toxicidade do diabetes, sendo, assim, um tratamento atraente a diabéticos hipertensos. Seus efeitos adversos são semelhantes aos dos inibidores da ECA, embora o risco de tosse e angioedema seja significativamente menor. Os BRAs também são fetotóxicos e não devem ser usados por mulheres ges­ tantes. (Nota: os BRAs são discutidos no Capítulo 16.) IX. INIBIDORES DE RENINA O inibidor seletivo de renina, ali squireno, está disponível para o tratamento da hipertensão. O a/isquireno inibe diretamente a renina e, assim, atua mais pre­ cocemente no sistema renina-angiotensina-aldosterona do que os inibidores de ECA ou BRAs. Ele reduz a pressão arterial com eficácia similar aos BRAs, inibidores da ECA e tiazidas. O alisquireno pode ser associado com outros anti-hipertensivos, como diuréticos, inibidores da ECA, BRAs ou bloqueado­ res de canais de cálcio. O alisquireno pode causar diarreia, em especial em dosagens elevadas. Ele também pode causar tosse e angioedema, mas pro­ vavelmente com menos frequência do que os inibidores da ECA. Como os ini­ bidores da ECA e os BRA, o a/iquireno é contraindicado durante a gestação. O alisquireno está disponível em associação de doses fixas com valsartana, bem como com hidroclortiazida. A hiperpotassemiafoi significativamente mais comum em pacientes que receberam alisquireno e valsartana. O aliquireno é biotransformado pela CIP3A4 e é sujeito a interações de fármacos. X. BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO Os bloqueadores de canais de cálcio são recomendados quando os fárma­ cos de primeira escolha estão contraindicados ou são ineficazes. Eles são eficazes no tratamento da hipertensão em pacientes com angina ou diabetes. Doses elevadas de bloqueadores de canais de cálcio de curtaduração devem ser evitadas devido ao maior risco de infarto do miocárdio por vasodilatação excessiva e acentuada estimulação cardíaca reflexa. A. Classes de bloqueadores de canais de cálcio Os bloqueadores de canais de cálcio são divididos em três classes quími­ cas, cada uma com propriedades farmacocinéticas e indicações clínicas diferentes (Figura 19.13). 1. Difenilalquilaminas. O verapamil é o único representante dessa classe aprovado nos Estados Unidos atualmente. O verapamil é o menos seletivo dos bloqueadores de canais de cálcio e apresenta efeitos significativos nas células cardíacas e do músculo liso vascu­ lar. Ele é usado também notratamento da angina, das taquiarritmias supraventriculares e para prevenir a enxaqueca e a cefaleia em sal­ vas. Bloqueio atrioventricular de primeiro grau e constipação são efeitos adversos dose-dependentes do verapamil. 2. Benzotiazepina. O diltiazem é o único membro dessa classe que está aprovado nos Estados Unidos atualmente. Como o verapamil, o dilti azem afeta tanto as células cardíacas quanto do músculo liso vascular, mas apresenta efeito inotrópico cardíaco negativo menos pronunciado comparado ao efeito do verapamil. O diltiazem apre­ senta um perfil de efeitos adversos favorável. 3. Di-hidropiridinas. Essaclasse de bloqueadores de canais de cálcio em rápida expansão inclui o nifedipino de primeira geração e cinco
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    Farmacologia Ilustrada 237 fármacosde segunda geração para o tratamento de doença cardio­ vascular: anlodipino, felodi pino, isradipino, nicardi pino e nisoldipi­ no. Esses bloqueadores de canais de cálcio de segunda geração diferem na farmacocinética, nos usos aprovados e nas interações farmacológicas.Todas as di-hidropiridinas apresentam muito maior afinidade pelos canais de cálcio vasculares do que pelos canais de cálcio do coração. Elas são, por isso, particularmente atrativas no tratamento da hipertensão. As di-hidropiridinas têm a vantagem de interagir pouco com outros fármacos cardiovasculares, como a di­ goxina ou a varfarina, que são frequentemente usados em conjunto com bloqueadores de canais de cálcio. B. Ações A concentração intracelular de cálcio tem um papel importante na ma­ nutenção do tônus da musculatura lisa e na contração do miocárdio. O cálcio entra nas células musculares através de canais de cálcio voltagem­ -sensíveis. Isso dispara a liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático e da mitocôndria, que aumenta adicionalmente o nível de cálcio citosó­ lico. Os antagonistas de canais de cálcio bloqueiam a entrada de cálcio por se ligarem aos canais de cálcio do tipo L no coração e nos músculos lisos dos vasos arteriolares coronarianos e periféricos. Isso causa o rela­ xamento do músculo liso vascular, dilatando principalmente as arteríolas. Os bloqueadores de canais de cálcio não dilatam veias. C. Usos terapêuticos Os bloqueadores de canais de cálcio apresentam um efeito natriurético intrínseco e, dessa forma, normalmente não requerem a adição de um diurético. Esses fármacos são úteis no tratamento de pacientes hiper­ tensos que tem também asma, diabetes, angina e/ou doença vascular periférica (Figura 19.14). Pessoas negras hipertensas respondem bem aos bloqueadores de canais de cálcio. - INDICAÇOES - TERAPEUTICAS BLOQUEADORESDECANAISDECÁLCIOAPROVADOS HIPERTENSÃO Verapamll Dlltiazem ANGINA Verapamll Dlltiazem TAQUIARRITMIA SUPRAVENTRICULAR Verapamll Dlltiazem SEGURONAIC LEVEAMODERADA SEGUROCOM 13-BLOQUEADORES [ Díltíazem J LEGENDA: Fármaco [ Fármaco l Indicaçãoaprovada Usocomcautela Figura 19.14 Nlfedlplno Felodlplno Nlfedlplno Felodípíno Nifedlpino Felodlplno Isradlplno Anlodlplno Anlodiplno lsradí píno Anlodí píno lsradiplno Anlodlplno Algumas aplicações terapêuticas dos bloqueadores de canais de cálcio. IC = insuficiência cardíaca. Nlcardiplno Nlcardiplno Nlcardiplno
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    238 Clark, Finkel,Rey & Whalen ,, _ ___.. Rubor ,, Constipação Vertigem Cefaleia Fadiga Hipotensão Figura 19.15 Alguns efeitos adversos comuns dos bloqueadores de canais de cálcio. D. Farmacocinética A maioria desses fármacos apresenta meia-vida curta (3 a 8 horas) após a administração via oral. Preparações de liberação sustentada estão dis­ poníveis e permitem dosificação única por dia. O anlodipino tem meia­ -vida muito longa e não requerformulação de liberação estendida. E. Efeitos adversos Constipação ocorre em cerca de 10° / o dos pacientes tratados com vera­ pamil. Tontura, cefaleia e sensação de fadiga causada pela redução da pressão arterial ocorrem com di-hidropiridinas mais frequentemente (Fi­ gura 19.15). O verapamil deve ser evitado em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva ou com bloqueio atrioventricular devido aos efeitos inotrópicos (força de contração do músculo cardíaco) e dromotrópicos (ve­ locidade de condução) negativos. A nifedipina causa crescimento gengival. XI. AGENTES BLOQUEADORES DE ADRENORRECEPTORES a Prazosina, doxazosina e terazosina produzem bloqueio competitivo de adrenorreceptores-ex1• Eles diminuem a resistência vascular periférica e re­ duzem a pressão arterial por relaxarem os músculos lisos de artérias e veias. Esses fármacos causam mudanças mínimas no débito cardíaco, fluxo san­ guíneo renal e velocidade de filtração glomerular. Por isso, não ocorre taqui­ cardia no tratamento prolongado, mas retenção de sal e água. Pode ocorrer hipotensão postural em alguns indivíduos. Os ex-bloqueadores podem ser usados para tratar hipertensão leve a moderada e são prescritos associados ao propranolol e/ou a um diurético para efeitos aditivos. Taquicardia reflexa e síncope na primeira dose são efeitos adversos praticamente universais. O uso concomitante de um �-bloqueador pode ser necessário para abrandar a taquicardia reflexa de curto prazo. Devido ao perfil de efeitos adversos, ao de­ senvolvimento de tolerância e ao advento de anti-hipertensivos mais seguros, os ex-bloqueadores são usados raramente no tratamento da hipertensão. A tansu/osina tem sido usada no tratamento da hiperplasia benigna de próstata por ser um bloqueador-ex1 com maior seletividade pelo músculo prostático. XII. FÁRMACOS BLOQUEADORES DE ADRENORRECEPTORES a E p O labetalol e o carvedilol bloqueiam os receptores ex1, �1 e �2• O carvedilol, embora eficaz como anti-hipertensivo é usado principalmente no tratamento da insuficiênciacardíaca.O carvedilo/, bem como o metoprolol, um antagonis­ ta �1 seletivo, revelaram ser capazes de reduzir a morbidade e a mortalidade associada à insuficiência cardíaca. XIII. ADRENÉRGICOS DE AÇÃO CENTRAL A. Clonidina Esse agonista ex2 diminui o efluxo adrenérgico central, reduzindo a taxa de disparos dos nervos simpáticos e a quantidade de norepinefrina libe­ rada. A clonidina é usada primariamente no tratamento da hipertensão leve a moderada que não responde adequadamente ao tratamento com dois ou mais fármacos. A clonidi na não reduz o fluxo sanguíneo renal ou a filtração glomerular e, portanto, é útil no tratamento da hipertensão complicada por doença renal. A clonidina é bem absorvida após admi-
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    nistração via orale é excretada pelos rins. Como pode causar retenção de sódio e água, a clonidina pode ser administrada associada com um diurético. Os efeitos adversos geralmente são leves, mas pode produzir sedação, xerostomia e constipação. Ocorre hipertensão de rebote após interrupção súbita da clonidi na. Ela deve ser retirada lentamente se o clínico deseja mudar o fármaco. B. a-Metildopa Esse agonista-a2 é convertido em metilnorepinefrina no SNC, causando diminuição do efluxo adrenérgico. Isso leva à redução da resistência peri­ féricatotal e à diminuição da pressão arterial. O débito cardíaco e o fluxo sanguíneo para os órgãos vitais não diminuem. Como o fluxo sanguíneo aos rins não diminui, a a-meti/dopa apresentaespecial valor no tratamen­ to de pacientes hipertensos com insuficiência renal. Os efeitos adversos mais comuns do a-meti/dopa são sedação e sonolência. A a-metildopa tem sido usada em hipertensas grávidas. XIV. VASODILATADORES Os relaxantes de músculos lisos de ação direta, como a hidralazina e o mi­ noxidi/, tradicionalmente não são usados como fármacos primários no tra­ tamento da hipertensão. Estes vasodilatadores produzem relaxamento do músculo liso vascular, o que diminui a resistência e, dessa forma, a pressão arterial. Parte significativa da ação hipotensora destes fármacos é devido à ativação de canais de potássio, aumentando o efluxo de potássio e induzindo hiperpolarização da membranados músculos lisos. Quando a membranaestá hiperpolarizada, o influxo de cálcio é inibido e o músculo liso arteriolar rela­ xa. Esses fármacos produzem estimulação reflexa do coração, resultando em aumentos reflexos da contratilidade miocárdica, da frequência cardíaca e do consumo de oxigênio. Essas ações podem causar angina pectori s, infarto do miocárdio ou insuficiência cardíaca em indivíduos predispostos. Os vasodila­ tadores também aumentam a concentração plasmática de renina, causando retenção de sódio e água. Esses efeitos colaterais indesejados podem ser bloqueados pelo uso concomitante de um diurético e um J3-bloqueador. A. Hidralazina Esse fármaco causa vasodilatação direta, agindo primariamente nas ar­ térias e arteríolas. Isso resulta na diminuição da resistência periférica, que, por sua vez, inicia a elevação reflexa da frequência cardíaca e do débito cardíaco. A hidralazina é usada no tratamento de hipertensão mo­ deradamente grave. Ela é administrada quase sempre em associação a um J3-bloqueador, como o propranolol, metoprololou atenolol (para com­ pensar a taquicardia reflexa), e um diurético (para reduzir a retenção de sódio). Juntos, os três fármacos diminuem o débito cardíaco, o volume plasmático e a resistência vascular periférica. A monoterapia com hidrala­ zi na é um método aceito no controle da hipertensão induzida pela gesta­ ção. Os efeitos adversos do tratamento com hidralazi na incluem cefaleia, taquicardia, náusea, sudoração, arritmia e precipitação de angina. Uma síndrome semelhante ao lúpus pode ocorrer com doses elevadas, mas é reversível com a interrupção do uso do fármaco. B. Minoxidil Esse fármaco causa dilatação dos vasos de resistência (arteríolas), mas não nos vasos de capacitância (vênulas). O minoxidil é administrado por via oral para o tratamento de hipertensão grave à maligna, refratá­ ria a outros fármacos. A taquicardia reflexa e a retenção de líquidos po- Farmacologia Ilustrada 239
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    240 Clark, Finkel,Rey & Whalen Legenda: Nitroprussiato � Labeta/oi Feno/dopam Nicardipino Figura 19.16 Início de ação Duração de ação Imediato 1 a 2 minutos 5 a 1O minutos 2 a 5 minutos 5a 1O minutos Tempo até alcançar o pico de efeito e a duração de ação de alguns fármacos usados na emergência hipertensiva. dem ser graves e exigir o uso simultâneo de um diurético de alça e um �-bloqueador. O minoxidil causa séria retenção de sódio e água, acarre­ tando sobrecarga de volume, edema e insuficiência cardíaca congestiva. (Nota: otratamento com minoxidiltambém causa hipertricose [crescimen­ to dos pelos do corpo]. Atualmente, esse fármaco é usado topicamente no tratamento da calvície masculina.) XV. EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA A emergência hipertensiva é uma situação rara, mas ameaçadora à sobrevi­ vência, na qual a pressão arterial diastólica é maior do que 150 mmHg (com pressão arterial sistólica acima de 21O mmHg) em uma pessoa de outra for­ ma saudável ou uma pressão arterial diastólica maior que 130 mmHg em um indivíduo com complicações preexistentes, como encefalopatia, hemorragia cerebral, insuficiência ventricular esquerda ou estenose aórtica. O objetivo terapêutico é a rápida redução da pressão arterial. A. Nitroprussiato de sódio O nitroprussiato é administrado por via IV e causa vasodilatação rápida com taquicardia reflexa. Ele é capaz de reduzir a pressão arterial em to­ dos os pacientes independente da causade hipertensão (Figura 19.16). O fármaco apresenta poucos efeitosforadosistemavascular, atuando igual­ mente nos músculos lisos arteriais e venosos. (Nota: como o nitroprus­ siato também atua nas veias pode reduzir a pré-carga cardíaca.) O nitro­ prussiatoé rapidamente biotransformado (meia-vida de minutos) e requer infusão contínua para manter sua ação anti-hipertensiva. O nitroprussiato de sódio causa poucos efeitos adversos, exceto a hipotensão causada por dosagem excessiva. A biotransformação do nitroprussiato resulta na produção de íon cianeto. Embora a toxicidade por cianeto seja rara, ela pode sertratadacom a infusão de tiossulfato de sódio para produzirtiocia­ nato, que é menos tóxico e é eliminado pelos rins. (Nota: o nitroprussiato é tóxico se administrado por via oral devido à sua hidrólise a cianeto.) O nitroprussiato é sensível à luz e, em solução, deve ser protegido da luz. B. Labetalol Labetalol é um bloqueador a e � e é administrado em bolus ou infusão porvia IV nas emergências hipertensivas. O labetalolnão causa taquicar­ dia reflexa. Ele apresenta a contraindicação de ser um bloqueador não seletivo. A principal limitação é a longa meia-vida, o que impede a titula­ ção rápida (ver Figura 19.16). C. Fenoldopam Feno/dopam é um agonista periférico de receptor de dopamina1 admi­ nistrado por infusão IV. Diferentemente dos outros anti-hipertensivos pa­ renterais, o feno/dopam mantém ou aumenta a perfusão renal, enquanto diminui a pressão arterial. O fenoldopan relaxa principalmente os vasos renais (artéria renal, arteríolas aferente e eferente) e mesentéricos arte­ riais, com ação vasodilatadora menor nas artérias coronárias e cerebrais e nas veias (vasos de capacitância). A ação diurética do feno/dopam é causada principalmente pelo aumento do fluxo de sangue renal. O feno/­ dopam pode ser usado com segurança em todas as emergências hiper­ tensivas e pode ser particularmente benéfico em pacientes com insufi­ ciência renal. O fármaco é contraindicado em pacientes com glaucoma.
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    D. Nicardipino Nicardi pino éum bloqueador de canais de cálcio que pode ser adminis­ trado por infusão IV.A dosagem inicial é 5 mg/h, que pode seraumentada até o máximo de 15 mg/h. A principal limitação do nicardipino no trata­ mento da emergência hipertensiva é sua longa meia-vida (cerca de 8 h), que impede a titulação rápida. - XVI. HIPERTENSAO RESISTENTE A hipertensão resistente é a pressão arterial elevada que não responde ao tratamento. É definida como a pressão arterial que permanece elevada (acima do objetivo), apesar da administração de um regime ideal de três fármacos que inclui um diurético. As causas mais comuns de hipertensão re­ sistente são: baixa aderência ao tratamento; consumo excessivo de etanol; condições concomitantes (diabetes, obesidade, apneia do sono, ingestão excessiva de sal e/ou síndrome metabólica); uso de simpaticomiméticos, fármacos anti-inflamatórios não esteroides ou medicação antidepressiva; fármacos e/ou dosagens insuficientes e uso de fármacos com mecanismos de ação similares. - XVII. POPULAÇOES ESPECIAIS A. Raça e idade Há algumas diferenças previsíveis na resposta aos fármacos anti-hiper­ tensivos entre grupos de pacientes, o que pode ser resumido pelas se­ guintes normas (AB/CD): Pacientes jovens (e brancos) inicie com inibidor de ECA (A) ou 13-bloqueador (B). • Pacientes idosos (e negros) inicie com bloqueador de canais de cálcio (C) ou diurético (D). B. Gestação A hipertensão leve associada com a pré-eclâmpsia não requertratamen­ to, geralmente. Hipertensão grave (pressão sistólica > 150 mmHg) e pressão diastólica > 100 mmgHg) é tratada com labetalol de modo agu­ do para prevenir complicações cerebrovasculares maternas. Evite inibi­ dores da ECA e aliquerino, porque esses fármacos podem causar lesões ou morte fetais. O nitroprussieto é contraindicado nos estágios finais da gestação devido à possível intoxicação fetal com cianeto se usado por mais de 4 horas. XVIII. TRATAMENTO COMBINADO O tratamento combinado da hipertensão com fármacos separados ou as­ sociados em dose fixa pode reduzir a pressão arterial mais rapidamente e com efeitos adversos mínimos. Deve-se considerar iniciar o tratamento com dois anti-hipertensivos naqueles pacientes cuja pressão arterial esteja 20/1O mmHg acima do objetivo. A associação de baixas doses de um diurético tia­ zídico com um 13-bloqueador, um inibidor da ECA ou um BRA tem efeitos sinérgicos e controla a pressão arterial em até 85° / o dos pacientes. Algumas preparações disponíveis são apresentadas na Figura 19.17. Farmacologia Ilustrada 241 ASSOCIAÇÃOBLOQUEADORp- DIURÉTICO Atenolol + c/ortalldona Bisopro/oi + hldroclortlazlda Metoprolol + hldroclortlazlda Nado/oi + bendroflumetlazlda Propranolol + hldroclortlazlda ASSOCIAÇÃOIECA-DIURÉTICO Benazeprll + hldroclortlazlda Captoprll + hldroclortlazlda Enalaprll + hldroclortlazlda Fosinoprll + hldroclortlazlda Moexiprll + hldroclortlazlda Lisinoprll + hldroclortlazlda Quinaprll + hldroclortlazlda ASSOCIAÇÃOBRA-DIURÉTICO Candesartana + hldroclortlazlda Eprosartana + hldroclortlazlda lrbesartana + hldroclortlazlda Losartana + hldroclortlazlda Olmesartana + hldroclortlazlda Telmisartana + hldroclortlazlda Valsartana + hldroclortlazlda Figura 19.17 Resumo das associações de fármacos anti-hipertensivos. IECA = inibidores da enzima conversora de angiotensina; BRA = bloqueador de receptor de an­ giotensina.
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    242 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 19.1 Um homem de 45 anos foi diagnosticado como hiperten­ so e iniciou monoterapia destinada a reduzir a resistência periférica e prevenir a retenção de NaCI e água. Ele de­ senvolveu tosse persistente. Qual dos seguintes fármacos poderiater os mesmos benefícios, mas sem causartosse? A. Losartana B. Nifedipino C. Prazosina D. Propranolol E. Enalapril 19.2 Qual dos seguintes fármacos pode causar uma queda sú­ bita na pressão arterial e desfalecimento na administração inicial? A. Atenolol B. Hidroclorotiazida C. Metoprolol D. Prazosina E. Verapamil 19.3 Qual dos seguintes fármacos anti-hipertensivos pode pro­ vocar uma crise hipertensiva após a retirada abrupta do tratamento? A. Clonidina B. Diltiazem C. Enalapril D. Losartana E. Hidroclorotiazida 19.4 Um paciente hipertenso de 48 anos vem sendo tratado com sucesso com um diurético tiazídico durante os últimos cinco anos. Nos últimos três meses, sua pressão diastóli­ ca aumentou continuamente, e ele iniciou uma medicação adicional contra a hipertensão. Ele se queixa de várias ve­ zes não ter conseguido obter ereção e faz algum tempo que não consegue completar três sets de uma partida de tênis. Qual dos seguintes fármacos é mais provavelmente a segunda medicação anti-hipertensiva deste paciente? A. Captopril B. Losartana C. Minoxidil D. Metoprolol E. Nifedipino Resposta correta = A. A tosse é o efeito adverso de um inibidor da ECA. Losartana é um bloqueador de receptor de angiotensina que apresenta as mesmas vantagens do inibidor da ECA, mas não pro­ vocará tosse. Nifedipino, prazosina e propranolol não causam este efeito adverso. O enalapril também causatosse. Resposta correta = D.A prazosinaproduz hipotensãona primeira ad­ ministração, presumivelmente pelo bloqueio de receptores a1• Esse efeito é minimizado iniciando a administração do fármaco em doses pequenas e divididas.Os outrosfármacos não apresentam esse efei­ to adverso. Resposta correta = A. Ocorre aumento da atividade do sistema ner­ voso simpático se o tratamento com clonidina é interrompido abrup­ tamente após administração prolongada. Pode ocorrer aumento des­ controlado da pressãoarterial.A dosagem daclonidina deve diminuir gradualmente enquanto outro fármaco anti-hipertensivo é iniciado. Os outros fármacos da lista não produzem esse fenômeno. Resposta correta = D. O perfil de efeitos adversos dos �-bloquea­ dores como o metoprolol é caracterizado pela interferência no de­ sempenho sexual e pela redução da tolerância aoexercício. Nenhum dos outros fármacos é capazde produziressa combinação de efeitos adversos.
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    , ar acos o 1. RESUMO Estecapítulo descreve os fármacos que são úteis no tratamento de importan­ tes disfunções do sangue: trombose, sangramento, problemas de circulação e anemia. Trombose - a formação de um coágulo indesejado dentro dos va­ sos sanguíneos - é a anormalidade mais comum da hemostasia. Os distúrbios trombóticos incluem infarto agudo do miocárdio, trombose de veias profundas, embolia pulmonar e derrame cerebral isquêmico agudo. Estes são tratados com fármacos anticoagulantes e os fibrinolíticos. Os distúrbios de sangramento envolvendo falhas da hemostasia são menos comuns que as doenças trombo­ embólicas. Esses distúrbios incluem hemofilia, que é tratada com transfusão de Fator VIII preparado por técnicas de DNA recombinante, e deficiência de vitamina K, que étratada com suplemento dessa vitamina na dieta.As anemias causadas por deficiências nutricionais, como a comumente encontrada ane­ mia por deficiência de ferro, podem ser tratadas com suplementação na dieta ou farmacêutica. Contudo, indivíduos com anemias de base genética, como a anemia falciforme, podem se beneficiar de tratamento adicional. A Figura 20.1 resume os fármacos usados no tratamento de disfunções no sangue. li. TROMBO VERSUS ÊMBOLO , E importante diferenciartrombo de êmbolo: um coágulo que adere a uma pa- rede vascular é denominado "trombo", e um coágulo intravascular que flutua no sangue é denominado "êmbolo".Assim, um trombo destacado setorna um êmbolo. Tanto o trombo quanto o êmbolo são perigosos, pois podem ocluir o vaso e privar os tecidos de oxigênio e nutrientes. A trombose arterial ocor­ re mais frequentemente em vasos de calibre médio tornados trombogênicos por lesões superficiais das células endoteliais causadas por aterosclerose. A trombose arterial, em geral, consiste em um coágulo rico em plaquetas. Em contraste, um trombo venoso é iniciado pela estase do sangue ou ativação inapropriada da cascata da coagulação, comumente como resultado de um defeito nos mecanismos de defesa da hemostasia normal. Em geral, a trom­ bose venosaenvolve um coágulo que é rico em fibrina, com menos plaquetas do que as observadas no coágulo arterial. INIBIDORESPLAQUETÁRIOS Abci ximabe Acido acetilsalic11ico Cilostazol C/opidogrel Dipir idamol Eptifibatida Prasugrel Ticlopidina Tirofibana ANTICOAGULANTES Argatrobana Dabigatrana Dalteparina Enoxaparina Fondaparinux Heparina Lepirudina Tinzaparina Varfarina FÁRMACOSTROMBOLÍTICOS Altep/ase (tRA) Retep/ase Estreptoquinase Uroquinase TRATAMENTODASHEMORRAGIAS • Acido aminocaproico Aprotinina Sulfato deprotamina • Acido tranexâmico Vitamina K(fitonadiona) TRATAMENTODAANEMIA Cianocobalamina (vitamina 812) Eritropoietina • Acido fálico Ferro TRATAMENTODAANEMIAFALCIFORME Figura 20.1 Hidroxiurei a Pentoxifilina Resumo dos fármacos usados no trata­ mento das disfunções do sangue.
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    244 Clark, Finkel,Rey & Whalen OPlaquetas em repouso Célulasendoteliais Plaquetas .. intactasesadias em repouso ........._�. ::- r � ��� � ic' LJ • . .s be .. . j u .n- ..:; ....,, � ............, ....... � j dotého ······•·... ' • ••• : ····· Fibrasde : ··... .: ···.... colágeno : ··... : ····· . .. : ··... : ···.. : ····· ReceptoresdeGP llb/llla inativos Prostaciclina Óxido nítrico Célulasendoteliais • Oendotélio intacto e sadio libera prostaciclina no plasma. • A prostaciclinase liga aos recep­ toresde membrana das plaquetas, causando síntese deAMPc. • O AMPcestabiliza os receptores de GP llb/llla inativose inibe a liberação degrânulos contendo agentesde aglutinação plaquetária ou Ca2•. EJ Adesão plaquetária • Plaque t as em repouso �' • �' •• As plaquetasativadas cobrem e seaderem à superfíciesubendotelial exposta do endotélio lesado Fibras decolágeno Figura 20.2 Ili. RESPOSTA PLAQUETÁRIA À LESÃO VASCULAR O traumatismo físico ao sistema vascular, como uma punção ou um corte, inicia uma série complexa de interações entre plaquetas, células endoteliais e a cascata da coagulação. Estas interações levam à hemostasia ou à in­ terrupção na perda de sangue a partir de vasos sanguineos danificados. As plaquetas são centrais neste processo. Inicialmente ocorre um vasoespasmo no vaso danificado para prevenir perda de sangue adicional. A etapa seguinte envolve a formação de tampão de fibrina e plaquetas (coágulo) no local da punção. A criação de um trombo indesejado envolve várias das mesmas eta­ pas da coagulação, exceto que o estímulo disparador é uma condição patoló­ gica no sistema vascular, em vez de um traumatismo físico externo. A. Plaquetas em repouso As plaquetas atuam como sentinelas vasculares, monitorando a integri­ dade do endotélio. Na ausênciade lesão, as plaquetas em repouso circu­ lam livremente, pois a sinalização química indica que o sistema vascular não está lesado (Figura 20.2). 1. Mediadores químicos sintetizados pelas células endoteliais. Mediadores químicos, como prostaciclinas e óxido nítrico, são sin­ tetizados pelas células endoteliais intactas e atuam como inibidores da aglutinação das plaquetas. As prostaciclinas (prostaglandina 12) atuam ligando-se a receptores de membrana plaquetários que es­ tão acoplados à síntese de AMPe• um mensageiro intracelular 1 (ver Figura 20.2). Níveis elevados de AMPe intracelular estão associados a uma diminuição de cálcio intracelular. Isso evita a aglutinação das plaquetas e a subsequente liberação de fatores de agregação pla­ quetária. (Nota: o fármaco di piridamol inibe a fosfodiesterase, que inativa o AMPe e, assim, prolonga sua vida ativa.) As células endote­ liais danificadas sintetizam menos prostaciclinas, resultando em uma 1 Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre mensagens intracelulares. O Ativação plaquetária m Aglutinação plaquetária ,• .· . •••• :/.-,.. TromboxanoA2 .----=, ADP Serotonina PAF Mediadoresquímicos liberados pelas plaquetas • • �• • • c:c::c1 c::c:::o � I As plaquetas ativadas liberam mediadores químicos Plaquetas recrutadas para dentro do tampão plaquetário • • •• • • ••• Tromboxano Az ADP Serotonina PAF • • • . . . • • • ••• •• •• • .. • • � ·· ·...··..... .••..... ,• .· •• ••••• •••• .·· •••• •• ·····... •••••••••••• Formação do coágulo hemostático. GP = glicoproteína; ATP = trifosfato de adenosina; AMPe= monofosfato cíclico de adenosina; ADP = difosfato de adenosina; PAF = fator de ativação plaquetário. (Conti nua na próxima página.)
