Natacha Rena | Juliana Pontes (orgs.)




ARTESANATO SOLIDÁRIO NO
AGLOMERADO DA SERRA




ARTESANATO SOLIDÁRIO NO
AGLOMERADO DA SERRA




ARTESANATO SOLIDÁRIO NO
AGLOMERADO DA SERRA
Natacha Rena | Juliana Pontes (orgs.)
ASAS . Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra
FACULDADE DE ENGENHARIA E                        ARTESANATO SOLIDÁRIO NO                               AGRADECIMENTOS
                                                 ARQUITETURA - FEA                                AGLOMERADO DA SERRA - ASAS
                                                                                                                                                        Anderson Matos . Cleonice Bráz
Reitor                                           Diretor Geral                                    Professora Coordenadora                               da Silva . Débora Gonçalves de
Prof. Antonio Tomé Loures                        Prof. Luiz de Lacerda Júnior                     Natacha Silva de Araújo Rena                          Oliveira . Igor Rios . Jaqueline Dias
                                                                                                                                                        Juliana Myhra Karina Leite . Patrícia
Vice-reitora                                     Diretor de Ensino                                Professora Participante                               Aun . Pedro Moraes . Tânia Porto
Prof.ª Maria da Conceição Rocha                  Prof. Lúcio Flávio Nunes Moreira                 Juliana Pontes Ribeiro                                Thiago Bones . Vinícius Glico
                                                                                                                                                        Patricia de Aguiar Paes . Meninas
Pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Extensão        Diretor Administrativo-Financeiro                Técnicos
                                                                                                                                                        da cozinha: Eliane Magalhães (Lili),
Prof. Eduardo Martins de Lima                    Prof. Fernando Antônio Lopes Reis                Dimas Pereira Guimarães
                                                                                                                                                        Iva e Marta. Parceria: Cassius Silva
                                                                                                  Éder Jorge de Almeida
                                                                                                                                                        Pereira (Raiz da Terra)
Pró-reitora de Planejamento e Administração      Coordenadora Geral do Curso de Design            Éder Peixoto
Prof.ª Valéria Cunha Figueiredo                  Profª Ângela Souza Lima                          Maria Crisóstomo Ramos

Coordenador Geral de Pesquisa                    Coordenadores por Habilitação                    Psicóloga Voluntária
Prof.ª Rúbia Carneiro Neves                      D. Gráfico | Prof. Guilherme Guazzi Rodrigues    Érica Silva do Espírito Santo
                                                 D. Interiores | Profª. Maria Fernanda Loureiro
Coordenador Geral de Extensão                    D. Produto | Prof. Eliseu de Rezende Santos      Estudantes Bolsistas
Prof. Osvaldo Manoel Corrêa                      D. Moda | Profª Gabriela Maria Torres            Ana Luisa Ferreira . Bruno Elias Gomes de
                                                                                                  Oliveira . Cristiane Pereira Araújo Silva
Coordenadora do setor de relações                                                                 Daniel Patrick Cordeiro Pimentel . Eduardo
internacionais | Prof.ª Astréia Soares Batista                                                    Goulart de Macedo . Felipe Sales Melo Franco
                                                                                                  Joanna Sanglard Bernardes . Pedro Duarte Sena
Assessoria de Ensino de Graduação                                                                 de Oliveira . Pedro Ivo . Rafael Miranda Barbosa
Prof. Luiz Antônio Melgaço Nunes Branco                                                           Rodrigo FrancoMattar

                                                                                                  Estudantes Colaboradores
                                                 PROJETO CATÁLOGO ASAS                            Disciplina Artesanato e Design 2007/2008
                                                                                                  André Machado . Carolina Furtado . Cinira
                                                                                                  Morais . Daniela Coelho . Daniele Tondato
                                                 Coordenação
                                                                                                  Débora Maffia . Fernanda Pereira . Guilherme
Diretoria de Desenvolvimento Sustentável         Prof.ª Juliana Pontes Ribeiro
                                                                                                  Deriz . Guilherme Santos . Ivana de Almeida
Maria Luiza Pinto e Paiva
                                                                                                  Lara Pinheiro . Leliane Peixoto . Letícia Grissi
                                                 Direção de arte
                                                                                                  Lucas Diniz . Luiza Mascarenhas . Matheus
Superintendência de Ação Social                  Prof.ª Juliana Pontes e Natacha Rena
                                                                                                  Rocha . Pablo Codeglia . Rafaela Valadão
Laura Oltramare
                                                                                                  Tiara Brito
                                                 Design / Projeto Gráfico
Coordenação da área de projetos sociais          Cris Araújo
                                                                                                  Estudantes Voluntários
Andréa Regina
                                                                                                  Alisson dos Prazeres . Andressa Furtado Calixto
                                                 Fotografias
                                                                                                  Diego Silva . Fernando Vasconcelos . Guilherme
Coordenação do Concurso Banco Real               Cris Araújo
                                                                                                  Bonsato Deriz . Ingrid Sander . Karina de Oliveira
Universidade Solidária                           Eduardo Goulart
                                                                                                  Leite . Leonardo Monte Alto Pacheco . Priscila
Eloisa Martins                                   Juliana Pontes
                                                                                                  Soares da Silva . Rachel Grandinetti . Reinaldo
                                                 Joanna Sanglard
                                                                                                  Rocha . Tatiana Lemos
                                                 Natacha Rena
                                                 Sérgio Amzalak . Tatarana Imagem
                                                                                                  Artesãos Capacitados
                                                                                                  Cleuza Maria Pires Dias . Ellen Cristina Pires Dias
                                                 Revisão de textos
                                                                                                  Elzy Nunes de Oliveira Ferreira . Etelvina Xavier
                                                 Rachel Murta
Gerência de Projetos                                                                              de Almeida . Gabriella Estefane Santos de Souza
Daniela Lemos                                                                                     Gonçalo Nascimento Santos . Joana Rodrigues
                                                                                                  de Souza . Loslane Pasos de Oliveira . Maria do
Consultores voluntários e sócios-fundadores                                                       Carmo da Rocha . Peterson Linker S. Rodrigues
Prof. Dr. Waldenor Barros Moraes Filho                                                            Shirley Maria Araújo . Suzana Marília dos Anjos
Prof. Dr. Luiz Fernando Coelho de Souza                                                           Oliveira . Yasmin T. Gonçalves
. índice    008
                                                                                             instituições parceiras
                                                                                             Fumec




                                                                                     02
                                                                                             UniSol . Banco Real - Grupo Santander
                                                                                             Escola Municipal Padre Guilherme Peters




                                                                                              design social
                                                                                       018
                                                                                              Projeto ASAS: autonomia e empodera-
                                                                                              mento por meio do artesanato solidário
                                                                                              Identidade: processo construtivo
A798
                                                                                              A estamparia como capacitação
Asas: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra                                             profissional




                                                                                     03
Organizadoras Juliana Pontes Ribeiro e Natacha Rena.                                          Psicologia e a estruturação de grupo
Belo Horizonte: Editora Faculdade de Engenharia e
Arquitetura FEA - Universidade FUMEC, 2009.                                                   Depoimentos: alunos bolsistas

136 p.: il. (possui fotografias).
Vários autores.
                                                                                              paralelas
ISBN 978-85-61258-05-4.                                                                070
                                                                                              Eco-Bags
1. Design. 2. Artesanato. 3. Economia solidária. 4. Almofadas.
5. Estampas. I. Ribeiro, Juliana Pontes II. Rena, Natacha. III. Título.
                                                                                              Parceria Raiz da Terra
                                                                                              Concurso Almofadas
CDD: 745.098151
                                                                                              Muros Estampados
CDU: 745(815.1)
                                                                                              Oficina Pinhole
Informação bibliográfica conforme a NBR 6023:2002 da




                                                                                     04
                                                                                              Exposição Aglomeradas
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT):
                                                                                              Oficina de Texto
RIBEIRO, Juliana Pontes; RENA, Natacha (Org.). Asas: Artesanato
Solidário no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte: Editora
Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA-Universidade
FUMEC, 2009. 136 p. ISBN 978-85-61258-05-4.
                                                                                              registro das criações
                                                                                       102




                                                                                     05120
                                                                                              portfolio asas
01    instituições
      parceiras




 12                  13
fumec
     construindo o conhecimento




14                                15
Prof. Antônio Tomé Loures                                                                       Prof. Osvaldo Manoel Corrêa
     Reitor da Universidade Fumec                                                                    Coordenador do setor de extensão


     “No processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente aquele que se apropria do apren-       “Conceituar é preciso, viver e tecer a trama da existência é preciso e registrar é mais que preciso”.
     dido, transformando-o em apreendido, com o que pode, por isso mesmo, reinventá-lo; aquele que
     é capaz de aplicar o aprendido-apreendido a situações existenciais concretas” - Paulo Freire



     A troca de saberes constitui a base de projetos como                                            Foi assim que tudo teve o seu início, com uma Tática           em Assis Brasil. Em Jequitaí uma nova coleção de
     o ASAS – Artesanato Solidário no Aglomerado da                                                  de Sobrevivência envolvendo os moradores da Vila               almofadas revelou em sua estamparia a história da
     Serra, consistindo em princípio fundador da ação                                                Ponta Porá, comunidade pertencente à região cen-               cidade em seu rio, no garimpo, na pesca, no trabalho
     comprometida com o aprendizado e a necessária                                                   tral de Belo Horizonte – MG, onde como resultados              das lavadeiras, na religiosidade e outros temas.
     mudança social. Fundamentalmente integradora,                                                   “as pesquisadoras realizaram um vasto levantamento
                                                                                                                                                                    A criação do grupo de pesquisa com o tema
     a proposta realiza a missão social da Universidade                                              de inventos - objetos e produtos do cotidiano - que
                                                                                                                                                                    Diferenças: Arte, Design, Arquitetura e Artesanto, no
     FUMEC, incentivando a produção e a efetiva socia-                                               revelaram um enorme potencial do cidadão comum
                                                                                                                                                                    CNPq, e a exposição no INHOTIM de uma coleção de
     lização do conhecimento.                                                                        (moradores expostos a situação de precariedade
                                                                                                                                                                    produtos com características iconográficas reco-
                                                                                                     econômica)”.
     Aprendemos, com a atividade artesanal, a sabedoria                                                                                                             lhidas no próprio museu pareciam ser o fim dessa
     da partilha construída em torno da experiência co-                                              Sempre Savassi Design e Cultura é como o fio de                jornada. Mas enquanto essas atividades estavam
     municada; a arte da escuta, do silêncio e da narrativa                                          Ariadne que permitiu a saída da pesquisa para dar à            em andamento, um novo edital em nível nacional
     comprometida com a vida que perdura. Essa é a                                                   luz na extensão. Envolvendo parcerias com o CDL-               estava aberto, e o acumular de anos de experiências
     postura de quem acredita na invenção de um futuro                                               BH e o SEBRAE, esse projeto desenvolveu diversas               se transformou no projeto Artesanato Solidário no
     em que o conhecimento se constrói, pacientemente,                                               comunidades de artesãos, resultou na produção de               Aglomerado da Serra.
     na ação criadora; em forma de valores que conferem                                              um texto e um catálogo; o primeiro, finalista em con-
                                                                                                                                                                    Os primeiros passos dessa nova caminhada estão
     sentido ao mundo compartilhado.                                                                 curso, e o segundo produziu frutos como exposição
                                                                                                                                                                    no Catálogo ASAS, que deve ser apreciado com o
                                                                                                     e menção honrosa.
     Formar profissionais comprometidos com a justiça                                                                                                               olhar de admiração nos permitindo ver mais além
     e a ética é desafio permanente da Universidade                                                  No catálogo da Coleção 9+1, uma coleção temática               dos muitos focos de violência, tráfico de drogas e
     FUMEC. O projeto ASAS exerce essa missão de forma                                               de nove almofadas quadradas e uma redonda                      desemprego instaurados nessa comunidade. É ver
     particular, convertendo-a em processo renovador,                                                revelando temas ligados à história de vida de cada             com pasmo a capacidade de empoderamento que
     em que a criação coletiva potencializa saberes e                                                artesã, registra-se a ação de extensão Artesanato              a metodologia de criação a partir do conceito de
     valoriza o artesanato como fonte de aprendizado                                                 Solidário no Barreiro. Nesse projeto, novas parcerias          Artesanato Solidário teve no período de doze meses
     permanente.                                                                                     foram possíveis com a Associação da Terceira Idade e           para capacitar um grupo de multiplicadores que tem
                                                                                                     Idosos do Barreiro (ASTIB) e a UNITEC – Nova Zelân-            por missão, em 2009, passar para novas gerações de
     Assim, apresentar este catálogo à sociedade é mo-
                                                                                                     dia com o seu suporte metodológico para ações de               jovens e adolescentes o seu aprendizado, fazendo
     tivo de grande satisfação para todos nós. Com a con-
                                                                                                     responsabilidade social.                                       funcionar a oficina de serigrafia.
     clusão da proposta, comemoramos esta importante
     conquista junto às comunidades da Universidade                                                  Esse constante aprender permitiu que as experiên-              Por fim, o agradecimento da Universidade FUMEC à
     FUMEC e do Aglomerado da Serra.                                                                 cias adquiridas fossem aplicadas em Assis Brasil (AC)          UNISOL (Banco Real), pela parceria que tornou pos-
                                                                                                     e Jequitaí (MG) em incursões do Projeto Rondon. A              sível este projeto, e pela sua renovação para o biênio
                                                                                                     capacitação em artesanato e design de produtos e               2009/2010.
                                                                                                     mobiliários de bambu foram oficinas desenvolvidas

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Em uma comunidade, as atividades de cada indi-
                                    víduo estão sempre interligadas de alguma maneira.
                                    Quando um se beneficia, é muito provável que o
                                    próximo seja atingido. Assim, os projetos sociais
                                    que se baseiam em parceria de benefícios mútuos
                                    podem conseguir multiplicadores e ser auto-susten-
                                    táveis.
     unisol                         Acreditando nisso, o UniSol e o Banco Real - Grupo

     banco real . grupo santander   Santander Brasil - apóiam, desde 2007, o projeto
                                    ASAS - Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra
                                    - vencedor do 11º Concurso Banco Real Universidade
                                    Solidária. Executado pela FUMEC/MG é um exemplo
                                    de iniciativas que estimulam a participação ativa
                                    da comunidade, e o envolvimento de professores,
                                    estudantes, escola, prefeituras e ONGs na construção
                                    de alternativas para problemas de ordem social,
                                    econômica e ambiental da região.

                                    Criado em 1996, o concurso Banco Real e Uni-
                                    versidade Solidária estimula o engajamento de
                                    estudantes e professores universitários na implemen-
                                    tação de ações que promovam o desenvolvimento
                                    social de comunidades de todo o País.

                                    Essa parceria proporciona a implementação de proje-
                                    tos sociais com a participação de Instituições de Ensi-
                                    no Superior (IES) brasileiras, por meio de seu corpo
                                    docente e discente em comunidades, trabalhando
                                    na construção de soluções locais de desenvolvimen-
                                    to sustentável e comunitário, e disseminado valores
                                    de cidadania e de responsabilidade social aos jovens
                                    universitários - futuros profissionais do país.

                                    Em treze anos de atuação, o concurso já mobilizou
                                    94 IES, 1.340 estudantes, 178 professores e benefi-
                                    ciou direta e indiretamente mais de 4 mil pessoas em
                                    todo Brasil, a partir da interação entre o conheci-
                                    mento acadêmico e o popular.




18                                                                                  19
Márcia Libânio
                              Diretora

                              Desde agosto de 2007 os alunos, funcionários e
                              pessoas da comunidade do Aglomerado da Serra
                              tem freqüentado as oficinas de capacitação que


     escola municipal padre
                              acontecem na Universidade FUMEC.

                              O grupo ASAS (Artesanato Solidário no Aglomerado
     guilherme peters         da Serra) formado a partir da parceria entre a Univer-
                              sidade FUMEC, o Unisol/Banco Real e a Prefeitura de
                              Belo Horizonte tem realizado bons benefícios para
                              esta comunidade.

                              Duas vezes por semana o grupo se reuniu ao longo
                              do ano nas dependências da Universidade FUMEC.
                              Esses encontros, que propiciaram o contato com
                              alunos e professores universitários, fornecem ao
                              grupo o desenvolvimento das relações de trabalho
                              em espaços que eles poderiam ter dificuldades em
                              freqüentar.

                              Os alunos do grupo ASAS têm tido acesso a espaços
                              culturais da cidade, apresentando suas criações e
                              conhecendo artistas locais e de contexto nacional.

                              A montagem da cooperativa no espaço escolar
                              beneficiará tanto a comunidade quanto os alunos
                              da escola . Essa cooperativa será um exemplo a ser
                              seguido por eles. Aqueles alunos da escola que
                              tiverem interesse em fazer parte da cooperativa
                              poderão desenvolver as técnicas a partir do grupo
                              ASAS (futuros multiplicadores).

                              A Escola Municipal Padre Guilherme Peters se sente
                              honrada em fazer parte dessa parceria que trará mais
                              dignidade à comunidade. Hoje a cooperativa já não
                              é só um sonho distante. Ela já se tornou realidade!

                              Ao avaliarmos a parceria firmada nesse curto prazo
                              de tempo, só podemos ressaltar a importância do
                              compromisso social, principalmente em comu-
                              nidades carentes como a em que a escola está
                              inserida.

20                                                                            21
02    design social




 22                   23
projeto asas:
autonomia e
empoderamento
por meio do
artesanato
solidário




natacha rena
Arquiteta, designer, professora dos cursos
de Arquitetura e Design de Interiores
na Universidade FUMEC; mestre em
Arquitetura pela UFMG, doutora em
Comunicação e Semiótica pela PUC São
Paulo e coordenadora do projeto ASAS-
UNISOL/Banco Real - Grupo Santander.



juliana pontes
Designer, Mestre em Comunicação
Social, professora do curso de graduação
em Design Gráfico e pós-graduação na
Universidade FUMEC e orientadora, junto
com a profa. Natacha Rena, do projeto ASAS-
UNISOL/Banco Real - Grupo Santander.
apresentação



     O Projeto ASAS (Artesanato             longo do trabalho. Com ênfase nos processos                        maioria estão muito distantes da oportunidade do primeiro emprego ou
     Solidário do Aglomerado da             criativos que aconteçam de forma colaborativa                      de exercer uma atividade econômica lucrativa e promissora por falta de
     Serra) teve a intenção de capacitar    e na criação de uma metodologia específica                         capacitação específica. O Aglomerado está localizado na chamada região
     um grupo de moradores do               - que garanta sustentabilidade das ações                           sul da cidade, setor residencial de alto poder aquisitivo (onde se encontra a
     Aglomerado da Serra para o             implementadas -, este projeto também objetivou                     Universidade FUMEC).
     desenvolvimento de uma coleção         a criação de um mix de produtos com alto
                                            valor agregado (acompanhados de catálogo                           Atualmente a prefeitura de Belo Horizonte está executando uma grande
     de produtos com características
                                            e exposição) que possa ser comercializado                          obra de urbanização do Aglomerado (considerado um dos maiores
     singulares. O objetivo central
                                            em locais onde o público consumidor valorize                       projetos de urbanização de favelas do País no momento), que inclui a
     foi estabelecer um processo
                                            produtos realizados com responsabilidade                           construção de uma via asfaltada de mão dupla que atravessará o conjunto
     sustentável de geração de renda
                                            socioambiental. Outro objetivo já realizado                        de vilas, ligando diretamente duas regiões da cidade. Há um investimento
     no Aglomerado da Serra (conjunto
                                            foi a montagem de uma oficina de criação e                         real na melhoria das condições de vida da população local e na sua
     de vilas e favelas da cidade de Belo
                                            produção em serigrafia na Escola Pe. Guilherme                     inserção definitiva no contexto urbano, o que implica a educação e a
     Horizonte) a partir do conceito de
                                            Peters.                                                            capacitação dessas pessoas para uma nova condição de trabalho e relação
     autonomia criativa e produtiva
                                                                                                               social. O que acontece no caso específico da Escola Municipal Padre
     com foco no empoderamento
                                            A comunidade específica escolhida para o                           Guilherme Peters é que a sua localização não é próxima das margens da
     da comunidade. Dentro de um
                                            desenvolvimento do projeto aqui proposto é a                       grande via a ser construída, o que resultou em um menor investimento
     conceito amplo de artesanato
                                            Escola Municipal Padre Guilherme Peters situada                   dos projetos citados acima nesta escola. Essa situação poderá produzir
     solidário, desenvolveu-se uma
                                            dentro do conjunto de vilas e favelas de Belo                      um futuro desnível de oportunidades dentro do próprio Aglomerado,
     metodologia específica de criação
                                            Horizonte denominado Aglomerado da Serra.                          acentuando ainda mais as questões ligadas ao desemprego à violência e à
     em artesanato e design com o
                                            Essa escola pertencente à Vila Novo São Lucas                      exclusão social.
     intuito de capacitar grupos de
                                            tem procurado parcerias para que seus alunos
     artesãos para o desenvolvimento
                                            possam se apropriar de novos conhecimentos                         O Aglomerado da Serra possui uma grande dimensão populacional, com
     de objetos inventivos e com
                                            e novas tecnologias que os ajudem a enfrentar                      muitos focos de violência e disputa de grupos ligados ao tráfico de drogas,
     características singulares.
                                            novos ambientes educacionais e novos                               o que dificulta ações eficazes em todo o seu território. O foco nas escolas
                                            ambientes de trabalho. A escola vai da Educação                    municipais, começando com um projeto piloto em uma escola específica,
     A idéia central dos projetos de
                                            Infantil até a oitava série do Ensino Fundamental,                 limita a ação a um campo fértil, que é o dos jovens em formação, pois
     extensão que realizamos na
                                            e tem também no turno noturno a Educação de                        estes são as maiores vítimas do aliciamento para a atividade do tráfico e
     Universidade FUMEC é capacitar
                                            Jovens e Adultos. Novas parcerias têm aberto                       da violência gerada por esta economia ilegal. A falta de infra-estrutura,
     grupos como multiplicadores
     do conhecimento adquirido ao           novos horizontes para esses jovens, que em sua
                                                                                                                Possuía em 1999 uma população total por volta de 37.641 habitantes segundo dados da URBEL, mas
                                            ¹ Rua Coronel Jorge Dário S/número . Bairro Novo São Lucas. Belo   segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social, 45.920 pessoas e, segundo a imprensa Estado de Minas,
                                            Horizonte . CEP 30.240-560                                         160.000 habitantes.


26                                                                                                                                                                                                                     27
recursos materiais e capital humano
     nas escolas municipais é ainda um
     grande empecilho para que essas
     unidades sustentem projetos de
     inserção econômica e capacitação
     profissional adequadas à nossa
     realidade social e às demandas do
     mercado de consumo e serviços
     hoje.

     As escolas também podem ser
     pontos de apoio permanentes
     para que iniciativas como
     essas se desenvolvam com
     acompanhamento adequado e
     previsão de continuidade, pois sem
     esse tipo de suporte muitas boas
     idéias, ações e projetos se perdem
     por falta de investimentos em
     longo prazo, gerenciamento das
     atividades de formação, estruturas
     de equipe para captar novos
     recursos e orientar novas investidas
     educacionais. Nesses espaços a
     parceria entre o ensino tradicional
     e o grupo de artesãos, por um lado,
     complementa o ensino tradicional
     e, por outro, amplia os horizontes
     de atuação dos seus alunos e
     professores.




28                                          29
O Aglomerado da Serra possui
     uma população com poder
     aquisitivo baixíssimo, mas inserida
     em uma das regiões com índice
     socioeconômico mais alto da
     cidade. Ao mesmo tempo a
     Universidade FUMEC tem optado
     estrategicamente por desenvolver
     projetos de natureza social
     nessa região, já que é vizinha
     da Universidade e delimita um
     campo de atuação solidária. Na
     última pesquisa para a Prova
     Brasil o índice socioeconômico
     no Aglomerado foi de 1.1 numa
     escala de 1 a 5. E aqui também há
     uma justificativa concreta para a
     escolha da Escola Municipal Padre
     Guilherme Peters que, entre as
     cinco escolas municipais existentes
     no Aglomerado, conforme
     comprovado pelo Prova Brasil,
     é uma das duas escolas de mais
     baixo índice socioeconômico da
     cidade e com uma necessidade
     imensa de melhorar a sua infra-
     estrutura e estabelecer parcerias
     externas que complementem o
     processo educativo e respondam a
     demandas a que a escola não pode
     atender sozinha.


