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Wittgenstein
A Filosofia de Wittgenstein
l. A Origem da filosofia "Analítica"

Muito se tem escrito nos últimos anos sobre a vida e a filosofia de Ludwig Wittgenstein
(1889-1951?. Atualmente, ele é considerado por muitos o filósofo mais importante de
nosso século. Todavia, é difícil enquadrar seu pensamento na história da filosofia, em
parte devido à sua iconoclasta posterior e, em parte, porque, como Frege, ele parte de
reflexões que, à luz dessa história, podem parecer provincianas e até mesmo
desprovidas de qualquer importância filosófica. Portanto, à guisa de introdução, é
necessário dizer algo sobre o estado da filosofia inglesa quando Wittgenstein veio a se
interessar por ela. Tal interesse prenunciou a prolongada influência que as idéias
vienenses vieram a exercer sobre o pensamento angloamericano. Devemos retroceder
um pouco no tempo, até as doutrinas de Russell e Moore.

Bertrand Arthur, terceiro Conde Russell (I872-1970), tem sido até aqui associado à
nova lógica, por ele transformada em poderoso instrumento de análise filosófica. Não
menos importante, historicamente falando, foi seu amigo G. E. Moore (1873-1958), que
escreveu importante tratado sobre ética, o Principia Ethica (I903), e se opôs
inexoravelmente a todas as formas de especulação metafísica que parecessem subverter
as verdades estabelecidas do senso comum. Juntos, Moore e Russell dedicaram-se à
demolição das doutrinas do idealismo britânico, como foram apresentadas por Bradley
(em Oxford) e J, M. McTaggart (1866-1925), em sua própria Universidade de
Cambridge. Russell, em sua obra inicial sobre os fundamentos da geometria, reconhece
a influência da Lógica de Bradley. Isso, porém, não o impediu de discernir, na famosa
prova do caráter provisório de objetos e qualidades proposta por Bradley (ver p. 235),
uma confusão entre o "é" da predicação e o "é" da identidade, ou de acusar Bradley e
McTaggart de prestidigitadores em quase todas as provas que ofereceram da
inadequação de nossas concepções de espaço, tempo e matéria baseadas no senso
comum. Moore aderiu ao combate, acrescentando mais asserções peculiarmente
dramáticas do que argumentos. Fez a seguinte pergunta: Como é possível que minha
crença de que tenho duas mãos seja menos certa que a validade de todos os argumentos
filosóficos que se têm aduzido para refutá-la? A combinação da volátil lógica de Russell
com a vigorosa recusa de Moore a pensar além de seu nariz ou de suas mãos mostrou-se
extremamente destrutiva, tornando-se moda descrever a metafísica idealista não como
falsa, mas como sem sentido. Outros filósofos - notavelmente Hume - tinham f eito
afirmações semelhantes. No entanto, agora, mais do que nunca, parecia possível provar
o que fora dito, desenvolvendo-se uma teoria da estrutura da linguagem que mostrasse
precisamente o que podia e o que não podia ser dito. E supôs-se que, entre as coisas que
não podiam ser ditas, a metafísica era a mais facilmente reconhecível.

A primeira teoria desse tipo foi o atomismo lógico, prenunciado por Russell e expresso
de modo mais ou menos completo por Wittgenstein, em seu Tractatus Logico-
Philosophicus (1921). Essa obra, que chegou ao ponto de ser mais sucinta que a
Monadologia de Leibniz, pretendia responder de forma definitiva as questões da
filosofia. Ao escrevê-la, Wittgenstein inspirou-se, em parte, na famosa teoria das
descrições, proposta por Russell e publicada num artigo que F. P. Ramsey (I903-1930)
descreveu como "paradigma de filosofia". Assim sendo, tal teoria servirá como
introdução adequada à obra de Wittgenstein.
2. A Teoria das Descrições

É estranho, e no entanto verdadeiro, o fato de uma das mais importantes publicações
referentes à filosofia moderna ter tido como objetivo aparente explicar o significado do
artigo definido. Russell pergunta: qual a diferença entre as sentenças "uma montanha de
ouro existe" e ``a montanha de ouro existe"? A primeira expressão é assim explicada
pela nova lógica: o predicado "montanha de ouro" é instanciado ou, de modo mais
formal, existe um x tal que x é uma montanha de ouro. Essa proposição é obviamente
falsa. Mas que dizer da segunda proposição? Aqui, a palavra "o" parece transformar o
predicado "montanha de ouro" naquilo que Russell chamaria de expressão denotadora (e
que Frege chamou de nome). Trata-se de um estranho efeito da gramática, que tem uma
conseqüência lógica ainda mais estranha, ou seja, a de que a sentença parece referir-se a
alguma coisa - a montanha de ouro. Mas como é isso possível, se não existe montanha
de ouro? Russell alegou que temos aqui um caso paradigmático de uma forma
gramatical que dissimula a forma lógica de uma sentença. Tomando como exemplo sua
própria definição e a implícita definição fregeana de números, oferece uma definição
implícita da palavra "o". Não podemos dizer explicitamente o que o termo "o" denota,
mas podemos mostrar como eliminá-lo de todas as sentenças em que ocorre.

Consideremos a sentença "o Rei da França é calvo". Para que isso seja verdade, deve
existir um rei da França e ele deve ser calvo. Ademais, para apreender o sentido
distintivo da palavra "o", devemos acrescentar que só existe um rei da França. As
condições que formam a sentença verdadeira conferem-lhe o significado;
conseqüentemente, podemos dizer que "o Rei da França é calvo" eqüivale à conjunção
de três proposições: "existe um rei da França; tudo que é rei da França é calvo; e só
existe um rei da França''. (Mais formalmente - existe um x tal que x é um rei da França e
x é calvo, e, para todo y, se y é um rei da França, y é idêntico a x.) Essa análise leva-nos
a concluir que, se não existe um rei da França, a sentença original é falsa. A expressão
"o Rei da França", que parecia uma expressão denotadora ou nome, de fato não é tal
coisa, mas um predicado associado a uma alegação existencial oculta. Como Russell
assinala, o Rei da França é uma ficção lógica (Podemos encontrar um antecedente
histórico para esse tipo de teoria filosófica na teoria benthamita das ficções.)

Filosoficamente falando, Russell se opôs a certos fenomenologistas (notadamente,
Alexius Meinong (1853-1920)), que pretenderam concluir que, se podemos pensar em
algo como a montanha de ouro, essa coisa deve, em certo sentido, existir. (Se o leitor
não gosta da palavra "existir', então se oferece outra palavra - "subsistir' - para não ferir
suas delicadas suscetibilidades lógicas.) Russell não chegou a compreender totalmente
que Meinong e seus companheiros se dedicaram menos à investigação da lógica da
denotação que ao exame do "objeto" intencional" do pensamento. Entretanto, seja como
for, o argumento de Russell presta-se à generalização imediata, proporcionando, nessa
forma generalizada, uma base para a filosofia do Tractatus.

3. 0 atomismo lógico e o Tractatus

De acordo com o Tractatus, tudo que pode ser pensado também pode ser dito. 0s limites
da linguagem são, portanto, os limites do pensamento, de modo que uma completa
filosofia do " do que pode ser dito" será uma teoria completa do que Kant denominara
"o entendimento". Todos os problemas metafísicos decorrem da tentativa de dizer o que
não pode ser dito. Uma análise apropriada da estrutura dos termos utilizados nessa
tentativa mostrará tal coisa e, desse modo solucionará ou diluirá problemas.

Então, qual é a estrutura da linguagem? Wittgenstein dividiu todas as sentenças em
complexas e atômicas, afirmando que as primeiras eram construídas a partir das
segundas mediante regras de formação que podiam ser interpretadas detalhadamente em
termos da lógica de Russell. As sentenças atômicas são aquelas que empregam os
primitivos da linguagem` isto é, os nomes e predicados elementares que, sendo
indefiníveis, servem para distinguir (ou "descrever") o que Wittgenstein chamou de
fatos atômicos. Só uma proposição completa pode ser verdadeira ou falsa e, por
conseqüência, só uma proposição completa pode dizer-nos algo sobre o mundo.
Conseqüentemente, o constituinte mais básico do mundo é o que corresponde à sentença
atômica. Esse constituinte básico é o fato atômico, sendo o mundo, portanto, a
totalidade de tais fatos.

