A proclamação da República no Brasil
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A palavra república vem do latim res publica ( res = coisa; publica = de todos ), significando
portanto que em um sistema republicano, a "coisa pública" (terras, riquezas e direção da
nação) são bens comuns, acessíveis a todos, e não mais definidos por origem divina
ou familiar.
Em 15 de novembro de 1889 aconteceu a proclamação da República no Brasil, pondo fim a
monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil e ao reinado de Dom Pedro II.
A proclamação da República foi um golpe de Estado realizado por um grupo de militares do
Exército Brasileiro, comandados pelo marechal Deodoro da Fonseca e apoiados por um
pequeno grupo de políticos e intelectuais civis, que aconteceu no Rio de Janeiro, então capital
do império.
Neste mesmo dia foi instituído um "Governo Provisório" republicano do qual faziam parte o
marechal Deodoro da Fonseca como presidente da república e chefe do governo, o marechal
Floriano Peixoto como vice-presidente, tendo como ministros Benjamin Constant, Quintino
Bocaiúva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio Ribeiro e o almirante Eduardo
Wandenkolk.
As causas para a proclamação da República no Brasil
O regime monárquico existiu no Brasil entre 1822 a 1889, tendo dois imperadores: D. Pedro I e
D. Pedro II. Entre as causas para o fim da monarquia e proclamação da República, estão:
• Crise e desgaste do sistema monárquico, incapaz de atender aos interesses das elites
agrárias, principalmente após a abolição da escravidão;
• A Monarquia, apesar de sucessivas reformas que flexibilizavam a administração, era incapaz
de corresponder aos crescentes anseios de mudanças sociais da classe média e profissionais
liberais da população urbana, por mais liberdade econômica e representação política;
• Interferência de D. Pedro II nas questões religiosas, provocando atritos com a Igreja Católica;
• Críticas ao regime monárquico por parte dos militares, descontentes com a corrupção
existente no governo (e da qual eles não se beneficiavam).
Óleo sobre tela "Alegoria da República" - Manuel Lopes Rodrigues (1896)
Imagem: pt.wikipedia.org
Como aconteceu a proclamação da República no Brasil
Apesar da intensa propaganda republicana por intelectuais e parte da elite, a ideia da mudança
de regime político não encontrava eco na maior parte da população do Brasil. Na eleição
parlamentar realizada no Império do Brasil, em 31 de agosto de 1889, o Partido Republicano só
conseguiu eleger dois deputados. Percebendo que não conseguiriam realizar seu projeto
político pelo voto, os republicanos optaram por concretizar suas ideias através de um golpe de
Estado. Para tanto, procuraram se aproveitar do crescente descontentamento das forças
armadas com o governo imperial. Precisavam, no entanto, de um líder militar respeitado na
tropa para realizarem seus planos.
Militar de alta patente e prestígio entre os diferentes setores do exército, o marechal Deodoro
da Fonseca era o aliado ideal. Homem de convicções monarquistas e amigo de D. Pedro II,
sua adesão ao golpe ocorreu mais por conta de boatos mentirosos do que descontentamentos
políticos.
Em 14 de novembro de 1889, aproveitando-se da ausência de D. Pedro II, que se encontrava
em Petrópolis, os republicanos fizeram circular na cidade do Rio de Janeiro um falso boato de
que o governo imperial havia mandado prender Deodoro e o tenente-coronel Benjamin
Constant, um dos principais líderes dos oficiais republicanos. O boato afirmava ainda que se
pretendia instalar um novo Parlamento, recém-eleito, cuja abertura estava marcada para
20 de novembro de 1889. O objetivo era instigar o marechal a comandar com suas tropas um
golpe contra a monarquia.
No dia 15 de novembro de 1889, Deodoro estava doente e com problemas respiratórios.
O marechal saiu de sua residência aproximadamente às 6 da manhã, atravessou o Campo de
Santana, e, do outro lado do parque, conclamou os soldados do batalhão ali aquartelado, onde
hoje se localiza o Palácio Duque de Caxias, a se rebelarem contra o governo. Ofereceram um
cavalo ao marechal, que nele montou, e levantando seu chapéu, proclamou "Viva a
República!". Deodoro estava acompanhado pelo tenente-coronel Benjamin Constant e alguns
líderes republicanos civis neste momento.
Ocorreu então um desfile das tropas presentes no Campo de Santana pela Rua Direita – atual
rua 1º de Março – até o Paço Imperial.
Os republicanos precisavam agir rápido para aproveitar os acontecimentos e consolidar o golpe
de Estado. A situação ainda estava indefinida, pois a proclamação da República não tinha
apoio popular e os revoltosos tinham à disposição poucas tropas, que poderiam ser facilmente
vencidas por forças vindas de outras províncias e localidades do Rio de Janeiro. Não estava
claro se os militares haviam destituído apenas o ministério de Ouro Preto ou se o regime
monarquista também havia caído. O apoio do marechal Deodoro era fundamental naquele
momento.
Tendo Benjamin Constant à frente, espalharam novo boato de que o imperador escolheria
Gaspar Silveira Martins, inimigo político e pessoal de Deodoro da Fonseca, para ser o novo
primeiro-ministro e que o governo imperial pretendia reorganizar a Guarda Nacional e fortalecer
a força policial do Rio de Janeiro para combater o Exército, que depois de vencido seria
dissolvido. Com mais estas mentiras levadas ao marechal Deodoro da Fonseca, que retornava
de carruagem para sua casa, convenceram-no a aderir à causa republicana.
Os revoltosos ocuparam o Quartel-General do Exército, depois o Ministério da Guerra e o Paço
Imperial, onde depuseram o primeiro-ministro Afonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde de
Ouro Preto e seu gabinete ministerial.
O primeiro-ministro havia tentado resistir pedindo ao comandante do destacamento local e
responsável pela segurança do Paço Imperial, marechal Floriano Peixoto, que enfrentasse os
amotinados, argumentando que no local havia tropas legalistas em número suficiente para
derrotar os revoltosos e que o marechal enfrentou tropas bem mais numerosas na Guerra do
Paraguai. Floriano Peixoto recusou-se a obedecer às ordens dadas por Ouro Preto, afirmando
que no Paraguai havia inimigos e ali eram todos brasileiros. Em seguida, aderindo ao
movimento republicano, Floriano Peixoto deteve o primeiro-ministro.
