O LEIGO: HOMEM DA IGREJA NO MUNDO E HOMEM DO MUNDO NA IGREJA

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O LEIGO: HOMEM DA IGREJA NO MUNDO E HOMEM DO MUNDO NA IGREJA - TEOLOGIA - MISSÃO LAICAL - PAPA JOÃO PAULO II

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O LEIGO: HOMEM DA IGREJA NO MUNDO E HOMEM DO MUNDO NA IGREJA

  1. 1. O LEIGO: HOMEM DA IGREJA NO MUNDO E HOMEM DO MUNDO NAIGREJA Neste capítulo, estuda-se o leigo como homem da Igreja no mundo e homem domundo na Igreja. Conforme foi visto no capítulo anterior, o batismo incorpora a Cristo,e com isso torna o batizado membro da Igreja: A fidelidade e coerência com as riquezas e exigências do seu ser lhe conferem a identidade de homem de Igreja no coração do mundo e de homem do mundo no coração da Igreja. De fato, o leigo se situa por vocação na Igreja e no mundo. Membro da Igreja, fiel a Cristo, acha-se comprometido na construção do Reino em sua dimensão temporal170. Como explicitação do tema, o capítulo divide-se nos seguintes pontos: osserviços do leigo como Igreja: ad extra e ad intra; a questão dos ministérios; o leigo e anova evangelização; atuação social e liberdade; espiritualidade laical; matrimônio; oleigo: fundamental para a evangelização; a relação dos leigos com a hierarquia; arelação dos leigos com os consagrados.3.1 Os serviços do leigo como Igreja: ad extra e ad intra Entendem-se por ad intra os serviços prestados pelos leigos à Igreja, e queestejam necessariamente ligados à sua estrutura. E, os serviços ad extra são aquelesprestados pelos fiéis leigos que não estejam ligados ou que não necessitam estar ligadosà estrutura da Igreja.170 DP 786-787
  2. 2. 56 Pode-se entender que não basta que o leigo esteja no mundo e conheça a suamissão. É preciso, antes de tudo, que ele aja nele, pois a tarefa não é de caráterdecorativo, e sim um compromisso com a promoção humana, a promoção da justiça.João Paulo II afirma que os “trabalhadores da vinha são todos os membros do povo deDeus: os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, os fiéis leigos, todos simultaneamenteobjeto e sujeito da comunhão da Igreja e da participação na sua missão de salvação”171. O leigo atua, de diversas formas, na Igreja, cada um segundo sua vocação, entreas atividades exercidas. João Paulo II dá acento especial aos catequistas, sem deixar dereconhecer as várias outras contribuições dadas pelos fiéis leigos. Diz o Pontífice: Na atividade missionária, devem-se valorizar as várias expressões do laicato, respeitando sua índole e finalidade.(...) Entre os leigos, que se tornam evangelizadores, contam-se, em primeiro lugar, os catequistas. O decreto missionário define-os como sendo „aquele exército tão benemérito da obra das missões entre os pagãos (...) que, penetrados de espírito apostólico, prestam, com seus relevantes serviços, um singular e indispensável auxílio à causa da propagação da fé e da Igreja172. Segundo o Papa Wojtyla, ao lado dos catequistas, é preciso recordar outras formas de serviços à vida da Igreja e à missão, e, por conseguinte, outros operadores: animadores da oração, do canto e da liturgia; chefes de comunidades eclesiais de base e de grupos bíblicos; encarregados das obras caritativas; administradores dos bens da Igreja; dirigentes das várias associações de apostolado; professores de religião nas escolas. Todos os fiéis leigos devem oferecer à Igreja uma parte do seu tempo, vivendo, com coerência, a própria fé173. O Concílio Vaticano II faz referência ao leigo assim: Cada leigo individualmente deve ser perante o mundo uma testemunha da ressurreição e vida do Senhor Jesus e sinal do Deus vivo. Todos juntos e cada um na medida das suas possibilidades devem alimentar o171 Cf. CfL 55.172 JOÃO PAULO II. Carta encíclica Redemptoris Missio. São Paulo: Paulinas, 1991. 72-73.173 Id., ibid., 74.
  3. 3. 57 mundo com frutos espirituais174. Devem difundir no mundo aquele espírito pelo qual são animados os pobres, os mansos e os pacíficos que o Senhor no Evangelho proclamou bem-aventurados175. Numa palavra, „o que a alma é no corpo, isto sejam no mundo os cristãos‟176. SegundoYves Congar a Igreja aparece como sendo essencialmente missionária. Eissuas palavras: O tempo da Igreja, isto é, o que decorre entre a ascensão do Senhor e sua volta entre a Páscoa e a parusia de Jesus Cristo é essencialmente tempo de missão e de apostolado (cf. At 1,7-8). Por conseguinte, é tempo da palavra, de anúncio e de conversão. Trata-se de levar sem cessar para frente a realização do plano de salvação de Deus. A palavra bíblica, a palavra cristã, tem isso por lei177. Seguindo ainda sua reflexão Congar acentua: Os cristãos seculares exercem um apostolado múltiplo, tanto na Igreja como no mundo. Em ambas as ordens se abrem vários campos de atividade apostólica, dos quais queremos recordar aqui os principais: são as comunidades da Igreja, a família, a juventude, o âmbito social, as ordens nacional e internacional178. Paulo VI já chamava a atenção para a importância da missão do leigo, definindo-a em seu campo de atuação179.174 Cf. Gl 5,22.175 Cf. Mt 5,3-9.176 LG 38.177 CONGAR, Yves. Se sois minhas testemunhas – três conferências sobre o laicato, a Igreja e o mundo.São Paulo: Paulinas, 1967, p. 95.178 Cf. CONGAR, Y et al. El apostolado de los laicos. Madrid: Studium, 1973, p. 28.179 “Os leigos, a quem a sua vocação específica coloca no meio do mundo e à frente de tarefas as maisvariadas na ordem temporal, devem também eles, através disso mesmo, atuar uma singular forma deevangelização. A sua primeira e imediata tarefa não é a instituição e o desenvolvimento da comunidadeeclesial-esse é o papel específico dos Pastores – mas sim, o pôr em prática todas as possibilidades cristãse evangélicas escondidas, mas já presentes e operantes, nas coisas do mundo” (PAULO VI. ExortaçãoApostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo Evangelii Nuntiandi. São Paulo: Paulinas,1976. 70).
