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A Loira do BanheiroRegião: Avaré, São Paulo
Informante: Lauro da Cruz CorreaIdade: 36 anos
Profissão: divulgador editorial
Relato 5
Na vida, tenho duas grandes pai-xões: literatura e cinema.Quando era menino, eu queria serator, trabalhar em filmes de aven-turas, fazer papel de astronauta, desoldado, tudo que envolvesse muitoperigo.
Relato 5
A Loira do Banheiro
56
Mas eu nasci no interior de São Paulo.
Difícil realizar um sonho desses.
Quando eu tinha dezessete anos, comecei a ler histórias
de terror. Conheço todos os grandes mestres do suspense:
Edgar Allan Poe é meu preferido, em segundo lugar está
Bram Stocker, criador de Drácula.
Durante vários anos vivi todas as emoções mais intensas,
o medo, o amor, o perigo, lendo livros ou sentado no cantinho
escuro de um cinema.
Sou um cara de sorte. Trabalho com aquilo que mais
gosto: livros. Atuo como divulgador de uma grande editora.
Percorro as escolas mostrando os lançamentos, contando as
histórias, enfim, sou pago para ler, veja só.
E sempre que eu tentava vender uma boa história de fan-
tasmas, depois fechava o livro aliviado e comentava com os
professores: escritores têm tanta imaginação... Já pensou se
tudo isso fosse verdade?
Até o dia em que descobri que o mistério nos ronda, nos
assombra, também fora dos livros e dos filmes.
E se os fantasmas existirem?
Afinal, há histórias assim no mundo todo...
Essa dúvida me persegue e tudo começou por causa de
uma história que me foi contada por três garotos apavo-
rados.
Eu caminhava pelos corredores de uma escola
levando meus livros, minha maleta com os catálo-
gos editoriais, os braços repletos de panfletos
anunciando os lançamentos.
Relato 5
A Loira do Banheiro
58
Vi a porta do banheiro masculino abrir-se com toda vio-
lência. Dela saíram três jovens de mais ou menos dezessete
anos de idade. Cabelos molhados, respiração ofegante, o
rosto em pânico. Aquilo despertou minha curiosidade.
Na saída da escola, encontrei um deles, Ricardo era seu
nome. Normalmente sou muito discreto, mas a curiosidade
me matava.
– Vem cá, me conte, por que foi que vocês saíram correndo
daquele jeito? Viram alguma assombração?
Ele custou um tempo para responder. Mas de repente
disse bem baixinho:
– Mas eu vi mesmo, eu vi um fantasma.
– Que fantasma, garoto? Você está passando bem? Quer
que eu chame sua professora?
– Não, escuta, eu só vou contar pro senhor, depois eu
quero esquecer.
– Então conte, mas é melhor sair daqui, do meio
do corredor.
Fomos até o pátio, o garoto respirou fundo e
começou a me contar:
– Bom, o negócio começou assim: eu tenho
mais dois amigos. Eu sou o Rico, depois vem
o Betão. O Betão é cético. Ele tem que ver
para crer. Só que ele nunca vê nada.
Aliás, ele vê sim. Garotas. O cara é
magrinho, tropeça em tudo, mas
faz o maior sucesso. Dá raiva,
até. Bom, tem também o João.
59
Relato 5
A Loira do Banheiro
Ele ri muito, é o contrário do Beto, acredita em tudo que
se fala. Chupa-cabra, ET de Varginha, Loira do Banheiro
e daí vai.
– E você? É cético ou crédulo? – perguntei, achando engra-
çado o jeito do menino.
– Eu? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como dizia
minha avó. Eu acredito e não acredito. Não vou dizer que
preciso ver para crer, porque dá de ver...
– E você já viu alguma coisa estranha, certo? – sugeri.
– Certo. Foi assim: nós três estávamos no banheiro falando
das meninas. O único de nós que já teve namorada foi o Beto,
claro. O João estava sentado no chão. E eu estava louco da
vida. Tinha levado um fora de uma garota. Foi então que tive
uma idéia. Era maligna, agora eu sei. Até hoje me arrependo.
