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H
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 3
abertura
O fim da história terá
chegado quando todos os
impérios caírem e toda
a arrogância humana
der lugar ao reino dos
céus em sua plenitude,
totalidade e visibilidade
História é uma ciência complicada. Já se disse que “todo
mundo sabe o que é história antes de começar a pensar nela,
e, depois que se pensa, ninguém sabe mais”. A história não
merece confiança absoluta, pois aqueles que a escrevem não
conseguem se livrar de seus preconceitos e de seus pontos
de vista pessoais. Dificilmente um historiador consegue
ultrapassar seu compromisso consciente ou inconsciente
com a cultura no meio da qual nasce e vive. Usa-se a história
também para defender e propagar um modelo político
particular ou uma religião que se professa.
Desde a queda do muro de Berlim (1989), tem-se falado
no fim da história. Todavia é muita
presunção acreditar que o fracasso
de uma ideologia ou de um império
signifique o fim da história. O máximo
que se pode afirmar é que um grande
acontecimento, como a queda do
império romano, a queda do império
bizantino, a “descoberta” da América,
a Revolução Francesa ou a queda do
comunismo, marque o fim de um
período histórico e não da história.
Se a história nada mais é que o registro
do passado do ser humano, então é
possível coincidir o fim da história
com o fim do personagem histórico. Uma guerra global sem
sobreviventes de espécie alguma ou a destruição completa do
meio ambiente podem provocar o fim da história.
Alguns entendem que a história é “o desdobramento
gradual de um plano divino, com as pessoas representando
papéis predeterminados”. Trata-se de uma perspectiva
religiosa. Nesse caso, diz-se acertadamente que Deus é o
Senhor da história.
Jesus estaria pensando no fim da história quando anunciou:
“A boa nova do reino será proclamada a todas as nações,
e então chegará o fim” (Mt 24.14, BP)? Paulo estaria se
referindo ao fim da história quando escreveu aos coríntios:
“A seguir [após a ressurreição dos mortos] virá o fim, quando
ele entregar o reino a Deus e acabar com todo principado,
autoridade e poder” (1Co 15.24)? Pedro teria em mente o
fim da história quando declarou que “o fim de todas as coisas
está próximo” (1Pe 4.7)?
Em certo sentido, os cristãos de qualquer corrente do
cristianismo, em todo o mundo e em qualquer período da
história, quando oram o Pai Nosso, estão pedindo o fim da
história: “Venha o teu Reino” (Mt 6.10).
O fim da história não terá
chegado quando um grande
império cair para dar lugar a
outro, como aconteceu com
aquela sucessão de impérios
retratada no sonho da grande
estátua de Nabucodonosor,
quando o império babilônico
cedeu lugar ao império medo-
persa e este ao império grego e este
ao império romano (Dn 2.31-45).
O fim da história terá chegado
quando todos os impérios caírem
e toda a arrogância humana ruir
definitivamente para dar lugar ao reino dos céus em sua
plenitude, totalidade e visibilidade. O fim da história virá
quando o “último inimigo”, que é a morte, for destruído
(1Co 15.26), a ponto de se poder perguntar ironicamente
à ela: “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó
morte, o seu aguilhão?” (1Co 15.55). O fim da história terá
chegado quando ao nome de Jesus se dobrar todo joelho
nos céus, na terra e debaixo dela, e toda língua confessar
que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai
(Fp 2.9-11).
O fim da história
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ATENDIMENTO AO LEITOR
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Editora Ultimato
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ULTIMATO Março-Abril, 20084
carta ao leitor
Fundada em 1968
ISSN 14153-3165
Revista Ultimato
Ano XLI · NÀ 311
Março-Abril 2008
Direção e redação
cartas@ultimato.com.br
Elben M. Lenz César (Jornalista responsável)
Administração
Klênia Fassoni, Daniela Cabral, Lenira Andrade
Vendas
Lucia Viana, Lucinéa de Campos,
Romilda Oliveira, Tatiana Alves e Vanilda Costa
Editorial e Produção
Marcos Bontempo, Bernadete Ribeiro,
Djanira Momesso César, Fernanda Brandão
Lobato e Roberta Dias
Finanças / Circulação
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Ramos, Emílio Gonçalves, Luís Carlos
Gonçalves, M. Aparecida Pinto, Rodrigo
Duarte e Solange dos Santos
Estagiários
Alaila Ribeiro, Bruno Tardin, Daniel Figueiredo,
Débora Sacramento, Fabiano Ramos, Hadassa
Alves, Liz Oliveira, Luci Maria da Silva, Macel
Guimarães e Priscila Rodrigues
Arte - Oliverartelucas
Impressão - Plural
Tiragem - 37.000 exemplares
Łrgão de imprensa evangélico destinado
à evangelização e edificação, sem cor
denominacional, Ultimato relaciona Escritura
com Escritura e acontecimentos com Escritura.
Pretende associar a teoria com a prática, a fé
com as obras, a evangelização com a ação
social, a oração com a ação, a conversão com
a santidade de vida, o suor de hoje com a
glória por vir. Circula nos meses ímpares.
Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro
da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e da
Associação de Editores Cristãos (AsEC)
Os artigos não assinados são de autoria da
redação. Reprodução permitida. Obrigatório
mencionar a fonte.
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Passados os festejos de Natal e de
ano-novo, é bom fazer um pequeno
inventário sobre a qualidade e seriedade
dessas comemorações.
Para o comércio foi um sucesso
enorme. Em grande parte por causa da
decoração de Natal. Só os 622 centros
comerciais brasileiros investiram 350
milhões de reais nesse setor.
A ausência cada vez maior do
verdadeiro sentido do Natal assustou
até pessoas cultas sem nenhum
compromisso com o cristianismo. Em
sua coluna no Jornal do Brasil, o escritor
Fausto Wolf disse que sempre quis
acreditar na concepção sobrenatural de
Jesus Cristo, na remissão dos pecados
através de sua morte, na ressurreição
da carne e na vida eterna. Porém, se
limita a gostar de Jesus porque era
pobre, ofendido e maltratado, assim
como nós. Ele se queixa dos ricos que,
desde Adriano, “encheram Jesus de
jóias, perfumaram-no, trancaram-no
em um palácio longe do povo para
melhor poderem explorar esse mesmo
povo”. Wolf cita o pronunciamento de
alguém que faz sérias acusações: “É no
período natalício que os veículos de
comunicação em geral e a televisão em
particular mais torturam este país. Um
aluvião de bestas do apocalipse cai de
uma só vez sobre a pobreza ignorante
e a classe média abobalhada: ‘Compre,
compre’. Sei da força do Verbo, mas
odeio o Natal. Creio que só um
homem odiaria mais do que eu:
Jesus Cristo”.
O filósofo Leandro Konder também
protestou: “Como descrente que sou
— marxista convicto irrecuperável
— quero apenas registrar minha
expectativa de que o festival consumista
em torno de Santa Claus não atrapalhe
a celebração do aniversário do Justo”.
Até o empresário Antônio Ermírio de
Moraes, um dos homens mais ricos do
país, dois dias antes do Natal, desejou
em sua coluna na Folha de São Paulo
que os brasileiros tivessem um “santo
Natal junto às suas famílias” e que
reservassem algum tempo para pedir a
Deus que “fortaleça entre nós o amor
e o respeito pelo próximo”, porque “a
felicidade dos seres humanos não se
resume no êxito econômico”.
É possível que um dia, quando nossos
olhos forem verdadeiramente abertos,
nós enxerguemos a grandeza do Natal
na perspectiva dos Evangelhos sinóticos
e do Evangelho de João, onde se lê que
“no princípio [o mais remoto] era o
Verbo [Deus, o Filho], e o Verbo estava
com Deus, e o Verbo era Deus. (...) E o
Verbo se fez carne e habitou entre nós,
cheio de graça e de verdade, e vimos a sua
glória, glória como do unigênito do Pai”
(Jo 1.1,14). E, então, a profanação do
Natal será confessada com muita tristeza,
muitas lágrimas e muito arrependimento.
Ainda há tempo para acertarmos o
passo na caminhada iniciada há dois
meses, quando a entrada do novo ano
nos aproximou um pouco mais do fim
da história (veja p. 3). Que Deus seja
propício a cada um de nós!
O aluvião de bestas
apocalípticas que caíram
sobre nós no último Natal
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ULTIMATO Março-Abril, 20086
55
Se Deus nos perdoasse o
mesmo pecado uma só
vez, estaríamos perdidos.
Ele não mostra a sua graça
ou estende a sua mão uma
única vez. As Escrituras
garantem que as suas
misericórdias “renovam-se
cada manhã”
O povo eleito está espalhado pelos
quatro cantos do mundo, mas não por
vontade própria. Os israelitas foram
levados para o cativeiro pelos seus
inimigos, que invadiram suas terras e os
expulsaram de lá. Eles têm saudades de
Sião. Negam-se a tocar harpa e a cantar
em terra estranha. Querem voltar
para Jerusalém e para suas cidades de
origem. Choram e confessam seus
pecados no meio de um povo de fala
estranha, pois estão longe de casa
porque pecaram contra o Senhor.
Mas como escapar do jugo
estrangeiro, colocar a mochila nas
costas, segurar a mão dos filhos
menores e começar o caminho de
volta? Deus os tiraria outra vez do jugo
opressor e os levaria de volta à terra
prometida? A misericórdia de Deus
seria maior que a ingratidão e a rebeldia
deles?
A boa notícia é dada pelo profeta
Isaías: “Naquele dia o Senhor
estenderá o braço pela segunda vez
para reivindicar o remanescente do seu
povo que for deixado na Assíria, no
Egito, em Patros, na Etiópia, em Elão,
em Simear, em Hamate e nas ilhas do
mar. Ele erguerá uma bandeira para
as nações a fim de reunir os exilados
de Israel; ajuntará o povo disperso de
Judá desde os quatro cantos da terra”
(Is 11.11-12).
O capítulo onze de Isaías é um
poema messiânico de grande beleza
e cheio de boas notícias. A primeira
delas diz respeito a um ramo que
brota de um toco, que não é outro
senão o descendente de Davi. Sobre
ele repousará o Espírito do Senhor
e ele “tomará decisões em favor dos
pobres” (v. 4). Seu reinado será de
tal forma que “o lobo viverá com o
cordeiro, o leopardo se deitará com
o bode, o bezerro, o leão e o novilho
gordo pastarão juntos; e uma criança os
guiará” (v. 6).
A melhor notícia, porém, é a do
segundo êxodo, quando a Raiz de Jessé
(o Messias prometido), vai trazer de
volta o povo eleito para a antiga Canaã.
Será uma repetição do primeiro êxodo,
quando o Senhor desceu do céu para
livrar seu povo das mãos dos egípcios
e levá-lo para uma terra boa e vasta,
onde manam leite e mel (Êx 3.8). Isaías
anuncia que haverá uma estrada plana
e livre para o remanescente dos exilados
voltarem para casa, “como houve para
Israel quando saiu do Egito” (Is 11.16).
A boa notícia do segundo êxodo é
extraordinária e pode encorajar hoje
qualquer “exilado” do Senhor. Se
alguém foi libertado do império das
trevas e transportado para Jesus e sua
igreja (primeiro êxodo) e depois entrou
em crise e saiu do redil, pode clamar
pelo segundo êxodo. Pois se Deus nos
perdoasse o mesmo pecado uma só vez,
estaríamos perdidos. Deus não mostra
a sua graça uma só vez nem estende a
sua mão uma única vez. As Escrituras
garantem que as suas misericórdias
“renovam-se cada manhã” (Lm 3.23)!
O segundo êxodo
ThomasMavrofides
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Seções
Capa
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 7
“Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo”
IS 55.6
ABREVIAÇÕES:
BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; EP - Edição Pastoral; EPC
- Edição Pastoral - Catequética; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas de
indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional.
Reflexão
Robinson Cavalcanti
Mui bíblica missão integral 38
Ricardo Gondim
Proposta de espiritualidade 40
Redescobrindo a Palavra de Deus
Deus se importa com a gestante, Valdir Steuernagel 42
História
O ceticismo religioso e seus arautos,
Alderi Souza de Matos 44
Entrevista
Viv Grigg
O inverso da cultura: é preciso viver com
simplicidade para que os outros simplesmente vivam 48
O caminho do coração
Quão verdadeiros somos, Ricardo Barbosa de Sousa 52
Da linha de frente
No essencial, unidade; nas diferenças, liberdade;
e em ambas as coisas, o amor, Bráulia Ribeiro 54
Arte e cultura
Desejo de reparação, Mark Carpenter 58
Ponto final
Pílulas e cinzas, Rubem Amorese 66
Que vida boba! 24
“Tudo é vaidade e correr atrás do vento” 26
O muro da morte 28
Depois de muitos anos, muitos diplomas, muitos bens
e muitas incursões no submundo, a vida continua sem sentido 29
A praga do fastio 30
É preciso parar de correr atrás do vento e de
cavar cisternas que não retêm água! 31
Pai nosso que estás em todo lugar... 32
Abertura 3
Carta ao leitor 4
Pastorais 6
Cartas 8
Mais do que notícias 14
Números 15
Frases 21
Nomes 22
Novos acordes 53
Deixem que elas mesmas falem 56
Meio ambiente e fé cristã 57
Prateleira 60
Agenda 62
Ação mais que social 63
Vamos ler! 64
Especial
Ultimato não quer fazer o papelão de deixar Jesus de lado 37
KléosJr.
Leia em www.ultimato.com.br
• Obediência - uma questão de atitude (seção
“Altos papos”), por Jeverton Magrão Ledo
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ULTIMATO Março-Abril, 20088
Homossexualismo e
homossexualidade
Venho com muita coragem reconhecer minha quase
total ignorância sobre a matéria de capa da edição
de janeiro/fevereiro de 2008 (Homossexualismo e
Homossexualidade). Agora, depois de ler e ficar por
dentro de tudo que foi escrito, posso pelo menos discutir o
assunto e encarar as coisas sem reservas nem preconceitos.
Ultimato aborda com clareza e discernimento um tema
que ainda hoje é tabu. Continuem nesta tarefa ousada e
gratificante de esclarecer tantos leigos como eu.
RUTH JUSTINO DOS SANTOS FREIRE
Boituva, SP
Ao ler a edição que trata mais uma vez da homossexualidade,
deparo-me com a incrível soberba de vocês em rotular esta
questão como pecaminosa e imoral. Gostaria que um dia
vocês fizessem uma reportagem sobre a vida digna, honesta
e fiel que muitos gays masculinos e femininos levam por
este Brasil afora. Podemos, sim, escolher não ter relações
homossexuais, assim como os heterossexuais também
podem, mas não o fazem. Porém, não escolhemos se temos
ou não o desejo. É inerente à nossa condição humana. Acho
louvável a expressão de suas opiniões a nosso respeito,
pois aprendemos com isso também. Afinal, somos uma
democracia. Acho, todavia, que vocês poderiam gastar as
caras páginas de sua publicação incentivando os seus leitores
à caridade. Pois são os heterossexuais, em sua maioria, que
mandam e desmandam no Brasil, que humilham e impõem
miséria. Sou uma transexual feliz!
BRENDA SANTURNIONI
Viçosa, MG
Se o homossexualismo fosse uma prática sexual normal, será
que o ser humano teria se multiplicado? Se Deus tivesse
criado Adão e Ivo ou Eva e Evita nós habitaríamos o planeta?
ROSELI DOS SANTOS DE ASSIS
Belo Horizonte, MG
LiareportagemHomossexualismo e Homossexualidade,
esintodizerqueamesmanãoacrescentou nada ao que já
seconjeturavasobreotema.Aliás, ela é uma síntese das
palavrasqueadoecemecontinuarão a adoeceros milhares
dehomossexuaisparticipantesde todos os segmentos
socioeconômicos,culturaisereligiosos do mundo.
Reconheçoqueostextossagrados, tanto do Antigo quanto
doNovoTestamento,sãocategóricos emafirmarquecerto
tipodecomportamentohomossexualé desagradávelaos
olhosdeDeus.Useideliberadamente a expressão certo tipo,
poiscreioqueháumtipodehomossexuala respeito do qual
aBíbliasecala.Todosostextosbíblicos que mencionam
apráticahomossexualrelatamumcomportamento
reprovável,emquehomensemulheres demonstramtotal
faltadeamorporsimesmos,pelo próximo e pelo Criador.
Porém,háumgrandenúmerode homossexuais que não
seenquadranessecontexto(ea reportagemfoiinfelizde
nãotê-losconsiderado,poishabitamabundantemente as
igrejascristocêntricas).Refiro-me àqueles indivíduos que
reconhecemaforçadosargumentos bíblicos contra o que
sentemnasentranhas,masnãoqueriamsentir. Refiro-me
àquelesquetêmtemordoSenhor, amama Deus (portanto,
jáseconverteramaCristo),masque não passamumdia
sequersemdesejaroamoreoafeto de umque lhe seja
idênticonosexo.Refiro-meàqueles que adoecemnas
Nota da redação
O Baker’s Dictionary of Christian Ethics, do
qual foi retirado o verbete “Homossexualismo e
homossexualidade”, foi publicado no Brasil, em 2007,
pela Editora Cultura Cristã.
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 9
igrejas porouvirem asmuitas possíveis explicações parao
que são: doentes, anormais, abomináveis (depravados),
coisassemelhantesàs presumidas nareportagem. Portanto,
falode pessoas que reconhecem quesão demasiadamente
humanas(toma-se aquiapalavra por fracas ou imperfeitas)
eque sentem umanecessidadeenormedeaconchego no
peitodoSalvador, reconhecendo queestenão esperadelas
que mudem asimesmas, mas queseaninhem neleem
verdade (ouseja, assumindo parasi mesmas quesão gays e
apresentando-se aele como são), deixando queeleas guie
poronde desejar.
J.F.
- O missivista está de parabéns por admitir que os textos
sagrados de ambos os testamentos são conclusivos sobre
a prática homossexual. Naturalmente há homossexuais
cínicos e homossexuais que lamentam suas tendências
sexuais e gostariam de superá-las. A união estável com
um só parceiro não resolve a questão sob o ponto de vista
moral, pois, à luz da criação, “uma parceria homossexual
jamais poderá ser vista como uma alternativa legítima”
(John Stott, em A Bíblia Toda, O Ano Todo, p. 28). Em
qualquer caso, a não-negação desses impulsos torna-se
uma conduta reprovável. Mas o homem ou a mulher que
sente atração homossexual e não se entrega a ela por
força do temor do Senhor e com o auxílio do Espírito
Santo, não deve sofrer discriminação na igreja, ou seja
onde for. Merece ser tratado com respeito, porque todos
os outros crentes também têm dificuldades pessoais, em
áreas diferentes. Jesus deixou claro que ninguém pode
segui-lo sem negar-se vez após vez (Mc 8.34). Uma
desobediência aqui e ali, em qualquer área, não deve
desanimar, pois todos “temos um intercessor junto ao
Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1). Ao contrário, deve ser
confessada para ser perdoada e purificada (1Jo 1.9).
Quarenta anos
Leio Ultimato há mais de quinze anos. Ela faz parte da
minha vida e da minha família. Quantos conselhos, quantas
coisas maravilhosas! Admiro-a por não ser uma revista
tendenciosa, por publicar opiniões independentes do
que está escrito. Também acabo de fazer 40 anos. Quanta
história para contar. Cheguei até aqui pela graça de Deus.
REJANE M. S. CHAGAS
Rio de Janeiro, RJ
Parabénspelos40anosdeUltimato!Oquemaisapreciona
revistaéqueelanosobrigaapensar.Oscrentesbrasileirosem
geralnãogostammuitoderefletir.Preferemengoliracoisa
pronta.QueDeuscontinueabençoandooseuministério.
MARCOS SOARES
Ribeirão Preto, SP
A CPAD faz sinceros votos de que Ultimato tenha uma longa
vida de vitórias e grandes realizações, anunciando em todo
tempo as novas de salvação de nosso Senhor Jesus Cristo!
Toda honra seja dada ao nome de Cristo Jesus!
LEANDRO SILVA
Casa Publicadora das Assembléias de Deus
Rio de Janeiro, RJ
EuestavanoSeminárioPresbiterianode Belo Horizonte
quandoaconheci.Elatinhaapenas13anos. Fiquei
impressionadocomsuamaturidade,equilíbrio e lucidez.
Sentiqueelaeraacompanheiraqueeu precisava para a vida
eparaoministério.Formei-meem1985 e comeceimeu
ministérioemfevereirodoanoseguinte e a leveicomigo para
apequenacidadedeConceiçãodeIpanema, MG. Já são 26
anosdeconvivênciabem-sucedidaeharmoniosa. Às vezes
divergimosemalgunsassuntos,masaténasdivergênciaseua
respeito,poiselaéconsistenteemseus argumentos. Embora
maisvelhoqueelaseisanos,nãoreceio emreconhecerque
elaamadureceumaisdoqueeu.Estámais bemformada e
comaparênciarenovada.Tambémcresceu mais e exerce mais
influênciadoqueeu.Suasopiniõesme influenciamcada
vezmais.Achoqueéporqueelaabsorve bema sabedoria
doquehádebomnomeioevangélicoe sabe escolherseus
colaboradores.Semdúvida,Ultimatotemsido uma boa
companheira!Deusaabençoeeafaçaprosperarainda mais.
PR. PÚBLIO RONALDO FONSECA
Ipatinga, MG
Parabéns pelos 40 anos. Que muitos outros 40 se passem,
levando a milhares de leitores, tão carentes, o alimento forte
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ULTIMATO Março-Abril, 200810
da fé, de que essa excelente mensageira é portadora. Não
sei bem há quanto tempo recebo e leio Ultimato; talvez há
uns vinte anos. Sem demagogia, acho-a uma revista única no
gênero. Muitas vezes me sirvo dos seus ótimos artigos para
minhas palestras e pregações. Sou um veterano sacerdote de
79 anos de idade. Paroquiei o município de Itaboraí por 35
anos! Chegando à idade canônica (75), solicitei a renúncia
de pároco, que foi aceita pelo reverendíssimo arcebispo de
Niterói. No dia 21 de dezembro, celebrei 55 anos de minha
ordenação sacerdotal.
PE. DOMINGOS GONÇALVES DAS EIRAS
Itaboraí, RJ
Tenho os mais sinceros sentimentos de gratidão por ter
conhecido Ultimato em 2007. Foi um ano muito exigente
para mim, pois tive perdas consideráveis: minha mãe, com
apenas 44 anos, e o filhinho recém-nascido. A revista era
lida em salas de espera de hospitais e me ensinou muito,
entre outras coisas, sobre a soberania de Deus. Sou pastor
de uma pequena congregação da Assembléia de Deus na
Baixada Fluminense há sete anos. Ultimato tem me ajudado
a amadurecer.
MARCELO NOGUEIRA DE OLIVEIRA
Belford Roxo, RJ
Recebo e leio Ultimato de ponta a ponta há alguns anos.
Questiono, especialmente, algumas afirmações advindas
das cartas. Valorizo a postura da revista em publicar opiniões
até mesmo desfavoráveis ao seu conteúdo ou linha. Gosto e
aprecio as reflexões e a busca incessante do aprofundamento
e vivência autêntica da mensagem evangélica. A revista
tem contribuído no crescimento da minha fé e na convicção
de que, apesar da “iniqüidade estar em alta”, há muitas
pessoas, em todos os credos, procurando, com palavras e
atitudes, frear a iniqüidade. Apreciei muito a reportagem
sobre o Santuário de Aparecida por suas perspicazes
observações e pelo respeito às convicções religiosas de um
povo nem sempre espiritualmente muito culto.
CÂNDIDO A. LORENZATO
Porto Alegre, RS
Faz anos recebo Ultimato, cuja linha editorial se move sobre
o trilho do diálogo.
DOM ALDO GERNA
São Mateus, ES
Ambigüidade
A edição de janeiro/fevereiro de 2008 traz alguns artigos
bons e outros não tão bons assim. Há uma ambigüidade
na revista que me incomoda: a sua posição em relação ao
catolicismo romano. Há anos que a revista vê o catolicismo
não como uma religião a ser evangelizada, mas como uma
denominação a ser resgatada. Aparentemente, pelo número
de cartas na seção apropriada, que aplaudem a reportagem
sobre o Santuário de Aparecida publicada na edição de julho/
agosto 2007 (que tinha esse tom enormemente conciliatório,
em vez de confrontador com a verdade da única mediação
de Cristo), tudo isso encontra eco na grande maioria dos
leitores, mas continua me incomodando. Nesse sentido,
é impressionante as citações de católicos, sob uma luz
favorável. Na seção “Frases” (p. 21), entre as poucas lá
colocadas, uma de Hans Küng, outra de Leonardo Boff e
outra do padre Vito Del Prete. Até o artigo do presbiteriano
Odayr Olivetti (p. 63) eivado demais de referências a
personalidades e entidades católico-romanas (D. Eugênio
Sales, Gustavo Corção Braga, CNBB etc.), como se estivesse
envolvido em, ou pressionado a, um esforço de amoldar seu
conteúdo e estilo à orientação da revista que o abriga.
SOLANO PORTELA
São Paulo, SP
Rubem Alves equivocado
Na“Abertura”daediçãodejaneiro/fevereiro, a revista diz
queoteólogo,filósofoepsicanalista RubemAlves está
equivocadoaomanifestarseuposicionamento concernente
adoutrinasbíblicas.Trêsperguntas me vieramà mente: para
oautordoartigo,RubemAlvesestá equivocado porque se
manifestadeformadiferentedaquela que lhe é peculiar? O
autorprocuroudialogarcomo“equivocado” para fazertal
afirmação?O“equivocado”nãoseria o autorda matéria? Acho
oportunofinalizarcomaspalavras de Robert Martin-Achard,
professordasuniversidadesdeGenebra e Neuchatel: “A
Escrituraentregaoseusegredoàquele que usa tempo para
caminharcomela;elanãodiznada ao amadore ao vaidoso”.
MANOEL JESUS DE OLIVEIRA
Rio de Janeiro, RJ
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 11
Salvos e não-salvos
aqui e acolá
Sobre o relacionamento de Ultimato com os católicos,
é de se esperar que alguns evangélicos nem saibam
o significado da palavra “cristianismo”. Para eles, ser
cristão é ser da igreja deles. Se lhes dissermos que o
cristianismo engloba três ramificações (católica romana,
ortodoxa e protestante) eles piram. Se dissermos que
nessas três há salvos e não-salvos, eles têm um ataque
cardíaco. Se alguns não concordam com a posição da
revista, deixem de assinar, mas fazer com que outros
os imitem na sua decisão é nada menos que obstrução
à proclamação do evangelho. Essa atitude é como
aquela que Jesus critica: “Vocês mesmos não entram
nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo”
(Mt 23.13).
PR. CLEILSON N. TRINDADE
Igreja Missionária Volta de Cristo
Vilhena, RO
Inquisição
Na seção “Cartas” da edição anterior, o leitor Lino
Cherubini, de Santa Rosa, RS, diz que os protestantes
que teimam em condenar a devoção católica a Maria
“deveriam ser processados diante de um tribunal, se
para isso existisse um”. É impressão minha ou o leitor
está fazendo apologia ao Tribunal da Santa Inquisição?
Espero que seja apenas impressão minha.
TALITA ALVARENGA
Belo Horizonte
Ultimato merece parabéns não só pelos 40 anos, mas
também pela seriedade e temperança em todas as matérias
e colunas. Aproveito para dizer ao leitor Lino Cherubini, com
respeito, mas sem omitir a verdade, que o tal tribunal acabou
há três séculos, com o fim da inquisição, e que, muito além
da Carta aos Hebreus, toda a Bíblia afirma que o Senhor Jesus
é o único e perfeito mediador entre Deus e os homens.
EDSON BAUMGART
Barracão, PR
Universal
Quando Ultimato e seus colunistas descerão do muro
em relação à Igreja Universal do Reino de Deus e todas
as outras igrejas neopentecostais que achincalham
diariamente o evangelho, com o objetivo único de
obtenção de dinheiro e poder?
WILSON DE OLIVEIRA JR.
Recife, PE
Missionário em prisão
Na edição de julho/agosto de 2006, Ultimato publicou meu
testemunho. Contei na ocasião que, quando eu tinha 4
anos, meu pai matou minha mãe e desapareceu. Creio que
foi por causa dessa notícia publicada na revista que meu
pai, depois de ficar foragido por 23 anos, foi localizado
e preso. Está aguardando julgamento. Por mais que seja
difícil, eu o perdôo por ter me deixado órfão de mãe e
sozinho na vida. Filipenses 4.13 me encoraja muito: “Tudo
posso naquele que me fortalece”. Através de Ultimato
tenho amadurecido bastante. A obra de Deus aqui na
Penitenciária de Bauru está uma bênção! Considero-me um
missionário em prisão.
DOUGLAS GRAZIANI NETO
Caixa Postal 50
18250-000 Guarei, SP
De capa a capa
Ultimato parece uma revista em crise existencial.
Na “Carta ao leitor”, Elben César destaca que o que
menos precisamos hoje é a teologia da prosperidade.
Na contracapa, o destaque é o livro de Paul Cho que
afirma, entre outras coisas: “Mude... da escassez à
prosperidade”. A seção “Abertura” faz uma crítica
dura à liberalidade de Rubem Alves. Na seção “Frases”
aparecem como destaques os católicos liberais Hans
Kung e Leonardo Boff. Robinson Cavalcanti diz que o
moralismo não ajuda e Alderi Souza de Matos defende
o puritanismo e a disciplina. Novamente, Elben César,
na página 27, tenta costurar tudo através do seu
aborrecimento com “cristãos um pouco demais alguma
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ULTIMATO Março-Abril, 200812
coisa”. A impressão que tive é que o cristão deve ser
uma média em tudo (mediocridade), ficando nesse
meio de campo indefinido e despersonalizado. Por
fim, sobre os 40 anos da revista, ela se auto-proclama
ousada e coerente. Por que vocês não assumem de vez
a contradição? Os evangélicos são assim mesmo. Tenho
certeza de que Jesus perdoará mais este pecado.
FERNANDO GRUPPELLI
Curitiba, PR
Respiração “boca-a-bico”
Antes de se criar a palavra ecologia, eu já tinha
consciência de que somos mordomos e não dominadores
de tudo aquilo que Deus criou. Tenho muito amor
aos animais e cuidado com a natureza. Pelo fato de
ter morado algumas vezes com índios caiapós, como
missionária e antropóloga, convivi mais de perto com a
criação. Outro dia aconteceu uma coisa que me desafiou.
Um sabiá machucou-se ao bater contra a porta de
vidro de meu apartamento e eu tentei “ressuscitá-lo”
com massagens e até respiração boca-a-boca (seria
mais correto dizer respiração boca-a-bico...). Pinguei
também algumas gotas d’água em seu bico. Para minha
surpresa, pouco depois o sabiá se reanimou, bateu as
asas e foi embora. Fiquei profundamente satisfeita.
Eu estava um pouco desanimada naquele dia e isso
me reanimou. Mais animada ainda fiquei quando
abri a revista Ultimato e li a pastoral Reanimação
boca-a-boca no alvorecer de 2008 (janeiro/fevereiro,
p. 8). Parece que Deus usou o incidente do sabiá
para me lembrar o quanto ele tem prazer em nos ver
“reanimados”. Pode parecer infantil, mas me emocionou
muito.
ISABEL MURPHY
Brasília, DF
Segundo casamento
Fui missionário no Brasil e por muito tempo recebi a
maravilhosa Ultimato. Sou pastor aqui na minha terra,
Argentina, e fiquei viúvo. Quero encontrar uma irmã em
Cristo brasileira para o segundo casamento. Por favor,
ajudem-me a conectar-me a um site apropriado.
JUSTO JORGE ARANDA
titoberry@hotmail.com
Argentina
Mulheres nunca mais
Se os editores de Ultimato forem mulheres, elas que
me perdoem, mas vocês têm que ouvir a verdade de
Deus. Ele é amor, mas também é justiça. Quando a
justiça dele cair sobre aqueles que não cumprem as
Escrituras, nesse dia não quero nem olhar para vocês,
a caminho do inferno. As igrejas estão cometendo
a loucura de colocar a mulher no lugar do homem. A
mulher deve aprender em silêncio. O representante de
Deus na terra é um ser másculo, como Deus.
WESLEY CHRISLEY ALENCAR CARVALHO
Sorocaba, SP
Música evangélica
O que mais gostei na edição de janeiro/fevereiro foi a
grande quantidade de textos sobre música evangélica
brasileira, a começar pela carta de Marcos Davi, passando
pela reflexão de Ricardo Barbosa e terminando com o artigo
de Osmar Ludovico. Considerando que cada vez mais nossa
música está tomando rumos passíveis de muita crítica,
é preciso levar as igrejas a refletirem sobre sua situação
atual, em busca do melhor caminho. Leio atentamente a
coluna “Novos acordes”, de Carlinhos Veiga.
SALVADOR DE SOUSA
Diretor do site Arquivo Gospel
Riacho Fundo, DF
Deprimente o texto Parei de ouvir música cristã, de Mark
Carpenter (“Arte e cultura”, janeiro/fevereiro 2008). Como
excluir certas canções das “músicas usadas nas igrejas para
louvor coletivo”? Concordo que existem muitas músicas
chamadas cristãs que são desprovidas de conteúdo, mas
para quem ouve U2 que diferença isso faz?
AFONSO EMILIO ALVARES DOURADO
Planaltina, DF
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 13
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Ex-preso
Nunca me esqueço de Ultimato, que me ajudou muito
quando eu me encontrava nas penitenciárias de São Paulo.
Hoje tenho minha família e o ministério que o Senhor me
confiou.
PR. LEVY SANTO GRECO
Ferraz de Vasconcelos, SP
Uruguaio de nascimento, sou missionário no Chile, enviado
pela Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista
Brasileira. Estou interessado em traduzir alguns artigos de
Ultimato para o espanhol e colocá-los em um blog ou site
gratuito. Seria muito bom para o povo hispânico ter uma
revista desse nível.
GUILLERMO LA BANCA
Calama, Chile
Robinson Cavalcanti
Ao ler a reflexão de Robinson Cavalcanti Protestantes:
autênticos católicos (janeiro/fevereiro 2008),
deparei-me com o seguinte parágrafo: “O Espírito
Santo esteve presente nos vinte séculos de nossa
história”. Se for assim, pergunto: qual foi o Espírito
que surgiu no início do século 19 na famosa rua Azuza,
em Los Angeles, e que tornou a igreja num solo tão
fértil e vulnerável para as heresias e bizarrices como
hoje se vê?
EDVAN JORGE
Itaberaba, BA
A visão histórica proposta por Robinson Cavalcanti traz
à tona o valor da memória, pois a memória histórica
corrente enfatiza insensatamente, e sem muito rigor
metodológico, uma história míope da igreja, em que a
igreja do Vaticano é detentora da narrativa. É salutar
conhecer uma outra história, observar o papel da Igreja
do Oriente, num momento em que vivenciamos uma
fragmentação religiosa e entender o papel da Reforma,
em seu ensino sólido das Escrituras. É bom observar o
que os nossos irmãos em Cristo fizeram como prática de
uma verdadeira igreja — uma igreja com uma memória
fundamentada em Cristo Jesus, autor e consumador de
nossa fé.
CLEVERTON BARROS DE LIMA
Campinas, SP
A Igreja Evangélica Missionária Pentecostal de
Belo Horizonte adquiriu 2 mil exemplares desta
edição de Ultimato para distribuir de casa em casa,
no bairro Itapoã, onde se localiza o seu templo. A
distribuição acontecerá por ocasião da Páscoa.
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Divulgação
Gérard Horst e a
esposa, Dorine
ULTIMATO Março-Abril, 200814
do que
O
“eu te amo”
que os
americanos
usam em profusão
e exportam para o
mundo inteiro por
meio do cinema
se tornou uma das
expressões mais
corriqueiras e sem crédito de que se
tem notícia. O marido adúltero dá um
beijo na mulher e diz para ela: “Eu te
amo”. A esposa infiel acaricia a barba
do marido e jura para ele: “Eu te amo”.
Para dobrar a resistência da moça e
levá-la ao motel, o rapaz se desmancha
diante dela e exclama: “Eu te amo”.
No mais recente aniversário da
independência do Brasil, Alex
morreu aos 31 anos, depois de
declarar à psicóloga Irene Pepperberg,
pesquisadora da Universidade Harvard:
“Te amo”. Alex era um papagaio
africano, treinado pela pesquisadora
desde quando ela fazia o seu doutorado
em química, trinta anos atrás.
Mas ainda há casos em que se pode
acreditar no famoso “I love you”. Um
deles saiu da boca (e do coração) de
um filósofo francês de 84 anos. Em
2006, Gérard Horst escreveu à esposa,
Dorine: “Faz 58 anos que vivemos
juntos e eu a amo mais do que nunca.
Recentemente me apaixonei por você
novamente e novamente carrego em
mim o vazio avassalador que só é
preenchido por seu corpo apertado
contra o meu”. Porque a mulher, um
ano mais nova que ele, estava com uma
doença degenerativa e câncer, o casal
cometeu suicídio em setembro de 2007.
O “eu te amo” mais autêntico e
solene aconteceu numa bela manhã
à margem do lago da Galiléia, na
cerimônia da restauração pública de
Pedro. Para desfazer a tríplice negação
do apóstolo, Jesus lhe perguntou três
vezes: “Simão, filho de João, você me
ama?”. Meio surpreso, Pedro respondeu
uma vez após outra: “Sim, Senhor, tu
sabes que te amo” (Jo 21.15-17).
O “I love you” de Simão, filho de João
D
e acordo com o relatório da
última Conferência Mundial
sobre Água, realizada na Suécia
em agosto de 2007, a quantidade de
comida jogada no lixo por famílias
ricas é escandalosamente alta: 30%
dos alimentos que compram. Só na
Grã-Bretanha, o prejuízo é avaliado em
cerca de 82 bilhões de reais por ano.
Boa parte desse desperdício deve-se à
propaganda do tipo “compre dois e
leve três”, que constrange as pessoas a
comprar mais do que necessitam. Outra
razão é a obediência cega aos rótulos dos
fabricantes, que indicam na embalagem
a data máxima aconselhada para o
consumo. Joga-se fora leite e outros
alimentos sem cheirar, sem comprovar se
estão mesmo estragados.
O crime que lesa os pobres será
mais grave ainda se considerarmos
também as sobras que os restaurantes
jogam fora e as perdas que acontecem
entre a colheita e o consumo. Deve-
se considerar ainda outro tipo de
desperdício: o que se come em demasia
82 bilhões de reais de comida jogada
no lixo por ano na Grã-Bretanha
JohnNyberg
(segundo a Organização Mundial de
Saúde, o mundo tem hoje 1,1 bilhão de
pessoas obesas e acima do peso).
Tudo isso acontece mesmo havendo
850 milhões de pessoas subnutridas no
mundo. Aos olhos de Deus, trata-se de
um crime muito grave. O problema
é antigo. Já no século 18 o escritor
francês Sébastien-Roch Chamfort dizia
que “a sociedade se compõe de duas
classes de pessoas: aquelas que têm mais
refeições do que apetite e aquelas que
têm mais apetite do que refeições”.
Nas duas multiplicações de pães e
peixes, os discípulos não permitiram
que as sobras fossem jogadas fora. Na
primeira foram recolhidos doze cestos
de pedaços que sobraram (Mt 14.20);
na segunda, sete cestos (Mt 15.37).
Durante os quarenta anos da travessia do
deserto, os judeus recolhiam diariamente
a porção estritamente necessária de maná
para cada dia (Êx 16.4).
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números
150.000
oliveiras foram derrubadas para a
construção do muro da vergonha, por meio
do qual Israel tentaria impedir ataques
palestinos
33.000
brasileiros morrem por ano devido à
Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica
(DPOC), provocada pelo tabagismo (são 90
mortes por dia)
623
políticos brasileiros (governadores, prefeitos
e parlamentares) tiveram, de 2000 a 2007,
seus mandatos políticos cassados no Brasil,
segundo levantamento do Movimento do
Candidato à Corrupção Eleitoral
60.000.000.000
de dólares ao ano é quanto os Estados Unidos
gastam com suas prisões, que abrigam mais
de 2 milhões de presos
368
meninas brasileiras na faixa etária
de 13 a 19 anos eram portadoras do
vírus da aids em 2006. Entre os
meninos da mesma idade, o número
era de 223
6.256
veteranos de guerra americanos
cometeram suicídio em 2005 (uma média
de 17 pessoas por dia)
A
LizFagundes
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 15
O adesivo “Deus é fiel” precisa deixar de ser
mercenário para ser um anúncio do evangelho
A declaração bíblica “Deus é fiel”
(1Co 1.9; 10.13; 2Co 1.18) tornou-
se um adesivo de caminhões, ônibus,
carros, geladeiras, celulares etc. A
fidelidade de Deus é o seu mais
conhecido e popular atributo. Fala-se
mais na fidelidade de Deus que em
seu amor, sua onipotência, onisciência
e onipresença, em sua santidade, e
assim por diante. É muito bom, muito
saudável e muito edificante que se
reconheça que Deus é fiel.
Quando Moisés subiu o monte Sinai
com as duas tábuas de pedra para que
Deus escrevesse nelas pela segunda vez
os Dez mandamentos, o Senhor mesmo
declarou: “Eu sou o Senhor, o Deus
Eterno! (...) a minha fidelidade e o meu
amor são tão grandes, que não podem
ser medidos” (Êx 34.6, NTLH). O
apelo do Salmo 117 é para que todas
as nações e todos os povos louvem ao
Senhor “porque imenso é o seu amor
leal por nós, e a fidelidade dele dura
para sempre”.
Em alguns casos (ou seria em
muitos?) o decalque “Deus é fiel”
virou um mero amuleto — algo que
se carrega por acreditar em seu poder
mágico de afastar desgraças e aproximar
graças. Trata-se de uma prática pagã
que vem desde a mais alta antigüidade.
Então, toda a beleza e o acerto da
lembrança da fidelidade de Deus vão
por água abaixo, e essa propaganda
de que “Deus é fiel” torna-se algo
mercenário que profana e mundaniza o
nome e os atributos do Senhor.
Para santificar essa prática, seria bom
acrescentar à declaração “Deus é fiel”
do adesivo, uma pergunta dirigida a nós
mesmos: “Deus é fiel... E eu?”.
A resposta mais apropriada dos
cristãos à fidelidade de Deus é a firme
resolução de se tornarem fiéis a ele como
ele é fiel a nós em suas promessas. É
preciso responder à fidelidade de Deus
com a fidelidade própria. A fidelidade
dos crentes a Deus é uma obrigação
imposta pela conversão. É por isso que a
palavra fiel significa também aquele que
professa o cristianismo. Por exemplo,
Timóteo deveria ser um exemplo para
os “fiéis” (1Tm 4.12).
A Bíblia diz que “Moisés foi fiel
como servo em toda a casa de Deus”
(Hb 3.5). Os sátrapas do império
medo-persa procuraram motivos para
acusar Daniel de alguma irregularidade,
mas “não puderam achar nele falta
alguma, pois ele era fiel” (Dn 6.4).
Paulo refere-se duas vezes a Tíquico
como “fiel servo do Senhor” ou
“ministro fiel” (Cl 4.7).
O adesivo “Deus é fiel” precisa
deixar de ser algo mercenário para se
tornar verdadeiramente um anúncio do
evangelho. E para validar e reforçar esse
anúncio, o portador do adesivo precisa
também ser achado fiel em todas as
coisas.
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ULTIMATO Março-Abril, 200816
do que
Da aquecedora do rei Davi
aos “amigos” pessoais pagos
P
ouco antes de morrer, por
volta dos 70 anos, o rei Davi
não conseguia se aquecer nem
com vários cobertores. Seus assessores
acharam por bem encontrar no
território de Israel uma moça solteira
e muito bonita para cuidar dele e o
aquecer com seu próprio corpo. A moça
chamava-se Abisague e nunca se tornou
mais uma mulher de Davi (1Rs 1.1-4).
Quando o rei morreu, Adonias, um dos
seus filhos, enamorou-se dela e a pediu
em casamento (1Rs 2.17).
Qual seria a profissão de Abisague?
Talvez pudéssemos dizer que a moça
fosse a companhia, a enfermeira, a
camareira ou a empregada doméstica do
rei. Mas a versão da Bíblia Hebraica é a
mais precisa: “A moça era sobremaneira
formosa e servia de aquecedora para o
rei e cuidava dele”.
