Teresina, Sábado e Domingo, 11 e 12 de Agosto de 2018
Estudantes surdos
enfrentam barreiras
dentro do sistema
educacional
Editora: Virgiane Passos/ Repórter: Glenda Uchôa
Estrangeiros
na própria
terra
Dados da Organização Mundial da
Saúde (OMS), de 2015, apontam que,
no Brasil, existe um total de 28 milhões
de pessoas com surdez. Isso represen-
ta 14% da população brasileira. A OMS
aponta que 10% da população mundial
tem alguma perda auditiva e boa parte
dessas pessoas teve a audição danificada
por exposição excessiva a sons.
A surdez pode ser tanto adquirida
quanto hereditária. Infecções contraídas
durante a gestação, além de remédios e
drogas podem provocar más-formações
no sistema auditivo do bebê. Além disso,
infecções e traumatismos cranianos tam-
bém podem levar crianças a desenvolve-
rem a surdez. Na idade adulta, acidentes
de trânsito e de trabalho podem desen-
cadear o quadro.
(Glenda Uchôa)
Continua nas págs. 4 e 5
Dados
Glenda Uchôa
Repórter
De mochilas nas costas, Sal-
vimar de Jesus, 25 anos, chega
com passos calmos para mais um
dia de aula na Universidade Federal
do Piauí (Ufpi). Como todos os dias, o ca-
minho que faz da Residência Universitária,
onde mora, até o bloco onde terá acesso a
mais conhecimento, é feito com uma certe-
za que o faz estufar o peito quando conta:
chegar até ali foi uma vitória que, por muito
tempo, ele pensou não ser possível. Por ser
surdo, para ter acesso ao ensino superior
público, o jovem teve de superar a barreira
da comunicação - peça fundamental para
o seu desenvolvimento em sociedade. E
é assim que, por conta da linguagem, os
surdos se tornam estrangeiros em sua
própria terra.
Mas a incapacidade de se comuni-
car não é de Salvimar. Como pessoa
surda, ele se expressa e se comunica
muito bem. Envereda longas ex-
plicações para contar sua traje-
tória de tentativas dentro do
ensino básico e médio, em
Codó no Maranhão, quan-
do vivenciou, repetidas ve-
zes, a exclusão dentro da
própria sala de aula pela
falta de um ensino ver-
dadeiramente inclusi-
vo.
As lacunas na edu-
cação para a pes-
soa surda acon-
tecem por
diversos fa-
tores, um
deles se
dá pelo
acesso à
Língua Brasileira de Sinais (Libras) dentro da
sua formação. A falta de intérpretes que possam
fazer a ponte entre o que os professores dizem
em sala de aula de modo totalmente compreen-
sível para quem é ouvinte, impede a compreen-
são do que é necessário saber em cada fase da
vida educacional.
“A maioria dos materiais didáticos estão
preparados para atender um tipo de pessoa,
que é a que fala uma determinada língua, no
caso, a língua portuguesa. Então, a gente fica
à margem dessa educação por conta desse
material e da comunicação dentro da escola
que não acontece”, relata.
Desde 2002, por meio da sanção da Lei n°
10.436, a Língua Brasileira de Sinais (Libras)
foi reconhecida como meio legal de comuni-
cação e expressão no País. A legislação deter-
minou também que deve ser garantido, por
parte do poder público em geral e empresas
concessionárias de serviços públicos, formas
institucionalizadas de apoiar o uso e difusão
de Libras como meio de comunicação obje-
tiva. Mas do que é estabelecido em lei para o
que acontece na vida real há um verdadeiro
abismo.
“A maioria das vezes, era só eu como alu-
no surdo na escola e me sentia único naquele
ambiente, mas não pelo lado bom. Eu sentia
dificuldade em aprender. Sempre tinha al-
guém que vinha com aquela visão assisten-
cialista de ‘vamos, eu te ajudo’, mas você quer
aprender sozinho, porque tem essa capacida-
de”, pontua.
A primeira vez que o jovem teve acesso
completo a um material adaptado a sua con-
dição, ele lembra como um marco: a prova
do vestibular. “Eu nunca pensei em conti-
nuar os estudos, mas depois, conheci uma
professora e ela perguntou se eu queria dar
um passo a mais na minha educação. Ela me
ajudou na inscrição porque era muito com-
plicado entender tudo. Fiz a prova totalmen-
te em libras e foi muito importante aquele
momento. Fui aprovado para o curso de Li-
bras e aqui na Ufpi eu conheci outro mun-
do”, comemora.
Salvimar está no terceiro período do curso
de Libras da Universidade Federal do Piauí.
Ele lembra que coisas simples para a maioria
das pessoas, como poder fazer a divisão
de um trabalho com os colegas,
entender a globalida-
de do conteúdo que é
transmitido e ter como
questionar e intervir na
aula, são, para ele, de extrema
recompensa.
