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DA NOVA GUERRA FRIA, DA GUERRA COMERCIAL, DA GUERRA
FINANCEIRA E DA GUERRA CIBERNÉTICA À 3ª GUERRA MUNDIAL?
Fernando Alcoforado*
Este artigo tem por objetivo apresentar as características da guerra moderna baseada em
pesquisa aprofundada sobre a marcha da nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a
Rússia, a guerra comercial entre Estados Unidos e China e suas consequências, a guerra
financeira como arma de guerra moderna, a guerra cibernética como arma de guerra
moderna, a inevitabilidade ou não da 3ª Guerra Mundial, as causas da violência e das
guerras no mundo para, no final, apresentar como eliminar as guerras no planeta. A nova
Guerra Fria resulta do fato de os Estados Unidos e as forças da OTAN estarem ampliando
suas presenças nas fronteiras da Rússia. A guerra comercial foi desencadeada pelos
Estados Unidos contra a China para evitar que este país assuma a condição de potência
econômica hegemônica no planeta. A guerra financeira tem sido desencadeada pelos
Estados Unidos, contra seus inimigos, como o Irã, a Rússia e a China, com o objetivo
de degradar as capacidades de seus inimigos e subjugá-los com a adoção de sanções
econômicas e financeiras, enquanto busca vantagem geopolítica em áreas específicas para
levar o país inimigo a um estado de quase colapso e paralisia, a uma catástrofe financeira
enquanto avançando em outras frentes. A guerra cibernética está sendo desencadeada
pelos Estados Unidos, pela Rússia, pela China, entre outros países para atacarem
computadores e redes de países inimigos que afetem recursos necessários para a guerra
estudando o sistema profundamente para descobrir suas falhas e usando essa falhas para
controlar esse sistema ou destruí-lo. O declínio dos Estados Unidos e a ascensão
econômica da China, que pode assumir a condição de maior potência mundial em meados
do século XXI, podem desencadear a 3ª Guerra Mundial diante da tensão criada entre
eles. Paralelamente ao esforço de educação de todos os seres humanos com a cultura da
paz, é preciso colocar em prática uma governança democrática do mundo para evitar que
novas guerras mundais se repitam. Este é o único meio de sobrevivência da espécie
humana e de sustar a decadência da humanidade.
1. Em marcha nova Guerra Fria
Na era contemporânea, uma das estratégias do governo norte-americano consiste em
impedir a Rússia de alçar à condição de grande potência mundial ou mesmo regional e a
China não ultrapassá-la como maior potência econômica do planeta. A partir do ano 2000,
a Rússia resolveu desenvolver uma parceria estratégica com a China. A Rússia considerou
que a China poderia ajudá-la na sua resistência às ambições geopolíticas dos Estados
Unidos tanto na Europa Oriental, quanto no Cáucaso ou na Ásia Central. A Organização
da Cooperação de Xangai (Shanghai Cooperation Organization – SCO) foi criada em
2001 para estabelecer uma aliança entre a Rússia e a China em termos militares e de
combate ao terrorismo, ao fundamentalismo religioso e ao separatismo na região da Ásia.
A SCO é uma organização de cooperação política e militar que se propõe explicitamente
ser um contrapeso aos Estados Unidos e às forças militares da OTAN. Putin resolveu as
últimas disputas territoriais com a China em 2004, tornando segura sua fronteira oriental.
Os dois países defendem, em geral, posições convergentes na ONU e nos demais fóruns
internacionais, como, por exemplo, o G20 (Ver o artigo A Geopolítica das Relações entre
a Federação Russa e os EUA: da “Cooperação” ao Conflito de Numa Mazat e Franklin
Serrano publicado no website
<https://revistas.ufrj.br/index.php/oikos/article/view/51868>).
2
A Rússia está flexionando seus músculos militares que é o maior desafio de Moscou desde
o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Em 2010, o Parlamento
russo (Duma) aprovou um programa para 2011-2020 que destinou 20 trilhões de rublos
para o rearmamento e acrescentou três trilhões de rublos para atualizar a indústria militar.
A ambição declarada é a de que, até 2020, as forças armadas russas fossem 70 por cento
"modernas". O exército iria receber 2.300 novos tanques, a Força Aérea 1200 aviões,
incluindo helicópteros e a Marinha 50 navios de superfície e 28 submarinos (Ver o artigo
Em marcha nova Guerra Fria de Fernando Alcoforado, publicado no website
<https://pt.slideshare.net/falcoforado/em-marcha-nova-guerra-fria-43461945>). É
importante observar que a Rússia é hoje um grande fornecedor de armas para os países
que querem manter sua independência em relação aos Estados Unidos, como a Índia. Da
mesma forma, as nações que sofrem de embargo sobre armas por parte dos Estados
Unidos como a China, a Venezuela ou o Irã fazem compras militares com a Rússia. Além
disso, a Rússia continua sendo a grande potência nuclear mundial ao lado dos Estados
Unidos.
Em 16 de maio de 2014, Rússia e China anunciaram a assinatura de um “tratado de amizade”
contemplando um acordo sobre o gás, pelo qual os dois países iriam construir um gasoduto
para exportar gás russo para a China. A China emprestaria à Rússia o dinheiro com o qual esta
construiria a sua parte do gasoduto. A Gazprom (maior produtora russa de gás e de petróleo)
fez algumas concessões de preço à China (Ver o artigo Ojogogeopolíticoda RússiaedaChina
de Immanuel Wallerstein publicado no website
<https://www.esquerda.net/en/node/33179>). O governo dos Estados Unidos busca
desestabilizar a economia russa para vergar seu governo, ou mesmo derrubar sua principal
liderança, Putin motivo pelo qual sofre sanções econômicas, além de procurar derrubar o
regime iraniano, cuja economia, já fragilizada pelas sanções econômicas, depende mais
do que nunca de preços do petróleo acima de US$ 100 por barril. Os Estados Unidos são
inimigos mortais do Irã, por se constituírem o último produtor de petróleo no Oriente
Médio não alinhado ao Ocidente e pelos seus planos de desenvolver tecnologia nuclear.
Petróleo e gás natural contribuem com mais de 68% da receita de exportação da Rússia e
mais de 50% do orçamento do governo.
A tentativa de desestabilizar a economia russa, sobretudo depois da guerra entre Rússia e
Ucrânia, está contribuindo para o incremento da escalada militar confrontando a Rússia
contra os Estados Unidos e as forças da OTAN. Esta escalada militar e o agravamento da
situação econômica da Rússia resultante das sanções impostas pelos Estados Unidos e
União Europeia poderão radicalizar o conflito da Rússia com os Estados Unidos fazendo
com que o governo russo decida pelo uso de armas nucleares que poderia reforçar ainda
mais o poder de Vladimir Putin no comando da Rússia mobilizando a nação contra o
inimigo externo comum. Em contrapartida, os Estados Unidos e as forças da OTAN estão
ampliando sua presença nas fronteiras da Rússia dando início a uma nova Guerra Fria.
Igor Gielow publicou no website <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/03/eua-
alertam-para-risco-de-guerra-nuclear-com-china-e-
russia.shtml?utm_source=sharenativo&utm_medium=social&utm_campaign=sharenati
vo> o artigo “EUA alertam para risco de guerra nuclear com China e Rússia”. Neste
artigo, há a afirmação do chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos
Estados Unidos, General Mark Milley, de que o conflito não é inevitável, mas pede
dinheiro ao Congresso para dissuadir rivais. Segundo Milley, pela primeira vez na
história, os Estados Unidos enfrentam o risco de uma guerra com duas potências nucleares
3
ao mesmo tempo, a China e a Rússia. Lutar simultaneamente contra elas seria muito
difícil, apesar das capacidades militares americanas. Este alarmismo de Milley busca
sensibilizar os congressistas. O general pediu a aprovação do maior orçamento de Defesa
da história dos Estados Unidos. Ele delineou todos os elementos de risco em curso.
Afirmou, por exemplo, que Putin continua a usar retórica e postura nucleares
irresponsáveis enquanto a Rússia fazia um dos maiores exercícios com mísseis
intercontinentais da história recente. O general Mark Milley afirmou que os Estados
Unidos e a Rússia detêm pouco mais de 90% das 13 mil ogivas espalhadas pelo mundo.
Milley afirma que a China tem milhares de mísseis de alcance local nos seus arsenais,
que seriam de difícil contenção pelos Estados Unidos com seu inventário atual,
defendendo investimento em armas hipersônicas e outras. Ele diz que o potencial para
conflito armado está crescendo. A China permanece como desafio número 1 de segurança
geoestratégica de longo prazo citando a expansão militar da China no Indo-Pacífico e as
medidas americanas contra isso, como patrulhas (pediu mais navios) e o pacto militar
Aukus que fornecerá submarinos nucleares para a Austrália.
2. A guerra comercial entre Estados Unidos e China e suas consequências
Com o argumento de que buscava proteger os produtores norte-americanos e reverter o
déficit comercial que os Estados Unidos têm com a China, o presidente Donald Trump
anunciou desde 2018 a adoção de tarifas sobre produtos importados do país asiático. O
objetivo era dificultar a chegada de produtos chineses aos Estados Unidos, o que
estimularia a produção interna. O governo da China, por sua vez, reagiu a esses anúncios
com retaliações, chegando a impor também tarifas sobre produtos norte-americanos.
Durante sua campanha eleitoral, os discursos de Donald Trump já apontavam para uma
tendência protecionista, com críticas ao déficit comercial dos Estados Unidos em relação
à China. Já como presidente, Trump fez o primeiro anúncio de taxas sobre produtos
chineses em março de 2018. Desde então, anunciou várias medidas e ameaçou adotar
outras. A China respondeu também com barreiras comerciais aos produtos norte-
americanos e com ameaças. Enquanto a China e os Estados Unidos estão travando sua
guerra comercial, a maioria dos economistas supõe que a China não tardará de alcançar a
supremacia econômica global. Afinal, com uma população quatro vezes maior do que a
dos Estados Unidos e um plano econômico projetado para recuperar o atraso após séculos
de estagnação tecnológica, não é inevitável que a China assuma a condição de potência
econômica hegemônica no planeta.
A ascensão da China e seu rápido sucesso não se baseia unicamente no tamanho de sua
população. A Índia, por exemplo, tem uma população semelhante (ambas são cerca de
1,3 bilhão de pessoas), mas, pelo menos por enquanto, está muito mais atrasada. A
liderança econômica do governo chinês deve ser creditada pelo trabalho miraculoso de
tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza para a condição de classe média. O rápido
crescimento da China tem sido impulsionado principalmente pelo progresso e
investimento em tecnologia. A China, ao contrário da União Soviética, mostra
excepcional inovação tecnológica local. Não por acaso, as empresas chinesas já estão
liderando o caminho tecnológico da próxima geração de redes móveis 5G e sua
capacidade é elevada para uma guerra cibernética com os Estados Unidos. As realizações
da China ainda se originam, em grande parte, da adoção da tecnologia ocidental e, em
alguns casos, da apropriação da propriedade intelectual. A China está seguindo seu
próprio caminho demonstrando que sistemas políticos centralizados e planejados são
capazes de impulsionar mais e mais rapidamente o desenvolvimento do que sistemas
4
baseados no livre mercado. A China pode liderar o futuro digital mesmo se os Estados
Unidos tentarem impedir fazendo a sua parte. A era iminente das máquinas inteligentes
pode ser um ponto de virada a favor da China na batalha pela hegemonia global com os
Estados Unidos.
Os últimos acontecimentos não indicam uma solução rápida para a guerra comercial entre
os Estados Unidos e a China. A China, que monopoliza 80% da produção mundial de
terras raras, ameaça se negar a exportar para seu rival esses minerais cruciais. É
importante observar que a disputa entre Estados Unidos e China vai além da questão
econômica porque diz respeito a uma questão geopolítica. Estamos diante da primeira
grande disputa geopolítica do século XXI, entre duas superpotências com os Estados
Unidos em declínio e a China em ascensão como potência hegemônica economicamente.
Uma potência que está emergindo como a China incomoda a potência que está
estabelecida e em declínio como os Estados Unidos. Esse é um problema clássico das
relações internacionais. Artigo de Harold Thibault et Simon Leplâtre, publicado no Le
Monde de 01/02/2019, sob o título Chine : avec Huawei, la guerre de la 5G est déclarée
(China: com a Huawei, a guerra de 5G é declarada), disponível no website
<https://www.lemonde.fr/international/article/2019/02/01/chine-avec-huawei-la-guerre-
de-la-5g-est-declaree_5417769_3210.html#xtor=AL-32280270>, informa que a
ascensão meteórica da Huawei e seus laços com o poder chinês a colocaram no centro da
guerra comercial e geopolítica entre a China e os Estados Unidos. O governo norte-
americano vem acusando a Huawei de ser uma ameaça à segurança dos Estados Unidos
e avisa seus aliados.
Com seu laboratório de Pesquisa de Inteligência Artificial, a Huawei, empresa chinesa,
ocupou o segundo lugar em vendas de smartphones que era da Apple, mas estava ainda
atrás da Samsung a quem esperava superar em 2020. Seus dispositivos são mais baratos
do que os dos concorrentes coreanos ou americanos. Desde 2017, é líder mundial como
fabricante de equipamentos de redes móveis, fornecendo antenas, retransmissores e outras
infraestruturas para as operadoras móveis conectarem seus clientes em qualquer local. A
Huawei tornou-se a empresa com maior número de patentes na Europa. Seus gastos em
pesquisa e desenvolvimento - US$ 13,8 bilhões (12 bilhões de euros) em 2017 - situam-
se no nível dos gigantes do Vale do Silício. A Huawei desenvolve com a inteligência
artificial protótipos de carros autônomos e está trabalhando com a Audi em direção
autônoma de veículos conectados. Sua ascensão, num campo estratégico, coloca este
novo gigante no centro da guerra pela dominação comercial e tecnológica que a China e
os Estados Unidos estão envolvidos. No final de novembro de 2018, o Wall Street
Journal revelou que o governo dos Estados Unidos estava realizando uma massiva
ofensiva diplomática para convencer governos e operadoras de telefonia em países
aliados a se absterem de instalar equipamentos da Huawei. Os países de acolhimento de
bases dos Estados Unidos são particularmente solicitados a escolher entre a tecnologia
chinesa ou a proteção americana.
Por que os Estados Unidos e outros países suspeitam da Huawei? Diplomatas e
funcionários da inteligência dos Estados Unidos insistem com seus parceiros europeus,
australianos ou japoneses alertando sobre os perigos inerentes à 5G desenvolvida pela
Huawei. O 5G é possibilitado pela instalação de um maior número de antenas, para troca
de volumes maiores de dados, com terminais móveis que se multiplicam: smartphones,
veículos, dispositivos médicos, drones. Um adensamento da rede onde tudo passa por
antenas "inteligentes". Nesta rede estão "estações de base", tecnologias condensadas que
5
oferecem oportunidades de espionagem e sabotagem, segundo o artigo de Harold Thibault
et Simon Leplâtre, publicado no Le Monde. Segundo Harold Thibault et Simon Leplâtre,
a transição para 5G envolve grandes mudanças tecnológicas. De agora em diante, os
dados sensíveis também estarão acessíveis nas antenas de retransmissão. Todos devem
estar cientes de que os riscos de capturar dados são reais. O mercado dos Estados Unidos
está fechado para a Huawei desde 2012, depois que o Comitê de Inteligência do
Congresso concluiu que a Huawei representa uma ameaça à segurança nacional. Um
número crescente de países está dando as costas à Huawei. A Huawei foi excluída da
licitação para 5G nos Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e pode ser excluída no
Japão, no Reino Unido e no Canadá. Quanto à França, anunciou, por meio de um
funcionário que, a partir de então, todo o equipamento de infraestrutura das redes 5G
estará sujeito a prévia autorização administrativa. Esta nova geração de redes móveis foi
implantada em 2020 na França. Com a 5G, as velocidades aumentam consideravelmente,
permitindo uma "revolução" dos usos da Internet móvel transmitindo instantaneamente
informações como, por exemplo, sobre o movimento e o comportamento de um carro
autônomo, quando anteriormente ter um lapso de tempo na transmissão de dados era
considerado um perigo.
O artigo já citado de Harold Thibault et Simon Leplâtre publicado no Le Monde informa
que os Estados Unidos estão atacando a Huawei porque é a empresa mais avançada e uma
das maiores da China. Os ataques contra a Huawei são a materialização da estratégia do
governo dos Estados Unidos na guerra comercial e geopolítica com a China. Os serviços
de segurança de outros países temem que as redes de telecomunicações da Huawei
facilitem a espionagem a serviço da China. O elo particular entre o governo chinês e
empresas - públicas ou privadas – é o que preocupa, em particular, o funcionamento do
sistema político chinês e seu capitalismo de estado. As empresas, mesmo as privadas
como a Huawei, devem acompanhar as políticas oficiais do governo chinês investindo no
exterior. Em Bruxelas, a Huawei tem um grande escritório de lobby. A União Europeia é
seu primeiro mercado fora da China. O artigo do Le Monde informa que a Huawei
emprega 11.000 pessoas na Europa e criou inúmeras parcerias com universidades
europeias como um centro de investigação matemática em Boulogne-Billancourt, a
cooperação com universidades como a Humboldt em Berlim e o Instituto Real de
Tecnologia, KTH, em Estocolmo. A capacidade dos países ocidentais de construir suas
redes móveis independentemente da China no futuro está em jogo. Em 2008, enquanto as
operadoras se preparavam para instalar o 4G, a Huawei era apenas a quarta empresa no
mundo. Sua escalada ao topo foi alcançada em apenas uma década, isto é, a expectativa
de vida média de uma rede móvel de "geração". Pela primeira vez, a China está assumindo
uma forte liderança na área tecnológica mais estratégica em um contexto de tensões entre
Pequim e Washington e seus aliados. Mas o que restará da concorrência, se a Huawei
mantiver o mesmo ritmo de progressão até a sexta geração? Essa situação pode levar ao
desenvolvimento paralelo de dois ecossistemas tecnológicos distintos e hostis. Já, por
causa da censura que bloqueia o acesso aos concorrentes dos Estados Unidos na China,
os internautas chineses usam principalmente plataformas locais: a aplicação WeChat em
vez de Facebook, Weibo ao invés de Twitter, ou Baidu ao invés de Google.
O artigo de Harold Thibault et Simon Leplâtre publicado no Le Monde informa que a
Huawei se estabeleceu onde os principais fornecedores de equipamentos de rede não se
aventuraram: no interior da China, depois nos países pobres. A Huawei se estabeleceu em
países menos desenvolvidos, que os players estabelecidos negligenciaram. Isto não
impediu a Huawei de obter uma vantagem tecnológica real. Quando uma empresa
6
privada, como Huawei adquire uma dimensão internacional em um setor estratégico, ele
é forçado a levar em conta o partido-estado, disse Paul Clifford, autor de The China
Paradox. Embora na sua gestão diária, a Huawei tenha um alto grau de independência e
está em concorrência com outras empresas chinesas, como o grupo de telecomunicações
ZTE, o partido que exerce o poder na China pode dar-lhe ordens, conforme necessário. E
sob a presidência de Xi Jinping, a influência do partido em grandes empresas privadas
chinesas aumentou. Quando chegou à chefia do partido e do Estado na China em
novembro de 2012, Xi Jinping afirmou que a chave para a sobrevivência do partido único
é garantir o controle sobre todos os componentes da sociedade: universidades, imprensa,
advogados, mas também empresas. Em 2017, aprovou uma lei sobre inteligência, o Artigo
7 declara: "Qualquer organização ou cidadão deve, de acordo com a lei, apoiar, cooperar
com inteligência nacional e manter sigilo sobre qualquer atividade de inteligência da qual
ele está ciente". As restrições, regulamentações e a governança da China sufocam as
empresas privadas e são um fardo sobre os esforços do país para desenvolver negócios
globais e ganhar "soft power", afirma Duncan Clark, mostrando os limites para a
internacionalização do país.
