Ano 12 - No
58 | 2017
2017 AINDA TERÁ
DESAFIOS, MAS
A ECONOMIA VOLTA
A RESPIRAR
DIAS
MELHORES
ELA QUER
COMPRARCOMO A EXECUTIVA ISRAELENSE
MIA STARK CONSEGUIU
ALAVANCAR A GAZIT EM
TEMPOS DE CRISE NO BRASIL
Q
uando chegou ao País, em
2013, para tornar-se CEO
da Gazit Brasil, a executiva
israelense Mia Stark tinha
um desafio monumental. “Minha mis-
são era construir uma companhia”,
lembra ela. Subsidiária da Gazit
Globe, que controla aproximada-
mente US$ 20 bilhões em ativos em
mais de 20 países, a Gazit Brasil já
estava em São Paulo desde 2008. No
entanto, ainda era pouco conhecida
em seu segmento – aquisição, de-
senvolvimento e administração de
shopping centers. “Fiquei tão focada
no negócio que não tive tempo para
aprender português. Por sorte, meu
time e a maioria dos meus interlocu-
tores conversam em inglês comigo”,
conta a CEO da Gazit Brasil.
Mesmo sem falar português, Mia,
42 anos, conseguiu convencer a fa-
mília gaúcha Zaffari, dona da rede
de hipermercados homônima, a abrir
uma loja em um de seus shoppings – o
Morumbi Town, que a Gazit ergueu
a partir de antigas instalações de um
Carrefour. A vitória é particularmente
significativa porque os Zaffari são,
eles próprios, desenvolvedores de
centros de compras. Também adqui-
riu dois shoppings, o Top Center, na
avenida Paulista, e o Light, no viaduto
do Chá, e comprou participações nos
shoppings Eldorado e Cidade Jardim,
todos em São Paulo. A Gazit Brasil
tem hoje nove empreendimentos no
País, dois fora da capital paulista – em
Campinas e Caxias do Sul. “Mas a es-
tratégiaéconcentrarnossosnegócios
em São Paulo. Os demais possivel-
mente serão vendidos.”
Mia vivia em Miami com o ma-
rido, o arquiteto Ofer Stark, e os três
filhos, dois meninos, hoje com 13 e
11 anos, e uma menina de 8, quando
veio a proposta de assumir a Gazit
Brasil, feita pelo próprio chairman
SÉRGIOCASTRO/ESTADÃOCONTEÚDO/AE
P o r S I B E L L E P E D R A L
32 33
| entrevista |
ANÚNCIO
A
do grupo, Chaim Katzman. Dona
de um estilo peculiar de gestão, não
tem assistente, comunica-se com seus
stakeholdersporaplicativosevisitaos
shoppingscontroladospelaGazit(eos
concorrentes) pelo menos três vezes
por semana. Essas visitas são a única
ocasião em que precisa de intérprete:
a CEO ouve lojistas e consumidores
para identificar novas oportunidades
e ouvir demandas. “Nossos clientes
no Shopping Light nos pediram uma
padaria. Fechamos uma parceria com
a Benjamin Abrahão”, conta ela. O
corpo a corpo traz ganhos para o ne-
gócio: em 2016, quando as vendas no
varejo caíram cerca de 6%, de acordo
com o IBGE, os negócios da empresa,
segundo Mia, contabilizaram alta de
4,3%. Nesta entrevista, a executiva
fala mais sobre a estratégia da Gazit
e os planos para o Brasil.
Quando você chegou, o ambiente
de negócios já começava a se
deteriorar. Como conseguiu fazer a
Gazit se expandir nessa fase?
É preciso ter o coração forte para
fazer negócios no Brasil. Quando a
Gazit abriu sua subsidiária brasi-
leira, a economia estava crescendo.
Realizamos as primeiras aquisições
ainda sem considerar o tamanho do
País e a logística necessária para
operar em outras cidades, como
Caxias de Sul, onde compramos o
San Pelegrino. Já em 2013, o cená-
rio era bem diferente. Tivemos que
nos esforçar para não ser arrastados
pela corrente de más notícias e mais:
para motivar as pessoas a pensar
positivo. É fácil se deixar desmotivar
por todas as denúncias de corrupção
Top Center, em São Paulo – a
primeira aquisição sob a gestão
de Mia: “como a Times Square”
FOTOS:DIVULGAÇÃO
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| entrevista |
ANÚNCIO
A
e pela insegurança. Ouvi muita coisa
ruim, mas sempre interrompia meus
interlocutores e dizia: “Chega, vamos
focar no que é positivo, porque o ne-
gativo existe em toda a parte. Eu ve-
nho de Israel, portanto não venham
me dizer o que é fácil e o que não é”.
Qual era a sua missão?
