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MallkuChanez
VIOLÊNCIAOBSTÉTRICANOBRASIL
Atorturaobstétricaemmulheresmãesbrasileiras
Mallku Chanez
Basta de torturas e de violência obstétrica contra as meninas, as mulheres e as mães brasileiras
As manobras distorcidas ou trancos mecânicos, traumáticos e angustiantes, servem
para provocar horror e apressar o período expulsivo. Os trancos com os punhos, braços,
cotovelos, joelhos, tábuas e quadris são utilizados como ferramentas físicas com
as quais acabam arrebentando e estourando os órgãos do ventre materno.
São como espinhos, pregos, parafusos fincados profundamente no âmago da mãe,
espalhando dores que nenhum obstetra covarde poderá amenizar pelo resto de sua vida.
--- Parte lV -A
5. Dilaceração da menina, da mulher e da mãe com as manobras ou os trancos pesados de
Kristeller
11. Minhas mamas e meu peito oprimidos e meu ventre comprimido e dilacerado
19. Descrição de alguns casos de vitimização e de mutilação institucional das prenhas: casos de
arquivo do Ambulatório AMAWTA
33. Curetagens a sangre frio: por que realizar curetagem a sangue frio, sem anestesia?
42. Episiotomia e rupturas sem necessidade na sala de parto: o obstetra ordena a estagiária a
cortar o períneo, sem necessidade, para que ela possa treinar torturando!
PT 4 - A (PORT) VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL -   A tortura obstétrica  em mulheres mães brasileiras
3. Os suplícios e as torturas das manobras distorcidas de Kristeller
As manobras de Kristeller são realizadas pelos ‘doutores’, os quais dificilmente seguem
os princípios fundamentais descritos no manual de instruções.
4. Elas se tornaram um dos grandes suplícios das parturientes, tanto pela complexidade com que
se revestem essas expressões brutais como pelo martírio que as manobras com tábuas, mãos,
cotovelos, joelhos e quadris aplicadas com força exagerada provocam. Essas manobras deixam,
ainda, hematomas, hemorragias, edemas e outras sequelas.
A força expressiva dessa linguagem dilacerante destrói órgãos. Para alguns obstetras,
essas nefastas manobras físicas são sinônimos de suas ‘mais delicadas afeições’ dedicadas às
parturientes.
Uma breve revisão histórica revela que no mundo ocidental, nos fins do século 18, o
castigo corporal desapareceu como espetáculo público e a tortura deixou de ser parte do processo
judicial. Porém, no final da Segunda Guerra Mundial, o mundo se horrorizou ao tomar
conhecimento das práticas aniquilatórias nos campos de concentrações nazistas e sobretudo com
a cooperação médica nos experimentos pseudo científicos. Hoje, esses horrores são
constatados de maneira atualizada nas práticas dos torturadores obstetras brasileiros.
5. A criança subia e parecia que ia sair pela boca!
Há relatos dramáticos como a de uma mãe que em Presidente Prudente, São Paulo, teve
uma tábua colocada sobre seu ventre, subindo o ‘doutor’ sobre ela para ‘ajudá-la’ no
momento da expulsão do bebê. Porém, a posição ginecológica da parturiente na mesa de parto de
maneira alguma favorece a expulsão do bebê. Muitas mães afirmam que a sensação que tiveram
era de que o bebê subia e de que ele sairia pela boca.
6. A aplicação progressiva da anestesia deixa a parturiente entorpecida, inerte, impedida de
acompanhar e de dinamizar as contrações para a expulsão da criança. O médico, percebendo a
inatividade da gestante, recorre, então, às absurdas manobras distorcidas de Kristeller, as
quais podem levar a parturiente à perda da consciência e à morte.
7. Tortura na posição ginecológica: intimidação e vitimização do ventre materno
Toda essa tortura acontece quando a parturiente está em posição ginecológica. O médico
Márcio Bomtempo confirma tais aberrações. “A criança vai para cima ao mesmo tempo em que o
trabalho do útero é dificultado pela compressão de importantes vasos do abdômen e a circulação
venosa, perturbando a oxigenação materno-fetal”.
8. Torna-se constrangedor para a mãe falar sobre ou descrever tais aberrações. Além do
sofrimento físico, as sequelas psíquicas se refletirão no seu relacionamento psicossocial e familiar.
Em casos extremos, acaba até sendo abandonada pelo marido. Os esforços que a desventurada
mãe faz para esconder de suas próprias fantasias esse terror não a aliviam e menos ainda
confortam seus sonhos.
9. A guerra do obstetra contra o imobilizado ventre materno
Essa história cheia de esperança e de desilusões retrata a luta da mulher e da mãe numa
guerra imposta estrategicamente pelo covarde obstetra para anular e desintegrar a mãe e a
criança através do trabalho de parto. Como a mãe poderá se reintegrar à normalidade da vida
familiar e psicossocial sendo vítima da tortura acadêmica perfeitamente e friamente calculada?
10. A mediocridade dos torturadores diplomados
Os medíocres torturadores esquecem-se ou não sabem que para ter uma apresentação normal, o
mais importante é colocar a mãe em posição vertical, sentada e lhe dar a oportunidade de relaxar
e de se tranquilizar para que a criança, que se move livremente em sua plenitude, possa flutuar
dentro de suas águas e consiga fluir e alcançar a via-fluvial baixa.
11. Deslocamento prematuro da placenta e sangramento transplacental
Muitas vezes, o técnico medíocre utiliza seu joelho, seu antebraço e suas mãos para as
alavancas traumatizantes. Por causa da força utilizada para expulsar a criança do ventre materno,
essas manobras dilacerantes e aterradoras podem provocar deslocamento prematuro da
placenta, produzir um sangramento transplacental em ventres excessivamente tensos, ou rasgar e
tirar do lugar os órgãos internos como fígado e baço, os quais ficam muito angustiados.
12. Mães traumatizadas por lesões físicas e emocionais
O que se relata sobre lesões físicas e emocionais provocadas por essas alavancas mal utilizadas
é preocupante. As mães traumatizadas sentem medo e não possuem coragem para colocar fora
as experiências pelas quais passaram. Elas engolem as dores causadas pelos delinquentes
acadêmicos com seu machismo intervencionista.
Essa melancolia reflete o fundo imoral mais baixo das pregas do ‘doutor’ de mais cruel caráter. O
que inspira esse pensamento do mal? Não é o de dar um impulso para socorrer a mãe numa
desgraça e muito menos o de acolhê-la perante a vida de sua criança, mas, sim, de lançá-la à
morte.
Diagrama 42
1ª O terror da alavanca do cavalo
As alavancas são práticas com terror traumatizante e bem contaminadas com pressa doentia.
O médico sobe em cima do tórax (alavanca do cavalo) da parturiente para
“empurrar o neném”, tendo como ponto de apoio o peito da parturiente.
“Como eu queria adoçar só com uma gota de mel todas essas dores e ardores
que me destroem. Lembro-me dos quadris (nádegas) pesadas que se encravavam
como pregos em meu peito, remoendo minhas costelas e não me deixando respirar”.
MINHAS MAMAS E MEU PEITO OPRIMIDOS E MEU VENTRE
COMPRIMIDO E DILACERADO
“Eu estava sendo dominada por uma apavorante angústia,
uma pavorosa opressão. Era um terror! Sentia ânsia de vômito”.
Uma grande ferida continua aberta no meu peito.
Sinto um corte profundo e oculto no meu ventre.
Ambos doem. Todos me veem
esconder a angústia, os sofrimentos gerados junto
5. com a minha criança.
É algo horrível, porém, a essa altura
não me importo com mais nada.
Perdi-me totalmente.
Com que sentimento eu poderia
10. amamentar e dar colo a minha criança,
se eu mesma não consigo sair do abismo
das águas congeladas em que me deixaram?
Aqui temos cinco tipos de alavancas do ‘bem-estar’ e do ‘bem-viver’ que reprimem
impiedosamente e castigam pesadamente as Mães d’Água e as mães. Estas sensações de
sobrepeso ainda lhes causam tenebrosos tormentos. Oprime as mamas, arrebenta os peitos e
dilacera o ventre e outros órgãos internos.
Tipos de Alavancas:
1ª Alavanca com as nádegas. O terror da alavanca do cavalo!
“Era um terror! Sentia ânsia de vômito”. O obstetra sobe sobre o peito da vítima como se
fosse arriar um cavalo.
2ª Alavanca com o joelho!
“Enquanto sufocavam meu ventre com o joelho, o frio percorria a minha espinha. Os
espasmos
e as ânsias eram inevitáveis por estar nessa posição penosa. E a criança querendo sair
pela
minha boca”.
3ª Alavanca com a tábua!
“Minhas mãos tentavam arrancar aquela tábua que oprimia meu peito, mas elas estavam
sem
força e me faltava o ar”.
4ª Alavanca com o punho!
“Fui abusada e desprezada. Socavam meu peito e oprimiam meu ventre durante todo o
suplício
de meu parto”. O obstetra dá embates no ventre, utilizando o punho.
As mães são brutalmente submetidas às alavancas e aos trancos que imprimem em
seu corpos, em seus ventres, em seus corações e em seus pesadelos, sensações de sobressalto
ante os sentimentos de horror, pela impossibilidade de aceitar as violentas ações dos obstetras.
2. O único desejo da mãe depois de haver sobrevivido a essa macabra e bárbara tragédia era o de
sair voando, passando sutilmente, sem ser notada pelos corredores da maternidade. Para não
demonstrar o ocorrido, fazia questão de não exteriorizar a dor, pelo temor de ser reconhecida
como marginal.
3. As mães se encontram marginalizadas no vazio, mergulhadas profundamente em sentimentos
de desgraça. O tempo, nestes casos, não se transformou em aliado e nem em cúmplice, mas num
rival. Já se foi o tempo em que o esquecimento refrescante e as vibrações maternais existiam.
4. Mesmo com as alavancas literalmente ausentes, de dia e de noite, no imaginário das mães
permanece um profundo mal-estar do ‘bem viver,’ que provoca perturbações e medo. Receberam
brutalmente essas punições por elas terem tido sonhos de serem mães. Elas experimentaram em
sua própria carne o limite da perversidade obstétrica.
5. As manobras do bem-estar e do bem-viver do obstetra
As sensações de peso ainda lhes causam tenebrosos tormentos. Ao subir o obstetra sobre o
peito da vítima como se fosse arriar uma égua, ao dar golpes no ventre, utilizando o joelho como
alavanca, ao pressionar o ventre da mãe com uma tábua, ao dar embates no ventre utilizando o
punho e ao empurrar o ventre com o cotovelo, oprime as mamas, arrebenta os peitos e dilacera o
ventre e outros órgãos internos.
6. Todas essas ações alienadas se transformam em dores, fazendo surgir sequelas e sensações
de angústia que se repetem ciclicamente nas mães sobreviventes. “É uma sensação frequente que
não desaparece em meus sonhos, em meus pesadelos, nem em minhas fantasias”.
7.. O sentimento de perda de identidade é constante e a sensação inquietante de que está sendo
sufocada pelo peso de um corpo persiste e se apresenta como pesadelos.
8. Elas fazem questão da absoluta negação da realidade sofrida. Reiteram-se os seguintes apelos
sentimentais das mães estropeadas: “eu não podia acreditar”, “eu não podia aceitar”, “era
impossível estar ouvindo a tábua gemer sobre o meu ventre”, “eu dizia para mim mesma que era
um pesadelo, que em algum momento tudo iria terminar”.
9. “Sempre tenho essas imagens guardadas dentro de mim”. Após os sofrimentos terem sido
camufladas perante a sua família, veio a paralisação pelo medo do próprio medo, a imaginação de
sua própria morte, o estigma da morte em vida. Foi o início de fortes dores de cabeça a ponto de
querer socar a cabeça na parede até culminar em cefaleia.
10. “Eu estava aceitando a minha própria morte”. “Sinto aversão ao imaginar estar novamente
deitada na presença dessa gente (equipe técnica) que marcou a hora da minha agonia e a da
minha morte em vida na sala de parto”.
11. “De mim não se vai o ódio, não se desvanece a raiva, não posso deixar de pensar naqueles
momentos, naquele médico horroroso. Estou irada pela sensação de impotência, pelo sentimento
de injustiça, pelo fato de não ter resposta nenhuma, de buscar respostas dentro de mim e não
obtê-las”. É o sentimento da desesperança, do abatimento que a afoga.
12. Pelo menos, ela sabe claramente quem são os culpáveis - a equipe técnica e o obstetra, o
cabeça. Assim, o grito silencioso se transforma em indignação.
13. Não era possível aceitar passivamente toda essa tragédia como cota de horror, como castigo
de uma culpa que não se podia assumir como certa. “Só fui procurar ter um parto normal”. Ela
sente a dor e toda a indignação do mundo; “meu corpo ainda se move, porém, por dentro estou
vazia e presa a essas sensações que me sufocam e me arrebentam”.
