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4 ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 2008
abertura
A oração de Jesus no
Getsêmani não foi copiada
de um texto de teatro
Não se protege a fé cristã proibindo-se a leitura deste ou
daquele livro. Não se protege a fé cristã jogando-se na
fogueira uma montanha de livros e artigos de jornais e
revistas, de filmes e documentários, de peças de teatro
e de música. A fé cristã só sobrevive se estiver firmada
sobre o Jesus da Bíblia e sobre convicções inabaláveis, não
apenas herdadas desde o berço, mas também trabalhadas
e aprofundadas pela busca, pela oração e pela experiência
religiosa. Não se pode ser ingênuo: a fé cristã sempre será
posta em dúvida.
O documentário O Túmulo Secreto
de Jesus (2007), produzido por James
Cameron e dirigido pelo cineasta
Simcha Jacobovici, diz a propaganda,
“conta a história daquela que pode ser
a maior descoberta arqueológica na
história”, a saber, “a tumba encontrada
na periferia de Jerusalém abrigaria os
restos mortais de Jesus e sua família”.
Ora, “se Cristo não ressuscitou, é
inútil a nossa pregação, como também
é inútil a fé que vocês têm”, explica
Paulo (1Co 15.14).
Outro exemplo é o Evangelho de Tomás, apócrifo,
descoberto perto da base do rochedo Jabal al-Tarif,
junto ao rio Nilo há mais de 50 anos. Além das histórias
fantásticas envolvendo a infância de Jesus (num acesso de
raiva, ele derrubou um menino que sem querer esbarrou
nele), o pequeno livro diz que o Senhor não morreu pelos
pecados de ninguém. Embora em confronto direto com os
Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, há quem se
deixe impressionar pelo Evangelho de Tomás, dito irmão
gêmeo de Jesus.
Negar a expiação realizada pela morte vicária de Jesus é
reduzir a nada o Novo Testamento e o cristianismo, bem
como minar a certeza e a esperança da salvação. Enquanto
“o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado
a morte” (Rm 5.12), Jesus “é o Cordeiro de Deus que tira
o pecado do mundo” (Jo 1.29). É tudo muito consistente,
muito claro, muito incisivo, muito esclarecedor e muito
verdadeiro.
Ao mesmo tempo, o sacrifício expiatório realizado por
Jesus Cristo é uma das verdades mais questionadas pelos
céticos. Recentemente, o apreciado teólogo, filósofo e
psicanalista Rubem Alves tornou a negar o significado
salvífico da morte de Jesus, anunciada pelo profeta Isaías
700 anos antes de Cristo: “Todos
nós éramos como ovelhas que
haviam se perdido; cada um de
nós seguia o seu próprio caminho.
Mas o Senhor castigou o seu
servo [Jesus Cristo]; fez com que
ele sofresse o castigo que nós
merecíamos” (Is 53.6, NTLH).
Em dezembro de 2000, Rubem
Alves fez uma estranha confissão
à revista Isto É: “Hoje, as idéias
centrais da teologia cristã em que
acreditei nada significam para
mim: são cascas de cigarras vazias.
Não as entendo. Não as amo. Não posso amar um Pai que
mata o Filho para satisfazer sua justiça” (Isto É, 20/12/2000,
p. 90). Exatamente sete anos depois, através de um artigo
publicado na Folha de São Paulo, o ex-pastor da Igreja
Presbiteriana de Lavras, MG, (de 1959 a 1966), volta a
questionar: “Sinto uma dúvida crescente sobre a paixão
de Jesus”. Logo em seguida, diz que a oração de Jesus no
Getsêmani (“Meu Pai, se for possível, afasta de mim este
cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu
queres”) “parece ter sido copiada de um texto de teatro...”
e pergunta ao leitor: “Você acredita nisso?” (Folha de São
Paulo, 2/10/07, p. C2).
Muitos cristãos respondem tranqüilamente: “Nós
acreditamos”!
weatherbox
RUBEM ALVES EQUIVOCADO
Negar a expiação realizada
pela morte vicária de
Jesus é reduzir a nada
o Novo Testamento e o
cristianismo, bem como
minar a certeza e a
esperança da salvação
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ATENDIMENTO AO LEITOR
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Editora Ultimato
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 20086
carta ao leitor
Fundada em 1968
ISSN 14153-3165
Revista Ultimato
Ano XLI · NÀ 310
Janeiro-Fevereiro 2008
Direção e redação
cartas@ultimato.com.br
Elben M. Lenz César (Jornalista responsável)
Administração
Klênia Fassoni, Lenira Andrade
Vendas
Lucia Viana, Lucinéa de Campos, Rita de Cássia
Oliveira, Romilda Oliveira, Tatiana Alves e
Vanilda Costa
Editorial e Produção
Marcos Bontempo, Bernadete Ribeiro, Daniela
Cabral, Djanira Momesso César, Fernanda
Brandão Lobato e Roberta Dias
Finanças / Circulação
Emmanuel Bastos, Aline Melo, Edson
Ramos, Emílio Gonçalves, Luís Carlos
Gonçalves, M. Aparecida Pinto, Rodrigo
Duarte e Solange dos Santos
Estagiários
Alaila Ribeiro, Bruno Tardin, Daniel Figueiredo,
Débora Sacramento, Fabiano Silvestre, Hadassa
Alves, Liz Oliveira, Luci Maria da Silva, Macel
Guimarães, Natália Santana e Priscila Rodrigues
Arte - Oliverartelucas
Impressão - Plural
Tiragem - 35.000 exemplares
Łrgão de imprensa evangélico destinado
à evangelização e edificação, sem cor
denominacional, Ultimato relaciona Escritura
com Escritura e acontecimentos com Escritura.
Pretende associar a teoria com a prática, a fé
com as obras, a evangelização com a ação
social, a oração com a ação, a conversão com
a santidade de vida, o suor de hoje com a
glória por vir. Circula nos meses ímpares.
Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro
da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e da
Associação de Editores Cristãos (AsEC)
Os artigos não assinados são de autoria da
redação. Reprodução permitida. Obrigatório
mencionar a fonte.
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No mato sem cachorro
Parece que só temos um alvo hoje
em dia — o ideal da prosperidade.
Estamos todos sob a febre dos livros
de auto-ajuda e sob a da teologia da
prosperidade. Antes, a influência vinha
exclusivamente da cultura secular.
Agora, a influência religiosa supera a
influência secular. Estamos no mato
sem cachorro. Outro dia, por exemplo,
o bispo Edir Macedo escreveu que
quando Jesus aconselhou “dêem, e
lhes será dado [Lc 6.38], seus olhos
estavam voltados para o mercado”
(Folha Universal, 04/11/07, 2). Por
essa perspectiva, quanto mais eu dou e
quanto mais fiel eu sou no dízimo, mais
Deus me dará. Esse “outro evangelho”
me ensina que é Deus quem me
enriquece. Então eu preciso sempre
negociar com ele.
Vamos colocar diante de nossos
olhos a seguinte passagem: “Ai de
vocês que adquirem casas e mais casas,
propriedades e mais propriedades, até
não haver mais lugar para ninguém e
vocês se tornarem os senhores absolutos
da terra!” (Is 5.8). Permitamo-nos
também encompridar e contextualizar
esse texto: “Ai de vocês que adquirem
casas e mais casas, propriedades e mais
propriedades, carros e mais carros,
dinheiro e mais dinheiro, cartões de
crédito e mais cartões de crédito, títulos
e mais títulos, poder e mais poder,
até não haver mais oportunidade para
ninguém e vocês se tornarem senhores
absolutos na terra”.
Sabe o que isso significa na prática?
Nada mais é do que “correr atrás do
vento”, correr atrás do nada (Ec 2).
Quem sabe poderíamos traçar outro
alvo para 2008. Menos materialista,
menos mercantilista, menos egoísta,
menos terreno, menos soberbo e menos
sujeito à decepção. Pois a sugestão de
Jesus é em sentido contrário: “Não
acumulem para vocês tesouros na
terra[...]. Mas acumulem para vocês
tesouros nos céus[...], pois onde estiver
o seu tesouro, aí também estará o seu
coração” (Mt 6.19-21). Outro dia, o
professor Jorge Barros, da Faculdade
de Teologia Latino-Americana, de
Londrina, muito bem se expressou:
“O de que menos precisamos hoje é
de teologia da prosperidade e o de que
mais precisamos é a prosperidade da
teologia”.
No 40º aniversário de circulação
ininterrupta de Ultimato, desejamos
aos leitores e aos seus familiares as mais
preciosas bênçãos de Deus.
E. César
FernandoMengoni
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Seções
Capa
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 7
“Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo”
IS 55.6
ABREVIAÇÕES:
BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; EP - Edição Pastoral; EPC
- Edição Pastoral - Catequética; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas de
indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional.
Reflexão
Robinson Cavalcanti
Protestantes: autênticos católicos 38
Ricardo Gondim
Bem e mal 40
Redescobrindo a Palavra de Deus
Criança alegra a vida!, Valdir Steuernagel 42
História
Dos tais é o reino dos céus: a igreja e as
crianças na história cristã, Alderi Souza de Matos 44
Entrevista
Uriel Heckert e Robinson Cavalcanti
A crescente visibilidade do homossexualismo
é um fenômeno específico da civilização ocidental 48
O caminho do coração
Adoração e missão, Ricardo Barbosa de Sousa 52
Da linha de frente
O Brasil do Brasil, Bráulia Ribeiro 54
Arte e cultura
Parei de ouvir “música cristã”, Mark Carpenter 58
Ponto final
Obrigado por me ouvir, Rubem Amorese 65
Homossexualismo e homossexualidade 24
A verdade definitivamente não está do lado
do comportamento homossexual! 28
Armário aberto e cerca derrubada 29
A mudança de comportamento homossexual
não é nem impossível nem fácil 30
A lei da homofobia 31
Apertando o cerco 32
Abertura 4
Carta ao leitor 6
Pastorais 8
Cartas 10
Mais do que notícias 14
Números 15
Frases 21
Nomes 22
Novos acordes 53
Deixem que elas mesmas falem 56
Meio ambiente e fé cristã 57
Vamos ler! 59
Prateleira 60
Ação mais que social 61
Especial
Ultimato — 40 anos de coerência 36
Adoração na igreja evangélica contemporânea,
Osmar Ludovico da Silva 62
A mística do número, Odayr Olivetti 64
Stockxpert
Leia em www.ultimato.com.br
• Vencendo o deserto (seção “Altos papos”),
por Jeferson Magrão
Em janeiro e fevereiro de 2007, todos
os dias, 40 produtos com desconto
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Reanimação boca-a-boca
no alvorecer de 2008
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 20088
54
Reanime o meu coração em Cristo!
(Fm 20)
Não se perde apenas a carteira, a chave
do carro, o ônibus. Não se perde
apenas o juízo, a saúde, a vida. Não
se perde apenas a vergonha, o caráter,
a reputação. Não se perde apenas o
emprego, a oportunidade que passa mas
não pára, o ente querido.
Perde-se também o ânimo, aquela
força motriz que põe tudo em
movimento. Isso acontece com todo
mundo, com o justo e com o pecador.
Raramente em alguns poucos casos,
muitas vezes em outros casos. É uma
situação desagradável, ameaçadora e
paralisante.
Davi perdeu o ânimo quando
encontrou a cidade de Ziclague, onde
estavam sua mulher e seus filhos, as
mulheres e os filhos de seus seiscentos
companheiros, destruída pelo fogo,
e quando percebeu que os familiares
de todos tinham sido levados como
prisioneiros pelos amalequitas. Mas
ele conseguiu reanimar-se no Senhor
e então teve condições de reagir e
transformar por completo o quadro
(1Sm 30.1-20).
Na menor de suas epístolas, Paulo
pede sem acanhamento e sem rodeios
a Filemon: “Reanime o meu coração
em Cristo” (Fm 20). Ele estava velho
e encarcerado. Na esperança de ser
libertado em breve, ele pede também
pousada: “Prepare-me um aposento”
(Fm 22). Mas entre uma coisa e outra,
naturalmente a reanimação é muito
mais importante que o aposento.
De fato, uma injeção de ânimo faz
bem. Uma boa saúde, uma boa situação
financeira, um bom relacionamento
familiar podem tornar o desânimo mais
difícil e menos freqüente, mas não são
suficientes para manter o ânimo em todo
o tempo e em todas as circunstâncias. O
ânimo precisa ser mantido e renovado
custe o que custar, principalmente
quando há algum baque emocional, de
causa conhecida ou não, de dentro para
fora ou de fora para dentro. Somos todos
complicados, vulneráveis e frágeis. E
as circunstâncias nem sempre ajudam.
Daí a necessidade de algum socorro sem
perda de tempo, de alguma reanimação
boca a boca! A mais urgente possível.
Não é à toa que Jesus dizia repetidas
vezes: “Tenha bom ânimo” (Mt 9.2;
Mc 10-49; Jo 16.33). Todos precisam de
ânimo, principalmente aqueles que estão
à frente de algum empreendimento. Esta
foi a receita de Moisés a Josué: “Não
tenha medo! Não desanime!” (Dt 31.8).
Sem ânimo, não se sai do lugar, não se
avança, não se conquista nada e ainda se
contagia os outros.
Antes de solicitar a Filemon “reanime
o meu coração em Cristo”, Paulo faz
uma referência elogiosa a ele: “Você,
irmão, tem reanimado o coração dos
santos” (Fm 7).
Deus é a fonte de todo ânimo. Ele
pode nos reanimar tantas vezes quantas
forem necessárias e nos transformar
em reanimadores dos outros. Esse bem
poderia ser o nosso alvo para 2008!
O ânimo precisa ser
mantido e renovado
custe o que custar,
principalmente quando há
algum baque emocional,
de causa conhecida ou
não, de dentro para fora
ou de fora para dentro Sam
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ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200810
O mistério da
iniqüidade em alta
Na edição de nov./dez. 2007, Ultimato veio
com a postura que nós, leitores, cansados de
superficialidades, aprendemos a respeitar: análise
coerente e corajosa dos problemas do cristianismo
contemporâneo.
JOÃO ANTÔNIO DE ALMEIDA
Tatuí, SP
Li e gostei do Mistério da iniqüidade em alta
(nov./dez. 2007, p. 24), mas não gostei da omissão da
revista sobre o mistério da apostasia de Kenneth Hagin
(Rhema), Kenneth Copeland e Benny Hinn, que vêm
destruindo as pessoas e as Igrejas com suas heresias.
PAULO ROBERTO T. DOS SANTOS
Rio de Janeiro, RJ
Depois de ler alguns escritos do tal porto-riquenho que
se autodenomina Jesus Cristo Homem, estou convencido
de que este sujeito possa ser mesmo o verdadeiro
anticristo.
LAUDELINO LEITE GUIMARÃES
Parabéns pela matéria de capa. Precisamos estar
atentos à barbaridade que vem acontecendo nos últimos
anos. O mistério da iniqüidade vem se destacando
assustadoramente.
EMÍLIO NAZARÉ
A igreja precisa de modelo
Agradou-me muito a pastoral A igreja precisa de modelo
(nov./dez. 2007, p. 8). Não são poucos os pastores
que carecem das qualidades básicas de um ministro de
Deus, como vida irrepreensível, moderação, sensatez,
amabilidade, desprendimento e desapego ao dinheiro,
no púlpito e fora dele. O povo de Deus anseia e clama
por pastores e não somente por pregadores. Precisamos
daqueles que ainda dão a vida pelas ovelhas, sem hora
marcada, sem porta fechada, mas de coração aberto.
SEOZY YANE SANTOS MARCONDES
Curitiba, PR
Richard Dawkins
O nome de Richard Dawkins, autor de Deus, Um Delírio, foi
mencionado em diversos artigos da edição mais recente.
Enquanto estava lendo a revista, ouvi o próprio em uma
entrevista para a Deutsche Welle (rádio alemã), onde o
confrontaram com dois bispos, sendo um católico e outro
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 11
protestante, além de um político idoso de formação jesuíta.
O dois bispos demonstraram revolta com as afirmações
mais contundentes de Dawkins e as palavras deste não
foram nada brilhantes. Uma das virtudes de Ultimato é que
seus temas são atuais.
WILFRIED KÖRBER
Vinhedo, SP
Aparecida
Apreciei o olhar apurado e carinhoso do Mineiro com Cara
de Matuto (jul./ago. 2007, p. 20), que por aqui passou e
conseguiu espelhar tão bem minha cidade. Nascida e criada
em Aparecida, convertida ao evangelho aos 20 anos, filha
de mineiros católicos que para cá vieram “tentar a vida”,
tenho a alegria de compartilhar que parte de minha família
hoje é convertida ao evangelho. Deus é maravilhoso e fiel,
e tem feito maravilhas.
RITA DE CÁSSIA D. PENA
Aparecida, SP
AgradeçoporreceberUltimatoeparabenizotodaaequipe
pelobrilhantetrabalho.Aproveitoparafazerumaperguntaaos
nossosirmãosevangélicos,emespecialaosdaAssembléia
deDeus:porqueseráquemuitasfamíliassãorestauradas,
muitosmilagresalcançados,muitasgraçasebênçãos
derramadassobretodosaquelesquerecitamorosárioem
honraàMãedeDeus?Ouseráfaltadehumildade“nossa”
reconhecerqueaMãedeDeusenossaintercedejuntoaoseu
Filho,aDeusPaiporcadaumdenós?Irmãos,enquantovocês
criticam,aMãedeDeusosamaimensamente.
LUIZ CARLOS DA LAPA
Olinda, PE
Li a reportagem sobre o Santuário de Aparecida. Devo
confessar que a princípio fiquei um pouco em dúvida sobre
que mensagem ela pretendia passar. Mas, depois de uma
leitura apurada, e sem pinçar frases, entendi a matéria,
muito bem escrita, aliás. Creio que o principal problema
com alguns evangélicos é que eles têm tabus com alguns
assuntos. Precisamos ter mais discernimento.
MÁRCIA SANTOS
Quando eu era católica, sempre que uma das minhas imagens
quebrava, eu a jogava no mar, pois não podia colocá-la no
lixo. Ainda bem que ninguém encontrou nenhuma delas. A
propósito, creio que já chegou a hora de trocar o título atual
Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil para padroeira
dos católicos do Brasil, já que somos um Estado laico.
MARIA GLISSYA PESSOA
Fortaleza, CE
Como é confortante hoje não ver a queima de Bíblias por
cristãos, mas ver sacerdotes católicos lendo Ultimato, uma
revista protestante, louvando-a ou criticando-a devido
a um novo discernimento dos tempos, quando a unidade
cristã — não institucional — se impõe como um imperativo
até de pós-modernidade.
ERNESTO ALVES MUZZI
Brasília, DF
Quandoarevistachega,leio-adecaboarabo.Gostomuitoda
linhadepensamentoe,sobretudo,desuaposiçãoeditorial
isentaenãotendenciosa.Soucatólicodeformaçãoteológica.
JOSÉ ANDRÉ DA SILVA
Recife, PE
Solicito que esta prestigiosa revista não me impugne por
aproveitar muitos dados e idéias para completar meus
livros. Lembrem-se: certas críticas valem mais que fingidos
e eufêmicos aplausos, pois relembram dores de cotovelo.
Meu breve adendo: meus livros não servem de leitura para
membros do clero.
LEONILDO BOFF
Lages, SC
Leio com gosto e prazer as cartas à redação. Com referência à
edição sobre o Santuário de Aparecida, noto que os católicos
superaram este machismo de achar que Cristo é o único
Salvador. A Bíblia não é um versículo só e nem só a Carta
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aos Hebreus. Ela é um conjunto que mostra que a salvação
não é obra apenas de Cristo, mas de Cristo e de sua Igreja.
Maria é o símbolo e a primogênita da Igreja. Maria inclusive
é anterior a Cristo. Cristo não existiria se não tivesse existido
o útero de Maria. Os protestantes que teimam em caluniar os
católicos chamando-os de idólatras por sua devoção à Mãe
de Jesus deveriam ser processados diante de um tribunal se
para isso existisse um. O próprio Cristo os julgará.
LINO CHERUBINI
Santa Rosa, RS
— No afã de exaltar Maria, o querido leitor Lino Cherubini
cometeu o grave equívoco de rebaixar aquele que tornou
Maria notável. Tanto pela teologia católica como pela
reformada. Jesus é anterior a Maria, é mais velho que a
mãe, mais velho que Abraão. Ele mesmo disse: “Eu lhes
afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!” (Jo 8.58). É
assim que Jesus é apresentado no prólogo do Evangelho de
João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus
e o Verbo era Deus” (Jo 1.1).
O sofrimento dos alemães
no Brasil durante a
Segunda Guerra
A propósito do artigo de Alderi Souza de Matos na edição
de set./out. 2007, quero referir-me à inclusão social dos
“alemães do sul”, que aconteceu por imposição do governo
federal durante a Segunda Guerra. Poucos sabem o quanto
de sofrimento e humilhação passaram os alemães e seus
descendentes em nome dessa inclusão que aconteceria
normalmente com o passar do tempo. Bastava que dois
amigos se cumprimentassem em alemão e já eram presos
e humilhados. Mães que ainda alimentavam seus filhos,
se usassem, por força do hábito, a língua germânica eram
separadas de suas famílias e sofriam humilhações. Algumas
dessas pessoas ainda vivem em Blumenau e são assinantes
de Ultimato. O artigo de Alderi deve ter provocado
lembranças tristes daqueles tempos. Creio que uma lei
imposta por uma ditadura raramente visa o bem-estar das
pessoas. Quase sempre há outros interesses.
ERLY CARLOS KISCHLAT
Blumenau, SC
Homossexualidade
Desde os 7 anos de idade tive experiências homossexuais.
Ficaram mais freqüentes por volta dos 10. E dos 12
aos 16 elas se tornaram regulares. Aos 19 assumi a
homossexualidade e então descambei mesmo de parceiro
em parceiro. Aos 22 anos eu estava completamente
entediado dessa coisa toda e minha vida estava fora de
controle. Eu bebia muito e uma vez bati o carro. O acidente
me fez repensar minha vida e indagar qual seria o meu
fim. Tudo indicava um futuro tenebroso. Em meio a essa
situação, acabei ouvindo a pregação de um pastor. Embora
até então eu odiasse os crentes, os pastores e as igrejas
evangélicas, uma frase desse pastor mudou minha vida:
“Você só pode saber se o que você faz é agradável a Deus
se você souber o que Deus quer que você faça para agradá-
lo”. Quando o pastor fez o apelo, eu fui à frente. No dia
seguinte comecei a estudar a Bíblia sozinho. Encontrei as
respostas de que eu precisava e minha vida jamais foi a
mesma. Faz dez anos que ando em vitória e sirvo ao “Deus
dos crentes”. Sou casado e tenho uma família abençoada.
Sou servidor público federal e professor universitário.
Ainda tenho lutas (quem não as tem?), mas é um prazer
vencer todas elas pela fé. Não sinto nenhum tipo de
atração por homens e ajudo outros rapazes a se livrarem
disso. Tenho ajudado até mesmo pastores com mais de
duas décadas de ministério que não sabem lidar com os
problemas homossexuais que atormentam algumas de suas
ovelhas e, às vezes, eles mesmos.
CLÁUDIO SOARES
claudiomultifocal@yahoo.com.br
Brazilândia, DF
Já não confio em nada!
Mesmo sendo músico e integrando o grupo de louvor da
minha comunidade, já não confio nos ministros de louvor.
Os púlpitos parecem mais palcos para apresentação dos
artistas evangélicos. Eles querem brilhar mais do que a
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 13
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própria Estrela da manhã. Alguns transformam a igreja
em academia: “Vira para o lado e fala...”; “levanta a
mão e declara...”; “pula na presença de Deus...”; “agora
grita...”. O Brasil evangélico de hoje tem centenas de
cantores, instrumentistas e grupos, um querendo vender
mais que o outro. Tem “louvor” para todos os gostos:
louvor profético, louvor apostólico, louvor extravagante,
louvor para evangelismo, louvor para guerra espiritual,
louvor para restituição, louvor para determinação,
louvor para atrair a presença de Deus, louvor para
espantar a presença do diabo, louvor para meditação.
Estou sentindo falta do louvor para louvar somente a
Deus. Mesmo crendo que Jesus não muda e ainda realiza
milagres, já não confio nos milagres que acontecem. Na
igreja evangélica brasileira milagre virou algo comum.
Já não confio nas pessoas que ficam propagando os
milagres recebidos. Várias vezes Jesus disse para os
curados não falarem nada para ninguém. Desde que
inventaram o placebo, descobri que o cérebro é capaz de
coisas extraordinárias! Mesmo tendo uma confissão de fé
reformada e evangélica, já não confio quando alguém me
diz que é evangélico. Tem evangélico que dá cheque sem
fundo, evangélico que vende e não entrega e evangélico
que sonega imposto. Mesmo sendo uma pessoa cheia de
fé, já não confio em nada! A partir de agora vou confiar
mais na Palavra de Deus. E ela me diz: “Maldito o homem
que confia no homem”.
MARCOS DAVID (biólogo)
São Paulo, SP
Confissão
Outro dia eu entrei em um site de linha fundamentalista
e, em um artigo, determinado autor classificava Ultimato
como liberal e esquerdista. Depois, em conversa com um
clérigo de uma denominação histórica com tendências
liberais, veio a reclamação dele de que a revista, além
de não ser ecumênica, é fundamentalista. Ora, se
fundamentalistas chamam a revista de liberal e liberais a
chamam de fundamentalista, ouso chamá-la de bíblica e
cristocentricamente equilibrada.
HUMBERTO RAMOS DE OLIVEIRA JÚNIOR
Pouso Alegre,MG
Povo de Deus!
Sou assinante de Ultimato há mais de dois anos. Povo de
Deus, assine já esta revista. É boa demais!
LUIZ FELIX DE J. PESSOA
Apesar do artigo Terceiro céu e espinho na carne, Ultimato
tem sido publicada sem interrupções há 40 anos! Faço
um apelo aos assinantes e amigos da revista que orem e
consigam mais assinaturas.
NATHANAEL OLIVEIRA NEVES
São João da Boa Vista, SP
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Pastor Daniel Rocha
arquivopessoal
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200814
do que
A lei do celibato
Em carta ao jornal Ciência e Cultura, de
Brasília, a leitora Maria Antonia Rocha,
de Belo Horizonte, alfinetou o papa: “Em
sua recente visita à Áustria, Bento 16
recomendou que os católicos europeus
tenham mais filhos. Por que não começar
pela liberação dos padres e freiras da lei
do celibato e do voto de castidade?”.
Sônia e Estevam não são mártires
Em carta à Folha
de São Paulo, o
pastor metodista
Daniel Rocha,
49, residente
em Caieiras,
SP, alfinetou a
Renascer em
Cristo: “Neste
exato momento
há centenas
de cristãos
espalhados pelo
mundo presos
e perseguidos
por amor a Cristo e ao evangelho. Nos
Estados Unidos foi condenado o casal
Hernandes, mas não exatamente por
esses motivos, e sim por amor à luxúria,
à vaidade e à ambição. Que os seus
seguidores reconheçam essa diferença
e não os tratem como mártires, mas
como um exemplo a não ser seguido”.
A maior catástrofe natural virá
como um ladrão
O ex-deputado Antonio Delfim Netto
escreveu o óbvio: “Eventos extremos,
como catástrofes naturais (terremotos,
furacões) ou sociais (revoluções,
crises econômicas agudas), chegam
freqüentemente, como surpresas”. A
maior catástrofe natural que o mundo
jamais viu virá de surpresa: “O dia
do Senhor chegará como um ladrão.
Naquele dia os céus vão desaparecer
com um barulho espantoso, e tudo
o que há no universo será queimado.
A terra e tudo o que existe nela vão
sumir” (2Pe 3.10, NTLH). A expressão
“como um ladrão” significa de modo
repentino e inesperado, numa hora
em que menos se espera. Foi usada
por Jesus (Mt 24.43), por Paulo
(1 Ts 5.2,4) e por Pedro. A volta do
Senhor também não tem hora marcada:
“Escutem! Eu venho como um ladrão”
(Ap 16.15, NTLH).
O garimpeiro atrás do vento
O médico Drauzio Varella conta a
história de um garimpeiro brasileiro
que correu atrás do vento a vida inteira.
Em 30 anos de atividade pelo norte
do Mato Grosso, Rondônia, Serra
Pelada, Pico da Neblina e outos lugares,
retirou da terra e do leito submerso
dos rios mais de 50 quilos de ouro. À
semelhança do personagem da parábola
do filho perdido (Lc 15.30), esse
homem esbanjou tudo com mulheres.
Numa ocasião, chegou a fazer um
tapete de notas de dez reais sem deixar
uma fresta, só para impressionar
uma gaúcha de olhos azuis. Noutra,
ao receber um pacotão de dinheiro,
amarrou tudo num barbante grosso,
prendeu no cinto e saiu puxando pela
rua. Explicava aos amigos: “Andei a
vida inteira atrás desse desgraçado.
Agora é ele que anda atrás de mim”.
A expressão “correr atrás do vento”
aparece nove vezes nos primeiros seis
capítulos de Eclesiastes (1.14 e 17;
2.11, 17 e 26; 4.4, 6 e 16; 6.9).
Significa a inutilidade da vida e sua
falta de sentido.
Tarde demais
O pai do ator Ney Latorraca, 63,
morreu em 1988 e a mãe, seis anos
depois. Ele foi sepultado em Santos
e ela, no Morumbi, em São Paulo.
Viveram separados algum tempo.
Agora o ator quer uni-los. A primeira
providência foi colocar o retrato do
pai no mesmo porta-retratos onde a
mãe já está. A próxima providência
seria desenterrar o corpo de um deles
e colocá-lo no mesmo túmulo do
outro. Tudo muito bonito, mas tarde
demais!
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números
400.000.000.000
de dólares é o valor do mercado de consumo
de luxo por ano no mundo. Só no Brasil, são
US$ 3,9 bilhões, quase tudo concentrado em
São Paulo (72% dessa fatia)
670
jovens de 15 a 29 anos morreram em
acidentes de trânsito em 15 meses (de
janeiro de 2006 a março de 2007) só no
Estado do Rio de Janeiro
3.300.000.000
de dólares é quanto o Brasil movimentou
este ano com o “pet business” (todos os
gastos com animais de estimação, incluindo
alimentação requintada, cuidados médicos,
embelezamento, diversão, roupas, jóias etc)
2.867
mulheres foram estupradas em 2005 no
Quênia, país de 32 milhões de habitantes
(uma violência sexual a cada 30 segundos)
8.000
meninas engrossam a cada dia as fileiras
das mulheres que passaram por aquilo que
se chama educadamente de “circuncisão
feminina”, principalmente na África e Ásia.
18.000.000.000
de euros anuais é quanto geram um milhão
de relações sexuais pagas a cada dia na
Espanha
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 15
A casa que o vento derruba leva
junto o passado, o presente e o futuro
A terapeuta existencial Dulce Critelli,
professora de filosofia da PUC-SP,
explica muito bem o drama pelo qual
passam as famílias que perdem tudo de
uma hora para outra: “Numa tragédia
como em enchentes, guerras, acidentes
como esse recente nas obras do metrô
em São Paulo, nossa casa pode ser
arrancada de nós, sem aviso e de
repente. Ainda que parentes e amigos
nos acolham, que sejamos abrigados em
hotéis, o sentimento é de desolação e
de exílio. A casa, subitamente subtraída
das mãos e dos olhos, leva junto o
passado, o presente e o futuro dos seus
moradores. Leva a vida e a história.
Perder a casa é se perder a si mesmo”.
A terapeuta faria muito bem se
explicasse também as conseqüências
de uma tragédia muito maior, aquela
que Jesus narra no final do Sermão
da Montanha: Um homem insensato
construiu sobre a areia a sua casa.
De repente, caiu uma forte chuva,
vieram as enchentes e o vento soprou
com força contra aquela casa e ela
caiu e ficou totalmente destruída.
Nesse caso, o que está em jogo não
é uma casa de tijolo e cimento, mas
a “casa espiritual”, aquela bagagem
religiosa que se constrói de qualquer
modo ao correr da vida, sem levar
em consideração a chamada “pedra
angular”, que é Jesus Cristo. Foi o
apóstolo Pedro quem declarou ao
Sinédrio em Jerusalém: “Este Jesus
[crucificado e ressurrecto] é a pedra
que os construtores rejeitaram, e que
se tornou a pedra angular” (At 4.11).
Paulo bate na mesma tecla e explica
que os salvos foram feitos membros da
família de Deus e “edificados sobre o
fundamento dos apóstolos e profetas,
tendo Jesus Cristo como pedra
angular” (Ef 2.20).
Quando essa casa construída sobre
a areia e não sobre a pedra principal
(que sustenta o peso de todas as outras
pedras) for subitamente subtraída,
deixando ao relento para sempre a
alma imprevidente, o desastre será
infinitamente maior do que perder
uma casa desenhada e construída por
um engenheiro qualquer. Que o pavor
de algo assim provoque, enquanto há
tempo, mudanças violentas da parte de
quem ainda esteja sem Cristo!
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ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200816
do que
A
té hoje pregadores
neopentecostais
que rejeitam o bom
senso tentam contornar
o problema do fanatismo
religioso colocando
diante de seus ouvintes
duas opções: a opção da
enfermaria e a opção do
cemitério. Na enfermaria
há uma correria enorme,
fraldas sujas, crianças
chorando, mas a vida está
ali. No cemitério, está tudo
calmo e em ordem, mas a
morte está ali.
É o que se dizia na famosa Igreja
do Aeroporto, em Toronto, Canadá,
na década de 1990. Porque o forno é
melhor do que a geladeira, os dirigentes
da igreja apoiavam e estimulavam uma
série de coisas estranhas e absurdas
que foram levadas para vários outros
países, inclusive o Brasil. Chamava-se
de avivamento tudo aquilo que estava
acontecendo em Toronto, desde o
fenômeno dos “dentes de ouro” (a
prova da intimidade da pessoa com o
Senhor) até a capacidade de gargalhar
o tempo todo do culto (a “unção do
riso”) e de engatinhar no chão tomado
pelo Leão de Judá (a “unção do leão”).
Dizia-se então que as pessoas estavam
“bêbadas no Espírito” e, portanto,
todas essas manifestações eram corretas,
oportunas e convincentes e deveriam
ser buscadas por todo crente avivado.
Não obstante todo o alarde feito pela
Igreja de Toronto, a autenticidade de
tudo está sendo posta em dúvida por
um dos seus antigos líderes, que hoje
não consegue entender por que gastou
tanto tempo para chegar à conclusão de
que tudo aquilo era algo irreverente e
blasfemo ao Espírito Santo da Bíblia.
A gota d’água que levou Paul Gowdy
a acordar foi o testemunho de Carol
Arnott, esposa do pastor da Igreja do
Aeroporto. Ao descrever sua experiência
na presença de Cristo, a mulher
declarou que aquilo era muito melhor
do que sexo. Nove anos depois de
deixar aquele grupo, Gowdy escreveu
um documento sobre o assunto,
inicialmente para uso restrito, mas, em
fevereiro de 2007, ele começou a ser
divulgado em grande escala nos Estados
Unidos. Chegou ao Brasil através de
Mensageiro da Paz, órgão oficial das
Assembléias de Deus (setembro de
2007, p. 14). A carta original de Paul
Gowdy pode ser encontrada no site
<www.discernment-ministries.org>.
Dentes de ouro, “unção
do riso” e “unção do leão”
vão por água abaixo
Pessoas caem de costas, sob o efeito da “unção”,
na Igreja do Aeroporto, em Toronto
MargaridaDaniel
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do que
O
brasileiro que está ganhando
dinheiro nos Estados Unidos,
na Espanha ou no Japão
tem saudade do Brasil. O soldado
americano que está lutando no Iraque
tem saudade dos Estados Unidos. O
boliviano que trabalha em São Paulo
tem saudade da Bolívia.
Eles também têm outra saudade,
mais misteriosa, mais inquieta, mais
arraigada. Essa segunda saudade, todo
ser humano tem, tanto o pobre como o
rico, tanto o analfabeto como o doutor,
tanto o índio como o não-índio, tanto
o crente como o não-crente. Em todo
lugar e em todo tempo. Trata-se daquilo
que o ensaísta francês Albert Camus
(1913-1960) chama de nostalgia do
paraíso perdido.
Mas não será a despoluição do
planeta que vai nos curar dessa
nostalgia do paraíso perdido, como
sugeriu outro dia o jornalista Carlos
Heitor Cony: “Sem eletricidade, sem
plásticos, sem fábricas despejando
detritos industriais nos rios, sem
fumantes e sem predadores de
florestas, o planeta vencerá a ameaça
do aquecimento global, as geleiras
continuarão geladas, sem derreter, e os
oceanos permanecerão no mesmo nível
dos primeiros dias da Criação”.
A saudade coletiva e universal
não é só da criação original, não
danificada, não poluída, mas também
e especialmente do Criador. A
reconciliação é com a criação e com
o Criador. Quando se fala no paraíso
perdido e no paraíso recuperado na
perspectiva cristã, estamos falando
mais da beleza e perfeição de Deus
do que da beleza e perfeição da
natureza. O último livro da Bíblia
mostra que o paraíso recuperado
será paraíso recuperado porque “a
morada de Deus está entre os seres
humanos”. E acrescenta: “O próprio
Deus estará com eles e será o Deus
deles. Ele enxugará dos olhos todas
as lágrimas. Não haverá mais morte,
nem tristeza, nem choro, nem dor. As
coisas velhas [especialmente a nostalgia
de um paraíso perdido] já passaram”
(Ap 21.3-4, NTLH).
A nostalgia do paraíso perdido é a dor mais secreta do ser humano
dreamstime
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 19
A
edição de agosto de 2007
do jornal Só Isso!, redigido
e ilustrado pelas internas da
Penitenciária Talavera Bruce, no Rio
de Janeiro, publicou na seção “Correio
Sentimental” 63 cartas de encarcerados
que desejam trocar correspondência com
o propósito de iniciar um namoro que
eventualmente possa levar ao casamento.
Quase todas foram escritas por homens
(55 cartas), e não por mulheres (apenas
8). A idade dos missivistas varia entre
18 (é o caso de Júlio Thiago, que está
à procura de “uma mulher sincera
e não interesseira”) a 53 anos (é o
caso de Walter Batista, que adora um
“aconchego de mulher”). Enquanto as
mulheres estão no Talavera Bruce (uma
delas é ex-detenta), os homens estão
espalhados em diferentes presídios,
principalmente no Rio de Janeiro.
Trata-se de uma matéria que merece
estudo, simpatia e respeito de toda a
sociedade, pois mostra a carência do
coração humano e a força daquele amor
entre o homem e a mulher criado por
Deus: “Não é bom que o homem esteja
só” (Gn 2.18). Por terem sido escritas
por pessoas que estão presas e que
permanecerão nesse estado por mais
algum tempo, as cartas mostram também
a força da esperança — a esperança da
liberdade e a esperança do casamento.
Amilton Lopes, 35, tem 1,87 de altura e
pesa cerca de 100 quilos. É formado em
teologia e fez três anos de direito. “Quero
sinceridade, transparência e lealdade”.
Antonio Carlos, 36, diz que Jesus
mudou a sua vida. “Estou na presença do
Senhor Jesus, o caminho, a verdade e a
vida”.
Carlos Eduardo, 28, promete um
relacionamento sólido e verdadeiro.
“Procuro uma jovem que seja
companheira, leal
e sincera, honesta e
verdadeira”.
Carlos Alvarenga, 33,
moreno claro, procura
uma mulher que “seja
sincera, amiga, inteligente,
bonita e, se for mulata,
melhor ainda; mas todas
serão bem-vindas”.
Eldan França, 23,
quer encontrar alguém
especial para construir
uma grande amizade.
“Quem sabe, com o
passar do tempo, não
rola algo a mais?”.
Felipe Lopes está
passando por um
momento difícil na
vida e precisa de uma nova amizade
feminina. “Pode ser branca, morena ou
negra; a idade também não importa”.
Jaime Neves se apresenta como
moreno, carinhoso e evangélico e
procura uma mulher entre 30 e 35 anos
para compromisso sério.
Jorge José falta com a modéstia
mas adota uma estratégia que parece
acertada: “Sou um homem bonito,
inteligente e de ótimo coração”.
Marcelo Vinício se mostra muito
atraente e dá uma notícia: “Tenho 1,90
metro de altura e corpo atlético, 92
quilos, moreno jambo e olhos verdes.
Faltam seis meses para eu ir embora”.
Marcelo Bezerra, 29, confessa que os
detalhes físicos indicam que ele pode
ser interessante, mas como pessoa
está muito carente. “Não estou sendo
prepotente, mas serei capaz de ser um
homem de verdade”.
Paulo Henrique quer se corresponder
com uma mulher que esteja sozinha e
não queira brincar com os sentimentos
dos outros.
Robson Nogueira, 26, tem 67 quilos
de puro amor: “Estou à procura de uma
mulher desenrolada, que queira ser algo
na vida de alguém, seja neste lugar ou
até mesmo fora”.
Wanderson Bezerra, 27, quer ajudar
e ser ajudado e procura uma amizade,
pois “estou carente de tudo”.
Suzana Cavalcante, 32, procura
alguém para amenizar o seu sofrimento.
Luciene Ferreira, 29, solteira, mãe de
dois filhos, evangélica, quer localizar
um evangélico para “uma amizade ou
algo mais”.
Este “Correio Sentimental” do
jornal Só Isso! reforça o apelo do Novo
Testamento: “Não se esqueçam daqueles
que estão na prisão. Sofram com eles,
como se vocês próprios estivessem lá”
(Hb 13.3, BV) ou “Lembrai-vos dos
encarcerados, como se estivésseis na pele
deles” (na versão de Taizé).
Homens e mulheres atrás das grades
estão também atrás de casamento
Candidatas aguardam para participar de
desfile organizado pelo jornal Só Isso!
www.belezapura.org.br
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do que
U
m piauiense de 62 anos diz
que Jesus tinha mania por
exagero e o maior exagero dele
seria o tamanho e a qualidade de sua
graça, por meio da qual somos salvos.
Glênio Fonseca Paranaguá nutre um
profundo encantamento pela graça de
Deus e não economiza adjetivos ao
falar sobre ela. Por um lado, a graça
é admirável, eficiente, extravagante,
graciosa, enorme, gratificante,
incondicional, inefável, inexplicável,
infinita, majestosa, maravilhosa, plena,
proficiente, realizadora, satisfatória,
suficiente e surpreendente. Por outro
lado, a graça não é banal, barata,
blindada, diluída, imobilizada, indolente,
inoperante, libertina, paralisada e
paralítica. Curiosamente, Glênio parece
não citar nem uma vez o adjetivo
“irresistível”, tão de agrado dos calvinistas.
Embora tendo sido batizado aos 12
anos e ordenado pastor aos 25, Glênio só
se converteu a Cristo depois desses dois
eventos. É por isso que ele gosta de dizer:
“Deus nos acha antes de nós o acharmos”.
Sem dúvida, essas experiências de Glênio,
formado em teologia, filosofia e psico-
pedagogia, têm muito a ver com o seu
livro O Meu Cálice Transborda (Editora
Ide, 2006).
O livro de Glênio é uma
preciosidade. Ele traz outra vez à tona
a riqueza da graça de Deus. E o faz de
forma compreensível e restauradora, em
uma hora quando “a grande necessidade
da igreja é crescer no conhecimento
cada vez maior da graça de Deus”;
quando “muita gente intrometida, que
finge ser cristã, tem o costume de diluir
a graça de Deus com solvente delicados
que quase não são notados”; quando
“há um bando de joio na igreja que
também não gosta da graça” (p. 91).
Vê-se a empolgação de Glênio
pelo assunto quando ele escreve: “O
princípio da graça
é transformar o
débito em crédito,
a miséria em
abundância, a
fraqueza em força,
a enfermidade em saúde, o pecado em
santidade, o inferno em céu” (p. 56).
Para Glênio, a graça barata da qual
se queixava o pastor luterano Dietrich
Bonhoeffer não existe. O que existe é
“gente barata que faz pouco caso da graça
de Deus, por não saber avaliar o alto
custo da obra graciosa de Cristo” (p. 49).
Casado com a carioca Carmem
Malafaia e pai de um rapaz e duas
moças, Glênio é pastor da Primeira
Igreja Batista em Londrina, no Paraná
há mais de 30 anos.
(O livro O Meu Cálice Transborda pode
ser encontrado na Editora Ide, em
Londrina. Telefone/Fax: (43) 3334-3717,
E-mail: contato@editoraide.com.br)
Surpreendente graça
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Frases
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 21
Sem investimento
em educação,
saúde, saneamento e
infra-estrutura, a porta
de saída da miséria
continuará fechada para
legiões de brasileiros.
Editorial da
Folha de São Paulo
Hoje já não se
pode dizer tão
seguramente, como nos
séculos 19 e 20, que
estamos num caminho de
progresso.
Eric Hobsbawm,
historiador de origem
judaica, autor de
Era dos Extremos
Se o objetivo é evitar o
aborto, o que é muito
desejável, então seria
precioso favorecer os
métodos anticoncepcionais.
Quem proíbe esses
métodos é co-responsável
pela existência de tantos
abortos.
Hans Küng, teólogo
católico suíço, em
visita ao Brasil
Todo africano,
inclusive eu mesmo,
não pode deixar de se
alegrar com a ajuda que
o mundo nos dá, mas
isso não nos impede
de perguntar a nós
mesmos se essa ajuda
é realmente sincera
ou se ela é dada com
a idéia de afirmar sua
superioridade cultural.
Uzodinma Iweala,
escritor nigeriano, autor
de Feras de
Lugar Nenhum
Ateologia diz que o
embrião é filho do
Altíssimo e possuidor
de alma imortal, que
permanece viva após
a ocisão do corpo: os
pais reencontrarão esse
no além e terão que
explicar-se.
Antonio Marchionni,
professor de teologia
na PUC e autor de Deus
e o Homem na História
dos Saberes
Alei do sistema é:
quem não tem, quer
ter; quem tem, quer ter
mais; quem tem mais
diz: nunca é suficiente.
Esquecemos que o
que nos traz felicidade
é o relacionamento
humano, a amizade, o
amor, a generosidade, a
compaixão e o respeito,
realidades que valem, mas
não têm preço.
Leonardo Boff,
teólogo
Em todas as
denominações
cristãs, os adeptos são
em menor número, e
mais desanimados (se
não integrantes apenas
nominalmente), no caso
do hemisfério Norte, e
em maior número e mais
fervorosos, no hemisfério
Sul. A demografia do
cristianismo mudou
radicalmente no
século 20.
Michel Despland,
destacado pesquisador
no campo da história
das religiões
Não existe de fato
tensão teológica
entre fé e obras ou entre
o ensino de Paulo e
Tiago. Existe, sim, uma
tensão entre fé e fé,
isto é, “fé morta” que
nada produz, que não dá
frutos, fria e ineficaz,
e a verdadeira fé, que
produz frutos, que é
operosa, é crescente e
eficaz, aquela “fé que
atua pelo amor” na rica
expressão do apóstolo
Paulo (Gl 5.6).
