— Encontrámos tantos homens esfarrapados, tristes e
            pacientes que não soubemos distinguir aquele que tu procuras.
                   Por isso, na manhã seguinte, o rei Baltasar, tendo despido os
            seus vestidos de púrpura, envolveu-se num manto de estamenha e
            saiu sozinho do palácio para procurar o homem.
                   Desceu pelas ruelas estreitas da encosta, e, longe das grandes
            avenidas triunfais onde a brisa faz sussurrar as folhas duras das


Histórias   palmeiras, percorreu longamente os bairros pobres da beira do rio.
            Os carregadores do cais ergueram para ele a face sombria, e o homem
            que vendia os sapatos de corda poisou no olhar do rei o seu olhar


 de
            cansado. Viu homens dobrados sob os fardos, viu os que puxavam
            carroças como bois, lentos e pacientes como bois, viu os que usavam
            grilhetas nos pés, viu os que deslizavam rente às paredes, silenciosos



Natal
            como sombras, viu os que gritavam, os que choravam, os que gemiam.
            Viu os que estavam sós, imóveis, encostados aos muros, atónitos,
            interrogando, para além da voz rouca das ruas, o silêncio opaco,
            fitando em sua frente a estrada recta do silêncio. Viu os que
            pescavam pequenos peixes nas águas sujas do rio. Viu os que tinham
            a cara cor de trapo e as mãos feitas de cinza, cinza leve que voava com
            o vento. Viu a sombra verde, o reino da paciência, o país da desolação
            sem margens, o império dos humilhados, o lado esquerdo da vida, a
            Pátria deserdada, o fundo do mar da cidade.
                  E no dia seguinte o rei reuniu os seus ministros e disse-lhes:
                  — Mandai distribuir os meus tesoiros e mandai distribuir as
            reservas acumuladas nos armazéns e nos celeiros. E reparti tudo entre
            os esfomeados e os pedintes.


                                                                               103
Tendo ouvido isto, os ministros retiraram-se para deliberar.
       E voltaram passados três dias, e responderam:
      — Os teus tesoiros não chegam para resgatar os escravos, e as
reservas dos teus armazéns não chegam para saciar os esfomeados.
Nem o teu poder chega para alterar a ordem da cidade. Se
cumpríssemos aquilo que mandaste, os fundamentos que nos
sustentam e os muros que nos protegem ruiriam. O teu desejo é
contrário ao bem do reino.
       E o rei lhes respondeu:
       — Procuro outra lei e procuro outro reino.
       Então os ministros retiraram-se, murmurando entre si:
       — Vemos que ele nos trai.
      Na manhã seguinte, dirigiu-se Baltasar ao templo de todos os
deuses.
       E leu estas palavras gravadas na pedra do primeiro altar:
      Eu sou o deus dos poderosos e àqueles que me imploram concedo a força e o
domínio, eles nunca serão vencidos e serão temidos como deuses.
       Seguiu o rei para o segundo altar e leu:
      Eu sou a deusa da terra fértil e àqueles que me veneram concedo o vigor, a
abundância e a fecundidade e eles serão belos e felizes como deuses.
       Encaminhou-se o rei para o terceiro altar e leu:
         Eu sou o deus da sabedoria e àqueles que me veneram concedo o espírito
ágil e subtil, a inteligência clara e a ciência dos números. Eles dominarão os
ofícios e as artes, eles se orgulharão como deuses das obras que criaram.


104
E tendo passado pelos três altares, Baltasar interrogou os
sacerdotes:
     — Dizei-me onde está o altar do deus que protege os
humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.
      Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam:
      — Desse deus nada sabemos.
       Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido
atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse:
       — Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da
humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas
coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?
       A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O
seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da
terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse.
Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o
vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.
      E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de
outra maneira.
                                               Sophia de Mello Andresen
                                                        Contos exemplares
                                                Porto, Figueirinhas, 1997




                                                                     105
Os Magos que não chegaram a Belém                                                             A boneca

      Há sempre os que conseguem e os outros. Os que ficam pelo                — Não leves sempre essa boneca suja contigo para a cama —
caminho. Com os magos aconteceu o mesmo. Só três – os reis              disse a mãe de Eva.
Baltasar, Melchior e Gaspar – chegaram a Belém e deixaram os seus            — A minha Anita não é nenhuma boneca suja. — respondeu
presentes, de ouro, incenso e mirra, aos pés do Menino. Mas os          Eva — A minha Anita é muito querida.
magos, sacerdotes que estudavam o céu e os seus astros, eram muitos.           — Mas está muito feia — continuou a mãe. — Olha só para a
E outros se puseram a caminho, seguindo aquela estrela, súbito,         cara e para os cabelos dela!
nascida no firmamento e mais brilhante do que todas as outras que             Quando se olha para a boneca Anita, assim, sem se gostar dela,
aqueciam a noite.                                                       tem de se admitir. Bonita, não é. As bochechas estão cinzentas e a
       Desses, três sacerdotes da Caldeia, adoradores do sol e da       esboroar-se de tantos beijos e tantas lavagens. Já não tem
natureza, porque dela se sentiam dependentes, decidiram também          propriamente um nariz, apenas uma saliência suja, e dos cabelos
partir juntos para melhor enfrentarem os perigos de uma viagem, sem     castanhos já só ficou um pequeno tufo de cabelos ralos.
estrada conhecida, na esperança de alcançarem a Luz que aquele sinal          Isto não incomodava Eva, mas a mãe dizia-lhe constantemente:
anunciava. Não eram reis, nem tinham coroa, nem sequer montada de
                                                                             — Não queres pedir uma boneca nova pelo Natal? —
camelo ou burrinho manso. Também não levavam presentes, apenas a
                                                                        perguntava-lhe.
ansiedade dos seus corações. E, confiantes, abandonaram as margens
verdes do Eufrates, o trilho conhecido das caravanas e, guiados pela          Eva apertava a Anita contra si e dizia:
estrela, puseram-se a seguir a liberdade dos caminhos, crentes de que         — Não!
a força da esperança e da fé (não conheciam ainda o Amor) lhes               — Tenho outra ideia — disse a mãe. — Vamos levar a Anita a
permitiria chegar. Onde? Não sabiam. Mas lá, junto daquela Luz que      um hospital de bonecas e lá põem-lhe cabelo novo e outro nariz.
havia de transformar o mundo, de águas transparentes, fulvos                  Eva defendia-se. Não queria entregar a Anita.
desertos varridos pelo vento e frescos oásis, que reflectiam o azul
                                                                              Mas, certo dia, Alex, o irmão mais velho, disse uma coisa feia,

                                                                   1                                                                     107
uma coisa muito má. Disse:                                            entre o verde nas palmeiras, no paraíso, aonde os homens ansiavam
      — A tua boneca é um careca tinhoso!                             regressar. E nessa esperança caminhavam. Não por carreiros
                                                                      atapetados pelo musgo dos presépios, que vieram séculos depois, e se
      Eva desatou a chorar. Depois, observou a sua Anita pela
                                                                      nos tornaram familiares, na infância, com seus trilhos fáceis de
primeira vez com olhos de ver. Era verdade! A cara da Anita estava
                                                                      serrim, lagos-espelhinhos onde nadavam patos, anacrónicas gentes
cheia de nódoas e a descamar-se, e quase totalmente careca.
                                                                      quotidianas: lavadeiras, vendedoras de castanhas e galinhas,
      Eva correu para a mãe.
                                                                      pastorzinhos de gado tresmalhado por veredas, cortadas por mudos
      — Achas — disse a soluçar — que no hospital das bonecas         riachos de papel prateado. Também não caminhavam por entre as
vão ser bons para a minha Anita?                                      sombras frondosas e frescas, com possibilidade de pousada em
      — Mas claro que sim! — sossegou-a a mãe.                        palácios e castelos, como quis a pintura e os seus mestres.
      — Então… Por mim, podes levá-la…                                Caminhavam pelo silêncio, com a sua fome e a sua sede, o calor do
      Logo na manhã seguinte, a mãe foi ao hospital das bonecas.      dia e o frio das noites, solitárias. Palmilhavam o oceano das dunas do
Era o único na cidade, pois já não havia muita gente que mandasse     deserto, à luz da lua, como se o fizessem pelo pó de todas as
consertar bonecas.                                                    clepsidras do tempo. E nem sequer dormiam num leito, irmanados
                                                                      pelo mesmo lençol de pedra, como o românico fixou os outros três,
      No hospital das bonecas, um homem examinou a Anita.
                                                                      mais conhecidos, com as suas coroazinhas na cabeça. Enrolavam-se
      — Tem pouco que se aproveite. Precisa de uma cabeça nova, e
                                                                      apenas no sono que os descansava do cansaço dos dias e lhes dava
os braços e as pernas também deviam ser substituídos.
                                                                      novas forças, que refaziam com a água e as tâmaras dos oásis, o pão e
     Apresentou à mãe diversas cabeças de bonecas, mas não havia      os figos secos que tinham trazido.
nenhuma que fosse igual à da Anita.
                                                                            Às vezes, quando o olho do sol se tornava ígneo ou paravam
      — Além disso — continuou o homem — a reparação custa            para uma refeição ou um descanso, discutiam a direcção que vinham a
mais do que uma boneca nova.                                          seguir.
      A mãe de Eva procurou em todas as lojas de brinquedos uma             — Não vos parece que a estrela aponta a Judeia? — perguntava
boneca que, pelo menos, fosse mais ou menos semelhante à antiga       um.
Anita. Acabou por comprar uma do mesmo tamanho e com os
                                                                           Os outros, incrédulos, pensavam secretamente se haveria
mesmos cabelos castanhos. No resto, a nova boneca era um pouco
                                                                      alguma coisa a esperar de um povo escravizado pelos romanos e
diferente, mas encantadora, e tinha uma cara que se podia lavar com

108                                                                   2
encolhiam os ombros.                                                       água.
       — A mim parece-me antes o Egipto o rumo indicado —                        Quando chegou a casa com as duas Anitas, a nova e a velha,
atrevia-se o mais novo. — E a vós?                                         Eva ainda estava no infantário. Mas Alex já tinha vindo da escola e
      — É ainda cedo para uma certeza, mas em breve o saberemos...         descobriu a caixa no cesto de compras da mãe.
      E retomavam a caminhada até pela noite dentro – a estrela                    — Aha! — disse. — Compras de Natal!
sempre adiante, lanterna que os não deixaria perder. Duas noites de              — Uma boneca nova para a Eva — respondeu a mãe. — Mas
névoa, porém, esconderam-na aos seus olhos, ansiosos. E então,             ela não pode saber. Tem de pensar que é a sua Anita.
desorientados, disputaram azedamente, perdidos e sem rumo.                         — Aha! — disse Alex. — Mentiras de Natal!
Todavia, na terceira noite, a estrela reapareceu, mais cheia de brilhos,           — Não sejas atrevido — disse a mãe. — É o melhor para a
como se no seu bojo houvesse mil reflexos de espelho. Quem,                Eva.
conhecendo a Luz, deseja continuar nas trevas? Nem sentiam o
                                                                                   — Deixa-a lá ficar com o careca tinhoso — disse Alex.
cansaço, a língua encortiçada pela sede, o olhar enceguecido pelas
tempestades de areia, o ventre cavado pela marcha e pelo magro                   A mãe arrumou a caixa com a nova boneca no armário da
alimento. A esperança, serpente de água, a esgueirar-se, fugidia, entre    roupa.
os juncos, tinha regressado aos seus corações.                                    — Estou contente por nos vermos finalmente livres daquela
      A noite do solstício aproximava-se e eles estavam certos de          coisa tão estragada.
que, se aquela Luz anunciava algum acontecimento, ele teria lugar na               Atirou a Alex o saco de plástico com a antiga boneca.
noite sagrada, pois o sol era a alegria e o pão da terra. E, ao mesmo            — Toma — disse. — Mete-a no contentor do lixo, mas lá
tempo, não podiam deixar de sentir uma certa inquietação em face           para o fundo.
daquela claridade que aumentava de brilho como a anunciar uma                      Alex pegou na boneca e saiu do quarto a assobiar baixinho.
Outra que apagaria a do próprio astro de que eram adoradores. Seria
                                                                                 Desde que a Anita desaparecera, Eva perguntava por ela todos
realmente aquela a Luz que tornaria o mundo de manhãs claras,
                                                                           os dias.
tardes ardentes e noites estreladas, mais perfeito, menos rasgado por
                                                                                 — A minha Anita ainda está no hospital? O homem é
ódios, guerras e injustiças? Quem podia ter a certeza? Do que parecia
                                                                           simpático com ela? Ela não tem saudades? Vou mesmo voltar a tê-la
não haver dúvidas era de que a estrela indicava a Judeia. Tinham de
                                                                           pelo Natal?
render-se à evidência. E nessa direcção seguiam agora, os pés já


                                                                      3                                                                         109
E a mãe respondia sempre:                                           feridos do caminho, cada vez mais áspero e pedregoso. Mas, mesmo
      — Sim, Eva. Com certeza, Eva. Não te preocupes, Eva.                forçando a marcha e lutando contra o tempo e o cansaço, a noite
                                                                          desejada encontrou-os à boca do Mar Morto e a estrela fazia jorrar a
      Para a noite de Natal, a mãe de Eva vestiu à nova boneca o
                                                                          sua cratera de brilhos mais para além, mais para o norte. Exaustos,
vestido da Anita e pô-la debaixo da árvore. Com o vestido vermelho,
                                                                          não podiam seguir adiante. Mas o cristal de miríades de luzeiros, que
achava a mãe, ficava mesmo parecida com a Anita.
                                                                          pareciam mais belos e mais luminosos no silêncio suspendido do ar
      Mas, quando estendeu a boneca a Eva e disse: — Ora vê como
                                                                          gelado, permitia-lhes procurarem uma gruta para se abrigarem e
ficou linda a tua Anita! — Eva não aceitou e cruzou as mãos atrás
                                                                          dormirem, antes de continuarem a jornada. E foi o que fizeram.
das costas.
                                                                                — Aqui! — gritou o mais jovem, que caminhava na dianteira.
      — Não! — gritou. — Essa não é a minha Anita!
                                                                                Os outros, mais trôpegos e cansados, juntaram-se-lhe.
      E olhava decepcionada para a nova boneca:
                                                                                Era uma caverna escurecida pelo fumo das fogueiras dos
      — Eu quero a minha Anita… a minha Anita! — e começou a
                                                                          pastores e que, embora vazia, parecia uma boca de forno, ainda
chorar baixinho sem parar.
                                                                          quente do bafo dos animais.
      A mãe não contara com isto e tentou consolar Eva. Mostrava-
                                                                                — Escutem! — disse um deles.
-lhe outras prendas, levava-a à árvore de Natal, mas Eva mantinha os
                                                                                 À medida que penetravam na gruta, ouviam vagidos, que
olhos baixos. Não queria ouvir nada nem ver prenda nenhuma.
                                                                          julgaram de animal ferido. Todavia, quando reacenderam o fogo,
      — Anita! — queixava-se a menina. — Onde puseram a minha
                                                                          deparou-se-lhes uma criança recém-nascida, nua e roxa, a chorar de
Anita?
                                                                          frio e fome.
      Disse então Alex:
                                                                                — Quem teria tido a coragem de a abandonar?! — indignou-se
       — Se ela não receber de volta a careca tinhosa, vai estragar-nos   o mais velho, que rasgou logo um pedaço de manto e a envolveu.
a festa de Natal.
                                                                                — Pobrezinha, como chora!
      — Mas… — balbuciou a mãe — tu deitaste…
                                                                                Os outros debruçaram-se também, carinhosos e solícitos, sobre
      — Achas? — perguntou Alex.                                          o pequeno fardo. Depois olharam-se, perplexos. Que fariam? Podiam
     Correu ao quarto e regressou com um saco de plástico que             aquecê-la, protegê-la – mas como alimentá-la?
meteu nas mãos de Eva.                                                          E foi então que ouviram, vindos do fundo da gruta, outros


110                                                                       4
vagidos.                                                                      — Anita! — gritou Eva, tirando do saco a velha boneca careca.
      — Ide ver! — pediu o mais idoso, que se tinha sentado perto             Alex sorria.
do lume, tentando aquecer a criança, enquanto a embalava,                     — E o que vais fazer agora à boneca nova?
desajeitadamente, nos seus braços, nodosos e velhos.
                                                                               — Esta? — perguntou Eva. — Vou dá-la a uma menina que
       Os outros juntaram uns gravetos secos e atearam-nos nos           eu não conheça.
tições, acesos, e com aquela débil claridade varreram as sombras. No           — A uma menina… — repetiu Alex. — Ah, claro. Ela não
fundo da gruta estava uma ovelha, de úberes cheios e dolorosos, que      pode ficar a saber que tens uma boneca careca fantástica!
lambia a sua cria morta. Era uma noite santa aquela. Ali estava a
                                                                                                                                 Tilde Michels
prova. E, contentes, arrastaram o animal até junto do companheiro e
da criança. Depois, com muito jeito e devagar, enquanto um segurava                                                          Anne Braun (org.)
o animal, o outro fazia pingar umas gotas de leite para a boquinha,                                                        Weihnachtsgeschichten
                                                                                                                  Würzburg, Arena Verlag, 1991
que em breve se tornou sôfrega. Pacientes, continuaram a tarefa e
viram-se recompensados. Aquecida e consolada, a criança aquietou-se.
O mago que a tinha nos braços, como um avô, e os outros
começaram a tratar da magra ceia e a assar, nas brasas, os figos secos
que lhes restavam.
      — Temos de regressar... — disse, então, o mais velho,
depondo a criança adormecida num recôncavo largo de rocha, não
longe do borralho.
      — Assim terá de ser — concordou logo outro.
      — Somos homens e sacerdotes e nunca seremos uma família
para a criança. Temos de nos apressar a entregá-la a uma mulher
piedosa que cuide dela e a eduque juntamente com os filhos.
      — Sim, ou a uma mulher estéril para quem seja a bênção
desejada — tornou o primeiro. — Mas isso resolveremos depois do
regresso. O urgente é regressarmos.

                                                                    5                                                                      111
— Regressar?! E a Luz que vínhamos a seguir? — protestou o
mais novo, para quem era doloroso, depois de tantos trabalhos e
canseiras, não levar a cabo o que se tinha proposto. — Desistimos
assim da Luz que nos guiou até aqui? Desistimos, agora, quando
estávamos já perto?
     — Compreendo o que sentes, irmão, também já fui novo...
Mas há a criança. Como poderemos abandoná-la?
      — Sim... há a criança — e também o mais novo, que tanto se
tinha esforçado por alimentá-la, se inclinou e sorriu para vê-la
dormir.
      — A Luz que vínhamos a seguir — ponderou ainda o mais
velho — não poderá ser ocultada e dela teremos notícia. Lembremo-
-nos de que a Luz ilumina e nem mesmo as trevas podem escondê-la
para sempre. O nosso caminho é o do regresso e será longo, pois
teremos de nos revezar com a criança nos braços, embora seja já uma
bênção termos a graça de um alimento que ainda sobrará para um
gole de sede nosso. Descansemos, agora, enquanto dorme.
      — Tens com certeza razão — concordou o mais novo, que
também não se sentia capaz de recusar a criança, presente da noite
santa e, quem sabe, daquela misteriosa Luz.
       O braseiro consumia-se, lento, perfumado pelo açúcar dos
figos assados nas brasas. A ovelha deitara-se junto da criança,
aninhando-a na sua lã, também ela apaziguada, como se tivesse
recuperado a sua cria. Uma paz despetalava-se no silêncio da noite e
caía sobre a gruta.
      Esta foi a história. Não adoraram o Messias, salvador, o que

6
devia chegar para que a paz e a justiça florissem até ao fim das luas, o
que teria compaixão do fraco e do pobre e havia de lançar a sua
bênção sobre todas as raças, povos e línguas. O anjo do Senhor não
lhes apareceu, nem foram envolvidos na sua claridade. Não ouviram                      O primeiro Natal do pardalito
cantar: «Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa
vontade».                                                                         Aqui há coisa de três semanas, um pardal do Rossio, daqueles
      Mas tinham vivido o Amor, essência daquela doutrina que               que escolheram para poiso e morada os ramos das árvores que
ainda não tinha sido pregada e ninguém registara ainda. No mais             circundam a dita praça, começou assim a história que vamos contar:
íntimo dos seus corações tinham sentido aquela verdade: «O que                    — Companheiros pardais, pardalitos e pardalões, escutem
fizerdes ao mais pequeno e ao mais ínfimo a Mim o fareis». E                todos, a notícia é importante.
naquela noite, em que os animais falaram, as flores abriram o
                                                                                  Juntou-se a pardalada. Quem ali passe todas as tardes, à hora
esplendor das suas pétalas nas trevas como se as entregassem à luz do
                                                                            da saída dos empregos, não deve estranhar o arruído que vem das
meio-dia, e as pedras puderam deslocar-se para se dessedentarem nos
                                                                            árvores despidas de folha, mas cheias, cheiinhas de passarinhos
regatos mais próximos, adormeceram com a criança aconchegada
                                                                            tagarelas. As pessoas andam na sua vida muito apressadas, e nem
entre eles.
                                                                            sequer dão conta da chilreada doida dos pardais:
      Longe, a estrela fazia descer a sua cascata de fogo sobre Belém
                                                                                  “Chega-te para lá! Aí sou eu”
de Judá.
                                                                                  “Olha o pardalão a querer tomar-me o lugar...”.
                                                           Luísa Dacosta
                                                        Natal com Aleluia         “Ai que ainda te dou uma bicada...”.
                                                    Porto, Ed. ASA, 2002
                                                                                  “Não me provoques!”.
                                                                                  “Toma que é para saberes”.
                                                                                  “Deixa-me em paz”.
                                                                                  Mas voltemos à nossa história.
                                                                                  Oiçamos o que o pardal tem para dizer:
                                                                                 — Peço silêncio, se não calo-me — piava ele, tentando impor a
                                                                            ordem à assembleia.

                                                                       7                                                                   113
Demorou o seu tempo.
      Os pardais são uns espalhafatosos e uns gralhadores
incorrigíveis.
      — A notícia que vos trago importa a todos. Há bocadinho,
estava eu poisado num ramo baixo, e ouvi uma conversa entre um
cauteleiro e um engraxador. Sabem do que estavam a falar?
      — De futebol — arriscou um.
      — Nada disso. Estavam a falar da Lotaria do Natal, imaginem!
Portanto, o Natal está à porta, meus amigos.
      Espero que saibam o que isto significa...
      Os pardais mais jovens não sabiam, mas calcularam que devia
ser coisa grave, porque os pardais velhos, mesmo os mais gaiteiros e
risonhos, ficaram, subitamente, de bico caído. As expressões eram de
alarme e desalento:
      — Temos de mudar de vida.
      — Que desconforto!
      — Deviam ter-nos avisado.
      — O tempo não está para grandes voos.
      E cada qual debandou para o seu ramo.
       Neste ponto da história, parece-nos indispensável ouvir a fala
de um avô pardal para o seu neto que, tal como vocês, amigos
leitores, não percebera patavina do sucedido.
    — Na quadra do Natal, que é uma grande festa dos homens
— contava ele — multiplicam-se e crescem as luminárias por toda a


114
parte. Nesta praça, então nem queiras saber! Fica tudo cheio de luzes
                                                                     e luzinhas de muitas cores, amarelas, azuis, vermelhas, verdes, que
                                                                     nos põem tontos. Onde os homens encontram um sítio para
        “Não é possível!”, pensou o Pai Natal                        pendurar uma daquelas pêras de vidro que deita luz, penduram.
                                                                           — Deve ser bonito — observou o neto.
        Noite feliz! — cantava o Pai Natal.                                — Bonito talvez seja, mas não para nós. Aparecem fios por
      Atarefadamente, ia consultando listas de pedidos, embrulhava   toda a parte e, nos ramos das nossas árvores, estendem tantos, com as
brinquedos e punha as respectivas etiquetas.                         tais pêras penduradas, que ninguém se entende. Há dois anos,
                                                                     aproximei-me de uma dessas pêras, que se tinha partido, e apanhei
      De repente, interrompeu o trabalho e lançou um olhar ao
                                                                     um arrepio pelo corpo todo que julguei que me ficava de vez!
calendário.
                                                                          — Então para onde vão os pardais passar o Natal? —
      — Deus do céu! — exclamou. — Já é altura de ir para a Terra.
                                                                     perguntou o pardalito, atarantado.
A festa de Natal está próxima!
                                                                           — Saltinho aqui, saltinho acolá, alguns escondem-se numas
     Atou ainda um pequeno embrulho, compôs um laçarote e
                                                                     palmeiras, lá para cima, num sítio que os da cidade chamam Avenida.
encheu o grande saco.
                                                                     Outros conseguem chegar a um jardim, que me dizem ser muito
     — O dever chama! — murmurou. Pegou num gorro e pôs-se a
                                                                     tranquilo e saudável, um tal Jardim Botânico ou coisa parecida.
caminho da cidade.
                                                                           — E nós, avô?
      Tinha nevado e o mundo resplandecia. As árvores estavam
                                                                            — Nós ficamos. Podíamos ir para um telhado próximo, se não
envolvidas em mantas brancas, colchões de plumas estendiam-se
                                                                     andassem por lá os gatos que têm olhos mais perigosos do que todas
sobre os telhados e as ruas tinham-se coberto de algodão doce.
                                                                     as luminárias juntas. Olha, naturalmente, vamos para um sítio
       — Que beleza! — murmurou o Pai Natal a caminho da terra,
                                                                     sossegado que eu conheço, num buraco daquele edifício, ali, no cimo
ao passar por sobre os telhados, ofuscado pelo reflexo da neve.
                                                                     da praça. É um bocado desabrigado e pouco cómodo, mas vais poder
      Um raio de sol fez-lhe comichão no nariz. Soltou um grande     dizer, daqui em diante, que dormiste no Teatro Nacional...
espirro e aterrou de trambolhão no passeio.
                                                                            Assim que chegaram os electricistas com as escadas, os cabos e
        — Ai! — disse uma voz. — Não podes prestar atenção onde      os fios, a pardalada sumiu-se...
cais?

                                                                9                                                                     115
Numa destas noites, o pardalito deixou o avô a dormir com a                 O Pai Natal recompôs-se, esfregou os olhos. À sua frente
cabeça debaixo da asa, e foi dar uma voltinha pelos arredores do seu        estava alguém com roupas vermelhas, com uma barba branca e um
novo poiso. O Rossio silencioso e exuberantemente iluminado                 gorro comprido.
pareceu-lhe um jardim de sonho.                                                  — Desculpe — disse o Pai Natal. — Quem é o senhor? —
      — Tanta luz de tanta cor! — exclamou.                                 perguntou perplexo.
       Nesse momento, um avião sobrevoava a cidade, em direcção ao                 — Mas isso vê-se logo — respondeu o outro. — Eu sou um
aeroporto. No escuro do céu só se distinguia as luzes vermelhas da          Pai Natal. E tu estás no meu caminho. Aqui não há espaço para dois,
cauda.                                                                      por isso põe-te a andar.
      — Olha, lá vão duas luzes a fugir...                                         O Pai Natal meneava a cabeça. Não devia ter ouvido bem. Se
      E dispunha-se a voar atrás delas, se o avô não tivesse acordado,      calhar o tombo tinha sido muito grande.
entretanto.                                                                      — O que tem dentro do saco para as crianças, se posso
      — Para onde ias? — perguntou-lhe ele.                                 perguntar? — informou-se cautelosamente.
      O pardalito explicou. Comentário do velho pardal:                           — Vales para pequenas prendas — sorriu o outro
                                                                            ironicamente. — Para as pessoas irem ali à loja.
       — Que patetice! Ainda tens muito que aprender, pequeno, até
te transformares num pardalão sabido!                                             Apontou para uma montra onde se viam peluches, bonecas e
                                                                            brinquedos.
      É o que nós também achamos, ao cabo desta história.
                                                                                  Estendeu um papel a um rapazinho que passava e gritou:
                                                       António Torrado            — Venham, crianças, há aqui coisas para vocês!
                                                     www.historiadodia.pt
                                                                                  Mas a voz não soava alegre.
                                                                                 O sol passeava sobre os telhados. O Pai Natal continuou o seu
                                                                            caminho, passou por lojas de brinquedos e centros comerciais.
                                                                                 Da porta da igreja saía uma luz, e uma canção pairava no ar. O
                                                                            Pai Natal sentiu-se contente mas, ao erguer os olhos, lá estava outro.
                                                                            Tinha botas pesadas, uma argola no nariz e a fivela do cinto brilhava.
                                                                                  — É Natal, é Natal — cantava ele com voz rouca.

116                                                                         10
— Desculpe, quem é o senhor? — perguntou o Pai Natal,
espantado.
      — Acha que sou o Coelhinho da Páscoa? — respondeu o
outro, com indignação.                                                                        Noite de Natal
      O Pai Natal assustou-se. Um segundo outro. Será que hoje
andaria a ver a dobrar?                                                        O amigo
     — E o que oferece às crianças? — perguntou delicadamente.
                                                                               Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à
     O outro bateu com o indicador na testa.
                                                                      volta.
     — Oferecer? Mas tu acreditas no Pai Natal? Eles já têm tudo!
                                                                             No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma
Ando a distribuir rebuçados da tosse para as pessoas provarem. E
                                                                      cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava.
comprarem. É assim que isto funciona. Queres um? — perguntou a
                                                                      Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao
uma menina que passava. — Tenho de continuar — disse depois, em
                                                                      grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se
tom apressado. — Ainda me faltam mais três ruas.
                                                                      existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e
     O Pai Natal meneou a cabeça.                                     mais complicada para o rei dos anões.
     — Incrível — disse.                                                     Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em
      O lusco-fusco empurrou o sol e deitou-se sobre a cidade. O      quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às
Pai Natal prosseguiu o seu caminho cantarolando. A neve rangia sob    vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e
os sapatos.                                                           que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas.
      De repente, deu de caras com um novo outro. Era pequeno e       Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu
franzino, e tremia de fazer dó.                                       jardim.
      — O que tem? — perguntou o Pai Natal atenciosamente. O               E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros
outro assoou o nariz.                                                 meninos. Só sabia estar sozinha.
      — Eu devia ser um Pai Natal — disse abatido — mas sou uma            Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de
rapariga e a minha voz é demasiado aguda.                             Outubro.
     — Isso é mau? — perguntou o Pai Natal.                                    Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um

                                                                 11                                                                   117
garoto. Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam            — As Raparigas Natais ainda não foram inventadas —
como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo   respondeu. Ergueu o casaco, puxou o gorro para as orelhas e
às folhas do Outono. O coração de Joana deu um pulo na garganta.       desapareceu ao dobrar da esquina.
      — Ah! — disse ela. E pensou:                                            O Pai Natal franziu o sobrolho. Alguma coisa ali não estava
     «Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.» E do alto      certa. Foi para o jardim e sentou-se num banco. Um véu perpassou
do muro chamou-o:                                                      em frente da lua e começou a nevar. O Pai Natal apoiou a cabeça nas
                                                                       mãos, pensativo. Tantos Pais Natais! O que teria ali ainda a fazer?
      — Bom dia!
                                                                       Teria embrulhado as prendas erradas? Estariam os homens a precisar
      O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu:
                                                                       de outras prendas diferentes? Um pardal poisou-lhe no gorro. O Pai
      — Bom dia!                                                       Natal continuava a matutar e nem se deu conta.
      Ficaram os dois um momento calados.                                   — Descobri! — disse de repente. E fez-se novamente ao
      Depois Joana perguntou:                                          caminho.
      — Como é que te chamas?                                                Os flocos de neve dançavam no ar, as lanternas projectavam
      — Manuel — respondeu o garoto.                                   auréolas de luz sobre a rua, uma criança riu algures, uma bola de neve
      — Eu chamo-me Joana.                                             passou-lhe a sibilar rente à cara.

       E de novo entre os dois, leve e aéreo, passou um silêncio.             Na praça principal, um violinista de rua enregelava, bem como
Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta. Até que o garoto         o seu violino. Tinha um som débil e ofegante, como se fosse morrer
disse:                                                                 asfixiado a qualquer momento. O Pai Natal agarrou no saco e
                                                                       ofereceu ao violinista um som encantador. Este rejubilou.
      — O teu jardim é muito bonito.
                                                                             Numa cozinha, um rapazinho estava sentado, às voltas com os
      — É, vem ver.
                                                                       trabalhos de casa de Matemática. O Pai Natal pensou um pouco e
      Joana desceu do muro e foi abrir o portão.
                                                                       passou ao rapaz uma ideia por debaixo da porta. Ele pegou no lápis e
       E foram os dois pelo jardim fora. O rapazinho olhava uma por    começou a escrever com satisfação.
uma cada coisa. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos.
                                                                             — Ora aí está! — murmurou o Pai Natal, atravessando a
Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras e a horta. E chamou os cães para
                                                                       estrada.
ele os conhecer. E mostrou-lhe a casa da lenha onde dormia um gato.


118                                                                    12
Perto do cruzamento, estava um polícia. Tinha os pés frios e       E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores.
parecia encontrar-se de mau-humor.                                            — É lindo, é lindo — dizia o rapazinho gravemente. — Aqui
      O Pai Natal assobiou-lhe uma musiquinha.                           — disse Joana — é o cedro. É aqui que eu brinco. E sentaram-se sob
       Os carros passavam a apitar e pareciam empurrar-se uns aos        a sombra redonda do cedro.
outros. Os condutores vociferavam. A todos o Pai Natal deu um                  A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de
pouco de tempo e uma pitada de paciência. Os travões deixaram de         frescura. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que
chiar e de salpicar com lama de neve.                                    dava voltas no ar.
      — Estão a ver? Assim também se consegue — disse o Pai                    Joana foi buscar pedras, paus e musgo e começaram os dois a
Natal, satisfeito.                                                       construir a casa do rei dos anões.
      Na casa de espectáculos encontrou uma cantora com dores de               Brincaram assim durante muito tempo.
garganta, que rouquejava desanimada. O Pai Natal tirou saúde do                Até que ao longe apitou uma fábrica.
saco. Acrescentou-lhe alguns sons agudos. Bem ia precisar deles, e ela
                                                                               — Meio-dia — disse o garoto — tenho de me ir embora.
experimentou-os todos imediatamente.
                                                                               — Onde é que tu moras?
       Numa casa, viu uma menina deitada de bruços em cima da
                                                                               — Além nos pinhais.
cama. À sua frente tinha uma lista de prendas, mas não sabia o que
pedir. Roía a ponta do lápis e olhava com ar triste para o ar.                 — É lá a tua casa?

       Se calhar, ela já tem tudo — pensou o Pai Natal — mas ainda             — É, mas não é bem uma casa.
lhe falta alguma coisa.                                                        — Então?
      E a alegria de partilhar com os outros inundou o quarto.                 — O meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A
       Em seguida, começou a cantar Cai neve, cai neve… porque ela       minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma
estava de facto a cair e encantava a cidade.                             casa.

      — É bom quando podemos ser úteis — concluiu o Pai Natal,                 — Mas à noite onde é que dormes?
esfregando as mãos.                                                           — O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem
       Viu como os outros faziam o seu trabalho mal-humorados,           uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali
distribuindo vales e oferecendo bombons, e a todos enviou boa            também.


                                                                   13                                                                    119
— E onde é que brincas?                                           disposição.
       — Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da                De regresso a casa, acendeu as luzes de uma árvore de Natal.
cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas       Pôs o seu gorro num boneco de neve, depois deu aos pássaros das
vazias, com jornais velhos, com trapos e com pedras. Agora brinco no    suas bolachinhas de Natal. O saco das prendas, tornou a levá-lo
pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os animais e com as       consigo.
flores. Pode-se brincar em toda a parte.                                     — Noite feliz! Noite feliz! — cantarolava baixinho. — Talvez
      — Mas eu não posso sair deste jardim. Volta amanhã para           venham a ser precisas no próximo ano!
brincar comigo.                                                               Então, brilhou no céu a Estrela de Natal.
      E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua.                                                                   Sigrid Laube
Joana esperava-o empoleirada em cima do muro.                                                                “Erstaunlich”, sagt der Weihnachtsmann
                                                                                                                 Wien, Annette Betz Verlag, 2003
      Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda                                                             Texto adaptado
do cedro.
      E foi assim que Joana encontrou um amigo.
      Era um amigo maravilhoso. As flores voltavam as suas corolas
quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor e os
pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão
que Joana ia buscar à cozinha.

      A festa

     Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que
chegou o Natal.
      E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os
seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu
do quarto e desceu a escada.
      Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande;

120                                                                     14
eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que
                                                                           tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de
                                                                           jantar ver se já lá estavam os copos.
                             Bolo-rei                                             Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande
                                                                           armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Esse
      Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de                 armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma
atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de      grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior
musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela       de uma caverna cheia de maravilhas, e segredos. Estavam lá fechadas
de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o         muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os
Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de        dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas,
papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal            cristais e pássaros de vidro. Até havia um prato com três maçãs de
amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde         cera e uma menina de prata que era uma campainha. E também um
se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o       grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas.
Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que              Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não
alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a       tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse
história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que               espreitar entre as duas portas.
misturámos poemas com lágrimas.                                                   Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do
      De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus     armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes
e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das         tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a
senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista     tilintar era a música das festas.
engomada, cheias de silêncios e reverências.                                      Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam,
       Com olhos de amora madura, esse sorriso que ainda hoje              tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma
conserva, sempre molhado de uma melancolia que tem de adivinhar-           fonte de montanha do que do fundo de um armário. As velas estavam
-se mais do que ver-se, Fernando entrou na sala de jantar das              acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas
anfitriãs, cujas portas só o espírito natalício abria, raros que eram os   maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e
gestos de caridade e partilha. Assim se explicava a presença do            aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma


                                                                     15                                                                       121
festa. Era o Natal.                                                      rapazinho e sua mãe, viúva recente e que ali trabalhava de manhã à
      Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de      noite, para que a vida se assemelhasse ao que já fora.
Natal as estrelas são diferentes.                                               Servidos os manjares da época: a canja onde as bolhas de
       Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio,    gordura lembravam pequenos sóis fumegantes, o leitão de maçã
mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das     vermelha na boca que olhava Fernando em gritos de sufoco que só
cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como           ele, poeta em germinação, conseguia ouvir; os fritos vários que nas
rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos.                  travessas exibiam a abastança, chegou finalmente e foi colocado em
                                                                         lugar de honra, no centro da mesa, ladeado por dois castiçais onde as
      E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e
                                                                         velas vermelhas ardiam, o bolo-rei, roda magnífica de cores, frutas,
redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras
                                                                         pinhões, bocados de açúcar que lembravam neve e cujo esplendor
do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas
                                                                         ofuscava o dourado das filhós, os reflexos das garrafas de licor, o
coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas
                                                                         brilho dos copos de cristal.
no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas.
                                                                                Fernando, pequenino, queixo tocando a toalha de renda, olhava
     Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava
                                                                         aqueles mistérios de cor e perfume e falava, falava, dizia coisas tão a
em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e
                                                                         propósito que as senhoras, enlevadas, não se cansavam de sorrir e
luminoso, sem nenhuma sombra.
                                                                         felicitar a mãe que tal filho tinha. Então, a mais velha, cabeção de
      Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito
                                                                         renda e camafeu de marfim a fechar as golas, pega na faca de prata e
tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a
                                                                         com solenidade, meticulosamente, parte o bolo. A criada ajuda à
atravessar o corredor.
                                                                         distribuição nos pratinhos de sobremesa.
      — Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então
                                                                                — Agora, não se esqueçam: aquele ou aquela a quem calhar a
Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que era uma pessoa
                                                                         fava terá de pagar o bolo-rei no ano que vem!
extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas
                                                                                E entre comentários de enlevo, gula, elogios à tessitura e ponto
facas mais aguçadas sem se cortar, e mandava em tudo, e sabia tudo.
                                                                         ideal do levedo da massa, à abundância das frutas, à maciez e agrado
Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia.
                                                                         do paladar, se comeu a sobremesa.
      A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os
                                                                               A prenda calhou à criada.
dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos
                                                                               — Que sorte! Mostre lá!

122                                                                      16
— Olhe que medalha tão bonita! Parece uma libra de verdade.           perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada.
Até pode usar no fio que ninguém diz que não é autêntica.                            — Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana.
         — E tu, Fernandinho, não acabas de comer a tua fatia de bolo?               A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os
         — Come que está bom e fofinho!                                     perus.
      Fernando, subitamente silencioso, abanava a cabeça em                          — O que é? — perguntou ela.
negativas.                                                                           — Que presentes é que achas que eu vou ter?
      — Então, filho! Não sabes falar? Responde às senhoras:                         — Não sei — disse Gertrudes —, não posso adivinhar.
queres mais um bocadinho de bolo?                                                  Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e
         — Ao menos acaba esse!                                             por isso continuou a fazer perguntas.
         — Está cansado, coitadinho! Deixe-o lá.                                     — E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes?
      Fernando baixava a cabeça, cabelos lisos na testa. A noite ia                  — Qual amigo? — disse a cozinheira.
adiantada. A Miguel Bombarda, onde moravam, ainda ficava longe.                      — O Manuel.
Sim, minha senhora, amanhã às oito cá estarei, se Deus quiser, para
                                                                                     — O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns.
cortar o vestido novo e pôr em prova a saia do “tailleur”. Foi uma
noite muito bonita. Muito obrigada! Fernando dá um beijo às                          — Não vai ter presentes nenhuns!?
senhoras e agradece. Diz obrigado, Fernando!                                         — Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça.
      Fernando deu o beijo às senhoras, esticou a cara, pôs-se em                    — Mas porquê, Gertrudes?
bicos dos pés, encheu os olhos de gratidão.                                          — Porque é pobre. Os pobres não têm presentes.
         — Diz obrigado, filho! Mas o que te aconteceu?                              — Isso não pode ser, Gertrudes.
         — Deixe-o lá, coitadinho, perdeu a língua. É o sono, não é?              — Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa
         Descem o elevador, abrem a porta da rua. A mãe, agastada,          do forno.
ralha:                                                                            Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido
      — Mas que vergonha! Umas senhoras tão boas, recebem-nos               que era «assim mesmo».
como família, estavas a portar-te tão bem e agora isto, nem uma                  Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as
palavra de agradecimento, nem boa noite, é esta a educação que te           manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com

                                                                       17                                                                      123
a mulher da fruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era               tenho dado? Se o teu pai fosse vivo…
cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete         Então, já na rua, o frio de Janeiro a gelar-lhe as mãos e o nariz,
da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se          a névoa a transfigurar a rua e as pessoas, Fernando, finalmente, abre a
passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de          boca e lá do fundo deixa voar o mistério da sua inesperada mudez:
toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das                — É que me calhou a fava, mãezinha. Eu sei que tu não tens
pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os     dinheiro para, no ano que vem, comprares um bolo-rei igual àquele.
bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de
                                                                                 E, na palma da mão pequenina, cuspiu a fava que ali nascia,
legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e
                                                                           quente ainda, do esconderijo em que estivera.
os homens.
                                                                                  E ainda hoje, nas horas mais dolorosas, quando se esquece de
      Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma
                                                                           mastigar a comida que arrefece no tabuleiro da cantina e prefere
mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha.
                                                                           viajar no país da infância, Fernando Midões, meu irmão mais antigo,
      De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse:         sente a ternura solidária do abraço e o húmido das lágrimas com que
      — Já chegaram os primos.                                             a mãe o aconchegou junto de si.
      Então Joana foi ter com os primos.                                         Sem palavras, mãe.
      Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram                    Sem palavras.
todos para a mesa.                                                                                                                 Maria Rosa Colaço
      Tinha começado a festa do Natal.                                                                            Viagem com Homem dentro (adaptação)
                                                                                                                      Leiria, Editorial Diferença, 1998
      Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da
mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as
pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom
Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E
vendo tudo isto Joana pensava:
       — Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma
festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com
certeza que ele também tem presentes.


124                                                                        18
E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão
                                                                        alegre como antes.
                                                                              O jantar do Natal era igual ao de todos os anos.
               A manhã do dia de Natal                                        Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os
                                                                        perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os
       Rob tinha quinze anos e vivia numa quinta. Todas as              ananases.
madrugadas se arrastava para fora da cama para ajudar a mungir. Às            No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a
vezes, sentia que o esforço era demasiado.                              porta e entraram na sala.
     Rob gostava do pai. Não sabia até que ponto, quando um dia,              As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do
um pouco antes do Natal, ouviu o pai a dizer à mãe:                     pinheiro.
      — Mary, custa-me muito chamar o Rob de manhã. Ele está a                Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do
crescer muito depressa e precisa de dormir. Gostava de conseguir        Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia
desembaraçar-me sozinho.                                                um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como
      — Mas não consegues, Adam.                                        se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o
      A voz da mãe era determinada.                                     Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se
                                                                        carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que,
      — Eu sei — disse o pai lentamente — mas a verdade é que me
                                                                        numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra.
custa mesmo ter de o chamar.
                                                                               E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São
      Ao ouvir estas palavras, Rob sentiu algo a mexer dentro dele: o
                                                                        José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que
pai amava-o! Nunca antes pensara nisso. Passou a levantar-se mais
                                                                        jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se
depressa. O sono fazia-o tropeçar e vestia a roupa com os olhos bem
                                                                        ouvia.
fechados. Mas, mesmo assim, levantava-se.
                                                                              Joana olhava, olhava, olhava.
      Na véspera de Natal do ano em que fazia quinze anos, estava
deitado a olhar pela janela do sótão e a desejar ter um melhor                Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel.
presente para o pai do que uma gravata de dez cêntimos comprada na            Um dos primos puxou-a por um braço.
loja.                                                                         — Joana, ali estão os teus presentes.


                                                                  19                                                                    125
Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca, a         Lá fora, as estrelas brilhavam, e havia uma em particular que
bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas.       lhe parecia ser a Estrela de Belém.
      À sua volta todos riam e conversavam.                                — Pai — perguntara uma vez — o que é um estábulo?
       Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham              — É apenas um celeiro como o nosso — respondera o pai.
tido, falando ao mesmo tempo.                                               Então Jesus nascera num celeiro, e fora para um celeiro que os
      E Joana pensava:                                               pastores e os reis magos se tinham dirigido, com os seus presentes de
      — Talvez o Manuel tenha tido um automóvel.                     Natal.
      E a festa do Natal continuava.                                       Ficou siderado com a ideia. Por que não dar um presente
                                                                     especial ao pai? Podia levantar-se cedo, mais cedo do que as quatro
      As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a
                                                                     horas, e esgueirar-se para o celeiro para mungir. Faria tudo – mungir
conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar.
                                                                     e limpar – sozinho. Quando o pai chegasse, veria tudo já feito. E
      Até que alguém disse:
                                                                     saberia quem o fizera.
      — São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são
                                                                            Nessa noite, deve ter acordado umas vinte vezes. Às três menos
horas de as crianças se irem deitar.
                                                                     um quarto, levantou-se e vestiu-se. Desceu silenciosamente as
      Então as pessoas começaram a sair.                             escadas, tendo especial cuidado com as tábuas que rangiam, e saiu.
      O pai e a mãe de Joana também saíram.                          Uma grande estrela cor de ouro avermelhado pairava por cima do
      — Boa noite, minha querida. Bom Natal — disseram eles.         celeiro. As vacas olhavam-no, sonolentas e surpreendidas.
      E a porta fechou-se.                                                 Nunca antes mungira sozinho, mas parecia fácil. Não parava de
      Daí a um instante saíram as criadas.                           pensar na surpresa que o pai teria. Sorria e mungia com segurança,
                                                                     deitando para a selha dois fortes jactos, espumosos e perfumados. As
      A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa
                                                                     vacas estavam surpreendidas mas anuíam. Era a primeira vez que se
do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar
                                                                     portavam bem, como se soubessem que era Natal.
as panelas.
                                                                           A tarefa foi desempenhada com mais facilidade do que
      E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a
                                                                     habitualmente. Pela primeira vez, mungir não era penoso. Era algo de
Gertrudes.
                                                                     diferente: um presente para um pai que o amava.
      — Bom Natal, Gertrudes — disse Joana.


126                                                                  20
De volta ao quarto, só teve tempo de tirar a roupa no escuro e        — Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um
de saltar para a cama, porque já ouvia o pai a levantar-se. Cobriu a    momento. Depois perguntou:
cabeça com os lençóis para silenciar a respiração ofegante. A porta           — Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?
abriu-se.                                                                     — O que é que eu disse?
    — Rob! — chamou o pai. — Temos de nos levantar, filho,                    — Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque
mesmo sendo Natal.                                                      os pobres não têm presentes.
      — ‘Tá bem — disse com sono.                                             — Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve
      — Vou indo — disse o pai. — Vou pondo as coisas a andar.          presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas.
      A porta fechou-se e Rob ficou quieto, a rir com os seus botões.   Os pobres são os pobres. Têm a pobreza.
Os minutos nunca mais passavam – dez, quinze, não sabia quantos –             — Mas então o Natal dele como foi?
até que ouviu de novo os passos do pai.                                       — Foi como nos outros dias.
      — Rob!
                                                                              — E como é nos outros dias?
      — Sim, Pai?
                                                                              — Uma sopa e um bocado de pão.
      O pai estava a rir, um riso esquisito, soluçante.
                                                                              — Gertrudes, isso é verdade?
      — Pensavas que me enganavas, não?
                                                                             — Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a
      — É por ser Natal, Pai!                                           menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.
      O pai sentou-se na cama e apertou-o contra si, num grande               — Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha.
abraço. Estava escuro e não conseguiam ver os rostos um do outro.
                                                                              Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de
      — Agradeço-te, filho. Nunca ninguém fez coisa mais bonita…        Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E
      — Oh, Pai.                                                        pensava:
      Não sabia o que dizer. O seu coração transbordava de amor.              — Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal
      — Bom, parece que posso voltar para a cama — disse o pai,         e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas
volvido um momento. — Espera… estás a ouvir? Os pequeninos já           ao Manuel ninguém deu nada.
estão a acordar. Agora que penso nisso, nunca vos vi a olhar pela             E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se


                                                                   21                                                                       127
a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite    primeira vez para a árvore de Natal. Estava sempre no celeiro. Anda
de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de         daí!
animais.                                                                       Rob levantou-se, vestiu-se de novo e desceram para ver a árvore
      «Que frio lá deve estar!», pensava ela.                            de Natal. Depressa o Sol tomou o lugar da estrela. Oh, que Natal
      «Que escuro lá deve estar!», pensava ela.                          aquele, e como o seu coração quase rebentou de timidez e alegria
                                                                         quando o pai contou à mãe e aos mais novos que ele, Rob, se tinha
      «Que triste lá deve estar!», pensava.
                                                                         levantado sozinho.
       E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde
                                                                                — O melhor presente de Natal que alguma vez tive, e hei-de
Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma
                                                                         recordá-lo, meu filho, todos os anos na manhã de Natal, enquanto
vaca e de um burro.
                                                                         for vivo.
      — Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois
suspirou e pensou:                                                                                                                    Pearl S. Buck

      «Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»                                                M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
      Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a                                                   Lighting candles in the dark
                                                                                                                         Philadelphia, FGC, 2001
rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã
seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.
      Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze
pancadas da meia-noite.
      «Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora,
esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.»
      Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na
bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a
boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas.
      Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por
um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as
panelas e não a ouviu.

128                                                                      22
Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana
                                                                       abriu-a e saiu, deixando-a ficar só fechada no trinco.
                                                                             Depois atravessou o jardim. O Alex e a Ghiribita ladraram.
                   A batalha de Natal                                        — Sou eu, sou eu — disse Joana.
                                                                             E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se.
      — Só mais seis dias — constata Neli, tentando em seguida               Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.
assobiar Noite Feliz.
      — Ainda seis dias — repete a mãe pensativamente.                       A estrela
      A voz não soa alegre. Após uma curta pausa, prossegue,
                                                                             Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar
suspirando. — Se tudo tivesse já passado!
                                                                       para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas
      Com o assobio suspenso no ar, Neli olha para a mãe com ar        enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua
estupefacto.                                                           parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém.
      — Então não estás contente?                                      Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus
      — Sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!        jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas,
      Como Neli não tem aulas à tarde, vai patinar com uma amiga e,    só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a
mais lá para a noite, dirige-se ao supermercado onde a mãe trabalha.   olhavam e a ouviam como pessoas.
Há tanto movimento que mais parece estar-se numa colmeia. A mãe              «Tenho medo», pensou ela.
encontra-se sentada numa cadeira giratória diante de uma das seis            Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada.
caixas registadoras. Os produtos chegam-lhe num tapete rolante e,            Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um
enquanto a mão direita está pousada no teclado e marca os números,     atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos,
a mão esquerda roda os produtos de forma a poder ler os números, e,    planos e desertos. Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via-
em seguida, coloca-os, produto a produto, no carrinho de compras.      se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante.
Quando acaba de marcar tudo, a mão direita carrega na tecla do total
                                                                              O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via-
e rasga o talão, enquanto a esquerda afasta o carro cheio e puxa o
                                                                       -se a massa escura dos pinhais.
próximo, vazio, para junto dela.
                                                                             «Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana.

                                                                  23                                                                      129
Mas continuou a caminhar.                                              — Que bem que fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu
      Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no             faria tudo devagar, assim: tipp… tipp … … e, ainda por cima,
descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara      metade saía mal.
como uma faca.                                                              — Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino.
      «Tenho frio», pensou Joana.                                     Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não
                                                                      encontrava a etiqueta com o preço, e muitas vezes carregava nas teclas
      Mas continuou a caminhar.
                                                                      erradas e as pessoas resmungavam porque tinham de esperar. Mas
      À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando
                                                                      agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
maior. Até que ficou enorme.
                                                                            — Como um robô! — Neli riu-se.
      Joana parou um instante no meio dos campos.
                                                                             Um robô como mãe? Nunca teria dor de cabeça, nem à noite
      «Para que lado ficará a cabana?», pensou ela.
                                                                      estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração. Por isso, Neli
      E olhava em todas as direcções à procura de um rasto.           prefere a mãe tal como é, mesmo quando certas noites quase nem
       Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia    consegue falar de tão cansada que está!
rasto e à sua frente não havia rasto.                                       Só mais quatro dias.
      «Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela.             Só mais três.
      E levantou a cabeça.                                                  As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas
      Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava.        abasteciam-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um
      «Esta estrela parece um amigo», pensou ela.                     ruído sibilante, as portas automáticas abriam-se e fechavam-se,
      E começou a seguir a estrela.                                   abriam-se e fechavam-se. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os
                                                                      cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.
      Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras
fizeram uma roda à sua volta. Eram enormes, verdes, roxas, pretas e         Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe tinha escrito a
azuis, e dançavam com grandes gestos. E a brisa passava entre as      vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.
agulhas dos pinheiros, que pareciam murmurar frases                        Próximo, balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos,
incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras      como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos
Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para    homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80/Kg.


130                                                                   24
Os altifalantes pingavam música de Natal:                       além de todas as sombras, a estrela continuava a caminhar. E seguiu a
     Noite feliz…                                                    estrela.
     Cabeça de anho                                                        Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos.
     Noite feliz…                                                          «Será um lobo?», pensou.
     Café suave                                                           Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que
                                                                     viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha
     Papel higiénico de três folhas
                                                                     caminhando ao seu encontro.
     O Senhor …
                                                                           «Será um ladrão?», pensou.
     Lenços com monograma
                                                                           Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha
     Mostarda
                                                                     na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto
     Nasceu em Belém…                                                azul todo bordado de diamantes.
      A mãe gemia e, com um movimento rápido, limpava o suor do            — Boa noite — disse Joana.
lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam,
                                                                           — Boa noite — disse o rei. — Como te chamas?
apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem
                                                                           — Eu, Joana — disse ela.
olhavam para a senhora da caixa, pensando no regresso com os sacos
pesados, o eléctrico cheio.                                                — Eu chamo-me Melchior — disse o rei. E perguntou:
     Uff!                                                                  — Onde vais sozinha a esta hora da noite?
     Só mais três dias, e acaba tudo.                                      — Vou com a estrela — disse ela.
      — Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse à                 — Também eu — disse o rei —, também eu vou com a
noite a mãe, virando-se para a Neli — Peru assado com a laranja e    estrela.
batatas assadas e, como sobremesa, rabanadas e bolo-rei.                   E juntos seguiram através do pinhal.
      No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro        E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as
horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um     sombras da noite.
desconto de 15%, os produtos que sobravam. A mãe de Neli achava            Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros
que valia a pena, por isso tinha guardado as compras maiores para    caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e


                                                               25                                                                     131
safiras.                                                                  essa altura: uma pasta escolar para a Neli, uma boneca, lápis de cor,
       — Boa noite — disse ela. — Chamo-me Joana e vou com a              um anoraque para o pai, a comida para a ceia de Natal.
estrela.                                                                        Na sala do pessoal, havia um lanche para todos os empregados.
      — Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela                  — A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — repetia o
e o meu nome é Gaspar.                                                    chefe do pessoal. Dizia, depois, mais umas palavras elogiosas e eram
      E seguiram juntos através dos pinhais. E mais uma vez Joana         servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho.
ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as                  Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de
sombras azuis e os pinheiros escuros.                                     compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava
     Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía            na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas
um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.            boas para a ceia!” — pensou assustada.
      — Boa noite — disse ela. — O meu nome é Joana. E vamos                     Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não se voltava a
com a estrela.                                                            lá entrar. Foi de mãos vazias que chegou a casa.
     — Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o                       Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu
meu nome é Baltasar.                                                      as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou
                                                                          das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o
       E juntos seguiram os quatro através da noite.
                                                                          muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi
       No chão, os galhos secos estalavam sob os passos, a brisa
                                                                          mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o
murmurava entre as árvores e os grandes mantos bordados dos três
                                                                          assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem
reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes, roxas e azuis.
                                                                          sobremesa. Trincaram simplesmente nozes e comeram maçãs.
      Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E
                                                                                — Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano
sobre essa claridade a estrela parou.
                                                                          passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me assentam bem.
       E continuaram a caminhar.
                                                                                Também não havia muito que desembrulhar.
       Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana
                                                                                Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem
                                                                               Neli foi buscar o jogo Memory que recebera no Natal anterior.
tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos
                                                                          Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que
anjos o iluminava.

132                                                                       26
alguém tivesse tempo para jogar com ela.                                          E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas
      Agora, os pais tinham tempo.                                         entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.
      O pai nunca tinha jogado Memory. Ao fim de algum tempo,                    Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. O seu corpo
Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que    não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra.
geralmente quer ganhar sempre, procurava constantemente no sítio                E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar.
errado.                                                                         Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel.
      Tentava ajudar-se com truques, pondo, sem ninguém dar                     — Ah — disse Joana — aqui é como no presépio!
conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou             — Sim — disse o rei Baltasar — aqui é como no presépio.
pousava as mãos na mesa, de tal forma que o polegar indicava a
                                                                                Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.
direcção em que estava uma determinada carta. Neli descobriu-lhe a
jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangava por                                               Sophia de Mello Breyner Andresen
perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.                                                                           A Noite de Natal
                                                                                                                         Porto, Figueirinhas, 1989
      À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A
neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
       — A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a
mãe, e Neli reparou como ela afinal sempre estava contente por ser
Natal.
      Ao ir para a cama, Neli disse:
      — Este foi um Natal muito bonito.
       — A sério? — perguntou a mãe admirada. — Mas não houve
ceia nem prendas quase nenhumas.
      — Mas houve muito tempo — respondeu Neli.
                                                      Jutta Modler (org)
                                                          Brücken Bauen
                                                     Wien, Herder, 1987



                                                                     27                                                                       133
O Viajante                                                                  O bolo-rei

       Quando Eva entrou na Arca, apenas da estrela da tarde restava             O bolo-rei tomava-se muito a sério. Não havia discussão: ele
um pouco de luz. Havia muito já que os largos horizontes da planície      era o rei dos bolos.
se tinham diluído e uma noite imensa parecia anunciar o final dos               Como tal, quando lhe caiu uma passa da coroa, ordenou ao
tempos. Um cheiro sufocante e húmido inundava todo o espaço,              bolo-inglês:
enquanto, lentamente, o caminho se fazia, num rio sem margens que               — Traz-me essa passa de volta.
o assinalassem. Seres escuros, de rostos invisíveis, embrulhados nos
                                                                                O bolo-inglês fez-se desentendido e respondeu:
xailes de merino ou grossos capotes, dormitavam, as cabeças
                                                                                — Sorry! I don’t understand...
oscilando, uma das mãos segurando a asa das cestas donde emergia o
pescoço dos patos e perús que, daí a horas, seriam sacrificados no              O que queria dizer, na língua dele, que pedia desculpa, mas não
altar das tradições natalícias.                                           tinha entendido.

