Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 1
3º CONGRESSO LAUSANNE de Evangelização Mundial reúne mais de 4 mil pessoas na África do Sul
RENÉ PADILLA
MORDOMIA
RESPONSÁVEL
PAUL FRESTON
AÇÃO SOCIAL CRISTÃ:
A HUMILDADE AMOROSA
RICARDO GONDIM
SONHOS E UTOPIAS
(IM)POSSÍVEIS
SOFRIMENTO“Quando não somos capazes de mudar uma situação,
somos desafiados a mudar a nós mesmos”
www.ultimato.com.br NOVEMBRO-DEZEMBRO 2010 • ANO XLIII • Nº 327
FECHAMENTOAUTORIZADO.PodeserabertopelosCorreios.
FECHAMENTOAUTORIZADO.PodeserabertopelosCorreios.
2 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
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Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 3
Q
uando Cornélio se encontrou com Pedro
na entrada de Cesareia, o militar romano
ajoelhou-se e curvou a cabeça diante do
ex-pescador da Galileia. Imediatamente,
Pedro fez com que ele se levantasse e
disse: “Fique de pé, pois eu sou apenas um homem como
você” (At 10.26).
O ser humano não pode ser tratado como Deus por
outro ser humano. Nem pode desejar tal coisa para si
mesmo. Deus está acima de qualquer ser angelical e
de qualquer pessoa. Está escrito: “Temam o Senhor, o
seu Deus, e só a ele prestem culto” (Dt 6.13; Mt 4.11,
NTLH).
O verdadeiro cristão precisa aprender e executar
duas artes gêmeas: a arte de levantar os que estão
indevidamente ajoelhados e a arte de fazer ajoelhar os
que estão indevidamente em pé. Ambas são difíceis e
requerem sabedoria e coragem.
Mesmo sob contínuas e exageradas palmas, o
ser humano não pode esquecer-se de que é um ser
humano. Mesmo gostando de colecionar muitos títulos
e diplomas, muitas coroas e cetros, muita importância
e dinheiro, ele não pode perder a cabeça nem aceitar
qualquer tipo de veneração ou adoração reservada
unicamente a Deus. A história bíblica e a história secular
ensinam que as pessoas que se deixam glorificar como
Deus podem ser vergonhosamente humilhadas, como
aconteceu com Herodes Antipas I, que não sustou a
impressão dos fenícios de que ele era um deus e não um
homem, provocando o juízo imediato de Deus. Esse
Herodes, neto de Herodes, o Grande (que mandou
matar as crianças de Belém), morreu comido de vermes
dez anos depois da ressurreição de Jesus (At 12.23).
O ensino bíblico é que ninguém deve se ajoelhar
diante de qualquer figura, imagem, astro, anjo, ser
humano canonizado, autoridade religiosa (como era o
caso de Pedro) ou potestade do ar. A esperança cristã
é que, pelo menos na plenitude da salvação, todos os
joelhos se curvem diante de Jesus. Esse anelo percorre
toda a Bíblia:
“Todos os orgulhosos se curvarão na sua presença, e
o adorarão todos os mortais, todos os que um dia vão
morrer” (Sl 22.29).
“Venham, fiquemos de joelhos e adoremos o Senhor.
Vamos nos ajoelhar diante do nosso Criador” (Sl 95.6).
“Juro pela minha vida, diz o Senhor, que todos se
ajoelharão diante de mim e todos afirmarão que eu sou
Deus” (Is 45.23 e Rm 14.11).
“Deus deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome
que é o mais importante de todos os nomes, para que,
em homenagem ao nome de Jesus, todas as criaturas no
céu, na terra e no mundo dos mortos, caiam de joelhos e
declarem abertamente que Jesus Cristo é o Senhor, para a
glória de Deus, o Pai” (Fp 2.9-11).
De ordem prática, nada é mais importante do que
a obrigação de levantar quem está indevidamente
ajoelhado e de pôr de joelhos quem está indevidamente
em pé!
A obrigaçãode levantar
quem está indevidamente ajoelhado e
de pôr de joelhos
quem está indevidamente em pé
Abertura
4 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
A
té ler Em Busca de Sentido, quase nada sabia sobre Viktor Frankl.
Agora, sinto-me impulsionado a tornar conhecida a experiência
desse psiquiatra vienense em Auschwitz e em outros campos de
concentração, de setembro de 1942 até o fim da Segunda Guerra Mundial,
em abril de 1945. Sua história é ao mesmo tempo perturbadora e terapêutica.
Perturbadora porque revela a extensão da maldade humana; terapêutica
porque mostra o caminho da sobrevivência. Basta ler a declaração de Frankl,
publicada em Who’s Who in America: “Vi o sentido da minha vida ajudando os
outros a ver um sentido em suas próprias vidas”.
Como prisioneiro, Frankl pergunta: “Como é possível que pessoas
de carne e osso cheguem a infringir tamanho sofrimento a outros seres
humanos?”. Como psiquiatra, ele responde: “Entre os guardas de um campo
de concentração existiam sádicos por excelência, no sentido estritamente
clínico, que eram escolhidos deliberadamente para compor os pelotões
excepcionalmente rigorosos”.
Os adultos e os jovens de hoje não conhecem a recente história dos
horrores do antissemitismo e da Segunda Guerra Mundial. Os que dela
participaram como causadores, vítimas ou expectadores, quase todos já
morreram. Esse é o motivo da matéria de capa desta edição.
Há exatamente 70 anos, entre o Natal e o Ano-Novo de 1940, a Alemanha
nazista despejou 120 toneladas de explosivos de alta potência e 22 mil bombas
incendiárias sobre Londres. Que neste ano, nossos votos de Feliz Natal e Feliz
2011 sejam mais honestos e agradecidos, e menos formais e secularizados.
Tanto o nazismo na Alemanha na década de 1930 como o comunismo em
Angola e Moçambique na década de 1970 transformaram o Natal numa festa
nacional sem teor religioso. Hoje, a comemoração do nascimento de Jesus é
muito mais consumista do que religiosa, independentemente de o governo ser
de direita ou de esquerda. Tentemos resgatar a riqueza do cristianismo!
Elben César
Nota
Com alegria, reafirmando o compromisso de Ultimato com a questão indígena, esta edição traz
no exemplar do assinante o encarte Indígenas do Brasil. Há muitos dados novos sobre os desafios
missionários para a igreja com relação aos indígenas. Se o seu exemplar não traz o encarte e você deseja
recebê-lo, escreva para <indigena@amtb.org.br>.
Carta ao leitor
ISSN 1415-3165
Revista Ultimato – Ano XLIII – Nº 327
Novembro-Dezembro 2010
www.ultimato.com.br
Publicação evangélica destinada à evangelização
e edificação, não denominacional, Ultimato
relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos
com Escrituras. Visa contribuir para criar uma
mentalidade bíblica e estimular a arte de encarar os
acontecimentos sob uma perspectiva cristã. Pretende
associar a teoria com a prática, a fé com as obras,
a evangelização com a ação social, a oração com a
ação, a conversão com santidade de vida, o suor de
hoje com a glória por vir.
Circula em meses ímpares
Diretor de redação e jornalista responsável:
Elben M. Lenz César – MTb 13.162 MG
Arte: Liz Valente
Impressão: Plural
Tiragem: 35.000 exemplares
Colunistas: Alderi Matos • Bráulia Ribeiro
Carlinhos Veiga • Marcos Bontempo
Paul Freston • René Padilla
Ricardo Barbosa de Sousa • Ricardo Gondim
Robinson Cavalcanti • Rubem Amorese
Valdir Steuernagel
Notícias: Lissânder Dias
Participa desta edição: Eunice Nalamele Chiquete
Publicidade: anuncio@ultimato.com.br
Assinaturas e edições anteriores:
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da redação.
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Rodrigo Duarte • Solange dos Santos
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Romilda Oliveira • Sabrina Machado
Tatiana Alves • Vanilda Costa
Estagiárias: Jaklene Batista • Juliani Lenz
fundada em 1968
4 ULTIMATO I Novembro-Dezembro, 2010
A históriapode ser perturbadora e
terapêutica ao mesmo tempo
Julien Hequembourg Bryan
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 5
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6 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
71.
A
palavra “mas”, ou seus sinônimos (porém,
contudo, todavia), é uma conjunção
adversativa que liga dois termos ou duas
orações estabelecendo uma ideia de
contraste ou de oposição. Ela é muito usada pelos
historiadores que contam um fato, logo a seguir
contrabalançado por outro. De modo edificante e
convincente, o médico e historiador Lucas, autor
do Evangelho que leva o seu nome e do primeiro
compêndio da história da igreja cristã, usa e abusa
dessa conjunção, como vemos nos exemplos a seguir,
retirados de Atos dos Apóstolos:
Vocês mataram o Senhor, mas Deus o ressuscitou,
livrando-o do poder da morte (2.23-24).
Vocês prenderam os apóstolos e puseram guardas
vigiando os portões, mas naquela mesma noite Deus
abriu os portões e levou os apóstolos para o lado de
fora da cadeia (5.17-26).
Vocês crucificaram Jesus, mas o Deus dos nossos
antepassados o ressuscitou e o colocou à sua direita
como Senhor e Salvador (5.30-31).
Vocês ficaram com tanta raiva dos apóstolos que
resolveram matá-los, mas Deus levantou Galileu, um
dos membros do Sinédrio e um mestre de grande
respeito, que fez vocês mudarem de ideia (5.33-42).
No passado, os irmãos de José o venderam para ser
escravo no Egito, mas Deus estava com ele: livrou-o
de todas as aflições e ainda usou esse acontecimento a
bem do povo de Israel (7.9-16).
Um de vocês, um moço chamado Saulo, muniu-
se de documentos oficiais e rumou para Damasco
com autoridade para localizar e algemar homens e
mulheres seguidores de Jesus e levá-los para as cadeias
de Jerusalém; mas, próximo do trevo de Damasco,
Jesus apareceu a ele e mudou repentinamente o rumo
de sua vida (9.1-19).
Vocês resolveram matar Saulo porque ele provava
poderosamente que Jesus era o Messias. Assim, vocês
colocaram vigias em todos os portões da cidade
para ele não fugir com vida de Damasco, mas Deus
frustrou os planos de vocês e Saulo escapou por uma
abertura que havia na muralha (9.19-26).
Por sua herança judaica, Pedro não podia fazer
amizade com não-judeus e muito menos hospedar-se
com eles, mas Deus lhe mostrou repetidamente que
ele não deveria chamar de impuro aquilo e aqueles
que ele havia purificado (10.1-48).
Vocês mataram Jesus, pregando-o numa cruz, mas
Deus o ressuscitou no terceiro dia e fez com que ele
aparecesse a nós. E comemos e bebemos com ele
(10.39-41).
Vocês tiraram Jesus da cruz, o puseram num
túmulo e ainda conseguiram que Pilatos mandasse
uma guarda para impedir que alguns de nós
violássemos a sepultura e roubássemos o corpo dele
para simular uma ressurreição, mas Deus o ressuscitou
e, durante muitos dias, Jesus apareceu a nós sem
deixar dúvida de que estava vivo (13.27-31).
Vocês sabem que Davi morreu, foi sepultado e
apodreceu na sepultura, mas isso não aconteceu com
aquele que Deus ressuscitou, nosso Senhor Jesus
Cristo (13.33-37).
Todas as passagens anteriores mostram
sobejamente a soberania de Deus sobre tudo e sobre
todos na história. Não só no passado, mas também
no presente e no futuro. Não só com os primeiros
seguidores de Jesus, mas também com os seguidores
de hoje!
Pastorais
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 7
Como é possível sobreviver num
campo de concentração?
Viktor Emil Frankl: o salmista do
século 20
Uma palavra deViktor Emil Frankl
para animar os desalentados
Galeria dos sobreviventes
Mesmo à distância, fui obrigado
a conviver com os horrores do
antissemitismo e da Segunda Guerra
Mundial
3 Abertura
4 Carta ao leitor
6 Pastorais
8 Cartas
12 Frases
14 Mais do que notícias
16 Números
16 Notícias
22 Nomes
36 De hoje em diante...
38 Novos acordes
40 Altos papos
42 Meio ambiente e fé cristã
60 Caminhos da missão
CAPA
SEÇÕES
Leia mais
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Sumário
ABREVIAÇÕES:
AS21 - Almeida Século 21; BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de
Jerusalém; BP - A Bíblia do Peregrino; BV - A Bíblia Viva; CNBB -
Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; CT - Novo
Testamento (Comunidade de Taizé); EP - Edição Pastoral; EPC - Edição
Pastoral - Catequética; HR – Tradução de Huberto Rohden; KJ - King
James (Nova Tradução Atualizada dos Quatro Evangelhos); NTLH - Nova
Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As
referências bíblicas não seguidas de indicação foram retiradas da Edição
Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão
Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional.
Da linha de frente
20 Sobre a dor, Bráulia Ribeiro
O caminho do coração
44 Simplicidade e permanência
Ricardo Barbosa de Sousa
Missão integral
47 A formação de discípulos (parte 1)
René Padilla
Ética
48 Ação social cristã: a humildade
amorosa, Paul Freston
Reflexão
52 Brasil: um protestantismo
neoanabatista?, Robinson Cavalcanti
54 Sonhos e utopias (im)possíveis
Ricardo Gondim
Redescobrindo
a Palavra de Deus
56 Deus dá testemunho de si mesmo
Valdir Steuernagel
História
58 Cristãos e política: uma relação
imprescindível
Alderi Souza de Matos
Especial
61 3º Congresso Lausanne de
Evangelização Mundial reúne mais
de 4 mil pessoas na África do Sul
Ponto final
66 O veterinário, Rubem Amorese
24
26
28
30
32
8 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Coração, juventude e fé
Mais uma abençoada edição de
Ultimato! Louvado seja Deus por esse
trabalho. Muito interessante a pesquisa
com os jovens, mostrando que, como
igreja, precisamos dar respostas a eles.
Infelizmente, vivemos respondendo
perguntas que já não são mais feitas. A
matéria abre os olhos para a importância
de uma igreja que envolva essa moçada,
contextualizando o evangelho de Cristo.
Ensinar a essa geração o que diz a
pastoral da mesma edição: focar sempre
no final. Precisamos voltar a pregar sobre
o futuro, sobre a esperança da vida eterna,
e crer que aqui “todas as coisas cooperam
para o bem daqueles que ama a Deus”. É
urgente mostrar a eles a essência, o que
realmente importa. Como diz Ricardo Gondim,
“a juventude engana”.
David Livingstone, Guarapuava, PR
Achei interessante e de grande valor a edição
de setembro/outubro de 2010. Como sempre,
Ultimato traz assuntos importantes do meio
evangélico. Como jovem, não pude deixar
de dar uma atenção maior à matéria sobre a
juventude evangélica atual. Fiquei motivado em
saber que hoje muitos jovens têm assumido
liderança em suas igrejas; isso é motivo de
glorificação a Deus. A responsabilidade, o
comprometimento com as coisas do reino de
Deus é o melhor caminho a se trilhar para nos
tornarmos cada vez mais santos e separados.
Timóteo Santana, C. dos Goytacazes, RJ
Leonardo Boff
Devemos orar muito pelo Boff. Ele é como uma
pobre ovelha que se desviou do rebanho, não
por causa da fome ou da sede, mas por causa
da vaidade de sua sabedoria e acúmulo de
conhecimentos que acabaram ofuscando
sua fé, sua humildade e sua obediência.
Ele se esqueceu que a sabedoria humana
é fugaz e traiçoeira, que nos ensoberbece
e envaidece. A Bíblia diz que “a sabedoria
deste mundo é loucura aos olhos de Deus”
(1Co 3.19). Se Boff compreendesse isso,
ele seria não o Lutero do século 21, mas o
Paulo de Tarso do século primeiro! É curioso
notar que discursos como os de Boff brotam
nos claustros dos mosteiros e nas celas dos
conventos, onde se encontra terreno fértil e
ocioso na mente de alguns intelectuais, ditos
filósofos, teólogos, exegetas. Não surgem de
um padre simples do interior, que faz o terço,
se mortifica, faz novena, reza o ofício divino
e ainda atende vinte ou trinta comunidades
pobres. Em vez de críticas venenosas,
precisamos subir o monte das Oliveiras para
orar, parar junto ao poço de Jacó para ouvir e
entrar na casa de Zaqueu para converter os
pecadores. A igreja é uma instituição divina
regida por homens pecadores. Quanto maior
a instituição, maiores são as chances de
perigos e abusos.
Pe. Jaime Pinto, Barbacena, MG
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Cartas
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 9
Parabenizo Ultimato por publicar o artigo de
Leonardo Boff. Concordo com a reflexão dele.
É um chamamento feito à própria igreja, com
a finalidade de nos fazer refletir e perceber
que a verdadeira crise que a assola é interna.
Infelizmente, os homens que detêm o poder
e a governam fecham os olhos para isso.
Está na hora de a igreja rever sua postura
e sua forma de poder piramidal, pois não
corresponde mais às necessidades do nosso
tempo. Nesse sentido, é necessário à igreja
dar um passo a mais, pois, do contrário, ela
estará decretando sua falência. Sou religioso
estigmatino.
Pe. José de Amorim, Rio de Janeiro, RJ
Gostei muito do artigo de Leonardo Boff —
mais do que do infeliz comentário de Odayr
Olivetti. A afirmação de que “ocasionalmente
Deus levanta nas fileiras da Igreja Romana
vultos assim [como os pregadores calvinistas
fiéis]” cria um ar de superioridade, que o texto
de Boff condena.
Pedro Almeida, Itapecerica da serra, SP
Fiquei impressionado com o comentário do
historiador presbiteriano Alderi Souza de
Matos sobre o artigo de Boff. Todos que leem
o teólogo “católico” sabem que ele não é muito
alinhado às Escrituras. Porém, dizer que Boff é
sincrético porque associa a fé cristã à ecologia
é lamentável! As Escrituras, principalmente no
Antigo Testamento, dão grande ênfase ao fato
de que os hebreus associavam a fé à ecologia,
isto é, ao cuidado com a terra. Será que Alderi
pensa que a fé cristã é associável apenas
aos credos, ritos, liturgias e instituições? Ora,
toda a criação geme de dor pela manifestação
dos filhos de Deus, quando ela mesma “será
libertada da escravidão da decadência em que
se encontra” (Rm 8.21).
Fabiano Alves, Belo Horizonte, MG
Lugar de encontro
Recebo Ultimato há vários anos. Sempre leio a
revista toda e quero externar minha satisfação,
especialmente com as últimas edições. Destaco
a profundidade dos artigos e a abertura de
mente, sem proselitismo e sem ataques às
outras designações e opções religiosas.
Ultimato está se tornando um espaço de
debates e estudos para que haja mais
entendimento e uma busca sadia por mais
união e ecumenismo. A edição de setembro/
outubro trouxe ótimos artigos, como o de
Leonardo Boff, Robinson Cavalcanti, Ricardo
Gondim, Valdir Steuernagel, Alderi Souza
de Matos e Odayr Olivetti. Que a revista se
torne um lugar de encontro das diversas
tendências para a unidade cristã para um
mundo melhor.
Ernesto Casiraghi, Barra Mansa, RJ
Grande Comissão
John Stott, em 1966, concordava que a
exclusividade da missão era pregar, converter
e ensinar. Dez anos depois, reconheceu que
a ação social também faz parte da Grande
Comissão. Jesus diz: “Como o Pai me
enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21).
Ele é o modelo. O Senhor não veio apenas
buscar e salvar os perdidos (Lc 19.10), mas
também servir no mundo. Ele alimentou
famintos, curou enfermos, abençoou
crianças, ajudou mulheres, ministrou a
leprosos e até ressuscitou mortos.
Richar Hoover, Pindamonhangaba, SP
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10 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
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Voz do que clama no deserto
Conheci Ultimato por meio do meu
pastor e desde então sou assinante. A
revista tem sido um canal de Deus para
mim, pois sou um jovem presbítero de 33
anos e pastor de uma igreja Assembleia
de Deus. Ultimato tem me ensinado
sobre questões sociais, políticas e
religiosas. Continuem sendo a voz do que
clama no deserto.
Alexandre Leonardo, Nova Iguaçu, RJ
Além do aborto
A igreja brasileira não pode discutir nas
eleições apenas o aborto. Não discutimos
outros temas importantes para o país;
parece que somos usados na época
das eleições para “santificarmos” um
candidato e “demonizarmos” outro.
Infelizmente, isso é perceptível até em
articulistas experientes. Parece que
sabemos tocar apenas “samba de uma
nota só”. Deixemos a ingenuidade para
os tolos!
Pr. Adauto Cangussu, Vinhedo, SP
O bem e o mal
A xenofobia é uma estratégia da
oposição. Nos últimos meses,
multiplicou-se uma onda de difamações
contra as campanhas do PT e seus
aliados. A oposição escolheu incluir
nas redes ligadas aos sistemas
religiosos, basicamente cristãos
católicos e evangélicos, a velha disputa
entre bem e mal. Para assombrar as
massas religiosas, suscitam temas
polêmicos à moral cristã, como aborto,
homossexualismo, ateísmo, perda das
liberdades e satanismo. Claro, nem todos
os cristãos estão envolvidos. Em ambas
as tradições há repúdios explícitos
à desinformação e à proliferação
de informações inverídicas nessas
eleições. Não é a primeira vez e não
será a última. O essencial é saber do
agravante, a dose xenófoba, o medo do
desconhecido mascarado de aversão
e a difusão do preconceito no entorno
das manifestações de líderes e igrejas
cristãs. Há exemplos no passado:
inquisições, nazi-fascismo, racismo,
apartheid. É desnecessário descrever
o que é verdade ou mentira, pois as
calúnias sem sustentação se revelarão
com o tempo, restando a vergonha
aos que, em nome de Deus, serviram-
se desses artifícios. A xenofobia é
abominável. É utilizar-se de uma suposta
“pureza” para eliminar as “impurezas”
de um determinado grupo ou sociedade,
abstraindo-se de qualquer senso crítico,
criando estereótipos e ódio na sociedade.
Pr. Luis Sabanay, Brasília, DF
Pedófilos lá e cá
Não é somente a Igreja Católica
Romana que tem líderes religiosos
pedófilos; a igreja evangélica também
os tem. É preciso perguntar o que
leva uma organização qualquer,
que se diz seguidora de Cristo, a
ter tantos predadores em seu meio.
Como Ultimato é uma revista do meio
evangélico, cabe a ela apresentar e
discutir tal questão.
Dilys Rees, Goiânia, GO
Cartas
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 11
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PT – O partido que nunca foi
governo
O PT é governo sim. Há 8 anos governa com
o patológico PMDB.
O bispo Robinson logra o leitor separando
o lulismo do petismo. Tal qual o peronismo,
o chavismo e o castrismo, o lulismo é a
mutação degenerada populista de um
partido. Porém, ainda representa a essência
partidária. Não sei como um artigo tão
tendencioso foi parar na revista. Ou desejo
não saber. Espero que no futuro Ultimato
siga as instruções que o articulista escreve
na última linha: “orar, discernir e intervir”.
André Sena Pereira, Cachoeiro de
Itapemirim, ES
O termo lulista foi acertadíssimo, pois
Lula é bem maior que o PT. Com a saída
da liderança do PT, após sucessivos
escândalos, seria natural o preenchimento
dos espaços com a base aliada; só sobraram
eles. A partir daí o que se viu foi a festa da
democracia, em que os capitalistas mais
flexíveis e adaptáveis às rápidas mudanças
características de um mundo globalizado
ficaram mais ricos, os que não tiveram esse
dinamismos ficaram mais pobres, os pobres
compraram celular, comeram mais carne e
compraram carros velhos, a classe média
comprou carros zero e financiou suas casas;
isso não podemos negar. Excelente texto.
Victor Lux, Campo Grande, MG
Homônimas?
O artigo Pesquisa revela luta de missionários
contra pecados sexuais (“Notícias”,
setembro/outubro de 2010) menciona que
a Columbia Biblical Seminary and School
of Missions pertence à Universidade de
Columbia. Porém, a faculdade pertence à
Columbia International University. Apesar do
nome coincidente, não se trata da mesma
instituição. Confira: www.ciu.edu.
Bruno Ferreira, São Paulo, SP
Errata
— O nome correto do instituto citado no
artigo Um retrato da juventude evangélica
(setembro/outubro de 2010) é Bertelsmann
Stifung.
12 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
“Para o cristianismo, é impossível estruturar uma compreensão
das origens, desenvolvimento ou destino humano sem alguma
referência a Deus.
Alister E. McGrath, teólogo e escritor, autor de O Delírio de Dawkins
“É tempo de conhecer o Deus que está mais
interessado em nossos afetos do que em nossos
feitos, mais atento ao nosso caráter do que aos nossos
discursos.
Osmar Ludovico da Silva
“O orgulho científico entorpece a mente dos
pesquisadores, fazendo-os desprezar aquilo que
desconhecem.
Marcus Zulian Teixeira, pesquisador da faculdade de
medicina da USP
“Adesconfiança é o fermento do descompromisso. A
confiança é fértil; a desconfiança, estéril.
Emílio Odebrecht
“Precisamos nos lembrar sempre de que somos
interdependentes. Ninguém é inteiramente
autossuficiente.
Desmond Tutu, arcebispo anglicano sul-africano
“Odependente de crack deve receber apoio social e
deve ser tratado com critérios semelhantes aos
que usamos no caso dos hipertensos, dos diabéticos, dos
portadores de câncer, Aids e outras doenças crônicas.
Drauzio Varella, médico
“A fé é um dom que devemos
agradecer a Deus. Ela nos
faz superar a escuridão da vida e as
dificuldades.
Dom Eusébio Scheid, arcebispo emérito do
Rio de Janeiro
“O fato de ser humano significa
ter e reconhecer limites e
defeitos para, inclusive, tentar superá-los.
Rosely Sayão
“A mídia é mantida por seres humanos
e eles adoram dinheiro. O papel-
moeda transmite a sensação de bem-estar,
de felicidade. E a imprensa existe com o
propósito maior de agradar, falar o que o
povo quer ouvir.
Lúcio Sant’Ana, jornalista
“Do dia para a noite você consegue
encher um templo ou um estádio
de gente. Basta dizer o que a pessoas
gostam de ouvir. O assunto pecado [por
exemplo] é antipático e tem sido evitado,
mas é real, assim como são reais o céu e
o inferno.
Antônio Gilberto da Silva, consultor
teológico e doutrinário da CPAD
“As águas correm em direção
à separação [de um casal], e
remar contra a maré é para a minoria.
J. B. Libânio, teólogo jesuíta
”
”
”
”
”
”
”
”
”
”
”
FRASES
“A hipocrisia é um elemento intrínseco da dinâmica civilizada. Negar
o caráter universal da hipocrisia é fundar um novo tipo de má-fé,
mais falsa ainda, porque se traveste de pureza d’alma.
Luiz Felipe Pondé ”
WagnerMoraes
MatthiasAsgeirsson
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 13
Anúncio
14 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Embora amarrado,
Jesus nunca esteve
tão desamarrado
como na Sexta-Feira
da Paixão!
C
uriosamente, Isa-
que foi amarrado
no monte Moriá
por Abraão e colocado
sobre o altar (Gn 22.9),
e Jesus foi amarrado no
Getsêmani pelos soldados
romanos (poder civil) e
pelos guardas do templo
(poder religioso), sob as
ordens de um comandante
militar (Jo 18.12). Isaque,
após a intervenção de Deus,
foi logo desamarrado. Jesus
caminhou amarrado do
jardim à casa de Anás e
da casa de Anás à casa de
Caifás (Jo 18.24).
É provável que ele con-
tinuasse amarrado quando
percorreu o caminho da
casa de Caifás ao Pretório,
do Pretório ao palácio de
Herodes e do palácio outra
vez ao Pretório. Ele teria se
apresentado amarrado tan-
to a Pôncio Pilatos como
a Herodes Antipas. Talvez
o Senhor só tenha ficado
livre das cordas quando,
pouco antes das nove horas
da manhã, precisou de
mãos soltas para carregar a
própria cruz, do Pretório ao
Calvário. Porém, ao chegar
ao Lugar da Caveira, suas
mãos foram presas outra
vez — não amarradas uma
na outra como antes, mas
pregadas ao madeiro.
A julgar pelas aparências,
todo o quadro, do jardim
das Oliveiras ao jardim da
casa de José de Arimateia,
mostra Jesus amarrado
e Satanás desamarrado.
Porém, o que aconteceu
naquela sexta-feira lúgubre
foi exatamente o contrário.
Jesus nunca esteve tão de-
samarrado e Satanás nunca
esteve tão amarrado como
naquele período de, no má-
ximo, doze horas! A vitória
de Jesus estava escondida
por trás daquelas cordas. É
por isso que ele havia dito
poucos dias antes: “Quan-
do eu for levantado (na
cruz), atrairei todo o mun-
do a mim” (Jo 12.32, BV).
Nesse dia, Jesus foi elevado
e Satanás, abaixado, como
se lê: “Agora o príncipe
deste mundo será lançado
abaixo” (Jo 12.31, BJ).
Os cristãos apenas de
tradição, que não con-
seguem crer na natureza
divina de Jesus, na morte
expiatória, na gloriosa
ressurreição e no poder que
ele tem de submeter todos
os poderes aos seus pés —
enxergam um Jesus física
e figuradamente amarrado
e o príncipe deste mundo
completamente desamar-
rado. Nesse caso, não vale
a pena alguém pensar ou
afirmar que é cristão. E
como a maior parte da
pregação do evangelho feita
hoje não tem o objetivo de
gerar convicção do peca-
do, nem da justiça, nem
do juízo (Jo 16.8), mas de
prometer cura e prosperi-
dade, aumentar o número
de fiéis e arrecadar dízimos
e similares — a quantidade
de pseudo-cristãos tem
aumentado como nunca.
E
m junho de 2010,
quarenta brasileiros
da alta sociedade fo-
ram convidados pelo dono
de uma joalheria do Rio de
Janeiro para um jantar no
Olympe, um dos restauran-
tes mais caros da cidade. To-
dos eram compradores em
potencial de um relógio su-
íço que custa 400 mil reais.
Se todos tiverem efetivado
a compra, foram gastos 16
milhões de reais. A caixa do
relógio é de ouro, com rubis
na parte posterior. O alar-
me avisa horas, minutos e
segundos, com sonoridades
distintas.
+DO QUE NOTíCIAS
400 mil
reais no
pulso
esquerdo
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 15
+DO QUE NOTíCIAS
É
a psicanalista
Anna Verônica
Mautner, da
Sociedade Brasileira de
Psicanálise de São Paulo,
quem denuncia: “A eco-
nomia quer que eu use
muitos aparelhos para
que o mercado fique
aquecido e em movi-
mento”. Entre eles, ela
menciona o micro-on-
das, o forninho, o liqui-
dificador, a batedeira, a
máquina de lavar louça,
o freezer e a secretária
eletrônica. Usamos tais
aparelhos para trabalhar
por nós e para que nos
sobre tempo. Na prática,
“ficamos mais passivos,
A
falta de continui-
dade, em qualquer
área da vida, é um
problema sério. No que diz
respeito à escolaridade do
eleitor brasileiro, a porcen-
tagem dos que começaram
o ensino fundamental
e não terminaram é de
33,1 (contra 7,6). Os que
começaram o ensino médio
e não chegaram ao final é
de 18,9 (contra 13,2). E os
que começaram algum curso
Tempo para
ver o sol se
pôr e a maré
subir!
Os que
param no
meio do
caminho
mas não menos ocu-
pados”. À vista disso, a
psicanalista recomenda:
“Proponho inverter o
jogo: roubar o tempo
poupado pelas máqui-
nas para voltar ao ritmo
da vida real. Sempre
que possível, quero ver
o sol se pondo. Não
quero ser submetida
ao pôr-do-sol editado.
Quero esperar a maré
subir. [...] Vamos rou-
bar tempo para voltar
a viver, um pouco
que seja, a hora de
60 minutos, fazendo”
(Folha de S. Paulo,
caderno “Equilíbrio”,
08/06/2010.
superior e não se formaram é
de 2,7 (contra 3,8).
Isso lembra a enorme
quantidade de discípulos de
Jesus que o abandonaram
algum tempo depois de
terem se aproximado dele
— problema que faz parte
da história do cristianismo.
Costuma-se dizer que o nú-
mero de ex-crentes é maior
do que o número de crentes
arrolados hoje em diferentes
igrejas e denominações.
PatrizioMartorana
BlasLamagni
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 15
16 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
NÚMEROS NOTíCIAS
Psicólogos e psiquiatras cristãos
vão sentar-se no divã
Quem se acostumou
a aconselhar pessoas
agora vai sentar-se
no divã e avaliar sua
própria atuação no
uso do poder. O título
“Subjetividade e poder
nas relações humanas
— a vida e atuação do
profissional de ajuda”, reflete
a principal temática do 17º Congresso Nacional do Corpo
de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), que acontece de 21 a 24 de
abril de 2011 em Brasília, DF. Paralelamente, ocorrerá um encontro latino-
americano de profissionais da área.
“Escolhemos aliar o tema do poder com a situação de um ‘profissional
de ajuda’, como é o caso de psicólogos, psiquiatras e também pastores, para
investigar como as relações de poder traspassam as relações de ajuda, para
bem e para mal”, explica o presidente do CPPC, Karl Kleper.
O segundo dia do congresso será dedicado a seminários sobre os mais
diversos assuntos, como: “Poder e misericórdia”, “Consumo de álcool e seus
efeitos sobre a sexualidade”, “Cuidados no envelhecimento” e “A morte como
dinâmica da vida”.
A expectativa é receber pelo menos duzentas pessoas que poderão ouvir
mais de vinte palestrantes. Entre eles os argentinos, doutores em psiquiatria,
Carlos Hernandéz e Ricardo Zandrino. Qualquer pessoa pode participar.
Informações: www.cppc.org.br.
Martinho Lutero terá jardim na
Alemanha
A Federação Luterana Mundial (FLM) apresentou em julho deste ano o
projeto de construção do Jardim de Lutero, que será finalizado em 2017, por
ocasião da comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante. O projeto
arquitetônico, marcado por referências a números da Bíblia e da Reforma,
será um parque para caminhadas, passeios e lazer.
Serão plantadas quinhentas árvores. No centro, o monumento Rosa de
Lutero terá 40 metros de diâmetro e uma cruz como ponto de referência.
Árvores provenientes de todos os continentes formarão um jardim oval, com
uma elipse de 70 metros de largura e uma distância de 95 metros (as 95 teses
de Lutero) de seu foco.
O Jardim de Lutero está sendo construído onde no passado estavam as
fortificações da cidade alemã de Wittenberg, local em que o monge fixou
suas 95 teses no dia 31 de outubro de 1517. “As raízes das quinhentas árvores
irão se firmar, seus galhos estender-se-ão mundo afora, como aconteceu com
os ensinamentos de Lutero”, empolga-se o pastor luterano Heitor J. Meurer.
Para conhecer o projeto na íntegra, acesse www.luthergarten.de.
29.900.000
brasileiros ainda são pobres, com
renda familiar per capita abaixo de 130
reais.
35
caminhões cheios de mercadorias
(televisores e máquinas de lavar)
roubadas após o terremoto no Chile
foram devolvidos “espontaneamente”
depois da ameaça policial.
140.000
habitantes da zona rural migram para
os centros urbanos da Ásia a cada dia.
A população urbana mundial deverá
passar dos atuais 50% para 70% em
quarenta anos.
605
viúvas brasileiras entre 15 e 19 anos
recebem pensão pela morte do esposo
idoso ou aposentado. Segundo os
especialistas, “os números levantam
a suspeita de que podem estar
ocorrendo casamentos forjados para
assegurar às famílias a manutenção
do benefício após a morte do
aposentado”.
7.000.000
de dólares são gastos a cada ano pela
prefeitura de Los Angeles na remoção
de grafites.
300.000
bebês poderiam ser salvos da morte
todos os anos com técnicas de
reanimação neonatal. Só no Brasil,
diariamente, quinze recém-nascidos
morrem de asfixia na primeira semana
de vida.
SarahBarth
Por Lissânder Dias
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 17
18 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
NOTíCIAS
Evangélicos fazem campanha
contra resolução da ONU
A campanha Free to Believe (livres para crer), da Missão Portas Abertas
Internacional, está reunindo pela internet assinaturas de cristãos de todo o mundo
contra a Resolução de Difamação Religiosa, que deve ser submetida à votação em
dezembro deste ano na assembleia geral da ONU.
Segundo a Portas Abertas, a resolução é uma estratégia da Organização da
Conferência Islâmica, que pretende legitimar as ações de governos islâmicos contra
minorias religiosas. A Conferência Islâmica, que compreende 57 países, lançou a
proposta ainda em 1999 e insiste para que ela seja aprovada. “Os direitos humanos
são exatamente isso — direitos pertencentes a indivíduos —, mas essa resolução
procura dar esses direitos a uma religião específica. Ela vai contra a lei dos direitos
básicos que existem para proteger os seres humanos, não as crenças religiosas ou os
sistemas”, diz o texto da campanha.
Citando exemplos de perseguição a cristãos pelos governos do Sudão e do
Paquistão, a página da campanha Free to Believe na internet oferece recursos,
como apresentação em PowerPoint, vídeos, arquivos para marca-página e adesivos.
Os interessados podem participar até 22 de novembro. Informações: www.
portasabertas.org.br/freetobelieve.
Indígenas assumem desafio de
traduzir a Bíblia
Mais de cem
indígenas de 59
etnias brasileiras
se reuniram de
29 de agosto a
3 de setembro,
junto com outros
cem missionários
não-indígenas,
no 1º Fórum
Brasileiro Sobre o
Uso das Escrituras
em Línguas
Indígenas, em
Anápolis, GO. No documento final intitulado “Carta de Anápolis”, os indígenas
se comprometeram a “promover a tradução da Bíblia para todos os povos que não
a possuem”. O Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas
(CONPLEI) designou Leonízia Gama, da etnia Tukano, para liderar as ações de
tradução.
Os indígenas presentes no fórum também assumiram o esforço de apoiar a
educação teológica e secular de indígenas e “de lutar por uma sociedade mais justa,
democrática e igualitária”.
Segundo o Relatório Etnias Indígenas Brasileiras, publicado em 2010, há 181
línguas indígenas no Brasil. Hoje, 58 delas possuem porções bíblicas, o Novo
Testamento ou a Bíblia completa em seu próprio idioma — material que serve a
66 etnias.
Grupo de trabalho no 1º
Fórum Brasileiro Sobre o Uso
das Escrituras em Línguas
Indígenas
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 19
20 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
bela, nos comove e vai comover as
gerações que virão.
Na intensa prova do Ironman em
Kona, os corpos perfeitos das primeiras
horas da chegada dão lugar à beleza
da resistência. Os triatletas renomados
chegam oito horas depois do início.
Porém, não são eles os heróis. Até à
meia-noite, dezessete horas depois
do início da corrida, os vitoriosos são
esperados. Alguns chegam mancando,
mal conseguindo caminhar; outros,
correndo com as forças finais que não
sabiam que tinham. Coloco-me num
lugar escuro do percurso, antes da
virada dos últimos quatro quilômetros,
e com a voz embargada grito “você vai
chegar!” para o para-atleta com pernas
mecânicas em cima de lâminas, ou
para a velhinha claudicante. A pintura
no chão diz: “compromisso são 260.3
quilômetros”. Eles finalmente passam
pela chegada em estado de êxtase. O
cansaço e a dor como uma droga os
impulsionando para frente. Alguns
desmaiam, vomitam. A voz do locutor
grita: “Sandra Smith, de 58 anos, você
é um Ironman!”. E ali, na intensidade
da dor do máximo esforço, eles sabem
que venceram.
O importante no Ironman não
é chegar primeiro. É simplesmente
chegar. Cada um vencendo a si mesmo.
O sobrevivente do câncer, o jovem
que perdeu as pernas, a mulher obesa
que perdeu quarenta quilos, o pai que
perdeu o filho. Todos são campeões e
celebrados como tais. E todos sabem
que sem dor na vida não há vitória.
Muitos creem em um Deus
compatível com a dor. Seu plano
superior justifica tudo e a dor como
E
nquanto o fagote avança
no lúgubre primeiro
movimento da Sinfonia
6 de Tchaikovsky, a
melodia da dor vai se
desenhando. A vida ainda se debate na
valsa propositalmente desequilibrada
do segundo movimento e na marcha
do terceiro. Vida à procura de
sentido, de equilíbrio. A vida na dor
finalmente cede à morte no quarto
movimento e vai se esvaindo até o
silêncio.