Marcos Lins,
presidente da
Universidade Mackenzie
Exige-se de nós uma
abertura total ao
Espírito Santo e uma
reflexão contínua, que
deve ser promovida
juntamente com as
igrejas locais, sobre os
modos e os meios de
testemunhar e anunciar
Cristo Salvador neste
novo contexto cultural
e sobretudo torná-lo
significativo aos
excluídos e
marginalizados.
Padre Vito Del Prete,
secretário-geral da
Pontifícia União
Missionária
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ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200822
O brasileiro que pediu demissãoO brasileiro que pediu demissão
da Embratel para ser missionárioda Embratel para ser missionário
na terra de seus paisna terra de seus pais
Em maio de 2000, o engenheiro
de telecomunicações Hans Gilson
Behrsin, formado na Universidade
Federal Fluminense, pediu demissão
da Embratel, onde trabalhava desde
1988. Ele estava então com 36 anos, já
era casado com a fonoaudióloga Elaine
Brasil Behrsin, pai de uma menina de
6 anos e de um menino de 3 e tinha
acabado de se formar em teologia na
Faculdade Teológica Batista do Paraná.
Por que Hans se demitiu da Embratel?
Quase todo mundo em Curitiba, no
Vale do Ribeira (litoral sul do Estado de
São Paulo) e na Letônia, um dos países
bálticos, sabe que Hans trocou a antiga
profissão para servir ao Senhor de um
modo mais direto. Depois de plantar
igrejas em Curitiba e pastorear uma
igreja de Jacupiranga (Vale do Ribeira),
ele foi para a Letônia, terra de seus
ancestrais, como missionário da Junta
de Missões Mundiais da Convenção
Batista Brasileira (JMM), onde está
com a família há um ano e meio.
Hans, nascido em Osvaldo Cruz, SP,
toma emprestada a confissão de Paulo
(Rm 1.14) e diz: “Sou devedor tanto a
brasileiros como a letos” e explica que
no início de 1890 e principalmente em
1922 e 1923 mais de 2 mil protestantes
letos, inclusive pastores e líderes, na
grande maioria batistas, deixaram
suas congregações e embarcaram
para o interior de São Paulo e outras
regiões. Além de manter a fé, esses
imigrantes fizeram um trabalho intenso
de evangelização. Hans estaria agora
retribuindo o que eles fizeram.
Portador de ambas as cidadanias,
o missionário brasileiro, de 43 anos,
mora em Riga, capital da Letônia,
e sua principal missão é apoiar os
missionários autóctones que estão
relacionados com a JMM. Em médio
prazo, “após a total adaptação cultural
e lingüística”, ele pretende plantar
uma igreja em Riga. A revista leta
Tiksanas, que traz regularmente artigos
de diferentes igrejas cristãs, publicou
em duas edições (agosto e setembro de
2007) a história dos batistas letos que
vieram para o Brasil, escrita por Hans.
Na verdade, o campo missionário de
Hans abrange os três países bálticos:
Estônia (ao norte), Letônia (ao centro)
e a Lituânia (ao sul). Os três países
têm sete milhões de habitantes. O
número de habitantes sem religião é
alto, principalmente na Estônia (60%).
A Lituânia seria o país de mais alta
porcentagem de cristãos (76%). Os
luteranos são a maioria dos cristãos
na Estônia e na Letônia, mas muitos
são apenas nominais. Na Lituânia, os
católicos são os mais numerosos (68%).
Tudo isso não estaria acontecendo
se Hans não tivesse sobrevivido à crise
religiosa que o acometeu no início de
sua vida universitária (dos 16 aos 20
anos), quando desejou e tentou afastar-
se do evangelho.
Hans, Elaine, Rhaísa e Guilherme
em Riga, na Letônia
arquivopessoal
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Armand M. Nicholi Jr
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200824
capa
Homossexualismo e
homossexualidade
jolkaigolka
Ultimato procurava um texto sério sobre a questão da homossexualidade, escrito por uma
autoridade no assunto, e encontrou o verbete “Homossexualismo e Homossexualidade”
no Baker’s Dictionary of Christian Ethics, publicado em 1973 pelo conhecido editor Carl F.
Henry, em Grands Rapids, nos Estados Unidos. O autor do verbete é o psiquiatra Armand
M. Nicholi, durante muito tempo professor da Escola de Medicina de Harvard e do
Hospital Geral de Massachusetts, e consultor de Grupos do Governo e atletas profissionais.
Nicholi é autor da obra-prima Deus em Questão — C.S. Lewis e Freud debatem Deus,
amor, sexo e o sentido da vida, publicado no Brasil pela Editora Ultimato.
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 25
O
termo
homossexualismo
refere-se à
atividade
sexual praticada entre
pessoas do mesmo sexo.
Especialistas concordam
acerca do significado de
“comportamento homossexual”,
mas têm dificuldades em chegar a
uma definição clara do que é ser
homossexual. Alguns descrevem o
homossexual com base na prática do
homossexualismo, enquanto outros
o fazem considerando a atração
preferencial por pessoas do mesmo
sexo. Uma pessoa pode sentir desejos
homossexuais intensos sem nunca
praticar o homossexualismo, enquanto
há quem opte pela atividade mesmo
quando a preferência é fortemente
dirigida para o sexo oposto. Neste
último caso, circunstâncias como
a influência do alcoolismo ou
confinamento em prisões podem
precipitar a ocorrência de experiências
homossexuais. O termo bissexual refere-
se a indivíduos que praticam atividades
tanto homo quanto heterossexuais,
podendo haver predominância de uma
dessas práticas.
Independentemente do como se
conceitue homossexualidade, não
há uma forma precisa de determinar
sua prevalência. Alguns poucos
estudos indicam que cerca de 4 a 5
% da população branca masculina
conservam-se exclusivamente
homossexual após a
adolescência, enquanto
entre 10 e 20 % mantêm
relações regularmente com
indivíduos de ambos os sexos.
Pesquisas desenvolvidas com
militares na Segunda Guerra
Mundial revelaram que 1%
dos homens em serviço eram
homossexuais, estimando-
se que idêntico percentual
constituía-se de casos não
detectados, isto é, 2% no
total. Seja como for, as estatísticas
revelam que o homossexualismo é
pouco comum.
A história registra a homossexualidade
em muitas civilizações antigas.
Tanto o Antigo quanto o Novo
Testamentos mencionam essa prática
e são fortemente explícitos em
proibi-las. Algumas civilizações —
por exemplo, os antigos gregos —
aparentemente aceitavam a prática
do homossexualismo com pouca ou
nenhuma desaprovação. Ainda que a
maioria das culturas em nossos dias lide
com essa questão, em certos grupos
sociais não se encontraram nem sequer
indícios de homossexualismo.
A causa da homossexualidade não
está claramente identificada. As diversas
teorias podem ser agrupadas em razão de
apontar para um dos dois grupos gerais
de causas: genéticas e psicogênicas.
O primeiro grupo, de causas
“genéticas”, postula que um indivíduo
pode herdar a predisposição para a
homossexualidade. As teorias reunidas
nesse grupo apontam para evidências
obtidas em estudos com gêmeos,
os quais revelam que a incidência
de homossexualismo entre gêmeos
idênticos é expressivamente
maior do que em gêmeos
não-idênticos.
Já o segundo grupo
de teorias, chamado
“psicogênico”, afirma
que a identidade sexual é
determinada pelo ambiente
familiar e outros fatores do meio em
que uma pessoa vive. Neste caso, as
teorias apontam para a existência de
denominadores comuns entre famílias
de diversos homossexuais.
Pesquisas recentes indicam que as
famílias mais propensas a gerar um rapaz
homossexual são aquelas em que a mãe
é muito íntima do filho, possessiva e
dominante, enquanto o pai é desligado
e hostil. São mães com tendência ao
puritanismo, sexualmente frígidas e
determinadas a desenvolver uma espécie
de aliança com o filho contra o pai, a
quem ela humilha. O filho torna-se
excessivamente submisso à mãe, volta-
se a ela em busca de proteção e fica ao
seu lado em disputas contra o pai. Pais
de homossexuais são freqüentemente
distantes, não demonstrando entusiasmo
ou afeição, e criticam os filhos. Sua
tendência é menosprezar e humilhar o
filho, dedicando-lhe muito pouco de seu
tempo. O filho reage com medo, aversão
e falta de respeito. Alguns estudiosos
consideram que a relação entre pai e filho
parece ser mais decisiva na formação da
identidade sexual do jovem do que o
relacionamento deste com sua mãe. Tais
pesquisadores chegam a afirmar não ser
possível uma criança se tornar
homossexual se seu pai for
carinhoso e amoroso.
Em alguns homossexuais é
o medo do sexo oposto que
parece ser o fator dominante,
não a atração profunda por
alguém do mesmo sexo. Uma
vez resolvido esse medo com
terapia, a heterossexualidade
prevalece. Estudos recentes
têm demonstrado, ainda,
que a sedução por outros
Pesquisas demonstram que
muitas mães de mulheres lésbicas
tendem a ser hostis e competitivas
com suas filhas, sendo muito
ligadas aos filhos homens e ao pai
Leigos freqüentemente questionam
se a homossexualidade deveria ser
considerada doença ou pecado.
Uma coisa não exclui a outra.
Pessoas cuja fé se baseia na Bíblia
não podem duvidar que as claras
proibições do comportamento
homossexual façam dessa prática
uma transgressão da lei divina
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ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200826
capa
homossexuais — especialmente
outros rapazes — não parece
ser um fator relevante.
A chamada
“homossexualidade
latente” refere-se a conflitos
emocionais similares aos da
forma “aparente”, mas sem
consciência do fato ou sem
expressão pública dos conflitos.
Lesbianismo é o termo que se aplica à
homossexualidade feminina. Como no
caso do homossexualismo masculino,
sua prevalência é desconhecida.
Também neste caso a questão
familiar desempenha um papel muito
importante. Pesquisas demonstram
que muitas mães de mulheres lésbicas
tendem a ser hostis e competitivas com
suas filhas, sendo muito ligadas aos
filhos homens e ao pai. Além disso,
os pais de mulheres homossexuais
raramente desempenham um papel
dominante na família e dificilmente
mostram-se afeiçoados às filhas.
Tanto homens quanto mulheres
homossexuais tendem ao isolamento
e mostram dificuldade em fazer
amizades, mesmo quando crianças.
Na adolescência e na idade adulta
eles raramente marcam encontros. A
maioria dos homossexuais torna-se
consciente de sua homossexualidade
antes dos dezesseis anos — alguns até
antes dos dez anos. Eles costumam
optar pela vida em cidades grandes
para aí formar seus próprios grupos
sociais com regras, modo de vestir e
linguagem próprios. Recentemente,
tem-se observado o surgimento de
organizações para melhorar a imagem
do homossexual, as quais costumam
negar que o homossexualismo
seja um distúrbio ou
anormalidade.
Leigos freqüentemente
questionam se a
homossexualidade deveria ser
considerada uma doença ou
um pecado. Uma coisa não
exclui a outra. Pessoas cuja fé se
baseia na Bíblia não podem duvidar que
as claras proibições do comportamento
homossexual façam dessa prática uma
transgressão da lei divina. Por outro lado,
há que se considerar a preponderância
de opiniões de especialistas a apontar o
homossexualismo como uma forma de
psicopatologia que requer intervenção
médica.
Muitos, em nossa sociedade
moderna, negam a condição patológica
do homossexualismo, recusam-se a
considerar a existência de implicações
de ordem moral e vêem a prática
homossexual apenas como uma forma
de expressão diferente do padrão de
comportamento sexual da maioria da
população. Assim, tais pessoas não apenas
desencorajam a busca por ajuda como
contribuem para que o homossexual se
conforme com uma vida cada vez mais
isolada e frustrante, independente de
quão permissiva e condescendente nossa
sociedade se torne.
Outra questão bastante levantada diz
respeito à atitude da igreja em relação
a homossexuais. Tais indivíduos se
deparam com ouvidos insensíveis e
portas fechadas na comunidade cristã.
Essa reação intensifica os sentimentos
de angústia e de solidão profunda,
o completo desânimo que os assusta
e, com freqüência, leva ao
suicídio. Cristo, enquanto
se opunha vigorosamente à
doença e ao pecado, buscava
doentes e pecadores com
compreensão e misericórdia. A
igreja erra quando se permite
fazer menos.
A grande cobertura que a
mídia faz do homossexualismo,
resultado da recente atividade de
organizações de homossexuais, tem
tornado a homossexualidade mais
aceitável como tópico de discussão.
Dessa forma, a igreja sem dúvida tomará
consciência do problema acontecendo
com alguns de seus membros. Isto
não deve surpreender, pelo menos
por duas razões. Em primeiro lugar, o
sentimento de solidão, a necessidade
de contato humano e a imagem de si
próprio como um desajustado levam o
homossexual a ver a comunidade cristã
como um refúgio e uma possível fonte
de conforto. A outra razão está na frieza
e rejeição, comuns no ambiente familiar,
provocando ânsia por uma figura de pai
amoroso, cálido e compassivo. É fácil
entender como o cristianismo pode ser
atraente, especialmente para suprir esta
necessidade emocional.
Várias formas de psicoterapia
têm sido usadas no tratamento de
homossexuais, com diferentes níveis
de sucesso. Como em qualquer
tratamento psicoterápico, os resultados
dependem de fatores múltiplos, com
ênfase na motivação do paciente.
Pessoas homossexuais tendem a ser
desmotivadas, o que seja talvez um dos
maiores desafios para o terapeuta. A
experiência clínica tem mostrado que a
motivação para mudar e a consciência
do erro são essenciais para
aumentar significativamente a
expectativa de um tratamento
bem-sucedido.
Nota
Traduzido do inglês por Raquel
Monteiro Cordeiro de Azeredo
Os homossexuais se deparam
com ouvidos insensíveis e portas
fechadas na comunidade cristã. Essa
reação intensifica os sentimentos de
angústia e de solidão profunda, o
completo desânimo que os assusta
e, com freqüência, leva ao suicídio
Cristo, enquanto se opunha
fortemente à doença e ao pecado,
buscava doentes e pecadores com
compreensão e misericórdia. A igreja
erra quando se permite fazer menos
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Elben M. Lenz César
Não abandono a Cristo nem a sua
Igreja, mas ficarei extremamente
aborrecido com a minha igreja se...
SteveRalston
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 27
Os cristãos ortodoxos demais não•
colocarem no mesmo nível os pecados
sexuais e os pecados sociais.
Os cristãos fundamentalistas demais•
aprovarem a guerra e condenarem a
guerrilha.
Os cristãos pentecostais demais não•
colocarem no mesmo nível de importância
os dons do Espírito e o fruto do Espírito.
Os cristãos ecumênicos demais chamarem•
de irmãos na fé aqueles que colocam Jesus
no mesmo nível de Buda e Maomé.
Os cristãos liberais demais disserem que•
Jesus é só Filho do homem e não Filho do
homem e Filho de Deus ao mesmo tempo.
Os cristãos reformados demais não•
enfatizarem tanto a eleição como a Grande
Comissão.
Os cristãos espirituais demais derem um•
espaço muito grande para a oração e um
espaço muito pequeno para a ação.
Os cristãos hipócritas demais continuarem•
a limpar o exterior do copo e não o
interior primeiro e o exterior depois.
Os cristãos esbravejadores demais falarem•
muito da condenação e pouco da salvação,
muito do pecado e quase nada do perdão.
Os cristãos diplomatas demais falarem•
muito da salvação e pouco da condenação,
muito do perdão e pouco do pecado.
Os cristãos acadêmicos demais desprezarem•
o pietismo e os cristãos pietistas demais
desprezarem a teologia.
Os cristãos avivados demais promoverem•
avivamentos à base de louvorzões,
ajuntamentos enormes, passeatas, shows
gospel, milagre de cura e enriquecimento,
muito barulho e sem contrição, sem
confissão de pecado, sem santidade, sem
Bíblia, sem paixão pelas almas, sem unidade
e sem apego cada vez maior a Jesus Cristo.
Mais uma coisa: estou pronto para ir para
a cadeia, se a lei brasileira me proibir de falar
que a prática homossexual é contrária à lei de
Deus, como se vê no texto da página seguinte
(A verdade definitivamente não está do lado do
comportamento homossexual!).
Há quase vinte anos o bispo da
Diocese Anglicana de Newark,
nos Estados Unidos, ordenou o primeiro
homossexual assumido desta importante
vertente do cristianismo. Catorze anos
depois, o bispo da Diocese de New
Westminster, no Canadá, autorizou, em
sua área, a cerimônia religiosa para uniões
do mesmo sexo. No mesmo ano, em
2003, a Convenção da Igreja Episcopal
dos Estados Unidos elegeu e consagrou
o primeiro bispo declaradamente gay da
Comunhão Anglicana.
Apesar de tudo isso, a denominação
e a grande maioria de suas dioceses
inquestionáveis e inegociáveis da ética
cristã, a começar da ordem da criação,
da anatomia humana, da fisiologia
da reprodução e, acima de tudo, da
revelação de um Deus santo e todo-
poderoso, a quem devemos respeitar
em humilde obediência e cujo amor
nos conduz à consciência do pecado e à
busca da novidade de vida” (p. 55).
Todavia, o bispo brasileiro afirma
também que “não apoiar a pessoa
de inclinação homossexual para que
vença a sua tentação ou discriminá-
la agressivamente (homofobia) são
pecados de falta de amor” (p. 74).
É heterofobia considerar homofóbica a afirmação
de pecaminosidade da prática homossexual
são oficialmente contrárias à prática
homossexual. Para contar a história e
a luta para preservar o compromisso
ético cristão da heterossexualidade, o
bispo brasileiro Robinson Cavalcanti,
da Diocese de Recife, acaba de
publicar Reforçando as Trincheiras
— análise da problemática do
homossexualismo à luz do cristianismo
histórico (Vida, 2007).
Robinson é categórico:
“[A normatividade heterossexual e a
condenação das práticas homossexuais
e a bênção de uniões de pessoas do
mesmo sexo] são pontos centrais,
Barbedwire
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Já que a prática
homossexual havia se
tornado comum entre os
povos no meio dos quais
os israelitas viviam, a lei
dizia: “Nenhum homem
deverá ter relações com
outro homem”
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200828
capa
Não podemos lutar contra a verdade,
mas só a favor da verdade
2 Coríntios 13.8, J.B. Phillips
1. Por causa do padrão do ato
criador de Deus
Deus nos criou homem e mulher,
macho e fêmea. Com anatomia e órgãos
sexuais diferentes e complementares, de
forma que sentíssemos originalmente
atração um pelo outro (Gn 1.27).
2. Por causa do que aconteceu
a Sodoma e Gomorra
O livro de Gênesis menciona três
vezes a situação moral de Sodoma.
Na primeira passagem lê-se que ali
“vivia uma gente má, que cometia
pecados horríveis contra o Senhor”
(Gn 13.13, NTLH). Na segunda,
lê-se que o Senhor disse a Abraão: “Há
terríveis acusações contra Sodoma
e Gomorra, e o pecado dos seus
moradores é muito grave” (Gn 18.20,
NTLH). A terceira passagem confirma
as anteriores e apresenta fatos: a
população masculina de Sodoma cercou
a casa de Ló e pediu-lhe para trazer para
fora os dois homens que ele hospedava,
pois queriam ter relações homossexuais
com eles (Gn 19.5). Mesmo havendo
outra acusação grave contra ambas
as cidades — arrogância e abuso dos
pobres (Ez 16.49-50) — o pecado mais
conhecido não é abrandado. A Epístola
de Judas recorda apenas o pecado do
homossexualismo: as cinco cidades da
planície comparecerão perante o juízo
do grande dia porque “se entregaram
à imoralidade e a relações sexuais
antinaturais” (Jd 7).
3. Por causa da necessidade
de haver uma lei explícita
sobre o assunto
Já que a prática homossexual havia
se tornado comum entre os povos no
meio dos quais os israelitas viviam
(Lv 18.1-5), tanto no Egito (de onde
estavam saindo) como em Canaã
(para onde estavam indo), a lei dizia:
“Nenhum homem deverá ter relações
com outro homem; Deus detesta isso”
(Lv 18.22). Paulo faz menção a essa lei
anti-homossexual na Primeira Epístola
a Timóteo (1.10).
4. Por ser algo permitido por
Deus como forma de castigo
Quando a rejeição e depravação
continuam, Deus retira o freio
e entrega “os seres humanos aos
desejos do coração deles para fazerem
coisas sujas e para terem relações
vergonhosas uns com os outros”
(Rm 1.24, NTLH). Deus abre e
escancara as portas que ele mantinha
até então fechadas. Ele levanta a
âncora do navio seguro no porto e
deixa que as ondas do mar revolto o
levem para bem longe. Então, “até as
mulheres trocam as relações naturais
pelas que são contra a natureza”.
Os homens, por sua vez, “deixam as
relações naturais com as mulheres e se
queimam de paixão uns pelos outros”
(Rm 1.26-27, NTLH).
5. Por causa do resultado final
Há uma declaração enfática de
que nem os homossexuais passivos
(os malakoi) nem os homossexuais
ativos (os arsenokoitai) terão parte
no reino de Deus, bem como outros
pecadores empedermidos (“duros
como uma pedra”), tais como os
adúlteros, idólatras, avarentos,
trapaceiros, ladrões etc. (1Co 6.9-11).
Essa passagem é corroborada duas
vezes em Apocalipse: “Os covardes,
os incrédulos, os depravados,
os assassinos, os que cometem
imoralidade sexual, os que praticam
feitiçaria, os idólatras e todos os
mentirosos — o lugar deles será no
lago de fogo que arde com enxofre”
(Ap 21.8; 22.15).
A verdade definitivamente
não está do lado do
comportamento homossexual!
Irenas
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IvanVicencio
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 29
E
sta é a verdade nua e crua.
O armário foi aberto e a
cerca foi derrubada. Os
homossexuais abriram o
armário e dele saíram. Deus derrubou
a cerca e os deixou à vontade. Com
o armário aberto, os homossexuais
tornaram-se visíveis. Com a cerca
derrubada, andam de mãos dadas,
beijam-se em público, casam-se,
adotam filhos, prostituem-se, escrevem
livros, publicam jornais, organizam
marchas e passeatas, aparecem nas
novelas, compram agências de viagens,
fazem turismo, gastam dinheiro a rodo,
exigem respeito de todos em nome dos
direitos humanos e mudam as leis.
A expressão “sair do armário”
pertence ao vocabulário gay e
significa assumir publicamente a
homossexualidade (outing, em inglês).
A expressão sinônima, porém, mais
forte, seria “derrubar (ou chutar) a
porta do closet”, isto é assumir-se com
estardalhaço (Aurélia, a dicionária da
língua afiada, p. 119).
A idéia da cerca derrubada é uma
figura bíblica que aparece em Isaías.
Certo homem tinha uma vinha na
encosta de uma fértil colina. Então ele
cavou o chão, tirou as pedras e plantou
as melhores mudas de uvas. Para evitar
a entrada de animais que poderiam
danificar a plantação e de ladrões que
poderiam furtar as uvas, o dono da
vinha construiu um muro ao redor.
Para aumentar a segurança, levantou
uma torre no centro do terreno, na
qual colocou um vigia. E, na certeza de
que todo o esforço seria compensado,
fez também o tanque onde deveria
espremer as uvas e depois fazer o vinho.
Ele esperava com justa razão colher
uvas de primeira qualidade, mas a
vinha só deu uvas azedas. Espantado e
decepcionado, o homem perguntou aos
seus botões: “Podia eu fazer pela minha
vinha mais do que eu fiz?”. À vista do
fracasso total, o dono da vinha toma
uma decisão dramática: “Vou derrubar
o muro que cerca a vinha e ela passará a
ser pasto para o gado” ((Is 5.1-7).
Na pequena parábola em forma
de canção, o proprietário e a vinha
dizem respeito a Deus e a seu povo.
Porque os judeus não valorizavam
nem usufruíam da providência divina,
rebelando-se acintosamente contra
ele, Deus mesmo derrubou a cerca
protetora e os deixou perigosamente
soltos. O mesmo acontece hoje com
toda pessoa ou grupo que assume
posição contra o Senhor na esperança
de fazer “em pedaços as suas algemas”
(Sl 2.3). Deus então deixa os homens
à vontade para se corromperem,
para se complicarem, para correrem
eternamente atrás do nada, para
fazerem uma guerra após a outra, para
se matarem, para tornar o planeta
inabitável e também para trocarem
“suas relações sexuais naturais
por outras, contrárias à natureza”
(Rm 1.26).
A cerca derrubada está intimamente
relacionada com o armário aberto. É
conseqüência do chute dado na porta
do closet!
Armário
aberto
e cerca
derrubada
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capa
Stockxpert
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200830
D
e acordo com um bom
número de psicólogos
e psiquiatras, “uma vez
homossexual, se torna
praticamente impossível a mudança de
orientação e a simples tentativa geraria
no indivíduo depressão, ansiedade e
outros traumas psicológicos”
(www.christianitytoday.com).
A palavra “impossível” está errada.
No lugar dela deveríamos escrever
“difícil”. Primeiro, porque há inúmeros
casos verdadeiros de mudanças,
desde os tempos apostólicos até hoje.
Segundo, porque uma afirmação dessa
reduz tanto a graça como o poder de
Deus, que são ilimitados.
O argumento mais convincente que
vem de encontro a essa mencionada
impossibilidade é a notícia de que alguns
coríntios deixaram de ser homossexuais
passivos e homossexuais ativos quando
aceitaram o evangelho pregado por
Paulo, por ocasião de sua segunda grande
viagem missionária (1Co 6.9- 11), por
volta do ano 50 da era cristã.
Ora, esse fato se reveste de grande
importância se levarmos em consideração
que Corinto era uma cidade famosa por
sua prostituição. Os gregos chegaram
a cunhar o termo corinthiazesthai
(“corintianizar”), que quer dizer “viver uma
vida coríntia”, para descrever a imoralidade
daquela metrópole de 500 mil habitantes.
O motivo pelo qual Paulo
confiava plenamente no evangelho
é porque ele é “uma força divina da
salvação” (Rm 1.16, BP). Graças
a essa “dinamite” de Deus, não só
os ex-homossexuais de Corinto
experimentaram uma notável
transformação, mas também o próprio
Paulo e muitos outros. Há uma série de
“antes e agora” no Novo Testamento:
“Aquele que antes nos perseguia
[uma referência a Paulo], agora
está anunciando a fé que procurava
destruir” (Gl 1.23).
Pedro e André, Tiago e João eram
pescadores de peixes antes e “pescadores
de homens” agora.
João era “filho do trovão” antes e o
apóstolo do amor agora.
Zaqueu era desonesto e sovina antes e
honesto e caridoso agora.
Pedro era covarde demais antes e
corajoso demais agora.
Tomé era incrédulo antes e crente agora.
O escravo Onésimo era o “útil” inútil
antes e o “útil” verdadeiramente útil agora.
Entre o antes e o agora há uma
saída, uma libertação, uma reviravolta,
uma experiência marcante, que a
Bíblia chama de novo nascimento ou
conversão, algo sobrenatural operado
pela graça de Deus, por meio de Jesus
Cristo e pela operação do Espírito Santo.
Os homossexuais insatisfeitos
com a sua conduta e acossados pela
consciência ainda não diluída precisam
ter esperança e reler: “Quem está unido
em Cristo é uma nova pessoa; acabou-
se o que era velho e já chegou o que é
novo” (2Co 5.17,NTLH).
Se algum leitor precisar de ajuda e
encorajamento:
• GA — Grupo de Amigos no Rio de
Janeiro (21 2625-1991) ou São Paulo
(11 7358-3389), ou escreva para Caixa
Postal 99.315 – 28260-970 – Nova
Friburgo, RJ.
• ABRACEH – Associação de Apoio ao
Ser Humano e à Família. Caixa Postal
106.075 – 24230-970 – Niterói, RJ.
E-mail: <info@abraceh.org.br> ou
<abraceh@urbi.com.br>
A mudança de comportamento
homossexual não é nem
impossível nem fácil
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Rubem Amorese
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 31
“Dentro do cine Gay Astor, você
encontra na parte de baixo filmes hetero,
na de cima, os de temática gay. Dentro
do dark room e no banheiro, além das
famosas pegações, ocorre também sexo de
dupla e grupal. Por apenas cinco reais,
a diversão vai até as dez da noite. Não
esqueça de levar camisinha e gel.”
Léo Mendes
O
convite acima foi
publicado num domingo,
na “Coluna do Meio” do
jornal goiano Diário da
Manhã, voltada para o público gay. Léo
Mendes é o jornalista Liorcino Mendes
Pereira Filho, presidente da Associação
de Gays, Lésbicas e Transgêneros de
Goiás e membro titular da Comissão
Nacional de Aids do Ministério da
Saúde.1
Enquanto o PL 1.151/1995, da
então deputada Marta Suplicy (PT-
SP), que disciplina a união civil entre
pessoas do mesmo sexo, permanece à
espera de um descuido dos contrários
à sua aprovação, prospera, em paralelo,
a chamada “Lei da Homofobia”
(PL 5.003/2001), que, aprovada
em plenário, seguiu para o Senado.
A última ação sofrida pela “Lei do
Casamento Gay” foi o requerimento do
deputado Celso Russomanno (PP-SP)
que solicitava sua inclusão na ordem do
dia, em 14 de agosto de 2007. Ainda
não foi dessa vez.
A leitura do convite acima gera
inquietação sobre as reais intenções
dos gays ao proporem a “Lei da
Homofobia” (PLC nº 122/2006,
no Senado). O projeto, de autoria
da deputada Iara Bernardi (PT-SP),
altera a Lei 7.716/1989, que define os
crimes resultantes de preconceito de raça
ou de cor, dá nova redação ao § 3º do
art. 140 do Decreto-Lei 2.848/1940
(Código Penal), e ao art. 5º do Decreto-
Lei 5.452/1943 (Consolidação das
Leis do Trabalho – CLT), e dá outras
providências. Sua relatora é a senadora
Fátima Cleide (PT-RO).
A modificação pretendida à citada
Lei 7.716/89 (chamada “Lei do
Racismo”) é simples: equiparar a
condição homossexual àquela de raça
e cor. Advogam que ser homossexual
é como ser branco, negro, judeu ou
mesmo idoso; um fato não-moral
(por não haver escolha envolvida; não
existiria a opção de não ser gay). Alguns
chegam a afirmar a existência do gene
da homossexualidade. Pretendem,
com isso, que qualquer crítica a um
homossexual seja vista como violência
homofóbica, crime semelhante ao
racismo. Outros afirmam que eles
desejam instaurar o delito de opinião.
Pretende-se modificar, também, a
CLT, tipificando a discriminação ou
preconceito de gênero, sexo, orientação
sexual e identidade de gênero. No caso,
as penas são duríssimas.
No dia 24 de outubro de 2007, a
presidência da Comissão de Direitos
Humanos e Legislação Participativa
do Senado (CDH) acolheu questão de
A Lei da
Homofobia
DavideGuglielmo
O projeto que altera
a chamada “lei do
racismo” advoga que ser
homossexual é como ser
branco, negro, judeu ou
mesmo idoso; um fato
não-moral (por não haver
escolha envolvida)
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capa
AliciaSolario
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200832
ordem do senador Marcelo Crivella
(PRB-RJ), para o adiamento da
matéria.
Os defensores desse Projeto de
Lei afirmam que ele não atingirá
as entidades religiosas. Dizem que
a Constituição Federal garante a
liberdade de crença, credo e culto.
Entretanto, a Carta Magna fala em
proteção “na forma da lei”. Com
efeito, alguns tribunais brasileiros já
baseiam as suas decisões no “princípio
da dignidade e igualdade humanas”.
Lembro um caso conhecido: em
novembro de 2006, o jornal O Tropeiro,
da cidade de Rancho Queimado,
SC, publicou uma matéria em que
promovia o homossexualismo. O
pastor luterano Ademir Kreutzfeld,
preocupado com seus fiéis, ligou para
os comerciantes locais questionando
seu patrocínio para aquele tipo de
reportagem, e estes cortaram as verbas.
O responsável pelo jornal, um ativista
gay, deu queixa contra o pastor numa
delegacia, alegando “homofobia”; o
delegado, aceitando a queixa, intimou
o pastor a se explicar. O reverendo
Ademir está sendo processado por
homofobia, antes da aprovação da lei.
Por outro lado, conta-se que, durante
a visita do papa ao Brasil, o líder gay
Luiz Mott queimou, acintosamente, na
porta da Catedral da Sé, em Salvador,
fotos de Bento 16.2
Que punição esse
ato de violência simbólica lhe valeu?
Nenhuma.
Um último registro: toda vez que
o PLC 122/2006 entra na pauta da
CDH, as caixas postais dos senadores
são abarrotadas de e-mails de protesto.
Ao ponto de tirar do ar, por mais de 24
horas, o site do Senado.
Notas
1. José Maria e Silva, “A ditadura da
depravação”. Jornal Opção, edição on-line,
17-23 jun. 2007. (http://www.jornalopcao.
com.br/index.asp?secao=Reportagens&idjor
nal=242&idrep=2312)
2. Adaptado de José Maria e Silva, op. cit.
1.
De acordo com a Instrução In
Continitá, de 2005, a Igreja Católica,
“ainda que respeitando profundamente
as pessoas em questão, não pode
admitir aos seminários e às ordens
sacras aqueles que praticam a
homossexualidade, apresentam
tendências homossexuais enraizadas
ou defendem a cultura gay”. A norma
prevalece mesmo diante da escassez de
vocações ao sacerdócio (Atualização,
mar./abr. 2007, p. 166).
2.
Do pastor Osmar Ludovico: “Por
favor, não me discriminem nem me
processem. Deixem-me discordar em
paz e continuar defendendo, a partir
de convicções profundas e inegociáveis,
os valores cristãos da família: 1) a
beleza de ser homem ou ser mulher;
2) a sublimidade do casamento
heterossexual; 3) a dignidade da
fidelidade conjugal; 4) e o direito à vida
das crianças no útero de suas mães. São
valores sagrados” (Revista Enfoque).
3.
De John Stott: “Uma bela verdade,
claramente afirmada desde o
primeiro capítulo da Bíblia, é que
a heterossexualidade é o propósito
de Deus na criação e que homens e
mulheres são iguais em dignidade e
valor diante de Deus” (A Bíblia Toda, o
Ano Todo, p. 19).
4.
Dom Eugênio Sales, arcebispo emérito
do Rio de Janeiro: “A igreja ensina
que as pessoas homossexuais são
chamadas à castidade. Nem sempre seus
ensinamentos são aceitos. Nem por isso
ela deve mudar para agradar” (Jornal do
Brasil, 10/11/07, p. 11).
5.
Pronunciamento dos bispos da Igreja
Metodista: “Não devemos considerar
os homossexuais mais pecadores que
alguns que estão dentro da igreja”...
“por outro lado, não devemos deixar de
dizer ao pecador, seja ele homossexual
ou não, que o ‘salário do pecado
é a morte mas o dom gratuito de
Deus é a vida eterna em Cristo Jesus’
(Rm 6.23)”.
6.
O médico Eduardo Ribeiro Mundim
entende que a lei da homofobia
“parece visar aqueles que agridem
verbal, moral e psicologicamente os
homossexuais”. Mas, por outro lado,
“existe um ativismo homossexual
que, em determinados momentos,
parece querer converter todos a
homossexuais ou obrigar a aceitação da
homossexualidade”.
Apertando o cerco
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A
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200834
Missões Mundiais da Convenção
Batista Brasileira, as heresias
começam a ganhar força entre os
cristãos e o número de seitas tem
crescido. E a constante perseguição –
nem sempre religiosa, mas sobretudo
motivada pela denúncia de quem se
sente incomodado com as práticas
dos cristãos – ainda atrapalha o
crescimento e a preparação dos
crentes chineses.
Apesar destes obstáculos a
China é, atualmente, a nação
onde o cristianismo mais cresce.
Estimativas mostram que existem
entre cinqüenta e cem milhões de
cristãos, distribuídos entre as igrejas
oficiais – que são supervisionadas
pelos censores do governo e não
podem praticar evangelismos – e as
comunidades chamadas de “igrejas
subterrâneas”, onde está a grande
maioria dos crentes.
Preparação de líderes
E foi para trabalhar neste segundo
contexto que Missões Mundiais
enviou o missionário Lian Godói.
Atuando numa das principais
cidades do país, ele está trabalhando
diretamente na preparação teológica
e no treinamento de líderes chineses,
pontada como a grande
potência mundial deste século em
função de seu rápido crescimento
econômico e tecnológico, a China
marcha firme em direção ao futuro,
algo que se transformou numa
verdadeira obsessão nacional.
Nação de tradições milenares,
concentra a maior população do
planeta – cerca de 1,4 bilhão de
habitantes – e possui uma pluralidade
de etnias e culturas divididas nas
mais de 50 regiões do país. Sua
economia está em pleno aquecimento
e já começa a influenciar outros
sistemas econômicos mundiais.
Desafios de um gigante
Por estes e outros motivos que a
China pode ser considerada o maior
desafio missionário do século. Entre
os desafios está a pouca, ou quase
nenhuma, propagação da mensagem
do Evangelho entre as mais de 500
etnias do país, especialmente no
interior. Outro problema é a falta de
preparação teológica dos crentes.
Como o crescimento do cristianismo
no país também acontece em ritmo
acelerado, os líderes acabam tendo
pouco preparo para discipular os
novos convertidos.
Segundo Lian Godói, missionário
enviado em 2006 pela Junta de
Informe
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 35
além de visitar o interior do país
para estabelecer contatos e plantar
trabalhos sociais naquelas regiões
onde o Evangelho ainda não chegou.
De acordo com o obreiro da
JMM, como a quantidade de novos
líderes é continuamente crescente,
a preparação e o pastoreio dos
mesmos é bastante difícil, apesar
da existência de seminários nas
grandes cidades chinesas. “Não
é nem tanto pela qualidade dos
pastores chineses, pois alguns
são muito bons teólogos e
pregadores. A dificuldade maior
é treinar qualitativamente a
enorme quantidade de crentes
que assumem trabalhos pelo país.
A base teológica que possuem
é bem precária devido, na
maioria das vezes, à forma de
conversão e ao contexto social
em que vivem. Eles assumem
os trabalhos, até mesmo pela
necessidade de seguir com a obra,
e não são preparados para tal.
A capacitação dessas lideranças
é um dos grandes problemas da
China hoje”, avalia o missionário.
Para o obreiro brasileiro,
outro grande problema da igreja
na China é a falta de bíblias
para atender o crescente número
de convertidos. “A estratégia de
entrar no país com carregamentos
de bíblias, além de ser proibida,
não atende à demanda da igreja
chinesa e há o risco de que a carga
seja apreendida. Como se vê, a
necessidade é urgente. Temos um
projeto, Bíblias para a China
(veja encarte em anexo), que
visa imprimi-las no próprio país,
diminuindo custos e aumentando
consideravelmente o alcance da
distribuição desse material entre os
crentes chineses”, diz Lian Godói.
Clamor por mais obreiros
Apesar da explosão
socioeconômica da China, a maior
parte da população ainda vive em
condições precárias, especialmente
no interior do país. São comuns os
relatos de missionários, voluntários
e dos próprios chineses de que
falta mão-de-obra capacitada para
atender às necessidades básicas
da população, como assistência
médica e odontológica, professores e
profissionais especializados. Para o
missionário da JMM, essa realidade
descortina-se como uma grande
oportunidade para que profissionais
cristãos sigam para a China como
missionários. “Muitos estrangeiros
entram no país como profissionais ou
empresários para desenvolverem as
mais variadas atividades, outros vão
para lecionar; as oportunidades nas
áreas de esporte e assistência social
também são grandes”, analisa.
É o caso de duas missionárias
brasileiras, uma cirurgiã-dentista
e outra professora de idiomas,
que estiveram na China como
voluntárias, atendendo à população
e falando de Jesus através
do cuidado demonstrado em
suas atividades profissionais
e agora retornaram ao campo.
“Quando estive no interior
do país atendi muitas pessoas
com graves problemas
bucais. De volta ao Brasil, fui
questionada sobre o porquê
ir até a China para atender
pessoas de graça e não para
ganhar dinheiro como tantos
outros. No meu consultório,
comecei a pensar sobre isso
e notei que trabalhar para
ganhar dinheiro não fazia
mais sentido para mim. Queria
mesmo era voltar à China e
servir, através do talento e
capacidade que Deus me deu,
àquele povo tão necessitado”,
conta, emocionada, a
missionária e odontóloga.
Há um clamor muito grande por
mais obreiros. Obreiros que estejam
dispostos a investirem suas vidas,
pois, de acordo com Lian Godói, em
se tratando da China, não se pode
pensar em menos de 10 anos de
trabalho. Enfim, há muitas maneiras
de servir a Deus e abençoar a China.
Sérgio Dias é redator da Junta de Missões Mundiais da
Convenção Batista Brasileira
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36 ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 2008
Sem polêmica, mas
delicadamente ousada
Ultimato está completando 40
anos agora em janeiro. Fomos o
jornal Ultimato nos oito primeiros
anos, e desde 1976 somos a revista
Ultimato.
Na edição número 1, declaramos
que o jornal “não se deleitaria
em polêmicas, mas seria firme e
delicadamente ousado”. Dissemos
também que anunciaríamos o
evangelho direta e indiretamente.
Naquele remoto janeiro de 1968,
colocamos nas mãos de Deus “a
trajetória que o jornal deveria
descrever para glória e honra de
Deus”. Tudo indica que, apesar
das muitas mudanças pelas quais o
mundo e a igreja têm passado, não
nos afastamos destes propósitos
originais.
Na edição de janeiro de 1998,
quando comemorávamos o
30º aniversário, publicamos o
artigo Jesus na capa e no miolo
para salientar a nossa constante
preocupação em apresentar ao leitor
o Jesus da Bíblia, que esvaziou-se a
si mesmo apara ser encontrado em
forma humana (Fp 2.6-11).
Ainda hoje, como se lê no
expediente, Ultimato é “órgão de
imprensa evangélico destinado à
evangelização e edificação, sem cor
denominacional”. Nestes 40 anos,
tem relacionado “Escritura com
Escritura e acontecimentos com
Escritura” (daí a seção “Mais do que
notícias”). Pretende “associar
a teoria com a prática
a fé com as obras
a evangelização com a ação social
a oração com a ação
a conversão com a santidade de vida
e o suor de hoje com a glória por vir”
Um ano e meio entre a
concepção e o parto
Tudo começou na cidade de São
Paulo, em maio de 1966, quando
o coordenador do jornal Brasil
Presbiteriano nos
solicitou uma série
de artigos contando
a história de alguns
jornais evangélicos,
desde a Imprensa
Evangélica (o
primeiro periódico
protestante da
América do Sul),
de Ashbel Green
Simonton, fundado
em 1864, no Rio
de Janeiro, até a
revista Unitas, de
Miguel Rizzo Júnior,
fundada com o
nome de Fé e Vida,
em 1930, em São
EEspecialEspecial40 anos de coerência
Especial
Ultimato foi concebido em São Paulo (1966), nasceu em Barbacena (1968) perambulou
por Porto Alegre (1969) e Campinas (1970) e se fixou em Viçosa (1971)
Equipe de colaboradores (funcionários e estagiários) da Editora Ultimato
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 37
Paulo. Entre um e
outro, estão O Púlpito
Evangélico (1874), Salvação de
Graça (1875), O Evangelista (1885),
O Puritano (1898), entre outros.
Simonton justificava o nascimento
da Imprensa Evangélica de forma
óbvia: “O anúncio do evangelho
não pode depender só de púlpito”.
O Salvação de Graça tinha o mesmo
propósito: “Chamar os homens das
trevas para a luz, guiar os pecadores
ao Salvador e edificar na verdade”.
O Puritano foi lançado para fazer
propaganda do evangelho numa
época em que apenas 0,3% dos
habitantes da antiga capital brasileira
freqüentavam os poucos templos
evangélicos existentes.
A elaboração desses artigos,
após acurada pesquisa, nos deixou
estarrecidos com o fato de que na
década de 1960 tínhamos muitos
periódicos de boa qualidade,
mas, em geral, voltados só para os
crentes e a serviço de suas próprias
denominações. Logo nos veio à
mente a tímida idéia de suprir a
lacuna existente e fundar um jornal
que chamasse a atenção também
de um público não evangélico.
A idéia se concretizou um ano e
meio depois, em janeiro de 1968,
em Barbacena, cidade mineira
encarapitada no alto da Serra da
Mantiqueira, mais ou menos no
meio do caminho entre Rio de
Janeiro e Belo Horizonte.
Por que Ultimato?
O nome Ultimato tem uma origem
curiosa. Veio de um padre de
Barbacena. Havíamos conseguido,
depois de muita luta e muito tempo,
um programa religioso na Rádio
Correio da Serra. Quando fomos
apresentar o primeiro programa, o
deputado José Bonifácio Tann
de Andrade (mais conhecido como
Andradinha), dono da emissora,
disse-nos que o padre Hilário da
Mota Barros, da Basílica de São
José Operário, tinha lhe dado um
ultimato: se a Correio da Serra
permitisse o programa da Igreja
Presbiteriana de Barbacena, ele
deixaria de apresentar o programa da
basílica, o que traria sérios problemas
políticos para o deputado. Perdemos
o programa, mas ganhamos a idéia
do nome do jornal que estava sendo
planejado: Ultimato. A idéia foi
reforçada com o verso bíblico que
estava gravado na parede externa do
templo presbiteriano: “Busquem o
Senhor enquanto é possível achá-lo;
clamem a ele enquanto está perto”
(Is 55.6). Ora, Deus também dá
ultimatos!
O cartão de visita do
Cardeal Scherer
Quem folheia a revista Ultimato
percebe facilmente que temos
muitos leitores evangélicos e não
evangélicos, exatamente como
desejávamos antes mesmo de lançar
o primeiro número. Não poucos
são católicos. Tal fato deve-se a
um simples cartão de visita que
o cardeal Dom Vicente Scherer
(parente do arcebispo de São Paulo,
Dom Odilo Pedro Scherer, recém-
nomeado cardeal pelo papa Bento
16), de Porto Alegre, nos enviou
em 1976: “Agradeço a gentileza da
remessa regular, por cortezia [sic.],
da publicação, que vejo com interesse
pela franqueza de importantes
colocações”. Ora, se um cardeal, em
tempos não muito ecumênicos, deu
importância a Ultimato quando
era um tablóide de oito páginas, por
que não enviar o periódico a todas
as paróquias católicas do Brasil? O
sonho se concretizou no ano seguinte
e, desde 1977, temos enviado a
revista a mais de 8 mil paróquias
católicas. Mais tarde, passamos
a enviá-la também aos bispos
(mais de trezentos) e aos padres
casados cujos nomes e endereços
conseguimos (mais de setecentos).