30                                         31
alteração da
     situação enfrentada
     e expectativas do
     projeto                                                                                   objetivo geral                                      objetivos específicos


     A oportunidade da parceria            funciona aos sábados e domingos e oferece           O principal objetivo deste projeto foi              Todo o trabalho proposto neste projeto objetiva
     com a Universidade FUMEC              oficinas de artesanato, de percussão, de            fomentar o artesanato como setor econômico          uma ampliação efetiva do repertório cultural
     tem proporcionado a um                capoeira, informática e possivelmente a de          sustentável que valoriza a subjetividade            dos participantes do grupo através de aulas
     grupo de alunos dessa escola          estamparia também poderá funcionar aos finais       coletiva promovendo a melhoria da qualidade         teóricas sobre arte, cultura, design, arquitetura,
     pertencente ao Aglomerado o           de semana.                                          de vida e a geração de renda. A intenção foi        antropologia, ecologia e sustentabilidade. Passeios
     conhecimento de um ambiente                                                               propiciar a criação de produtos manufaturados       culturais e visitas a exposições de arte também se
                                           Outro fator essencial ao projeto é que a            com possibilidade de comercialização em             enquadram nessas ações, além da participação
     de estudo completo, de nível
                                           prefeitura de Belo Horizonte ofereceu como          mercados consumidores proeminentes como             do grupo em oficinas que possam envolver
     superior, além do aprendizado
                                           contrapartida a construção de um espaço             feiras nacionais e eventos, além dos locais com     outros grupos culturais já organizados na própria
     de técnicas inovadoras no design
                                           onde será instalada a oficina de estamparia,        possibilidades de venda de produtos com alto        comunidade. Esse tipo de artesanato abarca
     de estamparia. Isso aconteceu
                                           cujos equipamentos e materiais de uso foram         valor agregado. O projeto tem proporcionado         produtos que atingem altos preços no mercado
     em uma primeira etapa, com
                                           financiados pelo Prêmio UNISOL/BANCO REAL.          um cruzamento de ações de capacitação, tais         nacional e também costumam ser os prediletos no
     oficinas e aulas realizadas na
                                           A primeira turma formada poderá montar uma          como orientação com metodologia específica          mercado de exportação.
     própria Universidade, utilizando
                                           associação que se auto-sustentará e que formará     para trabalhar um reposicionamento subjetivo e
     suas salas de aula, equipamentos
                                           novos trabalhadores ao capacitar os jovens,         criativo do artesão de baixíssima renda perante     Pretendeu-se neste projeto desenvolver a técnica
     didáticos e o ateliê de estamparia.
                                           dando-lhes também a oportunidade do primeiro        um novo mercado consumidor mais exigente            de estamparia para aplicação em produtos
     Além disso, pode-se criar para a
                                           emprego e uma atitude empreendedora. A              através: da formação de repertório estético geral   variados. Percebemos que essa técnica, além
     comunidade, a partir da primeira
                                           escola funciona em horário integral e esses         e histórico, além de incentivar a atualização       de valorizar o produto, também dá agilidade à
     turma a freqüentar esse programa
                                           futuros artesãos podem começar a aprender           cultural (incluindo tendências na moda, no          produção por conseguir uma reprodução em série
     de capacitação, a figura dos
                                           tecnologias que em curto prazo poderão servir       design e na decoração). Após o lançamento           mesmo que por processos artesanais. Neste projeto
     multiplicadores, que serão pessoas
                                           para melhores condições de trabalho e de            dos produtos, a idéia é que através de parcerias    essa técnica engendrou uma enorme eficácia, já
     que participarão do projeto e
                                           vida. A idéia é que esta comunidade, com a          estes sejam comercializados em pontos de            que faz parte do universo estético contemporâneo
     irão repassar o conhecimento
                                           implementação de projetos como este, possa          venda onde sejam valorizados como resultado e       a idéia de aplicação de imagens colhidas pelos
     dando continuidade ao trabalho,
                                           iniciar a criação de uma rede de sustentabilidade   processo de projetos de artesanato e design que     artesãos como forma de revelar as relações entre a
     formando novos empreendedores
                                           e economia solidária, melhorando sua condição       promovam inclusão social e geração de renda         identidade pessoal e o lugar.
     e até uma cooperativa para
                                           econômica, sua inserção social, diminuindo os       em comunidades carentes.
     trabalhar com confecções da                                                                                                                   Também são objetivos do projeto: ampliar as
                                           índices de violência local e aumentado a sua
     cidade e/ou do estado. Esses                                                                                                                  oportunidades de trabalho e renda da população
                                           auto-estima.
     multiplicadores poderão iniciar                                                                                                               envolvida em situação de risco pessoal e social
     outras pessoas da comunidade                                                                                                                  num projeto de inclusão social; promover o acesso
     inclusive na Escola Aberta, que                                                                                                               a tecnologias adequadas para o desenvolvimento



32                                                                                                                                                                                                 33
artesanal produtivo; utilizar
     a inovação e a identidade
     cultural como um dos fatores de
     diferenciação do produto; educar
     o olhar do grupo para perceber
     soluções inventivas e sensíveis às
     demandas objetivas e subjetivas
     do homem urbano no seu próprio
     cotidiano; promover a cultura da
     cooperação estimulando a criação
     e o fortalecimento de associações
     e cooperativas; resgatar a cultura
     urbana e jovem como fator de
     agregação de valor ao artesanato;
     disponibilizar informações sobre
     a utilização racional dos recursos
     naturais, segundo os postulados
     da legislação ambiental; socializar
     o acesso às informações e ao
     conhecimento no âmbito do
     setor artesanal; articular parcerias
     para aumentar a participação
     do artesanato na produção
     nacional e para o conseqüente
     fortalecimento do setor; melhorar
     a auto-estima e a qualidade de
     vida da população; desenvolver a
     capacidade de criação e produção
     coletiva.




34                                          35
metodologia de
     projeto


     Uma metodologia eficaz               global, como diz Octavio Ianni , “muitas                           informações tornou-se referência iconográfica        para o desenvolvimento do protótipo - mistura de
     para o desenvolvimento de            coisas desenraizam-se, parecendo flutuar                           e conceitual para a criação dos produtos numa        muitas técnicas) através de procedimentos técnicos
     capacitação em artesanato que        pelos espaços e tempos do presente”, ou seja,                      etapa posterior.                                     híbridos. Portanto, esse trabalho de capacitação
     tenha sustentabilidade surge         mais do que tradições buscamos um diálogo                                                                               em design e artesanato inclui uma série de ações
     do entendimento de que só é          com a contemporaneidade. Desenvolvemos                             segundo momento                                      fundamentais para a construção do ambiente
     possível induzir grupos a criar      procedimentos de pesquisa, de criação e de                                                                              criativo necessário.
                                                                                                             Num segundo momento uma ação importante
     o novo quando se constrói um         produção que advenham da identidade a partir
                                                                                                             para a capacitação foi a apresentação de             terceiro momento
     vasto repertório (informações,       da relação entre a cultura urbana e a cultura da
                                                                                                             aulas teóricas (fundamentos de arte e design)
     conceitos e instrumentalização),     favela, para que seja possível construir um forte
                                                                                                             acompanhadas de exercícios práticos que              Numa etapa final do plano de capacitação, que
     através do qual os participantes     laço identitário entre os artesãos e os produtos
                                                                                                             reforçaram o conhecimento adquirido de forma         teve início em agosto de 2008, iniciamos as
     possam compreender a situação        criados. Ministramos um grande leque de
                                                                                                             empírica. Também foram ministradas aulas sobre:      oficinas de criação, nas quais foram efetivamente
     atual da arte, do design e da        oficinas e aulas teóricas que possam dialogar
                                                                                                             elementos visuais e composição gráfica; o olhar      trabalhados os produtos específicos para a coleção
     cultura contemporânea e que          diretamente com o cotidiano deles.
                                                                                                             como forma diferenciada de percepção; história       final.
     sejam capazes de, a partir daí,
                                          primeiro momento                                                   da arte - do cubismo à arte contemporânea;
     desenvolver futuras coleções de                                                                                                                              Acredita-se que somente com a consolidação do
                                                                                                             teoria da cor; tendências no design; design do
     produtos sem a dependência da                                                                                                                                conhecimento ao longo de oficinas, seminários,
                                          A primeira atividade da capacitação foi a                          cotidiano e vernacular; arte popular e artesanato,
     instrução de designers e artistas.                                                                                                                           visitas de estudo e com a produção de peças
                                          realização de um diagnóstico das qualidades                        street art, etc. Essas aulas teóricas foram sempre
                                          espaciais e estéticas do território cotidiano do                   ilustradas com apresentações de imagens              com qualidade estética, cultural e eficácia
     Nitidamente com um caráter
                                          grupo a partir da experiência subjetiva de cada                    dos conteúdos dados para gerar essa nova             mercadológica é que um processo sustentável
     de inclusão social, este projeto
                                          um. A idéia foi fazer com que os participantes                     bagagem de cultura visual, tão necessária para       pode ser iniciado nessa escola pública, já que
     apresenta uma metodologia
                                          descobrissem características cotidianas nunca                      a compreensão da estética e dos processos            iremos construir e efetivar uma oficina de
     específica para desenvolver
                                          observadas, agora com um olhar estético que                        criativos contemporâneos. Também foram               estamparia para que futuramente não somente
     coleções de produtos artesanais
                                          revelasse o valor cultural das favelas e em                        exibidos vídeos e filmes, entre documentários        alunos, mas também egressos possam continuar
     que se relacionem culturalmente
                                          especial do território específico a que eles                       e longa-metragens, que abordam questões da           gerando renda e se incluindo socialmente com
     de forma direta com o universo
                                          pertencem. Esse diagnóstico foi elaborado                          arte e da cultura do século XX, peças de design      dignidade. Todo trabalho aconteceu com um
     do Aglomerado da Serra. Ao
                                          a partir de mapas subjetivos (produção de                          e artesanato contemporâneos. Além de aulas           acompanhamento intensivo de todo o processo
     mesmo tempo que reforçamos
                                          imagens fotográficas e inúmeros desenhos,                          expositivas, mas em momentos intercalados a          criativo e da finalização dos produtos. A principal
     o contexto local do projeto nos
                                          mapas, colagens e anotações) construídos                           elas, produzimos oficinas práticas para oferecer     idéia dessa metodologia é dotar os alunos de uma
     temas escolhidos para as estampas,
                                          coletivamente pelo grupo. A coleta dessas                          novos instrumentais (tanto para criação -            nítida capacidade para gerar novos produtos a
     a concepção da linha de produtos
                                                                                                             desenhos, pinturas, maquetes, colagens - quanto      partir de um processo criativo baseado na pesquisa
     está ligada a um pensamento
                                           IANNI, Octavio. A Sociedade Global. Rio de Janeiro: Civilização
                                          Brasileira, 1997.


36                                                                                                                                                                                                                 37
e na inovação. Mais do que
     gerar produtos finais com forte
     interferência do designer, esse
     processo de capacitação deverá
     estimular metodologias de criação
     e desenvolvimento de produto.
     A metodologia incluiu também
     workshops para o desenvolvimento
     de trabalhos em grupo e
     identificação de lideranças.

     Também fizeram parte dessa
     etapa final: montagem da oficina
     de criação e produção artesanal;
     registro de todo o processo
     através de fotografias e filmagens;
     planejamento do catálogo, que
     inclui a reunião de todas as
     informações desde o processo
     até o resultado final da coleção
     e da oficina em funcionamento;
     planejamento da exposição;
     avaliação de todo o processo e do
     resultado final; estabelecimento de
     planos de continuidade do projeto
     na escola específica e já início
     do plano de ação para a próxima
     escola do Aglomerado.




38                                         39
desdobramentos


     Além de o projeto ser                    qualidade que foi comercializado pelas artesãs     caixas de luz na cor preta, iluminadas por leds
     resultado da Premiação Nacional          individualmente.                                   eletrônicos na parte interna. A exposição foi
     no Concurso Unisol/Banco Real, ao                                                           muito bem-sucedida e, além da repercussão na
                                              Como desdobramento das atividades                  mídia, fez as caixinhas de luz se tornarem mais
     longo do trabalho conseguimos
                                              acadêmicas envolvendo o projeto tivemos a          um produto comercializável para o grupo.
     uma parceria com a empresa Raiz
                                              pintura dos muros da escola Padre Guilherme
     da Terra, que desenvolve e produz
                                              Peters pelo alunos da disciplina Núcleo de         Enfim, projetos como este ressaltam a
     camisetas ecológicas. A parceria
                                              Projeto 2, do curso de Design Gráfico. As          importância da participação da Universidade
     consistiu no desenvolvimento de
                                              imagens estampadas nas paredes da escola           FUMEC em projetos de responsabilidade
     estampas exclusivas pelas artesãs
                                              foram resultado de oficinas realizadas com as      social com uma atuação que abarque também
     com o tema fauna e flora do
                                              crianças e os adolescentes do Aglomerado,          a pesquisa que tem o papel de consolidar
     Aglomerado da Serra. A empresa,
                                              focando em experiências de vida positivas          as questões acadêmicas, metodológicas
     além de produzir os modelos
                                              de cada um. A pintura foi encerrada com um         e conceituais para que os projetos de
     de estampas criados por elas,
                                              evento na própria escola, no qual a aluna          extensão produzidos na própria universidade
     apresentou a coleção em Paris, em
                                              de Design de Moda Karina Leite apresentou          relacionados ao tema (no caso o artesanato
     um evento de moda ética. Esse
                                              sua coleção de final de curso, toda feita com      urbano) tenham embasamento teórico e
     trabalho serviu para abrir portas
                                              estampas criadas pelas artesãs especialmente       projeção científica. Criam também um ambiente
     comerciais para o grupo, além de
                                              para as suas peças. O desfile envolveu alunos      coeso entre pesquisa e extensão em torno
     consolidar e divulgar a marca do
                                              e familiares da comunidade, pois as modelos        da idéia de um Artesanato Solidário para que
     ASAS.
                                              também foram escolhidas no próprio                 possamos atuar ativamente junto aos órgãos
     As parcerias oficiais aconteceram        Aglomerado.                                        nacionais (e internacionais) de discussões
     ao mesmo tempo que as                                                                       fundamentais para o desenvolvimento
                                              Outras atividades paralelas à criação da coleção   econômico sustentável no País.
     próprias artesãs começaram a
                                              também foram desenvolvidas como um
     comercializar as suas ecobags,
                                              estímulo criativo e oportunidade de integração
     que foram o primeiro produto
                                              do grupo. Um exemplo foi a exposição
     desenvolvido pelo grupo como
                                              Aglomeradas, resultante de uma oficina de
     exercício. A atividade, de início, foi
                                              pinhole realizada na FUMEC pelo Prof. Alexandre
     encarada como uma prática para
                                              Lopes. Cada artesã fotografou com uma caixa
     o exercício da técnica e acabou
                                              de fósforo o seu cotidiano e essas imagens
     formando mais um produto de
                                              foram ampliadas em acetato e montadas em



40                                                                                                                                                 41
42   43
identidade:
     processo
     construtivo




     cris araújo
     Técnica em Comunicação Visual pelo
     Instituto de Arte e Projeto - INAP, cursando
     7º período em design gráfico pela
     Universidade FUMEC.

44
A identidade visual
     ASAS foi desenvolvida a partir
     da observação de fotografias
     do Aglomerado da Serra.
     Primeiramente foi realizado
     um estudo das estruturas dos
     barracões para, assim, podermos
     retirar características para compor
     as letras da identidade. Após esses
     estudos iniciou-se um processo
     de geração de alternativas para
     adequação de letra/desenho.
     Através das pesquisas locais
     pôde-se perceber as seguintes
     características passíveis de serem
     transformadas em elementos
     visuais: estruturas sobrepostas,
     arranjos, diversidade de materiais,
     becos e vielas, cores opacas, o
     laranja constante dos tijolos e o
     céu azul compondo a paisagem.
     A partir desses elementos
     iniciamos a construção da
     identidade. A identidade teve
     como característica blocos não
     alinhados, espaços entre letras
     fazendo alusão aos becos e vielas e
     a estrutura grotesta que remete à
     improvisação e à desuniformização
     das casas aglomeradas.




46                                         47
becos e vielas




base estrutural: tijolos




                         ARTESANATO SOLIDÁRIO NO
                         AGLOMERADO DA SERRA
                           letras “blocos” desuniformes remetendo à estrutura dos barracões




   cores:

            LARANJA | cor da comunicação, simbolizando o projeto como agente

                           ARTESANATO SOLIDÁRIO NO
            comunicacional na comunidade e também por ser a cor mais predominate no
            Aglomerado, presente nos tijolos dos barracões.


                           AGLOMERADO DA SERRA
            AZUL ACINZENTADO | cor que remete a segurança e estabilidade, fazendo alusão à
            estruturação sólida do projeto proposto na comunidade e também por ser a junção
            do azul do céu ao cinza do asfalto bem visíveis no Aglomerado.




                                                                                              49
psicologia
e a estruturação
do grupo




érica do espírito santo
Psicóloga, graduada pela Universidade
Federal de Minas Gerais, em agosto de
2005.
Meu nome é Érica Silva do              jovens, pois as mulheres mais velhas eram quem      O desenvolvimento do grupo parece ter sido modificado. Logo que cheguei, nos primeiros encontros, na fase
     Espírito Santo, sou psicóloga,         estava “tocando” o grupo e o projeto era focado     de observação, percebi que o grupo estava ainda imaturo, esperando respostas dos professores e dos bolsistas,
     graduada pela Universidade Federal     para os jovens. Então este foi o primeiro ponto a   como alunos que recebem o conhecimento que foram ali, na universidade, buscar. Agora estamos em agosto
     de Minas Gerais em agosto de           ser trabalhado com o grupo: definir quem era o      e já percebo que foi assumido um papel pelo grupo, um pouco mais de iniciativa, de organização, ou seja,
     2005. Desde que me formei venho        grupo e qual seria seu papel.                       um pouco mais de autonomia. As oito mulheres que são o que chamo de “coração” do grupo já fizeram suas
     procurando formas de aprimorar                                                             primeiras reuniões entre si, independentemente das professoras e dos bolsistas e parecem já participar mais
                                            Por parte da equipe da FUMEC foi feita a            ativamente desse trabalho que no futuro será o trabalho delas.
     meus conhecimentos técnicos e
                                            demanda para o trabalho com o grupo no
     teóricos dentro de alguns campos
                                            sentido de ajudá-lo a se fortalecer, para que ao    O que percebo claramente é que houve uma mudança de um estado de dependência absoluta do grupo
     da vasta área de abrangência
                                            final do projeto tivesse autonomia para se manter   em relação ao corpo de professores e alunos da FUMEC para um estado de dependência relativa, fazendo um
     da Psicologia. Uma área em
                                            sozinho, já que o objetivo é que elas sejam         paralelo com as fases de desenvolvimento do indivíduo. E o objetivo deste trabalho é que este grupo continue
     que comecei a trabalhar foi na
                                            responsáveis por uma oficina de estamparia que      caminhando no sentido de chegar a uma independência, para que possa caminhar pelas próprias pernas.
     psicanálise, tanto individual quanto
                                            será montada dentro do Aglomerado.
     com grupos.
                                                                                                Acho importante destacar também a importância que percebo deste projeto para a auto-estima dessas
                                            Ficou estabelecido que meu horário de trabalho      mulheres, moradoras do aglomerado, que não tiveram oportunidade de cursar uma faculdade e, cada dia
     Fui convidada a participar do
                                            com o grupo seria todas as terças-feiras, às 14h,   mais, se sentem capazes de, além de buscar novas possibilidades para suas vidas, passar o conhecimento que
     projeto ASAS para atender a
                                            horário combinado com o grupo para que não          acumularam ao longo de suas vidas. Todas trazem uma bagagem que vão compartilhando aos poucos, vão se
     uma demanda de trabalho com
                                            houvesse atrasos. No início muitas se atrasavam.    sentindo importantes dentro do que é valorizado no projeto, vão percebendo que elas são o valor deste projeto
     adolescentes. A princípio foi o que
                                            Aos poucos fomos criando um espaço de               e se sentindo mais convictas para seguir adiante.
     me chamou atenção para o projeto,
                                            trabalho em que foram aparecendo as questões
     pelo fato de eu já ter experiência
                                            a serem trabalhadas e os incômodos. Fizemos         Há dificuldades de horário, de tempo, de dinheiro para ir e vir, de aceitar as diferenças, de estabelecer regras –
     em trabalhos anteriores com
                                            oficinas de agrupabilidade, com a intenção de       situações normais que acontecem com qualquer grupo que se proponha a trabalhar junto.
     adolescentes do Aglomerado da
                                            unir mais o grupo que ali se encontrava partindo
     Serra. Meu primeiro encontro com                                                           Esse grupo tem traços fortes de união e de identidade entre si, por se tratar de mulheres maduras, em sua
                                            da idéia de que o grupo eram aquelas pessoas
     o grupo foi no dia 22 de março de                                                          maioria, habitantes da mesma região, que procuram no trabalho uma saída para o futuro.
                                            que estavam ali, mesmo que isto contrariasse
     2009, e logo foi esclarecido que o
                                            a proposta inicial do projeto. Acredito que à       Cada grupo tem uma estrutura e uma dinâmica. A estrutura é a forma de organização do grupo a partir da
     projeto havia sido pensado para
                                            medida que os participantes foram percebendo        identificação de seus membros. Dinâmicas são as forças de coesão e dispersão do grupo, e que fazem com que
     jovens, mas que tinha mudado de
                                            que eles eram o grupo, foram se apropriando         se transforme, o que inclui: formação de normas, comunicação, cooperação, divisão de tarefas e distribuição
     foco. Acho importante tocar nesse
                                            dele, foram assumindo papéis sem tanto receio       de poder e liderança. Pretendemos fortalecer ainda mais os laços já estabelecidos dentro do grupo até o
     ponto, pois percebi logo que era
                                            de que esse lugar fosse tomado mais tarde pelos     final do projeto. E, para o segundo semestre, foram programadas atividades que facilitassem a divisão de
     um incômodo do grupo que estava
                                            jovens.                                             papéis, que já está sendo esboçada pelas participantes em suas reuniões; atividades que esclareçam as regras
     lá, sete mulheres adultas e quatro



52                                                                                                                                                                                                           53
e normas estabelecidas pelo            arcabouço teórico a fim de procurar respostas

     grupo; atividades de facilitação       para as perguntas que surgem a cada dia, para

     da comunicação tanto dentro do         expandir meu repertório de atividades e oficinas,

     grupo quanto de dentro para fora       busca de novos livros, textos. Gostaria de enfatizar

     do grupo, ou seja, a comunicação       também a importância da liberdade para trabalhar

     do grupo com o mundo; atividades       desde o início, o grande acolhimento do grupo

     de clarifiquem as lideranças ainda     da FUMEC, a compreensão quanto ao trabalho

     mais e que promovam uma divisão        que muitas vezes não deixa claro seus objetivos, e,

     destas e do poder, a fim de que        principalmente, a troca de conhecimento. Pois o

     não haja impressão de injustiça        campo da psicologia é aberto para tudo que vem

     ou privilégio. O intuito é fazer com   de enriquecimento em relação ao ser humano

     que cada integrante participe de       e acho que essa experiência proporciona esse

     cada etapa e se sinta responsável      crescimento para todos os envolvidos.

     pelas escolhas que forem feitas.

     É muito importante pra mim ver
     que esse grupo já cresceu nesse
     período e ainda crescerá muito
     mais. Obviamente, tudo não se
     deve ao trabalho psicológico que
     vem sendo feito, mas ao trabalho
     de toda a equipe e do próprio
     grupo.

     Para mim é importante participar
     desse projeto pelo desafio, por
     se tratar de um trabalho com
     pessoas de outras áreas, com as
     expectativas, com meus limites.
     Ao longo do trabalho venho
     procurando enriquecer meu



54                                                                                                 55
56   57
a estamparia
     como
     capacitação
     profissional




     éder jorge de almeida
     Serígrafo e técnico da estamparia da
     Universidade FUMEC.




58
Meu nome é Éder Jorge                   importância e grande aliadas na seleção natural   ainda não foi conseguida, mas todos os exemplos de superação dados até o momento mostram que, com
     de Almeida, sou serígrafo e             dos que realmente têm compromisso com o           o devido acompanhamento, em breve será conseguida. Vale lembrar que esse grupo, conseguiu absorver o
     desenvolvo trabalhos para               trabalho em equipe.                               conhecimento transmitido pelos colaboradores do “ASAS” com o devido suporte, conseguiu desenvolver seus
     estamparia têxtil, com técnicas                                                           produtos e está pronto para enfrentar uma banca.
                                             Foi uma grande e decepcionante surpresa ver
     que vão desde a pintura artesanal,
                                             que os mais jovens desistiram do projeto por      Para aqueles que resistiram até agora, só tenho a agradecer pela tolerância e pelo carinho que sempre
     passando pela serigrafia plana
                                             não poder “esperar”, mas sei que a culpa não é    demonstraram mesmo nos piores e mais difíceis dias de nossa parceria que só está começando. Para os que
     manual, até os processos
                                             deles. O projeto conjuga ações de educação e      desistiram, espero que se encontrem e reconheçam a importância de somar as forças em prol da melhoria da
     automatizados como carrosséis,
                                             profissionalização objetivando um conseqüente     qualidade de vida e do desenvolvimento.
     planas e cilindros, além de
                                             crescimento econômico e distribuição de
     comunicação visual e gravuras.
                                             renda, porém em longo prazo, e os mais jovens
     Como educador, atuo em projetos
                                             infelizmente não podem esperar, uma vez que
     de inclusão social (Sol da Serra),
                                             a realidade social é cruel e os obriga a traçar
     capacitação profissional (Talentos
                                             os próprios caminhos e, com certeza, só irão
     do Brasil), qualificação profissional
                                             perceber o quanto perderam quando for muito
     (Mulheres Criativas) e figurino
                                             tarde.
     (Corpo Cidadão).