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    redução localizada nosníveis de prostaciclina. A ligação da prostaci­ clina aos receptores plaquetários diminui, resultando em níveis mais baixos de AMPe intracelular, o que leva à aglutinação plaquetária. 2. Papéis da trombina, do tromboxano e do colágeno. A membrana das plaquetas também tem receptores que podem ligar trombina, tromboxanos 2 e colágeno exposto 3 • Nos vasos normais intactos, os níveis de trombina e tromboxano são baixos, e o endotélio intacto cobre o colágeno nas camadas subendoteliais. Os correspondentes receptores das plaquetas estão, portanto, desocupados e permane­ cem inativos; como consequência, não se inicia ativação ou agrega­ ção plaquetária. Contudo, quando ocupados, cada um desses tipos de receptores inicia uma série de reações que levam à liberação na circulação de grânulos intracelulares pelas plaquetas. Por fim, isso estimula a aglutinação das plaquetas. B. Adesão plaquetária Quando o endotélio está lesado, as plaquetas aderem ao colágeno do subendotélio exposto e praticamente o cobrem (ver Figura 20.2). Isso inicia uma série complexa de reações químicas, resultando na ativação plaquetária. C. Ativação plaquetária . · . . .. ........ ..... Os receptores na superfície das plaquetas aderentes são ativados pelo colágeno do tecido conectivo subjacente. Isso causa alterações morfoló­ gicas nas plaquetas (Figura 20.3) e a liberação de grânulos de plaquetas contendo mediadores químicos, como ADP, tromboxano A2, serotonina, fator de aglutinação plaquetária e trombina (ver Figura 20.2). Essas mo­ léculas sinalizadoras se ligam aos receptores na membrana externa das . .. 2 Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre síntese de tromboxanos. 3 Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre colágeno. TromboxanoA2 Trombina ADP FlbrlnogAnlo Figura 20.2 (Continuação) Formação do coágulo hemostático. PAF = Fator de ativação plaquetário. Farmacologia Ilustrada 245 m Fibrinólise Ativadorde plasminogêniotecidual .!J. PI · ê · 0 PI · Peptídeos asm1nog n10 "' asm1na /defibrina � .!J. � ��� , _ � _ - � ------ � � r.11 Formação do tampão li:il de fibrina � Protrombina t Trombina �� ��� :c::os � � coagulação 0 o 0 Fibrinogênio "' Fibrina � no plasma O <·""'"' Heparina Coágulofibrina-plaqueta Receptoresde GP llb/lllaativos � s , � ��� Trombina,tromboxano A2,ADPe outros mediadores liberados das plaquetasativadas se ligam ao colágeno do subendotélioe aumentam os níveis deCa2•.
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    246 Clark,Finkel,Rey& Whalen Plaquetaemrepouso Plaquetaativada Figura20.3 Micrografias por escaneio eletrônico de plaquetas. �AUvaçio plaquotério � Fibrinogênio Aglutinação plaquetária t � 4 Receptores ativos �4 Figura 20.4 Ativação e aglutinação de plaquetas. GP = glicoproteína. Figura 20.5 Acido acetllsallcDlco O ácido acetilsalicílico inibe irreversivel­ mente a ciclo-oxigenase-1 . plaquetas em repouso circulantes vizinhas. Esses receptores funcionam como sensores que são ativados pelos sinais enviados das plaquetas aderentes. As plaquetas previamente dormentes se tornam ativas e ini­ ciam a aglutinação. Estas ações são mediadas por vários sistemas men­ sageiros que, no final, resultam na elevação dos níveis de Ca 2 + e na dimi­ nuição da concentração de AMPe dentro da plaqueta. D. Aglutinação das plaquetas O aumento do cálcio citosólico que acompanha a ativação é devido à liberação de estoques sequestrados no interior da plaqueta (ver Figura 20.2). Isso leva 1) à liberação de grânulos de plaquetas contendo media­ dores, como ADP e serotonina, que ativam outras plaquetas; 2) à ativa­ ção da síntese de tromboxano A2; 3) à ativação dos receptores de glico­ proteínas (GP) llb/llla que ligam fibrinogênio e, finalmente, regulam as interações plaquetas-plaquetas e a formação dotrombo (ver Figura 20.2). O fibrinogênio, uma GP plasmática solúvel, liga-se simultaneamente aos receptores de GP llb/llla de duas plaquetas vizinhas, resultando na liga­ ção cruzada das plaquetas e na sua aglutinação. Isso leva a uma avalan­ che de aglutinação plaquetária, pois cada plaqueta ativada pode recrutar outras plaquetas (Figura 20.4). E. Formação do coágulo A estimulação local da cascata de coagulação pelos fatores teciduais li­ berados dos tecidos lesados e pelos mediadores da superfície das pla­ quetas resulta na formação de trombina (Fator llA), uma serina protease. A trombina, por sua vez, catalisa a hidrólise do fibrinogênio em fibrina, que é incorporada no tampão. Ligações cruzadas subsequentes das tiras de fibrina estabilizam o coágulo e formam um tampão fibrina-plaquetas hemostático (ver Figura 20.2). F. Fibrinólise Durante a formação do tampão, a via fibrinolítica é ativada localmente. O plasminogênio é processado enzimaticamente à plasmina (fibrinolisina) pelos ativadores de plasminogênio nos tecidos (ver Figura 20.2). A pias­ mina limita o crescimento do coágulo e dissolve a rede de fibrina à medi­ da que ocorre a cicatrização. Atualmente, inúmeras enzimas fibrinolíticas estão disponíveis para otratamento de infarto do miocárdio, êmbolos pul­ monares e choques isquêmicos. IV. INIBIDORES DA AGLUTINAÇÃO PLAQUETÁRIA Os inibidores da aglutinação plaquetária diminuem a formação ou a ação dos sinais químicos promotores da aglutinação. A última etapa nessa resposta ao traumatismo vascular depende de uma família de receptores de GP de membrana que - após a ativação - podem ligar proteínas adesivas, como o fibrinogênio, o fator de von Willebrand e a fibronectina. O mais importante desses receptores é o GP llb/llla que, no final, regula a interação plaqueta­ -plaqueta e a formação do trombo. Assim, agentes ativadores de plaquetas, como tromboxano A2, ADP, trombina, serotonina e colágeno, promovem as alterações conformacionais necessárias para o receptor de GP llb/llla fixar os ligantes, particularmente o fibrinogênio. O fibrinogênio simultaneamente se liga aos receptores de GP llb/llla em duas plaquetas vizinhas, resultando na ligação cruzada entre as plaquetas e na aglutinação (ver Figura 20.4). Os inibidores da aglutinação de plaquetas descritos a seguir inibem a ciclo-oxige­ nase-1 (COX-1) ou bloqueiam os receptores de GP llb/llla ou ADP, interferin­ do, assim, no sinal que promove a aglutinação plaquetária. Como estas subs-
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    tâncias têm diferentesmecanismos de ação, efeitos sinérgicos ou aditivos podem ser obtidos quando fármacos de classes diferentes são associados. Esses fármacos são benéficos na prevenção e no tratamento de doenças cardiovasculares oclusivas, na manutenção de transplantes vasculares e na patência arterial e como auxiliares aos inibidores de trombina ou tratamento trombolítico no infarto do miocárdio. , A. Acido acetilsalicílico A estimulaçãodas plaquetas portrombina, colágeno eADP resulta naativa­ ção das fosfolipases de membrana das plaquetas que liberam ácido araqui­ dônico dos fosfolipídeos da membrana. 4 O ácido araquidônico é convertido inicialmente em prostaglandina H2 pela COX-1 (Figura 20.5), e essa étrans­ formada em tromboxano A2, que é liberado no plasma. O tromboxano A2 produzido pelas plaquetas aglutinantes promove o processo de aglutinação que é essencial para a rápida formação do tampão hemostático. O ácido acetilsalicílico (AAS) inibe a síntese de tromboxano� a partirdo ácido ara­ quidônico nas plaquetas acetilando irreversivelmente a serina, impedindo o araquidonato ligar-se no sítio ativo e, assim, inibe a COX-1 (Figura 20.6). Isso desloca o equilíbrio dos mediadores químicos em favordos efeitos an­ tiaglutinantes da prostaciclina (PGl2), impedindo, assim, a aglutinação pla­ quetária. O efeito inibitório é rápido, aparentemente ocorrendo na circulação porta. A supressão da tromboxano A2sintetase e a consequente supressão da aglutinação das plaquetas induzida pelo AASpersistem por toda a vida da plaqueta anucleada - que é 7 a 1O dias aproximadamente. A adminis­ tração repetida do AAS tem efeito acumulativo na função das plaquetas. O AAS atualmente é usado no tratamento profilático da isquemia cerebral transitória, para reduzir a incidência de infartos do miocárdio recorrentes e para diminuir a mortalidade nos pacientes pré- e pós-infartados. A dosa­ gem de AASrecomendada varia de 50 a 325 mg, sendo determinada pelos efeitos adversos. Dosagens mais altas de AASaumenta a toxicidade, bem como a probabilidade de o AAS inibir também a produção de prostaciclina. A 'aspirina do bebê'como era conhecida tem 81 mg de AASe é a mais em­ pregada nos EUA. O tempo de sangramento é alongado com o tratamento com AAS, causando complicações que incluem um aumento da incidência de choque hemorrágico, bem como de sangramento gastrintestinal (GI), es­ pecialmente com as dosagens mais elevadas.OAASé usado, comfrequên­ cia, em combinação com outros fármacos anticoagulantes, como heparina ou clopidogrel. Fármacos anti-inflamatórios não esteroides (AINES), como o ibuprofeno, inibem a COX-1 por competição transitória no sítio catalítico. O ibuprofeno, setomadoconcomitante com AASou duas horasantes, pode impediro acesso do AASao resíduo serina e, assim, antagonizar a inibição das plaquetas pelo AAS. Por isso, o AAS deve ser ingerido 30 minutos no mínimo antes ou pelo menos 8 horas após o ibuprofeno. Embora o celecoxi­ be (um inibidorseletivo de COX-2;ver Capítulo 39) não interfira naatividade antiaglutinante do AAS, háalgumaevidência de que ele pode contribuirpara os eventos cardiovasculares deslocando o equilíbrio dos mediadores quí­ micos em favor do tromboxano A2• O AASé o único AINE que tem eficácia antitrombótica irreversível. B. Ticlopidina, clopidogrel e prasugrel Ticlopidina, clopidogrel e prasugrel são tienopiridinas muito relacionadas que também bloqueiam a aqlutinação das plaquetas, mas por mecanis­ mo diferente do AAS. 4Ver Bioquí mica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre a função da fosfolipase ligada à membrana. Farmacologia Ilustrada 247 Ciclo-oxigenase-1 plaquetária :º • • • • • • • • Ciclo-oxigenase-1 ·•·. . . COOH ?' I O, C _...CH3 � g Ácido acetilsalicl1ico COOH ?' I OH � acetilada · . . • ···... ··.....··. �;do sal;cmco Polipeptídeos da ciclo-oxigenase-1 H � H -N- CH -C -N- CH - 1 11 CH2 O " O, C ,.. CH3 li o Figura 20.6 Cadeia lateral serina Acetilação da ciclo-oxigenase-1 pelo AAS. � 0 � A. �ca2• � � � -. -- � 1 1 1 1 1 1, o � � -u 'f / / / f f ffUtllUI . • . IUUUUU � Receptores GPdellb/llla ativos ADP t •.., ..,,,. ina Clopidogrel Prasugrel Células endoteliais lesadas A ticlopidina, o clopidogreleo prasugrelinibem a aglutinação plaquetária mediada porADP. Figura 20.7 Mecanismo de ação de ticlopidina, c/o­ pidogreleprasugre/. GP= glicoproteína.
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    248 Clark, Finkel,Rey & Whalen 1 . Mecanismo de ação. Esses fármacos inibem irreversivelmente a ligação do ADP aos seus receptores nas plaquetas e, assim, inibem a ativação dos receptores de GP llb/llla necessários para que as plaquetas se liguem ao fibrinogênio e umas às outras (Figura 20.7). 2. Usos terapêuticos. Embora a ticlopidina e o clopidogrel sejam si­ milares na estrutura e no mecanismo de ação, seus usos terapêu­ ticos são diferentes. A ticlopidi na está aprovada para a prevenção de ataques isquêmicos transitórios e derrames aos pacientes com evento trombótico cerebral prévio. Ela também é empregada como fármaco auxiliar com o AASapós a implantação de stent coronário para diminuir a incidência de trombose pelo stent. Todavia, devido às reações adversas hematológicas com risco de vida, incluindo neutropenia e agranulocitose, púrpura trombocitopênica trombótica (PTT) e anemia aplástica, em geral a ticlopidina é reservada aos pacientes intolerantes a outros tratamentos. O clopidogrel é apro­ vado para a prevenção de eventos ateroscleróticos que seguem ao infarto do miocárdio recente, derrame e doença arterial periférica estabelecida. Ele também está aprovado para a profilaxia de even­ tos trombóticos na síndrome coronária aguda (angina instável ou infarto do miocárdio não onda Q). Além disso, o clopidogrelé usado para prevenir eventos trombóticos associados com intervenção co­ ronária percutânea com ou sem stentcoronário. Comparado com a ticlopidina, o clopidogrelé o fármaco preferido nos eventos isquêmi­ cos cardíacos, porque existem mais dados apoiando seu uso nos pacientes cardíacos. O clopidogreltambém tem perfil de efeitos ad­ versos melhor, embora também possa provocar PTT. O prasugrel é o antagonista de receptor ADP mais recente. Está aprovado para diminuiros eventos trombóticos cardiovasculares em pacientes com síndrome coronária aguda (angina instável, infarto do miocárdio sem elevação ST e infartos do miocárdio com elevação ST que é tratada com intervenção coronária percutânea). Em triagens clíni­ cas, o prasugrelfoi mais eficaz do que o c/opidogrel na redução da morte cardiovascular, ataque cardíaco não fatal e derrame nãofatal. 3. Farmacocinética. Os alimentos interferem na absorção da ticlopi­ dina, mas não na do clopidogrel e prasugrel. Após ingestão oral, os três fármacos são extensamente ligados às proteínas plasmáticas. Eles sofrem biotransformação hepática pelo sistema citocromo P450 (CIP450) a metabólitos ativos. O efeito máximo é alcançado em 3 a 5 dias; mas quando o tratamento é suspenso, o sistema plaquetário requer umtempo parase recuperar.A eliminaçãodosfármacose seus metabólitos ocorrem porvia renal e fecal.A ticlopidinatem umaadver­ tência em tarja preta, do FDA, quanto aos graves efeitos adversos he­ matológicos associados com seu uso. Os três fármacos prolongam o sangramento e não possuem antídoto, mas o sangramento é mais co­ mum com prasugrel. Os graves efeitos adversos da ticlopidina incluem neutropenia, PTI e anemia aplástica exigindo frequente monitoração do sangue, especialmente durante os três primeiros meses de trata­ mento. O clopidogrelcausa menos efeitos adversos, e a incidência de neutropenia é menor. Contudo, PTTfoi registrada como um dosefeitos adversos para o clopidrogrele a ticlopidina. Embora não descrita para o prasugrel, aTTP é possível. O c/opidogreltem advertencia em tarja preta para os pacientes que são maus biotransformadores. O clopido­ grel é um pró-fármaco e seu efeito terapêutico depende inteiramen­ te no metabólito ativo.O polimorfismo genético do CIP450 2C19 que transforma primariamente o clopidogrel leva a menos metabólito ativo, propriedades farmacocinéticas variáveis e resposta clínica reduzida em pacientes que são maus biotransformadores. Os denominados
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    "maus biotransformadores" doclopidogrel com síndrome coronária aguda ou que estão sob intervenção conorária subcutânea revelaram as maiores taxas de eventos cardiovasculares quando tratados com dosagens-padrão de clopidogrel comparado com metabolizadores normais. Atualmente há testes para identificar maus biotransforma­ dores, e é recomendado que outros antiplaquetários ou estratégias sejam usadas. O principal efeito adverso do prasugrelé a hemorragia, que pode serfatal. O prasugreltem advertência em tarja preta quanto a hemorragias, derrames e suspensão abrupta do uso em pacientes que serão submetidos à intervenção coronária percutânea. Como es­ tes fármacos podem inibir o sistema CIP450, eles podem interferir na biotransformação de fármacos como fenitoína, varfarina, uvastatina e tamoxifeno, se ingeridos concomitantemente.Jáfoi relatadatoxicidade pela fenitoí na quando tomada com ticlopidina. C. Abciximabe O conhecimento do papel decisivo do receptor plaquetário de GP llb/llla no estímulo da aglutinação das plaquetas gerou esforços para bloquear esse receptor nas plaquetas ativadas. Por sua vez, isso levou ao desen­ volvimento de um anticorpo monoclonal quimérico, abci ximabe, composto de regiões constantes da imunoglobulina humana ligadas aos fragmentos Fab de um anticorpo monoclonal murino contra o complexo GP llb/llla. Ligando-se ao GP llb/llla, o anticorpo bloqueia a ligação do fibrinogênio e do fator de von Willebrand e, consequentemente, não acontece a aglu­ tinação (Figura 20.8). O abciximabe é administrado por via IV junto com hepari na ou AAS como um auxiliar nas intervenções coronarianas per­ cutâneas para prevenção das complicações isquêmicas cardíacas. Está aprovado também para a angina instável e para uso profilático no infarto do miocárdio. Após interromper a infusão, a função plaquetária gradual­ mente retorna ao normal, com o efeito antiplaquetário persistindo por 24 a 48 horas. O principal efeito adverso do tratamento com abci ximabe é o potencial para sangramentos, especialmente se o fármaco é usado com anticoagulantes ou se o paciente tem uma condição clínica hemorrágica. O abci ximabe é caro, limitando seu uso em algumas situações. D. Eptifibatida e tirofibana Esses dois fármacos antiplaquetários atuam de forma similar ao abcixi­ mabe -bloqueando o receptor de GP llb/llla (ver Figura 20.8). A eptifiba­ tida é um peptídeo cíclico que se liga ao GP llb/llla no local de interação com a sequência arginina-glicina-ácido aspártico do fibrinogênio. O tiro­ fibana não é um peptídeo, mas bloqueia o mesmo local que a eptifibati­ da. Esses fármacos, como o abciximabe, podem diminuir a incidência de complicaçõestrombóticas associadas a síndromes coronarianas agudas. Quando a infusão IV é suspensa, esses fármacos são rapidamente elimi­ nados do plasma, mas seu efeito pode persistir poraté 4 horas. (Nota: só existem formulações IV, pois as preparações orais destes bloqueadores de GP llb/ Ilia são muito tóxicas.) A eptifibatida e seu metabólito são ex­ cretados pelos rins. A tirofibana é excretada, principalmente inalterada, pelos rins e nas fezes. O principal efeito adverso dos dois fármacos é o sangramento. A Figura 20.9 resume os efeitos dos antagonistas de re­ ceptor de GP llb/llla na mortalidade e no infarto do miocárdio. E. Dipiridamol O dipiridamol, um vasodilatador coronariano, é usado profilaticamen­ te no tratamento da angina pectoris. Em geral, ele é administrado com AAS ou com varfarina. O di piridamolaumenta os níveis intracelulares de AMPc inibindo o nucleotídeo cíclico fosfodiesterase, resultando em dimi- Farmacologia Ilustrada 249 Receptoresde GPllb/llla ativos o Fibrinogênio ) O O - - - � � � � � r----7 'lltJ 111111.1 Abci ximabe, eptifibatida e tirofibana bloqueiam os recep­ tores de GP llb/llladas plaquetas. Figura 20.8 Mecanismo de ação dos bloqueadores dos receptores de glicoproteína (GP) llb/llla. MORTE OU INFARTO DO MIOCÁRDIO NÃO FATAL Abci xi mabe Eptifibatida Tirofibana Legenda: Figura 20.9 - Tratamento-padrão mais antagonistas de receptores de GP llb/llla Tratamento-padrão Efeitos dos antagonistas de receptores de glicoproteína (GP) llb/llla na inci­ dência de morte ou infarto do miocárdio não fatal após angioplastia coronariana transluminal percutânea. (Nota: os dados são de vários estudos; assim, a incidên­ cia registrada de complicações com o tratamento-padrão, como com a hepari­ na, não é a mesma para cada fármaco.)
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    250 Clark, Finkel,Rey & Whalen Estesfatoressão inativados pelo complexo heparina­ ·antitrombina Via intrínseca XII � � o � XI /c1 m o � /41" o EI ' Xa ) ., " A síntese destes fatores é inibida peloscumarfnicos Via extrínseca VIia o , ' EI Protrombina (li) o �( ) - . Tr ombina (lla) o � � Fibrinogênio ---• Abrina:; ;� Figura 20.1O Formação do coágulo de fibrina. nuição da síntese de tromboxano A2• Ele pode potencializar o efeito da PGl2 no antagonismo da adesividade das plaquetas e, assim, diminuir a aderência das plaquetas às superfícies trombogênicas (ver Figura 20.2). Os escassos resultados disponíveis sugerem que o dipiridamol acres­ centa uma contribuição antitrombótica marginal comparado com a ação do AAS. Contudo, quando associado à varfarina, o dipiridamol é eficaz na inibição da embolia das válvulas cardíacas prostéticas. O dipiridamol é descrito como "inadequado" para uso em idosos como fármaco único devido aos problemas GI e de ortostasia. F. Cilostazol V. O cilostazolé um antiplaquetário oral que tem também atividade vasodi­ latadora. É aprovado pelo FDA para diminuir os sintomas da claudicação intermitente. Os usos não aprovados pelo FDA do cilostazol incluem o tratamento da doença de Buerger, a esclerose vascular complicadora do diabetes melito e a melhora dos sintomas em pacientes com isquemia cerebral crônica. O cilostazolé estensamente biotransformado no fígado, e a via primária de eliminação é com a urina e as fezes. Dois de seus metabólitos são ativos. O cilostazol e seus metabólitos ativos inibem a fosfodiesterase tipo Ili que previne a degradação do AMPe, aumentando, assim, os níveis de AMPe nas plaquetas e tecidosvasculares. O aumento nos níveis de AMPe nas plaquetas e nos vasos previne a aglutinação das plaquetas e promove a vasodilatação respectivamente. O cilostazolaltera de modo favorável o perfil lipídico, causando diminuição nos triglicérides plasmáticos e aumentando a lipoproteína de alta densidade colesterol. Os efeitos adversos mais comuns observados com cilostazol são cefa­ leia e efeitos GI (diarreia, fezes anormais, dispepsia e dor abdominal). O cilostazol e seus metabólitos são contraindicados em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva de qualquer gravidade. Deve ser usado com cautela em pacientes que usam outros inibidores de fosfodiesterase Ili e pacientes com a história de qualquer doença cardíaca. - COAGULAÇAO DO SANGUE O processo de coagulação que gera trombina consiste em duas vias inter-re­ lacionadas - os sistemas extrínseco e intrínseco. O sistema extrínseco, que provavelmente é o mais importante in vivo, é iniciado pela ativação do Fator de coagulação VII por um fator tecidual ou tromboplastina. O fator tecidual é uma lipoproteínaexpressa pelas células endoteliais ativadas, leucócitos ativa­ dos, fibroblastos subendoteliais e células musculares lisas subendoteliais no local da lesão vascular. O sistema intrínseco é iniciado pela ativação do Fator de coagulaçãoXI1, seguindo seu contato in vitrocom vidro ou superfícies alta­ mente carregadas. ln vivo, estavia pode ser iniciada pelo contato do FatorXII com células superficiais contendo fosfolipídeos. A. Formação da fibrina O sistema extrínseco e o intrínseco envolvem uma cascata de reações enzimáticas quetransformam sequencialmenteváriosfatores plasmáticos (pró-enzimas) em suas formas ativas (enzimas). No final, eles produzem o Fator Xa, que converte protrombina (Fator li) em trombina (Fator lla; Figura 20.1O). A trombina tem um papel-chave na coagulação, pois ela é responsável pela geração de fibrina, que é a GP que forma a matriz tipo tela do coágulo de sangue. Se a trombina não é formada ou sua função é impedida (p. ex., pela antitrombina Ili), a coagulação é inibida. Cada etapa do processo de ativação é catalítico; por exemplo, uma unidade de Fator ativado Xa pode gerar, potencialmente, 40 unidades de trombina, o que resulta na produção de grande quantidade de fibrina no local da lesão.