14. A aurora obscura após a tortura obstétrica
O despertar das vítimas submetidas à tortura obstétrica para sua realidade cotidiana é
sempre penoso. Os seus sonos são repletos de gritos, pânico, sustos e os lamentos ainda
persistem em seu espírito descomposto e em seu corpo arrasado.
15. Ao enxergarem seu próprio abismo, caem em depressão pós-parto profunda, desconfiam até
de sua própria sombra, choram de angústia e de raiva repentinamente, sentem dores de cabeça,
dores latejantes no períneo e dores constantes e incomodantes no ventre, sentem tontura e
moleza no corpo inteiro e principalmente nas pernas.
16. O peso e a pressão sobre o peito da vítima tirava toda sua energia e sua respiração,
sufocando-a. “Malvado era quem sufocava a minha respiração. Como eu podia evitar o contato
com ele? Como?”. “Meu corpo anda perambulando sem rumo, porém, o sentimento de ser mãe foi
esquecido na mesa fria do parto”. “Com que sentimento eu poderia amamentar e dar colo a minha
criança, se eu mesma não consigo sair do abismo das águas geladas em que me deixaram?”
17. A recuperação dos danos recebidos nos hospitais e maternidades ***
Surgiu, então, a possibilidade de aliviar um pouco as dores das vítimas . Ao mesmo
tempo, a mulher e a mãe ultrajadas passaram a reagir vigorosamente e a reviver as suas dores
até o último momento. Reconhecê-las significa revivê-las até o fim, porém não faria sentido
relembrá-las sozinha, seria benéfico recuperar essa experiência com outra pessoa que pudesse
escutá-la e compreendê-la.
18. Ali, em meio da dor, surge, então, uma esperança, uma relação terapêutica em que o terapeuta
da *medicina Kallawaya andina além do tratamento energético oferece seu afeto e ela lhe confia a
sua dor. O destrutivo se faz tolerável e se transforma em algo construtivo, através de uma relação
transcendental com a outra pessoa. Esses encontros terapêuticos lentamente fazem espaçar o
dano e aliviam a mulher e a mãe.
19. A recuperação da mulher e da mãe vem através dessa relação em que a dor possibilita o
vínculo, o sofrer, igualmente, acena o reencontro. A mãe necessita de um espaço em que possa
ser valorizada em sua justa dimensão, sem lástimas, sem compaixões, sem privilégios.
21. Nesse conjunto de vivências das vítimas e a conduta dos médicos que liberaram a tortura
obstétrica, observa-se a intolerância absoluta da cultura machista. Esta experiência mostra-nos
que a fortaleza fria masculina, o obstetra mecânico supõe comumente a negação da pena, da
emoção dolorosa, do pranto, dos lamentos e do indeferimento da espontaneidade dos instintos,
da coragem, da sagacidade, da ferocidade e da agressividade feminina nos renascimentos das
Mães d’Água e nos nascimentos das crianças.
*Ver: Descrição de alguns casos de vitimização e de mutilação institucional das prenhas: Casos de arquivo do Ambulatório
AMAWTA. Dirigido por Mallku Chanez , médico Kallawaya.
Diagrama 43
2ª Alavanca com o joelho
A trombada, o peito oprimido e o ventre dilacerado
“Enquanto sufocavam meu ventre com o joelho, o frio percorria a minha espinha.
Os espasmos e as ânsias eram inevitáveis por estar nessa posição penosa.
E a criança querendo sair pela minha boca”.
DESCRIÇÃO DE ALGUNS CASOS DE VITIMIZAÇÃO E DE
MUTILAÇÃO INSTITUCIONAL DAS PRENHAS
Casos de arquivo do Ambulatório AMAWTA*
“A peste negra gerada pelo avental branco, a
síndrome da tortura obstétrica”
Aqui, abordamos alguns relatos das Mães d’Água e das mães metropolitanas com o
intuito de sensibilizar os membros da profissão médica cosmopolita, em especial os obstetras,
contra tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, e para chamar a atenção sobre o número
cada vez maior de meninas, de mulheres e de mães acometidas por algo que chamamos de
-síndrome da tortura obstétrica- “uma doença iatrogênica moderna” resultante da relação
bárbara-civilizada entre a prenha nativa, a grávida da periferia e a gestante metropolitana com o
covarde obstetra cosmopolita.
*Ambulatório AMAWTA, inaugurado em 17 de fevereiro de 1997, em Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo, por Mallku Chanez.
Mais informações serão encontradas no livro: Medicina Originária na Comunidade – Acupuntura e Moxabustão.
Site: www.mallkuchanez.com – IKA Intituto Kallawaya Andino
Caso 1ª - C.A., 56 anos
Ficar deitada na cama de ferro, o tempo todo, sem poder me mexer porque estava
amarrada. Ah! É horrível!
Quando vim por aqui, por São Paulo, tive que ganhar a coroinha no hospital. Ganhei meus dois
primeiros coroinhas na minha terra; do terceiro em diante ganhei no hospital. Eu achei horrível!
Horrível, sabe... Pronto, vou morrer! Falei ainda para o médico: doutor, me deixa descer da
cama. Ele disse: não, C.A, não pode porque tem que ser assim. Meu Deus, acho que vou morrer
mesmo aqui!
Eu sentia muita dor porque estava deitada e amarrada. Nessa posição, não tem jeito de se
movimentar. Aqui, nos hospitais, não perguntam nada e nos fazem sofrer mais, mais e mais.
Você se agarra no ferro, na máquina de parto, onde te cortam. Se segura onde puder, onde
achar lugar para se segurar. Lá não tem Mãe d’Umbigo nem outra pessoa para nos segurar e
nos amparar espiritualmente. Era uma paisagem aterradora essa sala de coração frio.
Comentário:
É uma descrição angustiante de uma mãe pronta a dar à luz. Ela se encontrava deitada
e amarrada na mesa ginecológica, implorando para que a deixassem descer. “Não pode”, foi a
resposta fria que ela recebeu do obstetra, exatamente o contrário do que diz a Declaração
Internacional dos Direitos do Homem: “ninguém será submetido à tortura”.
Caso 2ª - Lu, 50 anos - Multípera
No hospital, foi triste. Eu ganhei, no total, sete brotinhos, dos quais ganhei dois no
hospital. Esses dois que ganhei no hospital foram terríveis. Eu passei muito medo. No final, fiquei
transtornada.
Quando cheguei a São Paulo, ganhei a C. Ah! Foi triste! Fui ao hospital com uma dor
terrível. Fiquei fazendo hora em casa porque me haviam avisado que aqui era diferente. Me
disseram: olha, Lu, aqui é diferente. No hospital, não vai ficar caminhando como em tua casa. Aqui
é diferente. Mas eu respondi: a dor é minha e eu não vou suportar sentada ou deitada. Mas
aqui é diferente, voltavam a insistir. Insistiam que deveria tomar cuidado para sair tudo bem.
Aí, eu fui para o hospital. Quando eu saí de casa, eu já estava com sinal de sangue e
água. Falei para mim mesma - agora começou o sinal de sangue. O brotinho está se
encaixando, ele vai começar a descer.
Quando cheguei ao hospital, o médico disse que o “neném” ia nascer logo. Aí, me
mandaram deitar. Queriam de qualquer jeito que ficasse deitada. Eu perguntei: mas para que
essa cama? A enfermeira disse: você deve ficar deitada. Pensei - eu não vou ficar deitada, eu não
vou ficar deitada, nunca vi isso. Ah! A gente fica doida! A gente fica transtornada! Ficar deitada
não, minha filha, não vão me segurar aqui. Aí, ela disse que tinha que obedecer porque eram
ordens médicas.
Fiquei magoada. Estava sentindo dor, sozinha, longe de todos meus parentes. Eu só
queria ter meu filho, mas sentia que estava sendo castigada. Eu não queria deitar. Nunca tive filho
deitada. Tirava forças do fundo da alma para que eles me ouvissem.
Me colocaram na cama à força. Pensei em levantar, mas minhas forças já não estavam
mais comigo. E eu com todo esse peso no corpo. Eu achei triste. Achei horrível. Choro de raiva,
de muita raiva. Eu senti muita dor e nervoso. Não tenho palavras para transmitir o que eu senti
naquele momento. Tive que ceder e ficar deitada com toda essa dor. Desde aquela época, ando
sentindo dor de cabeça todos os dias e quando fico contrariada dói muito mais. Nunca falei nada
para ninguém, sempre escondi esse horror.
É insuportável relembrar tudo o que o brotinho e eu passamos. Ele não sabe nada do
seu nascimento e ele, também, é uma pessoa doente.
Comentário:
“Sob meus cílios fechados de dor, meus olhos estavam sendo atravessados por imagens
de fogo. Chorei de raiva, nunca falei nada para ninguém....” Atualmente, no Brasil, a tortura
obstétrica possui mais adeptos na classe médica que é civilizada. Subestima-se o direito da
mulher-mãe renascer e fazer nascer, arrebatam dela o seu direito de escolha. Então, entra o jogo
da racionalidade e da irracionalidade - bisturis, agulhas, anestésicos. E assim, castigam o fundo
do ventre, a pélvis e os contornos do períneo.
Caso 3ª - D. T., 40 anos
Alavancas com o joelho no meio do peito
Tinha uma mãe pertinho de mim, na cama ao lado da minha, uma menina-mulher. Um
pouco antes de meu menino nascer, o médico que estava me atendendo me deixou de lado e foi
atendê-la. Eu não estava acreditando no que estava vendo. Ele colocava o joelho dele aqui em
cima, no estômago, em baixo dos peitos dela, e ficou em cima dela apertando com o joelho.
Disseram que era para a criança nascer e ela, deitada, sem poder se defender. Mas nunca, nunca
no norte fazem semelhante barbaridade.
Nunca vi, em minha vida, judiar, fazer tanto mal a uma Mãe d’Água. Falei comigo
mesma - eles vão matar a moça aqui. Eles insistiram por muito tempo. E mexiam, mexiam com o
joelho aqui no meio do peito para fazer o brotinho descer, mas ele não descia. Ele subiu mais e
mais. Eles não sabem nada, eu pensava. Quando a mãe fica assim deitada, o brotinho sempre
vai querer ir para cima. Vi aquilo e pronto! Vão fazer comigo a mesma coisa! Fiquei apavorada
porque eu não sentia ainda que o Anel d’Aguaí, bolsa de água, tinha se rompido. Aí, quando o
menino-homem veio, veio com tudo. Não sei como, mas veio com tudo. Não sabia se ficava
contente ou se chorava. Foi tudo terrível e horrível. Quase matam a menina-mulher.
Comentário:
O uso de alavancas para golpear, empurrar o diafragma com o joelho - essas pancadas
criam hematomas e provocam hemorragias no ventre materno. Elas seguem sendo
sistematicamente utilizadas, continuam sendo eficazes para conduta médica e para os suplícios de
várias mães. Acompanham esse cardápio indigesto, injúrias e piadas obscenas, sem que elas
possam se defender.
Você, sendo médico, não sabe disso? Eles não respondem. Será que esse
abençoado tem mãe? Será que fizeram a mesma coisa com a mãe dele? Fica tudo sem resposta.
Que será que eles acham de nós?
Então, pronto. Agora, aqui, a gente vai morrer. Aqui mesmo. Como vou ficar deitada?
Falei para a enfermeira. Ela também não respondia. Perguntei para a enfermeira de novo: moça,
escuta o que estou falando, por favor, ouça. Ela me disse: não tem problema de ficar deitada. Se o
médico olhou, está tudo bem, diz a ovelhinha de lã branca.
Caso 4ª - D. I, 45 anos.
Alavancas com o joelho 191213
Foi a primeira vez que vi o médico colocar o joelho numa moça. Acho que a criança não
nascia porque a moça estava deitada. Será que sempre faziam isso?
Por que não deixar a mãe sentada? Eu fiquei assustada. Que é tudo aquilo? Estavam
maltratando a moça! Meu Deus do céu! Que está acontecendo aqui? Isto é um hospital? Até que
falei para o médico: por que você está maltratando ela? Eles não diziam nada. Só ficam com a
cara emburrada, parecem os donos do mundo. Fecham a fala e pronto.
Eu já estava dentro da sala e disse para mim mesma - nunca mais! É a primeira e a última
vez que vou ganhar o brotinho aqui em São Paulo. Nunca mais! Eu não vou ficar aqui em São
Paulo. Se eu ficar prenha aqui, vou embora para minha terra. Não vou ficar para que eles
maltratem e matem a gente. Não vou ficar. Vou embora!
Falei para o médico: não precisava fazer isso. Minha tia era Avó d’Umbigo, que assistia a
todas as Mães d’Água e aparava, segurava a criança. A gente morava na roça, todo mundo
buscava ela, e ela ensinava a gente - se você ficar deitada, a tendência da criança é voltar para
cima. Agora, se você ficar sentada no cepinho (banco), ela tem mais condição de descer e sair.