  4. 4. 58 Com a urgência da missão no mundo e na Igreja, o leigo ocupa um lugar dedestaque. A Igreja conta com os cristãos leigos, que, no auxílio aos ministros ordenados,ajudam a difundir a obra redentora de Jesus Cristo. “Ao anunciar e ao acolher oEvangelho na força do Espírito, a Igreja torna-se comunidade evangelizada eevangelizadora, precisamente por isso faz-se serva dos homens”180. A vocação leiga é, antes de tudo, um dos elementos de união com Deus. Ele équem chama a trabalhar para a Igreja, amá-la, sentir-se inserido em seu povo181. João Paulo II dá sempre uma conotação forte ao verdadeiro sentido da vida docristão leigo. Sua importância para a vida da Igreja, no desempenho de suas tarefas namesma, se faz necessária e até indispensável para a propagação do Evangelho. JoãoPaulo II lembra que novas situações, tanto eclesiais como sociais, econômicas, políticase culturais, reclamam hoje, com uma força toda particular, a ação dos fiéis leigos. Se odesinteresse foi sempre inaceitável, o tempo presente torna-o ainda mais culpável. Não élícito a ninguém ficar inativo182. É dever dos pastores a promoção e o reconhecimento das funções dos leigos,distintos dos ministros ordenados. Esses fiéis, podem exercer funções muitosemelhantes à deles, no oficio da Igreja: orações litúrgicas, como ministroextraordinário da Eucaristia, ministro extraordinário do Batismo, na liturgia, etc. Porém,180 CfL 36.181 “A vocação e a missão dos fiéis leigos só pode compreender à luz de uma renovada consciência daIgreja „como sacramento, ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e de unidade de todo o gênerohumano” (LG 1) é do dever pessoal aderir mais livremente a ela. A Igreja é um mistério de comunhãoque tem origem na vida da Santíssima Trindade. É o Corpo místico de Cristo. É o povo de Deus, queunido com a mesma fé, esperança e caridade, caminha na história rumo à definitiva pátria celeste. E nós,como batizados, somos membros vivos deste maravilhoso e fascinante organismo, alimentado pelos donsSacramentais, hierárquicos e carismáticos que são co-necessários. Por isso, hoje mais que nunca énecessário que os cristãos, iluminados e conduzidos pela fé, conheçam a Igreja como ela é, em toda suabeleza e Santidade, para senti-la e amá-la como a própria mãe. E por fim é importante despertar em todopovo de Deus o verdadeiro sensus ecclesiae, unido à íntima consciência de ser Igreja, mistério decomunhão”( “Messagio del Santo Padre Giovanni Paolo II, ai participanti al congresso del laicatocattolico, dal Vaticano, 21 novembre 2000. Capturado em 06 de novembro de 2003. On line Disponívelna Internet:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2000/oct-dec/documents/hf_jp-ii_spe_20001125_jubilee-laity_it.html).182 CfL 3.
  5. 5. 59João Paulo II adverte que o exercício de semelhante tarefa não transforme o fiel leigoem pastor183. O leigo é um homem da Igreja, inserido no mundo com a tarefa de construir oReino de Deus. Pois, além de ser um homem da Igreja, primeiro ele é um homem deDeus. A Igreja de Deus está no mundo; por isso, o leigo é alguém que está na Igreja eno mundo. E por essa razão, tem de desenvolver a missão é própria da Igreja que éevangelizar e preparar as pessoas, que são membros de Cristo, para a salvação. SegundoW. Amado, “ele o leigo se situa, por vocação, na Igreja e no mundo. E sua primeiratarefa é construir o Reino de Deus a partir do engajamento nas realidades do mundo”184 . Leiamos a reflexão que faz a CNBB acerca desse problema: A missão dos leigos na sociedade é conhecida: „O campo próprio de sua atividade evangelizadora é justamente o vasto e complicado mundo da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos „mass media‟, e ainda outras realidades abertas à evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento185. Pode-se contar com as várias possibilidades de serviços possíveis de seremexercidos pelos leigos, em várias instâncias da Igreja. O Documento de Puebla lembra: A Igreja, para o cumprimento de sua missão, conta com diversidade de ministérios. Ao lado dos ministérios hierárquicos, a Igreja reconhece o lugar dos ministérios desprovidos de ordem sagrada. Portanto, também os leigo, podem sentir-se chamados ou ser chamados a colaborar com seus pastores no serviço à comunidade eclesial, para o crescimento e vida da mesma, exercendo ministérios diversos, conforme a graça e os carismas que ao Senhor aprouve conceder-lhes Os ministérios que se podem conferir a leigos são serviços realmente importantes na vida eclesial (p. ex, no plano da palavra, da liturgia ou da direção da183 Id., ibid., 23.184 AMADO W.Vocação, missão e organização dos leigos na Igreja e no mundo. Teocomunicação, PortoAlegre, v. 20, n. 89, p. 271-272, jun. 1990.185 Diretrizes gerais da ação pastoral da Igreja no Brasil. Doc. n. 45. CNBB . 263.
  6. 6. 60 comunidade), exercidos pelos leigos com estabilidade e que foram reconhecidos publicamente e a eles confiados por quem tem a responsabilidade na Igreja186. O testemunho de vida é o que o mundo espera como resposta às afirmaçõessobre o Reino. Isto é, cada cristão leigo deve viver sua vida, de acordo com as propostasdo Evangelho, deixando, assim, através do seu trabalho prestado à Igreja, transparecertoda a bondade de Deus. O serviço eclesial dos leigos torna-se motivo de crescimento ede testemunho de fé para toda a comunidade. Por isso, nas várias vocações, nos váriosmodos de prestar serviços, sejam encontradas atribuições em que cada um dos fiéisleigos possa assumir seu verdadeiro lugar de agente da missão. A identificação da missão do leigo no mundo se dá da mesma forma como se dáa identificação da missão da Igreja, ou seja, o leigo não existe para si; pois, se assimfosse, sua existência não seria mais que um egoísmo, inútil para a sociedade, embora asociedade moderna tenda para tal comportamento. Assim sendo, o leigo acabaencontrando respaldo para sua missão, tanto no mundo como na Igreja: “A Igreja existeem si, mas não para si mesma. Tem uma missão no mundo e para o mundo, que incluiagir sobre ele de maneira a ordená-lo, o mais possível, segundo a vontade de Deus eorientá-lo para Deus”187. Segundo Wolmir Amado, a atuação e destaque do leigo no mundo não podem nos levar ao dualismo de afirmar: aos leigos o mundo, ao clero a Igreja. Pelo contrário, a Igreja, enquanto parcela do mundo, também é lugar da presença do leigo. E fala o documento Christifideles Laici que os leigos não só pertencem à Igreja, mas são Igreja. Além disso, contribuem para construir a Igreja. Especialmente atuando nas múltiplas formas de apostolado188. Assim, ele, o leigo, ajuda a hierarquia da Igreja a construir e edificar o Reino deDeus, tornando-a cada vez mais instrumento de salvação.186 DP 804-805.187 CONGAR, Yves. Se sois minhas testemunhas. Três conferências sobre o laicato, a Igreja e o mundo.São Paulo: Paulinas, 1967, p. 74.188 AMADO, Vocação..., loc. cit., p. 272.
