Aristóteles, nosso contemporâneo.Por: Sergio PenaProfessor Titular do Departamento de Bioquímica e ImunologiaUniversidade ...
Estatuto da Igualdade Racial? Mesmo nesses tempos pós-mendelianos e pós-genômicos asidéias do velho Aristóteles continuam ...
recorrente invenção de explicações teleológicas fantasiosas e barrocas. Vem daí, também, umaintolerância quase visceral qu...
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Aristóteles, nosso contemporâneo

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Aristóteles, nosso contemporâneo

  1. 1. Aristóteles, nosso contemporâneo.Por: Sergio PenaProfessor Titular do Departamento de Bioquímica e ImunologiaUniversidade Federal de Minas GeraisPublicado em 11/08/2006... Realmente Platão (428/27-347 a.C.) foi um filósofo que tinha a cabeça nas nuvens, o grandeteórico da metafísica. Sua influência sobre o pensamento ocidental foi imensa. O filósofo doséculo 20 Alfred North Whitehead (1861-1947) chegou a dizer que toda a filosofia não passavade uma nota de rodapé a Platão. Para dar uma pequena medida de sua importância, bastadizer que grande parte da doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana está alicerçada emuma leitura cristã de Platão feita inicialmente por Plotino (205-270) e, mais tarde, por SantoAgostinho (354-430).Já Aristóteles (384-322 a.C.), aluno de Platão (e que aluno!), tinha os pés no chão e estavaligado à terra - foi o filósofo da realidade concreta. Foi ele quem articulou, sistematizou eexplicou nossa relação com o mundo empírico. Assim, lado a lado com suas fundamentaiscontribuições para a ética e para a lógica, foi um cientista experimental e, como tal, o primeirogrande biólogo. A contribuição filosófica de Aristóteles foi fantástica, mas infelizmente nãotemos aqui o espaço necessário para discorrer sobre ela e vamos nos ater a alguns pontosrelacionados com hereditariedade e evolução. Aos interessados, recomendo uma consulta àaccessível e excelente História do pensamento ocidental de Bertrand Russell (1872-1970).O pensamento de Aristóteles continua vivoA maioria das pessoas pode acreditar que o pensamento científico de Aristóteles caducou e seextinguiu com a Revolução Científica dos séculos 17 e 18. Quero argumentar nesta coluna que,longe disso, embora o filósofo esteja morto há 2300 anos, suas idéias continuam muito vivas eainda influenciam a maneira como a sociedade leiga e alguns segmentos da comunidadecientífica do século 21 pensam e falam sobre hereditariedade, genética e evolução.A teoria de hereditariedade apresentada por Aristóteles foi a mais influente do mundo antigo.Ele corretamente intuiu que tanto o pai quanto a mãe contribuem com material genético paraa formação da criança. Entretanto, segundo ele, esta contribuição ocorria por uma mistura desangues - o sêmen masculino, nada mais sendo que sangue purificado constituía a fonte davida e da forma, enquanto o sangue menstrual feminino, menos puro, contribuía com a partematerial do embrião.Hoje, é lógico, nós cientistas sabemos que essas ideias estavam completamente erradas.Afinal, conhecemos tudo sobre as leis de Mendel e a estrutura de DNA dos genes. Então, podeo leitor me explicar por que tantos em nossa sociedade continuam a falar em famílias de“sangue ruim” e em aristocratas de “sangue azul”? E por que gira em torno de quem tem“sangue negro” a maioria dos debates recentes da imprensa brasileira sobre as cotas e o
  2. 2. Estatuto da Igualdade Racial? Mesmo nesses tempos pós-mendelianos e pós-genômicos asidéias do velho Aristóteles continuam muito vivas!A natureza não faz nada em vãoUm segundo conceito de Aristóteles que perdura e influencia as ideias atuais sobre genética eevolução é o de que “a natureza não faz nada em vão”. Para entender a gênese dessa ideia,precisamos recapitular a noção aristotélica das quatro causas. De acordo com o filósofo,sempre que pensamos no mundo em termos de causas, ou seja, quando perguntamos por queisto ou aquilo ocorreu, há sempre quatro parâmetros: a causa material, a causa eficiente, acausa formal e a causa final.Para ficar mais claro, imaginemos a construção de uma casa. A causa material da casa são seuselementos estruturais: as vigas, os tijolos, o cimento etc. A causa eficiente (ou motora) éformada pelo engenheiro e pelos operários que vão de fato erguê-la. A causa formal é a plantada casa, que mostra como ela será construída, a sua organização. E temos a causa final, que é arazão pela qual a casa foi construída, que pode ser para servir de morada, para proteger contraas intempéries ou contra ladrões.Aristóteles ampliou sua teoria sobre as quatro causas para explicar todos os fenômenosnaturais e a própria natureza. Para ele, a causa final, ou seja, a explicação teleológica (de telos= fim, objetivo) era a mais importante delas, pois tudo no mundo acontece para preencheruma necessidade. Segue que a natureza é perfeita, já que tudo nela tem uma causa final, umarazão, uma explicação. Daí