Desenhos animados no ensino de geografia

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Desenhos animados no ensino de geografia

  1. 1. série e quais os sentidos que atribuem ao tema, a seus personagens e às ações contextualizadas nesse episódio. - Identificar se esses significados culturais influem nos modos como percebem a O desenho animado como um instrumento reflexivo si mesmos e aos outros, dentro do espaço (lugar e território). para as aulas de geografia A relevância desse trabalho para as práticas do ensino de geografia deve-se ao fato de que, atualmente, a recepção de programas de TV atravessa intensamente a vida Edson Lopes Domingos dos adolescentes, dentro e fora da escola, fazendo parte de seus repertórios socioculturais. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Universidade Federal de São Paulo Compreender a recepção de programas televisivos ou de outras produções audiovisuais edsonlopesdomingos@ig.com.br a que esses adolescentes têm acesso – a relação entre eles e os temas e valores veiculados pelos programas – pode contribuir para que o professor entenda como eles se apropriam dos significados que circulam nesses programas e como esses significados podem ou não influir nos modos como percebem a si mesmos e ao outro, dentro de uma perspectiva Tendo em vista as transformações culturais vividas a partir do século XX, esta do uso de desenhos animados. E, mais importante, a partir desta compreensão pode-sepesquisa busca compreender a emergência de novos grupos configurados pelo acesso aos organizar orientações de como proceder para desenvolver na escola uma educação midi-meios de comunicação de massa, especificamente os adolescentes. Essas produções da ática, atrelada aos conceitos dos estudos de geografia, na qual estejam articulados, por umindústria cultural (meios de comunicações) têm sido trazidas para o interior da escola, lado, as relações entre os alunos e este Outro, a mídia e suas produções, e, de outro lado,podendo ser usado pela geografia, fazendo despontar nas salas de aula novas interrogações e a reflexão sobre os recursos que os meios de comunicação de massa utilizam para atingirperspectivas dentro da diversidade cultural. Nesse contexto, saltam aos olhos novos modos o maior número de pessoas, por meio da indústria cultural.de vida e os novos usos da mídia no cotidiano dos sujeitos, possibilitando a compreensão Nosso referencial teórico baseia-se nos Estudos Culturais que se ocupam de dife-do espaço geográfico e seus conflitos na construção do território, tomados como agente rentes aspectos da cultura, envolvendo, outras áreas como a geografia, por exemplo. Nessenessas situações. Favorecer uma ação educativa, por parte da escola, é um desafio que se sentido, nos basearemos nas contribuições de Stuart Hall (1997), referentes à centralidadecoloca atualmente. da cultura para compreender as questões que atravessam o campo social, e aquelas que nos Especificamente, busca-se compreender como se dá a recepção de programas de colocamos nesse trabalho. Na visão do autor a cultura tornou-se central e constitutiva datelevisão por adolescentes frente às questões problematizadoras do ensino de geografia, na reconfiguração de elementos que sempre estiveram presentes na análise sociológica; já queconstrução do espaço, trazer para as aulas de geografia este novo instrumento midiático ela passa a não ser simplesmente encarada como elemento de integração para o restante doaos adolescentes que estão cursando o ensino fundamental. Nesse sentido, pretende-se sistema social. Como o próprio título do artigo estudado indica, discute-se sobre o lugar daabordar as possibilidades da articulação entre mídia e a geografia e refletir sobre comoo professor pode mediar à relação entre produções culturais que estão imbricadas nas cultura nas análises sociais contemporâneas, explicando esse lugar ocupado pela culturaquestões do estudo de geografia e alunos. a partir do que Hall chama de centralidade substantiva e centralidade epistemológica. Os objetivos específicos desta prática de ensino em geografia são: Para depois, tratar de alguns aspectos relacionados à regulação cultural. Por centralidade substantiva o autor entende “o lugar da cultura na estrutura empírica real e na organiza- -��������������������������������������������������������������������������������   ������������������������������������������������������������������������������ Identificar como se dá o acesso