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Sociolinguística
Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra
2a
edição | Nead - UPE 2011
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
Núcleo de Educação à Distância - Universidade de Pernambuco - Recife
	 Bezerra, Benedito Gomes
Letras: Sociolinguística/ Benedito Gomes Bezerra. - Recife: UPE/NEAD,
2011.
	
44 p. il.
ISBN - 978-85-7856-075-1
1. Educação – Aspectos Sociais 2 Sociolinguística 3. Ensino de Línguas 4. 	
	 Investigação Social 5. Educação à Distância I. Universidade de Pernambuco, 	
	 Núcleo de Educação à Distância II. Título.
						
				
B574s
CDD 370.19
Reitor
	
Vice-Reitor
	
Pró-Reitor Administrativo
	
Pró-Reitor de Planejamento
	
Pró-Reitor de Graduação
	
Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa
	
Pró-Reitor de Extensão e Cultura
Prof. Carlos Fernando de Araújo Calado
Prof. Rivaldo Mendes de Albuquerque
Prof. José Thomaz Medeiros Correia
Prof. Béda Barkokébas Jr.
Profa. Izabel Christina de Avelar Silva
Profa. Viviane Colares S. de Andrade Amorim
Prof. Rivaldo Mendes de Albuquerque
Universidade de Pernambuco - UPE
NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Coordenador Geral
	
Coordenador Adjunto
	
Assessora da Coordenação Geral
	
Coordenação de Curso
	
Coordenação Pedagógica
	
Coordenação de Revisão Gramatical
	
Gerente de Projetos
Administração do Ambiente
	
Coordenação de Design e Produção
	
Equipe de design
	
Coordenação de Suporte
Edição 2011
Prof. Renato Medeiros de Moraes
Prof. Walmir Soares da Silva Júnior
Profa. Waldete Arantes
Profa. Silvania Núbia Chagas
Profa. Maria Vitória Ribas de Oliveira Lima
Profa. Angela Maria Borges Cavalcanti
Profa. Eveline Mendes Costa Lopes
Profa. Geruza Viana da Silva.
Profa. Patrícia Lídia do Couto Soares Lopes
Igor Souza Lopes de Almeida
Prof. Marcos Leite
Anita Sousa
Gabriela Castro
Rafael Efrem
Renata Moraes
Rodrigo Sotero
Afonso Bione
Prof. Jáuvaro Carneiro Leão
Impresso no Brasil - Tiragem 150 exemplares
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Fone: (81) 3183.3691 - Fax: (81) 3183.3664
5
Sociolinguística
Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra
Carga Horária | 60 horas
Ementa
Estudo da relação entre língua/linguagem e sociedade. Variação e mudança lin-
guística. Norma padrão, norma culta e outras normas. Preconceito linguístico. Po-
lítica linguística. A pesquisa sociolinguística. Sociolinguística e ensino de língua.
Objetivo Geral
Compreender aspectos teórico-metodológicos e empíricos referentes à vincula-
ção entre língua e sociedade.
Apresentação da Disciplina
Caro estudante!
Você vai achar a sociolinguística uma disciplina fascinante. Os conteúdos discu-
tidos em sociolinguística são de fundamental importância para a boa formação
do professor de língua portuguesa, e seriam igualmente importantes para pro-
fessores de qualquer matéria, pois todos lidam com a língua de uma forma ou
de outra. Diversas questões a respeito da relação entre língua e sociedade serão
discutidas aqui.
Inspirados na sociolinguística, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para
a Língua Portuguesa estabelecem que o ensino deve levar em conta, de forma
muito séria, a diversidade linguística e a consequente variação existente em nossa
língua.
Nesta disciplina, portanto, não estaremos apenas falando de teorias. O estudo da
sociolinguística nos permitirá entender o que é variação e qual a sua importân-
cia, o que é preconceito linguístico e como evitá-lo e combatê-lo.
Não perca essa oportunidade e aproveite-a ao máximo.
Boa sorte e muita disposição para continuar aprendendo e crescendo em sua
formação!
Abraços!
Benedito
7Capítulo 1 77Capítulo 1
Objetivos Específicos
•	 Conhecer os principais conceitos usados em sociolinguística.
•	 Entender o objetivo e a tarefa a que se propõe a sociolinguística.
Introdução
Desde o início de sua história moderna, marcada pela publicação do Curso de Lin-
guística Geral de Ferdinand de Saussure, a linguística se apresenta como uma área
extremamente abrangente e diversificada. Com os crescentes questionamentos e
crises enfrentados primeiramente pelo estruturalismo e em seguida pelo gerativis-
mo, a linguística se desdobrou cada vez mais em variadas tendências e enfoques,
a maioria dos quais têm em comum uma perspectiva funcionalista lato sensu.
A sociolinguística é uma das subáreas da linguística que se consolidou nos anos
de 1960, em especial com os estudos e pesquisas desenvolvidos pelo linguista
americano William Labov (nascido em 1927), voltados para a relação entre lín-
gua e sociedade. Tratava-se de mais uma abordagem ao fenômeno linguístico que
se afirmava em aberta discordância com os modelos linguísticos formalistas, em
especial com o gerativismo.
Neste capítulo, apresentaremos os principais conceitos utilizados em sociolin-
guística, considerando que esta é uma matéria de fundamental importância para
a formação do professor de língua portuguesa, pelas claras implicações que acar-
retam para o ensino.
1.	Origens da Sociolinguística
De acordo com Calvet (2002), o linguista francês Antoine Meillet, contemporâ-
neo de Saussure e conhecido como seu discípulo, dele divergia por considerar a
língua como “um fato social” e por insistir no caráter social da linguagem. Em
outras palavras, os impulsos em direção à sociolinguística são tão antigos quanto
a própria linguística saussuriana. Meillet poderia, portanto, ser considerado com
um entre os vários precursores da sociolinguística.
Apresentando a
Sociolinguística:
Conceitos e Definições
Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra
Carga Horária | 15 horas
8 Capítulo 1
Entre esses precursores, deve-se ainda citar o inglês
Basil Bernstein, especialista em sociologia da edu-
cação. Diante do fato de que as crianças oriundas
de classes trabalhadoras apresentavam um índice
de fracasso escolar bem maior que o de crianças
das classes abastadas, Bernstein, após analisar as
produções linguísticas de ambos os grupos, logo
encontrou o que considerava ser a explicação.
Para Bernstein, as crianças pobres, oriundas de
classes trabalhadoras, fracassavam na escola por
dominarem apenas um código linguístico restrito,
aprendido no âmbito das respectivas famílias, en-
quanto a escola exigia o emprego de um código
elaborado. Os filhos oriundos de classes financei-
ramente favorecidas, pelo contrário, dominavam o
código elaborado desde as suas casas, uma vez que
cresciam ao lado de pais que tinham hábitos de lei-
tura e compravam livros, por exemplo. Percebe-se,
portanto, que há uma relação direta entre a lingua-
gem das crianças e fatores como o estrato social e
econômico a que pertenciam. Esse tipo de percep-
ção está na origem das pesquisas sociolinguísticas,
segundo as quais levar em consideração a relação
entre sociedade e linguagem é imprescindível para
a compreensão desta.
A despeito de todas as contribuições anteriores,
o nome do linguista americano William Labov fi-
gura como o grande incentivador e verdadeiro pai
da sociolinguística. As pesquisas de Labov se tor-
naram célebres, investigando aspectos da variação
fonética na fala dos habitantes da ilha de Martha’s
Vineyard, em Massachusetts (1963), a diversidade
de pronúncia, determinada pela estratificação so-
cial, do /r/ em diferentes lojas de departamento
em Nova Iorque (1966), além da pronúncia do in-
glês por adolescentes negros no bairro do Harlem
em Nova Iorque.
Foi Labov quem mais claramente lutou, a par-
tir dos anos de 1960, pelo reconhecimento de
uma forma de fazer linguística que não des-
cuidasse dos fatores sociais que interferiam
na produção da linguagem. Conforme o lin-
guista brasileiro Fernando Tarallo, foi Labov
“quem, mais veementemente, voltou a insistir na
relação entre língua e sociedade e na possibilida-
de, virtual e real, de se sistematizar a variação exis-
tente e própria da língua falada” (1994, p. 7).
Foi graças aos estudos de Labov que o tema da
variação linguística entrou na ordem do dia dos
pesquisadores e, hoje, figura como um dos aspec-
tos mais importantes recomendados pelos PCN
para o ensino de língua portuguesa em nosso país.
2. Interesses da Sociolinguística
O pressuposto essencial da sociolinguística é de
que todas as línguas naturais humanas se carac-
terizam pela heterogeneidade e variabilidade. Em
sua vertente mais conhecida, a sociolinguística,
baseada nas pesquisas de Labov, elege a variação
como seu tema principal. A variação, por sua vez, é
vista como geral e universal, podendo ser descrita
e quantificada de acordo com métodos científicos
e estatísticos. Essa forma de fazer sociolinguística
ficou conhecida, por isso mesmo, como Sociolin-
guística Variacionista, Sociolinguística Quantitati-
va ou, ainda, como Teoria da Variação.
Entre os interesses específicos da sociolinguística,
Mollica (2008, p. 10) cita “contato entre as lín-
guas, questões relativas ao surgimento e extinção
linguística, multilinguismo, variação e mudança”.
Ao tratar de temas como a variação, a tarefa do
sociolinguista é caracterizar o fenômeno que está
observando, verificar a avaliação positiva ou nega-
tiva que os falantes conferem a ele e determinar se
as variantes em competição se acham em processo
de mudança ou se tendem a conviver entre si por
tempo indeterminado. Como diz Mollica,
“em última análise, deve definir se o caso é de variação
estável ou de mudança em progresso” (2008, p. 10).
Para que as noções que estamos desenvolvendo
aqui se tornem cada vez mais claras para você, va-
mos examinar mais especificamente os principais
conceitos relacionados com a variação, para que
possamos estabelecer as diferenças entre eles.
Fonte:http://www.123people.com/s/william+labov
Figura 1: William Labov,
o pai da sociolinguística
9Capítulo 1
3.	Variação e Conceitos
Correlacionados
É comum haver, no discurso sobre a variação, certa
dificuldade no manejo de conceitos muito próxi-
mos e até muito semelhantes do ponto de vista da
terminologia. Conceitos como variação, variável,
variante e variedade linguística podem ser facil-
mente confundidos, por isso precisam estar bem
esclarecidos.
Por variação linguística nos referimos ao fenômeno
universal, próprio de todas as línguas, que pressu-
põe a existência de formas linguísticas alternativas,
empregadas para veicular basicamente com o mes-
mo significado. Essas formas alternativas se deno-
minam variantes.
Por variantes, portanto, nos referimos às
“diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um
mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade” (TA-
RALLO, 1994, p. 8).
Também para Bagno (2007, p. 50),
“a definição mais simples de variante é a de ‘cada uma das
formas diferentes de se dizer a mesma coisa’”.
Uma vez que se trata de diversas formas de dizer
a mesma coisa, as variantes de uma determinada
comunidade de fala, como lembra Tarallo (1994),
encontram-se sempre em situação de mútua con-
corrência. Os diversos motivos que podem levar os
falantes a preferir uma ou outra variante resultam
na possibilidade de seu agrupamento ou subdivi-
são conforme os seguintes polos:
padrão x não padrão
conservadora x inovadora
estigmatizada x de prestígio
A regra mais geral é que a variante padrão é, ao
mesmo tempo, variante conservadora e de prestí-
gio. Confira o exemplo:
1.	 Hoje nós iremos ao cinema.
2.	 Hoje nós vamos no cinema.
Como você pode verificar, embora os dois enun-
ciados comuniquem a mesma ideia, eles serão ava-
liados de forma diferente pelos falantes com base
em sua realidade sociocultural. A variante 1 pode
ser classificada como padrão, conservadora e de
prestígio, o que significa dizer que ela está de acor-
do com a norma-padrão, corresponde a uma forma
mais tradicional de dizer e confere mais prestígio
social aos seus usuários. Por sua vez, a variante 2
é não padrão, por não corresponder ao estabele-
cido pela norma-padrão, e, embora seja inovado-
ra, por trazer para a língua uma forma nova de
dizer a mesma ideia contida em 1, é estigmatizada,
ou seja, seus usuários poderão ser discriminados
como pessoas que não sabem usar a língua “cor-
retamente”. A forma não-padrão e estigmatizada,
ainda que seja inovadora, acarreta, portanto, um
julgamento social (não linguístico) negativo sobre
seus falantes.
Uma variável, por sua vez, representa o conjunto
de variantes que se usa, para dizer essa “mesma coi-
sa” de formas diferentes. Vejamos isso citando o
exemplo trazido por Tarallo (1994, p. 9), referente
à variação na marcação do plural no sintagma no-
minal (SN) em português. No caso, as três varian-
tes mostradas abaixo constituem, conjuntamente,
a variável “marcação de plural no SN”.
De acordo com Bagno (2007, p. 50),
“uma variável sociolinguística é algum elemento da língua,
alguma regra, que se realiza de maneiras diferentes, confor-
me a variedade linguística analisada”.
O estudo dessas regras variáveis constitui o inte-
resse central da sociolinguística, incluindo a de-
terminação da frequência de uso de cada variante
contida na variável.
E ainda, o termo variável é utilizado em sociolin-
guística em dois sentidos diferentes. No sentido
de designar formas linguísticas usadas alternativa-
mente para dizer a mesma coisa, como o exemplo
acima, consideramos que se trata de uma variável
dependente, pois o emprego de cada variante que a
compõe é determinado ou influenciado por gru-
pos de fatores de caráter social ou estrutural.
A esses fatores, que podem ser externos à língua,
tais como sexo, idade, origem geográfica, status so-
cioeconômico, atividade profissional, escolaridade
e relação com redes sociais, denominamos de vari-
1. As meninas bonitas
2. As meninas bonita
3. As menina bonita
variável variantes
10 Capítulo 1
áveis independentes. Nesse sentido, como lembra Mollica (2008), o termo variável pode designar tanto um
fenômeno em variação (marcas de plural no SN, como exemplificado) como o grupo de fatores responsável
por regular o uso de uma ou outra variante. No exemplo dado, um fator que condiciona fortemente o uso
do item 1 (“as meninas bonitas”) é a escolaridade, entre outros.
Por fim, o termo variedade linguística compreende as diversas ramificações ou formas de usar uma deter-
minada língua, ligadas a grupos sociais ou a regiões geográficas específicos, por exemplo, configurando
aproximadamente o que em outros tempos ou lugares se chamaria de dialetos. Pensando na língua por-
tuguesa, podemos afirmar que ela não é falada de uma única forma em todos os países que a têm como
idioma, tampouco é falada de uma maneira única no Brasil. Identificamos sem muita dificuldade falares
que caracterizam regiões brasileiras como o nordeste ou o sul, para citar apenas essas duas regiões tão
diferentes entre si. As dificuldades na fala não dizem respeito apenas ao sotaque, mas também a aspectos
propriamente linguísticos e discursivos de variada natureza. Gaúchos e nordestinos usam o pronome tu,
por exemplo, de modo totalmente diferente. Poderíamos, portanto, nos referir a uma variedade gaúcha do
português brasileiro, bem como a uma variedade nordestina dessa mesma língua.
Variedade, portanto, é um dos muitos “modos de falar” uma língua, no dizer de Bagno (2007). Conforme
o autor, as variedades de uma língua podem ser identificadas em grande número. Por exemplo, o modo de
falar dos homens acima de 40 anos, com curso superior completo, renda acima de dez salários mínimos
e moradores da zona sul do Rio de Janeiro constitui uma variedade específica da língua portuguesa (p.
47). A língua, tomada globalmente, constitui um grande feixe de variedades, todas elas com características
próprias que as diferenciam entre si.
As diversas variedades não podem ser subdivididas entre “certas” e “erradas”, “bonitas” e “feias” ou “ricas”
e “pobres”. Todas as variedades são perfeitamente funcionais e capazes de atender às necessidades comu-
nicativas de seus falantes. Eventuais julgamentos sobre o valor pretensamente maior de uma variedade em
relação a outra são de natureza apenas social e cultural, nada tendo a ver com os atributos exclusivamente
linguísticos de cada uma.
Ainda conforme Bagno (2007, p. 48), as variedades linguísticas podem ser classificadas em dialetos, socio-
letos, cronoleto e idioleto, embora se trate de termos nem sempre usados pelos especialistas. Dialeto corres-
ponde ao modo de usar a língua em um determinado lugar ou região. Socioleto se refere ao modo de falar
de um grupo de falantes caracterizado por uma mesma herança sociocultural (classe econômica, grau de
escolaridade, profissão etc.). Já o modo de falar característico de uma determinada faixa etária é chamado
de cronoleto, enquanto o termo idioleto, por fim, designa o modo característico de falar de um determina-
do indivíduo. Dialeto seria, pois, uma variedade regional da língua, enquanto socioleto seria a variedade
social, cronoleto, a variedade generacional e idioleto, a variedade individual.
4.	Variação e
Heterogeneidade
Linguística
Que as línguas variam, é um
fato. Como argumenta Beline
(2007), basta pensar inicialmen-
te nas línguas faladas em todo
o mundo. Sabemos que se fala
português no Brasil, em Portu-
gal e nas outras seis nações que
compõem a chamada Comuni-
dade dos Países de Língua Portu-
guesa (confira no mapa).
Fonte:http://www.cplp.org/id-22.aspx
Figura 2: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
11Capítulo 1
Entretanto, se pensarmos nos demais países, mes-
mo naqueles que são vizinhos do Brasil, sabemos
que falam outras línguas, como o espanhol, por
exemplo. No próprio Brasil, muitas outras línguas
são faladas além do português: as línguas indígenas
(cerca de cento e oitenta!), as línguas de imigrantes
italianos, alemães, japoneses etc.
Olhando o fenômeno um pouco mais especifica-
mente, também não temos dificuldade em per-
ceber que a fala de paulistanos não é igual à de
baianos, nem de amazonenses igual à de cariocas.
São de conhecimento geral casos de variação lexi-
cal como usar macaxeira, aipim ou mandioca para se
referir ao mesmo alimento, dependendo da região
e do falante. É interessante notar, no entanto, que
a variação não impede que os mais diferentes falan-
tes de português se entendam entre si, nem impe-
de que se sintam falando essencialmente a mesma
língua, apesar da diversidade e heterogeneidade
desta.
Não há dúvida de que as línguas variam, que não
falamos (nem escrevemos) todos da mesma ma-
neira. Nosso uso da língua varia em aspectos que
vão desde a pronúncia (fonética) até a sintaxe e o
vocabulário (léxico). Pode até ser que nem todos
percebam ou admitam esse fato.
Conforme Bagno (2007), para pessoas formadas
em uma tradição educacional como a nossa, cujas
raízes, no que tange à língua, remontam a uma lon-
ga história de estudos clássicos, ligados à escrita e à
literatura em especial,
“só merece o nome de língua um conjunto muito parti-
cular de pronúncias, de palavras e de regras gramaticais
que foram cuidadosamente selecionadas para compor... [a]
norma-padrão, isto é, o modelo de língua ‘certa’, de ‘bem
falar’” (p. 35).
Para se entender a variação como fenômeno uni-
versal das línguas naturais e, particularmente, da
língua portuguesa, esse tipo de mentalidade, in-
felizmente muito generalizada, não serve, porque
reduz a língua a algo muito mais simples do que ela
é, além de ser uma mentalidade preconceituosa.
Ao contrário do que diz toda uma tradição de estu-
dos sobre a língua, e apesar de todo um conjunto de
mídias sociais que divulgam e mantêm a noção de
uma língua única, que teoricamente seria usada de
uma só maneira “certa”, a verdade é que a língua é
“heterogênea, múltipla, variável, instável e está sempre em
desconstrução e reconstrução” (BAGNO, 2007, p. 36).
Apesar de que pensar na língua como um comple-
xo sistema de práticas comunicativas e discursivas,
realizado de formas diferentes, por pessoas dife-
rentes e em contextos diferentes, é muito menos
confortável que alimentar a ilusão de uma norma-
-padrão geral, aplicável a todos, o fato de que as
línguas variam não é um problema. Pelo contrário,
o fenômeno da variação linguística é decorrência
natural da própria complexidade da vida humana.
Assim, nossa língua é complexa porque nós, como
pessoas e como civilização, somos seres complexos.
Essa complexidade, também no que diz respeito à
língua, longe de configurar um problema, repre-
senta a riqueza desse patrimônio de todos os bra-
sileiros, que é a língua nacional. Por outro lado, a
variação e a heterogeneidade linguística correspon-
dem a uma marcante heterogeneidade e até desi-
gualdade social. Não é à toa que um dos fatores
que condicionam ou interferem na variação é pre-
cisamente a escolaridade, num contexto social em
que nem todos os cidadãos têm acesso à educação
de qualidade nos níveis básico e superior.
A sociolinguística, por conseguinte, procura rela-
cionar conhecimento e pesquisa científica sobre a
língua com os múltiplos contextos sociais em que
a língua é utilizada. Dessa forma, se torna uma área
de estudos capaz de contribuir diretamente para a
aplicação do conhecimento científico à vida real
e diária das pessoas, especialmente no tocante ao
ensino e à formação da mentalidade dessas pessoas
sobre a língua que falam.
5.	Nem Tudo na Língua Varia, Nem
Varia de Qualquer Jeito
Embora a variação possa se verificar em qualquer
nível da língua, nem tudo na língua varia. Só é
possível falar de língua porque muitas das suas ca-
racterísticas são estáveis e organizadas. Em outras
palavras, a língua possui uma gramática, entendida
como um conjunto ordenado de regras que defi-
nem seu funcionamento. As diversas variedades da
língua, apesar de suas diferenças mútuas, também
concordam com respeito a funcionarem segundo
regras bem definidas, devendo-se entender regras,
aqui, como um conjunto de conhecimentos que os
12 Capítulo 1
falantes detêm, e que organizam a maneira como
esses falantes usam a língua, independentemente
de terem passado pela escola.
Bagno (2007, p. 49-50) apresenta alguns exemplos
de fenômenos em que a língua portuguesa do Bra-
sil não mostra sinais de variação. Vamos a eles:
•	 A consoante /f/ não apresenta diferença de
pronúncia em nenhuma variedade regional
ou social da língua portuguesa, ao contrário
de /s/, que pode ser pronunciado como [s], [z]
ou até [x], dependendo do contexto fonético
ou de características regionais.
•	 O artigo definido é sempre colocado antes do
substantivo a que se refere (“a casa”) e nunca
depois, por menos escolarizado que seja o fa-
lante (ninguém diz “casa a”).
•	 O pronome oblíquo fica sempre junto do ver-
bo, não admitindo um elemento intercalado:
dizemos “Ana me sustentou durante muito
tempo”, mas não “Ana me durante muito tem-
po sustentou”.
•	 Os verbos regulares, na primeira pessoa do
singular do presente do indicativo, sempre ter-
minam em –o (“amo”, “bebo”, “parto”) e não
variam como na primeira pessoa do plural, por
exemplo, quando podemos ter “amamos” ou
“amamo”.
•	 Em qualquer variedade do português, o verbo
gostar é sempre seguido da preposição de: todos
dizem “eu gosto de laranja”, e não “eu gosto
laranja”.
Por não apresentarem variação, esses exemplos se
enquadram no que chamamos de regras categóri-
cas, pois pertencem ao repertório comum de todos
os falantes brasileiros, independentemente de clas-
se social, escolarização, origem regional ou quais-
quer outros fatores. Já nos casos em que há possi-
bilidade de variação, como na marcação do plural
em “as meninas” x “as menina”, dizemos que se
trata de uma regra variável, ou simplesmente vari-
ável, pois dependendo de certos fatores, qualquer
uma das duas formas pode ocorrer em português.
Outro ponto importante é que a variação não é
aleatória, isto é, não se trata de um fenômeno de-
sordenado. A variação é organizada e estruturada
por uma série de fatores linguísticos e sociais. Para
compreender bem essa ideia, faça o que se pede:
Pronuncie cuidadosamente cada uma das palavras:
raspa x rasga
escama x esgana
fisco x fisgo
Agora, leia de novo as palavras prestando atenção
no som do /s/ em cada uma delas.
Você percebeu a diferença entre o /s/ das
palavras da primeira coluna e o /s/ da
segunda coluna?
Na verdade, apesar de a letra, na escrita, ser
a mesma, no primeiro caso a pronúncia é [s],
mas na segunda coluna de palavras a pronúncia
muda para [z]. Por quê?
Se você é um bom observador, e já está pegando
o jeito de pesquisador em linguística, então notou
que, na primeira coluna, o /s/ vem sempre antes
de uma consoante /k/, que é foneticamente surda,
assim como o próprio /s/. Já na segunda coluna,
o /s/ vem seguido de /g/, uma consoante sonora.
Esse contexto fonológico determina a diferença de
pronúncia do /s/, criando uma interessante regra,
que se traduz em maior conforto para o nosso siste-
ma fonador. A regra poderia ser escrita assim:
Sempre que vier antes de uma consoante surda, o
/s/teráapronúnciasurda[s];quandoprecederuma
consoantesonora,o/s/teráapronúnciasonora[z].
Essa regra, apesar de provavelmente não fazer
parte de nenhum livro de gramática da língua
portuguesa do Brasil, é dominada e seguida por
todos os brasileiros. Trata-se um caso de variação
linguisticamente condicionada, não dependendo
de fatores sociais como escolaridade, classe social,
sexo ou qualquer outro.
No entanto, é possível ouvir, em nossa língua, ou-
tras pronúncias para palavras como essas. Vamos
rever o quadro, considerando a possibilidade das
seguintes pronúncias para cada palavra:
raspa x rasga
[raxpa] x [rajga]
escama x esgana
[ixkama] x [ijgana]
13Capítulo 1
Você já ouviu alguém falar assim?
Provavelmente, sim e, nesse caso, você seria
capaz até de dizer de que região do país essa
pessoa que fala “chiando” vem, não é mesmo?
Estamos, portanto, diante de um caso de variação
condicionada por fatores externos à língua; nesse
caso, a procedência regional. Podemos, com boa
razão, desconfiar de que nosso falante vem do Rio
de Janeiro, onde, na opinião de quem não nasceu
lá, as pessoas “falam chiando”.
Tanto as possibilidades de pronúncia determina-
das e limitadas por fatores linguísticos como as
possibilidades alternativas condicionadas por fato-
res sociais (regionais ou outros) são parte legítima
das possibilidades mais amplas da língua. Em to-
dos os casos, trata-se de riqueza e de complexidade
da língua, e nunca de “erro” ou de “ignorância”
dos falantes. É isso que torna a língua fascinante.
Como afirma Bagno (2007, p. 43), a língua é:
Um sistema que possibilita a expressão de um mesmo
conteúdo informacional através de regras diferentes, todas
igualmente lógicas e com coerência funcional... E mais fas-
cinante ainda: um sistema que nunca está pronto, que o
tempo todo se renova, se recompõe, se reestrutura, sem
todavia nunca deixar de proporcionar aos falantes todos os
elementos para sua plena interação social e cultural.
Vemos, portanto, que a língua varia, mas não varia
de qualquer forma. A língua é regrada, no sentido
de que é organizada e ao mesmo tempo flexível. A
gramática de cada língua oferece um conjunto de
possibilidades de como se dizer alguma coisa, ao
mesmo tempo em que limita essas possibilidades
de forma bem ordenada e sistemática.
6. O Vernáculo Brasileiro
A sociolinguística, ao contrário dos estudos mais
tradicionais sobre a linguagem, opera fortemente
e até prioritariamente com a modalidade falada da
língua, sem deixar, é claro, de investigar os fenô-
menos de seu interesse também na escrita. Nesse
sentido, os sociolinguistas referem-se à modalida-
de falada da língua como o vernáculo, entendido
como
“o veículo linguístico de comunicação usado em situações
naturais de interação social, do tipo comunicação face a
face” (TARALLO, 1994, p. 19).
Portanto, como lembra Bagno (2007), o termo ver-
náculo é usado, em sociolinguística, numa acep-
ção marcadamente diferente do sentido que lhe
é atribuído nos dicionários de língua portuguesa.
Segundo o Dicionário Aurélio Século XXI, por
exemplo, vernáculo designa a “linguagem genuína,
correta, pura, isenta de estrangeirismos”, ou ain-
da, num sentido mais neutro, vernáculo seria si-
nônimo de “próprio da região” ou “nacional”. No
entanto, William Labov (citado por Bagno, 2007,
p. 51) utilizou o termo num sentido técnico como
“o estilo em que se presta o mínimo de atenção ao
monitoramento da fala”.
De acordo com Tarallo (1994), falar de vernácu-
lo é falar da língua conforme usada em situações
bastante informais, como a interação com amigos
e familiares, em casa, nos bares, clubes, parques,
corredores da escola ou da faculdade. É a língua
como falada entre parentes, amigos, namorados e
outros. Característica do vernáculo é que ele é fala-
do sem a preocupação de “falar certo”. É diferente
de quando falamos diante de autoridades como
professores, patrões ou outras pessoas com a pre-
ocupação de mostrar que sabemos usar a língua.
Embora não despreze, de forma alguma, outros
materiais linguísticos, a sociolinguística prefere
trabalhar, em suas análises, com materiais prove-
nientes do vernáculo. A ideia é que fica mais fácil
compreender a variação, por exemplo, se os dados
linguísticos analisados tiverem sido produzidos
em situações espontâneas, quando os falantes não
estavam pensando em falar “corretamente”, mas
estavam se expressando livremente em situações
reais de uso da língua. Segundo Bagno, o vernácu-
lo parece ser
“a fonte mais segura para a investigação dos fenômenos
de mudança linguística que afetam determinada língua num
dado momento histórico” (2007, p. 51).
O vernáculo, numa perspectiva de heterogenei-
dade linguística, não é único e indivisível. Cada
comunidade de fala ou grupo social apresenta seu
próprio vernáculo ou estilo que, naquela variedade
linguística,
“representa a fala mais espontânea, menos monitorada,
que emerge sobretudo nas interações verbais com menor
grau de formalidade e/ou com maior carga de emotivida-
de” (BAGNO, 2007, p. 51).
14 Capítulo 1
A vantagem de se estudar o vernáculo é que ele
permite identificar quais são as regras efetivamente
vigentes na língua no momento da investigação, ou
seja, que usos linguísticos as pessoas estão realmen-
te praticando e quais regras estão sendo deixadas
de lado ou modificadas. Por exemplo, as pesquisas
sociolinguísticas mostram que os brasileiros quase
não usam mais os chamados pronomes oblíquos
de terceira pessoa (o, a, os, as), preferindo substi-
tuí-los por ele, ela, eles, elas. Confira abaixo:
1.	 Variante padrão, conservadora e de prestígio:
Comprei o livro, mas o esqueci em casa.
2.	 Variante não padrão, inovadora e estigmatiza-
da: Comprei o livro, mas esqueci ele em casa.
Fica claro para qualquer bom observador que a va-
riante 1, embora socialmente prestigiada, está em
processo de extinção na fala dos brasileiros. A va-
riante 2, embora estigmatizada, é a mais frequente
e provavelmente substituirá a variante padrão no
futuro.
O grande problema para a investigação do verná-
culo é representado pelo que Labov chamou de
“o paradoxo do observador”, que pode ser assim
traduzido:
Para ter acesso à grande quantidade de dados necessários
para a análise, o pesquisador precisa interagir diretamente
com os falantes. No entanto, como fazer isso sem que sua
presença afete a naturalidade (o caráter vernacular) da fala
dos seus informantes?
Posto de outra forma, como coletar a fala espontâ-
nea dos membros da comunidade pesquisada, se
eles sabem que sua linguagem está sendo analisa-
da pelo pesquisador? O problema se torna ainda
maior se considerarmos que a gravação não pode
Fonte:http://generalidadescotidianas.blogspot.
com/
Figura 3: Reflexos do vernáculo brasileiro
ser secreta, sem a ciência e a permissão dos infor-
mantes, pois isso traria implicações éticas negativas
para a pesquisa.
A solução que Labov encontrou para o dilema foi
coletar narrativas de experiência pessoal que colo-
cassem os informantes em situações de grande en-
volvimento emotivo, de modo que se desligassem
do fato de estarem sendo gravados ou observados.
Ao falarem de si e de acontecimentos pessoais mar-
cantes, a tendência dos falantes é serem mais es-
pontâneos e menos atentos às formas de expressão
linguística. Isso era ainda mais reforçado, nas pes-
quisas de Labov, por se induzirem narrativas que
envolviam forte carga de emotividade, mediante
perguntas como:
“Você já esteve numa situação em que
pensou que ia morrer?”.
Segundo Tarallo (1994, p. 22), os diversos módu-
los de perguntas incluíam os seguintes assuntos:
história pessoal do informante, jogos e brincadei-
ras de infância, brigas, namoros e encontros amo-
rosos, casamento, perigo de morte, medo, família,
religião, amigos, serviços públicos, violência, esco-
la, trabalho, esportes etc.
Investigações nessa linha têm um grande potencial
de colaboração com o ensino de língua portugue-
sa, uma vez que podem, entre outras coisas, indicar
o que deve ou não ser prioridade nos currículos,
ao definir as características do vernáculo brasilei-
ro em um determinado momento histórico. Seria
razoável, nessa linha, indicar os fenômenos linguís-
ticos de uso frequente na língua como prioritários
para o ensino; por outro lado, não seria indicado
insistir em ensinar aos alunos regras desusadas e
em extinção na língua.
Para os efeitos deste primeiro capítulo, bastam as
informações dadas até aqui com sua respectiva
problematização. No próximo capítulo, retornare-
mos ao tema da variação de uma forma bem mais
detalhada.
15Capítulo 1
ATIVIDADES |
Pesquise na internet e/ou em outras fontes so-
bre a obra de William Labov, conhecido como
o pai da sociolinguística: quais foram as prin-
cipais pesquisas que ele realizou e que livros
publicou? Como você avalia a contribuição de
Labov para a sociolinguística e, por extensão,
para a compreensão e o ensino de língua por-
tuguesa?
REFERÊNCIAS
BAGNO, Marcos. Nada na língua é por aca-
so: por uma pedagogia da variação linguística.
São Paulo: Parábola, 2007.
BELINE, Ronald. A variação linguística In: FIO-
RIN, J. L. (Org.) Introdução à linguística. I. Ob-
jetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2002. p.
121-140.
CALVET, Louis-Jean. Sociolinguística: uma in-
trodução crítica. São Paulo: Parábola, 2002.
MOLLICA, Maria Cecilia. Fundamentação teó-
rica: conceituação e delimitação. In: MOLLICA,
Maria Cecilia; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.). In-
trodução à sociolinguística: o tratamento da
variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2008. p.
9-14.
TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguísti-
ca. 7. ed. São Paulo: Ática, 2005.
SAIBA MAIS!SAIBA MAIS!
Para aprofundar o conteúdo deste ca-
pítulo e ampliar seus conhecimentos
sobre a disciplina sociolinguística como
um todo, além de textos de divulgação
e trabalhos científicos disponíveis na In-
ternet, sugiro as seguintes leituras:
•	 Uma boa síntese introdutória se en-
contra no livro de Fernando Tarallo,
A pesquisa sociolinguística, da Série
Princípios, publicado pela editora
Ática. Além das informações gerais
sobre a disciplina, o livro, pequeno
e de fácil leitura, oferece passos e
sugestões metodológicas para a
pesquisa na área.
	
