JESUS É A LUZ PARA A ALEGRIA DOS POBRES 
BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 
* LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * 
ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 3° DOMINGO DO ADVENTO – COR: ROXO / LILAS 
I. INTRODUÇÃO GERAL 
1. A missão profética nos é apresentada, também neste tempo de 
preparação à chegada do Salvador, como algo fundamental. Ser pro-feta 
é fazer valer os direitos dos pobres e anunciar-lhes uma boa notí-cia, 
é denunciar as estruturas que estão distorcendo os caminhos de 
Deus e propor uma atitude de mudança, na liberdade de quem cresce 
a cada dia e respeita a vocação profética característica de cada cristão. 
A proximidade do Natal não nos convida a lamentar os desafios e di-ficuldades 
da missão, mas a nos alegrar sempre, pois Deus, em seu 
Filho, continua vindo sempre a nós, caminhando conosco e dando 
forças na construção da liberdade e da alegria dos pobres. 
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 
1ª leitura (Is 61,1-2a.10-11): Ungidos por Deus para dar a boa no-tícia 
aos pobres 
2. Os quatro versículos propostos pela liturgia são o início e o final 
do cap. 61 de Isaías, considerado por muitos como o centro de todo o 
terceiro livro de Isaías. Nesse terceiro livro (Is 56-66), originário do 
período pós-exílico, encontramos a profecia num tempo de tensões: 
os que tinham voltado do exílio estavam entusiasmados com as novas 
possibilidades de reconstruir a vida em Israel, mas esse entusiasmo 
vai cedendo às desilusões e conflitos entre os que voltaram do exílio 
e os que permaneceram na terra; a situação, como sempre, é de injus-tiça 
— rejeição do domínio persa e esperança de uma libertação por 
parte de Javé, de um lado, e subserviência ao domínio estrangeiro e 
conformismo por parte das autoridades políticas e religiosas judaicas, 
de outro. O cap. 66, apresentando a missão do profeta dirigida aos po-bres 
e alimentando a esperança, anuncia a libertação desse povo in-justiçado. 
3. Os vv. 1-2a apresentam a missão profética com os dois traços 
fundamentais: o profeta é enviado para proclamar a palavra de Deus, 
ou seja, evangelizar, anunciar a boa notícia, que não é boa notícia ge-nérica 
dirigida a todos, mas aos pobres. Deus envia o profeta para 
proclamar aos pobres que coisas boas estão acontecendo em favor de-les. 
Vêm, então, as outras características dessa missão, que não se li-mita 
ao anúncio com palavras, mas se expressa na prática: curar os 
corações feridos e pôr em liberdade os prisioneiros. Que o anúncio 
profético só tem sentido com a prática profética vemos no paralelis-mo 
sinonímico do v. 1: “proclamar a libertação dos escravos” e “pôr 
em liberdade os prisioneiros”. Nesse sentido deve ser lida a missão de 
“anunciar o ano da graça de Javé”. O verbo hebraico qara’, aliás, é 
corretamente traduzido pela Bíblia Pastoral como “promulgar”, pois 
não se trata de simples anúncio, mas de fazer valer, com o anúncio e a 
prática profética, o ano da graça, que na Bíblia se refere ao ano jubi-lar 
(a cada 50 anos) e ao ano sabático (a cada sete anos), quando, en-tre 
outras coisas, deveriam ser perdoadas todas as dívidas e libertados 
todos os escravos, para que a justiça fosse restabelecida. 
4. A missão profética, em tempos de injustiça, consiste em fazer 
valer os direitos dos pobres, dos injustiçados, dos que são vítimas de 
uma estrutura social em que poucos são privilegiados e a grande mai-oria 
massacrada. Os pobres de Isaías são os judeus pobres que sofrem 
a exploração do império estrangeiro, escravos na própria terra, e que 
sofrem, ao mesmo tempo, a opressão por parte das autoridades judai-cas, 
que fazem o jogo do império persa. Opressão interna e externa, 
que continua ainda hoje, aumentando o número de miseráveis e ex-cluídos, 
naquilo que chamamos de globalização: globalização da mi-séria, 
não das riquezas, que estão sempre mais concentradas em pou-cos 
países. 
