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E
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 3
abertura
Os que querem ser perdoados, restaurados, salvos do
pecado e da morte, têm de se aproximar de Deus de
bolso vazio, sem defesa, sem desculpa, sem explicação
Entre a carteira recheada e o bolso
vazio, a segunda opção é muito melhor
que a primeira. O pão-durismo
e o consumismo têm muito a ver
com a carteira recheada. A viúva de
bolso vazio depositou no gazofilácio
“duas pequenas moedas de cobre,
de muito pouco valor”. Ela deu tudo
o que possuía para viver. Mas os
de carteira recheada lançaram no
mesmo gazofilácio o que lhes sobrava
(Mc 12.41-44).
A pior marca da carteira recheada é
o estado de espírito acentuadamente
complicado e perigoso que ela
fomenta: a auto-suficiência. A carteira
recheada pode ser um bom passaporte
nesta vida e neste mundo, mas não
abre porta alguma em direção a Deus,
tanto nesta como na outra vida. Só
se chega a Deus de bolsos vazios.
O homem e a mulher de carteiras
recheadas dificilmente bateriam em
seu peito para clamar: “Ó Deus, tem
pena de mim, pois sou pecador!”
(Lc 18.13, NTLH).
Setecentos anos antes de Cristo, a
voz de Deus já falava aos desprovidos:
“Venham, todos vocês que estão
com sede, venham às águas; e vocês
que não possuem dinheiro algum,
venham, comprem e comam! Venham,
comprem vinho e leite sem dinheiro e
sem custo” (Is 55.1). De fato, as boas
novas da salvação são para...
Os sem-água, os sem-dinheiro, os
sem-leite e os sem-pão.
Os sem-perdão de pecados, os sem-
reconciliação com Deus e os sem-paz
de espírito.
Os sem-vez, os sem-valor, os
sem-obras, os sem-razão, os sem-
merecimento, os sem-crédito e os
sem-saldo.
Os que querem ser perdoados,
restaurados, salvos do pecado e da
morte, têm de se aproximar de Deus de
bolso vazio, sem defesa, sem desculpa,
sem explicação, sem pretensão, sem
esmola, sem história de sucesso.
A base da salvação repousa
unicamente na graça de Deus:
“Vocês são salvos pela graça
mediante a fé, e isto não vem
de vocês, é dom de Deus”.
Não é por meio de alguma
obra “para que ninguém se
glorie” (Ef 2.8-9). Pois
“as nossas boas ações,
que pensamos ser um
lindo manto de justiça,
não passam de
trapos imundos”
(Is 64.6, BV).
Martinho
Lutero só teve
consciência do
perdão de seus
pecados depois de se
apresentar de bolsos vazios
diante de Deus.
O reformador declarava que não temos
nenhum recurso próprio, nenhuma
possibilidade de livramento em nós
mesmos porque “não só as nossas
injustiças são imundas, mas também
as nossas justiças” (Martinho Lutero,
Obras Selecionadas, v. 1, p. 357). Ele
chamava graça àquela grande abóbada
debaixo da qual colocava toda a
imundícia que os escribas fariseus
escondiam dentro dos sepulcros
caiados ou que deixavam dentro
do copo. Ele transferia todos os
seus pecados, a sua miséria
moral, o seu sentimento de
culpa, as suas imundas
“justiças”, o seu
desespero, o seu
pavor do inferno e
a ele mesmo por
inteiro para debaixo
daquela enorme
calota que é a graça
de Deus (Conversas com
Lutero, p. 138).
Enquanto os de
carteira recheadas não se
humilharem, tornando-
se iguais aos de bolso
vazio, não haverá salvação
para eles. Daí o apelo do
profeta: “Venham, todos
vocês que estão com sede
(...) e vocês que não
possuem dinheiro algum,
venham comprem e
comam!” (Is 55.1).
De bolso vazio!
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ATENDIMENTO AO LEITOR
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Editora Ultimato
ManuM
ULTIMATO Maio-Junho, 20084
carta ao leitor
Fundada em 1968
ISSN 14153-3165
Revista Ultimato
Ano XLI · NÀ 312
Maio-Junho 2008
Direção e redação
cartas@ultimato.com.br
Elben M. Lenz César (Jornalista responsável)
MTb 13.162 MG
Administração
Klênia Fassoni, Daniela Cabral, Lenira Andrade
Vendas
Lucia Viana, Lucinéa de Campos,
Romilda Oliveira, Tatiana Alves e Vanilda Costa
Editorial e Produção
Marcos Bontempo, Bernadete Ribeiro,
Djanira Momesso César, Fernanda Brandão
Lobato e Roberta Dias
Finanças / Circulação
Emmanuel Bastos, Aline Melo, Aparecida
Peixoto, Edson Ramos, Emílio Gonçalves,
Luís Carlos Gonçalves, Rodrigo Duarte e
Solange dos Santos
Estagiários
Alaila Ribeiro, Bruno Tardin, Daniel Figueiredo,
Fabiano Ramos, Hadassa Alves, Ivny Monteiro,
Larissa Caldeira, Luci Maria da Silva, Macel
Guimarães, Marcela Pimentel e Priscila Rodrigues
Arte - Oliverartelucas
Impressão - Plural
Tiragem - 35.000 exemplares
Łrgão de imprensa evangélico destinado
à evangelização e edificação, sem cor
denominacional, Ultimato relaciona Escritura
com Escritura e acontecimentos com Escritura.
Pretende associar a teoria com a prática, a fé
com as obras, a evangelização com a ação
social, a oração com a ação, a conversão com
a santidade de vida, o suor de hoje com a
glória por vir. Circula nos meses ímpares.
Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro
da Associação de Editores Cristãos (AsEC)
Os artigos não assinados são de autoria da
redação. Reprodução permitida. Obrigatório
mencionar a fonte.
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No dia 12 de abril de 2008 saí de
Viçosa, MG, às 5h30 da manhã em
direção a Conceição de Macabu, RJ,
onde deveria pregar na comemoração
dos 100 anos de David Alves, uma
ex-ovelha de cinqüenta anos atrás. Foi
difícil conseguir permissão de minha
esposa e filhas para ir de carro. Eu
queria ver o verde das árvores, o azul do
céu, o amarelo-avermelhado do nascer e
do pôr-do-sol enquanto dirigisse o carro.
No início da viagem, a neblina mal
me deixava enxergar o asfalto. Antes
de começar a ver o verde, o azul e
o amarelo, vi a coisa mais feia deste
mundo: a morte. Logo depois de
uma curva, lá estava em pedaços um
caminhão que batera violentamente
em um barranco, cheio de botijões
de gás. O acidente, ocorrido poucos
minutos antes, fora tão violento que
não era possível localizar a cabine
do caminhão. Vi também outra
coisa muito feia: o dono de um dos
automóveis que lá estavam colocou em
seu carro dois ou três botijões de gás...
Doze horas depois de ver o verde,
o azul, o amarelo e a morte, já em
Conceição de Macabu, eu vi a vida!
Encontrei-me com David Alves,
nascido em 11 de abril de 1908. Ele
nunca tivera câncer nem doenças
cardíacas, nunca fora atingido por
uma bala perdida, nunca sofrera um
acidente fatal, nunca fora vítima de
latrocínio. O ancião tem sete filhos, 51
netos, 79 bisnetos e cinco tetranetos.
São ao todo 142 descendentes diretos,
sem contar os cônjuges.
Por coincidência, eu havia lido na
Bíblia, no dia anterior, o texto de
Jeremias que separa os velhos dos bem
velhos (6.11). Velho seria eu (78) e
bem velho, o centenário David Alves.
Diante daquela multidão de parentes
e amigos dele, li duas passagens das
Escrituras Sagradas. Na primeira, o
salmista descreve o início da vida,
quando o espermatozóide fecunda
o óvulo e aquela “substância ainda
informe” (o embrião) vai sendo
entretecida, de “modo especial
e admirável”, até completar-se e
poder dispensar o ventre materno
(Sl 139.13-18). Na segunda, o apóstolo
Paulo afirma categoricamente que “se
for destruída [pela morte] a temporária
habitação terrena em que vivemos [o
corpo], temos da parte de Deus um
edifício, uma casa eterna nos céus,
não construída por mãos humanas”
(2Co 5.1). A vida futura será, para os
que estão vivos hoje, uma experiência
absolutamente nova, ligeiramente
parecida com a do parto.
A vida não é “o caminho entre o
nascimento e a morte”, como diz o
Dicionário de Psicologia Dorsch. À luz
do cristianismo, a vida é maravilhosa
e infinitamente mais que o mísero
período de tempo espremido entre
as dores do parto e as dores do
sepultamento! Aleluia!
E. César
A morte e a vida
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Incapazes de latir
U
ULTIMATO Maio-Junho, 20086
PastoraisPastorais 56
A missão de latir não
pertence apenas aos
pastores. Ela se estende
a todos aqueles que
têm alguma posição
relevante na sociedade
e são, portanto, co-
responsáveis pela
segurança de todos
Uma vez treinados, os cães servem
para a guarda da casa e de outros
bens de seus donos. São capazes de
proteger lojas e fábricas à noite. Ao
latir e rosnar, amedrontam ladrões
e acordam quem está dormindo, em
caso de fogo. Se esses cães perderem
a capacidade de latir, já não servem
para cães de guarda.
Por serem responsáveis pela
segurança religiosa do povo de
Deus, alguns homens e mulheres
são vocacionados, preparados e
empossados como atalaias, guardas,
líderes, pastores, sentinelas ou vigias
dos fiéis. Com muita freqüência,
esses “cães de guarda” dão mau
testemunho, cometem escândalo,
tornam-se mercenários e abandonam
o rebanho, principalmente na longa
história de Israel. Há muitas queixas
contra eles no Antigo Testamento.
Todas muito severas. Uma delas
encontra-se em Isaías 56.10:
“As sentinelas de Israel estão cegas
e não têm conhecimento; todas elas
são como cães mudos, incapazes
de latir. Deitam-se e sonham; só
querem dormir”.
Isaías 56.9-12 mostra que esses
pastores são incapazes de
enxergar o perigo (“não
têm conhecimento”),
de latir (“são como cães
mudos”), de permanecer
acordados (“só querem
dormir”), de controlar a
gula (“são cães devoradores
insaciáveis”), de se submeterem
ao Senhor (“todos seguem seu
próprio caminho”), de abrir mão
dos seus interesses pessoais
(“cada um procura vantagem
própria”) e incapazes de frear
sua decadência (“bebamos
nossa dose de bebida
fermentada, que amanhã será
como hoje, e até muito melhor”).
O que mais impressiona é a
denúncia de que são “incapazes de
latir”. Tornaram-se cães emudecidos
que não sabem, não podem e já não
conseguem latir ou ladrar. Então,
para que servem? Quando o ladrão
se aproxima, quando o lobo ataca o
rebanho, eles não ladram. O rebanho
fica, dessa forma, perigosamente
desprotegido.
A missão de latir não pertence
apenas aos pastores. Ela se estende
a todos aqueles que têm alguma
posição relevante na sociedade e
são, portanto, co-responsáveis pela
segurança de todos. Entre eles
estão os pensadores, os sociólogos,
os comunicadores, os professores,
os governantes, os legisladores,
os psicólogos, os estatísticos, os
militares, os juízes etc. Se todos
forem incapazes de latir, o caos ético
se instalará de forma alarmante,
globalizada e irreversível.
O pai e a mãe de crianças e
adolescentes têm a obrigação de
“latir” em benefício de seus filhos,
livrando-os de desperdiçar a saúde e
a vida nos caminhos desastrosos da
incredulidade, da secularização, do
crime, do álcool e das drogas e da
promiscuidade sexual. A qualquer
perigo, a qualquer desvio e a qualquer
ameaça, o pai e a mãe, em uníssono,
precisam emitir aqueles “latidos” que
assustam tanto o assaltante como a
vítima.
Talvez fosse bom verificar ao nosso
redor: os “cães de guarda” que nos
rodeiam tornaram-se incapazes de
latir? Nós mesmos nos tornamos cães
mudos, incapazes de latir?
RodolfoClix
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Seções
Capa
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 7
“Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo”
IS 55.6
ABREVIAÇÕES:
BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; EP - Edição Pastoral;
EPC - Edição Pastoral - Catequética; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas
de indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional.
Reflexão
Robinson Cavalcanti
A mui piedosa esquerda cristã 38
Ricardo Gondim
Desde 1968 40
Redescobrindo a Palavra de Deus
Como será que está a Maria? Será que ela carrega
o vírus da aids no seu corpo?, Valdir Steuernagel 42
História
A integridade do evangelho: uma avaliação do
neopentecostalismo, Alderi Souza de Matos 44
Entrevista
Raimundo César Barreto Júnior
O sucesso da não-violência 47
O caminho do coração
Tudo em comum, Ricardo Barbosa de Sousa 52
Da linha de frente
Orgulho e preconceito, Bráulia Ribeiro 54
Arte e cultura
Caetano e Cristo, Mark Carpenter 58
Ponto final
Salvação que embeleza, Rubem Amorese 66
Doenças não catalogadas pela medicina
que podem e devem ser tratadas 26
O caminho confuso e perigoso da terapia de vidas passadas
Carlos Caldas 28
Você precisa ser curado... 30
Feridas físicas e morais da sola dos pés ao alto da cabeça 32
Abertura 3
Carta ao leitor 4
Pastorais 6
Cartas 8
Quadro de avisos 13
Mais do que notícias 14
Números 20
Nomes 22
Frases 23
Reportagem 24
Em Jesus você pode confiar 31
Novos acordes 53
Deixem que elas mesmas falem 56
Meio ambiente e fé cristã 57
Ação mais que social 60
Vamos ler! 62
Prateleira 63
Agenda 64
Especial
A dança do “quero” e “não quero” 36
stockxpertstockxpert
Leia em www.ultimato.com.br
• Minha vida tem feito diferença? (seção
“Altos papos”), por Jeverton Magrão Ledo
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ULTIMATO Maio-Junho, 20088
Viv Grigg
AorelacionarareflexãoMuibíblicamissãointegral(março/abril
2008,p.38),deRobinsonCavalcanti,comasrespostasdeViv
GriggnaentrevistaOinversodacultura(p.48),dáparaperceber
queformularateologiadamissãointegraléumacoisa,masvivê-
laéalgocompletamentediferente!Anossateologiacalvinistaé
bíblicaeexcelente;oquenosfaltaévivenciá-lanocotidiano.
REV. DEWEL LOMÔNACO BRAGA
Itajubá, MG
Quecoisa!LeionaentrevistacomVivGriggqueasigrejasO
BrasilparaCristo,AssembléiadeDeus,DeuséAmor,entre
tantasoutrasigrejaspentecostais(sempredesprezadase
ridicularizadaspelasco-irmãsclássicasdaReforma),têmfeito
atalmissãointegraldesde1910!Agoraéquevocêsprestaram
atençãonessefato!BenzaaDeus!Nemtudoestáperdido!
PAULO CÉSAR SAMPAIO
Fortaleza, CE
Acabo de ler a entrevista com Viv Grigg. Coincidência ou
não, terminei de ler há pouco o livro A Crucificação de
Felipe Strong, de Charles Sheldon, o mesmo autor de Em
seus Passos o que Jesus Faria? É impressionante como os
temas são próximos. Aguardo ansioso o relançamento de
Servos entre Os Pobres, de Grigg.
GUSTAVO BRANDÃO
Curitiba, PR
Deus é fiel
Tenho o privilégio de acompanhar Ultimato desde a sua
concepção e nascimento. Guardo todos os números. Leio
da primeira à ultima página, de “Pastorais” ao “Ponto
final”. Quanta coisa eu mesma gostaria de ter escrito, e
as vejo tão bem colocadas nas palavras dos articulistas.
É o caso do artigo Deus é fiel... e eu? (março/abril
2008, p. 15). Parece que estava revendo as perguntas
que sempre faço ao ver este adesivo em tantos carros.
Precisamos rever nossa conduta. Estamos sendo fiéis
nos dízimos, nas ofertas, nos cargos que ocupamos na
igreja, no casamento realizado na presença do Senhor,
na educação de nossos filhos para o Senhor? Nestes
quarenta anos, Ultimato tem nos ajudado muito a sermos
fiéis ao Deus que é fiel.
MÁRCIA BROCHADO SEVERINO DA SILVA
Rio de Janeiro, RJ
O Jesus dos Evangelhos
Gostei de ler Ultimato não quer fazer o papelão de deixar
Jesus de lado (março/abril 2008, p. 37). O testemunho da
revista é mesmo cristocêntrico. Nestes dias relativistas,
pluralistas, hedonistas e subjetivistas é muito importante
ler e ouvir coisas que vão contra a correnteza e apontam
para Cristo, o Salvador do mundo. Há aqueles que falam
de Jesus, mas negam as doutrinas básicas da encarnação,
morte, ressurreição e ascensão. Ou simplesmente
usam o nome de Jesus como amuleto, desconhecendo a
profundidade de seu sacrifício.
ALEX ESTEVES DA ROCHA SOUSA
Sete Lagoas, MG
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 9
Verdades contundentes
Aprecio a linha de Ultimato, ora anunciando, ora
denunciando. Gosto mais da denúncia. Sou fã dos audazes,
daqueles que sem medo revelam as falhas, como o profeta
Elias diante do rei Acabe (1Rs 8.15) e João Batista diante
do rei Herodes (Lc 3.19). Os dois possuíam o espírito de
ousadia, aquele espírito que nos livrará da ira divina. Tenho
muita admiração pelas reflexões, em especial as de Ricardo
Gondim, pela sinceridade como encara os fatos, por sua
linguagem clara e objetiva e por sua destreza em revelar
verdades contundentes. Parabéns editores e colaboradores!
MARIA CARMINA SAMPAIO TORRES
Belém, PA
Homossexualidade
Aediçãodejaneiro/fevereirodeUltimatoabordouaquestãoda
homossexualidade.Oassuntoécandenteemuitocomplexo.
Comopsicólogo,tenhoatendidodiversaspessoas,deambos
ossexos,comtendênciashomossexuais.Parecequeanatureza
eavidapregampeçasemalgumaspessoas.Numcorpo
biologicamentemasculinocolocamsentimentosfemininos;
enumcorpobiologicamentefemininocolocamsentimentos
masculinos,criandoumtremendoconflito.Éprecisoesclarecer
queesteéumdostiposdehomossexualidadebastante
freqüentes.Ahomossexualidadetrazmuitosquestionamentos,
porque,viaderegra,osentimentohomossexual,aliás,como
todosentimento,nãodependedavontadedapessoa.Oprimeiro
questionamentoéteológico:porqueJesus,emmomentoalgum,
refere-se,aomenosindiretamente,àhomossexualidade?Em
nenhumdosquatroevangelistasaquestãoéabordada.Não
acreditoqueentreosjudeusnãohouvessehomossexuais.
Osegundoquestionamentoéumaperguntaquemefaço
freqüentemente:temaigrejaodireitodeexigirqueo
homossexualleveumavidacelibatária?Nãotenhorespostas
paraosmeusquestionamentosetalvezporissomesmoelesme
causemcertainquietação.MasagradeçoconstantementeaDeus
pornãoserhomossexualepormeusfilhostambémnãooserem,
porqueéumsofrimentomuitogrande.
CÂNDIDO A. LORENZATO
Porto Alegre, RS
—Jesusnãomencionaahomossexualidade,mascobrauma
condutasexualmaisaltadoquequalqueroutroescritorbíblico:
“Qualquerqueolharparaumamulherparadesejá-la,jácometeu
adultériocomela”(Mt5.27).Separaevitaresseolharfixo
ecalculadoporumamulheralheiapoderiasernecessário
arrancarelançarforaoolhodireito(linguagemfiguradausada
porJesus),oquepensardeumarelaçãosexualcontráriaà
natureza(apráticahomossexual)?SeJesusnãosereferiu,ao
menosindiretamente,àhomossexualidade,seumaisnotável
convertidoeseguidoréquemmaisexplicitamentetratado
assunto.Paulodizqueasmulheres“trocamsuasrelações
sexuaisporoutras,contráriasànatureza”eque,“damesma
forma,oshomenstambémabandonaramasrelaçõesnaturais
comasmulhereseseinflamaramdepaixãounspelosoutros.
Começaramacometeratosindecentes,homenscomhomens,e
receberamemsimesmosocastigomerecidopelasuaperversão”
(Rm1.26-27).(VejaÉparaabandonarahomofobia,masnãoa
condenaçãodapráticahomossexual,p.20)
A morte da morte
Este ano começou para mim de uma forma muito difícil, pois
perdi meu querido irmão e sobrinhos num grave acidente.
Quando estávamos todos abatidos, muitos irmãos entraram
em contato conosco e se compadeceram da nossa dor. No
meio de tantas bênçãos, ganhei também uma assinatura de
Ultimato. Além disso ainda recebi todas as edições de 2007.
Qual não foi a minha surpresa, uma delas falava da morte
da morte, e outra, de Jó. Obrigada por trazerem textos tão
edificantes para a igreja dos nossos dias e por nos tratarem
com tanto amor e carinho nesses momentos difíceis.
MEIREANA DUTRA DE ASSIS SILVA
São Paulo, SP
Que vida boba!
De fato, se não existisse a promessa de Jesus de um novo
céu e uma nova terra, a vida não teria o menor sentido.
Infelizmente muitos só descobrem isso no leito da morte,
quando há tempo, é claro.
ANTONIO PORTO
Itapetininga, SP
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ULTIMATO Maio-Junho, 200810
Missão integral
A missão da igreja está, muitas vezes, soterrada pela
iniqüidade do homem, mas tenho plena fé que Cristo cuida
de sua noiva por meio de palavras de conhecimento e
sabedoria de pessoas como o bispo Robinson Cavalcanti.
Ele consegue refletir de forma profunda a grande missão
que Jesus nos deixou: o “Ide”. Por vezes, a igreja tem
perdido o foco deste itinerário, mas certamente a palavra
ministrada não voltará vazia. É tempo de pensarmos sobre
as peculiaridades da vida de Jesus Cristo, e o quanto ele
mudou a história. Para vivermos conforme essa missão,
precisamos examinar com mais fidelidade o texto bíblico e
resgatar o nosso papel transformador da sociedade. Essa
missão não é fácil, mas nós temos o Espírito Santo que nos
capacita. Certamente, estamos sendo chamados por Cristo
para vivermos de forma prudente neste tempo sombrio para
a cristandade.
CLEVERTON BARROS DE LIMA
Campinas, SP
A realidade do
cristianismo brasileiro
Gostaria de parabenizá-los pela revista Ultimato. Comecei a
lê-la quando eu ainda estava na faculdade, e muitas vezes
me pego lendo e relendo edições antigas. Cada edição é
como um sopro de vida nova para mim, por isso aguardo
ansiosamente a chegada da publicação! Gosto do fato de
que os artigos não são utópicos, revelam a espiritualidade
cotidiana de cada um de nós: as dúvidas, os medos, as
alegrias, a realidade do cristianismo no Brasil. Muito
obrigada. Oro para que Deus continue a inspirar a equipe e
os colunistas!
STEPHANIE PARKER
Porto Alegre, RS
Evangélicos e católicos
Um evangélico, por mais errado que seja, ainda é mais
certo do que qualquer católico, pois não se prosta diante de
uma imagem de escultura para prestar-lhe culto, adorá-la
ou mesmo venerá-la como eles (os católicos) se defendem.
ODAIR ORLANDI
Umuarama, PR
Maria
Estamos estudando em nossa igreja sobre Maria, mãe de
Jesus. Lembro-me de ter lido na revista Ultimato (maio/
junho 1993) os artigos Maria demais e Maria de menos.
Poderia receber uma cópia desses textos por e-mail?
ÁUREA CACHONI M. FERRAZOLI
Ourinhos, SP
Mulheres nunca mais
Quero me manifestar contra a carta Mulheres nunca mais,
de Wesley Chrisley, de Sorocaba, SP. O comentário foi muito
infeliz e ele próprio deve ser tremendamente infeliz por
não valorizar o trabalho maravilhoso que as mulheres estão
fazendo para o Senhor. Se ele visitasse a minha igreja, veria
mulheres resgatando vidas para Cristo, pregando nas praças,
nas empresas, nas cadeias, nas igrejas, e mudaria de idéia.
As mulheres estavam presentes no dia de Pentecostes e
o derramamento do Espírito foi também sobre elas, como
havia sido profetizado pelo profeta Joel: “Sobre os meus
servos e as minhas servas derramarei o meu Espírito”
(At 2.18). Wesley precisa conhecer mais as histórias de
avivamento, como o caso de Sarah Osborn, que fez parte de
um avivamento em Newport, nos anos de 1766-1767. Outra
grande ministra foi Hannah Smith, autora do livro O Segredo
de uma Vida Feliz. Com o afastamento do seu marido do
ministério por motivo de adultério, ela continuou a pregar,
ensinar e escrever. Paulo faz referências elogiosas a várias
mulheres: Febe, Priscila, Maria, Júnia, entre outras.
PR. ELSON MEDEIROS
Assembléia de Deus de Laranjeiras - Serra, ES
84 anos de vida e 59 de
sacerdócio
Agradeçocomovidamenteassaudaçõeseaugúriosaoensejo
demeunatalício.Ésempremuitogratificantesentirqueoutros
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 11
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irmãosserejubilamcomoinestimáveldomdavidacomqueo
Senhornosbrinda.Jámepesamnosombros84anosdevidae59
desacerdócio.Valho-medestefelizensejoparafelicitartodos
aquelesquecolaboramparaasediçõesdeUltimato,periódico
queleiocomprazeremuitoproveito.Édegentequemergulhae
nãoperpassapelasuperfície.Parabéns,equeoSenhorcontinue
iluminandosemcessarasmentesquepropagamsuasanta
Palavra.Rezempormim,querezoporvocês.
MONSENHOR VALDEMIRO CARAM
Campinas, SP
Hanseníase
OBrasilocupahojeosegundolugaremnúmerodeportadores
dehanseníase.Vivemosumestadodeepidemianãodivulgado
pelogoverno.Assim,hápoucainformaçãosobreadoença,
mesmonomeiomédico,oqueretardaotratamentoegera
seqüelasirrecuperáveis,principalmentequandooportadornão
apresentalesõescutâneas.Comoportadoradessaenfermidade,
etambémpadecendointensamentecomasreaçõescolaterais
dapoliquimioterapia,possoafirmarqueanecessidademaioré
trazerapúblicoarealidadedopaíseoferecermaisinformações
àclassemédica.Simpatiaemnadanosajuda!
PATRÍCIA NEME
Palmas, TO
Ultimato na EBF
Desde o início de 2008 nossa classe de escola bíblica
dominical para jovens tem estudado os assuntos de destaque
da revista Ultimato. Os resultados são satisfatórios e
fantásticos. A linguagem simples e objetiva da revista ajuda a
compreensão dos alunos. Agradeço a Deus por vocês.
SORAYA AGUIAR MENEZES
Ipatinga, MG
Juntos até então
Desde meus tempos de estudante no Instituto José Manuel
da Conceição, em Jandira, SP, e do Seminário Presbiteriano
de Campinas, Ultimato tem sido uma bênção para mim e
para meus irmãos na fé. Até aqui estamos juntos! Que a
revista continue sendo o que é!
REV. ELY BARBOSA
Salto de Pirapora, SP
Blog Ultimato
Não sou muito afeito a ler blogs; raros são os que leio, mas
ao ver que Ultimato lançou o seu, não pude resistir e entrei, li
e gostei muito. Ultimato, embora quarentona, está cada vez
mais moderna, antenada e se torna a cada dia um excelente
veículo de transmissão das verdades bíblicas, quebrando
preconceitos e paradigmas, sendo inclusive tema de matéria
em revista católica. Continuem no caminho.
SÉRGIO PRATES LIMA
Rio de Janeiro, RJ
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 13
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ULTIMATO Maio-Junho, 200814
do que
Rebanhos instáveis tanto na seara
protestante como na seara católica
Oproblema de trânsito de uma
igreja para outra não é um
fenômeno exclusivamente protestante.
Nas grandes cidades, diz Dom
Moacyr Grechi, bispo de Porto Velho,
RO, “cresce também o número de
fiéis que escolhe a igreja ou a paróquia
não pela vizinhança ou território, mas
segundo seu gosto e suas afinidades
espirituais”. No caso dos evangélicos,
o trânsito pode ser de uma igreja para
Segundo cálculos do Instituto
de Pesquisas Econômicas
Aplicadas, o governo Luiz Inácio
Lula da Silva gastou, em 2006, com
todos os seus programas sociais,
cerca de 21 bilhões de reais. O
jornalista Clóvis Rossi compara esse
montante com os lucros somados
de quatro entidades financeiras em
2007 (Itaú, Bradesco, Unibanco
e Santander), no valor de 21,777
bilhões de reais. Rossi aponta o
problema da desigualdade social:
enquanto a primeira soma é
distribuída entre 11 milhões de
famílias alcançadas pelo programa
outra da mesma denominação ou de
uma denominação para outra. Nas
últimas décadas, é maior o número
dos que saem das denominações
históricas para as denominações
pentecostais do que o contrário. No
rebanho católico também há a figura
do padre, cuja performance, segundo
a mesma fonte, “é julgada pelas
emoções que suscita ou pela sedução
que exerce”.
O país dos
migrantes é o 5º
mais populoso
Segundo o Fundo das Nações
Unidas para a População
(UNFPA), “se todos os migrantes
regularmente registrados residissem
no mesmo país, representariam o
quinto país do mundo em número de
habitantes”, logo depois da China (1,3
bilhão), Índia (1,1 bilhão), Estados
Unidos (297 milhões) e Indonésia
(222 milhões). O Brasil viria em
seguida (180 milhões). Setenta por
cento de todos os migrantes vivem
em dois países da América do Norte
(Estados Unidos e Canadá) e em cinco
países da Europa (Rússia, Alemanha,
França, Reino Unido e Espanha).
O paredão entre
ricos e pobres
continua de pé
Bolsa-Família, a segunda é
distribuída entre quatro “famílias”
financeiras.
O pesquisador Gabriel Ulysses,
do mesmo instituto do Ministério
do Planejamento, esclarece: “Apenas
10% da população continua se
apropriando de 80% da renda
nacional” (Folha de São Paulo,
17/07/07, A2).
Cresce o número
dos que nunca
ouviram falar das
boas notícias
Aigreja não está dando conta. Não
está suportando a concorrência.
Segundo o Vaticano II, há quarenta
anos, 66% da humanidade “nada ou
muito pouco ouviu do anúncio das
boas notícias”. Hoje, este número, o
dos que quase não ouviram falar do
evangelho, aumentou para 80%. A
consciência missionária precisa, como
nunca, ser acesa. O maior desafio da
Grande Comissão (a ordem explícita
dada por Jesus no momento de sua
ascensão) é alcançar com o evangelho
cada época da história, cada canto
da terra, cada âmbito da sociedade
e cada pessoa dos ajuntamentos
humanos.
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ULTIMATO Maio-Junho, 200816
do que
Filhos e genros de Shimpo e Tamao (da esquerda para a
direita): Arthur e Aki, Luiza e Socei, Alice e Yoshio, Rosa e
Soie, Emília e Zentem, Paulo e Teruko e Olga e Setiro
O
s jovens imigrantes japoneses
Tamao Hashimoto, nascida
na Província de Fukuoka,
e Shimpo Kuniyoshi, nascido na
Província de Okinawa, ambos
descendentes de famílias nobres,
conheceram-se por acaso no centro de
São Paulo em 1919, quando tinham
20 anos. Casaram-se no ano seguinte.
Quando deixou a família no Japão e
veio para o Brasil por decisão própria,
Tamao era uma adolescente de 14
anos. O navio que trouxe essa leva de
imigrantes gastou 60 dias para chegar
ao porto de Santos. Shimpo era um
rapaz de 18 anos quando aportou no
Brasil algum tempo depois daquela que
seria sua esposa.
À altura do casamento, os dois
jovens já haviam fugido das lavouras
de café do interior do Estado de São
Paulo por não agüentarem o trabalho
braçal e por receberem chibatadas dos
capatazes quando o serviço não rendia.
Passaram a trabalhar como empregados
domésticos na capital.
O jovem casal teve oitos filhos. Exceto
o primeiro, que morreu de meningite
aguda aos seis meses de idade, todos
os outros estão vivos: Luiza Kaio (85),
Rosa Kaio (84), Arthur Kuniyoshi
(82), Paulo Kuniyoshi (80), Emília
Sakiyama (77), Alice Sakiyama (75)
e Olga Hayashi (66). Destes, dois já
comemoraram bodas de diamante:
Luiza e Socei Kaio (outubro de 2005) e
Rosa Soie Kaio (março de 2006); e três,
bodas de ouro: Arthur e Aki Kuniyoshi
(julho de 2000), Emília e Newton
Sakiyama (dezembro
de 2000) e Alice e
Yoshio Sakiyama
(setembro de 2003).
A soma da idade dos
sete filhos de Tamao
e Shimpo e de seus
sete cônjuges é igual
a 1.096 anos (a idade
média dos 14 idosos é
de 78 anos).
O primeiro
contato da família
Kuniyoshi com o evangelho foi
através do testemunho de um dos
empregados do sítio que compraram
perto de Cambará, no Paraná. O
rapaz era “muito educado, reverente
e muito bom de serviço”. Mais
tarde, a filha mais velha do casal foi
estudar corte e costura em Cambará
e se hospedou com uma imigrante
japonesa evangélica, que lhe falou
de um certo Jesus, filho de Deus,
que veio salvar o mundo do pecado.
Outra família japonesa também era
crente e procurava evangelizar os
conterrâneos da região. Não tardou
para que um dos filhos dessa família,
que morava em São Paulo, trouxesse a
Cambará pastores japoneses da Igreja
Metodista Livre. O resultado é que
não demorou muito para que Luíza e
Rosa se convertessem ao evangelho e
também se enamorassem dos irmãos
Socei e Soie, da família Kaio, aquela
que havia pregado o evangelho para as
moças. Luíza casou-se com Socei cinco
meses antes do lançamento das bombas
atômicas em Hiroshima e Nagasaki,
que matou cerca de 214 mil japoneses
em agosto de 1945. Rosa casou-se com
Soie onze meses após essa tragédia.
Com o tempo, toda a família
se converteu. O testemunho de
Paulo Kuniyoshi, o quarto filho, é
impressionante. Apesar de freqüentar
a igreja e estudar a Bíblia com
regularidade, ele demorou algum
tempo para ter uma experiência pessoal
de aceitação de Jesus como seu Senhor
e Salvador. Isso aconteceu em Bauru,
SP, em 1977, quando ele tinha 49
anos e já era engenheiro e advogado.
Naturalmente o evangelho colaborou
para que os descendentes de Tamao e
Shimpo tivessem casamentos estáveis e
se mantivessem unidos (todos os anos
os sete casais tiram férias no mesmo
lugar e no mesmo período).
O formidável encontro de Tamao
e Shimpo em 1919 já rendeu noventa
pessoas: sete filhos, 25 netos, 56 bisnetos
e 2 tataranetos! Incluindo os cônjuges, o
número total sobe para 130 pessoas.
A propósito do centenário da imigração
japonesa (1908-2008)
Cinco dos sete filhos dos imigrantes
japoneses do início do século 20 já
fizeram bodas de ouro
Arquivopessoal
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 17
O
s cristãos de fé e conduta
não deveriam se abalar com
a zombaria e oposição dos
cabeças-pensantes, cheios da sabedoria
deste mundo e de arrogância, pois estes
também erram e são obrigados a voltar
atrás, a desdizer o que haviam dito, a
“desprovar” o que haviam provado.
No artigo Samba do cientista louco,
o jornalista Ruy Castro, da Folha de
São Paulo, demonstrou que na área
de nutrição o que os cientistas dizem
hoje contraria por completo o que
diziam ontem. O leite, que hoje é
considerado um veneno para quem tem
úlcera, antes era tomado para aliviá-la;
a manteiga é mais saudável do que a
margarina, mas antes era a vilã para
vários órgãos, inclusive o coração; ovo
faz bem ao coração (antes era o pior
inimigo do colesterol e do coração);
café, que estimula o sistema nervoso
central, o coração, os vasos sangüíneos
e os rins, era uma bebida proibida por
conter cafeína; açúcar é uma beleza,
mas antes ele deveria ser substituído
pelos adoçantes.
Tanto a Rússia quanto a China
estão revendo a política de diminuição
da taxa de natalidade. Para reverter
a situação criada anteriormente pelo
próprio governo, uma das províncias
da Rússia adotou uma providência
inusitada: o governador Sergei
Morozov pediu aos empregadores que
dessem folga a seus funcionários no dia
12 de setembro de 2007, para que eles
tivessem tempo livre para fazer sexo, de
tal modo que, em caso de concepção,
a criança nascesse nove meses depois,
em 12 de junho de 2008, Dia Nacional
da Rússia. As mulheres que derem à
luz nesse dia poderão ganhar, entre
outros prêmios, uma casa nova (FSP,
13/09/07, A14).
A política do filho único, em vigor
na China desde o final dos anos 70,
que teria evitado 400 milhões de
nascimentos, está sendo reconsiderada
para desacelerar o envelhecimento
rápido da população. A vice-ministra
de Planejamento Familiar teria dito
que a China corre o risco de “ficar
velha antes de ficar rica”. No momento,
entre 30% e 40% dos chineses estão
autorizados a ter dois ou mais filhos
(FSP, 29/02/08, A14).
Há menos de dois meses, o escritor
Carlos Heitor Cony comentou que a
própria ciência percorre um caminho
muitas vezes errado: “De 50 em 50
anos, até em ciências exatas, como a
física, as verdades são modificadas”.
Os cristãos precisam suportar com
firmeza a zombaria dos não-crentes sem
se apoquentar nem diminuir a alegria
e a certeza de serem filhos de Deus e
co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17). O
zombador, como escreve John Stott,
“é alguém que nega a seriedade do
pecado, da culpa e do juízo, e que não
dá muita importância à necessidade da
reconciliação e do perdão” (A Bíblia
Toda, o Ano Todo, p. 90).
A manteiga é mais saudável
do que a margarina
stockxpert
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ULTIMATO Maio-Junho, 200818
do que
Asituação do cristianismo europeu
não é nada confortável nem no
meio católico nem no meio protestante.
Na Itália, onde 97% da população se
considera católica, apenas 30% dos fiéis
vão à igreja. Na França, denominada
“filha primogênita da igreja”, há cidades
com maior presença de mulçumanos
que de católicos. Sessenta por cento
da população de Marselha, a segunda
maior cidade da França, professa o
islamismo. Enquanto o número de
sacerdotes diocesanos e religiosos
cresce na América Latina, África e
Ásia, decresce na América do Norte, na
Oceania e principalmente na Europa
(18,4% a menos). O número de católicos
aumenta na Ásia e na África, mas
diminui de maneira sensível na Europa.
Quarenta por cento dos britânicos,
tradicionalmente protestantes, declaram
não acreditar em Deus (no Brasil a
porcentagem desses era de 1% na década
de 70 e hoje chega a 7,3%).
Em artigo publicado no jornal
americano Chicago Sun Times,
Adele M. Stan, autora de Debating
Sexual Correctness (Retidão sexual
em debate), diz que o papa Bento
XVI “nunca olhou no espelho para
encontrar a verdadeira razão do
declínio do catolicismo na Europa”.
O papa responsabiliza o modernismo,
o relativismo e o multiculturalismo.
Porém, Stan afirma que “a rejeição da
Europa ao catolicismo tem menos a ver
com a perda de espiritualidade do que
com o autoritarismo de uma instituição
que muitos consideram, na melhor das
hipóteses, moralmente inapta; na pior,
moralmente falida”.
Para a autora do artigo, os campos
imersos em sangue da Primeira
Guerra Mundial provariam serem
campo fértil para o existencialismo e
para seu primo, o niilismo. A Igreja
Católica Romana tem sua parcela de
culpa: ela se aliou ao anti-semitismo
na França, ao ditador Francisco
Franco na Espanha e ao movimento
revolucionário na Croácia.
Consultado a respeito dos
comentários de Adele Stan, o historiador
protestante Alderi Souza de Matos diz
que é difícil avaliar a correção desse
diagnóstico. “O crescente secularismo
da Europa pode ser explicado em
parte por certas situações internas da
Igreja Católica, mas há outros fatores
envolvidos”. Alderi explica que “desde o
iluminismo, no século 18, essa tendência
secularizante tem crescido tanto em
nações católicas como em protestantes”,
e acrescenta: “O problema de muitas
pessoas é a desilusão com a religião
em geral, não só com o catolicismo”.
A religião tem sido identificada com
obscurantismo, moralismo, hipocrisia,
manipulação. Quanto ao crescimento
do islamismo na Europa, o historiador
explica que é principalmente em virtude
da imigração.
Uma boa definição de secularismo
foi dada recentemente pelo cardeal
Paulo Poupard, presidente do Pontífice
Conselho para a Cultura: “Secularismo
não é uma negação explícita da
presença de Deus, mas sim uma
mentalidade vazia em que Deus está
total ou parcialmente ausente da vida e
da consciência dos homens”.
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 19
O
que o alemão João Debeneck
Cochlaeus e o polonês
Ryszard Mozgol têm em
comum? Ambos são católicos. Mas o
que mais os aproxima são as bobagens
que escreveram sobre Martinho Lutero.
Cochlaeus escreveu sobre o reformador
em 1549 e Mozgol, 458 anos depois,
no 490º aniversário da Reforma, em
outubro de 2007.
Cochlaeus foi cônego da Catedral de
Mainz (1526) e, depois, da Catedral
de Breslau, ambas na Alemanha. Já na
velhice, aos 70 anos, escreveu a primeira
biografia de Lutero, morto três anos
antes (1546), intitulada Commentaria
de Actis et Scriptis Martini Luther
(Comentários acerca dos Atos e dos
Escritos de Martinho Lutero). Mozgol,
por sua vez, faz parte do Instituto da
Memória Nacional da Polônia, uma
instituição encarregada dos relatórios
da polícia secreta do país na era pós-
comunista.
Na biografia de Lutero o alemão
Cochlaeus escreveu que a criança
nascida no dia 10 de novembro de
1483 não havia sido gerada pelo
marido de Margaret Lutero nem por
qualquer outro homem. O Diabo em
pessoa havia possuído a pobre mulher
que, de vez em quando, se envolvia em
bruxarias. Assim, o reformador seria
filho ilegítimo de Satanás e, como
Para o polonês Ryszard Mozgol,Para o polonês Ryszard Mozgol,
Lutero ainda é filho do DiaboLutero ainda é filho do Diabo
A
cultura secular, aquela não
influenciada pelo cristianismo
nem a ele sujeita, não educa
o cidadão a negar-se a si mesmo. O
cristianismo, ao contrário, educa
o crente a não satisfazer certas
inclinações, porque elas contrariam o
padrão de vida inserido no Decálogo
ou no Sermão do Monte. Além do
desconforto da consciência, além do
temor do Senhor,
a oposição do
Espírito a
tal, precipitara um número imenso de
almas na ruína e trouxera à Alemanha
e à cristandade a desgraça e a miséria
(Conversas com Lutero, p. 267).
Nos cartazes que o polonês Mozgol
expôs em toda a cidade de Lublin,
na Polônia Oriental, em outubro do
ano passado, havia a figura do Diabo
cochichando ao ouvido do reformador
protestante, mostrando-o como herege
e blasfemo.
Entre as vozes que condenaram esse
movimento — fundado em 1989 por
um grupo radical, com o propósito
de estabelecer um Estado católico
na Polônia —, está a de Mariusz
Maikowski, pastor da Igreja Adventista
do Sétimo Dia em Lublin, leste da
Polônia: “É chocante e inacreditável
que retratos como o de Martinho
Lutero como anticristo ainda apareçam
em pleno século 21”.
qualquer obra da carne leva o fiel a
abrir mão da vontade má. A tentação
em muitos casos acaba passando de
largo.
Mas a própria permissividade
que hoje domina a sociedade não é
absoluta. Tolera-se que o homem seja
infiel à sua mulher e vice-versa, só
porque a preferência sexual dele e dela
é por outra mulher e por outro homem,
respectivamente. Os homossexuais, por
sua vez, devem ser deixados em paz,
pois sentem atração sexual apenas por
pessoas do mesmo sexo.
No entanto, talvez questionando
os limites dessa permissividade, o
escritor Ferreira Gullar faz perguntas
muito sérias: “Se o sujeito nasceu
pedófilo, por que sua preferência
sexual é considerada crime? Por que
punir alguém que apenas obedece a
impulsos inatos que lhe são impostos
pela natureza?” (Folha de São Paulo,
24/02/2008, p. E10).
Deve-se revogar a lei que proíbe a
pedofilia? Deve-se retirar a pedofilia
da relação dos crimes hediondos?
Deve-se deixar o pedófilo à vontade?
Deve-se deixar de “latir” em favor das
crianças? (Veja Incapazes de latir, p. 6.)
Por enquanto essas providências são
inaceitáveis!
A pedofilia vai vingar?
Focalize
Divulgação
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do que
números
400
litros de água é o consumo diário de uma
pessoa em bairros nobres da capital de São
Paulo. A média no Brasil é de 150 litros,
e a ONU diz que os seres humanos não
precisam de mais de 100 litros por dia
800
veículos novos entram em circulação
por dia na cidade de São Paulo. Deve
haver 10 milhões de veículos na Grande
São Paulo
2.600
horas é quanto uma empresa brasileira
gasta, em média, a cada ano, para atender
às exigências governamentais (quase um
terço do ano)
72
horas são suficientes para uma pessoa ler
toda a Bíblia. Se ela fizer isso não de uma
só vez, mas por apenas 15 minutos diários,
terminará em menos de dez meses
450.000.000.000
de dólares é quanto a indústria global de
bebidas alcoólicas movimenta a cada ano.
