SlideShare uma empresa Scribd logo
Danuta Wojciechowska
José Eduardo Agualusa
PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE
[uma editora do grupo LeYa]
Rua Cidade de Córdova, n.º 2
2610-038 Alfragide · Portugal
Reservados todos os direitos
de acordo com a legislação em vigor
José Eduardo Agualusa (texto)
Danuta Wojciechowska (ilustrações)
REVISÃO Clara Boléo
DESIGN LupaDesign | Joana Paz | www.lupadesign.pt
TRATAMENTO DE IMAGEM LupaDesign | Joana M. Ramalho
ISBN 9789722049573
www.dquixote.pt
José Eduardo
Agualusa
ILUSTRAÇÕES
Danuta
Wojciechowska
Naquela manhã, Tia Juvelina, a velha cegonha,
levou os pássaros a passear pelos céus.
– Isto são nuvens – disse-lhes, apontando com a asa
direita para os enormes flocos brancos que se estendiam
através do espaço, a perder de vista, e que o vento
arrastava sem esforço de um lado para o outro.
Uma perdigota, que viajava às suas costas, quis saber se
as nuvens podiam ser comidas. Perdigoto, para quem não saiba,
é o nome que se dá aos filhotes das perdizes. Perdizes, suponho
que isso toda a gente sabe, são aves semelhantes aos pombos,
mas com uma plumagem mais colorida e que andam sempre
de óculos escuros. Aquela perdigota, que como todos os
perdigotos da sua idade ainda não tinha a cobri-la o belo
casaco de penas dos pais (mas já usava óculos escuros),
chamava-se Ana e era muito irrequieta e curiosa.
– Eu cá estou esfomeada – disse Ana lambendo o bico.
– Já comia qualquer coisa.
Tia Juvelina sobressaltou-se:
– Deus não fez as nuvens como iguaria. Mas amargas
não devem ser.
– E comem-se frias? – tornou Ana. – Parecem saborosas.
– Pois sim, acho melhor que as comas frias – confirmou
a cegonha. – Se as levares ao lume desmancham-se.
– Sabem a água – disse a perdigota, depois de bicar
uma nuvem. Bicou-a de novo com sofreguidão. – Sabem
mais a água do que a própria água. São boas.
Tia Juvelina explicou aos pássaros que as nuvens eram
como grandes lagos flutuantes. Corriam pelos céus, engordavam,
escureciam com o peso da água, e finalmente desfaziam-se
em grossas bátegas de chuva. Voltavam a ser lagos e rios
lá em baixo, na terra.
– Há nuvens tão grandes – acrescentou a velha cegonha –
que dentro delas nadam cardumes de peixes.
Ana duvidou. Duvidar era uma coisa que ela fazia muito bem:
– É verdade, tia?
Tia Juvelina viajara pelo mundo inteiro. Vira muitos prodígios:
– Sim, querida. Por vezes chovem peixes.
Tia Juvelina explicou aos pássaros que as nuvens eram
como grandes lagos flutuantes. Corriam pelos céus, engordavam,
escureciam com o peso da água, e finalmente desfaziam-se
em grossas bátegas de chuva. Voltavam a ser lagos e rios
Lembrava-se de uma aldeia onde tinham chovido carapaus.
Os camponeses saíram para a rua com grandes panelas
e nessa noite fizeram uma festa. Numa outra aldeia, contou
a Tia Juvelina, choveram piranhas. Eram tão ferozes, e estavam