Atualmente, temos coisas parecidas:
médico particular, enfermeira particular,
serviçal particular, segurança particular
etc. Nos últimos anos apareceu o
personal trainer, aquele profissional que
acompanha o cliente em seus exercícios
físicos. E, recentemente, surgiu o
personal friend, um especialista em
amizade profissional.
O mercado dos amigos pessoais
pagos está crescendo. Os preços
variam de cinqüenta a trezentos reais
por hora. Como no caso de Abisague,
não existe conteúdo sexual nessa
prestação de serviço; eles atendem
pessoas carentes de companhia. Não
necessariamente apenas pessoas que
vivem sozinhas, pois há homens,
mulheres e crianças, que vivem
em família, mas não se entendem,
não se amam, não se toleram e não
conversam entre si.
Por mais estranha que seja a profissão,
ou o biscate, de personal friend, há
pessoas tão desesperadas por estarem
ou se sentirem sozinhas que contratam
os seus serviços. Embora, a rigor, a
amizade paga não seja amizade. Essa
novidade torna as palavras de despedida
de Jesus na noite anterior à sua morte
mais significativas: “Não vou deixá-los
abandonados, mas voltarei para ficar
com vocês” (Jo 14.18, NTLH).
O teólogo católico Jung Mo Sung,
professor da Universidade Metodista
de São Paulo tem toda a razão: “Uma
pessoa pode ser feliz sem dinheiro, sem
conforto ou reconhecimento social, mas
não sem amizade”.
Fotomontagem
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JohnNyberg
Saulo e Cirlene, quinze anos depois do acidente
Arquivopessoal
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 17
O
garoto não tinha nem 16
anos. Mas lá estava deitado
de bruços, inerte, ao lado
da linha férrea, entre as estações de
Utinga e Prefeito Saladino, em Santo
André, na Grande São Paulo. Ele estava
voltando do estádio do Pacaembu,
onde fora assistir a um jogo entre São
Paulo e Corinthians. O menino era
surfista de trem — ficava em pé em
cima dos vagões e andava para lá e para
cá. Era a sua maior diversão. Adorava
sentir o “friozinho” na barriga e o
coração acelerado. Em 23 de janeiro
de 1993, porém, o adolescente Saulo
se deu mal. Para não cair em cima
dos trilhos, entre um vagão e outro,
agarrou-se a uma torre. Mas ela estava
encostada em fios de alta tensão e ele
recebeu uma descarga elétrica de 4.400
volts e caiu no chão mais morto que
vivo. Enquanto o resgate não chegava,
um policial se aproximou, abriu sua
boca, puxou sua língua, colocou um
pequeno isqueiro para manter a boca
aberta e fez respiração artificial. Entre
a vida e a morte, Saulo se lembrou da
educação religiosa que recebera dos
pais e da Assembléia de Deus, igreja
que a família freqüentava. Lembrou-
se da preciosa herança evangélica
deixada de lado para curtir as aventuras
da vida. Lembrou-se daquilo que se
chama solenemente de “desintegração
somatopsíquica que reduz o corpo
humano sucessivamente à inércia,
à putrefação, ao esqueleto e ao pó”.
Lembrou-se também de Deus, aquele
que dá e toma, que toma e torna a dar.
Mesmo sem poder falar, Saulo gritou
em sua mente: “Ó Deus, me ajuda!”.
Deus o ouviu duplamente. Livrou-o
da morte física e da morte religiosa, da
morte do corpo e da morte da alma.
Naquele mesmo ano, Saulo Piloto da
Silva, nascido em São Caetano do Sul,
SP, em abril de 1977, começou a andar
nos caminhos do Senhor. O mais difícil
foi abandonar o que ele fazia durante
as madrugadas. Além de surfista de
trem, Saulo era também pichador,
desde os 14 anos. Na busca por fama
entre os pichadores da turma Wolfs
(lobos) e dos Fulanos, Saulo pichava
os “picos” (locais altos de difícil acesso
de empresas e pequenos prédios), as
passarelas e os terminais rodoviários
no centro, nas periferias de São Paulo
e no ABC Paulista. Seu último “rolê”
(percurso que os pichadores fazem
para pichar em conjunto) aconteceu
em janeiro de 1994 (um ano depois
do acidente). No mês seguinte, Saulo
tomou a séria decisão de seguir a Cristo
de modo definitivo. Então, no dia 17
de abril de 1994, o ex-surfista de trem
e ex-pichador confirmou publicamente
seu novo nascimento para Cristo e
sua morte para o pecado por meio do
batismo.
Hoje, quinze anos depois do acidente
quase fatal, Saulo Piloto da Silva, 31,
bacharel em teologia pela Faculdade
Teológica Batista do Grande ABC, com
especialização em ministério pastoral,
é pastor da Área de Evangelização e
Missões na Igreja Batista Jerusalém
em Santo André e obreiro da AMME
Evangelizar, uma missão que ajuda as
igrejas evangélicas brasileiras a cumprir
a Grande Comissão dada por Jesus. A
esposa, Cirlene, também bacharela em
teologia pelo mesmo seminário (com
especialização em educação cristã), é
mestranda em psicopedagogia.
O surfista de trem que quase morreu eletrocutado
é hoje obreiro da AMME Evangelizar
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ULTIMATO Março-Abril, 200818
do que
Templos incendiados na Coréia do Sul e no Quênia
também noventa anos antes na aldeia
de Je Am-Ri, na Coréia do Sul.
No início de 2008, os partidários
do candidato à presidência do Quênia
derrotado nas eleições cercaram e
incendiaram o templo da Assembléia de
Deus de Eldoret, provocando a morte
de cinqüenta pessoas do grupo étnico
ao qual pertence o presidente eleito.
Mulheres e crianças tentaram escapar
de morrerem queimados, mas os
algozes mantiveram as portas do templo
fechadas.
Em 1919, um grupo de nacionalistas
coreanos se refugiou no templo de
uma igreja metodista na zona rural
próxima do lugar onde fica hoje
o Centro de Missões Leste-Oeste,
fundado e dirigido pelo conhecido
missiólogo David Cho. Naquele tempo
a Coréia estava sob o jugo japonês (de
1910 a 1945). Os soldados japoneses
cercaram o templo, fecharam as
janelas pelo lado de fora com pesadas
trancas e atearam fogo na igreja. Os
que conseguiram sair do templo em
chamas foram mortos a tiro. Naquele
dia, os japoneses mataram 23 homens
e duas mulheres e incendiaram mais
de trinta casas, além do templo. No
dia seguinte, o missionário canadense
F.W. Schofield e um colega visitaram
a aldeia, viram o que havia acontecido
e mandaram a notícia para o resto do
mundo.
Hoje existe um monumento histórico
em Je Am-Ri em homenagem aos
mártires coreanos.
Estados brasileiros. O tema “A Missão
do Padre Casado” foi apresentado por
três palestrantes: o bispo anglicano
Sebastião Armando Gameleira, o
conhecido teólogo católico José
Comblin e o padre casado e psicólogo
Jorge Ponciano. Na ocasião, o ex-
presidente Armando Holocheski, de
São José dos Pinhais, PR, empossou
os novos presidentes da Associação
Rumos, Félix Batista Filho, jornalista,
e sua esposa, Fernanda, pais de Felipe
Emanuel, de 18 anos, e Félix Neto, de
16. Félix foi ordenado padre em 1984
por Dom Hélder Câmara e mora em
Recife, onde exerceu o sacerdócio por
pouco tempo.
Chama-se padre casado o
sacerdote que deixa de exercer
o ministério por não estar mais
disposto a manter o voto do celibato
obrigatório, mas continua católico
romano. Félix Batista assegura que
existem hoje no Brasil mais de 5
mil padres casados e cerca de 150
mil no mundo. Por ausência de
dados oficiais, o número pode ser
muito maior. A Associação Rumos
é um dos organismos de apoio ao
Movimento dos Padres Casados,
que conta também com o jornal
Rumos.
De acordo com a revista Época, dos
29 padres formados no Seminário
de Mariana, MG, em 1958, sete já
morreram (24,1%), oito se casaram
(27,6%) e 14 continuam exercendo
o sacerdócio (48,3%).
Associação que congrega parte dos 5 mil padres
casados do Brasil elege seus novos presidentes
O padre casado Armando Holocheski
empossa o casal Félix e Fernanda Batista como
presidentes da Associação Rumos
Arquivopessoal
Soldados japoneses no cerco a coreanos
refugiados em templo metodista
O17º Encontro Nacional de
Padres Casados aconteceu em
Recife de 10 a 13 de janeiro, com
a presença de 106 pessoas de treze
Quem disse que a história não
se repete? O que aconteceu no
primeiro dia de 2008 na cidade de
Eldoret, a 300 quilômetros a noroeste
de Nairóbi, no Quênia, acontecera
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do que
AsifAkbar
ULTIMATO Março-Abril, 200820
A arte de sobreviver
numa enxurrada
de mentiras e de
equívocos
M
entira é uma coisa e equívoco
é outra. Ambos causam
muito estrago e afastam
muita gente da fé. Escreve-se mais sobre
mentira do que sobre equívoco. Sob o
ponto de vista ético, a mentira é mais
grave do que o equívoco.
Os guardas do túmulo de Jesus não se
equivocaram quando espalharam a notícia
de que o túmulo estava vazio porque os
seus discípulos haviam furtado o corpo
dele durante a noite de sexta para sábado.
Os chefes dos sacerdotes deram-lhes uma
grande soma de dinheiro para pregarem
essa mentira, que ainda era divulgada 50
anos após a ressurreição do Senhor, época
em que o Evangelho de Mateus foi escrito,
na década de 80 ou 90 do primeiro século
da era cristã (Mt 28.11-15).
Apesar dos prodígios da mentira
(2Ts 2.9), é preciso tomar igual cuidado
com os equívocos, eticamente mais
inocentes.Todos têm conhecimento
dos muitos equívocos da ciência, desde
quando se dizia que aTerra era o centro
do universo. Em todas as áreas da pesquisa
científica têm havido erros crassos: na
astronomia, na biologia, na nutrição,
na história etc. Outro dia, o filósofo
brasileiro Leandro Konder escreveu que
“nenhuma teoria — nem mesmo a que
venha a ser considerada a melhor delas
— pode, por si só, evitar que erremos.
Cada erro, empiricamente, poderia ser
evitado. Porém, o fato de errarmos é uma
experiência universal e inevitável”. Mas
a melhor contribuição de Konder é a
enfática declaração de que “a história da
filosofia está cheia de erros cometidos por
grandes filósofos. Os pensadores disseram
e fizeram muitas tolices. A começar pelos
gregos” (Jornal do Brasil, 16/06/07, p. 6).
Não se pode esconder o fato de que a
propaganda religiosa também costuma
pregar mentiras e cometer equívocos. Jesus
tinha toda a razão quando aconselhou
aos discípulos: “Sejam espertos como as
cobras e sem maldade como as pombas”
(Mt 10.16). Misturar uma coisa com a
outra em doses certas não é tarefa fácil,
mas a sobrevivência da fé vem daí!
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Frases
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 21
Oparaíso, ponto
final da história, já
se tornou o presente
na pessoa de Cristo
e começa a ser
experimentado no
encontro com ele. Assim,
a recusa dele é o inferno,
a morte da esperança.
Dom Filippo Santoro,
bispo de Petrópolis, RJ
Não tenho vocação
para ser pessimista.
Considero-me um
realista esperançoso.
Ariano Suassuna, 80,
escritor
Eliminar a corrupção
por completo não
será possível, mas
podemos controlá-la e
preveni-la.
Stuart Gilman,
chefe do programa
Global Anticorrupção
na sede do Escritório
das Nações Unidas
contra Drogas e Crime,
em Viena
Afalta de pão na mesa
do pobre pode ser
denúncia de falta de
espiritualidade no altar
dos cristãos.
Carlos Queiroz,
diretor-executivo da Visão
Mundial no Brasil
As pessoas têm escrito
livros que prometem
ajudar as outras e ser
mais felizes há uns
duzentos anos, e o
resultado tem sido um
monte de gente infeliz
e um monte de árvores
derrubadas.
Daniel Gilbert,
professor de psicologia em
Harvard
Gosto de ser otimista.
O pessimismo radical
merece uma bala na
cabeça, fim, acabou-se
a chatice. Mas não perdi
a visão da realidade,
e nela não vejo nada
deslumbrante.
Lya Luft,
escritora
Queremos ser
amigos da América,
mas às vezes temos
a impressão de
que a América não
precisa de amigos,
só de ajudantes para
comandar.
Vladimir Putim,
presidente da Rússia,
eleito Personalidade
do Ano de 2007 pela
revista Time
Não é sábio colocar
muita fé nas Nações
Unidas.
John Robert Bolton,
ex-embaixador dos
Estados Unidos na
ONU
Oque dói mais?
A morte da
pessoa amada ou a
partida da pessoa
amada? Digo que é
a partida da pessoa
amada.
Rubem Alves,
psicanalista
Oateísmo tornou-se
militante, irado,
e quer que Deus
desapareça. Não se
trata mais de uma
filosófica declaração de
que Deus está morto,
mas de um imperativo
de que ele deve ser
enterrado.
João Heliofar
de Jesus Villar,
procurador regional
da República da 4ª
Região e Bispo da Igreja
Evangélica Sara Nossa
Terra, em Porto Alegre,
em artigo publicado na
Folha de São Paulo
[Com o aquecimento
global] o Primeiro
Mundo será rebaixado
a Terceiro e o Terceiro,
a Quinto. E isso é
para daqui a pouco,
quase já.
Ruy Castro,
jornalista
Divulgação
Divulgação
Divulgação
Divulgação
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ULTIMATO Março-Abril, 200822
Antonio EliasAntonio Elias
sem pressasem pressa
de morrerde morrer
aos 91 anosaos 91 anos
Antonio Elias, o homem que teve um
espetacular encontro com o Senhor
aos 21 anos
Em 1932, por ocasião da Revolução
Constitucionalista, um rapaz de 21
anos, com cara de adolescente, entrou
pela primeira vez na vida em uma
igreja protestante. Era o templo da
Igreja Batista Paulistana. O moço,
chamado Antonio, teve naquela
noite, como ele mesmo disse tempos
mais tarde, “um espetacular encontro
com o Senhor”.
Desejando tornar-se membro da
comunidade, foi examinado e aceito
pela sessão da igreja para ser batizado.
Porém, por ter viajado para o Sul
do Brasil com destino à Argentina,
a cerimônia não se concretizou. Em
Porto Alegre, só com a roupa do
corpo — o uniforme de voluntário
da revolução — e doente, Antonio
foi levado para o hospital da Brigada
Militar e de lá para a casa do capitão
Ludovico Schilimyer, onde foi
tratado como filho. O rapaz quis
logo saber onde ficava a igreja batista,
indo parar na Capela do Redentor,
dos episcopais, cujo pároco era
Vicente Brande. Antonio estranhou
aquela igreja que julgava ser batista,
mas pensou: “Aqui no Sul tudo é
diferente...”. Terminado o culto, o
pastor, à porta, quis conversar com
o estranho visitante por causa do
uniforme (ele também era de São
Paulo). Tratou-o da melhor maneira
possível. Não demorou muito, o
jovem, convertido numa igreja batista
em São Paulo, tornava-se membro de
uma igreja episcopal de Porto Alegre.
Com a morte do pai em
Catanduva, SP, e não agüentando
mais as saudades da mãe e dos
irmãos, Antonio resolveu voltar para
o Estado de São Paulo. Na despedida,
Vicente Brandão explicou-lhe que
não havia igreja episcopal em São
Paulo, mas ele poderia transferir-se
para uma igreja presbiteriana. Foi a
primeira vez que Antonio ouviu falar
a palavra presbiteriano.
O nome todo desse rapaz é muito
curto e comum: Antonio Elias.
Não desperta a menor atenção
ou curiosidade. Mas sua vida foi
longa (por pouco não chegou aos
97 anos) e o que ele fez em favor
do evangelho, sempre com a maior
discrição possível, é extraordinário.
Tornou-se pastor presbiteriano,
fundou igrejas (naquele tempo não
se usava a expressão “plantar igrejas”)
em Teófilo Otoni, MG, Porto
Alegre, RS, e Niterói, RJ (Igreja
Presbiteriana Betânia), ganhou
muitas almas para Cristo, aqueceu
a alma de milhares de crentes
(era ao mesmo tempo evangelista
e avivalista), pastoreou igrejas e
organizou a Associação Evangelística
Sarça Ardente. Casou-se tarde (aos
38 anos) com a professora Maria
José, convertida através de seu
trabalho em Teófilo Otoni, e teve
três filhos, uma filha e seis netos.
O conhecido e amado Antonio
Elias faleceu em Niterói quatro dias
antes do Natal de 2007. (Leia em
www.ultimato.com.br As cartas de
amor de Antonio Elias e Maria José.)
O homem de nome curto e comumO homem de nome curto e comum
e de vida longa e extraordináriae de vida longa e extraordinária
Na edição de setembro/outubro de
2001, Ultimato entrevistou dois idosos
de 90 anos, ambos convertidos ao
evangelho setenta anos antes. Um deles
era Antonio Elias; o outro, Augusto
Gotardelo. Foram feitas algumas
perguntas muito francas e solenes e se
obtiveram respostas edificantes, como
se pode ler a seguir (no que se refere ao
primeiro):
KléosCésar
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 23
Se Dom Ático Eusébio da Rocha,
celebrante da Páscoa dos militares,
tivesse conclamado a multidão a se
ajoelhar diante de Jesus Cristo, o
jovem soldado paranaense Ismael
teria obedecido. Mas como era
para rezar de joelhos em sinal
de adoração à Santa Virgem, o
rapaz permaneceu de pé, não por
provocação, mas por convicção.
Então, ele olhou para trás e para os
lados para ver se havia mais alguém
não ajoelhado e encontrou um
sargento e outro pracinha tão em
pé quanto ele.
Hoje o antigo soldado tem
91 anos. Apesar de não ter
freqüentado escola alguma,
Ismael galgou posições de
destaque em sua vida profissional
(chegou a ser chefe da Divisão de
Tráfego e assessor de Segurança
e Informações do Porto de
Paranaguá, no Paraná) e publicou
alguns livros (Sob os Céus do
Cruzeiro, Fatos e Bênçãos, O
Varão preeminente e Inspirações de
um Matuto). No momento está
escrevendo um livro de memórias
que terá como título Pepitas do
Meu Bornal.
Ismael é um dos muitos
brasileiros que aprenderam a ler
com a Bíblia e que alcançaram
alguma facilidade para falar
e escrever por causa da escola
dominical — aquela reunião
informal de estudo bíblico
O pescador analfabeto queO pescador analfabeto que
virou assessor de segurançavirou assessor de segurança
do porto de Paranaguádo porto de Paranaguá
Arquivopessoal
Ismael Alves Pires aprendeu
a ler com a Bíblia
A espera da morte é tranqüila?
Antonio Elias — Absolutamente
tranqüila.
Deseja que a morte venha logo?
A. Elias — Falando francamente, sei
que tenho que passar por ela, mas
não estou com pressa. Enquanto tiver
saúde e estiver fazendo o que gosto —
anunciar o reino do Senhor — ela pode
demorar a chegar...
É bom viver?
A. Elias — Sim, para mim tem sido
bom viver, seguindo os passos daquele
que disse: “Eis que estou convosco
todos os dias, até a consumação dos
séculos” (Mt 28.20).
É bom morrer?
A. Elias — Não sei. Ainda não tive
essa experiência... Porém creio que
despretensiosamente posso dizer com
o apóstolo Paulo: “Para mim o viver é
Cristo e o morrer é ganho” (Fp 1.21).
Em seu caso pessoal, quais os maiores
transtornos físicos ou emocionais
causados pela idade avançada?
A. Elias — Encaro com naturalidade o
declínio das forças físicas. E, sem cessar,
louvo o Senhor por ter vivido bem até
agora, ultrapassando os 91 anos...
Qual a sua rotina diária?
A. Elias — Normalmente começo o
dia com um período devocional de
comunhão com o Senhor e leitura da
Bíblia. Leio jornais, livros e revistas.
Participo das atividades normais da casa.
Atendo os compromissos que surgem
e vou trabalhando nas mensagens que
tenho de pregar aqui em Niterói (duas
ou três vezes por semana normalmente),
e nas viagens por aí afora...
que se faz em quase todas as
denominações evangélicas aos
domingos pela manhã, em classes
divididas pela faixa etária, desde
a idade mais tenra. O antigo
pescador e vendedor de peixes
(sua primeira profissão) diz com
orgulho que nunca esteve numa
escola primária, “somente na
universidade que se chama escola
bíblica dominical”.
Viúvo há sete anos e pai de
cinco filhos (dois dos quais são
pastores) e de uma filha, Ismael
Alves Pires vive em Paranaguá e
conserva aquela tradição peculiar
à sua denominação: “Sou batista
roxo”.
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24 ULTIMATO Março-Abril, 2008
capa
Que vida boba!
A vida deixa de ser boba
quando é vivida em sua
plenitude acima e abaixo do
sol, no plano físico e metafísico,
no plano religioso e secular, no
plano da fé e da razão
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 25
N
ão se sabe ao certo
quem é o autor do
livro de Eclesiastes.
Poderia ser Salomão,
todavia é mais provável que seja
outro sábio bem posterior, que
se valeu de sua história, fama e
nome. Parece que foi o reformador
Martinho Lutero o primeiro a
negar a autoria de Salomão. Um
dos comentadores de Eclesiastes
diz simplesmente que o autor
empregou um artifício literário
muito comum e colocou suas
palavras na boca de Salomão. Nesse
caso, o livro teria sido escrito no
período pós-exílio, entre 400 e
200 antes de Cristo. Mas uma
coisa é certa: o autor de Eclesiastes
é um homem muito sábio,
vivido, conhecedor da natureza
humana, sensível, observador,
inconformado, realista, prático e
muito religioso.
O livro discorre sobre a vida
humana “debaixo do sol” (29
citações) ou “debaixo do céu” (3
citações), isto é, aqui embaixo, na
terra, neste mundo. Essa expressão
diz respeito à vida no plano físico e
não no plano metafísico, no plano
secular e não no plano religioso,
no plano material e não no plano
espiritual, no plano da razão e não
no plano da fé, no plano humano
e não no plano divino. Não se
discute a existência de Deus — ele
não é considerado, exista ou não.
Essa completa e concreta
alienação sobre Deus gera um
tédio insuportável, que leva o autor
a dizer repetidas vezes desde o
início: “Vaidade de vaidades, tudo
é vaidade” (Ec 1.2). Outras versões
preferem termos sinônimos: “Tudo
é inútil” (NVI), “Tudo é ilusão”
(NTLH), “Tudo é fugaz” (EP),
“Tudo é terrivelmente frustrante”
(BH). Na paráfrase da Bíblia Viva,
o autor escreve que a vida é uma
“vida boba” (2.23). A expressão
“vaidade de vaidades”, que aparece
37 vezes em apenas doze capítulos,
funciona como um superlativo, a
maneira hebraica de reforçar ou
aumentar a intensidade do fato.
Porém, o sábio não se satisfaz e
usa outras expressões para deixar o
leitor o mais ressabiado, intrigado,
possível. Numa delas, afirma que
a vida é um eterno “correr atrás do
vento” (1.14), “uma caça ao vento”
(BP), “uma perseguição ao vento”
(TEB) ou simplesmente um “vento
que passa” (EPC). Como o vento
é o ar em movimento e, quando
pára, não mais existe, o ser humano,
“debaixo do sol”, nunca se realiza,
nunca se acha, nunca pára de correr.
Na tradução da CNBB, “correr atrás
do vento” é “aflição de espírito”.
Em palavras menos simbólicas,
“correr atrás do vento” nada mais é
que esforço inútil, tempo perdido,
quimera. A frase aparece dez vezes
em Eclesiastes.
Em outra expressão, o sábio
parece mais melancólico ainda e
afirma sem acanhamento algum
que a vida “não faz sentido” (2.19;
4.16; 5.10; 8.10 e 14; 9.9; 11.8).
Em outra passagem, ele diz que é
“tudo sem sentido” ou, “nada faz
sentido” (12.8). Também diz que a
vida “é um absurdo e uma grande
O pessimismo toma
conta das pessoas
que desconsideram
Deus e vivem às suas
próprias custas e a
seu bel-prazer
injustiça” (2.21, NVI). A Bíblia do
Peregrino, a Bíblia de Jerusalém e a
Edição Pastoral Catequética usam
uma expressão muito mais forte:
“[A vida] é uma grande desgraça”!
O livro de Eclesiastes pode
parecer um pavoroso manual de
pessimismo. Veja, por exemplo,
os seguintes pronunciamentos:
“Quanto maior a sabedoria, maior
o sofrimento” (1.18); “Os mortos
[são] mais felizes do que os vivos,
pois estes ainda têm que viver!”
(4.2) e “É melhor ir a uma casa
onde há luto do que a uma casa
em festa” (7.2). Mas, na verdade,
o propósito do livro é mostrar a
causa e a cura para o pessimismo.
Este aparece e cresce quando as
pessoas pensam somente em si
mesmas, de forma egoísta e não
altruísta. O pessimismo acaba
tomando conta das pessoas que
desconsideram Deus e vivem às
suas próprias custas e a seu bel-
prazer. O pessimismo torna-se
insuportável quando as pessoas se
espremem entre o nascimento e a
morte e rejeitam qualquer idéia de
vida após a morte.
Para ensinar que a vida é boba, o
Sábio gasta muito tempo contando
suas experiências equivocadas que
a tornaram boba. Para ensinar que
a vida pode deixar de ser boba,
o Sábio aponta o equívoco-mor:
“Separado de Deus, quem pode
alegrar-se?” (2.29, RA).
Na verdade, todas as belezas
da vida perdem sua fragrância
e significado quando o homem
coloca Deus de lado e não mais
cogita sobre ele.
Definitivamente a vida deixa de
ser boba quando é vivida em sua
plenitude acima e abaixo do sol, no
plano metafísico e no plano físico,
no plano religioso e no plano
secular, no plano da fé e no plano
da razão!
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26 ULTIMATO Março-Abril, 2008
capa
Tudo?
A beleza das flores?
O perfume do jasmim?
As cores da rosa?
Tudo?
O campo de neve?
As florestas da Amazônia?
O cume dos montes?
Tudo?
O passeio na praia?
O banho do mar?
A areia incontável?
Tudo?
O luar do sertão?
A sanfona da roça?
O frango com quiabo?
Tudo?
O som da harpa?
A doçura da flauta?
As filhas da música?
Tudo?
O tamanho da baleia?
A altura da girafa?
As cores do camaleão?
O mel das abelhas?
O trabalho das formigas?
O vôo do beija-flor?
A força do leão?
A bolsa do canguru?
A longevidade da tartaruga?
A viagem das andorinhas?
Os dentes da cascavel?
A velocidade do falcão?
Tudo?
O aperto de mão?
O abraço apertado?
O beijo na face?
O afago da criança?
Tudo?
O primeiro amor?
A primeira carícia?
A primeira noite?
A primeira gravidez?
O primeiro filho?
O primeiro sorriso?
O primeiro beicinho?
A primeira palavra?
O primeiro passinho?
Tudo?
O presente que se dá?
O presente que se recebe?
O amor fraternal?
Tudo?
A dor de dente que passou?
A biópsia que nada
revelou?
A doença curada?
Tudo?
A revelação natural de Deus?
A consolação das Escrituras?
O ministério do Espírito?
“Tudo é vaidade e corre
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 27
rer atrás do vento” (Ec 2.17)
Tudo?
O amor de Deus?
A misericórdia de Deus?
A graça de Deus?
A soberania de Deus?
A glória de Deus?
A onipotência de Deus?
A onipresença de Deus?
A onisciência de Deus?
Tudo?
A graça comum?
A graça especial?
O Verbo que se fez carne?
O Cordeiro de Deus?
O Alfa e o Ômega?
Tudo?
O véu do templo que se rasgou?
O triunfo da cruz?
A vitória do bem sobre o mal?
O esmagamento da serpente?
A morte da morte?
A ressurreição dos mortos?
O novo corpo?
Os novos céus e nova terra?
O Apocalipse?
Tudo?
O riso depois do choro?
A noite depois do dia?
O dia depois da noite?
O verão depois do inverno?
O inverno depois do verão?
O sol depois da chuva?
O aguaceiro depois da seca?
A calma depois do furacão?
A paz depois da guerra?
O amor depois da briga?
O perdão depois do pecado?
A morte depois da vida?
A vida depois da morte?
Deus depois de tudo?
Tudo?
Os que fazem ciência?
Os que escrevem livros?
Os que compõem música?
Os que curam o corpo?
Os que ouvem a lamúria?
Os que promovem a
paz?
Os que fazem rir?
Os que anunciam as boas
novas?
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ULTIMATO Março-Abril, 200828
capa
O
muro mais antigo, mais
intransponível e mais
humilhante não é o
“longo muro” (a Muralha
da China, construída três séculos antes
de Cristo) nem o “muro da vergonha”
(o Muro de Berlim, construído em
1961); mas é o muro da desintegração
somatopsíquica que reduz o corpo
humano sucessivamente à inércia, à cor
e à rigidez cadavéricas, à decomposição,
ao esqueleto e, por último, ao pó.
O muro da morte foi construído
por Deus, logo após a queda, para
impedir que o homem tivesse acesso à
árvore da vida (Gn 3.24). A morte é o
acontecimento mais absurdo possível.
Um dos amigos de Jó dizia que o ser
humano “é arrancado da segurança de
sua tenda e levado à força ao rei dos
terrores” (Jó 18.14). Naquele tempo,
os cananeus comparavam a morte a
um monstro cujo lábio inferior toca a
superfície, e o superior, o mais alto céu.
A boca enorme e sempre escancarada
desse monstro engole tudo e nunca
se fecha e nem se satisfaz. Ninguém
escapa à sua gula feroz e descontrolada.
Não escapam nem os bons, nem os
maus, nem os cheios de vida, nem os
doentios, nem as criancinhas de colo,
nem os deficientes físicos em cadeiras
de rodas, nem a mulher bonita, nem
o homem feio, nem os ricos nem os
pobres, nem os recém-nascidos cobertos
de sangue, nem Lázaros cobertos de
chagas. A morte é tudo isto: faminta,
gulosa, insolente, cruel, implacável e o
pior de todos os desmancha-prazeres.
O rei Ezequias (701 a.C.), que,
por volta dos 37 anos de idade, foi
desenganado pelo próprio Deus, mas
pela graça do mesmo Deus, conseguiu
recuperar-se de sua enfermidade
terminal, explica que na morte a vida
é acabada, arrancada, cortada, desfeita,
reduzida a nada, removida e roubada
“como uma barraca de pastores que
é desmontada e levada para longe,
ou como um pedaço de pano que o
tecelão corta de uma peça de tecido”
(Is 38.12, NTLH). Esse corte pode
acontecer à noite ou antes do despertar
da manhã.
Um livro tão realista como o de
Eclesiastes não poderia jamais deixar
a morte de lado. Uma das razões pelas
quais a vida é boba é a existência
implacável da morte. Para o autor do
livro, a morte é um muro, pois todos
os sonhos, todos os desejos, todos os
empreendimentos esbarram nela e ali
acabam. Nesse sentido, o ser humano
não leva vantagem alguma sobre o
animal, nem o animal leva vantagem
sobre o ser humano, “pois a sorte de
homens e animais é uma só: morre um
e morre o outro” (Ec 3.19, BP).
As palavras mais irredutíveis sobre
a “cessação definitiva de todos os atos
cujo conjunto constitui a vida dos
seres organizados” estão em Eclesiastes:
“[Assim] como ninguém pode dominar
o vento, nem segurá-lo, também
ninguém pode evitar a morte, nem
deixá-la para outro dia. Nós temos de
enfrentar essa batalha, e não há jeito de
escapar” (8.7, NTLH).
A rigor, sem as boas-novas
da salvação, sem a esperança da
ressurreição, sem a promessa de novos
céus e nova terra, sem a certeza da
morte da morte pela vitória de Jesus,
tudo começa mal, caminha mal e
termina mal. O muro da morte não
nos deixa passar, não nos dá tempo
para gozar o que foi feito do lado de
cá, obriga-nos a trabalhar para aqueles
que não trabalham (Ec 2.17-23). Isso
pode levar o ser humano ao desencanto,
ao mais profundo pessimismo e até à
vontade de antecipar a própria morte.
Trata-se de uma angústia perturbadora
e sem solução apenas para aquele que
está e vive “debaixo do sol” ou “debaixo
do céu” e, portanto, desconsidera, na
teoria ou na prática, a existência de
Deus.
Sem as boas novas da
salvação, sem a esperança
da ressurreição, sem a
promessa de novos céus e
nova terra, sem a certeza
da morte da morte pela
vitória de Jesus, tudo
começa mal, caminha
mal e termina mal
KrisP
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 29
E
m qualquer tempo e em
qualquer cultura, o ser
humano quer se livrar da
vida boba, isto é, da falta de
sentido da vida. O autor de Eclesiastes
tenta resolver o problema da “triste
maneira de viver” (Ec 4.8, NTLH),
da eterna e desagradável rotina da vida
e da não-realização dos sonhos. Ele
caminha por algumas vias na tentativa
de ser bem-sucedido.
Quem sabe o caminho da
sabedoria daria certo?
Então ele se dedica a investigar e a
usar a sabedoria para explorar tudo o
que existe. Ele pensa, estuda, pesquisa,
viaja, observa e anota. Mal termina a
graduação passa para a pós-graduação;
mal termina a pós-graduação, passa
para o doutorado; mal termina o
doutorado, passa para o pós-doutorado.
Depois de muitos anos e muitos
diplomas, ele escreve:
“Cheguei à conclusão de que a
sabedoria é melhor do que a tolice,
assim como a luz é melhor do que a
escuridão. Os sábios podem ver para
Depois de muitos anos, muitos
diplomas, muitos bens e muitas
incursões no submundo, a vida
continua sem sentido
onde estão indo, mas os tolos andam na
escuridão. Porém eu sei que o mesmo
que acontece com os sábios acontece
também com os tolos. Aí eu pensei
assim: ‘O que acontece com os tolos vai
acontecer comigo também. Então, o
que é que eu ganhei sendo tão sábio?’ E
respondi: ‘Não ganhei nada!’ Ninguém
lembra para sempre dos sábios, como
ninguém lembra dos tolos. No futuro
todos nós seremos esquecidos. Todos
morreremos, tanto os sábios como os
tolos. Por isso, a vida começou a não
valer nada para mim; ela só me havia
trazido aborrecimentos. Tudo havia
sido ilusão; eu apenas havia corrido
atrás do vento”. (Ec 2.13-17, NTLH).
Quem sabe o caminho
do sucesso daria certo?
Então ele arregaça as mangas e põe as
mãos no arado. Não olha para trás nem
uma vez. Não desanima, não desiste,
não pára de perseguir o alvo proposto.
Segue todas as instruções, sua em
bicas, trabalha dia e noite. Paga todos
os dízimos e faz doações enormes para
receber o dobro ou mais que o dobro
do que havia contribuído. Depois
de muitos anos e de muitos bens, ele
escreve:
“Realizei grandes coisas. Construí
casas para mim e fiz plantações de
uvas. Plantei jardins e pomares, com
todos os tipos de árvores frutíferas.
Também construí açudes para regar as
plantações. Comprei muitos escravos
e além desses tive outros, nascidos na
minha casa. Tive mais gado e mais
ovelhas do que todas as pessoas que
moraram em Jerusalém antes de mim.
Também ajuntei para mim prata e
ouro dos tesouros dos reis e das terras
que governei. Homens e mulheres
cantaram para me divertir, e tive todas
as mulheres que um homem pode
“Resolvi me divertir e
gozar os prazeres da
vida. Mas descobri que
isso também é ilusão.
Cheguei à conclusão
de que o riso é tolice
e de que o prazer não
serve para nada”
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capa
A praga
do fastio
ULTIMATO Março-Abril, 200830
desejar. Sim! Fui grande. Fui mais
rico do que todos os que viveram em
Jerusalém antes de mim, e nunca me
faltou sabedoria. Consegui tudo o que
desejei. Não neguei a mim mesmo
nenhum tipo de prazer. Eu me sentia
feliz com o meu trabalho, e essa era
a minha recompensa. Mas, quando
pensei em todas as coisas que havia
feito e no trabalho que tinha tido
para conseguir fazê-las, compreendi
que tudo aquilo era ilusão, não tinha
nenhum proveito. Era como se eu
estivesse correndo atrás do vento”
(Ec 2.4-11, NTLH).
Quem sabe o caminho da
permissividade daria certo?
Então ele se solta, sai da tutela do
pai e da mãe, rompe com o passado,
desiste dos padrões bíblicos de
comportamento, encosta num canto
os Dez Mandamentos da Lei de
Deus, abre mão de alguns escrúpulos
adquiridos na infância, torna-se
dono de si mesmo e de seus desejos.
Considera-se livre, inteiramente
livre para fazer o que bem entende e
satisfazer qualquer desejo, contanto
que seja da carne e não do antigo
Espírito. Depois de muitos anos e de
muitas incursões no submundo, ele
escreve:
“Resolvi me divertir e gozar os
prazeres da vida. Mas descobri que
isso também é ilusão. Cheguei à
conclusão de que o riso é tolice
e de que o prazer não serve para
nada. Procurei ainda descobrir qual
a melhor maneira de viver e então
resolvi me alegrar com vinho e me
divertir. Pensei que talvez fosse essa
a melhor coisa que uma pessoa pode
fazer durante a sua curta vida aqui na
terra” (Ec 2.1-3, NTLH).
O sábio tenta outros caminhos.
Todos vão para o mesmo lugar, todos
o levam para a mesma sensação de
desapontamento, todos o fazem correr
sem parar atrás do vento!
H
á uma praga pior do
que as pragas do Egito.
É a praga do fastio. Ela
causa decepção, tédio,
repugnância, aversão, enfartamento
e outras complicações. É melhor ter
piolhos no corpo, na casa e no campo
do que sentir-se entediado. É preferível
enfrentar moscas e rãs por toda parte
do que aturar o desgosto provocado
pelo excesso de alguma coisa antes
fortemente desejada.
Não foi sobre o Egito que Deus
enviou a praga do fastio. Foi sobre
o povo eleito, quando Israel estava
acampado no deserto de Parã. Ali os
israelitas e os estrangeiros que estavam
no meio deles tiveram saudades do
Egito, dos peixes que “comiam de
graça”, dos pepinos, dos melões, dos
alhos e das cebolas. Vítima da terrível
doença da memória curta e esquecido
de que nada era de graça no Egito, o
povo de Israel queixou-se amargamente
do pão que de graça descia do céu em
quantidade suficiente dia após dia:
“Não há mais nada para comer, e a
única coisa que vemos é esse maná!”
(Nm 11.6, NTLH).
Eles queriam outra comida e Deus
lhes deu uma enxurrada de carne
para comer. Um enorme bando de
codornizes invadiu o arraial voando a
menos de um metro de altura e foram
apanhadas pelo povo numa extensão
de trinta quilômetros durante dois dias
e uma noite. O que menos “colheu”
teve no mínimo mil quilos, o suficiente
para encher 2.200 latas de um litro! E o
povo comeu aquela carne um dia, dois
dias, cinco dias, dez dias, vinte dias,
um mês inteiro, até sair pelos narizes,
até não agüentar mais, até não poder
ouvir falar de carne, muito menos de
codornizes. Era a praga do fastio, o
castigo do fastio, o tormento do fastio
(Nm 11.1-35).
Há outros exemplos de fastio na
Bíblia. Fastio de ouro e de prata, de
possessões e riquezas, de servos e servas,
de sabedoria e cultura, de trabalho e
realizações, de fama e glória. É o caso
do desesperado autor de Eclesiastes,
para quem, no auge do fastio, “tudo é
vaidade”, “correr atrás do vento” e uma
eterna mesmice (Ec 1.1-5, 20).
É provável que no último carnaval
muitos brasileiros tenham sido
atingidos não pela praga do fastio de
codornizes, mas pela praga do fastio de
sexo. Ou de camisinhas, tendo em vista
os 19,5 milhões de preservativos que o
governo distribuiu ao povo.
(Veja Quão verdadeiros somos?, p. 52.)
A praga
do fastio
CharlieBalch
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 31
P
ara você saber lidar com o
muro da morte e passar para o
outro lado dele...
Para você ficar livre da
eterna mesmice da vida (a intolerável
rotina de sempre) e experimentar coisas
novas e surpreendentes...
Para você não ser obrigado a
confessar, já velho e acabado, que sua
vida foi uma vida boba, sem sentido e
terrivelmente frustrante...
Para você não correr atrás do vento
como um bobo...
Para você não repetir no final de cada
dia, no final de cada semana, no final
de cada mês, no final de cada ano, no
final de cada aniversário, que “tudo é
vaidade”...
Para você se libertar de sua
continuada depressão...
Para você não cometer, em algum
momento da vida, suicídio...
“Lembre-se do seu Criador enquanto
você ainda é jovem, antes que venham
os dias maus e cheguem os anos em que
você dirá: ‘Não tenho mais prazer na
vida’” (Ec 12.1, NTLH).
Substitua o Memento Morti (lembre
que deve morrer) pelo Memento
Creatoris (lembre-se do seu Criador).
Desde que você busque a Deus
em primeiro lugar e tenha o devido
temor ao Senhor, não é necessário
que você desapareça deste mundo
(Jo 17.15) e construa um barraco no
meio da floresta para se isolar de tudo
e de todos. Não é necessário que você
abra mão da sabedoria, do sucesso,
dos prazeres da vida, do trabalho, da
ascensão econômica, dos exercícios
físicos, da alegria da música, da beleza,
do amor, da família, da sociedade e dos
sonhos. O livro de Eclesiastes ensina
isso: “Jovem, aproveite a sua mocidade
e seja feliz enquanto é moço. Faça tudo
o que quiser e siga os desejos do seu
coração. Mas lembre-se de uma coisa:
Deus o julgará por tudo o que você
fizer. Não deixe que nada o preocupe
ou faça sofrer, pois a mocidade dura
pouco” (Ec 11.9-10, NTLH).
O Sábio usa três vezes uma
palavrinha mágica no último capítulo
de Eclesiastes. É preciso lembrar-se do
tédio “antes que venham os dias maus”
(Ec 12.1), antes do processo irreversível
da decrepitude (Ec 12.2-6), antes da
morte (Ec 12.6-8). Quanto mais tarde
se toma essa decisão inteligente, maior
vai se tornando o desperdício da vida
e o consumo da amargura. É muito
mais sábio acabar com a alienação de
Deus no início da vida do que no final,
quando a “lamparina de ouro cai e
quebra”, quando a “corrente de prata se
arrebenta”, quando o “pote de barro se
despedaça e a corda do poço se parte”
(Ec 12.6-7).
O Eclesiastes é muito prático. Bastam
as duas últimas frases do livro: “De
tudo o que foi dito, a conclusão é
esta: tema a Deus e obedeça aos seus
mandamentos porque foi para isso
que fomos criados. Nós teremos de
prestar contas a Deus de tudo o que
fizemos e até daquilo que fizemos
em segredo, seja o bem ou o mal”
(Ec 12.13-14, NTLH).
A mensagem de Eclesiastes pode
ser reencontrada em um versículo
do profeta Jeremias: “O meu povo
cometeu dois crimes: eles me
abandonaram, a mim, a fonte de
água viva; e cavaram as suas próprias
cisternas, cisternas rachadas que não
retêm água” (Jr 2.13). Correr atrás do
vento e cavar cisternas rachadas a vida
inteira são metáforas diferentes com
mensagens iguais. As duas denunciam
a falta de Deus na mente, no coração
e na vida de qualquer ser humano que
rodopia em torno de si mesmo.
Chega da “vida boba”, “da triste
maneira de viver”, chega de nostalgia (a
saudade escondida de Deus), chega de
arrogância, chega de teimosia, chega de
incredulidade, chega de “correr atrás do
vento”!
É preciso parar de correr atrás
do vento e de cavar cisternas
que não retêm água!
Chega da “vida boba”,
da “triste maneira de
viver”, chega de nostalgia
(a saudade escondida de
Deus), chega de arrogância,
chega de teimosia, chega
de incredulidade, chega de
“correr atrás do vento”
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capa
Oséas Heckert
Oséas Elias Heckert é engenheiro. Participa do
Ministério com Casais da Igreja Presbiteriana
de Vila Mariana, em São Paulo.
