Prática Curricular IV: Fontes
 Escritas, visuais e sonoras-
 construindo texto didático



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Prática Curricular IV



                                    FACETE – FACULDADE DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO PARÁ
                                    CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA
                                    DISCIPLINA: PRÁTICA CURRICULAR IV (FONTES ESCRITAS VISUAIS E
                                    SONORAS – CONSTRUINDO TEXTOS DIDÁTICOS)
                                    PROFESSOR:

                                    EMENTA


                                                                     “A História do Historiador”
                                                 Introdução ( ou, sobre o que precisamos considerar ao trabalhar com História)
                                                 Passado e memória dão conteúdo, identidade e espessura a todos os humanos. Por
                                    mais isolado que se encontre um grupo, uma comunidade ou mesmo um só indivíduo, todos
                                    estão imbuídos de um passado, de uma memória e de uma história. A história de si mesmos é
                                    também a história da vinculação com determinado tempo e espaço. A história pessoal de cada
                                    um inevitavelmente terá raízes numa história externa, mais ampla, mais difusa, imbricada com
                                    o social, o econômico, com as estruturas da cultura, nem sempre perceptível no plano da
     2                              consciência individual. É justamente da tradução dessas histórias através de narrativa
                                    coerente, elaborada a partir de elementos concretos, não ficcionais, com bases num múltiplo e
                                    complexo inter-relacionamento entre tempo, espaço e a expressão dos grupos humanos, que
                                    se ocupará o historiador. O historiador não será o guardião da memória individual, ou
                                    memorialista, mas aquele que ao indagar, capta o sentido da construção de uma memória
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                                    social no tempo, criando uma imagem do passado. Neste sentido a memória é documento, não
                                    produto final.
                                                 Assim como o conteúdo da história não é o indivíduo isolado, tampouco o
                                    historiador expressará uma subjetividade ilimitada na sua captação do passado. Pelo simples
                                    fato de participar de um passado realizado no presente, de pertencer ou se projetar num
                                    determinado grupo social, seu trabalho expressará uma historicidade intrínseca na escolha de
                                    temas, na abordagem, na leitura da documentação, no processo de reflexão convertido num
                                    contexto. Paradoxalmente, nesta condenação do historiador ao presente situa-se a eternidade
                                    de um passado que nunca se esgota. Caso contrário, a história da Grécia, por exemplo, teria
                                    sido escrita por Homero e ponto final. No entanto, cada século reelaborou a história da Grécia
                                    dentro de suas perspectivas e possibilidades. Nos limites entre a ―consciência possível‖ e a
                                    ―consciência real‖ próprias e de seu tempo, o historiador busca no passado a consciência de
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                                    seu tempo.
                                                 O historiador, diante da necessidade de organizar seu pensamento, seu
                                    entendimento, cria medidas e categorias de tempo, organiza esse tempo em função de fatos,
                                    de ciclos, de épocas, de estruturas. Dessa forma, acrescenta uma noção de tempo diversa
                                    daquela vivida pelas comunidades, ou seja,, o tempo jamais é único no estudo da história, é
                                    desigual e particular a cada sociedade, a cada momento e a cada espaço.É físico e metafísico.
                                    Pode até mesmo não existir.
                                                 Dependendo de suas crenças, é possível a uma sociedade conceber um mundo
                                    sem passado, num eterno presente em que passado e futuro se fundem. No Egito, na China, há
                                    deuses que significam o próprio tempo, um tempo contínuo, seria um não-tempo divino que
                                    interpreta o cotidiano.
                                                 Na cultura do cristianismo, o tempo existe na esfera do humano, fora da
                                    divindade, que é eterna...
                                                 (QUEIROZ, Tereza Aline P. e IOKOI, Zilda Márcia G. A História do Historiador.
                                    São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 1999. P.07 a 12, Introdução).
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            Um pouco sobre o ensino da História no Brasil
            A partir da constituição do Estado brasileiro a História tem sido um conteúdo
constante do currículo da escola elementar. O texto do decreto revelava que a escola
elementar destinava-se a fornecer conhecimentos políticos rudimentares e uma formação
moral cristã à população. A História a ser ensinada compreendia História Civil articulada à
História Sagrada.
            A constituição da História como disciplina escolar autônoma ocorreu apenas em
1837, com a criação do Colégio Pedro II, o primeiro colégio secundário do país, que apesar de
público era pago e destinado às elites e apenas a História Universal. A História do Brasil foi
introduzida no ensino secundário depois de 1855 e, logo após, foram desenvolvidos
programas para as escolas elementares.
            No final da década de 1870 foram feitas novas reformulações dos currículos das
escolas primárias visando criar um programa de História Profana, mais extenso e eliminar a
História Sagrada.
            Os métodos de ensino estão aplicados nas aulas de História eram baseados na
memorização e na repetição oral dos textos escritos. Os materiais didáticos eram escassos,           3
restringindo-se à fala do professor e aos poucos livros didáticos com perguntas e respostas,
facilitando as argüições. Desse modo, ensinar História era transmitir os pontos estabelecidos
nos livros, dentro do programa oficial, e considerava-se que aprender História reduzia-se a
saber repetir as lições recebidas e prontas.
            Pulando o século XIX, a partir de 1930, o ensino de História era idêntico em todo




                                                                                                 www.facete.com.br
o país, dando ênfase ao estudo de História Geral, sendo o Brasil e a América apêndices da
civilização ocidental.com o processo de industrialização e urbanização se repensou sobre a
inclusão do povo brasileiro na História.
            Nos programas e livros didáticos, a História ensinada incorporou a tese da
democracia racial, da ausência de preconceitos raciais e étnicos. Nessa perspectiva, o povo
brasileiro era formado por brancos descendentes de portugueses, índios e negros, e, a partir
dessa tríade, por mestiços, compondo conjuntos harmônicos de convivência dentro de uma
sociedade multirracial e sem conflitos, cada qual colaborando com seu trabalho para a
grandeza do país.
            Ao longo desse período, poucas mudanças aconteceram em nível metodológico.
Apesar das propostas escolanovistas de substituição de métodos mnemônicos pelos métodos
ativos, com aulas mais dinâmicas, centradas nas atividades do aluno, com a realização de

                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
trabalhos concretos como fazer maquetes, visitar museus, assistir a filmes, comparar fatos e
épocas, coordenar os conhecimentos históricos aos geográficos.
            Os métodos tradicionais de ensino têm sido questionados com maior ênfase. Os
livros didáticos, difundidos amplamente e enraizados nas práticas escolares, passaram a ser
questionados em relação aos conteúdos e exercícios propostos. A simplificação dos textos, os
conteúdos carregados de ideologias, os testes ou exercícios sem exigência de nenhum
raciocínio são apontados como comprometedores de qualquer avanço que se faça no campo
curricular formal. Dessa forma, o ensino de História atualmente está em processo de
mudanças substantivas em seu conteúdo e método.
            Reafirmar a importância do currículo, não desprezando totalmente os livros
didáticos disponíveis já que alguns são de boa qualidade, mas atentando para a importância do
historiador produzir, a partir de um sólido referencial teórico, novos subsídios nascidos da
observação atenta e crítica dos fatos históricos, textos didáticos novos que contemplem
diversas fontes escritas visuais e sonoras são o que pretende esta disciplina.

