JESUS, O MESSIAS, VEM POR MEIO DOS POBRES
Pe. José Bortoline - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007
* LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL *
ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 4° DOMINGO DO ADVENTO – COR: ROXO / LILAS
I. INTRODUÇÃO GERAL
1. A liturgia, na proximidade do Natal, apresenta-nos o
Filho de Deus que virá como o verdadeiro Messias, o descen-
dente de Davi, ungido por Deus para restituir a justiça e enca-
minhar o povo à liberdade e à vida. Quando a vontade de Deus
e a vontade humana coincidem, então a palavra de Deus, pala-
vra eficaz, torna-se realidade e vida para o mundo, como se
tornou para a jovem Maria, modelo dos que sabem confiar-se
plenamente nas mãos de Deus, para quem nada é impossível.
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1ª leitura (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16): Deus é que constrói e
liberta, não se deixando aprisionar
2. A profecia que Natã dirige ao rei Davi constitui, na pro-
posta dos livros de Samuel, o ponto alto da história da monar-
quia davídica. Davi reunira todo o povo e conquistara a simpa-
tia geral das tribos. Além disso, conquistara Jerusalém e a
tornara centro político e religioso do reino, mediante um pro-
vável pacto com a dinastia da cidade habitada pelos jebuseus
(cf. 2Sm 5,6-16). O profeta anuncia que o trono de Davi em
Jerusalém será eterno, ocupado sempre por um descendente
seu, um ungido (Messias) que continuará estabelecendo para
Deus um reino de justiça. Tem início, então, a ideologia mes-
siânica, que marcará a história de Israel e permitirá aos israeli-
tas superar as vicissitudes na esperança do Messias sucessor
de Davi que restabeleceria o seu reinado.
3. O que provoca a profecia de Natã é o fato de Davi querer
construir um Templo para Javé em Jerusalém (v. 2). O profeta,
que sem demora havia apoiado a decisão de Davi no v. 3, vê-
se obrigado, porém, a transmitir ao rei a revelação que Deus
lhe dirigira durante a noite.
4. O início da profecia (vv. 5-7; somente o v. 5 entra na
liturgia) demonstra claramente a reação de grupos contrários à
construção de um templo para Javé. A pergunta torna-se assim
irônica: “Você vai me construir uma moradia?”. Nos vv. 8b-9
Deus mostra como a iniciativa nunca partiu do rei: o próprio
Javé tirou Davi do pastoreio e, caminhando com ele, o fez
conquistar a terra e vencer os inimigos, tornando o nome do
rei célebre como os mais famosos da terra. Trata-se, portanto,
de uma crítica à tentativa de aprisionar Deus. E por dois moti-
vos básicos: a) é sempre Deus quem toma a iniciativa na histó-
ria, e sem ele o povo nada pode — o povo é que segue o Deus
fiel, não é Deus que deve seguir o povo nem sempre fiel; b)
ninguém, nem sequer ou sobretudo o rei, pode ter a pretensão
de aprisionar Deus numa construção de pedras — Javé é o
Deus que caminha com o povo e realiza com ele a dinâmica da
história em vista da libertação. O que se rejeita aqui, portanto,
é toda e qualquer tentativa de usar o culto a Deus como sim-
ples sustentação para uma monarquia. Hoje, diríamos, qual-
quer pretensão de usar a Deus para justificar interesses imperi-
alistas...
5. Na visão de Natã, por isso, fala-se de “lugar” e de “casa”.
Deus mesmo, e não Davi, estabelecerá um “lugar” para o seu
povo Israel, para que esse mesmo povo (não Deus) habite no
seu lugar próprio (v. 10). E construirá uma “casa” também
para o rei Davi (v. 13), garantindo-lhe que seu filho o sucederá
e sua dinastia será eterna (vv. 12.14a.16). O v. 13, que não
entra na liturgia, diz que é o sucessor de Davi, seu filho Salo-
mão, que construirá para Deus uma “casa”. Logo se vê que
aqui, com esse texto, se procura justificar e preservar o poder
de Salomão. Ele continuará o poder do seu pai Davi e levará a
termo sua vontade de construir um Templo para Deus.