ULTIMATO Março-Abril, 200832
Pai nosso que estás em todo lugar...
Pai,
penitente promitente
quero (de)votar-te exclusiva
dedicação:
nada tomará teu lugar em meu
coração;
nem imagem de escultura,
nem figura ou representação
de qualquer criatura
ou perversa estrutura
receberá minha adoração;
nem qualquer ocupação,
ou sequer preocupação,
terá maior atenção.
Prometo santificar o teu nome
e não usá-lo em futilidade;
prometo buscar a santidade,
a cada dia satisfazer tua vontade,
para que teu reino se realize
e concretize em minha vida.
Prometo honrar minha família,
para vivermos sem quizília1
e desfrutarmos em santa paz
o pão cotidiano que nos dás.
Perdoa as minhas dívidas,
desculpa minhas dúvidas,
aumenta-me a fé e o amor
pra ser clemente ao devedor,
e o meu zelo para fazê-lo
quantas vezes preciso for.
Não me deixes cair em tentação;
protege-me do círculo vicioso
de ouvir a lorota do impiedoso,
deter-me na rota dos pecadores,
e sentar-me à roda com zombadores.
Ensina-me a não prejulgar o próximo,
não proferir fortes palavras de
morte,
nem agir como algoz ou juiz.
Ao contrário de arbitrário,
permite-me fazer por ele o
máximo
para que tenha vida
longa e feliz.
Dá-me o prazer do sexo
conexo a seu contexto devido
para eu não ficar de olho comprido
e lascivo no flerte solerte,
a pretexto da grama mais verde
do outro lado da cerca.
Acerca da grana que engana,
perdoa-me a gana e a ansiedade;
dá-me o necessário suficiente
pra viver com dignidade
e acudir o mais carente;
não demais, para que farto te renegue,
nem de menos, para que sonegue
ou que no furto alguém me pegue.
Perdoa minha omissão:
fiz-me negligente e mudo
ante a exploração dos sem-nada:
cada pobre, órfão, viúva, estrangeiro.
Requeiro, dá-me prontidão
para erguer a voz e me colocar
em defesa dos desprovidos de tudo.
Faze-me, contudo,
moroso pra maldizer e fofocar...
Livra-me de ficar de olho grande
nas pequenas coisas de alguém,
ou cobiçoso das grandes, também.
Não peço redoma ou regalia,
mas a tua companhia,
todavia, em toda via.
Livra-me do mal
de retribuir mal com mal.
Ensina-me a amar,
meus amigos e inimigos,
e a exalar o teu aroma.
No pleroma2
de tua luz,
conduz meu caminhar imperfeito,
brilhando cada vez mais
até ser um dia perfeito.
Notas
1. Conflito de interesses; briga, rixa
2. Plenitude
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 37
EspecialEspecialnão quer fazer o papelão
de deixar Jesus de lado
Especial
E
m certo sentido, não temos
nada de novo para apresentar
ao leitor. Propagamos a velha
história, a velha mensagem, a velha
esperança, em uma embalagem nova.
Relacionamos os fatos de hoje com a
verdade de ontem. Partimos das coisas
que acontecem e daquilo que se diz
para chegar a Jesus Cristo, a última
instância.
Não usamos a mesma linguagem dos
astrólogos, economistas, sociólogos ou
futurólogos para nos referir ao que vem
depois do presente. Os cientistas falam
de suas especialidades. Ultimato dá
a sua colaboração abrindo as páginas
da Bíblia, pois as Escrituras começam
com a criação dos céus e da terra e
terminam com a criação de novos céus
e nova terra. Daquele princípio viemos
e para esse fim estamos indo. Tudo
aquilo que ainda não se realizou nessa
longa trajetória, nesse extraordinário
enredo, é escatologia. Estamos entre
a história e a escatologia. A história
diz respeito ao passado e a escatologia,
ao futuro. Com o correr dos séculos,
a escatologia passa para o âmbito
da história. Esta é cada vez maior e
aquela, cada vez menor. “Quando vier
o que é perfeito” (1Co 13.10), então a
escatologia deixará de existir.
Embora cada um de nós da
redação sejamos membros ativos de
alguma igreja evangélica, desde o
primeiro número (janeiro de 1968)
temos nos esforçado para não fazer
propaganda de denominação alguma,
pela simples razão de não sermos
um veículo denominacional. Já há
número suficiente de periódicos
denominacionais. Embora sejamos
protestantes que se orgulham da
Reforma Religiosa, acontecida na
Europa no século 16, e que se deixam
orientar por ela, Ultimato faz questão
de proclamar que O reino de Deus
é maior que a igreja católica, que as
igrejas ortodoxas, que a igreja protestante
(matéria de capa da edição de julho de
1996).
No final do quinto século, Agostinho
explicou que, “se na pregação não há
Jesus, ele não é a Palavra, é apenas uma
voz”. Em meados do século passado,
Adauto Araújo Dourado, professor de
homilética do Seminário Presbiteriano
de Campinas, ensinou aos seus alunos:
“Você pode fazer o melhor sermão.
Escreva-o. Leia-o. Se Jesus não é o
centro dele, rasgue-o em mil pedaços e
jogue fora”.
Ultimato não quer fazer o papelão
de deixar Jesus de lado. Explicamos
esse compromisso na matéria de capa
da edição comemorativa de nosso 30º
aniversário (janeiro/fevereiro 1998).
O título da matéria era Jesus na capa
e no miolo, isto é, nosso tema mais
insistente é Jesus.
Tamanho entusiasmo pelo Jesus das
Escrituras nos levou a publicar várias
matérias de capa sobre a riqueza da
pessoa e da obra de Jesus Cristo. Entre
elas, citam-se: A morte de Jesus foi
proposital? (abril de 1980), Proposições
sobre Jesus Cristo libertador (maio de
1980), A última tentação de Cristo
(setembro/outubro de 1988), As
brigas de Jesus por causa das crianças
(novembro de 1997), A divindade e a
humanidade de Jesus (julho de 2001),
O grande desafio do terceiro milênio
depois de Cristo é a lembrança contínua
do Jesus do Novo Testamento até que
ele venha (janeiro de 2003) e Jesus é
imatável (março de 2007).
A data exata do 40º aniversário de
Ultimato foi no dia 13 de janeiro.
As comemorações, no entanto, serão
realizadas aqui em Viçosa, de 31 de
julho a 2 de agosto de 2008, com a
presença de quase todos os articulistas
fixos e dos autores de livros publicados
pela Editora Ultimato.
Enquanto isso, todos nós, redatores
e leitores, vamos pôr as mãos no
arado e apresentar a mensagem do
cristianismo à nossa geração. Com
zelo e urgência!
Edição 129
Edição 241
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Robinson Cavalcanti
Mui bíblica missão
ULTIMATO Março-Abril, 200838
T
odos os seres e instituições
existem com um propósito,
construtivo ou destrutivo.
Chamemos esse objetivo
de missão. Muitas vezes, pessoas e
instituições se afastam de seu objetivo
original, ou o implementam por
métodos inadequados ou ilegítimos.
O pensador anglicano Michael Greene
afirmou: “A Igreja ou é missionária, ou
não é Igreja”. Jesus Cristo, se esvaziou,
encarnou em uma cultura e uma
conjuntura, rompeu barreiras sociais,
exortou, realizou sinais e prodígios. Ele
é o exemplo para a Igreja: o Messias
prometido, que transformou água em
vinho e bebeu fel na cruz — da festa
ao martírio. Foi ele quem disse: “Assim
como o Pai me enviou, eu também
vos envio” (Jo 20.21b). A Palavra
nos mostra o modelo da missão de
Cristo, bem como da nossa: “Percorria
Jesus toda a Galiléia, ensinando
nas sinagogas, pregando o
evangelho do reino e
curando toda sorte
de doenças
e enfermidades entre o povo”
(Mt 4.23). Para o comentarista da
Bíblia de Genebra, “ensinar envolvia a
comunicação da natureza e propósito
do reino de Deus, como é visto no
sermão do monte (caps. 4-7) e nas
parábolas do reino (cap. 13). Pregar
era anunciar as boas novas de que o
reino de Deus estava próximo, e que
seus soberanos propósitos na história
estavam sendo finalmente realizados.
Curar, bem como ensinar e pregar, era
sinal de que o reino já tinha vindo”
(Mt 11.5).
Ele recrutou seus discípulos
de diversos segmentos sociais e
demonstrou que o reino de Deus não se
identificava com nenhum dos partidos
do seu tempo. O Messias era a Palavra
viva, herdeira das palavras de Javé,
libertando o seu povo da servidão do
Egito, outorgando-lhe a Lei, falando
pelos profetas. Na sinagoga de Nazaré,
assumiu o seu messiado e a realização
da profecia de Isaías: “O Espírito do
Senhor está sobre mim,
pelo que me ungiu
para evangelizar os
pobres; enviou-me
para proclamar
libertação aos cativos e restauração da
vista aos cegos, para por em liberdade
os oprimidos, e apregoar o ano aceitável
do Senhor” (Lc 4.18-19). Esse texto
não deve ser “espiritualizado”, ou
“materializado”, pois nos lembra o ideal
de Deus para uma ética social superior,
no Ano Sabático e no Ano do Jubileu,
a realização plena escatológica (o
“ainda não”) e as possibilidades de fazer
avançar na história os valores do reino
(o “já”).
A missão da Igreja deveria ultrapassar
a tentação localista de uma mera
seita judaica, e se expandir por
todo o mundo. O cristianismo é
intrinsecamente expansionista, porque
o evangelho deve ser levado “até os
confins da terra” (At 1.8). O Espírito
Santo no Pentecostes foi derramamento
de poder e outorga de dons, para tornar
possível o cumprimento dessa missão,
que não é opcional, mas imperativa:
“Ide”. Foi essa a obediência dos
mártires, e a Igreja pagou um preço
quando foi coerente, mas envergonhou
o seu Senhor em tantos episódios
pouco dignos, que, periodicamente, a
chama para reforma e avivamento; para
coerência e obediência. Evangélicos,
continuamos a crer que a
prioridade da missão é a
evangelização, entendida
como “... a apresentação de Jesus
Cristo no poder do Espírito Santo,
de tal maneira que os homens possam
conhecê-lo como Salvador e servi-lo
como Senhor, na comunhão da Igreja e
na vocação da vida comum”.
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Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese
do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política
– teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o
Mundo – desafios a uma fé engajada.
<www.dar.org.br>
ão integral
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 39
Na Idade
Contemporânea,
o malabarismo
mental de
teólogos liberais
forjou um
universalismo
salvífico, que
descolou o Jesus
histórico do
Cristo de Deus, e
terminou vendo
“a face escondida
de Cristo atrás
dos orixás...”. No
final do século
19 e início do
século 20, nos
Estados Unidos,
a missão da Igreja foi dilacerada
entre um “evangelho social” e um
“evangelho individual”, unilaterais e
parcializadores. A missão, tantas vezes
atrelada a culturas, impérios e sistemas
políticos ou econômicos, foi violentada
e empobrecida. Aos extremismos liberal
e fundamentalista, o evangelicalismo
— com toda a sua história de piedade
engajada, de um Wilbeforce ou um
Lord Shaftsbury, herdeiro da pré-
reforma, da reforma, do puritanismo,
do pietismo, do avivalismo e do
movimento missionário, com seu
conteúdo de uma teologia bíblica e
histórica, foi capaz de, principalmente
com o Congresso e o Pacto de
Lausanne, devolver à Igreja a sua missão
recomposta: “o Evangelho todo, para o
homem todo e para todos os homens”.
É a missão
integral, que,
na resolução da
Conferência de
Lambeth, de
1988, dos bispos
anglicanos, deve
incluir e integrar
as dimensões:
a) proclamar as
boas novas do
reino; b) ensinar,
batizar e instruir
os convertidos;
c) responder
às necessidades
humanas
por serviço
em amor; d)
procurar transformar as estruturas
iníquas da sociedade; e) defender a
vida e a integridade da criação. Na
América Latina destacamos o papel
da Fraternidade Teológica Latino-
Americana (FTL).
Somente um grande
desconhecimento histórico ou uma
grande má-fé podem ser responsáveis
por se procurar identificar a Teologia
da Missão da Igreja, evangélica, com a
Teologia da Libertação, de premissas
e história liberais. No meio de antigas
e novas distorções, reafirmemos a mui
bíblica missão integral.
Somente um grande
desconhecimento histórico
ou uma grande má-fé
podem ser responsáveis
por se procurar identificar
a Teologia da Missão da
Igreja, evangélica, com a
Teologia da Libertação,
de premissas e história
liberais. No meio de
antigas e novas distorções,
reafirmemos a mui bíblica
missão integral
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Ricardo Gondim
ULTIMATO Março-Abril, 200840
Proposta de
espiritualidade
N
ão é preciso muita
perspicácia para perceber
que o movimento
evangélico ocidental passa
por uma grande crise. As incursões
do neofundamentalismo da direita
religiosa na política estadunidense não
ajudaram muito. Os reclames para
que a sociedade preservasse “valores
morais” caíram por terra porque não
encontraram respaldo nas próprias
igrejas, que se revezaram em escândalos.
Para agravar a crise, grandes segmentos
evangélicos se apressaram em legitimar
a invasão do Iraque, argumentando que
a Bíblia respaldava uma “guerra justa”.
Na América Latina, principalmente
no Brasil, a rápida expansão do
pentecostalismo produziu um grave
desvio ético na compreensão do
evangelho. Surgiu um novo fenômeno
religioso, mais comumente identificado
como “teologia da prosperidade”. O
que se ouve como “pregação” pelos
teleevangelistas e nas megaigrejas
dificilmente poderia ser associado
ao protestantismo histórico ou ao
pentecostalismo clássico.
Como não há mais nenhuma
novidade em afirmar que mudanças
radicais precisam acontecer no
movimento evangélico, a questão agora
é perguntar: “O que deve mudar?” Eis
algumas propostas:
Proponho uma espiritualidade menos
eficiente. Que os pastores desistam
de associar a aprovação de Deus a
seus ministérios com projetos bem-
sucedidos. A fé cristã não se propõe a
refletir o mundo corporativo em que
competência se prova com resultados.
Na espiritualidade de Jesus, os atos
de alguns servos de Deus podem ser
anônimos, despercebidos e pequenos.
A urgência de comunidades crescerem,
de pastores provarem como Deus os
abençoou com “ministérios aprovados”
acabou produzindo essa excrescência:
igrejas que mais se parecem com
balcões de serviços religiosos do que
com comunidades de fé.
Proponho uma espiritualidade
menos cognitiva e mais vivenciada. A
priorização da “reta doutrina” sobre a
experiência da fé acabou produzindo
crentes argutos em “provar” a sua fé,
mas frágeis no testemunho. A obsessão
pela verdade como uma construção
racional faz com que os catecismos se
tornem belas elaborações conceituais,
enquanto os testemunhos pessoais se
mantêm questionáveis. O evangelho
precisa ser escrito em tábuas de carne;
mostrar-se nos atos daqueles que se
propõem a brilhar como luz do mundo.
Proponho uma espiritualidade
menos mágica e mais responsável. A
idéia de um Deus intervencionista que
invade a todo instante a história para
resgatar seus filhos, dando-lhes alívio,
abrindo portas de emprego e resolvendo
querelas jurídicas, acabou produzindo
crentes alienados, sem responsabilidade
histórica e sem iniciativa profética.
Com esse comodismo, as igrejas se
distanciaram da arena da vida. Passaram
a acreditar que bastaria amarrar os
demônios territoriais para acabar com a
violência e com a miséria. O evangelho
não propõe que a história seja
transformada por encanto, mas com
ações políticas que defendam a justiça.
Proponho uma espiritualidade
menos intolerante. A idéia de um
mundo perdidamente hostil a Deus
gera igrejas intransigentes, que se
enxergam privilegiadas. A radicalização
da doutrina da queda faz com que
se perceba o mundo condenado,
irremediavelmente perdido. Com essa
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Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda
no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros,
Eu Creio, mas Tenho Dúvidas.
<www.ricardogondim.com.br>
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 41
visão, a igreja se fecha, só encara o
mundo como um campo de batalha,
e é incapaz de acolher os moribundos
que jazem às margens das estradas.
A espiritualidade evangélica precisa
resgatar doutrinas conhecidas nos
primeiros anos da Reforma, como
a imago Dei (a imagem de Deus em
todos) e a graça comum (o favor de
Deus capacitando a todos).
Proponho uma espiritualidade
que promova a vida. Os evangélicos
pregaram a salvação da alma por anos
a fio e, muitas vezes, esqueceram que
Deus deseja que experimentemos vida
abundante antes da morte. Aliás, o
céu deveria ser uma conseqüência das
escolhas que as pessoas fazem na terra
e não uma promessa distante. Com
essa ênfase exagerada na salvação da
alma, alguns se contentam com uma
existência sofrível, mal resolvida, e
acreditam que um dia, no além, tudo
ficará bem.
Proponho uma espiritualidade que
não contemple a santidade como apuro
legal, mas como integridade. Com
cobranças legalistas, os ambientes se
tornam exigentes. É inócuo estabelecer
o alvo da vida cristã como uma
perfeição exagerada, que para alcançá-la
seria necessário transformar as pessoas
em anjos. Hipocrisia nasce com esse
tipo de exigência. É preciso dialogar
com as imperfeições, com as sombras e
luzes da alma; sem culpas e sem fobias.
Só em ambientes assim, existe liberdade
para amadurecer.
Proponho uma espiritualidade
que estabeleça como objetivo gerar
homens e mulheres gentis, leais,
misericordiosos. Antes de almejar
aparecer como a instituição religiosa
detentora da melhor compreensão da
verdade, que procuremos amar com
singeleza; antes de nos tornar uma força
política, que saibamos caminhar entre
os mais necessitados; antes de alcançar
o mundo inteiro, que trabalhemos
ao lado daqueles que constroem um
mundo melhor.
Estou consciente de que minhas
propostas não têm muita chance de se
realizarem, mas vou mantê-las como
um horizonte utópico e vocação.
Soli Deo Gloria.
stockxpert
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ULTIMATO Março-Abril, 200842
Valdir Steuernagel
edescobrindo a Palavra de DeusR
M
aria aparece de surpresa. “Ó de casa!”, chama,
batendo palmas e pousando no chão o peso da
sacola.
O cachorro late e Isabel volta-se para Zacarias.
“Quem será a esta hora?” As palmas voltam e o cachorro torna
a latir. Num esforço desajeitado, ela se ergue da cadeira e,
acariciando a estranha barriga de seis meses, no corpo já bem
mais andado, diz ao marido: “Vá ver quem é”. Ele segue devagar
e ela balbucia, espiando pela janela: “Eu conheço essa menina...”.
Lá fora o cachorro silencia e uma conversa parece querer
ganhar forma. “Eu sou Maria”, diz a moça. “Somos meio
parentes. O senhor conhece a minha família; esteve lá em
casa quando eu era pequena.”
Então cai a ficha. Zacarias volta-se para a mulher, como que
pedindo socorro, e ela percebe que foi um erro pedir que ele
abrisse o portão. Da janela, a cena é de dar risada: Maria, sem
jeito, fita a sacola no chão; o cachorro late e o velho mudo segura
o portão, gesticulando algo que nem ele mesmo entende...
E assim as duas mulheres se encontram. Toda a cena é
ocupada por estas duas mulheres,que se abraçam chorando.
Um choro que parece não existir. A moça chora uma gravidez
contida e um mistério que cresce em seu ventre. Isabel deixa as
lágrimas correrem pelo rosto, como a lavar anos de uma difícil,
silenciosa e conturbada convivência com a ausência de filhos.
Mas suas lágrimas têm também o sabor da revelação, e por isso
um sorriso se abre em seu rosto – e com ele Maria é recebida.
O momento é sagrado. O tempo parece ter parado. O que
acontece é muito mais do que se vê. Duas grávidas se abraçam
e são os seus ventres que falam. Quando as palavras saem da
boca de Isabel, já os ventres pronunciaram os seus “aleluias”.
“Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe
estremeceu no ventre; Então Isabel ficou possuída do
Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre
as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. E de onde me
provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor? Pois,
logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a
criança estremeceu de alegria dentro em mim.” (Lc 1.41-44)
A Bíblia está cheia de textos grávidos. Grávidos de
significado e ternura. Eles nos alcançam em diferentes
momentos, trazendo mistério e significado à nossa vida. Assim
é com Maria e Isabel. Uma é jovem ainda. A gravidez, em si,
não lhe é problema, mas tem um sentido profundo e difícil;
ela está grávida por revelação de Deus e carrega no ventre a
revelação maior de Deus na pessoa de seu filho. A outra já tem
o ventre murcho e a gravidez lhe pesa, mas ela a vive numa
felicidade adolescente, celebrando a bênção de ser mãe.
Deus se
importa com
a gestante
BiancadeBlok
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 43
Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a
Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral
e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para
Falar das Flores... e Outras Crônicas.
Assim são as coisas. Gravidez em
menina-moça e gravidez em mulher
madura. Gravidez que desliza pelos
meses como a água desliza com graça
no leito do rio. Gravidez que parece
um mar revolto, requerendo cuidado
e acompanhamento. Deus as conhece
todas, com todas se ocupa e a todas
trata como gestoras de vida.
O Objetivo do Milênio para o qual
olhamos neste artigo coloca em pauta a
melhoria da saúde das gestantes: reduzir
em três quartos, entre 1990 e 2015, a taxa
de mortalidade materna. Diante deste
objetivo, volto à palavra de Deus e me
pergunto: como Deus se relaciona com
a mulher grávida? Então me vejo diante
do abraço de Maria e Isabel. É claro que
a Bíblia não é um manual de cuidado
da gestante, mas nela se vê claramente
um Deus com um sentido de santidade
para com a vida e, portanto, para com a
gestante. Aliás, é interessante notar como
na Bíblia, em diferentes ocasiões, a vida
nasce do encontro da fertilidade de Deus
com a esterilidade humana. A própria
Isabel, como relata Lucas, é estéril e Deus
lhe promete uma gravidez especial. É
assim que ela dá a luz João.
Deus, sendo o autor da vida,
acompanha a gravidez com zelo e
carinho. Isso se manifesta, ora em pessoas
como Isabel, carregando com dificuldade
uma gravidez inesperada mas bem-vinda,
ora em pessoas como Maria, que, grávida
em plena adolescência, busca sentido para
essa gravidez em sua vida.
A gravidez pode acontecer em
circunstâncias diversas e variadas;
algumas são felizes e outras, trágicas
e dramáticas. Diante de algumas
Deus sorri, diante de outras ele chora.
Quando a futura mãe é cercada de
cuidados e afetos e a gravidez se
desenvolve com saudável expectativa
e normalidade, Deus sorri satisfeito.
Quando o feto não cresce porque a mãe
passa fome, Deus sente fome com ela.
Quando o bebê se desenvolve de forma
anormal porque a mãe não recebeu os
cuidados médicos necessários, Deus
balança a cabeça em desaprovação.
Quando a mãe morre no parto porque
foi abandonada na maca de um hospital
superlotado ou acometida de uma
infecção hospitalar, então Deus deixa
claro que não é isso que ele deseja. Ele
busca homens e mulheres que queiram
expressar um outro compromisso de
vida com as gestantes e seus filhos.
É por isso que, como parte da
comunidade de Deus, nós celebramos
e afirmamos as metas deste Objetivo
do Milênio buscando formas pelas
quais mulheres grávidas se abracem e
celebrem a gestação da vida.
Objetivos do Milênio
Acabar com a fome e a miséria
Educação básica e de qualidade
para todos
Igualdade entre sexos e
valorização da mulher
Reduzir a mortalidade infantil
Melhorar a saúde das gestantes
Combater a aids, a malária e
outras doenças
Qualidade de vida e respeito ao
meio ambiente
Todo mundo trabalhando pelo
desenvolvimento
Quando a futura mãe é
cercada de cuidados e afetos
e a gravidez se desenvolve
com saudável expectativa
e normalidade, Deus sorri
satisfeito. Quando o feto não
cresce porque a mãe passa
fome, Deus sente fome com ela
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história
Alderi Souza de Matos
O ceticismo religioso
e seus arautos
ULTIMATO Março-Abril, 200844
H
á vários séculos a visão
de mundo materialista e
irreligiosa tem sido aceita
de modo crescente como
uma postura legítima ao lado de outras
cosmovisões. Todavia, em anos recentes
vem ocorrendo um desdobramento
novo e preocupante: a afirmação cada
vez mais insistente de que a perspectiva
ateísta é a única defensável do ponto
de vista científico e filosófico, e que,
portanto, a religião,
em qualquer
de suas
manifestações, deve ser banida para
sempre e completamente do cenário
humano. Hoje, cada vez mais a
incredulidade religiosa é saudada
como racional e esclarecida, ao passo
que a fé é rotulada como retrógrada e
obscurantista.
O impacto do Iluminismo
A atitude anti-religiosa não é nova
na história da humanidade — e do
Ocidente em particular. Ela vicejou
em algumas correntes filosóficas da
Grécia antiga, tais como os céticos
(Pirro, Tímon, Arcesilau e Carnéades),
descritos como os primeiros relativistas
da filosofia, e os epicureus (Epicuro,
Lucrécio), tidos como os primeiros
humanistas liberais. Todavia, foi o
Iluminismo do século 18 que lançou
as bases para uma ampla aceitação da
perspectiva materialista da vida
no mundo moderno, ao
fazer da razão e da
experiência
os árbitros da verdade, em detrimento
da fé e da revelação. Os iluministas
podiam até ser religiosos, como
foi o caso de Descartes, Locke e
Newton, mas as posturas racionalista e
empirista prepararam o caminho para
questionamentos cada vez mais ousados
na esfera religiosa.
Foi curiosa a posição dos deístas,
os iluministas que ainda queriam
preservar um espaço para a religião.
Sua solução foi postular um Deus
absolutamente transcendente, que não
tinha nenhum relacionamento com o
mundo e a humanidade. Immanuel
Kant (1724-1804), um dos filósofos
mais brilhantes da modernidade, foi
mais além. Ele colocou Deus e as
realidades transcendentes na categoria
dos “númenos”, ou seja, entidades
que escapam à percepção sensorial e,
portanto, não podem ser conhecidas
em seu ser. Kant e os deístas tiveram em
comum o fato de reduzirem a religião
à ética. O único valor da religião seria
auxiliar a moralidade. Certas doutrinas,
como a existência de Deus, deviam ser
consideradas verdadeiras porque são o
fundamento da vida moral.
HugoHumbertoPlácidodaSilva
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 45
A ofensiva da incredulidade
O século 19 testemunhou o surgimento
de filosofias explicitamente secularistas
e anticristãs. Essa tendência havia
começado com o filósofo empirista
inglês Thomas Hobbes (†1679),
considerado o primeiro materialista
moderno, e se fortaleceu com David
Hume (†1776), defensor da idéia de
que não se pode ter certeza de nada
(ceticismo). Na França, Voltaire e os
enciclopedistas também se destacaram
por seu questionamento da religião.
Finalmente, o alemão Arthur
Schopenhauer (1788-1860) foi o
primeiro grande filósofo ocidental a ser
abertamente ateu e o seu compatriota
Ludwig Feuerbach (1804-1872)
descreveu a religião como uma projeção
dos ideais, anseios e temores do ser
humano.
Eles foram seguidos por três
grandes pensadores anti-religiosos
que se tornaram ícones da cultura
contemporânea, exercendo poderosa
influência desde o final do século 19:
Karl Marx (1818-1883), Friedrich
Nietzsche (1844-1900) e Sigmund
Freud (1856-1939). Outro enorme
desafio à cosmovisão cristã foi a
teoria da evolução das espécies,
proposta pelo naturalista inglês
Charles Darwin (1809-1882), que
propôs uma alternativa radical para a
doutrina bíblica da criação. O impacto
dessa mentalidade secularizante tem
sido devastador em alguns países
de formação cristã. Na Espanha,
Alemanha e Inglaterra, menos da
metade da população acredita em um
Ser Supremo. Na França, os que crêem
não chegam a 30%.
Popularização do ateísmo
De uns anos para cá, a mídia vem
divulgando entusiasticamente o
ideário secularista. Dessa maneira,
conceitos que anteriormente se
limitavam aos círculos acadêmicos e
filosóficos vão se tornando familiares
ao público mais amplo. Isso ocorre
principalmente através de periódicos
de grande circulação, como é o
caso, no Brasil, da conceituada
revista Veja. Essa publicação, tão
valiosa em diversos aspectos, tem
articulistas, como André Petry,
que freqüentemente se referem à
religiosidade e à fé em Deus em
termos depreciativos e irônicos. A
religião é caracterizada como algo
fantasioso e anticientífico, que
mais prejudica do que beneficia o
ser humano. Alguns argumentos
favoritos são as guerras e a
intolerância religiosas, os conflitos
entre fé e ciência, e a resistência dos
Os cristãos não
devem descartar
tão rapidamente os
ataques dos autores que
defendem a mentalidade
cética, mas exercer uma
necessária autocrítica,
reconhecendo que
muitas de suas alegações
contra os religiosos
são legítimas
religiosos a determinados valores e
comportamentos da cultura moderna
(aborto, homossexualismo, pesquisas
com embriões etc.).
Outra maneira como essa e outras
publicações ajudam a difundir a
mentalidade cética consiste no grande
espaço dado a autores que pregam
abertamente o ateísmo. Os exemplos
mais conhecidos são o filósofo francês
Michel Onfray (Tratado de Ateologia),
o biólogo inglês Richard Dawkins
(Deus, Um Delírio), o jornalista inglês
Christopher Hitchens (Deus não é
Grande) e o filósofo americano Sam
Harris (Carta a Uma Nação Cristã).
As conhecidas “páginas amarelas” com
freqüência apresentam entrevistas
com alguns desses intelectuais,
que defendem abertamente o fim
da religião. Tais revistas também
publicam regularmente matérias
que mostram a aplicação da teoria
evolutiva aos mais diferentes
aspectos da vida pessoal e social.
Um exemplo recente é a entrevista
com o primatologista Frans de Waal,
segundo o qual a moralidade, que
muitos julgavam o último refúgio
da religião, não tem origem religiosa
nem é exclusiva do ser humano (Veja,
22/08/2007).
Onde ficamos?
Essas considerações nos levam de volta à
expressão do título deste artigo, extraída
do Salmo 14.1. Hoje aqueles que
negam a Deus não o fazem somente
no seu íntimo, mas proclamam de
modo explícito a sua incredulidade,
buscando ativamente simpatizantes
para a sua causa. Quais devem ser as
respostas dos cristãos a esse desafio? Em
primeiro lugar, eles não devem descartar
tão rapidamente os ataques desses
autores, mas exercer uma necessária
autocrítica, reconhecendo que muitas
de suas alegações contra os religiosos
são legítimas. De fato, a história
demonstra que muitas vezes os adeptos
O cristianismo e a
crença em Deus são
intelectualmente
defensáveis, como já
demonstraram muitos
autores ao longo da
história, desde os
apologistas do segundo
século, passando pelos
escolásticos medievais,
até pensadores do
século 20
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Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela
Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja
Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na
História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil.
<asdm@mackenzie.com.br>
ULTIMATO Março-Abril, 200846
defensáveis, como já demonstraram
muitos autores ao longo da história,
desde os apologistas do segundo século,
passando pelos escolásticos medievais
(Anselmo de Cantuária e Tomás de
Aquino, entre outros), até pensadores
do século 20, como C. S. Lewis, Francis
Schaeffer e Cornelius Van Til. Um
exemplo atual na comunidade científica
é o geneticista cristão Francis Collins
(Veja, 24/01/2007).
Por último, essas manifestações de
antipatia à religião são reveladoras
do estado de ânimo do homem
contemporâneo, com todas as
angustiosas perplexidades do tempo
presente. Existem questões para as quais
simplesmente não há uma explicação
naturalista, como a origem da vida.
Outra área crucial em que a ciência e a
filosofia têm falhado em dar respostas
satisfatórias são as grandes questões
existenciais, aquelas que dizem respeito
ao sentido da vida e da pessoa humana.
Por mais que os materialistas neguem,
sua concepção do homem tende a
trivializar o significado e a importância
da vida, abrindo as portas para horríveis
violações da dignidade humana. Esse
estado de coisas oferece aos cristãos
valiosas oportunidades de testemunho
sobre a esperança que neles há.
Hoje, cada vez mais
a incredulidade
religiosa é saudada
como racional e
esclarecida, ao passo
que a fé é rotulada
como retrógrada e
obscurantista
de diferentes religiões, inclusive o
cristianismo, têm se portado de maneira
presunçosa e intolerante. A religião
com freqüência tem sido culpada de
comportamentos negativos, como
violência, discriminação e hipocrisia.
Muita maldade tem sido cometida em
nome de Deus e da fé, e isso não só
entre os fundamentalistas islâmicos.
Em segundo lugar, o desafio desses
críticos aponta para a necessidade de
um criterioso trabalho apologético.
Os cristãos não são obrigados a ficar
numa atitude passiva, como se fossem
cordeirinhos, achando que não têm
como oferecer respostas convincentes
aos inimigos da fé. O cristianismo e a
crença em Deus são intelectualmente
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Informe
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Entrevista: Viv Grigg
O inverso da cultura:
é preciso viver com simplicidade para
que os outros simplesmente vivam
Missiólogo dos pobres afirma que as igrejas históricas
precisam ouvir a voz das igrejas entre os pobres,
quase todas pentecostais, porque elas não falam sobre
missão integral, mas fazem missão integral
Arquivopessoal
ULTIMATO Março-Abril, 200848
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O celibato voluntário
é positivo quando se
escolhe essa opção
para exercer um
determinado tipo de
ministério. Não deve ser
uma obrigação
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 49
N
ascido em Auckland, a
maior cidade da Nova
Zelândia, há 58 anos, de
etnia européia, Viviam
Lawrence Grigg, mais conhecido
como Viv Grigg, é uma das maiores
autoridades do mundo na área de
missão entre os pobres. Ele é mestre
em missiologia pelo Fuller Teological
Seminary (Califórnia) e doutor em
teologia pela Auckland University
(Nova Zelândia), mas o que lhe dá essa
autoridade é a experiência vivida numa
miserável favela na cidade de Manila, nas
Filipinas, recordando o que o japonês
Toyohiko Kagawa havia feito muitos
anos antes, quando encheu um carrinho
de mão com seus pertences e se mudou
para a favela Shinkawa, nas proximidades
de Kobe. Curiosamente, Viv Grigg é
batista na Nova Zelândia, membro
de uma comunidade carismática nas
Filipinas e assembleiano no Brasil. Apesar
de haver mais mulheres do que homens
no país natal do autor de Servos entre os
Pobres e O Grito pelos Pobres, ele casou-se
aos 38 anos com a missionária brasileira
Ieda, da Igreja Metodista Livre. Nos dois
últimos anos, Grigg treinou cerca de
2 mil pessoas em dezenove cidades na
América e na Ásia para anunciar as boas
novas de forma contextualizada entre os
pobres. Esta entrevista foi feita em Belo
Horizonte e São Paulo, aproveitando
alguns dias das férias de Grigg, que mora
com a família em Auckland. A Editora
Ultimato vai lançar ainda este ano a
segunda edição de Servos entre os Pobres.
Ultimato — Quem é você? Teólogo? Profeta?
Pastor? Missionário?
Grigg — Se é para economizar palavras,
eu diria que estou desenvolvendo um
ministério entre os pobres. Poderia
acrescentar que sou avô do trabalho
entre os pobres. E, como tal, recolho
informações daqui e dali, e sempre dou
idéias de liderança. Da multiplicação
das primeiras sementes, eu conduzi
uma aliança dos movimentos de igrejas
entre os pobres ao redor do mundo.
Ultimato — Qual a sua análise da teologia
da libertação, ventilada primeiramente por
protestantes e depois, com mais intensidade,
por católicos?
Grigg — A teologia da libertação é uma
teologia da classe média sobre os pobres
e para os pobres, enquanto a prática
pentecostal é dos pobres e para os
pobres. A segunda está transformando
a sociedade; a primeira não funcionou
muito bem. O fundamento da teologia
da libertação é marxista e essa análise
da pobreza humana é parcial e não
totalmente correta. A exegese das
Escrituras, especialmente do livro de
Êxodo, é feita sob a ótica do marxismo.
No entanto, nós os evangélicos temos o
que aprender com eles. Além de chamar
a atenção de todos para o sofrimento
dos pobres, eles ressaltaram algo muito
importante, que é o pecado estrutural
da sociedade.
Ultimato — O que o senhor chama de missão
integral?
Grigg — A missão integral também é
uma teologia da classe média. As igrejas
históricas precisam ouvir a voz das
igrejas entre os pobres, pentecostais em
sua maioria. Elas não falam sobre missão
integral, mas fazem missão integral. Aos
poucos ajudam cada pessoa em suas
necessidades e restauram a sua dignidade
e seu papel na vida cotidiana da igreja.
Elas falam sobre o Espírito Santo e seu
poder de produzir reavivamento. E
reavivamento tem efeitos econômicos,
pois é uma força transformadora. A
proclamação do evangelho no poder do
Espírito é o que causa a transformação.
A transformação deve acontecer nos
âmbitos político, econômico e social. É
preciso fazer conexão entre o capítulo
dois (a descida do Espírito) e o capítulo
quatro (a partilha dos bens) do livro de
Atos. Quando o Espírito vem, todos se
juntam economicamente falando. Aí está
o fundamento da economia cooperativa:
os mais ricos ajudando os mais pobres
para todos terem uma vida digna.
Ultimato — A teologia da prosperidade seria
um recuo no esforço para nos tornarmos cada
vez mais desprendidos do amor ao dinheiro e
dispostos a sermos servos entre os pobres?
Grigg — O problema da teologia da
prosperidade não é exclusivamente
brasileiro, mas global. É bom falar com
os pobres sobre prosperidade, mas não
prosperidade na base de mágicas. A
prosperidade não resulta de orações
mágicas, de sonhos ou de trocas
com Deus pelo que ele vai fazer. Ela
resulta da implantação de princípios
da Palavra de Deus sobre criatividade,
produtividade, descanso, economia
comunitária e redistribuição. Repito: é
bom falar isso aos pobres. Ao mesmo
tempo, Jesus adverte que a riqueza é
perigosa. Precisamos aprender a viver
ultimato 311 FIM.indd 49ultimato 311 FIM.indd 49 27/2/2008 11:42:1427/2/2008 11:42:14
É bom falar com
os pobres sobre
prosperidade, mas não a
prosperidade que resulte
de orações mágicas, de
sonhos ou de trocas com
Deus pelo que ele vai
fazer, e sim aquela que
resulta da implantação de
princípios da Palavra de
Deus sobre criatividade,
produtividade
economia comunitária e
redistribuição
ULTIMATO Março-Abril, 200850
com simplicidade. O desafio de todos
nós deveria ser “viver simplesmente
para os outros simplesmente viverem”.
Ultimato — Com a multiplicação do número de
crentes e o surgimento dos primeiros casos de
injustiça social, a igreja primitiva procedeu à
eleição de diáconos. O que é diaconia?
Grigg— O diácono é uma espécie de Robin
Hood, digamos, aquele que leva dinheiro
dos ricos para os pobres... O trabalho
social do desenvolvimento comunitário
não pode se dar fora da igreja, deve fazer
parte da vida da igreja. Cada crente tem
de pensar como pode fazer isso e cada
ONG deve pensar como ajudar a igreja.
Ultimato — Você abriu mão do casamento para
não submeter a esposa ao estilo de vida que
adotou ao se mudar para a favela de Tatalon,
na proximidades de Manila, nas Filipinas,
há pouco menos de 30 anos. Quanto tempo
durou o seu jejum celibatário?
Grigg — Fiquei solteiro até os 38 anos. O
celibato voluntário é positivo quando
alguém escolhe essa opção para exercer
um determinado tipo de ministério.
Mas não deve ser uma obrigação nem
uma opção para a vida toda. Depois de
meu casamento com Ieda, fomos morar
entre os pobres em Calcutá, na Índia.
Um ano depois, tivemos de retornar à
cidade porque minha esposa adoeceu
gravemente. Ainda hoje moramos
num lugar pobre, mas não na favela.
Acho possível morar como família na
favela, desde que se tome uma série
de cuidados. Conheço várias famílias
missionárias, inclusive brasileiras, que
vivem entre os pobres.
Ultimato — Onde e quando você conheceu e se
casou com a missionária brasileira Ieda?
Grigg — Conheci Ieda numa conferência
para solteiros, aqui no Brasil, mais
precisamente em Atibaia, SP. Fiquei
surpreso ao ouvi-la falar sobre a Índia.
Mais ainda ao saber que ela tinha
sido uma das primeiras missionárias
brasileiras a ir para aquele distante
campo missionário. Eu não pensava em
ter uma esposa brasileira, mas já estava
pensando em me casar porque meu
trabalho seria outro: liderança de casais
para missão entre os pobres. Ouvi a
palestra dela e depois fomos conversar.
Lá pelas tantas, Ieda me perguntou
como poderia voltar à Índia. Respondi
sem pestanejar: “Casando-se comigo...”.
Hoje, vinte anos depois, temos três
filhos: Monique (18), Leonardo (15)
e Bianca (12). Vivemos na Nova
Zelândia, minha terra natal. Ieda
trabalha como capelã, dando assistência
a pessoas em situações de luto e perda.
É uma pregadora eloqüente e muito
usada por Deus em nosso país. Quanto
a mim, continuo a viajar muito para
encorajar e preparar missionários de
vários países na missão entre os pobres.
Ultimato — As favelas da Ásia, da África e da
América Latina têm características próprias,
são diferentes entre si?
Grigg — Geralmente as favelas têm
características comuns. As diferenças
se devem às cidades. Aqui na América
Latina as favelas não são tão pobres
como na Índia. A pobreza na Índia
parece ser dez vezes mais grave do
que no Brasil. Nas favelas africanas,
o problema maior é a aids. Tanto
no Rio de Janeiro como em Nova
Guiné, há muita violência. Eu diria
que a corrupção governamental gera
a situação de violência no Brasil. Já
em Nova Guiné, o maior problema
é o desemprego, pois a maioria da
população favelada é masculina e sem
trabalho.
Ultimato — Você tem boas lembranças do
COMIBAM I (Congresso Missionário Ibero-
Americano), realizado exatamente há vinte
anos no Brasil?
Grigg — Lembro-me de 5 mil jovens
de todos os países da América Latina,
com muito barulho, muita disposição,
muitos sonhos, e sem recursos. Pensei
como Deus poderia fazer alguma coisa
para aproveitar todo esse entusiasmo.
Mais tarde, a estabilização do real
e o crescimento econômico das
igrejas favoreceram o envio de mais
missionários brasileiros para o exterior.
Tenho a impressão de que agora
o problema é o arrefecimento dos
sonhos missionários das igrejas. Muitas
estão pregando a prosperidade e não
falam sobre o sofrimento humano. O
missionário tem de aprender a conviver
com o sofrimento e, às vezes, com a
pobreza.
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Ricardo Barbosa de Sousa
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52 ULTIMATO Março-Abril, 2008
Quão
verdadeiros
somos?
A
ssisti ao filme Meu nome não é Johnny, a história da
triste trajetória de João Guilherme Estrela, jovem
de classe média alta, preso por tráfico de drogas
nos anos 90. O filme chega numa hora em que a
sociedade acompanha, assustada, o crescimento do tráfico
e do consumo de drogas entre jovens que freqüentam boas
faculdades, criados em famílias com recursos financeiros
e em ambientes sociais aparentemente protegidos do
submundo do crime. A pergunta que todos se fazem, diante
de um drama assim, é a mesma: o que leva um jovem que,
aparentemente, tem tudo a chegar onde João Estrela chegou?
Bem, certamente existem muitas respostas, teses e opiniões
a respeito, mas, fica uma pergunta que tem me levado a
refletir nestes últimos dias: Quão verdadeiros somos?
Parece-me que a sociedade, particularmente a juventude,
enfrenta uma enorme resistência a tudo aquilo que é normal.