tão esfomeadas, que se iam devorando umas às outras ainda
enquanto caíam. Em terra começaram a perseguir as pessoas
e os animais domésticos, aos saltos, e foi necessário matá-las
à vassourada e à paulada. Algumas delas, contudo, caíram
numa lagoa próxima, na qual durante muitos anos ninguém
se atreveu a tomar banho.
Lembrava-se de uma aldeia onde tinham chovido carapaus.
Os camponeses saíram para a rua com grandes panelas
e nessa noite fizeram uma festa. Numa outra aldeia, contou
a Tia Juvelina, choveram piranhas. Eram tão ferozes, e estavam
Ana não se conformava por ver os pais, os irmãos e
os primos mais velhos enfeitados de belas penas, enquanto
ela era forçada a vestir o mesmo casaco cinzento e sem graça
dia após dia. Mal despertava, corria alvoroçada a debruçar-se
sobre uma colher de sopa, abandonada junto ao ninho,
e que servia de espelho a toda a família:
– As minhas penas? Onde estão as minhas penas novas?
O que via era sempre a mesma perdigota gorducha
e desajeitada, sem uma única pena colorida a enfeitar-lhe
o (ul)traje. Então, certa tarde, andando sozinha a passear
pela savana, a pé, porque ainda mal conseguia esvoaçar, Ana
viu desenrolar-se no céu um perfeito arco-íris. Ficou fascinada.
Tia Juvelina, a velha cegonha, já lhe tinha falado nos arcos-íris,
mas a perdigota duvidara. Ana, insisto, tinha um grande talento
para a dúvida. Afinal os arcos-íris existiam mesmo e eram
ainda mais bonitos do que no relato de Juvelina. Fantástico!
– E se eu tomar um banho de arco-íris? – pensou Ana.
– Um banho de arco-íris arcoirizará um passarinho?
Correu e correu até alcançar uma das extremidades
do arco-íris. A luz colorida caía sobre o capim, mansamente,
para depois se dispersar, deixando mais leve o mundo em redor.
Era como acordar dentro de um sonho. Não um sonho qualquer.
O sonho de um pirilampo, que são bichos muito iluminados.
Ana fechou os olhos e lançou-se de cabeça para o meio do jorro.
Quando os reabriu viu que todo o seu corpo brilhava, cada pena
com a sua cor, algumas com muitas cores em simultâneo,
de forma que no conjunto dava a impressão de que se havia
transformado num pequeno arco-íris saltitante.
– Uau! – gritou Ana entusiasmada. – Resultou!
Sou um génio, eu.
Regressou ao ninho excitadíssima. Esperava ser recebida
com grandes manifestações de espanto, talvez de mal contida
inveja, por parte dos irmãos e primos. Esperava que lhe dissessem
«Estás tão linda!» Esperava que a mãe se abraçasse a ela
emocionada e que o pai a levantasse nas fortes asas e a lançasse
ao ar gritando – «És a minha princesa!» Não aconteceu nada
disso. A chegada do pequeno arco-íris saltitante foi precedida
de um forte revoar de asas e um confuso coro de assustados
piares, chiados, assobios, chilreios, grasnados e cacarejos,
a que se seguiu a debandada geral do passaredo.a que se seguiu a debandada geral do passaredo.