Um pouco mais que os 330 bilhões de dólares
gerados por drogas ilegais, como cocaína,
heroína e ecstasy
3
mentiras são pregadas a cada dez minutos
de conversa, segundo pesquisa recente do
psicólogo Robert Fellman, da Universidade de
Massachusetts, nos Estados Unidos
ULTIMATO Maio-Junho, 200820
É para abandonar a homofobia, mas não
a condenação à prática homossexual
A
revista Novas de Alegria,
das Assembléias de Deus de
Portugal, abordou a questão
da homossexualidade em duas
edições. Na primeira (janeiro de
2008), o pastor Alexandre Samuel
Lopes, de Lisboa, escreveu que os
homens e as mulheres com tendências
homossexuais devem ser acolhidos
com respeito, compaixão e delicadeza,
sem qualquer atitude de injusta
discriminação. Além de ser cristão,
esse comportamento possibilita uma
mudança, pois “a igreja é a base da
recuperação, é primeira e última
oportunidade”. A aceitação do
homossexual, acrescenta o pastor, “é o
início da sua transformação para uma
vida dentro dos padrões de Deus”.
Na segunda edição (março de 2008),
o pastor Samuel Pinheiro, diretor da
revista, transcreveu o comunicado
assinado pela Federação das Entidades
Evangélicas da Espanha, pela Aliança
Evangélica Espanhola e pelo Conselho
Evangélico da Galiza: “Declaramos
o nosso respeito por qualquer pessoa
que, em uso da sua liberdade de
expressão, defenda as suas práticas e
crenças homossexuais, como também
o pensamento em relação à educação
dos filhos, por radicalmente opostos
que sejam aos mantidos por este
manifesto. Igualmente reprovamos
qualquer manifestação homofóbica
procedente do coletivo ou de uma
pessoa. Mas com mesma firmeza, e
da mesma maneira, reclamamos os
mesmos direitos e respeito para com
a Igreja Cristã Evangélica, no respeito
às práticas, crenças e defesas de uma
conduta heterossexual e o direito de
expressar livremente a nossa concepção
da educação heterossexual dos nossos
filhos”.
Mais adiante, o documento esclarece:
“Por isso reafirmamos o direito a:
1) Proclamar, compartilhar e pregar
toda a mensagem e o ensino do
evangelho; 2) Fazê-lo livremente, sem
impedimento e nos termos que a Bíblia
define; 3) Declarar como pecado diante
de Deus toda conduta e procedimento
das pessoas que transgridem tanto
os princípios morais como éticos e
legais; 4) Proclamar que o evangelho
inclui uma mensagem de esperança de
restauração em Cristo em todas as áreas
da vida; 5) Poder exercer este direito,
com todo respeito, diante de todo
aquele que livremente pretende escutar-
nos, sem por ele sermos tratados como
retrógrados ou etiquetados com insultos
tão fáceis e rentáveis como ‘seitas
perigosas’ ou ‘homófobos’”.
A aceitação da homossexualidade
é tão simples e tão natural que, pelo
menos no meio evangélico espanhol,
já há um esforço organizado para
encorajar os pais a dar continuidade
à educação que valorize e dê
visibilidade à heterossexualidade,
não só no ensino
mas também na
formação de um
ambiente familiar
favorável.
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 21
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ULTIMATO Maio-Junho, 200822
Já ultrapassa a cifra de 1 milhão de
exemplares o livreto de bolso de 20
páginas escrito por Fausto Rocha,
69, professor de comunicação cristã
do Seminário Teológico Nazareno
e de jornalismo na Faculdade
Nazarena do Brasil, ambos na
cidade de Campinas, SP. A Voz do
Povo Não é a Voz de Deus mostra
que o ensino da Bíblia é contrário
aos conceitos a respeito de Deus e
da salvação que estão arraigados
no inconsciente coletivo. O folheto
é resultado do sermão que Fausto
pregou há dez anos em Poá, na
grande São Paulo, por ocasião do
jubileu de ouro da fundação do
município, a convite do conselho de
pastores daquela cidade, famosa por
sua exposição anual de orquídeas.
O advogado e jornalista Fausto
Rocha nasceu em lar evangélico
e foi batizado na adolescência
na Primeira Igreja Batista de
São Paulo. Por 40 anos atuou
como produtor e apresentador
de programas de televisão, entre
eles Diálogos da Capital, nas redes
nacionais Cultura, Excelsior, Tupi
e SBT. Além de ter exercido o
O sermão que gerou 1 milhão de livretos
O primeiro
hinário
evangélico
brasileiro
chama-se
Salmos e
Hinos e foi
publicado
há quase 150
anos no Rio
de Janeiro,
graças ao
trabalho de
Sarah e Robert Kalley e do médico
João Gomes da Rocha, filho adotivo
do casal.
O mais recente hinário não se
denomina hinário, mas “corinário”
(por causa do costume de chamar
de “corinho” os cânticos mais novos,
aqueles que não fazem parte dos
CD’s. Todo o seu tempo livre é gasto
ouvindo e recordando os louvores
que fizeram e fazem parte de seus
momentos de adoração, alguns dos
quais não são mais cantados pelos
cristãos do novo século.
Valdivino Reis de Melo, 45, é
formado em gestão de serviços
executivos e atua há dezoito
anos como diretor executivo na
área sindical patronal de asseio e
conservação e de segurança privada
nos Estados de Goiás e Tocantins.
Nascido em Caldas Novas, GO, e
convertido aos 18 anos, Valdivino logo
foi eleito presbítero da Terceira Igreja
Presbiteriana Renovada de Goiânia,
onde reside. A mais recente edição do
corinário Vem Cantar foi publicada
pela Casa do Livro, em Goiânia, em
2005 (casadolivro@pop.com.br).
hinários tradicionais). Além de ser o
mais recente, o corinário Vem Cantar
é o que tem o maior número de hinos
— a coleção toda conta com 1.234
títulos, quase o dobro dos cânticos de
Salmos e Hinos (608), Cantor Cristão
(579) e Harpa Cristã (640). Inclui
melodias antigas e mais recentes. Por
coincidência, o primeiro cântico fala
sobre a alegria que está no coração de
quem conhece a Jesus, e o último é um
convite para voltar para Jesus aquele
cujo coração está sem alegria.
O autor dessa façanha não é
ministro de louvor, não é músico nem
toca instrumento musical algum. É
um apaixonado por música sacra.
Seu acervo musical é fabuloso: tem
mais de 40 mil cânticos catalogados,
distribuídos em mais de 2 mil vinis,
mais de 2 mil cassetes e mais de mil
O homem do corinário de 1.234 cânticos
Arquivopessoal
Arquivopessoal
mandato de
deputado
estadual
(duas vezes) e
de deputado
federal (duas
vezes),
Fausto
Rocha foi assessor de
comunicação de dois prefeitos de
São Paulo (Miguel Colassuono e
Paulo Egydio Martins). É também
autor de Como Falar de Jesus no
Evangelismo, Rádio, TV e Escola
Dominical.
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Frases
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 23
Sou emigrante de um
país que ainda não vi,
mas para o qual quero
ir. Sou forasteira numa
sociedade que cada vez
me empurra mais contra
a parede e me intimida
a ser o contrário daquilo
que Deus deseja que
eu seja. É um desafio
constante ser cristão
autêntico no meio de um
mundo cada vez mais
anticristão.
Ana Ramalho,
da Assembléia de Deus
em Caldas da Rainha,
Portugal
Minha vida está se
esvaindo. Não sei se
vou chorando ou sorrindo.
Sorrindo, pondo fim a uma
agonia que não agüento
mais. Chorando por deixar
para trás pessoas que amo
demais.
Leide Moreira,
59, vítima de esclerose
lateral amiotrófica, desde
2004, a mesma doença de
Stephen Hawkins
Os ricos, poderosos e
famosos também morrem
de drogas. Some a eles uma
legião de drogados anônimos
e desassistidos e começará a
ter uma idéia do tamanho do
problema.
Ruy Castro,
jornalista
Aleitura da Bíblia ajuda
muito na recuperação
de pessoas que enfrentam
problemas de saúde física,
psicológica e espiritual,
porque ela traz esperança
ao desesperado, orientação
ao perdido e conforto ao
entristecido.
Erní Walter Seibert,
editor de A Bíblia no Brasil
Sintoquemeusfilhoslevam
umavidaemsuspenso
naexpectativadaminha
libertação,eoseusofrimento
diário,odetodoomundo,faz
comqueamortemepareça
umaopçãoamena.
Ingrid Betancourt, política
franco-colombiana mantida
há seis anos na selva
colombiana como refém pelas
FARC
Jesusnuncateveumprograma
detelevisão.Nuncaescreveu
livros.Nuncafundouuma
megaigreja.Muitodoseu
trabalhofoipessoal.E,mesmo
assim,elemudouomundo.
Loren Seibold,
pastor adventista em Ohio,
Estados Unidos
Ousodeanimais
na ciência é
absolutamente
necessário. Ciência é
questão de soberania
nacional. Não se trata de
procedimento obsoleto.
Nossa segurança estaria
maiscomprometida
casonãopudéssemos
antestestaresses
medicamentosem
animais de laboratórios.
Analgésicos,
antiinflamatórios,
vacinas,antibióticos,
hormônios emsuas
versões mais modernas,
dependeram tanto da
experimentaçãoanimal
como nós dependemos
do ar para respirar e
viver.
Luiz Eugênio Araújo
de Moraes Mello,
professor de fisiologia
e presidente
da Federação
de Sociedades
de Biologia
Experimental
Ultimamenteestá-se
minimizandoaquestão
dopecado.Quer-seuma
religiãonaqualaspessoas
nãosejamchamadasao
arrependimento,masse
sintambem,assimcomosão.
Poressarazão,ocultotorna-
setãovariadooualternativo,
evisasimplesmenteatingir
osentimento.Ecadaumtem
odireitodetersuaopinião
própria.
Horst R. Kuchenbecker,
pastor emérito da Igreja
Evangélica Luterana do
Brasil
Quando somos
assediados por uma
quantidade de anúncios
em favor de uma vida
distanciada do evangelho,
a voz do sino se antepõe
ao que nos separa de
Deus. Trata-se, portanto,
do válido instrumento da
evangelização, também em
nossos dias.
Dom Eugênio
de Araújo Sales,
arcebispo emérito do Rio
de Janeiro, referindo-se aos
sinos das igrejas cristãs
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ULTIMATO Maio-Junho, 200824
E
ram 25 moças e rapazes, todos
universitários. Eles saíram de
Viçosa, MG, e viajaram 2.030
quilômetros, até chegar à cidade de
Coronel José Dias, um dos municípios
mais carentes do Brasil, na região
sudeste do Piauí, onde fica o Parque
Nacional da Serra da Capivara. Nos
dez dias passados nos povoados de
São Pedro e Santa Luzia, os jovens
distribuíram entre os habitantes (42%
deles, analfabetos) brinquedos, kits com
pastas, escovas de dente e sabonetes,
utensílios domésticos, roupas e calçados.
Se a notícia se limitasse ao
parágrafo anterior, os leitores mais
críticos se indignariam com tamanho
assistencialismo, tão comum em
muitas obras sociais. Porém, a
caravana universitária fez muito mais
do que isso. Além de distribuir livros
didáticos, revistas e livros de conteúdo
cristão, folhetos evangélicos, Novos
Testamentos e Bíblias, o grupo de
estudantes, o médico e a técnica em
enfermagem que os acompanharam
desenvolveram um amplo trabalho,
dentro da estratégia chamada missão
integral. Eles fizeram atendimentos
médicos, pequenas cirurgias, palestras
nas escolas públicas sobre variados
assuntos (saúde bucal, aleitamento
materno, o meio ambiente, e até sobre
relacionamento familiar), cortes de
cabelo, medições de pressão arterial
e ofereceram diversas oficinas (como
construir caixas d’água com ferro e
cimento, como fazer irrigação por
gotejamento, como pintar casas com
tinta de
argila,
como
reciclar
papéis, como produzir mel de abelha e
como fazer artesanato).
Se a notícia terminasse aqui, os
leitores mais apaixonados pelo anúncio
das boas novas da salvação ficariam
decepcionados. Porém, por meio da
música, do teatro, de fantoches, de
palestras, de projeção de filmes e de
visitação, os jovens evangélicos da
Universidade Federal de Viçosa falaram
de Jesus. Para melhor integração com
a comunidade local, fizeram várias
visitas aos lares e não menos que 334
pessoas assistiram às duas projeções do
filme Jesus que fizeram.
Tudo isso foi feito durante a viagem
do Projeto Água Viva (PROAV) ao
município de Coronel José Dias. Esta
não foi a primeira nem será a última
viagem do projeto. Fundado em 2002,
o PROAV já realizou seis viagens
missionárias ao Nordeste, duas ao
Sergipe e quatro ao Piauí, totalizando
quinze municípios e comunidades
alcançados. Antes da viagem cada
equipe recebe um treinamento que
dura em média quatro meses. Os
participantes são alunos de diferentes
cursos da Universidade Federal de
Viçosa e membros de diferentes
denominações evangélicas. Diversos
voluntários contribuem para o preparo
das equipes. Já foram treinados 150
universitários. O trabalho não é feito
de maneira isolada, mas de comum
acordo com alguma denominação
que já opera na região a ser alcançada
ou nas proximidades dela. Nas duas
primeiras viagens, o PROAV trabalhou
em parceria com os presbiterianos, e
nas demais, com a Missão Suíça, que
tem doze missionários nos estados do
Maranhão, Piauí e Pará. A missão, por
sua vez, tem parceria com a Associação
Sopa, sabã
reportagem
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 25
das Igrejas Cristãs Evangélicas do
Brasil (AICEB). Algumas igrejas têm
sido plantadas como resultado desse
ministério. Pinturas de templos e
casas pastorais, projetos arquitetônicos
de templos e pelo menos o início da
construção deles, são outros feitos desse
esforço missionário. No povoado de
Curralinho, SE, o PROAV chegou a
elaborar o projeto e a construção de
uma praça pública, graças a uma ajuda
substanciosa do Projeto Sertão.
O PROAV foi organizado pelo
casal Elíbia e João Tinoco, ex-alunos
do Centro Evangélico de Missões
(CEM), em Viçosa, MG. Tinoco, 57,
é professor de Engenharia Sanitária e
Ambiental da Universidade Federal
de Viçosa. Convertido ao evangelho
em 1998, sentiu-se vocacionado
para o ministério. Fez o curso de
especialização em teologia para
graduados no Seminário Presbiteriano
de Campinas, foi licenciado pelo
Presbitério Zona da Mata Norte,
ordenado ao ministério pelo Presbitério
Centenário de
Belo Horizonte
e nomeado
pastor auxiliar
da Terceira Igreja
Presbiteriana de
Belo Horizonte.
Por ser maranhense
e conhecer muito
bem a carência material
e espiritual do Nordeste, Tinoco
criou o PROAV, tendo em vista a
evangelização desta região brasileira.
Elíbia Maria vem de uma tradicional
família presbiteriana de Pancas, ES, e
é uma das primeiras missionárias a se
formar no CEM.
(Para mais informações, acesse
<www.projetoaguaviva.com.br>)
Nota
*Expressão que define o ministério do Exército
de Salvação, fundado por William Booth
na Inglaterra em 1865, uma das primeiras
manifestações da missão integral (os miseráveis
dos cortiços de Londres precisavam de comida,
saúde e perdão de pecados).
bão e salvação*
MarcosGysim—PROAV
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RodolfoClix
ULTIMATO Maio-Junho, 200826
capa
A
preocupação com a saúde e com
a duração da vida é a maior e
a mais insistente de todas as
preocupações do ser humano, desde a
vida intra-uterina à parada irreversível
das funções cerebrais, o que de fato
caracteriza a morte.
Isso explica o exército quase
incontável de homens e mulheres
de avental branco, cuja profissão é
prevenir, diagnosticar e curar uma
enorme quantidade de doenças.
Além dos médicos, outros milhares e
milhares de pessoas participam dessa
guerra incessante contra a doença e a
morte — enfermeiros, laboratoristas,
farmacêuticos e engenheiros (que
desenham e constroem aparelhos
médicos cada vez mais numerosos
e sofisticados). Por causa dessa
preocupação, que os animais não
têm, somos obrigados a construir
inúmeros ambulatórios, centros de
saúde, clínicas e hospitais; criamos
Doenças não
catalogadas pela
medicina que
podem e devem
ser tratadas
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Não há relato de que
Jesus tenha realizado
alguma cura de
ordem médica entre
os apóstolos, porém
ele curou a segurança
demasiada de Pedro,
a incredulidade de
Tomé e a violência de
Tiago e João
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 27
poderosas e multinacionais indústrias
farmacêuticas; abrimos uma farmácia
a cada esquina e organizamos
diversos planos de saúde. Talvez a
metade da população mundial ficasse
desempregada se a doença e a morte
fossem debeladas de uma vez por todas.
O ministério de Jesus era holístico.
Ele se preocupava com a alma e com o
corpo, com a saúde e com a salvação,
com a ética e com o perdão de pecados,
com as ovelhas de dentro e com as
de fora do aprisco. Jesus ensinava nas
sinagogas judaicas, proclamava as boas
novas da salvação e curava “toda sorte
de doenças e enfermidades entre o
povo” (Mt 4.23; 9.35), não uma vez
só nem em um só lugar. Curava as
doenças mais simples, como a febre da
sogra de Pedro, e as mais graves, como
a mulher por doze anos hemorrágica,
a mulher por dezoito anos encurvada e
o homem por 38 anos paraplégico. Em
muitos casos, Jesus curava não porque
o doente ou seus familiares e amigos
o procuravam, mas porque ele mesmo
enxergava o sofrimento alheio e tomava
a iniciativa de operar a cura. Em duas
ocasiões, Jesus atrasou-se: para curar
a filha de Jairo e o irmão de Maria e
Marta. Mesmo já tendo passado pela
tal morte somatopsíquica, a menina de
12 anos, cujo corpo ainda não estava
enrijecido, e Lázaro, cujo corpo já havia
sido sepultado, foram trazidos à vida,
o que também aconteceu com o filho
único da viúva de Naum.
Nesse afã necessário de oferecer
resistência às doenças e à morte,
temos nos esquecido de que somos
portadores de outras doenças que não
estão arroladas nos melhores catálogos
médicos. São doenças e complicações
sem conta, menos palpáveis e mais
independentes do corpo, embora
provoquem danos à saúde física. Nesse
sentido, é bom ler a resposta de Jesus
aos que o criticavam por entrar e comer
em casa de cobradores de impostos e
de outras pessoas de má fama: “São
os doentes que precisam de médico,
não aqueles que têm boa saúde. Meu
propósito é convidar os pecadores a
se arrependerem dos seus pecados, e
não gastar meu tempo com aqueles
que acham que já são gente muito
boa” (Lc 5.31, BV). Nessa passagem,
a doença e a cura a que Jesus se refere
não são as doenças do corpo e da
mente, mas as muitas complicações
comportamentais relacionadas, em
última análise, ao evento histórico que
os teólogos denominam a “queda do
homem”.
É preciso acordar para o fato de
que o mesmo Deus que pode curar a
cegueira, a surdez, as doenças de pele,
a hemorragia, as deficiências físicas, e
até reimplantar uma orelha decepada
(o que aconteceu com Malco), é
o mesmo Deus que pode curar a
incredulidade, a cegueira espiritual,
a paixão pelo dinheiro, o egoísmo, a
sem-vergonhice, a falta de cortesia,
a gula, o egocentrismo, a lascívia, a
infidelidade conjugal, o secularismo,
o consumismo, a arrogância e muitos
outros defeitos de caráter que não
estão em nenhum compêndio médico.
Esses desacertos podem aparecer nos
dicionários e em algum livro sobre
ética, mas de forma meramente
especulatória e acadêmica.
Prometemos cura de distúrbios físicos
e não falamos nada sobre a cura de
distúrbios de caráter. Oramos muito
pela cura de uma doença terminal que
vai nos levar para o mundo dos mortos,
mas oramos pouco (quando oramos)
pela cura de uma doença moral que vai
nos levar para o inferno. Fazemos um
alarde enorme quando o paralítico volta
a andar, o cego volta a ver, o paciente sai
do Centro de Tratamento Intensivo e
recebe alta hospitalar, mas não é comum
comemorarmos a volta da ovelha
perdida, a transformação daquelas três
mulheres sem nome envolvidas em
relacionamentos sexuais equivocados (a
mulher samaritana, a mulher adúltera e
a mulher pecadora), a mudança daquele
homem sovina e desonesto e de baixa
estatura (corporal e moral).
Não há relato de que Jesus tenha
realizado alguma cura de ordem
médica entre os doze apóstolos, porém,
o Senhor curou a segurança demasiada
de Pedro, a incredulidade de Tomé e a
violência de Tiago e João (os “filhos do
trovão”).
Precisamos de uma revolução
no cenário cristão, que equilibre o
desejo da saúde física com o da saúde
espiritual. Seria um erro desprezar a
preocupação com a saúde e a doença
da vida temporal, mas é preciso abrir
as Escrituras e reler a advertência
de Paulo: “O exercício corporal é
bom, porém o exercício espiritual
é muito mais importante, e é um
revigorante para tudo o que você faz”
(1Tm 4.8, BV)!
Jesus se preocupava
com a alma e com o
corpo, com a saúde e
com a salvação, com a
ética e com o perdão
de pecados, com as
ovelhas de dentro e
com as de fora do
aprisco
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ULTIMATO Maio-Junho, 200828
capa
A
edição número 2.003 da
revista Isto É (20/03/2008)
trouxe como matéria de capa
um tema, no mínimo, curioso e
instigante: “terapia de vidas passadas”
(doravante, TVP). Este assunto é de
especial interesse no Brasil, apontado
por estudiosos do fenômeno religioso
como o maior país espírita do mundo.
A reportagem apresenta vários relatos
de supostas curas de traumas e dores
que só aconteceram depois que os
pacientes se submeteram ao polêmico
tratamento. Tratamento?
Profissionais
da área psi
(psiquiatras,
psicólogos,
psicoterapeutas e
psicanalistas) em
geral discordam
veementemente
de tal
possibilidade.
Todavia, alguns
psicólogos dizem
ser possível
uma pessoa
ter hoje um
problema cuja causa esteja em uma
suposta vida anterior. Seguindo esta
linha de raciocínio, a cura só será
possível se a pessoa descobrir o que
aconteceu no seu passado, anterior à
sua vida consciente hoje. A Sociedade
Brasileira de Terapia de Vidas Passadas
realiza congressos sobre a temática.
No entanto, há que se destacar que
o Conselho Federal de Psicologia,
órgão oficial de reconhecimento de
atividades na área, não reconhece a
técnica. De fato, não há evidência
científica segura que comprove a
suposta eficiência da chamada TVP.
É compreensível que pessoas em
sofrimento apelem para tratamentos
alternativos em busca de solução
para seus problemas e dilemas. O
problema é apelar para algo que
poderá complicar ainda mais a
situação. É o caso de quem recorre à
TVP.
Segundo os testemunhos de
supostas curas, as sessões de TVP
são emocionalmente muito intensas.
A pessoa é total ou parcialmente
hipnotizada, de acordo com técnicas
especiais de hipnose. Em estado
inconsciente,
poderá chorar,
rir ou gritar.
Invariavelmente,
volta à
consciência
com relatos
surpreendentes
de uma
outra vida
supostamente
vivida no
passado.
Mesmo que tais
relatos sejam
detalhados, isso não prova de maneira
conclusiva que a pessoa tenha vivido
aquela outra vida.
Por mais que os defensores da TVP
queiram alegar neutralidade religiosa,
dizendo que se trata de procedimento
meramente científico, não há como
separá-lo da crença religiosa espírita.
O espiritismo kardecista e algumas
das grandes tradições religiosas
orientais, como o hinduísmo e setores
do budismo, são reencarnacionistas,
ou seja, acreditam na idéia de
reencarnação. A TVP caminha
nessa direção. Este é um caminho
perigoso para quem quer resolver seus
problemas, taras ou traumas; em vez
de curar, pode complicar ainda mais
a situação. Não é difícil entender a
razão: imaginemos o senhor X. Se
ele é uma pessoa que acredita na tese
reencarnacionista, ele não é ele mesmo,
mas sim alguém que teria vivido
antes. Digamos
que o senhor X
de hoje já foi
na verdade o
senhor Y ontem.
Hoje X vai ser
recompensado
ou castigado
conforme o bem
ou o mal que Y
teria praticado
em uma vida
anterior. Só que
Y por sua vez é
a reencarnação
de alguém que
teria vivido em
um período
ainda mais
remoto, digamos,
a senhora Z.
Mas Z também
não é Z... E
assim vamos
retrocedendo
cada vez mais
no tempo, ad
infinitum. Como
X vai se curar
de um trauma
recorrendo a um
tratamento na
base da
É
O caminho confuso e perigoso daO caminho confuso e perigoso d
A terapia de vidas
passadas é um caminho
perigoso para quem
quer resolver seus
problemas, taras ou
traumas; em vez de
curar, pode complicar
ainda mais a situação
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Carlos Caldas
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 29
TVP, se Y, de quem ele supostamente
seria reencarnação, também tinha
seus problemas dos quais precisava
se tratar? A conclusão é inevitável: a
crença na tese da reencarnação tem o
potencial de criar confusões mentais
que podem gerar graves problemas
de natureza psicológica e emocional.
Não é sem razão que
Machado de Assis,
com o brilhantismo
que lhe era tão
característico,
tenha escrito por
cerca de trinta
anos (1865–
1896) diversas
crônicas com
críticas pesadas
ao espiritismo,
que começava
a se inserir na
sociedade carioca
de então. No livro
Parapsicologia,
Espiritismo e
Psicopatologia, o
psiquiatra Ronald
Scott Bruno
defende a idéia de
que o espiritismo,
por alguns motivos
já mencionados,
é fator
potencialmente
gerador de
psicopatologias,
isto é, transtornos
e disfunções
mentais. As ciências psi serão muito
mais úteis se ajudarem as pessoas a
descobrirem as verdadeiras causas dos
seus traumas, fobias e esquisitices, com
sobriedade, sem apelar para elementos
fantásticos como a TVP. Aqui vale a
pena reproduzir um trecho da citada
reportagem da revista Isto É:
Na opinião do presidente do
Conselho Federal de Psicologia,
Humberto Verona, a cura acontece
devido à sensação de conforto pelo
fato de o paciente se identificar com
o terapeuta.
“Elas apenas
encontraram no
psicólogo uma
compatibilidade
de crenças
que facilitou
o processo
terapêutico”,
afirma. A
psiquiatra Marli
Piva acrescenta:
“A pessoa já se sente aliviada só de
achar uma explicação para o seu
problema”, diz ela.
Para Gildo Angelotti, diretor-
executivo do Instituto de
Neurociência e Comportamento,
de São Paulo, as vivências relatadas
pelos pacientes surgem de memórias
inativas que registram imagens de
filmes, sons, histórias de livros e tudo
que é percebido pelo indivíduo ao
longo da vida. “É como um sonho.
Quando a pessoa está dormindo,
os sentidos são pouco requisitados
e sobra mais espaço para o resgate
destes registros históricos. Mas a
reunião destes elementos vem da
mente do próprio indivíduo,
não de outras vidas.” Na opinião
dele, a TVP chega a ser arriscada
aos pacientes psicóticos ou
esquizofrênicos, que podem ter uma
reação violenta a partir das revelações
ou ficarem obcecados em encontrar
nesta vida as pessoas do passado.
Como se vê, não há evidência
científica que aponte para a
possibilidade de se tratar de uma
vida passada. E a teologia cristã,
como vê a questão? O cristianismo,
herdeiro do judaísmo, rejeita a idéia
de reencarnação.
As Escrituras
Sagradas não
dão base para
se pensar
assim. Uma
antropologia
que admite as
possibilidades
de reencarnação
e de tratamento
de problemas
supostamente acontecidos em uma
vida pregressa é, no mínimo, confusa.
Afinal, ninguém é ninguém. Não há
idéia de personalidade. Não é possível
se falar de identidade.
A antropologia bíblica, em
contraste, aponta para outra direção,
totalmente diferente: o ser humano,
“imagem e semelhança de Deus”
(Gn 1.26- 27), é único e, portanto,
tem valor inestimável. A Bíblia diz
que “aos homens está ordenado
morrerem uma só vez, vindo, depois
disto, o juízo” (Hb 9.27). Há quem
veja a mensagem deste versículo como
amedrontadora, pois fala de juízo.
Mas a força do texto não está em ser
assustador. Antes, indica de modo
Carlos Caldas
so da terapia de vidas passadaso da terapia de vidas passadas
Na antropologia que
admite a possibilidade
de reencarnação,
ninguém é ninguém.
Não é possível se falar
de identidade
stockxpert
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capa
Carlos Caldas é professor na Escola Superior de Teologia e
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências
da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em
São Paulo.
ULTIMATO Maio-Junho, 200830
D
e suae sua ansiedadeansiedade, aquela, aquela
preocupação demasiadapreocupação demasiada
com o dia de amanhã,com o dia de amanhã,
com a subsistência,com a subsistência,
com a segurança, com o peso, com acom a segurança, com o peso, com a
beleza, com as coisas a fazer, com abeleza, com as coisas a fazer, com a
mudança de tempo, com as coisas emudança de tempo, com as coisas e
com outros.com outros.
De seuDe seu ciúmeciúme doentio, aqueladoentio, aquela
insegurança que faz você imaginarinsegurança que faz você imaginar
mil coisas que ainda não estãomil coisas que ainda não estão
acontecendo mas que poderãoacontecendo mas que poderão
acontecer por sua própria culpa.acontecer por sua própria culpa.
De seuDe seu desânimo,desânimo, aquela faltaaquela falta
de coragem crônica para enfrentarde coragem crônica para enfrentar
os dias difíceis, as circunstânciasos dias difíceis, as circunstâncias
difíceis, os empreendimentos difíceisdifíceis, os empreendimentos difíceis
e as pessoas difíceis.e as pessoas difíceis.
De seuDe seu desespero sexualdesespero sexual, aquela, aquela
fome e sede de sexo como se estefome e sede de sexo como se este
fosse o único prazer da vida, quefosse o único prazer da vida, que
provoca uma corrida vã a qualquerprovoca uma corrida vã a qualquer
tipo de relacionamento, comtipo de relacionamento, com
qualquer pessoa e em qualquerqualquer pessoa e em qualquer
tempo e lugar.tempo e lugar.
De seuDe seu egocentrismoegocentrismo, aquela, aquela
aberração de amar excessivamenteaberração de amar excessivamente
a si mesmo e de ocupar sozinho oa si mesmo e de ocupar sozinho o
lugar que deveria ser repartido comlugar que deveria ser repartido com
os outros.os outros.
De seuDe seu estilo consumistaestilo consumista, aquele, aquele
prazer incontido de comprar o útilprazer incontido de comprar o útil
e o inútil, o que não tem e o quee o inútil, o que não tem e o que
tem, aquela concepção errônea etem, aquela concepção errônea e
desastrosa de que a felicidade giradesastrosa de que a felicidade gira
em torno do ter, e não do ser, aquelaem torno do ter, e não do ser, aquela
simplicidade frente aosimplicidade frente ao marketingmarketing.
De seuDe seu gênio explosivogênio explosivo, aquele, aquele
temperamento sempre briguento,temperamento sempre briguento,
impetuoso, amargo, quase sempreimpetuoso, amargo, quase sempre
desprovido de razão, que provoca odesprovido de razão, que provoca o
afastamento de parentes, amigos eafastamento de parentes, amigos e
conhecidos.conhecidos.
De suaDe sua hesitaçãohesitação, aquela atitude, aquela atitude
que não leva a nada, não o colocaque não leva a nada, não o coloca
em marcha, não movimenta suasem marcha, não movimenta suas
mãos nem seus pés e ainda impedemãos nem seus pés e ainda impede
que você fale alguma coisa.que você fale alguma coisa.
De suaDe sua hipocondriahipocondria, aquela, aquela
obsessão com a saúde que promoveobsessão com a saúde que promove
uma corrida constante ao médico euma corrida constante ao médico e
à farmácia e que até contribui paraà farmácia e que até contribui para
você adoecer.você adoecer.
De suaDe sua hipocrisiahipocrisia, aquela arte de, aquela arte de
enganar os outros, aquele esforçoenganar os outros, aquele esforço
de esconder a verdadeira identidadede esconder a verdadeira identidade
simulando outra que não existe,simulando outra que não existe,
aquele pecado de lavar apenas oaquele pecado de lavar apenas o
exterior do copo.exterior do copo.
De suaDe sua incredulidadeincredulidade, aquela, aquela
indisposição para crer naindisposição para crer na
proximidade e na provisão de Deus,proximidade e na provisão de Deus,
que o afasta dele e o impede deque o afasta dele e o impede de
enxergar seu amor, seu poder e suaenxergar seu amor, seu poder e sua
glória.glória.
De seu sentimento deDe seu sentimento de
inferioridadeinferioridade, aquela, aquela
impressão forte, ou atéimpressão forte, ou até
mesmo a certeza, de quemesmo a certeza, de que
você está sendo superadovocê está sendo superado
Você
precisa
ser
curado...
maravilhoso o valor da existência
humana. Biblicamente, cada pessoa
tem direito a uma identidade. A
pessoa é quem é, não a reencarnação
de alguém que viveu no passado,
que por sua vez é a reencarnação de
alguém que viveu ainda antes.
A vida apresenta situações difíceis
para todos, provenientes da injustiça
que os homens cometem contra seus
semelhantes (C. S. Lewis, em O
Problema do Sofrimento, afirma que
80% do sofrimento do ser humano é
provocado pelo próprio ser humano)
e de fatores que são conseqüência
do pecado — afastamento de Deus.
Bem afirmou o sábio do passado,
ao observar como as pessoas vivem:
“Eis o que tão-somente achei: que
Deus fez o homem reto, mas ele se
meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29).
Em vista disso, é importante
procurar soluções para as crises, mas
por meios de seriedade científica
comprovada. Como cristãos, cremos
que o progresso da ciência é dom
de Deus para a humanidade. É o
que a tradição teológica reformada
chama de “graça comum” — bênçãos
da parte do Deus, que faz com
que o sol nasça sobre maus e bons
e que a chuva caia sobre justos e
injustos (cf. Mt 5.45). Não é este
o caso da TVP. Quem se submete
a este tipo de tratamento pode,
conforme apontado por alguns
psicólogos, encontrar, na melhor
das hipóteses, alívio temporário e
ilusório. Felizmente, há esforços
sérios na área da psicologia que
conjugam técnicas e conhecimentos
cientificamente comprovados com a
mensagem bíblica da graça, do amor
e da misericórdia de Deus. O Corpo
de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos
(CPPC) que o diga!
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 31
pelos outros, principalmentepelos outros, principalmente
pelas pessoas mais próximas,pelas pessoas mais próximas,
provocado por sua auto-avaliaçãoprovocado por sua auto-avaliação
exageradamente negativa.exageradamente negativa.
De suaDe sua intolerânciaintolerância, aquele apego, aquele apego
demasiado às suas próprias idéias edemasiado às suas próprias idéias e
às suas próprias crenças, associadoàs suas próprias crenças, associado
com certa dose de soberba e despidocom certa dose de soberba e despido
de qualquer dose de amor.de qualquer dose de amor.
De suaDe sua invejainveja, aquele desgosto, aquele desgosto
e pesar pelo sucesso ou felicidadee pesar pelo sucesso ou felicidade
dos outros, que provoca o desejodos outros, que provoca o desejo
violento de possuir o que o próximoviolento de possuir o que o próximo
tem, e que rouba sua paz de espírito.tem, e que rouba sua paz de espírito.
De suaDe sua mania demania de
perseguiçãoperseguição,,
aquela certezaaquela certeza
infundada deinfundada de
que alguémque alguém
desejadeseja
o seu mal e está trabalhandoo seu mal e está trabalhando
incansavelmente nesse sentido.incansavelmente nesse sentido.
De seuDe seu medomedo, aquele estado de, aquele estado de
espírito que aumenta e exagera aespírito que aumenta e exagera a
sensação de perigo, sufocando asensação de perigo, sufocando a
vontade e a disposição de fazer algo.vontade e a disposição de fazer algo.
De suaDe sua preguiçapreguiça, aquela, aquela
continuada aversão ao trabalho,continuada aversão ao trabalho,
ou a morosidade com a qual vocêou a morosidade com a qual você
o realiza, justificando-a com milo realiza, justificando-a com mil
desculpas sem a menor procedência.desculpas sem a menor procedência.
De suaDe sua procrastinaçãoprocrastinação, aquela, aquela
tendência a adiar indefinidamentetendência a adiar indefinidamente
e sem razão justificável o que devee sem razão justificável o que deve
ser feito hoje, com o risco de perderser feito hoje, com o risco de perder
para sempre as oportunidades quepara sempre as oportunidades que
passam e não voltam.passam e não voltam.
De suaDe sua rabugicerabugice, aquele mau, aquele mau
humor permanente, que faz mal ahumor permanente, que faz mal a
você e aos que o cercam.você e aos que o cercam.
De seu sentimento deDe seu sentimento de
superioridadesuperioridade, aquela impressão, aquela impressão
forte ou até mesmo certeza de queforte ou até mesmo certeza de que
você é o máximo, provocado porvocê é o máximo, provocado por
uma auto-avaliação exageradamenteuma auto-avaliação exageradamente
positiva.positiva.
De suaDe sua timideztimidez, aquela qualidade, aquela qualidade
negativa que mistura o temor, onegativa que mistura o temor, o
acanhamento e a fraqueza, e que oacanhamento e a fraqueza, e que o
leva a evitar novos encontros e novasleva a evitar novos encontros e novas
experiências.experiências.
De seusDe seus queixumesqueixumes, aquele hábito, aquele hábito
de não enxergar beleza em pessoade não enxergar beleza em pessoa
alguma e em lugar algum, dealguma e em lugar algum, de
colecionar somente as coisas ruinscolecionar somente as coisas ruins
da vida e de reclamar contra elas oda vida e de reclamar contra elas o
tempo todo.tempo todo.
De suaDe sua tristezatristeza, aquela entrega, aquela entrega
sinistra e passiva aos problemas reais,sinistra e passiva aos problemas reais,
aos problemas de gravidade exageradaaos problemas de gravidade exagerada
e aos problemas inexistentes, umae aos problemas inexistentes, uma
estranha aversão à alegria.estranha aversão à alegria.
Quando os cobradores do
imposto para a manutenção do
templo em Jerusalém perguntaram a
Pedro se Jesus pagava aquela taxa, o
apóstolo respondeu de pronto: “Paga,
sim!” De fato, era uma obrigação
imposta a qualquer israelita acima
de 20 anos (Êx 30.12-14). Porque
“todas as coisas foram criadas por
ele e para ele” (Cl 1.16) e porque
Jesus era “maior do que o templo”
(Mt 12.6), o Senhor deixa claro a
Pedro que ele não era obrigado a
pagar o referido imposto das duas
dracmas (valor equivalente ao salário
pago ao trabalhador braçal por dois
dias de serviço). Todavia, para não
escandalizar os cobradores, Jesus
desembolsou quatro dracmas para
pagar a cota dele e a de Pedro.
Desembolsar significa tirar da bolsa
ou do bolso. Logo o verbo não é o mais
apropriado. Nem Jesus nem Pedro
tinham aquele dinheiro no bolso. Mas
os cobradores continuavam em pé ao
lado deles aguardando o pagamento do
imposto. Então, Jesus ordenou a Pedro
que fosse ao mar e jogasse nele o anzol,
na certeza de que na boca do primeiro
peixe fisgado ele encontraria um
estáter, moeda que valia exatamente
quatro dracmas (Mt 17.24-27).
Por não ter havido troco, Jesus e
Pedro continuaram sem dinheiro no
bolso, mas livres do compromisso
daquele dia. Isso combina com
o ensino de Jesus no Sermão da
Montanha: “Não fiquem preocupados
com o dia de amanhã” (Mt 6.34).
Em Jesus
você pode
confiar
MarcGarridoiPuig
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capa
32 ULTIMATO Maio-Junho, 2008
A
primeira doença do ser
humano não foi física, mas
espiritual. Ele desobedeceu
e comeu do fruto da árvore
do conhecimento do bem e do mal.
Por essa única razão, foi proibido de
comer do fruto da árvore da vida,
ficando assim, sujeito à enfermidade
física e à morte do corpo. A doença
espiritual perturba para sempre o seu
relacionamento com Deus. Ele fica
desconsertado diante do Criador,
teme-o e esconde-se dele. A doença
espiritual destrói ainda a naturalidade
do homem em todos os sentidos e em
todas as frentes (Gn 3). A partir daí,
todos perdemos tanto a saúde espiritual
como a saúde física.
Essa situação doentia do caráter
humano vem à tona no livro de Isaías:
“E nos tornamos todos como seres
impuros, e toda nossa (aparente)
integridade parecia como roupas
poluídas; e nós nos desvanecemos
como folhas transparentes, e nossas
iniqüidades nos carregam como o
vento” (Is 64.5, BH). O profeta já
havia falado sobre esse assunto no
início do livro: “Da sola dos pés ao
topo da vossa cabeça nada permanece
são, cobertos que estais de feridas,
equimoses e chagas putrefatas. Elas
não foram tratadas, não receberam
ataduras nem foram suavizadas com
óleo” (Is 1.6, BH). Se no caso de
Jó, “as feridas terríveis da sola dos
pés ao alto da cabeça” (Jó 2.7) eram
causadas por uma enfermidade física
extremamente grave, no que diz
respeito aos contemporâneos de Isaías,
as chagas putrefatas eram causadas por
uma enfermidade moral extremamente
grave.
Deus não se compadece apenas dos
que são portadores de doenças físicas,
mas também daqueles acometidos
por doenças morais. O profeta Isaías
descreve essa disposição terapêutica de
Deus de maneira poética e elegante.
Apesar de Alto e Sublime, apesar de
habitar um lugar alto e santo, Deus
habita também com o arrependido,
para elevar o seu espírito e vivificar
o seu coração, para dar novas forças
aos desanimados e vontade de viver
aos que estão tristes e abatidos por
causa de seus pecados. Deus mesmo
se expressa: “Por causa do pecado e da
cobiça do meu povo, eu fiquei irado
com eles e os castigarei. Na minha ira,
eu me afastei deles, mas mesmo assim
eles continuaram teimosos e seguiram
o seu próprio caminho. Tenho visto
como eles agem, mas eu os curarei e os
guiarei; eu os consolarei. Nos lábios
dos que choram, colocarei palavras de
louvor. A todos ofereço a paz, paz aos
que estão perto e aos que estão longe;
eu os curarei” (Is 57.17-19, NTLH).
Para que não haja a menor dúvida,
é bom lembrar a história de Davi e
Ezequias, reis de Israel. Os dois eram
portadores de doenças terminais e
ambos clamaram dramaticamente
ao Senhor por cura, e ele os curou.
Davi ia morrer porque havia pecado
contra Deus (2Sm 12.13) e Ezequias ia
morrer porque estava com uma úlcera,
provavelmente maligna (2Rs 20.7). A
doença de um era moral, a do outro,
física. Davi queria muito que Deus o
lavasse de sua culpa, o purificasse de
seu pecado e apagasse todas as suas
iniqüidades, o adultério com Bate-
Seba e o assassinato de Urias (Sl 51).
Ezequias queria muito que Deus não o
fizesse passar pelas portas da sepultura
no vigor de sua vida (Is 38). A pesada
mão de Deus se retirou da cabeça
de Davi e suas transgressões foram
perdoadas (Sl 32). A sentença de morte
foi retirada de Ezequias e o rei teve
mais 15 anos de vida.
Feridas físicas e
morais da sola
dos pés ao alto
da cabeça
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Informe
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ULTIMATO Maio-Junho, 200836
Esp lEspecialEspecial
A dança do “quero” e “não quero”
Uma das coisas mais divertidas
na seção de Cartas é a dança do
“quero” e “não quero”. Os que não
querem receber a revista expressam
seu sentimento com ardor. O mesmo
acontece com os que querem. Alguns
dos que querem pedem para ocupar a
“vaga” dos que não querem. Da parte
dos que não querem, há cartas muito
educadas e outras nem tanto.
Em março enviei correspondência
na qual cancelava a assinatura de
Ultimato. Continuei a receber a
publicação. Venho, pois, renovar o
pedido de cancelamento.
Padre Astôr Backes
Santa Cruz do Sul, RS, Agosto de 1986
Solicito uma assinatura de Ultimato.
Faço-o em nome da comunidade de
estudantes de filosofia e teologia de
Vacaria que residem e estudam no
Instituto de Teologia e Pastoral de
Passo Fundo.
Padre Odalberto Domingos Casonatto
Passo Fundo, RS, Agosto de 1986
Recuso categoricamente o envio a
mim da revista Ultimato, presente de
grego, a saber, cavalo de Tróia.
Witold Skwara
Recife, PE, Janeiro de 2004
Sinto muito, mas não quero mais
receber Ultimato. A assinatura é
muito cara. Fiz uma assinatura do
jornal Mundo Jovem, muito mais
abrangente, por Cz$ 100,00. Sou
um jovem estudante de psicologia,
de religião católica. Também sou
muito crítico e, mediante minha
análise crítica, optei por um jornal
de cultura mais elevada. Quando
terminar psicologia, farei teologia e,
com fé, serei um sacerdote exemplar.
Agora faço uma pergunta: quem
é mais preparado: um pastor que
estuda só quatro anos para se formar
ou um padre que passa 12 anos no
seminário para se ordenar? É lógico
que é o padre.
Francisco de Assis da Silva*
João Pessoa, PB, Outubro de 1987
Favor cancelar a remessa de
Ultimato, pois não é lida aqui
por ninguém.
Iva Tonelli
Paróquia N. S. Auxiliadora
Juiz de Fora, MG, Julho de 1987
Gosto muito de ler Ultimato.
Quero receber a revista, que leio
quando encontro números perdidos
aqui. Informo que Dom Frederico
faleceu e que a Paróquia Santa
Teresa não tem padre. Um desses
números, se vocês aprovarem, pode
ser meu.