aos temas de u�������������������������������� m episódio de uma série de dese- ção das atividades, instituições, e relações culturais na sociedade” (HALL, 1997, p. 17) nho animado (Os sete monstrinhos1, que aborda relações familiares) veiculado e por centralidade epistemológica entende a “posição da cultura em relação às questões na emissora estatal TV Cultura de São Paulo, por adolescentes que estudam no de conhecimento e conceitualização, em como a cultura é usada para transformar nossa ensino fundamental. compreensão, explicação e modelos teóricos do mundo” (HALL, 1997, p. 18). -  Compreender como os adolescentes se apropria dos significados culturais para Para o autor, a cultura está envolvida em relações de poder, nos interesses do entender a construção do espaço geográfico que permeiam um episódio da mercado que se baseiam em relações de trocas, e, por último, na regulação e seu controle,1. Série de desenho animado, “Os sete monstrinhos” de Maurice Sendak, realização Nelvana, exibição TV Cul- por meio dos espaços, ações e práticas, significados, sentidos e códigos que permeiam atura 2000/2001. TV Cultura Marcas. integração através da comunicação. 1 2
  2. 2. Assim como o mundo passa por um momento de transformações de ordem glo- como meio através do qual se formam cadeias de discussão entre grupos particulares,bal, Hall vai defender que a vida das pessoas também é afetada. E isso se deve ao intenso especificamente para apreender a configuração e a definição e validação de identidades.processo de desenvolvimento dos meios de comunicação, que por meio de suas produções O conceito de audiência e os modos como os sujeitos interagem e produzem sig-influenciam o nosso modo de pensar e de agir, já que estas invadem a todo instante o co- nificações também nos interessa e são abordados no primeiro capítulo.tidiano e a até mesmo a “privacidade” dos lares de cada um. Essa intensificação das trocas Para discutirmos a mídia e seu papel na sociedade, utilizaremos Newcomb (1978culturais por meio das novas tecnologias da comunicação tem possibilitado dinâmicas di- apud White 1998) para quem a mídia é um importante fator de mudança social, especial-versificadas e não simplesmente a homogeneização das culturas ou o fim de certas culturas mente para quebrar preconceitos sociais e resistências a mundos culturais que pareçamque seriam assimiladas pelas redes hegemônicas. Hall (1997) argumenta que esse processo estranhos e opostos a nossa cultura. Ele dá grande ênfase ao sucesso da televisão, indicandopode aprofundar as diferenciações culturais e pode fazer emergir formações alternativas, que esse sucesso consiste na habilidade de articular a visão comum das coisas, de modoimplicando rearticulações entre o que é velho e o novo que se apresenta. que uma ampla gama de telespectadores se reconheça e se identifique. Nesse ponto, chegamos às transformações da vida local, isto é, às mudanças cul- Apoiamo-nos também em Martín-Barbero (1997 apud WHITE 1998) queturais que em suas formas tentam penetrar nas vidas das pessoas comuns. Essas transfor- argumenta que não é possível explicar o papel da mídia na construção de culturas locais,mações no modo de vida inserem-se no apenas em termos de informações transmitidas e de efeitos comportamentais. Em lugar declínio do trabalho na indústria e o crescimento dos serviços, o aumento dos períodos de disso, a mídia é o processo institucionalizado que reúnem diferentes atores, forçando-os a folga, a flexibilidade de emprego, o tamanho das famílias, padrões de diferenças de gerações, confrontar-se e a chegar a uma síntese de significado que seja viável para o momento, ou responsabilidade e autoridade dos pais, declínio do casamento, incremento do divórcio, a seja, a hegemonia não está assegurada de uma vez por todas. redução das tradicionais idas à igreja. (HALL, 1997, p.21) Segundo o autor, o que existe é um campo de batalha entre muitos atores e um As mudanças e transformações na vida local e no cotidiano, segundo a argumen- palco de novas alianças, o poder não é exercido pela força, mas sim, por manobras paratação do autor, foram precipitadas pela cultura, isso indica que a centralidade da cultura definir símbolos culturais da sociedade, isso está presente na construção do espaço.nas sociedades contemporâneas carrega em si a possibilidade de penetrar em cada canto Nesse sentido, os estudos sobre os fãs de programas populares, conduzido porda vida social, mediada pela