Picasso brinca com o rosto humano
e o descobre torto, desconexo. Então
pinta “Guernica”, o quadro da dor
da guerra, no qual homens e animais,
aos pedaços, se debatem no lençol
negro da incompreensão. O sol é uma
lâmpada sem força. Não há outra
expressão além da dor soberana, e as
gentes que se entregam à morte. A dor
transforma o homem; porém, ainda
um mal menor cede lugar à glória do
final, a glória inescrutável do divino
que triunfará. Deus está no meio da
dor. Porém, ele não se alegra nela nem
a planejou. A Bíblia não nos mostra um
Deus impassível, mas o inspirador da
“Guernica”. Seu coração se contorce em
dores, diz o profeta chorão ao descrevê-
lo. Vem o Filho e encarna a descrição
profética mostrando-nos o rosto, o
corpo, o coração da dor na cruz. Não há
dor maior do que a da rejeição suprema
àquele que era o amor supremo.
Como o Deus da cruz pode ser
impassível? Mel Gibson criou no
filme A paixão, a teologia visual do
sofrimento. “Em toda a angústia deles,
foi ele angustiado” (Is 63.9). A dor que
a humanidade se autocausou em sua
rebelião, sempre foi dele também. Todo
o universo sofre nosso pecado. Porque
Cristo dói, a dor humana é bela como a
Sinfonia 6.
Certa amiga perdeu dois de seus
três filhos. Encontro com ela depois da
morte do segundo, muda, sem saber o
que dizer. Ela se queixa do abandono.
Ninguém a visita. Além dos filhos,
perdeu os amigos. A morte incomoda.
Ela diz que as pessoas não sabem como
se portar diante da dor que ela carrega
e se afastam. Até os cristãos têm medo
do contágio da dor, como uma lepra.
— “Por quê? A dor é minha, não é
deles”, ela diz. — “Não, amiga. Ela é de
todos”. Mas um dia, como os Ironman,
cruzaremos com dor a linha de chegada
para contemplar a vitória de estar com
ele.
Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos.
Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está
envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia.
É autora de Chamado Radical. braulia.ribeiro@uol.com.br
Sobre a dor
DA LINHA DE FRENTE Bráulia Ribeiro
Deus está no meio da dor. Porém,
ele não se alegra nela nem a
planejou
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 21
22 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Arquivopessoal
A carta não enviada,
mas publicada
N
a década de 1970,
Guilherme Luz era cercado por
sete mulheres: a esposa e seis
filhas. Ele precisava de uma memória
de elefante para não trocar os nomes. A
esposa chama-se Ivonete; as filhas, Luzia,
Yonne, Ivete, Ionete, Iete e Inete. Além
delas, havia os filhos Paulo, Afonso e
Marcos.
O cônego anglicano Benedito
Guilherme Ferreira Luz, de 80 anos, e
Ivonete, de 74, casaram-se em janeiro de
1957, há quase 54 anos.
Por ocasião de seu 80º aniversário,
em outubro, “pressentindo que se
aproxima o dia da minha viagem para a
cidade do repouso eterno”, escreveu, mas
não enviou, uma carta à esposa e aos
vários filhos, genros, netos e bisnetos.
A carta começa com a citação do
melhor texto sobre decrepitude e morte
jamais escrito: “A vida vai se acabar
como uma lamparina de ouro cai e
quebra, quando a sua corrente de prata
se arrebenta, ou como um pote de barro
se despedaça quando a corda do poço se
parte. Então o nosso corpo voltará para
o pó da terra, de onde veio, e o nosso
espírito voltará para Deus, que o deu”
(Ec 12.6-7, NTLH). Em seguida, há um
recado para Ivonete:
“Como se passaram depressa os dias,
desde quando constituímos família
até os dias de hoje! Coisas tão bonitas
aconteceram conosco e nós não nos
apercebemos delas!
Quantas vezes o Deus eterno falou
aos nossos corações: ‘Descansem um
pouco, separem um tempinho só para
vocês! Eu não quero vocês cansados e
estressados!’. Nós, porém, não obede-
cemos.
Milhares de manhãs ensolaradas
descortinaram belezas deslumbrantes
de dias felizes que vivemos e nós não
nos demos conta. Poucas vezes, porém,
nuvens escuras toldaram nossos céus
e entenebreceram nossos crepúsculos,
nossos olhos de albinos se abriram no
meio da noite e viram apenas as feiuras
e os defeitos!
Antes que a ‘lamparina de ouro’ caia
e se quebre, quero te pedir perdão por
todas as vezes que, mesmo sem querer,
fui injusto contigo, te magoei, te feri,
te fiz sofrer.
Oh! Minha amada, minha esposa,
minha companheira de mais de meio
século de vida, eu te amo e sempre irei
te amar!”.
Depois dessas confissões e decla-
rações de amor, o padre anglicano
dirigiu-se aos descendentes da primei-
ra, da segunda e da terceira gerações:
“Lamento não ter sido um bom
exemplo de esposo, pai, sogro, avô e
bisavô. Deploro tê-los decepcionado
tantas vezes.
Tenho sido omisso ante a superfi-
cialidade da vida que alguns de vocês
têm levado. Não os tenho incentivado
à busca de uma vida plena, que só
pode ser realizada no entendimento
e na práxis do discurso de Cristo:
‘Eu vim para que tenham vida e vida
com abundância’ (Jo 10.10). Vida em
abundância é a disposição de rebentar
os grilhões do egoísmo e da dureza de
Nomes
coração que nos impedem de perdoar
e de condescender. É o ato de romper
com toda a soberba e orgulho que nos
faz pensar que somos superiores, quan-
do, na verdade, apenas escondem nossa
inferioridade e mesquinhez.
Estou convencido de que a vida
abundante é muito difícil, talvez
impossível de ser vivida plenamente
aqui na terra, pois implica autodoação,
renúncia, desprendimento, práticas de
atos de justiça e ausência de erros. Não
obstante, sua característica utópica deve
ser sonhada, tentada e buscada.
Não sou e nunca pretendi ser um
santo. Também jamais fui um vilão.
Apesar de meus esforços racionais, na
busca e investigação constante da verda-
de, e embora desejasse ser justo, bom,
puro e perfeito, senti minha incapacida-
de para tanto, vi em mim apenas erros,
fraquezas, limitações e descobri não
poder ser nada mais do que um homem.
Antes que “o pote de barro se
despeda[ce]”, necessito do doce perdão
de vocês. Perdão por não saber expressar
o grande amor que sempre cultivei por
vocês. Perdão por todas as vezes que fui
infiel, injusto, ingrato, intolerante, inca-
paz, egoísta, ausente, omisso e fraco.
E na certeza de que já recebi o perdão
de Deus e de vocês, sinto-me feliz em
poder cantar, desde agora, com todas
as forças, o Nunc Dimittis, do velho
Simeão (Lc 2.29), e descansar em paz!”.
Na internet
Da descrença quase total para o ministério da
Palavra, por Guilherme Luz. (Edição de julho/agosto
de 2000.)
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 23
24 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Como é possível realizar
trabalhos braçais ao relento, sem
luvas e agasalhos apropriados, se o
termômetro marca 20 graus abaixo de
zero? Como é possível não explodir
de raiva ao ver o capataz com luvas
grossas e casaco de couro forrado de
peles?
Como é possível ficar mais de trinta
meses sem escrever e receber cartas?
Como é possível conviver, em
barracos superlotados, com pessoas
até então estranhas, de vários
países da Europa, com idiomas e
comportamentos diferentes e com
profissões e níveis diversos? (Certa
ocasião havia 1.100 prisioneiros
numa cobertura que comportava, no
máximo, duzentas pessoas.)
Como é possível
sobreviver
num campo de
concentração?
C
omo é
possível
acomodar,
em cada
uma das
três camas
de tábua de um triliche, nove
prisioneiros deitados de lado,
um atrás do outro? (Qualquer
metrô transporta, no horário
de pico, no máximo 9,8
pessoas em pé por metro
quadrado.)
Como é possível manter
o organismo vivo com 300
gramas de pão e um litro de
sopa por dia durante meses
a fio?
24 ULTIMATO I Novembro-Dezembro, 2010
Capa
Como é possível suportar “a mais
inconcebível falta de higiene” por causa
do acúmulo de gente e da ausência ou
escassez de vasos sanitários apropriados?
Como é possível continuar vivo
apesar da saudade de pessoas, coisas e
acontecimentos, dentro de um cercado
de arame farpado, com fios de alta
tensão, torres de vigia e holofotes acesos
a noite inteira?
Como é possível não se desesperar por
completo se, do lado de fora, em dois
barracões, estão quatro grandes câmaras
de gás venenoso e se quase todo o dia se
vê a fumaça que sai da chaminé do forno
crematório levando consigo as cinzas dos
que ontem estavam no mesmo barracão?
Como é possível lidar com a sensação
de estar andando atrás de seu próprio
— SOFRIMENTO —
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 25
cadáver, de ser um cadáver vivo, de
ser uma partícula numa massa de
carne humana cercada por todos os
lados?
Como é possível não ceder à
tentação do suicídio, não satisfazer
a vontade de “ir para o fio”
(agarrar-se à cerca elétrica para
morrer)?
Como é possível sujeitar-se à
morosidade do tempo se, num
campo de concentração, “um dia
demora uma semana”?
Como é possível não perder a
identidade própria depois de ser
despojado de todos os documentos,
de todos os bens e até de nome e
sobrenome em troca de um mero e
comprido número?
Como é possível não perder a
autoestima sem ver o próprio rosto no
espelho durante dois anos e meio?
O austríaco Viktor Emil Frankl,
nascido em Viena cinco anos depois do
século 19 e morto na mesma cidade três
anos antes do século 21, conseguiu passar
por cima de todos esses impossíveis.
Antes de ser levado para o campo de
concentração de Theresienstadt em
setembro de 1942, Frankl, aos 37 anos,
já tinha um doutorado em medicina e era
um conhecido e respeitado neurologista
e psiquiatra. Depois de passar por outros
campos de concentração, inclusive
Auschwitz, e ser libertado pelo exército
americano em abril de 1945, Frankl
tornou-se chefe do Departamento de
Neurologia do Hospital Policlínico de
Viena e doutorou-se em filosofia.
Valendo-se de sua própria experiência,
fundou a logoterapia, muitas vezes
chamada de “terceira escola vienense
de psicoterapia” (depois da psicanálise
de Freud e da psicologia individual de
Adler).
Em seu mais famoso livro (Em
Busca de Sentido, com mais de 9
milhões de exemplares vendidos),
Viktor Frankl explica a razão de sua
sobrevivência: “Não há dúvida de que
o amor-próprio, quando ancorado em
áreas mais profundas, espirituais, não
pode ser abalado por uma situação de
tremendo sofrimento”.
Foi por isso que ele escreveu
também o não menos famoso A
Presença Ignorada de Deus.
Samuelson,Lt.A.E.
26 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Capa
A
psicóloga clínica Izar
Aparecida de Moraes
Xausa, coordenadora da
comissão científico-tecnológica
do Serviço Interconfessional de
Aconselhamento (SICA), em Porto
Alegre, pode estar exagerando ao
chamar o psiquiatra Viktor Emil
Frankl de “o salmista do século 20”.
Porém, ela tem diversas razões, já
que há uma coincidência entre a
sede de Deus expressa nos Salmos
e a redescoberta dessa mesma
dependência na experiência, nas
abordagens psicológicas e nos livros
de Frankl.
Sem constrangimento algum, o
salmista confessa sua sede interior
de Deus. No Salmo 42 (Como a
corça anseia por águas correntes, a
minha alma anseia por ti, ó Deus.
A minha alma tem sede de Deus,
do Deus vivo), no Salmo 63 (Ó
Deus, tu és o meu Deus, eu te busco
intensamente; a minha alma tem
sede de ti! Todo o meu ser anseia por
ti, numa terra seca, exausta e sem
água), no salmo 84 (A minha alma
anela, e até desfalece, pelos átrios
do Senhor; o meu coração e o meu
corpo cantam de alegria ao Deus
vivo) e no Salmo 143 (Estendo as
minhas mãos para ti; como a terra
árida, tenho sede de ti).
Viktor Frankl, por sua vez,
garante que sobreviveu aos campos
de concentração por causa de sua
fé pessoal em Deus, que lhe dava
e mostrava o sentido da vida. Izar
lembra que, “num dos primeiros
discursos públicos depois da guerra,
Frankl testemunhou o poder
sustentador da fé num Deus pessoal
e vivo”. Ele poderia parafrasear Davi
na situação difícil em que este se
encontrava: “Todo o meu ser anseia
por ti nesse campo de concentração,
sem nome, sem família, sem
consultório, sem cartas, sem livros,
sem nada”.
Outro comportamento
coincidente entre o salmista do
século 10 antes de Cristo e o
salmista do século 20 depois de
Cristo é que ambos olhavam para
as alturas. O salmista da Bíblia
proclama: “Levanto os meus olhos
para os montes e pergunto: De
onde me vem o socorro? O meu
socorro vem do Senhor, que fez os
céus e a terra” (Sl 121.1-2, NVI).
Gordon W. Allport, ex-professor de
psicologia de Harvard, ousa dizer
que, por terem transformado tudo,
em especial a psicologia profunda,
em “psicologia das alturas”, os
estudos de Viktor Frankl deram
origem ao “movimento psicológico
mais importante de nosso tempo”.
Tanto os médicos como os pacientes
têm de olhar para os montes, para
cima, para as alturas, para Deus,
onde encontrarão a chave de tudo:
o sentido da vida. Só assim será
possível vencer o vazio existencial,
que Frankl diz ter sido a neurose do
século 20.
Um dos livros escritos por ele
chama-se Der Unbewusste Gott, que
na verdade é sua tese de doutorado
em filosofia (1948). Em vez de
traduzir como O Deus Inconsciente,
os tradutores brasileiros Walter O.
Schlupp e Helga Reinhold deram ao
livro o sugestivo título de A Presença
Ignorada de Deus. O maior trunfo
de Frankl é não se envergonhar de
crer na existência de Deus como
pessoa e mostrar que essa existência
está arraigada no interior de
qualquer um, em qualquer lugar e
em qualquer tempo. Nesse sentido,
mesmo não sendo cristão (era
judeu), Frankl foi um pregador de
Deus como os profetas do Antigo
Testamento. Como psicólogo e
psiquiatra, ele mostrava que “além
do elemento instintivo, havia o
elemento espiritual inconsciente”.
Na logoterapia, fundada por
Frankl e geralmente chamada
de “a terceira escola vienense de
psicoterapia”, “o homem é levado
não tanto para fora de uma doença,
como em direção a uma verdade”
(Izar Aparecida). Na psicanálise,
explica ele, “o paciente se deita
num divã e conta ao médico
Viktor Emil Frankl
o salmista do século 20
— SOFRIMENTO —
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 27
coisas que, às vezes, não são muito
agradáveis de contar; na logoterapia,
no entanto, o paciente pode ficar
sentado normalmente, mas precisa
ouvir coisas que, às vezes, são
muito desagradáveis de se ouvir”.
Para Frankl, “o ser humano não é
impelido pelo impulso, mas puxado
pelos valores”.
Tudo isso se reveste de um valor
muito maior se nos lembrarmos
que, nas décadas de 1930 e 1940,
o ambiente na Alemanha nazista
não era nem um pouco favorável
ao cristianismo. Hitler dizia que
todas as religiões eram semelhantes
e que nenhuma delas teria futuro.
O alvo oculto do Führer era fazer
o que Jesus fez com a figueira
infrutífera: “despedaçar as raízes
e os ramos do cristianismo”. Não
seria necessário abrir guerra contra
os cristãos, fossem católicos ou
protestantes. Bastava impedir que
as igrejas fizessem qualquer coisa
diferente do que estavam fazendo,
ou seja, perdendo terreno dia-a-
dia. Naquele período, um dos mais
sombrios da história, Hitler soube
substituir a Páscoa e o Natal por
festividades nacionais sem teor
religioso, e a cruz pela suástica, o
emblema nazista. Já que o credo do
Cristo judeu ensinava uma “ética
efeminada de piedade”, os pais
foram desencorajados a mandar seus
filhos a qualquer escola religiosa.
Para substituir o cristianismo, foi
instituído “o culto do Führer, do
sangue e do solo”. Em 1937, mais
de 100 mil alemães abandonaram
formalmente a igreja católica.
Uma pequena porcentagem
de católicos e protestantes era
praticante.
Apesar de ter sido
irresponsavelmente chamado
de ateu tanto por Freud quanto
por um padre durante um
ofício religioso na famosa Igreja
Votiva de Viena, Frankl era um
judeu religioso. Na infância,
ele e o irmão mais velho eram
obrigados a ler poemas em
hebraico ao pôr-do-sol de toda
sexta-feira, quando começava
o sábado judaico. O exemplo e
as palmadas do pai fizeram de
Viktor Emil Frankl um daqueles
judeus ou não-judeus “tementes a
Deus” de que fala o livro de Atos
(10.2; 16.14; 18.7). Porém,
aquele que é chamado “o salmista
do século 20”, “o Copérnico da
psicologia”, “o médico do vazio
existencial” e “o psicólogo da
religião humana” nunca se tornou
seguidor ou discípulo de Jesus.
Visão do campo de concentração de Auschwitz no
inverno, onde Viktor Frankl foi aprisionado pelos nazistas
Prisioneiros judeus em campo de concentração nazista
Chmouelaten.wikipedia
28 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Capa
Uma palavra de Vikto
para animar os desal
Q
uando Paulo e
Barnabé, em cerca
de 46 depois de
Cristo, entraram
num sábado na sinagoga de
Perge, na costa sul da atual
Turquia, os responsáveis lhes
disseram: “Se vocês têm alguma
palavra para animar o povo,
podem falar agora” (At 13.15,
NTLH). Paulo não perdeu a
oportunidade. Ele discursou
de tal modo que as pessoas
“pediram com insistência
que eles voltassem no sábado
seguinte a fim de falarem sobre
o mesmo assunto” (At 13.12,
NTLH).
A seguir, o leitor vai
encontrar palavras, não de
Paulo, mas de Viktor Frankl,
o famoso psiquiatra austríaco
que passou quase três anos em
campos de concentração (veja
Como é possível sobreviver num
campo de concentração?, pág.
24.)
Sobre a arte de viver
•	 Não procurem o sucesso.
Quanto mais o procurarem e
o transformarem num alvo,
mais vocês vão errar. Porque
o sucesso, como a felicidade,
não pode ser perseguido;
ele deve acontecer, e só tem
lugar como efeito colateral
de uma dedicação pessoal
a uma causa maior do que
— SOFRIMENTO —
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 29
or Emil Frankl
lentados
a pessoa, ou como subproduto da
rendição pessoal a outro ser.
•	 A vontade de humor — a tentativa de
enxergar as coisas numa perspectiva
engraçada — constitui um truque
útil para a arte de viver.
•	 Com o fim da incerteza chega
também a incerteza do fim.
•	 Quem não consegue mais acreditar
no futuro — seu futuro — está
perdido num campo de concentração.
•	 O prazer é e deve permanecer efeito
colateral ou produto secundário.
Ele será anulado e comprometido à
medida que se fizer um objetivo em
si mesmo.
•	 O ser humano é um ser finito e sua
liberdade é restrita.
Sobre o sentido da vida
•	 Ouso dizer que nada no mundo
contribui tão efetivamente para a
sobrevivência, mesmo nas piores
condições, como saber que a vida da
gente tem um sentido.
•	 O que o ser humano realmente
precisa não é um estado livre de
tensões, mas antes a busca e a luta por
um objetivo que valha a pena, uma
tarefa escolhida livremente. O que ele
necessita não é a descarga de tensão
a qualquer custo, mas antes o desafio
de um sentido em potencial à espera
de ser cumprido.
•	 O sentido de vida difere de pessoa
para pessoa, de um dia para o outro,
de uma hora para outra. O que
importa, por conseguinte, não é o
sentido da vida de um modo geral,
mas antes o sentido específico da vida
de uma pessoa em dado momento.
•	 O sentimento de falta de sentido
cumpre um papel sempre crescente na
etiologia da neurose.
•	 As pessoas têm o suficiente com o
que viver, mas não têm nada por que
viver; têm os meios, mas não têm o
sentido.
•	 O niilismo não afirma que não
existe nada, mas afirma que tudo é
desprovido de sentido.
Sobre a arte de sofrer
•	 Se é que a vida tem sentido, também
o sofrimento necessariamente o
terá. Afinal de contas, o sofrimento
faz parte da vida, de alguma forma,
do mesmo modo que o destino e a
morte. Aflição e morte fazem parte da
existência como um todo.
•	 Precisamos aprender e também
ensinar às pessoas em desespero que
a rigor nunca e jamais importa o que
nós ainda temos a esperar da vida,
mas sim exclusivamente o que a vida
espera de nós.
•	 Deus espera que não o decepcionemos
e que saibamos sofrer e morrer, não
miseravelmente, mas com orgulho!
•	 Ninguém tem o direito de praticar
injustiça, nem mesmo aquele que
sofreu injustiça.
•	 Quanto mais uma pessoa esquecer-se
de si mesma — dedicando-se a servir
uma causa ou amar outra pessoa —,
mais humana será e mais se realizará.
•	 Sofrimento, de certo modo, deixa de
ser sofrimento no instante em que se
encontra um sentido, como o sentido
de um sacrifício.
•	 O sofrimento desnecessário é
masoquismo e não ato heroico.
Sobre o “nem tudo está perdido”
•	 Se houve um dia na vida em que a
liberdade parecia um lindo sonho,
virá também o dia em que toda a
experiência sofrida no passado parecerá
um mero pesadelo.
•	 O ser humano é capaz de viver e até de
morrer por seus ideais e valores.
•	 O passado ainda pode ser alterado e
corrigido.
•	 Quando já não somos capazes de
mudar uma situação, somos desafiados
a mudar a nós próprios.
•	 Quando o paciente está sobre o chão
firme da fé religiosa, não se pode
objetar ao uso do efeito terapêutico de
suas convicções espirituais.
•	 Uma das principais características da
existência humana está na capacidade
de se elevar acima das condições
biológicas, psicológicas e sociológicas,
de crescer para além delas.
•	 As pessoas decentes formam uma
minoria. Mais que isso, sempre serão
uma minoria. Justamente por isso, o
desafio maior é que nos juntemos à
minoria. Porque o mundo está numa
situação ruim. E tudo vai piorar mais
se cada um de nós
não fizer o melhor
que puder.
Todas as frases foram retiradas do
best-seller Em Busca de Sentido,
publicado em alemão em 1945.
30 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Capa
Galeria dos sobreviventes
Jó antes de Habacuque
Jó, o patriarca de Uz, de um dia
para o outro, perdeu toda a riqueza
(11.500 cabeças de gado) e quase
todos os empregados (administradores,
agricultores, boiadeiros, carreiros,
cortadores de lã, guardas das torres de
vigia, plantadores de capim, roçadores
de pasto, tiradores de leite, tratadores
de animais, vendedores de gado etc.).
Perdeu os dez filhos quando a casa
onde eles estavam comemorando
o aniversário do irmão mais velho
desabou e soterrou todos eles. No
dia seguinte, havia dez caixões com
defuntos para Jó enterrar. Pouco depois
da perda dos bens e dos filhos, Jó
perdeu a saúde — o mais precioso bem
que alguém pode possuir. A doença
era tão desgastante que o levava a
desejar ansiosamente a morte. Poderia
ser dermatose escamosa, elefantismo,
eczema crônico, melanoma ou outra.
Ele portava “feridas terríveis, da sola dos
Prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald, no leste da Alemanha. Um
deles é Max Hamburger, que se tornou psiquiatra na Holanda, e outro é Elie Wiesel,
que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1986.
PrivateH.Miller.
pés ao alto da cabeça”, raspava-se com
caco de louça e ficou tão desfigurado
que seus amigos não o reconheceram
e começaram a chorar em alta voz
diante daquele quadro aterrador
(Jó 2.12-13). O mesmo fazendeiro
perdeu a companhia religiosa e o
aconchego da esposa, tão enlutada
quanto ele. Ela se revoltava contra Deus
e queria que o marido fizesse o mesmo
(Jó 2.9). A esposa de Jó mantinha-
se à distância por questões de saúde:
“Minha esposa não chega perto de mim
por causa do mau cheiro que sai de
minha boca quando falo” (Jó 19.17,
BV). O incrível sofredor experimentou
ainda a dor da solidão, após a ruína
financeira e a nova e feia aparência: “Os
meus parentes me abandonaram e os
meus amigos esqueceram-se de mim”
(Jó 19.14). Como se não bastasse todo
esse sofrimento, Jó teve de enfrentar o
juízo temerário de todos, especialmente
dos amigos mais íntimos, que
interpretaram sua desgraça como castigo
por algum pecado secreto que ele teria
cometido.
Apesar dessa inexplicável e incontida
enxurrada de dores e de injustiças, o
patriarca de Uz resistiu a tudo por todo
o tempo, ancorado numa única pessoa e
numa única esperança: “Eu sei que meu
Redentor vive, e que no fim se levantará
sobre a terra” (Jó 19.25).
Habacuque antes de Paulo
Cerca de 2.500 anos antes da ameaça
nazista, os judeus enfrentaram a
ameaça babilônica. O grande império
de Nabucodonosor estava dominando
o mundo. Duas poderosas nações já
haviam caído: a Assíria em 612 antes
de Cristo, e o Egito, sete anos mais
tarde, na famosa batalha de Carquemis
(605 a. C.). A próxima nação a ser
cercada, destruída e ocupada seria Israel,
mais propriamente Judá, o reino do sul.
A escassez de comida e a consequente
— SOFRIMENTO —
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 31
fome eram iminentes. Boa parte da
população seria deslocada para longe
de sua pátria e muitos sofreriam como
escravos e trabalhadores forçados.
A beleza de Jerusalém seria coisa
do passado. Suas riquezas seriam
pilhadas e levadas pelos invasores.
Para continuar a viver, os que tinham
algum bem o trocariam por comida
(Lm 1.1-12). Crianças diriam às mães:
“Estou com fome! Estou com sede!”.
Sem pão para comer nem água para
beber, as crianças cairiam pelas ruas
e os bebês morreriam aos poucos
nos braços das mães. Estas, por sua
vez, por causa da fome, perderiam o
controle e devorariam os filhinhos
que tanto amavam. Os mortos, tanto
jovens como velhos, seriam largados
nas ruas (Lm 2.11-21). Os que haviam
morrido no campo de batalha seriam
considerados mais felizes do que os que
morreriam depois, por causa do caos
posterior à guerra (Lm 4.9).
Não obstante, frente a essa situação
catastrófica prestes a acontecer, um
homem chamado Habacuque, que era
profeta e poeta, explica como poderia
sobreviver: “Ainda que as figueiras
não produzam frutas, e as parreiras
não deem uvas; ainda que não haja
azeitonas para apanhar nem trigo
para colher, ainda que não haja mais
ovelhas nos campos nem gado nos
currais, mesmo assim eu darei graças
ao Senhor e louvarei a Deus, o meu
Salvador. [Pois] o Senhor é a minha
força. Ele torna o meu andar firme
como o de uma corça e me leva para
as montanhas, onde estarei seguro”
(Hc 3.17-19, NTLH).
Paulo antes de Viktor Frankl
Quando Jesus apareceu a Saulo no
trevo da cidade de Damasco, capital da
Síria, perto do final da primeira metade
do século primeiro, ele não escondeu
do futuro apóstolo que haveria
sofrimento por causa do evangelho
(At 9.16). De acordo com o relatório
desse sofrimento, contido na Segunda
Carta aos Coríntios, escrita em 55
depois de Cristo, Paulo foi apedrejado
uma vez, espancado três vezes,
chicoteado cinco vezes (cada uma com
39 açoites) e passou por três naufrágios
(num deles ficou 24 horas boiando
no mar). Além disso, ele muitas vezes
ficou sem dormir, sem comer, sem
beber, sem se vestir e sem se agasalhar.
Experimentou toda sorte de perigos (de
morte, de enchentes, de assaltos), nas
mãos de conterrâneos, de estrangeiros,
de ladrões, de falsos irmãos etc., tanto
na cidade como no deserto e em alto-
mar. E como se não bastasse, Paulo foi
preso várias vezes e passou muito tempo
atrás das grades, em Filipos, Jerusalém,
Cesareia e principalmente em Roma.
Apesar de todas essas circunstâncias
e acontecimentos adversos, o apóstolo
sobreviveu sem maiores desgastes
físicos ou emocionais. E ele explica o
segredo: “Sei o que é estar necessitado
e sei também o que é ter mais do que é
preciso. Aprendi o segredo de me sentir
contente em todo lugar e em qualquer
situação, quer esteja alimentado ou
com fome, quer tenha muito ou tenha
pouco. Com a força que Cristo me
dá, posso enfrentar qualquer situação”
(Fp 4.12-13).
E hoje?
A sobrevivência é um desafio também
para o mundo contemporâneo. Antes
do término da Segunda Guerra
Mundial, ninguém sabia muito
sobre os campos de concentração da
Alemanha nazista e sobre o tamanho
do holocausto — nem os próprios
alemães. Hoje, não percebemos que
também estamos dentro de outros
campos de concentração, que tornam
a sobrevivência da fé e da moral
quase impossível. Quantos mortos o
narcotráfico e o crime já deixaram no
mundo todo desde o final da Segunda
Guerra até hoje? A lei do mais forte
prevalece, a cultura da corrupção é uma
regra fixa, a determinação de destruir os
ramos e raízes da fé cristã continua (seja
pela perseguição e morte de cristãos
em países islâmicos fechados ou pelos
escândalos que os próprios cristãos
cometem), a propaganda do ter em
vez de ser é esmagadora, a chamada ao
consumismo é praticamente irresistível,
a defesa da homossexualidade e da
não-durabilidade do casamento é
crescente, a pornografia e a violência
sexual generalizam-se, e assim por
diante. A mídia abraça e divulga todas
essas coisas, das tirinhas aos editoriais,
das novelas aos noticiários. Certamente,
as características, os sintomas e
os descaminhos contemporâneos
podem ser vistos como um campo
de concentração acentuadamente
sutil. O excelente vídeo “Qualidade
de vida do mundo contemporâneo”,
da TV Cultura, do qual participam
filósofos e educadores brasileiros, diz
que estamos perdendo a capacidade de
pensar, estamos perdendo a vitalidade
e estamos sendo manipulados e
conduzidos pela voz tirânica da
prioridade do mercado, pelo ascetismo
e pelo individualismo. Tudo isso leva
à desgraça do tal vazio existencial,
diagnosticado por Viktor Frankl como
a neurose do século. Seriam essas
coisas mais leves do que aquelas que
Jó, Habacuque e Paulo sofreram? A
Bíblia fala muito sobre a difícil arte da
sobrevivência. Jesus chega a perguntar:
“Quando o Filho do Homem vier,
será que vai encontrar fé na terra?”
(Lc 18.8, NTLH).
Jó
Apesar disso tudo
Eu sei que o meu Redentor vive
E finalmente aparecerá na terra.
Habacuque
Ainda que as figueiras não produzam
frutas e as parreiras não deem uvas
Ainda que não haja azeitonas para
apanhar nem trigo para colher
Ainda que não haja mais ovelhas nos
campos nem gado nos currais
Mesmo assim eu darei graças ao
Senhor e louvarei a Deus, o meu
Salvador.
Paulo
Aprendi o segredo de me sentir
contente em todo lugar e em toda
situação
Quer esteja alimentado ou com fome,
quer tenha muito, quer tenha pouco.
Com a força que Cristo me dá, posso
enfrentar qualquer situação.
o cântico dos
sobreviventes
32 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Mesmo à distância, fui
obrigado a conviver
com os horrores do
antissemitismo e da
Segunda Guerra Mundial
Capa
T
enho a impressão de que a brutalidade da
Segunda Guerra Mundial, ocorrida na primeira
metade do século passado, desde a invasão
da Polônia (1º de setembro de 1939) até a
assinatura do ato formal da rendição do Japão (2 de
setembro de 1945), me fizeram algum mal. Durante
minha infância e adolescência as notícias da guerra
eram diárias. Não chegavam com a rapidez de hoje, mas
chegavam. Quem não sabia ou não tinha idade para ler,
ouvia a Rádio Mayrink Veiga ou a Rádio Tupi. Quem
podia ler, ouvia o rádio e lia os jornais diários. Algumas
fotos dramáticas da guerra, que eu via na primeira página
do Correio da Manhã, que meu pai assinava, até hoje estão
arquivadas em minha memória. Porém, houve também
o lado “bom” da guerra. Eu e milhares de outras pessoas
nos decepcionamos com o super-homem imaginado
na mesma Europa, alguns anos antes das duas grandes
guerras. Enquanto o sofrimento e a morte causados
pelo ódio, pela prepotência e pela violência levavam
alguns ao espanto, à descrença, ao desespero, ao suicídio
e à liberdade de costumes — eu fui levado a conhecer
a profundidade e a loucura da maldade humana (que
prefiro chamar de pecado) e a esperar novos céus e nova
terra, não por meio do homem, mas daquele que veio para
consertar o que havia sido estragado. Há duas certezas que
tenho agasalhado há mais tempo e com mais entusiasmo:
uma diz respeito à queda e a outra à redenção. Dois
textos bíblicos são esclarecedores e deles sempre me
recordo: “Por um só homem entrou o pecado no mundo”
(Rm 5.12) e “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado
do mundo” (Jo 1.29).
A seguir, em ordem cronológica, alguns dos lances mais
importantes do antissemitismo e da Segunda Guerra Mundial.
1933
30 de janeiro
Sou uma criança de quase 3 anos.
Tenho um sobrenome alemão. Minha
avó paterna era filha de alemães.
Nesse dia, o austríaco Adolf Hitler,
que se dizia alemão, é empossado
aos 44 anos como chanceler da
Alemanha. O presidente Hindenburg
termina seu discurso de posse com
estas palavras: “E, agora, senhores,
sigamos com Deus”.
1934
2 de agosto
Falece o presidente Paul von Hindenburg, aos 87 anos. Hitler
torna-se chefe de Estado. O exército presta juramento de lealdade
ao Führer.
1935
15 de setembro
O Reichstag (o parlamento alemão) aprova as leis de Nuremberg,
que proíbem o casamento e todas as formas de relacionamento
sexual entre judeus e alemães, privam os judeus da cidadania e
fazem da suástica o emblema da Alemanha.
1936
17 de junho
Heinrich Himmler torna-se chefe da polícia de toda a Alemanha,
inclusive da Gestapo (polícia secreta do Estado). Hitler torna-
Fonte:DeutschesBundesarchiv
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Adolf Hitler
— SOFRIMENTO —
se
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 33
responsável apenas perante si mesmo e mais ninguém,
podendo remover qualquer limitação ao seu poder, dentro ou
fora da lei. Sou apenas um menino de 6 anos.
1937
13 de dezembro
Tenho quase 8 anos. Meu pai é pastor das igrejas
presbiterianas de Campos e Itaperuna, no norte fluminense,
e comemora 36 anos. Nesse mesmo dia, tropas japonesas
comandadas pelo general Iwane Matsui cometem atrocidades
na China. Matam soldados e civis e estupram mulheres.
Estima-se que cerca de 20 a 40 mil mulheres tenham
sido violentadas, crianças e idosas. Houve fuzilamentos,
decapitações e crucificações. Civis eram enterrados vivos
ou pendurados pela língua. Bebês eram jogados ao ar e
perfurados à baioneta.
1938
30 de outubro
Curso a primeira série do primário. Na escola dominical, sou
transferido do primário para o intermediário. Orson Welles
transmite pelo rádio uma adaptação do romance A Guerra
dos Mundos, de H. G. Wells, passando a real impressão de
que o planeta estava sendo invadido por extraterrestres.
9 de novembro
Membros de organizações nazistas armados de machados e
marretas destroem 29 lojas de departamentos e residências
judaicas, na Alemanha e na Áustria. Sinagogas e cemitérios
judeus são profanados. Mais de 30 mil judeus são enviados
para os campos de concentração.
1939
3 de agosto
Físicos húngaros e o cientista alemão Albert Einstein, de 60
anos, alertam o presidente americano Franklin D. Roosevelt
de que as pesquisas com energia nuclear realizadas na
Alemanha poderiam levar os nazistas à construção de uma
bomba nuclear. Einstein pergunta: “Devemos dar fim à raça
humana ou a humanidade deve renunciar à guerra?”. Eu
ainda não completei 10 anos.
3 de setembro
Inglaterra e França declaram guerra à Alemanha. Dois dias
antes, a Alemanha havia invadido a Polônia.
1940
10 de maio
A Alemanha invade a Holanda e a Bélgica.
14 de junho
A Alemanha toma Paris.
26 de setembro
O filósofo Walter Benjamin, nascido em Berlim no seio
de uma família judaica, comete suicídio aos 48 anos. Ele
tentava, junto com outros refugiados, atravessar a fronteira
entre França e Espanha para escapar dos nazistas que haviam
ocupado Paris três meses antes. Benjamin era doutor em
filosofia e crítico de ideias
e fatos. Deixou três livros e
vários ensaios publicados em
diversos periódicos.
29 de dezembro
Em um domingo entre
o Natal e o Ano-Novo, a
Alemanha, em três horas de
fogo e terror, despeja 120
toneladas de explosivos de
alta potência e 22 mil bombas
incendiárias no centro de
Londres. Oito igrejas são destruídas.
1941
7 de dezembro
Torpedeiros e bombardeiros japoneses conseguem destruir
ou danificar oito encouraçados, três cruzadores e três
destroyers americanos que estavam em Pearl Habor. O ataque
aéreo e naval durou apenas uma hora e meia e destruiu
188 aeronaves dos Estados Unidos, além de avariar outras
155. Os japoneses perderam só 29 aeronaves e cinco
minissubmarinos. Morreram 1187 pessoas da marinha
americana.
1942
20 de janeiro
Na escola dominical, sou transferido do departamento
intermediário para o secundário. Reinhard Heydrich, chefe
dos serviços de segurança do Terceiro Reich, reforça o
enrijecimento das medidas antissemitas e explica que, por
conta da guerra e da escassez de recursos, os 11 milhões
de judeus que ainda estavam na Europa não poderiam
permanecer no continente nem emigrar. A solução final para
o problema seria o assassinato em massa. Os judeus já haviam
sido excluídos de todos os cargos públicos (o que significava
a perda de direitos de pensão), das profissões (inclusive do
magistério, da medicina e do direito), dos esportes e das
artes. Cartazes com os dizeres “não queremos judeus aqui”
já haviam sido afixados em estâncias de férias, restaurantes e
hotéis. Qualquer nazista podia espancar, expulsar ou roubar
um judeu impunemente.
23 de fevereiro
Faltam dois meses para eu
completar 12 anos. Começo
a fazer o “ginásio” no
Colégio Batista Fluminense.
As rádios e os jornais
anunciam o suicídio do
casal Elizabeth e Stefan
Zweig, acontecido no dia
anterior em Petrópolis,
RJ. Zweig, de 60 anos, um
judeu nascido em Viena,
era famoso no mundo inteiro por seus romances (Amok,
IsaMorais
Walter Benjamin
Casal Zweig
CasaStefanZweig
34 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Capa
A Confusão dos Sentimentos) e biografias (Maria Antonieta,
Erasmo de Rotterdan). Forçado pelos nazistas a deixar a
Áustria, veio parar no Brasil em agosto de 1936. Não resistiu
à depressão causada pelos problemas mundiais e matou-se.
“Em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma
vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a
liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a terra. Saúdo a
todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta
longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou me antes”
(última frase da “declaração” deixada no leito de morte).
6 de junho
Seis meses depois de Pearl Harbor, trava-se a batalha naval
de Midway, nas proximidades do Havaí. Os japoneses
perdem os quatro porta-aviões e mais de duzentas aeronaves,
juntamente com suas tripulações. Os americanos perdem
apenas um porta-aviões.
15 de agosto
O submarino alemão U-507 afunda o navio brasileiro
Baependy no litoral da Bahia, matando 270 das 306 pessoas
que estavam a bordo. Entre os mortos há 142 militares
brasileiros (um major, três capitães, cinco tenentes, oito
sargentos e 125 cabos e soldados). O navio afundou em
dois minutos. Dias antes, o mesmo submarino já havia
posto a pique cinco navios brasileiros. Incluindo os 270
mortos do Baependy, o número de vítimas fatais chega a 607.
Desde janeiro de 1941, o Brasil tinha rompido as relações
diplomáticas com o Eixo.
1944
6 de junho
Exatamente dois anos depois de Midway, os aliados têm
outra vitória decisiva. Ao cair da noite desse dia, 125 mil
soldados americanos, ingleses e canadenses, sob o comando
do general Dwight Eisenhower, já haviam desembarcado ao
longo dos 105 quilômetros da Normandia, na França, até en-
tão dominada pelos alemães. Foi o chamado Dia D. Começa
o colapso do Terceiro Reich.
4 de agosto
Exatamente um mês depois de minha pública profissão
de fé na Igreja Presbiteriana de Campos, aos 14 anos,
a menina judia-alemã Anne Frank, apenas um ano
mais velha, é localizada no sótão secreto de um prédio
comercial de Amsterdã e levada com outros sete judeus
para o campo de concentração em Bergen Belsen. Ela
não pôde levar consigo o diário escrito desde junho de
1942.