Nos últimos três anos, não temos
alcançado todas as paróquias.
Sem dúvida, essa “intromissão” de
Ultimato no ambiente católico tem
tornado a igreja evangélica mais
conhecida lá dentro e diminuído
os preconceitos mútuos. Por outro
lado, sem deixar de lado seus
princípios reformados, a revista tem
trazido para o ambiente evangélico
algo positivo da igreja católica
brasileira. Por se tratar de uma
revista evangélica, tem liberdade
de publicar algumas críticas que
agradam os “católicos com fome e
sede de mudança” (edição de julho/
agosto, p. 26) e desagradam os
demais. Entendemos que isso é uma
prestação de serviço. Em todos os
casos, a revista nunca teve propósito
de arrebanhar católicos romanos
para o protestantismo. Mas também
nunca escondeu o seu propósito de
levar evangélicos, católicos, espíritas
e descrentes para a suficiência e
senhorio de Jesus Cristo.
E. César
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Bancodeimagensoliver
Robinson Cavalcanti
Protestantes: autênti
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200838
J
esus Cristo criou uma só Igreja,
Povo da Nova Aliança, não para
ser uma unidade “invisível”,
metafísica, neoplatônica, mas sim
visível, na História, institucional. As
igrejas orientais são anteriores à Igreja
de Roma e nunca foram subordinadas
a ela por jurisdição, muito menos por
autoridade monárquica. A igreja assíria
do Leste (nestorianos), tendo como
epicentro a Pérsia, chegou à Índia e à
China, quase dizimada pelos mongóis e
pelo Islã. As igrejas pré-calcedônicas —
Egito, Etiópia, Síria, Armênia e Índia
— também, nunca foram vinculadas a
Roma. As igrejas bizantinas, a partir da
sede do Império Romano do Oriente,
apenas reconheceram no bispo de
Roma (que não era o papa tal como
conheceremos posteriormente) um
mero “primado de honra”, por estar na
capital do Império do Ocidente.
Um bom exercício
de honestidade
intelectual
reformar no que se pensou e se fez,
antes e depois da Reforma. Depois
dela a Igreja de Roma oficializou
novos dogmas, e, juntamente com
os bizantinos, canonizaram novos
“santos”. Trocou-se o livre exame pela
livre interpretação e a Igreja deu lugar a
seitas e “denominações”. O liberalismo
mandou para o espaço as escrituras,
a tradição, os credos, as doutrinas e a
moral, sacrificados no altar da razão e
na arrogância humana, hoje subjetiva,
individualista e relativista. “Revelações”
particulares e “profetas” auto-
proclamados esquartejaram o Corpo de
Cristo. Depois da Reforma sofremos
o banho de sangue das Inquisições e a
intolerância legalista, moralista, sectária,
antiintelectual (e, às vezes, racista) do
neofundamentalismo. Surgiram as
seitas para-cristãs dos Mórmons, das
Testemunhas de Jeová e da Ciência
Cristã, bem como o neo/pós/iso/pseudo-
pentecostalismo, cuja pretensa identidade
protestante é uma contradição em si
mesma.
A primeira reforma (anglicanos e
luteranos), assim como a posterior
reforma siriana da Igreja Mar Thoma, na
Índia, nunca aceitou a anti-história de
uma “apostasia geral”. Nunca pretendeu
uma ruptura total com o passado para
criar ou re-fundar uma nova
é ler a história da Igreja a partir dos
autores dos três ramos da Igreja no
Oriente: todos eles dirão que foi
Roma que se separou dos patriarcados
orientais, com a sua pretensão de
uma autoridade monárquica com
jurisdição universal. A ambição desta
de ser “a” Igreja não se sustenta nem
bíblica nem historicamente, e terá
(por um milagre) de ser abandonada
se quisermos um dia ter “um só
rebanho e um só pastor”. Deverão ser
superados, também, o nacionalismo e o
tradicionalismo que engessam as igrejas
do Oriente, impedindo sua atualização
e engajamento na grande comissão.
Os cristãos não podem nem minimizar
o valor dos pontos convergentes da
Reforma Protestante do século 16,
nem começar a história da Igreja com
a Reforma. O Espírito Santo esteve
presente nos vinte séculos de nossa
história, apesar dos erros, superstições e
desvios que tenham surgido pela carne
dos homens. O núcleo consensual
reformado deve ser uma ferramenta
hermenêutica privilegiada para
discernir o que
manter e o que
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•Santos
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•Brasília
•Campo Grande
•Cuiabá
Porto Velho •
Rio Branco •
Porto Alegre •
Joinville •
Florianópolis •
Londrina •
Curitiba •
Palmas •
Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do
Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política
– teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o
País e o Mundo – desafios a uma fé
engajada.
<www.dar.org.br>
ticos católicos
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 39
Igreja, mas, como o próprio nome
diz, reformar a Igreja de Cristo, única,
santa, católica e apostólica, até então
presente em quatro jurisdições. Os
corpos não reformados não quiseram se
reformar, ou apenas se contra-reformar.
Os protestantes não romperam, foram
expulsos. Hoje, entre o neo-integrismo
reacionário dos corpos não-reformados
e o cipoal fragmentado dos corpos
deformados — incapazes de dar
uma resposta ao Estado e à ideologia
secularista —, almas sedentas clamam
por uma Igreja de dois mil anos. Igreja
dos Pais da Igreja e dos Pais Apostólicos;
Igreja dos Reformadores, com uma rica
herança histórica, espiritual, doutrinária
e litúrgica. Com ética e com estética;
com vitalidade e com santidade; com
dinamismo e com profundidade. Com
o sacerdócio universal dos crentes e com
o sacerdote especial dos vocacionados e
ordenados: diáconos, presbíteros e bispos
(sucessores dos apóstolos). O futuro
depende de um presente que retome o
passado.
Da Pré-Reforma herdamos o
fechamento do cânon bíblico, o
estabelecimento do núcleo
doutrinário contido nos Credos
Apostólico
e Niceno e o estabelecimento de uma
forma de governo para a Igreja: o
episcopado (“...ao largo dos tempos,
vai-se continuando a sucessão dos
bispos e a administração da Igreja,
de sorte que a Igreja sempre esteve
estabelecida sobre os bispos, e todo
ato da Igreja era dirigida por estes
propósitos”, Cipriano de Cartago, De
Unitate, 23.4). Da Reforma, a ênfase
na autoridade das Sagradas Escrituras
como fonte de revelação e a salvação pela
graça mediante a fé. Da Pós-Reforma
herdamos a riqueza sistematizada
das confissões de fé, o compromisso
puritano, a espiritualidade pietista, a
paixão avivalista e o ardor missionário,
o novo nascimento. Protestantes
anticatólicos? Não, católicos reformados,
verdadeiros católicos!
ultimato 310 final.indd 39ultimato 310 final.indd 39 5/12/2007 16:34:315/12/2007 16:34:31
Ricardo Gondim
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200840
N
aran, meu neto,
gosta de classificar
os personagens de
seu mundo infantil
em rígidas categorias. Vez por
outra, ele me pergunta: “Vovô, o
Homem Aranha é do bem ou do
mal?”. Claro, procuro antecipar-
me às suas expectativas e digo
que o seu herói é do bem.
Certo dia, vi-me num beco
sem saída. Sério como um
professor na hora da sabatina,
ele me questionou: “Vô, Davi
era do bem ou do mal?”. Eu
respondi sem titubear: “Do bem”.
“E Golias?”. Não hesitei: “Do
mal”. Com essas duas respostas
para trabalhar em sua cabecinha,
ele recontou o que aprendera
sobre o célebre embate entre o
rei e o gigante, e emendou:
“Mas, vô, Davi cortou a
cabeça de Golias depois
que o derrubou com
uma pedra, não foi?
Naquela hora ele não
virou num homem
do mal?”. Só consegui
responder: “Eu nunca
tinha pensado assim,
mas acho que você
tem razão”.
Nossa disposição
para separar as pessoas em arraiais
distintos, além de ingênua, não
subsiste aos questionamentos de
uma criança. Os seres humanos
são infinitamente mais complexos
que nossas pobres categorizações.
Recentemente, vi o filme sobre a
vida da cantora francesa Edith Piaf.
Sua história mexeu com as minhas
emoções, saí do cinema com o
coração comovido. Sua infância, suas
constantes perdas, sua adolescência
nas sarjetas a tornaram uma mulher
tempestiva, que bebia demais e
parecia desequilibrada. Mas ela não
podia ser rotulada com gradações
que vão de boa a perversa.
Os personagens bíblicos são
inconstantes em suas virtudes
e os vilões não encarnam o mal
absoluto. O único personagem
bíblico absolutamente mal é Satanás.
Todos os demais agem com vileza e
bondade; são execrados e aplaudidos.
Abraão creu, hesitou, mentiu.
Moisés ousou, titubeou, perseverou.
Davi amou, assassinou, arrependeu-
se. A seqüência de exemplos lota
o texto sagrado. Todos os heróis
são cavalheiros e nobres, réprobos
recomendáveis.
Jesus lidou com a alma humana
como um vasto universo. Ele era
extremamente cuidadoso e jamais
Bem e mal
hagitM.
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Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda
no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros,
Eu Creio, mas Tenho Dúvidas.
<www.ricardogondim.com.br>
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 41
subestimava a subjetividade de cada
pessoa. Não deixou que apedrejassem
a mulher apanhada em adultério.
Considerava injusto que aqueles
religiosos não levassem em conta
o passado, os traumas, as feridas
anteriores de tal muher. Não, ele não
permitiria que a história dela fosse
jogada na sarjeta só para que a lei
fosse mantida. Quando li a biografia
do Garrincha, talvez o maior ponta-
direita do futebol brasileiro de todos
os tempos, não consegui depreciá-lo
como um devasso, mas como um
desafortunado, um alcoólico carente
de misericórdia. Chorei por sua
sorte.
Li uma frase no blog do Allyson
Amorin (http://alyssonamorim.
blogspot.com/) que apreciei bastante:
“Por trás de uma grande queda
há sempre uma curva acentuada”.
Quanta verdade! Devemos olhar
não apenas para as quedas, mas
considerar também as curvas
acentuadas.
A monumental obra de Victor
Hugo Os Miseráveis expôs Javert
como um homem detestável, porque
não conseguia conceber que um
condenado pudesse ter alguma
nobreza no coração. Uma vez
condenado, para sempre perdido.
Os maus mereciam, segundo sua
percepção, os rigores da lei.
Jean Valjean, criminoso execrado
por um homicídio, foi tenazmente
perseguido por Javert, que só se
preocupava em mostrar sua coerência
com a lei. Durante toda a narrativa,
Victor Hugo revela outro lado: o
fugitivo era correto, bondoso, nobre,
enquanto o legalista, um detestável
vingativo. O caráter impoluto do
policial camuflava um homem
inclemente. A lei e o aparato policial
escondiam a pequenez de Javert.
Preocupo-me com os religiosos
que identificam facilmente quem
vai para o inferno. Regras, conceitos
teológicos e catecismos não
conseguiriam por si só peneirar
os bons dos ruins. Joio e trigo se
parecem e é necessário esperar pelo
fim dos tempos.
Só Deus conhece os porões de
cada vida. Só ele sabe as guinadas
que a existência de cada um sofreu,
e só ele tem critérios suficientes para
lidar com as histórias humanas. E
a melhor notícia é que Deus não
nos trata segundo uma lei fria. Ele
é um pai tão compassivo e bom
que no Salmo 103 considera nossa
fragilidade como pó e, por isso,
afasta de nós as nossas transgressões.
Quando penso em certo e
errado, ordem e desordem, ligado
e desligado, me esqueço da graça e
dessa infinita capacidade divina de
nos entender sem explicação. Sem a
graça, resta o pavor da lei, que não
considera as inadequações humanas,
com agravantes e atenuantes. Sim, o
justo juiz é um pai que me pôs em
seu regaço, sem precisar esclarecer o
porquê do seu amor.
Todos nós já nos comportamos
como Davi. Em algumas
circunstâncias o rei “virou do
mal”, mas encontrou a infinita
disposição de Deus para tratar-lhe
com misericórdia. Essa disposição é
a causa pela qual nós também não
fomos destruídos.
Soli Deo Gloria.
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ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200842
Valdir Steuernagel
edescobrindo a Palavra de DeusR
E
u vou ser avô! O nome do meu neto é
Arthur. Acompanhar a gestação da Caroline
e do Marcell, contar as semanas de gravidez,
enfrentar tenso a possibilidade de perder
o nascimento do bebê por causa de uma viagem de
trabalho — são fatos que estão entrando com força
na agenda do meu coração.
Estou mudando, e não é só porque vou ser avô. É
que espiritualidade e relacionalidade andam juntas; e
quanto mais nos aproximamos de Deus, mais perto
chegamos do outro e da própria criança. Assim,
quero priorizar o meu neto porque espero que, no
decorrer dos anos, eu tenha me tornado um pouco
mais íntimo de Deus. Mesmo que o conheça há
muitos anos, reconheço que a minha relação com
ele era muito mais “operacional e ativista” do que
marcada por uma “cativante presença”. Mas assim era
também a minha relação humana... e disso Deus vem
tentando me converter faz um bom tempo.
Deus gosta de gente. Ele se relaciona com as
pessoas a partir de quem elas são e a partir de suas
histórias de vida. Os Evangelhos estão repletos
dessa relacionalidade de Jesus. Ele dedicava tempo e
atenção às pessoas, especialmente aos pequenos. Jesus
gostava de crianças. Quando elas chegavam, sempre
havia algazarra, para grande agonia dos discípulos,
que com isso não conseguiam cumprir a agenda
nem colocar ordem na caravana do Mestre. Mas ele
deixava clara sua prioridade: “Deixem vir a mim as
crianças e não as impeçam; pois o reino de Deus
pertence aos que são semelhantes a elas” (Lc 18.16).
Essa relação entre a criança e o reino de Deus não é,
definitivamente, coisa para adulto decifrar. É coisa
para criança nos ajudar a entender.
Assim, como Jesus, nós também precisamos priorizar
a criança na agenda de nossas famílias, comunidades
e sociedades. O quarto Objetivo do Milênio reflete
isso: Reduzir a mortalidade infantil. Isso significa que
até o ano 2015 a taxa de mortalidade de crianças de
0 a 5 anos deverá ser reduzida em dois terços. Em
outubro de 2006, Carol Bellany, diretora executiva
do UNICEF, afirmou em seu relatório: “O direito
à sobrevivência é a primeira medida de igualdade,
oportunidade e liberdade para uma criança. É
inacreditável que nesta era de maravilhas da medicina
e tecnologia a sobrevivência de crianças seja tão frágil
em tantos lugares, especialmente para os pobres e
marginalizados. Nós podemos fazer melhor.”
Criança
alegra a
vida!
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 43
Objetivos do Milênio
Acabar com a fome e a miséria
Educação básica e de qualidade
para todos
Igualdade entre sexos e
valorização da mulher
Reduzir a mortalidade infantil
Melhorar a saúde das gestantes
Combater a aids, a malária e
outras doenças
Qualidade de vida e respeito ao
meio ambiente
Todo mundo trabalhando pelo
desenvolvimento
Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a
Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral
e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para
Falar das Flores... e Outras Crônicas.
Não só podemos, como precisamos
fazer melhor. E isso os cristãos, em
particular, deveriam saber. Em recente
e inédita participação na conferência da
Associação Nacional dos Evangélicos,
nos EUA, o secretário-geral da ONU,
Ban Ki-moon, destacou os Objetivos
do Milênio dizendo que “os cristãos
evangélicos têm tido um chamado
similar por bem mais tempo do que os
anos de existência das Nações Unidas”.
O que este quarto Objetivo do
Milênio pretende alcançar, faz
tempo que está no coração de Deus.
Um dos belos textos apocalípticos
de Isaías diz que Deus criará um
mundo no qual “nunca mais haverá
uma criança que viva poucos dias”
(Is 65.20). Haveria melhor motivação
que esta para os cristãos? Afinal, a
boa escatologia bíblica é um convite
para se modelar a vida hoje, em
meio à realidade cotidiana e numa
esperançosa antecipação dos sinais
do reino de Deus. É bom ver Deus
querendo concretizar entre nós este
Objetivo do Milênio, ao anunciar o
seu compromisso com um reino futuro
onde as crianças viverão muitos dias!
A Visão Mundial Internacional, ao
colocar este sonho na sua Declaração
de Visão, inspirou-se na palavra de
Jesus quando disse que veio “para
que tenhamos vida e a tenhamos em
abundância” (Jo 10.10). A declaração
ficou assim: “Nossa visão para todas
as crianças — vida em abundância.
Nossa oração para todos os corações
— a vontade para tornar isso uma
realidade”. Mas este não é um mero
desejo e oração de uma organização;
deveria ser a visão, o sonho e o
compromisso de todos nós.
O Brasil caminha bem no
cumprimento deste Objetivo do
Milênio, embora ainda precisemos
diminuir a desigualdade em que vivemos
e à qual nos acomodamos. Desde 1990,
o ritmo de redução da mortalidade na
primeira infância vem diminuindo 4,3%
ao ano. Até 2015 o país deve conseguir
reduzir a taxa de mortalidade dos
menores de cinco anos para vinte por
mil nascidos vivos. Mas o nosso desafio
real é reduzir a distância entre as regiões
Nordeste, onde a taxa é de 59,9 por
mil nascidos, e Sul, onde a média é de
22 por mil. Precisamos atingir juntos o
objetivo de vivermos num mundo onde
“a criança não viva poucos dias”.
Os objetivos maiores para a redução
da mortalidade de crianças de 0 a
5 anos não são difíceis de alcançar:
a vacinação deve ser ampla e a
amamentação da criança, assegurada; o
atendimento pré-natal da gestante deve
ser adequado e o parto, bem cuidado;
a criança deve viver num ambiente
adequado, com bom saneamento...
Coisas básicas, que eu quero para o
meu neto. E Deus me diz que as deseja
para todos e que todos nós devemos
empenhar-nos por construir uma
sociedade que busque exatamente isso.
Não somos nós, membros do Corpo
de Cristo, chamados a querer o que
Deus deseja? Tornemo-nos arautos e
praticantes daquilo que ele quer. Esse é
um bom mutirão. Um mutirão no qual
haverá muita algazarra de criança.
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história
Alderi Souza de Matos
Dos tais é o reino dos céus:
a igreja e as crianças na história cristã
44 ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 2008
E
m seu livro Children in the
early church (As crianças na
igreja antiga), W. A. Strange
observa que na antigüidade
havia atitudes ambivalentes em relação
às crianças. Os pais amavam seus filhos,
mas a necessidade financeira podia
fazer com que os abandonassem para
morrer. Os pais queriam o melhor para
os filhos, mas pensavam neles como
animais a serem domesticados e os
criavam com severidade. As crianças
eram valorizadas, porém, numa
sociedade em que se aceitava com
naturalidade a escravidão, elas com
freqüência eram objeto de exploração e
abuso. Os judeus costumavam ter um
conceito mais elevado da vida infantil,
dando maior ênfase à educação de seus
meninos. O cristianismo deu uma
contribuição especialmente positiva.
O autor C. John Somerville observa:
“Por dois mil anos até o
presente, os apelos
em benefício
dos corpos,
mentes e
espíritos das
crianças têm
partido em grande parte dos homens e
mulheres da igreja”.
Um precedente essencial
Jesus colocou os pequeninos numa
posição privilegiada ao afirmar que o
reino de Deus “pertencia” a eles e que
os adultos só entrariam nesse reino caso
se tornassem como crianças (Mt 18.1-4;
19.13-15). O Mestre não exerceu um
ministério específico junto aos menores,
entendendo-os como incluídos nas
famílias a que pertenciam. No entanto,
ele não só demonstrou um genuíno
interesse pelas crianças, mas exortou
os seus seguidores a dedicarem a elas
especial atenção e cuidado (Mt 18.5;
Mc 9.42). Curiosamente, nas epístolas
do Novo Testamento se percebe uma
atitude diferente, pois seus autores
encaram as crianças de modo mais
convencional: elas eram pessoas sob a
autoridade dos
pais, sendo vistas como exemplos
de imaturidade e de potencial para
crescimento.
As crianças faziam parte das primeiras
igrejas domésticas não só por causa da
sua presença necessária, mas devido à
convicção de que pertenciam a Deus
e à igreja, sendo, por isso, “santas”
(1Co 7.14). Como tais, não eram
meras expectadoras passivas, mas
deviam ser ensinadas e exortadas junto
com os adultos (Ef 6.1-4; Cl 3.20s). É
notável a inclusão das crianças nessas
listas de deveres, ao lado do aspecto da
mutualidade, visto possuírem direitos e
obrigações em relação aos pais. Assim,
a família não devia ser uma instituição
autoritária, mas um lugar em que todos
os membros pudessem crescer juntos na
sua vida comum em Cristo. Portanto,
ao chamar a atenção para as crianças,
falar delas, curá-las e recomendá-las
como exemplos e objeto de cuidados,
Jesus transmitiu aos seus seguidores a
responsabilidade de dar às crianças um
lugar central em sua vida comunitária.
Cristãos no mundo pagão
Quando a igreja ainda era minoritária
na sociedade pagã, uma criança
cristã ficava mais protegida do
perigo do infanticídio, comum
naqueles tempos. A Didaquê, um
manual eclesiástico do início do
segundo século, determinava:
“Não matarás uma criança no
útero, nem matarás um recém-
nascido” (2.2). Diferentes
autores também condenavam
o abandono de menores e
a educação permissiva dos
adolescentes. Ao mesmo tempo,
os primeiros cristãos não se
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 45
preocuparam em criar escolas exclusivas
para seus filhos, mas permitiram que
freqüentassem as escolas pagãs. Eles não
queriam formar guetos segregados da
sociedade.
Um fenômeno revelador foi
a participação das crianças nos
sacramentos. Os testemunhos mais
antigos acerca do batismo infantil
são dados por Tertuliano, Hipólito e
especialmente Orígenes, que descreveu
essa prática como uma tradição da
igreja recebida dos apóstolos. Mesmo
que essa alegação não possa ser
comprovada, ela demonstra o alto
apreço em que as crianças eram tidas
pela igreja. O batismo de infantes
tinha não só o sentido de iniciação e
inclusão na comunidade cristã, mas
acentuava a idéia de solidariedade
familiar, como se vê em alguns textos
bíblicos (At 16.15, 33; 1Co 1.16).
Outros testemunhos antigos nesse
sentido são os de Cipriano e Agostinho.
No que se refere à Santa Ceia ou
Eucaristia, a participação das crianças
nesse sacramento era comum e não foi
contestada nos quatro primeiros séculos.
Algumas autoridades que a mencionam
são Cipriano, as Constituições
Apostólicas, Agostinho e escritores da
igreja grega. Num período posterior,
a crescente reverência pelos elementos
da Ceia fez com que as crianças fossem
afastadas da mesa de comunhão.
Tensões na experiência medieval
No Medievo existiram atitudes
contrastantes em relação às crianças,
como destacam Daniele Alexandre-
Bidon e Didier Lett em Les enfants
au Moyen Âge (As crianças na Idade
Média). Por um lado, houve forte
ênfase no tema da inocência dos
infantes, o que fazia deles seres sagrados
e uma espécie de emissários de Deus.
Por outro lado, eles podiam ser vistos
como perturbadores da meditação
ou da vida intelectual dos religiosos.
Atribuía-se o nascimento de crianças
deformadas ou doentes a interferências
demoníacas ou punição divina. Os
nascimentos múltiplos (gêmeos) eram
considerados sinais de pecados como
adultério e fornicação. Quando bebês
morriam antes de serem batizados,
isso causava grande angústia nos
pais. A valorização da vida monástica
podia levar à ruptura precoce dos
laços familiares. Muitas crianças eram
enviadas aos mosteiros com 6 ou 7 anos
de idade (os oblatos), como ocorreu
com o Venerável Beda e Hildegarda de
Bingen.
Ao mesmo tempo, a igreja
continuava a combater a contracepção,
o aborto e o abandono de menores. Os
pais pobres que quisessem se desfazer
de um dos filhos eram incentivados a
deixá-lo num local público, como a
porta da igreja, para que pudesse ser
recolhido. Na maior parte dos casos,
a educação infantil ocorria no âmbito
familiar. Além disso, havia as escolas
monásticas, paroquiais e episcopais.
O bispo Teodulfo de Orléans ordenou
em 798: “Os sacerdotes tenham escolas
nas regiões agrícolas e nas grandes vilas
rurais, e se os fiéis quiserem confiar-
lhes seus filhinhos para aprender as
letras, não se recusem a recebê-los e
ensiná-los, e os ensinem com muito
amor. Não exijam pagamento”. A
morte era uma ocasião que também
revelava o afeto pelas crianças: elas
eram sepultadas com tanto desvelo
quanto os adultos. Muitos epitáfios
antigos revelam sentimentos de
profundo afeto.
A centralidade da
família puritana
A Reforma Protestante deu uma
contribuição significativa à sociedade
ao valorizar o casamento e a família
como o contexto divinamente
ordenado para a vida cristã. A família
protestante era patriarcal, tendo o
esposo e pai como o líder inconteste.
O contexto familiar caracterizava-se
por afeto, reciprocidade, trabalho e
frugalidade, sendo também uma escola
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Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela
Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja
Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na
História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil.
<asdm@mackenzie.com.br>
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200846
de religiosidade e cidadania. No que
diz respeito ao lugar das crianças, os
puritanos ingleses e norte-americanos
foram incomparáveis. C. John
Somerville observa que o puritanismo
inglês foi uma das poucas épocas em
que as crianças se tornaram centrais
para a religião. Para esse grupo, a
finalidade primordial da família era
glorificar a Deus. Assim sendo, os
puritanos viam a família essencialmente
como uma pequena igreja, onde as
devoções eram essenciais. Um deles
escreveu: “Se queremos que a igreja de
Deus permaneça entre nós, devemos
levá-la para os nossos lares e nutri-la
em nossas famílias”. Outros propósitos
eram o benefício da sociedade e a
realização pessoal da cada integrante da
unidade familiar.
Sob a liderança firme e amorosa do
pai e a participação atenta da mãe, os
filhos eram objeto de grande interesse.
Os puritanos tinham a convicção
dos puritanos se faz sentir até hoje nos
seus países de origem.
Na longa e multifacetada história
do cristianismo, as crianças têm
ocupado um lugar de maior ou menor
destaque em diferentes grupos, épocas
e locais. Obviamente, muitas vezes
houve atitudes e comportamentos
pouco apreciáveis em relação a
elas, notadamente quando pobres e
marginalizadas. Todavia, de maneira
geral, a contribuição das igrejas no
tocante à infância foi mais positiva
que negativa, em comparação com
o que ocorria na sociedade ao redor.
Certamente o fator preponderante para
isso foi, e continua a ser, o exemplo do
próprio Cristo, tanto em seus ensinos
como em suas ações.
básica de que seus filhos pertenciam a
Deus, que os havia confiado aos seus
cuidados. Algumas das advertências
puritanas mais solenes são contra
a negligência dos pais em educar
apropriadamente sua progênie. Os
deveres dos pais incluíam prover as
necessidades materiais das crianças,
ensiná-las a trabalhar e, acima de tudo,
dar-lhes treinamento espiritual e moral.
A disciplina era levada a sério, visando
restringir as tendências negativas e
promover a vida cristã. Na concepção
puritana, como nota Leland Ryken
em Santos no Mundo, os filhos eram
criaturas decaídas cuja inclinação
pecaminosa devia ser redirecionada
para Deus e a bondade moral. Em
três aspectos os puritanos anteciparam
atuais teorias de desenvolvimento: a
importância do treinamento precoce,
o ensino mais pelo exemplo que
pelas palavras e o equilíbrio entre a
severidade e o apoio positivo. O legado
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Entrevista: Uriel Heckert e Robinson Cavalcanti
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200848
A crescente visibilidade
do homossexualismo é
um fenômeno específico
da civilização ocidental
Psiquiatra diz que “a força libidinal é capaz
de driblar a nossa racionalidade e vontade”, e
bispo anglicano acrescenta que “todos temos
possibilidades heróicas e possibilidades destrutivas”
E
les têm praticamente a mesma idade (62 e 63 anos), são evangélicos (um é
presbiteriano e o outro, anglicano). Desde a juventude estão publicamente
comprometidos com a missão integral do evangelho e apóiam a Aliança
Bíblica Universitária (ABU). Ambos foram professores universitários.
Mas um vive na região Sudeste (Juiz de Fora, MG) e o outro, na região Nordeste
(Olinda, PE). Uriel Heckert é psiquiatra e membro da diretoria do Corpo de
Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), do qual é um dos fundadores. Robinson
Cavalcanti é cientista político e bispo da Diocese Anglicana do Recife. Ultimato
reúne as duas vozes nesta entrevista.
ultimatoimagem
arquivopessoal
Robinson CavalcantiUriel Heckert
Ultimato — O dualismo filosófico e o
maniqueísmo religioso distinguem e
contrastam eros e ágape. Dizem que o
primeiro é o amor profano, carnal e pecador,
e o segundo é o amor sagrado, angelical
e santo. Essas idéias, que exerceram
forte influência sobre o cristianismo,
especialmente nos terceiro e quarto
séculos, já foram totalmente extirpadas do
pensamento cristão?
RobinsonCavalcanti— Desde que Alexandre,
o Grande chegou à Índia, a Grécia foi
influenciada por conceitos emanados
do bramanismo, inclusive o dualismo
entre uma matéria “má”e um espírito
“bom”, o que abre caminho para os
excessos ora de permissividade, ora
de repressão. O pensamento cristão
foi fortemente influenciado por esse
dualismo. Um exemplo de propagador
desse dualismo foi Agostinho de Hipona.
Daí a expressão “síndrome de Santo
Agostinho”, usada em referência a cristãos
(especialmente pastores) ex-devassos, que
após a conversão se tornam obcecados
pelo combate à “carne”, priorizando o
aspecto sexual e julgando que todos os
outros cristãos passam por experiência
como a sua. Reconciliar ágape e eros é
uma tarefa teológica urgente para a saúde
espiritual e emocional da Igreja. Por outro
lado o puritanismo tardio que marcou a
formação dos Estados Unidos, hoje com
seus extremos chega até nós.
Ultimato — O movimento gay transmite
a impressão de que os homossexuais
praticantes são muito numerosos. Seria
verdade?
Uriel — As estatísticas confiáveis nunca
apontam taxas maiores que 5% de
homossexuais entre a população
masculina, e as taxas entre as mulheres
são sempre menores. A própria pesquisa
de A.C. Kinsey (1948), insistentemente
ultimato 310 final.indd 48ultimato 310 final.indd 48 5/12/2007 16:38:525/12/2007 16:38:52
As pessoas com inclinação
homoerótica são uma
minoria e os seus
praticantes, um número
ainda mais reduzido.
Pesquisas indicam algo
entre 1% e 3%
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 49
tomada como referência, apontou
apenas 4% de indivíduos exclusivamente
homossexuais. Além disso, é preciso
considerar que a sua amostra foi
deformada pela inclusão de presidiários
e abusadores sexuais. Mesmo assim,
trata-se de uma população considerável,
digna de atenção às suas características e
necessidades.
Robinson — As pessoas com inclinação
homoerótica são uma minoria e os
seus praticantes, um número ainda
mais reduzido. Pesquisas indicam algo
entre 1% e 3% no Ocidente hoje,
dependendo do contexto rural ou
urbano, isolado ou cosmopolita, de
culturas tradicionais ou de culturas
em processo de mudança, além da
legitimação ou não do comportamento.
Ultimato — O homossexualismo sempre
existiu, mas talvez em nenhuma outra época
estivesse tão em pauta como hoje. O que
há de novo na questão? Que desafios esta
situação representa para os cristãos?
Uriel — A crescente visibilidade que a
questão homossexual alcança é um
fenômeno específico da civilização
ocidental. Tal fenômeno não é
admissível em vastas regiões da Ásia e da
África, sob influência das leis islâmicas
e de outras tradições culturais. Vários
fatores contribuem para que ocorra
essa exposição contínua sobre o tema:
1) o movimento de contestação social
surgido no Ocidente nas últimas décadas
do século 20, com ênfase crescente na
busca do prazer (hedonismo); 2) a crise
de valores que se instaurou na sociedade,
deixando pais, educadores e legisladores
atônitos e sem referências; 3) a
disseminação de informações e imagens,
permitindo expressão a comportamentos
de grupos minoritários; 4) políticas
públicas afirmativas que privilegiam
as minorias, sobretudo quando
em condição de discriminação e
desvantagem; 5) confluência de diversas
tendências políticas numa agenda
ampla de “desconstrução” do que se
tem como poder e saber instituídos.
A tudo isso se soma a organização de
grupos de interesse, que têm um projeto
claramente definido e bem articulado,
capaz de reunir ativistas desprendidos
e com forte ardor proselitista. Tal
movimento vale-se, na verdade, de
valores oriundos do cristianismo,
tais como o respeito à liberdade
e aos direitos da pessoa humana,
para lutar por uma nova sociedade
baseada em princípios duvidosos e até
declaradamente anticristãos.
Robinson — O século 20 enterrou utopias
globais totalitárias, como o nazismo e o
comunismo. Com o “fim da história” e
das alternativas de vida, o capitalismo
se impôs como “pensamento único”,
o que concorre para o aumento da
violência, da fuga (pelas drogas ou
por religiões alienantes) e para as
microutopias do politicamente correto.
Entre elas está a glorificação do
homossexualismo como um minoria
organizada, articulada e que ocupa
espaços nos meios de formação de
opinião: mídia, artes, academia.
Ultimato — A professora Edith Modesto,
da USP, fundadora do Grupo de
Pais de Homossexuais (GPH), hoje
Associação Brasileira de Pais e Mães de
Homossexuais (www.gph.org.br),depois
de acurada investigação, entende que a
homossexualidade não é uma opção. Os
senhores concordam?
Uriel — Falar em opção sexual sugere
a possibilidade de uma reflexão mais
ou menos consciente, seguida de
uma escolha. Na verdade, a força
libidinal tem sua dinâmica e é capaz
de driblar a nossa racionalidade e
vontade. O desejo sexual surge, para
alguns, direcionado para pessoas do
mesmo sexo e é sempre desejável que
ele seja reconhecido e admitido com
clareza. O que fazer com tal desejo,
isto sim, envolve posicionamento e
decisão pessoal. No entanto, falar em
orientação homossexual, como hoje se
prefere, pode também ser inadequado
por insinuar uma aceitação passiva e
definitiva. Estudos têm mostrado que,
em muitos casos, é possível mudar a
inclinação sexual.
Robinson — Todos os seres humanos
nascem com “defeitos de fabricação,”
fruto do pecado, e ao mesmo tempo
mantêm os traços positivos da imagem
de Deus. Todos, nessa ambigüidade
moral, temos possibilidades heróicas
e possibilidades destrutivas. Há a
inclinação para algo condenado
por Deus, o que chamaríamos de
tentação. Todos são tentados todos
os dias, em diferentes áreas. Cada
um tem sua “fraqueza de estimação”.
Mas o ser humano é dotado de
razão, sentimento e vontade, e,
portanto, de capacidade de escolha.
Todo comportamento — apesar dos
condicionamentos —, em última
análise, é fruto de uma opção.
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A aprovação do projeto
de lei “Anti-Homofobia”
atesta uma tendência
de legislar sobre tudo
e sobre todos, fere a
Constituição, restringe
a liberdade religiosa
e leva a igreja ou à
acomodação cúmplice
e ao silêncio culposo
ou à desobediência
civil e ao martírio
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200850
Ultimato — O que os pais podem fazer para
evitar que seus filhos tenham tendências
homossexuais?
Uriel — Em nossos dias, as discussões
sobre a homossexualidade concentram-
se no campo político e dos direitos
humanos. Alguns evocam teorias
biológicas claramente insuficientes,
buscando justificativas genéticas
ou constitucionais para a questão.
Entretanto, o papel das influências
ambientais e educacionais, sobretudo
a partir das relações fundamentais
com os pais e pessoas significativas,
não podem ser desprezadas. Verifica-se
uma tendência a negligenciar as teorias
psicológicas sobre a homossexualidade;
por isso, cito o neurocientista Eric
R. Kandel: “A observação de Freud
e de outros analistas de que alguns
homossexuais tendem a lembrar seus
pais como hostis ou distantes e suas
mães como mais próximas que o comum
têm tido confirmações recentes”.
Robinson — Nenhuma família pode
evitar que um filho ou uma filha se
desvie para uma conduta pecaminosa.
A família ajustada, estável, funcional,
piedosa, cultivadora de valores, será,
claro, um espaço onde o bem será
fomentado. O estudo, o trabalho, o
esporte, o lazer, a cultura, a religião,
são variáveis positivas. Mas cada um
fará a sua livre escolha. Por exemplo,
uma família ideal pode ter cinco filhos
expostos à mesma experiência, e cada
um deles seguir caminhos diferentes.
Ultimato — Quando se tem filhos
homossexuais, como conciliar o amor
paternal e a fidelidade aos princípios
bíblicos?
Uriel — Não há resposta fácil. A parábola
do filho pródigo nos dá algumas pistas:
tolerância, desprendimento, apesar das
atitudes inconcebíveis tomadas pelo
filho; espera, paciência, acolhimento,
quando houve atitudes sensatas. Uma
citação de Fernando Gabeira parece-
me oportuna: “É tão difícil mudar
os homens como aceitá-los tais como
são; mais difícil ainda é fazer ambas as
coisas.”
Robinson — Amor e valores, amor e
exemplo, amor e disciplina andam
sempre juntos. Os pais não devem
se condenar ou rejeitar o filho ou a
filha que opte pelo homossexualismo,
embora devam ser sinceros quanto ao
seu desapontamento e sofrimento, com
a reafirmação dos seus valores e com
orações pela santidade, como faria com
outros problemas.
Ultimato — A moral cristã exige que o
heterossexual negue-se a si mesmo quando
é tomado pelo desejo de usufruir do sexo
fora do casamento. A mesma ética exige
também que uma pessoa que sinta desejos
homossexuais negue-se a si mesma, tanto
fora como dentro de um relacionamento
estável. Quem tem mais dificuldades para
manter-se dentro dos padrões éticos: o
hetero ou o homo?
Uriel — Há sempre uma tensão
entre desejo e realidade. Processos
educativos, socioculturais e éticos
modelam a personalidade individual,
permitindo adequar os impulsos às
suas finalidades e às necessidades da
vida em sociedade. Todos, igualmente,
experimentam desafios nesta questão.
A simples negação ou repressão do
desejo não é desejável. A sua expressão,
contudo, precisa afinar-se a objetivos,
conveniências, princípios e valores,
para o bem da própria pessoa e dos
demais. A maturidade psíquica implica
lidar satisfatoriamente com a própria
sexualidade, o que é sempre um
desafio.
Robinson — O apóstolo Paulo afirma
que não conseguia fazer o bem que
desejava e acabava fazendo o mal que
não queria. Isso acontece com todos,
inclusive os convertidos. A santificação
não é instantânea, nem linear
ascendente. Hetero e homo têm suas
dificuldades.
Ultimato — A igreja tem falhado no trato da
questão homossexual? Em que sentido? Seria
por excesso de aceitação ou por excesso de
legalismo?
Robinson — A Igreja tem falhado pelo
silêncio no estudo dos temas da
vida; sexualidade, relacionamentos,
sentimentos, vida social, política etc.,
se concentrando no outro mundo, no
futuro ou na subjetividade. Apresenta,
muitas vezes, um projeto de bem
morrer, mas não de bem viver. E no
bem viver não vai além do individual e
das microrrelações. O legalismo (com
listas de “podes” e “não-podes”) e o
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 51
moralismo (privilegiar os delitos sexuais
em detrimento de outras áreas do
comportamento) não ajudam muito.
Ultimato — Existe homofobia no Brasil? E no
meio evangélico?
Uriel — A homossexualidade sempre
levanta alguma estranheza, inclusive
para a pessoa diretamente envolvida.
Isso acontece não só no Brasil ou
no meio evangélico, sendo ingênuo
supor que tudo seja fruto apenas de
preconceitos. Todas as sociedades, com
variação de intensidade entre períodos
históricos e diferentes enquadramentos
culturais, tendem a uma postura crítica
a respeito da questão. A caracterização
da homofobia, contudo, deve ser
reservada para a postura hostil e
agressiva. Essa não é aquela encontrada
na maioria das pessoas, com exceção
de grupos ideológicos radicais,
infinitamente minoritários.
Robinson — Existe antropofobia em
todas as épocas e lugares, desde
Caim e Abel. Temos um potencial
de agressividade contra o outro por
várias razões. Setenta por cento
das uniões entre homossexuais
são marcadas por violências. Nem
todas as violências cometidas contra
homossexuais o são em virtude da
sua opção sexual ou estilo de vida,
mas porque ele é um ser humano
que, como qualquer outro, se mete
ou se expõe a situações de risco
de violência. Hoje, a partir do
movimento gay, já se pode falar em
uma heterofobia, agressão contra
aquelas pessoas que não consideram o
homossexualismo algo normal.
Ultimato — Se o projeto de lei que proíbe
e pune a homofobia, em andamento no
Congresso, for aprovado, quais serão as
verdadeiras implicações no que diz respeito
às igrejas?
Uriel — As reivindicações por leis
punitivas baseiam-se em supostos
índices de crimes sofridos por
homossexuais. Entretanto, quando
se compara as taxas referentes
à população em geral com as
encontradas entre homossexuais, nota-
se o contrário. A homossexualidade
parece proteger as pessoas contra a
violência, o que não é de se estranhar,
pois a maioria dos homossexuais leva
vida discreta e pacífica. A violência
atinge aqueles que aparecem em
situações de risco, como comentou
um líder gay em recente episódio:
“São homossexuais que estão mais
envolvidos com a criminalidade, como
prostituição e tráfico de drogas, ficando
mais expostos à violência”. Na verdade,
o que se pretende com a proposição
constante de leis é consolidar um
projeto de poder, desenvolvido em
âmbito internacional, que encontra
respaldo na cultura e na religiosidade
reinantes em nossa época. Os cristãos
têm o desafio de não responder no
mesmo nível, e, sim, buscar o exemplo
de Jesus Cristo.
Robinson — A aprovação do projeto
de lei “Anti-Homofobia” atesta uma
tendência de legislar sobre tudo e
sobre todos, fere a Constituição,
restringe a liberdade religiosa e leva a
igreja ou à acomodação cúmplice e ao
silêncio culposo ou à desobediência
civil e ao martírio. Leis como essa
demonstram a alienação política e a
irresponsabilidade cívica de grande
parte da igreja, cuja omissão termina
por lhe atingir.
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Ricardo Barbosa de Sousa
GriszkaNiewiadomski
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200852
A
adoração é a vocação
primária e natural do
cristão. A Confissão de
Westminster afirma, no
seu primeiro parágrafo, que o fim do
homem é adorar a Deus e gozá-lo para
sempre. Vale a pena citar estas palavras
de William Temple: “Adoração é a
submissão de todo o nosso ser a Deus.
É tomar consciência de sua santidade; é
o sustento da mente com sua verdade;
é a purificação da imaginação por sua
beleza; é a abertura do coração a seu
amor; é a rendição da vontade a seus
propósitos. E tudo isto se traduz em
louvor, a mais íntima emoção, o melhor
remédio para o egoísmo que é o pecado
original.”
A igreja moderna limitou o ato da
adoração ao culto e vem reduzindo-o ao
ato de cantar e, em alguns casos,
dançar. Adorar, para
muitos cristãos,
significa cantar
na igreja, de
preferência
com os olhos fechados e as mãos
levantadas. Apenas isto. Porém,
quando consideramos o ensino
bíblico, as confissões históricas e esta
brilhante definição de William Temple,
reconhecemos que a adoração abrange
muito mais do que aquilo a que o
pragmatismo moderno a reduziu.
Uma consideração importante para
nossa compreensão da adoração é
que Jesus Cristo é o único verdadeiro
adorador, pois somente ele pôde
oferecer a única oferta de adoração
aceita por Deus, por ser absolutamente
perfeita. Em sua vida de absoluta
dependência e obediência, ele se
ofereceu inteiramente ao Pai em
sacrifício pelos nossos pecados. Ele
se fez homem, tornou-se servo, foi
obediente até a morte e morte de cruz.
Pela perfeição da sua oferta, tornou-se
sumo sacerdote para apresentar-nos a
Deus e tornar a nossa oferta aceitável.
Por meio de Cristo somos redimidos e
reconciliados com
Deus para
uma vida de
comunhão e adoração. Ele é o nosso
mediador, que leva consigo nossas
dores e pesares, bem como nossas
alegrias e esperanças, nossas orações
e súplicas e as apresenta como nosso
intercessor diante do Pai. Aquilo que
nós falhamos em fazer por causa do
pecado, ele agora realiza por nós, em
nosso lugar, tornando nossa oferta,
em seu nome, agradável a Deus. Ele
coloca-se em nosso lugar diante do
Pai a fim de redimir nossa falência, e
pelo seu Espírito nos ajuda em nossas
fraquezas porque não sabemos orar
como convém.
A adoração de Cristo foi sua resposta
amorosa e obediente ao Pai. Por meio
de sua obra na cruz ele fez de nós sua
igreja e seu povo, e nos chama para
sermos um novo sacerdócio a fim de
oferecermos sacrifícios espirituais em
seu nome. A adoração de Cristo é a
obra que ele realiza ao trazer a criação
de volta aos propósitos do Criador.
Portanto, qualquer que seja a nossa
Adoração e missão
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Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana
do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos,
em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho
do Coração.
Por Carlinhos Veiga
cveiga@terra.com.br
Novos Aco r des
É Proibido Pensar, João Alexandre
Nesse novo trabalho João Alexandre repete uma antiga
receita: violão e voz. Mas o que poderia ser mesmice
e algo enfadonho se renova pela qualidade musical
desse que é um dos mais dotados músicos cristãos da
atualidade. João, inexplicavelmente, sempre se supera!
Dessa vez lança mão de Quartetos de Cordas e da
maravilhosa condução percussiva de Osmário Marinho,
que dá um toque especialíssimo ao trabalho. O repertório
é muito bom. Além das conhecidas “Paz e comunhão”,
“Pai Nosso” e “Que segurança”, traz várias canções inéditas. “Anjos” (Stênius
Marcius) e “Trabalho esperança” (João e Guilherme Kerr) são muito boas. No entanto,
“Feirante” (Marcílio Menezes) e “É proibido pensar” são fantásticas! A distribuição é de
Vencedores Por Cristo. Contatos pelo site <www.vpc.com.br> ou pelo tel. 11 5183-4755.