Buscaroportunidadesdevalor.Nossa
primeira aquisição foi o Top Center,
na Paulista. Essa avenida é um dos
meus lugares favoritos em São Paulo.
Sempre que penso, ‘Meu Deus, para
onde vai este país?’, vou lá, vejo
todo aquele movimento e percebo
que as pessoas ainda saem às ruas
e fazem compras. O Top Center era
um empreendimento fantástico, que
lembrava a Times Square, em Nova
York. No entanto, estava datado. Nós
o transformamos, trocando 80% dos
lojistas. Mudamos o mix. Em um ano,
tivemos um aumento de vendas da
ordem de 30%.
A Gazit acaba de comprar 33%
do Shopping Cidade Jardim, um
empreendimento de luxo em um
bairro afluente, mas também é
proprietária do Shopping Light,
no centro da capital. Qual a
estratégia por trás de movimentos
tão diferentes?
A estratégia é criar laços com todos
ossegmentosdacidade.Nãoestamos
preocupadoscomclassessociais,mas
sim em identificar oportunidades, co-
nhecer a região onde investiremos e
prover o que falta, para aumentar o
fluxodepessoasemnossosshoppings.
O Shopping Light é um dos prédios
mais lindos e icônicos de São Paulo,
mas estava abandonado. Estamos
transformando-odemaneiragradual
e firme. O Cidade Jardim é nossa pri-
meira imersão no segmento de luxo.
Temos um bom relacionamento com
o proprietário [a JHFS Participações]
e estamos estudando como podemos
contribuir com o que já existe lá.
Além disso, essa experiência com o
segmentodeluxopodenosajudarem
empreendimentos em outros países.
Prevê novas aquisições em 2017?
Estamosprospectandoalgumasopor-
tunidades, como sempre. Queremos
crescer, ficar maiores e mais fortes
no Brasil. Nesse momento, os indica-
dores econômicos são muito bons: a
Bolsa vai bem, a Selic cai, o momento
é excelente e parece que o Brasil está
no caminho certo novamente. Sinto
ventos otimistas, em contraste com o
anopassado,quandooestadodeespí-
rito, em geral, era pesado e negativo.
Quanto a Gazit pretende investir?
Não revelamos esse número, mas
posso dizer que, quando vou a Is-
rael vender uma boa oportunidade,
nunca ouço não. Mesmo que o inves-
timento seja bilionário. Nosso capital
vem de Israel, de nossos investidores.
Não nos endividamos. Sai muito caro.
Seu grupo prefere ser proprietário
dos shoppings ou vê vantagens em
ter pequenas participações?
A intenção é sempre ter o controle,
porque sabemos que podemos fazer
a diferença. Quando compramos o
Shopping Light, enxergamos cla-
ramente como poderíamos melho-
rá-lo. O Eldorado foi um movimento
“QUANDO VOU A
ISRAEL VENDER
UMA BOA
OPORTUNIDADE,
NUNCA OUÇO
NÃO, MESMO QUE
O INVESTIMENTO
SEJA BILIONÁRIO”
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| entrevista |
ANÚNCIO
A
estratégico: temos a primeira opção
de compra caso eles decidam vender.
Só concordamos em ser minoritários
seacreditarmosnoempreendimentoe
napossibilidadedeadquirirumafatia
maior. É nossa estratégia.
Construir shoppings praticamente do
zero, como o Morumbi Town, também
é estratégico?
Na verdade, não gostamos de de-
senvolver. Demora e é frustrante,
especialmente em São Paulo, mas a
Gazit já tinha comprado o empreen-
dimento, uma loja Carrefour. Como
moro na região, comecei a perguntar
do que as pessoas ali sentiam falta.
Foi quando decidimos focar nas fa-
mílias. Foi também quando nos apro-
ximamos dos Zaffari, que já conhe-
cíamos do nosso shopping em Caxias
do Sul. Adoramos o envolvimento
deles com o negócio, que é da famí-
lia, e a preocupação com qualidade.
Também somos assim.
Você veio de um país com 8 milhões
de habitantes para uma cidade com
12 milhões. Foi impactante mudar-se
para São Paulo?
São Paulo é uma cidade maravilhosa
e com enorme potencial para os ne-
gócios. Tem a melhor gastronomia,
um clima agradável, uma população
sociável,quegostadesairesedivertir.
Meusfilhosestudamaqui,minhavida
hoje é aqui e acabo de pedir para ficar
pelo menos mais dois anos no Brasil.
No fim das contas, é de gente que se
trata: de encontrar as pessoas certas,
quetenhamasmesmasmetas,confiar
nelas e criar bons relacionamentos.
Tento aproveitar todas as oportuni-
dades que a vida me oferece. n
“NOSSA INTENÇÃO
É TER O CONTROLE
DOS NOSSOS
SHOPPINGS.
SABEMOS
COMO FAZER
A DIFERENÇA.