A normalidade que, no passado era o que todos desejavam,
não agrada mais ao ser humano. Uma festa normal em que
amigos se encontram para conversar, ouvir boa música e se
divertir não satisfaz mais; os jovens precisam de uma rave que
comece na sexta à noite e termine no domingo, com música
eletrônica ininterrupta e ensurdecedora, muito ecstasy e
álcool. Ter um namorado ou namorada para conversar, sair,
construir uma boa amizade e crescer afetivamente pensando
na família que possivelmente irão formar, também não é o
bastante; é preciso ficar com o maior número de parceiros
possível, beijar e transar com todos. Ter um emprego com
salário no fim do mês para pagar as contas e, quem sabe,
sobrar algum trocado para o lazer não é suficiente; é preciso
ganhar muito dinheiro, não importa sua origem, para
comprar tudo que desejamos. A lista poderia prosseguir,
mas o que tenho observado é que a normalidade não satisfaz
mais.
No meio evangélico, o cenário não difere muito. Não
basta louvar a Deus com cânticos, leitura bíblica e orações;
precisamos de um “louvor extravagante” (esta foi a expressão
que ouvi), repetir a mesma música até entrar em algum
transe. Não basta ser alegre e grato, é preciso pular e
gritar freneticamente. Não basta crer em Deus e em suas
promessas, precisamos decretar, reivindicar, exigir. Uma fé
normal, ou uma vida cristã normal, não é mais suficiente.
Quando o normal não atende mais às necessidades, a
realidade torna-se insuportável. Um culto normal, um
casamento normal com família normal e sexo normal, um
Uma festa normal em que amigos se
encontram para conversar, ouvir boa música
e se divertir não satisfaz mais; os jovens
precisam de uma rave que comece na sexta
à noite e termine no domingo, com música
eletrônica ininterrupta e ensurdecedora,
muito ecstasy e álcool
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Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana
do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos,
em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho
do Coração.
Por Carlinhos Veiga
cveiga@terra.com.br
Novos Aco r des
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 53
namoro normal, um lazer normal ou
um trabalho normal são insuportáveis.
A própria normalidade da existência
humana, com suas fases, emoções,
ciclos e estações, acaba tornando-se
intolerável. Um dia de 24 horas ou
o envelhecimento são inaceitáveis.
Criamos então uma indústria voltada
para alimentar a anormalidade; são
os sex-shops com toda a parafernália
para “incrementar” sua vida sexual,
as diversas “terapias” incentivando
a experimentar todas as novidades,
plásticas, drogas, propagandas e o
estímulo para comprar e fazer tudo o
que dá prazer. Perdemos o contato com
a realidade e, para viver esta hiper-
realidade, precisamos negar a Deus,
nossa humanidade limitada e mortal, o
próximo e tudo mais.
O chamado de Cristo para segui-lo
é um chamado para ser real, ou um
chamado à humildade. Ser humilde
é reconhecer e aceitar a realidade
como ela é. É aceitar Deus como ele
é, aceitar a nós como somos e aceitar
o mundo como ele é. Esta capacidade
de reconhecer a realidade nos liberta
das armadilhas e artifícios que a ilusão
ou a falsa realidade criam. “Humilhai-
vos na presença do Senhor, e ele vos
exaltará” – é assim que Tiago inverte o
caminho da humanidade. A liberdade
e dignidade humanas dependem da sua
postura humilde diante de Deus, de
si mesmo e do próximo. A humildade
é o caminho de volta à realidade e à
normalidade.
Como diria meu amigo Carlos
Queiroz no título de seu livro sobre
o Sermão do Monte, para o humilde
de espírito “ser é o bastante”. Não
precisamos de drogas, nem de sexo
selvagem, nem de muito dinheiro ou
frenesi. Precisamos apenas ser humildes,
que encontraremos a verdadeira alegria.
(Veja A praga do fastio, p. 30.)
Expressão, Diego Venâncio
DiegoVenâncioéummúsicoetanto!Temformaçãopopular
eeruditaemviolãoeestudoucomgrandesmestrescomo
FábioRamazzina,MarcoPereira,PauloBellinati,Mozart
Mello,entreoutros.Nasuacaminhadamusicalatuou
pordoisanosemVencedoresporCristo.Participoucomo
instrumentistaeproduziualgunsCDs.Expressãoéo
seuprimeirotrabalho,revelandooseuladocompositor.
Destaqueparaascanções“Étempo”eainstrumental
“Lumaréu”(ambasdesuaautoria),“Redes”(Rogério
Azevedo)earegravaçãode“Fonte”(SérgioPimenta).Essetrabalhotemaproduçãomusical
eexecutivadopróprioDiegoemparceriacomVagnerRoberto.OCDtrazoplaybackdas
canções.Pedidospelotel.114472-5729oupelositewww.diegovenancio.com.br
Sem Fronteiras, Vencedores por
Cristo (DVD)
EsseéoprimeiroDVD deVencedores PorCristo. Nelevemos
umgrupomusicalcomuma pegada bem“pop”,diferente
daqueleestiloconhecidoequefez escola nosanos70e80.O
repertóriode20 músicas traz os clássicos detodosostempos:
das antigas “Nas estrelas”e“Deus éreal”(ambasdeRalph
Carmichael) às mais recentes “DignodeLouvor”(Jorge
Redher) e“Proclamai”(CláudioRocha). Éumtrabalhomuito
bemproduzido, comuma banda madura edequalidade,
amparada poruma equipetécnica de36 profissionaisque
cuidoudos detalhes da iluminação, cenografia,câmeras,
sometudomais queenvolveumDVD dealtonível. JaideMenezesassinaa
direçãogeral. O showemvários momentos emociona aqueles queacompanhamatrajetória
dogruponesses anos deministério. Pedidos pelositewww.vpc.com.br
Tehillim 2: A Oração dos Salmos,
Rubem Amorese e Toninho
Zemuner
A dupla Amorese e Zemuner lança mais um trabalho. É
a segunda edição do Tehillim. Rubem explica o termo:
“significa, originalmente, cânticos, mas transformou-
se em sinônimo de salmos. Ao mesmo tempo em
que se expressa poeticamente, ensina-nos sobre
relacionamentos.”. A dupla compõe, canta e executa todas
as canções. Como se não bastasse, eles ainda são os responsáveis pela
gravação, mixagem, masterização e arte gráfica. E o resultado é muito bom! As canções
são belíssimas, com destaque para “Quem subirá” (Salmo 24), “Novo alento” (Salmo
30) e “À sombra de tuas asas” (Salmo 63). Não são apenas textos bíblicos musicados;
são orações pessoais baseadas nos salmos, vestidas de brasilidade, “ornadas com nosso
ritmo, nossa harmonia e nosso jeito de poetizar”. Pedidos pelo site www.amorese.com.br
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Bráulia Ribeiro
da linha de frente
Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora
de Chamado Radical (Ed. Ultimato).
<braulia_ribeiro@yahoo.com>
ULTIMATO Março-Abril, 200854
O
utro dia ouvi na rádio local
um programa que imitava os
crentes. Até demorou para
que os humoristas achassem
o filão de clichês ridículos do meio
evangélico, que deve ser mesmo muito
engraçado para os de fora. Poucos dias
depois, um irmão veio me visitar e me
mostrou os programas de “humor” que
tinha produzido para o rádio. Não é que
o programa que eu havia escutado, com
todo o sarcasmo cruel anti-crente, era dele
mesmo? Doeu-me, mas, infelizmente,
não me surpreendeu tanto assim. Esta é
a nossa postura mais comum. Um contra
todos e todos contra um.
Peter Meiderlin, teólogo luterano
da cidade de Augsburg, na Alemanha,
escreveu, em 1627, um livrete,
descrevendo um sonho em que Cristo
lhe aparece pedindo que vigie pois será
tentado. Logo depois o diabo, vestido
de anjo de luz, aparece dizendo que vem
da parte de Deus e começa a profetizar
a respeito da necessidade de os eleitos
se manterem puros na sã doutrina. A
verdade que eles herdaram deve ser
preservada numa nova denominação
doutrinária, livre da contaminação de
heresias. Quando o teólogo ora sobre o
que deverá fazer, imediatamente o diabo
some e Cristo reaparece, encorajando-o
a permanecer fiel à simplicidade e
humildade de coração. Ele acorda do
sonho e escreve
o tratado que
termina com
esta frase: “Si
nos servaremus
In necessariis
Unitatem, In
non-necessariis
Libertatem,
In utrisque
Charitatem,
optimo certe loco
essent res nostrae”
(No essencial,
unidade; no
não essencial, liberdade; e em ambas as
coisas, a caridade).
Parece-me que o cenário cristão
da Europa do século 17 não é muito
diferente do cristianismo de hoje.
O diabo continua usando a mesma
estratégia para impedir que a oração de
Jesus por nós (João 17) seja respondida.
Ele se especializou em nos manter
afastados uns dos outros, em nome
da própria verdade que deveria nos
unir. Distanciamo-nos por causa
da pureza doutrinária. Acreditamos
que nosso “logos” é melhor que
o dos outros, esquecendo que o
logos é a encarnação do perdão e
da humildade e a razão principal
por que deveríamos buscar
a unidade e não a exclusão.
Rotulamos pastores, igrejas,
correntes doutrinárias, grupos
inteiros de cristãos, desprezando-
nos mutuamente, com ironias e
sarcasmo.
Apesar de termos certeza de que nossa
doutrina é pura, esta pureza é muito
difícil de ser definida. Na crença de certas
culturas indígenas que categorizamos de
animistas, se define
vida humana
pela “perfeição
genética”.
Qualquer tipo
de “anomalia” —
desde a concepção
de gêmeos, até
más-formações
mais graves como
síndrome de
Down, paralisia
cerebral etc. —
contradiz a suposta
“perfeição” que
definiria o que é um “ser humano”
real. Do alto de nosso conhecimento
ocidental, criticamos estas crenças
animistas. Uma criança gêmea não
é encarnação do demônio só porque
nasceu mais magrinha. A outra,
deficiente, pode ser fonte de muita
alegria para os pais, apesar de seus
problemas. A vida humana é preciosa,
não importa a forma. Ao comparar
estas crenças e nossa definição de
cristianismo, percebemos que somos
teologicamente tão animistas quanto
eles. Só consideramos cristãos aqueles
que se encaixam em nossa definição do
que seja uma doutrina perfeita e sadia.
As anomalias podem ser desprezadas,
abandonadas, e até cruelmente
assassinadas por nossas palavras.
No essencial, unidade;
nas diferenças, liberdade;
e em ambas as coisas, o amor
Só consideramos
cristãos aqueles que
se encaixam em nossa
definição do que seja
uma doutrina perfeita
e sadia. As anomalias
podem ser desprezadas,
abandonadas, e até
cruelmente assassinadas
por nossas palavras
BranoHudak
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deixem que elas mesmas falem
Délnia Bastos
ULTIMATO Março-Abril, 200856
Délnia Bastos, casada, três, filhos, recentemente esteve
no local onde Perpétua e Felicidade foram executadas,
hoje Tunísia.
E
ra o início do terceiro século.
O Império Romano tinha se
fortificado em toda a região do
Mediterrâneo. A sociedade gozava de
estabilidade e privilégios — entre eles
o de assistir aos jogos realizados no
anfiteatro. Este compunha-se de uma
estrutura oval, com algumas jaulas
laterais para as feras, a arena no centro e
um pequeno templo debaixo da arena.
Ali, os gladiadores pediam as bênçãos
dos deuses romanos para suas lutas, ao
mesmo tempo em que os condenados
pelo rei aguardavam sua sentença. Ao
redor da arena, havia uma espécie de
arquibancada para o público assistir
confortavelmente aos espetáculos.
Naquela época, o imperador Sétimo
Severo baixou um edito segundo o
qual todos deveriam oferecer sacrifícios
aos deuses romanos e ao próprio
imperador. O infrator era sentenciado,
juntamente com outros criminosos.
Vívia Perpétua, uma jovem senhora
da nobreza, e sua empregada Felicidade
eram cristãs. Aos 20 anos, grávida,
Perpétua foi condenada, juntamente
com Felicidade e mais três cristãos, por
desobedecerem ao edito imperial. Em
vão o pai de Perpétua tentou várias
vezes convencê-la de desistir da fé e
sacrificar aos deuses. “O que será do seu
filho?”, o pai a advertiu, sem sucesso.
Assim, em 7 de março de 203, foi dado
o veredicto final: “Perpétua, Felicidade,
Revocato, Secúndulo, Saturnino e Saturo
são condenados às bestas no Anfiteatro
de Cartago”. Segundo a história, Saturo
não estava entre os condenados, mas
voluntariamente compartilhou do
martírio de seus irmãos em Cristo.
Perpétua havia feito um pedido especial
a Deus, e foi atendida: deu à luz no dia
anterior à sua morte e uma amiga cristã
adotou seu pequeno filho.
Os condenados deveriam usar uma
roupa designada para o espetáculo.
Cada roupa fazia menção a um deus
romano, de modo que o sentenciado
era oferecido como sacrifício àquele
deus. Perpétua e Felicidade, e depois
seus companheiros, se negaram a usar a
“roupa festiva”, como que num último
fôlego de testemunho — nem mesmo
sua morte se tornaria oferenda para os
deuses. Eles entraram na arena com
pouquíssima roupa, mas com um brilho
e uma alegria de espírito humanamente
inexplicáveis. Todos eles tinham
consciência de que sua morte seria um
testemunho público importante para o
avanço da fé cristã. Felicidade dizia que
seu martírio significava para ela não a
morte, mas um segundo batismo.
Os homens foram os primeiros a
entrar na arena. Dois deles deveriam
passar por uma ponte com uma série de
obstáculos, entre os quais algumas feras,
como leões e tigres, até que chegassem
aos gladiadores. Secúndulo morreu na
prisão, antes mesmo de chegar à arena.
Saturnino foi decapitado e os outros
dois morreram durante o espetáculo.
Por último, entraram a jovem
senhora e sua companheira. Para
elas, foi designada uma bezerra, que
investiu primeiramente em Perpétua
e em seguida avançou para Felicidade.
Perpétua, após recobrar a consciência,
ajudou Felicidade a se levantar. Conta-
se que escorria leite daquela que
amamentara apenas
um dia seu filhinho
recém-nascido. Elas
foram retiradas da
arena feridas, para
serem mortas pelos
gladiadores. A platéia
estava exaltada. Queria
mais, e exigiu que a
morte fosse pública.
Elas então morreram na
arena, pelas espadas dos
gladiadores.
Esta história
comovente certamente
nos lembra a passagem
bíblica que diz: “Eles,
pois, venceram
[Satanás] por causa do
sangue do Cordeiro e
por causa da palavra
do testemunho que
deram e, mesmo em
face da morte, não
amaram a própria
vida” (Ap 12.11).
Segundo Tertuliano, o sangue dos
mártires é a semente da igreja. Com
efeito, o sangue de Perpétua, Felicidade
e de seus irmãos em Cristo foi a
semente da igreja no Norte da África.
Sua morte deveria ser um presente do
imperador Severo para seu filho César
Geta. Mas foi muito mais um presente
para a igreja.
Os poucos cristãos que vivem naquela
região felizmente não estão mais sob o
jugo opressor romano. Mas precisam
da mesma ousadia e fé para “enxergar
além do véu” e enfrentar os obstáculos
de oposição e perseguição a que ainda
estão sujeitos hoje.
Na arena com
Perpétua e Felicidade
O sangue de Perpétua,
Felicidade e de seus
irmãos em Cristo foi a
semente da igreja no
Norte da África
BSK
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Solange C. Mazzoni-Viveiros
Solange C. Mazzoni-Viveiros, casada, dois filhos, é
botânica, pesquisadora científica do Instituto de Botânica
de São Paulo e vice-presidente d’A Rocha Brasil.
Março-Abril, 2008 ULTIMATO 57
Aquecimento global:
refletir para agir
meio ambiente e fé cristã
A
forma como o ser humano tem
se relacionado com o ambiente
bem como seus reflexos — por
exemplo, a poluição, o desmatamento,
a destruição da camada de ozônio, o
efeito estufa, o aquecimento global —
têm sido exaustivamente discutidos
e publicados em diferentes meios de
comunicação, acadêmicos e populares.
Nota-se, porém, que o esforço do meio
científico e da mídia em esclarecer os
mecanismos envolvidos nessa crise e
alertar sobre possíveis desastres, embora
gere conscientização, resulta em poucas
ações por parte de cada indivíduo que
demonstrem real convicção de que é
preciso mudar de estilo de vida.
A emissão de gases de efeito estufa,
que retêm o calor do sol junto à
superfície terrestre e, quando em grande
quantidade na atmosfera, causam o
aquecimento global, é um exemplo
dessa consciência desvinculada da
prática. Poucas pessoas estão dispostas
a abrir mão de facilidades e confortos
para reduzir tais emissões e minimizar
seus efeitos sobre o clima do planeta,
seja do carro à base de petróleo como
meio particular de transporte, do alto
consumo de energia não renovável,
da utilização de produtos descartáveis
não biodegradáveis, entre
outros.
O Painel Intergovernamental
de Mudanças Climáticas, em seu
relatório de 2007, afirma que 90% das
alterações ocorridas no meio ambiente
são resultado da ação humana.
Ressalta, ainda, que aquecimento
global não significa apenas alteração
na temperatura atmosférica e
troposférica, com efeitos no clima e
no padrão de distribuição das chuvas
e ventos, causando desertificação,
derretimento de geleiras, aumento
de ciclones tropicais. O aquecimento
global resulta, também, em alterações
significativas no funcionamento dos
sistemas terrestres, com previsão de
perda de biodiversidade e aumento na
ocorrência de doenças e catástrofes.
A palavra de Deus alerta que a fé
sem obras é morta (Tg 2.17-26), que a
convicção não pode estar desvinculada
da prática. Seria muito mais fácil
se pudéssemos ficar somente com a
primeira! Porém, o Deus em quem
cremos é Jesus Cristo (Hb 1.3a), o
Verbo encarnado, que se humanizou
para salvação do ser humano e de
toda a criação (Jo 1.14; Rm 8.1-2),
que partiu para a ação visando à
restauração integral do homem e da
natureza. A igreja, por ser o corpo de
Cristo, deve se parecer
com ele e, como
ele, transformar
o caos atual
através do
amor e da
misericórdia.
Como filhos
de Deus,
devemos
refletir o
seu caráter,
como novas criaturas que acreditam
na ressurreição integral, por meio de
Jesus Cristo. Devemos fazer diferença
hoje e, assim, anunciar nossa esperança
no futuro (1Pe 1.3). Isso é missão
integral, boas novas que envolvem
ação e restauração do relacionamento
com Deus, com o próximo e com a
criação. Deus confiou sua criação ao
homem, para que ele a guardasse e
cuidasse (Gn 2.15); cumpre ao novo
homem retomar seu projeto original
(2Co 5.17-20).
Discorrer sobre aquecimento
global ou qualquer assunto relativo
aos impactos ambientais no meio
cristão é necessário. No entanto
esse conhecimento desvinculado da
consciência de que há uma dívida
de amor com o próximo (Rm 13.8)
e uma responsabilidade com a
criação (Rm 8.19-23) não trará
resultado algum. Somente o amor a
Deus, ao próximo e à criação pode
transformar nosso egoísmo em ações de
misericórdia, que mudam condutas e
costumes para a glória de Deus e para
a garantia de vida em abundância desta
e de futuras gerações (Cl 3.12-17). A
igreja só cumprirá sua missão integral
quando refletir e agir, cumprindo o
papel de mordomo (Gn 1.27- 2.1;
Gn 2.15) e de sacerdote (1Pe 2.9) para
que o mundo conheça o verdadeiro
Deus a quem servimos (Jo 17.22-23;
Ef 5.1-2; Sl 19.1-4).
“E tudo o que fizerdes, seja em
palavra, seja em ação, fazei-o em nome
do Senhor Jesus, dando a Ele graças a
Deus Pai” (Cl 3.17).
Fotomontagem
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Mark Carpenter
Desejo de reparação
Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo
Cristão e mestre em letras modernas pela USP.
ULTIMATO Março-Abril, 200858
C
omo editor de livros, lido
constantemente com as
esperanças e expectativas de
escritores. Alguns são veteranos da casa.
Outros publicaram livros por outras
editoras antes de estrearem pela Mundo
Cristão. Há também os inéditos prestes
a se tornarem autores publicados.
Todos sustentam opiniões sobre como
devem ser os processos e os resultados
da publicação. Freqüentemente essas
expectativas são minuciosas, similares às
ansiedades dos pais durante a gestação,
nascimento e primeiros cuidados
dos filhos. Qualquer desvio do seu
conceito de perfeição pode gerar stress e
frustração.
Embora a maioria dos
relacionamentos com nossos autores
seja tranqüila e gratificante, nem
sempre é assim. Às vezes as expectativas
não condizem com a realidade da
edição, distribuição e marketing de
livros no Brasil. Investimos em cada
uma dessas áreas de acordo com
a projeção de receita gerada pela
comercialização do livro. Gastar
quantias desproporcionais em
editoração e comunicação pode gerar
prejuízo; repetir este erro em dezenas de
livros leva a editora à falência.
Nossa familiaridade com o mercado
nos força a tomar decisões difíceis,
com variados graus de fundamentação
para as justificativas. Essas escolhas
podem ser um tanto arbitrárias,
baseadas em intuição. A experiência
nos ajuda a acertar cada vez mais, mas
às vezes erramos, e os erros podem
ser espetaculares e constrangedores.
Na busca pelo equilíbrio entre
servir os leitores, os escritores e
garantir a sobrevivência da editora,
trabalhamos com uma margem de erro
considerável. É assim para todos os
editores que conheço, no Brasil e no
exterior.
Parte da condição humana envolve
errar. Quem de nós já não disse,
fez ou deixou de fazer algo que nos
trouxe, logo depois, sentimentos
de profundo arrependimento e um
desejo intenso de voltar o relógio? É
desse tema que trata o filme Desejo
e Reparação, brilhante adaptação do
romance Reparação, de Ian McEwan.
Ambientado na Segunda Guerra
Mundial, a obra trata de um caso
de amor destruído por uma falsa
acusação. As tentativas de reparar o
passado provocam reflexões sobre
a natureza do perdão, do destino e
das relações humanas num mundo
imperfeito, onde até o silêncio
pode transformar-se numa força
destruidora. A leitura que o diretor Joe
Wright faz é bela e verdadeira, assim
como as atuações de Keira Knightley,
Saoirse Ronan e James McAvoy. A
cinematografia épica e a trilha sonora
de Dario Marianelli em staccato
datilografado consolidam esta obra-
prima do cinema contemporâneo.
Ian McEwan disse que havia “um
milhão de maneiras de estragar este
livro para o cinema, e pouquíssimas
maneiras de vertê-lo num bom filme”.
Ele se valeu do perdão — ou da
provável necessidade de exercê-lo —
quando entregou seu belo romance
para que um roteirista o reinventasse
para as telas. Felizmente o desfecho foi
excepcional, mas a história poderia ter
sido diferente.
O perdão é o azeite que dá
longevidade e sabor às relações
humanas. Ele pode transformar a
propensão para o ódio numa mera
ruga na topografia da boa vontade.
Permite que antigos males se
desfaçam, e que a sede de vingança
se dissipe e se sacie de forma mais
duradoura. Permite que sejamos
acolhidos por um Deus que temos
o hábito de magoar. Permite até que
editores perdoem escritores, e vice-
versa.
BillyAlexander
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Mateuszdanko
Marcos Bontempo
mbontempo@ultimato.com.br
prateleira
ULTIMATO Março-Abril, 200860
Deu no NYTimes
No final do ano passado, entre os
lançamentos no Brasil de Deus,
Um Delírio, de Richard Dawkins
(Companhia das Letras), e Deus não
é Grande, de Christopher Hitchens
(Ediouro), a revista dominical do jornal
The New York Times perguntava, não
sem constrangimento, se Freud era um
defensor da fé.
Claro, a resposta óbvia é não. No
entanto, existe mais sobre a, digamos,
“religiosidade” de Freud. Para Mark
Edmundson, autor da matéria, Freud
sugere que a fé em Deus “possibilitou
um retorno à vida interior, tornando-a
rica”, além de reconhecer “poesia” e
“promessa” na religião. O que parece
novidade para o NYTimes não o é
para os leitores de obras como Cartas
entre Freud e Pfister (Ultimato).
A correspondência entre o pastor
protestante Oskar Pfister e Freud,
entre 1909 e 1938, é, nas palavras
do psicanalista Joel Birman, “talvez o
arquivo mais importante para balizarmos
a relação entre os discursos psicanalítico
e religioso”. Aliás, Anna Freud, filha do
pai da psicanálise e que prefacia a obra,
disse a Armand Nicholi, psiquiatra e
professor da Escola de Medicina de
Harvard, algo que precisa ser lembrado
sobre o mais conhecido dos ateus do
século passado: “Se você quiser conhecer
o meu pai, não leia a sua biografia: leia a
suas cartas”. O autor de Deus em Questão
(Ultimato) seguiu o conselho e não deixa
por menos: “Freud cita frequentemente
a Bíblia [...]. As cartas são repletas de ‘se
Deus quiser’; ‘o bom Senhor’; ‘a vontade
de Deus’; ‘pela graça de Deus’; ‘minha
oração secreta’ [...]”.
Não tenho maldade o suficiente para
afirmar que o reavivamento do ateísmo
está construindo uma igreja ou uma
seita, mas que o seu proselitismo é
capenga, isso é. Graças a Deus.
“Diga-me com quem andas”
é markentig pessoal
O ditado é conhecido. As pessoas, nem
tanto. Preconceito, desinformação ou
incompetência em lidar com o que não
conhecemos revelam como são frágeis
e pretensiosas nossas avaliações. Um
exemplo clássico: Jó. Ele tinha amigos.
Três amigos especiais, não muito
recomendáveis: Bildade, Zofar e Naamá.
No entanto, é quase um exagero o que o
próprio Deus afirma sobre Jó: “Não há
ninguém na terra como ele”.
Definitivamente, não é possível
conhecer alguém pelos que o rodeiam.
Eliú, outro amigo, como que acusando-
se, sugeriu que Jó andava em más
companhias (Jó 34.8). Moisés é
outro bom exemplo. Quando Deus o
chamou e disse que via o sofrimento
daqueles que o rodeavam e que o
havia escolhido para libertá-los, sua
reação foi patética: “Quem sou eu?”.
Também reagimos assim. Quase sempre
“medimos as coisas de acordo com o
nosso tamanho”. Para a psicanalista
Karin Wondracek, em Caminhos da
Graça (Ultimato), a resposta de Deus
“não afirma nada sobre Moisés, nem
procura infundir nele uma auto-
imagem confiante”. Quem sabe um
investimento em “marketing pessoal”
ou “networking”. O que Deus faz
é afirmar o essencial a respeito dele
mesmo: “Eu estarei contigo” (Êx 3.12).
O fator decisivo na história de Moisés
não é quem ele é, mas o fato de estar
junto de um Deus que é.
Enfim, Jesus também foi cercado
por “um bando de homens maus”
(Sl 22.16). Aliás, não estamos cercados
apenas pelos amigos, nem é nossa
competência separar o joio do trigo.
No entanto, é comum nas igrejas a
tentativa de blindar a imagem dos
irmãos com a repetição insistente das
primeiras palavras do Salmo primeiro.
Não basta. É preciso mais do que as
“boas companhias”. E o salmista sabia
disso: “Embora as cordas dos ímpios
queiram prender-me, eu não me
esqueço da tua lei” (Sl 119.61).
Para ler mais textos da
“Prateleira”, acesse
www.ultimato.com.br
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Agenda
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saiba de outros eventos e divulgue o seu
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aluguel de imóveis •
relacionamentos necessi-
dades e oferecimentos de
voluntários ou estagiários •
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serviços • cursos • eventos • missões
livros, filmes, cd’s • redes e ONG’s
Espaço de
oportunidades
ULTIMATO Março-Abril, 200862
21 a 23 de março
O Ministério com Surdos Mãos Ungidas realizará o seu
6º Congresso, em Curitiba, PR.
Telefone: 41 3338-6836
Site:www.maosungidas.com.br
21 a 24 de maio
Acontecerá o Encontro Tribal Global Generation, em
Uberlândia, MG.
Telefone: 34 3215-8108
Site: www.tribalgeneration.org
22 a 24 de maio
Será realizado o II Congresso Evangélico Nacional
de Profissionais da Saúde (II CENPS), em Belo
Horizonte, MG.
Telefone: 31 3324-9555
Site:www.cenps.com
16 a 20 de junho
A Missão AMEM oferecerá o curso Capacitação
Antropológica, sob a coordenação do pr. Ronaldo
Lidório, em Belo Horizonte, MG.
Telefone: 31 3489-1800
E-mail: info@amem.org.br
Site: www.amem.org.br
4 a 28 de julho
A Missão JUVEP realizará o seu 49º Projeto Missionário,
um projeto evangelístico, na cidade sertaneja de Miguel
Alves, PI. E convida: “Passe ao sertão, ajuda-nos”.
João Pessoa, PB
Telefones: (84) 222-4430; 222-3482
E-mail: projetomissionario@juvep.com.br
21 a 23 de agosto
A Rede Evangélica Nacional realizará o III Encontro
RENAS, em Curitiba, PR.
Telefone: 11 4136-1253
E-mail: renas@renas.org.br
Site: www.renas.org.br
Revista Mãos Dadas
É uma publicação
destinada a inspirar,
motivar e capacitar pessoas
envolvidas no trabalho
cristão com crianças e
adolescentes em situação
de risco e contribuir para
a mobilização de igrejas
e comunidades para este
trabalho.uma revista de apoio aos que trabalham
com crianças (www.maosdadas.net). Você pode
recebê-la gratuitamente. Basta enviar um e-mail
para <cartas@maosdadas.net> explicando seu
envolvimento com ação social.
Oração
De 6 a 8 de junho mobilize sua igreja e
organização para o 13º Mutirão Mundial de
Oração por Crianças e
Adolescentes em Situação de
Risco. Acesse o Material de
Apoio para Mobilização no
site da revista Mãos Dadas
<www.maosdadas.org>, ou peça-o por e-mail
<cartas@maosdadas.net> ou carta (Caixa Postal
88, Viçosa, MG 36570-000).
Revista Passo a Passo
É uma publicação trimestral
que procura aproximar
pessoas em todo o mundo
envolvidas nas áreas de saúde e
desenvolvimento, produzida
pela Tearfund. Ela é gratuita
para aqueles que atuam na
promoção do desenvolvimento
social. Pode ser solicitada a
<circulacao@ultimato.com.br>.
Jejum de 40 dias
O pastor batista Edison Queiroz quer que as
igrejas evangélicas brasileiras convoquem os
crentes para um jejum de 40 dias (de 30 de
março a 10 de maio de 2008) em favor do
Brasil. Segundo ele, o ideal seria um jejum
completo, só com água. Mas Edison admite
que todo esforço nesse sentido será válido
(fazer apenas uma refeição por dia ou a
abster-se de alguma guloseima ou de alguma
distração). O pastor pode estar exagerando
nos métodos, mas não na motivação. O
prolongado jejum visa quebrar a apatia dos
crentes com a situação do país: “Parece que a
igreja tem aceitado a corrupção, imoralidade,
criminalidade, idolatria, feitiçaria e tantas
outras maldições como normais (...). A
política brasileira está contaminada pela
corrupção. A mentira tem sido aceita com
naturalidade. A distribuição da riqueza é
injusta e cruel. Para mais informações, acesse
<www.jejum40dias.com.br>.
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“ ” Março-Abril, 2008 ULTIMATO 63
América Latina em Fotos
Equipe de desminagem entra em ação nos terrenos ao redor das torres de ener-
gia minados pelo exército peruano. O custo aproximado de uma mina terrestre
vai de 1 a 3 dólares americanos e sua retirada pode custar até 3 mil dólares.
A reportagem O perigo mora ao lado, de oito páginas, sobre a
intensa presença de minas terrestres na América Latina, publi-
cada na revista Rolling Stone de janeiro de 2007, é um desdo-
bramento do livro e do documentário América Minada, feitos
Brasil melhora
27 posições
no ranking de
mortalidade na
infância
O Brasil melhorou 27 posições no ranking
da taxa de mortalidade na infância, isto é,
mortes registradas entre crianças menores
de 5 anos. Em 16 anos, a taxa caiu de 57
para 20 mortes para cada mil nascidos vivos.
Contudo, o número absoluto de óbitos ainda é
alto: em 2006, 74 mil crianças morreram no
Brasil antes do quinto aniversário. (Relatório
Situação Mundial da Infância 2008/
UNICEF)
Brasil
recebeu
775 mil
crianças
escravas
O Brasil melhorou 27 posições no ranking
da taxa de mortalidade na infância, isto é,
mortes registradas entre crianças menores
de 5 anos. Em 16 anos, a taxa caiu de 57
para 20 mortes para cada mil nascidos vivos.
Contudo, o número absoluto de óbitos ainda é
alto: em 2006, 74 mil crianças morreram no
Brasil antes do quinto aniversário. (Relatório
Situação Mundial da Infância 2008/
UNICEF)
Memória
“Muitos desses órfãos devem ter alcançado a Holanda
depois da capitulação. Nós encontramos alguns deles no
livro da diaconia de Amsterdã, em que se vê o reflexo
de suas lágrimas de órfãos nas anotações secas sobre
transferências de lar em lar, até que entrassem no orfanato
da capital holandesa”.
Francisco Leonardo Schalkwijk,
Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654), p. 163
John Stott, A Bíblia toda, o ano todo, pág. 174
[No encontro com a mulher samaritana], por
três vezes, Jesus fez o que não era aceitável.
Rompeu deliberadamente convenções sociais
de seu tempo. Ele esteve inteiramente livre
da discriminação de gênero, do preconceito
étnico e do pedantismo moral. Ele amava e
respeitava todas as pessoas e não se esquivava
de ninguém.
por Maria Eugênia Sá e Vinícius Souza. Eles mostram que nessa
região doze nações possuem campos minados. A Colômbia é, no
mundo, o país que mais apresenta novas vítimas dessas armadi-
lhas explosivas. (A reportagem O perigo mora ao lado dentre ou-
tras podem ser lidas em <http://mediaquatro.sites.uol.com.br>.)
O casal Maria Eugênia e Vinícius, que tem uma filhinha
de quatro meses (Maya), tem viajado por vários países com o
objetivo de alertar as pessoas a olharem para os problemas cria-
dos pela própria humanidade, de modo a trazer mais justiça e
paz para o mundo em que vivemos. Eles são evangélicos, e este
objetivo provém de seu desejo de servir a Deus.
Por conta desse misto de missão humanitária e cristã,
em várias de suas viagens eles têm conseguido o apoio de
igrejas evangélicas locais e missões internacionais. Foi assim,
por exemplo, em Angola (que resultou no projeto Angola:
A Esperanca de Um Povo), na Índia (Caxemira: Ocupada,
Dividida e Disputada), Colômbia (Colômbia: Que Guerra
Civil? e América Minada), e mesmo no Brasil, com o tra-
balho sobre hanseníase publicado como matéria de capa da
Revista da Folha.
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John Stott
ULTIMATO Março-Abril, 200864
vamos ler!
O
mês de fevereiro ainda não terminou e eu já
fui muito abençoado com as leituras do mais
recente livro de John Stott lançado no Brasil.
Há muitos anos eu não lia devocionário
algum. Ficava só com a leitura demorada e proveitosa da
Bíblia. Neste ano, tomei uma decisão: não substituir a leitura
bíblica pela leitura de devocionários, mas fazer ambas as
leituras, lembrando-me do bem enorme que me fez o antigo
devocionário Ouro, Incenso e Mirra, da missionária americana
Rosely Appleby, no início da minha juventude.
O devocionário A Bíblia Toda, O Ano Todo, como o
próprio nome indica, é sui generis. Ele é ao mesmo tempo
devocionário e manual bíblico. Traz à tona ensinos bíblicos
que já sabemos, outros que estavam no esquecimento e
mais alguns que nunca antes tínhamos percebido. As 365
meditações diárias misturam conhecimento bíblico e piedade
cristã, que devem ser inseparáveis, em benefício mútuo.
Em menos de dois meses, selecionei e anotei 67 frases de
Stott, retiradas de A Bíblia Toda, O Ano Todo, para memorizar
e distribuir com outras pessoas, como costumo fazer.
Compartilho com o leitor pelo menos oito dessas frases:
“Satanás fez com que aquilo que era permitido se tornasse
insatisfatório e o que era proibido se tornasse desejável” (p. 31).
“Todo o nosso senso de desorientação se origina de nossa
alienação de Deus” (p. 34).
“Noé se destacava em meio à depravação generalizada como
uma flor perfumada sobre um monte de esterco” (p. 41).
“Deus nos obriga a fazer o que deveríamos ter feito
voluntariamente” (p. 44).
“Há quem confia mais em sua astúcia do que na
providência de Deus” (p. 51).
“Deus luta conosco para derrubar nossa obstinação; nós
lutamos com ele para buscar suas promessas” (p. 51).
“Só é possível fazer a vontade de Deus do jeito dele” (p. 54).
“Deus só endurece aqueles que endurecem a si mesmo”
(p. 56).
O devocionário de John Stott não é apenas um depósito de
coisas bonitas e agradáveis. A Bíblia Toda, O Ano Todo tem o
valor de arrancar os crentes sinceros da confusão atual frente
à ética cristã. Veja os seguintes exemplos:
Quanto à questão ambiental: “Estamos vivendo além
dos recursos de que dispomos, consumindo rapidamente,
esgotando, poluindo e destruindo os recursos naturais dos
quais depende a nossa
própria sobrevivência”
(p. 24).
Quanto à questão do
machismo e feminismo: “Não
existe nenhuma base bíblica
para posições extremas,
quer da supremacia
masculina (homens
dominando as mulheres)
quer do feminismo radical
(mulheres prescindindo
dos homens)” (p. 24).
Quanto ao “casamento”
gay: “O casamento é
a união entre um homem e uma mulher. Uma parceria
homossexual jamais poderia ser vista como uma alternativa
legítima” (p. 28).
Quanto ao aborto e experiências científicas com embriões
humanos: “O embrião é, em última análise, um ser humano
em formação e, portanto, deve ser protegido. Por esta razão,
a maioria dos cristãos é favorável à vida e não ao direito de
escolha. Para os cristãos, a destruição do embrião por meio
do aborto é uma forma de assassinato, exceto em situações
especiais, cuidadosamente definidas. Eles rejeitam também o
uso de embriões humanos em experimentos e defendem a sua
proibição por lei” (p. 65).
Quanto ao sexo solto: “Deus instituiu o casamento como
o contexto adequado para a satisfação sexual, e é por isso
que o relacionamento sexual é proibido em todos os outros
contextos (...). Tanto as relações sexuais antes do casamento
como o sexo sem casamento são experiências que envolvem
uma relação sem compromisso” (p. 66).
Se dermos oportunidade ao conta-gotas de A Bíblia Toda,
O Ano Todo — apenas uma gota por dia — e nos deixar
persuadir por esse devocionário, faremos uma leitura da
Bíblia com o coração (a parte devocional) e com a mente (a
parte doutrinária). Não se tenha dúvida do resultado final —
para nós, para nossa família e para a igreja brasileira!
O conta-gotas de John Stott
O que você está perdendo por não ler A Bíblia Toda, O Ano Todo
Elben M. Lenz César
Leia mais em
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• Frases selecionadas de A Bíblia Toda, O Ano Todo
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Março-Abril, 2008 ULTIMATO 65
Ricardo Quadros Gouvêa é ministro presbiteriano e professor de teologia e de filosofia.
Ricardo Quadros Gouvêa
vamos ler!
As Obras do Amor
Søren Kierkegaard
Editora Vozes/ Editora Universitária São
Francisco, 2005
É
uma pena que nossa atenção esteja, muitas
vezes, tão voltada para os novos autores que,
esquecemos de dar a devida atenção aos textos
consagrados pelo tempo. E, no entanto, é
entre os clássicos do pensamento cristão que geralmente
encontramos o alimento espiritual sólido e nutritivo
que percebemos escasso nas novidades. Talvez seja um
exagero chamar Søren Kierkegaard (1813-1855) de um
autor clássico. As Obras do Amor (em
dinamarquês, Kjerlighedens Gjerninger,
1847), que aqui recomendamos,
por exemplo, foi publicado em dois
volumes há apenas 161 anos. As
obras de Kierkegaard, entretanto,
impressionam tanto pela quantidade
(ele morreu aos 42 anos de idade)
quanto pela qualidade. A produção
kierkegaardiana é consistentemente
de alto nível. Não é exagero afirmar
que Kierkegaard é visto hoje como um
dos mais profundos e mais influentes
autores cristãos de todos os tempos.
Poucas vezes encontramos
livros cristãos que discorram com
profundidade teológica sobre o amor.
As teologias sistemáticas raramente
abordam o assunto em separado, ainda
que este tema seja central no Novo
Testamento. As confissões de fé do
século 17 quase nada falam sobre o
amor. Poucos foram os pensadores
cristãos que se debruçaram sobre
o tema. Há um excelente tratado
de Agostinho de Hipona (354-430), pouco conhecido,
intitulado Manual a Lourenço Acerca das Virtudes Teologais:
Fé, Esperança e Amor (Enchiridion – De Fide, Spe et Caritate:
Manuale ad Laurentium, 421). Poderíamos pinçar ainda
o opúsculo místico de Bernardo de Claraval (Bernard de
Clairvaux, 1091-1153), cujo título é Da Necessidade de Amar
a Deus (De Diligendo Deo, 1126), talvez o mais profundo e
belo tratado sobre o amor já composto. E vale lembrar ainda
as obras do sueco Anders Nygren (1890-1978), Eros e Agape
(1930-1936, 2 vols.), e de C. S. Lewis (1898-1963), Os
Quatro Amores (1960). Pouco pode ser acrescentado a esta
lista.
Em sua vasta obra, Kierkegaard produziu diferentes tipos
de livros. Quem esperar encontrar aqui o filósofo de Temor
e Tremor (1843) ou de O Conceito de Angústia (1844), irá
se decepcionar, bem como quem procurar o romancista de
Diário de Um Sedutor (1843), parte do primeiro volume
de uma complexa obra chamada A Alternativa (Enten-
Eller, 1843). O que encontramos aqui é o Kierkegaard
pregador. As Obras do Amor pode ser descrito como uma
coleção de sermões sobre o amor
no Novo Testamento. Kierkegaard
sempre quis ser ordenado ministro
do evangelho, e sempre escreveu
sermões, mas como nunca conseguiu
a ordenação (primeiramente por
causa de um noivado rompido, e
depois pelos mal-entendidos com a
igreja, que o via como um pensador
herético e perigoso), dizia não ter
autoridade para compô-los ou pregá-
los, e chamava seus sermões escritos
de “discursos edificantes”. Assim é
As Obras do Amor. Cada capítulo
tem a forma exata de um sermão.
Além disso, é obra verônima, isto
é, assinada por Kierkegaard, que
sempre usava pseudônimos para
seus livros filosóficos e literários. Os
textos verônimos de Kierkegaard
supostamente trazem as idéias e
opiniões mais sinceras do autor, e o
autor assina todos os seus livros de
discursos edificantes.
O impacto da obra de
Kierkegaard ainda está para ser sentido em sua inteireza.
Na segunda metade do século 19, o livro As Obras do
Amor foi responsável pelo avivamento pietista na Noruega
liderado por Niels Hauge. Houve, entre os raros leitores de
Kierkegaard no Brasil, quem acreditasse que a publicação
do livro em português poderia ter efeito semelhante.
Infelizmente, não é o que presenciamos até agora, e
provavelmente não será assim. Todavia, é certo que esta
leitura poderá levar muitos a uma edificação pessoal
poucas vezes obtida.
As Obras do Amor
O amor no Novo Testamento
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ULTIMATO Março-Abril, 200866
Rubem Amorese
Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja
Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e
Liturgia e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna.
<ruben@amorese.com.br>
Pílulas e cinzas
À
s vésperas do Carnaval, a Igreja Católica representa
judicialmente contra a distribuição da “pílula do
dia seguinte”, e o ministro da saúde vai à televisão
para dizer que “a igreja errou mais uma vez, pois
a prevenção da gravidez não é uma questão religiosa, mas de
saúde pública”. A Igreja reage, dizendo que a Lei de Deus é
para todos. Desfecho: a juíza determina que a distribuição
seja feita, por entender que o método não é abortivo.
Se o ministro tivesse tempo para pensar um pouco mais,
talvez escolhesse melhor as palavras. Porém, o afogadilho
precipita os fatos. Por um lado, o arcebispo de Recife e
Olinda leva uma questão que acredita ser matéria de fé
para um tribunal secular; por outro, o
ministro manda-o recolher-se aos seus
domínios, sem precisar quais seriam
eles.