  7. 7. 61 O lugar do serviço do leigo é no mundo e na Igreja, serviço ad extra e serviço adintra para o Reino. Por isso, ele é chamado a atuar onde há necessidade. Segundo W.Amado, a atuação e destaque do leigo no mundo não podem nos levar ao dualismo deafirmar: aos leigos o mundo, ao clero a Igreja. Pelo contrário, a Igreja, enquanto parcelado mundo, também é lugar da presença do leigo189. O Documento de Puebla, em suas conclusões sobre esse tema, deixa explícitoque todo o leigo é chamado para essa tarefa: Fazemos um apelo urgente aos leigos para que se comprometam na missão evangelizadora da Igreja, missão da qual a promoção da justiça é parte integrante e indispensável e que mais diretamente diz respeito à tarefa leiga, sempre em comunhão com os pastores. Exortamos a uma presença organizada do laicato nos diversos setores pastorais, o que supõe a integração e coordenação dos diversos movimentos e serviços dentro de um plano de pastoral orgânica do setor leigo. Convidamos os pastores a terem especial consideração pelo laicato organizado, com vistas à ação eclesial, prestando-lhe a adequada assistência pastoral e o devido apreço de seu papel na pastoral global da Igreja190. De fato, a missão do leigo como cristão é a de, sempre que possível, estar àdisposição de servir nos variados setores da vida da Igreja. Segundo a CNBB, o Concílio Vaticano II, o Sínodo sobre os Cristãos Leigos e o ensinamento do Magistério apontam fortemente para um novo perfil da Igreja, aberta à presença ativa dos leigos, „que tem seu fundamento sacramental no Batismo e na Confirmação, bem como, para muitos deles, no Matrimônio‟. Eles são insistentemente chamados a viverem sua vocação e assumirem sua missão, quer na Igreja, quer na sociedade. À luz de tais orientações, torna-se necessário reexaminar a prática eclesial com relação à vocação e à missão dos leigos, bem como em relação à sua formação191. São muitas as funções que podem ser exercidas na Igreja pelos leigos. Por suacondição de batizados, eles podem ser convocados ou sentir-se chamados a participaremcom mais intensidade desses trabalhos. Sobre esse aspecto João Paulo II lembra:189 AMADO. Vocação..., loc. cit., p. 272.190 D 827-829.191 Diretrizes gerais da ação pastoral da Igreja no Brasil. Doc. n. 45. CNBB. 259.
  8. 8. 62 É necessário, portanto, que os fiéis leigos se conscientizem de sua dignidade de batizados. Por seu lado, os pastores tenham profunda estima do testemunho e da ação evangelizadora dos leigos que, inseridos no povo de Deus com espiritualidade de comunhão, conduzem os irmãos ao encontro com Jesus Cristo vivo192. De acordo com cada carisma, devem ser distribuídas as tarefas. Não é lícitopretender que todos, de modo geral, possam exercer as mesmas funções, pois ashabilidades são diferentes e as condições humanas também. Os pastores não devempretender ser substituídos em suas funções que lhes são próprias. Tampouco os fiéisleigos devem sentir-se pastores, por estarem exercendo funções que encerram algumtipo de semelhança com as funções dos ministros ordenados. Dado importante é o da não-substituição, ou seja, o sacerdote não pode sersubstituído por um leigo, pois sua condição é única. O leigo não possui o poder deOrdem e, portanto, não pode exercer funções atribuídas expressamente ao ministroordenado.As funções que podem ser exercidas pelos leigos não são de caráter exclusivodos clérigos: É, pois, necessário, em primeiro lugar, que os pastores, ao reconhecer e ao conferir aos fiéis leigos os vários ministérios, ofícios e funções, tenham o máximo cuidado em instruí-los sobre a raiz batismal dessas tarefas. Igualmente os pastores deverão zelar para que se evite um recurso fácil e abusivo a presumíveis „situações de emergência‟ ou de „necessidade de suplência‟, onde objetivamente não existam ou onde é possível remediar com uma programação pastoral mais racional193. A função do leigo não se deve confundir com a do clérigo. Não deve parecer, deforma alguma, como sendo substituta daquelas que são de exclusividade do sacerdote.O exercício de tarefas dentro da Igreja é para atender as necessidades da mesma e nãopara criar qualquer tipo de concorrência entre clérigos e leigos. Assim, os vários ofícios e funções que os fiéis leigos podem legitimamente desempenhar na liturgia, na transmissão da fé e nas estruturas pastorais192 JOÃO PAULO II. Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in America. São Paulo: Paulinas, 1999.44.193 CfL 23.
  9. 9. 63 da Igreja, deverão ser exercidos em conformidade com as suas específicas vocações laicais, diferentes da dos ministros sagrados194. A colaboração dos fiéis leigos na missão da Igreja não os qualifica como sendopastores, pois o ministério ordenado é insubstituível. Muitas tarefas podem serconfiadas aos leigos, “caso, em alguns lugares, se verifiquem abusos e práticastransgressoras, os pastores apliquem os meios necessários e oportunos para impedirprontamente a sua difusão e evitar que se prejudique a correta compreensão da próprianatureza da Igreja”195. Entre os vários aspectos da participação dos fiéis não-ordenados na missão da Igreja, toma-se em consideração a sua colaboração direta nas tarefas específicas dos pastores. Com efeito, quando a necessidade ou a utilidade da Igreja o requer, os pastores podem, segundo as normas estabelecidas pelo direito universal, confiar aos fiéis leigos certos ofícios e funções que, embora ligados ao seu próprio ministério de pastores, não exigem, contudo, o caráter da Ordem196. Essas atribuições de tarefas aos leigos não devem possibilitar o desvio dedoutrina. Por isso, todos que recebem incumbências pastorais têm o dever de junto comos pastores providenciar a devida formação, adequada e clara, de acordo com cadatarefa a ser exercida.3.2 A questão dos ministérios Afirma João Paulo II sobre os ministérios leigos: A missão salvífica da Igreja no mundo realiza-se, não só pelos ministros, que o são em virtude do sacramento da Ordem, mas também por todos os fiéis leigos: estes, com efeito, por força da sua condição batismal e da sua vocação específica, na medida própria de cada um, participam do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo. Por isso, os pastores devem reconhecer e promover os ofícios e as funções dos fiéis leigos, que têm o seu fundamento sacramental no Batismo e na Confirmação, bem como, para muitos deles, no Matrimônio197.194 Id., ibid., 23.195 Congregação para os institutos de vida consagrada. Instrução acerca de algumas questões sobre acolaboração dos fiéis leigos no sagrado ministério dos sacerdotes. São Paulo: Paulinas, 1997, p. 21.196 Id., ibid., p. 19.197 CfL 23.