3. A guerra financeira como arma de guerra moderna
O livro The death of money (A morte do dinheiro) de James Rickards publicado pela
Penguin Random House UK, 2014, deixa bastante evidenciada a importância da guerra
financeira que um país possa adotar para desestabilizar as instituições financeiras de um
país inimigo e degradar sua capacidade econômica. Rickards afirma que a destruição da
riqueza de um país inimigo através de um ataque a seu mercado pode ser mais eficaz do
que afundar navios inimigos, quando se trata de enfraquecer um adversário. Guerra
financeira é o futuro da guerra, segundo Rickards. O objetivo da guerra financeira é
degradar as capacidades do inimigo e subjugar o inimigo enquanto busca vantagem
geopolítica em áreas específicas. Se o atacante puder levar um país a um estado de quase
colapso e paralisia, a uma catástrofe financeira enquanto avançando em outras frentes,
então a guerra financeira será julgada bem sucedida, mesmo se o atacante incorrer em
grandes custos. Todas as guerras têm custos e muitas guerras são destrutivas cuja
recuperação leva anos ou décadas. A guerra financeira tem aspectos ofensivos e
defensivos, segundo Rickards. Os aspectos ofensivos incluem ataques maliciosos em
mercados financeiros do país inimigo projetado para interromper o comércio e destruir
sua riqueza. Os aspectos defensivos envolvem rápida detecção de um ataque do inimigo
seguido de resposta rápida como fechar mercados ou interceptar o tráfego de mensagens
inimigas. A acão ofensiva pode consistir na interrupção da primeira tentativa ou retaliação
da segunda tentativa. Na teoria, ataque e defesa convergem, já que a retaliação de segunda
tentativa pode ser suficientemente destrutiva para impedir ataques de primeira tentativa,
segundo Rickards.
Rickards afirma que a guerra de informação controlará a forma e o futuro da guerra. Esta
tendência será altamente crítica para alcançar a vitória em futuras guerras. Uma unidade
altamente secreta da National Security Agency (NSA) chamada Escritório de Tailored
Access Operations (TAO) penetrou com sucesso no computador chinês e sistemas de
telecomunicações por quase 15 anos, gerando algumas das melhores e mais confiáveis
informações de inteligência sobre o que está acontecendo dentro da República Popular da
China. TAO requer uma autorização de segurança especial para obter acesso aos espaços
de trabalho da unidade dentro do complexo de operações da NSA. Os países agressores
financeiros também podem utilizar operações psicológicas, psicopatas, para aumentar o
7
a eficácia do ataque. Isso envolve a emissão de notícias falsas e o início de rumores.
Histórias, por exemplo, de que um presidente do Fed foi seqüestrado ou que um financista
proeminente sofreu um ataque cardíaco seria eficaz. Histórias de que um banco de
primeira linha fechou as portas ou que um gestor de fundos de hedge se suicidou seriam
suficientes. Os cenários de indução de pânico seriam difundidos. Segundo Rickards,
China e Irã têm sido alvos da ação dos Estados Unidos na implementação da guerra
financeira em curso no mundo visando a consecução de seus objetivos estratégicos.
Diante da guerra financeira empreendida pelos Estados Unidos, a China vem adotando,
também, uma resposta no campo estratégico. O Exército Popular de Libertação da China
tornou explícita esta resposta estratégica em um livro de 1999 que se intitula Guerra
irrestrita. Táticas de guerra irrestrita incluem várias maneiras de atacar um inimigo sem
usar armas cinéticas como mísseis, bombas ou torpedos. Tais táticas incluem o uso de
armas de destruição em massa que dispersam elementos biológicos, químicos ou
radiológicos, causam baixas e aterrorizam a população civil. Outros exemplos de guerra
irrestrita incluem ataques cibernéticos que podem derubar aviões, abrir comportas de
represas, causar blecautes e desligar a Internet. Recentemente, ataques financeiros foram
adicionados à lista de ameaças assimétricas articuladas.
A guerra irrestrita dos chineses foi desencadeada a partir da análise da crise financeira
asiática de 1997 que espalhou o pânico financeiro global de 1998. Grande parte do
sofrimento dos países da Ásia foi causado por banqueiros ocidentais que, repentinamente,
tiraram dinheiro dos bancos nos mercados emergentes da Ásia, sofrimento este agravado
por mau conselho econômico do FMI dominado pelas grandes potências capitalistas do
Ocidente. Do ponto de vista asiático, todo o desastre parecia uma conspiração ocidental
para desestabilizar suas economias. A instabilidade era real o suficiente para provocar
motins e derramamento de sangue da Indonésia à Coreia do Sul, segundo Rickards. Os
chineses foram menos afetados do que outras nações asiáticas pelo pânico de 1997 e 1998,
mas eles estudaram a situação e começaram a ver como os bancos, trabalhando em
conjunto com o FMI, poderiam minar a sociedade civil dos países e possivelmente forçar
a mudança de regime. Uma de suas respostas à crise foi acumular dólar maciço como
reserva financeira para que eles não ficassem vulneráveis em uma "corrida ao banco"
repentino por credores ocidentais. A resposta dos chineses foi a de desenvolver uma
doutrina de guerra financeira. A China tem reservas de mais de US$ 3 trilhões e a cada
10% de desvalorização do dólar engendrada pelo Fed representa uma transferência de
riqueza real de US$ 300 bilhões da China para os Estados Unidos. Não está claro, segundo
Rickards, por quanto tempo a China tolerará esse ataque à sua riqueza. Se a China não é
capaz de derrotar os Estados Unidos no ar ou no mar, poderia atacar através dos mercados
de capitais. A China tem desenvolvido, também, ações visando elevar seu estoque de ouro
e seu possível uso como arma para minar o valor de troca do dólar. Com esta medida, a
China poderia proteger suas reservas contra o congelamento de ativos ou sua
desvalorização no caso de uma guerra financeira convertendo sua riqueza em papel em
ouro que é uma opção que está agora perseguindo agressivamente. Cada lingote de ouro
adquirido pela China reduz sua vulnerabilidade financeira. As possíveis intenções da
China podem ser inferidas a partir do status de ser o maior comprador de ouro do mundo.
Rickards afirma que a China está à frente dos Estados Unidos com sua doutrina de guerra
financeira estratégica que surgiu em 1999 em resposta ao choque financeiro asiático de
1997. Em 2012, tanto a China quanto os Estados Unidos haviam se engajado em esforços
para desenvolver doutrinas estratégicas e táticas de guerra financeira. Na implementação
da guerra financeira, a China tem adotado formas mais sutis de ataque financeiro como,
por exemplo, em janeiro de 2011, o The New York Times informou que a China passou
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a ser uma vendedora líquida de títulos do Tesouro dos Estados Unidos em 2010, após ser
um comprador líquido. O relatório do Times achou esta venda estranha porque a China
ainda estava acumulando enormes reservas em dólar de seus superávits comerciais e ainda
estava comprando dólares para manipular o valor de sua moeda, o Yuan. Outra técnica
usada pela China para disfarçar suas operações de inteligência de mercado financeiro foi
reportada em 2007 pelo The New York Times, quando divulgou que o China Investment
Corporation (CIC), outro fundo soberano, concordou em comprar US$ 3 bilhões em ações
do Blackstone Group, a poderosa e secreta empresa de capital privado sediada nos
Estados Unidos. Os Estados Unidos não são o único alvo potencial da guerra financeira
chinesa. Em setembro de 2012 um alto funcionário chinês, escrevendo no periódico
Comunista China Daily, sugeriu a montagem de um ataque ao
mercado de títulos japoneses em retaliação às provocações japonesas envolvendo
territórios insulares no Mar da China Oriental. As ações da China nos mercados de títulos
e private equity (fundos privados de ações) são parte de seu esforço de longo prazo para
operar de forma furtiva, se infiltrar em nós críticos e obter informações corporativas
valiosas no processo. Estes esforços financeiros estão sendo realizados lado a lado com
esforços maliciosos no ciberespaço e ataques a sistemas que controlam a infraestrutura
crítica, lançada pela unidade de espionagem militar da China. Esses esforços combinados
serão úteis à China em futuros confrontos com os Estados Unidos.
A China não é o único país que luta contra uma guerra financeira promovida pelos Estados
Unidos. Tal guerra está sendo travada hoje, também, entre os Estados Unidos e o Irã e
entre os Estados Unidos e seus aliados ocidentais contra a Rússia. Os Estados Unidos
buscam desestabilizar o regime iraniano e inviabilizar seu programa nuclear negando-lhe
acesso a redes críticas de pagamentos. Em fevereiro de 2012, os Estados Unidos
proibiram o Irã de utilizar os sistemas de pagamentos em dólares dos Estados Unidos
controlados pelo Federal Reserve e pelo Tesouro norte-americano. O Irã foi oficialmente
impedido pelos Estados Unidos de participar de pagamentos ou recebimentos em moeda
forte com o resto do mundo. Segundo Rickards, o governo dos Estados Unidos não fez
segredo de seus objetivos na guerra financeira com o Irã. Em 6 de junho de 2013, o
funcionário do Tesouro dos Estados Unidos David Cohen disse que o objetivo das sanções
dos Estados Unidos era causar depreciação da moeda iraniana e torná-la inutilizável no
comércio internacional. Os resultados foram catastróficos para a economia iraniana. O Irã
é um dos principais exportadores de petróleo que precisa ter acesso a sistemas de
pagamentos para receber dólares pelo petróleo que exporta para o exterior. É também um
grande importador de produtos refinados de petróleo, alimentos e eletrônicos de consumo,
como computadores da Apple e impressoras HP. De repente, o Irã não tinha como pagar
por suas importações e sua moeda entrou em colapso. Mesmo antes das sanções norte-
americanas contra o país, o Irã reagiu,comprando ouro para impedir que os Estados
Unidos ou seus aliados congelassem seus saldos em dólar. A Índia é um importante
importador de petróleo iraniano, e os dois parceiros comerciais tomaram medidas para
implementar uma troca de óleo por ouro. A Índia compraria ouro nos mercados globais e
trocaria com o Irã por remessas de petróleo. Por sua vez, o Irã poderia trocar o ouro com
a Rússia ou a China por alimentos ou produtos manufaturados. Em face de sanções
financeiras extremas, O Irã estava mais uma vez provando que o ouro é dinheiro bom em
todos os momentos e em todos os lugares.
A Turquia rapidamente se tornou, também, uma das principais fontes de ouro para o Irã.
Exportações turcas de ouro para o Irã em março de 2013 foi de US$ 381 milhões, mais
do que o dobro do mês anterior. No entanto, ouro não é tão fácil de movimentar quanto
9
os dólares digitais, e o intercâmbio com ouro têm seus próprios riscos. Outra fonte de
ouro com destino ao Irã é o Afeganistão. Em dezembro de 2012, o The New York Times
informou sobre um comércio triangular entre o Afeganistão, Dubai e Irã. O Irã também
usa bancos chineses e russos para atuar como operações de fachada para pagamentos
ilegais. O Irã organizou grandes depósitos em moeda forte em bancos chineses e russos
antes das sanções norte-americanas entrarem em vigor. No final de 2012, os Estados
Unidos alertaram a Rússia e a China sobre a assistência ao Irã e sobre as sanções, mas
nenhuma punição foi imposta aos russos ou chineses. Os Estados Unidos não agiram
duramente contra a Rússia ou a China porque tinha agendas mais importantes para
prosseguir com ambos, incluindo a Síria e a Coreia do Norte. O Irã também demonstrou
como a guerra financeira e a guerra cibernética poderiam ser combinadas em um híbrido
ataque assimétrico. Em maio de 2013, hackers iranianos teriam obtido acesso aos sistemas
de software usados por empresas de energia para controlar oleodutos e gasodutos em todo
o mundo. Manipulando este software, o Irã poderia causar estragos não só em cadeias de
suprimentos físicos, mas também em energia e mercados de derivativos. O Irã sofreu com
as sanções, mas não entrou em colapso. No final de 2013, houve um acordo entre o
presidente Obama e o presidente iraniano. Em particular, as sanções pelas compras de
ouro pelo Irã foram removidas, permitindo que o Irã estocasse ouro usando o dinheiro do
dólar com as vendas de petróleo. O Presidente Obama deixou claro que, embora as
sanções tenham sido flexibilizadas, elas poderiam ser reimpostas se o Irã não cumprisse
suas promessas de reduzir seus programas nucleares. Como é de conhecimento geral,
Donald Trump desconsiderou o acordo assinado com o Irã, além de impor novas sanções.
A guerra financeira entre os Estados Unidos e o Irã de 2012–13 ilustra como as nações
que conseguiram resistir aos Estados Unidos podem se defrontar no campo de batalha
financeiro. Os Estados Unidos queriam tirar o Irã do sistema de pagamentos em dólar e
nisso foi bem-sucedido. Um sistema de pagamento alternativo não baseado em dólar está
agora tomando forma na Ásia e o ouro provou ser uma arma financeira eficaz. Esta
situação está contribuindo para os aliados do Irã falarem abertamente sobre a construção
de novos sistemas bancários e de pagamentos não baseados em dólares. As sanções
econômicas do governo Biden contra a Rússia atingem duas instituições financeiras
russas - os bancos VEB e PSB, incluindo 42 subsidiárias - e impedem negociação de
novos papéis da dívida pública russa no mercado. Isso significa que foi cortado o acesso
do governo da Rússia às finanças ocidentais. A Rússia não poderia mais levantar dinheiro
do Ocidente e não poderia negociar sua nova dívida nos mercados americano e europeus.
Estas medidas são mais duras do que as tomadas em 2014, quando a Rússia anexou a
região ucraniana da Crimeia. As novas sanções americanas se juntam a ações que
governos europeus também tomaram. O primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, anunciou
a interrupção do processo de certificação do gasoduto Nord Stream 2, que está pronto,
mas ainda não em operação. Os bancos russos foram retirados do sistema de pagamento
internacional Swift. Empresas ocidentais abandonaram a Rússia por causa desses
impactos. A economia russa não colapsou apesar das sanções que vão desde o corte de
relações comerciais entre países a congelamento de metade das reservas russas no exterior
e restrições ao sistema financeiro. A economia russa não colapsou porque a China e a
Índia têm ajudado o país com um “comércio normal” de cooperação.
A guerra financeira encetada pelos Estados Unidos pode fazer com que seus inimigos
desenvolvam ações que contribuam para produzir danos sobre o sistema econômico e
financeiro internacional que apresenta grande fragilidade. O colapso financeiro em 2008
não foi um ato de guerra financeira, mas demonstrou para os Estados Unidos a
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complexidade e vulnerabilidade do sistema financeiro global. Aproximadamente US$ 60
trilhões de riqueza foram destruídos no pico da crise em outubro de 2007. Os ataques
cibernéticos na infraestrutura dos Estados Unidos, incluindo bancos e outras instituições
financeiras, estão crescendo e podem assumir muitas formas. Em 23 de abril de 2013,
uma conta do Twitter mantida pela Associated Press foi hackeada e usada para distribuir
uma falsa mensagem de que a Casa Branca tinha sido alvo de um ataque terrorista e que
o presidente Obama foi ferido. O Irã reivindicou o crédito pelo ataque. O sucesso dos
hackers e a reação do mercado demonstrou que os mercados podem ser manipulados por
vários meios. Esses eventos apontam para o tipo mais perigoso de ataque financeiro que
combina ataques cibernéticos e guerra financeira. Os mercados de capitais hoje são tudo
menos à prova de falhas. Na verdade, eles são cada vez mais propensos a falhas. Tudo
que é relatado no livro The deats of money de James Rickards mostra que a humanidade
se defronta com riscos cada vez maiores de instabilidade política, econômica e social
proporcionadas pelas guerras cibernéticas, financeiras e por armamentos sofisticados que
produzem destruição.
4. A guerra cibernética como arma de guerra moderna
O artigo de Fernando Alcoforado A guerra cibernética como arma de guerra moderna,
publicado no website <https://www.portalsaudenoar.com.br/a-guerra-cibernetica-com-
arma-de-guerra-moderna/> informa que a ciência e a tecnologia são utilizadas na guerra
cibernética como uma das armas da guerra moderna. A guerra cibernética se apoia na
tecnologia da informação e, modernamente, também nos avanços proporcionados pela
inteligência artificial. A cibernética é uma ciência de característica interdisciplinar tendo
como base a pesquisa cientifica. A cibernética como campo científico teve início durante a
2ª Guerra Mundial tendo como precursor Norbert Wiener que trabalhava na programação de
computadores e nos mecanismos de controle para artilharia antiaérea. O objetivo de Wiener
com a cibernética era desenvolver pesquisas para criar um sistema artificial capaz de
desenvolver funções até então essencialmente humanas, como, por exemplo, executar padrões
de cálculos complexos, prever o futuro e a trajetória de uma aeronave. Nesta época, Wiener se
interessou pelo princípio do feedback e controle que consiste no uso de detectores que
trabalhem como órgãos sensoriais e coletem informações sobre o desempenho das funções
esperadas para determinado equipamento. A guerra cibernética consiste, basicamente, no
uso de ataques digitais para fins de espionagem ou sabotagem contra as
estruturas estratégicas ou táticas de um país. A espionagem visa roubar informações
táticas e estratégicas como dados sobre a movimentação de tropas, os pontos fortes e
fracos do sistema bélico do país e qualquer outra informação valiosa sobre
recursos necessários para a guerra. Na sabotagem, pode ir de uma ação simples como
derrubar os servidores de um site governamental a algo extremamente nocivo como fazer
o lançamento de uma ogiva nuclear. A sabotagem se resume a “fazer algo” ao contrário
da espionagem, que se resume a “descobrir algo”.
Na guerra cibernética, hackers com apoio do Estado, sejam membros das forças militares
de um país, ou financiados por tal país, atacam computadores e redes de países oponentes
que afetem recursos necessários para a guerra. Eles fazem isso da mesma forma que
em qualquer outro computador ou sistema, isto é, estudam o sistema profundamente,
descobrem suas falhas e usam essa falhas para controlar esse sistema ou destruí-lo.
Hackers podem usar informações confidenciais destinadas a outrem (espionagem) para
ganhar a dianteira na batalha contra seu adversário. Pode descobrir a velocidade de um
míssil e construir outro míssil ou um avião que possa ultrapassá-lo. Pode descobrir para
onde o inimigo está movendo suas tropas e planejar uma emboscada. Pode descobrir quais
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cientistas são importantes na criação dessas armas, ou qual político foi imprescindível na
arrecadação de fundos para o tal sistema bélico e atacá-los diretamente com o uso, por
exemplo, de drones. Quando o país possui o controle desses sistemas, é possível, também,
sabotar pessoas e estruturas. Ao descobrir como as tropas estão se comunicando, o país
ganha acesso à rede para que possa confundir o inimigo e invadir a base deles. Poderia
invadir seus sistemas/contas e fraudá-los, se passando por um deles. Ou poderia usar essas
informações para controlá-los e chantagear pessoas por causa de algo achado no
computador ou sequestrar suas famílias usando informações privadas. Destruir os
sistemas de países inimigos tem um resultado óbvio: destrói o que controla esse sistema,
e, consequentemente, impede-o de funcionar. Um exemplo comum de ciberguerrilha é o
uso de ataques para desativar sites governamentais e redes sociais. Essa tática foi usada
efetivamente pelos russos durante a Guerra da Ossétia do Sul em 2008, causando caos e
espalhando informações falsas para a população antes e durante a invasão russa.