6. Em que pesem a ideologia da dinastia davídica e a reação
crítica a ela em prol de um retorno à experiência da igualdade
das tribos, o povo de Israel sempre será animado pela esperan-
ça de um rei, ungido (Messias), que restabeleça a glória dos
tempos de Davi. Até que, na época de grande expectativa
messiânica como era a do tempo de Jesus, nasce um Messias
diferente, descendente de Davi sim, mas para reunir toda a
humanidade, não somente um povo, em torno de um mesmo
projeto de liberdade e vida. Porque Deus não habita e não se
deixa aprisionar em templos de pedra, mas se encontra na vida
de cada ser humano que habita o universo.
Evangelho (Lc 1,26-38): O Messias vem da periferia
7. Logo após o anúncio do nascimento do precursor João
Batista ao sacerdote Zacarias em Lc 1,5-25, o evangelho apre-
senta o anúncio do anjo Gabriel a Maria. Somos transportados
da solenidade do templo a uma pequena cidade da Galiléia
chamada Nazaré, tão insignificante, que nunca aparece no
Antigo Testamento, e tão menosprezada ou de má fama, que
encontramos em Jo 1,46: “De Nazaré pode vir algo de bom?”.
Pois é na periferia, longe do centro religioso e político, que se
dá o anúncio do nascimento daquele que “será grande”, o
“Filho do Altíssimo”.
8. Os vv. 26-27 ambientam o episódio na periferia e apre-
sentam os personagens: o anjo Gabriel, que anuncia, e a vir-
gem Maria, que estava prometida em casamento a José, um
descendente de Davi. Toda a cena se desenvolve em três mo-
mentos: três intervenções do anjo com três reações de Maria.
9. O primeiro momento (vv. 28-29) consiste na saudação do
anjo e no convite à alegria: “Alegre-se”, com o motivo: Deus
concedeu a Maria todas as suas graças e está com ela. A rea-
ção de Maria é interna: não compreendeu a saudação e procu-
rava compreender o seu significado.
10. O segundo momento (vv. 30-33) é outro convite, agora à
coragem: “Não tenha medo”, com o mesmo motivo: Maria foi
agraciada por Deus. Segue, então, o anúncio da gravidez e da
missão de Maria. Uma missão que não terminará no parto, mas
continuará na educação daquele que deverá ser chamado “Je-
sus”. E a apresentação do Filho que nascerá é fundamental no
episódio, pois Lucas quer mostrar que esse Filho é o Messias
e, portanto, descendente de Davi. No v. 27, José havia sido
apresentado como descendente de Davi; agora se fala que esse
menino que vai nascer receberá “o trono do seu pai Davi” (v.
32); “ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e
o seu reino não terá fim” (v. 33). Assim se realizarão, portan-
to, todas as expectativas do povo em relação à vinda do Mes-
sias, o enviado de Deus para trazer libertação e vida. E, apesar
dessa identificação de Jesus como descendente de Davi, ele
não será um Messias chefe de exército ou monarca que triun-
fará pelo poder: sua libertação passará, como sabemos, por
outros caminhos... O que Lucas quer mostrar, aqui, é que Jesus
é o verdadeiro Messias aguardado, o descendente de Davi que
restabelecerá a justiça tão desejada. A segunda reação de Ma-
ria é uma objeção, como é comum nas narrativas de missão:
ela não entende como isso seja possível, já que não vive com
nenhum homem. Maria tinha sido prometida a José, mas ainda
não vivia com ele: segundo a tradição, o casamento só se rea-
lizava, em geral, depois de um ano dos esponsais, quando
eram feitas as promessas e os noivos ficavam comprometidos
por um acordo.