      Eva sentou-se ao lado do timoneiro que tentava vislumbrar o             Então, o bolo-rei virou-se para um bolo de natas e deu a
rumo para lá dos grossos cordões de chuva ou, um só que fosse, dos        mesma ordem. Queria, outra vez, a passa a ornamentar-lhe a coroa.
antiquíssimos sinais que há anos lhe serviam de bússola e estrela do            O bolo de natas tinha uma fala atrapalhada, por causa do
norte: o perfil do monte da barra azul, o moinho sem velas, a oliveira    excesso de natas.
com uma cruz pintada a cal onde Justa se enforcara, a velha ponte               — Flá, plefe, pflu, pfló...
romana, a capelinha, se nesta viagem houvesse dados, referências e              Não se percebia nada.
aquela chuva diluviana não ocultasse tudo num manto de desolação.
                                                                               O bolo-rei, muito irritado, ordenou o mesmo ao bolo de
      Pelo espelho lateral, Eva tentava descobrir o rosto dos viajantes   amêndoa, que lhe respondeu:
mas, só as cabeças das aves saindo das cestas vermelhas, se agitavam
                                                                                — Também a mim me caiu uma amêndoa torrada e não me
em gritos intervalados. De repente, um chiar de travões sacudiu a
                                                                          queixo.
Arca e, na claridade difusa dos faróis, recortado de encontro ao vidro,

                                                                    29                                                                     135
O bolo-rei, cada vez mais exasperado, deu a mesma ordem a          surgiu o rosto. Tinha uns olhos imensos, tristes, o cabelo e a barba
um pudim de gelatina, mas o pudim de gelatina era muito frágil,          compridos, brilhantes da água que o enquadrava numa moldura
muito nervoso e só tremeu, tremeu, incapaz de dizer ou fazer o que       líquida. Ergueu as duas mãos como se quisesse segurar a luz, impedir
quer que fosse.                                                          que a Arca o esmagasse ou esperar que se detivesse para ele entrar.
      — São uns rebeldes estes meus súbditos — concluiu, numa            Entre impropérios, pragas à vida, ao tempo, à profissão que
grande exaltação, o bolo-rei. — Condeno-os a que sejam todos             escolhera, o timoneiro não parou. Pelo contrário, acelerou. Por
cortados às fatias.                                                      fragmentos de segundos, o Homem pareceu ter oscilado. Levantou os
                                                                         braços como quem tenta proteger-se, depois, diluiu-se em noite e
      E assim aconteceu. Mas nem o bolo-rei escapou.
                                                                         ausência, não sem que antes, o seu olhar, que tinha a fosforescência
                                                       António Torrado   dos eleitos ou dos animais livres e puros, iluminasse mais uma vez o
                                                  www.historiadodia.pt   negrume que cobria o mundo.
                                                                               — Não viu o Homem? — sussurrou Eva.
                                                                                — Vi muito bem. Parecia um fantasma vindo sabe Deus donde
                                                                         e para quê.
                                                                               — Não vai parar e recolhê-lo?
                                                                               — Aqui não é lugar de paragens. Muita sorte a dele em não ter
                                                                         sido atropelado. Só um doido é que anda por aí, numa noite destas,
                                                                         num caminho assim, sem princípio nem cais de desembarque.
                                                                                Eva tentou imaginá-lo atravessando sozinho as ondas daquele
                                                                         novo dilúvio que desabara na terra e parecia já ter apagado a
                                                                         lembrança das coisas, a respiração viva das horas mais antigas e os
                                                                         sonhos. Todos os sonhos. Talvez esta Arca encontre um dia, de novo,
                                                                         o alto dos montes e tudo se refaça como no princípio. Talvez amanhã
                                                                         ou daqui a muito tempo – o que é o Tempo? – o timoneiro abra uma
                                                                         nesga de vidraça e solte, não a pomba dos mitos mas um pato que
                                                                         regressará, grasnando, para confirmar que são longe as oliveiras e

136                                                                      30
perdidas para sempre as cores do arco-íris. E, nesse dia, só o olhar do
Homem permanecerá, colado à memória de quem o encontrou, no
espaço visível e mínimo que os faróis em trânsito consentiram. Ficará
ali, para sempre, implorante e acusador, como uma pintura antiga,
como o vestígio de um fóssil onde se assinalará para as gerações
vindouras o remorso e o amor não consentido.
     Eva levantou a gola do seu capote alentejano. Sem desfitar o
abismo perguntou:
      — Ainda chegaremos antes da meia-noite?
       — E se não chegarmos que diferença faz? Acha que existe
algum deus que mande o filho nascer numa noite como esta, de lama,
frio e miséria? Bem sei que para lavar tanta imundície da terra, não
existe água que baste mas, escusava de ser logo hoje. Apesar de tudo,
o Natal é um tempo desejado, a única altura em que parece
amansarem as feras que trazemos à solta dentro de nós. Esta lata que
conduzo já deixou de ser uma camioneta: é uma barca perdida, talvez
a Arca de Noé, e esses todos que aí estão atrás, a dormir, sonhando
com grandes ceias, prendas, vinho, esse todos, olhe-os bem:
descontando os patos e os perús que estão bem acordados
adivinhando talvez o que os espera, o resto é gente que já morreu há
muito e não deu por isso.
      Eva fecha os olhos.
    Um pranto convulso inunda-lhe os pensamentos e o rosto do
Homem cresce, furtivo, na sua ternura.
       Apetece-lhe sair daquele sarcófago ambulante, mergulhar na
noite, caminhar no vazio, ir ao seu encontro onde quer que esteja: ou

                                                                    31
caído nas pedras, ou pregado numa cruz, ou sendo açoitado no átrio
dos templos, ou coroado de espinhos, ou vestido com o manto
escarlate e áspero da solidão. De repente, soube que o viajante
nocturno veio de outras margens, outros dilúvios, dos escombros das
guerras, atravessando cinzas e risos, fugido dos altares. A mão que se
ergueu contra os faróis, Eva recorda-se agora, tinha uma pequena
cratera cercada de azul, da espessura de um prego. Assim, enquanto a
Arca navega na noite, por entre o ruído brando dos pequenos
imprecisos sinais com que figuramos os sonhos e os poemas, se
foram reconstituindo as sombras e o cheiro a húmus que brotava não
se sabia bem donde. Um nevoeiro espesso e repentino cresce do chão
e oculta o resto do que já era invisível, como se um enorme animal
enfurecido tivesse começado de súbito a respirar.
     Eram onze horas da noite desse dia vinte e quatro de
Dezembro quando a Arca encalhou, finalmente, no largo da vila.
      De súbito, sem que se percebesse porquê, deixou de chover,
mas por muito tempo, as pedras guardaram ainda no dorso de
granito, reflexos puros.
       As sombras mexeram-se. Reanimaram-se. Pegaram nos
embrulhos, nos imensos guarda-chuvas, nos cestos, nos sacos de
plástico, na resignação. Abraçaram outras sombras que os esperavam.
Os patos, as galinhas, os perús gritaram na noite: o deus das aves,
implacável, avisara-as dos rituais de sangue em que iam ser imolados.
Protestavam. Inutilmente como acontece com todos os inocentes.
      Eva avista a Mãe.
      O mundo refaz-se quando os seus olhos se cruzam com o seu

32
olhar angustiado e doce.
      — Que susto, filha! Que noite de Natal mais estranha. Há
cinco horas que esperamos a camioneta. Já não sabíamos que pensar.
      Caminhavam pela rua da infância.                                                       O Natal das bonecas
       Quando a porta da casa se abre, Eva sente o calor da lenha que
crepita, olha a mesa posta e que sabe de cor: são seis os pratos, seis           A rua tinha luzes de muitas cores que, encavalitadas nos
os talheres, dezoito os copos de pé alto, brilhantes sobre a toalha alva   postes, faziam desenhos de Natal. E dançavam ao som duma música
e engomada, com grandes flores em matiz branco e rosa pálido, feita        cheia de sonoridades leves como algodão. De vez em quando passava
há cinquenta anos para o baptizado da Mãe. Ao centro, uma vela             um automóvel apressado. Apesar disto, ali da montra onde se
vermelha cresce dos ramos de azevinho, das flores e dos frutos. E          encontravam, tudo era frio e distante. Eram duas bonecas que
ainda duas garrafas cheias de vinho branco e tinto que ninguém             ninguém quis comprar.
beberá. Nos pratos das cabeceiras da mesa que se destinam a Eva e à              — Este é o nosso primeiro Natal...
Mãe, duas lembranças atadas com fita às riscas douradas e também                  — E, decerto, o último. Se ninguém nos comprou, vamos ser
um pequeno ramo de pinheiro. Nos outros pratos, uma discreta flor          retiradas da montra e arrumadas, ou entregues à caridade, ou
sobre os guardanapos presos em argola de prata com nomes gravados:         destruídas.
são os ausentes. Os que partiram para o outro lado do Tempo. Ali
                                                                                — Assim será, com certeza. A nossa vida depende das leis do
estão, em todos os Natais, em todos os aniversários e celebrações:
                                                                           mercado.
sentados, hirtos, solenes, a impedir que os esqueçam, que se solte
                                                                                 E foram conversando para passar o tempo, ora filosofando
uma gargalhada feliz, um riso claro. Ali estão, a espreitar as prendas
                                                                           sobre a sua efémera existência, a sua matéria breve, ora imaginando
que Eva e a Mãe trocam ao soar a meia-noite, com um beijo e uma
                                                                           como seria o Natal das pessoas, que só conheciam de ver passar na
frase: «Feliz Natal e que Deus os conduza aos caminhos da Luz e nos
                                                                           rua, ou da loja, quando entravam para comprar bonecas.
guarde no Seu amor.» Ali estão, a gelar a sala, a controlar as palavras,
a exigir que os recordem, que falem dos seus hábitos, dos gestos que             — Esta é belíssima, elegante, tem um belo vestido e uma
lhes eram perfil.                                                          cintura fina.

      Há anos que é assim. Por isso, chegar é quase igual a partir.              — Esta tem uma expressão de felicidade, um olhar doce.
Sobre a tábua da chaminé, o pequeno presépio que já foi da bisavó da             — Aquela, de cabelos louros, tem no rosto o sol abrasador do


                                                                     33                                                                   139
Verão.                                                                   avó, que também partiu. Mas ali está o seu nome, na argola de prata:
      Mesmo para uma boneca, era triste ficar ali na noite de Natal a    Lucrécia.
olhar a solidão da rua. Sobretudo quando imaginavam a alegria das              — Vai mudar de roupa. Veste uma camisola mais quente. Vou
outras bonecas que tinham sido vendidas: a emoção de sair de dentro      buscar o bacalhau, é quase meia-noite.
dos embrulhos, de sentir todas as atenções, de receber um nome, de              Eva dirige-se ao guarda-louça. Tira mais um prato, dois copos,
entrar na família fantástica das crianças.                               talher, um guardanapo e coloca-os na mesa. Do prato que está à
      Todas as pessoas deviam ter uma casa, porque ninguém passava       cabeceira e lhe pertence, retira a prenda e, em seu lugar, coloca uma
na rua. Todos os meninos deviam ter brinquedos na noite de Natal,        bola azul brilhante que roubou da árvore de Natal.
porque os brinquedos mais bonitos tinham sido vendidos. Em todo o              Sentam-se.
mundo devia haver alegria e surpresa e magia naquela noite, porque             Eva dá a direita à Mãe.
era dessa forma que a imaginavam.
                                                                               — Mas aí não é o teu lugar. Sabes que gosto de conservar os
      Dentro das casas, o ar estaria povoado de seres fantásticos, que
                                                                         hábitos.
se moviam como se não tivessem peso. Esvoaçavam como se fossem
                                                                                — Aqui, a teu lado, em todos os dias de festa, vai ser o meu
pequenos pássaros transparentes. E isto criava uma grande excitação
                                                                         lugar de hoje em diante. Fico mais perto de ti. O dia foi muito longo,
entre as crianças. Elas próprias se sentiam tão leves que os seus
                                                                         já tinha muitas saudades tuas, do cheiro da casa, deste calor manso
movimentos eram como os movimentos dos astronautas: dançavam,
                                                                         que nasce onde estás.
elevavam-se, sorriam, tocavam-se, cantavam melodias afinadíssimas e
finas como um fio de cristal. As bonecas entravam também nesta                 — E ali, onde puseste a bola azul, na cadeira de honra, quem
dança fantástica como se fossem pessoas de verdade. A árvore de          se senta?
Natal transformara-se numa enorme tília de grandes ramos. Havia                — Um Homem que vi esta noite no meio do temporal e
baloiços pendurados nos ramos. Havia pequeninas casas suspensas          ninguém recolheu.
nos ramos. As estrelas desciam e poisavam nos ramos. E todos                   — Um Homem? Quem?
aqueles seres – crianças, anjos, pássaros, estrelas e bonecas –                — Não sei. Mas vai ficar aqui, no lugar dos vivos, nesta casa e
percorriam os ramos, como se fossem caminhos, entravam nas               entre nós. Para sempre.
casinhas, dançavam nos baloiços, agarravam-se à cauda das estrelas.
                                                                               Lá fora, o relógio velho da torre, atravessou com doze
Entre os ramos mais distantes construíam passadiços e imaginavam
                                                                         badaladas o ar frio e quase transparente da noite que amansara e se

140                                                                      34
enchera de estrelas.                                                           rios por onde às vezes desciam: bebericavam, tomavam um banho,
      Eva tinha quinze anos, nesse tempo.                                      atiravam salpicos de água uns aos outros.
      Já perdeu a casa.                                                              Estavam assim imaginando, quando se aproximou da montra
                                                                               uma figura muitíssimo estranha: tinha umas roupas sujas e gastas, os
      A Mãe.
                                                                               cabelos sujos e desalinhados, a barba suja e por fazer e nos seus olhos
      A mesa onde os ausentes vigiavam.
                                                                               havia fome, desolação e desprezo. Falava sozinho palavras
      Às vezes, ela própria já se vê ausente.                                  imperceptíveis.
      Mas, sabe-se, ainda guarda a bola azul.                                        — Esta figura não deve ser de cá...
                                                        Maria Rosa Colaço
                                                  Viagem com Homem dentro            — Talvez tenha descido de outro planeta, um planeta onde
                                           Leiria, Editorial Diferença, 1998   não há Natal, nem casas, nem anjos, nem estrelas, nem amigos...
                                                                                      A rua continuava deserta e o homem continuava ali fitando a
                                                                               montra e falando desordenadamente. De nenhum lado surgia uma
                                                                               sombra, uma voz, um movimento, um pássaro branco, um anjo de
                                                                               tule, um caule de luz. Até a música de algodão pendurada nos postes
                                                                               se tinha já calado.
                                                                                     — Como deve ser triste a vida na terra, na cidade ou no
                                                                               planeta donde veio...
                                                                                    Nada no seu rosto fazia lembrar a alegria: nenhuma expressão,
                                                                               nenhum traço, nenhuma palavra.
                                                                                     De vez em quando estendia o braço, apontando não se sabia o
                                                                               quê, apontando por apontar; e o vento gelado da noite alinhava os
                                                                               seus cabelos na direcção do braço. E nada lá ao longe fazia lembrar a
                                                                               liberdade. Outras vezes ficava estático e imóvel, fitando o infinito.
                                                                               Parecia uma estátua feita do mais cruel abandono; parecia um tronco
                                                                               velho de uma árvore; parecia a coluna de um palácio abandonado. E


                                                                         35                                                                       141
nada na sua pose fazia lembrar a paz. Outras vezes ajoelhava-se
fitando o chão, como se o chão fosse um enigma por decifrar, como
se na pedra do chão estivesse gravado um vestígio de Deus; como se
Deus se tivesse esquecido, por acaso, de uma marca, um indício, um
grão de poeira, um cabelo que fosse.
       — Há tempos ouvi falar aqui na loja de um país ou planeta
onde as pessoas são desprezadas, onde lhes negam o pão e as obrigam
a matar-se umas às outras. Os que as governam são maus e obrigam-
-nas a viver na rua como animais vadios.
       O homem não tirava os olhos da montra como se estivesse a
falar com as bonecas, mas utilizando uma linguagem que elas não
entendiam. Poisou no chão umas sacas que trazia consigo e começou
a esbracejar. Mas nenhum dos seus gestos fazia lembrar a justiça. Ora
estava de pé, ora de cócoras, ora se sentava no passeio. Mas sempre
desenhando a mesma veemência, a mesma impaciência.
     — Talvez queira dizer-nos alguma coisa. Talvez pense que
somos pessoas. Talvez procure em nós uma resposta para as suas
perguntas.
      — Talvez tenha pena de nós e ficasse ali a distrair a nossa
solidão.
      Passado muito tempo, adormeceu encostado à montra. Um cão
que passava remexeu-lhe nas sacas e fugiu abocando alguma coisa que
não puderam ver o que era. Depois veio outro cão e deitou-se ao
calor dos seus pés. Assim ficaram ali pela noite dentro. Era quase de
madrugada quando apareceu, não se sabe de onde, uma mulher
igualmente desgrenhada, cambaleante e com os olhos cheios de

142
amargura e abandono. Trazia nos braços algo que poderia ser uma
                                                                                      criança. Deitou-se também, puxou um dos sacos para a cabeça a fazer
                                                                                      de travesseiro e adormeceu.
      Um gato debaixo do pinheiro de Natal                                                  — São estranhas estas figuras... Como é que no país ou no
                                                                                      planeta lá onde moram não há Natal?
  Porque a vida habitava nela, a possuía, a menina reconhecia a morte inscrita              — Como devem ser infelizes as pessoas... Um planeta sem
    no reverso de qualquer momento de felicidade, de qualquer instante feliz.         Natal devia ser extinto, devia explodir nos ares, ficar desfeito em
                 Brincava no cemitério como se fosse um jardim.                       poeira fina e disperso pela imensidão dos céus.

     — O gato cinzento está com mau aspecto — observa Laura,                                — Provavelmente foram expulsas e tiveram de caminhar dias e
empoleirada no alto do pequeno muro que separa o jardim do baldio.                    noites até encontrar este recanto.
Mas o pai está a cortar a sebe e não ouve o que ela diz.                                   — Tiveram sorte de não serem assaltadas pelo caminho, nem
      — O gato cinzento está com mau aspecto; acho que está                           de morrerem de frio, de sede ou de fome.
doente… — insiste ela.                                                                       — Talvez tenham uma resistência e uma energia maior do que
      A mãe não ouve, ocupada também a arrancar as ervas do                           a das pessoas que conhecemos.
passeio, o que Laura, aliás, também devia estar a fazer para a ajudar.                      — Talvez o seu corpo não sinta frio nem calor. Talvez não
      Então Laura repete para si, em voz baixa e grave:                               precisem de alimento, de carinho, de amizade.

      — Parece que o gato cinzento vai morrer.                                              — Pelo menos numa coisa são diferentes de nós, bonecas:
                                                                                      precisam de dormir...
       O gato sem nome nem casa tem o pelo descaído e o salto
lento; não liga aos pássaros, já não tem fome, foge do sol e abriga-se                     — Devem ser alimentados e encorajados durante o sono por
entre dois pés de urtigas.                                                            um anjo ou outro ser invisível.

      — É preciso chamar o veterinário — sugere Laura.                                       Por um tempo deixaram-se destas conjecturas e voltaram a
                                                                                      pensar como seria o Natal dentro das casas. Agora todos estariam já a
      — Nem penses! Ele tem mais que fazer do que tratar os gatos
                                                                                      dormir, sonhando com os anjos, os pássaros transparentes, as
vadios.
                                                                                      estrelas; sonhando com um tal Jesus, que não sabiam muito bem
      Desta vez, a mãe sempre resolvera responder.
                                                                                      quem era, mas devia ser tão maravilhoso que até lhe chamavam


                                                                                 37                                                                    143
Salvador.                                                                                      — Não é vadio, porque eu acolhi-o e gosto dele — retorquiu
      Estavam assim imaginando, quando surgiu um carro da polícia.                    Laura.
Parou em frente à montra. De dentro saiu um homem com uma farda                             Laura só faz o que lhe apetece. Amanhã, a caminho da escola,
e deu um pontapé no cão, que ganiu e fugiu a coxear. Depois fez o                     vai bater à porta do veterinário, como fez da outra vez por causa de
mesmo ao homem e à mulher e obrigou-os a entrar no carro, o que                       um passarinho caído do ninho e de um ouriço-cacheiro meio
fizeram ensonados e sem oferecer resistência.                                         esmagado por uma bicicleta. É um veterinário idoso muito simpático,
      — Sempre não devem ser de cá...                                                 que não a manda dar uma volta.
      — Talvez as autoridades os tenham levado para analisar e                                 “Amanhã vou esconder o gato na minha pasta, está decidido.”
estudar como é a vida no país ou planeta de onde vieram.                                    No dia seguinte, não consegue encontrar o gato em lado
       — Ah! Já sei porque vieram buscá-los. Não te lembras de ouvir                  nenhum e são já mais que horas de ir para a escola. Laura vai então
falar do Presépio? Era um homem, uma mulher, uma criança e um                         sem o gato. Bate à porta do veterinário para pedir um conselho.
animal. Decerto andavam à procura de um presépio raro, e                                       Mas é a mulher que vem à porta e lhe dá uma resposta seca:
encontraram este e levaram-no para um museu.                                                   — O meu marido está inundado de trabalho.
      — O que é um museu?                                                                   “Inundado”? O rio inunda as terras; a banheira, quando
       — É uma casa muito grande cheia de coisas antigas, raras e                     demasiado cheia, inunda o quarto de banho… mas um veterinário
valiosas onde também há pessoas com olhos, boca, ouvidos e mãos;                      “inundado”? Então, quem há-de aconselhar Laura? Não quer que se
mas não vêem, não falam, não ouvem, não cumprimentam ninguém.                         riam dela, não quer ser motivo de troça.
Chamam-se estátuas.                                                                         Durante o recreio do meio-dia, Laura escapuliu-se do pátio. Se
      — E dentro dos museus também há Natal?...                                       a professora soubesse! Se a mãe a visse! Laura sabe que pode ser
                                                                   Natal de 1997      suspensa por três dias: “Que falta de responsabilidade!”. Ela bem
                                                                    Nuno Higino       sabe, mas o gato cinzento está com tão mau aspecto…
                                      A mais alta estrela – Sete histórias de Natal            Que surpresa! É um rapaz novo que vem atender.
            CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000
                                                                                           — O meu pai vai aposentar-se e sou eu que vou substitui-lo
                                                                                      — explica com gentileza, ao ver o espanto de Laura.
                                                                                               Ela gaguejou ao falar do gato e o veterinário compreendeu num


144                                                                                   38
ápice:
      — Esta tarde, Laura, não tenho muito trabalho, e por isso vou
dar uma volta para esse lado.
     Depois das quatro horas, ao regressar da escola, Laura
                                                                                                 David e a estrela
encontrou um bilhete que a mãe lhe leu:
                                                                                                                                                Ao Ciryl.
         Lamento! Tive de ajudar o teu gato a partir sem sofrer                                                       A Paola que sabem acender a ternura.
         demasiado… Foi pena, mas era melhor para ele. Quando
         quiseres…                                                                A casa de Ciryl e Paola fica mesmo no alto da serra da
                                                                            Malveira. Quando se chega lá acima, o ar é leve e, se levantarmos os
         Até breve, Laura!
                                                                            braços, podemos tocar nas nuvens e agarrar o sol.
                             Sérgio                                               É uma casa antiga, de grossas paredes de pedra, com salas
      Laura ouviu a mãe falar a sério de eutanásia, de injecção, e          enormes onde se ouve música antiga, canções e poemas porque os
concluir por fim:                                                           corações de Ciryl e Paola estão sempre abertos à beleza e à amizade.
                                                                            Talvez por isso, porque Ciryl e Paola da serra da Malveira são
      — Tens um amigo novo. Sérgio é um nome estranho, que me
                                                                            pessoas especiais e lindas, esta história aconteceu.
faz pensar no tecido do casaco que eu usava quando tinha a tua idade
e que…                                                                             Da varanda da casa que lembra um desses castelos com reis,
                                                                            princesas e fadas boas, avista-se o mar. Até lá, muito longe, onde o
       Mas Laura não tinha vontade de ouvir as recordações da mãe.
                                                                            olhar quase se perde, crescem as árvores, flores, e o vento que nos
Foi chorar sozinha para cima do pequeno muro. Perguntou a si
                                                                            despenteia carrega o perfume de coisas que nos enchem de paz e
mesma para onde teria Sérgio levado o gato morto. Pareceu-lhe tê-lo
                                                                            alegria. Mas, o ano passado, alguém deitou fogo à serra.
visto, cinzento e de pêlo brilhante, escapar-se por entre as ervas altas;
bem sabe que foi uma ilusão. Depois, o pintarroxo-que-tinha-medo-                  Por entre as sirenes dos carros de bombeiros, os gritos, o voo
-do-gato voltou para o terraço e Laura riu-se das suas bicadas ávidas.      assustado das aves, o gemido dos pequenos animais sem abrigo,
Saltou rapidamente do seu posto de observação para ir buscar                ouviam-se as árvores a chorar. Primeiro erguiam os seus grandes
migalhas frescas.                                                           ramos para o céu, depois, as pequenas folhas estalavam e, com um
                                                                            ruído ensurdecedor, víamo-las tombar como gigantes feridos. Foi tão
         Junto do pinheiro de Natal, está um presente que dá saltos.
                                                                            triste! Nos meses seguintes o que se avistava da varanda mais alta da

                                                                      39                                                                             145
casa, eram apenas os caminhos queimados cobertos de tristeza e             Contrariamente ao habitual, a mãe sugere que se abram as prendas de
silêncio.                                                                  Natal antes da missa do galo. Laura nem quer acreditar. Há muitas
      Certa manhã de Dezembro, já perto do Natal, Ciryl e Paola            coisas a mudar nesta casa, de há uns tempos para cá. Talvez desde
tiveram uma ideia: foram pelas escolas e desafiaram as crianças:           que o pai “esteve às portas da morte”, como diz a avozinha. Laura
«Vamos semear pinheirinhos novos e deixar a nossa serra toda verde         ficou a saber que isso significa escapar à morte. Terá ela suspeitado
como era dantes.»                                                          da gravidade do estado de saúde do pai, encontrado desmaiado no
                                                                           jardim enquanto ela estava na escola?
     «Vamos!», disseram os meninos. «Vamos!», disseram as
meninas.                                                                         No entanto, ele está aqui esta noite, o pai, bem vivo e a rir-se,
                                                                           quando a mãe mostra à Laura a prenda que mexe: um gatinho
    De súbito, foi como se um sino tivesse tocado no coração do
                                                                           cinzento.
mundo.
       Parecia uma só voz o que se ouviu e ecoou por todo o lado, das             — Parece filho do gato cinzento. Amanhã vou logo apresentá-
                                                                           -lo ao Sérgio.
casas ao mar.
                                                                                                                                 Colette Nys-Mazure
      E tinha tanta força essa voz que os pais dos meninos, e as                                                                   Contes d’Espérance
mães, e as avós, e os tios, e as tias, e os primos, e as primas, e as                                                 Paris, Desclée de Brouwer, 1998
madrinhas, e os padrinhos vieram também. Traziam pás, ancinhos,
enxadas, pequenos sachos, regadores. Era como um filme.
      Pela serra inteira, gente que andava, parava, ria, abria buracos e
plantava árvores. Árvores, dezenas de árvores que o Ciryl e a Paola
mandaram vir de todas as partes do mundo: pinheiros, abetos,
araucárias, cedros do Líbano.
       As pessoas, pela serra, pareciam borboletas voando: corriam
aqui, escorregavam ali, levantavam-se, trocavam pequenas palavras,
muitas sugestões. Uns plantavam a sua árvore na encosta; outros, nas
faldas da serra.
      Ao fim da tarde, cansados, os pais e as mães, os primos e as


146                                                                        40
primas, os tios e as tias, os padrinhos e as madrinhas, as crianças, os
                                                                                 velhos e os assim -assim juntaram o pão e a salada, o queijo e a Coca-
                                                                                 -Cola, os pastéis de bacalhau e o bolo-rei, a alegria e o coração
                          O Pinheirinho                                          contente e fizeram uma grande festa.
                                                                                       A serra parecia pintada de verde fresco e nos olhos de todas as
          Pensa no Natal e, provavelmente, pensarás numa árvore de               pessoas havia um brilho diferente. Todos se falavam, mesmo os que
      Natal. Na maioria dos locais onde o Natal é celebrado, a árvore é          de manhã não se conheciam e as gargalhadas que davam eram como
      muito importante. Significa uma vida nova e promete a vinda de             água fresca que apetecia beber e repartir.
      dias mais claros na Primavera. A versão de Jenny Koralek deste                    Só David, um dos mais pequeninos, o que tinha olhos azuis e
      conto de Hans Christian Andersen é melancólica, mas gosto da               reflexos de ouro nos cabelos lisos, indiferente à festa, continuou a
      intensidade do seu sentimento, cheio da ansiedade e da tristeza que        subir a serra. Queria que a sua árvore fosse a mais alta, a que ficasse
      sentimos, à medida que a festa chega ao fim. Guarda este conto             lá mais acima e se pudesse contemplar da terra inteira.
      para o leres em voz alta com toda a família no dia de Reis. Não                 Subiu, subiu. Subiu muito. Rasgou a pele nas silvas, bebeu o
      comeces, até que todos tenham ajudado a arrumar as luzes e as              sumo das amoras porque tinha sede. Subiu mais ainda.
      decorações e até que haja um trilho de fagulhas castanhas desde a
                                                                                       Com a sua pequena enxada de plástico cavou um buraquinho.
      sala de estar até à fogueira ao ar livre. Então, estarás,
                                                                                 Quando acabou de plantar o seu cedro do Líbano, deitou-se na terra
      precisamente, num momento de boa disposição para o fazer...
                                                                                 fresca e adormeceu. Então, inexplicavelmente, a árvore começou a
                                                                                 crescer, a crescer, e cobriu-o de sombra. Uma ave, veio dos lados do
       Lá fora, na floresta, encontrava-se um pequeno e belo                     sol nascente e embalou-lhe o sono com seu cantar. Quando a noite
Pinheirinho. Nasceu num lugar agradável, onde havia muita luz e                  desceu, perfumada, uma estrela desceu de mansinho e pousou no
muito ar. Estava rodeado de muitas árvores maiores — pinheiros, e                ramo mais alto, iluminando todos os caminhos. De repente, no meio
abetos também — mas o Pinheirinho ansiava por crescer mais. Não                  da festa, alguém deu pela falta de David. Chamaram, chamaram e
dava valor ao ar fresco, ou às crianças que vinham tagarelar para a              nada. Ninguém respondia. Então, como se fosse um formigueiro em
floresta e procurar morangos e framboesas. Passavam muitas vezes                 movimento, as pessoas começaram a espreitar na urze, no sumo dos
com um cesto cheio, sentavam-se junto do Pinheirinho e diziam:                   frutos, no espelho de água do tanque, dentro da chaminé, debaixo do
“Que bonito que é aquele pequenino!”, mas não era nada disso que o               piano. Chegaram à varanda. Olharam a serra.


                                                                            41                                                                      147
Lá no alto, iluminado, enorme, o cedro era um sinal.                   Pinheirinho queria ouvir.
      Correram todos para lá.                                                       No ano seguinte, tinha crescido um rebento novo e no ano que
      Um grande silêncio desceu na serra. Todos se olhavam                   se seguiu cresceu ainda mais. Pode-se sempre dizer, pelo número de
estupefactos. Ninguém sabia explicar por que crescera assim, em tão          anéis que tem no tronco, há quantos anos uma árvore está a crescer.
poucas horas, aquela árvore que uma estrela iluminava.                             — Oh, se eu ao menos fosse tão grande como os outros! —
       E quando viram David a dormir, segurando ainda na mão o               suspirava o Pinheirinho. — Então, espalharia os meus ramos para
pequeno sacho, com a cara toda lambuzada de amoras e terra, Ciryl            bem longe e, do meu topo, estaria atento a todo o mundo. Os
disse sorrindo e simplesmente: «Oh! Parece o Menino Jesus!»                  pássaros construiriam ninhos nos meus ramos e, quando o vento
                                                                             soprasse, apenas abanaria, tão orgulhoso como as outras árvores.
      E regressaram.
                                                                                   No Inverno, quando a neve pousa por todo o lado branca e
      Cantando.
                                                                             brilhante, uma lebre veio a correr e saltou por cima do Pinheirinho, o
                                                                             que o pôs zangado. Mas, três Invernos passado, a pequena árvore
                                                      Maria Rosa Colaço
                                                      Não quero ser grande   tinha crescido tanto que a lebre teve de a contornar.
                                          Lisboa, Editorial Escritor, 1996        “Oh, crescer, crescer e envelhecer! É, de certeza, a melhor coisa
                                                                             do mundo”, pensou a árvore.
                                                                                   No Outono, os lenhadores vinham sempre para abater algumas
                                                                             das árvores maiores. O Pinheirinho estremeceu de medo, pois as
                                                                             árvores grandes caíam estrondosamente no chão e os ramos eram
                                                                             cortados para que parecessem bastante despidas. Eram colocadas em
                                                                             camiões e levadas dali. “Para onde iriam?”, perguntou-se o
                                                                             Pinheirinho.
                                                                                   Na Primavera, quando as andorinhas e as cegonhas chegaram, a
                                                                             árvore perguntou-lhes:
                                                                                   — Sabem para onde vão as árvores? Viram-nas?
                                                                                   As andorinhas responderam que não, mas a cegonha disse:


148                                                                          42
— Sim, penso que sim. Vi muitos navios novos, quando deixei
o Egipto. Tinham mastros muito altos; penso que eram as árvores.
Cheiravam a abetos. Tudo o que posso dizer é que eram altas e
imponentes — muito imponentes.                                                                  Uma estrela
      — Quem me dera ser suficientemente grande para ir para o
mar! — suspirou o Pinheirinho. — Que tipo de coisa é o mar e a               Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava
que se assemelha?                                                     em Dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do
     — Levaria muito tempo para explicar tudo isso — disse a          musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um
cegonha. E partiu.                                                    bolo, era bom sentir as grandes fatias despregarem-se da areia, dos
      — Devias estar feliz por ainda seres jovem e forte — disseram   muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da
os raios de Sol. E o vento e a chuva beijaram a árvore, mas o         ameixieira. Enchia-se a canastra devagar, enquanto a avó ia montando
Pinheirinho não queria saber do que eles diziam.                      o que hoje se chamaria as estruturas, ou mesmo as infra-estruturas,
                                                                      junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. Eram
      Por altura do Natal, foram cortadas muitas árvores jovens;
                                                                      caixotes, caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso, tábuas, que
árvores que eram mais jovens e mais pequenas do que este
                                                                      pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo, ao mesmo tempo que fazia
Pinheirinho impaciente. A estas belas e jovens árvores não foram
                                                                      carreiros e caminhos com areia e areão. Mais tarde, os rios e os lagos,
cortados os ramos quando foram colocadas nos camiões e levadas
                                                                      com bocados de espelhos antigos, de vidros ou mesmo de travessas
para fora do bosque.
                                                                      cheias de água. Até que todos os caixotes, caixas e tábuas
      — Para onde vão? — perguntou o Pinheirinho. — Algumas
                                                                      desapareciam. Ficavam montanhas, planícies, rios, lagos. Era uma
são muito mais pequenas do que eu. Porque é que não lhes cortaram
                                                                      nova criação do mundo. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com
os ramos? Para onde vão ser levadas?
                                                                      suas cabras. E todos os caminhos iam para Belém.
      — Nós sabemos! Nós sabemos! — chilrearam os pardais. —
                                                                             Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo
Andamos sempre a espreitar pelas janelas na cidade e, por isso,
                                                                      pronto, mesmo antes de o Menino nascer. A cabana, a vaca, o burro,
sabemos para onde vão. Vão ser decoradas da maneira mais bonita
                                                                      os três reis do Oriente. Maria, José, Jesus deitado nas palhinhas. Via-
que possas imaginar. Olhámos pelas janelas e vimos que eram
                                                                      -se logo que era a fingir. Não o da avó, que era mais do que um
colocadas em vasos, numa quente sala de estar, e decoradas com as
                                                                      presépio, era uma peregrinação, uma jornada mágica ou, se quiserem,
coisas mais bonitas — maçãs douradas, bolos de mel, brinquedos e

                                                                43                                                                       149
um milagre. Nós estávamos ali e não estávamos ali. De repente era a       centenas de velas. — E depois? — perguntou o Pinheirinho, com
Judeia, passeávamos nas margens do Tiberíades, andávamos pelo             todos os ramos a tremer. — E depois? O que acontece depois?
Velho Testamento, João Baptista baptizava nas águas do Jordão e                 — Bem — disse o pardal — só vimos isso, mas era
aquele monte, ao longe, podia ser Sinai ou talvez o último lugar onde     maravilhoso.
Moisés, sem lá entrar, viu finalmente a terra onde corria o leite e o            — Talvez isso me aconteça um dia! — gritou o Pinheirinho.
mel. Mas agora era o Novo Testamento. A avó ia buscar as figuras ao       — Isso ainda era melhor do que viajar pelo mar. Se pelo menos agora
sótão, eram bonecos de barro comprados nas feiras, alguns mais            fosse Natal! Oh, se ao menos me levassem! Se ao menos estivesse
antigos, de porcelana inglesa, como aquele caçador que a avó colocava     numa sala de estar quente, decorado com coisas bonitas! E depois? O
à frente dizendo: Este é o pai. Seguia-se a mãe, de vestido comprido,     que aconteceria? Devia ser ainda mais maravilhoso. Porque me
dir-se-ia que ia para o baile, mas não, saía de cima de uma mesinha da    enfeitariam? Oh, quem me dera que isto me acontecesse!
sala de visitas e agora estava ao lado do pai, olhando levemente para
                                                                                 — Sê feliz aqui connosco — disseram o ar e a luz do Sol. —
trás onde, entretanto, a avó já tinha colocado figuras mais toscas, eu,
                                                                          Sê feliz aqui na floresta.
a minha irmã, os primos, alguns amigos, todos a caminho de Belém.
                                                                                Mas o Pinheirinho não era nada feliz. Crescia, crescia e
      — E a avó? — perguntava eu.
                                                                          continuava ali, verde, verde-escuro. As pessoas que o viam diziam:
      — Eu já estou velha para essas andanças.
                                                                                — É uma árvore muito bonita!
      De dia para dia mudávamos de lugar. E todas as manhãs
                                                                                E, por altura do Natal, foi cortada antes dos outros. O
deparávamos com novas casas, mais rebanhos, pastores, gente que
                                                                          machado cortou-a bem fundo, no tronco, e a árvore caiu para o chão
descia das serras, atravessava os rios e os lagos. Os caminhos ficavam
                                                                          com um suspiro: sentiu uma dor, e agora estava triste por ter de
cada vez mais cheios. E todos iam para Belém. À noite tremulavam
                                                                          deixar o lar. Sabia que nunca mais iria ver os amigos, os pequenos
luzes. Acendiam e apagavam. Mas ainda não se via a cabana, nem
                                                                          arbustos e as flores, talvez até os pássaros.
Maria, nem José.
                                                                                A árvore só voltou a si quando estava a ser descarregada num
      Então uma noite, entre as estrelas do céu, aparecia uma que
                                                                          quintal, juntamente com outras árvores, e ouviu um homem dizer:
brilhava mais que todas.
                                                                                — Esta é a melhor. Só queremos esta!
      — Esta é a estrela — dizia a avó.
                                                                                 Depois, vieram dois criados vestidos com uniformes brilhantes
                                                                          e levaram o Pinheirinho para uma sala enorme e bonita. Havia, por


150                                                                       44
todo o lado, quadros pendurados nas paredes e, junto do fogão,                Era uma estrela que nos guiava. Na manhã seguinte lá estavam
estavam enormes jarros chineses com leões.                             eles, os três reis do Oriente, Magos, explicava o pai, que também não
       Havia cadeiras de baloiço, sofás de seda, mesas cobertas de     dizia Pai Natal, dizia S. Nicolau, talvez por influência de uma misse
livros ilustrados e centenas de brinquedos por todo o lado.            de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de
                                                                       S. Nicolau atravessando as estepes.
      O Pinheirinho foi posto dentro de um vaso grande com areia.
A árvore tremeu! O que iria acontecer a seguir? Os criados e as              Cheirava a musgo na sala de jantar. Cheirava a musgo e a lenha
crianças começaram a enfeitá-lo. Nos ramos, penduraram pequenos        molhada que secava em frente do fogão. E os Magos lá vinham, a pé,
sacos feitos de papel colorido. Cada saco era enchido com              de burro, de camelo. Traziam o oiro, o incenso, a mirra. Às vezes
guloseimas; maçãs douradas e nozes pendiam, como se tivessem           nós, os mais pequenos, juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do
nascido ali, e centenas de velinhas foram atadas aos galhos. Bonecas   Oriente/Já chegaram a Belém.”
que pareciam pessoas de verdade pendiam de outros ramos e, mesmo             — Não chegaram nada — atalhava a avó — ainda não.
no topo da árvore, estava fixada uma estrela de latão. Era                   Estávamos cada vez mais perto. E também nervosos. Confesso
magnificente, extraordinário!                                          que às vezes fazia batota. Empurrava-os um pouco mais para a frente,
       — Esta noite — disseram todos — esta noite, a estrela           para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou
brilhará.                                                              mais cedo a avó ia pôr a cabana. Mas ela descobria.
       — Oh — disse o Pinheirinho — se ao menos já fosse noite!              — Não lucras nada com isso, podes apressar toda a gente, não
Oh, espero que acendam as velas brevemente. Será que as árvores vêm    podes apressar o tempo.
da floresta para me ver? E será que os pardais vão espreitar pelas            Cada vez havia mais luzes na Judeia. Por vezes surgiam novos
janelas? Será que vou ficar aqui ornamentado para sempre?              lagos, eram mistérios da minha avó. E a estrela lá estava, a grande
      Todas estas perguntas causaram dores de costas à árvore e as     estrela de prata que brilhava mais do que todas as outras, às vezes eu
dores de costas são tão más para as árvores como as dores de cabeça    ia à janela e via a projecção daquela estrela, ficava confuso, já não
para as pessoas. Por fim, as velas foram acesas. Que brilho, que       sabia se era a estrela da sala ou uma estrela do céu, era uma estrela
esplendor! O Pinheirinho tremeu tanto que uma das velas pegou          nova, uma estrela de prata, era uma estrela que nos guiava. No céu, na
fogo a um ramo verde, mas foi rapidamente apagado.                     sala, na Judeia, talvez dentro de nós.
      E, naquele momento, as portas foram abertas de par em par e            Até que chegava o primeiro dos grandes momentos solenes. A
as crianças entraram cheias de pressa. Olharam fixamente e em          avó chamava-nos ao sótão (nós dizíamos forro), abria uma velha arca

                                                                 45                                                                      151
e desempacotava a cabana. Depois, muito comovida, quase sempre           silêncio para a árvore, mas apenas por um minuto. Começaram a
com lágrimas nos olhos, as figuras de Maria e José.                      gritar de alegria e a dançar à volta da árvore, puxando os presentes.
     — Não há nada tão antigo nesta casa, já eram dos avós dos                 “O que estão a fazer?”, pensou o Pinheirinho. “O que se está a
meus avós.                                                               passar?”
      Impressionava-me sobretudo o manto muito azul de Maria e o                As velas arderam até ao fim, as crianças tiraram as guloseimas
rosto magro, quase assustado, de José. A avó limpava-os com muito        da árvore e dançaram com os brinquedos novos. Já ninguém olhava
cuidado e mandava-nos sair. Nunca nos deixou ver o resto.                para a árvore, excepto um homem idoso que se aproximou e espreitou
       À noite, quando regressávamos da missa do galo, a que a avó       por entre os ramos para ver se todas as nozes e maçãs tinham sido
não ia, chegávamos a casa e finalmente estávamos em Belém.               comidas.
       A estrela brilhava intensamente sobre a cabana, Maria e José            — Uma história! Uma história! — gritavam as crianças, e
debruçavam-se sobre o berço, onde Jesus, todo rosado, deitado nas        levaram, para junto da árvore, um homem divertido, que se sentou
palhinhas, agitava os braços e as pernas, envolvido pelo bafo quente     mesmo debaixo dela.
dos animais, enquanto os três reis do Oriente, agora sim, chegavam a           — Vamos fingir que estamos no bosque verde — disse — e
Belém para depositar aos pés do Menino o oiro, o incenso, a mirra. E     que a árvore consegue ouvir o conto.
vinham os pastores, e vinha o pai, de caçador, a mãe, de vestido de             E o homem divertido contou o conto de Klumpey-Dumpey,
baile, e vínhamos nós, eu, a minha irmã, os primos, não eramos de        que estava sempre a cair pelas escadas abaixo e, já no fim, casou com
porcelana nem de barro, estávamos ali em carne e osso, era noite de      uma princesa. O Pinheirinho ficou bastante silencioso e pensativo.
Natal, uma estrela nos guiava, brilhava sobre a Judeia e sobre o         Os pássaros do bosque nunca tinham contado uma história como
presépio, brilhava cá fora entre as estrelas, brilhava dentro de nós.    esta. Klumpey-Dumpey sempre a cair pelas escadas abaixo e, mesmo
Naquela noite, naquele momento, nós não estávamos na sala de             assim, casou com uma princesa.
jantar em frente do presépio, tínhamos chegado finalmente a Belém              — Bem! Bem! — disse o Pinheirinho. — Quem sabe? Talvez
para adorar o Menino ao lado de Maria e José e dos três reis do          eu também tenha de cair pelas escadas abaixo e casar com uma
Oriente, Magos, não consegui deixar de corrigir o meu pai. Mas           princesa!
mágica, verdadeira mágica, era a avó. Era ela que fazia o milagre da
                                                                               E estava ansioso por ser de novo decorado com velas,
transfiguração, trazia o Natal para dentro de casa, levava-nos a todos
                                                                         brinquedos e frutos, na noite seguinte.
até Belém. O cheiro a musgo e a lenha. Os montes, os vales, os rios,


152                                                                      46
Mas, de manhã, os criados vieram tirá-lo da sala, levaram-no        os lagos. Caminhos e caminhos que iam para Belém. E a estrela de
para o sótão e puseram-no num canto, onde não entrava a luz do dia.       prata, a estrela que nos guiava. Era uma estrela no céu, dentro de
“O que significa isto?” pensou a árvore. “O que estou a fazer aqui? O     casa, dentro de nós. Pela mão da avó ela brilhava. Pela sua magia,
que está a acontecer?”                                                    Belém estava dentro de casa. E a casa também ia até Belém.
       Encostou-se à parede, pensou e pensou. E teve tempo                      Mais tarde, muito mais tarde, eu estava no exílio. Na noite de
suficiente, pois passaram-se dias e noites e ninguém voltou lá a subir.   Natal, os revolucionários ficavam tristes e nostálgicos. Talvez
A árvore parecia ter sido totalmente esquecida.                           recordassem outras avós, outros presépios, outros lugares. Reuniam-
       — Agora, é Inverno lá fora — disse o Pinheirinho. — A terra        -se em casa deste ou daquele, improvisava-se uma árvore de Natal,
está dura e coberta de neve, e as pessoas não podem plantar-me.           trocavam-se presentes. Mas ninguém, nem mesmo os mais duros, os
Suponho que devo ficar aqui abrigado, até que venha a Primavera.          que faziam gala em dizer que o Natal para eles não significava nada,
Que atenciosos! Mas que pessoas boas! Se ao menos aqui eu não             nem mesmo esses conseguiam disfarçar uma sombra no olhar.
estivesse tão às escuras e tão sozinho!... Era bonito lá fora, na         Saudade, dir-se-á. Mas talvez fosse mais do que saudade e solidão e o
floresta, quando a neve pousava espessa, e aquela lebre vinha saltar      pior de todos os exílios é o de se sentir estrangeiro no mundo.
por cima de mim; mas, na altura, eu não gostava. Isto aqui em cima é      Talvez fosse a consciência de que, para lá de todas as crenças ou não
terrivelmente solitário! Mas que pessoas boas!                            crenças, havia um irremediável sentimento de perda. Muitas vezes me
                                                                          perguntei o que seria. Mas não conseguia responder. Sentia o mesmo
      De repente, dois ratinhos aproximaram-se lentamente.
                                                                          aperto, o mesmo buraco por dentro, o mesmo sentimento de algo
Cheiraram o Pinheirinho e, depois, subiram para os ramos.
                                                                          para sempre perdido.
      — Está muito frio aqui em cima — disseram os dois ratinhos.
                                                                                Uma noite de Natal, em Paris, eu estava sozinho. Comprei
      — Também achas, árvore velha?
                                                                          uma garrafa de vinho do Porto, mas não fui capaz de bebê-la assim,
      — Não sou velha — disse o Pinheirinho.                              completamente só, num quarto de criada num sexto andar duma
     — De onde vens? — perguntaram os ratos. — E o que                    velha rua do Quartier Latin. Peguei na garrafa e fui até aos Halles.
conheces?                                                                 Procurei o bistrô onde costumava comer uma omelete de fiambre.
      Eram muito inquisitivos.                                            Felizmente estava aberto. Pedi a omelete e abri a garrafa. Havia mais
       — Conta-nos sobre o lugar mais bonito do mundo! Já                 três solitários no bistrô, um velho de grandes barbas, um tipo com
estiveste lá?                                                             cara de eslavo, um africano. Convidei-os para partilharem comigo a


                                                                    47                                                                     153
garrafa de Porto, que não resistiu muito tempo. Encomendámos                   — O lugar mais bonito do mundo — disse a árvore — é a
outras bebidas.                                                         floresta, onde o Sol brilha e os pássaros cantam. E, depois, contou
      — Conta uma história de Natal do teu país — pediu o velho.        aos ratos tudo sobre a sua juventude. Os ratinhos ouviram e
                                                                        disseram:
      — Só se for a do presépio da minha avó.
                                                                              — Tantas coisas que já viste! Deves ter sido muito feliz!
      — Então conta.
                                                                             — Fui — disse o Pinheirinho. — Aqueles foram, realmente,
      Eu contei. Era já muito tarde e o patrão disse-nos que queria
                                                                        tempos de felicidade.
fechar. Chegados à rua, o africano apontou para o céu e disse-me:
                                                                              Mas, depois, contou-lhes sobre a Véspera de Natal, quando
      — Olha.
                                                                        tinha sido enfeitado com guloseimas e velas.
      E eu vi. Uma estrela que brilhava mais que as outras estrelas.
                                                                              — Oh! — disseram os ratinhos. — Como foste tão feliz,
Era uma estrela de prata. A estrela da avó. Brilhava no céu, brilhava
                                                                        árvore velha!
outra vez dentro de mim, quase posso jurar que brilhava dentro dos
outros três.                                                                  — Não sou velha — disse a árvore. — Só saí da floresta este
                                                                        Inverno.
      Então eu perguntei ao africano como se chamava. Ele
respondeu:                                                                     — Mas que histórias maravilhosas podes contar! — disseram
                                                                        os ratinhos.
      — Baltazar.
                                                                              E no dia seguinte, vieram com mais quatro ratinhos para ouvir
      Perguntei ao velho e ele disse:
                                                                        o que a árvore tinha para contar. Assim, o Pinheirinho contou-lhes a
      — Melchior.
                                                                        história do Klumpey-Dumpey e os ratinhos correram direitos para o
      E sem que sequer eu lhe perguntasse, o eslavo disse:              topo da árvore, cheios de satisfação. Na noite seguinte, vieram muito
      — O meu nome é Gaspar.                                            mais ratos, e o Pinheirinho contou outra vez a mesma história. Mas,
      Era noite de Natal e talvez ainda por magia da avó eu estava na   quando descobriram que a árvore não sabia mais histórias, os ratos
rua, em Les Halles, com os três reis do Oriente, Magos, diria o meu     ficaram aborrecidos e foram-se embora.
pai.                                                                          O Pinheirinho ficou triste.
      — E agora? — perguntei a Baltazar.                                     — Era muito agradável, quando os ratinhos divertidos ouviam
      — Agora — respondeu o africano apontando a estrela —              a minha história, mas em breve vai chegar a Primavera. Vou ficar tão


154                                                                     48
feliz quando me tirarem deste local solitário!...                        agora vamos para Belém.
      Quando chegou a Primavera, as pessoas vieram remexer no                                                          Lisboa, 3.10.2000
sótão. Um criado levou a árvore para baixo, onde a luz do dia
brilhava.                                                                                                                 Manuel Alegre
                                                                                                                             Uma Estrela
      “Agora, a vida vai começar de novo!”, pensou a árvore.                                       Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005

      Sentiu o ar fresco e os raios do Sol no pátio. O pátio estava
perto de um jardim, onde as rosas estavam em flor, as árvores cheias
de folhas e as andorinhas a cantar.
       — Agora, tenho de viver! — disse a árvore, alegremente, e
esticou os ramos. Mas, meu Deus! Estavam todos murchos e
amarelos. Ficou a um canto, entre as urtigas e as ervas daninhas. A
estrela de latão ainda lá estava e brilhava com a luz do Sol.
      No pátio, as crianças, que no Natal tinham dançado à volta da
árvore, estavam a brincar. Uma delas trepou à árvore e tirou a estrela
dourada.
      — Vejam o que está agarrado a este velho e feio Pinheirinho
— disse a criança, e começou a pisar-lhe os ramos até partirem
debaixo das botas.
       E a árvore olhou para todas as flores e para o belo jardim e,
depois, para ela própria, e desejou ter ficado no canto escuro do
sótão. Pensou na juventude fresca na floresta, na Véspera de Natal
feliz e nos ratinhos que ouviram com tanta alegria a história do
Klumpey-Dumpey.
      — Passado! Passado! — disse a velha árvore. — Acabou tudo.
Se ao menos tivesse sido mais feliz naquela época.


                                                                   49                                                               155
E veio um criado e cortou a árvore aos pedacinhos. Estava ali
um feixe enorme. Ardia resplandecente no fogão, suspirava
profundamente e cada suspiro era uma pequena explosão. As crianças
sentaram-se junto da lareira, olharam para ela e gritaram:
      — Zás! Trás!
      Mas, a cada explosão, que era um suspiro profundo, a árvore
pensava num dia de Verão na floresta, ou numa noite de Inverno,
quando as estrelas brilhavam. Pensava na Véspera de Natal e no
Klumpey-Dumpey, a única história que tinha ouvido ou que sabia
contar; e, depois, a árvore foi queimada.
     As crianças brincaram no jardim e o mais novo usou a estrela
dourada que a árvore tinha usado na sua noite mais feliz.
      Agora, tudo acabara. A vida da árvore tinha terminado e o
conto também.
                                              Hans Christian Andersen

                                                  Ian Whybrow (org.)
                                                O grande livro do Natal
                                              Porto, Edições Asa, 2004




50
A filhó dourada                                                              Lídia

     A história que vou contar chama-se “A Filhó Dourada”.                   Lídia era bonita porque tinha um nome bonito e porque a uma
Douradas, muito douradinhas são elas todas, empilhadas na travessa,   história de Natal convém uma menina bonita. Vivia num
como um castelo por conquistar.                                       apartamento muito alto, voltado para o mar. Tinha um quarto onde
                                                                      dormia, um quarto onde estudava e um quarto onde brincava. Este
       As últimas são as melhores. Têm mais açúcar, desfazem-se mal
                                                                      era o mais bonito de todos. Tinha imensos brinquedos vindos das
lhes tocamos… A gente pega delicadamente numa das que sobraram,
                                                                      mais diversas partes do mundo. Tinha brinquedos com música
dá-lhe um impulso que a ponha a deslizar na travessa, para ensopar
                                                                      dentro, daquela música duma melodia finíssima e límpida, como uma
bem e, num gesto rápido, sem pingar a toalha, mete-a na boca. O
                                                                      filigrana. Tinha brinquedos de onde saía uma música que parecia vir
estalar dela, de encontro aos nossos dentes, é música com açúcar.
                                                                      de dentro da terra, espessa, distante, quase triste. Tinha brinquedos
      Naquela ceia de Natal, todos tinham comido filhós.
                                                                      que exalavam música como se nascesse nas altas montanhas, rarefeita
      — Estão uma delícia — comentavam.                               e leve, trazida em asas de condor.
      E, porque estavam uma delícia, não tinha sobrado senão uma,           Todos estes brinquedos alegravam Lídia que, muitas vezes,
no fundo da travessa. Era uma ilha minúscula e redondinha, rodeada    chamava os seus amigos e, no fim da escola, ficavam ali a brincar, a
por um mar de açúcar. Todos os olhos fitavam a filhó, que estalava    olhar o mar e a ouvir aquelas músicas que saíam de dentro dos
em reflexos de oiro. Uma tentação.                                    brinquedos.
      À roda da mesa, diziam para o avô:                                     Os pais de Lídia eram viajantes e raramente estavam em casa.
      — Só ficou uma filhó. Porque é que a não come?                  Aliás, a sua casa era o avião, tantas as vezes que voavam de cidade
      O avô, então, virava-se para a avó e segredava-lhe:             para cidade, de continente para continente. Mas quase todos os dias
      — Come tu, anda lá.                                             telefonavam a Lídia, perguntando se estava bem e prometendo mais
                                                                      um presente para o regresso. Lídia ficava feliz com os telefonemas,
      A avó não queria.
                                                                      mas quando desligava o telefone, pensava: “Eu gostava tanto de ter os
      — Comam vocês — dizia ela, apontando para a filhó e para os

                                                                51                                                                     157
meus pais sempre à minha beira. Gostava tanto que os meus amigos       filhos.
os conhecessem melhor. Gostava tanto de adormecer a seu lado ou              — Eu já comi muitas — desculpava-se um.
acordar com os seus beijos...”                                               — Também tenho a minha conta — dizia outro.
      E assim ficava muito tempo suspensa na recordação dos pais.
                                                                             — Nem mais um bocadinho — declarava um terceiro.
Uma vez ou outra não conseguia evitar uma lágrima mais atrevida.
                                                                             Parecia que nenhum queria tomar a responsabilidade de comer
Mas tudo passava e quando os pais regressavam, Lídia matava as
                                                                       a filhó. No entanto, ela lá estava muito dourada, a recortar-se no
saudades, abraçava-os muito, ia com eles jantar fora ou a casa de
                                                                       meio da calda de açúcar. Apetecia mesmo ver e… comer.
algum amigo. Só não gostava quando esses encontros eram com
pessoas que chegavam sempre atrasadas, passavam a refeição a falar           Mas, à volta da mesa, não se decidiam. E a filhó, a última filhó,
pelo telemóvel e não lhe ligavam importância nenhuma. Se calhar não    andava de boca em boca, sem se fixar na boca de ninguém. De oferta
tinham filhos nem podiam perder tempo com as crianças. Eram            em oferta, chegou a vez da tia Luísa propor:
homens de negócios.                                                          — Os pequenos que comam. Sempre quero ver qual dos meus
          Regressavam a casa e, logo de seguida, novamente tinham de   sobrinhos chega primeiro à filhó.
partir.                                                                       Os meninos não se precipitaram sobre a filhó apetitosa, como
          — Amanhã sairemos cedo para um país distante...              seria de esperar. Cada um ficou à espera do primo ao lado, e o primo
                                                                       ao lado do outro primo ao lado… Fosse por acanhamento ou fosse
          — Que país é esse? — perguntava Lídia.
                                                                       por que fosse…
      — É um país onde há muitas crianças pelas ruas: umas a
                                                                             — Afinal ninguém a come — observaram do outro extremo da
trabalhar, outras a mendigar, outras a olhar para quem passa. É um
                                                                       mesa. — Esta filhó deve ser mágica.
país muito grande e muito pobre. Os meninos não têm casa como a
nossa, nem escola, nem brinquedos.                                           Olharam uns para os outros e sorriram.