Padre Fernando
Rio Grande, RS, Setembro de 1994
Resolvi não mais assinar Ultimato,
pois me causou revolta ver o sr. Paulo
Romeiro e companhia limitada
usar a revista para falar mal de
servos ungidos do Senhor. No meu
entender, Ultimato está pactuando
com eles.
Irene Mesquita Rodrigues
Sorocaba, SP, Novembro de 1994
Tenho recebido com freqüência a
revista Ultimato. Faço questão de
registrar meu interesse em continuar
recebendo e dizer o quanto tem me
ajudado em meu pastoreio.
Padre Danilo Mamedes
Rodrigues, Belo Horizonte,
MG, Setembro de 1995
Agradeço a remessa graciosa de
Ultimato e peço que continuem a me
enviar a preciosa revista para meu novo
endereço. Que meu sucessor, Dom
Ricardo, da Diocese de Caetité, BA,
não seja esquecido.
Dom Antonio Alberto G. Rezende
Uberaba, MG, Março de 2003
Nunca pedi esta revista Ultimato.
Nunca autorizei meu endereço e
nunca a li! Por favor, não percam
tempo em me enviá-la. Enviem o
dinheiro que estão gastando na
postagem da revista para o Fome
Zero. Lá, com certeza, farão melhor
uso.
Padre Manuel Messias Vilela, Fazenda
Rio Grande, PR, Março de 2004
* Francisco de Assis da Silva, 42,
foi ordenado padre em janeiro de
1997. Hoje está à frente da Paróquia
Nossa Senhora de Fátima, em
Cajazeiras, PB.
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 37
Albânia: não há Deus
A Albânia acaba de se declarar “o
primeiro Estado ateu no mundo”. O
país é pouco menor que o estado de
Alagoas e tem 2 milhões de habitantes.
O movimento ateísta dos seis últimos
meses apresenta o seguinte balanço:
2.169 igrejas, mesquitas e conventos
foram fechados e em sua maioria
transformados em centros culturais
para a mocidade.
Estados Unidos: algo pior do que
a bomba atômica
O secretário de Estado Dean Rusk
declarou que o mundo dispõe de
pouco mais que uma geração para
vencer a fome e o desemprego e
menos de 10 anos para evitar um
cataclisma. Segundo Rusk, a explosão
demográfica por volta do ano 2000
poderá representar perigo maior do que
a bomba atômica.
vestíbulo de uma universidade até
um escritório de trabalho”. O celibato
será observado em grande escala pelos
padres, mas o casamento será permitido,
cabendo a cada um fazer a sua opção.
Israel: o vale de ossos secos
A crise atual, em face da secularização da
vida num mundo dominado pela ciência
e pelo materialismo, atingiu também o
judaísmo. Por esta razão, reuniram-se,
em Jerusalém, mais de 1.500 rabinos da
Europa e do Mediterrâneo para estudar a
forma de apresentar a fé aos fiéis de hoje.
O Congresso reafirmou a necessidade da
volta à ortodoxia e o estreitamento dos
laços com Israel como dever religioso.
Recomendou a imigração para a nova
Canaã e a criação de escolas hebraicas
nas comunidades judaicas do mundo.
(Fonte: Ultimato, edições de janeiro a
maio de 1968)
Notícias de 40 anos atrás
No mundo inteiro a guerra está
sendo travada a cada dia, a cada
hora, a cada minuto. É uma guerra
diferente. Nela não há bombas,
nem metralhadoras, nem armas
atômicas. As armas são outras.
São as letras do alfabeto colocadas
em ordem, formando palavras,
expressando idéias, procurando
conquistar o pensamento dos
homens.
Walter Kaschel, diretor da Associação
Brasileira de Evangelização
Pronunciamentos de 40 anos atrás
Japão: o vazio que a técnica
não enche
Cerca de 200 mil japoneses tiveram a
oportunidade de ouvir as pregações do
evangelista americano Billy Graham,
50 anos, durante dez dias em Tóquio.
Mais de 15 mil pessoas fizeram
sua decisão de aceitar Cristo como
Salvador. Na última reunião, Graham
declarou: “Temos percebido que há
um grande vazio espiritual neste país.
Os japoneses estão percebendo que o
desenvolvimento da tecnologia não
satisfaz os desejos íntimos do coração”.
França: a igreja no ano 2000
O teólogo leigo Jean Marie Paupert,
acaba de lançar em Paris um livro
de conjecturas sobre a igreja no ano
2000. Segundo o autor, a eucaristia
“se transformará num memorial
comunitário celebrado por pequenos
grupos em qualquer lugar, desde o
Faço as minhas orações especialmente
pela manhã, mas oro também quando
estou num avião, ou enquanto guio o
automóvel, ou espero um ônibus. Meu
colóquio com Deus é muito simples:
não lhe peço muita coisa, suplico-
lhe apenas que me ajude a prosseguir
em meu trabalho do melhor modo
possível. Depois, rogo-lhe que proteja
os meus filhos, minha mulher e toda a
minha família.
Dr. Christian N. Barnad, o cirurgião
que fez o primeiro transplante de coração
Uma das razões por que o ateísmo
vem crescendo no mundo inteiro
se deve ao fato de os cristãos não
viverem como deveriam, dando
por conseguinte uma idéia falsa do
cristianismo.
Cardeal Franjo Seper, da
Iugoslávia, recentemente nomeado
pró-prefeito da Congregação para a
Doutrina da Fé
(Fonte: Ultimato, edições de janeiro a
maio de 1968)
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ULTIMATO Maio-Junho, 200838
O
s cristãos se movem na
história pela memória da
civilização que emergiria
do jardim do Éden, sem
o pecado original, e pela antevisão do
que teremos na Nova Jerusalém, quando
os efeitos da queda forem erradicados.
Já na revelação os crentes não podem
deixar de atentar para a mensagem do
Antigo Testamento, tendo Israel como
povo de Deus: o Ano Sabático e o Ano
do Jubileu, a proibição da escravidão, o
amparo à viúva, ao órfão e ao estrangeiro,
a terra como sendo de Deus, proibida
a sua propriedade perpétua, tida como
instrumento de produção para o alimento
de todos. O pecado não era só individual,
mas das nações, famílias e governantes.
O reino de justiça e de paz tem o
seu “já” na história e o seu “ainda
não” após o juízo final. O primeiro
fruto do Espírito Santo é o amor.
Não somos salvos por obras, mas para
elas, pois sem elas a fé seria morta. A
igreja primitiva foi uma comunidade
de partilha de bens e mordomia do
que Deus nos confia. O critério de
julgamento será pelas evidências éticas
sociais: “tive fome”, “tive sede”.
Na história da igreja esses valores
foram cultivados. Entre os Pais
da Igreja, Basílio, Ambrósio, João
Crisóstomo, Gregório de Nazianzo,
Gregório de Nissa e Agostinho de
Hipona advogaram a justiça social e
o bem comum. Em seu texto Naboth
e o Pobre, Ambrósio escreveu: “Não é
teu o bem que distribuis aos pobres,
apenas restituis o que é dele. Porque
tu és o único a usurpar o que é dado a
todos para o uso de todos”. A Reforma
Protestante veio com o nacionalismo
europeu, defendendo os interesses
de cada povo
contra a opressão
dos poderes
supranacionais:
o papado e o
sacro-império.
A doutrina da
vocação em
Lutero, ou da
dignidade do
trabalho em
Calvino — e do valor da educação
para ambos — tiveram um impacto
na civilização, com o capitalismo
superando o modo de produção
feudal, abrindo caminho para a
democracia liberal e sendo criticado
por movimentos como os Niveladores
(1647-1650), socialistas (parlamento,
cidadania, sufrágio universal, contra
os monopólios), e sua dissidência,
os Cavadores, comunistas, liderados
por Gerrard Winstanley, autor da
Lei da Liberdade. No século 17, esses
evangélicos, defensores de um pós-
capitalismo, acreditavam que, no que
concerne aos meios de produção, “a
propriedade privada, em si mesma,
constituía a principal causa do mal e de
todas as formas de abusos e corrupção
social”.
O reavivamento
inglês, a partir de
Wesley, incluindo
o abolicionismo e o
reformismo social
de Wilberforce e da
Paróquia Anglicana
de Claphan, são
marcas de uma
visão integral
do pecado, do
evangelho e da missão, cujo legado
seria dilacerado pelo que David
Moberg denominou de “A Grande
Reversão” — os evangélicos, reagindo
ao “evangelho social”, universalista
e de teologia liberal, foram para o
outro extremo com um “evangelho
individual” descarnado e insensível,
A igreja primitiva foi
uma comunidade
de partilha de bens
e mordomia do que
Deus nos confia
A mui piedosa esquerda
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Robinson Cavalcanti
Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese
do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política
– teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o
Mundo – desafios a uma fé engajada.
<www.dar.org.br>
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 39
ambos antibíblicos. Enquanto isso
surgiu uma esquerda cristã na Igreja
de Roma, com os padres Lammenais e
Lacordaire. A própria instituição, com a
encíclica Rerum Novarum, abandonaria
os seus vínculos com o absolutismo
e assumiria os novos desafios sociais.
Entre os protestantes, os movimentos
do socialismo religioso e do socialismo
cristão foram corajosas propostas. Na
Igreja de Roma, pensadores como
Jacques Maritain, Emmanuel Mounier
e Gabriel Marcel lançaram as bases do
pensamento humanista cristão e do
solidarismo, com grande influência no
Brasil do pós-Segunda Guerra aos anos
60, agora resgatados pelos estudos de
Michel Lowi.
Os termos direita e esquerda
surgiram na Assembléia Nacional
francesa pós-revolucionária (1789)
para designar os defensores e os
opositores do antigo regime ou do
novo regime. Naquele contexto, a
então esquerda seria direita hoje. O
marxismo estava longe de existir, e
a ditadura do (sobre o) proletariado
perseguiria o pensamento de esquerda
existente antes, em separado, e depois
dele, particularmente os religiosos.
Harold Laski afirmou: “Democracia
sem socialismo não é democracia;
socialismo sem democracia socialismo
não é”. Diante do aparente triunfo
do pensamento único, Norberto
Bobbio afirma que sempre haverá uma
esquerda, formada pelos inconformados
com as desigualdades não-naturais.
A inconformação com os males do
presente século, o compromisso com os
valores do reino de Deus, a promoção
da liberdade responsável, da democracia
representativa e participativa, da justiça
social e da soberania dos povos diante
dos impérios políticos e econômicos, e
de um modo de produção não baseado
em um darwinismo social — com a
sobrevivência dos mais fortes e mais
aptos —, mas na solidariedade — com
todo o capital nas mãos de todos os
trabalhadores, e não do Estado ou
de outros seres —, continuam a ser
o ideário de milhares de nascidos
de novo, piedosos e ortodoxos, no
exercício responsável da cidadania,
orando “seja feita a tua vontade, assim
na terra como no céu”.
da cristã
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Ricardo Gondim
ULTIMATO Maio-Junho, 200840
C
elebro os 40 anos da
revista Ultimato. Procuro
recordar o ano em que
circularam as primeiras
revistas. O mundo fervia: estudantes
parisienses entrincheirados desafiavam
o sistema educacional francês; tchecos
provocavam o imperialismo russo;
Martin Luther King e John Kennedy
tombavam, assassinados em condições
suspeitas; a América Latina amargava
ditaduras militares por todo lado; a
guerra do Vietnã horrorizava o planeta.
O ano de 1968 foi inundado com
tantos acontecimentos que ainda hoje
as águas não conseguiram baixar.
De lá para cá, o planeta mudou: o
bloco soviético ruiu; a Ásia deixou
de ser um perigo geopolítico para
tornar-se a nova promessa econômica;
a Europa criou sua moeda e o dólar
perdeu exclusividade; o Oriente
Médio ressuscitou teocracias; as
grandes religiões — hinduísmo,
judaísmo, cristianismo e islamismo
— se viram obrigadas a lidar com
fundamentalismos.
Em quase meio século, a África
padeceu com holocaustos semelhantes
ao de Ruanda. Impotente, viu milhões
serem dizimados por epidemias
— aids, malária, tuberculose. Sem
conseguir acabar com conflitos
internos, condenou milhões à miséria
— Angola, Darfur, Zimbábue.
Também, desde as primeiras
edições de Ultimato, computadores
se tornaram utensílios domésticos e
máquinas de escrever, relíquias; CD’s
e DVD’s são agora siglas conhecidas.
A televisão conectou o mundo via
satélite. A internet revolucionou o
conhecimento; hoje poucos consultam
as enciclopédias, preferindo o Google.
Por outro lado, o mundo percebeu
que o mito do progresso cobra um
preço altíssimo; e a comunidade
internacional despertou: o planeta não
suporta a dilapidação desenfreada do
meio ambiente. Com o derretimento
das calotas polares, as conseqüências
do efeito estufa substituíram o pavor da
guerra atômica.
O mundo religioso mudou desde que
o jovem Elben Lenz César escreveu
os primeiros textos para a revista
Ultimato. Os evangélicos cresceram
velozmente e chamaram a atenção
de sociólogos e teólogos; o Vaticano
mostrou certa preocupação. Os
pentecostais se tornaram maioria —
embora já nem se diferencie os crentes
entre “tradicionais” e “renovados”. Os
protestantes mudaram, para o bem e
para o mal.
Os problemas éticos foram
graves. Desde a Constituinte de
1988, pairaram suspeitas sobre as
aventuras políticas dos evangélicos;
na política, o amadurecimento foi
pífio. Os altos custos para financiar
o expansionismo de algumas
igrejas acabaram enfraquecendo
a reputação dos pastores, e os
constantes apelos por dinheiro
o
s
— aids, malária, tuberculose. Sem
conseguir acabar com conflitos
internos, condenou milhões à miséria
— Angola, Darfur, Zimbábue.
Também desde as primeiras
ligioso mudou desde queO mundo re
Lenz César escreveuo jovem Elben
extos para a revistaos primeiros te
Ultimato evangélicos cresceram. Os
hamaram a atençãovelozmente e ch
Desde 196
Há muito que celebrar. Escritores nacionais tomaram
coragem e publicaram o que antes apenas pregavam;
poetas musicaram poemas que lhes inspiravam; fez-se
a obra missionária sem recursos estrangeiros
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Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus
Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de,
entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas.
<www.ricardogondim.com.br>
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 41
em programas de rádio e televisão
viraram alvo de piadas.
A espiritualidade revelou sintomas
preocupantes. Alastraram-se devoções
utilitárias e muitas igrejas passaram a
funcionar como centros de auto-ajuda;
com os crentes ávidos por “conseguir”
uma bênção, correntes de oração
se popularizaram. Se antigamente
havia testemunho de mudança de
vida, passou-se a relatar milagres de
prosperidade e de solução de problemas
corriqueiros. Sermões antropocêntricos
pareciam querer fazer de Deus um
servo obediente.
Contudo, há muito que celebrar
depois de 40 anos. Escritores nacionais
tomaram coragem e publicaram
o que antes apenas pregavam;
poetas musicaram poemas que lhes
inspiravam; até as controvérsias
teológicas revelaram a liberdade dos
pensadores de se desvencilharem das
matrizes denominacionais; fez-se a obra
missionária sem recursos estrangeiros;
criaram-se ONG’s para defender desde
crianças carentes até o meio ambiente.
Devem-se festejar, principalmente,
as ações anônimas de milhões de leigos
que encarnam a doutrina do sacerdócio
universal dos crentes. Eles visitaram
penitenciárias e hospitais, levando
esperança para milhões; criaram
creches, clínicas para recuperação
de toxicômanos e asilos para idosos;
evangelizaram e discipularam
empresários, atletas e artistas.
Nos conflitos e paradoxos da
história, nessa ambivalência humana,
nos perigos do mundo, a revista
Ultimato se tornou um marco dos
princípios do evangelho, sempre
provocando reflexão e sempre na defesa
da vida. O futuro da humanidade
promete ser tenso, ameaçador e bem
mais complexo. Que a revista insista
em seu ultimato para que os cristãos
não se esqueçam da sua vocação:
serem “astros e luzeiros em meio a uma
geração corrompida e perversa”.
Parabéns. Toda a equipe da revista
Ultimato merece uma salva de palmas.
Continuem! Vocês se tornaram uma
dádiva para que lusófonos sejam
enriquecidos com informações,
reflexões e crônicas da melhor
qualidade.
Soli Deo Gloria.
em programas de rádio e televisão
viraram alvo de piadas.
A espiritualidade revelou sintomas
preocupantes. Alastraram-se devoções
utilitárias e muitas igrejas passaram a
penitenciárias e hospitais, levando
esperança para milhões; criaram
creches, clínicas para recuperação
de toxicômanos e asilos para idosos;
evangelizaram e discipularam
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ULTIMATO Maio-Junho, 200842
Valdir Steuernagel
edescobrindo a Palavra de DeusR
Como será que está a Maria? Será
ela carrega o vírus da aids no seu c
O
cenário parece
demasiado difícil para ser
verdadeiro, mas o é, na
sua crueza e no desenho
de uma realidade de vida que de tão
real deveria ser proibida.
O teto da casa havia caído e a
“família” se mudou para uma casa
emprestada pelo vizinho. Mas tanto
a casa caída como a casa em pé
pareciam vazias. As pessoas dormiam
no chão, em cima de qualquer pano,
e roupa para guardar não havia. A
cozinha era do lado de fora de casa,
onde se fazia um pequeno fogo no
chão. Num dia porque o vizinho
trazia alguma coisa. Noutro porque
se havia catado algumas bananas. E
depois de amanhã... quem sabe nem
vai se fazer fogo.
A família era formada de quatro
irmãos. Maria, então com 6 anos, era
a mais nova. Tenho saudades dela e
o meu coração chora quando penso
nela: seus olhos pediam acolhimento
e seu rosto expressava abandono.
Ela não tinha quem cuidasse dela
nem de suas roupas. Ambos os pais
haviam morrido por complicações
causadas pelo vírus da aids e estavam
enterrados no fundo do quintal.
Agora os quatro irmãos tinham um
ao outro, a casa emprestada, algum
outro vizinho que se lembrava deles
de vez em quando e a pessoa da Visão
Mundial que passava por lá uma vez
por semana.
Nem sei o nome do menino
A família já havia tentado de tudo e
nada dava jeito. O menino parecia um
caso sem solução.
Desde pequeno
tinha convulsões.
Virava os olhos
e espumava pela
boca, e isso gerava
muitos comentários
na vizinhança.
Quando isso
acontecia, a mãe do menino ficava
muito triste. O pai estava sempre à
procura de ajuda. O fato já não era
familiar, mas comunitário, público.
Isso se tornou ainda mais claro quando
o pai levou o menino a alguns homens
que apareceram na vila e de quem as
pessoas estavam dizendo coisas boas
e impressionantes. Porém, colheu
apenas decepção e muito barulho, só
conseguindo o que ele não precisava:
ser caso de análise.
O evangelho de Marcos (9.14-27)
fala dessa cena e de como Jesus foi
averiguar o que estava acontecendo e
se viu diante de um pai desesperado,
segurando pela mão um menino cujos
olhos pareciam carregar um enorme
cansaço. E assim Jesus entra na história
dessa família. Pergunta pelo quadro do
menino. Faz um
diagnóstico da
situação.
Quando,
mais tarde, o
pai chega em
casa segurando
o menino pela
mão, a mãe olha e
chora. É o choro de uma mãe que tem
uma profunda angústia aliviada, um
choro com cara de riso. Pelo semblante
do marido e pelos olhos do menino
ela sabe que algo aconteceu, e o que
aconteceu lhe devolveu um menino
diferente, um menino liberto, curado,
tocado por Jesus.
O sexto Objetivo do
Milênio é “combater
a aids, a malária e
outras doenças”
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PixelBoy
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 43
Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a
Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral
e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para
Falar das Flores... e Outras Crônicas.
rá que
u corpo?
Quando, tarde da noite, os pais ainda
sem conseguir dormir começam a
conversar, o assunto é um só: esse Jesus
que se preocupou com o nosso menino
é “coisa de outro mundo”.
Ontem foi o menino,
agora é a Maria
O sexto Objetivo do Milênio é
“combater a aids, a malária e outras
doenças”. Com estes objetivos, a
Organização das Nações Unidas está
diagnosticando os principais problemas
que acometem a vida no e do planeta e
convocando todas as nações do mundo
a se engajarem no alcance de objetivos
cujo cumprimento visa melhorar a
vida das pessoas e da comunidade
humana. O Brasil está entre os países
que se comprometeram a alcançar estes
objetivos e, no combate à aids, tem
ganhado um enorme destaque positivo.
É o primeiro país em desenvolvimento a
proporcionar acesso universal e gratuito
ao tratamento da aids na rede pública
de saúde. Porém, no que diz respeito a
“outras doenças”, o Brasil não vai tão
bem. Enquanto escrevia este artigo, li a
trágica notícia de que “as forças armadas
começam a erguer hospitais para
tratar pacientes com dengue no Rio”.
A dengue, a malária, a febre amarela,
machucam e matam muitas pessoas
neste Brasil de contradições sociais.
Comecei este artigo preocupado
em mostrar dados, abundantes e
assustadores. Porém, abandonei os
números e voltei a olhar para a Maria
e a caminhar em direção a Jesus. É
significativo o número de vezes em
que Jesus está cercado de pessoas
doentes, fragilizadas e paralisadas pelas
dificuldades da vida. Sua presença e
sua palavra são sempre de esperança.
Esperança de restauração e de encontro
com o shalom de Deus, no qual a saúde
tem lugar especial. Assim, engajar-se
no cumprimento deste objetivo do
milênio é caminhar com Jesus e em
nome de Jesus pelas casas de teto caído
e ir ao encontro de pais desesperados
com os conflitos dos seus filhos, para
que todos “tenham vida e a tenham em
abundância” (Jo 10.10).
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história
Alderi Souza de Matos
ULTIMATO Maio-Junho, 200844
E
las ocupam um enorme
espaço na televisão aberta,
chegando a milhões de lares
brasileiros todos os dias. As
três mais conhecidas e salientes têm
nomes parecidos — Igreja Universal
do Reino de Deus, Igreja Internacional
da Graça de Deus e Igreja Mundial
do Poder de Deus. Esses nomes
apontam para objetivos ousados e
ambiciosos. Seus líderes máximos
adotam, respectivamente, os títulos de
bispo, missionário e apóstolo. Elas são
o fenômeno mais recente, intrigante e
explosivo do
“protestantismo” tupiniquim.
Trata-se das igrejas neopentecostais,
denominadas por alguns estudiosos
“pentecostalismo autônomo”, em
virtude de seus contrastes com os
grupos mais antigos desse movimento.
É difícil categorizá-las
adequadamente, não só por serem
ainda recentes, mas porque, ao lado
de alguns traços comuns, também
apresentam diferenças significativas
entre si. A Igreja Mundial investe
fortemente na cura divina. Seu apóstolo
garante que ninguém realiza mais
milagres do que ele. Seu estilo
é personalista e carismático.
Caminha no meio dos fiéis, deixa
que as pessoas recolham o suor do
seu rosto para fins terapêuticos,
às vezes é ríspido com os
auxiliares. O missionário da
Igreja Internacional é simpático
e bonachão; parece um pastor à
moda antiga. É também polivalente:
prega, canta, conta piadas, anuncia
produtos e serviços. Controla com rédea
curta o seu pequeno império. Todavia,
nenhuma dessas igrejas vai tão longe na
ruptura de paradigmas quanto a IURD.
Dependendo do ângulo de análise,
parece protestante ou católica. Seu
carro-chefe é a teologia da prosperidade.
Defende sem pejo a ética da sociedade
de consumo. Seu líder está entrando na
lista dos homens mais ricos do país.
Desde o início, o cristianismo
tem exibido uma grande variedade
de manifestações, algumas bastante
inusitadas. Foi o caso do gnosticismo e
do marcionismo nos primeiros séculos,
das seitas apocalípticas na Idade
Média e de alguns grupos resultantes
dos reavivamentos nos Estados
Unidos do século 19. Porém, nenhum
movimento tem sido tão pródigo em
termos de quantidade e diversidade de
ramificações quanto o pentecostalismo
contemporâneo. No atual ambiente
pluralista e inclusivista, muitos
observadores vêem nessa multiplicidade
um sinal de vitalidade, de dinamismo.
Todavia, há sinais preocupantes nos
ensinos e práticas de certos grupos. Na
célebre Confissão de Fé de Westminster
(1647), os puritanos ingleses colocaram
a questão em termos de diferentes
A integridade do evangelho:
uma avaliação do neopentecostalismo
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 45
Em muitas igrejas
neopentecostais a Bíblia
se torna um joguete,
uma peteca lançada para
lá e para cá ao sabor das
conveniências. Os textos
bíblicos são usados de
modo mágico, como
se fossem amuletos
ou talismãs, como se
tivessem um poder
imanente e intrínseco
graus de pureza das igrejas cristãs —
cap. 25.4,5 (igrejas mais puras e menos
puras). Uma avaliação simpática e
honesta das igrejas neopentecostais
aponta para alguns aspectos que
precisam ser reconsiderados a fim
de que elas se tornem genuínos
instrumentos do evangelho de Cristo.
O problema hermenêutico
Uma grave deficiência dessas
novas igrejas está na maneira como
interpretam a Bíblia. Os reformadores
protestantes insistiram no valioso,
porém arriscado, princípio do “livre
exame das Escrituras”, ou seja, de
que todo cristão tem o direito e o
dever de ler e estudar por si mesmo a
Palavra de Deus. Acontece que muitos
viram nisso uma licença para a livre
interpretação do texto sagrado, o que
nunca esteve na mente dos líderes da
Reforma. Eles lutaram contra uma
abordagem individualista e tendenciosa
da Escritura, insistindo na adoção de
princípios equilibrados de interpretação
que levavam em conta o sentido literal
e gramatical do texto, a intenção
original do autor, o contexto histórico
das passagens e também a tradição
exegética da igreja. Por essas razões,
eles rejeitaram o antigo método de
interpretação alegórica, isto é, a busca
de sentidos múltiplos na Escritura,
por entenderam que ela obscurecia e
distorcia a mensagem bíblica.
Em muitas igrejas neopentecostais
nada disso é levado em consideração.
A Bíblia se torna um joguete, uma
peteca lançada para lá e para cá ao
sabor das conveniências. Tomam-se
diferentes declarações, episódios e
símbolos bíblicos e, sem esforço algum
de interpretação, passa-se diretamente
para a aplicação, muitas vezes de uma
maneira que nada tem a ver com o
propósito original da passagem. O
que é ainda mais grave, os textos
bíblicos são usados de modo mágico,
como se fossem amuletos ou talismãs,
como se tivessem um poder imanente
e intrínseco. A Bíblia é encarada
prioritariamente como um livro de
promessas, de bênçãos, de fórmulas para
a solução de problemas, e não como a
revelação especial na qual Deus mostra
como as pessoas devem conhecê-lo,
relacionar-se com ele e glorificá-lo.
Uma nova linguagem
Na sua releitura da Bíblia, os
neopentecostais por vezes criam uma
nova terminologia, muito diferente
dos conceitos bíblicos tradicionais.
Privilegiam-se expressões como “exigir
nossos direitos”, “manifestar a fé”,
“declarar a bênção”, todos os quais
apontam para uma espiritualidade
antropocêntrica, ou seja, voltada para
as necessidades, desejos e ambições dos
seres humanos, e não para a vontade
e a glória de Deus. Alguns dos temas
bíblicos mais profundos e solenes
redescobertos pelos reformadores do
século 16 são quase que inteiramente
esquecidos. Não mais se fala em
pecado, reconciliação, justificação
pela fé, santificação, obediência. O
evangelho corre o risco de ficar diluído
em uma nova modalidade de auto-
ajuda psicológica, deixando de ser “o
poder de Deus para a salvação de todo
aquele que crê”.
O conceito de fé talvez seja aquele que
esteja sofrendo as maiores distorções.
No discurso de muitas igrejas do
pentecostalismo autônomo, a fé se torna
uma espécie de poder ou varinha de
condão que as pessoas utilizam para
obter as bênçãos que desejam. Deus
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Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja
pela Universidade de Boston e historiador oficial da
Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada
Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do
Brasil.
<asdm@mackenzie.com.br>
ULTIMATO Maio-Junho, 200846
fica essencialmente passivo até que
seja acionado pela fé do indivíduo. É
verdade que Jesus usou uma linguagem
que aparentemente aponta nessa direção
(“tudo é possível ao que crê”, “vai, a tua
fé te salvou”). Mas o conceito bíblico
de fé é muito mais amplo, a ênfase
principal estando voltada para um
relacionamento especial entre o crente
e Deus. Ter fé significa acima de tudo
confiar em Deus, depender dele, buscar
a sua presença, aceitar como verdadeiras
as declarações da sua Palavra. O objeto
maior da fé não são coisas, mas uma
pessoa — o Deus trino.
Fundamento questionável
A teologia da prosperidade, que serve
de base para boa parte da pregação
e das práticas neopentecostais, é
uma das mais graves distorções do
evangelho já vistas na história cristã.
Essa abordagem teve início nos Estados
Unidos há várias décadas, sob o nome
de “health and wealth gospel”, ou
seja, evangelho da saúde e da riqueza.
No neopentecostalismo, essa se torna
a principal chave hermenêutica das
Escrituras. Tudo passa a ser visto dessa
perspectiva reducionista acerca do
relacionamento entre Deus e os seres
humanos. O raciocínio é que Cristo,
através da sua obra na cruz, veio trazer
solução para todos os tipos de problemas
humanos. Na prática, acaba se dando
maior prioridade às carências materiais e
O grande problema está
nas megaigrejas e seus
líderes centralizadores,
ávidos de fama, poder e
dinheiro. Estes precisam
arrepender-se e voltar
às prioridades da
mensagem cristã
emocionais, em detrimento das morais e
espirituais, muito mais importantes.
Tradicionalmente, as maiores bênçãos
que o homem podia receber de Deus
incluíam o perdão dos pecados, a
reconciliação, a paz interior e, num
sentido mais amplo, a salvação.
Dentro da nova perspectiva teológica,
as coisas mais importantes que Deus
tem a oferecer são um bom emprego,
estabilidade financeira, uma vida
confortável, felicidade no amor e coisas
do gênero. É uma nova versão da tese do
sociólogo alemão Max Weber, segundo
o qual os calvinistas buscavam no
sucesso econômico a evidência da sua
eleição. Os problemas da teologia da
prosperidade são diversos: (a) falta de
suporte bíblico — a Escritura aponta na
direção oposta, mostrando a armadilha
em que caem os que se preocupam
com as riquezas; (b) empobrecimento
da relação com Deus, concebida em
termos interesseiros e mercantilistas; (c)
incentivo a atitudes de individualismo,
egocentrismo e falta de solidariedade;
(d) tendência para a alienação quanto
aos problemas da sociedade.
Conclusão
O neopentecostalismo representa um
grande desafio para as igrejas históricas
e mesmo para as pentecostais clássicas.
Esse movimento tem encontrado novas
formas de atrair as massas que não estão
sendo alcançadas pelas igrejas mais
antigas. Nem todos os grupos padecem
dos males apontados atrás. Muitas
igrejas neopentecostais são modestas,
evangelizam com autenticidade e não
se rendem à tentação dos resultados
rápidos, dos projetos megalomaníacos
e dos métodos incompatíveis com
o evangelho. O grande problema
está nas megaigrejas e seus líderes
centralizadores, ávidos de fama, poder
e dinheiro. Estes precisam arrepender-
se e voltar às prioridades da mensagem
cristã, buscando em primeiro lugar
o reino de Deus e a sua justiça, para
que então as demais coisas lhes sejam
acrescentadas.
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Entrevista: Raimundo César Barreto Júnior
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 47
A
os 41 anos, o salvadorense
Raimundo César Barreto
Jr. já conseguiu muita coisa
na vida. O pulo inicial
aconteceu quando ele tinha 5 anos e
entregou sua vida a Jesus, decisão que
ele faz questão de renovar todos os dias.
O outro pulo importante foi quando
abandonou a universidade e um bom
emprego na Petrobrás e se matriculou
no Seminário Teológico Batista do
Norte do Brasil, em Recife. Depois
de ser ordenado pastor batista, aos
26 anos, Raimundo teve o privilégio
de fazer doutorado em ética social no
Seminário Teológico de Princeton.
Casado, dois filhos, hoje ele é pastor da
Igreja Batista Esperança, em Salvador,
BA, professor do Seminário Batista de
Recife e da Universidade Regional da
Bahia, e coordenador-geral do Centro
de Ética Social Martin Luther King
Jr. do Brasil, em Salvador. Por ser uma
das maiores autoridades em Martin
Luther King Jr., Ultimato fez com ele
a seguinte entrevista, a propósito do
40º aniversário do assassinato do mais
notável defensor cristão de mudanças
sociais por vias não-violentas dos
Estados Unidos, agora em abril.
O sucesso da
não-violência
Especialista em ética social lembra que
Martin Luther King Jr. resistia aos sistemas
injustos com o firme compromisso de nunca
atingir a dignidade humana do oponente
Ultimato — Quem fez mais pelos direitos civis
dos norte-americanos: o presidente Abraham
Lincoln ou o pastor batista Luther King?
Raimundo César — Não gosto de fazer
comparações valorativas entre pessoas
que viveram em épocas e mundos
diferentes. Estamos diante de dois dos
mais importantes líderes que os Estados
Unidos já tiveram. E arrisco dizer que
eles se complementam. A emancipação
proclamada por Lincoln, pondo fim
à escravidão, não se materializou
totalmente, especialmente no sul do
país, até que a luta pelos direitos civis,
liderada por Martin Luther King Jr.,
conseguisse banir a segregação e sua
afirmação de “iguais, mas separados”,
um terrível regime de apartheid racial,
comparável ao que a África do Sul
conheceu. Vale salientar, porém, que
se trata de dois tipos diferentes de
liderança. Lincoln foi um político, um
presidente, que teve a coragem de liderar
a nação num dos períodos mais críticos
de sua história. A liberdade de todos era,
a seu ver, um fator sine qua non para o
avanço do país. Luther King, apesar de
ser um líder de um vasto movimento
social que lutava pelos direitos civis dos
negros norte-americanos, via a si mesmo
antes de tudo como profeta e pastor.
Referia-se a si mesmo como um pastor
tentando salvar a alma de sua nação.
Recusou ofertas para se candidatar a
cargos públicos, preferindo o papel que
o marcou na história, o de líder moral,
ou, no dizer de alguns, de consciência
moral da nação. Cornel West diz que
ele foi o maior profeta da história
dos Estados Unidos e se tornou uma
inspiração para muitos outros líderes
na luta contra a injustiça ao redor do
mundo.
Ultimato — Os historiadores dizem que o
ensaio do americano Henry David Thoreau
sobre o dever da desobediência civil, a
política pacifista do indiano Mahatma Gandhi
e a teologia existencialista do alemão Paul
Tillich exerceram grande influência sobre o
jovem Luther King. Como o senhor vê essa
tríplice influência?
Raimundo César — Antes de comentar
essa tríplice influência, devo lembrar
que a mais marcante influência no
pensamento do dr. King foi a tradição
profética da igreja negra (Black Church)
nos Estados Unidos. Não podemos
entender Luther King se perdermos
isso de vista. Ele é fruto dessa tradição,
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Embora fosse o líder de um vasto movimento social
que lutava pelos direitos civis dos negros norte-
americanos, Martin Luther King Jr. via a si mesmo,
antes de tudo, como profeta e pastor
ULTIMATO Maio-Junho, 200848
na qual se vê totalmente imerso, como
neto, filho e genro de pastores batistas
negros. A Black Church é tida como
a mais importante instituição dos
negros norte-americanos, pois foi a
primeira instituição fundada por eles,
onde estavam fora dos auspícios e da
vigilância dos brancos. Por isso, todas
as lutas por direitos civis e sociais,
especialmente no sul do país, tiveram
a igreja como base. Quando Rosa
Parks foi presa, causando comoção
à população negra de Montgomery,
no Alabama, foi numa igreja que os
líderes negros da cidade se reuniram e
tomaram a decisão de fazer um boicote
ao sistema de transporte público, que
durou mais de onze meses. Foi nesse
contexto que Luther King foi escolhido
como porta-voz do movimento, aos 26
anos, tornando-se, assim, o seu líder até
o seu assassinato, treze anos depois. Por
outro lado, ele foi um estudioso. Fez
doutorado numa excelente universidade,
entrando em contato com diversas
escolas de pensamento. Uma de suas
características era a preocupação de pôr
os pensamentos que lhe impactavam
em suas leituras em diálogo com sua
realidade. A capacidade de traduzir
conceitos abstratos numa linguagem
compreensível pelas pessoas mais
simples lhe possibilitou funcionar como
um intelectual orgânico, catalisando em
torno do movimento pessoas de todas
as classes. O pensamento de Henry
David Thoreau foi uma importante
influência nesse contexto, pois forneceu
a King o conceito de desobediência
civil, que ele passou a usar como
estratégia das suas lutas. A idéia de
que há um imperativo moral que nos
obriga à não-cooperação com o mal foi
chave para ele. Todos os passos dados
por King na liderança do movimento
foram fundamentados numa boa dose
de reflexão. Ao liderar, por exemplo,
boicotes, ele queria deixar claro que
estava usando meios justos para alcançar
um fim justo. Influenciado por Thoreau
e Tomás de Aquino, ele concluiu que
temos o dever moral de obedecer a
leis justas, mas quando se trata de
uma lei injusta, que viola a dignidade
humana, somos chamados a resisti-
la. Paul Tillich foi outra influência
importante sobre King; afinal, ele
escreveu sua tese de doutoramento
sobre Tillich. A principal influência
talvez tenha vindo de um livro em que
Tillich relaciona os conceitos de amor,
justiça e poder. Tillich enxergava o
amor como fundação do poder, não
sua negação. Essa concepção da relação
entre amor e poder se tornou essencial
no pensamento de King. Além do
mais, Tillich afirmava a primazia de
Deus sobre todas as outras coisas no
universo, o que certamente contribuiu
para o conceito de “companhia
cósmica” desenvolvido por King,
quando afirmava que aquele que luta
pela justiça nunca está sozinho, tem
companhia cósmica. Ele dizia que o
arco do universo é longo, mas se inclina
na direção da justiça. Essa primazia
do divino contribuiu muito para os
momentos mais críticos e desesperadores
da caminhada. Gandhi também exerceu
forte influência sobre King através de
sua estratégia de resistência não violenta,
inspirada no conceito de satyagraha,
força da verdade ou força da alma, em
diálogo com os ensinamentos de Jesus
no Sermão do Monte. Para Gandhi,
a força física dos opressores deveria
ser enfrentada com a força da verdade
daqueles que lutam por justiça. King
viu nesse método a aplicação prática da
doutrina cristã do amor de uma maneira
que ele nunca tinha encontrado em
nenhum pensador cristão. Foi nesse
contexto que ele afirmou: “Jesus me
deu a inspiração e Gandhi me deu o
método”. King acreditava que por trás
de todas as coisas existe uma força
benevolente no universo, um Deus
justo e amoroso. Sendo assim, a sua
luta deveria se dirigir na direção da
realização desse propósito amoroso.
As armas de sua luta deveriam ser
coerentes com este propósito. O amor
se transformava em instrumento de
transformação social. A resistência não
violenta significava o compromisso
de nunca atingir a dignidade humana
do oponente, de resistir aos sistemas
injustos sem, porém, se permitir
descer ao ponto de odiar o próximo,
mesmo que ele estivesse do outro lado
da luta sendo travada. É interessante
como Gandhi, não-cristão, teve uma
percepção acurada dos ensinamentos de
Jesus. King percebeu isso. Perguntado
certa vez sobre qual seria o maior
inimigo do cristianismo na Índia,
Gandhi teria respondido: os cristãos!
Ultimato — O teólogo inglês John Stott ensina
que o verdadeiro líder não é individualista
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King via no racismo, na pobreza e no militarismo três
faces de um mesmo mal. Não adiantaria lutar contra o
racismo apenas, esquecendo a injustiça social
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 49
e, por isso, inspira as pessoas a seguir sua
liderança, pois entende que sua função
depende da cooperação de todos (A Bíblia
Toda, O Ano Todo, p. 131). Luther King se
enquadra nessa perspectiva?
Raimundo César — Tive a oportunidade
de ouvir pessoalmente alguns líderes
que trabalharam junto com King,
inclusive Andrew Young, um de seus
auxiliares mais próximos. É muito claro
que King foi um líder que não apenas
trabalhou em equipe, mas inspirou seus
liderados. Ele tinha a coragem moral
de não se omitir diante do perigo. Um
de seus biógrafos conta que numa das
marchas eles foram informados que
haveria um atentado contra a vida
dele. Seus companheiros lhe deram a
oportunidade de não prosseguir à frente
da marcha, mas ele se recusou, seguindo
à frente. Sabendo do risco, um de seus
auxiliares convidou todos os pastores
negros que participavam da marcha
que estavam usando terno na mesma
tonalidade do de King para se juntarem
a ele, formando uma parede de pessoas,
que marchavam ao seu lado, de braços
dados, colocando-se também em perigo,
a fim de confundir um possível atirador.
Esse episódio fala muito sobre o tipo
de líder que o dr. King era. Por não
fugir dos momentos difíceis, tendo,
inclusive, sido preso inúmeras vezes, ele
ganhava autoridade moral para liderar o
movimento, inspirando seus seguidores.
Ele também assumiu posições difíceis,
mesmo quando isso significava a
perda de apoio e admiração, como foi
o caso de seu protesto contra a guerra
no Vietnã. Por achá-la moralmente
equivocada e por entender que não
podia se calar diante de um mal que
tinha ligações com o mal do racismo
e da pobreza que combatia em casa,
ele abriu a boca denunciando o erro
dessa guerra, mesmo contra a vontade
de seus companheiros. Eles achavam
que perderiam o apoio — conseguido a
duras penas — do governo e até mesmo
de parte da população ao movimento.
Em resposta a eles, King afirmou:
“Passei toda a minha vida lutando
contra a segregação de espaços públicos;
como poderia segregar a minha
consciência agora?”
Ultimato — Em Para Onde Vamos Daqui: caos
ou comunidade?, seu último livro, Luther
King esboçou uma agenda com três objetivos:
a queda do racismo, a queda da guerra e a
queda da pobreza. A humanidade já alcançou
esses alvos?
Raimundo César — King via no racismo,
na pobreza e no militarismo três faces
de um mesmo mal. Não adiantaria lutar
contra o racismo apenas, esquecendo
o problema da pobreza, da injustiça
social. E esses dois problemas também
estavam ligados ao problema do
militarismo, em que seu país exercia um
papel extremamente negativo tanto no
Vietnã quanto nas alianças que fazia
com as elites latino-americanas. King
via tanto a justiça quanto a injustiça
como sendo indivisíveis. Isso o levava
a associar os problemas domésticos aos
internacionais. Costumava dizer que
“o mal que afeta a um diretamente
afeta a todos indiretamente”, “a
injustiça em qualquer lugar é uma
ameaça à justiça em todos os lugares”
e “ou nós aprendemos a viver juntos
como irmãos e irmãs, ou pereceremos
todos juntos, como tolos”. Claro, esses
males continuam existindo. A pobreza
extrema ainda é a realidade de grande
parte da população mundial. Não por
coincidência, em âmbito mundial as
populações de pele mais escura estão,
em sua maioria, na parte inferior da
escala social e econômica, e as de pele
mais clara, em regra, no topo dessa
escala. Ou seja, a pobreza e o racismo
continuam de braços dados. Não basta
combatermos a pobreza. Precisamos
nos dar conta do elemento racista que
ela esconde. E o militarismo continua
em voga sob a liderança dos Estados
Unidos. King criticava o fato de seu país
estar matando os vietnamitas morenos
do outro lado do mundo. Hoje podemos
dizer o mesmo dos afegãos e iraquianos,
atuais vítimas do militarismo norte-
americano. A visão ético-teológica de
King pode nos ajudar no enfrentamento
desses males, que ele chamava de irmãos
gêmeos, além de outros que ele não
percebeu em sua época, como o sexismo
e os problemas ambientais. Todos estão
interligados.
Ultimato — O legado de Luther King ainda é
relevante, quarenta anos depois de sua morte?
Raimundo César — A partir do que
acabo de dizer, fica claro que o legado
de King continua sendo relevante
hoje. Em alguns casos, ele teve uma
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ULTIMATO Maio-Junho, 200850
percepção adiante do seu tempo.
Para mim, ele teve uma visão tão
profunda da inter-relação da vida
e da comunhão geográfica que o
processo de globalização nos leva a
experimentar, que parece que ele estava
falando em alguns momentos não
para a sua própria geração, mas para a
nossa. Mais ainda, ele continua sendo
uma grande inspiração para líderes
e movimentos em várias partes do
mundo, o que mostra a sua atualidade.
O historiador afro-americano Vicent
Harding, falando dessa significância
de King para as lutas atuais, escreveu:
“King vive... nós o vimos enfrentando
os tanques na praça de Tiananmen,
dançando sobre o muro trêmulo em
Berlim, cantando em Praga, vivo nos
olhos de Nelson Mandela... Ele vive
dentro de nós, aqui mesmo... onde
quer que suas batalhas não concluídas
são retomadas por nossas mãos”.
James Cone, outro pensador negro
americano, diz que o legado de King,
que sempre se identificou com os
marginalizados, pertence especialmente
ao chamado “terceiro mundo”, ao
mundo dos pobres e deserdados.
Especialmente para estes, seu legado
continua sendo inspirador.
Ultimato — Quarenta anos depois do
assassinato de Luther King num hotel em
Memphis, no Tennessee, no dia 4 de abril de
1968, os Estados Unidos têm um candidato
negro à presidência do país. Trata-se de mais
uma dívida da democracia com a pessoa e a
obra de Luther King?
Raimundo César — Não é a primeira
vez que os Estados Unidos têm um
candidato negro à presidência. Há
registros de que o próprio King teria
sido convidado a concorrer como uma
alternativa a Johnson e Nixon, em
1968, mas recusou. Jesse Jackson e Arl
Sharpton, ambos ligados ao movimento
pelos direitos civis, foram candidatos,
mas sem chances reais de ganhar.