Os fatos complexos correspondem às proposições complexas e, para compreender tais
fatos complexos, é necessário que compreendamos a complexidade da linguagem usada
para expressá-los. E essa complexidade é inteiramente proporcionada pela lógica
fregeana e russelliana. Assim sendo, "o Rei da França é calvo" é (embora não pareça)
uma sentença complexa, visto que sua verdadeira estrutura (ou seja, sua estrutura como
representada pela nova lógica) mostra que ela consiste em três sentenças incompletas,
combinadas e completadas pela quantificação e pelo conectivo "e". Muitas sentenças
assemelham-se a essa. Parecem básicas, mas, de fato, são complexas. Geralmente,
muitas coisas a que nos referimos são construções lógicas (ou ficções). As sentenças
que as descrevem são abreviações de sentenças mais complexas referentes aos
constituintes de fatos totalmente diferentes, porém mais básicos, em que essas
"construções lógicas" não ocorrem. Uma sentença como "um homem médio tem 2,6
filhos" é realmente uma abreviação de uma sentença matemática complexa que
relaciona o número de filhos dos homens com o número de homens. "0 homem médio"
não caracteriza qualquer sentença atômica, ou seja, não nomeia qualquer constituinte da
realidade. Pode-se dizer o mesmo com relação à nação inglesa e a muitas entidades
``metafísicas" que aparentemente têm suscitado problemas filosóficos. Wittgenstein foi
menos específico que Russell, e certamente menos específicos que os positivistas
lógicos, para que, não obstante, o Tractatus proporcionou todo um sistema de
argumentação filosófica, no que se refere a que fatos são atômicos e que fatos não o são.
Ele pretendia enunciar claramente a estrutura lógica do mundo, não se preocupando
com seu conteúdo real.

A característica mais importante das sentenças complexas é que os conectivos usados
para construí-las devem ser "veri-funcionais", isto é, devem ser tais que o valor-de-
verdade da sentença complexa seja inteiramente determinado pelos valores de verdade
de suas partes. Trata-se do "princípio da extensionalidade, com o qual já nos deparamos
ao discutir Frege e que, de acordo com Wittgenstein, é uma precondição do pensamento
e da análise lógicos. A lógica ocupa-se apenas da transformação sistemática de valores-
de-verdade; por conseguinte, uma linguagem lógica deve ser transparente aos valores-
de-verdade. Deve ser possível perceber toda operação em termos da transformação da
verdade e da falsidade. (A palavra "não" tem o sentido de transformar a verdade em
falsidade e a falsidade em verdade: a palavra "se", o de tornar falsa uma sentença
complexa se o antecedente é verdadeiro e o conseqüente, falso; caso contrário, ela a
torna verdadeira; e assim por diante.)
A noção de linguagem veri-funcional confere exatidão e força à alegação de
Wittgenstein de que há uma distinção real entre sentenças atômicas e não-atômicas. Ele
é capaz de dizer não apenas o que é a distinção, mas, o que é mais importante como
somos capazes de compreendê-la. Não é difícil para uma linguagem veri-funcional
explicar de que modo a compreensão de sentenças atômicas leva à compreensão de
todos os complexos infinitos que podem ser construídos a partir delas. (Essa é outra
aplicação de um princípio de Frege que discutimos nas pp. 247-48.) As condições-de-
verdade de uma sentença complexa formada de maneira veri-funcional podem ser
extraídas imediatamente das condições-de-verdade de suas partes. E, em conseqüência,
se compreendermos as condições-de-verdade das partes, compreenderemos o todo.

Além disso, Wittgenstein é capaz de proporcionar uma nova e aparentemente clara
distinção entre o necessário e o contingente, o analítico e o sintético, o a priori e o a
posteriori. Tais distinções reduzem-se à distinção entre verdade lógica e contingência.
Uma sentença é uma verdade lógica caso resulte verdadeira através da substituição,
pelos termos, dos componentes "primitivos" nela presentes. (Uma parte primitiva é
aquela que não admite qualquer definição ulterior. ) 0 paradigma de verdade lógica é a
"tautologia" veri-funcional. Consideremos a sentença "p 0o q". A definição de "ou" é: p
ou q é falso se tanto p quanto q forem falsos e, em caso contrário, verdadeiro. A
definição de "não" é a seguinte: não-p é verdadeiro se p é falso, e falso se p é
verdadeiro. Isso quer dizer que a sentença "p ou não-p" é sempre verdadeira, qualquer
que seja o valor-de-verdade de "p". Desse modo não importa como substituímos o termo
primitivo "p", pois isso resultará sempre numa sentença verdadeira. As sentenças que
assumirem tal forma são portanto, necessariamente verdadeiras, podendo ser
consideradas verdadeiras a priori por qualquer um que compreenda as operações lógicas
da linguagem.

Para Wittgenstein, essa teoria da verdade necessária tem como conseqüência o fato de
as verdades necessárias serem vazias: nada dizem porque nada excluem. São
compatíveis com todo estado de coisas. 0 mundo é descrito pela totalidade das
proposições atômicas verdadeiras; estas são verdadeiras, mas, sendo atômicas, poderiam
ser falsas, já que nada em sua estrutura determina seu valor-de-verdade. Outra maneira
de dizer isso é que os fatos existem no "espaço lógica" que define as possibilidades; as
sentenças atômicas verdadeiras descrevem o que é real, enquanto as tautologias refletem
propriedades do próprio espaço lógico.

Essa avaliação da linguagem suscita profundos problemas metafísicos. Em primeiro
lugar, há o problema da relação entre sentenças atômicas e fatos atômicos. Wittgenstein
chama essa relação de "figuração", e tal metáfora tem enganado muitos dos que tentam
comentá-las. Ele também diz que a relação não pode ser descrita, mas apenas mostrada;
de fato, sua concepção era de que se deve mostrar o que é mais básico; caso contrário,
nunca poderíamos começar a descrição. E não está claro exatamente o que ele quis dizer
com "mostrar". Quiçá a melhor maneira de compreender essa teoria - às vezes chamada
de "teoria figurativa do significado" - seja negar, para usar uma expressão ulterior de
Wittgenstein, que podemos usar a linguagem "para nos situarmos entre a linguagem e o
mundo". Não podemos avaliar com palavras a relação entre um fato atômico e uma
proposição atômica, a não ser usando a proposição cuja verdade estamos tentando
explicar. Não podemos "pensar" no fato atômico sem pensarmos na sentença que o
"figura". Os limites do pensamento são os limites da linguagem. Wittgenstein conclui
seu livro com o lacônico enunciado: "o de que não se pode falar deve-se calar".
Um dos problemas com que a filosofia do Tractatus se depara reside nesse próprio
procedimento. Só as sentenças atômicas, os complexos veri-funcionais e as tautologias
são significativos. Mas que dizer da teoria que afirma isso? Ela não é sentença atômica,
nem complexo; não pretende dizer, como as coisa s são, mas como devem ser. Mas não
é uma tautologia. Então, é sem sentido? Wittgenstein realmente diz "sim", e com esse
gesto ousado aproxima-se da conclusão de sua doutrina, acrescentando que suas
proposições devem servir de escada a ser descartada pelos que por ela subiram.

4. Wittgenstein e a Análise Linguística

0 Tractatus possui um pouco da fascinação da primeira Crítica de Kant, ou seja, a
fascinação de um doutrina que, na medida do possível, luta para descrever os limites do
inteligível, somente para, ao fazê-lo, ser compelida a transcendê-los. Em momento
algum Wittgenstein reconhece a semelhança de seu pensamento com o de Kant, ou, de
fato, com o de qualquer outro, exceto o de Russell, mas a comparação entre os dois
filósofos torna-se cada vez mais impressionante, de tal modo que alguns têm
considerado a argumentação de sua obra póstuma, intitulada Investigações Filosóficas,
o complemento final da Dedução transcendental de Kant.