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    B. Papel dassuperfícies celulares Cada reação envolvida com a cascata da coagulação ocorre em uma superfície celular ativada localizada, onde o complexo proteína-proteína com base em fosfolipídeo se formou. Este complexo consiste em super­ fícies de membranas providas de fosfolipídeos (primariamente fosfa­ tidil-serina) de plaquetas ativadas ou células endoteliais ativadas, uma enzima (um fator de coagulação ativado), um substrato (a pró-enzima do fator de coagulação seguinte na cadeia) e de um cofator. O cálcio é essencial nesse processo, unindo fosfolipídeos aniônicos a resíduos de ácido 'Y-carboxiglutâmico dos fatores de coagulação. (Nota: a remoção do cálcio com quelantes, como o citrato ou ácido tetraetilenodiamina acético, é usado para evitar a coagulação em tubo de ensaio). C. Inibidores de coagulação , E importante que a coagulação fique restrita ao local da lesão vascular. Endogenamente existem vários inibidores dos fatores de coagulação, in­ cluindo proteína C, proteína S, antitrombina Ili e inibidor da via do fator tissular. O mecanismo de ação dos vários fármacos anticoagulantes, in­ cluindo heparinae fármacos relacionados à heparina, envolve a ativação desses inibidores endógenos (primariamente antitrombina Ili). VI. ANTICOAGULANTES Os fármacos anticoagulantes inibem a ação dos fatores de coagulação (os inibidores de trombina, como a heparina e os fármacos heparina-relaciona­ dos) ou interferem na síntese dos fatores de coagulação (os antagonistas da vitamina K, como a varfarina). A. Inibidores de trombina: heparina e heparinas de baixa massa molecular A heparina é um anticoagulante injetável de ação rápida que é usado com frequência para interferir agudamente na formação de trombos. Ela nor­ malmente ocorre como uma macromolécula complexada com histamina nos mastócitos, onde sua função fisiológica é desconhecida. Para uso co­ mercial, a heparina é extraída da mucosa intestinal suína. A heparina não fracionada é uma mistura de cadeias retas, glicosaminoglicanos aniônicos com uma ampla faixa de massas moleculares (Figura 20.11). Ela é muito ácida devido à presença de sulfato e grupos de ácido carboxílico (Figura Antitrombina cs - �4!��� - � cs Figura 20.13 Fatoresde coagulação inativos )li A hepari naacelera a inativação dos fatores de coagulação pela antitrombina. Farmacologia Ilustrada 251 o 'B. Ili ... li u e 8 o HBMMs Heparina 10.000 20.000 Massa molecular Figura 20.11 30.000 Distribuição das massas moleculares típicas das heparinas de baixa massa molecular (HBMM) e da heparina. H ...o coo- º H H OH H o... H HNSO:) Ácido13-D-glicurônico Sulfatodeglicosamina Figura 20.12 Componente dissacarídeo da heparina mostrando as cargas negativas decor­ rentes dos grupos carboxila e sulfato. A heparinasedissocia do complexoternário e podeser reutilizada. . . ; ; Fatoresde coagulação inativos
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    252 Clark, Finkel,Rey & Whalen ft Heparina W nãofracionada Heparina J Antitrombina IFllft©Jll' �(! � <J OOo / ,P ! � �() v hr- -.... l A hepar inanão fracionadaacelera a interação da antitrombina com atrombinae o FatorXa. °oº rY __, Ooocoo<P° A interaçãodaantitrombinacom a heparinaea HBMMé mediada por umasequência de pentassacarídeos. /º �w�ooc>ooOc;O �D Trombina m Antitrombina HBMM � IF�©ll' �� HBMMacelera HBMM @ � <J seletivamente a o I () interação da antitrombina l l com o FatorXa. .. .. Figura 20.14 A heparina e a heparina de baixa massa molecular (HBMM) intermedeiam a inativação da trombina ou do FatorXa. Meia-vida intravenosa Resposta anticoagulante Biodisponibilidade Principais efeitos adversos Local de tratamento Figura 20.15 2 horas 4 horas Variável Previsível 200/o 90% Sangramentos Sangramentos frequentes menosfrequentes Hospital Hospital e paciente externo Algumas propriedades da heparina e das heparinas de baixa massa molecu­ lar(HBMM). 20.12). (Nota: nesta discussão, o termo heparina indica a forma não fracio­ nada do fármaco.) O conhecimento de que formas de heparina de baixa massa molecular(HBMM) também conseguem atuarcomo anticoagulantes levou ao isolamento da enoxaparina, a primeira HBMM(< 6.000) disponível nos Estados Unidos. As HBMMs são compostos heterogêneos (elas têm um terço do tamanho da heparina não fracionada) produzidos pela despo­ limerização química ou enzimática da heparina não fracionada. Como são isentas de desvantagens associadas ao polímero, estão substituindo o uso da heparinaem várias situações clínicas.A heparina é usada na prevenção de trombose venosa e no tratamento de uma variedade de doenças trom­ bóticas, como embolia pulmonar e infarto agudo do miocárdio. 1. Mecanismo de ação. A heparina atua em inúmeros alvos molecula­ res, mas seu efeito anticoagulante é consequência da ligação à anti­ trombina Ili, com a rápida inativação subsequente dos fatores de coa­ gulação (Figura 20.13). A antitrombina Ili é uma a-globulina e inibe serina-proteases, incluindo vários dos fatores de coagulação- sendo os mais importantes a trombina (Fator lla) e o Fator Xa (ver Figura 20.1O). Na ausência de heparina, a antitrombina Ili interage lentamen­ te com a trombina e o FatorXa. As moléculas de heparina se ligam à antitrombina Ili, induzindo alteração conformacional que acelera sua velocidade de ação cerca de mil vezes. A heparina também serve de molde catalítico para a interação da antitrombina Ili e os fatores de coagulação ativados. Ela atua comoverdadeiro catalisador, permitindo que a antitrombina Ili se combine rapidamente com a trombina circu­ lante e o Fator Xa e os iniba (Figura 20.14). Em contraste, as HBMMs complexam com a antitrombina Ili e inativam o Fator Xa (incluindo o localizado nassuperfíciesdas plaquetas), mas não se ligam tão avida­ mente à trombina. Sem dúvida, a ativação das plaquetas em repouso é menos provável com as HBMMs do que com a heparina. (Nota: a sequência de pentassacarídeo presente na heparina e nas HBMMs permite sua ligação à antitrombina Ili [ver Figura 20.14].) 2. Usos terapêuticos. A heparina e as HBMMs limitam a expansão dos trombos evitando a formação de fibrina. A heparina é o prin­ cipal fármaco antitrombótico para o tratamento da trombose aguda de veias profundas e do embolismo pulmonar. A incidência de epi-
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    sódios tromboembólicos recorrentestambém diminui. Clinicamente, a heparina é usada profilaticamente para prevenir trombos venosos pós-cirúrgicos em pacientes submetidos à cirurgia eletiva (p. ex., prótese de bacia) e naqueles que estão na fase aguda de um infarto do miocárdio. A retrotrombose arterial coronariana após o tratamen­ to trombolítico é reduzida com heparina. Esse fármaco também é usado nos aparelhos de circulação extracorpórea (p. ex., máquinas de diálise) para prevenir a trombose. A heparina e as HBMMs são os anticoagulantes de escolha para o tratamento da gestante com válvula cardíaca prostética ou tromboembolismo venoso, pois esses fármacos não atravessam a placenta (devido ao grande tamanho e carga negativa). A heparinatem avantagem do rápido início de ação e que também termina rápido na suspensão do tratamento. Contu­ do, isso está sendo superado pelas HBMMs, como a enoxaparina e a dalteparina, pois esses fármacos podem ser convenientemente injetadas por via SC no paciente com base na sua massa corpórea, têm efeitos terapêuticos e perfil farmacocinético previsíveis (Figura 20.15). Especificamente, a HBMMnão requera mesma monitoração intensa que a heparina, exige; em consequência, elas poupam tem­ po e custos laboratoriais e de enfermagem. Essas vantagenstornam as HBMMúteis para pacientes hospitalizados e ambulatoriais. 3. Farmacocinética a. Absorção. Enquanto o efeito anticoagulande da heparina ocorre minutos após aadministração porvia IV (ou em 1 a 2 horas após injeção SC), a atividade antifatorXa máxima das HBMMsocorre em cercade4 horas após a injeção SC. (Nota: Isso é comparável aos anticoagulantes antagonistas da vitamina K, como a varfari­ na, cuja atividade exige de 8 a 12 horas.) A heparina precisa ser administrada por via parenteral, em locais se profundos ou por via IV, pois ela não atravessa membranas com facilidade (Figura 20.16). As HBMMs são administradas por via SC. (Nota: a ad­ ministração de ambos os fármacos por via IM é contraindicada devido à formação de hematoma.) A heparina com frequência é administrada por via IV em bolus para obter anticoagulação imediata. Isso é seguido de doses menores ou infusão contínua de heparina por 7 a 1O dias, titulando a dose de forma que o tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPa) seja 1 ,5 a 2,5 vezes o valor controle normal. Normalmente não é preciso obter um índice desses com as HBMMs, pois os níveis plasmáticos e a farmacocinéticadesses fármacos são previsíveis.Todavia, aos pacientes com insuficiência renal, a dosagem deve ser reduzida para compensar a diminuição da função renal. b. Distribuição. No sangue, a hepari na se liga a várias proteínas que neutralizam sua atividade, causando, assim, resistência ao fármaco e farmacocinética imprevisível. A ligação da heparina às proteínas plasmáticas é variável em pacientes com doença tromboembólioca. Embora geralmente restrita à circulação, a heparina é captada pelo sistema monócitos/macrófagos e sofre despolimerização e dessulfatação a produtos inativos. (Nota: a hepari na tem meia-vida mais longa em pacientes com cirrose hepática.) Os metabólitos inativos, bem como alguma hepari­ na e HBMMs são excretados na urina. Portanto, a insuficiência renal também prolonga a meia-vida. Nem a heparina nem as HBMMs atravessam a barreira placentária. A meia-vida da he­ parina é de cerca de 1,5 hora, ao passo que das HBMMsé duas a quatro vezes mais longa, variando de 3 a 7 horas. Farmacologia Ilustrada 253 Heparinae HBMMsão na maior parte confinadas no sistemavascular A heparina 'i' e a HBMM � parcialmente degradadas aparecem na urina. Figura 20.16 Heparina: 1v,se profunda HBMMs: se Administração e destino da heparina e das heparinas de baixa massa molecu­ lar(HBMM). y-----=� I Sangramento Hipersensibilidade Trombocitopenia Figura 20.17 Efeitos adversos da heparina.
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    254 Clark, Finkel,Rey & Whalen A /epirudinafica confinadano sistemavascular Figura 20.18 IV Administração de Jepirudina. IV = intra­ venoso. 4. Efeitos adversos. Apesar da expectativa de menos efeitos adver­ sos com as HBMM, verificou-se que as complicações são similares às observadas com a hepari na. Todavia, os problemas tromboem­ bólicos são menos comuns. a. Hemorragias. A principal complicação do tratamento com he­ parina é a hemorragia (Figura 20.17). A monitoração cuidadosa do tempo de sangramento é necessária para minimizar esse problema. O sangramento excessivo pode ser controlado pela interrupção do uso da heparina ou pela administração de sulfa­ to de protamina. Infundido lentamente, este último fármaco se combina ionicamente com a heparina paraformar um complexo 1 :1 estável e inativo. É muito importante que a dosagem de pro­ tamina seja titulada cuidadosamente (1 mg para cada 100 uni­ dade de heparina administrada), porque o sulfato de heparina é um anticoagulante fraco e o excesso pode iniciar sangramento ou piorar o potencial hemorrágico. b. Reações de hipersensibilidade. As preparações de heparina são obtidas de suínos e, assim, podem ser antigênicas. Possí­ veis reações adversas incluem calafrios, febre, urticária e cho­ que anafilático. e. Trombose. A administração crônica ou intermitente de heparina pode levar à redução da atividade da antitrombina Ili, diminuin­ do, assim, a inativação dos fatores de coagulação e aumentan­ do o risco de trombose. Para minimizar esse risco, são empre­ gados, em geral, tratamentos com doses baixas de heparina. d. Trombocitopenia. Essa condição, na qual o sangue circulan­ te contém um número anormalmente pequeno de plaquetas, é uma anormalidade comum entre os pacientes hospitalizados que recebem heparina. O tratamento com hepari na deve ser interrompido em pacientes que apresentam grave trombocito­ penia. A heparina pode ser substituída poroutro anticoagulante, como dabigatrana, Jepirudina ou argatrobana (ver a seguir). e. Outros: a heparina pode produzir resultados anormais de tes­ tes de função hepática, bem como osteoporose, observada em pacientes tratados por longo período. f. Contraindicações. A heparina é contraindicada para pacientes que são hipersensíveis a ela ou têm distúrbios de coagulação, são alcoólatras ou que tiveram recentemente ou terão cirurgia no cérebro, no olho ou na medula espinal. B. Inibidores de trombina: etexilato de dabigatrana O etexilato de dabigatrana é o pró-fármaco da molécula ativa dabiga­ trana que é um inibidor direto da trombina aprovado atualmente para prevenir derrames e embolismo sistêmico em pacientes com fibrilação atrial. A dabigatrana é o primeiro anticoagulante oral em 50 anos a ser aprovado após a descoberta da varfarina. A dabigatrana não requer monitoração de rotina (INR), e comparada com varfarina, tem poucas interações com outros fármacos. O principal efeito adverso é o sangra­ mento, como com outros anticoagulantes. Efeitos adversos GI também podem ocorrer com este fármaco. Devido à sua eficácia, à biodisponibi­ lidade oral e a propriedades farmacocinéticas previsíveis, a dabigatrana pode ser uma alternativa à enoxaparina para a profilaxia de trombos na cirurgia ortopédica.
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    C. Outros anticoagulantesparenterais 1. Lepirudina. Um antagonista direto e altamente específico de trom­ bina, a lepirudina é um polipeptídeo intimamente relacionado com a hirudina -um inibidorde trombina presente na saliva da sanguessu­ ga. A lepirudi na é produzida em células de fungos por tecnologia de DNA recombinante. Uma molécula de /epirudinase liga a uma molé­ cula detrombina, bloqueando a sua atividade trombogênica. Elatem pouco efeito na aglutinação plaquetária. Administrada por via IV (Fi­ gura 20.18), a lepirudina é eficaz no tratamento da trombocitopenia induzida por heparina (TIH) e de outros distúrbios tromboembólicos e podeevitarcomplicaçõestromboembólicas adicionais.A lepirudina tem meia-vida de cerca de uma hora e sofre hidrólise. Ela e seus fragmentos são eliminados na urina. O sangramento é o principal efeito adverso do tratamento com lepirudina e pode ser agravado pelo tratamento trombolítico simultâneo, como com estreptoquinase ou alteplase. Cerca de metade dos pacientes que recebem lepirudi­ na desenvolve anticorpos. Contudo, o complexo fármaco-anticorpo mantém sua atividade anticoagulante. Como a eliminação renal do complexo é mais lenta do que a do fármaco livre, o efeito anticoagu- , lante pode ser maior. E importante monitoraroTIPa ea função renal quando o paciente está recebendo lepirudina. 2. Argatrobana. Argatrobana é um anticoagulante oral. Ela é uma pequena molécula sintética que inibe diretamente a trombina. A argatrobana é usada preventivamente no tratamento da trombose em pacientes com TIH e aprovada para uso durante intervenções coronárias percutâneas em pacientes que apresentam ou estão sob risco deTIH. A argatrobana é biotransformada no fígado e tem meia-vida de 39 a 51 min. É monitorada pelo TIPa. A hemoglobina e o hematócrito também devem ser monitorados. Como a argatro­ bana é biotransformada no fígado, ela pode ser usada em pacien­ tes com disfunção renal, mas deve ser usada com cautela nos que apresentam insuficiência hepática. Como com os outros fármacos dessa classe, o principal efeito adverso é a hemorragia. 3. Fondaparinux. Esse é o primeiro de uma nova classe de anticoa­ gulantes pentassacarídeos totalmente sintético sem variabilidade na atividade biológica. O fondaparinuxfoi aprovado pelo FDA recente­ mente para uso na profilaxia da trombose de veias profundas que podem levar à embolia pulmonar em pacientes submetidos a cirur­ gias de fratura de bacia, prótese de cabeça de fêmur ou de joelho. Também é usado junto com varfarina para o tratamento do embolis­ mo pulmonar agudo e trombose de veias profundas. Esse fármaco inibe seletivamente só o Fator Xa. Ligando-se seletivamente a anti­ trombina Ili, o foundaparinuxpotencializa (300 a 1 .000 vezes) a neu­ tralização inata do FatorXa pela antitrombina Ili. Ele é bem absorvi­ do da via se com perfil farmacocinético previsível. o foundaparinux , requer menos monitoração do que a heparina. E eliminado com a urina principalmente inalterado com meia-vida de eliminação de 17 a 21 horas. Ele é contraindicado em pacientes com insuficiência renal grave (depuração de creatinina menor que 30 mUmin). Episódios de sangramento são o seu principal efeito adverso.Trombocitopenia, em particularatrombocitopeniaTipo li, nãoconstitui problema e este fármaco pode ser usado em pacientes comTIH. D. Antagonistas da vitamina K Os anticoagulantes cumarínicos, que incluem a varfarina, comumente usada, e o dicumarol (antigamente bisidroxicumarina), raramente usa- Farmacologia Ilustrada 255
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    256 Clark, Finkel,Rey & Whalen vvvv- C-CH-NH � " ' ·' Precursores O ÇH2 polipeptídicos ÇH2 dos Fatores de coo- coagulação li,VII, IXe X Vitamina K reduzida NADP• Vitamina K epóxido oxidado o ...(•1111111 Varfarlna NADPH Fatores de / coagulação vvvv- C-CH-NH -.,rvvv Jr ativos li,VII, IXeX " . O CH2 ' CH / '---..._ coo- coo- Figura 20.19 Resíduos 'Y-carboxiglutamila Mecanismos de ação da varfarina. NADP+ = forma oxidada do fosfato de nicotinamida-adenina dinucleotídeo; NADPH = forma reduzida do fosfato de nicotinamidaadenina dinucleotídeo. do. Ambos devem sua ação à sua capacidade de antagonizar a função de cofator da vitamina K. A única cumarina terapeuticamente relevante é a varfarina. Inicialmente usada como raticida, a varfarina hoje é mui­ to usada clinicamente como anticoagulante oral. Com a disponibilização das HBMMs e os inibidores da aglutinação das plaquetas, contudo, o uso dos antagonistas da vitamina K está diminuindo. A morbidade potencial associada ao uso da varfarina torna importante identificar os pacientes que realmente estão em risco de trombose. (Nota: na década de 1990, foi adotada a Relação Internacional Normalizada (INR na sigla em inglês) para monitorar a concentração de varfarina. O INR corrige as variações que ocorrerm com diferentes reagentes tromboplastinas entre diferentes hospitais ou quando o hospital recebe novos lotes de reagentes.) Mesmo a monitoração cuidadosa para manter o INR de 2 a 3 para a maioria dos pacientes não impede complicações de sangramento em vários pacientes. 1. Mecanismo de ação. Vários dos fatores de coagulação proteicos (incluindo os Fatores li, VII, IX e X; ver Figura 20.10) precisam da vitamina K como um cofator para sua síntese pelo fígado. Esses fatores sofrem uma modificação pós-translacional dependente de vitamina K, na qual alguns de seus resíduos de ácido glutâmico são carboxilados para formar resíduos de ácido 'Y-carboxiglutâmico (Fi­ gura 20.19). Os resíduos de 'Y-carboxiglutamil ligam íons cálcio, que são essenciais paraa interação entre os fatores de coagulação e as membranas plaquetárias. Nas reações de carboxilação, a carboxila­ se dependente de vitamina K fixa C02 para formar os novos grupos COOH no ácido glutâmico. O cofatorvitamina K reduzido é converti­ do em epóxido de vitamina K durante a reação. A vitamina Ké rege­ nerada do epóxido pela vitamina K epóxido-redutase -a enzima que é inibida pela varfarina. O tratamento com varfarina resulta na pro­ dução de fatores de coagulação menos ativos (de 1 O a 40° / o do nor­ mal), pois lhes faltam suficientes cadeias laterais 'Y-carboxiglutamil. Diferente da heparina, os efeitos anticoagulantes da varfarina não são observados até 8 a 1 2 horas depois da administração, mas o pico do efeito pode demorar até 72 a 96 horas, tempo necessário para esgotaro estoque de fatores de coagulação circulantes. O efei­ to anticoagulante da varfarina pode sersuperado pelaadministração de vitamina K. Contudo, a reversão após a administração de vitami­ na Kdemoracerca de 24 horas (tempo necessário paradegradação de todos os fatores de coagulação sintetizados). 2. Usos terapêuticos. A varfarina é usada para prevenir a progres­ são ou a recorrência de trombose aguda de veias profundas ou de embolia pulmonar, após o tratamento inicial com heparina. Ela é também usada para a prevenção do tromboembolismo venoso du­ rante cirurgias ortopédicas ou ginecológicas. Profilaticamente, ela é usada em pacientes com infarto agudo do miocárdio, válvulas car­ díacas prostéticas e fibrilação atrial crônica. 3. Farmacocinética a. Absorção. A varfari na é rapidamente absorvida após adminis­ tração via oral (100° / o de biodisponibilidade com pouca variação individual). Embora alimentos possam retardar a sua absorção, eles não alteram a extensão da absorção. A varfarina liga-se 99° / o à albumina plasmática, o que evita suadifusão para o líqui­ do cerebrospinal, para a urina e para o leite materno. Contudo, fármacos que tenham maior afinidade pelo local de ligação da albumina, como as sulfonamidas, podem deslocaros anticoagu­ lantes e levar a um aumento transitório da atividade. Fármacos que afetam a ligação da varfarina às proteínas plasmáticas pro-
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    movem interações evariabilidadena respostaterapêuticaà var­ farina. A varfari na atravessa facilmente a placenta. A meia-vida média é de cerca de 40 horas, mas este valor é muito variável entre indivíduos. O tempo de protrombina, uma medida da via extrínseca, pode ser usado para monitorar o tratamento com varfarina. O objetivo do tratamento com varfarina é um INR de 2 ou 3 para a maioria das indicações e 2,5 a 3,5 em pacientes com válvulas cardíacas mecânicas. A varfarina tem índice tera­ pêutico estreito e, portanto é importante que o INR seja mantido na faixa ideal.Valores de INR acima ou abaixo da faixa aumen­ tam o risco de trombose e hemorragia respectivamente. b. Destino. Os produtos da biotransformação da varfarina, catali­ sados pelo sistema CIP450, são inativos. Após conjugação ao ácido glicurônico, são excretados na urina e nas fezes. Os fár­ macos que afetam a biotranformação da varfarina podem alterar seus efeitos terapêuticos. 4. Efeitos adversos a. Hemorragias. A principal reação indesejada causada pelo trata­ mento com varfarinaé a hemorragia, e a embalagem dos medica­ mentos que a contém tem advertência em tarja preta alertando para o risco. Por isso, é importante monitorar com frequência e ajustar o efeito do anticoagulante. Pequenos sangramentos po­ dem sertratados com a retirada do fármaco e a administração de vitamina K1 oral, mas hemorragias exigem doses maiores de vita­ mina administradas por via IV. Sangue total, plasma congelado e concentrados plasmáticosdosfatores sanguíneostambém podem ser usados para revertera ação da varfarina rapidamente. Lesões de pele e necrose são complicações raras e observadas primaria­ mente em mulheres. Síndrome da língua púrpura, uma coloração violácea da língua muito dolorosa, causada porêmbolos de coles­ terol, também foi observada notratamento com varfarina. b. Interações com fármacos e outras. A varfari na tem numero­ sas interações que podem potencializar ou atenuar seu efeito anticoagulante. A relação de fármacos de interação é extensa. Um resumo das interações mais importantes é apresentado na Figura 20.20. Numerosos outros fatores influenciam a resposta terapêutica à varfarina. Estes fatores incluem alterações am­ bientais, dieta, estado físico e medicações. Pode ser necessário monitorara resposta do paciente mais amiude com mensuração do tempo de protrombina/INR se um ou mais dos fatores lista­ dos estão presentes. c. Doenças. Deficiência de vitamina K, doenças hepáticas que impedem a síntese dos fatores de coagulação ou afetam a bio­ transformação da varfarina e estados hipermetabólicos que au­ mentam o catabolismo dos fatores da coagulação dependentes de vitamina K podem influenciar o estado hipoprotrombinêmico do paciente e aumentar a resposta aos anticoagulantes orais. Outras doenças, como neoplasias, hiperlipidemia e hipotireoi­ dismo, também afetam a resposta do paciente à varfarina. d. Contraindicações. A varfarina nunca deve ser usada durante a gestação, pois ela é teratogênica e pode causar aborto, bem como defeitos no parto (Classificação do FDA na gestação: X). Se o tratamento anticoagulante é necessário durante a gesta­ ção, deve-se administrar hepari na ou HBMM. Farmacologia Ilustrada 257 Ácido acetilsslic11ico Inibição da aglutinação plaquetária Potenciali zação dos anticoagulantes Inibição da biotransformação da varfarina Intoxicação aguda porálcool Ci metidina Cloranfenicol Cotrimoxazo/ Dissu/firam Metronidazo/ Varfarina Consumo crônico deálcool Barbitúricos G/utetimida Griseofulvina Rifampicina Estimulação da biotransformação de varfarina Atenuação da anticoagulação Figura 20.20 Fármacos que afetam o efeito anticoa­ gulante da varfarina. Plasminogênio o � o � O -� Plasmina Produtos de Fibrina ----+) degradação dafibrina Figura 20.21 Ativação do plasminogênio pelos fár­ macos trombolíticos.
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    258 Clark, Finkel,Rey & Whalen A. ANTIGENICIDADE Altep/ase Estreptoquinase Uroquinase Baixa B. ESPECIFICIDADE DA FIBRINA Altep/ase Estreptoquinase Uroquinase Baixa C. MEIA-VIDA Altep/ase Estreptoquinase Uroquinase o 10 20 Minutos Figura 20.22 Alta Alta 30 Comparação entre enzimas trombolíti­ cas. tJPacientenãotratado Sangue Trombo Tampão hemostático m Pacientetratadocom ativadordeplasminogênio ) Sangue Trombo diminuído ) Sangramento Figura 20.23 Degradação de um trombo indesejado e um tampão hemostático útil pelos ati­ vadores de plasminogênio. VII. FÁRMACOSTROMBOLÍTICOS A doença tromboembólica aguda em determinados pacientes pode sertratada com a administração de fármacos que ativam a conversão de plasminogênio em plasmina- uma serina-protease que hidrolisafibrina e, assim, dissolve coá­ gulos (Figura 20.21). A estreptoquinase, um dos primeiros desses fármacos aprovados, causa um estado fibrinolítico sistêmico que pode levar a problemas de sangramento. O alteplase atua mais localizadamente na fibrina trombótica para produzirfibrinólise.A uroquinase é produzida naturalmente nos rins huma­ nos e converte diretamente plasminogênio em plasmina ativa. A Figura 20.22 compara os fármacos trombolíticos comumente usados. A experiência clínica mostrou eficáciasimilarentre estreptoquinase e alteplase. Infelizmente, otrata­ mento trombolítico é malsucedido em cerca de 20° / o das artérias infartadas, e cerca de 15° / o das artérias que são abertas tornam a fechar outravez. No caso de infarto agudo do miocárdio, os fármacos trombolíticos são reservados para as situações nas quais a angioplastia não é uma opção ou até que o paciente possa ser levado ao local que tenha condições de realizar intervenções coroná­ rias percutâneas. Os fibrinolíticos podem lisartrombos patológicos e normais. A. Características comuns dos fármacos trombolíticos 1 . Mecanismo de ação. Os trombolíticos apresentam algumas carac­ terísticas comuns.Todos atuam direta ou indiretamente convertendo plasminogênio em plasmina, que, então, hidrolisa a fibrina, lisando, assim, os trombos (ver Figura 20.21). A dissolução do coágulo e a reperfusão ocorrem com maior frequência quando o tratamento é iniciado logo após a formação do trombo, pois ele se torna mais resistente à lise à medida que envelhece. Infelizmente, um maior número de trombos pode ocorrer enquanto o trombo se dissolve, levando a uma maior agregação das plaquetas e trombose. Estraté­ gias para evitaressa situação incluem a administração de fármacos antiplaquetários, como oAAS, ou antitrombóticos, como a heparina. 2. Usos terapêuticos. Usados originalmente para o tratamento de trombose de veias profundas e embolismo pulmonar grave, os trom­ bolíticos hoje são usados menos frequentemente para essas condi­ ções. Sua tendência de causar hemorragias também comprometeu seu uso no tratamento do infarto agudo do miocárdio ou trombose arterial periférica. Contudo, os trombolíticos são úteis para restabe­ lecer a função de cateteres e anastomoses (shunts) lisando os coá­ gulos que causam a oclusão. Os trombolíticos também são usados para dissolver coágulos que resultam em acidente vascular encefá­ lico (AVE). 3. Farmacocinética. Para o infarto do miocárdio, a aplicação intraco­ ronariana do fármaco é a forma mais confiável em termos de obter a recanalização. Contudo, a cateterização cardíaca pode não ser possível nas 2 a 6 horas de "janela terapêutica", após as quais a re­ cuperação miocárdica significativa se torna menos provável. Assim, os trombolíticos, em geral, são administrados por via IV, pois essa via é rápida, barata e não tem os riscos da cateterização. 4. Efeitos adversos. Os trombolíticos não diferenciam entre a fibri­ na de um trombo indesejado e a fibrina de um tampão hemostáti­ co benéfico. Assim, a hemorragia é o principal efeito adverso. Por exemplo, uma lesão prévia insuspeita, como a úlcera péptica, pode sangrarapós a injeção de um trombolítico (Figura 20.23). Esses fár­ macos são contraindicados em pacientes com ferimentos em cica­ trização, gestação, história de AVE, tumor cerebral, traumatismo na cabeça, sangramento intracranial e câncer metastático. A presen-
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    ça contínua doestímulo trombogênico pode causar retrotrombose após a lise do coágulo inicial. B. Alteplase Alteplase(era conhecidacomo ativadordoplasminogênio tipo tecidualou APt) é uma serina-protease originalmente derivada de cultura de células de melanoma humano. Atualmente, ela é obtida como produto de tecno­ logia de DNA recombinante. 1 . Mecanismo de ação. A alteplase tem baixa afinidade pelo plasmi­ nogênio livre no plasma, mas ativa rapidamente o plasminogênio que está ligado à fibrina em um trombo ou um tampão hemostático. Assim, a alteplase é considerada ''fibrina seletiva" e, em doses bai­ xas, tem a vantagem de lisar apenas a fibrina, sem a indesejada degradação de outras proteínas - notadamente fibrinogênio. Isso contrasta com a estreptoquinase, que atua no plasminogênio livre e induz um estado fibrinolítico geral. (Nota: na dosagem de alteplase usada atualmente na clínica, o plasminogênio circulante pode ser ativado, resultando em hemorragia.) 2. Usos terapêuticos. A alteplase é aprovada para o tratamento de infarto do miocárdio, embolismo pulmonar massivo e choque isquê­ mico agudo. Ela parece superior à estreptoquinase em dissolver coá­ gulos antigos e pode ser aprovada para outras aplicações. A altep/a­ se, administrada dentro de três horas do início do AVE isquêmico, melhora significativamente o resultado clínico - ou seja, a habilidade do paciente de realizar as tarefas diárias (Figura 20.24). Reteplase (Retavase®) é similar ao alteplase e pode serusado como alternativa. 3. Farmacocinética. A alteplasetem uma meia-vida muito curta (de 5 a 30 minutos) e por isso é administrada como dose total de 0,9 mg/ kg, sendo 10° / o da dose total injetado por via IV como um bo/us, e o restante do fármaco é administrado durante 60 minutos. 4. Efeitos adversos. Podem ocorrer sangramentos, incluindo hemor- Farmacologia Ilustrada 259 Mínima ou nenhuma incapacidade A/teplase Incapacidade moderada 1 Incapacidade grave M�rte 13o/o 13% . . . · . .· . :' - - - - � ___,_ .. _ _ . Placebo 38º/o 16% 17% 28o/o Porcentagem dos pacientes Figura 20.24 Resultado, após 12 meses, dos pacien­ tes de choque tratados com alteplase dentro de 3 horas do iníciodos sintomas comparados aos tratados com placebo. Estreptoquinase Plasminogênio l .._ _ _ _ _ _ _ _ _ _. ) l Complexo plasminogênio-estreptoquínase JJ Plasminogênio o ) Plasmina JJ Fibrina o Produtos de degradação dafibrina ragias gastrintestinais e cerebrais. Figura 20.25 C. Estreptoquinase A estreptoquinase é uma proteína extracelular purificada de caldos de cultura de estreptococos (3-hemolíticos do grupo e. 1 . Mecanismo de ação. A estreptoquinase não tem atividade enzi­ mática; ao contrário, ela forma um complexo um-a-um ativo com o plasminogênio. Esse complexo enzimaticamente ativo converte o plasminogênio não complexado na enzima ativa plasmina (Figura 20.25). Além da hidrólise dos tampões de fibrina, o complexo tam­ bém catalisa a degradação do fibrinogênio, bem como dos Fatores V e VII de coagulação (Figura 20.26). 2. Usos terapêuticos. A estreptoquinase é aprovada para uso em em­ bolia pulmonaraguda, trombose de veias profundas, infarto agudodo miocárdio, trombose arterial e oclusão de acesso de anastomoses. 3. Farmacocinética. O tratamento com estreptoquinase é instituído dentro de quatro horas do infarto do miocárdio, sendo infundida du­ rante uma hora. Sua meia-vida é de menos de 30 minutos. O tempo de tromboplastina é monitorado e mantido entre 2 e 5 vezes o valor controle. Na interrupção dotratamento, heparina ou anticoagulantes orais podem ser administrados. Mecanismo de açãoda estreptoquinase. Fibrinogênio o Produtos de degradação dafibrina JJ Estado 1ítico Complexo plasminogênio­ -estreptoquínase Fibrina o Produtos de degradação da fibrina JJ Dissolução do coágulo Figura 20.26 A estreptoquinase degrada a fibrina e o fibrinogênio.