Se ficar deitada, não vai sair. Ela não fica em posição de descer. Eu insistia: está tudo
bem para quem? Se a gente ficar deitada nessa cama, a criança não consegue mudar de posição!
Não vinha nenhuma resposta. Por que será que não nos ouvem?
Aí, ouvi a enfermeira comentando com o médico - ela está com medo porque no norte é diferente.
O médico afinal abriu a boca para me responder: eu sei que é diferente, mas não tem problema.
Não tem problema. Se a criança está em posição de nascer e ela é afortunada, ela sai...
Eles parecem ter nojo de nós. Não falam. Eu sou mãe, mas também sou de carne e osso.
Parece que eles não tem sentimentos. Eu nunca quis falar desse assunto do hospital. Com quem
conversar?
Quando passa, todo mundo faz que esquece por medo ou por não querer lembrar do
sofrimento. Nunca até hoje havia comentado, nem com meu marido porque eles são os maiores
frouxos e fracos para poder falar sobre isso. Eu me senti muito triste e abandonada mesmo.
Comentário:
Sob climas opressivos dos hospitais-escolas, a tortura obstétrica tem se transformado numa
nova perversão que se sustenta por si só, através de ódios, discriminações e humilhações.
Os clamores agonizantes das Mães d’Água não chegam a sensibilizar os deuses de avental
branco e nem sua equipe de técnicos medíocres. Elas ficam sem resposta e se perguntam - por
que será que não nos ouvem? Eles dão risada de nossas queixas.
As torturas físicas e psíquicas obstétricas devem ser abolidas das instituições científicas,
das escolas de medicina porque elas lesam e se intrometem no direito de escolha do nascimento
energético da Mãe d’Água. A “condenada”, além de ser acusada, perde toda sua energia. A
mulher-mãe é privada de todos os seus direitos através da tortura, “um câncer psicossocial em
disseminação”.
Diagrama 44
3ª Alavanca com a tábua
Esmaga a criança e mata a mãe! Uma tábua é colocada sobre o ventre da mãe,
subindo o ‘doutor’ sobre ela para ‘ajudá-la’ no momento da expulsão do bebê.
“Minhas mãos tentavam arrancar aquela tábua que oprimia meu peito,
mas elas estavam sem força e me faltava o ar.
Caso 5ª - D. M., 45 anos
“Essas mulheres do norte dão muito trabalho”, dizem os ‘doutores’
Acho, agora, que o renascimento no assento do fogo, no cepinho, é mais simples, não
faz a Mãe d’Água sofrer. Eu tive “brotinhas”(os) na minha terra e na cidade. Aqui, na cidade, a
gente tem que falar “criança”, “neném”, “bebê” e “nenê” porque se você fala como nós
aprendemos, é chamada de burra, ignorante e todas para eles são ‘”nordestinas”, e dizem que não
se fala assim em português. Então, nós temos que “aprender” até a falar.
Queria voltar, mas como nós vamos viver lá com toda essa seca e pobreza? Ainda
assim, eu estou segura de uma coisa - não quero nunca mais ter criança com os médicos de hoje.
Eles são muito adiantados com suas máquinas, mas com as pessoas eles não falam, são muitos
atrasados para nos ouvir. As mães sofrem bastante, sofrem mais do que na minha terra. Será que
as mulheres da cidade são tratadas sempre desta maneira? Nunca escuto falar nada delas. Elas
parecem que aceitam tudo caladinhas, se fazem de pobrezinhas, de coitadinhas, por isso dizem
no hospital que essas mulheres do norte dão muito trabalho.
Muitas mães do norte falam - hoje está mais fácil porque agora tem médicos. Toda
mulher nova está querendo ganhar crianças com médicos, não quer mais ficar em casa, fazer os
nascimentos com as pessoas de quem gostam e com a Mãe d’Umbigo; somente aquelas Mães
d’Água de outras terras, mães que não querem perder seu estilo, seu costume e que querem
manter sua raiz na Mãe-Terra.
Comentário:
O renascimento da mãe e o nascimento da(o) “brotinha(o)”, lhe permite ter êxtases e
fantasias de prazer intenso e não suplícios. “Eles são muito adiantados com suas máquinas, mas,
com as pessoas, eles não sabem conversar”. Sob o olhar autoritário, a Mãe d’Água se desfaz de
suas roupas e também de sua fala. Espantada, ela percebe pura crueldade nessas atitudes.
Caso 6ª - D. E., 38 anos
No hospital, eu me senti dominada, controlada. Eu fazia o que eles queriam, eu não
tinha o direito de optar pelo jeito que eu queria, pelo meu estilo de ganhar o coroinha. Eu achava
certo, e melhor para mim, sentar na calma, no Anel de Madeira. Era essa a minha experiência.
Quando a Mãe d’Umbigo assistia a “chuva da Mãe do Corpo”, eu ficava à vontade, eu tinha minha
opinião em casa, estava do jeito que eu queria.
Odeio que me trabalhem no hospital. Aquilo me deixou frustrada, triste e deprimida.
Eu queria continuar acompanhando minha geração, o nosso rito de “sentar na calma”. Eu gostava
de gerar o brotinho e gerar a Força d’Alento em casa. Acho que isso estava certo para mim.
O parto deles é seguir o avançado das coisas, é o estudo dos “doutores”. O médico faz
obstetrícia para trabalhar na gente. Eles não vão deixar de trabalhar do jeito que eles estudaram
para poder acompanhar o ritual da gente, o sentimento, o instinto da Mãe d’Água. Eles tem
preconceito do nosso estilo, dos nossos ritos.
Será que não bastou o que fizeram, achando que tudo que vinha das mulheres do
povo era do demônio, sempre dizendo que nós somos pecadoras porque desobedecemos a
Deus ao fazer uso de nossas ervas e de nossos rituais? Com isso conseguiram fazer com que as
pessoas não acreditassem mais nas ervas e nos rituais e, assim, ajudaram a gente a entrar na
miséria. Será que eles não enxergam? Nossas ervas, nossos rituais não vem do demônio, vem
da nossa natureza.
Nós não pedimos e nem os obrigamos a deixar o estudo deles. Eles acham que estão
progredindo, mas eu acho que é para o mundo deles. Progridem sem olhar com os dois olhos.
Só com a metade do coração, eles estudam para “trabalhar no parto”. Eles só querem trabalhar
dentro de nós. Querem trabalhar do jeito duro deles.
Enfiam as garras como se quisessem arrancar alguma coisa, como se fôssemos de
ferro ou máquinas, para arrancar uma peça à marretadas. Nós somos pessoas, somos iguais a
mães deles.
Eles estudam nos livros de fora e nos corpos frios, sem sentir amor, sentimento pela
mãe. Eles não acompanham nossos olhos e nosso coração. Quando procuramos ajuda, eles
ficam com os olhos no chão ou no papel, escrevendo. São hipócritas e traiçoeiros. Nunca
tocam a gente, mesmo estando diante deles. Desse jeito, eles nunca vão poder acompanhar o
ritual da Mãe d’Umbigo da gente.
Comentário:
“Enfiam as garras como se quisessem arrancar alguma coisa, como se fôssemos de
ferro ou máquinas, para arrancar uma peça à marretadas”.
Aqui se expõe claramente a quebra fisiológica e psicológica da Mãe d’Água “às
marretadas” dadas pelos juízes dispostos a condená-la na sala de parto. Daí vem a atitude de
espanto e a sensação de aniquilamento da mulher-mãe pela privação da Força d’Alento
Energético.
Caso 7ª – S.S., 26 anos
“Peregrinação hospitalar” e os “horrorosos exames de toque”.
No dia 11 de março de 1997, saí de minha casa ao meio-dia para tentar ganhar minha
filha. Fui para o Hospital Geral de Guaianases. Chegando lá, me falaram que não estava na hora e
que não tinha vaga. Saímos de lá por volta de uma hora da madrugada do dia 12 de março em
direção ao Hospital Ermelino Matarazzo, onde me deram o mesmo diagnóstico, mesmo
percebendo que eu estava com a bolsa rompida. Com isso já se passavam das dez e trinta da
manhã.
A pessoa que estava nos dando carona nessa peregrinação hospitalar, não podia mais
nos levar. Tivemos que tomar um ônibus, mesmo eu estando com uma toalha entre as pernas
para não espalhar a água que vinha fluindo. Nós nos dirigimos para o Hospital Tide Setúbal, em
São Miguel Paulista. Quando dei entrada nesse hospital, já passava das onze da manhã.
Chegando lá, fui atendida por um médico que me mandou aguardar e me disse que não
podia continuar perdendo líquido. Mas não havia vaga naquela maternidade também e, então, tive
que aguardar uma ambulância das onze da manhã até às quatro horas da tarde. Nela, fui
encaminhada para a Santa Casa de Mauá, onde cheguei por volta das dezoito horas.
Lá em Mauá, uma médica me atendeu, a qual terminou de romper a bolsa d’água para
logo fazer meu parto. Eram oito e trinta e seis da noite do dia 12 de março de 1997. Tive que fazer
cesariana, pois disseram que eu não tinha dilatação suficiente para o parto normal. A minha filha
nasceu com 50 cm e 3,803 kg.
As maiores violências a que fui submetida durante o processo de parto foram nos
exames de toque e o descaso em relação ao meu parto, deixando passar tanto tempo para ser
feito. Nos exames de toque, meu corpo sofria na região vaginal. Em cada hospital, além do
médico me tocar, outras pessoas chamadas de estagiários vinham me tocar. Durante várias
horas, eu sofri muito e fiquei agoniada nas mãos desses médicos. Por um bom tempo fiquei
receosa de ter relações sexuais, pois algo me incomodava; acho que foi devido aos horrorosos
exames de toque.
Tenho marcas físicas da cesárea que demoraram muito tempo para se fechar. Aliás, tive
muita, muita dor de cabeça. Logo que cheguei em casa, pensei que ia ficar louca. Não suportava
ouvir sons, pois me irritavam. Tenho muitas lembranças tristes desses momentos passados. Por
outro lado, esse sofrimento só fez com que eu protegesse cada vez mais a minha filha. Eu queria
engravidar de novo, mas não posso porque sou laqueada. Se pudesse, faria parto normal, pois a
recuperação é mais rápida.
Comentário:
Os exames de toque, no decorrer da peregrinação, foram se transformando em simples
jogos de crianças travessas, por causa das atrocidades cometidas com a cumplicidade dos
colegas e sob a covardia dos supervisores.
O Ministério de Saúde Pública precisaria acordar e perceber a existência de diferentes
formas de torturas obstétricas, entre as quais predominam os maus tratos vaginais. A certeza da
impunidade é o maior instigador da crueldade no baixo ventre.
Diagrama 45
4ª Alavanca com o punho
“Fui abusada e desprezada. Socavam meu peito e oprimiam meu
ventre durante todo o suplício de meu parto”.
PT 4 - A (PORT) VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL -   A tortura obstétrica  em mulheres mães brasileiras
Primeiramente, o corpo aterrorizado da menina-mulher ou da mulher-mãe era colocado
sobre a fria mesa ginecológica. Depois, a sangue frio, sem anestesia, o colo do útero era
pinçado, raspado e puxado com toda força. Assim, a cureta estaria arrancando a fibra nervosa e
estimulando uma grande hemorragia. O corpo se contraía em espasmos por haver sofrido a tortura
brutal e desapiedada do obstetra. Uma grande barbárie era executada. Em pleno século XX, as
mulheres eram torturadas em São Paulo, nos hospitais e nos hospitais escolas como no da
Universidade de São Paulo, USP.
2. Esse ato apavorante que vitimava a Mãe do Corpo, o colo do útero, era realizado em grupo, ou
seja, com a participação de vários residentes. Uma vez terminada os maus tratos e a tortura a Mãe
do Corpo, emanava um absoluto silêncio entre os honoráveis residentes. Alguns saíam magoados
e desesperados da sala. A discrição, o não falar nada a respeito, era o código. “Qualquer alusão,
qualquer comentário ou qualquer contestação entre os praticantes delinquentes era entendido
como subversão.”
3. Não era norma ou regra do hospital, não era consentido no papel que toda mulher que
procurasse um atendimento com hemorragia ou não devia ser submetida à curetagem a sangue
frio. Não se sabe quando começou essa prática dos residentes delinquentes. O que se sabe é
que foi passando de geração a geração até meados de 1980.
4. Os médicos e os professores conscientes proibiram essa macabra prática a seus discípulos.
Todos sabem que o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, USP, tem dentro de seus
quadros excelentíssimos profissionais, os quais demonstram uma grande preocupação ética.
Assim sendo, onde está a proteção e o respeito do hospital escola em relação às meninas-
mulheres, às Mães d’Água e às gestantes civilizadas que procuram assistência para a sua dor e
compreensão para a sua desconsolada perda em meio a tanta desgraça?