A filosofia posterior de Wittgenstein desenvolveu-se a partir de uma reação à anterior,
ou a determinada interpretação dela extremamente influente. No Tractatus, a metafísica
do atomismo lógico é apresentada quase que sem referência a qualquer teoria específica
do conhecimento. A própria versão de Russell sobre a teoria era decididamente
empirista, identificando os "fatos atômicos" como relativos ao conteúdo imediato da
experiência (ou dados sensoriais, como Russell os chamou). Utilizando o aparato da
teoria de Wittgenstein, Russell foi capaz de reformular uma versão empirista com o
espírito cético de Hume, propondo interpretar toda entidade no mundo que não seja
dado sensorial como "construção lógica". Caso de fato, queiramos, ou não referindo-nos
a tabelas referir-nos a construções lógicas a partir de dados sensoriais, isso é tudo que,
de acordo com Russell, podemos pretender. Como ele assinala, "onde for possível, as
construções lógicas devem ser substituídas por entidades inferidas". Desse modo, a
filosofia dá um passo na direção do positivismo lógico pelo qual todas as doutrinas
metafísicas, éticas e teológicas são sem sentido, não devido a algum defeito do
pensamento lógico, mas por não poderem ser verificadas. 0 slogan do positivismo - o
significado de uma sentença é seu método de verificação - é tirado do Tractatus, como
grande parte do aparato mediante o qual se buscou livrar o mundo de entidades
metafísicas. Mas estava imbuído do mesmo espirito que Hume, e suas principais teorias
eram reformulações das doutrinas humanas concernentes à causalidade, ao mundo físico
e à moralidade, em termos não de uma teoria "genética" do significado, mas de uma
teoria "analítica". A época em que tal programa estava em andamento, com a obra de
Rudolf Carnap (1891-1970) e outros pensadores do chamado "Círculo de Viena" (ver
especialmente a obra de Carnap intitulada Estrutura Lógica do Mundo, 1928),
Wittgenstein renunciou totalmente ao atomismo e seus resultados, parou de publicar e
iniciou uma existência hermética e nômade, a que assegurou, até sua morte, que sua
influência se exercesse apenas sobre os que tiveram o privilégio de conhecê-lo
pessoalmente ou que chegaram a ver os manuscritos que ele ocasionalmente nos
mostrou. 0 mais famoso desses manuscritos - Os cadernos azuis e marrons - chegou a
Oxford na década de 1940, precipitando a escola de "análise lingüística", para a qual J.
L. Austin (1911-60) e Gilbert Ryle ( 1900-1977 ) já tinham preparado o terreno. No
entanto, não discutirei essa escola, composta por tantas e tão inexpressivas figuras que
se caracteriza menos por abraçar qualquer doutrina que por ter-se recusado a apoiar
alguma delas. Nem tecerei considerações sobre o desenvolvimento ulterior do
positivismo lógico na América, onde realizou um casamento prolífico - através de
Nelson Goodman e Willard von Orman Quine, alunos de Carnap - com o
"pragmatismo" local de C. S. Peirce (1839-1914), William James (1842-1910) e C. I.
Lewis (1883-1964). Ao contrário, concluirei este Livro com um esboço de certas
doutrinas expressas em Investigações filosóficas (1953), As observações sobre os
fundamentos da matemática (I956) e outras obras. Em virtude do fato de se
relacionarem diretamente com a história da filosofia tal como a tenho descrito até aqui,
essas doutrinas propiciarão alguma indicação, ainda que superficial, de até que ponto a
filosofia posterior de Wittgenstein tem transformado e até mesmo destruído a tradição
de investigação intelectual iniciada com Descartes.

5. O Segundo Wittgenstein

A ênfase da filosofia posterior de Wittgenstein é decididamente antropocêntrica.
Embora ainda estivesse centrada em questões concernentes ao significado e aos limites
do proferimento significante, seu ponto de partida se tornaram, não as imutáveis
abstrações de um ideal lógico, mas os esforços falíveis da comunicação humana. Ao
mesmo tempo, o elemento humano não seguiu a via usual da epistemologia, mas um
caminho totalmente surpreendente. Wittgenstein o introduz por meio de reflexões a
priori sobre a natureza da mente humana e sobre o comportamento social que dota essa
mente de sua estrutura característica. O que é "dado" não são os "dados sensoriais" dos
positivistas, mas as "formas de vida" da antropologia filosófica kantiana. Isso quer dizer
que o objeto de qualquer teoria do significado e do entendimento é a prática pública do
proferimento e tudo que torna tal prática possível. Assim sendo, Wittgenstein inicia suas
investigações ulteriores sobre a natureza da linguagem no ponto em que Frege parou.
Ele aceita a tese do "caráter público" do sentido que já levara Frege a rejeitar as teorias
empiristas tradicionais do significado. Isso resultou não apenas em nova avaliação da
natureza da linguagem, mas também numa revolucionária filosofia da mente. Os
problemas metafísicos que Kant, Hegel e Schopenhauer tentaram resolver são re-
expressos como dificuldades na interpretação da consciência. Assim entendidos,
repentinamente se afiguraram capazes de serem resolvidos.

A perspectiva social levou Wittgenstein a afastar-se da ênfase fregeana no conceito de
verdade ou a considerar que tal ênfase reflete uma exigência mais fundamental, isto é, a
de que o proferimento humano seja responsável por um padrão de correção. Tal padrão
não é dado por Deus, nem jaz oculto na ordem natural, sendo um artefato humano, que
tanto produz as práticas lingüísticas que o regem quanto é por elas produzido. Isso não
quer dizer que um indivíduo pode decidir por si mesmo o que é certo e o que é errado na
arte da comunicação. Ao contrário, o constrangimento da publicidade refreia não
somente cada um de nós, mas também todos nós; além disso, tal constrangimento está
intimamente vinculado à concepção que fazemos de nós mesmos como seres que
observam um mundo independente e nele agem. Todavia, é verdade que o único
constrangimento envolvido no uso comum é o próprio uso. Se nos opomos a verdades
que nos parecem necessárias, tal se dá apenas porque fomos nós que criamos as regras
que as fazem ser assim; e também podemos abrir mão daquilo que criamos. A
compulsão que experimentamos na inferência lógica, por exemplo, não é compulsão,
independentemente de nossa disposição para experimentá-la.
Esse tipo de reflexão levou Wittgenstein a uma forma muito sofisticada de
nominalismo: uma negação que podemos localizar fora da prática lingüística para a
coisa que a rege. Os fatos últimos são linguagem e as formas de vida que se
desenvolvem a partir da linguagem e a tornam possível. O nominalismo não é recente,
nem lhe têm faltado representantes em nossa época. Nelson Goodman (nascido em
1906), por exemplo, tem defendidas, utilizando argumentos que geralmente se
assemelham aos de 'Wittgenstein, uma espécie de nominalismo que incorpora toda uma
filosofia da ciência a uma teoria do conhecimento. O que caracteriza Wittgenstein é a
transição que ele realiza no plano da articulação da filosofia da linguagem com a
filosofia da mente. Ao realizar tal transição, tenta subverter a principal premissa de
quase toda a filosofia ocidental desde Descartes - a premissa da "prioridade do caso da
primeira pessoa".

Wittgenstein usa vários argumentos destinados a mostrar o que essa premissa realmente
significa e, ao fazê-lo, tenta demonstrar sua insustentabilidade. Ao serem reunidos,
esses argumentos proporcionam o que pode ser descrito como uma "figuração" da
consciência humana. Tal figuração possui muitos aspectos; alguns são metafísicos,
outros, epistemológicos. Ela envolve a rejeição da busca cartesiana da certeza, o
aniquilamento da concepção de que os eventos mentais são episódios privados que só
podem ser observados pela própria pessoa e a recusa de todas as tentativas de
compreender a mente humana isoladamente das práticas sociais por meio das quais ela
encontra expressão. Nesta obra, é impossível apresentar todas as considerações com que
Wittgenstein sustenta ``a prioridade do caso da terceira pessoa". Portanto, mencionarei
apenas um ou outro item central da referida argumentação, extraindo algumas
conclusões com relação à importância histórica e filosófica da tese.