11. À objeção de Maria segue o terceiro momento (vv. 35-
38), com a explicação por parte do anjo de que a gravidez dela
será obra da intervenção de Deus. Uma intervenção frisada
com o paralelismo: “O Espírito Santo / virá / sobre você”, e “a
força do Altíssimo / estenderá sua sombra / sobre você”. O
mesmo Deus que acompanhou com sua sombra o povo, na
caminhada da libertação pelo deserto, intervém e, em Maria,
continua realizando sua libertação, uma nova libertação aberta
pela vinda do Messias. Mesmo que Maria não o tenha exigido,
segue um sinal de que o anúncio é verdadeiro: também Isabel,
em sua velhice e esterilidade, havia concebido um filho por
obra de Deus. E a declaração de que para Deus nada é impos-
sível abre a resposta de Maria, na sua terceira e definitiva
reação ao anúncio: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim
segundo a tua palavra”. Maria considera-se serva, pronta a
obedecer e colaborar no plano divino. Reconhece, portanto,
que a palavra de Deus, sendo sempre eficaz, por meio da ação
humana torna-se realidade.
12. Os planos de Deus não seguem as formulações ou expec-
tativas humanas. Deus envia seu mensageiro à periferia, a uma
virgem desconhecida de uma cidadezinha desconhecida da
periferia. Nada se fala a respeito das qualidades de Maria,
exatamente porque nela age a gratuidade de Deus, a graça
divina. Maria foi escolhida não por suas qualidades morais,
mas porque Deus, em sua bondade, quer presentear uma vir-
gem desconhecida da periferia com o dom do seu Filho, o
Messias que trará a libertação e a vida a todos os povos. Como
com o pai Abraão, que foi justificado porque acreditou e se
pôs a caminho, não porque era justo ou seguia a Lei mosaica,
que nem sequer existia. O anúncio a Maria fala da gratuidade
total de Deus, e a resposta de Maria fala da disponibilidade
total de uma mulher que compreende algo fundamental: o
plano da salvação só se realiza quando o ser humano se confia
plenamente à vontade de Deus, não porque mereçamos ou
possamos algo por nossas próprias forças, mas porque Deus
mesmo pode tudo e age com plena gratuidade.
13. O anúncio do Messias não é feito aos sumos sacerdotes
ou lideranças políticas de Jerusalém, mas se dá na periferia. O
plano de Deus não passa pelo triunfalismo ou pelo poder, mas
germina, ontem e hoje, na história dos pequenos, daqueles que
como Maria, não têm nada a perder, mas tudo a ganhar pela
graça de Deus. Se Abraão é o pai dos que têm fé, Maria é a
mãe do Messias e de todos os fiéis renovados pela vida do seu
Filho.
2ª leitura (Rm 16,25-27): O mistério é o projeto que Jesus
realiza e estende a todos
14. A leitura tirada da carta aos Romanos é constituída pelos
três versículos finais da carta, uma doxologia provavelmente
acrescentada como conclusão de todas as cartas de Paulo (o
Fragmento Muratoriano, por exemplo, mostra que a carta aos
Romanos aparecia como a última das cartas, e não a primeira,
como em nossas Bíblias). Trata-se de um texto escrito no final
do séc. I ou início do séc. II, por alguém que conhecia muito
bem a teologia de Paulo, já que a consegue sintetizar tão bem
em três versículos. (Notem-se, a respeito da datação, os ele-
mentos apocalípticos: mistério oculto desde a eternidade, sa-
bedoria de Deus...)
15. A glória que os cristãos são convidados a render a Deus
baseia-se na própria ação divina: Deus tem o poder de conser-
var os cristãos firmes nas dificuldades, pois receberam a men-
sagem de Jesus por intermédio do anúncio (evangelho) de
Paulo e podem atuar na sociedade, em comunidade, o projeto
de Deus (v. 25). Somente Deus é sábio, e por meio de Jesus é
que se lhe rende glória (v. 27).