Ultrapassando todas as dificuldades,
Salvimar consegue, diariamente, afirmar com
sua própria trajetória o que diz querer que a
sociedade entenda de uma vez por todas: que
todo surdo é capaz.

Salvimar Jornal fim de semana

  • 1.
    Teresina, Sábado eDomingo, 11 e 12 de Agosto de 2018 Estudantes surdos enfrentam barreiras dentro do sistema educacional Editora: Virgiane Passos/ Repórter: Glenda Uchôa Estrangeiros na própria terra Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 2015, apontam que, no Brasil, existe um total de 28 milhões de pessoas com surdez. Isso represen- ta 14% da população brasileira. A OMS aponta que 10% da população mundial tem alguma perda auditiva e boa parte dessas pessoas teve a audição danificada por exposição excessiva a sons. A surdez pode ser tanto adquirida quanto hereditária. Infecções contraídas durante a gestação, além de remédios e drogas podem provocar más-formações no sistema auditivo do bebê. Além disso, infecções e traumatismos cranianos tam- bém podem levar crianças a desenvolve- rem a surdez. Na idade adulta, acidentes de trânsito e de trabalho podem desen- cadear o quadro. (Glenda Uchôa) Continua nas págs. 4 e 5 Dados Glenda Uchôa Repórter De mochilas nas costas, Sal- vimar de Jesus, 25 anos, chega com passos calmos para mais um dia de aula na Universidade Federal do Piauí (Ufpi). Como todos os dias, o ca- minho que faz da Residência Universitária, onde mora, até o bloco onde terá acesso a mais conhecimento, é feito com uma certe- za que o faz estufar o peito quando conta: chegar até ali foi uma vitória que, por muito tempo, ele pensou não ser possível. Por ser surdo, para ter acesso ao ensino superior público, o jovem teve de superar a barreira da comunicação - peça fundamental para o seu desenvolvimento em sociedade. E é assim que, por conta da linguagem, os surdos se tornam estrangeiros em sua própria terra. Mas a incapacidade de se comuni- car não é de Salvimar. Como pessoa surda, ele se expressa e se comunica muito bem. Envereda longas ex- plicações para contar sua traje- tória de tentativas dentro do ensino básico e médio, em Codó no Maranhão, quan- do vivenciou, repetidas ve- zes, a exclusão dentro da própria sala de aula pela falta de um ensino ver- dadeiramente inclusi- vo. As lacunas na edu- cação para a pes- soa surda acon- tecem por diversos fa- tores, um deles se dá pelo acesso à Língua Brasileira de Sinais (Libras) dentro da sua formação. A falta de intérpretes que possam fazer a ponte entre o que os professores dizem em sala de aula de modo totalmente compreen- sível para quem é ouvinte, impede a compreen- são do que é necessário saber em cada fase da vida educacional. “A maioria dos materiais didáticos estão preparados para atender um tipo de pessoa, que é a que fala uma determinada língua, no caso, a língua portuguesa. Então, a gente fica à margem dessa educação por conta desse material e da comunicação dentro da escola que não acontece”, relata. Desde 2002, por meio da sanção da Lei n° 10.436, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) foi reconhecida como meio legal de comuni- cação e expressão no País. A legislação deter- minou também que deve ser garantido, por parte do poder público em geral e empresas concessionárias de serviços públicos, formas institucionalizadas de apoiar o uso e difusão de Libras como meio de comunicação obje- tiva. Mas do que é estabelecido em lei para o que acontece na vida real há um verdadeiro abismo. “A maioria das vezes, era só eu como alu- no surdo na escola e me sentia único naquele ambiente, mas não pelo lado bom. Eu sentia dificuldade em aprender. Sempre tinha al- guém que vinha com aquela visão assisten- cialista de ‘vamos, eu te ajudo’, mas você quer aprender sozinho, porque tem essa capacida- de”, pontua. A primeira vez que o jovem teve acesso completo a um material adaptado a sua con- dição, ele lembra como um marco: a prova do vestibular. “Eu nunca pensei em conti- nuar os estudos, mas depois, conheci uma professora e ela perguntou se eu queria dar um passo a mais na minha educação. Ela me ajudou na inscrição porque era muito com- plicado entender tudo. Fiz a prova totalmen- te em libras e foi muito importante aquele momento. Fui aprovado para o curso de Li- bras e aqui na Ufpi eu conheci outro mun- do”, comemora. Salvimar está no terceiro período do curso de Libras da Universidade Federal do Piauí. Ele lembra que coisas simples para a maioria das pessoas, como poder fazer a divisão de um trabalho com os colegas, entender a globalida- de do conteúdo que é transmitido e ter como questionar e intervir na aula, são, para ele, de extrema recompensa. Ultrapassando todas as dificuldades, Salvimar consegue, diariamente, afirmar com sua própria trajetória o que diz querer que a sociedade entenda de uma vez por todas: que todo surdo é capaz.