O único ferido no episódio da proclamação da República foi o ministro da Marinha, José da
Costa Azevedo, barão de Ladário, que no Paço Imperial resistiu à ordem de prisão dada pelos
amotinados e levou um tiro.
Aproximadamente às 4 da tarde, reuniram-se alguns republicanos e vereadores na Câmara
Municipal do Rio de Janeiro e, em ato solene presidido por José do Patrocínio, foi proclamada
a República dos Estados Unidos do Brasil, tendo o marechal Deodoro da Fonseca como seu
primeiro presidente. Na mesma noite a proclamação foi aprovada sem votação, lavrando-se
então uma ata que foi assinada pelo marechal Deodoro, juntamente com uma carta destinada
ao imperador, informando sobre o banimento da família imperial.
Enquanto isso, Dom Pedro II, informado por telégrafo sobre o golpe e acreditando que o
objetivo dos revolucionários era apenas substituir o Gabinete de Ouro Preto, retorna de
Petrópolis ao Rio de Janeiro e na noite de 15 de novembro, reunido com o Conselho de
Estado, tenta organizar novo gabinete ministerial, sob a presidência do conselheiro José
Antônio Saraiva. Informado da proclamação da República e da adesão de Deodoro, decidiu
não oferecer resistência para evitar um conflito sangrento.
O texto da proclamação da República foi para as gráficas dos jornais que apoiavam o
movimento e, somente no dia seguinte, 16 de novembro de 1889, foi anunciada ao povo a
mudança do regime político do Brasil.
Óleo sobre tela "Proclamação da República" - Benedito Calixto (1893)
Imagem: educacao.uol.com.br
O exílio da família imperial
À 01:30 da madrugada de 17 de novembro de 1889 o tenente-coronel João Nepomuceno de
Medeiros Mallet acordou a família imperial no Paço da Cidade, no Rio de Janeiro, e em nome
do governo republicano provisório informava que o soberano destronado, a imperatriz Tereza
Cristina, a princesa Isabel, o conde D' Eu, e seus quatro netos deveriam embarcar para o exílio
naquele momento, no meio da madrugada daquele domingo em que caía um chuvisco frio.
Mallet afirmou para a família imperial que o objetivo do embarque naquela hora era para evitar
que simpatizantes mais exaltados do regime republicano hostilizassem o monarca e seus
familiares num embarque durante o dia. O objetivo real era o oposto: tomar mais difícil que
ocorressem manifestações de solidariedade a D. Pedro II pela população e que estas
manifestações criassem uma reação de parte das tropas que permaneciam simpáticas à
monarquia.
A princesa, quase aos prantos, se recusava a embarcar sem seus três filhos, enviados para
Petrópolis no dia 15 de novembro temendo tumultos no Rio de Janeiro, apesar das garantias
do tenente-coronel Mallet de que um trem especial traria os três garotos – Pedro de Alcântara
(14 anos), Luís Felipe (11), e Antônio Pedro (8) – e guardas especiais seriam colocadas em
todas as estações.
Com a colaboração do marido da princesa, o conde D'Eu, conseguiu-se após algum tempo
convencê-la a aguardar no navio a chegada dos filhos. Restava ainda convencer o sexagenário
e pacato imperador a embarcar sem usar a força. D. Pedro II levou bastante tempo para se
aprontar e aparecer no salão do palácio. Sereno e severo, entrou na sala vestindo uma
elegante casaca preta e segurando a cartola na mão.
Padecendo de diabetes há dois anos, o imperador oscilava naquele momento entre o torpor,
lapsos de memória e irritação. Apesar de ter assinado no dia anterior documento aceitando a
ordem dos republicanos para que saísse do Brasil, parecia não conseguir entender o que
estava acontecendo. O almirante Artur Silveira da Mota, o barão de Jaceguai, amigo da família
imperial, ainda tentou ajudar Mallet a convencer o imperador, dizendo que se temiam
manifestações de estudantes, sendo repreendido pelo monarca por sua falta de liderança
diante da Armada. Após demorada conversa, o conde D’Eu se postou ao lado do imperador e
foi encaminhando-o lentamente para fora, sendo seguido pelos demais membros da família
imperial.
No Largo do Paço, os soldados apresentaram armas e o imperador respondeu erguendo a
cartola. O palácio fica a poucos metros do Cais Pharoux, mas Mallet havia providenciado uma
carruagem para transportar os passageiros, onde se acomodaram o imperador, a imperatriz, a
princesa Isabel, o conde D'Eu e Pedro Augusto, (23 anos) neto mais velho do monarca, filho de
sua filha mais moça, Leopoldina, falecida em 1871. No cais, entraram todos numa lancha do
Arsenal de Guerra, guardada por quatro cadetes, encaminhada ao cruzador Parnaíba, onde
aguardariam a chegada dos três filhos da princesa e só então navegariam para a Ilha Grande,
para embarcar no vapor de transporte de passageiros Alagoas, com destino à Portugal.
Foi difícil encostar no Parnaíba. Mais difícil foi fazer D. Pedro II passar da lancha para o
cruzador. Com o mar agitado e a escuridão, Mallet e o conde Mota Maia, médico particular do
imperador, tentavam empurrar D. Pedro II pela precária escada ligando os dois barcos. De
cima, um cadete lhe dava a mão para puxá-lo, mas o imperador, de 63 anos, fraquejava e
oscilava, para o desespero de Mallet. Com um impulso, finalmente deu-se o embarque do
imperador, que permaneceu no tombadilho até as 10 horas da manhã, sentado sob uma
lona estendida para protegê-lo do chuvisco, até que seus três netos chegassem.
Com a chegada dos três, ao meio-dia o Parnaíba começou a movimentar-se rumo à
Ilha Grande. Após desembarque na ilha e embarcarem no vapor Alagoas, o início de viagem foi
relativamente calmo. O imperador só reclamava da lentidão da navegação, provocada pela
escolta do encouraçado Riachuelo. Quando os dois navios chegaram em alto mar à altura da
Bahia, o Riachuelo retornou para o Rio de Janeiro e o vapor Alagoas seguiu sem problemas
para Portugal.