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    260 Clark, Finkel,Rey & Whalen 4. Efeitos adversos a. Hemorragias. A ativação do plasminogênio circulante pela es­ treptoquinase leva a níveis elevados de plasmina, o que pode desencadearsangramentos pela dissolução de tampões hemos­ táticos (ver Figura20.23). Nos raros casos de hemorragias amea­ çadoras à vida, deve ser administrado ácido aminocaproico. b. Hipersensibilidade. A estreptoquinase é uma proteína estra­ nha e é antigênica. Ocorre urticária, febre e raramente anafi­ laxia. Como a maioria dos indivíduos alguma vez teve infecção estreptocócica, anticorpos contra estreptoquinase provavelmen­ te estão presentes na maioria dos pacientes. Esses anticorpos podem combinar com a estreptoquinase e neutralizar suas propriedades fibrinolíticas. Portanto, quantidades suficientes de estreptoquinase devem ser administradas para superar os anticorpos e assegurar concentrações terapêuticas de plasmi­ na. Febre, reações alérgicas e fracasso terapêutico podem ser associados à presença de anticorpos antiestreptococos no pa­ ciente. A incidência de reações alérgicas é de cerca de 3° / o. D. Anistreplase (complexo ativador plasminogênio estreptoquinase anisoilado) O anistreplase é um complexo pré-formado de estreptoquinase e plas­ minogênio e é considerado um pró-fármaco. A estreptoquinase deve ser liberada e somente o plasminogênio ao qual estava associado será con­ vertido em plasmina. E. Uroquinase A uroquinase é produzida naturalmente no organismo pelos rins. A uro­ quinase terapêutica é isolada de células renais humanas e tem baixa antigenicidade. a. Mecanismo de ação. A uroquinase hidrolisa diretamente a liga­ ção arginina-valina do plasminogênio, formando plasmina. b. Uso terapêutico. A uroquinasesó está aprovada para a lise de êmbolos pulmonares. Usos extra-bula incluem o tratamento de infartos agudos do miocárdio, tromboembolismo arterial, trom­ bose artéria coronária e trombose de veias profundas. c. Farmacocinética. A uroquinase tem duração de ação curta e é rapidamente depurada pelo fígado (os rins são uma via de eli­ minação menor). Assim, a meia-vidada uroquinase no plasma é de 20 min aproximadamente. A meia-vida pode ser prolongada em pacientes com insuficiência hepática. d. Efeitos adversos. O efeito adverso registrado com maior fre­ quência é a hemorragia. Reações alérgicas ou anafiláticas tam­ bém têm sido registradas raramente. VIII. FÁRMACOS USADOS PARATRATAR HEMORRAGIAS Os problemas de sangramentos podem ter sua origem em condições patoló­ gicas de ocorrência natural, como a hemofilia, ou resultar de estados fibrino­ líticos que aparecem depois de cirurgia gastrintestinal ou prostatectomia. O uso de anticoagulantes também pode resultar em hemorragia. Certas proteí­ nas naturais e a vitamina K, bem como antagonistas sintéticos são eficazes
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    no controle dessessangramentos. Porexemplo, a hemofilia é a consequência de uma deficiência de fatores de coagulação plasmáticos, mais frequente­ mente os Fatores VI11 e IX. Preparações concentradas desses fatores estão disponíveis a partir de doadores humanos. Contudo, essas preparações têm o risco de transferirem infecções virais. A transfusão de sangue também é uma opção para o tratamento das hemorragias graves. , A. Acido aminocaproico e ácido tranexâmico Os estados fibrinolíticos podem ser controlados pela administração do ácido aminocaproico ou ácido tranexâmico. Ambos são fármacos sinté­ ticos, ativos por via oral, são excretados na urina e inibem a ativação do plasminogênio. O ácido tranexâmico é dez vezes mais potente do que o ácido aminocaproico. O efeito adverso potencial étrombose intravascular. B. Sulfato de protamina O sulfato de protamina antagoniza o efeito anticoagulante da heparina. Essa proteína é derivada do esperma ou dos testículos de peixes e é rica em arginina, o que explica o caráter básico. A protamina de cargas po­ sitivas interage com a heparina de cargas negativas, formando um com­ plexo estável sem atividade anticoagulante. Os efeitos adversos da admi­ nistração da protamina incluem hipersensibilidade, bem como dispneia, rubor, bradicardia e hipotensão, quando injetada rapidamente. C. Vitamina K Que a administração de fitonadiona (vitamina K1) pode controlar sangra­ mentos decorrentes de anticoagulantes orais não causa surpresa, pois essas substâncias atuam interferindo com a ação da vitamina (ver Figura 20.19). A resposta à vitamina K é lenta, requerendo cerca de 24 horas (tempo para sintetizar novos fatores de coagulação). Assim, se for neces­ sária hemostasia imediata, deve sertransfundido plasma congeladofresco. D. Aprotinina A aprotinina é um inibidor serina-protease que interrompe sangramen­ tos pelo bloqueio da plasmina. Ela pode inibir a estreptoquinase. A apro­ tina tem permissão de uso em investigação limitado em pacientes sob risco de perdas de sangue e transfusão durante colocação de pontes e implantes em artérias coronárias, se não houver outras alternativas. A aprotinina pode causar disfunção renal e reações de hipersensibilidade (anafiláticas). Além disso, a aprotinina não deve ser administrada a pa­ cientes que foram expostos a este fármaco nos 12 meses prévios, devido à possibilidade de reações anafiláticas. IX. FÁRMACOS USADOS PARATRATAR ANEMIA A anemia é definida como a concentração plasmática de hemoglobinaabaixo do normal, resultante de uma diminuição do número de eritrócitos circulantes ou de um conteúdo anormalmente baixo de hemoglobinatotal por unidade de volume de sangue. A anemia pode ser causada por perda crônica de sangue, anormalidades da medula óssea, aumento da hemólise, infecções, tumores, deficiências endócrinas, insuficiência renal e inúmeras outras doenças. A anemia pode ser corrigida, ao menos temporariamente, pela transfusão de sangue total. Um grande número de fármacos causa efeitos tóxicos nas célu­ las sanguíneas, na produção de hemoglobina ou nos órgãos eritropoiéticos, o que pode causar anemia. Além disso, anemias nutricionais são causadas por deficiências de substâncias como ferro, ácido fálico e cianocobalamina (vitamina 812) que são necessárias para a eritropoiese normal. Farmacologia Ilustrada 261
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    262 Clark, Finkel,Rey & Whalen TRATAMENTO MEDICAMENTOSO •Tratamento com fármacos quesão inibidores da di-hidrofolato-redutase. MÁABSORÇÃO • Patologia do intestino delgado. • Alcoolismo. DEFICIÊNCIASNADIETA • Durantea gestação. • Durantea lactação. � DEFICIÊNCIA DE FOLATO Biossíntese de aminoácidos Síntesede purinas Síntesede pirimidinas Síntese de DNAe RNA Anemia megaloblástica Figura 20.27 Causas e consequências da falta de ácido fálico. A. Ferro O ferro é armazenado nas células da mucosa intestinal comoferritina (um complexo ferroproteína) até que ele seja necessário para o organismo. A deficiência de ferro resulta de perdas de sangue agudas ou crônicas, da ingestão insuficiente durante períodos de crescimento rápido em crian­ ças ou em mulheres grávidas ou com menstruação intensa. Assim, a defi­ ciência de ferro resulta de um equilíbrio negativo decorrente da perda dos estoques de ferro e/ou da ingestão inadequada, culminando em anemia microcítica hipocrômica (eritrócitos de tamanho pequeno e com pouco ferro). A suplementação de sulfato ferroso é necessária para corrigir a deficiência. Distúrbios gastrintestinais causados por irritação local são os efeitos adversos mais comuns da suplementação de ferro, quando po­ dem ser usadas formulações parenterais de ferro, como o ferrodextrano. B. Ácido fólico (folato) O uso primário do ácido fólicoéo tratamento de estadosdeficitários que se originam da ingestão inadequada da vitamina. A deficiência de folato pode ser causada por: 1) aumento da demanda (p. ex., gestação e lactação); 2) baixa absorção causada por patologia do intestino delgado; 3) alcoolismo ou 4) tratamento com fármacos que são inibidores da di-hidrofolato-redu­ tase (p. ex., metotrexato, pirimetamina e trimetoprima) em cujo caso deve ser usada a forma reduzida ou ativa da vitamina (ácido folínico, também denominado leucovorin cálcico). O resultado primárioda deficiência de áci­ do fólico é a anemia megaloblástica (eritrócitos de grande tamanho), que é causada pela diminuição da síntese de purinas e pirimidinas. Isso leva à incapacidade do tecido eritropoiético de produzir DNA e, dessa forma, proliferar (Figura 20.27). (Nota: para evitar complicações neurológicas da deficiência de vitamina 812, é importante avaliara base da anemia megalo­ blástica antes de instituir o tratamento.Tanto a deficiência de vitamina 812 como a de to/ato podem causar sintomas similares [ver adiante].) O ácido fó lico é bem absorvido no jejuno, a menos que esteja presente alguma patologia. Se quantidades excessivas da vitamina são ingeridas, elas são excretadas na urina e nas fezes. O ácido fólico administrado por via oral não é tóxico. Não foram registrados efeitos adversos substanciais além de raras reações de hipersensibilidade na injeção parenteral. C. Cianocobalamina (vitamina 812) Deficiências de cianocobalamina podem resultar de baixa oferta na dieta ou, mais comum, de má absorção da vitamina devido à insuficiência das células parietais gástricas de produzir fator intrínseco (como na anemia perniciosa) ou à perda da atividade do receptor necessária para a absor­ ção intestinal da vitamina. O fator intrínseco é uma glicoproteína produ­ zida pelas células parietais do estômago e é necessário para absorção da vitamina 812• Pacientes com cirurgia bariátrica (tratamento cirúrgico GI contra obesidade) necessitam de suplementação de vitamina 812 em dose elevada por via oral, sublingual ou, uma vez por mês, por via pa­ renteral. Síndromes de má absorção inespecífica ou ressecção gástri­ ca também podem causar deficiências de cianocobalamina. A vitamina pode ser administrada oralmente (nas deficiências nutricionais) ou por via IM ou SC profunda (contra a anemia perniciosa). (Nota: a administra­ ção somente de ácido fólico reverte as anormalidades hematológicas e, assim, mascara as deficiências de cianocobalamina, a qual pode, então, evoluir para grave disfunção e doença neurológica. A causa da anemia megaloblástica precisa ser determinada para ser específica em termos de tratamento. Dessaforma, a anemia megaloblástica não deve ser trata­ da apenas com ácido fólico, mas com a associação de to/ato e vitamina 812.) O tratamento deve continuar portodaa vida do paciente se ele sofre
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    de anemia perniciosa.Esta vitamina não é tóxica, mesmo em grandes dosagens. Raramente são registrados cefaleia, nauseas, êmese e rinite com a administração intranasal. D. Eritropoietina e darbepoetina A eritropoieti na é uma GP, normalmente produzida nos rins, que regula a proliferação dos eritrócitos e sua diferenciação na medula óssea. A eritro­ poietina humana, produzida pela técnica de DNA recombinante, é eficaz no tratamento da anemia causada pelo estágio terminal da doença renal, anemia associada com a infecção pelo vírus da imunodeficiência adqui­ rida e anemia em alguns pacientes com câncer. A darbepoetina é uma versão de longaação da eritropoietina da qual difere pela adição de duas cadeias de carboidratos que melhoram sua atividade biológica. Assim, a darbepoeti na tem menor depuração e meia-vida cerca de três vezes a da eritropoietina. Devido ao início de ação demorado, a darbepoetina não tem valor no tratamento agudo da anemia. A suplementação com ferro pode ser necessária para assegurar uma resposta adequada. A proteína em geral é administrada por via IV nos pacientes de diálise renal, mas a via SC é preferida. Os efeitos adversos em geral são bem tolerados e podem incluir aumento da pressão arterial e artralgia em alguns casos. (Nota: o aumento da pressão arterial pode ser devida ao aumento da resistência vascular periférica e/ou à viscosidade sanguínea.) Quando a eritropoietina é usada para obterconcentração de hemoglobina maior de 12 g/dl, são observados eventos cardiovasculares graves (como trom­ bose e hipertensão grave), aumento do risco de morte, redução do tem­ po de progressão de tumor e diminuição da sobrevida. A recomendação para todos os pacientes que recebem eritropoietina é usar a menor do­ sagem eficaz que não exceda um nível de hemoglobina de 12 g/dl e não deve subir mais que 1 g/dl no período de 2 semanas. , X. FARMACOS USADOS PARATRATAR A ANEMIA FALCIFORME A. Hidroxiureia Triagens clínicas mostraram que a hidroxiureia pode aliviar o curso dolo­ roso da anemia falciforme (Figura 20.28). A hidroxiureia também é usada atualmente para tratar a leucemia mielógena crônica e a policitemia vera. Na anemia falciforme, o fármaco aparentemente aumenta os níveis de hemoglobina fetal, diluindo, assim, a hemoglobina anormal (HbS). Esse processo demora vários meses. A polimerização da HbS é retardada nos pacientes tratados, de forma que a crise dolorosa provocada pela obstru­ ção dos capilares e anoxia tissulardeixa de sercausada pelaanemia falci­ forme. Efeitos adversos da hidroxiureia incluem supressão da medula ós- , sea evasculite cutânea. E importante que a hidroxiureia seja administrada sob supervisão de clínico experiente no tratamento da anemia falciforme. B. Pentoxifilina A pentoxifilina é um derivado da metilxantina denominado "modificador reológico". Ela aumenta a deformabilidade dos eritrócitos (aumenta a fle­ xibilidade dos eritrócitos) e diminui a viscosidade do sangue. Isso diminui a resistência vascular sistêmica total, melhora o fluxo de sangue e au­ menta a oxigenação tissular em pacientes com doença vascular periféri­ ca. A pentoxifilina é indicada no tratamento da claudicação intermitente onde pode, modestamente, controlar a função e os sintomas. Os usos extra-bula incluem a melhoria nos sintomas psicopatológicos em pacien­ tes com insuficiência cerebrovascular. Ela foi estudada nas angiopatias Farmacologia Ilustrada 263 Em 12 meses,75o/o dos pacientes tratados tiveram episódios de dor, comparados com 90%dos pacientes do grupo placebo. o 100 "O e s e o 8l cn QI e ... o ca. - m o cn "O QI o .. ·- C "O 50 QI o() ·- cn u .- m ca. CI. QI QI e "O · - E GI GI .E CI ._ s CI. e o � o o o 12 11. Meses Figura 20.28 24 Efeito do tratamento com hidroxiureia na porcentagem de pacientes de ane­ mia falciforme que apresentam o pri­ meiro episódio doloroso.
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    264 Clark, Finkel,Rey & Whalen diabéticas, ataques isquêmicos transitórios, úlceras nas pernas, anemia falciforme, infartos e fenômeno de Raynaud. Está disponível em compri­ midos de liberação controlada ou prolongada e é tomada como um com­ primido três vezes por dia com o alimento. Questões para estudo Escolha a resposta correta. 20.1 Uma mulher de 22 anos que apresenta dor e inchaço na perna direita deu entrada na emergência. A ultrassono­ grafia mostrou trombose na veia poplítea. A paciente, que estava no segundo trimestre de gestação, foi tratada du­ rante sete dias com heparina não fracionada por via IV. A dor sumiu durante o tratamento, e a paciente recebeu alta no 8º dia. Qual dos seguintes fármacos para o tratamento domiciliar seria o mais apropriado para essa paciente que mora a cerca de 160 km do hospital mais próximo? A. Varfarina B. Ácido acetilsalicílico (AAS) C. Alteplase D. Heparina não fracionada E. Heparina de baixa massa molecular (HBMM) 20.2 Um homem de 60 anos é diagnosticado com trombose de veia profunda. O paciente foi tratado com um bolus de heparina e foi iniciada venóclise com heparina. Uma hora depois, ele estava sangrando profusamente no local da infusão IV. O uso da heparina foi suspenso, mas o sangra­ mento continuou. Foi administrado protamina porvia IV e o sangramento parou. A protamina: A. Degradou a heparina. B. lnativou a antitrombina. C. Ativou a cascata da coagulação. D. Ativou o ativador de plasminogênio tecidual. E. Combinou-se ionicamente com a heparina. 20.3 Um homem de 54 anos com prótese de válvula aórtica queixou-se ao seu médico de família de fezes escuras e pastosas. O exame físico e os sinais vitais não apresen­ tavam alterações significativas, exceto pelas hemorragias subconjuntivais e as gengivas sangrantes. As fezes foram positivas para heme, e observou-se hematúria. O paciente estava sendo tratado com varfarina por via oral desde a colocação da válvula há um ano. O tempo de protrombina está significativamente elevado. Qual dos seguintes trata­ mentos assegura a mais rápida recuperação dos sangra­ mentos secundários ao tratamento com varfarina? A. Vitamina K por via IV. B. Transfusão de plasma congelado fresco. C. Protamina por via IV. D. Suspensão imediata do tratamento com varfarina. E. Administração IV de anticorpos antivarfarina. Resposta correta = E. A HBMM tem resposta confiável e pode ser administrada por via se em pacientes selecionados que recebem treinamento na técnica de injeção.A HBMM não atravessa a placen­ ta e não apresenta efeitos teratogênicos. Ao contrário, a varfarina é teratogênica e contraindicada em gestantes. O AAS, que inibe a aglutinaçãoplaquetária, tem pouco efeito natrombose venosa, que é compostadefibrinacom apenas poucas plaquetas.A alteplase nãoé indicada paratrombose de veias profundas. Respostacorreta = E. O sangramento excessivo pode ser controlado com a interrupção daadministração daheparina ecom usode sulfato de protamina. Infundida lentamente, a protamina combina-se ionica­ mente com a heparina, formando um complexo inativo e estável. Os outros efeitos listados não sãodo sulfato de protamina. Resposta correta= B. Sangue total, plasma congelado ou concentra­ do plasmático dos fatores sanguíneos podem ser empregados para deterahemorragiarapidamente. Pequenos sangramentos são contro­ lados com a suspensão davarfarina e a administração de fitonadiona por via oral; todavia, sangramentos graves exigem doses maiores da vitamina administrada por via IV. Contudo, a reversão pela adminis­ tração de vitamina K demora cercade 24 horas. A protamina é usada para neutralizar a dosagem excessiva de heparina, e não a de varfa­ rina. A suspensão imediata da varfarina não terá um efeito imediato, pois os efeitos anticoagulantes davarfarina duram entre 5 e 7 dias.
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    , ar acos • ..A.• 1 e ICOS 1. RESUMO A doença cardíaca coronariana (DCC) é a causa de cerca da metade de to­ das as mortes nos Estados Unidos. A incidência de DCC está relacionada com níveis elevados da lipoproteína de baixa densidade (LDL) colesterol e triacilgliceróis e com níveis baixos de lipoproteína de alta densidade (HDL) colesterol. Outros fatores de risco para DCC incluem o fumo, a hipertensão, a obesidade e o diabetes. Os níveis de colesterol podem estar elevados como resultado do estilo de vida do indivíduo (p. ex., por falta de exercícios físicos e pelo consumo de uma dieta rica em ácidos graxos saturados). As hiperli­ pemias também podem resultar de um simples defeito genético que compro­ mete o metabolismo das lipoproteínas ou, mais comumente, de uma combi­ nação de fatores genéticos e estilo de vida. Alterações adequadas no estilo de vida associadas ao tratamento farmacológico podem levar ao declínio da progressão das placas coronarianas, à regressão de lesões preexistentes e à redução da mortalidade decorrente de DCC em 30 a 40° / o. Os fármacos anti­ -hiperlipêmicos precisam ser utilizados por tempo indefinido porquê, quando o tratamento é interrompido, os níveis plasmáticos de lipídeos retornam aos valores pré-tratamento. Esses fármacos estão listados na Figura 21 .1. A Fi­ gura 21.2 ilustra o metabolismo normal das lipoproteínas plasmáticas e as características das principais hiperlipemias genéticas. li. OBJETIVOS DOTRATAMENTO Os lipídeos plasmáticos consistem principalmente em lipoproteínas - comple­ xos macromoleculares esféricos de lipídeos e proteínas específicas (apolipo­ -proteínas). As lipoproteínas clinicamente importantes, listadas em ordem de­ crescente de aterogenicidade, são LDL, lipoproteína de densidade muito baixa (VLDL), quilomícrons e HDL. A ocorrência de DCC está associada de forma positiva ao alto colesterol total no sangue e, ainda mais fortemente, ao LDL colesterol elevado. Contrastando com o LDL colesterol, altos níveis de HDL colesterol estão associados a um menor risco de doenças cardíacas (Figura 21 .3). A diminuição do nível de LDL é o objetivo principal do tratamento de re- INIBIDORESDAHMG-COA(ESTATINAS) Atorvastatina Fluvastatina Lovastati na Pitavastatina Pravastatina Rosuvastatina Sinvastati na FIBRATOS Genfibrozila Fenofibrato NIACINA Ni aci na INIBIDORESDAABSORÇÃODO COLESTEROL Ezetimiba SEQUESTRANTESDEÁCIDOSBILIARES Co/esevelam Co/estipol Co/estiramina ÁCIDOSGRAXOSÔMEGA-3 , Acidas docoexaenoico e eicosapentaenoico Figura 21.1 Resumo dos fármacos anti-hiperlipê­ micos. HMG = 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzima A.
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    266 Clark, Finkel,Rey & Whalen INTESTINO DELGADO Quilomícron nascente FÍGADO I.____-> Quilomícron A mucosa intestinal secretaquilomícrons ricos emTG (produzidos principalmente a partirde lipídeos da dieta); ofígado secreta partículas deVLDL ricas emTG. VLDL Legenda:Proteína Fosfollpídeo Triacllgllceróis Colesterol eésteres decolesterlla TECIDOS, (P. EX.,OADIPOSO) VLDL CAPILARES Figura 21.2 Os quilomícrons remanescentes 1! 1 1 1 11. ;:::: ..... se ligam a receptores específicos nofígado, ondesofrem endocitose. As LDLsse ligam a receptores específicos nostecidos extra- -hepáticose nofígado, onde sofrem endocitose. Quilomícron remanescente Lipoproteína lipase Lipase lipoproteica extracelular, ativadaporapo Cll,degradaTG emquilomícron eVLDL. Ácidos graxos livres Metabolismo das lipoproteínas plasmáticas e doenças genéticas relacionadas. Os algarismos romanos nos círculos brancos se referem a tipos genéticos específicos de hiperlipidemias resumidos na página seguinte. CM = quilomícrons, TG = triacilglicerol; VLDL = lipoproteína de densidade muito baixa; LDL = lipoproteína de baixa densidade; IDL = lipopro­ teína de densidade intermediária; apo Cll = apolipoproteína Cll encontrada nos quilomícrons e naVLDL. (Continua na próxima página.)
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    Farmacologia Ilustrada 267 Tipo1 (HIPERQUILOMICRONEMIA FAMILIAR) • Hiperquilomicronemia massivaemjejum, mesmo após ingestão normal degorduras nadieta, resultando em grandeelevação nos níveis plasmáticos deTG. • Deficiência de lipoproteína lipaseou deapolipoproteína Cll normal (raro). Quilomícron • OTipo 1 nãoestáassociado a aumento de doenças coronarianas cardíacas. •Tratamento: dieta pobre em gorduras. Nenhumtratamentofarmacológico éeficazcontra hiperlipidemiaTipo 1. Tipo llA (HIPERCOLESTEROLEMIA FAMILIAR) • LDL elevada com níveis normais deVLDL devido a um bloqueio nadegradação da LDL. Isso resulta no aumento do colesterol plasmático, masem níveis normais deTG. • Causada pordefeitos nasíntese ou no processamento dos receptores de LDL. • Grande aceleração de doenças cardíacas isquêmicas. •Tratamento: dieta. Heterozigotos: colestiraminae niacinaou uma estatina. Tipo 118 (HIPERLIPIDEMIA FAMILIAR COMBINADA [MISTA]) • Semelhante aoTipo llA, exceto pelo fato de os níveis deVLDLtambémestarem aumentados, resultandoem aumento dos níveis plasmáticos deTG ede colesterol. •A causa é a produção excessivadeVLDL pelofígado. • Relativamente comum. •Tratamento: dieta.Tratamentofarmacológico semelhante ao doTipo llA. Tipo Ili (DISBETALIPOPROTEINEMIA FAMILIAR) • Concentraçõesséricas de IDL aumentadas, resultando em aumento dos níveis deTG ecolesterol. • A causaé a produção excessiva ou a pouca utilização de IDL devido à apolipoproteína E mutante. • Nos pacientes de meia idade desenvolvem-sexantomas edoenças vasculares aceleradas. •Tratamento: dieta. Otratamentofarmacológico inclui niacinae fenofibratoou uma estatina. Tipo IV (HIPERTRIGLICERIDEMIA FAMILIAR) • Os níveis deVLDL estão aumentados, ao passo queos de LDL estão normais ou diminuídos, resultando em níveis normais ou elevados de colesterol e níveis muitoelevados deTG circulante. • A causaé a produção excessivae/ou a diminuição da remoção deTG daVLDL do soro. • Éumadoença relativamente comum.Apresenta poucas manifestações clínicas além da aceleração de doença cardíaca isquêmica. Pacientes portadores desse distúrbio frequentementesão obesos, diabéticose hiperuricêmicos. •Tratamento: dieta. Se necessário,o tratamentofarmacológico inclui ni acinae/ou fenofibrato. Tipo V (HIPERTRIGLICERIDEMIA FAMILIAR MISTA) • Níveis séricos deVLDL e quilomícrons elevados. LDL normal ou reduzida. Isso resulta naelevação dos níveis de colesterol e na grande elevação dos deTG. •A causaé o aumento na produção ou a redução nadepuração daVLDL e dos quilomícrons. Em geral, é um defeito genético. • Ocorre mais comumenteem adultos obesose/ou diabéticos. •Tratamento: dieta. Se necessário,o tratamentofarmacológico inclui ni acinae/ou fenofibratoou umaestatina. Figura 21.2 (Continuação) VLDL VLDL Quilomícron VLDL
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    268 Clark, Finkel,Rey & Whalen 3,0 o 8 cu 2,0 "CI 8 .!!! a: 1,0 Figura 21.3 LDLelevadae HDL baixa sãofatores de risco para DCC. Efeito da LDL e da HDL circulantes sobre o risco de doença cardíaca co­ ronariana (DCC). LDL = lipoproteína de baixa densidade; HDL = lipoproteínade alta densidade. Colesterol total 30 60 Colesterol de LDL -dução do colesterol. A Figura 21.4 mostra os objetivos atuais do tratamento da hiperlipidemia. As recomendações para a redução do LDL colesterol para níveis específicos são influenciadas pela coexistência de DCC e pelo número de outros fatores de risco cardíaco. Quanto maior o risco geral de doença car­ díaca, mais enérgico é o tratamento recomendado para reduzir a LDL. A. Opções de tratamento contra a hipercolesterolemia Em pacientes com hiperlipemia moderada, alterações do estilo de vida, como dieta, prática de exercícios e redução da massa corporal, podem le­ vara uma modesta redução nos níveis de LDLe no aumento nos níveis de HDL. No entanto, a maioria dos pacientes não está disposta a alterarseus hábitos de modosuficiente, a fim de alcançaro objetivo, sendo necessário tratamentofarmacológico. Pacientes com níveis de LDLacima de 160 mg/ dL, apresentando mais um fator de risco importante, como hipertensão, diabetes, fumo ou história familiar de DCC, são candidatos ao tratamento farmacológico. Pacientes com dois ou mais fatores de risco adicionais de­ vem receber tratamento enérgico, visando a reduzir o nível de LDL para menos do que 100 mg/ dL e, em alguns pacientes, até 70 mg/mL. B. Opções de tratamento contra a hipertriacilglicerolemia Níveis elevados de triacilglicerol (triglicéride) estão independentemente associados a um maior risco de DCC. Dieta e exercícios físicos são as principais formas de combater a hipertriacilglicerolemia. Se indicados, niacina e derivados do ácido fíbri co são os mais eficazes na redução dos níveis de triacilglicerol. A redução do triacilglicerol é um benefício secun­ dário das estatinas (o benefício primário é a redução do colesterol LDL). (Nota: o principal componente doVLDL é constituído de triacilglicerol.) Ili. FÁRMACOS QUE REDUZEM A CONCENTRAÇÃO DE LIPOPROTEÍNAS SÉRICAS 1 100 Os fármacos anti-hiperlipêmicos combatem o problema dos altos níveis de lipídeos séricos por meio de estratégias complementares. Alguns desses 200 t Desejável . Limite • . . 1 130 160 200 130 160 t t 240 l • . • • • 1 230 li 1 M í h ii· > 1 1 1 260 1 300 Desejável � Limite • • • • 30 Colesterol de HDL Figura 21.4 35 §�l�·l1�!J.·dLimite 1 1 1 30 60 60 � Desejável 1 1 1 1 60 1 1 100 130 160 200 230 260 300 1 1 � 100 130 160 200 230 Lipoproteína plasmática (mg/dL) Níveis de lipoproteína a serem alcançados por meio de dieta ou tratamento farmacológico para prevenção de doença cardíaca coronariana. (Nota: níveis mais baixos de colesterol total e de colesterol LDLsão recomendados para pacientes com histórico de doença cardíaca.)