•	 De uma natureza diferente, mas
igualmente relevante, é o livro de
Louis-Jean Calvet, Sociolinguística:
uma introdução crítica, publicado
pela editora Parábola. O livro, tra-
duzido do francês, apresenta a dis-
ciplina numa perspectiva europeia,
não se restringindo à explicação da
teoria, mas abordando-a de forma
crítica como diz o subtítulo.
RESUMO
Neste capítulo, tivemos um primeiro contato com a sociolinguística e seus principais con-
ceitos. A intenção, nesse primeiro momento, foi apresentar a disciplina como uma das
vertentes mais relevantes e atuais da pesquisa em linguística no Brasil e também no mundo.
Depois de algumas informações sobre as origens da sociolinguística, bem como sobre o
fundador da sociolinguística como disciplina contemporânea, William Labov, aprendemos
um pouco sobre os interesses da área, concentrados principalmente na fala vernacular do
português brasileiro e girando em torno da noção de variação linguística. Conceituamos,
por conseguinte, as noções de variação, variante, variável e variedade linguísticas, além
de discutirmos o importante conceito de vernáculo. Vimos que a variação, embora seja um
fenômeno extremamente comum e recorrente na língua, não é um fenômeno aleatório e
desordenado. Como resultado das discussões encetadas neste capítulo, concluímos que
os estudos variacionistas podem apresentar uma expressiva contribuição para o ensino da
língua portuguesa no Brasil.
17Capítulo 2Capítulo 2Capítulo 2
Objetivos Específicos
•	 Conhecer os tipos ou modalidades de variação linguística.
•	 Compreender os fatores extralinguísticos determinantes da variação.
Introdução
O ensino tradicional de língua portuguesa, reforçado pelos meios de comunica-
ção, formou e alimenta a ideia de língua como um bloco uniforme e homogêneo.
Como vimos no Capítulo 1, hoje é necessário reconhecer que a língua não é
uniforme nem homogênea, mas essencialmente variada e variável. Conforme
Bagno (2007), a língua é um “substantivo coletivo”, pois se refere a um vasto
conjunto de realizações possíveis pelos seus falantes. Para Ilari e Basso (2006), a
uniformidade da língua portuguesa é pelo menos parcialmente um mito que foi
alimentado por fatores como o nacionalismo, uma visão reducionista do fenôme-
no linguístico e uma insensibilidade para com a variação.
A realidade da variação não é exclusividade do português brasileiro, nem do
português europeu, como podemos ver pelas palavras do escritor José Saramago
(citado por Bagno, 2007, p. 39): “Quase me apetece dizer que não há uma lín-
gua portuguesa, há línguas em português”. Além de ser um fenômeno natural
em português e em qualquer outra língua, a variação também é um fenômeno
complexo, que se manifesta de diversas formas. A seguir, veremos em detalhes
que formas são essas.
1. Níveis Linguísticos da Variação
De acordo com Bagno (2007), a variação pode ocorrer, em princípio, em todos
os níveis da língua, do fonético/fonológico ao morfológico, sintático, semântico,
lexical e estilístico-pragmático. Vejamos cada um desses níveis, seguindo de perto
a abordagem de Bagno (2007, p. 39-40):
•	 Variaçãofonético-fonológica:empalavrascomoportaoutorta,ortemdiversas
pronúncias no português brasileiro. Entre as regiões nordeste e sudeste, nota-
A Variação Linguística:
Tipologia
Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra
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18 Capítulo 2
mos também uma diferença na pronúncia de o
e e em palavras como movimento e coletivo (sons
abertos no nordeste e fechados no sudeste).
•	 Variação morfológica: o Dicionário Aurélio
Século XXI apresenta formas como pegajoso,
peguento e pegajento como sinônimos, embora
formados com sufixos diferentes.
•	 Variação sintática: as frases abaixo têm o mes-
mo sentido, embora varie a forma como seus
constituintes são organizados:
	 1.	 Uma história que ninguém prevê o final.
	 2.	 Umahistóriaqueninguémprevêofinaldela.
	 3.	 Uma histórica cujo final ninguém prevê.
•	 Variação semântica: palavras como vexame
significam coisas diferentes dependendo da
região em que são utilizadas: “vergonha/emba-
raço” ou “pressa”.
•	 Variação lexical: usamos palavras diferentes
para dizer a mesma coisa: cachaça, cana ou
aguardente; aipim, mandioca ou macaxeira; jeri-
mum ou abóbora.
•	 Variação estilístico-pragmática: Dependendo
da situação de uso e de fatores como o grau
de formalidade e a intimidade que tem ou não
tem com seus interlocutores, a mesma pessoa
pode usar os seguintes enunciados:
	 1. Queiram se sentar, por favor.
	 2. Senta aí, galera.
2. Tipologia da Variação
Linguística
Conforme Ilari e Basso (2006), a variação linguís-
tica classifica-se em diacrônica, diatópica, diastrática e
diamésica. Bagno (2007) acrescenta ainda a noção
de variação diafásica. A seguir, veremos o que signi-
fica cada uma delas.
2.1 Variação Diacrônica
Literalmente, o termo diacrônico, derivado do idio-
ma grego, significa “através do tempo”. O tempo
é, portanto, um importante fator de variação: toda
língua varia e muda com o passar do tempo. O
pesquisador pode mensurar a variação diacrônica
por meio de duas estratégias: a primeira é o tempo
aparente, em que a investigação se concentra em di-
ferentes faixas etárias, o que permite chegar a con-
clusões sobre o status da língua nos diferentes mo-
mentos refletidos pelas experiências das gerações.
Nesse caso, o estudo consiste em examinar um
“recorte transversal da amostra sincrônica em fun-
ção da faixa etária dos informantes” (TARALLO,
1994, p. 65).
Ilari e Basso (2006) apresentam alguns exemplos.
Um deles é: somente os mais velhos compreendem
a expressão “estar de bonde” como significando “es-
tar com a namorada”. Outro exemplo de variação
verificável em tempo aparente diz respeito ao sen-
tido do verbo ficar como sinônimo de um tipo de
relacionamento afetivo passageiro e sem compro-
misso, sentido fácil de entender para os adolescen-
tes, mas muito estranho para os adultos e idosos.
Caso desejasse observar in loco fenômenos de varia-
ção e mudança linguística, usando a estratégia do
tempo real, o pesquisador teria que, por exemplo,
acompanhar a evolução dos falantes da adolescên-
cia até idade adulta e, assim, verificar que fenôme-
nos se manifestariam e como. Em vez disso, que
dificilmente seria viável, os pesquisadores podem,
na falta de gravações de voz, lançar mão de docu-
mentos do passado que potencialmente reflitam o
vernáculo vigente no momento histórico desejado.
O essencial, como ressaltam Ilari e Basso (2006), é
não pensar na língua como um conjunto de formas
estabelecidas em caráter definitivo no passado, por
obra de algum tipo de “assembleia de sábios”, e
sim ver a língua como uma entidade dinâmica e
em constante mudança. A língua que falamos hoje
é resultado de diversas mudanças ocorridas no pas-
sado, em momentos distintos, além de apresentar
formas ainda em concorrência ao lado de expres-
sões provenientes de diferentes momentos históri-
cos. Confira a seguir um pequeno recorte de um
exemplo apresentado pelos autores (p. 154):
São Paulo, 1830
Hontem pela manhãa se me enviou um negro do gentio de
Guiné, muito boçal, e trajado à maneira dos que vem em
comboi, e se me dice, foi pegado, vagando como perdido...
Neste texto do século dezenove, a palavra boçal sig-
nificava que o negro ainda não estava totalmente
aculturado e não falava a língua portuguesa com de-
19Capítulo 2
senvoltura. Significado, portanto, muito diferente
do atual. O conceito de variação diacrônica ressal-
ta, nesse caso, o papel do tempo como fator decisi-
vo para a alteração do sentido da palavra. Note que
não estamos considerando especificamente a gra-
fia da língua, que muda por decreto de tempos em
tempos, mas o termo como representado na fala e
seu respectivo conceito. Não seria difícil, assim, en-
contrar outros exemplos de palavras e expressões
que mudam de conotação com o passar dos anos.
2.2 Variação Diatópica
Ao contrário da variação diacrônica, que está rela-
cionada com diferenças de usos linguísticos verifi-
cados com o passar do tempo, a variação diatópica
(termo derivado do grego, significando “através do
lugar”) se refere aos “modos de falar de lugares di-
ferentes” (BAGNO, 2007, p. 46). Esses lugares po-
dem ser países, regiões, estados ou os ambientes
rural e urbano, entre outros. Conforme Ilari e Bas-
so (2006, p. 157), a variação diatópica compreende
“as diferenças que uma mesma língua apresenta na
dimensão do espaço”, por ser falada por pessoas
situadas em diferentes pontos geográficos de um
país ou de países diferentes.
No que diz respeito à língua portuguesa, a variação
diatópica, em seu sentido mais amplo, se dá pelas
diferenças verificáveis entre o chamado português
europeu (PE) e o português brasileiro (PB). Algu-
mas pessoas, sejam elas estudiosas da linguagem
ou não, defendem que hoje não falamos mais o
português, e sim o “brasileiro”, pois não se trataria
mais da língua trazida por nossos colonizadores,
mas de uma nova língua formada em nosso país
com a contribuição de outras culturas.
Seja qual for nossa
opinião sobre esse
assunto, o fato é que
as diferenças entre o
português conforme
falado (e até escrito)
em Portugal e nas
antigas colônias lusi-
tanas da África e da
Ásia e o português
falado (e escrito) no
Brasil são numero-
sas e inegáveis. Essas
diferenças são pro-
fundas o suficiente
para exemplificar com clareza a noção de variação
diatópica. Ilari e Basso (2006) alistam os seguintes
contrastes entre o PE e o PB:
•	 Na fonética/fonologia, o PE se caracteriza pelo
enfraquecimento das vogais pretônicas, pela
pronúncia do /R/ como vibrante múltipla e
pelo /l/ com pronúncia velarizada em final de
sílaba; no PB, o /l/ é substituído pela semivo-
gal /w/, no mesmo contexto.
•	 Ao contrário do PB, que admite construções
iniciadas por pronomes clíticos, como em Me
dá um cigarro, o PE não admite tais construções.
•	 Em PE, usa-se o pronome si como anafórico de
pronomes de tratamento, como em Doutor, esta
carta é para si; em PB, usa-se outra expressão de
tratamento: Doutor, esta carta é para o senhor.
•	 PE e PB usam expressões diferentes para a no-
ção de continuidade manifesta pelo verbo: Não
estou a perceber (PE) x Não estou percebendo (PB).
•	 O PE usa expressões condicionais como Se eu
sabia, eu vinha, que é discriminada em PB culto.
•	 Há numerosas diferenças de vocabulário en-
tre PE e PB. Citemos apenas alguns substanti-
vos: grossista/atacadista, cerveja de pressão/cho-
pe, rapariga/moça, SIDA/AIDS, casa de banho/
banheiro etc.
•	 O PE usa palavras próprias da língua em situa-
ções nas quais o PB recorre a empréstimos do
inglês: arca frigorífica/frízer.
Muito interessante, na variação entre o PE e o
PB, são as diferenças entre expressões idiomáticas
como as referidas no quadro:
PE PE/PB PB
Teimoso feito um burro Teimoso como uma mula Teimoso que nem a mulher do piolho
Falar como uma gralha Falar pelos cotovelos Falar mais que o homem da cobra
Comprar a troco de reza Comprar por uma pechincha
na bacia das almas
Comprar por uma micharia/ninharia
Chover a potes Chover a cântaros Chover canivetes
Feio como os trovões Feio de doer Feio como a mulher do guarda
Surdo para além do estúpido Surdo como uma porta Surdo feito um muro
Pescar um marido Arranjar um marido Fisgar um marido
Apanhar pela medida grande Apanhar Apanhar como cachorro sem dono
Comer como um pisco Comer Comer como um passarinho
Dormir como um prego Dormir como uma pedra Dormir como gato de hotel
20 Capítulo 2
Quanto à língua portuguesa no Brasil, a variação
é um fenômeno inegável, embora não impeça que
brasileiros de diferentes regiões entendam-se mu-
tuamente. Ou seja, ao lado da variação, existe uni-
dade suficiente para que a língua se afirme como
patrimônio de todos os brasileiros. Infelizmente, a
variação é quase sempre identificada em termo de
estereótipos, com expressiva dose de preconceito:
a fala nordestina, o sotaque baiano, cearense ou
paraibano, ao lado do dialeto caipira do sul e su-
deste do país, são costumeiramente descritos como
formas exóticas e de algum modo desviantes no
português brasileiro, em vez de serem vistos como
manifestação da riqueza e complexidade da língua.
Nesse trecho, note que o numeral dez é grafado
déiz, marcando uma diferença inexistente entre a
fala caipira e a fala culta. A maioria, se não todos,
os falantes brasileiros pronunciam a palavra assim,
apesar da escrita oficial. Não se trata de um fenô-
meno da fala caipira, mas de uma característica ge-
ral do português brasileiro. Noutros casos, como
trabaiá, vemos de fato uma variação em relação à
forma trabalhar, no que diz respeito ao segmento
/lh/, substituído por /i/. No entanto, a pretensa
variação relativa ao apagamento do /r/ final não é
exclusiva da fala caipira, e sim uma marca da maior
parte das variedades, inclusive cultas, do português
por todo o Brasil. Esse fato evidencia como a varia-
ção quase sempre é vista como exótica e é frequen-
temente objeto de preconceito social.
Independentemente disso, a variação diatópica no
português brasileiro é uma realidade e pode ser
exemplificada em diversos níveis de uso da língua.
Vejamos alguns exemplos de forma sistemática:
a.	 Aspectos lexicais: dependendo da região, o
mesmo conceito pode ser expresso por pala-
vras diferentes:
	 lanternagem = funilaria
	 macaxeira = aipim = mandioca
	 venda = bodega = mercearia = quitanda
	 jerimum = abóbora
	 fruta do conde = pinha = ata
	