A imperatriz Teresa Cristina faleceu na cidade do Porto, em Portugal, em 28 de dezembro de
1889, com 67 anos, 40 dias após o desembarque da viagem de exílio do Brasil. D. Pedro II
morreu em Paris, em 5 de dezembro de 1891, com 66 anos, pouco mais de 2 anos após o
exílio. Enquanto preparavam seu corpo, um pacote lacrado foi encontrado no quarto do
modesto hotel Bedford em que se hospedava, com uma mensagem escrita pelo próprio
imperador: "É terra de meu país, desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de
minha pátria". O pacote que continha terra de todas as províncias brasileiras foi colocada
dentro do caixão.
Em 1921 a família imperial foi autorizada a regressar ao Brasil, sendo revogada a lei do
banimento. A ocasião foi aproveitada para repatriar os restos mortais do último imperador e de
sua esposa, que ficaram primeiramente na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro e desde
5 de dezembro de 1939 se encontram na Capela Imperial da Catedral de Petrópolis.
Fotografia da família imperial - Petrópolis - Fevereiro de 1889
Imagem: roberto-menezes.blogspot.com
Da esquerda para a direita:
Imperatriz Teresa Cristina, esposa de Pedro II. Príncipe Dom Antônio (caçula da princesa Isabel e do
conde D'Eu), menino sentado. Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. Dom Pedro II, de longa barba
branca. Príncipe Pedro Augusto (filho de Leopoldina), de bigode ao lado do avô. Príncipe Dom Luís
(segundo filho da princesa Isabel e do conde D'Eu), menino de roupa escura e calça curta. Conde
Gastão D'Orleans (conde D'Eu), marido de Isabel, de bigode e cavanhaque. Príncipe Dom Pedro de
Alcântara (filho mais velho de Isabel e do conde), menino de terno claro e gravata.
As correntes ideológicas na proclamação da República do Brasil
Entre os republicanos, havia 4 correntes de pensamento disputando a definição do novo
regime: os militares, os liberais, os jacobinos e os positivistas.
Os militares idealizavam um Estado centralizado e forte, controlado pelas forças armadas, com
pouca participação popular. Os liberais se baseavam no modelo norte-americano, numa
sociedade de indivíduos autônomos, em que os interesses seriam regulados pelo mercado,
cabendo ao governo interferir o mínimo possível na vida dos cidadãos. Os jacobinos,
influenciados pelos ideais da Revolução Francesa, idealizavam uma democracia direta, com
um governo composto e controlado por intermédio da participação de todos os cidadãos, sem
exceção. Os positivistas se baseavam na doutrina de origem francesa que desejava uma
sociedade racional e científica, governada pelas elites com a colaboração da população, que
permitiria à humanidade atingir uma idade de ouro.
Através de uma série de manobras políticas, alianças e adaptações ideológicas ao longo dos
primeiros anos da República no Brasil, os positivistas foram os vencedores da disputa entre os
republicanos e moldaram, pouco a pouco, a organização do governo brasileiro.
Os positivistas apoiaram os governos militares nos primeiros anos da República no Brasil (1889
a 1894), pois precisavam de seu poder de fogo e organização para coibir revoltas pela volta da
monarquia, tentativas de separação ou invasões de países vizinhos. Ao perceberem o país
estabilizado, planejaram e realizaram alianças políticas e financeiras com as elites civis e
militares, assumindo o poder através de eleições fraudulentas, criando e adaptando a partir de
então fatos e símbolos da história do Brasil para se adequarem a seus interesses.
Óleo sobre tela "Pátria" - Pedro Bruno (1919)
Imagem: cafehistoria.ning.com
Os símbolos da República do Brasil
Quatro símbolos oficias são estabelecidos pela Constituição do Brasil para representar a
República Federativa do Brasil: a Bandeira Nacional, o Hino Nacional, as Armas Nacionais e o
Selo Nacional.
O marechal Deodoro foi ignorado em sua sugestão para que a nova bandeira da República
fosse parecida com a bandeira imperial, eliminando a coroa imperial sobre o brasão de armas.
Após a proclamação da República, o advogado Rui Barbosa, um dos líderes civis do
movimento, propôs para uma bandeira da nova nação com o desenho inspirado na bandeira
dos Estados Unidos da América.
Essa bandeira foi usada por apenas quatro dias, de 15 de novembro a 18 de novembro de
1889, sendo hasteada inicialmente na redação do jornal "A Cidade do Rio" e posteriormente na
Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por José do Patrocínio, chegando a ser usada no navio
“Alagoas”, que conduziu a família imperial para o exílio em Portugal.
Bandeira provisória da República dos Estados Unidos do Brasil
( 15 a 18 de novembro de 1889 )
Imagem: miguelsantiago.com.br
A atual bandeira nacional mantém, embora um pouco modificado, o campo verde e o losango
amarelo da bandeira imperial. Substituiu-se o brasão imperial de armas pelo círculo que, como
a anterior, também representa a esfera celeste; a faixa eclíptica pela faixa azimutal e a cruz da
Ordem de Cristo pelo Cruzeiro do Sul.
A ideia da atual bandeira foi desenvolvida por um grupo formado por Miguel Lemos, diretor do
Apostolado Positivista do Brasil, por Raimundo Teixeira Mendes, vice-diretor do mesmo
apostolado, e por Manuel Pereira Reis, catedrático de Astronomia da Escola Politécnica do Rio
de Janeiro. O desenho do globo azul foi executado pelo pintor Décio Vilares e, por indicação de
Benjamin Constant, acrescentou-se em meio às estrelas a constelação do Cruzeiro do Sul.
A bandeira adotada pelo Decreto n° 4, de 19 de novembro de 1889, permanece inalterada até
hoje, com exceção do acréscimo de seis estrelas, no círculo azul, representativas dos novos
estados.
Bandeira da República Federativa do Brasil
( 19 de novembro de 1889 até os dias atuais )
Imagem: psdbuniaosul.com.br
Brasão de Armas da República Federativa do Brasil ( Armas Nacionais )
Imagem: valeucara.blogspot.com
Selo Nacional
Imagem: professorjunioronline.com
Curiosidades, verdades e mentiras sobre a proclamação da República no Brasil
O marechal Manuel Deodoro da Fonseca era simpatizante ao regime monárquico, funcionário
de confiança e amigo de D. Pedro II. Apesar de saber da conspiração, relutou em participar
dela e aderiu à causa apenas 4 dias antes da proclamação da República, em grande parte
mais pelo temor que líderes de alas radicais do exército matassem os membros da família
imperial brasileira, pela qual tinha respeito. Acreditava que este ato violento causaria uma
guerra civil entre os golpistas com parte da população (grata pela abolição da escravidão) e os
defensores do Império, que teriam na família imperial mártires para vingar. Por ser o militar de
mais prestígio e de maior patente entre os militares conspiradores, resolveu tomar a frente do
golpe de Estado para manter a situação sob controle.