1945
27 de janeiro
Estamos de férias na praia de Grussaí. Tomo
conhecimento de que tropas soviéticas invadem um
complexo de campos de concentração nos arredores de
Oswiecim, na Polônia, e do que os nazistas faziam com
os judeus. O major Anatoly Shapiro, que comandou
a operação, teria dito: “Eu vi os rostos das pessoas que
libertamos; elas passaram pelo inferno”.
14 de fevereiro
Aviões da Força Aérea Inglesa (RAF) bombardeiam
Dresden, na Alemanha, e 33 quilômetros quadrados da
cidade são destruídos pelo incêndio causado por uma
mistura de explosivos capaz de se perpetuar sozinha.
Mais de 25 mil pessoas morrem.
9 de abril
Preso desde 1943 por ajudar
a introduzir clandestinamente
quatorze judeus na Suíça,
o pastor luterano alemão
Dietrich Bonhoeffer, de
apenas 39 anos, é enforcado
sob a acusação de alta traição.
Ex-aluno de Karl Barth,
Bonhoeffer obteve o doutorado
em teologia na Universidade
Anuncio
Dietrich Bonhoeffer
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 35
de Berlim aos 21 anos. Ele foi um dos organizadores da
chamada Igreja Confessante, que reunia cerca de um
terço do clero protestante em oposição a Hitler. Por dois
anos, Bonhoeffer dirigiu o seminário dessa igreja, fechado
em 1937 por ordem do governo.
27 de abril
O exército americano liberta os prisioneiros dos campos
de concentração de Dachau. Entre eles estava o psiquiatra
vienense Viktor Emil Frankl, de 40 anos.
30 de abril
Uma semana depois de comemorar meu 15º
aniversário, Adolf Hitler, aos 56 anos, e Eva Braun,
23 anos mais nova e com quem ele havia se casado na
véspera, cometem suicídio depois de almoçar com seu
nutricionista e seus secretários. Ela se envenenou e ele
deu um tiro na boca.
7 de maio
O coronel-general Alfred Jodl, do alto comando alemão,
assina os termos de rendição incondicional da Alemanha
no quartel general dos Aliados, situado em uma escola
em Reims, na França. Após cinco anos, oito meses e sete
dias, está encerrada a fase europeia da Segunda Guerra
Mundial.
6 de agosto
A Enola Gay, uma fortaleza voadora americana, lança
sobre a cidade japonesa de Hiroshima o Little Boy — a
primeira bomba nuclear do mundo. O artefato causou
destruição em um raio de 1,6 quilômetro quadrado, além
de arruinar e incendiar outros 11 quilômetros quadrados
circundantes. Dos 255 mil habitantes, 70 mil morreram
após a explosão.
2 de setembro
A bordo de um navio americano, o governo e o alto
comando militar japonês assinam o ato formal de
rendição às tropas aliadas. Encerra-se a fase asiática da
Segunda Guerra Mundial. Sou um adolescente. Começo
a estudar clarineta para tocar na pequena orquestra da
igreja presbiteriana. Publico no Jornal Mocidade meu
primeiro artigo e no jornal O Puritano, minha primeira
oração escrita. Inicio namoro com uma das moças que
professaram a fé comigo.
Fontes:
•	 1001 Dias que Abalaram o Mundo. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.
•	 História do Século 20, vol. 4. São Paulo: Abril Cultural, 1970.
•	 Morte no Paraíso; a tragédia de Stefan Zweig. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
IWMCollectionsIWMPhotoNo.BU8604
Cena de destruição em uma rua de
Berlim em julho de 1945
36 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
A
partir de hoje, com a
ajuda de Deus, vou
enfrentar a inveja.
Não vou mais mentir
dizendo para mim
que não sou invejoso. Confessarei o
pecado da inveja e me porei contra
ela, suficientemente convencido
de que é uma doença capaz de me
destruir e tão grave “como câncer”
(Pv 14.30, NTLH).
A inveja não é algo de pequena
monta. Ela está sempre ao lado
de outras coisas terríveis (as
tais obras da carne de que fala
Gálatas 5.19-21). A inveja não é
passiva; não cruza os braços; não fica
parada em momento algum. Ela é
ativa, dinâmica e incontrolável. Se
não for barrada na nascente, leva
o invejoso automaticamente ao
crime. Não foi a inveja de Caim que
provocou o primeiro assassinato da
história (Gn 4.8)? O livro de Gênesis
conta que “Isaque tinha tantas
ovelhas e cabras, tanto gado e tantos
empregados, que os filisteus acabaram
ficando com inveja dele”. A inveja
dos vizinhos levou-os a entupir todos
os poços dos quais o patriarca se
servia para matar a sede do gado e regar
a lavoura (Gn 26.14-15). Foi por inveja
que os irmãos de José o venderam para
ser escravo no Egito (At 7.9).
A inveja no âmbito religioso é um
problema sério na história passada e
presente da igreja cristã. Porque Deus
aceitou com agrado a oferta de Abel
e não a de Caim, este “ficou furioso
e fechou a cara”. E acabou matando
o irmão (Gn 4.5, NTLH). Jesus foi
entregue a Pilatos para ser condenado à
morte por causa da inveja incontrolada
dos chefes dos sacerdotes, como
facilmente enxergou Pilatos (Mc 15.10).
Poucas semanas depois, os saduceus
ficaram com tanta inveja do sucesso dos
apóstolos que os mandaram prender
(At 5.17-18). Tanto em Antioquia
como em Tessalônica, Paulo sofreu
horrores por causa da inveja dos judeus
(At 13.45; 17.5). Havia sérios problemas
de inveja na igreja de Corinto, além de
“brigas, manifestações de ira, divisões,
calúnias, intrigas, arrogância e desordens”
(2Co 12.20). Na igreja primitiva,
Paulo foi obrigado a admitir que alguns
pregavam Cristo “por inveja e discórdia”
(Fp 1.15). Pedro também percebeu que
Simão, o mago do Samaria, batizado
Não quero invejar nem os
de dentro nem os de fora!
DE HOJE EM DIANTE...
por Filipe, queria o batismo do Espírito
Santo porque estava “cheio de inveja,
uma inveja amarga como fel” (At 8.23).
Diante dessas realidades, o que preciso
fazer é mortificar a inveja no meu
coração, onde ela mora — antes que ela
saia de lá e cometa seus desatinos.
Estou ciente de que posso invejar
também os que estão do lado de fora da
igreja. Dou graças a Deus pelo conselho,
possivelmente de Davi: “Não se aborreça
por causa dos maus, nem tenha inveja
dos que praticam o mal. Pois eles vão
desaparecer logo como a erva, que seca”
(Sl 37.1-2, NTLH). Já tive inveja da
prosperidade dos não-crentes (Sl 73.3),
mas me curei quando Deus me mostrou
a transitoriedade do sucesso deles e o seu
destino final (Sl 73.16-19). Já decorei
a insistente palavra do sábio dos sábios,
que me diz: “Não inveje os pecadores
em seu coração” (Pv 3.31; 23.17; 24.1).
Os Provérbios de Salomão me garantem
também que “os pecadores não têm
futuro; [pois] são como uma luz que está
se apagando” (Pv 24.20).
Estou tomando uma grande decisão:
a de sufocar a inveja. Mas não a tomo
sozinho. Tomo-a na certeza do auxílio de
cima! Que o Senhor me socorra!
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 37
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38 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
NOVOS ACORdES Carlinhos Veiga
De Todos os
Ângulos
Denis
Campos
Denis Campos é um
garoto com pouco mais de
20 anos. Um cara dado a
poesias. Cultiva um blog
com suas criações literárias,
sempre com novidades. De
Todos os Ângulos é o seu
primeiro CD e contém
doze canções, todas de sua
autoria. Partilha a criação
de uma elas com Elly
Aguiar e de outras duas
com Jorge Ervolini. No
contato com o material
percebe-se que há uma
unidade bem legal em
toda concepção do
trabalho, desde o material
gráfico, passando pelas
composições e arranjos.
Ou seja, ele mostra a
cara de Denis Campos.
A direção musical e os
arranjos são de Jorge
Ervolini. A produção
artística é de Denis e
Ervolini. Uma banda de
respeito mandou ver nas
execuções. Participação
especial dos intérpretes
Diego Venâncio e Gerson
Borges. Contatos pelo
www.myspace.com/
denisscampos.
Jesus in Blues
André de
Oliveira
Essa é mais uma faceta do
surpreendente, inquieto e
criativo André de Oliveira.
Ele já gravou vários
trabalhos temáticos, como
adoração e forró (gravado
no Nordeste com músicos
locais), sem falar na série
de CDs de seu personagem
Reverbério — uma mistura
de humor com crítica
pesada às bizarrices do
meio evangélico. Agora, ele
vive o seu momento blues.
Reuniu uma banda que
conhece bem a linguagem
desse estilo musical e
mandou ver. “Tudo blues”,
“Kitsch”, “Contramão do
tempo”, “Aqui” e “Jesus in
blues” utilizam os clichês
musicais característicos,
incluindo gaitas e guitarras
choradas. Participação
do intérprete Caleb de
Oliveira em três canções.
A produção executiva é
de Marcus Castro e ele
foi gravado no Studio
Scheffield por Claudiano
Amorim e Joãozinho
Costa. Contatos:
andrereverberio@hotmail.
com ou (31) 8691-9597.
Revolução
do Amor
Ortegas
Os irmãos Matheus,
Rafa e Pedro formam os
Ortegas. Eles são filhos do
conhecido Gerson Ortega,
que desde o fim dos anos
70 traz significativas
contribuições para a
música cristã brasileira.
E os meninos seguem a
mesma trilha musical.
Multi-instrumentistas, se
revezam nas autorias das
canções. Revolução do Amor
é um álbum engajado. A
faixa título foi composta
na viagem que Matheus
fez ao Haiti para apoiar
a igreja sofrida daquele
país, após o fatídico
terremoto em janeiro de
2010. Ao todo são dez
faixas, nas quais o pop
predomina. Esbanjando
tecnologia, Henrique
Soares cuidou dos arranjos,
gravações e mixagens.
A master foi feita por
Nike Fossenkemper, do
Turtle Tone Studio, em
Nova York. O resultado
é uma sonoridade
bem contemporânea e
encorpada. Conheça mais
pelo www.ortegas.com.br.
Transmitir
Nando
Padoan
Transmitir é o segundo
trabalho de Nando
Padoan. Com influências
marcantes da black
music, traz um repertório
de doze canções com
letras voltadas para a
adoração. Dentre elas,
destacam-se “Louve ao
Senhor”, “Transmitir”
(com participação de
Paulo César Baruk),
“Cântaros” (canção
de Edilson Botelho)
e “Vem comigo” (um
hit dançante e cheio de
brincadeiras). Além de
compositor, intérprete e
instrumentista, Nando
é também o produtor e
arranjador musical do
álbum. Em sua formação,
passou pela Escola de
Música e Tecnologia e
estudou linguagem e
estruturação musical.
Transmitir mostra toda
sua versatilidade musical
e técnica. Para ouvir
algumas canções e saber
mais sobre o autor, visite
www.myspace.com/
nandopadoan. No site é
possível adquirir o CD.
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 39
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40 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Marcos Almeida
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 41
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42 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Mordomia responsável
MEIO AMBIENTE E fé cristã René Padilla
o fato de que Deus delegou aos seres
humanos um papel único na criação. O
texto mostra claramente que a criação
da humanidade é um ato singular que
se distingue de todos os demais atos da
criação de Deus. Com efeito, no grande
poema de Gênesis 1, a humanidade é a
coroação de toda a obra criadora de Deus.
Esta conclusão é reforçada pela referência à
humanidade como imagem e semelhança de
Deus. O que significa isto? Em que sentido
se pode dizer que a humanidade se parece
com Deus?
A variedade de interpretações que se
tem sugerido não deixa espaço para o
dogmatismo sobre o tema, mas parece
que a interpretação mais apropriada é
a que leva em conta o significado das
imagens em tempos antigos no Oriente
Médio. De acordo com a ideologia
real, aceita amplamente nessa região
geográfica e especialmente no Egito, o
rei era considerado como a imagem de
Deus: representava a Deus diante de seus
súditos. Ao mesmo tempo, a imagem do
rei o representava perante seus súditos em
territórios conquistados. Aparentemente,
estas ideias proveem uma boa base
histórica para se pensar que a referência
à humanidade como a imagem de Deus
significa que a humanidade representa a
Deus e foi revestida com sua autoridade na
criação. Esse é o fundamento da dignidade
de todo ser humano, sem exceção.
Esta interpretação se ajusta muito
bem à tarefa específica que Deus confia
à humanidade segundo Gênesis 1.28.
À humanidade, por ser a imagem de
Deus — e a sua representante na criação —,
é delegada a autoridade de Deus: o
poder de procriar e de submeter a terra.
Além da procriação, a vocação humana
fundamental é o controle da ordem do que
foi criado em cumprimento ao mandato
cultural — cumprimento por meio do qual
N
ós, evangélicos em geral,
não temos dado ao tema
do meio ambiente a devida
atenção. É urgente abordá-lo
sob uma perspectiva bíblica
e voltada para o cumprimento da missão
a que Deus nos chamou como mordomos
de sua criação em um mundo onde reinam
dois males intimamente ligados entre si: o
abuso dos recursos da criação e a injustiça
social.
A afirmação com que a Bíblia se inicia
não dá lugar a dúvidas: “No princípio,
criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Na
terra que surge do nada pelo poder de sua
Palavra, Deus cria, em primeiro lugar, o
cenário para a vida humana. Depois, sobre
este cenário, coloca o homem e a mulher,
criados à sua imagem e semelhança, e lhes
comissiona o mandato cultural: “Frutificai,
e multiplicai-vos, e enchei a terra, e
sujeitai-a” (Gn 1.28a).
Como no caso da existência de Deus,
a revelação bíblica considera indiscutível
a humanidade manifesta que é a imagem de
Deus na criação. Esta é a base da mordomia
responsável no uso e cuidado dos recursos
naturais e também para o desenvolvimento
científico e tecnológico, não em função do
crescimento econômico, mas sim como o
meio de cumprir o propósito de Deus para
sua criação e, assim, dar glória ao Criador.
Há quem afirme que a origem da
situação atual, marcada por uma profunda
crise ecológica, está na tradição judaico-
cristã, segundo a qual Deus destinou ao
ser humano a tarefa de submeter a terra.
A exploração destrutiva da natureza, se
diz, é o resultado da arrogância humana
com respeito à natureza. No entanto, não
há nada na tradição judaico-cristã que
sugira que o domínio que a humanidade
é chamada a exercer sobre a terra tem de
ser exercido independente de Deus e da
criação, como se a humanidade fosse dona,
e não apenas um mordomo da criação.
Ao contrário, a raça humana é concebida
como feita do “pó da terra”, formada por
criaturas terrestres que dependem do fruto
da terra para sua manutenção (Gn 1.29-30)
e em total dependência do Deus de quem
procede a vida (ver Gn 2.7).
Em síntese, Deus, o Criador do
universo, escolheu compartilhar sua
soberania com criaturas que são sua imagem
e semelhança, mas foram feitas do pó da
terra e têm a vocação de reger sobre a terra
como colaboradores de Deus em liberdade
e obediência. A recuperação dessa vocação
é um aspecto essencial de nossa missão no
mundo.
Na próxima edição, exploraremos o que
isto significa em relação à crise ecológica
atual, que se manifesta no aquecimento
global.
Traduzido por Wagner Guimarães
C. René Padilla escreve regularmente na coluna “missão integral”
(veja pág. 47).
ManuMohan
Deus nos chamou como mordomos
de sua criação em um mundo onde
reinam dois males intimamente
ligados entre si: o abuso dos recursos
da criação e a injustiça social
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 43
44 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Simplicidade e permanência
D
De vez em quando
gosto de reler Cartas
de um Diabo a seu
Aprendiz, de C. S.
Lewis. Sua habilidade
em perscrutar os labirintos da
tentação me impressionam. Ele nos
ajuda a reconhecer nossa enorme
ingenuidade e a profunda sagacidade
do inimigo.
O CAMINHO DO CORAçãO Ricardo Barbosa
Não importa o quanto
nossas igrejas e ministérios
sejam sofisticados. Se no
final não encontrarmos
as mesmas coisas de
sempre, significa que nos
perdemos com o meio e
não alcançamos o fim
Em uma dessas cartas, o Diabo
reconhece que o verdadeiro
problema dos cristãos é que eles são
“simplesmente” cristãos. O laço que
os une é a vida comum que eles têm
em Cristo. Ele então aconselha seu
sobrinho: “O que nós desejamos,
se não houver mesmo jeito e os
homens tiverem de tornar-se cristãos,
é mantê-los num estado de espírito
que eu chamo de cristianismo e
alguma outra coisa [...]. Substitua
a fé em si por alguma moda com
colorido cristão.
Faça com que
tenham horror
à Mesma Coisa
de Sempre”.
A “mesma
coisa de
sempre”
nos deixa
entediados. Ser
“simplesmente”
cristão, para
muitos, não
é suficiente.
Precisamos
de coisas novas. Sempre. Modelos
novos de igreja, um jeito diferente
de cantar, formas inovadoras de
culto, estratégias sofisticadas de
crescimento, e por aí vai. Somos
movidos pelas novidades, não pela
profundidade. Nosso interesse está na
variedade, não na densidade.
O reverendo A. W. Tozer, num
artigo intitulado “A velha e a nova
cruz”, comenta o mesmo fenômeno:
“Uma nova filosofia brotou dessa
nova cruz com respeito à vida cristã,
e dessa nova filosofia surgiu uma
nova técnica evangélica — um novo
tipo de reunião e uma nova espécie
de pregação. Esse novo evangelismo
emprega a mesma linguagem que
o velho, mas o seu conteúdo não
é o mesmo e sua ênfase difere da
anterior”.
O Diabo, na carta ao seu sobrinho
aprendiz, diz: “O horror pela mesma
coisa de sempre é uma das mais
preciosas paixões
que incutimos
no coração
humano — uma
fonte infinita
de conselhos
estúpidos, de
infidelidade
conjugal e de
inconstâncias
na amizade”. A
lista poderia se
estender, mas o
que se encontra
por trás desse
“horror pela mesma coisa de sempre”
é a grande atração pelo novo seguida
de uma profunda distração pelo
essencial. O que a novidade faz é
direcionar nossa atenção para outras
preocupações, dando mais valor aos
meios e não aos fins.
A formação espiritual cristã
sempre requereu, basicamente,
obediência a Cristo no seu chamado
a proclamar o evangelho, fazer
OveTøpfer
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 45
que o confessam como Senhor e Rei.
Jesus apresenta um evangelho que
transforma de dentro para fora. O
que o vaso contém é infinitamente
maior e mais valioso que o vaso. Ele
cresce como uma pequena semente
de mostarda. A simplicidade está na
natureza própria do evangelho.
A permanência define o caráter
pessoal e relacional da fé. Permanecer
em Cristo é permanecer ligado
como galho na videira. É somente
nessa permanência que recebemos
de Cristo sua vida e a transmitimos
aos outros. Permanecer é mais do
que conhecer — é manter-se em
constante e dinâmico relacionamento.
As novidades não transformam o
caráter; a permanência, sim. Para C. S.
Lewis, a maturidade é algo que “todos
alcançam na velocidade de sessenta
minutos por hora, independentemente
do que façam e de quem sejam”.
Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana
do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em
Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração.
Anúncio
discípulos, integrá-los numa
comunidade trinitária e ensiná-los
a guardar a sua palavra. Ensiná-los
a se comprometerem com o serviço
como expressão de amor para com o
próximo e com o cultivo e a prática
de disciplinas espirituais como
oração, jejum, arrependimento,
confissão, leitura e meditação nas
Escrituras e contemplação.
Não importa o quanto nossas
igrejas e ministérios sejam
sofisticados. Não importa o
volume de novidades e tecnologias
que oferecemos. Se no final não
encontrarmos as mesmas coisas de
sempre, significa que nos perdemos
com o meio e não alcançamos o fim.
Existem dois aspectos que
considero fundamentais na
experiência espiritual cristã:
simplicidade e permanência. Quando
perguntaram para Jesus como o
reino de Deus viria, ele respondeu
afirmando o seu caráter discreto.
Não viria com grande estardalhaço.
Se estabeleceria dentro daqueles
46 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 47
A formação de discípulos
(parte 1)
de Deus, ficou claro que não fui
salvo para ser feliz, ou para ter
sucesso material, ou para livrar-
me do sofrimento, mas com o fim
de cooperar com Deus, ainda que
modestamente, no cumprimento de
seu propósito na história. E percebi a
importância de me ver como membro
do Corpo de Cristo e, como tal, uma
pessoa chamada a participar na missão
de transformar o mundo de modo que
reflita a glória de Deus, a justiça e a
paz do reino que se fez uma realidade
presente na pessoa e obra de Cristo
Jesus. A evangelização integral só é
possível sobre a base do evangelho
integral.
Traduzido por Wagner Guimarães
C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e
membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana
e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral?
A compreensão adequada do evangelho é um requisito
básico para compreender a evangelização
mas não havia
aprendido que
“somos feitura
dele, criados
em Cristo Jesus
para boas obras,
as quais Deus
de antemão
preparou para
que andássemos
nelas” (v. 10).
Em outras
palavras, havia
recebido um
evangelho que
enfatizava os
benefícios da
salvação, mas
deixava de lado
o propósito
que Deus
quer realizar
por meio de
seu povo, no qual eu me incluo. Na
prática, havia recebido um evangelho
incompleto.
Posteriormente, percebi que minha
falta de uma compreensão adequada
do evangelho resultava do tipo de
evangelização mais ou menos comum
nos círculos evangélicos do meu país:
uma evangelização que se especializa
na salvação individual, entendida
frequentemente como uma experiência
subjetiva de perdão de pecados,
mas que tem pouco ou nada a dizer
sobre a vontade de Deus de conduzir
a humanidade à comunhão com ele,
reconciliar os membros da raça humana
entre si e restaurar toda sua criação,
conforme seu propósito original.
Quando entendi minha própria
salvação à luz do propósito eterno
N
a essência da missão está
a tarefa da evangelização.
No entanto, não
podemos considerar
que todos os cristãos
concordam com o significado de tal
afirmação. Minha intenção é mostrar
que a evangelização genuína está a
serviço exclusivo do evangelho por
meio do que é, do que faz e do que diz.
Consequentemente, não visa apenas
ganhar convertidos para aumentar o
número de membros da igreja, mas
também formar discípulos que aprendam
a obedecer a tudo o que Jesus Cristo
ordenou a seus seguidores (Mt 28.20).
Neste artigo, e nos três subsequentes,
proponho-me a desenvolver essa
afirmação em quatro princípios.
O primeiro é que a compreensão
adequada do evangelho é um
requisito básico para compreender a
evangelização. Evangelizar é comunicar
as boas novas, e as boas novas que como
cristãos somos chamados a comunicar
estão centradas em Jesus Cristo,
incluindo sua encarnação, sua vida, sua
morte, sua ressurreição, sua exaltação
e sua segunda vinda. O evangelho
completo inclui todos estes “eventos
salvíficos”, como são chamados, e
nenhum deles pode ser esquecido sem
que nossa compreensão do evangelho
seja afetada.
Cresci num lar evangélico e dou
graças a Deus por minha herança
evangélica. Entretanto, com o passar
do tempo, reconheci que minha
compreensão do evangelho era
inadequada: havia aprendido que a
salvação é pela graça, por meio da fé,
“é dom de Deus; não de obras, para
que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9),
MISSãO INTEGRALRené Padilla
48 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
N
a edição anterior
abordei a necessidade
de realismo teológico e
de realismo sociológico
no exercício da ação
social evangélica. Agora veremos
o terceiro elemento: a humildade
amorosa.
Há anos leio os comentários
dos autores patrísticos (os Pais da
Igreja dos primeiros séculos da era
cristã) sobre os evangelhos. Leio
também os romances de um dos
maiores escritores russos de todos
os tempos, cuja visão de mundo
é essencialmente cristã: Fiodor
Dostoievski. Usarei frases de autores
patrísticos e trechos de Dostoievski
para uma melhor compreensão do
texto dos evangelhos conhecido
como “O Rico e Lázaro”
(Lc 16.19-26).
Gregório, o Grande, observa
que “o Senhor menciona o nome
do pobre, mas não o do rico; pois
Deus conhece e aprova o humilde,
mas não o orgulhoso”. Gregório
associa “pobre” a “humilde” e “rico”
a “orgulhoso”. Ambrósio, bispo
de Milão, fala da “insolência e
orgulho dos ricos, tão indiferentes à
condição da humanidade, como se
eles pairassem acima da natureza”.
Ele ironiza o comportamento
dos ricos que agem como se não
fizessem parte da raça humana.
Agostinho acrescenta que “a cobiça
dos ricos é insaciável”. Há uma
semelhança com a Teologia da
Libertação.
Crisóstomo, arcebispo de
Constantinopla, exilado por não
desistir de criticar a corte do
imperador bizantino, comenta
que “o rico morreu, como diz
o texto, mas sua alma já havia
morrido. Assim como deitar fora
do portão do rico aumentou a
aflição do pobre, o desespero do
rico no inferno é maior porque ele
vê a felicidade de Lázaro”. Há um
paralelismo: em vida, Lázaro sofria
ainda mais, pois via todos os dias
o contraste entre sua situação e a
do rico. Agora, porém, está tudo
invertido. Os tormentos do rico
são maiores porque ele consegue
ver o bem-estar de Lázaro. Ou
seja, é um inferno apropriado,
feito sob medida. “Estando o rico
totalmente atormentado, somente
os seus olhos estão livres”, diz
Crisóstomo. E eles só conseguem
ver a felicidade de Lázaro, o que
apenas aumenta o tormento.
“Veja agora o rico necessitando
do pobre!” Evidentemente,
estamos acostumados com outra
situação. “E agora todos percebem
quem era verdadeiramente rico
e verdadeiramente pobre.” As
máscaras foram tiradas e Crisóstomo
faz até uma analogia: “Quando
termina a peça, os atores retiram
os trajes; da mesma forma, quando
vem a morte, o espetáculo acaba e
as máscaras da pobreza e da riqueza
são tiradas, então os homens são
julgados somente por suas ações”.
Gregório diz ainda: “O rico no
inferno busca uma gota d’água, ele
que em vida nem queria dar uma
migalha de pão. Porém, ele recebe
uma retribuição justa — o fogo do
desejo intenso”. Novamente a ideia
de um inferno feito sob medida.
Como frisa Crisóstomo, “ele não
está no inferno porque era rico
(afinal, Abraão era riquíssimo),
mas porque não era misericordioso.
Paul FrestonÉTICA
Ação social
cristã
a humildade amorosa*
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 49
E como sua língua havia falado
muitas coisas orgulhosas, ele pede
que Lázaro seja enviado para
refrescar a ponta dela com o dedo
molhado em água”. E a conclusão
de Crisóstomo é que “onde está o
pecado, aí está o castigo”.
Gregório de Nissa confirma
essa perspectiva: “O juízo de Deus
é adaptado às nossas disposições.
Como o rico não teve piedade do
pobre, ele não é ouvido quando
precisa de misericórdia”. Porém, diz
Gregório: “Quando você se lembra
de ter feito uma boa ação, tenha
cuidado, porque existe o perigo
de que a recompensa presente seja
tudo o que você vai receber de
recompensa!”. E ainda: “O justo
pode até receber coisas boas aqui, em
troca da sua bondade (embora nem
sempre aconteça). Porém, ele não as
recebe como recompensa, pois busca
algo melhor, que é a recompensa
eterna”.
Finalmente, o texto afirma que
entre o rico e Lázaro há um grande
abismo, que simboliza a distância
entre o justo e o pecador, entre suas
disposições interiores. E tal abismo
é descrito como “fixo”. É preciso
entender a parábola como uma
mensagem para a vida presente,
não como uma descrição literal e
detalhada da vida futura. Porém,
como combinar isso com a crença
num Deus que certamente é muito
mais misericordioso do que nós?
Se nós sabemos ser misericordiosos
(às vezes e até certo ponto),
quanto mais Deus! Além disso,
ele é muito mais capaz de pesar os
fatores psicológicos e sociológicos
na biografia de cada pessoa. Ele
conhece a fundo todos os fatores
que influenciaram a vida de cada um
e tiveram um peso em suas ações.
Por isso, “o juiz de toda a terra fará
justiça”.
Há dois textos de Dostoievski em
Os Irmãos Karamazov que também
exemplificam isso. O primeiro é
o comentário sobre essa parábola,
feito por um dos personagens
centrais do livro, que é um monge e
conselheiro espiritual. Diz ele: “Eu
pergunto a mim mesmo o que é o
inferno. E defino assim: o inferno
é o sofrimento por não poder mais
amar. Uma vez [fazendo referência
ao rico da parábola] um ser teve
a possibilidade de dizer “eu sou e
eu amo”. Uma vez somente foi-lhe
concedido um momento de amor
ativo e vivo. Para isso lhe foi dada
a vida terrestre [que bela descrição
do sentido da vida!]. Porém, esse
ser repeliu esse dom inestimável e
ficou insensível. E esse ser, tendo
deixado a terra, vê de longe o seio
de Abraão. Ele contempla o paraíso
de longe. Porém, o que o atormenta
precisamente é que se apresenta sem
ter amado. E diz: “Agora a minha
sede ardente de amor espiritual
me abrasa”. O que abrasa o rico é
justamente o desejo de amar, mas a
impossibilidade de fazê-lo porque
passou o momento. Ele desdenhou
a possibilidade de amar na terra,
quando era a hora de amar. “A vida
que se podia sacrificar pelo amor já
decorreu.”
O segundo texto é a lenda da
cebolinha, um relato russo contado
por uma das personagens femininas
de Os Irmãos Karamazov:
Era uma vez uma mulher muito
má, que morreu sem deixar atrás de
si uma única boa ação. Os demônios
50 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Anúncio
a pegaram e partiram em desabalada
carreira para o lago de fogo. Porém,
seu anjo da guarda pensava:
“Se ao menos eu pudesse
me lembrar de uma boa
ação que ela tivesse feito,
iria contar a Deus!”.
Recordou-se e disse a
Deus: “Ela arrancou uma
cebola na horta e a deu a
uma pedinte”. Deus lhe
respondeu: “Tente dar-lhe
essa cebola no lago para
que ela a agarre; se você
a retirar, concordo que
entre no paraíso; mas, se
a cebola romper-se, então
que fique onde está”. O
anjo correu em direção à
mulher e lhe apresentou
a cebola: “Pegue-a”, disse
ele, “e segure bem!”. Pôs-se
a puxar com cuidado e a mulher
emergia toda. Os outros culpados
que estavam no lago, vendo que ela
estava sendo retirada, agarraram-se a
ela para poder sair também. Porém,
a mulher era muito má e debateu-se
para dar-lhes pontapés: “Sou eu que
estou sendo retirada, não vocês!”. No
mesmo instante em que lhes lançava
essa observação, a cebola rompeu-se.
A mulher caiu no lago e ainda está
queimando. O anjo foi-se chorando.
A humildade é
a chave; nada
vale possuir
todas as outras
virtudes sem ela
Certo livro acadêmico, ao
comentar a obra de Dostoievski,
diz que, “em última
análise, o que selou
o destino da mulher
não foi a longa série de
transgressões pessoais,
mas seu egoísmo e o
fato de ter se colocado
contra os outros
pecadores, ou seja, seu
desejo de alcançar uma
salvação individual, que
abrangesse apenas ela e
não os outros”. O autor
ainda diz que Dostoievski
iguala a mulher má da
lenda e o monge citado,
que era um grande santo.
Pois o monge, já morto,
aparece em sonho a
um dos irmãos Karamazov e lhe
diz que está no paraíso somente
porque um dia ele também “deu
uma cebolinha”.
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 51
Walter Hilton, um grande
místico cristão inglês do século
14, fala muito sobre humildade
e amor. Sobre humildade, ele
diz: “Quem possui essa única
virtude, possui todas as outras”.
A humildade é a chave; nada
vale possuir todas as outras
virtudes sem ela. Aliás, a ênfase
nas virtudes soa estranha aos
nossos ouvidos. Os pregadores
dificilmente abordam a questão, e
é por isso que a igreja evangélica
nos causa tanta vergonha, pois não
ensinamos o cultivo das virtudes.
Walter Hilton acrescenta: “Se
quiser construir um edifício alto
de virtudes, coloque primeiro um
alicerce profundo de humildade.
Ela preserva e guarda todas as
outras virtudes”. Ou seja, se não
houver humildade, você pode
até construir um edifício alto de
virtudes; porém, no primeiro
tremor de terra, seu edifício
ruirá. Já vimos muitos exemplos
disso e muitas vezes percebemos
a mesma tendência em nós.
“Sem a humildade, quem tenta
servir a Deus tropeçará como um
cego”. Há aqui uma mensagem
para o cristão envolvido em ação
social: “Meditar constantemente
na humildade de Cristo ajuda
a destruir os pecados graves
e implantar as virtudes”. Isto
é, ler constantemente sobre
a humanidade humilde de
Cristo nos evangelhos. “Vista a
semelhança de Cristo, ou seja, a
humildade e o amor. Sem isso,
nenhuma obra o fará semelhante
ao Senhor.” “Aprenda comigo”, diz
Cristo, “não a andar descalço, ou a
jejuar quarenta dias no deserto, ou
a escolher discípulos, mas aprenda
comigo a humildade. Este é o meu
mandamento, que se amem uns
aos outros como eu os amei. Nisso
os homens saberão que vocês são
meus discípulos, não porque operam
milagres, expulsam demônios ou
pregam e ensinam.”
Concluindo, mais uma frase do
monge de Dostoievski: “Pergunta-se
por vezes, sobretudo em presença do
pecado: ‘É preciso recorrer à força ou
ao amor humilde?’. Não empregueis
jamais senão esse amor; podereis
assim submeter o mundo inteiro. A
humildade cheia de amor é uma força
tremenda, sem nenhuma outra igual”.
O alicerce profundo da humildade
amorosa é uma força tremenda! Que
a identidade evangélica seja cada vez
mais marcada por essa característica.
Nota
* 2ª parte da palestra apresentada no 5º Congresso
Nacional RENAS, em Recife, em agosto de 2010.
Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor
colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na
Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático
de religião e política em contexto global na Balsillie School
of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em
Waterloo, Ontário, Canadá.
52 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Brasil:um protestantismo
neoanabatista?
S
amuel Escobar, um
dos fundadores da
Fraternidade Teológica
Latino Americana
(FTL), escreveu sobre
a “anabatistização” do protestantismo
do nosso continente, não importando
a denominação. Não é só o fato de
apenas aqui as igrejas evangélicas
rebatizarem católicos romanos e
ortodoxos orientais, contrariando
os reformadores e sua prática em
outros continentes. Trata-se do
anabatismo como ideologia, formada
a partir da Reforma Radical, com
desdobramentos históricos. Vejamos
suas marcas.
1. A “apostasia da igreja” como
leitura histórica. Da morte de João ao
nascimento de Lutero, tudo o que a
igreja fez foi errado e a fez se afastar de
sua “pureza” original. Isso se chocava
com a Primeira Reforma (Lutero,
Robinson CavalcantiREFLEXÃO
apostólica nem o consenso dos fiéis,
e querem reinventar a roda, em sua
superficialidade.
4. Uma eclesiologia dualista
e minimalista. Um dualismo
neoplatônico entre organismo (bom, de
Deus) e instituição (má, dos homens),
entre “igreja invisível” e “igreja visível”
que, em uma concepção minimalista,
é a “igreja local” (congregação), crendo
em uma Igreja de Jerusalém regida pelas
regras parlamentares de Westminster.
Um conjunto dessas “igrejas locais”,
com suas peculiaridades, forma uma
“denominação” (conceito novo e
extrabíblico), com a demonização
das organizações históricas, a negação
dos sacramentos e o desprezo pela
hierarquia ministerial.
5. Iconoclastia. Rejeição de toda a arte
sacra: arquitetura, escultura, pintura,
símbolos, vestes, ritos. O inestético
Cranmer) e a Segunda (Calvino),
que consideravam os velhos corpos
cristãos não-reformados, a despeito
de seus “erros, desvios e superstições”,
autênticas expressões do Corpo de
Cristo. Essa ideologia desqualifica
quinze séculos de história e retira dela a
presença do Espírito Santo.
2. O “restauracionismo” como
princípio re-fundante. Se todo o
passado foi de erros, o novo grupo vai
“restaurar” a pureza da igreja, segundo
entende (séculos depois) o que era a
igreja primitiva. Temos tido ciclos de
expressões restauracionistas, dentro
do espectro da igreja, na fronteira
(adventismo) e fora dela (Testemunhas
de Jeová).
3. O “presentismo”. C. S. Lewis
denuncia as gerações que, movidas
por um sentimento anti-histórico,
não levam em conta a tradição
GeorgeCrux
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 53
é o espiritual; a informalidade, a
recuperação da pureza. A psicanálise
tem estudado a relação entre neuroses e
rejeição à arte, por repressão ao prazer.
O “teológico” como fachada para o
psicológico. A ideologia anabatista
perpassou vários momentos na história
da igreja, desde os “entusiastas”,
encontrados (e combatidos) no
luteranismo e no anglicanismo
do século 16, ao menonismo de
vários matizes (Amish, huteritas),
o pietismo, os Quackers, os Irmãos
Livres (Irmãos de Plymouth), o
“Pequeno Rebanho” (Watchman Nee/
Witness Lee) e suas “igrejas locais”,
“igrejas sem nome”, “comunidades
evangélicas”, “igrejas nos lares” (House
Churches), igrejas emergentes e novas
iniciativas. Algumas dessas expressões
se pretendem pós-denominacionais,
ou não-denominacionais (são apenas
variações de igrejas batistas e/ou
pentecostais), sem usar esse título,
outras mantêm vínculos mínimos,
ou estão “hospedadas” nas igrejas
históricas ligadas a movimentos ou
redes de ideologia de fundo anabatista,
que poderíamos denominar de
neoanabatismo. Algumas mantêm uma
ênfase nas doutrinas históricas, outras
afirmam que “as pessoas querem saber
de vida e não de doutrinas”, havendo
até quem negue o apóstolo Paulo
e se resuma à pretensa radicalidade
do reino, aos ensinos de Jesus.
Uma das marcas do neoanabatismo
contemporâneo foi herdada do
liberalismo: tornar o evangelho
palatável para o homem pós-moderno,
como aqueles pretendiam fazer
para o moderno. A cultura secular
termina por impor a agenda da igreja,
na linguagem, nos métodos, nas
abordagens e no próprio conteúdo. “O
homem pós-moderno não aceita essas
coisas. Não faz sentido.” Um setor
tem a preocupação em estabelecer
“igrejas locais” para as tribos urbanas.
E se esses jovens amadurecerem?
Billy Graham, sem menosprezar
a importância da comunicação
transcultural, diz que
atrás de qualquer “casca”
está um pecador que
necessita se arrepender e
depositar a sua fé em Jesus
Cristo, e que para todas
as culturas há um eterno
evangelho a ser anunciado.
Será que as pessoas mais
refinadas, artisticamente
sensíveis, terão de ficar
presas aos extremos
da idolatria e da iconoclastia, sem
lugar para uma igreja reformada
valorizadora da história, do consenso
dos fiéis, da reverência e da beleza
na adoração, incluindo os símbolos
e a liturgia? Quem rejeita a idolatria
está condenado ao empobrecimento
estético, à iconoclastia do presentismo
informalista? O pretensamente “novo”
não é apenas um remake de velhas
iniciativas. O neoanabatismo é um
fenômeno crescente, que atinge, mais
ou menos, todas as denominações,
como rolo compressor em nosso
continente e nosso país. Os histórico-
estéticos, porém, insistem em sua
identidade. As outras expressões
do protestantismo, histórico-
estéticas, continuam a afirmar outras
alternativas para a fé reformada.
Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do
Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política —
teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo—
desafios a uma fé engajada. www.dar.org.br
O neoanabatismo é um
fenômeno crescente, que
atinge, mais ou menos, todas
as denominações, como
rolo compressor em nosso
continente e nosso país
54 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
M
orre mais um ano.
Parecidíssimo
com os demais, os
meses desta década
vieram marcados
por tragédias que se misturaram
com poucas alegrias. Rio de Janeiro
e Haiti se misturaram às dores dos
alagoanos. O sofrimento de tantos
miseráveis clamou em alto e bom
tom: a humanidade não pode
esquecer-se de que o preço de um
possível descontrole ambiental será
altíssimo. O conflito iniciado pelo
Ocidente, que tenta esvaziar a agenda
fundamentalista muçulmana, parece
não ter fim. Mais uma vez a história
lembra que é mais fácil começar uma
guerra que terminar.
Com a queda de alguns mitos
da modernidade, o mundo padece
de uma enxaqueca histórica. Não
se acredita mais no progresso sem
limite nem na agenda consumista
do neoliberalismo. Sobrou uma
ressaca, que imobiliza os ideais e as
ações transformadoras da história;
ressaca que alguns chamam de pós-
modernidade. Se a alternativa da
alienação não convém, parece que não
há vigor para sonhar na reconstrução
de outro mundo possível. Porém,
sonhar é preciso. Nossos filhos e filhas
não merecem herdar um mundo onde
impera o desdém.