                                             No decorrer das atividades tive medo
     Quando comecei a desenvolver
                                             também de que o grupo ficasse eternamente
     o processo de estamparia dentro
                                             dependente dos colaboradores e não
     do projeto Artesanato Solidário
                                             conseguisse a autonomia suficiente para entrar
     no Aglomerado da Serra “ASAS”,
                                             no mercado e enfrentar a concorrência em pé de
     encontrei um grupo numeroso
                                             igualdade, mas esse medo passou depois de ver
     que em princípio me assustou,
                                             que os remanescentes conseguiram superar os
     pois era um número muito acima
                                             conflitos internos e compreenderam que juntos
     da capacidade do ateliê onde a
                                             terão chances reais de se tornarem autônomos.
     técnica seria desenvolvida, mas as
     aulas teóricas que antecederam o        A autonomia do grupo (Etelvina, Elzy, Maria
     processo foram de fundamental           do Carmo, Schirley, Susana, Joana e Gabriela)



60                                                                                                                                                                                                     61
62   63
depoimentos:
     alunos bolsistas
     da universidade
     fumec




     Ana Luíza Ferreira . Bruno Oliveira . Cris Araújo
     Daniel Patrick . Eduardo Goulart . Felipe Franco
     Joana Sanglard . Rafael Barbosa . Rodrigo Mattar




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ana luiza ferreira . design de moda                                                             cris araújo . design gráfico
     O Projeto ASAS coordenado pelas                                                                 Participar do ASAS me proporcionou um grande        constantes em nossos encontros;
     professoras Natacha Rena e Juliana                                                              crescimento pessoal e acadêmico, possibilitando     questões essas que se aperfeiçoaram
     Pontes foi uma oportunidade maravi-                                                             um pensamento crítico em relação a minha            a cada dia estimulando-nos a con-
     lhosa em minha vida, tanto profis-                                                              opção profissional e a inserção social. Confron-    tinuar na medida em que observáva-
     sional quando pessoal. Aprendi muito                                                            tar minha formação acadêmica com a prática          mos a absorção do conteúdo, tudo
     com todo o grupo e especialmente                                                                através do choque de realidades tão distintas       isso fez-me acreditar ainda mais no
     com as artesãs. Acredito que como                                                               trouxe um aprendizado único, levando-me a de-       design aliado ao artesanato como
     profissional me tornei uma pessoa                                                               senvolver metodologias específicas de trabalho      forma de transformação do sujeito,
     melhor e mais humana e amiga.                                                                   e a compreender a articulação entre o ensino,       fazendo-o um agente cultural ativo,
     Como já existia em mim a vontade de                                                             pesquisa e extensão. Descobertas de um novo         transformador e confiante de suas
     ajudar pessoas, acabei descobrindo                                                              olhar, questionamentos do que é belo, do que        possibilidades criativas.
     como me ajudar. E só tem agradecer                                                              é horrendo o que é conceitual, o que é grupo
     a todo o grupo.                                                                                 e como se trabalha com ele, foram questões




     bruno oliveira . ciência da computação                                                          daniel patrick . design gráfico
     A oportunidade de participar do          desenvolvimento de habilidades e conceitos             O projeto Asas me proporcionou uma visão mais       experiências têm acrescentado muito
     ASAS surgiu em um momento de             cada vez mais inovadores. Quando percebi, o            crítica e ampla sobre projetos sociais sua eficá-   na minha formação e vejo como
     questionamento de diversos aspectos      projeto, que havia se tornado um real desafio,         cia, seus objetivos, metodologias e até mesmo a     aprendizagem para toda a vida. Esse
     do design, suas metodologias, con-       colocando em xeque diversos posicionamentos            recepção desse tipo de ação nas comunidades         projeto abriu ainda mais a minha
     textos e objetivos. Assim que entrei     políticos, sociais, culturais, estéticos, havia tam-   em que se desenvolvem. Além de aduzir alguns        visão profissional para possibilidades
     para o projeto fui apresentado a um      bém influenciado atitudes tanto na minha vida          conceitos a serem desenvolvidos na minha área       de atuação no mercado de trabalho
     universo de referências que não es-      pessoal quanto na acadêmica. Novos materiais,          de formação: O Design Gráfico. O empenho do         além de ratificar a minha vontade de
     perava: Hardt e Antonio Negri, Paola     possibilidades, experimentações e conhecimen-          grupo foi tão grande, que discussões teóricas       seguir carreira acadêmica, levando-
     Berestein Jacques, Michel Foucault,      tos foram descobertos com o desenvolvimento            sobre o modo mais efetivo de capacitação,           me a pensar conceitos para colaborar
     Gilles Deleuze, Felix Guattar, entre     do projeto, e estes novos contextos foram (e           conceitos, condução do projeto, processos           com a área do Design/Artesanato, e
     outros. Mais do que um aglomerado        serão) definitivos para as minhas (futuras) de-        criativos e principalmente prática de ensino se     também de aprofundar as discussões
     de técnicas e materiais, o artesanato-   cisões profissionais: escolhas mais diferenciadas,     tornaram cada vez mais presentes em corre-          sobre metodologia de criação, ensino
     design se mostrou ser uma área de        sustentáveis e conscientes.                            dores da universidade e essa troca de vivências e   e identidade cultural.

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eduardo goulart . design gráfico                                                           como potencializadores de meu currículo,             • evoluções no campo das inter-
                                                                                                enquanto aluno de Design Gráfico nesta aca-          relações humanas, neste quesito que,
     A alguns períodos acadêmicos atrás,      meu papel, em simultâneo tempo ao que,                                                                 por efeito cascata, me dá repertório
                                                                                                demia de ensino - são todos estes fatores que
     em meados de 2007 quando, então,         pelas mesmas vias, aprimorei e desenvolvi                                                              de ação, quando perante novos
                                                                                                marcaram minha experiência neste projeto
     fui apresentado às coordenadoras         parâmetros de composição pessoais, como                                                                desafios e rumos profissionais, dentro
                                                                                                social, político, cultural e conceitual.
     do projeto ASAS - as professoras da      criador imagético, lapidando e atravessando                                                            de meu caminho pessoal e de forma-
     Universidade FUMEC Natacha Rena,         níveis de evolução em meu trabalho, em            De forma pragmática (coisa que o ASAS me             ção acadêmica e intelectual.
     primeiramente, e posteriormente          minha função de Fotógrafo, que venho a            ajudou substancialmente a desenvolver),
     Juliana Pontes - eu, sim, deliberada-    algum tempo desempenhando e desenvol-             posso solidamente aqui testemunhar, quando           Eu honestamente agradeço a todos
     mente sabia e imaginava que esta         vendo, na Vida.                                   atesto que minhas habilidades foram noto-            os envolvidos neste projeto - sem
     seria uma ótima oportunidade, tanto                                                        riamente melhoradas, tanto tecnicamente,             excessões: desde meus colegas de
     de desenvolvimento acadêmico,            Tendo a Universidade FUMEC e o projeto ASAS                                                            trabalho e também alunos da Univer-
                                                                                                quanto qualitativamente, como a pouco
     quanto profissional.                     como plataformas de ações e articulações,                                                              sidade FUMEC, passando pelas co-
                                                                                                pontuei:
                                              minha trajetória acadêmica e profissional ficou                                                        ordenadoras Natacha Rena e Juliana
     Porém, não concebia a tamanha            positivamente marcada entre antes e depois        • uma maior desenvoltura na capacidade de            Pontes, parceiros e profissionais de
     distância que estava prestes a percor-   deste intenso ano, onde muitas dificuldades       realizar registros fotojornalísticos foi alcançada   diversas áreas envolvidas voluntários,
     rer, em caminhos e experiências,         construtivas marcaram minha presença no           por mim, como resultado desta experiência            patrocinadores e responsáveis afins,
     intrincados, dentro deste projeto de     grupo de trabalho, que envolveu e envolve         com o projeto, com o aprimoramento de                até, finalmente, à razão de tudo que
     extensão.                                alunos bolsistas, coordenadores, professores,     habilidades composicionais e técnicas, assim         aqui é apresentado : este grupo de
                                              voluntários e, especialmente, um grupo pe-        como as do cunho “relação corpo a corpo”,            alunos e alunas que muito trouxe-
     Cansativos e recompensadores -           culiar de alunas e alunos, todos provenientes     com os objetos fotografados, uma vez que,            ram para nós todos, não somente
     em vistas de um aprimoramento            do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte,        intensamente, semana a semana por mais               levando para si um valioso empode-
     pessoal, no âmbito sócio-cultural,       MG, que representaram o início de novos           de um ano - a fio - e in-loco, estive clicando e     ramento de vida e profissional, mas
     aliado ao meu já citado almejado         horizontes, no campo que diz respeito ao          editando imagens de todo o processo desen-           deixando, em contrapartida, extenso
     avanço profissional, em novas bases      entendimento sociológico que tanto gosto de       volvido pelo grupo;                                  terreno de atuação e experiências
     de aplicações teóricas e articulações    explorar, e aplico no que desenvolvo, profis-                                                          práticas e vivenciais, enriquecedores
     práticas, nunca antes por mim prova-     sionalmente, dentro do que venho criando e        • um desenvolvimento de relações e contatos
                                                                                                                                                     para qualquer um de nós, emer-
     das, até então. Como Fotojornalista      intuindo em minhas visões do que costumo          de trabalho mais sólidos, mais articulados, e
                                                                                                                                                     gentes profissionais, em vias de
     deste longo e multidisciplinar projeto   chamar ‘fotojornalismo poético’.                  conseqüente enriquecimento de meu cur-
                                                                                                                                                     solidificação conceitual, cultural e
     de extensão da Universidade FUMEC,                                                         rículo, como profissional da Imagética e de
                                                                                                                                                     humana, em nossas áreas de atuação
     em parceria com o Banco Real e a         Conversas, amizades formadas. Experiências        Design Gráfico ;
                                                                                                                                                     individuais. Certamente assim o foi, e
     ONG UNISOL, pude desempenhar             trocadas e co-vividas. Momentos solidificados
                                                                                                                                                     continua a ser, para mim.

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oficinas, biblioteca, cantina, etc, fazendo
     felipe sales melo franco . design de produto                                                                                                           nossos olhos e aos moradores da
                                                                                                       analogias com os percursos da favela; os dois        comunidade, de exaltar o que há de
     No período de um ano só aprendi.                                                                  contextos (favela e universidade) possuem            bom na favela, trazendo novas pos-
     Não foi fácil como pensei, o que é                                                                seus atalhos, caminhos peculiares, traçados e        sibilidades de renda e trabalho.
     muito bom! Aprendi a respeitar o                                                                  percursos, becos e trajetos sem saída.
     próximo, a ver realidades e mundos                                                                                                                     Outro ponto fundamental é a
     distintos no mesmo lugar. Aprendi a                                                               E como será viver na favela onde todo mundo          multidisciplinaridade que existe no
     pintar, fazer contas, criar, sorrir, dizer                                                        é igual e “alguns não existem”, segundo relato       projeto, proporcionando um apren-
     não. Aprendi que, por mais tarde que                                                              de uma moradora sobre os constantes “gatos           dizado mútuo pela união de diversos
     seja, conseguimos mudar, aprender,                                                                de luz” feitos: “sabe como eu descobri que o lugar   conceitos e preceitos, e também a
     ter esperança. Aprendi a planejar,                                                                em que eu moro não existe no mapa? A CEMIG           eficácia da ação, contribuindo para
     executar, trabalhar em equipe.                                                                    cortou a luz, fizemos gato, daí levaram embora, e    uma melhoria efetiva da comuni-
     Aprendi a ajudar, ser ouvido e ouvir.                                                             fizemos gato de novo, falaram que o Beco Gomes       dade do Aglomerado.
                                                                                                       não existe no mapa, será que eu não existo?”.
                                                                                                       Portanto são muitas as lucubrações sobre as
                                                                                                       inconstâncias da favela, é terra de ninguém,
                                                                                                       logo, de todos.
     joanna sanglard . design de produto
                                                                                                       Do individual ao coletivo, metodologias
     Fazer parte do projeto ASAS é para           utilizar minha profissão, todos esses anos de fac-   começam a ser propostas por eles mesmos,                       inserir foto
     mim uma experiência a que nada               uldade para ajudar pessoas menos favorecidas,        um sinal de que enxergam que o ponto gera-
     é comparável. Primeiramente a                pois ajudando os outros eu ajudo a mim mesma,        dor (e inspirador) de todo esse processo é nada
     estranheza e ao mesmo tempo a                uma vez que estamos todos interconectados.           mais que seu contexto e suas possibilidades. É
     curiosidade de poder transformar                                                                  interessante ver como mergulham no mundo
     uma realidade que é tão diferente            Nas primeiras visitas ao Aglomerado me intriga-
                                                                                                       em que sempre viveram, mas de uma forma
     da minha, e através deste processo           va pensar em como aquele império é construído
                                                                                                       diferente agora.
     de transformação vir a me conhecer           dia a dia, retalho a retalho, com seus constantes

     cada dia melhor. Acredito que a              puxados e achados das ruas. Outra experiên-          A cada dia dessa vivência surgem novos
     vivência dessa alteridade entre mun-         cia significativa foi o vice-e-versa, quando as      questionamentos, caminhos e possibilidades,
     dos tão diversos possibilitou definir        pessoas do Aglomerado vieram a primeira vez          dando a oportunidade a nós, estudantes, de
     minha linha de atuação no mercado            à universidade conhecer o meu então “mundo           atuarmos na realidade que está debaixo dos
     como designer. É muito bom poder             formal”. Percorremos laboratórios, salas de aula,

70                                                                                                                                                                                                71
rafael barbosa . design gráfico
     Comecei a participar oficialmente do      mais consolidada e o papel de cada integrante
     projeto de extensão ASAS no dia 4 de      está sendo bem determinado pelas moradoras
     março de 2008, participei do projeto      do Aglomerado da Serra. Tenho o objetivo de
     até o fim do mês de junho e retornei ao   contribuir não só na área de design gráfico, da
     grupo em outubro. Analisando minha        qual fui encarregado, mas também nas relações
     experiência, percebo que o projeto        entre os alunos da universidade e os moradores
     tem ótimas perspectivas. O grupo de       do Aglomerado da Serra, pois percebo que o
     trabalho constituído pelos alunos da      trabalho em grupo e o convívio entre pessoas
     FUMEC é bem dividido e as tarefas são     de realidades sociais tão diferentes é um desafio
     delegadas de acordo com o perfil e a      diário. Tenho ótimas perspectivas para esse
     habilidade de cada voluntário. Posso      trabalho e acredito que, se o empenho de cada
     relatar que durante os quatro meses       envolvido for desenvolvido em conjunto com o
     em que fiquei fora o grupo evoluiu        grupo, realizaremos as metas do projeto ASAS
     muito, a associação “Aglomeradas” está    com excelência.




     rodrigo franco mattar . design de produto
     Vejo esse projeto social como uma         pesquisar materias, tendências e funcionalidade
     excelente oportunidade de colocar         para os produtos desenvolvidos. Paralelamente
     em prática muitos conhecimentos           ao objetivo de fazer com que as aglomeradas,
     adquiridos no meio acadêmico,             após o projeto, possam continuar desenvol-
     podendo ser usados de uma forma           vendo um trabalho inovador e de uma forte
     profissional, já que o ASAS funciona      identidade de pessoas que vivem o dia-a-dia de
     como uma pequena empresa, com             uma periferia, acredito que o sucesso futuro será
     projetos, produtos, prazos, público-      de todos os envolvidos, pois o convívio e a troca
     alvo e profissionais com cargos e fun-    de experiências não só colaboram para a estru-
     ções distintas. O desafio de preparar     turação de uma comunidade como também
     as aglomeradas para um mercado            enriquecem o conhecimento dos estudantes e
     consumidor que é cada vez mais            mestres, que colherão os frutos dessa vivência,
     exigente faz com que os bolsistas se      adquirindo uma visão muito mais ampla e um
     dediquem ao máximo, tendo que             repertório mais consistente.
72                                                                                                 73
03    paralelas   atividades complementares




 74                                           75
eco-bags
joana sanglard | Graduada em design de produto pela Universidade FUMEC


O primeiro produto desenvolvido pela equipe                       pelo caminho peças, retalhos e superfícies que
do grupo ASAS foi uma coleção de eco-bags,                        possam ocasionar uma proteção quando unidas,
acompanhando uma tendência ecológica e política                   as eco-bags são fruto da hibridização de diversas
mundial contra o uso das sacolas plásticas para                   técnicas, conceitos, histórias e memórias.
compras de supermercados. A produção dessas
bolsas fez parte da disciplina optativa dos cursos de             Entre vielas e becos, arranjos e acasos, a vida de
design Artesanato e Design. Alunos da disciplina                  quem mora na favela está entregue ao acaso,
construíram workshops semanais numa seqüência                     não importa o fim, vive-se da incompletude.
lógica que auxiliasse na criação e confecção das                  Essa fragmentação e o senso de incompletude
bolsas.                                                           estão fortemente presentes nos produtos
                                                                  desenvolvidos. Desenhos inacabados, costuras
A elaboração conceitual presente na construção                    enviesadas, borrões, sobreposições de bordados,
dessas bolsas se assemelha à forma de surgimento e                colagens e estêncil.
desenvolvimento das favelas através da “bricolagem”,
explicada por Paola Berenstein no livro “Estética da              A partir de cada uma das oficinas trabalhadas
Ginga”;                                                           coletivamente (pontos, linhas, rabiscos, cores,
                                                                  texturas, colagens, observação, modelagem,
“O acaso é parte integrante da idéia de bricolagem; é o           apliques, estampas e bordados) as bolsas criadas
incidente, ou seja, o pequeno acontecimento imprevisto,           por cada uma das aglomeradas tomaram formas
o “micro-evento”, que está na origem do movimento.                únicas, apresentando tanto uma expressividade
Bricolar é, então, ricochetear, enviesar, zigue-zaguear,          singular, quanto um produto contaminado
contornar.” (JACQUES, apud BERENSTEIN, 2003, p.24)                pelas trocas resultantes das orientações dos
                                                                  professores, dos alunos da disciplina, dos colegas
Assim como os barracos nas favelas são construídos                da favela e dos alunos bolsistas do projeto ASAS.
aos poucos e à medida que as pessoas encontram



     76                                                                                                                77
parceria raiz da terra                                                                     Coleção Natureza na Favela

cassius silva | Gestor de Comércio, Comunicação e MKT da marca Raiz da Terra Brazilian Nature Wear


A marca Raiz da Terra Brazilian Nature Wear tem
como proposta o desenvolvimento de produtos de
moda de forma ética, apostando, desenvolvendo e
apoiando projetos sociais e ambientais.

No início de 2008 tivemos a oportunidade de
conhecer o Projeto ASAS, e a partir daí iniciamos essa
parceria que já começa a render frutos. Traçamos
como objetivo o desenvolvimento de uma coleção
de camisetas cujo tema escolhido foi “a natureza na
favela”, que foi lançada no Paris Ethical Fashion Show
2008 no mês de outubro.

As expectativas foram superadas pelo poder
criativo mostrado pelos integrantes do projeto no
desenvolvimento das estampas, pelo resultado
atingido nas peças piloto e no retorno já iminente
por parte do mercado. A marca já planeja novos
trabalhos em parceria com o Projeto ASAS,
apostando cada vez mais nesse imenso potencial
criativo, no desenvolvimento de um mix de
produtos com alto valor agregado que possam ser
comercializados pela Raiz da Terra BNW em suas
coleções.




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concurso almofadas
bruno oliveira | Cursando 8º período de Ciência da Computação na Universidade FUMEC e 1º período de Artes Plásticas na Guignard   na casa de uma das alunas para bordar (e só então aprendi a técnica!). As aglomeradas abraçaram o projeto
                                                                                                                                  de tal forma que me surpreendeu. Na segunda-feira nos encontramos novamente na Universidade FUMEC,
                                                                                                                                  fotografamos as almofadas (fruto da noite em claro de algumas delas) e enviamos o material para o concurso.
O projeto das almofadas surgiu com a proposta                        dos tratores que estavam passando por cima
                                                                                                                                  Apesar de as almofadas não terem sido selecionadas para o concurso (acreditamos que o conceito das
do 1º Prêmio do Objeto Brasileiro. As alunas do                      das estruturas do “morro”. Após mais pesquisas
                                                                                                                                  mesmas estava demasiadamente polêmico para tal), o processo foi essencial para a compreensão das relações
projeto já haviam criado uma série de eco-bags                       (envolvendo inclusive frotagens das rodas dos
                                                                                                                                  dentro do grupo e das próprias práticas e metodologias do artesanato-design.
(com bordados, apliques e pinturas com êstencil),                    tratores da obra), desenvolvemos o conceito
mas estávamos pensando em enviar um projeto                          das almofadas, cartelas de cores, materiais e
criado e desenvolvido pelas alunas com as                            acabamentos... Só havia um problema: já era
técnicas de estamparia que estavam aprendendo.                       sexta-feira e a data limite para o envio dos
Começamos a discutir os conceitos relacionados                       documentos para o concurso era na segunda-
ao Aglomerado e às obras que a prefeitura estava                     feira. Não tínhamos telas gravadas, nem mesmo
fazendo na região. Esse projeto, o “Vila Viva”, envolvia             esticadas, o tecido não estava cortado, enfim,
a modificação da malha viária e a construção de                      não tínhamos nada pronto. Após uma conversa
conjuntos habitacionais e iria movimentar, segundo                   sincera com as alunas do projeto, que estavam
dados da URBEL (Companhia Urbanizadora de Belo                       bastante animadas com a idéia de começar a
Horizonte), cerca de 50 mil pessoas. As opiniões                     fazer produtos, estabelecemos um cronograma
acerca de tal projeto eram as mais diversas no                       intenso para estamparia e bordado, que se
grupo: havia aquelas que acreditavam que o fim                       estenderia por sexta-feira, sábado e domingo
dos becos iria trazer mais segurança, além de                        inteiros. Foi então que pude perceber que,
tornar melhor o sistema de moradia e a oferta de                     apesar de todos os problemas de processos
lazer e cultura, e havia aquelas que acreditavam                     em grupo, as alunas do ASAS iriam dar conta
que a mudança para “favelas verticais” seria uma                     do recado. Após uma intensa sexta-feira de
forma de controle da população e que iria apenas                     gravação de telas e preparação de tintas e
piorar a situação. Após duas semanas de discussão                    modelagens, passamos o sábado estampando as
e pesquisas sobre o assuntos, durante uma aula                       almofadas e iniciando a costura. Já no domingo,
de desenho, surgiu a idéia desenvolver a imagem                      com a Universidade fechada, nos encontramos



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muros estampados
juliana pontes | Professora da disciplina Núcleo de Projeto II da Universidade FUMEC                               A ação teve ampla repercussão na mídia impressa local,
                                                                                                                   o que estimulou e valorizou muito a comunidade em
                                                                                                                   questão e os próprios estudantes da Universidade. A
A atividade de pintura e colagem de imagens nos muros da Escola Municipal Padre Guilherme Peters foi mais
                                                                                                                   realização do projeto contou com o desfile da coleção
um desdobramento acadêmico do projeto ASAS UNISOL-BANCO REAL. A proposta surgiu na disciplina Núcleo
                                                                                                                   “Arte Favela” da aluna de moda da Universidade criada
de Projeto II, do curso de Design Gráfico, que tinha o foco no design de superfícies e editorial. A princípio,
                                                                                                                   com estampas produzidas pelas artesãs do projeto
o tema seria a escola municipal e o Aglomerado. Porém, durante a nossa primeira visita de campo, tivemos
                                                                                                                   ASAS e apresentada por jovens modelos do próprio
a idéia de realizar uma oficina com as crianças e os adolescentes da escola municipal para coletar material
                                                                                                                   Aglomerado. Essa atividade serviu como encerramento
iconográfico e textual para servir de fonte de criação para os projetos acadêmicos. As oficinas aconteceram no
                                                                                                                   do dia de pintura dos muros, e teve a presença dos
Aglomerado, onde dividimos os jovens por grupos de idades e afinidades temáticas. Os assuntos trabalhados
                                                                                                                   pais dos alunos da Escola Padre Guilherme Peters,
giravam em torno do próprio cotidiano dessas crianças e desses adolescentes, como, por exemplo, o tema
                                                                                                                   reforçando o vínculo entre a comunidade e a escola.
“aconteceu comigo e foi legal”, ligado a memórias lúdicas e familiares. Outros temas surgiram, porém ligados
                                                                                                                   Enfim, a parceria foi um marco como resultado e como
à atividade de estamparia e ao design, como pictogramas, estampas modulares, colagem e grafite. As oficinas
                                                                                                                   experiência acadêmica e atividade extensionista. A
foram extremamente produtivas, gerando oportunidade de aprendizado de novos conteúdos para os jovens
                                                                                                                   amplitude da ação na Universidade teve repercussão
da comunidade e uma vivência inédita para os estudantes da Universidade.
                                                                                                                   também no Diretório Acadêmico (D.A.), que financiou a
O envolvimento dos alunos da escola municipal no processo criativo das imagens teve a finalidade de                compra dos materiais necessários e os seus integrantes
despertar o respeito pela estrutura física da escola, pois esta é sempre alvo de depredações, sujeiras e furtos.   participaram ativamente da produção no Aglomerado.
A intenção principal era expor nas paredes internas e nos muros do ambiente escolar a própria narrativa            Os muros deixaram de separar para tornarem-se espaços
dessas crianças, fazendo com que elas tenham orgulho das imagens por representarem sua história de vida.           de proximidade e interação.
Essas imagens também reforçam a auto-estima do grupo, apresentando de forma gráfica, atual e viva as
suas memórias e fantasias. Outro fator responsável por gerar maior respeito pelo resultado do trabalho foi a
participação ativa das crianças e dos adolescentes do Aglomerado na pintura dos muros e fixação dos lambe-
lambes. O envolvimento dos jovens na montagem do projeto tornou-os conscientes do trabalho necessário
para se realizar tal atividade e do valor desse tipo de intervenção.




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| depoimento | alisson dos prazeres



     Estar no Aglomerado durante os dias de realização do projeto e,
     anteriormente, nas visitas guiadas foi uma experiência bastante
     enriquecedora. Até então era nebuloso para mim a maneira como
     o design poderia trazer mudanças significativas para a vida das
     pessoas, a ponto de tomar uma dimensão social. Conviver com os
     alunos da escola Padre Peters e a comunidade, além de enriquecer
     minha metodologia de projeto, deixou evidente o tamanho da
     nossa responsabilidade, como designers, na construção e no
     desenvolvimento da sociedade à nossa volta.

     A troca foi mútua. Enquanto nós, estudantes de Design Gráfico da
     Universidade FUMEC, ensinávamos noções básicas de design para
     os alunos, como composição e teoria das cores, aprendíamos de
     maneira mais eficaz com o nosso público, pois estávamos inseridos
     naquele meio. Mas, acima de tudo, trocávamos vivências e novos
     conceitos.

     Levamos nossa formação acadêmica como uma referência positiva.
     No futuro, podemos ter designers derivados do Aglomerado,
     pelo fato de termos atraído a atenção das pequenas mentes para
     essa atividade. Também nesse período de inserção, por receber
     mais informações sobre todo o contexto de vida do Aglomerado,
     pudemos quebrar idéias clichês e nos livrar de qualquer preconceito
     que estivesse relacionado com elas.

     Poder sentir a emoção das crianças durante o processo do projeto, do
     qual as mesmas participaram ativamente, é algo muito gratificante.
     Mais gratificante ainda é aumentar nosso repertório cultural com essa
     comunidade detentora de tanta riqueza que para nós era, até então,
     oculta por trás do morro.




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| depoimento | fernando vasconcelos



     A oportunidade que tive ao desenvolver esse projeto para
     a escola, um ambiente tão importante na criação de uma,
     e de muitas pessoas, foi muito empolgante, despertou em
     mim uma vontade de misturar a capacidade de impacto
     das intervenções urbanas, do grafite e da estética e as
     mensagens lúdicas de desenhos coloridos e “alegres”.

     A abordagem, os materiais, a idéia e a localização foram
     tarefas relativamente tranqüilas, mas quando fui realmente
     grafitar e colar as imagens nos muros, foi uma novidade
     enorme para mim, que nunca tinha realmente feito um
     grafite com apoio de tantas pessoas, com empolgação e
     descontração, e uma determinação de saber estar fazendo
     algo que vai comunicar tanta coisa.

