PREPARAR O CAMINHO DO SENHOR 
Pe. José Bortoline - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 
* LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * 
ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 2° DOMINGO DO ADVENTO – COR: ROXO / LILAS 
I. INTRODUÇÃO GERAL 
1. O tema principal que atravessa as leituras deste domingo 
aparece sob a imagem do caminho: de libertação e volta à 
pátria para os exilados (lª leitura, Is 40,1-5.9-11); de conver-são 
para o encontro com o Messias, o Filho de Deus (evange-lho, 
Mc 1,1-8), de esperança ativa no "Dia de Deus", colabo-rando 
desde já com ele para que seja apressado o Dia em que 
haverá "novos céus e nova terra, onde habitará a Justiça" (lª 
leitura, 2Pd 3,8-14). É isso que queremos celebrar hoje como 
anuncio e denúncia: anúncio do Deus que já está no meio de 
nós, e denúncia profética de tudo o que impede o nosso povo 
de ter liberdade e vida. 
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 
1ª leitura (Is 40,1-5.9-11): Deus-pastor chefia a caminhada 
de libertação 
2. O Segundo Isaías é o profeta amigo e companheiro dos 
exilados. Sua tarefa é devolver esperança ao povo, ou seja, 
mostrar-lhe que o retomo à pátria é possível e está para acon-tecer. 
É isso que ouvimos lendo os textos desse profeta anô-nimo 
(Is 40-55). 
3. Os versículos escolhidos como primeira leitura deste 
domingo são o início da missão do Segundo Isaías (cap. 40). 
Os vv. 1-11 apresentam o seguinte esquema: 1. Consolação do 
povo e de Jerusalém, e os motivos do consolo (vv. 1-2); 2. 
Está para iniciar novo êxodo. A volta à pátria não vai demorar 
(vv. 3-5); 3. Quem garante o processo de libertação é Palavra 
de Deus, que é eficaz (vv. 6-8); 4. Javé está chegando na qua-lidade 
de pastor (vv. 9-11). 
4. Jerusalém é a cidade-esposa de Javé. Por ocasião do exílio 
ela perdeu seus filhos, sentindo-se abandonada por Deus. Ago-ra 
é o próprio Senhor quem ordena: "Consolem, consolem o 
meu povo! Falem ao coração de Jerusalém e digam-lhe em alta 
voz que terminou o tempo da escravidão; ela recebeu da mão 
do Senhor o pagamento dobrado por todos os seus pecados" 
(vv. l-2). Os exilados pagaram mais do que deviam, pois além 
de terem sido arrancados da própria terra e escravizados na 
Babilônia, tiveram que suportar a gozação dos opressores (cf. 
por exemplo, Sl 115,2;137,l-3). Os exilados aprenderam, com 
o sofrimento e marginalização, uma lição importante que os 
toma aptos a voltar a reconstruir o país. 
5. Por isso se ouve um grito que ordena o novo êxodo: "A-bram 
no deserto um caminho para o Senhor, aplainem no 
descampado uma estrada para nosso Deus! Todo vale seja 
entulhado e todo monte e colina sejam abaixados; as serras se 
transformem em planície e as montanhas em amplo vale" (vv. 
3-4). O "caminho para o Senhor" recorda várias coisas, por 
exemplo, a estrada sagrada que havia diante dos templos da 
Babilônia: era uma estrada reta e plana que favorecia a passa-gem 
da divindade. Mas, acima de tudo, lembra o caminho de 
libertação percorrido pelo povo de Deus ao ser resgatado da 
escravidão egípcia. Deus está promovendo, com a força de sua 
Palavra, novo êxodo para seu povo. Desta vez, a caminhada 
pelo deserto não será demorada como outrora e não haverá 
dificuldades como no passado, pois será como uma procissão 
alegre e festiva, fácil e cômoda. O próprio Deus chefia a mar-cha 
do seu povo para a liberdade e a vida, pois ele voltou a ser 
"o nosso Deus", aquele que tira seu povo da escravidão. É aí 
que se manifesta a "glória do Senhor". 