b.	 Aspectos idiomáticos: há expressões regionais
que praticamente configuram um falar local
próprio, que dificilmente pode ser entendido
até mesmo de um estado para outro na mesma
região. Por exemplo, expressões como “tá com
a bobônica!” ( tá com a peste!, tá danado!, entre
muitos outros sentidos possíveis) parecem mui-
to típicas de Pernambuco. Na verdade, ouvi a
expressão pela primeira vez em Garanhuns, no
Agreste Meridional do estado. Não me lembro
de ter ouvido alguém falar assim antes, em
quinze anos de Recife (também é verdade que
uma pesquisa rápida na Internet mostra hoje
um uso relativamente intenso da expressão em
uma mídia que não respeita fronteiras regio-
nais). Nessa mesma linha, grande é a riqueza
de nosso idioma. Provavelmente, para enten-
der expressões como “só o mie (desbuiado)” (= só
o milho debulhado), significando algo muito
bom, muito legal, ou até mesmo uma garota
muito bonita, precisa ser cearense e/ou ter
Deve-se ressaltar também que muitos textos que se
propõem mostrar variedades populares do portu-
guês são construídos de forma caricatural, exage-
rando em muito a variação real. Apresentam a fala
popular de forma exageradamente divergente da
norma culta, enxergando como variação caipira o
que característica do português em geral. Podemos
citar como exemplo alguns termos retirados de
parte da letra da música “Couro de boi”, composta
por Teddy Vieira e Palmeira:
Conheço um velho ditado que é dos tempos dos
zagais,
Diz que um pai trata déiz fio, déiz fio num trata
um pai,
Sentindo o peso dos anos, sem podê mais trabaiá,
O véio peão estradeiro, com o seu fio foi morá,
O rapaiz era casado, e a muié deu de impricá,
Você mande o veio imbora, se não quisé que eu vá,
O rapaiz coração duro, com véinho foi falá.
Fonte:http://blog.educacional.com.br/glaucegram/tag/portugues/
Figura 1: Dialeto caipira
21Capítulo 2
vivido algum tempo em Fortaleza. Daí o sen-
tido não só folclórico dos muitos dicionários
regionais que, infelizmente, na maioria das ve-
zes são construídos apenas como curiosidades
humorísticas.
O mapeamento sistemático das variações e sua
distribuição regional está na base dos projetos cha-
mados de atlas linguísticos. Vários deles se encon-
tram disponíveis ou em elaboração no Brasil há
alguns anos. Veja, no gráfico abaixo, uma ilustra-
ção do projeto Atlas Linguístico de Pernambuco, em
elaboração pelo pesquisador Edmilson Sá, douto-
rando em linguística na Universidade Federal da
Paraíba. Trata-se da análise estatística da ocorrên-
cia do termo utilizado por falantes nas faixas etária
de 18 a 30 e 50 a 65 anos para designar “a parte
roxa do cacho da banana” e mostra que, embora
predomine largamente o termo mangará, também
são utilizados outras sete palavras para designar a
mesma coisa.
c.	 Aspectos fonéticos/fonológicos: nas diversas
regiões brasileiras, é possível verificar variações
na pronúncia de diversos fonemas. Vejamos al-
guns casos mais evidentes e reconhecidos, lem-
brando sempre que alguns deles imediatamen-
te apontam para a região em que são falados e
não raro contribuem para atribuir prestígio ou
estigma (avaliação preconceituosa) aos seus fa-
lantes,embora,dopontodevistalinguístico,ne-
nhuma forma seja inferior ou superior à outra.
d.	 Aspectos morfossintáticos: o português bra-
sileiro, nas diversas regiões, apresenta modos
diferentes de realizar construções que apresen-
tam o mesmo sentido. Vejamos alguns casos:
mais /maiz/
/maish/
vamos /vamuz/
/vamu/
/ramu/
dente /denti/
/dentchi/
/dente/
Uso ou omissão de
artigo definido antes
de nomes próprios:
Ontem foi o casamento do Luís.
Ontem foi o casamento de Luís.
Uso de tu e você
como pronomes de
segunda pessoa:
Tu vais.
Tu vai.
Você vai.
Uso ou omissão do
pronome reflexivo:
Esta é a igreja onde ele congrega.
Esta é a igreja onde ele se congrega.
Fonte:http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-167591583-
orelio-cearense-andrea-saraiva-_JM
Figura 2: Dicionário regional:
Orélio Cearense
Fonte:http://alipeedmilsonjsa.blogspot.com/
Figura 3: Atlas Linguístico de Pernambuco
2.3 Variação Diastrática
Além das diferenças de uso no português falado
do ponto de vista temporal (variação diacrônica)
e do ponto de vista geográfico (variação diatópi-
ca), que são ricas e variadas, conforme vimos, ou-
tra importante diferença é a que se verifica entre a
fala das camadas mais escolarizadas da população
e as camadas menos escolarizadas. No caso brasi-
leiro, especificamente, notamos que essa diferença
também apresenta um aspecto socioeconômico: as
camadas mais escolarizadas são também as mais
ricas, e as menos escolarizadas, por sua vez, são as
mais pobres dentre a população brasileira.
Esse tipo de variação, que se encontra “quando se
comparam diferentes estratos de uma população”
(ILARI e BASSO, 2006, p. 175), chama-se, por
isso mesmo, de variação diastrática. Na definição
de Bagno (2007, p. 46), variação diastrática é “a
que se verifica na comparação entre os modos de
falar das diferentes classes sociais”. As variedades
22 Capítulo 2
do português brasileiro faladas pelas camadas não
escolarizadas ou menos escolarizadas da população
às vezes são chamadas, de modo bastante generali-
zante e talvez simplista, de “português subpadrão”,
“português sub-standard” ou ainda “português não
padrão”, por oposição ao “português padrão” das
classes altas e mais escolarizadas. No entanto, pare-
ce mais razoável admitir que o português brasileiro
realmente subsiste na forma de diversas variedades
não padrão, que se contrapõem a um padrão idea-
lizado que não corresponde à fala real de nenhum
grupo social existente.
De modo geral, algumas diferenças podem ser
apontadas entre as variedades não padrão e a varie-
dade padrão do português, nos diversos níveis de
realização da língua:
a.	 Nível fonético
fala de grande parte dos brasileiros hoje, indepen-
dentemente de classe social ou escolaridade. Por
esse mesmo raciocínio, efetivamente não existe
variação fonética entre as formas pió e pior, mas
apenas formas diferentes de representar na escri-
ta (frequentemente embutindo estereótipos) a fala
das classes populares e a fala das classes socialmen-
te favorecidas.
c.	 Nível sintático
Queda ou nasalização da vogal
átona inicial:
incelença x excelência
Queda de material fonético
após a vogal tônica:
figo x fígado
Ciço x Cícero
centimo x centímetro
quilomo x quilômetro
Monotongação de ditongos
crescentes:
sustança x substância
Uso de /i/ ou /l/ em vez de /lh/: foia x folha
muié/mulé x mulher
cuié/culé x colher
b.	 Nível morfológico
Perda da desinência
de número na primei-
ra pessoa:
nós cantamo/cantemo x nós
cantamos
Acréscimo de advérbio
de comparação a adje-
tivos já comparativos:
mais mió x melhor
mais pió x pior
Além dos aspectos destacados acima, já bastante
claros por si mesmos, cabe uma observação sobre
as formas mió (= melhor) e pió (= pior), constan-
tes do segundo exemplo. Deve ser ressaltado que,
nesse caso, a variação fonética subjacente é signifi-
cativamente exagerada pelo modo como as formas
populares são registradas na escrita.
Rigorosamente, para a maioria dos falantes em to-
das as regiões do Brasil, só existe variação fonética
no primeiro par (mió x melhor), e esta consiste na
omissão de /lh/ na variedade popular. A alteração
de /e/ para /i/ não é de forma alguma exclusiva
das classes populares, assim como a omissão do /r/
final igualmente se caracteriza como um marca da
Perda da con-
cordância ver-
bo-nominal na
terceira pessoa:
Os doce mais bonito é para as visita.
Os doces mais bonitos são para as visitas.
Uso de dupla
negação:
Ninguém não sabia de nada.
Ninguém sabia de nada.
Orações relati-
vas com varian-
tes cortadoras
ou copiadoras:
A casa que eu morei.
A casa que eu morei nela.
A casa em que eu morei.
Uso de prono-
mes do caso
reto como ob-
jeto:
Eu vi ele.
Eu o vi.
Quanto às diferenças verificadas entre as varie-
dades populares e as variedades cultas, também
é importante ressaltar que elas não são aleatórias
nem desorganizadas, mas são reguladas por uma
gramática com regras próprias, variáveis em rela-
ção ao padrão culto, mas igualmente legítimas no
sistema da língua portuguesa. Conforme ressaltam
Ilari e Basso (2006), quando tratamos das varie-
dades populares do português brasileiro, estamos
diante de outras possibilidades do mesmo código,
e não diante de erros ou desvios ocasionados por
uma pretensa incapacidade mental ou intelectual
de seus falantes.
Um problema sério para a comparação entre va-
riedades populares e variedades cultas é que as pri-
meiras se verificam quase exclusivamente na fala e
não na escrita. Quando encontramos as varieda-
des populares, representadas em textos escritos,
essa representação ou transcrição inevitavelmente
mostra uma tendência, fruto de estereótipos e até
de preconceitos, no sentido de caricaturar a fala
popular, exagerando suas diferenças em relação à
escrita padrão. Confira abaixo um exemplo disso
na transcrição de um trecho de entrevista entre
pesquisadora e menino de rua. Observe como se
transcrevem, respectivamente, a fala da pesquisa-
dora e a fala do adolescente.
23Capítulo 2
Pesquisadora: Você quer contar como os policiais
mataram o Adauto?
Menino: Nóis tava dormino lá em casa, às treis
hora da manhã, i os PM chegaro, deu um tiro
na porta, pegô na perna do “fulano” aí em se-
guida ez arrebentô a porta, aí deu oto tiro, pegô
na cabeça do Adauto, ez viro que tinha acertado
o Adauto. Falaro: “Vamo saí fora que certô o
menino aqui”...
O primeiro aspecto a observar é que, na repre-
sentação escrita da fala da pesquisadora, repre-
sentante das classes escolarizadas, o enunciado
segue rigorosamente o padrão ortográfico oficial,
ainda que, muito provavelmente, ela não pronun-
cie o /r/ final dos verbos quer e contar, seguindo a
tendência de grande parte, talvez da maioria, da
população brasileira hoje, independentemente de
grau de escolarização. A fala da representante das
classes mais favorecidas, portanto, é de certa forma
idealizada e aproximada artificialmente do padrão
ortográfico convencionalmente estabelecido.
Já na representação da fala do menino de rua, tí-
pico representante das classes não escolarizadas e
socialmente desfavorecidas, os indícios de variação
recebem forte acentuação na transcrição para a es-
crita, exagerando em muito a distância entre a fala
popular e o padrão culto. Se é verdade que formas
como dormino (= dormindo) e oto (= outro) repre-
sentam variantes mais ou menos populares, a rigor
não existe variação alguma em nóis (= nós) e treis
(= três), apesar de que a forma como as palavras
estão transcritas levam a essa impressão. Até o fa-
lante mais culto do português também pronuncia
assim essas palavras, sob pena de parecer pedan-
te e artificial caso não pronuncie a semivogal /i/
que, apesar de não existir na escrita, efetivamente
faz parte dessas palavras em nossa língua. Obser-
ve, portanto, como é difícil e, ao mesmo tempo,
importante desenvolver a capacidade de encarar
o fenômeno da variação linguística com um olhar
livre de preconceitos.
2.4 Variação Diamésica
Segundo Bagno (2007), a variação diamésica se
verifica na comparação entre a “língua falada” e
a “língua escrita” como “meios” de comunicação,
tendo a categoria de gênero textual como um con-
ceito fundamental. Conforme Ilari e Basso (2006),
trata-se de uma dimensão, às vezes, esquecida na
análise da variação, e está relacionada “aos vários
veículos e meios de expressão que a língua utiliza”
(p. 180).
Na ótica desses autores, a variação diamésica tem
a ver primeiramente com as “profundas diferenças
que se observam entre a língua falada e a língua es-
crita” (p. 181). Uma dessas diferenças diz respeito à
avaliação que as pessoas fazem de sua própria fala.
Por exemplo, ainda segundo os autores, as pessoas
dizem né, ocêis, dissero ou téquinico e pensam que
estão dizendo não é, vocês, disseram ou técnico. Em
outras palavras, muitos acham que falam da mes-
ma forma que escrevem.
Quando se trata de fala e escrita, os equívocos são
muitos e há espaço para muita confusão. A propó-
sito disso, acabamos de mencionar autores que se
referem à “língua escrita” e à “língua falada”. Ora,
rigorosamente, não existe língua escrita ou falada,
mas apenas língua. Escrita e fala não são tipos ou
espécies de língua, como se fossem dois sistemas
linguísticos em oposição. Só existe a língua; fala e
escrita são formas de representação dessa língua, e
não línguas em si mesmas. Acredito que os autores
citados concordariam com essa tese, mas a sua for-
ma de escrever sobre o assunto deixa margem para
confusão.
Fala e escrita, como modalidades de uso da lín-
gua, obviamente diferem entre si, mas não em ter-
mos dicotômicos, como bem ressaltou Marcuschi
(2001). Diferentemente da perspectiva dicotômi-
ca ainda advogada por Ilari e Basso (2006), pela
qual a escrita seria planejada e a fala não planeja-
da, Marcuschi chama a atenção para o contínuo
dos gêneros textuais em que a relação fala x escrita
acontece. Nesse contínuo, podemos encontrar tex-
Fonte:http://faarte2010.blogspot.com/2010/05/menas-o-
-certo-do-errado-o-errado-do.html
Figura 4: Diferenças fala x escrita
24 Capítulo 2
tos bem planejados tanto na fala como na escri-
ta. Pensemos, por exemplo, num artigo científico
(escrita) e num discurso de formatura (fala). Além
disso, a relação entre os gêneros textuais na fala e
na escrita não é estanque. O discurso de formatu-
ra, por exemplo, pode se apoiar em observações
escritas, no todo ou em parte.
O fundamental é que a variação não é exclusivi-
dade da fala. Tanto a fala como a escrita variam.
Parece certo que se pode afirmar a tese de que todo
uso da língua, em qualquer nível, gênero ou regis-
tro, em princípio está sujeito à variação. Então,
sempre que pensamos na fala como variável e na
escrita como estabilizada, não variável, na verdade
estamos pensando em determinados gêneros pro-
totípicos de uma ou outra modalidade e não na
fala e na escrita como um todo.
É razoável pensar que um bilhete, embora repre-
sente a escrita, esteja muito mais aberto à variação
do que uma apresentação oral acadêmica (fala). In-
versamente, uma conversa informal entre amigos
(fala) potencialmente apresentará mais variação
que uma ata de condomínio (escrita). Mais uma
vez, não se trata de oposição entre fala e escrita,
mas de formas diferentes de uso da língua, em di-
ferentes contextos sociais, em diferentes níveis de
formalidade ou informalidade e em diferentes gê-
neros textuais.
Portanto, não só os usos da fala e da escrita apre-
sentam características próprias, embora não dico-
tômicas, como também os gêneros textuais, dis-
tribuídos pelas duas formas de representação da
língua, igualmente variam em função de aspectos
como domínios discursivos (discurso político, dis-
curso jornalístico, discurso religioso etc.) e culturas
disciplinares e profissionais (informática, direito,
medicina, história, sociologia, linguística etc), en-
tre outros. Assim, a linguagem utilizada para es-
crever um artigo científico obviamente não será a
mesma empregada em bate-papos virtuais.
Como ressaltam Ilari e Basso (2006), os gêneros,
além de apresentarem marcas formais peculiares e
se guiarem por aspectos convencionais próprios,
também podem utilizar a língua de maneira bas-
tante específica, caracterizando o que os autores
chamam de “sublíngua”. O exemplo dado é o do
gênero boletim de ocorrência policial, em que são
empregadas expressões como “o carro procedia pela
mão de direção” ou “o elemento efetuou disparos contra
a autoridade policial”. De alguma forma, gêneros
tipicamente acadêmicos dificilmente são entendi-
dos por quem não faz parte da academia, assim
como gêneros do discurso jurídico raramente são
compreendidos por quem não é advogado ou juiz.
2.5 Variação Diafásica
Conforme Bagno (2007), por variação diafásica de-
vemos entender a noção de variação estilística, isto
é, “o uso diferenciado que cada indivíduo faz da
língua de acordo com o grau de monitoramento”
(p. 47) a que se submete ao longo de seu comporta-
mento verbal, em diversos contextos interacionais.
Embora menos desenvolvido na literatura, esse
ponto é importante por ressaltar o fato de que
até mesmo no nível individual não utilizamos a
língua sempre da mesma forma. Variamos nos-
sos usos de acordo linguísticos com situações de
maior ou menor informalidade, de mais ou menos
tensão emocional, de maior ou menor intimidade
com a situação comunicativa que estamos viven-
ciando, entre outros fatores. Para dar um exemplo
concreto: há situações em que nos sentimos mais
à vontade para falar “Encontrei ele na rua” em vez de
“Encontrei-o na rua”.
Isso mostra, adicionalmente, que a própria ocor-
rência da variação no nível individual se configura
como um aspecto da competência comunicativa
que desenvolvemos ao longo da vida, de modo
que, como bem ressalta Bagno, “não existe falante
de estilo único” (2007, p. 45). A língua varia, inclu-
sive no nível individual.
3. Variação e Preconceito:
Uma Relação Perigosa
A variação, embora categorizada como diacrôni-
ca, diatópica, diastrática, diamésica e diafásica,
não se dá a cada vez num desses formatos. Na re-
alidade, a variação é simultaneamente tudo isso.
Em outras palavras, numa só instância de uso da
língua é possível verificar variantes decorrentes
de aspectos temporais e geográficos, bem como
variantes relacionadas com grau de escolaridade,
classe social, modalidade de uso da língua, gêne-
ro textual utilizado e contexto de uso em que o
falante se encontra.
25Capítulo 2
A constatação da variação permite desfazer a ilu-
são da grande uniformidade da língua portuguesa.
Conforme Ilari e Basso (2006), foi na década de
1950 que essa ideia foi construída por estudiosos
que comparavam o português brasileiro especial-
mente com línguas europeias marcadas por gran-
des diferenças dialetais. Diante de certas situações
linguísticas que caracterizam países da Europa
como Itália, Alemanha, Portugal, França e Espa-
nha, o Brasil realmente apresenta uma “unidade
surpreendente”, pois todos os brasileiros, de norte
a sul, mesmo com todas as diferenças nas varie-
dades de língua que praticam, se entendem sem
maiores dificuldades.
Bagno (1999) considera a tese da uniformidade
como um dos mitos que dão sustentação ao pre-
conceito linguístico. Para o autor, essa ideia ficou
tão arraigada em nossa cultura que pode ser en-
contrada no pensamento de grandes intelectuais
brasileiros. Entre estes, Bagno cita o antropólogo
Darcy Ribeiro, para quem “os brasileiros são, hoje,
um dos povos mais homogêneos linguística e cul-
turalmente e... falam uma mesma língua, sem diale-
tos” (p. 15). Como vimos ao longo deste capítulo,
isso até pode ser considerado verdadeiro, contanto
que não invalidade o fato de que a língua falada
no Brasil é enormemente variada e variável, como
qualquer outro idioma mundial.
Fechar os olhos para a variação acarreta, na visão
de Bagno (1999), a imposição de uma norma lin-
guística padrão por parte da escola, como se essa
norma fosse a única possível no português, ou
como se todos os brasileiros falassem ou tivessem
que falar da mesma maneira, independentemente
de idade, região, escolaridade, classe social, sexo
etc. Na ótica de Ilari e Basso (2006), a ideia de que
o português brasileiro é uma língua uniforme pode
nos levar a esquecer não só a variação regional, dia-
tópica, mas todas as demais formas de variação, as
que estudamos neste capítulo e ainda outras pos-
síveis. Isso nos levaria, como de fato tem levado a
maioria das pessoas, a uma concepção limitada e
equivocada do que seja a língua que falamos.
Um problema maior do que não reconhecer a va-
riação e tratá-la como deformação, desvio, vício,
crime ou pecado contra a língua. Dessa forma,
reedita-se a atitude clássica, inaugurada pelos gre-
gos e seguida pelos romanos, de tratar os demais
povos e suas línguas maternas como “bárbaros”,
implicando, com isso, que se trataria de pessoas
não inteligentes, não civilizadas, verdadeiros selva-
gens. Tanto é que o termo bárbaro, que etimologi-
camente é apenas uma onomatopeia criada pelos
gregos para se referir aos sons linguísticos que não
representassem palavras da sua língua, até hoje traz
conotações extremamente negativas, ligadas a de-
sordem, selvageria e perversidade. Tudo isso com
base numa atitude negativa em relação à forma de
falar de outras pessoas.
Infelizmente, no português brasileiro, como nou-
tras línguas contemporâneas, a atitude negativa em
relação à variação linguística também tem se tradu-
zido em preconceito social contra as pessoas que
não falam “corretamente”. Quase invariavelmen-
te, as diferenças linguísticas são atribuídas à falta
de estudo (que realmente é um fator importante,
mas não absoluto), falta de inteligência (o que é
um completo absurdo), peculiaridades étnicas
(“pra mim fazer” seria “língua de índio”) e origem
regional (“fala de matuto”), entre outros fatores.
Esses preconceitos obscurecem a realidade de que
a língua toda varia, e não só a língua falada pelas
classes menos favorecidas: a variação não é “privi-
légio” de pobres, analfabetos, matutos e favelados,
mas é um traço dos usos linguísticos de falantes de
todas as classes sociais, todos os níveis de escolari-
dade, moradores da cidade e do campo, residentes
de condomínios fechados e das favelas.
Reconhecer e avaliar adequadamente a variação,
portanto, é um caminho seguro para o combate
ao preconceito linguístico, que deveria ser uma res-
ponsabilidade de todos os brasileiros, assim como
todos concordam em combater as demais formas
do problema. Ao que parece, como assevera Bagno
(1999), a tendência, cada vez mais clara, de lutar
contra as mais variadas formas de preconceito so-
cial infelizmente não tem atingido o preconceito
linguístico. Segundo o autor, muito pelo contrá-
rio, “o que vemos é esse preconceito ser alimen-
tado diariamente em programas de televisão e de
rádio, em colunas de jornal e revista, em livros e
manuais... sem falar, é claro, nos instrumentos
tradicionais de ensino da língua: a gramática nor-
mativa e os livros didáticos” (p. 13). Nesse contex-
to, considerando que vivemos numa sociedade
democrática e que se deseja justa, todas as nossas
energias podem e devem ser postas a serviço de
uma concepção de língua capaz de combater o pre-
conceito e a discriminação motivados pela forma
como as pessoas utilizam a língua, esse patrimônio
valiosíssimo de todos os brasileiros.
SAIBA MAIS!SAIBA MAIS!
Para aprofundar o conteúdo deste capítulo e ampliar seus conhecimentos sobre o
tema da variação, há muitos e interessantíssimos trabalhos que podem ser lidos. Es-
ses trabalhos compõem desde livros completos a textos de divulgação, postados em
blogs e sites pessoais ou institucionais, e trabalhos científicos disponíveis na Internet,
podendo ser acessados sem maiores dificuldades. Cito apenas uma pequena amostra,
que você pode ampliar com base em sua própria pesquisa.
•	 Para saber mais sobre projetos de construção de atlas linguísticos, que mapeiam
sistematicamente a variação nas diversas regiões brasileiras, veja o site do Projeto
Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) em http://twiki.ufba.br/twiki/bin/view/Alib/We-
bHome. Esse projeto, conforme os organizadores, já concluiu levantamentos em
16 estados brasileiros e alcançou 213 localidades em todo o país.
•	 Para um exemplo mais localizado e próximo, consulte também o blog do pes-
quisador Edmilson Sá, que vem se dedicando, como parte de sua pesquisa de
doutorado, a construir o Atlas Linguísticos de Pernambuco (ALIPE). Os principais
resultados, bem como os municípios pernambucanos que foram objeto de pesqui-
sa, encontram-se em http://alipeedmilsonjsa.blogspot.com/.
•	 Para um exemplo de pesquisa sociolinguística sobre variação aliada à militân-
cia acadêmica, jornalística e política contra o preconceito, veja o site do linguista
Marcos Bagno, autor do conhecido livro Preconceito linguístico: o que é, como se
faz, em http://marcosbagno.com.br/site/. Ali você encontrará muitos textos inte-
ressantes, publicados em diversos veículos de comunicação.
•	 Para mais conteúdos ricos e interessantes, veja também o site da pesquisadora
Stella Bortoni da Universidade de Brasília: http://www.stellabortoni.com.br/.
RESUMO
Neste capítulo, nosso objetivo foi tra-
çar um panorama abrangente do que
seja a variação linguística, primeira-
mente mostrando como ela se dá em
todos os níveis imagináveis de utiliza-
ção do sistema linguístico. Em segui-
da, nos dedicamos a definir e exem-