     Quando recebi elogios e a aprovação das pessoas que
     vivenciam a escola, de pessoas que trabalharam comigo
     nos muros, e dos alunos que tanto se empolgaram, foi uma
     recompensa enorme, eu nao queria parar mais. Queria ficar
     ali o dia todo pintando muros, colocando em tinta uma
     mensagem positiva para quem quisesse e pudesse enxergar,
     colocando o conceito em forma e cor, dando vida ao
     projeto desenvolvido na faculdade.

     Foi uma experiencia que me abriu um horizonte novo,
     de novas idéias e caminhos a seguir. Faria tudo de novo
     se pudesse, e passaria adiante toda a experiencia a quem
     interessar. Agradeço principalmente à professora Juliana por
     acreditar em mim e me motivar quando achava que não
     conseguiria.




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| depoimento | reinaldo rocha



     A vista era maravilhosa!

     O projeto de núcleo com a Juliana nos levou para o topo do
     mundo, essa era a impressão que dava lá de cima. Os sorrisos
     das crianças foram as maiores recompensas, e logo depois os
     lanches e a satisfação de um trabalho tão bonito.


     Foi muito marcante pra mim porque ver o trabalho sair da
     faculdade e atingir de maneira tão carinhosa as crianças
     do colégio Peters do Aglomerado ensina que é difícil ter
     oportunidade de aprender, que nossas atitudes podem
     realmente influenciar outras pessoas. E, quando eu falo de
     atingir as pessoas com nossas ações, não falo só das crianças,
     mas do exemplo que me foi dado pelo pessoal do projeto.
     O desenho no muro é só uma marca de uma atenção muito
     especial que o projeto do Sol mostrou.


     Por isso aplaudo de pé todos que participaram e agradeço
     pela oportunidade com saudades de lá de cima.




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| depoimento | karina leite




     DESFILE COLEÇÃO ARTE FAVELA NA ESCOLA PADRE GUILHERME PETERS

     A coleção Arte Favela foi desenvolvida como projeto de Trabalho Final de
     Graduação para a conclusão do curso de Design de Moda da Universidade
     FUMEC. Para a coleção foram criados 15 looks inspirados no street wear com
     aplicações de serigrafias a partir de estampas desenhadas pelos alunos do Projeto
     ASAS que mostravam a identidade de cada participante.

     Depois da coleção pronta, foi feito um desfile na Escola Padre Guilherme Peters.
     Para o desfile convidamos como modelos as meninas moradoras do Aglomerado
     da Serra, que ficaram super animadas com o convite.

     Durante o dia da apresentação, na preparação do desfile senti que as meninas
     ficaram super interessadas pelo assunto, por toda a organização de um desfile,
     pois muitas delas nunca nem tinham presenciado algum. Nos ensaios tentavam
     da melhor forma possível aprender a desfilar da maneira correta para que na hora
     da apresentação para todos fizessem certo.

     Achei muito legal o interesse que as meninas mostraram e a forma como se
     comportaram. Com essa oportunidade que demos para as meninas vimos até
     alguns talentos na favela, algumas meninas lindas que com a oportunidade certa
     poderiam revelar um grande talento.

     Agradeço muito a Juliana e Natacha pela oportunidade de mostrar meu trabalho
     para todos aqueles que participaram do meu projeto e a forma como repercutiu
     esse desfile em jornais de grande circulação.

     Agradeço muito também pelo aprendizado maior que tive com todos do Projeto
     ASAS, que com certeza vou levar sempre comigo.

     Muito obrigada!




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| depoimentos | D.A.




             Foi um encontro gratificante, de realidades distintas.
             é impressionante a alegria que uma coisa tão simples, como
             a pintura de um muro, pôde proporcionar àquelas crianças.
             Para nós foram algumas horas do dia; para eles uma
             inspiração para uma vida melhor, mais colorida, um sopro
             de confiança e esperança. Esperança real, tão tátil quanto
             as mãos sujas de tinta e os pincéis que deram vida ao dito
             muro, que os acompanha diariamente; esperamos, assim,
             que todas as coisas boas que “colocamos” nele possam
             também acompanhar as crianças no dia-a-dia.

             | Ingrid Sander e Diego Silva |



Consta que o significado do verbo aglomerar é amontoar, acumular,
empilhar, reunir, apinhar. Acredito que esse projeto resultou num
aglomerado: muitas crianças, muitas mãozinhas inexperientes, muitas
cores e emoções variadas sobre a aventura de pintar um muro, um
muro que todos vão ver! Um muro-referência para essas mesmas
crianças, que provavelmente nunca tiveram muita experiência no que se
refere à expressão de arte. Fui levada a esse projeto, como membro do
Diretório Acadêmico dos estudantes de Design, da FUMEC, mas minha
participação não ficou restrita ao registro fotográfico ou à colaboração na
tarefa da pintura. Aprendi a apreciar os traços trêmulos, os escorridos e as
falhas como parte integrante e importante de um trabalho que se propôs
a ser coerente: foi um trabalho para as crianças e das crianças e, por isso,
ele merece ser respeitado.

| Rachel Grandinetti |




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oficina pinhole                                                          | Outras maneiras de ver as coisas |

alexandre lopes | Fotógrafo, com especialização em Pesquisa e Ensino no Campo das Artes Plásticas pela Escola Guignard, professor   uma caixinha de fósforo e, em contrapartida, do lado       laboratório de fotografia, onde os papéis
dos cursos de Graduação em Design de Moda e Design Gráfico e do curso de Pós-Graduação em Design de Moda da Universidade            externo desses ambientes ter muita luminosidade. Com       fotográficos que ora estavam nas pequenas
FUMEC. Professor Colaborador do projeto ASAS-UNISOL/Banco Real.
                                                                                                                                    outros pequenos detalhes conseguimos exemplificar          embalagens de filmes, já fotografados, estão
                                                                                                                                    o ato físico da formação da imagem, gerando assim,         prontos para o processamento fotoquímico.
Um exercício do olhar: é assim que determino essa oficina cuja função principal, além de esclarecer a                               sem dúvida, um mínimo de sensibilidade e emoção aos        E é nessa hora que a mágica acontece. Tanto
formação da imagem produzida pela condução da luz através de um pequeno orifício transformando                                      participantes.                                             para os que estão experimentando pela
em imagem visível, é também exercitar o olhar. Aprender a ver o mundo por outros pontos de vista                                                                                               primeira vez, como para quem já a conhece de
que não sejam tão gratuitos e passivos só porque estamos de olhos bem abertos. Pela função técnica o                                Uma vez esclarecidos tais princípios, os alunos desejam    tempos esse caminho e como para as pessoas
esclarecimento remonta a antigos meios de produção/comunicação. Só esses já dão muito que discutir em                               praticar, e dentro da proposta está a construção da        presentes: a novidade e o reconhecimento e a
sala de aula, mas nosso objetivo também é produzir imagens, imagens com objetos muito variados e de fácil                           câmera, seguindo os princípios da técnica de fotografia    aprendizagem de um processo de construção
reconhecimento. Nesse caso escolhemos uma pequena caixa de fósforos e outra pequena embalagem: a do                                 de Pinhole, conhecida mundialmente como uma                de imagem à moda antiga (fotoquímico).
próprio filme fotográfico.                                                                                                          espécie de fotografia artesanal, rústica, que necessita
                                                                                                                                    de pouquíssimos recursos para obtenção da imagem.          Mais uma vez remeto ao olhar este pequeno
Nesses dois objetos de uso cotidiano transformamos em pequenas caixas escuras com um orifício feito                                 Nesse momento nota-se um envolvimento fantástico           resumo, pois é nele que encontramos
por agulha e dentro desses colocamos materiais sensíveis: filmes e papel fotográfico. Com uma pequena                               por conta dos mais empolgados e daqueles que               mais uma vez a tradução da emoção pelo
passagem com metodologia audiovisual os alunos podem perceber que o domínio dessa técnica é                                         desejam obter uma foto com tais recursos. Mesmo assim      reconhecimento de algo que está bem perto
milenar, porém o uso dos materiais sensíveis remonta de algumas décadas a partir dos meados do sec. XIX.                            as dúvidas não cessam por completo e a enxurrada de        de nós e que a maioria desconhece. É nesse
Concluímos então que essa experiência não é tão nova assim, mas para quase a totalidade esse exercício                              perguntas é inevitável. Em meio à descontração pela        redescobrimento que fazemos com que outros
aconteceu pela primeira vez e diante dos próprios olhos com a execução dessa oficina.                                               construção de tal objeto, a imaginação aflora e questões   possam ter acesso. E é com este prazer que sigo
                                                                                                                                    corriqueiras se tornam grandes mistérios desvendados.      fotografando e agora multiplicando tais idéias e
O que de novo então vemos nisso? Novamente me remeto ao olhar. O olhar curioso, duvidoso, fantasioso,
                                                                                                                                    Estão todos prontos para fotografar.                       conhecimentos. Agradeço pela oportunidade.
angustiado, satisfeito ou talvez apenas emocionado das pessoas que participam do projeto e que agregam
qualquer informação bem-vinda. É, sem dúvida, uma experiência única. Parece que é tão complicado se                                 Passam-se uns quinze minutos e a turma retorna à
produzir imagem, seja ela fotográfica, cinematográfica, videografica, analógica ou digital. As mídias podem                         sala de aula com as devidas embalagens de filmes,
variar, mas a base para se fazer imagem é a mesma desde o princípio dos tempos. Basta ter as condições                              transformadas em câmeras pinhole, fotografadas
ideais. São elas: ter de um lado um ambiente com pouca luminosidade, seja ele uma grande sala de aula ou                            e prontas para mais uma incursão, dessa vez no




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passo-a-passo
confecção de pinhole em
caixa de fóforos

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                          06   07   08   09   10        11




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aglomeradas                                         | Imagens fotográficas em objetos de luz |

juliana pontes | Autora do artigo abaixo publicado no “Letras”, informativo do Café com Letras

                                                                                                               Em relação à intenção, a exposição Aglomeradas foi     A descoberta do produto de design ‘artesanal’
A exposição Aglomeradas traz as vilas do Aglomerado da Serra como território de referências. Esse repertório   pensada com um propósito muito claro: revelar às       despertou esses alunos para a possibilidade
comum aparece representado por instantâneos da vida cotidiana, registrados pela técnica de pinhole             próprias artesãs, autoras das imagens, como o seu      do exclusivo. Eles apostaram no diferencial das
em caixas de fósforo. As imagens, para um olhar desatento, não passam de cenas fugazes da vida diária,         universo particular pode se tornar uma experiência     luzes aplicadas uma a uma, de acordo com o
nada que mereça ser observado mais tempo do que pede a sua aparente banalidade. No entanto, para               estética compartilhada de forma coletiva. Quando       que a interação com a imagem proporcionava;
um observador atento essas trivialidades compõem perfis humanos e sociais, expõem questões de ordem            se trabalha a formação de um grupo lida-se com         nos tamanhos variáveis; no exercício dos
individual, mas também condições coletivas. Um grupo, questões compartilhadas, processos coletivos,            conhecimento, mas também com subjetividades,           acabamentos perfeitos, mesmo feitos por
são esses os grandes motivadores dessas caixinhas de luz que formam a exposição. O grupo, nesse caso,          com a dimensão humana latente. Não se pode             mãos humanas; e na pesquisa como chave
pertence ao projeto ASAS - Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra – que está em processo de               multiplicar o conhecimento sem tocar a experiência.    para soluções inventivas. Aqui o processo
capacitação em design e artesanato pela parceria da Universidade FUMEC e Universidade Solidária (UNISOL),      A experiência nos diz algo da natureza sensível do     de capacitação em design e artesanato nos
com patrocínio do Banco Real.                                                                                  aprendiz, inclui o ato de incorporar pensamentos       apresentou o seu caminho inverso: a observação
                                                                                                               na ação. Por outro lado, toda ação traz uma carga      do artesanato reaproximou o design da
Ao trabalhar com projetos sociais utilizando o design e o artesanato, percebo cada vez mais o quanto
                                                                                                               afetiva ligada à intenção. Nesse emaranhado            experência única de se produzir fora do padrão.
essas duas áreas podem percorrer caminhos muito próximos. Estou me referindo agora não só ao artesão
                                                                                                               surgem, de forma inesperada, imagens fantásticas       Padrão nesse caso se refere a linguagem e
despreendendo–se das suas regras e de modelos para explorar mais a inventividade e a autonomia criativa.
                                                                                                               da serra, descobertas justamente pela intenção do      fomas, mas também à repetição produtiva.
A minha reflexão se volta também para o aprendiz do design, que ainda não está totalmente contaminado
                                                                                                               olhar, ou melhor, pela invenção do olhar.              A intervenção do designer no ato produtivo,
pelas crenças tradicionais da área profissional, mantendo-se livre e aberto para as diversas formas em que
                                                                                                                                                                      nesse caso, foi determinante para o diferencial
o pensamento do design pode se manifestar. Aqui se encontra o verdadeiro entendimento da palavra               A antecipação do processo criativo e produtivo,
                                                                                                                                                                      estético e funcional dos produtos, assim
design: intenção, projeto e desenho. Em outras palvras, fazer design envolve o entendimento a priori do        característica específica da atividade de projetação
                                                                                                                                                                      como foi fundamental para elevar o seu valor
que se pretende; a antecipação da ação e a execução técnica. Atender a essa lógica aparentemente simples       do design, surgiu nesse projeto pelo envolvimento
                                                                                                                                                                      simbólico. Uma carga de significados foi gerada
singnifica produzir design, mesmo que essa definição a princípio pareça muito ampla.                           dos estudantes de design da Universidade
                                                                                                                                                                      pela condição de objeto único, que carrega
                                                                                                               FUMEC, bolsistas do ASAS, com um ‘fazer à mão’.
                                                                                                                                                                      uma imagem criada através de um processo




    98                                                                                                                                                                                                            99
extremamente particular e funciona como uma          do resultado inspirou a beleza da montagem: caixas
luminária, ou melhor, como um objeto de luz. O       pretas, simulacros do mecanismo fotográfico, onde
utilitário carrega vestígios, signos e se veste de   uma superfície se torna sensível pela luz. Pontos de
interpretações, modificando diretamente a relação    luz remodelando a imagem da realidade. Leds, fios,
entre usuário e objeto.                              transparências, formas iluminadas e somente uma
                                                     luz azul. Um ponto único de luz azul, como um jogo,
Quanto à execução técnica, as imagens iluminadas
                                                     mas do acaso. Essas preciosidades nos convidam
a que me refiro são fotografias realizadas com
                                                     à reflexão, provocada também pela disposição
a técnica pinhole. Em outros termos, são fotos
                                                     desses objetos de luz em meio ao burburinho do
feitas em caixinhas de fósforo perfuradas e com
                                                     Café, saltando na penumbra da cada ambiente,
um negativo no seu interior. Cada ‘aglomerada’
                                                     redesenhando a noite no morro, a noite na cidade.
montou sua caixinha e apontou para a sua
própria realidade. A precariedade da tecnologia
atende à necessidade de despojamento do olhar
e à condição de aprendiz. Os resultados são
gaiolas que surgem como cenários, gatos que
são personagens, vultos como paisagem, flores,
telhados, cores, manchas, pedaços de ruas, céu,
chão, fragmentos de casas, sombras. Cada parte
isolada é ao mesmo tempo pessoal e universal.
Os temas se aglomeram não por sentido ou
continuidade, mas por uma mesma origem, o
território em comum. Metáfora do morro, surgem
misturas de pessoas amontoadas, seus objetos,
suas marcas, seus barracos empilhados. A surpresa




    100                                                                                                     101
102   103
oficina de texto                                                          | Palavras do Cotidiano |
tailze melo | Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas. Coordenadora, em parceria com Renata Alencar, do curso      Na oficina Costuras do cotidiano: palavra é vida, buscamos refletir a palavra em todo o seu potencial semântico
de pós-graduação lato sensu “Processos Criativos em Palavra e Imagem” no instituto de Educação Continuada da PUC Minas. Professora   e estético. Na primeira etapa da oficina, sem utilizar uma terminologia lingüística/semiótica, conversamos com
da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte.
                                                                                                                                     as artesãs sobre a noção de signo verbal, metáforas, polissemias e redes semânticas. Utilizamos exemplos do
                                                                                                                                     cotidiano e ficou evidente a importância da palavra no mundo simbólico que tangencia a nossa existência. Na
“Vim pelo caminho difícil,                                               revela a dinâmica própria do nosso modo de                  segunda etapa da oficina, propusemos uma atividade orientada cujo objetivo foi organizar uma rede semântica
a linha que nunca termina                                                produção, ou seja, a desigualdade social inerente           com palavras relacionadas aos conceitos de cada produto criativo. A intenção foi apontar possibilidades
a linha bate na pedra,                                                   ao capitalismo.                                             criativas com palavras e identificar em quais projetos era coerente se valer dessa matéria expressiva. No último
a palavra quebra uma esquina,                                                                                                        momento do encontro, fizemos uma roda para a apresentação dos textos confeccionados durante a oficina.
                                                                         Do ponto de vista artístico, a favela sempre
mínima linha vazia,                                                                                                                  Foram apresentadas diferentes construções textuais: “palavras biográficas” que revelaram um léxico próprio,
                                                                         inspirou produções nas mais diferentes
a linha, uma vida inteira,                                                                                                           o olhar único de cada artesã para sua história. Cartografias subjetivas, mas todas elas costuradas pelo mesmo
                                                                         linguagens expressivas e foi representada de
palavra, palavra minha”. (Paulo Leminski)                                                                                            signo: favela.
                                                                         maneira diferente ao longo de sua história:
                                                                         nostálgica como nos versos de Noel Rosa,
A idéia de cotidiano foi central em todas as etapas do
                                                                         cheia de dignidade como no Favelário Nacional
processo criativo desenvolvido no projeto ASAS UNISOL.
                                                                         de Drummond e violenta como na prosa de
Por isso, as artesãs envolvidas, todas elas moradoras de
                                                                         Paulo Lins. A favela é multifacetada, por isso o
favelas, organizaram suas criações a partir de situações,
                                                                         importante é pensá-la para além dos clichês das
imagens e memórias situadas nas especificidades desses
                                                                         páginas policiais. Nada mais oportuno, então, do
espaços.
                                                                         que representações produzidas por gente que
Nesse sentido, trata-se de um projeto que propõe                         vive seu cotidiano entre becos e tetos de zinco.
um olhar para a favela no que ela tem de singular,
indicando, assim, uma abordagem que se opõe à idéia                      Nessa lógica, as artesãs participantes do
de pensá-la em suas ausências. No entanto, explorar                      UNISOL tiveram a oportunidade de traduzir, de
as idiossincrasias desses territórios não implica pensar                 modo criativo, cenas da favela. Nos produtos,
na lógica equivocada e ingênua do modelo de “cidade                      destacaram-se, muitas vezes, a dimensão poética
partida”. Sabemos que a cidade é uma tessitura, uma                      e o potencial inventivo.
malha urbana. A favela é “o avesso do cartão-postal” e




     104                                                                                                                                                                                                                                       105
04     registro das criações




 106                           107
ELZY




       109
ETELVINA XAVIER DE
ALMEIDA

Sou a 8ª filha de 14 filhos. Morei na roça
até os 13 anos de idade. Fiz da 1ª à 4ª
série do primário, trabalhei com meus
pais, ajudando a plantar feijão, milho,
arroz, quiabo e jiló, adorava nadar e
brincar no rio, era uma criança muito
espoleta. Aos 23 anos me aventurei com
um rapaz e tive uma gravidez inesperada,
mas depois de nove meses nasceu uma
linda menina, Daniela, que cuidei com
muito amor e carinho. Hoje ela tem 27
anos e me presenteou com dois lindos
netos, um de 12 e outro de cinco anos.
Sou uma pessoa que não espera para
as coisas acontecerem. Gosto de ajudar
sem medir esforços e tenho disposição
para fazer qualquer coisa. Sou honesta e
decidida. Sou cuidadora de idosos, faço
faxinas e estou muito feliz com meus
produtos desenvolvidos no ASAS.




SOBRE O PROJETO

Durante esse curso eu fiquei muito feliz de participar
do curso de serigrafia, não tinha noção de como
era. Foi importante para mim participar. Aprendi a
conviver com outras pessoas. O mais interessante
foi saber que o nosso produto iria para uma feira na
França. E falamos do local onde moramos, que é o
Aglomerado da Serra. Momento triste foi quando
houve uma votação para escolher um representante
para ir a São Paulo. Fui a escolhida, mas quando
chegou perto da viagem as professoras mudaram
de idéia. Tem componente que quando está na
FUMEC é uma pessoa, e fora é outra. Agradeço por
ter participado do curso. Foi muito gratificante para
mim. 110                                                 111
GABRIELA ESTEFANE

Sou Gabriela Estefane e tenho 16 anos.
Já fiz artesanato, moro no Bairro Serra,
na Primeira Água. Eu estudo, estou na
8ª série e sou vereadora mirim da Escola
Municipal Padre Guilherme Peters. Já
fiz vários cursos. Agora que eu entrei
no curso da FUMEC eu já sei fazer
várias coisas, já sei pintar, desenhar, e
fazer várias coisas, coisas que antes eu
não sabia fazer. Já fiz dois cursos de
artesanato, um junto com a Schirley, de
biscuit, e com a Suzaninha, de bijuteria.
Estou me empenhando muito para
acabar essa reta do curso para sair daqui
sabendo todas as informações. Agora
estou aprendendo a fazer lenços. Lenços
de cabeça, de braço etc.




SOBRE O PROJETO

Esse projeto foi ótimo na minha vida,
igual eu já falei, esse curso me ensinou
várias coisas, eu nunca imaginei que eu
ia ter uma oportunidade dessas, mas
agora eu sei como é bom esse curso. Nós
já fizemos várias coisas, fizemos bolsas,
fronhas e agora estamos fazendo uma
coleção, não é ótimo? Esse curso caiu
do céu. O nosso projeto tem um nome:
ASAS. Nós do projeto, conversamos,
fazemos reuniões, tentamos nos
entender. Quando o curso acabar vamos
abrir oficinas na escola, vamos ensinar
aos alunos tudo que nós aprendemos. Eu
não aprendi muita coisa, mas vou fazer
o possível para passar pra eles o que
    112
aprendi.                                    113
JOANA RODRIGUES
SOUZA

Meu nome é Joana Rodrigues Sousa,
tenho 51 anos, duas filhas e uma neta.
Moro no Bairro Mantiqueira em Venda
Nova. Adoro ensinar. Gosto de dar
cursos de pintura, bordado, tricô, crochê
e vagonite. Trabalho com costura em
geral e adoro o que faço. Queria ter a
oportunidade de ter um emprego com
carteira assinada e ensinar a pessoas o
que sei.




SOBRE O PROJETO

O curso para mim foi tudo de bom que
eu pude encontrar na minha vida. Graças
ao meu bom Deus, quando pensei que
estava só no mundo encontrei uma
família que me acolheu com bastante
amor e paciência. Agora não me sinto
mais sozinha. Vou ser grata o resto da
minha vida de ter encontrado alguém
que pudesse me ajudar tanto assim. Vou
guardar tudo que aprendi no fundo do
meu coração. Nunca vou esquecer cada
desenho rabiscado que eu aprendi a fazer
durante o curso, principalmente aqueles
que eu achava feios e as professoras
falavam que estava bonito, isso só ia me
incentivando cada vez mais a fazer mais
desenhos. Para sempre obrigada, com
muito amor de verdade.




    114                                     115
MARIA DO CARMO
ROCHA

Eu sou Maria do Carmo, 58 anos, casada
e mãe de dois filhos e avó de dois
netos. Sou artesã, dou aulas de pintura
em tecido e tapete de retalhos, faço
enfeites para pet shop: gravatas, lacinhos
e laçarotes para cachorros. Bordo, faço
crochê, gosto muito de desenhar. Já fui
oficineira da Escola Aberta na Escola
Municipal Maria das Neves e também na
obra social do Bairro São Lucas.




SOBRE O PROJETO

Durante o curso tive momentos felizes e
tristes. O triste foi a perda do meu tapete,
mas fiquei feliz com o reconhecimento
das professoras e estou muito satisfeita
com a máquina de costura, e fui
recompensada também com a notícia do
Cássio de que ia levar nossos produtos
para a França junto com os seus. O que
mais me marcou foram as caixinhas
pinhole com a exposição. No começo
achei que não ia dar em nada, por ser
simples a caixinha de fósforos. Ao revelar
as fotos saíram aquelas imagens borradas
e que no final deu um resultado de um
tamanho que todos ficamos surpresos.
Mas, se não fosse o esforço e ajuda do
Bruno, com certeza tudo isso não teria
acontecido. Estou muito feliz porque
aborrecimento foi um, felicidades foram
novecentas e noventa e nove.



    116                                        117
SCHIRLEY MARIA
ARAÚJO

Sou Schirley Maria Araújo, tenho 41
anos, solteira, natural de Aimorés/MG,
atualmente moradora do Aglomerado da
Serra. Sou artesã, artista plástica e atuo no
Projeto Escola Aberta como educadora
fazendo trabalhos artesanais como
biscuit, decoupage e reaproveitamento de
materiais. Sou umas das coordenadoras
do Coletivo Criarte, na área de produção
e cenário. Faço parte do Projeto
[RedeMuim] de Arte e cultura, 3ª edição
com apoio da lei de incentivo à cultura,
como auxiliar de produção e cenografia;
voluntária no Projeto Voe, (educação
Oral). Participo do Projeto Arena da
Cultura na iniciação de artes plásticas.
Projetos em andamento: voluntária
no centro de Saúde Nossa Senhora da
Conceição com atividades de tapeçaria
para terceira idade e a comunidade;
projeto na Igreja Nossa Senhora da
Conceição com artesanato.