           OBJETIVO GERAL: Capacitar aos futuros historiadores construírem, a partir de
um sólido referencial teórico-histórico apreendido durante o curso e se utilizando das fontes
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                                    escritas visuais e sonoras, textos didáticos que possibilitem aos seus alunos a realização de
                                    leituras críticas dos espaços, das culturas e das histórias do seu cotidiano.
                                                  OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
                                                  - Orientar aos professores a construção de um material didático que privilegie a
                                    história crítica, pretendendo desenvolver com os alunos atitudes intelectuais de
                                    desmistificação das ideologias, possibilitando a análise das manipulações dos meios de
                                    comunicação de massas e da sociedade de consumo.
                                                  - Possibilitar a hetero-crítica dos livros didáticos e questioná-los e relação aos
                                    conteúdos e exercícios propostos: a simplificação dos textos, os conteúdos sem nexo, os
                                    exercícios sem exigência de nenhum raciocínio, imprópria iconografia e outros fatores que
                                    denigram o ensino-aprendizagem da História.

                                                CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
                                    1- Conceitos de currículo e de referencial teórico;
                                    2- Prática de produção de texto didático utilizando as normas da ABNT (Associação
                                    Brasileira de Normas Técnicas) e o correto manuseio das fontes escritas visuais e sonoras;
                                    3- Como fazer pesquisa bibliográfica relacionando com o assunto pesquisado.
     4

                                                METODOLOGIA/ATIVIDADES
                                                A disciplina Prática Curricular IV priorizará atividades que possibilitem a
                                    construção de textos didáticos além de atividades em grupo, pesquisas e confecção de painéis
                                    e outros.
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                                                O Ensino e a aprendizagem da História estão voltados, inicialmente, para
                                    atividades em que os alunos possam compreender as semelhanças e as diferenças, as
                                    permanências e as transformações no modo de vida social, cultural e econômico no presente e
                                    no passado, mediante a leitura de diferentes obras humanas.
                                                O trabalho do professor consiste em introduzir o aluno na leitura das diversas
                                    fontes de informação: registros escritos, iconográficos e sonoros, para que adquira, pouco a
                                    pouco, autonomia intelectual. O percurso do trabalho escolar inicia, dentro dessa perspectiva,
                                    com a identificação das especificidades das linguagens dos documentos – textos escritos,
                                    desenhos, filmes -, das simbologias e das formas de construções dessas mensagens.
                                                Para tal tarefa é necessário que ao construir os textos didáticos a utilização de
                                    vários materiais não só de origem canônica (sociais, culturais, artísticos, religiosos), mas
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                                    também requer o estudo de novos materiais (relatos orais, imagens, objetos, danças, músicas,
                                    narrativas) que devem se transformar em instrumentos de construção do saber histórico.
                                                 Privilegiar, portanto, na construção dos textos didáticos de modo geral o trabalho
                                    com fontes documentais – fotografias, entrevistas, pesquisa bibliográfica, formulação de
                                    hipóteses, comparação de informações e perspectivas diferentes sobre um mesmo
                                    acontecimento, teatro, murais, quadros cronológicos, debates, mapas, filmes, depoimentos,
                                    edificações, objetos de uso cotidiano – é necessário desenvolver trabalhos específicos de
                                    levantamento e organização de informações, leitura e formas de registro.
                                                Os documentos são fundamentais como fontes de informações a serem
                                    interpretadas, analisadas e comparadas. São cartas, livros, relatórios, diários, pinturas,
                                    esculturas, fotografias, filmes, músicas, lendas, falas, espaços, construções arquitetônicas ou
                                    paisagísticas, instruções e ferramentas de trabalho, utensílios, vestimentas, restos de
                                    alimentos, habitações, meios de locomoção. São, ainda,os sentidos culturais, os estéticos,
                                    técnicos e históricos que os objetos expressam, organizados por meio de linguagens( escrita,
                                    oralidade, números, gráficos, cartografia, fotografia, arte).
                                                É importante analisar a linguagem escrita, considerada como universo simbólico
                                    que abarca signos simbólicos, conteúdos, mensagens, sentidos, construção argumentativa,
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estrutura lingüística, etc.
             Finalmente, mas não menos importante é preciso que ao se produzir um texto
didático que contemple a história regional, o profissional de história deve fazer recortes e
considerar alguns aspectos relevantes, desenvolver um trabalho de integração dos conteúdos
de História com outras áreas do conhecimento.

REREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANPUH. Memória, História, Historiografia: dossiê ensino de história. Revista Brasileira de
História, São Paulo, v. 13, n. 25/26, set. 2002/ago.2003.
BITTENCOURT, C.M.F. Pátria, civilização e trabalho: ensino de História nas escolas
paulistas. São Paulo: Loyola, 1990.
BLOCH, M, Introdução à história. Lisboa: Presença, s/d.
BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto/ Secretaria do Ensino Fundamental e médio.
Parâmetros Curriculares Nacionais- História. Vol. 5. Brasília. 1997.
CABRINI, C. ET alii. O ensino de história: revisão urgente. São Paulo: Brasiliense, 1996.
CERTEAU, M. DE. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense. 2002.                              5
COCH, Ingedore; TRAVAGLIA, Luiz C. A coerência textual. 3. Ed. São Paulo: Contexto,
2001.ão Paulo: Contexto, 2001.
DIAS, M.O.L.da S. Quotidiano e poder. São Paulo: Brasiliense, 1994.
FONSECA, S. G. Caminhos da história ensinada. Campinas: Papirus, 2003.
Guia do livro Didático/ PNLD 2004. Brasília: MEC, 200º.




                                                                                               www.facete.com.br
HELLER, A. O cotidiano e a história. Rio de Janeiro. 1992.
HOBSBAWM, E. e RANGER, T. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
2004.
NADAI, E. A escola pública contemporânea: propostas curriculares e ensino de história.
Revista Brasileira de História, Rio de Janeiro, v. 11, 1996, p. 99-116.
SILVA, M. (ORG.). República em migalhas, História regional e local. Rio de Janeiro: Marco
Zero; MCT/CNPq, 2000.
____________. Repensando a história. Rio de Janeiro: Marco Zero, 2004.




                                                                                               Faculdade de Educação Teológica -
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                                                                           SUMÁRIO



                                    1- Por que há tantas desigualdades sociais no Brasil? Um panorama da riqueza e da pobreza
                                       brasileira.

                                    2- Fazer História: Problemas de método e problemas de sentido.

                                    3- Estrutura da Vida Cotidiana

                                    4- Indivíduo e Comunidade: - Uma contraposição real ou aparente?




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       POR       QUE HÁ TANTAS                      DESIGUALDADES SOCIAIS                                NO   BRASIL?