Penso que o ministro está certo
ao dizer que a orgia carnavalesca é
questão de saúde pública. Mas também
concordo com o arcebispo quando ele
sustenta que o assunto tem a ver com
Deus, pois envolve a alma humana.
Talvez ainda venhamos a saber por que
razão ele levou a questão à Justiça. Mas
desconfio dos pressupostos ocultos do
ministro que, certamente, fala por um governo de orientação
ativa e passivamente liberal.
E não pensemos apenas em moral sexual, pois aprendemos
com o apóstolo Paulo que a degradação humana nunca vem
por um pecado só (Rm 1.21-27), embora sempre bata ponto
numa cama. A propósito, pesquisa revela que, na novela
global Sete Pecados, a luxúria ultrapassa, em número de
cenas, todos os outros seis pecados juntos. Por quê? Palpite:
predileção.
Acho que, ao classificar a promiscuidade no Carnaval
como caso de saúde pública, o ministro Temporão pensou
mais em prevenção do que no conceito de saúde. Por ser
pragmático, talvez ele tenha trocado o importante pelo
urgente. E o urgente, imagino, é evitar que o índice de
abortos clandestinos fuja ao controle; que o número de
recém-nascidos achados nos lixos, esgotos, ou córregos seja
de proporções epidêmicas; que as famílias das meninas
que sairão grávidas ou infectadas dessa “festa popular”
empobreçam, e até que o governo tenha de gastar em
penitenciárias para receber os “filhos enjeitados do Carnaval”
de 2008.
O ministro tem estatísticas em mãos e sabe que,
diferentemente da Cultura ou do Turismo, para sua pasta,
Carnaval é sinônimo de tragédia.
E como ele enfrenta essa ameaça?
Distribui, gratuitamente, pílulas e
camisinhas aos foliões. E resolve?
Bem, concordo que evita o pior,
momentaneamente, mas não resolve,
pois não existe camisinha para alma
promíscua (nem mesmo as cinzas
da quarta-feira, sem verdadeiro
arrependimento).
Senhor ministro, deixe a Palavra
de Deus ajudar. Ouça-a. Se aborto,
gravidez indesejada, aids, evasão escolar,
desemprego etc. não são problemas religiosos, então o que
será? As providências de vossa excelência são tão eficazes
quanto tratar catapora com esparadrapo.
Já imaginando o que ele me responderia, deixo-lhe um
respeitoso alerta: “Tens feito estas coisas, e eu me calei;
pensavas que eu era teu igual; mas eu te argüirei e porei tudo
à tua vista” (Sl 50.21).
Distribuir gratuitamente
pílulas e camisinhas no
Carnaval pode evitar o
pior, momentaneamente,
mas não resolve, pois
não existe camisinha
para a alma promíscua
RobertoTostes
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    H Março-Abril, 2008 ULTIMATO3 abertura O fim da história terá chegado quando todos os impérios caírem e toda a arrogância humana der lugar ao reino dos céus em sua plenitude, totalidade e visibilidade História é uma ciência complicada. Já se disse que “todo mundo sabe o que é história antes de começar a pensar nela, e, depois que se pensa, ninguém sabe mais”. A história não merece confiança absoluta, pois aqueles que a escrevem não conseguem se livrar de seus preconceitos e de seus pontos de vista pessoais. Dificilmente um historiador consegue ultrapassar seu compromisso consciente ou inconsciente com a cultura no meio da qual nasce e vive. Usa-se a história também para defender e propagar um modelo político particular ou uma religião que se professa. Desde a queda do muro de Berlim (1989), tem-se falado no fim da história. Todavia é muita presunção acreditar que o fracasso de uma ideologia ou de um império signifique o fim da história. O máximo que se pode afirmar é que um grande acontecimento, como a queda do império romano, a queda do império bizantino, a “descoberta” da América, a Revolução Francesa ou a queda do comunismo, marque o fim de um período histórico e não da história. Se a história nada mais é que o registro do passado do ser humano, então é possível coincidir o fim da história com o fim do personagem histórico. Uma guerra global sem sobreviventes de espécie alguma ou a destruição completa do meio ambiente podem provocar o fim da história. Alguns entendem que a história é “o desdobramento gradual de um plano divino, com as pessoas representando papéis predeterminados”. Trata-se de uma perspectiva religiosa. Nesse caso, diz-se acertadamente que Deus é o Senhor da história. Jesus estaria pensando no fim da história quando anunciou: “A boa nova do reino será proclamada a todas as nações, e então chegará o fim” (Mt 24.14, BP)? Paulo estaria se referindo ao fim da história quando escreveu aos coríntios: “A seguir [após a ressurreição dos mortos] virá o fim, quando ele entregar o reino a Deus e acabar com todo principado, autoridade e poder” (1Co 15.24)? Pedro teria em mente o fim da história quando declarou que “o fim de todas as coisas está próximo” (1Pe 4.7)? Em certo sentido, os cristãos de qualquer corrente do cristianismo, em todo o mundo e em qualquer período da história, quando oram o Pai Nosso, estão pedindo o fim da história: “Venha o teu Reino” (Mt 6.10). O fim da história não terá chegado quando um grande império cair para dar lugar a outro, como aconteceu com aquela sucessão de impérios retratada no sonho da grande estátua de Nabucodonosor, quando o império babilônico cedeu lugar ao império medo- persa e este ao império grego e este ao império romano (Dn 2.31-45). O fim da história terá chegado quando todos os impérios caírem e toda a arrogância humana ruir definitivamente para dar lugar ao reino dos céus em sua plenitude, totalidade e visibilidade. O fim da história virá quando o “último inimigo”, que é a morte, for destruído (1Co 15.26), a ponto de se poder perguntar ironicamente à ela: “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” (1Co 15.55). O fim da história terá chegado quando ao nome de Jesus se dobrar todo joelho nos céus, na terra e debaixo dela, e toda língua confessar que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp 2.9-11). O fim da história Bancodeimagensoliver ultimato 311 FIM.indd 3ultimato 311 FIM.indd 3 27/2/2008 11:28:5627/2/2008 11:28:56
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    ATENDIMENTO AO LEITOR Telefones:(31) 3891-3149 0300 313 1660 Fax: (31) 3891-1557 E-mail: atendimento@ultimato.com.br www.ultimato.com.br Caixa Postal 43 36570-000 · Viçosa, MG P Editora Ultimato fotomontagemoliver ULTIMATO Março-Abril, 20084 carta ao leitor Fundada em 1968 ISSN 14153-3165 Revista Ultimato Ano XLI · NÀ 311 Março-Abril 2008 Direção e redação cartas@ultimato.com.br Elben M. Lenz César (Jornalista responsável) Administração Klênia Fassoni, Daniela Cabral, Lenira Andrade Vendas Lucia Viana, Lucinéa de Campos, Romilda Oliveira, Tatiana Alves e Vanilda Costa Editorial e Produção Marcos Bontempo, Bernadete Ribeiro, Djanira Momesso César, Fernanda Brandão Lobato e Roberta Dias Finanças / Circulação Emmanuel Bastos, Aline Melo, Edson Ramos, Emílio Gonçalves, Luís Carlos Gonçalves, M. Aparecida Pinto, Rodrigo Duarte e Solange dos Santos Estagiários Alaila Ribeiro, Bruno Tardin, Daniel Figueiredo, Débora Sacramento, Fabiano Ramos, Hadassa Alves, Liz Oliveira, Luci Maria da Silva, Macel Guimarães e Priscila Rodrigues Arte - Oliverartelucas Impressão - Plural Tiragem - 37.000 exemplares Łrgão de imprensa evangélico destinado à evangelização e edificação, sem cor denominacional, Ultimato relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos com Escritura. Pretende associar a teoria com a prática, a fé com as obras, a evangelização com a ação social, a oração com a ação, a conversão com a santidade de vida, o suor de hoje com a glória por vir. Circula nos meses ímpares. Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e da Associação de Editores Cristãos (AsEC) Os artigos não assinados são de autoria da redação. Reprodução permitida. Obrigatório mencionar a fonte. Assinatura Individual - R$ 55,00 Assinatura Coletiva - desconto de 50% sobre o preço da assinatura individual para cada assinante (mínimo de 10) Assinatura Exterior - R$ 97,00 Edições Anteriores - atendimento@ultimato.com.br Anúncios anuncio@ultimato.com.br Passados os festejos de Natal e de ano-novo, é bom fazer um pequeno inventário sobre a qualidade e seriedade dessas comemorações. Para o comércio foi um sucesso enorme. Em grande parte por causa da decoração de Natal. Só os 622 centros comerciais brasileiros investiram 350 milhões de reais nesse setor. A ausência cada vez maior do verdadeiro sentido do Natal assustou até pessoas cultas sem nenhum compromisso com o cristianismo. Em sua coluna no Jornal do Brasil, o escritor Fausto Wolf disse que sempre quis acreditar na concepção sobrenatural de Jesus Cristo, na remissão dos pecados através de sua morte, na ressurreição da carne e na vida eterna. Porém, se limita a gostar de Jesus porque era pobre, ofendido e maltratado, assim como nós. Ele se queixa dos ricos que, desde Adriano, “encheram Jesus de jóias, perfumaram-no, trancaram-no em um palácio longe do povo para melhor poderem explorar esse mesmo povo”. Wolf cita o pronunciamento de alguém que faz sérias acusações: “É no período natalício que os veículos de comunicação em geral e a televisão em particular mais torturam este país. Um aluvião de bestas do apocalipse cai de uma só vez sobre a pobreza ignorante e a classe média abobalhada: ‘Compre, compre’. Sei da força do Verbo, mas odeio o Natal. Creio que só um homem odiaria mais do que eu: Jesus Cristo”. O filósofo Leandro Konder também protestou: “Como descrente que sou — marxista convicto irrecuperável — quero apenas registrar minha expectativa de que o festival consumista em torno de Santa Claus não atrapalhe a celebração do aniversário do Justo”. Até o empresário Antônio Ermírio de Moraes, um dos homens mais ricos do país, dois dias antes do Natal, desejou em sua coluna na Folha de São Paulo que os brasileiros tivessem um “santo Natal junto às suas famílias” e que reservassem algum tempo para pedir a Deus que “fortaleça entre nós o amor e o respeito pelo próximo”, porque “a felicidade dos seres humanos não se resume no êxito econômico”. É possível que um dia, quando nossos olhos forem verdadeiramente abertos, nós enxerguemos a grandeza do Natal na perspectiva dos Evangelhos sinóticos e do Evangelho de João, onde se lê que “no princípio [o mais remoto] era o Verbo [Deus, o Filho], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.1,14). E, então, a profanação do Natal será confessada com muita tristeza, muitas lágrimas e muito arrependimento. Ainda há tempo para acertarmos o passo na caminhada iniciada há dois meses, quando a entrada do novo ano nos aproximou um pouco mais do fim da história (veja p. 3). Que Deus seja propício a cada um de nós! O aluvião de bestas apocalípticas que caíram sobre nós no último Natal ultimato 311 FIM.indd 4ultimato 311 FIM.indd 4 27/2/2008 11:29:1127/2/2008 11:29:11
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    ULTIMATO Março-Abril, 20086 55 SeDeus nos perdoasse o mesmo pecado uma só vez, estaríamos perdidos. Ele não mostra a sua graça ou estende a sua mão uma única vez. As Escrituras garantem que as suas misericórdias “renovam-se cada manhã” O povo eleito está espalhado pelos quatro cantos do mundo, mas não por vontade própria. Os israelitas foram levados para o cativeiro pelos seus inimigos, que invadiram suas terras e os expulsaram de lá. Eles têm saudades de Sião. Negam-se a tocar harpa e a cantar em terra estranha. Querem voltar para Jerusalém e para suas cidades de origem. Choram e confessam seus pecados no meio de um povo de fala estranha, pois estão longe de casa porque pecaram contra o Senhor. Mas como escapar do jugo estrangeiro, colocar a mochila nas costas, segurar a mão dos filhos menores e começar o caminho de volta? Deus os tiraria outra vez do jugo opressor e os levaria de volta à terra prometida? A misericórdia de Deus seria maior que a ingratidão e a rebeldia deles? A boa notícia é dada pelo profeta Isaías: “Naquele dia o Senhor estenderá o braço pela segunda vez para reivindicar o remanescente do seu povo que for deixado na Assíria, no Egito, em Patros, na Etiópia, em Elão, em Simear, em Hamate e nas ilhas do mar. Ele erguerá uma bandeira para as nações a fim de reunir os exilados de Israel; ajuntará o povo disperso de Judá desde os quatro cantos da terra” (Is 11.11-12). O capítulo onze de Isaías é um poema messiânico de grande beleza e cheio de boas notícias. A primeira delas diz respeito a um ramo que brota de um toco, que não é outro senão o descendente de Davi. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor e ele “tomará decisões em favor dos pobres” (v. 4). Seu reinado será de tal forma que “o lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode, o bezerro, o leão e o novilho gordo pastarão juntos; e uma criança os guiará” (v. 6). A melhor notícia, porém, é a do segundo êxodo, quando a Raiz de Jessé (o Messias prometido), vai trazer de volta o povo eleito para a antiga Canaã. Será uma repetição do primeiro êxodo, quando o Senhor desceu do céu para livrar seu povo das mãos dos egípcios e levá-lo para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel (Êx 3.8). Isaías anuncia que haverá uma estrada plana e livre para o remanescente dos exilados voltarem para casa, “como houve para Israel quando saiu do Egito” (Is 11.16). A boa notícia do segundo êxodo é extraordinária e pode encorajar hoje qualquer “exilado” do Senhor. Se alguém foi libertado do império das trevas e transportado para Jesus e sua igreja (primeiro êxodo) e depois entrou em crise e saiu do redil, pode clamar pelo segundo êxodo. Pois se Deus nos perdoasse o mesmo pecado uma só vez, estaríamos perdidos. Deus não mostra a sua graça uma só vez nem estende a sua mão uma única vez. As Escrituras garantem que as suas misericórdias “renovam-se cada manhã” (Lm 3.23)! O segundo êxodo ThomasMavrofides ultimato 311 FIM.indd 6ultimato 311 FIM.indd 6 27/2/2008 11:29:5427/2/2008 11:29:54
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    Seções Capa Março-Abril, 2008 ULTIMATO7 “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo” IS 55.6 ABREVIAÇÕES: BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; EP - Edição Pastoral; EPC - Edição Pastoral - Catequética; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas de indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional. Reflexão Robinson Cavalcanti Mui bíblica missão integral 38 Ricardo Gondim Proposta de espiritualidade 40 Redescobrindo a Palavra de Deus Deus se importa com a gestante, Valdir Steuernagel 42 História O ceticismo religioso e seus arautos, Alderi Souza de Matos 44 Entrevista Viv Grigg O inverso da cultura: é preciso viver com simplicidade para que os outros simplesmente vivam 48 O caminho do coração Quão verdadeiros somos, Ricardo Barbosa de Sousa 52 Da linha de frente No essencial, unidade; nas diferenças, liberdade; e em ambas as coisas, o amor, Bráulia Ribeiro 54 Arte e cultura Desejo de reparação, Mark Carpenter 58 Ponto final Pílulas e cinzas, Rubem Amorese 66 Que vida boba! 24 “Tudo é vaidade e correr atrás do vento” 26 O muro da morte 28 Depois de muitos anos, muitos diplomas, muitos bens e muitas incursões no submundo, a vida continua sem sentido 29 A praga do fastio 30 É preciso parar de correr atrás do vento e de cavar cisternas que não retêm água! 31 Pai nosso que estás em todo lugar... 32 Abertura 3 Carta ao leitor 4 Pastorais 6 Cartas 8 Mais do que notícias 14 Números 15 Frases 21 Nomes 22 Novos acordes 53 Deixem que elas mesmas falem 56 Meio ambiente e fé cristã 57 Prateleira 60 Agenda 62 Ação mais que social 63 Vamos ler! 64 Especial Ultimato não quer fazer o papelão de deixar Jesus de lado 37 KléosJr. Leia em www.ultimato.com.br • Obediência - uma questão de atitude (seção “Altos papos”), por Jeverton Magrão Ledo ultimato 311 FIM.indd 7ultimato 311 FIM.indd 7 27/2/2008 16:31:0727/2/2008 16:31:07
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    ULTIMATO Março-Abril, 20088 Homossexualismoe homossexualidade Venho com muita coragem reconhecer minha quase total ignorância sobre a matéria de capa da edição de janeiro/fevereiro de 2008 (Homossexualismo e Homossexualidade). Agora, depois de ler e ficar por dentro de tudo que foi escrito, posso pelo menos discutir o assunto e encarar as coisas sem reservas nem preconceitos. Ultimato aborda com clareza e discernimento um tema que ainda hoje é tabu. Continuem nesta tarefa ousada e gratificante de esclarecer tantos leigos como eu. RUTH JUSTINO DOS SANTOS FREIRE Boituva, SP Ao ler a edição que trata mais uma vez da homossexualidade, deparo-me com a incrível soberba de vocês em rotular esta questão como pecaminosa e imoral. Gostaria que um dia vocês fizessem uma reportagem sobre a vida digna, honesta e fiel que muitos gays masculinos e femininos levam por este Brasil afora. Podemos, sim, escolher não ter relações homossexuais, assim como os heterossexuais também podem, mas não o fazem. Porém, não escolhemos se temos ou não o desejo. É inerente à nossa condição humana. Acho louvável a expressão de suas opiniões a nosso respeito, pois aprendemos com isso também. Afinal, somos uma democracia. Acho, todavia, que vocês poderiam gastar as caras páginas de sua publicação incentivando os seus leitores à caridade. Pois são os heterossexuais, em sua maioria, que mandam e desmandam no Brasil, que humilham e impõem miséria. Sou uma transexual feliz! BRENDA SANTURNIONI Viçosa, MG Se o homossexualismo fosse uma prática sexual normal, será que o ser humano teria se multiplicado? Se Deus tivesse criado Adão e Ivo ou Eva e Evita nós habitaríamos o planeta? ROSELI DOS SANTOS DE ASSIS Belo Horizonte, MG LiareportagemHomossexualismo e Homossexualidade, esintodizerqueamesmanãoacrescentou nada ao que já seconjeturavasobreotema.Aliás, ela é uma síntese das palavrasqueadoecemecontinuarão a adoeceros milhares dehomossexuaisparticipantesde todos os segmentos socioeconômicos,culturaisereligiosos do mundo. Reconheçoqueostextossagrados, tanto do Antigo quanto doNovoTestamento,sãocategóricos emafirmarquecerto tipodecomportamentohomossexualé desagradávelaos olhosdeDeus.Useideliberadamente a expressão certo tipo, poiscreioqueháumtipodehomossexuala respeito do qual aBíbliasecala.Todosostextosbíblicos que mencionam apráticahomossexualrelatamumcomportamento reprovável,emquehomensemulheres demonstramtotal faltadeamorporsimesmos,pelo próximo e pelo Criador. Porém,háumgrandenúmerode homossexuais que não seenquadranessecontexto(ea reportagemfoiinfelizde nãotê-losconsiderado,poishabitamabundantemente as igrejascristocêntricas).Refiro-me àqueles indivíduos que reconhecemaforçadosargumentos bíblicos contra o que sentemnasentranhas,masnãoqueriamsentir. Refiro-me àquelesquetêmtemordoSenhor, amama Deus (portanto, jáseconverteramaCristo),masque não passamumdia sequersemdesejaroamoreoafeto de umque lhe seja idênticonosexo.Refiro-meàqueles que adoecemnas Nota da redação O Baker’s Dictionary of Christian Ethics, do qual foi retirado o verbete “Homossexualismo e homossexualidade”, foi publicado no Brasil, em 2007, pela Editora Cultura Cristã. ultimato 311 FIM.indd 8ultimato 311 FIM.indd 8 27/2/2008 15:35:5327/2/2008 15:35:53
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO9 igrejas porouvirem asmuitas possíveis explicações parao que são: doentes, anormais, abomináveis (depravados), coisassemelhantesàs presumidas nareportagem. Portanto, falode pessoas que reconhecem quesão demasiadamente humanas(toma-se aquiapalavra por fracas ou imperfeitas) eque sentem umanecessidadeenormedeaconchego no peitodoSalvador, reconhecendo queestenão esperadelas que mudem asimesmas, mas queseaninhem neleem verdade (ouseja, assumindo parasi mesmas quesão gays e apresentando-se aele como são), deixando queeleas guie poronde desejar. J.F. - O missivista está de parabéns por admitir que os textos sagrados de ambos os testamentos são conclusivos sobre a prática homossexual. Naturalmente há homossexuais cínicos e homossexuais que lamentam suas tendências sexuais e gostariam de superá-las. A união estável com um só parceiro não resolve a questão sob o ponto de vista moral, pois, à luz da criação, “uma parceria homossexual jamais poderá ser vista como uma alternativa legítima” (John Stott, em A Bíblia Toda, O Ano Todo, p. 28). Em qualquer caso, a não-negação desses impulsos torna-se uma conduta reprovável. Mas o homem ou a mulher que sente atração homossexual e não se entrega a ela por força do temor do Senhor e com o auxílio do Espírito Santo, não deve sofrer discriminação na igreja, ou seja onde for. Merece ser tratado com respeito, porque todos os outros crentes também têm dificuldades pessoais, em áreas diferentes. Jesus deixou claro que ninguém pode segui-lo sem negar-se vez após vez (Mc 8.34). Uma desobediência aqui e ali, em qualquer área, não deve desanimar, pois todos “temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2.1). Ao contrário, deve ser confessada para ser perdoada e purificada (1Jo 1.9). Quarenta anos Leio Ultimato há mais de quinze anos. Ela faz parte da minha vida e da minha família. Quantos conselhos, quantas coisas maravilhosas! Admiro-a por não ser uma revista tendenciosa, por publicar opiniões independentes do que está escrito. Também acabo de fazer 40 anos. Quanta história para contar. Cheguei até aqui pela graça de Deus. REJANE M. S. CHAGAS Rio de Janeiro, RJ Parabénspelos40anosdeUltimato!Oquemaisapreciona revistaéqueelanosobrigaapensar.Oscrentesbrasileirosem geralnãogostammuitoderefletir.Preferemengoliracoisa pronta.QueDeuscontinueabençoandooseuministério. MARCOS SOARES Ribeirão Preto, SP A CPAD faz sinceros votos de que Ultimato tenha uma longa vida de vitórias e grandes realizações, anunciando em todo tempo as novas de salvação de nosso Senhor Jesus Cristo! Toda honra seja dada ao nome de Cristo Jesus! LEANDRO SILVA Casa Publicadora das Assembléias de Deus Rio de Janeiro, RJ EuestavanoSeminárioPresbiterianode Belo Horizonte quandoaconheci.Elatinhaapenas13anos. Fiquei impressionadocomsuamaturidade,equilíbrio e lucidez. Sentiqueelaeraacompanheiraqueeu precisava para a vida eparaoministério.Formei-meem1985 e comeceimeu ministérioemfevereirodoanoseguinte e a leveicomigo para apequenacidadedeConceiçãodeIpanema, MG. Já são 26 anosdeconvivênciabem-sucedidaeharmoniosa. Às vezes divergimosemalgunsassuntos,masaténasdivergênciaseua respeito,poiselaéconsistenteemseus argumentos. Embora maisvelhoqueelaseisanos,nãoreceio emreconhecerque elaamadureceumaisdoqueeu.Estámais bemformada e comaparênciarenovada.Tambémcresceu mais e exerce mais influênciadoqueeu.Suasopiniõesme influenciamcada vezmais.Achoqueéporqueelaabsorve bema sabedoria doquehádebomnomeioevangélicoe sabe escolherseus colaboradores.Semdúvida,Ultimatotemsido uma boa companheira!Deusaabençoeeafaçaprosperarainda mais. PR. PÚBLIO RONALDO FONSECA Ipatinga, MG Parabéns pelos 40 anos. Que muitos outros 40 se passem, levando a milhares de leitores, tão carentes, o alimento forte ultimato 311 FIM.indd 9ultimato 311 FIM.indd 9 27/2/2008 11:30:1127/2/2008 11:30:11
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    ULTIMATO Março-Abril, 200810 dafé, de que essa excelente mensageira é portadora. Não sei bem há quanto tempo recebo e leio Ultimato; talvez há uns vinte anos. Sem demagogia, acho-a uma revista única no gênero. Muitas vezes me sirvo dos seus ótimos artigos para minhas palestras e pregações. Sou um veterano sacerdote de 79 anos de idade. Paroquiei o município de Itaboraí por 35 anos! Chegando à idade canônica (75), solicitei a renúncia de pároco, que foi aceita pelo reverendíssimo arcebispo de Niterói. No dia 21 de dezembro, celebrei 55 anos de minha ordenação sacerdotal. PE. DOMINGOS GONÇALVES DAS EIRAS Itaboraí, RJ Tenho os mais sinceros sentimentos de gratidão por ter conhecido Ultimato em 2007. Foi um ano muito exigente para mim, pois tive perdas consideráveis: minha mãe, com apenas 44 anos, e o filhinho recém-nascido. A revista era lida em salas de espera de hospitais e me ensinou muito, entre outras coisas, sobre a soberania de Deus. Sou pastor de uma pequena congregação da Assembléia de Deus na Baixada Fluminense há sete anos. Ultimato tem me ajudado a amadurecer. MARCELO NOGUEIRA DE OLIVEIRA Belford Roxo, RJ Recebo e leio Ultimato de ponta a ponta há alguns anos. Questiono, especialmente, algumas afirmações advindas das cartas. Valorizo a postura da revista em publicar opiniões até mesmo desfavoráveis ao seu conteúdo ou linha. Gosto e aprecio as reflexões e a busca incessante do aprofundamento e vivência autêntica da mensagem evangélica. A revista tem contribuído no crescimento da minha fé e na convicção de que, apesar da “iniqüidade estar em alta”, há muitas pessoas, em todos os credos, procurando, com palavras e atitudes, frear a iniqüidade. Apreciei muito a reportagem sobre o Santuário de Aparecida por suas perspicazes observações e pelo respeito às convicções religiosas de um povo nem sempre espiritualmente muito culto. CÂNDIDO A. LORENZATO Porto Alegre, RS Faz anos recebo Ultimato, cuja linha editorial se move sobre o trilho do diálogo. DOM ALDO GERNA São Mateus, ES Ambigüidade A edição de janeiro/fevereiro de 2008 traz alguns artigos bons e outros não tão bons assim. Há uma ambigüidade na revista que me incomoda: a sua posição em relação ao catolicismo romano. Há anos que a revista vê o catolicismo não como uma religião a ser evangelizada, mas como uma denominação a ser resgatada. Aparentemente, pelo número de cartas na seção apropriada, que aplaudem a reportagem sobre o Santuário de Aparecida publicada na edição de julho/ agosto 2007 (que tinha esse tom enormemente conciliatório, em vez de confrontador com a verdade da única mediação de Cristo), tudo isso encontra eco na grande maioria dos leitores, mas continua me incomodando. Nesse sentido, é impressionante as citações de católicos, sob uma luz favorável. Na seção “Frases” (p. 21), entre as poucas lá colocadas, uma de Hans Küng, outra de Leonardo Boff e outra do padre Vito Del Prete. Até o artigo do presbiteriano Odayr Olivetti (p. 63) eivado demais de referências a personalidades e entidades católico-romanas (D. Eugênio Sales, Gustavo Corção Braga, CNBB etc.), como se estivesse envolvido em, ou pressionado a, um esforço de amoldar seu conteúdo e estilo à orientação da revista que o abriga. SOLANO PORTELA São Paulo, SP Rubem Alves equivocado Na“Abertura”daediçãodejaneiro/fevereiro, a revista diz queoteólogo,filósofoepsicanalista RubemAlves está equivocadoaomanifestarseuposicionamento concernente adoutrinasbíblicas.Trêsperguntas me vieramà mente: para oautordoartigo,RubemAlvesestá equivocado porque se manifestadeformadiferentedaquela que lhe é peculiar? O autorprocuroudialogarcomo“equivocado” para fazertal afirmação?O“equivocado”nãoseria o autorda matéria? Acho oportunofinalizarcomaspalavras de Robert Martin-Achard, professordasuniversidadesdeGenebra e Neuchatel: “A Escrituraentregaoseusegredoàquele que usa tempo para caminharcomela;elanãodiznada ao amadore ao vaidoso”. MANOEL JESUS DE OLIVEIRA Rio de Janeiro, RJ ultimato 311 FIM.indd 10ultimato 311 FIM.indd 10 27/2/2008 11:30:1827/2/2008 11:30:18
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO11 Salvos e não-salvos aqui e acolá Sobre o relacionamento de Ultimato com os católicos, é de se esperar que alguns evangélicos nem saibam o significado da palavra “cristianismo”. Para eles, ser cristão é ser da igreja deles. Se lhes dissermos que o cristianismo engloba três ramificações (católica romana, ortodoxa e protestante) eles piram. Se dissermos que nessas três há salvos e não-salvos, eles têm um ataque cardíaco. Se alguns não concordam com a posição da revista, deixem de assinar, mas fazer com que outros os imitem na sua decisão é nada menos que obstrução à proclamação do evangelho. Essa atitude é como aquela que Jesus critica: “Vocês mesmos não entram nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo” (Mt 23.13). PR. CLEILSON N. TRINDADE Igreja Missionária Volta de Cristo Vilhena, RO Inquisição Na seção “Cartas” da edição anterior, o leitor Lino Cherubini, de Santa Rosa, RS, diz que os protestantes que teimam em condenar a devoção católica a Maria “deveriam ser processados diante de um tribunal, se para isso existisse um”. É impressão minha ou o leitor está fazendo apologia ao Tribunal da Santa Inquisição? Espero que seja apenas impressão minha. TALITA ALVARENGA Belo Horizonte Ultimato merece parabéns não só pelos 40 anos, mas também pela seriedade e temperança em todas as matérias e colunas. Aproveito para dizer ao leitor Lino Cherubini, com respeito, mas sem omitir a verdade, que o tal tribunal acabou há três séculos, com o fim da inquisição, e que, muito além da Carta aos Hebreus, toda a Bíblia afirma que o Senhor Jesus é o único e perfeito mediador entre Deus e os homens. EDSON BAUMGART Barracão, PR Universal Quando Ultimato e seus colunistas descerão do muro em relação à Igreja Universal do Reino de Deus e todas as outras igrejas neopentecostais que achincalham diariamente o evangelho, com o objetivo único de obtenção de dinheiro e poder? WILSON DE OLIVEIRA JR. Recife, PE Missionário em prisão Na edição de julho/agosto de 2006, Ultimato publicou meu testemunho. Contei na ocasião que, quando eu tinha 4 anos, meu pai matou minha mãe e desapareceu. Creio que foi por causa dessa notícia publicada na revista que meu pai, depois de ficar foragido por 23 anos, foi localizado e preso. Está aguardando julgamento. Por mais que seja difícil, eu o perdôo por ter me deixado órfão de mãe e sozinho na vida. Filipenses 4.13 me encoraja muito: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Através de Ultimato tenho amadurecido bastante. A obra de Deus aqui na Penitenciária de Bauru está uma bênção! Considero-me um missionário em prisão. DOUGLAS GRAZIANI NETO Caixa Postal 50 18250-000 Guarei, SP De capa a capa Ultimato parece uma revista em crise existencial. Na “Carta ao leitor”, Elben César destaca que o que menos precisamos hoje é a teologia da prosperidade. Na contracapa, o destaque é o livro de Paul Cho que afirma, entre outras coisas: “Mude... da escassez à prosperidade”. A seção “Abertura” faz uma crítica dura à liberalidade de Rubem Alves. Na seção “Frases” aparecem como destaques os católicos liberais Hans Kung e Leonardo Boff. Robinson Cavalcanti diz que o moralismo não ajuda e Alderi Souza de Matos defende o puritanismo e a disciplina. Novamente, Elben César, na página 27, tenta costurar tudo através do seu aborrecimento com “cristãos um pouco demais alguma ultimato 311 FIM.indd 11ultimato 311 FIM.indd 11 27/2/2008 11:30:2527/2/2008 11:30:25
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    ULTIMATO Março-Abril, 200812 coisa”.A impressão que tive é que o cristão deve ser uma média em tudo (mediocridade), ficando nesse meio de campo indefinido e despersonalizado. Por fim, sobre os 40 anos da revista, ela se auto-proclama ousada e coerente. Por que vocês não assumem de vez a contradição? Os evangélicos são assim mesmo. Tenho certeza de que Jesus perdoará mais este pecado. FERNANDO GRUPPELLI Curitiba, PR Respiração “boca-a-bico” Antes de se criar a palavra ecologia, eu já tinha consciência de que somos mordomos e não dominadores de tudo aquilo que Deus criou. Tenho muito amor aos animais e cuidado com a natureza. Pelo fato de ter morado algumas vezes com índios caiapós, como missionária e antropóloga, convivi mais de perto com a criação. Outro dia aconteceu uma coisa que me desafiou. Um sabiá machucou-se ao bater contra a porta de vidro de meu apartamento e eu tentei “ressuscitá-lo” com massagens e até respiração boca-a-boca (seria mais correto dizer respiração boca-a-bico...). Pinguei também algumas gotas d’água em seu bico. Para minha surpresa, pouco depois o sabiá se reanimou, bateu as asas e foi embora. Fiquei profundamente satisfeita. Eu estava um pouco desanimada naquele dia e isso me reanimou. Mais animada ainda fiquei quando abri a revista Ultimato e li a pastoral Reanimação boca-a-boca no alvorecer de 2008 (janeiro/fevereiro, p. 8). Parece que Deus usou o incidente do sabiá para me lembrar o quanto ele tem prazer em nos ver “reanimados”. Pode parecer infantil, mas me emocionou muito. ISABEL MURPHY Brasília, DF Segundo casamento Fui missionário no Brasil e por muito tempo recebi a maravilhosa Ultimato. Sou pastor aqui na minha terra, Argentina, e fiquei viúvo. Quero encontrar uma irmã em Cristo brasileira para o segundo casamento. Por favor, ajudem-me a conectar-me a um site apropriado. JUSTO JORGE ARANDA titoberry@hotmail.com Argentina Mulheres nunca mais Se os editores de Ultimato forem mulheres, elas que me perdoem, mas vocês têm que ouvir a verdade de Deus. Ele é amor, mas também é justiça. Quando a justiça dele cair sobre aqueles que não cumprem as Escrituras, nesse dia não quero nem olhar para vocês, a caminho do inferno. As igrejas estão cometendo a loucura de colocar a mulher no lugar do homem. A mulher deve aprender em silêncio. O representante de Deus na terra é um ser másculo, como Deus. WESLEY CHRISLEY ALENCAR CARVALHO Sorocaba, SP Música evangélica O que mais gostei na edição de janeiro/fevereiro foi a grande quantidade de textos sobre música evangélica brasileira, a começar pela carta de Marcos Davi, passando pela reflexão de Ricardo Barbosa e terminando com o artigo de Osmar Ludovico. Considerando que cada vez mais nossa música está tomando rumos passíveis de muita crítica, é preciso levar as igrejas a refletirem sobre sua situação atual, em busca do melhor caminho. Leio atentamente a coluna “Novos acordes”, de Carlinhos Veiga. SALVADOR DE SOUSA Diretor do site Arquivo Gospel Riacho Fundo, DF Deprimente o texto Parei de ouvir música cristã, de Mark Carpenter (“Arte e cultura”, janeiro/fevereiro 2008). Como excluir certas canções das “músicas usadas nas igrejas para louvor coletivo”? Concordo que existem muitas músicas chamadas cristãs que são desprovidas de conteúdo, mas para quem ouve U2 que diferença isso faz? AFONSO EMILIO ALVARES DOURADO Planaltina, DF ultimato 311 FIM.indd 12ultimato 311 FIM.indd 12 27/2/2008 11:30:3227/2/2008 11:30:32
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO13 FALE CONOSCO Cartas à Redação cartas@ultimato.com.br Cartas à Redação, Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Inclua seu nome completo, endereço, e-mail e número de telefone. As cartas poderão ser editadas e usadas em mídia impressa e eletrônica. Economize Tempo Faça pela Internet Para assinaturas e livros, acesse www.ultimato.com.br Assinaturas atendimento@ultimato.com.br 31 3891-3149 Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Edições Anteriores atendimento@ultimato.com.br www.ultimato.com.br Ex-preso Nunca me esqueço de Ultimato, que me ajudou muito quando eu me encontrava nas penitenciárias de São Paulo. Hoje tenho minha família e o ministério que o Senhor me confiou. PR. LEVY SANTO GRECO Ferraz de Vasconcelos, SP Uruguaio de nascimento, sou missionário no Chile, enviado pela Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira. Estou interessado em traduzir alguns artigos de Ultimato para o espanhol e colocá-los em um blog ou site gratuito. Seria muito bom para o povo hispânico ter uma revista desse nível. GUILLERMO LA BANCA Calama, Chile Robinson Cavalcanti Ao ler a reflexão de Robinson Cavalcanti Protestantes: autênticos católicos (janeiro/fevereiro 2008), deparei-me com o seguinte parágrafo: “O Espírito Santo esteve presente nos vinte séculos de nossa história”. Se for assim, pergunto: qual foi o Espírito que surgiu no início do século 19 na famosa rua Azuza, em Los Angeles, e que tornou a igreja num solo tão fértil e vulnerável para as heresias e bizarrices como hoje se vê? EDVAN JORGE Itaberaba, BA A visão histórica proposta por Robinson Cavalcanti traz à tona o valor da memória, pois a memória histórica corrente enfatiza insensatamente, e sem muito rigor metodológico, uma história míope da igreja, em que a igreja do Vaticano é detentora da narrativa. É salutar conhecer uma outra história, observar o papel da Igreja do Oriente, num momento em que vivenciamos uma fragmentação religiosa e entender o papel da Reforma, em seu ensino sólido das Escrituras. É bom observar o que os nossos irmãos em Cristo fizeram como prática de uma verdadeira igreja — uma igreja com uma memória fundamentada em Cristo Jesus, autor e consumador de nossa fé. CLEVERTON BARROS DE LIMA Campinas, SP A Igreja Evangélica Missionária Pentecostal de Belo Horizonte adquiriu 2 mil exemplares desta edição de Ultimato para distribuir de casa em casa, no bairro Itapoã, onde se localiza o seu templo. A distribuição acontecerá por ocasião da Páscoa. ultimato 311 FIM.indd 13ultimato 311 FIM.indd 13 27/2/2008 11:30:3827/2/2008 11:30:38
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    Divulgação Gérard Horst ea esposa, Dorine ULTIMATO Março-Abril, 200814 do que O “eu te amo” que os americanos usam em profusão e exportam para o mundo inteiro por meio do cinema se tornou uma das expressões mais corriqueiras e sem crédito de que se tem notícia. O marido adúltero dá um beijo na mulher e diz para ela: “Eu te amo”. A esposa infiel acaricia a barba do marido e jura para ele: “Eu te amo”. Para dobrar a resistência da moça e levá-la ao motel, o rapaz se desmancha diante dela e exclama: “Eu te amo”. No mais recente aniversário da independência do Brasil, Alex morreu aos 31 anos, depois de declarar à psicóloga Irene Pepperberg, pesquisadora da Universidade Harvard: “Te amo”. Alex era um papagaio africano, treinado pela pesquisadora desde quando ela fazia o seu doutorado em química, trinta anos atrás. Mas ainda há casos em que se pode acreditar no famoso “I love you”. Um deles saiu da boca (e do coração) de um filósofo francês de 84 anos. Em 2006, Gérard Horst escreveu à esposa, Dorine: “Faz 58 anos que vivemos juntos e eu a amo mais do que nunca. Recentemente me apaixonei por você novamente e novamente carrego em mim o vazio avassalador que só é preenchido por seu corpo apertado contra o meu”. Porque a mulher, um ano mais nova que ele, estava com uma doença degenerativa e câncer, o casal cometeu suicídio em setembro de 2007. O “eu te amo” mais autêntico e solene aconteceu numa bela manhã à margem do lago da Galiléia, na cerimônia da restauração pública de Pedro. Para desfazer a tríplice negação do apóstolo, Jesus lhe perguntou três vezes: “Simão, filho de João, você me ama?”. Meio surpreso, Pedro respondeu uma vez após outra: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo” (Jo 21.15-17). O “I love you” de Simão, filho de João D e acordo com o relatório da última Conferência Mundial sobre Água, realizada na Suécia em agosto de 2007, a quantidade de comida jogada no lixo por famílias ricas é escandalosamente alta: 30% dos alimentos que compram. Só na Grã-Bretanha, o prejuízo é avaliado em cerca de 82 bilhões de reais por ano. Boa parte desse desperdício deve-se à propaganda do tipo “compre dois e leve três”, que constrange as pessoas a comprar mais do que necessitam. Outra razão é a obediência cega aos rótulos dos fabricantes, que indicam na embalagem a data máxima aconselhada para o consumo. Joga-se fora leite e outros alimentos sem cheirar, sem comprovar se estão mesmo estragados. O crime que lesa os pobres será mais grave ainda se considerarmos também as sobras que os restaurantes jogam fora e as perdas que acontecem entre a colheita e o consumo. Deve- se considerar ainda outro tipo de desperdício: o que se come em demasia 82 bilhões de reais de comida jogada no lixo por ano na Grã-Bretanha JohnNyberg (segundo a Organização Mundial de Saúde, o mundo tem hoje 1,1 bilhão de pessoas obesas e acima do peso). Tudo isso acontece mesmo havendo 850 milhões de pessoas subnutridas no mundo. Aos olhos de Deus, trata-se de um crime muito grave. O problema é antigo. Já no século 18 o escritor francês Sébastien-Roch Chamfort dizia que “a sociedade se compõe de duas classes de pessoas: aquelas que têm mais refeições do que apetite e aquelas que têm mais apetite do que refeições”. Nas duas multiplicações de pães e peixes, os discípulos não permitiram que as sobras fossem jogadas fora. Na primeira foram recolhidos doze cestos de pedaços que sobraram (Mt 14.20); na segunda, sete cestos (Mt 15.37). Durante os quarenta anos da travessia do deserto, os judeus recolhiam diariamente a porção estritamente necessária de maná para cada dia (Êx 16.4). ultimato 311 FIM.indd 14ultimato 311 FIM.indd 14 27/2/2008 15:36:0227/2/2008 15:36:02
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    números 150.000 oliveiras foram derrubadaspara a construção do muro da vergonha, por meio do qual Israel tentaria impedir ataques palestinos 33.000 brasileiros morrem por ano devido à Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), provocada pelo tabagismo (são 90 mortes por dia) 623 políticos brasileiros (governadores, prefeitos e parlamentares) tiveram, de 2000 a 2007, seus mandatos políticos cassados no Brasil, segundo levantamento do Movimento do Candidato à Corrupção Eleitoral 60.000.000.000 de dólares ao ano é quanto os Estados Unidos gastam com suas prisões, que abrigam mais de 2 milhões de presos 368 meninas brasileiras na faixa etária de 13 a 19 anos eram portadoras do vírus da aids em 2006. Entre os meninos da mesma idade, o número era de 223 6.256 veteranos de guerra americanos cometeram suicídio em 2005 (uma média de 17 pessoas por dia) A LizFagundes Março-Abril, 2008 ULTIMATO 15 O adesivo “Deus é fiel” precisa deixar de ser mercenário para ser um anúncio do evangelho A declaração bíblica “Deus é fiel” (1Co 1.9; 10.13; 2Co 1.18) tornou- se um adesivo de caminhões, ônibus, carros, geladeiras, celulares etc. A fidelidade de Deus é o seu mais conhecido e popular atributo. Fala-se mais na fidelidade de Deus que em seu amor, sua onipotência, onisciência e onipresença, em sua santidade, e assim por diante. É muito bom, muito saudável e muito edificante que se reconheça que Deus é fiel. Quando Moisés subiu o monte Sinai com as duas tábuas de pedra para que Deus escrevesse nelas pela segunda vez os Dez mandamentos, o Senhor mesmo declarou: “Eu sou o Senhor, o Deus Eterno! (...) a minha fidelidade e o meu amor são tão grandes, que não podem ser medidos” (Êx 34.6, NTLH). O apelo do Salmo 117 é para que todas as nações e todos os povos louvem ao Senhor “porque imenso é o seu amor leal por nós, e a fidelidade dele dura para sempre”. Em alguns casos (ou seria em muitos?) o decalque “Deus é fiel” virou um mero amuleto — algo que se carrega por acreditar em seu poder mágico de afastar desgraças e aproximar graças. Trata-se de uma prática pagã que vem desde a mais alta antigüidade. Então, toda a beleza e o acerto da lembrança da fidelidade de Deus vão por água abaixo, e essa propaganda de que “Deus é fiel” torna-se algo mercenário que profana e mundaniza o nome e os atributos do Senhor. Para santificar essa prática, seria bom acrescentar à declaração “Deus é fiel” do adesivo, uma pergunta dirigida a nós mesmos: “Deus é fiel... E eu?”. A resposta mais apropriada dos cristãos à fidelidade de Deus é a firme resolução de se tornarem fiéis a ele como ele é fiel a nós em suas promessas. É preciso responder à fidelidade de Deus com a fidelidade própria. A fidelidade dos crentes a Deus é uma obrigação imposta pela conversão. É por isso que a palavra fiel significa também aquele que professa o cristianismo. Por exemplo, Timóteo deveria ser um exemplo para os “fiéis” (1Tm 4.12). A Bíblia diz que “Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus” (Hb 3.5). Os sátrapas do império medo-persa procuraram motivos para acusar Daniel de alguma irregularidade, mas “não puderam achar nele falta alguma, pois ele era fiel” (Dn 6.4). Paulo refere-se duas vezes a Tíquico como “fiel servo do Senhor” ou “ministro fiel” (Cl 4.7). O adesivo “Deus é fiel” precisa deixar de ser algo mercenário para se tornar verdadeiramente um anúncio do evangelho. E para validar e reforçar esse anúncio, o portador do adesivo precisa também ser achado fiel em todas as coisas. ultimato 311 FIM.indd 15ultimato 311 FIM.indd 15 27/2/2008 15:36:1027/2/2008 15:36:10