indústria cultural, interpelando-nos através das telas da TV. Martín-Barbero (1997 apud White 1998), nos indicam que enquanto o poder tem as fontes Na revisão bibliográfica desse trabalho, abordamos também os estudos da re- para delinear estratégias, isto é, para estabelecer alvos e mobilizar os meios para atingi-cepção e das comunidades interpretativas, discutindo como o processo comunicacional los, os fracos são obrigados a usar táticas marginais ao processo hegemônico cultural. Aé multilateral e permite extrapolar a visão de comunicação como mera transmissão de esse respeito Martín-Barbero toma as contribuições do historiador Michel de Certeau,informações. Iniciamos com a preocupação de abordar algumas tendências dos estudos de especialmente o conceito de tática. Também recorreremos a Martin-Barbero (1997 apudrecepção, pertinentes ao nosso trabalho. Para tanto, tomaremos as contribuições de Robert White 1998) para discutirmos o papel da educação midiática nos dias de hoje.A. White (1998a, 1998b, 2004) em seus estudos sobre a interpretação das audiências. Suas De acordo com nossos objetivos e fundamentação teórica, a abordagem metodo-contribuições sinalizam uma tendência que, embora não seja hegemônica, desde meados da lógica dessa pesquisa é de natureza qualitativa, e é definida como aquela que privilegia adécada de 1980 vem ganhando relevância: de que na análise da interpretação da audiência análise de microprocessos (Martins, 2004). Vale lembrar, que em nosso estudo não estamos(recepção), produtores e usuários da mídia interagem na atribuição de sentidos, de modo preocupados com a generalização, pois o que se busca é o estudo em profundidade.similar à criação de significados nas interações pessoais. Frente a uma grande diversidade de perspectivas, o tratamento de nosso tema Também tomamos as colaborações advindas do interacionismo simbólico, incorpo- requer um modo diferente de “fazer ciência”, focalizando como nos indica (Martins, 2004)rado à Teoria da Comunicação recentemente pelos trabalhos de Erving Goffman, Howard a estreita aproximação aos dados, exigindo do pesquisador uma capacidade integrativa eBecker, Michal McCall, David Altheide e Robert Snow. Há pontos de vista bastante diver- analítica e também uma capacidade criadora e intuitiva no percurso do trabalho. Comosificados, mas sobre a audiência trazem a idéia de que produtores e receptores negociam Martins sugere, implica a aproximação entre o sujeito e o objeto do conhecimento geográ-para obter respostas que coincidam com as intenções de cada um deles. Nesse sentido, os fico, sendo necessário que os sujeitos participantes aceitem tanto o professor pesquisadorprogramas produzidos pela indústria cultural em formato televisivo podem ser tomados como seu tema e técnicas propostas. 3 4
  3. 3. O instrumento que selecionamos é conhecido como Grupo Focal. Atualmente, esta Antropologia e a longa temporalidade que marca nossos medos pela mudança, nossastécnica é muito utilizada em pesquisas qualitativas, com o objetivo de coletar dados através resistências. Abarca a perspectiva de buscar na realidade a possibilidade de instaurar ce-da interação grupal, favorecendo a explanação de pontos de vistas dos participantes em nários e dispositivos de dialogo entre geração e os povos.relação a uma experiência e a compreensão deles frente ao tema e valorizando suas próprias Mead chama de pós figurativa aquela cultura na qual o passado dos adultos é o futuro dapalavras e comportamentos. Foram realizadas três sessões de GF, com a audiência de um cada nova geração, de maneira que o futuro das crianças está inteiramente plasmado noepisódio da série de desenho animado Sete Monstrinhos, envolvendo três adolescentes e o passado dos avôs, pois a essência dessa cultura reside no convencimento de que as formaspesquisador, no interior de uma escola pública em São Paulo. As seções transcorreram com de vida e de saber dos velhos são imutáveis e imperecíveis. Configurativa denomina outroa apresentação do desenho partir de um grupo coletivo que assistiu ao episódio “Você não tipo de cultura na qual o modelo de vida é constituído pela conduta dos contemporâneos, oé da minha família” e de questões colocadas ao grupo de adolescentes pelo pesquisador. que implica que o comportamento dos jovens poderá definir em alguns aspectos o de seus A análise dos dados permitiu constatar que os estudantes se apropriaram de alguns avós e pais. Finalmente, a cultura pré-figurativa