5. O que autoriza e sustenta a missão profética é o “espírito do Se-nhor 
Javé”, que está sobre o profeta porque este foi ungido. Na Bí-blia, 
a unção era feita geralmente a reis e sumos sacerdotes, em vista 
de uma missão em nome de Deus. Agora, o profeta é o ungido, pois 
tantas unções a reis e sacerdotes não se expressaram na prática como 
serviço ao povo de Deus, mas como autoridade e domínio em vista de 
privilégios pessoais. O profeta é o ungido de Deus para agir e falar 
em seu nome, e tal unção divina não conseguirá ser anulada por ne-nhuma 
outra autoridade humana. 
6. Jesus aplica a si essa mesma missão profética, quando, no início 
de sua atividade pública na sinagoga de Nazaré, em Lc 4,18-19, lê es-ses 
versículos de Isaías e os toma como programa para a sua vida: Je-sus 
é o profeta ungido e enviado para trazer libertação aos pobres, e 
com ele todos os seus seguidores, que herdam a mesma missão profé-tica. 
7. Os vv. 10-11 concluem o capítulo com um agradecimento do 
povo, que reconhece as ações de Deus em seu favor. O povo dos po-bres 
está unido e se expressa em primeira pessoa, usando a imagem 
dos noivos que se preparam para o casamento para manifestar a pró-pria 
alegria: como o turbante e as jóias dos noivos, a salvação e a jus-tiça 
são as vestes que preparam o povo para o casamento com Deus. 
E as imagens da terra que faz brotar uma nova planta e do jardim que 
faz germinar suas sementes servem para manifestar o favor de Deus 
pelo seu povo, mediante a justiça. 
8. Deus doa seu espírito aos profetas e, por meio deles, alimenta a 
esperança no seu povo. Se, na mentalidade bíblica, gerar filhos e ter 
descendência era o bem mais precioso, agora o que conta é gerar jus-tiça, 
para que os filhos vivam, de fato, livres. Para tanto, também a 
esperança e a capacidade de transformar as relações de injustiça são o 
grande presente de Deus. 
Evangelho (Jo 1,6-8.19-28): João é a testemunha da luz 
9. O início da pregação de João Batista coincide com uma grande 
expectativa messiânica por parte dos judeus. Esperava-se a vinda do 
Messias a qualquer hora, o Messias que iria restaurar a Aliança e des-tituir 
as autoridades por sua infidelidade. Não é de estranhar, portan-to, 
que as autoridades judaicas de Jerusalém enviem sacerdotes e levi-tas 
para saber notícias a respeito de João Batista e sua atividade. 
10. Os vv. 6-8, que pertencem ao prólogo do evangelho, apresentam 
João como o enviado por Deus para dar testemunho da luz. E, para 
desfazer as crenças existentes a respeito de João como Messias, diz-se 
que “ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz”, Jesus, a 
luz verdadeira que ilumina a todos e que estava chegando ao mundo. 
11. As autoridades de Jerusalém, com medo de um movimento po-pular 
que pusesse em risco seu poder, querem saber quem, de fato, é 
João. O evangelista, apresentando três respostas negativas de João, 
afasta toda e qualquer identidade messiânica para o Batista. O v. 20, 
aliás, manifesta isso com a redundância: João “confessou e não negou 
e confessou”. João sabe muito bem das preocupações das autoridades 
de Jerusalém e nega de antemão: “Eu não sou o Messias”. Uma nega-ção 
que desconcerta os enviados, que precisam encontrar uma justifi-cativa 
para a missão de João. Daí a pergunta: “Quem é você? Elias?”. 
E a negação: “Não sou”. E por fim: “Você é o Profeta?”. E a última 
negativa, rápida e seca: “Não”. 
12. No tempo de Jesus, acreditava-se que a vinda do Messias seria 
precedida pelo envio de Elias, que prepararia o povo para a chegada 
do Salvador, restaurando a Lei de Moisés (cf. Ml 3,22ss). João não é 
profeta como Elias, pois rompe completamente com a instituição ju-daica 
e se move fora dos círculos políticos e religiosos judaicos do 
seu tempo: ele vem preparar a chegada da Luz que libertará o povo da 
Lei, transmitindo a vida plena. 