  10. 10. 64 Com isso, pode-se bem compreender que a Igreja, como instrumento desalvação, tem o zelo pela Eucaristia, cuidando para que ela não falte a nenhum dos fiéis,no caso da escassez de sacerdotes. A ela cabe a responsabilidade de prover comunhãoeucarística, mesmo agindo temporariamente, e não em caráter de substituição. Umleigo, em razão de seu batismo, que o faz participar do sacerdócio comum, orienta aliturgia, a oração e, quando devidamente autorizado, pode distribuir a SagradaComunhão198. É importante que cada um seja consciente de sua missão, de suaresponsabilidade, sem que, para isso, precise abraçar todas as atividades 199. Eis as considerações feita por M. Santos acerca da diversificação das tarefasministeriais: Em primeiro lugar, considere-se que as funções do ministério ordenado, em seu conjunto, constituem uma unidade indivisível, por causa do seu único fundamento. Tal unidade qualifica de maneira essencial o exercício das funções do ministério sagrado, que, sob perspectivas diversas, são sempre exercício da função de Cristo, Cabeça da Igreja. Portanto, o exercício do munus docendi, sanctificandi et regendi, por parte do ministro ordenado, constitui a substância do ministério pastoral. As diversas funções dos ministros sagrados formam uma unidade indivisível e não podem ser compreendidas separadamente umas das outras. Somente em algumas delas, e em certa medida, é que outros fiéis não-ordenados podem colaborar com os pastores, se forem chamados a prestar tal colaboração. A tarefa que se exerce em suplência recebe a sua legitimidade, formal e imediatamente, da delegação oficial que lhe dão os pastores 200. Ainda, só pode ser pastor quem é ao mesmo tempo cabeça da Igreja. O presbítero age in persona Christi. Os serviços e os ministérios prestados pelos leigos nunca são propriamente pastorais, nem sequer quando suprem certas ações e certas preocupações do pastor. Só numa certa198 Cf. JOÃO PAULO II. Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia. São Paulo: Paulinas, 2003. 32.199 Cf. CfL 56.200 Cf. SANTOS, M. A relação entre “Sacerdócio Ministerial – Sacerdócio Comum” e MinistériosOrdenados – Ministérios não-Ordenados. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 31, n. 132, p. 225, jun. 2001.
  11. 11. 65 medida se pode aplicar também aos leigos o termo ministério: quando o termo ministério (servitium) exprime só o trabalho com que os membros da Igreja prolongam, no seu interior e para o mundo, a missão é o ministério de Cristo. Porém, quando o termo é diferenciado na relação e no confronto entre os diversos munera e officia, só em virtude da Ordem é que „ministério‟ obtém aquela plenitude e universalidade de significado, que a tradição sempre lhe atribuiu201. Conclui-se que, nessa vasta e importante diversidade de tarefas, onde existem asespecificidades, de um lado, as inerentes ao ministro ordenado, de outro, ao não-ordenado, faz-se necessário advertir para o verdadeiro sentido do serviço. No caso doleigo, não se trata de um serviço como (diaconia), e sim, serviço prestado como auxílioe não como substituição. É óbvio que nem todas as pessoas estão habilitadas a exercerem todas asatividades. É preciso que haja competência e afinidade com tal função. É necessário quehaja realização humana para o exercício. E as habilidades se destacam de váriasmaneiras, elas se manifestam, de formas diferenciadas, de acordo com cada serviço a serprestado. Existe relação entre ministérios e carismas: O Espírito Santo, ao confiar à Igreja-comunhão os diversos ministérios, enriquece-a com outros dons e impulsos especiais, chamados carismas. Podem assumir as mais variadas formas, tanto como expressão da liberdade absoluta do Espírito, que os distribui, como em resposta às múltiplas exigências da história da Igreja202. Os ministérios conferidos aos leigos, na reflexão de Santo Domingo, devematender às necessidades da comunidade e da evangelização: O Documento de Puebla recolheu a experiência do Continente, no que diz respeito aos ministérios conferidos aos leigos e deu orientações claras para que, de acordo com os carismas de cada pessoa e as necessidades de cada comunidade, se fomentasse „uma especial criatividade no estabelecimento de ministérios e serviços que possam201 Id., ibid., p. 222.202 CfL 24.
  12. 12. 66 ser exercidos por leigos, de acordo com as necessidades da evangelização(P 833; cf. 804-805; 811-817) 203. Há que se ter o cuidado de não se clericalizar os leigos, observar que suasfunções não se confundam com as do sacerdote, a ponto de o leigo sentir-se como umsubstituto do mesmo. Sobre esse aspecto a CNBB faz a seguinte análise: Constata-se também que a presença dos leigos e seus serviços na comunidade eclesial dão-se, com freqüência, num clima de suplência do ministro ordenado. Esta situação levou, quer à clericalização de muitos leigos, quer à sua permanência numa condição diminuída e dependente em face de uma Igreja fortemente centrada no clero. Sua participação nas decisões pastorais, com efetiva responsabilidade, é ainda muito reduzida. Chegou, certamente, o momento de as Igrejas assumirem uma maior definição quanto à presença e ação dos leigos na comunidade eclesial. A experiência já adquirida deve ser amplamente alargada e aprofundada204. Diante das urgências do mundo, a atuação do leigo é necessária. Porém, deve-serecordar uma vez mais, que o leigo não é um substituto do sacerdote. Ele tem suasfunções bem-definidas e, mesmo que ele possa exercer ministérios, dentro da Igreja,esses são essencialmente diferentes do ministério dos sacerdotes. De fato, diante de tantas atribuições e de um ministério leigo vivo e atuante, cabetambém analisar o aspecto da sua contribuição quotidiana na vida da Igreja. São váriasas atividades confiadas a eles, que a exercem com o fim único de promover o Reino deDeus, começando na família, e passando por diversos setores da sociedade, pode-secolaborar, para que haja um mundo um pouco melhor, em que se possa viver e ser feliz. Nesse ponto, é importante ter presente que, para salvaguardar a relação existenteentre as funções exercidas nos ministérios, também se conheça o que há de diferenteentre elas. Segundo M. Santos,203 DSD 101.204 Diretrizes gerais da ação pastoral da Igreja no Brasil. – Doc. n. 45. CNBB. 261-262.