Trabalhemos pelo alvorecer de um
novo dia em que os rios não poluam
os oceanos; os peixes não morram
asfixiados em águas podres; o raiar do
sol seja menos abrasador, pois homens
e mulheres conscientes restauraram
as camadas estratosféricas porque
adquiriram uma nova consciência
ecológica. Aguardemos o dia em que
novas leituras do Gênesis devolvam a
humanidade à sacralidade do jardim
e todos se comprometam a cuidar da
criação, recompondo a natureza, que
geme devido à insanidade do pecado.
Trabalhemos pelo despontar de
um novo tempo em que se acabarão
as fronteiras entre países, os muros
étnicos e as cancelas rodoviárias;
em que nos guichês de passaporte o
pobre não seja impedido de procurar
fugir de sistemas iníquos e o doente
Ricardo GondimREFLEXÃO
encontre o hospital que salvará a sua
vida.
Trabalhemos pelo futuro quando
espadas serão transformadas em
arados. Procuremos ressignificar a
esperança de que os bilhões de dólares
gastos com armas e bombas sejam
relocados em tratamento de esgoto,
que aumenta a expectativa de vida
de milhões de crianças. Repitamos:
é possível acreditar que as fortunas
desperdiçadas em cassinos sejam
úteis em pesquisa pela erradicação da
malária. Esforcemo-nos por esboçar
outra realidade, em que se considera
inadmissível uma bolsa custar mais
que dois anos de salário de um
operário.
Trabalhemos para que surjam
muitas Madres Teresa de Calcutá
em diversos continentes, todas
empenhadas em acolher os
moribundos. Sonhemos com mais
profetas como Martin Luther King —
e que eles não sejam exceção rara.
Concebamos que as penitenciárias
políticas serão implodidas e que
ninguém jamais seja preso por pensar
Sonhos e utopias
(im)possíveis
AlessandroPaiva
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 55
diferente. Criemos um mundo em
que os instrumentos de tortura se
tornem peças macabras de museu
e que não reste nenhuma ilha onde
se maltrata outro ser humano em
nome de ideologia, religião ou regime
político.
Trabalhemos para que deixem
de existir corregedorias, grampos
telefônicos e espiões e que seja
proibido bisbilhotar a privacidade
das pessoas. Contribuamos para
que o mundo se liberte das delações
traiçoeiras contra o próximo.
Convençamos os nossos filhos
que é dever de todo homem e de
toda mulher proteger o seu irmão.
Esforcemo-nos para que os orfanatos
não precisem manter as crianças por
muito tempo porque as filas de adoção
se multiplicaram; também, que os
idosos nunca fiquem esquecidos em
clínicas, à espera da morte.
Trabalhemos para que se
multipliquem as orquestras e que
os prefeitos construam coretos em
todas as praças; e que as famílias
se reúnam nos fins de semana para
ouvir a apresentação vespertina de
música. Não deveria ser considerado
um delírio esperar que se projetem
bons filmes em vilarejos e em cidades
remotas. Oxalá bibliotecas ambulantes
distribuam poesia para os tristes e
boa literatura para os sonhadores; que
escolas treinem bons malabaristas para
a alegria das sextas-feiras e que mais
trapezistas desafiem a gravidade nos
picadeiros.
Trabalhemos para que os
experimentos com células-tronco
deem certo, e que muito em breve os
tetraplégicos sejam curados e saltem
como gazelas pela vida. Incentivemos
quem trabalha no Projeto Genoma;
e que eles terminem de mapear a
estrutura da vida biológica para que
se reduza o número de crianças com
doenças genéticas.
Trabalhemos para que o turismo
sexual seja banido e extinto entre os
povos; que a pedofilia se torne um
anacronismo; que se desarticulem
os cartéis de droga — o tóxico tem
que parar de ceifar vidas, já que, um
dia, pouquíssimas pessoas
precisarão entorpecer a
mente para tolerar a vida;
os êxtases virão do encontro
com a beleza, a bondade e a
solidariedade.
Trabalhemos por um
novo céu e uma nova terra.
Todavia, reconheçamos
que esse porvir não acontecerá
enquanto a humanidade tolerar o
pressuposto da sobrevivência do
mais forte, ou da exclusão racial e
da discriminação social. Optemos
pelo legado de sabedoria que nossos
pais nos deixaram, que nos convoca
a construir a história. Incumbidos
por Deus de promover o bem,
represar o mal e disseminar a justiça,
acreditemos que o futuro chegará
de acordo com a semente que
plantarmos no presente.
O futuro que ansiamos nascerá
tanto de nossas mãos como de
nossos ouvidos. Primeiro, ouçamos
as verdades e os princípios eternos
que Jesus nos ensinou. Depois,
arregacemos as mangas. A vida espera
por nós. Nossos filhos e netos não
podem correr o risco de sermos
negligentes ou apáticos. Qualquer
hesitação pode redundar em desastre.
Já é tarde!
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda
no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu
Creio, mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br
O futuro chegará de
acordo com a semente
que plantarmos no
presente
56 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
N
a sala pequena a conversa é
intensa. Em pouco tempo
chegamos a assuntos
profundos. “Você não
faz ideia do que este país
passou e do que o regime comunista
e ateu fez com esta gente!”, diz o
missionário inglês, com a firmeza e
a espontaneidade de quem se sente
em casa em Esbalan, no nordeste da
Albânia. E ele tem razão. Fico tentando
entender o drama pelo qual o país
passou em sua história recente e o seu
processo de transformação nestas duas
últimas décadas.
A história da Albânia é antiga. Só
em 1912 eles se libertaram da longa
ocupação otomana que transformara o
país cristão em muçulmano. Porém, em
1944, eles voltavam a outro império,
dessa vez o soviético. Sob a liderança de
Enver Hoxha, que ficou no poder até
falecer, em 1985, a Albânia passou a
ser uma “ilha” totalitária na qual nem o
bloco soviético, com o qual rompeu em
1967, nem a China, com a qual rompeu
em 1978, eram suficientemente radicais
em sua vivência do comunismo. Foi
Hoxha quem suprimiu toda e qualquer
estrutura e expressão religiosa no país,
declarando-o o primeiro estado ateu do
mundo. A liderança que o substituiu
procurou introduzir algumas medidas
liberalizadoras, mas não subsistiu às
consequências e à influência da queda
do império soviético e à mediática
queda do muro de Berlim. Assim,
quando as fronteiras foram abertas,
em 1991, instituiu-se um novo regime
REDESCOBRINDO A PALAVRA DE DEUS Valdir Steuernagel
Deus dá
testemunho
de si
mesmo
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 57
aos 14 anos que, escondida, ela começou
a frequentar uma igreja. E só mais tarde,
já universitária, começou a aproximar-
se da Bíblia de forma mais inteira e
compreensiva.
De queixo caído e com o coração
palpitando de alegria, eu disse: “Você é
uma menina bem-aventurada!”. Estava
impactado pela forma como Deus se
revela e como ele faz isso com graça,
amor e convicção. Eu tinha ouvido falar
de revelações de Deus em sonho, mas
nunca havia encontrado alguém com
tal experiência. Agora, porém, diante
do testemunho de Erisa, eu só queria
e podia ficar encantado com o próprio
Deus.
Claro que nem sempre é assim.
Aliás, isso é raro. Normalmente, Deus
usa gente como você e eu para dar-se a
conhecer e o faz pelo encontro com o
evangelho de Jesus Cristo, intermediado
pelo Espírito Santo. Porém, é muito
bom saber que ele não depende de nós
para se revelar onde e como quiser.
Há algum tempo venho escrevendo
sobre o chamado de Jesus para sermos
testemunhas dele. Durante a viagem
à Albânia, vi um pouco mais de como
Deus é o maior interessado em se dar
a conhecer a todos nós e como ele faz
isso de formas ricas e diversas. Graças a
Deus, ele dá testemunho de si mesmo
e o faz com muita beleza, intensidade e
clareza.
Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão
Mundial Internacional e com o Centro Pastoral e Missão, em
Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e
Outras Crônicas.
Anúncio
político e a população vivenciou níveis
desconhecidos de liberdade.
O mais intrigante é que, apesar de
décadas de ensino e controle ateísta e do
aniquilamento radical de qualquer sinal
religioso, hoje a população é descrita em
termos religiosos, embora com dados
antigos e desatualizados. Assim, 70% da
população é muçulmana, 20% ortodoxa
e 10% católica. Já a igreja evangélica,
com expressões diversas, é bem pequena
e tem menos de 20 anos de idade.
Onde estão os ateus? Os convertidos ao
ateísmo por um estado
forte, controlador e
violento? Eles existem,
é claro. No entanto, o
anseio e a necessidade
espiritual vieram à tona
assim que possível.
Eclesiastes 3.11 diz que
Deus “pôs no coração
do homem o anseio pela
eternidade”; e o homem, quando pode,
expressa sua busca por Deus de várias
maneiras e formas religiosas. Por algum
tempo, a inexistência de Deus pode até
ser declarada, imposta e proclamada por
regimes, instituições e filosofias; porém,
assim que uma janela se abre ou uma
porta deixa fresta, as pessoas saem em
busca de conhecer e pertencer, como nós
cristãos dizemos, ao Deus que nos criou,
nos sustenta e se revela com amor em
Jesus Cristo. Deus é o maior interessado
em revelar-se a nós, pois sabe que
necessitamos dele de forma existencial e
visceral. Ele é a nossa vida e a razão da
nossa coexistência comunitária.
Há sinais do interesse de Deus em
se dar a conhecer e em dar às pessoas a
oportunidade de descobrir que aquilo
que anelavam e buscavam está no
conhecimento e na relação de amor com
ele mesmo.
No último domingo que Silêda e
eu passamos na Albânia, fomos a uma
igreja no sul do país, acompanhados por
duas funcionárias da Visão Mundial.
Erisa era uma delas — uma jovem
bonita e inteligente. Quando perguntei
a ela como havia chegado à fé cristã,
ela me disse com
naturalidade: “Eu tive
um sonho!”. Claro que a
minha racionalidade e a
bem alimentada suspeita
estranhou: “O quê?”.
“Eu tive um sonho”, ela
repetiu. E nos contou a
história.
Nascida numa família
nominalmente muçulmana, praticante
de um islamismo típico do país, ela
sofria com pesadelos noturnos. Um
dia alguém que visitava sua casa lhe
sussurrou ao ouvido, para que seu pai
não ouvisse, que ela invocasse o sangue
de Jesus ao ter pesadelos. Erisa começou
a fazer isso e certa noite sonhou que
alguém, cujo rosto ela não via, lhe
estendia as mãos e dizia que a amava.
Quando acordou, na manhã seguinte,
ela saiu correndo pela casa, dizendo a
todo mundo que era cristã. Ela tinha 8
anos e por um bom tempo continuou a
afirmar sua identidade cristã, apesar dos
protestos e da suspeita dos pais. Foi só
Deus é o maior
interessado em se
dar a conhecer e ele
faz isso de formas
ricas e diversas
58 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
Afastamento
Ao longo dos séculos, muitos cristãos
têm optado por se distanciar da esfera
pública, dos círculos de poder e
influência relacionados com o estado e
a atividade governamental. No período
antigo e na Idade Média, um bom
exemplo disso foi o monasticismo.
Aqueles que abraçavam a chamada
vida consagrada renunciavam
explicitamente ao envolvimento
político para se dedicar a atividades
contemplativas. No período da
Reforma, houve o caso dos anabatistas,
que tinham entre seus princípios
fundamentais o não envolvimento com
a esfera política. Os partidários desse
movimento protestante não exerciam
cargos públicos, não faziam juramentos
cívicos, não participavam das forças
armadas e defendiam a mais absoluta
separação entre a igreja e o estado.
Monges e anabatistas justificavam a
sua posição isolacionista afirmando
que o envolvimento político era
corruptor e prejudicial para a
verdadeira espiritualidade. Os cristãos
fariam bem em se manter distantes
de um terreno em que a venalidade,
Cristãos e política:
uma relação imprescindível
HISTÓRIA Alderi Souza de Matos
A
cabamos de sair de um
processo eleitoral que
impactou intensamente
a opinião pública.
Deixando de lado certas
posições históricas, os evangélicos
brasileiros se envolveram de modo
inusitado com os grandes temas
em debate. A internet foi palco de
manifestações profusas e candentes
por parte dos mais diversos líderes
e grupos religiosos. A igreja católica
adotou posturas firmes e incisivas
em relação a certos valores essenciais
que considera ameaçados. Em
meio às grandes diferenças nos
posicionamentos, surgiu um consenso
muito evidente. Não é mais possível
ficar indiferente ao debate político
e ao processo político, porque ele
produz consequências que afetam
a todos. Os acontecimentos dos
últimos meses têm levado os cristãos
de todos os matizes a uma reflexão
séria sobre a relação entre igreja e
estado, fé e política. Quando se olha
para a história, é possível ver algumas
posições bastante distintas quanto a
essa questão.
as intrigas e as lutas pelo poder eram
quase inevitáveis. O problema é que,
com esse afastamento, eles perdiam a
oportunidade de exercer sua influência
cristã nessa área tão decisiva. A
Escritura certamente não autoriza
essa atitude de isolamento, exortando
os crentes a participarem ativamente
da vida de suas comunidades. Alguns
dos personagens bíblicos mais
destacados foram homens e mulheres
públicos notáveis que deram valiosas
contribuições às suas sociedades. José,
Débora, Davi, Salomão, Josias, Daniel,
Ester e Neemias são bons exemplos.
Subserviência
Ao longo da história da igreja, os
cristãos muitas vezes têm se envolvido
com os poderes constituídos ou se
submetido a eles, por interesse ou
por imposição. No antigo Império
Bizantino, os soberanos controlavam
fortemente a igreja oriental ou
ortodoxa, situação essa conhecida
como “cesaropapismo”. Quem tentava
resistir a isso, como o destemido
bispo João Crisóstomo, que viveu em
Constantinopla na passagem do quarto
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 59
Conclusão
Neste período de transição
governamental, o Brasil vive dias
de expectativa e apreensão. Ao lado
de valiosas conquistas sociais, da
estabilidade e pujança da economia
e de maior presença no cenário
internacional, alguns comportamentos
da administração que se encerra, alguns
objetivos programáticos do partido no
poder e alguns projetos de lei em debate
no Congresso Nacional têm produzido
motivos justos de preocupação,
tanto para os cristãos, como para a
coletividade em geral. É necessário que
haja a continuação e aprofundamento
do debate sobre temas candentes,
como o aborto, a homofobia, a ética
na política, as relações internacionais
e as liberdades de consciência e de
expressão, sem jamais esquecer-se
da luta em prol da justiça social, da
criação de uma sociedade mais fraterna.
Os cristãos têm muito a dizer sobre
essas questões porque elas fazem parte
das suas preocupações desde o início e
dizem respeito às convicções e valores
mais profundos de sua fé. Todavia, sua
voz somente será ouvida se saírem de
seus guetos eclesiásticos e participarem
corajosamente das lutas de uma
sociedade em transformação, correndo
riscos sim, mas crendo no poder
transformador do evangelho não só
para os indivíduos, mas para as nações.
Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela
Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja
Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na
História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil.
asdm@mackenzie.com.br
Envolvimento crítico
Muitos cristãos de diferentes
persuasões confessionais têm
adotado uma posição intermediária
e mais saudável em contraste com
as anteriores. Evitando tanto o
isolamento quanto o servilismo, eles
têm procurado viver plenamente as
suas vidas em sociedade, participar das
oportunidades e angústias da atuação
cívica e política, mas ao mesmo tempo
mantendo suficiente espírito crítico
que lhes permita um posicionamento
profético em relação a qualquer
partido, sistema ou regime vigente. O
exemplo do bispo João Crisóstomo já
foi mencionado. Essa também foi a
postura do reformador João Calvino.
Havia forte interação entre igreja
e estado na Genebra do século 16;
todavia, quando esse líder religioso
sentiu que os governantes estavam
violando princípios claros da Escritura
e da fé cristã, ele não se intimidou
em censurá-los. No início da sua
carreira, tal atitude resultou na sua
expulsão daquela cidade suíça.
O envolvimento dos cristãos com
a esfera política e partidária sempre
será uma faca de dois gumes. A
tentação de obter vantagens pessoais
e corporativas em detrimento do
bem coletivo está sempre presente. A
possibilidade de usar o poder político
e econômico como instrumento de
dominação e manipulação é uma
constante. Por outro lado, existem
maravilhosas oportunidades de trazer
sanidade, integridade e altruísmo a um
campo tão marcado pela corrupção
humana. Multiplicam-se na história
exemplos de cristãos que fizeram de
sua atuação pública um verdadeiro
sacerdócio, beneficiando grandemente
os seus contemporâneos. Foi o caso do
parlamentar William Wilberforce em
sua luta contra o tráfico escravagista na
Inglaterra do século 18. Foi o caso do
primeiro-ministro Abraham Kuyper
na Holanda do início do século 20.
Foi também o caso do pastor Martin
Luther King em sua defesa dos direitos
civis dos afroamericanos.
para o quinto século, podia sofrer
graves consequências. Na época da
Reforma, houve o fenômeno do
erastianismo (de Tomás Erasto, seu
defensor), que se manifestou no
forte controle da igreja pelo estado
em diversas nações protestantes.
Em países católicos ocorreram os
fenômenos paralelos do padroado
e do regalismo. Com sua ênfase na
separação das esferas civil e religiosa
e sua grande reverência pelos
governantes seculares, os protestantes
alemães correram por vezes o risco
de ficar passivos diante da tirania,
como ocorreu no período nazista.
O pastor Dietrich Bonhoeffer
e outros líderes pagaram com a
perda da liberdade ou da vida a sua
resistência contra esse sistema iníquo
e diabólico.
A subserviência ao estado ou ao
poder político pode adquirir formas
sutis e perigosas. Em contextos
altamente ideológicos, como a
América Latina contemporânea,
muitos cristãos têm assumido
compromissos questionáveis
com partidos e regimes políticos
marcados por tendências autoritárias
e violações das liberdades
democráticas. Os cristãos precisam
entender que contrair vínculos sem
reservas com qualquer grupo ou líder
político é uma forma de idolatria
que viola a integridade do evangelho.
Só Jesus Cristo é Senhor supremo
da vida e da consciência. Esse é um
alerta necessário numa época em que
lideranças messiânicas e populistas
novamente seduzem as massas de
muitos países, fazendo com que se
esqueçam das lições da história.
A voz dos cristãos somente
será ouvida se saírem de
seus guetos eclesiásticos e
participarem corajosamente
das lutas de uma sociedade
É necessário que
haja a continuação e
aprofundamento do debate
sobre temas candentes, sem
jamais esquecer-se da luta
em prol da justiça social, da
criação de uma sociedade
mais fraterna
60 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
isso tem implicações na maneira de
tratar questões culturais, tradições e
crenças que interagem intimamente
com o dia-a-dia das pessoas. O
mesmo acontece com a eclesiologia e
com a teologia sacramental.
Missionários bem capacitados
precisam de uma base sólida
na teologia, que determina o
conteúdo que será levado, e
teólogos aprimorados precisam de
uma formação missiológica, que
os orientará em como e quando o
conteúdo deve ser oferecido.
Essas concepções ou doutrinas
determinam a base de nossa
missiologia, que consequentemente
norteia a missão.
“Se queremos enviar missionários
cristãos, eles devem conhecer e viver
o verdadeiro cristianismo revelado
por Deus na Palavra. Com esta
finalidade, a Bíblia deve se tornar o
foco e o fator integrante de todo o
ensino teológico e missiológico.”²
A teologia certamente intermedia
a mensagem evangélica para os
homens em todos os tempos. No
entanto, ela não pode exercer essa
mensagem com excelência sem
utilizar os recursos que a missiologia
oferece, pois esta é como as sandálias
que a teologia calça, é como a
voz na boca da teologia. Assim,
concordamos com a natureza
eclesiástica da teologia. E que a
teologia é o autoexame da igreja e a
missiologia rege a prática da igreja,
ou seja, o que fazemos em relação à
Missio Dei (Missão de Deus)!
Pela mesma causa
T
eologia para pastores e
teólogos, missiologia
para missionários. Essa
“separação” entre a
teologia e a missiologia
ou formação missionária tem sido
comum. Na verdade, esse tem sido um
pensamento equivocado em relação às
duas áreas — ensino e prática.
Bárbara Burns diz que “o
missionário que não experimentou
formação do caráter no lar e na igreja,
e que não teve a oportunidade de
passar por um currículo abrangente
numa escola de treinamento teológico
e missiológico, tem desvantagens a
superar no campo”.¹
Por outro lado, líderes e pastores
que não tiveram uma preparação
adequada em missiologia têm
dificuldades em considerar como
parte de seu ministério os projetos
de despertamento missionário, apoio
emocional, espiritual e financeiro a
membros que se dispõem a servir a
Deus como missionários de forma
parcial ou integral.
A teologia e a missiologia estão
casadas pela mesma causa, estão
alicerçadas sobre a Bíblia e existem
não apenas para proporcionar boas
reflexões, mas também para que,
acima de tudo, a Boa Nova seja
proclama a toda criatura.
A teologia que usamos define o
Deus que levamos e pregamos. O
Deus que pregamos e levamos define
a nossa teologia. A nossa soteriologia
define a maneira como levaremos a
questão da salvação para os povos e
Por essa razão, todo o treinamento
ou formação para pastores, teólogos,
missiólogos e missionários deve
envolver a teologia e a missiologia,
pois ambas existem primeiro para
a glória de Deus, e depois como
ferramentas em nossas mãos para
uma boa, eficiente e contextual
proclamação da Palavra de Deus.
...a fim de que toda língua declare
que Jesus é Rei, para a glória do seu
nome!
Notas
1.	BURNS, Bárbara. Capacitando para Missões
Transculturais, n. 6, p. 3.
2.	Idem, n. 1, p. 62.
Eunice Nalamele Alberto Chiquete, casada, duas filhas, é
angolana e cursa mestrado em missiologia em Viçosa, MG.
CAMINHOS DA MISSãO Eunice Nalamele Alberto Chiquete
A teologia que usamos define o Deus
que levamos e pregamos. O Deus
que pregamos e levamos define a
nossa teologia
JohnNyberg
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 61
3
º Congresso Lausanne de
Evangelização Mundial
reúne mais de 4 mil pessoas na África do Sul
Especial
O maior congresso
O maior congresso evangélico, com
4.200 participantes e mais de 100 mil
pessoas acompanhando pela internet,
começou na tarde de domingo, 17
de outubro, na Cidade do Cabo, na
África do Sul. A audiência via internet
foi maior do que na Copa do Mundo
de Futebol, que aconteceu entre 11 de
junho e 11 de julho. O tema “Deus
reconciliando consigo o mundo”, baseado
em 2 Coríntios 5.19, estava estampado
em oito idiomas nos cadernos dos
participantes, nas faixas e nos telões. A
palavra introdutória foi do presidente
executivo do Movimento Lausanne,
Doug Birdsall. À noite, na abertura
oficial, houve apresentações de dança,
teatro e música dirigidas por artistas
africanos. Os hinos entoados enfatizaram
o senhorio de Cristo, o teatro mostrou
situações de dificuldades na evangelização
em cada continente e um documentário
em vídeo contou a história resumida do
cristianismo, do Pentecostes ao Congresso
de Edimburgo, em 1910.
A novidade do Congresso foi a
plateia. Organizados em 650 grupos de
seis pessoas, os milhares de presentes
reuniram-se de forma mais pessoal
por quase 2 horas diariamente.
Compartilharam suas histórias e
expectativas e oraram juntos durante toda
a semana. Esta foi a tônica metodológica
do evento: não um grupo seleto de
preletores, mas centenas de diálogos
intencionais e programados sobre o
conteúdo apresentado. Muitos líderes
de mesa (pequenos grupos) ficaram
impressionados com a comunhão entre os
participantes.
As expectativas sobre o congresso eram
diferentes para cada um. Os comitês
encarregados da seleção dos participantes
tiveram de seguir à risca os critérios. Assim,
havia a presença não só dos líderes, mas
também de jovens, mulheres, leigos e
homens de negócios. A delegação do Brasil
era composta por cerca de noventa pessoas
de diferentes denominações e regiões do
país. Além destes, outros sete brasileiros
estavam entre os voluntários e cerca de
vinte, que moram em outros países, vieram
com suas comitivas. O bispo anglicano
Robinson Cavalcanti foi o único brasileiro
que participou dos três Congressos
Lausanne.
John Stott e Billy Graham enviaram
suas saudações pessoais, comprometendo-
se a orar todos os dias do evento. Ao
refletir sobre as imensas mudanças que
ocorrem no mundo, Billy Graham escreveu
de sua casa, na Carolina do Norte, Estados
Unidos: “Uma das tarefas que terão
durante o Congresso será analisar essas
mudanças e avaliar o impacto delas na
missão para a qual Deus nos chama hoje”.
Verdade e perseguição religiosa
O segundo dia do congresso teve como
ênfase a importância da verdade frente
à tendência ao relativismo na sociedade
contemporânea. O teólogo chinês
Carver Yu reconheceu a pluralidade,
por Lissânder Dias
com colaboração de Klênia Fassoni
Lausanne 3 em números
198 países representados
100.000 espectadores e 700 sites
retransmitindo o evento ao vivo em
96 países
8 idiomas contemplados na tradução
de todo o material do congresso
70% dos participantes provenientes
da África, Ásia e América Latina
30% dos participantes provenientes
da América Anglo-saxônica e Europa
40% dos participantes com idade de
20 a 40 anos
1/3 dos participantes são mulheres
1.200 missionários
1.200 pastores
1.200 acadêmicos ou leigos
600 participantes ligados a
empresas, governo, ministérios e
meios de comunicação
50% dos participantes receberam
algum tipo de bolsa
16,5 milhões de dólares foi o custo
do congresso
Fonte: www.virtueonline.org
Coral de vozes africanas canta
na abertura do congresso
©TheLausanneMovement
62 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
mas combateu o pluralismo: “O pluralismo é uma ideologia
que proclama que a verdade é uma construção cultural válida
somente para a cultura que a construiu”.
O teólogo alemão Michael Herbst lembrou que a verdade é
uma pessoa: “Olhar para Jesus é buscar a verdade”. O escritor
Os Guinness ressaltou que, embora o conteúdo da Bíblia
pareça indecente para o mundo moderno, ele é fundamental
pelas seguintes razões: honra ao Deus da verdade, equilibra
emoção e razão, avança em favor da humanidade, fundamenta
a proclamação da fé, combate a hipocrisia e o mal e nos ajuda a
crescer na transformação em Jesus Cristo.
Os cânticos em várias línguas marcaram os momentos diários
de louvor comunitário. Para Carlinhos Veiga, foi “uma pequena
mostra do que será a eternidade, com pessoas de vários países,
cada qual com suas vestes típicas e características culturais. Um
grande coro de adoração se formou naturalmente — isso me
fez lembrar como a música é um elemento comum ao povo de
Deus em todo o mundo, como é a linguagem dessa família de
fé”. O expositor da manhã foi o teólogo de Sri Lanka, Ajith
Fernando, que a partir de Efésios 1 afirmou que a salvação traz
um conceito mais completo sobre Deus do que normalmente
compreendemos. “Ver Cristo como alguém que supre as
necessidades pessoais é um ponto inicial, mas não é tudo. Deus
está marchando para a vitória final. Ele tem um plano, um
propósito para o mundo. O evangelho é mais profundo, mais
rico e maior do que a ideia de Deus suprindo as necessidades
imediatas.” Nos pequenos grupos, os participantes puderam
estudar o texto de forma indutiva.
Todas as tardes os participantes podiam escolher vários
seminários, com mais de um preletor cada, chamados
“multiplex”. Eram oferecidas também dezenas de sessões
específicas de diálogo (mais de 120 em todo o congresso). Tudo
isso fez com que as temáticas diárias ganhassem abrangência
e participação. O que foi um ponto forte para alguns, foi o
contrário para outros, que lamentaram o não-aprofundamento
dos temas.
A noite foi dedicada a uma visão panorâmica de como Deus
está movendo a igreja no mundo, em especial em contextos
de perseguição e violência religiosa. Documentários em vídeo
trouxeram histórias de perseguição a cristãos na Colômbia, na
África Ocidental, no Oriente Médio, no Vietnã, no Uzbequistão,
no Turcomenistão e no México. “Policiais vieram à igreja,
esperando descobrir algo errado. Identificaram no conteúdo do
sermão. Fui preso, mas pude compartilhar o evangelho na prisão.
©TheLausanneMovement
Participantes organizados
em mesas de diálogo
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 63
Trinta presos se converteram a Cristo”, disse, em vídeo, um
pastor vietnamita.
Os congressistas oraram juntos pela situação da igreja na
China. Muitos chineses que participariam do congresso foram
impedidos de sair do seu país.
Reconciliação global e integral
A reconciliação aplicada não somente à dimensão individual, mas
também à global e integral foi a mais importante contribuição
teológica do terceiro dia do Congresso na Cidade do Cabo —
uma cidade ainda marcada pela recente história de discriminação
racial da África do Sul.
Ruth Padilla, presidente da Fraternidade Teológica Latino-
Americana (FTL), enfatizou em sua exposição de Efésios 2
a obra de Jesus Cristo como base para a reconciliação e para
a construção de uma comunidade reconciliadora: “Em Jesus
Cristo, Deus cria uma comunidade. Os romanos classificavam as
pessoas por categorias, por status, mas na obra reconciliadora de
Deus todos somos da mesma comunidade. Somos templo santo
de Deus”.
Foi desafiador ouvir Joseph D’souza, Pranitha Timothy e
Brenda Salter. Joseph falou sobre as castas na Índia e sobre as
mulheres como vítimas da discriminação. Pranitha, uma jovem
indiana de voz e porte físico frágeis, contou como lidera a
International Justice Mission (IJM), organização que trabalha
para libertar escravos, defendê-los judicialmente e oferecer
ajuda emocional. “Deus quer trazer luz, por meio do seu
Corpo, diante da escuridão dos donos de escravos. Devemos
mostrar que nosso Deus é justo. Que ele abençoe os escravos.”
(Veja uma entrevista exclusiva com Pranitha em
www.ultimato.com.br.) A norte-americana Brenda fez uma
autocrítica afirmando que o cristianismo nos Estados Unidos
tem um problema de credibilidade.
A palestina Shadia Qubtim e o judeu Daniel Sered relataram
em seus testemunhos a dificuldade de vencer o ódio entre seus
povos, mas demonstraram esperança. “A reconciliação tem me
transformado, e transforma o meu inimigo”, disse Shadia em
meio aos aplausos. “A única esperança para a paz no Oriente
Médio é Jesus. Ore por isso”, pediu Sered.
A segunda plenária do dia ficou a cargo de Antonie Rutaysire.
Ele refletiu teologicamente sobre os erros das igrejas cristãs que
contribuíram para a tragédia do genocídio em seu país, Ruanda,
em 1994, quando 1 milhão de pessoas foram mortas em apenas
100 dias devido ao conflito entre etnias. Ele lembrou que o
massacre aconteceu num país com 90% de cristãos e numa época
em que a igreja estava crescendo.
À noite, a programação foi dedicada à região do Oriente
Médio e foi dirigida pelo pastor brasileiro Valdir Steuernagel.
Líderes de países como Irã, Líbano, Palestina e Egito relataram
como está a caminhada do cristianismo em suas regiões. A
boa notícia é que o evangelho tem crescido em toda a região.
A má notícia é que a perseguição religiosa também cresce, o
que tem forçado muitos convertidos a fugirem de seus países,
enfraquecendo assim o testemunho cristão.
Os participantes viram e ouviram em vídeo a história de
uma mulher explorada sexualmente no Camboja, mas que
encontrou no cristianismo o caminho para o resgate de sua vida
e dignidade. Em seguida, o público emocionou-se com a história
de vida de uma moça da Zâmbia e de um homem da África do
Sul. Ambos são soropositivos e contaram como Deus os tem
ajudado a enfrentar a doença e o preconceito, e como eles têm
“A teologia da prosperidade
surgiu como resposta ao
vácuo deixado pela falta da
missão integral. Os pobres
precisam saber como
sobreviver até chegarem
ao céu. Se não há missão
integral, eles precisam da
teologia da prosperidade”
Pastor ugandense
“O pluralismo é a mais
dogmática de todas as
ideologias”
Carver Yu,
teólogo chinês
“O cinema é a nova
igreja”
Quentin Tarantino,
citado no multiplex sobre
mídia e missões
“Muitas igrejas são
como um ônibus. Têm
um motorista, um
cobrador e o resto”
Vaughan Roberts
“Os dons do Espírito
são para todos,
homens e mulheres.
A evangelização é
responsabilidade de
todos”
Elke Werner
lutado em favor de outros contra o flagelo do HIV/aids. Ao final
do dia, Steuernagel reconheceu: “Não foi um dia fácil. Deus nos
chamou para percorrer um mundo ferido”.
Evangelismo e relacionamento
com outras crenças
O quarto dia do Congresso trouxe
à tona o relacionamento com
outras crenças. O evangelismo
foi a ênfase e nela o islamismo
ganhou destaque.
Para o arcebispo anglicano
Benjamin Argak Kwashi,
nigeriano, “o evangelho é
poderoso como uma dinamite”.
Mesmo assim, o risco da morte
faz parte do trabalho de anunciar
esse evangelho, como provou
o emocionante testemunho de
Libbie Little, viúva do missionário
norte-americano Tom. Ele e seu
grupo (incluindo dois afegãos)
foram mortos em agosto no
Afeganistão. Ele deixou notas do
seu último sermão, no qual fala
sobre o aroma do amor de Cristo,
manchadas de sangue.
Uma mulher convertida do
islamismo testemunhou sobre
como “o amor abundante de Jesus
está trazendo os muçulmanos
e, em especial as mulheres, para
Deus”. Outros dois testemunhos
relataram conversões do islamismo
ao cristianismo.
O apologeta Michael Ramsden
falou sobre o exemplo de Paulo
ao pregar aos gentios. Já Ziya
Meral abordou as falhas que
atrapalham a igreja ao lidar com o
Islã. Falta entender corretamente o
pensamento do mundo moderno
e o tempo de transição do século
20 para o 21. “A igreja global tem
de dar testemunho de que ama a
Deus.”
O pregador John Piper fez
a exposição bíblica do terceiro
capítulo de Efésios. Ele destacou
a necessidade de a igreja não
se preocupar apenas como o
sofrimento de agora, mas também
com o da eternidade, referindo-
se aos que serão separados de
Deus. Enfatizou a grandeza do
propósito de Deus para o mundo
e sua multiforme sabedoria para
a igreja. “Deus não é tribal. Ele é
universal.”
A programação da noite foi dedicada ao continente latino-
americano e à questão das megacidades. O ponto alto foi a
64 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
conversa entre René Padilla e Samuel
Escobar. Eles relembraram Lausanne 1
(1974) e apontaram três preocupações
que deveriam ser mais bem exploradas no
congresso: 1) o evangelismo como a tarefa
de fazer discípulos e não simplesmente
convertidos; 2) a globalização e seus
efeitos sobre milhões de pobres; 3) e o
sistema econômico e sua destruição do
meio ambiente. Quanto ao tema das
megacidades, a reflexão ficou a cargo do
norte-americano Tim Keller, pastor da
Redeemer Presbyterian Church em Nova
York e autor do best-seller The Reason for
God.
Definição de prioridades
Após um dia de descanso para os
participantes, a proposta do sexto dia
era responder quais as prioridades da
evangelização. Os vídeos e os testemunhos
pessoais mostraram alguns problemas
sérios desta geração (drogas, aids, violência
etc.) e como as igrejas têm enfrentado
tais questões. Vaughan Roberts, do Reino
Unido, explorando o texto de Efésios 4.1-
16, refletiu sobre o significado da unidade
da igreja: “A unidade de Cristo não
pode ser criada, é uma ação do Espírito.
Por meio da verdade do evangelho, do
Espírito, somos o Corpo de Cristo. Deus
pede que vivamos de maneira digna
da vocação a que fomos chamados. As
divisões não são por diferenças teológicas,
mas por orgulho”. Paul Eshleman, dos
Estados Unidos, enfatizou estatísticas
de grupos etnolinguísticos sem acesso
às Escrituras. “Ainda há grupos entre os
quais a igreja não está presente, nem se
planeja estar. É absolutamente errado. Até
quando vamos esperar? Podemos dizer
que já basta.” A evangelização por meio
de contadores de histórias foi a estratégia
mais divulgada pelos preletores. À noite,
o destaque foi a evangelização de crianças
e jovens. Vídeos e apresentações teatrais
mostraram a importância teológica da
criança e a necessidade de anunciar as boas
novas aos jovens.
Integridade
No sétimo dia o destaque foi a integridade
como virtude essencial para a igreja
cumprir a missão. O pastor queniano
Calisto Odebe destacou os verbos levantar,
sentar e andar no texto bíblico de Efésios
4.17–6.9 como expressão prática da vida
cristã. Ele chamou a atenção também para
a incoerência atual dos cristãos. “Alguns
ministros tornaram-se artistas e vendem
produtos sem relevância. Devemos ser
autênticos, senão seremos confundidos
com vuvuzelas, que só fazem barulho.”
Já Chris Wright fez uma autocrítica da
caminhada da igreja no mundo e destacou
três virtudes essenciais: integridade,
humildade e simplicidade. O contrário
delas — sucesso, poder e ganância — ele
considera idolatria. “Desde Abraão, Deus
promete criar o seu povo para viver no
caminho do Senhor, como testemunho
para todas as nações. Muitos obstáculos
prejudicaram isso. O maior, no entanto,
foi o próprio povo, e não as outras
religiões. Antes de buscar os povos não-
alcançados, devemos nos ajoelhar e buscar
a Deus”. No restante do dia, houve muitas
críticas à Teologia da Prosperidade. À
noite, a Eurásia foi a região em destaque.
Ouvir que, depois de 20 anos, o evangelho
está crescendo na Rússia foi uma
surpreendente notícia.
DarcyCairesJr
Brasileiros que participaram
do congresso
Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 65
Encerramento e documento final
O culto de encerramento do 3º Congresso Lausanne,
na Cidade do Cabo, foi marcado pela forte tradição
litúrgica anglicana, pela celebração musical e pela ênfase
cristocêntrica.
Cristãos de quase duzentos países foram, no último
momento, mais uma vez comissionados para cumprir o
chamado de Deus no mundo. A celebração da Santa Ceia,
dirigida pelo arcebispo da Igreja Anglicana de Uganda,
Henry Luke Orombi, marcou a busca por unidade — tema
recorrente nos cinco dias do congresso.
Os seis grandes temas — verdade, reconciliação,
relacionamento com outras crenças, definição de
prioridades, integridade e parceria — foram lembrados
transversalmente no sermão de encerramento ministrado
por Lindsay Brown, diretor internacional do Movimento
Lausanne. Em sua homilia, ele deixou claro qual foi o
centro de referência dos esforços do Congresso Lausanne:
“Cristo é o centro da mensagem. Ele não é apenas um
salvador, mas o único Salvador”.
A liturgia contou com mais de vinte cânticos
intercalados com orações e leituras comunitárias, e o culto
foi encerrado com a Santa Ceia. Ver homens e mulheres
com as faces e vestes diversas participando, em comunhão
singela, do pão mergulhado no vinho deu aos presentes o
sentimento de gratidão a Deus pelo privilégio de participar
desse momento e perceber que a igreja global é maior e mais
complexa do que podemos mensurar.
O resultado concreto do 3º Congresso Lausanne é
o “Compromisso da Cidade do Cabo”. O documento
é uma declaração final do Movimento Lausanne a
partir do congresso. A primeira parte é uma declaração
de fé intitulada “Para o Senhor que amamos: o nosso
compromisso de fé”. Com versão ainda provisória, enfatiza
o verbo amar e compõe-se de introdução e dez seções.
“Esta declaração foi firmada na linguagem do amor.
O amor é a linguagem da aliança. As alianças bíblicas,
antigas e novas, são expressão do amor redentor de Deus
e da graça que alcança a humanidade perdida e a criação
deteriorada. Em troca, elas pedem o nosso amor. O nosso
amor se manifesta por meio da confiança, obediência e do
compromisso apaixonado com a aliança do Senhor. O Pacto
de Lausanne definiu a evangelização desta forma: ‘toda a
igreja levando todo o evangelho para todo o mundo’. Esta
continua sendo nossa paixão.”
A segunda parte — o chamado — ainda está em fase
de elaboração. Um grupo formado por oito pessoas (entre
elas os brasileiros Valdir Steuernagel e Rosalee Veloso) vai
trabalhar na redação do documento a partir das reflexões
feitas no congresso.
E agora?
Em todo o congresso, os participantes foram desafiados
a reproduzir o seu conteúdo e a participar da obra de
reconciliação em Cristo em seus países. Você pode
acompanhar no site www.ultimato.com.br novos artigos e
notícias sobre os desdobramentos do evento. E a próxima
edição de Ultimato (janeiro-fevereiro) trará como matéria
de capa mais informação e muita reflexão sobre Lausanne 3.