13. Acreditava-se também que um segundo Moisés apareceria nos 
últimos tempos (cf. Dt 18,15-18: “Deus suscitará um profeta como eu 
no meio de ti”). João não é sucessor de Moisés, pois não olha para o 
passado da Lei e da tradição, mas para o futuro completamente novo 
do Messias que inaugurará uma nova Aliança.
14. João nega, portanto, ser o Messias, Elias e o Profeta, sobretudo 
porque essas três figuras serão representadas por Jesus, a luz que ele 
veio testemunhar. De fato, ao longo do evangelho, as figuras de Elias 
e do Profeta se fundirão, e Jesus será apresentado como o Profeta que 
devia vir ao mundo, rejeitado pelos seus (cf. 4,4; 6,9.14). Como 
Elias/Profeta, Jesus não restaurará a Lei, mas doará o Espírito que cri-ará 
uma nova humanidade. 
15. Depois de três negações, vem a afirmação sobre a identidade de 
João. Ele não usa a expressão “eu sou”, que, na Bíblia, tem fortes 
atributos divinos. No grego, temos a expressão ego phoné, ou seja: 
“eu voz”. João responde: “Eu, voz que grita no deserto”, e, citando Is 
40,3, denuncia e critica as autoridades judaicas por terem distorcido o 
caminho do Senhor. João chama a atenção das autoridades não para a 
sua pessoa, mas para a sua pregação, que é séria crítica aos podero-sos. 
16. Os fariseus querem saber com qual autoridade ou por qual moti-vo 
João, portanto, batiza. Também aqui se estabelece uma distinção, 
agora entre o batismo de João e o de Jesus. O batismo de João, com 
água (v. 26a), usando um elemento da natureza, atinge somente o físi-co 
das pessoas. É o batismo que procura levar à consciência das tre-vas 
e sujeiras presentes na ordem social injusta e suscitar o desejo de 
renovação, limpeza, mudança. Porém, João anuncia alguém que che-ga 
depois dele e que já está presente (vv. 26b-27). Jesus batizará com 
o Espírito, um elemento novo que só ele pode transmitir e que atingi-rá 
a intimidade das pessoas e, transmitindo-lhes a vida, as tornará ca-pazes 
de construir novas relações, de liberdade e vida. 
17. Por fim, João diz não ser digno de “desamarrar as correias das 
sandálias” daquele que vem depois dele. Essa expressão, muitas ve-zes 
interpretada como um gesto de humildade de João Batista, alude 
no entanto, claramente, à lei judaica do levirato. Segundo essa lei, 
quando alguém morria sem deixar filhos, um parente próximo devia 
casar-se com a viúva para dar filhos ao falecido e garantir-lhe, assim, 
uma descendência. Se quem tinha o direito e a obrigação de fazê-lo 
não o fazia, um outro podia ocupar o seu lugar, numa cerimônia em 
que se declarava a perda desse direito e que consistia em desamarrar 
as sandálias (cf. Dt 25,5-10; Rt 4,6-7). João está afirmando que Jesus 
é quem tem o direito de tomar a humanidade como esposa e garantir-lhe 
uma herança de filhos. João tem consciência de ser a testemunha 
da luz, e não a luz: não pode tomar o lugar daquele que, por direito, 
será o esposo da humanidade. 
18. João, batizando com água, manifesta o rompimento com as es-truturas 
políticas e religiosas de seu tempo, que aprisionavam o povo 
numa situação de trevas e morte. Jesus, o Messias que vem, batizando 
com o Espírito, a partir do rompimento manifestado por João e res-pondendo 
aos anseios do povo, conduzindo-o para fora das estruturas 
de dominação e morte, construirá com a humanidade uma nova histó-ria, 
inaugurando uma nova criação. 
2ª leitura (1Ts 5,16-24): “Examinem tudo e fiquem com o que é 
bom” 
19. A primeira carta aos Tessalonicenses é o primeiro escrito do 
Novo Testamento. De Atenas ou Corinto, no ano 50 ou 51, Paulo es-creve 
à comunidade que teve de deixar às pressas, para escapar à per-seguição. 