a ideia aristotélica de que “a natureza não faz nada em vão”.Observe o leitor que essa lente teleológica faz a conexão da causalidade com a inteligibilidadeda natureza.O paradigma teleológico ganha força pela nossa observação de que a natureza parece teralguma ordem e porque os organismos aparentam ser extremamente bem adaptados aos seusambientes. Entretanto, as explicações teleológicas esbarram em problemas óbvios e graves.Basta lembrar que causas finais não são propriedades intrínsecas da natureza, mas simprojeções da mente humana tentando fazer sentido da experiência empírica.A crença teleológica ingênua pode nos levar a alguns extremos ridículos. Por exemplo, a cascada melancia não possui listras para indicar o local do corte e permitir a sua divisão na refeiçãoda família e nem as pulgas são escuras para facilitar sua detecção, como foi sugerido pelonaturalista Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814). Este tipo de explicação simplista foiparodiado de maneira brilhante no romance Cândido , de Voltaire (1694-1778). Um dospersonagens, Professor Pangloss, tutor de Cândido, era adepto de explicações teleológicas edizia, por exemplo, que a causa final da existência do nariz era servir de apoio aos óculos.Ridículo, não?Entretanto, a noção igualmente ridícula de que o objetivo final dos organismos vivos é“sobreviver e transmitir seus genes” não nos parece tão risível simplesmente porque esta ideiaaristotélica continua amplamente ventilada em rodas biológicas atuais. E o viés epistemológicode que “a natureza não faz nada em vão” ainda hoje leva a ciência a uma busca desesperadapara causas finais em tudo, do DNA não-codificador à morfologia dos seres vivos, com a
  3. 3. recorrente invenção de explicações teleológicas fantasiosas e barrocas. Vem daí, também, umaintolerância quase visceral que certos círculos científicos expressam com relação a umimportante papel da contingência e da aleatoriedade na natureza.O paradigma panglossianoNo primeiro capítulo de Cândido, o protagonista é punido por ter flertado com a filha dobarão, dono do castelo onde ele morava. Ali, Cândido recebia ensinamentos do professorPangloss, cujas aulas de "metafísico-teólogo-cosmolonigologia" eram recheadas de elementosda filosofia aristotélica (gravura de Moreau le Jeune de 1787 para as obras completas deVoltaire).Em 1979, dois dos meus heróis científicos, o paleontólogo Stephen Jay Gould (ver coluna deabril) e o geneticista Richard Lewontin (que será a estrela de uma coluna futura) publicaramum artigo genial intitulado “The spandrels of San Marco and the panglossian paradigm: acritique of the adaptationist programme” (minha tradução do título: ‘Os tímpanos de SãoMarcos e o paradigma panglossiano: uma crítica ao programa adaptativo’).Nesse texto, de leitura árdua, mas fascinante e absolutamente obrigatória para qualquerpessoa interessada em evolução, o duo dinâmico critica severamente o modelo evolucionistaortodoxo baseado na crença fervorosa em um poder otimizador da seleção natural. Estemodelo, que eles chamam de “paradigma panglossiano” (ou seja, reminiscente do ProfessorPangloss) tem um ranço teleológico de inspiração aristotélica e constitui a essência de muitasdas ideias panselecionistas que alicerçam a sociobiologia e a psicologia evolutiva. Destamaneira, fica claro que, em muitos modelos evolucionários vigentes, o pensamento deAristóteles continua vivo e passando muito bem, obrigado.Para concluir, quero mencionar outro tópico no qual a influência do filósofo grego continuapresente. Para Aristóteles, em termos teleológicos, a semente potencialmente contém aplanta e o que a faz germinar e crescer é a sua tendência a se “realizar” como planta. Esteraciocínio sobrevive hoje com nova roupagem: a noção de que o embrião humano “contém”todo o futuro ser adulto. Esta visão está errada por duas razões pelo menos. Primeiro, elaignora a fundamental importância do ambiente e de sua interação com o genoma nodesenvolvimento do indivíduo. Segundo, ela ignora o fato de que, em concepções naturais, ataxa de perdas gestacionais é muito grande, próxima de 50%. Um em cada dois embriõeshumanos inevitavelmente morre no útero ao invés de nascer. Apesar disso, a Igreja Católica eGeorge W. Bush, em uma estranha aliança, usam o raciocínio aristotélico para argumentar queo embrião e o adulto têm o mesmo status moral, tentando transformar a pesquisa médica comembriões humanos em um tabu bioético.Quando Galileu (1564-1642) ousou questionar o estapafúrdio modelo aristotélico das esferascelestes, que havia sido incorporado à doutrina da Igreja Católica na época, ele foi taxado deherege, preso e ameaçado de morte na fogueira, caso não se retratasse. Agora, o fantasma deAristóteles volta a se aliar às forças conservadoras que se opõem aos avanços científicos, destavez contribuindo para obstruir a importantíssima pesquisa com células-tronco embrionárias.

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