Unidade ii

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Unidade ii

  1. 1. U NI V E R SI D A D E   S T A D U A L   O   E D PIA UÍ­  E S PI UCENT R O D E  CIE N CI A S   U M A N S     T R A S   C C H L H E LE – C oordenação     urso     do C de Letras Espanhol­E A DDisciplina: Literatura    Brasileira I  Professora  utora:  Do Alge mira    a c e d o   e n d es de M M UNIDADE II AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES DA LITERATURA BRASILEIRAOBJETIVOS: Caracterizar o contexto sócio-político e cultural da poesia Barroca brasileira. Identificar tendências estéticas e ideológicas dos poetas que integram o Barroco brasileiro. Ler e analisar textos poéticos representativos de autores brasileiros do Barroco.
  2. 2. 1. Primeiras manifestações da literatura brasileira O estudo sobre as origens da literatura brasileira deve ser feito levando-se em conta duas vertentes: a histórica e a estética. O ponto de vista históricoorienta no sentido de que a literatura brasileira é uma expressão de culturagerada no seio da literatura portuguesa. Como até bem pouco tempo erammuito pequenas as diferenças entre a literatura dos dois países, oshistoriadores acabaram enaltecendo o processo da formação literária brasileira,a partir de uma multiplicidade de coincidências formais e temáticas. A outravertente (aquela que salienta a estética como pressuposto para a análiseliterária brasileira) ressalta as divergências que desde o primeiro instante seacumularam no comportamento (como nativo e colonizado) do homemamericano, influindo na composição da obra literária. Em outras palavras,considerando que a situação do colono tinha de resultar numa nova concepçãoda vida e das relações humanas, com uma visão própria da realidade, acorrente estética valoriza o esforço pelo desenvolvimento das formas literáriasno Brasil, em busca de uma expressão própria, tanto quanto possível original.1.1 O Barroco
  3. 3. Igreja de São Francisco em Salvador-BA. O período Barroco sucedeu o Renascimento, do final do século XVI aofinal do século XVII, estendendo-se a todas as manifestações culturais eartísticas européias e latino-americanas. Iniciado pelo maneirismo e extinto norococó, considerado um barroco exagerado e exuberante, e para alguns, adecadência do movimento. Em sua estética, o barroco revela a busca danovidade e da surpresa; o gosto pela dificuldade, pregando a ideia de que senada é estável tudo deve ser decifrado; a tendência ao artifício e ao engenho; anoção de que no inacabado reside o ideal supremo de uma obra artística. Aliteratura barroca se caracteriza pelo uso da linguagem dramática expressa noexagero de figuras de linguagem, de hipérboles, metáforas, anacolutos eantíteses. O barroco é conhecido como "a arte do conflito", pois (por causa doRenascimento) o homem estava dividido entre dois valores diferentes(teocentrismo x antropocentrismo). Em vista disso, o barroco se divide em duascorrentes (uma otimista e uma pessimista). Por causa dessa mudança namentalidade, o homem entra numa grande depressão, pois ele não pode maisrecorrer a Deus. Esse conflito vai se refletir nas artes da época: relevo naarquitetura, movimento na escultura, luz e sombra na pintura, contraponto namúsica e antíteses e paradoxos na literatura. O Barroco segundo Afrânio Coutinho (2000) é caracterizadoprincipalmente pelo culto exagerado da obra, sobrecarregando a poesia de