Quando Timóteo e Silas, que ele enviara para saber notícias 
da comunidade, retornam com boas notícias, Paulo e seus colabora-dores 
escrevem esta carta cheia de alegria pela perseverança dos cris-tãos 
de Tessalônica e aproveitam para dar conselhos práticos para a 
vida comunitária. Os versículos da liturgia de hoje são parte desses 
conselhos para que a comunidade permaneça firme e continue cres-cendo. 
20. Antes de tudo, é preciso notar que Paulo não exerce poder auto-ritário 
sobre as comunidades: ele não ordena, mas aconselha; não 
olha o negativo e insiste sobre ele, mas considera o positivo e anima a 
melhorar e continuar progredindo. Uma metodologia válida sobrema-neira 
para nossos tempos e nossas lideranças na pastoral... 
21. A comunidade é convidada a viver em contínua alegria e oração 
(vv. 16-17). A oração, que é relacionamento constante da comunidade 
com Deus, e a alegria, que é consciência de estar vivendo uma nova 
dinâmica, que é histórica e transcende a história, são as novas rela-ções 
do evangelho. Estar sempre alegres, portanto, não tem nada que 
ver com atitudes abobadas, românticas ou resignadas, tal como ser o 
“inocente útil” da história... 
22. Paulo e seus colaboradores convidam a comunidade a agradecer 
sempre a Deus, não somente nos momentos bons, mas “em todas as 
circunstâncias”, também nos momentos difíceis (v. 18). A comunida-de 
que constrói novas relações enfrenta oposições e tribulações, e es-tar 
consciente disso, sabendo que seguir fielmente a Jesus é o que im-porta, 
leva a agradecer a Deus também pelas tribulações que demons-tram 
a fidelidade a essa mesma missão. 
23. Os vv. 19-22 deixam entrever como Paulo, o fariseu “converti-do”, 
não admitia nas comunidades nenhum legalismo. E não é para 
menos: basta considerar seu árduo trabalho de libertar os seguidores 
de Jesus da Lei judaica e de todo e qualquer legalismo, para que os 
cristãos vivessem de fato a liberdade para a qual Jesus os libertara. 
Numa cidade como Tessalônica, importante pelo comércio e local de 
encontro de tantos pensadores com as filosofias e doutrinas as mais 
diversas, Paulo enuncia o princípio ético fundamental: “Examinem 
tudo e fiquem com o que é bom” (v. 21). A comunidade que não se 
deixa escravizar pelo legalismo, que não está aprisionada pela rotina, 
pelas regras e pelo que está estabelecido, pode crescer, ser espontânea 
e criativa. Quando os cristãos são adultos, têm a capacidade de exa-minar 
tudo e ficar somente com o que é bom, ou seja, com aquilo que 
é bom para a comunidade e constrói fraternidade. Quando os cristãos 
são adultos, não precisam que tudo seja decidido pelos outros, pelos 
que são chamados, sim, a animar e servir a comunidade, mas não a 
dar respostas prontas. 
24. Daí os conselhos: “não extingam o Espírito” e “não desprezem 
as profecias”. Extinguir o Espírito seria banir da comunidade a liber-dade 
que Jesus nos conquistou, liberdade que nos dá o direito de errar 
e crescer aprendendo, em vez de ser eternos e infantis observantes de 
leis e regras fixadas que muitas vezes não nos permitem ser fiéis ao 
evangelho — exatamente porque fidelidade exige criatividade. Des-prezar 
as profecias, a esse respeito, é rejeitar a voz da liberdade do 
Espírito. É rejeitar de antemão a insegurança da novidade para ficar 
na segurança do estabelecido. E aqui o critério é examinar as profeci-as, 
para discernir quais delas contribuem para o bem da comunidade. 
Se não contribuem para o bem, não são verdadeiras profecias, e por 
levarem ao mal devem ser afastadas (v. 22). 
25. Paulo e os colaboradores expressam sua comunhão com a comu-nidade 
suplicando por ela a Deus, na confiança de que a santidade é 
dom do Deus fiel que chama, conserva e realiza o prometido (vv. 23- 
24). 
III. PISTAS PARA REFLEXÃO 
26. Em que medida a missão profética está transformando a sociedade e as relações dentro de nossas comunidades? 
Que libertação somos chamados a "promulgar" hoje? 