  13. 13. 67 a diferença essencial entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial não está, portanto, no sacerdócio de Cristo que sempre permanece uno e indivisível, nem tampouco na santidade à qual todos os fiéis são chamados. Através do sacerdócio ministerial, é outorgado aos presbíteros, por Cristo no Espírito, um dom particular para que possam ajudar o povo de Deus a exercer com fidelidade e plenitude o sacerdócio comum que lhes é conferido205. Na verdade, quando se fala do ministério dos leigos e do ministério ordenado, areferência maior é a do próprio Cristo, verdadeiro e único ministro e sacerdote. Todosos outros que exercem algum tipo de ministério, seja como leigo, seja como ordenado,o exercem em nome do único sacerdote, Cristo. A missão é dada em nome do próprioCristo, pois a Igreja é dele, Ele é o fundamento único e a causa da missão. M. Santosafirma que a Igreja apresenta uma só missão de conteúdo universal e, para cumpri- la, um só sacerdócio, o de Cristo, de que participam, ainda que de modo diverso, todos os membros do povo de Deus: a Igreja, dotada de uma estrutura sacramental, é partícipe e depositária da missão que Cristo recebeu do Pai, e é santificado pelo Espírito Santo para dar glória a Deus, anunciando e estabelecendo seu Reino entre todos os homens206. Há uma relação de proximidade entre os dois tipos de ministérios. Pode-se dizeraté mesmo uma relação de dependência, pois o ministério ordenado possibilita acondição da possibilidade de o ministério não-ordenado co-existir. Por outra, emprimeiro lugar, está o ministério ordenado que é instituição do próprio Cristo.Daí surgea possibilidade, de acordo com a necessidade, de serem admitidos os ministérios não-ordenados ou dos leigos. Na reflexão de M. Santos, o sacerdócio comum atinge a plenitude do próprio valor eclesial, graças ao sacerdócio ministerial. Com efeito, o sacramento da Ordem capacita para atuar in persona Christi: através da Ordem, Cristo configura a dimensão hierárquica da estrutura fundamental da Igreja207.205 SANTOS, M. A relação...,loc. cit., p. 224.206 Id., ibid.,p. 226-227.207 Id., ibid., p. 236.
  14. 14. 68 Uma reflexão que pode ser feita, no tocante à importância dos ministérios, é queambos têm seu valor diante da Igreja. Pelo fato de existirem os dois tipos de ministérios,eles não existem para qualquer tipo de concorrência entre si, mas para que juntosrealizem o serviço da promoção humana e deixem transfigurar o Reino de Deus Pai. Os ministérios, tanto os ordenados quanto os não-ordenados, não foraminstituídos com o fim de disputa entre si, mas para a edificação do Reino. Através doserviço, eles realizam o que lhes é próprio. Os leigos não carecem de sentir-se menosimportantes, por pertencerem ao grupo dos não-ordenados, pois a Igreja tambémencontra sua dinamicidade através dos seus serviços. As experiências pastorais têmcontado com a presença dos leigos no seu meio, exercendo funções nos vários lugaresonde são necessários. Segundo M. Santos, “a diferença é precisamente o decisivo nacompreensão relacional do ministério ordenado e do ministério não-ordenado, ambossomente existem enquanto realidades vinculadas ao povo sacerdotal e ao sacerdócio deCristo”208. A relação existente entre os dois tipos de ministérios ocorre, tanto no âmbito dasemelhança, quanto da diferença, ou seja, eles são exercidos em conformidade do que épróprio de cada um deles. Operam dentro das suas especificidades, porém, há que sebuscar o essencial nas suas diferenças, o que os torna distintos entre si. M. Santosafirma: Os ministérios ordenados são exercidos em virtude do sacramento da Ordem, enquanto que os ministérios não-ordenados têm seu fundamento sacramental no Batismo e na Crisma. A diferença essencial deve-se à finalidade do sacerdócio ministerial: operar in persona Christi. Isso penetra num âmbito mais extenso do sacerdócio de Cristo, em virtude dos novos poderes ministeriais que lhe confere, de tal forma que lhe proporciona uma situação nova e orgânica na comunidade dos batizados209. Conclui-se que, em ambos os ministérios ordenados, e não-ordenados ádiferença fundamental é em função da Ordem, que muda a essência entre eles. Enquanto208 Id., ibid., p. 249.209 Id., ibid., p. 249-250.
  15. 15. 69que os ministérios não-ordenados encontram seu fundamento no Batismo e na Crisma,que também é comum aos ministérios ordenados, aqueles diferem dos ministériosordenados, que se fundamentam no sacramento da Ordem, o qual lhes é específico.3.3 Atuação social e espiritualidade laical João Paulo II lembra: ao anunciar e ao acolher o Evangelho na força do Espírito, a Igreja torna-se comunidade evangelizada e evangelizadora e, precisamente por isso, faz-se serva dos homens. Nela, os fiéis leigos participam da missão de servir a pessoa e a sociedade210. Sua atuação começa pelo compromisso assumido na qualidade de cristão. Importante também na reflexão de João Paulo II é a questão da espiritualidadedo trabalho, quando afirma que, “ao carregar a cruz de cada dia, nas tarefas a que se échamado a desempenhar, nasce a possibilidade de se mostrar como verdadeiro discípulode Jesus Cristo”211. “O próprio Jesus, nas suas parábolas sobre o Reino de Deus, refere-se constantemente ao trabalho humano, nas suas diversas áreas”212. Fornece, assim,,elementos para uma espiritualidade do trabalho, com base no Evangelho de JesusCristo. O Concílio Vaticano II assim explica: Uma vez que Cristo, enviado pelo Pai, é, torna-se evidente que a fecundidade doapostolado dos leigos depende de sua união vital com Cristo. Pois é o Senhor quem diz:„Quem permanecer em mim e Eu nele, este dá muito fruto, porque sem Mim nadapodeis fazer‟213. Segundo John Gerken,210 CfL 36.211 JOÃO PAULO II. Carta encíclica Laborem exercens. Castel: 1981, p. 67.212 Id., ibid., p. 64.213 AA 4.