NO CASO DO
ELDORADO,
TEMOS A
PRIMEIRA OPÇÃO
DE COMPRA”
Na inauguração do Morumbi
Town: foco nas famílias e
conexão com a rede Zaffari
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| entrevista |

Entrevista com Mia Stark

  • 1.
    Ano 12 -No 58 | 2017 2017 AINDA TERÁ DESAFIOS, MAS A ECONOMIA VOLTA A RESPIRAR DIAS MELHORES
  • 2.
    ELA QUER COMPRARCOMO AEXECUTIVA ISRAELENSE MIA STARK CONSEGUIU ALAVANCAR A GAZIT EM TEMPOS DE CRISE NO BRASIL Q uando chegou ao País, em 2013, para tornar-se CEO da Gazit Brasil, a executiva israelense Mia Stark tinha um desafio monumental. “Minha mis- são era construir uma companhia”, lembra ela. Subsidiária da Gazit Globe, que controla aproximada- mente US$ 20 bilhões em ativos em mais de 20 países, a Gazit Brasil já estava em São Paulo desde 2008. No entanto, ainda era pouco conhecida em seu segmento – aquisição, de- senvolvimento e administração de shopping centers. “Fiquei tão focada no negócio que não tive tempo para aprender português. Por sorte, meu time e a maioria dos meus interlocu- tores conversam em inglês comigo”, conta a CEO da Gazit Brasil. Mesmo sem falar português, Mia, 42 anos, conseguiu convencer a fa- mília gaúcha Zaffari, dona da rede de hipermercados homônima, a abrir uma loja em um de seus shoppings – o Morumbi Town, que a Gazit ergueu a partir de antigas instalações de um Carrefour. A vitória é particularmente significativa porque os Zaffari são, eles próprios, desenvolvedores de centros de compras. Também adqui- riu dois shoppings, o Top Center, na avenida Paulista, e o Light, no viaduto do Chá, e comprou participações nos shoppings Eldorado e Cidade Jardim, todos em São Paulo. A Gazit Brasil tem hoje nove empreendimentos no País, dois fora da capital paulista – em Campinas e Caxias do Sul. “Mas a es- tratégiaéconcentrarnossosnegócios em São Paulo. Os demais possivel- mente serão vendidos.” Mia vivia em Miami com o ma- rido, o arquiteto Ofer Stark, e os três filhos, dois meninos, hoje com 13 e 11 anos, e uma menina de 8, quando veio a proposta de assumir a Gazit Brasil, feita pelo próprio chairman SÉRGIOCASTRO/ESTADÃOCONTEÚDO/AE P o r S I B E L L E P E D R A L 32 33 | entrevista |
  • 3.
    ANÚNCIO A do grupo, ChaimKatzman. Dona de um estilo peculiar de gestão, não tem assistente, comunica-se com seus stakeholdersporaplicativosevisitaos shoppingscontroladospelaGazit(eos concorrentes) pelo menos três vezes por semana. Essas visitas são a única ocasião em que precisa de intérprete: a CEO ouve lojistas e consumidores para identificar novas oportunidades e ouvir demandas. “Nossos clientes no Shopping Light nos pediram uma padaria. Fechamos uma parceria com a Benjamin Abrahão”, conta ela. O corpo a corpo traz ganhos para o ne- gócio: em 2016, quando as vendas no varejo caíram cerca de 6%, de acordo com o IBGE, os negócios da empresa, segundo Mia, contabilizaram alta de 4,3%. Nesta entrevista, a executiva fala mais sobre a estratégia da Gazit e os planos para o Brasil. Quando você chegou, o ambiente de negócios já começava a se deteriorar. Como conseguiu fazer a Gazit se expandir nessa fase? É preciso ter o coração forte para fazer negócios no Brasil. Quando a Gazit abriu sua subsidiária brasi- leira, a economia estava crescendo. Realizamos as primeiras aquisições ainda sem considerar o tamanho do País e a logística necessária para operar em outras cidades, como Caxias de Sul, onde compramos o San Pelegrino. Já em 2013, o cená- rio era bem diferente. Tivemos que nos esforçar para não ser arrastados pela corrente de más notícias e mais: para motivar as pessoas a pensar positivo. É fácil se deixar desmotivar por todas as denúncias de corrupção Top Center, em São Paulo – a primeira aquisição sob a gestão de Mia: “como a Times Square” FOTOS:DIVULGAÇÃO 34 | entrevista |
  • 4.
