Fluzz capítulo 5

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Fluzz capítulo 5

  1. 1. Capítulo 5 | Hifas por toda parte AUGUSTO DE FRANCO Vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio 1
  2. 2. 2
  3. 3. 5 Hifas por toda parte Toda rede miceliana é um clone fúngico, o filho distante de uma única linhagem genética. Acima do solo, os fungos produzem esporos que flutuam no ar, alguns dos quais você está inalando neste momento. Quando pousam, os esporos crescem onde quer que seja possível. Fazendo brotar redes tubulares, as hifas, no substrato úmido, novamente os fungos produzem quantidades copiosas de esporos, os quais se disseminam, espalhando sua estranha carne... Lynn Margulis e Dorion Sagan em O que é vida? (1998) Jericó estava rigorosamente fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía e ninguém entrava... O Senhor disse então a Josué: “No sétimo dia rodeareis a cidade sete vezes, e os sacerdotes tocarão as trombetas. Quando derem um toque prolongado, quando ouvirdes o som da trombeta, todo o povo lançará um grande grito;o muro da cidade virá abaixo, o povo subirá, cada um à sua frente”. Josué 6: 1-5 3
  4. 4. Enquanto isso, porém, crescem subterraneamente as hifas, por toda parte. Os alicerces das organizações hierárquicas vão sendo corroídos e seu muros, antes paredes opacas para se proteger do outro, vão agora virando “membranas sociais”, permeáveis à interação e vulneráveis ao outro-imprevisível. Pessoas conectadas com pessoas vão tecendo articulações que estilhaçam o mundo-único-imposto em miríades de pedaços, não pelo combate, mas pela formação de redes. E outras identidades – mais-fluzz – vão surgindo nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio.Não se decepcione: provavelmente você não vai ver nada mesmo! As hifascrescem, em geral, abaixo do solo. Os esporos espalham-se pelo ar, massão tão pequenos que a gente nem percebe.Quando você notar as conseqüências, aí não adiantará mais se desesperar.Pois se o processo, por enquanto, ainda é lento e invisível (em parte“aéreo”, em parte “subterrâneo”), seus desfechos poderão ser bemconcretos e fulminantes nos mundos em que ocorrerem.Nos Highly Connected Worlds não há como fechar nada. Trancar, chavear,cerrar as fronteiras, isolar por meio de paredes opacas não é a solução paramanter a identidade ou preservar a integridade de nenhum aglomerado.Quando os fluxos aumentam de intensidade, os muros não conseguem maiscontê-los.Parece que a vida “sabia” disso: tanto é assim que não encerrou seu“átomo” (a célula) em nenhuma estrutura fechada, separando-o do meiocom paredes opacas: antes, construiu membranas – uma interface desustentabilidade, um convite à conexão. Um convite ao sexo, já queestamos agora explorando um paralelo biológico: nos fungos – que são“organismos realmente fractais”, como percebeu a bióloga Lynn Margulis(1998) – o ato sexual (chamado de conjugação) é uma conexão (1). 4
  5. 5. Muros caindo por toda parte anunciarão “membranas sociais” surgindo portoda parte. Ou não: o que não virar “membrana social” será escombro.O que as hifas – esses filamentos ou tubos finos que formam a estruturaem rede dos fungos – têm a ver com isso? Ora, tudo. Pois são elas (ou oprocesso espelhado, em termos biológicos, pela clonagem fúngica) queestão operando tal mudança. 5
  6. 6. A perfuração dos muros Quando a porosidade aumentar, os muros vão começar a ruirEis como paredes opacas vão se tornando inadequadas para conter o fluxo:elas vão sendo perfuradas por hifas. Essa possibilidade existeconcretamente desde que os subordinados em uma organização hierárquicanão podem mais ser proibidos de se conectar com quem está do lado defora do muro pelas polícias corporativas (os departamentos de segurança,os departamentos de pessoal e, inclusive – e hoje principalmente –, osdepartamentos de tecnologia da informação).O aprisionamento de corpos e sua contenção física em prédios fechados,com salas e andares isolados um dos outros, controlados por portarias oupor barreiras eletrônicas que não deixam passar quem não tem o códigoválido no seu cartão magnético funcional, já não resistem adequadamente aaglomeração física não-prevista pelos protocolos de segurança; porexemplo, dos amigos que se encontram após o expediente em bares,restaurantes, shoppings e em suas próprias casas, ou até mesmo dosfumantes que são obrigado a se encontrar na rua, do lado de fora dassedes, por imposição legal. E muito menos é capaz de resistir àcomunicação à distância, por celular, e-mail, pelos programas demensagens e comunicação instantânea ou pelos sites de relacionamento naInternet.É inútil proibir e não há como manter uma vigilância eficaz. Osdepartamentos de tecnologia da informação (TI) podem tentar barrar (comoainda insistem em fazer) o acesso às chamadas mídias sociais e aos váriosserviços de comunicação web na sua própria rede de computadores, masqualquer um que tenha um celular (3G, equivalente ou sucedâneo), oumelhor, um dispositivo móvel de interação conectado à Internet ouconectável a outros dispositivos por rádio (incluindo bluetooth quando seualcance for ampliado) já pode – ao mesmo tempo em que trabalha (ou fingeque trabalha) em uma empresa fechada – desenvolver outros projetosconjuntos com pessoas de outras empresas fechadas, inclusiveconcorrentes (2).Tudo isso aumenta a porosidade dos muros. À medida que a porosidadeaumentar, os muros vão começar a ruir. 6