Se John Stott fosse conhecido no mundo todo
apenas como teólogo, escritor e evangelista, já seria
surpreendente. Porém, além disso e de ter sido indicado
pela revista Time como uma das cem personalidades
mais influentes do mundo, ele é também o presidente
honorário do Movimento Lausanne e um de seus
pioneiros.
Aos 88 anos e com a saúde debilitada, Stott não
pôde comparecer ao congresso. Mas fez questão de
enviar uma mensagem a todos os participantes, que
foi publicada em oito idiomas no informativo do
congresso:
“Tenho agradecido a Deus, durante todos esses
anos, pelo crescimento do Movimento Lausanne desde
1974 e pela maneira como ele o tem usado para a sua
glória. Agradeço ainda mais a Deus pelo crescimento da
igreja mundial durante esses anos, principalmente nos
grandes continentes do mundo em desenvolvimento.
Alegro-me com a realização do Congresso na África
e oro para que vocês partilhem ricamente a bênção de
Deus sobre a igreja nesse continente, assim como a dor
e o sofrimento do seu povo.”
Apesar das limitações, John Stott mantém uma
invejável lucidez e senso de humor — e realiza suas
atividades com a ajuda de Frances Whitehead, sua
secretária por mais de cinquenta anos.
Após marcar gerações com livros como Ouça o
Espírito, Ouça o Mundo (ABU editora), escreveu suas
“palavras de despedida” em seu mais novo (e, segundo
ele mesmo, o último) livro: The Radical Disciple: some
neglected aspects of our calling (InterVasity Press, 2010).
No Brasil, o livro será publicado pela editora Ultimato,
em março de 2011, com o título O Discípulo Radical.
Stott explica o que significa ser um discípulo
radical de Jesus e explora oito aspectos importantes,
mas negligenciados, do discipulado cristão: não-
conformidade, semelhança com
Cristo, maturidade, cuidado com
a criação, simplicidade, equilíbrio,
dependência e morte. Ele reflete
sobre o significado de servir a Jesus
sem reservas e deixá-lo dirigir nossa
vida, cumprindo assim a tarefa de
levar adiante o espírito Lausanne.
O discípulo radical
©TheLausanneMovement
66 ULTIMATO I Novembro-Dezembro 2010
O veterinário
Q
uando pequeno, eu sonhava em ser
tratado por um veterinário — um
médico muito especial, que consegue
descobrir e curar as doenças dos animais sem
que eles falem uma só palavra. Que descobre
sozinho o que há de errado com o paciente. Ah,
que sonho!
Eu tinha consciência da dificuldade em
dizer o que havia de errado comigo. Mesmo
para meus pais. Sabia apenas que havia coisas
doentes e doendo. Porém, como explicá-las?
Com que palavras? Como fazer isso se meu
vocabulário era o de um menino de oito anos?
Era melhor subir numa árvore bem alta e ficar
por lá. Ou nadar para minha Ilha Rasa e passar
boa parte do dia “longe dos problemas”, em
meio às gaivotas. Fuga, claro.
Com o tempo, percebi que as dores iam
comigo para a ilha. No entanto, a felicidade da
solidão e do calor do sol ajudavam, como hoje
ajuda um banho quente.
Meu sonho era um dia ser apresentado a um
adulto bondoso, vestido de branco e com um
estetoscópio especial. Com olhar profundo, ele
se colocaria de joelhos e, com toda a calma, me
olharia bondosamente nos olhos. Sem necessidade de
palavras, me examinaria o corpo, como os veterinários
examinam os animais. Talvez então esse veterinário
entrasse em minha alma (uma palavra que só aprendi
mais tarde) e seu estetoscópio gentilmente revelaria meus
segredos.
Ele me ajudaria a compreender meus próprios
sentimentos. Só compreendê-los já seria bom. Porém,
se ele pudesse explicá-los para mim, numa linguagem
acessível... Para isso, talvez começássemos uma longa e
profunda conversa. Ele me ensinaria as palavras certas
para nomear e descrever meus problemas. Elas me
permitiriam “olhar” para eles e falar deles para meus pais
e pessoas de confiança. Eu iniciaria um bom período de
convalescença.
De repente, o doutor me daria algumas receitas que
abrandariam os desconfortos, sanariam a culpa, os
medos e as angústias infantis. Sim, ele me prescreveria
remédios para o coração (ou alma).
Teria sido tão bom se eu tivesse sido alvo de um lava-
pés infantil, executado por um missionário com chamado,
unção e poder de Deus para exercer a delicada missão
emocional com a qual eu sonhava. Não teria esperado
cinquenta anos para conseguir discernir minhas próprias
faltas, dores e necessidades, invariavelmente traduzidas
por culpa.
Hoje contemplo a encarnação do Verbo e vejo ali a
origem dessa ordem sacerdotal “veterinária”. Descubro que
Deus, em Cristo, se ajoelhou e nos olhou bondosamente
nos olhos. E nomeou nossos pecados. E nos prescreveu
a receita do arrependimento e do perdão.
E nos deixou o modelo para esse ministério que
reconcilia os cacos da alma e pacifica os corações
internamente conflagrados. Um ministério que nasce do
(e no) amor de Deus; que vê e se compadece; que para
e, dadivosamente, despende o tempo necessário para
compreender, junto com o “paciente”, o que até então
só se expressava por silêncios e solidão (Lc 10.33-35).
Restabelecendo o diálogo vital, esse ministério lança
luz sobre as almas em trevas. “E nos deu o ministério da
reconciliação” — também entre as crianças.
Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja
Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e
Liturgia e Fábrica de Missionários — nem leigos, nem santos. ruben@amorese.com.br
PONTO FINAL Rubem Amorese
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Deus nos deixou o modelo para o ministério
que reconcilia os cacos da alma e pacifica os
corações internamente conflagrados
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Ult+327

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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 1 3º CONGRESSO LAUSANNE de Evangelização Mundial reúne mais de 4 mil pessoas na África do Sul RENÉ PADILLA MORDOMIA RESPONSÁVEL PAUL FRESTON AÇÃO SOCIAL CRISTÃ: A HUMILDADE AMOROSA RICARDO GONDIM SONHOS E UTOPIAS (IM)POSSÍVEIS SOFRIMENTO“Quando não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos” www.ultimato.com.br NOVEMBRO-DEZEMBRO 2010 • ANO XLIII • Nº 327 FECHAMENTOAUTORIZADO.PodeserabertopelosCorreios. FECHAMENTOAUTORIZADO.PodeserabertopelosCorreios.
  • 2.
    2 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Anúncio
  • 3.
    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 3 Q uando Cornélio se encontrou com Pedro na entrada de Cesareia, o militar romano ajoelhou-se e curvou a cabeça diante do ex-pescador da Galileia. Imediatamente, Pedro fez com que ele se levantasse e disse: “Fique de pé, pois eu sou apenas um homem como você” (At 10.26). O ser humano não pode ser tratado como Deus por outro ser humano. Nem pode desejar tal coisa para si mesmo. Deus está acima de qualquer ser angelical e de qualquer pessoa. Está escrito: “Temam o Senhor, o seu Deus, e só a ele prestem culto” (Dt 6.13; Mt 4.11, NTLH). O verdadeiro cristão precisa aprender e executar duas artes gêmeas: a arte de levantar os que estão indevidamente ajoelhados e a arte de fazer ajoelhar os que estão indevidamente em pé. Ambas são difíceis e requerem sabedoria e coragem. Mesmo sob contínuas e exageradas palmas, o ser humano não pode esquecer-se de que é um ser humano. Mesmo gostando de colecionar muitos títulos e diplomas, muitas coroas e cetros, muita importância e dinheiro, ele não pode perder a cabeça nem aceitar qualquer tipo de veneração ou adoração reservada unicamente a Deus. A história bíblica e a história secular ensinam que as pessoas que se deixam glorificar como Deus podem ser vergonhosamente humilhadas, como aconteceu com Herodes Antipas I, que não sustou a impressão dos fenícios de que ele era um deus e não um homem, provocando o juízo imediato de Deus. Esse Herodes, neto de Herodes, o Grande (que mandou matar as crianças de Belém), morreu comido de vermes dez anos depois da ressurreição de Jesus (At 12.23). O ensino bíblico é que ninguém deve se ajoelhar diante de qualquer figura, imagem, astro, anjo, ser humano canonizado, autoridade religiosa (como era o caso de Pedro) ou potestade do ar. A esperança cristã é que, pelo menos na plenitude da salvação, todos os joelhos se curvem diante de Jesus. Esse anelo percorre toda a Bíblia: “Todos os orgulhosos se curvarão na sua presença, e o adorarão todos os mortais, todos os que um dia vão morrer” (Sl 22.29). “Venham, fiquemos de joelhos e adoremos o Senhor. Vamos nos ajoelhar diante do nosso Criador” (Sl 95.6). “Juro pela minha vida, diz o Senhor, que todos se ajoelharão diante de mim e todos afirmarão que eu sou Deus” (Is 45.23 e Rm 14.11). “Deus deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome que é o mais importante de todos os nomes, para que, em homenagem ao nome de Jesus, todas as criaturas no céu, na terra e no mundo dos mortos, caiam de joelhos e declarem abertamente que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus, o Pai” (Fp 2.9-11). De ordem prática, nada é mais importante do que a obrigação de levantar quem está indevidamente ajoelhado e de pôr de joelhos quem está indevidamente em pé! A obrigaçãode levantar quem está indevidamente ajoelhado e de pôr de joelhos quem está indevidamente em pé Abertura
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    4 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 A té ler Em Busca de Sentido, quase nada sabia sobre Viktor Frankl. Agora, sinto-me impulsionado a tornar conhecida a experiência desse psiquiatra vienense em Auschwitz e em outros campos de concentração, de setembro de 1942 até o fim da Segunda Guerra Mundial, em abril de 1945. Sua história é ao mesmo tempo perturbadora e terapêutica. Perturbadora porque revela a extensão da maldade humana; terapêutica porque mostra o caminho da sobrevivência. Basta ler a declaração de Frankl, publicada em Who’s Who in America: “Vi o sentido da minha vida ajudando os outros a ver um sentido em suas próprias vidas”. Como prisioneiro, Frankl pergunta: “Como é possível que pessoas de carne e osso cheguem a infringir tamanho sofrimento a outros seres humanos?”. Como psiquiatra, ele responde: “Entre os guardas de um campo de concentração existiam sádicos por excelência, no sentido estritamente clínico, que eram escolhidos deliberadamente para compor os pelotões excepcionalmente rigorosos”. Os adultos e os jovens de hoje não conhecem a recente história dos horrores do antissemitismo e da Segunda Guerra Mundial. Os que dela participaram como causadores, vítimas ou expectadores, quase todos já morreram. Esse é o motivo da matéria de capa desta edição. Há exatamente 70 anos, entre o Natal e o Ano-Novo de 1940, a Alemanha nazista despejou 120 toneladas de explosivos de alta potência e 22 mil bombas incendiárias sobre Londres. Que neste ano, nossos votos de Feliz Natal e Feliz 2011 sejam mais honestos e agradecidos, e menos formais e secularizados. Tanto o nazismo na Alemanha na década de 1930 como o comunismo em Angola e Moçambique na década de 1970 transformaram o Natal numa festa nacional sem teor religioso. Hoje, a comemoração do nascimento de Jesus é muito mais consumista do que religiosa, independentemente de o governo ser de direita ou de esquerda. Tentemos resgatar a riqueza do cristianismo! Elben César Nota Com alegria, reafirmando o compromisso de Ultimato com a questão indígena, esta edição traz no exemplar do assinante o encarte Indígenas do Brasil. Há muitos dados novos sobre os desafios missionários para a igreja com relação aos indígenas. Se o seu exemplar não traz o encarte e você deseja recebê-lo, escreva para <indigena@amtb.org.br>. Carta ao leitor ISSN 1415-3165 Revista Ultimato – Ano XLIII – Nº 327 Novembro-Dezembro 2010 www.ultimato.com.br Publicação evangélica destinada à evangelização e edificação, não denominacional, Ultimato relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos com Escrituras. Visa contribuir para criar uma mentalidade bíblica e estimular a arte de encarar os acontecimentos sob uma perspectiva cristã. Pretende associar a teoria com a prática, a fé com as obras, a evangelização com a ação social, a oração com a ação, a conversão com santidade de vida, o suor de hoje com a glória por vir. Circula em meses ímpares Diretor de redação e jornalista responsável: Elben M. Lenz César – MTb 13.162 MG Arte: Liz Valente Impressão: Plural Tiragem: 35.000 exemplares Colunistas: Alderi Matos • Bráulia Ribeiro Carlinhos Veiga • Marcos Bontempo Paul Freston • René Padilla Ricardo Barbosa de Sousa • Ricardo Gondim Robinson Cavalcanti • Rubem Amorese Valdir Steuernagel Notícias: Lissânder Dias Participa desta edição: Eunice Nalamele Chiquete Publicidade: anuncio@ultimato.com.br Assinaturas e edições anteriores: atendimento@ultimato.com.br Reprodução permitida: Favor mencionar a fonte. Os artigos não assinados são de autoria da redação. Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro da Associação de Editores Cristãos (AsEC) Editora Ultimato Telefone: (31) 3611-8500 Caixa Postal 43 36570-000 — Viçosa, MG Administração: Klênia Fassoni • Ana Cláudia Nunes Daniela Cabral • Ivny Monteiro • Lucas Rolim Menezes Luci Maria da Silva Editorial e Produção: Marcos Bontempo Bernadete Ribeiro • Djanira Momesso César Fernanda Brandão Lobato • Gláucia Siqueira Paula Mendes • Paulo Alexandre Lobato Finanças/Circulação: Emmanuel Bastos Aline Melo • Ana Paula Fernandes • Cristina Pereira Daniel César • Edson Ramos • Luís Carlos Gonçalves Rodrigo Duarte • Solange dos Santos Vendas: Lúcia Viana • Lucinéa Campos Romilda Oliveira • Sabrina Machado Tatiana Alves • Vanilda Costa Estagiárias: Jaklene Batista • Juliani Lenz fundada em 1968 4 ULTIMATO I Novembro-Dezembro, 2010 A históriapode ser perturbadora e terapêutica ao mesmo tempo Julien Hequembourg Bryan
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 5 Anúncio
  • 6.
    6 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 71. A palavra “mas”, ou seus sinônimos (porém, contudo, todavia), é uma conjunção adversativa que liga dois termos ou duas orações estabelecendo uma ideia de contraste ou de oposição. Ela é muito usada pelos historiadores que contam um fato, logo a seguir contrabalançado por outro. De modo edificante e convincente, o médico e historiador Lucas, autor do Evangelho que leva o seu nome e do primeiro compêndio da história da igreja cristã, usa e abusa dessa conjunção, como vemos nos exemplos a seguir, retirados de Atos dos Apóstolos: Vocês mataram o Senhor, mas Deus o ressuscitou, livrando-o do poder da morte (2.23-24). Vocês prenderam os apóstolos e puseram guardas vigiando os portões, mas naquela mesma noite Deus abriu os portões e levou os apóstolos para o lado de fora da cadeia (5.17-26). Vocês crucificaram Jesus, mas o Deus dos nossos antepassados o ressuscitou e o colocou à sua direita como Senhor e Salvador (5.30-31). Vocês ficaram com tanta raiva dos apóstolos que resolveram matá-los, mas Deus levantou Galileu, um dos membros do Sinédrio e um mestre de grande respeito, que fez vocês mudarem de ideia (5.33-42). No passado, os irmãos de José o venderam para ser escravo no Egito, mas Deus estava com ele: livrou-o de todas as aflições e ainda usou esse acontecimento a bem do povo de Israel (7.9-16). Um de vocês, um moço chamado Saulo, muniu- se de documentos oficiais e rumou para Damasco com autoridade para localizar e algemar homens e mulheres seguidores de Jesus e levá-los para as cadeias de Jerusalém; mas, próximo do trevo de Damasco, Jesus apareceu a ele e mudou repentinamente o rumo de sua vida (9.1-19). Vocês resolveram matar Saulo porque ele provava poderosamente que Jesus era o Messias. Assim, vocês colocaram vigias em todos os portões da cidade para ele não fugir com vida de Damasco, mas Deus frustrou os planos de vocês e Saulo escapou por uma abertura que havia na muralha (9.19-26). Por sua herança judaica, Pedro não podia fazer amizade com não-judeus e muito menos hospedar-se com eles, mas Deus lhe mostrou repetidamente que ele não deveria chamar de impuro aquilo e aqueles que ele havia purificado (10.1-48). Vocês mataram Jesus, pregando-o numa cruz, mas Deus o ressuscitou no terceiro dia e fez com que ele aparecesse a nós. E comemos e bebemos com ele (10.39-41). Vocês tiraram Jesus da cruz, o puseram num túmulo e ainda conseguiram que Pilatos mandasse uma guarda para impedir que alguns de nós violássemos a sepultura e roubássemos o corpo dele para simular uma ressurreição, mas Deus o ressuscitou e, durante muitos dias, Jesus apareceu a nós sem deixar dúvida de que estava vivo (13.27-31). Vocês sabem que Davi morreu, foi sepultado e apodreceu na sepultura, mas isso não aconteceu com aquele que Deus ressuscitou, nosso Senhor Jesus Cristo (13.33-37). Todas as passagens anteriores mostram sobejamente a soberania de Deus sobre tudo e sobre todos na história. Não só no passado, mas também no presente e no futuro. Não só com os primeiros seguidores de Jesus, mas também com os seguidores de hoje! Pastorais
  • 7.
    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 7 Como é possível sobreviver num campo de concentração? Viktor Emil Frankl: o salmista do século 20 Uma palavra deViktor Emil Frankl para animar os desalentados Galeria dos sobreviventes Mesmo à distância, fui obrigado a conviver com os horrores do antissemitismo e da Segunda Guerra Mundial 3 Abertura 4 Carta ao leitor 6 Pastorais 8 Cartas 12 Frases 14 Mais do que notícias 16 Números 16 Notícias 22 Nomes 36 De hoje em diante... 38 Novos acordes 40 Altos papos 42 Meio ambiente e fé cristã 60 Caminhos da missão CAPA SEÇÕES Leia mais www.ultimato.com.br Sumário ABREVIAÇÕES: AS21 - Almeida Século 21; BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BP - A Bíblia do Peregrino; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; CT - Novo Testamento (Comunidade de Taizé); EP - Edição Pastoral; EPC - Edição Pastoral - Catequética; HR – Tradução de Huberto Rohden; KJ - King James (Nova Tradução Atualizada dos Quatro Evangelhos); NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas de indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional. Da linha de frente 20 Sobre a dor, Bráulia Ribeiro O caminho do coração 44 Simplicidade e permanência Ricardo Barbosa de Sousa Missão integral 47 A formação de discípulos (parte 1) René Padilla Ética 48 Ação social cristã: a humildade amorosa, Paul Freston Reflexão 52 Brasil: um protestantismo neoanabatista?, Robinson Cavalcanti 54 Sonhos e utopias (im)possíveis Ricardo Gondim Redescobrindo a Palavra de Deus 56 Deus dá testemunho de si mesmo Valdir Steuernagel História 58 Cristãos e política: uma relação imprescindível Alderi Souza de Matos Especial 61 3º Congresso Lausanne de Evangelização Mundial reúne mais de 4 mil pessoas na África do Sul Ponto final 66 O veterinário, Rubem Amorese 24 26 28 30 32
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    8 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Coração, juventude e fé Mais uma abençoada edição de Ultimato! Louvado seja Deus por esse trabalho. Muito interessante a pesquisa com os jovens, mostrando que, como igreja, precisamos dar respostas a eles. Infelizmente, vivemos respondendo perguntas que já não são mais feitas. A matéria abre os olhos para a importância de uma igreja que envolva essa moçada, contextualizando o evangelho de Cristo. Ensinar a essa geração o que diz a pastoral da mesma edição: focar sempre no final. Precisamos voltar a pregar sobre o futuro, sobre a esperança da vida eterna, e crer que aqui “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que ama a Deus”. É urgente mostrar a eles a essência, o que realmente importa. Como diz Ricardo Gondim, “a juventude engana”. David Livingstone, Guarapuava, PR Achei interessante e de grande valor a edição de setembro/outubro de 2010. Como sempre, Ultimato traz assuntos importantes do meio evangélico. Como jovem, não pude deixar de dar uma atenção maior à matéria sobre a juventude evangélica atual. Fiquei motivado em saber que hoje muitos jovens têm assumido liderança em suas igrejas; isso é motivo de glorificação a Deus. A responsabilidade, o comprometimento com as coisas do reino de Deus é o melhor caminho a se trilhar para nos tornarmos cada vez mais santos e separados. Timóteo Santana, C. dos Goytacazes, RJ Leonardo Boff Devemos orar muito pelo Boff. Ele é como uma pobre ovelha que se desviou do rebanho, não por causa da fome ou da sede, mas por causa da vaidade de sua sabedoria e acúmulo de conhecimentos que acabaram ofuscando sua fé, sua humildade e sua obediência. Ele se esqueceu que a sabedoria humana é fugaz e traiçoeira, que nos ensoberbece e envaidece. A Bíblia diz que “a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus” (1Co 3.19). Se Boff compreendesse isso, ele seria não o Lutero do século 21, mas o Paulo de Tarso do século primeiro! É curioso notar que discursos como os de Boff brotam nos claustros dos mosteiros e nas celas dos conventos, onde se encontra terreno fértil e ocioso na mente de alguns intelectuais, ditos filósofos, teólogos, exegetas. Não surgem de um padre simples do interior, que faz o terço, se mortifica, faz novena, reza o ofício divino e ainda atende vinte ou trinta comunidades pobres. Em vez de críticas venenosas, precisamos subir o monte das Oliveiras para orar, parar junto ao poço de Jacó para ouvir e entrar na casa de Zaqueu para converter os pecadores. A igreja é uma instituição divina regida por homens pecadores. Quanto maior a instituição, maiores são as chances de perigos e abusos. Pe. Jaime Pinto, Barbacena, MG Anúncio Cartas
  • 9.
    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 9 Parabenizo Ultimato por publicar o artigo de Leonardo Boff. Concordo com a reflexão dele. É um chamamento feito à própria igreja, com a finalidade de nos fazer refletir e perceber que a verdadeira crise que a assola é interna. Infelizmente, os homens que detêm o poder e a governam fecham os olhos para isso. Está na hora de a igreja rever sua postura e sua forma de poder piramidal, pois não corresponde mais às necessidades do nosso tempo. Nesse sentido, é necessário à igreja dar um passo a mais, pois, do contrário, ela estará decretando sua falência. Sou religioso estigmatino. Pe. José de Amorim, Rio de Janeiro, RJ Gostei muito do artigo de Leonardo Boff — mais do que do infeliz comentário de Odayr Olivetti. A afirmação de que “ocasionalmente Deus levanta nas fileiras da Igreja Romana vultos assim [como os pregadores calvinistas fiéis]” cria um ar de superioridade, que o texto de Boff condena. Pedro Almeida, Itapecerica da serra, SP Fiquei impressionado com o comentário do historiador presbiteriano Alderi Souza de Matos sobre o artigo de Boff. Todos que leem o teólogo “católico” sabem que ele não é muito alinhado às Escrituras. Porém, dizer que Boff é sincrético porque associa a fé cristã à ecologia é lamentável! As Escrituras, principalmente no Antigo Testamento, dão grande ênfase ao fato de que os hebreus associavam a fé à ecologia, isto é, ao cuidado com a terra. Será que Alderi pensa que a fé cristã é associável apenas aos credos, ritos, liturgias e instituições? Ora, toda a criação geme de dor pela manifestação dos filhos de Deus, quando ela mesma “será libertada da escravidão da decadência em que se encontra” (Rm 8.21). Fabiano Alves, Belo Horizonte, MG Lugar de encontro Recebo Ultimato há vários anos. Sempre leio a revista toda e quero externar minha satisfação, especialmente com as últimas edições. Destaco a profundidade dos artigos e a abertura de mente, sem proselitismo e sem ataques às outras designações e opções religiosas. Ultimato está se tornando um espaço de debates e estudos para que haja mais entendimento e uma busca sadia por mais união e ecumenismo. A edição de setembro/ outubro trouxe ótimos artigos, como o de Leonardo Boff, Robinson Cavalcanti, Ricardo Gondim, Valdir Steuernagel, Alderi Souza de Matos e Odayr Olivetti. Que a revista se torne um lugar de encontro das diversas tendências para a unidade cristã para um mundo melhor. Ernesto Casiraghi, Barra Mansa, RJ Grande Comissão John Stott, em 1966, concordava que a exclusividade da missão era pregar, converter e ensinar. Dez anos depois, reconheceu que a ação social também faz parte da Grande Comissão. Jesus diz: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21). Ele é o modelo. O Senhor não veio apenas buscar e salvar os perdidos (Lc 19.10), mas também servir no mundo. Ele alimentou famintos, curou enfermos, abençoou crianças, ajudou mulheres, ministrou a leprosos e até ressuscitou mortos. Richar Hoover, Pindamonhangaba, SP Anúncio
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    10 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Anúncio Voz do que clama no deserto Conheci Ultimato por meio do meu pastor e desde então sou assinante. A revista tem sido um canal de Deus para mim, pois sou um jovem presbítero de 33 anos e pastor de uma igreja Assembleia de Deus. Ultimato tem me ensinado sobre questões sociais, políticas e religiosas. Continuem sendo a voz do que clama no deserto. Alexandre Leonardo, Nova Iguaçu, RJ Além do aborto A igreja brasileira não pode discutir nas eleições apenas o aborto. Não discutimos outros temas importantes para o país; parece que somos usados na época das eleições para “santificarmos” um candidato e “demonizarmos” outro. Infelizmente, isso é perceptível até em articulistas experientes. Parece que sabemos tocar apenas “samba de uma nota só”. Deixemos a ingenuidade para os tolos! Pr. Adauto Cangussu, Vinhedo, SP O bem e o mal A xenofobia é uma estratégia da oposição. Nos últimos meses, multiplicou-se uma onda de difamações contra as campanhas do PT e seus aliados. A oposição escolheu incluir nas redes ligadas aos sistemas religiosos, basicamente cristãos católicos e evangélicos, a velha disputa entre bem e mal. Para assombrar as massas religiosas, suscitam temas polêmicos à moral cristã, como aborto, homossexualismo, ateísmo, perda das liberdades e satanismo. Claro, nem todos os cristãos estão envolvidos. Em ambas as tradições há repúdios explícitos à desinformação e à proliferação de informações inverídicas nessas eleições. Não é a primeira vez e não será a última. O essencial é saber do agravante, a dose xenófoba, o medo do desconhecido mascarado de aversão e a difusão do preconceito no entorno das manifestações de líderes e igrejas cristãs. Há exemplos no passado: inquisições, nazi-fascismo, racismo, apartheid. É desnecessário descrever o que é verdade ou mentira, pois as calúnias sem sustentação se revelarão com o tempo, restando a vergonha aos que, em nome de Deus, serviram- se desses artifícios. A xenofobia é abominável. É utilizar-se de uma suposta “pureza” para eliminar as “impurezas” de um determinado grupo ou sociedade, abstraindo-se de qualquer senso crítico, criando estereótipos e ódio na sociedade. Pr. Luis Sabanay, Brasília, DF Pedófilos lá e cá Não é somente a Igreja Católica Romana que tem líderes religiosos pedófilos; a igreja evangélica também os tem. É preciso perguntar o que leva uma organização qualquer, que se diz seguidora de Cristo, a ter tantos predadores em seu meio. Como Ultimato é uma revista do meio evangélico, cabe a ela apresentar e discutir tal questão. Dilys Rees, Goiânia, GO Cartas
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 11 Fale conosco Cartas à Redação • cartas@ultimato.com.br • Cartas à Redação, Ultimato, Caixa Postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Inclua seu nome completo, endereço, e-mail e número de telefone. As cartas poderão ser editadas e usadas em mídia impressa e eletrônica. Economize Tempo Faça pela Internet Para assinaturas e livros acesse www.ultimato.com.br Assinaturas • atendimento@ultimato.com.br • 31 3611-8500 • Ultimato, Caixa Postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Edições Anteriores • atendimento@ultimato.com.br • www.ultimato.com.br PT – O partido que nunca foi governo O PT é governo sim. Há 8 anos governa com o patológico PMDB. O bispo Robinson logra o leitor separando o lulismo do petismo. Tal qual o peronismo, o chavismo e o castrismo, o lulismo é a mutação degenerada populista de um partido. Porém, ainda representa a essência partidária. Não sei como um artigo tão tendencioso foi parar na revista. Ou desejo não saber. Espero que no futuro Ultimato siga as instruções que o articulista escreve na última linha: “orar, discernir e intervir”. André Sena Pereira, Cachoeiro de Itapemirim, ES O termo lulista foi acertadíssimo, pois Lula é bem maior que o PT. Com a saída da liderança do PT, após sucessivos escândalos, seria natural o preenchimento dos espaços com a base aliada; só sobraram eles. A partir daí o que se viu foi a festa da democracia, em que os capitalistas mais flexíveis e adaptáveis às rápidas mudanças características de um mundo globalizado ficaram mais ricos, os que não tiveram esse dinamismos ficaram mais pobres, os pobres compraram celular, comeram mais carne e compraram carros velhos, a classe média comprou carros zero e financiou suas casas; isso não podemos negar. Excelente texto. Victor Lux, Campo Grande, MG Homônimas? O artigo Pesquisa revela luta de missionários contra pecados sexuais (“Notícias”, setembro/outubro de 2010) menciona que a Columbia Biblical Seminary and School of Missions pertence à Universidade de Columbia. Porém, a faculdade pertence à Columbia International University. Apesar do nome coincidente, não se trata da mesma instituição. Confira: www.ciu.edu. Bruno Ferreira, São Paulo, SP Errata — O nome correto do instituto citado no artigo Um retrato da juventude evangélica (setembro/outubro de 2010) é Bertelsmann Stifung.
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    12 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 “Para o cristianismo, é impossível estruturar uma compreensão das origens, desenvolvimento ou destino humano sem alguma referência a Deus. Alister E. McGrath, teólogo e escritor, autor de O Delírio de Dawkins “É tempo de conhecer o Deus que está mais interessado em nossos afetos do que em nossos feitos, mais atento ao nosso caráter do que aos nossos discursos. Osmar Ludovico da Silva “O orgulho científico entorpece a mente dos pesquisadores, fazendo-os desprezar aquilo que desconhecem. Marcus Zulian Teixeira, pesquisador da faculdade de medicina da USP “Adesconfiança é o fermento do descompromisso. A confiança é fértil; a desconfiança, estéril. Emílio Odebrecht “Precisamos nos lembrar sempre de que somos interdependentes. Ninguém é inteiramente autossuficiente. Desmond Tutu, arcebispo anglicano sul-africano “Odependente de crack deve receber apoio social e deve ser tratado com critérios semelhantes aos que usamos no caso dos hipertensos, dos diabéticos, dos portadores de câncer, Aids e outras doenças crônicas. Drauzio Varella, médico “A fé é um dom que devemos agradecer a Deus. Ela nos faz superar a escuridão da vida e as dificuldades. Dom Eusébio Scheid, arcebispo emérito do Rio de Janeiro “O fato de ser humano significa ter e reconhecer limites e defeitos para, inclusive, tentar superá-los. Rosely Sayão “A mídia é mantida por seres humanos e eles adoram dinheiro. O papel- moeda transmite a sensação de bem-estar, de felicidade. E a imprensa existe com o propósito maior de agradar, falar o que o povo quer ouvir. Lúcio Sant’Ana, jornalista “Do dia para a noite você consegue encher um templo ou um estádio de gente. Basta dizer o que a pessoas gostam de ouvir. O assunto pecado [por exemplo] é antipático e tem sido evitado, mas é real, assim como são reais o céu e o inferno. Antônio Gilberto da Silva, consultor teológico e doutrinário da CPAD “As águas correm em direção à separação [de um casal], e remar contra a maré é para a minoria. J. B. Libânio, teólogo jesuíta ” ” ” ” ” ” ” ” ” ” ” FRASES “A hipocrisia é um elemento intrínseco da dinâmica civilizada. Negar o caráter universal da hipocrisia é fundar um novo tipo de má-fé, mais falsa ainda, porque se traveste de pureza d’alma. Luiz Felipe Pondé ” WagnerMoraes MatthiasAsgeirsson
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 13 Anúncio
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    14 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Embora amarrado, Jesus nunca esteve tão desamarrado como na Sexta-Feira da Paixão! C uriosamente, Isa- que foi amarrado no monte Moriá por Abraão e colocado sobre o altar (Gn 22.9), e Jesus foi amarrado no Getsêmani pelos soldados romanos (poder civil) e pelos guardas do templo (poder religioso), sob as ordens de um comandante militar (Jo 18.12). Isaque, após a intervenção de Deus, foi logo desamarrado. Jesus caminhou amarrado do jardim à casa de Anás e da casa de Anás à casa de Caifás (Jo 18.24). É provável que ele con- tinuasse amarrado quando percorreu o caminho da casa de Caifás ao Pretório, do Pretório ao palácio de Herodes e do palácio outra vez ao Pretório. Ele teria se apresentado amarrado tan- to a Pôncio Pilatos como a Herodes Antipas. Talvez o Senhor só tenha ficado livre das cordas quando, pouco antes das nove horas da manhã, precisou de mãos soltas para carregar a própria cruz, do Pretório ao Calvário. Porém, ao chegar ao Lugar da Caveira, suas mãos foram presas outra vez — não amarradas uma na outra como antes, mas pregadas ao madeiro. A julgar pelas aparências, todo o quadro, do jardim das Oliveiras ao jardim da casa de José de Arimateia, mostra Jesus amarrado e Satanás desamarrado. Porém, o que aconteceu naquela sexta-feira lúgubre foi exatamente o contrário. Jesus nunca esteve tão de- samarrado e Satanás nunca esteve tão amarrado como naquele período de, no má- ximo, doze horas! A vitória de Jesus estava escondida por trás daquelas cordas. É por isso que ele havia dito poucos dias antes: “Quan- do eu for levantado (na cruz), atrairei todo o mun- do a mim” (Jo 12.32, BV). Nesse dia, Jesus foi elevado e Satanás, abaixado, como se lê: “Agora o príncipe deste mundo será lançado abaixo” (Jo 12.31, BJ). Os cristãos apenas de tradição, que não con- seguem crer na natureza divina de Jesus, na morte expiatória, na gloriosa ressurreição e no poder que ele tem de submeter todos os poderes aos seus pés — enxergam um Jesus física e figuradamente amarrado e o príncipe deste mundo completamente desamar- rado. Nesse caso, não vale a pena alguém pensar ou afirmar que é cristão. E como a maior parte da pregação do evangelho feita hoje não tem o objetivo de gerar convicção do peca- do, nem da justiça, nem do juízo (Jo 16.8), mas de prometer cura e prosperi- dade, aumentar o número de fiéis e arrecadar dízimos e similares — a quantidade de pseudo-cristãos tem aumentado como nunca. E m junho de 2010, quarenta brasileiros da alta sociedade fo- ram convidados pelo dono de uma joalheria do Rio de Janeiro para um jantar no Olympe, um dos restauran- tes mais caros da cidade. To- dos eram compradores em potencial de um relógio su- íço que custa 400 mil reais. Se todos tiverem efetivado a compra, foram gastos 16 milhões de reais. A caixa do relógio é de ouro, com rubis na parte posterior. O alar- me avisa horas, minutos e segundos, com sonoridades distintas. +DO QUE NOTíCIAS 400 mil reais no pulso esquerdo
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 15 +DO QUE NOTíCIAS É a psicanalista Anna Verônica Mautner, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, quem denuncia: “A eco- nomia quer que eu use muitos aparelhos para que o mercado fique aquecido e em movi- mento”. Entre eles, ela menciona o micro-on- das, o forninho, o liqui- dificador, a batedeira, a máquina de lavar louça, o freezer e a secretária eletrônica. Usamos tais aparelhos para trabalhar por nós e para que nos sobre tempo. Na prática, “ficamos mais passivos, A falta de continui- dade, em qualquer área da vida, é um problema sério. No que diz respeito à escolaridade do eleitor brasileiro, a porcen- tagem dos que começaram o ensino fundamental e não terminaram é de 33,1 (contra 7,6). Os que começaram o ensino médio e não chegaram ao final é de 18,9 (contra 13,2). E os que começaram algum curso Tempo para ver o sol se pôr e a maré subir! Os que param no meio do caminho mas não menos ocu- pados”. À vista disso, a psicanalista recomenda: “Proponho inverter o jogo: roubar o tempo poupado pelas máqui- nas para voltar ao ritmo da vida real. Sempre que possível, quero ver o sol se pondo. Não quero ser submetida ao pôr-do-sol editado. Quero esperar a maré subir. [...] Vamos rou- bar tempo para voltar a viver, um pouco que seja, a hora de 60 minutos, fazendo” (Folha de S. Paulo, caderno “Equilíbrio”, 08/06/2010. superior e não se formaram é de 2,7 (contra 3,8). Isso lembra a enorme quantidade de discípulos de Jesus que o abandonaram algum tempo depois de terem se aproximado dele — problema que faz parte da história do cristianismo. Costuma-se dizer que o nú- mero de ex-crentes é maior do que o número de crentes arrolados hoje em diferentes igrejas e denominações. PatrizioMartorana BlasLamagni Novembro-Dezembro, 2010 I ULTIMATO 15
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    16 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 NÚMEROS NOTíCIAS Psicólogos e psiquiatras cristãos vão sentar-se no divã Quem se acostumou a aconselhar pessoas agora vai sentar-se no divã e avaliar sua própria atuação no uso do poder. O título “Subjetividade e poder nas relações humanas — a vida e atuação do profissional de ajuda”, reflete a principal temática do 17º Congresso Nacional do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), que acontece de 21 a 24 de abril de 2011 em Brasília, DF. Paralelamente, ocorrerá um encontro latino- americano de profissionais da área. “Escolhemos aliar o tema do poder com a situação de um ‘profissional de ajuda’, como é o caso de psicólogos, psiquiatras e também pastores, para investigar como as relações de poder traspassam as relações de ajuda, para bem e para mal”, explica o presidente do CPPC, Karl Kleper. O segundo dia do congresso será dedicado a seminários sobre os mais diversos assuntos, como: “Poder e misericórdia”, “Consumo de álcool e seus efeitos sobre a sexualidade”, “Cuidados no envelhecimento” e “A morte como dinâmica da vida”. A expectativa é receber pelo menos duzentas pessoas que poderão ouvir mais de vinte palestrantes. Entre eles os argentinos, doutores em psiquiatria, Carlos Hernandéz e Ricardo Zandrino. Qualquer pessoa pode participar. Informações: www.cppc.org.br. Martinho Lutero terá jardim na Alemanha A Federação Luterana Mundial (FLM) apresentou em julho deste ano o projeto de construção do Jardim de Lutero, que será finalizado em 2017, por ocasião da comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante. O projeto arquitetônico, marcado por referências a números da Bíblia e da Reforma, será um parque para caminhadas, passeios e lazer. Serão plantadas quinhentas árvores. No centro, o monumento Rosa de Lutero terá 40 metros de diâmetro e uma cruz como ponto de referência. Árvores provenientes de todos os continentes formarão um jardim oval, com uma elipse de 70 metros de largura e uma distância de 95 metros (as 95 teses de Lutero) de seu foco. O Jardim de Lutero está sendo construído onde no passado estavam as fortificações da cidade alemã de Wittenberg, local em que o monge fixou suas 95 teses no dia 31 de outubro de 1517. “As raízes das quinhentas árvores irão se firmar, seus galhos estender-se-ão mundo afora, como aconteceu com os ensinamentos de Lutero”, empolga-se o pastor luterano Heitor J. Meurer. Para conhecer o projeto na íntegra, acesse www.luthergarten.de. 29.900.000 brasileiros ainda são pobres, com renda familiar per capita abaixo de 130 reais. 35 caminhões cheios de mercadorias (televisores e máquinas de lavar) roubadas após o terremoto no Chile foram devolvidos “espontaneamente” depois da ameaça policial. 140.000 habitantes da zona rural migram para os centros urbanos da Ásia a cada dia. A população urbana mundial deverá passar dos atuais 50% para 70% em quarenta anos. 605 viúvas brasileiras entre 15 e 19 anos recebem pensão pela morte do esposo idoso ou aposentado. Segundo os especialistas, “os números levantam a suspeita de que podem estar ocorrendo casamentos forjados para assegurar às famílias a manutenção do benefício após a morte do aposentado”. 7.000.000 de dólares são gastos a cada ano pela prefeitura de Los Angeles na remoção de grafites. 300.000 bebês poderiam ser salvos da morte todos os anos com técnicas de reanimação neonatal. Só no Brasil, diariamente, quinze recém-nascidos morrem de asfixia na primeira semana de vida. SarahBarth Por Lissânder Dias
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    18 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 NOTíCIAS Evangélicos fazem campanha contra resolução da ONU A campanha Free to Believe (livres para crer), da Missão Portas Abertas Internacional, está reunindo pela internet assinaturas de cristãos de todo o mundo contra a Resolução de Difamação Religiosa, que deve ser submetida à votação em dezembro deste ano na assembleia geral da ONU. Segundo a Portas Abertas, a resolução é uma estratégia da Organização da Conferência Islâmica, que pretende legitimar as ações de governos islâmicos contra minorias religiosas. A Conferência Islâmica, que compreende 57 países, lançou a proposta ainda em 1999 e insiste para que ela seja aprovada. “Os direitos humanos são exatamente isso — direitos pertencentes a indivíduos —, mas essa resolução procura dar esses direitos a uma religião específica. Ela vai contra a lei dos direitos básicos que existem para proteger os seres humanos, não as crenças religiosas ou os sistemas”, diz o texto da campanha. Citando exemplos de perseguição a cristãos pelos governos do Sudão e do Paquistão, a página da campanha Free to Believe na internet oferece recursos, como apresentação em PowerPoint, vídeos, arquivos para marca-página e adesivos. Os interessados podem participar até 22 de novembro. Informações: www. portasabertas.org.br/freetobelieve. Indígenas assumem desafio de traduzir a Bíblia Mais de cem indígenas de 59 etnias brasileiras se reuniram de 29 de agosto a 3 de setembro, junto com outros cem missionários não-indígenas, no 1º Fórum Brasileiro Sobre o Uso das Escrituras em Línguas Indígenas, em Anápolis, GO. No documento final intitulado “Carta de Anápolis”, os indígenas se comprometeram a “promover a tradução da Bíblia para todos os povos que não a possuem”. O Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (CONPLEI) designou Leonízia Gama, da etnia Tukano, para liderar as ações de tradução. Os indígenas presentes no fórum também assumiram o esforço de apoiar a educação teológica e secular de indígenas e “de lutar por uma sociedade mais justa, democrática e igualitária”. Segundo o Relatório Etnias Indígenas Brasileiras, publicado em 2010, há 181 línguas indígenas no Brasil. Hoje, 58 delas possuem porções bíblicas, o Novo Testamento ou a Bíblia completa em seu próprio idioma — material que serve a 66 etnias. Grupo de trabalho no 1º Fórum Brasileiro Sobre o Uso das Escrituras em Línguas Indígenas
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    20 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 bela, nos comove e vai comover as gerações que virão. Na intensa prova do Ironman em Kona, os corpos perfeitos das primeiras horas da chegada dão lugar à beleza da resistência. Os triatletas renomados chegam oito horas depois do início. Porém, não são eles os heróis. Até à meia-noite, dezessete horas depois do início da corrida, os vitoriosos são esperados. Alguns chegam mancando, mal conseguindo caminhar; outros, correndo com as forças finais que não sabiam que tinham. Coloco-me num lugar escuro do percurso, antes da virada dos últimos quatro quilômetros, e com a voz embargada grito “você vai chegar!” para o para-atleta com pernas mecânicas em cima de lâminas, ou para a velhinha claudicante. A pintura no chão diz: “compromisso são 260.3 quilômetros”. Eles finalmente passam pela chegada em estado de êxtase. O cansaço e a dor como uma droga os impulsionando para frente. Alguns desmaiam, vomitam. A voz do locutor grita: “Sandra Smith, de 58 anos, você é um Ironman!”. E ali, na intensidade da dor do máximo esforço, eles sabem que venceram. O importante no Ironman não é chegar primeiro. É simplesmente chegar. Cada um vencendo a si mesmo. O sobrevivente do câncer, o jovem que perdeu as pernas, a mulher obesa que perdeu quarenta quilos, o pai que perdeu o filho. Todos são campeões e celebrados como tais. E todos sabem que sem dor na vida não há vitória. Muitos creem em um Deus compatível com a dor. Seu plano superior justifica tudo e a dor como E nquanto o fagote avança no lúgubre primeiro movimento da Sinfonia 6 de Tchaikovsky, a melodia da dor vai se desenhando. A vida ainda se debate na valsa propositalmente desequilibrada do segundo movimento e na marcha do terceiro. Vida à procura de sentido, de equilíbrio. A vida na dor finalmente cede à morte no quarto movimento e vai se esvaindo até o silêncio. Picasso brinca com o rosto humano e o descobre torto, desconexo. Então pinta “Guernica”, o quadro da dor da guerra, no qual homens e animais, aos pedaços, se debatem no lençol negro da incompreensão. O sol é uma lâmpada sem força. Não há outra expressão além da dor soberana, e as gentes que se entregam à morte. A dor transforma o homem; porém, ainda um mal menor cede lugar à glória do final, a glória inescrutável do divino que triunfará. Deus está no meio da dor. Porém, ele não se alegra nela nem a planejou. A Bíblia não nos mostra um Deus impassível, mas o inspirador da “Guernica”. Seu coração se contorce em dores, diz o profeta chorão ao descrevê- lo. Vem o Filho e encarna a descrição profética mostrando-nos o rosto, o corpo, o coração da dor na cruz. Não há dor maior do que a da rejeição suprema àquele que era o amor supremo. Como o Deus da cruz pode ser impassível? Mel Gibson criou no filme A paixão, a teologia visual do sofrimento. “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado” (Is 63.9). A dor que a humanidade se autocausou em sua rebelião, sempre foi dele também. Todo o universo sofre nosso pecado. Porque Cristo dói, a dor humana é bela como a Sinfonia 6. Certa amiga perdeu dois de seus três filhos. Encontro com ela depois da morte do segundo, muda, sem saber o que dizer. Ela se queixa do abandono. Ninguém a visita. Além dos filhos, perdeu os amigos. A morte incomoda. Ela diz que as pessoas não sabem como se portar diante da dor que ela carrega e se afastam. Até os cristãos têm medo do contágio da dor, como uma lepra. — “Por quê? A dor é minha, não é deles”, ela diz. — “Não, amiga. Ela é de todos”. Mas um dia, como os Ironman, cruzaremos com dor a linha de chegada para contemplar a vitória de estar com ele. Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical. braulia.ribeiro@uol.com.br Sobre a dor DA LINHA DE FRENTE Bráulia Ribeiro Deus está no meio da dor. Porém, ele não se alegra nela nem a planejou
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    22 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Arquivopessoal A carta não enviada, mas publicada N a década de 1970, Guilherme Luz era cercado por sete mulheres: a esposa e seis filhas. Ele precisava de uma memória de elefante para não trocar os nomes. A esposa chama-se Ivonete; as filhas, Luzia, Yonne, Ivete, Ionete, Iete e Inete. Além delas, havia os filhos Paulo, Afonso e Marcos. O cônego anglicano Benedito Guilherme Ferreira Luz, de 80 anos, e Ivonete, de 74, casaram-se em janeiro de 1957, há quase 54 anos. Por ocasião de seu 80º aniversário, em outubro, “pressentindo que se aproxima o dia da minha viagem para a cidade do repouso eterno”, escreveu, mas não enviou, uma carta à esposa e aos vários filhos, genros, netos e bisnetos. A carta começa com a citação do melhor texto sobre decrepitude e morte jamais escrito: “A vida vai se acabar como uma lamparina de ouro cai e quebra, quando a sua corrente de prata se arrebenta, ou como um pote de barro se despedaça quando a corda do poço se parte. Então o nosso corpo voltará para o pó da terra, de onde veio, e o nosso espírito voltará para Deus, que o deu” (Ec 12.6-7, NTLH). Em seguida, há um recado para Ivonete: “Como se passaram depressa os dias, desde quando constituímos família até os dias de hoje! Coisas tão bonitas aconteceram conosco e nós não nos apercebemos delas! Quantas vezes o Deus eterno falou aos nossos corações: ‘Descansem um pouco, separem um tempinho só para vocês! Eu não quero vocês cansados e estressados!’. Nós, porém, não obede- cemos. Milhares de manhãs ensolaradas descortinaram belezas deslumbrantes de dias felizes que vivemos e nós não nos demos conta. Poucas vezes, porém, nuvens escuras toldaram nossos céus e entenebreceram nossos crepúsculos, nossos olhos de albinos se abriram no meio da noite e viram apenas as feiuras e os defeitos! Antes que a ‘lamparina de ouro’ caia e se quebre, quero te pedir perdão por todas as vezes que, mesmo sem querer, fui injusto contigo, te magoei, te feri, te fiz sofrer. Oh! Minha amada, minha esposa, minha companheira de mais de meio século de vida, eu te amo e sempre irei te amar!”. Depois dessas confissões e decla- rações de amor, o padre anglicano dirigiu-se aos descendentes da primei- ra, da segunda e da terceira gerações: “Lamento não ter sido um bom exemplo de esposo, pai, sogro, avô e bisavô. Deploro tê-los decepcionado tantas vezes. Tenho sido omisso ante a superfi- cialidade da vida que alguns de vocês têm levado. Não os tenho incentivado à busca de uma vida plena, que só pode ser realizada no entendimento e na práxis do discurso de Cristo: ‘Eu vim para que tenham vida e vida com abundância’ (Jo 10.10). Vida em abundância é a disposição de rebentar os grilhões do egoísmo e da dureza de Nomes coração que nos impedem de perdoar e de condescender. É o ato de romper com toda a soberba e orgulho que nos faz pensar que somos superiores, quan- do, na verdade, apenas escondem nossa inferioridade e mesquinhez. Estou convencido de que a vida abundante é muito difícil, talvez impossível de ser vivida plenamente aqui na terra, pois implica autodoação, renúncia, desprendimento, práticas de atos de justiça e ausência de erros. Não obstante, sua característica utópica deve ser sonhada, tentada e buscada. Não sou e nunca pretendi ser um santo. Também jamais fui um vilão. Apesar de meus esforços racionais, na busca e investigação constante da verda- de, e embora desejasse ser justo, bom, puro e perfeito, senti minha incapacida- de para tanto, vi em mim apenas erros, fraquezas, limitações e descobri não poder ser nada mais do que um homem. Antes que “o pote de barro se despeda[ce]”, necessito do doce perdão de vocês. Perdão por não saber expressar o grande amor que sempre cultivei por vocês. Perdão por todas as vezes que fui infiel, injusto, ingrato, intolerante, inca- paz, egoísta, ausente, omisso e fraco. E na certeza de que já recebi o perdão de Deus e de vocês, sinto-me feliz em poder cantar, desde agora, com todas as forças, o Nunc Dimittis, do velho Simeão (Lc 2.29), e descansar em paz!”. Na internet Da descrença quase total para o ministério da Palavra, por Guilherme Luz. (Edição de julho/agosto de 2000.)