                        Um panorama da riqueza e da pobreza brasileira
                                                                                                       María Laura Silveira




INTRODUÇÃO
CADA MOMENTO DA HISTÓRIA pode ser reconhecido por uma dada feição do território
ou, em outras palavras, pela existência de um sistema de infra-estruturas e uma dada
organização da vida política, econômica e social. Produto do trabalho, essas bases materiais e                                       7

políticas dão lugar à consecução de um novo trabalho e à sua divisão entre as pessoas e os
lugares.1 Assim, a história de uma nação pode ser contada pela sucessão das infra-estruturas
ligadas à produção e à circulação — que podemos chamar de configurações territoriais —




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mas, ao mesmo tempo, pela sucessão de políticas industriais, financeiras, sociais etc.
            Em cada pedaço do território nacional, a quantidade e qualidade das infra-estruturas e
das políticas possibilitam o exercício, mais ou menos bem-sucedido, de um tipo de trabalho
valorizado no mundo contemporâneo. É por isso que podemos dizer que as regiões dão valor
ao trabalho que nelas se desenvolve, mas, reciprocamente, a chegada de novos objetos e
normas também cria valor nas regiões; Produz-se então uma hierarquia entre as regiões do
país. Essa história paralela das coisas e das ações denota o modo como o território é usado
pela sociedade, e sua análise revelar-nos-ia as respectivas formas de inclusão das pessoas e

                                                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
das regiões. O que não é incluído nessa repartição do trabalho privilegiada pela política de um
país perde valor e, assim, se empobrece.
            Como o trabalho considerado moderno muda sua natureza e sua localização, as feições
e extensões da modernidade e da pobreza variam no tempo. Incapazes de acompanhar o passo
do processo de modernização material e organizacional, certas pessoas e regiões são excluídas
das benesses da modernização, sem todavia deixarem de ser resultado dela. Assim, a cada
momento certas formas de trabalho são valorizadas e outras não, certas regiões passam a
abrigar o trabalho que se valoriza e outras o perdem. Essa perda de valor é uma das causas
centrais da pobreza e, como esta adquire conteúdos diferentes segundo os contextos regionais,
falamos, conjuntamente, de desigualdades regionais.

1
    Santos, Milton. A natureza do espaço: iécnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
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                                              Apesar de ser vista, amiúde, como um resultado indesejado do processo modernizador,
                                    a pobreza é, tantas vezes, considerada inelutável. Mas ela o é apenas quando estamos diante
                                    de uma ação política que, explícita ou sub-repticiamente, valoriza a velocidade, a fluidez e a
                                    competitividade do trabalho. Ao contrário, a construção de um pro-jeto coletivo de sociedade
                                    aconselharia reconhecer a pobreza menos como um resultado indesejado e mais como uma
                                    dívida social resultante de um processo produtor de formas de exclusão.


                                                               DOS T E M P O S VAGAROSOS DA N A T U R E Z A

                                                                       AO BR A S I L   AR Q U I P É L A G O

                                             Uma das características marcantes do território brasileiro é sua grande extensão. Trata-
                                    se de um território com uma enorme variedade de sistemas naturais sobre os quais a história
     8
                                    foi se fazendo de um modo também diferenciado. A conquista desse meio natural por formas
                                    de trabalho modernas, frequentemente conhecida como ciclos da economia, mostra a escolha,
                                    em cada momento, das áreas mais aptas para a implantação das novas atividades. A ocupação
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                                    do litoral é sucedida pela dinâmica das frentes pioneiras, que vagarosamente interiorizam a
                                    exploração européia do território.2
                                             Durante três longos séculos o uso da técnica na ocupação foi bastante limitado e, assim,
                                    as condições naturais eram as respostas a uma ação humana tanto local quanto forânea. No
                                    desafio às condições naturais e no enfrentamento das distâncias, o corpo do homem era o
                                    principal instrumento. Criavam-se, em virtude do tipo de produção, áreas de densidade ou de
                                    rarefação. Homens, plantas e animais de três continentes, sob o império dos europeus,
                                    encontraram-se em pontos privilegiados da terra brasileira e, no seu convívio, tornado
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                                    obrigatório pelo trabalho, criaram uma nova geografia nesta porção dg planeta.
                                             A ocupação primeira do território dá-se com a cultura da cana-de-açúcar, em seguida
                                    do fumo e de produtos alimentícios e depois do algodão nos agrestes nordestinos. A cultura
                                    da cana-de-açúcar, baseada no desmatamento da floresta, permite a criação das primeiras
                                    plan-tations e a floração de uma série de pequenos centros no Recôncavo da Bahia e na Zona
                                    da Mata. As localidades estavam separadas por distâncias que se cumpriam em um dia de
                                    marcha e que presidiam o comércio e o abastecimento das áreas produtoras. Segundo suas
                                    exigências no processo de produção, os diversos produtos conduziram a uma certa
                                    organização do território, vinculada a uma organização do calendário agrícola, à demanda de
                                    mão-de-obra e às necessidades de transformação. Ê o caso da cana-de-açúcar que precisava

                                    2
                                        Andrade, Manuel C. de. A questão do território no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1995.
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ser rapidamente levada aos engenhos, o beneficiamento do fumo se dava nas aglomerações e
assim por diante. Dessa forma, a natureza do produto conduzia a uma determinada
organização do território, sobretudo quando se tratava de um produto de exportação.3
          Desde a instalação do Governo Geral em Salvador, em 1549, até a Independência, em
1822, não se criaram fluxos verdadeiramente nacionais no domínio da economia. A máquina
de Estado servia para preservar e ampliar as fronteiras, manter o regime e a ordem, assegurar
a coleta de impostos e, com a ajuda da Igreja, unificar a língua. A unidade política e
linguística era contemporânea da vinculação quase direta entre as diversas regiões e o
mercado externo. A falta de intermediários produziu uma evolução espacial e econômica
caracterizada por "ilhas" de produção. Daí a imagem de um vasto arquipélago, formado, na
verdade, por um conjunto de "penínsulas" da Europa.                                                                  9
          A interiorização do povoamento foi devida à mineração e à criação de gado nas
fazendas. A pecuária era dispersa pelo território dos sertões, enquanto a exploração dos
diamantes e do ouro foi responsável pelo surgimento de inúmeros núcleos de vida urbana no




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interior dos estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Mato Grosso. Despontavam nos albores
da interiorização os sertões do Nordeste, que abasteciam as zonas de agricultura comercial do
litoral e as zonas de mineração, e os campos do Sul, que serviam à produção de couro e
charque.4
          Durante séculos, o território brasileiro, sobretudo algumas áreas do Nordeste, conheceu
uma produção fundada muito mais no trabalho direto e concreto do homem do que na
incorporação de grandes sistemas de infra-estrutura à natureza. A pobreza estava ligada
sobretudo à seleção que a natureza fazia das produções e das formas de buscar domesticá-la.


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Coincidindo com as condições dos meios naturais 'ou com as sazonalidades da incipiente
produção, a pobreza não significava verdadeiramente uma exclusão social.