  4. 4. figuras de linguagem; o dualismo: conflito entre o bem e o mal, o Céu e a Terra,Deus e o Diabo, o material e o espiritual, o pecado e o perdão; culto doContraste, onde o poeta se sente dividido e confuso por causa do dualismo deideias; o pessimismo, que era acarretado pela confusão causada pelodualismo. Em outras palavras, o Barroco revela a busca da novidade e dasurpresa, o gosto da dificuldade, sintetizando o pensamento da escola literáriaem estudo, pode-se dizer que dois modelos teóricos os influenciaram: Ocultismo - descrição simples de objetos usando uma linguagem rebuscada,culta e extravagante, jogo de palavras, com uma influência visível do poetaespanhol Luís de Gongora (daí o estilo ser chamado também de Gongorismo).Caracterizado também pelo abuso no emprego de figuras de linguagem comometáforas, antíteses, hipérboles, anáforas etc. E o conceptismo - marcado pelojogo de ideias, de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, racionalista e queutiliza uma retórica aprimorada. Os conceptistas pesquisavam a essênciaíntima dos objetos, buscando saber o que são, assim, a inteligência, lógica eraciocínio ocupam o lugar dos sentidos. Assim, é muito comum a presença deelementos da lógica formal como o silogismo e o sofismo.O Barroco no Brasil tem seu marco inicial em 1601, com a publicação dopoema épico "Prosopopéia", de Bento Teixeira, que introduz definitivamente omodelo da poesia camoniana em nossa literatura. Estende-se por todo o séculoXVII e início do XVIII, tendo sido fundada neste período as Academias .Antes do texto de Bento Teixeira, os sinais mais evidentes da influência dapoesia barroca no Brasil surgiram a partir de 1580 e começaram a crescer nosanos seguintes ao domínio espanhol na Península Ibérica, já que é a Espanhaa responsável pela unificação dos reinos da região, o principal foco irradiadordo novo estilo poético. O quadro brasileiro se completa no século XVII, com apresença cada vez mais forte dos comerciantes, com as transformaçõesocorridas no Nordeste em consequencia das invasões holandesas e,finalmente, com o apogeu e a decadência da cana-de-açúcar1.2. Autores e obras representativas do barroco brasileiro
  5. 5. Estatua de Bento Teixeira Bento Teixeira, como já foi dito, é responsável pela introdução doBarroco no Brasil com a obra Prosopopéia. Filho de cristãos-novos, veio com afamília para o Brasil por volta de 1567, com destino à capitania do EspíritoSanto, frequentando o colégio dos Jesuítas. Em 1576 foi para o Rio de Janeiroe em 1579, para a Bahia. Em 1583 vai para Ilhéus onde se casa com FelipaRaposa, cristã-velha, tendo posteriormente assassinado-a por ela ter cometidoadultério. Sem possibilidade de melhoria financeira, parte em 1584 para Olinda,abrindo aí a escola. Em 1588 vai para Igaraçu, dedicando-se ao magistério, àadvocacia e ao comércio. Blasfemou, sendo, em consequencia, levado a auto-de-fé em 31 de julho de 1589, mas conseguindo a absolvição do ouvidor daVara Eclesiástica. Continuando sob a mira da Inquisição por judaísmo, foi preso em Olindaem 20 de agosto de 1595 sendo embarcado para Lisboa, aí chegando emjaneiro de 1596. Recolhido aos cárceres, negou a crença e práticas judaicas,vindo a confessá-las depois. Levado a auto-de-fé em 31 de janeiro de 1599,abjurou o judaísmo, recebeu doutrinação católica e obteve liberdadecondicional em 30 de outubro. Doente, faleceu na cadeia de Lisboa, em fins dejulho de 1600. A obra Prosopopéia, de Bento Teixeira é um poemeto épico, com 94estâncias em oitava rima e decassílabos heróicos, conforme ensinava Camõesnos Lusíadas, gira em torno de Jorge de Albuquerque Coelho, donatário daCapitânia de Pernambuco, e de sue irmão, Duarte. O intuito do poeta,declarado logo nos primeiros versos, era enaltecer os feitos guerreiros dosheróis, em terras brasílicas e africanas. O narrador do poema é prometeu. Sua