6. A notícia de que os exilados estão para voltar chega a 
Jerusalém. O profeta é portador de boas notícias para a capital 
e as cidades de Judá: a libertação está chegando (v. 9), pois o 
Deus libertador voltou a se manifestar com o mesmo poder e 
braço com que agiu outrora, no tempo da libertação do Egito 
(v. 10). 
7. A imagem da procissão festiva e alegre adquire contornos 
mais claros. O povo é como um rebanho conduzido com segu-rança 
por Deus, seu pastor, que tem predileção pelos cordeiri-nhos 
(os fracos), carregando-os ao colo, e pelas ovelhas-mães, 
as fontes da vida (v. 11). Este versículo oferece algumas in-formações 
sobre os que voltaram do exílio: são pessoas enfra-quecidas 
(os que estavam bem de vida preferiram ficar em 
Babilônia), mas cheias de esperança de vida nova. À frente 
dessas pessoas, contudo, caminha aquele que conduz à liber-dade 
e à vida. 
Evangelho (Mc 1,1-8): Preparar o caminho do Senhor 
8. O evangelho de Marcos foi, provavelmente, o primeiro 
texto de discipulado das comunidades primitivas. O evangelis-ta 
concentra seus esforços na demonstração de "quem é Jesus" 
E, desde o início (v. l), deixa claro: o que vamos encontrar 
neste livro é apenas o começo. Esse dado é importante para 
entendermos a intenção do evangelista: percorrer o caminho 
que leva a Jesus é estar sempre disposto a começar, a reapren-der, 
pois em Mc os discípulos se encontram num estado crôni-co 
de ignorância. De fato, depois que ressuscitou, Jesus os 
manda à Galiléia, lugar onde ele iniciou sua atividade liberta-dora. 
É aí que poderão encontrá-lo (cf. Mc 16,7). "Galiléia" é 
onde estão os marginalizados. Marcos, portanto, nos garante 
uma coisa: se quisermos encontrar Jesus e saborear a boa notí-cia 
que ele é e traz, precisamos recomeçar sempre a partir dos 
empobrecidos e marginalizados da sociedade, aprendendo com 
suas esperanças e lutas. 
9. A boa notícia (= evangelho) é a pessoa e a ação de Jesus, 
chamado de Cristo (= Messias) e de Filho de Deus. Essa afir-mação 
se encontra estrategicamente no início (1,1), no meio 
(8,29) e no fim do evangelho de Marcos (15,39). Os que pres-tam 
atenção a tudo o que Jesus diz e realiza são convidados a 
fazer a mesma constatação do próprio evangelista, de Pedro e 
do oficial romano, que declaram ser Jesus o Messias, aquele 
que concretiza a vinda do Reino. 
10. Os versículos 2-8 falam de João Batista, o Precursor do 
Messias-Filho de Deus, apresentando-o como o mensageiro 
que vai à frente de alguém mais importante, como o profeta 
que veio para preparar o caminho do Senhor (cf. vv. 2-3). 
Nesses versículos temos a condensação de três citações do 
Antigo Testamento. Em primeiro lugar, Ex 23,20: "Vou enviar 
um anjo na frente de você para que ele cuide de você no cami-nho 
e o leve até o lugar que eu preparei para você".Em segun-do 
lugar, Is 40,3: "Uma voz grita: Abram no deserto um cami-nho 
para o Senhor, aplainem no descampado uma estrada para 
nosso Deus!" (cf. 1ª leitura). Finalmente, Ml 3,1: "Vejam! 
Estou mandando o meu mensageiro para preparar o caminho à 
minha frente". João Batista é, portanto, o que prepara e conduz 
a humanidade ao encontro daquele que traz consigo a realiza-ção 
dos tempos messiânicos, ou seja, Jesus, que irá batizar 
com o Espírito Santo (cf. v. 8). 
11. O Precursor aparece no deserto (v. 4). Essa indicação é 
importante pois recorda, ao mesmo tempo, o período que vai
da libertação do Egito até a entrada na Terra Prometida, e o 
período da saída do exílio na Babilônia até o regresso à pátria 
(cf. lª leitura). Jesus será, portanto, aquele que vai introduzir o 
povo numa nova realidade. De fato, suas primeiras palavras no 
evangelho de Marcos são estas: "O tempo já se cumpriu, e o 
Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na 
Boa Notícia" ( l , 15) 
12. O texto afirma que "toda a região da Judéia e todos os 
moradores de Jerusalém vinham ao encontro de João Batista. 