          — E pais, têm pais? — perguntou Lídia.                             A ceia estava no fim. Os meninos tinham sono. O avô
                                                                       cabeceava. Começou a ouvir-se o arrastar das cadeiras. Era a
       — Muitos têm pais, mas são tão pobres, tão desprezados pela
                                                                       debandada.
vida, que é como se não tivessem.
                                                                             — Amanhã se arruma a casa — disse a tia Luísa, e apagou a
       — Mas eu pensei que vocês só faziam negócios com países
                                                                       luz da sala de jantar.
ricos, que com os pobres não se negoceia...
                                                                             Quando todos já se tinham ido embora, a filhó, no lusco-

158                                                                    52
-fusco, ao meio da mesa, começou a brilhar. Intensamente. Acreditem           — Também fazemos negócios com os ricos, mas, negociando
ou não, como se tivesse luz dentro. Como um pequeno sol ou um            com os pobres, podemos ganhar mais dinheiro, e assim tu terás
bocadinho de oiro, a desfazer-se em açúcar.                              sempre mais e mais brinquedos.
                                                     António Torrado            No meio das conversas, Lídia acabava por adormecer e de
                                                  www.historiadodia.pt
                                                                         manhã, quando acordava, já estava a casa novamente vazia. O que lhe
                                                                         valia é que tinha muitos amigos, com os quais ia tornando menos
                                                                         duras as prolongadas ausências dos pais. Mas o pior foi quando, ao
                                                                         aproximar-se o Natal, Lídia soube pela mãe que tinham uma viagem
                                                                         importantíssima. Por isso não podiam passá-lo em casa.
                                                                              — Mas nesse país, as pessoas fazem negócios no dia de Natal?
                                                                         — perguntou Lídia.
                                                                               — Sabes — respondeu-lhe o pai — nesse país o Natal é um
                                                                         dia como outro qualquer. As pessoas têm outros costumes, outra
                                                                         cultura, outra religião.
                                                                               — Eu pensei que o Natal era Natal em todo o mundo... —
                                                                         disse Lídia com desencanto.
                                                                                A conversa ficou por ali. Mas Lídia, apesar da tristeza,
                                                                         começou a sonhar com a noite de Natal em casa dos avós. Viriam os
                                                                         primos: a Teresa, a Helena, o Miguel, a Ana e o Luís. Lídia queria
                                                                         fazer-lhes uma surpresa.
                                                                                Pensou durante alguns dias e, uma noite, teve uma ideia: “Já
                                                                         sei. Vou fazer um teatro em verso.” Lídia gostava de escrever versos e
                                                                         foi escrevendo no seu caderno os versos para o presépio. Mas não os
                                                                         mostrou a ninguém para poder fazer uma surpresa.
                                                                               Quando chegou a noite de Natal, toda a família se juntou em


                                                                   53                                                                      159
casa dos avós. Era uma casa muito grande com um terreiro cheio de
árvores, umas que tinham folhas todo o ano, outras que no Inverno
ficavam todas despidas e à noite pareciam fantasmas gigantes com
uma só perna e muitos braços. Entre as árvores havia canteiros de
arbustos e plantas. A noite estava de tempestade: a chuva e o vento
pareciam dançar uma dança violenta e desconcertada. Os ciprestes
que estavam nos cantos do terreiro vergavam-se tanto que pareciam
bailarinos em fúria. Mas, na alegria daquela noite, ninguém ligava
nada à tempestade.
       A consoada era na sala maior: uma sala cheia de brilhos que,
reflectidos no espelho ao fundo, a tornavam ainda mais brilhante.
Quando a porta de vai-e-vem que dava para a copa se abria, vinham os
aromas do Natal e via-se a azáfama das pessoas que estavam na copa e
na cozinha e andavam de lado para lado.
      Quando todos já tinham consoado, Lídia chamou os primos ao
andar de cima e explicou-lhes o seu teatro de verso.
      — Todos têm de decorar o seu verso — disse.
       Seguiu-se um grande alvoroço com cada um a disputar o seu
verso preferido. Quando chegaram a acordo, ensaiaram durante
algum tempo e, por fim, desceram, cada um muito senhor do seu
papel.
      Puseram-se por detrás de um biombo que havia na sala e Lídia
pediu silêncio.
      — Senhoras e senhores, vamos apresentar: Versos para o Presépio.
Ouviram-se palmas, muita excitação e depois fez-se silêncio. No
rosto de todos havia um sorriso de felicidade e curiosidade. Cada um

160
foi saindo na sua vez e dizendo o verso que lhe competia:
                                                                                    Vejo no céu uma estrela
                                                                                    Muito bela.
          O cesto de Natal da tia Cyrilla                                           Navega num mar de prata
                                                                                    Vou com ela.
                                                                                    O seu destino é Belém
      Quando Lucy Rose encontrou a tia Cyrilla a descer as escadas,                 Vou também.
algo ofegante e ruborizada pela ida ao sótão, com um cesto enorme,                  Levo flores neste raminho
com tampa, enfiado no braço roliço, soltou um pequeno suspiro de                    Para o Menino.
desespero. Há alguns anos que Lucy Rose fazia o melhor que podia –                  Eu levo um brinquedinho
de facto, desde que tinha prendido o cabelo e aumentado ao                          Para o Menino.
comprimento das saias – para que a tia Cyrilla perdesse o hábito que                Eu não tenho que levar
                                                                                    Mas vou e oferecerei
tinha de levar aquele cesto com ela, sempre que ia a Pembroke; mas a
                                                                                    Estes versos de cantar.
tia Cyrilla insistia em levá-lo e só se ria do que ela apelidava de
                                                                               E todos remataram em coro:
«ideias afectadas» de Lucy Rose. Lucy Rose achava horrível e
                                                                                     Com as flores e o brinquedo
extremamente provinciano a tia carregar sempre o cesto consigo,                      E estes versos de cantar;
cheio de coisas boas do campo, de cada vez que ia visitar Edward e                   Com a estrela sobre a gruta
Geraldine. Geraldine era tão elegante que talvez achasse aquilo                      E os pastores a dançar,
estranho; e depois, a tia Cyrilla levava-o sempre no braço, e dava                   Meu Menino de Belém
                                                                                     Dança connosco também.
biscoitos, maçãs e chupa-chupas de melaço a todas as crianças que
encontrava e, de vez em quando, também a pessoas de idade. Quando              As palmas encheram a sala e parece que os seus brilhos se
Lucy Rose ia à cidade com a tia Cyrilla, sentia-se desgostosa com isto   multiplicavam, dançando nas paredes, no ar, em todos os sítios. Se
– mas Lucy era ainda muito nova e tinha muita coisa a aprender neste     não fosse a ventania que atirava a chuva contra as portas e as janelas,
mundo.                                                                   todos pensariam que, lá fora, o céu era realmente um mar de prata,
      Aquela preocupação incómoda sobre o que Geraldine pensaria         cheio de estrelas e calmaria.
encorajou-a a protestar naquele instante.                                      Ana, que era a mais pequena, não se cansava de saltar, enquanto
      — Ora, tia Cyrilla — apelou — de certeza que, desta vez, não       repetia o seu verso: vou com ela...vou com ela...vou com ela...

                                                                   55                                                                       161
Durante um tempo manteve-se este ambiente de excitação e          vai levar aquele cesto velho e esquisito consigo para Pembroke. É Dia
alegria. Tanto mais que, de seguida, foi a distribuição das prendas.     de Natal e tudo!
Da árvore de Natal cada um foi recebendo os seus presentes: jogos,              — Claro, claro que vou — respondeu a tia Cyrilla, enquanto o
bonecas, livros de histórias, puzzles, carros telecomandados e até um    punha em cima da mesa e começava a limpá-lo. — Nunca fui visitar o
computador. De todos os presentes que recebeu, Lídia gostou              Edward e a Geraldine, desde que estão casados, sem levar o cesto das
sobretudo do que lhe foi deixado pelos pais: um presépio esculpido       coisas boas comigo e não vai ser agora que vou deixar de o fazer. Se é
em madeira com um Menino negro, sorridente e acariciando o               Natal, mais uma razão. O Edward fica sempre muito contente por ter
focinho do burro que lhe estava ao pé. Lídia sempre vira o Menino        algumas das coisas antigas da casa da quinta. Diz que são muito
Jesus, branco, deitado nas palhas. Aquela imagem trouxe-lhe à            superiores às cozinhadas na cidade, e são mesmo.
lembrança os meninos negros que tantas vezes via na televisão,                 — Mas é tão provinciano — lamentou-se Lucy Rose.
esqueléticos, de grandes ventres e um olhar raso de resignação, um
                                                                                — Bem, eu sou da província — disse a tia Cyrilla, firmemente
olhar de quem foi vencido pela humilhação da fome e do desprezo.
                                                                         — e tu também. E depois, não vejo motivo para sentirmos vergonha
Lídia como que ficou ausente da sala, alheia à excitação geral.
                                                                         disso. Tens um amor-próprio excessivo, Lucy Rose. Com o tempo
       Entretanto, veio uma ordem para os meninos se irem deitar.        há-de passar-te, mas neste momento está a causar-te muitos
Contrafeitos, lá foram subindo com os seus presentes. Aos poucos, o      problemas.
silêncio foi tomando toda a casa.
                                                                                — O cesto é um problema — disse Lucy Rose, zangada. — A
       Lídia não tinha sono. Quando entrou no seu quarto, sentou-se      tia está sempre a esquecer-se dele, ou com medo de se esquecer. E
junto à janela, abriu as portadas, puxou a cortina, colocou o presépio   parece tão estranho andar pelas ruas com esse cesto grande e bojudo
no peitoril e ficou a olhar a tempestade. O vento continuava a agitar    no braço!
as árvores com violência, soltando gemidos tremendos e esmagando a
                                                                                — Não estou nada preocupada com as aparências —
chuva contra as paredes, os muros, as janelas. Mais ao longe, o mar
                                                                         respondeu a tia Cyrilla, calmamente. — Quanto a ser um problema,
rosnava feroz. Mas, mesmo assim, a sua voz tinha beleza, uma beleza
                                                                         ora, talvez seja, mas é um hábito meu e outras pessoas apreciam. O
inexplicável.
                                                                         Edward e a Geraldine não precisam disto – eu sei – mas pode haver
      Lídia encostou o rosto na vidraça para sentir a fúria da           quem precise. E se caminhares ao lado de uma mulher velha e
tempestade. E pensou nos pais. E pensou nos meninos a quem a             provinciana, com um cesto, fere os teus sentimentos, ora, podes ficar
miséria roubou o Natal. E pensou que também na sua cidade havia          para trás como dantes.

162                                                                      56
A tia Cyrilla meneou a cabeça e sorriu bem-humorada, e Lucy      meninos pobres. Mas moravam do outro lado da cidade. E teve
Rose, embora mantivesse a sua opinião pessoal, também teve de            vontade de fazer como a menina que conhecia de uma história.
sorrir.                                                                  Chamava-se Joana e, na noite de Natal, foi levar os brinquedos que
      — Agora, deixa-me ver — disse a tia Cyrilla, reflectindo e         recebera ao seu amigo Manuel, que morava do outro lado do pinhal e
batendo com a ponta do dedo indicador em cima da mesa da cozinha         não ia ter prendas na noite de Natal1. Mas Lídia não tinha nenhum
branca como a neve — o que levo? Para já, aquele bolo grande de          amigo pobre. Na sua escola não havia meninos pobres. No seu prédio
frutas – o Edward gosta do meu bolo de frutas; e aquela língua           não havia meninos pobres. No seu bairro não havia meninos pobres.
cozida fria. Aquelas três tortas de carne picada, também, se não         Lídia só conhecia os meninos pobres de que lhe falavam os pais, ou
estragam-se antes de voltarmos, ou, então, o teu tio fica doente ao      os que via na televisão, ou os que moravam do outro lado da cidade,
comê-las – torta de carne picada é o seu pecado mortal. E aquele         junto ao rio, ou os que, no Verão, vinham arrumar automóveis na
frasco de barro cheio de natas – a Geraldine pode ter muita classe,      praia que havia em frente à sua casa.
mas ainda tenho de a ver desprezar umas natas do campo, Lucy Rose!              Lídia estava muito triste por não poder vencer esta distância
E outro frasco do meu vinagre de framboesa. Aquele prato de              entre si e os meninos pobres e por nada poder fazer para alterar a
biscoitos de geleia e dónutes vão agradar às crianças e encher os        ordem do mundo. E perguntou-se: “Será que os pobres hão-de ser
pequenos espaços vazios, e podes trazer-me aquela caixa de caramelos     sempre pobres...?” Desencostou o rosto da vidraça e pegou no
que está na despensa e aquele saco de barras de bombons às riscas        presépio. Aconchegou-o no colo e acariciou o Menino. Do andar de
que o teu tio me trouxe, ontem à noite, ali da esquina. E maçãs, claro   baixo vinha um ruído distante de talheres e cristais e vozes
– três ou quatro dúzias daquelas boas – e um frasquinho da minha         indistintas. Mas novamente se encostou à janela a ver, ouvir e sentir a
compota de ameixa rainha-cláudia – o Edward vai gostar. E algumas        tempestade. E, embalada na música da tempestade, Lídia começou a
sanduíches e bolo inglês para um lanche para nós. Agora, acho que de     sentir sono. Levantou-se da cadeira, correu a cortina, fechou as
mantimentos já chega. Os presentes para as crianças podem ir por         portadas, beijou o seu Menino negro, deitou-se e adormeceu.
cima. Tenho uma boneca para a Daisy, um barquinho que o teu tio                                                                                        Natal de 1996
fez para o Ray, um lenço de mão em renda de bilros para cada um
dos gémeos e a touca de crochet para o bebé. Agora está tudo?                                                                                           Nuno Higino
                                                                                                                          A mais alta estrela – Sete histórias de Natal
     — Há uma galinha assada fria na despensa — disse Lucy Rose                          CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000
com maldade — e o porco, que o tio Leo matou, está dependurado
                                                                         1
                                                                             A Noite de Natal, Sophia de Mello Breyner Andresen


                                                                   57                                                                                             163
no alpendre. Também quer metê-los aí dentro?
      A tia Cyrilla exibiu um sorriso amplo.
     — Bem, acho que deixamos o porco em paz; mas uma vez que
me lembraste, a galinha também pode ir. Arranjo espaço.
      Apesar dos preconceitos, Lucy Rose ajudou a embalar e,
mesmo não tendo sido supervisionada pelo olho da tia Cyrilla, fez
tudo muito bem, com muita inteligência e economia de espaço. Mas
depois de a tia Cyrilla ter colocado, como toque de acabamento, um
ramo de perpétuas cor-de-rosa e brancas, e fechado as tampas bojudas
com mão firme, Lucy Rose ficou junto do cesto e murmurou
vingativamente:
       — Um dia, vou queimar este cesto – quando tiver coragem
suficiente. Então, será o fim e deixará de o levar consigo para todo o
lado, como uma velha vendedora da praça.
      O tio Leopold entrou naquele preciso momento, meneando a
cabeça com ar de dúvida. Não iria passar o Natal com Edward e
Geraldine, e talvez a perspectiva de cozinhar e de comer o seu jantar
de Natal sozinho o deixasse pessimista.
     — Desconfio que vocês não vão conseguir chegar a Pembroke
amanhã — disse com sabedoria. — Vem aí uma tempestade.
      A tia Cyrilla não se preocupou com isso. Acreditava que
assuntos deste tipo estavam predeterminados, e dormiu
tranquilamente. Mas Lucy Rose levantou-se três vezes durante a
noite para ver se havia temporal e, quando adormeceu, teve pesadelos
horríveis com lutas no meio de tempestades de neve ofuscante que


58
arrastavam para longe o cesto da tia Cyrilla.
      De manhã cedo, não estava a nevar e o tio Leopold levou a tia
Cyrilla, Lucy Rose e o cesto até à estação, que ficava a quatro
quilómetros de distância. Quando chegaram lá, o ar estava carregado                              Sei um ninho
de flocos flutuantes. O chefe da estação vendeu os bilhetes com um
ar mal-disposto.                                                                                                                     À Fernanda.
                                                                                                                                     Ao Monteiro.
     — Se vier mais neve, os comboios talvez atrapalhem o Natal
— disse.                                                                       Como no poema de Torga, sei um ninho. A tarde, ontem,
       — Tem nevado tanto que o tráfico já está a ficar bloqueado, e    estava agreste e um vento frio, antigo, soltava as últimas folhas
é difícil retirar a neve para restabelecer a circulação.                douradas dos plátanos da avenida. Foi então que uma mulher que
      A tia Cyrilla disse que, se estivesse previsto que o comboio      usava a minha capa vermelha me olhou do lado de lá da montra, onde
chegasse a tempo do Natal a Pembroke, chegaria; abriu o cesto e deu     nascera aquele milagre de interpretação e poesia sobre o tema
ao chefe da estação e a três rapazinhos uma maçã a cada um.             natalício.

      — Isto é só o começo — suspirou fundo Lucy Rose.                        De um lado, à direita surgia um tronco antigo, carcomido, que
                                                                        contava a história de muitos dias que já foram e os sinais das estações
      Quando o comboio delas chegou, a tia Cyrilla instalou-se num
                                                                        do ano.
banco, colocou o cesto no outro e olhou sorridente à sua volta para
os companheiros de viagem.                                                     Do outro, via-se um ramo de espinheiro, onde um ninho de
                                                                        cotovia espreitava. Dentro do ninho, um ovo. Branco, pequenino,
      Havia poucos – uma mulher delicada ao fundo da carruagem,
                                                                        redondo, assinalando a esperança que em cada Natal renasce, a vida
com um bebé e mais quatro crianças, uma jovem no meio do corredor
                                                                        que se renova quer acreditemos ou não nos deuses, quer aceitemos ou
com um rosto pálido e bonito, um rapaz, três bancos à frente, vestido
                                                                        não que todos os anos há uma criança que espera nascer no coração
com um uniforme caqui, uma senhora, na frente dele, muito elegante
                                                                        cansado do mundo. Às vezes, com os nossos olhos primeiros, o nosso
num casaco de pele de foca, e um homem jovem, magro e de óculos,
                                                                        sorriso antigo e à tona; às vezes, com o rosto de Emanuel, o da
do lado oposto.
                                                                        Galileia. Apenas.
       — Um sacerdote — reflectiu a tia Cyrilla, começando a
                                                                              Tanto faz, porque ele nasce na mesma, quer o aceitemos no
classificar — que cuida melhor da alma dos outros do que do seu
                                                                        espaço macio dos nossos sonhos, quer lhe fechemos as portas e o

                                                                  59                                                                        165
deixemos lá fora, ao relento da indiferença e do cepticismo mais          próprio corpo; e aquela mulher de casaco de pele de foca está triste e
duro.                                                                     zangada com alguma coisa – talvez se tenha levantado demasiado
       Mas ali, na montra, entre um tronco velho e o ninho frágil,        cedo para apanhar o comboio; e aquele jovem companheiro deve ser
quem dormia era uma criança amassada em barro de Estremoz,                um dos que saíram há pouco tempo do hospital. Os filhos daquela
alongada, não em palhinhas no meio de animais ingénuos como conta         mulher é como se não tivessem comido uma refeição decente desde
a tradição, mas, num banco de jardim. Assim, talvez por casualidade,      que nasceram; e se aquela rapariga do outro lado tem mãe, gostaria de
pelo olhar sensível da artista que montara aquele presépio tão            saber o que significa deixar a filha sair de casa, com este tempo, com
original, ela resumia violentamente a história de todas as crianças sem   uma roupa daquelas.
lar, sem árvores, crescendo, sem datas para assinalar, sem milagres             Lucy Rose apenas se perguntava desconfortavelmente o que
que lhe adocem os dias ou os projectos.                                   pensariam os outros do cesto da tia Cyrilla.
       Ao relento, num banco de jardim, dorme uma criança que não                Contavam chegar a Pembroke naquela noite, mas à medida que
vai ter Natal.                                                            o dia passava, a tempestade cada vez tornava-se mais violenta. O
      Tem as mãos frias e abertas.                                        comboio parou duas vezes para que os ajudantes retirassem a neve. À
                                                                          terceira vez não conseguiu continuar. Estava escuro quando o
      Cresce, emergindo da flor do espinheiro e olhando a doçura do
                                                                          condutor deu uma volta pelo comboio, respondendo bruscamente às
ninho, que sempre lhe estará interdita. É tão legível o que descubro
                                                                          perguntas dos passageiros ansiosos.
nos símbolos que me detenho, comovida.
                                                                                 — Uma boa vigília de Natal — não, é impossível continuar ou
      A legibilidade dos dias é, afinal, acessível. Basta estar atento.
                                                                          voltar — o caminho está bloqueado durante milhas — o que é isso
Basta descobrir e percorrer, com disponibilidade, o outro lado das
                                                                          minha senhora? — não, não existe nenhuma estação perto — só
cabalas.
                                                                          existem bosque ao longo do caminho. Ficamos aqui esta noite. Estas
       Embrulhada na tarde e no vento, penso que a dona da livraria,
                                                                          últimas tempestades têm causado muitos prejuízos em todo o lado.
sempre tão discreta, quase silenciosa, que comunica com os clientes
                                                                                — Oh, meu Deus — suspirou Lucy Rose.
com um sorriso triste mais do que com palavras, escreveu um poema
sem preço, nos deu uma prenda linda sem papel de embrulho nem                   A tia Cyrilla olhou para o cesto com satisfação.
fita de enfeite, pelo qual nunca lhe pagarão direitos de autor.                 — De qualquer forma, não morreremos de fome — disse.
      Só espero que, porque é Natal, e nestes dias o impossível pode            A rapariga bonita e pálida parecia indiferente. A senhora com o


166                                                                       60
casaco de pele de foca parecia mais zangada do que nunca. O rapaz de     acontecer, do ovo nasça uma ave branca. E que a ave fique esvoaçando
caqui disse «só a minha sorte» e duas das crianças começaram a           na livraria, interrompa os olhos distraídos de quem passa, obrigando-
chorar. A tia Cyrilla tirou do cesto algumas maçãs e barras de           -os a entrar.
caramelos às riscas, e deu-lhos. Pôs o mais velho no seu colo amplo, e         Para comprar muitos, muitos livros.
rapidamente os tinha todos à sua volta, rindo satisfeitos.                     Para folhearem os postais e descobrirem as ínfimas coisas belas
      Os passageiros restantes afastaram-se para um canto e              que há na livraria do meu bairro.
começaram a falar casualmente. O rapaz de caqui disse que, afinal de           Para ouvirem a música boa que lá está, sempre presente.
contas, era pouca sorte não chegar a casa para o Natal.
                                                                               Para sorrirem e se aquecerem por dentro, porque a vida é fria, a
       — Fui, há três meses, afastado do serviço militar na África do    rua é árida e a fraternidade é uma palavra velha que se deve acender,
Sul por invalidez, e desde então, tenho estado no hospital. Cheguei a    sobretudo agora, no Natal.
Halifax há três dias e telegrafei aos meus velhos amigos a dizer que
                                                                                                                               Maria Rosa Colaço
jantaria com eles no dia de Natal e que tivessem um perú de tamanho                                                           Não quero ser grande
extra, porque não comi nenhum o ano passado. Vão ficar                                                                  Lisboa, Ed. Escritor, 1996

extremamente desapontados.
      O rapaz também parecia desapontado. Uma das mangas do
uniforme caqui estava vazia. A tia Cyrilla passou-lhe uma maçã.
       — Nós íamos todos passar o Natal a casa do avô — disse, com
tristeza, o filho mais velho da jovem mãe. — Nunca lá estivemos
antes. É terrível!
     Parecia que queria chorar, mas pensou melhor no assunto e
encheu a boca com mais uma dentada de rebuçado.
      — Será que vai haver Pai Natal no comboio? — perguntou a
irmã pequena a chorar. — O Jack diz que não.
       — Tenho a certeza de que o Pai Natal vai descobrir-te —
disse a tia Cyrilla de uma forma tranquilizadora.


                                                                   61                                                                         167
A jovem bonita e pálida aproximou-se e tirou o bebé à mãe
cansada.
        — Que coisinha fofa — disse com meiguice.
      — Também vais a casa passar o Natal? — perguntou a tia
Cyrilla.
        A rapariga meneou a cabeça.
      — Não tenho casa. Neste momento, não passo de uma
empregada de balcão sem trabalho, e vou até Pembroke para ver se
arranjo alguma coisa.
        A tia Cyrilla dirigiu-se ao cesto e tirou a caixa de caramelos de
nata.
      — Penso que também devemos divertir-nos. Vamos comer
tudo e passar o tempo da melhor maneira possível. Talvez cheguemos
a Pembroke de manhã.
      O pequeno grupo começou a ficar cada vez mais animado à
medida que petiscavam, e até a rapariga pálida ficou mais alegre. A
jovem mãe contou a sua história à tia Cyrilla. Tinha sido afastada da
família há muito tempo, porque não estavam de acordo com o seu
casamento. O marido tinha morrido no Verão passado e tinha-a
deixado em circunstâncias muito precárias.
       — O meu pai escreveu-me a semana passada e pediu-me para
esquecer o passado e vir a casa passar o Natal. Fiquei tão contente. E
as crianças não pensavam noutra coisa. É horrível não conseguir lá
chegar. Tenho de voltar para o emprego na manhã a seguir ao Natal.
        O rapaz de caqui aproximou-se de novo e partilhou do


62
caramelo. Contou histórias divertidas sobre as operações militares na
África do Sul. O sacerdote também se aproximou e ficou a ouvir, e
até a senhora do casaco de pele de foca olhou para trás.
      Mais tarde, as crianças adormeceram, uma no colo da tia                A esperança brilha como um diamante
Cyrilla, outra no de Lucy Rose e duas no banco do comboio. A tia
Cyrilla e a rapariga pálida ajudaram a mãe a fazer camas para eles. O                                            A menina escreve a giz no passeio:
                                                                                                                    Aqui é o inferno e lá o paraíso.
sacerdote cedeu o sobretudo e a senhora do casaco de pele de foca
aproximou-se com um xaile.                                                    — Já não se vê a Sr.ª Bravoure ir comprar o jornal.
      — Isto serve para o bebé — disse.                                      — A Sr.ª Bravoure tem um ar triste. Compreende-se. Depois
      — Temos de arranjar um Pai Natal para estes jovens — disse        do que passou nestes seis meses.
o rapaz de caqui. — Vamos pendurar as meias deles na parede e                 — A Sr.ª Bravoure não anda bem. Já não liga ao jardim.
enchê-las o melhor que pudermos. Não tenho mais nada, a não ser                Junto da casa tapada pela sebe, o coro da vizinhança aumenta o
umas moedas e um canivete.                                              seu murmúrio de amizade. Mas a Sr.ª Bravoure não tem cura. Para
     — Eu também só tenho dinheiro — disse a senhora do casaco          falar a verdade: não se preocupa com nada. Juntamente com o seu
de pele de foca. A tia Cyrilla olhou para a jovem mãe. Tinha            velho, com o seu companheiro, enterrou o prazer de existir no dia-a-
adormecido com a cabeça encostada às costas do banco.                   dia: a primeira chávena de café tomada lado a lado na varanda com a
      — Tenho ali um cesto — disse a tia Cyrilla com firmeza — e        janela escancarada sobre o jardim, o jornal longamente comentado na
tenho lá alguns presentes que estavam destinados aos filhos do meu      cozinha iluminada por um ramo de chagas cor-de-laranja, as compras
sobrinho. Vou dá-los a estas crianças. Quanto ao dinheiro, penso que    feitas em amena cavaqueira na mercearia, os serviços prestados a este
a mãe está a precisar. Contou-me a sua história e é digna de pena.      e àquele, a expedição mensal à cidade próxima para se encontrarem
Vamos fazer uma colecta entre nós para um presente de Natal.            com a neta recém-casada, o cheiro dos crepes à quarta-feira – um
                                                                        hábito herdado das merendas de antigamente, quando o pequeno
       A ideia foi bem acolhida. O rapaz de caqui passou o boné e
                                                                        (que tem agora cinquenta anos) partilhava da vida deles – a missa das
todos contribuíram. A senhora de casaco de pele de foca colocou lá
                                                                        seis da tarde na igreja matriz, o telejornal…
uma nota amarrotada. Quando a tia Cyrilla a endireitou, viu que se
tratava de uma nota de vinte dólares.                                         Já não tem gosto em nada. Ela, que atravessou com tanta
                                                                        valentia a doença prolongada de Paulo, o seu esposo – “Ainda tem

                                                                  63                                                                           169
mais três meses, no máximo” prevenira o médico do hospital. À força            Entretanto, Lucy Rose tinha trazido o cesto. Sorriu para a tia
de cuidados, ela prolongou-os por seis meses – ela, que lhe deu a mão   Cyrilla, enquanto o arrastava até ao corredor, e a tia Cyrilla devolveu-
até ao último instante com um sorriso corajoso, não para lhe mentir,    -lhe o sorriso. Lucy Rose nunca tinha tocado naquele cesto por
mas para ele se não sentir demasiado culpado por lhe tornar os dias     iniciativa própria.
pesados, por a deixar pelo caminho. E eis que agora se vai abaixo.            O barco de Ray foi para Jack, a boneca de Daisy para a irmã
       A Sr.ª Bravoure já nem se reconhece e preocupa-se em saber       mais velha, os lenços de mão em renda dos gémeos para as duas
onde estará a energia, a sua diligência por todos conhecida. Um         meninas mais pequenas e o gorro para o bebé. Depois, as meias foram
grande buraco negro. De noite, ela sonha: as suas mãos escorregam       enchidas com dónutes e biscoitos de geleia, e o dinheiro foi colocado
na parede a que tenta agarrar-se para subir. Não há nada a fazer. Nem   dentro de um envelope e preso com um alfinete ao casaco da jovem
as visitas calorosas, nem as cartas de encorajamento, nem as atenções   mãe.
com que uns e outros a rodeavam. Ouve as palavras deles, sim, mas              — Aquele bebé é tão fofinho — disse a senhora do casaco de
como um murmúrio longínquo. Mordisca com a ponta dos lábios a           pele de foca. Faz-me lembrar o meu filhinho. Morreu há dezoito
tarte ainda quente, lê cada vez com mais dificuldade os postais         natais.
enviados de Itália pelo filho. Tudo fica de fora sem a atingir.               A tia Cyrilla pôs a mão em cima da luva de pelica da senhora.
      “Desta vez desço um degrau da escada.”                                  — O meu também — disse.
      Nunca esqueceu a representação da vida, observada no museu               E depois, as duas mulheres sorriram com ternura uma para a
das artes populares por altura de uma visita com o marido (Há           outra. Mais tarde, descansaram um pouco das tarefas e todos
quanto tempo isso foi?)                                                 comeram o que a tia Cyrilla chama um «lanche» de sanduíches e bolo
      — Sr.ª Bravoure, porque não se anima? Não devia ficar assim       inglês. O rapaz de caqui disse que nunca tinha provado nada nem de
sozinha. Venha tomar o café a minha casa, é descafeinado.               longe tão bom, desde que saíra de casa.
      — Muito obrigada, D.ª Lara, agora não. Ainda não acabei de              — Na África do Sul não nos davam bolo inglês — disse.
separar os fatos do meu Paulo.                                                Quando amanheceu, a tempestade ainda era intensa. As
       A Sr.ª Bravoure sabe muito bem que ainda não é hoje que vai      crianças acordaram e ficaram loucas de alegria com as meias. A jovem
realizar aquela tarefa superior às suas forças. Vai ficar sentada na    mãe encontrou o envelope e tentou exprimir um agradecimento, mas
penumbra e esperar, nem ela sabe bem o quê, e, com certeza, amanhã      não conseguiu; e ninguém sabia o que dizer, nem o que fazer,
será igual.

170                                                                     64
quando, felizmente, o condutor veio fazer uma digressão para lhes             Quem estará a tocar à campainha a esta hora?
dizer que talvez tivessem de se conformar com a ideia de passar o              “Depois das onze horas, não abra a porta a ninguém”,
Natal no comboio.                                                       recomenda-lhe o filho em todas as cartas. “Há por aí pessoas mal-
       — Isto é grave — disse o rapaz de caqui — considerando que       -intencionadas”. Mas a campainha continua a tocar e a Sr.ª Bravoure
não temos provisões. Por mim não há problema, estou habituado a         não resiste. Pega no casaco à entrada, acende a luz do pátio e corre
rações de combate, ou até a nada. Mas estas crianças vão ter um         até à grade de madeira que já devia ter sido pintada. Uma silhueta um
apetite enorme.                                                         pouco volumosa… uma mulher.
      Então, a Tia Cyrilla mostrou-se à altura para a ocasião.                — Maria!
       — Tenho aqui algumas rações de emergência — anunciou. —                 Caíram nos braços uma da outra. Ao apertar Maria contra si, a
Há comida suficiente para todos e vamos ter o nosso jantar de Natal,    Sr.ª Bravoure sentiu-lhe o ventre redondo de grávida.
embora frio. Primeiro, o pequeno-almoço. Há uma sanduíche para               — Maria! Bons olhos te vejam! Não contava contigo a esta
cada um e só temos de completar com o que sobrou de biscoitos e         hora… Vá, entra!
dónutes, e guardar o resto para uma refeição verdadeiramente boa ao           A Sr.ª Bravoure retomou a sua natural vivacidade para tirar o
jantar. A única coisa que não tenho é pão.                              casaco da jovem, aquecer água, acender as luzes.
      — Tenho uma caixa de bolachas de água e sal — disse a jovem             — Não tens frio? Posso aumentar o aquecimento.
mãe, ansiosa.
                                                                              Segura as perguntas impacientes.
      Ninguém na carruagem iria esquecer aquele Natal. Para
                                                                              — Comes uma sopinha de ervilhas?
começar, depois do pequeno-almoço, tiveram um concerto. O rapaz
de caqui deu dois recitais, cantou três canções e fez um solo de              — Dá-me licença que me deite um bocadinho?
assobio. Lucy Rose deu dois recitais e o sacerdote fez uma leitura de         — Estás em tua casa, Maria.
histórias cómicas. A pálida empregada de balcão cantou duas canções.          Paulo não suportava que nenhuma criança ou Maria se deitasse
Todos concordaram que o solo de assobio do rapaz de caqui tinha         no canapé da sala de visitas.
sido o melhor número, e a tia Cyrilla deu-lhe um ramo de perpétuas            — Isso não se faz — protestava ele.
como prémio de mérito.
                                                                              — Mas, Paulo, não faz mal a ninguém e bem vês que ela está
      Depois, o maquinista veio com notícias mais animadoras,           cansada!
dizendo que a tempestade estava quase a passar e que pensava que o

                                                                  65                                                                     171
A Sr.ª Bravoure dirigiu-se mentalmente ao ausente, como faz       caminho ficaria livre dentro de algumas horas.
cada vez com mais frequência. Uma recordação de infância: a avó —              — Se conseguirmos chegar até à próxima estação, ficaremos
que resmungava sozinha na cozinha. “Tenho de estar atenta. Vou          todos bem — disse. — O ramal une-se ali à linha principal e os
acabar por ficar meio maluca.”                                          trilhos estarão limpos.
       Deitada, Maria recompõe-se. Terá sido pela sopa com que se             À tardinha, jantaram. Os ajudantes do comboio foram
deleitava durante os meses em que partilhara a vida do casal?           convidados a participar. O sacerdote trinchou a galinha com o
      O director da escola tinha anunciado, pouco à vontade:            canivete do homem do vagão do travão, e o rapaz de caqui cortou a
      — O Sr. e a Sr.ª Bravoure podiam prestar-me um serviço?           língua e as tortas, enquanto a senhora do casaco de pele de foca
Acolher por seis meses uma professora provisória, assegurar-lhe         misturava o vinagre de framboesa com a devida proporção de água.
estadia e alimentação. Como sabem, não há hotel na aldeia e eu ficava   Pedaços de papel serviram de pratos. O comboio forneceu dois
tranquilo se ela ficasse em vossa casa. É muito jovem.                  copos, e foi encontrada uma lata de meio litro de água e dada às
                                                                        crianças.
      Disseram sim sem hesitar: o quarto do filho continuava vazio.
                                                                               Todos declararam que nunca tinham desfrutado tanto de uma
      Assim surgira Maria: as suas saias floridas, o seu entusiasmo,
                                                                        refeição em toda a sua vida. Foi, de facto, uma refeição muito
as buzinadelas, as pilhas de cadernos para corrigir.
                                                                        divertida, e os cozinhados da tia Cyrilla nunca foram tão apreciados;
      — Sr. Paulo, o senhor, que tem uma boa caligrafia, será que
                                                                        de facto, só sobraram os ossos da galinha e os frascos das compotas.
podia dar uma olhadela a estes ditados? Ainda tenho uma aula para
                                                                        Não puderam comer as compotas, porque não tinham colheres, por
acabar de preparar para amanhã.
                                                                        isso, a tia Cyrilla deu-as à jovem mãe.
      Enquanto preparava a refeição da noite, a Sr.ª Bravoure
                                                                              Quando tudo terminou, foi feito um voto sincero de
regozijava-se ao ver Paulo pôr os óculos, munir-se de uma caneta Bic
                                                                        agradecimento à tia Cyrilla e ao seu cesto. A senhora do casaco de
vermelha e consultar o dicionário. Ela sorria quando o ouvia
                                                                        pele de foca quis saber como é que ela fazia o bolo inglês e o rapaz de
indignar-se:
                                                                        caqui pediu-lhe a receita dos biscoitos de geleia. E quando, duas
     — Não é possível! Eles estão a fazer de propósito! No meu          horas mais tarde, o maquinista veio anunciar que o limpa-neve tinha
tempo…                                                                  chegado e que, em breve, retomariam o caminho, todos se
       — Ainda têm de aprender, Sr. Paulo. É para isso que vêm à        interrogaram se só teriam passado menos de vinte e quatro horas
escola. E depois gostam mais de ver a telenovela do que estudar a       desde que se conheceram.


172                                                                     66
— Sinto que estive com a senhora no campo de batalha toda a            gramática.
minha vida — disse o rapaz de caqui.                                              Seis meses, tinha dito o director. Os Bravoure desejavam que a
      Saíram todos na primeira estação. A jovem mãe e os filhos             substituição se prolongasse, mas o professor, já curado, retomara o
tiveram de apanhar o comboio seguinte de volta para casa. O                 seu posto e Maria, sem trabalho, tinha aceite um compromisso em
sacerdote ficou ali, o rapaz de caqui e a senhora do casaco de pele de      África.
foca mudaram de comboio. A senhora do casaco de pele de foca deu                   Tinham-na acompanhado à estação. Riam, mas nenhum dos
um cumprimento de mão à tia Cyrilla. Não voltara a mostrar-se triste        três se sentia à vontade.
nem zangada.                                                                       — Escrevo-lhes já amanhã, prometo! — gritava Maria pela
      — Foi o Natal mais agradável que alguma vez passei — disse            janela, enquanto o comboio ia ganhando velocidade.
com convicção. — Nunca irei esquecer-me desse seu cesto                            Cumprira o que prometera durante um ano. Envelopes aéreos
maravilhoso. A empregadinha de balcão vai para minha casa. Prometi-         chegaram à caixa do correio e mantiveram-nos ao corrente das
-lhe um lugar na loja do meu marido.                                        actividades de Maria. De facto, ela quase não tinha outra família a
      Quando a tia Cyrilla e Lucy Rose chegaram a Pembroke, não             não ser eles, visto que, depois da morte da mãe, o pai se afastara
havia ninguém à espera delas, pois todos haviam desistido. A casa de        lentamente dela para se dedicar aos filhos pequenos nascidos de um
Edward não era muito longe da estação e a tia Cyrilla decidiu ir a pé.      segundo casamento.
      — Eu levo o cesto — disse Lucy Rose.                                        Depois, o correio começou a rarear. Uma breve mensagem pelo
     A tia Cyrilla acedeu com um sorriso. Lucy Rose sorriu                  Natal “Tenho-vos presentes no meu pensamento”. Talvez tenha uma
também.                                                                     paixão, sugerira Paulo, com os olhos postos no mapa detalhado da
      — É um velho cesto abençoado — disse a última — e adoro-              região onde Maria exercia os seus talentos.
-o. Por favor, esqueça todas as patetices que sempre disse sobre ele,             — Está sempre ao fogão! — exclamou Maria, ao vê-la na
tia Cyrilla.                                                                cozinha. — Tinham-me dito numa carta que iam seguindo os locais
                                                      L. M. Montgomery      por onde eu andava, mas eu não…
                                                                                  A Sr.ª Bravoure lembra-se daquela rapariga, de cabeleira loura a
                                                     Ian Whybrow (org.)     esvoaçar quando corria “Vou chegar atrasada! Até ao meio-dia…” e o
                                                  O grande livro do Natal
                                              Porto, Edições Asa, 2004      portão já estava a bater.


                                                                      67                                                                      173
Estes jovens são incapazes de acordar a horas – dizia Paulo
mal-humorado.
      — É porque esteve a trabalhar até à meia-noite com os
preparativos para o dia da mãe, Paulo.
      A Sr.ª Bravoure pergunta:
      — Quando é que a criança vai nascer?
      — No princípio de Janeiro. Estou com medo…
      É a mesma Maria ousada e sem medo que disse aquilo? A Sr.ª
Bravoure observa o rosto marcado pelas manchas da gravidez sob o
tufo de cabelos macios, presos por um elástico.
      — De que tens medo, Maria?
       E é o dilúvio, as lágrimas tanto tempo contidas. Vem tudo
arrastado pela corrente: em África, o enfermeiro admirado, amado,
desaparecido, o período atrasado, a suspeita de gravidez, o diálogo
com esta criança que já mexe e que nada pedira, a anemia e o regresso
forçado ao país, a desorientação e, de repente, a esperança “O Sr. e a
Sr.ª Paulo”. Na estação, o empregado reconhecera-a e informara-a da
morte do Sr. Bravoure. Demasiado tarde para recuar caminho.
      — Está-se bem em sua casa.
      A Sr.ª Bravoure olha para a sala de visitas aquecida pelas três
lâmpadas. Amanhã tenho de substituir o ramo das flores secas. Não,
vou ao mercado comprar ásteres.
      — Queres crepes para a noite?
       — Como é que adivinhou? — Maria admira-se. — A criança
vai sentir o cheirinho. É um rapaz. A ecografia é nítida. Posso voltar

174
a ocupar o meu quarto?
                                  *
      — A Sr.ª Bravoure recuperou o ânimo desde que a filha —
bem, é como se fosse — regressou. Já voltou ao que era.
     — Eu reparei. Maria está quase no fim do tempo, não?
     — Estou a tricotar um casaquinho para o menino.
                                  *
     Murmúrios. Vozes conhecidas. Fadas à volta de um berço.
      Na noite de Natal, quando começava com os preparativos para
a ceia a duas, Maria perdeu as águas. A Senhora Bravoure
acompanhou-a na ambulância até à maternidade da cidade.
       — O seu companheiro não está presente para a acompanhar na
sala de parto? — perguntou a parteira de serviço.
      — É a minha avó que vai ficar ao meu lado — soprou Maria
entre duas contracções.
     À meia-noite, a Sr.ª Bravoure, extenuada, tem nos braços um
minúsculo Paulo aos berros.
     Natal. Nasceu-nos um menino.
                                                  Colette Nys-Mazure
                                                    Contes d’Esperance
                                       Paris, Desclée de Brouwer, 1998




                                                                  175
O Tomás, que não acreditava no
                  Pai Natal                                                              O caminho para Belém

       Era uma vez um menino que não acreditava no Pai Natal e                 Joaquim e Cristina têm uma avó bastante idosa e que já vê
fazia troça de todos os outros meninos da escola, e dos irmãos e dos    muito pouco. Em contrapartida, sabe dar ordens como um general e
primos, e de qualquer pessoa que dissesse que o Pai Natal existia       contar histórias como um marinheiro viajado. Não admira, pois o
mesmo e vivia no Pólo Norte.                                            avô, já lá vão mais de cem anos, andara no mar e trazia para casa
                                                                        barcos carregadinhos de histórias. Até se diz que certa vez chegou a
      — Isso são histórias para bebés — dizia o Tomás.
                                                                        ter a bordo Napoleão, o imperador dos franceses.
      E quando via alguém a escrever uma carta ao Pai Natal, tentava
                                                                               É na estação do ano em que os dias começam a ficar mais
agarrar o papel e, se conseguia, rasgava-o mesmo! E dizia que não era
                                                                        pequenos e em que tudo, tanto a Natureza como os homens, se
nada um dos anões do Pai Natal que vinha buscá-la.
                                                                        prepara para o Natal, que a avó melhor conta histórias. Mas melhor
       O Tomás ia para a escola todos os dias de autocarro. A mãe
                                                                        ainda nos domingos do Advento. É sempre divertido estar em casa
levava-o até à paragem e, se fosse preciso, ele ficava lá sozinho um
                                                                        dela, mas nunca como no primeiro domingo do Advento.
bocadinho à espera que o autocarro passasse. Naquele dia foi assim
                                                                              Cristina e Joaquim vão visitá-la por essa altura e os três bebem
que fez. Mas estava tão distraído que nem reparou que o autocarro
                                                                        chocolate quente e provam as primeiras bolachas de noz. Mal têm
era encarnado e não cor-de-laranja. E quando ia mostrar o «passe» ao
                                                                        acabado de comer e já a avó está a dar ordens. É o que faz todos os
condutor, deu um salto de susto:
                                                                        anos no primeiro domingo do Advento, e os dois irmãos já sabem há
     — O que é que faz uma rena de nariz encarnado a conduzir
                                                                        muito o que aí vem:
um autocarro!? — gritou ele.
                                                                              — As bolachas estavam boas, meninos? Então, agora vamos ao
    A rena é que não ficou nada incomodada com a má-criação do
                                                                        trabalho!
Tomás e respondeu a rir:
                                                                              — Mas, avó — diz Joaquim — isto não é um trabalho, é um
      — Sempre guiei este autocarro!
                                                                        prazer.
      — Mas para onde é que ele vai? — quis saber o Tomás, já
                                                                              Joaquim foi incumbido de ir buscar uns caixotes ao sótão.

                                                                  71                                                                      177
— Às suas ordens, senhor General! — diz Joaquim                    muito aflito.
arregaçando as mangas, pois sabe que vai transpirar. Os caixotes estão          — Para o Pólo Norte, claro. Temos de que levar pessoas de
cheios de maravilhosas figuras talhadas muito antigas em madeira.        todo o mundo para ajudar a tratar dos presentes para o Natal, e por
Todos os anos, no primeiro domingo do Advento, começa a fazer-se,        isso vimos buscá-las a casa, porque há muito poucos aviões para lá... e
em casa de Anai, um grande presépio para o Natal. Nunca é cedo           são muito caros.
demais para começar, porque é um trabalho diversificado. Tem de                — Mas o Pai Natal não existe e o Pólo Norte também não! —
construir-se o cenário, o prado dos pastores, a cidade de Belém com a    exclamou o Tomás, furioso, a bater com força com as mãos no varão
hospedaria, os caminhos e as estradas, jardins, um lago, campos e        onde as pessoas se seguram para não cair.
montanhas e bosques. E é naquela pequena simulação de mundo que
                                                                               Aí ouviu-se uma gargalhada enorme, que encheu o autocarro
se colocam as figuras coloridas de madeira: cento e catorze figuras.
                                                                         todo. O Tomás virou-se para trás e viu que os lugares estavam todos
Anjos, pastores, caminhantes, animais nos prados, no estábulo e em
                                                                         cheios de pessoas, de duendes e ursos, e de anões e de rapazes e
liberdade, os reis do Oriente com o seu séquito, soldados romanos
                                                                         raparigas como ele. Iam todos para o Pólo Norte ajudar o Pai Natal,
que, ao tempo do nascimento de Jesus ocupavam a Terra Santa,
                                                                         e achavam que a frase do Tomás era a mais idiota que já tinham
vagabundos que iam de viagem por aquela altura, e muitos mais.
                                                                         ouvido:
Afinal Belém também tinha habitantes. Em resumo, grandes e
pequenos, novos e velhos, todos têm de lá estar. E não pode faltar a           — Ah, és daqueles que não acreditam em nada que não vejam
Sagrada Família, claro. É isto tudo o que está nos caixotes que          — disse um duende, de orelhas em bico e chapéu verde, enfiado
Joaquim tem de ir buscar ao sótão. Mas também há ordens para a           quase até aos olhos.
irmã:                                                                          — Também não precisas de esperar muito para acreditar,
     — Tu, Cristina, vais à cozinha buscar o cesto das caixas de         porque daqui a duas horas estamos lá — acrescentou um anão, de
musgo, as pedrinhas, os ramos, a areia.                                  picareta pousada no banco do lado.

      Todos os anos, os irmãos têm de recolher tudo isto para o                O Tomás pensou: «Desde esta história dos atentados, não
cenário bíblico. Também há raízes e ramos com formas originais.          deviam proibir de entrar nos transportes públicos as pessoas que
Enquanto Cristina e a avó separam e preparam as coisas para erguer o     trazem picaretas de pontas afiadas?!»
cenário, Joaquim desce as escadas do sótão com passos pesados.                 Mas calou-se e não disse nada, porque se havia coisa que
Quando acabou de trazer tudo, empurram a grande mesa de para um          detestava, era que fizessem troça dele. Fazer troça dos outros, como


178                                                                      72
fizera com todos os que acreditavam no Pai Natal, era divertido, mas    canto livre da sala. A mesa é do tempo do trisavô deles, por isso é que
ser gozado era completamente diferente...                               é tão grande. Hoje em dia, já quase não há mesas como aquela. Vai
      Sentou-se no primeiro banco que viu vazio. Ufa! Ainda bem         servir de palco ao grande presépio mudo mas, antes de começarem,
que não tinha uma daquelas criaturas sentadas ao lado a seringar-lhe    ainda têm de deitar mais chocolate na chávena da avó. Se fosse ela a
o juízo.                                                                deitar, podia vertê-lo em cima da toalha branca, porque já vê mal.
                                                                        Talvez tenha sido por isso que se habituou a dar ordens secas e
      Quando um urso polar pequenino se virou para trás e lhe
                                                                        curtas para que tudo decorra como ela imaginou. Como o presépio
deitou a língua de fora, o Tomás ainda explodiu:
                                                                        tem tantas peças, haveria muita confusão. Cada ano, ele tem de ficar
      — Quando a minha mãe disser à polícia que desapareci, vocês
                                                                        um pouco diferente do dos anos anteriores e por isso os irmãos têm
vão ver!!!
                                                                        de prestar muita atenção ao que a avó idealizou para aquele ano. Ela
      Mas aí a gargalhada ainda foi maior:                              dá as indicações e as crianças executam-nas:
     — A polícia não anda atrás de meninos que estão à guarda do             — Primeiro o cenário, meninos: um monte no meio, atrás, o
Pai Natal! — disseram todos em coro.                                    campo dos pastores; à frente, a cidade de Belém com as casas e as
      E o Tomás achou mesmo melhor não voltar a abrir a boca.           ruas…
      Foi olhando pela janela e percebeu que o autocarro já não tinha          E devem colocar-se logo as primeiras figuras, claro, pois um
as rodas na estrada, mas voava pelos céus.                              cenário sem pessoas mais pareceria um cenário lunar. Mas, no
      O dia tinha-se transformado em noite e o Tomás, que sabia         primeiro domingo do Advento, apenas podem colocar-se as
alguma coisa de geografia, percebeu que estavam a ir para muito         personagens mais afastadas, as que vinham de longe para Belém. A
longe. Lá ao longe via neve, e estrelas... quando na terra dele ainda   avó conhece cada uma das figuras do tempo em que ainda podia vê-
eram hora de estar na escola.                                           -las. Sabe até a história da vida de cada uma delas e dentro em pouco
     — Pólo Norte, última paragem! — ouviu-se a voz da rena-            chegará o momento de ela se mostrar uma grande contadora de
-motorista a gritar.                                                    histórias. A avó sempre imaginava tudo com uma tal precisão, que, na
                                                                        sua cabeça, as coisas imaginadas ganhavam vida. Sentada na sua
      Toda a gente se levantou e começaram a empurrar-se uns aos
                                                                        cadeira com a chávena de chocolate à frente, escuta com atenção o
outros, tal era a pressa de sairem.
                                                                        que Joaquim e Cristina fazem. É como se visse com os ouvidos. Pelos
      O Tomás esperou que se fossem embora e ficou ali sem saber o
                                                                        ruídos que ouve, a avó sabe o que estão a fazer. E tem sempre alguma
que fazer. Talvez o autocarro voltasse agora para Portugal e passasse

                                                                  73                                                                       179
coisa a dizer-lhes:                                                     outra vez na rua dele... E assim ele voltava para casa, sem se assustar
      — Não estás a fazer Belém de uma só vez, pois não, Joaquim?       mais. Porque o Tomás estava assustado... E um bocadinho
                                                                        envergonhado.
      — Isso não vai assim tão depressa, senhora General —
responde ele. — Ainda só estão um par de casas e o estábulo da                Mas não teve sorte nenhuma, porque, quando levantou os
hospedaria no monte.                                                    olhos, viu o Pai Natal em pessoa, de pé, parado ao lado do banco
                                                                        onde estava sentado.
      — O estábulo é construído no fim de tudo — diz a avó. — O
mais cedo, a vinte e três de Dezembro. O presépio é a coroa e a coroa        — Não me vens ajudar a fazer presentes de Natal? —
vem sempre no fim. Estás com o campo dos pastores, Cristina?            perguntou o senhor de barba muito branca.
      — Sim — diz Cristina. — Estou a prepará-lo com areia e                  «Realmente, parece o Pai Natal», pensou o Tomás, «se o Pai
musgo e já comecei a fazer algumas estradas e caminhos para as          Natal existisse, claro». E porque o Tomás era teimoso e não gostava
primeiras pessoas que vão chegar.                                       de dar o braço a torcer (quem é que gosta?), ainda estendeu a mão
                                                                        para puxar a barba, não fosse isto tudo ser um teatro e o Pai Natal
      — Está bem — responde a senhora. — Faz os caminhos de
                                                                        um daqueles velhos que trabalham nos centros comerciais. Mas a
acesso com areia e pedrinhas.
                                                                        barba não saía, e o Tomás percebeu que nada daquilo era um sonho e
      — O que é isso de caminhos de acesso? Isto aqui são umas
                                                                        que estava mesmo no Pólo Norte. E que aquele era o Pai Natal de
autênticas auto-estradas! — exclama Joaquim.
                                                                        carne e osso.
       — Que tolice, meninos. Quando Jesus nasceu, ainda se viajava
                                                                              E como o Tomás era casmurro, mas não era burro, percebeu
de burro, de cavalo e de camelo, ou ia-se a pé. Mas auto-estrada? Que
                                                                        que se tinha enganado e que, já que estava ali (e ainda por cima não
tolice!
                                                                        tinha de ir à escola!), o melhor era divertir-se o mais que podia.
      — Não te preocupes, avozinha — consolou-a Cristina. — Eu          Durante muitos dias, ajudou a fazer e a embrulhar presentes para
ponho umas pedrinhas e uns bocadinhos de musgo na auto-estrada          todos os meninos do mundo, e ficou muito amigo de duendes, anões,
do Joaquim e ela fica logo a parecer um caminho a sério. Que figuras    ursos e renas, e de todas as outras criaturas estranhas que por ali
coloco em primeiro lugar? O velho de barba branca comprida guiado       apareciam.
por um rapaz de pele escura?
                                                                             Mas, uma noite, não conseguiu adormecer. Não queria dizer
      — Certo, esse mesmo — responde a avó, reclinando-se               nada a ninguém, mas estava triste porque sabia que não tinha
confortavelmente na cadeira para se lembrar da vida dessa figura do     mandado nenhuma carta ao Pai Natal e que, por isso, não ia receber

180                                                                     74
presentes.                                                             presépio.
       — E até é bem-feito, para ver se aprendo a não ser estúpido —         — Vou pô-la no início do caminho — explica Cristina para
pensou baixinho o Tomás, cheio de remorsos por ter rasgado as          Anai ficar a saber, e prossegue:
cartas dos irmãos mais pequenos e de ter troçado tanto dos amigos.           — No ano passado também teve de ficar neste sítio. Porque é
      Mas, na manhã seguinte, o Urso Polar Grande, que era tio dos     que todos os anos tenho de colocar o velho de barbas com o rapaz no
mais pequeninos, veio ter com ele às escondidas e deu-lhe um papel e   princípio do caminho?
um lápis:                                                                     As crianças levantam os olhos para a avó na expectativa.
      — Escreve depressa a tua carta, que eu depois meto-a no cesto    Quando ela se senta assim, quando se põe confortável, começa
das cartas que o Pai Natal ainda não abriu.                            imediatamente a contar uma história. Vai falar da vida do velho de
      O Tomás nem queria acreditar na sorte que tinha! E escreveu,     barbas. Cada ano conta a história de determinadas figuras do
escreveu e escreveu, porque sabia que era tudo verdade.                presépio. A maioria das pessoas conhece apenas as histórias de Maria
                                                                       e José e do Menino Jesus. Também sabem alguma coisa dos pastores
      Na noite de Natal, o Pai Natal levou-o com ele no trenó e
                                                                       e dos reis do Oriente. Mas de todos os outros que estavam em Belém
deixou-o cair pela chaminé com os presentes para a mãe, para o pai e
                                                                       – e havia mais gente – desses, ninguém sabe nada. Só a avó é que
para os irmãos. A mãe nem ligou aos presentes dela, só queria pegar
                                                                       imagina todo o tipo de histórias como se estivessem escritas na sua
no Tomás ao colo e enchê-lo de beijinhos. O Tomás dizia:
                                                                       mente. Já não consegue ler com os seus olhos cansados, por isso
     — Blhec, mãe, não me lambuze todo... — mas continuava
                                                                       inventa-as. E, enquanto Joaquim e Cristina vão trabalhando
muito encostadinho a ela.
                                                                       afincadamente no presépio, ela começa a falar do velho de barbas.
      A mãe fez-lhe um leite com chocolate quente e, quando ia
                                                                             — Ninguém sabe ao certo de onde vem, é difícil de dizer.
metê-lo na cama, disse:
                                                                       Provavelmente de um país do sul, pois a pele é escura, embora não
      — E já foste ver se o Pai Natal te deixou alguma coisa na tua    tão escura como a do rapazinho que o guia.
Meia de Natal? — (nesta casa punham meias ao fundo da cama, em
                                                                             — Porque é que ele tem de ser guiado? — pergunta Cristina.
lugar de sapatos na chaminé).
                                                                             — Espera! — sibila Joaquim, que tem muita curiosidade em
      Mas o Tomás abanou a cabeça e respondeu:
                                                                       saber a história e não gosta que a avó seja interrompida.
     — Acho que não tenho nada, porque o Pai Natal deixou-me cá
                                                                             — Isso mesmo — diz a avó. — Esperai, que já ides saber. O
com todos os presentes e eu não vi nenhum para mim.