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

O pequeno-trevo (1)
O pequeno-trevo (1)O pequeno-trevo (1)
O pequeno-trevo (1)LFILIPEROCHA
 
O palhaco-tristoleto
O palhaco-tristoletoO palhaco-tristoleto
O palhaco-tristoletoSilvares
 
A história da bruxinha
A história da bruxinhaA história da bruxinha
A história da bruxinhaKatia Martinez
 
poemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soares
poemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soarespoemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soares
poemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soaressubel
 
Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_
Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_
Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_labeques
 
O ciclo do mel
O ciclo do melO ciclo do mel
O ciclo do melIsa Crowe
 
O baile dos 3 porquinhos
O baile dos 3 porquinhosO baile dos 3 porquinhos
O baile dos 3 porquinhosDanyela25
 
A girafa que_comia_estrelas[1]
A girafa que_comia_estrelas[1]A girafa que_comia_estrelas[1]
A girafa que_comia_estrelas[1]Elisabete Godinho
 
Historia desculpa por acaso és uma bruxa
Historia desculpa por acaso és uma bruxa Historia desculpa por acaso és uma bruxa
Historia desculpa por acaso és uma bruxa Ana Paula Santos
 
Chibos sabichões
Chibos sabichõesChibos sabichões
Chibos sabichõesgenarui
 
DORMIR FORA DE CASA
DORMIR FORA DE CASADORMIR FORA DE CASA
DORMIR FORA DE CASAMarisa Seara
 

Mais procurados (20)

O pequeno-trevo (1)
O pequeno-trevo (1)O pequeno-trevo (1)
O pequeno-trevo (1)
 
A galinha ruiva
A galinha ruivaA galinha ruiva
A galinha ruiva
 
O palhaco-tristoleto
O palhaco-tristoletoO palhaco-tristoleto
O palhaco-tristoleto
 
Uma Vaca De Estimação
Uma Vaca De EstimaçãoUma Vaca De Estimação
Uma Vaca De Estimação
 
A história da bruxinha
A história da bruxinhaA história da bruxinha
A história da bruxinha
 
Cabacinha
CabacinhaCabacinha
Cabacinha
 
poemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soares
poemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soarespoemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soares
poemas da mentira e da verdade - Luisa Ducla Soares
 
Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_
Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_
Lengalengas ducla soares_ese_paula.melo_
 
O ratinho marinheiro
O ratinho marinheiroO ratinho marinheiro
O ratinho marinheiro
 
O ciclo do mel
O ciclo do melO ciclo do mel
O ciclo do mel
 
O baile dos 3 porquinhos
O baile dos 3 porquinhosO baile dos 3 porquinhos
O baile dos 3 porquinhos
 
A girafa que_comia_estrelas[1]
A girafa que_comia_estrelas[1]A girafa que_comia_estrelas[1]
A girafa que_comia_estrelas[1]
 
O dia em que a barriga rebentou josé fanha
O dia em que a barriga rebentou  josé fanhaO dia em que a barriga rebentou  josé fanha
O dia em que a barriga rebentou josé fanha
 
O meu pai
O meu paiO meu pai
O meu pai
 
Historia desculpa por acaso és uma bruxa
Historia desculpa por acaso és uma bruxa Historia desculpa por acaso és uma bruxa
Historia desculpa por acaso és uma bruxa
 
Chibos sabichões
Chibos sabichõesChibos sabichões
Chibos sabichões
 
A bruxa castanha de antónio mota
A bruxa castanha de antónio motaA bruxa castanha de antónio mota
A bruxa castanha de antónio mota
 
DORMIR FORA DE CASA
DORMIR FORA DE CASADORMIR FORA DE CASA
DORMIR FORA DE CASA
 
Natal, história
Natal, históriaNatal, história
Natal, história
 
Um bocadinho de inverno
Um bocadinho de invernoUm bocadinho de inverno
Um bocadinho de inverno
 

Destaque (20)

Ciclo do livro- livro em pdf
Ciclo do livro- livro em pdfCiclo do livro- livro em pdf
Ciclo do livro- livro em pdf
 
Ciclo do ovo- livro
Ciclo do ovo- livroCiclo do ovo- livro
Ciclo do ovo- livro
 
Hospital das letras
Hospital das letrasHospital das letras
Hospital das letras
 
Formas geométricas
Formas geométricasFormas geométricas
Formas geométricas
 
José eduardo agualusa e a lusofonia
José eduardo agualusa e a lusofoniaJosé eduardo agualusa e a lusofonia
José eduardo agualusa e a lusofonia
 
Milagrário pessoal
Milagrário pessoalMilagrário pessoal
Milagrário pessoal
 
José eduardo agualusa
José eduardo agualusaJosé eduardo agualusa
José eduardo agualusa
 
História de um livro activo...
História de um livro activo...História de um livro activo...
História de um livro activo...
 