5. Dentre os numerosos casos de curetagens a sangre frio temos:
a). Curetagem no Hospital Particular de Mirandópolis – Sra. D.A (1)
Eu sou da Bahia. Quando cheguei a São Paulo, logo fui trabalhar numa fazenda em
Mirandópolis, no interior de SP.
Conheci meu marido lá e casei. Engravidei por amor e tive minha primeira filha, em casa,
com a assistência de uma amável parteira, no dia 23 de maio, às sete e meia da manhã. Porém,
ao finalizar o nascimento da minha querida filha, minha parteira percebeu que a placenta não saía,
pois estava colada. Eu fiquei com a placenta colada no ventre e o cordão umbilical para fora.
Depois de realizar cuidadosos e lentos movimentos durante um tempo e ter feito todo o
possível para tentar descolar a placenta, a parteira desistiu e procurou um curador, um benzedeiro
da região, mas eu não quis fazer nada. Então, ela disse que seria melhor eu ir para o Hospital de
Mirandópolis.
Imediatamente, meu marido e eu pegamos uma ‘jardineira’, um ônibus da região, às
onze horas da manhã, para tratar de tirar a placenta. Chegamos a Mirandópolis à uma hora da
tarde. Ao chegar no pronto socorro do hospital particular, meu marido foi correndo falar com a
atendente.
Ao primeiro médico que veio conversar com meu marido, ele explicou meu problema da
placenta colada. O médico pediu uma quantia muito alta que não podíamos pagar; e ele não
queria e se negava a fazer por menos. Nós éramos lavradores, não éramos donos da fazenda.
Então, meu marido perguntou por outro médico que ele conhecia, o dr. Al., o qual não se
encontrava no hospital nesse dia. Ele havia viajado para São Paulo. Com a ajuda da atendente,
meu marido ligou para ele pessoalmente e explicou o problema. Ele disse que voltaria no dia
seguinte e nos mandou esperar. Como o dr. Al. só ia voltar no dia seguinte, meu marido foi
conversar de novo com o primeiro médico. Ele não quis atendê-lo e nem ouvi-lo; mandou-nos
esperar por outro médico. Ele só estava interessado em ganhar dinheiro.
Quando cheguei no hospital, eu não sentia dor, ‘não estava menstruada’, estava sem
hemorragia. Passei a noite toda no hospital, aguardando o médico retornar. Durante a minha
espera, as parteiras e as enfermeiras passavam e faziam diversos comentários. Diziam que era
muito perigoso ficar desse jeito porque poderia contrair tétano ou pegar alguma doença infecciosa.
Eu fiquei muito preocupada, pois tinha uma filha para amamentar esperando em casa.
Eu estava assustada, mas tinha que esperar. Por não ter dinheiro, esperei dois dias para fazerem
a limpeza do meu útero com a placenta pregada na minha barriga e o cordão umbilical
pendurado no meu corpo.
No dia seguinte, chegou o tão esperado dr. Al. Meu marido foi correndo conversar com
ele. Eles chegaram a um acordo sobre a quantia que seria cobrada. Ele cobrou o que podíamos
pagar, mas houve um grande inconveniente. Eles disseram que não tinha ninguém que pudesse
doar sangue em Mirandópolis e, então, tivemos que esperar vir sangue de São Paulo.
Tudo foi feito só de tardezinha pelo médico. Ele fez a raspagem no meu útero, para
arrancar a placenta colada, sem anestesia. E doía muito. Ainda pagamos para isso. Ele cobrou e
nós pagamos o que ele pediu. Mesmo assim, ele arrancou a placenta colada no meu útero sem
anestesia. Era muita dor. Ele nos enganou e eu fiquei muita zangada e assustada.
b). Curetagem no Hospital das Clínicas, USP– Sra. D.A (2)
Um ano depois, me mudei para a cidade de São Paulo e engravidei novamente. Tive,
pela primeira vez, um aborto espontâneo com sangramento e dor. Fui levada de ambulância para
o Hospital das Clínicas.
Quando estava sendo levada para o hospital, lembrei-me do ocorrido em Mirandópolis,
um ano atrás. Fiquei muito preocupada e assustada com minhas lembranças. Pensava comigo
mesma - de novo? E agora? Outra vez? Vou passar por tudo aquilo de novo? Eu não vou
aguentar! Que fazer, meu Deus... Quando cheguei no pronto socorro, fui deixada no corredor.
Chegavam pessoas baleadas, esfaqueadas, machucadas. Ver tudo aquilo me fez sentir cada vez
pior. Fiquei mais apavorada do que já estava. Essa passagem pelo pronto socorro foi um dos
piores pesadelos da minha vida. Nunca me imaginei passar por tal situação. Depois de um longo
tempo de espera, me levaram para cima, para o andar superior, para rasparem meu útero.
Novamente, fizeram a raspagem sem anestesia. Foi muito dolorosa. Eu ouvia todo o
barulho que faziam dentro de mim! Vai saber o que aquele povo faz. Esses médicos são todos uns
sem vergonhas. Eles nunca se interessam por nós, mães.
c). Curetagem no Hospital das Clínicas, USP – Sra. D.A (3)
Três meses depois da minha segunda raspagem, eu engravidei de novo. Nós não
éramos orientadas a não ter relações. Como ninguém me explicou que depois da raspagem não
podia ter relações, fiquei grávida de novo.
Tive outro aborto espontâneo e sangramento. Fui levada de carro para o Hospital das
Clínicas e ali foi feita mais uma curetagem terrível sem anestesia.
Em todas as curetagens, nas três que passei, eu não podia gritar. Era proibido gritar.
Tinha que tampar minha boca mesmo com a dor que sentia. Meu Deus, como doeu! Foi igual na
primeira, na segunda e na terceira vez fui de carona.
Mas, doía, doía! Deus me livre! Estavam raspando lá dentro. Você só ouvia um
negócio lá dentro - crup, crup, crup, crup... Um som ardido. Gente do céu! Eu pensava - eles
estão raspando e rasgando o meu útero!
As sequelas:
Tenho constante depressão. Nunca mais me recuperei. Fico chorando, chorando e
chorando. A partir dos 19 anos, comecei a tomar remédios para depressão e insônia e nunca mais
parei.
6. Abortos e curetagens em gestantes precoces
A mãe precoce sempre foi mal compreendida e negligenciada. Elas sofrem repressões
domésticas e econômicas, e acabam sendo, também, discriminadas socialmente. Por medo de
enfrentar essa realidade, muitas meninas-mulheres tentam fazer aborto, provocando
hemorragias. A miséria, a desnutrição, a falta de higiene, o excesso físico, a violência
doméstica podem, também, resultar em hemorragias e abortos espontâneos.
7. Pesquisas demonstram que alguns homens insatisfeitos com suas proezas caçadoras, ao
tomarem conhecimento de que sua companheira ficou grávida, chutam-na, batem na Mãe do
Corpo, útero, na tentativa de provocar aborto criminoso. Algumas vezes conseguem e outras vezes
não.
8. Qualquer que seja o caso da grávida, uma grande hemorragia a leva a procurar uma
instituição pública.
Essas futuras mães chegam sangrando e com esperança de serem atendidas,
socorridas, ouvidas e compreendidas. Mas, para sua surpresa, acabam sendo recepcionadas
como criminosas e inimigas da sociedade por provocarem um crime - o aborto.
9. Sem escutá-las, os residentes, os delinquentes iniciados, muitas vezes as pré-julgam. Todas
são consideradas culpadas, sem direito a defesa, por cometerem um ato ilegal. Por burlarem a
justiça do Ovo Pater-Fetal Patriarcal, o machismo absoluto, elas são consideradas merecedoras
de punições.
10. Desde sua iniciação, o delinquente acadêmico, o obstetra, incorpora o papel de justiceiro. É
juiz, acusador, sentenciador e carrasco. Ele não quer ouvir nenhuma contestação ou alegação a
favor ou contra. Não adianta tentar lhe explicar e nem mencionar as circunstâncias em que o
aborto aconteceu.
11. A menina-mulher é privada do direito de defesa. Ela é acusada e condenada independente do
motivo dessa hemorragia. O doutor, seu torturador acadêmico, não quer saber de nada. A
sentença é executada. Seu castigo vem na forma mais bárbara, através da curetagem a sangre
frio sem anestesia.
12. Nesse contexto, se alguém se atrever a abrir a boca, será agredida com frases como “quem
mandou abrir as pernas?”; “quem mandou dar?”; “na hora de virar os olhinhos é bom, depois não
quer ter filho, não quer sofrer, né?”.
Diagrama 46
5ª Alavanca com o cotovelo
“ Prolongou-se por muito tempo a minha agonia”.
A vítima subjugada com o cotovelo é arrastada ao mais profundo abismo.
EPISIOTOMIA E RUPTURAS SEM NECESSIDADE
NA SALA DE PARTO
O obstetra ordena a estagiária a cortar o períneo, sem
necessidade, para que ela possa treinar torturando!
A estagiária não tem motivos pessoais
para praticar uma agressão fria, objetiva e
calculada, a qual desencadeia uma reação de
terror pelo enorme dano que provoca,
5. Pois ainda que demonstre seu caráter civilizado
não foge a forma de agressão acadêmica.
O choque inicial acontece pelo clima de intimidação,
de insegurança, para rasgar o períneo.
É o começo de uma longa e lenta agonia que acaba
10. Transformando a personalidade da mulher e da mãe.
A mulher-mãe, durante essa intervenção,
fica desorientada.
O impacto é tão aterrador e cruel que fica sem
saber o que está se sucedendo com ela.
Alguns obstetras são insensíveis, não são éticos, não se tocam sentimentalmente nem
profissionalmente. Acham que ser frio lhes dá mais status social, atuam acima de um pedestal,
não se compadecem e tratam isso como se fosse algo que as mães tivessem a obrigação de
suportar e aceitar caladas. A seguir, algumas descrições de rupturas e episiotomias:
Caso 1ª
Arrebentou o Anel do Metal (períneo)
A gestante recebeu anestesia local, porém a anestesia não pegou, o que fez com que
ela sentisse cada ponto da sutura. Uma dor horrível. Depois de algumas semanas, os tecidos não
se juntaram, não se cicatrizaram.
Um pedaço de pele ficou solto. A ferida abriu-se porque não foi bem costurada e acabou
inflamando. A paciente retornou ao médico e dele escutou: “com o tempo vai se curar”. Cinco
meses depois, ela voltou ao hospital para fazer uma operação com anestesia geral.
Inacreditavelmente, também não deu certo. Ficou com um pedaço de tecido da pele sobrando.
Algumas semanas mais tarde, fez outra cirurgia com anestesia local e, finalmente, deu certo. Oito
meses depois do parto, ela conseguiu ter relações sexuais novamente. Mesmo assim, ela afirma
que teve que ficar bêbada antes da relação devido à intensidade da dor que sentia.
Caso 2ª B.L.
Episiotomia: corte e costura
Após uma doutora lhe costurar o Anel de Metal, o períneo, passou a ter uma dor terrível.
Transcorrido cinco meses, fez uma operação. O médico lhe sugeriu que tivesse outra criança, pois
isso poderia ajudar a esticar o períneo. Após o nascimento de mais um filho, suas dores pioraram.
Caso 3ª C.O.
Corte longo e profundo que atingiu o nervo
O corte alcançou o topo da perna através das camadas do músculo. A costura foi muito
mal feita e a paciente passou a sentir dores constantes. Depois de alguns meses, a ferida
gangrenou.
Em dois anos, ela passou por quatro cirurgias. Outra ginecologista descobriu que a
origem das dores encontrava-se no nervo que havia sido danificado na ocasião em que foi
realizada a episiotomia. Foi necessário tomar injeções para o tratamento do nervo. Deixou de
sentir as dores, mas o desconforto permaneceu. Mais tarde, ela teve a segunda filha por cesárea,
já que no parto normal os tecidos danificados poderiam voltar a se abrir. Oito meses após o último
nascimento, o marido a deixou porque não aguentou a pressão das queixas da companheira.
Algumas reflexões sobre as rupturas e as vexações obstétricas
Há algo particularmente sinistro na tortura da mulher por outra mulher. O caráter do abuso
experimentado gera uma série de vivências traumáticas e dolorosas que interferem na obtenção
da cadência e do prazer do próprio corpo.
2. A interferência nas relações amorosas com o parceiro tem efeitos destrutivos, muitas vezes
irreconciliáveis, pois, as vexações, as rupturas, além de fazerem reproduzir vivências dolorosas
no corpo todo, também fazem produzir fantasias de destruição, destituindo antecipadamente o
prazer, que tem uma função importante nas relações maritais.
3. Como consequência dessa experiência traumatizante, existe o risco da mulher-mãe se invalidar
na forma de vivenciar seu corpo e, também, de se anular no estabelecimento e na manutenção de
vínculos pessoais reais.