Mas quando vi, já tinha falado: “E se a gente chamasse a tal
da Loira do Banheiro?” O senhor já ouviu
falar?
– Não – respondi, achando aquela
conversa engraçada.
– É uma loira fantasma. Ela aparece
para quem invoca seu nome.
– Vai me dizer que ela apareceu
para vocês – eu disse, incré-
dulo.
– Bem, nós fizemos
tudo que era preciso:
bater três vezes no
espelho, falando bem
Relato 5
A Loira do Banheiro
60
baixo, com voz de apaixonado, loira, loira, loira, depois, a
gente deu descarga três vezes e três pulinhos ridículos. Mas
eu estava tão bravo naquele dia... resolvi fazer palhaçada,
pensava que era só brincadeira.
Mas não era, não.
Lembro de tudo até hoje.
Corri para o espelho.
Beijei minha própria boca.
Sussurrei: loira, loirinha, vem cá...
Meus amigos morriam de rir.
Fizeram igual.
Depois, todos nós demos três descargas.
Ríamos tanto que a barriga doía.
Depois demos os três pulinhos.
Foi nisso que apareceu o diretor.
Resultado: suspensão para todos nós.
Na volta para casa, meus amigos estavam muito bravos
comigo.
De repente, eu vi. Uma loira linda. Atravessando a rua.
– A loira! – gritei.
– Você está louco? Essa loira é gente, não é fantasma coisa
nenhuma! – o João falou.
Do outro lado da calçada, a loira caminhava, sorria e
acenava de longe. Quase desmaiei. Só não desmaiei porque
apareceu outra loira. É isso mesmo. Eu ia gritar, mas daí
surgiu a última loira. Idêntica. Loiras trigêmeas. Uma para
cada um de nós.
61
Relato 5
A Loira do Banheiro
Relato 5
A Loira do Banheiro
62
Bom, atravessamos a rua feito loucos. As loiras nos ace-
navam do outro lado. Nem vimos os carros, nem ouvimos a
buzina, nem o ruído do breque.
Quando acordamos, estávamos no hospital. Uma maca ao lado
da outra. Todos nós machucados, braços, perna na tipóia.
De repente, Betão estendeu a mão para o espelho do quarto
do hospital e gritou assim:
– Olha lá as loiras!
Eu olhei. Antes não tivesse olhado.
As trigêmeas. Lindas. Idênticas. Uma para cada um de nós.
Sabe onde?
Dentro do espelho.
Acenando adeus. Rindo.
Desmaiamos outra vez.
É por isso que nunca vamos ao banheiro sozinhos, de jeito
nenhum. E se ela aparecer?
Quando o menino acabou sua história, levantou-se e foi
embora rapidamente.
Fiquei pensando, essa história dava uma bom conto de
terror, a garotada inventa cada coisa para acabar com o
tédio... Loira do Banheiro!
Mas, naquela noite, sonhei com lindas loiras fantasma-
góricas, dançando nos reflexos dos espelhos, na tela da
televisão...
Acordei pensando que aquilo já estava virando um exa-
gero. Afinal, era só um desses casos malucos, bobagem de
criança.
63
Relato 5
A Loira do Banheiro
Acontece que, daquele dia em diante, cada vez que entro
no banheiro de uma escola, lembro-me da loira fantasma.
Confesso que, ao longo do tempo, encontrei várias outras
crianças assustadas com essa mesma assombração. Parece
epidemia. Um medo que contagia. É, porque aos poucos, vou
ser sincero, eu também comecei a sentir medo. Mesmo sendo
um adulto, mesmo conhecendo tantas histórias e tantos filmes
de terror, há dias em que entro no banheiro bem rápido, lavo
as mãos sem olhar para o espelho e, quando fecho a porta,
respiro bem aliviado.
E se for tudo verdade?
E se os fantasmas existirem?