A guerra cibernética tem como alvo qualquer setor importante para a infraestrutura do
inimigo. Isso significa setores como o exército, a defesa nacional e a indústria bélica. No
entanto, esses alvos também podem ser fábricas de armas, minas e outras manufaturas
que auxiliem no funcionamento dessas fábricas e o sistema elétrico, que fornece
energia para todos esses setores. Na sua versão mais assustadora, a guerra cibernética
pode ter como alvo o recurso estratégico mais importante de um país que é sua população.
Um hacker poderia fazer um ataque terrorista para desestabilizar ou desmotivar uma
população a lutar. Isso implica em desencadear uma guerra financeira com ataques aos
setores financeiros, que causariam danos econômicos ou ataques a sistemas de
comunicação para desativar a rede de telefonia e a internet. A guerra cibernética não faz
nenhuma distinção entre alvos civis e militares. Apesar de um míssil causar um dano
muito maior do que um vírus, um ciberataque pode resultar em perdas e mortes de civis.
Se houvesse um ataque ao sistema energético de qualquer país e o sistema fosse destruído
por um ciberataque não seriam só as fábricas de armas que parariam de funcionar. Um
ataque desses resultaria também em acidentes de trânsito, cirurgias interrompidas, falhas
em máquinas de suporte à vida quando uma quantidade elevada de pessoas poderia
morrer. É muito difícil descobrir o autor de um ciberataque nem os governos que
financiam esses ataques. Um aspecto que faz as armas digitais piores do que as armas
nucleares é o de descobrir quem fez o ataque. É muito fácil esconder a origem de um
ataque desses mascarando a identificação do autor dos ataques. Mesmo que o governo
descubra de qual computador o ataque foi efetivado, ainda existe a dificuldade de
descobrir quem era a pessoa atrás da tela e é ainda mais difícil saber se ele era, ou não,
um agente do governo.
De acordo com Fernando Alcoforado, não existem dúvidas sobre o uso da capacidade
cibernética com o objetivo de conseguir vantagem política, econômica e militar. Segundo
se noticia, de um lado, China, Rússia, Irã e Coreia do Norte e, de outro, Estados Unidos,
Israel, Reino Unido e França dispõem de meios cada vez mais sofisticados para obter
informações de governos e de empresas para influir na vida das pessoas e destruir a
infraestrutura e objetivos estratégicos de seus oponentes. O mundo entrou numa fase de
guerra permanente: sem frente de batalha e sem regras de engajamento. A guerra
cibernética se assemelha à guerra insurrecional, com a diferença de poder planejar e
executar a ação à distância, longe do inimigo. A utilização de algoritmos de inteligência
artificial multiplicará o impacto das ações e criará no adversário novas vulnerabilidades.
Será mais difícil a identificação de seus autores, pela utilização dos robôs para autorizar
a difusão de falsas informações nas redes sociais ou para a disponibilização com livre
acesso de algoritmos permitindo incluir pessoas em qualquer vídeo e de colocar em sua
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boca o que se deseje que ele diga. É possível que já estejam acontecendo operações de
espionagem cibernética, de sabotagem ou de influência comandadas de maneira
completamente autônoma, necessitando apenas do sinal verde de alguém. O entendimento
de que a tecnologia 5G possa ser explorada para espionagem e sabotagem de instalações
de infraestrutura, rede de comunicação e centros financeiros passou a ser uma nova
preocupação e está na raiz da proibição da compra de produtos da Huawei para as redes
5G públicas ou privadas nos Estados Unidos. A nova guerra fria entre os Estados Unidos
e a China começou com o comércio, mas deve se deslocar rapidamente para a tecnologia,
em que a China dá mostras de estar à frente de Washington nos avanços da aplicação da
última geração 5G.
Tudo que acaba de ser relatado deixa bastante evidenciado que a ciência e a tecnologia
estão a serviço não apenas da emancipação humana, mas também a serviço da guerra e
da destruição da humanidade. Na verdade a ciência e a tecnologia passaram a ser
utilizadas para o bem e para o mal. A expectativa de que a ciência e da tecnologia seria
utilizada exclusivamente para o progresso da humanidade foi dolorosamente
interrompida por eventos que marcaram a sociedade atual sendo os principais deles sem
dúvida às catástrofes da 1ª e da 2ª Guerra Mundial. Na verdade a ciência contribuiu para
a barbárie de duas guerras mundiais com a invenção de armamentos bélicos poderosos e
destrutivos e continua contribuindo para a sofisticação da guerra moderna.
5. A 3ª Guerra Mundial é inevitável?
A história da humanidade tem se caracterizado por períodos de estabilidade global e,
também, de caos sistêmico. O período de estabilidade global resulta da hegemonia
exercida por um determinado país que, liderando o sistema mundial interestatal, difunde
valores e constrói instituições que garantem sua supremacia sem contestação. Já o caos
sistêmico se dá quando a hegemonia baseada no poderio econômico e militar de um
determinado país tende a ser corroído e a hierarquia de poder e riqueza entre as grandes
potências sofre profundas alterações. Quando há uma escalada da competição e dos
conflitos entre as grandes potências que ultrapassa a capacidade reguladora das estruturas
existentes, surgem novas estruturas que desestabilizam ainda mais a configuração
dominante de poder (Ver Arrighi; Silver, Caos e governabilidade no moderno sistema
mundial, Contraponto Editora, Rio, 2001). Arrighi e Silver afirmam que a crise e o
colapso de uma ordem mundial resultam tanto do enfraquecimento das “estruturas
existentes” – alicerçadas no poder hegemônico do país líder – quanto da ascensão de
“novas estruturas” que buscam um rearranjo sistêmico através da competição econômica
e/ou da contestação política e militar. Esta situação aconteceu ao longo da história da
humanidade quando, por exemplo, a Holanda superou econômica e militarmente a
Espanha e se impôs como potência hegemônica do fim do Século XVI até a maior parte
do Século XVIII. O mesmo aconteceu com a Inglaterra que se impôs como potência
hegemônica da segunda metade do Século XVIII até o início do Século XX suplantando
econômica e militarmente a Holanda e depois de derrotar militarmente a França em
Waterloo em 1815 que ambicionava também o poder mundial.
A Inglaterra, potência hegemônica nos séculos XVIII e XIX, foi desafiada no final do
século XIX pela Alemanha que lutava pela redivisão do mundo da qual resultou a
Primeira e Segunda Guerra Mundial. A derrota militar da Alemanha e o declínio
econômico da Inglaterra contribuiram para a ascensão dos Estados Unidos à condição de
potência hegemônica. Após a Segunda Grande Guerra, quando o mundo foi dividido em
duas áreas de influência, uma liderada pelos Estados Unidos e outra pela União Soviética,
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foi estruturado um sistema bipolar que durou quase meio século sob o risco da eclosão de
uma guerra nuclear. O desmoronamento da União Soviética em 1989 levou os Estados
Unidos a exercerem sua hegemonia no mundo sem contestação até o início do século
XXI. Paul Kennedy afirma que o exercício da liderança consensual global, a prosperidade
econômica e o poderio militar norte-americano do pós-guerra estariam em crise (Ver
Kennedy, Paul. Ascensão e queda das grandes potências, Editora Europa-America Pt,
1990). O declínio dos Estados Unidos se acentuou na primeira década do século XXI ao
tempo em que ocorreu a ascensão econômica da China que pode assumir a condição de
maior potência mundial em meados do século XXI. Entretanto, não fica claro se haverá
um final feliz para a humanidade. Será que a ascensão da China aumenta a probabilidade
de guerra entre as grandes potências? Haverá uma nova era de tensão entre Estados
Unidos e China tão perigosa quanto foi a Guerra Fria (3ª. Guerra Mundial) entre Estados
Unidos e a União Soviética?
Se a prosperidade da China acontecer às custas da inviabilização da recuperação das
economias dos Estados Unidos e da União Europeia e, também, da economia mundial,
poderia levar os Estados Unidos e outros países a confrontá-la. Este processo poderia
gerar uma situação similar à Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Robert D. Kaplan, jornalista norte-americano estudioso de política internacional, afirma
que a emergência da China como uma superpotência é inevitável e que conflitos de
interesses com os Estados Unidos serão incontornáveis. Ele admite uma confrontação
militar entre os Estados Unidos e a China (Ver o artigo A pacífica ascensão da China:
perspectivas positivas para o futuro? de Antônio José Escobar Brussi publicado na
Revista Brasileira de Política Internacional, vol.51, no.1, Brasília, 2008). Outra
possibilidade é a de que a China seja bem-vinda à ordem existente e que se admita que
prospere dentro dela. Esta situação resultaria da interdependência econômica existente
entre os Estados Unidos e a China porque esta depende do mercado e dos investimentos
norte-americanos e os Estados Unidos precisam do Banco Central chinês para comprar
boa parte dos títulos da dívida dos Estados Unidos. Esta situação reforça a posição
defendida por Henry Kissinger, ex-Secretário de Estado norte-americano, que entende
que o interesse americano será muito mais facilmente alcançado a partir da cooperação
com a China. James Pinkerton, escritor e analista político norte-americano, é um duro
crítico da estratégia de contenção militar de Kaplan e da proposta de acomodação de
Kissinger. Pinkerton se opõe a Kaplan porque considera inviável uma coalizão
suficientemente ampla para o enfrentamento da China nos moldes da organizada para
derrotar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Pinkerton propõe que, ao invés do
enfrentamento direto, o governo dos Estados Unidos coloque as atuais potências asiáticas
(Índia, China e Japão) umas contra as outras (Ver o artigo acima citado de Antônio José
Escobar Brussi). A 3ª Guerra Mundial é evitável ou inevitável?
Há o risco de o governo dos Estados Unidos conduzir o mundo à 3ª Guerra mundial no
conflito com a Rússia na Ucrânia. Ao invés de tentar uma solução negociada com a Rússia
para a guerra na Ucrânia, o governo Biden preferiu o confronto estabelecendo sanções
econômicas contra a Rússia e seus cidadãos, além de armar o governo da Ucrânia para
resistir à invasão russa. No entanto, a China representa a maior preocupação o dos Estados
Unidos por considerá-la uma potência que desestabiliza seus interesses hegemônicos.
Uma nova etapa na política externa dos Estados Unidos foi reafirmada na nova Estratégia
de Segurança Nacional (NNS) aprovada em outubro de 2022, onde se declara abertamente
que o perigo vem da China, tanto no plano econômico quanto no militar. Enquanto a
Rússia é reduzida a um perigo limitado apenas à segurança da Europa central. Algo que
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se verifica ao observar como os Estados Unidos têm deslocado capacidades militares para
o Oceano Pacífico e Sudeste Asiático.
O próprio Biden, em declaração dada no dia 6 de outubro de 2022, durante um evento do
Partido Democrata, em Nova Iorque, afirmou que vê risco de “Armagedom” nuclear —
guerra final — no conflito com a Rússia que está no nível mais alto desde a Guerra Fria
ao citar que Putin “não está brincando” quando fala sobre o uso potencial de armas
nucleares táticas, armas químicas ou biológicas, porque seu Exército é significativamente
menos capaz. Segundo ele, o uso de uma arma nuclear poderia sair do controle e levar à
destruição global. Esta afirmação demonstra que Biden age de forma irresponsável
porque sabe do risco de uma hecatombe nuclear e nada faz para evitá-la buscando uma
solução negociada diplomaticamente com a Rússia. O mundo corre o risco de eclosão
da 3ª Guerra Mundial que poderá ser evitada se houver a celebração de um acordo de paz
entre os presidentes Joe Biden e Wladimir Putin para acabar, inicialmente, com a guerra
na Ucrânia e, posteriormente, com a reforma do sistema internacional para acabar com as
guerras em todo o mundo. No conflito da Ucrânia, diante da impossibilidade do governo
dos Estados Unidos impor sua vontade à Rússia urge a celebração de um acordo de paz
entre os presidentes Biden e Putin para acabar com a guerra na Ucrânia porque a guerra
entre a Rússia e a Ucrânia pode evoluir para um conflito que se estenderia pela Europa e
pelo mundo se transformando em guerra mundial. Se isto ocorrer abriria o caminho para
o envolvimento das grandes potências militares de consequências imprevisíveis com o
uso de armas nucleares. É preciso que todos entendam que a guerra na Ucrânia é cenário
da disputa entre Rússia e Estados Unidos. De um lado, temos os Estados Unidos que
desejam a presença da OTAN na Ucrânia e, de outro, temos a Rússia que não quer a
presença da OTAN na Ucrânia. A guerra na Ucrânia só chegará ao fim se Biden e Putin
chegarem a um acordo sobre o fim do conflito entre Rússia e Estados Unidos com a
supervisão da ONU.
O acordo inicial entre Biden e Putin poderia ocorrer com a Rússia aceitando o cessar fogo
na Ucrânia com a condição de os Estados Unidos desistirem da incorporação da Ucrânia
à OTAN. O acordo definitivo consistiria em a Rússia acabar com suas hostilidades na
Ucrânia liberando territórios ocupados neste país, à exceção da Crimeia, assumindo o
ônus de reconstruir o que foi destruido pela guerra com a condição de os Estados Unidos
e a OTAN abandonarem os países do leste europeu e a Finlândia que a ela aderiram
voltando para os limites existentes em 1997 e assumirem o compromisso de removerem
as sanções econômicas e financeiras adotadas contra a Rússia. O acordo entre Biden e
Putin seria vantajoso para para a Ucrânia, a Rússia, os Estados Unidos, a Europa e para
o mundo. A Ucrânia ganharia com este acordo porque acabaria o sofrimento de sua
população, evitaria a ocupação militar de seu território pela Rússia, recuperaria sua
soberania sobre o território nacional e teria a reconstrução do país realizado pela Rússia.
A Rússia ganharia com este acordo porque haveria a remoção das sanções econômicas e
financeiras contra ela adotadas pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais, haveria o
abandono da pretensão da OTAN de adesão da Ucrânia como um dos seus paises
integrantes e o compromisso dos Estados Unidos e da OTAN de abandonarem os 14
países do leste europeu (Albânia, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovênia, Estónia,
Hungria, Letônia, Lituânia, Macedónia do Norte, Montenegro, Polónia, Romênia e
República Tcheca) e a Finlândia que ingressou recentemente na organização. Os Estados
Unidos ganhariam com o acordo porque deixaria de ocorrer a desestabilização de sua
economia com uma guerra prolongada. A Europa ganharia com o acordo porque
desapareceria a ameaça de cessação do suprimento do petróleo e do gás natural da Rússia
15
e de desestabilização de suas economias com uma guerra prolongada. O mundo ganharia
com o acordo porque deixaria de ocorrer a desestabilização da economia mundial com
graves repercussões nas economias de todos os países e desapareceria a ameaça de nova
guerra mundial que levaria ao fim da espécie humana. Para Biden e Putin celebrarem este
acordo de paz, é preciso que a ONU, através de seu secretário geral, saia de sua
passividade na busca da paz mundial e a China e todos os países amantes da paz se
mobilizem visando sua realização.
Para afastar definitivamente novos riscos de uma nova guerra mundial e que se concretize
a paz perpétua em nosso planeta, seria preciso a reforma do sistema internacional atual
que é incapaz de garantir a paz mundial. O novo sistema internacional deveria funcionar
com base em um Contrato Social Planetário que seria a Constituição do planeta Terra.
Para a elaboração do Contrato Social Planetário deveria haver a convocação de uma
Assembleia Mundial Constituinte com a participação de representantes de todos os países
do mundo eleitos para este fim. O Contrato Social Planetário deveria estabelecer a
existência de um Governo Mundial cujo presidente deveria ser eleito com mais de 50%
de votos do Parlamento Mundial a ser, também, constituído com representantes eleitos
nos diversos países do mundo. Além do Governo Mundial e do Parlamento Mundial,
deveria ser constituida, também, a Corte Suprema Mundial que deveria ser composta por
juristas de alto nivel do mundo escolhido pelo Parlamento mundial que atuariam por
tempo determinado. A Corte Suprema Mundial deveria julgar os casos que envolvam
litigios entre paises, os crimes contra a humanidade e contra a natureza praticados por
Estados nacionais e por governantes à luz do Contrato Social Planetário, julgar conflitos
que existam entre o Governo Mundial e o Parlamento Mundial e atuar como guardiã do
Contrato Social Planetário. O Governo Mundial não terá Forças Armadas próprias
devendo contar com o respaldo de Forças Armadas dos países que seriam convocadas
quando necessário.
Portanto, com esta sistemática o Parlamento Mundial legislaria com sucesso por meio de
um processo democrático. Não haveria a necessidade de um ente que atuaria como
policial do mundo porque quem exerceria o poder seria o Presidente do Governo Mundial
que usaria as Forças Armadas de determinados países que seriam convocadas quando
necessário. O novo estado de direito internacional seria executado pelos três poderes
constituidos: Governo Mundial, Parlamento Mundial e Corte Suprema Mundial. O poder
mundial repousaria no Governo Mundial, no Parlamento Mundial e na Corte Suprema
Mundial. O poder mundial não corromperia nem seria corrompido porque haveria a
vigilância de todos os poderes constituídos. Governo Mundial, Parlamento Mundial e
Corte Suprema Mundial atuariam como freios e contrapesos visando a eficiência e
eficácia do sistema internacional.
Estas são, portanto, as medidas que deveriam ser adotadas a curto prazo para acabar com
a guerra na Ucrânia e, a médio e longo prazo, para acabar definitivamente com as guerras
no mundo. Os cidadãos de todo o mundo amantes da paz deveriam se mobilizar em seus
países para exigirem de seus governos e da ONU o empenho na concretização da paz
mundial para evitar a eclosão da 3ª Guerra Mundial.
6. As causas da violência e das guerras no mundo
Vivemos em um mundo que tem como uma das suas características principais a violência
praticada pelo homem contra seus semelhantes. A percepção de muita gente é a de que a
violência representa o predomínio do instinto animal que possuímos sobre os valores da
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civilização. Isto explicaria a escalada da criminalidade e das guerras em todas as épocas
em todo o mundo. O debate sobre a violência coloca na ordem do dia a questão sobre a
natureza humana cujo tema foi tratado por eminentes pensadores como Raymond Aron
(filósofo e sociólogo francês), Henry Bergson (filósofo e diplomata francês), Hannah
Arendt (filósofa alemã), Sigmund Freud (austríaco, neurologista e fundador da
Psicanálise), Carl Rogers (norte-americano precursor da psicologia humanista), Thomas
Hobbes (cientista político, filósofo e matemático inglês), Jean-Jaques Rousseau (escritor
e filósofo suíço) e Karl Marx (economista, filósofo, historiador e cientista político
alemão), entre outros. Há milênios cientistas e filósofos levantam a seguinte questão: a
natureza humana é inata ou é produto do ambiente ou de ambos? É determinada
geneticamente ou pela sociedade onde vive o ser humano ou por ambos? Por que o mundo
se torna mais violento a cada ano? Não apenas se verifica um aumento do número de
conflitos armados no globo, como as próprias pessoas estão mais violentas. Qual a
explicação para isso? Não é incomum a afirmativa de que desde que o mundo é mundo,
sempre existiu a violência entre os seres humanos. Será difícil encontrar alguém hoje que
não acredite nesta afirmativa. E, no entanto, ela é falsa. Nos primórdios da humanidade
não havia a violência que se manifesta hoje nas relações entre os indivíduos e entre as
comunidades humanas.