  16. 16. 70 Os leigos devem permanecer fiéis aos deveres de seu estado de vida; como sacrifício pessoal por suas famílias e o trabalho pela prosperidade da comunidade. Tais deveres não devem ser encaradas como males necessários ou como objetos de ressentimento, mas como obrigações sagradas. O leigo católico é quem deve assumir a tarefa de construir a cidade temporal, ligada, por sua vez, à cidade de Deus214. A posição do leigo, no direito da Igreja, e sua efetiva contribuição para aedificação da obra salvífica é bem expressa por Rosário Colantonio: O fiel leigo tem, com efeito, um modo próprio de dar vigor à sociedade eclesial e de tomar ativamente parte na vida da Igreja. O último Concílio assinala que a posição de todo o membro do povo de Deus é a derivada da dignidade e liberdade dos Filhos de Deus. E esta condição radical, que é comum a todos os fiéis, representa o modo próprio de fieis leigos de vivificar a Igreja. Portanto, a posição do fiel leigo no direito da Igreja, é em termos gerais, uma posição de liberdade, compêndio de faculdade e capacidade de operar na vida sacramental, litúrgica e no exercício do ministerium verbi. E com essa liberdade, que lhe compete, por seu sacerdócio real, vive com a responsabilidade assumida no batismo e coopera com o sacerdócio ministerial na edificação da Igreja215. Um dos desafios importantes é a capacidade indivíduo agir integrado com asociedade, ou seja, o conjunto das relações que ele possa promover no meio em quevive. Isso requer habilidade. Os políticos, por exemplo, são geralmente muito hábeispara desenvolver seus papéis na sociedade, e com isso conquistam lugares de relevânciadentro do cenário público. No mundo secular, há que ser participativo, envolvido com as decisões da vidasocial, e há muitas formas de se estar inserido nela. Segundo José Illanes, “a atuaçãopública é, sem dúvida, uma das possíveis atividades seculares. Uma atividade em queem certo grau toda pessoa está implicada, posto que todo cidadão influencia na vidapública de seu país, pelo menos com seu voto e sua opinião”216.214 GERKEN, John D. Teologia do laicato. São Paulo: Herder, 1968, p. 120.215 COLANTONIO R. I laici nel diritto della chiesa. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1987,p. 49.216 Cf. ILLANES, op. cit., p. 195.
  17. 17. 71 O que se espera é que cada cidadão possa ser uma presença decisiva nasociedade e na Igreja, apesar das diferentes habilidades. Há que se reconhecer que nemtodos têm a mesma vocação: alguns nascem com disposição para desempenhardeterminadas funções, enquanto que outros requerem outras atividades. Em conformidade com a fé, o fiel cristão age com liberdade nas ações domundo. Segundo Illanes, a luz da fé, a doutrina social da Igreja, a visão do homem que implica a fé, se situam a um nível profundo que influencia na totalidade do comprometimento, porém que, ao mesmo tempo, não determina por si só o conteúdo das sucessivas ações e decisões.A um médico se pode dizer que cuide com zelo de seu paciente, que é filho de Deus, porém não se pode dizer a ele como utilizar sua ciência217. A atuação social com liberdade dar-se-à, a medida que cada profissional, cadaindivíduo, situado na sua realidade, atuar segundo a sua fé. Illanes explica que não é estranho que a Christifideles Laici, que começa falando de vida e de missão, termina referindo-se à união com a Igreja e com a oração, como condições indispensáveis para levar a cabo essa grande e comprometedora e difícil obra, que é a nova evangelização. E que ao fiel leigo lhe corresponde um papel de primeira importância218. Fica explícito que, para haver um resultado frutífero da missão, é necessário que,em primeiro lugar, o leigo seja alimentado na sua fé, a partir da oração, meditação, dasSagradas Escrituras e Eucaristia, e, sobretudo, associado a isso, ele viva intensamente ajustiça e a confiança em Deus, fonte de toda missão. Segundo Miguel Nicolau, a vida espiritual, o empenho de aperfeiçoar o espírito, não pode desvincular-se da atividade profissional. Seria cercear a natural amplitude e profundidade da vida espiritual, que deve invadir todo o ser e toda a atividade. Seria restringir a umas poucas horas ao dia, esquecendo a maior parte delas219.217 Id., ibid., p. 197.218 Id., ibid., p. 198.219 Cf. NICOLAU, Miguel. Laicado y santidad eclesial – colegialidad y libertad religiosa. Madrid:Studium, 1964, p. 32.
  18. 18. 72 A frutificação possível da missão do leigo na Igreja depende da sua entrega nasmãos de Deus. Segundo Illanes, a santidade é, ao mesmo tempo, realidade atual e meta,vida recebida e plenitude na direção em que se caminha220. Ou seja, o leigo não é auto-suficiente no exercício das suas tarefas, pois a missão não é dele. É na fonte que o leigodeve buscar alento para seu serviço, unir-se a Deus, na confiança de filho, pois oapostolado todo deriva de Jesus Cristo, que é a única fonte, da qual se origina a missão. Buscar a santidade e promover a vida são caminhos que devem ser sempreperseguidos por todos. Não é diferente para uma boa espiritualidade do leigo, que antesde tudo alimenta sua caminhada pela fé, pela oração, pela caridade e na Eucaristia. É fundamental que haja uma profunda espiritualidade do leigo, para que bempossa conduzir sua missão. Como afirma Urbano Zilles, essa espiritualidade alimenta-sedos meios próprios e comuns a todos os fiéis: “a Sagrada Escritura, a oração, osSacramentos, de modo especial a Eucaristia”221. Porém, não bastam somente essesmeios. Na verdade, além desses alimentos espirituais, é necessário que haja uma retidãono agir, caso contrario, de nada servem a oração e a Eucaristia, enfim, os meiosespirituais para a santificação. Seria como uma fé morta, a ausência do bom senso no agir, a omissão comrelação às injustiças praticadas contra aqueles que não podem defender-se. O calar-sediante das injustiças não é próprio de um cristão. U. Zilles explica que o maior pecadodo cristão continua sendo, não o mal praticado, mas o bem que ele deixa de fazer, ouseja, a omissão222. Walter Ebejer questiona: Como sacudir as massas de leigos católicos apáticos; como convencê- los para assumir sua identidade laical, com sua secularidade e,220 Cf. ILLANES, op. cit., p.166.221 ZILLES, U. Quem é o leigo...,loc. cit., p. 25.222 Id., ibid.,p . 25.
  19. 19. 73 principalmente, sua espiritualidade peculiar, e dar-lhes uma mística e um novo ardor de protagonistas especiais. Diz ainda que o Papa deixou bem claro que não seria possível a Nova Evangelização e a conseqüente Promoção Humana e Cultura Cristã, sem alcançarmos a santidade e o entusiasmo incontido produzido pelo evento original, e ao mesmo tempo atual, de pentecostes; assim despertando em todos um novo ardor, descobrindo novos métodos e novas expressões „na força e na potência imorredouras de Pentecostes tempos novos de Evangelização223.3.4 O leigo: fundamental para a evangelização Em todas as partes, os fiéis leigos devem estar presentes, a fim de colaborar,com a construção do Reino. Sua participação, juntamente com os ministros ordenados, éde suma importância, por isso seu engajamento dia a dia se torna mais necessário doque participações esporádicas. A participação dos leigos na vida da Igreja torna-se umfundamento para sua continuidade. Os fiéis leigos participam da vida da Igreja, não sópondo em ação os seus ministérios e carismas, mas também de muitas outras formas224. Toda a obra realizada na Igreja tem em vista o Reino de Deus. Por serinstrumento de Cristo, ela se torna um meio eficaz de salvação. João Paulo II reforça aidéia de que o Reino de Deus presente no mundo, sem ser do mundo, ilumina a ordem da sociedade humana, enquanto a força da graça a penetra e a vivifica. Assim notam-se melhor as exigências de uma sociedade digna do homem do agir em favor do bem. A esta tarefa de animação evangélica das realidades humanas estão chamados, juntamente com todos os homens de boa vontade, os cristãos, de modo especial os leigos225. Assim, os fiéis leigos devem encontrar uma forma ou outra de engajar-se namissão da Igreja e lançar-se ao serviço. João Paulo II, nos seus ensinamentos, afirma serabsolutamente necessário que cada fiel leigo tenha sempre viva consciência de ser um223 EBEJER, W. Perspectivas teológico-pastorais a partir da missão do cristão leigo. Teocomunicação,Porto Alegre, v. 24, n. 105, p. 395, set. 1994.224 CfL 25.225 JOÃO PAULO II. Carta encíclica Centesimus annus. São Paulo: Paulinas, 1991. 25.