Barack Obama talvez seja o primeiro
candidato negro com chances reais
de ganhar uma corrida presidencial
nos Estados Unidos. Apesar de ele
não ter raízes no movimento liderado
por King, como os outros dois, ele
resgata muito mais os ideais pelos quais
King lutou que qualquer outro líder
desde a sua morte. Sua capacidade
de energizar o público como um dos
melhores oradores na política norte-
americana contemporânea, sua origem
inter-racial e seu apelo ao resgate do
sonho perdido (depois de oito anos
de uma presidência que dividiu o país
no meio, instaurando o medo como
norma e isolando a nação do resto do
mundo) o aproximam muito de King.
O fato de ter pai africano, de já ter
vivido fora dos Estados Unidos, de ter
inclinação para mediar e unir, mais do
que dividir, também coloca Obama
dentro do legado de King, com sua
visão de conexão entre os problemas
internos e as questões internacionais.
Mas ainda resta ver se o país está
pronto para eleger um negro com essas
características como presidente.
Ultimato — Em outubro de 1962, Luther
King, negro e protestante, com 33 anos, e
John Kennedy, branco e católico, com 45,
se encontraram na Casa Branca para uma
conferência sobre direitos civis. No ano
seguinte, Kennedy foi assassinado e, menos
de seis anos depois, o mesmo aconteceu
com Luther King. O democrata Barack Obama
também corre o risco de ser assassinado,
como se diz à boca pequena?
Raimundo César — Eu gostaria de
crer que desde os anos 60 as coisas
mudaram e que não haveria espaço
para esse tipo de conspiração hoje
nos Estados Unidos. No entanto, o
fundamentalismo e os extremismos
estão mais vivos do que nunca.
Normalmente, os loucos e fanáticos
produzidos por esses movimentos se
sentem ameaçados por líderes mais
inovadores, de mentalidade menos
beligerante e mais conciliadora,
como John Kennedy e Martin Luther
King. O próprio Gandhi também foi
assassinado assim. Nos anos 60, muitos
foram os líderes negros assassinados
nos Estados Unidos. Quando Kennedy
morreu, King teria dito à sua esposa
que sabia que não sairia vivo daquela
revolução. Mas nem isso o deteve. Ele
trabalhou intensamente por mais seis
anos, deixando marcas profundas na
vida de sua nação, como o Civil Rights
Act, de 1964, lei que garantia o direito
de votar dos negros, alcançado graças
ao movimento liderado por King.
Não dá para dizer o que aconteceria
se Obama fosse eleito, mas caso isso
ocorra, devemos pedir a Deus que ele
possa completar seu mandato e venha
a ser um presidente menos arrogante
que o atual e mais sensível para com as
relações e necessidades da comunidade
internacional, especialmente na
América Latina.
Apesar de não ter raízes no movimento liderado por King,
Barack Obama resgata muito mais os ideais pelos quais
King lutou que qualquer outro líder desde a sua morte
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 51
Ultimato — Se estivesse vivo hoje, Luther
King se oporia à guerra do Iraque?
Raimundo César — Sem dúvida
alguma. Além de sua visão não
violenta de mundo (King não era
doutrinariamente pacifista, mas
adotava a não-violência como estilo de
vida e estratégia de mudança social),
ele jamais aceitaria a falácia da guerra
justa vendida pelo governo Bush. Ele
se empenharia para mostrar a injustiça
desta guerra. Aliás, suas palavras têm
constado entre as mais inspiradoras
declarações lidas por aqueles que têm
se mobilizado contra a guerra. Quando
a invasão ao Iraque aconteceu, eu
estava nos Estados Unidos e participei
de algumas marchas com milhares
de pessoas, em Washington, contra
a guerra. Muitos dos líderes desse
movimento pela paz que conheci, que
se tornou o maior movimento desse
tipo desde os movimentos contra a
guerra no Vietnã, eram pastores, que
se colocavam dentro do legado de
King. Seus filhos e sua esposa, que
já morreu, também participaram de
alguns desses protestos, e suas palavras
têm permeado o movimento.
Ultimato — Qual é a sua opinião sobre as
acusações de que Luther King teria tido casos
extraconjugais?
Raimundo César — Eu não posso dizer
com convicção que estas acusações
sejam verdadeiras, pois as fontes não
são isentas. Tais informações vêm, na
sua maior parte, de tapes postos pelo
FBI nos quartos de hotel onde King
se hospedava, nos últimos anos de sua
vida. Nesse período, especialmente
por causa de sua posição contra a
guerra no Vietnã, o governo norte-
americano se mostrava profundamente
incomodado com suas críticas.
Por isso o FBI passou a persegui-lo,
tentando encontrar evidências que o
desmoralizassem ou inibissem a sua
liderança. Independentemente disso,
é possível que casos extraconjugais
tenham acontecido, sim. Se de fato
aconteceram, isso evidenciaria, talvez,
uma fraqueza moral em King. No
entanto, isso jamais deve ser usado
como justificativa para que olvidemos
as importantes contribuições que ele
nos deixou através de sua vida e de
seu compromisso com o evangelho e
com a transformação da sociedade.
Devemos lembrar que a própria Bíblia
não esconde as fraquezas morais
de grandes líderes como Abraão e
Davi, e nem por isso eles perdem o
valor como personagens cujas vidas e
palavras nos inspiram a caminhada.
Para concluir, uma pergunta que
sempre me faço quando penso nesse
tema é a seguinte: se o serviço de
inteligência mais poderoso do mundo
estivesse na nossa cola dia e noite,
por vários anos, o que encontraria na
nossa intimidade?
Ultimato — Qual é o propósito do Centro de
Ética Social Martin Luther King Jr. do Brasil,
com sede em Salvador?
Raimundo César — O Martin Luther
King Jr. do Brasil é uma organização
sem fins lucrativos inspirada no legado
de King, que se propõe a acompanhar
de forma solidária e profética o povo
brasileiro, suas igrejas e organizações
populares no desenvolvimento de
uma participação social consciente,
organizada e crítica que vise construir
uma sociedade mais justa e igualitária.
A organização realiza e propicia
processos educativos de ação-reflexão
e de comunicação, bem como de
acompanhamento e articulação de
atores sociais e de solidariedade em
âmbito local, nacional e internacional.
Pretende capacitar pessoas, igrejas e
outras organizações populares para
que possam responder eticamente
aos desafios cruciais da realidade
contemporânea. Entre as atividades
em que o Martin Luther King Jr. do
Brasil atua ou apóia estão a pesquisa, a
reflexão, o treinamento, a comunicação
e a práxis em áreas relacionadas
à justiça social, pobreza, racismo,
sexismo, meio ambiente, violência
urbana, saúde, educação e direitos civis
e humanos em geral.
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Ricardo Barbosa de Sousa
ULTIMATO Maio-Junho, 200852
Tudo em comum
N
o livro dos Atos dos
apóstolos há um pequeno
trecho que descreve
de forma magnífica
a natureza e qualidade de vida da
primeira comunidade cristã em
Jerusalém (At 2.41-47). A descrição é
fascinante, impressiona qualquer um
que a lê, até mesmo os mais
céticos e descrentes.
O que vemos ali é o
reino de Deus em
ação, a concretização
da oração que Cristo
ensinou: “Venha o
teu reino; faça-se a
tua vontade, assim na
terra como no céu...”.
Este relato contrasta
com a história de uma
outra comunidade
(Gn 11.4), que decidiu
construir uma torre
que alcançasse os céus
e fizesse seus nomes
célebres e famosos.
Falavam a mesma
língua e tinham um
projeto em comum,
mas, em vez de
criarem uma
comunidade,
criaram um altar
para sua auto-
exaltação. Este
relato da Torre de Babel está presente
na vida de todos nós. Na educação,
política, trabalho e nos púlpitos de
nossas igrejas, todos nós estamos
construindo nossas torres, empenhados
em tornar nossos nomes célebres.
Queremos construir nosso próprio
reino.
O Pentecostes tornou
possível o reino de Deus
entre nós. O povo de Atos
2 começa a viver o seu
êxodo, dá os primeiros
passos rompendo com
o jeito que se vivia no
“Egito” para viver o novo
jeito ensinado por Cristo,
e faz isto de forma natural
e sincera, impulsionado
pelo chamado de Cristo
e pelo poder do Espírito
Santo. A promessa do
Espírito não foi para que
os primeiros cristãos
tivessem poder para
se autopromoverem,
mas para reafirmarem
os feitos e o caráter de
Cristo. Era um novo
tipo de comunidade
que nascia de um novo
tipo de pessoa. Muitas
vezes queremos uma igreja
diferente que nos faça
diferentes, mas não
queremos ser pessoas diferentes que
constroem uma comunidade diferente.
O relato de Atos nos diz que
eles “perseveravam na doutrina
dos apóstolos...”, que “diariamente
perseveravam unânimes no templo”.
Alguns tinham largado tudo e
dedicado dois anos e meio de suas
vidas para seguirem a Cristo. Eles
permaneceram em Jerusalém da
ascenção até o Pentecostes aguardando
a promessa do Espírito. Era uma
comunidade de cristãos disciplinados.
A graça não se opõe à disciplina; pelo
contrário, é a disciplina espiritual
que sinaliza nosso desejo espiritual. A
igreja sofre quando tentamos viver sob
a direção do Espírito Santo, mas sem
disciplina, como também sofre quando
tentamos viver com disciplina, mas sem
o Espírito Santo.
Era uma comunidade totalmente
comprometida em tornar Jesus Cristo
conhecido. Tudo nela apontava para
Cristo. Suas orações, o partir do pão,
o cuidado que tinham para com os
outros, sua pregação e seu testemunho,
a alegria da comunhão, a renúncia dos
bens, enfim, tudo em suas vidas e ações
apontava para Cristo.
O Êxodo continua. Estamos a
caminho do céu. O testemunho dos
dois varões vestidos de branco foi:
“Esse Jesus que dentre vós foi assunto
ao céu virá do modo como o vistes
Sophie
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Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana
do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos,
em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho
do Coração.
Por Carlinhos Veiga
cveiga@terra.com.br
Novos Aco r des
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 53
Expresso luz ao vivo – 20 anos (DVD)
O Expresso Luz acaba de lançar seu primeiro DVD. É um
presente ao público fiel que acompanha sua trajetória
nesses 20 anos de estrada. Produzido no Acampamento
Boa Esperança, em Goiânia, palco de várias experiências
marcantes do grupo, o show gravado ao vivo relembra as
canções que marcaram as distintas fases: vai de “Sinta o
amor” e “Seara”, registradas em seu primeiro trabalho
(1986), às recentes “Cheia de graça” e “Água”. O DVD
teve uma produção simples, mas primorosa, sob a direção
de imagem de João Inácio e direção de áudio de Olemir
Cândido. No menu, traz o making of das gravações e um
“bate papo” com integrantes e ex-integrantes do grupo, narrando
a história desde a sua fundação. Distribuído por Vencedores Por Cristo: www.vpc.com.br
Vocale, Vocale
Vocale é um quarteto capixaba formado por Naara
Knupp, Hellem Pimentel, Fabrícia Erler e Karol Stahr.
É o primeiro CD desse grupo que tem potencial para
ser uma das boas revelações do momento. Com vocal
apurado e musicalidade harmoniosa, apresenta um
estilo eclético com marcas predominantes da cultura
musical pop gospel. Destaque para as canções “Razão
do meu viver”, “Derrama sobre nós” e a tradicional “Em
fervente oração”, numa versão jazzística. A produção
executiva e os arranjos vocais são de Karine Lessa, que compôs sete das dez canções
do CD. Os arranjos de muito bom gosto são de Fabiano Araújo. Contatos pelo e-mail
<karine_lessa@hotmail.com> ou pelo tel. 27 3349-9837.
Exodos, Exodos
Nos anos 70 uma banda cristã provocou muita polêmica no
Brasil com seus ritmos barulhentos, roupas extravagantes
e cabelos compridos. Chegou a ser citada pela revista Veja
no ano de 1976. Era a banda Exodos, formada por três
adolescentes batistas. Considerada por pesquisadores
como “a primeira banda brasileira de rock evangélico”,
atraiu muitos jovens com suas canções que anunciavam
uma nova vida em Jesus, numa época em que vigorava
a repressão e a censura. Trinta anos depois é lançado
um CD com treze músicas compostas entre os anos de 1970 e 1977 e regravadas
com instrumentos e equipamentos da época. Entre elas a conhecida “Galhos secos”.
Para saber mais sobre o grupo, acesse <http://paginas.terra.com.br/religiao/
bandaexodos>. Para adquirir esse CD histórico, ligue para 11 9962-9571.
subir” (At 1.11). O mesmo Jesus que
viveu entre nós, morreu pelos nossos
pecados e ressuscitou para nossa
esperança vai voltar e estabelecer
definitivamente seu reino entre nós.
Enquanto isto, somos chamados
para ser sal da terra, luz do mundo e
ovelhas no meio de lobos. Olhamos
para o mundo, cultura, família,
juventude, infância, guerra, drogas,
prostituição, violência, desesperança,
solidão, desespero, e percebemos que
a humanidade precisa urgentemente
de uma nova esperança.
O problema é que, quando
olhamos para a comunidade de
Jerusalém, reconhecemos, lá no
fundo, um sentimento ambíguo.
É um modelo de comunidade que
admiramos, mas não queremos.
Admiramos o amor sacrifical deles,
mas não é este o tipo de amor que
buscamos. Admiramos sua vida
abnegada, mas não estamos dispostos
a abrir mão do que temos por amor
ao próximo. Achamos extraordinário
o fato de que tinham tudo em
comum, mas não abrimos mão de
nosso individualismo. Confessamos
a doutrina dos apóstolos, mas a
negamos na prática. No fundo, não
queremos uma comunidade assim.
Mas ela é possível e o mundo anseia
por ela.
A igreja sofre quando
tentamos viver sob a
direção do Espírito Santo,
mas sem disciplina, como
também sofre quando
tentamos viver com
disciplina, mas sem o
Espírito Santo
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Bráulia Ribeiro
da linha de frente
Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora
de Chamado Radical (Ed. Ultimato).
<braulia_ribeiro@yahoo.com>
ULTIMATO Maio-Junho, 200854
U
m dos prazeres de pais
cristãos é ensinar seus filhos
pequenos a cantar musicas
cujas mensagens imprimam
em suas mentes conceitos que mais
tarde serão necessários em suas vidas.
Eu gostava de esgoelar com os meus:
“Meu coração era sujo”, “O sabão lava
meu rostinho”, e, claro, não podia faltar,
“Cuidado, olhinho, o que vê/ o Salvador
do céu está olhando pra você...”
Recentemente comecei a me deixar
assustar por fantasmas, não sei se
fruto dos anos ou das circunstâncias.
Na jornada da vida, as críticas, as
altas expectativas e os baixos níveis
de compromisso me deixaram atada
a amarguras, feridas e lepras. Os
fantasmas dos irmãos que não perdoei
me atormentam, cutucam, me visitam
nas noites insones, me tiram a paz e
me azedam o suco gástrico, causando
dor física. Até agora nunca tinha me
prendido a nada assim. Caminhei até
aqui numa jornada de perdão constante,
quase alienado, que se re-expunha, se
re-feria inúmeras vezes, mas continuava
presente. Devo dizer que esta vida
“delirante” do perdão é mais feliz do
que a vida “racional” da amargura.
Como diz Derrida, o perdão que
exige troca social (o outro se arrepende,
portanto eu posso perdoá-lo) não pode
ser chamado de perdão. O perdão de
pés no chão, que se precavê, que reforça
defesas, que cobra arrependimentos, é
um mecanismo social humano, nada
mais. O perdão divino e verdadeiro,
o único que merece esse título é
aquele incondicional, excepcional
e extravagante. Perdôo porque sim.
Perdôo total e completamente, sem
cobranças e sem resquícios. Perdôo
porque as pessoas
não mudaram e
não merecem ser
perdoadas. Aliás,
o perdão não tem
objeto, basta-se a si
mesmo. Enquanto eu
não entendi isso, sofri
interiormente por alguns meses na
mansão assombrada da família Adams.
Dias atrás minha colega Carol veio
me visitar. Amiga de muitos anos,
risada alta, Carol chegou sem sorrir,
fixou em mim seus olhos azuis e disse,
tirando da testa a mecha grisalha para
que eu visse, sem duvidar, a centelha
que eles queriam me passar: “Bráulia,
estava orando por você e Deus me disse
que ele está te vendo.” Conversamos
um pouco mais e ela se foi.
Deus me vê! Saí da sala me sentindo
a heroína do romance de Jane Austen,
observada à distância por Mr. Darcy,
sabendo reconhecida por ele a beleza,
adivinhadas as curvas nas muitas
pregas do vestido, os lindos seios num
decote que revela o colo e nada mais.
Ainda consigo seduzi-lo. Sou a noiva,
a esperada. Julgava-me a preterida, a
escrava; no entanto o Rei me vê como
imaculada, a noiva desejável. Ele me vê.
Aquela noiva da “Valsinha”,1
sobre
quem um dia escrevi com esperança,
fez sentido outra vez. A igreja soterrada
de paradoxos sociais, enredada em
seus orgulhos e preconceitos, apagada
na burca de sua ignorância, se ergue
novamente, remexe no armário e
reencontra suas vestes de festa.
Os olhos dele não me vigiam para
me acusar, me perscrutar ou me
envergonhar. Eles não me desnudam
impudicos como os olhos dos homens
sentados em um bar fazem com as
distraídas que passam. Eles não me
consomem em demanda egoísta de
prazer pessoal, se é que a metáfora
ainda cabe. Eles me vêem inteira, com
bondade e respeito, me vêem como
o cavalheiro inglês, antevendo-me a
minha beleza sublime, para mostrar-se
forte.
Mesmo me achando questionadora,
comprei, sem perceber, a coerção
moral infantil através do conceito do
Deus amedrontador. Comprei para
mim e vendi a meus filhos a idéia de
olhos que vigiam, cobram e julgam.
Mas a imagem principal de nosso
noivo não é esta. São seus olhos que
embelezam a noiva com seu perdão
excepcional, esquizofrênico e divino.
É ele que a embeleza, não ela a si. A
idéia prevalecente na Palavra sobre
ele é de embevecimento, carinho,
auto-sacrifício, misericórdia e
benignidade. A religião o transforma
em juiz. Sentir seus olhos sobre mim
(Sl 33.18; 34.15; 2Cr 16.9) me revelou
novamente seu amor. E à luz deste
amor caminho devagar para fora da
mansão das sombras das amarguras e
desesperanças.
Nota
1. Ultimato n° 281, março-abril 2003.
RodolfoClix
Orgulho e
preconceito
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Gabriele Greggersen
deixem que elas mesmas falem
AndyStafiniak
ULTIMATO Maio-Junho, 200856
Gabriele Greggersen é autora de A Antropologia
Filosófica de C. S. Lewis (Editora Mackenzie) e O Senhor
dos Anéis: da Fantasia à Ética (Editora Ultimato).
E
m março comemoramos o
Dia Internacional da Mulher.
Mas quais são as vantagens
efetivamente conquistadas? Em A
Missão da Mulher, Paul Tournier diz
que a presença feminina em vários
setores representa a sua humanização.
Enquanto os homens tendem ao
racionalismo e materialismo, as
mulheres são mais intuitivas e sensíveis.
Muitos empregadores dão preferência
a elas devido a seu comprometimento
com o trabalho.
O jornalista britânico G. K.
Chesterton já antevia que, em vez de
trazer benefícios, a “independência
feminina” só acrescentava cargas
à mulher, sem amenizar as já
tradicionais. As mulheres têm turnos
dobrados ou triplicados, ainda
mais quando são “chefes” do lar.
O vislumbre do ônus faz algumas
abdicarem da profissão para cuidar dos
filhos.
O que deve fazer a mulher que não
pode deixar de trabalhar por motivos
financeiros e tem filhos pequenos
para cuidar? E as que se realizam na
profissão? Abrir mão da maternidade?
O controle de natalidade tem sido uma
imposição de governos totalitários,
como o chinês. Chesterton denunciava
o predomínio do interesse econômico
sobre o humano e a intervenção do
governo nesses temas.
Alguns governos europeus
incentivam a permanência da mãe
no lar através de programas de
apoio financeiro. Preocupam-se
com a diminuição
da população nativa e
o aumento do contingente
de estrangeiros em seus países. Já
no Brasil, as iniciativas de auxílio à
família (salário-educação, bolsa-scola)
costumam ser antros de corrupção.
Na Primeira Carta de Pedro (3.7),
o apóstolo ordena que a mulher
seja tratada com dignidade, já que
homens e mulheres são “herdeiros
da mesma graça de vida”. Trata-se
do valor atribuído à pessoa humana,
como forma de reconhecimento
no sentido humano e material.
Sem falar no desnível salarial entre
homens e mulheres exercendo a
mesma função.
Tanto C.S. Lewis quanto Chesterton
falam em ortodoxia no sentido da glória
advinda do andar no caminho reto,
que não pertence nem ao homem, nem
à mulher, mas a Cristo (cf. Hb 2.9).
Nos tempos bíblicos essa glória era
simbolizada pelo uso do véu pelas
mulheres, o que nunca significou
inferioridade, mas algo que deve ser
protegido e preservado como um
tesouro. A figura da mulher é usada
como metáfora da igreja, a Noiva de
Cristo. Ela deve ser amada como Cristo
amou a igreja (Ef 5.25, cf. Ef 5.28).
Embora a palavra submissão
(1Tm 2.11), que se aplica também
aos homens (cf. 2Co 10.6; Hb 12.9),
significasse obediência e serviço, ela
não deixa de ser uma missão. Em vez
de subalternidade, deve-se entendê-
la como equivalência. A hierarquia
observável na natureza reflete-se na
humanidade, mas ela não altera a
igualdade de todos diante de Deus.
Porém, muitas mulheres rejeitam tais
cuidados no intuito de “provar” a sua
independência. No outro extremo, há
aquelas que se submetem ao estereótipo
do objeto sexual. Assim, confunde-se
a independência feminina — que não
significa imitar os homens em tudo —
com a conivência com uma sociedade
que não respeita a mulher. Cada campo
conquistado por elas tem um preço
a ser pago. Uma juíza de futebol ou
uma policial não tem que pôr em risco
suas qualidades femininas. Mesmo em
ambientes dominados por homens, a
mulher merece ser reconhecida (e não
descriminada), antes de tudo, por ser
mulher.
O que dizer das missionárias e
pastoras que sacrificam as suas vidas
pelo reino, muitas vezes abrindo mão
de constituir família? Em geral elas
recebem menos que os missionários,
casados ou não, e são esquecidas pela
história. Respondamos à altura de
homens e mulheres diante de Deus.
Respondendo
à altura
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Marina Silva e Jane Vilas Bôas
Marina Silva é professora de história e senadora eleita
pelo Estado do Acre. Atualmente serve ao país como
ministra de Estado de Meio Ambiente. É membro da Igreja
Assembléia de Deus.
Jane Vilas Bôas é antropóloga e assessora da ministra do
Meio Ambiente. É membro da Igreja Batista Central de
Brasília.
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 57
meio ambiente e fé cristã
“Também a terra não se venderá em
perpetuidade, porque a terra é minha.”
Lv 25.23
“Minhas são todas as feras do campo.
Se tivesse fome não to diria, pois meu é
o mundo e a sua plenitude.” Sl 50.11-12
“Não destruirás o seu arvoredo (...);
porque dele comerás, pelo que não
cortarás para que sirva de tranqueira
para si.” Dt 20.19
“No Éden nascia um rio que irrigava o
jardim, e depois se divida em quatro.”
Gn 1.10
“Então o Senhor Deus formou o homem
do pó da terra e soprou em suas narinas
o fôlego da vida, e o homem se tornou
um ser vivente.” Gn 2.7
N
os versículos acima temos
terra, água, ar, plantas,
animais e o ser humano. Todos
componentes da criação, cujo domínio
Deus entregou ao último. Deus regula
o uso desses bens, deixa claro que os
atos de criação resultam em coisas que
pertencem a ele mesmo. Fomos criados
e responsabilizados por lavrar e cuidar
do jardim (Gn 2.15). Temos o direito
de satisfazer as nossas necessidades
e devemos fazê-lo respeitando as
necessidades das próximas gerações.
Não podemos usar os recursos naturais
até o esgotamento, pois não só o
mundo, mas também a sua plenitude
são propriedades do Criador.
No Brasil, a esperança do Criador
em nós se manifesta na forma de
muitas riquezas. Somos detentores de
cerca de 11% da água doce disponível
no mundo e 22% das espécies vivas
da terra. Somos ricos também em
diversidade social. Temos povos
indígenas que falam mais de 220
línguas e comunidades tradicionais
como seringueiros, faxinalenses,
pescadores, caiçaras, pantaneiros, etc.
Temos ainda o Cerrado, abrigo de
5% da biodiversidade da terra e uma
das maiores áreas de captação de água
para a América do Sul: abastece as
bacias dos rios Amazonas, Tocantins,
Paranaíba, São Francisco, Paraná e
Paraguai, além do Aqüífero Guarani,
maior manancial subterrâneo de água
doce transfronteiriço do mundo.
O Pantanal, declarado patrimônio
da humanidade pela UNESCO, é
a maior área úmida continental do
globo. Podemos citar também a mata
Atlântica. Sua riqueza biológica a
faz destaque mundial e, pela nossa
Constituição, é patrimônio nacional.
Para encerrar esta pequena lista,
citamos a Amazônia, importante para o
equilíbrio do planeta. Ali estão fixadas
mais de uma centena de trilhões de
toneladas de carbono. Sua vegetação
libera sete trilhões de toneladas de água
para a atmosfera a cada ano, responsáveis
inclusive pelas chuvas no Sudeste. O
bioma abriga um terço da biodiversidade
global e 30% das florestas tropicais ainda
existentes no mundo.
Diante dessas magnitudes,
o que podem fazer os cristãos
individualmente ou em suas igrejas?
Primeiramente, reconhecer o
mandato cultural do Senhor para
cuidarmos da criação. Somos
mordomos. Fomos parceiros de Deus,
pois Adão foi chamado para nomear
todas as coisas criadas (Gn 2.19).
Para bem exercer a mordomia é
preciso conhecer o ambiente em que
vivemos e desenvolver atitudes que
evitem o desperdício ou a saturação por
resíduos de nosso consumo.
Essas atitudes podem ser postas
em prática com o cuidado de não
desperdiçar água e energia elétrica, a
escolha de produtos industriais que não
poluam as águas, o solo ou o ar nem
tenham sido produzidos por trabalho
escravo ou em condições indignas ou
ilegais.
Além das atitudes no plano pessoal,
há também o plano coletivo e a
dinâmica das instituições que tratam
do tema meio ambiente, que também
devem ser objeto de preocupação e
atuação de todos como cidadãos.
Enfim, há dezenas de formas de
expressar amor ao Senhor e gratidão
pela criação. Tudo é uma questão de
consciência da mordomia.
RodolfoClix
Mordomia ambiental
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Mark Carpenter
Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo
Cristão e mestre em letras modernas pela USP.
ULTIMATO Maio-Junho, 200858
Quem pensa que sabe como são os
africanos nunca imaginaria que
Mia Couto fosse natural do continente
negro. O romancista mais celebrado
de Moçambique é branco, enche seus
livros do realismo mágico da tradição
latino-americana e tem um estilo que
lembra Guimarães Rosa. Foi contado
entre os melhores escritores africanos
do século 20.
Em entrevista recente ao Estadão,
perguntaram-lhe se há influência
brasileira em sua literatura. Respondeu:
“Sim. Ela veio justamente da música
de Chico, de Caetano. Muitos músicos
moçambicanos tinham tentado cantar
em português, mas o português
duro, rápido, de Portugal, não tinha
musicalidade. Aí ouvimos Chico,
Caetano, Gil e descobrimos que o
português poderia ser outra coisa. Foi
uma descoberta.”
Talvez tenha sido crítico demais ao
português dos fadistas e trovadores,
mas a descoberta de que a língua
da mera comunicação corriqueira
poderia ser também a língua da poesia
e dos sonhos abriu-lhe um novo
mundo. Muitos anos mais tarde, o
comitê Nobel também reconheceu
que a língua portuguesa possui a
maleabilidade necessária para ser
talhada por alguém com o talento
de José Saramago. Aqueles que se
importam com os idiomas enxergam na
nossa gramática, nos nossos vocábulos
e na nossa sintaxe as ferramentas para
criar e perpetuar aquilo que só existe
na língua. O português pode ser usado
para emocionar, agregar e inspirar.
Como cristãos, temos o privilégio
de servir e adorar a um Deus literário.
A linguagem da Bíblia evidencia sua
preocupação com a arte de expressar-
se. Há nela não apenas a Verdade
Revelada, mas as múltiplas verdades
reveladas por meio de uma riqueza
estonteante de poemas, acrósticos,
canções, parábolas, paralelismos,
hipérboles, metáforas, figuras de
linguagem e artifícios da retórica.
Não resta a menor dúvida de que
Deus — o Verbo — se relaciona
conosco através da Palavra, e que esta
palavra tem forma intencional, bela e
artística. Leland Ryken afirma que “os
escritores da Bíblia e o próprio Jesus
Cristo perceberam que é impossível
comunicar a verdade de Deus sem usar
os recursos da imaginação. A Bíblia
faz muito mais que apenas sancionar o
uso da arte. Ela demonstra que a arte
é indispensável (“The Imagination as a
Means of Grace”, Communiqué, 2003).
Penso, às vezes, que a linguagem
usada em muitas igrejas é como
o português “duro e rápido” que
Mia Couto ouvia quando criança.
É utilitária, descritiva e funcional,
mas carece do tipo de imagística e
musicalidade que despertam a alma.
Como pastores e líderes, concentramo-
nos no conteúdo de nossas doutrinas
em detrimento de sua forma.
Esquecemos que a Bíblia não divide
a arte em sacra e secular. Nela, a arte
possui valor igual tanto em ambientes
de louvor quanto do cotidiano
(Nm 21.16-18; Is 16.10; 52.8-9).
Como seria se nossos pastores se
importassem tanto com a linguagem
quanto se importam Chico, Caetano e
Gil, assim também como Davi, Salomão
e Jesus? Tenho a impressão que, se a
poesia de nossas teologias saturasse as
nossas palavras, os muitos Mias Coutos
das nossas congregações de repente
ouviriam algo diferente, algo novo, capaz
de agarrar suas imaginações, inspirar-lhes
e enviar-lhes correndo de volta à Palavra,
fonte de nossa inspiração.
Caetano e Cristo
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ULTIMATO Maio-Junho, 200860
Klênia Fassoni
Há pouco mais de um ano o pastor Ronaldo Lidório, em visita
à Editora Ultimato, compartilhou com a nossa equipe que ele
recebia dezenas de e-mails por mês de jovens interessados em
fazer missões, o que o angustiava, pois para ele “a igreja tem
sido lenta” na integração dessa poderosa força em sua prática
cotidiana e missionária. Recentes pesquisas (Polis, IBASE,
UNESCO) fazem eco à constatação deste missionário que já
não é tão jovem (41 anos), mas que inciou sua vida missionária
aos 26. Elas mostram que é nas organizações religiosas onde
acontece de forma mais intensa a participação de jovens.
Sangue novo, novos espaços ocupados
Este sangue novo é fonte de ousadia, de criatividade, de visão e
alcance na prática da missão. Alexandre Brasil, até maio de 2008
membro do CONJUVE — Conselho Nacional de Juventude,
declara: “Se muitas vezes afirmou-se que os evangélicos chegaram
atrasados em relação à participação em questões mais amplas
TiótC
da sociedade, no que se refere à participação da juventude nas
políticas públicas temos um quadro mais animador”.
Em abril de 2008, mais de 2 mil jovens estiveram reunidos
na 1ª Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude
para discutir estratégias e ênfases relacionadas às políticas
públicas de juventude, em encontro liderado pelo CONJUVE,
que tem representantes de três organizações que atuam com
jovens evangélicos: ABUB — Aliança Bíblica Universitária do
Brasil; JOCUM — Jovens com Uma Missão e Rede FALE.
A abeuense Sarah Nigri comenta sua experiência: “Tenho
aprendido a reclamar menos e a pensar mais em soluções para
os problemas que enfrentamos, e a enxergar, mesmo naqueles
que não são cristãos, o reflexo da imagem do nosso Deus!”
Missão de Base
Eles têm entre 24 e 31 anos. São sete casais comprometidos com
o evangelho do reino, congregando em diferentes igrejas locais.
Vamos abrir espaços à igreja jovem
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Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 61
Leia em www.ultimato.com.br
•Relatodasconferênciasde
juventude,porSarahNigri
• Entrando no céu com Watoto,
por Jônatas Almeida
TimóteoCamargo
Equipe da Missão Base
Estranhavam
que a maior parte
dos “chamados”
fosse das áreas de
saúde, educação
ou teologia.
Eles são de
áreas distintas:
direito, publicidade, jornalismo, design gráfico, tecnologia da
informação. Um deles tem formação em serviço social.
Há dois anos organizaram a Missão Base (www.base.org.
br), que tem o objetivo de servir às agências missionárias nas
áreas de banco de dados, divulgação, identificação e suporte a
voluntários, divulgação de oportunidades de envolvimento com
missões nas igrejas. Já prestaram serviços para Missão Evangélica
aos Pescadores (MEAP), MEVA, Pioneiros e Refúgio. Todo o
trabalho feito para as missões é gratuito!
Eles acreditam que estão fazendo
missões. E estão certos! Além do
importante serviço que prestam em
áreas freqüentemente negligenciadas por
agências missionárias, eles são exemplo
de resgate das profissões e vocações a
serviço do reino.
Entrando no céu com Watoto
Jônatas Almeida, formando em
administração/comércio exterior pelo
Instituto Mackenzie, está fazendo
sua monografia na área de fair trade
(comércio justo). Seu desejo é preparar-
se para servir a Deus em algum país
africano. No final de março ele se
emocionou com a apresentação do Coral
Watoto, na Igreja Evangélica de Vila
Yara. “Watoto” em português significa
“crianças”. Além do coral, formado por
crianças órfãs (principalmente por causa
da aids), o grupo mantém um projeto
que ampara crianças em Uganda.
Jônatas declara: “Meus olhos se
encheram de lágrimas pela alegria com
que cantaram sobre Deus. Até me
imaginei entrando no céu, cantando
com eles...”. Desde o terceiro ano da
faculdade ele tem dedicado quase
todas as suas noites de sexta-feira a se
aproximar, conversar e ajudar moradores
de rua na cidade de São Paulo.
Vamos abrir cada vez mais as portas a
este sangue novo!
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Ricardo Quadros Gouvêa é ministro presbiteriano e professor de teologia e de filosofia.
ULTIMATO Maio-Junho, 200862
vamos ler!
Ricardo Quadros Gouvêa
P
oucos no Brasil conhecem Gilbert Keith Chesterton
(1874-1936), escritor cristão inglês. Celebremos,
portanto, a publicação em português de sua
obra-prima Ortodoxia (Orthodoxy: The Romance
of Faith), de 1908. Um século de atraso não é demais para
os padrões brasileiros. Ainda que tardio, o lançamento é
oportuno, quando, por um lado, tantos tratados ateus estão
chegando às livrarias e, por outro, o fundamentalismo
religioso nos enche de horror.
Chesterton caminhou do
racionalismo (origem tanto
do liberalismo quanto do
fundamentalismo teológicos) à
compreensão da “ortodoxia”, fazendo
o caminho inverso de tantos, da fé
em Cristo para a fé na ciência e na
razão. Ele não é um irracionalista
pleno de misticismo barato. Usa a
inteligência, mas seu pensamento
é propositadamente assistemático.
Seus livros de apologética cristã são
todos provocadores e surpreendentes.
Ele defende a fé de forma inovadora,
empolgante, sem ser maçante, como é
comum em apologética. Chesterton não
é repetitivo nem professoral. Com ele
enxergamos novas formas de apreciar
o cristianismo e de entender seu valor
singular.
Conhecido entre os amigos como
“G.K.”, era uma figura peculiar.
Chamado de “o príncipe do paradoxo”,
era afável, bem humorado e distraído. Era alto e gordo como
poucas vezes se vê. Opunha-se às políticas imperialistas
britânicas (The Napoleon of Notting Hill). Escreveu sobre
Robert Browning e Charles Dickens, e se tornou famoso
como crítico literário. Foi brilhante ao discorrer sobre
Tomás de Aquino (Saint Thomas Aquinas: The Dumb Ox)
e Francisco de Assis. Escreveu peças de teatro, poemas e os
romances de ficção policial que o deixaram famoso (bem
como seu detetive-teólogo, o padre Brown). É preciso citar o
enigmático suspense O Homem que Foi Quinta-Feira.
Ateu aos 12 anos e agnóstico aos 16, retornou para
a Igreja Anglicana após o feliz casamento com Frances
Blogg, em 1901. Após esta sua primeira conversão, o
escritor e jornalista Robert Blatchford publicou uma série
de textos condenando o cristianismo e o teísmo em geral.
Chesterton respondeu com seu primeiro livro de sucesso,
Heréticos (Heretics, 1903) que traz a primeira apresentação
de sua compreensão peculiar da fé cristã, que seria expressa
mais explícita e completamente cinco anos depois no
livro Ortodoxia, na verdade, uma coletânea de ensaios
mais ou menos independentes uns
dos outros, no estilo fascinante deste
literato que, na época da publicação,
tinha apenas 34 anos de idade. Aos
48 anos, Chesterton converteu-se ao
catolicismo romano (1922). Muitos
autores anglicanos influentes, como
John Henry Newman e Thomas
Howard, fizeram o mesmo. Foi então
que escreveu sua obra apologética mais
madura, The Everlasting Man (1925),
na qual também explica suas razões.
No capítulo “O Maníaco”,
Chesterton rejeita o
predestinacionismo como uma forma
de religiosidade doentia. O que “o
príncipe do paradoxo” entende por
uma “perigosa ortodoxia” e pela
“emocionante aventura da ortodoxia” é
algo bem diferente do neognosticismo
e neofarisaísmo que encontramos
hoje no mundo evangélico brasileiro
e norte-americano. A “ortodoxia”
de Chesterton é anti-sectária, de
tendências irênicas. Ele é anti-racionalista e, portanto,
avesso às teologias sistemáticas fundadas na inferência
dedutiva. É humanista em seu combate ao tecnicismo e a
todas as formas de desumanização promovidas pelo avanço
da civilização tecnológica. A Ortodoxia de Chesterton é,
segundo ele mesmo afirma, “uma emocionante aventura”
que inclui a adoção da “ética dos elfos” e a militância na
“revolução eterna”. A esta altura já deve ter ficado claro
para o leitor que ela não vai agradar os guardiões da sã
doutrina.
Ortodoxia
G. K. Chesterton
Mundo Cristão, 2008
Ortodoxo, sem perder a ternura
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Marcos Bontempo
mbontempo@ultimato.com.br
prateleira
Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 63
Para ler mais textos da
“Prateleira”, acesse
www.ultimato.com.br/blog
Sexo, drogas e
rock ‘n’ roll — histórias
de um filho pródigo
OS FILHOS pródigos são muitos.
Davi, por exemplo, poderia ilustrar o
título dessa prateleira. Não sabemos
por quanto tempo ele calou os seus
dramas, antes de voltar. No entanto,
sabemos de cor algumas de suas
letras. Mas tenho em mente um outro
músico.
A história original, contada por
Jesus (Lc 15.11-32), precisa tornar
mais agradecidos e generosos aqueles
que nunca saíram de casa. Não nos
cabe separar o trigo. E, quem sabe,
precisamos também aprender a
aproveitar a vida, fazer festa. Aliás,
comer, beber e alegrar-se deveria
ser proibido para os pagãos, porque
separado de Deus ninguém pode
comer, beber ou alegrar-se (Ec 2.25).
O outro músico do primeiro
parágrafo tem uma história não muito
diferente da história do filho pródigo
e é invariavelmente ligado ao título
da prateleira (a não ser, talvez, pelo
terceiro substantivo). E, assim como
o filho da parábola, ele também
“caiu em si”: “Naquele momento,
quase que por si mesmas, minhas
pernas cederam, e caí de joelhos. Na
privacidade do meu quarto, implorei
por socorro. Eu não atinava com quem
estava falando, sabia apenas que havia
chegado ao meu limite, não me restava
mais nada para lutar. [...] Em poucos
dias percebi que havia acontecido
alguma coisa comigo. [...] Encontrei
um lugar a que recorrer, um lugar que
sempre soube que estava ali, mas em
que nunca realmente quis ou precisei
acreditar. Daquele dia até hoje, jamais
deixei de orar de manhã, de joelhos,
pedindo ajuda, e à noite para expressar
gratidão por minha vida e, acima de
tudo, por minha sobriedade. Prefiro
me ajoelhar porque sinto que preciso
ser humilde quando oro e, com meu
ego, isso é o máximo que posso fazer”.
Faz exatos 20 anos que Eric Clapton,
uma lenda viva da música, fez essa
oração — talvez, sua performance
mais escondida e mais barulhenta.
Não desisto de acreditar que os filhos
pródigos estão voltando. E, aí sim,
vamos dizer juntos “vai rolar a festa”.
A inveja entre crentes e o
sublime entre pagãos
DEUS AMA imparcialmente. Para
quem se lembra do dilema descrito
no Salmo 73 — a vida nababesca dos
maus e o constrangimento dos que se
mantêm puros — essa afirmação é, no
mínimo, desconfortável. Nas palavras
de Paul Stevens, em A Espiritualidade
na Prática, “o amor de Deus é sem
causa ou previsibilidade humana”.
É verdade também que o sol brilha
sobre mocinhos e bandidos e a
chuva cai sobre honestos e corruptos
(Mt 5.45). No entanto, não raro
ficamos embaraçados com o sucesso
dos maus. Temos um desejo quase
incontrolável de manipular a graça de
Deus e nos irritamos quando uns e
outros são alcançados por ela e, sem
perceber, nos perguntamos: “Por que
não fui eu?”
Outro dia encontrei Deus em
um lugar inusitado. Fui ver o
guitarrista americano Stanley
Jordan e fui surpreendido pela
graça. A apresentação aconteceu na
Universidade Federal de Viçosa, em
meio às montanhas de Minas. Puro
êxtase. Não me passou pela cabeça
envenená-lo por inveja. Isso, diz a
lenda, teria feito Antonio Salieri com
Amadeus Mozart. O compositor
italiano do século 18 não entendia
como Mozart, um devasso, poderia
compor algo tão sublime.
Na verdade, lembrei-me de Bezalel,
da sua destreza e capacidade artística
(Êx 35.31); de Jubal, pai dos que
tocam harpa (Gn 4.21), e, agradecido,
murmurei algumas frases de adoração.
A verdade é bela e, como diria Calvino,
“se reconhecermos o Espírito de Deus
como única fonte da verdade, nunca
desprezaremos a verdade onde quer que
apareça”.
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site • intercâmbios •
aluguel de imóveis •
relacionamentos necessi-
dades e oferecimentos de
voluntários ou estagiários •
empregos • prestação de
serviços • cursos • eventos • missões
livros, filmes, cd’s • redes e ONG’s
Espaço de
oportunidades
Agenda
Acesse www.ultimato.com.br,
saiba de outros eventos e divulgue o seu
30 de junho a 4 de julho
Acontecerá o 17º Simpósio Reformado Os Puritanos,
com o tema “Cristo, o Redentor”, em Maragogi, AL.
Telefone: 81 3223-3642
E-mail: ospuritanos@uol.com.br
28 de julho a 1 de agosto
O Centro Evangélico de Missões (CEM) oferecerá o
Curso de Aconselhamento Pastoral Familiar, em Viçosa,
MG. O curso é destinado a profissionais das ciências
humanas e da saúde, oficiais de igrejas, pastores e
pastoras.
Telefone: 31 3891-3030
E-mail: info@cem.org.br
Site: www.cem.org.br
21 a 23 de agosto
A Rede Evangélica Nacional realizará o 3º Encontro
RENAS, em Curitiba, PR.
Telefone: 11 4136-1253
E-mail: renas@renas.org.br
Site: www.renas.org.br
4 a 7 de setembro
O Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos
Indígenas realizará o 6º Congresso CONPLEI, em
Manaus, AM.
Telefone: 65 301-2611
E-mail: misspaulonunes@hotmail.com
Site: www.conplei.org
ULTIMATO Maio-Junho, 200864
Rede CLAVES Brasil
A Rede CLAVES Brasil realiza oficinas
de capacitação da metodologia
CLAVES, que ajuda crianças na
prevenção contra maus-tratos. Para
solicitar que as oficinas aconteçam em
sua organização, igreja ou conselho
tutelar,entre em contato com a revista
Mãos Dadas (cartas@maosdadas.net).
A Rede CLAVES Brasil é formada por
oito organizações cristãs com forte
compromisso em favor da dignidade das
crianças e adolescentes.
Oração
De 6 a 8 de junho
mobilize sua igreja e
organização para o 13º
Mutirão Mundial de Oração por Crianças
e Adolescentes em Situação de Risco. Acesse
o Material de Apoio para Mobilização
no site da revista Mãos Dadas <www.
maosdadas.org>, ou peça-o por e-mail
<cartas@maosdadas.net> ou carta (Caixa
Postal 88, Viçosa, MG 36570-000).
20º Seminário Música e Adoração
27 a 30 de agosto,
em São Paulo, SP
Conteúdo: Clínica Coral
e Regência
Público-alvo: Regentes, coristas,
cantores e apreciadores de música
sacra
Coordenação técnica: Maestro Rev.
João W. Faustini
Realização: Sociedade Evangélica da
Música Sacra (SOEMUS)
Mais informações:
11 4412-1516 /
soemus@ig.com.br
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ULTIMATO Maio-Junho, 200866
Rubem Amorese
Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja
Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e
Liturgia e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna.