é aquela em que os pares substituem os paisconceitos veiculados pelo desenho, perceberam a relação de suas identidades com o enredo instaurando uma ruptura generacional. (MEAD 1971 apud MARTÍN-BARBERO, 2004)do filme, e também, no decorrer da entrevista demonstraram competências para buscar É assim, que encontramos hoje a educação em descompasso com a cultura. Acompreender este produto cultural, agora podendo ser aplicado aos conceitos tratados relação entre geografia e comunicação não pode ser reduzida a sua dimensão instrumen-pela geografia, por exemplo, a construção do espaço. Assim, podemos encontrar nos dados tal, mas deve ser pensada a partir da inserção no processo educacional numa perspectivaalgumas concepções tratadas pelos principais estudiosos de recepção, e também trazer multicultural, que demanda novos olhares e diálogos mais amplos com a sociedade.contribuições a respeito dos meios de comunicação de massa e a criação de comunidades Assim, a cada dia, mais estudantes testemunham uma simultânea, mas descon-interpretativas, frente à realidade em que vivem as crianças. certante experiência: a de conhecer como o professor sabe bem a sua lição, e ao mesmo A monografia encontra-se organizada em capítulos. No primeiro discorremos tempo, o embaraço cotidiano de constatar que esses conhecimentos se encontram seria-sobre nossas bases teóricas. O capítulo seguinte trata de nossas opções metodológicas, mente defasados dos saberes e linguagens que circulam fora dela. Ou seja, há uma sérianarramos como se deu o processo obtenção dos dados, descrevemos nossos instrumentos, dicotomia presente entre a educação e comunicação.o contexto e os sujeitos que tomam parte desse estudo. No terceiro capítulo apresentamos Mas o que vemos sobre a reação da escola é o entrincheiramento em seu próprioa análise dos dados e, por fim, as considerações finais, parte em que sistematizamos nossas discurso, qualquer outra reação é percebida pelo sistema escolar como um atentado a suaprincipais constatações. autoridade. Até parece que a mídia já não está inserida nas escolas, no entanto, esta inserção encontra-se calcada numa perspectiva instrumental e não reflexiva. Acreditamos que existaO desenho animado na escola: perspectivas e desafios culturais da comunicação uma atitude defensiva da escola e do sistema educativo que está levando a desconhecerà geografia. ou disfarçar que o problema de fundo está no desafio que propõe a emergência de outras Mead, em 1970, ela tece a emergência de um novo campo configurado pelas po- culturas, de outros modos de ver, de ler, de aprender. Essa atitude limita-se a identificar olíticas e pela sociedade, em suas palavras, melhor modelo pedagógico. A escola desconhece e tenta esconder o que acontece fora de seus muros, é dois Nosso pensamento ainda nos ata ao passado, ao mundo tal qual existia na época de nossa mundos que vivem dentro de um processo de hibridação, que se misturam em territórios. infância e juventude. Nascidos e criados antes da revolução eletrônica, a maioria de nos não entende o que ela significa. Os jovens da nova geração,no entanto, se assemelham aos A ação da escola incorre na tentativa de apagamento dessas culturas, impedindo o reco- membros da primeira geração nascida em um país novo. Devemos aprender juntos com os nhecimento das diferenças, tais como as étnicas, religiosas ou de gênero. jovens a forma de dar os primeiros passos. Para construir uma cultura na qual o passado A escola precisa-se se abrir para as múltiplas linguagens que permeiam nossa seja útil e não coativo, devemos localizar o futuro entre nós, como algo que está aqui, pronto sociedade, especialmente para as produções midiáticas, o que requer a formação de um para que o ajudemos e o protejamos antes que ele nasça, porque do contrario seria tarde cidadão que tenha tanto a competência na escrita e na leitura, mas também na leitura e demais. (MEAD 1971 apud MARTÍN-BARBERO, 2004) interpretação dos textos veiculados pelas telas. A autora chama a atenção para nos aproximarmos das mudanças que estão im- Temida por uns e aplaudidas por outros, nos encontramos diante de uma transformaçãobricadas nos motivos que, nos impedem de compreender as circunstâncias estudadas pela radical das moralidades de produção, transmissão e recepção da escrita. Dissociados dos 5 6
