Fluzz pilulas 78

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Fluzz pilulas 78

  1. 1. Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 78 (Corresponde à introdução do Capítulo 10, intitulado Mundos-bebês em gestação)– E o que vocês esperam que eu faça?– Você já sabe.– Não, não sei. Por favor, ensine-me!– Você fez muitas coisas sem precisar que o ensinassem a fazê-las.Será que lhe ensinamos a desobediência?Diálogo entre um ghola Duncan Idaho e o bashar Miles Tegpor Frank Herbert em Os hereges de Duna (1984)O homem vive num filme, o homem vive num filme.Mark Slade em The New Metamorphosis (1975),realçando comentário de Joseph Conrad em O coração das trevas (1902)
  2. 2. O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar,é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez.Não há como se varrer a miséria da existênciaem grandes e eficientes vassouradas...Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer,ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez...redimindo-se um momento de cada vez.Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez.Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez.Uma caminhada de cada vez.Paulo Brabo em Microsalvamentos:como salvar o mundo um instante de cada vez (2007) 2
  3. 3. A despeito do fato, incontestável, de a dinâmica global da interação entre as velhas instâncias organizativas ter mudado, anunciando a emersão de uma verdadeira sociedade-rede, um novo padrão de organização distribuído não logrou se materializar no interior e no entorno das organizações empresariais, governamentais e sociais, que continuaram ainda se estruturando de modo centralizado ou hierárquico. Ou seja, o muro que caiu em 1989, caiu para o mundo construído pelo broadcasting como um único mundo, sob o efeito das poderosas forças da globalização (sobretudo da globalização das telecomunicações e da globalização dos mercados), mas não chegou a se localizar nas organizações realmente existentes em todos os setores. A mudança continuou acontecendo, mas os novos (e múltiplos) Highly Connected Worlds como que "cresceram escondidos" nesta época de mudança e não apareceram ainda à luz do dia, de sorte a consumar o que poderíamos chamar de uma mudança de época. Esses mundos-bebês estão agora em gestação. Os fenômenos acompanhantes do glocal swarming serão surpreendentes. Alguns já começaram a se manifestar: uma tendência acentuada à desobediência dentro das organizações hierárquicas, a incapacidade dessas organizações de inovar no ritmo exigido pelas mudanças contemporâneas (ou melhor, de se estruturar para inovar permanentemente) e - o que é mais drástico - as perdas irreversíveis de oportunidades e condições de sustentabilidade para as organizações fechadas que não forem capazes iniciar a transição do seu padrão piramidal para um padrão de rede.Fluzz é a queda dos muros. Em 1989 houve uma queda: a do Muro deBerlim. O episódio, pleno de significado simbólico, assinalou o início de umaépoca de mudanças nos padrões de relação entre Estado e sociedade. Umprocesso até então oculto de mudança social tornou-se visível de repente.Embora fugaz, o momento abriu uma brecha pela qual se pode ver um novotecido societário em gestação, uma nova topologia – mais distribuída – da 3
  4. 4. rede social sendo tramada. Com efeito, nos anos seguintes, como se diz, "omundo mudou": a Internet (com a World Wide Web) nos anos 90 expressouaspectos importantes dessa mudança profunda.Os anos 2000, contrariando uma série de profecias futuristas, não raroinspiradas por algum tipo de milenarismo, e frustrando as mais animadorasexpectativas da New Age, não consumaram o que foi prefigurado. Aprimeira década do século 21 - marcada indelevelmente pela queda dastorres gêmeas do World Trade Center - conquanto tal evento também sejariquíssimo de significado simbólico (místico, como revela a famosa Carta 16do Tarot; e ideológico: o que ruiu foi um centro mundial de comércio, dandoa alguns a impressão, não raro regressiva, de que a dinâmica reguladora domercado estava com os dias contados e seria substituída pela normatizaçãoestatal), não foi o vestíbulo de entrada para aquele terceiro milênioimaginário desejado.No entanto, subterraneamente, prosseguiu a gestação de novos padrõessocietários. O mundo descobriu as redes. Entrou em francodesenvolvimento uma nova ciência das redes. E surgiram por toda partenovas plataformas tecnológicas interativas de articulação e animação deredes sociais. As ferramentas começaram a ficar disponíveis. Faltaram aoencontro apenas as pessoas, ainda arrebanhadas e cercadas, em grandeparte, nos tradicionais currais organizativos.E tudo permanecerá assim nos mundos em que as pessoas nãodesobedecerem, não saírem do seu quadrado (as fortalezas organizativasque criaram para se proteger do “mundo exterior”), não inovarem e nãoiniciarem a transição para uma padrão de rede. Por isso não haverá mesmouma (única) New Age. Enquanto as pessoas não desistirem da Old Agepermanecerão em mundos murados contra fluzz; ou melhor: vice-versa.É claro que o vento continuará soprando, mas – dependendo da opacidadede seus muros – você pode nem notar. Assim como não notou a formidávelorgia fúngica sob seus pés (uma espécie de sexo grupal que estáacontecendo agora em Zion, i. e., nos subterrâneos, com hifas surgindo portoda parte). Assim como não notou o espalhamento dos esporos no ar quevocê respira. Assim como não está vendo as miríades de interfacesconectando miríades de mundos à sua volta e “explodindo como umaramada de neurônios”... (1)Esse é o glocal swarming – que você só percebe se estiver nele. Parainvocá-lo em seu mundo você precisa, antes de qualquer coisa, conceber e 4
  5. 5. dar à luz ao seu mundo. Sim, agora chegou a hora de você mesmo fazer oseu mundo! 5
  6. 6. Nota(1) Referência a um artigo de Pierre Lèvy: Op. cit. 6

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