plificar uma tipologia bastante geral
e abrangente da variação linguística,
incluindo a variação diacrônica, dia-
tópica, diastrática, diamésica e diafá-
sica. Concluímos, refletindo sobre a
íntima relação entre a atitude diante
da variação e o preconceito contra os usuários dessa língua que inevitavelmente varia, e
tem nisso um dos seus aspectos mais fascinantes e belos. Percebemos a importância de
compreender esse tema, não só para o aprendizado teórico de uma disciplina, mas para
nossa própria formação como cidadãos.
Fonte:http://linguisticaadm.blogspot.com/
Figura 5: Gíria como variação
27Capítulo 2
Atividades |
Pesquise na Internet exemplos concretos da
disseminação de preconceito linguístico e,
consequentemente, de desrespeito à variação
linguística conforme exposta neste capítulo:
as chamadas “pérolas” dos vestibulares ou do
ENEM, cartazes e anúncios “errados” etc. O
que você acha dessas coisas? O que significam?
REFERÊNCIAS
BAGNO, Marcos. Nada na língua é por aca-
so: por uma pedagogia da variação linguística.
São Paulo: Parábola, 2007.
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que
é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.
ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato (orgs). O portu-
guês da gente: a língua que estudamos a lín-
gua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006.
MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: ati-
vidades de retextualização. 2. ed. São Paulo:
Cortez, 2001.
29Capítulo 3Capítulo 3
Objetivos Específicos
•	 Compreender o conceito de norma linguística.
•	 Conhecer os tipos de normas existentes na língua.
•	 Entender as origens da noção de norma padrão no português brasileiro.
Introdução
Para a maioria das pessoas, a impressão é que as línguas se organizam de uma
única maneira e, portanto, podem ser usadas, na fala e na escrita, de maneira
“certa” ou “errada”. Como vimos nos capítulos anteriores, isso não é verdade.
Toda língua se constitui em um conjunto de variedades com diferenças entre
si, cada uma delas podendo ser utilizada de acordo com os contextos sociais de
interação. Além disso, cada sociedade acaba definindo uma dessas variedades
como preferível em relação às demais, especialmente em contextos formais de
interação.
Essa variedade da língua, eleita de forma mais ou menos inconsciente por cri-
térios culturais e ideológicos, entre outros, e não por qualidades linguísticas in-
trinsecamente superiores às qualidades das demais variedades, passa a regular
oficialmente as práticas comunicativas na oralidade e na escrita. Passa também
a ser valorizada como superior às demais variedades, sendo eleita como modelo
para o ensino e sendo exigida nas situações formais de uso, como nos contextos
profissional e acadêmico, por exemplo. Em uma palavra, essa variedade de uso
da língua se torna padrão e adquire grande prestígio social, capaz de transferir, em
princípio, esse prestígio para os seus usuários.
Esse processo e essa maneira de lidar com as variedades empíricas ou idealizadas
da língua envolvem o conceito de norma, que discutiremos neste capítulo. Vere-
mos que, na língua portuguesa, como virtualmente em qualquer língua natural,
convivem diversas normas linguísticas, ainda que socialmente se dê visibilidade
apenas à chamada norma padrão. Examinaremos como esse conceito surgiu e con-
solidou-se na sociedade brasileira. Falaremos ainda sobre conceitos como norma
culta e norma popular, e perceberemos que esses conceitos são muito mais plurais
que podemos imaginar.
Norma Linguística e
Outras Normas
Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra
Carga Horária | 15 horas
30 Capítulo 3
1. Afinal, O Que é Norma
Linguística?
De acordo com Ilari e Basso (2006), a busca de
uma norma para o português brasileiro foi, ao lon-
go da história nacional, objeto de preocupação de
diversos autores com propósitos muito diferentes,
assumindo três características igualmente diversifi-
cadas. Nesse sentido, em nome da mesma palavra
norma, procurou-se realizar diferentes objetivos,
como mostramos a seguir:
1.	 A definição de uma norma literária propria-
mente brasileira, livre das imposições oriundas
de Portugal. No século XIX, um autor brasilei-
ro, do período romântico, que muito se empe-
nhou em defender “o direito de legislar sobre
a língua que falamos” foi o cearense José de
Alencar.
2.	 A elaboração de uma norma para o português
escrito culto, representada pela polêmica em
torno da construção do texto do Código Ci-
vil entre os anos de 1902 e 1907, envolvendo
o político Rui Barbosa e o gramático Ernesto
Carneiro Ribeiro. A referida polêmica não ver-
sava sobre o conteúdo do Código, mas sobre
aspectos de sua redação, em que cada um dos
lados defendia sua versão como a “certa” e a
do outro, como “errada”.
3.	 A busca de uma norma fonética para o por-
tuguês brasileiro, representada por congresso
que, na primeira metade do século XX, pro-
curavam regulamentar a pronúncia da língua
para permitir o seu uso no canto lírico e no
teatro. A ideia desses congressistas, entre os
quais se encontravam figuras ilustres como os
escritores Mário de Andrade e Manuel Bandei-
ra, o filólogo Antônio Houaiss e o gramático
Celso Cunha, tendia ora para escolher o sota-
que de uma determinada região (geralmente o
Rio de Janeiro) como norma para o país, ora
para fazer uma média entre os sotaques das di-
versas regiões.
Nesse último sentido, para você ter uma noção
mais exata do teor dessas discussões, veja o que diz
Mário de Andrade no fragmento abaixo (citado
por ILARI e BASSO, 2006, p. 222):
Quem quer que frequente o teatro nacional ficará desagra-
davelmente ferido ante a diversidade de pronúncias que
se entrechocam no ar. Essa diversidade deriva em parte de
atores estaduanos que, trazendo consigo suas pronúncias
regionais e não fazendo nenhum esforço para unificar es-
sas pronúncias em benefício e unidade fonética, tornam a
obra de arte um mistifório malsoante, irregular de estilo e
de sonoridade, muitas vezes, por isso, de penosa compre-
ensão para o ouvinte.
Entre todas essas modalidades de norma, a que
mais exerceu e exerce influência sobre a socieda-
de brasileira é a noção de norma da língua escrita.
Esta se afastou muito da linguagem popular em
geral, principalmente por se basear nos usos literá-
rios e no português europeu.
No entanto, como demonstra Faraco (2008), o
conceito de norma surgiu nos estudos linguísticos
exatamente com a intenção de captar a heteroge-
neidade da língua, e não como meio de eleger e
perpetuar uma variedade linguística como legítima
em detrimento das demais. Um dos grandes lin-
guistas a falar sobre norma, ainda no quadro teó-
rico do estruturalismo saussuriano, foi o romeno
Eugenio Coseriu, no início da década de 1950.
A dicotomia língua x fala, defendida pelo estru-
turalismo, consolidava a concepção da existência
de um sistema invariável (a língua) e remetia a va-
riabilidade aos usos individuais (a fala), que não
interessava à ciência. Coseriu assume a dicotomia
como ponto de partida, mas propõe acréscimo do
conceito de norma, trocando a dicotomia por uma
tricotomia. Assim, sem descartar o conceito saus-
suriano de língua, Coseriu entende norma como
“cada um dos diferentes modos sociais de realizar
os grandes esquemas de relações do sistema”, con-
forme explica Faraco (2008, p. 36).
Fonte:http://variacoeslinguisticas.blogspot.
com/2011/01/variacao-linguistica.html
Figura 1: Norma linguística
Norma linguística, portanto, não se refere ao que
é possível dizer numa língua, e sim ao que efetiva-
mente se diz num determinado grupo ou comu-
31Capítulo 3
nidades de falantes. Norma é o conjunto de usos
“normais” para uma determinada comunidade
linguística. O mesmo sistema linguístico (língua)
pode dar origens a diferentes normas linguísticas,
de acordo com os diferentes grupos sociais forma-
dos por seus falantes.
Segundo Faraco (2008, p. 37), podemos definir
norma como “determinado conjunto de fenôme-
nos linguísticos (fonológicos, morfológicos, sin-
táticos e lexicais) que são correntes, costumeiros,
habituais numa dada comunidade de fala”. Perce-
bemos, portanto, que norma aqui não é sinônimo
de regra ou regulamento, mas de “normalidade”,
de uso costumeiro numa determinada comunida-
de de fala. Veja, portanto, que os linguistas defi-
nem norma de maneira totalmente diferente do
senso comum e das diversas vozes sociais que re-
presentam a gramática normativa ou tradicional.
Umaspectofundamentalnoconceitodenormalin-
guística é que toda norma é organizada e coerente.
Nãoexistemnormaslinguísticascaóticas,semregras
ou sem gramática. Observe os enunciados abaixo.
As casas são grandes e bonitas.
As casa são grande e bonita.
As casa é grande e bonita.
Dependendo da norma linguística vigente, ou ain-
da, dependendo das condições sociais do falante,
qualquer uma das três formas é possível no portu-
guês brasileiro. Nenhuma delas contraria a estrutu-
ra (o sistema) de nossa língua. No entanto, não é
possível dizer *A casas são bonitas ou *Casas bonitas
as são. Essas construções não são produzidas por
nenhum falante de língua portuguesa, pois a gra-
mática da língua não as permite. Observe ainda
que não se trata de algo que se aprende na escola.
Nenhuma pessoa, mesmo analfabeta, jamais falará
qualquer uma dessas frases. O conceito de norma,
portanto, compreende apenas conjuntos de usos
que são possíveis na estrutura da língua e no inte-
rior dos diversos grupos sociais.
Faraco (2008) ainda destaca que o conceito de nor-
ma linguística põe sob suspeita a própria noção de
erro, tão cara à tradição escolar e normativa brasi-
leira. Não seria possível tratar como “errada” uma
construção como As casa são bonita, mas apenas
reconhecer que ela representa uma norma diver-
gente da norma padrão. Julgar “errada” uma frase
assim significa aplicar os critérios de uma norma
(padrão) para avaliar outra norma (popular). Efe-
tivamente não se trata de erro, mas de diferença
ou diversidade de usos, e um deles passa a ser
criticado com base em uma lógica que nada tem
de linguística: as casa são bonita não tem o mesmo
prestígio social que as casas são bonitas, embora isso
nada tenha a ver com certo e errado, bonito ou
feio. O critério de certo e errado é arbitrário, pois
escolhe, entre duas formas igualmente permitidas
pelo sistema, uma que “pode” e outra que “não
pode” ser dita.
O que existem, como se pode notar, são normas e
não uma norma de uso da língua. Cada comuni-
dade possui suas próprias normas. E o conjunto
dessas normas confere à língua portuguesa a sua
heterogeneidade e diversidade. O fato de que um
falante gaúcho diz tu vai, enquanto um pernambu-
cano fala você vai não significa que um fala “mais
bonito” que o outro, ou que um fala “certo” e o
outro, “errado”. Gaúchos e pernambucanos falam
de forma diferente, e isso constitui um aspecto da
riqueza do fenômeno linguístico. Ambos, apesar
de se expressarem de forma diferente, se reconhe-
cem como falantes legítimos da mesma língua por-
tuguesa, e não de línguas diferentes.
2. Norma Culta, Norma Padrão e
Outras Normas
Se é verdade que, no interior da língua portu-
guesa, o que existem são normas linguísticas, e
em vez de uma única norma padrão válida para
todos os falantes, que normas são essas?
Como entender expressões como “norma culta”,
“norma padrão” ou “norma popular”?
A definição desses termos não é nada fácil nem pa-
cífica. O que se sabe, como destaca Faraco (2008,
p. 46), é que pares dicotômicos como português cul-
to x português popular ou português padrão x português
não padrão são incapazes de descrever a complexi-
dade dos fatos linguísticos. São apenas simplifica-
ções usadas para descrever o fenômeno linguísti-
co de forma geral. Igualmente inútil e incorreto é
identificar o “português formal” com a escrita e o
“português informal” com a fala. Sabendo que se
trata de uma realidade complexa, a seguir vamos
nos dedicar a uma tentativa de esclarecer a questão.
32 Capítulo 3
a.	 O que é mesmo norma culta?
Uma primeira e necessária constatação é que a
expressão “norma culta” é inadequada e extrema-
mente ambígua, pois presume que as outras nor-
mas podem ser consideradas “incultas”, além de
absolutizar e uniformizar o adjetivo “culto”. Só
haveria uma forma de ser culto; os demais seriam
incultos. A realidade linguística mostra que há di-
versas normas cultas, e não apenas uma.
De modo geral, para os linguistas, norma culta se
refere ao conjunto de usos reais da língua por falan-
tes privilegiados que podem, por critérios objeti-
vamente estabelecidos, ser considerados “cultos”.
Tradicionalmente, sociolinguistas admitem, para
fins de pesquisa, que um indivíduo culto é aquele
que possui nível superior completo.
Faraco (2008) ainda aponta três sentidos em que
a expressão norma culta foi utilizada pelo senso
comum. Em primeiro lugar, usou-se norma culta
para evitar o uso da palavra gramática, especialmen-
te para se referir ao ensino de língua portuguesa:
ensinava-se “norma culta” e não a “gramática”, pa-
lavra que se tornou um tanto suspeita de formalis-
mo. Em segundo lugar, a expressão norma culta
foi usada também para designar “o conjunto dos
preceitos da velha tradição excessivamente conser-
vadora e pseudopurista” (FARACO, 2008, p. 26).
Por último, usou-se a expressão norma culta como
sinônimo de “língua escrita”: “dominar” a norma
culta seria dominar a língua escrita.
A essa altura, você poderia perguntar:
o que é mesmo a norma culta, afinal?
Para responder a isso, os linguistas não têm hoje
uma resposta simples, mas, em geral, todos concor-
dam em utilizar os parâmetros estabelecidos pela
pesquisadora Stella Maris Bortoni-Ricardo (http://
www.stellabortoni.com.br/), da Universidade de
Brasília. Conforme essa estudiosa, a diversidade da
língua portuguesa no Brasil e, consequentemente,
a definição de norma culta, deve ser observada de
acordo com as seguintes relações de continuidade
que se entrecruzam:
•	 O continuum rural-urbano.
•	 O continuum oralidade-letramento.
•	 O continuum da monitoração estilística (estilo
mais monitorado-menos monitorado).
Assim, a norma culta seria, entre outras coisas,
a “variedade de uso corrente entre falantes ur-
banos com escolaridade superior completa, em
situações monitoradas” (FARACO, 2008, p. 49).
Essencialmente, seria a variedade de uso desses
falantes fazendo uso da escrita em situação for-
mal. Daí se infere também que um mesmo falan-
te não usa o mesmo padrão culto o tempo todo.
Depende de com quem está falando, para quem
está escrevendo, onde está falando ou escrevendo
etc. Ressalte-se que a parcela da população brasi-
leira que se enquadra nesse critério não chega a
dez por cento de todos os brasileiros. A norma
culta é apenas uma das variedades da língua e,
mesmo assim, não é única e uniforme, mas diver-
sa e multifacetada.
Fonte:http://litmaubia.pbworks.com/w/page/
18055510/A-import%C3%A2ncia-da-literatura-infantil
Figura 2: Futuro homem culto
No entanto, para aqueles que se pautam pela gra-
mática normativa, norma culta é o modelo idea-
lizado de “língua certa” que é imposto a todos os
falantes e não se caracteriza como variedade lin-
guística de nenhum grupo social. Equivale ao que
os linguistas chamam de norma padrão.
A norma culta é, na verdade, um conceito plural.
Não existe uma só norma culta, mas diversas nor-
mas cultas. Na opinião de Faraco (2008), a con-
fusão reinante sobre o termo é resultado do fato
de que ele “pulou os muros da universidade e se
tornou muito frequente no discurso da mídia e da
escola” (p. 23). Assim, a confusão mais frequen-
te é tomar norma culta como sinônimo de norma
padrão. Outro problema é entender norma culta
como a norma prescrita por gramáticas e dicioná-
rios, que deveriam se chamar, conforme Faraco
(2008), de norma gramtical, até considerando que
as pessoas cultas fazem uso da língua muitas vezes
de forma não abonada por essa norma.
33Capítulo 3
b.	 Norma culta ou norma “curta”? uma concepção de norma que reduz a língua a um
padrão artificial, idealizado, que se tenta impor a
todos os falantes como o único uso possível.
Caracterizando mais detalhadamente a “norma
curta”, Faraco (2008, p. 94) a define como “um
conjunto de preceitos dogmáticos que não en-
contram respaldo nem nos fatos, nem nos bons
instrumentos normativos, mas que sustentam
uma nociva cultura do erro e têm impedido um
estudo adequado de nossa norma culta/comum/
standard”. Nesse sentido, a norma curta é represen-
tada pelos consultórios gramaticais ligados à mídia
(“comandos paragramaticais”, no dizer de Bagno),
pelos manuais de estilo dos grandes jornais e por
cursinhos pré-vestibulares, entre outros. Caracte-
rística da norma curta é uma atitude “mais realista
que o rei”, ou seja, uma postura normativa mais
rígida que a própria gramática normativa. Em ge-
ral, seus atores são profissionais de outras áreas do
saber que, por alguma razão, se tornam “especialis-
tas” em língua portuguesa.
A norma curta, entendida como “a miséria da
gramática” (FARACO, 2008), representa um con-
junto de preceitos extremamente rigorosos e sem
base nas boas gramáticas normativas e nos bons
dicionários da língua. Segundo Faraco (2008), essa
norma curta é “o reino da inflexibilidade, das afir-
mações categóricas, do certo e do errado tomados
em sentido absoluto. A norma curta é o mundo
das condenações raivosas, das rabulices gramati-
cais” (p. 95). Um exemplo muito claro disso foi
a recente polêmica levantada na mídia sobre um
livro didático que pretensamente estaria ensinan-
do os alunos a “falar errado”, quando o livro nada
mais fazia que apresentar o tema da variação lin-
guística conforme estabelecem os PCNs de língua
portuguesa.
A norma “curta” relaciona-se diretamente com o
conceito de norma padrão.
c.	 Norma culta e norma padrão
A tentativa de construção de um padrão linguís-
tico para as línguas resulta, em parte, do próprio
processo histórico de constituição da autonomia
e independência dos Estados contemporâneos. A
adoção de uma norma padrão cumpre a função de
desautorizar aspirações regionais por independên-
cia, negando aos grupos dissidentes a legitimidade
do ponto de vista da diversidade linguística. Em
Fonte:http://blogdesilvanalima.blogspot.
com/2010_05_01_archive.html
Figura 3: Norma “curta”
Quando se trata dos usos da língua, o discurso
purista predomina na sociedade brasileira. Esse
discurso impõe uma série de restrições aos usos
legítimos dos falantes em nome da “norma culta”.
Por isso, Faraco (2008) ironicamente rotula essa
atitude como “norma curta”. A norma “curta” é
opressiva por se basear em proibições e restrições
sobre o que se pode falar e o que não se pode fa-
lar. Em geral, trata-se de discutir detalhes insigni-
ficantes como se fossem questões extremamente
centrais e determinantes para o futuro da língua e
de seus falantes. Faraco (2008) dá o seguinte exem-
plo: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,
em 2007, ao fazer uma crítica indireta e irônica à
linguagem do então presidente Lula, afirmou que
o Brasil queria ter “dirigentes melhor educados”.
Fazendo o feitiço virar contra o feiticeiro, a mídia
criticou FHC por não usar a forma “culta” “mais
bem educados”. Segundo as interpretações, FHC
cometeu um “erro” de português. A norma “cur-
ta” consiste exatamente nisso. Não devia haver ne-
nhum problema em reconhecer a forma usada por
FHC como uma forma culta. Se o ex-presidente
cometeu um erro, foi o erro de ser preconceituoso
em relação ao falar “inculto” de Lula como repre-
sentante das classes populares.
A “norma culta”, portanto, se torna norma “curta”
quando se apresenta como uma norma “que ape-
quena a língua, que encurta sua riqueza, que não
percebe (por conveniência ou ignorância?) que o
uso culto tem abundância de formas alternativas
e não se reduz a preceitos estreitos e rígidos” (FA-
RACO, 2008, p. 66). O conceito, embora irônico,
serve bem para chamar a atenção para a miopia de
34 Capítulo 3
todos os casos, a norma padrão se baseia numa varie-
dade linguística tomada como ideal, mas geralmen-
te abstraída dos usos das elites dominantes. Desde
o início, a norma padrão se afasta dos usos reais e
se codifica em gramáticas e dicionários da língua
quando se refere a usos, ou os toma da literatura,
como se esta fosse modelo para a linguagem coti-
diana, ou de usos arcaicos ou adotados do portu-
guês europeu.
Segundo Faraco (2008), o português europeu ado-
tado foi a variedade literária representada pelo
romantismo, que se oferecia como modelo para a
produção escrita dos brasileiros. Hoje se sabe que
essa atitude representava uma violência simbólica
em vários níveis. Primeiro, por tomar a linguagem
literária como modelo para a linguagem em geral.
Segundo, por tomar a linguagem literária de outro
país, outro contexto, como modelo para a língua
portuguesa em nosso país. Terceiro, e consequen-
temente, por deixar de fora a fala e a escrita pro-
priamente brasileiras.
Em sua origem, a construção da norma padrão brasi-
leira, ao contrário da norma de outros países, não
ocorria como oposição a uma situação de dialeta-
ção. A língua portuguesa no Brasil, de certa forma,
sempre foi “admiravelmente uniforme”. Apesar
das diferenças regionais, as pessoas se entendem
na mesma língua do norte ao sul do país. Também
não se tratava de unificar o país, pois este já estava
unificado desde a independência. O grande obje-
tivo do surgimento da norma padrão brasileira foi
combater a linguagem popular (esse foco se man-
tém claramente hoje), entendida pejorativamente
como “língua de índios”, “língua de negros” ou
“língua de matutos”.
Na concepção de Faraco (2008), os usuários do por-
tuguês brasileiro não precisam mais, se é que já pre-
cisaram, de uma norma padrão, pois as variedades
cultas não correm nenhum risco de desaparecimen-
to ou descaracterização. Segundo Bagno (2007),
deveríamos inclusive evitar até mesmo o termo
norma culta, preferindo falar de variedades prestigia-
das (que normalmente são variedades ou normas
cultas) e variedades estigmatizadas (em geral, associa-
das às classes populares, a faixas etárias como a dos
adolescentes ou a grupos sociais como os caipiras
e os analfabetos). A existência de variedades estigma-
tizadas se deve exatamente, entre outros fatores, à
ação da norma “curta”, que relega as variedades
divergentes ao desprezo e à desvalorização social.
d.	 Norma culta ou norma “oculta”?
Em um interessante livrinho publicado em 2003,
A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira,
Marcos Bagno surpreende seu público ao afirmar
que “não existe preconceito linguístico”. Como se
diz no livro e em texto no site do autor (http://
marcosbagno.com.br), cujo conteúdo seguimos
de perto nesta exposição, esta é a frase que mui-
tos gostariam de ler,
especialmente se es-
tampada num texto
do autor da conhe-
cida obra intitulada
Preconceito linguístico.
Será que Marcos
Bagno, nesse livro,
estava se contradi-
zendo? Como diz o
texto no site, “vamos
com calma, vamos
por partes”:
Fazendo um trocadilho com o termo norma culta
(como Faraco já tinha feito ao usar norma curta),
Bagno (2003) usa norma oculta para aprofundar o
estudo das relações entre língua e poder no Brasil
e avança para a afirmação de que o preconceito
linguístico na sociedade brasileira é, na verdade,
um profundo e entranhado preconceito social.
Portanto, não existe preconceito linguístico, mas
preconceito social.
Conforme a sinopse do livro disponível no site,
Bagno lança um olhar inquiridor sobre a história
da constituição das línguas para desvendar nossa
realidade sociolinguística. O olhar do autor sobre
a história se funde com uma apurada pesquisa so-
ciolinguística e com a crítica corajosa do conceito
de “erro de português”, sempre aplicado com ri-
gor, mas segundo critérios bem relativos, por aque-
les que se consideram sacerdotes da classe letrada,
incumbida de defender a pureza estática da língua
(defensores da “norma curta”, diria Faraco).
Particularmente, Bagno discute, em A norma oculta,
as reações de jornalistas e intelectuais da impren-
sa nacional ao modo de se expressar do primeiro
operário nordestino eleito para a presidência da
República, Luís Inácio Lula da Silva. É ilustrativo
enxergar, seguindo a análise do autor, o peso do
preconceito social travestido de aniquilamento da
língua do outro, quando não se enxerga este outro
como interlocutor válido.
Fonte:http://marcosbagno.com.br/site2/conteudo/
arquivos/liv_norma_oculta.htm
Figura 4: Norma oculta
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Sociolinguistica