SOBRE O PROJETO

O curso me trouxe um novo olhar dentro da perspectiva do design artesanal, ou seja, o artesanato que
faço hoje tem outro conceito. Tornei-me uma pessoa mais ponderada e confiante. O mais interessante
foi mesclar minhas atividades do Coletivo Criarte com o ASAS. Assim meus trabalhos foram tendo uma
forma mais prática e objetiva. As diversidades da FUMEC e da Favela ajudaram muito no relacionamento
do projeto ASAS. Quebrou um pouco essa questão de sanguessugas. Eles também perceberam que
temos coragem e opinião, que poucos sabem o que querem e como querem. Esses desafios me fizeram
perder o medo de mostrar quem sou eu. E surgiu a vontade de voltar a estudar. A moda é aprender
trocar experiências, formar e fortalecer redes. Tenho muito que aprender, o que aprendi vou multiplicar
com muito zelo. Somos um jogo de panelas: panela de pressão que fica cozinhando a ponto de explodir,
frigideira que só fica fritando as informações, caçarolas que fazem cada revirado, caldeirão que fica
fervendo caldos. Temos até uma chaleira, na sua calmaria, fervendo seu chá. Bom, sei que temos que ser o
mais118
      natural possível, assim seremos originais.                                                           119
SUZANA MARÍLIA DOS
ANJOS OLIVEIRA

Eu, Suzana, saí da minha casa com 14 anos
de idade em busca de uma vida melhor,
passei muitas dificuldades e barreiras,
mas graças a Deus hoje eu olho para
trás e vejo que meus obstáculos, lutas e
dificuldades todas ficaram para trás. Mas
hoje estou no ponto certo e agradeço
a Deus por ter conseguido os meus
objetivos. Sou formada em magistério,
manicure e também sei um pouco de
artesanato, bijuteria e costura. Gosto de
trabalhar no meu serviço porque estou
fazendo o que sonhei fazer um dia, de
ser uma professora. E fico na sala de
mimeografia onde passo o dia. Mais uma
vez agradeço a Deus por me dar essa
oportunidade de estar participando deste
curso porque aprendi novas idéias e tive
grande experiência porque Deus está no
controle e me dá força para ir até o fim.




SOBRE O PROJETO

No decorrer do curso posso dizer que
aprendi muitas coisas, como relacionar
com outras pessoas que possuem outras
visões de mundo. Quando comecei a
desenvolver muita criatividade, como foi
gostoso eu entender que de um simples
risco sairia muitas coisas bonitas, mas
foram com as várias pesquisas que eu
cheguei nesse objetivo.




    120                                     121
122   123
05     portfolio asas




 124                    125
. gatos de luz .

                                        Todos os lugares precisam de luz e essa pode vir
 autora | elzy nunes de oliveira lima
                                        de um imenso céu durante o dia ou até da mais
 produto: luminária                     simples luminária durante a noite. Este produto
 material: tricoline
 técnicas: costura e serigrafia         representa a importância da luz na vida de cada um.
                                        No Aglomerado quem não possui luz faz o possível
                                        e o impossível para consegui-la. Muitas vezes não
                                        sabemos ao certo de onde vem a energia da nossa
                                        luz, só sabemos que precisamos dela, mais do que
                                        qualquer outra coisa.




 126                                                                                          127
. ganso no asfalto .

                                          A temática explorada para meu produto foi o ganso
 autora | etelvina xavier
                                          no asfalto, procurei trabalhar com algo que não tinha
 produtos: jogo americano e porta-copos   no mercado. Onde moro encontro gansos que ficam
 materiais: brim
 técnicas: costura e serigrafia           na rua, o que me chama a atenção é o fato de esses
                                          animais viverem em um lugar onde não tem água
                                          para nadar. Em minhas pesquisas descobri que na
                                          Roma Antiga um exército foi salvo graças ao grasnar
                                          de dezenas dessas aves, revelando-os como verda-
                                          deiros seguranças.




 128                                                                                              129
. coco babão .

                                      O título do meu trabalho foi o coco babão, que é um
 autora | joana rodrigues de souza
                                      coco comestível. A fruta amadurece quando o coco
 produtos: avental, luvas e pegador   está seco. A castanha é mais gostosa do que o caldo
 material: brim
 técnicas: costura e serigrafia       do coco maduro. Escolhi falar sobre o coco babão,
                                      pois é uma fruta pouco conhecida e muito presente
                                      no Aglomerado. Outro motivo é o modo com que
                                      as pessoas o retiram do pé, é interessante perceber
                                      quando todo mundo se reúne com um pedaço
                                      grande de madeira e começa a cutucar os coquinhos
                                      no pé, todos unidos pelo mesmo objetivo.




 130                                                                                        131
. natureza na favela .

                                    Este produto representa os lares de quem vive,
 autora | maria do carmo da rocha
                                    mora e sobrevive na favela. As casas se misturam às
 produtos: almofadas                árvores, as árvores se misturam às janelas e essas por
 materiais: brim
 técnicas: costura e serigrafia     sua vez se misturam às folhas. A realidade é que no
                                    morro tudo se mistura e se transforma em Aglo-
                                    merado.




 132                                                                                         133
. toy-beco .

                                              Este produto representa o dia-a-dia dos becos e
 autora | suzana marília dos anjos oliveira
                                              vielas do Aglomerado da Serra e a convivência do
 produtos: almofadas                          beco onde moro. Através da toy-art, representei a
 materiais: feltro
 técnicas: costura e serigrafia               realidade e a fragilidade de cada personalidade. As
                                              letras surgiram da pesquisa feita no livro “Tipografia
                                              e elemento do Cotidiano da Favela”. Nessa procura
                                              encontrei conceitos como: casas, escadas, gatos de
                                              luz, praças, espaços abertos e ruas de terra e asfalto.
                                              Toy-art é uma forma de representar os tipos de
                                              violência entre os becos e as vielas do Aglomerado
                                              da Serra. Não há necessidade de expressar com
                                              palavras, basta observar o toy com a mesma sutileza
                                              de sua criação.




 134                                                                                                    135
. muros e cercas .

                                                 Este tema representa um pouco da minha vida.
 autora | shirley maria araújo
                                                 Fui cercada de muito zelo pelos meus pais. Por ter
 produto: cadernos, bloquinhos, envelopes        uma aparência frágil, mantive esses muros e cercas
 material: papel calandrado, artesanal e reci-
 clato, fio encerado                             em minha vida durante muito tempo. Hoje em um
 técnicas: encadernação e serigrafia             mundo diferente, misto e rico de diversidade, uso
                                                 esses muros e cercas para expressar a minha arte.
                                                 Muros e cercas são mantidos para organizar uma
                                                 sociedade, mas muitas vezes parecem desorga-
                                                 nizar o espaço público. Um aglomerado de lixo se
                                                 transforma em cerca e muros, expressão artística que
                                                 quebra todas as fronteiras e diz para o mundo: “Vista
                                                 sua alma todos os dias”.




 136                                                                                                     137
138   139
Este catálogo foi composto em Myriad Pro.
O miolo é impresso em Reciclato 90g.
A capa em papel kraft 300g com aplicação
de relevo seco. Impressão e acabamento
por Artes Gráficas Formato. Belo Horizonte,
Minas Gerais, em junho de 2009