Há divergências sobre até que ponto a participação de Deodoro foi por uma consciência mais
ampla ou ambição pessoal. O pesquisador José Eduardo Bruno descreve da seguinte forma a
ambiguidade da participação do marechal:
Acordado, Deodoro ouve que dali a poucas horas Ouro Preto assinaria decreto dissolvendo o Exército.
Não era verdade, mas irrita-se, veste a farda e dispõe-se a liderar a tropa. Não consegue montar a cavalo,
tão fraco estava. Entra numa carruagem e acaba no pátio fronteiriço ao Ministério da Guerra. Lá, monta
um cavalo baio e invade o prédio, com os soldados ao lado, todos gritando “Viva Deodoro! Viva
Deodoro!” Saudando-os com o agitar do boné na mão direita, grita “Viva o imperador! Viva o
imperador!”. Apeia e sobe as escadarias para considerar Ouro Preto deposto. Confuso pela forte febre
com que se encontrava, repete diversas vezes: “Nós que nos sacrificamos nos pântanos do Paraguai
rejeitamos a dissolução do Exército”. O visconde, corajoso e cruel, retruca que “maior sacrifício estava
fazendo ele ouvindo as baboseiras de Vossa Excelência!” Foi o limite para Deodoro dizer que estava todo
mundo preso.
O marechal já ia voltando, o sol ainda não tinha nascido e os republicanos, a seu lado, insistem para que
aproveite a oportunidade e determine o fim do Império. Ele reluta. Benjamin Constant lembra que se a
República fosse proclamada naquela hora, seria governada por um ditador. E o ditador seria ele, Deodoro.
Conta a lenda que os olhos do velho militar se arregalaram, a febre passou e ele desceu ao andar térreo,
onde montou outra vez o cavalo baio. A tropa recrudesceu com o “Viva Deodoro! Viva Deodoro!” e ele
agradeceu com os gritos de “Viva a República! Viva a República!”
As representações da proclamação da República mais famosas são encomendas retocadas da
realidade.
O quadro "Proclamação da República", do pintor paulista Benedito Calixto apresenta uma
quantidade maior de militares do que provavelmente havia na ocasião. Os disparos de canhão
comemorativos dificilmente teriam acontecido, tendo em vista o pouco efetivo e tempo que os
amotinados tinham para consolidar o golpe e o receio de uma reação por parte da população,
forças policiais ou da própria Marinha, o que não gerava uma situação tranquila para realizar
uma solenidade daquele porte no momento.
No quadro "Proclamação da República" do chileno naturalizado brasileiro Henrique Bernadelli o
cavalo baio (referência a cavalos mansos, geralmente de pequeno porte) montado pelo
marechal foi substituído por um portentoso cavalo para imprimir maior grandiosidade à cena.
Na ocasião ofereceram ao velho marechal, debilitado por uma doença, um cavalo manso e de
menor porte, para facilitar sua montaria e que não exigisse muito esforço para ser controlado
ou derrubasse Deodoro por se assustar com tiros ou movimentos.
Este cavalo baio nunca mais foi montado após o episódio histórico. Incluído na carga do
1º Regimento de Cavalaria em 13 de março de 1884, então com 8 anos, morreu em 28 de
fevereiro de 1904, com 28 anos. Numa destas contradições típicas da história brasileira,
cooperou na proclamação da República com sua mansidão.
Geralmente se associa a monarquia aos desmandos dos reis e imperadores e a república à
liberdade. No Brasil aconteceu o contrário. O reinado de D. Pedro II se caracterizou
pela liberdade que oferecia à imprensa, flexibilidade administrativa e respeito que possuía
pelos políticos do império. Quando foi proclamada a República, uma das primeiras providências
foi a censura aos jornais, seguida de perda de autonomia pelos estados da federação e
eleições fraudulentas com limitação das condições dos votantes. Multiplicaram-se os presos
políticos e exilados, figuras que não existiam no Segundo Reinado.
O Império Brasileiro, que em seus últimos anos era caracterizado pelos observadores
internacionais como "a monarquia mais republicana das Américas" se tornou "mais uma
democracia de ditadores", tão comum na época entre as repúblicas da antiga América
espanhola.
Boa parte da população de então simpatizava com a humildade, pacifismo e amor às artes e
ciências de D. Pedro II, vendo também com bons olhos a provável sucessora do trono, a
princesa Isabel, que agradava por sua devoção católica e era associada ao fim da escravidão.
Se a simpatia dos pobres não era suficiente para pegar em armas pelo retorno do monarquia,
foi mais decisiva a insatisfação dos ricos com a possibilidade do governo brasileiro ser chefiado
pelo francês conde D'Eu, marido da princesa Isabel, e a falta de políticas imperiais para uma
rápida melhora econômica, agravada com a abolição da escravidão. Não que os republicanos
tivessem planos melhores – tanto que continuaram com as mesmas diretrizes da época do
Império – era o caso da elite trocar o prejuízo certo pelo lucro incerto.
O jornalista João do Rio, ao descrever o Rio de Janeiro de 1908 no livro A Alma Encantadora
das Ruas, se mostrou surpreso com a quantidade de trabalhadores, negros e brancos, que
levavam nas costas tatuagens de símbolos imperiais. Afirmou ele: "Pelo número de coroas da
monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é monarquista".
No dia 21 de abril de 1993 ocorreu um plebiscito onde a opção "República" obteve 86% dos
votos válidos, conferindo, finalmente após 104 anos, legitimidade popular ao regime
republicano brasileiro. No mesmo plebiscito, o sistema presidencialista de governo foi
legitimado pelo voto popular.
Não bastando a demora que favoreceu o modelo republicano, tendo em vista que devido à
demora da escolha, gerações haviam já nascido neste tipo de governo, impossibilitando uma
comparação imparcial, realizaram a votação no feriado do Dia de Tiradentes, data de apelo
emocional na luta dos brasileiros contra a monarquia portuguesa. As manobras políticas e
ideológicas, de forma direta e subliminar, continuam a favorecer a República no Brasil.