Estranhões e Bizarrocos
Estranhões e BizarrocosEstranhões e Bizarrocos
Estranhões e Bizarrocos
 
O Segredo do U - Ziraldo
O Segredo do U - Ziraldo O Segredo do U - Ziraldo
O Segredo do U - Ziraldo
 
Carochinha
CarochinhaCarochinha
Carochinha
 
Nuno
NunoNuno
Nuno
 
Ninguém da prendas ao pai natal
Ninguém da prendas ao pai natalNinguém da prendas ao pai natal
Ninguém da prendas ao pai natal
 
Mia Couto 1
Mia Couto 1Mia Couto 1
Mia Couto 1
 
Agualusa 2
Agualusa 2Agualusa 2
Agualusa 2
 
O coelhinho branco guiao de leitura2
O coelhinho branco   guiao de leitura2O coelhinho branco   guiao de leitura2
O coelhinho branco guiao de leitura2
 
Ziraldo A Fábula das Três Cores
Ziraldo   A  Fábula das Três CoresZiraldo   A  Fábula das Três Cores
Ziraldo A Fábula das Três Cores
 
Monstruosidades
MonstruosidadesMonstruosidades
Monstruosidades
 
A Lebre E A Tartaruga
A Lebre E A TartarugaA Lebre E A Tartaruga
A Lebre E A Tartaruga
 
História desculpa ....
História desculpa ....História desculpa ....
História desculpa ....
 

Semelhante a Rainha dos estapafúrdios

Uma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdf
Uma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdfUma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdf
Uma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdfIngredMariano
 
50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-rev
50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-rev50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-rev
50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-revAngelica Moreira
 
Contos-de-Andersen.pdf
Contos-de-Andersen.pdfContos-de-Andersen.pdf
Contos-de-Andersen.pdfbiblioteca123
 
Castanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_a
Castanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_aCastanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_a
Castanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_aRia da Escrita
 
3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às crianças
3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às crianças3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às crianças
3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às criançasPeterson Gandolfi
 
A Fada Oriana Capitulos I e II
A Fada Oriana Capitulos I e IIA Fada Oriana Capitulos I e II
A Fada Oriana Capitulos I e IISlidesDoCostume
 
Mar me quer
Mar me querMar me quer
Mar me querLeitorX
 
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei a.s franchiniDenilza Willian
 
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei a.s franchiniMaureen Bruxa
 
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini 2
100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini 2100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini 2
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini 2Catarina Cartaxo
 
Monteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_Narizinho
Monteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_NarizinhoMonteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_Narizinho
Monteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_NarizinhoTânia Sampaio
 
Meus avos maternos
Meus avos maternosMeus avos maternos
Meus avos maternosPitágoras
 
Poemas sobre biodiversidade
Poemas sobre biodiversidadePoemas sobre biodiversidade
Poemas sobre biodiversidadeBE ESGN
 

Semelhante a Rainha dos estapafúrdios (20)

História com recadinho txt
História com recadinho txtHistória com recadinho txt
História com recadinho txt
 
Uma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdf
Uma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdfUma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdf
Uma ideia toda azul - Marina Colasanti.pdf
 
A Polegarzinha
A PolegarzinhaA Polegarzinha
A Polegarzinha
 
50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-rev
50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-rev50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-rev
50560569 clarice-lispector-como-nasceram-as-estrelas-pdf-rev
 
Contos-de-Andersen.pdf
Contos-de-Andersen.pdfContos-de-Andersen.pdf
Contos-de-Andersen.pdf
 
Castanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_a
Castanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_aCastanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_a
Castanho, j. a fada da minha vida. conto. aveiro, aems 11_a
 
Histórias de Natal
Histórias de NatalHistórias de Natal
Histórias de Natal
 
3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às crianças
3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às crianças3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às crianças
3 contos indígenas para mostrar outra visão de mundo às crianças
 
O Natal na Voz do Povo 2
O Natal na Voz do Povo 2O Natal na Voz do Povo 2
O Natal na Voz do Povo 2
 
A Fada Oriana Capitulos I e II
A Fada Oriana Capitulos I e IIA Fada Oriana Capitulos I e II
A Fada Oriana Capitulos I e II
 