Catalogo ASAS 2009

  • 1.
    Natacha Rena |Juliana Pontes (orgs.) ARTESANATO SOLIDÁRIO NO AGLOMERADO DA SERRA ARTESANATO SOLIDÁRIO NO AGLOMERADO DA SERRA ARTESANATO SOLIDÁRIO NO AGLOMERADO DA SERRA
  • 3.
    Natacha Rena |Juliana Pontes (orgs.) ASAS . Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra
  • 4.
    FACULDADE DE ENGENHARIAE ARTESANATO SOLIDÁRIO NO AGRADECIMENTOS ARQUITETURA - FEA AGLOMERADO DA SERRA - ASAS Anderson Matos . Cleonice Bráz Reitor Diretor Geral Professora Coordenadora da Silva . Débora Gonçalves de Prof. Antonio Tomé Loures Prof. Luiz de Lacerda Júnior Natacha Silva de Araújo Rena Oliveira . Igor Rios . Jaqueline Dias Juliana Myhra Karina Leite . Patrícia Vice-reitora Diretor de Ensino Professora Participante Aun . Pedro Moraes . Tânia Porto Prof.ª Maria da Conceição Rocha Prof. Lúcio Flávio Nunes Moreira Juliana Pontes Ribeiro Thiago Bones . Vinícius Glico Patricia de Aguiar Paes . Meninas Pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Extensão Diretor Administrativo-Financeiro Técnicos da cozinha: Eliane Magalhães (Lili), Prof. Eduardo Martins de Lima Prof. Fernando Antônio Lopes Reis Dimas Pereira Guimarães Iva e Marta. Parceria: Cassius Silva Éder Jorge de Almeida Pereira (Raiz da Terra) Pró-reitora de Planejamento e Administração Coordenadora Geral do Curso de Design Éder Peixoto Prof.ª Valéria Cunha Figueiredo Profª Ângela Souza Lima Maria Crisóstomo Ramos Coordenador Geral de Pesquisa Coordenadores por Habilitação Psicóloga Voluntária Prof.ª Rúbia Carneiro Neves D. Gráfico | Prof. Guilherme Guazzi Rodrigues Érica Silva do Espírito Santo D. Interiores | Profª. Maria Fernanda Loureiro Coordenador Geral de Extensão D. Produto | Prof. Eliseu de Rezende Santos Estudantes Bolsistas Prof. Osvaldo Manoel Corrêa D. Moda | Profª Gabriela Maria Torres Ana Luisa Ferreira . Bruno Elias Gomes de Oliveira . Cristiane Pereira Araújo Silva Coordenadora do setor de relações Daniel Patrick Cordeiro Pimentel . Eduardo internacionais | Prof.ª Astréia Soares Batista Goulart de Macedo . Felipe Sales Melo Franco Joanna Sanglard Bernardes . Pedro Duarte Sena Assessoria de Ensino de Graduação de Oliveira . Pedro Ivo . Rafael Miranda Barbosa Prof. Luiz Antônio Melgaço Nunes Branco Rodrigo FrancoMattar Estudantes Colaboradores PROJETO CATÁLOGO ASAS Disciplina Artesanato e Design 2007/2008 André Machado . Carolina Furtado . Cinira Morais . Daniela Coelho . Daniele Tondato Coordenação Débora Maffia . Fernanda Pereira . Guilherme Diretoria de Desenvolvimento Sustentável Prof.ª Juliana Pontes Ribeiro Deriz . Guilherme Santos . Ivana de Almeida Maria Luiza Pinto e Paiva Lara Pinheiro . Leliane Peixoto . Letícia Grissi Direção de arte Lucas Diniz . Luiza Mascarenhas . Matheus Superintendência de Ação Social Prof.ª Juliana Pontes e Natacha Rena Rocha . Pablo Codeglia . Rafaela Valadão Laura Oltramare Tiara Brito Design / Projeto Gráfico Coordenação da área de projetos sociais Cris Araújo Estudantes Voluntários Andréa Regina Alisson dos Prazeres . Andressa Furtado Calixto Fotografias Diego Silva . Fernando Vasconcelos . Guilherme Coordenação do Concurso Banco Real Cris Araújo Bonsato Deriz . Ingrid Sander . Karina de Oliveira Universidade Solidária Eduardo Goulart Leite . Leonardo Monte Alto Pacheco . Priscila Eloisa Martins Juliana Pontes Soares da Silva . Rachel Grandinetti . Reinaldo Joanna Sanglard Rocha . Tatiana Lemos Natacha Rena Sérgio Amzalak . Tatarana Imagem Artesãos Capacitados Cleuza Maria Pires Dias . Ellen Cristina Pires Dias Revisão de textos Elzy Nunes de Oliveira Ferreira . Etelvina Xavier Rachel Murta Gerência de Projetos de Almeida . Gabriella Estefane Santos de Souza Daniela Lemos Gonçalo Nascimento Santos . Joana Rodrigues de Souza . Loslane Pasos de Oliveira . Maria do Consultores voluntários e sócios-fundadores Carmo da Rocha . Peterson Linker S. Rodrigues Prof. Dr. Waldenor Barros Moraes Filho Shirley Maria Araújo . Suzana Marília dos Anjos Prof. Dr. Luiz Fernando Coelho de Souza Oliveira . Yasmin T. Gonçalves
  • 5.
    . índice 008 instituições parceiras Fumec 02 UniSol . Banco Real - Grupo Santander Escola Municipal Padre Guilherme Peters design social 018 Projeto ASAS: autonomia e empodera- mento por meio do artesanato solidário Identidade: processo construtivo A798 A estamparia como capacitação Asas: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra profissional 03 Organizadoras Juliana Pontes Ribeiro e Natacha Rena. Psicologia e a estruturação de grupo Belo Horizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA - Universidade FUMEC, 2009. Depoimentos: alunos bolsistas 136 p.: il. (possui fotografias). Vários autores. paralelas ISBN 978-85-61258-05-4. 070 Eco-Bags 1. Design. 2. Artesanato. 3. Economia solidária. 4. Almofadas. 5. Estampas. I. Ribeiro, Juliana Pontes II. Rena, Natacha. III. Título. Parceria Raiz da Terra Concurso Almofadas CDD: 745.098151 Muros Estampados CDU: 745(815.1) Oficina Pinhole Informação bibliográfica conforme a NBR 6023:2002 da 04 Exposição Aglomeradas Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT): Oficina de Texto RIBEIRO, Juliana Pontes; RENA, Natacha (Org.). Asas: Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte: Editora Faculdade de Engenharia e Arquitetura FEA-Universidade FUMEC, 2009. 136 p. ISBN 978-85-61258-05-4. registro das criações 102 05120 portfolio asas
  • 6.
    01 instituições parceiras 12 13
  • 7.
    fumec construindo o conhecimento 14 15
  • 8.
    Prof. Antônio ToméLoures Prof. Osvaldo Manoel Corrêa Reitor da Universidade Fumec Coordenador do setor de extensão “No processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente aquele que se apropria do apren- “Conceituar é preciso, viver e tecer a trama da existência é preciso e registrar é mais que preciso”. dido, transformando-o em apreendido, com o que pode, por isso mesmo, reinventá-lo; aquele que é capaz de aplicar o aprendido-apreendido a situações existenciais concretas” - Paulo Freire A troca de saberes constitui a base de projetos como Foi assim que tudo teve o seu início, com uma Tática em Assis Brasil. Em Jequitaí uma nova coleção de o ASAS – Artesanato Solidário no Aglomerado da de Sobrevivência envolvendo os moradores da Vila almofadas revelou em sua estamparia a história da Serra, consistindo em princípio fundador da ação Ponta Porá, comunidade pertencente à região cen- cidade em seu rio, no garimpo, na pesca, no trabalho comprometida com o aprendizado e a necessária tral de Belo Horizonte – MG, onde como resultados das lavadeiras, na religiosidade e outros temas. mudança social. Fundamentalmente integradora, “as pesquisadoras realizaram um vasto levantamento A criação do grupo de pesquisa com o tema a proposta realiza a missão social da Universidade de inventos - objetos e produtos do cotidiano - que Diferenças: Arte, Design, Arquitetura e Artesanto, no FUMEC, incentivando a produção e a efetiva socia- revelaram um enorme potencial do cidadão comum CNPq, e a exposição no INHOTIM de uma coleção de lização do conhecimento. (moradores expostos a situação de precariedade produtos com características iconográficas reco- econômica)”. Aprendemos, com a atividade artesanal, a sabedoria lhidas no próprio museu pareciam ser o fim dessa da partilha construída em torno da experiência co- Sempre Savassi Design e Cultura é como o fio de jornada. Mas enquanto essas atividades estavam municada; a arte da escuta, do silêncio e da narrativa Ariadne que permitiu a saída da pesquisa para dar à em andamento, um novo edital em nível nacional comprometida com a vida que perdura. Essa é a luz na extensão. Envolvendo parcerias com o CDL- estava aberto, e o acumular de anos de experiências postura de quem acredita na invenção de um futuro BH e o SEBRAE, esse projeto desenvolveu diversas se transformou no projeto Artesanato Solidário no em que o conhecimento se constrói, pacientemente, comunidades de artesãos, resultou na produção de Aglomerado da Serra. na ação criadora; em forma de valores que conferem um texto e um catálogo; o primeiro, finalista em con- Os primeiros passos dessa nova caminhada estão sentido ao mundo compartilhado. curso, e o segundo produziu frutos como exposição no Catálogo ASAS, que deve ser apreciado com o e menção honrosa. Formar profissionais comprometidos com a justiça olhar de admiração nos permitindo ver mais além e a ética é desafio permanente da Universidade No catálogo da Coleção 9+1, uma coleção temática dos muitos focos de violência, tráfico de drogas e FUMEC. O projeto ASAS exerce essa missão de forma de nove almofadas quadradas e uma redonda desemprego instaurados nessa comunidade. É ver particular, convertendo-a em processo renovador, revelando temas ligados à história de vida de cada com pasmo a capacidade de empoderamento que em que a criação coletiva potencializa saberes e artesã, registra-se a ação de extensão Artesanato a metodologia de criação a partir do conceito de valoriza o artesanato como fonte de aprendizado Solidário no Barreiro. Nesse projeto, novas parcerias Artesanato Solidário teve no período de doze meses permanente. foram possíveis com a Associação da Terceira Idade e para capacitar um grupo de multiplicadores que tem Idosos do Barreiro (ASTIB) e a UNITEC – Nova Zelân- por missão, em 2009, passar para novas gerações de Assim, apresentar este catálogo à sociedade é mo- dia com o seu suporte metodológico para ações de jovens e adolescentes o seu aprendizado, fazendo tivo de grande satisfação para todos nós. Com a con- responsabilidade social. funcionar a oficina de serigrafia. clusão da proposta, comemoramos esta importante conquista junto às comunidades da Universidade Esse constante aprender permitiu que as experiên- Por fim, o agradecimento da Universidade FUMEC à FUMEC e do Aglomerado da Serra. cias adquiridas fossem aplicadas em Assis Brasil (AC) UNISOL (Banco Real), pela parceria que tornou pos- e Jequitaí (MG) em incursões do Projeto Rondon. A sível este projeto, e pela sua renovação para o biênio capacitação em artesanato e design de produtos e 2009/2010. mobiliários de bambu foram oficinas desenvolvidas 16 17
  • 9.
    Em uma comunidade,as atividades de cada indi- víduo estão sempre interligadas de alguma maneira. Quando um se beneficia, é muito provável que o próximo seja atingido. Assim, os projetos sociais que se baseiam em parceria de benefícios mútuos podem conseguir multiplicadores e ser auto-susten- táveis. unisol Acreditando nisso, o UniSol e o Banco Real - Grupo banco real . grupo santander Santander Brasil - apóiam, desde 2007, o projeto ASAS - Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra - vencedor do 11º Concurso Banco Real Universidade Solidária. Executado pela FUMEC/MG é um exemplo de iniciativas que estimulam a participação ativa da comunidade, e o envolvimento de professores, estudantes, escola, prefeituras e ONGs na construção de alternativas para problemas de ordem social, econômica e ambiental da região. Criado em 1996, o concurso Banco Real e Uni- versidade Solidária estimula o engajamento de estudantes e professores universitários na implemen- tação de ações que promovam o desenvolvimento social de comunidades de todo o País. Essa parceria proporciona a implementação de proje- tos sociais com a participação de Instituições de Ensi- no Superior (IES) brasileiras, por meio de seu corpo docente e discente em comunidades, trabalhando na construção de soluções locais de desenvolvimen- to sustentável e comunitário, e disseminado valores de cidadania e de responsabilidade social aos jovens universitários - futuros profissionais do país. Em treze anos de atuação, o concurso já mobilizou 94 IES, 1.340 estudantes, 178 professores e benefi- ciou direta e indiretamente mais de 4 mil pessoas em todo Brasil, a partir da interação entre o conheci- mento acadêmico e o popular. 18 19
  • 10.
    Márcia Libânio Diretora Desde agosto de 2007 os alunos, funcionários e pessoas da comunidade do Aglomerado da Serra tem freqüentado as oficinas de capacitação que escola municipal padre acontecem na Universidade FUMEC. O grupo ASAS (Artesanato Solidário no Aglomerado guilherme peters da Serra) formado a partir da parceria entre a Univer- sidade FUMEC, o Unisol/Banco Real e a Prefeitura de Belo Horizonte tem realizado bons benefícios para esta comunidade. Duas vezes por semana o grupo se reuniu ao longo do ano nas dependências da Universidade FUMEC. Esses encontros, que propiciaram o contato com alunos e professores universitários, fornecem ao grupo o desenvolvimento das relações de trabalho em espaços que eles poderiam ter dificuldades em freqüentar. Os alunos do grupo ASAS têm tido acesso a espaços culturais da cidade, apresentando suas criações e conhecendo artistas locais e de contexto nacional. A montagem da cooperativa no espaço escolar beneficiará tanto a comunidade quanto os alunos da escola . Essa cooperativa será um exemplo a ser seguido por eles. Aqueles alunos da escola que tiverem interesse em fazer parte da cooperativa poderão desenvolver as técnicas a partir do grupo ASAS (futuros multiplicadores). A Escola Municipal Padre Guilherme Peters se sente honrada em fazer parte dessa parceria que trará mais dignidade à comunidade. Hoje a cooperativa já não é só um sonho distante. Ela já se tornou realidade! Ao avaliarmos a parceria firmada nesse curto prazo de tempo, só podemos ressaltar a importância do compromisso social, principalmente em comu- nidades carentes como a em que a escola está inserida. 20 21
  • 11.
    02 design social 22 23
  • 12.
    projeto asas: autonomia e empoderamento pormeio do artesanato solidário natacha rena Arquiteta, designer, professora dos cursos de Arquitetura e Design de Interiores na Universidade FUMEC; mestre em Arquitetura pela UFMG, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC São Paulo e coordenadora do projeto ASAS- UNISOL/Banco Real - Grupo Santander. juliana pontes Designer, Mestre em Comunicação Social, professora do curso de graduação em Design Gráfico e pós-graduação na Universidade FUMEC e orientadora, junto com a profa. Natacha Rena, do projeto ASAS- UNISOL/Banco Real - Grupo Santander.
  • 13.
    apresentação O Projeto ASAS (Artesanato longo do trabalho. Com ênfase nos processos maioria estão muito distantes da oportunidade do primeiro emprego ou Solidário do Aglomerado da criativos que aconteçam de forma colaborativa de exercer uma atividade econômica lucrativa e promissora por falta de Serra) teve a intenção de capacitar e na criação de uma metodologia específica capacitação específica. O Aglomerado está localizado na chamada região um grupo de moradores do - que garanta sustentabilidade das ações sul da cidade, setor residencial de alto poder aquisitivo (onde se encontra a Aglomerado da Serra para o implementadas -, este projeto também objetivou Universidade FUMEC). desenvolvimento de uma coleção a criação de um mix de produtos com alto valor agregado (acompanhados de catálogo Atualmente a prefeitura de Belo Horizonte está executando uma grande de produtos com características e exposição) que possa ser comercializado obra de urbanização do Aglomerado (considerado um dos maiores singulares. O objetivo central em locais onde o público consumidor valorize projetos de urbanização de favelas do País no momento), que inclui a foi estabelecer um processo produtos realizados com responsabilidade construção de uma via asfaltada de mão dupla que atravessará o conjunto sustentável de geração de renda socioambiental. Outro objetivo já realizado de vilas, ligando diretamente duas regiões da cidade. Há um investimento no Aglomerado da Serra (conjunto foi a montagem de uma oficina de criação e real na melhoria das condições de vida da população local e na sua de vilas e favelas da cidade de Belo produção em serigrafia na Escola Pe. Guilherme inserção definitiva no contexto urbano, o que implica a educação e a Horizonte) a partir do conceito de Peters. capacitação dessas pessoas para uma nova condição de trabalho e relação autonomia criativa e produtiva social. O que acontece no caso específico da Escola Municipal Padre com foco no empoderamento A comunidade específica escolhida para o Guilherme Peters é que a sua localização não é próxima das margens da da comunidade. Dentro de um desenvolvimento do projeto aqui proposto é a grande via a ser construída, o que resultou em um menor investimento conceito amplo de artesanato Escola Municipal Padre Guilherme Peters situada dos projetos citados acima nesta escola. Essa situação poderá produzir solidário, desenvolveu-se uma dentro do conjunto de vilas e favelas de Belo um futuro desnível de oportunidades dentro do próprio Aglomerado, metodologia específica de criação Horizonte denominado Aglomerado da Serra. acentuando ainda mais as questões ligadas ao desemprego à violência e à em artesanato e design com o Essa escola pertencente à Vila Novo São Lucas exclusão social. intuito de capacitar grupos de tem procurado parcerias para que seus alunos artesãos para o desenvolvimento possam se apropriar de novos conhecimentos O Aglomerado da Serra possui uma grande dimensão populacional, com de objetos inventivos e com e novas tecnologias que os ajudem a enfrentar muitos focos de violência e disputa de grupos ligados ao tráfico de drogas, características singulares. novos ambientes educacionais e novos o que dificulta ações eficazes em todo o seu território. O foco nas escolas ambientes de trabalho. A escola vai da Educação municipais, começando com um projeto piloto em uma escola específica, A idéia central dos projetos de Infantil até a oitava série do Ensino Fundamental, limita a ação a um campo fértil, que é o dos jovens em formação, pois extensão que realizamos na e tem também no turno noturno a Educação de estes são as maiores vítimas do aliciamento para a atividade do tráfico e Universidade FUMEC é capacitar Jovens e Adultos. Novas parcerias têm aberto da violência gerada por esta economia ilegal. A falta de infra-estrutura, grupos como multiplicadores do conhecimento adquirido ao novos horizontes para esses jovens, que em sua  Possuía em 1999 uma população total por volta de 37.641 habitantes segundo dados da URBEL, mas ¹ Rua Coronel Jorge Dário S/número . Bairro Novo São Lucas. Belo segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social, 45.920 pessoas e, segundo a imprensa Estado de Minas, Horizonte . CEP 30.240-560 160.000 habitantes. 26 27
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    recursos materiais ecapital humano nas escolas municipais é ainda um grande empecilho para que essas unidades sustentem projetos de inserção econômica e capacitação profissional adequadas à nossa realidade social e às demandas do mercado de consumo e serviços hoje. As escolas também podem ser pontos de apoio permanentes para que iniciativas como essas se desenvolvam com acompanhamento adequado e previsão de continuidade, pois sem esse tipo de suporte muitas boas idéias, ações e projetos se perdem por falta de investimentos em longo prazo, gerenciamento das atividades de formação, estruturas de equipe para captar novos recursos e orientar novas investidas educacionais. Nesses espaços a parceria entre o ensino tradicional e o grupo de artesãos, por um lado, complementa o ensino tradicional e, por outro, amplia os horizontes de atuação dos seus alunos e professores. 28 29
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    O Aglomerado daSerra possui uma população com poder aquisitivo baixíssimo, mas inserida em uma das regiões com índice socioeconômico mais alto da cidade. Ao mesmo tempo a Universidade FUMEC tem optado estrategicamente por desenvolver projetos de natureza social nessa região, já que é vizinha da Universidade e delimita um campo de atuação solidária. Na última pesquisa para a Prova Brasil o índice socioeconômico no Aglomerado foi de 1.1 numa escala de 1 a 5. E aqui também há uma justificativa concreta para a escolha da Escola Municipal Padre Guilherme Peters que, entre as cinco escolas municipais existentes no Aglomerado, conforme comprovado pelo Prova Brasil, é uma das duas escolas de mais baixo índice socioeconômico da cidade e com uma necessidade imensa de melhorar a sua infra- estrutura e estabelecer parcerias externas que complementem o processo educativo e respondam a demandas a que a escola não pode atender sozinha. 30 31
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    alteração da situação enfrentada e expectativas do projeto objetivo geral objetivos específicos A oportunidade da parceria funciona aos sábados e domingos e oferece O principal objetivo deste projeto foi Todo o trabalho proposto neste projeto objetiva com a Universidade FUMEC oficinas de artesanato, de percussão, de fomentar o artesanato como setor econômico uma ampliação efetiva do repertório cultural tem proporcionado a um capoeira, informática e possivelmente a de sustentável que valoriza a subjetividade dos participantes do grupo através de aulas grupo de alunos dessa escola estamparia também poderá funcionar aos finais coletiva promovendo a melhoria da qualidade teóricas sobre arte, cultura, design, arquitetura, pertencente ao Aglomerado o de semana. de vida e a geração de renda. A intenção foi antropologia, ecologia e sustentabilidade. Passeios conhecimento de um ambiente propiciar a criação de produtos manufaturados culturais e visitas a exposições de arte também se Outro fator essencial ao projeto é que a com possibilidade de comercialização em enquadram nessas ações, além da participação de estudo completo, de nível prefeitura de Belo Horizonte ofereceu como mercados consumidores proeminentes como do grupo em oficinas que possam envolver superior, além do aprendizado contrapartida a construção de um espaço feiras nacionais e eventos, além dos locais com outros grupos culturais já organizados na própria de técnicas inovadoras no design onde será instalada a oficina de estamparia, possibilidades de venda de produtos com alto comunidade. Esse tipo de artesanato abarca de estamparia. Isso aconteceu cujos equipamentos e materiais de uso foram valor agregado. O projeto tem proporcionado produtos que atingem altos preços no mercado em uma primeira etapa, com financiados pelo Prêmio UNISOL/BANCO REAL. um cruzamento de ações de capacitação, tais nacional e também costumam ser os prediletos no oficinas e aulas realizadas na A primeira turma formada poderá montar uma como orientação com metodologia específica mercado de exportação. própria Universidade, utilizando associação que se auto-sustentará e que formará para trabalhar um reposicionamento subjetivo e suas salas de aula, equipamentos novos trabalhadores ao capacitar os jovens, criativo do artesão de baixíssima renda perante Pretendeu-se neste projeto desenvolver a técnica didáticos e o ateliê de estamparia. dando-lhes também a oportunidade do primeiro um novo mercado consumidor mais exigente de estamparia para aplicação em produtos Além disso, pode-se criar para a emprego e uma atitude empreendedora. A através: da formação de repertório estético geral variados. Percebemos que essa técnica, além comunidade, a partir da primeira escola funciona em horário integral e esses e histórico, além de incentivar a atualização de valorizar o produto, também dá agilidade à turma a freqüentar esse programa futuros artesãos podem começar a aprender cultural (incluindo tendências na moda, no produção por conseguir uma reprodução em série de capacitação, a figura dos tecnologias que em curto prazo poderão servir design e na decoração). Após o lançamento mesmo que por processos artesanais. Neste projeto multiplicadores, que serão pessoas para melhores condições de trabalho e de dos produtos, a idéia é que através de parcerias essa técnica engendrou uma enorme eficácia, já que participarão do projeto e vida. A idéia é que esta comunidade, com a estes sejam comercializados em pontos de que faz parte do universo estético contemporâneo irão repassar o conhecimento implementação de projetos como este, possa venda onde sejam valorizados como resultado e a idéia de aplicação de imagens colhidas pelos dando continuidade ao trabalho, iniciar a criação de uma rede de sustentabilidade processo de projetos de artesanato e design que artesãos como forma de revelar as relações entre a formando novos empreendedores e economia solidária, melhorando sua condição promovam inclusão social e geração de renda identidade pessoal e o lugar. e até uma cooperativa para econômica, sua inserção social, diminuindo os em comunidades carentes. trabalhar com confecções da Também são objetivos do projeto: ampliar as índices de violência local e aumentado a sua cidade e/ou do estado. Esses oportunidades de trabalho e renda da população auto-estima. multiplicadores poderão iniciar envolvida em situação de risco pessoal e social outras pessoas da comunidade num projeto de inclusão social; promover o acesso inclusive na Escola Aberta, que a tecnologias adequadas para o desenvolvimento 32 33
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    artesanal produtivo; utilizar a inovação e a identidade cultural como um dos fatores de diferenciação do produto; educar o olhar do grupo para perceber soluções inventivas e sensíveis às demandas objetivas e subjetivas do homem urbano no seu próprio cotidiano; promover a cultura da cooperação estimulando a criação e o fortalecimento de associações e cooperativas; resgatar a cultura urbana e jovem como fator de agregação de valor ao artesanato; disponibilizar informações sobre a utilização racional dos recursos naturais, segundo os postulados da legislação ambiental; socializar o acesso às informações e ao conhecimento no âmbito do setor artesanal; articular parcerias para aumentar a participação do artesanato na produção nacional e para o conseqüente fortalecimento do setor; melhorar a auto-estima e a qualidade de vida da população; desenvolver a capacidade de criação e produção coletiva. 34 35
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    metodologia de projeto Uma metodologia eficaz global, como diz Octavio Ianni , “muitas informações tornou-se referência iconográfica para o desenvolvimento do protótipo - mistura de para o desenvolvimento de coisas desenraizam-se, parecendo flutuar e conceitual para a criação dos produtos numa muitas técnicas) através de procedimentos técnicos capacitação em artesanato que pelos espaços e tempos do presente”, ou seja, etapa posterior. híbridos. Portanto, esse trabalho de capacitação tenha sustentabilidade surge mais do que tradições buscamos um diálogo em design e artesanato inclui uma série de ações do entendimento de que só é com a contemporaneidade. Desenvolvemos segundo momento fundamentais para a construção do ambiente possível induzir grupos a criar procedimentos de pesquisa, de criação e de criativo necessário. Num segundo momento uma ação importante o novo quando se constrói um produção que advenham da identidade a partir para a capacitação foi a apresentação de terceiro momento vasto repertório (informações, da relação entre a cultura urbana e a cultura da aulas teóricas (fundamentos de arte e design) conceitos e instrumentalização), favela, para que seja possível construir um forte acompanhadas de exercícios práticos que Numa etapa final do plano de capacitação, que através do qual os participantes laço identitário entre os artesãos e os produtos reforçaram o conhecimento adquirido de forma teve início em agosto de 2008, iniciamos as possam compreender a situação criados. Ministramos um grande leque de empírica. Também foram ministradas aulas sobre: oficinas de criação, nas quais foram efetivamente atual da arte, do design e da oficinas e aulas teóricas que possam dialogar elementos visuais e composição gráfica; o olhar trabalhados os produtos específicos para a coleção cultura contemporânea e que diretamente com o cotidiano deles. como forma diferenciada de percepção; história final. sejam capazes de, a partir daí, primeiro momento da arte - do cubismo à arte contemporânea; desenvolver futuras coleções de Acredita-se que somente com a consolidação do teoria da cor; tendências no design; design do produtos sem a dependência da conhecimento ao longo de oficinas, seminários, A primeira atividade da capacitação foi a cotidiano e vernacular; arte popular e artesanato, instrução de designers e artistas. visitas de estudo e com a produção de peças realização de um diagnóstico das qualidades street art, etc. Essas aulas teóricas foram sempre espaciais e estéticas do território cotidiano do ilustradas com apresentações de imagens com qualidade estética, cultural e eficácia Nitidamente com um caráter grupo a partir da experiência subjetiva de cada dos conteúdos dados para gerar essa nova mercadológica é que um processo sustentável de inclusão social, este projeto um. A idéia foi fazer com que os participantes bagagem de cultura visual, tão necessária para pode ser iniciado nessa escola pública, já que apresenta uma metodologia descobrissem características cotidianas nunca a compreensão da estética e dos processos iremos construir e efetivar uma oficina de específica para desenvolver observadas, agora com um olhar estético que criativos contemporâneos. Também foram estamparia para que futuramente não somente coleções de produtos artesanais revelasse o valor cultural das favelas e em exibidos vídeos e filmes, entre documentários alunos, mas também egressos possam continuar que se relacionem culturalmente especial do território específico a que eles e longa-metragens, que abordam questões da gerando renda e se incluindo socialmente com de forma direta com o universo pertencem. Esse diagnóstico foi elaborado arte e da cultura do século XX, peças de design dignidade. Todo trabalho aconteceu com um do Aglomerado da Serra. Ao a partir de mapas subjetivos (produção de e artesanato contemporâneos. Além de aulas acompanhamento intensivo de todo o processo mesmo tempo que reforçamos imagens fotográficas e inúmeros desenhos, expositivas, mas em momentos intercalados a criativo e da finalização dos produtos. A principal o contexto local do projeto nos mapas, colagens e anotações) construídos elas, produzimos oficinas práticas para oferecer idéia dessa metodologia é dotar os alunos de uma temas escolhidos para as estampas, coletivamente pelo grupo. A coleta dessas novos instrumentais (tanto para criação - nítida capacidade para gerar novos produtos a a concepção da linha de produtos desenhos, pinturas, maquetes, colagens - quanto partir de um processo criativo baseado na pesquisa está ligada a um pensamento IANNI, Octavio. A Sociedade Global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. 36 37
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    e na inovação.Mais do que gerar produtos finais com forte interferência do designer, esse processo de capacitação deverá estimular metodologias de criação e desenvolvimento de produto. A metodologia incluiu também workshops para o desenvolvimento de trabalhos em grupo e identificação de lideranças. Também fizeram parte dessa etapa final: montagem da oficina de criação e produção artesanal; registro de todo o processo através de fotografias e filmagens; planejamento do catálogo, que inclui a reunião de todas as informações desde o processo até o resultado final da coleção e da oficina em funcionamento; planejamento da exposição; avaliação de todo o processo e do resultado final; estabelecimento de planos de continuidade do projeto na escola específica e já início do plano de ação para a próxima escola do Aglomerado. 38 39
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    desdobramentos Além de o projeto ser qualidade que foi comercializado pelas artesãs caixas de luz na cor preta, iluminadas por leds resultado da Premiação Nacional individualmente. eletrônicos na parte interna. A exposição foi no Concurso Unisol/Banco Real, ao muito bem-sucedida e, além da repercussão na Como desdobramento das atividades mídia, fez as caixinhas de luz se tornarem mais longo do trabalho conseguimos acadêmicas envolvendo o projeto tivemos a um produto comercializável para o grupo. uma parceria com a empresa Raiz pintura dos muros da escola Padre Guilherme da Terra, que desenvolve e produz Peters pelo alunos da disciplina Núcleo de Enfim, projetos como este ressaltam a camisetas ecológicas. A parceria Projeto 2, do curso de Design Gráfico. As importância da participação da Universidade consistiu no desenvolvimento de imagens estampadas nas paredes da escola FUMEC em projetos de responsabilidade estampas exclusivas pelas artesãs foram resultado de oficinas realizadas com as social com uma atuação que abarque também com o tema fauna e flora do crianças e os adolescentes do Aglomerado, a pesquisa que tem o papel de consolidar Aglomerado da Serra. A empresa, focando em experiências de vida positivas as questões acadêmicas, metodológicas além de produzir os modelos de cada um. A pintura foi encerrada com um e conceituais para que os projetos de de estampas criados por elas, evento na própria escola, no qual a aluna extensão produzidos na própria universidade apresentou a coleção em Paris, em de Design de Moda Karina Leite apresentou relacionados ao tema (no caso o artesanato um evento de moda ética. Esse sua coleção de final de curso, toda feita com urbano) tenham embasamento teórico e trabalho serviu para abrir portas estampas criadas pelas artesãs especialmente projeção científica. Criam também um ambiente comerciais para o grupo, além de para as suas peças. O desfile envolveu alunos coeso entre pesquisa e extensão em torno consolidar e divulgar a marca do e familiares da comunidade, pois as modelos da idéia de um Artesanato Solidário para que ASAS. também foram escolhidas no próprio possamos atuar ativamente junto aos órgãos As parcerias oficiais aconteceram Aglomerado. nacionais (e internacionais) de discussões ao mesmo tempo que as fundamentais para o desenvolvimento Outras atividades paralelas à criação da coleção econômico sustentável no País. próprias artesãs começaram a também foram desenvolvidas como um comercializar as suas ecobags, estímulo criativo e oportunidade de integração que foram o primeiro produto do grupo. Um exemplo foi a exposição desenvolvido pelo grupo como Aglomeradas, resultante de uma oficina de exercício. A atividade, de início, foi pinhole realizada na FUMEC pelo Prof. Alexandre encarada como uma prática para Lopes. Cada artesã fotografou com uma caixa o exercício da técnica e acabou de fósforo o seu cotidiano e essas imagens formando mais um produto de foram ampliadas em acetato e montadas em 40 41