    ANÚNCIO A e pela insegurança.Ouvi muita coisa ruim, mas sempre interrompia meus interlocutores e dizia: “Chega, vamos focar no que é positivo, porque o ne- gativo existe em toda a parte. Eu ve- nho de Israel, portanto não venham me dizer o que é fácil e o que não é”. Qual era a sua missão? Buscaroportunidadesdevalor.Nossa primeira aquisição foi o Top Center, na Paulista. Essa avenida é um dos meus lugares favoritos em São Paulo. Sempre que penso, ‘Meu Deus, para onde vai este país?’, vou lá, vejo todo aquele movimento e percebo que as pessoas ainda saem às ruas e fazem compras. O Top Center era um empreendimento fantástico, que lembrava a Times Square, em Nova York. No entanto, estava datado. Nós o transformamos, trocando 80% dos lojistas. Mudamos o mix. Em um ano, tivemos um aumento de vendas da ordem de 30%. A Gazit acaba de comprar 33% do Shopping Cidade Jardim, um empreendimento de luxo em um bairro afluente, mas também é proprietária do Shopping Light, no centro da capital. Qual a estratégia por trás de movimentos tão diferentes? A estratégia é criar laços com todos ossegmentosdacidade.Nãoestamos preocupadoscomclassessociais,mas sim em identificar oportunidades, co- nhecer a região onde investiremos e prover o que falta, para aumentar o fluxodepessoasemnossosshoppings. O Shopping Light é um dos prédios mais lindos e icônicos de São Paulo, mas estava abandonado. Estamos transformando-odemaneiragradual e firme. O Cidade Jardim é nossa pri- meira imersão no segmento de luxo. Temos um bom relacionamento com o proprietário [a JHFS Participações] e estamos estudando como podemos contribuir com o que já existe lá. Além disso, essa experiência com o segmentodeluxopodenosajudarem empreendimentos em outros países. Prevê novas aquisições em 2017? Estamosprospectandoalgumasopor- tunidades, como sempre. Queremos crescer, ficar maiores e mais fortes no Brasil. Nesse momento, os indica- dores econômicos são muito bons: a Bolsa vai bem, a Selic cai, o momento é excelente e parece que o Brasil está no caminho certo novamente. Sinto ventos otimistas, em contraste com o anopassado,quandooestadodeespí- rito, em geral, era pesado e negativo. Quanto a Gazit pretende investir? Não revelamos esse número, mas posso dizer que, quando vou a Is- rael vender uma boa oportunidade, nunca ouço não. Mesmo que o inves- timento seja bilionário. Nosso capital vem de Israel, de nossos investidores. Não nos endividamos. Sai muito caro. Seu grupo prefere ser proprietário dos shoppings ou vê vantagens em ter pequenas participações? A intenção é sempre ter o controle, porque sabemos que podemos fazer a diferença. Quando compramos o Shopping Light, enxergamos cla- ramente como poderíamos melho- rá-lo. O Eldorado foi um movimento “QUANDO VOU A ISRAEL VENDER UMA BOA OPORTUNIDADE, NUNCA OUÇO NÃO, MESMO QUE O INVESTIMENTO SEJA BILIONÁRIO” 36 | entrevista |
  • 5.
    ANÚNCIO A estratégico: temos aprimeira opção de compra caso eles decidam vender. Só concordamos em ser minoritários seacreditarmosnoempreendimentoe napossibilidadedeadquirirumafatia maior. É nossa estratégia. Construir shoppings praticamente do zero, como o Morumbi Town, também é estratégico? Na verdade, não gostamos de de- senvolver. Demora e é frustrante, especialmente em São Paulo, mas a Gazit já tinha comprado o empreen- dimento, uma loja Carrefour. Como moro na região, comecei a perguntar do que as pessoas ali sentiam falta. Foi quando decidimos focar nas fa- mílias. Foi também quando nos apro- ximamos dos Zaffari, que já conhe- cíamos do nosso shopping em Caxias do Sul. Adoramos o envolvimento deles com o negócio, que é da famí- lia, e a preocupação com qualidade. Também somos assim. Você veio de um país com 8 milhões de habitantes para uma cidade com 12 milhões. Foi impactante mudar-se para São Paulo? São Paulo é uma cidade maravilhosa e com enorme potencial para os ne- gócios. Tem a melhor gastronomia, um clima agradável, uma população sociável,quegostadesairesedivertir. Meusfilhosestudamaqui,minhavida hoje é aqui e acabo de pedir para ficar pelo menos mais dois anos no Brasil. No fim das contas, é de gente que se trata: de encontrar as pessoas certas, quetenhamasmesmasmetas,confiar nelas e criar bons relacionamentos. Tento aproveitar todas as oportuni- dades que a vida me oferece. n “NOSSA INTENÇÃO É TER O CONTROLE DOS NOSSOS SHOPPINGS. SABEMOS COMO FAZER A DIFERENÇA. NO CASO DO ELDORADO, TEMOS A PRIMEIRA OPÇÃO DE COMPRA” Na inauguração do Morumbi Town: foco nas famílias e conexão com a rede Zaffari 38 | entrevista |