  6. 6. estrutura é composta de um prólogo, narração e epílogo. Seguem algunstrechos do poema:PRÓLOGODirigido a Jorge d’Albuquerque Coelho, Capitão e Governador da Capitania dePernambuco, das partes do Brasil da Nova Lusitânia etc.Se é verdade o que diz Horácio que Poetas e Pintores estão no mesmopredicamento, e estes, para pintarem perfeitamente uma imagem, primeiro nalisa tábua fazem rascunho, para depois irem pintando os membros delaextensamente, até realçarem as tintas, e ela ficar na fineza de sua perfeição;assim eu, querendo debuxar com obstardo pincel de meu engenho a vivaimagem da vida e feitos memoráveis de vossa mercê, quis primeiro fazer esterascunho, para depois, sendo-me concedido por vossa mercê, ir muiparticularmente pintando os membros desta imagem, se não me faltar a tintado favor de vossa mercê, a quem peço, humildemente, receba minhas rimas,por serem as primícias com que tento servi-lo. E porque entendo que asaceitará com aquela benevolência e brandura natural, que costuma,respeitando mais a pureza do ânimo que a vileza do presente, não me ficamais que desejar, se não ver a vida de vossa mercê aumentada e estadoprosperado, como todos os seus súditos desejamos.Beija as mãos de vossa mercê:(Bento Teixeira) seu vassalo. I Cantem poetas o poder romano, Sobmetendo nações ao jugo duro; O Mantuano pinte o Rei Troiano, Descendo à confusão do Reino escuro; Que eu canto um Albuquerque soberano, Da fé, da cara Pátria firme muro, Cujo valor, e ser, que o céu lhe inspira, Pode estancar a lácia e grega lira. II As Délficas irmãs chamar não quero,
  7. 7. que tal invocação é vão estudo; Aquele chamo só, de quem espero A vida que se espera em fim de tudo. Ele fará meu verso tão sincero, Quanto fora sem ele tosco, e rudo, Que per razão negar não deve o menos Quem deu o mais a míseros terrenos. III E vós, sublime Jorge, em quem se esmalta A Estirpe dAlbuquerques excelente, E cujo eco da fama corre e salta Do carro glacial à zona ardente, Suspendei por agora a mente alta, Dos casos vários da olindesa gente, E vereis vosso irmão e vós supremo No valor, abater Quirino e Remo. IV Vereis um senil ânimo arriscado A trances e conflitos temerosos, E seu raro valor executado Em corpos luteranos vigorosas. Vereis seu Estandarte derribado Aos Católicos pés vitoriosos, Vereis em fim o garbo, e alto brio, Do famoso Albuquerque vosso Tio. V Mas em quanto Tália no se atreve, No Mar do valor vosso, abrir entrada, Aspirai com favor a Barca leve De minha Musa inculta e mal limada. Invocar vossa graça, mais se deve, Que toda a dos antigos celebrada, Porque ela me fará que participe Doutro licor melhor que o de Aganipe............................................................................
  8. 8. NARRAÇÃO VII A Lâmpada do Sol tinha encoberto, Ao mundo, sua luz serena e pura, E a irmã dos três nomes descoberto A sua tersa e circular figura. Lá do portal de Dite, sempre aberto, Tinha chegado, com a noite escura, Morfeu, que com sutis e lentos passos Atar vem dos mortais os membros lassos. ........................................................................ XVII MANUEL BOTELHO DE OLIVEIRA O escritor barroco Manuel Botelho de Oliveira nasceu em Salvador - BA,em1636 e faleceu em 1711. Contemporâneo de Gregório de Matos, cursouDireito na Universidade de Coimbra - Portugal. De volta ao Brasil, passou aexercer a advocacia; também foi vereador da Câmara de Salvador - Em 1705publica em Portugal sua obra, Música do Parnaso. Conviveu com Gregório deMatos e versou sobre os temas correntes da poesia de seu tempo. A obra, Música do parnaso é dividida em quatro coros de rimasportuguesas, castelhanas, italianas e latinas, com seu decante cômico reduzidoem duas comédias. Das rimas portuguesas que englobam 42 sonetos, 23madrigais, 12 décimas, 3 redondilhas , 14 romances, 1 panegírico, 1 poema emoitavas, 6 canções e uma silva. Para melhor exemplificarmos, seguem trechosda obra. ( MOISÉS, 2006, p. 52-56,).