  4. 4. suportes em que tínhamos costumes de encontrá-los (o livro, o jornal e a revista), os textos aos avanços tecnológicos. No entanto, esta dinâmica traz novas questões sobre o papel da estão chamados a ter aqui em diante uma existência eletrônica: composto no computador, mídia e sua relação com a geografia, por meio da produção de conhecimentos científicos transmitidos pelos procedimentos telemáticos, os textos chegam ao leitor sobre uma tela. (formais) e cotidianos (informais), colocando em jogo, de um lado, como se dá a recepção, A revolução do texto eletrônico é também da leitura: estamos diante de novas maneiras se de maneira transmissiva e direta ou de maneira negociada pela audiência, e de outro, de ler, novas relações com a escrita e novas técnicas intelectuais. (CHARTIER 1994 apud MARTÍN-BARBERO 2004, p. 345) quais seriam as competências culturais necessárias para interpretar tais produções de maneira crítica, e aplicá-los aos conhecimentos da geografia. O texto escrito aparece em novos suportes, formas e estilos, criando outras pos- O uso de um episódio dos “sete monstrinhos” deveu-se à possibilidade de colhersibilidades de interações. A televisão tem posto fim a separação etária no mundo social, as impressões dos participantes e, por ser conhecido e pelo fato de os adolescentes gosta-porque os programas estão disponíveis para todos, e é aí que se localiza a profunda mu- rem da série, facilitou a interpretação do enredo e de outros elementos que o constituem,dança cultural. viabilizando o debate. Sendo assim, a escola não pode dar as costas para as transformações do mercado Após a apresentação, os adolescentes trouxeram particularidades do desenho,e produção de novos saberes. Ela precisa formar para uma sociedade cujas modalidades posicionando-se sobre o personagem principal, atitudes marcantes observadas. Tambémprodutivas estão desaparecendo. Deve formar um cidadão para o mundo, capaz de ques- trouxeram símbolos culturais presentes em toda sociedade e que os adolescentes trazemtionar, desajustar a inércia em as pessoas vivem, desajustar o acomodamento da riqueza, e consigo, próprios do contexto histórico em que estão inseridos. Desse modo, observamoster uma educação que reúna a cultura política para que a sociedade não busque salvadores o processo de apropriação dos significados culturais que permeiam o episódio e os sentidosmas sim gere sociabilidades para conviver. que atribuem ao tema e às ações contextualizadas. Ou seja, os adolescentes ao terem acesso Assim, ao trazermos a mídia para dentro das escolas e para as salas de aula não só a tais programas e terem um mediador que lhe propõe questões, podem tornar próprioscomo forma de entretenimento, mas como um recurso didático é possível que o tornemos novos elementos dando novos significados ao que já foi significado nessa produção. Auma fonte de informação que poderá ser transformada em conhecimento, sendo utilizado apropriação garante a continuação da compreensão do episódio apresentado, por exemplo,na formação de identidades individuais e coletivas. quando eles questionam os nomes dos personagens, a organização peculiar daquela famí- O uso da mídia como um instrumento reflexivo e pedagógico pode possibilitar a lia, o que fariam se estivessem no lugar da personagem 6, entre outros. À primeira vista,ativação da cultura que fortalecerá ações criativas em nossa sociedade. Sendo assim, a mídia o que poderia ser tomado com absurdo, causa um estranhamento que permite ao grupoestá presente na vida dos jovens em processo de escolarização que poderão fazer uso desses compartilhar, refletir, rever, identificar e negar elementos. Suas opiniões e posicionamen-instrumentos de mídia para refletirem sobre seu modo de vida. Concluímos que se deve tos estão relacionados às suas próprias vidas, e esta relação entre o novo que se coloca e oincorporá-la como outro universo simbólico que coexiste com a cultura escolar. É preciso velho, aquilo que já se sabe, entendemos como uma apropriação nova.também aproveitar e potencializar os conhecimentos para os que ainda não conhecem a Os significados aparecem como paradigmas, a partir dos quais os adolescentesdiversidade cultural de nosso tempo, além de fazer uso dessa riqueza cultural veiculada podem se posicionar frente aos modelos culturais que se quer veicular, podendo desen-nas produções midiáticas. cadear reflexões sobre esses modelos e sobre o modo como percebem a si e aos outros. Por meio deste trabalho constatamos que os programas de TV são importantes Esse processo foi capturado em duas categorias distintas de análise: a