  • 1. Sociolinguística Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra 2a edição | Nead - UPE 2011
  • 2. Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Núcleo de Educação à Distância - Universidade de Pernambuco - Recife Bezerra, Benedito Gomes Letras: Sociolinguística/ Benedito Gomes Bezerra. - Recife: UPE/NEAD, 2011. 44 p. il. ISBN - 978-85-7856-075-1 1. Educação – Aspectos Sociais 2 Sociolinguística 3. Ensino de Línguas 4. Investigação Social 5. Educação à Distância I. Universidade de Pernambuco, Núcleo de Educação à Distância II. Título. B574s CDD 370.19
  • 3. Reitor Vice-Reitor Pró-Reitor Administrativo Pró-Reitor de Planejamento Pró-Reitor de Graduação Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Pró-Reitor de Extensão e Cultura Prof. Carlos Fernando de Araújo Calado Prof. Rivaldo Mendes de Albuquerque Prof. José Thomaz Medeiros Correia Prof. Béda Barkokébas Jr. Profa. Izabel Christina de Avelar Silva Profa. Viviane Colares S. de Andrade Amorim Prof. Rivaldo Mendes de Albuquerque Universidade de Pernambuco - UPE NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Coordenador Geral Coordenador Adjunto Assessora da Coordenação Geral Coordenação de Curso Coordenação Pedagógica Coordenação de Revisão Gramatical Gerente de Projetos Administração do Ambiente Coordenação de Design e Produção Equipe de design Coordenação de Suporte Edição 2011 Prof. Renato Medeiros de Moraes Prof. Walmir Soares da Silva Júnior Profa. Waldete Arantes Profa. Silvania Núbia Chagas Profa. Maria Vitória Ribas de Oliveira Lima Profa. Angela Maria Borges Cavalcanti Profa. Eveline Mendes Costa Lopes Profa. Geruza Viana da Silva. Profa. Patrícia Lídia do Couto Soares Lopes Igor Souza Lopes de Almeida Prof. Marcos Leite Anita Sousa Gabriela Castro Rafael Efrem Renata Moraes Rodrigo Sotero Afonso Bione Prof. Jáuvaro Carneiro Leão Impresso no Brasil - Tiragem 150 exemplares Av. Agamenon Magalhães, s/n - Santo Amaro Recife - Pernambuco - CEP: 50103-010 Fone: (81) 3183.3691 - Fax: (81) 3183.3664
  • 4.
  • 5. 5 Sociolinguística Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra Carga Horária | 60 horas Ementa Estudo da relação entre língua/linguagem e sociedade. Variação e mudança lin- guística. Norma padrão, norma culta e outras normas. Preconceito linguístico. Po- lítica linguística. A pesquisa sociolinguística. Sociolinguística e ensino de língua. Objetivo Geral Compreender aspectos teórico-metodológicos e empíricos referentes à vincula- ção entre língua e sociedade. Apresentação da Disciplina Caro estudante! Você vai achar a sociolinguística uma disciplina fascinante. Os conteúdos discu- tidos em sociolinguística são de fundamental importância para a boa formação do professor de língua portuguesa, e seriam igualmente importantes para pro- fessores de qualquer matéria, pois todos lidam com a língua de uma forma ou de outra. Diversas questões a respeito da relação entre língua e sociedade serão discutidas aqui. Inspirados na sociolinguística, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para a Língua Portuguesa estabelecem que o ensino deve levar em conta, de forma muito séria, a diversidade linguística e a consequente variação existente em nossa língua. Nesta disciplina, portanto, não estaremos apenas falando de teorias. O estudo da sociolinguística nos permitirá entender o que é variação e qual a sua importân- cia, o que é preconceito linguístico e como evitá-lo e combatê-lo. Não perca essa oportunidade e aproveite-a ao máximo. Boa sorte e muita disposição para continuar aprendendo e crescendo em sua formação! Abraços! Benedito
  • 6.
  • 7. 7Capítulo 1 77Capítulo 1 Objetivos Específicos • Conhecer os principais conceitos usados em sociolinguística. • Entender o objetivo e a tarefa a que se propõe a sociolinguística. Introdução Desde o início de sua história moderna, marcada pela publicação do Curso de Lin- guística Geral de Ferdinand de Saussure, a linguística se apresenta como uma área extremamente abrangente e diversificada. Com os crescentes questionamentos e crises enfrentados primeiramente pelo estruturalismo e em seguida pelo gerativis- mo, a linguística se desdobrou cada vez mais em variadas tendências e enfoques, a maioria dos quais têm em comum uma perspectiva funcionalista lato sensu. A sociolinguística é uma das subáreas da linguística que se consolidou nos anos de 1960, em especial com os estudos e pesquisas desenvolvidos pelo linguista americano William Labov (nascido em 1927), voltados para a relação entre lín- gua e sociedade. Tratava-se de mais uma abordagem ao fenômeno linguístico que se afirmava em aberta discordância com os modelos linguísticos formalistas, em especial com o gerativismo. Neste capítulo, apresentaremos os principais conceitos utilizados em sociolin- guística, considerando que esta é uma matéria de fundamental importância para a formação do professor de língua portuguesa, pelas claras implicações que acar- retam para o ensino. 1. Origens da Sociolinguística De acordo com Calvet (2002), o linguista francês Antoine Meillet, contemporâ- neo de Saussure e conhecido como seu discípulo, dele divergia por considerar a língua como “um fato social” e por insistir no caráter social da linguagem. Em outras palavras, os impulsos em direção à sociolinguística são tão antigos quanto a própria linguística saussuriana. Meillet poderia, portanto, ser considerado com um entre os vários precursores da sociolinguística. Apresentando a Sociolinguística: Conceitos e Definições Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra Carga Horária | 15 horas
  • 8. 8 Capítulo 1 Entre esses precursores, deve-se ainda citar o inglês Basil Bernstein, especialista em sociologia da edu- cação. Diante do fato de que as crianças oriundas de classes trabalhadoras apresentavam um índice de fracasso escolar bem maior que o de crianças das classes abastadas, Bernstein, após analisar as produções linguísticas de ambos os grupos, logo encontrou o que considerava ser a explicação. Para Bernstein, as crianças pobres, oriundas de classes trabalhadoras, fracassavam na escola por dominarem apenas um código linguístico restrito, aprendido no âmbito das respectivas famílias, en- quanto a escola exigia o emprego de um código elaborado. Os filhos oriundos de classes financei- ramente favorecidas, pelo contrário, dominavam o código elaborado desde as suas casas, uma vez que cresciam ao lado de pais que tinham hábitos de lei- tura e compravam livros, por exemplo. Percebe-se, portanto, que há uma relação direta entre a lingua- gem das crianças e fatores como o estrato social e econômico a que pertenciam. Esse tipo de percep- ção está na origem das pesquisas sociolinguísticas, segundo as quais levar em consideração a relação entre sociedade e linguagem é imprescindível para a compreensão desta. A despeito de todas as contribuições anteriores, o nome do linguista americano William Labov fi- gura como o grande incentivador e verdadeiro pai da sociolinguística. As pesquisas de Labov se tor- naram célebres, investigando aspectos da variação fonética na fala dos habitantes da ilha de Martha’s Vineyard, em Massachusetts (1963), a diversidade de pronúncia, determinada pela estratificação so- cial, do /r/ em diferentes lojas de departamento em Nova Iorque (1966), além da pronúncia do in- glês por adolescentes negros no bairro do Harlem em Nova Iorque. Foi Labov quem mais claramente lutou, a par- tir dos anos de 1960, pelo reconhecimento de uma forma de fazer linguística que não des- cuidasse dos fatores sociais que interferiam na produção da linguagem. Conforme o lin- guista brasileiro Fernando Tarallo, foi Labov “quem, mais veementemente, voltou a insistir na relação entre língua e sociedade e na possibilida- de, virtual e real, de se sistematizar a variação exis- tente e própria da língua falada” (1994, p. 7). Foi graças aos estudos de Labov que o tema da variação linguística entrou na ordem do dia dos pesquisadores e, hoje, figura como um dos aspec- tos mais importantes recomendados pelos PCN para o ensino de língua portuguesa em nosso país. 2. Interesses da Sociolinguística O pressuposto essencial da sociolinguística é de que todas as línguas naturais humanas se carac- terizam pela heterogeneidade e variabilidade. Em sua vertente mais conhecida, a sociolinguística, baseada nas pesquisas de Labov, elege a variação como seu tema principal. A variação, por sua vez, é vista como geral e universal, podendo ser descrita e quantificada de acordo com métodos científicos e estatísticos. Essa forma de fazer sociolinguística ficou conhecida, por isso mesmo, como Sociolin- guística Variacionista, Sociolinguística Quantitati- va ou, ainda, como Teoria da Variação. Entre os interesses específicos da sociolinguística, Mollica (2008, p. 10) cita “contato entre as lín- guas, questões relativas ao surgimento e extinção linguística, multilinguismo, variação e mudança”. Ao tratar de temas como a variação, a tarefa do sociolinguista é caracterizar o fenômeno que está observando, verificar a avaliação positiva ou nega- tiva que os falantes conferem a ele e determinar se as variantes em competição se acham em processo de mudança ou se tendem a conviver entre si por tempo indeterminado. Como diz Mollica, “em última análise, deve definir se o caso é de variação estável ou de mudança em progresso” (2008, p. 10). Para que as noções que estamos desenvolvendo aqui se tornem cada vez mais claras para você, va- mos examinar mais especificamente os principais conceitos relacionados com a variação, para que possamos estabelecer as diferenças entre eles. Fonte:http://www.123people.com/s/william+labov Figura 1: William Labov, o pai da sociolinguística
  • 9. 9Capítulo 1 3. Variação e Conceitos Correlacionados É comum haver, no discurso sobre a variação, certa dificuldade no manejo de conceitos muito próxi- mos e até muito semelhantes do ponto de vista da terminologia. Conceitos como variação, variável, variante e variedade linguística podem ser facil- mente confundidos, por isso precisam estar bem esclarecidos. Por variação linguística nos referimos ao fenômeno universal, próprio de todas as línguas, que pressu- põe a existência de formas linguísticas alternativas, empregadas para veicular basicamente com o mes- mo significado. Essas formas alternativas se deno- minam variantes. Por variantes, portanto, nos referimos às “diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade” (TA- RALLO, 1994, p. 8). Também para Bagno (2007, p. 50), “a definição mais simples de variante é a de ‘cada uma das formas diferentes de se dizer a mesma coisa’”. Uma vez que se trata de diversas formas de dizer a mesma coisa, as variantes de uma determinada comunidade de fala, como lembra Tarallo (1994), encontram-se sempre em situação de mútua con- corrência. Os diversos motivos que podem levar os falantes a preferir uma ou outra variante resultam na possibilidade de seu agrupamento ou subdivi- são conforme os seguintes polos: padrão x não padrão conservadora x inovadora estigmatizada x de prestígio A regra mais geral é que a variante padrão é, ao mesmo tempo, variante conservadora e de prestí- gio. Confira o exemplo: 1. Hoje nós iremos ao cinema. 2. Hoje nós vamos no cinema. Como você pode verificar, embora os dois enun- ciados comuniquem a mesma ideia, eles serão ava- liados de forma diferente pelos falantes com base em sua realidade sociocultural. A variante 1 pode ser classificada como padrão, conservadora e de prestígio, o que significa dizer que ela está de acor- do com a norma-padrão, corresponde a uma forma mais tradicional de dizer e confere mais prestígio social aos seus usuários. Por sua vez, a variante 2 é não padrão, por não corresponder ao estabele- cido pela norma-padrão, e, embora seja inovado- ra, por trazer para a língua uma forma nova de dizer a mesma ideia contida em 1, é estigmatizada, ou seja, seus usuários poderão ser discriminados como pessoas que não sabem usar a língua “cor- retamente”. A forma não-padrão e estigmatizada, ainda que seja inovadora, acarreta, portanto, um julgamento social (não linguístico) negativo sobre seus falantes. Uma variável, por sua vez, representa o conjunto de variantes que se usa, para dizer essa “mesma coi- sa” de formas diferentes. Vejamos isso citando o exemplo trazido por Tarallo (1994, p. 9), referente à variação na marcação do plural no sintagma no- minal (SN) em português. No caso, as três varian- tes mostradas abaixo constituem, conjuntamente, a variável “marcação de plural no SN”. De acordo com Bagno (2007, p. 50), “uma variável sociolinguística é algum elemento da língua, alguma regra, que se realiza de maneiras diferentes, confor- me a variedade linguística analisada”. O estudo dessas regras variáveis constitui o inte- resse central da sociolinguística, incluindo a de- terminação da frequência de uso de cada variante contida na variável. E ainda, o termo variável é utilizado em sociolin- guística em dois sentidos diferentes. No sentido de designar formas linguísticas usadas alternativa- mente para dizer a mesma coisa, como o exemplo acima, consideramos que se trata de uma variável dependente, pois o emprego de cada variante que a compõe é determinado ou influenciado por gru- pos de fatores de caráter social ou estrutural. A esses fatores, que podem ser externos à língua, tais como sexo, idade, origem geográfica, status so- cioeconômico, atividade profissional, escolaridade e relação com redes sociais, denominamos de vari- 1. As meninas bonitas 2. As meninas bonita 3. As menina bonita variável variantes
  • 10. 10 Capítulo 1 áveis independentes. Nesse sentido, como lembra Mollica (2008), o termo variável pode designar tanto um fenômeno em variação (marcas de plural no SN, como exemplificado) como o grupo de fatores responsável por regular o uso de uma ou outra variante. No exemplo dado, um fator que condiciona fortemente o uso do item 1 (“as meninas bonitas”) é a escolaridade, entre outros. Por fim, o termo variedade linguística compreende as diversas ramificações ou formas de usar uma deter- minada língua, ligadas a grupos sociais ou a regiões geográficas específicos, por exemplo, configurando aproximadamente o que em outros tempos ou lugares se chamaria de dialetos. Pensando na língua por- tuguesa, podemos afirmar que ela não é falada de uma única forma em todos os países que a têm como idioma, tampouco é falada de uma maneira única no Brasil. Identificamos sem muita dificuldade falares que caracterizam regiões brasileiras como o nordeste ou o sul, para citar apenas essas duas regiões tão diferentes entre si. As dificuldades na fala não dizem respeito apenas ao sotaque, mas também a aspectos propriamente linguísticos e discursivos de variada natureza. Gaúchos e nordestinos usam o pronome tu, por exemplo, de modo totalmente diferente. Poderíamos, portanto, nos referir a uma variedade gaúcha do português brasileiro, bem como a uma variedade nordestina dessa mesma língua. Variedade, portanto, é um dos muitos “modos de falar” uma língua, no dizer de Bagno (2007). Conforme o autor, as variedades de uma língua podem ser identificadas em grande número. Por exemplo, o modo de falar dos homens acima de 40 anos, com curso superior completo, renda acima de dez salários mínimos e moradores da zona sul do Rio de Janeiro constitui uma variedade específica da língua portuguesa (p. 47). A língua, tomada globalmente, constitui um grande feixe de variedades, todas elas com características próprias que as diferenciam entre si. As diversas variedades não podem ser subdivididas entre “certas” e “erradas”, “bonitas” e “feias” ou “ricas” e “pobres”. Todas as variedades são perfeitamente funcionais e capazes de atender às necessidades comu- nicativas de seus falantes. Eventuais julgamentos sobre o valor pretensamente maior de uma variedade em relação a outra são de natureza apenas social e cultural, nada tendo a ver com os atributos exclusivamente linguísticos de cada uma. Ainda conforme Bagno (2007, p. 48), as variedades linguísticas podem ser classificadas em dialetos, socio- letos, cronoleto e idioleto, embora se trate de termos nem sempre usados pelos especialistas. Dialeto corres- ponde ao modo de usar a língua em um determinado lugar ou região. Socioleto se refere ao modo de falar de um grupo de falantes caracterizado por uma mesma herança sociocultural (classe econômica, grau de escolaridade, profissão etc.). Já o modo de falar característico de uma determinada faixa etária é chamado de cronoleto, enquanto o termo idioleto, por fim, designa o modo característico de falar de um determina- do indivíduo. Dialeto seria, pois, uma variedade regional da língua, enquanto socioleto seria a variedade social, cronoleto, a variedade generacional e idioleto, a variedade individual. 4. Variação e Heterogeneidade Linguística Que as línguas variam, é um fato. Como argumenta Beline (2007), basta pensar inicialmen- te nas línguas faladas em todo o mundo. Sabemos que se fala português no Brasil, em Portu- gal e nas outras seis nações que compõem a chamada Comuni- dade dos Países de Língua Portu- guesa (confira no mapa). Fonte:http://www.cplp.org/id-22.aspx Figura 2: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
  • 11. 11Capítulo 1 Entretanto, se pensarmos nos demais países, mes- mo naqueles que são vizinhos do Brasil, sabemos que falam outras línguas, como o espanhol, por exemplo. No próprio Brasil, muitas outras línguas são faladas além do português: as línguas indígenas (cerca de cento e oitenta!), as línguas de imigrantes italianos, alemães, japoneses etc. Olhando o fenômeno um pouco mais especifica- mente, também não temos dificuldade em per- ceber que a fala de paulistanos não é igual à de baianos, nem de amazonenses igual à de cariocas. São de conhecimento geral casos de variação lexi- cal como usar macaxeira, aipim ou mandioca para se referir ao mesmo alimento, dependendo da região e do falante. É interessante notar, no entanto, que a variação não impede que os mais diferentes falan- tes de português se entendam entre si, nem impe- de que se sintam falando essencialmente a mesma língua, apesar da diversidade e heterogeneidade desta. Não há dúvida de que as línguas variam, que não falamos (nem escrevemos) todos da mesma ma- neira. Nosso uso da língua varia em aspectos que vão desde a pronúncia (fonética) até a sintaxe e o vocabulário (léxico). Pode até ser que nem todos percebam ou admitam esse fato. Conforme Bagno (2007), para pessoas formadas em uma tradição educacional como a nossa, cujas raízes, no que tange à língua, remontam a uma lon- ga história de estudos clássicos, ligados à escrita e à literatura em especial, “só merece o nome de língua um conjunto muito parti- cular de pronúncias, de palavras e de regras gramaticais que foram cuidadosamente selecionadas para compor... [a] norma-padrão, isto é, o modelo de língua ‘certa’, de ‘bem falar’” (p. 35). Para se entender a variação como fenômeno uni- versal das línguas naturais e, particularmente, da língua portuguesa, esse tipo de mentalidade, in- felizmente muito generalizada, não serve, porque reduz a língua a algo muito mais simples do que ela é, além de ser uma mentalidade preconceituosa. Ao contrário do que diz toda uma tradição de estu- dos sobre a língua, e apesar de todo um conjunto de mídias sociais que divulgam e mantêm a noção de uma língua única, que teoricamente seria usada de uma só maneira “certa”, a verdade é que a língua é “heterogênea, múltipla, variável, instável e está sempre em desconstrução e reconstrução” (BAGNO, 2007, p. 36). Apesar de que pensar na língua como um comple- xo sistema de práticas comunicativas e discursivas, realizado de formas diferentes, por pessoas dife- rentes e em contextos diferentes, é muito menos confortável que alimentar a ilusão de uma norma- -padrão geral, aplicável a todos, o fato de que as línguas variam não é um problema. Pelo contrário, o fenômeno da variação linguística é decorrência natural da própria complexidade da vida humana. Assim, nossa língua é complexa porque nós, como pessoas e como civilização, somos seres complexos. Essa complexidade, também no que diz respeito à língua, longe de configurar um problema, repre- senta a riqueza desse patrimônio de todos os bra- sileiros, que é a língua nacional. Por outro lado, a variação e a heterogeneidade linguística correspon- dem a uma marcante heterogeneidade e até desi- gualdade social. Não é à toa que um dos fatores que condicionam ou interferem na variação é pre- cisamente a escolaridade, num contexto social em que nem todos os cidadãos têm acesso à educação de qualidade nos níveis básico e superior. A sociolinguística, por conseguinte, procura rela- cionar conhecimento e pesquisa científica sobre a língua com os múltiplos contextos sociais em que a língua é utilizada. Dessa forma, se torna uma área de estudos capaz de contribuir diretamente para a aplicação do conhecimento científico à vida real e diária das pessoas, especialmente no tocante ao ensino e à formação da mentalidade dessas pessoas sobre a língua que falam. 5. Nem Tudo na Língua Varia, Nem Varia de Qualquer Jeito Embora a variação possa se verificar em qualquer nível da língua, nem tudo na língua varia. Só é possível falar de língua porque muitas das suas ca- racterísticas são estáveis e organizadas. Em outras palavras, a língua possui uma gramática, entendida como um conjunto ordenado de regras que defi- nem seu funcionamento. As diversas variedades da língua, apesar de suas diferenças mútuas, também concordam com respeito a funcionarem segundo regras bem definidas, devendo-se entender regras, aqui, como um conjunto de conhecimentos que os
  • 12. 12 Capítulo 1 falantes detêm, e que organizam a maneira como esses falantes usam a língua, independentemente de terem passado pela escola. Bagno (2007, p. 49-50) apresenta alguns exemplos de fenômenos em que a língua portuguesa do Bra- sil não mostra sinais de variação. Vamos a eles: • A consoante /f/ não apresenta diferença de pronúncia em nenhuma variedade regional ou social da língua portuguesa, ao contrário de /s/, que pode ser pronunciado como [s], [z] ou até [x], dependendo do contexto fonético ou de características regionais. • O artigo definido é sempre colocado antes do substantivo a que se refere (“a casa”) e nunca depois, por menos escolarizado que seja o fa- lante (ninguém diz “casa a”). • O pronome oblíquo fica sempre junto do ver- bo, não admitindo um elemento intercalado: dizemos “Ana me sustentou durante muito tempo”, mas não “Ana me durante muito tem- po sustentou”. • Os verbos regulares, na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, sempre ter- minam em –o (“amo”, “bebo”, “parto”) e não variam como na primeira pessoa do plural, por exemplo, quando podemos ter “amamos” ou “amamo”. • Em qualquer variedade do português, o verbo gostar é sempre seguido da preposição de: todos dizem “eu gosto de laranja”, e não “eu gosto laranja”. Por não apresentarem variação, esses exemplos se enquadram no que chamamos de regras categóri- cas, pois pertencem ao repertório comum de todos os falantes brasileiros, independentemente de clas- se social, escolarização, origem regional ou quais- quer outros fatores. Já nos casos em que há possi- bilidade de variação, como na marcação do plural em “as meninas” x “as menina”, dizemos que se trata de uma regra variável, ou simplesmente vari- ável, pois dependendo de certos fatores, qualquer uma das duas formas pode ocorrer em português. Outro ponto importante é que a variação não é aleatória, isto é, não se trata de um fenômeno de- sordenado. A variação é organizada e estruturada por uma série de fatores linguísticos e sociais. Para compreender bem essa ideia, faça o que se pede: Pronuncie cuidadosamente cada uma das palavras: raspa x rasga escama x esgana fisco x fisgo Agora, leia de novo as palavras prestando atenção no som do /s/ em cada uma delas. Você percebeu a diferença entre o /s/ das palavras da primeira coluna e o /s/ da segunda coluna? Na verdade, apesar de a letra, na escrita, ser a mesma, no primeiro caso a pronúncia é [s], mas na segunda coluna de palavras a pronúncia muda para [z]. Por quê? Se você é um bom observador, e já está pegando o jeito de pesquisador em linguística, então notou que, na primeira coluna, o /s/ vem sempre antes de uma consoante /k/, que é foneticamente surda, assim como o próprio /s/. Já na segunda coluna, o /s/ vem seguido de /g/, uma consoante sonora. Esse contexto fonológico determina a diferença de pronúncia do /s/, criando uma interessante regra, que se traduz em maior conforto para o nosso siste- ma fonador. A regra poderia ser escrita assim: Sempre que vier antes de uma consoante surda, o /s/teráapronúnciasurda[s];quandoprecederuma consoantesonora,o/s/teráapronúnciasonora[z]. Essa regra, apesar de provavelmente não fazer parte de nenhum livro de gramática da língua portuguesa do Brasil, é dominada e seguida por todos os brasileiros. Trata-se um caso de variação linguisticamente condicionada, não dependendo de fatores sociais como escolaridade, classe social, sexo ou qualquer outro. No entanto, é possível ouvir, em nossa língua, ou- tras pronúncias para palavras como essas. Vamos rever o quadro, considerando a possibilidade das seguintes pronúncias para cada palavra: raspa x rasga [raxpa] x [rajga] escama x esgana [ixkama] x [ijgana]