Como é que ficam os vivos?
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Depois da Loira, todas as outras histórias viraram boba-
gem, invenção de escritor.

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  • 2. A Loira do BanheiroRegião: Avaré, São Paulo Informante: Lauro da Cruz CorreaIdade: 36 anos Profissão: divulgador editorial Relato 5 Na vida, tenho duas grandes pai-xões: literatura e cinema.Quando era menino, eu queria serator, trabalhar em filmes de aven-turas, fazer papel de astronauta, desoldado, tudo que envolvesse muitoperigo.
  • 3. Relato 5 A Loira do Banheiro 56 Mas eu nasci no interior de São Paulo. Difícil realizar um sonho desses. Quando eu tinha dezessete anos, comecei a ler histórias de terror. Conheço todos os grandes mestres do suspense: Edgar Allan Poe é meu preferido, em segundo lugar está Bram Stocker, criador de Drácula. Durante vários anos vivi todas as emoções mais intensas, o medo, o amor, o perigo, lendo livros ou sentado no cantinho escuro de um cinema. Sou um cara de sorte. Trabalho com aquilo que mais gosto: livros. Atuo como divulgador de uma grande editora. Percorro as escolas mostrando os lançamentos, contando as histórias, enfim, sou pago para ler, veja só. E sempre que eu tentava vender uma boa história de fan- tasmas, depois fechava o livro aliviado e comentava com os professores: escritores têm tanta imaginação... Já pensou se tudo isso fosse verdade? Até o dia em que descobri que o mistério nos ronda, nos assombra, também fora dos livros e dos filmes. E se os fantasmas existirem? Afinal, há histórias assim no mundo todo... Essa dúvida me persegue e tudo começou por causa de uma história que me foi contada por três garotos apavo- rados. Eu caminhava pelos corredores de uma escola levando meus livros, minha maleta com os catálo- gos editoriais, os braços repletos de panfletos anunciando os lançamentos.
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  • 5. Relato 5 A Loira do Banheiro 58 Vi a porta do banheiro masculino abrir-se com toda vio- lência. Dela saíram três jovens de mais ou menos dezessete anos de idade. Cabelos molhados, respiração ofegante, o rosto em pânico. Aquilo despertou minha curiosidade. Na saída da escola, encontrei um deles, Ricardo era seu nome. Normalmente sou muito discreto, mas a curiosidade me matava. – Vem cá, me conte, por que foi que vocês saíram correndo daquele jeito? Viram alguma assombração? Ele custou um tempo para responder. Mas de repente disse bem baixinho: – Mas eu vi mesmo, eu vi um fantasma. – Que fantasma, garoto? Você está passando bem? Quer que eu chame sua professora? – Não, escuta, eu só vou contar pro senhor, depois eu quero esquecer. – Então conte, mas é melhor sair daqui, do meio do corredor. Fomos até o pátio, o garoto respirou fundo e começou a me contar: – Bom, o negócio começou assim: eu tenho mais dois amigos. Eu sou o Rico, depois vem o Betão. O Betão é cético. Ele tem que ver para crer. Só que ele nunca vê nada. Aliás, ele vê sim. Garotas. O cara é magrinho, tropeça em tudo, mas faz o maior sucesso. Dá raiva, até. Bom, tem também o João.