Te Vejo, Poeta, Guilherme Kerr
Guilherme considera a gravação desse trabalho meio
tardia, embora suas canções sempre estivessem presentes
ajudando a igreja brasileira em seu caminhar. Ter um
trabalho todo seu é um grande presente para todos nós
nesse início de ano. Como diz uma de suas letras, “chegou
o tempo de Deus”! Com direção musical, produção e
arranjos de Cezar Elbert, o CD é todo de canções de amor.
O próprio Guilherme explica: “A relação com Deus é uma
relação apaixonada”. Nele, canta músicas feitas para o
casamento de seus filhos, canta a amizade e relembra suas canções prediletas,
algumas de sua autoria e outras de companheiros de caminhada. A inédita “Se meu povo”
abre o CD de maneira forte, como uma oração feita por ele em 11 de setembro de 2001.
Para adquirir, acesse <www.vpc.com.br>.
Flor do Cerrado, Carlinhos Veiga
É difícil falar de si mesmo, além de parecer estranho...
Mas vou me arriscar contando com a sua compreensão.
Esse é o sexto CD que gravo. Ele se diferencia dos
demais por ser um trabalho cuja temática vai além
do meio evangélico. Esclareço: gravei esse CD
com o apoio cultural do Fundo de Arte e Cultura do
Governo do Distrito Federal. Por isso busquei algo que
se caracterizasse como MPB regional. Na verdade acho
que quase nada mudou... No Flor do Cerrado a viola caipira
predomina. Muitas são as canções inéditas minhas e de autores respeitados como Gladir
Cabral e os parceiros Gustavo Veiga e Carlos Brandão. Incluí alguns clássicos da música
caipira, como “Poeira vermelha” e “Pagode em Brasília”, além de canções de Juraildes
da Cruz e Marcus Moraes. Para quem gosta de música regional é uma boa pedida. Para
adquirir entre em contato pelo e-mail <cveiga@terra.com.br>.
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Gu
tar
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tra
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ar
O
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 53
adoração, ela deverá ser sempre um
litúrgico amém à adoração de Cristo.
Ao reduzirmos nossa compreensão
da adoração ao que fazemos na igreja
quando cantamos, limitamos nossa
participação naquilo que Cristo fez
e continua fazendo em sua obra
redentora. Adorar, tendo diante de
nós o Filho de Deus encarnado,
nos leva a reconhecer que o ato da
adoração envolve a nossa participação
na mesma obra de Cristo. Adorar é
viver em obediência a Cristo. É por
isso que o apóstolo Paulo faz este
veemente apelo: “Rogo-vos, pois,
irmãos, pelas misericórdias de Deus,
que apresenteis os vossos corpos por
sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus, que é o vosso culto racional.”
Para ele, adorar é a entrega de todo o
nosso ser em oferta obediente a Deus
por meio de Cristo.
Ao reconhecermos que a única oferta
que Deus aceita é a de seu Filho, a
oferta que apresentamos a ele é a nossa
participação na oferta de seu Filho
quando, em obediência e amor, nos
entregamos a ele e participamos de
sua obra redentora. Na definição de
William Temple não vemos uma única
referência a cantar ou dançar, mas que
adorar é submeter todo o ser a Deus,
nos render ao seu propósito, purificar
a imaginação pela sua beleza, abrir o
coração ao seu amor, desejar a santidade
do seu caráter. É isto que encontramos
em Cristo, nosso verdadeiro adorador,
e é isto que o mundo espera encontrar
em nós.
Somos uma igreja que canta e dança
muito bem, mas adorar é mais do que
isto, é expressar no caráter e nas ações a
beleza do Criador, é encarnar a missão
de Cristo e participar de sua obra
redentora. Foi para isto que ele nos
criou e para isto que ele nos redimiu.
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Bráulia Ribeiro
da linha de frente
Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e
presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão.
<braulia_ribeiro@yahoo.com>
Os pontos de vista da autora são pessoais, e não da JOCUM.
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200854
O Brasil do Brasil
N
o passado Brasil era
cachaceiro e violento.
Sua aldeia era um caos.
Brasil se enchia de pinga,
espancava a mulher e os filhos, e vivia
gastando o dinheiro do povo com as
rameiras doentes das cidadezinhas
próximas. As festas da chicha eram o
pretexto para embriaguez geral dos
homens, violência doméstica, brigas
de faca e porrete na aldeia. Poucos
trabalhavam nas roças. Há alguns anos
os rios começaram a secar devido à
construção de usinas hidrelétricas na
região. Muitos protestaram contra as
usinas, ambientalmente cruéis, mas,
como acontece com freqüência no
país de Brasil, o poder ganhou e os
rios continuaram sendo sugados pelos
interesses privados de poucos. Os peixes
escassearam e os Tupari começaram a
conhecer a fome.
Então Brasil teve um encontro
com Jesus e foi transformado. Uma
das principais coisas que aconteceu
com ele foi a ordem. De acordo com
suas palavras ditas em Tupari, Jesus
organizou seu caos interior, o caos
de sua família, de sua aldeia. Por
causa de Jesus e da ordem que ele traz
Brasil conseguia agora ser um líder
reconhecido por todos como íntegro
e bom. Ele conseguia também olhar
o futuro e projetar um progresso real
na qualidade de vida de seu povo
como nunca antes havia podido fazer.
Ele queria resolver o problema das
usinas e se tornou um dos principais
articuladores políticos de seu povo. Ele
queria evitar que no futuro a população
ficasse desamparada e pensava em
outras alternativas.
Brasil era um estadista. Se eu quisesse
compará-lo a alguma personalidade
brasileira, diria que ele foi um D.
Pedro II, até hoje um dos principais
nomes da história do país. Como líder
do povo Tupari, Brasil olhava para o
futuro. Ao contrário do que pensam
certos antropólogos, ele sabia que seu
povo precisava da ponte com o mundo
externo e seus jovens precisavam de
treinamento profissional, por isto
incentivava-os a estudar e a se preparar
para servir suas aldeias. Ele entendeu
o valor das mulheres na aldeia,
principalmente de sua esposa, a quem
tratava com carinho e respeito. Outras
famílias mudaram por causa de Brasil
e sua aldeia hoje é um exemplo para
todo o povo. Ele era um líder modelo,
porque pensava sempre no benefício
geral da comunidade, e não no seu
próprio.
A morte de Brasil aos 45 anos ainda
está sob investigação. A malária é um
problema grave no Brasil. Mata ainda
hoje milhares de crianças e adultos todo
ano. Ele teve malária, depois hepatite,
ou hepatite e então malária, não se
sabe se diagnosticadas a tempo e mal
curadas, ou nunca diagnosticadas e por
isso fatais. No Brasil a saúde indígena
“diferenciada” fica a critério de poucos,
e os problemas são sempre omitidos.
Ninguém quer “briga de cachorro
grande”, ninguém quer “mexer em
ninho de abelhas”. As usinas continuam
comendo os peixes das crianças Tupari
e as malárias continuam sendo tratadas
como hepatite, até que matem muito
mais gente, porque o Brasil de Brasil
realmente não se importa.
Nota
A autora agradece pela entrevista feita com
Brasil Tupari por Graciete Mota, e a Zita
Arraya por informações sobre sua vida e
morte.
CesarFermino
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Marisa de Freitas Ferreira Coutinho
deixem que elas mesmas falemBancodeimagensoliver
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200856
Quando se fala do propósito
missionário de Deus para o ser
humano, há concordância. Porém, ao se
esmiuçar o tratamento dado à mulher e
ao homem na missão, as discordâncias
afloram. Há desde avaliações mais
radicais (“mulher não tem vez”) até
mais liberais (“a mulher é a única e
verdadeira imagem e semelhança de
Deus”). Entre estas, encontramos todo
tipo de discussão, vinda de todo tipo
de pessoa: de gente séria ou não tão
séria, de crentes e de incrédulos, de
capitalistas e de socialistas, de ricos e de
pobres... Muitos livros e teses. Muitos
discursos. Não há consenso, e duvido
que um dia o haverá. Desde Adão e Eva
que essa pendenga existe.
Mas também desde que o mundo
é mundo que Deus disse que Adam
(humanidade) era mulher e homem
(Gn 2.25-31). E que este Adam (Gn 2;
Gn 5.2) tinha a missão de governar a
terra (não de destruir...) e fazer dela
uma habitação familiar (Gn 2.26-28).
É nesta vertente que me descubro
plena por ser mulher: sou criada por
Deus à sua imagem e semelhança, sou
salva por Cristo, consolada e capacitada
pelo Espírito Santo (Jo 14, 16) e,
portanto, missionária. Muitas das
resistências ao fato de mulheres e
homens serem diferentes, mas terem
mesmo potencial e valores, devem-
se ao pecado em suas mais diversas
apresentações: disputa de poder,
necessidade de afirmação, abuso do
poder masculino, medo do semelhante
etc. E muitos desses pecados vêm
embrulhados no nome de Deus, na
fé, na verdade, na moral. Mascara-se
a fonte do desentendimento, que é a
priorização dos desejos humanos em
detrimento do poder restaurador e
missionário do Pai.
Recomendo dois livros muito
esclarecedores sobre o tema: A Missão
da Mulher, de Paul Tournier, e Vocação
Pastoral em Debate, de Helmut
Henders (org.). Paul Tournier, médico,
estudioso da alma humana, conclui:
“E a pessoa, o que é? É o homem tal
como Deus o criou e quer que ele seja:
o homem em sua totalidade e unidade,
em sua globalidade — espírito, alma
e corpo [...]. É também o homem
não isolado, mas em relação com o
outro, com a natureza e com Deus,
porque é por meio da relação pessoal
que ele se torna pessoa. Enfim, a
pessoa é o homem e a mulher juntos,
e não o homem sozinho. [...] Na
linguagem de Jesus, a expressão ‘no
princípio’ não exprime somente uma
anterioridade temporal, mas ‘significa
simbolicamente a vontade primeira de
Deus’, sua vontade ‘fundadora’. Assim,
a complementaridade indissolúvel
entre o homem e a mulher constitui
o fundamento da pessoa — ‘imagem
de Deus’, que é ela mesma a pessoa
por excelência — e a harmonia e
a plenitude que a palavra pessoa
evoca. [...] Logo, em lugar de uma
história masculina, repleta somente
de uma incessante corrida ao poder,
ou de uma civilização masculina,
que consagra a prioridade das coisas
sobre as pessoas, é preciso haver uma
construção conjunta da história e da
civilização, da qual participem homem
e mulher”.*
Homem e mulher se reencontram,
enquanto razão existencial, a partir
de Deus e da vocação que nos faz. A
convivência missionária quebra tabus e
refaz relacionamentos.
Esta é a vertente da libertação da
mulher: Deus nos ama, nos chama,
nos capacita e nos envia. Quando este
chamado arde no coração a luz chega à
mulher e ao homem. A missão é mais
importante, o reino de Deus é que
conta. Como ovelhas nos importa mais
obedecer a ele que aos semelhantes
(At 5.29).
Finalmente, podemos insistir
na supremacia do homem sobre a
mulher, mas não devemos. Enquanto
insistimos, a serpente ganha força,
homem e mulher se degradam, o
mundo jaz no maligno e o Espírito de
Deus se contorce em intercessão pelo
mundo. Façamos a nossa escolha.
Nota
* TOURNIER, Paul, A missão da mulher.
Viçosa, MG: Ultimato, 2005. p. 198-199.
Mulher plena,
em missão!
Marisa de Freitas Ferreira Coutinho, 47, casada, duas
filhas, é médica, pastora e episcopisa da Igreja Metodista
no Nordeste.
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 57
A
partir desta edição, Ultimato traz
ao leitor uma coluna específica
sobre meio ambiente, com artigos,
depoimentos e relatos de experiências.
O objetivo é que sejamos desafiados a
resgatar o cuidado com a criação dado
por Deus em Gênesis 2.15 (“Tomou,
pois, o Senhor Deus ao homem e o
colocou no jardim do Éden para o
cultivar e o guardar”) e a buscar o estilo
de vida que Jesus nos ensinou.
Inauguramos com uma série de
sugestões práticas preparadas pela ONG A
Rocha Brasil (www.arocha.org), que dizem
respeito ao nosso dia-a-dia seja em casa, no
trabalho, na rua, nas compras ou na igreja.
Em casa
• Economize água. Diminua o tempo
do banho; feche a torneira enquanto
escova os dentes; use regador em vez
de mangueira; varra a calçada em vez
de lavá-la.
• Economize energia. Troque lâmpadas
convencionais por lâmpadas
eficientes; tire os eletrodomésticos
(e o carregador de celular) da tomada
quando não estiverem sendo usados;
prefira aparelhos com o selo Procel,
que consomem menos energia.
• Separe o lixo. Mesmo que a sua
cidade não tenha coleta seletiva,
separe o lixo em casa e descubra para
onde levar materiais recicláveis como
vidro, plástico, metal e papel. Pilhas
e baterias usadas não devem ser
misturadas com o lixo comum.
• Certifique-se da madeira. Na hora de
comprar móveis de madeira, procure
saber de onde vem a matéria-prima.
Prefira móveis certificados (selo FSC)
e provenientes de florestas de manejo
sustentável.
• Cultive plantas. Na calçada, no jardim,
no quintal, na sacada, na sala do
apartamento — plantas significam
mais qualidade do ar e menos poluição.
• Faça compostagem doméstica. Restos
orgânicos, como folhas e cascas de
frutas e legumes, podem virar adubo
natural para o seu jardim.
No trabalho
• Imprima menos. Seja criterioso com
os e-mails e só imprima o que for
indispensável.
• Reutilize papel. Faça blocos de nota
com papéis usados e reutilize na
impressora papéis impressos apenas
de um lado.
• Compartilhe material. Adote uma
caixa comum de materiais como
canetas, lápis, clipes etc. Isso evita que
cada pessoa compre uma nova caneta
cada vez que não encontrar a sua.
• Seja seletivo no material. Papel
reciclado, lápis de madeira
certificada, canetas com componentes
não-poluentes são opções de material
de escritório produzidas com vistas a
reduzir o impacto ambiental.
• Fique atento ao verão. Nessa época
do ano, vá trabalhar de roupas leves
e incentive isso em seu local de
trabalho. Assim, o ar-condicionado
pode funcionar em potência mais
baixa, economizando energia e
esquentando menos o mundo lá fora.
• Troque o copo descartável por uma
caneca durável.
Na rua
• Caminhe e pedale. Além de fazer bem
à saúde, você economiza e não polui.
• Compartilhe caronas. Polui menos,
e andar de carro sozinho é injusto
quando se considera o impacto do
seu “conforto” sobre o planeta.
• Use transportes coletivos. Além
de economizar combustível e
estacionamento, você pressiona
os governos a aperfeiçoarem essa
alternativa.
• Não jogue lixo no chão.
• Deixe a terra à vista. Ao construir
sua calçada, opte por materiais que
permitam o escoamento da água.
Na igreja
• Dispense o copo descartável. Leve
sua caneca durável para os cultos e
eventos da igreja.
• Use papel reciclado para imprimir o
boletim da igreja.
• Conscientize. Inclua a questão ambiental
nos estudos bíblicos e sermões.
Nas compras
• Desembale. Evite o excesso de
embalagens. O queijo fatiado não
precisa de bandeja de isopor nem
de filme plástico. E por que usar
uma sacola de plástico para cada três
produtos? Para pequenas compras,
leve sua sacola de casa.
• Use retornáveis. Não compre
descartáveis. De copos e pratos a
garrafas, dê preferência a itens cujo
fabricante já prevê a reutilização.
Volte a usar garrafas retornáveis de
cerveja, por exemplo.
• Prefira produtos locais. Além de mais
frescos, os alimentos produzidos na sua
região significam um modo de produção
menos impactante e menos emissão de
gases no processo de transporte.
• Consuma menos. Antes de comprar
qualquer coisa, pergunte-se se você
realmente precisa daquilo. Evite
comprar alimentos que estragam
rápido. Isso significa menos idas ao
supermercado e menos queima de
combustível fóssil.
Vida sustentável
meio ambiente e fé cristã
sanjagjenero
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Mark Carpenter
Parei de ouvir “música cristã”
Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo
Cristão e mestre em letras modernas pela USP.
LuizFernandoPilz
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200858
H
á dois anos escrevi neste
espaço que lamento o estado
da música cristã. Percebi
agora que simplesmente parei de
ouvi-la. Acabo de verificar o que tenho
armazenado no WMP. Não há nada de
“música cristã”, a não ser as gravações
de cinco artistas que mal cabem no
gênero: John Coltrane, Sufjan Stevens,
U2, Leigh Nash e a extinta Sixpence
None the Richer. Parei de comprar
CD’s do gênero após acumular uma
longa lista de decepções.
Cabe aqui uma definição. Por
“música cristã”, me refiro à categoria
criada pelas gravadoras que produzem
música popular para consumo pelo
público “gospel”. “Música cristã” não é
bem um gênero musical, pois
o que existe é um mix
retalhado de músicas que emprestam de
gêneros legítimos.
Não incluo na minha definição a
música usada na igreja para o louvor
coletivo. Música de canto congregacional
independe de padrões musicais
usados na avaliação de desempenho
performático e na análise crítica da
letra como poesia. O gênero conhecido
como worship music tem como foco
direcionar a atenção para as virtudes
e as promessas de Deus, de forma que
a qualidade de música em si passa a
ser menos importante que seu aspecto
pragmático no culto de adoração.
Neste gênero específico, os critérios de
avaliação resumem-se à (1) ortodoxia
teológica da letra, (2) capacidade de
envolver a participação da congregação
e (3) qualidade técnica da execução pelo
ministro de louvor, pelos instrumentistas
e pelo backing vocal. Ou seja, worship
music tem muito mais a ver com worship
do que com music. Não minimizo a
importância deste gênero, pois a própria
Bíblia valoriza o louvor coletivo.
Meu lamento, então, reflete apenas
a paupérie artística de muita música
produzida para consumo cristão
fora da igreja. É como
se a indústria cristã
tivesse determinado
que o que vale é
o conteúdo da
letra: desde que
ela contenha
certos chavões,
frases ou narrativas
evangelísticas — além de um estilo
bacana apreciado pelo mercado alvo —,
é desnecessária a busca da verdadeira
expressão artística. Basta o “suficiente”.
Acaba tendo mais em comum com
propaganda que com arte. Para fazer
um jingle, não precisa chamar Caetano.
Qualquer Emmerson Nogueira serve.
Percebo que há muita gente talentosa
nas bandas das igrejas, pessoas realmente
apaixonadas pela música e dispostas a
sacrificarem para melhorar. Mas muitos
são vencidos pela baixa expectativa da
maioria, pelo padrão acomodativo e pelo
ambiente em que o verdadeiramente
excelente é visto com desconfiança.
O desafio para aqueles músicos que
realmente desejam a arte é aprenderem
a fazer benchmarking pessoal com os
melhores, e colocarem o seu talento a
serviço do reino de Deus, e não apenas a
serviço das gravadoras evangélicas.
Isto não significa que já não existam
cristãos fazendo boa música. Mas, por
ironia, geralmente os músicos que
levam a sério tanto seu cristianismo
quanto a qualidade musical são aqueles
que rejeitam o rótulo “música cristã”
para assim distanciarem-se da média
medíocre. São esses que revitalizam na
música o espírito criativo, que reflete a
beleza e a verdade de Deus.
Parei de ouvir “música cristã” e
comecei a buscar mais a boa música,
inclusive aquela composta e
executada por cristãos.
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Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 59
Marcos Bontempo
mbontempo@ultimato.com.br
vamos ler!
Para ler a Bíblia
bem acompanhado
N
ão. Não se trata de mais uma versão da Bíblia. A
Bíblia Toda, o Ano Todo, do conhecido teólogo
e escritor inglês John Stott, é uma espécie
de navegador, de co-piloto, responsável pela
“navegação”, pelas trilhas em um rally. O rally é a modalidade
automobilística mais antiga do mundo, disputada em duplas,
por estradas boas ou inexistentes. Ao piloto, claro, cabe a
condução do veículo. O navegador aponta o melhor caminho,
antecipa as encruzilhadas e surpresas do mapa, traça o roteiro.
Ler a Bíblia não é um rally. No
entanto, o mesmo Stott, em seu
clássico Cristianismo Básico, aponta
algumas sugestões para a empreitada:
“Elaborar um plano de leitura
sistemático das Escrituras é uma
decisão sábia. [...] Isso exigirá uma
boa dose de autodisciplina, um
despertador e uma Bíblia legível”.
Na mosca. Para alguns, ler a Bíblia é
um prazer, alimento diário, consolo,
orientação. Para outros, ler a Bíblia
toda é um desafio. Às vezes, uma
obrigação ou daquelas tarefas que
todos os anos agendamos e não
cumprimos.
As palavras de Billy Graham sobre
o ministério e a obra de John Stott
caem-lhe como uma luva: “Não
conheço ninguém que tenha sido
mais bem-sucedido em apresentar
a visão bíblica para tantas pessoas
do que John Stott”. A cada leitura
diária, ao longo dos 365 dias do ano
e por toda a narrativa bíblica, o autor
celebra a atuação de Deus na história
do seu povo — desde a criação, no livro de Gênesis, até a
consumação, em Apocalipse 22.
O conhecido estilo pastoral do autor e a leitura fácil
da obra brincam de esconde-esconde com a dureza e a
profundidade dos textos bíblicos. Uma pequena amostra
está em um dos textos mais conhecidos e repetidos das
Escrituras. No primeiro dia da primeira semana, lemos
o primeiro versículo do primeiro capítulo da Bíblia: “No
princípio Deus”. Para Stott, no entanto, as três primeiras
palavras revelam mais do que normalmente enxergamos, e
a meditação diária torna-se um consolo no presente e uma
fonte segura para o que virá: “As primeiras três palavras da
Bíblia revelam que nunca podemos nos antecipar a Deus
ou surpreendê-lo, pois ele está sempre lá, ‘no princípio’. A
iniciativa de toda ação é sempre de Deus.” Ao comentar
o livro de Eclesiastes, seu tom
pessimista, as oscilações de humor e
a futilidade da vida, o autor mostra
mais uma vez suas credenciais ao
lidar com as Escrituras: “Somente
Deus pode suprir o que está
faltando. Deus adiciona eternidade
ao tempo, e transcendência ao
espaço. É por isso que “o temor do
Senhor é o princípio da sabedoria”,
pois a sabedoria começa com
um humilde reconhecimento da
realidade de Deus.”
A Bíblia Toda, o Ano Todo faz
teologia quando é devocional e
sugere meditação ao lembrar os
fundamentos da fé cristã. Escrevendo
sobre a primeira carta aos Coríntios
e como falar das boas novas do
evangelho, John Stott é também
didático: “Uma boa maneira de
comunicar a mensagem dos apóstolos
é dividindo-a em quatro partes —
dois eventos (morte e ressurreição
de Cristo), comprovados por duas
testemunhas (profetas e apóstolos),
com base nos quais Deus faz duas promessas (perdão e o dom
do Espírito) sob duas condições (arrependimento e fé, através
do batismo). Há um sentido de harmonia e completude em
torno do evangelho bíblico”.
O lançamento da Editora Ultimato não substitui a Bíblia.
E esta, talvez, seja a sua maior qualidade.
A Bíblia Toda, O Ano Todo
432 páginas
Ed. Ultimato (www.ultimato.com.br)
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Para ler mais textos da
“Prateleira”, acesse
www.ultimato.com.br
Marcos Bontempo
mbontempo@ultimato.com.br
prateleira
andybahn
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200860
A ciência e os
novos prosélitos
Embora paradoxal, o ateísmo é o
novo mantra a ser seguido. A recente
cruzada editorial — livros como
Deus, Um Delírio (Cia das Letras), de
Richard Dawkins, e Deus não é Grande
(Ediouro), de Christopher Hitchens —,
a discriminação de estudantes cristãos
em universidades no Reino Unido, ou
a proibição do uso de qualquer símbolo
religioso por alunos de escolas públicas
na França não deixam dúvida: os
cientistas se ungiram como responsáveis
por tudo o que é certo e razoável, e se
tornaram não apenas arrogantes, mas
também o que se pode chamar de novos
fundamentalistas.
A ciência tem a última palavra, não
é novidade. Quem nunca começou
uma dieta na segunda-feira porque
no domingo foi informado da nova
descoberta da “ciência”, que atire a
primeira pedra. Folgo em saber, no
entanto, que os cientistas também se
dividem em seitas. Uma amostra é
o texto de Marcelo Gleiser, também
cientista e ateu, sobre Dawkins: “Para
ele [Dawkins], a ciência é um clube
fechado, onde só entram aqueles que
seguem os preceitos do seu ateísmo, tão
radical e intolerante quanto qualquer
extremismo religioso”.
Em tempo: a ciência não pode fazer
declarações. Dallas Willard, em seu
prefácio ao Ciência, Intolerância e Fé
(Editora Ultimato), é contundente:
“Somente os cientistas dizem as coisas.
E estes podem ser surpreendentemente
nada científicos e cometem erros”. E,
com o perdão da ironia, a cada delusion
— a cada gema de ovo a mais ou cafeína
a menos recomendadas na última estação
—, a “ciência” pede desculpas. Aliás,
“sinto muito” foram as palavras do físico
britânico Stephen W. Hawking, na 17ª
Conferência sobre Relatividade Geral
e Gravitação em Dublin, ao negar as
próprias teorias, 30 anos depois, sobre os
buracos negros. Como cristãos, sabemos
que nos enganamos. Inauguramos o
auto-engano com Adão e Eva, para o
arrepio dos cientistas.
O bispo, a igreja
e a prosperidade
Há exatos quatorze anos, a revista
Ultimato estampava na capa uma nota
de cem dólares. Em preto e branco
e sem o auxílio de um Photoshop.
A matéria de capa trazia o acertado
título de “Quase tudo sobre a teologia
da prosperidade” — o acerto está no
“quase”, porque o que era ruim vai
ficando pior.
Não é novidade que seções de
descarrego, novenas, vale de sal,
manto sagrado, entre outras ginásticas
litúrgicas, são transmitidas ao vivo
diuturnamente pela televisão. Mas a
onipresente Igreja Universal do Reino
de Deus não está sozinha nem é a
primeira a recorrer a tal expediente.
Naquela edição de 1994, Ultimato
perguntava: “Super-crentes ou Super-
incrédulos — qual grupo cresce
mais?”. A pergunta continua sem
resposta.
Para descansar é
preciso ter fé
Frases como “o trabalho é chato”,
“a escola é uma droga” ou “a Bíblia
diz que o trabalho é uma maldição”
são repetidas a cada fim de ano. A
proximidade das férias evidencia a
negação do trabalho e parece conspirar
contra os dias “úteis” da semana. O que
nos resta de alegria ou prazer, separamos
para os dias “inúteis”. Vivemos uma
contagem regressiva entre um domingo
e outro, e não sabemos o que fazer nos
outros seis dias.
A leitura apressada de Gênesis 3.14-19
contribui para o equívoco. Ali, o
trabalho não é amaldiçoado, ao contrário
do que muitos pensam. O que aparece
no texto é um elemento novo: a dor, o
suor, a dificuldade. O trabalho continua.
Aliás, a Bíblia começa e termina com
Deus trabalhando.
Para descansar é preciso ter fé.
Acreditar que, mesmo não se fazendo
nada, algo (ou tudo) vai acontecer
(Sl 127). Mas nos levamos muito a
sério. E, como diria Paul Stevens, “não
podemos nos dar ao luxo de dormir
se estamos administrando o mundo”.
Ao contrário, se confiamos em Deus,
o salmista tem a receita: “Eu me deito
e durmo, e torno a acordar, porque é o
Senhor que me sustém. Não me assustam
os milhares que me cercam” (Sl 3.5).
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É ação, é social e é missão!
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 61
A Primeira Igreja Batista em Bultrins,
conhecida como “Igreja sem portas e
janelas”, deveria ser chamada “Igreja com
portas e janelas vazadas”. O templo tem
cerca de 13 metros de largura por 21 de
comprimento, pé direito alto, chão de
cimento e 22 enormes vãos abertos onde
seriam colocadas janelas.
Bultrins tem toda sorte de problemas
— e oportunidades — comuns às
comunidades pobres. Em toda a Vila
Esperança, no raio próximo da IBB, com
aproximadamente 300 famílias, há apenas
uma pessoa com curso superior completo.
Gravidez aos 12 ou 13 anos é rotina na
vida das meninas. Há violência, drogas,
álcool, condições precárias de trabalho,
falta de infra-estrutura e serviços básicos.
O evangelho pode mudar esta realidade?
Hospedei-me na casa de Luciano e
Luciene, irmãos cujas vidas exemplificam
o que o evangelho pode fazer quando
entendido de forma integral. Casada com
Amaro, mãe de Pedro Henrique (um mês
de vida), Luciene converteu-se há sete
anos. Cursa o último ano de biologia em
uma faculdade particular e trabalha em
um consultório odontológico. Foi a igreja
que despertou o seu sonho de estudar e
a encorajou e ajudou financeiramente
quando foi necessário. Luciano, 24
anos, com emprego fixo há apenas dois
anos, quer estudar história. Quando
adolescente, cuidou do pai doente
por alguns anos. Foram o encontro
e a reconciliação com Jesus, há cinco
anos, e a convivência com a igreja que
o ajudaram a sair da depressão. Foi ele
quem me mostrou as vielas e os becos
do “monte” da Vila Esperança. Luciano
conhece bem os problemas de sua
comunidade e tem o objetivo de servi-la.
Contando com os dois irmãos e Amaro
(que faz administração), ao todo são oito
universitários na Vila Esperança, cinco
deles aprovados no vestibular este ano
após preparo no cursinho mantido pela
igreja.
A IBB possui um colegiado de oito
pastores, a maioria auto-sustentada por sua
própria renda. Em certos aspectos é igual
às outras: escola bíblica dominical, culto
à noite, recolhimento de ofertas, batismo
(no mar). Em outros, difere da maioria das
igrejas evangélicas, principalmente por sua
forte inserção na comunidade, o que não
é apenas uma questão de portas e janelas
vazadas: mantém uma rádio comunitária,
sustenta uma escola para crianças em
idade pré-escolar com noventa alunos,
organiza o cursinho pré-vestibular e faz da
igreja um espaço efetivo de participação da
comunidade.
A família de Luciano foi uma das
dezessete que receberam como hóspedes
em suas casas os participantes do VI Fórum
Popular de Reflexão Teológica, realizado
de 15 a 17 de novembro de 2007, com o
tema “Igreja, Comunidade e Trabalho”.
Foram mais de trezentos participantes
vindos da comunidade local, de Recife e
Olinda e de outros estados do Nordeste.
As refeições eram preparadas por senhoras
da igreja e servidas em uma escola. A rua
em frente à igreja foi fechada para dar
espaço às barracas de comida, roupas e
brincadeiras para crianças. Na abertura do
fórum, um grupo de meninas apresentou
uma bonita coreografia da música “Cio
da Terra”, de Milton Nascimento. A
programação foi marcada por apresentações
da cultura popular: grupos de frevo, hip-
hop, forró, música africana, roda de ciranda,
cantadores, declamadores, repentistas,
música de raízes.
Ouvimos sobre trabalho escravo,
trabalho infantil, discriminação racial
e gênero no mercado de trabalho e
desigualdade. Na sacola dos participantes
havia um folder da prefeitura alertando
sobre o perigo de mulheres serem
aliciadas por estrangeiros: há muitos
casos de exploração sexual e tráfico de
órgãos em Recife. A cidade está entre
as duas mais violentas do Brasil e tem o
pior nível de renda para mulheres negras.
Dona Graça e dona Djanira, vendedoras
ambulantes de quitutes, testemunharam
como têm sustentado suas famílias
com este trabalho e como Deus as tem
sustentado em sua luta diária.
Todas as edições do fórum têm sido
marcadas pelo esforço em refletir sobre a
missão cristã a partir das duas instâncias
da vivência do povo de Deus: a igreja e a
comunidade. Nada melhor que, enquanto
refletimos, vivermos a experiência em
“laboratório”, e, ao retornar às nossas
casas, voltarmos à pergunta: o que o
evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo
pode fazer para mudar a realidade dos
pobres em nosso país?
45 anos de Cristo e o Processo
Revolucionário Brasileiro
O fórum rememorou os 45 anos da
Conferência do Nordeste, a quarta e
última conferência promovida pela
Confederação Evangélica Brasileira
(CEB), em 1962. Fomos lembrados de
que a conferência reuniu 167 delegados,
dezesseis denominações evangélicas e
dezessete estados no Colégio Agnes e no
Colégio Batista Americano, em Recife,
para um encontro de oito dias entre
teologia e realidade social, de evangélicos
e intelectuais. A abertura foi feita pelo
bispo Almir dos Santos, que pregou
sobre o Manifesto de Nazaré, com base
em Lucas 4.16-20. Celso Furtado, Paul
Singer, Juarez Brandão Lopes e Gilberto
Freire eram alguns dos intelectuais
presentes. Foi nessa ocasião que Gilberto
Freire, comentando a pequena influência
do protestantismo na cultura, declarou:
“Os protestantes são bons de gramática e
ruins de literatura”.
Leia mais em
www.ultimato.com.br
• Conteúdo das apresentações
feitas na mesa-redonda sobre
a Conferência do Nordeste.
Portas e janelas vazadas Klênia Fassoni
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H
Osmar Ludovico da Silva
ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200862
auditório e já não cultiva a boa música
com cordas, sopros, bons arranjos,
corais, quartetos. E perde muito
mais quando a adoração se torna um
evento estimulado sensorialmente
e não uma melodia que emerge de
um coração quebrantado e temente a
Deus. Adoração é sempre uma resposta
humilde, alegre, reverente àquilo que
Deus é e faz. Adoramos porque algo
aconteceu, algo nos foi revelado, e
não o contrário, como pensam alguns,
que recebemos a revelação e as coisas
acontecem porque adoramos.
A igreja perde quando não há
reverência ou temor. O que resta
é euforia, excitação e sensações
prazerosas. O que é bom em si mesmo,
mas não é necessariamente adoração.
É um equívoco pensar que Deus
se impressiona com nossos cultos de
domingo. Antes, ele acolhe muito mais
nossos gestos simples do cotidiano,
fruto de um coração humilde e
quebrantado, que busca se desprender
de ambições e serve ao próximo com
alegria. Adoração não é um evento
domingueiro bem produzido, mas um
estilo de vida que glorifica ao Senhor.
Durante séculos a arquitetura das
igrejas e das catedrais destinou o
balcão posterior ao coro, ao órgão e
à orquestra. Na igreja da Reforma os
músicos e o coro se posicionavam na
parte da frente da nave, mas sempre ao
lado. Mesmo o púlpito não estava no
centro, mas ao lado. No centro havia,
quando muito, alguns símbolos da fé,
que ajudam a despertar a consciência
para a experiência do sagrado, com
destaque para a mesa do Senhor. A
EspecialEspecial
H
Osmar Ludovico da Silva
d l b
Especial
Há dois tipos de música, a boa e
a ruim — seja ela erudita, MPB,
sertaneja, reggae, rap, rock ou gospel.
O que me surpreende é a capacidade
de o mercado absorver a música ruim.
Com a proliferação de compositores,
intérpretes, bandas e gravadoras,
o cenário evangélico não poderia
ser diferente. Tem música boa, mas
também tem muita música ruim.
Passamos séculos louvando a Deus
com hinos históricos da Reforma.
Bastava um hinário, e tínhamos
músicas com letras densas, boa teologia
e linha melódica harmoniosa.
Nos últimos anos surgiu o que
chamamos de louvorzão. Jogamos fora
os hinários, a liturgia, aposentamos o
piano e o coral e introduzimos a guitarra,
a bateria, o data-show, as coreografias
e a aeróbica. Surgiu também a figura
do dirigente de louvor, responsável por
animar a congregação. Daí para a frente
há muito barulho, muitas palmas, muitas
mãos levantadas, muitos abraços, muitas
caretas e cenho franzido. Mas a pergunta
que fica é: temos adoração?
O lado positivo do louvorzão é o
interesse e a integração na igreja de
milhares de jovens. Trata-se de uma
oportunidade única para ensinar estes
jovens, através do exemplo e da Palavra,
o caminho do discipulado de Cristo.
Mas fica a pergunta: estarão estes jovens
crescendo na santidade e no serviço?
Alguns cultos se tornaram verdadeiras
produções dignas da Broadway. Músicos
profissionais, cenários, bailarinos e
iluminação. Mas fica uma pergunta: toda
esta parafernália cênica tem levado o povo
de Deus a uma genuína adoração?
A história da Igreja é rica em
manifestações artísticas. Ao longo do
tempo o louvor foi expresso através
de várias expressões musicais. O
canto gregoriano, o barroco, os hinos
da Reforma, o negro espiritual e os
cânticos contemporâneos deixaram sua
contribuição à boa música ao longo
destes últimos séculos.
Trata-se, portanto, de um equívoco
jogar fora toda a herança histórica e
achar que esta geração descobriu a forma
certa de louvar. Se olharmos do ponto de
vista musical veremos que a história nos
legou uma herança preciosa. Na cultura
gospel do louvorzão tem muita música
ruim, muita letra questionável e muito
dirigente de louvor que mais parece um
animador de auditório.
A igreja pode ser a ponte entre as
gerações, entre o antigo e o novo e
integrar na adoração tudo o que há
de bom na sua herança histórica. Tem
muita gente cansada do louvorzão
barulhento de letras rasas, de bandas
que tocam no último volume, de
coreografias esvoaçantes e de ordens
do dirigente para abraçar o irmão da
frente, de trás e do lado dizendo que
o amamos. É constrangedor abraçar
alguém e dizer que o amamos quando
nem sequer o conhecemos.
A igreja perde quando a ênfase do
louvor se desloca da congregação para
o palco. Com raras exceções a música
é ruim, a letra não tem nada a ver com
a realidade do cotidiano ou a teologia
reformada e a performance no palco é
apelativa.
A igreja perde quando se torna
parecida com um programa de
Adoração na igreja evangélica contemporânea
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E
Osmar Ludovico da Silva é pastor da Igreja Evangélica
Comunidade de Cristo em Cabedelo, PB. Ministra
cursos de espiritualidade cristã, formação de líderes e
restauração para missionários.
Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 63
congregação ficava em face ao altar de
Deus, sem que nada se interpusesse
entre a Santa Presença e a congregação.
Este lugar só pode ser ocupado por
Jesus Cristo. Ele é o único mediador,
ele é o único que pode dirigir o louvor.
Hoje o que se vê é o apóstolo, o
bispo, o pastor, o dirigente de louvor e a
banda ocupando este lugar, nos levando
de volta à Antiga Aliança, quando
sacerdotes e levitas eram mediadores
entre Deus e os homens. A conseqüência
é uma geração de crentes que dependem
de homens, coreografias e data-shows
para adorar e para ouvir a voz de Deus.
O verdadeiro pastoreio consiste
em ajudar homens e mulheres a
dependerem do Espírito Santo para
seguirem a Cristo, que os leva ao seio
do Pai. Ajudar homens e mulheres
a crescerem e amadurecerem na fé,
na esperança e no amor, integrando
adoração, oração e leitura das Escrituras
no seu cotidiano.
A contextualização se tornou uma
armadilha na qual a igreja caiu. Na
tentativa de se identificar com o mundo
ela ficou cada vez mais parecida com
ele. A cultura gospel é autocentrada,
materialista, acha-se dona da verdade,
tornou-se uma religião que nos faz
prosperar, que não nos pede para
renunciar a nada e que resolve todos
os nossos problemas. Há um abismo
colossal entre a cultura gospel e o
evangelho de Jesus Cristo, que nos
chama a amar sacrificalmente o nosso
próximo, a cultivar um estilo de
vida simples, a integrar o sofrimento
na experiência existencial e a ter a
humildade de ser um eterno aprendiz.
Estas reflexões já estavam fervilhando
no meu coração há algum tempo.
Pensei que estas coisas só aconteciam
em certas igrejas, mas o que me
motivou mesmo a colocá-las no papel
foi ter participado de um culto numa
Igreja Batista da Convenção.
“Não temais, ó pequenino rebanho;
porque vosso Pai se agradou em dar-vos
o seu reino” (Lc 12.32).
Em todos os meus pastorados o Senhor
me permitiu ver crescimento numérico
da igreja. Mas nunca foi essa a minha
ênfase. Semear sim, quanto mais
melhor, mas sem forçar resultados.
Quando seminarista em Campinas,
o então responsável pela publicação
da Revista Teológica do Seminário
Presbiteriano do Sul me pediu que
escrevesse um artigo. Escrevi-o com o
título acima: “A Mística do Número”.
O realismo do artigo desagradou o
solicitante, de modo que o artigo
nunca foi publicado.
Anos mais tarde, durante uma
semana teológica no mesmo
seminário, solicitaram-me dirigir uma
devocional, e falei sobre Lucas 12.32.
O realismo bíblico da mensagem
desagradou a uns dois professores, que
não esconderam isso em comentários
que fizeram.
Pouco antes de ir para o Chile
como obreiro da Junta de Missões
Estrangeiras, da Igreja Presbiteriana
do Brasil, li um livro sobre o
presbiterianismo chileno. Vi referência
à Igreja de Constitución. Estranhei:
já sabia quais eram as então 27 igrejas
presbiterianas daquele país, e não
tinha visto o nome Constitución.
Continuei lendo e fiquei sabendo
que o crescimento da referida igreja
tinha sido estrondoso. Poucas páginas
depois li que o presbitério dissolvera a
Igreja Presbiteriana de Constitución.
— Crescimento falso, sem a devida
estrutura, sem o devido conteúdo
doutrinário substancial, sem a devida
seriedade ético-moral.
Uma multidão de discípulos de
Jesus Cristo o abandonou quando
compreendeu a profundidade da obra
que Ele se propusera a realizar na terra
(Jo 6.66). E em certa ocasião Jesus
disse: “Ai de vós, quando todos vos
louvarem! (Lc 6.26).
Alegrou-me, pois, ver na revista
Ultimato protestos de Billy Graham e
Dom Eugênio Sales contra o inchaço
das igrejas (jul./ago. 2007, p. 14).
Isso me traz à memória alguns fatos
impressionantes, que relato a seguir.
Há muito tempo li em Seleções de
Reader’s Digest a transcrição de uma
entrevista feita com Billy Graham.
À pergunta sobre o que o famoso
pregador achava do enorme número
de decisões tomadas pelos ouvintes em
suas grandes campanhas nos estádios,
Billy Graham respondeu: “Os efeitos
de um banho duram pouco, mas o
banho faz bem”. Não sei se alguém
encontraria expressão mais realista! Em
outro número da mesma revista, li que
fizeram a ele a seguinte pergunta: “Se o
Odayr Olivetti
A mística
do número
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StefanHellwig
sr. pudesse retornar aos seus primeiros
tempos de ministério, que faria?”
Eis a resposta de Billy Graham: “Eu
procuraria reunir cinco ou seis pessoas
realmente dispostas a consagrar-
se à causa do evangelho e que se
reunissem comigo para oração e para o
testemunho”.
Em um trabalho sobre secularização
no curso de pós-graduação em
ciências sociais que fiz na Escola de
Economia e Política de São Paulo,
na década de 70, vi que um fruto
positivo da secularização é que, com
a libertação do jugo da religião sob
cabresto, ficaria mais fácil distinguir
os cristãos dos não-cristãos. Até
certa época, quem repudiava a
igreja dominante era mal visto na
sociedade e corria o risco de ser
posto à margem, senão em lugar
pior. Isso às vezes acontece hoje, mas
em casos isolados. A secularização
deu oportunidade para que os falsos
cristãos batessem as asas. Só que
muitos falsos cristãos não bateram as
asas, assumiram formas enganadoras
de “cristianismo” e contribuem para o
inchaço numérico da igreja.
Há não muitos dias um sacerdote
católico romano disse pela televisão
que se a metade dos membros da
sua igreja a deixasse, não faria falta
alguma. — Muito bom, mas não o
suficiente. No fim da década de 50,
em Porto Alegre, eu costumava ler
assiduamente um pensador católico
romano sério, muito respeitado,
Gustavo Corção Braga (cheguei a
ver seu nome citado numa obra de
Berkouwer sobre a pessoa de Cristo).
O excelente jornal gaúcho Correio do
Povo publicava regularmente extensos
artigos de Gustavo Corção. Pouco
depois da reunião da Conferência
Nacional dos Bispos Brasileiros
realizada em São Luís do Maranhão,
que proclamou que cerca de 95% dos
brasileiros eram católicos romanos,
Corção publicou em artigo sérias
críticas ao catolicismo brasileiro e
por fim emitiu a sua opinião sobre a
porcentagem de brasileiros católicos
romanos: Apenas cerca de 10%! E
naquela época!
Temos que ter pena das multidões,
porque, como no tempo de Jesus,
andam como ovelhas sem pastor de
verdade. Poucos são os obreiros fiéis,
difícil para o povo discernir entre
o falso e o verdadeiro, e Satanás
se aproveita dos vivaldinos que se
apresentam como pastores quando na
verdade são mercenários.
Temos que acabar com a mania de
valorizar seja lá que for pelo número.
É certo que nas visões que o apóstolo
João teve do céu, viu ele miríades
de redimidos (Ap 7.9-10). O total
dos salvos será imenso. Mas em cada
época, em cada geração e em cada
lugar, sempre será um número irrisório
em contraste com as multidões que
correm atrás de tudo, menos do
glorioso ideal de, pela graça de Deus
em Cristo, ter A Vida de Deus na Alma
do Homem, como diz o título de um
livro de Henry Scougal, que tive o
privilégio de traduzir para Publicações
Evangélicas Selecionadas (PES).
Lembremo-nos das palavras do
Senhor Jesus Cristo:
“Entrai pela porta estreita [...].
Muitos, naquele dia, hão de dizer-
me: Senhor, Senhor! Porventura
não temos nós profetizado em teu
nome, e em teu nome não expelimos
demônios, e em teu nome não fizemos
muitos milagres? Então lhes direi
explicitamente: nunca vos conheci.
Apartai-vos de mim, os que praticais a
iniqüidade” (Mt 7.13, 22,23).
“Quando vier o Filho do homem
na sua majestade e todos os anjos com
ele, então se assentará no trono da
sua glória; [...] e porá as ovelhas à sua
direita, mas os cabritos, à esquerda;
então dirá o Rei aos que estiverem à
sua direita: Vinde, benditos de meu
Pai! Entrai na posse do reino que vos
está preparado desde a fundação do
mundo” (Mt 25.31, 33-34).
arquivopessoal
Odayr Olivetti
Odayr Olivetti, escritor e tradutor, foi missionário no
Chile e professor de teologia sistemática no Seminário
Presbiteriano de Campinas.
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Rubem Amorese
Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja
Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e
Liturgia e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna.
<ruben@amorese.com.br>
Obrigado por me ouvir
E
m 2008, vou romper
com a síndrome
do divã. Vou me
aconselhar como quem
deseja ouvir e crescer.