Mar me quer
Mar me querMar me quer
Mar me quer
 
Pdf contos
Pdf contosPdf contos
Pdf contos
 
Imagem
ImagemImagem
Imagem
 
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini
 
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini
 
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini 2
100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini 2100 lendas do folclore brasilei   a.s franchini 2
100 lendas do folclore brasilei a.s franchini 2
 
Monteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_Narizinho
Monteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_NarizinhoMonteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_Narizinho
Monteiro lobato -_Sitio_do_Picapau_Amarelo_-_vol_1-_Reinacoes_de_Narizinho
 
Origami.ppt
Origami.pptOrigami.ppt
Origami.ppt
 
Meus avos maternos
Meus avos maternosMeus avos maternos
Meus avos maternos
 
Poemas sobre biodiversidade
Poemas sobre biodiversidadePoemas sobre biodiversidade
Poemas sobre biodiversidade
 

Mais de margaridafonseca63 (20)

Mundocriancas e14296c619c20a85e9b772069b898990
Mundocriancas e14296c619c20a85e9b772069b898990Mundocriancas e14296c619c20a85e9b772069b898990
Mundocriancas e14296c619c20a85e9b772069b898990
 
Uma aventura no_palacio_da_pena_ucxy
Uma aventura no_palacio_da_pena_ucxyUma aventura no_palacio_da_pena_ucxy
Uma aventura no_palacio_da_pena_ucxy
 
26 uma aventura_no_palacio_da_pena_1
26 uma aventura_no_palacio_da_pena_126 uma aventura_no_palacio_da_pena_1
26 uma aventura_no_palacio_da_pena_1
 
8 uma aventura_na_escola
8 uma aventura_na_escola8 uma aventura_na_escola
8 uma aventura_na_escola
 
Uma aventura na_escola_nntl
Uma aventura na_escola_nntlUma aventura na_escola_nntl
Uma aventura na_escola_nntl
 
8 uma aventura_na_escola
8 uma aventura_na_escola8 uma aventura_na_escola
8 uma aventura_na_escola
 
8 uma aventura_na_escola
8 uma aventura_na_escola8 uma aventura_na_escola
8 uma aventura_na_escola
 
Power point acordo ortográfico
Power point acordo ortográficoPower point acordo ortográfico
Power point acordo ortográfico
 
Power point acordo ortográfico
Power point acordo ortográficoPower point acordo ortográfico
Power point acordo ortográfico
 
Programa p..
Programa p..Programa p..
Programa p..
 
Menina do mar
Menina do marMenina do mar
Menina do mar
 
Vem aí o zé das moscas
Vem aí o zé das moscasVem aí o zé das moscas
Vem aí o zé das moscas
 
Livro dos dias importantes 1
Livro dos dias importantes 1Livro dos dias importantes 1
Livro dos dias importantes 1
 
Rainha dos estapafúrdios
Rainha dos estapafúrdiosRainha dos estapafúrdios
Rainha dos estapafúrdios
 
Trabalhos realizados pelos
Trabalhos realizados pelosTrabalhos realizados pelos
Trabalhos realizados pelos
 
Diário de filipa
Diário de filipaDiário de filipa
Diário de filipa
 
Diário de uma totó
Diário de uma totóDiário de uma totó
Diário de uma totó
 
Brincandocomproverbiospopulares 120902114215-phpapp02
Brincandocomproverbiospopulares 120902114215-phpapp02Brincandocomproverbiospopulares 120902114215-phpapp02
Brincandocomproverbiospopulares 120902114215-phpapp02
 
Fontainhas
FontainhasFontainhas
Fontainhas
 
Fontainhas
FontainhasFontainhas
Fontainhas
 

Último

ATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptx
ATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptxATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptx
ATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptxmairaviani
 