  20. 20. 74„membro da Igreja‟, a quem se confia um encargo original insubstituível e indelegável,que deverá desempenhar para o bem de todos226. Os fiéis cristãos leigos devem ser participantes ativos na vida da Igreja, comsuas contribuições, que levam à satisfação das necessidades pastorais. Para o PapaWojtyla, o Concílio Vaticano II incita fortemente os fiéis leigos a viver operosamente asua pertença à Igreja particular, assumindo simultaneamente um respiro cada vez maiscatólico227. Nessa linha de reflexão, encontra-se o verdadeiro sentido missionário. Todocristão, por sua condição de batizado, é convocado ao trabalho. O Papa Wojtylalembra,“a voz de Jesus Cristo ressoa no íntimo do próprio ser de cada cristão, que,graças à fé e aos sacramentos da iniciação cristã, torna-se imagem de Jesus Cristo,insere-se na Igreja como seu membro vivo e é sujeito ativo da sua missão desalvação”228. A tarefa evangelizadora se dá na Igreja e no mundo, pois é no mundo que estãopresentes aqueles que ainda desconhecem o Salvador, por motivo de suas culturas e pelafalta de evangelização. Muitos estão nos confins geográficos e por isso ainda não foramatingidos por essa novidade. Cabe à Igreja fazer-se presente nesses meios. O mandado„Ide por todo o mundo‟ é urgente e de responsabilidade de todos os cristãos. Cabe acada um a responsabilidade e a generosidade de se colocar a serviço. Segundo JoãoPaulo II, A Igreja, ao perceber e ao viver a urgência atual de uma nova evangelização, não pode eximir-se da missão permanente de levar o Evangelho a quantos – e são milhões e milhões de homens e mulheres – não conhecem ainda Cristo, Redentor do homem. Essa é a tarefa mais especificamente missionária que Jesus confiou e continua todo o dia a confiar à sua Igreja. A ação dos fiéis leigos, que, aliás, nunca faltou neste campo, aparece hoje cada vez mais necessária e preciosa. Na verdade, a ordem do Senhor „Ide por todo o mundo‟ continua a encontrar muitos leigos generosos, prontos a deixar o seu ambiente de226 CfL 28.227 Id., ibid., 25.228 Id., ibid., 3.
  21. 21. 75 vida, o seu trabalho, a sua região ou pátria, para ir, ao menos por um certo tempo, para zonas de missão229. Assim o leigo tem um papel importante nessa obra de Deus. A participação quotidiana do leigo na missão da Igreja é o que torna possível adifusão maior na comunhão eclesial das suas ações particulares, ou seja, ele se põe aserviço juntamente com todos os membros da sua Igreja. Segundo Illanes, “a Igreja seencaminha precisamente a servir a comunhão entre os homens e Deus econseqüentemente dos homens entre si e o resto da criação”230. Santo Domingo ensina: O povo de Deus está constituído em sua maioria por fiéis leigos. Eles são chamados por Cristo como Igreja, agentes e destinatários da Boa Nova da Salvação, a exercer no mundo, vinha de Deus, uma tarefa evangelizadora indispensável. A eles se dirigem hoje as palavras do Senhor „Ide também vós para a vinha‟ (Mt 20, 3-4) e estas outras: „Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura‟ (Mc 16,15)231. O laicato é um modo de ser do cristão, é uma condição de vida, e suaimportância para a vida da Igreja é fundamental. Sem a efetiva participação do laicato,a dinâmica da Igreja seria muito difícil de se realizar. No mundo há várias formas epossibilidades de realizações dos trabalhos; há espaços específicos para os clérigos epara os leigos. O leigo tem que ser, sim, um membro ativo. F. Alexandre lembra que mesmo osmais humildes e os mais pobres dos cristãos são lavados, resgatados pelo batismo. Elesnão são mais então „os filhos da necessidade e da ignorância, mas da eleição e daciência‟232.229 Id., ibid.,35.230 ILLANES, op. cit., p. 101.231 DSD 94.232 FAIVRE, Alexandre. Os leigos nas origens da Igreja. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 48.
  22. 22. 76 O fundamental da presença do leigo na missão é que haja uma unidade em tornodela. Leigos e clérigos devem falar uma mesma linguagem, conhecer o teor da missão ebuscar uma forma de atendê-la dentro da sua diversidade, isto é, ninguém executaqualquer tipo de tarefa, se não conhece seu fim. Paul Stevens faz a seguinte reflexão: A Igreja é por natureza diferente de todas as outras sociedades da terra. Em Efésios 2, Paulo fala sobre a parede derrubada que antes separava judeus de gentios. A partir de dois povos antes estranhos, Deus criou uma nova humanidade. Paulo dá a entender nessa passagem que, se Deus pode unir judeus e gentios, não há nenhuma outra dupla de povos que não possa ser unida em Cristo233. Assim sendo, mesmo que a Igreja seja dirigida pela hierarquia, pois foi o próprioCristo quem a quis assim, deve haver uma união entre clérigos e leigos, no sentido deatender todas as necessidades da Igreja e do mundo. Conclui-se que a presença ativa dos fiéis leigos na Igreja, atuando edesempenhando as tarefas necessárias, é cada vez mais vinculada à urgência da missão.Em comunhão com o clero, as atividades são exercidas de modo que a Igreja cresçacada vez mais no mundo e descubra sempre, nas obras realizadas, a presença carinhosade Deus Pai e a sua salvação trazida por Jesus Cristo, através da conversão de cada umde seus filhos.3.5 A relação dos leigos com a hierarquia e com os consagrados O Papa Wojtyla lembra, a comunhão eclesial configura-se, mais precisamente, como uma comunhão orgânica, análoga à de um corpo vivo e operante: ela caracteriza-se pela diversidade de vocações. Graças a essa diversidade, cada fiel leigo encontra-se em relação com todo o corpo e dá-lhe o seu próprio contributo234.233 STEVENS, P. A hora e a vez dos leigos. São Paulo : ABU, 1998, p. 117.234 CfL 20.