  • 13. 13Capítulo 1 Você já ouviu alguém falar assim? Provavelmente, sim e, nesse caso, você seria capaz até de dizer de que região do país essa pessoa que fala “chiando” vem, não é mesmo? Estamos, portanto, diante de um caso de variação condicionada por fatores externos à língua; nesse caso, a procedência regional. Podemos, com boa razão, desconfiar de que nosso falante vem do Rio de Janeiro, onde, na opinião de quem não nasceu lá, as pessoas “falam chiando”. Tanto as possibilidades de pronúncia determina- das e limitadas por fatores linguísticos como as possibilidades alternativas condicionadas por fato- res sociais (regionais ou outros) são parte legítima das possibilidades mais amplas da língua. Em to- dos os casos, trata-se de riqueza e de complexidade da língua, e nunca de “erro” ou de “ignorância” dos falantes. É isso que torna a língua fascinante. Como afirma Bagno (2007, p. 43), a língua é: Um sistema que possibilita a expressão de um mesmo conteúdo informacional através de regras diferentes, todas igualmente lógicas e com coerência funcional... E mais fas- cinante ainda: um sistema que nunca está pronto, que o tempo todo se renova, se recompõe, se reestrutura, sem todavia nunca deixar de proporcionar aos falantes todos os elementos para sua plena interação social e cultural. Vemos, portanto, que a língua varia, mas não varia de qualquer forma. A língua é regrada, no sentido de que é organizada e ao mesmo tempo flexível. A gramática de cada língua oferece um conjunto de possibilidades de como se dizer alguma coisa, ao mesmo tempo em que limita essas possibilidades de forma bem ordenada e sistemática. 6. O Vernáculo Brasileiro A sociolinguística, ao contrário dos estudos mais tradicionais sobre a linguagem, opera fortemente e até prioritariamente com a modalidade falada da língua, sem deixar, é claro, de investigar os fenô- menos de seu interesse também na escrita. Nesse sentido, os sociolinguistas referem-se à modalida- de falada da língua como o vernáculo, entendido como “o veículo linguístico de comunicação usado em situações naturais de interação social, do tipo comunicação face a face” (TARALLO, 1994, p. 19). Portanto, como lembra Bagno (2007), o termo ver- náculo é usado, em sociolinguística, numa acep- ção marcadamente diferente do sentido que lhe é atribuído nos dicionários de língua portuguesa. Segundo o Dicionário Aurélio Século XXI, por exemplo, vernáculo designa a “linguagem genuína, correta, pura, isenta de estrangeirismos”, ou ain- da, num sentido mais neutro, vernáculo seria si- nônimo de “próprio da região” ou “nacional”. No entanto, William Labov (citado por Bagno, 2007, p. 51) utilizou o termo num sentido técnico como “o estilo em que se presta o mínimo de atenção ao monitoramento da fala”. De acordo com Tarallo (1994), falar de vernácu- lo é falar da língua conforme usada em situações bastante informais, como a interação com amigos e familiares, em casa, nos bares, clubes, parques, corredores da escola ou da faculdade. É a língua como falada entre parentes, amigos, namorados e outros. Característica do vernáculo é que ele é fala- do sem a preocupação de “falar certo”. É diferente de quando falamos diante de autoridades como professores, patrões ou outras pessoas com a pre- ocupação de mostrar que sabemos usar a língua. Embora não despreze, de forma alguma, outros materiais linguísticos, a sociolinguística prefere trabalhar, em suas análises, com materiais prove- nientes do vernáculo. A ideia é que fica mais fácil compreender a variação, por exemplo, se os dados linguísticos analisados tiverem sido produzidos em situações espontâneas, quando os falantes não estavam pensando em falar “corretamente”, mas estavam se expressando livremente em situações reais de uso da língua. Segundo Bagno, o vernácu- lo parece ser “a fonte mais segura para a investigação dos fenômenos de mudança linguística que afetam determinada língua num dado momento histórico” (2007, p. 51). O vernáculo, numa perspectiva de heterogenei- dade linguística, não é único e indivisível. Cada comunidade de fala ou grupo social apresenta seu próprio vernáculo ou estilo que, naquela variedade linguística, “representa a fala mais espontânea, menos monitorada, que emerge sobretudo nas interações verbais com menor grau de formalidade e/ou com maior carga de emotivida- de” (BAGNO, 2007, p. 51).
  • 14. 14 Capítulo 1 A vantagem de se estudar o vernáculo é que ele permite identificar quais são as regras efetivamente vigentes na língua no momento da investigação, ou seja, que usos linguísticos as pessoas estão realmen- te praticando e quais regras estão sendo deixadas de lado ou modificadas. Por exemplo, as pesquisas sociolinguísticas mostram que os brasileiros quase não usam mais os chamados pronomes oblíquos de terceira pessoa (o, a, os, as), preferindo substi- tuí-los por ele, ela, eles, elas. Confira abaixo: 1. Variante padrão, conservadora e de prestígio: Comprei o livro, mas o esqueci em casa. 2. Variante não padrão, inovadora e estigmatiza- da: Comprei o livro, mas esqueci ele em casa. Fica claro para qualquer bom observador que a va- riante 1, embora socialmente prestigiada, está em processo de extinção na fala dos brasileiros. A va- riante 2, embora estigmatizada, é a mais frequente e provavelmente substituirá a variante padrão no futuro. O grande problema para a investigação do verná- culo é representado pelo que Labov chamou de “o paradoxo do observador”, que pode ser assim traduzido: Para ter acesso à grande quantidade de dados necessários para a análise, o pesquisador precisa interagir diretamente com os falantes. No entanto, como fazer isso sem que sua presença afete a naturalidade (o caráter vernacular) da fala dos seus informantes? Posto de outra forma, como coletar a fala espontâ- nea dos membros da comunidade pesquisada, se eles sabem que sua linguagem está sendo analisa- da pelo pesquisador? O problema se torna ainda maior se considerarmos que a gravação não pode Fonte:http://generalidadescotidianas.blogspot. com/ Figura 3: Reflexos do vernáculo brasileiro ser secreta, sem a ciência e a permissão dos infor- mantes, pois isso traria implicações éticas negativas para a pesquisa. A solução que Labov encontrou para o dilema foi coletar narrativas de experiência pessoal que colo- cassem os informantes em situações de grande en- volvimento emotivo, de modo que se desligassem do fato de estarem sendo gravados ou observados. Ao falarem de si e de acontecimentos pessoais mar- cantes, a tendência dos falantes é serem mais es- pontâneos e menos atentos às formas de expressão linguística. Isso era ainda mais reforçado, nas pes- quisas de Labov, por se induzirem narrativas que envolviam forte carga de emotividade, mediante perguntas como: “Você já esteve numa situação em que pensou que ia morrer?”. Segundo Tarallo (1994, p. 22), os diversos módu- los de perguntas incluíam os seguintes assuntos: história pessoal do informante, jogos e brincadei- ras de infância, brigas, namoros e encontros amo- rosos, casamento, perigo de morte, medo, família, religião, amigos, serviços públicos, violência, esco- la, trabalho, esportes etc. Investigações nessa linha têm um grande potencial de colaboração com o ensino de língua portugue- sa, uma vez que podem, entre outras coisas, indicar o que deve ou não ser prioridade nos currículos, ao definir as características do vernáculo brasilei- ro em um determinado momento histórico. Seria razoável, nessa linha, indicar os fenômenos linguís- ticos de uso frequente na língua como prioritários para o ensino; por outro lado, não seria indicado insistir em ensinar aos alunos regras desusadas e em extinção na língua. Para os efeitos deste primeiro capítulo, bastam as informações dadas até aqui com sua respectiva problematização. No próximo capítulo, retornare- mos ao tema da variação de uma forma bem mais detalhada.
  • 15. 15Capítulo 1 ATIVIDADES | Pesquise na internet e/ou em outras fontes so- bre a obra de William Labov, conhecido como o pai da sociolinguística: quais foram as prin- cipais pesquisas que ele realizou e que livros publicou? Como você avalia a contribuição de Labov para a sociolinguística e, por extensão, para a compreensão e o ensino de língua por- tuguesa? REFERÊNCIAS BAGNO, Marcos. Nada na língua é por aca- so: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola, 2007. BELINE, Ronald. A variação linguística In: FIO- RIN, J. L. (Org.) Introdução à linguística. I. Ob- jetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2002. p. 121-140. CALVET, Louis-Jean. Sociolinguística: uma in- trodução crítica. São Paulo: Parábola, 2002. MOLLICA, Maria Cecilia. Fundamentação teó- rica: conceituação e delimitação. In: MOLLICA, Maria Cecilia; BRAGA, Maria Luiza (Orgs.). In- trodução à sociolinguística: o tratamento da variação. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2008. p. 9-14. TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguísti- ca. 7. ed. São Paulo: Ática, 2005. SAIBA MAIS!SAIBA MAIS! Para aprofundar o conteúdo deste ca- pítulo e ampliar seus conhecimentos sobre a disciplina sociolinguística como um todo, além de textos de divulgação e trabalhos científicos disponíveis na In- ternet, sugiro as seguintes leituras: • Uma boa síntese introdutória se en- contra no livro de Fernando Tarallo, A pesquisa sociolinguística, da Série Princípios, publicado pela editora Ática. Além das informações gerais sobre a disciplina, o livro, pequeno e de fácil leitura, oferece passos e sugestões metodológicas para a pesquisa na área. • De uma natureza diferente, mas igualmente relevante, é o livro de Louis-Jean Calvet, Sociolinguística: uma introdução crítica, publicado pela editora Parábola. O livro, tra- duzido do francês, apresenta a dis- ciplina numa perspectiva europeia, não se restringindo à explicação da teoria, mas abordando-a de forma crítica como diz o subtítulo. RESUMO Neste capítulo, tivemos um primeiro contato com a sociolinguística e seus principais con- ceitos. A intenção, nesse primeiro momento, foi apresentar a disciplina como uma das vertentes mais relevantes e atuais da pesquisa em linguística no Brasil e também no mundo. Depois de algumas informações sobre as origens da sociolinguística, bem como sobre o fundador da sociolinguística como disciplina contemporânea, William Labov, aprendemos um pouco sobre os interesses da área, concentrados principalmente na fala vernacular do português brasileiro e girando em torno da noção de variação linguística. Conceituamos, por conseguinte, as noções de variação, variante, variável e variedade linguísticas, além de discutirmos o importante conceito de vernáculo. Vimos que a variação, embora seja um fenômeno extremamente comum e recorrente na língua, não é um fenômeno aleatório e desordenado. Como resultado das discussões encetadas neste capítulo, concluímos que os estudos variacionistas podem apresentar uma expressiva contribuição para o ensino da língua portuguesa no Brasil.
  • 16.
  • 17. 17Capítulo 2Capítulo 2Capítulo 2 Objetivos Específicos • Conhecer os tipos ou modalidades de variação linguística. • Compreender os fatores extralinguísticos determinantes da variação. Introdução O ensino tradicional de língua portuguesa, reforçado pelos meios de comunica- ção, formou e alimenta a ideia de língua como um bloco uniforme e homogêneo. Como vimos no Capítulo 1, hoje é necessário reconhecer que a língua não é uniforme nem homogênea, mas essencialmente variada e variável. Conforme Bagno (2007), a língua é um “substantivo coletivo”, pois se refere a um vasto conjunto de realizações possíveis pelos seus falantes. Para Ilari e Basso (2006), a uniformidade da língua portuguesa é pelo menos parcialmente um mito que foi alimentado por fatores como o nacionalismo, uma visão reducionista do fenôme- no linguístico e uma insensibilidade para com a variação. A realidade da variação não é exclusividade do português brasileiro, nem do português europeu, como podemos ver pelas palavras do escritor José Saramago (citado por Bagno, 2007, p. 39): “Quase me apetece dizer que não há uma lín- gua portuguesa, há línguas em português”. Além de ser um fenômeno natural em português e em qualquer outra língua, a variação também é um fenômeno complexo, que se manifesta de diversas formas. A seguir, veremos em detalhes que formas são essas. 1. Níveis Linguísticos da Variação De acordo com Bagno (2007), a variação pode ocorrer, em princípio, em todos os níveis da língua, do fonético/fonológico ao morfológico, sintático, semântico, lexical e estilístico-pragmático. Vejamos cada um desses níveis, seguindo de perto a abordagem de Bagno (2007, p. 39-40): • Variaçãofonético-fonológica:empalavrascomoportaoutorta,ortemdiversas pronúncias no português brasileiro. Entre as regiões nordeste e sudeste, nota- A Variação Linguística: Tipologia Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra Carga Horária | 15 horas
  • 18. 18 Capítulo 2 mos também uma diferença na pronúncia de o e e em palavras como movimento e coletivo (sons abertos no nordeste e fechados no sudeste). • Variação morfológica: o Dicionário Aurélio Século XXI apresenta formas como pegajoso, peguento e pegajento como sinônimos, embora formados com sufixos diferentes. • Variação sintática: as frases abaixo têm o mes- mo sentido, embora varie a forma como seus constituintes são organizados: 1. Uma história que ninguém prevê o final. 2. Umahistóriaqueninguémprevêofinaldela. 3. Uma histórica cujo final ninguém prevê. • Variação semântica: palavras como vexame significam coisas diferentes dependendo da região em que são utilizadas: “vergonha/emba- raço” ou “pressa”. • Variação lexical: usamos palavras diferentes para dizer a mesma coisa: cachaça, cana ou aguardente; aipim, mandioca ou macaxeira; jeri- mum ou abóbora. • Variação estilístico-pragmática: Dependendo da situação de uso e de fatores como o grau de formalidade e a intimidade que tem ou não tem com seus interlocutores, a mesma pessoa pode usar os seguintes enunciados: 1. Queiram se sentar, por favor. 2. Senta aí, galera. 2. Tipologia da Variação Linguística Conforme Ilari e Basso (2006), a variação linguís- tica classifica-se em diacrônica, diatópica, diastrática e diamésica. Bagno (2007) acrescenta ainda a noção de variação diafásica. A seguir, veremos o que signi- fica cada uma delas. 2.1 Variação Diacrônica Literalmente, o termo diacrônico, derivado do idio- ma grego, significa “através do tempo”. O tempo é, portanto, um importante fator de variação: toda língua varia e muda com o passar do tempo. O pesquisador pode mensurar a variação diacrônica por meio de duas estratégias: a primeira é o tempo aparente, em que a investigação se concentra em di- ferentes faixas etárias, o que permite chegar a con- clusões sobre o status da língua nos diferentes mo- mentos refletidos pelas experiências das gerações. Nesse caso, o estudo consiste em examinar um “recorte transversal da amostra sincrônica em fun- ção da faixa etária dos informantes” (TARALLO, 1994, p. 65). Ilari e Basso (2006) apresentam alguns exemplos. Um deles é: somente os mais velhos compreendem a expressão “estar de bonde” como significando “es- tar com a namorada”. Outro exemplo de variação verificável em tempo aparente diz respeito ao sen- tido do verbo ficar como sinônimo de um tipo de relacionamento afetivo passageiro e sem compro- misso, sentido fácil de entender para os adolescen- tes, mas muito estranho para os adultos e idosos. Caso desejasse observar in loco fenômenos de varia- ção e mudança linguística, usando a estratégia do tempo real, o pesquisador teria que, por exemplo, acompanhar a evolução dos falantes da adolescên- cia até idade adulta e, assim, verificar que fenôme- nos se manifestariam e como. Em vez disso, que dificilmente seria viável, os pesquisadores podem, na falta de gravações de voz, lançar mão de docu- mentos do passado que potencialmente reflitam o vernáculo vigente no momento histórico desejado. O essencial, como ressaltam Ilari e Basso (2006), é não pensar na língua como um conjunto de formas estabelecidas em caráter definitivo no passado, por obra de algum tipo de “assembleia de sábios”, e sim ver a língua como uma entidade dinâmica e em constante mudança. A língua que falamos hoje é resultado de diversas mudanças ocorridas no pas- sado, em momentos distintos, além de apresentar formas ainda em concorrência ao lado de expres- sões provenientes de diferentes momentos históri- cos. Confira a seguir um pequeno recorte de um exemplo apresentado pelos autores (p. 154): São Paulo, 1830 Hontem pela manhãa se me enviou um negro do gentio de Guiné, muito boçal, e trajado à maneira dos que vem em comboi, e se me dice, foi pegado, vagando como perdido... Neste texto do século dezenove, a palavra boçal sig- nificava que o negro ainda não estava totalmente aculturado e não falava a língua portuguesa com de-
  • 19. 19Capítulo 2 senvoltura. Significado, portanto, muito diferente do atual. O conceito de variação diacrônica ressal- ta, nesse caso, o papel do tempo como fator decisi- vo para a alteração do sentido da palavra. Note que não estamos considerando especificamente a gra- fia da língua, que muda por decreto de tempos em tempos, mas o termo como representado na fala e seu respectivo conceito. Não seria difícil, assim, en- contrar outros exemplos de palavras e expressões que mudam de conotação com o passar dos anos. 2.2 Variação Diatópica Ao contrário da variação diacrônica, que está rela- cionada com diferenças de usos linguísticos verifi- cados com o passar do tempo, a variação diatópica (termo derivado do grego, significando “através do lugar”) se refere aos “modos de falar de lugares di- ferentes” (BAGNO, 2007, p. 46). Esses lugares po- dem ser países, regiões, estados ou os ambientes rural e urbano, entre outros. Conforme Ilari e Bas- so (2006, p. 157), a variação diatópica compreende “as diferenças que uma mesma língua apresenta na dimensão do espaço”, por ser falada por pessoas situadas em diferentes pontos geográficos de um país ou de países diferentes. No que diz respeito à língua portuguesa, a variação diatópica, em seu sentido mais amplo, se dá pelas diferenças verificáveis entre o chamado português europeu (PE) e o português brasileiro (PB). Algu- mas pessoas, sejam elas estudiosas da linguagem ou não, defendem que hoje não falamos mais o português, e sim o “brasileiro”, pois não se trataria mais da língua trazida por nossos colonizadores, mas de uma nova língua formada em nosso país com a contribuição de outras culturas. Seja qual for nossa opinião sobre esse assunto, o fato é que as diferenças entre o português conforme falado (e até escrito) em Portugal e nas antigas colônias lusi- tanas da África e da Ásia e o português falado (e escrito) no Brasil são numero- sas e inegáveis. Essas diferenças são pro- fundas o suficiente para exemplificar com clareza a noção de variação diatópica. Ilari e Basso (2006) alistam os seguintes contrastes entre o PE e o PB: • Na fonética/fonologia, o PE se caracteriza pelo enfraquecimento das vogais pretônicas, pela pronúncia do /R/ como vibrante múltipla e pelo /l/ com pronúncia velarizada em final de sílaba; no PB, o /l/ é substituído pela semivo- gal /w/, no mesmo contexto. • Ao contrário do PB, que admite construções iniciadas por pronomes clíticos, como em Me dá um cigarro, o PE não admite tais construções. • Em PE, usa-se o pronome si como anafórico de pronomes de tratamento, como em Doutor, esta carta é para si; em PB, usa-se outra expressão de tratamento: Doutor, esta carta é para o senhor. • PE e PB usam expressões diferentes para a no- ção de continuidade manifesta pelo verbo: Não estou a perceber (PE) x Não estou percebendo (PB). • O PE usa expressões condicionais como Se eu sabia, eu vinha, que é discriminada em PB culto. • Há numerosas diferenças de vocabulário en- tre PE e PB. Citemos apenas alguns substanti- vos: grossista/atacadista, cerveja de pressão/cho- pe, rapariga/moça, SIDA/AIDS, casa de banho/ banheiro etc. • O PE usa palavras próprias da língua em situa- ções nas quais o PB recorre a empréstimos do inglês: arca frigorífica/frízer. Muito interessante, na variação entre o PE e o PB, são as diferenças entre expressões idiomáticas como as referidas no quadro: PE PE/PB PB Teimoso feito um burro Teimoso como uma mula Teimoso que nem a mulher do piolho Falar como uma gralha Falar pelos cotovelos Falar mais que o homem da cobra Comprar a troco de reza Comprar por uma pechincha na bacia das almas Comprar por uma micharia/ninharia Chover a potes Chover a cântaros Chover canivetes Feio como os trovões Feio de doer Feio como a mulher do guarda Surdo para além do estúpido Surdo como uma porta Surdo feito um muro Pescar um marido Arranjar um marido Fisgar um marido Apanhar pela medida grande Apanhar Apanhar como cachorro sem dono Comer como um pisco Comer Comer como um passarinho Dormir como um prego Dormir como uma pedra Dormir como gato de hotel
  • 20. 20 Capítulo 2 Quanto à língua portuguesa no Brasil, a variação é um fenômeno inegável, embora não impeça que brasileiros de diferentes regiões entendam-se mu- tuamente. Ou seja, ao lado da variação, existe uni- dade suficiente para que a língua se afirme como patrimônio de todos os brasileiros. Infelizmente, a variação é quase sempre identificada em termo de estereótipos, com expressiva dose de preconceito: a fala nordestina, o sotaque baiano, cearense ou paraibano, ao lado do dialeto caipira do sul e su- deste do país, são costumeiramente descritos como formas exóticas e de algum modo desviantes no português brasileiro, em vez de serem vistos como manifestação da riqueza e complexidade da língua. Nesse trecho, note que o numeral dez é grafado déiz, marcando uma diferença inexistente entre a fala caipira e a fala culta. A maioria, se não todos, os falantes brasileiros pronunciam a palavra assim, apesar da escrita oficial. Não se trata de um fenô- meno da fala caipira, mas de uma característica ge- ral do português brasileiro. Noutros casos, como trabaiá, vemos de fato uma variação em relação à forma trabalhar, no que diz respeito ao segmento /lh/, substituído por /i/. No entanto, a pretensa variação relativa ao apagamento do /r/ final não é exclusiva da fala caipira, e sim uma marca da maior parte das variedades, inclusive cultas, do português por todo o Brasil. Esse fato evidencia como a varia- ção quase sempre é vista como exótica e é frequen- temente objeto de preconceito social. Independentemente disso, a variação diatópica no português brasileiro é uma realidade e pode ser exemplificada em diversos níveis de uso da língua. Vejamos alguns exemplos de forma sistemática: a. Aspectos lexicais: dependendo da região, o mesmo conceito pode ser expresso por pala- vras diferentes: lanternagem = funilaria macaxeira = aipim = mandioca venda = bodega = mercearia = quitanda jerimum = abóbora fruta do conde = pinha = ata b. Aspectos idiomáticos: há expressões regionais que praticamente configuram um falar local próprio, que dificilmente pode ser entendido até mesmo de um estado para outro na mesma região. Por exemplo, expressões como “tá com a bobônica!” ( tá com a peste!, tá danado!, entre muitos outros sentidos possíveis) parecem mui- to típicas de Pernambuco. Na verdade, ouvi a expressão pela primeira vez em Garanhuns, no Agreste Meridional do estado. Não me lembro de ter ouvido alguém falar assim antes, em quinze anos de Recife (também é verdade que uma pesquisa rápida na Internet mostra hoje um uso relativamente intenso da expressão em uma mídia que não respeita fronteiras regio- nais). Nessa mesma linha, grande é a riqueza de nosso idioma. Provavelmente, para enten- der expressões como “só o mie (desbuiado)” (= só o milho debulhado), significando algo muito bom, muito legal, ou até mesmo uma garota muito bonita, precisa ser cearense e/ou ter Deve-se ressaltar também que muitos textos que se propõem mostrar variedades populares do portu- guês são construídos de forma caricatural, exage- rando em muito a variação real. Apresentam a fala popular de forma exageradamente divergente da norma culta, enxergando como variação caipira o que característica do português em geral. Podemos citar como exemplo alguns termos retirados de parte da letra da música “Couro de boi”, composta por Teddy Vieira e Palmeira: Conheço um velho ditado que é dos tempos dos zagais, Diz que um pai trata déiz fio, déiz fio num trata um pai, Sentindo o peso dos anos, sem podê mais trabaiá, O véio peão estradeiro, com o seu fio foi morá, O rapaiz era casado, e a muié deu de impricá, Você mande o veio imbora, se não quisé que eu vá, O rapaiz coração duro, com véinho foi falá. Fonte:http://blog.educacional.com.br/glaucegram/tag/portugues/ Figura 1: Dialeto caipira