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    ULTIMATO Março-Abril, 200816 doque Da aquecedora do rei Davi aos “amigos” pessoais pagos P ouco antes de morrer, por volta dos 70 anos, o rei Davi não conseguia se aquecer nem com vários cobertores. Seus assessores acharam por bem encontrar no território de Israel uma moça solteira e muito bonita para cuidar dele e o aquecer com seu próprio corpo. A moça chamava-se Abisague e nunca se tornou mais uma mulher de Davi (1Rs 1.1-4). Quando o rei morreu, Adonias, um dos seus filhos, enamorou-se dela e a pediu em casamento (1Rs 2.17). Qual seria a profissão de Abisague? Talvez pudéssemos dizer que a moça fosse a companhia, a enfermeira, a camareira ou a empregada doméstica do rei. Mas a versão da Bíblia Hebraica é a mais precisa: “A moça era sobremaneira formosa e servia de aquecedora para o rei e cuidava dele”. Atualmente, temos coisas parecidas: médico particular, enfermeira particular, serviçal particular, segurança particular etc. Nos últimos anos apareceu o personal trainer, aquele profissional que acompanha o cliente em seus exercícios físicos. E, recentemente, surgiu o personal friend, um especialista em amizade profissional. O mercado dos amigos pessoais pagos está crescendo. Os preços variam de cinqüenta a trezentos reais por hora. Como no caso de Abisague, não existe conteúdo sexual nessa prestação de serviço; eles atendem pessoas carentes de companhia. Não necessariamente apenas pessoas que vivem sozinhas, pois há homens, mulheres e crianças, que vivem em família, mas não se entendem, não se amam, não se toleram e não conversam entre si. Por mais estranha que seja a profissão, ou o biscate, de personal friend, há pessoas tão desesperadas por estarem ou se sentirem sozinhas que contratam os seus serviços. Embora, a rigor, a amizade paga não seja amizade. Essa novidade torna as palavras de despedida de Jesus na noite anterior à sua morte mais significativas: “Não vou deixá-los abandonados, mas voltarei para ficar com vocês” (Jo 14.18, NTLH). O teólogo católico Jung Mo Sung, professor da Universidade Metodista de São Paulo tem toda a razão: “Uma pessoa pode ser feliz sem dinheiro, sem conforto ou reconhecimento social, mas não sem amizade”. Fotomontagem ultimato 311 FIM.indd 16ultimato 311 FIM.indd 16 27/2/2008 11:30:4427/2/2008 11:30:44
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    JohnNyberg Saulo e Cirlene,quinze anos depois do acidente Arquivopessoal Março-Abril, 2008 ULTIMATO 17 O garoto não tinha nem 16 anos. Mas lá estava deitado de bruços, inerte, ao lado da linha férrea, entre as estações de Utinga e Prefeito Saladino, em Santo André, na Grande São Paulo. Ele estava voltando do estádio do Pacaembu, onde fora assistir a um jogo entre São Paulo e Corinthians. O menino era surfista de trem — ficava em pé em cima dos vagões e andava para lá e para cá. Era a sua maior diversão. Adorava sentir o “friozinho” na barriga e o coração acelerado. Em 23 de janeiro de 1993, porém, o adolescente Saulo se deu mal. Para não cair em cima dos trilhos, entre um vagão e outro, agarrou-se a uma torre. Mas ela estava encostada em fios de alta tensão e ele recebeu uma descarga elétrica de 4.400 volts e caiu no chão mais morto que vivo. Enquanto o resgate não chegava, um policial se aproximou, abriu sua boca, puxou sua língua, colocou um pequeno isqueiro para manter a boca aberta e fez respiração artificial. Entre a vida e a morte, Saulo se lembrou da educação religiosa que recebera dos pais e da Assembléia de Deus, igreja que a família freqüentava. Lembrou- se da preciosa herança evangélica deixada de lado para curtir as aventuras da vida. Lembrou-se daquilo que se chama solenemente de “desintegração somatopsíquica que reduz o corpo humano sucessivamente à inércia, à putrefação, ao esqueleto e ao pó”. Lembrou-se também de Deus, aquele que dá e toma, que toma e torna a dar. Mesmo sem poder falar, Saulo gritou em sua mente: “Ó Deus, me ajuda!”. Deus o ouviu duplamente. Livrou-o da morte física e da morte religiosa, da morte do corpo e da morte da alma. Naquele mesmo ano, Saulo Piloto da Silva, nascido em São Caetano do Sul, SP, em abril de 1977, começou a andar nos caminhos do Senhor. O mais difícil foi abandonar o que ele fazia durante as madrugadas. Além de surfista de trem, Saulo era também pichador, desde os 14 anos. Na busca por fama entre os pichadores da turma Wolfs (lobos) e dos Fulanos, Saulo pichava os “picos” (locais altos de difícil acesso de empresas e pequenos prédios), as passarelas e os terminais rodoviários no centro, nas periferias de São Paulo e no ABC Paulista. Seu último “rolê” (percurso que os pichadores fazem para pichar em conjunto) aconteceu em janeiro de 1994 (um ano depois do acidente). No mês seguinte, Saulo tomou a séria decisão de seguir a Cristo de modo definitivo. Então, no dia 17 de abril de 1994, o ex-surfista de trem e ex-pichador confirmou publicamente seu novo nascimento para Cristo e sua morte para o pecado por meio do batismo. Hoje, quinze anos depois do acidente quase fatal, Saulo Piloto da Silva, 31, bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista do Grande ABC, com especialização em ministério pastoral, é pastor da Área de Evangelização e Missões na Igreja Batista Jerusalém em Santo André e obreiro da AMME Evangelizar, uma missão que ajuda as igrejas evangélicas brasileiras a cumprir a Grande Comissão dada por Jesus. A esposa, Cirlene, também bacharela em teologia pelo mesmo seminário (com especialização em educação cristã), é mestranda em psicopedagogia. O surfista de trem que quase morreu eletrocutado é hoje obreiro da AMME Evangelizar ultimato 311 FIM.indd 17ultimato 311 FIM.indd 17 27/2/2008 11:30:5427/2/2008 11:30:54
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    ULTIMATO Março-Abril, 200818 doque Templos incendiados na Coréia do Sul e no Quênia também noventa anos antes na aldeia de Je Am-Ri, na Coréia do Sul. No início de 2008, os partidários do candidato à presidência do Quênia derrotado nas eleições cercaram e incendiaram o templo da Assembléia de Deus de Eldoret, provocando a morte de cinqüenta pessoas do grupo étnico ao qual pertence o presidente eleito. Mulheres e crianças tentaram escapar de morrerem queimados, mas os algozes mantiveram as portas do templo fechadas. Em 1919, um grupo de nacionalistas coreanos se refugiou no templo de uma igreja metodista na zona rural próxima do lugar onde fica hoje o Centro de Missões Leste-Oeste, fundado e dirigido pelo conhecido missiólogo David Cho. Naquele tempo a Coréia estava sob o jugo japonês (de 1910 a 1945). Os soldados japoneses cercaram o templo, fecharam as janelas pelo lado de fora com pesadas trancas e atearam fogo na igreja. Os que conseguiram sair do templo em chamas foram mortos a tiro. Naquele dia, os japoneses mataram 23 homens e duas mulheres e incendiaram mais de trinta casas, além do templo. No dia seguinte, o missionário canadense F.W. Schofield e um colega visitaram a aldeia, viram o que havia acontecido e mandaram a notícia para o resto do mundo. Hoje existe um monumento histórico em Je Am-Ri em homenagem aos mártires coreanos. Estados brasileiros. O tema “A Missão do Padre Casado” foi apresentado por três palestrantes: o bispo anglicano Sebastião Armando Gameleira, o conhecido teólogo católico José Comblin e o padre casado e psicólogo Jorge Ponciano. Na ocasião, o ex- presidente Armando Holocheski, de São José dos Pinhais, PR, empossou os novos presidentes da Associação Rumos, Félix Batista Filho, jornalista, e sua esposa, Fernanda, pais de Felipe Emanuel, de 18 anos, e Félix Neto, de 16. Félix foi ordenado padre em 1984 por Dom Hélder Câmara e mora em Recife, onde exerceu o sacerdócio por pouco tempo. Chama-se padre casado o sacerdote que deixa de exercer o ministério por não estar mais disposto a manter o voto do celibato obrigatório, mas continua católico romano. Félix Batista assegura que existem hoje no Brasil mais de 5 mil padres casados e cerca de 150 mil no mundo. Por ausência de dados oficiais, o número pode ser muito maior. A Associação Rumos é um dos organismos de apoio ao Movimento dos Padres Casados, que conta também com o jornal Rumos. De acordo com a revista Época, dos 29 padres formados no Seminário de Mariana, MG, em 1958, sete já morreram (24,1%), oito se casaram (27,6%) e 14 continuam exercendo o sacerdócio (48,3%). Associação que congrega parte dos 5 mil padres casados do Brasil elege seus novos presidentes O padre casado Armando Holocheski empossa o casal Félix e Fernanda Batista como presidentes da Associação Rumos Arquivopessoal Soldados japoneses no cerco a coreanos refugiados em templo metodista O17º Encontro Nacional de Padres Casados aconteceu em Recife de 10 a 13 de janeiro, com a presença de 106 pessoas de treze Quem disse que a história não se repete? O que aconteceu no primeiro dia de 2008 na cidade de Eldoret, a 300 quilômetros a noroeste de Nairóbi, no Quênia, acontecera ultimato 311 FIM.indd 18ultimato 311 FIM.indd 18 27/2/2008 17:21:1927/2/2008 17:21:19
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    do que AsifAkbar ULTIMATO Março-Abril,200820 A arte de sobreviver numa enxurrada de mentiras e de equívocos M entira é uma coisa e equívoco é outra. Ambos causam muito estrago e afastam muita gente da fé. Escreve-se mais sobre mentira do que sobre equívoco. Sob o ponto de vista ético, a mentira é mais grave do que o equívoco. Os guardas do túmulo de Jesus não se equivocaram quando espalharam a notícia de que o túmulo estava vazio porque os seus discípulos haviam furtado o corpo dele durante a noite de sexta para sábado. Os chefes dos sacerdotes deram-lhes uma grande soma de dinheiro para pregarem essa mentira, que ainda era divulgada 50 anos após a ressurreição do Senhor, época em que o Evangelho de Mateus foi escrito, na década de 80 ou 90 do primeiro século da era cristã (Mt 28.11-15). Apesar dos prodígios da mentira (2Ts 2.9), é preciso tomar igual cuidado com os equívocos, eticamente mais inocentes.Todos têm conhecimento dos muitos equívocos da ciência, desde quando se dizia que aTerra era o centro do universo. Em todas as áreas da pesquisa científica têm havido erros crassos: na astronomia, na biologia, na nutrição, na história etc. Outro dia, o filósofo brasileiro Leandro Konder escreveu que “nenhuma teoria — nem mesmo a que venha a ser considerada a melhor delas — pode, por si só, evitar que erremos. Cada erro, empiricamente, poderia ser evitado. Porém, o fato de errarmos é uma experiência universal e inevitável”. Mas a melhor contribuição de Konder é a enfática declaração de que “a história da filosofia está cheia de erros cometidos por grandes filósofos. Os pensadores disseram e fizeram muitas tolices. A começar pelos gregos” (Jornal do Brasil, 16/06/07, p. 6). Não se pode esconder o fato de que a propaganda religiosa também costuma pregar mentiras e cometer equívocos. Jesus tinha toda a razão quando aconselhou aos discípulos: “Sejam espertos como as cobras e sem maldade como as pombas” (Mt 10.16). Misturar uma coisa com a outra em doses certas não é tarefa fácil, mas a sobrevivência da fé vem daí! ultimato 311 FIM.indd 20ultimato 311 FIM.indd 20 27/2/2008 16:31:3927/2/2008 16:31:39
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    Frases Março-Abril, 2008 ULTIMATO21 Oparaíso, ponto final da história, já se tornou o presente na pessoa de Cristo e começa a ser experimentado no encontro com ele. Assim, a recusa dele é o inferno, a morte da esperança. Dom Filippo Santoro, bispo de Petrópolis, RJ Não tenho vocação para ser pessimista. Considero-me um realista esperançoso. Ariano Suassuna, 80, escritor Eliminar a corrupção por completo não será possível, mas podemos controlá-la e preveni-la. Stuart Gilman, chefe do programa Global Anticorrupção na sede do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime, em Viena Afalta de pão na mesa do pobre pode ser denúncia de falta de espiritualidade no altar dos cristãos. Carlos Queiroz, diretor-executivo da Visão Mundial no Brasil As pessoas têm escrito livros que prometem ajudar as outras e ser mais felizes há uns duzentos anos, e o resultado tem sido um monte de gente infeliz e um monte de árvores derrubadas. Daniel Gilbert, professor de psicologia em Harvard Gosto de ser otimista. O pessimismo radical merece uma bala na cabeça, fim, acabou-se a chatice. Mas não perdi a visão da realidade, e nela não vejo nada deslumbrante. Lya Luft, escritora Queremos ser amigos da América, mas às vezes temos a impressão de que a América não precisa de amigos, só de ajudantes para comandar. Vladimir Putim, presidente da Rússia, eleito Personalidade do Ano de 2007 pela revista Time Não é sábio colocar muita fé nas Nações Unidas. John Robert Bolton, ex-embaixador dos Estados Unidos na ONU Oque dói mais? A morte da pessoa amada ou a partida da pessoa amada? Digo que é a partida da pessoa amada. Rubem Alves, psicanalista Oateísmo tornou-se militante, irado, e quer que Deus desapareça. Não se trata mais de uma filosófica declaração de que Deus está morto, mas de um imperativo de que ele deve ser enterrado. João Heliofar de Jesus Villar, procurador regional da República da 4ª Região e Bispo da Igreja Evangélica Sara Nossa Terra, em Porto Alegre, em artigo publicado na Folha de São Paulo [Com o aquecimento global] o Primeiro Mundo será rebaixado a Terceiro e o Terceiro, a Quinto. E isso é para daqui a pouco, quase já. Ruy Castro, jornalista Divulgação Divulgação Divulgação Divulgação ultimato 311 FIM.indd 21ultimato 311 FIM.indd 21 27/2/2008 11:31:2127/2/2008 11:31:21
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    ULTIMATO Março-Abril, 200822 AntonioEliasAntonio Elias sem pressasem pressa de morrerde morrer aos 91 anosaos 91 anos Antonio Elias, o homem que teve um espetacular encontro com o Senhor aos 21 anos Em 1932, por ocasião da Revolução Constitucionalista, um rapaz de 21 anos, com cara de adolescente, entrou pela primeira vez na vida em uma igreja protestante. Era o templo da Igreja Batista Paulistana. O moço, chamado Antonio, teve naquela noite, como ele mesmo disse tempos mais tarde, “um espetacular encontro com o Senhor”. Desejando tornar-se membro da comunidade, foi examinado e aceito pela sessão da igreja para ser batizado. Porém, por ter viajado para o Sul do Brasil com destino à Argentina, a cerimônia não se concretizou. Em Porto Alegre, só com a roupa do corpo — o uniforme de voluntário da revolução — e doente, Antonio foi levado para o hospital da Brigada Militar e de lá para a casa do capitão Ludovico Schilimyer, onde foi tratado como filho. O rapaz quis logo saber onde ficava a igreja batista, indo parar na Capela do Redentor, dos episcopais, cujo pároco era Vicente Brande. Antonio estranhou aquela igreja que julgava ser batista, mas pensou: “Aqui no Sul tudo é diferente...”. Terminado o culto, o pastor, à porta, quis conversar com o estranho visitante por causa do uniforme (ele também era de São Paulo). Tratou-o da melhor maneira possível. Não demorou muito, o jovem, convertido numa igreja batista em São Paulo, tornava-se membro de uma igreja episcopal de Porto Alegre. Com a morte do pai em Catanduva, SP, e não agüentando mais as saudades da mãe e dos irmãos, Antonio resolveu voltar para o Estado de São Paulo. Na despedida, Vicente Brandão explicou-lhe que não havia igreja episcopal em São Paulo, mas ele poderia transferir-se para uma igreja presbiteriana. Foi a primeira vez que Antonio ouviu falar a palavra presbiteriano. O nome todo desse rapaz é muito curto e comum: Antonio Elias. Não desperta a menor atenção ou curiosidade. Mas sua vida foi longa (por pouco não chegou aos 97 anos) e o que ele fez em favor do evangelho, sempre com a maior discrição possível, é extraordinário. Tornou-se pastor presbiteriano, fundou igrejas (naquele tempo não se usava a expressão “plantar igrejas”) em Teófilo Otoni, MG, Porto Alegre, RS, e Niterói, RJ (Igreja Presbiteriana Betânia), ganhou muitas almas para Cristo, aqueceu a alma de milhares de crentes (era ao mesmo tempo evangelista e avivalista), pastoreou igrejas e organizou a Associação Evangelística Sarça Ardente. Casou-se tarde (aos 38 anos) com a professora Maria José, convertida através de seu trabalho em Teófilo Otoni, e teve três filhos, uma filha e seis netos. O conhecido e amado Antonio Elias faleceu em Niterói quatro dias antes do Natal de 2007. (Leia em www.ultimato.com.br As cartas de amor de Antonio Elias e Maria José.) O homem de nome curto e comumO homem de nome curto e comum e de vida longa e extraordináriae de vida longa e extraordinária Na edição de setembro/outubro de 2001, Ultimato entrevistou dois idosos de 90 anos, ambos convertidos ao evangelho setenta anos antes. Um deles era Antonio Elias; o outro, Augusto Gotardelo. Foram feitas algumas perguntas muito francas e solenes e se obtiveram respostas edificantes, como se pode ler a seguir (no que se refere ao primeiro): KléosCésar ultimato 311 FIM.indd 22ultimato 311 FIM.indd 22 27/2/2008 17:18:5027/2/2008 17:18:50
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO23 Se Dom Ático Eusébio da Rocha, celebrante da Páscoa dos militares, tivesse conclamado a multidão a se ajoelhar diante de Jesus Cristo, o jovem soldado paranaense Ismael teria obedecido. Mas como era para rezar de joelhos em sinal de adoração à Santa Virgem, o rapaz permaneceu de pé, não por provocação, mas por convicção. Então, ele olhou para trás e para os lados para ver se havia mais alguém não ajoelhado e encontrou um sargento e outro pracinha tão em pé quanto ele. Hoje o antigo soldado tem 91 anos. Apesar de não ter freqüentado escola alguma, Ismael galgou posições de destaque em sua vida profissional (chegou a ser chefe da Divisão de Tráfego e assessor de Segurança e Informações do Porto de Paranaguá, no Paraná) e publicou alguns livros (Sob os Céus do Cruzeiro, Fatos e Bênçãos, O Varão preeminente e Inspirações de um Matuto). No momento está escrevendo um livro de memórias que terá como título Pepitas do Meu Bornal. Ismael é um dos muitos brasileiros que aprenderam a ler com a Bíblia e que alcançaram alguma facilidade para falar e escrever por causa da escola dominical — aquela reunião informal de estudo bíblico O pescador analfabeto queO pescador analfabeto que virou assessor de segurançavirou assessor de segurança do porto de Paranaguádo porto de Paranaguá Arquivopessoal Ismael Alves Pires aprendeu a ler com a Bíblia A espera da morte é tranqüila? Antonio Elias — Absolutamente tranqüila. Deseja que a morte venha logo? A. Elias — Falando francamente, sei que tenho que passar por ela, mas não estou com pressa. Enquanto tiver saúde e estiver fazendo o que gosto — anunciar o reino do Senhor — ela pode demorar a chegar... É bom viver? A. Elias — Sim, para mim tem sido bom viver, seguindo os passos daquele que disse: “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28.20). É bom morrer? A. Elias — Não sei. Ainda não tive essa experiência... Porém creio que despretensiosamente posso dizer com o apóstolo Paulo: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho” (Fp 1.21). Em seu caso pessoal, quais os maiores transtornos físicos ou emocionais causados pela idade avançada? A. Elias — Encaro com naturalidade o declínio das forças físicas. E, sem cessar, louvo o Senhor por ter vivido bem até agora, ultrapassando os 91 anos... Qual a sua rotina diária? A. Elias — Normalmente começo o dia com um período devocional de comunhão com o Senhor e leitura da Bíblia. Leio jornais, livros e revistas. Participo das atividades normais da casa. Atendo os compromissos que surgem e vou trabalhando nas mensagens que tenho de pregar aqui em Niterói (duas ou três vezes por semana normalmente), e nas viagens por aí afora... que se faz em quase todas as denominações evangélicas aos domingos pela manhã, em classes divididas pela faixa etária, desde a idade mais tenra. O antigo pescador e vendedor de peixes (sua primeira profissão) diz com orgulho que nunca esteve numa escola primária, “somente na universidade que se chama escola bíblica dominical”. Viúvo há sete anos e pai de cinco filhos (dois dos quais são pastores) e de uma filha, Ismael Alves Pires vive em Paranaguá e conserva aquela tradição peculiar à sua denominação: “Sou batista roxo”. ultimato 311 FIM.indd 23ultimato 311 FIM.indd 23 27/2/2008 17:19:0727/2/2008 17:19:07
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    24 ULTIMATO Março-Abril,2008 capa Que vida boba! A vida deixa de ser boba quando é vivida em sua plenitude acima e abaixo do sol, no plano físico e metafísico, no plano religioso e secular, no plano da fé e da razão stockxpert ultimato 311 FIM.indd 24ultimato 311 FIM.indd 24 27/2/2008 15:36:1527/2/2008 15:36:15
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO25 N ão se sabe ao certo quem é o autor do livro de Eclesiastes. Poderia ser Salomão, todavia é mais provável que seja outro sábio bem posterior, que se valeu de sua história, fama e nome. Parece que foi o reformador Martinho Lutero o primeiro a negar a autoria de Salomão. Um dos comentadores de Eclesiastes diz simplesmente que o autor empregou um artifício literário muito comum e colocou suas palavras na boca de Salomão. Nesse caso, o livro teria sido escrito no período pós-exílio, entre 400 e 200 antes de Cristo. Mas uma coisa é certa: o autor de Eclesiastes é um homem muito sábio, vivido, conhecedor da natureza humana, sensível, observador, inconformado, realista, prático e muito religioso. O livro discorre sobre a vida humana “debaixo do sol” (29 citações) ou “debaixo do céu” (3 citações), isto é, aqui embaixo, na terra, neste mundo. Essa expressão diz respeito à vida no plano físico e não no plano metafísico, no plano secular e não no plano religioso, no plano material e não no plano espiritual, no plano da razão e não no plano da fé, no plano humano e não no plano divino. Não se discute a existência de Deus — ele não é considerado, exista ou não. Essa completa e concreta alienação sobre Deus gera um tédio insuportável, que leva o autor a dizer repetidas vezes desde o início: “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Ec 1.2). Outras versões preferem termos sinônimos: “Tudo é inútil” (NVI), “Tudo é ilusão” (NTLH), “Tudo é fugaz” (EP), “Tudo é terrivelmente frustrante” (BH). Na paráfrase da Bíblia Viva, o autor escreve que a vida é uma “vida boba” (2.23). A expressão “vaidade de vaidades”, que aparece 37 vezes em apenas doze capítulos, funciona como um superlativo, a maneira hebraica de reforçar ou aumentar a intensidade do fato. Porém, o sábio não se satisfaz e usa outras expressões para deixar o leitor o mais ressabiado, intrigado, possível. Numa delas, afirma que a vida é um eterno “correr atrás do vento” (1.14), “uma caça ao vento” (BP), “uma perseguição ao vento” (TEB) ou simplesmente um “vento que passa” (EPC). Como o vento é o ar em movimento e, quando pára, não mais existe, o ser humano, “debaixo do sol”, nunca se realiza, nunca se acha, nunca pára de correr. Na tradução da CNBB, “correr atrás do vento” é “aflição de espírito”. Em palavras menos simbólicas, “correr atrás do vento” nada mais é que esforço inútil, tempo perdido, quimera. A frase aparece dez vezes em Eclesiastes. Em outra expressão, o sábio parece mais melancólico ainda e afirma sem acanhamento algum que a vida “não faz sentido” (2.19; 4.16; 5.10; 8.10 e 14; 9.9; 11.8). Em outra passagem, ele diz que é “tudo sem sentido” ou, “nada faz sentido” (12.8). Também diz que a vida “é um absurdo e uma grande O pessimismo toma conta das pessoas que desconsideram Deus e vivem às suas próprias custas e a seu bel-prazer injustiça” (2.21, NVI). A Bíblia do Peregrino, a Bíblia de Jerusalém e a Edição Pastoral Catequética usam uma expressão muito mais forte: “[A vida] é uma grande desgraça”! O livro de Eclesiastes pode parecer um pavoroso manual de pessimismo. Veja, por exemplo, os seguintes pronunciamentos: “Quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento” (1.18); “Os mortos [são] mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver!” (4.2) e “É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa” (7.2). Mas, na verdade, o propósito do livro é mostrar a causa e a cura para o pessimismo. Este aparece e cresce quando as pessoas pensam somente em si mesmas, de forma egoísta e não altruísta. O pessimismo acaba tomando conta das pessoas que desconsideram Deus e vivem às suas próprias custas e a seu bel- prazer. O pessimismo torna-se insuportável quando as pessoas se espremem entre o nascimento e a morte e rejeitam qualquer idéia de vida após a morte. Para ensinar que a vida é boba, o Sábio gasta muito tempo contando suas experiências equivocadas que a tornaram boba. Para ensinar que a vida pode deixar de ser boba, o Sábio aponta o equívoco-mor: “Separado de Deus, quem pode alegrar-se?” (2.29, RA). Na verdade, todas as belezas da vida perdem sua fragrância e significado quando o homem coloca Deus de lado e não mais cogita sobre ele. Definitivamente a vida deixa de ser boba quando é vivida em sua plenitude acima e abaixo do sol, no plano metafísico e no plano físico, no plano religioso e no plano secular, no plano da fé e no plano da razão! stockxpert ultimato 311 FIM.indd 25ultimato 311 FIM.indd 25 27/2/2008 11:31:3427/2/2008 11:31:34
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    26 ULTIMATO Março-Abril,2008 capa Tudo? A beleza das flores? O perfume do jasmim? As cores da rosa? Tudo? O campo de neve? As florestas da Amazônia? O cume dos montes? Tudo? O passeio na praia? O banho do mar? A areia incontável? Tudo? O luar do sertão? A sanfona da roça? O frango com quiabo? Tudo? O som da harpa? A doçura da flauta? As filhas da música? Tudo? O tamanho da baleia? A altura da girafa? As cores do camaleão? O mel das abelhas? O trabalho das formigas? O vôo do beija-flor? A força do leão? A bolsa do canguru? A longevidade da tartaruga? A viagem das andorinhas? Os dentes da cascavel? A velocidade do falcão? Tudo? O aperto de mão? O abraço apertado? O beijo na face? O afago da criança? Tudo? O primeiro amor? A primeira carícia? A primeira noite? A primeira gravidez? O primeiro filho? O primeiro sorriso? O primeiro beicinho? A primeira palavra? O primeiro passinho? Tudo? O presente que se dá? O presente que se recebe? O amor fraternal? Tudo? A dor de dente que passou? A biópsia que nada revelou? A doença curada? Tudo? A revelação natural de Deus? A consolação das Escrituras? O ministério do Espírito? “Tudo é vaidade e corre ultimato 311 FIM.indd 26ultimato 311 FIM.indd 26 27/2/2008 11:31:4227/2/2008 11:31:42
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO27 rer atrás do vento” (Ec 2.17) Tudo? O amor de Deus? A misericórdia de Deus? A graça de Deus? A soberania de Deus? A glória de Deus? A onipotência de Deus? A onipresença de Deus? A onisciência de Deus? Tudo? A graça comum? A graça especial? O Verbo que se fez carne? O Cordeiro de Deus? O Alfa e o Ômega? Tudo? O véu do templo que se rasgou? O triunfo da cruz? A vitória do bem sobre o mal? O esmagamento da serpente? A morte da morte? A ressurreição dos mortos? O novo corpo? Os novos céus e nova terra? O Apocalipse? Tudo? O riso depois do choro? A noite depois do dia? O dia depois da noite? O verão depois do inverno? O inverno depois do verão? O sol depois da chuva? O aguaceiro depois da seca? A calma depois do furacão? A paz depois da guerra? O amor depois da briga? O perdão depois do pecado? A morte depois da vida? A vida depois da morte? Deus depois de tudo? Tudo? Os que fazem ciência? Os que escrevem livros? Os que compõem música? Os que curam o corpo? Os que ouvem a lamúria? Os que promovem a paz? Os que fazem rir? Os que anunciam as boas novas? stockxpert ultimato 311 FIM.indd 27ultimato 311 FIM.indd 27 27/2/2008 11:32:0127/2/2008 11:32:01
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    ULTIMATO Março-Abril, 200828 capa O muromais antigo, mais intransponível e mais humilhante não é o “longo muro” (a Muralha da China, construída três séculos antes de Cristo) nem o “muro da vergonha” (o Muro de Berlim, construído em 1961); mas é o muro da desintegração somatopsíquica que reduz o corpo humano sucessivamente à inércia, à cor e à rigidez cadavéricas, à decomposição, ao esqueleto e, por último, ao pó. O muro da morte foi construído por Deus, logo após a queda, para impedir que o homem tivesse acesso à árvore da vida (Gn 3.24). A morte é o acontecimento mais absurdo possível. Um dos amigos de Jó dizia que o ser humano “é arrancado da segurança de sua tenda e levado à força ao rei dos terrores” (Jó 18.14). Naquele tempo, os cananeus comparavam a morte a um monstro cujo lábio inferior toca a superfície, e o superior, o mais alto céu. A boca enorme e sempre escancarada desse monstro engole tudo e nunca se fecha e nem se satisfaz. Ninguém escapa à sua gula feroz e descontrolada. Não escapam nem os bons, nem os maus, nem os cheios de vida, nem os doentios, nem as criancinhas de colo, nem os deficientes físicos em cadeiras de rodas, nem a mulher bonita, nem o homem feio, nem os ricos nem os pobres, nem os recém-nascidos cobertos de sangue, nem Lázaros cobertos de chagas. A morte é tudo isto: faminta, gulosa, insolente, cruel, implacável e o pior de todos os desmancha-prazeres. O rei Ezequias (701 a.C.), que, por volta dos 37 anos de idade, foi desenganado pelo próprio Deus, mas pela graça do mesmo Deus, conseguiu recuperar-se de sua enfermidade terminal, explica que na morte a vida é acabada, arrancada, cortada, desfeita, reduzida a nada, removida e roubada “como uma barraca de pastores que é desmontada e levada para longe, ou como um pedaço de pano que o tecelão corta de uma peça de tecido” (Is 38.12, NTLH). Esse corte pode acontecer à noite ou antes do despertar da manhã. Um livro tão realista como o de Eclesiastes não poderia jamais deixar a morte de lado. Uma das razões pelas quais a vida é boba é a existência implacável da morte. Para o autor do livro, a morte é um muro, pois todos os sonhos, todos os desejos, todos os empreendimentos esbarram nela e ali acabam. Nesse sentido, o ser humano não leva vantagem alguma sobre o animal, nem o animal leva vantagem sobre o ser humano, “pois a sorte de homens e animais é uma só: morre um e morre o outro” (Ec 3.19, BP). As palavras mais irredutíveis sobre a “cessação definitiva de todos os atos cujo conjunto constitui a vida dos seres organizados” estão em Eclesiastes: “[Assim] como ninguém pode dominar o vento, nem segurá-lo, também ninguém pode evitar a morte, nem deixá-la para outro dia. Nós temos de enfrentar essa batalha, e não há jeito de escapar” (8.7, NTLH). A rigor, sem as boas-novas da salvação, sem a esperança da ressurreição, sem a promessa de novos céus e nova terra, sem a certeza da morte da morte pela vitória de Jesus, tudo começa mal, caminha mal e termina mal. O muro da morte não nos deixa passar, não nos dá tempo para gozar o que foi feito do lado de cá, obriga-nos a trabalhar para aqueles que não trabalham (Ec 2.17-23). Isso pode levar o ser humano ao desencanto, ao mais profundo pessimismo e até à vontade de antecipar a própria morte. Trata-se de uma angústia perturbadora e sem solução apenas para aquele que está e vive “debaixo do sol” ou “debaixo do céu” e, portanto, desconsidera, na teoria ou na prática, a existência de Deus. Sem as boas novas da salvação, sem a esperança da ressurreição, sem a promessa de novos céus e nova terra, sem a certeza da morte da morte pela vitória de Jesus, tudo começa mal, caminha mal e termina mal KrisP ultimato 311 FIM.indd 28ultimato 311 FIM.indd 28 27/2/2008 11:32:2027/2/2008 11:32:20
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO29 E m qualquer tempo e em qualquer cultura, o ser humano quer se livrar da vida boba, isto é, da falta de sentido da vida. O autor de Eclesiastes tenta resolver o problema da “triste maneira de viver” (Ec 4.8, NTLH), da eterna e desagradável rotina da vida e da não-realização dos sonhos. Ele caminha por algumas vias na tentativa de ser bem-sucedido. Quem sabe o caminho da sabedoria daria certo? Então ele se dedica a investigar e a usar a sabedoria para explorar tudo o que existe. Ele pensa, estuda, pesquisa, viaja, observa e anota. Mal termina a graduação passa para a pós-graduação; mal termina a pós-graduação, passa para o doutorado; mal termina o doutorado, passa para o pós-doutorado. Depois de muitos anos e muitos diplomas, ele escreve: “Cheguei à conclusão de que a sabedoria é melhor do que a tolice, assim como a luz é melhor do que a escuridão. Os sábios podem ver para Depois de muitos anos, muitos diplomas, muitos bens e muitas incursões no submundo, a vida continua sem sentido onde estão indo, mas os tolos andam na escuridão. Porém eu sei que o mesmo que acontece com os sábios acontece também com os tolos. Aí eu pensei assim: ‘O que acontece com os tolos vai acontecer comigo também. Então, o que é que eu ganhei sendo tão sábio?’ E respondi: ‘Não ganhei nada!’ Ninguém lembra para sempre dos sábios, como ninguém lembra dos tolos. No futuro todos nós seremos esquecidos. Todos morreremos, tanto os sábios como os tolos. Por isso, a vida começou a não valer nada para mim; ela só me havia trazido aborrecimentos. Tudo havia sido ilusão; eu apenas havia corrido atrás do vento”. (Ec 2.13-17, NTLH). Quem sabe o caminho do sucesso daria certo? Então ele arregaça as mangas e põe as mãos no arado. Não olha para trás nem uma vez. Não desanima, não desiste, não pára de perseguir o alvo proposto. Segue todas as instruções, sua em bicas, trabalha dia e noite. Paga todos os dízimos e faz doações enormes para receber o dobro ou mais que o dobro do que havia contribuído. Depois de muitos anos e de muitos bens, ele escreve: “Realizei grandes coisas. Construí casas para mim e fiz plantações de uvas. Plantei jardins e pomares, com todos os tipos de árvores frutíferas. Também construí açudes para regar as plantações. Comprei muitos escravos e além desses tive outros, nascidos na minha casa. Tive mais gado e mais ovelhas do que todas as pessoas que moraram em Jerusalém antes de mim. Também ajuntei para mim prata e ouro dos tesouros dos reis e das terras que governei. Homens e mulheres cantaram para me divertir, e tive todas as mulheres que um homem pode “Resolvi me divertir e gozar os prazeres da vida. Mas descobri que isso também é ilusão. Cheguei à conclusão de que o riso é tolice e de que o prazer não serve para nada” ultimato 311 FIM.indd 29ultimato 311 FIM.indd 29 27/2/2008 11:32:2927/2/2008 11:32:29
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    capa A praga do fastio ULTIMATOMarço-Abril, 200830 desejar. Sim! Fui grande. Fui mais rico do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim, e nunca me faltou sabedoria. Consegui tudo o que desejei. Não neguei a mim mesmo nenhum tipo de prazer. Eu me sentia feliz com o meu trabalho, e essa era a minha recompensa. Mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento” (Ec 2.4-11, NTLH). Quem sabe o caminho da permissividade daria certo? Então ele se solta, sai da tutela do pai e da mãe, rompe com o passado, desiste dos padrões bíblicos de comportamento, encosta num canto os Dez Mandamentos da Lei de Deus, abre mão de alguns escrúpulos adquiridos na infância, torna-se dono de si mesmo e de seus desejos. Considera-se livre, inteiramente livre para fazer o que bem entende e satisfazer qualquer desejo, contanto que seja da carne e não do antigo Espírito. Depois de muitos anos e de muitas incursões no submundo, ele escreve: “Resolvi me divertir e gozar os prazeres da vida. Mas descobri que isso também é ilusão. Cheguei à conclusão de que o riso é tolice e de que o prazer não serve para nada. Procurei ainda descobrir qual a melhor maneira de viver e então resolvi me alegrar com vinho e me divertir. Pensei que talvez fosse essa a melhor coisa que uma pessoa pode fazer durante a sua curta vida aqui na terra” (Ec 2.1-3, NTLH). O sábio tenta outros caminhos. Todos vão para o mesmo lugar, todos o levam para a mesma sensação de desapontamento, todos o fazem correr sem parar atrás do vento! H á uma praga pior do que as pragas do Egito. É a praga do fastio. Ela causa decepção, tédio, repugnância, aversão, enfartamento e outras complicações. É melhor ter piolhos no corpo, na casa e no campo do que sentir-se entediado. É preferível enfrentar moscas e rãs por toda parte do que aturar o desgosto provocado pelo excesso de alguma coisa antes fortemente desejada. Não foi sobre o Egito que Deus enviou a praga do fastio. Foi sobre o povo eleito, quando Israel estava acampado no deserto de Parã. Ali os israelitas e os estrangeiros que estavam no meio deles tiveram saudades do Egito, dos peixes que “comiam de graça”, dos pepinos, dos melões, dos alhos e das cebolas. Vítima da terrível doença da memória curta e esquecido de que nada era de graça no Egito, o povo de Israel queixou-se amargamente do pão que de graça descia do céu em quantidade suficiente dia após dia: “Não há mais nada para comer, e a única coisa que vemos é esse maná!” (Nm 11.6, NTLH). Eles queriam outra comida e Deus lhes deu uma enxurrada de carne para comer. Um enorme bando de codornizes invadiu o arraial voando a menos de um metro de altura e foram apanhadas pelo povo numa extensão de trinta quilômetros durante dois dias e uma noite. O que menos “colheu” teve no mínimo mil quilos, o suficiente para encher 2.200 latas de um litro! E o povo comeu aquela carne um dia, dois dias, cinco dias, dez dias, vinte dias, um mês inteiro, até sair pelos narizes, até não agüentar mais, até não poder ouvir falar de carne, muito menos de codornizes. Era a praga do fastio, o castigo do fastio, o tormento do fastio (Nm 11.1-35). Há outros exemplos de fastio na Bíblia. Fastio de ouro e de prata, de possessões e riquezas, de servos e servas, de sabedoria e cultura, de trabalho e realizações, de fama e glória. É o caso do desesperado autor de Eclesiastes, para quem, no auge do fastio, “tudo é vaidade”, “correr atrás do vento” e uma eterna mesmice (Ec 1.1-5, 20). É provável que no último carnaval muitos brasileiros tenham sido atingidos não pela praga do fastio de codornizes, mas pela praga do fastio de sexo. Ou de camisinhas, tendo em vista os 19,5 milhões de preservativos que o governo distribuiu ao povo. (Veja Quão verdadeiros somos?, p. 52.) A praga do fastio CharlieBalch ultimato 311 FIM.indd 30ultimato 311 FIM.indd 30 27/2/2008 11:32:3827/2/2008 11:32:38
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO31 P ara você saber lidar com o muro da morte e passar para o outro lado dele... Para você ficar livre da eterna mesmice da vida (a intolerável rotina de sempre) e experimentar coisas novas e surpreendentes... Para você não ser obrigado a confessar, já velho e acabado, que sua vida foi uma vida boba, sem sentido e terrivelmente frustrante... Para você não correr atrás do vento como um bobo... Para você não repetir no final de cada dia, no final de cada semana, no final de cada mês, no final de cada ano, no final de cada aniversário, que “tudo é vaidade”... Para você se libertar de sua continuada depressão... Para você não cometer, em algum momento da vida, suicídio... “Lembre-se do seu Criador enquanto você ainda é jovem, antes que venham os dias maus e cheguem os anos em que você dirá: ‘Não tenho mais prazer na vida’” (Ec 12.1, NTLH). Substitua o Memento Morti (lembre que deve morrer) pelo Memento Creatoris (lembre-se do seu Criador). Desde que você busque a Deus em primeiro lugar e tenha o devido temor ao Senhor, não é necessário que você desapareça deste mundo (Jo 17.15) e construa um barraco no meio da floresta para se isolar de tudo e de todos. Não é necessário que você abra mão da sabedoria, do sucesso, dos prazeres da vida, do trabalho, da ascensão econômica, dos exercícios físicos, da alegria da música, da beleza, do amor, da família, da sociedade e dos sonhos. O livro de Eclesiastes ensina isso: “Jovem, aproveite a sua mocidade e seja feliz enquanto é moço. Faça tudo o que quiser e siga os desejos do seu coração. Mas lembre-se de uma coisa: Deus o julgará por tudo o que você fizer. Não deixe que nada o preocupe ou faça sofrer, pois a mocidade dura pouco” (Ec 11.9-10, NTLH). O Sábio usa três vezes uma palavrinha mágica no último capítulo de Eclesiastes. É preciso lembrar-se do tédio “antes que venham os dias maus” (Ec 12.1), antes do processo irreversível da decrepitude (Ec 12.2-6), antes da morte (Ec 12.6-8). Quanto mais tarde se toma essa decisão inteligente, maior vai se tornando o desperdício da vida e o consumo da amargura. É muito mais sábio acabar com a alienação de Deus no início da vida do que no final, quando a “lamparina de ouro cai e quebra”, quando a “corrente de prata se arrebenta”, quando o “pote de barro se despedaça e a corda do poço se parte” (Ec 12.6-7). O Eclesiastes é muito prático. Bastam as duas últimas frases do livro: “De tudo o que foi dito, a conclusão é esta: tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos porque foi para isso que fomos criados. Nós teremos de prestar contas a Deus de tudo o que fizemos e até daquilo que fizemos em segredo, seja o bem ou o mal” (Ec 12.13-14, NTLH). A mensagem de Eclesiastes pode ser reencontrada em um versículo do profeta Jeremias: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água” (Jr 2.13). Correr atrás do vento e cavar cisternas rachadas a vida inteira são metáforas diferentes com mensagens iguais. As duas denunciam a falta de Deus na mente, no coração e na vida de qualquer ser humano que rodopia em torno de si mesmo. Chega da “vida boba”, “da triste maneira de viver”, chega de nostalgia (a saudade escondida de Deus), chega de arrogância, chega de teimosia, chega de incredulidade, chega de “correr atrás do vento”! É preciso parar de correr atrás do vento e de cavar cisternas que não retêm água! Chega da “vida boba”, da “triste maneira de viver”, chega de nostalgia (a saudade escondida de Deus), chega de arrogância, chega de teimosia, chega de incredulidade, chega de “correr atrás do vento” stockxpert ultimato 311 FIM.indd 31ultimato 311 FIM.indd 31 27/2/2008 17:19:1527/2/2008 17:19:15