<ruben@amorese.com.br>
Para fazer marketing de
si mesmo, Satanás se
apresenta “belo” como
um anjo de luz, e seus
profetas, “bons” como
ministros da justiça
O
mercado vale-se
do belo para
vender. Honesta
ou ardilosamente,
ressalta o aspecto estético de um
produto, sabendo que a natureza
humana, inconscientemente, o
associará à qualidade. Isso vale para
a aparência limpa e bem refrigerada
de uma lanchonete, para o design
sofisticado de uma loja de marca
mundial ou mesmo para o terno
azul-marinho, de corte impecável,
de um executivo que deseja
“vender” a imagem de competência.
Marketing (espero que o uso do
termo em inglês cause esse efeito
abonador sobre meus leitores).
De fato, a beleza sempre remete
ao bem, à pureza e à perfeição.
O fenômeno é universal, e também de
difícil explicação.
Curiosamente, o dicionário Houaiss
define o belo como “tudo que leva
ao aperfeiçoamento espiritual do ser
humano; o próprio Deus, enquanto
manancial eterno e perfeito de tudo o
que é propício ao progresso das criaturas
e finalidade desse progresso; sublime”.
Sublime? Sim, a extrema beleza. Fecha-se o círculo entre o
belo e o bem: aquilo “que apresenta inexcedível perfeição
material, moral ou intelectual”.
Veja que “sublime”, nas Escrituras, é um dos títulos de
Deus (Is 57.15) e uma descrição de seu Servo (v.13), e que,
nesses versos, a sublimidade se associa à santidade de Deus.
Aquele que vivifica o “contrito e abatido de espírito”.
É interessante notar que, para fazer marketing de si mesmo,
Satanás se apresenta “belo” como um anjo de luz, e seus
profetas, “bons” como ministros da justiça (2Co 11.14-15).
Sim, o uso ardiloso desse conhecimento da psique humana
vem de longe. Não tendo a beleza própria do bem, imita
o sublime para enganar os incautos. Refiro-me aqui,
ambiguamente, tanto a Satanás
quanto a produtos e serviços de má
qualidade “maquiados”.
No entanto, o verdadeiro não
precisa de maquiagem. Nem o
santo, o justo, o contrito e abatido
de espírito, porque essas formas
de beleza provêm de uma fonte
legítima, primária e inesgotável: o
Sublime.
Uma palavra que unificaria
essas belezas morais é salvação. É
assim que compreendo a afirmação
do Salmo 149.4: “e de salvação
adorna os humildes”. Uma
salvação progressiva, no sentido da
santificação (Fp 2.12), qualidades
e características que Deus infunde
e molda naqueles que se fazem
maleáveis às suas mãos de oleiro.
A beleza proveniente dessa ação
salvífica de Deus dispensa maquiagem.
Não tem o objetivo de vender. É
apenas glória. A glória de Deus em nós.
Não fenece com a idade, não perde
o brilho nem o viço. Não precisa de
plásticas nem de liftings. Uma beleza
serena e alegre, que vai dormir com
um cântico no coração; o cântico da
consciência lavada. Esse não é um pensamento meu, mas do
seguinte verso do salmista: “Exultem de glória os santos, no
seu leito cantem de júbilo” (Sl 149.5).
Se é verdade que o coração humano decodifica a beleza
como perfeição e vice-versa, também o é que todos são
capazes de perceber a beleza da salvação; beleza com a qual
Deus adorna o humilde e que aponta de volta para sua glória.
“Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de
verdor” (Sl 92.14). Belos velhinhos.
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Um líder sem uma estratégia é como um soldado
que vai para guerra e pula de pára-quedas sem ter
planejado o local. Depois de chegar ao solo ele se
surpreende. Caiu no meio do campo e o inimigo.
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    E Maio-Junho, 2008 ULTIMATO3 abertura Os que querem ser perdoados, restaurados, salvos do pecado e da morte, têm de se aproximar de Deus de bolso vazio, sem defesa, sem desculpa, sem explicação Entre a carteira recheada e o bolso vazio, a segunda opção é muito melhor que a primeira. O pão-durismo e o consumismo têm muito a ver com a carteira recheada. A viúva de bolso vazio depositou no gazofilácio “duas pequenas moedas de cobre, de muito pouco valor”. Ela deu tudo o que possuía para viver. Mas os de carteira recheada lançaram no mesmo gazofilácio o que lhes sobrava (Mc 12.41-44). A pior marca da carteira recheada é o estado de espírito acentuadamente complicado e perigoso que ela fomenta: a auto-suficiência. A carteira recheada pode ser um bom passaporte nesta vida e neste mundo, mas não abre porta alguma em direção a Deus, tanto nesta como na outra vida. Só se chega a Deus de bolsos vazios. O homem e a mulher de carteiras recheadas dificilmente bateriam em seu peito para clamar: “Ó Deus, tem pena de mim, pois sou pecador!” (Lc 18.13, NTLH). Setecentos anos antes de Cristo, a voz de Deus já falava aos desprovidos: “Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo” (Is 55.1). De fato, as boas novas da salvação são para... Os sem-água, os sem-dinheiro, os sem-leite e os sem-pão. Os sem-perdão de pecados, os sem- reconciliação com Deus e os sem-paz de espírito. Os sem-vez, os sem-valor, os sem-obras, os sem-razão, os sem- merecimento, os sem-crédito e os sem-saldo. Os que querem ser perdoados, restaurados, salvos do pecado e da morte, têm de se aproximar de Deus de bolso vazio, sem defesa, sem desculpa, sem explicação, sem pretensão, sem esmola, sem história de sucesso. A base da salvação repousa unicamente na graça de Deus: “Vocês são salvos pela graça mediante a fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus”. Não é por meio de alguma obra “para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9). Pois “as nossas boas ações, que pensamos ser um lindo manto de justiça, não passam de trapos imundos” (Is 64.6, BV). Martinho Lutero só teve consciência do perdão de seus pecados depois de se apresentar de bolsos vazios diante de Deus. O reformador declarava que não temos nenhum recurso próprio, nenhuma possibilidade de livramento em nós mesmos porque “não só as nossas injustiças são imundas, mas também as nossas justiças” (Martinho Lutero, Obras Selecionadas, v. 1, p. 357). Ele chamava graça àquela grande abóbada debaixo da qual colocava toda a imundícia que os escribas fariseus escondiam dentro dos sepulcros caiados ou que deixavam dentro do copo. Ele transferia todos os seus pecados, a sua miséria moral, o seu sentimento de culpa, as suas imundas “justiças”, o seu desespero, o seu pavor do inferno e a ele mesmo por inteiro para debaixo daquela enorme calota que é a graça de Deus (Conversas com Lutero, p. 138). Enquanto os de carteira recheadas não se humilharem, tornando- se iguais aos de bolso vazio, não haverá salvação para eles. Daí o apelo do profeta: “Venham, todos vocês que estão com sede (...) e vocês que não possuem dinheiro algum, venham comprem e comam!” (Is 55.1). De bolso vazio! stockxpert ultimato 312.indd 3ultimato 312.indd 3 2/5/2008 11:52:392/5/2008 11:52:39
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    ATENDIMENTO AO LEITOR Telefones:(31) 3891-3149 0300 313 1660 Fax: (31) 3891-1557 E-mail: atendimento@ultimato.com.br www.ultimato.com.br Caixa Postal 43 36570-000 · Viçosa, MG Editora Ultimato ManuM ULTIMATO Maio-Junho, 20084 carta ao leitor Fundada em 1968 ISSN 14153-3165 Revista Ultimato Ano XLI · NÀ 312 Maio-Junho 2008 Direção e redação cartas@ultimato.com.br Elben M. Lenz César (Jornalista responsável) MTb 13.162 MG Administração Klênia Fassoni, Daniela Cabral, Lenira Andrade Vendas Lucia Viana, Lucinéa de Campos, Romilda Oliveira, Tatiana Alves e Vanilda Costa Editorial e Produção Marcos Bontempo, Bernadete Ribeiro, Djanira Momesso César, Fernanda Brandão Lobato e Roberta Dias Finanças / Circulação Emmanuel Bastos, Aline Melo, Aparecida Peixoto, Edson Ramos, Emílio Gonçalves, Luís Carlos Gonçalves, Rodrigo Duarte e Solange dos Santos Estagiários Alaila Ribeiro, Bruno Tardin, Daniel Figueiredo, Fabiano Ramos, Hadassa Alves, Ivny Monteiro, Larissa Caldeira, Luci Maria da Silva, Macel Guimarães, Marcela Pimentel e Priscila Rodrigues Arte - Oliverartelucas Impressão - Plural Tiragem - 35.000 exemplares Łrgão de imprensa evangélico destinado à evangelização e edificação, sem cor denominacional, Ultimato relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos com Escritura. Pretende associar a teoria com a prática, a fé com as obras, a evangelização com a ação social, a oração com a ação, a conversão com a santidade de vida, o suor de hoje com a glória por vir. Circula nos meses ímpares. Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro da Associação de Editores Cristãos (AsEC) Os artigos não assinados são de autoria da redação. Reprodução permitida. Obrigatório mencionar a fonte. Assinatura Individual - R$ 55,00 Assinatura Coletiva - desconto de 50% sobre o preço da assinatura individual para cada assinante (mínimo de 10) Assinatura Exterior - R$ 97,00 Edições Anteriores - atendimento@ultimato.com.br Anúncios anuncio@ultimato.com.br No dia 12 de abril de 2008 saí de Viçosa, MG, às 5h30 da manhã em direção a Conceição de Macabu, RJ, onde deveria pregar na comemoração dos 100 anos de David Alves, uma ex-ovelha de cinqüenta anos atrás. Foi difícil conseguir permissão de minha esposa e filhas para ir de carro. Eu queria ver o verde das árvores, o azul do céu, o amarelo-avermelhado do nascer e do pôr-do-sol enquanto dirigisse o carro. No início da viagem, a neblina mal me deixava enxergar o asfalto. Antes de começar a ver o verde, o azul e o amarelo, vi a coisa mais feia deste mundo: a morte. Logo depois de uma curva, lá estava em pedaços um caminhão que batera violentamente em um barranco, cheio de botijões de gás. O acidente, ocorrido poucos minutos antes, fora tão violento que não era possível localizar a cabine do caminhão. Vi também outra coisa muito feia: o dono de um dos automóveis que lá estavam colocou em seu carro dois ou três botijões de gás... Doze horas depois de ver o verde, o azul, o amarelo e a morte, já em Conceição de Macabu, eu vi a vida! Encontrei-me com David Alves, nascido em 11 de abril de 1908. Ele nunca tivera câncer nem doenças cardíacas, nunca fora atingido por uma bala perdida, nunca sofrera um acidente fatal, nunca fora vítima de latrocínio. O ancião tem sete filhos, 51 netos, 79 bisnetos e cinco tetranetos. São ao todo 142 descendentes diretos, sem contar os cônjuges. Por coincidência, eu havia lido na Bíblia, no dia anterior, o texto de Jeremias que separa os velhos dos bem velhos (6.11). Velho seria eu (78) e bem velho, o centenário David Alves. Diante daquela multidão de parentes e amigos dele, li duas passagens das Escrituras Sagradas. Na primeira, o salmista descreve o início da vida, quando o espermatozóide fecunda o óvulo e aquela “substância ainda informe” (o embrião) vai sendo entretecida, de “modo especial e admirável”, até completar-se e poder dispensar o ventre materno (Sl 139.13-18). Na segunda, o apóstolo Paulo afirma categoricamente que “se for destruída [pela morte] a temporária habitação terrena em que vivemos [o corpo], temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna nos céus, não construída por mãos humanas” (2Co 5.1). A vida futura será, para os que estão vivos hoje, uma experiência absolutamente nova, ligeiramente parecida com a do parto. A vida não é “o caminho entre o nascimento e a morte”, como diz o Dicionário de Psicologia Dorsch. À luz do cristianismo, a vida é maravilhosa e infinitamente mais que o mísero período de tempo espremido entre as dores do parto e as dores do sepultamento! Aleluia! E. César A morte e a vida ultimato 312.indd 4ultimato 312.indd 4 2/5/2008 11:52:502/5/2008 11:52:50
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    Incapazes de latir U ULTIMATOMaio-Junho, 20086 PastoraisPastorais 56 A missão de latir não pertence apenas aos pastores. Ela se estende a todos aqueles que têm alguma posição relevante na sociedade e são, portanto, co- responsáveis pela segurança de todos Uma vez treinados, os cães servem para a guarda da casa e de outros bens de seus donos. São capazes de proteger lojas e fábricas à noite. Ao latir e rosnar, amedrontam ladrões e acordam quem está dormindo, em caso de fogo. Se esses cães perderem a capacidade de latir, já não servem para cães de guarda. Por serem responsáveis pela segurança religiosa do povo de Deus, alguns homens e mulheres são vocacionados, preparados e empossados como atalaias, guardas, líderes, pastores, sentinelas ou vigias dos fiéis. Com muita freqüência, esses “cães de guarda” dão mau testemunho, cometem escândalo, tornam-se mercenários e abandonam o rebanho, principalmente na longa história de Israel. Há muitas queixas contra eles no Antigo Testamento. Todas muito severas. Uma delas encontra-se em Isaías 56.10: “As sentinelas de Israel estão cegas e não têm conhecimento; todas elas são como cães mudos, incapazes de latir. Deitam-se e sonham; só querem dormir”. Isaías 56.9-12 mostra que esses pastores são incapazes de enxergar o perigo (“não têm conhecimento”), de latir (“são como cães mudos”), de permanecer acordados (“só querem dormir”), de controlar a gula (“são cães devoradores insaciáveis”), de se submeterem ao Senhor (“todos seguem seu próprio caminho”), de abrir mão dos seus interesses pessoais (“cada um procura vantagem própria”) e incapazes de frear sua decadência (“bebamos nossa dose de bebida fermentada, que amanhã será como hoje, e até muito melhor”). O que mais impressiona é a denúncia de que são “incapazes de latir”. Tornaram-se cães emudecidos que não sabem, não podem e já não conseguem latir ou ladrar. Então, para que servem? Quando o ladrão se aproxima, quando o lobo ataca o rebanho, eles não ladram. O rebanho fica, dessa forma, perigosamente desprotegido. A missão de latir não pertence apenas aos pastores. Ela se estende a todos aqueles que têm alguma posição relevante na sociedade e são, portanto, co-responsáveis pela segurança de todos. Entre eles estão os pensadores, os sociólogos, os comunicadores, os professores, os governantes, os legisladores, os psicólogos, os estatísticos, os militares, os juízes etc. Se todos forem incapazes de latir, o caos ético se instalará de forma alarmante, globalizada e irreversível. O pai e a mãe de crianças e adolescentes têm a obrigação de “latir” em benefício de seus filhos, livrando-os de desperdiçar a saúde e a vida nos caminhos desastrosos da incredulidade, da secularização, do crime, do álcool e das drogas e da promiscuidade sexual. A qualquer perigo, a qualquer desvio e a qualquer ameaça, o pai e a mãe, em uníssono, precisam emitir aqueles “latidos” que assustam tanto o assaltante como a vítima. Talvez fosse bom verificar ao nosso redor: os “cães de guarda” que nos rodeiam tornaram-se incapazes de latir? Nós mesmos nos tornamos cães mudos, incapazes de latir? RodolfoClix ultimato 312.indd 6ultimato 312.indd 6 2/5/2008 11:53:272/5/2008 11:53:27
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    Seções Capa Maio-Junho, 2008 ULTIMATO7 “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo” IS 55.6 ABREVIAÇÕES: BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; EP - Edição Pastoral; EPC - Edição Pastoral - Catequética; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas de indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional. Reflexão Robinson Cavalcanti A mui piedosa esquerda cristã 38 Ricardo Gondim Desde 1968 40 Redescobrindo a Palavra de Deus Como será que está a Maria? Será que ela carrega o vírus da aids no seu corpo?, Valdir Steuernagel 42 História A integridade do evangelho: uma avaliação do neopentecostalismo, Alderi Souza de Matos 44 Entrevista Raimundo César Barreto Júnior O sucesso da não-violência 47 O caminho do coração Tudo em comum, Ricardo Barbosa de Sousa 52 Da linha de frente Orgulho e preconceito, Bráulia Ribeiro 54 Arte e cultura Caetano e Cristo, Mark Carpenter 58 Ponto final Salvação que embeleza, Rubem Amorese 66 Doenças não catalogadas pela medicina que podem e devem ser tratadas 26 O caminho confuso e perigoso da terapia de vidas passadas Carlos Caldas 28 Você precisa ser curado... 30 Feridas físicas e morais da sola dos pés ao alto da cabeça 32 Abertura 3 Carta ao leitor 4 Pastorais 6 Cartas 8 Quadro de avisos 13 Mais do que notícias 14 Números 20 Nomes 22 Frases 23 Reportagem 24 Em Jesus você pode confiar 31 Novos acordes 53 Deixem que elas mesmas falem 56 Meio ambiente e fé cristã 57 Ação mais que social 60 Vamos ler! 62 Prateleira 63 Agenda 64 Especial A dança do “quero” e “não quero” 36 stockxpertstockxpert Leia em www.ultimato.com.br • Minha vida tem feito diferença? (seção “Altos papos”), por Jeverton Magrão Ledo ultimato 312.indd 7ultimato 312.indd 7 2/5/2008 20:20:452/5/2008 20:20:45
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    ULTIMATO Maio-Junho, 20088 VivGrigg AorelacionarareflexãoMuibíblicamissãointegral(março/abril 2008,p.38),deRobinsonCavalcanti,comasrespostasdeViv GriggnaentrevistaOinversodacultura(p.48),dáparaperceber queformularateologiadamissãointegraléumacoisa,masvivê- laéalgocompletamentediferente!Anossateologiacalvinistaé bíblicaeexcelente;oquenosfaltaévivenciá-lanocotidiano. REV. DEWEL LOMÔNACO BRAGA Itajubá, MG Quecoisa!LeionaentrevistacomVivGriggqueasigrejasO BrasilparaCristo,AssembléiadeDeus,DeuséAmor,entre tantasoutrasigrejaspentecostais(sempredesprezadase ridicularizadaspelasco-irmãsclássicasdaReforma),têmfeito atalmissãointegraldesde1910!Agoraéquevocêsprestaram atençãonessefato!BenzaaDeus!Nemtudoestáperdido! PAULO CÉSAR SAMPAIO Fortaleza, CE Acabo de ler a entrevista com Viv Grigg. Coincidência ou não, terminei de ler há pouco o livro A Crucificação de Felipe Strong, de Charles Sheldon, o mesmo autor de Em seus Passos o que Jesus Faria? É impressionante como os temas são próximos. Aguardo ansioso o relançamento de Servos entre Os Pobres, de Grigg. GUSTAVO BRANDÃO Curitiba, PR Deus é fiel Tenho o privilégio de acompanhar Ultimato desde a sua concepção e nascimento. Guardo todos os números. Leio da primeira à ultima página, de “Pastorais” ao “Ponto final”. Quanta coisa eu mesma gostaria de ter escrito, e as vejo tão bem colocadas nas palavras dos articulistas. É o caso do artigo Deus é fiel... e eu? (março/abril 2008, p. 15). Parece que estava revendo as perguntas que sempre faço ao ver este adesivo em tantos carros. Precisamos rever nossa conduta. Estamos sendo fiéis nos dízimos, nas ofertas, nos cargos que ocupamos na igreja, no casamento realizado na presença do Senhor, na educação de nossos filhos para o Senhor? Nestes quarenta anos, Ultimato tem nos ajudado muito a sermos fiéis ao Deus que é fiel. MÁRCIA BROCHADO SEVERINO DA SILVA Rio de Janeiro, RJ O Jesus dos Evangelhos Gostei de ler Ultimato não quer fazer o papelão de deixar Jesus de lado (março/abril 2008, p. 37). O testemunho da revista é mesmo cristocêntrico. Nestes dias relativistas, pluralistas, hedonistas e subjetivistas é muito importante ler e ouvir coisas que vão contra a correnteza e apontam para Cristo, o Salvador do mundo. Há aqueles que falam de Jesus, mas negam as doutrinas básicas da encarnação, morte, ressurreição e ascensão. Ou simplesmente usam o nome de Jesus como amuleto, desconhecendo a profundidade de seu sacrifício. ALEX ESTEVES DA ROCHA SOUSA Sete Lagoas, MG ultimato 312.indd 8ultimato 312.indd 8 2/5/2008 11:53:382/5/2008 11:53:38
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO9 Verdades contundentes Aprecio a linha de Ultimato, ora anunciando, ora denunciando. Gosto mais da denúncia. Sou fã dos audazes, daqueles que sem medo revelam as falhas, como o profeta Elias diante do rei Acabe (1Rs 8.15) e João Batista diante do rei Herodes (Lc 3.19). Os dois possuíam o espírito de ousadia, aquele espírito que nos livrará da ira divina. Tenho muita admiração pelas reflexões, em especial as de Ricardo Gondim, pela sinceridade como encara os fatos, por sua linguagem clara e objetiva e por sua destreza em revelar verdades contundentes. Parabéns editores e colaboradores! MARIA CARMINA SAMPAIO TORRES Belém, PA Homossexualidade Aediçãodejaneiro/fevereirodeUltimatoabordouaquestãoda homossexualidade.Oassuntoécandenteemuitocomplexo. Comopsicólogo,tenhoatendidodiversaspessoas,deambos ossexos,comtendênciashomossexuais.Parecequeanatureza eavidapregampeçasemalgumaspessoas.Numcorpo biologicamentemasculinocolocamsentimentosfemininos; enumcorpobiologicamentefemininocolocamsentimentos masculinos,criandoumtremendoconflito.Éprecisoesclarecer queesteéumdostiposdehomossexualidadebastante freqüentes.Ahomossexualidadetrazmuitosquestionamentos, porque,viaderegra,osentimentohomossexual,aliás,como todosentimento,nãodependedavontadedapessoa.Oprimeiro questionamentoéteológico:porqueJesus,emmomentoalgum, refere-se,aomenosindiretamente,àhomossexualidade?Em nenhumdosquatroevangelistasaquestãoéabordada.Não acreditoqueentreosjudeusnãohouvessehomossexuais. Osegundoquestionamentoéumaperguntaquemefaço freqüentemente:temaigrejaodireitodeexigirqueo homossexualleveumavidacelibatária?Nãotenhorespostas paraosmeusquestionamentosetalvezporissomesmoelesme causemcertainquietação.MasagradeçoconstantementeaDeus pornãoserhomossexualepormeusfilhostambémnãooserem, porqueéumsofrimentomuitogrande. CÂNDIDO A. LORENZATO Porto Alegre, RS —Jesusnãomencionaahomossexualidade,mascobrauma condutasexualmaisaltadoquequalqueroutroescritorbíblico: “Qualquerqueolharparaumamulherparadesejá-la,jácometeu adultériocomela”(Mt5.27).Separaevitaresseolharfixo ecalculadoporumamulheralheiapoderiasernecessário arrancarelançarforaoolhodireito(linguagemfiguradausada porJesus),oquepensardeumarelaçãosexualcontráriaà natureza(apráticahomossexual)?SeJesusnãosereferiu,ao menosindiretamente,àhomossexualidade,seumaisnotável convertidoeseguidoréquemmaisexplicitamentetratado assunto.Paulodizqueasmulheres“trocamsuasrelações sexuaisporoutras,contráriasànatureza”eque,“damesma forma,oshomenstambémabandonaramasrelaçõesnaturais comasmulhereseseinflamaramdepaixãounspelosoutros. Começaramacometeratosindecentes,homenscomhomens,e receberamemsimesmosocastigomerecidopelasuaperversão” (Rm1.26-27).(VejaÉparaabandonarahomofobia,masnãoa condenaçãodapráticahomossexual,p.20) A morte da morte Este ano começou para mim de uma forma muito difícil, pois perdi meu querido irmão e sobrinhos num grave acidente. Quando estávamos todos abatidos, muitos irmãos entraram em contato conosco e se compadeceram da nossa dor. No meio de tantas bênçãos, ganhei também uma assinatura de Ultimato. Além disso ainda recebi todas as edições de 2007. Qual não foi a minha surpresa, uma delas falava da morte da morte, e outra, de Jó. Obrigada por trazerem textos tão edificantes para a igreja dos nossos dias e por nos tratarem com tanto amor e carinho nesses momentos difíceis. MEIREANA DUTRA DE ASSIS SILVA São Paulo, SP Que vida boba! De fato, se não existisse a promessa de Jesus de um novo céu e uma nova terra, a vida não teria o menor sentido. Infelizmente muitos só descobrem isso no leito da morte, quando há tempo, é claro. ANTONIO PORTO Itapetininga, SP ultimato 312.indd 9ultimato 312.indd 9 2/5/2008 11:53:482/5/2008 11:53:48
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200810 Missãointegral A missão da igreja está, muitas vezes, soterrada pela iniqüidade do homem, mas tenho plena fé que Cristo cuida de sua noiva por meio de palavras de conhecimento e sabedoria de pessoas como o bispo Robinson Cavalcanti. Ele consegue refletir de forma profunda a grande missão que Jesus nos deixou: o “Ide”. Por vezes, a igreja tem perdido o foco deste itinerário, mas certamente a palavra ministrada não voltará vazia. É tempo de pensarmos sobre as peculiaridades da vida de Jesus Cristo, e o quanto ele mudou a história. Para vivermos conforme essa missão, precisamos examinar com mais fidelidade o texto bíblico e resgatar o nosso papel transformador da sociedade. Essa missão não é fácil, mas nós temos o Espírito Santo que nos capacita. Certamente, estamos sendo chamados por Cristo para vivermos de forma prudente neste tempo sombrio para a cristandade. CLEVERTON BARROS DE LIMA Campinas, SP A realidade do cristianismo brasileiro Gostaria de parabenizá-los pela revista Ultimato. Comecei a lê-la quando eu ainda estava na faculdade, e muitas vezes me pego lendo e relendo edições antigas. Cada edição é como um sopro de vida nova para mim, por isso aguardo ansiosamente a chegada da publicação! Gosto do fato de que os artigos não são utópicos, revelam a espiritualidade cotidiana de cada um de nós: as dúvidas, os medos, as alegrias, a realidade do cristianismo no Brasil. Muito obrigada. Oro para que Deus continue a inspirar a equipe e os colunistas! STEPHANIE PARKER Porto Alegre, RS Evangélicos e católicos Um evangélico, por mais errado que seja, ainda é mais certo do que qualquer católico, pois não se prosta diante de uma imagem de escultura para prestar-lhe culto, adorá-la ou mesmo venerá-la como eles (os católicos) se defendem. ODAIR ORLANDI Umuarama, PR Maria Estamos estudando em nossa igreja sobre Maria, mãe de Jesus. Lembro-me de ter lido na revista Ultimato (maio/ junho 1993) os artigos Maria demais e Maria de menos. Poderia receber uma cópia desses textos por e-mail? ÁUREA CACHONI M. FERRAZOLI Ourinhos, SP Mulheres nunca mais Quero me manifestar contra a carta Mulheres nunca mais, de Wesley Chrisley, de Sorocaba, SP. O comentário foi muito infeliz e ele próprio deve ser tremendamente infeliz por não valorizar o trabalho maravilhoso que as mulheres estão fazendo para o Senhor. Se ele visitasse a minha igreja, veria mulheres resgatando vidas para Cristo, pregando nas praças, nas empresas, nas cadeias, nas igrejas, e mudaria de idéia. As mulheres estavam presentes no dia de Pentecostes e o derramamento do Espírito foi também sobre elas, como havia sido profetizado pelo profeta Joel: “Sobre os meus servos e as minhas servas derramarei o meu Espírito” (At 2.18). Wesley precisa conhecer mais as histórias de avivamento, como o caso de Sarah Osborn, que fez parte de um avivamento em Newport, nos anos de 1766-1767. Outra grande ministra foi Hannah Smith, autora do livro O Segredo de uma Vida Feliz. Com o afastamento do seu marido do ministério por motivo de adultério, ela continuou a pregar, ensinar e escrever. Paulo faz referências elogiosas a várias mulheres: Febe, Priscila, Maria, Júnia, entre outras. PR. ELSON MEDEIROS Assembléia de Deus de Laranjeiras - Serra, ES 84 anos de vida e 59 de sacerdócio Agradeçocomovidamenteassaudaçõeseaugúriosaoensejo demeunatalício.Ésempremuitogratificantesentirqueoutros ultimato 312.indd 10ultimato 312.indd 10 2/5/2008 11:53:562/5/2008 11:53:56
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO11 FALE CONOSCO Cartas à Redação cartas@ultimato.com.br Cartas à Redação, Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Inclua seu nome completo, endereço, e-mail e número de telefone. As cartas poderão ser editadas e usadas em mídia impressa e eletrônica. Economize Tempo Faça pela Internet Para assinaturas e livros, acesse www.ultimato.com.br Assinaturas atendimento@ultimato.com.br 31 3891-3149 Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Edições Anteriores atendimento@ultimato.com.br www.ultimato.com.br irmãosserejubilamcomoinestimáveldomdavidacomqueo Senhornosbrinda.Jámepesamnosombros84anosdevidae59 desacerdócio.Valho-medestefelizensejoparafelicitartodos aquelesquecolaboramparaasediçõesdeUltimato,periódico queleiocomprazeremuitoproveito.Édegentequemergulhae nãoperpassapelasuperfície.Parabéns,equeoSenhorcontinue iluminandosemcessarasmentesquepropagamsuasanta Palavra.Rezempormim,querezoporvocês. MONSENHOR VALDEMIRO CARAM Campinas, SP Hanseníase OBrasilocupahojeosegundolugaremnúmerodeportadores dehanseníase.Vivemosumestadodeepidemianãodivulgado pelogoverno.Assim,hápoucainformaçãosobreadoença, mesmonomeiomédico,oqueretardaotratamentoegera seqüelasirrecuperáveis,principalmentequandooportadornão apresentalesõescutâneas.Comoportadoradessaenfermidade, etambémpadecendointensamentecomasreaçõescolaterais dapoliquimioterapia,possoafirmarqueanecessidademaioré trazerapúblicoarealidadedopaíseoferecermaisinformações àclassemédica.Simpatiaemnadanosajuda! PATRÍCIA NEME Palmas, TO Ultimato na EBF Desde o início de 2008 nossa classe de escola bíblica dominical para jovens tem estudado os assuntos de destaque da revista Ultimato. Os resultados são satisfatórios e fantásticos. A linguagem simples e objetiva da revista ajuda a compreensão dos alunos. Agradeço a Deus por vocês. SORAYA AGUIAR MENEZES Ipatinga, MG Juntos até então Desde meus tempos de estudante no Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira, SP, e do Seminário Presbiteriano de Campinas, Ultimato tem sido uma bênção para mim e para meus irmãos na fé. Até aqui estamos juntos! Que a revista continue sendo o que é! REV. ELY BARBOSA Salto de Pirapora, SP Blog Ultimato Não sou muito afeito a ler blogs; raros são os que leio, mas ao ver que Ultimato lançou o seu, não pude resistir e entrei, li e gostei muito. Ultimato, embora quarentona, está cada vez mais moderna, antenada e se torna a cada dia um excelente veículo de transmissão das verdades bíblicas, quebrando preconceitos e paradigmas, sendo inclusive tema de matéria em revista católica. Continuem no caminho. SÉRGIO PRATES LIMA Rio de Janeiro, RJ ultimato 312.indd 11ultimato 312.indd 11 2/5/2008 11:54:192/5/2008 11:54:19
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200814 doque Rebanhos instáveis tanto na seara protestante como na seara católica Oproblema de trânsito de uma igreja para outra não é um fenômeno exclusivamente protestante. Nas grandes cidades, diz Dom Moacyr Grechi, bispo de Porto Velho, RO, “cresce também o número de fiéis que escolhe a igreja ou a paróquia não pela vizinhança ou território, mas segundo seu gosto e suas afinidades espirituais”. No caso dos evangélicos, o trânsito pode ser de uma igreja para Segundo cálculos do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, o governo Luiz Inácio Lula da Silva gastou, em 2006, com todos os seus programas sociais, cerca de 21 bilhões de reais. O jornalista Clóvis Rossi compara esse montante com os lucros somados de quatro entidades financeiras em 2007 (Itaú, Bradesco, Unibanco e Santander), no valor de 21,777 bilhões de reais. Rossi aponta o problema da desigualdade social: enquanto a primeira soma é distribuída entre 11 milhões de famílias alcançadas pelo programa outra da mesma denominação ou de uma denominação para outra. Nas últimas décadas, é maior o número dos que saem das denominações históricas para as denominações pentecostais do que o contrário. No rebanho católico também há a figura do padre, cuja performance, segundo a mesma fonte, “é julgada pelas emoções que suscita ou pela sedução que exerce”. O país dos migrantes é o 5º mais populoso Segundo o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), “se todos os migrantes regularmente registrados residissem no mesmo país, representariam o quinto país do mundo em número de habitantes”, logo depois da China (1,3 bilhão), Índia (1,1 bilhão), Estados Unidos (297 milhões) e Indonésia (222 milhões). O Brasil viria em seguida (180 milhões). Setenta por cento de todos os migrantes vivem em dois países da América do Norte (Estados Unidos e Canadá) e em cinco países da Europa (Rússia, Alemanha, França, Reino Unido e Espanha). O paredão entre ricos e pobres continua de pé Bolsa-Família, a segunda é distribuída entre quatro “famílias” financeiras. O pesquisador Gabriel Ulysses, do mesmo instituto do Ministério do Planejamento, esclarece: “Apenas 10% da população continua se apropriando de 80% da renda nacional” (Folha de São Paulo, 17/07/07, A2). Cresce o número dos que nunca ouviram falar das boas notícias Aigreja não está dando conta. Não está suportando a concorrência. Segundo o Vaticano II, há quarenta anos, 66% da humanidade “nada ou muito pouco ouviu do anúncio das boas notícias”. Hoje, este número, o dos que quase não ouviram falar do evangelho, aumentou para 80%. A consciência missionária precisa, como nunca, ser acesa. O maior desafio da Grande Comissão (a ordem explícita dada por Jesus no momento de sua ascensão) é alcançar com o evangelho cada época da história, cada canto da terra, cada âmbito da sociedade e cada pessoa dos ajuntamentos humanos. ultimato 312.indd 14ultimato 312.indd 14 2/5/2008 11:54:552/5/2008 11:54:55
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200816 doque Filhos e genros de Shimpo e Tamao (da esquerda para a direita): Arthur e Aki, Luiza e Socei, Alice e Yoshio, Rosa e Soie, Emília e Zentem, Paulo e Teruko e Olga e Setiro O s jovens imigrantes japoneses Tamao Hashimoto, nascida na Província de Fukuoka, e Shimpo Kuniyoshi, nascido na Província de Okinawa, ambos descendentes de famílias nobres, conheceram-se por acaso no centro de São Paulo em 1919, quando tinham 20 anos. Casaram-se no ano seguinte. Quando deixou a família no Japão e veio para o Brasil por decisão própria, Tamao era uma adolescente de 14 anos. O navio que trouxe essa leva de imigrantes gastou 60 dias para chegar ao porto de Santos. Shimpo era um rapaz de 18 anos quando aportou no Brasil algum tempo depois daquela que seria sua esposa. À altura do casamento, os dois jovens já haviam fugido das lavouras de café do interior do Estado de São Paulo por não agüentarem o trabalho braçal e por receberem chibatadas dos capatazes quando o serviço não rendia. Passaram a trabalhar como empregados domésticos na capital. O jovem casal teve oitos filhos. Exceto o primeiro, que morreu de meningite aguda aos seis meses de idade, todos os outros estão vivos: Luiza Kaio (85), Rosa Kaio (84), Arthur Kuniyoshi (82), Paulo Kuniyoshi (80), Emília Sakiyama (77), Alice Sakiyama (75) e Olga Hayashi (66). Destes, dois já comemoraram bodas de diamante: Luiza e Socei Kaio (outubro de 2005) e Rosa Soie Kaio (março de 2006); e três, bodas de ouro: Arthur e Aki Kuniyoshi (julho de 2000), Emília e Newton Sakiyama (dezembro de 2000) e Alice e Yoshio Sakiyama (setembro de 2003). A soma da idade dos sete filhos de Tamao e Shimpo e de seus sete cônjuges é igual a 1.096 anos (a idade média dos 14 idosos é de 78 anos). O primeiro contato da família Kuniyoshi com o evangelho foi através do testemunho de um dos empregados do sítio que compraram perto de Cambará, no Paraná. O rapaz era “muito educado, reverente e muito bom de serviço”. Mais tarde, a filha mais velha do casal foi estudar corte e costura em Cambará e se hospedou com uma imigrante japonesa evangélica, que lhe falou de um certo Jesus, filho de Deus, que veio salvar o mundo do pecado. Outra família japonesa também era crente e procurava evangelizar os conterrâneos da região. Não tardou para que um dos filhos dessa família, que morava em São Paulo, trouxesse a Cambará pastores japoneses da Igreja Metodista Livre. O resultado é que não demorou muito para que Luíza e Rosa se convertessem ao evangelho e também se enamorassem dos irmãos Socei e Soie, da família Kaio, aquela que havia pregado o evangelho para as moças. Luíza casou-se com Socei cinco meses antes do lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, que matou cerca de 214 mil japoneses em agosto de 1945. Rosa casou-se com Soie onze meses após essa tragédia. Com o tempo, toda a família se converteu. O testemunho de Paulo Kuniyoshi, o quarto filho, é impressionante. Apesar de freqüentar a igreja e estudar a Bíblia com regularidade, ele demorou algum tempo para ter uma experiência pessoal de aceitação de Jesus como seu Senhor e Salvador. Isso aconteceu em Bauru, SP, em 1977, quando ele tinha 49 anos e já era engenheiro e advogado. Naturalmente o evangelho colaborou para que os descendentes de Tamao e Shimpo tivessem casamentos estáveis e se mantivessem unidos (todos os anos os sete casais tiram férias no mesmo lugar e no mesmo período). O formidável encontro de Tamao e Shimpo em 1919 já rendeu noventa pessoas: sete filhos, 25 netos, 56 bisnetos e 2 tataranetos! Incluindo os cônjuges, o número total sobe para 130 pessoas. A propósito do centenário da imigração japonesa (1908-2008) Cinco dos sete filhos dos imigrantes japoneses do início do século 20 já fizeram bodas de ouro Arquivopessoal ultimato 312.indd 16ultimato 312.indd 16 2/5/2008 11:55:352/5/2008 11:55:35
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO17 O s cristãos de fé e conduta não deveriam se abalar com a zombaria e oposição dos cabeças-pensantes, cheios da sabedoria deste mundo e de arrogância, pois estes também erram e são obrigados a voltar atrás, a desdizer o que haviam dito, a “desprovar” o que haviam provado. No artigo Samba do cientista louco, o jornalista Ruy Castro, da Folha de São Paulo, demonstrou que na área de nutrição o que os cientistas dizem hoje contraria por completo o que diziam ontem. O leite, que hoje é considerado um veneno para quem tem úlcera, antes era tomado para aliviá-la; a manteiga é mais saudável do que a margarina, mas antes era a vilã para vários órgãos, inclusive o coração; ovo faz bem ao coração (antes era o pior inimigo do colesterol e do coração); café, que estimula o sistema nervoso central, o coração, os vasos sangüíneos e os rins, era uma bebida proibida por conter cafeína; açúcar é uma beleza, mas antes ele deveria ser substituído pelos adoçantes. Tanto a Rússia quanto a China estão revendo a política de diminuição da taxa de natalidade. Para reverter a situação criada anteriormente pelo próprio governo, uma das províncias da Rússia adotou uma providência inusitada: o governador Sergei Morozov pediu aos empregadores que dessem folga a seus funcionários no dia 12 de setembro de 2007, para que eles tivessem tempo livre para fazer sexo, de tal modo que, em caso de concepção, a criança nascesse nove meses depois, em 12 de junho de 2008, Dia Nacional da Rússia. As mulheres que derem à luz nesse dia poderão ganhar, entre outros prêmios, uma casa nova (FSP, 13/09/07, A14). A política do filho único, em vigor na China desde o final dos anos 70, que teria evitado 400 milhões de nascimentos, está sendo reconsiderada para desacelerar o envelhecimento rápido da população. A vice-ministra de Planejamento Familiar teria dito que a China corre o risco de “ficar velha antes de ficar rica”. No momento, entre 30% e 40% dos chineses estão autorizados a ter dois ou mais filhos (FSP, 29/02/08, A14). Há menos de dois meses, o escritor Carlos Heitor Cony comentou que a própria ciência percorre um caminho muitas vezes errado: “De 50 em 50 anos, até em ciências exatas, como a física, as verdades são modificadas”. Os cristãos precisam suportar com firmeza a zombaria dos não-crentes sem se apoquentar nem diminuir a alegria e a certeza de serem filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17). O zombador, como escreve John Stott, “é alguém que nega a seriedade do pecado, da culpa e do juízo, e que não dá muita importância à necessidade da reconciliação e do perdão” (A Bíblia Toda, o Ano Todo, p. 90). A manteiga é mais saudável do que a margarina stockxpert ultimato 312.indd 17ultimato 312.indd 17 2/5/2008 11:55:442/5/2008 11:55:44
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200818 doque Asituação do cristianismo europeu não é nada confortável nem no meio católico nem no meio protestante. Na Itália, onde 97% da população se considera católica, apenas 30% dos fiéis vão à igreja. Na França, denominada “filha primogênita da igreja”, há cidades com maior presença de mulçumanos que de católicos. Sessenta por cento da população de Marselha, a segunda maior cidade da França, professa o islamismo. Enquanto o número de sacerdotes diocesanos e religiosos cresce na América Latina, África e Ásia, decresce na América do Norte, na Oceania e principalmente na Europa (18,4% a menos). O número de católicos aumenta na Ásia e na África, mas diminui de maneira sensível na Europa. Quarenta por cento dos britânicos, tradicionalmente protestantes, declaram não acreditar em Deus (no Brasil a porcentagem desses era de 1% na década de 70 e hoje chega a 7,3%). Em artigo publicado no jornal americano Chicago Sun Times, Adele M. Stan, autora de Debating Sexual Correctness (Retidão sexual em debate), diz que o papa Bento XVI “nunca olhou no espelho para encontrar a verdadeira razão do declínio do catolicismo na Europa”. O papa responsabiliza o modernismo, o relativismo e o multiculturalismo. Porém, Stan afirma que “a rejeição da Europa ao catolicismo tem menos a ver com a perda de espiritualidade do que com o autoritarismo de uma instituição que muitos consideram, na melhor das hipóteses, moralmente inapta; na pior, moralmente falida”. Para a autora do artigo, os campos imersos em sangue da Primeira Guerra Mundial provariam serem campo fértil para o existencialismo e para seu primo, o niilismo. A Igreja Católica Romana tem sua parcela de culpa: ela se aliou ao anti-semitismo na França, ao ditador Francisco Franco na Espanha e ao movimento revolucionário na Croácia. Consultado a respeito dos comentários de Adele Stan, o historiador protestante Alderi Souza de Matos diz que é difícil avaliar a correção desse diagnóstico. “O crescente secularismo da Europa pode ser explicado em parte por certas situações internas da Igreja Católica, mas há outros fatores envolvidos”. Alderi explica que “desde o iluminismo, no século 18, essa tendência secularizante tem crescido tanto em nações católicas como em protestantes”, e acrescenta: “O problema de muitas pessoas é a desilusão com a religião em geral, não só com o catolicismo”. A religião tem sido identificada com obscurantismo, moralismo, hipocrisia, manipulação. Quanto ao crescimento do islamismo na Europa, o historiador explica que é principalmente em virtude da imigração. Uma boa definição de secularismo foi dada recentemente pelo cardeal Paulo Poupard, presidente do Pontífice Conselho para a Cultura: “Secularismo não é uma negação explícita da presença de Deus, mas sim uma mentalidade vazia em que Deus está total ou parcialmente ausente da vida e da consciência dos homens”. ultimato 312.indd 18ultimato 312.indd 18 2/5/2008 15:23:072/5/2008 15:23:07
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO19 O que o alemão João Debeneck Cochlaeus e o polonês Ryszard Mozgol têm em comum? Ambos são católicos. Mas o que mais os aproxima são as bobagens que escreveram sobre Martinho Lutero. Cochlaeus escreveu sobre o reformador em 1549 e Mozgol, 458 anos depois, no 490º aniversário da Reforma, em outubro de 2007. Cochlaeus foi cônego da Catedral de Mainz (1526) e, depois, da Catedral de Breslau, ambas na Alemanha. Já na velhice, aos 70 anos, escreveu a primeira biografia de Lutero, morto três anos antes (1546), intitulada Commentaria de Actis et Scriptis Martini Luther (Comentários acerca dos Atos e dos Escritos de Martinho Lutero). Mozgol, por sua vez, faz parte do Instituto da Memória Nacional da Polônia, uma instituição encarregada dos relatórios da polícia secreta do país na era pós- comunista. Na biografia de Lutero o alemão Cochlaeus escreveu que a criança nascida no dia 10 de novembro de 1483 não havia sido gerada pelo marido de Margaret Lutero nem por qualquer outro homem. O Diabo em pessoa havia possuído a pobre mulher que, de vez em quando, se envolvia em bruxarias. Assim, o reformador seria filho ilegítimo de Satanás e, como Para o polonês Ryszard Mozgol,Para o polonês Ryszard Mozgol, Lutero ainda é filho do DiaboLutero ainda é filho do Diabo A cultura secular, aquela não influenciada pelo cristianismo nem a ele sujeita, não educa o cidadão a negar-se a si mesmo. O cristianismo, ao contrário, educa o crente a não satisfazer certas inclinações, porque elas contrariam o padrão de vida inserido no Decálogo ou no Sermão do Monte. Além do desconforto da consciência, além do temor do Senhor, a oposição do Espírito a tal, precipitara um número imenso de almas na ruína e trouxera à Alemanha e à cristandade a desgraça e a miséria (Conversas com Lutero, p. 267). Nos cartazes que o polonês Mozgol expôs em toda a cidade de Lublin, na Polônia Oriental, em outubro do ano passado, havia a figura do Diabo cochichando ao ouvido do reformador protestante, mostrando-o como herege e blasfemo. Entre as vozes que condenaram esse movimento — fundado em 1989 por um grupo radical, com o propósito de estabelecer um Estado católico na Polônia —, está a de Mariusz Maikowski, pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Lublin, leste da Polônia: “É chocante e inacreditável que retratos como o de Martinho Lutero como anticristo ainda apareçam em pleno século 21”. qualquer obra da carne leva o fiel a abrir mão da vontade má. A tentação em muitos casos acaba passando de largo. Mas a própria permissividade que hoje domina a sociedade não é absoluta. Tolera-se que o homem seja infiel à sua mulher e vice-versa, só porque a preferência sexual dele e dela é por outra mulher e por outro homem, respectivamente. Os homossexuais, por sua vez, devem ser deixados em paz, pois sentem atração sexual apenas por pessoas do mesmo sexo. No entanto, talvez questionando os limites dessa permissividade, o escritor Ferreira Gullar faz perguntas muito sérias: “Se o sujeito nasceu pedófilo, por que sua preferência sexual é considerada crime? Por que punir alguém que apenas obedece a impulsos inatos que lhe são impostos pela natureza?” (Folha de São Paulo, 24/02/2008, p. E10). Deve-se revogar a lei que proíbe a pedofilia? Deve-se retirar a pedofilia da relação dos crimes hediondos? Deve-se deixar o pedófilo à vontade? Deve-se deixar de “latir” em favor das crianças? (Veja Incapazes de latir, p. 6.) Por enquanto essas providências são inaceitáveis! A pedofilia vai vingar? Focalize Divulgação ultimato 312.indd 19ultimato 312.indd 19 2/5/2008 11:55:572/5/2008 11:55:57