6. O Argumento da Linguagem Privada

O mais famoso argumento desenvolvido pela posição wittgensteiniana é o que veio a ser
conhecido como "o argumento da linguagem privada". Ele ocorre em diversas versões
das Investigações Filosóficas e tem sido objeto de muitos comentários. Parece-me que,
em resumo, o argumento é o seguinte: há um "privilégio" peculiar ou "imediatidade"
envolvidos no conhecimento das nossas próprias experiências atuais. Em certo sentido,
é absurdo sugerir que tenho de ou poderia descobrir estar equivocado a respeito delas no
curso normal das coisas. (Esse é o pensamento que também subjaz a tese kantiana da
"Unidade Transcendental da Apercepção", ver pp. 141-42. ) Isso tem resultado no que
podemos chamar de "ilusão da primeira pessoa". Posso ter mais certeza de meus estados
mentais que dos seus. Isso só ocorre porque observo diretamente meus estados mentais
e, os seus, indiretamente. Quando vejo você sentir dor, vejo o comportamento físico,
suas causas, determinado estado complexo de um organismo. Mas isso não é a dor que
você sente, apenas algo que a acompanha de modo contingente. A própria dor está
oculta por sua expressão, só podendo ser diretamente observada por aquele que a sofre.

Essa é, em suma, a teoria cartesiana do espírito, apresentada como explicação do caso
da primeira pessoa. Wittgenstein alega que tanto a teoria quanto aquilo que ela deve
explicar são ilusões. Suponhamos que a teoria fosse verdadeira. Wittgenstein afirma
que, então, não nos poderíamos referir a nossas sensações por meio de palavras
inteligíveis numa linguagem pública. Pois as palavras, numa linguagem pública,
adquirem seu sentido publicamente, ao serem associadas a condições publicamente
acessíveis que asseguram sua aplicação. Tais condições determinarão não somente seu
sentido, mas também sua referência. Wittgenstein alega que a suposição de que essa
referência seja privada (no sentido de, em princípio, só poder ser observada pela própria
pessoa) é incompatível com a hipótese de que o sentido é público. Por conseguinte, se
os eventos mentais são como Descartes os descreve, nenhuma palavra em nossa
linguagem pública poderia realmente referir-se a eles.

Contudo, realmente os cartesianos e sua progênie empirista têm sempre,
intencionalmente ou não, aceito essa conclusão e escrito como se cada um de nós
descrevesse nossas sensações ~ outros episódios mentais atuais numa linguagem que,
em virtude de seu campo de referência ser, em princípio, inacessível a outros, só é
inteligível para quem a usa. Wittgenstein opõe-se à possibilidade de tal linguagem
privada. Tenta provar que não pode haver diferença, para quem fala essa linguagem,
entre como as coisas lhe parecem e como elas são, pois ele perderia a distinção entre ser
e parecer. Entretanto, isso significa perder a idéia de referência objetiva. Na realidade,
não se visa de maneira alguma a linguagem; ao contrário, ela torna-se um jogo
arbitrário. O que parece certo é o que é certo; conseqüentemente, não se pode mais falar
do certo.

Isso leva a seguinte conclusão: não podemos referir-nos aos eventos mentais cartesianos
(objetos particulares) numa linguagem pública, nem nos referir a eles numa linguagem
privada. Em conseqüência, não podemos referir-nos a eles. No entanto, seria possível
dizer que eles, não obstante, podem existir! Wittgenstein opõe-se a tal possibilidade de
um modo que faz lembrar o ataque kantiano ao noumena, dizendo que um nada
desempenhará a mesma função que um algo sobre o qual nada se possa dizer. Ademais,
podemos referir-nos a sensações; desse modo, o que quer que sejam, as sensações não
são eventos mentais cartesianos.

Wittgenstein faz acompanhar esse argumento de uma penetrante descrição, a partir do
ponto de vista da terceira pessoa, de muitos fenômenos mentais complexos –
particularmente, os da percepção, intenção, expectativa e desejo. E, como ele reconhece,
seus argumentos, se bem-sucedidos, refutam a possibilidade de uma "fenomenologia
pura", visto que implicam que nada se pode aprender sobre a essência do mental ou
sobre a essência de qualquer coisa com o estudo (em isolamento cartesiano) apenas cia
primeira pessoa. A "imediatidade" do caso da primeira pessoa é unicamente um indício
de sua superficialidade. De fato, conheço meus próprios estados mentais sem observar
meu comportamento; mas isso não se deve ao fato de eu estar observando algo mais. É
simplesmente uma ilusão, suscitada pela autoconsciência, de que a autoridade
necessária que acompanha o uso público do "eu" é uma autoridade sobre alguma coisa
da qual só o "eu" possui conhecimento.

7. A prioridade da terceira pessoa

Apesar de ter rejeitado assim o "método" da fenomenologia, Wittgenstein manifestou,
contudo, simpatia para com uma postura teórica que se torna - mediante uma série de
acidentes históricos - aliada deste método. Pensadores como o kantiano Dilthey (ver p.
259) buscaram os fundamentos de uma compreensão peculiarmente "humana", pela
qual o mundo seria considerado, não cientificamente, mas sob o aspecto do
"significado". Como alguns fenomenologistas, tais como Merleau-Ponty e Sartre,
Wittgenstein argumentou que percebemos e compreendemos o comportamento humano
de maneira diferente daquela pela qual percebemos e compreendemos o mundo natural.
Explicamos o comportamento humano apresentando razões e não causas. Dirigimo-nos
ao nosso futuro tomando decisões e não fazendo predições. Compreendemos o passado
e o presente da humanidade por meio de nossos objetivos, emoções e atividade, e não
mediante teorias preditivas. Todas essas distinções parecem suscitar a idéia;, se não de
um mundo especificamente humano, pelo menos de um modo especificamente humano
de conceber as coisas. Grande parte da filosofia posterior de Wittgenstein volta-se para
a tarefa de descrever e analisar as características do entendimento humano, bem como
de aniquilar o que ele considerou a vulgar ilusão de que a ciência poderia produzir uma
descrição de todas essas coisas com as quais nossa humanidade (ou, para falar de
maneira mais filosófica, nossa existência como agentes racionais) está mesclada. Ele
defende não somente a posição de que nosso conhecimento de nossas próprias mentes
pressupõe o conhecimento das mentes de outros, mas também a de que – como assinala
o fenomenologista Max Scheler (1874-1928) – "a convicção que temos da existência
das mentes de outros é anterior e mais profunda que nassa crença na existência da
natureza". Em outras palavras, apesar de ter atacado o método e a metafísica da
fenomenologia, Wittgenstein compartilha com os fenomenologistas o sentido de que há
um mistério nas coisas humanas que não será revelado pela investigação científica. Tal
mistério não é dissipado pela explicação, mas apenas pela cuidadosa descrição filosófica
do "dado". Para Wittgenstein, a diferença reside no fato de que o que é "dado" não é o
conteúdo da experiência imediata, mas as formas de vida que tornam possível a
experiência.

A destruição da ilusão da primeira pessoa tem duas conseqüências. Em primeiro lugar,
não podemos iniciar nossas investigações a partir do caso da primeira pessoa e pensar
que ela nos proporciona um paradigma de certeza. Pois, considerada isoladamente, ela
nada nos proporciona. Em segundo lugar, embora a distinção entre ser e parecer não
exista para mim no momento em que contemplo minhas próprias sensações, isso só
ocorre porque falo uma linguagem pública que determina essa propriedade peculiar do
conhecimento da primeira pessoa. O colapso do ser e parecer é um caso "degenerado".
Assim sendo, posso saber que, se esse colapso é possível, é porque há outras pessoas no
mundo além de mim e porque tenho em comum com elas uma natureza e uma forma de
vida. De fato, habito um mundo objetivo em que as coisas são ou podem ser diferentes
do que parecem. Desse modo, de maneira surpreendente, o argumento da Dedução
Transcendental de Kant acaba fundamentado. A precondição do autoconhecimento (da
Unidade Transcendental da Apercepção) é, afinal de contas, o conhecimento dos outros
e do mundo objetivo que os contém.