Óleo sobre tela "Proclamação da República" - Henrique Bernardelli
Acervo da Pinacoteca do estado de São Paulo
Imagem: revistaescola.abril.com.br
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Humor:
Imagem: humorpolitico.com.br
Autor:
Sylvio Bazote
www.historiasylvio.blogspot.com
Imagem: cesarcrash.blogspot.com

A proclamação da república no Brasil

  • 1.
    A proclamação daRepública no Brasil Imagem: brasilescola.com A palavra república vem do latim res publica ( res = coisa; publica = de todos ), significando portanto que em um sistema republicano, a "coisa pública" (terras, riquezas e direção da nação) são bens comuns, acessíveis a todos, e não mais definidos por origem divina ou familiar. Em 15 de novembro de 1889 aconteceu a proclamação da República no Brasil, pondo fim a monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil e ao reinado de Dom Pedro II. A proclamação da República foi um golpe de Estado realizado por um grupo de militares do Exército Brasileiro, comandados pelo marechal Deodoro da Fonseca e apoiados por um pequeno grupo de políticos e intelectuais civis, que aconteceu no Rio de Janeiro, então capital do império. Neste mesmo dia foi instituído um "Governo Provisório" republicano do qual faziam parte o marechal Deodoro da Fonseca como presidente da república e chefe do governo, o marechal Floriano Peixoto como vice-presidente, tendo como ministros Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio Ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk. As causas para a proclamação da República no Brasil O regime monárquico existiu no Brasil entre 1822 a 1889, tendo dois imperadores: D. Pedro I e D. Pedro II. Entre as causas para o fim da monarquia e proclamação da República, estão: • Crise e desgaste do sistema monárquico, incapaz de atender aos interesses das elites agrárias, principalmente após a abolição da escravidão; • A Monarquia, apesar de sucessivas reformas que flexibilizavam a administração, era incapaz de corresponder aos crescentes anseios de mudanças sociais da classe média e profissionais liberais da população urbana, por mais liberdade econômica e representação política; • Interferência de D. Pedro II nas questões religiosas, provocando atritos com a Igreja Católica; • Críticas ao regime monárquico por parte dos militares, descontentes com a corrupção existente no governo (e da qual eles não se beneficiavam).
  • 2.
    Óleo sobre tela"Alegoria da República" - Manuel Lopes Rodrigues (1896) Imagem: pt.wikipedia.org Como aconteceu a proclamação da República no Brasil Apesar da intensa propaganda republicana por intelectuais e parte da elite, a ideia da mudança de regime político não encontrava eco na maior parte da população do Brasil. Na eleição parlamentar realizada no Império do Brasil, em 31 de agosto de 1889, o Partido Republicano só conseguiu eleger dois deputados. Percebendo que não conseguiriam realizar seu projeto político pelo voto, os republicanos optaram por concretizar suas ideias através de um golpe de Estado. Para tanto, procuraram se aproveitar do crescente descontentamento das forças armadas com o governo imperial. Precisavam, no entanto, de um líder militar respeitado na tropa para realizarem seus planos. Militar de alta patente e prestígio entre os diferentes setores do exército, o marechal Deodoro da Fonseca era o aliado ideal. Homem de convicções monarquistas e amigo de D. Pedro II, sua adesão ao golpe ocorreu mais por conta de boatos mentirosos do que descontentamentos políticos.
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    Em 14 denovembro de 1889, aproveitando-se da ausência de D. Pedro II, que se encontrava em Petrópolis, os republicanos fizeram circular na cidade do Rio de Janeiro um falso boato de que o governo imperial havia mandado prender Deodoro e o tenente-coronel Benjamin Constant, um dos principais líderes dos oficiais republicanos. O boato afirmava ainda que se pretendia instalar um novo Parlamento, recém-eleito, cuja abertura estava marcada para 20 de novembro de 1889. O objetivo era instigar o marechal a comandar com suas tropas um golpe contra a monarquia. No dia 15 de novembro de 1889, Deodoro estava doente e com problemas respiratórios. O marechal saiu de sua residência aproximadamente às 6 da manhã, atravessou o Campo de Santana, e, do outro lado do parque, conclamou os soldados do batalhão ali aquartelado, onde hoje se localiza o Palácio Duque de Caxias, a se rebelarem contra o governo. Ofereceram um cavalo ao marechal, que nele montou, e levantando seu chapéu, proclamou "Viva a República!". Deodoro estava acompanhado pelo tenente-coronel Benjamin Constant e alguns líderes republicanos civis neste momento. Ocorreu então um desfile das tropas presentes no Campo de Santana pela Rua Direita – atual rua 1º de Março – até o Paço Imperial. Os republicanos precisavam agir rápido para aproveitar os acontecimentos e consolidar o golpe de Estado. A situação ainda estava indefinida, pois a proclamação da República não tinha apoio popular e os revoltosos tinham à disposição poucas tropas, que poderiam ser facilmente vencidas por forças vindas de outras províncias e localidades do Rio de Janeiro. Não estava claro se os militares haviam destituído apenas o ministério de Ouro Preto ou se o regime monarquista também havia caído. O apoio do marechal Deodoro era fundamental naquele momento. Tendo Benjamin Constant à frente, espalharam novo boato de que o imperador escolheria Gaspar Silveira Martins, inimigo político e pessoal de Deodoro da Fonseca, para ser o novo primeiro-ministro e que o governo imperial pretendia reorganizar a Guarda Nacional e fortalecer a força policial do Rio de Janeiro para combater o Exército, que depois de vencido seria dissolvido. Com mais estas mentiras levadas ao marechal Deodoro da Fonseca, que retornava de carruagem para sua casa, convenceram-no a aderir à causa republicana. Os revoltosos ocuparam o Quartel-General do Exército, depois o Ministério da Guerra e o Paço Imperial, onde depuseram o primeiro-ministro Afonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde de Ouro Preto e seu gabinete ministerial. O primeiro-ministro havia tentado resistir pedindo ao comandante do destacamento local e responsável pela segurança do Paço Imperial, marechal Floriano Peixoto, que enfrentasse os amotinados, argumentando que no local havia tropas legalistas em número suficiente para derrotar os revoltosos e que o marechal enfrentou tropas bem mais numerosas na Guerra do Paraguai. Floriano Peixoto recusou-se a obedecer às ordens dadas por Ouro Preto, afirmando que no Paraguai havia inimigos e ali eram todos brasileiros. Em seguida, aderindo ao movimento republicano, Floriano Peixoto deteve o primeiro-ministro. O único ferido no episódio da proclamação da República foi o ministro da Marinha, José da Costa Azevedo, barão de Ladário, que no Paço Imperial resistiu à ordem de prisão dada pelos amotinados e levou um tiro. Aproximadamente às 4 da tarde, reuniram-se alguns republicanos e vereadores na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e, em ato solene presidido por José do Patrocínio, foi proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil, tendo o marechal Deodoro da Fonseca como seu primeiro presidente. Na mesma noite a proclamação foi aprovada sem votação, lavrando-se então uma ata que foi assinada pelo marechal Deodoro, juntamente com uma carta destinada ao imperador, informando sobre o banimento da família imperial.