27. João Batista é a testemunha que não se põe no lugar do Messias, não chama a atenção para si, mas aponta para 
"aquele que vem". Isso é iluminador, ao pensarmos no papel das lideranças hoje. Testemunhar Jesus e preparar sua che-gada, 
endireitando seus caminhos, significa romper com as estruturas de injustiça e de morte. Como é o nosso testemu-nho? 
28. O que seria hoje "extinguir o Espírito" e "desprezar as profecias"? O princípio ético: "examinem tudo e fiquem com 
o que é bom" exige maturidade — que desafios ele nos apresenta? Nossas relações nos levam a crescer na fé e ser res-ponsáveis?

Comentário: 3º Domingo do Advento - Ano B

  • 1.
    JESUS É ALUZ PARA A ALEGRIA DOS POBRES BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 3° DOMINGO DO ADVENTO – COR: ROXO / LILAS I. INTRODUÇÃO GERAL 1. A missão profética nos é apresentada, também neste tempo de preparação à chegada do Salvador, como algo fundamental. Ser pro-feta é fazer valer os direitos dos pobres e anunciar-lhes uma boa notí-cia, é denunciar as estruturas que estão distorcendo os caminhos de Deus e propor uma atitude de mudança, na liberdade de quem cresce a cada dia e respeita a vocação profética característica de cada cristão. A proximidade do Natal não nos convida a lamentar os desafios e di-ficuldades da missão, mas a nos alegrar sempre, pois Deus, em seu Filho, continua vindo sempre a nós, caminhando conosco e dando forças na construção da liberdade e da alegria dos pobres. II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1ª leitura (Is 61,1-2a.10-11): Ungidos por Deus para dar a boa no-tícia aos pobres 2. Os quatro versículos propostos pela liturgia são o início e o final do cap. 61 de Isaías, considerado por muitos como o centro de todo o terceiro livro de Isaías. Nesse terceiro livro (Is 56-66), originário do período pós-exílico, encontramos a profecia num tempo de tensões: os que tinham voltado do exílio estavam entusiasmados com as novas possibilidades de reconstruir a vida em Israel, mas esse entusiasmo vai cedendo às desilusões e conflitos entre os que voltaram do exílio e os que permaneceram na terra; a situação, como sempre, é de injus-tiça — rejeição do domínio persa e esperança de uma libertação por parte de Javé, de um lado, e subserviência ao domínio estrangeiro e conformismo por parte das autoridades políticas e religiosas judaicas, de outro. O cap. 66, apresentando a missão do profeta dirigida aos po-bres e alimentando a esperança, anuncia a libertação desse povo in-justiçado. 3. Os vv. 1-2a apresentam a missão profética com os dois traços fundamentais: o profeta é enviado para proclamar a palavra de Deus, ou seja, evangelizar, anunciar a boa notícia, que não é boa notícia ge-nérica dirigida a todos, mas aos pobres. Deus envia o profeta para proclamar aos pobres que coisas boas estão acontecendo em favor de-les. Vêm, então, as outras características dessa missão, que não se li-mita ao anúncio com palavras, mas se expressa na prática: curar os corações feridos e pôr em liberdade os prisioneiros. Que o anúncio profético só tem sentido com a prática profética vemos no paralelis-mo sinonímico do v. 1: “proclamar a libertação dos escravos” e “pôr em liberdade os prisioneiros”. Nesse sentido deve ser lida a missão de “anunciar o ano da graça de Javé”. O verbo hebraico qara’, aliás, é corretamente traduzido pela Bíblia Pastoral como “promulgar”, pois não se trata de simples anúncio, mas de fazer valer, com o anúncio e a prática profética, o ano da graça, que na Bíblia se refere ao ano jubi-lar (a cada 50 anos) e ao ano sabático (a cada sete anos), quando, en-tre outras coisas, deveriam ser perdoadas todas as dívidas e libertados todos os escravos, para que a justiça fosse restabelecida. 4. A missão profética, em tempos de injustiça, consiste em fazer valer os direitos dos pobres, dos injustiçados, dos que são vítimas de uma estrutura social em que poucos são privilegiados e a grande mai-oria massacrada. Os pobres de Isaías são os judeus pobres que sofrem a exploração do império estrangeiro, escravos na própria terra, e que sofrem, ao mesmo tempo, a opressão por parte das autoridades judai-cas, que fazem o jogo do império persa. Opressão interna e externa, que continua ainda hoje, aumentando o número de miseráveis e ex-cluídos, naquilo que chamamos de globalização: globalização da mi-séria, não das riquezas, que estão sempre mais concentradas em pou-cos países. 