            A MECANIZAÇÃO DA P R O D U Ç Ã O E DO T E R R I T Ó R I O

          Novas geografias desenham-se sobretudo a partir da utilização de novos recursos,
prolongamentos não apenas do corpo do homem, mas do próprio território. Emerge o espaço
mecanizado. São as lógicas e os tempos humanos impondo-se à natureza com a emergência
de sucessivos meios técnicos, todos incompletamente realizados, todos incompletamente
difundidos.
          A partir da segunda metade do século XIX mecaniza-se a produção mediante a
3
    Furtado, Celso. Formação econômica do Brasil. 2a ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959.
4
    Prado Jr., Caio. História econômica do Brasil. 23a ed. São Paulo: Brasiliense, 1980 [1945].
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                                    instalação de usinas açucareiras e, mais tarde, o território com a navegação a vapor e as
                                    estradas de ferro. Às técnicas da máquina circunscritas à produção sucedem as técnicas da
                                    máquina incluídas no território. Criam-se interdependências entre os navios, os portos, as
                                    ferrovias, as primeiras estradas de rodagem e as usinas de eletricidade, que permitiram a
                                    constituição dos primeiros sistemas de infra-estruturas, verdadeiros sistemas de engenharia no
                                    território brasileiro. Todavia, em enormes pedaços do território reinava o meio natural,
                                    impondo, como na Amazônia, significativos estorvos à exploração e à posse dos europeus.
                                          Baseados em grande parte no investimento público, a produção e o comércio da
                                    borracha permitiram o crescimento de Belém e de Manaus, assim como São Paulo e Santos
                                    devem ao café o seu desenvolvimento. Na Bahia, sob o comando do porto de Ilhéus, o cacau
                                    ajudou a criar uma rede de cidades. Foram instaladas as primeiras indústrias brasileiras, que
10                                  não eram necessariamente urbanas. Algumas dependiam da proximidade das matérias-primas
                                    — como o algodão, cultivado em áreas da Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco e Maranhão —
                                    ou de fontes de energia diretamente utilizáveis, que se encontravam fora das cidades.
                                          Mas, a partir de um certo desenvolvimento técnico que permitiu o deslocamento de
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                                    materiais e fluidos, a localização da produção industrial tornou-se menos dependente da
                                    presença contígua de matérias-primas e de fontes de energia e mais vinculada à oferta de
                                    mão-de-obra e de mercados. Das 636 fábricas existentes no Brasil em 1890, que empregavam
                                    54.169 operários, as mais numerosas e importantes estavam no Rio de Janeiro.
                                          O crescimento das cidades foi, entretanto, desigual, em virtude das oscilações das
                                    economias regionais ou de seu papel político.' Dominando uma vasta extensão do território,
                                    cada cidade desenhava verdadeiros circuitos interiores. O motor fundamental dessa vida de
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                                    relações era o comércio, principalmente orientado para o estrangeiro. Mas, as regiões
                                    organizavam-se com os meios muito limitados de que dispunham as cidades e suas relações
                                    com o exterior eram hierárquicas. A inexistência de transportes interiores rápidos era
                                    responsável por um isolamento, quebrado apenas pelos transportes marítimos. Mesmo na
                                    primeira fase dos transportes mecânicos, com a criação das vias férreas, não mudou muito a
                                    situação, pois a vinculação circunscrevia-se às zonas de produção e aos portos. Não havia
                                    uma integração.
                                          O aparelhamento dos portos, a construção de estradas de ferro e as novas formas de
                                    participação do país na fase industrial do modo de produção capitalista permitiram às cidades
                                    beneficiárias aumentar, pouco a pouco, seu comando sobre o espaço regional, enquanto a
                                    navegação, muito mais importante para o exterior, apenas ensejava um mínimo de contatos
                                    entre as diversas capitais regionais, mas também entre os portos de importância.
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Consolidavam-se as áreas de monocultura de exportação e, paralelamente, o processo de
urbanização aumentava as demandas de eletricidade.
       A introdução da estrada de ferro vai permitir um uso mais dinâmico do território.
Criam-se duas lógicas. A exceção da área hoje nucleada por Rio de Janeiro e São Paulo, a
estrada de ferro reforça os laços privilegiados entre as metrópoles regionais e suas respectivas
hinterlândias, mas sem estabelecer entre tais metrópoles relações outras que não as permitidas
pela navegação marítima. Todavia, no Sudeste criam-se, de um lado, uma rede localizada de
ferrovias e, de outro, um intercâmbio baseado nas formas modernas de dividir territorialmente
o trabalho.
       A expansão do sistema de circulação e das áreas de produção agrícola para exportação
reforçou o crescimento do emprego, sobretudo nas áreas próximas ao litoral. A pobreza, cuja                 11
face era sobretudo rural, vinculava-se mormente a uma estrutura de propriedade injusta. Eram
situações locais, cujas soluções também eram locais por meio da política assistencialista do
Estado ou, por vezes, pela ação social e pontual de uma empresa. Tais soluções não estavam




                                                                                                            www.facete.com.br
ainda permeadas pela lógica do capital financeiro ou de instâncias internacionais. Era uma
"pobreza incluída".5 Embora a riqueza gerada nesse país-conti-nente não conhecesse formas
satisfatórias de distribuição, a inclusão social, a partir do crescimento do emprego, permitia
uma evolução menos brutal das desigualdades.

       DA MECANIZAÇÃO DA CIRCULAÇÃO AO ALVORECER DA INDUSTR IALIZAÇÃO

       Como a economia era fundada em técnicas menos intensivas, o aumento dos volumes
produzidos significava, frequentemente, a criação de empregos. Ao mesmo tempo, a


                                                                                                            Faculdade de Educação Teológica -
industrialização nascente se fez numa fase em que os progressos técnicos eram menos rápidos
e as escalas de produção menos estendidas, de sorte que o tempo de vida de uma fábrica era
maior, e a cada necessidade de aumentar a produção uma outra fábrica era agregada. A massa
salarial, fabril e rural, contribuía para o nascimento de outras fábricas. Paralelamente, uma
certa ociosidade da estrutura de transporte, já que os trens vinham carregados de café para
São Paulo e o litoral e voltavam vazios, permitiu uma diversificação produtiva. Esses fatos,
somados à expansão da capacidade de consumo de uma população que se urbanizava, permi-
tiram um maior desenvolvimento industrial.
       A imigração beneficiou as regiões para onde se dirigia, já que os grupos de imigrantes
eram portadores de uma tecnologia industrial e constituíam uma mão-de-obra qualificada,

5
 Santos, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro:
Record, 2000.
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                                    desejosa de reproduzir no Brasil um modelo de consumo que haviam conhecido ou. almejado
                                    obter nos seus países de origem. Nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná
                                    a política oficial de imigração e colonização determinou a forma de povoamento e de
                                    trabalho. São Paulo foi, certamente, o grande beneficiário desse movimento migratório.
                                          A população brasileira aumentou continuamente no decorrer desses anos. A luta contra
                                    a morte, conjuntamente com o combate menos eficaz contra o analfabetismo, resultou num
                                    enorme aumento dos efetivos demográficos. Desde o início do século XX até a segunda
                                    década, a população passou de 17,4 milhões para 30,6 milhões. O aumento populacional teve
                                    como consequência não somente um aumento das densidades demográficas em cada região,
                                    mas também a sua redistribuição. Se as populações do Nordeste, do Sudeste e do Sul
                                    dobraram nesses vinte anos, o aumento foi ainda mais significativo na Amazônia. Essa
12                                  redistribuição manifestou-se por um novo equilíbrio demográfico regional e um abandono do
                                    campo, com o aumento do número das cidades e de sua população. Em 1940, cerca de um
                                    terço da população brasileira era urbana. Uma grande parte dos brasileiros do Norte e do
                                    Nordeste abandonou essas regiões e dirigiu-se para as cidades do Sul. No final do século XIX
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                                    ambas regiões representavam mais de um terço da população nacional e em 1960 cor-
                                    respondiam a um quarto, ainda que seus índices de natalidade fossem os mais altos do país.
                                          Um aumento de 2,2 vezes na matrícula do ensino fundamental entre 1940 e 1960
                                    revelou-se importante mas não suficiente, ainda que se verificasse uma expansão nas
                                    diferentes regiões do país. Embora evidenciando uma velocidade de crescimento análoga, o
                                    ensino médio mostrava um número de alunos consideravelmente mais baixo. As instituições
                                    de ensino superior, que eram 28 em 1908, aumentaram para cinquenta em 1912 e para 248
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                                    em 1935. O Sudeste, o Nordeste e, mais tarde, o Sul foram as regiões que apresentaram o
                                    maior número de instituições, tanto públicas como particulares. Paralelamente verifica-se
                                    uma explosão no número de matrículas. O principal centro universitário nas primeiras
                                    décadas do século era o Rio de Janeiro, que reunia cerca da metade dos alunos do país.
                                    Alguns anos mais tarde, São Paulo despontou como um centro educacional importante,
                                    sobretudo quando se generalizou uma demanda de cultura industrial orientada à
                                    transformação material do território.
                                          É o primeiro momento de um longo processo de integração nacional, que se
                                    acompanha do início da hegemonia de São Paulo, com o crescimento industrial do país e a
                                    formação de um esboço de mercado territorial no Centro-Sul.
Prática Curricular IV