Nenhum ser humano, nenhum povo daquele tempo longínquo teria tido a ideia de agredir
um seu semelhante. Nem sequer, eles seriam capazes de, por exemplo, anexar terras do
seu vizinho contra a sua vontade, por meio da força bruta. É difícil tentar estabelecer um
paralelo entre o modo de vida dos seres humanos daquela época com a humanidade de
hoje. Naquela época, o viver em paz e harmonia com os seus semelhantes era para os
seres humanos algo tão natural como respirar, comer e dormir. Seres humanos já viveram
na Terra, sem se ofenderem ou se maltratarem uns aos outros, muito menos guerrearem
entre si. Isso, contudo, foi há muito, muito tempo. Nenhum registro dessa época chegou
até o presente e, por isso, é suposto que esta situação não tenha existido. Segundo
Raymond Aron, à medida que a vida do homem se organiza em famílias e em bandos,
menos prováveis nos poderiam parecer as condutas propriamente belicosas (ARON,
Raymond. Paz e Guerra entre as nações. Editora Universidade de Brasília, 1962). A
maior parte dos animais luta, mas são raras as espécies que praticam a guerra, entendida
como ação coletiva e organizada. Aron afirma que a o homo sapiens surgiu há cerca de
600.000 anos. A revolução neolítica, a agricultura regular e a criação de animais datam
de uns 10.000 anos. As civilizações ou sociedades complexas surgiram há cerca de 6.000
anos. Isto significa dizer que o período denominado histórico representa um centésimo da
duração total da existência da humanidade no planeta Terra. Segundo Aron, nenhum
antropólogo encontrou jamais qualquer prova de que os homens tivessem elaborado uma
organização ou uma tática de combate antes da idade Idade do Bronze (3300 a.C. a 1300-
700 a.C.). Não surpreende, pois, que os primeiros indícios incontestáveis dos exércitos e
da guerra datem da Idade do Bronze que é um período da civilização no qual ocorreu o
desenvolvimento desta liga metálica resultante da mistura de cobre com estanho.
Assim como para os primeiros seres humanos seria inconcebível a ideia de causar
qualquer dano ao seu semelhante, hoje, soa como ilusão, fantasia, a ideia de um mundo
sem conflitos, por considerarmos a violência como uma característica própria do ser
humano. Pode-se especular se não teria havido uma fase intermediária entre os muitos
milênios durante os quais o homem viveu sob a ameaça das feras e o período, bem mais
curto, em que a ameaça a sua segurança passou a se originar em outros homens. Seria
uma época em que os homens possuíam meios técnicos suficientes para a defesa contra
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as feras e sem engajamento na busca das riquezas e nas lutas de classes, nas conquistas e
nos domínios. Está demonstrado que sociedades pequenas, sem instrumentos metálicos,
isoladas, ainda não mostram traços característicos das sociedades belicosas. Raymond
Aron afirma em sua obra acima citada que os biólogos chamam de agressividade a
propensão de um animal a atacar outro da mesma espécie ou espécie diferente. Na maior
parte das espécies (mas não em todas) os indivíduos lutam entre sí. Alguns não são
agressivos (isto é, não tomam a iniciativa do ataque), mas se defendem quando são
atacados. Entre os primatas, o homem se situa na parte inferior da escala de agressividade.
Enquanto animal, é relativamente combativo. Em outras palavras, basta um estímulo
pouco intenso para levá-lo a desencadear a agressão. Segundo Aron, entre os vertebrados
superiores, os grupos frequentemente manifestam agressividade com respeito a
indivíduos que não pertencem à sua coletividade. Na espécie humana, porém, as
manifestações de agressividade são inseparáveis da vida coletiva. Mesmo quando se trata
da reação de um indivíduo contra outro, a agressividade é influenciada, de muitos modos,
pelo contexto social. O surgimento de uma existência propriamente social não foi a única
causa das novas dimensões que assumiu o fenômeno da agressividade: a frustação e a
inadaptação que levam o indivíduo à reação agressiva constituem o fato mais importante
nas relações humanas.
Aron é defensor da tese de que a frustação é uma experiência psíquica, revelada pela
consciência. Todos os indivíduos sentem frustações desde a infância. A frustação é antes
de mais nada a experiência de uma privação, isto é, um bem desejado e não alcançado,
uma opressão sentida penosamente. A cadeia de causalidade que leva às emoções ou aos
atos de agressividade se origina sempre em um fenômeno externo. Não há prova
fisiológica que haja uma incitação espontânea à luta, originada no próprio organismo do
indivíduo. A agressão física e a vontade de destruir não constituem a única reação possível
à frustração. A dificuldade em manter a paz está mais relacionada à humanidade do
homem do que à sua animalidade. Henry Bergson, por sua vez, afirma que a origem da
violência e da guerra é a existência da propriedade, individual ou coletiva, e como a
humanidade está predestinada à propriedade, pela sua estrutura, a violência e a guerra
seria natural (BERGSON, Henry. Les Deux Sources de la Morale et de la Religion.
French & European Pubns, 1976). Os povos que temem a falta de alimentos e das
matérias-primas de que necessitam se julgam ameaçados pela fome ou o desemprego, são
capazes de tudo. Para sobreviver, estão prontos a atacar. Assim nascem as guerras
autênticas, ajustadas à sua essência. Hannah Arendt abordou a questão da violência em
sua obra On Violence publicado pela Harvest Book em 1970 na qual discute,
especialmente com Niezstche e Bergson, acerca do que ela chama da justificação
biológica da violência. Estes pensadores atribuem ao poder uma dimensão expansionista
natural e uma necessidade interna de crescer. A ação violenta, neste contexto, é explicada
como uma estratégia para conceder ao poder novo vigor e estabilidade. Arendt contesta
esta posição, afirmando que “nada poderia ser teoricamente mais perigoso do que a
tradição do pensamento organicista em assuntos políticos, por meio da qual poder e
violência são interpretados em termos biológicos. Arendt sustenta que nem a violência
nem o poder são fenômenos naturais, isto é, uma manifestação do processo vital, porque
eles pertencem ao âmbito político dos negócios humanos, cuja qualidade essencialmente
humana é garantida pela faculdade do homem para agir, a habilidade para começar algo
novo. Arendt refuta afirmações como a de Wright Mills de que toda política é uma luta
pelo poder e de que a forma básica de poder é a violência, refuta as de Max Weber de que
o domínio do homem pelo homem é baseado nos meios de violência legítima ou refuta as
18
de Bertrand de Jouvenel de que a guerra apresenta-se como uma atividade que pertence à
essência dos Estados.
Freud enfatiza em sua obra os aspectos destrutivos do homem. Fica evidenciada a
necessidade, colocada por Freud, no sentido de controlar e de coibir o indivíduo, devido
ao perigo que ele poderia representar para a sociedade, o que o leva a concluir que o
homem, por ele preconizado, não é, socialmente falando, muito digno de confiança.
Segundo Freud, a sociedade civilizada está perpetuamente ameaçada pela desintegração
por causa dessa hostilidade primária dos homens entre si. A cultura tem de recorrer a todo
reforço possível a fim de erigir barreiras contra o instinto agressivo dos homens. Diante
de um ser tão hostil e desintegrador, nada mais natural do que a sociedade fazer uso do
seu poder de coerção (Ver o artigo de Sonia Maria Lima de Gusmão sob o título A
natureza humana segundo Freud e Rogers postado no website
<https://encontroacp.com.br/textos/a-natureza-humana-segundo-freud-e-rogers/>).
Neste artigo, constata-se que, em Carl Rogers observa-se o oposto da visão de Freud, pois
ele acredita que é justamente em um contexto coercitivo, onde o indivíduo não pode
expandir-se, ou melhor, atualizar o seu potencial, que o torna hostil ou antissocial. Caso
contrário, nada temos a temer, pois, seu comportamento tenderá a ser construtivo. Rogers
observa que, quando o homem é, verdadeiramente, livre para tornar-se o que ele é no mais
fundo de seu ser, quando é livre para agir conforme sua natureza, como um ser capaz de
perceber as coisas que o cercam, então ele, nitidamente, se encaminha para a globalidade
e a integração.
Hobbes tem como tese central sobre a conduta humana, que todos os seres humanos são
egoístas e estão dispostos a usar os outros em seu próprio benefício. Hobbes fala da
“guerra de todos contra todos”, à luta permanente que se desencadearia se os homens não
vivessem em segurança e tivessem que depender por completo dos seus próprios recursos.
Hobbes procura mostrar que não pode haver sociedade sem governo e sem as sanções da
lei. Haveria apenas indivíduos antagônicos entre si. Hobbes compara a vida humana a
uma corrida, em que temos que supor que não há outro objetivo nem outro prêmio a não
ser o de conseguir chegar em primeiro lugar. A competição – o desejo de superar o outro
– é parte da trama de nossas vidas: ou queremos alcançar algo à custa dos outros, ou
queremos defender aquilo que já conquistamos (Ver o artigo de Roger Trigg sob o título
A Natureza Humana em Hobbes postado no website <http://qualia-
esob.blogspot.com.br/2008/03/natureza-humana-em-hobbes.html>). A ideia central no
pensamento de Rousseau se fundamenta na convicção da bondade natural do homem.
Segundo Rousseau, os percalços da socialização afastaram o homem de si próprio
lançando-o contra o seu semelhante. É nesse processo de transformação que o homem se
degenera porque ele abandona seus instintos naturais passando a usar a justiça no lugar
da piedade. Os sentimentos naturais levam os homens a servirem o interesse comum,
enquanto que a razão o impele ao egoísmo. Para ser virtuoso basta que o homem siga os
sentimentos naturais mais do que a razão. Para Rousseau, a socialização é a causa da
desnaturação do homem, e o melhor caminho para a sua degradação. A comunhão com a
natureza é a única forma de preservação da verdadeira essência do homem. (Ver o artigo
de Dalva de Fatima Fulgeri sob o título Conceito de natureza em Rousseau postado no
website <http://www.paradigmas.com.br/parad12/p12.6.htm>). J.J. Rousseau pensava
que as guerras surgem, ou pelo menos se ampliam, com a expansão das coletividades e
que a desigualdade de classe e a propriedade individual estão ligadas às guerras de
conquista e ao domínio pelos guerreiros. Não poderia ser diferente, uma vez que as
unidades políticas foram forjadas para o combate e o preço da vitória foi sempre a terra,
escravos e metais preciosos.
19
Para Marx, o que caracteriza o homem não é apenas a racionalidade, mas o fato de ser o
artífice do seu próprio desenvolvimento. Os seres humanos são capazes de mudar o
mundo ao seu redor e, fazendo isso, mudam a si mesmos. (Ver o artigo A Natureza do
Homem Segundo Karl Marx postado no website
<http://nomosofia.blogspot.com.br/2011/10/natureza-do-homem-segundo-karl-
marx.html>). Marx apresentou uma definição da essência da natureza humana nos
Manuscritos Filosóficos, caracterizando os seres humanos como atividade livre e
consciente, em contraste com a natureza do animal. (Ver o artigo de Nildo Viana sob o
título A Renovação da Psicanálise por Erich Fromm postado no website
<http://br.monografias.com/trabalhos914/renovacao-psicanalise-fromm/renovacao-psicanalise-
fromm.shtml>). Marx afirma que os conflitos sociais resultam da divisão da sociedade em
classes com o surgimento da propriedade privada em substituição à propriedade coletiva
dos meios de produção imperante nas sociedades primitivas.
7. Como eliminar as guerras no mundo
Pelo exposto no capítulo anterior, constata-se que Aron defende a tese de que a
agressividade humana é influenciada, de muitos modos, pelo contexto social. Não há
prova fisiológica que haja uma incitação espontânea à luta, originada no próprio
organismo do indivíduo. A dificuldade em manter a paz está mais relacionada à
humanidade do homem do que à sua animalidade. Bergson, afirma que a origem da
violência e da guerra é a existência da propriedade, individual ou coletiva. Arendt sustenta
que nem a violência nem o poder são fenômenos naturais. Eles são uma manifestação do
processo vital aos quais pertencem no âmbito político dos negócios humanos. Freud e
Hobbes convergem em seus pensamentos ao considerar os instintos agressivos do homem
e a necessidade da coerção para reprimi-los. A visão pessimista de Freud e Hobbes é
contraposta à de Carl Rogers que afirma que apenas em um contexto coercitivo o homem
se torna hostil ou antissocial e que se não há coerção ele tenderá a ser construtivo.
Rousseau tem como ideia central a convicção da bondade natural do homem e de que a
sociedade é que o degenera lançando-o contra o seu semelhante. Marx afirma que o
homem é artífice do seu próprio desenvolvimento e que os seres humanos são capazes de
mudar o mundo ao seu redor e, fazendo isso, mudam a si mesmos. Em síntese, fica
bastante claro que a existência de uma sociedade baseada na justiça social pode fazer com
que os seres humanos tenham comportamento construtivo e sejam capazes de mudar o
mundo ao seu redor e, ao fazer isso, mudar a si mesmos. Esta é a forma de combater a
violência que contribui cada vez mais para a desintegração social do mundo em que
vivemos.
Para fazer com que os seres humanos tenham comportamento construtivo e sejam capazes
de mudar o mundo ao seu redor, é preciso educá-los. Kant, o filósofo, assim compreende
a educação: desenvolver no indivíduo toda a perfeição de que ele é suscetível, Tal é o fim
da educação. Pestalozzi, o pedagogo consumado, diz: educar é desenvolver
progressivamente as faculdades espirituais do homem. John Locke, grande preceptor, se
expressa desta maneira sobre o assunto: educar é fazer Espíritos retos, dispostos, a todo
o momento, a não praticarem coisa alguma que não seja conforme à dignidade e à
excelência de uma criatura sensata. Lessing, autoridade não menos ilustre, compara a obra
da educação à obra da revelação, e diz: a educação determina e acelera o progresso e o
aperfeiçoamento do homem. O combate à violência no mundo só será vitorioso com a
educação de todos os seres humanos em todos os quadrantes da Terra a fim de que, por
este intermédio, adquiram a consciência do mundo em que vivem, se organizem em cada
país e em todo o mundo, para realizarem as mudanças políticas, econômicas e sociais
20
necessárias à eliminação das desigualdades sociais e dos entraves ao desenvolvimento
político, econômico, social e ambiental em seus respectivos países. Paralelamente ao
esforço de educação de todos os seres humanos, é preciso que a humanidade seja dotada
o mais urgentemente possível de instrumentos necessários a ter o controle de seu destino
e colocar em prática uma governança democrática do mundo. Este é o único meio de
sobrevivência da espécie humana e de sustar a decadência da humanidade.
Uma governabilidade democrática do mundo não substituiria os governos de cada nação.
Seu papel seria o de construir a governabilidade da economia e do meio ambiente global
e a manutenção da paz mundial. Por seu intermédio, seria perseguida a defesa dos
interesses gerais do planeta. Ela zelaria no sentido de cada Estado respeitar os direitos de
cada cidadão do mundo buscando impedir a propagação dos riscos sistêmicos mundiais
de natureza econômica e ambiental. Ele evitaria o império de um só e a anarquia de todos
como ocorre no momento. Uma governança com essas características só pode resultar
do consenso entre todos os povos e nações do mundo. A preservação da paz é a primeira
missão de toda nova forma de governança mundial. Amanhã, quem vai governar o
mundo? Ninguém, provavelmente, se nada for feito para construir uma governança
global. Este é o pior cenário. No entanto, as crises econômica, financeira, ecológica, social
e política mundial, o desenvolvimento de atividades ilegais e criminosas de hoje e a
necessidade de defesa da humanidade contra sua extinção resultante de desastres naturais
no planeta Terra e de ameaças vindas do espaço sideral mostram a urgência de uma
governança mundial. A humanidade tem de entender que tem tudo a ganhar se unindo em
torno de uma governança democrática no mundo representativa dos interesses das nações,
incluindo a mais poderosa, controlando o mundo em sua totalidade, no tempo e no espaço.
A nova ordem mundial a ser edificada deveria organizar não apenas as relações entre os
homens na face da Terra, mas também suas relações com a natureza. É preciso, portanto,
que seja elaborado um contrato social planetário que possibilite o desenvolvimento
econômico e social e o uso racional dos recursos da natureza em benefício de toda a
humanidade. A edificação de uma nova ordem mundial baseada nesses princípios é
urgente. Esse governo vai existir um dia mesmo que aconteça após um gigantesco
desastre econômico ou ambiental. É urgente pensar nisso para sustar a violência e as
guerras que proliferam em todo o mundo.
Diante da impossibilidade de um Estado imperial, potências em equilibrio e uma potência
hegemônica assegurarem a paz mundial, é chegada a hora da humanidade se dotar o mais
urgentemente possível de instrumentos necessários à construção da paz mundial e ao
controle de seu destino. Para alcançar estes objetivos, urge a implantação de um governo
democrático do mundo que se constitui no único meio de sobrevivência da espécie
humana capaz de edificar um mundo no qual cada mulher, cada homem de hoje e de
amanhã tenham os mesmos direitos e os mesmos deveres, no qual todas as formas de vida
e as gerações futuras sejam enfim levadas em conta, no qual todas as fontes de
crescimento sejam utilizadas de maneira ecologicamente e socialmente durável. É
chegada a hora de a humanidade se dotar o mais urgentemente possível de instrumentos
necessários à construção de um mundo de paz. A ONU que foi fundada após a 2ª Guerra
Mundial tem sido inoperante ao longo de sua história. Ela não tem sido bem sucedida na
construção de um mundo de paz. Urge reestruturar a ONU e o sistema internacional a fim
de que ela possa exercer uma governança mundial que possibilite mediar os conflitos
internacionais e assegurar a paz mundial. A governança mundial a ser exercida pela ONU
teria por objetivo a defesa dos interesses gerais do planeta, zelaria no sentido de cada
Estado nacional respeitar os direitos de cada cidadão do mundo e buscaria impedir a
21
propagação dos riscos sistêmicos mundiais. Ela evitaria o império de um só e a anarquia
de todos. Com uma governança mundial, será possível acabar com a guerra e com o banho
de sangue que tem caracterizado a história da humanidade ao longo da história. Os
monumentos de Guerra devem ser substituídos por monumentos de Paz a partir da
constituição de um governo mundial. Para ser democrático, o governo mundial deve ser
representativo de todos os povos do mundo. A sobrevivência da humanidade dependerá
da capacidade de se celebrar um Contrato Social Planetário representativo da vontade da
maioria da população do planeta.
Para afastar definitivamente novos riscos de uma nova guerra mundial e que se concretize
a paz perpétua em nosso planeta, seria preciso a reforma do sistema internacional atual
que é incapaz de garantir a paz mundial. O novo sistema internacional deveria funcionar
com base em um Contrato Social Planetário que seria a Constituição do planeta Terra.
Para a elaboração do Contrato Social Planetário deveria haver a convocação de uma
Assembleia Mundial Constituinte com a participação de representantes de todos os países
do mundo eleitos para este fim. O Contrato Social Planetário deveria estabelecer a
existência de um Governo Mundial cujo presidente deveria ser eleito com mais de 50%
de votos do Parlamento Mundial a ser, também, constituído com representantes eleitos
nos diversos países do mundo. Além do Governo Mundial e do Parlamento Mundial,
deveria ser constituida, também, a Corte Suprema Mundial que deveria ser composta por
juristas de alto nivel do mundo escolhido pelo Parlamento mundial que atuariam por
tempo determinado. A Corte Suprema Mundial deveria julgar os casos que envolvam
litigios entre paises, os crimes contra a humanidade e contra a natureza praticados por
Estados nacionais e por governantes à luz do Contrato Social Planetário, julgar conflitos
que existam entre o Governo Mundial e o Parlamento Mundial e atuar como guardiã do
Contrato Social Planetário. O Governo Mundial não terá Forças Armadas próprias
devendo contar com o respaldo de Forças Armadas dos países que seriam convocadas
quando necessário.