  9. 9. MÚSICA DO PARNASO Monte Parnaso na Grécia SONETO VII Vendo a Anarda depõe o sentimento A serpe, que adornando várias cores, Com passos mais oblíquos, que serenos, Entre belos jardins, prados amenos, É maio errante de torcidas flores; Se quer matar da sede os desfavores, Os cristais bebe com a peçonha menos,Por que não morra com os mortais venenos, Se acaso gosta dos vitais licores. Assim também meu coração queixoso, Na sede ardente do feliz cuidado Bebe cos olhos teu cristal formoso; Pois para não morrer no gosto amado, Depõe logo o tormento venenoso, Se acaso gosta o cristalino agrado.
  10. 10. SONETO X Ponderação do rosto e olhos de anarda Quando vejo de Anarda o rosto amado, Vejo ao céu e ao jardim ser parecido; Porque no assombro do primor luzido Tem o sol em seus olhos duplicado. Nas faces considero equivocado De açucenas e rosas o vestido; Porque se vê nas faces reduzido Todo o império de Flora venerado. Nos olhos e nas faces mais galharda Ao céu prefere quando inflama os raios, E prefere ao jardim, se as flores guarda: Enfim dando ao jardim e ao céu desmaios, O céu ostenta um sol, dous sóis Anarda, Um maio o jardim logra; ela dous maios. Gregório de matosGregório de Matos, poeta significativo do Barroco brasileiro, nasceu emSalvador - BA, em 20/12/1623 e morreu em Recife – PE, em 1696. Foicontemporâneo do Pe. Antônio Vieira. Amado e odiado, é conhecido por muitos
  11. 11. como "Boca do Inferno", em função de suas poesias satíricas, muitas vezestrabalhando o chulo em violentos ataques pessoais. Influenciado pela estética,estilo e sintaxe de Gôngora e Quevedo, é considerado o verdadeiro iniciador daliteratura brasileira. Considerado uma das principais referências do barrocobrasileiro, Gregório de Matos Guerra cultivou com a mesma beleza tanto oestilo cultista quanto o conceptista. O primeiro valoriza o pormenor, enquanto osegundo segue um raciocínio lógico, racionalistaA poesia de Gregório de Matos pode ser classificada como: lírica religiosa elírica amorosa e satírica. Em todos os estilos abusa de figuras de linguagemcomo se demonstrou faz uso do estilo cultista e conceptista, através de jogosde palavras e raciocínios sutis. As contradições, próprias, talvez, de suapersonalidade instável, são uma constante em seus poemas, oscilando entre osagrado e o profano, o sublime e o grotesco, o amor e o pecado, a busca deDeus e os apelos terrenos.Na poesia lírica religiosa o poeta se ajoelha diante de Deus, com fortesentimento de culpar por haver pecado, e promete redimir-se. São recorrentesnestes poemas imagens: do homem ajoelhado implorando perdão por seuserros conforme demonstra a seguir: A Jesus cristo nosso senhor Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque quanto mais tenho delinquido, Os tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido;
  12. 12. Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida e já cobrada Glória tal e prazer tão repentino Vos deu, como afirmais na sacra história, Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, Cobrai-a; e não queirais, pastor divino, Perder na vossa ovelha a vossa glóriaNo lírico amoroso se define pelo erotismo, revelando uma sensualidade oragrosseira, ora rara fineza. Sua visão do amor está fundamentadaconstantemente na religiosidade da contra-reforma. Para ele o tempo eliminaas alegrias corpóreas, que a vida e a beleza são breves e que se faz, portantonecessário aproveitá-las. São constantes imagens de efemeridade, ou seja,brevidade do tempo, como destaca-se no soneto que segue: Maria dos povos. Discreta e formosíssima Maria, Enquanto estamos vendo a qualquer hora, Em tuas faces a rosada Aurora, Em teus olhos e boca, o Sol e o dia: Enquanto com gentil descortesia, O Ar, que fresco Adônis te namora, Te espalha a rica trança brilhadora Quando vem passear-te pela fria. Goza, goza da flor da mocidade, Que o tempo trata, a toda a ligeireza E imprime em toda flor sua pisada. Oh não aguardes que a madura idade Te converta essa flor, essa beleza,
  13. 13. Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada. (GONZAGA, 2001, p.19)Por último, o satírico, estilo que comumente é mais conhecido por sua sátiraferina, azeda e mordaz, usando, às vezes, palavras de baixo calão, daí seuepíteto Boca do Inferno. O autor critica todos os aspectos da sociedade baiana,ninguém escapa, os nativos, os negros e particularmente o clero e o povoportuguês. Aos vícios Eu sou aquele, que os passados anos cantei na minha lira maldizente torpezas do Brasil, vícios e enganos. E bem que eu os descantei bastantemente, Canto segunda vez na mesma lira O mesmo assunto em plectro diferente. De que pode servir, calar, quem cala? Nunca se há de falar, o que se sente? Sempre se há de sentir, o que se fala? ! Qual homem pode haver tão paciente, Que, vendo o triste estado da Bahia, Não chore, não suspire, e não lamente?