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    fármacos reduzem aprodução de lipoproteínastransportadoras de coleste­ rol e triglicérides, e outros aumentam a degradação da lipoproteína. Outros ainda reduzem a absorção de colesterol ou aumentam diretamente a sua remoçãodo organismo. Esses fármacos podem ser usados individualmente ou associados. Entretanto, os fármacos anti-hiperlipêmicos sempre devem ser associados a uma baixa ingestão de gorduras saturadas e gorduras trans, e o conteúdo calórico da dieta deve ser monitorado. A. Inibidores da HMG CoA redutase Os inibidores da 3-hidroxi-3-metilglutaril (HMG) coenzima A (CoA) re­ dutase (mais conhecidos como estatinas) reduzem os níveis elevados de colesterol de LDL, resultando em redução substancial de eventos coronarianos e de morte por DCC. Esse grupo de fármacos anti-hiper­ lipêmicos inibe o primeiro passo da síntese do colesterol, que envolve ação enzimática, constituindo o tratamento de primeira escolha e o mais eficaz para pacientes com colesterol LDL elevado. Os benefícios tera­ pêuticos incluem estabilização das placas, melhora da função endotelial coronariana, inibição da formação do trombo plaquetário e atividade anti­ -inflamatória. A vantagem de reduzir o nível de colesterol com o uso das estatinas já foi demonstrada em: 1) pacientes portadores de DCC com ou sem hiperlipemia; 2) homens com hiperlipemia não acompanhada de DCC e 3) homens e mulheres com níveis médios de colesterol total e de LDL sem diagnóstico de DCC. 1 . Mecanismos de ação a. Inibição da HMG CoA redutase. Lovastatina, sinvastatina, pra­ vastatina, atorvastatina, fluvastatina, pitavastatina e rosuvasta- SANGUE Receptorde LDL t ) MEMBRANA PLASMÁTICA XXXXXXX)( DNA o RNAm 1-- Ribossomo LDL ) O baixo colesterol intracelular estimula a síntese de receptores de LDL. Colesterol ,4- , ' ,4- , ' Ácido mevalônico Farmacologia Ilustrada 269 Oaumento do número de receptores de LDL promove aabsorção da LDLdosangue. VLDL � - - 1 ' . ......------.......,.,/,.....,:----� ' ' ' ' ' ' ' ' ' WLDL CoA <-, : ,-> 2NADPH+ 2H• O baixo colesterol intracelulardiminui a secreção deVLDL. RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO Figura 21.5 As estatinas inibem a HMG CoA redutase, levando à diminuição daconcentração de colesterol no interior da célula. " ' ;• "'---. , !O<"'""'"" Inibidores da HMG CoA redutase • " ' ' ' ' : - 2NADP• HMGCoA ...: ...: Acetato Inibição da HMG CoA redutase pelas estatinas. HMG CoA = 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzima A; LDL = lipoproteína de baixa densidade;VLDL = lipoproteína de densidade muito baixa.
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    270 Clark, Finkel,Rey & Whalen - 20 m ::::1 - i 2 � o e. o 1m !d' -20 ! C( -40 -36 LDL Figura 21.6 16 HDL O Placebo • Sinvastatina (BO mg) -33 TG Efeito da sinvastati na sobre os lipídeos séricos de 130 pacientes portadores de diabetes Tipo 2, tratados durante seis semanas. HDL = lipoproteína de alta densidade; LDL = lipoproteína de baixa densidade;TG = triacilglicerol. tina são análogos do HMG, o precursor do colesterol. A /ovas­ tatina e a sinvastatina são lactonas que são hidrolisadas em fármaco ativo. A pravastatina e a fluvastati na são ativas como tal. Devido à sua grande afinidade pelaenzima, todas competem efetivamente para inibir a HMG CoA redutase, a etapa limitante da síntese do colesterol. Inibindo a síntese de novo do coleste­ rol, elas esgotam o seu suprimento intracelular (Figura 21 .5). Pi­ tavastatina, rosuvastatina e atorvastati na são as estatinas mais potentes na redução do colesterol LDL, seguidas por sinvastati­ na e pravastatina e, então, lovastatina e f/uvastatina. b. Aumento nos receptores de LDL. O esgotamento do coles­ terol intracelular leva a célula a aumentar na superfície o nú­ mero de receptores específicos de LDL que podem ligar o LDL circulante e internalizá-lo. Assim, o resultado final é a redução do colesterol plasmático, tanto pela diminuição de sua síntese como pelo aumento do catabolismo do LDL. (Nota: como esses fármacos sofrem acentuada extração de primeira passagem no fígado, seu efeito dominante se dá nesse órgão.) Os inibidores da HMG CoA redutase, como a colestiramina que sequestra ácidos biliares, podem aumentaros níveis de HDL no plasma de alguns pacientes, resultando em redução adicional no risco de DCC.Também ocorre redução dos triglicérides. 2. Usos terapêuticos. Esses fármacos são eficazes na redução dos níveis plasmáticos de colesterol em todos os tipos de hiperlipidemias (Figura 21.6). No entanto, pacientes homozigotos para hipercoleste­ rolemia familiar não têm receptores de LDL e, dessa forma, se bene­ ficiam muito menos dotratamento com esses fármacos. (Nota: esses fármacos frequentemente são administrados em associação a outros fármacos anti-hiperlipidêmicos; ver a seguir.) Note que cerca de um quarto dos pacientes tratados com esses fármacos ainda apresenta eventos coronarianos, apesarda proteção obtida pela reduçãodo co­ lesterol. Assim, estratégias adicionais, como dieta e prática de exercí­ cios, ou fármacos adicionais podem ser justificados. 3. Farmacocinética. A pravastati na e a f/uvastati na são quase com­ pletamente absorvidas após a administração via oral; 30 a 50° / o Característica Atorvastatina Fluvastatlna Lovastatlna Pravastatina Rosuvastatlna Slnvastatlna Redução decolesterol de LDL sérico produzido (0/o) Redução detriacilglicerol sérico produzido (%) Aumento de colesterol de HDL sérico produzido (0/o) Meia-vida plasmática (horas) Penetração no sistema nervoso central Excreção renal da doseabsorvida (0/o) Figura 21.7 50 24 29 10 6 8 14 1 a2 Não Não 2 < 6 34 34 50 41 16 24 18 18 9 12 8 12 2 1 a2 19 1 a2 Sim Não Não Sim 10 20 10 13 Resumo dos inibidores da 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzimaA (HMG-CoA) redutase. HDL= lipoproteína de alta densida­ de; LDL = lipoproteína de baixa densidade.
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    das doses oraisde /ovastati na e sinvastatina são absorvidas. A pra­ vastatina e a f/uvastatina são ativas nas suas formas originais, e a lovastatina e a sinvastatina necessitam ser hidrolisadas a suas formas ácidas. Todos são biotransformados, havendo manutenção da atividade em alguns dos metabólitos. A excreção ocorre princi­ palmente pela bile e pelas fezes, mas também ocorre alguma elimi­ nação urinária. Suas meias-vidas variam de 1 ,5 a 2 horas. Algumas características das estatinas estão resumidas na Figura 21 .7. , 4. Efeitos adversos. E notável que, durante a triagem da sinvastatina e da /ovastatina por cinco anos, foram relatados poucos efeitos ad­ versos, relacionados às funções hepática e muscular (Figura 21 .8). a. Fígado. Anormalidades bioquímicas na função hepática ocor­ reram com o uso de inibidores da HMG CoA redutase. Assim, é prudente avaliar a função hepática e mensurar periodicamente os níveis plasmáticos de transaminase. Eles retornam ao nor­ mal com a suspensão do fármaco. (Nota: a insuficiência hepáti­ ca pode causar acúmulo do fármaco.) b. Músculo. Raramente foram relatadas miopatia e rabdomiólise (desintegração ou dissolução do músculo). Na maioria desses casos, os pacientes sofriam de insuficiência renal ou estavam recebendo ciclosporina, itraconazo/, eritromicina, genfibrozila ou niacina. Os níveis plasmáticos de creatinaquinase devem ser avaliados regularmente. c. Interações farmacológicas. Os inibidores da HMG CoA redu­ tase podem aumentar os níveis de varfarina. Dessa forma, é importante avaliar frequentemente a relação normalizada inter­ nacional (INR). d. Contraindicações. Essesfármacos são contraindicados duran­ te a gravidez e a lactação. Eles não devem ser utilizados em crianças e adolescentes. B. Niacina (ácido nicotínico) A niacina pode reduzir os níveis de LDL (o transportador do "mau" coles­ terol) em 1O a 20° / o e é o fármaco mais eficaz para aumentar os níveis de HDL (o transportador do "bom" colesterol). A niacina pode ser usada em combinação com as estatinas, estando disponível umaassociação de dose fixa de lovastatina e niacina de longa duração de ação. 1. Mecanismo de ação. Com doses na faixa de gramas, a niaci na ini­ be fortemente a lipólise no tecido adiposo -o principal produtor dos ácidos graxos livres circulantes. O fígado normalmente utiliza esses ácidos graxos livres como principais precursores na síntese do tria­ cilglicerol. Dessa forma, a redução na concentração de VLDL tam­ bém resulta na redução daconcentração plasmática de LDL. Assim, tanto o triacilglicerol (no VLDL) quanto o colesterol plasmáticos (no VLDL e no LDL) são reduzidos (Figura 21 .1O). Além disso, o trata­ mento com niacina aumenta os níveis de colesterol HDL. A niacina também pode reverter algumas disfunções das células endoteliais que contribuem para a trombose associada à hipercolesterolemia e à aterosclerose, acentuando a secreção de ativadordo plasminogê­ nio tecidual e reduzindo o nível de fibrinogênio no plasma. 2. Usos terapêuticos. A niacina reduz os níveis plasmáticos de coles­ terol ede triacilglicerol. Dessaforma, ela é particularmente útil notra­ tamento das hiperlipidemias familiares. A niacina também é utilizada Farmacologia Ilustrada 271 y-=� Figura 21.8 1nsuficiência hepática Miopatia Contraindicado duranteagravidez Alguns efeitos adversos dos inibidores da 3-hidroxi-3-metilglutaril coenzima A (HMG CoA) redutase. TECIDO ADIPOSO Triacilglicerol ' ' ' ' T 8 -<·111111111"111111 Niacina y Ácidos graxos 1 1 1 1 1 '� - Ácidos graxos ' ' ' y Trlacilglicerol FÍGADO Figura 21.9 ' ' ' y VLDL ,... I ' / ; VLDL 1 1 ,... I / ; LDL A niacina inibe a lipólise no tecido adi­ poso, resultando na redução da síntese hepática de VLDL e da produção de LDL no plasma.
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    272 Clark, Finkel,Rey & Whalen 300 Total � ..J 32 CJI .§. 200- LDL - e J!I li 100 - o HDL o � . . . . 1 2 3 4 Meses Figura 21.1O . . 5 6 Níveis plasmáticos de colesterol em pa­ cientes hiperlipêmicos durante o trata­ mento com niacina. LDL = lipoproteína de baixadensidade; HDL = lipoproteína de alta densidade. Quilomícron TECIDOS Capilares (p.ex., ADIPOSO) �"""" Genfibrozila Lipoproteína lipase IDL Quilomícrons remanescentes.......- Figura 21.11 , Acidos graxos livres Ativação da lipoproteína lipase pelo genfibrozila. VLDL = lipoproteína de densidade muito baixa; IDL = lipopro­ teína de densidade intermediária. 3. no tratamento de outras hipercolesterolemias graves, frequentemen­ te associadaa outros anti-hiperlipêmicos. Além disso, elaé ofármaco anti-hiperlipidêmico mais potente para elevar os níveis plasmáticos de HDL, que é a sua indicação de uso clínico mais comum. Farmacocinética. A niaci na é administrada por via oral. No organis mo, ela é convertida em nicotinamida, que é incorporada ao cofator nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD+). A niacina, o derivado nicotinamida e outros metabólitos são excretados na urina. (Nota: a nicotinamida isolada não reduz os níveis lipídicos plasmáticos.) 4. Efeitos adversos. Os efeitos adversos mais comuns da niacina são intenso rubor cutâneo (acompanhado por uma desconfortável sen­ sação de calor) e prurido. A administração de ácido acetilsalicílico previamente à niacina reduz o rubor, que é mediado por prostaglan­ dinas. A formulação de liberação lentada niaci na, administrada uma vez ao dia ao deitar, reduz os desconfortáveis efeitos adversos ini­ ciais.Alguns pacientes também sentem náuseas e dor abdominal.A niacina inibe a secreção tubular de ácido úrico, predispondo, assim, à hiperuricemia e à gota.Também foram relatadas hepatotoxicidade e intolerância à glicose. C. Os fibratos: fenofibrato e genfibrozila O fenofibrato e o genfibrozila são derivados do ácido fíbrico que reduzem os triacilgliceróis e aumentam os níveis de HDL do plasma. Ambos têm o mesmo mecanismo de ação. No entanto, o fenofibrato é mais eficaz do que o genfibrozila na redução dos níveis plasmáticos de colesterol LDL e triglicérides. 1. Mecanismo de ação. Os receptores ativados pelo proliferador de peroxissomo (RAPPs) são membros da família de supergenes de receptores nucleares que regula o metabolismo lipídico. Os RAPPs funcionam como fatores de transcrição ativados pelo ligante. Eles são ativados ao ligarem-se aos seus ligantes naturais (ácidos gra­ xos ou eicosanoides) ou a fármacos hipolipidêmicos. A seguir, eles se ligam aos elementos de resposta proliferadores de peroxissomo, localizados em numerosos promotores de genes. Os RAPPs regu­ lam, particularmente, a expressão de genes codificadores de proteí­ nas envolvidas na estrutura e função das lipoproteínas.A expressão de genes mediada por fibrato leva, em última instância, à redução das concentrações de triacilglicerol pelo aumento da expressão da lipoproteína lipase (Figura 21 .11) e pela diminuição da concentra­ ção de apo C-11. Os fibratos também aumentam o nível de colesterol HDL pelo aumento da expressão de apo AI e apo All. O fenofibrato é um pró-fármaco que produz um metabólito ativo, o ácido fenofíbri­ co, responsável por seus efeitos principais. 2. Usos terapêuticos. Os fibratos são utilizados no tratamento das hi­ pertriacilglicerolemias, provocando uma diminuição significativa nos níveis plasmáticos de triacilglicerol. O f enofibrato e o genfibrozila são particularmente úteis no tratamento da hiperlipemia Tipo Ili (disbeta­ lipoproteinemia), na qual se acumulam as partículas lipoproteicas de densidade intermediária. Pacientes portadores de hipertriacilglicero­ lemia (doença Tipo IV [com elevada VLDL] ou Tipo V [com elevados VLDLequilomícrons]) que não respondem àdieta eaoutrosfármacos também podem se beneficiardotratamento com esses fármacos. 3. Farmacocinética. Ambos os fármacos são completamente absor­ vidos após administração via oral. O genfibrozila e o fenofibrato se
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    distribuem amplamente, ligadosà albumina. Os dois fármacos so­ frem extensa biotransformação, sendo excretados pela urina na for­ ma de conjugados glicuronídeos. 4. Efeitos adversos a. Efeitos gastrintestinais (GI). Os efeitos adversos mais comuns são distúrbios GI leves. Eles diminuem à medida que o trata­ mento avança. b. Litíase. Como esses fármacos aumentam a excreção biliar de colesterol, há uma predisposição à formação de cálculos biliares. c. Músculos. Pode ocorrer miosite (inflamação de um músculovo­ luntário) com os dois fármacos; assim, deve-se avaliar a presen­ ça de fraqueza e sensibilidade muscular. Pacientes com insufi­ ciência renal apresentam maior risco. Foram relatadas miopatia e rabdomiólise em alguns pacientes que recebiam, ao mesmo tempo, genfibrozila e lovastatina. d. Interações farmacológicas. Ambos os fibratos competem com os anticoagulantes do tipo cumarina por sítios de ligação nas proteínas plasmáticas, e, assim, há potencialização transitória da atividade anticoagulante. Por isso, o INR deve ser monito­ rado quando o paciente estiver utilizando ambos os fármacos. De forma semelhante, esses fármacos podem elevartransitoria­ mente os níveis de sulfonilúreias. e. Contraindicações. A segurança desses fármacos durante a gra­ videz e a lactação ainda não foi estabelecida. Eles não devem ser usados em pacientes portadores de disfunção renal ou hepática grave ou em pacientes com doença preexistente na vesícula biliar. D. Resinas que se ligam aos ácidos biliares Os sequestradores de ácidos biliares (resinas) reduzem significativamen­ te o colesterol LDL, embora seus benefícios sejam menores do que os obtidos com as estatinas. 1. Mecanismo de ação. A colestiramina, o colestipol e o colesevelam são resinas que realizam trocas de ânions e que se ligam aos áci­ dos e sais biliares com carga negativa no intestino delgado (Figura 21.12). O complexo resina/ácido biliaré excretado nas fezes, evitan­ do, dessa forma, que os ácidos biliares retornem ao fígado através da circulação enteroepática. A redução da concentração de ácidos graxos faz com que os hepatócitos aumentem a conversão de co­ lesterol em ácidos biliares, restabelecendo o suprimento desses compostos, componentes essenciais da bile. Consequentemente, a concentração de colesterol intracelular diminui, o que ativa uma maior absorção de colesterol contendo partículas LDL, levando a uma redução do LDL plasmático. (Nota: esse aumento na absorção é mediado por maior ativação dos receptores de LDL da superfície celular.) Em alguns pacientes também se observa um leve aumento nos níveis plasmáticos de HDL. O resultadofinal dessa sequência de eventos é a redução da concentração plasmática de colesterol total. 2. Usos terapêuticos. As resinas que ligam ácidos graxos são os fár­ macos de escolha (frequentemente combinados com modificações da dieta ou com niacina) no tratamento das hiperlipidemiasTipo llA e Tipo 118. (Nota: em alguns raros indivíduos homozigotos para o Tipo llA - isto é, nos quais não há receptores funcionais de LDL -, Farmacologia Ilustrada 273 ft Pacientehiperlipêmico W nãotratado Fígado ,..-- ____ _ _ Colesterol Intestino delgado,,.--... ! ! Sais Ácidose sais biliares biliares A maior parte dos ácidose sais biliaressecretados no intestinoé reabsorvida. r:'IPacientehiperlipêmicotratadocom 1:1resinasligantesaácidosbiliares Colesterol t Ácidos e Sais ,---� ·- �-sais biliares biliares :---::��-��-� Fezes Complexo insolúvel A co/estiramina, o co/esti polou o co/esevelamformam um complexo insolúvel com os ácidosesais biliares, impedindosua reabsorção no intestino. Figura 21.12 Mecanismo de ação das resinas ligado­ ras de ácidos biliares.
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    274 Clark, Finkel,Rey & Whalen --+ Média B Dieta Dieta+ Dieta+ Figura 21.13 Lovastatina Lovastatina+ Co/estipol Resposta do colesterol total plasmático à dieta (com baixo colesterol e baixa gordura saturada) e a fármacos anti­ -hiperlipêmicos em pacientes portado­ res de hipercolesterolemia heterozigota familiar. esses fármacos têm pouco efeito sobre os níveis plasmáticos de LDL.) A colestiramina também pode aliviar o prurido causado pelo acúmulo de ácidos biliares em pacientes com obstrução biliar. Elas também são usadas contra diarreia. 3. Farmacocinética. A colestiramina, o colestipole o colesevelamsão administrados por via oral. Como são insolúveis em água e muito grandes (a massa molecular é maior do que 106), esses fármacos não são absorvidos e nem alterados metabolicamente no intestino. Em vez disso, eles são totalmente excretados nas fezes. 4. Efeitos adversos a. Efeitos GI. Os efeitos adversos mais comuns são distúrbios GI, como constipação, náuseas e flatulência. O colesevelam apre­ senta efeitos GI menores do que os outros sequestradores dos ácidos biliares. b. Deficiência de absorção. Em altas doses, a colestiramina e o colestipolprejudicam a absorção das vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). c. Interações farmacológicas. A colestiramina e o colestipol in­ terferem na absorção intestinal de vários fármacos - por exem­ plo, tetracicli na, fenobarbital, digoxi na, varfarina, pravastati na, fluvastatina, ácido acetilsa/icílico e diuréticos tiazídicos. Assim, esses fármacos devem ser administrados pelo menos uma ou duas horas antes, ou quatro a seis horas depois das resinas que se ligam aos ácidos biliares. E. Inibidores da absorção de colesterol A ezetimiba inibe seletivamente a absorção de colesterol da dieta e da bile no intestino delgado, diminuindo a oferta de colesterol intestinal para o fíga­ do. Isso reduz as reservas de colesterol hepático e aumenta a remoção de colesterol do sangue. Ela reduzo colesterol LDLem 17° / o eostriacilgliceróis em 6° / o eaumentaocolesterol HDLem 1 ,3° / o.A ezetimibaé biotransformada principalmente no intestino delgado e no fígado por meio da conjugação de glicuronídeos (uma reação de Fase li), com subsequente eliminação biliar e renal.Tanto a ezetimibaquanto o glicuronídeo são lentamente eliminados do plasma, com uma meia-vida de aproximadamente 22 horas. A ezetimiba não apresenta efeitos clinicamente significativos nas concentrações plas­ máticas de vitaminas lipossolúveis A, D e E. Pacientes com insuficiência hepática moderada a grave não devem sertratados com ezetimiba. F. Tratamento farmacológico combinado Frequentemente, é necessário usar dois fármacos anti-hiperlipidêmicos para alcançar os níveis lipídicos plasmáticos almejados com o tratamen­ to. Por exemplo, nas hiperlipidemias Tipo li, comumente os pacientes são tratados com a associação de niacina a um fármaco que se liga aos ácidos biliares, como a colestiramina. (Nota: lembre-se de que a colesti­ ramina provoca aumento nos receptores que eliminam o LDL circulante do plasma, e a niacina reduz a síntese de VLDL e, assim, também a síntese de LDL.) A combinação de um inibidor da HMG CoA redutase com um ligante aos ácidos biliares também se revelou muito útil na redu­ ção dos níveis de colesterol de LDL (Figura 21.13). Atualmente, sinvas­ tatina e ezetimiba, bem como a sinvastatina e a niacina são associadas em um comprimido para tratar o colesterol LDL elevado. Contudo, são necessárias mais informações clínicas para determinar se a associação estatina-ezetimiba proporciona benefícios iguais ou melhores, a longo
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    Farmacologia Ilustrada 275 prazo,do que o uso de uma dosagem elevada de uma estatina. Enquan­ to esta incerteza persiste, vários especialistas recomendam maximizar a dosagem de estatina e acrescentar niacina ou fibratos para alcançar nos níveis de colesterol-HDL e triglicérides desejados. A associação de fármacos, entretanto, não é isenta de riscos. Atoxicidade hepáticae mus­ cularocorre com maiorfrequência com a associação de fármacos que di­ minuem os lipídeos.A Figura 21 . 1 4 resume algumas ações dos fármacos anti-hiperlipêmicos. As normas para o tratamento das hiperlipidemias são apresentadas na Figura 21 .15. TIPO DE FÁRMACO EFEITOSOBRE EFEITO SOBRE EFEITO SOBRE Inibidores da HMG CoA redutase (estatinas) Fibratos Niacina Sequestradores deácidos biliares Inibidordaabsorção de colesterol Figura 21.14 LDL HDL TRIACILGLICERÓIS tt ttt tt ttt tttt t t ttt Mínimo Características das famílias de fármacos anti-hiperlipidêmicos. HDL = lipoproteína de alta densidade; HMG-CoA = 3-hi­ droxi-3-metilglutaril coenzima A; LDL = lipoproteína de baixa densidade. Nível de colesterol elevado Nível de colesterol normal (LDL maiordo que 130 mg/dl) (LDL= 130 mg/dl ou menos) ' ' , ' ' Sem risco1 1 Riscos Presençade doençacardíaca 1 ' , ' Mudanças no estilo devida (dieta, exercício)* ' , ' t Objetivoalcançado Não alcançado Considere ' t 1Monitorar ' Objetivoalcançado - • Nível de LDL elevado 1 Considereacrescentar 't Ezetimiba, niacinaou colesevelam Figura 21.15 1 ' , Estatina - � • (titulara dosagem) (Monitorar 1 , ) 1Não alcançado ' t Nível deLDL baixo 1 Considere acrescentar 't Ni acinaouco/esevelam (ououtrosequestrante deácidosbili ares) ' , ' Riscos Sem risco ' ' (Semtratamento ' Nível detriglicérides elevado 1 Considereacrescentar 'f Niacina, fenofibratoou ácidos graxos ômega-2 ) Normas para otratamento das hiperlipidemias. *Note que a dieta e os exercícios são componentes detodos os tratamen­ tos contra a hiperlipidemia. LDL = lipoproteína de baixa-densidade.
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    276 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 21.1 Qual dos seguintes efeitos adversos é o mais comum no tratamento com fármacos anti-hiperlipidêmicos? A. Elevação da pressão arterial. B. Distúrbios gastrintestinais. C. Problemas neurológicos. D. Palpitações cardíacas. E. Cefaleia de tipo enxaqueca. 21.2 Qual das seguintes hiperlipidemias se caracteriza por ele­ vados níveis plasmáticos de quilomícrons e não possui ne­ nhum tratamento farmacológico disponível para a redução dos níveis de lipoproteínas plasmáticas? A. Tipo 1 B. Tipo li c. Tipo 111 D. Tipo IV E. Tipo V 21.3 Qual dos seguintes fármacos reduz a síntese de novo de colesterol inibindo a enzima 3-hidroxi-3-metilglutaril coen­ zima A redutase? A. Fenofibrato B. Niacina C. Colestiramina D. Lovastatina E. Genfibrozila 21.4 Qual dos seguintes fármacos provoca redução da síntese hepática de triacilglicerol limitando os ácidos graxos livres necessários para o processo? A. Niacina B. Fenofibrato c. Colestiramina D. Genfibrozila E. Lovastatina 21.5 Qual dos seguintes fármacos se liga aos ácidos biliares no intestino, evitando, assim, que os ácidos retornem ao fígado pela circulação enteroepática? A. Niacina B. Fenofibrato c. Colestiramina D. Fluvastatina E. Lovastatina Resposta correta = B. Os distúrbios gastrintestinais ocorrem frequen­ temente como efeito adverso do tratamentocom fármacos anti-hiperli­ pidêmicos. As outras escolhas não são considerados efeitos comuns. Resposta correta = A. A hiperlipidemiaTipo 1 (hiperquilomicronemia) é tratadacom dieta pobre em gorduras. Nenhumtratamentofarmaco­ lógico é eficaz contra esse distúrbio. Resposta correta = D. O fenofibrato e o genfibrozila aumentam a atividade da lipase lipoproteína, aumentando, assim, a remoção de lipoproteína de densidade muito baixa (VLDL) do plasma. A niacina inibe a lipólisenotecidoadiposo, eliminando, assim, os componentes necessários para a produção hepática de triacilglicerol e, assim, a VLDL.A colestiramina reduz a quantidade de ácidos biliares que vol­ tam aofígado pelacirculação enterohepática. Resposta correta = A. Com dose na faixa de gramas, a niacina inibe energicamente a lipólise no tecido adiposo, o principal produtor dos ácidos graxos livres circulantes. O fígado normalmente usa esses ácidos graxoscirculantes como principal precursorna síntese de tria­ cilgliceróis. Assim, a niacina causa redução na síntese hepática de triacilgliceróis necessários para a produção de VLDL. Os fármacos das outras escolhas não inibem a lipólise notecido adiposo. Resposta correta = C. A colestiramina é uma resina trocadora de ânions que fixa no intestino delgado os ácidos e sais biliares com carga negativa. O complexo resina-ácido biliar é excretado com as fezes, evitando, assim, que os ácidosbiliares retornem aofígadopela circulaçãoenteroepática. Os fármacos das outras escolhas nãofixam ácidos biliares no intestino.
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    , ar acos 1. RESUMO Fármacosque aumentam o fluxo urinário são denominados diuréticos. Esses fármacos inibem os transportadores renais de íons e diminuem a reabsorção de Na+ em diferentes partes do néfron. Como resultado, os íons Na+ e outros, como o c1-, entram na urina em quantidades maiores do que a quantidade normal juntamente com água, que é carregada passivamente para manter o equilíbrio osmótico. Assim, os diuréticos aumentam o volume de urina e frequentemente alteram seu pH, bem como a composição iônica da urina e do sangue. A eficácia das diferentes classes de diuréticos varia consideravel­ mente, com o aumento dasecreção de Na+ variando de menos de 2° / o paraos diuréticos fracos, poupadores de potássio, até mais de 20° / o para os potentes diuréticos de alça. Além desses inibidores do transporte de íons, há os diuré­ ticos osmóticos que evitam a reabsorção de água, bem como os antagonistas da aldosterona e os inibidores da anidrase carbônica. Os principais usos clí­ nicos dos diuréticos são no tratamento de alterações que envolvem a reten­ ção anormal de líquidos (edema) ou no tratamento da hipertensão, na qual a ação diurética causa uma diminuição inicial do volume de sangue seguido de queda da resistência periférica, levando à redução da pressão arterial. Neste capítulo, os fármacos diuréticos (Figura 22.1) são discutidos de acordo com sua frequência de uso. li. REGULAÇÃO NORMAL DOS LÍQUIDOS E , ELETROLITOS PELOS RINS Aproximadamente 16 a 20° / o do plasma sanguíneo que chega aos rins são filtrados dos capilares glomerulares para o interior das cápsulas de Bowman. O filtrado, embora normalmente livre de proteínas e células sanguíneas, con­ tém a maioria dos componentes plasmáticos de baixa massa molecular em concentração aproximadamente igual à do plasma. Isso inclui glicose, bicar­ bonato de sódio, aminoácidos e outros solutos orgânicos, bem como eletró­ litos, Na+, K+ e c1-. Os rins regulam a composição iônica e o volume de urina por reabsorção ativa ou secreção de íons e/ou reabsorção passiva de água DIURÉTICOSTIAZÍDICOS C/orotiazida C/ortalidona Hidroc/ortiazida (HCTZ) lndapamida Meto/azona DIURÉTICOSDEALÇA , Acido etacrí nico Bumetanida Furosemida Torsemida DIURÉTICOSPOUPADORESDEPOTÁSSIO Amilorida Eplerenona Espironolactona T ri amtereno INIBIDORESDEANIDRASECARBÔNICA Acetazolamida DIURÉTICOSOSMÓTICOS Figura 22.1 Manitol Ureia Resumo dos fármacos diuréticos.