recepção eobjetos de reflexão e podem funcionar para fortalecer habilidades para a leitura e interpre- a competência cultural mobilizada no acesso as produções midiáticas. Constatou-se quetação crítica, desenvolvendo a competência cultural dos sujeitos que os recebem. Em nosso ocorreram vários tipos de recepções e apropriação de significados, mostrando que oscaso, observamos que os adolescentes quando questionados sobre os temas, personagens e adolescentes não foram passivos frente às imagens e aos textos, mas tiveram condições deações contextualizadas no episódio apresentado, compreendidos como uma comunidade propor e buscar soluções às vezes contrárias daquelas veiculada pelos desenhos. Isso seinterpretativa (White, 1998), se mostram ativos e reflexivos na recepção dessa produção deve a competência cultural e à mobilização de habilidades mediada pelo pesquisador acultural. Desse modo, eles não estão passivos, porque no processo de apropriação criam fim de proporcionar uma interpretação mais crítica da audiência.novas significações para o que está posto. Com isso, tentamos com esse trabalho contribuir para o debate educação e mídia, As produções midiáticas como discutido anteriormente têm o poder de levar a a fim de promover uma atenção maior sobre as dinâmicas da comunicação de massa, pre-imagem e os textos a um grande número de pessoas através dos aparelhos televisivos, sendo sentes na sociedade e que hoje estão adentrando as escolas, ou seja, o que se propõe é queuma forma rápida e econômica de disseminação e de acesso a modelos culturais devido a área da Educação (geografia) participe efetivamente deste debate. 7 8
  5. 5. Também percebemos nesse percurso o grande descompasso entre a educação e a WHITE, Robert A. Tendências dos estudos de recepção. Comunicação & Educação,cultura. Carregamos as dívidas do passado e seus efeitos perversos: a universalização da São Paulo, revista 13, p.41-66, set/dez.1998.escolaridade básica, sem a qualidade de ensino, o crescimento de analfabetos funcionais,aumento do percentual do fracasso escolar, complementado com a desmoralização crescentedos professores (deteriorização dos salários, escassez de recursos, avaliação depreciativada profissão etc.). Num contexto mais amplo, verificamos o aprofundamento da brecha daAmérica Latina, em relação à produção cientifica e tecnológica, conseqüência da recessãoeconômica e das políticas neoliberais, deixando patente o acelerado processo de retraçãodo Estado e seu dissimulado ou descarado impulso para a privatização da educação. Po-demos perceber que o que está acontecendo nos remete a uma deteriorização, que levoua massificação escolar pautado em um novo modelo pedagógico centralizado na indivi-dualização: na exaltação da autonomia do individuo, em suas capacidades de aprender aaprender, em um projeto meritocrático de renovação das elites dirigentes combinado auma grande pressão seletiva, e a recuperação dos valores da disciplina, sobrando muitopouco para o conhecimento.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASO filme: “Os sete monstrinhos” de Maurice Sendak, realização Nelvana, exibição TVCultura 2000/2001. TV cultura Marcas.BOGDAM Robert C; BIKLEN Sari Knopp. Investigação qualitativa em Educação: umaintrodução a teoria e os métodos. Porto editora. P. 15 a 80. 2004CALLAI, H. Estudar o lugar para compreender o mundo. In: Castrogiovanni, A. C.(org.)Ensino de geografia: práticas e textualizações no cotidiano.Porto Alegre: Mediação,2000.CALLAI, H. C.; CALLAI, J.L. Grupo, espaço e tempo nas séries iniciais. In. Castro-giovanni, A.C. ET al. (Org.) geografia em sala de aula: práticas e reflexões. Porto Alegre:UFGRS/AGB, 1998.DE ANTONI, C., MARTINS, C., Ferronato, M. A., SIMÕES, A., MAURENTE, V., COS-TA, F.; KOLLER, S. H. (2001). Grupo focal: Método qualitativo de pesquisa com adoles-cente em situação de risco. Arquivo Brasileiro de Psicologia. 53 (2), 38-53.MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: Comunicação, cultura e hege-monia. Ed. UFRJ, Rio de Janeiro, p.71-130 e261-310, 5ª ed, 2008.______ Of ício de Cartógrafo: Travesias latino-americanas da comunicação na cultura,São Paulo: Loyola, 2004. p. 332-353.HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nos-so tempo. Educação & Realidade, Porto Alegre, v.22, n.2, p.5-244, jul./dez.1997.SANTOS, Milton (org.). Novos rumos da geografia brasileira. Hucitec, São Paulo, Ed.3ª,1993. 9 10

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