4. O efeito do dano psicossocial na esfera Peri-genital e as experiências traumáticas vinculadas às
relações maritais tem um efeito muito profundo sobre a mulher-mãe. Seu caráter vexatório a
entristece, precisamente por seu espaço mais íntimo ter sido rasgado. Ela não consegue se ver
aliviada dos danos que a atormentam e a possibilidade daquilo que a traumatizou ser
potencialmente revivido em cada relação marital faz com que ela não consiga viver uma vida
instintivamente prazerosa.
VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA
NO BRASIL
“Minhas mamas e meu peito oprimidos e
o meu ventre
comprimido e dilacerado”
Mallku Chanez
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IKA: Instituto Kallawaya de Pesquisa Andino
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PT 4 - A (PORT) VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL -  A tortura obstétrica em mulheres mães brasileiras

  • 3. Basta de torturas e de violência obstétrica contra as meninas, as mulheres e as mães brasileiras As manobras distorcidas ou trancos mecânicos, traumáticos e angustiantes, servem para provocar horror e apressar o período expulsivo. Os trancos com os punhos, braços, cotovelos, joelhos, tábuas e quadris são utilizados como ferramentas físicas com as quais acabam arrebentando e estourando os órgãos do ventre materno. São como espinhos, pregos, parafusos fincados profundamente no âmago da mãe, espalhando dores que nenhum obstetra covarde poderá amenizar pelo resto de sua vida.
  • 4. --- Parte lV -A 5. Dilaceração da menina, da mulher e da mãe com as manobras ou os trancos pesados de Kristeller 11. Minhas mamas e meu peito oprimidos e meu ventre comprimido e dilacerado 19. Descrição de alguns casos de vitimização e de mutilação institucional das prenhas: casos de arquivo do Ambulatório AMAWTA 33. Curetagens a sangre frio: por que realizar curetagem a sangue frio, sem anestesia? 42. Episiotomia e rupturas sem necessidade na sala de parto: o obstetra ordena a estagiária a cortar o períneo, sem necessidade, para que ela possa treinar torturando!
  • 6. 3. Os suplícios e as torturas das manobras distorcidas de Kristeller As manobras de Kristeller são realizadas pelos ‘doutores’, os quais dificilmente seguem os princípios fundamentais descritos no manual de instruções. 4. Elas se tornaram um dos grandes suplícios das parturientes, tanto pela complexidade com que se revestem essas expressões brutais como pelo martírio que as manobras com tábuas, mãos, cotovelos, joelhos e quadris aplicadas com força exagerada provocam. Essas manobras deixam, ainda, hematomas, hemorragias, edemas e outras sequelas. A força expressiva dessa linguagem dilacerante destrói órgãos. Para alguns obstetras, essas nefastas manobras físicas são sinônimos de suas ‘mais delicadas afeições’ dedicadas às parturientes. Uma breve revisão histórica revela que no mundo ocidental, nos fins do século 18, o castigo corporal desapareceu como espetáculo público e a tortura deixou de ser parte do processo judicial. Porém, no final da Segunda Guerra Mundial, o mundo se horrorizou ao tomar conhecimento das práticas aniquilatórias nos campos de concentrações nazistas e sobretudo com a cooperação médica nos experimentos pseudo científicos. Hoje, esses horrores são constatados de maneira atualizada nas práticas dos torturadores obstetras brasileiros. 5. A criança subia e parecia que ia sair pela boca! Há relatos dramáticos como a de uma mãe que em Presidente Prudente, São Paulo, teve uma tábua colocada sobre seu ventre, subindo o ‘doutor’ sobre ela para ‘ajudá-la’ no momento da expulsão do bebê. Porém, a posição ginecológica da parturiente na mesa de parto de maneira alguma favorece a expulsão do bebê. Muitas mães afirmam que a sensação que tiveram era de que o bebê subia e de que ele sairia pela boca.
  • 7. 6. A aplicação progressiva da anestesia deixa a parturiente entorpecida, inerte, impedida de acompanhar e de dinamizar as contrações para a expulsão da criança. O médico, percebendo a inatividade da gestante, recorre, então, às absurdas manobras distorcidas de Kristeller, as quais podem levar a parturiente à perda da consciência e à morte. 7. Tortura na posição ginecológica: intimidação e vitimização do ventre materno Toda essa tortura acontece quando a parturiente está em posição ginecológica. O médico Márcio Bomtempo confirma tais aberrações. “A criança vai para cima ao mesmo tempo em que o trabalho do útero é dificultado pela compressão de importantes vasos do abdômen e a circulação venosa, perturbando a oxigenação materno-fetal”. 8. Torna-se constrangedor para a mãe falar sobre ou descrever tais aberrações. Além do sofrimento físico, as sequelas psíquicas se refletirão no seu relacionamento psicossocial e familiar. Em casos extremos, acaba até sendo abandonada pelo marido. Os esforços que a desventurada mãe faz para esconder de suas próprias fantasias esse terror não a aliviam e menos ainda confortam seus sonhos. 9. A guerra do obstetra contra o imobilizado ventre materno Essa história cheia de esperança e de desilusões retrata a luta da mulher e da mãe numa guerra imposta estrategicamente pelo covarde obstetra para anular e desintegrar a mãe e a criança através do trabalho de parto. Como a mãe poderá se reintegrar à normalidade da vida familiar e psicossocial sendo vítima da tortura acadêmica perfeitamente e friamente calculada?
  • 8. 10. A mediocridade dos torturadores diplomados Os medíocres torturadores esquecem-se ou não sabem que para ter uma apresentação normal, o mais importante é colocar a mãe em posição vertical, sentada e lhe dar a oportunidade de relaxar e de se tranquilizar para que a criança, que se move livremente em sua plenitude, possa flutuar dentro de suas águas e consiga fluir e alcançar a via-fluvial baixa. 11. Deslocamento prematuro da placenta e sangramento transplacental Muitas vezes, o técnico medíocre utiliza seu joelho, seu antebraço e suas mãos para as alavancas traumatizantes. Por causa da força utilizada para expulsar a criança do ventre materno, essas manobras dilacerantes e aterradoras podem provocar deslocamento prematuro da placenta, produzir um sangramento transplacental em ventres excessivamente tensos, ou rasgar e tirar do lugar os órgãos internos como fígado e baço, os quais ficam muito angustiados. 12. Mães traumatizadas por lesões físicas e emocionais O que se relata sobre lesões físicas e emocionais provocadas por essas alavancas mal utilizadas é preocupante. As mães traumatizadas sentem medo e não possuem coragem para colocar fora as experiências pelas quais passaram. Elas engolem as dores causadas pelos delinquentes acadêmicos com seu machismo intervencionista. Essa melancolia reflete o fundo imoral mais baixo das pregas do ‘doutor’ de mais cruel caráter. O que inspira esse pensamento do mal? Não é o de dar um impulso para socorrer a mãe numa desgraça e muito menos o de acolhê-la perante a vida de sua criança, mas, sim, de lançá-la à morte.
  • 9. Diagrama 42 1ª O terror da alavanca do cavalo As alavancas são práticas com terror traumatizante e bem contaminadas com pressa doentia. O médico sobe em cima do tórax (alavanca do cavalo) da parturiente para “empurrar o neném”, tendo como ponto de apoio o peito da parturiente. “Como eu queria adoçar só com uma gota de mel todas essas dores e ardores que me destroem. Lembro-me dos quadris (nádegas) pesadas que se encravavam como pregos em meu peito, remoendo minhas costelas e não me deixando respirar”.
  • 10. MINHAS MAMAS E MEU PEITO OPRIMIDOS E MEU VENTRE COMPRIMIDO E DILACERADO “Eu estava sendo dominada por uma apavorante angústia, uma pavorosa opressão. Era um terror! Sentia ânsia de vômito”. Uma grande ferida continua aberta no meu peito. Sinto um corte profundo e oculto no meu ventre. Ambos doem. Todos me veem esconder a angústia, os sofrimentos gerados junto 5. com a minha criança. É algo horrível, porém, a essa altura não me importo com mais nada. Perdi-me totalmente. Com que sentimento eu poderia 10. amamentar e dar colo a minha criança, se eu mesma não consigo sair do abismo das águas congeladas em que me deixaram?
  • 11. Aqui temos cinco tipos de alavancas do ‘bem-estar’ e do ‘bem-viver’ que reprimem impiedosamente e castigam pesadamente as Mães d’Água e as mães. Estas sensações de sobrepeso ainda lhes causam tenebrosos tormentos. Oprime as mamas, arrebenta os peitos e dilacera o ventre e outros órgãos internos. Tipos de Alavancas: 1ª Alavanca com as nádegas. O terror da alavanca do cavalo! “Era um terror! Sentia ânsia de vômito”. O obstetra sobe sobre o peito da vítima como se fosse arriar um cavalo. 2ª Alavanca com o joelho! “Enquanto sufocavam meu ventre com o joelho, o frio percorria a minha espinha. Os espasmos e as ânsias eram inevitáveis por estar nessa posição penosa. E a criança querendo sair pela minha boca”. 3ª Alavanca com a tábua! “Minhas mãos tentavam arrancar aquela tábua que oprimia meu peito, mas elas estavam sem força e me faltava o ar”. 4ª Alavanca com o punho! “Fui abusada e desprezada. Socavam meu peito e oprimiam meu ventre durante todo o suplício de meu parto”. O obstetra dá embates no ventre, utilizando o punho.
  • 12. As mães são brutalmente submetidas às alavancas e aos trancos que imprimem em seu corpos, em seus ventres, em seus corações e em seus pesadelos, sensações de sobressalto ante os sentimentos de horror, pela impossibilidade de aceitar as violentas ações dos obstetras. 2. O único desejo da mãe depois de haver sobrevivido a essa macabra e bárbara tragédia era o de sair voando, passando sutilmente, sem ser notada pelos corredores da maternidade. Para não demonstrar o ocorrido, fazia questão de não exteriorizar a dor, pelo temor de ser reconhecida como marginal. 3. As mães se encontram marginalizadas no vazio, mergulhadas profundamente em sentimentos de desgraça. O tempo, nestes casos, não se transformou em aliado e nem em cúmplice, mas num rival. Já se foi o tempo em que o esquecimento refrescante e as vibrações maternais existiam. 4. Mesmo com as alavancas literalmente ausentes, de dia e de noite, no imaginário das mães permanece um profundo mal-estar do ‘bem viver,’ que provoca perturbações e medo. Receberam brutalmente essas punições por elas terem tido sonhos de serem mães. Elas experimentaram em sua própria carne o limite da perversidade obstétrica. 5. As manobras do bem-estar e do bem-viver do obstetra As sensações de peso ainda lhes causam tenebrosos tormentos. Ao subir o obstetra sobre o peito da vítima como se fosse arriar uma égua, ao dar golpes no ventre, utilizando o joelho como alavanca, ao pressionar o ventre da mãe com uma tábua, ao dar embates no ventre utilizando o punho e ao empurrar o ventre com o cotovelo, oprime as mamas, arrebenta os peitos e dilacera o ventre e outros órgãos internos.
  • 13. 6. Todas essas ações alienadas se transformam em dores, fazendo surgir sequelas e sensações de angústia que se repetem ciclicamente nas mães sobreviventes. “É uma sensação frequente que não desaparece em meus sonhos, em meus pesadelos, nem em minhas fantasias”. 7.. O sentimento de perda de identidade é constante e a sensação inquietante de que está sendo sufocada pelo peso de um corpo persiste e se apresenta como pesadelos. 8. Elas fazem questão da absoluta negação da realidade sofrida. Reiteram-se os seguintes apelos sentimentais das mães estropeadas: “eu não podia acreditar”, “eu não podia aceitar”, “era impossível estar ouvindo a tábua gemer sobre o meu ventre”, “eu dizia para mim mesma que era um pesadelo, que em algum momento tudo iria terminar”. 9. “Sempre tenho essas imagens guardadas dentro de mim”. Após os sofrimentos terem sido camufladas perante a sua família, veio a paralisação pelo medo do próprio medo, a imaginação de sua própria morte, o estigma da morte em vida. Foi o início de fortes dores de cabeça a ponto de querer socar a cabeça na parede até culminar em cefaleia. 10. “Eu estava aceitando a minha própria morte”. “Sinto aversão ao imaginar estar novamente deitada na presença dessa gente (equipe técnica) que marcou a hora da minha agonia e a da minha morte em vida na sala de parto”. 11. “De mim não se vai o ódio, não se desvanece a raiva, não posso deixar de pensar naqueles momentos, naquele médico horroroso. Estou irada pela sensação de impotência, pelo sentimento de injustiça, pelo fato de não ter resposta nenhuma, de buscar respostas dentro de mim e não obtê-las”. É o sentimento da desesperança, do abatimento que a afoga.