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    do que números 400 litros deágua é o consumo diário de uma pessoa em bairros nobres da capital de São Paulo. A média no Brasil é de 150 litros, e a ONU diz que os seres humanos não precisam de mais de 100 litros por dia 800 veículos novos entram em circulação por dia na cidade de São Paulo. Deve haver 10 milhões de veículos na Grande São Paulo 2.600 horas é quanto uma empresa brasileira gasta, em média, a cada ano, para atender às exigências governamentais (quase um terço do ano) 72 horas são suficientes para uma pessoa ler toda a Bíblia. Se ela fizer isso não de uma só vez, mas por apenas 15 minutos diários, terminará em menos de dez meses 450.000.000.000 de dólares é quanto a indústria global de bebidas alcoólicas movimenta a cada ano. Um pouco mais que os 330 bilhões de dólares gerados por drogas ilegais, como cocaína, heroína e ecstasy 3 mentiras são pregadas a cada dez minutos de conversa, segundo pesquisa recente do psicólogo Robert Fellman, da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos ULTIMATO Maio-Junho, 200820 É para abandonar a homofobia, mas não a condenação à prática homossexual A revista Novas de Alegria, das Assembléias de Deus de Portugal, abordou a questão da homossexualidade em duas edições. Na primeira (janeiro de 2008), o pastor Alexandre Samuel Lopes, de Lisboa, escreveu que os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza, sem qualquer atitude de injusta discriminação. Além de ser cristão, esse comportamento possibilita uma mudança, pois “a igreja é a base da recuperação, é primeira e última oportunidade”. A aceitação do homossexual, acrescenta o pastor, “é o início da sua transformação para uma vida dentro dos padrões de Deus”. Na segunda edição (março de 2008), o pastor Samuel Pinheiro, diretor da revista, transcreveu o comunicado assinado pela Federação das Entidades Evangélicas da Espanha, pela Aliança Evangélica Espanhola e pelo Conselho Evangélico da Galiza: “Declaramos o nosso respeito por qualquer pessoa que, em uso da sua liberdade de expressão, defenda as suas práticas e crenças homossexuais, como também o pensamento em relação à educação dos filhos, por radicalmente opostos que sejam aos mantidos por este manifesto. Igualmente reprovamos qualquer manifestação homofóbica procedente do coletivo ou de uma pessoa. Mas com mesma firmeza, e da mesma maneira, reclamamos os mesmos direitos e respeito para com a Igreja Cristã Evangélica, no respeito às práticas, crenças e defesas de uma conduta heterossexual e o direito de expressar livremente a nossa concepção da educação heterossexual dos nossos filhos”. Mais adiante, o documento esclarece: “Por isso reafirmamos o direito a: 1) Proclamar, compartilhar e pregar toda a mensagem e o ensino do evangelho; 2) Fazê-lo livremente, sem impedimento e nos termos que a Bíblia define; 3) Declarar como pecado diante de Deus toda conduta e procedimento das pessoas que transgridem tanto os princípios morais como éticos e legais; 4) Proclamar que o evangelho inclui uma mensagem de esperança de restauração em Cristo em todas as áreas da vida; 5) Poder exercer este direito, com todo respeito, diante de todo aquele que livremente pretende escutar- nos, sem por ele sermos tratados como retrógrados ou etiquetados com insultos tão fáceis e rentáveis como ‘seitas perigosas’ ou ‘homófobos’”. A aceitação da homossexualidade é tão simples e tão natural que, pelo menos no meio evangélico espanhol, já há um esforço organizado para encorajar os pais a dar continuidade à educação que valorize e dê visibilidade à heterossexualidade, não só no ensino mas também na formação de um ambiente familiar favorável. ultimato 312.indd 20ultimato 312.indd 20 2/5/2008 11:56:102/5/2008 11:56:10
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200822 Jáultrapassa a cifra de 1 milhão de exemplares o livreto de bolso de 20 páginas escrito por Fausto Rocha, 69, professor de comunicação cristã do Seminário Teológico Nazareno e de jornalismo na Faculdade Nazarena do Brasil, ambos na cidade de Campinas, SP. A Voz do Povo Não é a Voz de Deus mostra que o ensino da Bíblia é contrário aos conceitos a respeito de Deus e da salvação que estão arraigados no inconsciente coletivo. O folheto é resultado do sermão que Fausto pregou há dez anos em Poá, na grande São Paulo, por ocasião do jubileu de ouro da fundação do município, a convite do conselho de pastores daquela cidade, famosa por sua exposição anual de orquídeas. O advogado e jornalista Fausto Rocha nasceu em lar evangélico e foi batizado na adolescência na Primeira Igreja Batista de São Paulo. Por 40 anos atuou como produtor e apresentador de programas de televisão, entre eles Diálogos da Capital, nas redes nacionais Cultura, Excelsior, Tupi e SBT. Além de ter exercido o O sermão que gerou 1 milhão de livretos O primeiro hinário evangélico brasileiro chama-se Salmos e Hinos e foi publicado há quase 150 anos no Rio de Janeiro, graças ao trabalho de Sarah e Robert Kalley e do médico João Gomes da Rocha, filho adotivo do casal. O mais recente hinário não se denomina hinário, mas “corinário” (por causa do costume de chamar de “corinho” os cânticos mais novos, aqueles que não fazem parte dos CD’s. Todo o seu tempo livre é gasto ouvindo e recordando os louvores que fizeram e fazem parte de seus momentos de adoração, alguns dos quais não são mais cantados pelos cristãos do novo século. Valdivino Reis de Melo, 45, é formado em gestão de serviços executivos e atua há dezoito anos como diretor executivo na área sindical patronal de asseio e conservação e de segurança privada nos Estados de Goiás e Tocantins. Nascido em Caldas Novas, GO, e convertido aos 18 anos, Valdivino logo foi eleito presbítero da Terceira Igreja Presbiteriana Renovada de Goiânia, onde reside. A mais recente edição do corinário Vem Cantar foi publicada pela Casa do Livro, em Goiânia, em 2005 (casadolivro@pop.com.br). hinários tradicionais). Além de ser o mais recente, o corinário Vem Cantar é o que tem o maior número de hinos — a coleção toda conta com 1.234 títulos, quase o dobro dos cânticos de Salmos e Hinos (608), Cantor Cristão (579) e Harpa Cristã (640). Inclui melodias antigas e mais recentes. Por coincidência, o primeiro cântico fala sobre a alegria que está no coração de quem conhece a Jesus, e o último é um convite para voltar para Jesus aquele cujo coração está sem alegria. O autor dessa façanha não é ministro de louvor, não é músico nem toca instrumento musical algum. É um apaixonado por música sacra. Seu acervo musical é fabuloso: tem mais de 40 mil cânticos catalogados, distribuídos em mais de 2 mil vinis, mais de 2 mil cassetes e mais de mil O homem do corinário de 1.234 cânticos Arquivopessoal Arquivopessoal mandato de deputado estadual (duas vezes) e de deputado federal (duas vezes), Fausto Rocha foi assessor de comunicação de dois prefeitos de São Paulo (Miguel Colassuono e Paulo Egydio Martins). É também autor de Como Falar de Jesus no Evangelismo, Rádio, TV e Escola Dominical. ultimato 312.indd 22ultimato 312.indd 22 2/5/2008 11:56:312/5/2008 11:56:31
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    Frases Maio-Junho, 2008 ULTIMATO23 Sou emigrante de um país que ainda não vi, mas para o qual quero ir. Sou forasteira numa sociedade que cada vez me empurra mais contra a parede e me intimida a ser o contrário daquilo que Deus deseja que eu seja. É um desafio constante ser cristão autêntico no meio de um mundo cada vez mais anticristão. Ana Ramalho, da Assembléia de Deus em Caldas da Rainha, Portugal Minha vida está se esvaindo. Não sei se vou chorando ou sorrindo. Sorrindo, pondo fim a uma agonia que não agüento mais. Chorando por deixar para trás pessoas que amo demais. Leide Moreira, 59, vítima de esclerose lateral amiotrófica, desde 2004, a mesma doença de Stephen Hawkins Os ricos, poderosos e famosos também morrem de drogas. Some a eles uma legião de drogados anônimos e desassistidos e começará a ter uma idéia do tamanho do problema. Ruy Castro, jornalista Aleitura da Bíblia ajuda muito na recuperação de pessoas que enfrentam problemas de saúde física, psicológica e espiritual, porque ela traz esperança ao desesperado, orientação ao perdido e conforto ao entristecido. Erní Walter Seibert, editor de A Bíblia no Brasil Sintoquemeusfilhoslevam umavidaemsuspenso naexpectativadaminha libertação,eoseusofrimento diário,odetodoomundo,faz comqueamortemepareça umaopçãoamena. Ingrid Betancourt, política franco-colombiana mantida há seis anos na selva colombiana como refém pelas FARC Jesusnuncateveumprograma detelevisão.Nuncaescreveu livros.Nuncafundouuma megaigreja.Muitodoseu trabalhofoipessoal.E,mesmo assim,elemudouomundo. Loren Seibold, pastor adventista em Ohio, Estados Unidos Ousodeanimais na ciência é absolutamente necessário. Ciência é questão de soberania nacional. Não se trata de procedimento obsoleto. Nossa segurança estaria maiscomprometida casonãopudéssemos antestestaresses medicamentosem animais de laboratórios. Analgésicos, antiinflamatórios, vacinas,antibióticos, hormônios emsuas versões mais modernas, dependeram tanto da experimentaçãoanimal como nós dependemos do ar para respirar e viver. Luiz Eugênio Araújo de Moraes Mello, professor de fisiologia e presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental Ultimamenteestá-se minimizandoaquestão dopecado.Quer-seuma religiãonaqualaspessoas nãosejamchamadasao arrependimento,masse sintambem,assimcomosão. Poressarazão,ocultotorna- setãovariadooualternativo, evisasimplesmenteatingir osentimento.Ecadaumtem odireitodetersuaopinião própria. Horst R. Kuchenbecker, pastor emérito da Igreja Evangélica Luterana do Brasil Quando somos assediados por uma quantidade de anúncios em favor de uma vida distanciada do evangelho, a voz do sino se antepõe ao que nos separa de Deus. Trata-se, portanto, do válido instrumento da evangelização, também em nossos dias. Dom Eugênio de Araújo Sales, arcebispo emérito do Rio de Janeiro, referindo-se aos sinos das igrejas cristãs ultimato 312.indd 23ultimato 312.indd 23 2/5/2008 11:56:422/5/2008 11:56:42
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200824 E ram25 moças e rapazes, todos universitários. Eles saíram de Viçosa, MG, e viajaram 2.030 quilômetros, até chegar à cidade de Coronel José Dias, um dos municípios mais carentes do Brasil, na região sudeste do Piauí, onde fica o Parque Nacional da Serra da Capivara. Nos dez dias passados nos povoados de São Pedro e Santa Luzia, os jovens distribuíram entre os habitantes (42% deles, analfabetos) brinquedos, kits com pastas, escovas de dente e sabonetes, utensílios domésticos, roupas e calçados. Se a notícia se limitasse ao parágrafo anterior, os leitores mais críticos se indignariam com tamanho assistencialismo, tão comum em muitas obras sociais. Porém, a caravana universitária fez muito mais do que isso. Além de distribuir livros didáticos, revistas e livros de conteúdo cristão, folhetos evangélicos, Novos Testamentos e Bíblias, o grupo de estudantes, o médico e a técnica em enfermagem que os acompanharam desenvolveram um amplo trabalho, dentro da estratégia chamada missão integral. Eles fizeram atendimentos médicos, pequenas cirurgias, palestras nas escolas públicas sobre variados assuntos (saúde bucal, aleitamento materno, o meio ambiente, e até sobre relacionamento familiar), cortes de cabelo, medições de pressão arterial e ofereceram diversas oficinas (como construir caixas d’água com ferro e cimento, como fazer irrigação por gotejamento, como pintar casas com tinta de argila, como reciclar papéis, como produzir mel de abelha e como fazer artesanato). Se a notícia terminasse aqui, os leitores mais apaixonados pelo anúncio das boas novas da salvação ficariam decepcionados. Porém, por meio da música, do teatro, de fantoches, de palestras, de projeção de filmes e de visitação, os jovens evangélicos da Universidade Federal de Viçosa falaram de Jesus. Para melhor integração com a comunidade local, fizeram várias visitas aos lares e não menos que 334 pessoas assistiram às duas projeções do filme Jesus que fizeram. Tudo isso foi feito durante a viagem do Projeto Água Viva (PROAV) ao município de Coronel José Dias. Esta não foi a primeira nem será a última viagem do projeto. Fundado em 2002, o PROAV já realizou seis viagens missionárias ao Nordeste, duas ao Sergipe e quatro ao Piauí, totalizando quinze municípios e comunidades alcançados. Antes da viagem cada equipe recebe um treinamento que dura em média quatro meses. Os participantes são alunos de diferentes cursos da Universidade Federal de Viçosa e membros de diferentes denominações evangélicas. Diversos voluntários contribuem para o preparo das equipes. Já foram treinados 150 universitários. O trabalho não é feito de maneira isolada, mas de comum acordo com alguma denominação que já opera na região a ser alcançada ou nas proximidades dela. Nas duas primeiras viagens, o PROAV trabalhou em parceria com os presbiterianos, e nas demais, com a Missão Suíça, que tem doze missionários nos estados do Maranhão, Piauí e Pará. A missão, por sua vez, tem parceria com a Associação Sopa, sabã reportagem ultimato 312.indd 24ultimato 312.indd 24 2/5/2008 11:56:502/5/2008 11:56:50
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO25 das Igrejas Cristãs Evangélicas do Brasil (AICEB). Algumas igrejas têm sido plantadas como resultado desse ministério. Pinturas de templos e casas pastorais, projetos arquitetônicos de templos e pelo menos o início da construção deles, são outros feitos desse esforço missionário. No povoado de Curralinho, SE, o PROAV chegou a elaborar o projeto e a construção de uma praça pública, graças a uma ajuda substanciosa do Projeto Sertão. O PROAV foi organizado pelo casal Elíbia e João Tinoco, ex-alunos do Centro Evangélico de Missões (CEM), em Viçosa, MG. Tinoco, 57, é professor de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Viçosa. Convertido ao evangelho em 1998, sentiu-se vocacionado para o ministério. Fez o curso de especialização em teologia para graduados no Seminário Presbiteriano de Campinas, foi licenciado pelo Presbitério Zona da Mata Norte, ordenado ao ministério pelo Presbitério Centenário de Belo Horizonte e nomeado pastor auxiliar da Terceira Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte. Por ser maranhense e conhecer muito bem a carência material e espiritual do Nordeste, Tinoco criou o PROAV, tendo em vista a evangelização desta região brasileira. Elíbia Maria vem de uma tradicional família presbiteriana de Pancas, ES, e é uma das primeiras missionárias a se formar no CEM. (Para mais informações, acesse <www.projetoaguaviva.com.br>) Nota *Expressão que define o ministério do Exército de Salvação, fundado por William Booth na Inglaterra em 1865, uma das primeiras manifestações da missão integral (os miseráveis dos cortiços de Londres precisavam de comida, saúde e perdão de pecados). bão e salvação* MarcosGysim—PROAV ultimato 312.indd 25ultimato 312.indd 25 2/5/2008 11:56:572/5/2008 11:56:57
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    RodolfoClix ULTIMATO Maio-Junho, 200826 capa A preocupaçãocom a saúde e com a duração da vida é a maior e a mais insistente de todas as preocupações do ser humano, desde a vida intra-uterina à parada irreversível das funções cerebrais, o que de fato caracteriza a morte. Isso explica o exército quase incontável de homens e mulheres de avental branco, cuja profissão é prevenir, diagnosticar e curar uma enorme quantidade de doenças. Além dos médicos, outros milhares e milhares de pessoas participam dessa guerra incessante contra a doença e a morte — enfermeiros, laboratoristas, farmacêuticos e engenheiros (que desenham e constroem aparelhos médicos cada vez mais numerosos e sofisticados). Por causa dessa preocupação, que os animais não têm, somos obrigados a construir inúmeros ambulatórios, centros de saúde, clínicas e hospitais; criamos Doenças não catalogadas pela medicina que podem e devem ser tratadas ultimato 312.indd 26ultimato 312.indd 26 2/5/2008 18:22:562/5/2008 18:22:56
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    Não há relatode que Jesus tenha realizado alguma cura de ordem médica entre os apóstolos, porém ele curou a segurança demasiada de Pedro, a incredulidade de Tomé e a violência de Tiago e João Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 27 poderosas e multinacionais indústrias farmacêuticas; abrimos uma farmácia a cada esquina e organizamos diversos planos de saúde. Talvez a metade da população mundial ficasse desempregada se a doença e a morte fossem debeladas de uma vez por todas. O ministério de Jesus era holístico. Ele se preocupava com a alma e com o corpo, com a saúde e com a salvação, com a ética e com o perdão de pecados, com as ovelhas de dentro e com as de fora do aprisco. Jesus ensinava nas sinagogas judaicas, proclamava as boas novas da salvação e curava “toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4.23; 9.35), não uma vez só nem em um só lugar. Curava as doenças mais simples, como a febre da sogra de Pedro, e as mais graves, como a mulher por doze anos hemorrágica, a mulher por dezoito anos encurvada e o homem por 38 anos paraplégico. Em muitos casos, Jesus curava não porque o doente ou seus familiares e amigos o procuravam, mas porque ele mesmo enxergava o sofrimento alheio e tomava a iniciativa de operar a cura. Em duas ocasiões, Jesus atrasou-se: para curar a filha de Jairo e o irmão de Maria e Marta. Mesmo já tendo passado pela tal morte somatopsíquica, a menina de 12 anos, cujo corpo ainda não estava enrijecido, e Lázaro, cujo corpo já havia sido sepultado, foram trazidos à vida, o que também aconteceu com o filho único da viúva de Naum. Nesse afã necessário de oferecer resistência às doenças e à morte, temos nos esquecido de que somos portadores de outras doenças que não estão arroladas nos melhores catálogos médicos. São doenças e complicações sem conta, menos palpáveis e mais independentes do corpo, embora provoquem danos à saúde física. Nesse sentido, é bom ler a resposta de Jesus aos que o criticavam por entrar e comer em casa de cobradores de impostos e de outras pessoas de má fama: “São os doentes que precisam de médico, não aqueles que têm boa saúde. Meu propósito é convidar os pecadores a se arrependerem dos seus pecados, e não gastar meu tempo com aqueles que acham que já são gente muito boa” (Lc 5.31, BV). Nessa passagem, a doença e a cura a que Jesus se refere não são as doenças do corpo e da mente, mas as muitas complicações comportamentais relacionadas, em última análise, ao evento histórico que os teólogos denominam a “queda do homem”. É preciso acordar para o fato de que o mesmo Deus que pode curar a cegueira, a surdez, as doenças de pele, a hemorragia, as deficiências físicas, e até reimplantar uma orelha decepada (o que aconteceu com Malco), é o mesmo Deus que pode curar a incredulidade, a cegueira espiritual, a paixão pelo dinheiro, o egoísmo, a sem-vergonhice, a falta de cortesia, a gula, o egocentrismo, a lascívia, a infidelidade conjugal, o secularismo, o consumismo, a arrogância e muitos outros defeitos de caráter que não estão em nenhum compêndio médico. Esses desacertos podem aparecer nos dicionários e em algum livro sobre ética, mas de forma meramente especulatória e acadêmica. Prometemos cura de distúrbios físicos e não falamos nada sobre a cura de distúrbios de caráter. Oramos muito pela cura de uma doença terminal que vai nos levar para o mundo dos mortos, mas oramos pouco (quando oramos) pela cura de uma doença moral que vai nos levar para o inferno. Fazemos um alarde enorme quando o paralítico volta a andar, o cego volta a ver, o paciente sai do Centro de Tratamento Intensivo e recebe alta hospitalar, mas não é comum comemorarmos a volta da ovelha perdida, a transformação daquelas três mulheres sem nome envolvidas em relacionamentos sexuais equivocados (a mulher samaritana, a mulher adúltera e a mulher pecadora), a mudança daquele homem sovina e desonesto e de baixa estatura (corporal e moral). Não há relato de que Jesus tenha realizado alguma cura de ordem médica entre os doze apóstolos, porém, o Senhor curou a segurança demasiada de Pedro, a incredulidade de Tomé e a violência de Tiago e João (os “filhos do trovão”). Precisamos de uma revolução no cenário cristão, que equilibre o desejo da saúde física com o da saúde espiritual. Seria um erro desprezar a preocupação com a saúde e a doença da vida temporal, mas é preciso abrir as Escrituras e reler a advertência de Paulo: “O exercício corporal é bom, porém o exercício espiritual é muito mais importante, e é um revigorante para tudo o que você faz” (1Tm 4.8, BV)! Jesus se preocupava com a alma e com o corpo, com a saúde e com a salvação, com a ética e com o perdão de pecados, com as ovelhas de dentro e com as de fora do aprisco ultimato 312.indd 27ultimato 312.indd 27 2/5/2008 11:58:382/5/2008 11:58:38
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200828 capa A ediçãonúmero 2.003 da revista Isto É (20/03/2008) trouxe como matéria de capa um tema, no mínimo, curioso e instigante: “terapia de vidas passadas” (doravante, TVP). Este assunto é de especial interesse no Brasil, apontado por estudiosos do fenômeno religioso como o maior país espírita do mundo. A reportagem apresenta vários relatos de supostas curas de traumas e dores que só aconteceram depois que os pacientes se submeteram ao polêmico tratamento. Tratamento? Profissionais da área psi (psiquiatras, psicólogos, psicoterapeutas e psicanalistas) em geral discordam veementemente de tal possibilidade. Todavia, alguns psicólogos dizem ser possível uma pessoa ter hoje um problema cuja causa esteja em uma suposta vida anterior. Seguindo esta linha de raciocínio, a cura só será possível se a pessoa descobrir o que aconteceu no seu passado, anterior à sua vida consciente hoje. A Sociedade Brasileira de Terapia de Vidas Passadas realiza congressos sobre a temática. No entanto, há que se destacar que o Conselho Federal de Psicologia, órgão oficial de reconhecimento de atividades na área, não reconhece a técnica. De fato, não há evidência científica segura que comprove a suposta eficiência da chamada TVP. É compreensível que pessoas em sofrimento apelem para tratamentos alternativos em busca de solução para seus problemas e dilemas. O problema é apelar para algo que poderá complicar ainda mais a situação. É o caso de quem recorre à TVP. Segundo os testemunhos de supostas curas, as sessões de TVP são emocionalmente muito intensas. A pessoa é total ou parcialmente hipnotizada, de acordo com técnicas especiais de hipnose. Em estado inconsciente, poderá chorar, rir ou gritar. Invariavelmente, volta à consciência com relatos surpreendentes de uma outra vida supostamente vivida no passado. Mesmo que tais relatos sejam detalhados, isso não prova de maneira conclusiva que a pessoa tenha vivido aquela outra vida. Por mais que os defensores da TVP queiram alegar neutralidade religiosa, dizendo que se trata de procedimento meramente científico, não há como separá-lo da crença religiosa espírita. O espiritismo kardecista e algumas das grandes tradições religiosas orientais, como o hinduísmo e setores do budismo, são reencarnacionistas, ou seja, acreditam na idéia de reencarnação. A TVP caminha nessa direção. Este é um caminho perigoso para quem quer resolver seus problemas, taras ou traumas; em vez de curar, pode complicar ainda mais a situação. Não é difícil entender a razão: imaginemos o senhor X. Se ele é uma pessoa que acredita na tese reencarnacionista, ele não é ele mesmo, mas sim alguém que teria vivido antes. Digamos que o senhor X de hoje já foi na verdade o senhor Y ontem. Hoje X vai ser recompensado ou castigado conforme o bem ou o mal que Y teria praticado em uma vida anterior. Só que Y por sua vez é a reencarnação de alguém que teria vivido em um período ainda mais remoto, digamos, a senhora Z. Mas Z também não é Z... E assim vamos retrocedendo cada vez mais no tempo, ad infinitum. Como X vai se curar de um trauma recorrendo a um tratamento na base da É O caminho confuso e perigoso daO caminho confuso e perigoso d A terapia de vidas passadas é um caminho perigoso para quem quer resolver seus problemas, taras ou traumas; em vez de curar, pode complicar ainda mais a situação ultimato 312.indd 28ultimato 312.indd 28 2/5/2008 11:59:202/5/2008 11:59:20
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    Carlos Caldas Maio-Junho, 2008ULTIMATO 29 TVP, se Y, de quem ele supostamente seria reencarnação, também tinha seus problemas dos quais precisava se tratar? A conclusão é inevitável: a crença na tese da reencarnação tem o potencial de criar confusões mentais que podem gerar graves problemas de natureza psicológica e emocional. Não é sem razão que Machado de Assis, com o brilhantismo que lhe era tão característico, tenha escrito por cerca de trinta anos (1865– 1896) diversas crônicas com críticas pesadas ao espiritismo, que começava a se inserir na sociedade carioca de então. No livro Parapsicologia, Espiritismo e Psicopatologia, o psiquiatra Ronald Scott Bruno defende a idéia de que o espiritismo, por alguns motivos já mencionados, é fator potencialmente gerador de psicopatologias, isto é, transtornos e disfunções mentais. As ciências psi serão muito mais úteis se ajudarem as pessoas a descobrirem as verdadeiras causas dos seus traumas, fobias e esquisitices, com sobriedade, sem apelar para elementos fantásticos como a TVP. Aqui vale a pena reproduzir um trecho da citada reportagem da revista Isto É: Na opinião do presidente do Conselho Federal de Psicologia, Humberto Verona, a cura acontece devido à sensação de conforto pelo fato de o paciente se identificar com o terapeuta. “Elas apenas encontraram no psicólogo uma compatibilidade de crenças que facilitou o processo terapêutico”, afirma. A psiquiatra Marli Piva acrescenta: “A pessoa já se sente aliviada só de achar uma explicação para o seu problema”, diz ela. Para Gildo Angelotti, diretor- executivo do Instituto de Neurociência e Comportamento, de São Paulo, as vivências relatadas pelos pacientes surgem de memórias inativas que registram imagens de filmes, sons, histórias de livros e tudo que é percebido pelo indivíduo ao longo da vida. “É como um sonho. Quando a pessoa está dormindo, os sentidos são pouco requisitados e sobra mais espaço para o resgate destes registros históricos. Mas a reunião destes elementos vem da mente do próprio indivíduo, não de outras vidas.” Na opinião dele, a TVP chega a ser arriscada aos pacientes psicóticos ou esquizofrênicos, que podem ter uma reação violenta a partir das revelações ou ficarem obcecados em encontrar nesta vida as pessoas do passado. Como se vê, não há evidência científica que aponte para a possibilidade de se tratar de uma vida passada. E a teologia cristã, como vê a questão? O cristianismo, herdeiro do judaísmo, rejeita a idéia de reencarnação. As Escrituras Sagradas não dão base para se pensar assim. Uma antropologia que admite as possibilidades de reencarnação e de tratamento de problemas supostamente acontecidos em uma vida pregressa é, no mínimo, confusa. Afinal, ninguém é ninguém. Não há idéia de personalidade. Não é possível se falar de identidade. A antropologia bíblica, em contraste, aponta para outra direção, totalmente diferente: o ser humano, “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1.26- 27), é único e, portanto, tem valor inestimável. A Bíblia diz que “aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo” (Hb 9.27). Há quem veja a mensagem deste versículo como amedrontadora, pois fala de juízo. Mas a força do texto não está em ser assustador. Antes, indica de modo Carlos Caldas so da terapia de vidas passadaso da terapia de vidas passadas Na antropologia que admite a possibilidade de reencarnação, ninguém é ninguém. Não é possível se falar de identidade stockxpert ultimato 312.indd 29ultimato 312.indd 29 2/5/2008 11:59:282/5/2008 11:59:28
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    capa Carlos Caldas éprofessor na Escola Superior de Teologia e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. ULTIMATO Maio-Junho, 200830 D e suae sua ansiedadeansiedade, aquela, aquela preocupação demasiadapreocupação demasiada com o dia de amanhã,com o dia de amanhã, com a subsistência,com a subsistência, com a segurança, com o peso, com acom a segurança, com o peso, com a beleza, com as coisas a fazer, com abeleza, com as coisas a fazer, com a mudança de tempo, com as coisas emudança de tempo, com as coisas e com outros.com outros. De seuDe seu ciúmeciúme doentio, aqueladoentio, aquela insegurança que faz você imaginarinsegurança que faz você imaginar mil coisas que ainda não estãomil coisas que ainda não estão acontecendo mas que poderãoacontecendo mas que poderão acontecer por sua própria culpa.acontecer por sua própria culpa. De seuDe seu desânimo,desânimo, aquela faltaaquela falta de coragem crônica para enfrentarde coragem crônica para enfrentar os dias difíceis, as circunstânciasos dias difíceis, as circunstâncias difíceis, os empreendimentos difíceisdifíceis, os empreendimentos difíceis e as pessoas difíceis.e as pessoas difíceis. De seuDe seu desespero sexualdesespero sexual, aquela, aquela fome e sede de sexo como se estefome e sede de sexo como se este fosse o único prazer da vida, quefosse o único prazer da vida, que provoca uma corrida vã a qualquerprovoca uma corrida vã a qualquer tipo de relacionamento, comtipo de relacionamento, com qualquer pessoa e em qualquerqualquer pessoa e em qualquer tempo e lugar.tempo e lugar. De seuDe seu egocentrismoegocentrismo, aquela, aquela aberração de amar excessivamenteaberração de amar excessivamente a si mesmo e de ocupar sozinho oa si mesmo e de ocupar sozinho o lugar que deveria ser repartido comlugar que deveria ser repartido com os outros.os outros. De seuDe seu estilo consumistaestilo consumista, aquele, aquele prazer incontido de comprar o útilprazer incontido de comprar o útil e o inútil, o que não tem e o quee o inútil, o que não tem e o que tem, aquela concepção errônea etem, aquela concepção errônea e desastrosa de que a felicidade giradesastrosa de que a felicidade gira em torno do ter, e não do ser, aquelaem torno do ter, e não do ser, aquela simplicidade frente aosimplicidade frente ao marketingmarketing. De seuDe seu gênio explosivogênio explosivo, aquele, aquele temperamento sempre briguento,temperamento sempre briguento, impetuoso, amargo, quase sempreimpetuoso, amargo, quase sempre desprovido de razão, que provoca odesprovido de razão, que provoca o afastamento de parentes, amigos eafastamento de parentes, amigos e conhecidos.conhecidos. De suaDe sua hesitaçãohesitação, aquela atitude, aquela atitude que não leva a nada, não o colocaque não leva a nada, não o coloca em marcha, não movimenta suasem marcha, não movimenta suas mãos nem seus pés e ainda impedemãos nem seus pés e ainda impede que você fale alguma coisa.que você fale alguma coisa. De suaDe sua hipocondriahipocondria, aquela, aquela obsessão com a saúde que promoveobsessão com a saúde que promove uma corrida constante ao médico euma corrida constante ao médico e à farmácia e que até contribui paraà farmácia e que até contribui para você adoecer.você adoecer. De suaDe sua hipocrisiahipocrisia, aquela arte de, aquela arte de enganar os outros, aquele esforçoenganar os outros, aquele esforço de esconder a verdadeira identidadede esconder a verdadeira identidade simulando outra que não existe,simulando outra que não existe, aquele pecado de lavar apenas oaquele pecado de lavar apenas o exterior do copo.exterior do copo. De suaDe sua incredulidadeincredulidade, aquela, aquela indisposição para crer naindisposição para crer na proximidade e na provisão de Deus,proximidade e na provisão de Deus, que o afasta dele e o impede deque o afasta dele e o impede de enxergar seu amor, seu poder e suaenxergar seu amor, seu poder e sua glória.glória. De seu sentimento deDe seu sentimento de inferioridadeinferioridade, aquela, aquela impressão forte, ou atéimpressão forte, ou até mesmo a certeza, de quemesmo a certeza, de que você está sendo superadovocê está sendo superado Você precisa ser curado... maravilhoso o valor da existência humana. Biblicamente, cada pessoa tem direito a uma identidade. A pessoa é quem é, não a reencarnação de alguém que viveu no passado, que por sua vez é a reencarnação de alguém que viveu ainda antes. A vida apresenta situações difíceis para todos, provenientes da injustiça que os homens cometem contra seus semelhantes (C. S. Lewis, em O Problema do Sofrimento, afirma que 80% do sofrimento do ser humano é provocado pelo próprio ser humano) e de fatores que são conseqüência do pecado — afastamento de Deus. Bem afirmou o sábio do passado, ao observar como as pessoas vivem: “Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29). Em vista disso, é importante procurar soluções para as crises, mas por meios de seriedade científica comprovada. Como cristãos, cremos que o progresso da ciência é dom de Deus para a humanidade. É o que a tradição teológica reformada chama de “graça comum” — bênçãos da parte do Deus, que faz com que o sol nasça sobre maus e bons e que a chuva caia sobre justos e injustos (cf. Mt 5.45). Não é este o caso da TVP. Quem se submete a este tipo de tratamento pode, conforme apontado por alguns psicólogos, encontrar, na melhor das hipóteses, alívio temporário e ilusório. Felizmente, há esforços sérios na área da psicologia que conjugam técnicas e conhecimentos cientificamente comprovados com a mensagem bíblica da graça, do amor e da misericórdia de Deus. O Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC) que o diga! ultimato 312.indd 30ultimato 312.indd 30 2/5/2008 12:34:212/5/2008 12:34:21
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO31 pelos outros, principalmentepelos outros, principalmente pelas pessoas mais próximas,pelas pessoas mais próximas, provocado por sua auto-avaliaçãoprovocado por sua auto-avaliação exageradamente negativa.exageradamente negativa. De suaDe sua intolerânciaintolerância, aquele apego, aquele apego demasiado às suas próprias idéias edemasiado às suas próprias idéias e às suas próprias crenças, associadoàs suas próprias crenças, associado com certa dose de soberba e despidocom certa dose de soberba e despido de qualquer dose de amor.de qualquer dose de amor. De suaDe sua invejainveja, aquele desgosto, aquele desgosto e pesar pelo sucesso ou felicidadee pesar pelo sucesso ou felicidade dos outros, que provoca o desejodos outros, que provoca o desejo violento de possuir o que o próximoviolento de possuir o que o próximo tem, e que rouba sua paz de espírito.tem, e que rouba sua paz de espírito. De suaDe sua mania demania de perseguiçãoperseguição,, aquela certezaaquela certeza infundada deinfundada de que alguémque alguém desejadeseja o seu mal e está trabalhandoo seu mal e está trabalhando incansavelmente nesse sentido.incansavelmente nesse sentido. De seuDe seu medomedo, aquele estado de, aquele estado de espírito que aumenta e exagera aespírito que aumenta e exagera a sensação de perigo, sufocando asensação de perigo, sufocando a vontade e a disposição de fazer algo.vontade e a disposição de fazer algo. De suaDe sua preguiçapreguiça, aquela, aquela continuada aversão ao trabalho,continuada aversão ao trabalho, ou a morosidade com a qual vocêou a morosidade com a qual você o realiza, justificando-a com milo realiza, justificando-a com mil desculpas sem a menor procedência.desculpas sem a menor procedência. De suaDe sua procrastinaçãoprocrastinação, aquela, aquela tendência a adiar indefinidamentetendência a adiar indefinidamente e sem razão justificável o que devee sem razão justificável o que deve ser feito hoje, com o risco de perderser feito hoje, com o risco de perder para sempre as oportunidades quepara sempre as oportunidades que passam e não voltam.passam e não voltam. De suaDe sua rabugicerabugice, aquele mau, aquele mau humor permanente, que faz mal ahumor permanente, que faz mal a você e aos que o cercam.você e aos que o cercam. De seu sentimento deDe seu sentimento de superioridadesuperioridade, aquela impressão, aquela impressão forte ou até mesmo certeza de queforte ou até mesmo certeza de que você é o máximo, provocado porvocê é o máximo, provocado por uma auto-avaliação exageradamenteuma auto-avaliação exageradamente positiva.positiva. De suaDe sua timideztimidez, aquela qualidade, aquela qualidade negativa que mistura o temor, onegativa que mistura o temor, o acanhamento e a fraqueza, e que oacanhamento e a fraqueza, e que o leva a evitar novos encontros e novasleva a evitar novos encontros e novas experiências.experiências. De seusDe seus queixumesqueixumes, aquele hábito, aquele hábito de não enxergar beleza em pessoade não enxergar beleza em pessoa alguma e em lugar algum, dealguma e em lugar algum, de colecionar somente as coisas ruinscolecionar somente as coisas ruins da vida e de reclamar contra elas oda vida e de reclamar contra elas o tempo todo.tempo todo. De suaDe sua tristezatristeza, aquela entrega, aquela entrega sinistra e passiva aos problemas reais,sinistra e passiva aos problemas reais, aos problemas de gravidade exageradaaos problemas de gravidade exagerada e aos problemas inexistentes, umae aos problemas inexistentes, uma estranha aversão à alegria.estranha aversão à alegria. Quando os cobradores do imposto para a manutenção do templo em Jerusalém perguntaram a Pedro se Jesus pagava aquela taxa, o apóstolo respondeu de pronto: “Paga, sim!” De fato, era uma obrigação imposta a qualquer israelita acima de 20 anos (Êx 30.12-14). Porque “todas as coisas foram criadas por ele e para ele” (Cl 1.16) e porque Jesus era “maior do que o templo” (Mt 12.6), o Senhor deixa claro a Pedro que ele não era obrigado a pagar o referido imposto das duas dracmas (valor equivalente ao salário pago ao trabalhador braçal por dois dias de serviço). Todavia, para não escandalizar os cobradores, Jesus desembolsou quatro dracmas para pagar a cota dele e a de Pedro. Desembolsar significa tirar da bolsa ou do bolso. Logo o verbo não é o mais apropriado. Nem Jesus nem Pedro tinham aquele dinheiro no bolso. Mas os cobradores continuavam em pé ao lado deles aguardando o pagamento do imposto. Então, Jesus ordenou a Pedro que fosse ao mar e jogasse nele o anzol, na certeza de que na boca do primeiro peixe fisgado ele encontraria um estáter, moeda que valia exatamente quatro dracmas (Mt 17.24-27). Por não ter havido troco, Jesus e Pedro continuaram sem dinheiro no bolso, mas livres do compromisso daquele dia. Isso combina com o ensino de Jesus no Sermão da Montanha: “Não fiquem preocupados com o dia de amanhã” (Mt 6.34). Em Jesus você pode confiar MarcGarridoiPuig ultimato 312.indd 31ultimato 312.indd 31 2/5/2008 12:34:562/5/2008 12:34:56
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    capa 32 ULTIMATO Maio-Junho,2008 A primeira doença do ser humano não foi física, mas espiritual. Ele desobedeceu e comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Por essa única razão, foi proibido de comer do fruto da árvore da vida, ficando assim, sujeito à enfermidade física e à morte do corpo. A doença espiritual perturba para sempre o seu relacionamento com Deus. Ele fica desconsertado diante do Criador, teme-o e esconde-se dele. A doença espiritual destrói ainda a naturalidade do homem em todos os sentidos e em todas as frentes (Gn 3). A partir daí, todos perdemos tanto a saúde espiritual como a saúde física. Essa situação doentia do caráter humano vem à tona no livro de Isaías: “E nos tornamos todos como seres impuros, e toda nossa (aparente) integridade parecia como roupas poluídas; e nós nos desvanecemos como folhas transparentes, e nossas iniqüidades nos carregam como o vento” (Is 64.5, BH). O profeta já havia falado sobre esse assunto no início do livro: “Da sola dos pés ao topo da vossa cabeça nada permanece são, cobertos que estais de feridas, equimoses e chagas putrefatas. Elas não foram tratadas, não receberam ataduras nem foram suavizadas com óleo” (Is 1.6, BH). Se no caso de Jó, “as feridas terríveis da sola dos pés ao alto da cabeça” (Jó 2.7) eram causadas por uma enfermidade física extremamente grave, no que diz respeito aos contemporâneos de Isaías, as chagas putrefatas eram causadas por uma enfermidade moral extremamente grave. Deus não se compadece apenas dos que são portadores de doenças físicas, mas também daqueles acometidos por doenças morais. O profeta Isaías descreve essa disposição terapêutica de Deus de maneira poética e elegante. Apesar de Alto e Sublime, apesar de habitar um lugar alto e santo, Deus habita também com o arrependido, para elevar o seu espírito e vivificar o seu coração, para dar novas forças aos desanimados e vontade de viver aos que estão tristes e abatidos por causa de seus pecados. Deus mesmo se expressa: “Por causa do pecado e da cobiça do meu povo, eu fiquei irado com eles e os castigarei. Na minha ira, eu me afastei deles, mas mesmo assim eles continuaram teimosos e seguiram o seu próprio caminho. Tenho visto como eles agem, mas eu os curarei e os guiarei; eu os consolarei. Nos lábios dos que choram, colocarei palavras de louvor. A todos ofereço a paz, paz aos que estão perto e aos que estão longe; eu os curarei” (Is 57.17-19, NTLH). Para que não haja a menor dúvida, é bom lembrar a história de Davi e Ezequias, reis de Israel. Os dois eram portadores de doenças terminais e ambos clamaram dramaticamente ao Senhor por cura, e ele os curou. Davi ia morrer porque havia pecado contra Deus (2Sm 12.13) e Ezequias ia morrer porque estava com uma úlcera, provavelmente maligna (2Rs 20.7). A doença de um era moral, a do outro, física. Davi queria muito que Deus o lavasse de sua culpa, o purificasse de seu pecado e apagasse todas as suas iniqüidades, o adultério com Bate- Seba e o assassinato de Urias (Sl 51). Ezequias queria muito que Deus não o fizesse passar pelas portas da sepultura no vigor de sua vida (Is 38). A pesada mão de Deus se retirou da cabeça de Davi e suas transgressões foram perdoadas (Sl 32). A sentença de morte foi retirada de Ezequias e o rei teve mais 15 anos de vida. Feridas físicas e morais da sola dos pés ao alto da cabeça stockxpert ultimato 312.indd 32ultimato 312.indd 32 2/5/2008 12:03:052/5/2008 12:03:05
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200836 EsplEspecialEspecial A dança do “quero” e “não quero” Uma das coisas mais divertidas na seção de Cartas é a dança do “quero” e “não quero”. Os que não querem receber a revista expressam seu sentimento com ardor. O mesmo acontece com os que querem. Alguns dos que querem pedem para ocupar a “vaga” dos que não querem. Da parte dos que não querem, há cartas muito educadas e outras nem tanto. Em março enviei correspondência na qual cancelava a assinatura de Ultimato. Continuei a receber a publicação. Venho, pois, renovar o pedido de cancelamento. Padre Astôr Backes Santa Cruz do Sul, RS, Agosto de 1986 Solicito uma assinatura de Ultimato. Faço-o em nome da comunidade de estudantes de filosofia e teologia de Vacaria que residem e estudam no Instituto de Teologia e Pastoral de Passo Fundo. Padre Odalberto Domingos Casonatto Passo Fundo, RS, Agosto de 1986 Recuso categoricamente o envio a mim da revista Ultimato, presente de grego, a saber, cavalo de Tróia. Witold Skwara Recife, PE, Janeiro de 2004 Sinto muito, mas não quero mais receber Ultimato. A assinatura é muito cara. Fiz uma assinatura do jornal Mundo Jovem, muito mais abrangente, por Cz$ 100,00. Sou um jovem estudante de psicologia, de religião católica. Também sou muito crítico e, mediante minha análise crítica, optei por um jornal de cultura mais elevada. Quando terminar psicologia, farei teologia e, com fé, serei um sacerdote exemplar. Agora faço uma pergunta: quem é mais preparado: um pastor que estuda só quatro anos para se formar ou um padre que passa 12 anos no seminário para se ordenar? É lógico que é o padre. Francisco de Assis da Silva* João Pessoa, PB, Outubro de 1987 Favor cancelar a remessa de Ultimato, pois não é lida aqui por ninguém. Iva Tonelli Paróquia N. S. Auxiliadora Juiz de Fora, MG, Julho de 1987 Gosto muito de ler Ultimato. Quero receber a revista, que leio quando encontro números perdidos aqui. Informo que Dom Frederico faleceu e que a Paróquia Santa Teresa não tem padre. Um desses números, se vocês aprovarem, pode ser meu. Padre Fernando Rio Grande, RS, Setembro de 1994 Resolvi não mais assinar Ultimato, pois me causou revolta ver o sr. Paulo Romeiro e companhia limitada usar a revista para falar mal de servos ungidos do Senhor. No meu entender, Ultimato está pactuando com eles. Irene Mesquita Rodrigues Sorocaba, SP, Novembro de 1994 Tenho recebido com freqüência a revista Ultimato. Faço questão de registrar meu interesse em continuar recebendo e dizer o quanto tem me ajudado em meu pastoreio. Padre Danilo Mamedes Rodrigues, Belo Horizonte, MG, Setembro de 1995 Agradeço a remessa graciosa de Ultimato e peço que continuem a me enviar a preciosa revista para meu novo endereço. Que meu sucessor, Dom Ricardo, da Diocese de Caetité, BA, não seja esquecido. Dom Antonio Alberto G. Rezende Uberaba, MG, Março de 2003 Nunca pedi esta revista Ultimato. Nunca autorizei meu endereço e nunca a li! Por favor, não percam tempo em me enviá-la. Enviem o dinheiro que estão gastando na postagem da revista para o Fome Zero. Lá, com certeza, farão melhor uso. Padre Manuel Messias Vilela, Fazenda Rio Grande, PR, Março de 2004 * Francisco de Assis da Silva, 42, foi ordenado padre em janeiro de 1997. Hoje está à frente da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Cajazeiras, PB. ultimato 312.indd 36ultimato 312.indd 36 4/5/2008 12:34:554/5/2008 12:34:55