  7. 7. Só então as organizações fechadas se darão conta de que estãoirremediavelmente vulneráveis à interação e correrão desesperadas atrásdas membranas. Aí já poderá ser tarde: uma membrana é um dispositivoultracomplexo, que só pode ser construído pela dinâmica de um organismovivo em interação com o meio, com outros organismos e partes deorganismos. Uma empresa que não aprendeu a se desenvolver conversandocom as outras empresas por medo de perder mercado ou de ter roubadasas suas inovações ou seus funcionários, não conseguirá, da noite para o dia,fazer uma reengenharia de suas, por assim dizer, boundary conditions. Umacorporação que insistiu em manter intranets mesmo depois de ter sidoinventada a Internet, dificilmente estará preparada para operar, em tempohábil, tal mudança. 7
  8. 8. A construção de “membranas sociais”Deixar a interação pervadir um sistema não significa propriamente fazer,mas – ao contrário – não-fazer: não-proibir, não-selecionar caminhos...A derruição dos muros não esperará que os sacerdotes toquem astrombetas em Jericó (se bem que na saga bíblica de Josué foi o grito emuníssono do povo que derrubou as muralhas que trancavam a cidade). Dequalquer modo, não há mais tempo para aprender a construir verdadeirasmembranas. Na verdade, membranas não podem ser construídas, strictosensu, como um ato voluntário de alguém que segue uma planta, umprojeto, um esquema. As membranas são “construídas” pela interaçãobiológica, elas surgem em função da autopoese: da produção contínua davida por ela mesma.No caso das membranas celulares (plasmalemas), sua estrutura efuncionamento complexos dependem da dinâmica de rede, de redes dentrode redes, com canais protéicos (proteínas de transporte – espécies deatalhos entre clusters) que atravessam suas camadas, passando pornumerosos arranjos moleculares (3) até chegar, na interface com ocitoplasma, a um emaranhado de “hifas” composto por filamentos emicrotúbulos de citoesqueleto... tudo isso fluindo (imerso em fluidoextracelular). E tudo isso com a função de ser uma porta seletiva que acélula usa para captar os elementos do meio exterior que são necessáriosao seu metabolismo e para liberar as substâncias que a célula produz e quedevem ser enviadas para o exterior (excreções que devem ser libertadas esecreções que ativam várias funções de seus, por assim dizer, “stakeholdersexternos”).Esse produto de bilhões de anos de evolução biológica funciona, é claro,como um sistema não-hierárquico, sem-administração, auto-organizadopara permitir o que chamamos de vida e não pode ser substituído porcancelas corporativas que sigam protocolos alfandegários burros,destinados a disciplinar a interação.Seria inútil simular, nas organizações que voluntariamente construímos,mecanismos semelhantes às membranas celulares. E nem seria o caso detentar fazê-lo, abusando do paralelo biológico. O que se deve captar aqui éo padrão, não reproduzir o mecanismo ou simular o organismo. E o padrãoé o padrão de interação em rede. 8
  9. 9. “Membranas sociais”, seja o que forem (e como forem), serão sempre redes(mais distribuídas do que centralizadas), interfaces. A única solução-fluzzparece ser articular comunidades móveis (no ecossistema composto pelosstakeholders da organização) e deixar a interação configurar tais interfaces,esperando que elas cumpram funções equivalentes, no mundo social, àsque são desempenhadas pelas membranas celulares no mundo biológico.Na verdade, ao estabelecer contornos, estabelece-se a estrutura e adinâmica do que está dentro dos contornos. Membranas são o que são (ecomo são) porque os meios que elas conectam são o que são (e como são).Mas tais meios são, eles próprios, constituídos pela interação, quer dizer,não se constituem como tais antes da interação. A membrana é um sistemacomplexo porque é, simultaneamente, uma interseção de conjuntos, umazona de transição entre um ser e os outros seres nos quais se insere (ou,mais genericamente, com os quais interage), uma forma de ligação ou umaespécie de conjunção.Ainda não sabemos muito sobre membranas e, sobretudo, sobre“membranas sociais”. Algumas coisas, porém, já sabemos. Sabemos, porexemplo, que deixar a interação pervadir um sistema não significapropriamente fazer, mas – ao contrário – não-fazer: não-proibir, não-selecionar caminhos (estabelecendo apenas alguns caminhos, proclamando-os como válidos e exterminando todos os demais