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    278 Clark, Finkel,Rey & Whalen ACET AZOLAMIDA TIAZÍDICOS •UminibidordaanidrasecarbônicaqueinibeareabsorçãodeHC03- notúbulocontorcidoproximal. •InibemareabsorçãodeNa•ec1-notúbulocontorcido distal,resultandoemretençãodeáguanotúbulo. •Propriedadesdiuréticasfracas. BUMET ANIDA, FUROSEMIDA, TORSEMIDA, ÁCIDO ET ACR Í NICO •Osdiuréticosdealçainibemo cotransportedeNa•1K·12crna porçãoascendentedaalçadeHenle, resultandoemretençãodeNa+,cr eáguanotúbulo. •Essesfármacossãoos diuréticosmaiseficazes. Figura 22.2 Túbulo contorciCio proximal Alçade Henle descendente • Diuréticosmaiscomumenteusadosnotratamento dahipertensão. Alçade Henle ascendente Túbulo contorcido distal Túbuloe duetocoletor ESP/RONOLACTONA, AMILOR/DA, TRIANTERENO •Espirono/actona, um antagonistadaaldosterona, inibeareabsorçãode Na• asecreçãodeK•mediadas pelaaldosterona. •Amilorida etri antereno bloqueiamoscanaisdeNa•. • Essesdiuréticospodemevitar aperdadeK•queocorrecomos diuréticostiazídicosedealça. Localizações principais de trocas de íons e água no néfron, mostrando os locais de ação dos fármacos diuréticos. em cinco zonas funcionais ao longo do néfron: 1) túbulo contorcido proximal, 2) porção descendente da alça de Henle, 3) porção ascendente da alça de Henle, 4) túbulo contorcido distal e 5) túbulo e dueto coletor (Figura 22.2). A. Túbulo contorcido proximal No extensotúbulo contorcido proximal, localizado no córtex renal, pratica­ mente toda glicose, bicarbonato, aminoácidos e outros metabólitos são reabsorvidos.Aproximadamente dois terços do Na+também são reabsor­ vidos. O cloreto entra no lúmen do túbulo em troca de um ânion, como o oxalato, bem como de forma paracelularatravés do lúmen. A água segue passivamente, do lúmen parao sangue, para manter o equilíbrio osmolar. Se não fosse a reabsorção extensa de solutos e água no túbulo proximal, o organismo dos mamíferos poderia rapidamente se tornar desidratado e perder sua osmolaridade normal. O Na+ reabsorvido é bombeado para o interstício pela Na+/K+-adenosina trifosfatase (ATPase), mantendo, as­ sim, os níveis normais de Na+ e K+ na célula. A anidrase carbônica na membrana luminal e nas células do túbulo proximal modula a reabsorção de bicarbonato (ver acetazolamida a seguir). A presença de substâncias como manitol e glicose resulta em aumento da osmolaridade do líquido tubular e evita a reabsorção adicional de água, resultando em diurese osmótica. 1 . Sistemas secretores de ácidos e bases. Os sistemas de se­ creção de ácidos e bases orgânicos estão localizados no túbulo proximal (Figura 22.3). O sistema secretor de ácidos orgânicos, localizado no terço médio, secreta uma variedade de ácidos orgâ­ nicos, como o ácido úrico, alguns antibióticos e diuréticos, do leito
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    sanguíneo para ointerior do lúmen do túbulo proximal. A maioria dos fármacos diuréticos entra no líquido tubular por esse sistema. O sistema secretor de ácidos orgânicos é saturável, e os diuréticos da corrente sanguínea competem pelatransferência com os ácidos orgânicos endógenos, como o ácido úrico. Isso explica a hiperu­ ricemia observada com certos diuréticos, como a furosemida e a hidroclorotiazida. Inúmeras outras interações também podem ocor­ rer. Por exemplo, a probenecida interfere na secreção de penicilina. O sistema secretor de bases orgânicas é responsável pela secre­ ção de creatinina e colina e se localiza nos segmentos superior e médio do túbulo proximal. B. Ramo descendente da alça de Henle O filtrado remanescente, que é isotônico, avança para a porção descen­ dente da alça de Henle e penetra na parte medular dos rins. A osmola­ ridade aumenta ao longo da porção descendente da alça de Henle, em decorrência do mecanismo de contracorrente, que é responsável pela reabsorção de água. Isso resulta em um líquido tubular com uma concen­ tração de sal triplicada. Os diuréticos osmóticos exercem parte de sua ação nessa região (ver Figura 22.2). C. Porção ascendente da alça de Henle As células do epitélio tubular ascendente são únicas na condição de im­ -permeáveis à água. A reabsorção ativa de Na+, K+ e c1- é mediada por um cotransportadorde Na+/K+12c1-. Mg 2 +e Ca 2 + entram no líquido intersti­ cial pelavia paracelular.A alça ascendente é, portanto, uma região de di­ luição do néfron. Aproximadamente 25 a 30° / o do cloreto de sódio tubular voltam para o líquido intersticial, auxiliando, dessaforma, na manutenção da osmolaridade elevada do líquido. Como a porção ascendente da alça de Henle é o principal local de reabsorção de sal, fármacos que afetam esse local, como os diuréticos de alça (ver Figura 22.2), são os mais efi­ cazes entre todas as classes de diuréticos. D. Túbulo contorcido distal As células do túbulo contorcido distal também são impermeáveis à água. Aproximadamente 10° / o do cloreto de sódio filtrado são reabsorvidos por meio de transporte de Na+/CI- que é sensível aos diuréticos tiazídicos. A reabsorção de cálcio ocorre pela passagem através de um canal e, então, ele étransportado por mecanismo detroca Na+/Ca 2 + parao líquido intersticial. Portanto, esse mecanismo difere daquele da alça de Henle. Adicionalmente, a excreção de Ca 2 + é regulada pelo hormônio da parati­ reoide nessa porção do túbulo. E. Túbulo e dueto coletor As células principais do túbulo e do dueto coletor são responsáveis pelo transporte de Na+, K+ e água, e as células intercaladas são responsá­ veis pela secreção de H+. O sódio entra nas células principais através de canais (canais de sódio epiteliais) que são inibidos pelo amilorida e triantereno. Uma vez no interior da célula, a reabsorção do sódio depen­ de de Na+/K+-ATPase para ser transportado ao sangue. Os receptores de aldosterona nas células principais influenciam a reabsorção de Na+ e a secreção de K+. Os receptores do hormônio antidiurético (HAD ou vasopressina) promovem a reabsorção de água dos túbulos e duetos co­ letores (ver Figura 22.3). Essa ação é mediada pelo monofosfato cíclico de adenosina. Farmacologia Ilustrada 279 Legenda....._ Reabsorção ._ Secreção Osistemasecretororgânicode ácidosebasessecretauma variedadedeácidosorgânicos (incluindoamaioriadosfármacos diuréticos)dacorrentesanguínea paraolúmendotúbuloproximal. Glicose Aminoácidos cr Na+ Aldosterona Hormônio antidiurético Figura 22.3 Túbulo proximal AlçadeHenle ascendente Túbulo contorcido distal Túbuloe duetocoletor Locais de transporte de solutos e água através do néfron.
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    280 Clark, Finkel,Rey & Whalen - Ili. FUNÇAO RENAL NAS DOENÇAS A. Estados edematosos Em muitas doenças, a quantidade de cloreto de sódio reabsorvido pelos túbulos renais é anormalmente elevada. Isso leva à retenção de água, ao aumento do volume de sangue e à expansão do compartimento de líqui­ do extravascular, resultando em edema dos tecidos. Diferentes causas de edemas comumente encontrados incluem as citadas a seguir: 1 . Insuficiência cardíaca. A incapacidade do coração insuficiente de manter o débito cardíaco adequado leva o rim a responder como se houvesse uma diminuição no volume sanguíneo (hipovolemia). O rim, como parte do mecanismo compensatório normal, retém mais sal e água como forma de aumentar o volume de sangue e elevar a quantidade de sangue que retorna ao coração. Todavia, o coração doente não consegue aumentaro débito, e ovolumevascular eleva­ do resulta em edema (ver p. 193 com relação às causas e ao trata­ mento da insuficiência cardíaca). Comumente são usados diuréticos de alça. 2. Ascite hepática. Ascite, o acúmulo de líquidos na cavidade abdo­ minal, é uma complicação comum da cirrose hepática. a. Pressão sanguínea portal elevada. O fluxo sanguíneo no sistema portal é frequentemente obstruído na cirrose, resul­ tando em aumento da pressão sanguínea portal. Além disso, a pressão osmótica coloidal do sangue é reduzida em decor­ rência da dificuldade de síntese de proteínas plasmáticas pelo fígado doente. A pressão sanguínea portal aumentada e a os­ molaridade sanguínea diminuída causam a saída de líquido do sistema vascular portal e seu acúmulo no abdome. b. Hiperaldosteronismo secundário. A retenção de líquido tam­ bém é promovida por níveis elevados de aldosterona circulante decorrente do volume reduzido de sangue. Esse hiperaldoste­ ronismo secundário também resulta da capacidade diminuída do fígado em inativar o hormônio esteroide e leva ao aumento de Na+ e à reabsorção de água, ao aumento do volume vascu­ lar e à exacerbação do acúmulo de líquido (ver Figura 22.3). O diurético poupador de potássio espironolactona é eficaz nessa condição, mas os diuréticos de alça normalmente não são. 3. Síndrome nefrótica. Quando alterada por doença, a membrana glomerular permite a entrada de proteínas plasmáticas no ultrafil­ trado glomerular. A perda de proteína do plasma reduz a pressão coloidosmótica, resultando em edema. A redução do volume plas­ mático estimula a secreção de aldosterona pelo sistema renina­ -angiotensina-aldosterona. Isso leva à retenção de Na+ e líquido, agravando o edema. 4. Edema pré-menstrual. O edema associado à menstruação é re­ sultante do desequilíbrio hormonal, como o excesso de estrogênio, que facilita a perda de líquido para o espaço extracelular. Os diuréti­ cos podem reduzir o edema. B. Estados não edematosos Os diuréticos também apresentam amplo uso no tratamento de doenças não edematosas.
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    1. Hipertensão. Ostiazídicos são amplamente usados no tratamento de hipertensão, em decorrência de sua capacidade de não só reduzir ovolume sanguíneo, mastambém de dilataras arteríolas (ver p.231). 2. Hipercalcemia. A gravidade dessa condição requer uma ação rápi­ da. Normalmente, os diuréticos de alça são usados, pois promovem a excreção de cálcio. Todavia, é importante entender que a hipovo­ lemia pode neutralizar o efeito desejado; portanto, também deve ser infundida salina normal para manter o volume sanguíneo. 3. Diabetes insípido. Quando os pacientes sofrem de poliúria e po­ lidipsia associadas ao diabetes, eles normalmente respondem aos diuréticostiazídicos. Essetratamento, aparentemente paradoxal, de­ pende da habilidade dos tiazídicos de reduzir o volume plasmático, dessa forma causando queda na velocidade de filtração glomerular e promovendo a reabsorção de Na+ e água. O volume de urina que entra no segmento diluidore o subsequentefluxo urinário é reduzido. IV. AGENTESTIAZÍDICOS E CORRELATOS Os tiazídicos são os fármacos diuréticos mais amplamente utilizados. Eles são derivados da sulfonamida e, como tal, são relacionados em estrutura com os inibidores da anidrase carbônica. Todavia, os tiazídicos apresentam ati­ vidade diurética maior do que a acetazolamida (ver a seguir) e atuam nos rins por meio de mecanismos diferentes.Todos os tiazídicos afetam o túbulo distal, e todos apresentam efeito diurético máximo semelhante, diferindo so­ mente em potência (expressa em miligramas). (Nota: eles são algumas vezes chamados de diuréticos máximos, de teto ou potentes, pois o aumento da dosagem, acima do normal, não promove resposta diuréticaadicional.) Como a ação dos diuréticos de alça, os tiazídicos dependem parcialmente da sín­ tese renal de prostaglandina por um mecanismo ainda não completamente entendido. A. Tiazidas A cloroti azida foi o primeiro diurético moderno ativo por via oral e ca­ paz de afetar o edema grave da cirrose e da insuficiência cardíaca com um mínimo de efeitos adversos. Suas propriedades são representativas do grupo dos tiazídicos, embora atualmente os derivados novos, como a hidroclorotiazida e a clortalidona, sejam usados mais comumente. A hidroclorotiazida tem capacidade muito menor de inibir a anidrase car­ bônica, comparada com a cloroti azida. Ela é também mais potente, de forma que a dose necessária é consideravelmente menor do que a da cloroti azida. Por outro lado, a eficácia é exatamente a mesma do outro fármaco da família. Em todos os demais aspectos, ela assemelha-se à clorotiazida. (Nota: clorotiazida, indapamida e metolazona são referidos como diuréticos do tipo tiazídico, pois contêm resíduos sulfonamidas na sua estrutura química, e seu mecanismo de ação é semelhante.Todavia, esses fármacos não são tiazídicos verdadeiros.) 1. Mecanismo de ação. Os derivados tiazídicos atuam principalmente na região cortical da alça ascendente de Henle e no túbulo distal, diminuindo a reabsorção de Na+, aparentemente pela inibição de um cotransportador de Na+1c1- na membrana luminal dos túbulos (ver Figura 22.2). Eles apresentam um menor efeito no túbulo pro­ ximal. Como resultado, esses fármacos aumentam a concentração de Na+ e c1- no líquido tubular. O equilíbrio ácido-base normalmente não é afetado. (Nota: como o local de ação dos derivados tiazídicos é a membrana luminal, esses fármacos precisam ser excretados no Farmacologia Ilustrada 281
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    282 Clark, Finkel,Rey & Whalen ca2• Figura 22.4 Volume de urina Mudanças relativas na composição da urina induzidas pelos diuréticos tiazí­ dicos. 2. lúmen tubular para serem eficazes. Portanto, quando a função renal está diminuída, os diuréticos tiazídicos perdem eficácia.) Ações a. Aumento da excreção de Na+ e c1-. Os diuréticos tiazídicos causam diurese com aumento da excreção de Na+ e c1-, que pode resultar na excreção de urina muito hiperosmolar. Esse último efeito é singular; é improvável que as outras classes de diuréticos produzam urina hiperosmolar. A ação diurética não é afetada pelo estado ácido-base do organismo, nem a hidroc/o­ roti azida altera o estado ácido-base do sangue. As mudanças relativas na composição iônica da urinadurante o uso detiazídi­ cos são apresentadas na Figura 22.4. b. Perda de K+. Como os tiazídicos aumentam o Na+ no filtrado, que chega ao túbulo distal, mais K+ também é trocado por Na+, resultando em perda contínua de K+ do organismo com o uso prolongado desses fármacos. Portanto, é imperativo medir o K+ sérico com frequência (mais frequentemente no início do trata­ mento), para assegurar que não ocorra hipopotassemia. c. Perda de Mg2+. Pode ocorrer deficiência de magnésio no uso crônico de diuréticos tiazídicos, exigindo suplementação, par­ ticularmente nos idosos. O mecanismo da magnesiúria não é conhecido. d. Diminuição da excreção urinária de cálcio. Os diuréticos tia­ zídicos diminuem o conteúdo de Ca 2 + na urina promovendo sua reabsorção. Este efeito contrasta com os diuréticos de alça, que aumentam a concentração de Ca 2 + na urina. (Nota: há evidên­ cias de estudos epidemiológicos que o uso de tiazídicos preser­ va a densidade mineral óssea nas costelas e na coluna, e de que o risco de fraturas de costelas é reduzido em um terço.) e. Redução da resistência vascular periférica. Ocorre redução inicial na pressão arterial em resposta à diminuição do volume sanguíneo e, com isso, à diminuição do débito cardíaco. Com o tratamento contínuo, ocorre recuperação do volume. Todavia, o efeito hipotensivo persiste como resultado da diminuição da resistência vascular periférica, causada pelo relaxamento do músculo liso arteriolar. 3. Usos terapêuticos a. Hipertensão. Clinicamente, há muito tempo os tiazídicos têm sido a principal medicação anti-hipertensiva, pois são baratos, fáceis de administrar e bem tolerados. Eles são eficazes na re­ dução da pressão arterial sistólica e diastólica por longos perío­ dos na maioria dos pacientes com hipertensão leve a moderada (ver p. 227 para detalhes sobre o tratamento da hipertensão). Com as tiazidas, a pressão arterial se estabiliza em nível mais baixo e pode ser mantida indefinidamente com uma dose diária do fármaco, que causa diminuição da resistência periférica, sem apresentar efeitos diuréticos. Muitos pacientes podem receber tiazídicos unicamente de forma contínua por anos, embora um pequeno percentual necessite de medicação adicional, como os bloqueadores adrenérgicos inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) ou bloqueadores do receptor de angioten­ sina. (Nota: as ações hipotensoras dos inibidores da ECA são aumentadas quando usadas em associação aos tiazídicos.)
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    b. Insuficiência cardíaca.Os diuréticos de alça são os diuréticos de escolha para a reduzir o volume extracelular na insuficiência cardíaca. Os diuréticos tiazídicos podem ser acrescentados se for necessária diurese adicional. c. Hipercalciúria. Os tiazídicos podem ser úteis no tratamento Farmacologia Ilustrada 283 Hipopotassemia da hipercalciúria idiopática, pois inibem a excreção urinária de ,, Ca 2 +. 1sso é particularmente benéfico para pacientes com cálcu- = = = = � los de oxalato de cálcio no trato urinário. d. Diabetes insípido. Os tiazídicos têm a capacidade única de pro­ duzirurina hiperosmolar. Eles podem substituiro hormônio antidiu­ rético notratamentode pacientescom diabetes insípido nefrogêni­ co. Ovolume de urinade tais indivíduos pode cairde 1 1 Udia para aproximadamente 3 Udia, quandotratados com o fármaco. 4. Farmacocinética. Os tiazídicos são eficazes por via oral. A maio­ ria deles leva uma a três semanas para reduzir de modo estável a pressão arterial e apresenta uma meia-vida biológica prolongada. Todos os tiazídicos são secretados pelo sistema secretor de ácido orgânico renal (ver Figura 22.3). 5. Efeitos adversos. A maioria dos efeitos adversos envolve proble­ mas no equilíbrio hidreletrolítico. a. Depleção de potássio. Hipopotassemia é o problema encon­ trado com mais frequência com o uso de diuréticos tiazídicos e pode predispor pacientes sob tratamento com digoxina a ar­ ritmias ventriculares (Figura 22.5). Frequentemente, o K+ pode ser suprido somente pela dieta, com o aumento da ingestão de frutas cítricas, bananas e ameixas. Em alguns casos, pode ser necessária a suplementação de sais de K+. A ativação do siste­ ma renina angiotensina-aldosterona pela diminuição do volume intracelular contribui significativamente para as perdas urinárias de K+. Sob essas circunstâncias, a deficiência de K+ pode ser superada com espironolactona, que interfere na ação da aldos­ terona, ou pela administração de triantereno ou amilorida, que atua retendo K+. Dietas pobres em sódio abrandam a depleção de potássio causada pelos diuréticos tiazídicos. b. Hiponatremia. Esse grave efeito adverso pode se desenvol­ ver devido à elevação de HAD, resultante da hipovolemia, bem como devido à diminuição da capacidade diluidora do rim e ao aumento da sede. Limitar a ingestão de água e reduzir a dose do diurético pode evitar essa condição. c. Hiperuricemia. Os tiazídicos aumentam o ácido úrico sérico pela diminuição da quantidade de ácido excretado pelo sistema secretor de ácido orgânico. Sendo insolúvel, o ácido úrico se deposita nas articulações e pode ocorrer uma crise de gota em , indivíduos predispostos. E importante, portanto, realizarexames de sangue periódicos para avaliar os níveis de ácido úrico. d. Diminuição de volume. Isso pode causar hipotensão ortostáti­ ca ou tonturas leves. e. Hipercalcemia. Os tiazídicos inibem a secreção de Ca 2 +, algu­ mas vezes levando à elevação dos níveis de Ca 2 + no sangue. f. Hiperglicemia. Pacientes com diabetes melito que estão rece­ bendo tiazídicos para o tratamento da hipertensão podem se Hiperuricemia Ácido úrico Hipotensão Hiponatremia ,, Hipercalcemia Ca2+ Figura 22.5 Resumo de alguns efeitos adversos observados comumente com os diuré­ ticos tiazídicos. PA = pressão arterial.
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    284 Clark, Finkel,Rey & Whalen Na• K• Figura 22.6 Mudanças relativas na composição da urina induzidas pelos diuréticos de alça. tornar hiperglicêmicos e têm dificuldade de manter glicemia adequada. Esse efeito se deve à dificuldade de liberação de in­ sulina e à captação tecidual de glicose. g. Hiperlipemia. Os tiazídicos podem causar aumento de 5 a 15° / o na concentração sérica de colesterol, bem como aumento de lipo­ proteínas séricas de baixa densidade. Os níveis lipídicos, todavia, podem retornar ao normal com o tratamento de longo prazo. h. Hipersensibilidade. Supressão da medula óssea, dermatite, vasculite necrosante e nefrite intersticial são muito raras. lndiví­ -duos hipersensíveis às suitastambém podem ser alérgicos aos diuréticos tiazídicos. B. Análogos dos tiazídicos Esses compostos são desprovidos de estrutura tiazídica, mas, como os tiazídicos, apresentam grupo sulfonamídico não substituído e comparti­ lham seu mecanismo de ação. 1. Clortalidona. A clortalidona é um derivado não tiazídico que se comporta farmacologicamente como a hidroclorotiazida. Ela apre­ senta duração de ação bastante longa e, por isso, frequentemente é usada no tratamento da hipertensão. Ela é administrada uma vez pordia para essa indicação. 2. Metolazona. A metolazona é mais potente do que os tiazídicos e, diferente deles, causa excreção de Na+ na insuficiência renal avan­ çada. 3. lndapamida. A indapamida é um diurético não tiazídico lipossolú­ vel que apresenta duração de ação prolongada. Em doses baixas, ela apresenta ação anti-hipertensiva significativa com efeitos diu­ réticos mínimos. A indapamida é biotransformada e excretada pelo trato gastrintestinal e pelos rins. Ela é, por isso, menos propensa a acumular-se em pacientes com insuficiência renal e pode ser útil no tratamento desses pacientes. V. DIURÉTICOS DE ALÇA OU POTENTES Bumetanida, furosemida, torsemida e ácido etacrínico são quatro diuréticos que apresentam sua ação principal no ramo ascendente da alça de Henle (ver Figura 22.2). Comparados com todas as outras classes de diuréticos, esses fármacos apresentam a maior eficácia na mobilização de Na+ e c1- do organismo. Eles produzem abundante quantidade de urina. A furosemida é o mais usado do grupo. O ácido etacrínico apresenta uma curva dose-resposta mais íngreme do que a da furosemida, mas apresenta mais efeitos adversos do que os observados com os outros diuréticos de alça, e, por isso, seu uso é limitado. A bumetanida é muito mais potente que a furosemida, e seu uso está aumentando. A. Bumetanida, furosemida, torsemida e ácido etacrínico 1. Mecanismo de ação. Os diuréticos de alça inibem o cotransporte de Na+/K+/2CI- na membrana luminal, na porção ascendente da alça de Henle. Dessa forma, a reabsorção desses íons diminui (Figura 22.6). Os diuréticos de alça são os diuréticos mais eficazes, pois sua porção ascendente é responsável pela reabsorção de 25 a 30° / o do NaCI filtrado, e os locais a jusante não conseguem compensar o aumento do Na+.
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    2. Ações. Osdiuréticos de alça atuam rapidamente, mesmo em pa­ cientes que apresentam função renal prejudicada ou em pacientes que não responderam aos tiazídicos ou outros diuréticos. As altera­ ções nacomposição da urina induzidas pelos diuréticos de alça são mostradas na Figura 22.6. (Nota: os diuréticos de alça aumentam o conteúdo de Ca 2 + na urina, e os diuréticos tiazídicos diminuem a concentração de Ca 2 + na urina. Em pacientes com concentrações séricas de Ca 2 + normais, não ocorre hipocalcemia, pois o Ca 2 + é reabsorvido no túbulo contorcido distal. Todavia, pode ocorrer hi­ pomagnesemia devido à perda de Mg 2 +.) Os diuréticos de alça di­ minuem a resistência vascular renal e aumentam o fluxo sanguí­ neo renal. Além disso, os diuréticos de alça aumentam a síntese de prostaglandinas.As prostaglandinas exercem um papel na suaação diurética, e AINES, como a indometacina, que interferem na sua síntese, podem reduzir a ação diurética desses fármacos. 3. Usos terapêuticos. Os diuréticos de alça são os fármacos de escolha para a redução de edema pulmonar agudo da insuficiência cardíaca. Devido ao seu rápido início de ação, particularmente quando adminis­ trados porvia IV, essesfármacos são úteis nas situações de emergên­ cia, como edema pulmonar agudo, que exigem uma diurese rápida e intensa.Osdiuréticosde alça (acompanhados de hidratação) são úteis notratamento da hipercalcemia, pois estimulam a excreçãotubular de Ca 2 +. Eles também são úteis notratamento da hiperpotassemia. 4. Farmacocinética. Os diuréticos de alça são administrados por via oral ou parenteral. Sua duração de ação é relativamente curta (2 a 4 horas). Eles são secretados na urina. ,, ? • Farmacologia Ilustrada 285 Ototoxicidade 5. Efeitos adversos. Os efeitos adversos dos diuréticos de alça estão y -= = = = � resumidos na Figura 22.7. a. Ototoxicidade. A audição pode ser adversamente afetada pe­ los diuréticos de alça, particularmente quando usados em con­ junto com antibióticos aminoglicosídeos. O tratamento prolon­ gado pode resultar em lesão permanente. O ácido etacrínico é o fármaco mais propenso a causar surdez. A função vestibular é menos suscetível, mas isso pode acontecer no uso associado com o antibiótico. b. Hiperuricemia. A furosemida e o ácido etacrínico competem com o ácido úrico pelos sistemas secretores renal e biliar, blo­ queando, assim, sua secreção e, dessa forma, causando ou agravando os ataques de gota. e. Hipovolemia aguda. Os diuréticos de alça causam redução rápida e grave do volume sanguíneo, com possibilidade de hi­ potensão, choque e arritmias cardíacas. Pode ocorrer hipercal­ cemia sob essas condições. d. Depleção de potássio. A elevada oferta de Na+ no túbulo co­ letor resulta no aumento da troca tubular de Na+ por K+, com a possibilidade de indução de hipopotassemia. A perda de K+ das células na troca por H+ leva à alcalose com hipopotassemia. A depleção de potássio pode ser evitada pelo uso de diuréticos poupadores de potássio ou pela suplementação de K+ na dieta. e. Hipomagnesemia. A combinação de uso crônico de diuréticos de alça com ingestão reduzida de Mg 2 + pode levar à hipomag­ nesemia, particularmente em idosos. Isso pode sercorrigido por suplementação oral. Hiperuricemia Ácido úrico Hipotensão Hipopotassemia Hipomagnesemia Figura 22.7 Resumode alguns dos efeitos adversos observados comumente com os diuréti­ cos de alça. PA = pressão arterial.
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    286 Clark, Finkel,Rey & Whalen K• Figura 22.8 Volume deurina Mudanças relativas na composição da urina induzidas pelos diuréticos poupa­ dores de potássio. VI. DIURÉTICOS POUPADORES DE POTÁSSIO Os diuréticos poupadores de potássio atuam no túbulo coletor inibindo a reabsorção de Na+ e a excreção de K+ (Figura 22.8). O principal uso dos poupadores de potássio é no tratamento da hipertensão, mais frequente- , mente em associação com um tiazídico. E extremamente importante que os pacientes em tratamento com algum diurético poupador de potássio sejam cuidadosamente monitorados quanto aos níveis de potássio. A su­ plementação exógena de potássio normalmente é descontinuada quando se inicia o tratamento com diuréticos poupadores de potássio. Estes diu­ réticos devem ser evitados em pacientes com disfunção renal devido ao aumento do risco de hiperpotassemia. A. Antagonistas de aldosterona: espironolactona e eplerenona 1. Mecanismo de ação. A espironolactona é um esteroide sintético que antagoniza a aldosterona no receptor intracelular citoplasmáti­ co.O complexo espironolactona-receptoré inativo. Ou seja, ele evita translocação do complexo receptor para o interior do núcleo das células-alvo e por isso ele não pode se ligarao DNA. Isso resulta na falha da produção de proteínas que normalmente são sintetizadas em resposta à aldosterona. Essas proteínas mediadoras em geral estimulam a troca Na+/K+ no túbulo coletor. Assim, a falta de proteí­ nas mediadoras evita a reabsorção de Na+ e, por consequência, a secreção de K+ e H+. 2. Ações. Na maioria dos estados edematosos, os níveis sanguíneos de aldosterona são elevados, o que colabora na retenção de Na+. Quando a espironolactona é administrada ao paciente com níveis circulantes de aldosterona elevados, esse diurético antagoniza a ati­ vidade do hormônio, resultando na retenção de K+ e na excreção de Na+ (ver Figura 22.8). Em pacientes que não apresentam níveis cir­ culantes de aldosterona significativos, como os com doença de Addi­ son (insuficiência suprarrenal primária), não ocorre qualquer efeito diurético com esse fármaco. Em comum com os tiazídicos e os diu­ réticos de alça, o efeito da espironolactonadepende da síntese renal de prostaglandina. A eplerenona é um novo antagonista de receptor de aldosterona com ações comparáveis às da espironolactona. Ela pode ter menos efeitos endócrinos que a espironolactona. 3. Usos terapêuticos a. Diurético. Embora a espironolactonatenha uma baixa eficácia na mobilização de Na+ do organismo em comparação com os outros diuréticos, elatema útil propriedade de causarretençãode K+. Em decorrência dessa ação, a espironolactonafrequentemente é ad­ ministrada junto com o diurético tiazídico ou de alça, para evitar a excreção de K+, que, de outra forma, ocorre com esses fármacos. Ela é o diurético de escolha em pacientes com cirrose hepática. b. Hiperaldosteronismo secundário. A espironolactonaé o único diurético poupador de potássio usado rotineiramente de forma isolada para induzir um balanço geral negativo de sal. Ela é par­ ticularmente eficazem situações clínicas associadas ao hiperal­ dosteronismo secundário. c. Insuficiência cardíaca. A espironolactona evita o remodela­ mento que ocorre como compensação na insuficiência cardíaca progressiva. Seu uso diminuiu a mortalidade associada com a insuficiência cardíaca.