16. O anúncio (evangelho) de Paulo tem seu centro num
“mistério”, como podemos ler sobretudo em Ef 3,1-13. Um
“mistério” que estava envolvido em silêncio, mas agora foi
manifestado pelos profetas e anunciado a todas as gentes, para
conduzir todos à fé que liberta e salva (vv. 25-26). Contudo,
para Paulo, esse “mistério” nada tem que ver com doutrinas ou
ritos secretos próprios de religiões mistéricas ou seitas. O
“mistério” é uma realidade, ou melhor, um projeto concreto: o
projeto de Jesus Cristo, que o Filho de Deus vem começar e
que continua, depois de sua morte e ressurreição, nas comuni-
dades que se formam e se põem no seu seguimento, atuando o
mesmo projeto de liberdade e vida. A partir de Jesus, portanto,
aquele mistério/projeto que era desconhecido tornou-se visível
num homem e, por meio dos escritos proféticos e de apóstolos
como Paulo, que anunciam o evangelho de Jesus, vai chegan-
do a todos os povos. O fundamental é que esse mistério, o
projeto que Jesus realiza, não se circunscreve ao povo judeu
ou a qualquer outro povo, mas chega a todos os povos: é um
projeto universal, que nos empenha a todos numa missão uni-
versal. Não com teorias misteriosas a descobrir, mas com um
projeto concreto a continuar, na fidelidade criativa, no profe-
tismo que não deve ser abafado, em nossos tempos e nos luga-
res mais diversos.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
17. A tentação de aprisionar Deus é uma constante na história. Um olhar à história da Igreja leva-
nos a um pedido de perdão, mas também a lutar para que a liberdade de Deus não continue sendo
reduzida pela mesquinhez, pelo triunfalismo, pelo desejo de poder e privilégio e por tantas outras
coisas. Qual orientação o Messias Jesus Cristo nos ensina a tomar? Que "lugar" somos chamados a
preparar no mundo para o Messias que vem?
18. Deus envia seu Filho ao mundo por intermédio de uma mulher desconhecida da periferia. O
que a resposta de Maria tem que ver com o messianismo que Jesus exercerá? Que tipo de colabora-
ção aquele que ocupa o trono de Davi pede de nós hoje?
19. O mistério/projeto de Jesus foi manifestado pelos profetas e anunciado a todos; foi revelado e,
hoje, pode ser conhecido e seguido por todos. Quais são os desafios para que esse projeto universal
seja continuado fielmente nas diferentes culturas e realidades do nosso tempo?

Comentário: 4° Domingo do Advento - Ano B

  • 1.
    JESUS, O MESSIAS,VEM POR MEIO DOS POBRES Pe. José Bortoline - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 4° DOMINGO DO ADVENTO – COR: ROXO / LILAS I. INTRODUÇÃO GERAL 1. A liturgia, na proximidade do Natal, apresenta-nos o Filho de Deus que virá como o verdadeiro Messias, o descen- dente de Davi, ungido por Deus para restituir a justiça e enca- minhar o povo à liberdade e à vida. Quando a vontade de Deus e a vontade humana coincidem, então a palavra de Deus, pala- vra eficaz, torna-se realidade e vida para o mundo, como se tornou para a jovem Maria, modelo dos que sabem confiar-se plenamente nas mãos de Deus, para quem nada é impossível. II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1ª leitura (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16): Deus é que constrói e liberta, não se deixando aprisionar 2. A profecia que Natã dirige ao rei Davi constitui, na pro- posta dos livros de Samuel, o ponto alto da história da monar- quia davídica. Davi reunira todo o povo e conquistara a simpa- tia geral das tribos. Além disso, conquistara Jerusalém e a tornara centro político e religioso do reino, mediante um pro- vável pacto com a dinastia da cidade habitada pelos jebuseus (cf. 2Sm 5,6-16). O profeta anuncia que o trono de Davi em Jerusalém será eterno, ocupado sempre por um descendente seu, um ungido (Messias) que continuará estabelecendo para Deus um reino de justiça. Tem início, então, a ideologia mes- siânica, que marcará a história de Israel e permitirá aos israeli- tas superar as vicissitudes na esperança do Messias sucessor de Davi que restabeleceria o seu reinado. 