Muita coisa mudou na filosofia desde que Wittgenstein produziu seus argumentos, e
muita coisa não mudou. Entretanto, de uma coisa se pode ter certeza. A suposição de
que existe a certeza da primeira pessoa, que proporciona um ponto de partida para a
investigação filosófica e que levou ao racionalismo de Descartes e ao empirismo de
Hume, bem como a grande parte da epistemologia e da metafísica modernas, foi
finalmente deslocada do centro da filosofia. A ambição de Kant e Hegel de obter uma
filosofia que remova o "eu" [self ] do limiar do conhecimento; de modo a finalmente
transformá-la numa forma enriquecida acabada, talvez tenha sido agora realizada.

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A filosofia de wittgenstein

  • 2. A Filosofia de Wittgenstein l. A Origem da filosofia "Analítica" Muito se tem escrito nos últimos anos sobre a vida e a filosofia de Ludwig Wittgenstein (1889-1951?. Atualmente, ele é considerado por muitos o filósofo mais importante de nosso século. Todavia, é difícil enquadrar seu pensamento na história da filosofia, em parte devido à sua iconoclasta posterior e, em parte, porque, como Frege, ele parte de reflexões que, à luz dessa história, podem parecer provincianas e até mesmo desprovidas de qualquer importância filosófica. Portanto, à guisa de introdução, é necessário dizer algo sobre o estado da filosofia inglesa quando Wittgenstein veio a se interessar por ela. Tal interesse prenunciou a prolongada influência que as idéias vienenses vieram a exercer sobre o pensamento angloamericano. Devemos retroceder um pouco no tempo, até as doutrinas de Russell e Moore. Bertrand Arthur, terceiro Conde Russell (I872-1970), tem sido até aqui associado à nova lógica, por ele transformada em poderoso instrumento de análise filosófica. Não menos importante, historicamente falando, foi seu amigo G. E. Moore (1873-1958), que escreveu importante tratado sobre ética, o Principia Ethica (I903), e se opôs inexoravelmente a todas as formas de especulação metafísica que parecessem subverter as verdades estabelecidas do senso comum. Juntos, Moore e Russell dedicaram-se à demolição das doutrinas do idealismo britânico, como foram apresentadas por Bradley (em Oxford) e J, M. McTaggart (1866-1925), em sua própria Universidade de Cambridge. Russell, em sua obra inicial sobre os fundamentos da geometria, reconhece a influência da Lógica de Bradley. Isso, porém, não o impediu de discernir, na famosa prova do caráter provisório de objetos e qualidades proposta por Bradley (ver p. 235), uma confusão entre o "é" da predicação e o "é" da identidade, ou de acusar Bradley e McTaggart de prestidigitadores em quase todas as provas que ofereceram da inadequação de nossas concepções de espaço, tempo e matéria baseadas no senso comum. Moore aderiu ao combate, acrescentando mais asserções peculiarmente dramáticas do que argumentos. Fez a seguinte pergunta: Como é possível que minha crença de que tenho duas mãos seja menos certa que a validade de todos os argumentos filosóficos que se têm aduzido para refutá-la? A combinação da volátil lógica de Russell com a vigorosa recusa de Moore a pensar além de seu nariz ou de suas mãos mostrou-se extremamente destrutiva, tornando-se moda descrever a metafísica idealista não como falsa, mas como sem sentido. Outros filósofos - notavelmente Hume - tinham f eito afirmações semelhantes. No entanto, agora, mais do que nunca, parecia possível provar o que fora dito, desenvolvendo-se uma teoria da estrutura da linguagem que mostrasse precisamente o que podia e o que não podia ser dito. E supôs-se que, entre as coisas que não podiam ser ditas, a metafísica era a mais facilmente reconhecível. A primeira teoria desse tipo foi o atomismo lógico, prenunciado por Russell e expresso de modo mais ou menos completo por Wittgenstein, em seu Tractatus Logico- Philosophicus (1921). Essa obra, que chegou ao ponto de ser mais sucinta que a Monadologia de Leibniz, pretendia responder de forma definitiva as questões da filosofia. Ao escrevê-la, Wittgenstein inspirou-se, em parte, na famosa teoria das descrições, proposta por Russell e publicada num artigo que F. P. Ramsey (I903-1930) descreveu como "paradigma de filosofia". Assim sendo, tal teoria servirá como introdução adequada à obra de Wittgenstein.
  • 3. 2. A Teoria das Descrições É estranho, e no entanto verdadeiro, o fato de uma das mais importantes publicações referentes à filosofia moderna ter tido como objetivo aparente explicar o significado do artigo definido. Russell pergunta: qual a diferença entre as sentenças "uma montanha de ouro existe" e ``a montanha de ouro existe"? A primeira expressão é assim explicada pela nova lógica: o predicado "montanha de ouro" é instanciado ou, de modo mais formal, existe um x tal que x é uma montanha de ouro. Essa proposição é obviamente falsa. Mas que dizer da segunda proposição? Aqui, a palavra "o" parece transformar o predicado "montanha de ouro" naquilo que Russell chamaria de expressão denotadora (e que Frege chamou de nome). Trata-se de um estranho efeito da gramática, que tem uma conseqüência lógica ainda mais estranha, ou seja, a de que a sentença parece referir-se a alguma coisa - a montanha de ouro. Mas como é isso possível, se não existe montanha de ouro? Russell alegou que temos aqui um caso paradigmático de uma forma gramatical que dissimula a forma lógica de uma sentença. Tomando como exemplo sua própria definição e a implícita definição fregeana de números, oferece uma definição implícita da palavra "o". Não podemos dizer explicitamente o que o termo "o" denota, mas podemos mostrar como eliminá-lo de todas as sentenças em que ocorre. Consideremos a sentença "o Rei da França é calvo". Para que isso seja verdade, deve existir um rei da França e ele deve ser calvo. Ademais, para apreender o sentido distintivo da palavra "o", devemos acrescentar que só existe um rei da França. As condições que formam a sentença verdadeira conferem-lhe o significado; conseqüentemente, podemos dizer que "o Rei da França é calvo" eqüivale à conjunção de três proposições: "existe um rei da França; tudo que é rei da França é calvo; e só existe um rei da França''. (Mais formalmente - existe um x tal que x é um rei da França e x é calvo, e, para todo y, se y é um rei da França, y é idêntico a x.) Essa análise leva-nos a concluir que, se não existe um rei da França, a sentença original é falsa. A expressão "o Rei da França", que parecia uma expressão denotadora ou nome, de fato não é tal coisa, mas um predicado associado a uma alegação existencial oculta. Como Russell assinala, o Rei da França é uma ficção lógica (Podemos encontrar um antecedente histórico para esse tipo de teoria filosófica na teoria benthamita das ficções.) Filosoficamente falando, Russell se opôs a certos fenomenologistas (notadamente, Alexius Meinong (1853-1920)), que pretenderam concluir que, se podemos pensar em algo como a montanha de ouro, essa coisa deve, em certo sentido, existir. (Se o leitor não gosta da palavra "existir', então se oferece outra palavra - "subsistir' - para não ferir suas delicadas suscetibilidades lógicas.) Russell não chegou a compreender totalmente que Meinong e seus companheiros se dedicaram menos à investigação da lógica da denotação que ao exame do "objeto" intencional" do pensamento. Entretanto, seja como for, o argumento de Russell presta-se à generalização imediata, proporcionando, nessa forma generalizada, uma base para a filosofia do Tractatus. 3. 0 atomismo lógico e o Tractatus De acordo com o Tractatus, tudo que pode ser pensado também pode ser dito. 0s limites da linguagem são, portanto, os limites do pensamento, de modo que uma completa filosofia do " do que pode ser dito" será uma teoria completa do que Kant denominara "o entendimento". Todos os problemas metafísicos decorrem da tentativa de dizer o que