                                                                 75                                                                    181
homem procurara durante toda a vida um enorme diamante azul, do                 Só que, quando olhou para a meia, ela estava cheia de presentes
qual ouvira falar quando era novo. Quem possuísse esse diamante,         até acima. O Tomás ficou tão comovido (que é quando os olhos
dizia-se, detinha o poder sobre o coração dos homens. Aquilo soava       picam de lágrimas e um nó bom aperta a garganta), que foi a correr
tão tentador, que se enraizou no homem de barbas e fê-lo andar toda      para a janela para ver se ainda ia a tempo de agradecer ao Pai Natal.
a vida de terra em terra. Procurou por todo o lado o enorme                     Lá longe, viu um trenó e um homem de barbas brancas a dizer-
diamante de que o marinheiro lhe falara, que por sua vez tinha           -lhe adeus. O Tomás, naquela excitação, chamou a mãe:
ouvido a outros. Nos portos de mar contam-se sempre destas                     — Mãe! Mãe! É o Pai Natal! A mãe consegue vê-lo?
histórias, onde a verdade e o sonho, ou até o delírio, são difíceis de
                                                                               — Claro que consigo — disse a mãe.
separar. O certo é que o nosso barbudo acreditou na história da
pedra mágica e, como já tinha idade suficiente, juntou os seus bens e          E conseguia mesmo.
pôs-se a caminho à procura da pedra. Primeiro, foi para o Egipto,                                                                     Isabel Stilwell
                                                                                                                Histórias para contar em 1 minuto e ½
onde estavam a ser construídas as pirâmides. Numa daquelas                                                             Lisboa, Verso da Kapa, 2005
pirâmides bem podiam estar escondidos todos os tipos de tesouros…
      Desta vez, foi Joaquim a interromper a narrativa.
      — Hoje sabe-se o que estava nas pirâmides: múmias, vasos,
pinturas e, aqui e ali, um escaravelho petrificado!
      — O que é isso? — perguntou Cristina.
     — É um escaravelho que se transformou em pedra e não é
nenhum diamante gigante, não é assim, Anai?
      — Tens razão. Não encontrou o diamante nas pirâmides.
      Anai faz agora uma pequena pausa. Quer encontrar a
continuação da história. Para isso tem de perscrutar dentro de si. E
os seus ouvidos, sempre tão apurados, não ouvem que os dois irmãos
pararam naquele momento, fascinados, a olhar para ela.
      — Também passou a pente fino a ilha de Creta, no


182                                                                      76
Mediterrâneo, à procura do diamante azul — diz a avó em voz baixa,
                                                                         falando para si. — Nessa ilha, os habitantes tinham como deus um
                                                                         terrível touro. O monstro quase comia o homem. É verdade! Ele
                  A menina dos fósforos                                  ousara entrar no labirinto da gruta do monstro porque se convencera
                                                                         de que talvez este estivesse de guarda à pedra que procurava. Mas
                                                                         acabou por escapar ao monstro. Depois de se ter certificado de que
      Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite
                                                                         no palácio do rei de Creta também não havia nenhum diamante
aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do
                                                                         gigante, pediu mais informação aos marinheiros. Os marinheiros
dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão,
                                                                         costumam saber sempre de alguma coisa. Talvez na Índia… diziam
uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta
                                                                         uns.
e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de
chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos                 Então o nosso caçador de tesouros decidiu ir à Índia. Fretou
que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a         um navio mercante e partiu. A viagem durou quase um ano. Naquela
menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir     altura o Canal de Suez ainda não existia e para se chegar à Índia era
de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro       preciso contornar-se toda a costa africana. Além disso, também não
foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um           havia barcos a vapor ou a motor. Para velejar era preciso vento e, na
berço para a irmã mais nova brincar.                                     sua ausência, braços fortes para remar. Foram precisos onze meses e
                                                                         alguns dias para o nosso viajante calcar finalmente terras da Índia.
       Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos
                                                                         Que palácios e templos maravilhosos ele viu! Torres de marfim e
de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um
                                                                         janelas com caixilhos de ouro, jardins esplendorosos com colibris
maço deles a toda a gente que passava, apregoando:
                                                                         coloridos e elefantes brancos. Não havia dúvida, a Índia era o país
      — Quem compra fósforos bons e baratos?
                                                                         certo para diamantes azuis gigantes. Só que não se alcançam tesouros
      Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os               daqueles a troco de nada. O nosso viajante teve de comprar um
fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão.        elefante e, montado nele, entrar na floresta, onde certamente
Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas.     estariam ocultos palácios ainda mais sumptuosos, a acreditar no que
Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos         se ouvia nas tabernas dos portos. Porém, na selva, espreitam muitos
compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do       perigos: tigres, panteras, crocodilos, tarântulas e cobras venenosas,
pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos

                                                                   77                                                                     183
para não falar do terrível calor durante o dia, e das ainda piores       encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne
enxurradas durante a noite. E foi contra tudo isto que o nosso           assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim,
viajante teve de lutar. Mas a ambição do poder torna os homens           é que ela pensava.
persistentes; ela é como um demónio e leva ao extremo aquele que               Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia
por ela se deixa dominar. Finalmente, numa manhã, após longa             cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque
cavalgada de várias semanas pela floresta virgem e muita fadiga, o       não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem
homem deparou-se com as ruínas enormes e antiquíssimas de um             uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também
templo. Em épocas há muito submersas pelo tempo, devia ter sido          não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento
uma das construções mais sumptuosas à face da terra, pelo que ainda      metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com
se podia ver daquilo que restava. Aqui, aqui e em mais nenhum lugar      farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas
teria de estar escondido o mítico diamante azul.                         com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria
      — E então? — perguntou Cristina. — Encontrou-o?                    bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para
      A avó meneou a cabeça, e continuou:                                aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o
                                                                         fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma
       — Vamos com calma! Perto dali vivia um povo indígena cujos
                                                                         candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era
antepassados teriam construído aquela obra. Eram pessoas amáveis e
                                                                         aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão
pacíficas, mas também medrosas. Ajudaram o viajante na sua busca,
                                                                         de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre
embora isso não lhes tenha sido fácil. Até ali tinham-se mantido
                                                                         reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor
sempre afastados das ruínas do templo porque pensavam que era
                                                                         tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se
habitado por espíritos maléficos, mas o homem tinha prometido
                                                                         aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que
recompensá-los caso o ajudassem. Dia após dia, revolveram as ruínas
                                                                         estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na
do velho edifício coberto de trepadeiras e que ocupava uma grande
                                                                         mão.
área. Finalmente depararam com umas escadas misteriosas que
desciam para a cave…                                                           Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em
      A senhora faz uma pequena pausa na narrativa e inspira fundo,      que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a
como se ela própria estivesse em frente das escadas da cave, na Índia.   rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava
Cristina e Joaquim estão neste momento a fazer, com musgo e areia,       coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e


184                                                                      78
mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de              o campo para os rebanhos dos pastores, mas, quando a avó
ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro             interrompe, levantam os olhos para ela, impacientes.
apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso                — Então? O que é que o homem de barbas fez? Desceu à cave?
saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados         — E se havia cobras lá dentro? — lembra-se Cristina.
nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre
                                                                               A avó anuiu com um movimento de cabeça e continua:
menina só viu na sua frente a parede negra e fria.
                                                                              — Pior do que cobras: trezentos e sessenta e cinco degraus.
       E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou
                                                                         Tantos, quantos os dias do ano.
ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e
mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da             — Então a cave devia estar muito funda! — diz Joaquim.
porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de                 — Se estava, filho! Apesar disso, o viajante viu, ao espreitar
velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como      para baixo, um brilho azul-prateado que só podia vir de um diamante
as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A        de grandes dimensões! Mas nenhum dos nativos se atrevia a descer.
menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-       Não tinham a ambição do poder, mas sim medo. Receavam cobras,
se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela          monstros ou espíritos maléficos; avisaram o aventureiro e
percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma         imploraram-lhe que voltasse para trás, mas em vão. Agora que ele se
estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando      encontrava tão perto do fim, ao cabo de tanto tempo de busca, o
atrás de si um comprido rasto de luz.                                    desejo de poder crescera demasiado. Não lhes deu ouvidos e iniciou a
      «Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina;             descida.
porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já          — Trezentos e sessenta e cinco degraus — calculava Joaquim
não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente,    — descem-se em cinco minutos, se não estiverem a desfazer-se!
é uma alma que vai a caminho do céu.»                                          — Não estavam. O homem não precisava de luz pois, à medida
      Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma            que ia descendo, o brilho da pedra misteriosa ia ficando mais intenso,
grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão           depois mais claro e mais forte, assustadoramente ofuscante, até, por
muito suave, cheia de felicidade!                                        fim, quase dilacerar. Os olhos começaram a doer-lhe, mas os pés não
      — Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este            hesitaram uma única vez. Precipitou-se para o fogo azul, saltou os
fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer      últimos degraus e ali estava o diamante do tamanho de uma cabeça,


                                                                   79                                                                      185
ainda mais cintilante do que o sol num dia de Verão. Porém essa luz    como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de
era fria, terrivelmente arrepiante e ofuscante, e não havia olhos      Natal, tão linda.
humanos que conseguissem suportá-la.                                         Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava
      Pois é, a ambição do poder pode cegar os humanos. Quando o       daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os
homem descia apressadamente os últimos degraus, já os olhos haviam     fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse
começado a doer-lhe terrivelmente. Não se importara, embora a dor      dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta
se intensificasse e se fosse tornando cada vez mais dilacerante. Ao    nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor,
chegar junto do diamante, o raio azul matou-lhe os olhos e o homem     voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem
ficou cego para toda a vida.                                           fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.
      — Mesmo cego? — perguntou Cristina. — Mas então como é                  Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a
que ele subiu as escadas?                                              manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um
       — Oh, de início não pensou que tivesse ficado cego. Achava      sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de
que o fogo do diamante o tinha momentaneamente encandeado, por         Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha
isso chegou junto da pedra às apalpadelas e tentou levantá-la para a   no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou
levar. O diamante, porém, estava agarrado ao chão e crescia com a      aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas
terra como uma árvore milenar. Ninguém conseguiria pegar no            coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que
diamante azul…                                                         entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.
      — Nem com uma grua?                                                                                             Hans Christian Andersen
                                                                                                                  Os melhores contos de Andersen
      — Não, nem com uma grua.                                                                                              Editora Verbo, s/d

      — Não conseguiu, pronto — Cristina tenta fazer a avó
apressar a história. — E como é que a história continua?
      — Como é que continua? Bem é que não será. Passaram-se
horas de grande tormento, de esforço e de decisões amargas, até ele
se dar conta de que a pedra não podia ser erguida nem transportada.
E novamente se passaram horas até que os indígenas, que esperavam


186                                                                    80
por ele em cima, o viram subir as escadas de joelhos, como um
                                                                         animal. Teve de tactear degrau a degrau. A procura da riqueza e do
                                                                         poder tinha-o cegado e, dessa forma, levado ao desamparo. Sozinho,
                     A estrela de prata                                  nunca teria encontrado a saída para fora da selva. Os indígenas,
                                                                         amáveis, deram-lhe um rapazinho órfão esperto e forte, que passaria a
                                                                         guiá-lo. O rapaz conhecia a selva e os animais selvagens. Crescera
       Numa árvore que eu cá sei – que nós sabemos – estão uma
                                                                         nela e sabia vencer todos os perigos. Iria doravante ficar com o cego,
estrela de prata e uma bola de cristal.
                                                                         e assim deambularam pelo mundo, dia após dia, o homem de barbas,
      — O que fazemos aqui? — perguntou a estrela.
                                                                         que entretanto envelhecera, e o rapaz de pele escura.
      — Estamos a enfeitar — respondeu a bola.
                                                                               — E de que é que ele andam agora à procura? — pergunta
      — O que é enfeitar? — perguntou a estrela.                         Cristina.
       — É fazer vista, ornamentar, alindar... — respondeu a bola de           — De paz. Só procuram a paz.
cristal.
                                                                              — E essa também é uma busca assim tão perigosa e difícil
      Passou-se um tempo e a estrela perguntou de novo:                  como a do diamante azul?
      — Porque estamos a enfeitar?                                             — Mas vocês não vêem que eles vão a caminho de Belém, a
      — Porque esta árvore não é como as outras. Os frutos dela são      caminho do filho de Deus? Quem parte ao Seu encontro quer paz e é
raros. Aparecem um dia, luzem o seu quê, conforme sabem ou               lá que a encontra. Vá, colocai o velho de barbas e o rapaz a meio do
podem, e depois são colhidos e guardados, até para o ano.                caminho que leva ao estábulo da hospedaria. Fazem ambos parte do
      A bola de cristal tinha muita experiência de outros Natais, ao     nosso presépio, assim como os pastores e os três reis do Oriente, que
passo que a estrela era nova, de prata fresca, e não sabia quase nada.   hão-de aparecer mais tarde, claro. Em que ponto é que vocês vão?
Mas tinha ouvido falar que havia estrelas cadentes, estrelas que caem           Joaquim ainda está a dar forma ao cenário, enquanto Cristina
do céu e no céu desaparecem, num sopro de luz.                           retira as figuras de madeira, cuidadosamente embrulhadas em papel
      — Não serei uma dessas? — perguntou à bola.                        de seda. Bem, o velho caçador de diamantes já lá está.
      — Talvez sejas, talvez não sejas... Mas não experimentes.                 — Qual é a figura que ponho a seguir? — pergunta ele, ao que
      Passou-se um tempo mais, e a estrela guardou para si aquela        a avó responde:



                                                                   81                                                                      187
— Peguem no negociante de gado com o boi.                        ideia, uma ideia pequenina. "Não experimentes", dissera-lhe a bola. E
      — Eles também vão a Belém, ao Menino Jesus?                      se experimentasse? Foi o que fez.
       — O boi, vai. Quando o filho de Deus vier ao mundo, ele vai           Caiu, num susto, mas como era leve, inocente e frágil, uma
lá estar com o burro e os outros animais.                              corrente de ar, vinda de uma porta aberta, algures, levou-a consigo.
       — E qual é o papel do vendedor no meio de tudo isto? —                Levou-a consigo e fê-la poisar, sem estrago, no fofo musgo.
insiste Cristina. Os netos bem sabem que, para a avó contar algumas          — Olha, é a estrela da gruta — disse alguém que estava a
das histórias, tem de levar um empurrãozinho.                          armar o presépio.
      — Já vou contar. E vocês pegaram na figura certa? Ora                  E estrela do presépio ficou.
descreve-ma lá, Cristina.                                                     Donde estava, onde a puseram, via o presépio, os pastores, os
      — É de madeira, tem cabelos ruivos despenteados, e está          reis magos, as lavadeiras com a trouxa à cabeça, as leiteiras com a
talhada com muita perfeição. Até se consegue ver cada pêlo do          bilha à cinta, os vagabundos, o moleiro, o azeiteiro e todo o povo do
bigode. É bastante gordo e tem um avental verde.                       presépio e mais as pessoas de carne e osso, que vinham admirar
      Satisfeita, a senhora acena a cabeça.                            aquela lindeza, sorrir para o Menino Jesus e olhar para a estrela,
                                                                       suspensa do alto da gruta.
      — É esse mesmo. Põe-no mais adiantado no caminho, mais
perto de Belém do que o cego, para o boi chegar a tempo.                     Estrela de oito pontas que era, a apontar em todas as direcções,
                                                                       nem ela sabia para onde, brilhou imenso.
      — Estes dois também percorreram um longo caminho, como o
cego e o guia?                                                               Brilhou o mais que pôde.
       — Oh, não! O vendedor vem de Jerusalém, onde tem um                    Para o ano, a estrela de prata já tem muito que contar à bola de
negócio de gado. Negoceia com vitelos, carneiros e porcos e, quando    cristal.
calha, também com aves.                                                                                                        António Torrado
                                                                                                                            www.historiadodia.pt
      — Ah! Então é por isso que também há galinhas na caixa! —
exclama Cristina. — Ponho-as à volta dele?
      — Tolinha! — responde-lhe a avó. — Primeiro, ele nunca as
deixaria andar à solta, pois as galinhas não seguem uma pessoa, como
os cães. Depois, as galinhas pertencem à estalagem. Mais tarde hão-

188                                                                    82
-de ficar pousadas nas traves do estábulo a olhar para o presépio.
                                                                              — E o negociante quer oferecer o seu boi ao menino Jesus —
                                                                        conclui Joaquim.
      O presente de Natal do Pequeno Anjo                                     A avó começa a rir.
                                                                               — Ele? Nunca! Não dá nada a ninguém, nem um grão de
      Era uma vez – segundo a contagem do tempo dos homens, há          milho. “A mim também nunca ninguém me dá nada!”, costuma ele
muitos, muitos anos, segundo o calendário do céu, há apenas um dia      dizer, e “Negócio é negócio!”. Só pensa no negócio. Nem sequer vai
– um anjinho triste, conhecido em todo o reino celestial por Pequeno    reparar que, no estábulo, veio ao mundo o filho de Deus.
Anjo.                                                                        — Nesse caso, porque é que tem de estar aqui no presépio? —
       O Pequeno Anjo tinha exactamente dez anos, seis meses, cinco     pergunta Cristina indignada.
dias, sete horas e vinte e dois minutos quando chegou junto do                — Tem de lá estar porque também há pessoas assim. Ele
venerável Guarda da Porta do Céu e pediu para entrar. Ali estava ele,   pertence ao mundo onde Jesus vai nascer. Pessoas destas há-as
desafiador, as perninhas curtas teimosamente abertas, a fazer de        sempre. E vós? Tendes a certeza de que, na noite de Natal, ides
conta que não estava nada impressionado com todo aquele brilho          pensar no menino Jesus, de que ides fazer alguma coisa por ele?
celestial. Mas o lábio superior tremia-lhe, traiçoeiro, e também não
                                                                              Cristina meneia a cabeça e diz, olhando de esguelha para o
conseguia evitar que uma lágrima lhe rolasse pela cara, já
                                                                        irmão:
completamente vermelha do choro, e só fosse parar no nariz
                                                                              — De certeza que o Joaquim só vai pensar na bicicleta nova
sardento.
                                                                        que pediu.
       Mas isto ainda não era tudo. Claro que, como de costume, se
                                                                              — E tu? — sibila Joaquim em resposta. — Tu só pensas em
tinha esquecido do lenço de assoar, e quando o amável porteiro estava
                                                                        vestidos chiques e nos teus discos.
a registar o nome no seu grande livro, o Pequeno Anjo fungou para
dentro tão alto… mas tão alto, que, com o susto, aconteceu ao bom             A avó bate com o punho na mesa energicamente.
porteiro o que nunca lhe tinha acontecido. Fez um grande borrão na            — Silêncio! Agora não se discute!
página limpa!                                                                 — Às suas ordens, senhor General!
     A partir daquele instante, a paz celeste ficou perturbada e o             — Vocês são uns tolinhos! Ouçam mas é o que o comerciante
Pequeno Anjo tornou-se de imediato o terror de todos os habitantes      vai fazer na noite de Natal, enquanto o boi aquece o menino com o

                                                                  83                                                                         189
seu bafo. Vai sentar-se na taberna mais próxima e esfregar as mãos,        do céu. O seu assobiar estridente ouvia-se de tal forma pelos
porque conseguiu vender o boi ao estalajadeiro por bom preço. E            caminhos de ouro que, de cada vez que o ouviam os profetas
como fez um bom negócio, vai festejar com uma aguardente.                  estremeciam sobressaltados e eram arrancados às suas contemplações.
       — Só isso? — pergunta Cristina desiludida. Não consegue             E, nas aulas de canto do coro celestial, cantava tão alto e tão
imaginar que o vendedor vá desprezar um acontecimento que será             desafinado, que as delicadas harmonias celestes eram destruídas.
festejado durante séculos, por milhões de pessoas.                         Ainda por cima, por causa das suas perninhas curtas, chegava sempre
                                                                           atrasado para a oração da noite, e batia contra as asas dos outros
      Mas a avó responde simplesmente:
                                                                           anjos ao tentar passar por entre as filas para se colocar no seu lugar.
       — Só isso. Para ele, festejar alguma coisa é com aguardente. E
                                                                                  Podia ter-se desculpado este mau comportamento, mas o
só festeja os bons negócios. Puseste-o no caminho, Cristina?
                                                                           aspecto exterior do Pequeno Anjo era totalmente imperdoável. A
      — Sim, embora ele não devesse lá estar.
                                                                           princípio, os querubins e as serafinas apenas segredavam entre si, mas
       — Claro que devia! Ele tanto pertence à festa de Natal como         depressa os anjos e os arcanjos começaram a dizer, em voz alta, que
tu e eu e as outras pessoas todas. Jesus não veio à terra só para alguns   ele nem parecia um anjo. E tinham razão. A sua auréola estava cheia
eleitos! Tira agora as próximas figuras da caixa, Cristina. Tem de ser     de nódoas nos sítios onde ele a segurava com os dedos sujos, quando
o grupo: avô, pai, mãe e dois filhos. Já os encontraste?                   corria. E, por acaso, andava sempre a correr.
      Claro que Cristina os encontra imediatamente. Um grupo                     Mas, mesmo quando parado, a auréola estava sempre torta ou
daqueles não passa despercebido. Mas o que é que eles estão a fazer        então caía para o chão e rolava por uma das ruas de ouro, e o
em Belém, e logo um grupo?                                                 Pequeno Anjo tinha de correr atrás dela. Sim, e também tem de se
      — Vêm fazer o recenseamento que o imperador Augusto                  dizer que as suas asas não eram bonitas nem úteis. Todos sustinham
ordenou por aquela altura. Por isso é que José e Maria também vêm a        a respiração quando ele se colocava no rebordo de uma nuvem como
Belém, como está escrito na Bíblia: “Naqueles dias foi publicado um        um pardal medroso que voa há pouco tempo e se prepara para voar.
decreto de César Augusto convocando toda a população do império            Fechava então os olhos, apertava o nariz sardento com as duas mãos,
para recensear-se. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria             contava até três e atirava-se para o espaço de cabeça para baixo. E,
cidade.” Esta família faz parte dessas pessoas.                            porque se esquecia de pôr as asas em acção, um voo daqueles acabava
      — E o que lhes acontece em Belém? — perguntam as crianças.           quase sempre com um acidente.
      A avó pensa um pouco e responde:                                           Todos viam que, mais cedo ou mais tarde, aquela situação


190                                                                        84
havia de levar a um castigo. E assim aconteceu. Num eterno dia, de           — Pode ser que tenham reparado na estrela por cima do
um eterno mês, de um eterno ano, ele foi chamado à presença do         estábulo e perguntado o que significaria aquele sinal. De certeza que
Anjo da Paz.                                                           encontraram bom alojamento numa estalagem. No presépio é que não
      O Pequeno Anjo penteou-se com cuidado, escovou as asas           ficaram, senão viria nas Sagradas Escrituras. Talvez venham a
desgrenhadas e vestiu rapidamente um hábito quase limpo, e pôs-se a    compreender o que aconteceu no estábulo e cheguem a ver o filho de
caminho, apreensivo. Ao aproximar-se do Palácio da Justiça Celeste,    Deus e nunca O esqueçam. Seja como for, vão a caminho de Belém.
ouvia já ao longe soar um cântico alegre. Voltou a polir rapidamente   São pessoas prestáveis e boas, penso eu. Não têm aspecto de ser
a auréola na veste e entrou em bicos de pés.                           ordeiras e trabalhadoras? Talvez estas pessoas deparem mais tarde
                                                                       com o séquito sumptuoso dos três reis do Oriente. Ou, pelo menos,
      O cantor, que no céu é conhecido por Anjo da Compreensão,
                                                                       com os pastores que vêm dos campos.
olhou para baixo, na direcção do Pequeno Anjo, que fez
imediatamente uma tentativa frustrada para se tornar invisível,              E neste ponto a avó lembra-se da figura do pequeno pastor,
enfiando a cabeça no colarinho da roupa, como uma tartaruga.           quase ainda uma criança.
       À vista disto, o Anjo da Compreensão não conseguiu manter-se          — Deve ser uma figurinha quase de menino, Cristina. De
sério. Soltou um riso afável e quente, e disse:                        certeza que está na mesma caixa.
       — Então tu é que és o delinquente que pôs o céu nesta                Quando Cristina o encontra, repara que já tem braços, pernas e
agitação. Anda cá, querubinzinho, e conta-me lá o que se passa!        músculos fortes como os de um homem.
      O Pequeno Anjo piscou primeiro um olho ao grande anjo,                 — Não admira — responde a senhora. — É do trabalho duro
depois o outro… e, de repente, sem ele próprio saber como, estava      por que teve de passar. Deve ter, no máximo, quinze anos e já tem de
sentado no colo a contar-lhe como era difícil para um rapazinho        lutar pela vida. Não tem pais, nem uma avó que o mime com
transformar-se, de repente, num anjo. E só se tinha balançado uma      chocolate e bolachas, nos domingos do Advento. Era um rapazinho
vez na Porta Dourada… Está bem, duas vezes… Pronto, se calhar          pobre e rude, sem lar, que não sabia quem eram os pais e com quem
foram três, mas só porque estava muito aborrecido.                     ninguém se preocupava…
      E esse era também o grande problema: o Pequeno Anjo não                Joaquim abana a cabeça e diz:
tinha nada que fazer. E sentia saudades de casa. Não que no Paraíso          — Isso é tão triste! Até parece uma história de jornal!
não fosse bom! Só que a terra também tinha sido boa, com as árvores          — Seu fala-barato! — critica-o a avó, um pouco zangada. —
às quais se podia trepar, com os peixes na água, que se podiam

                                                                 85                                                                     191
Se não houvesse vidas destas na realidade, não viriam no jornal. Não    apanhar, com os lagos para se nadar, com o sol, a chuva e a argila
quer dizer que todas as coisas tristes tenham de vir nos jornais. Da    castanha, tão suave e quente sob os pés!
maior parte delas ninguém fala, mas ainda hoje lá podes ler histórias         O Anjo da Compreensão sorriu compreensivamente, e em
como a deste rapaz. Aos doze anos perdeu os pais; morreram um a         seguida perguntou ao Pequeno Anjo o que é que no Paraíso o faria
seguir ao outro numa epidemia que atingiu muitas pessoas. Ou terão      mais feliz. Ele pensou e depois segredou-lhe ao ouvido:
morrido numa guerra? Já não sei ao certo. A verdade é que, desde                 — Em casa, debaixo da cama, está uma caixa. Se eu pudesse
então, o rapaz passou a vaguear pelo país. Naquela altura ainda não     tê-la!
havia associações, como há hoje, que tentam ajudar estas crianças.
                                                                                 O Anjo da Compreensão assentiu com a cabeça.
Aquele que acordaria as consciências para a dor do próximo, ainda
não tinha nascido. Ah, e em algumas pessoas, ela ainda hoje está por         — Vais tê-la — prometeu, e enviou de imediato um
nascer. Precisa de tempo. A única solução era mendigar. Também          mensageiro do céu.
tentava uns trabalhos aqui e ali, junto dos lavradores e dos                   Nos dias intemporais que se seguiram, todos estavam
jardineiros, mas as pessoas aproveitavam-se do infeliz, matavam-no      admirados com a notável mudança que se tinha operado no Pequeno
com trabalho e como forma de pagamento nem sequer lhe davam             Anjo. Era o anjo mais feliz de todos, e o seu comportamento e
comida suficiente. Já se pode imaginar a ideia que ele foi formando     aspecto exterior eram tão exemplares, que ninguém tinha nada a
dos homens. Começou a odiá-los e o ódio é o sentimento que causa        criticar.
mais danos; torna uma pessoa má. Do ódio nascem pensamentos de                Certo dia, chegou a notícia de que Jesus, o Filho de Deus, iria
vingança. O rapaz começou a roubar e a fazer coisas ainda piores para   nascer da Virgem Maria, em Belém.
se vingar dos homens que se tinham aproveitado dele. Quando se                Um regozijo geral encheu os ares e todos os anjos e arcanjos,
deram conta, as pessoas ficaram muito zangadas e expulsaram-no; era     as serafinas e os querubins, o porteiro do céu e todos os demais
a solução mais fácil, e ele teve de continuar a vaguear sem destino.    habitantes do céu puseram os seus trabalhos quotidianos de parte
Certo dia, chegou a uma cidade à beira-mar… Sim, pode ter sido isto     para prepararem presentes para o Filho de Deus.
que aconteceu. Pela primeira vez na vida, estava a ver um porto com
                                                                              Todos trabalhavam diligentemente, menos o Pequeno Anjo.
barcos grandes e maravilhosos que vinham de Nápoles e de Roma, da
                                                                        Sentado no alto da escada do céu, com a cabeça apoiada nas mãos,
Grécia, do Egipto, da Espanha e da Pérsia. E foi lá que ouviu dos
                                                                        esperava por uma boa ideia para uma prenda adequada. Mas, por mais
homens do mar contar histórias e relatos fantásticos, infelizmente
                                                                        que pensasse, não se lembrava de nada que fosse digno do Filho de
nem sempre verdadeiros. Naquela altura, ele ainda não sabia que

192                                                                     86
Deus.                                                                     muitas coisas são substancialmente mais bonitas em algumas cabeças
      O momento do grande milagre aproximava-se perigosamente,            aventureiras do que na realidade. Só ouvia as fascinantes palavras das
quando, de repente, lhe veio a ideia salvadora. No Dia dos Dias,          histórias encantadas. Não admira que o desejo de viajar num barco
retirou do esconderijo, por detrás de uma nuvem, a sua caixa, e           para maravilhosas terras distantes se apoderasse dele de repente.
pousou-a em frente do trono de Deus. Era apenas uma pequena caixa,        Talvez os homens fossem mais amáveis noutro sítio do que ali,
simples e já gasta, mas continha todas aquelas coisas maravilhosas        pensava ele. Talvez recebesse comida suficiente a bordo de um barco,
que causariam prazer até ao Filho de Deus.                                sem antes ter de esfalfar-se a trabalhar até cair meio-morto.
                                                                          “Talvez…” Sim, o que não se sonha quando se vê pela primeira vez
       Lá estava agora a pequena caixa, simples e já gasta, no meio dos
                                                                          um porto cheio de navios. Mas para que serve um rapaz que não
valiosos presentes dos anjos do Paraíso, presentes de tal esplendor e
                                                                          aprendeu a fazer nada? Não tem valor para ninguém e está disposto a
beleza tão admirável, que o céu e o restante universo estavam
                                                                          fazer qualquer tarefa, mesmo a mais baixa. Ninguém se preocupa
iluminados pelo seu simples reflexo.
                                                                          com ele, ninguém quer saber se tem fome, se dormiu o suficiente, se
      Ao ver este esplendor, o Pequeno Anjo sentiu um grande
                                                                          não leva carregos demasiado pesados para a idade. Quem é que pensa
desânimo, pois reconheceu que o seu presente não era digno.
                                                                          nisso? Não interessa ao timoneiro nem ao capitão. Mas vocês ainda
Gostaria de o retirar, mas agora era tarde demais. A mão de Deus já
                                                                          estão a ouvir-me, meninos?
se movia por cima de todos os presentes, deteve-se, de repente,
                                                                                A avó não reparara que os dois quase haviam esquecido o
baixou… e pousou sobre o pobre presente do Pequeno Anjo.
                                                                          presépio e já só a escutavam.
       O Pequeno Anjo tremia ao ver abrir a sua caixa. Diante dos
                                                                                — Então o rapaz esteve num barco? — pergunta Joaquim.
olhos de Deus e dos outros habitantes do céu encontrava-se agora
aquilo que ele tinha oferecido ao Filho de Deus: uma folha vermelha              — Certamente. Onde é que teria arranjado aqueles músculos?
que apanhara na floresta num dia de sol, um ovo de passarinho da cor      Nos velhos tempos, o trabalho a bordo era difícil. Com vento bom,
do céu, que tinha caído de uma oliveira, dois seixos brancos, que ele     velejava-se. Içar e recolher velas num navio, era um trabalho colossal,
encontrara na margem lodosa do rio, e um pedaço de couro                  garanto-vos. Sei isso muito bem pelo meu avô. Era preciso ser-se
esfarrapado, que fora, noutros tempos, a coleira do seu fiel              rápido, ágil e forte e estar-se atento dia e noite sem parar. Claro que
companheiro de quatro patas…                                              punham o rapaz de vigia durante mais tempo e com mais frequência,
                                                                          e era ele que tinha de subir ao mastro mais alto. Tudo piorava
      O Pequeno Anjo chorava lágrimas quentes e amargas. Como
                                                                          durante a calmaria, quando as velas não serviam e o navio ficava
pudera alguma vez pensar que coisas tão inúteis iriam agradar ao

                                                                    87                                                                       193
parado no mar tal como uma ilha! Em baixo, no porão do navio, os         Filho de Deus?
escravos comprados ou roubados iam presos a correntes. Homens                  Em pânico, voltou-se para fugir e esconder-se da cólera divina
que, quem quer que fosse o dono, poderia fazer com eles o que            do Pai Celeste. Mas, de repente, tropeçou e caiu tão desajeitadamente
quisesse, porque tinha mais poder e força. E o que faz o capitão de      sobre uma nuvem, que foi a rolar até ao trono do Todo-Poderoso.
um navio durante uma calmaria? Manda os escravos remar. Imaginem               Reinava um silêncio paralisante na cidade celeste, um silêncio
o que é remar num barco gigantesco, já de si pesado, e ainda por cima    onde só se ouviam os soluços dolorosos do Pequeno Anjo. Mas, de
carregadíssimo. E da Palestina à Índia, se fosse preciso! Vocês bem      repente, elevou-se uma voz, a voz de Deus, que disse:
sabem que na altura ainda se contornava a África, dia após dia, noite
                                                                               — De todas as oferendas, esta caixa é a que mais me agrada.
após noite, no calor abrasador e sufocante dos trópicos, sempre a
                                                                         Ela contém coisas da terra e dos homens, e o Meu Filho nasceu para
respirar o ar viciado do interior do navio. Não admira que algumas
                                                                         ser o rei de ambos. Por isso, aceito esta oferenda em nome do
destas pobres almas sucumbissem. E quem tinha de ocupar o lugar
                                                                         Menino Jesus, que hoje nasceu de Maria, em Belém.
vago quando era preciso, quem tinha de mourejar como um escravo?
O nosso órfão, claro.                                                          Seguiu-se um silêncio profundo e a caixa do Pequeno Anjo
                                                                         começou de repente a resplandecer com uma luz sobrenatural. O
         — Se ele tivesse ficado em terra — suspira Cristina.
                                                                         brilho tornou-se tão claro e radioso, que cegou os olhos de todos os
         A avó acena que não, com a mão no ar.                           anjos. Nenhum deles pôde, por isso, ver como este objecto
       — Tivesse! Tivesse! Se!... Depois é muito fácil falar. Mas,       resplandecente se elevou do seu lugar em frente ao trono de Deus. Só
para vos sossegar, digo-vos que, depois de ter participado numa          o Pequeno Anjo viu como ele tomou o seu caminho pelo firmamento
viagem destas e o barco, ao fim de alguns meses, ter regressado à        e, como, transformado numa estrela resplandecente, parou sobre um
pátria, ele foi o primeiro a abandoná-lo. Tinha tanta pressa, que nem    estábulo onde uma criança tinha nascido.
esperou que pusessem um passadiço ou um escaler. Mal viu a costa                                                                Charles Tazewell
do seu país, passou a amurada com um salto desenfreado. Há                                                                     Anne Braun (org.)
semanas que andava com medo que o dono do navio o acorrentasse                                                               Weihnachtsgeschichten
                                                                                                                    Würzburg, Arena Verlag, 1991
também a ele no porão. Não, saltou cinco metros para o fundo do
mar e nadou para terra à força de braços.
         Joaquim bateu na figura de madeira que representava o rapaz e
disse:


194                                                                      88
— E deve ter sido perseguido por algum tubarão que lhe
                                                                        comeu um bocado.
                                                                              — Porque é que dizes isso? — perguntou a avó admirada.
                 Os três reis do Oriente                                      — Porque falta uma pontinha do pé esquerdo.
                                                                             — Isso tanto pode ter sido um tubarão como o bicho da
      Gaspar                                                            madeira — respondeu a senhora.
                                                                              — E o que é que lhe aconteceu depois? — pergunta Cristina.
      Naquele tempo, na cidade de Kalash, o príncipe Zukarta
instaurou o culto do bezerro de oiro.                                         — O que havia de ser? Entretanto, nem ele nem as pessoas da
                                                                        sua pátria se tinham tornado melhores. E já tinha tido viagens pelo
      A estátua poisava nas multidões submissas os seus olhos
                                                                        mar que chegassem. “Nunca mais!”, jurou a si próprio. “Prefiro
espantados, muito abertos, pintados de branco e de preto. No fundo
                                                                        guardar porcos e enregelar até aos ossos, à noite, ao relento, do que
das suas pupilas aflorava quase uma interrogação, como se a extensão
                                                                        voltar a sentar-me no interior abrasador de um navio, preso a um
do seu poder o surpreendesse. Era um jovem bezerro de pequenos
                                                                        remo de um metro de comprimento, tão grosso como um tronco de
cornos torcidos e pernas musculosas, de testa obtusa, curta e
                                                                        árvore, ensanguentar as mãos e esgotar o coração a trabalhar”. E
franzida. As suas quatro patas, firmemente poisadas na terra, davam
                                                                        pronto, podia recomeçar novamente com a vagabundagem. Na cidade
uma grande impressão de firmeza e estabilidade que tranquilizava o
                                                                        portuária não havia porcos para guardar. Num local daqueles, um
coração dos seus fiéis. E em todo o seu corpo brilhava o oiro, oiro
                                                                        esfomeado como ele só poderia ter maus pensamentos ao ver no cais
compacto, duro, pesado, faiscante.
                                                                        os armazéns cheios de comida: sacos com figos e cocos, cestos cheios
      Em frente do ídolo as mulheres curvadas sacudiam sobre o
                                                                        de tâmaras e bananas, montanhas de amendoins, laranjas e azeitonas,
mármore claro dos degraus os sombrios cabelos quase azuis. Dos
                                                                        tudo coisas que os grandes navios tinham trazido da Índia e de
confins do deserto, dos longínquos oásis, das aldeias perdidas,
                                                                        África. O rapaz foi novamente tentado a vingar-se outra vez dos
chegavam homens que depunham em frente do altar a sua oferta:
                                                                        trabalhos forçados a bordo.
vinham oferecer oiro ao oiro. E os homens bons de Kalash, juízes e
                                                                              — Ele pensou em roubar! — adivinha Joaquim.
chefes guerreiros, desfilavam reverentes em frente do bezerro. Atrás
deles vinham os comerciantes, os vendedores, os oleiros, os tecelões.         — Sim — anuiu a avó pensativa — quando um esfomeado
Beijavam os degraus do altar e depunham no chão a sua oferta:           perdido tira, sem autorização, o excesso de outros, isso também é


                                                                  89                                                                     195
roubar. Mas só podia roubar se, antes disso, eliminasse o guarda-        traziam oiro ao oiro. Até os sacerdotes da Lua e os seus fiéis e
nocturno.                                                                acólitos se prostravam, de joelhos, com a cabeça tocando o solo, em
        — Matá-lo? — exclama Cristina. — Matá-lo só por causa da         frente do ídolo novo de Kalash.
fome?                                                                          Zukarta olhava todas estas coisas com grande alegria, pois o
        — Tu nunca tiveste fome a sério — diz Joaquim rudemente à        culto do oiro era o fundamento do seu poder.
irmã.                                                                           Raros eram aqueles que não acorriam ao templo, cada vez mais
        — E tu, já? — pergunta ela ironicamente.                         raros. Os muito pobres, os muito envergonhados, os muito
                                                                         humilhados, não ousavam apresentar-se. Eles eram como uma raça à
       — Dai graças por isso — atalha a avó. — Quando a fome se
                                                                         parte, pois a pobreza era olhada como o estigma que marcava aqueles
torna insuportável, quando a vida e a morte estão em jogo, isso pode
                                                                         que o Bezerro não amava. No fundo das suas almas tão humilhadas
tornar os homens maus. E o estômago do jovem já fazia tanto
barulho como um cão a rosnar. A fome tornava a cabeça dele               que mal ousavam pensar o seu próprio pensamento, os muito pobres,
                                                                         os muito envergonhados esperavam outro deus.
estranhamente vazia, de tal forma que se sentiu atordoado e teve de
se acocorar durante algum tempo para ganhar forças. Os seus                    Eles e Gaspar.
pensamentos eram confusos e tão sombrios como a noite. E no                   Uma delegação de homens importantes veio ao palácio de
momento em que estava ali miseravelmente sentado no pó, deu-se           Gaspar. E disseram:
conta daquilo em que se tinha tornado e apercebeu-se de como a vida             — Porque não te apresentas no templo do Bezerro? Por acaso
podia piorar se continuasse a viver como até ali. Não tinha também       te falta oiro para a oferta? Que tens tu de comum com a ralé das
aprendido a trabalhar? Com uns músculos daqueles ia tornar-se um         docas? Não estás por acaso vestido de púrpura e de linho como um
bandido? A meio da noite, só e ajoelhado no porto às escuras,            rei? Porque desafias o poder de Zukarta? Serás um traidor? No culto
escutava dentro de si e, de repente, sentiu nojo de si próprio porque    do Bezerro está a prosperidade e a grandeza de Kalash. Estarás
tinha querido matar um homem para ele sobreviver. Foi nesse              vendido aos nossos inimigos?
momento que decidiu partir para Belém. Levantou-se. Não queria                 Gaspar respondeu:
voltar a pensar nos armazéns cheios. Talvez tenha ficado ali de pé por
                                                                                — Não posso adorar o poder dos ídolos. O meu deus é outro
um instante a pensar nisso. Um instante daqueles pode decidir uma
                                                                         e creio no seu advento, que a Terra e o Céu me anunciam.
vida inteira, pode mudar um homem radicalmente — dependendo do
que o indivíduo decide. Nós temos este poder.                                  Ouvindo esta resposta, os chefes das tribos e os homens bons


196                                                                      90
de Kalash disseram:                                                            — Mas o que é que ele fez depois? — pergunta Cristina. — O
      — Separamo-nos de ti porque te separaste de nós e renegaste        que é que decidiu?
os nossos caminhos. Não terás mais parte nas nossas assembleias.                — Virou costas aos armazéns e saiu dali, seguindo pelas ruas
Nem serás mais ouvido nos nossos conselhos, nem partilharás dos          da cidade portuária, sempre, sempre na direcção do campo. Às portas
nossos festejos e banquetes. E também não terás lugar na nossa força.    da cidade encontrou uma caravana que queria aproveitar o fresco da
Os soldados não protegerão a tua casa nem as tuas caravanas. E serás     noite para fazer a viagem pelo deserto. A seu pedido, levaram-no com
presa fácil dos bandidos. Não receberás a protecção das nossas leis, e   eles, pois mais um menos um não faz diferença a uma caravana.
os nossos juízes julgarão em sentença contra ti, e a tua razão será      Quando descansavam, o rapaz tinha de dar de beber aos camelos e de
como um punhado de cinza. Como a gente da ralé, não terás nem            manter acesa a fogueira. Como paga, dividiam com ele as provisões de
protecção nem defesa enquanto não te curvares perante o altar do         pão e água. Alguns dias mais tarde, chegaram ao destino e deixaram
Bezerro para adorar os ídolos que nós adoramos.                          de precisavar dele. Na despedida, recompensaram-no com três peças
      E Gaspar respondeu:                                                de prata, pois sempre se mostrara prestável e queriam agradecer-lhe
                                                                         por isso e também ajudá-lo. Foi em Jerusalém que se despediu da
      — O meu deus é em mim como uma fonte que não pára de
                                                                         caravana e vai agora a caminho de Belém.
correr e é em meu redor como o muro de uma fortaleza.
                                                                               — Disseste que lá iria ser ajudado — lembrou Joaquim.
      Então os notáveis de Kalash sacudiram a poeira dos seus
sapatos e saíram do palácio.                                                    — No caminho qualquer um pode ser ajudado, filho. Mais uns
                                                                         passos e encontrará os pastores a guardar os rebanhos. Vão tomá-lo
      Depois desse dia, muitas calamidades se abateram sobre
                                                                         como aprendiz e assim vai acabará a vagabundagem. E além do mais,
Gaspar. Os bandidos assaltaram as suas caravanas e os ladrões
                                                                         vai aprender uma profissão a sério.
saquearam os seus palmares. Mãos misteriosas apedrejavam de noite a
sua casa e na água das suas cisternas apareciam frutos podres e aves           — E na Noite de Natal — continua Cristina — vai ouvir,
mortas a boiar.                                                          juntamente com os pastores, o coro dos anjos e dirigir-se-á com eles
                                                                         ao presépio.
      E começou o tempo da solidão.
                                                                               — Talvez… — responde a avó e pergunta:
       Nos frescos pátios do palácio não penetraram mais os
visitantes e a água correndo nos tanques deixou de acompanhar o leve           — Onde é que o colocaste?
rumor das conversas. Os parentes e os amigos desapareceram como                — É o que vai mais adiantado no caminho.


                                                                   91                                                                    197
— E é mesmo — diz a avó num tom como se por hoje tivesse        que devorados pela penumbra e todas as coisas pareciam envolvidas
acabado a construção do presépio e as histórias.                      em escândalo e terror.
      Mas os irmãos ainda não terminaram. Por terem ficado tanto            Porém o tempo crescia.
tempo à escuta, não conseguiram trabalhar muito. No entanto                 E Gaspar escutava o crescer do tempo. A solidão criava em seu
Cristina tem uma queixa a apresentar, e com razão.                    redor um transparente espaço de limpidez onde os instantes
     — Até agora só contaste histórias com homens, avó, mas           avançavam um por um e o universo inteiro parecia atento. O silêncio
também há mulheres e meninas no meio das figuras. Aqui, por           era como a mesma palavra inumeravelmente repetida.
exemplo, esta pequenita de cabelo preto comprido.                           E debruçado sobre o tempo, Gaspar pensava: «O que pode
     — Ah, sim, é a Hanneh — a senhora reconhece-a de imediato        crescer dentro do tempo senão a justiça?»
e começa a dar orientações aos netos. — Tens de a pôr antes de              Ajoelhado no terraço, Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a
Belém, longe da cidade, no meio da floresta.                          alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que
      — Ainda não acabei a floresta — anuncia Joaquim — mas se        simultaneamente mostrava e escondia.
entretanto contares a história de Hanneh, de certeza que acabo.             E disse:
     — Vocês são muito espertos! — suspira a avó. — Conseguem                — Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas
sempre dar-me a volta. Mas esta é mesmo a última história por hoje!   o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas
      — Também já está a ficar escuro — diz Cristina — e de           toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade
qualquer maneira temos de acabar em breve. Então o que é que se       das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu
passou com Hanneh?                                                    que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda.
      — Quando Hanneh andava perdida pela floresta próxima de         Chama à tua claridade a totalidade do meu ser, para que o meu
Belém, também já estava escuro — recomeça Anai novamente. —           pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde
Hanneh tinha-se perdido e estava com medo. Podiam aparecer lobos,     sempre me dizes.
algum leão, ou até ladrões! De manhã, não tinha pensado nestas              Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma
coisas tão terríveis. De manhã apenas se sentira furiosa. A mãe       palavra de repente dita na muda atenção do céu.
acordara-a ao nascer do sol. “Hanneh, levanta-te! Depressa!” E logo         Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu
de manhã, que era quando ela mais gostava de dormir.                  que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um


198                                                                   92
pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para          — Como a Cristina.
o Ocidente.                                                                   — Está calado, Joaquim! Por favor, avó, continua. Porque é
      E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu         que a mãe acorda Hanneh tão cedo?
palácio.                                                                       — O irmãozinho havia adoecido durante a noite, dissera a
                                                                        mãe, e Hanneh tinha de ir a correr à aldeia vizinha chamar o
      Melchior
                                                                        curandeiro. “Ai, ai, ai”, pensava Hanneh. “É sempre o irmãozinho.
                                                                        Então e eu? Ele não há-de ter nada de grave.” Estava um pouco
       A placa de barro tinha passado de geração em geração, de idade
                                                                        zangada e levou mais tempo a vestir-se, por birra e ciúme. “Quando
em idade, de mão em mão. Nela estava escrito que ao mundo seria
                                                                        estou doente”, pensava ela, “limitam-se a dizer: – Coragem! Isso
enviado um redentor e que uma estrela se ergueria no Oriente para
                                                                        passa depressa! – dão-me um chá horrível e acabei sempre por ficar
guiar aqueles que buscavam o seu reino.
                                                                        boa. Que dêem ao meu irmão desse chá horrível! Lá há-de parar com
      A placa era um pequeno rectângulo de argila, enegrecido pelo
                                                                        a choradeira.” Hanneh não estava com pena nenhuma do pequenito,
tempo, de aspecto frágil, pobre e gasto. Era um prodígio que tivesse
                                                                        mas sim dela, que tivera de se levantar tão cedo. Também tomou de
atravessado, sem se perder, tantos séculos de ruínas e opulências,
                                                                        propósito o pequeno-almoço tão devagar, que os pais, preocupados,
saques, incêndios e guerras. Era um prodígio que tivesse podido
                                                                        começaram a ralhar-lhe, o que só piorou a teimosia de Hanneh.
atravessar, sem se perder, a ambição, a violência, a agitação e a
                                                                        Então eles queriam que ela fizesse, tão de madrugada, aquele longo
indiferença dos homens.
                                                                        caminho e ainda por cima estavam a ralhar com ela? Queriam que ela
      Estava ali, no palácio, alinhada ao lado de milhares de placas    fosse à aldeia vizinha, a correr, de barriga vazia?
que enumeravam vitórias, batalhas, massacres e riquezas.
                                                                             — Só mesmo uma rapariga — resmunga Joaquim. — Têm
       Os seus caracteres estavam semi-apagados pelo tempo e a sua      sempre de fazer teatro.
escrita era tão antiga que se tornava difícil decifrá-la com exacto
                                                                              Cristina faz de conta que não ouviu a observação
rigor. Muitas leituras eram possíveis.
                                                                        despropositada, e a avó continua a contar, após um pequeno aceno de
      Por isso o rei Melchior convocou três assembleias de sábios       cabeça:
para que juntos averiguassem qual era a justa interpretação daquele
                                                                             — Quando finalmente Hanneh saiu de casa, estava tão furiosa
texto antiquíssimo.
                                                                        que decidiu vingar-se da repreensão dos pais. Queria fazer de
      Primeiro vieram os historiadores, aqueles que tinham              propósito um desvio para ficar mais tempo fora de casa. Assim os

                                                                  93                                                                   199
pais também teriam de preocupar-se com a filha. Ela também existia,       aprendido toda a ciência das bibliotecas e que conheciam até ao
não era só o irmãozinho, por quem todos tinham de acordar cedo!           menor detalhe a escrita, a linguagem, os usos, os costumes, os anais e
Hanneh queria fazer um desvio, meter medo aos pais… e o que               os códigos dos tempos idos.
aconteceu com aquela palermice? Hanneh saiu do caminho e perdeu-                A assembleia reuniu-se durante um mês no palácio do rei. Era
-se. Andou perdida durante todo o dia pelo leito dos rios, no meio de     o meio do Verão e o calor poisava pesadamente sobre os terraços
prados secos e de arbustos espinhosos. O sol dava-lhe na cabeça e não     cegos de sol. Nos jardins as palmeiras roçavam umas nas outras, com
havia sombras. A garganta de Hanneh ardia-lhe de sede, mas a menina       um rumor metálico, as suas folhas afiadas e duras como serras.
não encontrava água em parte alguma. A fome aparecerá também mas                 Ao cair das tardes os sábios sentavam-se em círculo no pátio
com o que é que havia de a calar? No ar, por cima dela, planavam          interior do palácio. Melchior presidia. Um fino murmúrio de água
abutres, também eles com fome, e Hanneh sabia de que é que eles           correndo nos tanques acompanhava os debates. Os escravos descalços
estavam à espera.                                                         circulavam em silêncio servindo vinho de tâmara temperado com neve
      — De Hanneh, talvez? — pergunta Cristina assustada.                 das montanhas.
      — De quem é que havia de ser? — responde Joaquim,                         O círculo de homens sentados descrevia uma área vazia e no
conhecedor, como se todos os dias estivesse em contacto com               centro dessa área tinha sido colocada uma mesa de pedra sobre a qual
abutres.                                                                  estava poisada a placa de barro. Parecia extremamente pequena e
       — Quando começou a escurecer — prossegue a avó,                    insignificante, no meio de tanto espaço e opulência, parecia um
imperturbável — Hanneh ainda estava no meio daquele deserto. A            detrito das eras antigas que ali tinha sido abandonado pelo tempo.
cólera já tinha desaparecido e dera lugar a um medo horrível. Por               Durante longos debates, durante trinta dias, os sábios
detrás de cada arbusto podia estar à espreita uma fera e, por detrás de   estudaram e examinaram meticulosamente cada linha dos caracteres
cada rochedo, um ladrão. Também não deixava de pensar no                  antiquíssimos.
irmãozinho a chorar em casa. E se ele estivesse de facto gravemente            E ao trigésimo dia ergueu-se Negurat, arquivista-mor do
doente e precisasse de facto de socorro rápido? Talvez o pai,             templo da Lua, e disse:
entretanto, se tivesse posto a caminho da casa do curandeiro, talvez
                                                                                 — Creio que a leitura que tu, ó rei, fizeste deste texto não é a
tivesse partido à procura de Hanneh. Chamou por ele, gritava como
                                                                          verdadeira. Pois leste: «Ao mundo será enviado um redentor, e uma
um cordeirinho perdido, mas não recebia resposta. Ficou tonta com o
                                                                          estrela subirá no Oriente para guiar aqueles que buscam o seu reino.»
medo e deixou-se cair na areia. Hanneh não podia mais porque já não
                                                                          Mas verdadeiramente é outra a significação deste texto antigo: assim,

200                                                                       94
os caracteres onde leste «redentor» significavam, na remota era em       tinha esperança de alguma vez sair daquele lugar desértico. De
que foi gravada esta placa, não «redentor» mas sim «grande rei»; e os    certeza que iria aparecer imediatamente um animal selvagem para a
caracteres onde leste «será» e «subirá» não exprimem formas verbais      comer, como castigo pela sua impertinência. Se encontrasse o
do futuro mas sim formas verbais do passado; e o verbo buscar não        caminho para Belém, o caminho para casa, para junto do pai e da mãe
está no presente mas sim no pretérito perfeito; e onde leste «para       e do pobre irmãozinho!
guiar» deverá ser lido, de acordo com os métodos de decifração dos              Em grande aflição lembrou-se que o pai lhe dissera uma vez
textos antigos, «guiando». Portanto, ó rei, ao contrário daquilo que     que, de noite, era possível encontrar o caminho a partir das estrelas.
julgaste ler, este texto não se refere ao futuro mas sim ao passado, e   Muito bonito, mas como? “Talvez”, pensava ela, “as estrelas
não anuncia o advento de nenhum salvador, mas antes glorifica as         estendam o dedo, ou algumas setas, ou outro sinal qualquer”. E
obras de um grande personagem dos tempos idos. Assim a leitura           Hanneh olhou para o céu, à procura. Ficou sem respiração. Nunca
correcta deste texto é, em minha opinião, a seguinte: «Ao mundo foi      vira nada de tão maravilhoso brilhar assim! Longe, no céu, à sua
enviado um grande rei que como uma estrela dominou o Oriente             frente, estava uma estrela grande e brilhante com um feixe de raios
guiando aqueles que buscaram o seu reino.»                               cintilantes a formar uma cauda.
      Quando Negurat acabou de falar, levantou-se Atmad,                        Hanneh levantou-se. Não olhava onde punha os pés. Só queria
arquivista-mor do palácio, e disse:                                      ver a estrela. Não a perdia de vista e seguiu-a. Não era preciso ser-se
       — Grande é a ciência de Negurat. Mas a interpretação da           Mago do Oriente para perceber que uma estrela daquelas indicava um
escrita antiga tem terríveis dificuldades. Não há dúvida que no texto    caminho. Para cada um, um caminho diferente. Nós sabemos qual o
apresentado devemos ler «grande rei» e não «redentor». No entanto,       da menina, pois a estrela maravilhosa estava sobre Belém. Hanneh
não concordo com aquilo que diz respeito às formas verbais: creio        encontrou o caminho para casa, a corta-mato pelos campos e terrenos
que o verbo ser e o verbo subir se encontram realmente no futuro. E      selvagens. Estava tão contente por regressar a casa que nem tinha
também discordo da forma como foram lidas as palavras «guiar»,           medo da eventualidade de ser castigada pelos pais. Não podia
«buscam» e «reino». E penso ainda que o verbo «subir» tem aqui o         esconder-lhes que ela, que conhecia tão bem o caminho para casa do
sentido de «dominar». De forma que, na minha opinião, a leitura          curandeiro, andara, por maldade, a correr pelo deserto. Hanneh só
correcta do texto é esta: «Ao mundo será enviado um grande rei que       temia por uma coisa: pelo irmãozinho.
como uma estrela dominará o Oriente para engrandecer aqueles                  Mal entrou em casa, encontrou o pequenito a dormir
povos que aceitarem o seu poder.» Pois esta inscrição é de facto uma     calmamente e os pais em aflição pela sua menina perdida. Felizes,


                                                                   95                                                                       201
tomaram a filha nos braços sem lhe ralharem. E, admirados,             profecia, mas uma profecia que já foi cumprida. É evidente que o
deixaram-se conduzir por ela outra vez para fora de casa, para verem   grande rei é o grande Alexandre que dominou todo o Oriente até ao
a estrela maravilhosa que pairava acima deles e que Hanneh queria      reino de Pórus e que morreu, como sabeis, em Babilónia.
mostrar-lhes. Quanto não se tinham preocupado uns pelos outros               E quando Atmad acabou de falar, levantou-se o velho sábio
naquele dia! E tanto os pais como Hanneh tinham aprendido algo de      Akki, que disse:
importante: era preciso ter mais amor e compreensão uns pelos                 — Admirei as sapientes palavras que ouvi. Mas na verdade a
outros. Mas a noite trazia-lhes finalmente paz.                        leitura deste antiquíssimo texto levanta tantas dúvidas e são tantas as
      A avó está muito cansada de tanto contar e reclina-se            interpretações que podemos propor, que verdadeiramente, ó rei, nada
confortavelmente na sua cadeira.                                       podemos concluir. Então levantou-se Melchior e disse:
      — Em que ponto é que estão? — pergunta.                               — Ide em paz e continuai os vossos estudos. Eu continuarei a
       Joaquim acabou o deserto. Cristina ainda tem na mão a menina    perguntar, a escutar e a esperar.
e olha para ela pensativamente.                                              E no mês seguinte reuniu-se no palácio real a assembleia dos
       — Por hoje conseguimos fazer tudo — responde. — Só não          letrados.
sei agora onde pôr Hanneh.                                                   Melchior propôs-lhes as dúvidas e as interpretações dos
      — Antes de Belém, no deserto, como disse há pouco, meninos,      historiadores e durante trinta dias os letrados estudaram o texto.
pois na Noite de Natal ela ainda vai a caminho. Só mais tarde é que           E no trigésimo dia, ao cair da tarde, estando todos sentados
chegará a casa.                                                        em círculo e estando no meio do círculo a mesa de pedra sobre a qual
     Cristina coloca obedientemente a menina no ermo artificial tão    estava poisada a placa de barro, levantou-se Ken-Hur e disse:
bem preparado por Joaquim.                                                   — A poesia não se exprime directamente. Ora o texto que
      — Ainda faltam três domingos — suspira, feliz. — Tantas          temos em nossa frente é um poema e por isso mesmo deve ser
figuras ainda… e o mesmo número de histórias!                          tomado como uma metáfora que não se refere nem ao passado nem
      — Vendo bem — afirma Joaquim — ainda vão todos a                 ao presente nem ao futuro do mundo em que vivemos, mas só ao
caminho, tanto o cego com o rapaz, como Hanneh e o negociante de       mundo interior do poeta, que é o mundo da poesia sempre voltado
gado, o órfão e a família, os pastores e os reis.                      para o devir e para a esperança. Este texto não fala de factos reais e
                                                                       apenas simboliza o espírito criador do homem.
      — Foi assim na altura — responde a avó — e assim é hoje em


202                                                                    96
Falou em seguida Amer, que disse:                                 dia. Há sempre alguém a caminho do presépio. Também nós e
      — Este texto é um poema e coloca-se por isso à margem do          muitos daqueles que conhecemos seguimos por este caminho em
vivido. O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é.   direcção à estrebaria de Belém.
Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai                                                              Eva Rechlin
                                                                                                                          Der Weihnachtsweg
uma coisa que lá não está.                                                                           Wuppertal, Johannes Kiefel Verlag, 1970
      E levantou-se depois o irmão de Amer, que disse:
      — Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é
ele próprio o seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é
apenas essa própria rosa. Um poema é um justo acordo de palavras,
um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem,
um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e,
como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa
mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria.
      E tendo terminado o debate, levantou-se Melchior, que disse:
      — Eu vos agradeço as vossas palavras. Por mim continuarei a
buscar, a escutar e a esperar.
       Então retiraram-se os letrados e o rei ficou sozinho no pátio,
em frente da placa de barro, escutando o correr da água e o cair da
noite.
      E no mês seguinte reuniram-se no palácio os homens sapientes.
Melchior propôs-lhes as dúvidas dos historiadores e dos letrados e a
nova assembleia deliberou durante trinta dias.
      E no trigésimo dia levantou-se Kish, que disse:
     — As multidões ignorantes curvam-se em frente dos ídolos,
mas aqueles que meditam conhecem a solidão do universo. Que


                                                                  97                                                                    203
redentor poderemos esperar? O universo é como uma máquina bem
regulada que sem princípio nem fim gira lentamente através das
idades e dos ciclos. Nas constelações e nas luas, nos triângulos e nos
círculos, encontrarás as leis dos números que se cumprem e se
cumprirão inexoravelmente. Que redenção poderemos esperar?
      E falou depois Maro, que disse:
      — Os deuses que existiram extinguiram-se há muito, e aquilo
que adoramos é apenas a cinza do divino. Qual é, na idade em que
vivemos, o homem que viu um anjo? Onde está aquele que ouviu,
com os seus ouvidos de carne, a palavra de Ísis ou de Assur? Vivemos
um tempo de viuvez e todas as coisas se tornaram cegas e surdas.
Num mundo de injustiça e de desordem tentamos sobreviver como
animais perseguidos. Quebrou-se o laço que nos ligava ao universo
atento. Podemos bater com os punhos na terra, podemos implorar
com a cabeça tocando a poeira. Ninguém responderá. Cegou o olhar
que nos via e o ouvido que nos escutava secou. Tudo nos é alheio
como um lugar que não nos reconhece. E o brilho dos astros
impassíveis cintila sobre a nossa tristeza. Quem pode esperar que
uma estrela se mova?
      Falou em seguida Tot, e disse:
      — Nascemos para morrer. Toda a nossa esperança se resolverá
em cinza. Onde está o homem que não morreu? O próprio
Alexandre, filho de Ámon, que estabeleceu o seu Império desde o
Egipto até ao reino de Pórus, morreu miseravelmente nos palácios da
Babilónia. E no entanto a sua radiosa juventude parecia mostrar a
natureza de um Deus, e era tão grande a sua perfeição que ninguém


98
podia julgá-la mortal. Quem poderia acreditar que morresse o seu
corpo equilibrado e liso como uma coluna, a sua inteligência aguda e
limpa como o sol, o seu olhar direito que simplificava todas as coisas,
                                                                          Índice
o seu rosto brilhante como um estandarte e a sua alegria invencível?
Alexandre, príncipe da Macedónia, filho de Ámon, maravilhamento              Os Magos que não chegaram a Belém ............................................ 1
dos povos, conduziu o destino do homem a seus últimos limites, de            “Não é possível!”, pensou o Pai Natal ........................................... 9
tal forma que nele todos julgaram que a natureza humana tinha                Bolo-rei ........................................................................................... 15
conquistado o divino. Mas Alexandre morreu no trigésimo terceiro             A manhã do dia de Natal ............................................................... 19
ano da sua vida, no cimo da sua força e da sua glória, em pleno              A batalha de Natal.......................................................................... 23
esplendor da sua juventude. E assim os deuses nos disseram que o
                                                                             O Viajante ...................................................................................... 29
homem não pode ultrapassar o seu destino, e que o seu destino é um
                                                                             Um gato debaixo do pinheiro de Natal........................................ 37
destino para a morte. Por isso, ó rei, que poderemos esperar? Nada
                                                                             O Pinheirinho ................................................................................ 41
pode modificar a condição do homem e nesta condição não há lugar
                                                                             A filhó dourada .............................................................................. 51
para a esperança.
                                                                             O cesto de Natal da tia Cyrilla ..................................................... 55
      Quando os pensadores se retiraram, Melchior levantou-se do
trono e avançou até à mesa de pedra. Entre as grandes colunas que            O Tomás, que não acreditava no Pai Natal ................................ 69

rodeavam o pátio, a placa de argila parecia extraordinariamente frágil       A menina dos fósforos................................................................... 77
e pequena. Mas o rei tocou com a sua fronte as letras quase apagadas.        A estrela de prata............................................................................ 81

     Nessa noite, depois da Lua ter desaparecido atrás das                   O presente de Natal do Pequeno Anjo ........................................ 83
montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a               Os três reis do Oriente.................................................................. 89
Oriente, uma nova estrela.                                                   A boneca........................................................................................107
       A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e            O primeiro Natal do pardalito....................................................113
confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém                   Noite de Natal .............................................................................117
caminhava. Só de longe em longe se ouvia, vindo das muralhas, o              O bolo-rei .....................................................................................135
grito de ronda dos soldados.                                                 O Natal das bonecas ....................................................................137
      E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos                 David e a estrela ...........................................................................145

                                                                    99                                                                                                             205
Uma estrela................................................................................... 149         sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto
        Lídia .............................................................................................. 157   espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e
        Sei um ninho ................................................................................ 165          deslumbrada, a sua alegria.
        A esperança brilha como um diamante....................................... 169                                   E Melchior deixou o seu palácio nessa noite.
        O caminho para Belém................................................................. 177
                                                                                                                         Baltasar

                                                                                                                         O rei Baltasar amava a frescura dos jardins e sorria ao ver na
                                                                                                                   água clara dos tanques o reflexo da sua cara cor de ébano.
                                                                                                                         E amava a alegria, o rumor e a abundância dos banquetes, e
                                                                                                                   muitas vezes as suas festas duravam até ao romper do dia.
                                                                                                                         Porém, certa madrugada, depois de se terem retirado todos os
                                                                                                                   convivas, o rei ficou na grande sala, sozinho com um jovem escravo
                                                                                                                   que tocava flauta.
                                                                                                                         E pareceu-lhe que a melodia desenhava no ar o contorno de um
                                                                                                                   espaço vazio.
                                                                                                                          Então o seu coração ficou pesado de tristeza, e Baltasar
                                                                                                                   pensou: «Será possível que um dia eu me retire da vida como um
                                                                                                                   conviva saciado que se retira de um banquete? Ou terei sempre a
                                                                                                                   mesma sede, a mesma fome, o mesmo desejo dos momentos e dos
                                                                                                                   dias?»
                                                                                                                         E tendo pensado isto atravessou a porta da sala e saiu para o
                                                                                                                   jardim.
                                                                                                                          Cá fora, na luz indecisa da antemanhã, o jardim parecia
                                                                                                                   suspenso. A bruma confundia o desenho claro dos tanques e diluía no
* A maioria dos textos desta antologia foi adaptada do original.
                                                                                                                   ar o contorno das ramagens.