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    Enquanto isso, DomPedro II, informado por telégrafo sobre o golpe e acreditando que o objetivo dos revolucionários era apenas substituir o Gabinete de Ouro Preto, retorna de Petrópolis ao Rio de Janeiro e na noite de 15 de novembro, reunido com o Conselho de Estado, tenta organizar novo gabinete ministerial, sob a presidência do conselheiro José Antônio Saraiva. Informado da proclamação da República e da adesão de Deodoro, decidiu não oferecer resistência para evitar um conflito sangrento. O texto da proclamação da República foi para as gráficas dos jornais que apoiavam o movimento e, somente no dia seguinte, 16 de novembro de 1889, foi anunciada ao povo a mudança do regime político do Brasil. Óleo sobre tela "Proclamação da República" - Benedito Calixto (1893) Imagem: educacao.uol.com.br O exílio da família imperial À 01:30 da madrugada de 17 de novembro de 1889 o tenente-coronel João Nepomuceno de Medeiros Mallet acordou a família imperial no Paço da Cidade, no Rio de Janeiro, e em nome do governo republicano provisório informava que o soberano destronado, a imperatriz Tereza Cristina, a princesa Isabel, o conde D' Eu, e seus quatro netos deveriam embarcar para o exílio naquele momento, no meio da madrugada daquele domingo em que caía um chuvisco frio. Mallet afirmou para a família imperial que o objetivo do embarque naquela hora era para evitar que simpatizantes mais exaltados do regime republicano hostilizassem o monarca e seus familiares num embarque durante o dia. O objetivo real era o oposto: tomar mais difícil que ocorressem manifestações de solidariedade a D. Pedro II pela população e que estas manifestações criassem uma reação de parte das tropas que permaneciam simpáticas à monarquia. A princesa, quase aos prantos, se recusava a embarcar sem seus três filhos, enviados para Petrópolis no dia 15 de novembro temendo tumultos no Rio de Janeiro, apesar das garantias do tenente-coronel Mallet de que um trem especial traria os três garotos – Pedro de Alcântara (14 anos), Luís Felipe (11), e Antônio Pedro (8) – e guardas especiais seriam colocadas em todas as estações. Com a colaboração do marido da princesa, o conde D'Eu, conseguiu-se após algum tempo convencê-la a aguardar no navio a chegada dos filhos. Restava ainda convencer o sexagenário e pacato imperador a embarcar sem usar a força. D. Pedro II levou bastante tempo para se
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    aprontar e aparecerno salão do palácio. Sereno e severo, entrou na sala vestindo uma elegante casaca preta e segurando a cartola na mão. Padecendo de diabetes há dois anos, o imperador oscilava naquele momento entre o torpor, lapsos de memória e irritação. Apesar de ter assinado no dia anterior documento aceitando a ordem dos republicanos para que saísse do Brasil, parecia não conseguir entender o que estava acontecendo. O almirante Artur Silveira da Mota, o barão de Jaceguai, amigo da família imperial, ainda tentou ajudar Mallet a convencer o imperador, dizendo que se temiam manifestações de estudantes, sendo repreendido pelo monarca por sua falta de liderança diante da Armada. Após demorada conversa, o conde D’Eu se postou ao lado do imperador e foi encaminhando-o lentamente para fora, sendo seguido pelos demais membros da família imperial. No Largo do Paço, os soldados apresentaram armas e o imperador respondeu erguendo a cartola. O palácio fica a poucos metros do Cais Pharoux, mas Mallet havia providenciado uma carruagem para transportar os passageiros, onde se acomodaram o imperador, a imperatriz, a princesa Isabel, o conde D'Eu e Pedro Augusto, (23 anos) neto mais velho do monarca, filho de sua filha mais moça, Leopoldina, falecida em 1871. No cais, entraram todos numa lancha do Arsenal de Guerra, guardada por quatro cadetes, encaminhada ao cruzador Parnaíba, onde aguardariam a chegada dos três filhos da princesa e só então navegariam para a Ilha Grande, para embarcar no vapor de transporte de passageiros Alagoas, com destino à Portugal. Foi difícil encostar no Parnaíba. Mais difícil foi fazer D. Pedro II passar da lancha para o cruzador. Com o mar agitado e a escuridão, Mallet e o conde Mota Maia, médico particular do imperador, tentavam empurrar D. Pedro II pela precária escada ligando os dois barcos. De cima, um cadete lhe dava a mão para puxá-lo, mas o imperador, de 63 anos, fraquejava e oscilava, para o desespero de Mallet. Com um impulso, finalmente deu-se o embarque do imperador, que permaneceu no tombadilho até as 10 horas da manhã, sentado sob uma lona estendida para protegê-lo do chuvisco, até que seus três netos chegassem. Com a chegada dos três, ao meio-dia o Parnaíba começou a movimentar-se rumo à Ilha Grande. Após desembarque na ilha e embarcarem no vapor Alagoas, o início de viagem foi relativamente calmo. O imperador só reclamava da lentidão da navegação, provocada pela escolta do encouraçado Riachuelo. Quando os dois navios chegaram em alto mar à altura da Bahia, o Riachuelo retornou para o Rio de Janeiro e o vapor Alagoas seguiu sem problemas para Portugal. A imperatriz Teresa Cristina faleceu na cidade do Porto, em Portugal, em 28 de dezembro de 1889, com 67 anos, 40 dias após o desembarque da viagem de exílio do Brasil. D. Pedro II morreu em Paris, em 5 de dezembro de 1891, com 66 anos, pouco mais de 2 anos após o exílio. Enquanto preparavam seu corpo, um pacote lacrado foi encontrado no quarto do modesto hotel Bedford em que se hospedava, com uma mensagem escrita pelo próprio imperador: "É terra de meu país, desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria". O pacote que continha terra de todas as províncias brasileiras foi colocada dentro do caixão. Em 1921 a família imperial foi autorizada a regressar ao Brasil, sendo revogada a lei do banimento. A ocasião foi aproveitada para repatriar os restos mortais do último imperador e de sua esposa, que ficaram primeiramente na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro e desde 5 de dezembro de 1939 se encontram na Capela Imperial da Catedral de Petrópolis.