  • 4. não pode ser dito. Uma análise apropriada da estrutura dos termos utilizados nessa tentativa mostrará tal coisa e, desse modo solucionará ou diluirá problemas. Então, qual é a estrutura da linguagem? Wittgenstein dividiu todas as sentenças em complexas e atômicas, afirmando que as primeiras eram construídas a partir das segundas mediante regras de formação que podiam ser interpretadas detalhadamente em termos da lógica de Russell. As sentenças atômicas são aquelas que empregam os primitivos da linguagem` isto é, os nomes e predicados elementares que, sendo indefiníveis, servem para distinguir (ou "descrever") o que Wittgenstein chamou de fatos atômicos. Só uma proposição completa pode ser verdadeira ou falsa e, por conseqüência, só uma proposição completa pode dizer-nos algo sobre o mundo. Conseqüentemente, o constituinte mais básico do mundo é o que corresponde à sentença atômica. Esse constituinte básico é o fato atômico, sendo o mundo, portanto, a totalidade de tais fatos. Os fatos complexos correspondem às proposições complexas e, para compreender tais fatos complexos, é necessário que compreendamos a complexidade da linguagem usada para expressá-los. E essa complexidade é inteiramente proporcionada pela lógica fregeana e russelliana. Assim sendo, "o Rei da França é calvo" é (embora não pareça) uma sentença complexa, visto que sua verdadeira estrutura (ou seja, sua estrutura como representada pela nova lógica) mostra que ela consiste em três sentenças incompletas, combinadas e completadas pela quantificação e pelo conectivo "e". Muitas sentenças assemelham-se a essa. Parecem básicas, mas, de fato, são complexas. Geralmente, muitas coisas a que nos referimos são construções lógicas (ou ficções). As sentenças que as descrevem são abreviações de sentenças mais complexas referentes aos constituintes de fatos totalmente diferentes, porém mais básicos, em que essas "construções lógicas" não ocorrem. Uma sentença como "um homem médio tem 2,6 filhos" é realmente uma abreviação de uma sentença matemática complexa que relaciona o número de filhos dos homens com o número de homens. "0 homem médio" não caracteriza qualquer sentença atômica, ou seja, não nomeia qualquer constituinte da realidade. Pode-se dizer o mesmo com relação à nação inglesa e a muitas entidades ``metafísicas" que aparentemente têm suscitado problemas filosóficos. Wittgenstein foi menos específico que Russell, e certamente menos específicos que os positivistas lógicos, para que, não obstante, o Tractatus proporcionou todo um sistema de argumentação filosófica, no que se refere a que fatos são atômicos e que fatos não o são. Ele pretendia enunciar claramente a estrutura lógica do mundo, não se preocupando com seu conteúdo real. A característica mais importante das sentenças complexas é que os conectivos usados para construí-las devem ser "veri-funcionais", isto é, devem ser tais que o valor-de- verdade da sentença complexa seja inteiramente determinado pelos valores de verdade de suas partes. Trata-se do "princípio da extensionalidade, com o qual já nos deparamos ao discutir Frege e que, de acordo com Wittgenstein, é uma precondição do pensamento e da análise lógicos. A lógica ocupa-se apenas da transformação sistemática de valores- de-verdade; por conseguinte, uma linguagem lógica deve ser transparente aos valores- de-verdade. Deve ser possível perceber toda operação em termos da transformação da verdade e da falsidade. (A palavra "não" tem o sentido de transformar a verdade em falsidade e a falsidade em verdade: a palavra "se", o de tornar falsa uma sentença complexa se o antecedente é verdadeiro e o conseqüente, falso; caso contrário, ela a torna verdadeira; e assim por diante.)
  • 5. A noção de linguagem veri-funcional confere exatidão e força à alegação de Wittgenstein de que há uma distinção real entre sentenças atômicas e não-atômicas. Ele é capaz de dizer não apenas o que é a distinção, mas, o que é mais importante como somos capazes de compreendê-la. Não é difícil para uma linguagem veri-funcional explicar de que modo a compreensão de sentenças atômicas leva à compreensão de todos os complexos infinitos que podem ser construídos a partir delas. (Essa é outra aplicação de um princípio de Frege que discutimos nas pp. 247-48.) As condições-de- verdade de uma sentença complexa formada de maneira veri-funcional podem ser extraídas imediatamente das condições-de-verdade de suas partes. E, em conseqüência, se compreendermos as condições-de-verdade das partes, compreenderemos o todo. Além disso, Wittgenstein é capaz de proporcionar uma nova e aparentemente clara distinção entre o necessário e o contingente, o analítico e o sintético, o a priori e o a posteriori. Tais distinções reduzem-se à distinção entre verdade lógica e contingência. Uma sentença é uma verdade lógica caso resulte verdadeira através da substituição, pelos termos, dos componentes "primitivos" nela presentes. (Uma parte primitiva é aquela que não admite qualquer definição ulterior. ) 0 paradigma de verdade lógica é a "tautologia" veri-funcional. Consideremos a sentença "p 0o q". A definição de "ou" é: p ou q é falso se tanto p quanto q forem falsos e, em caso contrário, verdadeiro. A definição de "não" é a seguinte: não-p é verdadeiro se p é falso, e falso se p é verdadeiro. Isso quer dizer que a sentença "p ou não-p" é sempre verdadeira, qualquer que seja o valor-de-verdade de "p". Desse modo não importa como substituímos o termo primitivo "p", pois isso resultará sempre numa sentença verdadeira. As sentenças que assumirem tal forma são portanto, necessariamente verdadeiras, podendo ser consideradas verdadeiras a priori por qualquer um que compreenda as operações lógicas da linguagem. Para Wittgenstein, essa teoria da verdade necessária tem como conseqüência o fato de as verdades necessárias serem vazias: nada dizem porque nada excluem. São compatíveis com todo estado de coisas. 0 mundo é descrito pela totalidade das proposições atômicas verdadeiras; estas são verdadeiras, mas, sendo atômicas, poderiam ser falsas, já que nada em sua estrutura determina seu valor-de-verdade. Outra maneira de dizer isso é que os fatos existem no "espaço lógica" que define as possibilidades; as sentenças atômicas verdadeiras descrevem o que é real, enquanto as tautologias refletem propriedades do próprio espaço lógico. Essa avaliação da linguagem suscita profundos problemas metafísicos. Em primeiro lugar, há o problema da relação entre sentenças atômicas e fatos atômicos. Wittgenstein chama essa relação de "figuração", e tal metáfora tem enganado muitos dos que tentam comentá-las. Ele também diz que a relação não pode ser descrita, mas apenas mostrada; de fato, sua concepção era de que se deve mostrar o que é mais básico; caso contrário, nunca poderíamos começar a descrição. E não está claro exatamente o que ele quis dizer com "mostrar". Quiçá a melhor maneira de compreender essa teoria - às vezes chamada de "teoria figurativa do significado" - seja negar, para usar uma expressão ulterior de Wittgenstein, que podemos usar a linguagem "para nos situarmos entre a linguagem e o mundo". Não podemos avaliar com palavras a relação entre um fato atômico e uma proposição atômica, a não ser usando a proposição cuja verdade estamos tentando explicar. Não podemos "pensar" no fato atômico sem pensarmos na sentença que o "figura". Os limites do pensamento são os limites da linguagem. Wittgenstein conclui seu livro com o lacônico enunciado: "o de que não se pode falar deve-se calar".
  • 6. Um dos problemas com que a filosofia do Tractatus se depara reside nesse próprio procedimento. Só as sentenças atômicas, os complexos veri-funcionais e as tautologias são significativos. Mas que dizer da teoria que afirma isso? Ela não é sentença atômica, nem complexo; não pretende dizer, como as coisa s são, mas como devem ser. Mas não é uma tautologia. Então, é sem sentido? Wittgenstein realmente diz "sim", e com esse gesto ousado aproxima-se da conclusão de sua doutrina, acrescentando que suas proposições devem servir de escada a ser descartada pelos que por ela subiram. 