Portanto, com esta sistemática o Parlamento Mundial legislaria com sucesso por meio de
um processo democrático. Não haveria a necessidade de um ente que atuaria como
policial do mundo porque quem exerceria o poder seria o Presidente do Governo Mundial
que usaria as Forças Armadas de determinados países que seriam convocadas quando
necessário. O novo estado de direito internacional seria executado pelos três poderes
constituidos: Governo Mundial, Parlamento Mundial e Corte Suprema Mundial. O poder
mundial repousaria no Governo Mundial, no Parlamento Mundial e na Corte Suprema
Mundial. O poder mundial não corromperia nem seria corrompido porque haveria a
vigilância de todos os poderes constituídos. Governo Mundial, Parlamento Mundial e
Corte Suprema Mundial atuariam como freios e contrapesos visando a eficiência e
eficácia do sistema internacional.
* Fernando Alcoforado, 83, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema
CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento
Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário
(Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento
empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-
Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de
Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da
Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos
livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem
Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os
condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de
Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento
22
(Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos
Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic
and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft &
Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e
Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e
combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os
Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia
no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba,
2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV,
Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua
convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro
para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua
sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da
história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022),
de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022) e How to
protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis
Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023).

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DA NOVA GUERRA FRIA, DA GUERRA COMERCIAL, DA GUERRA FINANCEIRA E DA GUERRA CIBERNÉTICA À 3ª GUERRA MUNDIAL.pdf

  • 1. 1 DA NOVA GUERRA FRIA, DA GUERRA COMERCIAL, DA GUERRA FINANCEIRA E DA GUERRA CIBERNÉTICA À 3ª GUERRA MUNDIAL? Fernando Alcoforado* Este artigo tem por objetivo apresentar as características da guerra moderna baseada em pesquisa aprofundada sobre a marcha da nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a Rússia, a guerra comercial entre Estados Unidos e China e suas consequências, a guerra financeira como arma de guerra moderna, a guerra cibernética como arma de guerra moderna, a inevitabilidade ou não da 3ª Guerra Mundial, as causas da violência e das guerras no mundo para, no final, apresentar como eliminar as guerras no planeta. A nova Guerra Fria resulta do fato de os Estados Unidos e as forças da OTAN estarem ampliando suas presenças nas fronteiras da Rússia. A guerra comercial foi desencadeada pelos Estados Unidos contra a China para evitar que este país assuma a condição de potência econômica hegemônica no planeta. A guerra financeira tem sido desencadeada pelos Estados Unidos, contra seus inimigos, como o Irã, a Rússia e a China, com o objetivo de degradar as capacidades de seus inimigos e subjugá-los com a adoção de sanções econômicas e financeiras, enquanto busca vantagem geopolítica em áreas específicas para levar o país inimigo a um estado de quase colapso e paralisia, a uma catástrofe financeira enquanto avançando em outras frentes. A guerra cibernética está sendo desencadeada pelos Estados Unidos, pela Rússia, pela China, entre outros países para atacarem computadores e redes de países inimigos que afetem recursos necessários para a guerra estudando o sistema profundamente para descobrir suas falhas e usando essa falhas para controlar esse sistema ou destruí-lo. O declínio dos Estados Unidos e a ascensão econômica da China, que pode assumir a condição de maior potência mundial em meados do século XXI, podem desencadear a 3ª Guerra Mundial diante da tensão criada entre eles. Paralelamente ao esforço de educação de todos os seres humanos com a cultura da paz, é preciso colocar em prática uma governança democrática do mundo para evitar que novas guerras mundais se repitam. Este é o único meio de sobrevivência da espécie humana e de sustar a decadência da humanidade. 1. Em marcha nova Guerra Fria Na era contemporânea, uma das estratégias do governo norte-americano consiste em impedir a Rússia de alçar à condição de grande potência mundial ou mesmo regional e a China não ultrapassá-la como maior potência econômica do planeta. A partir do ano 2000, a Rússia resolveu desenvolver uma parceria estratégica com a China. A Rússia considerou que a China poderia ajudá-la na sua resistência às ambições geopolíticas dos Estados Unidos tanto na Europa Oriental, quanto no Cáucaso ou na Ásia Central. A Organização da Cooperação de Xangai (Shanghai Cooperation Organization – SCO) foi criada em 2001 para estabelecer uma aliança entre a Rússia e a China em termos militares e de combate ao terrorismo, ao fundamentalismo religioso e ao separatismo na região da Ásia. A SCO é uma organização de cooperação política e militar que se propõe explicitamente ser um contrapeso aos Estados Unidos e às forças militares da OTAN. Putin resolveu as últimas disputas territoriais com a China em 2004, tornando segura sua fronteira oriental. Os dois países defendem, em geral, posições convergentes na ONU e nos demais fóruns internacionais, como, por exemplo, o G20 (Ver o artigo A Geopolítica das Relações entre a Federação Russa e os EUA: da “Cooperação” ao Conflito de Numa Mazat e Franklin Serrano publicado no website <https://revistas.ufrj.br/index.php/oikos/article/view/51868>).
  • 2. 2 A Rússia está flexionando seus músculos militares que é o maior desafio de Moscou desde o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Em 2010, o Parlamento russo (Duma) aprovou um programa para 2011-2020 que destinou 20 trilhões de rublos para o rearmamento e acrescentou três trilhões de rublos para atualizar a indústria militar. A ambição declarada é a de que, até 2020, as forças armadas russas fossem 70 por cento "modernas". O exército iria receber 2.300 novos tanques, a Força Aérea 1200 aviões, incluindo helicópteros e a Marinha 50 navios de superfície e 28 submarinos (Ver o artigo Em marcha nova Guerra Fria de Fernando Alcoforado, publicado no website <https://pt.slideshare.net/falcoforado/em-marcha-nova-guerra-fria-43461945>). É importante observar que a Rússia é hoje um grande fornecedor de armas para os países que querem manter sua independência em relação aos Estados Unidos, como a Índia. Da mesma forma, as nações que sofrem de embargo sobre armas por parte dos Estados Unidos como a China, a Venezuela ou o Irã fazem compras militares com a Rússia. Além disso, a Rússia continua sendo a grande potência nuclear mundial ao lado dos Estados Unidos. Em 16 de maio de 2014, Rússia e China anunciaram a assinatura de um “tratado de amizade” contemplando um acordo sobre o gás, pelo qual os dois países iriam construir um gasoduto para exportar gás russo para a China. A China emprestaria à Rússia o dinheiro com o qual esta construiria a sua parte do gasoduto. A Gazprom (maior produtora russa de gás e de petróleo) fez algumas concessões de preço à China (Ver o artigo Ojogogeopolíticoda RússiaedaChina de Immanuel Wallerstein publicado no website <https://www.esquerda.net/en/node/33179>). O governo dos Estados Unidos busca desestabilizar a economia russa para vergar seu governo, ou mesmo derrubar sua principal liderança, Putin motivo pelo qual sofre sanções econômicas, além de procurar derrubar o regime iraniano, cuja economia, já fragilizada pelas sanções econômicas, depende mais do que nunca de preços do petróleo acima de US$ 100 por barril. Os Estados Unidos são inimigos mortais do Irã, por se constituírem o último produtor de petróleo no Oriente Médio não alinhado ao Ocidente e pelos seus planos de desenvolver tecnologia nuclear. Petróleo e gás natural contribuem com mais de 68% da receita de exportação da Rússia e mais de 50% do orçamento do governo. A tentativa de desestabilizar a economia russa, sobretudo depois da guerra entre Rússia e Ucrânia, está contribuindo para o incremento da escalada militar confrontando a Rússia contra os Estados Unidos e as forças da OTAN. Esta escalada militar e o agravamento da situação econômica da Rússia resultante das sanções impostas pelos Estados Unidos e União Europeia poderão radicalizar o conflito da Rússia com os Estados Unidos fazendo com que o governo russo decida pelo uso de armas nucleares que poderia reforçar ainda mais o poder de Vladimir Putin no comando da Rússia mobilizando a nação contra o inimigo externo comum. Em contrapartida, os Estados Unidos e as forças da OTAN estão ampliando sua presença nas fronteiras da Rússia dando início a uma nova Guerra Fria. Igor Gielow publicou no website <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/03/eua- alertam-para-risco-de-guerra-nuclear-com-china-e- russia.shtml?utm_source=sharenativo&utm_medium=social&utm_campaign=sharenati vo> o artigo “EUA alertam para risco de guerra nuclear com China e Rússia”. Neste artigo, há a afirmação do chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos, General Mark Milley, de que o conflito não é inevitável, mas pede dinheiro ao Congresso para dissuadir rivais. Segundo Milley, pela primeira vez na história, os Estados Unidos enfrentam o risco de uma guerra com duas potências nucleares
  • 3. 3 ao mesmo tempo, a China e a Rússia. Lutar simultaneamente contra elas seria muito difícil, apesar das capacidades militares americanas. Este alarmismo de Milley busca sensibilizar os congressistas. O general pediu a aprovação do maior orçamento de Defesa da história dos Estados Unidos. Ele delineou todos os elementos de risco em curso. Afirmou, por exemplo, que Putin continua a usar retórica e postura nucleares irresponsáveis enquanto a Rússia fazia um dos maiores exercícios com mísseis intercontinentais da história recente. O general Mark Milley afirmou que os Estados Unidos e a Rússia detêm pouco mais de 90% das 13 mil ogivas espalhadas pelo mundo. Milley afirma que a China tem milhares de mísseis de alcance local nos seus arsenais, que seriam de difícil contenção pelos Estados Unidos com seu inventário atual, defendendo investimento em armas hipersônicas e outras. Ele diz que o potencial para conflito armado está crescendo. A China permanece como desafio número 1 de segurança geoestratégica de longo prazo citando a expansão militar da China no Indo-Pacífico e as medidas americanas contra isso, como patrulhas (pediu mais navios) e o pacto militar Aukus que fornecerá submarinos nucleares para a Austrália. 2. A guerra comercial entre Estados Unidos e China e suas consequências Com o argumento de que buscava proteger os produtores norte-americanos e reverter o déficit comercial que os Estados Unidos têm com a China, o presidente Donald Trump anunciou desde 2018 a adoção de tarifas sobre produtos importados do país asiático. O objetivo era dificultar a chegada de produtos chineses aos Estados Unidos, o que estimularia a produção interna. O governo da China, por sua vez, reagiu a esses anúncios com retaliações, chegando a impor também tarifas sobre produtos norte-americanos. Durante sua campanha eleitoral, os discursos de Donald Trump já apontavam para uma tendência protecionista, com críticas ao déficit comercial dos Estados Unidos em relação à China. Já como presidente, Trump fez o primeiro anúncio de taxas sobre produtos chineses em março de 2018. Desde então, anunciou várias medidas e ameaçou adotar outras. A China respondeu também com barreiras comerciais aos produtos norte- americanos e com ameaças. Enquanto a China e os Estados Unidos estão travando sua guerra comercial, a maioria dos economistas supõe que a China não tardará de alcançar a supremacia econômica global. Afinal, com uma população quatro vezes maior do que a dos Estados Unidos e um plano econômico projetado para recuperar o atraso após séculos de estagnação tecnológica, não é inevitável que a China assuma a condição de potência econômica hegemônica no planeta. A ascensão da China e seu rápido sucesso não se baseia unicamente no tamanho de sua população. A Índia, por exemplo, tem uma população semelhante (ambas são cerca de 1,3 bilhão de pessoas), mas, pelo menos por enquanto, está muito mais atrasada. A liderança econômica do governo chinês deve ser creditada pelo trabalho miraculoso de tirar centenas de milhões de pessoas da pobreza para a condição de classe média. O rápido crescimento da China tem sido impulsionado principalmente pelo progresso e investimento em tecnologia. A China, ao contrário da União Soviética, mostra excepcional inovação tecnológica local. Não por acaso, as empresas chinesas já estão liderando o caminho tecnológico da próxima geração de redes móveis 5G e sua capacidade é elevada para uma guerra cibernética com os Estados Unidos. As realizações da China ainda se originam, em grande parte, da adoção da tecnologia ocidental e, em alguns casos, da apropriação da propriedade intelectual. A China está seguindo seu próprio caminho demonstrando que sistemas políticos centralizados e planejados são capazes de impulsionar mais e mais rapidamente o desenvolvimento do que sistemas
  • 4. 4 baseados no livre mercado. A China pode liderar o futuro digital mesmo se os Estados Unidos tentarem impedir fazendo a sua parte. A era iminente das máquinas inteligentes pode ser um ponto de virada a favor da China na batalha pela hegemonia global com os Estados Unidos. Os últimos acontecimentos não indicam uma solução rápida para a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. A China, que monopoliza 80% da produção mundial de terras raras, ameaça se negar a exportar para seu rival esses minerais cruciais. É importante observar que a disputa entre Estados Unidos e China vai além da questão econômica porque diz respeito a uma questão geopolítica. Estamos diante da primeira grande disputa geopolítica do século XXI, entre duas superpotências com os Estados Unidos em declínio e a China em ascensão como potência hegemônica economicamente. Uma potência que está emergindo como a China incomoda a potência que está estabelecida e em declínio como os Estados Unidos. Esse é um problema clássico das relações internacionais. Artigo de Harold Thibault et Simon Leplâtre, publicado no Le Monde de 01/02/2019, sob o título Chine : avec Huawei, la guerre de la 5G est déclarée (China: com a Huawei, a guerra de 5G é declarada), disponível no website <https://www.lemonde.fr/international/article/2019/02/01/chine-avec-huawei-la-guerre- de-la-5g-est-declaree_5417769_3210.html#xtor=AL-32280270>, informa que a ascensão meteórica da Huawei e seus laços com o poder chinês a colocaram no centro da guerra comercial e geopolítica entre a China e os Estados Unidos. O governo norte- americano vem acusando a Huawei de ser uma ameaça à segurança dos Estados Unidos e avisa seus aliados. Com seu laboratório de Pesquisa de Inteligência Artificial, a Huawei, empresa chinesa, ocupou o segundo lugar em vendas de smartphones que era da Apple, mas estava ainda atrás da Samsung a quem esperava superar em 2020. Seus dispositivos são mais baratos do que os dos concorrentes coreanos ou americanos. Desde 2017, é líder mundial como fabricante de equipamentos de redes móveis, fornecendo antenas, retransmissores e outras infraestruturas para as operadoras móveis conectarem seus clientes em qualquer local. A Huawei tornou-se a empresa com maior número de patentes na Europa. Seus gastos em pesquisa e desenvolvimento - US$ 13,8 bilhões (12 bilhões de euros) em 2017 - situam- se no nível dos gigantes do Vale do Silício. A Huawei desenvolve com a inteligência artificial protótipos de carros autônomos e está trabalhando com a Audi em direção autônoma de veículos conectados. Sua ascensão, num campo estratégico, coloca este novo gigante no centro da guerra pela dominação comercial e tecnológica que a China e os Estados Unidos estão envolvidos. No final de novembro de 2018, o Wall Street Journal revelou que o governo dos Estados Unidos estava realizando uma massiva ofensiva diplomática para convencer governos e operadoras de telefonia em países aliados a se absterem de instalar equipamentos da Huawei. Os países de acolhimento de bases dos Estados Unidos são particularmente solicitados a escolher entre a tecnologia chinesa ou a proteção americana. Por que os Estados Unidos e outros países suspeitam da Huawei? Diplomatas e funcionários da inteligência dos Estados Unidos insistem com seus parceiros europeus, australianos ou japoneses alertando sobre os perigos inerentes à 5G desenvolvida pela Huawei. O 5G é possibilitado pela instalação de um maior número de antenas, para troca de volumes maiores de dados, com terminais móveis que se multiplicam: smartphones, veículos, dispositivos médicos, drones. Um adensamento da rede onde tudo passa por antenas "inteligentes". Nesta rede estão "estações de base", tecnologias condensadas que
  • 5. 5 oferecem oportunidades de espionagem e sabotagem, segundo o artigo de Harold Thibault et Simon Leplâtre, publicado no Le Monde. Segundo Harold Thibault et Simon Leplâtre, a transição para 5G envolve grandes mudanças tecnológicas. De agora em diante, os dados sensíveis também estarão acessíveis nas antenas de retransmissão. Todos devem estar cientes de que os riscos de capturar dados são reais. O mercado dos Estados Unidos está fechado para a Huawei desde 2012, depois que o Comitê de Inteligência do Congresso concluiu que a Huawei representa uma ameaça à segurança nacional. Um número crescente de países está dando as costas à Huawei. A Huawei foi excluída da licitação para 5G nos Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e pode ser excluída no Japão, no Reino Unido e no Canadá. Quanto à França, anunciou, por meio de um funcionário que, a partir de então, todo o equipamento de infraestrutura das redes 5G estará sujeito a prévia autorização administrativa. Esta nova geração de redes móveis foi implantada em 2020 na França. Com a 5G, as velocidades aumentam consideravelmente, permitindo uma "revolução" dos usos da Internet móvel transmitindo instantaneamente informações como, por exemplo, sobre o movimento e o comportamento de um carro autônomo, quando anteriormente ter um lapso de tempo na transmissão de dados era considerado um perigo. O artigo já citado de Harold Thibault et Simon Leplâtre publicado no Le Monde informa que os Estados Unidos estão atacando a Huawei porque é a empresa mais avançada e uma das maiores da China. Os ataques contra a Huawei são a materialização da estratégia do governo dos Estados Unidos na guerra comercial e geopolítica com a China. Os serviços de segurança de outros países temem que as redes de telecomunicações da Huawei facilitem a espionagem a serviço da China. O elo particular entre o governo chinês e empresas - públicas ou privadas – é o que preocupa, em particular, o funcionamento do sistema político chinês e seu capitalismo de estado. As empresas, mesmo as privadas como a Huawei, devem acompanhar as políticas oficiais do governo chinês investindo no exterior. Em Bruxelas, a Huawei tem um grande escritório de lobby. A União Europeia é seu primeiro mercado fora da China. O artigo do Le Monde informa que a Huawei emprega 11.000 pessoas na Europa e criou inúmeras parcerias com universidades europeias como um centro de investigação matemática em Boulogne-Billancourt, a cooperação com universidades como a Humboldt em Berlim e o Instituto Real de Tecnologia, KTH, em Estocolmo. A capacidade dos países ocidentais de construir suas redes móveis independentemente da China no futuro está em jogo. Em 2008, enquanto as operadoras se preparavam para instalar o 4G, a Huawei era apenas a quarta empresa no mundo. Sua escalada ao topo foi alcançada em apenas uma década, isto é, a expectativa de vida média de uma rede móvel de "geração". Pela primeira vez, a China está assumindo uma forte liderança na área tecnológica mais estratégica em um contexto de tensões entre Pequim e Washington e seus aliados. Mas o que restará da concorrência, se a Huawei mantiver o mesmo ritmo de progressão até a sexta geração? Essa situação pode levar ao desenvolvimento paralelo de dois ecossistemas tecnológicos distintos e hostis. Já, por causa da censura que bloqueia o acesso aos concorrentes dos Estados Unidos na China, os internautas chineses usam principalmente plataformas locais: a aplicação WeChat em vez de Facebook, Weibo ao invés de Twitter, ou Baidu ao invés de Google. O artigo de Harold Thibault et Simon Leplâtre publicado no Le Monde informa que a Huawei se estabeleceu onde os principais fornecedores de equipamentos de rede não se aventuraram: no interior da China, depois nos países pobres. A Huawei se estabeleceu em países menos desenvolvidos, que os players estabelecidos negligenciaram. Isto não impediu a Huawei de obter uma vantagem tecnológica real. Quando uma empresa