Na novela Eterna Magia, da
Globo, toda construída sobre
mentiras e segredos, chamou-
me a atenção uma cena em que,
após longa conversa com um
padre, a pessoa termina dizendo:
“Obrigado por me ouvir; eu
estava precisando botar para fora”.
Notei que, tanto nesse caso
quanto nos demais, o padrenunca
era atendido ou considerado em seus
conselhos. Era apenas um ouvinte
disponível, paciente e que fazia boas
perguntas. Era assim que ajudava as
pessoas. Mas ficou claro, no enredo, que, se o tivessem ouvido, o
rumo daquelas vidas teria sido diferente. Para melhor. E a novela
teria terminado precocemente, claro.
Passei a prestar mais atenção às minhas conversas, seja
como conselheiro, seja como consulente. E constatei que
sofremos todos desse subproduto indesejado da cultura
psicanalítica em que vivemos. Nada contra os psicanalistas,
claro. O problema atinge também a quem nunca se deitou
num divã. Meu olhar é sobre o aconselhamento cristão.
Parece que temos carência de falar. Dizer já não é tão
importante. Ouvir, muito menos. Obedecer, bem... de que
baú tiraram esse verbo?
Nesse sentido, embora algo de consolador e terapêutico
permaneça nesses monólogos disfarçados de aconselhamento,
percebo que muitos elementos cristãos estão desaparecendo.
Por exemplo, a autoridade. Nessas conversas, não se busca, de
fato, a sabedoria ou a experiência do conselheiro. Claro que
desejamos um interlocutor preparado. Mas o que queremos
é uma vaga em sua agenda. Em especial, em seus ouvidos.
Quanto mais tempo, melhor.
Desaparece, também, a
submissão. Submeter-se a um
amigo, um irmão? Que também
tem seus problemas? Ouvi dizer
que é melhor procurar alguém
que não nos conheça bem — traz
menos problemas.
Desaparecem a autoridade e o
poder coercitivo das Escrituras.
Liquefazem-se princípios,
verdades, certezas, tradições e
outros fatores de segurança que o
texto bíblico traz. Abrir a Bíblia,
em um aconselhamento, hoje em
dia, já não é tão fácil. Além de
interromper o fluxo do raciocínio
daquele que está ali para falar,
pode trazer constrangimento. Falta
disposição para ouvir conselhos. Ou
para versos bíblicos, com aplicações “discutíveis”. Se insistir, o
conselheiro perde muitos pontos.
Sim, pastores, mentores e conselheiros têm sido reduzidos a
ouvintes privilegiados. E serão tão menos procurados quanto
menos disponíveis estiverem para uma audição “gentil”.
Este ano, desejo mudar. Falarei menos e aprenderei mais.
Ouvirei conselhos e procurarei acatá-los. Investirei em
docilidade. Até no caso de meu conselheiro me reprovar ou me
apontar caminhos difíceis. Serei submisso; serei grato; buscarei
a obediência inteligente. Aceitarei autoridade sobre mim e a
honrarei; orarei por ela. Serei, novamente, “admoestável”.
Quem sabe, a partir desse exercício, em oração, a Bíblia,
que há tanto tempo tem me falado palavras bonitas, volte
a me dizer o que preciso ouvir. E, ouvindo o que preciso
ouvir (e não apenas o que eu mesmo falo), eu me cure desta
insidiosa anorexia espiritual. Amém.
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    4 ULTIMATO Janeiro-Fevereiro,2008 abertura A oração de Jesus no Getsêmani não foi copiada de um texto de teatro Não se protege a fé cristã proibindo-se a leitura deste ou daquele livro. Não se protege a fé cristã jogando-se na fogueira uma montanha de livros e artigos de jornais e revistas, de filmes e documentários, de peças de teatro e de música. A fé cristã só sobrevive se estiver firmada sobre o Jesus da Bíblia e sobre convicções inabaláveis, não apenas herdadas desde o berço, mas também trabalhadas e aprofundadas pela busca, pela oração e pela experiência religiosa. Não se pode ser ingênuo: a fé cristã sempre será posta em dúvida. O documentário O Túmulo Secreto de Jesus (2007), produzido por James Cameron e dirigido pelo cineasta Simcha Jacobovici, diz a propaganda, “conta a história daquela que pode ser a maior descoberta arqueológica na história”, a saber, “a tumba encontrada na periferia de Jerusalém abrigaria os restos mortais de Jesus e sua família”. Ora, “se Cristo não ressuscitou, é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm”, explica Paulo (1Co 15.14). Outro exemplo é o Evangelho de Tomás, apócrifo, descoberto perto da base do rochedo Jabal al-Tarif, junto ao rio Nilo há mais de 50 anos. Além das histórias fantásticas envolvendo a infância de Jesus (num acesso de raiva, ele derrubou um menino que sem querer esbarrou nele), o pequeno livro diz que o Senhor não morreu pelos pecados de ninguém. Embora em confronto direto com os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, há quem se deixe impressionar pelo Evangelho de Tomás, dito irmão gêmeo de Jesus. Negar a expiação realizada pela morte vicária de Jesus é reduzir a nada o Novo Testamento e o cristianismo, bem como minar a certeza e a esperança da salvação. Enquanto “o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte” (Rm 5.12), Jesus “é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). É tudo muito consistente, muito claro, muito incisivo, muito esclarecedor e muito verdadeiro. Ao mesmo tempo, o sacrifício expiatório realizado por Jesus Cristo é uma das verdades mais questionadas pelos céticos. Recentemente, o apreciado teólogo, filósofo e psicanalista Rubem Alves tornou a negar o significado salvífico da morte de Jesus, anunciada pelo profeta Isaías 700 anos antes de Cristo: “Todos nós éramos como ovelhas que haviam se perdido; cada um de nós seguia o seu próprio caminho. Mas o Senhor castigou o seu servo [Jesus Cristo]; fez com que ele sofresse o castigo que nós merecíamos” (Is 53.6, NTLH). Em dezembro de 2000, Rubem Alves fez uma estranha confissão à revista Isto É: “Hoje, as idéias centrais da teologia cristã em que acreditei nada significam para mim: são cascas de cigarras vazias. Não as entendo. Não as amo. Não posso amar um Pai que mata o Filho para satisfazer sua justiça” (Isto É, 20/12/2000, p. 90). Exatamente sete anos depois, através de um artigo publicado na Folha de São Paulo, o ex-pastor da Igreja Presbiteriana de Lavras, MG, (de 1959 a 1966), volta a questionar: “Sinto uma dúvida crescente sobre a paixão de Jesus”. Logo em seguida, diz que a oração de Jesus no Getsêmani (“Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”) “parece ter sido copiada de um texto de teatro...” e pergunta ao leitor: “Você acredita nisso?” (Folha de São Paulo, 2/10/07, p. C2). Muitos cristãos respondem tranqüilamente: “Nós acreditamos”! weatherbox RUBEM ALVES EQUIVOCADO Negar a expiação realizada pela morte vicária de Jesus é reduzir a nada o Novo Testamento e o cristianismo, bem como minar a certeza e a esperança da salvação ultimato 310 final.indd 4ultimato 310 final.indd 4 5/12/2007 16:21:465/12/2007 16:21:46
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    ATENDIMENTO AO LEITOR Telefones:(31) 3891-3149 0300 313 1660 Fax: (31) 3891-1557 E-mail: atendimento@ultimato.com.br www.ultimato.com.br Caixa Postal 43 36570-000 · Viçosa, MG P Editora Ultimato ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 20086 carta ao leitor Fundada em 1968 ISSN 14153-3165 Revista Ultimato Ano XLI · NÀ 310 Janeiro-Fevereiro 2008 Direção e redação cartas@ultimato.com.br Elben M. Lenz César (Jornalista responsável) Administração Klênia Fassoni, Lenira Andrade Vendas Lucia Viana, Lucinéa de Campos, Rita de Cássia Oliveira, Romilda Oliveira, Tatiana Alves e Vanilda Costa Editorial e Produção Marcos Bontempo, Bernadete Ribeiro, Daniela Cabral, Djanira Momesso César, Fernanda Brandão Lobato e Roberta Dias Finanças / Circulação Emmanuel Bastos, Aline Melo, Edson Ramos, Emílio Gonçalves, Luís Carlos Gonçalves, M. Aparecida Pinto, Rodrigo Duarte e Solange dos Santos Estagiários Alaila Ribeiro, Bruno Tardin, Daniel Figueiredo, Débora Sacramento, Fabiano Silvestre, Hadassa Alves, Liz Oliveira, Luci Maria da Silva, Macel Guimarães, Natália Santana e Priscila Rodrigues Arte - Oliverartelucas Impressão - Plural Tiragem - 35.000 exemplares Łrgão de imprensa evangélico destinado à evangelização e edificação, sem cor denominacional, Ultimato relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos com Escritura. Pretende associar a teoria com a prática, a fé com as obras, a evangelização com a ação social, a oração com a ação, a conversão com a santidade de vida, o suor de hoje com a glória por vir. Circula nos meses ímpares. Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e da Associação de Editores Cristãos (AsEC) Os artigos não assinados são de autoria da redação. Reprodução permitida. Obrigatório mencionar a fonte. Assinatura Individual - R$ 55,00 Assinatura Coletiva - desconto de 50% sobre o preço da assinatura individual para cada assinante (mínimo de 10) Assinatura Exterior - R$ 97,00 Edições Anteriores - atendimento@ultimato.com.br Anúncios anuncio@ultimato.com.br No mato sem cachorro Parece que só temos um alvo hoje em dia — o ideal da prosperidade. Estamos todos sob a febre dos livros de auto-ajuda e sob a da teologia da prosperidade. Antes, a influência vinha exclusivamente da cultura secular. Agora, a influência religiosa supera a influência secular. Estamos no mato sem cachorro. Outro dia, por exemplo, o bispo Edir Macedo escreveu que quando Jesus aconselhou “dêem, e lhes será dado [Lc 6.38], seus olhos estavam voltados para o mercado” (Folha Universal, 04/11/07, 2). Por essa perspectiva, quanto mais eu dou e quanto mais fiel eu sou no dízimo, mais Deus me dará. Esse “outro evangelho” me ensina que é Deus quem me enriquece. Então eu preciso sempre negociar com ele. Vamos colocar diante de nossos olhos a seguinte passagem: “Ai de vocês que adquirem casas e mais casas, propriedades e mais propriedades, até não haver mais lugar para ninguém e vocês se tornarem os senhores absolutos da terra!” (Is 5.8). Permitamo-nos também encompridar e contextualizar esse texto: “Ai de vocês que adquirem casas e mais casas, propriedades e mais propriedades, carros e mais carros, dinheiro e mais dinheiro, cartões de crédito e mais cartões de crédito, títulos e mais títulos, poder e mais poder, até não haver mais oportunidade para ninguém e vocês se tornarem senhores absolutos na terra”. Sabe o que isso significa na prática? Nada mais é do que “correr atrás do vento”, correr atrás do nada (Ec 2). Quem sabe poderíamos traçar outro alvo para 2008. Menos materialista, menos mercantilista, menos egoísta, menos terreno, menos soberbo e menos sujeito à decepção. Pois a sugestão de Jesus é em sentido contrário: “Não acumulem para vocês tesouros na terra[...]. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus[...], pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração” (Mt 6.19-21). Outro dia, o professor Jorge Barros, da Faculdade de Teologia Latino-Americana, de Londrina, muito bem se expressou: “O de que menos precisamos hoje é de teologia da prosperidade e o de que mais precisamos é a prosperidade da teologia”. No 40º aniversário de circulação ininterrupta de Ultimato, desejamos aos leitores e aos seus familiares as mais preciosas bênçãos de Deus. E. César FernandoMengoni ultimato 310 final.indd 6ultimato 310 final.indd 6 5/12/2007 16:22:425/12/2007 16:22:42
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    Seções Capa Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO7 “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo” IS 55.6 ABREVIAÇÕES: BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; EP - Edição Pastoral; EPC - Edição Pastoral - Catequética; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas de indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional. Reflexão Robinson Cavalcanti Protestantes: autênticos católicos 38 Ricardo Gondim Bem e mal 40 Redescobrindo a Palavra de Deus Criança alegra a vida!, Valdir Steuernagel 42 História Dos tais é o reino dos céus: a igreja e as crianças na história cristã, Alderi Souza de Matos 44 Entrevista Uriel Heckert e Robinson Cavalcanti A crescente visibilidade do homossexualismo é um fenômeno específico da civilização ocidental 48 O caminho do coração Adoração e missão, Ricardo Barbosa de Sousa 52 Da linha de frente O Brasil do Brasil, Bráulia Ribeiro 54 Arte e cultura Parei de ouvir “música cristã”, Mark Carpenter 58 Ponto final Obrigado por me ouvir, Rubem Amorese 65 Homossexualismo e homossexualidade 24 A verdade definitivamente não está do lado do comportamento homossexual! 28 Armário aberto e cerca derrubada 29 A mudança de comportamento homossexual não é nem impossível nem fácil 30 A lei da homofobia 31 Apertando o cerco 32 Abertura 4 Carta ao leitor 6 Pastorais 8 Cartas 10 Mais do que notícias 14 Números 15 Frases 21 Nomes 22 Novos acordes 53 Deixem que elas mesmas falem 56 Meio ambiente e fé cristã 57 Vamos ler! 59 Prateleira 60 Ação mais que social 61 Especial Ultimato — 40 anos de coerência 36 Adoração na igreja evangélica contemporânea, Osmar Ludovico da Silva 62 A mística do número, Odayr Olivetti 64 Stockxpert Leia em www.ultimato.com.br • Vencendo o deserto (seção “Altos papos”), por Jeferson Magrão Em janeiro e fevereiro de 2007, todos os dias, 40 produtos com desconto ultimato 310 final.indd 7ultimato 310 final.indd 7 5/12/2007 18:43:175/12/2007 18:43:17
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    Reanimação boca-a-boca no alvorecerde 2008 ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 20088 54 Reanime o meu coração em Cristo! (Fm 20) Não se perde apenas a carteira, a chave do carro, o ônibus. Não se perde apenas o juízo, a saúde, a vida. Não se perde apenas a vergonha, o caráter, a reputação. Não se perde apenas o emprego, a oportunidade que passa mas não pára, o ente querido. Perde-se também o ânimo, aquela força motriz que põe tudo em movimento. Isso acontece com todo mundo, com o justo e com o pecador. Raramente em alguns poucos casos, muitas vezes em outros casos. É uma situação desagradável, ameaçadora e paralisante. Davi perdeu o ânimo quando encontrou a cidade de Ziclague, onde estavam sua mulher e seus filhos, as mulheres e os filhos de seus seiscentos companheiros, destruída pelo fogo, e quando percebeu que os familiares de todos tinham sido levados como prisioneiros pelos amalequitas. Mas ele conseguiu reanimar-se no Senhor e então teve condições de reagir e transformar por completo o quadro (1Sm 30.1-20). Na menor de suas epístolas, Paulo pede sem acanhamento e sem rodeios a Filemon: “Reanime o meu coração em Cristo” (Fm 20). Ele estava velho e encarcerado. Na esperança de ser libertado em breve, ele pede também pousada: “Prepare-me um aposento” (Fm 22). Mas entre uma coisa e outra, naturalmente a reanimação é muito mais importante que o aposento. De fato, uma injeção de ânimo faz bem. Uma boa saúde, uma boa situação financeira, um bom relacionamento familiar podem tornar o desânimo mais difícil e menos freqüente, mas não são suficientes para manter o ânimo em todo o tempo e em todas as circunstâncias. O ânimo precisa ser mantido e renovado custe o que custar, principalmente quando há algum baque emocional, de causa conhecida ou não, de dentro para fora ou de fora para dentro. Somos todos complicados, vulneráveis e frágeis. E as circunstâncias nem sempre ajudam. Daí a necessidade de algum socorro sem perda de tempo, de alguma reanimação boca a boca! A mais urgente possível. Não é à toa que Jesus dizia repetidas vezes: “Tenha bom ânimo” (Mt 9.2; Mc 10-49; Jo 16.33). Todos precisam de ânimo, principalmente aqueles que estão à frente de algum empreendimento. Esta foi a receita de Moisés a Josué: “Não tenha medo! Não desanime!” (Dt 31.8). Sem ânimo, não se sai do lugar, não se avança, não se conquista nada e ainda se contagia os outros. Antes de solicitar a Filemon “reanime o meu coração em Cristo”, Paulo faz uma referência elogiosa a ele: “Você, irmão, tem reanimado o coração dos santos” (Fm 7). Deus é a fonte de todo ânimo. Ele pode nos reanimar tantas vezes quantas forem necessárias e nos transformar em reanimadores dos outros. Esse bem poderia ser o nosso alvo para 2008! O ânimo precisa ser mantido e renovado custe o que custar, principalmente quando há algum baque emocional, de causa conhecida ou não, de dentro para fora ou de fora para dentro Sam ultimato 310 final.indd 8ultimato 310 final.indd 8 5/12/2007 16:24:085/12/2007 16:24:08
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    ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200810 Omistério da iniqüidade em alta Na edição de nov./dez. 2007, Ultimato veio com a postura que nós, leitores, cansados de superficialidades, aprendemos a respeitar: análise coerente e corajosa dos problemas do cristianismo contemporâneo. JOÃO ANTÔNIO DE ALMEIDA Tatuí, SP Li e gostei do Mistério da iniqüidade em alta (nov./dez. 2007, p. 24), mas não gostei da omissão da revista sobre o mistério da apostasia de Kenneth Hagin (Rhema), Kenneth Copeland e Benny Hinn, que vêm destruindo as pessoas e as Igrejas com suas heresias. PAULO ROBERTO T. DOS SANTOS Rio de Janeiro, RJ Depois de ler alguns escritos do tal porto-riquenho que se autodenomina Jesus Cristo Homem, estou convencido de que este sujeito possa ser mesmo o verdadeiro anticristo. LAUDELINO LEITE GUIMARÃES Parabéns pela matéria de capa. Precisamos estar atentos à barbaridade que vem acontecendo nos últimos anos. O mistério da iniqüidade vem se destacando assustadoramente. EMÍLIO NAZARÉ A igreja precisa de modelo Agradou-me muito a pastoral A igreja precisa de modelo (nov./dez. 2007, p. 8). Não são poucos os pastores que carecem das qualidades básicas de um ministro de Deus, como vida irrepreensível, moderação, sensatez, amabilidade, desprendimento e desapego ao dinheiro, no púlpito e fora dele. O povo de Deus anseia e clama por pastores e não somente por pregadores. Precisamos daqueles que ainda dão a vida pelas ovelhas, sem hora marcada, sem porta fechada, mas de coração aberto. SEOZY YANE SANTOS MARCONDES Curitiba, PR Richard Dawkins O nome de Richard Dawkins, autor de Deus, Um Delírio, foi mencionado em diversos artigos da edição mais recente. Enquanto estava lendo a revista, ouvi o próprio em uma entrevista para a Deutsche Welle (rádio alemã), onde o confrontaram com dois bispos, sendo um católico e outro ultimato 310 final.indd 10ultimato 310 final.indd 10 5/12/2007 16:24:385/12/2007 16:24:38
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO11 protestante, além de um político idoso de formação jesuíta. O dois bispos demonstraram revolta com as afirmações mais contundentes de Dawkins e as palavras deste não foram nada brilhantes. Uma das virtudes de Ultimato é que seus temas são atuais. WILFRIED KÖRBER Vinhedo, SP Aparecida Apreciei o olhar apurado e carinhoso do Mineiro com Cara de Matuto (jul./ago. 2007, p. 20), que por aqui passou e conseguiu espelhar tão bem minha cidade. Nascida e criada em Aparecida, convertida ao evangelho aos 20 anos, filha de mineiros católicos que para cá vieram “tentar a vida”, tenho a alegria de compartilhar que parte de minha família hoje é convertida ao evangelho. Deus é maravilhoso e fiel, e tem feito maravilhas. RITA DE CÁSSIA D. PENA Aparecida, SP AgradeçoporreceberUltimatoeparabenizotodaaequipe pelobrilhantetrabalho.Aproveitoparafazerumaperguntaaos nossosirmãosevangélicos,emespecialaosdaAssembléia deDeus:porqueseráquemuitasfamíliassãorestauradas, muitosmilagresalcançados,muitasgraçasebênçãos derramadassobretodosaquelesquerecitamorosárioem honraàMãedeDeus?Ouseráfaltadehumildade“nossa” reconhecerqueaMãedeDeusenossaintercedejuntoaoseu Filho,aDeusPaiporcadaumdenós?Irmãos,enquantovocês criticam,aMãedeDeusosamaimensamente. LUIZ CARLOS DA LAPA Olinda, PE Li a reportagem sobre o Santuário de Aparecida. Devo confessar que a princípio fiquei um pouco em dúvida sobre que mensagem ela pretendia passar. Mas, depois de uma leitura apurada, e sem pinçar frases, entendi a matéria, muito bem escrita, aliás. Creio que o principal problema com alguns evangélicos é que eles têm tabus com alguns assuntos. Precisamos ter mais discernimento. MÁRCIA SANTOS Quando eu era católica, sempre que uma das minhas imagens quebrava, eu a jogava no mar, pois não podia colocá-la no lixo. Ainda bem que ninguém encontrou nenhuma delas. A propósito, creio que já chegou a hora de trocar o título atual Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil para padroeira dos católicos do Brasil, já que somos um Estado laico. MARIA GLISSYA PESSOA Fortaleza, CE Como é confortante hoje não ver a queima de Bíblias por cristãos, mas ver sacerdotes católicos lendo Ultimato, uma revista protestante, louvando-a ou criticando-a devido a um novo discernimento dos tempos, quando a unidade cristã — não institucional — se impõe como um imperativo até de pós-modernidade. ERNESTO ALVES MUZZI Brasília, DF Quandoarevistachega,leio-adecaboarabo.Gostomuitoda linhadepensamentoe,sobretudo,desuaposiçãoeditorial isentaenãotendenciosa.Soucatólicodeformaçãoteológica. JOSÉ ANDRÉ DA SILVA Recife, PE Solicito que esta prestigiosa revista não me impugne por aproveitar muitos dados e idéias para completar meus livros. Lembrem-se: certas críticas valem mais que fingidos e eufêmicos aplausos, pois relembram dores de cotovelo. Meu breve adendo: meus livros não servem de leitura para membros do clero. LEONILDO BOFF Lages, SC Leio com gosto e prazer as cartas à redação. Com referência à edição sobre o Santuário de Aparecida, noto que os católicos superaram este machismo de achar que Cristo é o único Salvador. A Bíblia não é um versículo só e nem só a Carta ultimato 310 final.indd 11ultimato 310 final.indd 11 5/12/2007 16:24:475/12/2007 16:24:47
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    aos Hebreus. Elaé um conjunto que mostra que a salvação não é obra apenas de Cristo, mas de Cristo e de sua Igreja. Maria é o símbolo e a primogênita da Igreja. Maria inclusive é anterior a Cristo. Cristo não existiria se não tivesse existido o útero de Maria. Os protestantes que teimam em caluniar os católicos chamando-os de idólatras por sua devoção à Mãe de Jesus deveriam ser processados diante de um tribunal se para isso existisse um. O próprio Cristo os julgará. LINO CHERUBINI Santa Rosa, RS — No afã de exaltar Maria, o querido leitor Lino Cherubini cometeu o grave equívoco de rebaixar aquele que tornou Maria notável. Tanto pela teologia católica como pela reformada. Jesus é anterior a Maria, é mais velho que a mãe, mais velho que Abraão. Ele mesmo disse: “Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou!” (Jo 8.58). É assim que Jesus é apresentado no prólogo do Evangelho de João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). O sofrimento dos alemães no Brasil durante a Segunda Guerra A propósito do artigo de Alderi Souza de Matos na edição de set./out. 2007, quero referir-me à inclusão social dos “alemães do sul”, que aconteceu por imposição do governo federal durante a Segunda Guerra. Poucos sabem o quanto de sofrimento e humilhação passaram os alemães e seus descendentes em nome dessa inclusão que aconteceria normalmente com o passar do tempo. Bastava que dois amigos se cumprimentassem em alemão e já eram presos e humilhados. Mães que ainda alimentavam seus filhos, se usassem, por força do hábito, a língua germânica eram separadas de suas famílias e sofriam humilhações. Algumas dessas pessoas ainda vivem em Blumenau e são assinantes de Ultimato. O artigo de Alderi deve ter provocado lembranças tristes daqueles tempos. Creio que uma lei imposta por uma ditadura raramente visa o bem-estar das pessoas. Quase sempre há outros interesses. ERLY CARLOS KISCHLAT Blumenau, SC Homossexualidade Desde os 7 anos de idade tive experiências homossexuais. Ficaram mais freqüentes por volta dos 10. E dos 12 aos 16 elas se tornaram regulares. Aos 19 assumi a homossexualidade e então descambei mesmo de parceiro em parceiro. Aos 22 anos eu estava completamente entediado dessa coisa toda e minha vida estava fora de controle. Eu bebia muito e uma vez bati o carro. O acidente me fez repensar minha vida e indagar qual seria o meu fim. Tudo indicava um futuro tenebroso. Em meio a essa situação, acabei ouvindo a pregação de um pastor. Embora até então eu odiasse os crentes, os pastores e as igrejas evangélicas, uma frase desse pastor mudou minha vida: “Você só pode saber se o que você faz é agradável a Deus se você souber o que Deus quer que você faça para agradá- lo”. Quando o pastor fez o apelo, eu fui à frente. No dia seguinte comecei a estudar a Bíblia sozinho. Encontrei as respostas de que eu precisava e minha vida jamais foi a mesma. Faz dez anos que ando em vitória e sirvo ao “Deus dos crentes”. Sou casado e tenho uma família abençoada. Sou servidor público federal e professor universitário. Ainda tenho lutas (quem não as tem?), mas é um prazer vencer todas elas pela fé. Não sinto nenhum tipo de atração por homens e ajudo outros rapazes a se livrarem disso. Tenho ajudado até mesmo pastores com mais de duas décadas de ministério que não sabem lidar com os problemas homossexuais que atormentam algumas de suas ovelhas e, às vezes, eles mesmos. CLÁUDIO SOARES claudiomultifocal@yahoo.com.br Brazilândia, DF Já não confio em nada! Mesmo sendo músico e integrando o grupo de louvor da minha comunidade, já não confio nos ministros de louvor. Os púlpitos parecem mais palcos para apresentação dos artistas evangélicos. Eles querem brilhar mais do que a ultimato 310 final.indd 12ultimato 310 final.indd 12 5/12/2007 16:25:025/12/2007 16:25:02
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO13 FALE CONOSCO Cartas à Redação cartas@ultimato.com.br Cartas à Redação, Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Inclua seu nome completo, endereço, e-mail e número de telefone. As cartas poderão ser editadas e usadas em mídia impressa e eletrônica. Economize Tempo Faça pela Internet Para assinaturas e livros, acesse www.ultimato.com.br Assinaturas atendimento@ultimato.com.br 31 3891-3149 Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Edições Anteriores atendimento@ultimato.com.br www.ultimato.com.br própria Estrela da manhã. Alguns transformam a igreja em academia: “Vira para o lado e fala...”; “levanta a mão e declara...”; “pula na presença de Deus...”; “agora grita...”. O Brasil evangélico de hoje tem centenas de cantores, instrumentistas e grupos, um querendo vender mais que o outro. Tem “louvor” para todos os gostos: louvor profético, louvor apostólico, louvor extravagante, louvor para evangelismo, louvor para guerra espiritual, louvor para restituição, louvor para determinação, louvor para atrair a presença de Deus, louvor para espantar a presença do diabo, louvor para meditação. Estou sentindo falta do louvor para louvar somente a Deus. Mesmo crendo que Jesus não muda e ainda realiza milagres, já não confio nos milagres que acontecem. Na igreja evangélica brasileira milagre virou algo comum. Já não confio nas pessoas que ficam propagando os milagres recebidos. Várias vezes Jesus disse para os curados não falarem nada para ninguém. Desde que inventaram o placebo, descobri que o cérebro é capaz de coisas extraordinárias! Mesmo tendo uma confissão de fé reformada e evangélica, já não confio quando alguém me diz que é evangélico. Tem evangélico que dá cheque sem fundo, evangélico que vende e não entrega e evangélico que sonega imposto. Mesmo sendo uma pessoa cheia de fé, já não confio em nada! A partir de agora vou confiar mais na Palavra de Deus. E ela me diz: “Maldito o homem que confia no homem”. MARCOS DAVID (biólogo) São Paulo, SP Confissão Outro dia eu entrei em um site de linha fundamentalista e, em um artigo, determinado autor classificava Ultimato como liberal e esquerdista. Depois, em conversa com um clérigo de uma denominação histórica com tendências liberais, veio a reclamação dele de que a revista, além de não ser ecumênica, é fundamentalista. Ora, se fundamentalistas chamam a revista de liberal e liberais a chamam de fundamentalista, ouso chamá-la de bíblica e cristocentricamente equilibrada. HUMBERTO RAMOS DE OLIVEIRA JÚNIOR Pouso Alegre,MG Povo de Deus! Sou assinante de Ultimato há mais de dois anos. Povo de Deus, assine já esta revista. É boa demais! LUIZ FELIX DE J. PESSOA Apesar do artigo Terceiro céu e espinho na carne, Ultimato tem sido publicada sem interrupções há 40 anos! Faço um apelo aos assinantes e amigos da revista que orem e consigam mais assinaturas. NATHANAEL OLIVEIRA NEVES São João da Boa Vista, SP ultimato 310 final.indd 13ultimato 310 final.indd 13 5/12/2007 16:25:105/12/2007 16:25:10
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    Pastor Daniel Rocha arquivopessoal ULTIMATOJaneiro-Fevereiro, 200814 do que A lei do celibato Em carta ao jornal Ciência e Cultura, de Brasília, a leitora Maria Antonia Rocha, de Belo Horizonte, alfinetou o papa: “Em sua recente visita à Áustria, Bento 16 recomendou que os católicos europeus tenham mais filhos. Por que não começar pela liberação dos padres e freiras da lei do celibato e do voto de castidade?”. Sônia e Estevam não são mártires Em carta à Folha de São Paulo, o pastor metodista Daniel Rocha, 49, residente em Caieiras, SP, alfinetou a Renascer em Cristo: “Neste exato momento há centenas de cristãos espalhados pelo mundo presos e perseguidos por amor a Cristo e ao evangelho. Nos Estados Unidos foi condenado o casal Hernandes, mas não exatamente por esses motivos, e sim por amor à luxúria, à vaidade e à ambição. Que os seus seguidores reconheçam essa diferença e não os tratem como mártires, mas como um exemplo a não ser seguido”. A maior catástrofe natural virá como um ladrão O ex-deputado Antonio Delfim Netto escreveu o óbvio: “Eventos extremos, como catástrofes naturais (terremotos, furacões) ou sociais (revoluções, crises econômicas agudas), chegam freqüentemente, como surpresas”. A maior catástrofe natural que o mundo jamais viu virá de surpresa: “O dia do Senhor chegará como um ladrão. Naquele dia os céus vão desaparecer com um barulho espantoso, e tudo o que há no universo será queimado. A terra e tudo o que existe nela vão sumir” (2Pe 3.10, NTLH). A expressão “como um ladrão” significa de modo repentino e inesperado, numa hora em que menos se espera. Foi usada por Jesus (Mt 24.43), por Paulo (1 Ts 5.2,4) e por Pedro. A volta do Senhor também não tem hora marcada: “Escutem! Eu venho como um ladrão” (Ap 16.15, NTLH). O garimpeiro atrás do vento O médico Drauzio Varella conta a história de um garimpeiro brasileiro que correu atrás do vento a vida inteira. Em 30 anos de atividade pelo norte do Mato Grosso, Rondônia, Serra Pelada, Pico da Neblina e outos lugares, retirou da terra e do leito submerso dos rios mais de 50 quilos de ouro. À semelhança do personagem da parábola do filho perdido (Lc 15.30), esse homem esbanjou tudo com mulheres. Numa ocasião, chegou a fazer um tapete de notas de dez reais sem deixar uma fresta, só para impressionar uma gaúcha de olhos azuis. Noutra, ao receber um pacotão de dinheiro, amarrou tudo num barbante grosso, prendeu no cinto e saiu puxando pela rua. Explicava aos amigos: “Andei a vida inteira atrás desse desgraçado. Agora é ele que anda atrás de mim”. A expressão “correr atrás do vento” aparece nove vezes nos primeiros seis capítulos de Eclesiastes (1.14 e 17; 2.11, 17 e 26; 4.4, 6 e 16; 6.9). Significa a inutilidade da vida e sua falta de sentido. Tarde demais O pai do ator Ney Latorraca, 63, morreu em 1988 e a mãe, seis anos depois. Ele foi sepultado em Santos e ela, no Morumbi, em São Paulo. Viveram separados algum tempo. Agora o ator quer uni-los. A primeira providência foi colocar o retrato do pai no mesmo porta-retratos onde a mãe já está. A próxima providência seria desenterrar o corpo de um deles e colocá-lo no mesmo túmulo do outro. Tudo muito bonito, mas tarde demais! ultimato 310 final.indd 14ultimato 310 final.indd 14 5/12/2007 16:25:185/12/2007 16:25:18
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    números 400.000.000.000 de dólares éo valor do mercado de consumo de luxo por ano no mundo. Só no Brasil, são US$ 3,9 bilhões, quase tudo concentrado em São Paulo (72% dessa fatia) 670 jovens de 15 a 29 anos morreram em acidentes de trânsito em 15 meses (de janeiro de 2006 a março de 2007) só no Estado do Rio de Janeiro 3.300.000.000 de dólares é quanto o Brasil movimentou este ano com o “pet business” (todos os gastos com animais de estimação, incluindo alimentação requintada, cuidados médicos, embelezamento, diversão, roupas, jóias etc) 2.867 mulheres foram estupradas em 2005 no Quênia, país de 32 milhões de habitantes (uma violência sexual a cada 30 segundos) 8.000 meninas engrossam a cada dia as fileiras das mulheres que passaram por aquilo que se chama educadamente de “circuncisão feminina”, principalmente na África e Ásia. 18.000.000.000 de euros anuais é quanto geram um milhão de relações sexuais pagas a cada dia na Espanha Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 15 A casa que o vento derruba leva junto o passado, o presente e o futuro A terapeuta existencial Dulce Critelli, professora de filosofia da PUC-SP, explica muito bem o drama pelo qual passam as famílias que perdem tudo de uma hora para outra: “Numa tragédia como em enchentes, guerras, acidentes como esse recente nas obras do metrô em São Paulo, nossa casa pode ser arrancada de nós, sem aviso e de repente. Ainda que parentes e amigos nos acolham, que sejamos abrigados em hotéis, o sentimento é de desolação e de exílio. A casa, subitamente subtraída das mãos e dos olhos, leva junto o passado, o presente e o futuro dos seus moradores. Leva a vida e a história. Perder a casa é se perder a si mesmo”. A terapeuta faria muito bem se explicasse também as conseqüências de uma tragédia muito maior, aquela que Jesus narra no final do Sermão da Montanha: Um homem insensato construiu sobre a areia a sua casa. De repente, caiu uma forte chuva, vieram as enchentes e o vento soprou com força contra aquela casa e ela caiu e ficou totalmente destruída. Nesse caso, o que está em jogo não é uma casa de tijolo e cimento, mas a “casa espiritual”, aquela bagagem religiosa que se constrói de qualquer modo ao correr da vida, sem levar em consideração a chamada “pedra angular”, que é Jesus Cristo. Foi o apóstolo Pedro quem declarou ao Sinédrio em Jerusalém: “Este Jesus [crucificado e ressurrecto] é a pedra que os construtores rejeitaram, e que se tornou a pedra angular” (At 4.11). Paulo bate na mesma tecla e explica que os salvos foram feitos membros da família de Deus e “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular” (Ef 2.20). Quando essa casa construída sobre a areia e não sobre a pedra principal (que sustenta o peso de todas as outras pedras) for subitamente subtraída, deixando ao relento para sempre a alma imprevidente, o desastre será infinitamente maior do que perder uma casa desenhada e construída por um engenheiro qualquer. Que o pavor de algo assim provoque, enquanto há tempo, mudanças violentas da parte de quem ainda esteja sem Cristo! Bancodeimagensoliver ultimato 310 final.indd 15ultimato 310 final.indd 15 5/12/2007 16:25:285/12/2007 16:25:28
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    ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200816 doque A té hoje pregadores neopentecostais que rejeitam o bom senso tentam contornar o problema do fanatismo religioso colocando diante de seus ouvintes duas opções: a opção da enfermaria e a opção do cemitério. Na enfermaria há uma correria enorme, fraldas sujas, crianças chorando, mas a vida está ali. No cemitério, está tudo calmo e em ordem, mas a morte está ali. É o que se dizia na famosa Igreja do Aeroporto, em Toronto, Canadá, na década de 1990. Porque o forno é melhor do que a geladeira, os dirigentes da igreja apoiavam e estimulavam uma série de coisas estranhas e absurdas que foram levadas para vários outros países, inclusive o Brasil. Chamava-se de avivamento tudo aquilo que estava acontecendo em Toronto, desde o fenômeno dos “dentes de ouro” (a prova da intimidade da pessoa com o Senhor) até a capacidade de gargalhar o tempo todo do culto (a “unção do riso”) e de engatinhar no chão tomado pelo Leão de Judá (a “unção do leão”). Dizia-se então que as pessoas estavam “bêbadas no Espírito” e, portanto, todas essas manifestações eram corretas, oportunas e convincentes e deveriam ser buscadas por todo crente avivado. Não obstante todo o alarde feito pela Igreja de Toronto, a autenticidade de tudo está sendo posta em dúvida por um dos seus antigos líderes, que hoje não consegue entender por que gastou tanto tempo para chegar à conclusão de que tudo aquilo era algo irreverente e blasfemo ao Espírito Santo da Bíblia. A gota d’água que levou Paul Gowdy a acordar foi o testemunho de Carol Arnott, esposa do pastor da Igreja do Aeroporto. Ao descrever sua experiência na presença de Cristo, a mulher declarou que aquilo era muito melhor do que sexo. Nove anos depois de deixar aquele grupo, Gowdy escreveu um documento sobre o assunto, inicialmente para uso restrito, mas, em fevereiro de 2007, ele começou a ser divulgado em grande escala nos Estados Unidos. Chegou ao Brasil através de Mensageiro da Paz, órgão oficial das Assembléias de Deus (setembro de 2007, p. 14). A carta original de Paul Gowdy pode ser encontrada no site <www.discernment-ministries.org>. Dentes de ouro, “unção do riso” e “unção do leão” vão por água abaixo Pessoas caem de costas, sob o efeito da “unção”, na Igreja do Aeroporto, em Toronto MargaridaDaniel ultimato 310 final.indd 16ultimato 310 final.indd 16 5/12/2007 16:26:045/12/2007 16:26:04
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    do que O brasileiro queestá ganhando dinheiro nos Estados Unidos, na Espanha ou no Japão tem saudade do Brasil. O soldado americano que está lutando no Iraque tem saudade dos Estados Unidos. O boliviano que trabalha em São Paulo tem saudade da Bolívia. Eles também têm outra saudade, mais misteriosa, mais inquieta, mais arraigada. Essa segunda saudade, todo ser humano tem, tanto o pobre como o rico, tanto o analfabeto como o doutor, tanto o índio como o não-índio, tanto o crente como o não-crente. Em todo lugar e em todo tempo. Trata-se daquilo que o ensaísta francês Albert Camus (1913-1960) chama de nostalgia do paraíso perdido. Mas não será a despoluição do planeta que vai nos curar dessa nostalgia do paraíso perdido, como sugeriu outro dia o jornalista Carlos Heitor Cony: “Sem eletricidade, sem plásticos, sem fábricas despejando detritos industriais nos rios, sem fumantes e sem predadores de florestas, o planeta vencerá a ameaça do aquecimento global, as geleiras continuarão geladas, sem derreter, e os oceanos permanecerão no mesmo nível dos primeiros dias da Criação”. A saudade coletiva e universal não é só da criação original, não danificada, não poluída, mas também e especialmente do Criador. A reconciliação é com a criação e com o Criador. Quando se fala no paraíso perdido e no paraíso recuperado na perspectiva cristã, estamos falando mais da beleza e perfeição de Deus do que da beleza e perfeição da natureza. O último livro da Bíblia mostra que o paraíso recuperado será paraíso recuperado porque “a morada de Deus está entre os seres humanos”. E acrescenta: “O próprio Deus estará com eles e será o Deus deles. Ele enxugará dos olhos todas as lágrimas. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. As coisas velhas [especialmente a nostalgia de um paraíso perdido] já passaram” (Ap 21.3-4, NTLH). A nostalgia do paraíso perdido é a dor mais secreta do ser humano dreamstime ultimato 310 final.indd 18ultimato 310 final.indd 18 5/12/2007 16:26:335/12/2007 16:26:33
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO19 A edição de agosto de 2007 do jornal Só Isso!, redigido e ilustrado pelas internas da Penitenciária Talavera Bruce, no Rio de Janeiro, publicou na seção “Correio Sentimental” 63 cartas de encarcerados que desejam trocar correspondência com o propósito de iniciar um namoro que eventualmente possa levar ao casamento. Quase todas foram escritas por homens (55 cartas), e não por mulheres (apenas 8). A idade dos missivistas varia entre 18 (é o caso de Júlio Thiago, que está à procura de “uma mulher sincera e não interesseira”) a 53 anos (é o caso de Walter Batista, que adora um “aconchego de mulher”). Enquanto as mulheres estão no Talavera Bruce (uma delas é ex-detenta), os homens estão espalhados em diferentes presídios, principalmente no Rio de Janeiro. Trata-se de uma matéria que merece estudo, simpatia e respeito de toda a sociedade, pois mostra a carência do coração humano e a força daquele amor entre o homem e a mulher criado por Deus: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Por terem sido escritas por pessoas que estão presas e que permanecerão nesse estado por mais algum tempo, as cartas mostram também a força da esperança — a esperança da liberdade e a esperança do casamento. Amilton Lopes, 35, tem 1,87 de altura e pesa cerca de 100 quilos. É formado em teologia e fez três anos de direito. “Quero sinceridade, transparência e lealdade”. Antonio Carlos, 36, diz que Jesus mudou a sua vida. “Estou na presença do Senhor Jesus, o caminho, a verdade e a vida”. Carlos Eduardo, 28, promete um relacionamento sólido e verdadeiro. “Procuro uma jovem que seja companheira, leal e sincera, honesta e verdadeira”. Carlos Alvarenga, 33, moreno claro, procura uma mulher que “seja sincera, amiga, inteligente, bonita e, se for mulata, melhor ainda; mas todas serão bem-vindas”. Eldan França, 23, quer encontrar alguém especial para construir uma grande amizade. “Quem sabe, com o passar do tempo, não rola algo a mais?”. Felipe Lopes está passando por um momento difícil na vida e precisa de uma nova amizade feminina. “Pode ser branca, morena ou negra; a idade também não importa”. Jaime Neves se apresenta como moreno, carinhoso e evangélico e procura uma mulher entre 30 e 35 anos para compromisso sério. Jorge José falta com a modéstia mas adota uma estratégia que parece acertada: “Sou um homem bonito, inteligente e de ótimo coração”. Marcelo Vinício se mostra muito atraente e dá uma notícia: “Tenho 1,90 metro de altura e corpo atlético, 92 quilos, moreno jambo e olhos verdes. Faltam seis meses para eu ir embora”. Marcelo Bezerra, 29, confessa que os detalhes físicos indicam que ele pode ser interessante, mas como pessoa está muito carente. “Não estou sendo prepotente, mas serei capaz de ser um homem de verdade”. Paulo Henrique quer se corresponder com uma mulher que esteja sozinha e não queira brincar com os sentimentos dos outros. Robson Nogueira, 26, tem 67 quilos de puro amor: “Estou à procura de uma mulher desenrolada, que queira ser algo na vida de alguém, seja neste lugar ou até mesmo fora”. Wanderson Bezerra, 27, quer ajudar e ser ajudado e procura uma amizade, pois “estou carente de tudo”. Suzana Cavalcante, 32, procura alguém para amenizar o seu sofrimento. Luciene Ferreira, 29, solteira, mãe de dois filhos, evangélica, quer localizar um evangélico para “uma amizade ou algo mais”. Este “Correio Sentimental” do jornal Só Isso! reforça o apelo do Novo Testamento: “Não se esqueçam daqueles que estão na prisão. Sofram com eles, como se vocês próprios estivessem lá” (Hb 13.3, BV) ou “Lembrai-vos dos encarcerados, como se estivésseis na pele deles” (na versão de Taizé). Homens e mulheres atrás das grades estão também atrás de casamento Candidatas aguardam para participar de desfile organizado pelo jornal Só Isso! www.belezapura.org.br ultimato 310 final.indd 19ultimato 310 final.indd 19 5/12/2007 16:26:425/12/2007 16:26:42
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    do que U m piauiensede 62 anos diz que Jesus tinha mania por exagero e o maior exagero dele seria o tamanho e a qualidade de sua graça, por meio da qual somos salvos. Glênio Fonseca Paranaguá nutre um profundo encantamento pela graça de Deus e não economiza adjetivos ao falar sobre ela. Por um lado, a graça é admirável, eficiente, extravagante, graciosa, enorme, gratificante, incondicional, inefável, inexplicável, infinita, majestosa, maravilhosa, plena, proficiente, realizadora, satisfatória, suficiente e surpreendente. Por outro lado, a graça não é banal, barata, blindada, diluída, imobilizada, indolente, inoperante, libertina, paralisada e paralítica. Curiosamente, Glênio parece não citar nem uma vez o adjetivo “irresistível”, tão de agrado dos calvinistas. Embora tendo sido batizado aos 12 anos e ordenado pastor aos 25, Glênio só se converteu a Cristo depois desses dois eventos. É por isso que ele gosta de dizer: “Deus nos acha antes de nós o acharmos”. Sem dúvida, essas experiências de Glênio, formado em teologia, filosofia e psico- pedagogia, têm muito a ver com o seu livro O Meu Cálice Transborda (Editora Ide, 2006). O livro de Glênio é uma preciosidade. Ele traz outra vez à tona a riqueza da graça de Deus. E o faz de forma compreensível e restauradora, em uma hora quando “a grande necessidade da igreja é crescer no conhecimento cada vez maior da graça de Deus”; quando “muita gente intrometida, que finge ser cristã, tem o costume de diluir a graça de Deus com solvente delicados que quase não são notados”; quando “há um bando de joio na igreja que também não gosta da graça” (p. 91). Vê-se a empolgação de Glênio pelo assunto quando ele escreve: “O princípio da graça é transformar o débito em crédito, a miséria em abundância, a fraqueza em força, a enfermidade em saúde, o pecado em santidade, o inferno em céu” (p. 56). Para Glênio, a graça barata da qual se queixava o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer não existe. O que existe é “gente barata que faz pouco caso da graça de Deus, por não saber avaliar o alto custo da obra graciosa de Cristo” (p. 49). Casado com a carioca Carmem Malafaia e pai de um rapaz e duas moças, Glênio é pastor da Primeira Igreja Batista em Londrina, no Paraná há mais de 30 anos. (O livro O Meu Cálice Transborda pode ser encontrado na Editora Ide, em Londrina. Telefone/Fax: (43) 3334-3717, E-mail: contato@editoraide.com.br) Surpreendente graça ultimato 310 final.indd 20ultimato 310 final.indd 20 5/12/2007 16:26:595/12/2007 16:26:59
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    Frases Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO21 Sem investimento em educação, saúde, saneamento e infra-estrutura, a porta de saída da miséria continuará fechada para legiões de brasileiros. Editorial da Folha de São Paulo Hoje já não se pode dizer tão seguramente, como nos séculos 19 e 20, que estamos num caminho de progresso. Eric Hobsbawm, historiador de origem judaica, autor de Era dos Extremos Se o objetivo é evitar o aborto, o que é muito desejável, então seria precioso favorecer os métodos anticoncepcionais. Quem proíbe esses métodos é co-responsável pela existência de tantos abortos. Hans Küng, teólogo católico suíço, em visita ao Brasil Todo africano, inclusive eu mesmo, não pode deixar de se alegrar com a ajuda que o mundo nos dá, mas isso não nos impede de perguntar a nós mesmos se essa ajuda é realmente sincera ou se ela é dada com a idéia de afirmar sua superioridade cultural. Uzodinma Iweala, escritor nigeriano, autor de Feras de Lugar Nenhum Ateologia diz que o embrião é filho do Altíssimo e possuidor de alma imortal, que permanece viva após a ocisão do corpo: os pais reencontrarão esse no além e terão que explicar-se. Antonio Marchionni, professor de teologia na PUC e autor de Deus e o Homem na História dos Saberes Alei do sistema é: quem não tem, quer ter; quem tem, quer ter mais; quem tem mais diz: nunca é suficiente. Esquecemos que o que nos traz felicidade é o relacionamento humano, a amizade, o amor, a generosidade, a compaixão e o respeito, realidades que valem, mas não têm preço. Leonardo Boff, teólogo Em todas as denominações cristãs, os adeptos são em menor número, e mais desanimados (se não integrantes apenas nominalmente), no caso do hemisfério Norte, e em maior número e mais fervorosos, no hemisfério Sul. A demografia do cristianismo mudou radicalmente no século 20. Michel Despland, destacado pesquisador no campo da história das religiões Não existe de fato tensão teológica entre fé e obras ou entre o ensino de Paulo e Tiago. Existe, sim, uma tensão entre fé e fé, isto é, “fé morta” que nada produz, que não dá frutos, fria e ineficaz, e a verdadeira fé, que produz frutos, que é operosa, é crescente e eficaz, aquela “fé que atua pelo amor” na rica expressão do apóstolo Paulo (Gl 5.6). Marcos Lins, presidente da Universidade Mackenzie Exige-se de nós uma abertura total ao Espírito Santo e uma reflexão contínua, que deve ser promovida juntamente com as igrejas locais, sobre os modos e os meios de testemunhar e anunciar Cristo Salvador neste novo contexto cultural e sobretudo torná-lo significativo aos excluídos e marginalizados. Padre Vito Del Prete, secretário-geral da Pontifícia União Missionária ultimato 310 final.indd 21ultimato 310 final.indd 21 5/12/2007 16:27:395/12/2007 16:27:39