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    capa Oséas Heckert Oséas EliasHeckert é engenheiro. Participa do Ministério com Casais da Igreja Presbiteriana de Vila Mariana, em São Paulo. ULTIMATO Março-Abril, 200832 Pai nosso que estás em todo lugar... Pai, penitente promitente quero (de)votar-te exclusiva dedicação: nada tomará teu lugar em meu coração; nem imagem de escultura, nem figura ou representação de qualquer criatura ou perversa estrutura receberá minha adoração; nem qualquer ocupação, ou sequer preocupação, terá maior atenção. Prometo santificar o teu nome e não usá-lo em futilidade; prometo buscar a santidade, a cada dia satisfazer tua vontade, para que teu reino se realize e concretize em minha vida. Prometo honrar minha família, para vivermos sem quizília1 e desfrutarmos em santa paz o pão cotidiano que nos dás. Perdoa as minhas dívidas, desculpa minhas dúvidas, aumenta-me a fé e o amor pra ser clemente ao devedor, e o meu zelo para fazê-lo quantas vezes preciso for. Não me deixes cair em tentação; protege-me do círculo vicioso de ouvir a lorota do impiedoso, deter-me na rota dos pecadores, e sentar-me à roda com zombadores. Ensina-me a não prejulgar o próximo, não proferir fortes palavras de morte, nem agir como algoz ou juiz. Ao contrário de arbitrário, permite-me fazer por ele o máximo para que tenha vida longa e feliz. Dá-me o prazer do sexo conexo a seu contexto devido para eu não ficar de olho comprido e lascivo no flerte solerte, a pretexto da grama mais verde do outro lado da cerca. Acerca da grana que engana, perdoa-me a gana e a ansiedade; dá-me o necessário suficiente pra viver com dignidade e acudir o mais carente; não demais, para que farto te renegue, nem de menos, para que sonegue ou que no furto alguém me pegue. Perdoa minha omissão: fiz-me negligente e mudo ante a exploração dos sem-nada: cada pobre, órfão, viúva, estrangeiro. Requeiro, dá-me prontidão para erguer a voz e me colocar em defesa dos desprovidos de tudo. Faze-me, contudo, moroso pra maldizer e fofocar... Livra-me de ficar de olho grande nas pequenas coisas de alguém, ou cobiçoso das grandes, também. Não peço redoma ou regalia, mas a tua companhia, todavia, em toda via. Livra-me do mal de retribuir mal com mal. Ensina-me a amar, meus amigos e inimigos, e a exalar o teu aroma. No pleroma2 de tua luz, conduz meu caminhar imperfeito, brilhando cada vez mais até ser um dia perfeito. Notas 1. Conflito de interesses; briga, rixa 2. Plenitude stockxpert ultimato 311 FIM.indd 32ultimato 311 FIM.indd 32 27/2/2008 11:33:5527/2/2008 11:33:55
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO37 EspecialEspecialnão quer fazer o papelão de deixar Jesus de lado Especial E m certo sentido, não temos nada de novo para apresentar ao leitor. Propagamos a velha história, a velha mensagem, a velha esperança, em uma embalagem nova. Relacionamos os fatos de hoje com a verdade de ontem. Partimos das coisas que acontecem e daquilo que se diz para chegar a Jesus Cristo, a última instância. Não usamos a mesma linguagem dos astrólogos, economistas, sociólogos ou futurólogos para nos referir ao que vem depois do presente. Os cientistas falam de suas especialidades. Ultimato dá a sua colaboração abrindo as páginas da Bíblia, pois as Escrituras começam com a criação dos céus e da terra e terminam com a criação de novos céus e nova terra. Daquele princípio viemos e para esse fim estamos indo. Tudo aquilo que ainda não se realizou nessa longa trajetória, nesse extraordinário enredo, é escatologia. Estamos entre a história e a escatologia. A história diz respeito ao passado e a escatologia, ao futuro. Com o correr dos séculos, a escatologia passa para o âmbito da história. Esta é cada vez maior e aquela, cada vez menor. “Quando vier o que é perfeito” (1Co 13.10), então a escatologia deixará de existir. Embora cada um de nós da redação sejamos membros ativos de alguma igreja evangélica, desde o primeiro número (janeiro de 1968) temos nos esforçado para não fazer propaganda de denominação alguma, pela simples razão de não sermos um veículo denominacional. Já há número suficiente de periódicos denominacionais. Embora sejamos protestantes que se orgulham da Reforma Religiosa, acontecida na Europa no século 16, e que se deixam orientar por ela, Ultimato faz questão de proclamar que O reino de Deus é maior que a igreja católica, que as igrejas ortodoxas, que a igreja protestante (matéria de capa da edição de julho de 1996). No final do quinto século, Agostinho explicou que, “se na pregação não há Jesus, ele não é a Palavra, é apenas uma voz”. Em meados do século passado, Adauto Araújo Dourado, professor de homilética do Seminário Presbiteriano de Campinas, ensinou aos seus alunos: “Você pode fazer o melhor sermão. Escreva-o. Leia-o. Se Jesus não é o centro dele, rasgue-o em mil pedaços e jogue fora”. Ultimato não quer fazer o papelão de deixar Jesus de lado. Explicamos esse compromisso na matéria de capa da edição comemorativa de nosso 30º aniversário (janeiro/fevereiro 1998). O título da matéria era Jesus na capa e no miolo, isto é, nosso tema mais insistente é Jesus. Tamanho entusiasmo pelo Jesus das Escrituras nos levou a publicar várias matérias de capa sobre a riqueza da pessoa e da obra de Jesus Cristo. Entre elas, citam-se: A morte de Jesus foi proposital? (abril de 1980), Proposições sobre Jesus Cristo libertador (maio de 1980), A última tentação de Cristo (setembro/outubro de 1988), As brigas de Jesus por causa das crianças (novembro de 1997), A divindade e a humanidade de Jesus (julho de 2001), O grande desafio do terceiro milênio depois de Cristo é a lembrança contínua do Jesus do Novo Testamento até que ele venha (janeiro de 2003) e Jesus é imatável (março de 2007). A data exata do 40º aniversário de Ultimato foi no dia 13 de janeiro. As comemorações, no entanto, serão realizadas aqui em Viçosa, de 31 de julho a 2 de agosto de 2008, com a presença de quase todos os articulistas fixos e dos autores de livros publicados pela Editora Ultimato. Enquanto isso, todos nós, redatores e leitores, vamos pôr as mãos no arado e apresentar a mensagem do cristianismo à nossa geração. Com zelo e urgência! Edição 129 Edição 241 ultimato 311 FIM.indd 37ultimato 311 FIM.indd 37 27/2/2008 15:36:2927/2/2008 15:36:29
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    Robinson Cavalcanti Mui bíblicamissão ULTIMATO Março-Abril, 200838 T odos os seres e instituições existem com um propósito, construtivo ou destrutivo. Chamemos esse objetivo de missão. Muitas vezes, pessoas e instituições se afastam de seu objetivo original, ou o implementam por métodos inadequados ou ilegítimos. O pensador anglicano Michael Greene afirmou: “A Igreja ou é missionária, ou não é Igreja”. Jesus Cristo, se esvaziou, encarnou em uma cultura e uma conjuntura, rompeu barreiras sociais, exortou, realizou sinais e prodígios. Ele é o exemplo para a Igreja: o Messias prometido, que transformou água em vinho e bebeu fel na cruz — da festa ao martírio. Foi ele quem disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21b). A Palavra nos mostra o modelo da missão de Cristo, bem como da nossa: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (Mt 4.23). Para o comentarista da Bíblia de Genebra, “ensinar envolvia a comunicação da natureza e propósito do reino de Deus, como é visto no sermão do monte (caps. 4-7) e nas parábolas do reino (cap. 13). Pregar era anunciar as boas novas de que o reino de Deus estava próximo, e que seus soberanos propósitos na história estavam sendo finalmente realizados. Curar, bem como ensinar e pregar, era sinal de que o reino já tinha vindo” (Mt 11.5). Ele recrutou seus discípulos de diversos segmentos sociais e demonstrou que o reino de Deus não se identificava com nenhum dos partidos do seu tempo. O Messias era a Palavra viva, herdeira das palavras de Javé, libertando o seu povo da servidão do Egito, outorgando-lhe a Lei, falando pelos profetas. Na sinagoga de Nazaré, assumiu o seu messiado e a realização da profecia de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19). Esse texto não deve ser “espiritualizado”, ou “materializado”, pois nos lembra o ideal de Deus para uma ética social superior, no Ano Sabático e no Ano do Jubileu, a realização plena escatológica (o “ainda não”) e as possibilidades de fazer avançar na história os valores do reino (o “já”). A missão da Igreja deveria ultrapassar a tentação localista de uma mera seita judaica, e se expandir por todo o mundo. O cristianismo é intrinsecamente expansionista, porque o evangelho deve ser levado “até os confins da terra” (At 1.8). O Espírito Santo no Pentecostes foi derramamento de poder e outorga de dons, para tornar possível o cumprimento dessa missão, que não é opcional, mas imperativa: “Ide”. Foi essa a obediência dos mártires, e a Igreja pagou um preço quando foi coerente, mas envergonhou o seu Senhor em tantos episódios pouco dignos, que, periodicamente, a chama para reforma e avivamento; para coerência e obediência. Evangélicos, continuamos a crer que a prioridade da missão é a evangelização, entendida como “... a apresentação de Jesus Cristo no poder do Espírito Santo, de tal maneira que os homens possam conhecê-lo como Salvador e servi-lo como Senhor, na comunhão da Igreja e na vocação da vida comum”. stockxpert ultimato 311 FIM.indd 38ultimato 311 FIM.indd 38 27/2/2008 11:34:0327/2/2008 11:34:03
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    Dom Robinson Cavalcantié bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada. <www.dar.org.br> ão integral Março-Abril, 2008 ULTIMATO 39 Na Idade Contemporânea, o malabarismo mental de teólogos liberais forjou um universalismo salvífico, que descolou o Jesus histórico do Cristo de Deus, e terminou vendo “a face escondida de Cristo atrás dos orixás...”. No final do século 19 e início do século 20, nos Estados Unidos, a missão da Igreja foi dilacerada entre um “evangelho social” e um “evangelho individual”, unilaterais e parcializadores. A missão, tantas vezes atrelada a culturas, impérios e sistemas políticos ou econômicos, foi violentada e empobrecida. Aos extremismos liberal e fundamentalista, o evangelicalismo — com toda a sua história de piedade engajada, de um Wilbeforce ou um Lord Shaftsbury, herdeiro da pré- reforma, da reforma, do puritanismo, do pietismo, do avivalismo e do movimento missionário, com seu conteúdo de uma teologia bíblica e histórica, foi capaz de, principalmente com o Congresso e o Pacto de Lausanne, devolver à Igreja a sua missão recomposta: “o Evangelho todo, para o homem todo e para todos os homens”. É a missão integral, que, na resolução da Conferência de Lambeth, de 1988, dos bispos anglicanos, deve incluir e integrar as dimensões: a) proclamar as boas novas do reino; b) ensinar, batizar e instruir os convertidos; c) responder às necessidades humanas por serviço em amor; d) procurar transformar as estruturas iníquas da sociedade; e) defender a vida e a integridade da criação. Na América Latina destacamos o papel da Fraternidade Teológica Latino- Americana (FTL). Somente um grande desconhecimento histórico ou uma grande má-fé podem ser responsáveis por se procurar identificar a Teologia da Missão da Igreja, evangélica, com a Teologia da Libertação, de premissas e história liberais. No meio de antigas e novas distorções, reafirmemos a mui bíblica missão integral. Somente um grande desconhecimento histórico ou uma grande má-fé podem ser responsáveis por se procurar identificar a Teologia da Missão da Igreja, evangélica, com a Teologia da Libertação, de premissas e história liberais. No meio de antigas e novas distorções, reafirmemos a mui bíblica missão integral ultimato 311 FIM.indd 39ultimato 311 FIM.indd 39 27/2/2008 11:34:1027/2/2008 11:34:10
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    Ricardo Gondim ULTIMATO Março-Abril,200840 Proposta de espiritualidade N ão é preciso muita perspicácia para perceber que o movimento evangélico ocidental passa por uma grande crise. As incursões do neofundamentalismo da direita religiosa na política estadunidense não ajudaram muito. Os reclames para que a sociedade preservasse “valores morais” caíram por terra porque não encontraram respaldo nas próprias igrejas, que se revezaram em escândalos. Para agravar a crise, grandes segmentos evangélicos se apressaram em legitimar a invasão do Iraque, argumentando que a Bíblia respaldava uma “guerra justa”. Na América Latina, principalmente no Brasil, a rápida expansão do pentecostalismo produziu um grave desvio ético na compreensão do evangelho. Surgiu um novo fenômeno religioso, mais comumente identificado como “teologia da prosperidade”. O que se ouve como “pregação” pelos teleevangelistas e nas megaigrejas dificilmente poderia ser associado ao protestantismo histórico ou ao pentecostalismo clássico. Como não há mais nenhuma novidade em afirmar que mudanças radicais precisam acontecer no movimento evangélico, a questão agora é perguntar: “O que deve mudar?” Eis algumas propostas: Proponho uma espiritualidade menos eficiente. Que os pastores desistam de associar a aprovação de Deus a seus ministérios com projetos bem- sucedidos. A fé cristã não se propõe a refletir o mundo corporativo em que competência se prova com resultados. Na espiritualidade de Jesus, os atos de alguns servos de Deus podem ser anônimos, despercebidos e pequenos. A urgência de comunidades crescerem, de pastores provarem como Deus os abençoou com “ministérios aprovados” acabou produzindo essa excrescência: igrejas que mais se parecem com balcões de serviços religiosos do que com comunidades de fé. Proponho uma espiritualidade menos cognitiva e mais vivenciada. A priorização da “reta doutrina” sobre a experiência da fé acabou produzindo crentes argutos em “provar” a sua fé, mas frágeis no testemunho. A obsessão pela verdade como uma construção racional faz com que os catecismos se tornem belas elaborações conceituais, enquanto os testemunhos pessoais se mantêm questionáveis. O evangelho precisa ser escrito em tábuas de carne; mostrar-se nos atos daqueles que se propõem a brilhar como luz do mundo. Proponho uma espiritualidade menos mágica e mais responsável. A idéia de um Deus intervencionista que invade a todo instante a história para resgatar seus filhos, dando-lhes alívio, abrindo portas de emprego e resolvendo querelas jurídicas, acabou produzindo crentes alienados, sem responsabilidade histórica e sem iniciativa profética. Com esse comodismo, as igrejas se distanciaram da arena da vida. Passaram a acreditar que bastaria amarrar os demônios territoriais para acabar com a violência e com a miséria. O evangelho não propõe que a história seja transformada por encanto, mas com ações políticas que defendam a justiça. Proponho uma espiritualidade menos intolerante. A idéia de um mundo perdidamente hostil a Deus gera igrejas intransigentes, que se enxergam privilegiadas. A radicalização da doutrina da queda faz com que se perceba o mundo condenado, irremediavelmente perdido. Com essa ultimato 311 FIM.indd 40ultimato 311 FIM.indd 40 27/2/2008 11:34:1627/2/2008 11:34:16
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    Ricardo Gondim épastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. <www.ricardogondim.com.br> Março-Abril, 2008 ULTIMATO 41 visão, a igreja se fecha, só encara o mundo como um campo de batalha, e é incapaz de acolher os moribundos que jazem às margens das estradas. A espiritualidade evangélica precisa resgatar doutrinas conhecidas nos primeiros anos da Reforma, como a imago Dei (a imagem de Deus em todos) e a graça comum (o favor de Deus capacitando a todos). Proponho uma espiritualidade que promova a vida. Os evangélicos pregaram a salvação da alma por anos a fio e, muitas vezes, esqueceram que Deus deseja que experimentemos vida abundante antes da morte. Aliás, o céu deveria ser uma conseqüência das escolhas que as pessoas fazem na terra e não uma promessa distante. Com essa ênfase exagerada na salvação da alma, alguns se contentam com uma existência sofrível, mal resolvida, e acreditam que um dia, no além, tudo ficará bem. Proponho uma espiritualidade que não contemple a santidade como apuro legal, mas como integridade. Com cobranças legalistas, os ambientes se tornam exigentes. É inócuo estabelecer o alvo da vida cristã como uma perfeição exagerada, que para alcançá-la seria necessário transformar as pessoas em anjos. Hipocrisia nasce com esse tipo de exigência. É preciso dialogar com as imperfeições, com as sombras e luzes da alma; sem culpas e sem fobias. Só em ambientes assim, existe liberdade para amadurecer. Proponho uma espiritualidade que estabeleça como objetivo gerar homens e mulheres gentis, leais, misericordiosos. Antes de almejar aparecer como a instituição religiosa detentora da melhor compreensão da verdade, que procuremos amar com singeleza; antes de nos tornar uma força política, que saibamos caminhar entre os mais necessitados; antes de alcançar o mundo inteiro, que trabalhemos ao lado daqueles que constroem um mundo melhor. Estou consciente de que minhas propostas não têm muita chance de se realizarem, mas vou mantê-las como um horizonte utópico e vocação. Soli Deo Gloria. stockxpert ultimato 311 FIM.indd 41ultimato 311 FIM.indd 41 27/2/2008 11:38:5827/2/2008 11:38:58
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    ULTIMATO Março-Abril, 200842 ValdirSteuernagel edescobrindo a Palavra de DeusR M aria aparece de surpresa. “Ó de casa!”, chama, batendo palmas e pousando no chão o peso da sacola. O cachorro late e Isabel volta-se para Zacarias. “Quem será a esta hora?” As palmas voltam e o cachorro torna a latir. Num esforço desajeitado, ela se ergue da cadeira e, acariciando a estranha barriga de seis meses, no corpo já bem mais andado, diz ao marido: “Vá ver quem é”. Ele segue devagar e ela balbucia, espiando pela janela: “Eu conheço essa menina...”. Lá fora o cachorro silencia e uma conversa parece querer ganhar forma. “Eu sou Maria”, diz a moça. “Somos meio parentes. O senhor conhece a minha família; esteve lá em casa quando eu era pequena.” Então cai a ficha. Zacarias volta-se para a mulher, como que pedindo socorro, e ela percebe que foi um erro pedir que ele abrisse o portão. Da janela, a cena é de dar risada: Maria, sem jeito, fita a sacola no chão; o cachorro late e o velho mudo segura o portão, gesticulando algo que nem ele mesmo entende... E assim as duas mulheres se encontram. Toda a cena é ocupada por estas duas mulheres,que se abraçam chorando. Um choro que parece não existir. A moça chora uma gravidez contida e um mistério que cresce em seu ventre. Isabel deixa as lágrimas correrem pelo rosto, como a lavar anos de uma difícil, silenciosa e conturbada convivência com a ausência de filhos. Mas suas lágrimas têm também o sabor da revelação, e por isso um sorriso se abre em seu rosto – e com ele Maria é recebida. O momento é sagrado. O tempo parece ter parado. O que acontece é muito mais do que se vê. Duas grávidas se abraçam e são os seus ventres que falam. Quando as palavras saem da boca de Isabel, já os ventres pronunciaram os seus “aleluias”. “Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; Então Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor? Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro em mim.” (Lc 1.41-44) A Bíblia está cheia de textos grávidos. Grávidos de significado e ternura. Eles nos alcançam em diferentes momentos, trazendo mistério e significado à nossa vida. Assim é com Maria e Isabel. Uma é jovem ainda. A gravidez, em si, não lhe é problema, mas tem um sentido profundo e difícil; ela está grávida por revelação de Deus e carrega no ventre a revelação maior de Deus na pessoa de seu filho. A outra já tem o ventre murcho e a gravidez lhe pesa, mas ela a vive numa felicidade adolescente, celebrando a bênção de ser mãe. Deus se importa com a gestante BiancadeBlok ultimato 311 FIM.indd 42ultimato 311 FIM.indd 42 27/2/2008 11:39:2227/2/2008 11:39:22
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO43 Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas. Assim são as coisas. Gravidez em menina-moça e gravidez em mulher madura. Gravidez que desliza pelos meses como a água desliza com graça no leito do rio. Gravidez que parece um mar revolto, requerendo cuidado e acompanhamento. Deus as conhece todas, com todas se ocupa e a todas trata como gestoras de vida. O Objetivo do Milênio para o qual olhamos neste artigo coloca em pauta a melhoria da saúde das gestantes: reduzir em três quartos, entre 1990 e 2015, a taxa de mortalidade materna. Diante deste objetivo, volto à palavra de Deus e me pergunto: como Deus se relaciona com a mulher grávida? Então me vejo diante do abraço de Maria e Isabel. É claro que a Bíblia não é um manual de cuidado da gestante, mas nela se vê claramente um Deus com um sentido de santidade para com a vida e, portanto, para com a gestante. Aliás, é interessante notar como na Bíblia, em diferentes ocasiões, a vida nasce do encontro da fertilidade de Deus com a esterilidade humana. A própria Isabel, como relata Lucas, é estéril e Deus lhe promete uma gravidez especial. É assim que ela dá a luz João. Deus, sendo o autor da vida, acompanha a gravidez com zelo e carinho. Isso se manifesta, ora em pessoas como Isabel, carregando com dificuldade uma gravidez inesperada mas bem-vinda, ora em pessoas como Maria, que, grávida em plena adolescência, busca sentido para essa gravidez em sua vida. A gravidez pode acontecer em circunstâncias diversas e variadas; algumas são felizes e outras, trágicas e dramáticas. Diante de algumas Deus sorri, diante de outras ele chora. Quando a futura mãe é cercada de cuidados e afetos e a gravidez se desenvolve com saudável expectativa e normalidade, Deus sorri satisfeito. Quando o feto não cresce porque a mãe passa fome, Deus sente fome com ela. Quando o bebê se desenvolve de forma anormal porque a mãe não recebeu os cuidados médicos necessários, Deus balança a cabeça em desaprovação. Quando a mãe morre no parto porque foi abandonada na maca de um hospital superlotado ou acometida de uma infecção hospitalar, então Deus deixa claro que não é isso que ele deseja. Ele busca homens e mulheres que queiram expressar um outro compromisso de vida com as gestantes e seus filhos. É por isso que, como parte da comunidade de Deus, nós celebramos e afirmamos as metas deste Objetivo do Milênio buscando formas pelas quais mulheres grávidas se abracem e celebrem a gestação da vida. Objetivos do Milênio Acabar com a fome e a miséria Educação básica e de qualidade para todos Igualdade entre sexos e valorização da mulher Reduzir a mortalidade infantil Melhorar a saúde das gestantes Combater a aids, a malária e outras doenças Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento Quando a futura mãe é cercada de cuidados e afetos e a gravidez se desenvolve com saudável expectativa e normalidade, Deus sorri satisfeito. Quando o feto não cresce porque a mãe passa fome, Deus sente fome com ela ultimato 311 FIM.indd 43ultimato 311 FIM.indd 43 27/2/2008 11:39:3127/2/2008 11:39:31
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    história Alderi Souza deMatos O ceticismo religioso e seus arautos ULTIMATO Março-Abril, 200844 H á vários séculos a visão de mundo materialista e irreligiosa tem sido aceita de modo crescente como uma postura legítima ao lado de outras cosmovisões. Todavia, em anos recentes vem ocorrendo um desdobramento novo e preocupante: a afirmação cada vez mais insistente de que a perspectiva ateísta é a única defensável do ponto de vista científico e filosófico, e que, portanto, a religião, em qualquer de suas manifestações, deve ser banida para sempre e completamente do cenário humano. Hoje, cada vez mais a incredulidade religiosa é saudada como racional e esclarecida, ao passo que a fé é rotulada como retrógrada e obscurantista. O impacto do Iluminismo A atitude anti-religiosa não é nova na história da humanidade — e do Ocidente em particular. Ela vicejou em algumas correntes filosóficas da Grécia antiga, tais como os céticos (Pirro, Tímon, Arcesilau e Carnéades), descritos como os primeiros relativistas da filosofia, e os epicureus (Epicuro, Lucrécio), tidos como os primeiros humanistas liberais. Todavia, foi o Iluminismo do século 18 que lançou as bases para uma ampla aceitação da perspectiva materialista da vida no mundo moderno, ao fazer da razão e da experiência os árbitros da verdade, em detrimento da fé e da revelação. Os iluministas podiam até ser religiosos, como foi o caso de Descartes, Locke e Newton, mas as posturas racionalista e empirista prepararam o caminho para questionamentos cada vez mais ousados na esfera religiosa. Foi curiosa a posição dos deístas, os iluministas que ainda queriam preservar um espaço para a religião. Sua solução foi postular um Deus absolutamente transcendente, que não tinha nenhum relacionamento com o mundo e a humanidade. Immanuel Kant (1724-1804), um dos filósofos mais brilhantes da modernidade, foi mais além. Ele colocou Deus e as realidades transcendentes na categoria dos “númenos”, ou seja, entidades que escapam à percepção sensorial e, portanto, não podem ser conhecidas em seu ser. Kant e os deístas tiveram em comum o fato de reduzirem a religião à ética. O único valor da religião seria auxiliar a moralidade. Certas doutrinas, como a existência de Deus, deviam ser consideradas verdadeiras porque são o fundamento da vida moral. HugoHumbertoPlácidodaSilva ultimato 311 FIM.indd 44ultimato 311 FIM.indd 44 27/2/2008 11:39:4627/2/2008 11:39:46
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO45 A ofensiva da incredulidade O século 19 testemunhou o surgimento de filosofias explicitamente secularistas e anticristãs. Essa tendência havia começado com o filósofo empirista inglês Thomas Hobbes (†1679), considerado o primeiro materialista moderno, e se fortaleceu com David Hume (†1776), defensor da idéia de que não se pode ter certeza de nada (ceticismo). Na França, Voltaire e os enciclopedistas também se destacaram por seu questionamento da religião. Finalmente, o alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi o primeiro grande filósofo ocidental a ser abertamente ateu e o seu compatriota Ludwig Feuerbach (1804-1872) descreveu a religião como uma projeção dos ideais, anseios e temores do ser humano. Eles foram seguidos por três grandes pensadores anti-religiosos que se tornaram ícones da cultura contemporânea, exercendo poderosa influência desde o final do século 19: Karl Marx (1818-1883), Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Sigmund Freud (1856-1939). Outro enorme desafio à cosmovisão cristã foi a teoria da evolução das espécies, proposta pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), que propôs uma alternativa radical para a doutrina bíblica da criação. O impacto dessa mentalidade secularizante tem sido devastador em alguns países de formação cristã. Na Espanha, Alemanha e Inglaterra, menos da metade da população acredita em um Ser Supremo. Na França, os que crêem não chegam a 30%. Popularização do ateísmo De uns anos para cá, a mídia vem divulgando entusiasticamente o ideário secularista. Dessa maneira, conceitos que anteriormente se limitavam aos círculos acadêmicos e filosóficos vão se tornando familiares ao público mais amplo. Isso ocorre principalmente através de periódicos de grande circulação, como é o caso, no Brasil, da conceituada revista Veja. Essa publicação, tão valiosa em diversos aspectos, tem articulistas, como André Petry, que freqüentemente se referem à religiosidade e à fé em Deus em termos depreciativos e irônicos. A religião é caracterizada como algo fantasioso e anticientífico, que mais prejudica do que beneficia o ser humano. Alguns argumentos favoritos são as guerras e a intolerância religiosas, os conflitos entre fé e ciência, e a resistência dos Os cristãos não devem descartar tão rapidamente os ataques dos autores que defendem a mentalidade cética, mas exercer uma necessária autocrítica, reconhecendo que muitas de suas alegações contra os religiosos são legítimas religiosos a determinados valores e comportamentos da cultura moderna (aborto, homossexualismo, pesquisas com embriões etc.). Outra maneira como essa e outras publicações ajudam a difundir a mentalidade cética consiste no grande espaço dado a autores que pregam abertamente o ateísmo. Os exemplos mais conhecidos são o filósofo francês Michel Onfray (Tratado de Ateologia), o biólogo inglês Richard Dawkins (Deus, Um Delírio), o jornalista inglês Christopher Hitchens (Deus não é Grande) e o filósofo americano Sam Harris (Carta a Uma Nação Cristã). As conhecidas “páginas amarelas” com freqüência apresentam entrevistas com alguns desses intelectuais, que defendem abertamente o fim da religião. Tais revistas também publicam regularmente matérias que mostram a aplicação da teoria evolutiva aos mais diferentes aspectos da vida pessoal e social. Um exemplo recente é a entrevista com o primatologista Frans de Waal, segundo o qual a moralidade, que muitos julgavam o último refúgio da religião, não tem origem religiosa nem é exclusiva do ser humano (Veja, 22/08/2007). Onde ficamos? Essas considerações nos levam de volta à expressão do título deste artigo, extraída do Salmo 14.1. Hoje aqueles que negam a Deus não o fazem somente no seu íntimo, mas proclamam de modo explícito a sua incredulidade, buscando ativamente simpatizantes para a sua causa. Quais devem ser as respostas dos cristãos a esse desafio? Em primeiro lugar, eles não devem descartar tão rapidamente os ataques desses autores, mas exercer uma necessária autocrítica, reconhecendo que muitas de suas alegações contra os religiosos são legítimas. De fato, a história demonstra que muitas vezes os adeptos O cristianismo e a crença em Deus são intelectualmente defensáveis, como já demonstraram muitos autores ao longo da história, desde os apologistas do segundo século, passando pelos escolásticos medievais, até pensadores do século 20 ultimato 311 FIM.indd 45ultimato 311 FIM.indd 45 27/2/2008 11:40:4727/2/2008 11:40:47
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    Alderi Souza deMatos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. <asdm@mackenzie.com.br> ULTIMATO Março-Abril, 200846 defensáveis, como já demonstraram muitos autores ao longo da história, desde os apologistas do segundo século, passando pelos escolásticos medievais (Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino, entre outros), até pensadores do século 20, como C. S. Lewis, Francis Schaeffer e Cornelius Van Til. Um exemplo atual na comunidade científica é o geneticista cristão Francis Collins (Veja, 24/01/2007). Por último, essas manifestações de antipatia à religião são reveladoras do estado de ânimo do homem contemporâneo, com todas as angustiosas perplexidades do tempo presente. Existem questões para as quais simplesmente não há uma explicação naturalista, como a origem da vida. Outra área crucial em que a ciência e a filosofia têm falhado em dar respostas satisfatórias são as grandes questões existenciais, aquelas que dizem respeito ao sentido da vida e da pessoa humana. Por mais que os materialistas neguem, sua concepção do homem tende a trivializar o significado e a importância da vida, abrindo as portas para horríveis violações da dignidade humana. Esse estado de coisas oferece aos cristãos valiosas oportunidades de testemunho sobre a esperança que neles há. Hoje, cada vez mais a incredulidade religiosa é saudada como racional e esclarecida, ao passo que a fé é rotulada como retrógrada e obscurantista de diferentes religiões, inclusive o cristianismo, têm se portado de maneira presunçosa e intolerante. A religião com freqüência tem sido culpada de comportamentos negativos, como violência, discriminação e hipocrisia. Muita maldade tem sido cometida em nome de Deus e da fé, e isso não só entre os fundamentalistas islâmicos. Em segundo lugar, o desafio desses críticos aponta para a necessidade de um criterioso trabalho apologético. Os cristãos não são obrigados a ficar numa atitude passiva, como se fossem cordeirinhos, achando que não têm como oferecer respostas convincentes aos inimigos da fé. O cristianismo e a crença em Deus são intelectualmente ultimato 311 FIM.indd 46ultimato 311 FIM.indd 46 27/2/2008 11:41:3227/2/2008 11:41:32
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    Entrevista: Viv Grigg Oinverso da cultura: é preciso viver com simplicidade para que os outros simplesmente vivam Missiólogo dos pobres afirma que as igrejas históricas precisam ouvir a voz das igrejas entre os pobres, quase todas pentecostais, porque elas não falam sobre missão integral, mas fazem missão integral Arquivopessoal ULTIMATO Março-Abril, 200848 ultimato 311 FIM.indd 48ultimato 311 FIM.indd 48 27/2/2008 11:42:0527/2/2008 11:42:05
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    O celibato voluntário épositivo quando se escolhe essa opção para exercer um determinado tipo de ministério. Não deve ser uma obrigação Março-Abril, 2008 ULTIMATO 49 N ascido em Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia, há 58 anos, de etnia européia, Viviam Lawrence Grigg, mais conhecido como Viv Grigg, é uma das maiores autoridades do mundo na área de missão entre os pobres. Ele é mestre em missiologia pelo Fuller Teological Seminary (Califórnia) e doutor em teologia pela Auckland University (Nova Zelândia), mas o que lhe dá essa autoridade é a experiência vivida numa miserável favela na cidade de Manila, nas Filipinas, recordando o que o japonês Toyohiko Kagawa havia feito muitos anos antes, quando encheu um carrinho de mão com seus pertences e se mudou para a favela Shinkawa, nas proximidades de Kobe. Curiosamente, Viv Grigg é batista na Nova Zelândia, membro de uma comunidade carismática nas Filipinas e assembleiano no Brasil. Apesar de haver mais mulheres do que homens no país natal do autor de Servos entre os Pobres e O Grito pelos Pobres, ele casou-se aos 38 anos com a missionária brasileira Ieda, da Igreja Metodista Livre. Nos dois últimos anos, Grigg treinou cerca de 2 mil pessoas em dezenove cidades na América e na Ásia para anunciar as boas novas de forma contextualizada entre os pobres. Esta entrevista foi feita em Belo Horizonte e São Paulo, aproveitando alguns dias das férias de Grigg, que mora com a família em Auckland. A Editora Ultimato vai lançar ainda este ano a segunda edição de Servos entre os Pobres. Ultimato — Quem é você? Teólogo? Profeta? Pastor? Missionário? Grigg — Se é para economizar palavras, eu diria que estou desenvolvendo um ministério entre os pobres. Poderia acrescentar que sou avô do trabalho entre os pobres. E, como tal, recolho informações daqui e dali, e sempre dou idéias de liderança. Da multiplicação das primeiras sementes, eu conduzi uma aliança dos movimentos de igrejas entre os pobres ao redor do mundo. Ultimato — Qual a sua análise da teologia da libertação, ventilada primeiramente por protestantes e depois, com mais intensidade, por católicos? Grigg — A teologia da libertação é uma teologia da classe média sobre os pobres e para os pobres, enquanto a prática pentecostal é dos pobres e para os pobres. A segunda está transformando a sociedade; a primeira não funcionou muito bem. O fundamento da teologia da libertação é marxista e essa análise da pobreza humana é parcial e não totalmente correta. A exegese das Escrituras, especialmente do livro de Êxodo, é feita sob a ótica do marxismo. No entanto, nós os evangélicos temos o que aprender com eles. Além de chamar a atenção de todos para o sofrimento dos pobres, eles ressaltaram algo muito importante, que é o pecado estrutural da sociedade. Ultimato — O que o senhor chama de missão integral? Grigg — A missão integral também é uma teologia da classe média. As igrejas históricas precisam ouvir a voz das igrejas entre os pobres, pentecostais em sua maioria. Elas não falam sobre missão integral, mas fazem missão integral. Aos poucos ajudam cada pessoa em suas necessidades e restauram a sua dignidade e seu papel na vida cotidiana da igreja. Elas falam sobre o Espírito Santo e seu poder de produzir reavivamento. E reavivamento tem efeitos econômicos, pois é uma força transformadora. A proclamação do evangelho no poder do Espírito é o que causa a transformação. A transformação deve acontecer nos âmbitos político, econômico e social. É preciso fazer conexão entre o capítulo dois (a descida do Espírito) e o capítulo quatro (a partilha dos bens) do livro de Atos. Quando o Espírito vem, todos se juntam economicamente falando. Aí está o fundamento da economia cooperativa: os mais ricos ajudando os mais pobres para todos terem uma vida digna. Ultimato — A teologia da prosperidade seria um recuo no esforço para nos tornarmos cada vez mais desprendidos do amor ao dinheiro e dispostos a sermos servos entre os pobres? Grigg — O problema da teologia da prosperidade não é exclusivamente brasileiro, mas global. É bom falar com os pobres sobre prosperidade, mas não prosperidade na base de mágicas. A prosperidade não resulta de orações mágicas, de sonhos ou de trocas com Deus pelo que ele vai fazer. Ela resulta da implantação de princípios da Palavra de Deus sobre criatividade, produtividade, descanso, economia comunitária e redistribuição. Repito: é bom falar isso aos pobres. Ao mesmo tempo, Jesus adverte que a riqueza é perigosa. Precisamos aprender a viver ultimato 311 FIM.indd 49ultimato 311 FIM.indd 49 27/2/2008 11:42:1427/2/2008 11:42:14
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    É bom falarcom os pobres sobre prosperidade, mas não a prosperidade que resulte de orações mágicas, de sonhos ou de trocas com Deus pelo que ele vai fazer, e sim aquela que resulta da implantação de princípios da Palavra de Deus sobre criatividade, produtividade economia comunitária e redistribuição ULTIMATO Março-Abril, 200850 com simplicidade. O desafio de todos nós deveria ser “viver simplesmente para os outros simplesmente viverem”. Ultimato — Com a multiplicação do número de crentes e o surgimento dos primeiros casos de injustiça social, a igreja primitiva procedeu à eleição de diáconos. O que é diaconia? Grigg— O diácono é uma espécie de Robin Hood, digamos, aquele que leva dinheiro dos ricos para os pobres... O trabalho social do desenvolvimento comunitário não pode se dar fora da igreja, deve fazer parte da vida da igreja. Cada crente tem de pensar como pode fazer isso e cada ONG deve pensar como ajudar a igreja. Ultimato — Você abriu mão do casamento para não submeter a esposa ao estilo de vida que adotou ao se mudar para a favela de Tatalon, na proximidades de Manila, nas Filipinas, há pouco menos de 30 anos. Quanto tempo durou o seu jejum celibatário? Grigg — Fiquei solteiro até os 38 anos. O celibato voluntário é positivo quando alguém escolhe essa opção para exercer um determinado tipo de ministério. Mas não deve ser uma obrigação nem uma opção para a vida toda. Depois de meu casamento com Ieda, fomos morar entre os pobres em Calcutá, na Índia. Um ano depois, tivemos de retornar à cidade porque minha esposa adoeceu gravemente. Ainda hoje moramos num lugar pobre, mas não na favela. Acho possível morar como família na favela, desde que se tome uma série de cuidados. Conheço várias famílias missionárias, inclusive brasileiras, que vivem entre os pobres. Ultimato — Onde e quando você conheceu e se casou com a missionária brasileira Ieda? Grigg — Conheci Ieda numa conferência para solteiros, aqui no Brasil, mais precisamente em Atibaia, SP. Fiquei surpreso ao ouvi-la falar sobre a Índia. Mais ainda ao saber que ela tinha sido uma das primeiras missionárias brasileiras a ir para aquele distante campo missionário. Eu não pensava em ter uma esposa brasileira, mas já estava pensando em me casar porque meu trabalho seria outro: liderança de casais para missão entre os pobres. Ouvi a palestra dela e depois fomos conversar. Lá pelas tantas, Ieda me perguntou como poderia voltar à Índia. Respondi sem pestanejar: “Casando-se comigo...”. Hoje, vinte anos depois, temos três filhos: Monique (18), Leonardo (15) e Bianca (12). Vivemos na Nova Zelândia, minha terra natal. Ieda trabalha como capelã, dando assistência a pessoas em situações de luto e perda. É uma pregadora eloqüente e muito usada por Deus em nosso país. Quanto a mim, continuo a viajar muito para encorajar e preparar missionários de vários países na missão entre os pobres. Ultimato — As favelas da Ásia, da África e da América Latina têm características próprias, são diferentes entre si? Grigg — Geralmente as favelas têm características comuns. As diferenças se devem às cidades. Aqui na América Latina as favelas não são tão pobres como na Índia. A pobreza na Índia parece ser dez vezes mais grave do que no Brasil. Nas favelas africanas, o problema maior é a aids. Tanto no Rio de Janeiro como em Nova Guiné, há muita violência. Eu diria que a corrupção governamental gera a situação de violência no Brasil. Já em Nova Guiné, o maior problema é o desemprego, pois a maioria da população favelada é masculina e sem trabalho. Ultimato — Você tem boas lembranças do COMIBAM I (Congresso Missionário Ibero- Americano), realizado exatamente há vinte anos no Brasil? Grigg — Lembro-me de 5 mil jovens de todos os países da América Latina, com muito barulho, muita disposição, muitos sonhos, e sem recursos. Pensei como Deus poderia fazer alguma coisa para aproveitar todo esse entusiasmo. Mais tarde, a estabilização do real e o crescimento econômico das igrejas favoreceram o envio de mais missionários brasileiros para o exterior. Tenho a impressão de que agora o problema é o arrefecimento dos sonhos missionários das igrejas. Muitas estão pregando a prosperidade e não falam sobre o sofrimento humano. O missionário tem de aprender a conviver com o sofrimento e, às vezes, com a pobreza. ultimato 311 FIM.indd 50ultimato 311 FIM.indd 50 27/2/2008 11:42:2327/2/2008 11:42:23
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    Ricardo Barbosa deSousa Bancodeimagemoliver 52 ULTIMATO Março-Abril, 2008 Quão verdadeiros somos? A ssisti ao filme Meu nome não é Johnny, a história da triste trajetória de João Guilherme Estrela, jovem de classe média alta, preso por tráfico de drogas nos anos 90. O filme chega numa hora em que a sociedade acompanha, assustada, o crescimento do tráfico e do consumo de drogas entre jovens que freqüentam boas faculdades, criados em famílias com recursos financeiros e em ambientes sociais aparentemente protegidos do submundo do crime. A pergunta que todos se fazem, diante de um drama assim, é a mesma: o que leva um jovem que, aparentemente, tem tudo a chegar onde João Estrela chegou? Bem, certamente existem muitas respostas, teses e opiniões a respeito, mas, fica uma pergunta que tem me levado a refletir nestes últimos dias: Quão verdadeiros somos? Parece-me que a sociedade, particularmente a juventude, enfrenta uma enorme resistência a tudo aquilo que é normal. A normalidade que, no passado era o que todos desejavam, não agrada mais ao ser humano. Uma festa normal em que amigos se encontram para conversar, ouvir boa música e se divertir não satisfaz mais; os jovens precisam de uma rave que comece na sexta à noite e termine no domingo, com música eletrônica ininterrupta e ensurdecedora, muito ecstasy e álcool. Ter um namorado ou namorada para conversar, sair, construir uma boa amizade e crescer afetivamente pensando na família que possivelmente irão formar, também não é o bastante; é preciso ficar com o maior número de parceiros possível, beijar e transar com todos. Ter um emprego com salário no fim do mês para pagar as contas e, quem sabe, sobrar algum trocado para o lazer não é suficiente; é preciso ganhar muito dinheiro, não importa sua origem, para comprar tudo que desejamos. A lista poderia prosseguir, mas o que tenho observado é que a normalidade não satisfaz mais. No meio evangélico, o cenário não difere muito. Não basta louvar a Deus com cânticos, leitura bíblica e orações; precisamos de um “louvor extravagante” (esta foi a expressão que ouvi), repetir a mesma música até entrar em algum transe. Não basta ser alegre e grato, é preciso pular e gritar freneticamente. Não basta crer em Deus e em suas promessas, precisamos decretar, reivindicar, exigir. Uma fé normal, ou uma vida cristã normal, não é mais suficiente. Quando o normal não atende mais às necessidades, a realidade torna-se insuportável. Um culto normal, um casamento normal com família normal e sexo normal, um Uma festa normal em que amigos se encontram para conversar, ouvir boa música e se divertir não satisfaz mais; os jovens precisam de uma rave que comece na sexta à noite e termine no domingo, com música eletrônica ininterrupta e ensurdecedora, muito ecstasy e álcool ultimato 311 FIM.indd 52ultimato 311 FIM.indd 52 27/2/2008 11:42:5327/2/2008 11:42:53