3. O que provoca a profecia de Natã é o fato de Davi querer construir um Templo para Javé em Jerusalém (v. 2). O profeta, que sem demora havia apoiado a decisão de Davi no v. 3, vê- se obrigado, porém, a transmitir ao rei a revelação que Deus lhe dirigira durante a noite. 4. O início da profecia (vv. 5-7; somente o v. 5 entra na liturgia) demonstra claramente a reação de grupos contrários à construção de um templo para Javé. A pergunta torna-se assim irônica: “Você vai me construir uma moradia?”. Nos vv. 8b-9 Deus mostra como a iniciativa nunca partiu do rei: o próprio Javé tirou Davi do pastoreio e, caminhando com ele, o fez conquistar a terra e vencer os inimigos, tornando o nome do rei célebre como os mais famosos da terra. Trata-se, portanto, de uma crítica à tentativa de aprisionar Deus. E por dois moti- vos básicos: a) é sempre Deus quem toma a iniciativa na histó- ria, e sem ele o povo nada pode — o povo é que segue o Deus fiel, não é Deus que deve seguir o povo nem sempre fiel; b) ninguém, nem sequer ou sobretudo o rei, pode ter a pretensão de aprisionar Deus numa construção de pedras — Javé é o Deus que caminha com o povo e realiza com ele a dinâmica da história em vista da libertação. O que se rejeita aqui, portanto, é toda e qualquer tentativa de usar o culto a Deus como sim- ples sustentação para uma monarquia. Hoje, diríamos, qual- quer pretensão de usar a Deus para justificar interesses imperi- alistas... 5. Na visão de Natã, por isso, fala-se de “lugar” e de “casa”. Deus mesmo, e não Davi, estabelecerá um “lugar” para o seu povo Israel, para que esse mesmo povo (não Deus) habite no seu lugar próprio (v. 10). E construirá uma “casa” também para o rei Davi (v. 13), garantindo-lhe que seu filho o sucederá e sua dinastia será eterna (vv. 12.14a.16). O v. 13, que não entra na liturgia, diz que é o sucessor de Davi, seu filho Salo- mão, que construirá para Deus uma “casa”. Logo se vê que aqui, com esse texto, se procura justificar e preservar o poder de Salomão. Ele continuará o poder do seu pai Davi e levará a termo sua vontade de construir um Templo para Deus. 6. Em que pesem a ideologia da dinastia davídica e a reação crítica a ela em prol de um retorno à experiência da igualdade das tribos, o povo de Israel sempre será animado pela esperan- ça de um rei, ungido (Messias), que restabeleça a glória dos tempos de Davi. Até que, na época de grande expectativa messiânica como era a do tempo de Jesus, nasce um Messias diferente, descendente de Davi sim, mas para reunir toda a humanidade, não somente um povo, em torno de um mesmo projeto de liberdade e vida. Porque Deus não habita e não se deixa aprisionar em templos de pedra, mas se encontra na vida de cada ser humano que habita o universo. Evangelho (Lc 1,26-38): O Messias vem da periferia 7. Logo após o anúncio do nascimento do precursor João Batista ao sacerdote Zacarias em Lc 1,5-25, o evangelho apre- senta o anúncio do anjo Gabriel a Maria. Somos transportados da solenidade do templo a uma pequena cidade da Galiléia chamada Nazaré, tão insignificante, que nunca aparece no Antigo Testamento, e tão menosprezada ou de má fama, que encontramos em Jo 1,46: “De Nazaré pode vir algo de bom?”. Pois é na periferia, longe do centro religioso e político, que se dá o anúncio do nascimento daquele que “será grande”, o “Filho do Altíssimo”. 8. Os vv. 26-27 ambientam o episódio na periferia e apre- sentam os personagens: o anjo Gabriel, que anuncia, e a vir- gem Maria, que estava prometida em casamento a José, um descendente de Davi. Toda a cena se desenvolve em três mo- mentos: três intervenções do anjo com três reações de Maria. 