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    ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200822 Obrasileiro que pediu demissãoO brasileiro que pediu demissão da Embratel para ser missionárioda Embratel para ser missionário na terra de seus paisna terra de seus pais Em maio de 2000, o engenheiro de telecomunicações Hans Gilson Behrsin, formado na Universidade Federal Fluminense, pediu demissão da Embratel, onde trabalhava desde 1988. Ele estava então com 36 anos, já era casado com a fonoaudióloga Elaine Brasil Behrsin, pai de uma menina de 6 anos e de um menino de 3 e tinha acabado de se formar em teologia na Faculdade Teológica Batista do Paraná. Por que Hans se demitiu da Embratel? Quase todo mundo em Curitiba, no Vale do Ribeira (litoral sul do Estado de São Paulo) e na Letônia, um dos países bálticos, sabe que Hans trocou a antiga profissão para servir ao Senhor de um modo mais direto. Depois de plantar igrejas em Curitiba e pastorear uma igreja de Jacupiranga (Vale do Ribeira), ele foi para a Letônia, terra de seus ancestrais, como missionário da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira (JMM), onde está com a família há um ano e meio. Hans, nascido em Osvaldo Cruz, SP, toma emprestada a confissão de Paulo (Rm 1.14) e diz: “Sou devedor tanto a brasileiros como a letos” e explica que no início de 1890 e principalmente em 1922 e 1923 mais de 2 mil protestantes letos, inclusive pastores e líderes, na grande maioria batistas, deixaram suas congregações e embarcaram para o interior de São Paulo e outras regiões. Além de manter a fé, esses imigrantes fizeram um trabalho intenso de evangelização. Hans estaria agora retribuindo o que eles fizeram. Portador de ambas as cidadanias, o missionário brasileiro, de 43 anos, mora em Riga, capital da Letônia, e sua principal missão é apoiar os missionários autóctones que estão relacionados com a JMM. Em médio prazo, “após a total adaptação cultural e lingüística”, ele pretende plantar uma igreja em Riga. A revista leta Tiksanas, que traz regularmente artigos de diferentes igrejas cristãs, publicou em duas edições (agosto e setembro de 2007) a história dos batistas letos que vieram para o Brasil, escrita por Hans. Na verdade, o campo missionário de Hans abrange os três países bálticos: Estônia (ao norte), Letônia (ao centro) e a Lituânia (ao sul). Os três países têm sete milhões de habitantes. O número de habitantes sem religião é alto, principalmente na Estônia (60%). A Lituânia seria o país de mais alta porcentagem de cristãos (76%). Os luteranos são a maioria dos cristãos na Estônia e na Letônia, mas muitos são apenas nominais. Na Lituânia, os católicos são os mais numerosos (68%). Tudo isso não estaria acontecendo se Hans não tivesse sobrevivido à crise religiosa que o acometeu no início de sua vida universitária (dos 16 aos 20 anos), quando desejou e tentou afastar- se do evangelho. Hans, Elaine, Rhaísa e Guilherme em Riga, na Letônia arquivopessoal ultimato 310 final.indd 22ultimato 310 final.indd 22 5/12/2007 16:27:475/12/2007 16:27:47
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    Armand M. NicholiJr ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200824 capa Homossexualismo e homossexualidade jolkaigolka Ultimato procurava um texto sério sobre a questão da homossexualidade, escrito por uma autoridade no assunto, e encontrou o verbete “Homossexualismo e Homossexualidade” no Baker’s Dictionary of Christian Ethics, publicado em 1973 pelo conhecido editor Carl F. Henry, em Grands Rapids, nos Estados Unidos. O autor do verbete é o psiquiatra Armand M. Nicholi, durante muito tempo professor da Escola de Medicina de Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts, e consultor de Grupos do Governo e atletas profissionais. Nicholi é autor da obra-prima Deus em Questão — C.S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida, publicado no Brasil pela Editora Ultimato. ultimato 310 final.indd 24ultimato 310 final.indd 24 5/12/2007 16:28:095/12/2007 16:28:09
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO25 O termo homossexualismo refere-se à atividade sexual praticada entre pessoas do mesmo sexo. Especialistas concordam acerca do significado de “comportamento homossexual”, mas têm dificuldades em chegar a uma definição clara do que é ser homossexual. Alguns descrevem o homossexual com base na prática do homossexualismo, enquanto outros o fazem considerando a atração preferencial por pessoas do mesmo sexo. Uma pessoa pode sentir desejos homossexuais intensos sem nunca praticar o homossexualismo, enquanto há quem opte pela atividade mesmo quando a preferência é fortemente dirigida para o sexo oposto. Neste último caso, circunstâncias como a influência do alcoolismo ou confinamento em prisões podem precipitar a ocorrência de experiências homossexuais. O termo bissexual refere- se a indivíduos que praticam atividades tanto homo quanto heterossexuais, podendo haver predominância de uma dessas práticas. Independentemente do como se conceitue homossexualidade, não há uma forma precisa de determinar sua prevalência. Alguns poucos estudos indicam que cerca de 4 a 5 % da população branca masculina conservam-se exclusivamente homossexual após a adolescência, enquanto entre 10 e 20 % mantêm relações regularmente com indivíduos de ambos os sexos. Pesquisas desenvolvidas com militares na Segunda Guerra Mundial revelaram que 1% dos homens em serviço eram homossexuais, estimando- se que idêntico percentual constituía-se de casos não detectados, isto é, 2% no total. Seja como for, as estatísticas revelam que o homossexualismo é pouco comum. A história registra a homossexualidade em muitas civilizações antigas. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos mencionam essa prática e são fortemente explícitos em proibi-las. Algumas civilizações — por exemplo, os antigos gregos — aparentemente aceitavam a prática do homossexualismo com pouca ou nenhuma desaprovação. Ainda que a maioria das culturas em nossos dias lide com essa questão, em certos grupos sociais não se encontraram nem sequer indícios de homossexualismo. A causa da homossexualidade não está claramente identificada. As diversas teorias podem ser agrupadas em razão de apontar para um dos dois grupos gerais de causas: genéticas e psicogênicas. O primeiro grupo, de causas “genéticas”, postula que um indivíduo pode herdar a predisposição para a homossexualidade. As teorias reunidas nesse grupo apontam para evidências obtidas em estudos com gêmeos, os quais revelam que a incidência de homossexualismo entre gêmeos idênticos é expressivamente maior do que em gêmeos não-idênticos. Já o segundo grupo de teorias, chamado “psicogênico”, afirma que a identidade sexual é determinada pelo ambiente familiar e outros fatores do meio em que uma pessoa vive. Neste caso, as teorias apontam para a existência de denominadores comuns entre famílias de diversos homossexuais. Pesquisas recentes indicam que as famílias mais propensas a gerar um rapaz homossexual são aquelas em que a mãe é muito íntima do filho, possessiva e dominante, enquanto o pai é desligado e hostil. São mães com tendência ao puritanismo, sexualmente frígidas e determinadas a desenvolver uma espécie de aliança com o filho contra o pai, a quem ela humilha. O filho torna-se excessivamente submisso à mãe, volta- se a ela em busca de proteção e fica ao seu lado em disputas contra o pai. Pais de homossexuais são freqüentemente distantes, não demonstrando entusiasmo ou afeição, e criticam os filhos. Sua tendência é menosprezar e humilhar o filho, dedicando-lhe muito pouco de seu tempo. O filho reage com medo, aversão e falta de respeito. Alguns estudiosos consideram que a relação entre pai e filho parece ser mais decisiva na formação da identidade sexual do jovem do que o relacionamento deste com sua mãe. Tais pesquisadores chegam a afirmar não ser possível uma criança se tornar homossexual se seu pai for carinhoso e amoroso. Em alguns homossexuais é o medo do sexo oposto que parece ser o fator dominante, não a atração profunda por alguém do mesmo sexo. Uma vez resolvido esse medo com terapia, a heterossexualidade prevalece. Estudos recentes têm demonstrado, ainda, que a sedução por outros Pesquisas demonstram que muitas mães de mulheres lésbicas tendem a ser hostis e competitivas com suas filhas, sendo muito ligadas aos filhos homens e ao pai Leigos freqüentemente questionam se a homossexualidade deveria ser considerada doença ou pecado. Uma coisa não exclui a outra. Pessoas cuja fé se baseia na Bíblia não podem duvidar que as claras proibições do comportamento homossexual façam dessa prática uma transgressão da lei divina jolkaigolka ultimato 310 final.indd 25ultimato 310 final.indd 25 5/12/2007 16:28:235/12/2007 16:28:23
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    ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200826 capa homossexuais— especialmente outros rapazes — não parece ser um fator relevante. A chamada “homossexualidade latente” refere-se a conflitos emocionais similares aos da forma “aparente”, mas sem consciência do fato ou sem expressão pública dos conflitos. Lesbianismo é o termo que se aplica à homossexualidade feminina. Como no caso do homossexualismo masculino, sua prevalência é desconhecida. Também neste caso a questão familiar desempenha um papel muito importante. Pesquisas demonstram que muitas mães de mulheres lésbicas tendem a ser hostis e competitivas com suas filhas, sendo muito ligadas aos filhos homens e ao pai. Além disso, os pais de mulheres homossexuais raramente desempenham um papel dominante na família e dificilmente mostram-se afeiçoados às filhas. Tanto homens quanto mulheres homossexuais tendem ao isolamento e mostram dificuldade em fazer amizades, mesmo quando crianças. Na adolescência e na idade adulta eles raramente marcam encontros. A maioria dos homossexuais torna-se consciente de sua homossexualidade antes dos dezesseis anos — alguns até antes dos dez anos. Eles costumam optar pela vida em cidades grandes para aí formar seus próprios grupos sociais com regras, modo de vestir e linguagem próprios. Recentemente, tem-se observado o surgimento de organizações para melhorar a imagem do homossexual, as quais costumam negar que o homossexualismo seja um distúrbio ou anormalidade. Leigos freqüentemente questionam se a homossexualidade deveria ser considerada uma doença ou um pecado. Uma coisa não exclui a outra. Pessoas cuja fé se baseia na Bíblia não podem duvidar que as claras proibições do comportamento homossexual façam dessa prática uma transgressão da lei divina. Por outro lado, há que se considerar a preponderância de opiniões de especialistas a apontar o homossexualismo como uma forma de psicopatologia que requer intervenção médica. Muitos, em nossa sociedade moderna, negam a condição patológica do homossexualismo, recusam-se a considerar a existência de implicações de ordem moral e vêem a prática homossexual apenas como uma forma de expressão diferente do padrão de comportamento sexual da maioria da população. Assim, tais pessoas não apenas desencorajam a busca por ajuda como contribuem para que o homossexual se conforme com uma vida cada vez mais isolada e frustrante, independente de quão permissiva e condescendente nossa sociedade se torne. Outra questão bastante levantada diz respeito à atitude da igreja em relação a homossexuais. Tais indivíduos se deparam com ouvidos insensíveis e portas fechadas na comunidade cristã. Essa reação intensifica os sentimentos de angústia e de solidão profunda, o completo desânimo que os assusta e, com freqüência, leva ao suicídio. Cristo, enquanto se opunha vigorosamente à doença e ao pecado, buscava doentes e pecadores com compreensão e misericórdia. A igreja erra quando se permite fazer menos. A grande cobertura que a mídia faz do homossexualismo, resultado da recente atividade de organizações de homossexuais, tem tornado a homossexualidade mais aceitável como tópico de discussão. Dessa forma, a igreja sem dúvida tomará consciência do problema acontecendo com alguns de seus membros. Isto não deve surpreender, pelo menos por duas razões. Em primeiro lugar, o sentimento de solidão, a necessidade de contato humano e a imagem de si próprio como um desajustado levam o homossexual a ver a comunidade cristã como um refúgio e uma possível fonte de conforto. A outra razão está na frieza e rejeição, comuns no ambiente familiar, provocando ânsia por uma figura de pai amoroso, cálido e compassivo. É fácil entender como o cristianismo pode ser atraente, especialmente para suprir esta necessidade emocional. Várias formas de psicoterapia têm sido usadas no tratamento de homossexuais, com diferentes níveis de sucesso. Como em qualquer tratamento psicoterápico, os resultados dependem de fatores múltiplos, com ênfase na motivação do paciente. Pessoas homossexuais tendem a ser desmotivadas, o que seja talvez um dos maiores desafios para o terapeuta. A experiência clínica tem mostrado que a motivação para mudar e a consciência do erro são essenciais para aumentar significativamente a expectativa de um tratamento bem-sucedido. Nota Traduzido do inglês por Raquel Monteiro Cordeiro de Azeredo Os homossexuais se deparam com ouvidos insensíveis e portas fechadas na comunidade cristã. Essa reação intensifica os sentimentos de angústia e de solidão profunda, o completo desânimo que os assusta e, com freqüência, leva ao suicídio Cristo, enquanto se opunha fortemente à doença e ao pecado, buscava doentes e pecadores com compreensão e misericórdia. A igreja erra quando se permite fazer menos ultimato 310 final.indd 26ultimato 310 final.indd 26 5/12/2007 16:28:305/12/2007 16:28:30
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    Elben M. LenzCésar Não abandono a Cristo nem a sua Igreja, mas ficarei extremamente aborrecido com a minha igreja se... SteveRalston Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 27 Os cristãos ortodoxos demais não• colocarem no mesmo nível os pecados sexuais e os pecados sociais. Os cristãos fundamentalistas demais• aprovarem a guerra e condenarem a guerrilha. Os cristãos pentecostais demais não• colocarem no mesmo nível de importância os dons do Espírito e o fruto do Espírito. Os cristãos ecumênicos demais chamarem• de irmãos na fé aqueles que colocam Jesus no mesmo nível de Buda e Maomé. Os cristãos liberais demais disserem que• Jesus é só Filho do homem e não Filho do homem e Filho de Deus ao mesmo tempo. Os cristãos reformados demais não• enfatizarem tanto a eleição como a Grande Comissão. Os cristãos espirituais demais derem um• espaço muito grande para a oração e um espaço muito pequeno para a ação. Os cristãos hipócritas demais continuarem• a limpar o exterior do copo e não o interior primeiro e o exterior depois. Os cristãos esbravejadores demais falarem• muito da condenação e pouco da salvação, muito do pecado e quase nada do perdão. Os cristãos diplomatas demais falarem• muito da salvação e pouco da condenação, muito do perdão e pouco do pecado. Os cristãos acadêmicos demais desprezarem• o pietismo e os cristãos pietistas demais desprezarem a teologia. Os cristãos avivados demais promoverem• avivamentos à base de louvorzões, ajuntamentos enormes, passeatas, shows gospel, milagre de cura e enriquecimento, muito barulho e sem contrição, sem confissão de pecado, sem santidade, sem Bíblia, sem paixão pelas almas, sem unidade e sem apego cada vez maior a Jesus Cristo. Mais uma coisa: estou pronto para ir para a cadeia, se a lei brasileira me proibir de falar que a prática homossexual é contrária à lei de Deus, como se vê no texto da página seguinte (A verdade definitivamente não está do lado do comportamento homossexual!). Há quase vinte anos o bispo da Diocese Anglicana de Newark, nos Estados Unidos, ordenou o primeiro homossexual assumido desta importante vertente do cristianismo. Catorze anos depois, o bispo da Diocese de New Westminster, no Canadá, autorizou, em sua área, a cerimônia religiosa para uniões do mesmo sexo. No mesmo ano, em 2003, a Convenção da Igreja Episcopal dos Estados Unidos elegeu e consagrou o primeiro bispo declaradamente gay da Comunhão Anglicana. Apesar de tudo isso, a denominação e a grande maioria de suas dioceses inquestionáveis e inegociáveis da ética cristã, a começar da ordem da criação, da anatomia humana, da fisiologia da reprodução e, acima de tudo, da revelação de um Deus santo e todo- poderoso, a quem devemos respeitar em humilde obediência e cujo amor nos conduz à consciência do pecado e à busca da novidade de vida” (p. 55). Todavia, o bispo brasileiro afirma também que “não apoiar a pessoa de inclinação homossexual para que vença a sua tentação ou discriminá- la agressivamente (homofobia) são pecados de falta de amor” (p. 74). É heterofobia considerar homofóbica a afirmação de pecaminosidade da prática homossexual são oficialmente contrárias à prática homossexual. Para contar a história e a luta para preservar o compromisso ético cristão da heterossexualidade, o bispo brasileiro Robinson Cavalcanti, da Diocese de Recife, acaba de publicar Reforçando as Trincheiras — análise da problemática do homossexualismo à luz do cristianismo histórico (Vida, 2007). Robinson é categórico: “[A normatividade heterossexual e a condenação das práticas homossexuais e a bênção de uniões de pessoas do mesmo sexo] são pontos centrais, Barbedwire ultimato 310 final.indd 27ultimato 310 final.indd 27 5/12/2007 16:28:365/12/2007 16:28:36
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    Já que aprática homossexual havia se tornado comum entre os povos no meio dos quais os israelitas viviam, a lei dizia: “Nenhum homem deverá ter relações com outro homem” ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200828 capa Não podemos lutar contra a verdade, mas só a favor da verdade 2 Coríntios 13.8, J.B. Phillips 1. Por causa do padrão do ato criador de Deus Deus nos criou homem e mulher, macho e fêmea. Com anatomia e órgãos sexuais diferentes e complementares, de forma que sentíssemos originalmente atração um pelo outro (Gn 1.27). 2. Por causa do que aconteceu a Sodoma e Gomorra O livro de Gênesis menciona três vezes a situação moral de Sodoma. Na primeira passagem lê-se que ali “vivia uma gente má, que cometia pecados horríveis contra o Senhor” (Gn 13.13, NTLH). Na segunda, lê-se que o Senhor disse a Abraão: “Há terríveis acusações contra Sodoma e Gomorra, e o pecado dos seus moradores é muito grave” (Gn 18.20, NTLH). A terceira passagem confirma as anteriores e apresenta fatos: a população masculina de Sodoma cercou a casa de Ló e pediu-lhe para trazer para fora os dois homens que ele hospedava, pois queriam ter relações homossexuais com eles (Gn 19.5). Mesmo havendo outra acusação grave contra ambas as cidades — arrogância e abuso dos pobres (Ez 16.49-50) — o pecado mais conhecido não é abrandado. A Epístola de Judas recorda apenas o pecado do homossexualismo: as cinco cidades da planície comparecerão perante o juízo do grande dia porque “se entregaram à imoralidade e a relações sexuais antinaturais” (Jd 7). 3. Por causa da necessidade de haver uma lei explícita sobre o assunto Já que a prática homossexual havia se tornado comum entre os povos no meio dos quais os israelitas viviam (Lv 18.1-5), tanto no Egito (de onde estavam saindo) como em Canaã (para onde estavam indo), a lei dizia: “Nenhum homem deverá ter relações com outro homem; Deus detesta isso” (Lv 18.22). Paulo faz menção a essa lei anti-homossexual na Primeira Epístola a Timóteo (1.10). 4. Por ser algo permitido por Deus como forma de castigo Quando a rejeição e depravação continuam, Deus retira o freio e entrega “os seres humanos aos desejos do coração deles para fazerem coisas sujas e para terem relações vergonhosas uns com os outros” (Rm 1.24, NTLH). Deus abre e escancara as portas que ele mantinha até então fechadas. Ele levanta a âncora do navio seguro no porto e deixa que as ondas do mar revolto o levem para bem longe. Então, “até as mulheres trocam as relações naturais pelas que são contra a natureza”. Os homens, por sua vez, “deixam as relações naturais com as mulheres e se queimam de paixão uns pelos outros” (Rm 1.26-27, NTLH). 5. Por causa do resultado final Há uma declaração enfática de que nem os homossexuais passivos (os malakoi) nem os homossexuais ativos (os arsenokoitai) terão parte no reino de Deus, bem como outros pecadores empedermidos (“duros como uma pedra”), tais como os adúlteros, idólatras, avarentos, trapaceiros, ladrões etc. (1Co 6.9-11). Essa passagem é corroborada duas vezes em Apocalipse: “Os covardes, os incrédulos, os depravados, os assassinos, os que cometem imoralidade sexual, os que praticam feitiçaria, os idólatras e todos os mentirosos — o lugar deles será no lago de fogo que arde com enxofre” (Ap 21.8; 22.15). A verdade definitivamente não está do lado do comportamento homossexual! Irenas ultimato 310 final.indd 28ultimato 310 final.indd 28 5/12/2007 16:29:005/12/2007 16:29:00
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    IvanVicencio Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO29 E sta é a verdade nua e crua. O armário foi aberto e a cerca foi derrubada. Os homossexuais abriram o armário e dele saíram. Deus derrubou a cerca e os deixou à vontade. Com o armário aberto, os homossexuais tornaram-se visíveis. Com a cerca derrubada, andam de mãos dadas, beijam-se em público, casam-se, adotam filhos, prostituem-se, escrevem livros, publicam jornais, organizam marchas e passeatas, aparecem nas novelas, compram agências de viagens, fazem turismo, gastam dinheiro a rodo, exigem respeito de todos em nome dos direitos humanos e mudam as leis. A expressão “sair do armário” pertence ao vocabulário gay e significa assumir publicamente a homossexualidade (outing, em inglês). A expressão sinônima, porém, mais forte, seria “derrubar (ou chutar) a porta do closet”, isto é assumir-se com estardalhaço (Aurélia, a dicionária da língua afiada, p. 119). A idéia da cerca derrubada é uma figura bíblica que aparece em Isaías. Certo homem tinha uma vinha na encosta de uma fértil colina. Então ele cavou o chão, tirou as pedras e plantou as melhores mudas de uvas. Para evitar a entrada de animais que poderiam danificar a plantação e de ladrões que poderiam furtar as uvas, o dono da vinha construiu um muro ao redor. Para aumentar a segurança, levantou uma torre no centro do terreno, na qual colocou um vigia. E, na certeza de que todo o esforço seria compensado, fez também o tanque onde deveria espremer as uvas e depois fazer o vinho. Ele esperava com justa razão colher uvas de primeira qualidade, mas a vinha só deu uvas azedas. Espantado e decepcionado, o homem perguntou aos seus botões: “Podia eu fazer pela minha vinha mais do que eu fiz?”. À vista do fracasso total, o dono da vinha toma uma decisão dramática: “Vou derrubar o muro que cerca a vinha e ela passará a ser pasto para o gado” ((Is 5.1-7). Na pequena parábola em forma de canção, o proprietário e a vinha dizem respeito a Deus e a seu povo. Porque os judeus não valorizavam nem usufruíam da providência divina, rebelando-se acintosamente contra ele, Deus mesmo derrubou a cerca protetora e os deixou perigosamente soltos. O mesmo acontece hoje com toda pessoa ou grupo que assume posição contra o Senhor na esperança de fazer “em pedaços as suas algemas” (Sl 2.3). Deus então deixa os homens à vontade para se corromperem, para se complicarem, para correrem eternamente atrás do nada, para fazerem uma guerra após a outra, para se matarem, para tornar o planeta inabitável e também para trocarem “suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza” (Rm 1.26). A cerca derrubada está intimamente relacionada com o armário aberto. É conseqüência do chute dado na porta do closet! Armário aberto e cerca derrubada ultimato 310 final.indd 29ultimato 310 final.indd 29 5/12/2007 16:29:265/12/2007 16:29:26
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    capa Stockxpert ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200830 D eacordo com um bom número de psicólogos e psiquiatras, “uma vez homossexual, se torna praticamente impossível a mudança de orientação e a simples tentativa geraria no indivíduo depressão, ansiedade e outros traumas psicológicos” (www.christianitytoday.com). A palavra “impossível” está errada. No lugar dela deveríamos escrever “difícil”. Primeiro, porque há inúmeros casos verdadeiros de mudanças, desde os tempos apostólicos até hoje. Segundo, porque uma afirmação dessa reduz tanto a graça como o poder de Deus, que são ilimitados. O argumento mais convincente que vem de encontro a essa mencionada impossibilidade é a notícia de que alguns coríntios deixaram de ser homossexuais passivos e homossexuais ativos quando aceitaram o evangelho pregado por Paulo, por ocasião de sua segunda grande viagem missionária (1Co 6.9- 11), por volta do ano 50 da era cristã. Ora, esse fato se reveste de grande importância se levarmos em consideração que Corinto era uma cidade famosa por sua prostituição. Os gregos chegaram a cunhar o termo corinthiazesthai (“corintianizar”), que quer dizer “viver uma vida coríntia”, para descrever a imoralidade daquela metrópole de 500 mil habitantes. O motivo pelo qual Paulo confiava plenamente no evangelho é porque ele é “uma força divina da salvação” (Rm 1.16, BP). Graças a essa “dinamite” de Deus, não só os ex-homossexuais de Corinto experimentaram uma notável transformação, mas também o próprio Paulo e muitos outros. Há uma série de “antes e agora” no Novo Testamento: “Aquele que antes nos perseguia [uma referência a Paulo], agora está anunciando a fé que procurava destruir” (Gl 1.23). Pedro e André, Tiago e João eram pescadores de peixes antes e “pescadores de homens” agora. João era “filho do trovão” antes e o apóstolo do amor agora. Zaqueu era desonesto e sovina antes e honesto e caridoso agora. Pedro era covarde demais antes e corajoso demais agora. Tomé era incrédulo antes e crente agora. O escravo Onésimo era o “útil” inútil antes e o “útil” verdadeiramente útil agora. Entre o antes e o agora há uma saída, uma libertação, uma reviravolta, uma experiência marcante, que a Bíblia chama de novo nascimento ou conversão, algo sobrenatural operado pela graça de Deus, por meio de Jesus Cristo e pela operação do Espírito Santo. Os homossexuais insatisfeitos com a sua conduta e acossados pela consciência ainda não diluída precisam ter esperança e reler: “Quem está unido em Cristo é uma nova pessoa; acabou- se o que era velho e já chegou o que é novo” (2Co 5.17,NTLH). Se algum leitor precisar de ajuda e encorajamento: • GA — Grupo de Amigos no Rio de Janeiro (21 2625-1991) ou São Paulo (11 7358-3389), ou escreva para Caixa Postal 99.315 – 28260-970 – Nova Friburgo, RJ. • ABRACEH – Associação de Apoio ao Ser Humano e à Família. Caixa Postal 106.075 – 24230-970 – Niterói, RJ. E-mail: <info@abraceh.org.br> ou <abraceh@urbi.com.br> A mudança de comportamento homossexual não é nem impossível nem fácil ultimato 310 final.indd 30ultimato 310 final.indd 30 5/12/2007 16:29:345/12/2007 16:29:34
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    Rubem Amorese Janeiro-Fevereiro, 2008ULTIMATO 31 “Dentro do cine Gay Astor, você encontra na parte de baixo filmes hetero, na de cima, os de temática gay. Dentro do dark room e no banheiro, além das famosas pegações, ocorre também sexo de dupla e grupal. Por apenas cinco reais, a diversão vai até as dez da noite. Não esqueça de levar camisinha e gel.” Léo Mendes O convite acima foi publicado num domingo, na “Coluna do Meio” do jornal goiano Diário da Manhã, voltada para o público gay. Léo Mendes é o jornalista Liorcino Mendes Pereira Filho, presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Goiás e membro titular da Comissão Nacional de Aids do Ministério da Saúde.1 Enquanto o PL 1.151/1995, da então deputada Marta Suplicy (PT- SP), que disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo, permanece à espera de um descuido dos contrários à sua aprovação, prospera, em paralelo, a chamada “Lei da Homofobia” (PL 5.003/2001), que, aprovada em plenário, seguiu para o Senado. A última ação sofrida pela “Lei do Casamento Gay” foi o requerimento do deputado Celso Russomanno (PP-SP) que solicitava sua inclusão na ordem do dia, em 14 de agosto de 2007. Ainda não foi dessa vez. A leitura do convite acima gera inquietação sobre as reais intenções dos gays ao proporem a “Lei da Homofobia” (PLC nº 122/2006, no Senado). O projeto, de autoria da deputada Iara Bernardi (PT-SP), altera a Lei 7.716/1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, dá nova redação ao § 3º do art. 140 do Decreto-Lei 2.848/1940 (Código Penal), e ao art. 5º do Decreto- Lei 5.452/1943 (Consolidação das Leis do Trabalho – CLT), e dá outras providências. Sua relatora é a senadora Fátima Cleide (PT-RO). A modificação pretendida à citada Lei 7.716/89 (chamada “Lei do Racismo”) é simples: equiparar a condição homossexual àquela de raça e cor. Advogam que ser homossexual é como ser branco, negro, judeu ou mesmo idoso; um fato não-moral (por não haver escolha envolvida; não existiria a opção de não ser gay). Alguns chegam a afirmar a existência do gene da homossexualidade. Pretendem, com isso, que qualquer crítica a um homossexual seja vista como violência homofóbica, crime semelhante ao racismo. Outros afirmam que eles desejam instaurar o delito de opinião. Pretende-se modificar, também, a CLT, tipificando a discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. No caso, as penas são duríssimas. No dia 24 de outubro de 2007, a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado (CDH) acolheu questão de A Lei da Homofobia DavideGuglielmo O projeto que altera a chamada “lei do racismo” advoga que ser homossexual é como ser branco, negro, judeu ou mesmo idoso; um fato não-moral (por não haver escolha envolvida) ultimato 310 final.indd 31ultimato 310 final.indd 31 5/12/2007 16:29:445/12/2007 16:29:44
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    capa AliciaSolario ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200832 ordemdo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), para o adiamento da matéria. Os defensores desse Projeto de Lei afirmam que ele não atingirá as entidades religiosas. Dizem que a Constituição Federal garante a liberdade de crença, credo e culto. Entretanto, a Carta Magna fala em proteção “na forma da lei”. Com efeito, alguns tribunais brasileiros já baseiam as suas decisões no “princípio da dignidade e igualdade humanas”. Lembro um caso conhecido: em novembro de 2006, o jornal O Tropeiro, da cidade de Rancho Queimado, SC, publicou uma matéria em que promovia o homossexualismo. O pastor luterano Ademir Kreutzfeld, preocupado com seus fiéis, ligou para os comerciantes locais questionando seu patrocínio para aquele tipo de reportagem, e estes cortaram as verbas. O responsável pelo jornal, um ativista gay, deu queixa contra o pastor numa delegacia, alegando “homofobia”; o delegado, aceitando a queixa, intimou o pastor a se explicar. O reverendo Ademir está sendo processado por homofobia, antes da aprovação da lei. Por outro lado, conta-se que, durante a visita do papa ao Brasil, o líder gay Luiz Mott queimou, acintosamente, na porta da Catedral da Sé, em Salvador, fotos de Bento 16.2 Que punição esse ato de violência simbólica lhe valeu? Nenhuma. Um último registro: toda vez que o PLC 122/2006 entra na pauta da CDH, as caixas postais dos senadores são abarrotadas de e-mails de protesto. Ao ponto de tirar do ar, por mais de 24 horas, o site do Senado. Notas 1. José Maria e Silva, “A ditadura da depravação”. Jornal Opção, edição on-line, 17-23 jun. 2007. (http://www.jornalopcao. com.br/index.asp?secao=Reportagens&idjor nal=242&idrep=2312) 2. Adaptado de José Maria e Silva, op. cit. 1. De acordo com a Instrução In Continitá, de 2005, a Igreja Católica, “ainda que respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir aos seminários e às ordens sacras aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais enraizadas ou defendem a cultura gay”. A norma prevalece mesmo diante da escassez de vocações ao sacerdócio (Atualização, mar./abr. 2007, p. 166). 2. Do pastor Osmar Ludovico: “Por favor, não me discriminem nem me processem. Deixem-me discordar em paz e continuar defendendo, a partir de convicções profundas e inegociáveis, os valores cristãos da família: 1) a beleza de ser homem ou ser mulher; 2) a sublimidade do casamento heterossexual; 3) a dignidade da fidelidade conjugal; 4) e o direito à vida das crianças no útero de suas mães. São valores sagrados” (Revista Enfoque). 3. De John Stott: “Uma bela verdade, claramente afirmada desde o primeiro capítulo da Bíblia, é que a heterossexualidade é o propósito de Deus na criação e que homens e mulheres são iguais em dignidade e valor diante de Deus” (A Bíblia Toda, o Ano Todo, p. 19). 4. Dom Eugênio Sales, arcebispo emérito do Rio de Janeiro: “A igreja ensina que as pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Nem sempre seus ensinamentos são aceitos. Nem por isso ela deve mudar para agradar” (Jornal do Brasil, 10/11/07, p. 11). 5. Pronunciamento dos bispos da Igreja Metodista: “Não devemos considerar os homossexuais mais pecadores que alguns que estão dentro da igreja”... “por outro lado, não devemos deixar de dizer ao pecador, seja ele homossexual ou não, que o ‘salário do pecado é a morte mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus’ (Rm 6.23)”. 6. O médico Eduardo Ribeiro Mundim entende que a lei da homofobia “parece visar aqueles que agridem verbal, moral e psicologicamente os homossexuais”. Mas, por outro lado, “existe um ativismo homossexual que, em determinados momentos, parece querer converter todos a homossexuais ou obrigar a aceitação da homossexualidade”. Apertando o cerco ultimato 310 final.indd 32ultimato 310 final.indd 32 6/12/2007 15:49:516/12/2007 15:49:51
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    A ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200834 MissõesMundiais da Convenção Batista Brasileira, as heresias começam a ganhar força entre os cristãos e o número de seitas tem crescido. E a constante perseguição – nem sempre religiosa, mas sobretudo motivada pela denúncia de quem se sente incomodado com as práticas dos cristãos – ainda atrapalha o crescimento e a preparação dos crentes chineses. Apesar destes obstáculos a China é, atualmente, a nação onde o cristianismo mais cresce. Estimativas mostram que existem entre cinqüenta e cem milhões de cristãos, distribuídos entre as igrejas oficiais – que são supervisionadas pelos censores do governo e não podem praticar evangelismos – e as comunidades chamadas de “igrejas subterrâneas”, onde está a grande maioria dos crentes. Preparação de líderes E foi para trabalhar neste segundo contexto que Missões Mundiais enviou o missionário Lian Godói. Atuando numa das principais cidades do país, ele está trabalhando diretamente na preparação teológica e no treinamento de líderes chineses, pontada como a grande potência mundial deste século em função de seu rápido crescimento econômico e tecnológico, a China marcha firme em direção ao futuro, algo que se transformou numa verdadeira obsessão nacional. Nação de tradições milenares, concentra a maior população do planeta – cerca de 1,4 bilhão de habitantes – e possui uma pluralidade de etnias e culturas divididas nas mais de 50 regiões do país. Sua economia está em pleno aquecimento e já começa a influenciar outros sistemas econômicos mundiais. Desafios de um gigante Por estes e outros motivos que a China pode ser considerada o maior desafio missionário do século. Entre os desafios está a pouca, ou quase nenhuma, propagação da mensagem do Evangelho entre as mais de 500 etnias do país, especialmente no interior. Outro problema é a falta de preparação teológica dos crentes. Como o crescimento do cristianismo no país também acontece em ritmo acelerado, os líderes acabam tendo pouco preparo para discipular os novos convertidos. Segundo Lian Godói, missionário enviado em 2006 pela Junta de Informe ultimato 310 final.indd 34ultimato 310 final.indd 34 5/12/2007 18:34:235/12/2007 18:34:23
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO35 além de visitar o interior do país para estabelecer contatos e plantar trabalhos sociais naquelas regiões onde o Evangelho ainda não chegou. De acordo com o obreiro da JMM, como a quantidade de novos líderes é continuamente crescente, a preparação e o pastoreio dos mesmos é bastante difícil, apesar da existência de seminários nas grandes cidades chinesas. “Não é nem tanto pela qualidade dos pastores chineses, pois alguns são muito bons teólogos e pregadores. A dificuldade maior é treinar qualitativamente a enorme quantidade de crentes que assumem trabalhos pelo país. A base teológica que possuem é bem precária devido, na maioria das vezes, à forma de conversão e ao contexto social em que vivem. Eles assumem os trabalhos, até mesmo pela necessidade de seguir com a obra, e não são preparados para tal. A capacitação dessas lideranças é um dos grandes problemas da China hoje”, avalia o missionário. Para o obreiro brasileiro, outro grande problema da igreja na China é a falta de bíblias para atender o crescente número de convertidos. “A estratégia de entrar no país com carregamentos de bíblias, além de ser proibida, não atende à demanda da igreja chinesa e há o risco de que a carga seja apreendida. Como se vê, a necessidade é urgente. Temos um projeto, Bíblias para a China (veja encarte em anexo), que visa imprimi-las no próprio país, diminuindo custos e aumentando consideravelmente o alcance da distribuição desse material entre os crentes chineses”, diz Lian Godói. Clamor por mais obreiros Apesar da explosão socioeconômica da China, a maior parte da população ainda vive em condições precárias, especialmente no interior do país. São comuns os relatos de missionários, voluntários e dos próprios chineses de que falta mão-de-obra capacitada para atender às necessidades básicas da população, como assistência médica e odontológica, professores e profissionais especializados. Para o missionário da JMM, essa realidade descortina-se como uma grande oportunidade para que profissionais cristãos sigam para a China como missionários. “Muitos estrangeiros entram no país como profissionais ou empresários para desenvolverem as mais variadas atividades, outros vão para lecionar; as oportunidades nas áreas de esporte e assistência social também são grandes”, analisa. É o caso de duas missionárias brasileiras, uma cirurgiã-dentista e outra professora de idiomas, que estiveram na China como voluntárias, atendendo à população e falando de Jesus através do cuidado demonstrado em suas atividades profissionais e agora retornaram ao campo. “Quando estive no interior do país atendi muitas pessoas com graves problemas bucais. De volta ao Brasil, fui questionada sobre o porquê ir até a China para atender pessoas de graça e não para ganhar dinheiro como tantos outros. No meu consultório, comecei a pensar sobre isso e notei que trabalhar para ganhar dinheiro não fazia mais sentido para mim. Queria mesmo era voltar à China e servir, através do talento e capacidade que Deus me deu, àquele povo tão necessitado”, conta, emocionada, a missionária e odontóloga. Há um clamor muito grande por mais obreiros. Obreiros que estejam dispostos a investirem suas vidas, pois, de acordo com Lian Godói, em se tratando da China, não se pode pensar em menos de 10 anos de trabalho. Enfim, há muitas maneiras de servir a Deus e abençoar a China. Sérgio Dias é redator da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira ultimato 310 final.indd 35ultimato 310 final.indd 35 5/12/2007 18:34:335/12/2007 18:34:33
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    36 ULTIMATO Janeiro-Fevereiro,2008 Sem polêmica, mas delicadamente ousada Ultimato está completando 40 anos agora em janeiro. Fomos o jornal Ultimato nos oito primeiros anos, e desde 1976 somos a revista Ultimato. Na edição número 1, declaramos que o jornal “não se deleitaria em polêmicas, mas seria firme e delicadamente ousado”. Dissemos também que anunciaríamos o evangelho direta e indiretamente. Naquele remoto janeiro de 1968, colocamos nas mãos de Deus “a trajetória que o jornal deveria descrever para glória e honra de Deus”. Tudo indica que, apesar das muitas mudanças pelas quais o mundo e a igreja têm passado, não nos afastamos destes propósitos originais. Na edição de janeiro de 1998, quando comemorávamos o 30º aniversário, publicamos o artigo Jesus na capa e no miolo para salientar a nossa constante preocupação em apresentar ao leitor o Jesus da Bíblia, que esvaziou-se a si mesmo apara ser encontrado em forma humana (Fp 2.6-11). Ainda hoje, como se lê no expediente, Ultimato é “órgão de imprensa evangélico destinado à evangelização e edificação, sem cor denominacional”. Nestes 40 anos, tem relacionado “Escritura com Escritura e acontecimentos com Escritura” (daí a seção “Mais do que notícias”). Pretende “associar a teoria com a prática a fé com as obras a evangelização com a ação social a oração com a ação a conversão com a santidade de vida e o suor de hoje com a glória por vir” Um ano e meio entre a concepção e o parto Tudo começou na cidade de São Paulo, em maio de 1966, quando o coordenador do jornal Brasil Presbiteriano nos solicitou uma série de artigos contando a história de alguns jornais evangélicos, desde a Imprensa Evangélica (o primeiro periódico protestante da América do Sul), de Ashbel Green Simonton, fundado em 1864, no Rio de Janeiro, até a revista Unitas, de Miguel Rizzo Júnior, fundada com o nome de Fé e Vida, em 1930, em São EEspecialEspecial40 anos de coerência Especial Ultimato foi concebido em São Paulo (1966), nasceu em Barbacena (1968) perambulou por Porto Alegre (1969) e Campinas (1970) e se fixou em Viçosa (1971) Equipe de colaboradores (funcionários e estagiários) da Editora Ultimato ultimato 310 final.indd 36ultimato 310 final.indd 36 5/12/2007 16:33:575/12/2007 16:33:57
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO37 Paulo. Entre um e outro, estão O Púlpito Evangélico (1874), Salvação de Graça (1875), O Evangelista (1885), O Puritano (1898), entre outros. Simonton justificava o nascimento da Imprensa Evangélica de forma óbvia: “O anúncio do evangelho não pode depender só de púlpito”. O Salvação de Graça tinha o mesmo propósito: “Chamar os homens das trevas para a luz, guiar os pecadores ao Salvador e edificar na verdade”. O Puritano foi lançado para fazer propaganda do evangelho numa época em que apenas 0,3% dos habitantes da antiga capital brasileira freqüentavam os poucos templos evangélicos existentes. A elaboração desses artigos, após acurada pesquisa, nos deixou estarrecidos com o fato de que na década de 1960 tínhamos muitos periódicos de boa qualidade, mas, em geral, voltados só para os crentes e a serviço de suas próprias denominações. Logo nos veio à mente a tímida idéia de suprir a lacuna existente e fundar um jornal que chamasse a atenção também de um público não evangélico. A idéia se concretizou um ano e meio depois, em janeiro de 1968, em Barbacena, cidade mineira encarapitada no alto da Serra da Mantiqueira, mais ou menos no meio do caminho entre Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Por que Ultimato? O nome Ultimato tem uma origem curiosa. Veio de um padre de Barbacena. Havíamos conseguido, depois de muita luta e muito tempo, um programa religioso na Rádio Correio da Serra. Quando fomos apresentar o primeiro programa, o deputado José Bonifácio Tann de Andrade (mais conhecido como Andradinha), dono da emissora, disse-nos que o padre Hilário da Mota Barros, da Basílica de São José Operário, tinha lhe dado um ultimato: se a Correio da Serra permitisse o programa da Igreja Presbiteriana de Barbacena, ele deixaria de apresentar o programa da basílica, o que traria sérios problemas políticos para o deputado. Perdemos o programa, mas ganhamos a idéia do nome do jornal que estava sendo planejado: Ultimato. A idéia foi reforçada com o verso bíblico que estava gravado na parede externa do templo presbiteriano: “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo; clamem a ele enquanto está perto” (Is 55.6). Ora, Deus também dá ultimatos! O cartão de visita do Cardeal Scherer Quem folheia a revista Ultimato percebe facilmente que temos muitos leitores evangélicos e não evangélicos, exatamente como desejávamos antes mesmo de lançar o primeiro número. Não poucos são católicos. Tal fato deve-se a um simples cartão de visita que o cardeal Dom Vicente Scherer (parente do arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, recém- nomeado cardeal pelo papa Bento 16), de Porto Alegre, nos enviou em 1976: “Agradeço a gentileza da remessa regular, por cortezia [sic.], da publicação, que vejo com interesse pela franqueza de importantes colocações”. Ora, se um cardeal, em tempos não muito ecumênicos, deu importância a Ultimato quando era um tablóide de oito páginas, por que não enviar o periódico a todas as paróquias católicas do Brasil? O sonho se concretizou no ano seguinte e, desde 1977, temos enviado a revista a mais de 8 mil paróquias católicas. Mais tarde, passamos a enviá-la também aos bispos (mais de trezentos) e aos padres casados cujos nomes e endereços conseguimos (mais de setecentos). Nos últimos três anos, não temos alcançado todas as paróquias. Sem dúvida, essa “intromissão” de Ultimato no ambiente católico tem tornado a igreja evangélica mais conhecida lá dentro e diminuído os preconceitos mútuos. Por outro lado, sem deixar de lado seus princípios reformados, a revista tem trazido para o ambiente evangélico algo positivo da igreja católica brasileira. Por se tratar de uma revista evangélica, tem liberdade de publicar algumas críticas que agradam os “católicos com fome e sede de mudança” (edição de julho/ agosto, p. 26) e desagradam os demais. Entendemos que isso é uma prestação de serviço. Em todos os casos, a revista nunca teve propósito de arrebanhar católicos romanos para o protestantismo. Mas também nunca escondeu o seu propósito de levar evangélicos, católicos, espíritas e descrentes para a suficiência e senhorio de Jesus Cristo. E. César ultimato 310 final.indd 37ultimato 310 final.indd 37 5/12/2007 16:34:095/12/2007 16:34:09