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    24 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Como é possível realizar trabalhos braçais ao relento, sem luvas e agasalhos apropriados, se o termômetro marca 20 graus abaixo de zero? Como é possível não explodir de raiva ao ver o capataz com luvas grossas e casaco de couro forrado de peles? Como é possível ficar mais de trinta meses sem escrever e receber cartas? Como é possível conviver, em barracos superlotados, com pessoas até então estranhas, de vários países da Europa, com idiomas e comportamentos diferentes e com profissões e níveis diversos? (Certa ocasião havia 1.100 prisioneiros numa cobertura que comportava, no máximo, duzentas pessoas.) Como é possível sobreviver num campo de concentração? C omo é possível acomodar, em cada uma das três camas de tábua de um triliche, nove prisioneiros deitados de lado, um atrás do outro? (Qualquer metrô transporta, no horário de pico, no máximo 9,8 pessoas em pé por metro quadrado.) Como é possível manter o organismo vivo com 300 gramas de pão e um litro de sopa por dia durante meses a fio? 24 ULTIMATO I Novembro-Dezembro, 2010 Capa Como é possível suportar “a mais inconcebível falta de higiene” por causa do acúmulo de gente e da ausência ou escassez de vasos sanitários apropriados? Como é possível continuar vivo apesar da saudade de pessoas, coisas e acontecimentos, dentro de um cercado de arame farpado, com fios de alta tensão, torres de vigia e holofotes acesos a noite inteira? Como é possível não se desesperar por completo se, do lado de fora, em dois barracões, estão quatro grandes câmaras de gás venenoso e se quase todo o dia se vê a fumaça que sai da chaminé do forno crematório levando consigo as cinzas dos que ontem estavam no mesmo barracão? Como é possível lidar com a sensação de estar andando atrás de seu próprio — SOFRIMENTO —
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 25 cadáver, de ser um cadáver vivo, de ser uma partícula numa massa de carne humana cercada por todos os lados? Como é possível não ceder à tentação do suicídio, não satisfazer a vontade de “ir para o fio” (agarrar-se à cerca elétrica para morrer)? Como é possível sujeitar-se à morosidade do tempo se, num campo de concentração, “um dia demora uma semana”? Como é possível não perder a identidade própria depois de ser despojado de todos os documentos, de todos os bens e até de nome e sobrenome em troca de um mero e comprido número? Como é possível não perder a autoestima sem ver o próprio rosto no espelho durante dois anos e meio? O austríaco Viktor Emil Frankl, nascido em Viena cinco anos depois do século 19 e morto na mesma cidade três anos antes do século 21, conseguiu passar por cima de todos esses impossíveis. Antes de ser levado para o campo de concentração de Theresienstadt em setembro de 1942, Frankl, aos 37 anos, já tinha um doutorado em medicina e era um conhecido e respeitado neurologista e psiquiatra. Depois de passar por outros campos de concentração, inclusive Auschwitz, e ser libertado pelo exército americano em abril de 1945, Frankl tornou-se chefe do Departamento de Neurologia do Hospital Policlínico de Viena e doutorou-se em filosofia. Valendo-se de sua própria experiência, fundou a logoterapia, muitas vezes chamada de “terceira escola vienense de psicoterapia” (depois da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler). Em seu mais famoso livro (Em Busca de Sentido, com mais de 9 milhões de exemplares vendidos), Viktor Frankl explica a razão de sua sobrevivência: “Não há dúvida de que o amor-próprio, quando ancorado em áreas mais profundas, espirituais, não pode ser abalado por uma situação de tremendo sofrimento”. Foi por isso que ele escreveu também o não menos famoso A Presença Ignorada de Deus. Samuelson,Lt.A.E.
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    26 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Capa A psicóloga clínica Izar Aparecida de Moraes Xausa, coordenadora da comissão científico-tecnológica do Serviço Interconfessional de Aconselhamento (SICA), em Porto Alegre, pode estar exagerando ao chamar o psiquiatra Viktor Emil Frankl de “o salmista do século 20”. Porém, ela tem diversas razões, já que há uma coincidência entre a sede de Deus expressa nos Salmos e a redescoberta dessa mesma dependência na experiência, nas abordagens psicológicas e nos livros de Frankl. Sem constrangimento algum, o salmista confessa sua sede interior de Deus. No Salmo 42 (Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo), no Salmo 63 (Ó Deus, tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de ti! Todo o meu ser anseia por ti, numa terra seca, exausta e sem água), no salmo 84 (A minha alma anela, e até desfalece, pelos átrios do Senhor; o meu coração e o meu corpo cantam de alegria ao Deus vivo) e no Salmo 143 (Estendo as minhas mãos para ti; como a terra árida, tenho sede de ti). Viktor Frankl, por sua vez, garante que sobreviveu aos campos de concentração por causa de sua fé pessoal em Deus, que lhe dava e mostrava o sentido da vida. Izar lembra que, “num dos primeiros discursos públicos depois da guerra, Frankl testemunhou o poder sustentador da fé num Deus pessoal e vivo”. Ele poderia parafrasear Davi na situação difícil em que este se encontrava: “Todo o meu ser anseia por ti nesse campo de concentração, sem nome, sem família, sem consultório, sem cartas, sem livros, sem nada”. Outro comportamento coincidente entre o salmista do século 10 antes de Cristo e o salmista do século 20 depois de Cristo é que ambos olhavam para as alturas. O salmista da Bíblia proclama: “Levanto os meus olhos para os montes e pergunto: De onde me vem o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra” (Sl 121.1-2, NVI). Gordon W. Allport, ex-professor de psicologia de Harvard, ousa dizer que, por terem transformado tudo, em especial a psicologia profunda, em “psicologia das alturas”, os estudos de Viktor Frankl deram origem ao “movimento psicológico mais importante de nosso tempo”. Tanto os médicos como os pacientes têm de olhar para os montes, para cima, para as alturas, para Deus, onde encontrarão a chave de tudo: o sentido da vida. Só assim será possível vencer o vazio existencial, que Frankl diz ter sido a neurose do século 20. Um dos livros escritos por ele chama-se Der Unbewusste Gott, que na verdade é sua tese de doutorado em filosofia (1948). Em vez de traduzir como O Deus Inconsciente, os tradutores brasileiros Walter O. Schlupp e Helga Reinhold deram ao livro o sugestivo título de A Presença Ignorada de Deus. O maior trunfo de Frankl é não se envergonhar de crer na existência de Deus como pessoa e mostrar que essa existência está arraigada no interior de qualquer um, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Nesse sentido, mesmo não sendo cristão (era judeu), Frankl foi um pregador de Deus como os profetas do Antigo Testamento. Como psicólogo e psiquiatra, ele mostrava que “além do elemento instintivo, havia o elemento espiritual inconsciente”. Na logoterapia, fundada por Frankl e geralmente chamada de “a terceira escola vienense de psicoterapia”, “o homem é levado não tanto para fora de uma doença, como em direção a uma verdade” (Izar Aparecida). Na psicanálise, explica ele, “o paciente se deita num divã e conta ao médico Viktor Emil Frankl o salmista do século 20 — SOFRIMENTO —
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 27 coisas que, às vezes, não são muito agradáveis de contar; na logoterapia, no entanto, o paciente pode ficar sentado normalmente, mas precisa ouvir coisas que, às vezes, são muito desagradáveis de se ouvir”. Para Frankl, “o ser humano não é impelido pelo impulso, mas puxado pelos valores”. Tudo isso se reveste de um valor muito maior se nos lembrarmos que, nas décadas de 1930 e 1940, o ambiente na Alemanha nazista não era nem um pouco favorável ao cristianismo. Hitler dizia que todas as religiões eram semelhantes e que nenhuma delas teria futuro. O alvo oculto do Führer era fazer o que Jesus fez com a figueira infrutífera: “despedaçar as raízes e os ramos do cristianismo”. Não seria necessário abrir guerra contra os cristãos, fossem católicos ou protestantes. Bastava impedir que as igrejas fizessem qualquer coisa diferente do que estavam fazendo, ou seja, perdendo terreno dia-a- dia. Naquele período, um dos mais sombrios da história, Hitler soube substituir a Páscoa e o Natal por festividades nacionais sem teor religioso, e a cruz pela suástica, o emblema nazista. Já que o credo do Cristo judeu ensinava uma “ética efeminada de piedade”, os pais foram desencorajados a mandar seus filhos a qualquer escola religiosa. Para substituir o cristianismo, foi instituído “o culto do Führer, do sangue e do solo”. Em 1937, mais de 100 mil alemães abandonaram formalmente a igreja católica. Uma pequena porcentagem de católicos e protestantes era praticante. Apesar de ter sido irresponsavelmente chamado de ateu tanto por Freud quanto por um padre durante um ofício religioso na famosa Igreja Votiva de Viena, Frankl era um judeu religioso. Na infância, ele e o irmão mais velho eram obrigados a ler poemas em hebraico ao pôr-do-sol de toda sexta-feira, quando começava o sábado judaico. O exemplo e as palmadas do pai fizeram de Viktor Emil Frankl um daqueles judeus ou não-judeus “tementes a Deus” de que fala o livro de Atos (10.2; 16.14; 18.7). Porém, aquele que é chamado “o salmista do século 20”, “o Copérnico da psicologia”, “o médico do vazio existencial” e “o psicólogo da religião humana” nunca se tornou seguidor ou discípulo de Jesus. Visão do campo de concentração de Auschwitz no inverno, onde Viktor Frankl foi aprisionado pelos nazistas Prisioneiros judeus em campo de concentração nazista Chmouelaten.wikipedia
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    28 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Capa Uma palavra de Vikto para animar os desal Q uando Paulo e Barnabé, em cerca de 46 depois de Cristo, entraram num sábado na sinagoga de Perge, na costa sul da atual Turquia, os responsáveis lhes disseram: “Se vocês têm alguma palavra para animar o povo, podem falar agora” (At 13.15, NTLH). Paulo não perdeu a oportunidade. Ele discursou de tal modo que as pessoas “pediram com insistência que eles voltassem no sábado seguinte a fim de falarem sobre o mesmo assunto” (At 13.12, NTLH). A seguir, o leitor vai encontrar palavras, não de Paulo, mas de Viktor Frankl, o famoso psiquiatra austríaco que passou quase três anos em campos de concentração (veja Como é possível sobreviver num campo de concentração?, pág. 24.) Sobre a arte de viver • Não procurem o sucesso. Quanto mais o procurarem e o transformarem num alvo, mais vocês vão errar. Porque o sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior do que — SOFRIMENTO —
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 29 or Emil Frankl lentados a pessoa, ou como subproduto da rendição pessoal a outro ser. • A vontade de humor — a tentativa de enxergar as coisas numa perspectiva engraçada — constitui um truque útil para a arte de viver. • Com o fim da incerteza chega também a incerteza do fim. • Quem não consegue mais acreditar no futuro — seu futuro — está perdido num campo de concentração. • O prazer é e deve permanecer efeito colateral ou produto secundário. Ele será anulado e comprometido à medida que se fizer um objetivo em si mesmo. • O ser humano é um ser finito e sua liberdade é restrita. Sobre o sentido da vida • Ouso dizer que nada no mundo contribui tão efetivamente para a sobrevivência, mesmo nas piores condições, como saber que a vida da gente tem um sentido. • O que o ser humano realmente precisa não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente. O que ele necessita não é a descarga de tensão a qualquer custo, mas antes o desafio de um sentido em potencial à espera de ser cumprido. • O sentido de vida difere de pessoa para pessoa, de um dia para o outro, de uma hora para outra. O que importa, por conseguinte, não é o sentido da vida de um modo geral, mas antes o sentido específico da vida de uma pessoa em dado momento. • O sentimento de falta de sentido cumpre um papel sempre crescente na etiologia da neurose. • As pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por que viver; têm os meios, mas não têm o sentido. • O niilismo não afirma que não existe nada, mas afirma que tudo é desprovido de sentido. Sobre a arte de sofrer • Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo. • Precisamos aprender e também ensinar às pessoas em desespero que a rigor nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós. • Deus espera que não o decepcionemos e que saibamos sofrer e morrer, não miseravelmente, mas com orgulho! • Ninguém tem o direito de praticar injustiça, nem mesmo aquele que sofreu injustiça. • Quanto mais uma pessoa esquecer-se de si mesma — dedicando-se a servir uma causa ou amar outra pessoa —, mais humana será e mais se realizará. • Sofrimento, de certo modo, deixa de ser sofrimento no instante em que se encontra um sentido, como o sentido de um sacrifício. • O sofrimento desnecessário é masoquismo e não ato heroico. Sobre o “nem tudo está perdido” • Se houve um dia na vida em que a liberdade parecia um lindo sonho, virá também o dia em que toda a experiência sofrida no passado parecerá um mero pesadelo. • O ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores. • O passado ainda pode ser alterado e corrigido. • Quando já não somos capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós próprios. • Quando o paciente está sobre o chão firme da fé religiosa, não se pode objetar ao uso do efeito terapêutico de suas convicções espirituais. • Uma das principais características da existência humana está na capacidade de se elevar acima das condições biológicas, psicológicas e sociológicas, de crescer para além delas. • As pessoas decentes formam uma minoria. Mais que isso, sempre serão uma minoria. Justamente por isso, o desafio maior é que nos juntemos à minoria. Porque o mundo está numa situação ruim. E tudo vai piorar mais se cada um de nós não fizer o melhor que puder. Todas as frases foram retiradas do best-seller Em Busca de Sentido, publicado em alemão em 1945.
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    30 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Capa Galeria dos sobreviventes Jó antes de Habacuque Jó, o patriarca de Uz, de um dia para o outro, perdeu toda a riqueza (11.500 cabeças de gado) e quase todos os empregados (administradores, agricultores, boiadeiros, carreiros, cortadores de lã, guardas das torres de vigia, plantadores de capim, roçadores de pasto, tiradores de leite, tratadores de animais, vendedores de gado etc.). Perdeu os dez filhos quando a casa onde eles estavam comemorando o aniversário do irmão mais velho desabou e soterrou todos eles. No dia seguinte, havia dez caixões com defuntos para Jó enterrar. Pouco depois da perda dos bens e dos filhos, Jó perdeu a saúde — o mais precioso bem que alguém pode possuir. A doença era tão desgastante que o levava a desejar ansiosamente a morte. Poderia ser dermatose escamosa, elefantismo, eczema crônico, melanoma ou outra. Ele portava “feridas terríveis, da sola dos Prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald, no leste da Alemanha. Um deles é Max Hamburger, que se tornou psiquiatra na Holanda, e outro é Elie Wiesel, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1986. PrivateH.Miller. pés ao alto da cabeça”, raspava-se com caco de louça e ficou tão desfigurado que seus amigos não o reconheceram e começaram a chorar em alta voz diante daquele quadro aterrador (Jó 2.12-13). O mesmo fazendeiro perdeu a companhia religiosa e o aconchego da esposa, tão enlutada quanto ele. Ela se revoltava contra Deus e queria que o marido fizesse o mesmo (Jó 2.9). A esposa de Jó mantinha- se à distância por questões de saúde: “Minha esposa não chega perto de mim por causa do mau cheiro que sai de minha boca quando falo” (Jó 19.17, BV). O incrível sofredor experimentou ainda a dor da solidão, após a ruína financeira e a nova e feia aparência: “Os meus parentes me abandonaram e os meus amigos esqueceram-se de mim” (Jó 19.14). Como se não bastasse todo esse sofrimento, Jó teve de enfrentar o juízo temerário de todos, especialmente dos amigos mais íntimos, que interpretaram sua desgraça como castigo por algum pecado secreto que ele teria cometido. Apesar dessa inexplicável e incontida enxurrada de dores e de injustiças, o patriarca de Uz resistiu a tudo por todo o tempo, ancorado numa única pessoa e numa única esperança: “Eu sei que meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). Habacuque antes de Paulo Cerca de 2.500 anos antes da ameaça nazista, os judeus enfrentaram a ameaça babilônica. O grande império de Nabucodonosor estava dominando o mundo. Duas poderosas nações já haviam caído: a Assíria em 612 antes de Cristo, e o Egito, sete anos mais tarde, na famosa batalha de Carquemis (605 a. C.). A próxima nação a ser cercada, destruída e ocupada seria Israel, mais propriamente Judá, o reino do sul. A escassez de comida e a consequente — SOFRIMENTO —
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 31 fome eram iminentes. Boa parte da população seria deslocada para longe de sua pátria e muitos sofreriam como escravos e trabalhadores forçados. A beleza de Jerusalém seria coisa do passado. Suas riquezas seriam pilhadas e levadas pelos invasores. Para continuar a viver, os que tinham algum bem o trocariam por comida (Lm 1.1-12). Crianças diriam às mães: “Estou com fome! Estou com sede!”. Sem pão para comer nem água para beber, as crianças cairiam pelas ruas e os bebês morreriam aos poucos nos braços das mães. Estas, por sua vez, por causa da fome, perderiam o controle e devorariam os filhinhos que tanto amavam. Os mortos, tanto jovens como velhos, seriam largados nas ruas (Lm 2.11-21). Os que haviam morrido no campo de batalha seriam considerados mais felizes do que os que morreriam depois, por causa do caos posterior à guerra (Lm 4.9). Não obstante, frente a essa situação catastrófica prestes a acontecer, um homem chamado Habacuque, que era profeta e poeta, explica como poderia sobreviver: “Ainda que as figueiras não produzam frutas, e as parreiras não deem uvas; ainda que não haja azeitonas para apanhar nem trigo para colher, ainda que não haja mais ovelhas nos campos nem gado nos currais, mesmo assim eu darei graças ao Senhor e louvarei a Deus, o meu Salvador. [Pois] o Senhor é a minha força. Ele torna o meu andar firme como o de uma corça e me leva para as montanhas, onde estarei seguro” (Hc 3.17-19, NTLH). Paulo antes de Viktor Frankl Quando Jesus apareceu a Saulo no trevo da cidade de Damasco, capital da Síria, perto do final da primeira metade do século primeiro, ele não escondeu do futuro apóstolo que haveria sofrimento por causa do evangelho (At 9.16). De acordo com o relatório desse sofrimento, contido na Segunda Carta aos Coríntios, escrita em 55 depois de Cristo, Paulo foi apedrejado uma vez, espancado três vezes, chicoteado cinco vezes (cada uma com 39 açoites) e passou por três naufrágios (num deles ficou 24 horas boiando no mar). Além disso, ele muitas vezes ficou sem dormir, sem comer, sem beber, sem se vestir e sem se agasalhar. Experimentou toda sorte de perigos (de morte, de enchentes, de assaltos), nas mãos de conterrâneos, de estrangeiros, de ladrões, de falsos irmãos etc., tanto na cidade como no deserto e em alto- mar. E como se não bastasse, Paulo foi preso várias vezes e passou muito tempo atrás das grades, em Filipos, Jerusalém, Cesareia e principalmente em Roma. Apesar de todas essas circunstâncias e acontecimentos adversos, o apóstolo sobreviveu sem maiores desgastes físicos ou emocionais. E ele explica o segredo: “Sei o que é estar necessitado e sei também o que é ter mais do que é preciso. Aprendi o segredo de me sentir contente em todo lugar e em qualquer situação, quer esteja alimentado ou com fome, quer tenha muito ou tenha pouco. Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação” (Fp 4.12-13). E hoje? A sobrevivência é um desafio também para o mundo contemporâneo. Antes do término da Segunda Guerra Mundial, ninguém sabia muito sobre os campos de concentração da Alemanha nazista e sobre o tamanho do holocausto — nem os próprios alemães. Hoje, não percebemos que também estamos dentro de outros campos de concentração, que tornam a sobrevivência da fé e da moral quase impossível. Quantos mortos o narcotráfico e o crime já deixaram no mundo todo desde o final da Segunda Guerra até hoje? A lei do mais forte prevalece, a cultura da corrupção é uma regra fixa, a determinação de destruir os ramos e raízes da fé cristã continua (seja pela perseguição e morte de cristãos em países islâmicos fechados ou pelos escândalos que os próprios cristãos cometem), a propaganda do ter em vez de ser é esmagadora, a chamada ao consumismo é praticamente irresistível, a defesa da homossexualidade e da não-durabilidade do casamento é crescente, a pornografia e a violência sexual generalizam-se, e assim por diante. A mídia abraça e divulga todas essas coisas, das tirinhas aos editoriais, das novelas aos noticiários. Certamente, as características, os sintomas e os descaminhos contemporâneos podem ser vistos como um campo de concentração acentuadamente sutil. O excelente vídeo “Qualidade de vida do mundo contemporâneo”, da TV Cultura, do qual participam filósofos e educadores brasileiros, diz que estamos perdendo a capacidade de pensar, estamos perdendo a vitalidade e estamos sendo manipulados e conduzidos pela voz tirânica da prioridade do mercado, pelo ascetismo e pelo individualismo. Tudo isso leva à desgraça do tal vazio existencial, diagnosticado por Viktor Frankl como a neurose do século. Seriam essas coisas mais leves do que aquelas que Jó, Habacuque e Paulo sofreram? A Bíblia fala muito sobre a difícil arte da sobrevivência. Jesus chega a perguntar: “Quando o Filho do Homem vier, será que vai encontrar fé na terra?” (Lc 18.8, NTLH). Jó Apesar disso tudo Eu sei que o meu Redentor vive E finalmente aparecerá na terra. Habacuque Ainda que as figueiras não produzam frutas e as parreiras não deem uvas Ainda que não haja azeitonas para apanhar nem trigo para colher Ainda que não haja mais ovelhas nos campos nem gado nos currais Mesmo assim eu darei graças ao Senhor e louvarei a Deus, o meu Salvador. Paulo Aprendi o segredo de me sentir contente em todo lugar e em toda situação Quer esteja alimentado ou com fome, quer tenha muito, quer tenha pouco. Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação. o cântico dos sobreviventes
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    32 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Mesmo à distância, fui obrigado a conviver com os horrores do antissemitismo e da Segunda Guerra Mundial Capa T enho a impressão de que a brutalidade da Segunda Guerra Mundial, ocorrida na primeira metade do século passado, desde a invasão da Polônia (1º de setembro de 1939) até a assinatura do ato formal da rendição do Japão (2 de setembro de 1945), me fizeram algum mal. Durante minha infância e adolescência as notícias da guerra eram diárias. Não chegavam com a rapidez de hoje, mas chegavam. Quem não sabia ou não tinha idade para ler, ouvia a Rádio Mayrink Veiga ou a Rádio Tupi. Quem podia ler, ouvia o rádio e lia os jornais diários. Algumas fotos dramáticas da guerra, que eu via na primeira página do Correio da Manhã, que meu pai assinava, até hoje estão arquivadas em minha memória. Porém, houve também o lado “bom” da guerra. Eu e milhares de outras pessoas nos decepcionamos com o super-homem imaginado na mesma Europa, alguns anos antes das duas grandes guerras. Enquanto o sofrimento e a morte causados pelo ódio, pela prepotência e pela violência levavam alguns ao espanto, à descrença, ao desespero, ao suicídio e à liberdade de costumes — eu fui levado a conhecer a profundidade e a loucura da maldade humana (que prefiro chamar de pecado) e a esperar novos céus e nova terra, não por meio do homem, mas daquele que veio para consertar o que havia sido estragado. Há duas certezas que tenho agasalhado há mais tempo e com mais entusiasmo: uma diz respeito à queda e a outra à redenção. Dois textos bíblicos são esclarecedores e deles sempre me recordo: “Por um só homem entrou o pecado no mundo” (Rm 5.12) e “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). A seguir, em ordem cronológica, alguns dos lances mais importantes do antissemitismo e da Segunda Guerra Mundial. 1933 30 de janeiro Sou uma criança de quase 3 anos. Tenho um sobrenome alemão. Minha avó paterna era filha de alemães. Nesse dia, o austríaco Adolf Hitler, que se dizia alemão, é empossado aos 44 anos como chanceler da Alemanha. O presidente Hindenburg termina seu discurso de posse com estas palavras: “E, agora, senhores, sigamos com Deus”. 1934 2 de agosto Falece o presidente Paul von Hindenburg, aos 87 anos. Hitler torna-se chefe de Estado. O exército presta juramento de lealdade ao Führer. 1935 15 de setembro O Reichstag (o parlamento alemão) aprova as leis de Nuremberg, que proíbem o casamento e todas as formas de relacionamento sexual entre judeus e alemães, privam os judeus da cidadania e fazem da suástica o emblema da Alemanha. 1936 17 de junho Heinrich Himmler torna-se chefe da polícia de toda a Alemanha, inclusive da Gestapo (polícia secreta do Estado). Hitler torna- Fonte:DeutschesBundesarchiv Bild146-1990-048-29A Adolf Hitler — SOFRIMENTO — se
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 33 responsável apenas perante si mesmo e mais ninguém, podendo remover qualquer limitação ao seu poder, dentro ou fora da lei. Sou apenas um menino de 6 anos. 1937 13 de dezembro Tenho quase 8 anos. Meu pai é pastor das igrejas presbiterianas de Campos e Itaperuna, no norte fluminense, e comemora 36 anos. Nesse mesmo dia, tropas japonesas comandadas pelo general Iwane Matsui cometem atrocidades na China. Matam soldados e civis e estupram mulheres. Estima-se que cerca de 20 a 40 mil mulheres tenham sido violentadas, crianças e idosas. Houve fuzilamentos, decapitações e crucificações. Civis eram enterrados vivos ou pendurados pela língua. Bebês eram jogados ao ar e perfurados à baioneta. 1938 30 de outubro Curso a primeira série do primário. Na escola dominical, sou transferido do primário para o intermediário. Orson Welles transmite pelo rádio uma adaptação do romance A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, passando a real impressão de que o planeta estava sendo invadido por extraterrestres. 9 de novembro Membros de organizações nazistas armados de machados e marretas destroem 29 lojas de departamentos e residências judaicas, na Alemanha e na Áustria. Sinagogas e cemitérios judeus são profanados. Mais de 30 mil judeus são enviados para os campos de concentração. 1939 3 de agosto Físicos húngaros e o cientista alemão Albert Einstein, de 60 anos, alertam o presidente americano Franklin D. Roosevelt de que as pesquisas com energia nuclear realizadas na Alemanha poderiam levar os nazistas à construção de uma bomba nuclear. Einstein pergunta: “Devemos dar fim à raça humana ou a humanidade deve renunciar à guerra?”. Eu ainda não completei 10 anos. 3 de setembro Inglaterra e França declaram guerra à Alemanha. Dois dias antes, a Alemanha havia invadido a Polônia. 1940 10 de maio A Alemanha invade a Holanda e a Bélgica. 14 de junho A Alemanha toma Paris. 26 de setembro O filósofo Walter Benjamin, nascido em Berlim no seio de uma família judaica, comete suicídio aos 48 anos. Ele tentava, junto com outros refugiados, atravessar a fronteira entre França e Espanha para escapar dos nazistas que haviam ocupado Paris três meses antes. Benjamin era doutor em filosofia e crítico de ideias e fatos. Deixou três livros e vários ensaios publicados em diversos periódicos. 29 de dezembro Em um domingo entre o Natal e o Ano-Novo, a Alemanha, em três horas de fogo e terror, despeja 120 toneladas de explosivos de alta potência e 22 mil bombas incendiárias no centro de Londres. Oito igrejas são destruídas. 1941 7 de dezembro Torpedeiros e bombardeiros japoneses conseguem destruir ou danificar oito encouraçados, três cruzadores e três destroyers americanos que estavam em Pearl Habor. O ataque aéreo e naval durou apenas uma hora e meia e destruiu 188 aeronaves dos Estados Unidos, além de avariar outras 155. Os japoneses perderam só 29 aeronaves e cinco minissubmarinos. Morreram 1187 pessoas da marinha americana. 1942 20 de janeiro Na escola dominical, sou transferido do departamento intermediário para o secundário. Reinhard Heydrich, chefe dos serviços de segurança do Terceiro Reich, reforça o enrijecimento das medidas antissemitas e explica que, por conta da guerra e da escassez de recursos, os 11 milhões de judeus que ainda estavam na Europa não poderiam permanecer no continente nem emigrar. A solução final para o problema seria o assassinato em massa. Os judeus já haviam sido excluídos de todos os cargos públicos (o que significava a perda de direitos de pensão), das profissões (inclusive do magistério, da medicina e do direito), dos esportes e das artes. Cartazes com os dizeres “não queremos judeus aqui” já haviam sido afixados em estâncias de férias, restaurantes e hotéis. Qualquer nazista podia espancar, expulsar ou roubar um judeu impunemente. 23 de fevereiro Faltam dois meses para eu completar 12 anos. Começo a fazer o “ginásio” no Colégio Batista Fluminense. As rádios e os jornais anunciam o suicídio do casal Elizabeth e Stefan Zweig, acontecido no dia anterior em Petrópolis, RJ. Zweig, de 60 anos, um judeu nascido em Viena, era famoso no mundo inteiro por seus romances (Amok, IsaMorais Walter Benjamin Casal Zweig CasaStefanZweig
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    34 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Capa A Confusão dos Sentimentos) e biografias (Maria Antonieta, Erasmo de Rotterdan). Forçado pelos nazistas a deixar a Áustria, veio parar no Brasil em agosto de 1936. Não resistiu à depressão causada pelos problemas mundiais e matou-se. “Em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a terra. Saúdo a todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou me antes” (última frase da “declaração” deixada no leito de morte). 6 de junho Seis meses depois de Pearl Harbor, trava-se a batalha naval de Midway, nas proximidades do Havaí. Os japoneses perdem os quatro porta-aviões e mais de duzentas aeronaves, juntamente com suas tripulações. Os americanos perdem apenas um porta-aviões. 15 de agosto O submarino alemão U-507 afunda o navio brasileiro Baependy no litoral da Bahia, matando 270 das 306 pessoas que estavam a bordo. Entre os mortos há 142 militares brasileiros (um major, três capitães, cinco tenentes, oito sargentos e 125 cabos e soldados). O navio afundou em dois minutos. Dias antes, o mesmo submarino já havia posto a pique cinco navios brasileiros. Incluindo os 270 mortos do Baependy, o número de vítimas fatais chega a 607. Desde janeiro de 1941, o Brasil tinha rompido as relações diplomáticas com o Eixo. 1944 6 de junho Exatamente dois anos depois de Midway, os aliados têm outra vitória decisiva. Ao cair da noite desse dia, 125 mil soldados americanos, ingleses e canadenses, sob o comando do general Dwight Eisenhower, já haviam desembarcado ao longo dos 105 quilômetros da Normandia, na França, até en- tão dominada pelos alemães. Foi o chamado Dia D. Começa o colapso do Terceiro Reich. 4 de agosto Exatamente um mês depois de minha pública profissão de fé na Igreja Presbiteriana de Campos, aos 14 anos, a menina judia-alemã Anne Frank, apenas um ano mais velha, é localizada no sótão secreto de um prédio comercial de Amsterdã e levada com outros sete judeus para o campo de concentração em Bergen Belsen. Ela não pôde levar consigo o diário escrito desde junho de 1942. 1945 27 de janeiro Estamos de férias na praia de Grussaí. Tomo conhecimento de que tropas soviéticas invadem um complexo de campos de concentração nos arredores de Oswiecim, na Polônia, e do que os nazistas faziam com os judeus. O major Anatoly Shapiro, que comandou a operação, teria dito: “Eu vi os rostos das pessoas que libertamos; elas passaram pelo inferno”. 14 de fevereiro Aviões da Força Aérea Inglesa (RAF) bombardeiam Dresden, na Alemanha, e 33 quilômetros quadrados da cidade são destruídos pelo incêndio causado por uma mistura de explosivos capaz de se perpetuar sozinha. Mais de 25 mil pessoas morrem. 9 de abril Preso desde 1943 por ajudar a introduzir clandestinamente quatorze judeus na Suíça, o pastor luterano alemão Dietrich Bonhoeffer, de apenas 39 anos, é enforcado sob a acusação de alta traição. Ex-aluno de Karl Barth, Bonhoeffer obteve o doutorado em teologia na Universidade Anuncio Dietrich Bonhoeffer
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 35 de Berlim aos 21 anos. Ele foi um dos organizadores da chamada Igreja Confessante, que reunia cerca de um terço do clero protestante em oposição a Hitler. Por dois anos, Bonhoeffer dirigiu o seminário dessa igreja, fechado em 1937 por ordem do governo. 27 de abril O exército americano liberta os prisioneiros dos campos de concentração de Dachau. Entre eles estava o psiquiatra vienense Viktor Emil Frankl, de 40 anos. 30 de abril Uma semana depois de comemorar meu 15º aniversário, Adolf Hitler, aos 56 anos, e Eva Braun, 23 anos mais nova e com quem ele havia se casado na véspera, cometem suicídio depois de almoçar com seu nutricionista e seus secretários. Ela se envenenou e ele deu um tiro na boca. 7 de maio O coronel-general Alfred Jodl, do alto comando alemão, assina os termos de rendição incondicional da Alemanha no quartel general dos Aliados, situado em uma escola em Reims, na França. Após cinco anos, oito meses e sete dias, está encerrada a fase europeia da Segunda Guerra Mundial. 6 de agosto A Enola Gay, uma fortaleza voadora americana, lança sobre a cidade japonesa de Hiroshima o Little Boy — a primeira bomba nuclear do mundo. O artefato causou destruição em um raio de 1,6 quilômetro quadrado, além de arruinar e incendiar outros 11 quilômetros quadrados circundantes. Dos 255 mil habitantes, 70 mil morreram após a explosão. 2 de setembro A bordo de um navio americano, o governo e o alto comando militar japonês assinam o ato formal de rendição às tropas aliadas. Encerra-se a fase asiática da Segunda Guerra Mundial. Sou um adolescente. Começo a estudar clarineta para tocar na pequena orquestra da igreja presbiteriana. Publico no Jornal Mocidade meu primeiro artigo e no jornal O Puritano, minha primeira oração escrita. Inicio namoro com uma das moças que professaram a fé comigo. Fontes: • 1001 Dias que Abalaram o Mundo. Rio de Janeiro: Sextante, 2009. • História do Século 20, vol. 4. São Paulo: Abril Cultural, 1970. • Morte no Paraíso; a tragédia de Stefan Zweig. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. IWMCollectionsIWMPhotoNo.BU8604 Cena de destruição em uma rua de Berlim em julho de 1945
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    36 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 A partir de hoje, com a ajuda de Deus, vou enfrentar a inveja. Não vou mais mentir dizendo para mim que não sou invejoso. Confessarei o pecado da inveja e me porei contra ela, suficientemente convencido de que é uma doença capaz de me destruir e tão grave “como câncer” (Pv 14.30, NTLH). A inveja não é algo de pequena monta. Ela está sempre ao lado de outras coisas terríveis (as tais obras da carne de que fala Gálatas 5.19-21). A inveja não é passiva; não cruza os braços; não fica parada em momento algum. Ela é ativa, dinâmica e incontrolável. Se não for barrada na nascente, leva o invejoso automaticamente ao crime. Não foi a inveja de Caim que provocou o primeiro assassinato da história (Gn 4.8)? O livro de Gênesis conta que “Isaque tinha tantas ovelhas e cabras, tanto gado e tantos empregados, que os filisteus acabaram ficando com inveja dele”. A inveja dos vizinhos levou-os a entupir todos os poços dos quais o patriarca se servia para matar a sede do gado e regar a lavoura (Gn 26.14-15). Foi por inveja que os irmãos de José o venderam para ser escravo no Egito (At 7.9). A inveja no âmbito religioso é um problema sério na história passada e presente da igreja cristã. Porque Deus aceitou com agrado a oferta de Abel e não a de Caim, este “ficou furioso e fechou a cara”. E acabou matando o irmão (Gn 4.5, NTLH). Jesus foi entregue a Pilatos para ser condenado à morte por causa da inveja incontrolada dos chefes dos sacerdotes, como facilmente enxergou Pilatos (Mc 15.10). Poucas semanas depois, os saduceus ficaram com tanta inveja do sucesso dos apóstolos que os mandaram prender (At 5.17-18). Tanto em Antioquia como em Tessalônica, Paulo sofreu horrores por causa da inveja dos judeus (At 13.45; 17.5). Havia sérios problemas de inveja na igreja de Corinto, além de “brigas, manifestações de ira, divisões, calúnias, intrigas, arrogância e desordens” (2Co 12.20). Na igreja primitiva, Paulo foi obrigado a admitir que alguns pregavam Cristo “por inveja e discórdia” (Fp 1.15). Pedro também percebeu que Simão, o mago do Samaria, batizado Não quero invejar nem os de dentro nem os de fora! DE HOJE EM DIANTE... por Filipe, queria o batismo do Espírito Santo porque estava “cheio de inveja, uma inveja amarga como fel” (At 8.23). Diante dessas realidades, o que preciso fazer é mortificar a inveja no meu coração, onde ela mora — antes que ela saia de lá e cometa seus desatinos. Estou ciente de que posso invejar também os que estão do lado de fora da igreja. Dou graças a Deus pelo conselho, possivelmente de Davi: “Não se aborreça por causa dos maus, nem tenha inveja dos que praticam o mal. Pois eles vão desaparecer logo como a erva, que seca” (Sl 37.1-2, NTLH). Já tive inveja da prosperidade dos não-crentes (Sl 73.3), mas me curei quando Deus me mostrou a transitoriedade do sucesso deles e o seu destino final (Sl 73.16-19). Já decorei a insistente palavra do sábio dos sábios, que me diz: “Não inveje os pecadores em seu coração” (Pv 3.31; 23.17; 24.1). Os Provérbios de Salomão me garantem também que “os pecadores não têm futuro; [pois] são como uma luz que está se apagando” (Pv 24.20). Estou tomando uma grande decisão: a de sufocar a inveja. Mas não a tomo sozinho. Tomo-a na certeza do auxílio de cima! Que o Senhor me socorra!