Confessavam os seus pecados e ele os batizava no rio Jordão" 
(v. 5). O batismo de João era o sinal que predispunha as pes-soas 
à aceitação da novidade prestes a chegar na pessoa de 
Jesus. Era, pois, o sinal de conversão e compromisso. 
13. Marcos descreve rapidamente o perfil do Precursor: "João 
se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel 
silvestre" (v 6). Com essas poucas palavras ele o insere na lista 
dos profetas do Antigo Testamento. Quanto ao modo de vestir, 
João Batista é um profeta à semelhança de Elias (cf. 2Rs 1,8) e 
de outros profetas (cf. Zc 13,4). Quanto à comida e bebida, ele 
se iguala ao povo pobre que não quer mais depender da explo-ração 
econômica dos centros de poder, onde vigora a lei do 
consumismo e do luxo (cf. o banquete de Herodes na cidade e 
a comida dos pobres no deserto em Mc 6,14-44). 
14. João Batista é profeta nas palavras e no modo de ser, 
inclusive na roupa e no alimento. Sua pregação e vida são ao 
mesmo tempo denúncia e apelo: denúncia do que está aí, e 
apelo do que vai ser implantado com a vinda do Messias. A 
figura do Batista ainda está presente em nossa sociedade: basta 
que olhemos para o modo como o nosso povo se veste e ali-menta: 
chinelos de dedo, tênis velhos, camisetas surradas, 
calças gastas, farinha e rapadura, arroz e feijão, não são tudo 
isso denúncia e sinais proféticos? Sim, tudo isso é uma denún-cia 
da nossa sociedade desigual. E a vinda do Messias, "aquele 
que se compadece desse povo" (cf. 6,34), quer ser vida para os 
que dela foram privados. 
15. João Batista anuncia a vinda do forte que vem depois dele. 
Lido à luz das passagens do Antigo Testamento acima citadas, 
o forte é o Senhor, aquele que vai batizar a humanidade com o 
Espírito Santo (cf. vv. 7-8). Jesus é forte porque, logo em 
seguida, ao ser batizado (v. 10), o céu se rasga, e o Espírito 
repousa sobre ele, levando-o a proclamar o fim do tempo de 
espera e a chegada do Reino (1,15). 
2ª leitura (2Pd 3,8-14): Esperamos e apressamos a chegada 
do Dia de Deus 
16. "Embora se apresente como sendo de Simão Pedro... esta 
carta é o último escrito do Novo Testamento, e foi provavel-mente 
escrita no fim do séc. I ou mesmo em meados do séc. II. 
Seu autor imita o gênero literário do 'testamento dos antepas-sados', 
comum naquela época: colocar conselhos e advertên-cias 
na boca dos patriarcas que estão próximos à morte. Esta-mos 
no tempo em que a Igreja está passando da época primiti-va 
para a chamada era pós-apostólica. Até aí o cristianismo 
fora vivido como novidade entusiasmante e esperava-se arden-te 
e continuamente pela volta gloriosa de Jesus. Nesse momen-to, 
porém, o tempo do Jesus terrestre começava a perder-se no 
passado, e o futuro da parusia torna-se cada vez mais distan-te..."( 
Introdução à segunda carta de Pedro, em Bíblia Sagrada 
– Edição Pastoral, Paulus, p. 1574). 
17. O final da carta, ao qual pertencem os versículos de hoje, 
trata da demora da vinda do Senhor. Deus não mede o tempo 
segundo nossos critérios: "Para o Senhor, um dia é como mil 
anos, e mil anos como um dia" (v. 8). Sua chegada não depen-de 
dos nossos cálculos, pois ele vem quando a gente menos 
espera, como um ladrão (cf. v. 10a). Parece, contudo, que essa 
resposta, já dada por Paulo muito tempo antes (cf. 1Ts 5,2), 
não satisfazia plenamente. O autor da carta, então, procura 
aprofundar o tema à luz da paciência de Deus. O tempo pre-sente, 
marcado pela espera, faz parte do projeto de Deus "que 
está usando de paciência com vocês, pois deseja que ninguém 
se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se" 
(v. 9). 