caminhos, decretando-osinválidos); fundamentalmente, não gerar artificialmente escassez (4).Sabemos também que as interfaces devem ser sociais stricto sensu e nãoorganizacionais (em termos das teorias da administração baseadas emcomando-e-controle). Ou seja, devem ser baseadas na livre conversaçãoentre pessoas e na sua espontânea clusterização e não na designação, exante à interação, de caixinhas departamentais para alocar essas pessoas.Simples assim? É, mas a conversação é algo bem mais complexo do queparece. E os novos procedimentos e mecanismos, os novos processos denetweaving e as novas tecnologias interativas que inventamos paraviabilizar e potencializar a conversação, alteram completamente omultiverso das interações que chamamos de social.“Membranas sociais” são interworlds. Ao constituí-las multiplicamos osmundos, dando origem – se quisermos fazer uma comparação quantitativapara efeitos ilustrativos – a bilhões de organizações (em vez de milhões queexistem atualmente). Uma mesma pessoa participará de muitasorganizações, comporá numerosas empresas, entidades, movimentos,enfim, redes – pois tudo isso é válido, claro, na medida em que tudo forrede. Para tanto, não será necessário fazer quase nada adicionalmente ao 9
  10. 10. que já se faz hoje. Bastará não proibir a conexão, não querer disciplinar ainteração.Um bom exemplo, hoje, são as plataformas interativas digitais, chamadasde “redes sociais”. A quantas “redes sociais’” alguém pertence (ou seja, emquantas mídias sociais está registrado)? O número é grande e só tende acrescer.Os emaranhados se adensarão a tal ponto, as timelines ficarão tãocaudalosas, que as identidades organizacionais não se manterão por muitotempo. Despencaremos da escala de décadas e anos (que é a vida média daimensa maioria das organizações que ainda temos) para a escala de mesese dias (ou, quem sabe, de horas e minutos).Não é bem como disse Andi Warhol (1968) – “no futuro todo mundo seráfamoso por quinze minutos” – mas é parecido (5). Não é bem como eledisse porque ninguém será muito famoso, no sentido de visto por todomundo, porque não haverá mais o mundo único forjado pelo broadcasting.Mas é parecido porque no futuro (um conceito que também seráaposentado, de vez que não haverá mais um futuro único, um mesmofuturo para todos), as organizações serão sempre transitórias, estarãosempre fluindo para configurarem outras organizações e uma mesmaconfiguração não poderá perdurar por muito tempo.É assim porque redes são móveis. Novamente as mídias sociais oferecemuma boa imagem do que ocorre. Sites de relacionamento e plataformasinterativas nunca são as mesmas ao longo do tempo e a velocidade comque mudam (em anos, dias ou horas) é função da sua interatividade. Oexemplo mais flagrante é o twiver (as centenas de milhões – que logo serãobilhões, se considerarmos os sucedâneos do Twitter – de timelines fluindono twitter-river).Onde e quando tudo isso vai acontecer? Vai acontecer nos Highly ConnectedWorlds do terceiro milênio. Para aqueles mundos que já estão no terceiromilênio. 10
  11. 11. Hifas por toda parte | 5(1) MARGULIS, Lynn & SAGAN, Dorion (1998). O que é vida? Rio de Janeiro: Zahar,2002.(2) A quase totalidade dos procedimentos e mecanismos de obstrução de fluxos,estabelecidos nas organizações a pretexto de segurança, não se justifica (em maisde 90% dos casos, não há nada de realmente decisivo, estratégico ou sigiloso quedeva ser protegido ou não-compartilhado, fechado e trancado em vez depermanecer aberto e disponível). Isso vale para os protocolos de segurançaimpostos pelas áreas chamadas de “tecnologia da informação”. Não há qualquerganho em proibir o acesso dos funcionários de uma organização ao Youtube ou aoMessenger, ao Slideshare ou ao 4shared, ao Facebook ou ao Twitter. Não hánenhuma razão para impor programas de e-mail proprietários, lentos, pesados ecom limitações enervantes de poucos megabytes no lugar de adotar correioseletrônicos web mais eficazes, rápidos, com alta capacidade e, além de tudo,gratuitos (como o gmail ou o ymail). Não há nenhum motivo para editar hierarquiasde permissões diferenciais e preferências de acesso a conteúdos que, se fossemrealmente secretos (como listas de espiões ou processos de fabricação de artefatosde destruição em massa), não poderiam mesmo estar em rede. E não há explicaçãoplausível para a manutenção de intranets, sobretudo em uma época em que jáexiste a Internet.(3) Por exemplo, cabeças hidrofílicas com caudas hidrofóbicas em conjugação comfosfolípidos, aglomerados de proteínas globulares, glicoproteínas, glicolipídios,colesterol, proteínas extrínsecas etc.(4) Cf. FRANCO, Augusto (2009). A lógica da abundância. Slideshare [2.172 viewsem 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/a-lgica-da-abundncia>(5) WARHOL, Andi (1968). Cf. “15 minutes of fame” em<http://en.wikipedia.org/wiki/15_minutes_of_fame> 11

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