206                                                                                                                100
Baltasar caminhou longamente entre flores e palmeiras até
romper o Sol. E quando já era dia chegou a um pequeno terraço que
ficava no extremo do jardim. Debruçou-se no parapeito e viu, do
outro lado da rua estreita, um homem jovem, encostado a uma
parede, que o olhava.
      Baltasar ficou imóvel, como se o rosto do outro lhe tivesse
batido na cara. Ou como se o rosto do outro de repente fosse o seu
rosto. Ou como se pela primeira vez na sua vida tivesse visto a cara
de outro homem.
       O que naquele rosto mais o surpreendia era a nudez, a
evidência nua. Era como se naquele rosto o cerimonial da vida tivesse
retirado a sua máscara e a realidade mostrasse, sem nenhum véu, o
abandono, a dor consciente, a condição do homem.
      Era um rosto de homem jovem e magro onde os ossos
desenhavam, sem nenhum equívoco, o ideograma da fome. A tristeza
subia da mais profunda morada da memória e aflorava inteira à tona
das pupilas. A paciência, como uma leve cinza, poisava na testa, sobre
os beiços, sobre os ombros. E havia nessa paciência uma doçura tal
que Baltasar sentiu de súbito uma vontade aguda de chorar e de se
prostrar com a sua própria cara encostada à terra.
      E perguntou:
      — Tu, quem és?
      — Tenho fome — murmurou o homem.
     — Entra — disse Baltasar. — Vou mandar que te sirvam os
melhores frutos, as melhores carnes, os melhores vinhos. Vou


                                                                  101
mandar que lavem os teus pés com água perfumada numa bacia de
ouro. Vou mandar que te vistam de púrpura. Vou mandar aos meus
músicos que toquem para te aprazer as mais belas melodias. Vou
mandar vir para ti a tocadora de cítara. Eu próprio colocarei debaixo
dos teus pés o tapete mais precioso, e ficarei sentado ao teu lado para
desfazer a tua solidão, e escutarei as tuas palavras para que possas
tomar parte na alegria e para que as fontes e os jardins do palácio
apaguem a tua tristeza.
      Porém o homem, ouvindo estas palavras, assustou-se. No rosto
negro, debruçado na luz branca do terraço, reconheceu com terror o
rosto do rei. E pensou:
      «Ai de mim! Para que me chama o rei? Vim espreitar o seu
palácio e isto sem dúvida é um crime. É melhor que eu fuja antes que
os guardas cheguem.»
       Pois aquele homem, como todos os muito pobres, sabia que o
mundo era governado por leis que o perseguiam e condenavam, e por
isso temia a cada instante ser acusado e preso por uma razão
desconhecida. Caminhava num país que não era o seu e onde tudo era
para ele insegurança e temor.
       E por isso fugiu, sumiu-se ofegante entre as curvas da ruela
estreita, sem ver o gesto de Baltasar que o chamava.
      E no palácio o rei disse aos seus guardas:
      — Ide e procurai nas ruas um homem jovem magro, vestido de
farrapos e que tem os olhos cheios de tristeza e de paciência.
      Porém, ao cair da tarde, os guardas voltaram e disseram:


102

Histórias de Natal

  • 1.
    — Encontrámos tantoshomens esfarrapados, tristes e pacientes que não soubemos distinguir aquele que tu procuras. Por isso, na manhã seguinte, o rei Baltasar, tendo despido os seus vestidos de púrpura, envolveu-se num manto de estamenha e saiu sozinho do palácio para procurar o homem. Desceu pelas ruelas estreitas da encosta, e, longe das grandes avenidas triunfais onde a brisa faz sussurrar as folhas duras das Histórias palmeiras, percorreu longamente os bairros pobres da beira do rio. Os carregadores do cais ergueram para ele a face sombria, e o homem que vendia os sapatos de corda poisou no olhar do rei o seu olhar de cansado. Viu homens dobrados sob os fardos, viu os que puxavam carroças como bois, lentos e pacientes como bois, viu os que usavam grilhetas nos pés, viu os que deslizavam rente às paredes, silenciosos Natal como sombras, viu os que gritavam, os que choravam, os que gemiam. Viu os que estavam sós, imóveis, encostados aos muros, atónitos, interrogando, para além da voz rouca das ruas, o silêncio opaco, fitando em sua frente a estrada recta do silêncio. Viu os que pescavam pequenos peixes nas águas sujas do rio. Viu os que tinham a cara cor de trapo e as mãos feitas de cinza, cinza leve que voava com o vento. Viu a sombra verde, o reino da paciência, o país da desolação sem margens, o império dos humilhados, o lado esquerdo da vida, a Pátria deserdada, o fundo do mar da cidade. E no dia seguinte o rei reuniu os seus ministros e disse-lhes: — Mandai distribuir os meus tesoiros e mandai distribuir as reservas acumuladas nos armazéns e nos celeiros. E reparti tudo entre os esfomeados e os pedintes. 103
  • 2.
    Tendo ouvido isto,os ministros retiraram-se para deliberar. E voltaram passados três dias, e responderam: — Os teus tesoiros não chegam para resgatar os escravos, e as reservas dos teus armazéns não chegam para saciar os esfomeados. Nem o teu poder chega para alterar a ordem da cidade. Se cumpríssemos aquilo que mandaste, os fundamentos que nos sustentam e os muros que nos protegem ruiriam. O teu desejo é contrário ao bem do reino. E o rei lhes respondeu: — Procuro outra lei e procuro outro reino. Então os ministros retiraram-se, murmurando entre si: — Vemos que ele nos trai. Na manhã seguinte, dirigiu-se Baltasar ao templo de todos os deuses. E leu estas palavras gravadas na pedra do primeiro altar: Eu sou o deus dos poderosos e àqueles que me imploram concedo a força e o domínio, eles nunca serão vencidos e serão temidos como deuses. Seguiu o rei para o segundo altar e leu: Eu sou a deusa da terra fértil e àqueles que me veneram concedo o vigor, a abundância e a fecundidade e eles serão belos e felizes como deuses. Encaminhou-se o rei para o terceiro altar e leu: Eu sou o deus da sabedoria e àqueles que me veneram concedo o espírito ágil e subtil, a inteligência clara e a ciência dos números. Eles dominarão os ofícios e as artes, eles se orgulharão como deuses das obras que criaram. 104
  • 3.
    E tendo passadopelos três altares, Baltasar interrogou os sacerdotes: — Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore. Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam: — Desse deus nada sabemos. Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse: — Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir? A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria. E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira. Sophia de Mello Andresen Contos exemplares Porto, Figueirinhas, 1997 105
  • 5.
    Os Magos quenão chegaram a Belém A boneca Há sempre os que conseguem e os outros. Os que ficam pelo — Não leves sempre essa boneca suja contigo para a cama — caminho. Com os magos aconteceu o mesmo. Só três – os reis disse a mãe de Eva. Baltasar, Melchior e Gaspar – chegaram a Belém e deixaram os seus — A minha Anita não é nenhuma boneca suja. — respondeu presentes, de ouro, incenso e mirra, aos pés do Menino. Mas os Eva — A minha Anita é muito querida. magos, sacerdotes que estudavam o céu e os seus astros, eram muitos. — Mas está muito feia — continuou a mãe. — Olha só para a E outros se puseram a caminho, seguindo aquela estrela, súbito, cara e para os cabelos dela! nascida no firmamento e mais brilhante do que todas as outras que Quando se olha para a boneca Anita, assim, sem se gostar dela, aqueciam a noite. tem de se admitir. Bonita, não é. As bochechas estão cinzentas e a Desses, três sacerdotes da Caldeia, adoradores do sol e da esboroar-se de tantos beijos e tantas lavagens. Já não tem natureza, porque dela se sentiam dependentes, decidiram também propriamente um nariz, apenas uma saliência suja, e dos cabelos partir juntos para melhor enfrentarem os perigos de uma viagem, sem castanhos já só ficou um pequeno tufo de cabelos ralos. estrada conhecida, na esperança de alcançarem a Luz que aquele sinal Isto não incomodava Eva, mas a mãe dizia-lhe constantemente: anunciava. Não eram reis, nem tinham coroa, nem sequer montada de — Não queres pedir uma boneca nova pelo Natal? — camelo ou burrinho manso. Também não levavam presentes, apenas a perguntava-lhe. ansiedade dos seus corações. E, confiantes, abandonaram as margens verdes do Eufrates, o trilho conhecido das caravanas e, guiados pela Eva apertava a Anita contra si e dizia: estrela, puseram-se a seguir a liberdade dos caminhos, crentes de que — Não! a força da esperança e da fé (não conheciam ainda o Amor) lhes — Tenho outra ideia — disse a mãe. — Vamos levar a Anita a permitiria chegar. Onde? Não sabiam. Mas lá, junto daquela Luz que um hospital de bonecas e lá põem-lhe cabelo novo e outro nariz. havia de transformar o mundo, de águas transparentes, fulvos Eva defendia-se. Não queria entregar a Anita. desertos varridos pelo vento e frescos oásis, que reflectiam o azul Mas, certo dia, Alex, o irmão mais velho, disse uma coisa feia, 1 107
  • 6.
    uma coisa muitomá. Disse: entre o verde nas palmeiras, no paraíso, aonde os homens ansiavam — A tua boneca é um careca tinhoso! regressar. E nessa esperança caminhavam. Não por carreiros atapetados pelo musgo dos presépios, que vieram séculos depois, e se Eva desatou a chorar. Depois, observou a sua Anita pela nos tornaram familiares, na infância, com seus trilhos fáceis de primeira vez com olhos de ver. Era verdade! A cara da Anita estava serrim, lagos-espelhinhos onde nadavam patos, anacrónicas gentes cheia de nódoas e a descamar-se, e quase totalmente careca. quotidianas: lavadeiras, vendedoras de castanhas e galinhas, Eva correu para a mãe. pastorzinhos de gado tresmalhado por veredas, cortadas por mudos — Achas — disse a soluçar — que no hospital das bonecas riachos de papel prateado. Também não caminhavam por entre as vão ser bons para a minha Anita? sombras frondosas e frescas, com possibilidade de pousada em — Mas claro que sim! — sossegou-a a mãe. palácios e castelos, como quis a pintura e os seus mestres. — Então… Por mim, podes levá-la… Caminhavam pelo silêncio, com a sua fome e a sua sede, o calor do Logo na manhã seguinte, a mãe foi ao hospital das bonecas. dia e o frio das noites, solitárias. Palmilhavam o oceano das dunas do Era o único na cidade, pois já não havia muita gente que mandasse deserto, à luz da lua, como se o fizessem pelo pó de todas as consertar bonecas. clepsidras do tempo. E nem sequer dormiam num leito, irmanados pelo mesmo lençol de pedra, como o românico fixou os outros três, No hospital das bonecas, um homem examinou a Anita. mais conhecidos, com as suas coroazinhas na cabeça. Enrolavam-se — Tem pouco que se aproveite. Precisa de uma cabeça nova, e apenas no sono que os descansava do cansaço dos dias e lhes dava os braços e as pernas também deviam ser substituídos. novas forças, que refaziam com a água e as tâmaras dos oásis, o pão e Apresentou à mãe diversas cabeças de bonecas, mas não havia os figos secos que tinham trazido. nenhuma que fosse igual à da Anita. Às vezes, quando o olho do sol se tornava ígneo ou paravam — Além disso — continuou o homem — a reparação custa para uma refeição ou um descanso, discutiam a direcção que vinham a mais do que uma boneca nova. seguir. A mãe de Eva procurou em todas as lojas de brinquedos uma — Não vos parece que a estrela aponta a Judeia? — perguntava boneca que, pelo menos, fosse mais ou menos semelhante à antiga um. Anita. Acabou por comprar uma do mesmo tamanho e com os Os outros, incrédulos, pensavam secretamente se haveria mesmos cabelos castanhos. No resto, a nova boneca era um pouco alguma coisa a esperar de um povo escravizado pelos romanos e diferente, mas encantadora, e tinha uma cara que se podia lavar com 108 2
  • 7.
    encolhiam os ombros. água. — A mim parece-me antes o Egipto o rumo indicado — Quando chegou a casa com as duas Anitas, a nova e a velha, atrevia-se o mais novo. — E a vós? Eva ainda estava no infantário. Mas Alex já tinha vindo da escola e — É ainda cedo para uma certeza, mas em breve o saberemos... descobriu a caixa no cesto de compras da mãe. E retomavam a caminhada até pela noite dentro – a estrela — Aha! — disse. — Compras de Natal! sempre adiante, lanterna que os não deixaria perder. Duas noites de — Uma boneca nova para a Eva — respondeu a mãe. — Mas névoa, porém, esconderam-na aos seus olhos, ansiosos. E então, ela não pode saber. Tem de pensar que é a sua Anita. desorientados, disputaram azedamente, perdidos e sem rumo. — Aha! — disse Alex. — Mentiras de Natal! Todavia, na terceira noite, a estrela reapareceu, mais cheia de brilhos, — Não sejas atrevido — disse a mãe. — É o melhor para a como se no seu bojo houvesse mil reflexos de espelho. Quem, Eva. conhecendo a Luz, deseja continuar nas trevas? Nem sentiam o — Deixa-a lá ficar com o careca tinhoso — disse Alex. cansaço, a língua encortiçada pela sede, o olhar enceguecido pelas tempestades de areia, o ventre cavado pela marcha e pelo magro A mãe arrumou a caixa com a nova boneca no armário da alimento. A esperança, serpente de água, a esgueirar-se, fugidia, entre roupa. os juncos, tinha regressado aos seus corações. — Estou contente por nos vermos finalmente livres daquela A noite do solstício aproximava-se e eles estavam certos de coisa tão estragada. que, se aquela Luz anunciava algum acontecimento, ele teria lugar na Atirou a Alex o saco de plástico com a antiga boneca. noite sagrada, pois o sol era a alegria e o pão da terra. E, ao mesmo — Toma — disse. — Mete-a no contentor do lixo, mas lá tempo, não podiam deixar de sentir uma certa inquietação em face para o fundo. daquela claridade que aumentava de brilho como a anunciar uma Alex pegou na boneca e saiu do quarto a assobiar baixinho. Outra que apagaria a do próprio astro de que eram adoradores. Seria Desde que a Anita desaparecera, Eva perguntava por ela todos realmente aquela a Luz que tornaria o mundo de manhãs claras, os dias. tardes ardentes e noites estreladas, mais perfeito, menos rasgado por — A minha Anita ainda está no hospital? O homem é ódios, guerras e injustiças? Quem podia ter a certeza? Do que parecia simpático com ela? Ela não tem saudades? Vou mesmo voltar a tê-la não haver dúvidas era de que a estrela indicava a Judeia. Tinham de pelo Natal? render-se à evidência. E nessa direcção seguiam agora, os pés já 3 109
  • 8.
    E a mãerespondia sempre: feridos do caminho, cada vez mais áspero e pedregoso. Mas, mesmo — Sim, Eva. Com certeza, Eva. Não te preocupes, Eva. forçando a marcha e lutando contra o tempo e o cansaço, a noite desejada encontrou-os à boca do Mar Morto e a estrela fazia jorrar a Para a noite de Natal, a mãe de Eva vestiu à nova boneca o sua cratera de brilhos mais para além, mais para o norte. Exaustos, vestido da Anita e pô-la debaixo da árvore. Com o vestido vermelho, não podiam seguir adiante. Mas o cristal de miríades de luzeiros, que achava a mãe, ficava mesmo parecida com a Anita. pareciam mais belos e mais luminosos no silêncio suspendido do ar Mas, quando estendeu a boneca a Eva e disse: — Ora vê como gelado, permitia-lhes procurarem uma gruta para se abrigarem e ficou linda a tua Anita! — Eva não aceitou e cruzou as mãos atrás dormirem, antes de continuarem a jornada. E foi o que fizeram. das costas. — Aqui! — gritou o mais jovem, que caminhava na dianteira. — Não! — gritou. — Essa não é a minha Anita! Os outros, mais trôpegos e cansados, juntaram-se-lhe. E olhava decepcionada para a nova boneca: Era uma caverna escurecida pelo fumo das fogueiras dos — Eu quero a minha Anita… a minha Anita! — e começou a pastores e que, embora vazia, parecia uma boca de forno, ainda chorar baixinho sem parar. quente do bafo dos animais. A mãe não contara com isto e tentou consolar Eva. Mostrava- — Escutem! — disse um deles. -lhe outras prendas, levava-a à árvore de Natal, mas Eva mantinha os À medida que penetravam na gruta, ouviam vagidos, que olhos baixos. Não queria ouvir nada nem ver prenda nenhuma. julgaram de animal ferido. Todavia, quando reacenderam o fogo, — Anita! — queixava-se a menina. — Onde puseram a minha deparou-se-lhes uma criança recém-nascida, nua e roxa, a chorar de Anita? frio e fome. Disse então Alex: — Quem teria tido a coragem de a abandonar?! — indignou-se — Se ela não receber de volta a careca tinhosa, vai estragar-nos o mais velho, que rasgou logo um pedaço de manto e a envolveu. a festa de Natal. — Pobrezinha, como chora! — Mas… — balbuciou a mãe — tu deitaste… Os outros debruçaram-se também, carinhosos e solícitos, sobre — Achas? — perguntou Alex. o pequeno fardo. Depois olharam-se, perplexos. Que fariam? Podiam Correu ao quarto e regressou com um saco de plástico que aquecê-la, protegê-la – mas como alimentá-la? meteu nas mãos de Eva. E foi então que ouviram, vindos do fundo da gruta, outros 110 4
  • 9.
    vagidos. — Anita! — gritou Eva, tirando do saco a velha boneca careca. — Ide ver! — pediu o mais idoso, que se tinha sentado perto Alex sorria. do lume, tentando aquecer a criança, enquanto a embalava, — E o que vais fazer agora à boneca nova? desajeitadamente, nos seus braços, nodosos e velhos. — Esta? — perguntou Eva. — Vou dá-la a uma menina que Os outros juntaram uns gravetos secos e atearam-nos nos eu não conheça. tições, acesos, e com aquela débil claridade varreram as sombras. No — A uma menina… — repetiu Alex. — Ah, claro. Ela não fundo da gruta estava uma ovelha, de úberes cheios e dolorosos, que pode ficar a saber que tens uma boneca careca fantástica! lambia a sua cria morta. Era uma noite santa aquela. Ali estava a Tilde Michels prova. E, contentes, arrastaram o animal até junto do companheiro e da criança. Depois, com muito jeito e devagar, enquanto um segurava Anne Braun (org.) o animal, o outro fazia pingar umas gotas de leite para a boquinha, Weihnachtsgeschichten Würzburg, Arena Verlag, 1991 que em breve se tornou sôfrega. Pacientes, continuaram a tarefa e viram-se recompensados. Aquecida e consolada, a criança aquietou-se. O mago que a tinha nos braços, como um avô, e os outros começaram a tratar da magra ceia e a assar, nas brasas, os figos secos que lhes restavam. — Temos de regressar... — disse, então, o mais velho, depondo a criança adormecida num recôncavo largo de rocha, não longe do borralho. — Assim terá de ser — concordou logo outro. — Somos homens e sacerdotes e nunca seremos uma família para a criança. Temos de nos apressar a entregá-la a uma mulher piedosa que cuide dela e a eduque juntamente com os filhos. — Sim, ou a uma mulher estéril para quem seja a bênção desejada — tornou o primeiro. — Mas isso resolveremos depois do regresso. O urgente é regressarmos. 5 111
  • 10.
    — Regressar?! Ea Luz que vínhamos a seguir? — protestou o mais novo, para quem era doloroso, depois de tantos trabalhos e canseiras, não levar a cabo o que se tinha proposto. — Desistimos assim da Luz que nos guiou até aqui? Desistimos, agora, quando estávamos já perto? — Compreendo o que sentes, irmão, também já fui novo... Mas há a criança. Como poderemos abandoná-la? — Sim... há a criança — e também o mais novo, que tanto se tinha esforçado por alimentá-la, se inclinou e sorriu para vê-la dormir. — A Luz que vínhamos a seguir — ponderou ainda o mais velho — não poderá ser ocultada e dela teremos notícia. Lembremo- -nos de que a Luz ilumina e nem mesmo as trevas podem escondê-la para sempre. O nosso caminho é o do regresso e será longo, pois teremos de nos revezar com a criança nos braços, embora seja já uma bênção termos a graça de um alimento que ainda sobrará para um gole de sede nosso. Descansemos, agora, enquanto dorme. — Tens com certeza razão — concordou o mais novo, que também não se sentia capaz de recusar a criança, presente da noite santa e, quem sabe, daquela misteriosa Luz. O braseiro consumia-se, lento, perfumado pelo açúcar dos figos assados nas brasas. A ovelha deitara-se junto da criança, aninhando-a na sua lã, também ela apaziguada, como se tivesse recuperado a sua cria. Uma paz despetalava-se no silêncio da noite e caía sobre a gruta. Esta foi a história. Não adoraram o Messias, salvador, o que 6
  • 11.
    devia chegar paraque a paz e a justiça florissem até ao fim das luas, o que teria compaixão do fraco e do pobre e havia de lançar a sua bênção sobre todas as raças, povos e línguas. O anjo do Senhor não lhes apareceu, nem foram envolvidos na sua claridade. Não ouviram O primeiro Natal do pardalito cantar: «Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade». Aqui há coisa de três semanas, um pardal do Rossio, daqueles Mas tinham vivido o Amor, essência daquela doutrina que que escolheram para poiso e morada os ramos das árvores que ainda não tinha sido pregada e ninguém registara ainda. No mais circundam a dita praça, começou assim a história que vamos contar: íntimo dos seus corações tinham sentido aquela verdade: «O que — Companheiros pardais, pardalitos e pardalões, escutem fizerdes ao mais pequeno e ao mais ínfimo a Mim o fareis». E todos, a notícia é importante. naquela noite, em que os animais falaram, as flores abriram o Juntou-se a pardalada. Quem ali passe todas as tardes, à hora esplendor das suas pétalas nas trevas como se as entregassem à luz do da saída dos empregos, não deve estranhar o arruído que vem das meio-dia, e as pedras puderam deslocar-se para se dessedentarem nos árvores despidas de folha, mas cheias, cheiinhas de passarinhos regatos mais próximos, adormeceram com a criança aconchegada tagarelas. As pessoas andam na sua vida muito apressadas, e nem entre eles. sequer dão conta da chilreada doida dos pardais: Longe, a estrela fazia descer a sua cascata de fogo sobre Belém “Chega-te para lá! Aí sou eu” de Judá. “Olha o pardalão a querer tomar-me o lugar...”. Luísa Dacosta Natal com Aleluia “Ai que ainda te dou uma bicada...”. Porto, Ed. ASA, 2002 “Não me provoques!”. “Toma que é para saberes”. “Deixa-me em paz”. Mas voltemos à nossa história. Oiçamos o que o pardal tem para dizer: — Peço silêncio, se não calo-me — piava ele, tentando impor a ordem à assembleia. 7 113
  • 12.
    Demorou o seutempo. Os pardais são uns espalhafatosos e uns gralhadores incorrigíveis. — A notícia que vos trago importa a todos. Há bocadinho, estava eu poisado num ramo baixo, e ouvi uma conversa entre um cauteleiro e um engraxador. Sabem do que estavam a falar? — De futebol — arriscou um. — Nada disso. Estavam a falar da Lotaria do Natal, imaginem! Portanto, o Natal está à porta, meus amigos. Espero que saibam o que isto significa... Os pardais mais jovens não sabiam, mas calcularam que devia ser coisa grave, porque os pardais velhos, mesmo os mais gaiteiros e risonhos, ficaram, subitamente, de bico caído. As expressões eram de alarme e desalento: — Temos de mudar de vida. — Que desconforto! — Deviam ter-nos avisado. — O tempo não está para grandes voos. E cada qual debandou para o seu ramo. Neste ponto da história, parece-nos indispensável ouvir a fala de um avô pardal para o seu neto que, tal como vocês, amigos leitores, não percebera patavina do sucedido. — Na quadra do Natal, que é uma grande festa dos homens — contava ele — multiplicam-se e crescem as luminárias por toda a 114
  • 13.
    parte. Nesta praça,então nem queiras saber! Fica tudo cheio de luzes e luzinhas de muitas cores, amarelas, azuis, vermelhas, verdes, que nos põem tontos. Onde os homens encontram um sítio para “Não é possível!”, pensou o Pai Natal pendurar uma daquelas pêras de vidro que deita luz, penduram. — Deve ser bonito — observou o neto. Noite feliz! — cantava o Pai Natal. — Bonito talvez seja, mas não para nós. Aparecem fios por Atarefadamente, ia consultando listas de pedidos, embrulhava toda a parte e, nos ramos das nossas árvores, estendem tantos, com as brinquedos e punha as respectivas etiquetas. tais pêras penduradas, que ninguém se entende. Há dois anos, aproximei-me de uma dessas pêras, que se tinha partido, e apanhei De repente, interrompeu o trabalho e lançou um olhar ao um arrepio pelo corpo todo que julguei que me ficava de vez! calendário. — Então para onde vão os pardais passar o Natal? — — Deus do céu! — exclamou. — Já é altura de ir para a Terra. perguntou o pardalito, atarantado. A festa de Natal está próxima! — Saltinho aqui, saltinho acolá, alguns escondem-se numas Atou ainda um pequeno embrulho, compôs um laçarote e palmeiras, lá para cima, num sítio que os da cidade chamam Avenida. encheu o grande saco. Outros conseguem chegar a um jardim, que me dizem ser muito — O dever chama! — murmurou. Pegou num gorro e pôs-se a tranquilo e saudável, um tal Jardim Botânico ou coisa parecida. caminho da cidade. — E nós, avô? Tinha nevado e o mundo resplandecia. As árvores estavam — Nós ficamos. Podíamos ir para um telhado próximo, se não envolvidas em mantas brancas, colchões de plumas estendiam-se andassem por lá os gatos que têm olhos mais perigosos do que todas sobre os telhados e as ruas tinham-se coberto de algodão doce. as luminárias juntas. Olha, naturalmente, vamos para um sítio — Que beleza! — murmurou o Pai Natal a caminho da terra, sossegado que eu conheço, num buraco daquele edifício, ali, no cimo ao passar por sobre os telhados, ofuscado pelo reflexo da neve. da praça. É um bocado desabrigado e pouco cómodo, mas vais poder Um raio de sol fez-lhe comichão no nariz. Soltou um grande dizer, daqui em diante, que dormiste no Teatro Nacional... espirro e aterrou de trambolhão no passeio. Assim que chegaram os electricistas com as escadas, os cabos e — Ai! — disse uma voz. — Não podes prestar atenção onde os fios, a pardalada sumiu-se... cais? 9 115
  • 14.
    Numa destas noites,o pardalito deixou o avô a dormir com a O Pai Natal recompôs-se, esfregou os olhos. À sua frente cabeça debaixo da asa, e foi dar uma voltinha pelos arredores do seu estava alguém com roupas vermelhas, com uma barba branca e um novo poiso. O Rossio silencioso e exuberantemente iluminado gorro comprido. pareceu-lhe um jardim de sonho. — Desculpe — disse o Pai Natal. — Quem é o senhor? — — Tanta luz de tanta cor! — exclamou. perguntou perplexo. Nesse momento, um avião sobrevoava a cidade, em direcção ao — Mas isso vê-se logo — respondeu o outro. — Eu sou um aeroporto. No escuro do céu só se distinguia as luzes vermelhas da Pai Natal. E tu estás no meu caminho. Aqui não há espaço para dois, cauda. por isso põe-te a andar. — Olha, lá vão duas luzes a fugir... O Pai Natal meneava a cabeça. Não devia ter ouvido bem. Se E dispunha-se a voar atrás delas, se o avô não tivesse acordado, calhar o tombo tinha sido muito grande. entretanto. — O que tem dentro do saco para as crianças, se posso — Para onde ias? — perguntou-lhe ele. perguntar? — informou-se cautelosamente. O pardalito explicou. Comentário do velho pardal: — Vales para pequenas prendas — sorriu o outro ironicamente. — Para as pessoas irem ali à loja. — Que patetice! Ainda tens muito que aprender, pequeno, até te transformares num pardalão sabido! Apontou para uma montra onde se viam peluches, bonecas e brinquedos. É o que nós também achamos, ao cabo desta história. Estendeu um papel a um rapazinho que passava e gritou: António Torrado — Venham, crianças, há aqui coisas para vocês! www.historiadodia.pt Mas a voz não soava alegre. O sol passeava sobre os telhados. O Pai Natal continuou o seu caminho, passou por lojas de brinquedos e centros comerciais. Da porta da igreja saía uma luz, e uma canção pairava no ar. O Pai Natal sentiu-se contente mas, ao erguer os olhos, lá estava outro. Tinha botas pesadas, uma argola no nariz e a fivela do cinto brilhava. — É Natal, é Natal — cantava ele com voz rouca. 116 10
  • 15.
    — Desculpe, quemé o senhor? — perguntou o Pai Natal, espantado. — Acha que sou o Coelhinho da Páscoa? — respondeu o outro, com indignação. Noite de Natal O Pai Natal assustou-se. Um segundo outro. Será que hoje andaria a ver a dobrar? O amigo — E o que oferece às crianças? — perguntou delicadamente. Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à O outro bateu com o indicador na testa. volta. — Oferecer? Mas tu acreditas no Pai Natal? Eles já têm tudo! No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma Ando a distribuir rebuçados da tosse para as pessoas provarem. E cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. comprarem. É assim que isto funciona. Queres um? — perguntou a Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao uma menina que passava. — Tenho de continuar — disse depois, em grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se tom apressado. — Ainda me faltam mais três ruas. existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e O Pai Natal meneou a cabeça. mais complicada para o rei dos anões. — Incrível — disse. Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em O lusco-fusco empurrou o sol e deitou-se sobre a cidade. O quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às Pai Natal prosseguiu o seu caminho cantarolando. A neve rangia sob vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e os sapatos. que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. De repente, deu de caras com um novo outro. Era pequeno e Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu franzino, e tremia de fazer dó. jardim. — O que tem? — perguntou o Pai Natal atenciosamente. O E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros outro assoou o nariz. meninos. Só sabia estar sozinha. — Eu devia ser um Pai Natal — disse abatido — mas sou uma Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de rapariga e a minha voz é demasiado aguda. Outubro. — Isso é mau? — perguntou o Pai Natal. Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um 11 117
  • 16.
    garoto. Estava todovestido de remendos e os seus olhos brilhavam — As Raparigas Natais ainda não foram inventadas — como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo respondeu. Ergueu o casaco, puxou o gorro para as orelhas e às folhas do Outono. O coração de Joana deu um pulo na garganta. desapareceu ao dobrar da esquina. — Ah! — disse ela. E pensou: O Pai Natal franziu o sobrolho. Alguma coisa ali não estava «Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.» E do alto certa. Foi para o jardim e sentou-se num banco. Um véu perpassou do muro chamou-o: em frente da lua e começou a nevar. O Pai Natal apoiou a cabeça nas mãos, pensativo. Tantos Pais Natais! O que teria ali ainda a fazer? — Bom dia! Teria embrulhado as prendas erradas? Estariam os homens a precisar O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu: de outras prendas diferentes? Um pardal poisou-lhe no gorro. O Pai — Bom dia! Natal continuava a matutar e nem se deu conta. Ficaram os dois um momento calados. — Descobri! — disse de repente. E fez-se novamente ao Depois Joana perguntou: caminho. — Como é que te chamas? Os flocos de neve dançavam no ar, as lanternas projectavam — Manuel — respondeu o garoto. auréolas de luz sobre a rua, uma criança riu algures, uma bola de neve — Eu chamo-me Joana. passou-lhe a sibilar rente à cara. E de novo entre os dois, leve e aéreo, passou um silêncio. Na praça principal, um violinista de rua enregelava, bem como Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta. Até que o garoto o seu violino. Tinha um som débil e ofegante, como se fosse morrer disse: asfixiado a qualquer momento. O Pai Natal agarrou no saco e ofereceu ao violinista um som encantador. Este rejubilou. — O teu jardim é muito bonito. Numa cozinha, um rapazinho estava sentado, às voltas com os — É, vem ver. trabalhos de casa de Matemática. O Pai Natal pensou um pouco e Joana desceu do muro e foi abrir o portão. passou ao rapaz uma ideia por debaixo da porta. Ele pegou no lápis e E foram os dois pelo jardim fora. O rapazinho olhava uma por começou a escrever com satisfação. uma cada coisa. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. — Ora aí está! — murmurou o Pai Natal, atravessando a Mostrou-lhe o pomar, as laranjeiras e a horta. E chamou os cães para estrada. ele os conhecer. E mostrou-lhe a casa da lenha onde dormia um gato. 118 12
  • 17.
    Perto do cruzamento,estava um polícia. Tinha os pés frios e E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores. parecia encontrar-se de mau-humor. — É lindo, é lindo — dizia o rapazinho gravemente. — Aqui O Pai Natal assobiou-lhe uma musiquinha. — disse Joana — é o cedro. É aqui que eu brinco. E sentaram-se sob Os carros passavam a apitar e pareciam empurrar-se uns aos a sombra redonda do cedro. outros. Os condutores vociferavam. A todos o Pai Natal deu um A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de pouco de tempo e uma pitada de paciência. Os travões deixaram de frescura. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que chiar e de salpicar com lama de neve. dava voltas no ar. — Estão a ver? Assim também se consegue — disse o Pai Joana foi buscar pedras, paus e musgo e começaram os dois a Natal, satisfeito. construir a casa do rei dos anões. Na casa de espectáculos encontrou uma cantora com dores de Brincaram assim durante muito tempo. garganta, que rouquejava desanimada. O Pai Natal tirou saúde do Até que ao longe apitou uma fábrica. saco. Acrescentou-lhe alguns sons agudos. Bem ia precisar deles, e ela — Meio-dia — disse o garoto — tenho de me ir embora. experimentou-os todos imediatamente. — Onde é que tu moras? Numa casa, viu uma menina deitada de bruços em cima da — Além nos pinhais. cama. À sua frente tinha uma lista de prendas, mas não sabia o que pedir. Roía a ponta do lápis e olhava com ar triste para o ar. — É lá a tua casa? Se calhar, ela já tem tudo — pensou o Pai Natal — mas ainda — É, mas não é bem uma casa. lhe falta alguma coisa. — Então? E a alegria de partilhar com os outros inundou o quarto. — O meu pai está no céu. Por isso somos muito pobres. A Em seguida, começou a cantar Cai neve, cai neve… porque ela minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma estava de facto a cair e encantava a cidade. casa. — É bom quando podemos ser úteis — concluiu o Pai Natal, — Mas à noite onde é que dormes? esfregando as mãos. — O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem Viu como os outros faziam o seu trabalho mal-humorados, uma vaca e um burro. E por esmola dá-me licença de dormir ali distribuindo vales e oferecendo bombons, e a todos enviou boa também. 13 119
  • 18.
    — E ondeé que brincas? disposição. — Brinco em toda a parte. Dantes morávamos no centro da De regresso a casa, acendeu as luzes de uma árvore de Natal. cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Brincava com latas Pôs o seu gorro num boneco de neve, depois deu aos pássaros das vazias, com jornais velhos, com trapos e com pedras. Agora brinco no suas bolachinhas de Natal. O saco das prendas, tornou a levá-lo pinhal e na estrada. Brinco com as ervas, com os animais e com as consigo. flores. Pode-se brincar em toda a parte. — Noite feliz! Noite feliz! — cantarolava baixinho. — Talvez — Mas eu não posso sair deste jardim. Volta amanhã para venham a ser precisas no próximo ano! brincar comigo. Então, brilhou no céu a Estrela de Natal. E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Sigrid Laube Joana esperava-o empoleirada em cima do muro. “Erstaunlich”, sagt der Weihnachtsmann Wien, Annette Betz Verlag, 2003 Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda Texto adaptado do cedro. E foi assim que Joana encontrou um amigo. Era um amigo maravilhoso. As flores voltavam as suas corolas quando ele passava, a luz era mais brilhante em seu redor e os pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão que Joana ia buscar à cozinha. A festa Passaram muitos dias, passaram muitas semanas até que chegou o Natal. E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul, os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada. Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande; 120 14
  • 19.
    eram as pessoascrescidas que estavam lá dentro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos. Bolo-rei Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Esse Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma atravessar a pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de grande chave. Lá dentro havia sombras e brilhos. Era como o interior musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de uma caverna cheia de maravilhas, e segredos. Estavam lá fechadas de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o muitas coisas, coisas que não eram precisas para a vida de todos os Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de dias, coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças, frascos, caixas, papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal cristais e pássaros de vidro. Até havia um prato com três maçãs de amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde cera e uma menina de prata que era uma campainha. E também um se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas. Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. Não alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a tinha licença de o abrir. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que espreitar entre as duas portas. misturámos poemas com lágrimas. Nos dias de festa, do fundo das sombras do interior do De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus armário saíam os copos. Saíam claros, transparentes e brilhantes e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista tilintar era a música das festas. engomada, cheias de silêncios e reverências. Joana deu uma volta à roda da mesa. Os copos já lá estavam, Com olhos de amora madura, esse sorriso que ainda hoje tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma conserva, sempre molhado de uma melancolia que tem de adivinhar- fonte de montanha do que do fundo de um armário. As velas estavam -se mais do que ver-se, Fernando entrou na sala de jantar das acesas e a sua luz atravessava o cristal. Em cima da mesa havia coisas anfitriãs, cujas portas só o espírito natalício abria, raros que eram os maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro, pinhas douradas e gestos de caridade e partilha. Assim se explicava a presença do aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Era uma 15 121
  • 20.
    festa. Era oNatal. rapazinho e sua mãe, viúva recente e que ali trabalhava de manhã à Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de noite, para que a vida se assemelhasse ao que já fora. Natal as estrelas são diferentes. Servidos os manjares da época: a canja onde as bolhas de Abriu a porta e desceu a escada da varanda. Estava muito frio, gordura lembravam pequenos sóis fumegantes, o leitão de maçã mas o próprio frio brilhava. As folhas das tílias, das bétulas e das vermelha na boca que olhava Fernando em gritos de sufoco que só cerejeiras tinham caído. Os ramos nus desenhavam-se no ar como ele, poeta em germinação, conseguia ouvir; os fritos vários que nas rendas pretas. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos. travessas exibiam a abastança, chegou finalmente e foi colocado em lugar de honra, no centro da mesa, ladeado por dois castiçais onde as E muito alto, por cima das árvores, era a escuridão enorme e velas vermelhas ardiam, o bolo-rei, roda magnífica de cores, frutas, redonda do céu. E nessa escuridão as estrelas cintilavam, mais claras pinhões, bocados de açúcar que lembravam neve e cujo esplendor do que tudo. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas ofuscava o dourado das filhós, os reflexos das garrafas de licor, o coisas brilhantes: velas acesas, bolas de vidro, copos de cristal. Mas brilho dos copos de cristal. no céu havia uma festa maior, com milhões e milhões de estrelas. Fernando, pequenino, queixo tocando a toalha de renda, olhava Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. Não pensava aqueles mistérios de cor e perfume e falava, falava, dizia coisas tão a em nada. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e propósito que as senhoras, enlevadas, não se cansavam de sorrir e luminoso, sem nenhuma sombra. felicitar a mãe que tal filho tinha. Então, a mais velha, cabeção de Depois voltou para casa e fechou a porta. — Ainda falta muito renda e camafeu de marfim a fechar as golas, pega na faca de prata e tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a com solenidade, meticulosamente, parte o bolo. A criada ajuda à atravessar o corredor. distribuição nos pratinhos de sobremesa. — Ainda falta um bocadinho, menina — disse a criada. Então — Agora, não se esqueçam: aquele ou aquela a quem calhar a Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes, que era uma pessoa fava terá de pagar o bolo-rei no ano que vem! extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas E entre comentários de enlevo, gula, elogios à tessitura e ponto facas mais aguçadas sem se cortar, e mandava em tudo, e sabia tudo. ideal do levedo da massa, à abundância das frutas, à maciez e agrado Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia. do paladar, se comeu a sobremesa. A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os A prenda calhou à criada. dois perus do Natal. Virava-os e regava-os com molho. A pele dos — Que sorte! Mostre lá! 122 16
  • 21.
    — Olhe quemedalha tão bonita! Parece uma libra de verdade. perus, muito esticada sobre o peito recheado, já estava toda doirada. Até pode usar no fio que ninguém diz que não é autêntica. — Gertrudes, ouve uma coisa — disse Joana. — E tu, Fernandinho, não acabas de comer a tua fatia de bolo? A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os — Come que está bom e fofinho! perus. Fernando, subitamente silencioso, abanava a cabeça em — O que é? — perguntou ela. negativas. — Que presentes é que achas que eu vou ter? — Então, filho! Não sabes falar? Responde às senhoras: — Não sei — disse Gertrudes —, não posso adivinhar. queres mais um bocadinho de bolo? Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e — Ao menos acaba esse! por isso continuou a fazer perguntas. — Está cansado, coitadinho! Deixe-o lá. — E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes? Fernando baixava a cabeça, cabelos lisos na testa. A noite ia — Qual amigo? — disse a cozinheira. adiantada. A Miguel Bombarda, onde moravam, ainda ficava longe. — O Manuel. Sim, minha senhora, amanhã às oito cá estarei, se Deus quiser, para — O Manuel não. Não vai ter presentes nenhuns. cortar o vestido novo e pôr em prova a saia do “tailleur”. Foi uma noite muito bonita. Muito obrigada! Fernando dá um beijo às — Não vai ter presentes nenhuns!? senhoras e agradece. Diz obrigado, Fernando! — Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça. Fernando deu o beijo às senhoras, esticou a cara, pôs-se em — Mas porquê, Gertrudes? bicos dos pés, encheu os olhos de gratidão. — Porque é pobre. Os pobres não têm presentes. — Diz obrigado, filho! Mas o que te aconteceu? — Isso não pode ser, Gertrudes. — Deixe-o lá, coitadinho, perdeu a língua. É o sono, não é? — Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa Descem o elevador, abrem a porta da rua. A mãe, agastada, do forno. ralha: Joana ficou parada no meio da cozinha. Tinha compreendido — Mas que vergonha! Umas senhoras tão boas, recebem-nos que era «assim mesmo». como família, estavas a portar-te tão bem e agora isto, nem uma Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. Todas as palavra de agradecimento, nem boa noite, é esta a educação que te manhãs a ouvia discutir com o homem do talho, com a peixeira e com 17 123
  • 22.
    a mulher dafruta. E ninguém a podia enganar. Porque ela era tenho dado? Se o teu pai fosse vivo… cozinheira há trinta anos. E há trinta anos que ela se levantava às sete Então, já na rua, o frio de Janeiro a gelar-lhe as mãos e o nariz, da manhã e trabalhava até às onze da noite. E sabia tudo o que se a névoa a transfigurar a rua e as pessoas, Fernando, finalmente, abre a passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de boca e lá do fundo deixa voar o mistério da sua inesperada mudez: toda a gente. E sabia todas as notícias, e todas as histórias das — É que me calhou a fava, mãezinha. Eu sei que tu não tens pessoas. E conhecia todas as receitas de cozinha, sabia fazer todos os dinheiro para, no ano que vem, comprares um bolo-rei igual àquele. bolos e conhecia todas as espécies de carnes, de peixes, de frutas e de E, na palma da mão pequenina, cuspiu a fava que ali nascia, legumes. Ela nunca se enganava. Conhecia bem o mundo, as coisas e quente ainda, do esconderijo em que estivera. os homens. E ainda hoje, nas horas mais dolorosas, quando se esquece de Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mastigar a comida que arrefece no tabuleiro da cantina e prefere mentira. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha. viajar no país da infância, Fernando Midões, meu irmão mais antigo, De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse: sente a ternura solidária do abraço e o húmido das lágrimas com que — Já chegaram os primos. a mãe o aconchegou junto de si. Então Joana foi ter com os primos. Sem palavras, mãe. Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram Sem palavras. todos para a mesa. Maria Rosa Colaço Tinha começado a festa do Natal. Viagem com Homem dentro (adaptação) Leiria, Editorial Diferença, 1998 Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas, as facas, os copos, as bolas de vidro, as pinhas doiradas. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E vendo tudo isto Joana pensava: — Com certeza que a Gertrudes se enganou. O Natal é uma festa para toda a gente. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Com certeza que ele também tem presentes. 124 18
  • 23.
    E consolada comesta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes. O jantar do Natal era igual ao de todos os anos. A manhã do dia de Natal Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os Rob tinha quinze anos e vivia numa quinta. Todas as ananases. madrugadas se arrastava para fora da cama para ajudar a mungir. Às No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a vezes, sentia que o esforço era demasiado. porta e entraram na sala. Rob gostava do pai. Não sabia até que ponto, quando um dia, As luzes eléctricas estavam apagadas. Só ardiam as velas do um pouco antes do Natal, ouviu o pai a dizer à mãe: pinheiro. — Mary, custa-me muito chamar o Rob de manhã. Ele está a Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do crescer muito depressa e precisa de dormir. Gostava de conseguir Natal. Mas era sempre como se fosse a primeira vez. Da árvore nascia desembaraçar-me sozinho. um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. Era como — Mas não consegues, Adam. se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Era o A voz da mãe era determinada. Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, — Eu sei — disse o pai lentamente — mas a verdade é que me numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra. custa mesmo ter de o chamar. E no presépio as figuras de barro, o Menino, a Virgem, São Ao ouvir estas palavras, Rob sentiu algo a mexer dentro dele: o José, a vaca e o burro, pareciam continuar uma doce conversa que pai amava-o! Nunca antes pensara nisso. Passou a levantar-se mais jamais tinha sido interrompida. Era uma conversa que se via e não se depressa. O sono fazia-o tropeçar e vestia a roupa com os olhos bem ouvia. fechados. Mas, mesmo assim, levantava-se. Joana olhava, olhava, olhava. Na véspera de Natal do ano em que fazia quinze anos, estava deitado a olhar pela janela do sótão e a desejar ter um melhor Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. presente para o pai do que uma gravata de dez cêntimos comprada na Um dos primos puxou-a por um braço. loja. — Joana, ali estão os teus presentes. 19 125
  • 24.
    Joana abriu umpor um os embrulhos e as caixas: a boneca, a Lá fora, as estrelas brilhavam, e havia uma em particular que bola, os livros cheios de desenhos a cores, a caixa de tintas. lhe parecia ser a Estrela de Belém. À sua volta todos riam e conversavam. — Pai — perguntara uma vez — o que é um estábulo? Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham — É apenas um celeiro como o nosso — respondera o pai. tido, falando ao mesmo tempo. Então Jesus nascera num celeiro, e fora para um celeiro que os E Joana pensava: pastores e os reis magos se tinham dirigido, com os seus presentes de — Talvez o Manuel tenha tido um automóvel. Natal. E a festa do Natal continuava. Ficou siderado com a ideia. Por que não dar um presente especial ao pai? Podia levantar-se cedo, mais cedo do que as quatro As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a horas, e esgueirar-se para o celeiro para mungir. Faria tudo – mungir conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar. e limpar – sozinho. Quando o pai chegasse, veria tudo já feito. E Até que alguém disse: saberia quem o fizera. — São onze horas e meia. São quase horas da missa. E são Nessa noite, deve ter acordado umas vinte vezes. Às três menos horas de as crianças se irem deitar. um quarto, levantou-se e vestiu-se. Desceu silenciosamente as Então as pessoas começaram a sair. escadas, tendo especial cuidado com as tábuas que rangiam, e saiu. O pai e a mãe de Joana também saíram. Uma grande estrela cor de ouro avermelhado pairava por cima do — Boa noite, minha querida. Bom Natal — disseram eles. celeiro. As vacas olhavam-no, sonolentas e surpreendidas. E a porta fechou-se. Nunca antes mungira sozinho, mas parecia fácil. Não parava de Daí a um instante saíram as criadas. pensar na surpresa que o pai teria. Sorria e mungia com segurança, deitando para a selha dois fortes jactos, espumosos e perfumados. As A casa ficou muito silenciosa. Tinham ido todos para a Missa vacas estavam surpreendidas mas anuíam. Era a primeira vez que se do Galo, menos a velha Gertrudes, que estava na cozinha a arrumar portavam bem, como se soubessem que era Natal. as panelas. A tarefa foi desempenhada com mais facilidade do que E Joana foi à cozinha. Era a altura boa para falar com a habitualmente. Pela primeira vez, mungir não era penoso. Era algo de Gertrudes. diferente: um presente para um pai que o amava. — Bom Natal, Gertrudes — disse Joana. 126 20
  • 25.
    De volta aoquarto, só teve tempo de tirar a roupa no escuro e — Bom Natal — respondeu a Gertrudes. Joana calou-se um de saltar para a cama, porque já ouvia o pai a levantar-se. Cobriu a momento. Depois perguntou: cabeça com os lençóis para silenciar a respiração ofegante. A porta — Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade? abriu-se. — O que é que eu disse? — Rob! — chamou o pai. — Temos de nos levantar, filho, — Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque mesmo sendo Natal. os pobres não têm presentes. — ‘Tá bem — disse com sono. — Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve — Vou indo — disse o pai. — Vou pondo as coisas a andar. presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. A porta fechou-se e Rob ficou quieto, a rir com os seus botões. Os pobres são os pobres. Têm a pobreza. Os minutos nunca mais passavam – dez, quinze, não sabia quantos – — Mas então o Natal dele como foi? até que ouviu de novo os passos do pai. — Foi como nos outros dias. — Rob! — E como é nos outros dias? — Sim, Pai? — Uma sopa e um bocado de pão. O pai estava a rir, um riso esquisito, soluçante. — Gertrudes, isso é verdade? — Pensavas que me enganavas, não? — Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a — É por ser Natal, Pai! menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite. O pai sentou-se na cama e apertou-o contra si, num grande — Boa noite — disse Joana. E saiu da cozinha. abraço. Estava escuro e não conseguiam ver os rostos um do outro. Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de — Agradeço-te, filho. Nunca ninguém fez coisa mais bonita… Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E — Oh, Pai. pensava: Não sabia o que dizer. O seu coração transbordava de amor. — Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal — Bom, parece que posso voltar para a cama — disse o pai, e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas volvido um momento. — Espera… estás a ouvir? Os pequeninos já ao Manuel ninguém deu nada. estão a acordar. Agora que penso nisso, nunca vos vi a olhar pela E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se 21 127
  • 26.
    a imaginar ofrio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a Noite primeira vez para a árvore de Natal. Estava sempre no celeiro. Anda de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de daí! animais. Rob levantou-se, vestiu-se de novo e desceram para ver a árvore «Que frio lá deve estar!», pensava ela. de Natal. Depressa o Sol tomou o lugar da estrela. Oh, que Natal «Que escuro lá deve estar!», pensava ela. aquele, e como o seu coração quase rebentou de timidez e alegria quando o pai contou à mãe e aos mais novos que ele, Rob, se tinha «Que triste lá deve estar!», pensava. levantado sozinho. E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde — O melhor presente de Natal que alguma vez tive, e hei-de Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma recordá-lo, meu filho, todos os anos na manhã de Natal, enquanto vaca e de um burro. for vivo. — Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. Depois suspirou e pensou: Pearl S. Buck «Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.» M. Clark; E. Briggs; C. Passmore Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a Lighting candles in the dark Philadelphia, FGC, 2001 rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal. Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite. «Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal.» Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas. Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu. 128 22
  • 27.
    Na sala dejantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-a ficar só fechada no trinco. Depois atravessou o jardim. O Alex e a Ghiribita ladraram. A batalha de Natal — Sou eu, sou eu — disse Joana. E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se. — Só mais seis dias — constata Neli, tentando em seguida Então Joana abriu a porta do jardim e saiu. assobiar Noite Feliz. — Ainda seis dias — repete a mãe pensativamente. A estrela A voz não soa alegre. Após uma curta pausa, prossegue, Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar suspirando. — Se tudo tivesse já passado! para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas Com o assobio suspenso no ar, Neli olha para a mãe com ar enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua estupefacto. parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém. — Então não estás contente? Estava toda a gente na Missa do Galo. As casas, dentro dos seus — Sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda! jardins, tinham as portas e as janelas fechadas. Não se viam pessoas, Como Neli não tem aulas à tarde, vai patinar com uma amiga e, só se viam coisas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a mais lá para a noite, dirige-se ao supermercado onde a mãe trabalha. olhavam e a ouviam como pessoas. Há tanto movimento que mais parece estar-se numa colmeia. A mãe «Tenho medo», pensou ela. encontra-se sentada numa cadeira giratória diante de uma das seis Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada. caixas registadoras. Os produtos chegam-lhe num tapete rolante e, Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um enquanto a mão direita está pousada no teclado e marca os números, atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, a mão esquerda roda os produtos de forma a poder ler os números, e, planos e desertos. Ali, sem muros nem árvores nem casas, a noite via- em seguida, coloca-os, produto a produto, no carrinho de compras. se melhor. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante. Quando acaba de marcar tudo, a mão direita carrega na tecla do total O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via- e rasga o talão, enquanto a esquerda afasta o carro cheio e puxa o -se a massa escura dos pinhais. próximo, vazio, para junto dela. «Será possível que eu chegue até lá?», pensou Joana. 23 129
  • 28.
    Mas continuou acaminhar. — Que bem que fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. Ali no faria tudo devagar, assim: tipp… tipp … … e, ainda por cima, descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara metade saía mal. como uma faca. — Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. «Tenho frio», pensou Joana. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço, e muitas vezes carregava nas teclas Mas continuou a caminhar. erradas e as pessoas resmungavam porque tinham de esperar. Mas À medida que se ia aproximando dele, o pinhal ia-se tornando agora já quase consigo fazer isto automaticamente. maior. Até que ficou enorme. — Como um robô! — Neli riu-se. Joana parou um instante no meio dos campos. Um robô como mãe? Nunca teria dor de cabeça, nem à noite «Para que lado ficará a cabana?», pensou ela. estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração. Por isso, Neli E olhava em todas as direcções à procura de um rasto. prefere a mãe tal como é, mesmo quando certas noites quase nem Mas à sua direita não havia rasto, à sua esquerda não havia consegue falar de tão cansada que está! rasto e à sua frente não havia rasto. Só mais quatro dias. «Como é que hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela. Só mais três. E levantou a cabeça. As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava. abasteciam-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um «Esta estrela parece um amigo», pensou ela. ruído sibilante, as portas automáticas abriam-se e fechavam-se, E começou a seguir a estrela. abriam-se e fechavam-se. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro. Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma roda à sua volta. Eram enormes, verdes, roxas, pretas e Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe tinha escrito a azuis, e dançavam com grandes gestos. E a brisa passava entre as vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial. agulhas dos pinheiros, que pareciam murmurar frases Próximo, balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, incompreensíveis. E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos Joana teve medo e quis fugir. Mas viu que no céu, muito alto, para homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80/Kg. 130 24
  • 29.
    Os altifalantes pingavammúsica de Natal: além de todas as sombras, a estrela continuava a caminhar. E seguiu a Noite feliz… estrela. Cabeça de anho Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos. Noite feliz… «Será um lobo?», pensou. Café suave Parou a escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha Papel higiénico de três folhas caminhando ao seu encontro. O Senhor … «Será um ladrão?», pensou. Lenços com monograma Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha Mostarda na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto Nasceu em Belém… azul todo bordado de diamantes. A mãe gemia e, com um movimento rápido, limpava o suor do — Boa noite — disse Joana. lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, — Boa noite — disse o rei. — Como te chamas? apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem — Eu, Joana — disse ela. olhavam para a senhora da caixa, pensando no regresso com os sacos pesados, o eléctrico cheio. — Eu chamo-me Melchior — disse o rei. E perguntou: Uff! — Onde vais sozinha a esta hora da noite? Só mais três dias, e acaba tudo. — Vou com a estrela — disse ela. — Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse à — Também eu — disse o rei —, também eu vou com a noite a mãe, virando-se para a Neli — Peru assado com a laranja e estrela. batatas assadas e, como sobremesa, rabanadas e bolo-rei. E juntos seguiram através do pinhal. No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um sombras da noite. desconto de 15%, os produtos que sobravam. A mãe de Neli achava Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros que valia a pena, por isso tinha guardado as compras maiores para caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e 25 131
  • 30.
    safiras. essa altura: uma pasta escolar para a Neli, uma boneca, lápis de cor, — Boa noite — disse ela. — Chamo-me Joana e vou com a um anoraque para o pai, a comida para a ceia de Natal. estrela. Na sala do pessoal, havia um lanche para todos os empregados. — Também eu — disse o rei —, também eu vou com a estrela — A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — repetia o e o meu nome é Gaspar. chefe do pessoal. Dizia, depois, mais umas palavras elogiosas e eram E seguiram juntos através dos pinhais. E mais uma vez Joana servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho. ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de sombras azuis e os pinheiros escuros. compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta. boas para a ceia!” — pensou assustada. — Boa noite — disse ela. — O meu nome é Joana. E vamos Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não se voltava a com a estrela. lá entrar. Foi de mãos vazias que chegou a casa. — Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu meu nome é Baltasar. as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o E juntos seguiram os quatro através da noite. muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi No chão, os galhos secos estalavam sob os passos, a brisa mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o murmurava entre as árvores e os grandes mantos bordados dos três assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes, roxas e azuis. sobremesa. Trincaram simplesmente nozes e comeram maçãs. Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. E — Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano sobre essa claridade a estrela parou. passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me assentam bem. E continuaram a caminhar. Também não havia muito que desembrulhar. Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana Por isso, sobrou tempo. Muito tempo. viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem Neli foi buscar o jogo Memory que recebera no Natal anterior. tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que anjos o iluminava. 132 26
  • 31.
    alguém tivesse tempopara jogar com ela. E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas Agora, os pais tinham tempo. entre a vaca e o burro e dormia sorrindo. O pai nunca tinha jogado Memory. Ao fim de algum tempo, Em sua roda, ajoelhados no ar, estavam os anjos. O seu corpo Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra. geralmente quer ganhar sempre, procurava constantemente no sítio E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar. errado. Era assim, à luz dos anjos, o Natal de Manuel. Tentava ajudar-se com truques, pondo, sem ninguém dar — Ah — disse Joana — aqui é como no presépio! conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou — Sim — disse o rei Baltasar — aqui é como no presépio. pousava as mãos na mesa, de tal forma que o polegar indicava a Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes. direcção em que estava uma determinada carta. Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangava por Sophia de Mello Breyner Andresen perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto. A Noite de Natal Porto, Figueirinhas, 1989 À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar. — A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou como ela afinal sempre estava contente por ser Natal. Ao ir para a cama, Neli disse: — Este foi um Natal muito bonito. — A sério? — perguntou a mãe admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas. — Mas houve muito tempo — respondeu Neli. Jutta Modler (org) Brücken Bauen Wien, Herder, 1987 27 133
  • 33.
    O Viajante O bolo-rei Quando Eva entrou na Arca, apenas da estrela da tarde restava O bolo-rei tomava-se muito a sério. Não havia discussão: ele um pouco de luz. Havia muito já que os largos horizontes da planície era o rei dos bolos. se tinham diluído e uma noite imensa parecia anunciar o final dos Como tal, quando lhe caiu uma passa da coroa, ordenou ao tempos. Um cheiro sufocante e húmido inundava todo o espaço, bolo-inglês: enquanto, lentamente, o caminho se fazia, num rio sem margens que — Traz-me essa passa de volta. o assinalassem. Seres escuros, de rostos invisíveis, embrulhados nos O bolo-inglês fez-se desentendido e respondeu: xailes de merino ou grossos capotes, dormitavam, as cabeças — Sorry! I don’t understand... oscilando, uma das mãos segurando a asa das cestas donde emergia o pescoço dos patos e perús que, daí a horas, seriam sacrificados no O que queria dizer, na língua dele, que pedia desculpa, mas não altar das tradições natalícias. tinha entendido. Eva sentou-se ao lado do timoneiro que tentava vislumbrar o Então, o bolo-rei virou-se para um bolo de natas e deu a rumo para lá dos grossos cordões de chuva ou, um só que fosse, dos mesma ordem. Queria, outra vez, a passa a ornamentar-lhe a coroa. antiquíssimos sinais que há anos lhe serviam de bússola e estrela do O bolo de natas tinha uma fala atrapalhada, por causa do norte: o perfil do monte da barra azul, o moinho sem velas, a oliveira excesso de natas. com uma cruz pintada a cal onde Justa se enforcara, a velha ponte — Flá, plefe, pflu, pfló... romana, a capelinha, se nesta viagem houvesse dados, referências e Não se percebia nada. aquela chuva diluviana não ocultasse tudo num manto de desolação. O bolo-rei, muito irritado, ordenou o mesmo ao bolo de Pelo espelho lateral, Eva tentava descobrir o rosto dos viajantes amêndoa, que lhe respondeu: mas, só as cabeças das aves saindo das cestas vermelhas, se agitavam — Também a mim me caiu uma amêndoa torrada e não me em gritos intervalados. De repente, um chiar de travões sacudiu a queixo. Arca e, na claridade difusa dos faróis, recortado de encontro ao vidro, 29 135
  • 34.
    O bolo-rei, cadavez mais exasperado, deu a mesma ordem a surgiu o rosto. Tinha uns olhos imensos, tristes, o cabelo e a barba um pudim de gelatina, mas o pudim de gelatina era muito frágil, compridos, brilhantes da água que o enquadrava numa moldura muito nervoso e só tremeu, tremeu, incapaz de dizer ou fazer o que líquida. Ergueu as duas mãos como se quisesse segurar a luz, impedir quer que fosse. que a Arca o esmagasse ou esperar que se detivesse para ele entrar. — São uns rebeldes estes meus súbditos — concluiu, numa Entre impropérios, pragas à vida, ao tempo, à profissão que grande exaltação, o bolo-rei. — Condeno-os a que sejam todos escolhera, o timoneiro não parou. Pelo contrário, acelerou. Por cortados às fatias. fragmentos de segundos, o Homem pareceu ter oscilado. Levantou os braços como quem tenta proteger-se, depois, diluiu-se em noite e E assim aconteceu. Mas nem o bolo-rei escapou. ausência, não sem que antes, o seu olhar, que tinha a fosforescência António Torrado dos eleitos ou dos animais livres e puros, iluminasse mais uma vez o www.historiadodia.pt negrume que cobria o mundo. — Não viu o Homem? — sussurrou Eva. — Vi muito bem. Parecia um fantasma vindo sabe Deus donde e para quê. — Não vai parar e recolhê-lo? — Aqui não é lugar de paragens. Muita sorte a dele em não ter sido atropelado. Só um doido é que anda por aí, numa noite destas, num caminho assim, sem princípio nem cais de desembarque. Eva tentou imaginá-lo atravessando sozinho as ondas daquele novo dilúvio que desabara na terra e parecia já ter apagado a lembrança das coisas, a respiração viva das horas mais antigas e os sonhos. Todos os sonhos. Talvez esta Arca encontre um dia, de novo, o alto dos montes e tudo se refaça como no princípio. Talvez amanhã ou daqui a muito tempo – o que é o Tempo? – o timoneiro abra uma nesga de vidraça e solte, não a pomba dos mitos mas um pato que regressará, grasnando, para confirmar que são longe as oliveiras e 136 30
  • 35.
    perdidas para sempreas cores do arco-íris. E, nesse dia, só o olhar do Homem permanecerá, colado à memória de quem o encontrou, no espaço visível e mínimo que os faróis em trânsito consentiram. Ficará ali, para sempre, implorante e acusador, como uma pintura antiga, como o vestígio de um fóssil onde se assinalará para as gerações vindouras o remorso e o amor não consentido. Eva levantou a gola do seu capote alentejano. Sem desfitar o abismo perguntou: — Ainda chegaremos antes da meia-noite? — E se não chegarmos que diferença faz? Acha que existe algum deus que mande o filho nascer numa noite como esta, de lama, frio e miséria? Bem sei que para lavar tanta imundície da terra, não existe água que baste mas, escusava de ser logo hoje. Apesar de tudo, o Natal é um tempo desejado, a única altura em que parece amansarem as feras que trazemos à solta dentro de nós. Esta lata que conduzo já deixou de ser uma camioneta: é uma barca perdida, talvez a Arca de Noé, e esses todos que aí estão atrás, a dormir, sonhando com grandes ceias, prendas, vinho, esse todos, olhe-os bem: descontando os patos e os perús que estão bem acordados adivinhando talvez o que os espera, o resto é gente que já morreu há muito e não deu por isso. Eva fecha os olhos. Um pranto convulso inunda-lhe os pensamentos e o rosto do Homem cresce, furtivo, na sua ternura. Apetece-lhe sair daquele sarcófago ambulante, mergulhar na noite, caminhar no vazio, ir ao seu encontro onde quer que esteja: ou 31
  • 36.
    caído nas pedras,ou pregado numa cruz, ou sendo açoitado no átrio dos templos, ou coroado de espinhos, ou vestido com o manto escarlate e áspero da solidão. De repente, soube que o viajante nocturno veio de outras margens, outros dilúvios, dos escombros das guerras, atravessando cinzas e risos, fugido dos altares. A mão que se ergueu contra os faróis, Eva recorda-se agora, tinha uma pequena cratera cercada de azul, da espessura de um prego. Assim, enquanto a Arca navega na noite, por entre o ruído brando dos pequenos imprecisos sinais com que figuramos os sonhos e os poemas, se foram reconstituindo as sombras e o cheiro a húmus que brotava não se sabia bem donde. Um nevoeiro espesso e repentino cresce do chão e oculta o resto do que já era invisível, como se um enorme animal enfurecido tivesse começado de súbito a respirar. Eram onze horas da noite desse dia vinte e quatro de Dezembro quando a Arca encalhou, finalmente, no largo da vila. De súbito, sem que se percebesse porquê, deixou de chover, mas por muito tempo, as pedras guardaram ainda no dorso de granito, reflexos puros. As sombras mexeram-se. Reanimaram-se. Pegaram nos embrulhos, nos imensos guarda-chuvas, nos cestos, nos sacos de plástico, na resignação. Abraçaram outras sombras que os esperavam. Os patos, as galinhas, os perús gritaram na noite: o deus das aves, implacável, avisara-as dos rituais de sangue em que iam ser imolados. Protestavam. Inutilmente como acontece com todos os inocentes. Eva avista a Mãe. O mundo refaz-se quando os seus olhos se cruzam com o seu 32
  • 37.
    olhar angustiado edoce. — Que susto, filha! Que noite de Natal mais estranha. Há cinco horas que esperamos a camioneta. Já não sabíamos que pensar. Caminhavam pela rua da infância. O Natal das bonecas Quando a porta da casa se abre, Eva sente o calor da lenha que crepita, olha a mesa posta e que sabe de cor: são seis os pratos, seis A rua tinha luzes de muitas cores que, encavalitadas nos os talheres, dezoito os copos de pé alto, brilhantes sobre a toalha alva postes, faziam desenhos de Natal. E dançavam ao som duma música e engomada, com grandes flores em matiz branco e rosa pálido, feita cheia de sonoridades leves como algodão. De vez em quando passava há cinquenta anos para o baptizado da Mãe. Ao centro, uma vela um automóvel apressado. Apesar disto, ali da montra onde se vermelha cresce dos ramos de azevinho, das flores e dos frutos. E encontravam, tudo era frio e distante. Eram duas bonecas que ainda duas garrafas cheias de vinho branco e tinto que ninguém ninguém quis comprar. beberá. Nos pratos das cabeceiras da mesa que se destinam a Eva e à — Este é o nosso primeiro Natal... Mãe, duas lembranças atadas com fita às riscas douradas e também — E, decerto, o último. Se ninguém nos comprou, vamos ser um pequeno ramo de pinheiro. Nos outros pratos, uma discreta flor retiradas da montra e arrumadas, ou entregues à caridade, ou sobre os guardanapos presos em argola de prata com nomes gravados: destruídas. são os ausentes. Os que partiram para o outro lado do Tempo. Ali — Assim será, com certeza. A nossa vida depende das leis do estão, em todos os Natais, em todos os aniversários e celebrações: mercado. sentados, hirtos, solenes, a impedir que os esqueçam, que se solte E foram conversando para passar o tempo, ora filosofando uma gargalhada feliz, um riso claro. Ali estão, a espreitar as prendas sobre a sua efémera existência, a sua matéria breve, ora imaginando que Eva e a Mãe trocam ao soar a meia-noite, com um beijo e uma como seria o Natal das pessoas, que só conheciam de ver passar na frase: «Feliz Natal e que Deus os conduza aos caminhos da Luz e nos rua, ou da loja, quando entravam para comprar bonecas. guarde no Seu amor.» Ali estão, a gelar a sala, a controlar as palavras, a exigir que os recordem, que falem dos seus hábitos, dos gestos que — Esta é belíssima, elegante, tem um belo vestido e uma lhes eram perfil. cintura fina. Há anos que é assim. Por isso, chegar é quase igual a partir. — Esta tem uma expressão de felicidade, um olhar doce. Sobre a tábua da chaminé, o pequeno presépio que já foi da bisavó da — Aquela, de cabelos louros, tem no rosto o sol abrasador do 33 139
  • 38.
    Verão. avó, que também partiu. Mas ali está o seu nome, na argola de prata: Mesmo para uma boneca, era triste ficar ali na noite de Natal a Lucrécia. olhar a solidão da rua. Sobretudo quando imaginavam a alegria das — Vai mudar de roupa. Veste uma camisola mais quente. Vou outras bonecas que tinham sido vendidas: a emoção de sair de dentro buscar o bacalhau, é quase meia-noite. dos embrulhos, de sentir todas as atenções, de receber um nome, de Eva dirige-se ao guarda-louça. Tira mais um prato, dois copos, entrar na família fantástica das crianças. talher, um guardanapo e coloca-os na mesa. Do prato que está à Todas as pessoas deviam ter uma casa, porque ninguém passava cabeceira e lhe pertence, retira a prenda e, em seu lugar, coloca uma na rua. Todos os meninos deviam ter brinquedos na noite de Natal, bola azul brilhante que roubou da árvore de Natal. porque os brinquedos mais bonitos tinham sido vendidos. Em todo o Sentam-se. mundo devia haver alegria e surpresa e magia naquela noite, porque Eva dá a direita à Mãe. era dessa forma que a imaginavam. — Mas aí não é o teu lugar. Sabes que gosto de conservar os Dentro das casas, o ar estaria povoado de seres fantásticos, que hábitos. se moviam como se não tivessem peso. Esvoaçavam como se fossem — Aqui, a teu lado, em todos os dias de festa, vai ser o meu pequenos pássaros transparentes. E isto criava uma grande excitação lugar de hoje em diante. Fico mais perto de ti. O dia foi muito longo, entre as crianças. Elas próprias se sentiam tão leves que os seus já tinha muitas saudades tuas, do cheiro da casa, deste calor manso movimentos eram como os movimentos dos astronautas: dançavam, que nasce onde estás. elevavam-se, sorriam, tocavam-se, cantavam melodias afinadíssimas e finas como um fio de cristal. As bonecas entravam também nesta — E ali, onde puseste a bola azul, na cadeira de honra, quem dança fantástica como se fossem pessoas de verdade. A árvore de se senta? Natal transformara-se numa enorme tília de grandes ramos. Havia — Um Homem que vi esta noite no meio do temporal e baloiços pendurados nos ramos. Havia pequeninas casas suspensas ninguém recolheu. nos ramos. As estrelas desciam e poisavam nos ramos. E todos — Um Homem? Quem? aqueles seres – crianças, anjos, pássaros, estrelas e bonecas – — Não sei. Mas vai ficar aqui, no lugar dos vivos, nesta casa e percorriam os ramos, como se fossem caminhos, entravam nas entre nós. Para sempre. casinhas, dançavam nos baloiços, agarravam-se à cauda das estrelas. Lá fora, o relógio velho da torre, atravessou com doze Entre os ramos mais distantes construíam passadiços e imaginavam badaladas o ar frio e quase transparente da noite que amansara e se 140 34
  • 39.
    enchera de estrelas. rios por onde às vezes desciam: bebericavam, tomavam um banho, Eva tinha quinze anos, nesse tempo. atiravam salpicos de água uns aos outros. Já perdeu a casa. Estavam assim imaginando, quando se aproximou da montra uma figura muitíssimo estranha: tinha umas roupas sujas e gastas, os A Mãe. cabelos sujos e desalinhados, a barba suja e por fazer e nos seus olhos A mesa onde os ausentes vigiavam. havia fome, desolação e desprezo. Falava sozinho palavras Às vezes, ela própria já se vê ausente. imperceptíveis. Mas, sabe-se, ainda guarda a bola azul. — Esta figura não deve ser de cá... Maria Rosa Colaço Viagem com Homem dentro — Talvez tenha descido de outro planeta, um planeta onde Leiria, Editorial Diferença, 1998 não há Natal, nem casas, nem anjos, nem estrelas, nem amigos... A rua continuava deserta e o homem continuava ali fitando a montra e falando desordenadamente. De nenhum lado surgia uma sombra, uma voz, um movimento, um pássaro branco, um anjo de tule, um caule de luz. Até a música de algodão pendurada nos postes se tinha já calado. — Como deve ser triste a vida na terra, na cidade ou no planeta donde veio... Nada no seu rosto fazia lembrar a alegria: nenhuma expressão, nenhum traço, nenhuma palavra. De vez em quando estendia o braço, apontando não se sabia o quê, apontando por apontar; e o vento gelado da noite alinhava os seus cabelos na direcção do braço. E nada lá ao longe fazia lembrar a liberdade. Outras vezes ficava estático e imóvel, fitando o infinito. Parecia uma estátua feita do mais cruel abandono; parecia um tronco velho de uma árvore; parecia a coluna de um palácio abandonado. E 35 141
  • 40.
    nada na suapose fazia lembrar a paz. Outras vezes ajoelhava-se fitando o chão, como se o chão fosse um enigma por decifrar, como se na pedra do chão estivesse gravado um vestígio de Deus; como se Deus se tivesse esquecido, por acaso, de uma marca, um indício, um grão de poeira, um cabelo que fosse. — Há tempos ouvi falar aqui na loja de um país ou planeta onde as pessoas são desprezadas, onde lhes negam o pão e as obrigam a matar-se umas às outras. Os que as governam são maus e obrigam- -nas a viver na rua como animais vadios. O homem não tirava os olhos da montra como se estivesse a falar com as bonecas, mas utilizando uma linguagem que elas não entendiam. Poisou no chão umas sacas que trazia consigo e começou a esbracejar. Mas nenhum dos seus gestos fazia lembrar a justiça. Ora estava de pé, ora de cócoras, ora se sentava no passeio. Mas sempre desenhando a mesma veemência, a mesma impaciência. — Talvez queira dizer-nos alguma coisa. Talvez pense que somos pessoas. Talvez procure em nós uma resposta para as suas perguntas. — Talvez tenha pena de nós e ficasse ali a distrair a nossa solidão. Passado muito tempo, adormeceu encostado à montra. Um cão que passava remexeu-lhe nas sacas e fugiu abocando alguma coisa que não puderam ver o que era. Depois veio outro cão e deitou-se ao calor dos seus pés. Assim ficaram ali pela noite dentro. Era quase de madrugada quando apareceu, não se sabe de onde, uma mulher igualmente desgrenhada, cambaleante e com os olhos cheios de 142
  • 41.
    amargura e abandono.Trazia nos braços algo que poderia ser uma criança. Deitou-se também, puxou um dos sacos para a cabeça a fazer de travesseiro e adormeceu. Um gato debaixo do pinheiro de Natal — São estranhas estas figuras... Como é que no país ou no planeta lá onde moram não há Natal? Porque a vida habitava nela, a possuía, a menina reconhecia a morte inscrita — Como devem ser infelizes as pessoas... Um planeta sem no reverso de qualquer momento de felicidade, de qualquer instante feliz. Natal devia ser extinto, devia explodir nos ares, ficar desfeito em Brincava no cemitério como se fosse um jardim. poeira fina e disperso pela imensidão dos céus. — O gato cinzento está com mau aspecto — observa Laura, — Provavelmente foram expulsas e tiveram de caminhar dias e empoleirada no alto do pequeno muro que separa o jardim do baldio. noites até encontrar este recanto. Mas o pai está a cortar a sebe e não ouve o que ela diz. — Tiveram sorte de não serem assaltadas pelo caminho, nem — O gato cinzento está com mau aspecto; acho que está de morrerem de frio, de sede ou de fome. doente… — insiste ela. — Talvez tenham uma resistência e uma energia maior do que A mãe não ouve, ocupada também a arrancar as ervas do a das pessoas que conhecemos. passeio, o que Laura, aliás, também devia estar a fazer para a ajudar. — Talvez o seu corpo não sinta frio nem calor. Talvez não Então Laura repete para si, em voz baixa e grave: precisem de alimento, de carinho, de amizade. — Parece que o gato cinzento vai morrer. — Pelo menos numa coisa são diferentes de nós, bonecas: precisam de dormir... O gato sem nome nem casa tem o pelo descaído e o salto lento; não liga aos pássaros, já não tem fome, foge do sol e abriga-se — Devem ser alimentados e encorajados durante o sono por entre dois pés de urtigas. um anjo ou outro ser invisível. — É preciso chamar o veterinário — sugere Laura. Por um tempo deixaram-se destas conjecturas e voltaram a pensar como seria o Natal dentro das casas. Agora todos estariam já a — Nem penses! Ele tem mais que fazer do que tratar os gatos dormir, sonhando com os anjos, os pássaros transparentes, as vadios. estrelas; sonhando com um tal Jesus, que não sabiam muito bem Desta vez, a mãe sempre resolvera responder. quem era, mas devia ser tão maravilhoso que até lhe chamavam 37 143