Atividade português 7 ano página 38 a 40
Atividade português 7 ano página 38 a 40Atividade português 7 ano página 38 a 40
Atividade português 7 ano página 38 a 40vitoriaalyce2011
 
Memórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_Assis
Memórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_AssisMemórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_Assis
Memórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_Assisbrunocali007
 
Tesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdf
Tesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdfTesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdf
Tesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdfEditora
 
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptxSlides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptxLuizHenriquedeAlmeid6
 
São Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptx
São Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptxSão Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptx
São Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptxMartin M Flynn
 
PowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básico
PowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básicoPowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básico
PowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básicoPereira801
 
manual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdf
manual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdfmanual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdf
manual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdfLeandroTelesRocha2
 
Fotossíntese para o Ensino médio primeiros anos
Fotossíntese para o Ensino médio primeiros anosFotossíntese para o Ensino médio primeiros anos
Fotossíntese para o Ensino médio primeiros anosbiancaborges0906
 
Hans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdf
Hans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdfHans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdf
Hans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdfLeandroTelesRocha2
 
Evangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdf
Evangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdfEvangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdf
Evangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdfPastor Robson Colaço
 
Exercícios de Clima no brasil e no mundo.pdf
Exercícios de Clima no brasil e no mundo.pdfExercícios de Clima no brasil e no mundo.pdf
Exercícios de Clima no brasil e no mundo.pdfRILTONNOGUEIRADOSSAN
 
PERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptx
PERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptxPERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptx
PERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptxtchingando6
 
AS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdf
AS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdfAS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdf
AS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdfssuserbb4ac2
 
hereditariedade é variabilidade genetic
hereditariedade é variabilidade  genetichereditariedade é variabilidade  genetic
hereditariedade é variabilidade geneticMrMartnoficial
 
Apresentação Formação em Prevenção ao Assédio
Apresentação Formação em Prevenção ao AssédioApresentação Formação em Prevenção ao Assédio
Apresentação Formação em Prevenção ao Assédioifbauab
 
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....LuizHenriquedeAlmeid6
 
Poema - Reciclar é preciso
Poema            -        Reciclar é precisoPoema            -        Reciclar é preciso
Poema - Reciclar é precisoMary Alvarenga
 
Os Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco Leite
Os Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco LeiteOs Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco Leite
Os Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco Leiteprofesfrancleite
 
América Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados Nacionais
América Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados NacionaisAmérica Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados Nacionais
América Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados NacionaisValéria Shoujofan
 

Último (20)

ATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptx
ATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptxATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptx
ATPCG 27.05 - Recomposição de aprendizagem.pptx
 
Atividade português 7 ano página 38 a 40
Atividade português 7 ano página 38 a 40Atividade português 7 ano página 38 a 40
Atividade português 7 ano página 38 a 40
 
Memórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_Assis
Memórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_AssisMemórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_Assis
Memórias_póstumas_de_Brás_Cubas_ Machado_de_Assis
 
Tesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdf
Tesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdfTesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdf
Tesis de Maestría de Pedro Sousa de Andrade (Resumen).pdf
 
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptxSlides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
Slides Lição 9, CPAD, Resistindo à Tentação no Caminho, 2Tr24.pptx
 
São Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptx
São Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptxSão Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptx
São Filipe Neri, fundador da a Congregação do Oratório 1515-1595.pptx
 
PowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básico
PowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básicoPowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básico
PowerPoint Folha de cálculo Excel 5 e 6 anos do ensino básico
 
manual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdf
manual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdfmanual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdf
manual-de-direito-civil-flacc81vio-tartuce-2015-11.pdf
 
Fotossíntese para o Ensino médio primeiros anos
Fotossíntese para o Ensino médio primeiros anosFotossíntese para o Ensino médio primeiros anos
Fotossíntese para o Ensino médio primeiros anos
 
Hans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdf
Hans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdfHans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdf
Hans Kelsen - Teoria Pura do Direito - Obra completa.pdf
 
Evangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdf
Evangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdfEvangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdf
Evangelismo e Missões Contemporânea Cristã.pdf
 
