Sempre garotas

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Sempre garotas

  1. 1. Sempre Garotas. Prólogo.Curitiba, Junho de 1998.Esperança. Acho que desde pequena procuro ter esperança. Acho que todos jánascemos de uma esperança. A mãe que está lá colocando seu filho no Mundo temesperança que ele tenha saúde, seja perfeito.E aquela criança cresce e tem esperança que Coelho da Páscoa e Papei Noel existam –até que um adolescente mal criado acaba com toda a sua fantasia. Porque tem que tersempre um adolescente mal criado em nosso caminho?Não sei por que existem tantas pessoas mal criadas em nosso caminho. Apenas sei queà medida que crescemos, nossas esperança ficam mais complexas. Primeiro beijo –tem que ser mágico. Primeira transa – tem que ser mágica. Primeira bebedeira – temque ser muito louca e por ai vai. Mas a primeira vez, seja do que for essa não nosesquecemos.- Saia de perto de mim, seu palhaço – Digo para aquele traste que toda vida meinferniza na escola.- Se liga garota. Nenhum menino vai querer beijar você. – Acho que ele tem razão,principalmente no momento em que percebo que ele joga algo grudento em meucabelo.Até quando jogam um chiclete em seu cabelo pela primeira vez você nunca esquece.***Curitiba, Abril de 2000Nunca fui uma garota bonita, daquelas que os meninos param e observam passar,muito pelo contrário, até meus 18 anos usei aparelhos nos dentes e óculos dearmações grossas que sinceramente me escondiam por completo. Mas meu maiorobjetivo era me formar, ir para Faculdade, daí sim bem... Daí eu iria planejar algumacoisa que preste. 1
  2. 2. - Nossa Anna, quando você vai aprender a se vestir? E esse cabelo?Ah, Rafaela! Acho que ela tinha era inveja do meu cabelo liso natural. Sempre quechegava à escola ela tinha esse costume doentio de ficar na frente do colégio e PEGARNO MEU CABELO! Mas desta vez além do meu cabelo, ela passou a mão em meusóculos. E veja bem... Não enxergo muita coisa sem eles.- Poderia devolver meus óculos, por favor? – Falo a ela, erguendo minha mão à frenteonde acho que é o vulto da Rafaela.- Quer? Vem pegar!Dou um passo à frente cuidadosamente. Fecho os olhos e respiro fundo e fecho aminha mão no ar achando que Rafaela está próxima de mim. Neste momento sintoalgo volumoso em meu pé, o que faz cair de cara no chão espalhando todo meumaterial.- Você vai ser a macaquinha desse colégio para sempre Anna, não tens jeito mesmo.Ouço alguma coisa cair no chão, passo rapidamente minhas mãos e sinto o volume doque parece ser meus óculos.- Meus óculos... Meus óculos.***A minha vida sempre foi cheia de esperança. Até eu entrar no ensino médio, ondedescobri que ter esperança não é a coisa ais importante do Mundo, mas sobreviveralgumas pessoas monstruosas é algo importante. Foi no ensino médio que descobrique minhas amigas de infância são a grande esperança de uma vida melhor.Ajoelhada, começo a juntar meu material escolar, quando vejo um vulto ao meu ladoajoelhando-se também.Caroline. Linda Carol. Criatura pequenina, de sorriso brilhante, simpática, tão positiva,alguém que sempre animava meus dias.- Seus óculos estão meio arranhados. Ah Anna! Quando você vai aprender a não ficarsozinha no meio desses pervertidos demoníacos? Hein? Ainda bem que nossos pais sederam conta que sozinhas não podemos ficar. – Carol entrega-me algumas canetas eclaro sempre sorrindo...- Acho que sim! Queria estudar um pouco mais hoje. – Digo a ela quando começo a melevantar e tomar meu rumo.- Já estuda demais... Vamos estamos atrasadas.Ela cruza meu braço no dela e com a mão livre passa em meus cabelos tirando algumasujeira decorrente ao tombo que levei. 2