                             A INTEGRAÇÃO DO MERCADO E DO T E R R I T Ó R I O

             A Segunda Guerra Mundial havia revelado as carências do sistema de transportes e a
necessidade de um planejamento nacional que se preocupasse com os sistemas de infra-
estruturas. Um sólido processo de industrialização pôs-se em marcha, e a cidade de São Paulo
tornou-se a grande metrópole fabril. Nessa cidade estavam presentes todos os tipos de
indústrias e, convocado a acompanhar esse despertar industrial, o país inteiro conheceu uma
quantidade de solicitações e foi impregnado pela necessidade de completar a integração
nacional. Juntou-se à rede de ferrovias um sistema de estradas de rodagem que permitiu, pela
primeira vez, comunicar as diversas regiões do país entre si.
             As necessidades de alimentos e matérias-primas para uma metrópole que aumentava
sua população e suas indústrias e, de certo modo, seu nível de vida demandavam novos                                                        13

patamares de circulação. Os intercâmbios foram favorecidos pela nova base material e por
políticas específicas e, assim, o mercado se unificava ao ritmo da integração do território. O
Brasil-arquipélago cedia lugar a um território mais fluido.




                                                                                                                                            www.facete.com.br
             Em 1950, registravam-se mais de 70 mil estabelecimentos industriais e cerca de 1,3
milhão de pessoas ocupadas. Era uma época em que as micro e pequenas empresas
representavam 96,7% dos estabelecimentos e eram responsáveis por 42,3% dos empregos no
setor. Com 3 milhões de habitantes, São Paulo concentrava mais de um terço dos
estabelecimentos industriais e do emprego industrial do país, o que evidencia também o
crescimento da região do ABC.
             É num Brasil integrado pelos transportes e comunicaçõese pelas necessidades
advindas da industrialização e da criação de um mercado interno que nascem importantes

                                                                                                                                            Faculdade de Educação Teológica -
cidades no interior. Estas decor-rem do crescimento populacional, da elevação dos níveis de
vida, da expansão do consumo e da demanda de serviços em número e fre-qúência maiores
que anteriormente.
             O transporte rodoviário de mercadorias reorganiza as relações entre os centros
regionais e a metrópole econômica do país. Sem dúvida, o traçado das estradas obedecia às
novas exigências da indústria e do comércio, que acabaram por reforçar a posição de São
Paulo como centro produtor e, ao mesmo tempo, centro de distribuição primária. A criação de
uma indústria automobilística e a construção de Brasília j também confluíram para favorecer
São Paulo e ampliar, quantitativa e qualitativamente, as diferenças regionais.6
             As antigas metrópoles costeiras foram, desse modo, tornando-se relativamente menos

6
    Fernandes, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 3a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981 [1974].
Prática Curricular IV



                                    polarizadoras das respectivas populações regio-nais. Como mencionamos, entre outras razões,
                                    os novos sistemas de transporte induziam os deslocamentos para São Paulo e Rio de Janeiro,
                                    e aquelas antigas metrópoles litorâneas tornaram-se incapazes de fornecer os novos bens e
                                    serviços às suas tradicionais áreas de ínfluência. Por essa razão, os núcleos urbanos mais
                                    recentemente criados ou desenvolvidos ligavam-se diretamente a São Paulo, para obter as
                                    respostas econômicas e técnicas de que necessitavam.
                                           Pouco a pouco, Brasília vai retirando do Rio de Janeiro a centralidade do poder, isto é,
                                    das ordens de natureza pública com as quais o território deveria ser regulado. São Paulo, por
                                    sua vez, vai subtraindo ao Rio de Janeiro o comando da economia, atribuindo-se, por meio de
                                    uma indústria capaz de abastecer e equipar um Brasil relativamente unificado pelos
                                    transportes, a produção das ordens econômicas e da regulação económica do território. O
14                                  desequilíbrio entre a estrutura industrial do Rio e a de São Paulo consolida-se realmente
                                    quando a indústria paulista conhece uma diversificação e a do Rio de Janeiro deixa de seguir
                                    esse caminho. A formação de capital na região de São Paulo é um dos fatores dessa
                                    diversificação. Brasília tende rapidamente a se instalar como metrópole política e São Paulo
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                                    afirma-se ainda mais como metrópole econômica, enquanto ambas essas funções vão
                                    minguando na antiga capital imperial e republicana, Rio de Janeiro.
                                           Estabelecem-se relações entre a metrópole económica e as áreas agrícolas tecnificadas
                                    e dinâmicas bem mais significativas do que com o resto do país, constituindo uma
                                    especificidade da nova divisão territorial do trabalho. Abandonadas por essa repartição do
                                    trabalho, gran-des camadas da população urbana do Nordeste e do Norte conheceram, agora,
                                    o fenômeno da pobreza.
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                                           Essa urbanização recente foi acompanhada de um crescimento da demanda
                                    educacional. A matrícula no ensino fundamental mais que triplicou entre 1960 e 1980 e
                                    resulta significativa em todas as regiões. Todavia, surpreende a situação do ensino médio que,
                                    ao longo dessas duas décadas, cresceu cerca de sete vezes, apesar de estar muito aquém de
                                    uma universalização. Tal retrato completa-se com uma nova explosão da matrícula
                                    universitária entre 1960 e 1970, quando aumentou em cerca de 3,6 vezes. Cursos e
                                    instituições, sobretudo particulares, colonizam as diversas regiões do país.
                                           Criavam-se então as condições de formação do que hoje é a região polarizada do país.
                                    Foi um momento preliminar da integração territorial, marcado por uma integração regional do
                                    Sudeste e do Sul. Mas, de certo modo, permaneciam muitas das velhas estruturas sociais. Em
                                    1960, cerca de 33 mil proprietários possuíam quase a metade da superfície das propriedades
                                    agrícolas brasileiras, enquanto 3,3 milhões dispunham apenas da outra metade. Tal estrutura
Prática Curricular IV



da propriedade favorecia, ao mesmo tempo, a persistência da pobreza e o abandono do
campo. Os excedentes de população, cada ano mais numerosos, encontraram um refúgio nas
cidades. Isso explica um crescimento urbano superior a 10% anuais em vários centros
regionais e de 6% nas grandes metrópoles, enquanto o número de empregados e subempre-
gados aumentava num ritmo ainda maior.
        O deslocamento desses milhares de indivíduos para as cidades respondia quase sempre
a uma busca por melhores condições de vida.
        Os novos meios de comunicação foram em grande parte responsáveis por essa
revolução. Intensificaram-se as migrações para o estado de São Paulo. Bahia, Minas Gerais e
Pernambuco eram os principais estados de origem dos contingentes. Esse período criou as
condições para a reativação do processo de enfraquecimento de todas as periferias, enquanto                15
o país parecia refluir para o seu centro: capitais privados, investimentos públicos, população,
crescimento e pobreza. A pobreza despontava como uma das principais causas das migrações
desses contingentes, que amiúde encontravam uma pobreza de nova qualidade nos seus




                                                                                                           www.facete.com.br
lugares de destino.