  • 21. 21Capítulo 2 vivido algum tempo em Fortaleza. Daí o sen- tido não só folclórico dos muitos dicionários regionais que, infelizmente, na maioria das ve- zes são construídos apenas como curiosidades humorísticas. O mapeamento sistemático das variações e sua distribuição regional está na base dos projetos cha- mados de atlas linguísticos. Vários deles se encon- tram disponíveis ou em elaboração no Brasil há alguns anos. Veja, no gráfico abaixo, uma ilustra- ção do projeto Atlas Linguístico de Pernambuco, em elaboração pelo pesquisador Edmilson Sá, douto- rando em linguística na Universidade Federal da Paraíba. Trata-se da análise estatística da ocorrên- cia do termo utilizado por falantes nas faixas etária de 18 a 30 e 50 a 65 anos para designar “a parte roxa do cacho da banana” e mostra que, embora predomine largamente o termo mangará, também são utilizados outras sete palavras para designar a mesma coisa. c. Aspectos fonéticos/fonológicos: nas diversas regiões brasileiras, é possível verificar variações na pronúncia de diversos fonemas. Vejamos al- guns casos mais evidentes e reconhecidos, lem- brando sempre que alguns deles imediatamen- te apontam para a região em que são falados e não raro contribuem para atribuir prestígio ou estigma (avaliação preconceituosa) aos seus fa- lantes,embora,dopontodevistalinguístico,ne- nhuma forma seja inferior ou superior à outra. d. Aspectos morfossintáticos: o português bra- sileiro, nas diversas regiões, apresenta modos diferentes de realizar construções que apresen- tam o mesmo sentido. Vejamos alguns casos: mais /maiz/ /maish/ vamos /vamuz/ /vamu/ /ramu/ dente /denti/ /dentchi/ /dente/ Uso ou omissão de artigo definido antes de nomes próprios: Ontem foi o casamento do Luís. Ontem foi o casamento de Luís. Uso de tu e você como pronomes de segunda pessoa: Tu vais. Tu vai. Você vai. Uso ou omissão do pronome reflexivo: Esta é a igreja onde ele congrega. Esta é a igreja onde ele se congrega. Fonte:http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-167591583- orelio-cearense-andrea-saraiva-_JM Figura 2: Dicionário regional: Orélio Cearense Fonte:http://alipeedmilsonjsa.blogspot.com/ Figura 3: Atlas Linguístico de Pernambuco 2.3 Variação Diastrática Além das diferenças de uso no português falado do ponto de vista temporal (variação diacrônica) e do ponto de vista geográfico (variação diatópi- ca), que são ricas e variadas, conforme vimos, ou- tra importante diferença é a que se verifica entre a fala das camadas mais escolarizadas da população e as camadas menos escolarizadas. No caso brasi- leiro, especificamente, notamos que essa diferença também apresenta um aspecto socioeconômico: as camadas mais escolarizadas são também as mais ricas, e as menos escolarizadas, por sua vez, são as mais pobres dentre a população brasileira. Esse tipo de variação, que se encontra “quando se comparam diferentes estratos de uma população” (ILARI e BASSO, 2006, p. 175), chama-se, por isso mesmo, de variação diastrática. Na definição de Bagno (2007, p. 46), variação diastrática é “a que se verifica na comparação entre os modos de falar das diferentes classes sociais”. As variedades
  • 22. 22 Capítulo 2 do português brasileiro faladas pelas camadas não escolarizadas ou menos escolarizadas da população às vezes são chamadas, de modo bastante generali- zante e talvez simplista, de “português subpadrão”, “português sub-standard” ou ainda “português não padrão”, por oposição ao “português padrão” das classes altas e mais escolarizadas. No entanto, pare- ce mais razoável admitir que o português brasileiro realmente subsiste na forma de diversas variedades não padrão, que se contrapõem a um padrão idea- lizado que não corresponde à fala real de nenhum grupo social existente. De modo geral, algumas diferenças podem ser apontadas entre as variedades não padrão e a varie- dade padrão do português, nos diversos níveis de realização da língua: a. Nível fonético fala de grande parte dos brasileiros hoje, indepen- dentemente de classe social ou escolaridade. Por esse mesmo raciocínio, efetivamente não existe variação fonética entre as formas pió e pior, mas apenas formas diferentes de representar na escri- ta (frequentemente embutindo estereótipos) a fala das classes populares e a fala das classes socialmen- te favorecidas. c. Nível sintático Queda ou nasalização da vogal átona inicial: incelença x excelência Queda de material fonético após a vogal tônica: figo x fígado Ciço x Cícero centimo x centímetro quilomo x quilômetro Monotongação de ditongos crescentes: sustança x substância Uso de /i/ ou /l/ em vez de /lh/: foia x folha muié/mulé x mulher cuié/culé x colher b. Nível morfológico Perda da desinência de número na primei- ra pessoa: nós cantamo/cantemo x nós cantamos Acréscimo de advérbio de comparação a adje- tivos já comparativos: mais mió x melhor mais pió x pior Além dos aspectos destacados acima, já bastante claros por si mesmos, cabe uma observação sobre as formas mió (= melhor) e pió (= pior), constan- tes do segundo exemplo. Deve ser ressaltado que, nesse caso, a variação fonética subjacente é signifi- cativamente exagerada pelo modo como as formas populares são registradas na escrita. Rigorosamente, para a maioria dos falantes em to- das as regiões do Brasil, só existe variação fonética no primeiro par (mió x melhor), e esta consiste na omissão de /lh/ na variedade popular. A alteração de /e/ para /i/ não é de forma alguma exclusiva das classes populares, assim como a omissão do /r/ final igualmente se caracteriza como um marca da Perda da con- cordância ver- bo-nominal na terceira pessoa: Os doce mais bonito é para as visita. Os doces mais bonitos são para as visitas. Uso de dupla negação: Ninguém não sabia de nada. Ninguém sabia de nada. Orações relati- vas com varian- tes cortadoras ou copiadoras: A casa que eu morei. A casa que eu morei nela. A casa em que eu morei. Uso de prono- mes do caso reto como ob- jeto: Eu vi ele. Eu o vi. Quanto às diferenças verificadas entre as varie- dades populares e as variedades cultas, também é importante ressaltar que elas não são aleatórias nem desorganizadas, mas são reguladas por uma gramática com regras próprias, variáveis em rela- ção ao padrão culto, mas igualmente legítimas no sistema da língua portuguesa. Conforme ressaltam Ilari e Basso (2006), quando tratamos das varie- dades populares do português brasileiro, estamos diante de outras possibilidades do mesmo código, e não diante de erros ou desvios ocasionados por uma pretensa incapacidade mental ou intelectual de seus falantes. Um problema sério para a comparação entre va- riedades populares e variedades cultas é que as pri- meiras se verificam quase exclusivamente na fala e não na escrita. Quando encontramos as varieda- des populares, representadas em textos escritos, essa representação ou transcrição inevitavelmente mostra uma tendência, fruto de estereótipos e até de preconceitos, no sentido de caricaturar a fala popular, exagerando suas diferenças em relação à escrita padrão. Confira abaixo um exemplo disso na transcrição de um trecho de entrevista entre pesquisadora e menino de rua. Observe como se transcrevem, respectivamente, a fala da pesquisa- dora e a fala do adolescente.
  • 23. 23Capítulo 2 Pesquisadora: Você quer contar como os policiais mataram o Adauto? Menino: Nóis tava dormino lá em casa, às treis hora da manhã, i os PM chegaro, deu um tiro na porta, pegô na perna do “fulano” aí em se- guida ez arrebentô a porta, aí deu oto tiro, pegô na cabeça do Adauto, ez viro que tinha acertado o Adauto. Falaro: “Vamo saí fora que certô o menino aqui”... O primeiro aspecto a observar é que, na repre- sentação escrita da fala da pesquisadora, repre- sentante das classes escolarizadas, o enunciado segue rigorosamente o padrão ortográfico oficial, ainda que, muito provavelmente, ela não pronun- cie o /r/ final dos verbos quer e contar, seguindo a tendência de grande parte, talvez da maioria, da população brasileira hoje, independentemente de grau de escolarização. A fala da representante das classes mais favorecidas, portanto, é de certa forma idealizada e aproximada artificialmente do padrão ortográfico convencionalmente estabelecido. Já na representação da fala do menino de rua, tí- pico representante das classes não escolarizadas e socialmente desfavorecidas, os indícios de variação recebem forte acentuação na transcrição para a es- crita, exagerando em muito a distância entre a fala popular e o padrão culto. Se é verdade que formas como dormino (= dormindo) e oto (= outro) repre- sentam variantes mais ou menos populares, a rigor não existe variação alguma em nóis (= nós) e treis (= três), apesar de que a forma como as palavras estão transcritas levam a essa impressão. Até o fa- lante mais culto do português também pronuncia assim essas palavras, sob pena de parecer pedan- te e artificial caso não pronuncie a semivogal /i/ que, apesar de não existir na escrita, efetivamente faz parte dessas palavras em nossa língua. Obser- ve, portanto, como é difícil e, ao mesmo tempo, importante desenvolver a capacidade de encarar o fenômeno da variação linguística com um olhar livre de preconceitos. 2.4 Variação Diamésica Segundo Bagno (2007), a variação diamésica se verifica na comparação entre a “língua falada” e a “língua escrita” como “meios” de comunicação, tendo a categoria de gênero textual como um con- ceito fundamental. Conforme Ilari e Basso (2006), trata-se de uma dimensão, às vezes, esquecida na análise da variação, e está relacionada “aos vários veículos e meios de expressão que a língua utiliza” (p. 180). Na ótica desses autores, a variação diamésica tem a ver primeiramente com as “profundas diferenças que se observam entre a língua falada e a língua es- crita” (p. 181). Uma dessas diferenças diz respeito à avaliação que as pessoas fazem de sua própria fala. Por exemplo, ainda segundo os autores, as pessoas dizem né, ocêis, dissero ou téquinico e pensam que estão dizendo não é, vocês, disseram ou técnico. Em outras palavras, muitos acham que falam da mes- ma forma que escrevem. Quando se trata de fala e escrita, os equívocos são muitos e há espaço para muita confusão. A propó- sito disso, acabamos de mencionar autores que se referem à “língua escrita” e à “língua falada”. Ora, rigorosamente, não existe língua escrita ou falada, mas apenas língua. Escrita e fala não são tipos ou espécies de língua, como se fossem dois sistemas linguísticos em oposição. Só existe a língua; fala e escrita são formas de representação dessa língua, e não línguas em si mesmas. Acredito que os autores citados concordariam com essa tese, mas a sua for- ma de escrever sobre o assunto deixa margem para confusão. Fala e escrita, como modalidades de uso da lín- gua, obviamente diferem entre si, mas não em ter- mos dicotômicos, como bem ressaltou Marcuschi (2001). Diferentemente da perspectiva dicotômi- ca ainda advogada por Ilari e Basso (2006), pela qual a escrita seria planejada e a fala não planeja- da, Marcuschi chama a atenção para o contínuo dos gêneros textuais em que a relação fala x escrita acontece. Nesse contínuo, podemos encontrar tex- Fonte:http://faarte2010.blogspot.com/2010/05/menas-o- -certo-do-errado-o-errado-do.html Figura 4: Diferenças fala x escrita
  • 24. 24 Capítulo 2 tos bem planejados tanto na fala como na escri- ta. Pensemos, por exemplo, num artigo científico (escrita) e num discurso de formatura (fala). Além disso, a relação entre os gêneros textuais na fala e na escrita não é estanque. O discurso de formatu- ra, por exemplo, pode se apoiar em observações escritas, no todo ou em parte. O fundamental é que a variação não é exclusivi- dade da fala. Tanto a fala como a escrita variam. Parece certo que se pode afirmar a tese de que todo uso da língua, em qualquer nível, gênero ou regis- tro, em princípio está sujeito à variação. Então, sempre que pensamos na fala como variável e na escrita como estabilizada, não variável, na verdade estamos pensando em determinados gêneros pro- totípicos de uma ou outra modalidade e não na fala e na escrita como um todo. É razoável pensar que um bilhete, embora repre- sente a escrita, esteja muito mais aberto à variação do que uma apresentação oral acadêmica (fala). In- versamente, uma conversa informal entre amigos (fala) potencialmente apresentará mais variação que uma ata de condomínio (escrita). Mais uma vez, não se trata de oposição entre fala e escrita, mas de formas diferentes de uso da língua, em di- ferentes contextos sociais, em diferentes níveis de formalidade ou informalidade e em diferentes gê- neros textuais. Portanto, não só os usos da fala e da escrita apre- sentam características próprias, embora não dico- tômicas, como também os gêneros textuais, dis- tribuídos pelas duas formas de representação da língua, igualmente variam em função de aspectos como domínios discursivos (discurso político, dis- curso jornalístico, discurso religioso etc.) e culturas disciplinares e profissionais (informática, direito, medicina, história, sociologia, linguística etc), en- tre outros. Assim, a linguagem utilizada para es- crever um artigo científico obviamente não será a mesma empregada em bate-papos virtuais. Como ressaltam Ilari e Basso (2006), os gêneros, além de apresentarem marcas formais peculiares e se guiarem por aspectos convencionais próprios, também podem utilizar a língua de maneira bas- tante específica, caracterizando o que os autores chamam de “sublíngua”. O exemplo dado é o do gênero boletim de ocorrência policial, em que são empregadas expressões como “o carro procedia pela mão de direção” ou “o elemento efetuou disparos contra a autoridade policial”. De alguma forma, gêneros tipicamente acadêmicos dificilmente são entendi- dos por quem não faz parte da academia, assim como gêneros do discurso jurídico raramente são compreendidos por quem não é advogado ou juiz. 2.5 Variação Diafásica Conforme Bagno (2007), por variação diafásica de- vemos entender a noção de variação estilística, isto é, “o uso diferenciado que cada indivíduo faz da língua de acordo com o grau de monitoramento” (p. 47) a que se submete ao longo de seu comporta- mento verbal, em diversos contextos interacionais. Embora menos desenvolvido na literatura, esse ponto é importante por ressaltar o fato de que até mesmo no nível individual não utilizamos a língua sempre da mesma forma. Variamos nos- sos usos de acordo linguísticos com situações de maior ou menor informalidade, de mais ou menos tensão emocional, de maior ou menor intimidade com a situação comunicativa que estamos viven- ciando, entre outros fatores. Para dar um exemplo concreto: há situações em que nos sentimos mais à vontade para falar “Encontrei ele na rua” em vez de “Encontrei-o na rua”. Isso mostra, adicionalmente, que a própria ocor- rência da variação no nível individual se configura como um aspecto da competência comunicativa que desenvolvemos ao longo da vida, de modo que, como bem ressalta Bagno, “não existe falante de estilo único” (2007, p. 45). A língua varia, inclu- sive no nível individual. 3. Variação e Preconceito: Uma Relação Perigosa A variação, embora categorizada como diacrôni- ca, diatópica, diastrática, diamésica e diafásica, não se dá a cada vez num desses formatos. Na re- alidade, a variação é simultaneamente tudo isso. Em outras palavras, numa só instância de uso da língua é possível verificar variantes decorrentes de aspectos temporais e geográficos, bem como variantes relacionadas com grau de escolaridade, classe social, modalidade de uso da língua, gêne- ro textual utilizado e contexto de uso em que o falante se encontra.
  • 25. 25Capítulo 2 A constatação da variação permite desfazer a ilu- são da grande uniformidade da língua portuguesa. Conforme Ilari e Basso (2006), foi na década de 1950 que essa ideia foi construída por estudiosos que comparavam o português brasileiro especial- mente com línguas europeias marcadas por gran- des diferenças dialetais. Diante de certas situações linguísticas que caracterizam países da Europa como Itália, Alemanha, Portugal, França e Espa- nha, o Brasil realmente apresenta uma “unidade surpreendente”, pois todos os brasileiros, de norte a sul, mesmo com todas as diferenças nas varie- dades de língua que praticam, se entendem sem maiores dificuldades. Bagno (1999) considera a tese da uniformidade como um dos mitos que dão sustentação ao pre- conceito linguístico. Para o autor, essa ideia ficou tão arraigada em nossa cultura que pode ser en- contrada no pensamento de grandes intelectuais brasileiros. Entre estes, Bagno cita o antropólogo Darcy Ribeiro, para quem “os brasileiros são, hoje, um dos povos mais homogêneos linguística e cul- turalmente e... falam uma mesma língua, sem diale- tos” (p. 15). Como vimos ao longo deste capítulo, isso até pode ser considerado verdadeiro, contanto que não invalidade o fato de que a língua falada no Brasil é enormemente variada e variável, como qualquer outro idioma mundial. Fechar os olhos para a variação acarreta, na visão de Bagno (1999), a imposição de uma norma lin- guística padrão por parte da escola, como se essa norma fosse a única possível no português, ou como se todos os brasileiros falassem ou tivessem que falar da mesma maneira, independentemente de idade, região, escolaridade, classe social, sexo etc. Na ótica de Ilari e Basso (2006), a ideia de que o português brasileiro é uma língua uniforme pode nos levar a esquecer não só a variação regional, dia- tópica, mas todas as demais formas de variação, as que estudamos neste capítulo e ainda outras pos- síveis. Isso nos levaria, como de fato tem levado a maioria das pessoas, a uma concepção limitada e equivocada do que seja a língua que falamos. Um problema maior do que não reconhecer a va- riação e tratá-la como deformação, desvio, vício, crime ou pecado contra a língua. Dessa forma, reedita-se a atitude clássica, inaugurada pelos gre- gos e seguida pelos romanos, de tratar os demais povos e suas línguas maternas como “bárbaros”, implicando, com isso, que se trataria de pessoas não inteligentes, não civilizadas, verdadeiros selva- gens. Tanto é que o termo bárbaro, que etimologi- camente é apenas uma onomatopeia criada pelos gregos para se referir aos sons linguísticos que não representassem palavras da sua língua, até hoje traz conotações extremamente negativas, ligadas a de- sordem, selvageria e perversidade. Tudo isso com base numa atitude negativa em relação à forma de falar de outras pessoas. Infelizmente, no português brasileiro, como nou- tras línguas contemporâneas, a atitude negativa em relação à variação linguística também tem se tradu- zido em preconceito social contra as pessoas que não falam “corretamente”. Quase invariavelmen- te, as diferenças linguísticas são atribuídas à falta de estudo (que realmente é um fator importante, mas não absoluto), falta de inteligência (o que é um completo absurdo), peculiaridades étnicas (“pra mim fazer” seria “língua de índio”) e origem regional (“fala de matuto”), entre outros fatores. Esses preconceitos obscurecem a realidade de que a língua toda varia, e não só a língua falada pelas classes menos favorecidas: a variação não é “privi- légio” de pobres, analfabetos, matutos e favelados, mas é um traço dos usos linguísticos de falantes de todas as classes sociais, todos os níveis de escolari- dade, moradores da cidade e do campo, residentes de condomínios fechados e das favelas. Reconhecer e avaliar adequadamente a variação, portanto, é um caminho seguro para o combate ao preconceito linguístico, que deveria ser uma res- ponsabilidade de todos os brasileiros, assim como todos concordam em combater as demais formas do problema. Ao que parece, como assevera Bagno (1999), a tendência, cada vez mais clara, de lutar contra as mais variadas formas de preconceito so- cial infelizmente não tem atingido o preconceito linguístico. Segundo o autor, muito pelo contrá- rio, “o que vemos é esse preconceito ser alimen- tado diariamente em programas de televisão e de rádio, em colunas de jornal e revista, em livros e manuais... sem falar, é claro, nos instrumentos tradicionais de ensino da língua: a gramática nor- mativa e os livros didáticos” (p. 13). Nesse contex- to, considerando que vivemos numa sociedade democrática e que se deseja justa, todas as nossas energias podem e devem ser postas a serviço de uma concepção de língua capaz de combater o pre- conceito e a discriminação motivados pela forma como as pessoas utilizam a língua, esse patrimônio valiosíssimo de todos os brasileiros.
  • 26. SAIBA MAIS!SAIBA MAIS! Para aprofundar o conteúdo deste capítulo e ampliar seus conhecimentos sobre o tema da variação, há muitos e interessantíssimos trabalhos que podem ser lidos. Es- ses trabalhos compõem desde livros completos a textos de divulgação, postados em blogs e sites pessoais ou institucionais, e trabalhos científicos disponíveis na Internet, podendo ser acessados sem maiores dificuldades. Cito apenas uma pequena amostra, que você pode ampliar com base em sua própria pesquisa. • Para saber mais sobre projetos de construção de atlas linguísticos, que mapeiam sistematicamente a variação nas diversas regiões brasileiras, veja o site do Projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) em http://twiki.ufba.br/twiki/bin/view/Alib/We- bHome. Esse projeto, conforme os organizadores, já concluiu levantamentos em 16 estados brasileiros e alcançou 213 localidades em todo o país. • Para um exemplo mais localizado e próximo, consulte também o blog do pes- quisador Edmilson Sá, que vem se dedicando, como parte de sua pesquisa de doutorado, a construir o Atlas Linguísticos de Pernambuco (ALIPE). Os principais resultados, bem como os municípios pernambucanos que foram objeto de pesqui- sa, encontram-se em http://alipeedmilsonjsa.blogspot.com/. • Para um exemplo de pesquisa sociolinguística sobre variação aliada à militân- cia acadêmica, jornalística e política contra o preconceito, veja o site do linguista Marcos Bagno, autor do conhecido livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, em http://marcosbagno.com.br/site/. Ali você encontrará muitos textos inte- ressantes, publicados em diversos veículos de comunicação. • Para mais conteúdos ricos e interessantes, veja também o site da pesquisadora Stella Bortoni da Universidade de Brasília: http://www.stellabortoni.com.br/. RESUMO Neste capítulo, nosso objetivo foi tra- çar um panorama abrangente do que seja a variação linguística, primeira- mente mostrando como ela se dá em todos os níveis imagináveis de utiliza- ção do sistema linguístico. Em segui- da, nos dedicamos a definir e exem- plificar uma tipologia bastante geral e abrangente da variação linguística, incluindo a variação diacrônica, dia- tópica, diastrática, diamésica e diafá- sica. Concluímos, refletindo sobre a íntima relação entre a atitude diante da variação e o preconceito contra os usuários dessa língua que inevitavelmente varia, e tem nisso um dos seus aspectos mais fascinantes e belos. Percebemos a importância de compreender esse tema, não só para o aprendizado teórico de uma disciplina, mas para nossa própria formação como cidadãos. Fonte:http://linguisticaadm.blogspot.com/ Figura 5: Gíria como variação