Exercícios de Clima no brasil e no mundo.pdf
Exercícios de Clima no brasil e no mundo.pdfExercícios de Clima no brasil e no mundo.pdf
Exercícios de Clima no brasil e no mundo.pdf
 
PERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptx
PERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptxPERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptx
PERFIL M DO LUBANGO e da Administraçao_041137.pptx
 
AS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdf
AS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdfAS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdf
AS COLUNAS B E J E SUAS POSICOES CONFORME O RITO.pdf
 
hereditariedade é variabilidade genetic
hereditariedade é variabilidade  genetichereditariedade é variabilidade  genetic
hereditariedade é variabilidade genetic
 
Apresentação Formação em Prevenção ao Assédio
Apresentação Formação em Prevenção ao AssédioApresentação Formação em Prevenção ao Assédio
Apresentação Formação em Prevenção ao Assédio
 
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
Slides Lição 8, Central Gospel, Os 144 Mil Que Não Se Curvarão Ao Anticristo....
 
Poema - Reciclar é preciso
Poema            -        Reciclar é precisoPoema            -        Reciclar é preciso
Poema - Reciclar é preciso
 
Os Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco Leite
Os Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco LeiteOs Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco Leite
Os Padres de Assaré - CE. Prof. Francisco Leite
 
América Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados Nacionais
América Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados NacionaisAmérica Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados Nacionais
América Latina: Da Independência à Consolidação dos Estados Nacionais
 