          OS P R I M Ó R D I O S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O NO B R A S I L

        A revolução dos transportes ocorrida nas décadas de 1950 e 1960 segue-sé", nos anos
1970, uma revolução das telecomunicações, com as perspectivas abertas pela revolução
científico-técnica e a incorporação dos satélites brasileiros.7 A ideologia de racionalidade e
modernização a qualquer preço ultrapassa o domínio industrial, impõe-se ao setor público e
invade áreas até então não tocadas ou alcançadas só indiretamente, como, por exemplo, a


                                                                                                           Faculdade de Educação Teológica -
manipulação da mídia, a organi-zacão e o conteúdo do ensino em todos os seus graus, a
profissionalização e as relações de trabalho.
        As transformações das bases materiais e sociais do território brasileiro, graças aos
acréscimos de ciência e de técnica, significam, também, a exigência de novas qualificações
profissionais. O aumento de mais de 220% na matrícula universitária entre 1970 e 1980 é
talvez a melhor evidência da necessidade e do desejo de apropriar-se de uma sofisticada
cultura técnica e organizacional. Como a proporção de instituições particulares aumentou
ao longo desses anos, estaríamos autorizados a falar, ao mesmo tempo, de uma difusão geo-
oráfica do ensino superior e de uma difusão social, agora reguladas pelas leis do mercado.
        Agravam-se o atraso e as disparidades sociais sobretudo a partir da imposição de um

7
 Dias, Leila Christina. "Les enjeux socio-spatiaux du développement des réseaux de télécommunications au
Brésil". Document de Recherche du Credal, nº 204, 1989, pp. 28-41.
Prática Curricular IV



                                    modelo de consumo norte-americano que significa, ao mesmo tempo, um modelo de
                                    produção, tornando mais pobre a nação, pois mesmo que os valores absolutos da renda
                                    pudessem aumentar, crescia o desamparo social produzido pelo poder público e pela
                                    dependência tecnológica, organizacional e financeira.
                                              Tal promessa de consumo, encarnada na publicidade e no crédito, espalha-se na
                                    sociedade e no território, de modo que os pobres já não podiam ser definidos como os
                                    excluídos de tal consumo, nem o fato de consumir era prova de inclusão social. Considerada o
                                    oferta infinita de bens e serviços e a criação científica e permanente de necessidades, a
                                    pobreza torna-se relativa e quantificável, enquanto a carência dos mais elementares bens e
                                    serviços ganha, agora, indicadores e participa de complexas equações. Pobreza e miséria
                                    passam a ser alvo de programas específicos ou da aplicação de ações isoladas inspiradas nos
16                                  países que usufruíam das condições do Estado de bem-estar ou mesmo dos países socialistas.8
                                    De alguma forma é o momento da aplicação de políticas desenvolvimentistas, precedidas por
                                    discursos que denunciavam uma drenagem de regiões pobres para regiões mais ricas.
                                    Testemunha precoce desse debate político, a Superintendência de Desenvolvimento do
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                                    Nordeste (Sudene) havia sido criada já no fim dos anos 1950.
                                              O dinamismo econômico da área Sudeste-Sul e o esvaziamento demográfico e
                                    económico das áreas periféricas perduraram até o final da década de 1970. A diminuição da
                                    atividade econômica que afetava o país como um todo parecia, então, uma ameaça à
                                    continuidade do modelo. Para mantê-lo, era indispensável retomar a atividade, ao preço de
                                    mais investimentos públicos e mais injeção de recursos para promover a exportação, mais
                                    proteção ao grande capital e menor retribuição ao trabalho,9 ao preço de uma política social
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                                    ainda menos generosa e, necessariamente, de uma ordem ainda maior no campo político-
                                    social.
                                              A prédica do crescimento foi razão política suficiente para a realização de grandes
                                    projetos, viabilizados por volumosos empréstimos.
                                              Em decorrência, o endividamento tornou-se — e é até hoje — uma forma onipresente
                                    de distorção da economia e do território, pois todos os demais desejos e realidades deverão
                                    subordinar-se à dívida, que passa a ser o eixo da vida nacional.
                                              Uma nova divisão territorial do trabalho esboça-se no Brasil a partir da necessidade de
                                    transformar minérios e produzir derivados do petróleo. É o momento de implantação de


                                    8
                                     Santos, Milton. Por uma outra globalização, op. cit.
                                    9
                                      Mamigonian, Armen. "Teorias sobre a industrialização". São Paulo: Laboratório de Geografia Política e
                                    Planejamento Territorial e Ambiental, Departamento de Geografia da USP, 1992. (Seleção de Textos nº 4).
Prática Curricular IV



complexos e pólos indus-triais ligados à petroquímica na Bahia, à siderurgia no Maranhão, ao
minério de ferro em Carajás, aos derivados do cloro em Alagoas e à eletrometalurgia em
Tucuruí. Paralelamente, havia a necessidade de substituir o petróleo em alguns setores da
circulação. Daí a institucionalização, em 1975, do Programa Nacional do Álcool (Proálcool),
que, com o ingresso maciço da cultura de cana-de-açúcar, muda a geogra-fia do interior
paulista.
       Os anos 1970 foram, assim, um marco na modernização da agri-cultura, no
desenvolvimento do capitalismo agrário, na expansão das fronteiras agrícolas e na
intensificação dos movimentos dos trabalhadores volantes — os bóias-frias. Novos conflitos
no campo não se fizeram esperar.
       Estados como Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais      e    Bahia    17
apresentam altas taxas de emigração líquida entre 1950 e 1980. Áreas que haviam sido
atrativas em outros momentos transformaram-se, nos anos 1970, em expulsoras de uma
população cujo destino eram as metrópoles ou as novas frentes pioneiras, como a Amazônia.




                                                                                               www.facete.com.br
       Uma produção industrial extrovertida, um maior endividamento, um       aumento    do
número e do poder das firmas estrangeiras, para as quais tudo era facilitado, uma ampliação
das facilidades de circulação dentro do país e para os canais de exportação se conjugaram
com uma tendência à concentração e à centralização da economia, assim como à concentração
geográfica e à concentração da renda.
       Aumentam os intercâmbios, e em decorrência cresce e se diversifica o setor terciário
da economia, pois há maior necessidade de organização, de serviços públicos e privados, de
transportes e de bancos. Gesta-se, a um só tempo, uma grande especialização territorial, com


                                                                                               Faculdade de Educação Teológica -
a tendência à concentração da produção de bens e serviços mais sofisticados em alguns
pontos do Sudeste e do Sul: Apesar da industrialização, as características do
subdesenvolvimento permanecem e muitas vezes se agravam com o crescimento econômico.
Malgrado o aumento do Produto Nacional Bruto e mesmo dg Produto , Nacional Per Capita,
acirram-se as disparidades regionais, as desigualdades da renda e o empobrecimento daqueles
que já eram pobres.
       Como a expansão da indústria dinâmica é acompanhada pela redução absoluta ou
relativa do poder aquisitivo das massas, a economia vê-se forçada a procurar mercados
externos ou a reduzir seu próprio crescimento. Os investimentos dirigem-se aos setores em
que há possibilidade de exportação, isto é, à produção de bens para os quais existem
compradores estrangeiros potenciais. Essa orientação exige uma constante modernização do
equipamento industrial para poder concorrer internacionalmente, que agrava a dependência
Prática Curricular IV