5. O que autoriza e sustenta a missão profética é o “espírito do Se-nhor Javé”, que está sobre o profeta porque este foi ungido. Na Bí-blia, a unção era feita geralmente a reis e sumos sacerdotes, em vista de uma missão em nome de Deus. Agora, o profeta é o ungido, pois tantas unções a reis e sacerdotes não se expressaram na prática como serviço ao povo de Deus, mas como autoridade e domínio em vista de privilégios pessoais. O profeta é o ungido de Deus para agir e falar em seu nome, e tal unção divina não conseguirá ser anulada por ne-nhuma outra autoridade humana. 6. Jesus aplica a si essa mesma missão profética, quando, no início de sua atividade pública na sinagoga de Nazaré, em Lc 4,18-19, lê es-ses versículos de Isaías e os toma como programa para a sua vida: Je-sus é o profeta ungido e enviado para trazer libertação aos pobres, e com ele todos os seus seguidores, que herdam a mesma missão profé-tica. 7. Os vv. 10-11 concluem o capítulo com um agradecimento do povo, que reconhece as ações de Deus em seu favor. O povo dos po-bres está unido e se expressa em primeira pessoa, usando a imagem dos noivos que se preparam para o casamento para manifestar a pró-pria alegria: como o turbante e as jóias dos noivos, a salvação e a jus-tiça são as vestes que preparam o povo para o casamento com Deus. E as imagens da terra que faz brotar uma nova planta e do jardim que faz germinar suas sementes servem para manifestar o favor de Deus pelo seu povo, mediante a justiça. 8. Deus doa seu espírito aos profetas e, por meio deles, alimenta a esperança no seu povo. Se, na mentalidade bíblica, gerar filhos e ter descendência era o bem mais precioso, agora o que conta é gerar jus-tiça, para que os filhos vivam, de fato, livres. Para tanto, também a esperança e a capacidade de transformar as relações de injustiça são o grande presente de Deus. Evangelho (Jo 1,6-8.19-28): João é a testemunha da luz 9. O início da pregação de João Batista coincide com uma grande expectativa messiânica por parte dos judeus. Esperava-se a vinda do Messias a qualquer hora, o Messias que iria restaurar a Aliança e des-tituir as autoridades por sua infidelidade. Não é de estranhar, portan-to, que as autoridades judaicas de Jerusalém enviem sacerdotes e levi-tas para saber notícias a respeito de João Batista e sua atividade. 10. Os vv. 6-8, que pertencem ao prólogo do evangelho, apresentam João como o enviado por Deus para dar testemunho da luz. E, para desfazer as crenças existentes a respeito de João como Messias, diz-se que “ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz”, Jesus, a luz verdadeira que ilumina a todos e que estava chegando ao mundo. 11. As autoridades de Jerusalém, com medo de um movimento po-pular que pusesse em risco seu poder, querem saber quem, de fato, é João. O evangelista, apresentando três respostas negativas de João, afasta toda e qualquer identidade messiânica para o Batista. O v. 20, aliás, manifesta isso com a redundância: João “confessou e não negou e confessou”. João sabe muito bem das preocupações das autoridades de Jerusalém e nega de antemão: “Eu não sou o Messias”. Uma nega-ção que desconcerta os enviados, que precisam encontrar uma justifi-cativa para a missão de João. Daí a pergunta: “Quem é você? Elias?”. E a negação: “Não sou”. E por fim: “Você é o Profeta?”. E a última negativa, rápida e seca: “Não”. 12. No tempo de Jesus, acreditava-se que a vinda do Messias seria precedida pelo envio de Elias, que prepararia o povo para a chegada do Salvador, restaurando a Lei de Moisés (cf. Ml 3,22ss). João não é profeta como Elias, pois rompe completamente com a instituição ju-daica e se move fora dos círculos políticos e religiosos judaicos do seu tempo: ele vem preparar a chegada da Luz que libertará o povo da Lei, transmitindo a vida plena. 13. Acreditava-se também que um segundo Moisés apareceria nos últimos tempos (cf. Dt 18,15-18: “Deus suscitará um profeta como eu no meio de ti”). João não é sucessor de Moisés, pois não olha para o passado da Lei e da tradição, mas para o futuro completamente novo do Messias que inaugurará uma nova Aliança.