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    identidade: processo construtivo cris araújo Técnica em Comunicação Visual pelo Instituto de Arte e Projeto - INAP, cursando 7º período em design gráfico pela Universidade FUMEC. 44
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    A identidade visual ASAS foi desenvolvida a partir da observação de fotografias do Aglomerado da Serra. Primeiramente foi realizado um estudo das estruturas dos barracões para, assim, podermos retirar características para compor as letras da identidade. Após esses estudos iniciou-se um processo de geração de alternativas para adequação de letra/desenho. Através das pesquisas locais pôde-se perceber as seguintes características passíveis de serem transformadas em elementos visuais: estruturas sobrepostas, arranjos, diversidade de materiais, becos e vielas, cores opacas, o laranja constante dos tijolos e o céu azul compondo a paisagem. A partir desses elementos iniciamos a construção da identidade. A identidade teve como característica blocos não alinhados, espaços entre letras fazendo alusão aos becos e vielas e a estrutura grotesta que remete à improvisação e à desuniformização das casas aglomeradas. 46 47
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    becos e vielas baseestrutural: tijolos ARTESANATO SOLIDÁRIO NO AGLOMERADO DA SERRA letras “blocos” desuniformes remetendo à estrutura dos barracões cores: LARANJA | cor da comunicação, simbolizando o projeto como agente ARTESANATO SOLIDÁRIO NO comunicacional na comunidade e também por ser a cor mais predominate no Aglomerado, presente nos tijolos dos barracões. AGLOMERADO DA SERRA AZUL ACINZENTADO | cor que remete a segurança e estabilidade, fazendo alusão à estruturação sólida do projeto proposto na comunidade e também por ser a junção do azul do céu ao cinza do asfalto bem visíveis no Aglomerado. 49
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    psicologia e a estruturação dogrupo érica do espírito santo Psicóloga, graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais, em agosto de 2005.
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    Meu nome éÉrica Silva do jovens, pois as mulheres mais velhas eram quem O desenvolvimento do grupo parece ter sido modificado. Logo que cheguei, nos primeiros encontros, na fase Espírito Santo, sou psicóloga, estava “tocando” o grupo e o projeto era focado de observação, percebi que o grupo estava ainda imaturo, esperando respostas dos professores e dos bolsistas, graduada pela Universidade Federal para os jovens. Então este foi o primeiro ponto a como alunos que recebem o conhecimento que foram ali, na universidade, buscar. Agora estamos em agosto de Minas Gerais em agosto de ser trabalhado com o grupo: definir quem era o e já percebo que foi assumido um papel pelo grupo, um pouco mais de iniciativa, de organização, ou seja, 2005. Desde que me formei venho grupo e qual seria seu papel. um pouco mais de autonomia. As oito mulheres que são o que chamo de “coração” do grupo já fizeram suas procurando formas de aprimorar primeiras reuniões entre si, independentemente das professoras e dos bolsistas e parecem já participar mais Por parte da equipe da FUMEC foi feita a ativamente desse trabalho que no futuro será o trabalho delas. meus conhecimentos técnicos e demanda para o trabalho com o grupo no teóricos dentro de alguns campos sentido de ajudá-lo a se fortalecer, para que ao O que percebo claramente é que houve uma mudança de um estado de dependência absoluta do grupo da vasta área de abrangência final do projeto tivesse autonomia para se manter em relação ao corpo de professores e alunos da FUMEC para um estado de dependência relativa, fazendo um da Psicologia. Uma área em sozinho, já que o objetivo é que elas sejam paralelo com as fases de desenvolvimento do indivíduo. E o objetivo deste trabalho é que este grupo continue que comecei a trabalhar foi na responsáveis por uma oficina de estamparia que caminhando no sentido de chegar a uma independência, para que possa caminhar pelas próprias pernas. psicanálise, tanto individual quanto será montada dentro do Aglomerado. com grupos. Acho importante destacar também a importância que percebo deste projeto para a auto-estima dessas Ficou estabelecido que meu horário de trabalho mulheres, moradoras do aglomerado, que não tiveram oportunidade de cursar uma faculdade e, cada dia Fui convidada a participar do com o grupo seria todas as terças-feiras, às 14h, mais, se sentem capazes de, além de buscar novas possibilidades para suas vidas, passar o conhecimento que projeto ASAS para atender a horário combinado com o grupo para que não acumularam ao longo de suas vidas. Todas trazem uma bagagem que vão compartilhando aos poucos, vão se uma demanda de trabalho com houvesse atrasos. No início muitas se atrasavam. sentindo importantes dentro do que é valorizado no projeto, vão percebendo que elas são o valor deste projeto adolescentes. A princípio foi o que Aos poucos fomos criando um espaço de e se sentindo mais convictas para seguir adiante. me chamou atenção para o projeto, trabalho em que foram aparecendo as questões pelo fato de eu já ter experiência a serem trabalhadas e os incômodos. Fizemos Há dificuldades de horário, de tempo, de dinheiro para ir e vir, de aceitar as diferenças, de estabelecer regras – em trabalhos anteriores com oficinas de agrupabilidade, com a intenção de situações normais que acontecem com qualquer grupo que se proponha a trabalhar junto. adolescentes do Aglomerado da unir mais o grupo que ali se encontrava partindo Serra. Meu primeiro encontro com Esse grupo tem traços fortes de união e de identidade entre si, por se tratar de mulheres maduras, em sua da idéia de que o grupo eram aquelas pessoas o grupo foi no dia 22 de março de maioria, habitantes da mesma região, que procuram no trabalho uma saída para o futuro. que estavam ali, mesmo que isto contrariasse 2009, e logo foi esclarecido que o a proposta inicial do projeto. Acredito que à Cada grupo tem uma estrutura e uma dinâmica. A estrutura é a forma de organização do grupo a partir da projeto havia sido pensado para medida que os participantes foram percebendo identificação de seus membros. Dinâmicas são as forças de coesão e dispersão do grupo, e que fazem com que jovens, mas que tinha mudado de que eles eram o grupo, foram se apropriando se transforme, o que inclui: formação de normas, comunicação, cooperação, divisão de tarefas e distribuição foco. Acho importante tocar nesse dele, foram assumindo papéis sem tanto receio de poder e liderança. Pretendemos fortalecer ainda mais os laços já estabelecidos dentro do grupo até o ponto, pois percebi logo que era de que esse lugar fosse tomado mais tarde pelos final do projeto. E, para o segundo semestre, foram programadas atividades que facilitassem a divisão de um incômodo do grupo que estava jovens. papéis, que já está sendo esboçada pelas participantes em suas reuniões; atividades que esclareçam as regras lá, sete mulheres adultas e quatro 52 53
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    e normas estabelecidaspelo arcabouço teórico a fim de procurar respostas grupo; atividades de facilitação para as perguntas que surgem a cada dia, para da comunicação tanto dentro do expandir meu repertório de atividades e oficinas, grupo quanto de dentro para fora busca de novos livros, textos. Gostaria de enfatizar do grupo, ou seja, a comunicação também a importância da liberdade para trabalhar do grupo com o mundo; atividades desde o início, o grande acolhimento do grupo de clarifiquem as lideranças ainda da FUMEC, a compreensão quanto ao trabalho mais e que promovam uma divisão que muitas vezes não deixa claro seus objetivos, e, destas e do poder, a fim de que principalmente, a troca de conhecimento. Pois o não haja impressão de injustiça campo da psicologia é aberto para tudo que vem ou privilégio. O intuito é fazer com de enriquecimento em relação ao ser humano que cada integrante participe de e acho que essa experiência proporciona esse cada etapa e se sinta responsável crescimento para todos os envolvidos. pelas escolhas que forem feitas. É muito importante pra mim ver que esse grupo já cresceu nesse período e ainda crescerá muito mais. Obviamente, tudo não se deve ao trabalho psicológico que vem sendo feito, mas ao trabalho de toda a equipe e do próprio grupo. Para mim é importante participar desse projeto pelo desafio, por se tratar de um trabalho com pessoas de outras áreas, com as expectativas, com meus limites. Ao longo do trabalho venho procurando enriquecer meu 54 55
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    a estamparia como capacitação profissional éder jorge de almeida Serígrafo e técnico da estamparia da Universidade FUMEC. 58
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    Meu nome éÉder Jorge importância e grande aliadas na seleção natural ainda não foi conseguida, mas todos os exemplos de superação dados até o momento mostram que, com de Almeida, sou serígrafo e dos que realmente têm compromisso com o o devido acompanhamento, em breve será conseguida. Vale lembrar que esse grupo, conseguiu absorver o desenvolvo trabalhos para trabalho em equipe. conhecimento transmitido pelos colaboradores do “ASAS” com o devido suporte, conseguiu desenvolver seus estamparia têxtil, com técnicas produtos e está pronto para enfrentar uma banca. Foi uma grande e decepcionante surpresa ver que vão desde a pintura artesanal, que os mais jovens desistiram do projeto por Para aqueles que resistiram até agora, só tenho a agradecer pela tolerância e pelo carinho que sempre passando pela serigrafia plana não poder “esperar”, mas sei que a culpa não é demonstraram mesmo nos piores e mais difíceis dias de nossa parceria que só está começando. Para os que manual, até os processos deles. O projeto conjuga ações de educação e desistiram, espero que se encontrem e reconheçam a importância de somar as forças em prol da melhoria da automatizados como carrosséis, profissionalização objetivando um conseqüente qualidade de vida e do desenvolvimento. planas e cilindros, além de crescimento econômico e distribuição de comunicação visual e gravuras. renda, porém em longo prazo, e os mais jovens Como educador, atuo em projetos infelizmente não podem esperar, uma vez que de inclusão social (Sol da Serra), a realidade social é cruel e os obriga a traçar capacitação profissional (Talentos os próprios caminhos e, com certeza, só irão do Brasil), qualificação profissional perceber o quanto perderam quando for muito (Mulheres Criativas) e figurino tarde. (Corpo Cidadão). No decorrer das atividades tive medo Quando comecei a desenvolver também de que o grupo ficasse eternamente o processo de estamparia dentro dependente dos colaboradores e não do projeto Artesanato Solidário conseguisse a autonomia suficiente para entrar no Aglomerado da Serra “ASAS”, no mercado e enfrentar a concorrência em pé de encontrei um grupo numeroso igualdade, mas esse medo passou depois de ver que em princípio me assustou, que os remanescentes conseguiram superar os pois era um número muito acima conflitos internos e compreenderam que juntos da capacidade do ateliê onde a terão chances reais de se tornarem autônomos. técnica seria desenvolvida, mas as aulas teóricas que antecederam o A autonomia do grupo (Etelvina, Elzy, Maria processo foram de fundamental do Carmo, Schirley, Susana, Joana e Gabriela) 60 61
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    depoimentos: alunos bolsistas da universidade fumec Ana Luíza Ferreira . Bruno Oliveira . Cris Araújo Daniel Patrick . Eduardo Goulart . Felipe Franco Joana Sanglard . Rafael Barbosa . Rodrigo Mattar 64
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    ana luiza ferreira. design de moda cris araújo . design gráfico O Projeto ASAS coordenado pelas Participar do ASAS me proporcionou um grande constantes em nossos encontros; professoras Natacha Rena e Juliana crescimento pessoal e acadêmico, possibilitando questões essas que se aperfeiçoaram Pontes foi uma oportunidade maravi- um pensamento crítico em relação a minha a cada dia estimulando-nos a con- lhosa em minha vida, tanto profis- opção profissional e a inserção social. Confron- tinuar na medida em que observáva- sional quando pessoal. Aprendi muito tar minha formação acadêmica com a prática mos a absorção do conteúdo, tudo com todo o grupo e especialmente através do choque de realidades tão distintas isso fez-me acreditar ainda mais no com as artesãs. Acredito que como trouxe um aprendizado único, levando-me a de- design aliado ao artesanato como profissional me tornei uma pessoa senvolver metodologias específicas de trabalho forma de transformação do sujeito, melhor e mais humana e amiga. e a compreender a articulação entre o ensino, fazendo-o um agente cultural ativo, Como já existia em mim a vontade de pesquisa e extensão. Descobertas de um novo transformador e confiante de suas ajudar pessoas, acabei descobrindo olhar, questionamentos do que é belo, do que possibilidades criativas. como me ajudar. E só tem agradecer é horrendo o que é conceitual, o que é grupo a todo o grupo. e como se trabalha com ele, foram questões bruno oliveira . ciência da computação daniel patrick . design gráfico A oportunidade de participar do desenvolvimento de habilidades e conceitos O projeto Asas me proporcionou uma visão mais experiências têm acrescentado muito ASAS surgiu em um momento de cada vez mais inovadores. Quando percebi, o crítica e ampla sobre projetos sociais sua eficá- na minha formação e vejo como questionamento de diversos aspectos projeto, que havia se tornado um real desafio, cia, seus objetivos, metodologias e até mesmo a aprendizagem para toda a vida. Esse do design, suas metodologias, con- colocando em xeque diversos posicionamentos recepção desse tipo de ação nas comunidades projeto abriu ainda mais a minha textos e objetivos. Assim que entrei políticos, sociais, culturais, estéticos, havia tam- em que se desenvolvem. Além de aduzir alguns visão profissional para possibilidades para o projeto fui apresentado a um bém influenciado atitudes tanto na minha vida conceitos a serem desenvolvidos na minha área de atuação no mercado de trabalho universo de referências que não es- pessoal quanto na acadêmica. Novos materiais, de formação: O Design Gráfico. O empenho do além de ratificar a minha vontade de perava: Hardt e Antonio Negri, Paola possibilidades, experimentações e conhecimen- grupo foi tão grande, que discussões teóricas seguir carreira acadêmica, levando- Berestein Jacques, Michel Foucault, tos foram descobertos com o desenvolvimento sobre o modo mais efetivo de capacitação, me a pensar conceitos para colaborar Gilles Deleuze, Felix Guattar, entre do projeto, e estes novos contextos foram (e conceitos, condução do projeto, processos com a área do Design/Artesanato, e outros. Mais do que um aglomerado serão) definitivos para as minhas (futuras) de- criativos e principalmente prática de ensino se também de aprofundar as discussões de técnicas e materiais, o artesanato- cisões profissionais: escolhas mais diferenciadas, tornaram cada vez mais presentes em corre- sobre metodologia de criação, ensino design se mostrou ser uma área de sustentáveis e conscientes. dores da universidade e essa troca de vivências e e identidade cultural. 66 67
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    eduardo goulart .design gráfico como potencializadores de meu currículo, • evoluções no campo das inter- enquanto aluno de Design Gráfico nesta aca- relações humanas, neste quesito que, A alguns períodos acadêmicos atrás, meu papel, em simultâneo tempo ao que, por efeito cascata, me dá repertório demia de ensino - são todos estes fatores que em meados de 2007 quando, então, pelas mesmas vias, aprimorei e desenvolvi de ação, quando perante novos marcaram minha experiência neste projeto fui apresentado às coordenadoras parâmetros de composição pessoais, como desafios e rumos profissionais, dentro social, político, cultural e conceitual. do projeto ASAS - as professoras da criador imagético, lapidando e atravessando de meu caminho pessoal e de forma- Universidade FUMEC Natacha Rena, níveis de evolução em meu trabalho, em De forma pragmática (coisa que o ASAS me ção acadêmica e intelectual. primeiramente, e posteriormente minha função de Fotógrafo, que venho a ajudou substancialmente a desenvolver), Juliana Pontes - eu, sim, deliberada- algum tempo desempenhando e desenvol- posso solidamente aqui testemunhar, quando Eu honestamente agradeço a todos mente sabia e imaginava que esta vendo, na Vida. atesto que minhas habilidades foram noto- os envolvidos neste projeto - sem seria uma ótima oportunidade, tanto riamente melhoradas, tanto tecnicamente, excessões: desde meus colegas de de desenvolvimento acadêmico, Tendo a Universidade FUMEC e o projeto ASAS trabalho e também alunos da Univer- quanto qualitativamente, como a pouco quanto profissional. como plataformas de ações e articulações, sidade FUMEC, passando pelas co- pontuei: minha trajetória acadêmica e profissional ficou ordenadoras Natacha Rena e Juliana Porém, não concebia a tamanha positivamente marcada entre antes e depois • uma maior desenvoltura na capacidade de Pontes, parceiros e profissionais de distância que estava prestes a percor- deste intenso ano, onde muitas dificuldades realizar registros fotojornalísticos foi alcançada diversas áreas envolvidas voluntários, rer, em caminhos e experiências, construtivas marcaram minha presença no por mim, como resultado desta experiência patrocinadores e responsáveis afins, intrincados, dentro deste projeto de grupo de trabalho, que envolveu e envolve com o projeto, com o aprimoramento de até, finalmente, à razão de tudo que extensão. alunos bolsistas, coordenadores, professores, habilidades composicionais e técnicas, assim aqui é apresentado : este grupo de voluntários e, especialmente, um grupo pe- como as do cunho “relação corpo a corpo”, alunos e alunas que muito trouxe- Cansativos e recompensadores - culiar de alunas e alunos, todos provenientes com os objetos fotografados, uma vez que, ram para nós todos, não somente em vistas de um aprimoramento do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, intensamente, semana a semana por mais levando para si um valioso empode- pessoal, no âmbito sócio-cultural, MG, que representaram o início de novos de um ano - a fio - e in-loco, estive clicando e ramento de vida e profissional, mas aliado ao meu já citado almejado horizontes, no campo que diz respeito ao editando imagens de todo o processo desen- deixando, em contrapartida, extenso avanço profissional, em novas bases entendimento sociológico que tanto gosto de volvido pelo grupo; terreno de atuação e experiências de aplicações teóricas e articulações explorar, e aplico no que desenvolvo, profis- práticas e vivenciais, enriquecedores práticas, nunca antes por mim prova- sionalmente, dentro do que venho criando e • um desenvolvimento de relações e contatos para qualquer um de nós, emer- das, até então. Como Fotojornalista intuindo em minhas visões do que costumo de trabalho mais sólidos, mais articulados, e gentes profissionais, em vias de deste longo e multidisciplinar projeto chamar ‘fotojornalismo poético’. conseqüente enriquecimento de meu cur- solidificação conceitual, cultural e de extensão da Universidade FUMEC, rículo, como profissional da Imagética e de humana, em nossas áreas de atuação em parceria com o Banco Real e a Conversas, amizades formadas. Experiências Design Gráfico ; individuais. Certamente assim o foi, e ONG UNISOL, pude desempenhar trocadas e co-vividas. Momentos solidificados continua a ser, para mim. 68 69
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    oficinas, biblioteca, cantina,etc, fazendo felipe sales melo franco . design de produto nossos olhos e aos moradores da analogias com os percursos da favela; os dois comunidade, de exaltar o que há de No período de um ano só aprendi. contextos (favela e universidade) possuem bom na favela, trazendo novas pos- Não foi fácil como pensei, o que é seus atalhos, caminhos peculiares, traçados e sibilidades de renda e trabalho. muito bom! Aprendi a respeitar o percursos, becos e trajetos sem saída. próximo, a ver realidades e mundos Outro ponto fundamental é a distintos no mesmo lugar. Aprendi a E como será viver na favela onde todo mundo multidisciplinaridade que existe no pintar, fazer contas, criar, sorrir, dizer é igual e “alguns não existem”, segundo relato projeto, proporcionando um apren- não. Aprendi que, por mais tarde que de uma moradora sobre os constantes “gatos dizado mútuo pela união de diversos seja, conseguimos mudar, aprender, de luz” feitos: “sabe como eu descobri que o lugar conceitos e preceitos, e também a ter esperança. Aprendi a planejar, em que eu moro não existe no mapa? A CEMIG eficácia da ação, contribuindo para executar, trabalhar em equipe. cortou a luz, fizemos gato, daí levaram embora, e uma melhoria efetiva da comuni- Aprendi a ajudar, ser ouvido e ouvir. fizemos gato de novo, falaram que o Beco Gomes dade do Aglomerado. não existe no mapa, será que eu não existo?”. Portanto são muitas as lucubrações sobre as inconstâncias da favela, é terra de ninguém, logo, de todos. joanna sanglard . design de produto Do individual ao coletivo, metodologias Fazer parte do projeto ASAS é para utilizar minha profissão, todos esses anos de fac- começam a ser propostas por eles mesmos, inserir foto mim uma experiência a que nada uldade para ajudar pessoas menos favorecidas, um sinal de que enxergam que o ponto gera- é comparável. Primeiramente a pois ajudando os outros eu ajudo a mim mesma, dor (e inspirador) de todo esse processo é nada estranheza e ao mesmo tempo a uma vez que estamos todos interconectados. mais que seu contexto e suas possibilidades. É curiosidade de poder transformar interessante ver como mergulham no mundo uma realidade que é tão diferente Nas primeiras visitas ao Aglomerado me intriga- em que sempre viveram, mas de uma forma da minha, e através deste processo va pensar em como aquele império é construído diferente agora. de transformação vir a me conhecer dia a dia, retalho a retalho, com seus constantes cada dia melhor. Acredito que a puxados e achados das ruas. Outra experiên- A cada dia dessa vivência surgem novos vivência dessa alteridade entre mun- cia significativa foi o vice-e-versa, quando as questionamentos, caminhos e possibilidades, dos tão diversos possibilitou definir pessoas do Aglomerado vieram a primeira vez dando a oportunidade a nós, estudantes, de minha linha de atuação no mercado à universidade conhecer o meu então “mundo atuarmos na realidade que está debaixo dos como designer. É muito bom poder formal”. Percorremos laboratórios, salas de aula, 70 71
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    rafael barbosa .design gráfico Comecei a participar oficialmente do mais consolidada e o papel de cada integrante projeto de extensão ASAS no dia 4 de está sendo bem determinado pelas moradoras março de 2008, participei do projeto do Aglomerado da Serra. Tenho o objetivo de até o fim do mês de junho e retornei ao contribuir não só na área de design gráfico, da grupo em outubro. Analisando minha qual fui encarregado, mas também nas relações experiência, percebo que o projeto entre os alunos da universidade e os moradores tem ótimas perspectivas. O grupo de do Aglomerado da Serra, pois percebo que o trabalho constituído pelos alunos da trabalho em grupo e o convívio entre pessoas FUMEC é bem dividido e as tarefas são de realidades sociais tão diferentes é um desafio delegadas de acordo com o perfil e a diário. Tenho ótimas perspectivas para esse habilidade de cada voluntário. Posso trabalho e acredito que, se o empenho de cada relatar que durante os quatro meses envolvido for desenvolvido em conjunto com o em que fiquei fora o grupo evoluiu grupo, realizaremos as metas do projeto ASAS muito, a associação “Aglomeradas” está com excelência. rodrigo franco mattar . design de produto Vejo esse projeto social como uma pesquisar materias, tendências e funcionalidade excelente oportunidade de colocar para os produtos desenvolvidos. Paralelamente em prática muitos conhecimentos ao objetivo de fazer com que as aglomeradas, adquiridos no meio acadêmico, após o projeto, possam continuar desenvol- podendo ser usados de uma forma vendo um trabalho inovador e de uma forte profissional, já que o ASAS funciona identidade de pessoas que vivem o dia-a-dia de como uma pequena empresa, com uma periferia, acredito que o sucesso futuro será projetos, produtos, prazos, público- de todos os envolvidos, pois o convívio e a troca alvo e profissionais com cargos e fun- de experiências não só colaboram para a estru- ções distintas. O desafio de preparar turação de uma comunidade como também as aglomeradas para um mercado enriquecem o conhecimento dos estudantes e consumidor que é cada vez mais mestres, que colherão os frutos dessa vivência, exigente faz com que os bolsistas se adquirindo uma visão muito mais ampla e um dediquem ao máximo, tendo que repertório mais consistente. 72 73
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    03 paralelas atividades complementares 74 75
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    eco-bags joana sanglard |Graduada em design de produto pela Universidade FUMEC O primeiro produto desenvolvido pela equipe pelo caminho peças, retalhos e superfícies que do grupo ASAS foi uma coleção de eco-bags, possam ocasionar uma proteção quando unidas, acompanhando uma tendência ecológica e política as eco-bags são fruto da hibridização de diversas mundial contra o uso das sacolas plásticas para técnicas, conceitos, histórias e memórias. compras de supermercados. A produção dessas bolsas fez parte da disciplina optativa dos cursos de Entre vielas e becos, arranjos e acasos, a vida de design Artesanato e Design. Alunos da disciplina quem mora na favela está entregue ao acaso, construíram workshops semanais numa seqüência não importa o fim, vive-se da incompletude. lógica que auxiliasse na criação e confecção das Essa fragmentação e o senso de incompletude bolsas. estão fortemente presentes nos produtos desenvolvidos. Desenhos inacabados, costuras A elaboração conceitual presente na construção enviesadas, borrões, sobreposições de bordados, dessas bolsas se assemelha à forma de surgimento e colagens e estêncil. desenvolvimento das favelas através da “bricolagem”, explicada por Paola Berenstein no livro “Estética da A partir de cada uma das oficinas trabalhadas Ginga”; coletivamente (pontos, linhas, rabiscos, cores, texturas, colagens, observação, modelagem, “O acaso é parte integrante da idéia de bricolagem; é o apliques, estampas e bordados) as bolsas criadas incidente, ou seja, o pequeno acontecimento imprevisto, por cada uma das aglomeradas tomaram formas o “micro-evento”, que está na origem do movimento. únicas, apresentando tanto uma expressividade Bricolar é, então, ricochetear, enviesar, zigue-zaguear, singular, quanto um produto contaminado contornar.” (JACQUES, apud BERENSTEIN, 2003, p.24) pelas trocas resultantes das orientações dos professores, dos alunos da disciplina, dos colegas Assim como os barracos nas favelas são construídos da favela e dos alunos bolsistas do projeto ASAS. aos poucos e à medida que as pessoas encontram 76 77
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    parceria raiz daterra Coleção Natureza na Favela cassius silva | Gestor de Comércio, Comunicação e MKT da marca Raiz da Terra Brazilian Nature Wear A marca Raiz da Terra Brazilian Nature Wear tem como proposta o desenvolvimento de produtos de moda de forma ética, apostando, desenvolvendo e apoiando projetos sociais e ambientais. No início de 2008 tivemos a oportunidade de conhecer o Projeto ASAS, e a partir daí iniciamos essa parceria que já começa a render frutos. Traçamos como objetivo o desenvolvimento de uma coleção de camisetas cujo tema escolhido foi “a natureza na favela”, que foi lançada no Paris Ethical Fashion Show 2008 no mês de outubro. As expectativas foram superadas pelo poder criativo mostrado pelos integrantes do projeto no desenvolvimento das estampas, pelo resultado atingido nas peças piloto e no retorno já iminente por parte do mercado. A marca já planeja novos trabalhos em parceria com o Projeto ASAS, apostando cada vez mais nesse imenso potencial criativo, no desenvolvimento de um mix de produtos com alto valor agregado que possam ser comercializados pela Raiz da Terra BNW em suas coleções. 78 79
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    concurso almofadas bruno oliveira| Cursando 8º período de Ciência da Computação na Universidade FUMEC e 1º período de Artes Plásticas na Guignard na casa de uma das alunas para bordar (e só então aprendi a técnica!). As aglomeradas abraçaram o projeto de tal forma que me surpreendeu. Na segunda-feira nos encontramos novamente na Universidade FUMEC, fotografamos as almofadas (fruto da noite em claro de algumas delas) e enviamos o material para o concurso. O projeto das almofadas surgiu com a proposta dos tratores que estavam passando por cima Apesar de as almofadas não terem sido selecionadas para o concurso (acreditamos que o conceito das do 1º Prêmio do Objeto Brasileiro. As alunas do das estruturas do “morro”. Após mais pesquisas mesmas estava demasiadamente polêmico para tal), o processo foi essencial para a compreensão das relações projeto já haviam criado uma série de eco-bags (envolvendo inclusive frotagens das rodas dos dentro do grupo e das próprias práticas e metodologias do artesanato-design. (com bordados, apliques e pinturas com êstencil), tratores da obra), desenvolvemos o conceito mas estávamos pensando em enviar um projeto das almofadas, cartelas de cores, materiais e criado e desenvolvido pelas alunas com as acabamentos... Só havia um problema: já era técnicas de estamparia que estavam aprendendo. sexta-feira e a data limite para o envio dos Começamos a discutir os conceitos relacionados documentos para o concurso era na segunda- ao Aglomerado e às obras que a prefeitura estava feira. Não tínhamos telas gravadas, nem mesmo fazendo na região. Esse projeto, o “Vila Viva”, envolvia esticadas, o tecido não estava cortado, enfim, a modificação da malha viária e a construção de não tínhamos nada pronto. Após uma conversa conjuntos habitacionais e iria movimentar, segundo sincera com as alunas do projeto, que estavam dados da URBEL (Companhia Urbanizadora de Belo bastante animadas com a idéia de começar a Horizonte), cerca de 50 mil pessoas. As opiniões fazer produtos, estabelecemos um cronograma acerca de tal projeto eram as mais diversas no intenso para estamparia e bordado, que se grupo: havia aquelas que acreditavam que o fim estenderia por sexta-feira, sábado e domingo dos becos iria trazer mais segurança, além de inteiros. Foi então que pude perceber que, tornar melhor o sistema de moradia e a oferta de apesar de todos os problemas de processos lazer e cultura, e havia aquelas que acreditavam em grupo, as alunas do ASAS iriam dar conta que a mudança para “favelas verticais” seria uma do recado. Após uma intensa sexta-feira de forma de controle da população e que iria apenas gravação de telas e preparação de tintas e piorar a situação. Após duas semanas de discussão modelagens, passamos o sábado estampando as e pesquisas sobre o assuntos, durante uma aula almofadas e iniciando a costura. Já no domingo, de desenho, surgiu a idéia desenvolver a imagem com a Universidade fechada, nos encontramos 80 81
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    muros estampados juliana pontes| Professora da disciplina Núcleo de Projeto II da Universidade FUMEC A ação teve ampla repercussão na mídia impressa local, o que estimulou e valorizou muito a comunidade em questão e os próprios estudantes da Universidade. A A atividade de pintura e colagem de imagens nos muros da Escola Municipal Padre Guilherme Peters foi mais realização do projeto contou com o desfile da coleção um desdobramento acadêmico do projeto ASAS UNISOL-BANCO REAL. A proposta surgiu na disciplina Núcleo “Arte Favela” da aluna de moda da Universidade criada de Projeto II, do curso de Design Gráfico, que tinha o foco no design de superfícies e editorial. A princípio, com estampas produzidas pelas artesãs do projeto o tema seria a escola municipal e o Aglomerado. Porém, durante a nossa primeira visita de campo, tivemos ASAS e apresentada por jovens modelos do próprio a idéia de realizar uma oficina com as crianças e os adolescentes da escola municipal para coletar material Aglomerado. Essa atividade serviu como encerramento iconográfico e textual para servir de fonte de criação para os projetos acadêmicos. As oficinas aconteceram no do dia de pintura dos muros, e teve a presença dos Aglomerado, onde dividimos os jovens por grupos de idades e afinidades temáticas. Os assuntos trabalhados pais dos alunos da Escola Padre Guilherme Peters, giravam em torno do próprio cotidiano dessas crianças e desses adolescentes, como, por exemplo, o tema reforçando o vínculo entre a comunidade e a escola. “aconteceu comigo e foi legal”, ligado a memórias lúdicas e familiares. Outros temas surgiram, porém ligados Enfim, a parceria foi um marco como resultado e como à atividade de estamparia e ao design, como pictogramas, estampas modulares, colagem e grafite. As oficinas experiência acadêmica e atividade extensionista. A foram extremamente produtivas, gerando oportunidade de aprendizado de novos conteúdos para os jovens amplitude da ação na Universidade teve repercussão da comunidade e uma vivência inédita para os estudantes da Universidade. também no Diretório Acadêmico (D.A.), que financiou a O envolvimento dos alunos da escola municipal no processo criativo das imagens teve a finalidade de compra dos materiais necessários e os seus integrantes despertar o respeito pela estrutura física da escola, pois esta é sempre alvo de depredações, sujeiras e furtos. participaram ativamente da produção no Aglomerado. A intenção principal era expor nas paredes internas e nos muros do ambiente escolar a própria narrativa Os muros deixaram de separar para tornarem-se espaços dessas crianças, fazendo com que elas tenham orgulho das imagens por representarem sua história de vida. de proximidade e interação. Essas imagens também reforçam a auto-estima do grupo, apresentando de forma gráfica, atual e viva as suas memórias e fantasias. Outro fator responsável por gerar maior respeito pelo resultado do trabalho foi a participação ativa das crianças e dos adolescentes do Aglomerado na pintura dos muros e fixação dos lambe- lambes. O envolvimento dos jovens na montagem do projeto tornou-os conscientes do trabalho necessário para se realizar tal atividade e do valor desse tipo de intervenção. 82 83