Rainha dos estapafúrdios

  • 2. PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE [uma editora do grupo LeYa] Rua Cidade de Córdova, n.º 2 2610-038 Alfragide · Portugal Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor José Eduardo Agualusa (texto) Danuta Wojciechowska (ilustrações) REVISÃO Clara Boléo DESIGN LupaDesign | Joana Paz | www.lupadesign.pt TRATAMENTO DE IMAGEM LupaDesign | Joana M. Ramalho ISBN 9789722049573 www.dquixote.pt
  • 4.
  • 5. Naquela manhã, Tia Juvelina, a velha cegonha, levou os pássaros a passear pelos céus. – Isto são nuvens – disse-lhes, apontando com a asa direita para os enormes flocos brancos que se estendiam através do espaço, a perder de vista, e que o vento arrastava sem esforço de um lado para o outro.
  • 6. Uma perdigota, que viajava às suas costas, quis saber se as nuvens podiam ser comidas. Perdigoto, para quem não saiba, é o nome que se dá aos filhotes das perdizes. Perdizes, suponho que isso toda a gente sabe, são aves semelhantes aos pombos, mas com uma plumagem mais colorida e que andam sempre de óculos escuros. Aquela perdigota, que como todos os perdigotos da sua idade ainda não tinha a cobri-la o belo casaco de penas dos pais (mas já usava óculos escuros), chamava-se Ana e era muito irrequieta e curiosa. – Eu cá estou esfomeada – disse Ana lambendo o bico. – Já comia qualquer coisa.
  • 7. Tia Juvelina sobressaltou-se: – Deus não fez as nuvens como iguaria. Mas amargas não devem ser. – E comem-se frias? – tornou Ana. – Parecem saborosas. – Pois sim, acho melhor que as comas frias – confirmou a cegonha. – Se as levares ao lume desmancham-se. – Sabem a água – disse a perdigota, depois de bicar uma nuvem. Bicou-a de novo com sofreguidão. – Sabem mais a água do que a própria água. São boas.
  • 8. Tia Juvelina explicou aos pássaros que as nuvens eram como grandes lagos flutuantes. Corriam pelos céus, engordavam, escureciam com o peso da água, e finalmente desfaziam-se em grossas bátegas de chuva. Voltavam a ser lagos e rios lá em baixo, na terra. – Há nuvens tão grandes – acrescentou a velha cegonha – que dentro delas nadam cardumes de peixes. Ana duvidou. Duvidar era uma coisa que ela fazia muito bem: – É verdade, tia? Tia Juvelina viajara pelo mundo inteiro. Vira muitos prodígios: – Sim, querida. Por vezes chovem peixes. Tia Juvelina explicou aos pássaros que as nuvens eram como grandes lagos flutuantes. Corriam pelos céus, engordavam, escureciam com o peso da água, e finalmente desfaziam-se em grossas bátegas de chuva. Voltavam a ser lagos e rios
  • 9. Lembrava-se de uma aldeia onde tinham chovido carapaus. Os camponeses saíram para a rua com grandes panelas e nessa noite fizeram uma festa. Numa outra aldeia, contou a Tia Juvelina, choveram piranhas. Eram tão ferozes, e estavam tão esfomeadas, que se iam devorando umas às outras ainda enquanto caíam. Em terra começaram a perseguir as pessoas e os animais domésticos, aos saltos, e foi necessário matá-las à vassourada e à paulada. Algumas delas, contudo, caíram numa lagoa próxima, na qual durante muitos anos ninguém se atreveu a tomar banho. Lembrava-se de uma aldeia onde tinham chovido carapaus. Os camponeses saíram para a rua com grandes panelas e nessa noite fizeram uma festa. Numa outra aldeia, contou a Tia Juvelina, choveram piranhas. Eram tão ferozes, e estavam
  • 10. Ana não se conformava por ver os pais, os irmãos e os primos mais velhos enfeitados de belas penas, enquanto ela era forçada a vestir o mesmo casaco cinzento e sem graça dia após dia. Mal despertava, corria alvoroçada a debruçar-se sobre uma colher de sopa, abandonada junto ao ninho, e que servia de espelho a toda a família: – As minhas penas? Onde estão as minhas penas novas? O que via era sempre a mesma perdigota gorducha e desajeitada, sem uma única pena colorida a enfeitar-lhe o (ul)traje. Então, certa tarde, andando sozinha a passear pela savana, a pé, porque ainda mal conseguia esvoaçar, Ana viu desenrolar-se no céu um perfeito arco-íris. Ficou fascinada. Tia Juvelina, a velha cegonha, já lhe tinha falado nos arcos-íris, mas a perdigota duvidara. Ana, insisto, tinha um grande talento para a dúvida. Afinal os arcos-íris existiam mesmo e eram ainda mais bonitos do que no relato de Juvelina. Fantástico!
  • 11. – E se eu tomar um banho de arco-íris? – pensou Ana. – Um banho de arco-íris arcoirizará um passarinho? Correu e correu até alcançar uma das extremidades do arco-íris. A luz colorida caía sobre o capim, mansamente, para depois se dispersar, deixando mais leve o mundo em redor. Era como acordar dentro de um sonho. Não um sonho qualquer. O sonho de um pirilampo, que são bichos muito iluminados. Ana fechou os olhos e lançou-se de cabeça para o meio do jorro. Quando os reabriu viu que todo o seu corpo brilhava, cada pena com a sua cor, algumas com muitas cores em simultâneo, de forma que no conjunto dava a impressão de que se havia transformado num pequeno arco-íris saltitante. – Uau! – gritou Ana entusiasmada. – Resultou! Sou um génio, eu.
  • 12. Regressou ao ninho excitadíssima. Esperava ser recebida com grandes manifestações de espanto, talvez de mal contida inveja, por parte dos irmãos e primos. Esperava que lhe dissessem «Estás tão linda!» Esperava que a mãe se abraçasse a ela emocionada e que o pai a levantasse nas fortes asas e a lançasse ao ar gritando – «És a minha princesa!» Não aconteceu nada disso. A chegada do pequeno arco-íris saltitante foi precedida de um forte revoar de asas e um confuso coro de assustados piares, chiados, assobios, chilreios, grasnados e cacarejos, a que se seguiu a debandada geral do passaredo.a que se seguiu a debandada geral do passaredo.