  • 14. 12. Pelo menos, ela sabe claramente quem são os culpáveis - a equipe técnica e o obstetra, o cabeça. Assim, o grito silencioso se transforma em indignação. 13. Não era possível aceitar passivamente toda essa tragédia como cota de horror, como castigo de uma culpa que não se podia assumir como certa. “Só fui procurar ter um parto normal”. Ela sente a dor e toda a indignação do mundo; “meu corpo ainda se move, porém, por dentro estou vazia e presa a essas sensações que me sufocam e me arrebentam”. 14. A aurora obscura após a tortura obstétrica O despertar das vítimas submetidas à tortura obstétrica para sua realidade cotidiana é sempre penoso. Os seus sonos são repletos de gritos, pânico, sustos e os lamentos ainda persistem em seu espírito descomposto e em seu corpo arrasado. 15. Ao enxergarem seu próprio abismo, caem em depressão pós-parto profunda, desconfiam até de sua própria sombra, choram de angústia e de raiva repentinamente, sentem dores de cabeça, dores latejantes no períneo e dores constantes e incomodantes no ventre, sentem tontura e moleza no corpo inteiro e principalmente nas pernas. 16. O peso e a pressão sobre o peito da vítima tirava toda sua energia e sua respiração, sufocando-a. “Malvado era quem sufocava a minha respiração. Como eu podia evitar o contato com ele? Como?”. “Meu corpo anda perambulando sem rumo, porém, o sentimento de ser mãe foi esquecido na mesa fria do parto”. “Com que sentimento eu poderia amamentar e dar colo a minha criança, se eu mesma não consigo sair do abismo das águas geladas em que me deixaram?”
  • 15. 17. A recuperação dos danos recebidos nos hospitais e maternidades *** Surgiu, então, a possibilidade de aliviar um pouco as dores das vítimas . Ao mesmo tempo, a mulher e a mãe ultrajadas passaram a reagir vigorosamente e a reviver as suas dores até o último momento. Reconhecê-las significa revivê-las até o fim, porém não faria sentido relembrá-las sozinha, seria benéfico recuperar essa experiência com outra pessoa que pudesse escutá-la e compreendê-la. 18. Ali, em meio da dor, surge, então, uma esperança, uma relação terapêutica em que o terapeuta da *medicina Kallawaya andina além do tratamento energético oferece seu afeto e ela lhe confia a sua dor. O destrutivo se faz tolerável e se transforma em algo construtivo, através de uma relação transcendental com a outra pessoa. Esses encontros terapêuticos lentamente fazem espaçar o dano e aliviam a mulher e a mãe. 19. A recuperação da mulher e da mãe vem através dessa relação em que a dor possibilita o vínculo, o sofrer, igualmente, acena o reencontro. A mãe necessita de um espaço em que possa ser valorizada em sua justa dimensão, sem lástimas, sem compaixões, sem privilégios. 21. Nesse conjunto de vivências das vítimas e a conduta dos médicos que liberaram a tortura obstétrica, observa-se a intolerância absoluta da cultura machista. Esta experiência mostra-nos que a fortaleza fria masculina, o obstetra mecânico supõe comumente a negação da pena, da emoção dolorosa, do pranto, dos lamentos e do indeferimento da espontaneidade dos instintos, da coragem, da sagacidade, da ferocidade e da agressividade feminina nos renascimentos das Mães d’Água e nos nascimentos das crianças. *Ver: Descrição de alguns casos de vitimização e de mutilação institucional das prenhas: Casos de arquivo do Ambulatório AMAWTA. Dirigido por Mallku Chanez , médico Kallawaya.
  • 16. Diagrama 43 2ª Alavanca com o joelho A trombada, o peito oprimido e o ventre dilacerado “Enquanto sufocavam meu ventre com o joelho, o frio percorria a minha espinha. Os espasmos e as ânsias eram inevitáveis por estar nessa posição penosa. E a criança querendo sair pela minha boca”.
  • 17. DESCRIÇÃO DE ALGUNS CASOS DE VITIMIZAÇÃO E DE MUTILAÇÃO INSTITUCIONAL DAS PRENHAS Casos de arquivo do Ambulatório AMAWTA* “A peste negra gerada pelo avental branco, a síndrome da tortura obstétrica” Aqui, abordamos alguns relatos das Mães d’Água e das mães metropolitanas com o intuito de sensibilizar os membros da profissão médica cosmopolita, em especial os obstetras, contra tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, e para chamar a atenção sobre o número cada vez maior de meninas, de mulheres e de mães acometidas por algo que chamamos de -síndrome da tortura obstétrica- “uma doença iatrogênica moderna” resultante da relação bárbara-civilizada entre a prenha nativa, a grávida da periferia e a gestante metropolitana com o covarde obstetra cosmopolita. *Ambulatório AMAWTA, inaugurado em 17 de fevereiro de 1997, em Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo, por Mallku Chanez. Mais informações serão encontradas no livro: Medicina Originária na Comunidade – Acupuntura e Moxabustão. Site: www.mallkuchanez.com – IKA Intituto Kallawaya Andino
  • 18. Caso 1ª - C.A., 56 anos Ficar deitada na cama de ferro, o tempo todo, sem poder me mexer porque estava amarrada. Ah! É horrível! Quando vim por aqui, por São Paulo, tive que ganhar a coroinha no hospital. Ganhei meus dois primeiros coroinhas na minha terra; do terceiro em diante ganhei no hospital. Eu achei horrível! Horrível, sabe... Pronto, vou morrer! Falei ainda para o médico: doutor, me deixa descer da cama. Ele disse: não, C.A, não pode porque tem que ser assim. Meu Deus, acho que vou morrer mesmo aqui! Eu sentia muita dor porque estava deitada e amarrada. Nessa posição, não tem jeito de se movimentar. Aqui, nos hospitais, não perguntam nada e nos fazem sofrer mais, mais e mais. Você se agarra no ferro, na máquina de parto, onde te cortam. Se segura onde puder, onde achar lugar para se segurar. Lá não tem Mãe d’Umbigo nem outra pessoa para nos segurar e nos amparar espiritualmente. Era uma paisagem aterradora essa sala de coração frio. Comentário: É uma descrição angustiante de uma mãe pronta a dar à luz. Ela se encontrava deitada e amarrada na mesa ginecológica, implorando para que a deixassem descer. “Não pode”, foi a resposta fria que ela recebeu do obstetra, exatamente o contrário do que diz a Declaração Internacional dos Direitos do Homem: “ninguém será submetido à tortura”.
  • 19. Caso 2ª - Lu, 50 anos - Multípera No hospital, foi triste. Eu ganhei, no total, sete brotinhos, dos quais ganhei dois no hospital. Esses dois que ganhei no hospital foram terríveis. Eu passei muito medo. No final, fiquei transtornada. Quando cheguei a São Paulo, ganhei a C. Ah! Foi triste! Fui ao hospital com uma dor terrível. Fiquei fazendo hora em casa porque me haviam avisado que aqui era diferente. Me disseram: olha, Lu, aqui é diferente. No hospital, não vai ficar caminhando como em tua casa. Aqui é diferente. Mas eu respondi: a dor é minha e eu não vou suportar sentada ou deitada. Mas aqui é diferente, voltavam a insistir. Insistiam que deveria tomar cuidado para sair tudo bem. Aí, eu fui para o hospital. Quando eu saí de casa, eu já estava com sinal de sangue e água. Falei para mim mesma - agora começou o sinal de sangue. O brotinho está se encaixando, ele vai começar a descer. Quando cheguei ao hospital, o médico disse que o “neném” ia nascer logo. Aí, me mandaram deitar. Queriam de qualquer jeito que ficasse deitada. Eu perguntei: mas para que essa cama? A enfermeira disse: você deve ficar deitada. Pensei - eu não vou ficar deitada, eu não vou ficar deitada, nunca vi isso. Ah! A gente fica doida! A gente fica transtornada! Ficar deitada não, minha filha, não vão me segurar aqui. Aí, ela disse que tinha que obedecer porque eram ordens médicas. Fiquei magoada. Estava sentindo dor, sozinha, longe de todos meus parentes. Eu só queria ter meu filho, mas sentia que estava sendo castigada. Eu não queria deitar. Nunca tive filho deitada. Tirava forças do fundo da alma para que eles me ouvissem. Me colocaram na cama à força. Pensei em levantar, mas minhas forças já não estavam mais comigo. E eu com todo esse peso no corpo. Eu achei triste. Achei horrível. Choro de raiva, de muita raiva. Eu senti muita dor e nervoso. Não tenho palavras para transmitir o que eu senti
  • 20. naquele momento. Tive que ceder e ficar deitada com toda essa dor. Desde aquela época, ando sentindo dor de cabeça todos os dias e quando fico contrariada dói muito mais. Nunca falei nada para ninguém, sempre escondi esse horror. É insuportável relembrar tudo o que o brotinho e eu passamos. Ele não sabe nada do seu nascimento e ele, também, é uma pessoa doente. Comentário: “Sob meus cílios fechados de dor, meus olhos estavam sendo atravessados por imagens de fogo. Chorei de raiva, nunca falei nada para ninguém....” Atualmente, no Brasil, a tortura obstétrica possui mais adeptos na classe médica que é civilizada. Subestima-se o direito da mulher-mãe renascer e fazer nascer, arrebatam dela o seu direito de escolha. Então, entra o jogo da racionalidade e da irracionalidade - bisturis, agulhas, anestésicos. E assim, castigam o fundo do ventre, a pélvis e os contornos do períneo. Caso 3ª - D. T., 40 anos Alavancas com o joelho no meio do peito Tinha uma mãe pertinho de mim, na cama ao lado da minha, uma menina-mulher. Um pouco antes de meu menino nascer, o médico que estava me atendendo me deixou de lado e foi atendê-la. Eu não estava acreditando no que estava vendo. Ele colocava o joelho dele aqui em cima, no estômago, em baixo dos peitos dela, e ficou em cima dela apertando com o joelho. Disseram que era para a criança nascer e ela, deitada, sem poder se defender. Mas nunca, nunca no norte fazem semelhante barbaridade.
  • 21. Nunca vi, em minha vida, judiar, fazer tanto mal a uma Mãe d’Água. Falei comigo mesma - eles vão matar a moça aqui. Eles insistiram por muito tempo. E mexiam, mexiam com o joelho aqui no meio do peito para fazer o brotinho descer, mas ele não descia. Ele subiu mais e mais. Eles não sabem nada, eu pensava. Quando a mãe fica assim deitada, o brotinho sempre vai querer ir para cima. Vi aquilo e pronto! Vão fazer comigo a mesma coisa! Fiquei apavorada porque eu não sentia ainda que o Anel d’Aguaí, bolsa de água, tinha se rompido. Aí, quando o menino-homem veio, veio com tudo. Não sei como, mas veio com tudo. Não sabia se ficava contente ou se chorava. Foi tudo terrível e horrível. Quase matam a menina-mulher. Comentário: O uso de alavancas para golpear, empurrar o diafragma com o joelho - essas pancadas criam hematomas e provocam hemorragias no ventre materno. Elas seguem sendo sistematicamente utilizadas, continuam sendo eficazes para conduta médica e para os suplícios de várias mães. Acompanham esse cardápio indigesto, injúrias e piadas obscenas, sem que elas possam se defender. Você, sendo médico, não sabe disso? Eles não respondem. Será que esse abençoado tem mãe? Será que fizeram a mesma coisa com a mãe dele? Fica tudo sem resposta. Que será que eles acham de nós? Então, pronto. Agora, aqui, a gente vai morrer. Aqui mesmo. Como vou ficar deitada? Falei para a enfermeira. Ela também não respondia. Perguntei para a enfermeira de novo: moça, escuta o que estou falando, por favor, ouça. Ela me disse: não tem problema de ficar deitada. Se o médico olhou, está tudo bem, diz a ovelhinha de lã branca.
  • 22. Caso 4ª - D. I, 45 anos. Alavancas com o joelho 191213 Foi a primeira vez que vi o médico colocar o joelho numa moça. Acho que a criança não nascia porque a moça estava deitada. Será que sempre faziam isso? Por que não deixar a mãe sentada? Eu fiquei assustada. Que é tudo aquilo? Estavam maltratando a moça! Meu Deus do céu! Que está acontecendo aqui? Isto é um hospital? Até que falei para o médico: por que você está maltratando ela? Eles não diziam nada. Só ficam com a cara emburrada, parecem os donos do mundo. Fecham a fala e pronto. Eu já estava dentro da sala e disse para mim mesma - nunca mais! É a primeira e a última vez que vou ganhar o brotinho aqui em São Paulo. Nunca mais! Eu não vou ficar aqui em São Paulo. Se eu ficar prenha aqui, vou embora para minha terra. Não vou ficar para que eles maltratem e matem a gente. Não vou ficar. Vou embora! Falei para o médico: não precisava fazer isso. Minha tia era Avó d’Umbigo, que assistia a todas as Mães d’Água e aparava, segurava a criança. A gente morava na roça, todo mundo buscava ela, e ela ensinava a gente - se você ficar deitada, a tendência da criança é voltar para cima. Agora, se você ficar sentada no cepinho (banco), ela tem mais condição de descer e sair. Se ficar deitada, não vai sair. Ela não fica em posição de descer. Eu insistia: está tudo bem para quem? Se a gente ficar deitada nessa cama, a criança não consegue mudar de posição! Não vinha nenhuma resposta. Por que será que não nos ouvem?