  14. 14. Outro autor significativo para o Barroco é o Pe. Antônio Vieira, nasceu em 6 defevereiro de 1608, em Lisboa e faleceu em Salvador, em 1697. Foi um dosmais importantes oradores de seu século. Seu pai servira a marinha e fora, pordois anos, escrivão da Inquisição portuguesa. Seu pai se mudou em 1609 parao Brasil, onde assumiu um cargo de escrivão em Salvador; em 1614 trouxe afamília para o Brasil quando Antônio tinha 6 anos de idade. Antônio estudou naúnica escola de Salvador da época: a dos jesuítas. Consta que não era umbom aluno no começo, mas depois se tornou brilhante. Juntou-se à Companhiade Jesus como noviço em maio de 1623. Existem muitas lendas sobre Vieira,incluindo que na juventude sua genialidade lhe fora concedida por NossaSenhora e que uma vez um anjo lhe indicou o caminho de volta à escolaquando estava perdido. Quando em 1624 os holandeses invadiram a Bahia,Vieira se refugiou no interior, onde começaram seus impulsos missionários. Umano depois tomou os votos de castidade, pobreza e obediência, abandonandoo noviciado. Não partiu para a vida missionária, no entanto. Estudou muitoalém da teologia: lógica, física, metafísica, matemática e economia. Em 1634,após ter sido professor de retórica em Olinda, se ordenou. Em 1638 jáensinava Teologia.Se por um lado, Gregório de Matos mexeu com as estruturas morais e atolerância de muita gente - como o administrador português, o próprio rei, oclero e os costumes da própria sociedade baiana do século XVII - por outro,
  15. 15. ninguém angariou tantas críticas e inimizades quanto o "impiedoso" PadreAntônio Vieira, detentor de um invejável volume de obras literárias, inquietantespara os padrões da época, quer seja na Bahia, no Maranhão ou emPernambuco, estados nos quais passou boa parte de sua vida ou mesmo emPortugal.Politicamente, Vieira tinha contra si a pequena burguesia cristã (por defender ocapitalismo judaico e os cristãos-novos); os pequenos comerciantes (pordefender o monopólio comercial); e os administradores e colonos (por defenderos índios). Essas posições, principalmente a defesa dos cristãos-novos,custaram a Vieira uma condenação da Inquisição, ficando preso de 1665 a1667.A obra de Viera consta de cerca de 200 Sermões e mais de 500 cartas entre osquais se destacam: Sermão pelo Bonsucesso das Armas de Portugal contra asde Holanda; Sermão da Sexagésima; Sermão de Santo Antônio aos Peixes;Sermão da Primeira Dominga da Quaresma; Sermão XIV do Rosário (dedicadoaos negros) e muitos outros. Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de HolandaO trecho que segue é parte do Sermão pregado por Antônio Vieira em 1640 naigreja de senhora da ajuda, na Bahia. IIIConsiderai, Deus meu – e perdoai-me, se falo inconsideradamente – consideraia quem tirais as terras do Brasil e a quem as dais. Tirais estas terras aosportugueses a quem nos princípios as destes; e bastava dizer a quem as dais,para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberalmercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós,Senhor,"quando dais, não vos arrependeis": Sine paenitentia enim suntdona Dei? Masdeixado isto à parte: tirais estas terras àqueles mesmos portugueses a quem
  16. 16. escolhestes entre todas as nações do Mundo para conquistadores da vossaFé, e a quem destes por armas como insígnia e divisa singularvossas próprias chagas. E será bem, Supremo Senhor e Governador doUniverso, que às sagradas quinas de Portugal e às armas e chagas de Cristo,sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Serábem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas,arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo? Eque fareis (como dizia Josué) ou que será feito de vosso glorioso nome emcasos de tanta afronta? Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terrasvastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa detantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa Fé (que esseera o zelo daqueles cristianíssimos reis) que por amplificar e estender seuimpério.Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tãohonrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora (quem talima de vossa bondade!), com tanta afronta e ignomínia! Oh! como receio quenão falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, utinterficeretet deleret e terra. Que a larga mão com que nos destes tantos domínios ereinos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulaçãode vossa ira, para aqui fora e longe de nossa Pátria nos matardes,nosdestruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto denossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi oderramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos osmares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climasnão conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades comtanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado commiserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos,depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou naspraias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, dasferas, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perderassim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar taisempresas! Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e,contudo, em ocasião semelhante, não falou (falando convosco) por diferentelinguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do