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    4. Farmacocinética. Aespironolactona é completamente absorvida por via oral e é fortemente ligada às proteínas. Ela é rapidamente convertida no metabólito ativo, a canrenona. A ação da espironolac­ tona é amplamente decorrente do efeito da canrenona, que tem ati­ vidade bloqueadora de mineralocorticoide. A espironolactona induz o citocromo hepático P450. 5. Efeitos adversos. A espironolactona frequentemente causa distúr­ bios gástricos, podendo causar úlcera péptica. Como se assemelha quimicamente a alguns esteroides sexuais, a espironolactona pode atuar em receptores em outros órgãos, induzindo ginecomastia em homens e irregularidades menstruais em mulheres; portanto, o fár­ maco não deve ser administrado de forma crônica em doses ele­ vadas. A espironolactona é mais eficaz nos estados edematosos leves, nos quais ela é administrada durante poucos dias. Em doses baixas, ela pode ser usada cronicamente, com poucos efeitos ad­ versos. Podem ocorrer hiperpotassemia, náuseas, letargia e confu­ são mental. B. Triantereno e amilorida O triantereno e a amilorida bloqueiam os canais de transporte de Na+, resultando em diminuição na troca Na+/K+. Embora apresentem ação diu­ rética poupadora de K+ semelhante à da espironolactona, a capacidade desses fármacos de bloquear os locais de troca Na+/K+ no túbulo coletor não depende da presençade aldosterona. Dessa forma, eles apresentam atividade mesmo em indivíduos com doença de Addison. Como a espiro­ nolactona, o triantereno e a amilorida não são diuréticos muito eficientes. Tanto o tri antereno quanto a amilorida são frequentemente usados em associação a outros diuréticos, em geral devido à sua propriedade pou­ padora de potássio. Por exemplo, muito semelhante à espironolactona, eles previnem a perdade K+que ocorre com os tiazídicos e a furosemida. Os efeitos adversos do triantereno são cãibras nas pernas e o possível aumento do nitrogênio ureico sanguíneo, bem como retenção de ácido úrico e K+. VII. INIBIDORES DA ANIDRASE CARBÔNICA A acetazolamida inibe a enzima anidrase carbônica nas células epiteliais do túbulo proximal. Os inibidores da anidrase carbônica são usados com mais frequência porsuas outras ações farmacológicas do que por seu efeito diuré­ tico, pois são muito menos eficazes do que os diuréticos tiazídicos ou de alça. A. Acetazolamida 1 . Mecanismo de ação. A acetazolamida inibe a anidrase carbônica localizada intracelularmente (citoplasma) e na membrana apical do epitélio tubular proximal (Figura 22.9). (Nota: a anidrase carbônica catalisaa reação entre C02 e H20, produzindo H2C03, que esponta­ neamente se ioniza em H+ e HCO 3- [bicarbonato].) A diminuição na capacidade detrocaentre Na+ por H+ na presença de acetazolamida resulta em umadiurese leve.Além disso, o HC03-é retido no lúmen, com acentuada elevação no pH urinário. A perda de HC03- causa acidose metabólica hiperclorêmica e redução da eficácia diurética após alguns dias de tratamento. As mudanças na composição de eletrólitos urinários, induzidas pela acetazolamida, estão resumidas na Figura 22.1O. A excreção de fosfato é aumentada por mecanismo desconhecido. Farmacologia Ilustrada 287 Lúmen H20 + C02 ___.________, t Anidrase carbônica Célula epitelial do túbulo renal Figura 22.9 Sangue Papel da anidrase carbônica na reten­ ção de sódio pelas células epiteliais do túbulo renal. Figura 22.1O HC0- 3 Volume de urina Mudanças relativas na composição da urina induzidas pela acetazolamida.
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    288 Clark, Finkel,Rey & Whalen LEGENDA Diuréticostiazídicos Diuréticosdealça Diuréticospoupadoresde K• Acetazolamida ExcreçãodeNa• ExcreçãodeK• ExcreçãodeCa2• Volumedeurina J Figura 22.11 Resumo das mudanças relativas na composição da urina causadas pelos fármacos diuréticos. 2. Usos terapêuticos a. Tratamento do glaucoma. O uso mais comum da acetazola­ mida é reduzir a pressão intraocular elevada no glaucoma de ângulo amplo. A acetazolamida diminui a produção de humor aquoso, provavelmente pelo bloqueio da anidrase carbônica no corpo ciliar do olho. Ela é útil no tratamento crônico de glauco­ ma, mas não deve ser usada na crise aguda. Os inibidores da anidrase carbônica tópicos, como dorzolamida e brinzolamida, têm a vantagem de não causar qualquer efeito sistêmico. b. Doença das montanhas. Menos comumente, a acetazolamida pode ser usada na profilaxia da doença aguda das montanhas, que afeta indivíduos saudáveis e fisicamente ativos que sobem rapidamente a altitudes acima de 3.000 metros. A acetazolami­ da administrada no período noturno, durante cinco dias antes da subida, evita a fraqueza, a dificuldade respiratória, a verti­ gem, a náusea e o edema cerebral e pulmonar, característicos da síndrome. 3. Farmacocinética. A acetazolamida é administrada uma a quatro vezes por dia, por via oral. Ela é secretada pelo túbulo proximal. 4. Efeitos adversos. Podem ocorreracidose metabólica (leve), deple­ ção de potássio, formação de cálculos renais, sonolência e pareste­ sia. O fármaco deve ser evitado em pacientes com cirrose hepática, pois pode levar à diminuição da excreção de NH4+. VIII. DIURÉTICOS OSMÓTICOS Inúmeras substâncias químicas hidrofílicas simples que são filtradas pelos glomérulos, como manitol e ureia, resultam em algum grau de diurese. Isso se deve à sua propriedade de carregar águaconsigo para o interiordo líquido tubular. Se a substância que é filtrada sofre pouca ou nenhuma reabsorção subsequente, então ela causará um aumento no débito urinário. Somente uma pequena quantidade de sal adicional é excretada. Como os diuréticos osmóticos são usados para aumentar a excreção de água, em vez de Na+, eles não são úteis no tratamento de condições nas quais ocorre retenção de Na+. Eles são usados para manter o fluxo urinário, após a ingestão de substâncias tóxicas agudas, capazes de produzir insuficiência renal aguda. Os diuréticos osmóticos são o principal tratamento em pacientes com aumen­ to de pressão intracraniana ou com insuficiência renal aguda decorrente de choque, toxicidade pordrogas e traumatismo. A manutenção do fluxo urinário preserva a função renal em longo prazo e pode salvar o paciente da diálise. (Nota: o manitolnão é absorvido quando administrado porvia oral e deve ser usado só porvia IV.) Os efeitos adversos incluem expansão da água extrace­ lular e desidratação, bem como hipo ou hipernatremia. A expansão da água extracelularocorre porque a presença de manitolno líquido extracelular retira água das células e causa hiponatremia até acontecer a diurese. Pode ocorrer desidratação caso a água não for reposta adequadamente. Devido ao seu efeito osmótico, esses fármacos são usados em pacientes com aumento da pressão intracraniana. A Figura 22.1 1 resume as mudanças relativas na composição da urina induzi­ das porfármacos diuréticos.
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    Questões para estudo Escolhaa resposta correta. 22.1 Uma paciente idosa com anamnese de doença cardíaca e que está tendo dificuldade em respirar é levada ao atendi­ mento de emergência. O exame revela edema pulmonar. Qual dos seguintes tratamentos está indicado? A. Espironolactona B. Furosemida C. Acetazolamida D. Clortalidona E. Hidroclorotiazida 22.2 Um grupo de colegas estudantes planeja escalar uma montanha nos Andes. Qual dos seguintes fármacos pode­ ria ser adequado para prevenir a doença das montanhas? A. Um diurético tiazídico B. Um anticolinérgico C. Um inibidor da anidrase carbônica D. Um diurético de alça E. Um 13-bloqueador 22.3 Um alcoólatradesenvolveu cirrose hepática. Para controlar a ascite e o edema, qual dos fármacos a seguir deve ser prescrito? A. Hidroclorotiazida B. Acetazolamida C. Espironolactona D. Furosemida E. Clortalidona 22.4 Um homem de 55 anos com cálculos renais recebeu um diurético para diminuir a excreção de cálcio.Todavia, após algumas semanas, ele desenvolveu uma crise de gota. Que diurético ele estava recebendo? A. Furosemida. B. Hidroclorotiazida. C. Espironolactona. D. Triantereno. E. Ureia. 22.5 Uma mulher de 75 anos com hipertensão está sendo trata­ da com um tiazídico. Sua pressão arterial responde e mos­ tra 120/76 mmHg. Após vários meses de medicação, elase queixa de estar cansada e fraca. O exame bioquímico do sangue indica valores baixos para qual componente? A. Cálcio B. Ácido úrico C. Potássio D. Sódio E. Glicose Farmacologia Ilustrada 289 Resposta correta = 8. Essa é uma situação potencialmente fatal. É importante administrar um diurético que irá reduzir o acúmulo de lí­ quidos nos pulmões e, dessa forma, melhorar a oxigenação e a fun­ ção cardíaca. Os diuréticos de alça são mais eficazes na remoção de grandes volumes de líquido do organismo e são o tratamento de escolha nessa situação. A furosemida normalmente é administrada porvia IV.As outras escolhas são inadequadas. Resposta correta = C. A acetazolamida é usada profilaticamente du­ rante vários dias antes da subida acima de 3.000 metros. Esse trata­ mento previne problemas cerebrais e pulmonares associados com a síndrome, bem como outras dificuldades, como náusea. Respostacorreta= C.A espironolactonaé muitoeficaz notratamento de edema hepático. Esses pacientes com frequência são resistentes à ação diurética dos diuréticos de alça, embora a associação com espironolactona possa ser benéfica. Os outros diuréticos não estão indicados. Resposta correta = 8. A hidroclorotiazida é eficaz em aumentar a reabsorção de cálcio e, assim, diminuir a quantidade de cálcio ex­ cretada e diminuir a formação de cálculos renais que contêm fosfato de cálcio ou oxalato de cálcio. Entretanto, a hidroclorotiazidatambém pode inibir a excreção de ácido úrico e causar seu acúmulo, levando a uma crise de gota em alguns indivíduos. A furosemida aumenta a excreção de cálcio, e os diuréticos poupadores de K+, a espironolac­ tona e o triantereno, não apresentam esse efeito. Resposta correta = C.A hipopotassemia é um efeito adverso comum dos tiazídicos e causa fadiga e letargia nos pacientes. A suplemen­ tação com cloreto de potássio ou com alimentos ricos em K+ corrige o problema. Alternativamente, pode-se adicionar um diurético poupa­ dorde potássio como a espironolactona. Cálcio, ácido úrico e glicose normalmente sãoaumentados pelos diuréticos tiazídicos.A perda de sódio não enfraquece o paciente.
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    290 Clark, Finkel,Rey & Whalen 22.6 Qual dos seguintes diuréticos está contraindicado em um paciente com hiperpotassemia? A. Acetazolamida B. Clorotiazida e. Ácido etacrínico D. Clortalidona E. Espironolactona 22.7 Qual deve ser o tratamento inicial de escolha para lidar com a hipertensão de uma mulher afro-americana com história de gota e grave hipopotassemia? A. Hidroclorotiazida B. Espironolactona C. Valsartano D. Atenolol E. Enalapril Resposta correta = E.A espironolactona atua no túbulo coletor inibin­ do a reabsorção de Na• e a excreção de K•. É extremamente impor­ tante que os pacientes tratados com qualquer um dos diuréticos pou­ padores de potássiotenham seus níveis de potássio cuidadosamente monitorados. A suplementação exógena de potássio em geral é sus­ pensa quando se inicia o tratamento com diurético poupador de po­ tássio e a espironolactona é contraindicada em pacientes com hiper­ potassemia. Os demais fármacos promovem a excreção de potássio. Resposta correta = B. Pacientes afro-americanos com hipertensão respondem mal aovalsartano, atenolol e enalapril. A hidroclortiazida em geral é considerada o fármaco de primeira escolha. Contudo, já que a paciente tem história de hipopotassemia e gota, a espirona­ lactona é o fármaco de escolha. Adicionalmente, o efeito hormonal feminilizanteda espironolactona pode ser problemático para homens, mas não em mulheres.
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    • 1 1. RESUMO • • 1reo 1 O sistema neuroendócrino, controlado pela hipófise e pelo hipotálamo, coor­ dena as funções corporais transmitindo mensagens entre células individuais e tecidos. Isso contrasta com o sistema nervoso que se comunica localmente por impulsos elétricos e neurotransmissores direcionados de neurônio a neu­ rônio ou a órgãos-alvo específicos, como os músculos e as glândulas. Os im­ pulsos nervosos geralmente atuam em milissegundos. O sistema endócrino libera hormônios na corrente sanguínea, que transporta esses mensageiros químicos para as células-alvo por todo o organismo. Os hormônios têm um tempo de resposta muito maior do que os impulsos nervosos, exigindo de se­ gundos a dias, ou mais, para causar uma resposta que pode durar semanas ou meses. Os dois sistemas regulatórios são intimamente relacionados. Por exemplo, em várias situações, a liberação dos hormônios é estimulada ou inibida pelo sistema nervoso, e alguns hormônios podem estimular ou inibir impulsos nervosos. Os Capítulos 24 a 26 focalizam fármacos que afetam a síntese e/ou a secreção de hormônios específicos e suas ações. Neste capí­ tulo, é apresentado resumidamente o papel central dos hormônios hipotalâ­ micos e hipofisários na regulação das funções corporais (Figura 23.1). Além disso, são discutidos os fármacos que afetam a síntese e/ou a secreção dos hormônios da tireoide. li. HORMÔNIOS HIPOTALÂMICOS E DA HIPÓFISE ANTERIOR Os hormônios secretados pelo hipotálamo e pela hipófise são todos peptídeos ou proteínas de baixa massa molecular que atuam se ligando a locais específi­ cos nos seustecidos-alvo.Os hormônios da hipófise anteriorsão regulados por neuropeptídeos que são denominados fatores ou hormônios "liberadores" ou "inibidores". Eles são produzidos nos corpos celulares no hipotálamo e alcan­ çam as células da hipófise pelo sistema portal hipofisário (Figura 23.2). A inte­ ração dos hormônios liberadores com seus receptores resulta na ativação dos genes que promovem a síntese das proteínas precursoras. Então, esses pre- HORMÔNIOSHIPOTALÃMICOSE DAHIPÓFISEANTERIOR Gonadotropina coriônica humana Corticotropina Cosintropina Folitropina alfa Folitropina beta Gonadorrelina Goserrelina Hi strelina Leupro/ida Menotropinas Nafarrelina Octreotida Pegvisomanto Somatropina Urofolitropina HORMÔNIOSDAHIPÓFISEPOSTERIOR Desmopressina Ocitocina Vasopressina (ADH) FÁRMACOSQUEAFETAMATIREOIDE lodo e iodeto depotássio Liotironina Levotiroxina Metimazol Propiltiouracil(PTU) Liotrix Figura 23.1 Alguns dos hormônios e fármacos que afetam o hipotálamo, a hipófise e a ti­ reoide.
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    292 Clark, Finkel,Rey & Whalen Hormôniodo crescimento i Fígado Fatoresde crescimento tipoinsulina Figura 23.2 ACTH • ,,--.. Suprarrenal Glicocorticoides, mineralocorticoides eandrogênios TSH Tireoide Tiroxina HIPOTÁLAMO TRH FSH @ Estrogênio �------- Hipófiseanterior LH (mulheres) Ovário 1 Progesterona Testículos Testosterona Prolactina Glândula mamária Hormônios liberadores hipotalâmicos e ações dos hormônios da hipófise anterior. GHRH = hormônio liberadordo hormô­ nio do crescimento;TRH = hormônio liberador de tirotropina; CRH = hormônio liberador de corticotropina; GnRH (LHRH) = hormônio liberador de gonadotropina (hormônio liberador de hormônio luteinizante); PIH = hormônio inibidor de pro­ lactina (dopamina) e PRH = hormônio liberador de prolactina; ACTH = hormônio adrenocorticotrópico; TSH = hormônio estimulante de tirotropina; FSH = hormônio folículo-estimulante e LH = hormônio luteinizante. cursores proteicos sofrem modificações pós-translacionais para produzir hor­ mônios que são lançados na circulação. (Nota: ao contrário dos hormônios da hipófise posterior, os hormônios da anterior nãosão armazenadosem grânulos antes da liberação.) Cada hormônio regulador hipotalâmico controla a libera­ ção de um hormônio específico da hipófise anterior. Os hormônios liberadores hipotalâmicos são usados primariamente para procedimentos diagnósticos (ou seja, para determinar insuficiência hipofisária). (Nota: o hipotálamo também sintetizaas proteínas precursoras dos hormônios vasopressina e ocitocina, que são transportados para a hipófise posterior, onde são armazenados até a libe­ ração.) Embora inúmeras preparações de hormônios hipofisários sejam usa­ das terapeuticamente contra deficiências hormonais específicas (os exemplos aparecem adiante), a maioria desses fármacos tem aplicações terapêuticas limitadas. Os hormônios da hipófise anterior e posterior são administrados por via IM, SC ou intranasal, mas nunca oral, pois sua natureza peptídica torna-os suscetíveis à destruição pelas enzimas proteolíticas doTGI. A. Hormônio adrenocorticotrópico (corticotropina) O hormônio liberador de corticotropina (CRH, de corticotropin-releasing hormone) é responsável pela síntese e liberação do peptídeo pró-opio­ melanocortina pela hipófise (Figura 23.3). O hormônio adrenocorticotró­ pico (ACTH, de adrenocorticotropic hormone), ou corticotropina, é um
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    produto do processamentopós-translacional desse polipeptídeo precur­ sor. (Nota: o CRH é usado no diagnóstico para diferenciarentre síndrome de Cushing e células ectópicas produtoras de ACTH.) Outros produtos do pró-opiomelanocortina são o hormônio 'Y-melanócito estimulante e as �-lipotropinas, precursoras das endorfinas. Normalmente, o ACTH é libe­ rado da hipófise em pulsos com um predomínio de ritmo diurno, a maior concentração acontecendo aproximadamente às 6 horas e a menor ao anoitecer. O estresse estimula a secreção, e o cortisol suprime sua libe­ ração, atuando via retroalimentação negativa. 1 . Mecanismo de ação. O órgão-alvo do ACTH é a suprarrenal, onde ele se liga a receptores específicos na superfície celular. O receptor ocupado ativa processos acoplados à proteína G para aumentar o AMPe• que, por sua vez, estimula a etapa limitante da síntese do adrenocorticosteroide (de colesterol a pregnenolona). Essa via ter­ mina com a síntese e a liberação dos adrenocorticosteroides e dos androgênios suprarrenais (ver Figura 23.3). 2. Usos terapêuticos. A disponibilidade de adrenocorticosteroides sintéticos com propriedades específicas limitou o uso da corticotro­ pina, principalmente como ferramenta diagnóstica para diferenciar entre insuficiência suprarrenal primária (doença de Addison asso­ ciada à atrofia suprarrenal) e insuficiência suprarrenal secundária (causada pela secreção inadequada de ACTH pela hipófise). Pre­ parações de corticotropina terapêuticas são extraídas da hipófise anterior de animais domésticos ou ACTH humano sintético. Este último, a cosintropina, que consiste nos 24 aminoácidos aminoter­ minais do hormônio, é preferido para o diagnóstico da insuficiência suprarrenal. O ACTH é usado no tratamento da esclerose múltipla e do espasmo infantil (síndromeWest). 3. Efeitos adversos. A toxicidade é similar à dos glicocorticoides e in­ cluem osteoporose, hipertensão, edema periférico, hipopotassemia, distúrbios emocionais e aumento do risco de infecções. B. Hormônio do crescimento (somatotropina) A somatotropina é um grande polipeptídeo que é liberado pela hipófise anterior em resposta ao hormônio liberador do hormônio do crescimento produzido no hipotálamo (verFigura23.2).A secreção do hormôniodo cres­ cimento (GH, de growth hormone) é inibida por outro hormônio hipofisário, a somatostatina (ver a seguir). O GH é liberado de modo pulsátil, com os níveis mais elevados ocorrendo durante o sono. Com a idade, a secreção de GH diminui, sendo acompanhada de uma redução na massa muscular magra. A somatotropina influencia uma ampla variedade de processos bio­ químicos; por exemplo, pela estimulação da síntese proteica são promovi­ dos a proliferação celular e o crescimento ósseo. O aumento da produção de hidroxiprolina a partir da prolina reforça a síntese de cartilagem. O GH humano sintético é produzido portecnologia de DNA recombinante e deno­ minado somatropi na. O GH de fontes animais é ineficaz no homem. 1 . Mecanismo de ação. Embora vários efeitos fisiológicos do GH se­ jam exercidos diretamente nos seus alvos, outros são mediados pelas somatomedinas - fatores de crescimento tipo insulina 1 e li (IGF-1 e IGF-11, de insuli n-like growth factor). (Nota: na acromegalia [uma síndrome do excesso de hormônio do crescimento], os níveis de IGF-1 são consistentemente elevados, refletindo GH elevado.) 2. Usos terapêuticos. A somatotropina é usada no tratamento da de­ ficiência de GH no crescimento em crianças. É importante estabele- , , Farmacologia Ilustrada 293 , HIPOTÁLAMO LOBO POSTERIOR.-- CRH HIPÓFISE , SUPRARRENAL , , , , , , · - . • • • • • • LOBO ANTERIOR Pró-oplo­ melano­ cortina ºt ACTH · - . • • • ........ Colesterol - - º - - ) • Pregnenolona Desmolase i SUPRARRENAL Ações anti-inflamatórias Aumentaa gliconeogênese Aumenta ahidrólise de proteínas Progesterona � t Cortisol Cortisol Figura 23.3 Secreção e ações do hormônio adreno­ corticotrópico (ACTH). CRH = hormô­ nio liberador de corticotropina.