4. Wittgenstein e a Análise Linguística 0 Tractatus possui um pouco da fascinação da primeira Crítica de Kant, ou seja, a fascinação de um doutrina que, na medida do possível, luta para descrever os limites do inteligível, somente para, ao fazê-lo, ser compelida a transcendê-los. Em momento algum Wittgenstein reconhece a semelhança de seu pensamento com o de Kant, ou, de fato, com o de qualquer outro, exceto o de Russell, mas a comparação entre os dois filósofos torna-se cada vez mais impressionante, de tal modo que alguns têm considerado a argumentação de sua obra póstuma, intitulada Investigações Filosóficas, o complemento final da Dedução transcendental de Kant. A filosofia posterior de Wittgenstein desenvolveu-se a partir de uma reação à anterior, ou a determinada interpretação dela extremamente influente. No Tractatus, a metafísica do atomismo lógico é apresentada quase que sem referência a qualquer teoria específica do conhecimento. A própria versão de Russell sobre a teoria era decididamente empirista, identificando os "fatos atômicos" como relativos ao conteúdo imediato da experiência (ou dados sensoriais, como Russell os chamou). Utilizando o aparato da teoria de Wittgenstein, Russell foi capaz de reformular uma versão empirista com o espírito cético de Hume, propondo interpretar toda entidade no mundo que não seja dado sensorial como "construção lógica". Caso de fato, queiramos, ou não referindo-nos a tabelas referir-nos a construções lógicas a partir de dados sensoriais, isso é tudo que, de acordo com Russell, podemos pretender. Como ele assinala, "onde for possível, as construções lógicas devem ser substituídas por entidades inferidas". Desse modo, a filosofia dá um passo na direção do positivismo lógico pelo qual todas as doutrinas metafísicas, éticas e teológicas são sem sentido, não devido a algum defeito do pensamento lógico, mas por não poderem ser verificadas. 0 slogan do positivismo - o significado de uma sentença é seu método de verificação - é tirado do Tractatus, como grande parte do aparato mediante o qual se buscou livrar o mundo de entidades metafísicas. Mas estava imbuído do mesmo espirito que Hume, e suas principais teorias eram reformulações das doutrinas humanas concernentes à causalidade, ao mundo físico e à moralidade, em termos não de uma teoria "genética" do significado, mas de uma teoria "analítica". A época em que tal programa estava em andamento, com a obra de Rudolf Carnap (1891-1970) e outros pensadores do chamado "Círculo de Viena" (ver especialmente a obra de Carnap intitulada Estrutura Lógica do Mundo, 1928), Wittgenstein renunciou totalmente ao atomismo e seus resultados, parou de publicar e iniciou uma existência hermética e nômade, a que assegurou, até sua morte, que sua influência se exercesse apenas sobre os que tiveram o privilégio de conhecê-lo pessoalmente ou que chegaram a ver os manuscritos que ele ocasionalmente nos mostrou. 0 mais famoso desses manuscritos - Os cadernos azuis e marrons - chegou a Oxford na década de 1940, precipitando a escola de "análise lingüística", para a qual J. L. Austin (1911-60) e Gilbert Ryle ( 1900-1977 ) já tinham preparado o terreno. No entanto, não discutirei essa escola, composta por tantas e tão inexpressivas figuras que
  • 7. se caracteriza menos por abraçar qualquer doutrina que por ter-se recusado a apoiar alguma delas. Nem tecerei considerações sobre o desenvolvimento ulterior do positivismo lógico na América, onde realizou um casamento prolífico - através de Nelson Goodman e Willard von Orman Quine, alunos de Carnap - com o "pragmatismo" local de C. S. Peirce (1839-1914), William James (1842-1910) e C. I. Lewis (1883-1964). Ao contrário, concluirei este Livro com um esboço de certas doutrinas expressas em Investigações filosóficas (1953), As observações sobre os fundamentos da matemática (I956) e outras obras. Em virtude do fato de se relacionarem diretamente com a história da filosofia tal como a tenho descrito até aqui, essas doutrinas propiciarão alguma indicação, ainda que superficial, de até que ponto a filosofia posterior de Wittgenstein tem transformado e até mesmo destruído a tradição de investigação intelectual iniciada com Descartes. 5. O Segundo Wittgenstein A ênfase da filosofia posterior de Wittgenstein é decididamente antropocêntrica. Embora ainda estivesse centrada em questões concernentes ao significado e aos limites do proferimento significante, seu ponto de partida se tornaram, não as imutáveis abstrações de um ideal lógico, mas os esforços falíveis da comunicação humana. Ao mesmo tempo, o elemento humano não seguiu a via usual da epistemologia, mas um caminho totalmente surpreendente. Wittgenstein o introduz por meio de reflexões a priori sobre a natureza da mente humana e sobre o comportamento social que dota essa mente de sua estrutura característica. O que é "dado" não são os "dados sensoriais" dos positivistas, mas as "formas de vida" da antropologia filosófica kantiana. Isso quer dizer que o objeto de qualquer teoria do significado e do entendimento é a prática pública do proferimento e tudo que torna tal prática possível. Assim sendo, Wittgenstein inicia suas investigações ulteriores sobre a natureza da linguagem no ponto em que Frege parou. Ele aceita a tese do "caráter público" do sentido que já levara Frege a rejeitar as teorias empiristas tradicionais do significado. Isso resultou não apenas em nova avaliação da natureza da linguagem, mas também numa revolucionária filosofia da mente. Os problemas metafísicos que Kant, Hegel e Schopenhauer tentaram resolver são re- expressos como dificuldades na interpretação da consciência. Assim entendidos, repentinamente se afiguraram capazes de serem resolvidos. A perspectiva social levou Wittgenstein a afastar-se da ênfase fregeana no conceito de verdade ou a considerar que tal ênfase reflete uma exigência mais fundamental, isto é, a de que o proferimento humano seja responsável por um padrão de correção. Tal padrão não é dado por Deus, nem jaz oculto na ordem natural, sendo um artefato humano, que tanto produz as práticas lingüísticas que o regem quanto é por elas produzido. Isso não quer dizer que um indivíduo pode decidir por si mesmo o que é certo e o que é errado na arte da comunicação. Ao contrário, o constrangimento da publicidade refreia não somente cada um de nós, mas também todos nós; além disso, tal constrangimento está intimamente vinculado à concepção que fazemos de nós mesmos como seres que observam um mundo independente e nele agem. Todavia, é verdade que o único constrangimento envolvido no uso comum é o próprio uso. Se nos opomos a verdades que nos parecem necessárias, tal se dá apenas porque fomos nós que criamos as regras que as fazem ser assim; e também podemos abrir mão daquilo que criamos. A compulsão que experimentamos na inferência lógica, por exemplo, não é compulsão, independentemente de nossa disposição para experimentá-la.
  • 8. Esse tipo de reflexão levou Wittgenstein a uma forma muito sofisticada de nominalismo: uma negação que podemos localizar fora da prática lingüística para a coisa que a rege. Os fatos últimos são linguagem e as formas de vida que se desenvolvem a partir da linguagem e a tornam possível. O nominalismo não é recente, nem lhe têm faltado representantes em nossa época. Nelson Goodman (nascido em 1906), por exemplo, tem defendidas, utilizando argumentos que geralmente se assemelham aos de 'Wittgenstein, uma espécie de nominalismo que incorpora toda uma filosofia da ciência a uma teoria do conhecimento. O que caracteriza Wittgenstein é a transição que ele realiza no plano da articulação da filosofia da linguagem com a filosofia da mente. Ao realizar tal transição, tenta subverter a principal premissa de quase toda a filosofia ocidental desde Descartes - a premissa da "prioridade do caso da primeira pessoa". Wittgenstein usa vários argumentos destinados a mostrar o que essa premissa realmente significa e, ao fazê-lo, tenta demonstrar sua insustentabilidade. Ao serem reunidos, esses argumentos proporcionam o que pode ser descrito como uma "figuração" da consciência humana. Tal figuração possui muitos aspectos; alguns são metafísicos, outros, epistemológicos. Ela envolve a rejeição da busca cartesiana da certeza, o aniquilamento da concepção de que os eventos mentais são episódios privados que só podem ser observados pela própria pessoa e a recusa de todas as tentativas de compreender a mente humana isoladamente das práticas sociais por meio das quais ela encontra expressão. Nesta obra, é impossível apresentar todas as considerações com que Wittgenstein sustenta ``a prioridade do caso da terceira pessoa". Portanto, mencionarei apenas um ou outro item central da referida argumentação, extraindo algumas conclusões com relação à importância histórica e filosófica da tese. 6. O Argumento da Linguagem Privada O mais famoso argumento desenvolvido pela posição wittgensteiniana é o que veio a ser conhecido como "o argumento da linguagem privada". Ele ocorre em diversas versões das Investigações Filosóficas e tem sido objeto de muitos comentários. Parece-me que, em resumo, o argumento é o seguinte: há um "privilégio" peculiar ou "imediatidade" envolvidos no conhecimento das nossas próprias experiências atuais. Em certo sentido, é absurdo sugerir que tenho de ou poderia descobrir estar equivocado a respeito delas no curso normal das coisas. (Esse é o pensamento que também subjaz a tese kantiana da "Unidade Transcendental da Apercepção", ver pp. 141-42. ) Isso tem resultado no que podemos chamar de "ilusão da primeira pessoa". Posso ter mais certeza de meus estados mentais que dos seus. Isso só ocorre porque observo diretamente meus estados mentais e, os seus, indiretamente. Quando vejo você sentir dor, vejo o comportamento físico, suas causas, determinado estado complexo de um organismo. Mas isso não é a dor que você sente, apenas algo que a acompanha de modo contingente. A própria dor está oculta por sua expressão, só podendo ser diretamente observada por aquele que a sofre. Essa é, em suma, a teoria cartesiana do espírito, apresentada como explicação do caso da primeira pessoa. Wittgenstein alega que tanto a teoria quanto aquilo que ela deve explicar são ilusões. Suponhamos que a teoria fosse verdadeira. Wittgenstein afirma que, então, não nos poderíamos referir a nossas sensações por meio de palavras inteligíveis numa linguagem pública. Pois as palavras, numa linguagem pública, adquirem seu sentido publicamente, ao serem associadas a condições publicamente acessíveis que asseguram sua aplicação. Tais condições determinarão não somente seu
  • 9. sentido, mas também sua referência. Wittgenstein alega que a suposição de que essa referência seja privada (no sentido de, em princípio, só poder ser observada pela própria pessoa) é incompatível com a hipótese de que o sentido é público. Por conseguinte, se os eventos mentais são como Descartes os descreve, nenhuma palavra em nossa linguagem pública poderia realmente referir-se a eles. Contudo, realmente os cartesianos e sua progênie empirista têm sempre, intencionalmente ou não, aceito essa conclusão e escrito como se cada um de nós descrevesse nossas sensações ~ outros episódios mentais atuais numa linguagem que, em virtude de seu campo de referência ser, em princípio, inacessível a outros, só é inteligível para quem a usa. Wittgenstein opõe-se à possibilidade de tal linguagem privada. Tenta provar que não pode haver diferença, para quem fala essa linguagem, entre como as coisas lhe parecem e como elas são, pois ele perderia a distinção entre ser e parecer. Entretanto, isso significa perder a idéia de referência objetiva. Na realidade, não se visa de maneira alguma a linguagem; ao contrário, ela torna-se um jogo arbitrário. O que parece certo é o que é certo; conseqüentemente, não se pode mais falar do certo. Isso leva a seguinte conclusão: não podemos referir-nos aos eventos mentais cartesianos (objetos particulares) numa linguagem pública, nem nos referir a eles numa linguagem privada. Em conseqüência, não podemos referir-nos a eles. No entanto, seria possível dizer que eles, não obstante, podem existir! Wittgenstein opõe-se a tal possibilidade de um modo que faz lembrar o ataque kantiano ao noumena, dizendo que um nada desempenhará a mesma função que um algo sobre o qual nada se possa dizer. Ademais, podemos referir-nos a sensações; desse modo, o que quer que sejam, as sensações não são eventos mentais cartesianos. Wittgenstein faz acompanhar esse argumento de uma penetrante descrição, a partir do ponto de vista da terceira pessoa, de muitos fenômenos mentais complexos – particularmente, os da percepção, intenção, expectativa e desejo. E, como ele reconhece, seus argumentos, se bem-sucedidos, refutam a possibilidade de uma "fenomenologia pura", visto que implicam que nada se pode aprender sobre a essência do mental ou sobre a essência de qualquer coisa com o estudo (em isolamento cartesiano) apenas cia primeira pessoa. A "imediatidade" do caso da primeira pessoa é unicamente um indício de sua superficialidade. De fato, conheço meus próprios estados mentais sem observar meu comportamento; mas isso não se deve ao fato de eu estar observando algo mais. É simplesmente uma ilusão, suscitada pela autoconsciência, de que a autoridade necessária que acompanha o uso público do "eu" é uma autoridade sobre alguma coisa da qual só o "eu" possui conhecimento. 7. A prioridade da terceira pessoa Apesar de ter rejeitado assim o "método" da fenomenologia, Wittgenstein manifestou, contudo, simpatia para com uma postura teórica que se torna - mediante uma série de acidentes históricos - aliada deste método. Pensadores como o kantiano Dilthey (ver p. 259) buscaram os fundamentos de uma compreensão peculiarmente "humana", pela qual o mundo seria considerado, não cientificamente, mas sob o aspecto do "significado". Como alguns fenomenologistas, tais como Merleau-Ponty e Sartre, Wittgenstein argumentou que percebemos e compreendemos o comportamento humano de maneira diferente daquela pela qual percebemos e compreendemos o mundo natural.
  • 10. Explicamos o comportamento humano apresentando razões e não causas. Dirigimo-nos ao nosso futuro tomando decisões e não fazendo predições. Compreendemos o passado e o presente da humanidade por meio de nossos objetivos, emoções e atividade, e não mediante teorias preditivas. Todas essas distinções parecem suscitar a idéia;, se não de um mundo especificamente humano, pelo menos de um modo especificamente humano de conceber as coisas. Grande parte da filosofia posterior de Wittgenstein volta-se para a tarefa de descrever e analisar as características do entendimento humano, bem como de aniquilar o que ele considerou a vulgar ilusão de que a ciência poderia produzir uma descrição de todas essas coisas com as quais nossa humanidade (ou, para falar de maneira mais filosófica, nossa existência como agentes racionais) está mesclada. Ele defende não somente a posição de que nosso conhecimento de nossas próprias mentes pressupõe o conhecimento das mentes de outros, mas também a de que – como assinala o fenomenologista Max Scheler (1874-1928) – "a convicção que temos da existência das mentes de outros é anterior e mais profunda que nassa crença na existência da natureza". Em outras palavras, apesar de ter atacado o método e a metafísica da fenomenologia, Wittgenstein compartilha com os fenomenologistas o sentido de que há um mistério nas coisas humanas que não será revelado pela investigação científica. Tal mistério não é dissipado pela explicação, mas apenas pela cuidadosa descrição filosófica do "dado". Para Wittgenstein, a diferença reside no fato de que o que é "dado" não é o conteúdo da experiência imediata, mas as formas de vida que tornam possível a experiência. A destruição da ilusão da primeira pessoa tem duas conseqüências. Em primeiro lugar, não podemos iniciar nossas investigações a partir do caso da primeira pessoa e pensar que ela nos proporciona um paradigma de certeza. Pois, considerada isoladamente, ela nada nos proporciona. Em segundo lugar, embora a distinção entre ser e parecer não exista para mim no momento em que contemplo minhas próprias sensações, isso só ocorre porque falo uma linguagem pública que determina essa propriedade peculiar do conhecimento da primeira pessoa. O colapso do ser e parecer é um caso "degenerado". Assim sendo, posso saber que, se esse colapso é possível, é porque há outras pessoas no mundo além de mim e porque tenho em comum com elas uma natureza e uma forma de vida. De fato, habito um mundo objetivo em que as coisas são ou podem ser diferentes do que parecem. Desse modo, de maneira surpreendente, o argumento da Dedução Transcendental de Kant acaba fundamentado. A precondição do autoconhecimento (da Unidade Transcendental da Apercepção) é, afinal de contas, o conhecimento dos outros e do mundo objetivo que os contém. Muita coisa mudou na filosofia desde que Wittgenstein produziu seus argumentos, e muita coisa não mudou. Entretanto, de uma coisa se pode ter certeza. A suposição de que existe a certeza da primeira pessoa, que proporciona um ponto de partida para a investigação filosófica e que levou ao racionalismo de Descartes e ao empirismo de Hume, bem como a grande parte da epistemologia e da metafísica modernas, foi finalmente deslocada do centro da filosofia. A ambição de Kant e Hegel de obter uma filosofia que remova o "eu" [self ] do limiar do conhecimento; de modo a finalmente transformá-la numa forma enriquecida acabada, talvez tenha sido agora realizada.