9. O primeiro momento (vv. 28-29) consiste na saudação do anjo e no convite à alegria: “Alegre-se”, com o motivo: Deus concedeu a Maria todas as suas graças e está com ela. A rea- ção de Maria é interna: não compreendeu a saudação e procu- rava compreender o seu significado. 10. O segundo momento (vv. 30-33) é outro convite, agora à coragem: “Não tenha medo”, com o mesmo motivo: Maria foi agraciada por Deus. Segue, então, o anúncio da gravidez e da missão de Maria. Uma missão que não terminará no parto, mas continuará na educação daquele que deverá ser chamado “Je- sus”. E a apresentação do Filho que nascerá é fundamental no episódio, pois Lucas quer mostrar que esse Filho é o Messias e, portanto, descendente de Davi. No v. 27, José havia sido apresentado como descendente de Davi; agora se fala que esse menino que vai nascer receberá “o trono do seu pai Davi” (v. 32); “ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim” (v. 33). Assim se realizarão, portan- to, todas as expectativas do povo em relação à vinda do Mes- sias, o enviado de Deus para trazer libertação e vida. E, apesar dessa identificação de Jesus como descendente de Davi, ele não será um Messias chefe de exército ou monarca que triun- fará pelo poder: sua libertação passará, como sabemos, por outros caminhos... O que Lucas quer mostrar, aqui, é que Jesus é o verdadeiro Messias aguardado, o descendente de Davi que restabelecerá a justiça tão desejada. A segunda reação de Ma- ria é uma objeção, como é comum nas narrativas de missão:
  • 2.
    ela não entendecomo isso seja possível, já que não vive com nenhum homem. Maria tinha sido prometida a José, mas ainda não vivia com ele: segundo a tradição, o casamento só se rea- lizava, em geral, depois de um ano dos esponsais, quando eram feitas as promessas e os noivos ficavam comprometidos por um acordo. 11. À objeção de Maria segue o terceiro momento (vv. 35- 38), com a explicação por parte do anjo de que a gravidez dela será obra da intervenção de Deus. Uma intervenção frisada com o paralelismo: “O Espírito Santo / virá / sobre você”, e “a força do Altíssimo / estenderá sua sombra / sobre você”. O mesmo Deus que acompanhou com sua sombra o povo, na caminhada da libertação pelo deserto, intervém e, em Maria, continua realizando sua libertação, uma nova libertação aberta pela vinda do Messias. Mesmo que Maria não o tenha exigido, segue um sinal de que o anúncio é verdadeiro: também Isabel, em sua velhice e esterilidade, havia concebido um filho por obra de Deus. E a declaração de que para Deus nada é impos- sível abre a resposta de Maria, na sua terceira e definitiva reação ao anúncio: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Maria considera-se serva, pronta a obedecer e colaborar no plano divino. Reconhece, portanto, que a palavra de Deus, sendo sempre eficaz, por meio da ação humana torna-se realidade. 12. Os planos de Deus não seguem as formulações ou expec- tativas humanas. Deus envia seu mensageiro à periferia, a uma virgem desconhecida de uma cidadezinha desconhecida da periferia. Nada se fala a respeito das qualidades de Maria, exatamente porque nela age a gratuidade de Deus, a graça divina. Maria foi escolhida não por suas qualidades morais, mas porque Deus, em sua bondade, quer presentear uma vir- gem desconhecida da periferia com o dom do seu Filho, o Messias que trará a libertação e a vida a todos os povos. Como com o pai Abraão, que foi justificado porque acreditou e se pôs a caminho, não porque era justo ou seguia a Lei mosaica, que nem sequer existia. O anúncio a Maria fala da gratuidade total de Deus, e a resposta de Maria fala da disponibilidade total de uma mulher que compreende algo fundamental: o plano da salvação só se realiza quando o ser humano se confia plenamente à vontade de Deus, não porque mereçamos ou possamos algo por nossas próprias forças, mas porque Deus mesmo pode tudo e age com plena gratuidade. 