  3. 3. Capitulo um – Parte I Curitiba - Dias atuais. Anna Elizabeth Dorner. Happiness hit her like a train on a track Coming towards her stuck still no turning back She hid around corners and she hid under beds She killed it with kisses and from it she fled Florence and The Machine, Dog Days Are Over.Sabe? Tenho 26 anos! Os anos se passaram, fiz cirurgia ocular, tirei o aparelho, mascontinuo a mesma perdida que um dia levou areia na cara, chicletes no cabelo e quetodos zoam na escola. A diferença? A diferença que café jogam às vezes na roupa, oque mancha, me formei tem um tempo na Faculdade. Sou arquiteta, moro com Vitóriae com Duda, Vitória amiga do colégio, Gaby que conheci na Universidade e Dudaestagiária do meu escritório.Trabalho com meu irmão. Mudei-me para um bairro nobre em Curitiba, porque acheique assim ninguém iria me trancar em banheiros sujos, poderia então deixar algumascoisas do passado longe.Mas ás vezes uns clientes estressados me jogam café. Ah é claro... Tem o Bruno...- Hey... – Grito quando vejo o carro de Bruno, um Chevrolet Agile, preto, passarlentamente pela rua. Estou indo para o trabalho e para variar meio atrasada. Empassos lentos por causa do salto alto que uso, ando até o carro de Bruno que estacionae abre o vidro.Bruno não é o amor da minha vida, mas um cara legal. É advogado, passou no exameda OAB há seis meses e luta para conseguir um bom cargo no fórum, seu sonho é serPromotor.- Atrasadinha. Deixa esse celular ligado, meu amor. – Diz Bruno tirando os óculosescuros. Ele é lindo. Alto. Na verdade um rapaz para namorar comigo não pode serbaixo, eu tenho 1,72 e Bruno sei lá... Ele é alto, magro, não chega a ter aquele porteatlético gostoso, tem pele branca, cabelo castanho, quase castanho claro, curto, narizmediano, olhos azuis. Mas o que mais gosto nele é o sorriso, seus dentes sãopequenos, mas o sorriso é o mais lindo do Mundo.- Desculpe Bruno, o carregador pegou fogo. Me abaixo dando um beijinho leve emseus lábios entre o vidro do carro. 3
  4. 4. - Como que é? Fogo? Seu carregador pegou fogo? – Ele olha surpreso pra mim.Acreditem, pegou fogo mesmo.- É verdade tá legal, pegou fogo mesmo. – Olho espantada pra ele.- Ok. Vai entra no carro, vou te levar até o escritório.Dou a volta e abro a porta do passageiro rapidamente. Um carro passa por mim ebuzina, mas nem dou bola, sento-me ajeitando meu material de trabalho em minhaspernas e coloco o cinto de segurança.Bruno me olha e sorri. Sim aquele sorriso! Ele dá uma ré no carro, observando o sinalabrir e segue.- Vai ao Fórum hoje? – Pergunto a ele.- Adivinha o que vou fazer hoje? – Ele ajeita os óculos escuros novamente em seurosto.- Vai ao Fórum? – Pergunto novamente, dando de ombros sem ter idéia do que ele vaifazer.- Sim vou ao Fórum. Ele sorri me olha rapidamente, sinto uma animação em sua vozque parece mudar minha manhã. – Vou assistir a minha primeira audiência comoassistente.- Ahhhhhhhhhhhhh, Bruno... Bruno. Não acredito. Você conseguiu. - Pulo em seupescoço sem me tocar que ele ainda dirigia. Ele desvia de um carro então rapidamenteme recomponho.- Anna! Você precisa se acalmar ás vezes. - Diz ele assustado, mas sem tirar a alegria davoz.- Desculpe, não faço mais.Bruno estaciona o carro em um cantinho pequeno na Avenida Iguaçu bem à frente aoescritório. Dou um abraço e um beijo nele. Ele alisa meu cabelo, coloco uma mechaatrás de minha orelha direita. Tiro o cinto e saio do carro observando ir embora. Elebuzina, eu aceno.Esse prédio de quadro andares é o escritório de arquitetura do meu irmão.Teoricamente é meu e dele, na prática é só dele, porque não coloquei um centavo naconstrução disso. Eu não tinha e continuo não tendo grana. Mas isso é só um detalhe.O prédio tem uma grande sacada no segundo andar, onde fica a sala do meu irmão,Theo, ele é um cara maneiro, tem 34 anos, já não sei mais quantos PHD’s ele tem, vivemais na UFPR do que no próprio escritório – o que me leva a pensar que ele fez esseescritório pra mim.O pequeno saguão do prédio tem uma recepção, um longo tapete em tons de marromque vai até a escada, um lustre de cristais enorme no centro, paredes brancas, algunsquadros que Theo comprou em suas viagens.Não me pergunte o nome dos pintores não faço idéia. 4