  • 6. 6 privada, como Huawei adquire uma dimensão internacional em um setor estratégico, ele é forçado a levar em conta o partido-estado, disse Paul Clifford, autor de The China Paradox. Embora na sua gestão diária, a Huawei tenha um alto grau de independência e está em concorrência com outras empresas chinesas, como o grupo de telecomunicações ZTE, o partido que exerce o poder na China pode dar-lhe ordens, conforme necessário. E sob a presidência de Xi Jinping, a influência do partido em grandes empresas privadas chinesas aumentou. Quando chegou à chefia do partido e do Estado na China em novembro de 2012, Xi Jinping afirmou que a chave para a sobrevivência do partido único é garantir o controle sobre todos os componentes da sociedade: universidades, imprensa, advogados, mas também empresas. Em 2017, aprovou uma lei sobre inteligência, o Artigo 7 declara: "Qualquer organização ou cidadão deve, de acordo com a lei, apoiar, cooperar com inteligência nacional e manter sigilo sobre qualquer atividade de inteligência da qual ele está ciente". As restrições, regulamentações e a governança da China sufocam as empresas privadas e são um fardo sobre os esforços do país para desenvolver negócios globais e ganhar "soft power", afirma Duncan Clark, mostrando os limites para a internacionalização do país. 3. A guerra financeira como arma de guerra moderna O livro The death of money (A morte do dinheiro) de James Rickards publicado pela Penguin Random House UK, 2014, deixa bastante evidenciada a importância da guerra financeira que um país possa adotar para desestabilizar as instituições financeiras de um país inimigo e degradar sua capacidade econômica. Rickards afirma que a destruição da riqueza de um país inimigo através de um ataque a seu mercado pode ser mais eficaz do que afundar navios inimigos, quando se trata de enfraquecer um adversário. Guerra financeira é o futuro da guerra, segundo Rickards. O objetivo da guerra financeira é degradar as capacidades do inimigo e subjugar o inimigo enquanto busca vantagem geopolítica em áreas específicas. Se o atacante puder levar um país a um estado de quase colapso e paralisia, a uma catástrofe financeira enquanto avançando em outras frentes, então a guerra financeira será julgada bem sucedida, mesmo se o atacante incorrer em grandes custos. Todas as guerras têm custos e muitas guerras são destrutivas cuja recuperação leva anos ou décadas. A guerra financeira tem aspectos ofensivos e defensivos, segundo Rickards. Os aspectos ofensivos incluem ataques maliciosos em mercados financeiros do país inimigo projetado para interromper o comércio e destruir sua riqueza. Os aspectos defensivos envolvem rápida detecção de um ataque do inimigo seguido de resposta rápida como fechar mercados ou interceptar o tráfego de mensagens inimigas. A acão ofensiva pode consistir na interrupção da primeira tentativa ou retaliação da segunda tentativa. Na teoria, ataque e defesa convergem, já que a retaliação de segunda tentativa pode ser suficientemente destrutiva para impedir ataques de primeira tentativa, segundo Rickards. Rickards afirma que a guerra de informação controlará a forma e o futuro da guerra. Esta tendência será altamente crítica para alcançar a vitória em futuras guerras. Uma unidade altamente secreta da National Security Agency (NSA) chamada Escritório de Tailored Access Operations (TAO) penetrou com sucesso no computador chinês e sistemas de telecomunicações por quase 15 anos, gerando algumas das melhores e mais confiáveis informações de inteligência sobre o que está acontecendo dentro da República Popular da China. TAO requer uma autorização de segurança especial para obter acesso aos espaços de trabalho da unidade dentro do complexo de operações da NSA. Os países agressores financeiros também podem utilizar operações psicológicas, psicopatas, para aumentar o
  • 7. 7 a eficácia do ataque. Isso envolve a emissão de notícias falsas e o início de rumores. Histórias, por exemplo, de que um presidente do Fed foi seqüestrado ou que um financista proeminente sofreu um ataque cardíaco seria eficaz. Histórias de que um banco de primeira linha fechou as portas ou que um gestor de fundos de hedge se suicidou seriam suficientes. Os cenários de indução de pânico seriam difundidos. Segundo Rickards, China e Irã têm sido alvos da ação dos Estados Unidos na implementação da guerra financeira em curso no mundo visando a consecução de seus objetivos estratégicos. Diante da guerra financeira empreendida pelos Estados Unidos, a China vem adotando, também, uma resposta no campo estratégico. O Exército Popular de Libertação da China tornou explícita esta resposta estratégica em um livro de 1999 que se intitula Guerra irrestrita. Táticas de guerra irrestrita incluem várias maneiras de atacar um inimigo sem usar armas cinéticas como mísseis, bombas ou torpedos. Tais táticas incluem o uso de armas de destruição em massa que dispersam elementos biológicos, químicos ou radiológicos, causam baixas e aterrorizam a população civil. Outros exemplos de guerra irrestrita incluem ataques cibernéticos que podem derubar aviões, abrir comportas de represas, causar blecautes e desligar a Internet. Recentemente, ataques financeiros foram adicionados à lista de ameaças assimétricas articuladas. A guerra irrestrita dos chineses foi desencadeada a partir da análise da crise financeira asiática de 1997 que espalhou o pânico financeiro global de 1998. Grande parte do sofrimento dos países da Ásia foi causado por banqueiros ocidentais que, repentinamente, tiraram dinheiro dos bancos nos mercados emergentes da Ásia, sofrimento este agravado por mau conselho econômico do FMI dominado pelas grandes potências capitalistas do Ocidente. Do ponto de vista asiático, todo o desastre parecia uma conspiração ocidental para desestabilizar suas economias. A instabilidade era real o suficiente para provocar motins e derramamento de sangue da Indonésia à Coreia do Sul, segundo Rickards. Os chineses foram menos afetados do que outras nações asiáticas pelo pânico de 1997 e 1998, mas eles estudaram a situação e começaram a ver como os bancos, trabalhando em conjunto com o FMI, poderiam minar a sociedade civil dos países e possivelmente forçar a mudança de regime. Uma de suas respostas à crise foi acumular dólar maciço como reserva financeira para que eles não ficassem vulneráveis em uma "corrida ao banco" repentino por credores ocidentais. A resposta dos chineses foi a de desenvolver uma doutrina de guerra financeira. A China tem reservas de mais de US$ 3 trilhões e a cada 10% de desvalorização do dólar engendrada pelo Fed representa uma transferência de riqueza real de US$ 300 bilhões da China para os Estados Unidos. Não está claro, segundo Rickards, por quanto tempo a China tolerará esse ataque à sua riqueza. Se a China não é capaz de derrotar os Estados Unidos no ar ou no mar, poderia atacar através dos mercados de capitais. A China tem desenvolvido, também, ações visando elevar seu estoque de ouro e seu possível uso como arma para minar o valor de troca do dólar. Com esta medida, a China poderia proteger suas reservas contra o congelamento de ativos ou sua desvalorização no caso de uma guerra financeira convertendo sua riqueza em papel em ouro que é uma opção que está agora perseguindo agressivamente. Cada lingote de ouro adquirido pela China reduz sua vulnerabilidade financeira. As possíveis intenções da China podem ser inferidas a partir do status de ser o maior comprador de ouro do mundo. Rickards afirma que a China está à frente dos Estados Unidos com sua doutrina de guerra financeira estratégica que surgiu em 1999 em resposta ao choque financeiro asiático de 1997. Em 2012, tanto a China quanto os Estados Unidos haviam se engajado em esforços para desenvolver doutrinas estratégicas e táticas de guerra financeira. Na implementação da guerra financeira, a China tem adotado formas mais sutis de ataque financeiro como, por exemplo, em janeiro de 2011, o The New York Times informou que a China passou
  • 8. 8 a ser uma vendedora líquida de títulos do Tesouro dos Estados Unidos em 2010, após ser um comprador líquido. O relatório do Times achou esta venda estranha porque a China ainda estava acumulando enormes reservas em dólar de seus superávits comerciais e ainda estava comprando dólares para manipular o valor de sua moeda, o Yuan. Outra técnica usada pela China para disfarçar suas operações de inteligência de mercado financeiro foi reportada em 2007 pelo The New York Times, quando divulgou que o China Investment Corporation (CIC), outro fundo soberano, concordou em comprar US$ 3 bilhões em ações do Blackstone Group, a poderosa e secreta empresa de capital privado sediada nos Estados Unidos. Os Estados Unidos não são o único alvo potencial da guerra financeira chinesa. Em setembro de 2012 um alto funcionário chinês, escrevendo no periódico Comunista China Daily, sugeriu a montagem de um ataque ao mercado de títulos japoneses em retaliação às provocações japonesas envolvendo territórios insulares no Mar da China Oriental. As ações da China nos mercados de títulos e private equity (fundos privados de ações) são parte de seu esforço de longo prazo para operar de forma furtiva, se infiltrar em nós críticos e obter informações corporativas valiosas no processo. Estes esforços financeiros estão sendo realizados lado a lado com esforços maliciosos no ciberespaço e ataques a sistemas que controlam a infraestrutura crítica, lançada pela unidade de espionagem militar da China. Esses esforços combinados serão úteis à China em futuros confrontos com os Estados Unidos. A China não é o único país que luta contra uma guerra financeira promovida pelos Estados Unidos. Tal guerra está sendo travada hoje, também, entre os Estados Unidos e o Irã e entre os Estados Unidos e seus aliados ocidentais contra a Rússia. Os Estados Unidos buscam desestabilizar o regime iraniano e inviabilizar seu programa nuclear negando-lhe acesso a redes críticas de pagamentos. Em fevereiro de 2012, os Estados Unidos proibiram o Irã de utilizar os sistemas de pagamentos em dólares dos Estados Unidos controlados pelo Federal Reserve e pelo Tesouro norte-americano. O Irã foi oficialmente impedido pelos Estados Unidos de participar de pagamentos ou recebimentos em moeda forte com o resto do mundo. Segundo Rickards, o governo dos Estados Unidos não fez segredo de seus objetivos na guerra financeira com o Irã. Em 6 de junho de 2013, o funcionário do Tesouro dos Estados Unidos David Cohen disse que o objetivo das sanções dos Estados Unidos era causar depreciação da moeda iraniana e torná-la inutilizável no comércio internacional. Os resultados foram catastróficos para a economia iraniana. O Irã é um dos principais exportadores de petróleo que precisa ter acesso a sistemas de pagamentos para receber dólares pelo petróleo que exporta para o exterior. É também um grande importador de produtos refinados de petróleo, alimentos e eletrônicos de consumo, como computadores da Apple e impressoras HP. De repente, o Irã não tinha como pagar por suas importações e sua moeda entrou em colapso. Mesmo antes das sanções norte- americanas contra o país, o Irã reagiu,comprando ouro para impedir que os Estados Unidos ou seus aliados congelassem seus saldos em dólar. A Índia é um importante importador de petróleo iraniano, e os dois parceiros comerciais tomaram medidas para implementar uma troca de óleo por ouro. A Índia compraria ouro nos mercados globais e trocaria com o Irã por remessas de petróleo. Por sua vez, o Irã poderia trocar o ouro com a Rússia ou a China por alimentos ou produtos manufaturados. Em face de sanções financeiras extremas, O Irã estava mais uma vez provando que o ouro é dinheiro bom em todos os momentos e em todos os lugares. A Turquia rapidamente se tornou, também, uma das principais fontes de ouro para o Irã. Exportações turcas de ouro para o Irã em março de 2013 foi de US$ 381 milhões, mais do que o dobro do mês anterior. No entanto, ouro não é tão fácil de movimentar quanto
  • 9. 9 os dólares digitais, e o intercâmbio com ouro têm seus próprios riscos. Outra fonte de ouro com destino ao Irã é o Afeganistão. Em dezembro de 2012, o The New York Times informou sobre um comércio triangular entre o Afeganistão, Dubai e Irã. O Irã também usa bancos chineses e russos para atuar como operações de fachada para pagamentos ilegais. O Irã organizou grandes depósitos em moeda forte em bancos chineses e russos antes das sanções norte-americanas entrarem em vigor. No final de 2012, os Estados Unidos alertaram a Rússia e a China sobre a assistência ao Irã e sobre as sanções, mas nenhuma punição foi imposta aos russos ou chineses. Os Estados Unidos não agiram duramente contra a Rússia ou a China porque tinha agendas mais importantes para prosseguir com ambos, incluindo a Síria e a Coreia do Norte. O Irã também demonstrou como a guerra financeira e a guerra cibernética poderiam ser combinadas em um híbrido ataque assimétrico. Em maio de 2013, hackers iranianos teriam obtido acesso aos sistemas de software usados por empresas de energia para controlar oleodutos e gasodutos em todo o mundo. Manipulando este software, o Irã poderia causar estragos não só em cadeias de suprimentos físicos, mas também em energia e mercados de derivativos. O Irã sofreu com as sanções, mas não entrou em colapso. No final de 2013, houve um acordo entre o presidente Obama e o presidente iraniano. Em particular, as sanções pelas compras de ouro pelo Irã foram removidas, permitindo que o Irã estocasse ouro usando o dinheiro do dólar com as vendas de petróleo. O Presidente Obama deixou claro que, embora as sanções tenham sido flexibilizadas, elas poderiam ser reimpostas se o Irã não cumprisse suas promessas de reduzir seus programas nucleares. Como é de conhecimento geral, Donald Trump desconsiderou o acordo assinado com o Irã, além de impor novas sanções. A guerra financeira entre os Estados Unidos e o Irã de 2012–13 ilustra como as nações que conseguiram resistir aos Estados Unidos podem se defrontar no campo de batalha financeiro. Os Estados Unidos queriam tirar o Irã do sistema de pagamentos em dólar e nisso foi bem-sucedido. Um sistema de pagamento alternativo não baseado em dólar está agora tomando forma na Ásia e o ouro provou ser uma arma financeira eficaz. Esta situação está contribuindo para os aliados do Irã falarem abertamente sobre a construção de novos sistemas bancários e de pagamentos não baseados em dólares. As sanções econômicas do governo Biden contra a Rússia atingem duas instituições financeiras russas - os bancos VEB e PSB, incluindo 42 subsidiárias - e impedem negociação de novos papéis da dívida pública russa no mercado. Isso significa que foi cortado o acesso do governo da Rússia às finanças ocidentais. A Rússia não poderia mais levantar dinheiro do Ocidente e não poderia negociar sua nova dívida nos mercados americano e europeus. Estas medidas são mais duras do que as tomadas em 2014, quando a Rússia anexou a região ucraniana da Crimeia. As novas sanções americanas se juntam a ações que governos europeus também tomaram. O primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, anunciou a interrupção do processo de certificação do gasoduto Nord Stream 2, que está pronto, mas ainda não em operação. Os bancos russos foram retirados do sistema de pagamento internacional Swift. Empresas ocidentais abandonaram a Rússia por causa desses impactos. A economia russa não colapsou apesar das sanções que vão desde o corte de relações comerciais entre países a congelamento de metade das reservas russas no exterior e restrições ao sistema financeiro. A economia russa não colapsou porque a China e a Índia têm ajudado o país com um “comércio normal” de cooperação. A guerra financeira encetada pelos Estados Unidos pode fazer com que seus inimigos desenvolvam ações que contribuam para produzir danos sobre o sistema econômico e financeiro internacional que apresenta grande fragilidade. O colapso financeiro em 2008 não foi um ato de guerra financeira, mas demonstrou para os Estados Unidos a
  • 10. 10 complexidade e vulnerabilidade do sistema financeiro global. Aproximadamente US$ 60 trilhões de riqueza foram destruídos no pico da crise em outubro de 2007. Os ataques cibernéticos na infraestrutura dos Estados Unidos, incluindo bancos e outras instituições financeiras, estão crescendo e podem assumir muitas formas. Em 23 de abril de 2013, uma conta do Twitter mantida pela Associated Press foi hackeada e usada para distribuir uma falsa mensagem de que a Casa Branca tinha sido alvo de um ataque terrorista e que o presidente Obama foi ferido. O Irã reivindicou o crédito pelo ataque. O sucesso dos hackers e a reação do mercado demonstrou que os mercados podem ser manipulados por vários meios. Esses eventos apontam para o tipo mais perigoso de ataque financeiro que combina ataques cibernéticos e guerra financeira. Os mercados de capitais hoje são tudo menos à prova de falhas. Na verdade, eles são cada vez mais propensos a falhas. Tudo que é relatado no livro The deats of money de James Rickards mostra que a humanidade se defronta com riscos cada vez maiores de instabilidade política, econômica e social proporcionadas pelas guerras cibernéticas, financeiras e por armamentos sofisticados que produzem destruição. 4. A guerra cibernética como arma de guerra moderna O artigo de Fernando Alcoforado A guerra cibernética como arma de guerra moderna, publicado no website <https://www.portalsaudenoar.com.br/a-guerra-cibernetica-com- arma-de-guerra-moderna/> informa que a ciência e a tecnologia são utilizadas na guerra cibernética como uma das armas da guerra moderna. A guerra cibernética se apoia na tecnologia da informação e, modernamente, também nos avanços proporcionados pela inteligência artificial. A cibernética é uma ciência de característica interdisciplinar tendo como base a pesquisa cientifica. A cibernética como campo científico teve início durante a 2ª Guerra Mundial tendo como precursor Norbert Wiener que trabalhava na programação de computadores e nos mecanismos de controle para artilharia antiaérea. O objetivo de Wiener com a cibernética era desenvolver pesquisas para criar um sistema artificial capaz de desenvolver funções até então essencialmente humanas, como, por exemplo, executar padrões de cálculos complexos, prever o futuro e a trajetória de uma aeronave. Nesta época, Wiener se interessou pelo princípio do feedback e controle que consiste no uso de detectores que trabalhem como órgãos sensoriais e coletem informações sobre o desempenho das funções esperadas para determinado equipamento. A guerra cibernética consiste, basicamente, no uso de ataques digitais para fins de espionagem ou sabotagem contra as estruturas estratégicas ou táticas de um país. A espionagem visa roubar informações táticas e estratégicas como dados sobre a movimentação de tropas, os pontos fortes e fracos do sistema bélico do país e qualquer outra informação valiosa sobre recursos necessários para a guerra. Na sabotagem, pode ir de uma ação simples como derrubar os servidores de um site governamental a algo extremamente nocivo como fazer o lançamento de uma ogiva nuclear. A sabotagem se resume a “fazer algo” ao contrário da espionagem, que se resume a “descobrir algo”. Na guerra cibernética, hackers com apoio do Estado, sejam membros das forças militares de um país, ou financiados por tal país, atacam computadores e redes de países oponentes que afetem recursos necessários para a guerra. Eles fazem isso da mesma forma que em qualquer outro computador ou sistema, isto é, estudam o sistema profundamente, descobrem suas falhas e usam essa falhas para controlar esse sistema ou destruí-lo. Hackers podem usar informações confidenciais destinadas a outrem (espionagem) para ganhar a dianteira na batalha contra seu adversário. Pode descobrir a velocidade de um míssil e construir outro míssil ou um avião que possa ultrapassá-lo. Pode descobrir para onde o inimigo está movendo suas tropas e planejar uma emboscada. Pode descobrir quais