13. O anúncio do Messias não é feito aos sumos sacerdotes ou lideranças políticas de Jerusalém, mas se dá na periferia. O plano de Deus não passa pelo triunfalismo ou pelo poder, mas germina, ontem e hoje, na história dos pequenos, daqueles que como Maria, não têm nada a perder, mas tudo a ganhar pela graça de Deus. Se Abraão é o pai dos que têm fé, Maria é a mãe do Messias e de todos os fiéis renovados pela vida do seu Filho. 2ª leitura (Rm 16,25-27): O mistério é o projeto que Jesus realiza e estende a todos 14. A leitura tirada da carta aos Romanos é constituída pelos três versículos finais da carta, uma doxologia provavelmente acrescentada como conclusão de todas as cartas de Paulo (o Fragmento Muratoriano, por exemplo, mostra que a carta aos Romanos aparecia como a última das cartas, e não a primeira, como em nossas Bíblias). Trata-se de um texto escrito no final do séc. I ou início do séc. II, por alguém que conhecia muito bem a teologia de Paulo, já que a consegue sintetizar tão bem em três versículos. (Notem-se, a respeito da datação, os ele- mentos apocalípticos: mistério oculto desde a eternidade, sa- bedoria de Deus...) 15. A glória que os cristãos são convidados a render a Deus baseia-se na própria ação divina: Deus tem o poder de conser- var os cristãos firmes nas dificuldades, pois receberam a men- sagem de Jesus por intermédio do anúncio (evangelho) de Paulo e podem atuar na sociedade, em comunidade, o projeto de Deus (v. 25). Somente Deus é sábio, e por meio de Jesus é que se lhe rende glória (v. 27). 16. O anúncio (evangelho) de Paulo tem seu centro num “mistério”, como podemos ler sobretudo em Ef 3,1-13. Um “mistério” que estava envolvido em silêncio, mas agora foi manifestado pelos profetas e anunciado a todas as gentes, para conduzir todos à fé que liberta e salva (vv. 25-26). Contudo, para Paulo, esse “mistério” nada tem que ver com doutrinas ou ritos secretos próprios de religiões mistéricas ou seitas. O “mistério” é uma realidade, ou melhor, um projeto concreto: o projeto de Jesus Cristo, que o Filho de Deus vem começar e que continua, depois de sua morte e ressurreição, nas comuni- dades que se formam e se põem no seu seguimento, atuando o mesmo projeto de liberdade e vida. A partir de Jesus, portanto, aquele mistério/projeto que era desconhecido tornou-se visível num homem e, por meio dos escritos proféticos e de apóstolos como Paulo, que anunciam o evangelho de Jesus, vai chegan- do a todos os povos. O fundamental é que esse mistério, o projeto que Jesus realiza, não se circunscreve ao povo judeu ou a qualquer outro povo, mas chega a todos os povos: é um projeto universal, que nos empenha a todos numa missão uni- versal. Não com teorias misteriosas a descobrir, mas com um projeto concreto a continuar, na fidelidade criativa, no profe- tismo que não deve ser abafado, em nossos tempos e nos luga- res mais diversos. III. PISTAS PARA REFLEXÃO 17. A tentação de aprisionar Deus é uma constante na história. Um olhar à história da Igreja leva- nos a um pedido de perdão, mas também a lutar para que a liberdade de Deus não continue sendo reduzida pela mesquinhez, pelo triunfalismo, pelo desejo de poder e privilégio e por tantas outras coisas. Qual orientação o Messias Jesus Cristo nos ensina a tomar? Que "lugar" somos chamados a preparar no mundo para o Messias que vem? 18. Deus envia seu Filho ao mundo por intermédio de uma mulher desconhecida da periferia. O que a resposta de Maria tem que ver com o messianismo que Jesus exercerá? Que tipo de colabora- ção aquele que ocupa o trono de Davi pede de nós hoje? 19. O mistério/projeto de Jesus foi manifestado pelos profetas e anunciado a todos; foi revelado e, hoje, pode ser conhecido e seguido por todos. Quais são os desafios para que esse projeto universal seja continuado fielmente nas diferentes culturas e realidades do nosso tempo?