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    294 Clark, Finkel,Rey & Whalen HIPOTÁLAMO Moduladores deliberação i..-"' deFSHeLH Leupro/ida Goserrelina Nafarrelina Histrelina GnRH HIPÓFISE Figura 23.4 LOBO ANTERIOR FSH,LH o FSH,LH Secreção do hormônio folículo-estimu­ lante (FSH) e do hormônio luteinizante (LH). GnRH = hormônio liberador de gonadotropina. cer se o déficit de GH é realmente devido ao hipopituitarismo, pois outros fatores, como estado normal da tireoide, são essenciais para o sucesso do tratamento com somatotropina. A somatotropina é in­ dicada também para a falta de crescimento devido à síndrome de Prader-Willi, combater a síndrome de caquexia daAids, a síndrome do intestino curto e a reposição de GH em adultos com deficiência confirmada deste hormônio. (Nota: após estudo publicado em 1 990 indicando que a administração de GH a homens com mais de 60 anos, por 6 meses, aumenta a massa corporal, a densidade óssea e a espessura da pele, enquanto diminui o tecido adiposo, o GH também passou a ser denominado hormônio antienvelhecimento. Isso levou ao abuso por alguns atletas sequiosos de melhorar seu desempenho. O GH não está aprovado para esse propósito, e al­ gumas pessoas que o usaram desenvolveram diabetes.) Embora a meia-vida do GH seja curta (cerca de 25 minutos), ele induz a liberação de IGF-1 (antigamente denominado somatomedina C) do fígado, que é responsável pelas ações semelhantes a GH subse­ quentes. A somatropina não deve ser usada em pacientes pediátri­ cos com epífises fechadas. Deve ser evitada também em pacientes com pressão intracraniana aumentada, retinopatia diabética e em pacientes obesos com síndrome Prader-Willi. C. Somatostatina (hormônio inibidor do hormônio do crescimento) Na hipófise, a somatostatina se liga a receptores próprios, SSTR2 e SSTRS, que suprimem a liberação de hormônio tireoide estimulante e GH. Originalmente isolada do hipotálamo, a somatostati na é um polipep­ tídeo pequeno que também é encontrado em neurônios pelo organismo, bem como no intestino e no pâncreas. A somatostatina, portanto, tem inúmeras ações. Por exemplo, ela não só inibe a liberação de GH, mas também a de insulina, glucagônio e gastrina. O ocreotídeo é um octapep­ tídeo sintético análogo da somatostatina. Sua meia-vida é maior do que a do composto natural e há disponível uma forma de depósito. A solução injetável e a formulação de depósito suprimem GH e IGF-1 por 1 2 horas e 6 semanas, respectivamente. Elas são úteis no tratamento da acromega­ lia causada por tumores secretores de hormônio e na diarreia secretória associada a tumores produtores de peptídeo intestinal vasoativo (VIPo­ mas). Os efeitos adversos do ocreotídeo são diarreia, dor abdominal, flatulência, náuseas e esteatorreia. O esvaziamento da vesícula biliar é retardado, podendo ocorrer cálculos biliares assintomáticos de coleste­ rol no tratamento de longa duração. (Nota: um análogo do GH humano ligado a um polímero de polietilenoglicol, pegvisomanto, é empregado no tratamento da acromegalia refratáriaa outros modos de intervenção, seja cirúrgica, radiológica ou farmacológica. Ele atua como antagonista em um dos receptores do GH e resulta na normalização dos níveis de IGF-1.) D. Hormônio liberador de gonadotropina (hormônio liberador de hormônio luteinizante) O hormônio liberador de gonadotropina (GnRH), também denominado gonadorrelina, é um decapeptídeo obtido do hipotálamo. A secreção pulsátil do GnRH é essencial para a liberação dos hormônios folículo­ -estimulante (FSH, de follic/e-stimulati ng hormone) e luteinizante (LH, de luteinizing hormone) da hipófise, ao passo que a administração con­ tínua inibe a liberação das gonadotropinas. Inúmeros análogos sintéti­ cos, como /euprolida, goserrelina, nafarrelina e histrelina, atuam como agonistas nos receptores do GnRH (Figura 23.4). Eles são eficazes em suprimir a produção de hormônios gonadais quando administrados con-
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    tinuamente e, assim,são eficazes no tratamento de câncer prostático, endometriose e puberdade precoce. Em mulheres, os análogos causam fogachos e sudoração, bem como diminuição da libido, depressão e cis­ tos ovarianos. Eles são contraindicados na gestação e amamentação. No homem, inicialmente eles causam aumento na testosterona, o que pode ocasionar dor óssea; há também a possibilidade de ocorrer fogachos, edema, ginecomastia e diminuição da libido. E. Gonadotropinas: gonadotropina menopausa! humana, hormônio folículo-estimulante e gonadotropina coriônica humana As gonadotropinas são glicoproteínas produzidas pela hipófise anterior. A regulação dos hormônios esteroidais gonadais depende delas. Elas são usadas no tratamento da infertilidade no homem e na mulher. As menotropinas (gonadotropina menopausa/ humana ou hMG, de human menopausa/gonadotropin) são obtidas da urina da mulher menopausada e contêm FSH e LH. A gonadotropina coriônica (hCG, de human cho­ rionic gonadotropin) é um hormônio placentário estruturalmente relacio- , nado ao LH que é um agonista do receptor LH. E excretado na urina. A urofolitropina é FSH obtido da mulher após a menopausa e é isenta de LH. A folitropina alfa e a folitropina beta são FSH humano produzidos usando tecnologia de DNA recombinante. Todos esses hormônios são usados por via IM ou SC. A injeção de hMG ou FSH por um período de 5 a 12 dias causa crescimento e maturação do folículo ovariano e, com a subsequente injeção de hCG, ocorre ovulação. Em homens com falta de gonadotropinas, o tratamento com hCG causa maturação sexual externa e, com a injeção subsequente de hMG, ou foli pronina ocorre espermato­ gênese. Em mulheres, os efeitos adversos incluem crescimento ovariano e possível hipovolemia. Nascimentos múltiplos não são incomuns.Os ho­ mens podem desenvolver ginecomastia. F. Prolactina A prolactina é um hormônio peptídico secretado pela hipófise anterior e com estrutura similar ao GH. Sua secreção é inibida pela dopamina via receptores 02• A função primária da prolactina é estimular e manter a lactação. Além disso, eladiminui o impulso sexual e a função reprodutiva. O hormônio se dá em um receptor transmembrana que ativa a tirosina­ quinase promovendo a fosforilação da tirosina e ativação gênica. Não há fármacos disponíveis para condições hipoprolactinêmicas. Contudo, a hi­ perprolactinemia, que estáassociada à galactorreia e hipogonadismo, de maneirageral étratada com agonistas de receptor D2, como a bromocrip­ tina e a cabergolina. Os dois fármacos também têm uso no tratamento de microadenomas, macroprolactinomas hipofisários e hiperprolactine­ mia. Entre os efeitos adversos estão náuseas, cefaleia e, algumas vezes, transtornos psiquátricos. Ili. HORMÔNIOS DA HIPÓFISE POSTERIOR Em contraste com os hormônios do lobo anterior da hipófise, os do lobo posterior, vasopressina e ocitocina, não são regulados por hormônios li­ beradores. Eles são sintetizados no hipotálamo, transportados para a hi­ pófise posterior e liberados em resposta a sinais fisiológicos específicos, como osmolaridade plasmática elevada ou parto. Ambos são nonapep­ tídeos com estrutura circular decorrente de ponte dissulfeto. A redução do dissulfeto inativa esses hormônios. Eles são suscetíveis à hidrólise proteolítica e, assim, administrados porvia parenteral. Ambos têm meias­ -vidas muito curtas. As suas ações estão resumidas na Figura 23.5. Farmacologia Ilustrada 295
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    296 Clark, Finkel,Rey & Whalen HIPOTÁLAMO LOBO POSTERIOR.--' ....--JL,V,asopressina Ocitocina LOBO ANTERIOR HIPÓFISE o 6 Contração Ejeção o uterina doleite Túbulo proximal Ramo ascendenteda alçadeHenle Túbulo contorcido distal Reabsorção Túbulo coletor Figura 23.5 Ações da ocitocina e da vasopressina. A. Ocitocina A ocitocina, originalmente extraída de hipófises posteriores de animais, agora é sintetizada. Seu único uso é obstétrico, no qual ela é empregada para estimular contrações uterinas para induzirou reforçar o parto. (Nota: a sensibilidade do útero à ocitocina aumenta com a duração da gestação quando está sob domínio estrogênico.) Para induzir o parto, a ocitocina é administrada porvia IV. A ocitoci na causa ejeção do leite contraindo as células mioepiteliais ao redor do alvéolo mamário. Embora toxicidades sejam incomuns quando o fármaco é usado de forma adequada, foram registrados casos de hipertensão, ruptura uterina, retenção de água e morte fetal. Os efeitos antidiurético e pressórico da ocitocina são muito menores do que os da vasopressina. (Nota: a ocitocina é contraindicada na apresentação fetal anormal, estresse fetal e partos prematuros.) B. Vasopressina A vasopressina (ou hormônio antidiurético, HAD) é relacionada estrutu­ ralmente com a ocitocina. O nonapeptídeo sintético substituiu os extra­ tos de hipófise posterior de animais. A vasopressina tem efeito antidiuré­ tico e vasopressor (ver Figura 23.5). Nos rins, ela se liga ao receptor V2 aumentando a permeabilidade e a reabsorção de água nos túbulos cole­ tores. Assim, o principal uso da vasopressina étratar o diabetes insípido. Ela também tem uso na parada cardíaca e no controle do sangramento devido a varizes esofágicas ou divertículos de colo. Outros efeitos da vasopressina são mediados pelo receptorV1 , que se encontra no fígado, no músculo liso vascular (onde causa constrição) e em outros tecidos. Como esperado, a principal toxicidade da vasopressina é a intoxicação aquosa e a hiponatremia.Também podem ocorrer cefaleia, broncocons­ trição e tremores. Deve haver cautela ao tratar pacientes com doença arterial coronariana, epilepsia e asma. Para evitar os efeitos pressores, a vasopressina foi modificada à desmopressina (vasopressina-1-desa­ mino-8-d-arginina), que tem atividade mínima no receptorV,, livrando-a amplamente dos efeitos pressóricos. Atualmente esse análogo é preferi­ do contra o diabetes insípido e a enurese noturna, além de teração mais longa do que a vasopressina. A desmopressina é administrada conve­ nientemente por via intranasal ou oral. Entretanto, a formulação nasal não é mais indicada contra a enurese devido aos registros de convul­ sões em crianças que usaram o spraynasal. Pode ocorrer irritação local com a formulação nasal. IV. HORMÔNIOSTIREÓIDEOS A glândula tireoide facilita o crescimento normal e a maturação, mantendo um nível de metabolismo nos tecidos que é o ideal para sua função normal. Os dois principais hormônios tireóideos são a tri-iodotironina (T3, a forma mais ativa) e a tiroxina (T .J. Embora a tireoide não seja essencial para a vida, se­ creções inadequadas dos hormônios tireóideos (hipotireoidismo) resultam em bradicardia, baixa resistência ao frio e lentidão na atividade mental e física (em crianças, isso pode causar retardo mental e nanismo). Contudo, se houver secreção excessiva de hormôniostireóideos (hipertireoidismo), podem ocorrer taquicardia e arritmias cardíacas, debilitação corporal, nervosismo, tremores e produção excessiva de calor. (Nota: a glândula tireoide também secreta o hormônio calcitonina- um hormônio que reduz o nível sérico de cálcio.) A. Síntese e secreção dos hormônios tireóideos A glândula tireoide é composta de múltiplos folículos que consistem em uma simples camada de células epiteliais circundando um lúmen preen-
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    PLASMA CÉLULATIREOIDE S íntese de tlroglobullna Aminoácidos- - - - - - -==; :-- - - - --, Farmacologia Ilustrada 297 COLOIDE OH ::::::=�-- Resíduosdetirosina o CH2 Propiltiouracil Metimazol Tiroglobulina OH o' o 1 o1 11-lz H - C -NH+ 1 3 coo- OH 1 01 o 1 01 q1-1.z H - C- N1i3+ 1 coo- Tri-iodotironina Tiroxina (Ta) (T4) Figura 23.6 Iodeto elevado Peroxidase -------+ 12 Liberação proteolítica dos hormônios Biossíntese dos hormônios tireóideos. lodinação HO o 1o 1 chido com tiroglobulina, que é aforma de armazenamento dos hormônios tireóideos. O resumo das etapas na síntese e secreção dos hormônios tireóideos está representado na Figura 23.6. 1. Regulação da síntese. A função tireóidea é controlada por um hor­ mônio trópico, o hormônio estimulante da tireoide (tirotropina ou TSH, de thyroid-stímulatíng hormone). O TSH é uma glicoproteína, estru­ turalmente relacionada ao LH e FSH, sintetizada pela hipófise ante­ rior (ver Figura 23.2). A geração de TSH é regulada pelo hormônio liberador de tirotropina hipotalâmico (TRH, de thyrotropin-releasíng hormone). A ação doTSH é mediada pelo AMPe e leva à estimulação da captação de iodeto (1-). A oxidação a iodo (12) pela peroxidase é seguida da iodinaçãodastirosinas natireoglobulina. (Nota: anticorpos à peroxidasetireoideana sãodiagnósticos da tireoidite de Hashimoto.) A condensação de dois resíduos di-iodotirosina dá origem a T 4, e a condensação do resíduo monoiodotirosina com o di-iodotirosina gera o T3, que continuam ligados à proteína. Os hormônios são liberados após clivagem proteolítica da tireoglobulina. 2. Regulação da secreção. A secreção de TSH pela hipófise ante­ rior é estimulada pelo TRH hipotalâmico. Ocorre retroalimentação negativa do TRH quando há níveis elevados de hormônio tireóideo circulante. (Nota: em doses farmacológicas, dopamína, somatostatí­ na ou glicocorticoides também podem suprimira secreção deTSH.) A maioria do hormônio (T3 e T4) no plasma está ligada à globulina ligadora de tiroxina. OH o Condensação Propiltiouracil Metimazol
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    298 Clark, Finkel,Rey & Whalen Fenitoí na Rifampicina Fenobarbital Figura 23.7 Indução enzimátic Metabólitos A indução enzimática pode aumentar a metabolização dos hormônios tireói­ deos. T3 = tri-iodotironina; T4 = tiroxina. B. Mecanismo de ação A T3 e a T 4 precisam dissociar-se das proteínas plasmáticas ligadoras de tiroxina antes de entrar nas células, seja por difusão ou transporte ativo. Na célula, a T 4 é desiodinada enzimaticamente a T 3, que entra no núcleo e se liga a receptores específicos.A ativação desses receptores promove a formação de RNA e a subsequente síntese de proteínas, que são as responsáveis pelos efeitos daT4• C. Farmacocinética Tanto T3 quanto T4 são absorvidas após administraçãovia oral.Alimentos, preparações com cálcio e antiácidos contendo alumínio podem diminuir a absorção de T 4, mas não de T3• A T 4 é convertida em T 3 por uma de duas desiodinases, dependendo do tecido. Os hormônios são metabolizados pelo sistema microssomal P450. Os fármacos que induzem as enzimas P450, como fenitoína, rifampicina e fenobarbital, aceleram o metabolismo dos hormônios tireóideos (Figura 23.7). D. Tratamento do hipotireoidismo O hipotireoidismo em geral resulta da destruição autoimune da glândula ou da peroxidase e é diagnosticado pelo alto nível de TSH. Ele é tratado com levotiroxina (T4). O fármaco é administrado uma vez por dia devido à sua longa meia-vida. O estado de equilíbrio é alcançado em 6 a 8 se­ manas. A toxicidade depende dos níveis de T 4 e se manifesta por nervo­ sismo, palpitações cardíacas e taquicardia, intolerância ao calor e perda inexplicada de massa corporal. E. Tratamento do hipertireoidismo (tirotoxicose) Quantidades excessivas de hormônio tireóideo na circulação estão as­ sociadas a inúmeras doenças, incluindo Mal de Graves, adenoma tóxico e bócio. Nessas situações, os níveis de TSH estão reduzidos devido à retroalimentação negativa. O objetivo do tratamento é diminuir a síntese e/ou a liberação do hormônio excessivo. Isso pode ser alcançado remo­ vendo parte ou toda a glândula tireoide, inibindo a síntese dos hormônios ou bloqueando a liberação dos hormônios dos folículos. 1. Remoção de parte ou de toda a tireoide. Isso pode ser realizado por cirurgia ou destruição da glândula por partículas emitidas pelo iodeto radiotivo (113 1), que é captado seletivamente pelas células foliculares tireóideas. Pacientes mais jovens são tratados com o isótopo sem o tratamento prévio com metimazol (ver a seguir), ao passo que o oposto é o caso dos pacientes idosos. A maioria dos pacientes se torna hipotireóidea como resultado desse fármaco e necessita de tratamento com levotiroxi na. 2. Inibição da síntese do hormônio tireóideo. As tioaminas, propil­ tiouraci/ e metimazo/, são concentradas na tireoide, onde inibem os processos oxidativos exigidos para a iodinação dos grupos tirosila e a condensação (ou acoplamento) das iodotirosinas para formar T 3 e T4 (ver Figura 23.6). O propiltiouraciltambém bloqueia a conversão de T 4 em T3• (Nota: esses fármacos não têm efeito na tiroglobulinajá armazenada na glândula; por isso, a observação de efeitos clínicos desses fármacos é postergada até que os estoques de tiroglobulina sejam esgotados. Figura 23.8.) As tioamidas são bem absorvidas do TGI, mas têm meias-vidas curtas.Várias doses de propiltiouraci/são necessárias por dia. O metimazol é administrado em 3 dosificações diárias iguais, com intervalos de aproximadamente 8 horas. Podem
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    ocorrer recaídas. Efeitosadversos relativamente raros incluem agra­ nulocitose, urticária e edema. Devido ao potencial de toxicidade he­ pática ou insuficiência hepática o propiltiouracil deve ser reservado aos pacientes que são intolerantes ao metimazol. 3. Crise tireóidea. A crise tireóidea se apresenta com sintomas ex­ tremos de hipertireoidismo. As opções terapêuticas contra a crise tireoidea são as mesmas do hipertireoidismo, exceto que os fár­ macos devem ser administrados em dosagens maiores e mais fre­ quentes. �-bloqueadores que não têm atividade simpaticomimética, como o propranolo/, são eficazes em controlar a estimulação sim­ pática generalizada que ocorre no hipertireoidismo.A administração IV é eficaz no tratamento da crise tireóidea. A alternativa para pa­ cientes que sofrem de insuficiência cardíaca grave ou asma é o blo­ queador de canais de cálcio, dilti azem. Outros fármacos usados no tratamento da crise tireóidea incluem propiltiouracil, iodedos, meios de contraste iodinados (que rapidamente inibem a conversão deT4 aT3), e glicocorticoides (para proteger contra o choque). 4. Bloqueio da liberação dos hormônios. Uma dose farmacológi­ ca de iodeto inibe a iodinação das tirosinas (o denominado "Efeito Wolff-Chaikoff agudo"), mas este efeito dura poucos dias. O mais importante é que os iodetos também inibem a liberação dos hormô­ nios tireóideos da tiroglobulina por mecanismo não entendido. Atual­ mente, o iodeto raramente é usado como tratamento único. Contudo, ele é usado no tratamento da crise tireotóxica (crise tireóidea) po­ tencialmente fatal ou prévio à cirurgia, pois diminui a vascularização da glândula tireoide. O iodeto não é útil para tratamentos de longa duração, pois a tireoide deixa de responder ao fármaco em poucas semanas. O iodeto é administrado por via oral. Os efeitos adversos são relativamente desprezíveis e incluem lesões, feridas na mucosa oral e garganta, tumefação da língua ou laringe, erupções e ulcera­ ções das membranas mucosas e gosto metálico na boca. ln o -8 100 · - 'º e · - - ::::s CI) CI) "C 50 E CI) i - i Farmacologia Ilustrada 299 Metimazol Propiltiouracil � o º � :....__. _ ___._ _ __._ _ ___._ _ __, 11. 10 20 30 40 50 Tempo,semanas Figura 23.8 Tempo necessário para que pacientes com hipertireoidismo devido ao Mal de Graves se tornem eutireóideos com concentrações deT4 eT3 normais.
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    300 Clark, Finkel,Rey & Whalen Questões para estudo Escolha a resposta correta. 23.1 Os sintomas de hipertireoidismo incluem todos os citados a seguir, exceto: A. Taquicardia B. Nervosismo C. Intolerância ao frio D. Emagrecimento E. Tremores 23.2 Qual das alternativas descreve melhor o efeito do propil­ tiouracil na produção do hormônio tireóideo? A. Bloqueia a liberação de hormônio liberadordetirotropina. B. Inibe a captação de iodeto pelas células tireóideas. C. Previne a liberação de hormônio tireóideo datiroglobu­ lina. D. Bloqueiaa iodinação e o acoplamento das tirosinas em tireoglobulina para formar os hormônios tireóideos. E. Bloqueia a liberação do hormônio da glândula tireoide. 23.3 O hipertireoidismo pode ser tratado com todos os seguin­ tes, exceto: A. Tri-iodotironina. B. Remoção cirúrgica da glândula tireoide. C. Iodeto. D. Propiltiouracil. E. Metimazol. 23.4 Qual dos seguintes hormônios é não peptídico permitindo o uso oral? A. Hormônio adrenocorticotrófico B. Hormônio do crescimento C. Hormônio liberagor de gonadotrofinas (GnRH) D. Tiroxina E. Hormônio liberador de corticotropina 23.5 Qual dos seguintes fármacos está relacionado INCORRE­ TAMENTE com sua indicação clínica? A. Desmopressina: tratamento do diabetes insípido. B. Octreotida: tratamento da diarreia associada com tu- mores secretores de peptídeo intestinal vasoativo. C. Ocitocina: indução do parto. D. hCG: tratamento da infertilidade no homem e na mulher. E. Pegvisomanto: tratamento da baixa estatura no ho­ mem e na mulher. Respostacorreta = C. O indivíduo com hipertireoidismo comfrequên­ cia experimenta excessiva produção de calor. As outras opções são todas sintomas de hipertireoidismo. Resposta correta = D. O propiltiouracil bloqueia a síntese de hormô­ nios tireóideos, mas não afeta a captação de iodeto, a clivagem pro­ teolítica da tiroglobulina ou a liberação dos hormônios da glândula tireoide. Os hormônios tireóideos inibem a secreção do hormônio estimulante da tireoide da hipófise anterior. Resposta correta = A. A tri-iodotironina é um hormônio tireóideo que é produzido em excesso no hipertireoidismo. As demais opções são tratamentos contra o hipertireoidismo. Respostacorreta = D. Embora atiroxinaseja derivadado aminoácido tirosina, ela não é um peptídeo e é estável no estômago ácido. As demais opções são inadequadas. Resposta correta = E. O pegvisomanto é um antagonista nos recep­ tores do hormônio do crescimento e usado para tratar acromegalia. As demais opções estão relacionadas corretamente com seus usos clínicos.
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    • nsu 1 nae , ar acos • • 1 ice 1. RESUMO O pâncreas é uma glândula endócrina que produz os hormônios peptídicos, insulina, glucagon e somatostatina, e uma glândula exócrina que produz en­ zimas digestivas. Os hormônios peptídicos são secretados das células locali­ zadas nas ilhotas de Langerhans (células 13 produzem insulina, células o. pro­ duzem glucagon e células S produzem somatostatina). Esses hormônios têm um importante papel na regulação das atividades metabólicas do organismo, particularmente na homeostasia da glicose. 1 A hiperinsulinemia (decorrente, p. ex., de um insulinoma) pode causar grave hipoglicemia. A falta relativa ou absoluta de insulina, como no diabetes melito, pode causar grave hiperglice­ mia. Se esta condição não for tratada, podem resultar retinopatia, nefropatia, neuropatia e complicações cardiovasculares. A administração de insulina ou fármacos hipoglicemiantes orais ou injetáveis (Figura 24.1) pode evitar a mor­ bidade e reduzir a mortalidade associada ao diabetes. li. DIABETES MELITO A incidência de diabetes está crescendo rapidamente em todo o mundo; por exemplo, estima-se que mais de 250 milhões de pessoas sofram com diabetes e a prevalência deve exceder os 350 milhões até 2030. Nos Estados Unidos, cerca de 23,6 milhões de pessoas sofrem de diabetes, e essa é uma das maiores causas de morbidade e mortalidade. O diabetes não é uma doença simples. Ele é um grupo heterogêneo de síndromes caracterizadas por eleva­ ção da glicemia causada pordeficiência absolutaou relativa de insulina. (Nota: a liberação inadequada de insulina comumente é agravada pelo excesso de glucagon.) A American Diabete Association (ADA) reconhece quatro classi­ ficações clínicas do diabetes: diabetes tipo 1 (anteriormente diabetes melito dependente de insulina), diabetes tipo 2 (anteriormente, diabetes melito não � 1Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão � sobre a insulina na homeostasia da glicose. INSULINA Insulina asparte Insulina detemir Insulina glargina Insulina glulisina Insulina lispro Insulina NPH suspensão Insulina regular . ANÁLOGODA AMILINA Pranlintida FÁRMACOSORAIS Acarbose Glimepirida Gli pizida Glibenclamida Metformina Miglitol Nateglinida Pioglitazona Repaglinida Rosiglitazona Saxagliptina Sitagli ptina Tolbutamida INCRETINAMIMÉTICOS Figura 24.1 Exenatida Liraglutida Resumo dos fármacos usados no trata­ mento do diabetes.
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    302 Clark, Finkel,Rey & Whalen Tipo 1 Tipo 2 Idadeno Geralmente Frequentemente início duranteainfância acimados oua puberdade. 35anos. Estado Frequentemente Geralmente nutricional subnutrido. presençade noinício obesidade. Prevalência 5a 10%dos 90a95°/odos diabéticos diabéticos diagnosticados. diagnosticados. Predisposição Moderada. Muitoforte. genética Defeitoou Ascélulas13são Incapacidadedas deficiência destruídas, células13de eliminandoa produzir produçãode quantidades insulina. apropriadasde insulina; resistência àinsulina;outros defeitos. Figura 24.2 Comparação entre os diabetes tipo 1 e tipo 2. Indivíduosnormais m e · ­ - ::::1 Ul e · - -8 rJ ·- 40 ;; E !(! i5.. o 'ti m ... / Diabetestipo2 Diabetestipo1 li o ��---�----� u � o 5 10 o Minutos I -- - - r:r Infusãode glicose Figura 24.3 1 Liberação de insulina que ocorre em resposta a uma carga de glicose por via IV em indivíduos normais e em pa­ cientes diabéticos. dependente de insulina), diabetes gestacional e diabetes devida a outras cau­ sas (p. ex., defeito genético ou medicações) 2 • A Figura 24.2 resume as carac­ terísticas do diabetes tipo 1 e tipo 2. O diabetes gestacional é definido como intolerância aos carboidratos com início ou primeiro reconhecimento durante a , gestação. E importante manter controle glicêmico adequado durante a gesta- ção, pois o diabetes gestacional descontrolado pode causar macrossomiafetal (corpo anormalmente grande), distocia de ombro (dificuldade no parto), bem como hipoglicemia neonatal. Dieta, exercício e/ou administração de insulina são eficazes nessa condição. Gliburida e metformina podem ser alternativas razoavelmente seguras ao tratamento com insulina para o diabetes gestacio­ nal. Contudo, grandes estudos randomizados são necessários para avaliarde­ finitivamente o resultado neonatal e o regime de dosagem ideal. A. Diabetes tipo 1 O diabetes tipo 1 atinge mais comumente indivíduos adultos jovens ou que estão na puberdade, mas algumas formas latentes podem ocorrer mais tardiamente. A doença se caracteriza por uma falta absoluta de in­ sulina causada por extensa necrose das células J3. A perda da função das células J3 em geral é atribuída a processos autoimunes direcionados contra essas células e pode ser deflagrada por invasão virai ou ação de toxinas. Como resultado da destruição dessas células, o pâncreas deixa de responder à glicose, e o diabetes tipo 1 mostra os sintomas clássicos da deficiência de insuli na (polidipsia, polifagia, poliúria e perda de massa corporal). O diabetes tipo 1 exige insuli na exógena para evitar o estado catabólico que resulta e é caracterizado pela hiperglicemiae a cetoacido­ se ameaçadora à sobrevida. 1. Causas do diabetes tipo 1 . No período pós-absortivo, são man­ tidos níveis baixos basais de insulina circulante pela secreção constante das células J3. Isso suprime a lipólise, a proteólise e a glicogenólise. Uma onda de secreção de insulina ocorre dentro de 2 minutos da ingestão do alimento, em resposta ao aumento transi­ tório dos níveis de glicose e aminoácidos circulantes. Isso dura por até 15 minutos e é seguido de secreção pós-prandial de insuli na. Contudo, não possuindo células J3 funcionais, o diabético tipo 1 nun­ ca consegue manter um nível de secreção basal de insulina e nem responde às variações de energia circulantes (Figura 24.3). O de­ senvolvimento e a evolução da neuropatia, nefropatia e retinopatia estão relacionados diretamente com o grau de controle glicêmico (medido como glicemia e/ou hemoglobina A1c [HbA,c]). 3 2. Tratamento. A pessoacom diabetes tipo 1 depende da insulina exó­ gena (injetada) paracontrolara hiperglicemia, evitara cetoacidose e manter níveis aceitáveis de hemoglobina glicosilada (HbA1c)· (Nota: a velocidade de formação de HbA1c é proporcional à média da gli­ cemia nos três meses prévios. Por isso a HbA1c serve como medida de quão bem o tratamento normalizou a glicemia no paciente dia­ bético.) O objetivo da administração de insulina ao diabético tipo 1 é manter a concentração de glicose tão próxima do normal quanto possível e evitar as variações amplas entre seus níveis de glicose que podem contribuir para as complicações de longo prazo. O uso de monitores de glicemia domésticos facilita a automonitoração fre- 2 Ver Bioquí mica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre o diabetes tipo 1 e tipo 2. 3Ver Bioquí mica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão sobre hemoglobina A1c.
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    quente e otratamento com as injeções de insulina. A infusão SC contínua de insuli na, também da bombade insulina, é outro método de administração usado. Esse método pode ser mais conveniente para alguns pacientes, eliminando as múltiplas injeções diárias de insulina. A bomba é programada para oferecer a quantidade basal de secreção de insulina e também permite ao paciente controlar a administração de bolus de insuli na para compensar uma glicemia elevada ou em antecipação às necessidades pós-prandiais. Outros métodos de administração de insulina, como transdérmica, bucal e intranasal, estão sob investigação. A amilina é um hormônio que é cossecretado com a insulina pelas células � do pâncreas, após a alimentação. A pranlintida é um análogo sintético da amilina e pode ser usada como auxiliar do tratamento com insulina. B. Diabetes tipo 2 A maioria dos diabéticos tem o tipo 2 dadoença, o qual é influenciado por fatores genéticos, idade, obesidade e resistência periférica à insulina, e não por um processo autoimune ou virai. As alterações metabólicas ob­ servadas são mais leves do que as descritas para o tipo 1 (p. ex., os pa­ cientes dotipo 2 normalmente são não cetóticos), mas as consequências clínicas de longo prazo podem ser tão devastadoras quanto as do tipo 1 (p. ex., complicações vasculares e infecção subsequente podem levar à amputação dos membros inferiores). 1 . Causa. No diabetes tipo 2, o pâncreas mantém alguma função das células �. mas a secreção de insulina é variável e insuficiente para manter a homeostasia da glicose (ver Figura 24.3). A quantidade de células � pode se reduzir gradualmente no diabetes tipo 2. Em contraste com os pacientes com diabetes tipo 1 , os com tipo 2 com frequência são obesos. (Nota: nem todos os indivíduos obesos se tornam diabéticos.) O diabetes tipo 2 com frequência é acompanha­ do da falta de sensibilidade dos órgãos-alvo à insulina endógena e exógena (Figura 24.4). Essa resistência à insulina é considerada como a maior causa desse tipo de diabetes. 2. Tratamento. O objetivo no tratamento do diabetes tipo 2 é manter a glicemia dentro da faixa normal e evitar o desenvolvimento das com­ plicações de longo prazo da doença. Redução de massa corporal, exercícios e modificação da dieta diminuem a resistência à insulina e corrigem a hiperglicemia do diabetes tipo 2 em alguns pacientes. Contudo, a maioria dos pacientes é dependente da intervenção far­ macológica com hipoglicemiantes orais. Enquanto a doença evolui, a função das células diminui, e o tratamento com insulina passa a ser necessário para alcançar níveis glicêmicos satisfatórios (Figura 24.5). Ili. A INSULINA E OS SEUS ANÁLOGOS A insulina é um hormônio polipeptídico consistindo em duas cadeias peptídi­ cas unidas por pontes dissulfeto. Ela é sintetizada como um precursor (pró­ -insulina) que sofre hidrólise proteolítica para formar insulina e peptídeo e, ambos secretados pelas células do pâncreas 4 • (Nota: Como a insulina sofre extração hepática significativa, sua concentração plasmática circulante não reflete a produção insulina acuradamente. Assim, a mensuração do peptídeo C circulante é um indicador melhor dos níveis de insuli na.) � 4 Ver Bioquímica ilustrada, 4ª edição, Artmed Editora, para uma discussão � sobre a síntese e a secreção de insulina. Farmacologia Ilustrada 303 O Resistência à insulina nos tecidos periféricos FÍGADO Produção aumentada deglicose Glicose . . . • • . . . . . . . . . . • • ·:�: : . . � .... .. TECIDO ADIPOSO .., Captação diminuída , ""? deglicose •. . MÚSCULO r:I Secreção inadequada de U insulina pelas células � PÂNCREAS t '· • • :::: :::: ·::- Insulina ... . . . Figura 24.4 Principais fatores que contribuem para a hiperglicemia observada no diabetes tipo 2. T olerância à glicose Normal insuficiente 1 Diabetes tipo 2 O a 5 5 a 1 5 Maisde anos anos 15 anos Sem Dieta Dieta Tratamento Injeções tratamento mais associado múltiplas metformina de insulina Gravidade crescente da doença Figura 24.5 Duração do diabetes tipo 2, suficiência da insulina endógena e sequência re­ comendada do tratamento.
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    304 Clark,Finkel,Rey& Whalen ,, Sintomascausados pelahipoglicemia Cefaleia Taquicardia Ansiedade D Confusão -- Vertigens Diaforese Lipodistrofia Hipersensibilidade Figura 24.6 Efeitos adversos observados com insu­ lina. (Nota: a lipodistrofia é uma atrofia ou hipertrofia do tecido gorduroso sub­ cutâneo, localizada no local da injeção.) A. Secreção de insulina A secreção de insulina é regulada não só pelos níveis sanguíneos de glicose, mas também porcertos aminoácidos, outros hormônios e media­ dores autonômicos. A secreção é mais comumente iniciada pela hipergli­ cemia. A glicose é captada pelo transportador de glicose nas células � do pâncreas. Ali a glicose é fosforilada pela glicoquinase, que atua como um sensor de glicose. Os produtos do metabolismo da glicose entram na cadeia respiratória mitocondrial e geram trifosfato de adenosina (ATP). O aumento dos níveis de ATP causa um bloqueio nos canais de K+, levan­ do à despolarização de membrana e ao influxo de Ca 2 +. O aumento no Ca 2 + intracelular causa exocitose pulsátil de insulina. As sulfonilureias e as glitinidas devem seu efeito hipoglicemiante à inibição dos canais de K+. (Nota: a glicose administrada por injeção tem um efeito mais fraco na secreção de insulina do que a glicose ingerida por via oral. Ingerida via oral, a glicose estimula a produção do hormônios incretina pelo intestino, que, por sua vez, estimula a secreção de insuli na pelo pâncreas.) B. Fontes de insulina A insuli na humana é produzida portecnologia de DNA recombinante usan­ do cepas especiais de Escherichia coliou fungos alterados geneticamente para contero gene para a insulina humana. Modificações da sequência de