  • 2.
    14. João nega,portanto, ser o Messias, Elias e o Profeta, sobretudo porque essas três figuras serão representadas por Jesus, a luz que ele veio testemunhar. De fato, ao longo do evangelho, as figuras de Elias e do Profeta se fundirão, e Jesus será apresentado como o Profeta que devia vir ao mundo, rejeitado pelos seus (cf. 4,4; 6,9.14). Como Elias/Profeta, Jesus não restaurará a Lei, mas doará o Espírito que cri-ará uma nova humanidade. 15. Depois de três negações, vem a afirmação sobre a identidade de João. Ele não usa a expressão “eu sou”, que, na Bíblia, tem fortes atributos divinos. No grego, temos a expressão ego phoné, ou seja: “eu voz”. João responde: “Eu, voz que grita no deserto”, e, citando Is 40,3, denuncia e critica as autoridades judaicas por terem distorcido o caminho do Senhor. João chama a atenção das autoridades não para a sua pessoa, mas para a sua pregação, que é séria crítica aos podero-sos. 16. Os fariseus querem saber com qual autoridade ou por qual moti-vo João, portanto, batiza. Também aqui se estabelece uma distinção, agora entre o batismo de João e o de Jesus. O batismo de João, com água (v. 26a), usando um elemento da natureza, atinge somente o físi-co das pessoas. É o batismo que procura levar à consciência das tre-vas e sujeiras presentes na ordem social injusta e suscitar o desejo de renovação, limpeza, mudança. Porém, João anuncia alguém que che-ga depois dele e que já está presente (vv. 26b-27). Jesus batizará com o Espírito, um elemento novo que só ele pode transmitir e que atingi-rá a intimidade das pessoas e, transmitindo-lhes a vida, as tornará ca-pazes de construir novas relações, de liberdade e vida. 17. Por fim, João diz não ser digno de “desamarrar as correias das sandálias” daquele que vem depois dele. Essa expressão, muitas ve-zes interpretada como um gesto de humildade de João Batista, alude no entanto, claramente, à lei judaica do levirato. Segundo essa lei, quando alguém morria sem deixar filhos, um parente próximo devia casar-se com a viúva para dar filhos ao falecido e garantir-lhe, assim, uma descendência. Se quem tinha o direito e a obrigação de fazê-lo não o fazia, um outro podia ocupar o seu lugar, numa cerimônia em que se declarava a perda desse direito e que consistia em desamarrar as sandálias (cf. Dt 25,5-10; Rt 4,6-7). João está afirmando que Jesus é quem tem o direito de tomar a humanidade como esposa e garantir-lhe uma herança de filhos. João tem consciência de ser a testemunha da luz, e não a luz: não pode tomar o lugar daquele que, por direito, será o esposo da humanidade. 18. João, batizando com água, manifesta o rompimento com as es-truturas políticas e religiosas de seu tempo, que aprisionavam o povo numa situação de trevas e morte. Jesus, o Messias que vem, batizando com o Espírito, a partir do rompimento manifestado por João e res-pondendo aos anseios do povo, conduzindo-o para fora das estruturas de dominação e morte, construirá com a humanidade uma nova histó-ria, inaugurando uma nova criação. 2ª leitura (1Ts 5,16-24): “Examinem tudo e fiquem com o que é bom” 19. A primeira carta aos Tessalonicenses é o primeiro escrito do Novo Testamento. De Atenas ou Corinto, no ano 50 ou 51, Paulo es-creve à comunidade que teve de deixar às pressas, para escapar à per-seguição. Quando Timóteo e Silas, que ele enviara para saber notícias da comunidade, retornam com boas notícias, Paulo e seus colabora-dores escrevem esta carta cheia de alegria pela perseverança dos cris-tãos de Tessalônica e aproveitam para dar conselhos práticos para a vida comunitária. Os versículos da liturgia de hoje são parte desses conselhos para que a comunidade permaneça firme e continue cres-cendo. 20. Antes de tudo, é preciso notar que Paulo não exerce poder auto-ritário sobre as comunidades: ele não ordena, mas aconselha; não olha o negativo e insiste sobre ele, mas considera o positivo e anima a melhorar e continuar progredindo. Uma metodologia válida sobrema-neira para nossos tempos e nossas lideranças na pastoral... 