  17. 17. Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade deHai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infelizsucesso que os israelitas nela tiveram; porque foram rotos edesbaratados,posto que com menos mortos e feridos, do que nós por cácostumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestidurasimperiais, lanças e por terra, começa a clamar ao Céu: Heu! Domine Deus,quid voluisti traducerepopulum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos inmanus Amorrhaei?"Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nosmandastes passaro Jordão e nos metestes de posse destas terras, se aqui noshaveis de entregar nas mãos dos amorreus e perder-nos?" Utinammansissemus trans Jordanem!"Oh! nunca nós passáramos tal rio!" Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, ecom muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossasnavegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: "Oh!Nunca nós passáramos tal rio!". Utinam mansissemus trans Jordanem!Prouvera a vossa Divina Majestade que nunca saíramos de Portugal, nemnossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pésem terras estranhas! Ganhá-las para as não lograr, desgraça foi e nãoventura;possuí- las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e nãomercê,nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmasterras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eramagrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gentepervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores;para lhe lavrarmos as terras, para lhe edificarmos as cidades, e depois decultivadas e enriquecidas lhas entregardes? Assim se hão de lograr os heregese inimigos da Fé, dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queisconsevimus agros! "Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos!" Mas poisvós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que for desservido. Entregaiaos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entrega ilhes as Espanhas(que não são menos perigosas as consequencias do Brasil perdido); entregai-lhes quanto temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte); pondeem suas mãos o Mundo; e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos,repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a VossaMajestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais devós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais.
  18. 18. Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Job,que como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia.Queixava-se o exemplo da paciência a Deus (que nos quer Deus sofridos, masnão insensíveis), queixava-se do e são de suas penas demandando ealtercando, por que se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigordelas; e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasseinexorável,quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc inpulvere dormiam, et si mane me qua e sieris, non subsistam. Já que nãoquereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senãocontinuaro rigor e chegar com ele ao cabo, seja muito embora; matai-me,consumime, enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam; mas só vos digo e voslembrouma coisa: que "se me buscardes amanhã, que me não haveis deachar":Et si mane me quaesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aoscaldeus,que sejam o roubo e o açoite de vossa casa; mas não achareis a umJó que a sirva, não achareis a um Job que a venere, não achareis a um Jó, queainda com suas chagas a não desautorize. O mesmo digo eu, senhor, que nãoé muito rompa nos mesmos afetos, quem se vê no mesmo estado. Abrasai,destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóise portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicosconquistadores, que levem pelo Mundo os estandartes da cruz; Holanda vosdará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros adoutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá averdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holandaedificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes eoferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá evenerará tão religiosamente, como em Amsterdão, Meldeburgo e Flisinga e emtodas as outras colônias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todosos dias.

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