  • 23. Aí, ouvi a enfermeira comentando com o médico - ela está com medo porque no norte é diferente. O médico afinal abriu a boca para me responder: eu sei que é diferente, mas não tem problema. Não tem problema. Se a criança está em posição de nascer e ela é afortunada, ela sai... Eles parecem ter nojo de nós. Não falam. Eu sou mãe, mas também sou de carne e osso. Parece que eles não tem sentimentos. Eu nunca quis falar desse assunto do hospital. Com quem conversar? Quando passa, todo mundo faz que esquece por medo ou por não querer lembrar do sofrimento. Nunca até hoje havia comentado, nem com meu marido porque eles são os maiores frouxos e fracos para poder falar sobre isso. Eu me senti muito triste e abandonada mesmo. Comentário: Sob climas opressivos dos hospitais-escolas, a tortura obstétrica tem se transformado numa nova perversão que se sustenta por si só, através de ódios, discriminações e humilhações. Os clamores agonizantes das Mães d’Água não chegam a sensibilizar os deuses de avental branco e nem sua equipe de técnicos medíocres. Elas ficam sem resposta e se perguntam - por que será que não nos ouvem? Eles dão risada de nossas queixas. As torturas físicas e psíquicas obstétricas devem ser abolidas das instituições científicas, das escolas de medicina porque elas lesam e se intrometem no direito de escolha do nascimento energético da Mãe d’Água. A “condenada”, além de ser acusada, perde toda sua energia. A mulher-mãe é privada de todos os seus direitos através da tortura, “um câncer psicossocial em disseminação”.
  • 24. Diagrama 44 3ª Alavanca com a tábua Esmaga a criança e mata a mãe! Uma tábua é colocada sobre o ventre da mãe, subindo o ‘doutor’ sobre ela para ‘ajudá-la’ no momento da expulsão do bebê. “Minhas mãos tentavam arrancar aquela tábua que oprimia meu peito, mas elas estavam sem força e me faltava o ar.
  • 25. Caso 5ª - D. M., 45 anos “Essas mulheres do norte dão muito trabalho”, dizem os ‘doutores’ Acho, agora, que o renascimento no assento do fogo, no cepinho, é mais simples, não faz a Mãe d’Água sofrer. Eu tive “brotinhas”(os) na minha terra e na cidade. Aqui, na cidade, a gente tem que falar “criança”, “neném”, “bebê” e “nenê” porque se você fala como nós aprendemos, é chamada de burra, ignorante e todas para eles são ‘”nordestinas”, e dizem que não se fala assim em português. Então, nós temos que “aprender” até a falar. Queria voltar, mas como nós vamos viver lá com toda essa seca e pobreza? Ainda assim, eu estou segura de uma coisa - não quero nunca mais ter criança com os médicos de hoje. Eles são muito adiantados com suas máquinas, mas com as pessoas eles não falam, são muitos atrasados para nos ouvir. As mães sofrem bastante, sofrem mais do que na minha terra. Será que as mulheres da cidade são tratadas sempre desta maneira? Nunca escuto falar nada delas. Elas parecem que aceitam tudo caladinhas, se fazem de pobrezinhas, de coitadinhas, por isso dizem no hospital que essas mulheres do norte dão muito trabalho. Muitas mães do norte falam - hoje está mais fácil porque agora tem médicos. Toda mulher nova está querendo ganhar crianças com médicos, não quer mais ficar em casa, fazer os nascimentos com as pessoas de quem gostam e com a Mãe d’Umbigo; somente aquelas Mães d’Água de outras terras, mães que não querem perder seu estilo, seu costume e que querem manter sua raiz na Mãe-Terra. Comentário: O renascimento da mãe e o nascimento da(o) “brotinha(o)”, lhe permite ter êxtases e fantasias de prazer intenso e não suplícios. “Eles são muito adiantados com suas máquinas, mas, com as pessoas, eles não sabem conversar”. Sob o olhar autoritário, a Mãe d’Água se desfaz de suas roupas e também de sua fala. Espantada, ela percebe pura crueldade nessas atitudes.
  • 26. Caso 6ª - D. E., 38 anos No hospital, eu me senti dominada, controlada. Eu fazia o que eles queriam, eu não tinha o direito de optar pelo jeito que eu queria, pelo meu estilo de ganhar o coroinha. Eu achava certo, e melhor para mim, sentar na calma, no Anel de Madeira. Era essa a minha experiência. Quando a Mãe d’Umbigo assistia a “chuva da Mãe do Corpo”, eu ficava à vontade, eu tinha minha opinião em casa, estava do jeito que eu queria. Odeio que me trabalhem no hospital. Aquilo me deixou frustrada, triste e deprimida. Eu queria continuar acompanhando minha geração, o nosso rito de “sentar na calma”. Eu gostava de gerar o brotinho e gerar a Força d’Alento em casa. Acho que isso estava certo para mim. O parto deles é seguir o avançado das coisas, é o estudo dos “doutores”. O médico faz obstetrícia para trabalhar na gente. Eles não vão deixar de trabalhar do jeito que eles estudaram para poder acompanhar o ritual da gente, o sentimento, o instinto da Mãe d’Água. Eles tem preconceito do nosso estilo, dos nossos ritos. Será que não bastou o que fizeram, achando que tudo que vinha das mulheres do povo era do demônio, sempre dizendo que nós somos pecadoras porque desobedecemos a Deus ao fazer uso de nossas ervas e de nossos rituais? Com isso conseguiram fazer com que as pessoas não acreditassem mais nas ervas e nos rituais e, assim, ajudaram a gente a entrar na miséria. Será que eles não enxergam? Nossas ervas, nossos rituais não vem do demônio, vem da nossa natureza. Nós não pedimos e nem os obrigamos a deixar o estudo deles. Eles acham que estão progredindo, mas eu acho que é para o mundo deles. Progridem sem olhar com os dois olhos. Só com a metade do coração, eles estudam para “trabalhar no parto”. Eles só querem trabalhar dentro de nós. Querem trabalhar do jeito duro deles. Enfiam as garras como se quisessem arrancar alguma coisa, como se fôssemos de ferro ou máquinas, para arrancar uma peça à marretadas. Nós somos pessoas, somos iguais a mães deles.
  • 27. Eles estudam nos livros de fora e nos corpos frios, sem sentir amor, sentimento pela mãe. Eles não acompanham nossos olhos e nosso coração. Quando procuramos ajuda, eles ficam com os olhos no chão ou no papel, escrevendo. São hipócritas e traiçoeiros. Nunca tocam a gente, mesmo estando diante deles. Desse jeito, eles nunca vão poder acompanhar o ritual da Mãe d’Umbigo da gente. Comentário: “Enfiam as garras como se quisessem arrancar alguma coisa, como se fôssemos de ferro ou máquinas, para arrancar uma peça à marretadas”. Aqui se expõe claramente a quebra fisiológica e psicológica da Mãe d’Água “às marretadas” dadas pelos juízes dispostos a condená-la na sala de parto. Daí vem a atitude de espanto e a sensação de aniquilamento da mulher-mãe pela privação da Força d’Alento Energético. Caso 7ª – S.S., 26 anos “Peregrinação hospitalar” e os “horrorosos exames de toque”. No dia 11 de março de 1997, saí de minha casa ao meio-dia para tentar ganhar minha filha. Fui para o Hospital Geral de Guaianases. Chegando lá, me falaram que não estava na hora e que não tinha vaga. Saímos de lá por volta de uma hora da madrugada do dia 12 de março em direção ao Hospital Ermelino Matarazzo, onde me deram o mesmo diagnóstico, mesmo percebendo que eu estava com a bolsa rompida. Com isso já se passavam das dez e trinta da manhã.
  • 28. A pessoa que estava nos dando carona nessa peregrinação hospitalar, não podia mais nos levar. Tivemos que tomar um ônibus, mesmo eu estando com uma toalha entre as pernas para não espalhar a água que vinha fluindo. Nós nos dirigimos para o Hospital Tide Setúbal, em São Miguel Paulista. Quando dei entrada nesse hospital, já passava das onze da manhã. Chegando lá, fui atendida por um médico que me mandou aguardar e me disse que não podia continuar perdendo líquido. Mas não havia vaga naquela maternidade também e, então, tive que aguardar uma ambulância das onze da manhã até às quatro horas da tarde. Nela, fui encaminhada para a Santa Casa de Mauá, onde cheguei por volta das dezoito horas. Lá em Mauá, uma médica me atendeu, a qual terminou de romper a bolsa d’água para logo fazer meu parto. Eram oito e trinta e seis da noite do dia 12 de março de 1997. Tive que fazer cesariana, pois disseram que eu não tinha dilatação suficiente para o parto normal. A minha filha nasceu com 50 cm e 3,803 kg. As maiores violências a que fui submetida durante o processo de parto foram nos exames de toque e o descaso em relação ao meu parto, deixando passar tanto tempo para ser feito. Nos exames de toque, meu corpo sofria na região vaginal. Em cada hospital, além do médico me tocar, outras pessoas chamadas de estagiários vinham me tocar. Durante várias horas, eu sofri muito e fiquei agoniada nas mãos desses médicos. Por um bom tempo fiquei receosa de ter relações sexuais, pois algo me incomodava; acho que foi devido aos horrorosos exames de toque.
  • 29. Tenho marcas físicas da cesárea que demoraram muito tempo para se fechar. Aliás, tive muita, muita dor de cabeça. Logo que cheguei em casa, pensei que ia ficar louca. Não suportava ouvir sons, pois me irritavam. Tenho muitas lembranças tristes desses momentos passados. Por outro lado, esse sofrimento só fez com que eu protegesse cada vez mais a minha filha. Eu queria engravidar de novo, mas não posso porque sou laqueada. Se pudesse, faria parto normal, pois a recuperação é mais rápida. Comentário: Os exames de toque, no decorrer da peregrinação, foram se transformando em simples jogos de crianças travessas, por causa das atrocidades cometidas com a cumplicidade dos colegas e sob a covardia dos supervisores. O Ministério de Saúde Pública precisaria acordar e perceber a existência de diferentes formas de torturas obstétricas, entre as quais predominam os maus tratos vaginais. A certeza da impunidade é o maior instigador da crueldade no baixo ventre.
  • 30. Diagrama 45 4ª Alavanca com o punho “Fui abusada e desprezada. Socavam meu peito e oprimiam meu ventre durante todo o suplício de meu parto”.
  • 32. Primeiramente, o corpo aterrorizado da menina-mulher ou da mulher-mãe era colocado sobre a fria mesa ginecológica. Depois, a sangue frio, sem anestesia, o colo do útero era pinçado, raspado e puxado com toda força. Assim, a cureta estaria arrancando a fibra nervosa e estimulando uma grande hemorragia. O corpo se contraía em espasmos por haver sofrido a tortura brutal e desapiedada do obstetra. Uma grande barbárie era executada. Em pleno século XX, as mulheres eram torturadas em São Paulo, nos hospitais e nos hospitais escolas como no da Universidade de São Paulo, USP. 2. Esse ato apavorante que vitimava a Mãe do Corpo, o colo do útero, era realizado em grupo, ou seja, com a participação de vários residentes. Uma vez terminada os maus tratos e a tortura a Mãe do Corpo, emanava um absoluto silêncio entre os honoráveis residentes. Alguns saíam magoados e desesperados da sala. A discrição, o não falar nada a respeito, era o código. “Qualquer alusão, qualquer comentário ou qualquer contestação entre os praticantes delinquentes era entendido como subversão.” 3. Não era norma ou regra do hospital, não era consentido no papel que toda mulher que procurasse um atendimento com hemorragia ou não devia ser submetida à curetagem a sangue frio. Não se sabe quando começou essa prática dos residentes delinquentes. O que se sabe é que foi passando de geração a geração até meados de 1980. 4. Os médicos e os professores conscientes proibiram essa macabra prática a seus discípulos. Todos sabem que o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, USP, tem dentro de seus quadros excelentíssimos profissionais, os quais demonstram uma grande preocupação ética. Assim sendo, onde está a proteção e o respeito do hospital escola em relação às meninas- mulheres, às Mães d’Água e às gestantes civilizadas que procuram assistência para a sua dor e compreensão para a sua desconsolada perda em meio a tanta desgraça?