                                    em relação aos centros mais avançados do sistema mundial. Por outro lado, a necessidade de
                                    importação exige uma política de exportação agressiva.
                                           Buscando o crescimento promove-se a produção de bens de capital, para os quais não
                                    existe mercado interno. O Estado é então compelido a adotar uma política de grande potência,
                                    favorecendo as maiores empresas, sem consideração pelas massas, cada vez mais
                                    empobrecidas.
                                           O extraordinário crescimento do capital fixo, revelado pelo aumento do tamanho das
                                    infra-estruturas, fundamenta-se em projetos de planejamento aparentemente isolados, mas
                                    orientados a acelerar a modernização capitalista. As formas têm um poder que convida a
                                    ações como a modernização da agricultura e, no meio urbano, a renovação do meio
                                    construído com o forte papel do capital especulativo. O capital comanda o território e o
18                                  trabalho torna-se, ainda mais, subordinado.
                                           As modernizações mais recentes desintegram a economia e a so-ciedade porque
                                    produzem um desequilíbrio e não criam os empregos suficientes. Como se desintegram as
                                    estruturas no campo, não há migração escalonada na rede urbana, e por isso as grandes
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                                    cidades con-tinuam a crescer. Todavia, é a grande cidade que, pela existência de um mercado
                                    amplo e segmentado, abriga os pobres, nativos ou imigrantes, cujo trabalho, pouco
                                    valorizado, lhes permite, todavia, a sobrevivência.

                                                        O PAÍS GLOBALIZADO: MODERNIZAÇÃO E
                                                                     POBREZA

                                           No período atual, os imperativos de um mercado tornado global passam I a comandar
                                    os acréscimos de ciência e tecnologia que o território brasi- leiro já começara a incorporar
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                                    nos anos 1970. A informação substitui a indústria como variável motora. Não se trata de
                                    menosprezar os dinâmi- cos processos industriais, mas de apontar a relevância de um
                                    fenômeno novo: a produção de informação. Assim, enquanto aumentam as ativi- dades de
                                    serviços a indústria continua a crescer em várias porções do Brasil, como no estado de São
                                    Paulo, ainda que com menor velocidade.
                                           A implantação do sistema básico de telecomunicações permitiu não apenas a
                                    transmissão de dados, mas também a unificação do sistema de televisão. A instalação das
                                    redes possibilitou a difusão da informação gerais do consumo, assim como a financeirização
                                    do território. Mais tarde, a incorporação da fibra óptica nos sistemas técnicos nacionais, a
                                    partir dos projetos de interligação do planeta, ampliou a participação do país na globalização
                                    das telecomunicações.
Prática Curricular IV



       O território ganha novos conteúdos e impõe novos comportamentos, em virtude das
enormes possibilidades da produção e, sobretudo, da circulação de insumos, produtos e
dinheiro, de idéias e informações, das ordens e dos homens. E a constituição de um espaço
moderno, reticular e fluído. Essa premente necessidade de criar condições para uma maior
circulação justifica a ênfase dada na política atual à criação e ao aprimoramento de sistemas
de infra-estrutura que facilitem o movimento.
       Tal unificação técnica ou material do território se perfaz com a unificação do
mercado. A força difusora do consumo que, no período atual, ganha uma velocidade antes
nunca vista, acompanha-se do comportamento territorial das grandes empresas. As firmas
mais poderosas escolhem os pontos que consideram instrumentais para sua existência
produtiva e deixam o resto do território às empresas menos poderosas. É uma modalidade de       19
exercício do seu poder.
       Os dados próprios do período tanto alcançam áreas agrícolas como industriais e de
serviços, que se caracterizam pela sua inserção numa cadeia produtiva global, pelo




                                                                                                www.facete.com.br
predomínio de relações distantes e, frequentemente estrangeiras, e pela sua lógica
extrovertida. O país é cortado por estradas de rodagem que servem mais aos interesses
nacionais e internacionais do que aos regionais e locais. A pavimentação dos principais eixos
rodoviários e a construção de rodovias para os países vizinhos orientam-se a desenvolver
uma maior integração comercial.
       Ainda que o peso dos empréstimos e créditos de organismos financeiros
internacionais nessa modernização do país seja marcante, não podemos deixar de assinalar
que o próprio Estado brasileiro investe pesadamente para dotar certas regiões das condições


                                                                                                Faculdade de Educação Teológica -
de circulação indispensáveis ao comércio externo. Aquelas regiões orientadas a produzir para
a exportação e para um comércio distante têm prioridade nesse equipamento, de modo que se
criam no território áreas com maior densidade viária e infoviária a serviço de um dos
aspectos da economia nacional. Essas densidades não têm, pois, relação direta com o
tamanho e a densidade da população, nem com a antiguidade do povoamento, nem com as
urgências das sociedades locais, mas com certos nexos econômicos, sobretudo os da
economia internacional. Há, todavia, uma permanente insatisfação com o equipamento e com
os custos do seu uso, agravada por frequentes comparações com outros países, que alimenta a
produção de um discurso sobre a necessidade de modernizar o território nacional.
       É uma divisão territorial nova e ampliada no Brasil, que permite, por um lado, ocupar
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                                    áreas até então periféricas e, por outro, remodelar as áreas ocupadas.10 O consumo e o crédito
                                    encontram as bases materiais para sua instalação em quase todo o território. Tornam-se, prati-
                                    camente, ubíquos. Há uma unificação do território pelo mercado, pelos transportes e pela
                                    informação. Num país de grandes disparidades regionais e de renda, o processo de criação de
                                    fluidez é seletivo e não igualitário. A produção de fluidez se realiza não apenas com a
                                    construção de equipamentos, mas também pela alocação de certas profissões e pela oferta de
                                    certos empregos ligados à economia moderna, levando desse modo à desvalorização do resto
                                    das formas de trabalho.
                                           Superpõe-se ao velho tecido um novo tecido de urbanização. O nu-mero de grandes
                                    cidades aumenta consideravelmente: as aglomerações com mais de 500 mil habitantes, que
                                    eram quinze em 1980, passaram a 28 em 1996 e a 31 em 2000. Quanto às cidades com mais
20                                  de um mi- lhão de habitantes, que somavam dez em 1980, passaram a quinze em 2000.
                                    Crescem as metrópoles e, ainda mais, as grandes cidades médias.
                                           Nessas condições, novas fontes de riqueza e novas razões de pobreza se estabelecem
                                    nas grandes cidades. Ao mesmo tempo que os salários dos trabalhadores industriais tendem a
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                                    baixar, verifica-se, ainda que com menor ímpeto, uma imigração de gente pobre proveniente
                                    de áreas rurais modernas e tradicionais e de outras áreas urbanas.
                                           Os processos de valorização da terra por consolidação de frentes pioneiras certamente
                                    tiveram um papel detonador em vários movimentos migratórios do país, como é o caso do
                                    Norte do Paraná ou, mesmo, do Mato Grosso. Por outra parte, o fenômeno de migração
                                    circular já se havia esboçado alguns anos antes. Lembremos que, em 1980, 11,5 milhões de
                                    famílias não dispunham de terra ou já não sobreviviam em pequenas propriedades. Isso
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                                    significa que um terço da população, cerca de 40 milhões de pessoas, estava em permanente
                                    migração, tentando fixar-se no campo mas frequentemente não o conseguindo. E um novo
                                    patamar do êxodo rural, devido à combinação explosiva de uma estrutura fundiária arcaica
                                    em zonas agrícolas tradicionais e da modernização capitalista do campo em zonas dinâmicas
                                    e em áreas de colonização agrícola e de ocupação recente.
                                           Não podemos esquecer que na segunda metade da década de 1990 havia mais de 16
                                    milhões de hectares produtivos não utilizados no Brasil — o equivalente ao total de terras de
                                    Tocantins. Havia no país cerca de 332 milhões de hectares distribuídos em 3,6 milhões de
                                    estabelecimentos, ao passo que cerca de 220 milhões de hectares estavam repartidos entre 1,3
                                    milhão de estabelecimentos trabalhados por arrendatários, parceiros e ocupantes, o que