18. Portanto – pensa o autor da carta – não é tempo de fazer 
previsões e especulações sobre a última e definitiva interven-ção 
de Deus, o "Dia do Senhor". Importa, isso sim, "esperar e 
apressar a chegada desse Dia". É possível apressar esse Dia 
mediante o "esforço para sermos encontrados numa vida pura 
e perfeita na paz com Deus" (v. 14). 
19. Usando linguagem apocalíptica, os vv. 10.12 descrevem o 
final dos tempos ou "Dia do Senhor". Era a forma como o 
autor – e as pessoas daquele tempo – imaginava que isso fosse 
acontecer: barulho espantoso, dissolução dos elementos devo-rados 
pelas chamas, desaparecimento da terra, os céus incen-diados 
e os elementos que se fundem etc. Naquele tempo, fogo 
e água eram considerados fatores de destruição. O mais impor-tante 
disso tudo não é o modo como o Dia do Senhor vai acon-tecer, 
mas a transformação de tudo em "novos céus e nova 
terra, onde habitará a justiça" (v. 13). O autor da carta empre-gou 
imagens da destruição de elementos visíveis para falar da 
ação invisível de Deus e da nova realidade que será criada, 
meta da nossa esperança e, ao mesmo tempo, resultado do 
nosso esforço. 
III. PISTAS PARA REFLEXÃO 
20. Deus-pastor chefia a caminhada de libertação. Advento é tempo de proclamar a chegada 
da libertação do nosso povo. Preparar o caminho do Senhor é ajudar o povo a ter liberdade e vi-da. 
O texto de Isaías sugere que se faça uma caminhada/procissão em que estejam presentes os 
anseios de vida do nosso povo. Dar cuidado especial aos fracos e às fontes da vida. 
21. Preparar o caminho do Senhor. O batismo de João, sinal de conversão c adesão a boa notí-cia 
trazida por Jesus, precisa hoje ser substituído por outros sinais. Sugere-se apresentar coisas 
da vida do povo que denunciam a situação de opressão e são forte apelo à conversão. Não seria 
esse um modo interessante de "preparar o caminho do Senhor"? 
22. Esperamos e apressamos a chegada do Dia de Deus. A segunda carta de Pedro nos garante 
que é possível apressar o "Dia de Deus". Quais são, em nossas comunidades, os sinais de que es-se 
Dia já está raiando?

Comentário: 2º Domingo do advento - Ano B

  • 1.
    PREPARAR O CAMINHODO SENHOR Pe. José Bortoline - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 2° DOMINGO DO ADVENTO – COR: ROXO / LILAS I. INTRODUÇÃO GERAL 1. O tema principal que atravessa as leituras deste domingo aparece sob a imagem do caminho: de libertação e volta à pátria para os exilados (lª leitura, Is 40,1-5.9-11); de conver-são para o encontro com o Messias, o Filho de Deus (evange-lho, Mc 1,1-8), de esperança ativa no "Dia de Deus", colabo-rando desde já com ele para que seja apressado o Dia em que haverá "novos céus e nova terra, onde habitará a Justiça" (lª leitura, 2Pd 3,8-14). É isso que queremos celebrar hoje como anuncio e denúncia: anúncio do Deus que já está no meio de nós, e denúncia profética de tudo o que impede o nosso povo de ter liberdade e vida. II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1ª leitura (Is 40,1-5.9-11): Deus-pastor chefia a caminhada de libertação 2. O Segundo Isaías é o profeta amigo e companheiro dos exilados. Sua tarefa é devolver esperança ao povo, ou seja, mostrar-lhe que o retomo à pátria é possível e está para acon-tecer. É isso que ouvimos lendo os textos desse profeta anô-nimo (Is 40-55). 3. Os versículos escolhidos como primeira leitura deste domingo são o início da missão do Segundo Isaías (cap. 40). Os vv. 1-11 apresentam o seguinte esquema: 1. Consolação do povo e de Jerusalém, e os motivos do consolo (vv. 1-2); 2. Está para iniciar novo êxodo. A volta à pátria não vai demorar (vv. 3-5); 3. Quem garante o processo de libertação é Palavra de Deus, que é eficaz (vv. 6-8); 4. Javé está chegando na qua-lidade de pastor (vv. 9-11). 