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    Bancodeimagensoliver Robinson Cavalcanti Protestantes: autênti ULTIMATOJaneiro-Fevereiro, 200838 J esus Cristo criou uma só Igreja, Povo da Nova Aliança, não para ser uma unidade “invisível”, metafísica, neoplatônica, mas sim visível, na História, institucional. As igrejas orientais são anteriores à Igreja de Roma e nunca foram subordinadas a ela por jurisdição, muito menos por autoridade monárquica. A igreja assíria do Leste (nestorianos), tendo como epicentro a Pérsia, chegou à Índia e à China, quase dizimada pelos mongóis e pelo Islã. As igrejas pré-calcedônicas — Egito, Etiópia, Síria, Armênia e Índia — também, nunca foram vinculadas a Roma. As igrejas bizantinas, a partir da sede do Império Romano do Oriente, apenas reconheceram no bispo de Roma (que não era o papa tal como conheceremos posteriormente) um mero “primado de honra”, por estar na capital do Império do Ocidente. Um bom exercício de honestidade intelectual reformar no que se pensou e se fez, antes e depois da Reforma. Depois dela a Igreja de Roma oficializou novos dogmas, e, juntamente com os bizantinos, canonizaram novos “santos”. Trocou-se o livre exame pela livre interpretação e a Igreja deu lugar a seitas e “denominações”. O liberalismo mandou para o espaço as escrituras, a tradição, os credos, as doutrinas e a moral, sacrificados no altar da razão e na arrogância humana, hoje subjetiva, individualista e relativista. “Revelações” particulares e “profetas” auto- proclamados esquartejaram o Corpo de Cristo. Depois da Reforma sofremos o banho de sangue das Inquisições e a intolerância legalista, moralista, sectária, antiintelectual (e, às vezes, racista) do neofundamentalismo. Surgiram as seitas para-cristãs dos Mórmons, das Testemunhas de Jeová e da Ciência Cristã, bem como o neo/pós/iso/pseudo- pentecostalismo, cuja pretensa identidade protestante é uma contradição em si mesma. A primeira reforma (anglicanos e luteranos), assim como a posterior reforma siriana da Igreja Mar Thoma, na Índia, nunca aceitou a anti-história de uma “apostasia geral”. Nunca pretendeu uma ruptura total com o passado para criar ou re-fundar uma nova é ler a história da Igreja a partir dos autores dos três ramos da Igreja no Oriente: todos eles dirão que foi Roma que se separou dos patriarcados orientais, com a sua pretensão de uma autoridade monárquica com jurisdição universal. A ambição desta de ser “a” Igreja não se sustenta nem bíblica nem historicamente, e terá (por um milagre) de ser abandonada se quisermos um dia ter “um só rebanho e um só pastor”. Deverão ser superados, também, o nacionalismo e o tradicionalismo que engessam as igrejas do Oriente, impedindo sua atualização e engajamento na grande comissão. Os cristãos não podem nem minimizar o valor dos pontos convergentes da Reforma Protestante do século 16, nem começar a história da Igreja com a Reforma. O Espírito Santo esteve presente nos vinte séculos de nossa história, apesar dos erros, superstições e desvios que tenham surgido pela carne dos homens. O núcleo consensual reformado deve ser uma ferramenta hermenêutica privilegiada para discernir o que manter e o que ultimato 310 final.indd 38ultimato 310 final.indd 38 5/12/2007 16:34:225/12/2007 16:34:22
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    Agora você podeouvir nossas mensagens pelo preço de uma ligação local. LIGUE DIRETO sem operadora – sem DDD Quem é de Deus ouveaspalavrasde Deus João 8:47 Você não está só. www.umbet.or g.br Algumas das 124 cidades atendidas neste número: Presente em 162 cidades do Brasil Veja as demais cidades com este número e as 40 localidades com número semelhante através do site www.umbet.org.br É somente o custo de uma ligação local. Não há cobrança de qualquer taxa. UMBETUMBET Você, pastor, obreiro, conte com as “Mensagens para Hoje” como fonte de inspiração. As mensagens, sem cor denominacional, trazem referências às datas especiais e fatos comemorativos. Utilize-as para alcançar membros ausentes no seu ministério! Divulgue-as como convite para solitários e relutantes em aproximar-se de qualquer encontro evangélico! Utilize-as como uma extensão de seu próprio ministério! 4062-6550 •Gde São Paulo •Santos •Campinas •Gde Rio de Janeiro •Gde Belo Horizonte •Brasília •Campo Grande •Cuiabá Porto Velho • Rio Branco • Porto Alegre • Joinville • Florianópolis • Londrina • Curitiba • Palmas • Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada. <www.dar.org.br> ticos católicos Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 39 Igreja, mas, como o próprio nome diz, reformar a Igreja de Cristo, única, santa, católica e apostólica, até então presente em quatro jurisdições. Os corpos não reformados não quiseram se reformar, ou apenas se contra-reformar. Os protestantes não romperam, foram expulsos. Hoje, entre o neo-integrismo reacionário dos corpos não-reformados e o cipoal fragmentado dos corpos deformados — incapazes de dar uma resposta ao Estado e à ideologia secularista —, almas sedentas clamam por uma Igreja de dois mil anos. Igreja dos Pais da Igreja e dos Pais Apostólicos; Igreja dos Reformadores, com uma rica herança histórica, espiritual, doutrinária e litúrgica. Com ética e com estética; com vitalidade e com santidade; com dinamismo e com profundidade. Com o sacerdócio universal dos crentes e com o sacerdote especial dos vocacionados e ordenados: diáconos, presbíteros e bispos (sucessores dos apóstolos). O futuro depende de um presente que retome o passado. Da Pré-Reforma herdamos o fechamento do cânon bíblico, o estabelecimento do núcleo doutrinário contido nos Credos Apostólico e Niceno e o estabelecimento de uma forma de governo para a Igreja: o episcopado (“...ao largo dos tempos, vai-se continuando a sucessão dos bispos e a administração da Igreja, de sorte que a Igreja sempre esteve estabelecida sobre os bispos, e todo ato da Igreja era dirigida por estes propósitos”, Cipriano de Cartago, De Unitate, 23.4). Da Reforma, a ênfase na autoridade das Sagradas Escrituras como fonte de revelação e a salvação pela graça mediante a fé. Da Pós-Reforma herdamos a riqueza sistematizada das confissões de fé, o compromisso puritano, a espiritualidade pietista, a paixão avivalista e o ardor missionário, o novo nascimento. Protestantes anticatólicos? Não, católicos reformados, verdadeiros católicos! ultimato 310 final.indd 39ultimato 310 final.indd 39 5/12/2007 16:34:315/12/2007 16:34:31
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    Ricardo Gondim ULTIMATO Janeiro-Fevereiro,200840 N aran, meu neto, gosta de classificar os personagens de seu mundo infantil em rígidas categorias. Vez por outra, ele me pergunta: “Vovô, o Homem Aranha é do bem ou do mal?”. Claro, procuro antecipar- me às suas expectativas e digo que o seu herói é do bem. Certo dia, vi-me num beco sem saída. Sério como um professor na hora da sabatina, ele me questionou: “Vô, Davi era do bem ou do mal?”. Eu respondi sem titubear: “Do bem”. “E Golias?”. Não hesitei: “Do mal”. Com essas duas respostas para trabalhar em sua cabecinha, ele recontou o que aprendera sobre o célebre embate entre o rei e o gigante, e emendou: “Mas, vô, Davi cortou a cabeça de Golias depois que o derrubou com uma pedra, não foi? Naquela hora ele não virou num homem do mal?”. Só consegui responder: “Eu nunca tinha pensado assim, mas acho que você tem razão”. Nossa disposição para separar as pessoas em arraiais distintos, além de ingênua, não subsiste aos questionamentos de uma criança. Os seres humanos são infinitamente mais complexos que nossas pobres categorizações. Recentemente, vi o filme sobre a vida da cantora francesa Edith Piaf. Sua história mexeu com as minhas emoções, saí do cinema com o coração comovido. Sua infância, suas constantes perdas, sua adolescência nas sarjetas a tornaram uma mulher tempestiva, que bebia demais e parecia desequilibrada. Mas ela não podia ser rotulada com gradações que vão de boa a perversa. Os personagens bíblicos são inconstantes em suas virtudes e os vilões não encarnam o mal absoluto. O único personagem bíblico absolutamente mal é Satanás. Todos os demais agem com vileza e bondade; são execrados e aplaudidos. Abraão creu, hesitou, mentiu. Moisés ousou, titubeou, perseverou. Davi amou, assassinou, arrependeu- se. A seqüência de exemplos lota o texto sagrado. Todos os heróis são cavalheiros e nobres, réprobos recomendáveis. Jesus lidou com a alma humana como um vasto universo. Ele era extremamente cuidadoso e jamais Bem e mal hagitM. ultimato 310 final.indd 40ultimato 310 final.indd 40 5/12/2007 16:34:405/12/2007 16:34:40
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    Ricardo Gondim épastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. <www.ricardogondim.com.br> Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 41 subestimava a subjetividade de cada pessoa. Não deixou que apedrejassem a mulher apanhada em adultério. Considerava injusto que aqueles religiosos não levassem em conta o passado, os traumas, as feridas anteriores de tal muher. Não, ele não permitiria que a história dela fosse jogada na sarjeta só para que a lei fosse mantida. Quando li a biografia do Garrincha, talvez o maior ponta- direita do futebol brasileiro de todos os tempos, não consegui depreciá-lo como um devasso, mas como um desafortunado, um alcoólico carente de misericórdia. Chorei por sua sorte. Li uma frase no blog do Allyson Amorin (http://alyssonamorim. blogspot.com/) que apreciei bastante: “Por trás de uma grande queda há sempre uma curva acentuada”. Quanta verdade! Devemos olhar não apenas para as quedas, mas considerar também as curvas acentuadas. A monumental obra de Victor Hugo Os Miseráveis expôs Javert como um homem detestável, porque não conseguia conceber que um condenado pudesse ter alguma nobreza no coração. Uma vez condenado, para sempre perdido. Os maus mereciam, segundo sua percepção, os rigores da lei. Jean Valjean, criminoso execrado por um homicídio, foi tenazmente perseguido por Javert, que só se preocupava em mostrar sua coerência com a lei. Durante toda a narrativa, Victor Hugo revela outro lado: o fugitivo era correto, bondoso, nobre, enquanto o legalista, um detestável vingativo. O caráter impoluto do policial camuflava um homem inclemente. A lei e o aparato policial escondiam a pequenez de Javert. Preocupo-me com os religiosos que identificam facilmente quem vai para o inferno. Regras, conceitos teológicos e catecismos não conseguiriam por si só peneirar os bons dos ruins. Joio e trigo se parecem e é necessário esperar pelo fim dos tempos. Só Deus conhece os porões de cada vida. Só ele sabe as guinadas que a existência de cada um sofreu, e só ele tem critérios suficientes para lidar com as histórias humanas. E a melhor notícia é que Deus não nos trata segundo uma lei fria. Ele é um pai tão compassivo e bom que no Salmo 103 considera nossa fragilidade como pó e, por isso, afasta de nós as nossas transgressões. Quando penso em certo e errado, ordem e desordem, ligado e desligado, me esqueço da graça e dessa infinita capacidade divina de nos entender sem explicação. Sem a graça, resta o pavor da lei, que não considera as inadequações humanas, com agravantes e atenuantes. Sim, o justo juiz é um pai que me pôs em seu regaço, sem precisar esclarecer o porquê do seu amor. Todos nós já nos comportamos como Davi. Em algumas circunstâncias o rei “virou do mal”, mas encontrou a infinita disposição de Deus para tratar-lhe com misericórdia. Essa disposição é a causa pela qual nós também não fomos destruídos. Soli Deo Gloria. ultimato 310 final.indd 41ultimato 310 final.indd 41 5/12/2007 16:34:515/12/2007 16:34:51
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    Bancodeimagensoliver ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200842 ValdirSteuernagel edescobrindo a Palavra de DeusR E u vou ser avô! O nome do meu neto é Arthur. Acompanhar a gestação da Caroline e do Marcell, contar as semanas de gravidez, enfrentar tenso a possibilidade de perder o nascimento do bebê por causa de uma viagem de trabalho — são fatos que estão entrando com força na agenda do meu coração. Estou mudando, e não é só porque vou ser avô. É que espiritualidade e relacionalidade andam juntas; e quanto mais nos aproximamos de Deus, mais perto chegamos do outro e da própria criança. Assim, quero priorizar o meu neto porque espero que, no decorrer dos anos, eu tenha me tornado um pouco mais íntimo de Deus. Mesmo que o conheça há muitos anos, reconheço que a minha relação com ele era muito mais “operacional e ativista” do que marcada por uma “cativante presença”. Mas assim era também a minha relação humana... e disso Deus vem tentando me converter faz um bom tempo. Deus gosta de gente. Ele se relaciona com as pessoas a partir de quem elas são e a partir de suas histórias de vida. Os Evangelhos estão repletos dessa relacionalidade de Jesus. Ele dedicava tempo e atenção às pessoas, especialmente aos pequenos. Jesus gostava de crianças. Quando elas chegavam, sempre havia algazarra, para grande agonia dos discípulos, que com isso não conseguiam cumprir a agenda nem colocar ordem na caravana do Mestre. Mas ele deixava clara sua prioridade: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas” (Lc 18.16). Essa relação entre a criança e o reino de Deus não é, definitivamente, coisa para adulto decifrar. É coisa para criança nos ajudar a entender. Assim, como Jesus, nós também precisamos priorizar a criança na agenda de nossas famílias, comunidades e sociedades. O quarto Objetivo do Milênio reflete isso: Reduzir a mortalidade infantil. Isso significa que até o ano 2015 a taxa de mortalidade de crianças de 0 a 5 anos deverá ser reduzida em dois terços. Em outubro de 2006, Carol Bellany, diretora executiva do UNICEF, afirmou em seu relatório: “O direito à sobrevivência é a primeira medida de igualdade, oportunidade e liberdade para uma criança. É inacreditável que nesta era de maravilhas da medicina e tecnologia a sobrevivência de crianças seja tão frágil em tantos lugares, especialmente para os pobres e marginalizados. Nós podemos fazer melhor.” Criança alegra a vida! ultimato 310 final.indd 42ultimato 310 final.indd 42 5/12/2007 16:35:065/12/2007 16:35:06
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO43 Objetivos do Milênio Acabar com a fome e a miséria Educação básica e de qualidade para todos Igualdade entre sexos e valorização da mulher Reduzir a mortalidade infantil Melhorar a saúde das gestantes Combater a aids, a malária e outras doenças Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas. Não só podemos, como precisamos fazer melhor. E isso os cristãos, em particular, deveriam saber. Em recente e inédita participação na conferência da Associação Nacional dos Evangélicos, nos EUA, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, destacou os Objetivos do Milênio dizendo que “os cristãos evangélicos têm tido um chamado similar por bem mais tempo do que os anos de existência das Nações Unidas”. O que este quarto Objetivo do Milênio pretende alcançar, faz tempo que está no coração de Deus. Um dos belos textos apocalípticos de Isaías diz que Deus criará um mundo no qual “nunca mais haverá uma criança que viva poucos dias” (Is 65.20). Haveria melhor motivação que esta para os cristãos? Afinal, a boa escatologia bíblica é um convite para se modelar a vida hoje, em meio à realidade cotidiana e numa esperançosa antecipação dos sinais do reino de Deus. É bom ver Deus querendo concretizar entre nós este Objetivo do Milênio, ao anunciar o seu compromisso com um reino futuro onde as crianças viverão muitos dias! A Visão Mundial Internacional, ao colocar este sonho na sua Declaração de Visão, inspirou-se na palavra de Jesus quando disse que veio “para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância” (Jo 10.10). A declaração ficou assim: “Nossa visão para todas as crianças — vida em abundância. Nossa oração para todos os corações — a vontade para tornar isso uma realidade”. Mas este não é um mero desejo e oração de uma organização; deveria ser a visão, o sonho e o compromisso de todos nós. O Brasil caminha bem no cumprimento deste Objetivo do Milênio, embora ainda precisemos diminuir a desigualdade em que vivemos e à qual nos acomodamos. Desde 1990, o ritmo de redução da mortalidade na primeira infância vem diminuindo 4,3% ao ano. Até 2015 o país deve conseguir reduzir a taxa de mortalidade dos menores de cinco anos para vinte por mil nascidos vivos. Mas o nosso desafio real é reduzir a distância entre as regiões Nordeste, onde a taxa é de 59,9 por mil nascidos, e Sul, onde a média é de 22 por mil. Precisamos atingir juntos o objetivo de vivermos num mundo onde “a criança não viva poucos dias”. Os objetivos maiores para a redução da mortalidade de crianças de 0 a 5 anos não são difíceis de alcançar: a vacinação deve ser ampla e a amamentação da criança, assegurada; o atendimento pré-natal da gestante deve ser adequado e o parto, bem cuidado; a criança deve viver num ambiente adequado, com bom saneamento... Coisas básicas, que eu quero para o meu neto. E Deus me diz que as deseja para todos e que todos nós devemos empenhar-nos por construir uma sociedade que busque exatamente isso. Não somos nós, membros do Corpo de Cristo, chamados a querer o que Deus deseja? Tornemo-nos arautos e praticantes daquilo que ele quer. Esse é um bom mutirão. Um mutirão no qual haverá muita algazarra de criança. ultimato 310 final.indd 43ultimato 310 final.indd 43 5/12/2007 16:35:225/12/2007 16:35:22
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    história Alderi Souza deMatos Dos tais é o reino dos céus: a igreja e as crianças na história cristã 44 ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 2008 E m seu livro Children in the early church (As crianças na igreja antiga), W. A. Strange observa que na antigüidade havia atitudes ambivalentes em relação às crianças. Os pais amavam seus filhos, mas a necessidade financeira podia fazer com que os abandonassem para morrer. Os pais queriam o melhor para os filhos, mas pensavam neles como animais a serem domesticados e os criavam com severidade. As crianças eram valorizadas, porém, numa sociedade em que se aceitava com naturalidade a escravidão, elas com freqüência eram objeto de exploração e abuso. Os judeus costumavam ter um conceito mais elevado da vida infantil, dando maior ênfase à educação de seus meninos. O cristianismo deu uma contribuição especialmente positiva. O autor C. John Somerville observa: “Por dois mil anos até o presente, os apelos em benefício dos corpos, mentes e espíritos das crianças têm partido em grande parte dos homens e mulheres da igreja”. Um precedente essencial Jesus colocou os pequeninos numa posição privilegiada ao afirmar que o reino de Deus “pertencia” a eles e que os adultos só entrariam nesse reino caso se tornassem como crianças (Mt 18.1-4; 19.13-15). O Mestre não exerceu um ministério específico junto aos menores, entendendo-os como incluídos nas famílias a que pertenciam. No entanto, ele não só demonstrou um genuíno interesse pelas crianças, mas exortou os seus seguidores a dedicarem a elas especial atenção e cuidado (Mt 18.5; Mc 9.42). Curiosamente, nas epístolas do Novo Testamento se percebe uma atitude diferente, pois seus autores encaram as crianças de modo mais convencional: elas eram pessoas sob a autoridade dos pais, sendo vistas como exemplos de imaturidade e de potencial para crescimento. As crianças faziam parte das primeiras igrejas domésticas não só por causa da sua presença necessária, mas devido à convicção de que pertenciam a Deus e à igreja, sendo, por isso, “santas” (1Co 7.14). Como tais, não eram meras expectadoras passivas, mas deviam ser ensinadas e exortadas junto com os adultos (Ef 6.1-4; Cl 3.20s). É notável a inclusão das crianças nessas listas de deveres, ao lado do aspecto da mutualidade, visto possuírem direitos e obrigações em relação aos pais. Assim, a família não devia ser uma instituição autoritária, mas um lugar em que todos os membros pudessem crescer juntos na sua vida comum em Cristo. Portanto, ao chamar a atenção para as crianças, falar delas, curá-las e recomendá-las como exemplos e objeto de cuidados, Jesus transmitiu aos seus seguidores a responsabilidade de dar às crianças um lugar central em sua vida comunitária. Cristãos no mundo pagão Quando a igreja ainda era minoritária na sociedade pagã, uma criança cristã ficava mais protegida do perigo do infanticídio, comum naqueles tempos. A Didaquê, um manual eclesiástico do início do segundo século, determinava: “Não matarás uma criança no útero, nem matarás um recém- nascido” (2.2). Diferentes autores também condenavam o abandono de menores e a educação permissiva dos adolescentes. Ao mesmo tempo, os primeiros cristãos não se Bancodeimagensoliver ultimato 310 final.indd 44ultimato 310 final.indd 44 5/12/2007 16:35:305/12/2007 16:35:30
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO45 preocuparam em criar escolas exclusivas para seus filhos, mas permitiram que freqüentassem as escolas pagãs. Eles não queriam formar guetos segregados da sociedade. Um fenômeno revelador foi a participação das crianças nos sacramentos. Os testemunhos mais antigos acerca do batismo infantil são dados por Tertuliano, Hipólito e especialmente Orígenes, que descreveu essa prática como uma tradição da igreja recebida dos apóstolos. Mesmo que essa alegação não possa ser comprovada, ela demonstra o alto apreço em que as crianças eram tidas pela igreja. O batismo de infantes tinha não só o sentido de iniciação e inclusão na comunidade cristã, mas acentuava a idéia de solidariedade familiar, como se vê em alguns textos bíblicos (At 16.15, 33; 1Co 1.16). Outros testemunhos antigos nesse sentido são os de Cipriano e Agostinho. No que se refere à Santa Ceia ou Eucaristia, a participação das crianças nesse sacramento era comum e não foi contestada nos quatro primeiros séculos. Algumas autoridades que a mencionam são Cipriano, as Constituições Apostólicas, Agostinho e escritores da igreja grega. Num período posterior, a crescente reverência pelos elementos da Ceia fez com que as crianças fossem afastadas da mesa de comunhão. Tensões na experiência medieval No Medievo existiram atitudes contrastantes em relação às crianças, como destacam Daniele Alexandre- Bidon e Didier Lett em Les enfants au Moyen Âge (As crianças na Idade Média). Por um lado, houve forte ênfase no tema da inocência dos infantes, o que fazia deles seres sagrados e uma espécie de emissários de Deus. Por outro lado, eles podiam ser vistos como perturbadores da meditação ou da vida intelectual dos religiosos. Atribuía-se o nascimento de crianças deformadas ou doentes a interferências demoníacas ou punição divina. Os nascimentos múltiplos (gêmeos) eram considerados sinais de pecados como adultério e fornicação. Quando bebês morriam antes de serem batizados, isso causava grande angústia nos pais. A valorização da vida monástica podia levar à ruptura precoce dos laços familiares. Muitas crianças eram enviadas aos mosteiros com 6 ou 7 anos de idade (os oblatos), como ocorreu com o Venerável Beda e Hildegarda de Bingen. Ao mesmo tempo, a igreja continuava a combater a contracepção, o aborto e o abandono de menores. Os pais pobres que quisessem se desfazer de um dos filhos eram incentivados a deixá-lo num local público, como a porta da igreja, para que pudesse ser recolhido. Na maior parte dos casos, a educação infantil ocorria no âmbito familiar. Além disso, havia as escolas monásticas, paroquiais e episcopais. O bispo Teodulfo de Orléans ordenou em 798: “Os sacerdotes tenham escolas nas regiões agrícolas e nas grandes vilas rurais, e se os fiéis quiserem confiar- lhes seus filhinhos para aprender as letras, não se recusem a recebê-los e ensiná-los, e os ensinem com muito amor. Não exijam pagamento”. A morte era uma ocasião que também revelava o afeto pelas crianças: elas eram sepultadas com tanto desvelo quanto os adultos. Muitos epitáfios antigos revelam sentimentos de profundo afeto. A centralidade da família puritana A Reforma Protestante deu uma contribuição significativa à sociedade ao valorizar o casamento e a família como o contexto divinamente ordenado para a vida cristã. A família protestante era patriarcal, tendo o esposo e pai como o líder inconteste. O contexto familiar caracterizava-se por afeto, reciprocidade, trabalho e frugalidade, sendo também uma escola ultimato 310 final.indd 45ultimato 310 final.indd 45 5/12/2007 16:37:115/12/2007 16:37:11
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    Alderi Souza deMatos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. <asdm@mackenzie.com.br> ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200846 de religiosidade e cidadania. No que diz respeito ao lugar das crianças, os puritanos ingleses e norte-americanos foram incomparáveis. C. John Somerville observa que o puritanismo inglês foi uma das poucas épocas em que as crianças se tornaram centrais para a religião. Para esse grupo, a finalidade primordial da família era glorificar a Deus. Assim sendo, os puritanos viam a família essencialmente como uma pequena igreja, onde as devoções eram essenciais. Um deles escreveu: “Se queremos que a igreja de Deus permaneça entre nós, devemos levá-la para os nossos lares e nutri-la em nossas famílias”. Outros propósitos eram o benefício da sociedade e a realização pessoal da cada integrante da unidade familiar. Sob a liderança firme e amorosa do pai e a participação atenta da mãe, os filhos eram objeto de grande interesse. Os puritanos tinham a convicção dos puritanos se faz sentir até hoje nos seus países de origem. Na longa e multifacetada história do cristianismo, as crianças têm ocupado um lugar de maior ou menor destaque em diferentes grupos, épocas e locais. Obviamente, muitas vezes houve atitudes e comportamentos pouco apreciáveis em relação a elas, notadamente quando pobres e marginalizadas. Todavia, de maneira geral, a contribuição das igrejas no tocante à infância foi mais positiva que negativa, em comparação com o que ocorria na sociedade ao redor. Certamente o fator preponderante para isso foi, e continua a ser, o exemplo do próprio Cristo, tanto em seus ensinos como em suas ações. básica de que seus filhos pertenciam a Deus, que os havia confiado aos seus cuidados. Algumas das advertências puritanas mais solenes são contra a negligência dos pais em educar apropriadamente sua progênie. Os deveres dos pais incluíam prover as necessidades materiais das crianças, ensiná-las a trabalhar e, acima de tudo, dar-lhes treinamento espiritual e moral. A disciplina era levada a sério, visando restringir as tendências negativas e promover a vida cristã. Na concepção puritana, como nota Leland Ryken em Santos no Mundo, os filhos eram criaturas decaídas cuja inclinação pecaminosa devia ser redirecionada para Deus e a bondade moral. Em três aspectos os puritanos anteciparam atuais teorias de desenvolvimento: a importância do treinamento precoce, o ensino mais pelo exemplo que pelas palavras e o equilíbrio entre a severidade e o apoio positivo. O legado ultimato 310 final.indd 46ultimato 310 final.indd 46 5/12/2007 16:38:175/12/2007 16:38:17
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    Entrevista: Uriel Heckerte Robinson Cavalcanti ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200848 A crescente visibilidade do homossexualismo é um fenômeno específico da civilização ocidental Psiquiatra diz que “a força libidinal é capaz de driblar a nossa racionalidade e vontade”, e bispo anglicano acrescenta que “todos temos possibilidades heróicas e possibilidades destrutivas” E les têm praticamente a mesma idade (62 e 63 anos), são evangélicos (um é presbiteriano e o outro, anglicano). Desde a juventude estão publicamente comprometidos com a missão integral do evangelho e apóiam a Aliança Bíblica Universitária (ABU). Ambos foram professores universitários. Mas um vive na região Sudeste (Juiz de Fora, MG) e o outro, na região Nordeste (Olinda, PE). Uriel Heckert é psiquiatra e membro da diretoria do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), do qual é um dos fundadores. Robinson Cavalcanti é cientista político e bispo da Diocese Anglicana do Recife. Ultimato reúne as duas vozes nesta entrevista. ultimatoimagem arquivopessoal Robinson CavalcantiUriel Heckert Ultimato — O dualismo filosófico e o maniqueísmo religioso distinguem e contrastam eros e ágape. Dizem que o primeiro é o amor profano, carnal e pecador, e o segundo é o amor sagrado, angelical e santo. Essas idéias, que exerceram forte influência sobre o cristianismo, especialmente nos terceiro e quarto séculos, já foram totalmente extirpadas do pensamento cristão? RobinsonCavalcanti— Desde que Alexandre, o Grande chegou à Índia, a Grécia foi influenciada por conceitos emanados do bramanismo, inclusive o dualismo entre uma matéria “má”e um espírito “bom”, o que abre caminho para os excessos ora de permissividade, ora de repressão. O pensamento cristão foi fortemente influenciado por esse dualismo. Um exemplo de propagador desse dualismo foi Agostinho de Hipona. Daí a expressão “síndrome de Santo Agostinho”, usada em referência a cristãos (especialmente pastores) ex-devassos, que após a conversão se tornam obcecados pelo combate à “carne”, priorizando o aspecto sexual e julgando que todos os outros cristãos passam por experiência como a sua. Reconciliar ágape e eros é uma tarefa teológica urgente para a saúde espiritual e emocional da Igreja. Por outro lado o puritanismo tardio que marcou a formação dos Estados Unidos, hoje com seus extremos chega até nós. Ultimato — O movimento gay transmite a impressão de que os homossexuais praticantes são muito numerosos. Seria verdade? Uriel — As estatísticas confiáveis nunca apontam taxas maiores que 5% de homossexuais entre a população masculina, e as taxas entre as mulheres são sempre menores. A própria pesquisa de A.C. Kinsey (1948), insistentemente ultimato 310 final.indd 48ultimato 310 final.indd 48 5/12/2007 16:38:525/12/2007 16:38:52
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    As pessoas cominclinação homoerótica são uma minoria e os seus praticantes, um número ainda mais reduzido. Pesquisas indicam algo entre 1% e 3% Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 49 tomada como referência, apontou apenas 4% de indivíduos exclusivamente homossexuais. Além disso, é preciso considerar que a sua amostra foi deformada pela inclusão de presidiários e abusadores sexuais. Mesmo assim, trata-se de uma população considerável, digna de atenção às suas características e necessidades. Robinson — As pessoas com inclinação homoerótica são uma minoria e os seus praticantes, um número ainda mais reduzido. Pesquisas indicam algo entre 1% e 3% no Ocidente hoje, dependendo do contexto rural ou urbano, isolado ou cosmopolita, de culturas tradicionais ou de culturas em processo de mudança, além da legitimação ou não do comportamento. Ultimato — O homossexualismo sempre existiu, mas talvez em nenhuma outra época estivesse tão em pauta como hoje. O que há de novo na questão? Que desafios esta situação representa para os cristãos? Uriel — A crescente visibilidade que a questão homossexual alcança é um fenômeno específico da civilização ocidental. Tal fenômeno não é admissível em vastas regiões da Ásia e da África, sob influência das leis islâmicas e de outras tradições culturais. Vários fatores contribuem para que ocorra essa exposição contínua sobre o tema: 1) o movimento de contestação social surgido no Ocidente nas últimas décadas do século 20, com ênfase crescente na busca do prazer (hedonismo); 2) a crise de valores que se instaurou na sociedade, deixando pais, educadores e legisladores atônitos e sem referências; 3) a disseminação de informações e imagens, permitindo expressão a comportamentos de grupos minoritários; 4) políticas públicas afirmativas que privilegiam as minorias, sobretudo quando em condição de discriminação e desvantagem; 5) confluência de diversas tendências políticas numa agenda ampla de “desconstrução” do que se tem como poder e saber instituídos. A tudo isso se soma a organização de grupos de interesse, que têm um projeto claramente definido e bem articulado, capaz de reunir ativistas desprendidos e com forte ardor proselitista. Tal movimento vale-se, na verdade, de valores oriundos do cristianismo, tais como o respeito à liberdade e aos direitos da pessoa humana, para lutar por uma nova sociedade baseada em princípios duvidosos e até declaradamente anticristãos. Robinson — O século 20 enterrou utopias globais totalitárias, como o nazismo e o comunismo. Com o “fim da história” e das alternativas de vida, o capitalismo se impôs como “pensamento único”, o que concorre para o aumento da violência, da fuga (pelas drogas ou por religiões alienantes) e para as microutopias do politicamente correto. Entre elas está a glorificação do homossexualismo como um minoria organizada, articulada e que ocupa espaços nos meios de formação de opinião: mídia, artes, academia. Ultimato — A professora Edith Modesto, da USP, fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), hoje Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais (www.gph.org.br),depois de acurada investigação, entende que a homossexualidade não é uma opção. Os senhores concordam? Uriel — Falar em opção sexual sugere a possibilidade de uma reflexão mais ou menos consciente, seguida de uma escolha. Na verdade, a força libidinal tem sua dinâmica e é capaz de driblar a nossa racionalidade e vontade. O desejo sexual surge, para alguns, direcionado para pessoas do mesmo sexo e é sempre desejável que ele seja reconhecido e admitido com clareza. O que fazer com tal desejo, isto sim, envolve posicionamento e decisão pessoal. No entanto, falar em orientação homossexual, como hoje se prefere, pode também ser inadequado por insinuar uma aceitação passiva e definitiva. Estudos têm mostrado que, em muitos casos, é possível mudar a inclinação sexual. Robinson — Todos os seres humanos nascem com “defeitos de fabricação,” fruto do pecado, e ao mesmo tempo mantêm os traços positivos da imagem de Deus. Todos, nessa ambigüidade moral, temos possibilidades heróicas e possibilidades destrutivas. Há a inclinação para algo condenado por Deus, o que chamaríamos de tentação. Todos são tentados todos os dias, em diferentes áreas. Cada um tem sua “fraqueza de estimação”. Mas o ser humano é dotado de razão, sentimento e vontade, e, portanto, de capacidade de escolha. Todo comportamento — apesar dos condicionamentos —, em última análise, é fruto de uma opção. ultimato 310 final.indd 49ultimato 310 final.indd 49 5/12/2007 16:39:195/12/2007 16:39:19
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    A aprovação doprojeto de lei “Anti-Homofobia” atesta uma tendência de legislar sobre tudo e sobre todos, fere a Constituição, restringe a liberdade religiosa e leva a igreja ou à acomodação cúmplice e ao silêncio culposo ou à desobediência civil e ao martírio ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200850 Ultimato — O que os pais podem fazer para evitar que seus filhos tenham tendências homossexuais? Uriel — Em nossos dias, as discussões sobre a homossexualidade concentram- se no campo político e dos direitos humanos. Alguns evocam teorias biológicas claramente insuficientes, buscando justificativas genéticas ou constitucionais para a questão. Entretanto, o papel das influências ambientais e educacionais, sobretudo a partir das relações fundamentais com os pais e pessoas significativas, não podem ser desprezadas. Verifica-se uma tendência a negligenciar as teorias psicológicas sobre a homossexualidade; por isso, cito o neurocientista Eric R. Kandel: “A observação de Freud e de outros analistas de que alguns homossexuais tendem a lembrar seus pais como hostis ou distantes e suas mães como mais próximas que o comum têm tido confirmações recentes”. Robinson — Nenhuma família pode evitar que um filho ou uma filha se desvie para uma conduta pecaminosa. A família ajustada, estável, funcional, piedosa, cultivadora de valores, será, claro, um espaço onde o bem será fomentado. O estudo, o trabalho, o esporte, o lazer, a cultura, a religião, são variáveis positivas. Mas cada um fará a sua livre escolha. Por exemplo, uma família ideal pode ter cinco filhos expostos à mesma experiência, e cada um deles seguir caminhos diferentes. Ultimato — Quando se tem filhos homossexuais, como conciliar o amor paternal e a fidelidade aos princípios bíblicos? Uriel — Não há resposta fácil. A parábola do filho pródigo nos dá algumas pistas: tolerância, desprendimento, apesar das atitudes inconcebíveis tomadas pelo filho; espera, paciência, acolhimento, quando houve atitudes sensatas. Uma citação de Fernando Gabeira parece- me oportuna: “É tão difícil mudar os homens como aceitá-los tais como são; mais difícil ainda é fazer ambas as coisas.” Robinson — Amor e valores, amor e exemplo, amor e disciplina andam sempre juntos. Os pais não devem se condenar ou rejeitar o filho ou a filha que opte pelo homossexualismo, embora devam ser sinceros quanto ao seu desapontamento e sofrimento, com a reafirmação dos seus valores e com orações pela santidade, como faria com outros problemas. Ultimato — A moral cristã exige que o heterossexual negue-se a si mesmo quando é tomado pelo desejo de usufruir do sexo fora do casamento. A mesma ética exige também que uma pessoa que sinta desejos homossexuais negue-se a si mesma, tanto fora como dentro de um relacionamento estável. Quem tem mais dificuldades para manter-se dentro dos padrões éticos: o hetero ou o homo? Uriel — Há sempre uma tensão entre desejo e realidade. Processos educativos, socioculturais e éticos modelam a personalidade individual, permitindo adequar os impulsos às suas finalidades e às necessidades da vida em sociedade. Todos, igualmente, experimentam desafios nesta questão. A simples negação ou repressão do desejo não é desejável. A sua expressão, contudo, precisa afinar-se a objetivos, conveniências, princípios e valores, para o bem da própria pessoa e dos demais. A maturidade psíquica implica lidar satisfatoriamente com a própria sexualidade, o que é sempre um desafio. Robinson — O apóstolo Paulo afirma que não conseguia fazer o bem que desejava e acabava fazendo o mal que não queria. Isso acontece com todos, inclusive os convertidos. A santificação não é instantânea, nem linear ascendente. Hetero e homo têm suas dificuldades. Ultimato — A igreja tem falhado no trato da questão homossexual? Em que sentido? Seria por excesso de aceitação ou por excesso de legalismo? Robinson — A Igreja tem falhado pelo silêncio no estudo dos temas da vida; sexualidade, relacionamentos, sentimentos, vida social, política etc., se concentrando no outro mundo, no futuro ou na subjetividade. Apresenta, muitas vezes, um projeto de bem morrer, mas não de bem viver. E no bem viver não vai além do individual e das microrrelações. O legalismo (com listas de “podes” e “não-podes”) e o ultimato 310 final.indd 50ultimato 310 final.indd 50 5/12/2007 16:39:275/12/2007 16:39:27
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO51 moralismo (privilegiar os delitos sexuais em detrimento de outras áreas do comportamento) não ajudam muito. Ultimato — Existe homofobia no Brasil? E no meio evangélico? Uriel — A homossexualidade sempre levanta alguma estranheza, inclusive para a pessoa diretamente envolvida. Isso acontece não só no Brasil ou no meio evangélico, sendo ingênuo supor que tudo seja fruto apenas de preconceitos. Todas as sociedades, com variação de intensidade entre períodos históricos e diferentes enquadramentos culturais, tendem a uma postura crítica a respeito da questão. A caracterização da homofobia, contudo, deve ser reservada para a postura hostil e agressiva. Essa não é aquela encontrada na maioria das pessoas, com exceção de grupos ideológicos radicais, infinitamente minoritários. Robinson — Existe antropofobia em todas as épocas e lugares, desde Caim e Abel. Temos um potencial de agressividade contra o outro por várias razões. Setenta por cento das uniões entre homossexuais são marcadas por violências. Nem todas as violências cometidas contra homossexuais o são em virtude da sua opção sexual ou estilo de vida, mas porque ele é um ser humano que, como qualquer outro, se mete ou se expõe a situações de risco de violência. Hoje, a partir do movimento gay, já se pode falar em uma heterofobia, agressão contra aquelas pessoas que não consideram o homossexualismo algo normal. Ultimato — Se o projeto de lei que proíbe e pune a homofobia, em andamento no Congresso, for aprovado, quais serão as verdadeiras implicações no que diz respeito às igrejas? Uriel — As reivindicações por leis punitivas baseiam-se em supostos índices de crimes sofridos por homossexuais. Entretanto, quando se compara as taxas referentes à população em geral com as encontradas entre homossexuais, nota- se o contrário. A homossexualidade parece proteger as pessoas contra a violência, o que não é de se estranhar, pois a maioria dos homossexuais leva vida discreta e pacífica. A violência atinge aqueles que aparecem em situações de risco, como comentou um líder gay em recente episódio: “São homossexuais que estão mais envolvidos com a criminalidade, como prostituição e tráfico de drogas, ficando mais expostos à violência”. Na verdade, o que se pretende com a proposição constante de leis é consolidar um projeto de poder, desenvolvido em âmbito internacional, que encontra respaldo na cultura e na religiosidade reinantes em nossa época. Os cristãos têm o desafio de não responder no mesmo nível, e, sim, buscar o exemplo de Jesus Cristo. Robinson — A aprovação do projeto de lei “Anti-Homofobia” atesta uma tendência de legislar sobre tudo e sobre todos, fere a Constituição, restringe a liberdade religiosa e leva a igreja ou à acomodação cúmplice e ao silêncio culposo ou à desobediência civil e ao martírio. Leis como essa demonstram a alienação política e a irresponsabilidade cívica de grande parte da igreja, cuja omissão termina por lhe atingir. ultimato 310 final.indd 51ultimato 310 final.indd 51 5/12/2007 16:39:335/12/2007 16:39:33
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    Ricardo Barbosa deSousa GriszkaNiewiadomski ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200852 A adoração é a vocação primária e natural do cristão. A Confissão de Westminster afirma, no seu primeiro parágrafo, que o fim do homem é adorar a Deus e gozá-lo para sempre. Vale a pena citar estas palavras de William Temple: “Adoração é a submissão de todo o nosso ser a Deus. É tomar consciência de sua santidade; é o sustento da mente com sua verdade; é a purificação da imaginação por sua beleza; é a abertura do coração a seu amor; é a rendição da vontade a seus propósitos. E tudo isto se traduz em louvor, a mais íntima emoção, o melhor remédio para o egoísmo que é o pecado original.” A igreja moderna limitou o ato da adoração ao culto e vem reduzindo-o ao ato de cantar e, em alguns casos, dançar. Adorar, para muitos cristãos, significa cantar na igreja, de preferência com os olhos fechados e as mãos levantadas. Apenas isto. Porém, quando consideramos o ensino bíblico, as confissões históricas e esta brilhante definição de William Temple, reconhecemos que a adoração abrange muito mais do que aquilo a que o pragmatismo moderno a reduziu. Uma consideração importante para nossa compreensão da adoração é que Jesus Cristo é o único verdadeiro adorador, pois somente ele pôde oferecer a única oferta de adoração aceita por Deus, por ser absolutamente perfeita. Em sua vida de absoluta dependência e obediência, ele se ofereceu inteiramente ao Pai em sacrifício pelos nossos pecados. Ele se fez homem, tornou-se servo, foi obediente até a morte e morte de cruz. Pela perfeição da sua oferta, tornou-se sumo sacerdote para apresentar-nos a Deus e tornar a nossa oferta aceitável. Por meio de Cristo somos redimidos e reconciliados com Deus para uma vida de comunhão e adoração. Ele é o nosso mediador, que leva consigo nossas dores e pesares, bem como nossas alegrias e esperanças, nossas orações e súplicas e as apresenta como nosso intercessor diante do Pai. Aquilo que nós falhamos em fazer por causa do pecado, ele agora realiza por nós, em nosso lugar, tornando nossa oferta, em seu nome, agradável a Deus. Ele coloca-se em nosso lugar diante do Pai a fim de redimir nossa falência, e pelo seu Espírito nos ajuda em nossas fraquezas porque não sabemos orar como convém. A adoração de Cristo foi sua resposta amorosa e obediente ao Pai. Por meio de sua obra na cruz ele fez de nós sua igreja e seu povo, e nos chama para sermos um novo sacerdócio a fim de oferecermos sacrifícios espirituais em seu nome. A adoração de Cristo é a obra que ele realiza ao trazer a criação de volta aos propósitos do Criador. Portanto, qualquer que seja a nossa Adoração e missão ultimato 310 final.indd 52ultimato 310 final.indd 52 5/12/2007 16:47:055/12/2007 16:47:05