  • 33. 5. Dentre os numerosos casos de curetagens a sangre frio temos: a). Curetagem no Hospital Particular de Mirandópolis – Sra. D.A (1) Eu sou da Bahia. Quando cheguei a São Paulo, logo fui trabalhar numa fazenda em Mirandópolis, no interior de SP. Conheci meu marido lá e casei. Engravidei por amor e tive minha primeira filha, em casa, com a assistência de uma amável parteira, no dia 23 de maio, às sete e meia da manhã. Porém, ao finalizar o nascimento da minha querida filha, minha parteira percebeu que a placenta não saía, pois estava colada. Eu fiquei com a placenta colada no ventre e o cordão umbilical para fora. Depois de realizar cuidadosos e lentos movimentos durante um tempo e ter feito todo o possível para tentar descolar a placenta, a parteira desistiu e procurou um curador, um benzedeiro da região, mas eu não quis fazer nada. Então, ela disse que seria melhor eu ir para o Hospital de Mirandópolis. Imediatamente, meu marido e eu pegamos uma ‘jardineira’, um ônibus da região, às onze horas da manhã, para tratar de tirar a placenta. Chegamos a Mirandópolis à uma hora da tarde. Ao chegar no pronto socorro do hospital particular, meu marido foi correndo falar com a atendente. Ao primeiro médico que veio conversar com meu marido, ele explicou meu problema da placenta colada. O médico pediu uma quantia muito alta que não podíamos pagar; e ele não queria e se negava a fazer por menos. Nós éramos lavradores, não éramos donos da fazenda. Então, meu marido perguntou por outro médico que ele conhecia, o dr. Al., o qual não se encontrava no hospital nesse dia. Ele havia viajado para São Paulo. Com a ajuda da atendente, meu marido ligou para ele pessoalmente e explicou o problema. Ele disse que voltaria no dia seguinte e nos mandou esperar. Como o dr. Al. só ia voltar no dia seguinte, meu marido foi conversar de novo com o primeiro médico. Ele não quis atendê-lo e nem ouvi-lo; mandou-nos esperar por outro médico. Ele só estava interessado em ganhar dinheiro.
  • 34. Quando cheguei no hospital, eu não sentia dor, ‘não estava menstruada’, estava sem hemorragia. Passei a noite toda no hospital, aguardando o médico retornar. Durante a minha espera, as parteiras e as enfermeiras passavam e faziam diversos comentários. Diziam que era muito perigoso ficar desse jeito porque poderia contrair tétano ou pegar alguma doença infecciosa. Eu fiquei muito preocupada, pois tinha uma filha para amamentar esperando em casa. Eu estava assustada, mas tinha que esperar. Por não ter dinheiro, esperei dois dias para fazerem a limpeza do meu útero com a placenta pregada na minha barriga e o cordão umbilical pendurado no meu corpo. No dia seguinte, chegou o tão esperado dr. Al. Meu marido foi correndo conversar com ele. Eles chegaram a um acordo sobre a quantia que seria cobrada. Ele cobrou o que podíamos pagar, mas houve um grande inconveniente. Eles disseram que não tinha ninguém que pudesse doar sangue em Mirandópolis e, então, tivemos que esperar vir sangue de São Paulo. Tudo foi feito só de tardezinha pelo médico. Ele fez a raspagem no meu útero, para arrancar a placenta colada, sem anestesia. E doía muito. Ainda pagamos para isso. Ele cobrou e nós pagamos o que ele pediu. Mesmo assim, ele arrancou a placenta colada no meu útero sem anestesia. Era muita dor. Ele nos enganou e eu fiquei muita zangada e assustada. b). Curetagem no Hospital das Clínicas, USP– Sra. D.A (2) Um ano depois, me mudei para a cidade de São Paulo e engravidei novamente. Tive, pela primeira vez, um aborto espontâneo com sangramento e dor. Fui levada de ambulância para o Hospital das Clínicas. Quando estava sendo levada para o hospital, lembrei-me do ocorrido em Mirandópolis, um ano atrás. Fiquei muito preocupada e assustada com minhas lembranças. Pensava comigo mesma - de novo? E agora? Outra vez? Vou passar por tudo aquilo de novo? Eu não vou aguentar! Que fazer, meu Deus... Quando cheguei no pronto socorro, fui deixada no corredor.
  • 35. Chegavam pessoas baleadas, esfaqueadas, machucadas. Ver tudo aquilo me fez sentir cada vez pior. Fiquei mais apavorada do que já estava. Essa passagem pelo pronto socorro foi um dos piores pesadelos da minha vida. Nunca me imaginei passar por tal situação. Depois de um longo tempo de espera, me levaram para cima, para o andar superior, para rasparem meu útero. Novamente, fizeram a raspagem sem anestesia. Foi muito dolorosa. Eu ouvia todo o barulho que faziam dentro de mim! Vai saber o que aquele povo faz. Esses médicos são todos uns sem vergonhas. Eles nunca se interessam por nós, mães. c). Curetagem no Hospital das Clínicas, USP – Sra. D.A (3) Três meses depois da minha segunda raspagem, eu engravidei de novo. Nós não éramos orientadas a não ter relações. Como ninguém me explicou que depois da raspagem não podia ter relações, fiquei grávida de novo. Tive outro aborto espontâneo e sangramento. Fui levada de carro para o Hospital das Clínicas e ali foi feita mais uma curetagem terrível sem anestesia. Em todas as curetagens, nas três que passei, eu não podia gritar. Era proibido gritar. Tinha que tampar minha boca mesmo com a dor que sentia. Meu Deus, como doeu! Foi igual na primeira, na segunda e na terceira vez fui de carona. Mas, doía, doía! Deus me livre! Estavam raspando lá dentro. Você só ouvia um negócio lá dentro - crup, crup, crup, crup... Um som ardido. Gente do céu! Eu pensava - eles estão raspando e rasgando o meu útero! As sequelas: Tenho constante depressão. Nunca mais me recuperei. Fico chorando, chorando e chorando. A partir dos 19 anos, comecei a tomar remédios para depressão e insônia e nunca mais parei.
  • 36. 6. Abortos e curetagens em gestantes precoces A mãe precoce sempre foi mal compreendida e negligenciada. Elas sofrem repressões domésticas e econômicas, e acabam sendo, também, discriminadas socialmente. Por medo de enfrentar essa realidade, muitas meninas-mulheres tentam fazer aborto, provocando hemorragias. A miséria, a desnutrição, a falta de higiene, o excesso físico, a violência doméstica podem, também, resultar em hemorragias e abortos espontâneos. 7. Pesquisas demonstram que alguns homens insatisfeitos com suas proezas caçadoras, ao tomarem conhecimento de que sua companheira ficou grávida, chutam-na, batem na Mãe do Corpo, útero, na tentativa de provocar aborto criminoso. Algumas vezes conseguem e outras vezes não. 8. Qualquer que seja o caso da grávida, uma grande hemorragia a leva a procurar uma instituição pública. Essas futuras mães chegam sangrando e com esperança de serem atendidas, socorridas, ouvidas e compreendidas. Mas, para sua surpresa, acabam sendo recepcionadas como criminosas e inimigas da sociedade por provocarem um crime - o aborto. 9. Sem escutá-las, os residentes, os delinquentes iniciados, muitas vezes as pré-julgam. Todas são consideradas culpadas, sem direito a defesa, por cometerem um ato ilegal. Por burlarem a justiça do Ovo Pater-Fetal Patriarcal, o machismo absoluto, elas são consideradas merecedoras de punições.
  • 37. 10. Desde sua iniciação, o delinquente acadêmico, o obstetra, incorpora o papel de justiceiro. É juiz, acusador, sentenciador e carrasco. Ele não quer ouvir nenhuma contestação ou alegação a favor ou contra. Não adianta tentar lhe explicar e nem mencionar as circunstâncias em que o aborto aconteceu. 11. A menina-mulher é privada do direito de defesa. Ela é acusada e condenada independente do motivo dessa hemorragia. O doutor, seu torturador acadêmico, não quer saber de nada. A sentença é executada. Seu castigo vem na forma mais bárbara, através da curetagem a sangre frio sem anestesia. 12. Nesse contexto, se alguém se atrever a abrir a boca, será agredida com frases como “quem mandou abrir as pernas?”; “quem mandou dar?”; “na hora de virar os olhinhos é bom, depois não quer ter filho, não quer sofrer, né?”.
  • 38. Diagrama 46 5ª Alavanca com o cotovelo “ Prolongou-se por muito tempo a minha agonia”. A vítima subjugada com o cotovelo é arrastada ao mais profundo abismo.
  • 39. EPISIOTOMIA E RUPTURAS SEM NECESSIDADE NA SALA DE PARTO O obstetra ordena a estagiária a cortar o períneo, sem necessidade, para que ela possa treinar torturando! A estagiária não tem motivos pessoais para praticar uma agressão fria, objetiva e calculada, a qual desencadeia uma reação de terror pelo enorme dano que provoca, 5. Pois ainda que demonstre seu caráter civilizado não foge a forma de agressão acadêmica. O choque inicial acontece pelo clima de intimidação, de insegurança, para rasgar o períneo. É o começo de uma longa e lenta agonia que acaba 10. Transformando a personalidade da mulher e da mãe. A mulher-mãe, durante essa intervenção, fica desorientada. O impacto é tão aterrador e cruel que fica sem saber o que está se sucedendo com ela.
  • 40. Alguns obstetras são insensíveis, não são éticos, não se tocam sentimentalmente nem profissionalmente. Acham que ser frio lhes dá mais status social, atuam acima de um pedestal, não se compadecem e tratam isso como se fosse algo que as mães tivessem a obrigação de suportar e aceitar caladas. A seguir, algumas descrições de rupturas e episiotomias: Caso 1ª Arrebentou o Anel do Metal (períneo) A gestante recebeu anestesia local, porém a anestesia não pegou, o que fez com que ela sentisse cada ponto da sutura. Uma dor horrível. Depois de algumas semanas, os tecidos não se juntaram, não se cicatrizaram. Um pedaço de pele ficou solto. A ferida abriu-se porque não foi bem costurada e acabou inflamando. A paciente retornou ao médico e dele escutou: “com o tempo vai se curar”. Cinco meses depois, ela voltou ao hospital para fazer uma operação com anestesia geral. Inacreditavelmente, também não deu certo. Ficou com um pedaço de tecido da pele sobrando. Algumas semanas mais tarde, fez outra cirurgia com anestesia local e, finalmente, deu certo. Oito meses depois do parto, ela conseguiu ter relações sexuais novamente. Mesmo assim, ela afirma que teve que ficar bêbada antes da relação devido à intensidade da dor que sentia. Caso 2ª B.L. Episiotomia: corte e costura Após uma doutora lhe costurar o Anel de Metal, o períneo, passou a ter uma dor terrível. Transcorrido cinco meses, fez uma operação. O médico lhe sugeriu que tivesse outra criança, pois isso poderia ajudar a esticar o períneo. Após o nascimento de mais um filho, suas dores pioraram.
  • 41. Caso 3ª C.O. Corte longo e profundo que atingiu o nervo O corte alcançou o topo da perna através das camadas do músculo. A costura foi muito mal feita e a paciente passou a sentir dores constantes. Depois de alguns meses, a ferida gangrenou. Em dois anos, ela passou por quatro cirurgias. Outra ginecologista descobriu que a origem das dores encontrava-se no nervo que havia sido danificado na ocasião em que foi realizada a episiotomia. Foi necessário tomar injeções para o tratamento do nervo. Deixou de sentir as dores, mas o desconforto permaneceu. Mais tarde, ela teve a segunda filha por cesárea, já que no parto normal os tecidos danificados poderiam voltar a se abrir. Oito meses após o último nascimento, o marido a deixou porque não aguentou a pressão das queixas da companheira. Algumas reflexões sobre as rupturas e as vexações obstétricas Há algo particularmente sinistro na tortura da mulher por outra mulher. O caráter do abuso experimentado gera uma série de vivências traumáticas e dolorosas que interferem na obtenção da cadência e do prazer do próprio corpo. 2. A interferência nas relações amorosas com o parceiro tem efeitos destrutivos, muitas vezes irreconciliáveis, pois, as vexações, as rupturas, além de fazerem reproduzir vivências dolorosas no corpo todo, também fazem produzir fantasias de destruição, destituindo antecipadamente o prazer, que tem uma função importante nas relações maritais.
  • 42. 3. Como consequência dessa experiência traumatizante, existe o risco da mulher-mãe se invalidar na forma de vivenciar seu corpo e, também, de se anular no estabelecimento e na manutenção de vínculos pessoais reais. 4. O efeito do dano psicossocial na esfera Peri-genital e as experiências traumáticas vinculadas às relações maritais tem um efeito muito profundo sobre a mulher-mãe. Seu caráter vexatório a entristece, precisamente por seu espaço mais íntimo ter sido rasgado. Ela não consegue se ver aliviada dos danos que a atormentam e a possibilidade daquilo que a traumatizou ser potencialmente revivido em cada relação marital faz com que ela não consiga viver uma vida instintivamente prazerosa.
  • 43. VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL “Minhas mamas e meu peito oprimidos e o meu ventre comprimido e dilacerado” Mallku Chanez
  • 44. www.mallkuchanez.com e-mail: mallkuchanez.site@gmail.com Facebook: Mallku Chanez IKA: Instituto Kallawaya de Pesquisa Andino WhatsApp: 55 11 9 6329 3080