4. Jerusalém é a cidade-esposa de Javé. Por ocasião do exílio ela perdeu seus filhos, sentindo-se abandonada por Deus. Ago-ra é o próprio Senhor quem ordena: "Consolem, consolem o meu povo! Falem ao coração de Jerusalém e digam-lhe em alta voz que terminou o tempo da escravidão; ela recebeu da mão do Senhor o pagamento dobrado por todos os seus pecados" (vv. l-2). Os exilados pagaram mais do que deviam, pois além de terem sido arrancados da própria terra e escravizados na Babilônia, tiveram que suportar a gozação dos opressores (cf. por exemplo, Sl 115,2;137,l-3). Os exilados aprenderam, com o sofrimento e marginalização, uma lição importante que os toma aptos a voltar a reconstruir o país. 5. Por isso se ouve um grito que ordena o novo êxodo: "A-bram no deserto um caminho para o Senhor, aplainem no descampado uma estrada para nosso Deus! Todo vale seja entulhado e todo monte e colina sejam abaixados; as serras se transformem em planície e as montanhas em amplo vale" (vv. 3-4). O "caminho para o Senhor" recorda várias coisas, por exemplo, a estrada sagrada que havia diante dos templos da Babilônia: era uma estrada reta e plana que favorecia a passa-gem da divindade. Mas, acima de tudo, lembra o caminho de libertação percorrido pelo povo de Deus ao ser resgatado da escravidão egípcia. Deus está promovendo, com a força de sua Palavra, novo êxodo para seu povo. Desta vez, a caminhada pelo deserto não será demorada como outrora e não haverá dificuldades como no passado, pois será como uma procissão alegre e festiva, fácil e cômoda. O próprio Deus chefia a mar-cha do seu povo para a liberdade e a vida, pois ele voltou a ser "o nosso Deus", aquele que tira seu povo da escravidão. É aí que se manifesta a "glória do Senhor". 6. A notícia de que os exilados estão para voltar chega a Jerusalém. O profeta é portador de boas notícias para a capital e as cidades de Judá: a libertação está chegando (v. 9), pois o Deus libertador voltou a se manifestar com o mesmo poder e braço com que agiu outrora, no tempo da libertação do Egito (v. 10). 7. A imagem da procissão festiva e alegre adquire contornos mais claros. O povo é como um rebanho conduzido com segu-rança por Deus, seu pastor, que tem predileção pelos cordeiri-nhos (os fracos), carregando-os ao colo, e pelas ovelhas-mães, as fontes da vida (v. 11). Este versículo oferece algumas in-formações sobre os que voltaram do exílio: são pessoas enfra-quecidas (os que estavam bem de vida preferiram ficar em Babilônia), mas cheias de esperança de vida nova. À frente dessas pessoas, contudo, caminha aquele que conduz à liber-dade e à vida. Evangelho (Mc 1,1-8): Preparar o caminho do Senhor 8. O evangelho de Marcos foi, provavelmente, o primeiro texto de discipulado das comunidades primitivas. O evangelis-ta concentra seus esforços na demonstração de "quem é Jesus" E, desde o início (v. l), deixa claro: o que vamos encontrar neste livro é apenas o começo. Esse dado é importante para entendermos a intenção do evangelista: percorrer o caminho que leva a Jesus é estar sempre disposto a começar, a reapren-der, pois em Mc os discípulos se encontram num estado crôni-co de ignorância. De fato, depois que ressuscitou, Jesus os manda à Galiléia, lugar onde ele iniciou sua atividade liberta-dora. É aí que poderão encontrá-lo (cf. Mc 16,7). "Galiléia" é onde estão os marginalizados. Marcos, portanto, nos garante uma coisa: se quisermos encontrar Jesus e saborear a boa notí-cia que ele é e traz, precisamos recomeçar sempre a partir dos empobrecidos e marginalizados da sociedade, aprendendo com suas esperanças e lutas. 