  • 6. 59 Relato 5 A Loira do Banheiro Ele ri muito, é o contrário do Beto, acredita em tudo que se fala. Chupa-cabra, ET de Varginha, Loira do Banheiro e daí vai. – E você? É cético ou crédulo? – perguntei, achando engra- çado o jeito do menino. – Eu? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como dizia minha avó. Eu acredito e não acredito. Não vou dizer que preciso ver para crer, porque dá de ver... – E você já viu alguma coisa estranha, certo? – sugeri. – Certo. Foi assim: nós três estávamos no banheiro falando das meninas. O único de nós que já teve namorada foi o Beto, claro. O João estava sentado no chão. E eu estava louco da vida. Tinha levado um fora de uma garota. Foi então que tive uma idéia. Era maligna, agora eu sei. Até hoje me arrependo. Mas quando vi, já tinha falado: “E se a gente chamasse a tal da Loira do Banheiro?” O senhor já ouviu falar? – Não – respondi, achando aquela conversa engraçada. – É uma loira fantasma. Ela aparece para quem invoca seu nome. – Vai me dizer que ela apareceu para vocês – eu disse, incré- dulo. – Bem, nós fizemos tudo que era preciso: bater três vezes no espelho, falando bem
  • 7. Relato 5 A Loira do Banheiro 60 baixo, com voz de apaixonado, loira, loira, loira, depois, a gente deu descarga três vezes e três pulinhos ridículos. Mas eu estava tão bravo naquele dia... resolvi fazer palhaçada, pensava que era só brincadeira. Mas não era, não. Lembro de tudo até hoje. Corri para o espelho. Beijei minha própria boca. Sussurrei: loira, loirinha, vem cá... Meus amigos morriam de rir. Fizeram igual. Depois, todos nós demos três descargas. Ríamos tanto que a barriga doía. Depois demos os três pulinhos. Foi nisso que apareceu o diretor. Resultado: suspensão para todos nós. Na volta para casa, meus amigos estavam muito bravos comigo. De repente, eu vi. Uma loira linda. Atravessando a rua. – A loira! – gritei. – Você está louco? Essa loira é gente, não é fantasma coisa nenhuma! – o João falou. Do outro lado da calçada, a loira caminhava, sorria e acenava de longe. Quase desmaiei. Só não desmaiei porque apareceu outra loira. É isso mesmo. Eu ia gritar, mas daí surgiu a última loira. Idêntica. Loiras trigêmeas. Uma para cada um de nós.
  • 8. 61 Relato 5 A Loira do Banheiro
  • 9. Relato 5 A Loira do Banheiro 62 Bom, atravessamos a rua feito loucos. As loiras nos ace- navam do outro lado. Nem vimos os carros, nem ouvimos a buzina, nem o ruído do breque. Quando acordamos, estávamos no hospital. Uma maca ao lado da outra. Todos nós machucados, braços, perna na tipóia. De repente, Betão estendeu a mão para o espelho do quarto do hospital e gritou assim: – Olha lá as loiras! Eu olhei. Antes não tivesse olhado. As trigêmeas. Lindas. Idênticas. Uma para cada um de nós. Sabe onde? Dentro do espelho. Acenando adeus. Rindo. Desmaiamos outra vez. É por isso que nunca vamos ao banheiro sozinhos, de jeito nenhum. E se ela aparecer? Quando o menino acabou sua história, levantou-se e foi embora rapidamente. Fiquei pensando, essa história dava uma bom conto de terror, a garotada inventa cada coisa para acabar com o tédio... Loira do Banheiro! Mas, naquela noite, sonhei com lindas loiras fantasma- góricas, dançando nos reflexos dos espelhos, na tela da televisão... Acordei pensando que aquilo já estava virando um exa- gero. Afinal, era só um desses casos malucos, bobagem de criança.
  • 10. 63 Relato 5 A Loira do Banheiro Acontece que, daquele dia em diante, cada vez que entro no banheiro de uma escola, lembro-me da loira fantasma. Confesso que, ao longo do tempo, encontrei várias outras crianças assustadas com essa mesma assombração. Parece epidemia. Um medo que contagia. É, porque aos poucos, vou ser sincero, eu também comecei a sentir medo. Mesmo sendo um adulto, mesmo conhecendo tantas histórias e tantos filmes de terror, há dias em que entro no banheiro bem rápido, lavo as mãos sem olhar para o espelho e, quando fecho a porta, respiro bem aliviado. E se for tudo verdade? E se os fantasmas existirem? Como é que ficam os vivos? Uma coisa eu sei. Depois da Loira, todas as outras histórias viraram boba- gem, invenção de escritor.