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 37 Anuncio
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    38 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 NOVOS ACORdES Carlinhos Veiga De Todos os Ângulos Denis Campos Denis Campos é um garoto com pouco mais de 20 anos. Um cara dado a poesias. Cultiva um blog com suas criações literárias, sempre com novidades. De Todos os Ângulos é o seu primeiro CD e contém doze canções, todas de sua autoria. Partilha a criação de uma elas com Elly Aguiar e de outras duas com Jorge Ervolini. No contato com o material percebe-se que há uma unidade bem legal em toda concepção do trabalho, desde o material gráfico, passando pelas composições e arranjos. Ou seja, ele mostra a cara de Denis Campos. A direção musical e os arranjos são de Jorge Ervolini. A produção artística é de Denis e Ervolini. Uma banda de respeito mandou ver nas execuções. Participação especial dos intérpretes Diego Venâncio e Gerson Borges. Contatos pelo www.myspace.com/ denisscampos. Jesus in Blues André de Oliveira Essa é mais uma faceta do surpreendente, inquieto e criativo André de Oliveira. Ele já gravou vários trabalhos temáticos, como adoração e forró (gravado no Nordeste com músicos locais), sem falar na série de CDs de seu personagem Reverbério — uma mistura de humor com crítica pesada às bizarrices do meio evangélico. Agora, ele vive o seu momento blues. Reuniu uma banda que conhece bem a linguagem desse estilo musical e mandou ver. “Tudo blues”, “Kitsch”, “Contramão do tempo”, “Aqui” e “Jesus in blues” utilizam os clichês musicais característicos, incluindo gaitas e guitarras choradas. Participação do intérprete Caleb de Oliveira em três canções. A produção executiva é de Marcus Castro e ele foi gravado no Studio Scheffield por Claudiano Amorim e Joãozinho Costa. Contatos: andrereverberio@hotmail. com ou (31) 8691-9597. Revolução do Amor Ortegas Os irmãos Matheus, Rafa e Pedro formam os Ortegas. Eles são filhos do conhecido Gerson Ortega, que desde o fim dos anos 70 traz significativas contribuições para a música cristã brasileira. E os meninos seguem a mesma trilha musical. Multi-instrumentistas, se revezam nas autorias das canções. Revolução do Amor é um álbum engajado. A faixa título foi composta na viagem que Matheus fez ao Haiti para apoiar a igreja sofrida daquele país, após o fatídico terremoto em janeiro de 2010. Ao todo são dez faixas, nas quais o pop predomina. Esbanjando tecnologia, Henrique Soares cuidou dos arranjos, gravações e mixagens. A master foi feita por Nike Fossenkemper, do Turtle Tone Studio, em Nova York. O resultado é uma sonoridade bem contemporânea e encorpada. Conheça mais pelo www.ortegas.com.br. Transmitir Nando Padoan Transmitir é o segundo trabalho de Nando Padoan. Com influências marcantes da black music, traz um repertório de doze canções com letras voltadas para a adoração. Dentre elas, destacam-se “Louve ao Senhor”, “Transmitir” (com participação de Paulo César Baruk), “Cântaros” (canção de Edilson Botelho) e “Vem comigo” (um hit dançante e cheio de brincadeiras). Além de compositor, intérprete e instrumentista, Nando é também o produtor e arranjador musical do álbum. Em sua formação, passou pela Escola de Música e Tecnologia e estudou linguagem e estruturação musical. Transmitir mostra toda sua versatilidade musical e técnica. Para ouvir algumas canções e saber mais sobre o autor, visite www.myspace.com/ nandopadoan. No site é possível adquirir o CD.
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    42 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Mordomia responsável MEIO AMBIENTE E fé cristã René Padilla o fato de que Deus delegou aos seres humanos um papel único na criação. O texto mostra claramente que a criação da humanidade é um ato singular que se distingue de todos os demais atos da criação de Deus. Com efeito, no grande poema de Gênesis 1, a humanidade é a coroação de toda a obra criadora de Deus. Esta conclusão é reforçada pela referência à humanidade como imagem e semelhança de Deus. O que significa isto? Em que sentido se pode dizer que a humanidade se parece com Deus? A variedade de interpretações que se tem sugerido não deixa espaço para o dogmatismo sobre o tema, mas parece que a interpretação mais apropriada é a que leva em conta o significado das imagens em tempos antigos no Oriente Médio. De acordo com a ideologia real, aceita amplamente nessa região geográfica e especialmente no Egito, o rei era considerado como a imagem de Deus: representava a Deus diante de seus súditos. Ao mesmo tempo, a imagem do rei o representava perante seus súditos em territórios conquistados. Aparentemente, estas ideias proveem uma boa base histórica para se pensar que a referência à humanidade como a imagem de Deus significa que a humanidade representa a Deus e foi revestida com sua autoridade na criação. Esse é o fundamento da dignidade de todo ser humano, sem exceção. Esta interpretação se ajusta muito bem à tarefa específica que Deus confia à humanidade segundo Gênesis 1.28. À humanidade, por ser a imagem de Deus — e a sua representante na criação —, é delegada a autoridade de Deus: o poder de procriar e de submeter a terra. Além da procriação, a vocação humana fundamental é o controle da ordem do que foi criado em cumprimento ao mandato cultural — cumprimento por meio do qual N ós, evangélicos em geral, não temos dado ao tema do meio ambiente a devida atenção. É urgente abordá-lo sob uma perspectiva bíblica e voltada para o cumprimento da missão a que Deus nos chamou como mordomos de sua criação em um mundo onde reinam dois males intimamente ligados entre si: o abuso dos recursos da criação e a injustiça social. A afirmação com que a Bíblia se inicia não dá lugar a dúvidas: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Na terra que surge do nada pelo poder de sua Palavra, Deus cria, em primeiro lugar, o cenário para a vida humana. Depois, sobre este cenário, coloca o homem e a mulher, criados à sua imagem e semelhança, e lhes comissiona o mandato cultural: “Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a” (Gn 1.28a). Como no caso da existência de Deus, a revelação bíblica considera indiscutível a humanidade manifesta que é a imagem de Deus na criação. Esta é a base da mordomia responsável no uso e cuidado dos recursos naturais e também para o desenvolvimento científico e tecnológico, não em função do crescimento econômico, mas sim como o meio de cumprir o propósito de Deus para sua criação e, assim, dar glória ao Criador. Há quem afirme que a origem da situação atual, marcada por uma profunda crise ecológica, está na tradição judaico- cristã, segundo a qual Deus destinou ao ser humano a tarefa de submeter a terra. A exploração destrutiva da natureza, se diz, é o resultado da arrogância humana com respeito à natureza. No entanto, não há nada na tradição judaico-cristã que sugira que o domínio que a humanidade é chamada a exercer sobre a terra tem de ser exercido independente de Deus e da criação, como se a humanidade fosse dona, e não apenas um mordomo da criação. Ao contrário, a raça humana é concebida como feita do “pó da terra”, formada por criaturas terrestres que dependem do fruto da terra para sua manutenção (Gn 1.29-30) e em total dependência do Deus de quem procede a vida (ver Gn 2.7). Em síntese, Deus, o Criador do universo, escolheu compartilhar sua soberania com criaturas que são sua imagem e semelhança, mas foram feitas do pó da terra e têm a vocação de reger sobre a terra como colaboradores de Deus em liberdade e obediência. A recuperação dessa vocação é um aspecto essencial de nossa missão no mundo. Na próxima edição, exploraremos o que isto significa em relação à crise ecológica atual, que se manifesta no aquecimento global. Traduzido por Wagner Guimarães C. René Padilla escreve regularmente na coluna “missão integral” (veja pág. 47). ManuMohan Deus nos chamou como mordomos de sua criação em um mundo onde reinam dois males intimamente ligados entre si: o abuso dos recursos da criação e a injustiça social
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    44 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Simplicidade e permanência D De vez em quando gosto de reler Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, de C. S. Lewis. Sua habilidade em perscrutar os labirintos da tentação me impressionam. Ele nos ajuda a reconhecer nossa enorme ingenuidade e a profunda sagacidade do inimigo. O CAMINHO DO CORAçãO Ricardo Barbosa Não importa o quanto nossas igrejas e ministérios sejam sofisticados. Se no final não encontrarmos as mesmas coisas de sempre, significa que nos perdemos com o meio e não alcançamos o fim Em uma dessas cartas, o Diabo reconhece que o verdadeiro problema dos cristãos é que eles são “simplesmente” cristãos. O laço que os une é a vida comum que eles têm em Cristo. Ele então aconselha seu sobrinho: “O que nós desejamos, se não houver mesmo jeito e os homens tiverem de tornar-se cristãos, é mantê-los num estado de espírito que eu chamo de cristianismo e alguma outra coisa [...]. Substitua a fé em si por alguma moda com colorido cristão. Faça com que tenham horror à Mesma Coisa de Sempre”. A “mesma coisa de sempre” nos deixa entediados. Ser “simplesmente” cristão, para muitos, não é suficiente. Precisamos de coisas novas. Sempre. Modelos novos de igreja, um jeito diferente de cantar, formas inovadoras de culto, estratégias sofisticadas de crescimento, e por aí vai. Somos movidos pelas novidades, não pela profundidade. Nosso interesse está na variedade, não na densidade. O reverendo A. W. Tozer, num artigo intitulado “A velha e a nova cruz”, comenta o mesmo fenômeno: “Uma nova filosofia brotou dessa nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica — um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Esse novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior”. O Diabo, na carta ao seu sobrinho aprendiz, diz: “O horror pela mesma coisa de sempre é uma das mais preciosas paixões que incutimos no coração humano — uma fonte infinita de conselhos estúpidos, de infidelidade conjugal e de inconstâncias na amizade”. A lista poderia se estender, mas o que se encontra por trás desse “horror pela mesma coisa de sempre” é a grande atração pelo novo seguida de uma profunda distração pelo essencial. O que a novidade faz é direcionar nossa atenção para outras preocupações, dando mais valor aos meios e não aos fins. A formação espiritual cristã sempre requereu, basicamente, obediência a Cristo no seu chamado a proclamar o evangelho, fazer OveTøpfer
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 45 que o confessam como Senhor e Rei. Jesus apresenta um evangelho que transforma de dentro para fora. O que o vaso contém é infinitamente maior e mais valioso que o vaso. Ele cresce como uma pequena semente de mostarda. A simplicidade está na natureza própria do evangelho. A permanência define o caráter pessoal e relacional da fé. Permanecer em Cristo é permanecer ligado como galho na videira. É somente nessa permanência que recebemos de Cristo sua vida e a transmitimos aos outros. Permanecer é mais do que conhecer — é manter-se em constante e dinâmico relacionamento. As novidades não transformam o caráter; a permanência, sim. Para C. S. Lewis, a maturidade é algo que “todos alcançam na velocidade de sessenta minutos por hora, independentemente do que façam e de quem sejam”. Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração. Anúncio discípulos, integrá-los numa comunidade trinitária e ensiná-los a guardar a sua palavra. Ensiná-los a se comprometerem com o serviço como expressão de amor para com o próximo e com o cultivo e a prática de disciplinas espirituais como oração, jejum, arrependimento, confissão, leitura e meditação nas Escrituras e contemplação. Não importa o quanto nossas igrejas e ministérios sejam sofisticados. Não importa o volume de novidades e tecnologias que oferecemos. Se no final não encontrarmos as mesmas coisas de sempre, significa que nos perdemos com o meio e não alcançamos o fim. Existem dois aspectos que considero fundamentais na experiência espiritual cristã: simplicidade e permanência. Quando perguntaram para Jesus como o reino de Deus viria, ele respondeu afirmando o seu caráter discreto. Não viria com grande estardalhaço. Se estabeleceria dentro daqueles
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 47 A formação de discípulos (parte 1) de Deus, ficou claro que não fui salvo para ser feliz, ou para ter sucesso material, ou para livrar- me do sofrimento, mas com o fim de cooperar com Deus, ainda que modestamente, no cumprimento de seu propósito na história. E percebi a importância de me ver como membro do Corpo de Cristo e, como tal, uma pessoa chamada a participar na missão de transformar o mundo de modo que reflita a glória de Deus, a justiça e a paz do reino que se fez uma realidade presente na pessoa e obra de Cristo Jesus. A evangelização integral só é possível sobre a base do evangelho integral. Traduzido por Wagner Guimarães C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral? A compreensão adequada do evangelho é um requisito básico para compreender a evangelização mas não havia aprendido que “somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (v. 10). Em outras palavras, havia recebido um evangelho que enfatizava os benefícios da salvação, mas deixava de lado o propósito que Deus quer realizar por meio de seu povo, no qual eu me incluo. Na prática, havia recebido um evangelho incompleto. Posteriormente, percebi que minha falta de uma compreensão adequada do evangelho resultava do tipo de evangelização mais ou menos comum nos círculos evangélicos do meu país: uma evangelização que se especializa na salvação individual, entendida frequentemente como uma experiência subjetiva de perdão de pecados, mas que tem pouco ou nada a dizer sobre a vontade de Deus de conduzir a humanidade à comunhão com ele, reconciliar os membros da raça humana entre si e restaurar toda sua criação, conforme seu propósito original. Quando entendi minha própria salvação à luz do propósito eterno N a essência da missão está a tarefa da evangelização. No entanto, não podemos considerar que todos os cristãos concordam com o significado de tal afirmação. Minha intenção é mostrar que a evangelização genuína está a serviço exclusivo do evangelho por meio do que é, do que faz e do que diz. Consequentemente, não visa apenas ganhar convertidos para aumentar o número de membros da igreja, mas também formar discípulos que aprendam a obedecer a tudo o que Jesus Cristo ordenou a seus seguidores (Mt 28.20). Neste artigo, e nos três subsequentes, proponho-me a desenvolver essa afirmação em quatro princípios. O primeiro é que a compreensão adequada do evangelho é um requisito básico para compreender a evangelização. Evangelizar é comunicar as boas novas, e as boas novas que como cristãos somos chamados a comunicar estão centradas em Jesus Cristo, incluindo sua encarnação, sua vida, sua morte, sua ressurreição, sua exaltação e sua segunda vinda. O evangelho completo inclui todos estes “eventos salvíficos”, como são chamados, e nenhum deles pode ser esquecido sem que nossa compreensão do evangelho seja afetada. Cresci num lar evangélico e dou graças a Deus por minha herança evangélica. Entretanto, com o passar do tempo, reconheci que minha compreensão do evangelho era inadequada: havia aprendido que a salvação é pela graça, por meio da fé, “é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9), MISSãO INTEGRALRené Padilla
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    48 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 N a edição anterior abordei a necessidade de realismo teológico e de realismo sociológico no exercício da ação social evangélica. Agora veremos o terceiro elemento: a humildade amorosa. Há anos leio os comentários dos autores patrísticos (os Pais da Igreja dos primeiros séculos da era cristã) sobre os evangelhos. Leio também os romances de um dos maiores escritores russos de todos os tempos, cuja visão de mundo é essencialmente cristã: Fiodor Dostoievski. Usarei frases de autores patrísticos e trechos de Dostoievski para uma melhor compreensão do texto dos evangelhos conhecido como “O Rico e Lázaro” (Lc 16.19-26). Gregório, o Grande, observa que “o Senhor menciona o nome do pobre, mas não o do rico; pois Deus conhece e aprova o humilde, mas não o orgulhoso”. Gregório associa “pobre” a “humilde” e “rico” a “orgulhoso”. Ambrósio, bispo de Milão, fala da “insolência e orgulho dos ricos, tão indiferentes à condição da humanidade, como se eles pairassem acima da natureza”. Ele ironiza o comportamento dos ricos que agem como se não fizessem parte da raça humana. Agostinho acrescenta que “a cobiça dos ricos é insaciável”. Há uma semelhança com a Teologia da Libertação. Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla, exilado por não desistir de criticar a corte do imperador bizantino, comenta que “o rico morreu, como diz o texto, mas sua alma já havia morrido. Assim como deitar fora do portão do rico aumentou a aflição do pobre, o desespero do rico no inferno é maior porque ele vê a felicidade de Lázaro”. Há um paralelismo: em vida, Lázaro sofria ainda mais, pois via todos os dias o contraste entre sua situação e a do rico. Agora, porém, está tudo invertido. Os tormentos do rico são maiores porque ele consegue ver o bem-estar de Lázaro. Ou seja, é um inferno apropriado, feito sob medida. “Estando o rico totalmente atormentado, somente os seus olhos estão livres”, diz Crisóstomo. E eles só conseguem ver a felicidade de Lázaro, o que apenas aumenta o tormento. “Veja agora o rico necessitando do pobre!” Evidentemente, estamos acostumados com outra situação. “E agora todos percebem quem era verdadeiramente rico e verdadeiramente pobre.” As máscaras foram tiradas e Crisóstomo faz até uma analogia: “Quando termina a peça, os atores retiram os trajes; da mesma forma, quando vem a morte, o espetáculo acaba e as máscaras da pobreza e da riqueza são tiradas, então os homens são julgados somente por suas ações”. Gregório diz ainda: “O rico no inferno busca uma gota d’água, ele que em vida nem queria dar uma migalha de pão. Porém, ele recebe uma retribuição justa — o fogo do desejo intenso”. Novamente a ideia de um inferno feito sob medida. Como frisa Crisóstomo, “ele não está no inferno porque era rico (afinal, Abraão era riquíssimo), mas porque não era misericordioso. Paul FrestonÉTICA Ação social cristã a humildade amorosa*
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 49 E como sua língua havia falado muitas coisas orgulhosas, ele pede que Lázaro seja enviado para refrescar a ponta dela com o dedo molhado em água”. E a conclusão de Crisóstomo é que “onde está o pecado, aí está o castigo”. Gregório de Nissa confirma essa perspectiva: “O juízo de Deus é adaptado às nossas disposições. Como o rico não teve piedade do pobre, ele não é ouvido quando precisa de misericórdia”. Porém, diz Gregório: “Quando você se lembra de ter feito uma boa ação, tenha cuidado, porque existe o perigo de que a recompensa presente seja tudo o que você vai receber de recompensa!”. E ainda: “O justo pode até receber coisas boas aqui, em troca da sua bondade (embora nem sempre aconteça). Porém, ele não as recebe como recompensa, pois busca algo melhor, que é a recompensa eterna”. Finalmente, o texto afirma que entre o rico e Lázaro há um grande abismo, que simboliza a distância entre o justo e o pecador, entre suas disposições interiores. E tal abismo é descrito como “fixo”. É preciso entender a parábola como uma mensagem para a vida presente, não como uma descrição literal e detalhada da vida futura. Porém, como combinar isso com a crença num Deus que certamente é muito mais misericordioso do que nós? Se nós sabemos ser misericordiosos (às vezes e até certo ponto), quanto mais Deus! Além disso, ele é muito mais capaz de pesar os fatores psicológicos e sociológicos na biografia de cada pessoa. Ele conhece a fundo todos os fatores que influenciaram a vida de cada um e tiveram um peso em suas ações. Por isso, “o juiz de toda a terra fará justiça”. Há dois textos de Dostoievski em Os Irmãos Karamazov que também exemplificam isso. O primeiro é o comentário sobre essa parábola, feito por um dos personagens centrais do livro, que é um monge e conselheiro espiritual. Diz ele: “Eu pergunto a mim mesmo o que é o inferno. E defino assim: o inferno é o sofrimento por não poder mais amar. Uma vez [fazendo referência ao rico da parábola] um ser teve a possibilidade de dizer “eu sou e eu amo”. Uma vez somente foi-lhe concedido um momento de amor ativo e vivo. Para isso lhe foi dada a vida terrestre [que bela descrição do sentido da vida!]. Porém, esse ser repeliu esse dom inestimável e ficou insensível. E esse ser, tendo deixado a terra, vê de longe o seio de Abraão. Ele contempla o paraíso de longe. Porém, o que o atormenta precisamente é que se apresenta sem ter amado. E diz: “Agora a minha sede ardente de amor espiritual me abrasa”. O que abrasa o rico é justamente o desejo de amar, mas a impossibilidade de fazê-lo porque passou o momento. Ele desdenhou a possibilidade de amar na terra, quando era a hora de amar. “A vida que se podia sacrificar pelo amor já decorreu.” O segundo texto é a lenda da cebolinha, um relato russo contado por uma das personagens femininas de Os Irmãos Karamazov: Era uma vez uma mulher muito má, que morreu sem deixar atrás de si uma única boa ação. Os demônios
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    50 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Anúncio a pegaram e partiram em desabalada carreira para o lago de fogo. Porém, seu anjo da guarda pensava: “Se ao menos eu pudesse me lembrar de uma boa ação que ela tivesse feito, iria contar a Deus!”. Recordou-se e disse a Deus: “Ela arrancou uma cebola na horta e a deu a uma pedinte”. Deus lhe respondeu: “Tente dar-lhe essa cebola no lago para que ela a agarre; se você a retirar, concordo que entre no paraíso; mas, se a cebola romper-se, então que fique onde está”. O anjo correu em direção à mulher e lhe apresentou a cebola: “Pegue-a”, disse ele, “e segure bem!”. Pôs-se a puxar com cuidado e a mulher emergia toda. Os outros culpados que estavam no lago, vendo que ela estava sendo retirada, agarraram-se a ela para poder sair também. Porém, a mulher era muito má e debateu-se para dar-lhes pontapés: “Sou eu que estou sendo retirada, não vocês!”. No mesmo instante em que lhes lançava essa observação, a cebola rompeu-se. A mulher caiu no lago e ainda está queimando. O anjo foi-se chorando. A humildade é a chave; nada vale possuir todas as outras virtudes sem ela Certo livro acadêmico, ao comentar a obra de Dostoievski, diz que, “em última análise, o que selou o destino da mulher não foi a longa série de transgressões pessoais, mas seu egoísmo e o fato de ter se colocado contra os outros pecadores, ou seja, seu desejo de alcançar uma salvação individual, que abrangesse apenas ela e não os outros”. O autor ainda diz que Dostoievski iguala a mulher má da lenda e o monge citado, que era um grande santo. Pois o monge, já morto, aparece em sonho a um dos irmãos Karamazov e lhe diz que está no paraíso somente porque um dia ele também “deu uma cebolinha”.
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 51 Walter Hilton, um grande místico cristão inglês do século 14, fala muito sobre humildade e amor. Sobre humildade, ele diz: “Quem possui essa única virtude, possui todas as outras”. A humildade é a chave; nada vale possuir todas as outras virtudes sem ela. Aliás, a ênfase nas virtudes soa estranha aos nossos ouvidos. Os pregadores dificilmente abordam a questão, e é por isso que a igreja evangélica nos causa tanta vergonha, pois não ensinamos o cultivo das virtudes. Walter Hilton acrescenta: “Se quiser construir um edifício alto de virtudes, coloque primeiro um alicerce profundo de humildade. Ela preserva e guarda todas as outras virtudes”. Ou seja, se não houver humildade, você pode até construir um edifício alto de virtudes; porém, no primeiro tremor de terra, seu edifício ruirá. Já vimos muitos exemplos disso e muitas vezes percebemos a mesma tendência em nós. “Sem a humildade, quem tenta servir a Deus tropeçará como um cego”. Há aqui uma mensagem para o cristão envolvido em ação social: “Meditar constantemente na humildade de Cristo ajuda a destruir os pecados graves e implantar as virtudes”. Isto é, ler constantemente sobre a humanidade humilde de Cristo nos evangelhos. “Vista a semelhança de Cristo, ou seja, a humildade e o amor. Sem isso, nenhuma obra o fará semelhante ao Senhor.” “Aprenda comigo”, diz Cristo, “não a andar descalço, ou a jejuar quarenta dias no deserto, ou a escolher discípulos, mas aprenda comigo a humildade. Este é o meu mandamento, que se amem uns aos outros como eu os amei. Nisso os homens saberão que vocês são meus discípulos, não porque operam milagres, expulsam demônios ou pregam e ensinam.” Concluindo, mais uma frase do monge de Dostoievski: “Pergunta-se por vezes, sobretudo em presença do pecado: ‘É preciso recorrer à força ou ao amor humilde?’. Não empregueis jamais senão esse amor; podereis assim submeter o mundo inteiro. A humildade cheia de amor é uma força tremenda, sem nenhuma outra igual”. O alicerce profundo da humildade amorosa é uma força tremenda! Que a identidade evangélica seja cada vez mais marcada por essa característica. Nota * 2ª parte da palestra apresentada no 5º Congresso Nacional RENAS, em Recife, em agosto de 2010. Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.