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO37 Albânia: não há Deus A Albânia acaba de se declarar “o primeiro Estado ateu no mundo”. O país é pouco menor que o estado de Alagoas e tem 2 milhões de habitantes. O movimento ateísta dos seis últimos meses apresenta o seguinte balanço: 2.169 igrejas, mesquitas e conventos foram fechados e em sua maioria transformados em centros culturais para a mocidade. Estados Unidos: algo pior do que a bomba atômica O secretário de Estado Dean Rusk declarou que o mundo dispõe de pouco mais que uma geração para vencer a fome e o desemprego e menos de 10 anos para evitar um cataclisma. Segundo Rusk, a explosão demográfica por volta do ano 2000 poderá representar perigo maior do que a bomba atômica. vestíbulo de uma universidade até um escritório de trabalho”. O celibato será observado em grande escala pelos padres, mas o casamento será permitido, cabendo a cada um fazer a sua opção. Israel: o vale de ossos secos A crise atual, em face da secularização da vida num mundo dominado pela ciência e pelo materialismo, atingiu também o judaísmo. Por esta razão, reuniram-se, em Jerusalém, mais de 1.500 rabinos da Europa e do Mediterrâneo para estudar a forma de apresentar a fé aos fiéis de hoje. O Congresso reafirmou a necessidade da volta à ortodoxia e o estreitamento dos laços com Israel como dever religioso. Recomendou a imigração para a nova Canaã e a criação de escolas hebraicas nas comunidades judaicas do mundo. (Fonte: Ultimato, edições de janeiro a maio de 1968) Notícias de 40 anos atrás No mundo inteiro a guerra está sendo travada a cada dia, a cada hora, a cada minuto. É uma guerra diferente. Nela não há bombas, nem metralhadoras, nem armas atômicas. As armas são outras. São as letras do alfabeto colocadas em ordem, formando palavras, expressando idéias, procurando conquistar o pensamento dos homens. Walter Kaschel, diretor da Associação Brasileira de Evangelização Pronunciamentos de 40 anos atrás Japão: o vazio que a técnica não enche Cerca de 200 mil japoneses tiveram a oportunidade de ouvir as pregações do evangelista americano Billy Graham, 50 anos, durante dez dias em Tóquio. Mais de 15 mil pessoas fizeram sua decisão de aceitar Cristo como Salvador. Na última reunião, Graham declarou: “Temos percebido que há um grande vazio espiritual neste país. Os japoneses estão percebendo que o desenvolvimento da tecnologia não satisfaz os desejos íntimos do coração”. França: a igreja no ano 2000 O teólogo leigo Jean Marie Paupert, acaba de lançar em Paris um livro de conjecturas sobre a igreja no ano 2000. Segundo o autor, a eucaristia “se transformará num memorial comunitário celebrado por pequenos grupos em qualquer lugar, desde o Faço as minhas orações especialmente pela manhã, mas oro também quando estou num avião, ou enquanto guio o automóvel, ou espero um ônibus. Meu colóquio com Deus é muito simples: não lhe peço muita coisa, suplico- lhe apenas que me ajude a prosseguir em meu trabalho do melhor modo possível. Depois, rogo-lhe que proteja os meus filhos, minha mulher e toda a minha família. Dr. Christian N. Barnad, o cirurgião que fez o primeiro transplante de coração Uma das razões por que o ateísmo vem crescendo no mundo inteiro se deve ao fato de os cristãos não viverem como deveriam, dando por conseguinte uma idéia falsa do cristianismo. Cardeal Franjo Seper, da Iugoslávia, recentemente nomeado pró-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (Fonte: Ultimato, edições de janeiro a maio de 1968) ultimato 312.indd 37ultimato 312.indd 37 4/5/2008 12:35:054/5/2008 12:35:05
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200838 O scristãos se movem na história pela memória da civilização que emergiria do jardim do Éden, sem o pecado original, e pela antevisão do que teremos na Nova Jerusalém, quando os efeitos da queda forem erradicados. Já na revelação os crentes não podem deixar de atentar para a mensagem do Antigo Testamento, tendo Israel como povo de Deus: o Ano Sabático e o Ano do Jubileu, a proibição da escravidão, o amparo à viúva, ao órfão e ao estrangeiro, a terra como sendo de Deus, proibida a sua propriedade perpétua, tida como instrumento de produção para o alimento de todos. O pecado não era só individual, mas das nações, famílias e governantes. O reino de justiça e de paz tem o seu “já” na história e o seu “ainda não” após o juízo final. O primeiro fruto do Espírito Santo é o amor. Não somos salvos por obras, mas para elas, pois sem elas a fé seria morta. A igreja primitiva foi uma comunidade de partilha de bens e mordomia do que Deus nos confia. O critério de julgamento será pelas evidências éticas sociais: “tive fome”, “tive sede”. Na história da igreja esses valores foram cultivados. Entre os Pais da Igreja, Basílio, Ambrósio, João Crisóstomo, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa e Agostinho de Hipona advogaram a justiça social e o bem comum. Em seu texto Naboth e o Pobre, Ambrósio escreveu: “Não é teu o bem que distribuis aos pobres, apenas restituis o que é dele. Porque tu és o único a usurpar o que é dado a todos para o uso de todos”. A Reforma Protestante veio com o nacionalismo europeu, defendendo os interesses de cada povo contra a opressão dos poderes supranacionais: o papado e o sacro-império. A doutrina da vocação em Lutero, ou da dignidade do trabalho em Calvino — e do valor da educação para ambos — tiveram um impacto na civilização, com o capitalismo superando o modo de produção feudal, abrindo caminho para a democracia liberal e sendo criticado por movimentos como os Niveladores (1647-1650), socialistas (parlamento, cidadania, sufrágio universal, contra os monopólios), e sua dissidência, os Cavadores, comunistas, liderados por Gerrard Winstanley, autor da Lei da Liberdade. No século 17, esses evangélicos, defensores de um pós- capitalismo, acreditavam que, no que concerne aos meios de produção, “a propriedade privada, em si mesma, constituía a principal causa do mal e de todas as formas de abusos e corrupção social”. O reavivamento inglês, a partir de Wesley, incluindo o abolicionismo e o reformismo social de Wilberforce e da Paróquia Anglicana de Claphan, são marcas de uma visão integral do pecado, do evangelho e da missão, cujo legado seria dilacerado pelo que David Moberg denominou de “A Grande Reversão” — os evangélicos, reagindo ao “evangelho social”, universalista e de teologia liberal, foram para o outro extremo com um “evangelho individual” descarnado e insensível, A igreja primitiva foi uma comunidade de partilha de bens e mordomia do que Deus nos confia A mui piedosa esquerda ultimato 312.indd 38ultimato 312.indd 38 2/5/2008 12:05:362/5/2008 12:05:36
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    stockxpert Robinson Cavalcanti Dom RobinsonCavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada. <www.dar.org.br> Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 39 ambos antibíblicos. Enquanto isso surgiu uma esquerda cristã na Igreja de Roma, com os padres Lammenais e Lacordaire. A própria instituição, com a encíclica Rerum Novarum, abandonaria os seus vínculos com o absolutismo e assumiria os novos desafios sociais. Entre os protestantes, os movimentos do socialismo religioso e do socialismo cristão foram corajosas propostas. Na Igreja de Roma, pensadores como Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e Gabriel Marcel lançaram as bases do pensamento humanista cristão e do solidarismo, com grande influência no Brasil do pós-Segunda Guerra aos anos 60, agora resgatados pelos estudos de Michel Lowi. Os termos direita e esquerda surgiram na Assembléia Nacional francesa pós-revolucionária (1789) para designar os defensores e os opositores do antigo regime ou do novo regime. Naquele contexto, a então esquerda seria direita hoje. O marxismo estava longe de existir, e a ditadura do (sobre o) proletariado perseguiria o pensamento de esquerda existente antes, em separado, e depois dele, particularmente os religiosos. Harold Laski afirmou: “Democracia sem socialismo não é democracia; socialismo sem democracia socialismo não é”. Diante do aparente triunfo do pensamento único, Norberto Bobbio afirma que sempre haverá uma esquerda, formada pelos inconformados com as desigualdades não-naturais. A inconformação com os males do presente século, o compromisso com os valores do reino de Deus, a promoção da liberdade responsável, da democracia representativa e participativa, da justiça social e da soberania dos povos diante dos impérios políticos e econômicos, e de um modo de produção não baseado em um darwinismo social — com a sobrevivência dos mais fortes e mais aptos —, mas na solidariedade — com todo o capital nas mãos de todos os trabalhadores, e não do Estado ou de outros seres —, continuam a ser o ideário de milhares de nascidos de novo, piedosos e ortodoxos, no exercício responsável da cidadania, orando “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. da cristã ultimato 312.indd 39ultimato 312.indd 39 2/5/2008 12:05:582/5/2008 12:05:58
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    Ricardo Gondim ULTIMATO Maio-Junho,200840 C elebro os 40 anos da revista Ultimato. Procuro recordar o ano em que circularam as primeiras revistas. O mundo fervia: estudantes parisienses entrincheirados desafiavam o sistema educacional francês; tchecos provocavam o imperialismo russo; Martin Luther King e John Kennedy tombavam, assassinados em condições suspeitas; a América Latina amargava ditaduras militares por todo lado; a guerra do Vietnã horrorizava o planeta. O ano de 1968 foi inundado com tantos acontecimentos que ainda hoje as águas não conseguiram baixar. De lá para cá, o planeta mudou: o bloco soviético ruiu; a Ásia deixou de ser um perigo geopolítico para tornar-se a nova promessa econômica; a Europa criou sua moeda e o dólar perdeu exclusividade; o Oriente Médio ressuscitou teocracias; as grandes religiões — hinduísmo, judaísmo, cristianismo e islamismo — se viram obrigadas a lidar com fundamentalismos. Em quase meio século, a África padeceu com holocaustos semelhantes ao de Ruanda. Impotente, viu milhões serem dizimados por epidemias — aids, malária, tuberculose. Sem conseguir acabar com conflitos internos, condenou milhões à miséria — Angola, Darfur, Zimbábue. Também, desde as primeiras edições de Ultimato, computadores se tornaram utensílios domésticos e máquinas de escrever, relíquias; CD’s e DVD’s são agora siglas conhecidas. A televisão conectou o mundo via satélite. A internet revolucionou o conhecimento; hoje poucos consultam as enciclopédias, preferindo o Google. Por outro lado, o mundo percebeu que o mito do progresso cobra um preço altíssimo; e a comunidade internacional despertou: o planeta não suporta a dilapidação desenfreada do meio ambiente. Com o derretimento das calotas polares, as conseqüências do efeito estufa substituíram o pavor da guerra atômica. O mundo religioso mudou desde que o jovem Elben Lenz César escreveu os primeiros textos para a revista Ultimato. Os evangélicos cresceram velozmente e chamaram a atenção de sociólogos e teólogos; o Vaticano mostrou certa preocupação. Os pentecostais se tornaram maioria — embora já nem se diferencie os crentes entre “tradicionais” e “renovados”. Os protestantes mudaram, para o bem e para o mal. Os problemas éticos foram graves. Desde a Constituinte de 1988, pairaram suspeitas sobre as aventuras políticas dos evangélicos; na política, o amadurecimento foi pífio. Os altos custos para financiar o expansionismo de algumas igrejas acabaram enfraquecendo a reputação dos pastores, e os constantes apelos por dinheiro o s — aids, malária, tuberculose. Sem conseguir acabar com conflitos internos, condenou milhões à miséria — Angola, Darfur, Zimbábue. Também desde as primeiras ligioso mudou desde queO mundo re Lenz César escreveuo jovem Elben extos para a revistaos primeiros te Ultimato evangélicos cresceram. Os hamaram a atençãovelozmente e ch Desde 196 Há muito que celebrar. Escritores nacionais tomaram coragem e publicaram o que antes apenas pregavam; poetas musicaram poemas que lhes inspiravam; fez-se a obra missionária sem recursos estrangeiros ultimato 312.indd 40ultimato 312.indd 40 2/5/2008 12:06:082/5/2008 12:06:08
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    Ricardo Gondim épastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. <www.ricardogondim.com.br> Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 41 em programas de rádio e televisão viraram alvo de piadas. A espiritualidade revelou sintomas preocupantes. Alastraram-se devoções utilitárias e muitas igrejas passaram a funcionar como centros de auto-ajuda; com os crentes ávidos por “conseguir” uma bênção, correntes de oração se popularizaram. Se antigamente havia testemunho de mudança de vida, passou-se a relatar milagres de prosperidade e de solução de problemas corriqueiros. Sermões antropocêntricos pareciam querer fazer de Deus um servo obediente. Contudo, há muito que celebrar depois de 40 anos. Escritores nacionais tomaram coragem e publicaram o que antes apenas pregavam; poetas musicaram poemas que lhes inspiravam; até as controvérsias teológicas revelaram a liberdade dos pensadores de se desvencilharem das matrizes denominacionais; fez-se a obra missionária sem recursos estrangeiros; criaram-se ONG’s para defender desde crianças carentes até o meio ambiente. Devem-se festejar, principalmente, as ações anônimas de milhões de leigos que encarnam a doutrina do sacerdócio universal dos crentes. Eles visitaram penitenciárias e hospitais, levando esperança para milhões; criaram creches, clínicas para recuperação de toxicômanos e asilos para idosos; evangelizaram e discipularam empresários, atletas e artistas. Nos conflitos e paradoxos da história, nessa ambivalência humana, nos perigos do mundo, a revista Ultimato se tornou um marco dos princípios do evangelho, sempre provocando reflexão e sempre na defesa da vida. O futuro da humanidade promete ser tenso, ameaçador e bem mais complexo. Que a revista insista em seu ultimato para que os cristãos não se esqueçam da sua vocação: serem “astros e luzeiros em meio a uma geração corrompida e perversa”. Parabéns. Toda a equipe da revista Ultimato merece uma salva de palmas. Continuem! Vocês se tornaram uma dádiva para que lusófonos sejam enriquecidos com informações, reflexões e crônicas da melhor qualidade. Soli Deo Gloria. em programas de rádio e televisão viraram alvo de piadas. A espiritualidade revelou sintomas preocupantes. Alastraram-se devoções utilitárias e muitas igrejas passaram a penitenciárias e hospitais, levando esperança para milhões; criaram creches, clínicas para recuperação de toxicômanos e asilos para idosos; evangelizaram e discipularam 968 ultimato 312.indd 41ultimato 312.indd 41 2/5/2008 12:08:072/5/2008 12:08:07
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200842 ValdirSteuernagel edescobrindo a Palavra de DeusR Como será que está a Maria? Será ela carrega o vírus da aids no seu c O cenário parece demasiado difícil para ser verdadeiro, mas o é, na sua crueza e no desenho de uma realidade de vida que de tão real deveria ser proibida. O teto da casa havia caído e a “família” se mudou para uma casa emprestada pelo vizinho. Mas tanto a casa caída como a casa em pé pareciam vazias. As pessoas dormiam no chão, em cima de qualquer pano, e roupa para guardar não havia. A cozinha era do lado de fora de casa, onde se fazia um pequeno fogo no chão. Num dia porque o vizinho trazia alguma coisa. Noutro porque se havia catado algumas bananas. E depois de amanhã... quem sabe nem vai se fazer fogo. A família era formada de quatro irmãos. Maria, então com 6 anos, era a mais nova. Tenho saudades dela e o meu coração chora quando penso nela: seus olhos pediam acolhimento e seu rosto expressava abandono. Ela não tinha quem cuidasse dela nem de suas roupas. Ambos os pais haviam morrido por complicações causadas pelo vírus da aids e estavam enterrados no fundo do quintal. Agora os quatro irmãos tinham um ao outro, a casa emprestada, algum outro vizinho que se lembrava deles de vez em quando e a pessoa da Visão Mundial que passava por lá uma vez por semana. Nem sei o nome do menino A família já havia tentado de tudo e nada dava jeito. O menino parecia um caso sem solução. Desde pequeno tinha convulsões. Virava os olhos e espumava pela boca, e isso gerava muitos comentários na vizinhança. Quando isso acontecia, a mãe do menino ficava muito triste. O pai estava sempre à procura de ajuda. O fato já não era familiar, mas comunitário, público. Isso se tornou ainda mais claro quando o pai levou o menino a alguns homens que apareceram na vila e de quem as pessoas estavam dizendo coisas boas e impressionantes. Porém, colheu apenas decepção e muito barulho, só conseguindo o que ele não precisava: ser caso de análise. O evangelho de Marcos (9.14-27) fala dessa cena e de como Jesus foi averiguar o que estava acontecendo e se viu diante de um pai desesperado, segurando pela mão um menino cujos olhos pareciam carregar um enorme cansaço. E assim Jesus entra na história dessa família. Pergunta pelo quadro do menino. Faz um diagnóstico da situação. Quando, mais tarde, o pai chega em casa segurando o menino pela mão, a mãe olha e chora. É o choro de uma mãe que tem uma profunda angústia aliviada, um choro com cara de riso. Pelo semblante do marido e pelos olhos do menino ela sabe que algo aconteceu, e o que aconteceu lhe devolveu um menino diferente, um menino liberto, curado, tocado por Jesus. O sexto Objetivo do Milênio é “combater a aids, a malária e outras doenças” ultimato 312.indd 42ultimato 312.indd 42 2/5/2008 12:08:342/5/2008 12:08:34
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    PixelBoy Maio-Junho, 2008 ULTIMATO43 Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas. rá que u corpo? Quando, tarde da noite, os pais ainda sem conseguir dormir começam a conversar, o assunto é um só: esse Jesus que se preocupou com o nosso menino é “coisa de outro mundo”. Ontem foi o menino, agora é a Maria O sexto Objetivo do Milênio é “combater a aids, a malária e outras doenças”. Com estes objetivos, a Organização das Nações Unidas está diagnosticando os principais problemas que acometem a vida no e do planeta e convocando todas as nações do mundo a se engajarem no alcance de objetivos cujo cumprimento visa melhorar a vida das pessoas e da comunidade humana. O Brasil está entre os países que se comprometeram a alcançar estes objetivos e, no combate à aids, tem ganhado um enorme destaque positivo. É o primeiro país em desenvolvimento a proporcionar acesso universal e gratuito ao tratamento da aids na rede pública de saúde. Porém, no que diz respeito a “outras doenças”, o Brasil não vai tão bem. Enquanto escrevia este artigo, li a trágica notícia de que “as forças armadas começam a erguer hospitais para tratar pacientes com dengue no Rio”. A dengue, a malária, a febre amarela, machucam e matam muitas pessoas neste Brasil de contradições sociais. Comecei este artigo preocupado em mostrar dados, abundantes e assustadores. Porém, abandonei os números e voltei a olhar para a Maria e a caminhar em direção a Jesus. É significativo o número de vezes em que Jesus está cercado de pessoas doentes, fragilizadas e paralisadas pelas dificuldades da vida. Sua presença e sua palavra são sempre de esperança. Esperança de restauração e de encontro com o shalom de Deus, no qual a saúde tem lugar especial. Assim, engajar-se no cumprimento deste objetivo do milênio é caminhar com Jesus e em nome de Jesus pelas casas de teto caído e ir ao encontro de pais desesperados com os conflitos dos seus filhos, para que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10). ultimato 312.indd 43ultimato 312.indd 43 2/5/2008 12:08:522/5/2008 12:08:52
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    história Alderi Souza deMatos ULTIMATO Maio-Junho, 200844 E las ocupam um enorme espaço na televisão aberta, chegando a milhões de lares brasileiros todos os dias. As três mais conhecidas e salientes têm nomes parecidos — Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus. Esses nomes apontam para objetivos ousados e ambiciosos. Seus líderes máximos adotam, respectivamente, os títulos de bispo, missionário e apóstolo. Elas são o fenômeno mais recente, intrigante e explosivo do “protestantismo” tupiniquim. Trata-se das igrejas neopentecostais, denominadas por alguns estudiosos “pentecostalismo autônomo”, em virtude de seus contrastes com os grupos mais antigos desse movimento. É difícil categorizá-las adequadamente, não só por serem ainda recentes, mas porque, ao lado de alguns traços comuns, também apresentam diferenças significativas entre si. A Igreja Mundial investe fortemente na cura divina. Seu apóstolo garante que ninguém realiza mais milagres do que ele. Seu estilo é personalista e carismático. Caminha no meio dos fiéis, deixa que as pessoas recolham o suor do seu rosto para fins terapêuticos, às vezes é ríspido com os auxiliares. O missionário da Igreja Internacional é simpático e bonachão; parece um pastor à moda antiga. É também polivalente: prega, canta, conta piadas, anuncia produtos e serviços. Controla com rédea curta o seu pequeno império. Todavia, nenhuma dessas igrejas vai tão longe na ruptura de paradigmas quanto a IURD. Dependendo do ângulo de análise, parece protestante ou católica. Seu carro-chefe é a teologia da prosperidade. Defende sem pejo a ética da sociedade de consumo. Seu líder está entrando na lista dos homens mais ricos do país. Desde o início, o cristianismo tem exibido uma grande variedade de manifestações, algumas bastante inusitadas. Foi o caso do gnosticismo e do marcionismo nos primeiros séculos, das seitas apocalípticas na Idade Média e de alguns grupos resultantes dos reavivamentos nos Estados Unidos do século 19. Porém, nenhum movimento tem sido tão pródigo em termos de quantidade e diversidade de ramificações quanto o pentecostalismo contemporâneo. No atual ambiente pluralista e inclusivista, muitos observadores vêem nessa multiplicidade um sinal de vitalidade, de dinamismo. Todavia, há sinais preocupantes nos ensinos e práticas de certos grupos. Na célebre Confissão de Fé de Westminster (1647), os puritanos ingleses colocaram a questão em termos de diferentes A integridade do evangelho: uma avaliação do neopentecostalismo ultimato 312.indd 44ultimato 312.indd 44 2/5/2008 12:08:582/5/2008 12:08:58
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO45 Em muitas igrejas neopentecostais a Bíblia se torna um joguete, uma peteca lançada para lá e para cá ao sabor das conveniências. Os textos bíblicos são usados de modo mágico, como se fossem amuletos ou talismãs, como se tivessem um poder imanente e intrínseco graus de pureza das igrejas cristãs — cap. 25.4,5 (igrejas mais puras e menos puras). Uma avaliação simpática e honesta das igrejas neopentecostais aponta para alguns aspectos que precisam ser reconsiderados a fim de que elas se tornem genuínos instrumentos do evangelho de Cristo. O problema hermenêutico Uma grave deficiência dessas novas igrejas está na maneira como interpretam a Bíblia. Os reformadores protestantes insistiram no valioso, porém arriscado, princípio do “livre exame das Escrituras”, ou seja, de que todo cristão tem o direito e o dever de ler e estudar por si mesmo a Palavra de Deus. Acontece que muitos viram nisso uma licença para a livre interpretação do texto sagrado, o que nunca esteve na mente dos líderes da Reforma. Eles lutaram contra uma abordagem individualista e tendenciosa da Escritura, insistindo na adoção de princípios equilibrados de interpretação que levavam em conta o sentido literal e gramatical do texto, a intenção original do autor, o contexto histórico das passagens e também a tradição exegética da igreja. Por essas razões, eles rejeitaram o antigo método de interpretação alegórica, isto é, a busca de sentidos múltiplos na Escritura, por entenderam que ela obscurecia e distorcia a mensagem bíblica. Em muitas igrejas neopentecostais nada disso é levado em consideração. A Bíblia se torna um joguete, uma peteca lançada para lá e para cá ao sabor das conveniências. Tomam-se diferentes declarações, episódios e símbolos bíblicos e, sem esforço algum de interpretação, passa-se diretamente para a aplicação, muitas vezes de uma maneira que nada tem a ver com o propósito original da passagem. O que é ainda mais grave, os textos bíblicos são usados de modo mágico, como se fossem amuletos ou talismãs, como se tivessem um poder imanente e intrínseco. A Bíblia é encarada prioritariamente como um livro de promessas, de bênçãos, de fórmulas para a solução de problemas, e não como a revelação especial na qual Deus mostra como as pessoas devem conhecê-lo, relacionar-se com ele e glorificá-lo. Uma nova linguagem Na sua releitura da Bíblia, os neopentecostais por vezes criam uma nova terminologia, muito diferente dos conceitos bíblicos tradicionais. Privilegiam-se expressões como “exigir nossos direitos”, “manifestar a fé”, “declarar a bênção”, todos os quais apontam para uma espiritualidade antropocêntrica, ou seja, voltada para as necessidades, desejos e ambições dos seres humanos, e não para a vontade e a glória de Deus. Alguns dos temas bíblicos mais profundos e solenes redescobertos pelos reformadores do século 16 são quase que inteiramente esquecidos. Não mais se fala em pecado, reconciliação, justificação pela fé, santificação, obediência. O evangelho corre o risco de ficar diluído em uma nova modalidade de auto- ajuda psicológica, deixando de ser “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”. O conceito de fé talvez seja aquele que esteja sofrendo as maiores distorções. No discurso de muitas igrejas do pentecostalismo autônomo, a fé se torna uma espécie de poder ou varinha de condão que as pessoas utilizam para obter as bênçãos que desejam. Deus ultimato 312.indd 45ultimato 312.indd 45 2/5/2008 12:09:402/5/2008 12:09:40
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    Alderi Souza deMatos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. <asdm@mackenzie.com.br> ULTIMATO Maio-Junho, 200846 fica essencialmente passivo até que seja acionado pela fé do indivíduo. É verdade que Jesus usou uma linguagem que aparentemente aponta nessa direção (“tudo é possível ao que crê”, “vai, a tua fé te salvou”). Mas o conceito bíblico de fé é muito mais amplo, a ênfase principal estando voltada para um relacionamento especial entre o crente e Deus. Ter fé significa acima de tudo confiar em Deus, depender dele, buscar a sua presença, aceitar como verdadeiras as declarações da sua Palavra. O objeto maior da fé não são coisas, mas uma pessoa — o Deus trino. Fundamento questionável A teologia da prosperidade, que serve de base para boa parte da pregação e das práticas neopentecostais, é uma das mais graves distorções do evangelho já vistas na história cristã. Essa abordagem teve início nos Estados Unidos há várias décadas, sob o nome de “health and wealth gospel”, ou seja, evangelho da saúde e da riqueza. No neopentecostalismo, essa se torna a principal chave hermenêutica das Escrituras. Tudo passa a ser visto dessa perspectiva reducionista acerca do relacionamento entre Deus e os seres humanos. O raciocínio é que Cristo, através da sua obra na cruz, veio trazer solução para todos os tipos de problemas humanos. Na prática, acaba se dando maior prioridade às carências materiais e O grande problema está nas megaigrejas e seus líderes centralizadores, ávidos de fama, poder e dinheiro. Estes precisam arrepender-se e voltar às prioridades da mensagem cristã emocionais, em detrimento das morais e espirituais, muito mais importantes. Tradicionalmente, as maiores bênçãos que o homem podia receber de Deus incluíam o perdão dos pecados, a reconciliação, a paz interior e, num sentido mais amplo, a salvação. Dentro da nova perspectiva teológica, as coisas mais importantes que Deus tem a oferecer são um bom emprego, estabilidade financeira, uma vida confortável, felicidade no amor e coisas do gênero. É uma nova versão da tese do sociólogo alemão Max Weber, segundo o qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência da sua eleição. Os problemas da teologia da prosperidade são diversos: (a) falta de suporte bíblico — a Escritura aponta na direção oposta, mostrando a armadilha em que caem os que se preocupam com as riquezas; (b) empobrecimento da relação com Deus, concebida em termos interesseiros e mercantilistas; (c) incentivo a atitudes de individualismo, egocentrismo e falta de solidariedade; (d) tendência para a alienação quanto aos problemas da sociedade. Conclusão O neopentecostalismo representa um grande desafio para as igrejas históricas e mesmo para as pentecostais clássicas. Esse movimento tem encontrado novas formas de atrair as massas que não estão sendo alcançadas pelas igrejas mais antigas. Nem todos os grupos padecem dos males apontados atrás. Muitas igrejas neopentecostais são modestas, evangelizam com autenticidade e não se rendem à tentação dos resultados rápidos, dos projetos megalomaníacos e dos métodos incompatíveis com o evangelho. O grande problema está nas megaigrejas e seus líderes centralizadores, ávidos de fama, poder e dinheiro. Estes precisam arrepender- se e voltar às prioridades da mensagem cristã, buscando em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, para que então as demais coisas lhes sejam acrescentadas. ultimato 312.indd 46ultimato 312.indd 46 2/5/2008 12:10:122/5/2008 12:10:12
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    Entrevista: Raimundo CésarBarreto Júnior Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 47 A os 41 anos, o salvadorense Raimundo César Barreto Jr. já conseguiu muita coisa na vida. O pulo inicial aconteceu quando ele tinha 5 anos e entregou sua vida a Jesus, decisão que ele faz questão de renovar todos os dias. O outro pulo importante foi quando abandonou a universidade e um bom emprego na Petrobrás e se matriculou no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Depois de ser ordenado pastor batista, aos 26 anos, Raimundo teve o privilégio de fazer doutorado em ética social no Seminário Teológico de Princeton. Casado, dois filhos, hoje ele é pastor da Igreja Batista Esperança, em Salvador, BA, professor do Seminário Batista de Recife e da Universidade Regional da Bahia, e coordenador-geral do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. do Brasil, em Salvador. Por ser uma das maiores autoridades em Martin Luther King Jr., Ultimato fez com ele a seguinte entrevista, a propósito do 40º aniversário do assassinato do mais notável defensor cristão de mudanças sociais por vias não-violentas dos Estados Unidos, agora em abril. O sucesso da não-violência Especialista em ética social lembra que Martin Luther King Jr. resistia aos sistemas injustos com o firme compromisso de nunca atingir a dignidade humana do oponente Ultimato — Quem fez mais pelos direitos civis dos norte-americanos: o presidente Abraham Lincoln ou o pastor batista Luther King? Raimundo César — Não gosto de fazer comparações valorativas entre pessoas que viveram em épocas e mundos diferentes. Estamos diante de dois dos mais importantes líderes que os Estados Unidos já tiveram. E arrisco dizer que eles se complementam. A emancipação proclamada por Lincoln, pondo fim à escravidão, não se materializou totalmente, especialmente no sul do país, até que a luta pelos direitos civis, liderada por Martin Luther King Jr., conseguisse banir a segregação e sua afirmação de “iguais, mas separados”, um terrível regime de apartheid racial, comparável ao que a África do Sul conheceu. Vale salientar, porém, que se trata de dois tipos diferentes de liderança. Lincoln foi um político, um presidente, que teve a coragem de liderar a nação num dos períodos mais críticos de sua história. A liberdade de todos era, a seu ver, um fator sine qua non para o avanço do país. Luther King, apesar de ser um líder de um vasto movimento social que lutava pelos direitos civis dos negros norte-americanos, via a si mesmo antes de tudo como profeta e pastor. Referia-se a si mesmo como um pastor tentando salvar a alma de sua nação. Recusou ofertas para se candidatar a cargos públicos, preferindo o papel que o marcou na história, o de líder moral, ou, no dizer de alguns, de consciência moral da nação. Cornel West diz que ele foi o maior profeta da história dos Estados Unidos e se tornou uma inspiração para muitos outros líderes na luta contra a injustiça ao redor do mundo. Ultimato — Os historiadores dizem que o ensaio do americano Henry David Thoreau sobre o dever da desobediência civil, a política pacifista do indiano Mahatma Gandhi e a teologia existencialista do alemão Paul Tillich exerceram grande influência sobre o jovem Luther King. Como o senhor vê essa tríplice influência? Raimundo César — Antes de comentar essa tríplice influência, devo lembrar que a mais marcante influência no pensamento do dr. King foi a tradição profética da igreja negra (Black Church) nos Estados Unidos. Não podemos entender Luther King se perdermos isso de vista. Ele é fruto dessa tradição, ultimato 312.indd 47ultimato 312.indd 47 2/5/2008 15:07:232/5/2008 15:07:23
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    Embora fosse olíder de um vasto movimento social que lutava pelos direitos civis dos negros norte- americanos, Martin Luther King Jr. via a si mesmo, antes de tudo, como profeta e pastor ULTIMATO Maio-Junho, 200848 na qual se vê totalmente imerso, como neto, filho e genro de pastores batistas negros. A Black Church é tida como a mais importante instituição dos negros norte-americanos, pois foi a primeira instituição fundada por eles, onde estavam fora dos auspícios e da vigilância dos brancos. Por isso, todas as lutas por direitos civis e sociais, especialmente no sul do país, tiveram a igreja como base. Quando Rosa Parks foi presa, causando comoção à população negra de Montgomery, no Alabama, foi numa igreja que os líderes negros da cidade se reuniram e tomaram a decisão de fazer um boicote ao sistema de transporte público, que durou mais de onze meses. Foi nesse contexto que Luther King foi escolhido como porta-voz do movimento, aos 26 anos, tornando-se, assim, o seu líder até o seu assassinato, treze anos depois. Por outro lado, ele foi um estudioso. Fez doutorado numa excelente universidade, entrando em contato com diversas escolas de pensamento. Uma de suas características era a preocupação de pôr os pensamentos que lhe impactavam em suas leituras em diálogo com sua realidade. A capacidade de traduzir conceitos abstratos numa linguagem compreensível pelas pessoas mais simples lhe possibilitou funcionar como um intelectual orgânico, catalisando em torno do movimento pessoas de todas as classes. O pensamento de Henry David Thoreau foi uma importante influência nesse contexto, pois forneceu a King o conceito de desobediência civil, que ele passou a usar como estratégia das suas lutas. A idéia de que há um imperativo moral que nos obriga à não-cooperação com o mal foi chave para ele. Todos os passos dados por King na liderança do movimento foram fundamentados numa boa dose de reflexão. Ao liderar, por exemplo, boicotes, ele queria deixar claro que estava usando meios justos para alcançar um fim justo. Influenciado por Thoreau e Tomás de Aquino, ele concluiu que temos o dever moral de obedecer a leis justas, mas quando se trata de uma lei injusta, que viola a dignidade humana, somos chamados a resisti- la. Paul Tillich foi outra influência importante sobre King; afinal, ele escreveu sua tese de doutoramento sobre Tillich. A principal influência talvez tenha vindo de um livro em que Tillich relaciona os conceitos de amor, justiça e poder. Tillich enxergava o amor como fundação do poder, não sua negação. Essa concepção da relação entre amor e poder se tornou essencial no pensamento de King. Além do mais, Tillich afirmava a primazia de Deus sobre todas as outras coisas no universo, o que certamente contribuiu para o conceito de “companhia cósmica” desenvolvido por King, quando afirmava que aquele que luta pela justiça nunca está sozinho, tem companhia cósmica. Ele dizia que o arco do universo é longo, mas se inclina na direção da justiça. Essa primazia do divino contribuiu muito para os momentos mais críticos e desesperadores da caminhada. Gandhi também exerceu forte influência sobre King através de sua estratégia de resistência não violenta, inspirada no conceito de satyagraha, força da verdade ou força da alma, em diálogo com os ensinamentos de Jesus no Sermão do Monte. Para Gandhi, a força física dos opressores deveria ser enfrentada com a força da verdade daqueles que lutam por justiça. King viu nesse método a aplicação prática da doutrina cristã do amor de uma maneira que ele nunca tinha encontrado em nenhum pensador cristão. Foi nesse contexto que ele afirmou: “Jesus me deu a inspiração e Gandhi me deu o método”. King acreditava que por trás de todas as coisas existe uma força benevolente no universo, um Deus justo e amoroso. Sendo assim, a sua luta deveria se dirigir na direção da realização desse propósito amoroso. As armas de sua luta deveriam ser coerentes com este propósito. O amor se transformava em instrumento de transformação social. A resistência não violenta significava o compromisso de nunca atingir a dignidade humana do oponente, de resistir aos sistemas injustos sem, porém, se permitir descer ao ponto de odiar o próximo, mesmo que ele estivesse do outro lado da luta sendo travada. É interessante como Gandhi, não-cristão, teve uma percepção acurada dos ensinamentos de Jesus. King percebeu isso. Perguntado certa vez sobre qual seria o maior inimigo do cristianismo na Índia, Gandhi teria respondido: os cristãos! Ultimato — O teólogo inglês John Stott ensina que o verdadeiro líder não é individualista ultimato 312.indd 48ultimato 312.indd 48 2/5/2008 15:07:442/5/2008 15:07:44
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    King via noracismo, na pobreza e no militarismo três faces de um mesmo mal. Não adiantaria lutar contra o racismo apenas, esquecendo a injustiça social Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 49 e, por isso, inspira as pessoas a seguir sua liderança, pois entende que sua função depende da cooperação de todos (A Bíblia Toda, O Ano Todo, p. 131). Luther King se enquadra nessa perspectiva? Raimundo César — Tive a oportunidade de ouvir pessoalmente alguns líderes que trabalharam junto com King, inclusive Andrew Young, um de seus auxiliares mais próximos. É muito claro que King foi um líder que não apenas trabalhou em equipe, mas inspirou seus liderados. Ele tinha a coragem moral de não se omitir diante do perigo. Um de seus biógrafos conta que numa das marchas eles foram informados que haveria um atentado contra a vida dele. Seus companheiros lhe deram a oportunidade de não prosseguir à frente da marcha, mas ele se recusou, seguindo à frente. Sabendo do risco, um de seus auxiliares convidou todos os pastores negros que participavam da marcha que estavam usando terno na mesma tonalidade do de King para se juntarem a ele, formando uma parede de pessoas, que marchavam ao seu lado, de braços dados, colocando-se também em perigo, a fim de confundir um possível atirador. Esse episódio fala muito sobre o tipo de líder que o dr. King era. Por não fugir dos momentos difíceis, tendo, inclusive, sido preso inúmeras vezes, ele ganhava autoridade moral para liderar o movimento, inspirando seus seguidores. Ele também assumiu posições difíceis, mesmo quando isso significava a perda de apoio e admiração, como foi o caso de seu protesto contra a guerra no Vietnã. Por achá-la moralmente equivocada e por entender que não podia se calar diante de um mal que tinha ligações com o mal do racismo e da pobreza que combatia em casa, ele abriu a boca denunciando o erro dessa guerra, mesmo contra a vontade de seus companheiros. Eles achavam que perderiam o apoio — conseguido a duras penas — do governo e até mesmo de parte da população ao movimento. Em resposta a eles, King afirmou: “Passei toda a minha vida lutando contra a segregação de espaços públicos; como poderia segregar a minha consciência agora?” Ultimato — Em Para Onde Vamos Daqui: caos ou comunidade?, seu último livro, Luther King esboçou uma agenda com três objetivos: a queda do racismo, a queda da guerra e a queda da pobreza. A humanidade já alcançou esses alvos? Raimundo César — King via no racismo, na pobreza e no militarismo três faces de um mesmo mal. Não adiantaria lutar contra o racismo apenas, esquecendo o problema da pobreza, da injustiça social. E esses dois problemas também estavam ligados ao problema do militarismo, em que seu país exercia um papel extremamente negativo tanto no Vietnã quanto nas alianças que fazia com as elites latino-americanas. King via tanto a justiça quanto a injustiça como sendo indivisíveis. Isso o levava a associar os problemas domésticos aos internacionais. Costumava dizer que “o mal que afeta a um diretamente afeta a todos indiretamente”, “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares” e “ou nós aprendemos a viver juntos como irmãos e irmãs, ou pereceremos todos juntos, como tolos”. Claro, esses males continuam existindo. A pobreza extrema ainda é a realidade de grande parte da população mundial. Não por coincidência, em âmbito mundial as populações de pele mais escura estão, em sua maioria, na parte inferior da escala social e econômica, e as de pele mais clara, em regra, no topo dessa escala. Ou seja, a pobreza e o racismo continuam de braços dados. Não basta combatermos a pobreza. Precisamos nos dar conta do elemento racista que ela esconde. E o militarismo continua em voga sob a liderança dos Estados Unidos. King criticava o fato de seu país estar matando os vietnamitas morenos do outro lado do mundo. Hoje podemos dizer o mesmo dos afegãos e iraquianos, atuais vítimas do militarismo norte- americano. A visão ético-teológica de King pode nos ajudar no enfrentamento desses males, que ele chamava de irmãos gêmeos, além de outros que ele não percebeu em sua época, como o sexismo e os problemas ambientais. Todos estão interligados. Ultimato — O legado de Luther King ainda é relevante, quarenta anos depois de sua morte? Raimundo César — A partir do que acabo de dizer, fica claro que o legado de King continua sendo relevante hoje. Em alguns casos, ele teve uma ultimato 312.indd 49ultimato 312.indd 49 2/5/2008 15:07:492/5/2008 15:07:49
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200850 percepçãoadiante do seu tempo. Para mim, ele teve uma visão tão profunda da inter-relação da vida e da comunhão geográfica que o processo de globalização nos leva a experimentar, que parece que ele estava falando em alguns momentos não para a sua própria geração, mas para a nossa. Mais ainda, ele continua sendo uma grande inspiração para líderes e movimentos em várias partes do mundo, o que mostra a sua atualidade. O historiador afro-americano Vicent Harding, falando dessa significância de King para as lutas atuais, escreveu: “King vive... nós o vimos enfrentando os tanques na praça de Tiananmen, dançando sobre o muro trêmulo em Berlim, cantando em Praga, vivo nos olhos de Nelson Mandela... Ele vive dentro de nós, aqui mesmo... onde quer que suas batalhas não concluídas são retomadas por nossas mãos”. James Cone, outro pensador negro americano, diz que o legado de King, que sempre se identificou com os marginalizados, pertence especialmente ao chamado “terceiro mundo”, ao mundo dos pobres e deserdados. Especialmente para estes, seu legado continua sendo inspirador. Ultimato — Quarenta anos depois do assassinato de Luther King num hotel em Memphis, no Tennessee, no dia 4 de abril de 1968, os Estados Unidos têm um candidato negro à presidência do país. Trata-se de mais uma dívida da democracia com a pessoa e a obra de Luther King? Raimundo César — Não é a primeira vez que os Estados Unidos têm um candidato negro à presidência. Há registros de que o próprio King teria sido convidado a concorrer como uma alternativa a Johnson e Nixon, em 1968, mas recusou. Jesse Jackson e Arl Sharpton, ambos ligados ao movimento pelos direitos civis, foram candidatos, mas sem chances reais de ganhar. Barack Obama talvez seja o primeiro candidato negro com chances reais de ganhar uma corrida presidencial nos Estados Unidos. Apesar de ele não ter raízes no movimento liderado por King, como os outros dois, ele resgata muito mais os ideais pelos quais King lutou que qualquer outro líder desde a sua morte. Sua capacidade de energizar o público como um dos melhores oradores na política norte- americana contemporânea, sua origem inter-racial e seu apelo ao resgate do sonho perdido (depois de oito anos de uma presidência que dividiu o país no meio, instaurando o medo como norma e isolando a nação do resto do mundo) o aproximam muito de King. O fato de ter pai africano, de já ter vivido fora dos Estados Unidos, de ter inclinação para mediar e unir, mais do que dividir, também coloca Obama dentro do legado de King, com sua visão de conexão entre os problemas internos e as questões internacionais. Mas ainda resta ver se o país está pronto para eleger um negro com essas características como presidente. Ultimato — Em outubro de 1962, Luther King, negro e protestante, com 33 anos, e John Kennedy, branco e católico, com 45, se encontraram na Casa Branca para uma conferência sobre direitos civis. No ano seguinte, Kennedy foi assassinado e, menos de seis anos depois, o mesmo aconteceu com Luther King. O democrata Barack Obama também corre o risco de ser assassinado, como se diz à boca pequena? Raimundo César — Eu gostaria de crer que desde os anos 60 as coisas mudaram e que não haveria espaço para esse tipo de conspiração hoje nos Estados Unidos. No entanto, o fundamentalismo e os extremismos estão mais vivos do que nunca. Normalmente, os loucos e fanáticos produzidos por esses movimentos se sentem ameaçados por líderes mais inovadores, de mentalidade menos beligerante e mais conciliadora, como John Kennedy e Martin Luther King. O próprio Gandhi também foi assassinado assim. Nos anos 60, muitos foram os líderes negros assassinados nos Estados Unidos. Quando Kennedy morreu, King teria dito à sua esposa que sabia que não sairia vivo daquela revolução. Mas nem isso o deteve. Ele trabalhou intensamente por mais seis anos, deixando marcas profundas na vida de sua nação, como o Civil Rights Act, de 1964, lei que garantia o direito de votar dos negros, alcançado graças ao movimento liderado por King. Não dá para dizer o que aconteceria se Obama fosse eleito, mas caso isso ocorra, devemos pedir a Deus que ele possa completar seu mandato e venha a ser um presidente menos arrogante que o atual e mais sensível para com as relações e necessidades da comunidade internacional, especialmente na América Latina. Apesar de não ter raízes no movimento liderado por King, Barack Obama resgata muito mais os ideais pelos quais King lutou que qualquer outro líder desde a sua morte ultimato 312.indd 50ultimato 312.indd 50 2/5/2008 15:07:552/5/2008 15:07:55