  • 42.
    Salvador. — Não é vadio, porque eu acolhi-o e gosto dele — retorquiu Estavam assim imaginando, quando surgiu um carro da polícia. Laura. Parou em frente à montra. De dentro saiu um homem com uma farda Laura só faz o que lhe apetece. Amanhã, a caminho da escola, e deu um pontapé no cão, que ganiu e fugiu a coxear. Depois fez o vai bater à porta do veterinário, como fez da outra vez por causa de mesmo ao homem e à mulher e obrigou-os a entrar no carro, o que um passarinho caído do ninho e de um ouriço-cacheiro meio fizeram ensonados e sem oferecer resistência. esmagado por uma bicicleta. É um veterinário idoso muito simpático, — Sempre não devem ser de cá... que não a manda dar uma volta. — Talvez as autoridades os tenham levado para analisar e “Amanhã vou esconder o gato na minha pasta, está decidido.” estudar como é a vida no país ou planeta de onde vieram. No dia seguinte, não consegue encontrar o gato em lado — Ah! Já sei porque vieram buscá-los. Não te lembras de ouvir nenhum e são já mais que horas de ir para a escola. Laura vai então falar do Presépio? Era um homem, uma mulher, uma criança e um sem o gato. Bate à porta do veterinário para pedir um conselho. animal. Decerto andavam à procura de um presépio raro, e Mas é a mulher que vem à porta e lhe dá uma resposta seca: encontraram este e levaram-no para um museu. — O meu marido está inundado de trabalho. — O que é um museu? “Inundado”? O rio inunda as terras; a banheira, quando — É uma casa muito grande cheia de coisas antigas, raras e demasiado cheia, inunda o quarto de banho… mas um veterinário valiosas onde também há pessoas com olhos, boca, ouvidos e mãos; “inundado”? Então, quem há-de aconselhar Laura? Não quer que se mas não vêem, não falam, não ouvem, não cumprimentam ninguém. riam dela, não quer ser motivo de troça. Chamam-se estátuas. Durante o recreio do meio-dia, Laura escapuliu-se do pátio. Se — E dentro dos museus também há Natal?... a professora soubesse! Se a mãe a visse! Laura sabe que pode ser Natal de 1997 suspensa por três dias: “Que falta de responsabilidade!”. Ela bem Nuno Higino sabe, mas o gato cinzento está com tão mau aspecto… A mais alta estrela – Sete histórias de Natal Que surpresa! É um rapaz novo que vem atender. CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000 — O meu pai vai aposentar-se e sou eu que vou substitui-lo — explica com gentileza, ao ver o espanto de Laura. Ela gaguejou ao falar do gato e o veterinário compreendeu num 144 38
  • 43.
    ápice: — Esta tarde, Laura, não tenho muito trabalho, e por isso vou dar uma volta para esse lado. Depois das quatro horas, ao regressar da escola, Laura David e a estrela encontrou um bilhete que a mãe lhe leu: Ao Ciryl. Lamento! Tive de ajudar o teu gato a partir sem sofrer A Paola que sabem acender a ternura. demasiado… Foi pena, mas era melhor para ele. Quando quiseres… A casa de Ciryl e Paola fica mesmo no alto da serra da Malveira. Quando se chega lá acima, o ar é leve e, se levantarmos os Até breve, Laura! braços, podemos tocar nas nuvens e agarrar o sol. Sérgio É uma casa antiga, de grossas paredes de pedra, com salas Laura ouviu a mãe falar a sério de eutanásia, de injecção, e enormes onde se ouve música antiga, canções e poemas porque os concluir por fim: corações de Ciryl e Paola estão sempre abertos à beleza e à amizade. Talvez por isso, porque Ciryl e Paola da serra da Malveira são — Tens um amigo novo. Sérgio é um nome estranho, que me pessoas especiais e lindas, esta história aconteceu. faz pensar no tecido do casaco que eu usava quando tinha a tua idade e que… Da varanda da casa que lembra um desses castelos com reis, princesas e fadas boas, avista-se o mar. Até lá, muito longe, onde o Mas Laura não tinha vontade de ouvir as recordações da mãe. olhar quase se perde, crescem as árvores, flores, e o vento que nos Foi chorar sozinha para cima do pequeno muro. Perguntou a si despenteia carrega o perfume de coisas que nos enchem de paz e mesma para onde teria Sérgio levado o gato morto. Pareceu-lhe tê-lo alegria. Mas, o ano passado, alguém deitou fogo à serra. visto, cinzento e de pêlo brilhante, escapar-se por entre as ervas altas; bem sabe que foi uma ilusão. Depois, o pintarroxo-que-tinha-medo- Por entre as sirenes dos carros de bombeiros, os gritos, o voo -do-gato voltou para o terraço e Laura riu-se das suas bicadas ávidas. assustado das aves, o gemido dos pequenos animais sem abrigo, Saltou rapidamente do seu posto de observação para ir buscar ouviam-se as árvores a chorar. Primeiro erguiam os seus grandes migalhas frescas. ramos para o céu, depois, as pequenas folhas estalavam e, com um ruído ensurdecedor, víamo-las tombar como gigantes feridos. Foi tão Junto do pinheiro de Natal, está um presente que dá saltos. triste! Nos meses seguintes o que se avistava da varanda mais alta da 39 145
  • 44.
    casa, eram apenasos caminhos queimados cobertos de tristeza e Contrariamente ao habitual, a mãe sugere que se abram as prendas de silêncio. Natal antes da missa do galo. Laura nem quer acreditar. Há muitas Certa manhã de Dezembro, já perto do Natal, Ciryl e Paola coisas a mudar nesta casa, de há uns tempos para cá. Talvez desde tiveram uma ideia: foram pelas escolas e desafiaram as crianças: que o pai “esteve às portas da morte”, como diz a avozinha. Laura «Vamos semear pinheirinhos novos e deixar a nossa serra toda verde ficou a saber que isso significa escapar à morte. Terá ela suspeitado como era dantes.» da gravidade do estado de saúde do pai, encontrado desmaiado no jardim enquanto ela estava na escola? «Vamos!», disseram os meninos. «Vamos!», disseram as meninas. No entanto, ele está aqui esta noite, o pai, bem vivo e a rir-se, quando a mãe mostra à Laura a prenda que mexe: um gatinho De súbito, foi como se um sino tivesse tocado no coração do cinzento. mundo. Parecia uma só voz o que se ouviu e ecoou por todo o lado, das — Parece filho do gato cinzento. Amanhã vou logo apresentá- -lo ao Sérgio. casas ao mar. Colette Nys-Mazure E tinha tanta força essa voz que os pais dos meninos, e as Contes d’Espérance mães, e as avós, e os tios, e as tias, e os primos, e as primas, e as Paris, Desclée de Brouwer, 1998 madrinhas, e os padrinhos vieram também. Traziam pás, ancinhos, enxadas, pequenos sachos, regadores. Era como um filme. Pela serra inteira, gente que andava, parava, ria, abria buracos e plantava árvores. Árvores, dezenas de árvores que o Ciryl e a Paola mandaram vir de todas as partes do mundo: pinheiros, abetos, araucárias, cedros do Líbano. As pessoas, pela serra, pareciam borboletas voando: corriam aqui, escorregavam ali, levantavam-se, trocavam pequenas palavras, muitas sugestões. Uns plantavam a sua árvore na encosta; outros, nas faldas da serra. Ao fim da tarde, cansados, os pais e as mães, os primos e as 146 40
  • 45.
    primas, os tiose as tias, os padrinhos e as madrinhas, as crianças, os velhos e os assim -assim juntaram o pão e a salada, o queijo e a Coca- -Cola, os pastéis de bacalhau e o bolo-rei, a alegria e o coração O Pinheirinho contente e fizeram uma grande festa. A serra parecia pintada de verde fresco e nos olhos de todas as Pensa no Natal e, provavelmente, pensarás numa árvore de pessoas havia um brilho diferente. Todos se falavam, mesmo os que Natal. Na maioria dos locais onde o Natal é celebrado, a árvore é de manhã não se conheciam e as gargalhadas que davam eram como muito importante. Significa uma vida nova e promete a vinda de água fresca que apetecia beber e repartir. dias mais claros na Primavera. A versão de Jenny Koralek deste Só David, um dos mais pequeninos, o que tinha olhos azuis e conto de Hans Christian Andersen é melancólica, mas gosto da reflexos de ouro nos cabelos lisos, indiferente à festa, continuou a intensidade do seu sentimento, cheio da ansiedade e da tristeza que subir a serra. Queria que a sua árvore fosse a mais alta, a que ficasse sentimos, à medida que a festa chega ao fim. Guarda este conto lá mais acima e se pudesse contemplar da terra inteira. para o leres em voz alta com toda a família no dia de Reis. Não Subiu, subiu. Subiu muito. Rasgou a pele nas silvas, bebeu o comeces, até que todos tenham ajudado a arrumar as luzes e as sumo das amoras porque tinha sede. Subiu mais ainda. decorações e até que haja um trilho de fagulhas castanhas desde a Com a sua pequena enxada de plástico cavou um buraquinho. sala de estar até à fogueira ao ar livre. Então, estarás, Quando acabou de plantar o seu cedro do Líbano, deitou-se na terra precisamente, num momento de boa disposição para o fazer... fresca e adormeceu. Então, inexplicavelmente, a árvore começou a crescer, a crescer, e cobriu-o de sombra. Uma ave, veio dos lados do Lá fora, na floresta, encontrava-se um pequeno e belo sol nascente e embalou-lhe o sono com seu cantar. Quando a noite Pinheirinho. Nasceu num lugar agradável, onde havia muita luz e desceu, perfumada, uma estrela desceu de mansinho e pousou no muito ar. Estava rodeado de muitas árvores maiores — pinheiros, e ramo mais alto, iluminando todos os caminhos. De repente, no meio abetos também — mas o Pinheirinho ansiava por crescer mais. Não da festa, alguém deu pela falta de David. Chamaram, chamaram e dava valor ao ar fresco, ou às crianças que vinham tagarelar para a nada. Ninguém respondia. Então, como se fosse um formigueiro em floresta e procurar morangos e framboesas. Passavam muitas vezes movimento, as pessoas começaram a espreitar na urze, no sumo dos com um cesto cheio, sentavam-se junto do Pinheirinho e diziam: frutos, no espelho de água do tanque, dentro da chaminé, debaixo do “Que bonito que é aquele pequenino!”, mas não era nada disso que o piano. Chegaram à varanda. Olharam a serra. 41 147
  • 46.
    Lá no alto,iluminado, enorme, o cedro era um sinal. Pinheirinho queria ouvir. Correram todos para lá. No ano seguinte, tinha crescido um rebento novo e no ano que Um grande silêncio desceu na serra. Todos se olhavam se seguiu cresceu ainda mais. Pode-se sempre dizer, pelo número de estupefactos. Ninguém sabia explicar por que crescera assim, em tão anéis que tem no tronco, há quantos anos uma árvore está a crescer. poucas horas, aquela árvore que uma estrela iluminava. — Oh, se eu ao menos fosse tão grande como os outros! — E quando viram David a dormir, segurando ainda na mão o suspirava o Pinheirinho. — Então, espalharia os meus ramos para pequeno sacho, com a cara toda lambuzada de amoras e terra, Ciryl bem longe e, do meu topo, estaria atento a todo o mundo. Os disse sorrindo e simplesmente: «Oh! Parece o Menino Jesus!» pássaros construiriam ninhos nos meus ramos e, quando o vento soprasse, apenas abanaria, tão orgulhoso como as outras árvores. E regressaram. No Inverno, quando a neve pousa por todo o lado branca e Cantando. brilhante, uma lebre veio a correr e saltou por cima do Pinheirinho, o que o pôs zangado. Mas, três Invernos passado, a pequena árvore Maria Rosa Colaço Não quero ser grande tinha crescido tanto que a lebre teve de a contornar. Lisboa, Editorial Escritor, 1996 “Oh, crescer, crescer e envelhecer! É, de certeza, a melhor coisa do mundo”, pensou a árvore. No Outono, os lenhadores vinham sempre para abater algumas das árvores maiores. O Pinheirinho estremeceu de medo, pois as árvores grandes caíam estrondosamente no chão e os ramos eram cortados para que parecessem bastante despidas. Eram colocadas em camiões e levadas dali. “Para onde iriam?”, perguntou-se o Pinheirinho. Na Primavera, quando as andorinhas e as cegonhas chegaram, a árvore perguntou-lhes: — Sabem para onde vão as árvores? Viram-nas? As andorinhas responderam que não, mas a cegonha disse: 148 42
  • 47.
    — Sim, pensoque sim. Vi muitos navios novos, quando deixei o Egipto. Tinham mastros muito altos; penso que eram as árvores. Cheiravam a abetos. Tudo o que posso dizer é que eram altas e imponentes — muito imponentes. Uma estrela — Quem me dera ser suficientemente grande para ir para o mar! — suspirou o Pinheirinho. — Que tipo de coisa é o mar e a Todos os anos, pelo Natal, eu ia a Belém. A viagem começava que se assemelha? em Dezembro, no princípio das férias. Primeiro pela colheita do — Levaria muito tempo para explicar tudo isso — disse a musgo, nos recantos mais húmidos do jardim. Cortava-se como um cegonha. E partiu. bolo, era bom sentir as grandes fatias despregarem-se da areia, dos — Devias estar feliz por ainda seres jovem e forte — disseram muros ou dos troncos das árvores velhas, principalmente da os raios de Sol. E o vento e a chuva beijaram a árvore, mas o ameixieira. Enchia-se a canastra devagar, enquanto a avó ia montando Pinheirinho não queria saber do que eles diziam. o que hoje se chamaria as estruturas, ou mesmo as infra-estruturas, junto da parede da sala de jantar que dava para o jardim. Eram Por altura do Natal, foram cortadas muitas árvores jovens; caixotes, caixas de chapéus e de sapatos viradas do avesso, tábuas, que árvores que eram mais jovens e mais pequenas do que este pouco a pouco ela ia cobrindo de musgo, ao mesmo tempo que fazia Pinheirinho impaciente. A estas belas e jovens árvores não foram carreiros e caminhos com areia e areão. Mais tarde, os rios e os lagos, cortados os ramos quando foram colocadas nos camiões e levadas com bocados de espelhos antigos, de vidros ou mesmo de travessas para fora do bosque. cheias de água. Até que todos os caixotes, caixas e tábuas — Para onde vão? — perguntou o Pinheirinho. — Algumas desapareciam. Ficavam montanhas, planícies, rios, lagos. Era uma são muito mais pequenas do que eu. Porque é que não lhes cortaram nova criação do mundo. Aqui e ali uma casinha ou um pastor com os ramos? Para onde vão ser levadas? suas cabras. E todos os caminhos iam para Belém. — Nós sabemos! Nós sabemos! — chilrearam os pardais. — Não era como o presépio da Igreja que estava sempre todo Andamos sempre a espreitar pelas janelas na cidade e, por isso, pronto, mesmo antes de o Menino nascer. A cabana, a vaca, o burro, sabemos para onde vão. Vão ser decoradas da maneira mais bonita os três reis do Oriente. Maria, José, Jesus deitado nas palhinhas. Via- que possas imaginar. Olhámos pelas janelas e vimos que eram -se logo que era a fingir. Não o da avó, que era mais do que um colocadas em vasos, numa quente sala de estar, e decoradas com as presépio, era uma peregrinação, uma jornada mágica ou, se quiserem, coisas mais bonitas — maçãs douradas, bolos de mel, brinquedos e 43 149
  • 48.
    um milagre. Nósestávamos ali e não estávamos ali. De repente era a centenas de velas. — E depois? — perguntou o Pinheirinho, com Judeia, passeávamos nas margens do Tiberíades, andávamos pelo todos os ramos a tremer. — E depois? O que acontece depois? Velho Testamento, João Baptista baptizava nas águas do Jordão e — Bem — disse o pardal — só vimos isso, mas era aquele monte, ao longe, podia ser Sinai ou talvez o último lugar onde maravilhoso. Moisés, sem lá entrar, viu finalmente a terra onde corria o leite e o — Talvez isso me aconteça um dia! — gritou o Pinheirinho. mel. Mas agora era o Novo Testamento. A avó ia buscar as figuras ao — Isso ainda era melhor do que viajar pelo mar. Se pelo menos agora sótão, eram bonecos de barro comprados nas feiras, alguns mais fosse Natal! Oh, se ao menos me levassem! Se ao menos estivesse antigos, de porcelana inglesa, como aquele caçador que a avó colocava numa sala de estar quente, decorado com coisas bonitas! E depois? O à frente dizendo: Este é o pai. Seguia-se a mãe, de vestido comprido, que aconteceria? Devia ser ainda mais maravilhoso. Porque me dir-se-ia que ia para o baile, mas não, saía de cima de uma mesinha da enfeitariam? Oh, quem me dera que isto me acontecesse! sala de visitas e agora estava ao lado do pai, olhando levemente para — Sê feliz aqui connosco — disseram o ar e a luz do Sol. — trás onde, entretanto, a avó já tinha colocado figuras mais toscas, eu, Sê feliz aqui na floresta. a minha irmã, os primos, alguns amigos, todos a caminho de Belém. Mas o Pinheirinho não era nada feliz. Crescia, crescia e — E a avó? — perguntava eu. continuava ali, verde, verde-escuro. As pessoas que o viam diziam: — Eu já estou velha para essas andanças. — É uma árvore muito bonita! De dia para dia mudávamos de lugar. E todas as manhãs E, por altura do Natal, foi cortada antes dos outros. O deparávamos com novas casas, mais rebanhos, pastores, gente que machado cortou-a bem fundo, no tronco, e a árvore caiu para o chão descia das serras, atravessava os rios e os lagos. Os caminhos ficavam com um suspiro: sentiu uma dor, e agora estava triste por ter de cada vez mais cheios. E todos iam para Belém. À noite tremulavam deixar o lar. Sabia que nunca mais iria ver os amigos, os pequenos luzes. Acendiam e apagavam. Mas ainda não se via a cabana, nem arbustos e as flores, talvez até os pássaros. Maria, nem José. A árvore só voltou a si quando estava a ser descarregada num Então uma noite, entre as estrelas do céu, aparecia uma que quintal, juntamente com outras árvores, e ouviu um homem dizer: brilhava mais que todas. — Esta é a melhor. Só queremos esta! — Esta é a estrela — dizia a avó. Depois, vieram dois criados vestidos com uniformes brilhantes e levaram o Pinheirinho para uma sala enorme e bonita. Havia, por 150 44
  • 49.
    todo o lado,quadros pendurados nas paredes e, junto do fogão, Era uma estrela que nos guiava. Na manhã seguinte lá estavam estavam enormes jarros chineses com leões. eles, os três reis do Oriente, Magos, explicava o pai, que também não Havia cadeiras de baloiço, sofás de seda, mesas cobertas de dizia Pai Natal, dizia S. Nicolau, talvez por influência de uma misse livros ilustrados e centenas de brinquedos por todo o lado. de origem russa que em pequeno lhe falava de renas e trenós e de S. Nicolau atravessando as estepes. O Pinheirinho foi posto dentro de um vaso grande com areia. A árvore tremeu! O que iria acontecer a seguir? Os criados e as Cheirava a musgo na sala de jantar. Cheirava a musgo e a lenha crianças começaram a enfeitá-lo. Nos ramos, penduraram pequenos molhada que secava em frente do fogão. E os Magos lá vinham, a pé, sacos feitos de papel colorido. Cada saco era enchido com de burro, de camelo. Traziam o oiro, o incenso, a mirra. Às vezes guloseimas; maçãs douradas e nozes pendiam, como se tivessem nós, os mais pequenos, juntávamo-nos e cantávamos: “Os três reis do nascido ali, e centenas de velinhas foram atadas aos galhos. Bonecas Oriente/Já chegaram a Belém.” que pareciam pessoas de verdade pendiam de outros ramos e, mesmo — Não chegaram nada — atalhava a avó — ainda não. no topo da árvore, estava fixada uma estrela de latão. Era Estávamos cada vez mais perto. E também nervosos. Confesso magnificente, extraordinário! que às vezes fazia batota. Empurrava-os um pouco mais para a frente, — Esta noite — disseram todos — esta noite, a estrela para mais perto de Belém e do lugar onde eu sabia que mais tarde ou brilhará. mais cedo a avó ia pôr a cabana. Mas ela descobria. — Oh — disse o Pinheirinho — se ao menos já fosse noite! — Não lucras nada com isso, podes apressar toda a gente, não Oh, espero que acendam as velas brevemente. Será que as árvores vêm podes apressar o tempo. da floresta para me ver? E será que os pardais vão espreitar pelas Cada vez havia mais luzes na Judeia. Por vezes surgiam novos janelas? Será que vou ficar aqui ornamentado para sempre? lagos, eram mistérios da minha avó. E a estrela lá estava, a grande Todas estas perguntas causaram dores de costas à árvore e as estrela de prata que brilhava mais do que todas as outras, às vezes eu dores de costas são tão más para as árvores como as dores de cabeça ia à janela e via a projecção daquela estrela, ficava confuso, já não para as pessoas. Por fim, as velas foram acesas. Que brilho, que sabia se era a estrela da sala ou uma estrela do céu, era uma estrela esplendor! O Pinheirinho tremeu tanto que uma das velas pegou nova, uma estrela de prata, era uma estrela que nos guiava. No céu, na fogo a um ramo verde, mas foi rapidamente apagado. sala, na Judeia, talvez dentro de nós. E, naquele momento, as portas foram abertas de par em par e Até que chegava o primeiro dos grandes momentos solenes. A as crianças entraram cheias de pressa. Olharam fixamente e em avó chamava-nos ao sótão (nós dizíamos forro), abria uma velha arca 45 151
  • 50.
    e desempacotava acabana. Depois, muito comovida, quase sempre silêncio para a árvore, mas apenas por um minuto. Começaram a com lágrimas nos olhos, as figuras de Maria e José. gritar de alegria e a dançar à volta da árvore, puxando os presentes. — Não há nada tão antigo nesta casa, já eram dos avós dos “O que estão a fazer?”, pensou o Pinheirinho. “O que se está a meus avós. passar?” Impressionava-me sobretudo o manto muito azul de Maria e o As velas arderam até ao fim, as crianças tiraram as guloseimas rosto magro, quase assustado, de José. A avó limpava-os com muito da árvore e dançaram com os brinquedos novos. Já ninguém olhava cuidado e mandava-nos sair. Nunca nos deixou ver o resto. para a árvore, excepto um homem idoso que se aproximou e espreitou À noite, quando regressávamos da missa do galo, a que a avó por entre os ramos para ver se todas as nozes e maçãs tinham sido não ia, chegávamos a casa e finalmente estávamos em Belém. comidas. A estrela brilhava intensamente sobre a cabana, Maria e José — Uma história! Uma história! — gritavam as crianças, e debruçavam-se sobre o berço, onde Jesus, todo rosado, deitado nas levaram, para junto da árvore, um homem divertido, que se sentou palhinhas, agitava os braços e as pernas, envolvido pelo bafo quente mesmo debaixo dela. dos animais, enquanto os três reis do Oriente, agora sim, chegavam a — Vamos fingir que estamos no bosque verde — disse — e Belém para depositar aos pés do Menino o oiro, o incenso, a mirra. E que a árvore consegue ouvir o conto. vinham os pastores, e vinha o pai, de caçador, a mãe, de vestido de E o homem divertido contou o conto de Klumpey-Dumpey, baile, e vínhamos nós, eu, a minha irmã, os primos, não eramos de que estava sempre a cair pelas escadas abaixo e, já no fim, casou com porcelana nem de barro, estávamos ali em carne e osso, era noite de uma princesa. O Pinheirinho ficou bastante silencioso e pensativo. Natal, uma estrela nos guiava, brilhava sobre a Judeia e sobre o Os pássaros do bosque nunca tinham contado uma história como presépio, brilhava cá fora entre as estrelas, brilhava dentro de nós. esta. Klumpey-Dumpey sempre a cair pelas escadas abaixo e, mesmo Naquela noite, naquele momento, nós não estávamos na sala de assim, casou com uma princesa. jantar em frente do presépio, tínhamos chegado finalmente a Belém — Bem! Bem! — disse o Pinheirinho. — Quem sabe? Talvez para adorar o Menino ao lado de Maria e José e dos três reis do eu também tenha de cair pelas escadas abaixo e casar com uma Oriente, Magos, não consegui deixar de corrigir o meu pai. Mas princesa! mágica, verdadeira mágica, era a avó. Era ela que fazia o milagre da E estava ansioso por ser de novo decorado com velas, transfiguração, trazia o Natal para dentro de casa, levava-nos a todos brinquedos e frutos, na noite seguinte. até Belém. O cheiro a musgo e a lenha. Os montes, os vales, os rios, 152 46
  • 51.
    Mas, de manhã,os criados vieram tirá-lo da sala, levaram-no os lagos. Caminhos e caminhos que iam para Belém. E a estrela de para o sótão e puseram-no num canto, onde não entrava a luz do dia. prata, a estrela que nos guiava. Era uma estrela no céu, dentro de “O que significa isto?” pensou a árvore. “O que estou a fazer aqui? O casa, dentro de nós. Pela mão da avó ela brilhava. Pela sua magia, que está a acontecer?” Belém estava dentro de casa. E a casa também ia até Belém. Encostou-se à parede, pensou e pensou. E teve tempo Mais tarde, muito mais tarde, eu estava no exílio. Na noite de suficiente, pois passaram-se dias e noites e ninguém voltou lá a subir. Natal, os revolucionários ficavam tristes e nostálgicos. Talvez A árvore parecia ter sido totalmente esquecida. recordassem outras avós, outros presépios, outros lugares. Reuniam- — Agora, é Inverno lá fora — disse o Pinheirinho. — A terra -se em casa deste ou daquele, improvisava-se uma árvore de Natal, está dura e coberta de neve, e as pessoas não podem plantar-me. trocavam-se presentes. Mas ninguém, nem mesmo os mais duros, os Suponho que devo ficar aqui abrigado, até que venha a Primavera. que faziam gala em dizer que o Natal para eles não significava nada, Que atenciosos! Mas que pessoas boas! Se ao menos aqui eu não nem mesmo esses conseguiam disfarçar uma sombra no olhar. estivesse tão às escuras e tão sozinho!... Era bonito lá fora, na Saudade, dir-se-á. Mas talvez fosse mais do que saudade e solidão e o floresta, quando a neve pousava espessa, e aquela lebre vinha saltar pior de todos os exílios é o de se sentir estrangeiro no mundo. por cima de mim; mas, na altura, eu não gostava. Isto aqui em cima é Talvez fosse a consciência de que, para lá de todas as crenças ou não terrivelmente solitário! Mas que pessoas boas! crenças, havia um irremediável sentimento de perda. Muitas vezes me perguntei o que seria. Mas não conseguia responder. Sentia o mesmo De repente, dois ratinhos aproximaram-se lentamente. aperto, o mesmo buraco por dentro, o mesmo sentimento de algo Cheiraram o Pinheirinho e, depois, subiram para os ramos. para sempre perdido. — Está muito frio aqui em cima — disseram os dois ratinhos. Uma noite de Natal, em Paris, eu estava sozinho. Comprei — Também achas, árvore velha? uma garrafa de vinho do Porto, mas não fui capaz de bebê-la assim, — Não sou velha — disse o Pinheirinho. completamente só, num quarto de criada num sexto andar duma — De onde vens? — perguntaram os ratos. — E o que velha rua do Quartier Latin. Peguei na garrafa e fui até aos Halles. conheces? Procurei o bistrô onde costumava comer uma omelete de fiambre. Eram muito inquisitivos. Felizmente estava aberto. Pedi a omelete e abri a garrafa. Havia mais — Conta-nos sobre o lugar mais bonito do mundo! Já três solitários no bistrô, um velho de grandes barbas, um tipo com estiveste lá? cara de eslavo, um africano. Convidei-os para partilharem comigo a 47 153
  • 52.
    garrafa de Porto,que não resistiu muito tempo. Encomendámos — O lugar mais bonito do mundo — disse a árvore — é a outras bebidas. floresta, onde o Sol brilha e os pássaros cantam. E, depois, contou — Conta uma história de Natal do teu país — pediu o velho. aos ratos tudo sobre a sua juventude. Os ratinhos ouviram e disseram: — Só se for a do presépio da minha avó. — Tantas coisas que já viste! Deves ter sido muito feliz! — Então conta. — Fui — disse o Pinheirinho. — Aqueles foram, realmente, Eu contei. Era já muito tarde e o patrão disse-nos que queria tempos de felicidade. fechar. Chegados à rua, o africano apontou para o céu e disse-me: Mas, depois, contou-lhes sobre a Véspera de Natal, quando — Olha. tinha sido enfeitado com guloseimas e velas. E eu vi. Uma estrela que brilhava mais que as outras estrelas. — Oh! — disseram os ratinhos. — Como foste tão feliz, Era uma estrela de prata. A estrela da avó. Brilhava no céu, brilhava árvore velha! outra vez dentro de mim, quase posso jurar que brilhava dentro dos outros três. — Não sou velha — disse a árvore. — Só saí da floresta este Inverno. Então eu perguntei ao africano como se chamava. Ele respondeu: — Mas que histórias maravilhosas podes contar! — disseram os ratinhos. — Baltazar. E no dia seguinte, vieram com mais quatro ratinhos para ouvir Perguntei ao velho e ele disse: o que a árvore tinha para contar. Assim, o Pinheirinho contou-lhes a — Melchior. história do Klumpey-Dumpey e os ratinhos correram direitos para o E sem que sequer eu lhe perguntasse, o eslavo disse: topo da árvore, cheios de satisfação. Na noite seguinte, vieram muito — O meu nome é Gaspar. mais ratos, e o Pinheirinho contou outra vez a mesma história. Mas, Era noite de Natal e talvez ainda por magia da avó eu estava na quando descobriram que a árvore não sabia mais histórias, os ratos rua, em Les Halles, com os três reis do Oriente, Magos, diria o meu ficaram aborrecidos e foram-se embora. pai. O Pinheirinho ficou triste. — E agora? — perguntei a Baltazar. — Era muito agradável, quando os ratinhos divertidos ouviam — Agora — respondeu o africano apontando a estrela — a minha história, mas em breve vai chegar a Primavera. Vou ficar tão 154 48
  • 53.
    feliz quando metirarem deste local solitário!... agora vamos para Belém. Quando chegou a Primavera, as pessoas vieram remexer no Lisboa, 3.10.2000 sótão. Um criado levou a árvore para baixo, onde a luz do dia brilhava. Manuel Alegre Uma Estrela “Agora, a vida vai começar de novo!”, pensou a árvore. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005 Sentiu o ar fresco e os raios do Sol no pátio. O pátio estava perto de um jardim, onde as rosas estavam em flor, as árvores cheias de folhas e as andorinhas a cantar. — Agora, tenho de viver! — disse a árvore, alegremente, e esticou os ramos. Mas, meu Deus! Estavam todos murchos e amarelos. Ficou a um canto, entre as urtigas e as ervas daninhas. A estrela de latão ainda lá estava e brilhava com a luz do Sol. No pátio, as crianças, que no Natal tinham dançado à volta da árvore, estavam a brincar. Uma delas trepou à árvore e tirou a estrela dourada. — Vejam o que está agarrado a este velho e feio Pinheirinho — disse a criança, e começou a pisar-lhe os ramos até partirem debaixo das botas. E a árvore olhou para todas as flores e para o belo jardim e, depois, para ela própria, e desejou ter ficado no canto escuro do sótão. Pensou na juventude fresca na floresta, na Véspera de Natal feliz e nos ratinhos que ouviram com tanta alegria a história do Klumpey-Dumpey. — Passado! Passado! — disse a velha árvore. — Acabou tudo. Se ao menos tivesse sido mais feliz naquela época. 49 155
  • 54.
    E veio umcriado e cortou a árvore aos pedacinhos. Estava ali um feixe enorme. Ardia resplandecente no fogão, suspirava profundamente e cada suspiro era uma pequena explosão. As crianças sentaram-se junto da lareira, olharam para ela e gritaram: — Zás! Trás! Mas, a cada explosão, que era um suspiro profundo, a árvore pensava num dia de Verão na floresta, ou numa noite de Inverno, quando as estrelas brilhavam. Pensava na Véspera de Natal e no Klumpey-Dumpey, a única história que tinha ouvido ou que sabia contar; e, depois, a árvore foi queimada. As crianças brincaram no jardim e o mais novo usou a estrela dourada que a árvore tinha usado na sua noite mais feliz. Agora, tudo acabara. A vida da árvore tinha terminado e o conto também. Hans Christian Andersen Ian Whybrow (org.) O grande livro do Natal Porto, Edições Asa, 2004 50
  • 55.
    A filhó dourada Lídia A história que vou contar chama-se “A Filhó Dourada”. Lídia era bonita porque tinha um nome bonito e porque a uma Douradas, muito douradinhas são elas todas, empilhadas na travessa, história de Natal convém uma menina bonita. Vivia num como um castelo por conquistar. apartamento muito alto, voltado para o mar. Tinha um quarto onde dormia, um quarto onde estudava e um quarto onde brincava. Este As últimas são as melhores. Têm mais açúcar, desfazem-se mal era o mais bonito de todos. Tinha imensos brinquedos vindos das lhes tocamos… A gente pega delicadamente numa das que sobraram, mais diversas partes do mundo. Tinha brinquedos com música dá-lhe um impulso que a ponha a deslizar na travessa, para ensopar dentro, daquela música duma melodia finíssima e límpida, como uma bem e, num gesto rápido, sem pingar a toalha, mete-a na boca. O filigrana. Tinha brinquedos de onde saía uma música que parecia vir estalar dela, de encontro aos nossos dentes, é música com açúcar. de dentro da terra, espessa, distante, quase triste. Tinha brinquedos Naquela ceia de Natal, todos tinham comido filhós. que exalavam música como se nascesse nas altas montanhas, rarefeita — Estão uma delícia — comentavam. e leve, trazida em asas de condor. E, porque estavam uma delícia, não tinha sobrado senão uma, Todos estes brinquedos alegravam Lídia que, muitas vezes, no fundo da travessa. Era uma ilha minúscula e redondinha, rodeada chamava os seus amigos e, no fim da escola, ficavam ali a brincar, a por um mar de açúcar. Todos os olhos fitavam a filhó, que estalava olhar o mar e a ouvir aquelas músicas que saíam de dentro dos em reflexos de oiro. Uma tentação. brinquedos. À roda da mesa, diziam para o avô: Os pais de Lídia eram viajantes e raramente estavam em casa. — Só ficou uma filhó. Porque é que a não come? Aliás, a sua casa era o avião, tantas as vezes que voavam de cidade O avô, então, virava-se para a avó e segredava-lhe: para cidade, de continente para continente. Mas quase todos os dias — Come tu, anda lá. telefonavam a Lídia, perguntando se estava bem e prometendo mais um presente para o regresso. Lídia ficava feliz com os telefonemas, A avó não queria. mas quando desligava o telefone, pensava: “Eu gostava tanto de ter os — Comam vocês — dizia ela, apontando para a filhó e para os 51 157
  • 56.
    meus pais sempreà minha beira. Gostava tanto que os meus amigos filhos. os conhecessem melhor. Gostava tanto de adormecer a seu lado ou — Eu já comi muitas — desculpava-se um. acordar com os seus beijos...” — Também tenho a minha conta — dizia outro. E assim ficava muito tempo suspensa na recordação dos pais. — Nem mais um bocadinho — declarava um terceiro. Uma vez ou outra não conseguia evitar uma lágrima mais atrevida. Parecia que nenhum queria tomar a responsabilidade de comer Mas tudo passava e quando os pais regressavam, Lídia matava as a filhó. No entanto, ela lá estava muito dourada, a recortar-se no saudades, abraçava-os muito, ia com eles jantar fora ou a casa de meio da calda de açúcar. Apetecia mesmo ver e… comer. algum amigo. Só não gostava quando esses encontros eram com pessoas que chegavam sempre atrasadas, passavam a refeição a falar Mas, à volta da mesa, não se decidiam. E a filhó, a última filhó, pelo telemóvel e não lhe ligavam importância nenhuma. Se calhar não andava de boca em boca, sem se fixar na boca de ninguém. De oferta tinham filhos nem podiam perder tempo com as crianças. Eram em oferta, chegou a vez da tia Luísa propor: homens de negócios. — Os pequenos que comam. Sempre quero ver qual dos meus Regressavam a casa e, logo de seguida, novamente tinham de sobrinhos chega primeiro à filhó. partir. Os meninos não se precipitaram sobre a filhó apetitosa, como — Amanhã sairemos cedo para um país distante... seria de esperar. Cada um ficou à espera do primo ao lado, e o primo ao lado do outro primo ao lado… Fosse por acanhamento ou fosse — Que país é esse? — perguntava Lídia. por que fosse… — É um país onde há muitas crianças pelas ruas: umas a — Afinal ninguém a come — observaram do outro extremo da trabalhar, outras a mendigar, outras a olhar para quem passa. É um mesa. — Esta filhó deve ser mágica. país muito grande e muito pobre. Os meninos não têm casa como a nossa, nem escola, nem brinquedos. Olharam uns para os outros e sorriram. — E pais, têm pais? — perguntou Lídia. A ceia estava no fim. Os meninos tinham sono. O avô cabeceava. Começou a ouvir-se o arrastar das cadeiras. Era a — Muitos têm pais, mas são tão pobres, tão desprezados pela debandada. vida, que é como se não tivessem. — Amanhã se arruma a casa — disse a tia Luísa, e apagou a — Mas eu pensei que vocês só faziam negócios com países luz da sala de jantar. ricos, que com os pobres não se negoceia... Quando todos já se tinham ido embora, a filhó, no lusco- 158 52
  • 57.
    -fusco, ao meioda mesa, começou a brilhar. Intensamente. Acreditem — Também fazemos negócios com os ricos, mas, negociando ou não, como se tivesse luz dentro. Como um pequeno sol ou um com os pobres, podemos ganhar mais dinheiro, e assim tu terás bocadinho de oiro, a desfazer-se em açúcar. sempre mais e mais brinquedos. António Torrado No meio das conversas, Lídia acabava por adormecer e de www.historiadodia.pt manhã, quando acordava, já estava a casa novamente vazia. O que lhe valia é que tinha muitos amigos, com os quais ia tornando menos duras as prolongadas ausências dos pais. Mas o pior foi quando, ao aproximar-se o Natal, Lídia soube pela mãe que tinham uma viagem importantíssima. Por isso não podiam passá-lo em casa. — Mas nesse país, as pessoas fazem negócios no dia de Natal? — perguntou Lídia. — Sabes — respondeu-lhe o pai — nesse país o Natal é um dia como outro qualquer. As pessoas têm outros costumes, outra cultura, outra religião. — Eu pensei que o Natal era Natal em todo o mundo... — disse Lídia com desencanto. A conversa ficou por ali. Mas Lídia, apesar da tristeza, começou a sonhar com a noite de Natal em casa dos avós. Viriam os primos: a Teresa, a Helena, o Miguel, a Ana e o Luís. Lídia queria fazer-lhes uma surpresa. Pensou durante alguns dias e, uma noite, teve uma ideia: “Já sei. Vou fazer um teatro em verso.” Lídia gostava de escrever versos e foi escrevendo no seu caderno os versos para o presépio. Mas não os mostrou a ninguém para poder fazer uma surpresa. Quando chegou a noite de Natal, toda a família se juntou em 53 159
  • 58.
    casa dos avós.Era uma casa muito grande com um terreiro cheio de árvores, umas que tinham folhas todo o ano, outras que no Inverno ficavam todas despidas e à noite pareciam fantasmas gigantes com uma só perna e muitos braços. Entre as árvores havia canteiros de arbustos e plantas. A noite estava de tempestade: a chuva e o vento pareciam dançar uma dança violenta e desconcertada. Os ciprestes que estavam nos cantos do terreiro vergavam-se tanto que pareciam bailarinos em fúria. Mas, na alegria daquela noite, ninguém ligava nada à tempestade. A consoada era na sala maior: uma sala cheia de brilhos que, reflectidos no espelho ao fundo, a tornavam ainda mais brilhante. Quando a porta de vai-e-vem que dava para a copa se abria, vinham os aromas do Natal e via-se a azáfama das pessoas que estavam na copa e na cozinha e andavam de lado para lado. Quando todos já tinham consoado, Lídia chamou os primos ao andar de cima e explicou-lhes o seu teatro de verso. — Todos têm de decorar o seu verso — disse. Seguiu-se um grande alvoroço com cada um a disputar o seu verso preferido. Quando chegaram a acordo, ensaiaram durante algum tempo e, por fim, desceram, cada um muito senhor do seu papel. Puseram-se por detrás de um biombo que havia na sala e Lídia pediu silêncio. — Senhoras e senhores, vamos apresentar: Versos para o Presépio. Ouviram-se palmas, muita excitação e depois fez-se silêncio. No rosto de todos havia um sorriso de felicidade e curiosidade. Cada um 160
  • 59.
    foi saindo nasua vez e dizendo o verso que lhe competia: Vejo no céu uma estrela Muito bela. O cesto de Natal da tia Cyrilla Navega num mar de prata Vou com ela. O seu destino é Belém Quando Lucy Rose encontrou a tia Cyrilla a descer as escadas, Vou também. algo ofegante e ruborizada pela ida ao sótão, com um cesto enorme, Levo flores neste raminho com tampa, enfiado no braço roliço, soltou um pequeno suspiro de Para o Menino. desespero. Há alguns anos que Lucy Rose fazia o melhor que podia – Eu levo um brinquedinho de facto, desde que tinha prendido o cabelo e aumentado ao Para o Menino. comprimento das saias – para que a tia Cyrilla perdesse o hábito que Eu não tenho que levar Mas vou e oferecerei tinha de levar aquele cesto com ela, sempre que ia a Pembroke; mas a Estes versos de cantar. tia Cyrilla insistia em levá-lo e só se ria do que ela apelidava de E todos remataram em coro: «ideias afectadas» de Lucy Rose. Lucy Rose achava horrível e Com as flores e o brinquedo extremamente provinciano a tia carregar sempre o cesto consigo, E estes versos de cantar; cheio de coisas boas do campo, de cada vez que ia visitar Edward e Com a estrela sobre a gruta Geraldine. Geraldine era tão elegante que talvez achasse aquilo E os pastores a dançar, estranho; e depois, a tia Cyrilla levava-o sempre no braço, e dava Meu Menino de Belém Dança connosco também. biscoitos, maçãs e chupa-chupas de melaço a todas as crianças que encontrava e, de vez em quando, também a pessoas de idade. Quando As palmas encheram a sala e parece que os seus brilhos se Lucy Rose ia à cidade com a tia Cyrilla, sentia-se desgostosa com isto multiplicavam, dançando nas paredes, no ar, em todos os sítios. Se – mas Lucy era ainda muito nova e tinha muita coisa a aprender neste não fosse a ventania que atirava a chuva contra as portas e as janelas, mundo. todos pensariam que, lá fora, o céu era realmente um mar de prata, Aquela preocupação incómoda sobre o que Geraldine pensaria cheio de estrelas e calmaria. encorajou-a a protestar naquele instante. Ana, que era a mais pequena, não se cansava de saltar, enquanto — Ora, tia Cyrilla — apelou — de certeza que, desta vez, não repetia o seu verso: vou com ela...vou com ela...vou com ela... 55 161
  • 60.
    Durante um tempomanteve-se este ambiente de excitação e vai levar aquele cesto velho e esquisito consigo para Pembroke. É Dia alegria. Tanto mais que, de seguida, foi a distribuição das prendas. de Natal e tudo! Da árvore de Natal cada um foi recebendo os seus presentes: jogos, — Claro, claro que vou — respondeu a tia Cyrilla, enquanto o bonecas, livros de histórias, puzzles, carros telecomandados e até um punha em cima da mesa e começava a limpá-lo. — Nunca fui visitar o computador. De todos os presentes que recebeu, Lídia gostou Edward e a Geraldine, desde que estão casados, sem levar o cesto das sobretudo do que lhe foi deixado pelos pais: um presépio esculpido coisas boas comigo e não vai ser agora que vou deixar de o fazer. Se é em madeira com um Menino negro, sorridente e acariciando o Natal, mais uma razão. O Edward fica sempre muito contente por ter focinho do burro que lhe estava ao pé. Lídia sempre vira o Menino algumas das coisas antigas da casa da quinta. Diz que são muito Jesus, branco, deitado nas palhas. Aquela imagem trouxe-lhe à superiores às cozinhadas na cidade, e são mesmo. lembrança os meninos negros que tantas vezes via na televisão, — Mas é tão provinciano — lamentou-se Lucy Rose. esqueléticos, de grandes ventres e um olhar raso de resignação, um — Bem, eu sou da província — disse a tia Cyrilla, firmemente olhar de quem foi vencido pela humilhação da fome e do desprezo. — e tu também. E depois, não vejo motivo para sentirmos vergonha Lídia como que ficou ausente da sala, alheia à excitação geral. disso. Tens um amor-próprio excessivo, Lucy Rose. Com o tempo Entretanto, veio uma ordem para os meninos se irem deitar. há-de passar-te, mas neste momento está a causar-te muitos Contrafeitos, lá foram subindo com os seus presentes. Aos poucos, o problemas. silêncio foi tomando toda a casa. — O cesto é um problema — disse Lucy Rose, zangada. — A Lídia não tinha sono. Quando entrou no seu quarto, sentou-se tia está sempre a esquecer-se dele, ou com medo de se esquecer. E junto à janela, abriu as portadas, puxou a cortina, colocou o presépio parece tão estranho andar pelas ruas com esse cesto grande e bojudo no peitoril e ficou a olhar a tempestade. O vento continuava a agitar no braço! as árvores com violência, soltando gemidos tremendos e esmagando a — Não estou nada preocupada com as aparências — chuva contra as paredes, os muros, as janelas. Mais ao longe, o mar respondeu a tia Cyrilla, calmamente. — Quanto a ser um problema, rosnava feroz. Mas, mesmo assim, a sua voz tinha beleza, uma beleza ora, talvez seja, mas é um hábito meu e outras pessoas apreciam. O inexplicável. Edward e a Geraldine não precisam disto – eu sei – mas pode haver Lídia encostou o rosto na vidraça para sentir a fúria da quem precise. E se caminhares ao lado de uma mulher velha e tempestade. E pensou nos pais. E pensou nos meninos a quem a provinciana, com um cesto, fere os teus sentimentos, ora, podes ficar miséria roubou o Natal. E pensou que também na sua cidade havia para trás como dantes. 162 56
  • 61.
    A tia Cyrillameneou a cabeça e sorriu bem-humorada, e Lucy meninos pobres. Mas moravam do outro lado da cidade. E teve Rose, embora mantivesse a sua opinião pessoal, também teve de vontade de fazer como a menina que conhecia de uma história. sorrir. Chamava-se Joana e, na noite de Natal, foi levar os brinquedos que — Agora, deixa-me ver — disse a tia Cyrilla, reflectindo e recebera ao seu amigo Manuel, que morava do outro lado do pinhal e batendo com a ponta do dedo indicador em cima da mesa da cozinha não ia ter prendas na noite de Natal1. Mas Lídia não tinha nenhum branca como a neve — o que levo? Para já, aquele bolo grande de amigo pobre. Na sua escola não havia meninos pobres. No seu prédio frutas – o Edward gosta do meu bolo de frutas; e aquela língua não havia meninos pobres. No seu bairro não havia meninos pobres. cozida fria. Aquelas três tortas de carne picada, também, se não Lídia só conhecia os meninos pobres de que lhe falavam os pais, ou estragam-se antes de voltarmos, ou, então, o teu tio fica doente ao os que via na televisão, ou os que moravam do outro lado da cidade, comê-las – torta de carne picada é o seu pecado mortal. E aquele junto ao rio, ou os que, no Verão, vinham arrumar automóveis na frasco de barro cheio de natas – a Geraldine pode ter muita classe, praia que havia em frente à sua casa. mas ainda tenho de a ver desprezar umas natas do campo, Lucy Rose! Lídia estava muito triste por não poder vencer esta distância E outro frasco do meu vinagre de framboesa. Aquele prato de entre si e os meninos pobres e por nada poder fazer para alterar a biscoitos de geleia e dónutes vão agradar às crianças e encher os ordem do mundo. E perguntou-se: “Será que os pobres hão-de ser pequenos espaços vazios, e podes trazer-me aquela caixa de caramelos sempre pobres...?” Desencostou o rosto da vidraça e pegou no que está na despensa e aquele saco de barras de bombons às riscas presépio. Aconchegou-o no colo e acariciou o Menino. Do andar de que o teu tio me trouxe, ontem à noite, ali da esquina. E maçãs, claro baixo vinha um ruído distante de talheres e cristais e vozes – três ou quatro dúzias daquelas boas – e um frasquinho da minha indistintas. Mas novamente se encostou à janela a ver, ouvir e sentir a compota de ameixa rainha-cláudia – o Edward vai gostar. E algumas tempestade. E, embalada na música da tempestade, Lídia começou a sanduíches e bolo inglês para um lanche para nós. Agora, acho que de sentir sono. Levantou-se da cadeira, correu a cortina, fechou as mantimentos já chega. Os presentes para as crianças podem ir por portadas, beijou o seu Menino negro, deitou-se e adormeceu. cima. Tenho uma boneca para a Daisy, um barquinho que o teu tio Natal de 1996 fez para o Ray, um lenço de mão em renda de bilros para cada um dos gémeos e a touca de crochet para o bebé. Agora está tudo? Nuno Higino A mais alta estrela – Sete histórias de Natal — Há uma galinha assada fria na despensa — disse Lucy Rose CENATECA, Associação Teatro e Cultura, Marco de Canaveses, 2000 com maldade — e o porco, que o tio Leo matou, está dependurado 1 A Noite de Natal, Sophia de Mello Breyner Andresen 57 163
  • 62.
    no alpendre. Tambémquer metê-los aí dentro? A tia Cyrilla exibiu um sorriso amplo. — Bem, acho que deixamos o porco em paz; mas uma vez que me lembraste, a galinha também pode ir. Arranjo espaço. Apesar dos preconceitos, Lucy Rose ajudou a embalar e, mesmo não tendo sido supervisionada pelo olho da tia Cyrilla, fez tudo muito bem, com muita inteligência e economia de espaço. Mas depois de a tia Cyrilla ter colocado, como toque de acabamento, um ramo de perpétuas cor-de-rosa e brancas, e fechado as tampas bojudas com mão firme, Lucy Rose ficou junto do cesto e murmurou vingativamente: — Um dia, vou queimar este cesto – quando tiver coragem suficiente. Então, será o fim e deixará de o levar consigo para todo o lado, como uma velha vendedora da praça. O tio Leopold entrou naquele preciso momento, meneando a cabeça com ar de dúvida. Não iria passar o Natal com Edward e Geraldine, e talvez a perspectiva de cozinhar e de comer o seu jantar de Natal sozinho o deixasse pessimista. — Desconfio que vocês não vão conseguir chegar a Pembroke amanhã — disse com sabedoria. — Vem aí uma tempestade. A tia Cyrilla não se preocupou com isso. Acreditava que assuntos deste tipo estavam predeterminados, e dormiu tranquilamente. Mas Lucy Rose levantou-se três vezes durante a noite para ver se havia temporal e, quando adormeceu, teve pesadelos horríveis com lutas no meio de tempestades de neve ofuscante que 58
  • 63.
    arrastavam para longeo cesto da tia Cyrilla. De manhã cedo, não estava a nevar e o tio Leopold levou a tia Cyrilla, Lucy Rose e o cesto até à estação, que ficava a quatro quilómetros de distância. Quando chegaram lá, o ar estava carregado Sei um ninho de flocos flutuantes. O chefe da estação vendeu os bilhetes com um ar mal-disposto. À Fernanda. Ao Monteiro. — Se vier mais neve, os comboios talvez atrapalhem o Natal — disse. Como no poema de Torga, sei um ninho. A tarde, ontem, — Tem nevado tanto que o tráfico já está a ficar bloqueado, e estava agreste e um vento frio, antigo, soltava as últimas folhas é difícil retirar a neve para restabelecer a circulação. douradas dos plátanos da avenida. Foi então que uma mulher que A tia Cyrilla disse que, se estivesse previsto que o comboio usava a minha capa vermelha me olhou do lado de lá da montra, onde chegasse a tempo do Natal a Pembroke, chegaria; abriu o cesto e deu nascera aquele milagre de interpretação e poesia sobre o tema ao chefe da estação e a três rapazinhos uma maçã a cada um. natalício. — Isto é só o começo — suspirou fundo Lucy Rose. De um lado, à direita surgia um tronco antigo, carcomido, que contava a história de muitos dias que já foram e os sinais das estações Quando o comboio delas chegou, a tia Cyrilla instalou-se num do ano. banco, colocou o cesto no outro e olhou sorridente à sua volta para os companheiros de viagem. Do outro, via-se um ramo de espinheiro, onde um ninho de cotovia espreitava. Dentro do ninho, um ovo. Branco, pequenino, Havia poucos – uma mulher delicada ao fundo da carruagem, redondo, assinalando a esperança que em cada Natal renasce, a vida com um bebé e mais quatro crianças, uma jovem no meio do corredor que se renova quer acreditemos ou não nos deuses, quer aceitemos ou com um rosto pálido e bonito, um rapaz, três bancos à frente, vestido não que todos os anos há uma criança que espera nascer no coração com um uniforme caqui, uma senhora, na frente dele, muito elegante cansado do mundo. Às vezes, com os nossos olhos primeiros, o nosso num casaco de pele de foca, e um homem jovem, magro e de óculos, sorriso antigo e à tona; às vezes, com o rosto de Emanuel, o da do lado oposto. Galileia. Apenas. — Um sacerdote — reflectiu a tia Cyrilla, começando a Tanto faz, porque ele nasce na mesma, quer o aceitemos no classificar — que cuida melhor da alma dos outros do que do seu espaço macio dos nossos sonhos, quer lhe fechemos as portas e o 59 165
  • 64.
    deixemos lá fora,ao relento da indiferença e do cepticismo mais próprio corpo; e aquela mulher de casaco de pele de foca está triste e duro. zangada com alguma coisa – talvez se tenha levantado demasiado Mas ali, na montra, entre um tronco velho e o ninho frágil, cedo para apanhar o comboio; e aquele jovem companheiro deve ser quem dormia era uma criança amassada em barro de Estremoz, um dos que saíram há pouco tempo do hospital. Os filhos daquela alongada, não em palhinhas no meio de animais ingénuos como conta mulher é como se não tivessem comido uma refeição decente desde a tradição, mas, num banco de jardim. Assim, talvez por casualidade, que nasceram; e se aquela rapariga do outro lado tem mãe, gostaria de pelo olhar sensível da artista que montara aquele presépio tão saber o que significa deixar a filha sair de casa, com este tempo, com original, ela resumia violentamente a história de todas as crianças sem uma roupa daquelas. lar, sem árvores, crescendo, sem datas para assinalar, sem milagres Lucy Rose apenas se perguntava desconfortavelmente o que que lhe adocem os dias ou os projectos. pensariam os outros do cesto da tia Cyrilla. Ao relento, num banco de jardim, dorme uma criança que não Contavam chegar a Pembroke naquela noite, mas à medida que vai ter Natal. o dia passava, a tempestade cada vez tornava-se mais violenta. O Tem as mãos frias e abertas. comboio parou duas vezes para que os ajudantes retirassem a neve. À terceira vez não conseguiu continuar. Estava escuro quando o Cresce, emergindo da flor do espinheiro e olhando a doçura do condutor deu uma volta pelo comboio, respondendo bruscamente às ninho, que sempre lhe estará interdita. É tão legível o que descubro perguntas dos passageiros ansiosos. nos símbolos que me detenho, comovida. — Uma boa vigília de Natal — não, é impossível continuar ou A legibilidade dos dias é, afinal, acessível. Basta estar atento. voltar — o caminho está bloqueado durante milhas — o que é isso Basta descobrir e percorrer, com disponibilidade, o outro lado das minha senhora? — não, não existe nenhuma estação perto — só cabalas. existem bosque ao longo do caminho. Ficamos aqui esta noite. Estas Embrulhada na tarde e no vento, penso que a dona da livraria, últimas tempestades têm causado muitos prejuízos em todo o lado. sempre tão discreta, quase silenciosa, que comunica com os clientes — Oh, meu Deus — suspirou Lucy Rose. com um sorriso triste mais do que com palavras, escreveu um poema sem preço, nos deu uma prenda linda sem papel de embrulho nem A tia Cyrilla olhou para o cesto com satisfação. fita de enfeite, pelo qual nunca lhe pagarão direitos de autor. — De qualquer forma, não morreremos de fome — disse. Só espero que, porque é Natal, e nestes dias o impossível pode A rapariga bonita e pálida parecia indiferente. A senhora com o 166 60
  • 65.
    casaco de pelede foca parecia mais zangada do que nunca. O rapaz de acontecer, do ovo nasça uma ave branca. E que a ave fique esvoaçando caqui disse «só a minha sorte» e duas das crianças começaram a na livraria, interrompa os olhos distraídos de quem passa, obrigando- chorar. A tia Cyrilla tirou do cesto algumas maçãs e barras de -os a entrar. caramelos às riscas, e deu-lhos. Pôs o mais velho no seu colo amplo, e Para comprar muitos, muitos livros. rapidamente os tinha todos à sua volta, rindo satisfeitos. Para folhearem os postais e descobrirem as ínfimas coisas belas Os passageiros restantes afastaram-se para um canto e que há na livraria do meu bairro. começaram a falar casualmente. O rapaz de caqui disse que, afinal de Para ouvirem a música boa que lá está, sempre presente. contas, era pouca sorte não chegar a casa para o Natal. Para sorrirem e se aquecerem por dentro, porque a vida é fria, a — Fui, há três meses, afastado do serviço militar na África do rua é árida e a fraternidade é uma palavra velha que se deve acender, Sul por invalidez, e desde então, tenho estado no hospital. Cheguei a sobretudo agora, no Natal. Halifax há três dias e telegrafei aos meus velhos amigos a dizer que Maria Rosa Colaço jantaria com eles no dia de Natal e que tivessem um perú de tamanho Não quero ser grande extra, porque não comi nenhum o ano passado. Vão ficar Lisboa, Ed. Escritor, 1996 extremamente desapontados. O rapaz também parecia desapontado. Uma das mangas do uniforme caqui estava vazia. A tia Cyrilla passou-lhe uma maçã. — Nós íamos todos passar o Natal a casa do avô — disse, com tristeza, o filho mais velho da jovem mãe. — Nunca lá estivemos antes. É terrível! Parecia que queria chorar, mas pensou melhor no assunto e encheu a boca com mais uma dentada de rebuçado. — Será que vai haver Pai Natal no comboio? — perguntou a irmã pequena a chorar. — O Jack diz que não. — Tenho a certeza de que o Pai Natal vai descobrir-te — disse a tia Cyrilla de uma forma tranquilizadora. 61 167
  • 66.
    A jovem bonitae pálida aproximou-se e tirou o bebé à mãe cansada. — Que coisinha fofa — disse com meiguice. — Também vais a casa passar o Natal? — perguntou a tia Cyrilla. A rapariga meneou a cabeça. — Não tenho casa. Neste momento, não passo de uma empregada de balcão sem trabalho, e vou até Pembroke para ver se arranjo alguma coisa. A tia Cyrilla dirigiu-se ao cesto e tirou a caixa de caramelos de nata. — Penso que também devemos divertir-nos. Vamos comer tudo e passar o tempo da melhor maneira possível. Talvez cheguemos a Pembroke de manhã. O pequeno grupo começou a ficar cada vez mais animado à medida que petiscavam, e até a rapariga pálida ficou mais alegre. A jovem mãe contou a sua história à tia Cyrilla. Tinha sido afastada da família há muito tempo, porque não estavam de acordo com o seu casamento. O marido tinha morrido no Verão passado e tinha-a deixado em circunstâncias muito precárias. — O meu pai escreveu-me a semana passada e pediu-me para esquecer o passado e vir a casa passar o Natal. Fiquei tão contente. E as crianças não pensavam noutra coisa. É horrível não conseguir lá chegar. Tenho de voltar para o emprego na manhã a seguir ao Natal. O rapaz de caqui aproximou-se de novo e partilhou do 62
  • 67.
    caramelo. Contou históriasdivertidas sobre as operações militares na África do Sul. O sacerdote também se aproximou e ficou a ouvir, e até a senhora do casaco de pele de foca olhou para trás. Mais tarde, as crianças adormeceram, uma no colo da tia A esperança brilha como um diamante Cyrilla, outra no de Lucy Rose e duas no banco do comboio. A tia Cyrilla e a rapariga pálida ajudaram a mãe a fazer camas para eles. O A menina escreve a giz no passeio: Aqui é o inferno e lá o paraíso. sacerdote cedeu o sobretudo e a senhora do casaco de pele de foca aproximou-se com um xaile. — Já não se vê a Sr.ª Bravoure ir comprar o jornal. — Isto serve para o bebé — disse. — A Sr.ª Bravoure tem um ar triste. Compreende-se. Depois — Temos de arranjar um Pai Natal para estes jovens — disse do que passou nestes seis meses. o rapaz de caqui. — Vamos pendurar as meias deles na parede e — A Sr.ª Bravoure não anda bem. Já não liga ao jardim. enchê-las o melhor que pudermos. Não tenho mais nada, a não ser Junto da casa tapada pela sebe, o coro da vizinhança aumenta o umas moedas e um canivete. seu murmúrio de amizade. Mas a Sr.ª Bravoure não tem cura. Para — Eu também só tenho dinheiro — disse a senhora do casaco falar a verdade: não se preocupa com nada. Juntamente com o seu de pele de foca. A tia Cyrilla olhou para a jovem mãe. Tinha velho, com o seu companheiro, enterrou o prazer de existir no dia-a- adormecido com a cabeça encostada às costas do banco. dia: a primeira chávena de café tomada lado a lado na varanda com a — Tenho ali um cesto — disse a tia Cyrilla com firmeza — e janela escancarada sobre o jardim, o jornal longamente comentado na tenho lá alguns presentes que estavam destinados aos filhos do meu cozinha iluminada por um ramo de chagas cor-de-laranja, as compras sobrinho. Vou dá-los a estas crianças. Quanto ao dinheiro, penso que feitas em amena cavaqueira na mercearia, os serviços prestados a este a mãe está a precisar. Contou-me a sua história e é digna de pena. e àquele, a expedição mensal à cidade próxima para se encontrarem Vamos fazer uma colecta entre nós para um presente de Natal. com a neta recém-casada, o cheiro dos crepes à quarta-feira – um hábito herdado das merendas de antigamente, quando o pequeno A ideia foi bem acolhida. O rapaz de caqui passou o boné e (que tem agora cinquenta anos) partilhava da vida deles – a missa das todos contribuíram. A senhora de casaco de pele de foca colocou lá seis da tarde na igreja matriz, o telejornal… uma nota amarrotada. Quando a tia Cyrilla a endireitou, viu que se tratava de uma nota de vinte dólares. Já não tem gosto em nada. Ela, que atravessou com tanta valentia a doença prolongada de Paulo, o seu esposo – “Ainda tem 63 169
  • 68.
    mais três meses,no máximo” prevenira o médico do hospital. À força Entretanto, Lucy Rose tinha trazido o cesto. Sorriu para a tia de cuidados, ela prolongou-os por seis meses – ela, que lhe deu a mão Cyrilla, enquanto o arrastava até ao corredor, e a tia Cyrilla devolveu- até ao último instante com um sorriso corajoso, não para lhe mentir, -lhe o sorriso. Lucy Rose nunca tinha tocado naquele cesto por mas para ele se não sentir demasiado culpado por lhe tornar os dias iniciativa própria. pesados, por a deixar pelo caminho. E eis que agora se vai abaixo. O barco de Ray foi para Jack, a boneca de Daisy para a irmã A Sr.ª Bravoure já nem se reconhece e preocupa-se em saber mais velha, os lenços de mão em renda dos gémeos para as duas onde estará a energia, a sua diligência por todos conhecida. Um meninas mais pequenas e o gorro para o bebé. Depois, as meias foram grande buraco negro. De noite, ela sonha: as suas mãos escorregam enchidas com dónutes e biscoitos de geleia, e o dinheiro foi colocado na parede a que tenta agarrar-se para subir. Não há nada a fazer. Nem dentro de um envelope e preso com um alfinete ao casaco da jovem as visitas calorosas, nem as cartas de encorajamento, nem as atenções mãe. com que uns e outros a rodeavam. Ouve as palavras deles, sim, mas — Aquele bebé é tão fofinho — disse a senhora do casaco de como um murmúrio longínquo. Mordisca com a ponta dos lábios a pele de foca. Faz-me lembrar o meu filhinho. Morreu há dezoito tarte ainda quente, lê cada vez com mais dificuldade os postais natais. enviados de Itália pelo filho. Tudo fica de fora sem a atingir. A tia Cyrilla pôs a mão em cima da luva de pelica da senhora. “Desta vez desço um degrau da escada.” — O meu também — disse. Nunca esqueceu a representação da vida, observada no museu E depois, as duas mulheres sorriram com ternura uma para a das artes populares por altura de uma visita com o marido (Há outra. Mais tarde, descansaram um pouco das tarefas e todos quanto tempo isso foi?) comeram o que a tia Cyrilla chama um «lanche» de sanduíches e bolo — Sr.ª Bravoure, porque não se anima? Não devia ficar assim inglês. O rapaz de caqui disse que nunca tinha provado nada nem de sozinha. Venha tomar o café a minha casa, é descafeinado. longe tão bom, desde que saíra de casa. — Muito obrigada, D.ª Lara, agora não. Ainda não acabei de — Na África do Sul não nos davam bolo inglês — disse. separar os fatos do meu Paulo. Quando amanheceu, a tempestade ainda era intensa. As A Sr.ª Bravoure sabe muito bem que ainda não é hoje que vai crianças acordaram e ficaram loucas de alegria com as meias. A jovem realizar aquela tarefa superior às suas forças. Vai ficar sentada na mãe encontrou o envelope e tentou exprimir um agradecimento, mas penumbra e esperar, nem ela sabe bem o quê, e, com certeza, amanhã não conseguiu; e ninguém sabia o que dizer, nem o que fazer, será igual. 170 64
  • 69.
    quando, felizmente, ocondutor veio fazer uma digressão para lhes Quem estará a tocar à campainha a esta hora? dizer que talvez tivessem de se conformar com a ideia de passar o “Depois das onze horas, não abra a porta a ninguém”, Natal no comboio. recomenda-lhe o filho em todas as cartas. “Há por aí pessoas mal- — Isto é grave — disse o rapaz de caqui — considerando que -intencionadas”. Mas a campainha continua a tocar e a Sr.ª Bravoure não temos provisões. Por mim não há problema, estou habituado a não resiste. Pega no casaco à entrada, acende a luz do pátio e corre rações de combate, ou até a nada. Mas estas crianças vão ter um até à grade de madeira que já devia ter sido pintada. Uma silhueta um apetite enorme. pouco volumosa… uma mulher. Então, a Tia Cyrilla mostrou-se à altura para a ocasião. — Maria! — Tenho aqui algumas rações de emergência — anunciou. — Caíram nos braços uma da outra. Ao apertar Maria contra si, a Há comida suficiente para todos e vamos ter o nosso jantar de Natal, Sr.ª Bravoure sentiu-lhe o ventre redondo de grávida. embora frio. Primeiro, o pequeno-almoço. Há uma sanduíche para — Maria! Bons olhos te vejam! Não contava contigo a esta cada um e só temos de completar com o que sobrou de biscoitos e hora… Vá, entra! dónutes, e guardar o resto para uma refeição verdadeiramente boa ao A Sr.ª Bravoure retomou a sua natural vivacidade para tirar o jantar. A única coisa que não tenho é pão. casaco da jovem, aquecer água, acender as luzes. — Tenho uma caixa de bolachas de água e sal — disse a jovem — Não tens frio? Posso aumentar o aquecimento. mãe, ansiosa. Segura as perguntas impacientes. Ninguém na carruagem iria esquecer aquele Natal. Para — Comes uma sopinha de ervilhas? começar, depois do pequeno-almoço, tiveram um concerto. O rapaz de caqui deu dois recitais, cantou três canções e fez um solo de — Dá-me licença que me deite um bocadinho? assobio. Lucy Rose deu dois recitais e o sacerdote fez uma leitura de — Estás em tua casa, Maria. histórias cómicas. A pálida empregada de balcão cantou duas canções. Paulo não suportava que nenhuma criança ou Maria se deitasse Todos concordaram que o solo de assobio do rapaz de caqui tinha no canapé da sala de visitas. sido o melhor número, e a tia Cyrilla deu-lhe um ramo de perpétuas — Isso não se faz — protestava ele. como prémio de mérito. — Mas, Paulo, não faz mal a ninguém e bem vês que ela está Depois, o maquinista veio com notícias mais animadoras, cansada! dizendo que a tempestade estava quase a passar e que pensava que o 65 171
  • 70.
    A Sr.ª Bravouredirigiu-se mentalmente ao ausente, como faz caminho ficaria livre dentro de algumas horas. cada vez com mais frequência. Uma recordação de infância: a avó — — Se conseguirmos chegar até à próxima estação, ficaremos que resmungava sozinha na cozinha. “Tenho de estar atenta. Vou todos bem — disse. — O ramal une-se ali à linha principal e os acabar por ficar meio maluca.” trilhos estarão limpos. Deitada, Maria recompõe-se. Terá sido pela sopa com que se À tardinha, jantaram. Os ajudantes do comboio foram deleitava durante os meses em que partilhara a vida do casal? convidados a participar. O sacerdote trinchou a galinha com o O director da escola tinha anunciado, pouco à vontade: canivete do homem do vagão do travão, e o rapaz de caqui cortou a — O Sr. e a Sr.ª Bravoure podiam prestar-me um serviço? língua e as tortas, enquanto a senhora do casaco de pele de foca Acolher por seis meses uma professora provisória, assegurar-lhe misturava o vinagre de framboesa com a devida proporção de água. estadia e alimentação. Como sabem, não há hotel na aldeia e eu ficava Pedaços de papel serviram de pratos. O comboio forneceu dois tranquilo se ela ficasse em vossa casa. É muito jovem. copos, e foi encontrada uma lata de meio litro de água e dada às crianças. Disseram sim sem hesitar: o quarto do filho continuava vazio. Todos declararam que nunca tinham desfrutado tanto de uma Assim surgira Maria: as suas saias floridas, o seu entusiasmo, refeição em toda a sua vida. Foi, de facto, uma refeição muito as buzinadelas, as pilhas de cadernos para corrigir. divertida, e os cozinhados da tia Cyrilla nunca foram tão apreciados; — Sr. Paulo, o senhor, que tem uma boa caligrafia, será que de facto, só sobraram os ossos da galinha e os frascos das compotas. podia dar uma olhadela a estes ditados? Ainda tenho uma aula para Não puderam comer as compotas, porque não tinham colheres, por acabar de preparar para amanhã. isso, a tia Cyrilla deu-as à jovem mãe. Enquanto preparava a refeição da noite, a Sr.ª Bravoure Quando tudo terminou, foi feito um voto sincero de regozijava-se ao ver Paulo pôr os óculos, munir-se de uma caneta Bic agradecimento à tia Cyrilla e ao seu cesto. A senhora do casaco de vermelha e consultar o dicionário. Ela sorria quando o ouvia pele de foca quis saber como é que ela fazia o bolo inglês e o rapaz de indignar-se: caqui pediu-lhe a receita dos biscoitos de geleia. E quando, duas — Não é possível! Eles estão a fazer de propósito! No meu horas mais tarde, o maquinista veio anunciar que o limpa-neve tinha tempo… chegado e que, em breve, retomariam o caminho, todos se — Ainda têm de aprender, Sr. Paulo. É para isso que vêm à interrogaram se só teriam passado menos de vinte e quatro horas escola. E depois gostam mais de ver a telenovela do que estudar a desde que se conheceram. 172 66
  • 71.
    — Sinto queestive com a senhora no campo de batalha toda a gramática. minha vida — disse o rapaz de caqui. Seis meses, tinha dito o director. Os Bravoure desejavam que a Saíram todos na primeira estação. A jovem mãe e os filhos substituição se prolongasse, mas o professor, já curado, retomara o tiveram de apanhar o comboio seguinte de volta para casa. O seu posto e Maria, sem trabalho, tinha aceite um compromisso em sacerdote ficou ali, o rapaz de caqui e a senhora do casaco de pele de África. foca mudaram de comboio. A senhora do casaco de pele de foca deu Tinham-na acompanhado à estação. Riam, mas nenhum dos um cumprimento de mão à tia Cyrilla. Não voltara a mostrar-se triste três se sentia à vontade. nem zangada. — Escrevo-lhes já amanhã, prometo! — gritava Maria pela — Foi o Natal mais agradável que alguma vez passei — disse janela, enquanto o comboio ia ganhando velocidade. com convicção. — Nunca irei esquecer-me desse seu cesto Cumprira o que prometera durante um ano. Envelopes aéreos maravilhoso. A empregadinha de balcão vai para minha casa. Prometi- chegaram à caixa do correio e mantiveram-nos ao corrente das -lhe um lugar na loja do meu marido. actividades de Maria. De facto, ela quase não tinha outra família a Quando a tia Cyrilla e Lucy Rose chegaram a Pembroke, não não ser eles, visto que, depois da morte da mãe, o pai se afastara havia ninguém à espera delas, pois todos haviam desistido. A casa de lentamente dela para se dedicar aos filhos pequenos nascidos de um Edward não era muito longe da estação e a tia Cyrilla decidiu ir a pé. segundo casamento. — Eu levo o cesto — disse Lucy Rose. Depois, o correio começou a rarear. Uma breve mensagem pelo A tia Cyrilla acedeu com um sorriso. Lucy Rose sorriu Natal “Tenho-vos presentes no meu pensamento”. Talvez tenha uma também. paixão, sugerira Paulo, com os olhos postos no mapa detalhado da — É um velho cesto abençoado — disse a última — e adoro- região onde Maria exercia os seus talentos. -o. Por favor, esqueça todas as patetices que sempre disse sobre ele, — Está sempre ao fogão! — exclamou Maria, ao vê-la na tia Cyrilla. cozinha. — Tinham-me dito numa carta que iam seguindo os locais L. M. Montgomery por onde eu andava, mas eu não… A Sr.ª Bravoure lembra-se daquela rapariga, de cabeleira loura a Ian Whybrow (org.) esvoaçar quando corria “Vou chegar atrasada! Até ao meio-dia…” e o O grande livro do Natal Porto, Edições Asa, 2004 portão já estava a bater. 67 173
  • 72.
    Estes jovens sãoincapazes de acordar a horas – dizia Paulo mal-humorado. — É porque esteve a trabalhar até à meia-noite com os preparativos para o dia da mãe, Paulo. A Sr.ª Bravoure pergunta: — Quando é que a criança vai nascer? — No princípio de Janeiro. Estou com medo… É a mesma Maria ousada e sem medo que disse aquilo? A Sr.ª Bravoure observa o rosto marcado pelas manchas da gravidez sob o tufo de cabelos macios, presos por um elástico. — De que tens medo, Maria? E é o dilúvio, as lágrimas tanto tempo contidas. Vem tudo arrastado pela corrente: em África, o enfermeiro admirado, amado, desaparecido, o período atrasado, a suspeita de gravidez, o diálogo com esta criança que já mexe e que nada pedira, a anemia e o regresso forçado ao país, a desorientação e, de repente, a esperança “O Sr. e a Sr.ª Paulo”. Na estação, o empregado reconhecera-a e informara-a da morte do Sr. Bravoure. Demasiado tarde para recuar caminho. — Está-se bem em sua casa. A Sr.ª Bravoure olha para a sala de visitas aquecida pelas três lâmpadas. Amanhã tenho de substituir o ramo das flores secas. Não, vou ao mercado comprar ásteres. — Queres crepes para a noite? — Como é que adivinhou? — Maria admira-se. — A criança vai sentir o cheirinho. É um rapaz. A ecografia é nítida. Posso voltar 174
  • 73.
    a ocupar omeu quarto? * — A Sr.ª Bravoure recuperou o ânimo desde que a filha — bem, é como se fosse — regressou. Já voltou ao que era. — Eu reparei. Maria está quase no fim do tempo, não? — Estou a tricotar um casaquinho para o menino. * Murmúrios. Vozes conhecidas. Fadas à volta de um berço. Na noite de Natal, quando começava com os preparativos para a ceia a duas, Maria perdeu as águas. A Senhora Bravoure acompanhou-a na ambulância até à maternidade da cidade. — O seu companheiro não está presente para a acompanhar na sala de parto? — perguntou a parteira de serviço. — É a minha avó que vai ficar ao meu lado — soprou Maria entre duas contracções. À meia-noite, a Sr.ª Bravoure, extenuada, tem nos braços um minúsculo Paulo aos berros. Natal. Nasceu-nos um menino. Colette Nys-Mazure Contes d’Esperance Paris, Desclée de Brouwer, 1998 175
  • 75.
    O Tomás, quenão acreditava no Pai Natal O caminho para Belém Era uma vez um menino que não acreditava no Pai Natal e Joaquim e Cristina têm uma avó bastante idosa e que já vê fazia troça de todos os outros meninos da escola, e dos irmãos e dos muito pouco. Em contrapartida, sabe dar ordens como um general e primos, e de qualquer pessoa que dissesse que o Pai Natal existia contar histórias como um marinheiro viajado. Não admira, pois o mesmo e vivia no Pólo Norte. avô, já lá vão mais de cem anos, andara no mar e trazia para casa barcos carregadinhos de histórias. Até se diz que certa vez chegou a — Isso são histórias para bebés — dizia o Tomás. ter a bordo Napoleão, o imperador dos franceses. E quando via alguém a escrever uma carta ao Pai Natal, tentava É na estação do ano em que os dias começam a ficar mais agarrar o papel e, se conseguia, rasgava-o mesmo! E dizia que não era pequenos e em que tudo, tanto a Natureza como os homens, se nada um dos anões do Pai Natal que vinha buscá-la. prepara para o Natal, que a avó melhor conta histórias. Mas melhor O Tomás ia para a escola todos os dias de autocarro. A mãe ainda nos domingos do Advento. É sempre divertido estar em casa levava-o até à paragem e, se fosse preciso, ele ficava lá sozinho um dela, mas nunca como no primeiro domingo do Advento. bocadinho à espera que o autocarro passasse. Naquele dia foi assim Cristina e Joaquim vão visitá-la por essa altura e os três bebem que fez. Mas estava tão distraído que nem reparou que o autocarro chocolate quente e provam as primeiras bolachas de noz. Mal têm era encarnado e não cor-de-laranja. E quando ia mostrar o «passe» ao acabado de comer e já a avó está a dar ordens. É o que faz todos os condutor, deu um salto de susto: anos no primeiro domingo do Advento, e os dois irmãos já sabem há — O que é que faz uma rena de nariz encarnado a conduzir muito o que aí vem: um autocarro!? — gritou ele. — As bolachas estavam boas, meninos? Então, agora vamos ao A rena é que não ficou nada incomodada com a má-criação do trabalho! Tomás e respondeu a rir: — Mas, avó — diz Joaquim — isto não é um trabalho, é um — Sempre guiei este autocarro! prazer. — Mas para onde é que ele vai? — quis saber o Tomás, já Joaquim foi incumbido de ir buscar uns caixotes ao sótão. 71 177
  • 76.
    — Às suasordens, senhor General! — diz Joaquim muito aflito. arregaçando as mangas, pois sabe que vai transpirar. Os caixotes estão — Para o Pólo Norte, claro. Temos de que levar pessoas de cheios de maravilhosas figuras talhadas muito antigas em madeira. todo o mundo para ajudar a tratar dos presentes para o Natal, e por Todos os anos, no primeiro domingo do Advento, começa a fazer-se, isso vimos buscá-las a casa, porque há muito poucos aviões para lá... e em casa de Anai, um grande presépio para o Natal. Nunca é cedo são muito caros. demais para começar, porque é um trabalho diversificado. Tem de — Mas o Pai Natal não existe e o Pólo Norte também não! — construir-se o cenário, o prado dos pastores, a cidade de Belém com a exclamou o Tomás, furioso, a bater com força com as mãos no varão hospedaria, os caminhos e as estradas, jardins, um lago, campos e onde as pessoas se seguram para não cair. montanhas e bosques. E é naquela pequena simulação de mundo que Aí ouviu-se uma gargalhada enorme, que encheu o autocarro se colocam as figuras coloridas de madeira: cento e catorze figuras. todo. O Tomás virou-se para trás e viu que os lugares estavam todos Anjos, pastores, caminhantes, animais nos prados, no estábulo e em cheios de pessoas, de duendes e ursos, e de anões e de rapazes e liberdade, os reis do Oriente com o seu séquito, soldados romanos raparigas como ele. Iam todos para o Pólo Norte ajudar o Pai Natal, que, ao tempo do nascimento de Jesus ocupavam a Terra Santa, e achavam que a frase do Tomás era a mais idiota que já tinham vagabundos que iam de viagem por aquela altura, e muitos mais. ouvido: Afinal Belém também tinha habitantes. Em resumo, grandes e pequenos, novos e velhos, todos têm de lá estar. E não pode faltar a — Ah, és daqueles que não acreditam em nada que não vejam Sagrada Família, claro. É isto tudo o que está nos caixotes que — disse um duende, de orelhas em bico e chapéu verde, enfiado Joaquim tem de ir buscar ao sótão. Mas também há ordens para a quase até aos olhos. irmã: — Também não precisas de esperar muito para acreditar, — Tu, Cristina, vais à cozinha buscar o cesto das caixas de porque daqui a duas horas estamos lá — acrescentou um anão, de musgo, as pedrinhas, os ramos, a areia. picareta pousada no banco do lado. Todos os anos, os irmãos têm de recolher tudo isto para o O Tomás pensou: «Desde esta história dos atentados, não cenário bíblico. Também há raízes e ramos com formas originais. deviam proibir de entrar nos transportes públicos as pessoas que Enquanto Cristina e a avó separam e preparam as coisas para erguer o trazem picaretas de pontas afiadas?!» cenário, Joaquim desce as escadas do sótão com passos pesados. Mas calou-se e não disse nada, porque se havia coisa que Quando acabou de trazer tudo, empurram a grande mesa de para um detestava, era que fizessem troça dele. Fazer troça dos outros, como 178 72