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    Ricardo Barbosa deSousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração. Por Carlinhos Veiga cveiga@terra.com.br Novos Aco r des É Proibido Pensar, João Alexandre Nesse novo trabalho João Alexandre repete uma antiga receita: violão e voz. Mas o que poderia ser mesmice e algo enfadonho se renova pela qualidade musical desse que é um dos mais dotados músicos cristãos da atualidade. João, inexplicavelmente, sempre se supera! Dessa vez lança mão de Quartetos de Cordas e da maravilhosa condução percussiva de Osmário Marinho, que dá um toque especialíssimo ao trabalho. O repertório é muito bom. Além das conhecidas “Paz e comunhão”, “Pai Nosso” e “Que segurança”, traz várias canções inéditas. “Anjos” (Stênius Marcius) e “Trabalho esperança” (João e Guilherme Kerr) são muito boas. No entanto, “Feirante” (Marcílio Menezes) e “É proibido pensar” são fantásticas! A distribuição é de Vencedores Por Cristo. Contatos pelo site <www.vpc.com.br> ou pelo tel. 11 5183-4755. Te Vejo, Poeta, Guilherme Kerr Guilherme considera a gravação desse trabalho meio tardia, embora suas canções sempre estivessem presentes ajudando a igreja brasileira em seu caminhar. Ter um trabalho todo seu é um grande presente para todos nós nesse início de ano. Como diz uma de suas letras, “chegou o tempo de Deus”! Com direção musical, produção e arranjos de Cezar Elbert, o CD é todo de canções de amor. O próprio Guilherme explica: “A relação com Deus é uma relação apaixonada”. Nele, canta músicas feitas para o casamento de seus filhos, canta a amizade e relembra suas canções prediletas, algumas de sua autoria e outras de companheiros de caminhada. A inédita “Se meu povo” abre o CD de maneira forte, como uma oração feita por ele em 11 de setembro de 2001. Para adquirir, acesse <www.vpc.com.br>. Flor do Cerrado, Carlinhos Veiga É difícil falar de si mesmo, além de parecer estranho... Mas vou me arriscar contando com a sua compreensão. Esse é o sexto CD que gravo. Ele se diferencia dos demais por ser um trabalho cuja temática vai além do meio evangélico. Esclareço: gravei esse CD com o apoio cultural do Fundo de Arte e Cultura do Governo do Distrito Federal. Por isso busquei algo que se caracterizasse como MPB regional. Na verdade acho que quase nada mudou... No Flor do Cerrado a viola caipira predomina. Muitas são as canções inéditas minhas e de autores respeitados como Gladir Cabral e os parceiros Gustavo Veiga e Carlos Brandão. Incluí alguns clássicos da música caipira, como “Poeira vermelha” e “Pagode em Brasília”, além de canções de Juraildes da Cruz e Marcus Moraes. Para quem gosta de música regional é uma boa pedida. Para adquirir entre em contato pelo e-mail <cveiga@terra.com.br>. Te Gu tar aju tra ne o ar O re d filh Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 53 adoração, ela deverá ser sempre um litúrgico amém à adoração de Cristo. Ao reduzirmos nossa compreensão da adoração ao que fazemos na igreja quando cantamos, limitamos nossa participação naquilo que Cristo fez e continua fazendo em sua obra redentora. Adorar, tendo diante de nós o Filho de Deus encarnado, nos leva a reconhecer que o ato da adoração envolve a nossa participação na mesma obra de Cristo. Adorar é viver em obediência a Cristo. É por isso que o apóstolo Paulo faz este veemente apelo: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” Para ele, adorar é a entrega de todo o nosso ser em oferta obediente a Deus por meio de Cristo. Ao reconhecermos que a única oferta que Deus aceita é a de seu Filho, a oferta que apresentamos a ele é a nossa participação na oferta de seu Filho quando, em obediência e amor, nos entregamos a ele e participamos de sua obra redentora. Na definição de William Temple não vemos uma única referência a cantar ou dançar, mas que adorar é submeter todo o ser a Deus, nos render ao seu propósito, purificar a imaginação pela sua beleza, abrir o coração ao seu amor, desejar a santidade do seu caráter. É isto que encontramos em Cristo, nosso verdadeiro adorador, e é isto que o mundo espera encontrar em nós. Somos uma igreja que canta e dança muito bem, mas adorar é mais do que isto, é expressar no caráter e nas ações a beleza do Criador, é encarnar a missão de Cristo e participar de sua obra redentora. Foi para isto que ele nos criou e para isto que ele nos redimiu. ultimato 310 final.indd 53ultimato 310 final.indd 53 5/12/2007 16:47:505/12/2007 16:47:50
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    Bráulia Ribeiro da linhade frente Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão. <braulia_ribeiro@yahoo.com> Os pontos de vista da autora são pessoais, e não da JOCUM. ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200854 O Brasil do Brasil N o passado Brasil era cachaceiro e violento. Sua aldeia era um caos. Brasil se enchia de pinga, espancava a mulher e os filhos, e vivia gastando o dinheiro do povo com as rameiras doentes das cidadezinhas próximas. As festas da chicha eram o pretexto para embriaguez geral dos homens, violência doméstica, brigas de faca e porrete na aldeia. Poucos trabalhavam nas roças. Há alguns anos os rios começaram a secar devido à construção de usinas hidrelétricas na região. Muitos protestaram contra as usinas, ambientalmente cruéis, mas, como acontece com freqüência no país de Brasil, o poder ganhou e os rios continuaram sendo sugados pelos interesses privados de poucos. Os peixes escassearam e os Tupari começaram a conhecer a fome. Então Brasil teve um encontro com Jesus e foi transformado. Uma das principais coisas que aconteceu com ele foi a ordem. De acordo com suas palavras ditas em Tupari, Jesus organizou seu caos interior, o caos de sua família, de sua aldeia. Por causa de Jesus e da ordem que ele traz Brasil conseguia agora ser um líder reconhecido por todos como íntegro e bom. Ele conseguia também olhar o futuro e projetar um progresso real na qualidade de vida de seu povo como nunca antes havia podido fazer. Ele queria resolver o problema das usinas e se tornou um dos principais articuladores políticos de seu povo. Ele queria evitar que no futuro a população ficasse desamparada e pensava em outras alternativas. Brasil era um estadista. Se eu quisesse compará-lo a alguma personalidade brasileira, diria que ele foi um D. Pedro II, até hoje um dos principais nomes da história do país. Como líder do povo Tupari, Brasil olhava para o futuro. Ao contrário do que pensam certos antropólogos, ele sabia que seu povo precisava da ponte com o mundo externo e seus jovens precisavam de treinamento profissional, por isto incentivava-os a estudar e a se preparar para servir suas aldeias. Ele entendeu o valor das mulheres na aldeia, principalmente de sua esposa, a quem tratava com carinho e respeito. Outras famílias mudaram por causa de Brasil e sua aldeia hoje é um exemplo para todo o povo. Ele era um líder modelo, porque pensava sempre no benefício geral da comunidade, e não no seu próprio. A morte de Brasil aos 45 anos ainda está sob investigação. A malária é um problema grave no Brasil. Mata ainda hoje milhares de crianças e adultos todo ano. Ele teve malária, depois hepatite, ou hepatite e então malária, não se sabe se diagnosticadas a tempo e mal curadas, ou nunca diagnosticadas e por isso fatais. No Brasil a saúde indígena “diferenciada” fica a critério de poucos, e os problemas são sempre omitidos. Ninguém quer “briga de cachorro grande”, ninguém quer “mexer em ninho de abelhas”. As usinas continuam comendo os peixes das crianças Tupari e as malárias continuam sendo tratadas como hepatite, até que matem muito mais gente, porque o Brasil de Brasil realmente não se importa. Nota A autora agradece pela entrevista feita com Brasil Tupari por Graciete Mota, e a Zita Arraya por informações sobre sua vida e morte. CesarFermino ultimato 310 final.indd 54ultimato 310 final.indd 54 5/12/2007 16:48:315/12/2007 16:48:31
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    Marisa de FreitasFerreira Coutinho deixem que elas mesmas falemBancodeimagensoliver ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200856 Quando se fala do propósito missionário de Deus para o ser humano, há concordância. Porém, ao se esmiuçar o tratamento dado à mulher e ao homem na missão, as discordâncias afloram. Há desde avaliações mais radicais (“mulher não tem vez”) até mais liberais (“a mulher é a única e verdadeira imagem e semelhança de Deus”). Entre estas, encontramos todo tipo de discussão, vinda de todo tipo de pessoa: de gente séria ou não tão séria, de crentes e de incrédulos, de capitalistas e de socialistas, de ricos e de pobres... Muitos livros e teses. Muitos discursos. Não há consenso, e duvido que um dia o haverá. Desde Adão e Eva que essa pendenga existe. Mas também desde que o mundo é mundo que Deus disse que Adam (humanidade) era mulher e homem (Gn 2.25-31). E que este Adam (Gn 2; Gn 5.2) tinha a missão de governar a terra (não de destruir...) e fazer dela uma habitação familiar (Gn 2.26-28). É nesta vertente que me descubro plena por ser mulher: sou criada por Deus à sua imagem e semelhança, sou salva por Cristo, consolada e capacitada pelo Espírito Santo (Jo 14, 16) e, portanto, missionária. Muitas das resistências ao fato de mulheres e homens serem diferentes, mas terem mesmo potencial e valores, devem- se ao pecado em suas mais diversas apresentações: disputa de poder, necessidade de afirmação, abuso do poder masculino, medo do semelhante etc. E muitos desses pecados vêm embrulhados no nome de Deus, na fé, na verdade, na moral. Mascara-se a fonte do desentendimento, que é a priorização dos desejos humanos em detrimento do poder restaurador e missionário do Pai. Recomendo dois livros muito esclarecedores sobre o tema: A Missão da Mulher, de Paul Tournier, e Vocação Pastoral em Debate, de Helmut Henders (org.). Paul Tournier, médico, estudioso da alma humana, conclui: “E a pessoa, o que é? É o homem tal como Deus o criou e quer que ele seja: o homem em sua totalidade e unidade, em sua globalidade — espírito, alma e corpo [...]. É também o homem não isolado, mas em relação com o outro, com a natureza e com Deus, porque é por meio da relação pessoal que ele se torna pessoa. Enfim, a pessoa é o homem e a mulher juntos, e não o homem sozinho. [...] Na linguagem de Jesus, a expressão ‘no princípio’ não exprime somente uma anterioridade temporal, mas ‘significa simbolicamente a vontade primeira de Deus’, sua vontade ‘fundadora’. Assim, a complementaridade indissolúvel entre o homem e a mulher constitui o fundamento da pessoa — ‘imagem de Deus’, que é ela mesma a pessoa por excelência — e a harmonia e a plenitude que a palavra pessoa evoca. [...] Logo, em lugar de uma história masculina, repleta somente de uma incessante corrida ao poder, ou de uma civilização masculina, que consagra a prioridade das coisas sobre as pessoas, é preciso haver uma construção conjunta da história e da civilização, da qual participem homem e mulher”.* Homem e mulher se reencontram, enquanto razão existencial, a partir de Deus e da vocação que nos faz. A convivência missionária quebra tabus e refaz relacionamentos. Esta é a vertente da libertação da mulher: Deus nos ama, nos chama, nos capacita e nos envia. Quando este chamado arde no coração a luz chega à mulher e ao homem. A missão é mais importante, o reino de Deus é que conta. Como ovelhas nos importa mais obedecer a ele que aos semelhantes (At 5.29). Finalmente, podemos insistir na supremacia do homem sobre a mulher, mas não devemos. Enquanto insistimos, a serpente ganha força, homem e mulher se degradam, o mundo jaz no maligno e o Espírito de Deus se contorce em intercessão pelo mundo. Façamos a nossa escolha. Nota * TOURNIER, Paul, A missão da mulher. Viçosa, MG: Ultimato, 2005. p. 198-199. Mulher plena, em missão! Marisa de Freitas Ferreira Coutinho, 47, casada, duas filhas, é médica, pastora e episcopisa da Igreja Metodista no Nordeste. ultimato 310 final.indd 56ultimato 310 final.indd 56 5/12/2007 16:51:475/12/2007 16:51:47
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO57 A partir desta edição, Ultimato traz ao leitor uma coluna específica sobre meio ambiente, com artigos, depoimentos e relatos de experiências. O objetivo é que sejamos desafiados a resgatar o cuidado com a criação dado por Deus em Gênesis 2.15 (“Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”) e a buscar o estilo de vida que Jesus nos ensinou. Inauguramos com uma série de sugestões práticas preparadas pela ONG A Rocha Brasil (www.arocha.org), que dizem respeito ao nosso dia-a-dia seja em casa, no trabalho, na rua, nas compras ou na igreja. Em casa • Economize água. Diminua o tempo do banho; feche a torneira enquanto escova os dentes; use regador em vez de mangueira; varra a calçada em vez de lavá-la. • Economize energia. Troque lâmpadas convencionais por lâmpadas eficientes; tire os eletrodomésticos (e o carregador de celular) da tomada quando não estiverem sendo usados; prefira aparelhos com o selo Procel, que consomem menos energia. • Separe o lixo. Mesmo que a sua cidade não tenha coleta seletiva, separe o lixo em casa e descubra para onde levar materiais recicláveis como vidro, plástico, metal e papel. Pilhas e baterias usadas não devem ser misturadas com o lixo comum. • Certifique-se da madeira. Na hora de comprar móveis de madeira, procure saber de onde vem a matéria-prima. Prefira móveis certificados (selo FSC) e provenientes de florestas de manejo sustentável. • Cultive plantas. Na calçada, no jardim, no quintal, na sacada, na sala do apartamento — plantas significam mais qualidade do ar e menos poluição. • Faça compostagem doméstica. Restos orgânicos, como folhas e cascas de frutas e legumes, podem virar adubo natural para o seu jardim. No trabalho • Imprima menos. Seja criterioso com os e-mails e só imprima o que for indispensável. • Reutilize papel. Faça blocos de nota com papéis usados e reutilize na impressora papéis impressos apenas de um lado. • Compartilhe material. Adote uma caixa comum de materiais como canetas, lápis, clipes etc. Isso evita que cada pessoa compre uma nova caneta cada vez que não encontrar a sua. • Seja seletivo no material. Papel reciclado, lápis de madeira certificada, canetas com componentes não-poluentes são opções de material de escritório produzidas com vistas a reduzir o impacto ambiental. • Fique atento ao verão. Nessa época do ano, vá trabalhar de roupas leves e incentive isso em seu local de trabalho. Assim, o ar-condicionado pode funcionar em potência mais baixa, economizando energia e esquentando menos o mundo lá fora. • Troque o copo descartável por uma caneca durável. Na rua • Caminhe e pedale. Além de fazer bem à saúde, você economiza e não polui. • Compartilhe caronas. Polui menos, e andar de carro sozinho é injusto quando se considera o impacto do seu “conforto” sobre o planeta. • Use transportes coletivos. Além de economizar combustível e estacionamento, você pressiona os governos a aperfeiçoarem essa alternativa. • Não jogue lixo no chão. • Deixe a terra à vista. Ao construir sua calçada, opte por materiais que permitam o escoamento da água. Na igreja • Dispense o copo descartável. Leve sua caneca durável para os cultos e eventos da igreja. • Use papel reciclado para imprimir o boletim da igreja. • Conscientize. Inclua a questão ambiental nos estudos bíblicos e sermões. Nas compras • Desembale. Evite o excesso de embalagens. O queijo fatiado não precisa de bandeja de isopor nem de filme plástico. E por que usar uma sacola de plástico para cada três produtos? Para pequenas compras, leve sua sacola de casa. • Use retornáveis. Não compre descartáveis. De copos e pratos a garrafas, dê preferência a itens cujo fabricante já prevê a reutilização. Volte a usar garrafas retornáveis de cerveja, por exemplo. • Prefira produtos locais. Além de mais frescos, os alimentos produzidos na sua região significam um modo de produção menos impactante e menos emissão de gases no processo de transporte. • Consuma menos. Antes de comprar qualquer coisa, pergunte-se se você realmente precisa daquilo. Evite comprar alimentos que estragam rápido. Isso significa menos idas ao supermercado e menos queima de combustível fóssil. Vida sustentável meio ambiente e fé cristã sanjagjenero ultimato 310 final.indd 57ultimato 310 final.indd 57 6/12/2007 15:49:216/12/2007 15:49:21
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    Mark Carpenter Parei deouvir “música cristã” Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP. LuizFernandoPilz ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200858 H á dois anos escrevi neste espaço que lamento o estado da música cristã. Percebi agora que simplesmente parei de ouvi-la. Acabo de verificar o que tenho armazenado no WMP. Não há nada de “música cristã”, a não ser as gravações de cinco artistas que mal cabem no gênero: John Coltrane, Sufjan Stevens, U2, Leigh Nash e a extinta Sixpence None the Richer. Parei de comprar CD’s do gênero após acumular uma longa lista de decepções. Cabe aqui uma definição. Por “música cristã”, me refiro à categoria criada pelas gravadoras que produzem música popular para consumo pelo público “gospel”. “Música cristã” não é bem um gênero musical, pois o que existe é um mix retalhado de músicas que emprestam de gêneros legítimos. Não incluo na minha definição a música usada na igreja para o louvor coletivo. Música de canto congregacional independe de padrões musicais usados na avaliação de desempenho performático e na análise crítica da letra como poesia. O gênero conhecido como worship music tem como foco direcionar a atenção para as virtudes e as promessas de Deus, de forma que a qualidade de música em si passa a ser menos importante que seu aspecto pragmático no culto de adoração. Neste gênero específico, os critérios de avaliação resumem-se à (1) ortodoxia teológica da letra, (2) capacidade de envolver a participação da congregação e (3) qualidade técnica da execução pelo ministro de louvor, pelos instrumentistas e pelo backing vocal. Ou seja, worship music tem muito mais a ver com worship do que com music. Não minimizo a importância deste gênero, pois a própria Bíblia valoriza o louvor coletivo. Meu lamento, então, reflete apenas a paupérie artística de muita música produzida para consumo cristão fora da igreja. É como se a indústria cristã tivesse determinado que o que vale é o conteúdo da letra: desde que ela contenha certos chavões, frases ou narrativas evangelísticas — além de um estilo bacana apreciado pelo mercado alvo —, é desnecessária a busca da verdadeira expressão artística. Basta o “suficiente”. Acaba tendo mais em comum com propaganda que com arte. Para fazer um jingle, não precisa chamar Caetano. Qualquer Emmerson Nogueira serve. Percebo que há muita gente talentosa nas bandas das igrejas, pessoas realmente apaixonadas pela música e dispostas a sacrificarem para melhorar. Mas muitos são vencidos pela baixa expectativa da maioria, pelo padrão acomodativo e pelo ambiente em que o verdadeiramente excelente é visto com desconfiança. O desafio para aqueles músicos que realmente desejam a arte é aprenderem a fazer benchmarking pessoal com os melhores, e colocarem o seu talento a serviço do reino de Deus, e não apenas a serviço das gravadoras evangélicas. Isto não significa que já não existam cristãos fazendo boa música. Mas, por ironia, geralmente os músicos que levam a sério tanto seu cristianismo quanto a qualidade musical são aqueles que rejeitam o rótulo “música cristã” para assim distanciarem-se da média medíocre. São esses que revitalizam na música o espírito criativo, que reflete a beleza e a verdade de Deus. Parei de ouvir “música cristã” e comecei a buscar mais a boa música, inclusive aquela composta e executada por cristãos. ultimato 310 final.indd 58ultimato 310 final.indd 58 5/12/2007 16:53:285/12/2007 16:53:28
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    Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO59 Marcos Bontempo mbontempo@ultimato.com.br vamos ler! Para ler a Bíblia bem acompanhado N ão. Não se trata de mais uma versão da Bíblia. A Bíblia Toda, o Ano Todo, do conhecido teólogo e escritor inglês John Stott, é uma espécie de navegador, de co-piloto, responsável pela “navegação”, pelas trilhas em um rally. O rally é a modalidade automobilística mais antiga do mundo, disputada em duplas, por estradas boas ou inexistentes. Ao piloto, claro, cabe a condução do veículo. O navegador aponta o melhor caminho, antecipa as encruzilhadas e surpresas do mapa, traça o roteiro. Ler a Bíblia não é um rally. No entanto, o mesmo Stott, em seu clássico Cristianismo Básico, aponta algumas sugestões para a empreitada: “Elaborar um plano de leitura sistemático das Escrituras é uma decisão sábia. [...] Isso exigirá uma boa dose de autodisciplina, um despertador e uma Bíblia legível”. Na mosca. Para alguns, ler a Bíblia é um prazer, alimento diário, consolo, orientação. Para outros, ler a Bíblia toda é um desafio. Às vezes, uma obrigação ou daquelas tarefas que todos os anos agendamos e não cumprimos. As palavras de Billy Graham sobre o ministério e a obra de John Stott caem-lhe como uma luva: “Não conheço ninguém que tenha sido mais bem-sucedido em apresentar a visão bíblica para tantas pessoas do que John Stott”. A cada leitura diária, ao longo dos 365 dias do ano e por toda a narrativa bíblica, o autor celebra a atuação de Deus na história do seu povo — desde a criação, no livro de Gênesis, até a consumação, em Apocalipse 22. O conhecido estilo pastoral do autor e a leitura fácil da obra brincam de esconde-esconde com a dureza e a profundidade dos textos bíblicos. Uma pequena amostra está em um dos textos mais conhecidos e repetidos das Escrituras. No primeiro dia da primeira semana, lemos o primeiro versículo do primeiro capítulo da Bíblia: “No princípio Deus”. Para Stott, no entanto, as três primeiras palavras revelam mais do que normalmente enxergamos, e a meditação diária torna-se um consolo no presente e uma fonte segura para o que virá: “As primeiras três palavras da Bíblia revelam que nunca podemos nos antecipar a Deus ou surpreendê-lo, pois ele está sempre lá, ‘no princípio’. A iniciativa de toda ação é sempre de Deus.” Ao comentar o livro de Eclesiastes, seu tom pessimista, as oscilações de humor e a futilidade da vida, o autor mostra mais uma vez suas credenciais ao lidar com as Escrituras: “Somente Deus pode suprir o que está faltando. Deus adiciona eternidade ao tempo, e transcendência ao espaço. É por isso que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”, pois a sabedoria começa com um humilde reconhecimento da realidade de Deus.” A Bíblia Toda, o Ano Todo faz teologia quando é devocional e sugere meditação ao lembrar os fundamentos da fé cristã. Escrevendo sobre a primeira carta aos Coríntios e como falar das boas novas do evangelho, John Stott é também didático: “Uma boa maneira de comunicar a mensagem dos apóstolos é dividindo-a em quatro partes — dois eventos (morte e ressurreição de Cristo), comprovados por duas testemunhas (profetas e apóstolos), com base nos quais Deus faz duas promessas (perdão e o dom do Espírito) sob duas condições (arrependimento e fé, através do batismo). Há um sentido de harmonia e completude em torno do evangelho bíblico”. O lançamento da Editora Ultimato não substitui a Bíblia. E esta, talvez, seja a sua maior qualidade. A Bíblia Toda, O Ano Todo 432 páginas Ed. Ultimato (www.ultimato.com.br) ultimato 310 final.indd 59ultimato 310 final.indd 59 5/12/2007 16:53:395/12/2007 16:53:39
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    Para ler maistextos da “Prateleira”, acesse www.ultimato.com.br Marcos Bontempo mbontempo@ultimato.com.br prateleira andybahn ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200860 A ciência e os novos prosélitos Embora paradoxal, o ateísmo é o novo mantra a ser seguido. A recente cruzada editorial — livros como Deus, Um Delírio (Cia das Letras), de Richard Dawkins, e Deus não é Grande (Ediouro), de Christopher Hitchens —, a discriminação de estudantes cristãos em universidades no Reino Unido, ou a proibição do uso de qualquer símbolo religioso por alunos de escolas públicas na França não deixam dúvida: os cientistas se ungiram como responsáveis por tudo o que é certo e razoável, e se tornaram não apenas arrogantes, mas também o que se pode chamar de novos fundamentalistas. A ciência tem a última palavra, não é novidade. Quem nunca começou uma dieta na segunda-feira porque no domingo foi informado da nova descoberta da “ciência”, que atire a primeira pedra. Folgo em saber, no entanto, que os cientistas também se dividem em seitas. Uma amostra é o texto de Marcelo Gleiser, também cientista e ateu, sobre Dawkins: “Para ele [Dawkins], a ciência é um clube fechado, onde só entram aqueles que seguem os preceitos do seu ateísmo, tão radical e intolerante quanto qualquer extremismo religioso”. Em tempo: a ciência não pode fazer declarações. Dallas Willard, em seu prefácio ao Ciência, Intolerância e Fé (Editora Ultimato), é contundente: “Somente os cientistas dizem as coisas. E estes podem ser surpreendentemente nada científicos e cometem erros”. E, com o perdão da ironia, a cada delusion — a cada gema de ovo a mais ou cafeína a menos recomendadas na última estação —, a “ciência” pede desculpas. Aliás, “sinto muito” foram as palavras do físico britânico Stephen W. Hawking, na 17ª Conferência sobre Relatividade Geral e Gravitação em Dublin, ao negar as próprias teorias, 30 anos depois, sobre os buracos negros. Como cristãos, sabemos que nos enganamos. Inauguramos o auto-engano com Adão e Eva, para o arrepio dos cientistas. O bispo, a igreja e a prosperidade Há exatos quatorze anos, a revista Ultimato estampava na capa uma nota de cem dólares. Em preto e branco e sem o auxílio de um Photoshop. A matéria de capa trazia o acertado título de “Quase tudo sobre a teologia da prosperidade” — o acerto está no “quase”, porque o que era ruim vai ficando pior. Não é novidade que seções de descarrego, novenas, vale de sal, manto sagrado, entre outras ginásticas litúrgicas, são transmitidas ao vivo diuturnamente pela televisão. Mas a onipresente Igreja Universal do Reino de Deus não está sozinha nem é a primeira a recorrer a tal expediente. Naquela edição de 1994, Ultimato perguntava: “Super-crentes ou Super- incrédulos — qual grupo cresce mais?”. A pergunta continua sem resposta. Para descansar é preciso ter fé Frases como “o trabalho é chato”, “a escola é uma droga” ou “a Bíblia diz que o trabalho é uma maldição” são repetidas a cada fim de ano. A proximidade das férias evidencia a negação do trabalho e parece conspirar contra os dias “úteis” da semana. O que nos resta de alegria ou prazer, separamos para os dias “inúteis”. Vivemos uma contagem regressiva entre um domingo e outro, e não sabemos o que fazer nos outros seis dias. A leitura apressada de Gênesis 3.14-19 contribui para o equívoco. Ali, o trabalho não é amaldiçoado, ao contrário do que muitos pensam. O que aparece no texto é um elemento novo: a dor, o suor, a dificuldade. O trabalho continua. Aliás, a Bíblia começa e termina com Deus trabalhando. Para descansar é preciso ter fé. Acreditar que, mesmo não se fazendo nada, algo (ou tudo) vai acontecer (Sl 127). Mas nos levamos muito a sério. E, como diria Paul Stevens, “não podemos nos dar ao luxo de dormir se estamos administrando o mundo”. Ao contrário, se confiamos em Deus, o salmista tem a receita: “Eu me deito e durmo, e torno a acordar, porque é o Senhor que me sustém. Não me assustam os milhares que me cercam” (Sl 3.5). ultimato 310 final.indd 60ultimato 310 final.indd 60 5/12/2007 18:41:145/12/2007 18:41:14
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    É ação, ésocial e é missão! Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 61 A Primeira Igreja Batista em Bultrins, conhecida como “Igreja sem portas e janelas”, deveria ser chamada “Igreja com portas e janelas vazadas”. O templo tem cerca de 13 metros de largura por 21 de comprimento, pé direito alto, chão de cimento e 22 enormes vãos abertos onde seriam colocadas janelas. Bultrins tem toda sorte de problemas — e oportunidades — comuns às comunidades pobres. Em toda a Vila Esperança, no raio próximo da IBB, com aproximadamente 300 famílias, há apenas uma pessoa com curso superior completo. Gravidez aos 12 ou 13 anos é rotina na vida das meninas. Há violência, drogas, álcool, condições precárias de trabalho, falta de infra-estrutura e serviços básicos. O evangelho pode mudar esta realidade? Hospedei-me na casa de Luciano e Luciene, irmãos cujas vidas exemplificam o que o evangelho pode fazer quando entendido de forma integral. Casada com Amaro, mãe de Pedro Henrique (um mês de vida), Luciene converteu-se há sete anos. Cursa o último ano de biologia em uma faculdade particular e trabalha em um consultório odontológico. Foi a igreja que despertou o seu sonho de estudar e a encorajou e ajudou financeiramente quando foi necessário. Luciano, 24 anos, com emprego fixo há apenas dois anos, quer estudar história. Quando adolescente, cuidou do pai doente por alguns anos. Foram o encontro e a reconciliação com Jesus, há cinco anos, e a convivência com a igreja que o ajudaram a sair da depressão. Foi ele quem me mostrou as vielas e os becos do “monte” da Vila Esperança. Luciano conhece bem os problemas de sua comunidade e tem o objetivo de servi-la. Contando com os dois irmãos e Amaro (que faz administração), ao todo são oito universitários na Vila Esperança, cinco deles aprovados no vestibular este ano após preparo no cursinho mantido pela igreja. A IBB possui um colegiado de oito pastores, a maioria auto-sustentada por sua própria renda. Em certos aspectos é igual às outras: escola bíblica dominical, culto à noite, recolhimento de ofertas, batismo (no mar). Em outros, difere da maioria das igrejas evangélicas, principalmente por sua forte inserção na comunidade, o que não é apenas uma questão de portas e janelas vazadas: mantém uma rádio comunitária, sustenta uma escola para crianças em idade pré-escolar com noventa alunos, organiza o cursinho pré-vestibular e faz da igreja um espaço efetivo de participação da comunidade. A família de Luciano foi uma das dezessete que receberam como hóspedes em suas casas os participantes do VI Fórum Popular de Reflexão Teológica, realizado de 15 a 17 de novembro de 2007, com o tema “Igreja, Comunidade e Trabalho”. Foram mais de trezentos participantes vindos da comunidade local, de Recife e Olinda e de outros estados do Nordeste. As refeições eram preparadas por senhoras da igreja e servidas em uma escola. A rua em frente à igreja foi fechada para dar espaço às barracas de comida, roupas e brincadeiras para crianças. Na abertura do fórum, um grupo de meninas apresentou uma bonita coreografia da música “Cio da Terra”, de Milton Nascimento. A programação foi marcada por apresentações da cultura popular: grupos de frevo, hip- hop, forró, música africana, roda de ciranda, cantadores, declamadores, repentistas, música de raízes. Ouvimos sobre trabalho escravo, trabalho infantil, discriminação racial e gênero no mercado de trabalho e desigualdade. Na sacola dos participantes havia um folder da prefeitura alertando sobre o perigo de mulheres serem aliciadas por estrangeiros: há muitos casos de exploração sexual e tráfico de órgãos em Recife. A cidade está entre as duas mais violentas do Brasil e tem o pior nível de renda para mulheres negras. Dona Graça e dona Djanira, vendedoras ambulantes de quitutes, testemunharam como têm sustentado suas famílias com este trabalho e como Deus as tem sustentado em sua luta diária. Todas as edições do fórum têm sido marcadas pelo esforço em refletir sobre a missão cristã a partir das duas instâncias da vivência do povo de Deus: a igreja e a comunidade. Nada melhor que, enquanto refletimos, vivermos a experiência em “laboratório”, e, ao retornar às nossas casas, voltarmos à pergunta: o que o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo pode fazer para mudar a realidade dos pobres em nosso país? 45 anos de Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro O fórum rememorou os 45 anos da Conferência do Nordeste, a quarta e última conferência promovida pela Confederação Evangélica Brasileira (CEB), em 1962. Fomos lembrados de que a conferência reuniu 167 delegados, dezesseis denominações evangélicas e dezessete estados no Colégio Agnes e no Colégio Batista Americano, em Recife, para um encontro de oito dias entre teologia e realidade social, de evangélicos e intelectuais. A abertura foi feita pelo bispo Almir dos Santos, que pregou sobre o Manifesto de Nazaré, com base em Lucas 4.16-20. Celso Furtado, Paul Singer, Juarez Brandão Lopes e Gilberto Freire eram alguns dos intelectuais presentes. Foi nessa ocasião que Gilberto Freire, comentando a pequena influência do protestantismo na cultura, declarou: “Os protestantes são bons de gramática e ruins de literatura”. Leia mais em www.ultimato.com.br • Conteúdo das apresentações feitas na mesa-redonda sobre a Conferência do Nordeste. Portas e janelas vazadas Klênia Fassoni ultimato 310 final.indd 61ultimato 310 final.indd 61 5/12/2007 18:41:215/12/2007 18:41:21
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    H Osmar Ludovico daSilva ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200862 auditório e já não cultiva a boa música com cordas, sopros, bons arranjos, corais, quartetos. E perde muito mais quando a adoração se torna um evento estimulado sensorialmente e não uma melodia que emerge de um coração quebrantado e temente a Deus. Adoração é sempre uma resposta humilde, alegre, reverente àquilo que Deus é e faz. Adoramos porque algo aconteceu, algo nos foi revelado, e não o contrário, como pensam alguns, que recebemos a revelação e as coisas acontecem porque adoramos. A igreja perde quando não há reverência ou temor. O que resta é euforia, excitação e sensações prazerosas. O que é bom em si mesmo, mas não é necessariamente adoração. É um equívoco pensar que Deus se impressiona com nossos cultos de domingo. Antes, ele acolhe muito mais nossos gestos simples do cotidiano, fruto de um coração humilde e quebrantado, que busca se desprender de ambições e serve ao próximo com alegria. Adoração não é um evento domingueiro bem produzido, mas um estilo de vida que glorifica ao Senhor. Durante séculos a arquitetura das igrejas e das catedrais destinou o balcão posterior ao coro, ao órgão e à orquestra. Na igreja da Reforma os músicos e o coro se posicionavam na parte da frente da nave, mas sempre ao lado. Mesmo o púlpito não estava no centro, mas ao lado. No centro havia, quando muito, alguns símbolos da fé, que ajudam a despertar a consciência para a experiência do sagrado, com destaque para a mesa do Senhor. A EspecialEspecial H Osmar Ludovico da Silva d l b Especial Há dois tipos de música, a boa e a ruim — seja ela erudita, MPB, sertaneja, reggae, rap, rock ou gospel. O que me surpreende é a capacidade de o mercado absorver a música ruim. Com a proliferação de compositores, intérpretes, bandas e gravadoras, o cenário evangélico não poderia ser diferente. Tem música boa, mas também tem muita música ruim. Passamos séculos louvando a Deus com hinos históricos da Reforma. Bastava um hinário, e tínhamos músicas com letras densas, boa teologia e linha melódica harmoniosa. Nos últimos anos surgiu o que chamamos de louvorzão. Jogamos fora os hinários, a liturgia, aposentamos o piano e o coral e introduzimos a guitarra, a bateria, o data-show, as coreografias e a aeróbica. Surgiu também a figura do dirigente de louvor, responsável por animar a congregação. Daí para a frente há muito barulho, muitas palmas, muitas mãos levantadas, muitos abraços, muitas caretas e cenho franzido. Mas a pergunta que fica é: temos adoração? O lado positivo do louvorzão é o interesse e a integração na igreja de milhares de jovens. Trata-se de uma oportunidade única para ensinar estes jovens, através do exemplo e da Palavra, o caminho do discipulado de Cristo. Mas fica a pergunta: estarão estes jovens crescendo na santidade e no serviço? Alguns cultos se tornaram verdadeiras produções dignas da Broadway. Músicos profissionais, cenários, bailarinos e iluminação. Mas fica uma pergunta: toda esta parafernália cênica tem levado o povo de Deus a uma genuína adoração? A história da Igreja é rica em manifestações artísticas. Ao longo do tempo o louvor foi expresso através de várias expressões musicais. O canto gregoriano, o barroco, os hinos da Reforma, o negro espiritual e os cânticos contemporâneos deixaram sua contribuição à boa música ao longo destes últimos séculos. Trata-se, portanto, de um equívoco jogar fora toda a herança histórica e achar que esta geração descobriu a forma certa de louvar. Se olharmos do ponto de vista musical veremos que a história nos legou uma herança preciosa. Na cultura gospel do louvorzão tem muita música ruim, muita letra questionável e muito dirigente de louvor que mais parece um animador de auditório. A igreja pode ser a ponte entre as gerações, entre o antigo e o novo e integrar na adoração tudo o que há de bom na sua herança histórica. Tem muita gente cansada do louvorzão barulhento de letras rasas, de bandas que tocam no último volume, de coreografias esvoaçantes e de ordens do dirigente para abraçar o irmão da frente, de trás e do lado dizendo que o amamos. É constrangedor abraçar alguém e dizer que o amamos quando nem sequer o conhecemos. A igreja perde quando a ênfase do louvor se desloca da congregação para o palco. Com raras exceções a música é ruim, a letra não tem nada a ver com a realidade do cotidiano ou a teologia reformada e a performance no palco é apelativa. A igreja perde quando se torna parecida com um programa de Adoração na igreja evangélica contemporânea ultimato 310 final.indd 62ultimato 310 final.indd 62 5/12/2007 16:54:165/12/2007 16:54:16
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    E Osmar Ludovico daSilva é pastor da Igreja Evangélica Comunidade de Cristo em Cabedelo, PB. Ministra cursos de espiritualidade cristã, formação de líderes e restauração para missionários. Janeiro-Fevereiro, 2008 ULTIMATO 63 congregação ficava em face ao altar de Deus, sem que nada se interpusesse entre a Santa Presença e a congregação. Este lugar só pode ser ocupado por Jesus Cristo. Ele é o único mediador, ele é o único que pode dirigir o louvor. Hoje o que se vê é o apóstolo, o bispo, o pastor, o dirigente de louvor e a banda ocupando este lugar, nos levando de volta à Antiga Aliança, quando sacerdotes e levitas eram mediadores entre Deus e os homens. A conseqüência é uma geração de crentes que dependem de homens, coreografias e data-shows para adorar e para ouvir a voz de Deus. O verdadeiro pastoreio consiste em ajudar homens e mulheres a dependerem do Espírito Santo para seguirem a Cristo, que os leva ao seio do Pai. Ajudar homens e mulheres a crescerem e amadurecerem na fé, na esperança e no amor, integrando adoração, oração e leitura das Escrituras no seu cotidiano. A contextualização se tornou uma armadilha na qual a igreja caiu. Na tentativa de se identificar com o mundo ela ficou cada vez mais parecida com ele. A cultura gospel é autocentrada, materialista, acha-se dona da verdade, tornou-se uma religião que nos faz prosperar, que não nos pede para renunciar a nada e que resolve todos os nossos problemas. Há um abismo colossal entre a cultura gospel e o evangelho de Jesus Cristo, que nos chama a amar sacrificalmente o nosso próximo, a cultivar um estilo de vida simples, a integrar o sofrimento na experiência existencial e a ter a humildade de ser um eterno aprendiz. Estas reflexões já estavam fervilhando no meu coração há algum tempo. Pensei que estas coisas só aconteciam em certas igrejas, mas o que me motivou mesmo a colocá-las no papel foi ter participado de um culto numa Igreja Batista da Convenção. “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32). Em todos os meus pastorados o Senhor me permitiu ver crescimento numérico da igreja. Mas nunca foi essa a minha ênfase. Semear sim, quanto mais melhor, mas sem forçar resultados. Quando seminarista em Campinas, o então responsável pela publicação da Revista Teológica do Seminário Presbiteriano do Sul me pediu que escrevesse um artigo. Escrevi-o com o título acima: “A Mística do Número”. O realismo do artigo desagradou o solicitante, de modo que o artigo nunca foi publicado. Anos mais tarde, durante uma semana teológica no mesmo seminário, solicitaram-me dirigir uma devocional, e falei sobre Lucas 12.32. O realismo bíblico da mensagem desagradou a uns dois professores, que não esconderam isso em comentários que fizeram. Pouco antes de ir para o Chile como obreiro da Junta de Missões Estrangeiras, da Igreja Presbiteriana do Brasil, li um livro sobre o presbiterianismo chileno. Vi referência à Igreja de Constitución. Estranhei: já sabia quais eram as então 27 igrejas presbiterianas daquele país, e não tinha visto o nome Constitución. Continuei lendo e fiquei sabendo que o crescimento da referida igreja tinha sido estrondoso. Poucas páginas depois li que o presbitério dissolvera a Igreja Presbiteriana de Constitución. — Crescimento falso, sem a devida estrutura, sem o devido conteúdo doutrinário substancial, sem a devida seriedade ético-moral. Uma multidão de discípulos de Jesus Cristo o abandonou quando compreendeu a profundidade da obra que Ele se propusera a realizar na terra (Jo 6.66). E em certa ocasião Jesus disse: “Ai de vós, quando todos vos louvarem! (Lc 6.26). Alegrou-me, pois, ver na revista Ultimato protestos de Billy Graham e Dom Eugênio Sales contra o inchaço das igrejas (jul./ago. 2007, p. 14). Isso me traz à memória alguns fatos impressionantes, que relato a seguir. Há muito tempo li em Seleções de Reader’s Digest a transcrição de uma entrevista feita com Billy Graham. À pergunta sobre o que o famoso pregador achava do enorme número de decisões tomadas pelos ouvintes em suas grandes campanhas nos estádios, Billy Graham respondeu: “Os efeitos de um banho duram pouco, mas o banho faz bem”. Não sei se alguém encontraria expressão mais realista! Em outro número da mesma revista, li que fizeram a ele a seguinte pergunta: “Se o Odayr Olivetti A mística do número ultimato 310 final.indd 63ultimato 310 final.indd 63 5/12/2007 16:55:045/12/2007 16:55:04
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    ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200864 StefanHellwig sr.pudesse retornar aos seus primeiros tempos de ministério, que faria?” Eis a resposta de Billy Graham: “Eu procuraria reunir cinco ou seis pessoas realmente dispostas a consagrar- se à causa do evangelho e que se reunissem comigo para oração e para o testemunho”. Em um trabalho sobre secularização no curso de pós-graduação em ciências sociais que fiz na Escola de Economia e Política de São Paulo, na década de 70, vi que um fruto positivo da secularização é que, com a libertação do jugo da religião sob cabresto, ficaria mais fácil distinguir os cristãos dos não-cristãos. Até certa época, quem repudiava a igreja dominante era mal visto na sociedade e corria o risco de ser posto à margem, senão em lugar pior. Isso às vezes acontece hoje, mas em casos isolados. A secularização deu oportunidade para que os falsos cristãos batessem as asas. Só que muitos falsos cristãos não bateram as asas, assumiram formas enganadoras de “cristianismo” e contribuem para o inchaço numérico da igreja. Há não muitos dias um sacerdote católico romano disse pela televisão que se a metade dos membros da sua igreja a deixasse, não faria falta alguma. — Muito bom, mas não o suficiente. No fim da década de 50, em Porto Alegre, eu costumava ler assiduamente um pensador católico romano sério, muito respeitado, Gustavo Corção Braga (cheguei a ver seu nome citado numa obra de Berkouwer sobre a pessoa de Cristo). O excelente jornal gaúcho Correio do Povo publicava regularmente extensos artigos de Gustavo Corção. Pouco depois da reunião da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros realizada em São Luís do Maranhão, que proclamou que cerca de 95% dos brasileiros eram católicos romanos, Corção publicou em artigo sérias críticas ao catolicismo brasileiro e por fim emitiu a sua opinião sobre a porcentagem de brasileiros católicos romanos: Apenas cerca de 10%! E naquela época! Temos que ter pena das multidões, porque, como no tempo de Jesus, andam como ovelhas sem pastor de verdade. Poucos são os obreiros fiéis, difícil para o povo discernir entre o falso e o verdadeiro, e Satanás se aproveita dos vivaldinos que se apresentam como pastores quando na verdade são mercenários. Temos que acabar com a mania de valorizar seja lá que for pelo número. É certo que nas visões que o apóstolo João teve do céu, viu ele miríades de redimidos (Ap 7.9-10). O total dos salvos será imenso. Mas em cada época, em cada geração e em cada lugar, sempre será um número irrisório em contraste com as multidões que correm atrás de tudo, menos do glorioso ideal de, pela graça de Deus em Cristo, ter A Vida de Deus na Alma do Homem, como diz o título de um livro de Henry Scougal, que tive o privilégio de traduzir para Publicações Evangélicas Selecionadas (PES). Lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus Cristo: “Entrai pela porta estreita [...]. Muitos, naquele dia, hão de dizer- me: Senhor, Senhor! Porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.13, 22,23). “Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; [...] e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos, à esquerda; então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.31, 33-34). arquivopessoal Odayr Olivetti Odayr Olivetti, escritor e tradutor, foi missionário no Chile e professor de teologia sistemática no Seminário Presbiteriano de Campinas. ultimato 310 final.indd 64ultimato 310 final.indd 64 5/12/2007 16:55:135/12/2007 16:55:13
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    bas ULTIMATO Janeiro-Fevereiro, 200865 RubemAmorese Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna. <ruben@amorese.com.br> Obrigado por me ouvir E m 2008, vou romper com a síndrome do divã. Vou me aconselhar como quem deseja ouvir e crescer. Na novela Eterna Magia, da Globo, toda construída sobre mentiras e segredos, chamou- me a atenção uma cena em que, após longa conversa com um padre, a pessoa termina dizendo: “Obrigado por me ouvir; eu estava precisando botar para fora”. Notei que, tanto nesse caso quanto nos demais, o padrenunca era atendido ou considerado em seus conselhos. Era apenas um ouvinte disponível, paciente e que fazia boas perguntas. Era assim que ajudava as pessoas. Mas ficou claro, no enredo, que, se o tivessem ouvido, o rumo daquelas vidas teria sido diferente. Para melhor. E a novela teria terminado precocemente, claro. Passei a prestar mais atenção às minhas conversas, seja como conselheiro, seja como consulente. E constatei que sofremos todos desse subproduto indesejado da cultura psicanalítica em que vivemos. Nada contra os psicanalistas, claro. O problema atinge também a quem nunca se deitou num divã. Meu olhar é sobre o aconselhamento cristão. Parece que temos carência de falar. Dizer já não é tão importante. Ouvir, muito menos. Obedecer, bem... de que baú tiraram esse verbo? Nesse sentido, embora algo de consolador e terapêutico permaneça nesses monólogos disfarçados de aconselhamento, percebo que muitos elementos cristãos estão desaparecendo. Por exemplo, a autoridade. Nessas conversas, não se busca, de fato, a sabedoria ou a experiência do conselheiro. Claro que desejamos um interlocutor preparado. Mas o que queremos é uma vaga em sua agenda. Em especial, em seus ouvidos. Quanto mais tempo, melhor. Desaparece, também, a submissão. Submeter-se a um amigo, um irmão? Que também tem seus problemas? Ouvi dizer que é melhor procurar alguém que não nos conheça bem — traz menos problemas. Desaparecem a autoridade e o poder coercitivo das Escrituras. Liquefazem-se princípios, verdades, certezas, tradições e outros fatores de segurança que o texto bíblico traz. Abrir a Bíblia, em um aconselhamento, hoje em dia, já não é tão fácil. Além de interromper o fluxo do raciocínio daquele que está ali para falar, pode trazer constrangimento. Falta disposição para ouvir conselhos. Ou para versos bíblicos, com aplicações “discutíveis”. Se insistir, o conselheiro perde muitos pontos. Sim, pastores, mentores e conselheiros têm sido reduzidos a ouvintes privilegiados. E serão tão menos procurados quanto menos disponíveis estiverem para uma audição “gentil”. Este ano, desejo mudar. Falarei menos e aprenderei mais. Ouvirei conselhos e procurarei acatá-los. Investirei em docilidade. Até no caso de meu conselheiro me reprovar ou me apontar caminhos difíceis. Serei submisso; serei grato; buscarei a obediência inteligente. Aceitarei autoridade sobre mim e a honrarei; orarei por ela. Serei, novamente, “admoestável”. Quem sabe, a partir desse exercício, em oração, a Bíblia, que há tanto tempo tem me falado palavras bonitas, volte a me dizer o que preciso ouvir. E, ouvindo o que preciso ouvir (e não apenas o que eu mesmo falo), eu me cure desta insidiosa anorexia espiritual. Amém. ultimato 310 final.indd 65ultimato 310 final.indd 65 5/12/2007 16:55:235/12/2007 16:55:23
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