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    | depoimento |alisson dos prazeres Estar no Aglomerado durante os dias de realização do projeto e, anteriormente, nas visitas guiadas foi uma experiência bastante enriquecedora. Até então era nebuloso para mim a maneira como o design poderia trazer mudanças significativas para a vida das pessoas, a ponto de tomar uma dimensão social. Conviver com os alunos da escola Padre Peters e a comunidade, além de enriquecer minha metodologia de projeto, deixou evidente o tamanho da nossa responsabilidade, como designers, na construção e no desenvolvimento da sociedade à nossa volta. A troca foi mútua. Enquanto nós, estudantes de Design Gráfico da Universidade FUMEC, ensinávamos noções básicas de design para os alunos, como composição e teoria das cores, aprendíamos de maneira mais eficaz com o nosso público, pois estávamos inseridos naquele meio. Mas, acima de tudo, trocávamos vivências e novos conceitos. Levamos nossa formação acadêmica como uma referência positiva. No futuro, podemos ter designers derivados do Aglomerado, pelo fato de termos atraído a atenção das pequenas mentes para essa atividade. Também nesse período de inserção, por receber mais informações sobre todo o contexto de vida do Aglomerado, pudemos quebrar idéias clichês e nos livrar de qualquer preconceito que estivesse relacionado com elas. Poder sentir a emoção das crianças durante o processo do projeto, do qual as mesmas participaram ativamente, é algo muito gratificante. Mais gratificante ainda é aumentar nosso repertório cultural com essa comunidade detentora de tanta riqueza que para nós era, até então, oculta por trás do morro. 84 85
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    | depoimento |fernando vasconcelos A oportunidade que tive ao desenvolver esse projeto para a escola, um ambiente tão importante na criação de uma, e de muitas pessoas, foi muito empolgante, despertou em mim uma vontade de misturar a capacidade de impacto das intervenções urbanas, do grafite e da estética e as mensagens lúdicas de desenhos coloridos e “alegres”. A abordagem, os materiais, a idéia e a localização foram tarefas relativamente tranqüilas, mas quando fui realmente grafitar e colar as imagens nos muros, foi uma novidade enorme para mim, que nunca tinha realmente feito um grafite com apoio de tantas pessoas, com empolgação e descontração, e uma determinação de saber estar fazendo algo que vai comunicar tanta coisa. Quando recebi elogios e a aprovação das pessoas que vivenciam a escola, de pessoas que trabalharam comigo nos muros, e dos alunos que tanto se empolgaram, foi uma recompensa enorme, eu nao queria parar mais. Queria ficar ali o dia todo pintando muros, colocando em tinta uma mensagem positiva para quem quisesse e pudesse enxergar, colocando o conceito em forma e cor, dando vida ao projeto desenvolvido na faculdade. Foi uma experiencia que me abriu um horizonte novo, de novas idéias e caminhos a seguir. Faria tudo de novo se pudesse, e passaria adiante toda a experiencia a quem interessar. Agradeço principalmente à professora Juliana por acreditar em mim e me motivar quando achava que não conseguiria. 86 87
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    | depoimento |reinaldo rocha A vista era maravilhosa! O projeto de núcleo com a Juliana nos levou para o topo do mundo, essa era a impressão que dava lá de cima. Os sorrisos das crianças foram as maiores recompensas, e logo depois os lanches e a satisfação de um trabalho tão bonito. Foi muito marcante pra mim porque ver o trabalho sair da faculdade e atingir de maneira tão carinhosa as crianças do colégio Peters do Aglomerado ensina que é difícil ter oportunidade de aprender, que nossas atitudes podem realmente influenciar outras pessoas. E, quando eu falo de atingir as pessoas com nossas ações, não falo só das crianças, mas do exemplo que me foi dado pelo pessoal do projeto. O desenho no muro é só uma marca de uma atenção muito especial que o projeto do Sol mostrou. Por isso aplaudo de pé todos que participaram e agradeço pela oportunidade com saudades de lá de cima. 88 89
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    | depoimento |karina leite DESFILE COLEÇÃO ARTE FAVELA NA ESCOLA PADRE GUILHERME PETERS A coleção Arte Favela foi desenvolvida como projeto de Trabalho Final de Graduação para a conclusão do curso de Design de Moda da Universidade FUMEC. Para a coleção foram criados 15 looks inspirados no street wear com aplicações de serigrafias a partir de estampas desenhadas pelos alunos do Projeto ASAS que mostravam a identidade de cada participante. Depois da coleção pronta, foi feito um desfile na Escola Padre Guilherme Peters. Para o desfile convidamos como modelos as meninas moradoras do Aglomerado da Serra, que ficaram super animadas com o convite. Durante o dia da apresentação, na preparação do desfile senti que as meninas ficaram super interessadas pelo assunto, por toda a organização de um desfile, pois muitas delas nunca nem tinham presenciado algum. Nos ensaios tentavam da melhor forma possível aprender a desfilar da maneira correta para que na hora da apresentação para todos fizessem certo. Achei muito legal o interesse que as meninas mostraram e a forma como se comportaram. Com essa oportunidade que demos para as meninas vimos até alguns talentos na favela, algumas meninas lindas que com a oportunidade certa poderiam revelar um grande talento. Agradeço muito a Juliana e Natacha pela oportunidade de mostrar meu trabalho para todos aqueles que participaram do meu projeto e a forma como repercutiu esse desfile em jornais de grande circulação. Agradeço muito também pelo aprendizado maior que tive com todos do Projeto ASAS, que com certeza vou levar sempre comigo. Muito obrigada! 90 91
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    | depoimentos |D.A. Foi um encontro gratificante, de realidades distintas. é impressionante a alegria que uma coisa tão simples, como a pintura de um muro, pôde proporcionar àquelas crianças. Para nós foram algumas horas do dia; para eles uma inspiração para uma vida melhor, mais colorida, um sopro de confiança e esperança. Esperança real, tão tátil quanto as mãos sujas de tinta e os pincéis que deram vida ao dito muro, que os acompanha diariamente; esperamos, assim, que todas as coisas boas que “colocamos” nele possam também acompanhar as crianças no dia-a-dia. | Ingrid Sander e Diego Silva | Consta que o significado do verbo aglomerar é amontoar, acumular, empilhar, reunir, apinhar. Acredito que esse projeto resultou num aglomerado: muitas crianças, muitas mãozinhas inexperientes, muitas cores e emoções variadas sobre a aventura de pintar um muro, um muro que todos vão ver! Um muro-referência para essas mesmas crianças, que provavelmente nunca tiveram muita experiência no que se refere à expressão de arte. Fui levada a esse projeto, como membro do Diretório Acadêmico dos estudantes de Design, da FUMEC, mas minha participação não ficou restrita ao registro fotográfico ou à colaboração na tarefa da pintura. Aprendi a apreciar os traços trêmulos, os escorridos e as falhas como parte integrante e importante de um trabalho que se propôs a ser coerente: foi um trabalho para as crianças e das crianças e, por isso, ele merece ser respeitado. | Rachel Grandinetti | 92 93
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    oficina pinhole | Outras maneiras de ver as coisas | alexandre lopes | Fotógrafo, com especialização em Pesquisa e Ensino no Campo das Artes Plásticas pela Escola Guignard, professor uma caixinha de fósforo e, em contrapartida, do lado laboratório de fotografia, onde os papéis dos cursos de Graduação em Design de Moda e Design Gráfico e do curso de Pós-Graduação em Design de Moda da Universidade externo desses ambientes ter muita luminosidade. Com fotográficos que ora estavam nas pequenas FUMEC. Professor Colaborador do projeto ASAS-UNISOL/Banco Real. outros pequenos detalhes conseguimos exemplificar embalagens de filmes, já fotografados, estão o ato físico da formação da imagem, gerando assim, prontos para o processamento fotoquímico. Um exercício do olhar: é assim que determino essa oficina cuja função principal, além de esclarecer a sem dúvida, um mínimo de sensibilidade e emoção aos E é nessa hora que a mágica acontece. Tanto formação da imagem produzida pela condução da luz através de um pequeno orifício transformando participantes. para os que estão experimentando pela em imagem visível, é também exercitar o olhar. Aprender a ver o mundo por outros pontos de vista primeira vez, como para quem já a conhece de que não sejam tão gratuitos e passivos só porque estamos de olhos bem abertos. Pela função técnica o Uma vez esclarecidos tais princípios, os alunos desejam tempos esse caminho e como para as pessoas esclarecimento remonta a antigos meios de produção/comunicação. Só esses já dão muito que discutir em praticar, e dentro da proposta está a construção da presentes: a novidade e o reconhecimento e a sala de aula, mas nosso objetivo também é produzir imagens, imagens com objetos muito variados e de fácil câmera, seguindo os princípios da técnica de fotografia aprendizagem de um processo de construção reconhecimento. Nesse caso escolhemos uma pequena caixa de fósforos e outra pequena embalagem: a do de Pinhole, conhecida mundialmente como uma de imagem à moda antiga (fotoquímico). próprio filme fotográfico. espécie de fotografia artesanal, rústica, que necessita de pouquíssimos recursos para obtenção da imagem. Mais uma vez remeto ao olhar este pequeno Nesses dois objetos de uso cotidiano transformamos em pequenas caixas escuras com um orifício feito Nesse momento nota-se um envolvimento fantástico resumo, pois é nele que encontramos por agulha e dentro desses colocamos materiais sensíveis: filmes e papel fotográfico. Com uma pequena por conta dos mais empolgados e daqueles que mais uma vez a tradução da emoção pelo passagem com metodologia audiovisual os alunos podem perceber que o domínio dessa técnica é desejam obter uma foto com tais recursos. Mesmo assim reconhecimento de algo que está bem perto milenar, porém o uso dos materiais sensíveis remonta de algumas décadas a partir dos meados do sec. XIX. as dúvidas não cessam por completo e a enxurrada de de nós e que a maioria desconhece. É nesse Concluímos então que essa experiência não é tão nova assim, mas para quase a totalidade esse exercício perguntas é inevitável. Em meio à descontração pela redescobrimento que fazemos com que outros aconteceu pela primeira vez e diante dos próprios olhos com a execução dessa oficina. construção de tal objeto, a imaginação aflora e questões possam ter acesso. E é com este prazer que sigo corriqueiras se tornam grandes mistérios desvendados. fotografando e agora multiplicando tais idéias e O que de novo então vemos nisso? Novamente me remeto ao olhar. O olhar curioso, duvidoso, fantasioso, Estão todos prontos para fotografar. conhecimentos. Agradeço pela oportunidade. angustiado, satisfeito ou talvez apenas emocionado das pessoas que participam do projeto e que agregam qualquer informação bem-vinda. É, sem dúvida, uma experiência única. Parece que é tão complicado se Passam-se uns quinze minutos e a turma retorna à produzir imagem, seja ela fotográfica, cinematográfica, videografica, analógica ou digital. As mídias podem sala de aula com as devidas embalagens de filmes, variar, mas a base para se fazer imagem é a mesma desde o princípio dos tempos. Basta ter as condições transformadas em câmeras pinhole, fotografadas ideais. São elas: ter de um lado um ambiente com pouca luminosidade, seja ele uma grande sala de aula ou e prontas para mais uma incursão, dessa vez no 94 95
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    passo-a-passo confecção de pinholeem caixa de fóforos 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 96 97
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    aglomeradas | Imagens fotográficas em objetos de luz | juliana pontes | Autora do artigo abaixo publicado no “Letras”, informativo do Café com Letras Em relação à intenção, a exposição Aglomeradas foi A descoberta do produto de design ‘artesanal’ A exposição Aglomeradas traz as vilas do Aglomerado da Serra como território de referências. Esse repertório pensada com um propósito muito claro: revelar às despertou esses alunos para a possibilidade comum aparece representado por instantâneos da vida cotidiana, registrados pela técnica de pinhole próprias artesãs, autoras das imagens, como o seu do exclusivo. Eles apostaram no diferencial das em caixas de fósforo. As imagens, para um olhar desatento, não passam de cenas fugazes da vida diária, universo particular pode se tornar uma experiência luzes aplicadas uma a uma, de acordo com o nada que mereça ser observado mais tempo do que pede a sua aparente banalidade. No entanto, para estética compartilhada de forma coletiva. Quando que a interação com a imagem proporcionava; um observador atento essas trivialidades compõem perfis humanos e sociais, expõem questões de ordem se trabalha a formação de um grupo lida-se com nos tamanhos variáveis; no exercício dos individual, mas também condições coletivas. Um grupo, questões compartilhadas, processos coletivos, conhecimento, mas também com subjetividades, acabamentos perfeitos, mesmo feitos por são esses os grandes motivadores dessas caixinhas de luz que formam a exposição. O grupo, nesse caso, com a dimensão humana latente. Não se pode mãos humanas; e na pesquisa como chave pertence ao projeto ASAS - Artesanato Solidário no Aglomerado da Serra – que está em processo de multiplicar o conhecimento sem tocar a experiência. para soluções inventivas. Aqui o processo capacitação em design e artesanato pela parceria da Universidade FUMEC e Universidade Solidária (UNISOL), A experiência nos diz algo da natureza sensível do de capacitação em design e artesanato nos com patrocínio do Banco Real. aprendiz, inclui o ato de incorporar pensamentos apresentou o seu caminho inverso: a observação na ação. Por outro lado, toda ação traz uma carga do artesanato reaproximou o design da Ao trabalhar com projetos sociais utilizando o design e o artesanato, percebo cada vez mais o quanto afetiva ligada à intenção. Nesse emaranhado experência única de se produzir fora do padrão. essas duas áreas podem percorrer caminhos muito próximos. Estou me referindo agora não só ao artesão surgem, de forma inesperada, imagens fantásticas Padrão nesse caso se refere a linguagem e despreendendo–se das suas regras e de modelos para explorar mais a inventividade e a autonomia criativa. da serra, descobertas justamente pela intenção do fomas, mas também à repetição produtiva. A minha reflexão se volta também para o aprendiz do design, que ainda não está totalmente contaminado olhar, ou melhor, pela invenção do olhar. A intervenção do designer no ato produtivo, pelas crenças tradicionais da área profissional, mantendo-se livre e aberto para as diversas formas em que nesse caso, foi determinante para o diferencial o pensamento do design pode se manifestar. Aqui se encontra o verdadeiro entendimento da palavra A antecipação do processo criativo e produtivo, estético e funcional dos produtos, assim design: intenção, projeto e desenho. Em outras palvras, fazer design envolve o entendimento a priori do característica específica da atividade de projetação como foi fundamental para elevar o seu valor que se pretende; a antecipação da ação e a execução técnica. Atender a essa lógica aparentemente simples do design, surgiu nesse projeto pelo envolvimento simbólico. Uma carga de significados foi gerada singnifica produzir design, mesmo que essa definição a princípio pareça muito ampla. dos estudantes de design da Universidade pela condição de objeto único, que carrega FUMEC, bolsistas do ASAS, com um ‘fazer à mão’. uma imagem criada através de um processo 98 99
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    extremamente particular efunciona como uma do resultado inspirou a beleza da montagem: caixas luminária, ou melhor, como um objeto de luz. O pretas, simulacros do mecanismo fotográfico, onde utilitário carrega vestígios, signos e se veste de uma superfície se torna sensível pela luz. Pontos de interpretações, modificando diretamente a relação luz remodelando a imagem da realidade. Leds, fios, entre usuário e objeto. transparências, formas iluminadas e somente uma luz azul. Um ponto único de luz azul, como um jogo, Quanto à execução técnica, as imagens iluminadas mas do acaso. Essas preciosidades nos convidam a que me refiro são fotografias realizadas com à reflexão, provocada também pela disposição a técnica pinhole. Em outros termos, são fotos desses objetos de luz em meio ao burburinho do feitas em caixinhas de fósforo perfuradas e com Café, saltando na penumbra da cada ambiente, um negativo no seu interior. Cada ‘aglomerada’ redesenhando a noite no morro, a noite na cidade. montou sua caixinha e apontou para a sua própria realidade. A precariedade da tecnologia atende à necessidade de despojamento do olhar e à condição de aprendiz. Os resultados são gaiolas que surgem como cenários, gatos que são personagens, vultos como paisagem, flores, telhados, cores, manchas, pedaços de ruas, céu, chão, fragmentos de casas, sombras. Cada parte isolada é ao mesmo tempo pessoal e universal. Os temas se aglomeram não por sentido ou continuidade, mas por uma mesma origem, o território em comum. Metáfora do morro, surgem misturas de pessoas amontoadas, seus objetos, suas marcas, seus barracos empilhados. A surpresa 100 101
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    oficina de texto | Palavras do Cotidiano | tailze melo | Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas. Coordenadora, em parceria com Renata Alencar, do curso Na oficina Costuras do cotidiano: palavra é vida, buscamos refletir a palavra em todo o seu potencial semântico de pós-graduação lato sensu “Processos Criativos em Palavra e Imagem” no instituto de Educação Continuada da PUC Minas. Professora e estético. Na primeira etapa da oficina, sem utilizar uma terminologia lingüística/semiótica, conversamos com da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte. as artesãs sobre a noção de signo verbal, metáforas, polissemias e redes semânticas. Utilizamos exemplos do cotidiano e ficou evidente a importância da palavra no mundo simbólico que tangencia a nossa existência. Na “Vim pelo caminho difícil, revela a dinâmica própria do nosso modo de segunda etapa da oficina, propusemos uma atividade orientada cujo objetivo foi organizar uma rede semântica a linha que nunca termina produção, ou seja, a desigualdade social inerente com palavras relacionadas aos conceitos de cada produto criativo. A intenção foi apontar possibilidades a linha bate na pedra, ao capitalismo. criativas com palavras e identificar em quais projetos era coerente se valer dessa matéria expressiva. No último a palavra quebra uma esquina, momento do encontro, fizemos uma roda para a apresentação dos textos confeccionados durante a oficina. Do ponto de vista artístico, a favela sempre mínima linha vazia, Foram apresentadas diferentes construções textuais: “palavras biográficas” que revelaram um léxico próprio, inspirou produções nas mais diferentes a linha, uma vida inteira, o olhar único de cada artesã para sua história. Cartografias subjetivas, mas todas elas costuradas pelo mesmo linguagens expressivas e foi representada de palavra, palavra minha”. (Paulo Leminski) signo: favela. maneira diferente ao longo de sua história: nostálgica como nos versos de Noel Rosa, A idéia de cotidiano foi central em todas as etapas do cheia de dignidade como no Favelário Nacional processo criativo desenvolvido no projeto ASAS UNISOL. de Drummond e violenta como na prosa de Por isso, as artesãs envolvidas, todas elas moradoras de Paulo Lins. A favela é multifacetada, por isso o favelas, organizaram suas criações a partir de situações, importante é pensá-la para além dos clichês das imagens e memórias situadas nas especificidades desses páginas policiais. Nada mais oportuno, então, do espaços. que representações produzidas por gente que Nesse sentido, trata-se de um projeto que propõe vive seu cotidiano entre becos e tetos de zinco. um olhar para a favela no que ela tem de singular, indicando, assim, uma abordagem que se opõe à idéia Nessa lógica, as artesãs participantes do de pensá-la em suas ausências. No entanto, explorar UNISOL tiveram a oportunidade de traduzir, de as idiossincrasias desses territórios não implica pensar modo criativo, cenas da favela. Nos produtos, na lógica equivocada e ingênua do modelo de “cidade destacaram-se, muitas vezes, a dimensão poética partida”. Sabemos que a cidade é uma tessitura, uma e o potencial inventivo. malha urbana. A favela é “o avesso do cartão-postal” e 104 105
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    ETELVINA XAVIER DE ALMEIDA Soua 8ª filha de 14 filhos. Morei na roça até os 13 anos de idade. Fiz da 1ª à 4ª série do primário, trabalhei com meus pais, ajudando a plantar feijão, milho, arroz, quiabo e jiló, adorava nadar e brincar no rio, era uma criança muito espoleta. Aos 23 anos me aventurei com um rapaz e tive uma gravidez inesperada, mas depois de nove meses nasceu uma linda menina, Daniela, que cuidei com muito amor e carinho. Hoje ela tem 27 anos e me presenteou com dois lindos netos, um de 12 e outro de cinco anos. Sou uma pessoa que não espera para as coisas acontecerem. Gosto de ajudar sem medir esforços e tenho disposição para fazer qualquer coisa. Sou honesta e decidida. Sou cuidadora de idosos, faço faxinas e estou muito feliz com meus produtos desenvolvidos no ASAS. SOBRE O PROJETO Durante esse curso eu fiquei muito feliz de participar do curso de serigrafia, não tinha noção de como era. Foi importante para mim participar. Aprendi a conviver com outras pessoas. O mais interessante foi saber que o nosso produto iria para uma feira na França. E falamos do local onde moramos, que é o Aglomerado da Serra. Momento triste foi quando houve uma votação para escolher um representante para ir a São Paulo. Fui a escolhida, mas quando chegou perto da viagem as professoras mudaram de idéia. Tem componente que quando está na FUMEC é uma pessoa, e fora é outra. Agradeço por ter participado do curso. Foi muito gratificante para mim. 110 111
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    GABRIELA ESTEFANE Sou GabrielaEstefane e tenho 16 anos. Já fiz artesanato, moro no Bairro Serra, na Primeira Água. Eu estudo, estou na 8ª série e sou vereadora mirim da Escola Municipal Padre Guilherme Peters. Já fiz vários cursos. Agora que eu entrei no curso da FUMEC eu já sei fazer várias coisas, já sei pintar, desenhar, e fazer várias coisas, coisas que antes eu não sabia fazer. Já fiz dois cursos de artesanato, um junto com a Schirley, de biscuit, e com a Suzaninha, de bijuteria. Estou me empenhando muito para acabar essa reta do curso para sair daqui sabendo todas as informações. Agora estou aprendendo a fazer lenços. Lenços de cabeça, de braço etc. SOBRE O PROJETO Esse projeto foi ótimo na minha vida, igual eu já falei, esse curso me ensinou várias coisas, eu nunca imaginei que eu ia ter uma oportunidade dessas, mas agora eu sei como é bom esse curso. Nós já fizemos várias coisas, fizemos bolsas, fronhas e agora estamos fazendo uma coleção, não é ótimo? Esse curso caiu do céu. O nosso projeto tem um nome: ASAS. Nós do projeto, conversamos, fazemos reuniões, tentamos nos entender. Quando o curso acabar vamos abrir oficinas na escola, vamos ensinar aos alunos tudo que nós aprendemos. Eu não aprendi muita coisa, mas vou fazer o possível para passar pra eles o que 112 aprendi. 113
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    JOANA RODRIGUES SOUZA Meu nomeé Joana Rodrigues Sousa, tenho 51 anos, duas filhas e uma neta. Moro no Bairro Mantiqueira em Venda Nova. Adoro ensinar. Gosto de dar cursos de pintura, bordado, tricô, crochê e vagonite. Trabalho com costura em geral e adoro o que faço. Queria ter a oportunidade de ter um emprego com carteira assinada e ensinar a pessoas o que sei. SOBRE O PROJETO O curso para mim foi tudo de bom que eu pude encontrar na minha vida. Graças ao meu bom Deus, quando pensei que estava só no mundo encontrei uma família que me acolheu com bastante amor e paciência. Agora não me sinto mais sozinha. Vou ser grata o resto da minha vida de ter encontrado alguém que pudesse me ajudar tanto assim. Vou guardar tudo que aprendi no fundo do meu coração. Nunca vou esquecer cada desenho rabiscado que eu aprendi a fazer durante o curso, principalmente aqueles que eu achava feios e as professoras falavam que estava bonito, isso só ia me incentivando cada vez mais a fazer mais desenhos. Para sempre obrigada, com muito amor de verdade. 114 115
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    MARIA DO CARMO ROCHA Eusou Maria do Carmo, 58 anos, casada e mãe de dois filhos e avó de dois netos. Sou artesã, dou aulas de pintura em tecido e tapete de retalhos, faço enfeites para pet shop: gravatas, lacinhos e laçarotes para cachorros. Bordo, faço crochê, gosto muito de desenhar. Já fui oficineira da Escola Aberta na Escola Municipal Maria das Neves e também na obra social do Bairro São Lucas. SOBRE O PROJETO Durante o curso tive momentos felizes e tristes. O triste foi a perda do meu tapete, mas fiquei feliz com o reconhecimento das professoras e estou muito satisfeita com a máquina de costura, e fui recompensada também com a notícia do Cássio de que ia levar nossos produtos para a França junto com os seus. O que mais me marcou foram as caixinhas pinhole com a exposição. No começo achei que não ia dar em nada, por ser simples a caixinha de fósforos. Ao revelar as fotos saíram aquelas imagens borradas e que no final deu um resultado de um tamanho que todos ficamos surpresos. Mas, se não fosse o esforço e ajuda do Bruno, com certeza tudo isso não teria acontecido. Estou muito feliz porque aborrecimento foi um, felicidades foram novecentas e noventa e nove. 116 117
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    SCHIRLEY MARIA ARAÚJO Sou SchirleyMaria Araújo, tenho 41 anos, solteira, natural de Aimorés/MG, atualmente moradora do Aglomerado da Serra. Sou artesã, artista plástica e atuo no Projeto Escola Aberta como educadora fazendo trabalhos artesanais como biscuit, decoupage e reaproveitamento de materiais. Sou umas das coordenadoras do Coletivo Criarte, na área de produção e cenário. Faço parte do Projeto [RedeMuim] de Arte e cultura, 3ª edição com apoio da lei de incentivo à cultura, como auxiliar de produção e cenografia; voluntária no Projeto Voe, (educação Oral). Participo do Projeto Arena da Cultura na iniciação de artes plásticas. Projetos em andamento: voluntária no centro de Saúde Nossa Senhora da Conceição com atividades de tapeçaria para terceira idade e a comunidade; projeto na Igreja Nossa Senhora da Conceição com artesanato. SOBRE O PROJETO O curso me trouxe um novo olhar dentro da perspectiva do design artesanal, ou seja, o artesanato que faço hoje tem outro conceito. Tornei-me uma pessoa mais ponderada e confiante. O mais interessante foi mesclar minhas atividades do Coletivo Criarte com o ASAS. Assim meus trabalhos foram tendo uma forma mais prática e objetiva. As diversidades da FUMEC e da Favela ajudaram muito no relacionamento do projeto ASAS. Quebrou um pouco essa questão de sanguessugas. Eles também perceberam que temos coragem e opinião, que poucos sabem o que querem e como querem. Esses desafios me fizeram perder o medo de mostrar quem sou eu. E surgiu a vontade de voltar a estudar. A moda é aprender trocar experiências, formar e fortalecer redes. Tenho muito que aprender, o que aprendi vou multiplicar com muito zelo. Somos um jogo de panelas: panela de pressão que fica cozinhando a ponto de explodir, frigideira que só fica fritando as informações, caçarolas que fazem cada revirado, caldeirão que fica fervendo caldos. Temos até uma chaleira, na sua calmaria, fervendo seu chá. Bom, sei que temos que ser o mais118 natural possível, assim seremos originais. 119
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    SUZANA MARÍLIA DOS ANJOSOLIVEIRA Eu, Suzana, saí da minha casa com 14 anos de idade em busca de uma vida melhor, passei muitas dificuldades e barreiras, mas graças a Deus hoje eu olho para trás e vejo que meus obstáculos, lutas e dificuldades todas ficaram para trás. Mas hoje estou no ponto certo e agradeço a Deus por ter conseguido os meus objetivos. Sou formada em magistério, manicure e também sei um pouco de artesanato, bijuteria e costura. Gosto de trabalhar no meu serviço porque estou fazendo o que sonhei fazer um dia, de ser uma professora. E fico na sala de mimeografia onde passo o dia. Mais uma vez agradeço a Deus por me dar essa oportunidade de estar participando deste curso porque aprendi novas idéias e tive grande experiência porque Deus está no controle e me dá força para ir até o fim. SOBRE O PROJETO No decorrer do curso posso dizer que aprendi muitas coisas, como relacionar com outras pessoas que possuem outras visões de mundo. Quando comecei a desenvolver muita criatividade, como foi gostoso eu entender que de um simples risco sairia muitas coisas bonitas, mas foram com as várias pesquisas que eu cheguei nesse objetivo. 120 121
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    . gatos deluz . Todos os lugares precisam de luz e essa pode vir autora | elzy nunes de oliveira lima de um imenso céu durante o dia ou até da mais produto: luminária simples luminária durante a noite. Este produto material: tricoline técnicas: costura e serigrafia representa a importância da luz na vida de cada um. No Aglomerado quem não possui luz faz o possível e o impossível para consegui-la. Muitas vezes não sabemos ao certo de onde vem a energia da nossa luz, só sabemos que precisamos dela, mais do que qualquer outra coisa. 126 127
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    . ganso noasfalto . A temática explorada para meu produto foi o ganso autora | etelvina xavier no asfalto, procurei trabalhar com algo que não tinha produtos: jogo americano e porta-copos no mercado. Onde moro encontro gansos que ficam materiais: brim técnicas: costura e serigrafia na rua, o que me chama a atenção é o fato de esses animais viverem em um lugar onde não tem água para nadar. Em minhas pesquisas descobri que na Roma Antiga um exército foi salvo graças ao grasnar de dezenas dessas aves, revelando-os como verda- deiros seguranças. 128 129
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    . coco babão. O título do meu trabalho foi o coco babão, que é um autora | joana rodrigues de souza coco comestível. A fruta amadurece quando o coco produtos: avental, luvas e pegador está seco. A castanha é mais gostosa do que o caldo material: brim técnicas: costura e serigrafia do coco maduro. Escolhi falar sobre o coco babão, pois é uma fruta pouco conhecida e muito presente no Aglomerado. Outro motivo é o modo com que as pessoas o retiram do pé, é interessante perceber quando todo mundo se reúne com um pedaço grande de madeira e começa a cutucar os coquinhos no pé, todos unidos pelo mesmo objetivo. 130 131
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    . natureza nafavela . Este produto representa os lares de quem vive, autora | maria do carmo da rocha mora e sobrevive na favela. As casas se misturam às produtos: almofadas árvores, as árvores se misturam às janelas e essas por materiais: brim técnicas: costura e serigrafia sua vez se misturam às folhas. A realidade é que no morro tudo se mistura e se transforma em Aglo- merado. 132 133
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    . toy-beco . Este produto representa o dia-a-dia dos becos e autora | suzana marília dos anjos oliveira vielas do Aglomerado da Serra e a convivência do produtos: almofadas beco onde moro. Através da toy-art, representei a materiais: feltro técnicas: costura e serigrafia realidade e a fragilidade de cada personalidade. As letras surgiram da pesquisa feita no livro “Tipografia e elemento do Cotidiano da Favela”. Nessa procura encontrei conceitos como: casas, escadas, gatos de luz, praças, espaços abertos e ruas de terra e asfalto. Toy-art é uma forma de representar os tipos de violência entre os becos e as vielas do Aglomerado da Serra. Não há necessidade de expressar com palavras, basta observar o toy com a mesma sutileza de sua criação. 134 135
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    . muros ecercas . Este tema representa um pouco da minha vida. autora | shirley maria araújo Fui cercada de muito zelo pelos meus pais. Por ter produto: cadernos, bloquinhos, envelopes uma aparência frágil, mantive esses muros e cercas material: papel calandrado, artesanal e reci- clato, fio encerado em minha vida durante muito tempo. Hoje em um técnicas: encadernação e serigrafia mundo diferente, misto e rico de diversidade, uso esses muros e cercas para expressar a minha arte. Muros e cercas são mantidos para organizar uma sociedade, mas muitas vezes parecem desorga- nizar o espaço público. Um aglomerado de lixo se transforma em cerca e muros, expressão artística que quebra todas as fronteiras e diz para o mundo: “Vista sua alma todos os dias”. 136 137
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    Este catálogo foicomposto em Myriad Pro. O miolo é impresso em Reciclato 90g. A capa em papel kraft 300g com aplicação de relevo seco. Impressão e acabamento por Artes Gráficas Formato. Belo Horizonte, Minas Gerais, em junho de 2009