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    52 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Brasil:um protestantismo neoanabatista? S amuel Escobar, um dos fundadores da Fraternidade Teológica Latino Americana (FTL), escreveu sobre a “anabatistização” do protestantismo do nosso continente, não importando a denominação. Não é só o fato de apenas aqui as igrejas evangélicas rebatizarem católicos romanos e ortodoxos orientais, contrariando os reformadores e sua prática em outros continentes. Trata-se do anabatismo como ideologia, formada a partir da Reforma Radical, com desdobramentos históricos. Vejamos suas marcas. 1. A “apostasia da igreja” como leitura histórica. Da morte de João ao nascimento de Lutero, tudo o que a igreja fez foi errado e a fez se afastar de sua “pureza” original. Isso se chocava com a Primeira Reforma (Lutero, Robinson CavalcantiREFLEXÃO apostólica nem o consenso dos fiéis, e querem reinventar a roda, em sua superficialidade. 4. Uma eclesiologia dualista e minimalista. Um dualismo neoplatônico entre organismo (bom, de Deus) e instituição (má, dos homens), entre “igreja invisível” e “igreja visível” que, em uma concepção minimalista, é a “igreja local” (congregação), crendo em uma Igreja de Jerusalém regida pelas regras parlamentares de Westminster. Um conjunto dessas “igrejas locais”, com suas peculiaridades, forma uma “denominação” (conceito novo e extrabíblico), com a demonização das organizações históricas, a negação dos sacramentos e o desprezo pela hierarquia ministerial. 5. Iconoclastia. Rejeição de toda a arte sacra: arquitetura, escultura, pintura, símbolos, vestes, ritos. O inestético Cranmer) e a Segunda (Calvino), que consideravam os velhos corpos cristãos não-reformados, a despeito de seus “erros, desvios e superstições”, autênticas expressões do Corpo de Cristo. Essa ideologia desqualifica quinze séculos de história e retira dela a presença do Espírito Santo. 2. O “restauracionismo” como princípio re-fundante. Se todo o passado foi de erros, o novo grupo vai “restaurar” a pureza da igreja, segundo entende (séculos depois) o que era a igreja primitiva. Temos tido ciclos de expressões restauracionistas, dentro do espectro da igreja, na fronteira (adventismo) e fora dela (Testemunhas de Jeová). 3. O “presentismo”. C. S. Lewis denuncia as gerações que, movidas por um sentimento anti-histórico, não levam em conta a tradição GeorgeCrux
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 53 é o espiritual; a informalidade, a recuperação da pureza. A psicanálise tem estudado a relação entre neuroses e rejeição à arte, por repressão ao prazer. O “teológico” como fachada para o psicológico. A ideologia anabatista perpassou vários momentos na história da igreja, desde os “entusiastas”, encontrados (e combatidos) no luteranismo e no anglicanismo do século 16, ao menonismo de vários matizes (Amish, huteritas), o pietismo, os Quackers, os Irmãos Livres (Irmãos de Plymouth), o “Pequeno Rebanho” (Watchman Nee/ Witness Lee) e suas “igrejas locais”, “igrejas sem nome”, “comunidades evangélicas”, “igrejas nos lares” (House Churches), igrejas emergentes e novas iniciativas. Algumas dessas expressões se pretendem pós-denominacionais, ou não-denominacionais (são apenas variações de igrejas batistas e/ou pentecostais), sem usar esse título, outras mantêm vínculos mínimos, ou estão “hospedadas” nas igrejas históricas ligadas a movimentos ou redes de ideologia de fundo anabatista, que poderíamos denominar de neoanabatismo. Algumas mantêm uma ênfase nas doutrinas históricas, outras afirmam que “as pessoas querem saber de vida e não de doutrinas”, havendo até quem negue o apóstolo Paulo e se resuma à pretensa radicalidade do reino, aos ensinos de Jesus. Uma das marcas do neoanabatismo contemporâneo foi herdada do liberalismo: tornar o evangelho palatável para o homem pós-moderno, como aqueles pretendiam fazer para o moderno. A cultura secular termina por impor a agenda da igreja, na linguagem, nos métodos, nas abordagens e no próprio conteúdo. “O homem pós-moderno não aceita essas coisas. Não faz sentido.” Um setor tem a preocupação em estabelecer “igrejas locais” para as tribos urbanas. E se esses jovens amadurecerem? Billy Graham, sem menosprezar a importância da comunicação transcultural, diz que atrás de qualquer “casca” está um pecador que necessita se arrepender e depositar a sua fé em Jesus Cristo, e que para todas as culturas há um eterno evangelho a ser anunciado. Será que as pessoas mais refinadas, artisticamente sensíveis, terão de ficar presas aos extremos da idolatria e da iconoclastia, sem lugar para uma igreja reformada valorizadora da história, do consenso dos fiéis, da reverência e da beleza na adoração, incluindo os símbolos e a liturgia? Quem rejeita a idolatria está condenado ao empobrecimento estético, à iconoclastia do presentismo informalista? O pretensamente “novo” não é apenas um remake de velhas iniciativas. O neoanabatismo é um fenômeno crescente, que atinge, mais ou menos, todas as denominações, como rolo compressor em nosso continente e nosso país. Os histórico- estéticos, porém, insistem em sua identidade. As outras expressões do protestantismo, histórico- estéticas, continuam a afirmar outras alternativas para a fé reformada. Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo— desafios a uma fé engajada. www.dar.org.br O neoanabatismo é um fenômeno crescente, que atinge, mais ou menos, todas as denominações, como rolo compressor em nosso continente e nosso país
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    54 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 M orre mais um ano. Parecidíssimo com os demais, os meses desta década vieram marcados por tragédias que se misturaram com poucas alegrias. Rio de Janeiro e Haiti se misturaram às dores dos alagoanos. O sofrimento de tantos miseráveis clamou em alto e bom tom: a humanidade não pode esquecer-se de que o preço de um possível descontrole ambiental será altíssimo. O conflito iniciado pelo Ocidente, que tenta esvaziar a agenda fundamentalista muçulmana, parece não ter fim. Mais uma vez a história lembra que é mais fácil começar uma guerra que terminar. Com a queda de alguns mitos da modernidade, o mundo padece de uma enxaqueca histórica. Não se acredita mais no progresso sem limite nem na agenda consumista do neoliberalismo. Sobrou uma ressaca, que imobiliza os ideais e as ações transformadoras da história; ressaca que alguns chamam de pós- modernidade. Se a alternativa da alienação não convém, parece que não há vigor para sonhar na reconstrução de outro mundo possível. Porém, sonhar é preciso. Nossos filhos e filhas não merecem herdar um mundo onde impera o desdém. Trabalhemos pelo alvorecer de um novo dia em que os rios não poluam os oceanos; os peixes não morram asfixiados em águas podres; o raiar do sol seja menos abrasador, pois homens e mulheres conscientes restauraram as camadas estratosféricas porque adquiriram uma nova consciência ecológica. Aguardemos o dia em que novas leituras do Gênesis devolvam a humanidade à sacralidade do jardim e todos se comprometam a cuidar da criação, recompondo a natureza, que geme devido à insanidade do pecado. Trabalhemos pelo despontar de um novo tempo em que se acabarão as fronteiras entre países, os muros étnicos e as cancelas rodoviárias; em que nos guichês de passaporte o pobre não seja impedido de procurar fugir de sistemas iníquos e o doente Ricardo GondimREFLEXÃO encontre o hospital que salvará a sua vida. Trabalhemos pelo futuro quando espadas serão transformadas em arados. Procuremos ressignificar a esperança de que os bilhões de dólares gastos com armas e bombas sejam relocados em tratamento de esgoto, que aumenta a expectativa de vida de milhões de crianças. Repitamos: é possível acreditar que as fortunas desperdiçadas em cassinos sejam úteis em pesquisa pela erradicação da malária. Esforcemo-nos por esboçar outra realidade, em que se considera inadmissível uma bolsa custar mais que dois anos de salário de um operário. Trabalhemos para que surjam muitas Madres Teresa de Calcutá em diversos continentes, todas empenhadas em acolher os moribundos. Sonhemos com mais profetas como Martin Luther King — e que eles não sejam exceção rara. Concebamos que as penitenciárias políticas serão implodidas e que ninguém jamais seja preso por pensar Sonhos e utopias (im)possíveis AlessandroPaiva
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 55 diferente. Criemos um mundo em que os instrumentos de tortura se tornem peças macabras de museu e que não reste nenhuma ilha onde se maltrata outro ser humano em nome de ideologia, religião ou regime político. Trabalhemos para que deixem de existir corregedorias, grampos telefônicos e espiões e que seja proibido bisbilhotar a privacidade das pessoas. Contribuamos para que o mundo se liberte das delações traiçoeiras contra o próximo. Convençamos os nossos filhos que é dever de todo homem e de toda mulher proteger o seu irmão. Esforcemo-nos para que os orfanatos não precisem manter as crianças por muito tempo porque as filas de adoção se multiplicaram; também, que os idosos nunca fiquem esquecidos em clínicas, à espera da morte. Trabalhemos para que se multipliquem as orquestras e que os prefeitos construam coretos em todas as praças; e que as famílias se reúnam nos fins de semana para ouvir a apresentação vespertina de música. Não deveria ser considerado um delírio esperar que se projetem bons filmes em vilarejos e em cidades remotas. Oxalá bibliotecas ambulantes distribuam poesia para os tristes e boa literatura para os sonhadores; que escolas treinem bons malabaristas para a alegria das sextas-feiras e que mais trapezistas desafiem a gravidade nos picadeiros. Trabalhemos para que os experimentos com células-tronco deem certo, e que muito em breve os tetraplégicos sejam curados e saltem como gazelas pela vida. Incentivemos quem trabalha no Projeto Genoma; e que eles terminem de mapear a estrutura da vida biológica para que se reduza o número de crianças com doenças genéticas. Trabalhemos para que o turismo sexual seja banido e extinto entre os povos; que a pedofilia se torne um anacronismo; que se desarticulem os cartéis de droga — o tóxico tem que parar de ceifar vidas, já que, um dia, pouquíssimas pessoas precisarão entorpecer a mente para tolerar a vida; os êxtases virão do encontro com a beleza, a bondade e a solidariedade. Trabalhemos por um novo céu e uma nova terra. Todavia, reconheçamos que esse porvir não acontecerá enquanto a humanidade tolerar o pressuposto da sobrevivência do mais forte, ou da exclusão racial e da discriminação social. Optemos pelo legado de sabedoria que nossos pais nos deixaram, que nos convoca a construir a história. Incumbidos por Deus de promover o bem, represar o mal e disseminar a justiça, acreditemos que o futuro chegará de acordo com a semente que plantarmos no presente. O futuro que ansiamos nascerá tanto de nossas mãos como de nossos ouvidos. Primeiro, ouçamos as verdades e os princípios eternos que Jesus nos ensinou. Depois, arregacemos as mangas. A vida espera por nós. Nossos filhos e netos não podem correr o risco de sermos negligentes ou apáticos. Qualquer hesitação pode redundar em desastre. Já é tarde! Soli Deo Gloria. Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br O futuro chegará de acordo com a semente que plantarmos no presente
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    56 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 N a sala pequena a conversa é intensa. Em pouco tempo chegamos a assuntos profundos. “Você não faz ideia do que este país passou e do que o regime comunista e ateu fez com esta gente!”, diz o missionário inglês, com a firmeza e a espontaneidade de quem se sente em casa em Esbalan, no nordeste da Albânia. E ele tem razão. Fico tentando entender o drama pelo qual o país passou em sua história recente e o seu processo de transformação nestas duas últimas décadas. A história da Albânia é antiga. Só em 1912 eles se libertaram da longa ocupação otomana que transformara o país cristão em muçulmano. Porém, em 1944, eles voltavam a outro império, dessa vez o soviético. Sob a liderança de Enver Hoxha, que ficou no poder até falecer, em 1985, a Albânia passou a ser uma “ilha” totalitária na qual nem o bloco soviético, com o qual rompeu em 1967, nem a China, com a qual rompeu em 1978, eram suficientemente radicais em sua vivência do comunismo. Foi Hoxha quem suprimiu toda e qualquer estrutura e expressão religiosa no país, declarando-o o primeiro estado ateu do mundo. A liderança que o substituiu procurou introduzir algumas medidas liberalizadoras, mas não subsistiu às consequências e à influência da queda do império soviético e à mediática queda do muro de Berlim. Assim, quando as fronteiras foram abertas, em 1991, instituiu-se um novo regime REDESCOBRINDO A PALAVRA DE DEUS Valdir Steuernagel Deus dá testemunho de si mesmo
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 57 aos 14 anos que, escondida, ela começou a frequentar uma igreja. E só mais tarde, já universitária, começou a aproximar- se da Bíblia de forma mais inteira e compreensiva. De queixo caído e com o coração palpitando de alegria, eu disse: “Você é uma menina bem-aventurada!”. Estava impactado pela forma como Deus se revela e como ele faz isso com graça, amor e convicção. Eu tinha ouvido falar de revelações de Deus em sonho, mas nunca havia encontrado alguém com tal experiência. Agora, porém, diante do testemunho de Erisa, eu só queria e podia ficar encantado com o próprio Deus. Claro que nem sempre é assim. Aliás, isso é raro. Normalmente, Deus usa gente como você e eu para dar-se a conhecer e o faz pelo encontro com o evangelho de Jesus Cristo, intermediado pelo Espírito Santo. Porém, é muito bom saber que ele não depende de nós para se revelar onde e como quiser. Há algum tempo venho escrevendo sobre o chamado de Jesus para sermos testemunhas dele. Durante a viagem à Albânia, vi um pouco mais de como Deus é o maior interessado em se dar a conhecer a todos nós e como ele faz isso de formas ricas e diversas. Graças a Deus, ele dá testemunho de si mesmo e o faz com muita beleza, intensidade e clareza. Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas. Anúncio político e a população vivenciou níveis desconhecidos de liberdade. O mais intrigante é que, apesar de décadas de ensino e controle ateísta e do aniquilamento radical de qualquer sinal religioso, hoje a população é descrita em termos religiosos, embora com dados antigos e desatualizados. Assim, 70% da população é muçulmana, 20% ortodoxa e 10% católica. Já a igreja evangélica, com expressões diversas, é bem pequena e tem menos de 20 anos de idade. Onde estão os ateus? Os convertidos ao ateísmo por um estado forte, controlador e violento? Eles existem, é claro. No entanto, o anseio e a necessidade espiritual vieram à tona assim que possível. Eclesiastes 3.11 diz que Deus “pôs no coração do homem o anseio pela eternidade”; e o homem, quando pode, expressa sua busca por Deus de várias maneiras e formas religiosas. Por algum tempo, a inexistência de Deus pode até ser declarada, imposta e proclamada por regimes, instituições e filosofias; porém, assim que uma janela se abre ou uma porta deixa fresta, as pessoas saem em busca de conhecer e pertencer, como nós cristãos dizemos, ao Deus que nos criou, nos sustenta e se revela com amor em Jesus Cristo. Deus é o maior interessado em revelar-se a nós, pois sabe que necessitamos dele de forma existencial e visceral. Ele é a nossa vida e a razão da nossa coexistência comunitária. Há sinais do interesse de Deus em se dar a conhecer e em dar às pessoas a oportunidade de descobrir que aquilo que anelavam e buscavam está no conhecimento e na relação de amor com ele mesmo. No último domingo que Silêda e eu passamos na Albânia, fomos a uma igreja no sul do país, acompanhados por duas funcionárias da Visão Mundial. Erisa era uma delas — uma jovem bonita e inteligente. Quando perguntei a ela como havia chegado à fé cristã, ela me disse com naturalidade: “Eu tive um sonho!”. Claro que a minha racionalidade e a bem alimentada suspeita estranhou: “O quê?”. “Eu tive um sonho”, ela repetiu. E nos contou a história. Nascida numa família nominalmente muçulmana, praticante de um islamismo típico do país, ela sofria com pesadelos noturnos. Um dia alguém que visitava sua casa lhe sussurrou ao ouvido, para que seu pai não ouvisse, que ela invocasse o sangue de Jesus ao ter pesadelos. Erisa começou a fazer isso e certa noite sonhou que alguém, cujo rosto ela não via, lhe estendia as mãos e dizia que a amava. Quando acordou, na manhã seguinte, ela saiu correndo pela casa, dizendo a todo mundo que era cristã. Ela tinha 8 anos e por um bom tempo continuou a afirmar sua identidade cristã, apesar dos protestos e da suspeita dos pais. Foi só Deus é o maior interessado em se dar a conhecer e ele faz isso de formas ricas e diversas
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    58 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 Afastamento Ao longo dos séculos, muitos cristãos têm optado por se distanciar da esfera pública, dos círculos de poder e influência relacionados com o estado e a atividade governamental. No período antigo e na Idade Média, um bom exemplo disso foi o monasticismo. Aqueles que abraçavam a chamada vida consagrada renunciavam explicitamente ao envolvimento político para se dedicar a atividades contemplativas. No período da Reforma, houve o caso dos anabatistas, que tinham entre seus princípios fundamentais o não envolvimento com a esfera política. Os partidários desse movimento protestante não exerciam cargos públicos, não faziam juramentos cívicos, não participavam das forças armadas e defendiam a mais absoluta separação entre a igreja e o estado. Monges e anabatistas justificavam a sua posição isolacionista afirmando que o envolvimento político era corruptor e prejudicial para a verdadeira espiritualidade. Os cristãos fariam bem em se manter distantes de um terreno em que a venalidade, Cristãos e política: uma relação imprescindível HISTÓRIA Alderi Souza de Matos A cabamos de sair de um processo eleitoral que impactou intensamente a opinião pública. Deixando de lado certas posições históricas, os evangélicos brasileiros se envolveram de modo inusitado com os grandes temas em debate. A internet foi palco de manifestações profusas e candentes por parte dos mais diversos líderes e grupos religiosos. A igreja católica adotou posturas firmes e incisivas em relação a certos valores essenciais que considera ameaçados. Em meio às grandes diferenças nos posicionamentos, surgiu um consenso muito evidente. Não é mais possível ficar indiferente ao debate político e ao processo político, porque ele produz consequências que afetam a todos. Os acontecimentos dos últimos meses têm levado os cristãos de todos os matizes a uma reflexão séria sobre a relação entre igreja e estado, fé e política. Quando se olha para a história, é possível ver algumas posições bastante distintas quanto a essa questão. as intrigas e as lutas pelo poder eram quase inevitáveis. O problema é que, com esse afastamento, eles perdiam a oportunidade de exercer sua influência cristã nessa área tão decisiva. A Escritura certamente não autoriza essa atitude de isolamento, exortando os crentes a participarem ativamente da vida de suas comunidades. Alguns dos personagens bíblicos mais destacados foram homens e mulheres públicos notáveis que deram valiosas contribuições às suas sociedades. José, Débora, Davi, Salomão, Josias, Daniel, Ester e Neemias são bons exemplos. Subserviência Ao longo da história da igreja, os cristãos muitas vezes têm se envolvido com os poderes constituídos ou se submetido a eles, por interesse ou por imposição. No antigo Império Bizantino, os soberanos controlavam fortemente a igreja oriental ou ortodoxa, situação essa conhecida como “cesaropapismo”. Quem tentava resistir a isso, como o destemido bispo João Crisóstomo, que viveu em Constantinopla na passagem do quarto
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 59 Conclusão Neste período de transição governamental, o Brasil vive dias de expectativa e apreensão. Ao lado de valiosas conquistas sociais, da estabilidade e pujança da economia e de maior presença no cenário internacional, alguns comportamentos da administração que se encerra, alguns objetivos programáticos do partido no poder e alguns projetos de lei em debate no Congresso Nacional têm produzido motivos justos de preocupação, tanto para os cristãos, como para a coletividade em geral. É necessário que haja a continuação e aprofundamento do debate sobre temas candentes, como o aborto, a homofobia, a ética na política, as relações internacionais e as liberdades de consciência e de expressão, sem jamais esquecer-se da luta em prol da justiça social, da criação de uma sociedade mais fraterna. Os cristãos têm muito a dizer sobre essas questões porque elas fazem parte das suas preocupações desde o início e dizem respeito às convicções e valores mais profundos de sua fé. Todavia, sua voz somente será ouvida se saírem de seus guetos eclesiásticos e participarem corajosamente das lutas de uma sociedade em transformação, correndo riscos sim, mas crendo no poder transformador do evangelho não só para os indivíduos, mas para as nações. Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. asdm@mackenzie.com.br Envolvimento crítico Muitos cristãos de diferentes persuasões confessionais têm adotado uma posição intermediária e mais saudável em contraste com as anteriores. Evitando tanto o isolamento quanto o servilismo, eles têm procurado viver plenamente as suas vidas em sociedade, participar das oportunidades e angústias da atuação cívica e política, mas ao mesmo tempo mantendo suficiente espírito crítico que lhes permita um posicionamento profético em relação a qualquer partido, sistema ou regime vigente. O exemplo do bispo João Crisóstomo já foi mencionado. Essa também foi a postura do reformador João Calvino. Havia forte interação entre igreja e estado na Genebra do século 16; todavia, quando esse líder religioso sentiu que os governantes estavam violando princípios claros da Escritura e da fé cristã, ele não se intimidou em censurá-los. No início da sua carreira, tal atitude resultou na sua expulsão daquela cidade suíça. O envolvimento dos cristãos com a esfera política e partidária sempre será uma faca de dois gumes. A tentação de obter vantagens pessoais e corporativas em detrimento do bem coletivo está sempre presente. A possibilidade de usar o poder político e econômico como instrumento de dominação e manipulação é uma constante. Por outro lado, existem maravilhosas oportunidades de trazer sanidade, integridade e altruísmo a um campo tão marcado pela corrupção humana. Multiplicam-se na história exemplos de cristãos que fizeram de sua atuação pública um verdadeiro sacerdócio, beneficiando grandemente os seus contemporâneos. Foi o caso do parlamentar William Wilberforce em sua luta contra o tráfico escravagista na Inglaterra do século 18. Foi o caso do primeiro-ministro Abraham Kuyper na Holanda do início do século 20. Foi também o caso do pastor Martin Luther King em sua defesa dos direitos civis dos afroamericanos. para o quinto século, podia sofrer graves consequências. Na época da Reforma, houve o fenômeno do erastianismo (de Tomás Erasto, seu defensor), que se manifestou no forte controle da igreja pelo estado em diversas nações protestantes. Em países católicos ocorreram os fenômenos paralelos do padroado e do regalismo. Com sua ênfase na separação das esferas civil e religiosa e sua grande reverência pelos governantes seculares, os protestantes alemães correram por vezes o risco de ficar passivos diante da tirania, como ocorreu no período nazista. O pastor Dietrich Bonhoeffer e outros líderes pagaram com a perda da liberdade ou da vida a sua resistência contra esse sistema iníquo e diabólico. A subserviência ao estado ou ao poder político pode adquirir formas sutis e perigosas. Em contextos altamente ideológicos, como a América Latina contemporânea, muitos cristãos têm assumido compromissos questionáveis com partidos e regimes políticos marcados por tendências autoritárias e violações das liberdades democráticas. Os cristãos precisam entender que contrair vínculos sem reservas com qualquer grupo ou líder político é uma forma de idolatria que viola a integridade do evangelho. Só Jesus Cristo é Senhor supremo da vida e da consciência. Esse é um alerta necessário numa época em que lideranças messiânicas e populistas novamente seduzem as massas de muitos países, fazendo com que se esqueçam das lições da história. A voz dos cristãos somente será ouvida se saírem de seus guetos eclesiásticos e participarem corajosamente das lutas de uma sociedade É necessário que haja a continuação e aprofundamento do debate sobre temas candentes, sem jamais esquecer-se da luta em prol da justiça social, da criação de uma sociedade mais fraterna
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    60 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 isso tem implicações na maneira de tratar questões culturais, tradições e crenças que interagem intimamente com o dia-a-dia das pessoas. O mesmo acontece com a eclesiologia e com a teologia sacramental. Missionários bem capacitados precisam de uma base sólida na teologia, que determina o conteúdo que será levado, e teólogos aprimorados precisam de uma formação missiológica, que os orientará em como e quando o conteúdo deve ser oferecido. Essas concepções ou doutrinas determinam a base de nossa missiologia, que consequentemente norteia a missão. “Se queremos enviar missionários cristãos, eles devem conhecer e viver o verdadeiro cristianismo revelado por Deus na Palavra. Com esta finalidade, a Bíblia deve se tornar o foco e o fator integrante de todo o ensino teológico e missiológico.”² A teologia certamente intermedia a mensagem evangélica para os homens em todos os tempos. No entanto, ela não pode exercer essa mensagem com excelência sem utilizar os recursos que a missiologia oferece, pois esta é como as sandálias que a teologia calça, é como a voz na boca da teologia. Assim, concordamos com a natureza eclesiástica da teologia. E que a teologia é o autoexame da igreja e a missiologia rege a prática da igreja, ou seja, o que fazemos em relação à Missio Dei (Missão de Deus)! Pela mesma causa T eologia para pastores e teólogos, missiologia para missionários. Essa “separação” entre a teologia e a missiologia ou formação missionária tem sido comum. Na verdade, esse tem sido um pensamento equivocado em relação às duas áreas — ensino e prática. Bárbara Burns diz que “o missionário que não experimentou formação do caráter no lar e na igreja, e que não teve a oportunidade de passar por um currículo abrangente numa escola de treinamento teológico e missiológico, tem desvantagens a superar no campo”.¹ Por outro lado, líderes e pastores que não tiveram uma preparação adequada em missiologia têm dificuldades em considerar como parte de seu ministério os projetos de despertamento missionário, apoio emocional, espiritual e financeiro a membros que se dispõem a servir a Deus como missionários de forma parcial ou integral. A teologia e a missiologia estão casadas pela mesma causa, estão alicerçadas sobre a Bíblia e existem não apenas para proporcionar boas reflexões, mas também para que, acima de tudo, a Boa Nova seja proclama a toda criatura. A teologia que usamos define o Deus que levamos e pregamos. O Deus que pregamos e levamos define a nossa teologia. A nossa soteriologia define a maneira como levaremos a questão da salvação para os povos e Por essa razão, todo o treinamento ou formação para pastores, teólogos, missiólogos e missionários deve envolver a teologia e a missiologia, pois ambas existem primeiro para a glória de Deus, e depois como ferramentas em nossas mãos para uma boa, eficiente e contextual proclamação da Palavra de Deus. ...a fim de que toda língua declare que Jesus é Rei, para a glória do seu nome! Notas 1. BURNS, Bárbara. Capacitando para Missões Transculturais, n. 6, p. 3. 2. Idem, n. 1, p. 62. Eunice Nalamele Alberto Chiquete, casada, duas filhas, é angolana e cursa mestrado em missiologia em Viçosa, MG. CAMINHOS DA MISSãO Eunice Nalamele Alberto Chiquete A teologia que usamos define o Deus que levamos e pregamos. O Deus que pregamos e levamos define a nossa teologia JohnNyberg
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 61 3 º Congresso Lausanne de Evangelização Mundial reúne mais de 4 mil pessoas na África do Sul Especial O maior congresso O maior congresso evangélico, com 4.200 participantes e mais de 100 mil pessoas acompanhando pela internet, começou na tarde de domingo, 17 de outubro, na Cidade do Cabo, na África do Sul. A audiência via internet foi maior do que na Copa do Mundo de Futebol, que aconteceu entre 11 de junho e 11 de julho. O tema “Deus reconciliando consigo o mundo”, baseado em 2 Coríntios 5.19, estava estampado em oito idiomas nos cadernos dos participantes, nas faixas e nos telões. A palavra introdutória foi do presidente executivo do Movimento Lausanne, Doug Birdsall. À noite, na abertura oficial, houve apresentações de dança, teatro e música dirigidas por artistas africanos. Os hinos entoados enfatizaram o senhorio de Cristo, o teatro mostrou situações de dificuldades na evangelização em cada continente e um documentário em vídeo contou a história resumida do cristianismo, do Pentecostes ao Congresso de Edimburgo, em 1910. A novidade do Congresso foi a plateia. Organizados em 650 grupos de seis pessoas, os milhares de presentes reuniram-se de forma mais pessoal por quase 2 horas diariamente. Compartilharam suas histórias e expectativas e oraram juntos durante toda a semana. Esta foi a tônica metodológica do evento: não um grupo seleto de preletores, mas centenas de diálogos intencionais e programados sobre o conteúdo apresentado. Muitos líderes de mesa (pequenos grupos) ficaram impressionados com a comunhão entre os participantes. As expectativas sobre o congresso eram diferentes para cada um. Os comitês encarregados da seleção dos participantes tiveram de seguir à risca os critérios. Assim, havia a presença não só dos líderes, mas também de jovens, mulheres, leigos e homens de negócios. A delegação do Brasil era composta por cerca de noventa pessoas de diferentes denominações e regiões do país. Além destes, outros sete brasileiros estavam entre os voluntários e cerca de vinte, que moram em outros países, vieram com suas comitivas. O bispo anglicano Robinson Cavalcanti foi o único brasileiro que participou dos três Congressos Lausanne. John Stott e Billy Graham enviaram suas saudações pessoais, comprometendo- se a orar todos os dias do evento. Ao refletir sobre as imensas mudanças que ocorrem no mundo, Billy Graham escreveu de sua casa, na Carolina do Norte, Estados Unidos: “Uma das tarefas que terão durante o Congresso será analisar essas mudanças e avaliar o impacto delas na missão para a qual Deus nos chama hoje”. Verdade e perseguição religiosa O segundo dia do congresso teve como ênfase a importância da verdade frente à tendência ao relativismo na sociedade contemporânea. O teólogo chinês Carver Yu reconheceu a pluralidade, por Lissânder Dias com colaboração de Klênia Fassoni Lausanne 3 em números 198 países representados 100.000 espectadores e 700 sites retransmitindo o evento ao vivo em 96 países 8 idiomas contemplados na tradução de todo o material do congresso 70% dos participantes provenientes da África, Ásia e América Latina 30% dos participantes provenientes da América Anglo-saxônica e Europa 40% dos participantes com idade de 20 a 40 anos 1/3 dos participantes são mulheres 1.200 missionários 1.200 pastores 1.200 acadêmicos ou leigos 600 participantes ligados a empresas, governo, ministérios e meios de comunicação 50% dos participantes receberam algum tipo de bolsa 16,5 milhões de dólares foi o custo do congresso Fonte: www.virtueonline.org Coral de vozes africanas canta na abertura do congresso ©TheLausanneMovement
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    62 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 mas combateu o pluralismo: “O pluralismo é uma ideologia que proclama que a verdade é uma construção cultural válida somente para a cultura que a construiu”. O teólogo alemão Michael Herbst lembrou que a verdade é uma pessoa: “Olhar para Jesus é buscar a verdade”. O escritor Os Guinness ressaltou que, embora o conteúdo da Bíblia pareça indecente para o mundo moderno, ele é fundamental pelas seguintes razões: honra ao Deus da verdade, equilibra emoção e razão, avança em favor da humanidade, fundamenta a proclamação da fé, combate a hipocrisia e o mal e nos ajuda a crescer na transformação em Jesus Cristo. Os cânticos em várias línguas marcaram os momentos diários de louvor comunitário. Para Carlinhos Veiga, foi “uma pequena mostra do que será a eternidade, com pessoas de vários países, cada qual com suas vestes típicas e características culturais. Um grande coro de adoração se formou naturalmente — isso me fez lembrar como a música é um elemento comum ao povo de Deus em todo o mundo, como é a linguagem dessa família de fé”. O expositor da manhã foi o teólogo de Sri Lanka, Ajith Fernando, que a partir de Efésios 1 afirmou que a salvação traz um conceito mais completo sobre Deus do que normalmente compreendemos. “Ver Cristo como alguém que supre as necessidades pessoais é um ponto inicial, mas não é tudo. Deus está marchando para a vitória final. Ele tem um plano, um propósito para o mundo. O evangelho é mais profundo, mais rico e maior do que a ideia de Deus suprindo as necessidades imediatas.” Nos pequenos grupos, os participantes puderam estudar o texto de forma indutiva. Todas as tardes os participantes podiam escolher vários seminários, com mais de um preletor cada, chamados “multiplex”. Eram oferecidas também dezenas de sessões específicas de diálogo (mais de 120 em todo o congresso). Tudo isso fez com que as temáticas diárias ganhassem abrangência e participação. O que foi um ponto forte para alguns, foi o contrário para outros, que lamentaram o não-aprofundamento dos temas. A noite foi dedicada a uma visão panorâmica de como Deus está movendo a igreja no mundo, em especial em contextos de perseguição e violência religiosa. Documentários em vídeo trouxeram histórias de perseguição a cristãos na Colômbia, na África Ocidental, no Oriente Médio, no Vietnã, no Uzbequistão, no Turcomenistão e no México. “Policiais vieram à igreja, esperando descobrir algo errado. Identificaram no conteúdo do sermão. Fui preso, mas pude compartilhar o evangelho na prisão. ©TheLausanneMovement Participantes organizados em mesas de diálogo
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 63 Trinta presos se converteram a Cristo”, disse, em vídeo, um pastor vietnamita. Os congressistas oraram juntos pela situação da igreja na China. Muitos chineses que participariam do congresso foram impedidos de sair do seu país. Reconciliação global e integral A reconciliação aplicada não somente à dimensão individual, mas também à global e integral foi a mais importante contribuição teológica do terceiro dia do Congresso na Cidade do Cabo — uma cidade ainda marcada pela recente história de discriminação racial da África do Sul. Ruth Padilla, presidente da Fraternidade Teológica Latino- Americana (FTL), enfatizou em sua exposição de Efésios 2 a obra de Jesus Cristo como base para a reconciliação e para a construção de uma comunidade reconciliadora: “Em Jesus Cristo, Deus cria uma comunidade. Os romanos classificavam as pessoas por categorias, por status, mas na obra reconciliadora de Deus todos somos da mesma comunidade. Somos templo santo de Deus”. Foi desafiador ouvir Joseph D’souza, Pranitha Timothy e Brenda Salter. Joseph falou sobre as castas na Índia e sobre as mulheres como vítimas da discriminação. Pranitha, uma jovem indiana de voz e porte físico frágeis, contou como lidera a International Justice Mission (IJM), organização que trabalha para libertar escravos, defendê-los judicialmente e oferecer ajuda emocional. “Deus quer trazer luz, por meio do seu Corpo, diante da escuridão dos donos de escravos. Devemos mostrar que nosso Deus é justo. Que ele abençoe os escravos.” (Veja uma entrevista exclusiva com Pranitha em www.ultimato.com.br.) A norte-americana Brenda fez uma autocrítica afirmando que o cristianismo nos Estados Unidos tem um problema de credibilidade. A palestina Shadia Qubtim e o judeu Daniel Sered relataram em seus testemunhos a dificuldade de vencer o ódio entre seus povos, mas demonstraram esperança. “A reconciliação tem me transformado, e transforma o meu inimigo”, disse Shadia em meio aos aplausos. “A única esperança para a paz no Oriente Médio é Jesus. Ore por isso”, pediu Sered. A segunda plenária do dia ficou a cargo de Antonie Rutaysire. Ele refletiu teologicamente sobre os erros das igrejas cristãs que contribuíram para a tragédia do genocídio em seu país, Ruanda, em 1994, quando 1 milhão de pessoas foram mortas em apenas 100 dias devido ao conflito entre etnias. Ele lembrou que o massacre aconteceu num país com 90% de cristãos e numa época em que a igreja estava crescendo. À noite, a programação foi dedicada à região do Oriente Médio e foi dirigida pelo pastor brasileiro Valdir Steuernagel. Líderes de países como Irã, Líbano, Palestina e Egito relataram como está a caminhada do cristianismo em suas regiões. A boa notícia é que o evangelho tem crescido em toda a região. A má notícia é que a perseguição religiosa também cresce, o que tem forçado muitos convertidos a fugirem de seus países, enfraquecendo assim o testemunho cristão. Os participantes viram e ouviram em vídeo a história de uma mulher explorada sexualmente no Camboja, mas que encontrou no cristianismo o caminho para o resgate de sua vida e dignidade. Em seguida, o público emocionou-se com a história de vida de uma moça da Zâmbia e de um homem da África do Sul. Ambos são soropositivos e contaram como Deus os tem ajudado a enfrentar a doença e o preconceito, e como eles têm “A teologia da prosperidade surgiu como resposta ao vácuo deixado pela falta da missão integral. Os pobres precisam saber como sobreviver até chegarem ao céu. Se não há missão integral, eles precisam da teologia da prosperidade” Pastor ugandense “O pluralismo é a mais dogmática de todas as ideologias” Carver Yu, teólogo chinês “O cinema é a nova igreja” Quentin Tarantino, citado no multiplex sobre mídia e missões “Muitas igrejas são como um ônibus. Têm um motorista, um cobrador e o resto” Vaughan Roberts “Os dons do Espírito são para todos, homens e mulheres. A evangelização é responsabilidade de todos” Elke Werner lutado em favor de outros contra o flagelo do HIV/aids. Ao final do dia, Steuernagel reconheceu: “Não foi um dia fácil. Deus nos chamou para percorrer um mundo ferido”. Evangelismo e relacionamento com outras crenças O quarto dia do Congresso trouxe à tona o relacionamento com outras crenças. O evangelismo foi a ênfase e nela o islamismo ganhou destaque. Para o arcebispo anglicano Benjamin Argak Kwashi, nigeriano, “o evangelho é poderoso como uma dinamite”. Mesmo assim, o risco da morte faz parte do trabalho de anunciar esse evangelho, como provou o emocionante testemunho de Libbie Little, viúva do missionário norte-americano Tom. Ele e seu grupo (incluindo dois afegãos) foram mortos em agosto no Afeganistão. Ele deixou notas do seu último sermão, no qual fala sobre o aroma do amor de Cristo, manchadas de sangue. Uma mulher convertida do islamismo testemunhou sobre como “o amor abundante de Jesus está trazendo os muçulmanos e, em especial as mulheres, para Deus”. Outros dois testemunhos relataram conversões do islamismo ao cristianismo. O apologeta Michael Ramsden falou sobre o exemplo de Paulo ao pregar aos gentios. Já Ziya Meral abordou as falhas que atrapalham a igreja ao lidar com o Islã. Falta entender corretamente o pensamento do mundo moderno e o tempo de transição do século 20 para o 21. “A igreja global tem de dar testemunho de que ama a Deus.” O pregador John Piper fez a exposição bíblica do terceiro capítulo de Efésios. Ele destacou a necessidade de a igreja não se preocupar apenas como o sofrimento de agora, mas também com o da eternidade, referindo- se aos que serão separados de Deus. Enfatizou a grandeza do propósito de Deus para o mundo e sua multiforme sabedoria para a igreja. “Deus não é tribal. Ele é universal.” A programação da noite foi dedicada ao continente latino- americano e à questão das megacidades. O ponto alto foi a
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    64 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 conversa entre René Padilla e Samuel Escobar. Eles relembraram Lausanne 1 (1974) e apontaram três preocupações que deveriam ser mais bem exploradas no congresso: 1) o evangelismo como a tarefa de fazer discípulos e não simplesmente convertidos; 2) a globalização e seus efeitos sobre milhões de pobres; 3) e o sistema econômico e sua destruição do meio ambiente. Quanto ao tema das megacidades, a reflexão ficou a cargo do norte-americano Tim Keller, pastor da Redeemer Presbyterian Church em Nova York e autor do best-seller The Reason for God. Definição de prioridades Após um dia de descanso para os participantes, a proposta do sexto dia era responder quais as prioridades da evangelização. Os vídeos e os testemunhos pessoais mostraram alguns problemas sérios desta geração (drogas, aids, violência etc.) e como as igrejas têm enfrentado tais questões. Vaughan Roberts, do Reino Unido, explorando o texto de Efésios 4.1- 16, refletiu sobre o significado da unidade da igreja: “A unidade de Cristo não pode ser criada, é uma ação do Espírito. Por meio da verdade do evangelho, do Espírito, somos o Corpo de Cristo. Deus pede que vivamos de maneira digna da vocação a que fomos chamados. As divisões não são por diferenças teológicas, mas por orgulho”. Paul Eshleman, dos Estados Unidos, enfatizou estatísticas de grupos etnolinguísticos sem acesso às Escrituras. “Ainda há grupos entre os quais a igreja não está presente, nem se planeja estar. É absolutamente errado. Até quando vamos esperar? Podemos dizer que já basta.” A evangelização por meio de contadores de histórias foi a estratégia mais divulgada pelos preletores. À noite, o destaque foi a evangelização de crianças e jovens. Vídeos e apresentações teatrais mostraram a importância teológica da criança e a necessidade de anunciar as boas novas aos jovens. Integridade No sétimo dia o destaque foi a integridade como virtude essencial para a igreja cumprir a missão. O pastor queniano Calisto Odebe destacou os verbos levantar, sentar e andar no texto bíblico de Efésios 4.17–6.9 como expressão prática da vida cristã. Ele chamou a atenção também para a incoerência atual dos cristãos. “Alguns ministros tornaram-se artistas e vendem produtos sem relevância. Devemos ser autênticos, senão seremos confundidos com vuvuzelas, que só fazem barulho.” Já Chris Wright fez uma autocrítica da caminhada da igreja no mundo e destacou três virtudes essenciais: integridade, humildade e simplicidade. O contrário delas — sucesso, poder e ganância — ele considera idolatria. “Desde Abraão, Deus promete criar o seu povo para viver no caminho do Senhor, como testemunho para todas as nações. Muitos obstáculos prejudicaram isso. O maior, no entanto, foi o próprio povo, e não as outras religiões. Antes de buscar os povos não- alcançados, devemos nos ajoelhar e buscar a Deus”. No restante do dia, houve muitas críticas à Teologia da Prosperidade. À noite, a Eurásia foi a região em destaque. Ouvir que, depois de 20 anos, o evangelho está crescendo na Rússia foi uma surpreendente notícia. DarcyCairesJr Brasileiros que participaram do congresso
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 65 Encerramento e documento final O culto de encerramento do 3º Congresso Lausanne, na Cidade do Cabo, foi marcado pela forte tradição litúrgica anglicana, pela celebração musical e pela ênfase cristocêntrica. Cristãos de quase duzentos países foram, no último momento, mais uma vez comissionados para cumprir o chamado de Deus no mundo. A celebração da Santa Ceia, dirigida pelo arcebispo da Igreja Anglicana de Uganda, Henry Luke Orombi, marcou a busca por unidade — tema recorrente nos cinco dias do congresso. Os seis grandes temas — verdade, reconciliação, relacionamento com outras crenças, definição de prioridades, integridade e parceria — foram lembrados transversalmente no sermão de encerramento ministrado por Lindsay Brown, diretor internacional do Movimento Lausanne. Em sua homilia, ele deixou claro qual foi o centro de referência dos esforços do Congresso Lausanne: “Cristo é o centro da mensagem. Ele não é apenas um salvador, mas o único Salvador”. A liturgia contou com mais de vinte cânticos intercalados com orações e leituras comunitárias, e o culto foi encerrado com a Santa Ceia. Ver homens e mulheres com as faces e vestes diversas participando, em comunhão singela, do pão mergulhado no vinho deu aos presentes o sentimento de gratidão a Deus pelo privilégio de participar desse momento e perceber que a igreja global é maior e mais complexa do que podemos mensurar. O resultado concreto do 3º Congresso Lausanne é o “Compromisso da Cidade do Cabo”. O documento é uma declaração final do Movimento Lausanne a partir do congresso. A primeira parte é uma declaração de fé intitulada “Para o Senhor que amamos: o nosso compromisso de fé”. Com versão ainda provisória, enfatiza o verbo amar e compõe-se de introdução e dez seções. “Esta declaração foi firmada na linguagem do amor. O amor é a linguagem da aliança. As alianças bíblicas, antigas e novas, são expressão do amor redentor de Deus e da graça que alcança a humanidade perdida e a criação deteriorada. Em troca, elas pedem o nosso amor. O nosso amor se manifesta por meio da confiança, obediência e do compromisso apaixonado com a aliança do Senhor. O Pacto de Lausanne definiu a evangelização desta forma: ‘toda a igreja levando todo o evangelho para todo o mundo’. Esta continua sendo nossa paixão.” A segunda parte — o chamado — ainda está em fase de elaboração. Um grupo formado por oito pessoas (entre elas os brasileiros Valdir Steuernagel e Rosalee Veloso) vai trabalhar na redação do documento a partir das reflexões feitas no congresso. E agora? Em todo o congresso, os participantes foram desafiados a reproduzir o seu conteúdo e a participar da obra de reconciliação em Cristo em seus países. Você pode acompanhar no site www.ultimato.com.br novos artigos e notícias sobre os desdobramentos do evento. E a próxima edição de Ultimato (janeiro-fevereiro) trará como matéria de capa mais informação e muita reflexão sobre Lausanne 3. Se John Stott fosse conhecido no mundo todo apenas como teólogo, escritor e evangelista, já seria surpreendente. Porém, além disso e de ter sido indicado pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo, ele é também o presidente honorário do Movimento Lausanne e um de seus pioneiros. Aos 88 anos e com a saúde debilitada, Stott não pôde comparecer ao congresso. Mas fez questão de enviar uma mensagem a todos os participantes, que foi publicada em oito idiomas no informativo do congresso: “Tenho agradecido a Deus, durante todos esses anos, pelo crescimento do Movimento Lausanne desde 1974 e pela maneira como ele o tem usado para a sua glória. Agradeço ainda mais a Deus pelo crescimento da igreja mundial durante esses anos, principalmente nos grandes continentes do mundo em desenvolvimento. Alegro-me com a realização do Congresso na África e oro para que vocês partilhem ricamente a bênção de Deus sobre a igreja nesse continente, assim como a dor e o sofrimento do seu povo.” Apesar das limitações, John Stott mantém uma invejável lucidez e senso de humor — e realiza suas atividades com a ajuda de Frances Whitehead, sua secretária por mais de cinquenta anos. Após marcar gerações com livros como Ouça o Espírito, Ouça o Mundo (ABU editora), escreveu suas “palavras de despedida” em seu mais novo (e, segundo ele mesmo, o último) livro: The Radical Disciple: some neglected aspects of our calling (InterVasity Press, 2010). No Brasil, o livro será publicado pela editora Ultimato, em março de 2011, com o título O Discípulo Radical. Stott explica o que significa ser um discípulo radical de Jesus e explora oito aspectos importantes, mas negligenciados, do discipulado cristão: não- conformidade, semelhança com Cristo, maturidade, cuidado com a criação, simplicidade, equilíbrio, dependência e morte. Ele reflete sobre o significado de servir a Jesus sem reservas e deixá-lo dirigir nossa vida, cumprindo assim a tarefa de levar adiante o espírito Lausanne. O discípulo radical ©TheLausanneMovement
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    66 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010 O veterinário Q uando pequeno, eu sonhava em ser tratado por um veterinário — um médico muito especial, que consegue descobrir e curar as doenças dos animais sem que eles falem uma só palavra. Que descobre sozinho o que há de errado com o paciente. Ah, que sonho! Eu tinha consciência da dificuldade em dizer o que havia de errado comigo. Mesmo para meus pais. Sabia apenas que havia coisas doentes e doendo. Porém, como explicá-las? Com que palavras? Como fazer isso se meu vocabulário era o de um menino de oito anos? Era melhor subir numa árvore bem alta e ficar por lá. Ou nadar para minha Ilha Rasa e passar boa parte do dia “longe dos problemas”, em meio às gaivotas. Fuga, claro. Com o tempo, percebi que as dores iam comigo para a ilha. No entanto, a felicidade da solidão e do calor do sol ajudavam, como hoje ajuda um banho quente. Meu sonho era um dia ser apresentado a um adulto bondoso, vestido de branco e com um estetoscópio especial. Com olhar profundo, ele se colocaria de joelhos e, com toda a calma, me olharia bondosamente nos olhos. Sem necessidade de palavras, me examinaria o corpo, como os veterinários examinam os animais. Talvez então esse veterinário entrasse em minha alma (uma palavra que só aprendi mais tarde) e seu estetoscópio gentilmente revelaria meus segredos. Ele me ajudaria a compreender meus próprios sentimentos. Só compreendê-los já seria bom. Porém, se ele pudesse explicá-los para mim, numa linguagem acessível... Para isso, talvez começássemos uma longa e profunda conversa. Ele me ensinaria as palavras certas para nomear e descrever meus problemas. Elas me permitiriam “olhar” para eles e falar deles para meus pais e pessoas de confiança. Eu iniciaria um bom período de convalescença. De repente, o doutor me daria algumas receitas que abrandariam os desconfortos, sanariam a culpa, os medos e as angústias infantis. Sim, ele me prescreveria remédios para o coração (ou alma). Teria sido tão bom se eu tivesse sido alvo de um lava- pés infantil, executado por um missionário com chamado, unção e poder de Deus para exercer a delicada missão emocional com a qual eu sonhava. Não teria esperado cinquenta anos para conseguir discernir minhas próprias faltas, dores e necessidades, invariavelmente traduzidas por culpa. Hoje contemplo a encarnação do Verbo e vejo ali a origem dessa ordem sacerdotal “veterinária”. Descubro que Deus, em Cristo, se ajoelhou e nos olhou bondosamente nos olhos. E nomeou nossos pecados. E nos prescreveu a receita do arrependimento e do perdão. E nos deixou o modelo para esse ministério que reconcilia os cacos da alma e pacifica os corações internamente conflagrados. Um ministério que nasce do (e no) amor de Deus; que vê e se compadece; que para e, dadivosamente, despende o tempo necessário para compreender, junto com o “paciente”, o que até então só se expressava por silêncios e solidão (Lc 10.33-35). Restabelecendo o diálogo vital, esse ministério lança luz sobre as almas em trevas. “E nos deu o ministério da reconciliação” — também entre as crianças. Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Fábrica de Missionários — nem leigos, nem santos. ruben@amorese.com.br PONTO FINAL Rubem Amorese 66 ULTIMATO I Novembro-Dezembro, 2010 Deus nos deixou o modelo para o ministério que reconcilia os cacos da alma e pacifica os corações internamente conflagrados GianePortal
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    Novembro-Dezembro, 2010 IULTIMATO 67 Anúncio
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    68 ULTIMATO INovembro-Dezembro 2010