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    Fotografia da famíliaimperial - Petrópolis - Fevereiro de 1889 Imagem: roberto-menezes.blogspot.com Da esquerda para a direita: Imperatriz Teresa Cristina, esposa de Pedro II. Príncipe Dom Antônio (caçula da princesa Isabel e do conde D'Eu), menino sentado. Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. Dom Pedro II, de longa barba branca. Príncipe Pedro Augusto (filho de Leopoldina), de bigode ao lado do avô. Príncipe Dom Luís (segundo filho da princesa Isabel e do conde D'Eu), menino de roupa escura e calça curta. Conde Gastão D'Orleans (conde D'Eu), marido de Isabel, de bigode e cavanhaque. Príncipe Dom Pedro de Alcântara (filho mais velho de Isabel e do conde), menino de terno claro e gravata. As correntes ideológicas na proclamação da República do Brasil Entre os republicanos, havia 4 correntes de pensamento disputando a definição do novo regime: os militares, os liberais, os jacobinos e os positivistas. Os militares idealizavam um Estado centralizado e forte, controlado pelas forças armadas, com pouca participação popular. Os liberais se baseavam no modelo norte-americano, numa sociedade de indivíduos autônomos, em que os interesses seriam regulados pelo mercado, cabendo ao governo interferir o mínimo possível na vida dos cidadãos. Os jacobinos, influenciados pelos ideais da Revolução Francesa, idealizavam uma democracia direta, com um governo composto e controlado por intermédio da participação de todos os cidadãos, sem exceção. Os positivistas se baseavam na doutrina de origem francesa que desejava uma sociedade racional e científica, governada pelas elites com a colaboração da população, que permitiria à humanidade atingir uma idade de ouro. Através de uma série de manobras políticas, alianças e adaptações ideológicas ao longo dos primeiros anos da República no Brasil, os positivistas foram os vencedores da disputa entre os republicanos e moldaram, pouco a pouco, a organização do governo brasileiro. Os positivistas apoiaram os governos militares nos primeiros anos da República no Brasil (1889 a 1894), pois precisavam de seu poder de fogo e organização para coibir revoltas pela volta da monarquia, tentativas de separação ou invasões de países vizinhos. Ao perceberem o país estabilizado, planejaram e realizaram alianças políticas e financeiras com as elites civis e militares, assumindo o poder através de eleições fraudulentas, criando e adaptando a partir de então fatos e símbolos da história do Brasil para se adequarem a seus interesses.
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    Óleo sobre tela"Pátria" - Pedro Bruno (1919) Imagem: cafehistoria.ning.com Os símbolos da República do Brasil Quatro símbolos oficias são estabelecidos pela Constituição do Brasil para representar a República Federativa do Brasil: a Bandeira Nacional, o Hino Nacional, as Armas Nacionais e o Selo Nacional. O marechal Deodoro foi ignorado em sua sugestão para que a nova bandeira da República fosse parecida com a bandeira imperial, eliminando a coroa imperial sobre o brasão de armas. Após a proclamação da República, o advogado Rui Barbosa, um dos líderes civis do movimento, propôs para uma bandeira da nova nação com o desenho inspirado na bandeira dos Estados Unidos da América. Essa bandeira foi usada por apenas quatro dias, de 15 de novembro a 18 de novembro de 1889, sendo hasteada inicialmente na redação do jornal "A Cidade do Rio" e posteriormente na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por José do Patrocínio, chegando a ser usada no navio “Alagoas”, que conduziu a família imperial para o exílio em Portugal. Bandeira provisória da República dos Estados Unidos do Brasil ( 15 a 18 de novembro de 1889 ) Imagem: miguelsantiago.com.br
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    A atual bandeiranacional mantém, embora um pouco modificado, o campo verde e o losango amarelo da bandeira imperial. Substituiu-se o brasão imperial de armas pelo círculo que, como a anterior, também representa a esfera celeste; a faixa eclíptica pela faixa azimutal e a cruz da Ordem de Cristo pelo Cruzeiro do Sul. A ideia da atual bandeira foi desenvolvida por um grupo formado por Miguel Lemos, diretor do Apostolado Positivista do Brasil, por Raimundo Teixeira Mendes, vice-diretor do mesmo apostolado, e por Manuel Pereira Reis, catedrático de Astronomia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. O desenho do globo azul foi executado pelo pintor Décio Vilares e, por indicação de Benjamin Constant, acrescentou-se em meio às estrelas a constelação do Cruzeiro do Sul. A bandeira adotada pelo Decreto n° 4, de 19 de novembro de 1889, permanece inalterada até hoje, com exceção do acréscimo de seis estrelas, no círculo azul, representativas dos novos estados. Bandeira da República Federativa do Brasil ( 19 de novembro de 1889 até os dias atuais ) Imagem: psdbuniaosul.com.br Brasão de Armas da República Federativa do Brasil ( Armas Nacionais ) Imagem: valeucara.blogspot.com
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    Selo Nacional Imagem: professorjunioronline.com Curiosidades,verdades e mentiras sobre a proclamação da República no Brasil O marechal Manuel Deodoro da Fonseca era simpatizante ao regime monárquico, funcionário de confiança e amigo de D. Pedro II. Apesar de saber da conspiração, relutou em participar dela e aderiu à causa apenas 4 dias antes da proclamação da República, em grande parte mais pelo temor que líderes de alas radicais do exército matassem os membros da família imperial brasileira, pela qual tinha respeito. Acreditava que este ato violento causaria uma guerra civil entre os golpistas com parte da população (grata pela abolição da escravidão) e os defensores do Império, que teriam na família imperial mártires para vingar. Por ser o militar de mais prestígio e de maior patente entre os militares conspiradores, resolveu tomar a frente do golpe de Estado para manter a situação sob controle. Há divergências sobre até que ponto a participação de Deodoro foi por uma consciência mais ampla ou ambição pessoal. O pesquisador José Eduardo Bruno descreve da seguinte forma a ambiguidade da participação do marechal: Acordado, Deodoro ouve que dali a poucas horas Ouro Preto assinaria decreto dissolvendo o Exército. Não era verdade, mas irrita-se, veste a farda e dispõe-se a liderar a tropa. Não consegue montar a cavalo, tão fraco estava. Entra numa carruagem e acaba no pátio fronteiriço ao Ministério da Guerra. Lá, monta um cavalo baio e invade o prédio, com os soldados ao lado, todos gritando “Viva Deodoro! Viva Deodoro!” Saudando-os com o agitar do boné na mão direita, grita “Viva o imperador! Viva o imperador!”