21. A comunidade é convidada a viver em contínua alegria e oração (vv. 16-17). A oração, que é relacionamento constante da comunidade com Deus, e a alegria, que é consciência de estar vivendo uma nova dinâmica, que é histórica e transcende a história, são as novas rela-ções do evangelho. Estar sempre alegres, portanto, não tem nada que ver com atitudes abobadas, românticas ou resignadas, tal como ser o “inocente útil” da história... 22. Paulo e seus colaboradores convidam a comunidade a agradecer sempre a Deus, não somente nos momentos bons, mas “em todas as circunstâncias”, também nos momentos difíceis (v. 18). A comunida-de que constrói novas relações enfrenta oposições e tribulações, e es-tar consciente disso, sabendo que seguir fielmente a Jesus é o que im-porta, leva a agradecer a Deus também pelas tribulações que demons-tram a fidelidade a essa mesma missão. 23. Os vv. 19-22 deixam entrever como Paulo, o fariseu “converti-do”, não admitia nas comunidades nenhum legalismo. E não é para menos: basta considerar seu árduo trabalho de libertar os seguidores de Jesus da Lei judaica e de todo e qualquer legalismo, para que os cristãos vivessem de fato a liberdade para a qual Jesus os libertara. Numa cidade como Tessalônica, importante pelo comércio e local de encontro de tantos pensadores com as filosofias e doutrinas as mais diversas, Paulo enuncia o princípio ético fundamental: “Examinem tudo e fiquem com o que é bom” (v. 21). A comunidade que não se deixa escravizar pelo legalismo, que não está aprisionada pela rotina, pelas regras e pelo que está estabelecido, pode crescer, ser espontânea e criativa. Quando os cristãos são adultos, têm a capacidade de exa-minar tudo e ficar somente com o que é bom, ou seja, com aquilo que é bom para a comunidade e constrói fraternidade. Quando os cristãos são adultos, não precisam que tudo seja decidido pelos outros, pelos que são chamados, sim, a animar e servir a comunidade, mas não a dar respostas prontas. 24. Daí os conselhos: “não extingam o Espírito” e “não desprezem as profecias”. Extinguir o Espírito seria banir da comunidade a liber-dade que Jesus nos conquistou, liberdade que nos dá o direito de errar e crescer aprendendo, em vez de ser eternos e infantis observantes de leis e regras fixadas que muitas vezes não nos permitem ser fiéis ao evangelho — exatamente porque fidelidade exige criatividade. Des-prezar as profecias, a esse respeito, é rejeitar a voz da liberdade do Espírito. É rejeitar de antemão a insegurança da novidade para ficar na segurança do estabelecido. E aqui o critério é examinar as profeci-as, para discernir quais delas contribuem para o bem da comunidade. Se não contribuem para o bem, não são verdadeiras profecias, e por levarem ao mal devem ser afastadas (v. 22). 25. Paulo e os colaboradores expressam sua comunhão com a comu-nidade suplicando por ela a Deus, na confiança de que a santidade é dom do Deus fiel que chama, conserva e realiza o prometido (vv. 23- 24). III. PISTAS PARA REFLEXÃO 26. Em que medida a missão profética está transformando a sociedade e as relações dentro de nossas comunidades? Que libertação somos chamados a "promulgar" hoje? 27. João Batista é a testemunha que não se põe no lugar do Messias, não chama a atenção para si, mas aponta para "aquele que vem". Isso é iluminador, ao pensarmos no papel das lideranças hoje. Testemunhar Jesus e preparar sua che-gada, endireitando seus caminhos, significa romper com as estruturas de injustiça e de morte. Como é o nosso testemu-nho? 28. O que seria hoje "extinguir o Espírito" e "desprezar as profecias"? O princípio ético: "examinem tudo e fiquem com o que é bom" exige maturidade — que desafios ele nos apresenta? Nossas relações nos levam a crescer na fé e ser res-ponsáveis?