  5. 5. Uma pequena sala de espera, muito confortável. Nela três grandes sofás coloridosdançando na lateral esquerda do saguão, um puff vermelho, jornais e revistas, umamesa redonda de centro branca, em cima dela uma grande bandeja de prata contémbiscoitos fechados individualmente, em um bowl colorido com balas de diversossabores – coisas que Sofia, minha secretária diariamente troca.Olho para as escadas e o elevador. Apesar da dor nos pés devido ao salto alto e fino,vou pela escada. Minha sala fica no terceiro andar, assim que termino de subir, pelaporta de vidro já observo Alberto, um velho rabugento querendo reformar o quarto dafilha. Já mostrei a ele quatro projetos. QUATRO!!!!!!!!!!!!!!!! Ele nunca gosta.- Bom dia Senhor Alberto. - Fecho a porta delicadamente.- Minha filha não gostou do modelo do quarto e eu sinceramente achei um verdadeirolixo isso que você fez. – Alberto levanta-se mostrando aquela barriga saliente quandoleva suas mãos a cintura.Respiro fundo, coloco minha bolsa sob a mesa e forço um sorriso.- Vou arrumar então, se o senhor vier amanhã, posso...-Quero falar com um arquiteto de verdade e não uma mulherzinha feito você. -Elerasga meu projeto em 6 partes e joga em minha cara. Eu fecho os olhos sentindo opapel duro raspar em minhas bochechas – Passar bem Senhorita Dorner.Como vocês perceberam não é apenas café que jogam em minha cara.Alberto sai marchando de minha sala, bate a porta de vidro com tanta força que sintoo chão tremer. Fico parada imóvel por alguns minutos. Até que Sofia, entra todaalvoroçada.-Precisa de alguma coisa, Anna? - Pergunta ela, olhando para os papeis no chão.- Não. Não. Vou para casa. Se Bruno ligar... Diga que estou em casa reformulando esteprojeto que aquele velho gordo acabou de estragar. -Ajoelho-me desamassando umadas partes da grande folha, passando a ponta dos dedos no desenho amassado.- Dois meses em cima desse projeto para aquele gordo falar que a filha quer algo maismoderno? Então ela que vá para Marte se quer algo mais moderno. - Deslizo minhamão por cima da mesa e pego uma fita adesiva. Sento-me no chão e desamasso todosos pedaços e colo um a um com a fita.- Se algum cliente ligar? - Pergunta observando de longe minha decepção.- Se algum cliente ligar diga o seguinte “Anna está ocupada cuidando de afazeresdomésticos, ela mandou passar tudo e qualquer pedido a Theo...”- Pode repetir a última parte, por favor?- Ela rapidamente puxa do braço o tablet.Anotando rapidamente o que falei.- Não é para anotar isso. Diga que estou em casa e passe para o Theo. - Coço a cabeçaobservando a minha secretária ser mais tola que eu. - Vou te dispensar hoje... 5
  6. 6. Do lado de fora do prédio observo o movimento na Avenida Iguaçu. Não é uma dasAvenidas mais movimentada da cidade, mais gosto daqui, tem cheiro de casa, tem algofamiliar aqui.Um homem esbarra por mim, olho para ele e ele pra mim, me fazendo uma cara feia,suspiro alto e olho meu projeto amassado em minhas mãos.Ás vezes acho que escolhi a profissão errada. Lidar com pessoas é sempre algo tãodifícil e complicado. Talvez for secretária, trabalhar trancada em um escritório apenasatendendo telefone. Ou melhor, ser invisível. Ser invisível é perfeito.- Vamos tirar o dia de folga. Você merece Anna! 6

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