  • 77.
    fizera com todosos que acreditavam no Pai Natal, era divertido, mas canto livre da sala. A mesa é do tempo do trisavô deles, por isso é que ser gozado era completamente diferente... é tão grande. Hoje em dia, já quase não há mesas como aquela. Vai Sentou-se no primeiro banco que viu vazio. Ufa! Ainda bem servir de palco ao grande presépio mudo mas, antes de começarem, que não tinha uma daquelas criaturas sentadas ao lado a seringar-lhe ainda têm de deitar mais chocolate na chávena da avó. Se fosse ela a o juízo. deitar, podia vertê-lo em cima da toalha branca, porque já vê mal. Talvez tenha sido por isso que se habituou a dar ordens secas e Quando um urso polar pequenino se virou para trás e lhe curtas para que tudo decorra como ela imaginou. Como o presépio deitou a língua de fora, o Tomás ainda explodiu: tem tantas peças, haveria muita confusão. Cada ano, ele tem de ficar — Quando a minha mãe disser à polícia que desapareci, vocês um pouco diferente do dos anos anteriores e por isso os irmãos têm vão ver!!! de prestar muita atenção ao que a avó idealizou para aquele ano. Ela Mas aí a gargalhada ainda foi maior: dá as indicações e as crianças executam-nas: — A polícia não anda atrás de meninos que estão à guarda do — Primeiro o cenário, meninos: um monte no meio, atrás, o Pai Natal! — disseram todos em coro. campo dos pastores; à frente, a cidade de Belém com as casas e as E o Tomás achou mesmo melhor não voltar a abrir a boca. ruas… Foi olhando pela janela e percebeu que o autocarro já não tinha E devem colocar-se logo as primeiras figuras, claro, pois um as rodas na estrada, mas voava pelos céus. cenário sem pessoas mais pareceria um cenário lunar. Mas, no O dia tinha-se transformado em noite e o Tomás, que sabia primeiro domingo do Advento, apenas podem colocar-se as alguma coisa de geografia, percebeu que estavam a ir para muito personagens mais afastadas, as que vinham de longe para Belém. A longe. Lá ao longe via neve, e estrelas... quando na terra dele ainda avó conhece cada uma das figuras do tempo em que ainda podia vê- eram hora de estar na escola. -las. Sabe até a história da vida de cada uma delas e dentro em pouco — Pólo Norte, última paragem! — ouviu-se a voz da rena- chegará o momento de ela se mostrar uma grande contadora de -motorista a gritar. histórias. A avó sempre imaginava tudo com uma tal precisão, que, na sua cabeça, as coisas imaginadas ganhavam vida. Sentada na sua Toda a gente se levantou e começaram a empurrar-se uns aos cadeira com a chávena de chocolate à frente, escuta com atenção o outros, tal era a pressa de sairem. que Joaquim e Cristina fazem. É como se visse com os ouvidos. Pelos O Tomás esperou que se fossem embora e ficou ali sem saber o ruídos que ouve, a avó sabe o que estão a fazer. E tem sempre alguma que fazer. Talvez o autocarro voltasse agora para Portugal e passasse 73 179
  • 78.
    coisa a dizer-lhes: outra vez na rua dele... E assim ele voltava para casa, sem se assustar — Não estás a fazer Belém de uma só vez, pois não, Joaquim? mais. Porque o Tomás estava assustado... E um bocadinho envergonhado. — Isso não vai assim tão depressa, senhora General — responde ele. — Ainda só estão um par de casas e o estábulo da Mas não teve sorte nenhuma, porque, quando levantou os hospedaria no monte. olhos, viu o Pai Natal em pessoa, de pé, parado ao lado do banco onde estava sentado. — O estábulo é construído no fim de tudo — diz a avó. — O mais cedo, a vinte e três de Dezembro. O presépio é a coroa e a coroa — Não me vens ajudar a fazer presentes de Natal? — vem sempre no fim. Estás com o campo dos pastores, Cristina? perguntou o senhor de barba muito branca. — Sim — diz Cristina. — Estou a prepará-lo com areia e «Realmente, parece o Pai Natal», pensou o Tomás, «se o Pai musgo e já comecei a fazer algumas estradas e caminhos para as Natal existisse, claro». E porque o Tomás era teimoso e não gostava primeiras pessoas que vão chegar. de dar o braço a torcer (quem é que gosta?), ainda estendeu a mão para puxar a barba, não fosse isto tudo ser um teatro e o Pai Natal — Está bem — responde a senhora. — Faz os caminhos de um daqueles velhos que trabalham nos centros comerciais. Mas a acesso com areia e pedrinhas. barba não saía, e o Tomás percebeu que nada daquilo era um sonho e — O que é isso de caminhos de acesso? Isto aqui são umas que estava mesmo no Pólo Norte. E que aquele era o Pai Natal de autênticas auto-estradas! — exclama Joaquim. carne e osso. — Que tolice, meninos. Quando Jesus nasceu, ainda se viajava E como o Tomás era casmurro, mas não era burro, percebeu de burro, de cavalo e de camelo, ou ia-se a pé. Mas auto-estrada? Que que se tinha enganado e que, já que estava ali (e ainda por cima não tolice! tinha de ir à escola!), o melhor era divertir-se o mais que podia. — Não te preocupes, avozinha — consolou-a Cristina. — Eu Durante muitos dias, ajudou a fazer e a embrulhar presentes para ponho umas pedrinhas e uns bocadinhos de musgo na auto-estrada todos os meninos do mundo, e ficou muito amigo de duendes, anões, do Joaquim e ela fica logo a parecer um caminho a sério. Que figuras ursos e renas, e de todas as outras criaturas estranhas que por ali coloco em primeiro lugar? O velho de barba branca comprida guiado apareciam. por um rapaz de pele escura? Mas, uma noite, não conseguiu adormecer. Não queria dizer — Certo, esse mesmo — responde a avó, reclinando-se nada a ninguém, mas estava triste porque sabia que não tinha confortavelmente na cadeira para se lembrar da vida dessa figura do mandado nenhuma carta ao Pai Natal e que, por isso, não ia receber 180 74
  • 79.
    presentes. presépio. — E até é bem-feito, para ver se aprendo a não ser estúpido — — Vou pô-la no início do caminho — explica Cristina para pensou baixinho o Tomás, cheio de remorsos por ter rasgado as Anai ficar a saber, e prossegue: cartas dos irmãos mais pequenos e de ter troçado tanto dos amigos. — No ano passado também teve de ficar neste sítio. Porque é Mas, na manhã seguinte, o Urso Polar Grande, que era tio dos que todos os anos tenho de colocar o velho de barbas com o rapaz no mais pequeninos, veio ter com ele às escondidas e deu-lhe um papel e princípio do caminho? um lápis: As crianças levantam os olhos para a avó na expectativa. — Escreve depressa a tua carta, que eu depois meto-a no cesto Quando ela se senta assim, quando se põe confortável, começa das cartas que o Pai Natal ainda não abriu. imediatamente a contar uma história. Vai falar da vida do velho de O Tomás nem queria acreditar na sorte que tinha! E escreveu, barbas. Cada ano conta a história de determinadas figuras do escreveu e escreveu, porque sabia que era tudo verdade. presépio. A maioria das pessoas conhece apenas as histórias de Maria e José e do Menino Jesus. Também sabem alguma coisa dos pastores Na noite de Natal, o Pai Natal levou-o com ele no trenó e e dos reis do Oriente. Mas de todos os outros que estavam em Belém deixou-o cair pela chaminé com os presentes para a mãe, para o pai e – e havia mais gente – desses, ninguém sabe nada. Só a avó é que para os irmãos. A mãe nem ligou aos presentes dela, só queria pegar imagina todo o tipo de histórias como se estivessem escritas na sua no Tomás ao colo e enchê-lo de beijinhos. O Tomás dizia: mente. Já não consegue ler com os seus olhos cansados, por isso — Blhec, mãe, não me lambuze todo... — mas continuava inventa-as. E, enquanto Joaquim e Cristina vão trabalhando muito encostadinho a ela. afincadamente no presépio, ela começa a falar do velho de barbas. A mãe fez-lhe um leite com chocolate quente e, quando ia — Ninguém sabe ao certo de onde vem, é difícil de dizer. metê-lo na cama, disse: Provavelmente de um país do sul, pois a pele é escura, embora não — E já foste ver se o Pai Natal te deixou alguma coisa na tua tão escura como a do rapazinho que o guia. Meia de Natal? — (nesta casa punham meias ao fundo da cama, em — Porque é que ele tem de ser guiado? — pergunta Cristina. lugar de sapatos na chaminé). — Espera! — sibila Joaquim, que tem muita curiosidade em Mas o Tomás abanou a cabeça e respondeu: saber a história e não gosta que a avó seja interrompida. — Acho que não tenho nada, porque o Pai Natal deixou-me cá — Isso mesmo — diz a avó. — Esperai, que já ides saber. O com todos os presentes e eu não vi nenhum para mim. 75 181
  • 80.
    homem procurara durantetoda a vida um enorme diamante azul, do Só que, quando olhou para a meia, ela estava cheia de presentes qual ouvira falar quando era novo. Quem possuísse esse diamante, até acima. O Tomás ficou tão comovido (que é quando os olhos dizia-se, detinha o poder sobre o coração dos homens. Aquilo soava picam de lágrimas e um nó bom aperta a garganta), que foi a correr tão tentador, que se enraizou no homem de barbas e fê-lo andar toda para a janela para ver se ainda ia a tempo de agradecer ao Pai Natal. a vida de terra em terra. Procurou por todo o lado o enorme Lá longe, viu um trenó e um homem de barbas brancas a dizer- diamante de que o marinheiro lhe falara, que por sua vez tinha -lhe adeus. O Tomás, naquela excitação, chamou a mãe: ouvido a outros. Nos portos de mar contam-se sempre destas — Mãe! Mãe! É o Pai Natal! A mãe consegue vê-lo? histórias, onde a verdade e o sonho, ou até o delírio, são difíceis de — Claro que consigo — disse a mãe. separar. O certo é que o nosso barbudo acreditou na história da pedra mágica e, como já tinha idade suficiente, juntou os seus bens e E conseguia mesmo. pôs-se a caminho à procura da pedra. Primeiro, foi para o Egipto, Isabel Stilwell Histórias para contar em 1 minuto e ½ onde estavam a ser construídas as pirâmides. Numa daquelas Lisboa, Verso da Kapa, 2005 pirâmides bem podiam estar escondidos todos os tipos de tesouros… Desta vez, foi Joaquim a interromper a narrativa. — Hoje sabe-se o que estava nas pirâmides: múmias, vasos, pinturas e, aqui e ali, um escaravelho petrificado! — O que é isso? — perguntou Cristina. — É um escaravelho que se transformou em pedra e não é nenhum diamante gigante, não é assim, Anai? — Tens razão. Não encontrou o diamante nas pirâmides. Anai faz agora uma pequena pausa. Quer encontrar a continuação da história. Para isso tem de perscrutar dentro de si. E os seus ouvidos, sempre tão apurados, não ouvem que os dois irmãos pararam naquele momento, fascinados, a olhar para ela. — Também passou a pente fino a ilha de Creta, no 182 76
  • 81.
    Mediterrâneo, à procurado diamante azul — diz a avó em voz baixa, falando para si. — Nessa ilha, os habitantes tinham como deus um terrível touro. O monstro quase comia o homem. É verdade! Ele A menina dos fósforos ousara entrar no labirinto da gruta do monstro porque se convencera de que talvez este estivesse de guarda à pedra que procurava. Mas acabou por escapar ao monstro. Depois de se ter certificado de que Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite no palácio do rei de Creta também não havia nenhum diamante aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do gigante, pediu mais informação aos marinheiros. Os marinheiros dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, costumam saber sempre de alguma coisa. Talvez na Índia… diziam uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta uns. e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos Então o nosso caçador de tesouros decidiu ir à Índia. Fretou que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a um navio mercante e partiu. A viagem durou quase um ano. Naquela menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir altura o Canal de Suez ainda não existia e para se chegar à Índia era de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro preciso contornar-se toda a costa africana. Além disso, também não foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um havia barcos a vapor ou a motor. Para velejar era preciso vento e, na berço para a irmã mais nova brincar. sua ausência, braços fortes para remar. Foram precisos onze meses e alguns dias para o nosso viajante calcar finalmente terras da Índia. Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos Que palácios e templos maravilhosos ele viu! Torres de marfim e de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um janelas com caixilhos de ouro, jardins esplendorosos com colibris maço deles a toda a gente que passava, apregoando: coloridos e elefantes brancos. Não havia dúvida, a Índia era o país — Quem compra fósforos bons e baratos? certo para diamantes azuis gigantes. Só que não se alcançam tesouros Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os daqueles a troco de nada. O nosso viajante teve de comprar um fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. elefante e, montado nele, entrar na floresta, onde certamente Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. estariam ocultos palácios ainda mais sumptuosos, a acreditar no que Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos se ouvia nas tabernas dos portos. Porém, na selva, espreitam muitos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do perigos: tigres, panteras, crocodilos, tarântulas e cobras venenosas, pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos 77 183
  • 82.
    para não falardo terrível calor durante o dia, e das ainda piores encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne enxurradas durante a noite. E foi contra tudo isto que o nosso assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, viajante teve de lutar. Mas a ambição do poder torna os homens é que ela pensava. persistentes; ela é como um demónio e leva ao extremo aquele que Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia por ela se deixa dominar. Finalmente, numa manhã, após longa cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque cavalgada de várias semanas pela floresta virgem e muita fadiga, o não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem homem deparou-se com as ruínas enormes e antiquíssimas de um uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também templo. Em épocas há muito submersas pelo tempo, devia ter sido não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento uma das construções mais sumptuosas à face da terra, pelo que ainda metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com se podia ver daquilo que restava. Aqui, aqui e em mais nenhum lugar farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas teria de estar escondido o mítico diamante azul. com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria — E então? — perguntou Cristina. — Encontrou-o? bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para A avó meneou a cabeça, e continuou: aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma — Vamos com calma! Perto dali vivia um povo indígena cujos candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era antepassados teriam construído aquela obra. Eram pessoas amáveis e aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão pacíficas, mas também medrosas. Ajudaram o viajante na sua busca, de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre embora isso não lhes tenha sido fácil. Até ali tinham-se mantido reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor sempre afastados das ruínas do templo porque pensavam que era tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se habitado por espíritos maléficos, mas o homem tinha prometido aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que recompensá-los caso o ajudassem. Dia após dia, revolveram as ruínas estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na do velho edifício coberto de trepadeiras e que ocupava uma grande mão. área. Finalmente depararam com umas escadas misteriosas que desciam para a cave… Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em A senhora faz uma pequena pausa na narrativa e inspira fundo, que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a como se ela própria estivesse em frente das escadas da cave, na Índia. rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava Cristina e Joaquim estão neste momento a fazer, com musgo e areia, coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e 184 78
  • 83.
    mesmo no meioda mesa havia um ganso assado, com recheio de o campo para os rebanhos dos pastores, mas, quando a avó ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro interrompe, levantam os olhos para ela, impacientes. apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso — Então? O que é que o homem de barbas fez? Desceu à cave? saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados — E se havia cobras lá dentro? — lembra-se Cristina. nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre A avó anuiu com um movimento de cabeça e continua: menina só viu na sua frente a parede negra e fria. — Pior do que cobras: trezentos e sessenta e cinco degraus. E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou Tantos, quantos os dias do ano. ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da — Então a cave devia estar muito funda! — diz Joaquim. porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de — Se estava, filho! Apesar disso, o viajante viu, ao espreitar velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como para baixo, um brilho azul-prateado que só podia vir de um diamante as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A de grandes dimensões! Mas nenhum dos nativos se atrevia a descer. menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou- Não tinham a ambição do poder, mas sim medo. Receavam cobras, se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela monstros ou espíritos maléficos; avisaram o aventureiro e percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma imploraram-lhe que voltasse para trás, mas em vão. Agora que ele se estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando encontrava tão perto do fim, ao cabo de tanto tempo de busca, o atrás de si um comprido rasto de luz. desejo de poder crescera demasiado. Não lhes deu ouvidos e iniciou a «Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; descida. porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já — Trezentos e sessenta e cinco degraus — calculava Joaquim não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, — descem-se em cinco minutos, se não estiverem a desfazer-se! é uma alma que vai a caminho do céu.» — Não estavam. O homem não precisava de luz pois, à medida Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma que ia descendo, o brilho da pedra misteriosa ia ficando mais intenso, grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão depois mais claro e mais forte, assustadoramente ofuscante, até, por muito suave, cheia de felicidade! fim, quase dilacerar. Os olhos começaram a doer-lhe, mas os pés não — Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este hesitaram uma única vez. Precipitou-se para o fogo azul, saltou os fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer últimos degraus e ali estava o diamante do tamanho de uma cabeça, 79 185
  • 84.
    ainda mais cintilantedo que o sol num dia de Verão. Porém essa luz como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de era fria, terrivelmente arrepiante e ofuscante, e não havia olhos Natal, tão linda. humanos que conseguissem suportá-la. Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava Pois é, a ambição do poder pode cegar os humanos. Quando o daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os homem descia apressadamente os últimos degraus, já os olhos haviam fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse começado a doer-lhe terrivelmente. Não se importara, embora a dor dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta se intensificasse e se fosse tornando cada vez mais dilacerante. Ao nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, chegar junto do diamante, o raio azul matou-lhe os olhos e o homem voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem ficou cego para toda a vida. fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus. — Mesmo cego? — perguntou Cristina. — Mas então como é Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a que ele subiu as escadas? manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um — Oh, de início não pensou que tivesse ficado cego. Achava sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de que o fogo do diamante o tinha momentaneamente encandeado, por Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha isso chegou junto da pedra às apalpadelas e tentou levantá-la para a no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou levar. O diamante, porém, estava agarrado ao chão e crescia com a aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas terra como uma árvore milenar. Ninguém conseguiria pegar no coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que diamante azul… entrou, na companhia da avó, no Ano Novo. — Nem com uma grua? Hans Christian Andersen Os melhores contos de Andersen — Não, nem com uma grua. Editora Verbo, s/d — Não conseguiu, pronto — Cristina tenta fazer a avó apressar a história. — E como é que a história continua? — Como é que continua? Bem é que não será. Passaram-se horas de grande tormento, de esforço e de decisões amargas, até ele se dar conta de que a pedra não podia ser erguida nem transportada. E novamente se passaram horas até que os indígenas, que esperavam 186 80
  • 85.
    por ele emcima, o viram subir as escadas de joelhos, como um animal. Teve de tactear degrau a degrau. A procura da riqueza e do poder tinha-o cegado e, dessa forma, levado ao desamparo. Sozinho, A estrela de prata nunca teria encontrado a saída para fora da selva. Os indígenas, amáveis, deram-lhe um rapazinho órfão esperto e forte, que passaria a guiá-lo. O rapaz conhecia a selva e os animais selvagens. Crescera Numa árvore que eu cá sei – que nós sabemos – estão uma nela e sabia vencer todos os perigos. Iria doravante ficar com o cego, estrela de prata e uma bola de cristal. e assim deambularam pelo mundo, dia após dia, o homem de barbas, — O que fazemos aqui? — perguntou a estrela. que entretanto envelhecera, e o rapaz de pele escura. — Estamos a enfeitar — respondeu a bola. — E de que é que ele andam agora à procura? — pergunta — O que é enfeitar? — perguntou a estrela. Cristina. — É fazer vista, ornamentar, alindar... — respondeu a bola de — De paz. Só procuram a paz. cristal. — E essa também é uma busca assim tão perigosa e difícil Passou-se um tempo e a estrela perguntou de novo: como a do diamante azul? — Porque estamos a enfeitar? — Mas vocês não vêem que eles vão a caminho de Belém, a — Porque esta árvore não é como as outras. Os frutos dela são caminho do filho de Deus? Quem parte ao Seu encontro quer paz e é raros. Aparecem um dia, luzem o seu quê, conforme sabem ou lá que a encontra. Vá, colocai o velho de barbas e o rapaz a meio do podem, e depois são colhidos e guardados, até para o ano. caminho que leva ao estábulo da hospedaria. Fazem ambos parte do A bola de cristal tinha muita experiência de outros Natais, ao nosso presépio, assim como os pastores e os três reis do Oriente, que passo que a estrela era nova, de prata fresca, e não sabia quase nada. hão-de aparecer mais tarde, claro. Em que ponto é que vocês vão? Mas tinha ouvido falar que havia estrelas cadentes, estrelas que caem Joaquim ainda está a dar forma ao cenário, enquanto Cristina do céu e no céu desaparecem, num sopro de luz. retira as figuras de madeira, cuidadosamente embrulhadas em papel — Não serei uma dessas? — perguntou à bola. de seda. Bem, o velho caçador de diamantes já lá está. — Talvez sejas, talvez não sejas... Mas não experimentes. — Qual é a figura que ponho a seguir? — pergunta ele, ao que Passou-se um tempo mais, e a estrela guardou para si aquela a avó responde: 81 187
  • 86.
    — Peguem nonegociante de gado com o boi. ideia, uma ideia pequenina. "Não experimentes", dissera-lhe a bola. E — Eles também vão a Belém, ao Menino Jesus? se experimentasse? Foi o que fez. — O boi, vai. Quando o filho de Deus vier ao mundo, ele vai Caiu, num susto, mas como era leve, inocente e frágil, uma lá estar com o burro e os outros animais. corrente de ar, vinda de uma porta aberta, algures, levou-a consigo. — E qual é o papel do vendedor no meio de tudo isto? — Levou-a consigo e fê-la poisar, sem estrago, no fofo musgo. insiste Cristina. Os netos bem sabem que, para a avó contar algumas — Olha, é a estrela da gruta — disse alguém que estava a das histórias, tem de levar um empurrãozinho. armar o presépio. — Já vou contar. E vocês pegaram na figura certa? Ora E estrela do presépio ficou. descreve-ma lá, Cristina. Donde estava, onde a puseram, via o presépio, os pastores, os — É de madeira, tem cabelos ruivos despenteados, e está reis magos, as lavadeiras com a trouxa à cabeça, as leiteiras com a talhada com muita perfeição. Até se consegue ver cada pêlo do bilha à cinta, os vagabundos, o moleiro, o azeiteiro e todo o povo do bigode. É bastante gordo e tem um avental verde. presépio e mais as pessoas de carne e osso, que vinham admirar Satisfeita, a senhora acena a cabeça. aquela lindeza, sorrir para o Menino Jesus e olhar para a estrela, suspensa do alto da gruta. — É esse mesmo. Põe-no mais adiantado no caminho, mais perto de Belém do que o cego, para o boi chegar a tempo. Estrela de oito pontas que era, a apontar em todas as direcções, nem ela sabia para onde, brilhou imenso. — Estes dois também percorreram um longo caminho, como o cego e o guia? Brilhou o mais que pôde. — Oh, não! O vendedor vem de Jerusalém, onde tem um Para o ano, a estrela de prata já tem muito que contar à bola de negócio de gado. Negoceia com vitelos, carneiros e porcos e, quando cristal. calha, também com aves. António Torrado www.historiadodia.pt — Ah! Então é por isso que também há galinhas na caixa! — exclama Cristina. — Ponho-as à volta dele? — Tolinha! — responde-lhe a avó. — Primeiro, ele nunca as deixaria andar à solta, pois as galinhas não seguem uma pessoa, como os cães. Depois, as galinhas pertencem à estalagem. Mais tarde hão- 188 82
  • 87.
    -de ficar pousadasnas traves do estábulo a olhar para o presépio. — E o negociante quer oferecer o seu boi ao menino Jesus — conclui Joaquim. O presente de Natal do Pequeno Anjo A avó começa a rir. — Ele? Nunca! Não dá nada a ninguém, nem um grão de Era uma vez – segundo a contagem do tempo dos homens, há milho. “A mim também nunca ninguém me dá nada!”, costuma ele muitos, muitos anos, segundo o calendário do céu, há apenas um dia dizer, e “Negócio é negócio!”. Só pensa no negócio. Nem sequer vai – um anjinho triste, conhecido em todo o reino celestial por Pequeno reparar que, no estábulo, veio ao mundo o filho de Deus. Anjo. — Nesse caso, porque é que tem de estar aqui no presépio? — O Pequeno Anjo tinha exactamente dez anos, seis meses, cinco pergunta Cristina indignada. dias, sete horas e vinte e dois minutos quando chegou junto do — Tem de lá estar porque também há pessoas assim. Ele venerável Guarda da Porta do Céu e pediu para entrar. Ali estava ele, pertence ao mundo onde Jesus vai nascer. Pessoas destas há-as desafiador, as perninhas curtas teimosamente abertas, a fazer de sempre. E vós? Tendes a certeza de que, na noite de Natal, ides conta que não estava nada impressionado com todo aquele brilho pensar no menino Jesus, de que ides fazer alguma coisa por ele? celestial. Mas o lábio superior tremia-lhe, traiçoeiro, e também não Cristina meneia a cabeça e diz, olhando de esguelha para o conseguia evitar que uma lágrima lhe rolasse pela cara, já irmão: completamente vermelha do choro, e só fosse parar no nariz — De certeza que o Joaquim só vai pensar na bicicleta nova sardento. que pediu. Mas isto ainda não era tudo. Claro que, como de costume, se — E tu? — sibila Joaquim em resposta. — Tu só pensas em tinha esquecido do lenço de assoar, e quando o amável porteiro estava vestidos chiques e nos teus discos. a registar o nome no seu grande livro, o Pequeno Anjo fungou para dentro tão alto… mas tão alto, que, com o susto, aconteceu ao bom A avó bate com o punho na mesa energicamente. porteiro o que nunca lhe tinha acontecido. Fez um grande borrão na — Silêncio! Agora não se discute! página limpa! — Às suas ordens, senhor General! A partir daquele instante, a paz celeste ficou perturbada e o — Vocês são uns tolinhos! Ouçam mas é o que o comerciante Pequeno Anjo tornou-se de imediato o terror de todos os habitantes vai fazer na noite de Natal, enquanto o boi aquece o menino com o 83 189
  • 88.
    seu bafo. Vaisentar-se na taberna mais próxima e esfregar as mãos, do céu. O seu assobiar estridente ouvia-se de tal forma pelos porque conseguiu vender o boi ao estalajadeiro por bom preço. E caminhos de ouro que, de cada vez que o ouviam os profetas como fez um bom negócio, vai festejar com uma aguardente. estremeciam sobressaltados e eram arrancados às suas contemplações. — Só isso? — pergunta Cristina desiludida. Não consegue E, nas aulas de canto do coro celestial, cantava tão alto e tão imaginar que o vendedor vá desprezar um acontecimento que será desafinado, que as delicadas harmonias celestes eram destruídas. festejado durante séculos, por milhões de pessoas. Ainda por cima, por causa das suas perninhas curtas, chegava sempre atrasado para a oração da noite, e batia contra as asas dos outros Mas a avó responde simplesmente: anjos ao tentar passar por entre as filas para se colocar no seu lugar. — Só isso. Para ele, festejar alguma coisa é com aguardente. E Podia ter-se desculpado este mau comportamento, mas o só festeja os bons negócios. Puseste-o no caminho, Cristina? aspecto exterior do Pequeno Anjo era totalmente imperdoável. A — Sim, embora ele não devesse lá estar. princípio, os querubins e as serafinas apenas segredavam entre si, mas — Claro que devia! Ele tanto pertence à festa de Natal como depressa os anjos e os arcanjos começaram a dizer, em voz alta, que tu e eu e as outras pessoas todas. Jesus não veio à terra só para alguns ele nem parecia um anjo. E tinham razão. A sua auréola estava cheia eleitos! Tira agora as próximas figuras da caixa, Cristina. Tem de ser de nódoas nos sítios onde ele a segurava com os dedos sujos, quando o grupo: avô, pai, mãe e dois filhos. Já os encontraste? corria. E, por acaso, andava sempre a correr. Claro que Cristina os encontra imediatamente. Um grupo Mas, mesmo quando parado, a auréola estava sempre torta ou daqueles não passa despercebido. Mas o que é que eles estão a fazer então caía para o chão e rolava por uma das ruas de ouro, e o em Belém, e logo um grupo? Pequeno Anjo tinha de correr atrás dela. Sim, e também tem de se — Vêm fazer o recenseamento que o imperador Augusto dizer que as suas asas não eram bonitas nem úteis. Todos sustinham ordenou por aquela altura. Por isso é que José e Maria também vêm a a respiração quando ele se colocava no rebordo de uma nuvem como Belém, como está escrito na Bíblia: “Naqueles dias foi publicado um um pardal medroso que voa há pouco tempo e se prepara para voar. decreto de César Augusto convocando toda a população do império Fechava então os olhos, apertava o nariz sardento com as duas mãos, para recensear-se. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria contava até três e atirava-se para o espaço de cabeça para baixo. E, cidade.” Esta família faz parte dessas pessoas. porque se esquecia de pôr as asas em acção, um voo daqueles acabava — E o que lhes acontece em Belém? — perguntam as crianças. quase sempre com um acidente. A avó pensa um pouco e responde: Todos viam que, mais cedo ou mais tarde, aquela situação 190 84
  • 89.
    havia de levara um castigo. E assim aconteceu. Num eterno dia, de — Pode ser que tenham reparado na estrela por cima do um eterno mês, de um eterno ano, ele foi chamado à presença do estábulo e perguntado o que significaria aquele sinal. De certeza que Anjo da Paz. encontraram bom alojamento numa estalagem. No presépio é que não O Pequeno Anjo penteou-se com cuidado, escovou as asas ficaram, senão viria nas Sagradas Escrituras. Talvez venham a desgrenhadas e vestiu rapidamente um hábito quase limpo, e pôs-se a compreender o que aconteceu no estábulo e cheguem a ver o filho de caminho, apreensivo. Ao aproximar-se do Palácio da Justiça Celeste, Deus e nunca O esqueçam. Seja como for, vão a caminho de Belém. ouvia já ao longe soar um cântico alegre. Voltou a polir rapidamente São pessoas prestáveis e boas, penso eu. Não têm aspecto de ser a auréola na veste e entrou em bicos de pés. ordeiras e trabalhadoras? Talvez estas pessoas deparem mais tarde com o séquito sumptuoso dos três reis do Oriente. Ou, pelo menos, O cantor, que no céu é conhecido por Anjo da Compreensão, com os pastores que vêm dos campos. olhou para baixo, na direcção do Pequeno Anjo, que fez imediatamente uma tentativa frustrada para se tornar invisível, E neste ponto a avó lembra-se da figura do pequeno pastor, enfiando a cabeça no colarinho da roupa, como uma tartaruga. quase ainda uma criança. À vista disto, o Anjo da Compreensão não conseguiu manter-se — Deve ser uma figurinha quase de menino, Cristina. De sério. Soltou um riso afável e quente, e disse: certeza que está na mesma caixa. — Então tu é que és o delinquente que pôs o céu nesta Quando Cristina o encontra, repara que já tem braços, pernas e agitação. Anda cá, querubinzinho, e conta-me lá o que se passa! músculos fortes como os de um homem. O Pequeno Anjo piscou primeiro um olho ao grande anjo, — Não admira — responde a senhora. — É do trabalho duro depois o outro… e, de repente, sem ele próprio saber como, estava por que teve de passar. Deve ter, no máximo, quinze anos e já tem de sentado no colo a contar-lhe como era difícil para um rapazinho lutar pela vida. Não tem pais, nem uma avó que o mime com transformar-se, de repente, num anjo. E só se tinha balançado uma chocolate e bolachas, nos domingos do Advento. Era um rapazinho vez na Porta Dourada… Está bem, duas vezes… Pronto, se calhar pobre e rude, sem lar, que não sabia quem eram os pais e com quem foram três, mas só porque estava muito aborrecido. ninguém se preocupava… E esse era também o grande problema: o Pequeno Anjo não Joaquim abana a cabeça e diz: tinha nada que fazer. E sentia saudades de casa. Não que no Paraíso — Isso é tão triste! Até parece uma história de jornal! não fosse bom! Só que a terra também tinha sido boa, com as árvores — Seu fala-barato! — critica-o a avó, um pouco zangada. — às quais se podia trepar, com os peixes na água, que se podiam 85 191
  • 90.
    Se não houvessevidas destas na realidade, não viriam no jornal. Não apanhar, com os lagos para se nadar, com o sol, a chuva e a argila quer dizer que todas as coisas tristes tenham de vir nos jornais. Da castanha, tão suave e quente sob os pés! maior parte delas ninguém fala, mas ainda hoje lá podes ler histórias O Anjo da Compreensão sorriu compreensivamente, e em como a deste rapaz. Aos doze anos perdeu os pais; morreram um a seguida perguntou ao Pequeno Anjo o que é que no Paraíso o faria seguir ao outro numa epidemia que atingiu muitas pessoas. Ou terão mais feliz. Ele pensou e depois segredou-lhe ao ouvido: morrido numa guerra? Já não sei ao certo. A verdade é que, desde — Em casa, debaixo da cama, está uma caixa. Se eu pudesse então, o rapaz passou a vaguear pelo país. Naquela altura ainda não tê-la! havia associações, como há hoje, que tentam ajudar estas crianças. O Anjo da Compreensão assentiu com a cabeça. Aquele que acordaria as consciências para a dor do próximo, ainda não tinha nascido. Ah, e em algumas pessoas, ela ainda hoje está por — Vais tê-la — prometeu, e enviou de imediato um nascer. Precisa de tempo. A única solução era mendigar. Também mensageiro do céu. tentava uns trabalhos aqui e ali, junto dos lavradores e dos Nos dias intemporais que se seguiram, todos estavam jardineiros, mas as pessoas aproveitavam-se do infeliz, matavam-no admirados com a notável mudança que se tinha operado no Pequeno com trabalho e como forma de pagamento nem sequer lhe davam Anjo. Era o anjo mais feliz de todos, e o seu comportamento e comida suficiente. Já se pode imaginar a ideia que ele foi formando aspecto exterior eram tão exemplares, que ninguém tinha nada a dos homens. Começou a odiá-los e o ódio é o sentimento que causa criticar. mais danos; torna uma pessoa má. Do ódio nascem pensamentos de Certo dia, chegou a notícia de que Jesus, o Filho de Deus, iria vingança. O rapaz começou a roubar e a fazer coisas ainda piores para nascer da Virgem Maria, em Belém. se vingar dos homens que se tinham aproveitado dele. Quando se Um regozijo geral encheu os ares e todos os anjos e arcanjos, deram conta, as pessoas ficaram muito zangadas e expulsaram-no; era as serafinas e os querubins, o porteiro do céu e todos os demais a solução mais fácil, e ele teve de continuar a vaguear sem destino. habitantes do céu puseram os seus trabalhos quotidianos de parte Certo dia, chegou a uma cidade à beira-mar… Sim, pode ter sido isto para prepararem presentes para o Filho de Deus. que aconteceu. Pela primeira vez na vida, estava a ver um porto com Todos trabalhavam diligentemente, menos o Pequeno Anjo. barcos grandes e maravilhosos que vinham de Nápoles e de Roma, da Sentado no alto da escada do céu, com a cabeça apoiada nas mãos, Grécia, do Egipto, da Espanha e da Pérsia. E foi lá que ouviu dos esperava por uma boa ideia para uma prenda adequada. Mas, por mais homens do mar contar histórias e relatos fantásticos, infelizmente que pensasse, não se lembrava de nada que fosse digno do Filho de nem sempre verdadeiros. Naquela altura, ele ainda não sabia que 192 86
  • 91.
    Deus. muitas coisas são substancialmente mais bonitas em algumas cabeças O momento do grande milagre aproximava-se perigosamente, aventureiras do que na realidade. Só ouvia as fascinantes palavras das quando, de repente, lhe veio a ideia salvadora. No Dia dos Dias, histórias encantadas. Não admira que o desejo de viajar num barco retirou do esconderijo, por detrás de uma nuvem, a sua caixa, e para maravilhosas terras distantes se apoderasse dele de repente. pousou-a em frente do trono de Deus. Era apenas uma pequena caixa, Talvez os homens fossem mais amáveis noutro sítio do que ali, simples e já gasta, mas continha todas aquelas coisas maravilhosas pensava ele. Talvez recebesse comida suficiente a bordo de um barco, que causariam prazer até ao Filho de Deus. sem antes ter de esfalfar-se a trabalhar até cair meio-morto. “Talvez…” Sim, o que não se sonha quando se vê pela primeira vez Lá estava agora a pequena caixa, simples e já gasta, no meio dos um porto cheio de navios. Mas para que serve um rapaz que não valiosos presentes dos anjos do Paraíso, presentes de tal esplendor e aprendeu a fazer nada? Não tem valor para ninguém e está disposto a beleza tão admirável, que o céu e o restante universo estavam fazer qualquer tarefa, mesmo a mais baixa. Ninguém se preocupa iluminados pelo seu simples reflexo. com ele, ninguém quer saber se tem fome, se dormiu o suficiente, se Ao ver este esplendor, o Pequeno Anjo sentiu um grande não leva carregos demasiado pesados para a idade. Quem é que pensa desânimo, pois reconheceu que o seu presente não era digno. nisso? Não interessa ao timoneiro nem ao capitão. Mas vocês ainda Gostaria de o retirar, mas agora era tarde demais. A mão de Deus já estão a ouvir-me, meninos? se movia por cima de todos os presentes, deteve-se, de repente, A avó não reparara que os dois quase haviam esquecido o baixou… e pousou sobre o pobre presente do Pequeno Anjo. presépio e já só a escutavam. O Pequeno Anjo tremia ao ver abrir a sua caixa. Diante dos — Então o rapaz esteve num barco? — pergunta Joaquim. olhos de Deus e dos outros habitantes do céu encontrava-se agora aquilo que ele tinha oferecido ao Filho de Deus: uma folha vermelha — Certamente. Onde é que teria arranjado aqueles músculos? que apanhara na floresta num dia de sol, um ovo de passarinho da cor Nos velhos tempos, o trabalho a bordo era difícil. Com vento bom, do céu, que tinha caído de uma oliveira, dois seixos brancos, que ele velejava-se. Içar e recolher velas num navio, era um trabalho colossal, encontrara na margem lodosa do rio, e um pedaço de couro garanto-vos. Sei isso muito bem pelo meu avô. Era preciso ser-se esfarrapado, que fora, noutros tempos, a coleira do seu fiel rápido, ágil e forte e estar-se atento dia e noite sem parar. Claro que companheiro de quatro patas… punham o rapaz de vigia durante mais tempo e com mais frequência, e era ele que tinha de subir ao mastro mais alto. Tudo piorava O Pequeno Anjo chorava lágrimas quentes e amargas. Como durante a calmaria, quando as velas não serviam e o navio ficava pudera alguma vez pensar que coisas tão inúteis iriam agradar ao 87 193
  • 92.
    parado no martal como uma ilha! Em baixo, no porão do navio, os Filho de Deus? escravos comprados ou roubados iam presos a correntes. Homens Em pânico, voltou-se para fugir e esconder-se da cólera divina que, quem quer que fosse o dono, poderia fazer com eles o que do Pai Celeste. Mas, de repente, tropeçou e caiu tão desajeitadamente quisesse, porque tinha mais poder e força. E o que faz o capitão de sobre uma nuvem, que foi a rolar até ao trono do Todo-Poderoso. um navio durante uma calmaria? Manda os escravos remar. Imaginem Reinava um silêncio paralisante na cidade celeste, um silêncio o que é remar num barco gigantesco, já de si pesado, e ainda por cima onde só se ouviam os soluços dolorosos do Pequeno Anjo. Mas, de carregadíssimo. E da Palestina à Índia, se fosse preciso! Vocês bem repente, elevou-se uma voz, a voz de Deus, que disse: sabem que na altura ainda se contornava a África, dia após dia, noite — De todas as oferendas, esta caixa é a que mais me agrada. após noite, no calor abrasador e sufocante dos trópicos, sempre a Ela contém coisas da terra e dos homens, e o Meu Filho nasceu para respirar o ar viciado do interior do navio. Não admira que algumas ser o rei de ambos. Por isso, aceito esta oferenda em nome do destas pobres almas sucumbissem. E quem tinha de ocupar o lugar Menino Jesus, que hoje nasceu de Maria, em Belém. vago quando era preciso, quem tinha de mourejar como um escravo? O nosso órfão, claro. Seguiu-se um silêncio profundo e a caixa do Pequeno Anjo começou de repente a resplandecer com uma luz sobrenatural. O — Se ele tivesse ficado em terra — suspira Cristina. brilho tornou-se tão claro e radioso, que cegou os olhos de todos os A avó acena que não, com a mão no ar. anjos. Nenhum deles pôde, por isso, ver como este objecto — Tivesse! Tivesse! Se!... Depois é muito fácil falar. Mas, resplandecente se elevou do seu lugar em frente ao trono de Deus. Só para vos sossegar, digo-vos que, depois de ter participado numa o Pequeno Anjo viu como ele tomou o seu caminho pelo firmamento viagem destas e o barco, ao fim de alguns meses, ter regressado à e, como, transformado numa estrela resplandecente, parou sobre um pátria, ele foi o primeiro a abandoná-lo. Tinha tanta pressa, que nem estábulo onde uma criança tinha nascido. esperou que pusessem um passadiço ou um escaler. Mal viu a costa Charles Tazewell do seu país, passou a amurada com um salto desenfreado. Há Anne Braun (org.) semanas que andava com medo que o dono do navio o acorrentasse Weihnachtsgeschichten Würzburg, Arena Verlag, 1991 também a ele no porão. Não, saltou cinco metros para o fundo do mar e nadou para terra à força de braços. Joaquim bateu na figura de madeira que representava o rapaz e disse: 194 88
  • 93.
    — E deveter sido perseguido por algum tubarão que lhe comeu um bocado. — Porque é que dizes isso? — perguntou a avó admirada. Os três reis do Oriente — Porque falta uma pontinha do pé esquerdo. — Isso tanto pode ter sido um tubarão como o bicho da Gaspar madeira — respondeu a senhora. — E o que é que lhe aconteceu depois? — pergunta Cristina. Naquele tempo, na cidade de Kalash, o príncipe Zukarta instaurou o culto do bezerro de oiro. — O que havia de ser? Entretanto, nem ele nem as pessoas da sua pátria se tinham tornado melhores. E já tinha tido viagens pelo A estátua poisava nas multidões submissas os seus olhos mar que chegassem. “Nunca mais!”, jurou a si próprio. “Prefiro espantados, muito abertos, pintados de branco e de preto. No fundo guardar porcos e enregelar até aos ossos, à noite, ao relento, do que das suas pupilas aflorava quase uma interrogação, como se a extensão voltar a sentar-me no interior abrasador de um navio, preso a um do seu poder o surpreendesse. Era um jovem bezerro de pequenos remo de um metro de comprimento, tão grosso como um tronco de cornos torcidos e pernas musculosas, de testa obtusa, curta e árvore, ensanguentar as mãos e esgotar o coração a trabalhar”. E franzida. As suas quatro patas, firmemente poisadas na terra, davam pronto, podia recomeçar novamente com a vagabundagem. Na cidade uma grande impressão de firmeza e estabilidade que tranquilizava o portuária não havia porcos para guardar. Num local daqueles, um coração dos seus fiéis. E em todo o seu corpo brilhava o oiro, oiro esfomeado como ele só poderia ter maus pensamentos ao ver no cais compacto, duro, pesado, faiscante. os armazéns cheios de comida: sacos com figos e cocos, cestos cheios Em frente do ídolo as mulheres curvadas sacudiam sobre o de tâmaras e bananas, montanhas de amendoins, laranjas e azeitonas, mármore claro dos degraus os sombrios cabelos quase azuis. Dos tudo coisas que os grandes navios tinham trazido da Índia e de confins do deserto, dos longínquos oásis, das aldeias perdidas, África. O rapaz foi novamente tentado a vingar-se outra vez dos chegavam homens que depunham em frente do altar a sua oferta: trabalhos forçados a bordo. vinham oferecer oiro ao oiro. E os homens bons de Kalash, juízes e — Ele pensou em roubar! — adivinha Joaquim. chefes guerreiros, desfilavam reverentes em frente do bezerro. Atrás deles vinham os comerciantes, os vendedores, os oleiros, os tecelões. — Sim — anuiu a avó pensativa — quando um esfomeado Beijavam os degraus do altar e depunham no chão a sua oferta: perdido tira, sem autorização, o excesso de outros, isso também é 89 195
  • 94.
    roubar. Mas sópodia roubar se, antes disso, eliminasse o guarda- traziam oiro ao oiro. Até os sacerdotes da Lua e os seus fiéis e nocturno. acólitos se prostravam, de joelhos, com a cabeça tocando o solo, em — Matá-lo? — exclama Cristina. — Matá-lo só por causa da frente do ídolo novo de Kalash. fome? Zukarta olhava todas estas coisas com grande alegria, pois o — Tu nunca tiveste fome a sério — diz Joaquim rudemente à culto do oiro era o fundamento do seu poder. irmã. Raros eram aqueles que não acorriam ao templo, cada vez mais — E tu, já? — pergunta ela ironicamente. raros. Os muito pobres, os muito envergonhados, os muito humilhados, não ousavam apresentar-se. Eles eram como uma raça à — Dai graças por isso — atalha a avó. — Quando a fome se parte, pois a pobreza era olhada como o estigma que marcava aqueles torna insuportável, quando a vida e a morte estão em jogo, isso pode que o Bezerro não amava. No fundo das suas almas tão humilhadas tornar os homens maus. E o estômago do jovem já fazia tanto barulho como um cão a rosnar. A fome tornava a cabeça dele que mal ousavam pensar o seu próprio pensamento, os muito pobres, os muito envergonhados esperavam outro deus. estranhamente vazia, de tal forma que se sentiu atordoado e teve de se acocorar durante algum tempo para ganhar forças. Os seus Eles e Gaspar. pensamentos eram confusos e tão sombrios como a noite. E no Uma delegação de homens importantes veio ao palácio de momento em que estava ali miseravelmente sentado no pó, deu-se Gaspar. E disseram: conta daquilo em que se tinha tornado e apercebeu-se de como a vida — Porque não te apresentas no templo do Bezerro? Por acaso podia piorar se continuasse a viver como até ali. Não tinha também te falta oiro para a oferta? Que tens tu de comum com a ralé das aprendido a trabalhar? Com uns músculos daqueles ia tornar-se um docas? Não estás por acaso vestido de púrpura e de linho como um bandido? A meio da noite, só e ajoelhado no porto às escuras, rei? Porque desafias o poder de Zukarta? Serás um traidor? No culto escutava dentro de si e, de repente, sentiu nojo de si próprio porque do Bezerro está a prosperidade e a grandeza de Kalash. Estarás tinha querido matar um homem para ele sobreviver. Foi nesse vendido aos nossos inimigos? momento que decidiu partir para Belém. Levantou-se. Não queria Gaspar respondeu: voltar a pensar nos armazéns cheios. Talvez tenha ficado ali de pé por — Não posso adorar o poder dos ídolos. O meu deus é outro um instante a pensar nisso. Um instante daqueles pode decidir uma e creio no seu advento, que a Terra e o Céu me anunciam. vida inteira, pode mudar um homem radicalmente — dependendo do que o indivíduo decide. Nós temos este poder. Ouvindo esta resposta, os chefes das tribos e os homens bons 196 90
  • 95.
    de Kalash disseram: — Mas o que é que ele fez depois? — pergunta Cristina. — O — Separamo-nos de ti porque te separaste de nós e renegaste que é que decidiu? os nossos caminhos. Não terás mais parte nas nossas assembleias. — Virou costas aos armazéns e saiu dali, seguindo pelas ruas Nem serás mais ouvido nos nossos conselhos, nem partilharás dos da cidade portuária, sempre, sempre na direcção do campo. Às portas nossos festejos e banquetes. E também não terás lugar na nossa força. da cidade encontrou uma caravana que queria aproveitar o fresco da Os soldados não protegerão a tua casa nem as tuas caravanas. E serás noite para fazer a viagem pelo deserto. A seu pedido, levaram-no com presa fácil dos bandidos. Não receberás a protecção das nossas leis, e eles, pois mais um menos um não faz diferença a uma caravana. os nossos juízes julgarão em sentença contra ti, e a tua razão será Quando descansavam, o rapaz tinha de dar de beber aos camelos e de como um punhado de cinza. Como a gente da ralé, não terás nem manter acesa a fogueira. Como paga, dividiam com ele as provisões de protecção nem defesa enquanto não te curvares perante o altar do pão e água. Alguns dias mais tarde, chegaram ao destino e deixaram Bezerro para adorar os ídolos que nós adoramos. de precisavar dele. Na despedida, recompensaram-no com três peças E Gaspar respondeu: de prata, pois sempre se mostrara prestável e queriam agradecer-lhe por isso e também ajudá-lo. Foi em Jerusalém que se despediu da — O meu deus é em mim como uma fonte que não pára de caravana e vai agora a caminho de Belém. correr e é em meu redor como o muro de uma fortaleza. — Disseste que lá iria ser ajudado — lembrou Joaquim. Então os notáveis de Kalash sacudiram a poeira dos seus sapatos e saíram do palácio. — No caminho qualquer um pode ser ajudado, filho. Mais uns passos e encontrará os pastores a guardar os rebanhos. Vão tomá-lo Depois desse dia, muitas calamidades se abateram sobre como aprendiz e assim vai acabará a vagabundagem. E além do mais, Gaspar. Os bandidos assaltaram as suas caravanas e os ladrões vai aprender uma profissão a sério. saquearam os seus palmares. Mãos misteriosas apedrejavam de noite a sua casa e na água das suas cisternas apareciam frutos podres e aves — E na Noite de Natal — continua Cristina — vai ouvir, mortas a boiar. juntamente com os pastores, o coro dos anjos e dirigir-se-á com eles ao presépio. E começou o tempo da solidão. — Talvez… — responde a avó e pergunta: Nos frescos pátios do palácio não penetraram mais os visitantes e a água correndo nos tanques deixou de acompanhar o leve — Onde é que o colocaste? rumor das conversas. Os parentes e os amigos desapareceram como — É o que vai mais adiantado no caminho. 91 197
  • 96.
    — E émesmo — diz a avó num tom como se por hoje tivesse que devorados pela penumbra e todas as coisas pareciam envolvidas acabado a construção do presépio e as histórias. em escândalo e terror. Mas os irmãos ainda não terminaram. Por terem ficado tanto Porém o tempo crescia. tempo à escuta, não conseguiram trabalhar muito. No entanto E Gaspar escutava o crescer do tempo. A solidão criava em seu Cristina tem uma queixa a apresentar, e com razão. redor um transparente espaço de limpidez onde os instantes — Até agora só contaste histórias com homens, avó, mas avançavam um por um e o universo inteiro parecia atento. O silêncio também há mulheres e meninas no meio das figuras. Aqui, por era como a mesma palavra inumeravelmente repetida. exemplo, esta pequenita de cabelo preto comprido. E debruçado sobre o tempo, Gaspar pensava: «O que pode — Ah, sim, é a Hanneh — a senhora reconhece-a de imediato crescer dentro do tempo senão a justiça?» e começa a dar orientações aos netos. — Tens de a pôr antes de Ajoelhado no terraço, Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a Belém, longe da cidade, no meio da floresta. alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que — Ainda não acabei a floresta — anuncia Joaquim — mas se simultaneamente mostrava e escondia. entretanto contares a história de Hanneh, de certeza que acabo. E disse: — Vocês são muito espertos! — suspira a avó. — Conseguem — Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas sempre dar-me a volta. Mas esta é mesmo a última história por hoje! o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas — Também já está a ficar escuro — diz Cristina — e de toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade qualquer maneira temos de acabar em breve. Então o que é que se das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu passou com Hanneh? que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. — Quando Hanneh andava perdida pela floresta próxima de Chama à tua claridade a totalidade do meu ser, para que o meu Belém, também já estava escuro — recomeça Anai novamente. — pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde Hanneh tinha-se perdido e estava com medo. Podiam aparecer lobos, sempre me dizes. algum leão, ou até ladrões! De manhã, não tinha pensado nestas Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma coisas tão terríveis. De manhã apenas se sentira furiosa. A mãe palavra de repente dita na muda atenção do céu. acordara-a ao nascer do sol. “Hanneh, levanta-te! Depressa!” E logo Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu de manhã, que era quando ela mais gostava de dormir. que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um 198 92
  • 97.
    pouco mais próximae mais clara e que, muito devagar, deslizava para — Como a Cristina. o Ocidente. — Está calado, Joaquim! Por favor, avó, continua. Porque é E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu que a mãe acorda Hanneh tão cedo? palácio. — O irmãozinho havia adoecido durante a noite, dissera a mãe, e Hanneh tinha de ir a correr à aldeia vizinha chamar o Melchior curandeiro. “Ai, ai, ai”, pensava Hanneh. “É sempre o irmãozinho. Então e eu? Ele não há-de ter nada de grave.” Estava um pouco A placa de barro tinha passado de geração em geração, de idade zangada e levou mais tempo a vestir-se, por birra e ciúme. “Quando em idade, de mão em mão. Nela estava escrito que ao mundo seria estou doente”, pensava ela, “limitam-se a dizer: – Coragem! Isso enviado um redentor e que uma estrela se ergueria no Oriente para passa depressa! – dão-me um chá horrível e acabei sempre por ficar guiar aqueles que buscavam o seu reino. boa. Que dêem ao meu irmão desse chá horrível! Lá há-de parar com A placa era um pequeno rectângulo de argila, enegrecido pelo a choradeira.” Hanneh não estava com pena nenhuma do pequenito, tempo, de aspecto frágil, pobre e gasto. Era um prodígio que tivesse mas sim dela, que tivera de se levantar tão cedo. Também tomou de atravessado, sem se perder, tantos séculos de ruínas e opulências, propósito o pequeno-almoço tão devagar, que os pais, preocupados, saques, incêndios e guerras. Era um prodígio que tivesse podido começaram a ralhar-lhe, o que só piorou a teimosia de Hanneh. atravessar, sem se perder, a ambição, a violência, a agitação e a Então eles queriam que ela fizesse, tão de madrugada, aquele longo indiferença dos homens. caminho e ainda por cima estavam a ralhar com ela? Queriam que ela Estava ali, no palácio, alinhada ao lado de milhares de placas fosse à aldeia vizinha, a correr, de barriga vazia? que enumeravam vitórias, batalhas, massacres e riquezas. — Só mesmo uma rapariga — resmunga Joaquim. — Têm Os seus caracteres estavam semi-apagados pelo tempo e a sua sempre de fazer teatro. escrita era tão antiga que se tornava difícil decifrá-la com exacto Cristina faz de conta que não ouviu a observação rigor. Muitas leituras eram possíveis. despropositada, e a avó continua a contar, após um pequeno aceno de Por isso o rei Melchior convocou três assembleias de sábios cabeça: para que juntos averiguassem qual era a justa interpretação daquele — Quando finalmente Hanneh saiu de casa, estava tão furiosa texto antiquíssimo. que decidiu vingar-se da repreensão dos pais. Queria fazer de Primeiro vieram os historiadores, aqueles que tinham propósito um desvio para ficar mais tempo fora de casa. Assim os 93 199
  • 98.
    pais também teriamde preocupar-se com a filha. Ela também existia, aprendido toda a ciência das bibliotecas e que conheciam até ao não era só o irmãozinho, por quem todos tinham de acordar cedo! menor detalhe a escrita, a linguagem, os usos, os costumes, os anais e Hanneh queria fazer um desvio, meter medo aos pais… e o que os códigos dos tempos idos. aconteceu com aquela palermice? Hanneh saiu do caminho e perdeu- A assembleia reuniu-se durante um mês no palácio do rei. Era -se. Andou perdida durante todo o dia pelo leito dos rios, no meio de o meio do Verão e o calor poisava pesadamente sobre os terraços prados secos e de arbustos espinhosos. O sol dava-lhe na cabeça e não cegos de sol. Nos jardins as palmeiras roçavam umas nas outras, com havia sombras. A garganta de Hanneh ardia-lhe de sede, mas a menina um rumor metálico, as suas folhas afiadas e duras como serras. não encontrava água em parte alguma. A fome aparecerá também mas Ao cair das tardes os sábios sentavam-se em círculo no pátio com o que é que havia de a calar? No ar, por cima dela, planavam interior do palácio. Melchior presidia. Um fino murmúrio de água abutres, também eles com fome, e Hanneh sabia de que é que eles correndo nos tanques acompanhava os debates. Os escravos descalços estavam à espera. circulavam em silêncio servindo vinho de tâmara temperado com neve — De Hanneh, talvez? — pergunta Cristina assustada. das montanhas. — De quem é que havia de ser? — responde Joaquim, O círculo de homens sentados descrevia uma área vazia e no conhecedor, como se todos os dias estivesse em contacto com centro dessa área tinha sido colocada uma mesa de pedra sobre a qual abutres. estava poisada a placa de barro. Parecia extremamente pequena e — Quando começou a escurecer — prossegue a avó, insignificante, no meio de tanto espaço e opulência, parecia um imperturbável — Hanneh ainda estava no meio daquele deserto. A detrito das eras antigas que ali tinha sido abandonado pelo tempo. cólera já tinha desaparecido e dera lugar a um medo horrível. Por Durante longos debates, durante trinta dias, os sábios detrás de cada arbusto podia estar à espreita uma fera e, por detrás de estudaram e examinaram meticulosamente cada linha dos caracteres cada rochedo, um ladrão. Também não deixava de pensar no antiquíssimos. irmãozinho a chorar em casa. E se ele estivesse de facto gravemente E ao trigésimo dia ergueu-se Negurat, arquivista-mor do doente e precisasse de facto de socorro rápido? Talvez o pai, templo da Lua, e disse: entretanto, se tivesse posto a caminho da casa do curandeiro, talvez — Creio que a leitura que tu, ó rei, fizeste deste texto não é a tivesse partido à procura de Hanneh. Chamou por ele, gritava como verdadeira. Pois leste: «Ao mundo será enviado um redentor, e uma um cordeirinho perdido, mas não recebia resposta. Ficou tonta com o estrela subirá no Oriente para guiar aqueles que buscam o seu reino.» medo e deixou-se cair na areia. Hanneh não podia mais porque já não Mas verdadeiramente é outra a significação deste texto antigo: assim, 200 94
  • 99.
    os caracteres ondeleste «redentor» significavam, na remota era em tinha esperança de alguma vez sair daquele lugar desértico. De que foi gravada esta placa, não «redentor» mas sim «grande rei»; e os certeza que iria aparecer imediatamente um animal selvagem para a caracteres onde leste «será» e «subirá» não exprimem formas verbais comer, como castigo pela sua impertinência. Se encontrasse o do futuro mas sim formas verbais do passado; e o verbo buscar não caminho para Belém, o caminho para casa, para junto do pai e da mãe está no presente mas sim no pretérito perfeito; e onde leste «para e do pobre irmãozinho! guiar» deverá ser lido, de acordo com os métodos de decifração dos Em grande aflição lembrou-se que o pai lhe dissera uma vez textos antigos, «guiando». Portanto, ó rei, ao contrário daquilo que que, de noite, era possível encontrar o caminho a partir das estrelas. julgaste ler, este texto não se refere ao futuro mas sim ao passado, e Muito bonito, mas como? “Talvez”, pensava ela, “as estrelas não anuncia o advento de nenhum salvador, mas antes glorifica as estendam o dedo, ou algumas setas, ou outro sinal qualquer”. E obras de um grande personagem dos tempos idos. Assim a leitura Hanneh olhou para o céu, à procura. Ficou sem respiração. Nunca correcta deste texto é, em minha opinião, a seguinte: «Ao mundo foi vira nada de tão maravilhoso brilhar assim! Longe, no céu, à sua enviado um grande rei que como uma estrela dominou o Oriente frente, estava uma estrela grande e brilhante com um feixe de raios guiando aqueles que buscaram o seu reino.» cintilantes a formar uma cauda. Quando Negurat acabou de falar, levantou-se Atmad, Hanneh levantou-se. Não olhava onde punha os pés. Só queria arquivista-mor do palácio, e disse: ver a estrela. Não a perdia de vista e seguiu-a. Não era preciso ser-se — Grande é a ciência de Negurat. Mas a interpretação da Mago do Oriente para perceber que uma estrela daquelas indicava um escrita antiga tem terríveis dificuldades. Não há dúvida que no texto caminho. Para cada um, um caminho diferente. Nós sabemos qual o apresentado devemos ler «grande rei» e não «redentor». No entanto, da menina, pois a estrela maravilhosa estava sobre Belém. Hanneh não concordo com aquilo que diz respeito às formas verbais: creio encontrou o caminho para casa, a corta-mato pelos campos e terrenos que o verbo ser e o verbo subir se encontram realmente no futuro. E selvagens. Estava tão contente por regressar a casa que nem tinha também discordo da forma como foram lidas as palavras «guiar», medo da eventualidade de ser castigada pelos pais. Não podia «buscam» e «reino». E penso ainda que o verbo «subir» tem aqui o esconder-lhes que ela, que conhecia tão bem o caminho para casa do sentido de «dominar». De forma que, na minha opinião, a leitura curandeiro, andara, por maldade, a correr pelo deserto. Hanneh só correcta do texto é esta: «Ao mundo será enviado um grande rei que temia por uma coisa: pelo irmãozinho. como uma estrela dominará o Oriente para engrandecer aqueles Mal entrou em casa, encontrou o pequenito a dormir povos que aceitarem o seu poder.» Pois esta inscrição é de facto uma calmamente e os pais em aflição pela sua menina perdida. Felizes, 95 201
  • 100.
    tomaram a filhanos braços sem lhe ralharem. E, admirados, profecia, mas uma profecia que já foi cumprida. É evidente que o deixaram-se conduzir por ela outra vez para fora de casa, para verem grande rei é o grande Alexandre que dominou todo o Oriente até ao a estrela maravilhosa que pairava acima deles e que Hanneh queria reino de Pórus e que morreu, como sabeis, em Babilónia. mostrar-lhes. Quanto não se tinham preocupado uns pelos outros E quando Atmad acabou de falar, levantou-se o velho sábio naquele dia! E tanto os pais como Hanneh tinham aprendido algo de Akki, que disse: importante: era preciso ter mais amor e compreensão uns pelos — Admirei as sapientes palavras que ouvi. Mas na verdade a outros. Mas a noite trazia-lhes finalmente paz. leitura deste antiquíssimo texto levanta tantas dúvidas e são tantas as A avó está muito cansada de tanto contar e reclina-se interpretações que podemos propor, que verdadeiramente, ó rei, nada confortavelmente na sua cadeira. podemos concluir. Então levantou-se Melchior e disse: — Em que ponto é que estão? — pergunta. — Ide em paz e continuai os vossos estudos. Eu continuarei a Joaquim acabou o deserto. Cristina ainda tem na mão a menina perguntar, a escutar e a esperar. e olha para ela pensativamente. E no mês seguinte reuniu-se no palácio real a assembleia dos — Por hoje conseguimos fazer tudo — responde. — Só não letrados. sei agora onde pôr Hanneh. Melchior propôs-lhes as dúvidas e as interpretações dos — Antes de Belém, no deserto, como disse há pouco, meninos, historiadores e durante trinta dias os letrados estudaram o texto. pois na Noite de Natal ela ainda vai a caminho. Só mais tarde é que E no trigésimo dia, ao cair da tarde, estando todos sentados chegará a casa. em círculo e estando no meio do círculo a mesa de pedra sobre a qual Cristina coloca obedientemente a menina no ermo artificial tão estava poisada a placa de barro, levantou-se Ken-Hur e disse: bem preparado por Joaquim. — A poesia não se exprime directamente. Ora o texto que — Ainda faltam três domingos — suspira, feliz. — Tantas temos em nossa frente é um poema e por isso mesmo deve ser figuras ainda… e o mesmo número de histórias! tomado como uma metáfora que não se refere nem ao passado nem — Vendo bem — afirma Joaquim — ainda vão todos a ao presente nem ao futuro do mundo em que vivemos, mas só ao caminho, tanto o cego com o rapaz, como Hanneh e o negociante de mundo interior do poeta, que é o mundo da poesia sempre voltado gado, o órfão e a família, os pastores e os reis. para o devir e para a esperança. Este texto não fala de factos reais e apenas simboliza o espírito criador do homem. — Foi assim na altura — responde a avó — e assim é hoje em 202 96
  • 101.
    Falou em seguidaAmer, que disse: dia. Há sempre alguém a caminho do presépio. Também nós e — Este texto é um poema e coloca-se por isso à margem do muitos daqueles que conhecemos seguimos por este caminho em vivido. O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é. direcção à estrebaria de Belém. Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai Eva Rechlin Der Weihnachtsweg uma coisa que lá não está. Wuppertal, Johannes Kiefel Verlag, 1970 E levantou-se depois o irmão de Amer, que disse: — Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio o seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é apenas essa própria rosa. Um poema é um justo acordo de palavras, um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem, um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e, como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria. E tendo terminado o debate, levantou-se Melchior, que disse: — Eu vos agradeço as vossas palavras. Por mim continuarei a buscar, a escutar e a esperar. Então retiraram-se os letrados e o rei ficou sozinho no pátio, em frente da placa de barro, escutando o correr da água e o cair da noite. E no mês seguinte reuniram-se no palácio os homens sapientes. Melchior propôs-lhes as dúvidas dos historiadores e dos letrados e a nova assembleia deliberou durante trinta dias. E no trigésimo dia levantou-se Kish, que disse: — As multidões ignorantes curvam-se em frente dos ídolos, mas aqueles que meditam conhecem a solidão do universo. Que 97 203
  • 102.
    redentor poderemos esperar?O universo é como uma máquina bem regulada que sem princípio nem fim gira lentamente através das idades e dos ciclos. Nas constelações e nas luas, nos triângulos e nos círculos, encontrarás as leis dos números que se cumprem e se cumprirão inexoravelmente. Que redenção poderemos esperar? E falou depois Maro, que disse: — Os deuses que existiram extinguiram-se há muito, e aquilo que adoramos é apenas a cinza do divino. Qual é, na idade em que vivemos, o homem que viu um anjo? Onde está aquele que ouviu, com os seus ouvidos de carne, a palavra de Ísis ou de Assur? Vivemos um tempo de viuvez e todas as coisas se tornaram cegas e surdas. Num mundo de injustiça e de desordem tentamos sobreviver como animais perseguidos. Quebrou-se o laço que nos ligava ao universo atento. Podemos bater com os punhos na terra, podemos implorar com a cabeça tocando a poeira. Ninguém responderá. Cegou o olhar que nos via e o ouvido que nos escutava secou. Tudo nos é alheio como um lugar que não nos reconhece. E o brilho dos astros impassíveis cintila sobre a nossa tristeza. Quem pode esperar que uma estrela se mova? Falou em seguida Tot, e disse: — Nascemos para morrer. Toda a nossa esperança se resolverá em cinza. Onde está o homem que não morreu? O próprio Alexandre, filho de Ámon, que estabeleceu o seu Império desde o Egipto até ao reino de Pórus, morreu miseravelmente nos palácios da Babilónia. E no entanto a sua radiosa juventude parecia mostrar a natureza de um Deus, e era tão grande a sua perfeição que ninguém 98
  • 103.
    podia julgá-la mortal.Quem poderia acreditar que morresse o seu corpo equilibrado e liso como uma coluna, a sua inteligência aguda e limpa como o sol, o seu olhar direito que simplificava todas as coisas, Índice o seu rosto brilhante como um estandarte e a sua alegria invencível? Alexandre, príncipe da Macedónia, filho de Ámon, maravilhamento Os Magos que não chegaram a Belém ............................................ 1 dos povos, conduziu o destino do homem a seus últimos limites, de “Não é possível!”, pensou o Pai Natal ........................................... 9 tal forma que nele todos julgaram que a natureza humana tinha Bolo-rei ........................................................................................... 15 conquistado o divino. Mas Alexandre morreu no trigésimo terceiro A manhã do dia de Natal ............................................................... 19 ano da sua vida, no cimo da sua força e da sua glória, em pleno A batalha de Natal.......................................................................... 23 esplendor da sua juventude. E assim os deuses nos disseram que o O Viajante ...................................................................................... 29 homem não pode ultrapassar o seu destino, e que o seu destino é um Um gato debaixo do pinheiro de Natal........................................ 37 destino para a morte. Por isso, ó rei, que poderemos esperar? Nada O Pinheirinho ................................................................................ 41 pode modificar a condição do homem e nesta condição não há lugar A filhó dourada .............................................................................. 51 para a esperança. O cesto de Natal da tia Cyrilla ..................................................... 55 Quando os pensadores se retiraram, Melchior levantou-se do trono e avançou até à mesa de pedra. Entre as grandes colunas que O Tomás, que não acreditava no Pai Natal ................................ 69 rodeavam o pátio, a placa de argila parecia extraordinariamente frágil A menina dos fósforos................................................................... 77 e pequena. Mas o rei tocou com a sua fronte as letras quase apagadas. A estrela de prata............................................................................ 81 Nessa noite, depois da Lua ter desaparecido atrás das O presente de Natal do Pequeno Anjo ........................................ 83 montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Os três reis do Oriente.................................................................. 89 Oriente, uma nova estrela. A boneca........................................................................................107 A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e O primeiro Natal do pardalito....................................................113 confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém Noite de Natal .............................................................................117 caminhava. Só de longe em longe se ouvia, vindo das muralhas, o O bolo-rei .....................................................................................135 grito de ronda dos soldados. O Natal das bonecas ....................................................................137 E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos David e a estrela ...........................................................................145 99 205
  • 104.
    Uma estrela................................................................................... 149 sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto Lídia .............................................................................................. 157 espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e Sei um ninho ................................................................................ 165 deslumbrada, a sua alegria. A esperança brilha como um diamante....................................... 169 E Melchior deixou o seu palácio nessa noite. O caminho para Belém................................................................. 177 Baltasar O rei Baltasar amava a frescura dos jardins e sorria ao ver na água clara dos tanques o reflexo da sua cara cor de ébano. E amava a alegria, o rumor e a abundância dos banquetes, e muitas vezes as suas festas duravam até ao romper do dia. Porém, certa madrugada, depois de se terem retirado todos os convivas, o rei ficou na grande sala, sozinho com um jovem escravo que tocava flauta. E pareceu-lhe que a melodia desenhava no ar o contorno de um espaço vazio. Então o seu coração ficou pesado de tristeza, e Baltasar pensou: «Será possível que um dia eu me retire da vida como um conviva saciado que se retira de um banquete? Ou terei sempre a mesma sede, a mesma fome, o mesmo desejo dos momentos e dos dias?» E tendo pensado isto atravessou a porta da sala e saiu para o jardim. Cá fora, na luz indecisa da antemanhã, o jardim parecia suspenso. A bruma confundia o desenho claro dos tanques e diluía no * A maioria dos textos desta antologia foi adaptada do original. ar o contorno das ramagens. 206 100
  • 105.
    Baltasar caminhou longamenteentre flores e palmeiras até romper o Sol. E quando já era dia chegou a um pequeno terraço que ficava no extremo do jardim. Debruçou-se no parapeito e viu, do outro lado da rua estreita, um homem jovem, encostado a uma parede, que o olhava. Baltasar ficou imóvel, como se o rosto do outro lhe tivesse batido na cara. Ou como se o rosto do outro de repente fosse o seu rosto. Ou como se pela primeira vez na sua vida tivesse visto a cara de outro homem. O que naquele rosto mais o surpreendia era a nudez, a evidência nua. Era como se naquele rosto o cerimonial da vida tivesse retirado a sua máscara e a realidade mostrasse, sem nenhum véu, o abandono, a dor consciente, a condição do homem. Era um rosto de homem jovem e magro onde os ossos desenhavam, sem nenhum equívoco, o ideograma da fome. A tristeza subia da mais profunda morada da memória e aflorava inteira à tona das pupilas. A paciência, como uma leve cinza, poisava na testa, sobre os beiços, sobre os ombros. E havia nessa paciência uma doçura tal que Baltasar sentiu de súbito uma vontade aguda de chorar e de se prostrar com a sua própria cara encostada à terra. E perguntou: — Tu, quem és? — Tenho fome — murmurou o homem. — Entra — disse Baltasar. — Vou mandar que te sirvam os melhores frutos, as melhores carnes, os melhores vinhos. Vou 101
  • 106.
    mandar que lavemos teus pés com água perfumada numa bacia de ouro. Vou mandar que te vistam de púrpura. Vou mandar aos meus músicos que toquem para te aprazer as mais belas melodias. Vou mandar vir para ti a tocadora de cítara. Eu próprio colocarei debaixo dos teus pés o tapete mais precioso, e ficarei sentado ao teu lado para desfazer a tua solidão, e escutarei as tuas palavras para que possas tomar parte na alegria e para que as fontes e os jardins do palácio apaguem a tua tristeza. Porém o homem, ouvindo estas palavras, assustou-se. No rosto negro, debruçado na luz branca do terraço, reconheceu com terror o rosto do rei. E pensou: «Ai de mim! Para que me chama o rei? Vim espreitar o seu palácio e isto sem dúvida é um crime. É melhor que eu fuja antes que os guardas cheguem.» Pois aquele homem, como todos os muito pobres, sabia que o mundo era governado por leis que o perseguiam e condenavam, e por isso temia a cada instante ser acusado e preso por uma razão desconhecida. Caminhava num país que não era o seu e onde tudo era para ele insegurança e temor. E por isso fugiu, sumiu-se ofegante entre as curvas da ruela estreita, sem ver o gesto de Baltasar que o chamava. E no palácio o rei disse aos seus guardas: — Ide e procurai nas ruas um homem jovem magro, vestido de farrapos e que tem os olhos cheios de tristeza e de paciência. Porém, ao cair da tarde, os guardas voltaram e disseram: 102