9. A boa notícia (= evangelho) é a pessoa e a ação de Jesus, chamado de Cristo (= Messias) e de Filho de Deus. Essa afir-mação se encontra estrategicamente no início (1,1), no meio (8,29) e no fim do evangelho de Marcos (15,39). Os que pres-tam atenção a tudo o que Jesus diz e realiza são convidados a fazer a mesma constatação do próprio evangelista, de Pedro e do oficial romano, que declaram ser Jesus o Messias, aquele que concretiza a vinda do Reino. 10. Os versículos 2-8 falam de João Batista, o Precursor do Messias-Filho de Deus, apresentando-o como o mensageiro que vai à frente de alguém mais importante, como o profeta que veio para preparar o caminho do Senhor (cf. vv. 2-3). Nesses versículos temos a condensação de três citações do Antigo Testamento. Em primeiro lugar, Ex 23,20: "Vou enviar um anjo na frente de você para que ele cuide de você no cami-nho e o leve até o lugar que eu preparei para você".Em segun-do lugar, Is 40,3: "Uma voz grita: Abram no deserto um cami-nho para o Senhor, aplainem no descampado uma estrada para nosso Deus!" (cf. 1ª leitura). Finalmente, Ml 3,1: "Vejam! Estou mandando o meu mensageiro para preparar o caminho à minha frente". João Batista é, portanto, o que prepara e conduz a humanidade ao encontro daquele que traz consigo a realiza-ção dos tempos messiânicos, ou seja, Jesus, que irá batizar com o Espírito Santo (cf. v. 8). 11. O Precursor aparece no deserto (v. 4). Essa indicação é importante pois recorda, ao mesmo tempo, o período que vai
  • 2.
    da libertação doEgito até a entrada na Terra Prometida, e o período da saída do exílio na Babilônia até o regresso à pátria (cf. lª leitura). Jesus será, portanto, aquele que vai introduzir o povo numa nova realidade. De fato, suas primeiras palavras no evangelho de Marcos são estas: "O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia" ( l , 15) 12. O texto afirma que "toda a região da Judéia e todos os moradores de Jerusalém vinham ao encontro de João Batista. Confessavam os seus pecados e ele os batizava no rio Jordão" (v. 5). O batismo de João era o sinal que predispunha as pes-soas à aceitação da novidade prestes a chegar na pessoa de Jesus. Era, pois, o sinal de conversão e compromisso. 13. Marcos descreve rapidamente o perfil do Precursor: "João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel silvestre" (v 6). Com essas poucas palavras ele o insere na lista dos profetas do Antigo Testamento. Quanto ao modo de vestir, João Batista é um profeta à semelhança de Elias (cf. 2Rs 1,8) e de outros profetas (cf. Zc 13,4). Quanto à comida e bebida, ele se iguala ao povo pobre que não quer mais depender da explo-ração econômica dos centros de poder, onde vigora a lei do consumismo e do luxo (cf. o banquete de Herodes na cidade e a comida dos pobres no deserto em Mc 6,14-44). 14. João Batista é profeta nas palavras e no modo de ser, inclusive na roupa e no alimento. Sua pregação e vida são ao mesmo tempo denúncia e apelo: denúncia do que está aí, e apelo do que vai ser implantado com a vinda do Messias. A figura do Batista ainda está presente em nossa sociedade: basta que olhemos para o modo como o nosso povo se veste e ali-menta: chinelos de dedo, tênis velhos, camisetas surradas, calças gastas, farinha e rapadura, arroz e feijão, não são tudo isso denúncia e sinais proféticos? Sim, tudo isso é uma denún-cia da nossa sociedade desigual. E a vinda do Messias, "aquele que se compadece desse povo" (cf. 6,34), quer ser vida para os que dela foram privados. 15. João Batista anuncia a vinda do forte que vem depois dele. Lido à luz das passagens do Antigo Testamento acima citadas, o forte é o Senhor, aquele que vai batizar a humanidade com o Espírito Santo (cf. vv. 7-8). Jesus é forte porque, logo em seguida, ao ser batizado (v. 10), o céu se rasga, e o Espírito repousa sobre ele, levando-o a proclamar o fim do tempo de espera e a chegada do Reino (1,15). 