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO51 Ultimato — Se estivesse vivo hoje, Luther King se oporia à guerra do Iraque? Raimundo César — Sem dúvida alguma. Além de sua visão não violenta de mundo (King não era doutrinariamente pacifista, mas adotava a não-violência como estilo de vida e estratégia de mudança social), ele jamais aceitaria a falácia da guerra justa vendida pelo governo Bush. Ele se empenharia para mostrar a injustiça desta guerra. Aliás, suas palavras têm constado entre as mais inspiradoras declarações lidas por aqueles que têm se mobilizado contra a guerra. Quando a invasão ao Iraque aconteceu, eu estava nos Estados Unidos e participei de algumas marchas com milhares de pessoas, em Washington, contra a guerra. Muitos dos líderes desse movimento pela paz que conheci, que se tornou o maior movimento desse tipo desde os movimentos contra a guerra no Vietnã, eram pastores, que se colocavam dentro do legado de King. Seus filhos e sua esposa, que já morreu, também participaram de alguns desses protestos, e suas palavras têm permeado o movimento. Ultimato — Qual é a sua opinião sobre as acusações de que Luther King teria tido casos extraconjugais? Raimundo César — Eu não posso dizer com convicção que estas acusações sejam verdadeiras, pois as fontes não são isentas. Tais informações vêm, na sua maior parte, de tapes postos pelo FBI nos quartos de hotel onde King se hospedava, nos últimos anos de sua vida. Nesse período, especialmente por causa de sua posição contra a guerra no Vietnã, o governo norte- americano se mostrava profundamente incomodado com suas críticas. Por isso o FBI passou a persegui-lo, tentando encontrar evidências que o desmoralizassem ou inibissem a sua liderança. Independentemente disso, é possível que casos extraconjugais tenham acontecido, sim. Se de fato aconteceram, isso evidenciaria, talvez, uma fraqueza moral em King. No entanto, isso jamais deve ser usado como justificativa para que olvidemos as importantes contribuições que ele nos deixou através de sua vida e de seu compromisso com o evangelho e com a transformação da sociedade. Devemos lembrar que a própria Bíblia não esconde as fraquezas morais de grandes líderes como Abraão e Davi, e nem por isso eles perdem o valor como personagens cujas vidas e palavras nos inspiram a caminhada. Para concluir, uma pergunta que sempre me faço quando penso nesse tema é a seguinte: se o serviço de inteligência mais poderoso do mundo estivesse na nossa cola dia e noite, por vários anos, o que encontraria na nossa intimidade? Ultimato — Qual é o propósito do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. do Brasil, com sede em Salvador? Raimundo César — O Martin Luther King Jr. do Brasil é uma organização sem fins lucrativos inspirada no legado de King, que se propõe a acompanhar de forma solidária e profética o povo brasileiro, suas igrejas e organizações populares no desenvolvimento de uma participação social consciente, organizada e crítica que vise construir uma sociedade mais justa e igualitária. A organização realiza e propicia processos educativos de ação-reflexão e de comunicação, bem como de acompanhamento e articulação de atores sociais e de solidariedade em âmbito local, nacional e internacional. Pretende capacitar pessoas, igrejas e outras organizações populares para que possam responder eticamente aos desafios cruciais da realidade contemporânea. Entre as atividades em que o Martin Luther King Jr. do Brasil atua ou apóia estão a pesquisa, a reflexão, o treinamento, a comunicação e a práxis em áreas relacionadas à justiça social, pobreza, racismo, sexismo, meio ambiente, violência urbana, saúde, educação e direitos civis e humanos em geral. ultimato 312.indd 51ultimato 312.indd 51 2/5/2008 15:07:592/5/2008 15:07:59
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    Ricardo Barbosa deSousa ULTIMATO Maio-Junho, 200852 Tudo em comum N o livro dos Atos dos apóstolos há um pequeno trecho que descreve de forma magnífica a natureza e qualidade de vida da primeira comunidade cristã em Jerusalém (At 2.41-47). A descrição é fascinante, impressiona qualquer um que a lê, até mesmo os mais céticos e descrentes. O que vemos ali é o reino de Deus em ação, a concretização da oração que Cristo ensinou: “Venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu...”. Este relato contrasta com a história de uma outra comunidade (Gn 11.4), que decidiu construir uma torre que alcançasse os céus e fizesse seus nomes célebres e famosos. Falavam a mesma língua e tinham um projeto em comum, mas, em vez de criarem uma comunidade, criaram um altar para sua auto- exaltação. Este relato da Torre de Babel está presente na vida de todos nós. Na educação, política, trabalho e nos púlpitos de nossas igrejas, todos nós estamos construindo nossas torres, empenhados em tornar nossos nomes célebres. Queremos construir nosso próprio reino. O Pentecostes tornou possível o reino de Deus entre nós. O povo de Atos 2 começa a viver o seu êxodo, dá os primeiros passos rompendo com o jeito que se vivia no “Egito” para viver o novo jeito ensinado por Cristo, e faz isto de forma natural e sincera, impulsionado pelo chamado de Cristo e pelo poder do Espírito Santo. A promessa do Espírito não foi para que os primeiros cristãos tivessem poder para se autopromoverem, mas para reafirmarem os feitos e o caráter de Cristo. Era um novo tipo de comunidade que nascia de um novo tipo de pessoa. Muitas vezes queremos uma igreja diferente que nos faça diferentes, mas não queremos ser pessoas diferentes que constroem uma comunidade diferente. O relato de Atos nos diz que eles “perseveravam na doutrina dos apóstolos...”, que “diariamente perseveravam unânimes no templo”. Alguns tinham largado tudo e dedicado dois anos e meio de suas vidas para seguirem a Cristo. Eles permaneceram em Jerusalém da ascenção até o Pentecostes aguardando a promessa do Espírito. Era uma comunidade de cristãos disciplinados. A graça não se opõe à disciplina; pelo contrário, é a disciplina espiritual que sinaliza nosso desejo espiritual. A igreja sofre quando tentamos viver sob a direção do Espírito Santo, mas sem disciplina, como também sofre quando tentamos viver com disciplina, mas sem o Espírito Santo. Era uma comunidade totalmente comprometida em tornar Jesus Cristo conhecido. Tudo nela apontava para Cristo. Suas orações, o partir do pão, o cuidado que tinham para com os outros, sua pregação e seu testemunho, a alegria da comunhão, a renúncia dos bens, enfim, tudo em suas vidas e ações apontava para Cristo. O Êxodo continua. Estamos a caminho do céu. O testemunho dos dois varões vestidos de branco foi: “Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes Sophie ultimato 312.indd 52ultimato 312.indd 52 2/5/2008 12:10:572/5/2008 12:10:57
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    Ricardo Barbosa deSousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração. Por Carlinhos Veiga cveiga@terra.com.br Novos Aco r des Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 53 Expresso luz ao vivo – 20 anos (DVD) O Expresso Luz acaba de lançar seu primeiro DVD. É um presente ao público fiel que acompanha sua trajetória nesses 20 anos de estrada. Produzido no Acampamento Boa Esperança, em Goiânia, palco de várias experiências marcantes do grupo, o show gravado ao vivo relembra as canções que marcaram as distintas fases: vai de “Sinta o amor” e “Seara”, registradas em seu primeiro trabalho (1986), às recentes “Cheia de graça” e “Água”. O DVD teve uma produção simples, mas primorosa, sob a direção de imagem de João Inácio e direção de áudio de Olemir Cândido. No menu, traz o making of das gravações e um “bate papo” com integrantes e ex-integrantes do grupo, narrando a história desde a sua fundação. Distribuído por Vencedores Por Cristo: www.vpc.com.br Vocale, Vocale Vocale é um quarteto capixaba formado por Naara Knupp, Hellem Pimentel, Fabrícia Erler e Karol Stahr. É o primeiro CD desse grupo que tem potencial para ser uma das boas revelações do momento. Com vocal apurado e musicalidade harmoniosa, apresenta um estilo eclético com marcas predominantes da cultura musical pop gospel. Destaque para as canções “Razão do meu viver”, “Derrama sobre nós” e a tradicional “Em fervente oração”, numa versão jazzística. A produção executiva e os arranjos vocais são de Karine Lessa, que compôs sete das dez canções do CD. Os arranjos de muito bom gosto são de Fabiano Araújo. Contatos pelo e-mail <karine_lessa@hotmail.com> ou pelo tel. 27 3349-9837. Exodos, Exodos Nos anos 70 uma banda cristã provocou muita polêmica no Brasil com seus ritmos barulhentos, roupas extravagantes e cabelos compridos. Chegou a ser citada pela revista Veja no ano de 1976. Era a banda Exodos, formada por três adolescentes batistas. Considerada por pesquisadores como “a primeira banda brasileira de rock evangélico”, atraiu muitos jovens com suas canções que anunciavam uma nova vida em Jesus, numa época em que vigorava a repressão e a censura. Trinta anos depois é lançado um CD com treze músicas compostas entre os anos de 1970 e 1977 e regravadas com instrumentos e equipamentos da época. Entre elas a conhecida “Galhos secos”. Para saber mais sobre o grupo, acesse <http://paginas.terra.com.br/religiao/ bandaexodos>. Para adquirir esse CD histórico, ligue para 11 9962-9571. subir” (At 1.11). O mesmo Jesus que viveu entre nós, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa esperança vai voltar e estabelecer definitivamente seu reino entre nós. Enquanto isto, somos chamados para ser sal da terra, luz do mundo e ovelhas no meio de lobos. Olhamos para o mundo, cultura, família, juventude, infância, guerra, drogas, prostituição, violência, desesperança, solidão, desespero, e percebemos que a humanidade precisa urgentemente de uma nova esperança. O problema é que, quando olhamos para a comunidade de Jerusalém, reconhecemos, lá no fundo, um sentimento ambíguo. É um modelo de comunidade que admiramos, mas não queremos. Admiramos o amor sacrifical deles, mas não é este o tipo de amor que buscamos. Admiramos sua vida abnegada, mas não estamos dispostos a abrir mão do que temos por amor ao próximo. Achamos extraordinário o fato de que tinham tudo em comum, mas não abrimos mão de nosso individualismo. Confessamos a doutrina dos apóstolos, mas a negamos na prática. No fundo, não queremos uma comunidade assim. Mas ela é possível e o mundo anseia por ela. A igreja sofre quando tentamos viver sob a direção do Espírito Santo, mas sem disciplina, como também sofre quando tentamos viver com disciplina, mas sem o Espírito Santo ultimato 312.indd 53ultimato 312.indd 53 2/5/2008 12:11:032/5/2008 12:11:03
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    Bráulia Ribeiro da linhade frente Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora de Chamado Radical (Ed. Ultimato). <braulia_ribeiro@yahoo.com> ULTIMATO Maio-Junho, 200854 U m dos prazeres de pais cristãos é ensinar seus filhos pequenos a cantar musicas cujas mensagens imprimam em suas mentes conceitos que mais tarde serão necessários em suas vidas. Eu gostava de esgoelar com os meus: “Meu coração era sujo”, “O sabão lava meu rostinho”, e, claro, não podia faltar, “Cuidado, olhinho, o que vê/ o Salvador do céu está olhando pra você...” Recentemente comecei a me deixar assustar por fantasmas, não sei se fruto dos anos ou das circunstâncias. Na jornada da vida, as críticas, as altas expectativas e os baixos níveis de compromisso me deixaram atada a amarguras, feridas e lepras. Os fantasmas dos irmãos que não perdoei me atormentam, cutucam, me visitam nas noites insones, me tiram a paz e me azedam o suco gástrico, causando dor física. Até agora nunca tinha me prendido a nada assim. Caminhei até aqui numa jornada de perdão constante, quase alienado, que se re-expunha, se re-feria inúmeras vezes, mas continuava presente. Devo dizer que esta vida “delirante” do perdão é mais feliz do que a vida “racional” da amargura. Como diz Derrida, o perdão que exige troca social (o outro se arrepende, portanto eu posso perdoá-lo) não pode ser chamado de perdão. O perdão de pés no chão, que se precavê, que reforça defesas, que cobra arrependimentos, é um mecanismo social humano, nada mais. O perdão divino e verdadeiro, o único que merece esse título é aquele incondicional, excepcional e extravagante. Perdôo porque sim. Perdôo total e completamente, sem cobranças e sem resquícios. Perdôo porque as pessoas não mudaram e não merecem ser perdoadas. Aliás, o perdão não tem objeto, basta-se a si mesmo. Enquanto eu não entendi isso, sofri interiormente por alguns meses na mansão assombrada da família Adams. Dias atrás minha colega Carol veio me visitar. Amiga de muitos anos, risada alta, Carol chegou sem sorrir, fixou em mim seus olhos azuis e disse, tirando da testa a mecha grisalha para que eu visse, sem duvidar, a centelha que eles queriam me passar: “Bráulia, estava orando por você e Deus me disse que ele está te vendo.” Conversamos um pouco mais e ela se foi. Deus me vê! Saí da sala me sentindo a heroína do romance de Jane Austen, observada à distância por Mr. Darcy, sabendo reconhecida por ele a beleza, adivinhadas as curvas nas muitas pregas do vestido, os lindos seios num decote que revela o colo e nada mais. Ainda consigo seduzi-lo. Sou a noiva, a esperada. Julgava-me a preterida, a escrava; no entanto o Rei me vê como imaculada, a noiva desejável. Ele me vê. Aquela noiva da “Valsinha”,1 sobre quem um dia escrevi com esperança, fez sentido outra vez. A igreja soterrada de paradoxos sociais, enredada em seus orgulhos e preconceitos, apagada na burca de sua ignorância, se ergue novamente, remexe no armário e reencontra suas vestes de festa. Os olhos dele não me vigiam para me acusar, me perscrutar ou me envergonhar. Eles não me desnudam impudicos como os olhos dos homens sentados em um bar fazem com as distraídas que passam. Eles não me consomem em demanda egoísta de prazer pessoal, se é que a metáfora ainda cabe. Eles me vêem inteira, com bondade e respeito, me vêem como o cavalheiro inglês, antevendo-me a minha beleza sublime, para mostrar-se forte. Mesmo me achando questionadora, comprei, sem perceber, a coerção moral infantil através do conceito do Deus amedrontador. Comprei para mim e vendi a meus filhos a idéia de olhos que vigiam, cobram e julgam. Mas a imagem principal de nosso noivo não é esta. São seus olhos que embelezam a noiva com seu perdão excepcional, esquizofrênico e divino. É ele que a embeleza, não ela a si. A idéia prevalecente na Palavra sobre ele é de embevecimento, carinho, auto-sacrifício, misericórdia e benignidade. A religião o transforma em juiz. Sentir seus olhos sobre mim (Sl 33.18; 34.15; 2Cr 16.9) me revelou novamente seu amor. E à luz deste amor caminho devagar para fora da mansão das sombras das amarguras e desesperanças. Nota 1. Ultimato n° 281, março-abril 2003. RodolfoClix Orgulho e preconceito ultimato 312.indd 54ultimato 312.indd 54 2/5/2008 12:11:132/5/2008 12:11:13
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    Gabriele Greggersen deixem queelas mesmas falem AndyStafiniak ULTIMATO Maio-Junho, 200856 Gabriele Greggersen é autora de A Antropologia Filosófica de C. S. Lewis (Editora Mackenzie) e O Senhor dos Anéis: da Fantasia à Ética (Editora Ultimato). E m março comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Mas quais são as vantagens efetivamente conquistadas? Em A Missão da Mulher, Paul Tournier diz que a presença feminina em vários setores representa a sua humanização. Enquanto os homens tendem ao racionalismo e materialismo, as mulheres são mais intuitivas e sensíveis. Muitos empregadores dão preferência a elas devido a seu comprometimento com o trabalho. O jornalista britânico G. K. Chesterton já antevia que, em vez de trazer benefícios, a “independência feminina” só acrescentava cargas à mulher, sem amenizar as já tradicionais. As mulheres têm turnos dobrados ou triplicados, ainda mais quando são “chefes” do lar. O vislumbre do ônus faz algumas abdicarem da profissão para cuidar dos filhos. O que deve fazer a mulher que não pode deixar de trabalhar por motivos financeiros e tem filhos pequenos para cuidar? E as que se realizam na profissão? Abrir mão da maternidade? O controle de natalidade tem sido uma imposição de governos totalitários, como o chinês. Chesterton denunciava o predomínio do interesse econômico sobre o humano e a intervenção do governo nesses temas. Alguns governos europeus incentivam a permanência da mãe no lar através de programas de apoio financeiro. Preocupam-se com a diminuição da população nativa e o aumento do contingente de estrangeiros em seus países. Já no Brasil, as iniciativas de auxílio à família (salário-educação, bolsa-scola) costumam ser antros de corrupção. Na Primeira Carta de Pedro (3.7), o apóstolo ordena que a mulher seja tratada com dignidade, já que homens e mulheres são “herdeiros da mesma graça de vida”. Trata-se do valor atribuído à pessoa humana, como forma de reconhecimento no sentido humano e material. Sem falar no desnível salarial entre homens e mulheres exercendo a mesma função. Tanto C.S. Lewis quanto Chesterton falam em ortodoxia no sentido da glória advinda do andar no caminho reto, que não pertence nem ao homem, nem à mulher, mas a Cristo (cf. Hb 2.9). Nos tempos bíblicos essa glória era simbolizada pelo uso do véu pelas mulheres, o que nunca significou inferioridade, mas algo que deve ser protegido e preservado como um tesouro. A figura da mulher é usada como metáfora da igreja, a Noiva de Cristo. Ela deve ser amada como Cristo amou a igreja (Ef 5.25, cf. Ef 5.28). Embora a palavra submissão (1Tm 2.11), que se aplica também aos homens (cf. 2Co 10.6; Hb 12.9), significasse obediência e serviço, ela não deixa de ser uma missão. Em vez de subalternidade, deve-se entendê- la como equivalência. A hierarquia observável na natureza reflete-se na humanidade, mas ela não altera a igualdade de todos diante de Deus. Porém, muitas mulheres rejeitam tais cuidados no intuito de “provar” a sua independência. No outro extremo, há aquelas que se submetem ao estereótipo do objeto sexual. Assim, confunde-se a independência feminina — que não significa imitar os homens em tudo — com a conivência com uma sociedade que não respeita a mulher. Cada campo conquistado por elas tem um preço a ser pago. Uma juíza de futebol ou uma policial não tem que pôr em risco suas qualidades femininas. Mesmo em ambientes dominados por homens, a mulher merece ser reconhecida (e não descriminada), antes de tudo, por ser mulher. O que dizer das missionárias e pastoras que sacrificam as suas vidas pelo reino, muitas vezes abrindo mão de constituir família? Em geral elas recebem menos que os missionários, casados ou não, e são esquecidas pela história. Respondamos à altura de homens e mulheres diante de Deus. Respondendo à altura ultimato 312.indd 56ultimato 312.indd 56 2/5/2008 17:51:332/5/2008 17:51:33
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    Marina Silva eJane Vilas Bôas Marina Silva é professora de história e senadora eleita pelo Estado do Acre. Atualmente serve ao país como ministra de Estado de Meio Ambiente. É membro da Igreja Assembléia de Deus. Jane Vilas Bôas é antropóloga e assessora da ministra do Meio Ambiente. É membro da Igreja Batista Central de Brasília. Maio-Junho, 2008 ULTIMATO 57 meio ambiente e fé cristã “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha.” Lv 25.23 “Minhas são todas as feras do campo. Se tivesse fome não to diria, pois meu é o mundo e a sua plenitude.” Sl 50.11-12 “Não destruirás o seu arvoredo (...); porque dele comerás, pelo que não cortarás para que sirva de tranqueira para si.” Dt 20.19 “No Éden nascia um rio que irrigava o jardim, e depois se divida em quatro.” Gn 1.10 “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou um ser vivente.” Gn 2.7 N os versículos acima temos terra, água, ar, plantas, animais e o ser humano. Todos componentes da criação, cujo domínio Deus entregou ao último. Deus regula o uso desses bens, deixa claro que os atos de criação resultam em coisas que pertencem a ele mesmo. Fomos criados e responsabilizados por lavrar e cuidar do jardim (Gn 2.15). Temos o direito de satisfazer as nossas necessidades e devemos fazê-lo respeitando as necessidades das próximas gerações. Não podemos usar os recursos naturais até o esgotamento, pois não só o mundo, mas também a sua plenitude são propriedades do Criador. No Brasil, a esperança do Criador em nós se manifesta na forma de muitas riquezas. Somos detentores de cerca de 11% da água doce disponível no mundo e 22% das espécies vivas da terra. Somos ricos também em diversidade social. Temos povos indígenas que falam mais de 220 línguas e comunidades tradicionais como seringueiros, faxinalenses, pescadores, caiçaras, pantaneiros, etc. Temos ainda o Cerrado, abrigo de 5% da biodiversidade da terra e uma das maiores áreas de captação de água para a América do Sul: abastece as bacias dos rios Amazonas, Tocantins, Paranaíba, São Francisco, Paraná e Paraguai, além do Aqüífero Guarani, maior manancial subterrâneo de água doce transfronteiriço do mundo. O Pantanal, declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO, é a maior área úmida continental do globo. Podemos citar também a mata Atlântica. Sua riqueza biológica a faz destaque mundial e, pela nossa Constituição, é patrimônio nacional. Para encerrar esta pequena lista, citamos a Amazônia, importante para o equilíbrio do planeta. Ali estão fixadas mais de uma centena de trilhões de toneladas de carbono. Sua vegetação libera sete trilhões de toneladas de água para a atmosfera a cada ano, responsáveis inclusive pelas chuvas no Sudeste. O bioma abriga um terço da biodiversidade global e 30% das florestas tropicais ainda existentes no mundo. Diante dessas magnitudes, o que podem fazer os cristãos individualmente ou em suas igrejas? Primeiramente, reconhecer o mandato cultural do Senhor para cuidarmos da criação. Somos mordomos. Fomos parceiros de Deus, pois Adão foi chamado para nomear todas as coisas criadas (Gn 2.19). Para bem exercer a mordomia é preciso conhecer o ambiente em que vivemos e desenvolver atitudes que evitem o desperdício ou a saturação por resíduos de nosso consumo. Essas atitudes podem ser postas em prática com o cuidado de não desperdiçar água e energia elétrica, a escolha de produtos industriais que não poluam as águas, o solo ou o ar nem tenham sido produzidos por trabalho escravo ou em condições indignas ou ilegais. Além das atitudes no plano pessoal, há também o plano coletivo e a dinâmica das instituições que tratam do tema meio ambiente, que também devem ser objeto de preocupação e atuação de todos como cidadãos. Enfim, há dezenas de formas de expressar amor ao Senhor e gratidão pela criação. Tudo é uma questão de consciência da mordomia. RodolfoClix Mordomia ambiental ultimato 312.indd 57ultimato 312.indd 57 2/5/2008 12:11:392/5/2008 12:11:39
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    Mark Carpenter Mark Carpenteré diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP. ULTIMATO Maio-Junho, 200858 Quem pensa que sabe como são os africanos nunca imaginaria que Mia Couto fosse natural do continente negro. O romancista mais celebrado de Moçambique é branco, enche seus livros do realismo mágico da tradição latino-americana e tem um estilo que lembra Guimarães Rosa. Foi contado entre os melhores escritores africanos do século 20. Em entrevista recente ao Estadão, perguntaram-lhe se há influência brasileira em sua literatura. Respondeu: “Sim. Ela veio justamente da música de Chico, de Caetano. Muitos músicos moçambicanos tinham tentado cantar em português, mas o português duro, rápido, de Portugal, não tinha musicalidade. Aí ouvimos Chico, Caetano, Gil e descobrimos que o português poderia ser outra coisa. Foi uma descoberta.” Talvez tenha sido crítico demais ao português dos fadistas e trovadores, mas a descoberta de que a língua da mera comunicação corriqueira poderia ser também a língua da poesia e dos sonhos abriu-lhe um novo mundo. Muitos anos mais tarde, o comitê Nobel também reconheceu que a língua portuguesa possui a maleabilidade necessária para ser talhada por alguém com o talento de José Saramago. Aqueles que se importam com os idiomas enxergam na nossa gramática, nos nossos vocábulos e na nossa sintaxe as ferramentas para criar e perpetuar aquilo que só existe na língua. O português pode ser usado para emocionar, agregar e inspirar. Como cristãos, temos o privilégio de servir e adorar a um Deus literário. A linguagem da Bíblia evidencia sua preocupação com a arte de expressar- se. Há nela não apenas a Verdade Revelada, mas as múltiplas verdades reveladas por meio de uma riqueza estonteante de poemas, acrósticos, canções, parábolas, paralelismos, hipérboles, metáforas, figuras de linguagem e artifícios da retórica. Não resta a menor dúvida de que Deus — o Verbo — se relaciona conosco através da Palavra, e que esta palavra tem forma intencional, bela e artística. Leland Ryken afirma que “os escritores da Bíblia e o próprio Jesus Cristo perceberam que é impossível comunicar a verdade de Deus sem usar os recursos da imaginação. A Bíblia faz muito mais que apenas sancionar o uso da arte. Ela demonstra que a arte é indispensável (“The Imagination as a Means of Grace”, Communiqué, 2003). Penso, às vezes, que a linguagem usada em muitas igrejas é como o português “duro e rápido” que Mia Couto ouvia quando criança. É utilitária, descritiva e funcional, mas carece do tipo de imagística e musicalidade que despertam a alma. Como pastores e líderes, concentramo- nos no conteúdo de nossas doutrinas em detrimento de sua forma. Esquecemos que a Bíblia não divide a arte em sacra e secular. Nela, a arte possui valor igual tanto em ambientes de louvor quanto do cotidiano (Nm 21.16-18; Is 16.10; 52.8-9). Como seria se nossos pastores se importassem tanto com a linguagem quanto se importam Chico, Caetano e Gil, assim também como Davi, Salomão e Jesus? Tenho a impressão que, se a poesia de nossas teologias saturasse as nossas palavras, os muitos Mias Coutos das nossas congregações de repente ouviriam algo diferente, algo novo, capaz de agarrar suas imaginações, inspirar-lhes e enviar-lhes correndo de volta à Palavra, fonte de nossa inspiração. Caetano e Cristo ultimato 312.indd 58ultimato 312.indd 58 2/5/2008 12:12:042/5/2008 12:12:04
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200860 KlêniaFassoni Há pouco mais de um ano o pastor Ronaldo Lidório, em visita à Editora Ultimato, compartilhou com a nossa equipe que ele recebia dezenas de e-mails por mês de jovens interessados em fazer missões, o que o angustiava, pois para ele “a igreja tem sido lenta” na integração dessa poderosa força em sua prática cotidiana e missionária. Recentes pesquisas (Polis, IBASE, UNESCO) fazem eco à constatação deste missionário que já não é tão jovem (41 anos), mas que inciou sua vida missionária aos 26. Elas mostram que é nas organizações religiosas onde acontece de forma mais intensa a participação de jovens. Sangue novo, novos espaços ocupados Este sangue novo é fonte de ousadia, de criatividade, de visão e alcance na prática da missão. Alexandre Brasil, até maio de 2008 membro do CONJUVE — Conselho Nacional de Juventude, declara: “Se muitas vezes afirmou-se que os evangélicos chegaram atrasados em relação à participação em questões mais amplas TiótC da sociedade, no que se refere à participação da juventude nas políticas públicas temos um quadro mais animador”. Em abril de 2008, mais de 2 mil jovens estiveram reunidos na 1ª Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude para discutir estratégias e ênfases relacionadas às políticas públicas de juventude, em encontro liderado pelo CONJUVE, que tem representantes de três organizações que atuam com jovens evangélicos: ABUB — Aliança Bíblica Universitária do Brasil; JOCUM — Jovens com Uma Missão e Rede FALE. A abeuense Sarah Nigri comenta sua experiência: “Tenho aprendido a reclamar menos e a pensar mais em soluções para os problemas que enfrentamos, e a enxergar, mesmo naqueles que não são cristãos, o reflexo da imagem do nosso Deus!” Missão de Base Eles têm entre 24 e 31 anos. São sete casais comprometidos com o evangelho do reino, congregando em diferentes igrejas locais. Vamos abrir espaços à igreja jovem ultimato 312.indd 60ultimato 312.indd 60 2/5/2008 18:03:462/5/2008 18:03:46
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    Maio-Junho, 2008 ULTIMATO61 Leia em www.ultimato.com.br •Relatodasconferênciasde juventude,porSarahNigri • Entrando no céu com Watoto, por Jônatas Almeida TimóteoCamargo Equipe da Missão Base Estranhavam que a maior parte dos “chamados” fosse das áreas de saúde, educação ou teologia. Eles são de áreas distintas: direito, publicidade, jornalismo, design gráfico, tecnologia da informação. Um deles tem formação em serviço social. Há dois anos organizaram a Missão Base (www.base.org. br), que tem o objetivo de servir às agências missionárias nas áreas de banco de dados, divulgação, identificação e suporte a voluntários, divulgação de oportunidades de envolvimento com missões nas igrejas. Já prestaram serviços para Missão Evangélica aos Pescadores (MEAP), MEVA, Pioneiros e Refúgio. Todo o trabalho feito para as missões é gratuito! Eles acreditam que estão fazendo missões. E estão certos! Além do importante serviço que prestam em áreas freqüentemente negligenciadas por agências missionárias, eles são exemplo de resgate das profissões e vocações a serviço do reino. Entrando no céu com Watoto Jônatas Almeida, formando em administração/comércio exterior pelo Instituto Mackenzie, está fazendo sua monografia na área de fair trade (comércio justo). Seu desejo é preparar- se para servir a Deus em algum país africano. No final de março ele se emocionou com a apresentação do Coral Watoto, na Igreja Evangélica de Vila Yara. “Watoto” em português significa “crianças”. Além do coral, formado por crianças órfãs (principalmente por causa da aids), o grupo mantém um projeto que ampara crianças em Uganda. Jônatas declara: “Meus olhos se encheram de lágrimas pela alegria com que cantaram sobre Deus. Até me imaginei entrando no céu, cantando com eles...”. Desde o terceiro ano da faculdade ele tem dedicado quase todas as suas noites de sexta-feira a se aproximar, conversar e ajudar moradores de rua na cidade de São Paulo. Vamos abrir cada vez mais as portas a este sangue novo! ultimato 312.indd 61ultimato 312.indd 61 2/5/2008 18:04:072/5/2008 18:04:07
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    Ricardo Quadros Gouvêaé ministro presbiteriano e professor de teologia e de filosofia. ULTIMATO Maio-Junho, 200862 vamos ler! Ricardo Quadros Gouvêa P oucos no Brasil conhecem Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor cristão inglês. Celebremos, portanto, a publicação em português de sua obra-prima Ortodoxia (Orthodoxy: The Romance of Faith), de 1908. Um século de atraso não é demais para os padrões brasileiros. Ainda que tardio, o lançamento é oportuno, quando, por um lado, tantos tratados ateus estão chegando às livrarias e, por outro, o fundamentalismo religioso nos enche de horror. Chesterton caminhou do racionalismo (origem tanto do liberalismo quanto do fundamentalismo teológicos) à compreensão da “ortodoxia”, fazendo o caminho inverso de tantos, da fé em Cristo para a fé na ciência e na razão. Ele não é um irracionalista pleno de misticismo barato. Usa a inteligência, mas seu pensamento é propositadamente assistemático. Seus livros de apologética cristã são todos provocadores e surpreendentes. Ele defende a fé de forma inovadora, empolgante, sem ser maçante, como é comum em apologética. Chesterton não é repetitivo nem professoral. Com ele enxergamos novas formas de apreciar o cristianismo e de entender seu valor singular. Conhecido entre os amigos como “G.K.”, era uma figura peculiar. Chamado de “o príncipe do paradoxo”, era afável, bem humorado e distraído. Era alto e gordo como poucas vezes se vê. Opunha-se às políticas imperialistas britânicas (The Napoleon of Notting Hill). Escreveu sobre Robert Browning e Charles Dickens, e se tornou famoso como crítico literário. Foi brilhante ao discorrer sobre Tomás de Aquino (Saint Thomas Aquinas: The Dumb Ox) e Francisco de Assis. Escreveu peças de teatro, poemas e os romances de ficção policial que o deixaram famoso (bem como seu detetive-teólogo, o padre Brown). É preciso citar o enigmático suspense O Homem que Foi Quinta-Feira. Ateu aos 12 anos e agnóstico aos 16, retornou para a Igreja Anglicana após o feliz casamento com Frances Blogg, em 1901. Após esta sua primeira conversão, o escritor e jornalista Robert Blatchford publicou uma série de textos condenando o cristianismo e o teísmo em geral. Chesterton respondeu com seu primeiro livro de sucesso, Heréticos (Heretics, 1903) que traz a primeira apresentação de sua compreensão peculiar da fé cristã, que seria expressa mais explícita e completamente cinco anos depois no livro Ortodoxia, na verdade, uma coletânea de ensaios mais ou menos independentes uns dos outros, no estilo fascinante deste literato que, na época da publicação, tinha apenas 34 anos de idade. Aos 48 anos, Chesterton converteu-se ao catolicismo romano (1922). Muitos autores anglicanos influentes, como John Henry Newman e Thomas Howard, fizeram o mesmo. Foi então que escreveu sua obra apologética mais madura, The Everlasting Man (1925), na qual também explica suas razões. No capítulo “O Maníaco”, Chesterton rejeita o predestinacionismo como uma forma de religiosidade doentia. O que “o príncipe do paradoxo” entende por uma “perigosa ortodoxia” e pela “emocionante aventura da ortodoxia” é algo bem diferente do neognosticismo e neofarisaísmo que encontramos hoje no mundo evangélico brasileiro e norte-americano. A “ortodoxia” de Chesterton é anti-sectária, de tendências irênicas. Ele é anti-racionalista e, portanto, avesso às teologias sistemáticas fundadas na inferência dedutiva. É humanista em seu combate ao tecnicismo e a todas as formas de desumanização promovidas pelo avanço da civilização tecnológica. A Ortodoxia de Chesterton é, segundo ele mesmo afirma, “uma emocionante aventura” que inclui a adoção da “ética dos elfos” e a militância na “revolução eterna”. A esta altura já deve ter ficado claro para o leitor que ela não vai agradar os guardiões da sã doutrina. Ortodoxia G. K. Chesterton Mundo Cristão, 2008 Ortodoxo, sem perder a ternura ultimato 312.indd 62ultimato 312.indd 62 2/5/2008 12:12:452/5/2008 12:12:45
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    Marcos Bontempo mbontempo@ultimato.com.br prateleira Maio-Junho, 2008ULTIMATO 63 Para ler mais textos da “Prateleira”, acesse www.ultimato.com.br/blog Sexo, drogas e rock ‘n’ roll — histórias de um filho pródigo OS FILHOS pródigos são muitos. Davi, por exemplo, poderia ilustrar o título dessa prateleira. Não sabemos por quanto tempo ele calou os seus dramas, antes de voltar. No entanto, sabemos de cor algumas de suas letras. Mas tenho em mente um outro músico. A história original, contada por Jesus (Lc 15.11-32), precisa tornar mais agradecidos e generosos aqueles que nunca saíram de casa. Não nos cabe separar o trigo. E, quem sabe, precisamos também aprender a aproveitar a vida, fazer festa. Aliás, comer, beber e alegrar-se deveria ser proibido para os pagãos, porque separado de Deus ninguém pode comer, beber ou alegrar-se (Ec 2.25). O outro músico do primeiro parágrafo tem uma história não muito diferente da história do filho pródigo e é invariavelmente ligado ao título da prateleira (a não ser, talvez, pelo terceiro substantivo). E, assim como o filho da parábola, ele também “caiu em si”: “Naquele momento, quase que por si mesmas, minhas pernas cederam, e caí de joelhos. Na privacidade do meu quarto, implorei por socorro. Eu não atinava com quem estava falando, sabia apenas que havia chegado ao meu limite, não me restava mais nada para lutar. [...] Em poucos dias percebi que havia acontecido alguma coisa comigo. [...] Encontrei um lugar a que recorrer, um lugar que sempre soube que estava ali, mas em que nunca realmente quis ou precisei acreditar. Daquele dia até hoje, jamais deixei de orar de manhã, de joelhos, pedindo ajuda, e à noite para expressar gratidão por minha vida e, acima de tudo, por minha sobriedade. Prefiro me ajoelhar porque sinto que preciso ser humilde quando oro e, com meu ego, isso é o máximo que posso fazer”. Faz exatos 20 anos que Eric Clapton, uma lenda viva da música, fez essa oração — talvez, sua performance mais escondida e mais barulhenta. Não desisto de acreditar que os filhos pródigos estão voltando. E, aí sim, vamos dizer juntos “vai rolar a festa”. A inveja entre crentes e o sublime entre pagãos DEUS AMA imparcialmente. Para quem se lembra do dilema descrito no Salmo 73 — a vida nababesca dos maus e o constrangimento dos que se mantêm puros — essa afirmação é, no mínimo, desconfortável. Nas palavras de Paul Stevens, em A Espiritualidade na Prática, “o amor de Deus é sem causa ou previsibilidade humana”. É verdade também que o sol brilha sobre mocinhos e bandidos e a chuva cai sobre honestos e corruptos (Mt 5.45). No entanto, não raro ficamos embaraçados com o sucesso dos maus. Temos um desejo quase incontrolável de manipular a graça de Deus e nos irritamos quando uns e outros são alcançados por ela e, sem perceber, nos perguntamos: “Por que não fui eu?” Outro dia encontrei Deus em um lugar inusitado. Fui ver o guitarrista americano Stanley Jordan e fui surpreendido pela graça. A apresentação aconteceu na Universidade Federal de Viçosa, em meio às montanhas de Minas. Puro êxtase. Não me passou pela cabeça envenená-lo por inveja. Isso, diz a lenda, teria feito Antonio Salieri com Amadeus Mozart. O compositor italiano do século 18 não entendia como Mozart, um devasso, poderia compor algo tão sublime. Na verdade, lembrei-me de Bezalel, da sua destreza e capacidade artística (Êx 35.31); de Jubal, pai dos que tocam harpa (Gn 4.21), e, agradecido, murmurei algumas frases de adoração. A verdade é bela e, como diria Calvino, “se reconhecermos o Espírito de Deus como única fonte da verdade, nunca desprezaremos a verdade onde quer que apareça”. ultimato 312.indd 63ultimato 312.indd 63 2/5/2008 12:12:522/5/2008 12:12:52
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    site • intercâmbios• aluguel de imóveis • relacionamentos necessi- dades e oferecimentos de voluntários ou estagiários • empregos • prestação de serviços • cursos • eventos • missões livros, filmes, cd’s • redes e ONG’s Espaço de oportunidades Agenda Acesse www.ultimato.com.br, saiba de outros eventos e divulgue o seu 30 de junho a 4 de julho Acontecerá o 17º Simpósio Reformado Os Puritanos, com o tema “Cristo, o Redentor”, em Maragogi, AL. Telefone: 81 3223-3642 E-mail: ospuritanos@uol.com.br 28 de julho a 1 de agosto O Centro Evangélico de Missões (CEM) oferecerá o Curso de Aconselhamento Pastoral Familiar, em Viçosa, MG. O curso é destinado a profissionais das ciências humanas e da saúde, oficiais de igrejas, pastores e pastoras. Telefone: 31 3891-3030 E-mail: info@cem.org.br Site: www.cem.org.br 21 a 23 de agosto A Rede Evangélica Nacional realizará o 3º Encontro RENAS, em Curitiba, PR. Telefone: 11 4136-1253 E-mail: renas@renas.org.br Site: www.renas.org.br 4 a 7 de setembro O Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas realizará o 6º Congresso CONPLEI, em Manaus, AM. Telefone: 65 301-2611 E-mail: misspaulonunes@hotmail.com Site: www.conplei.org ULTIMATO Maio-Junho, 200864 Rede CLAVES Brasil A Rede CLAVES Brasil realiza oficinas de capacitação da metodologia CLAVES, que ajuda crianças na prevenção contra maus-tratos. Para solicitar que as oficinas aconteçam em sua organização, igreja ou conselho tutelar,entre em contato com a revista Mãos Dadas (cartas@maosdadas.net). A Rede CLAVES Brasil é formada por oito organizações cristãs com forte compromisso em favor da dignidade das crianças e adolescentes. Oração De 6 a 8 de junho mobilize sua igreja e organização para o 13º Mutirão Mundial de Oração por Crianças e Adolescentes em Situação de Risco. Acesse o Material de Apoio para Mobilização no site da revista Mãos Dadas <www. maosdadas.org>, ou peça-o por e-mail <cartas@maosdadas.net> ou carta (Caixa Postal 88, Viçosa, MG 36570-000). 20º Seminário Música e Adoração 27 a 30 de agosto, em São Paulo, SP Conteúdo: Clínica Coral e Regência Público-alvo: Regentes, coristas, cantores e apreciadores de música sacra Coordenação técnica: Maestro Rev. João W. Faustini Realização: Sociedade Evangélica da Música Sacra (SOEMUS) Mais informações: 11 4412-1516 / soemus@ig.com.br ultimato 312.indd 64ultimato 312.indd 64 2/5/2008 15:08:082/5/2008 15:08:08
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    ULTIMATO Maio-Junho, 200866 RubemAmorese Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna. <ruben@amorese.com.br> Para fazer marketing de si mesmo, Satanás se apresenta “belo” como um anjo de luz, e seus profetas, “bons” como ministros da justiça O mercado vale-se do belo para vender. Honesta ou ardilosamente, ressalta o aspecto estético de um produto, sabendo que a natureza humana, inconscientemente, o associará à qualidade. Isso vale para a aparência limpa e bem refrigerada de uma lanchonete, para o design sofisticado de uma loja de marca mundial ou mesmo para o terno azul-marinho, de corte impecável, de um executivo que deseja “vender” a imagem de competência. Marketing (espero que o uso do termo em inglês cause esse efeito abonador sobre meus leitores). De fato, a beleza sempre remete ao bem, à pureza e à perfeição. O fenômeno é universal, e também de difícil explicação. Curiosamente, o dicionário Houaiss define o belo como “tudo que leva ao aperfeiçoamento espiritual do ser humano; o próprio Deus, enquanto manancial eterno e perfeito de tudo o que é propício ao progresso das criaturas e finalidade desse progresso; sublime”. Sublime? Sim, a extrema beleza. Fecha-se o círculo entre o belo e o bem: aquilo “que apresenta inexcedível perfeição material, moral ou intelectual”. Veja que “sublime”, nas Escrituras, é um dos títulos de Deus (Is 57.15) e uma descrição de seu Servo (v.13), e que, nesses versos, a sublimidade se associa à santidade de Deus. Aquele que vivifica o “contrito e abatido de espírito”. É interessante notar que, para fazer marketing de si mesmo, Satanás se apresenta “belo” como um anjo de luz, e seus profetas, “bons” como ministros da justiça (2Co 11.14-15). Sim, o uso ardiloso desse conhecimento da psique humana vem de longe. Não tendo a beleza própria do bem, imita o sublime para enganar os incautos. Refiro-me aqui, ambiguamente, tanto a Satanás quanto a produtos e serviços de má qualidade “maquiados”. No entanto, o verdadeiro não precisa de maquiagem. Nem o santo, o justo, o contrito e abatido de espírito, porque essas formas de beleza provêm de uma fonte legítima, primária e inesgotável: o Sublime. Uma palavra que unificaria essas belezas morais é salvação. É assim que compreendo a afirmação do Salmo 149.4: “e de salvação adorna os humildes”. Uma salvação progressiva, no sentido da santificação (Fp 2.12), qualidades e características que Deus infunde e molda naqueles que se fazem maleáveis às suas mãos de oleiro. A beleza proveniente dessa ação salvífica de Deus dispensa maquiagem. Não tem o objetivo de vender. É apenas glória. A glória de Deus em nós. Não fenece com a idade, não perde o brilho nem o viço. Não precisa de plásticas nem de liftings. Uma beleza serena e alegre, que vai dormir com um cântico no coração; o cântico da consciência lavada. Esse não é um pensamento meu, mas do seguinte verso do salmista: “Exultem de glória os santos, no seu leito cantem de júbilo” (Sl 149.5). Se é verdade que o coração humano decodifica a beleza como perfeição e vice-versa, também o é que todos são capazes de perceber a beleza da salvação; beleza com a qual Deus adorna o humilde e que aponta de volta para sua glória. “Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor” (Sl 92.14). Belos velhinhos. ultimato 312.indd 66ultimato 312.indd 66 2/5/2008 12:13:272/5/2008 12:13:27
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    Um líder semuma estratégia é como um soldado que vai para guerra e pula de pára-quedas sem ter planejado o local. Depois de chegar ao solo ele se surpreende. Caiu no meio do campo e o inimigo. UMA VISÃO, COM AÇÃO, PODE MUDAR O MUNDO ... LÍDER DO AMANHÃ JOSUÉ CAMPANHÃ Págs: 80 Formato: 13,5 x 20,5 cm R$ 13,20 Neste livro você conhecerá princípios para desenvolver sua liderança e para deixar marcas no futuro. VIDA DE LÍDER JOSUÉ CAMPANHÃ Págs: 112 Formato: 13,5 x 20,5 cm R$ 18,90 Este material pode ajudar a mexer com sua vida e seus princípios de liderança. Oferece subsídios para que a sua liderança seja mais produtiva e cause impacto no mundo. ultimato 312.indd 67ultimato 312.indd 67 2/5/2008 12:13:392/5/2008 12:13:39
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