  • 11. 11 cientistas são importantes na criação dessas armas, ou qual político foi imprescindível na arrecadação de fundos para o tal sistema bélico e atacá-los diretamente com o uso, por exemplo, de drones. Quando o país possui o controle desses sistemas, é possível, também, sabotar pessoas e estruturas. Ao descobrir como as tropas estão se comunicando, o país ganha acesso à rede para que possa confundir o inimigo e invadir a base deles. Poderia invadir seus sistemas/contas e fraudá-los, se passando por um deles. Ou poderia usar essas informações para controlá-los e chantagear pessoas por causa de algo achado no computador ou sequestrar suas famílias usando informações privadas. Destruir os sistemas de países inimigos tem um resultado óbvio: destrói o que controla esse sistema, e, consequentemente, impede-o de funcionar. Um exemplo comum de ciberguerrilha é o uso de ataques para desativar sites governamentais e redes sociais. Essa tática foi usada efetivamente pelos russos durante a Guerra da Ossétia do Sul em 2008, causando caos e espalhando informações falsas para a população antes e durante a invasão russa. A guerra cibernética tem como alvo qualquer setor importante para a infraestrutura do inimigo. Isso significa setores como o exército, a defesa nacional e a indústria bélica. No entanto, esses alvos também podem ser fábricas de armas, minas e outras manufaturas que auxiliem no funcionamento dessas fábricas e o sistema elétrico, que fornece energia para todos esses setores. Na sua versão mais assustadora, a guerra cibernética pode ter como alvo o recurso estratégico mais importante de um país que é sua população. Um hacker poderia fazer um ataque terrorista para desestabilizar ou desmotivar uma população a lutar. Isso implica em desencadear uma guerra financeira com ataques aos setores financeiros, que causariam danos econômicos ou ataques a sistemas de comunicação para desativar a rede de telefonia e a internet. A guerra cibernética não faz nenhuma distinção entre alvos civis e militares. Apesar de um míssil causar um dano muito maior do que um vírus, um ciberataque pode resultar em perdas e mortes de civis. Se houvesse um ataque ao sistema energético de qualquer país e o sistema fosse destruído por um ciberataque não seriam só as fábricas de armas que parariam de funcionar. Um ataque desses resultaria também em acidentes de trânsito, cirurgias interrompidas, falhas em máquinas de suporte à vida quando uma quantidade elevada de pessoas poderia morrer. É muito difícil descobrir o autor de um ciberataque nem os governos que financiam esses ataques. Um aspecto que faz as armas digitais piores do que as armas nucleares é o de descobrir quem fez o ataque. É muito fácil esconder a origem de um ataque desses mascarando a identificação do autor dos ataques. Mesmo que o governo descubra de qual computador o ataque foi efetivado, ainda existe a dificuldade de descobrir quem era a pessoa atrás da tela e é ainda mais difícil saber se ele era, ou não, um agente do governo. De acordo com Fernando Alcoforado, não existem dúvidas sobre o uso da capacidade cibernética com o objetivo de conseguir vantagem política, econômica e militar. Segundo se noticia, de um lado, China, Rússia, Irã e Coreia do Norte e, de outro, Estados Unidos, Israel, Reino Unido e França dispõem de meios cada vez mais sofisticados para obter informações de governos e de empresas para influir na vida das pessoas e destruir a infraestrutura e objetivos estratégicos de seus oponentes. O mundo entrou numa fase de guerra permanente: sem frente de batalha e sem regras de engajamento. A guerra cibernética se assemelha à guerra insurrecional, com a diferença de poder planejar e executar a ação à distância, longe do inimigo. A utilização de algoritmos de inteligência artificial multiplicará o impacto das ações e criará no adversário novas vulnerabilidades. Será mais difícil a identificação de seus autores, pela utilização dos robôs para autorizar a difusão de falsas informações nas redes sociais ou para a disponibilização com livre acesso de algoritmos permitindo incluir pessoas em qualquer vídeo e de colocar em sua
  • 12. 12 boca o que se deseje que ele diga. É possível que já estejam acontecendo operações de espionagem cibernética, de sabotagem ou de influência comandadas de maneira completamente autônoma, necessitando apenas do sinal verde de alguém. O entendimento de que a tecnologia 5G possa ser explorada para espionagem e sabotagem de instalações de infraestrutura, rede de comunicação e centros financeiros passou a ser uma nova preocupação e está na raiz da proibição da compra de produtos da Huawei para as redes 5G públicas ou privadas nos Estados Unidos. A nova guerra fria entre os Estados Unidos e a China começou com o comércio, mas deve se deslocar rapidamente para a tecnologia, em que a China dá mostras de estar à frente de Washington nos avanços da aplicação da última geração 5G. Tudo que acaba de ser relatado deixa bastante evidenciado que a ciência e a tecnologia estão a serviço não apenas da emancipação humana, mas também a serviço da guerra e da destruição da humanidade. Na verdade a ciência e a tecnologia passaram a ser utilizadas para o bem e para o mal. A expectativa de que a ciência e da tecnologia seria utilizada exclusivamente para o progresso da humanidade foi dolorosamente interrompida por eventos que marcaram a sociedade atual sendo os principais deles sem dúvida às catástrofes da 1ª e da 2ª Guerra Mundial. Na verdade a ciência contribuiu para a barbárie de duas guerras mundiais com a invenção de armamentos bélicos poderosos e destrutivos e continua contribuindo para a sofisticação da guerra moderna. 5. A 3ª Guerra Mundial é inevitável? A história da humanidade tem se caracterizado por períodos de estabilidade global e, também, de caos sistêmico. O período de estabilidade global resulta da hegemonia exercida por um determinado país que, liderando o sistema mundial interestatal, difunde valores e constrói instituições que garantem sua supremacia sem contestação. Já o caos sistêmico se dá quando a hegemonia baseada no poderio econômico e militar de um determinado país tende a ser corroído e a hierarquia de poder e riqueza entre as grandes potências sofre profundas alterações. Quando há uma escalada da competição e dos conflitos entre as grandes potências que ultrapassa a capacidade reguladora das estruturas existentes, surgem novas estruturas que desestabilizam ainda mais a configuração dominante de poder (Ver Arrighi; Silver, Caos e governabilidade no moderno sistema mundial, Contraponto Editora, Rio, 2001). Arrighi e Silver afirmam que a crise e o colapso de uma ordem mundial resultam tanto do enfraquecimento das “estruturas existentes” – alicerçadas no poder hegemônico do país líder – quanto da ascensão de “novas estruturas” que buscam um rearranjo sistêmico através da competição econômica e/ou da contestação política e militar. Esta situação aconteceu ao longo da história da humanidade quando, por exemplo, a Holanda superou econômica e militarmente a Espanha e se impôs como potência hegemônica do fim do Século XVI até a maior parte do Século XVIII. O mesmo aconteceu com a Inglaterra que se impôs como potência hegemônica da segunda metade do Século XVIII até o início do Século XX suplantando econômica e militarmente a Holanda e depois de derrotar militarmente a França em Waterloo em 1815 que ambicionava também o poder mundial. A Inglaterra, potência hegemônica nos séculos XVIII e XIX, foi desafiada no final do século XIX pela Alemanha que lutava pela redivisão do mundo da qual resultou a Primeira e Segunda Guerra Mundial. A derrota militar da Alemanha e o declínio econômico da Inglaterra contribuiram para a ascensão dos Estados Unidos à condição de potência hegemônica. Após a Segunda Grande Guerra, quando o mundo foi dividido em duas áreas de influência, uma liderada pelos Estados Unidos e outra pela União Soviética,
  • 13. 13 foi estruturado um sistema bipolar que durou quase meio século sob o risco da eclosão de uma guerra nuclear. O desmoronamento da União Soviética em 1989 levou os Estados Unidos a exercerem sua hegemonia no mundo sem contestação até o início do século XXI. Paul Kennedy afirma que o exercício da liderança consensual global, a prosperidade econômica e o poderio militar norte-americano do pós-guerra estariam em crise (Ver Kennedy, Paul. Ascensão e queda das grandes potências, Editora Europa-America Pt, 1990). O declínio dos Estados Unidos se acentuou na primeira década do século XXI ao tempo em que ocorreu a ascensão econômica da China que pode assumir a condição de maior potência mundial em meados do século XXI. Entretanto, não fica claro se haverá um final feliz para a humanidade. Será que a ascensão da China aumenta a probabilidade de guerra entre as grandes potências? Haverá uma nova era de tensão entre Estados Unidos e China tão perigosa quanto foi a Guerra Fria (3ª. Guerra Mundial) entre Estados Unidos e a União Soviética? Se a prosperidade da China acontecer às custas da inviabilização da recuperação das economias dos Estados Unidos e da União Europeia e, também, da economia mundial, poderia levar os Estados Unidos e outros países a confrontá-la. Este processo poderia gerar uma situação similar à Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Robert D. Kaplan, jornalista norte-americano estudioso de política internacional, afirma que a emergência da China como uma superpotência é inevitável e que conflitos de interesses com os Estados Unidos serão incontornáveis. Ele admite uma confrontação militar entre os Estados Unidos e a China (Ver o artigo A pacífica ascensão da China: perspectivas positivas para o futuro? de Antônio José Escobar Brussi publicado na Revista Brasileira de Política Internacional, vol.51, no.1, Brasília, 2008). Outra possibilidade é a de que a China seja bem-vinda à ordem existente e que se admita que prospere dentro dela. Esta situação resultaria da interdependência econômica existente entre os Estados Unidos e a China porque esta depende do mercado e dos investimentos norte-americanos e os Estados Unidos precisam do Banco Central chinês para comprar boa parte dos títulos da dívida dos Estados Unidos. Esta situação reforça a posição defendida por Henry Kissinger, ex-Secretário de Estado norte-americano, que entende que o interesse americano será muito mais facilmente alcançado a partir da cooperação com a China. James Pinkerton, escritor e analista político norte-americano, é um duro crítico da estratégia de contenção militar de Kaplan e da proposta de acomodação de Kissinger. Pinkerton se opõe a Kaplan porque considera inviável uma coalizão suficientemente ampla para o enfrentamento da China nos moldes da organizada para derrotar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Pinkerton propõe que, ao invés do enfrentamento direto, o governo dos Estados Unidos coloque as atuais potências asiáticas (Índia, China e Japão) umas contra as outras (Ver o artigo acima citado de Antônio José Escobar Brussi). A 3ª Guerra Mundial é evitável ou inevitável? Há o risco de o governo dos Estados Unidos conduzir o mundo à 3ª Guerra mundial no conflito com a Rússia na Ucrânia. Ao invés de tentar uma solução negociada com a Rússia para a guerra na Ucrânia, o governo Biden preferiu o confronto estabelecendo sanções econômicas contra a Rússia e seus cidadãos, além de armar o governo da Ucrânia para resistir à invasão russa. No entanto, a China representa a maior preocupação o dos Estados Unidos por considerá-la uma potência que desestabiliza seus interesses hegemônicos. Uma nova etapa na política externa dos Estados Unidos foi reafirmada na nova Estratégia de Segurança Nacional (NNS) aprovada em outubro de 2022, onde se declara abertamente que o perigo vem da China, tanto no plano econômico quanto no militar. Enquanto a Rússia é reduzida a um perigo limitado apenas à segurança da Europa central. Algo que
  • 14. 14 se verifica ao observar como os Estados Unidos têm deslocado capacidades militares para o Oceano Pacífico e Sudeste Asiático. O próprio Biden, em declaração dada no dia 6 de outubro de 2022, durante um evento do Partido Democrata, em Nova Iorque, afirmou que vê risco de “Armagedom” nuclear — guerra final — no conflito com a Rússia que está no nível mais alto desde a Guerra Fria ao citar que Putin “não está brincando” quando fala sobre o uso potencial de armas nucleares táticas, armas químicas ou biológicas, porque seu Exército é significativamente menos capaz. Segundo ele, o uso de uma arma nuclear poderia sair do controle e levar à destruição global. Esta afirmação demonstra que Biden age de forma irresponsável porque sabe do risco de uma hecatombe nuclear e nada faz para evitá-la buscando uma solução negociada diplomaticamente com a Rússia. O mundo corre o risco de eclosão da 3ª Guerra Mundial que poderá ser evitada se houver a celebração de um acordo de paz entre os presidentes Joe Biden e Wladimir Putin para acabar, inicialmente, com a guerra na Ucrânia e, posteriormente, com a reforma do sistema internacional para acabar com as guerras em todo o mundo. No conflito da Ucrânia, diante da impossibilidade do governo dos Estados Unidos impor sua vontade à Rússia urge a celebração de um acordo de paz entre os presidentes Biden e Putin para acabar com a guerra na Ucrânia porque a guerra entre a Rússia e a Ucrânia pode evoluir para um conflito que se estenderia pela Europa e pelo mundo se transformando em guerra mundial. Se isto ocorrer abriria o caminho para o envolvimento das grandes potências militares de consequências imprevisíveis com o uso de armas nucleares. É preciso que todos entendam que a guerra na Ucrânia é cenário da disputa entre Rússia e Estados Unidos. De um lado, temos os Estados Unidos que desejam a presença da OTAN na Ucrânia e, de outro, temos a Rússia que não quer a presença da OTAN na Ucrânia. A guerra na Ucrânia só chegará ao fim se Biden e Putin chegarem a um acordo sobre o fim do conflito entre Rússia e Estados Unidos com a supervisão da ONU. O acordo inicial entre Biden e Putin poderia ocorrer com a Rússia aceitando o cessar fogo na Ucrânia com a condição de os Estados Unidos desistirem da incorporação da Ucrânia à OTAN. O acordo definitivo consistiria em a Rússia acabar com suas hostilidades na Ucrânia liberando territórios ocupados neste país, à exceção da Crimeia, assumindo o ônus de reconstruir o que foi destruido pela guerra com a condição de os Estados Unidos e a OTAN abandonarem os países do leste europeu e a Finlândia que a ela aderiram voltando para os limites existentes em 1997 e assumirem o compromisso de removerem as sanções econômicas e financeiras adotadas contra a Rússia. O acordo entre Biden e Putin seria vantajoso para para a Ucrânia, a Rússia, os Estados Unidos, a Europa e para o mundo. A Ucrânia ganharia com este acordo porque acabaria o sofrimento de sua população, evitaria a ocupação militar de seu território pela Rússia, recuperaria sua soberania sobre o território nacional e teria a reconstrução do país realizado pela Rússia. A Rússia ganharia com este acordo porque haveria a remoção das sanções econômicas e financeiras contra ela adotadas pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais, haveria o abandono da pretensão da OTAN de adesão da Ucrânia como um dos seus paises integrantes e o compromisso dos Estados Unidos e da OTAN de abandonarem os 14 países do leste europeu (Albânia, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovênia, Estónia, Hungria, Letônia, Lituânia, Macedónia do Norte, Montenegro, Polónia, Romênia e República Tcheca) e a Finlândia que ingressou recentemente na organização. Os Estados Unidos ganhariam com o acordo porque deixaria de ocorrer a desestabilização de sua economia com uma guerra prolongada. A Europa ganharia com o acordo porque desapareceria a ameaça de cessação do suprimento do petróleo e do gás natural da Rússia
  • 15. 15 e de desestabilização de suas economias com uma guerra prolongada. O mundo ganharia com o acordo porque deixaria de ocorrer a desestabilização da economia mundial com graves repercussões nas economias de todos os países e desapareceria a ameaça de nova guerra mundial que levaria ao fim da espécie humana. Para Biden e Putin celebrarem este acordo de paz, é preciso que a ONU, através de seu secretário geral, saia de sua passividade na busca da paz mundial e a China e todos os países amantes da paz se mobilizem visando sua realização. Para afastar definitivamente novos riscos de uma nova guerra mundial e que se concretize a paz perpétua em nosso planeta, seria preciso a reforma do sistema internacional atual que é incapaz de garantir a paz mundial. O novo sistema internacional deveria funcionar com base em um Contrato Social Planetário que seria a Constituição do planeta Terra. Para a elaboração do Contrato Social Planetário deveria haver a convocação de uma Assembleia Mundial Constituinte com a participação de representantes de todos os países do mundo eleitos para este fim. O Contrato Social Planetário deveria estabelecer a existência de um Governo Mundial cujo presidente deveria ser eleito com mais de 50% de votos do Parlamento Mundial a ser, também, constituído com representantes eleitos nos diversos países do mundo. Além do Governo Mundial e do Parlamento Mundial, deveria ser constituida, também, a Corte Suprema Mundial que deveria ser composta por juristas de alto nivel do mundo escolhido pelo Parlamento mundial que atuariam por tempo determinado. A Corte Suprema Mundial deveria julgar os casos que envolvam litigios entre paises, os crimes contra a humanidade e contra a natureza praticados por Estados nacionais e por governantes à luz do Contrato Social Planetário, julgar conflitos que existam entre o Governo Mundial e o Parlamento Mundial e atuar como guardiã do Contrato Social Planetário. O Governo Mundial não terá Forças Armadas próprias devendo contar com o respaldo de Forças Armadas dos países que seriam convocadas quando necessário. Portanto, com esta sistemática o Parlamento Mundial legislaria com sucesso por meio de um processo democrático. Não haveria a necessidade de um ente que atuaria como policial do mundo porque quem exerceria o poder seria o Presidente do Governo Mundial que usaria as Forças Armadas de determinados países que seriam convocadas quando necessário. O novo estado de direito internacional seria executado pelos três poderes constituidos: Governo Mundial, Parlamento Mundial e Corte Suprema Mundial. O poder mundial repousaria no Governo Mundial, no Parlamento Mundial e na Corte Suprema Mundial. O poder mundial não corromperia nem seria corrompido porque haveria a vigilância de todos os poderes constituídos. Governo Mundial, Parlamento Mundial e Corte Suprema Mundial atuariam como freios e contrapesos visando a eficiência e eficácia do sistema internacional. Estas são, portanto, as medidas que deveriam ser adotadas a curto prazo para acabar com a guerra na Ucrânia e, a médio e longo prazo, para acabar definitivamente com as guerras no mundo. Os cidadãos de todo o mundo amantes da paz deveriam se mobilizar em seus países para exigirem de seus governos e da ONU o empenho na concretização da paz mundial para evitar a eclosão da 3ª Guerra Mundial. 6. As causas da violência e das guerras no mundo Vivemos em um mundo que tem como uma das suas características principais a violência praticada pelo homem contra seus semelhantes. A percepção de muita gente é a de que a violência representa o predomínio do instinto animal que possuímos sobre os valores da
  • 16. 16 civilização. Isto explicaria a escalada da criminalidade e das guerras em todas as épocas em todo o mundo. O debate sobre a violência coloca na ordem do dia a questão sobre a natureza humana cujo tema foi tratado por eminentes pensadores como Raymond Aron (filósofo e sociólogo francês), Henry Bergson (filósofo e diplomata francês), Hannah Arendt (filósofa alemã), Sigmund Freud (austríaco, neurologista e fundador da Psicanálise), Carl Rogers (norte-americano precursor da psicologia humanista), Thomas Hobbes (cientista político, filósofo e matemático inglês), Jean-Jaques Rousseau (escritor e filósofo suíço) e Karl Marx (economista, filósofo, historiador e cientista político alemão), entre outros. Há milênios cientistas e filósofos levantam a seguinte questão: a natureza humana é inata ou é produto do ambiente ou de ambos? É determinada geneticamente ou pela sociedade onde vive o ser humano ou por ambos? Por que o mundo se torna mais violento a cada ano? Não apenas se verifica um aumento do número de conflitos armados no globo, como as próprias pessoas estão mais violentas. Qual a explicação para isso? Não é incomum a afirmativa de que desde que o mundo é mundo, sempre existiu a violência entre os seres humanos. Será difícil encontrar alguém hoje que não acredite nesta afirmativa. E, no entanto, ela é falsa. Nos primórdios da humanidade não havia a violência que se manifesta hoje nas relações entre os indivíduos e entre as comunidades humanas. Nenhum ser humano, nenhum povo daquele tempo longínquo teria tido a ideia de agredir um seu semelhante. Nem sequer, eles seriam capazes de, por exemplo, anexar terras do seu vizinho contra a sua vontade, por meio da força bruta. É difícil tentar estabelecer um paralelo entre o modo de vida dos seres humanos daquela época com a humanidade de hoje. Naquela época, o viver em paz e harmonia com os seus semelhantes era para os seres humanos algo tão natural como respirar, comer e dormir. Seres humanos já viveram na Terra, sem se ofenderem ou se maltratarem uns aos outros, muito menos guerrearem entre si. Isso, contudo, foi há muito, muito tempo. Nenhum registro dessa época chegou até o presente e, por isso, é suposto que esta situação não tenha existido. Segundo Raymond Aron, à medida que a vida do homem se organiza em famílias e em bandos, menos prováveis nos poderiam parecer as condutas propriamente belicosas (ARON, Raymond. Paz e Guerra entre as nações. Editora Universidade de Brasília, 1962). A maior parte dos animais luta, mas são raras as espécies que praticam a guerra, entendida como ação coletiva e organizada. Aron afirma que a o homo sapiens surgiu há cerca de 600.000 anos. A revolução neolítica, a agricultura regular e a criação de animais datam de uns 10.000 anos. As civilizações ou sociedades complexas surgiram há cerca de 6.000 anos. Isto significa dizer que o período denominado histórico representa um centésimo da duração total da existência da humanidade no planeta Terra. Segundo Aron, nenhum antropólogo encontrou jamais qualquer prova de que os homens tivessem elaborado uma organização ou uma tática de combate antes da idade Idade do Bronze (3300 a.C. a 1300- 700 a.C.). Não surpreende, pois, que os primeiros indícios incontestáveis dos exércitos e da guerra datem da Idade do Bronze que é um período da civilização no qual ocorreu o desenvolvimento desta liga metálica resultante da mistura de cobre com estanho. Assim como para os primeiros seres humanos seria inconcebível a ideia de causar qualquer dano ao seu semelhante, hoje, soa como ilusão, fantasia, a ideia de um mundo sem conflitos, por considerarmos a violência como uma característica própria do ser humano. Pode-se especular se não teria havido uma fase intermediária entre os muitos milênios durante os quais o homem viveu sob a ameaça das feras e o período, bem mais curto, em que a ameaça a sua segurança passou a se originar em outros homens. Seria uma época em que os homens possuíam meios técnicos suficientes para a defesa contra