  23. 23. 77 Para o bem da Igreja é importante que se estabeleça a harmonia entre seusmembros. Em qualquer setor da sociedade, a união contribui para o crescimento. NaIgreja não é diferente. O Concílio Vaticano II lembra que “os sagrados Pastoresreconheçam e promovam a dignidade e a responsabilidade dos leigos na Igreja. De boavontade utilizem-se do seu prudente conselho. Com confiança entreguem-lhes ofíciosno serviço da Igreja”235. Há que se buscar o fundamento evangélico da relação dos leigos com osconsagrados, isto é, como se pode compreender essa unidade para a realização dastarefas na Igreja. Dentro das diversas possibilidades do exercício das funções pastorais,encontram-se os vários segmentos que tornam possíveis essas realizações. Oimportante é que a missão deixada por Jesus Cristo seja assumida pelo povo de Deus: Os contatos com os leigos, no caso de Institutos monásticos e contemplativos, apresentam-se prevalentemente como uma relação espiritual, enquanto que, para os Institutos empenhados na vertente do apostolado, se traduzem em formas de colaboração pastoral. Os membros dos Institutos seculares, leigos ou clérigos, relacionam-se com os outros fiéis nos moldes ordinários da vida quotidiana. Hoje alguns Institutos, freqüentemente por imposição das novas situações, chegaram à convicção de que o seu carisma pode ser partilhado com os leigos. E assim estes são convidados a participar mais intensamente na espiritualidade e missão do próprio Instituto. Pode-se dizer que, no rasto de experiências históricas, como a das diversas Ordens seculares ou Ordens Terceiras, se iniciou um novo capítulo, rico de esperanças, na história das relações entre as pessoas consagradas e o laicado236. Outras considerações acerca da relação entre leigos e consagrados podem serfeitas. É na realização do serviço evangélico que se consuma a unidade de fé entre osmesmos. A ajuda mútua entre leigos e consagrados resultará finalmente na realização datarefa da missão: Em qualquer atividade ou ministério em que estejam empenhadas, as pessoas consagradas lembrem-se de que hão de ser primariamente guias especializados de vida espiritual, e, nesta perspectiva, cultivem « o talento mais precioso: o espírito ».Os leigos, por sua vez, ofereçam às235 LG 37.236 JOÃO PAULO II. Vita Consecrata. São Paulo: Paulinas, 1996. 54.
  24. 24. 78 famílias religiosas a ajuda preciosa da sua secularidade e do seu serviço específico237. Também os leigos tornam-se importantes nessa relação com os consagrados, apartir de sua adesão aos institutos, sem que para isso haja qualquer tipo de prejuízo, notocante à identidade a que se refere cada um destes segmentos. Uma expressão significativa de participação laical nas riquezas da vida consagrada é a adesão de fiéis leigos aos diversos Institutos, na nova forma dos chamados membros associados ou, segundo as exigências de alguns contextos culturais, de pessoas que partilham, por um certo período de tempo, a vida comunitária e a específica consagração contemplativa ou apostólica do Instituto, sempre com a condição, obviamente, de que a identidade da sua vida interna não sofra dano238. João Paulo II conclama o povo de Deus à inteira adesão, em favor daperseverança da vida consagrada, com estas palavras: A todos os fiéis pede-se uma oração constante pelas pessoas consagradas, para que o seu fervor e a sua capacidade de amar aumentem continuamente, contribuindo para difundir, na sociedade actual, o bom perfume de Cristo (cf. 2 Cor 2,15). Toda a comunidade cristã — pastores, leigos e pessoas consagradas — é responsável pela vida consagrada, pelo acolhimento e amparo prestado às novas vocações239. No tocante à questão da índole do leigo e do ministro consagrado, o PapaWojtyla lembra: Os leigos, em virtude da índole secular da sua vocação, refletem o mistério do Verbo encarnado, sobretudo enquanto Ele é Alfa e Ómega do mundo, fundamento e medida do valor de todas as coisas criadas. Os ministros sagrados, por sua vez, são imagens vivas de Cristo, Cabeça e237 Id., ibid., 55.238 Id., ibid., 55.239 Id., ibid., 105.
  25. 25. 79 Pastor, que guia o seu povo neste tempo do « já e ainda não », na expectativa da sua vinda gloriosa240. W. Ebejer Acerca do tema em destaque diz: Jesus Cristo enriqueceu seu Povo e instituiu na sua Igreja um grupo especial de discípulos a quem deu sua Missão e consagração de Mediador e cabeça, constituindo-os chefes de suas comunidades para perpetuar sua presença e sua missão que recebera do Pai. A hierarquia, que surgiu do grupo original dos Doze Apóstolos, tem a missão de ensinar, governar e santificar os outros cristãos fiéis, membros da mesma Igreja de Cristo. A hierarquia está a serviço dos fiéis, seus irmãos, fiéis especificamente incumbidos com a tarefa das realidades terrestres: família, sociedade, política, produção de bens, cultura, etc., para tudo impregnar ou perpassar com o espírito purificador e renovador de Cristo, para glória de Deus Pai, num combate ao mal que deforma, destrói, falsifica e aliena do plano divino original toda a criação e as próprias atividades humanas241. Parece mesmo que a relação maior entre leigos, hierarquia e consagrados é oserviço, seja na formação, seja no anúncio. A respeito da matéria sobre a relação dosleigos com a hierarquia, o Papa Wojtyla lembra que “o reconhecimento dos leigos comomembros da Igreja, com pleno direito, exclui uma identificação com a hierarquia, porémseria um erro anti evangélico conceber a Igreja exclusivamente como um corpohierárquico, uma Igreja sem povo”242. “Clérigos e leigos, hierarquia e fiéis não-ordenados, formam um só povo de Deus, uma só Igreja-comunhão de seguidores deCristo. A Igreja é de todos e de cada um, e todos somos responsáveis por sua vida edesenvolvimento”243.240 Id., ibid.,16.241 EBEJER, W. O laicato: autoconsciência e estruturação eclesial. Teocomunicação, Porto Alegre, v. 25,n. 107, p. 39, mar. 1995.242 JOÃO PAULO II. Creo en la Iglesia-Catequesis sobre el credo. Madrid: Palabra, 1997, p. 404.243 Id., ibid., p. 404.
  26. 26. 80 Na verdade, existe uma relação e mútua ajuda na execução de tarefasfundamentais na divulgação do Reino de Deus, pois esta é a principal tarefa da Igreja nomundo. A realização de tais tarefas depende do engajamento de cada um, seja comoleigo, como sacerdote ou como consagrado.

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