2ª leitura (2Pd 3,8-14): Esperamos e apressamos a chegada do Dia de Deus 16. "Embora se apresente como sendo de Simão Pedro... esta carta é o último escrito do Novo Testamento, e foi provavel-mente escrita no fim do séc. I ou mesmo em meados do séc. II. Seu autor imita o gênero literário do 'testamento dos antepas-sados', comum naquela época: colocar conselhos e advertên-cias na boca dos patriarcas que estão próximos à morte. Esta-mos no tempo em que a Igreja está passando da época primiti-va para a chamada era pós-apostólica. Até aí o cristianismo fora vivido como novidade entusiasmante e esperava-se arden-te e continuamente pela volta gloriosa de Jesus. Nesse momen-to, porém, o tempo do Jesus terrestre começava a perder-se no passado, e o futuro da parusia torna-se cada vez mais distan-te..."( Introdução à segunda carta de Pedro, em Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, Paulus, p. 1574). 17. O final da carta, ao qual pertencem os versículos de hoje, trata da demora da vinda do Senhor. Deus não mede o tempo segundo nossos critérios: "Para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia" (v. 8). Sua chegada não depen-de dos nossos cálculos, pois ele vem quando a gente menos espera, como um ladrão (cf. v. 10a). Parece, contudo, que essa resposta, já dada por Paulo muito tempo antes (cf. 1Ts 5,2), não satisfazia plenamente. O autor da carta, então, procura aprofundar o tema à luz da paciência de Deus. O tempo pre-sente, marcado pela espera, faz parte do projeto de Deus "que está usando de paciência com vocês, pois deseja que ninguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se" (v. 9). 18. Portanto – pensa o autor da carta – não é tempo de fazer previsões e especulações sobre a última e definitiva interven-ção de Deus, o "Dia do Senhor". Importa, isso sim, "esperar e apressar a chegada desse Dia". É possível apressar esse Dia mediante o "esforço para sermos encontrados numa vida pura e perfeita na paz com Deus" (v. 14). 19. Usando linguagem apocalíptica, os vv. 10.12 descrevem o final dos tempos ou "Dia do Senhor". Era a forma como o autor – e as pessoas daquele tempo – imaginava que isso fosse acontecer: barulho espantoso, dissolução dos elementos devo-rados pelas chamas, desaparecimento da terra, os céus incen-diados e os elementos que se fundem etc. Naquele tempo, fogo e água eram considerados fatores de destruição. O mais impor-tante disso tudo não é o modo como o Dia do Senhor vai acon-tecer, mas a transformação de tudo em "novos céus e nova terra, onde habitará a justiça" (v. 13). O autor da carta empre-gou imagens da destruição de elementos visíveis para falar da ação invisível de Deus e da nova realidade que será criada, meta da nossa esperança e, ao mesmo tempo, resultado do nosso esforço. III. PISTAS PARA REFLEXÃO 20. Deus-pastor chefia a caminhada de libertação. Advento é tempo de proclamar a chegada da libertação do nosso povo. Preparar o caminho do Senhor é ajudar o povo a ter liberdade e vi-da. O texto de Isaías sugere que se faça uma caminhada/procissão em que estejam presentes os anseios de vida do nosso povo. Dar cuidado especial aos fracos e às fontes da vida. 21. Preparar o caminho do Senhor. O batismo de João, sinal de conversão c adesão a boa notí-cia trazida por Jesus, precisa hoje ser substituído por outros sinais. Sugere-se apresentar coisas da vida do povo que denunciam a situação de opressão e são forte apelo à conversão. Não seria esse um modo interessante de "preparar o caminho do Senhor"? 22. Esperamos e apressamos a chegada do Dia de Deus. A segunda carta de Pedro nos garante que é possível apressar o "Dia de Deus". Quais são, em nossas comunidades, os sinais de que es-se Dia já está raiando?