  • 17. 17 as feras e sem engajamento na busca das riquezas e nas lutas de classes, nas conquistas e nos domínios. Está demonstrado que sociedades pequenas, sem instrumentos metálicos, isoladas, ainda não mostram traços característicos das sociedades belicosas. Raymond Aron afirma em sua obra acima citada que os biólogos chamam de agressividade a propensão de um animal a atacar outro da mesma espécie ou espécie diferente. Na maior parte das espécies (mas não em todas) os indivíduos lutam entre sí. Alguns não são agressivos (isto é, não tomam a iniciativa do ataque), mas se defendem quando são atacados. Entre os primatas, o homem se situa na parte inferior da escala de agressividade. Enquanto animal, é relativamente combativo. Em outras palavras, basta um estímulo pouco intenso para levá-lo a desencadear a agressão. Segundo Aron, entre os vertebrados superiores, os grupos frequentemente manifestam agressividade com respeito a indivíduos que não pertencem à sua coletividade. Na espécie humana, porém, as manifestações de agressividade são inseparáveis da vida coletiva. Mesmo quando se trata da reação de um indivíduo contra outro, a agressividade é influenciada, de muitos modos, pelo contexto social. O surgimento de uma existência propriamente social não foi a única causa das novas dimensões que assumiu o fenômeno da agressividade: a frustação e a inadaptação que levam o indivíduo à reação agressiva constituem o fato mais importante nas relações humanas. Aron é defensor da tese de que a frustação é uma experiência psíquica, revelada pela consciência. Todos os indivíduos sentem frustações desde a infância. A frustação é antes de mais nada a experiência de uma privação, isto é, um bem desejado e não alcançado, uma opressão sentida penosamente. A cadeia de causalidade que leva às emoções ou aos atos de agressividade se origina sempre em um fenômeno externo. Não há prova fisiológica que haja uma incitação espontânea à luta, originada no próprio organismo do indivíduo. A agressão física e a vontade de destruir não constituem a única reação possível à frustração. A dificuldade em manter a paz está mais relacionada à humanidade do homem do que à sua animalidade. Henry Bergson, por sua vez, afirma que a origem da violência e da guerra é a existência da propriedade, individual ou coletiva, e como a humanidade está predestinada à propriedade, pela sua estrutura, a violência e a guerra seria natural (BERGSON, Henry. Les Deux Sources de la Morale et de la Religion. French & European Pubns, 1976). Os povos que temem a falta de alimentos e das matérias-primas de que necessitam se julgam ameaçados pela fome ou o desemprego, são capazes de tudo. Para sobreviver, estão prontos a atacar. Assim nascem as guerras autênticas, ajustadas à sua essência. Hannah Arendt abordou a questão da violência em sua obra On Violence publicado pela Harvest Book em 1970 na qual discute, especialmente com Niezstche e Bergson, acerca do que ela chama da justificação biológica da violência. Estes pensadores atribuem ao poder uma dimensão expansionista natural e uma necessidade interna de crescer. A ação violenta, neste contexto, é explicada como uma estratégia para conceder ao poder novo vigor e estabilidade. Arendt contesta esta posição, afirmando que “nada poderia ser teoricamente mais perigoso do que a tradição do pensamento organicista em assuntos políticos, por meio da qual poder e violência são interpretados em termos biológicos. Arendt sustenta que nem a violência nem o poder são fenômenos naturais, isto é, uma manifestação do processo vital, porque eles pertencem ao âmbito político dos negócios humanos, cuja qualidade essencialmente humana é garantida pela faculdade do homem para agir, a habilidade para começar algo novo. Arendt refuta afirmações como a de Wright Mills de que toda política é uma luta pelo poder e de que a forma básica de poder é a violência, refuta as de Max Weber de que o domínio do homem pelo homem é baseado nos meios de violência legítima ou refuta as
  • 18. 18 de Bertrand de Jouvenel de que a guerra apresenta-se como uma atividade que pertence à essência dos Estados. Freud enfatiza em sua obra os aspectos destrutivos do homem. Fica evidenciada a necessidade, colocada por Freud, no sentido de controlar e de coibir o indivíduo, devido ao perigo que ele poderia representar para a sociedade, o que o leva a concluir que o homem, por ele preconizado, não é, socialmente falando, muito digno de confiança. Segundo Freud, a sociedade civilizada está perpetuamente ameaçada pela desintegração por causa dessa hostilidade primária dos homens entre si. A cultura tem de recorrer a todo reforço possível a fim de erigir barreiras contra o instinto agressivo dos homens. Diante de um ser tão hostil e desintegrador, nada mais natural do que a sociedade fazer uso do seu poder de coerção (Ver o artigo de Sonia Maria Lima de Gusmão sob o título A natureza humana segundo Freud e Rogers postado no website <https://encontroacp.com.br/textos/a-natureza-humana-segundo-freud-e-rogers/>). Neste artigo, constata-se que, em Carl Rogers observa-se o oposto da visão de Freud, pois ele acredita que é justamente em um contexto coercitivo, onde o indivíduo não pode expandir-se, ou melhor, atualizar o seu potencial, que o torna hostil ou antissocial. Caso contrário, nada temos a temer, pois, seu comportamento tenderá a ser construtivo. Rogers observa que, quando o homem é, verdadeiramente, livre para tornar-se o que ele é no mais fundo de seu ser, quando é livre para agir conforme sua natureza, como um ser capaz de perceber as coisas que o cercam, então ele, nitidamente, se encaminha para a globalidade e a integração. Hobbes tem como tese central sobre a conduta humana, que todos os seres humanos são egoístas e estão dispostos a usar os outros em seu próprio benefício. Hobbes fala da “guerra de todos contra todos”, à luta permanente que se desencadearia se os homens não vivessem em segurança e tivessem que depender por completo dos seus próprios recursos. Hobbes procura mostrar que não pode haver sociedade sem governo e sem as sanções da lei. Haveria apenas indivíduos antagônicos entre si. Hobbes compara a vida humana a uma corrida, em que temos que supor que não há outro objetivo nem outro prêmio a não ser o de conseguir chegar em primeiro lugar. A competição – o desejo de superar o outro – é parte da trama de nossas vidas: ou queremos alcançar algo à custa dos outros, ou queremos defender aquilo que já conquistamos (Ver o artigo de Roger Trigg sob o título A Natureza Humana em Hobbes postado no website <http://qualia- esob.blogspot.com.br/2008/03/natureza-humana-em-hobbes.html>). A ideia central no pensamento de Rousseau se fundamenta na convicção da bondade natural do homem. Segundo Rousseau, os percalços da socialização afastaram o homem de si próprio lançando-o contra o seu semelhante. É nesse processo de transformação que o homem se degenera porque ele abandona seus instintos naturais passando a usar a justiça no lugar da piedade. Os sentimentos naturais levam os homens a servirem o interesse comum, enquanto que a razão o impele ao egoísmo. Para ser virtuoso basta que o homem siga os sentimentos naturais mais do que a razão. Para Rousseau, a socialização é a causa da desnaturação do homem, e o melhor caminho para a sua degradação. A comunhão com a natureza é a única forma de preservação da verdadeira essência do homem. (Ver o artigo de Dalva de Fatima Fulgeri sob o título Conceito de natureza em Rousseau postado no website <http://www.paradigmas.com.br/parad12/p12.6.htm>). J.J. Rousseau pensava que as guerras surgem, ou pelo menos se ampliam, com a expansão das coletividades e que a desigualdade de classe e a propriedade individual estão ligadas às guerras de conquista e ao domínio pelos guerreiros. Não poderia ser diferente, uma vez que as unidades políticas foram forjadas para o combate e o preço da vitória foi sempre a terra, escravos e metais preciosos.
  • 19. 19 Para Marx, o que caracteriza o homem não é apenas a racionalidade, mas o fato de ser o artífice do seu próprio desenvolvimento. Os seres humanos são capazes de mudar o mundo ao seu redor e, fazendo isso, mudam a si mesmos. (Ver o artigo A Natureza do Homem Segundo Karl Marx postado no website <http://nomosofia.blogspot.com.br/2011/10/natureza-do-homem-segundo-karl- marx.html>). Marx apresentou uma definição da essência da natureza humana nos Manuscritos Filosóficos, caracterizando os seres humanos como atividade livre e consciente, em contraste com a natureza do animal. (Ver o artigo de Nildo Viana sob o título A Renovação da Psicanálise por Erich Fromm postado no website <http://br.monografias.com/trabalhos914/renovacao-psicanalise-fromm/renovacao-psicanalise- fromm.shtml>). Marx afirma que os conflitos sociais resultam da divisão da sociedade em classes com o surgimento da propriedade privada em substituição à propriedade coletiva dos meios de produção imperante nas sociedades primitivas. 7. Como eliminar as guerras no mundo Pelo exposto no capítulo anterior, constata-se que Aron defende a tese de que a agressividade humana é influenciada, de muitos modos, pelo contexto social. Não há prova fisiológica que haja uma incitação espontânea à luta, originada no próprio organismo do indivíduo. A dificuldade em manter a paz está mais relacionada à humanidade do homem do que à sua animalidade. Bergson, afirma que a origem da violência e da guerra é a existência da propriedade, individual ou coletiva. Arendt sustenta que nem a violência nem o poder são fenômenos naturais. Eles são uma manifestação do processo vital aos quais pertencem no âmbito político dos negócios humanos. Freud e Hobbes convergem em seus pensamentos ao considerar os instintos agressivos do homem e a necessidade da coerção para reprimi-los. A visão pessimista de Freud e Hobbes é contraposta à de Carl Rogers que afirma que apenas em um contexto coercitivo o homem se torna hostil ou antissocial e que se não há coerção ele tenderá a ser construtivo. Rousseau tem como ideia central a convicção da bondade natural do homem e de que a sociedade é que o degenera lançando-o contra o seu semelhante. Marx afirma que o homem é artífice do seu próprio desenvolvimento e que os seres humanos são capazes de mudar o mundo ao seu redor e, fazendo isso, mudam a si mesmos. Em síntese, fica bastante claro que a existência de uma sociedade baseada na justiça social pode fazer com que os seres humanos tenham comportamento construtivo e sejam capazes de mudar o mundo ao seu redor e, ao fazer isso, mudar a si mesmos. Esta é a forma de combater a violência que contribui cada vez mais para a desintegração social do mundo em que vivemos. Para fazer com que os seres humanos tenham comportamento construtivo e sejam capazes de mudar o mundo ao seu redor, é preciso educá-los. Kant, o filósofo, assim compreende a educação: desenvolver no indivíduo toda a perfeição de que ele é suscetível, Tal é o fim da educação. Pestalozzi, o pedagogo consumado, diz: educar é desenvolver progressivamente as faculdades espirituais do homem. John Locke, grande preceptor, se expressa desta maneira sobre o assunto: educar é fazer Espíritos retos, dispostos, a todo o momento, a não praticarem coisa alguma que não seja conforme à dignidade e à excelência de uma criatura sensata. Lessing, autoridade não menos ilustre, compara a obra da educação à obra da revelação, e diz: a educação determina e acelera o progresso e o aperfeiçoamento do homem. O combate à violência no mundo só será vitorioso com a educação de todos os seres humanos em todos os quadrantes da Terra a fim de que, por este intermédio, adquiram a consciência do mundo em que vivem, se organizem em cada país e em todo o mundo, para realizarem as mudanças políticas, econômicas e sociais
  • 20. 20 necessárias à eliminação das desigualdades sociais e dos entraves ao desenvolvimento político, econômico, social e ambiental em seus respectivos países. Paralelamente ao esforço de educação de todos os seres humanos, é preciso que a humanidade seja dotada o mais urgentemente possível de instrumentos necessários a ter o controle de seu destino e colocar em prática uma governança democrática do mundo. Este é o único meio de sobrevivência da espécie humana e de sustar a decadência da humanidade. Uma governabilidade democrática do mundo não substituiria os governos de cada nação. Seu papel seria o de construir a governabilidade da economia e do meio ambiente global e a manutenção da paz mundial. Por seu intermédio, seria perseguida a defesa dos interesses gerais do planeta. Ela zelaria no sentido de cada Estado respeitar os direitos de cada cidadão do mundo buscando impedir a propagação dos riscos sistêmicos mundiais de natureza econômica e ambiental. Ele evitaria o império de um só e a anarquia de todos como ocorre no momento. Uma governança com essas características só pode resultar do consenso entre todos os povos e nações do mundo. A preservação da paz é a primeira missão de toda nova forma de governança mundial. Amanhã, quem vai governar o mundo? Ninguém, provavelmente, se nada for feito para construir uma governança global. Este é o pior cenário. No entanto, as crises econômica, financeira, ecológica, social e política mundial, o desenvolvimento de atividades ilegais e criminosas de hoje e a necessidade de defesa da humanidade contra sua extinção resultante de desastres naturais no planeta Terra e de ameaças vindas do espaço sideral mostram a urgência de uma governança mundial. A humanidade tem de entender que tem tudo a ganhar se unindo em torno de uma governança democrática no mundo representativa dos interesses das nações, incluindo a mais poderosa, controlando o mundo em sua totalidade, no tempo e no espaço. A nova ordem mundial a ser edificada deveria organizar não apenas as relações entre os homens na face da Terra, mas também suas relações com a natureza. É preciso, portanto, que seja elaborado um contrato social planetário que possibilite o desenvolvimento econômico e social e o uso racional dos recursos da natureza em benefício de toda a humanidade. A edificação de uma nova ordem mundial baseada nesses princípios é urgente. Esse governo vai existir um dia mesmo que aconteça após um gigantesco desastre econômico ou ambiental. É urgente pensar nisso para sustar a violência e as guerras que proliferam em todo o mundo. Diante da impossibilidade de um Estado imperial, potências em equilibrio e uma potência hegemônica assegurarem a paz mundial, é chegada a hora da humanidade se dotar o mais urgentemente possível de instrumentos necessários à construção da paz mundial e ao controle de seu destino. Para alcançar estes objetivos, urge a implantação de um governo democrático do mundo que se constitui no único meio de sobrevivência da espécie humana capaz de edificar um mundo no qual cada mulher, cada homem de hoje e de amanhã tenham os mesmos direitos e os mesmos deveres, no qual todas as formas de vida e as gerações futuras sejam enfim levadas em conta, no qual todas as fontes de crescimento sejam utilizadas de maneira ecologicamente e socialmente durável. É chegada a hora de a humanidade se dotar o mais urgentemente possível de instrumentos necessários à construção de um mundo de paz. A ONU que foi fundada após a 2ª Guerra Mundial tem sido inoperante ao longo de sua história. Ela não tem sido bem sucedida na construção de um mundo de paz. Urge reestruturar a ONU e o sistema internacional a fim de que ela possa exercer uma governança mundial que possibilite mediar os conflitos internacionais e assegurar a paz mundial. A governança mundial a ser exercida pela ONU teria por objetivo a defesa dos interesses gerais do planeta, zelaria no sentido de cada Estado nacional respeitar os direitos de cada cidadão do mundo e buscaria impedir a
  • 21. 21 propagação dos riscos sistêmicos mundiais. Ela evitaria o império de um só e a anarquia de todos. Com uma governança mundial, será possível acabar com a guerra e com o banho de sangue que tem caracterizado a história da humanidade ao longo da história. Os monumentos de Guerra devem ser substituídos por monumentos de Paz a partir da constituição de um governo mundial. Para ser democrático, o governo mundial deve ser representativo de todos os povos do mundo. A sobrevivência da humanidade dependerá da capacidade de se celebrar um Contrato Social Planetário representativo da vontade da maioria da população do planeta. Para afastar definitivamente novos riscos de uma nova guerra mundial e que se concretize a paz perpétua em nosso planeta, seria preciso a reforma do sistema internacional atual que é incapaz de garantir a paz mundial. O novo sistema internacional deveria funcionar com base em um Contrato Social Planetário que seria a Constituição do planeta Terra. Para a elaboração do Contrato Social Planetário deveria haver a convocação de uma Assembleia Mundial Constituinte com a participação de representantes de todos os países do mundo eleitos para este fim. O Contrato Social Planetário deveria estabelecer a existência de um Governo Mundial cujo presidente deveria ser eleito com mais de 50% de votos do Parlamento Mundial a ser, também, constituído com representantes eleitos nos diversos países do mundo. Além do Governo Mundial e do Parlamento Mundial, deveria ser constituida, também, a Corte Suprema Mundial que deveria ser composta por juristas de alto nivel do mundo escolhido pelo Parlamento mundial que atuariam por tempo determinado. A Corte Suprema Mundial deveria julgar os casos que envolvam litigios entre paises, os crimes contra a humanidade e contra a natureza praticados por Estados nacionais e por governantes à luz do Contrato Social Planetário, julgar conflitos que existam entre o Governo Mundial e o Parlamento Mundial e atuar como guardiã do Contrato Social Planetário. O Governo Mundial não terá Forças Armadas próprias devendo contar com o respaldo de Forças Armadas dos países que seriam convocadas quando necessário. Portanto, com esta sistemática o Parlamento Mundial legislaria com sucesso por meio de um processo democrático. Não haveria a necessidade de um ente que atuaria como policial do mundo porque quem exerceria o poder seria o Presidente do Governo Mundial que usaria as Forças Armadas de determinados países que seriam convocadas quando necessário. O novo estado de direito internacional seria executado pelos três poderes constituidos: Governo Mundial, Parlamento Mundial e Corte Suprema Mundial. O poder mundial repousaria no Governo Mundial, no Parlamento Mundial e na Corte Suprema Mundial. O poder mundial não corromperia nem seria corrompido porque haveria a vigilância de todos os poderes constituídos. Governo Mundial, Parlamento Mundial e Corte Suprema Mundial atuariam como freios e contrapesos visando a eficiência e eficácia do sistema internacional. * Fernando Alcoforado, 83, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da Academia Baiana de Educação, da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice- Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento
  • 22. 22 (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017), Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022) e How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023).