. Apeia e sobe as escadarias para considerar Ouro Preto deposto. Confuso pela forte febre com que se encontrava, repete diversas vezes: “Nós que nos sacrificamos nos pântanos do Paraguai rejeitamos a dissolução do Exército”. O visconde, corajoso e cruel, retruca que “maior sacrifício estava fazendo ele ouvindo as baboseiras de Vossa Excelência!” Foi o limite para Deodoro dizer que estava todo mundo preso. O marechal já ia voltando, o sol ainda não tinha nascido e os republicanos, a seu lado, insistem para que aproveite a oportunidade e determine o fim do Império. Ele reluta. Benjamin Constant lembra que se a República fosse proclamada naquela hora, seria governada por um ditador. E o ditador seria ele, Deodoro. Conta a lenda que os olhos do velho militar se arregalaram, a febre passou e ele desceu ao andar térreo, onde montou outra vez o cavalo baio. A tropa recrudesceu com o “Viva Deodoro! Viva Deodoro!” e ele agradeceu com os gritos de “Viva a República! Viva a República!”
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    As representações daproclamação da República mais famosas são encomendas retocadas da realidade. O quadro "Proclamação da República", do pintor paulista Benedito Calixto apresenta uma quantidade maior de militares do que provavelmente havia na ocasião. Os disparos de canhão comemorativos dificilmente teriam acontecido, tendo em vista o pouco efetivo e tempo que os amotinados tinham para consolidar o golpe e o receio de uma reação por parte da população, forças policiais ou da própria Marinha, o que não gerava uma situação tranquila para realizar uma solenidade daquele porte no momento. No quadro "Proclamação da República" do chileno naturalizado brasileiro Henrique Bernadelli o cavalo baio (referência a cavalos mansos, geralmente de pequeno porte) montado pelo marechal foi substituído por um portentoso cavalo para imprimir maior grandiosidade à cena. Na ocasião ofereceram ao velho marechal, debilitado por uma doença, um cavalo manso e de menor porte, para facilitar sua montaria e que não exigisse muito esforço para ser controlado ou derrubasse Deodoro por se assustar com tiros ou movimentos. Este cavalo baio nunca mais foi montado após o episódio histórico. Incluído na carga do 1º Regimento de Cavalaria em 13 de março de 1884, então com 8 anos, morreu em 28 de fevereiro de 1904, com 28 anos. Numa destas contradições típicas da história brasileira, cooperou na proclamação da República com sua mansidão. Geralmente se associa a monarquia aos desmandos dos reis e imperadores e a república à liberdade. No Brasil aconteceu o contrário. O reinado de D. Pedro II se caracterizou pela liberdade que oferecia à imprensa, flexibilidade administrativa e respeito que possuía pelos políticos do império. Quando foi proclamada a República, uma das primeiras providências foi a censura aos jornais, seguida de perda de autonomia pelos estados da federação e eleições fraudulentas com limitação das condições dos votantes. Multiplicaram-se os presos políticos e exilados, figuras que não existiam no Segundo Reinado. O Império Brasileiro, que em seus últimos anos era caracterizado pelos observadores internacionais como "a monarquia mais republicana das Américas" se tornou "mais uma democracia de ditadores", tão comum na época entre as repúblicas da antiga América espanhola. Boa parte da população de então simpatizava com a humildade, pacifismo e amor às artes e ciências de D. Pedro II, vendo também com bons olhos a provável sucessora do trono, a princesa Isabel, que agradava por sua devoção católica e era associada ao fim da escravidão. Se a simpatia dos pobres não era suficiente para pegar em armas pelo retorno do monarquia, foi mais decisiva a insatisfação dos ricos com a possibilidade do governo brasileiro ser chefiado pelo francês conde D'Eu, marido da princesa Isabel, e a falta de políticas imperiais para uma rápida melhora econômica, agravada com a abolição da escravidão. Não que os republicanos tivessem planos melhores – tanto que continuaram com as mesmas diretrizes da época do Império – era o caso da elite trocar o prejuízo certo pelo lucro incerto. O jornalista João do Rio, ao descrever o Rio de Janeiro de 1908 no livro A Alma Encantadora das Ruas, se mostrou surpreso com a quantidade de trabalhadores, negros e brancos, que levavam nas costas tatuagens de símbolos imperiais. Afirmou ele: "Pelo número de coroas da monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é monarquista". No dia 21 de abril de 1993 ocorreu um plebiscito onde a opção "República" obteve 86% dos votos válidos, conferindo, finalmente após 104 anos, legitimidade popular ao regime republicano brasileiro. No mesmo plebiscito, o sistema presidencialista de governo foi legitimado pelo voto popular. Não bastando a demora que favoreceu o modelo republicano, tendo em vista que devido à demora da escolha, gerações haviam já nascido neste tipo de governo, impossibilitando uma comparação imparcial, realizaram a votação no feriado do Dia de Tiradentes, data de apelo emocional na luta dos brasileiros contra a monarquia portuguesa. As manobras políticas e ideológicas, de forma direta e subliminar, continuam a favorecer a República no Brasil.
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    Óleo sobre tela"Proclamação da República" - Henrique Bernardelli Acervo da Pinacoteca do estado de São Paulo Imagem: revistaescola.abril.com.br - - - - - - - - - - Humor: Imagem: humorpolitico.com.br Autor: Sylvio Bazote www.historiasylvio.blogspot.com
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