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    Ricardo Barbosa deSousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração. Por Carlinhos Veiga cveiga@terra.com.br Novos Aco r des Março-Abril, 2008 ULTIMATO 53 namoro normal, um lazer normal ou um trabalho normal são insuportáveis. A própria normalidade da existência humana, com suas fases, emoções, ciclos e estações, acaba tornando-se intolerável. Um dia de 24 horas ou o envelhecimento são inaceitáveis. Criamos então uma indústria voltada para alimentar a anormalidade; são os sex-shops com toda a parafernália para “incrementar” sua vida sexual, as diversas “terapias” incentivando a experimentar todas as novidades, plásticas, drogas, propagandas e o estímulo para comprar e fazer tudo o que dá prazer. Perdemos o contato com a realidade e, para viver esta hiper- realidade, precisamos negar a Deus, nossa humanidade limitada e mortal, o próximo e tudo mais. O chamado de Cristo para segui-lo é um chamado para ser real, ou um chamado à humildade. Ser humilde é reconhecer e aceitar a realidade como ela é. É aceitar Deus como ele é, aceitar a nós como somos e aceitar o mundo como ele é. Esta capacidade de reconhecer a realidade nos liberta das armadilhas e artifícios que a ilusão ou a falsa realidade criam. “Humilhai- vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará” – é assim que Tiago inverte o caminho da humanidade. A liberdade e dignidade humanas dependem da sua postura humilde diante de Deus, de si mesmo e do próximo. A humildade é o caminho de volta à realidade e à normalidade. Como diria meu amigo Carlos Queiroz no título de seu livro sobre o Sermão do Monte, para o humilde de espírito “ser é o bastante”. Não precisamos de drogas, nem de sexo selvagem, nem de muito dinheiro ou frenesi. Precisamos apenas ser humildes, que encontraremos a verdadeira alegria. (Veja A praga do fastio, p. 30.) Expressão, Diego Venâncio DiegoVenâncioéummúsicoetanto!Temformaçãopopular eeruditaemviolãoeestudoucomgrandesmestrescomo FábioRamazzina,MarcoPereira,PauloBellinati,Mozart Mello,entreoutros.Nasuacaminhadamusicalatuou pordoisanosemVencedoresporCristo.Participoucomo instrumentistaeproduziualgunsCDs.Expressãoéo seuprimeirotrabalho,revelandooseuladocompositor. Destaqueparaascanções“Étempo”eainstrumental “Lumaréu”(ambasdesuaautoria),“Redes”(Rogério Azevedo)earegravaçãode“Fonte”(SérgioPimenta).Essetrabalhotemaproduçãomusical eexecutivadopróprioDiegoemparceriacomVagnerRoberto.OCDtrazoplaybackdas canções.Pedidospelotel.114472-5729oupelositewww.diegovenancio.com.br Sem Fronteiras, Vencedores por Cristo (DVD) EsseéoprimeiroDVD deVencedores PorCristo. Nelevemos umgrupomusicalcomuma pegada bem“pop”,diferente daqueleestiloconhecidoequefez escola nosanos70e80.O repertóriode20 músicas traz os clássicos detodosostempos: das antigas “Nas estrelas”e“Deus éreal”(ambasdeRalph Carmichael) às mais recentes “DignodeLouvor”(Jorge Redher) e“Proclamai”(CláudioRocha). Éumtrabalhomuito bemproduzido, comuma banda madura edequalidade, amparada poruma equipetécnica de36 profissionaisque cuidoudos detalhes da iluminação, cenografia,câmeras, sometudomais queenvolveumDVD dealtonível. JaideMenezesassinaa direçãogeral. O showemvários momentos emociona aqueles queacompanhamatrajetória dogruponesses anos deministério. Pedidos pelositewww.vpc.com.br Tehillim 2: A Oração dos Salmos, Rubem Amorese e Toninho Zemuner A dupla Amorese e Zemuner lança mais um trabalho. É a segunda edição do Tehillim. Rubem explica o termo: “significa, originalmente, cânticos, mas transformou- se em sinônimo de salmos. Ao mesmo tempo em que se expressa poeticamente, ensina-nos sobre relacionamentos.”. A dupla compõe, canta e executa todas as canções. Como se não bastasse, eles ainda são os responsáveis pela gravação, mixagem, masterização e arte gráfica. E o resultado é muito bom! As canções são belíssimas, com destaque para “Quem subirá” (Salmo 24), “Novo alento” (Salmo 30) e “À sombra de tuas asas” (Salmo 63). Não são apenas textos bíblicos musicados; são orações pessoais baseadas nos salmos, vestidas de brasilidade, “ornadas com nosso ritmo, nossa harmonia e nosso jeito de poetizar”. Pedidos pelo site www.amorese.com.br ultimato 311 FIM.indd 53ultimato 311 FIM.indd 53 27/2/2008 11:43:0127/2/2008 11:43:01
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    Bráulia Ribeiro da linhade frente Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora de Chamado Radical (Ed. Ultimato). <braulia_ribeiro@yahoo.com> ULTIMATO Março-Abril, 200854 O utro dia ouvi na rádio local um programa que imitava os crentes. Até demorou para que os humoristas achassem o filão de clichês ridículos do meio evangélico, que deve ser mesmo muito engraçado para os de fora. Poucos dias depois, um irmão veio me visitar e me mostrou os programas de “humor” que tinha produzido para o rádio. Não é que o programa que eu havia escutado, com todo o sarcasmo cruel anti-crente, era dele mesmo? Doeu-me, mas, infelizmente, não me surpreendeu tanto assim. Esta é a nossa postura mais comum. Um contra todos e todos contra um. Peter Meiderlin, teólogo luterano da cidade de Augsburg, na Alemanha, escreveu, em 1627, um livrete, descrevendo um sonho em que Cristo lhe aparece pedindo que vigie pois será tentado. Logo depois o diabo, vestido de anjo de luz, aparece dizendo que vem da parte de Deus e começa a profetizar a respeito da necessidade de os eleitos se manterem puros na sã doutrina. A verdade que eles herdaram deve ser preservada numa nova denominação doutrinária, livre da contaminação de heresias. Quando o teólogo ora sobre o que deverá fazer, imediatamente o diabo some e Cristo reaparece, encorajando-o a permanecer fiel à simplicidade e humildade de coração. Ele acorda do sonho e escreve o tratado que termina com esta frase: “Si nos servaremus In necessariis Unitatem, In non-necessariis Libertatem, In utrisque Charitatem, optimo certe loco essent res nostrae” (No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; e em ambas as coisas, a caridade). Parece-me que o cenário cristão da Europa do século 17 não é muito diferente do cristianismo de hoje. O diabo continua usando a mesma estratégia para impedir que a oração de Jesus por nós (João 17) seja respondida. Ele se especializou em nos manter afastados uns dos outros, em nome da própria verdade que deveria nos unir. Distanciamo-nos por causa da pureza doutrinária. Acreditamos que nosso “logos” é melhor que o dos outros, esquecendo que o logos é a encarnação do perdão e da humildade e a razão principal por que deveríamos buscar a unidade e não a exclusão. Rotulamos pastores, igrejas, correntes doutrinárias, grupos inteiros de cristãos, desprezando- nos mutuamente, com ironias e sarcasmo. Apesar de termos certeza de que nossa doutrina é pura, esta pureza é muito difícil de ser definida. Na crença de certas culturas indígenas que categorizamos de animistas, se define vida humana pela “perfeição genética”. Qualquer tipo de “anomalia” — desde a concepção de gêmeos, até más-formações mais graves como síndrome de Down, paralisia cerebral etc. — contradiz a suposta “perfeição” que definiria o que é um “ser humano” real. Do alto de nosso conhecimento ocidental, criticamos estas crenças animistas. Uma criança gêmea não é encarnação do demônio só porque nasceu mais magrinha. A outra, deficiente, pode ser fonte de muita alegria para os pais, apesar de seus problemas. A vida humana é preciosa, não importa a forma. Ao comparar estas crenças e nossa definição de cristianismo, percebemos que somos teologicamente tão animistas quanto eles. Só consideramos cristãos aqueles que se encaixam em nossa definição do que seja uma doutrina perfeita e sadia. As anomalias podem ser desprezadas, abandonadas, e até cruelmente assassinadas por nossas palavras. No essencial, unidade; nas diferenças, liberdade; e em ambas as coisas, o amor Só consideramos cristãos aqueles que se encaixam em nossa definição do que seja uma doutrina perfeita e sadia. As anomalias podem ser desprezadas, abandonadas, e até cruelmente assassinadas por nossas palavras BranoHudak ultimato 311 FIM.indd 54ultimato 311 FIM.indd 54 27/2/2008 15:36:3627/2/2008 15:36:36
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    deixem que elasmesmas falem Délnia Bastos ULTIMATO Março-Abril, 200856 Délnia Bastos, casada, três, filhos, recentemente esteve no local onde Perpétua e Felicidade foram executadas, hoje Tunísia. E ra o início do terceiro século. O Império Romano tinha se fortificado em toda a região do Mediterrâneo. A sociedade gozava de estabilidade e privilégios — entre eles o de assistir aos jogos realizados no anfiteatro. Este compunha-se de uma estrutura oval, com algumas jaulas laterais para as feras, a arena no centro e um pequeno templo debaixo da arena. Ali, os gladiadores pediam as bênçãos dos deuses romanos para suas lutas, ao mesmo tempo em que os condenados pelo rei aguardavam sua sentença. Ao redor da arena, havia uma espécie de arquibancada para o público assistir confortavelmente aos espetáculos. Naquela época, o imperador Sétimo Severo baixou um edito segundo o qual todos deveriam oferecer sacrifícios aos deuses romanos e ao próprio imperador. O infrator era sentenciado, juntamente com outros criminosos. Vívia Perpétua, uma jovem senhora da nobreza, e sua empregada Felicidade eram cristãs. Aos 20 anos, grávida, Perpétua foi condenada, juntamente com Felicidade e mais três cristãos, por desobedecerem ao edito imperial. Em vão o pai de Perpétua tentou várias vezes convencê-la de desistir da fé e sacrificar aos deuses. “O que será do seu filho?”, o pai a advertiu, sem sucesso. Assim, em 7 de março de 203, foi dado o veredicto final: “Perpétua, Felicidade, Revocato, Secúndulo, Saturnino e Saturo são condenados às bestas no Anfiteatro de Cartago”. Segundo a história, Saturo não estava entre os condenados, mas voluntariamente compartilhou do martírio de seus irmãos em Cristo. Perpétua havia feito um pedido especial a Deus, e foi atendida: deu à luz no dia anterior à sua morte e uma amiga cristã adotou seu pequeno filho. Os condenados deveriam usar uma roupa designada para o espetáculo. Cada roupa fazia menção a um deus romano, de modo que o sentenciado era oferecido como sacrifício àquele deus. Perpétua e Felicidade, e depois seus companheiros, se negaram a usar a “roupa festiva”, como que num último fôlego de testemunho — nem mesmo sua morte se tornaria oferenda para os deuses. Eles entraram na arena com pouquíssima roupa, mas com um brilho e uma alegria de espírito humanamente inexplicáveis. Todos eles tinham consciência de que sua morte seria um testemunho público importante para o avanço da fé cristã. Felicidade dizia que seu martírio significava para ela não a morte, mas um segundo batismo. Os homens foram os primeiros a entrar na arena. Dois deles deveriam passar por uma ponte com uma série de obstáculos, entre os quais algumas feras, como leões e tigres, até que chegassem aos gladiadores. Secúndulo morreu na prisão, antes mesmo de chegar à arena. Saturnino foi decapitado e os outros dois morreram durante o espetáculo. Por último, entraram a jovem senhora e sua companheira. Para elas, foi designada uma bezerra, que investiu primeiramente em Perpétua e em seguida avançou para Felicidade. Perpétua, após recobrar a consciência, ajudou Felicidade a se levantar. Conta- se que escorria leite daquela que amamentara apenas um dia seu filhinho recém-nascido. Elas foram retiradas da arena feridas, para serem mortas pelos gladiadores. A platéia estava exaltada. Queria mais, e exigiu que a morte fosse pública. Elas então morreram na arena, pelas espadas dos gladiadores. Esta história comovente certamente nos lembra a passagem bíblica que diz: “Eles, pois, venceram [Satanás] por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). Segundo Tertuliano, o sangue dos mártires é a semente da igreja. Com efeito, o sangue de Perpétua, Felicidade e de seus irmãos em Cristo foi a semente da igreja no Norte da África. Sua morte deveria ser um presente do imperador Severo para seu filho César Geta. Mas foi muito mais um presente para a igreja. Os poucos cristãos que vivem naquela região felizmente não estão mais sob o jugo opressor romano. Mas precisam da mesma ousadia e fé para “enxergar além do véu” e enfrentar os obstáculos de oposição e perseguição a que ainda estão sujeitos hoje. Na arena com Perpétua e Felicidade O sangue de Perpétua, Felicidade e de seus irmãos em Cristo foi a semente da igreja no Norte da África BSK ultimato 311 FIM.indd 56ultimato 311 FIM.indd 56 27/2/2008 11:43:1127/2/2008 11:43:11
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    Solange C. Mazzoni-Viveiros SolangeC. Mazzoni-Viveiros, casada, dois filhos, é botânica, pesquisadora científica do Instituto de Botânica de São Paulo e vice-presidente d’A Rocha Brasil. Março-Abril, 2008 ULTIMATO 57 Aquecimento global: refletir para agir meio ambiente e fé cristã A forma como o ser humano tem se relacionado com o ambiente bem como seus reflexos — por exemplo, a poluição, o desmatamento, a destruição da camada de ozônio, o efeito estufa, o aquecimento global — têm sido exaustivamente discutidos e publicados em diferentes meios de comunicação, acadêmicos e populares. Nota-se, porém, que o esforço do meio científico e da mídia em esclarecer os mecanismos envolvidos nessa crise e alertar sobre possíveis desastres, embora gere conscientização, resulta em poucas ações por parte de cada indivíduo que demonstrem real convicção de que é preciso mudar de estilo de vida. A emissão de gases de efeito estufa, que retêm o calor do sol junto à superfície terrestre e, quando em grande quantidade na atmosfera, causam o aquecimento global, é um exemplo dessa consciência desvinculada da prática. Poucas pessoas estão dispostas a abrir mão de facilidades e confortos para reduzir tais emissões e minimizar seus efeitos sobre o clima do planeta, seja do carro à base de petróleo como meio particular de transporte, do alto consumo de energia não renovável, da utilização de produtos descartáveis não biodegradáveis, entre outros. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, em seu relatório de 2007, afirma que 90% das alterações ocorridas no meio ambiente são resultado da ação humana. Ressalta, ainda, que aquecimento global não significa apenas alteração na temperatura atmosférica e troposférica, com efeitos no clima e no padrão de distribuição das chuvas e ventos, causando desertificação, derretimento de geleiras, aumento de ciclones tropicais. O aquecimento global resulta, também, em alterações significativas no funcionamento dos sistemas terrestres, com previsão de perda de biodiversidade e aumento na ocorrência de doenças e catástrofes. A palavra de Deus alerta que a fé sem obras é morta (Tg 2.17-26), que a convicção não pode estar desvinculada da prática. Seria muito mais fácil se pudéssemos ficar somente com a primeira! Porém, o Deus em quem cremos é Jesus Cristo (Hb 1.3a), o Verbo encarnado, que se humanizou para salvação do ser humano e de toda a criação (Jo 1.14; Rm 8.1-2), que partiu para a ação visando à restauração integral do homem e da natureza. A igreja, por ser o corpo de Cristo, deve se parecer com ele e, como ele, transformar o caos atual através do amor e da misericórdia. Como filhos de Deus, devemos refletir o seu caráter, como novas criaturas que acreditam na ressurreição integral, por meio de Jesus Cristo. Devemos fazer diferença hoje e, assim, anunciar nossa esperança no futuro (1Pe 1.3). Isso é missão integral, boas novas que envolvem ação e restauração do relacionamento com Deus, com o próximo e com a criação. Deus confiou sua criação ao homem, para que ele a guardasse e cuidasse (Gn 2.15); cumpre ao novo homem retomar seu projeto original (2Co 5.17-20). Discorrer sobre aquecimento global ou qualquer assunto relativo aos impactos ambientais no meio cristão é necessário. No entanto esse conhecimento desvinculado da consciência de que há uma dívida de amor com o próximo (Rm 13.8) e uma responsabilidade com a criação (Rm 8.19-23) não trará resultado algum. Somente o amor a Deus, ao próximo e à criação pode transformar nosso egoísmo em ações de misericórdia, que mudam condutas e costumes para a glória de Deus e para a garantia de vida em abundância desta e de futuras gerações (Cl 3.12-17). A igreja só cumprirá sua missão integral quando refletir e agir, cumprindo o papel de mordomo (Gn 1.27- 2.1; Gn 2.15) e de sacerdote (1Pe 2.9) para que o mundo conheça o verdadeiro Deus a quem servimos (Jo 17.22-23; Ef 5.1-2; Sl 19.1-4). “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando a Ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17). Fotomontagem ultimato 311 FIM.indd 57ultimato 311 FIM.indd 57 27/2/2008 11:43:1927/2/2008 11:43:19
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    Mark Carpenter Desejo dereparação Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP. ULTIMATO Março-Abril, 200858 C omo editor de livros, lido constantemente com as esperanças e expectativas de escritores. Alguns são veteranos da casa. Outros publicaram livros por outras editoras antes de estrearem pela Mundo Cristão. Há também os inéditos prestes a se tornarem autores publicados. Todos sustentam opiniões sobre como devem ser os processos e os resultados da publicação. Freqüentemente essas expectativas são minuciosas, similares às ansiedades dos pais durante a gestação, nascimento e primeiros cuidados dos filhos. Qualquer desvio do seu conceito de perfeição pode gerar stress e frustração. Embora a maioria dos relacionamentos com nossos autores seja tranqüila e gratificante, nem sempre é assim. Às vezes as expectativas não condizem com a realidade da edição, distribuição e marketing de livros no Brasil. Investimos em cada uma dessas áreas de acordo com a projeção de receita gerada pela comercialização do livro. Gastar quantias desproporcionais em editoração e comunicação pode gerar prejuízo; repetir este erro em dezenas de livros leva a editora à falência. Nossa familiaridade com o mercado nos força a tomar decisões difíceis, com variados graus de fundamentação para as justificativas. Essas escolhas podem ser um tanto arbitrárias, baseadas em intuição. A experiência nos ajuda a acertar cada vez mais, mas às vezes erramos, e os erros podem ser espetaculares e constrangedores. Na busca pelo equilíbrio entre servir os leitores, os escritores e garantir a sobrevivência da editora, trabalhamos com uma margem de erro considerável. É assim para todos os editores que conheço, no Brasil e no exterior. Parte da condição humana envolve errar. Quem de nós já não disse, fez ou deixou de fazer algo que nos trouxe, logo depois, sentimentos de profundo arrependimento e um desejo intenso de voltar o relógio? É desse tema que trata o filme Desejo e Reparação, brilhante adaptação do romance Reparação, de Ian McEwan. Ambientado na Segunda Guerra Mundial, a obra trata de um caso de amor destruído por uma falsa acusação. As tentativas de reparar o passado provocam reflexões sobre a natureza do perdão, do destino e das relações humanas num mundo imperfeito, onde até o silêncio pode transformar-se numa força destruidora. A leitura que o diretor Joe Wright faz é bela e verdadeira, assim como as atuações de Keira Knightley, Saoirse Ronan e James McAvoy. A cinematografia épica e a trilha sonora de Dario Marianelli em staccato datilografado consolidam esta obra- prima do cinema contemporâneo. Ian McEwan disse que havia “um milhão de maneiras de estragar este livro para o cinema, e pouquíssimas maneiras de vertê-lo num bom filme”. Ele se valeu do perdão — ou da provável necessidade de exercê-lo — quando entregou seu belo romance para que um roteirista o reinventasse para as telas. Felizmente o desfecho foi excepcional, mas a história poderia ter sido diferente. O perdão é o azeite que dá longevidade e sabor às relações humanas. Ele pode transformar a propensão para o ódio numa mera ruga na topografia da boa vontade. Permite que antigos males se desfaçam, e que a sede de vingança se dissipe e se sacie de forma mais duradoura. Permite que sejamos acolhidos por um Deus que temos o hábito de magoar. Permite até que editores perdoem escritores, e vice- versa. BillyAlexander ultimato 311 FIM.indd 58ultimato 311 FIM.indd 58 27/2/2008 11:43:2527/2/2008 11:43:25
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    Mateuszdanko Marcos Bontempo mbontempo@ultimato.com.br prateleira ULTIMATO Março-Abril,200860 Deu no NYTimes No final do ano passado, entre os lançamentos no Brasil de Deus, Um Delírio, de Richard Dawkins (Companhia das Letras), e Deus não é Grande, de Christopher Hitchens (Ediouro), a revista dominical do jornal The New York Times perguntava, não sem constrangimento, se Freud era um defensor da fé. Claro, a resposta óbvia é não. No entanto, existe mais sobre a, digamos, “religiosidade” de Freud. Para Mark Edmundson, autor da matéria, Freud sugere que a fé em Deus “possibilitou um retorno à vida interior, tornando-a rica”, além de reconhecer “poesia” e “promessa” na religião. O que parece novidade para o NYTimes não o é para os leitores de obras como Cartas entre Freud e Pfister (Ultimato). A correspondência entre o pastor protestante Oskar Pfister e Freud, entre 1909 e 1938, é, nas palavras do psicanalista Joel Birman, “talvez o arquivo mais importante para balizarmos a relação entre os discursos psicanalítico e religioso”. Aliás, Anna Freud, filha do pai da psicanálise e que prefacia a obra, disse a Armand Nicholi, psiquiatra e professor da Escola de Medicina de Harvard, algo que precisa ser lembrado sobre o mais conhecido dos ateus do século passado: “Se você quiser conhecer o meu pai, não leia a sua biografia: leia a suas cartas”. O autor de Deus em Questão (Ultimato) seguiu o conselho e não deixa por menos: “Freud cita frequentemente a Bíblia [...]. As cartas são repletas de ‘se Deus quiser’; ‘o bom Senhor’; ‘a vontade de Deus’; ‘pela graça de Deus’; ‘minha oração secreta’ [...]”. Não tenho maldade o suficiente para afirmar que o reavivamento do ateísmo está construindo uma igreja ou uma seita, mas que o seu proselitismo é capenga, isso é. Graças a Deus. “Diga-me com quem andas” é markentig pessoal O ditado é conhecido. As pessoas, nem tanto. Preconceito, desinformação ou incompetência em lidar com o que não conhecemos revelam como são frágeis e pretensiosas nossas avaliações. Um exemplo clássico: Jó. Ele tinha amigos. Três amigos especiais, não muito recomendáveis: Bildade, Zofar e Naamá. No entanto, é quase um exagero o que o próprio Deus afirma sobre Jó: “Não há ninguém na terra como ele”. Definitivamente, não é possível conhecer alguém pelos que o rodeiam. Eliú, outro amigo, como que acusando- se, sugeriu que Jó andava em más companhias (Jó 34.8). Moisés é outro bom exemplo. Quando Deus o chamou e disse que via o sofrimento daqueles que o rodeavam e que o havia escolhido para libertá-los, sua reação foi patética: “Quem sou eu?”. Também reagimos assim. Quase sempre “medimos as coisas de acordo com o nosso tamanho”. Para a psicanalista Karin Wondracek, em Caminhos da Graça (Ultimato), a resposta de Deus “não afirma nada sobre Moisés, nem procura infundir nele uma auto- imagem confiante”. Quem sabe um investimento em “marketing pessoal” ou “networking”. O que Deus faz é afirmar o essencial a respeito dele mesmo: “Eu estarei contigo” (Êx 3.12). O fator decisivo na história de Moisés não é quem ele é, mas o fato de estar junto de um Deus que é. Enfim, Jesus também foi cercado por “um bando de homens maus” (Sl 22.16). Aliás, não estamos cercados apenas pelos amigos, nem é nossa competência separar o joio do trigo. No entanto, é comum nas igrejas a tentativa de blindar a imagem dos irmãos com a repetição insistente das primeiras palavras do Salmo primeiro. Não basta. É preciso mais do que as “boas companhias”. E o salmista sabia disso: “Embora as cordas dos ímpios queiram prender-me, eu não me esqueço da tua lei” (Sl 119.61). Para ler mais textos da “Prateleira”, acesse www.ultimato.com.br ultimato 311 FIM.indd 60ultimato 311 FIM.indd 60 27/2/2008 16:32:0627/2/2008 16:32:06
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    Agenda Acesse www.ultimato.com.br, saiba deoutros eventos e divulgue o seu site • intercâmbios • aluguel de imóveis • relacionamentos necessi- dades e oferecimentos de voluntários ou estagiários • empregos • prestação de serviços • cursos • eventos • missões livros, filmes, cd’s • redes e ONG’s Espaço de oportunidades ULTIMATO Março-Abril, 200862 21 a 23 de março O Ministério com Surdos Mãos Ungidas realizará o seu 6º Congresso, em Curitiba, PR. Telefone: 41 3338-6836 Site:www.maosungidas.com.br 21 a 24 de maio Acontecerá o Encontro Tribal Global Generation, em Uberlândia, MG. Telefone: 34 3215-8108 Site: www.tribalgeneration.org 22 a 24 de maio Será realizado o II Congresso Evangélico Nacional de Profissionais da Saúde (II CENPS), em Belo Horizonte, MG. Telefone: 31 3324-9555 Site:www.cenps.com 16 a 20 de junho A Missão AMEM oferecerá o curso Capacitação Antropológica, sob a coordenação do pr. Ronaldo Lidório, em Belo Horizonte, MG. Telefone: 31 3489-1800 E-mail: info@amem.org.br Site: www.amem.org.br 4 a 28 de julho A Missão JUVEP realizará o seu 49º Projeto Missionário, um projeto evangelístico, na cidade sertaneja de Miguel Alves, PI. E convida: “Passe ao sertão, ajuda-nos”. João Pessoa, PB Telefones: (84) 222-4430; 222-3482 E-mail: projetomissionario@juvep.com.br 21 a 23 de agosto A Rede Evangélica Nacional realizará o III Encontro RENAS, em Curitiba, PR. Telefone: 11 4136-1253 E-mail: renas@renas.org.br Site: www.renas.org.br Revista Mãos Dadas É uma publicação destinada a inspirar, motivar e capacitar pessoas envolvidas no trabalho cristão com crianças e adolescentes em situação de risco e contribuir para a mobilização de igrejas e comunidades para este trabalho.uma revista de apoio aos que trabalham com crianças (www.maosdadas.net). Você pode recebê-la gratuitamente. Basta enviar um e-mail para <cartas@maosdadas.net> explicando seu envolvimento com ação social. Oração De 6 a 8 de junho mobilize sua igreja e organização para o 13º Mutirão Mundial de Oração por Crianças e Adolescentes em Situação de Risco. Acesse o Material de Apoio para Mobilização no site da revista Mãos Dadas <www.maosdadas.org>, ou peça-o por e-mail <cartas@maosdadas.net> ou carta (Caixa Postal 88, Viçosa, MG 36570-000). Revista Passo a Passo É uma publicação trimestral que procura aproximar pessoas em todo o mundo envolvidas nas áreas de saúde e desenvolvimento, produzida pela Tearfund. Ela é gratuita para aqueles que atuam na promoção do desenvolvimento social. Pode ser solicitada a <circulacao@ultimato.com.br>. Jejum de 40 dias O pastor batista Edison Queiroz quer que as igrejas evangélicas brasileiras convoquem os crentes para um jejum de 40 dias (de 30 de março a 10 de maio de 2008) em favor do Brasil. Segundo ele, o ideal seria um jejum completo, só com água. Mas Edison admite que todo esforço nesse sentido será válido (fazer apenas uma refeição por dia ou a abster-se de alguma guloseima ou de alguma distração). O pastor pode estar exagerando nos métodos, mas não na motivação. O prolongado jejum visa quebrar a apatia dos crentes com a situação do país: “Parece que a igreja tem aceitado a corrupção, imoralidade, criminalidade, idolatria, feitiçaria e tantas outras maldições como normais (...). A política brasileira está contaminada pela corrupção. A mentira tem sido aceita com naturalidade. A distribuição da riqueza é injusta e cruel. Para mais informações, acesse <www.jejum40dias.com.br>. ultimato 311 FIM.indd 62ultimato 311 FIM.indd 62 27/2/2008 11:43:4827/2/2008 11:43:48
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    “ ” Março-Abril,2008 ULTIMATO 63 América Latina em Fotos Equipe de desminagem entra em ação nos terrenos ao redor das torres de ener- gia minados pelo exército peruano. O custo aproximado de uma mina terrestre vai de 1 a 3 dólares americanos e sua retirada pode custar até 3 mil dólares. A reportagem O perigo mora ao lado, de oito páginas, sobre a intensa presença de minas terrestres na América Latina, publi- cada na revista Rolling Stone de janeiro de 2007, é um desdo- bramento do livro e do documentário América Minada, feitos Brasil melhora 27 posições no ranking de mortalidade na infância O Brasil melhorou 27 posições no ranking da taxa de mortalidade na infância, isto é, mortes registradas entre crianças menores de 5 anos. Em 16 anos, a taxa caiu de 57 para 20 mortes para cada mil nascidos vivos. Contudo, o número absoluto de óbitos ainda é alto: em 2006, 74 mil crianças morreram no Brasil antes do quinto aniversário. (Relatório Situação Mundial da Infância 2008/ UNICEF) Brasil recebeu 775 mil crianças escravas O Brasil melhorou 27 posições no ranking da taxa de mortalidade na infância, isto é, mortes registradas entre crianças menores de 5 anos. Em 16 anos, a taxa caiu de 57 para 20 mortes para cada mil nascidos vivos. Contudo, o número absoluto de óbitos ainda é alto: em 2006, 74 mil crianças morreram no Brasil antes do quinto aniversário. (Relatório Situação Mundial da Infância 2008/ UNICEF) Memória “Muitos desses órfãos devem ter alcançado a Holanda depois da capitulação. Nós encontramos alguns deles no livro da diaconia de Amsterdã, em que se vê o reflexo de suas lágrimas de órfãos nas anotações secas sobre transferências de lar em lar, até que entrassem no orfanato da capital holandesa”. Francisco Leonardo Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654), p. 163 John Stott, A Bíblia toda, o ano todo, pág. 174 [No encontro com a mulher samaritana], por três vezes, Jesus fez o que não era aceitável. Rompeu deliberadamente convenções sociais de seu tempo. Ele esteve inteiramente livre da discriminação de gênero, do preconceito étnico e do pedantismo moral. Ele amava e respeitava todas as pessoas e não se esquivava de ninguém. por Maria Eugênia Sá e Vinícius Souza. Eles mostram que nessa região doze nações possuem campos minados. A Colômbia é, no mundo, o país que mais apresenta novas vítimas dessas armadi- lhas explosivas. (A reportagem O perigo mora ao lado dentre ou- tras podem ser lidas em <http://mediaquatro.sites.uol.com.br>.) O casal Maria Eugênia e Vinícius, que tem uma filhinha de quatro meses (Maya), tem viajado por vários países com o objetivo de alertar as pessoas a olharem para os problemas cria- dos pela própria humanidade, de modo a trazer mais justiça e paz para o mundo em que vivemos. Eles são evangélicos, e este objetivo provém de seu desejo de servir a Deus. Por conta desse misto de missão humanitária e cristã, em várias de suas viagens eles têm conseguido o apoio de igrejas evangélicas locais e missões internacionais. Foi assim, por exemplo, em Angola (que resultou no projeto Angola: A Esperanca de Um Povo), na Índia (Caxemira: Ocupada, Dividida e Disputada), Colômbia (Colômbia: Que Guerra Civil? e América Minada), e mesmo no Brasil, com o tra- balho sobre hanseníase publicado como matéria de capa da Revista da Folha. ultimato 311 FIM.indd 63ultimato 311 FIM.indd 63 27/2/2008 15:44:2327/2/2008 15:44:23
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    John Stott ULTIMATO Março-Abril,200864 vamos ler! O mês de fevereiro ainda não terminou e eu já fui muito abençoado com as leituras do mais recente livro de John Stott lançado no Brasil. Há muitos anos eu não lia devocionário algum. Ficava só com a leitura demorada e proveitosa da Bíblia. Neste ano, tomei uma decisão: não substituir a leitura bíblica pela leitura de devocionários, mas fazer ambas as leituras, lembrando-me do bem enorme que me fez o antigo devocionário Ouro, Incenso e Mirra, da missionária americana Rosely Appleby, no início da minha juventude. O devocionário A Bíblia Toda, O Ano Todo, como o próprio nome indica, é sui generis. Ele é ao mesmo tempo devocionário e manual bíblico. Traz à tona ensinos bíblicos que já sabemos, outros que estavam no esquecimento e mais alguns que nunca antes tínhamos percebido. As 365 meditações diárias misturam conhecimento bíblico e piedade cristã, que devem ser inseparáveis, em benefício mútuo. Em menos de dois meses, selecionei e anotei 67 frases de Stott, retiradas de A Bíblia Toda, O Ano Todo, para memorizar e distribuir com outras pessoas, como costumo fazer. Compartilho com o leitor pelo menos oito dessas frases: “Satanás fez com que aquilo que era permitido se tornasse insatisfatório e o que era proibido se tornasse desejável” (p. 31). “Todo o nosso senso de desorientação se origina de nossa alienação de Deus” (p. 34). “Noé se destacava em meio à depravação generalizada como uma flor perfumada sobre um monte de esterco” (p. 41). “Deus nos obriga a fazer o que deveríamos ter feito voluntariamente” (p. 44). “Há quem confia mais em sua astúcia do que na providência de Deus” (p. 51). “Deus luta conosco para derrubar nossa obstinação; nós lutamos com ele para buscar suas promessas” (p. 51). “Só é possível fazer a vontade de Deus do jeito dele” (p. 54). “Deus só endurece aqueles que endurecem a si mesmo” (p. 56). O devocionário de John Stott não é apenas um depósito de coisas bonitas e agradáveis. A Bíblia Toda, O Ano Todo tem o valor de arrancar os crentes sinceros da confusão atual frente à ética cristã. Veja os seguintes exemplos: Quanto à questão ambiental: “Estamos vivendo além dos recursos de que dispomos, consumindo rapidamente, esgotando, poluindo e destruindo os recursos naturais dos quais depende a nossa própria sobrevivência” (p. 24). Quanto à questão do machismo e feminismo: “Não existe nenhuma base bíblica para posições extremas, quer da supremacia masculina (homens dominando as mulheres) quer do feminismo radical (mulheres prescindindo dos homens)” (p. 24). Quanto ao “casamento” gay: “O casamento é a união entre um homem e uma mulher. Uma parceria homossexual jamais poderia ser vista como uma alternativa legítima” (p. 28). Quanto ao aborto e experiências científicas com embriões humanos: “O embrião é, em última análise, um ser humano em formação e, portanto, deve ser protegido. Por esta razão, a maioria dos cristãos é favorável à vida e não ao direito de escolha. Para os cristãos, a destruição do embrião por meio do aborto é uma forma de assassinato, exceto em situações especiais, cuidadosamente definidas. Eles rejeitam também o uso de embriões humanos em experimentos e defendem a sua proibição por lei” (p. 65). Quanto ao sexo solto: “Deus instituiu o casamento como o contexto adequado para a satisfação sexual, e é por isso que o relacionamento sexual é proibido em todos os outros contextos (...). Tanto as relações sexuais antes do casamento como o sexo sem casamento são experiências que envolvem uma relação sem compromisso” (p. 66). Se dermos oportunidade ao conta-gotas de A Bíblia Toda, O Ano Todo — apenas uma gota por dia — e nos deixar persuadir por esse devocionário, faremos uma leitura da Bíblia com o coração (a parte devocional) e com a mente (a parte doutrinária). Não se tenha dúvida do resultado final — para nós, para nossa família e para a igreja brasileira! O conta-gotas de John Stott O que você está perdendo por não ler A Bíblia Toda, O Ano Todo Elben M. Lenz César Leia mais em www.ultimato.com.br • Frases selecionadas de A Bíblia Toda, O Ano Todo ultimato 311 FIM.indd 64ultimato 311 FIM.indd 64 27/2/2008 16:32:1427/2/2008 16:32:14
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    Março-Abril, 2008 ULTIMATO65 Ricardo Quadros Gouvêa é ministro presbiteriano e professor de teologia e de filosofia. Ricardo Quadros Gouvêa vamos ler! As Obras do Amor Søren Kierkegaard Editora Vozes/ Editora Universitária São Francisco, 2005 É uma pena que nossa atenção esteja, muitas vezes, tão voltada para os novos autores que, esquecemos de dar a devida atenção aos textos consagrados pelo tempo. E, no entanto, é entre os clássicos do pensamento cristão que geralmente encontramos o alimento espiritual sólido e nutritivo que percebemos escasso nas novidades. Talvez seja um exagero chamar Søren Kierkegaard (1813-1855) de um autor clássico. As Obras do Amor (em dinamarquês, Kjerlighedens Gjerninger, 1847), que aqui recomendamos, por exemplo, foi publicado em dois volumes há apenas 161 anos. As obras de Kierkegaard, entretanto, impressionam tanto pela quantidade (ele morreu aos 42 anos de idade) quanto pela qualidade. A produção kierkegaardiana é consistentemente de alto nível. Não é exagero afirmar que Kierkegaard é visto hoje como um dos mais profundos e mais influentes autores cristãos de todos os tempos. Poucas vezes encontramos livros cristãos que discorram com profundidade teológica sobre o amor. As teologias sistemáticas raramente abordam o assunto em separado, ainda que este tema seja central no Novo Testamento. As confissões de fé do século 17 quase nada falam sobre o amor. Poucos foram os pensadores cristãos que se debruçaram sobre o tema. Há um excelente tratado de Agostinho de Hipona (354-430), pouco conhecido, intitulado Manual a Lourenço Acerca das Virtudes Teologais: Fé, Esperança e Amor (Enchiridion – De Fide, Spe et Caritate: Manuale ad Laurentium, 421). Poderíamos pinçar ainda o opúsculo místico de Bernardo de Claraval (Bernard de Clairvaux, 1091-1153), cujo título é Da Necessidade de Amar a Deus (De Diligendo Deo, 1126), talvez o mais profundo e belo tratado sobre o amor já composto. E vale lembrar ainda as obras do sueco Anders Nygren (1890-1978), Eros e Agape (1930-1936, 2 vols.), e de C. S. Lewis (1898-1963), Os Quatro Amores (1960). Pouco pode ser acrescentado a esta lista. Em sua vasta obra, Kierkegaard produziu diferentes tipos de livros. Quem esperar encontrar aqui o filósofo de Temor e Tremor (1843) ou de O Conceito de Angústia (1844), irá se decepcionar, bem como quem procurar o romancista de Diário de Um Sedutor (1843), parte do primeiro volume de uma complexa obra chamada A Alternativa (Enten- Eller, 1843). O que encontramos aqui é o Kierkegaard pregador. As Obras do Amor pode ser descrito como uma coleção de sermões sobre o amor no Novo Testamento. Kierkegaard sempre quis ser ordenado ministro do evangelho, e sempre escreveu sermões, mas como nunca conseguiu a ordenação (primeiramente por causa de um noivado rompido, e depois pelos mal-entendidos com a igreja, que o via como um pensador herético e perigoso), dizia não ter autoridade para compô-los ou pregá- los, e chamava seus sermões escritos de “discursos edificantes”. Assim é As Obras do Amor. Cada capítulo tem a forma exata de um sermão. Além disso, é obra verônima, isto é, assinada por Kierkegaard, que sempre usava pseudônimos para seus livros filosóficos e literários. Os textos verônimos de Kierkegaard supostamente trazem as idéias e opiniões mais sinceras do autor, e o autor assina todos os seus livros de discursos edificantes. O impacto da obra de Kierkegaard ainda está para ser sentido em sua inteireza. Na segunda metade do século 19, o livro As Obras do Amor foi responsável pelo avivamento pietista na Noruega liderado por Niels Hauge. Houve, entre os raros leitores de Kierkegaard no Brasil, quem acreditasse que a publicação do livro em português poderia ter efeito semelhante. Infelizmente, não é o que presenciamos até agora, e provavelmente não será assim. Todavia, é certo que esta leitura poderá levar muitos a uma edificação pessoal poucas vezes obtida. As Obras do Amor O amor no Novo Testamento ultimato 311 FIM.indd 65ultimato 311 FIM.indd 65 27/2/2008 15:37:4027/2/2008 15:37:40
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    ULTIMATO Março-Abril, 200866 RubemAmorese Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna. <ruben@amorese.com.br> Pílulas e cinzas À s vésperas do Carnaval, a Igreja Católica representa judicialmente contra a distribuição da “pílula do dia seguinte”, e o ministro da saúde vai à televisão para dizer que “a igreja errou mais uma vez, pois a prevenção da gravidez não é uma questão religiosa, mas de saúde pública”. A Igreja reage, dizendo que a Lei de Deus é para todos. Desfecho: a juíza determina que a distribuição seja feita, por entender que o método não é abortivo. Se o ministro tivesse tempo para pensar um pouco mais, talvez escolhesse melhor as palavras. Porém, o afogadilho precipita os fatos. Por um lado, o arcebispo de Recife e Olinda leva uma questão que acredita ser matéria de fé para um tribunal secular; por outro, o ministro manda-o recolher-se aos seus domínios, sem precisar quais seriam eles. Penso que o ministro está certo ao dizer que a orgia carnavalesca é questão de saúde pública. Mas também concordo com o arcebispo quando ele sustenta que o assunto tem a ver com Deus, pois envolve a alma humana. Talvez ainda venhamos a saber por que razão ele levou a questão à Justiça. Mas desconfio dos pressupostos ocultos do ministro que, certamente, fala por um governo de orientação ativa e passivamente liberal. E não pensemos apenas em moral sexual, pois aprendemos com o apóstolo Paulo que a degradação humana nunca vem por um pecado só (Rm 1.21-27), embora sempre bata ponto numa cama. A propósito, pesquisa revela que, na novela global Sete Pecados, a luxúria ultrapassa, em número de cenas, todos os outros seis pecados juntos. Por quê? Palpite: predileção. Acho que, ao classificar a promiscuidade no Carnaval como caso de saúde pública, o ministro Temporão pensou mais em prevenção do que no conceito de saúde. Por ser pragmático, talvez ele tenha trocado o importante pelo urgente. E o urgente, imagino, é evitar que o índice de abortos clandestinos fuja ao controle; que o número de recém-nascidos achados nos lixos, esgotos, ou córregos seja de proporções epidêmicas; que as famílias das meninas que sairão grávidas ou infectadas dessa “festa popular” empobreçam, e até que o governo tenha de gastar em penitenciárias para receber os “filhos enjeitados do Carnaval” de 2008. O ministro tem estatísticas em mãos e sabe que, diferentemente da Cultura ou do Turismo, para sua pasta, Carnaval é sinônimo de tragédia. E como ele enfrenta essa ameaça? Distribui, gratuitamente, pílulas e camisinhas aos foliões. E resolve? Bem, concordo que evita o pior, momentaneamente, mas não resolve, pois não existe camisinha para alma promíscua (nem mesmo as cinzas da quarta-feira, sem verdadeiro arrependimento). Senhor ministro, deixe a Palavra de Deus ajudar. Ouça-a. Se aborto, gravidez indesejada, aids, evasão escolar, desemprego etc. não são problemas religiosos, então o que será? As providências de vossa excelência são tão eficazes quanto tratar catapora com esparadrapo. Já imaginando o que ele me responderia, deixo-lhe um respeitoso alerta: “Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te argüirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Distribuir gratuitamente pílulas e camisinhas no Carnaval pode evitar o pior, momentaneamente, mas não resolve, pois não existe camisinha para a alma promíscua RobertoTostes ultimato 311 FIM.indd 66ultimato 311 FIM.indd 66 27/2/2008 11:44:0527/2/2008 11:44:05
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