  • 27. 27Capítulo 2 Atividades | Pesquise na Internet exemplos concretos da disseminação de preconceito linguístico e, consequentemente, de desrespeito à variação linguística conforme exposta neste capítulo: as chamadas “pérolas” dos vestibulares ou do ENEM, cartazes e anúncios “errados” etc. O que você acha dessas coisas? O que significam? REFERÊNCIAS BAGNO, Marcos. Nada na língua é por aca- so: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola, 2007. BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999. ILARI, Rodolfo; BASSO, Renato (orgs). O portu- guês da gente: a língua que estudamos a lín- gua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006. MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: ati- vidades de retextualização. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
  • 28.
  • 29. 29Capítulo 3Capítulo 3 Objetivos Específicos • Compreender o conceito de norma linguística. • Conhecer os tipos de normas existentes na língua. • Entender as origens da noção de norma padrão no português brasileiro. Introdução Para a maioria das pessoas, a impressão é que as línguas se organizam de uma única maneira e, portanto, podem ser usadas, na fala e na escrita, de maneira “certa” ou “errada”. Como vimos nos capítulos anteriores, isso não é verdade. Toda língua se constitui em um conjunto de variedades com diferenças entre si, cada uma delas podendo ser utilizada de acordo com os contextos sociais de interação. Além disso, cada sociedade acaba definindo uma dessas variedades como preferível em relação às demais, especialmente em contextos formais de interação. Essa variedade da língua, eleita de forma mais ou menos inconsciente por cri- térios culturais e ideológicos, entre outros, e não por qualidades linguísticas in- trinsecamente superiores às qualidades das demais variedades, passa a regular oficialmente as práticas comunicativas na oralidade e na escrita. Passa também a ser valorizada como superior às demais variedades, sendo eleita como modelo para o ensino e sendo exigida nas situações formais de uso, como nos contextos profissional e acadêmico, por exemplo. Em uma palavra, essa variedade de uso da língua se torna padrão e adquire grande prestígio social, capaz de transferir, em princípio, esse prestígio para os seus usuários. Esse processo e essa maneira de lidar com as variedades empíricas ou idealizadas da língua envolvem o conceito de norma, que discutiremos neste capítulo. Vere- mos que, na língua portuguesa, como virtualmente em qualquer língua natural, convivem diversas normas linguísticas, ainda que socialmente se dê visibilidade apenas à chamada norma padrão. Examinaremos como esse conceito surgiu e con- solidou-se na sociedade brasileira. Falaremos ainda sobre conceitos como norma culta e norma popular, e perceberemos que esses conceitos são muito mais plurais que podemos imaginar. Norma Linguística e Outras Normas Prof. Dr. Benedito Gomes Bezerra Carga Horária | 15 horas
  • 30. 30 Capítulo 3 1. Afinal, O Que é Norma Linguística? De acordo com Ilari e Basso (2006), a busca de uma norma para o português brasileiro foi, ao lon- go da história nacional, objeto de preocupação de diversos autores com propósitos muito diferentes, assumindo três características igualmente diversifi- cadas. Nesse sentido, em nome da mesma palavra norma, procurou-se realizar diferentes objetivos, como mostramos a seguir: 1. A definição de uma norma literária propria- mente brasileira, livre das imposições oriundas de Portugal. No século XIX, um autor brasilei- ro, do período romântico, que muito se empe- nhou em defender “o direito de legislar sobre a língua que falamos” foi o cearense José de Alencar. 2. A elaboração de uma norma para o português escrito culto, representada pela polêmica em torno da construção do texto do Código Ci- vil entre os anos de 1902 e 1907, envolvendo o político Rui Barbosa e o gramático Ernesto Carneiro Ribeiro. A referida polêmica não ver- sava sobre o conteúdo do Código, mas sobre aspectos de sua redação, em que cada um dos lados defendia sua versão como a “certa” e a do outro, como “errada”. 3. A busca de uma norma fonética para o por- tuguês brasileiro, representada por congresso que, na primeira metade do século XX, pro- curavam regulamentar a pronúncia da língua para permitir o seu uso no canto lírico e no teatro. A ideia desses congressistas, entre os quais se encontravam figuras ilustres como os escritores Mário de Andrade e Manuel Bandei- ra, o filólogo Antônio Houaiss e o gramático Celso Cunha, tendia ora para escolher o sota- que de uma determinada região (geralmente o Rio de Janeiro) como norma para o país, ora para fazer uma média entre os sotaques das di- versas regiões. Nesse último sentido, para você ter uma noção mais exata do teor dessas discussões, veja o que diz Mário de Andrade no fragmento abaixo (citado por ILARI e BASSO, 2006, p. 222): Quem quer que frequente o teatro nacional ficará desagra- davelmente ferido ante a diversidade de pronúncias que se entrechocam no ar. Essa diversidade deriva em parte de atores estaduanos que, trazendo consigo suas pronúncias regionais e não fazendo nenhum esforço para unificar es- sas pronúncias em benefício e unidade fonética, tornam a obra de arte um mistifório malsoante, irregular de estilo e de sonoridade, muitas vezes, por isso, de penosa compre- ensão para o ouvinte. Entre todas essas modalidades de norma, a que mais exerceu e exerce influência sobre a socieda- de brasileira é a noção de norma da língua escrita. Esta se afastou muito da linguagem popular em geral, principalmente por se basear nos usos literá- rios e no português europeu. No entanto, como demonstra Faraco (2008), o conceito de norma surgiu nos estudos linguísticos exatamente com a intenção de captar a heteroge- neidade da língua, e não como meio de eleger e perpetuar uma variedade linguística como legítima em detrimento das demais. Um dos grandes lin- guistas a falar sobre norma, ainda no quadro teó- rico do estruturalismo saussuriano, foi o romeno Eugenio Coseriu, no início da década de 1950. A dicotomia língua x fala, defendida pelo estru- turalismo, consolidava a concepção da existência de um sistema invariável (a língua) e remetia a va- riabilidade aos usos individuais (a fala), que não interessava à ciência. Coseriu assume a dicotomia como ponto de partida, mas propõe acréscimo do conceito de norma, trocando a dicotomia por uma tricotomia. Assim, sem descartar o conceito saus- suriano de língua, Coseriu entende norma como “cada um dos diferentes modos sociais de realizar os grandes esquemas de relações do sistema”, con- forme explica Faraco (2008, p. 36). Fonte:http://variacoeslinguisticas.blogspot. com/2011/01/variacao-linguistica.html Figura 1: Norma linguística Norma linguística, portanto, não se refere ao que é possível dizer numa língua, e sim ao que efetiva- mente se diz num determinado grupo ou comu-
  • 31. 31Capítulo 3 nidades de falantes. Norma é o conjunto de usos “normais” para uma determinada comunidade linguística. O mesmo sistema linguístico (língua) pode dar origens a diferentes normas linguísticas, de acordo com os diferentes grupos sociais forma- dos por seus falantes. Segundo Faraco (2008, p. 37), podemos definir norma como “determinado conjunto de fenôme- nos linguísticos (fonológicos, morfológicos, sin- táticos e lexicais) que são correntes, costumeiros, habituais numa dada comunidade de fala”. Perce- bemos, portanto, que norma aqui não é sinônimo de regra ou regulamento, mas de “normalidade”, de uso costumeiro numa determinada comunida- de de fala. Veja, portanto, que os linguistas defi- nem norma de maneira totalmente diferente do senso comum e das diversas vozes sociais que re- presentam a gramática normativa ou tradicional. Umaspectofundamentalnoconceitodenormalin- guística é que toda norma é organizada e coerente. Nãoexistemnormaslinguísticascaóticas,semregras ou sem gramática. Observe os enunciados abaixo. As casas são grandes e bonitas. As casa são grande e bonita. As casa é grande e bonita. Dependendo da norma linguística vigente, ou ain- da, dependendo das condições sociais do falante, qualquer uma das três formas é possível no portu- guês brasileiro. Nenhuma delas contraria a estrutu- ra (o sistema) de nossa língua. No entanto, não é possível dizer *A casas são bonitas ou *Casas bonitas as são. Essas construções não são produzidas por nenhum falante de língua portuguesa, pois a gra- mática da língua não as permite. Observe ainda que não se trata de algo que se aprende na escola. Nenhuma pessoa, mesmo analfabeta, jamais falará qualquer uma dessas frases. O conceito de norma, portanto, compreende apenas conjuntos de usos que são possíveis na estrutura da língua e no inte- rior dos diversos grupos sociais. Faraco (2008) ainda destaca que o conceito de nor- ma linguística põe sob suspeita a própria noção de erro, tão cara à tradição escolar e normativa brasi- leira. Não seria possível tratar como “errada” uma construção como As casa são bonita, mas apenas reconhecer que ela representa uma norma diver- gente da norma padrão. Julgar “errada” uma frase assim significa aplicar os critérios de uma norma (padrão) para avaliar outra norma (popular). Efe- tivamente não se trata de erro, mas de diferença ou diversidade de usos, e um deles passa a ser criticado com base em uma lógica que nada tem de linguística: as casa são bonita não tem o mesmo prestígio social que as casas são bonitas, embora isso nada tenha a ver com certo e errado, bonito ou feio. O critério de certo e errado é arbitrário, pois escolhe, entre duas formas igualmente permitidas pelo sistema, uma que “pode” e outra que “não pode” ser dita. O que existem, como se pode notar, são normas e não uma norma de uso da língua. Cada comuni- dade possui suas próprias normas. E o conjunto dessas normas confere à língua portuguesa a sua heterogeneidade e diversidade. O fato de que um falante gaúcho diz tu vai, enquanto um pernambu- cano fala você vai não significa que um fala “mais bonito” que o outro, ou que um fala “certo” e o outro, “errado”. Gaúchos e pernambucanos falam de forma diferente, e isso constitui um aspecto da riqueza do fenômeno linguístico. Ambos, apesar de se expressarem de forma diferente, se reconhe- cem como falantes legítimos da mesma língua por- tuguesa, e não de línguas diferentes. 2. Norma Culta, Norma Padrão e Outras Normas Se é verdade que, no interior da língua portu- guesa, o que existem são normas linguísticas, e em vez de uma única norma padrão válida para todos os falantes, que normas são essas? Como entender expressões como “norma culta”, “norma padrão” ou “norma popular”? A definição desses termos não é nada fácil nem pa- cífica. O que se sabe, como destaca Faraco (2008, p. 46), é que pares dicotômicos como português cul- to x português popular ou português padrão x português não padrão são incapazes de descrever a complexi- dade dos fatos linguísticos. São apenas simplifica- ções usadas para descrever o fenômeno linguísti- co de forma geral. Igualmente inútil e incorreto é identificar o “português formal” com a escrita e o “português informal” com a fala. Sabendo que se trata de uma realidade complexa, a seguir vamos nos dedicar a uma tentativa de esclarecer a questão.
  • 32. 32 Capítulo 3 a. O que é mesmo norma culta? Uma primeira e necessária constatação é que a expressão “norma culta” é inadequada e extrema- mente ambígua, pois presume que as outras nor- mas podem ser consideradas “incultas”, além de absolutizar e uniformizar o adjetivo “culto”. Só haveria uma forma de ser culto; os demais seriam incultos. A realidade linguística mostra que há di- versas normas cultas, e não apenas uma. De modo geral, para os linguistas, norma culta se refere ao conjunto de usos reais da língua por falan- tes privilegiados que podem, por critérios objeti- vamente estabelecidos, ser considerados “cultos”. Tradicionalmente, sociolinguistas admitem, para fins de pesquisa, que um indivíduo culto é aquele que possui nível superior completo. Faraco (2008) ainda aponta três sentidos em que a expressão norma culta foi utilizada pelo senso comum. Em primeiro lugar, usou-se norma culta para evitar o uso da palavra gramática, especialmen- te para se referir ao ensino de língua portuguesa: ensinava-se “norma culta” e não a “gramática”, pa- lavra que se tornou um tanto suspeita de formalis- mo. Em segundo lugar, a expressão norma culta foi usada também para designar “o conjunto dos preceitos da velha tradição excessivamente conser- vadora e pseudopurista” (FARACO, 2008, p. 26). Por último, usou-se a expressão norma culta como sinônimo de “língua escrita”: “dominar” a norma culta seria dominar a língua escrita. A essa altura, você poderia perguntar: o que é mesmo a norma culta, afinal? Para responder a isso, os linguistas não têm hoje uma resposta simples, mas, em geral, todos concor- dam em utilizar os parâmetros estabelecidos pela pesquisadora Stella Maris Bortoni-Ricardo (http:// www.stellabortoni.com.br/), da Universidade de Brasília. Conforme essa estudiosa, a diversidade da língua portuguesa no Brasil e, consequentemente, a definição de norma culta, deve ser observada de acordo com as seguintes relações de continuidade que se entrecruzam: • O continuum rural-urbano. • O continuum oralidade-letramento. • O continuum da monitoração estilística (estilo mais monitorado-menos monitorado). Assim, a norma culta seria, entre outras coisas, a “variedade de uso corrente entre falantes ur- banos com escolaridade superior completa, em situações monitoradas” (FARACO, 2008, p. 49). Essencialmente, seria a variedade de uso desses falantes fazendo uso da escrita em situação for- mal. Daí se infere também que um mesmo falan- te não usa o mesmo padrão culto o tempo todo. Depende de com quem está falando, para quem está escrevendo, onde está falando ou escrevendo etc. Ressalte-se que a parcela da população brasi- leira que se enquadra nesse critério não chega a dez por cento de todos os brasileiros. A norma culta é apenas uma das variedades da língua e, mesmo assim, não é única e uniforme, mas diver- sa e multifacetada. Fonte:http://litmaubia.pbworks.com/w/page/ 18055510/A-import%C3%A2ncia-da-literatura-infantil Figura 2: Futuro homem culto No entanto, para aqueles que se pautam pela gra- mática normativa, norma culta é o modelo idea- lizado de “língua certa” que é imposto a todos os falantes e não se caracteriza como variedade lin- guística de nenhum grupo social. Equivale ao que os linguistas chamam de norma padrão. A norma culta é, na verdade, um conceito plural. Não existe uma só norma culta, mas diversas nor- mas cultas. Na opinião de Faraco (2008), a con- fusão reinante sobre o termo é resultado do fato de que ele “pulou os muros da universidade e se tornou muito frequente no discurso da mídia e da escola” (p. 23). Assim, a confusão mais frequen- te é tomar norma culta como sinônimo de norma padrão. Outro problema é entender norma culta como a norma prescrita por gramáticas e dicioná- rios, que deveriam se chamar, conforme Faraco (2008), de norma gramtical, até considerando que as pessoas cultas fazem uso da língua muitas vezes de forma não abonada por essa norma.
  • 33. 33Capítulo 3 b. Norma culta ou norma “curta”? uma concepção de norma que reduz a língua a um padrão artificial, idealizado, que se tenta impor a todos os falantes como o único uso possível. Caracterizando mais detalhadamente a “norma curta”, Faraco (2008, p. 94) a define como “um conjunto de preceitos dogmáticos que não en- contram respaldo nem nos fatos, nem nos bons instrumentos normativos, mas que sustentam uma nociva cultura do erro e têm impedido um estudo adequado de nossa norma culta/comum/ standard”. Nesse sentido, a norma curta é represen- tada pelos consultórios gramaticais ligados à mídia (“comandos paragramaticais”, no dizer de Bagno), pelos manuais de estilo dos grandes jornais e por cursinhos pré-vestibulares, entre outros. Caracte- rística da norma curta é uma atitude “mais realista que o rei”, ou seja, uma postura normativa mais rígida que a própria gramática normativa. Em ge- ral, seus atores são profissionais de outras áreas do saber que, por alguma razão, se tornam “especialis- tas” em língua portuguesa. A norma curta, entendida como “a miséria da gramática” (FARACO, 2008), representa um con- junto de preceitos extremamente rigorosos e sem base nas boas gramáticas normativas e nos bons dicionários da língua. Segundo Faraco (2008), essa norma curta é “o reino da inflexibilidade, das afir- mações categóricas, do certo e do errado tomados em sentido absoluto. A norma curta é o mundo das condenações raivosas, das rabulices gramati- cais” (p. 95). Um exemplo muito claro disso foi a recente polêmica levantada na mídia sobre um livro didático que pretensamente estaria ensinan- do os alunos a “falar errado”, quando o livro nada mais fazia que apresentar o tema da variação lin- guística conforme estabelecem os PCNs de língua portuguesa. A norma “curta” relaciona-se diretamente com o conceito de norma padrão. c. Norma culta e norma padrão A tentativa de construção de um padrão linguís- tico para as línguas resulta, em parte, do próprio processo histórico de constituição da autonomia e independência dos Estados contemporâneos. A adoção de uma norma padrão cumpre a função de desautorizar aspirações regionais por independên- cia, negando aos grupos dissidentes a legitimidade do ponto de vista da diversidade linguística. Em Fonte:http://blogdesilvanalima.blogspot. com/2010_05_01_archive.html Figura 3: Norma “curta” Quando se trata dos usos da língua, o discurso purista predomina na sociedade brasileira. Esse discurso impõe uma série de restrições aos usos legítimos dos falantes em nome da “norma culta”. Por isso, Faraco (2008) ironicamente rotula essa atitude como “norma curta”. A norma “curta” é opressiva por se basear em proibições e restrições sobre o que se pode falar e o que não se pode fa- lar. Em geral, trata-se de discutir detalhes insigni- ficantes como se fossem questões extremamente centrais e determinantes para o futuro da língua e de seus falantes. Faraco (2008) dá o seguinte exem- plo: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2007, ao fazer uma crítica indireta e irônica à linguagem do então presidente Lula, afirmou que o Brasil queria ter “dirigentes melhor educados”. Fazendo o feitiço virar contra o feiticeiro, a mídia criticou FHC por não usar a forma “culta” “mais bem educados”. Segundo as interpretações, FHC cometeu um “erro” de português. A norma “cur- ta” consiste exatamente nisso. Não devia haver ne- nhum problema em reconhecer a forma usada por FHC como uma forma culta. Se o ex-presidente cometeu um erro, foi o erro de ser preconceituoso em relação ao falar “inculto” de Lula como repre- sentante das classes populares. A “norma culta”, portanto, se torna norma “curta” quando se apresenta como uma norma “que ape- quena a língua, que encurta sua riqueza, que não percebe (por conveniência ou ignorância?) que o uso culto tem abundância de formas alternativas e não se reduz a preceitos estreitos e rígidos” (FA- RACO, 2008, p. 66). O conceito, embora irônico, serve bem para chamar a atenção para a miopia de
  • 34. 34 Capítulo 3 todos os casos, a norma padrão se baseia numa varie- dade linguística tomada como ideal, mas geralmen- te abstraída dos usos das elites dominantes. Desde o início, a norma padrão se afasta dos usos reais e se codifica em gramáticas e dicionários da língua quando se refere a usos, ou os toma da literatura, como se esta fosse modelo para a linguagem coti- diana, ou de usos arcaicos ou adotados do portu- guês europeu. Segundo Faraco (2008), o português europeu ado- tado foi a variedade literária representada pelo romantismo, que se oferecia como modelo para a produção escrita dos brasileiros. Hoje se sabe que essa atitude representava uma violência simbólica em vários níveis. Primeiro, por tomar a linguagem literária como modelo para a linguagem em geral. Segundo, por tomar a linguagem literária de outro país, outro contexto, como modelo para a língua portuguesa em nosso país. Terceiro, e consequen- temente, por deixar de fora a fala e a escrita pro- priamente brasileiras. Em sua origem, a construção da norma padrão brasi- leira, ao contrário da norma de outros países, não ocorria como oposição a uma situação de dialeta- ção. A língua portuguesa no Brasil, de certa forma, sempre foi “admiravelmente uniforme”. Apesar das diferenças regionais, as pessoas se entendem na mesma língua do norte ao sul do país. Também não se tratava de unificar o país, pois este já estava unificado desde a independência. O grande obje- tivo do surgimento da norma padrão brasileira foi combater a linguagem popular (esse foco se man- tém claramente hoje), entendida pejorativamente como “língua de índios”, “língua de negros” ou “língua de matutos”. Na concepção de Faraco (2008), os usuários do por- tuguês brasileiro não precisam mais, se é que já pre- cisaram, de uma norma padrão, pois as variedades cultas não correm nenhum risco de desaparecimen- to ou descaracterização. Segundo Bagno (2007), deveríamos inclusive evitar até mesmo o termo norma culta, preferindo falar de variedades prestigia- das (que normalmente são variedades ou normas cultas) e variedades estigmatizadas (em geral, associa- das às classes populares, a faixas etárias como a dos adolescentes ou a grupos sociais como os caipiras e os analfabetos). A existência de variedades estigma- tizadas se deve exatamente, entre outros fatores, à ação da norma “curta”, que relega as variedades divergentes ao desprezo e à desvalorização social. d. Norma culta ou norma “oculta”? Em um interessante livrinho publicado em 2003, A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira, Marcos Bagno surpreende seu público ao afirmar que “não existe preconceito linguístico”. Como se diz no livro e em texto no site do autor (http:// marcosbagno.com.br), cujo conteúdo seguimos de perto nesta exposição, esta é a frase que mui- tos gostariam de ler, especialmente se es- tampada num texto do autor da conhe- cida obra intitulada Preconceito linguístico. Será que Marcos Bagno, nesse livro, estava se contradi- zendo? Como diz o texto no site, “vamos com calma, vamos por partes”: Fazendo um trocadilho com o termo norma culta (como Faraco já tinha feito ao usar norma curta), Bagno (2003) usa norma oculta para aprofundar o estudo das relações entre língua e poder no Brasil e avança para a afirmação de que o preconceito linguístico na sociedade brasileira é, na verdade, um profundo e entranhado preconceito social. Portanto, não existe preconceito linguístico, mas preconceito social. Conforme a sinopse do livro disponível no site, Bagno lança um olhar inquiridor sobre a história da constituição das línguas para desvendar nossa realidade sociolinguística. O olhar do autor sobre a história se funde com uma apurada pesquisa so- ciolinguística e com a crítica corajosa do conceito de “erro de português”, sempre aplicado com ri- gor, mas segundo critérios bem relativos, por aque- les que se consideram sacerdotes da classe letrada, incumbida de defender a pureza estática da língua (defensores da “norma curta”, diria Faraco). Particularmente, Bagno discute, em A norma oculta, as reações de jornalistas e intelectuais da impren- sa nacional ao modo de se expressar do primeiro operário nordestino eleito para a presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva. É ilustrativo enxergar, seguindo a análise do autor, o peso do preconceito social travestido de aniquilamento da língua do outro, quando não se enxerga este outro como interlocutor válido. Fonte:http://marcosbagno.com.br/site2/conteudo/ arquivos/liv_norma_oculta.htm Figura 4: Norma oculta