                                    10
                                      Santos, Milton e Silveira, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de
                                    Janeiro: Record, 2001.
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configurava uma estrutura fundiária apta a expulsar a população rural. Expulsos das áreas
rurais modernas e tradicionais ou de outras cidades, os pobres encontram nas metrópoles
algum tipo de ocupação, mesmo que não constitua propriamente emprego. A variedade de
capitais existente na grande cidade assegura a possibilidade de uma extrema variedade do
trabalho. Entretanto, nas metrópoles ou em outras cidades a presença de pobres e a
correspondente depressão dó mercado de trabalho e dos salários projetam-se no
empobrecimento das respectivas municipalidades. Esse problema, aliás, é agravado com o
crescente desmantelamento do Estado de bem-estar, o que contribui para um empo-
brecimento ainda maior da população. Paralelamente, a implantação da modernidade na
metrópole representa um peso sobre os outros aspectos da vida local, mediante custos
públicos e privados, custos federais, estaduais e municipais. Tais adaptações ao moderno       21
representam lógicas distantes, que incidem sobre subáreas privilegiadas do organismo
urbano, mas cujo custo é verdadeiramente social. Toda a cidade sofre os resultados desse
processo aumentando os graus de pobreza.




                                                                                               www.facete.com.br
       Representando cerca da metade da população desse Brasil de contrastes, a população
economicamente ativa tem aumentado nos setores secundário e terciário. Verifica-se nas
últimas décadas uma verdadeira explosão do setor terciário, sobretudo na região Sudeste e no
estado de São Paulo. Nas regiões metropolitanas, boa parte da população está ocupada em
atividades de serviços, mas o comércio, que não pára de crescer, é também um importante
contratador de mão-de-obra. Observado com mais cuidado, esse fenômeno revela uma
economia pontual de comércios e serviços modernos coexistindo com uma enorme economia
pobre orientada ao comércio e aos serviços mais banais nessas grandes cidades.


                   A OPÇÃO POR MULTIPLICAR A POBREZA                                           Faculdade de Educação Teológica -


       Quando uma nação privilegia um tipo de produção que não ajuda a população a
subsistir e a se desenvolver, mas obriga à criação permanente de um excedente, ocasionando-
lhe um ônus excessivo, falamos: em produção desnecessária. Haveria também uma
circulação e um intercâmbio desnecessários, que têm um custo social, como as infra-
estruturas de investimento pesado e a respectiva mobilização de veícu-los e serviços que não
contribuem com o bem-estar geral da sociedade nem permitem sua ampliação, em virtude
dos custos que representam.
       Quando a exportação é pregada como solução necessária, em vez de buscar a melhoria
das condições de vida dos mais pobres, ampliam-se a produção e a circulação desnecessárias
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                                    e se aprofunda uma divisão do trabalho igualmente desnecessária. A globalização acelera
                                    esse processo porque faz parte do seu credo a idéia de que sem exportar é
                                    impossível modernizar-se e participar plenamente do mundo "civilizado". De fato, o que
                                    resulta na prática é o triunfo de uma lógica econômica a despeito das distorções de ordem
                                    social que possa causar. A decorrente divisão do trabalho passa a ser comandada sem preocu
                                    pação com o interesse social.
                                           Uma das consequências desse processo é a multiplicação e dis- semínação da pobreza
                                    nas diversas camadas sociais das regiões brasi- leiras. Com a ampliação do poder do sistema
                                    financeiro e de uma informação enviesada que reforça uma única interpretação da socíe-
                                    dade, as políticas públicas, mais do que compensar esse jogo de forças, acabam por inclinar o
                                    fiel da balança para o acirramento dessa situação. Subsídios e créditos do Tesouro para
22                                  auxiliar grandes corporações e bancos são, entre outras, formas legais de violência que, como
                                    vemos cotidianamente, ampliam outras modalidades de violência, amiúde ilegais. A mídia,
                                    frequentemente associada aos interesses hegemónicos, mostra isoladamente os fatos
                                    emergentes de um processo mais complexo e invisível. Não se revelam os mecanismos
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                                    produtores de violência, mas suas manifestações visíveis. A ordem corporativa, criadora de
                                    desordem para o poder público e para toda a sociedade, é dissimulada.
                                           A morte anunciada do sistema previdenciário é mais um mecanismo de comando que
                                    o sistema financeiro exerce sobre a política, reduzindo o debate nacional a uma complexa
                                    contabilidade macroeconômica. Nesse processo, o papel da informação, produzida e
                                    veiculada pela mídia hegemônica, não é menos importante. Forma-se assim a chamada
                                    opinião pública, manifestação do pensamento único, que ampara as ações políticas orientadas
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                                    a erodir o embrionário Estado de bem-estar e a acelerar o empobrecimento das diversas
                                    camadas sociais.
                                           Se a massa da população economicamente ativa foi aumentando desde meados do
                                    século XX até os dias de hoje, não se pode dizer o mesmo da evolução do número de
                                    contribuintes para o Instituto da Previdência. Em 1981, metade de um total de 45,5 milhões
                                    de trabalhadores contribuíam para a Previdência, e em 1995 essa proporção era de apenas
                                    42,8%. Se o volume de trabalhadores cresceu em mais de 24 milhões nesses catorze anos, a
                                    quantidade de contribuintes aumentou em apenas 7,1 milhões. Entre 1995 e 2002 o aumento
                                    foi de pouco mais de 6 milhões de contribuintes. As consequências desse enfraquecimento
                                    das estruturas fiscais são inúmeras, mas todas convergem para o empobrecimento da
                                    população. A evolução negativa da base previdenciária é frequentemente apresentada, ainda
                                    que isolada dos seus respectivos contextos explicativos, como uma das mais importantes
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razões da falência do Estado.
       A regionalização torna-se mais uma vez necessária para a compreensão dos
fenômenos. Em 2002, pouco mais de 20 milhões de contribuintes viviam na região Sudeste,
6,7 milhões no Sul, 5,1 milhões no Nordeste, 2,5 milhões no Centro-Oeste e 1,3 milhão no
Norte. Num estado como Tocantins, apenas 20% dos trabalhadores contribuíam para a
Previdência, enquanto a situação era um pouco melhor no Pará e no Amazonas. O retrato dos
estados do Centro-Oeste não é muito diferente: em Goiás e Mato Grosso, cerca de 32% do
total de trabalhadores são contribuintes. De alguma maneira, as áreas que sediam a expansão
de atividades modernas, como a agricultura das novas frentes pioneiras, são manifestações de
um Estado menos preocupado na contenção social dos trabalhadores e mais prel ocupado na
produção de um território fluido. Novas relações traba-lhistas, mais despojadas dos freios     23
sociais a um processo de forte acu-mulação capitalista, asseguram o crescimento da
economia moderna.
       A situação é um pouco diferente nas regiões Sul e Sudeste. Estados como Rio Grande




                                                                                               www.facete.com.br
do Sul e Santa Catarina têm metade da massa de trabalhadores incluída no sistema
previdenciário, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo registram porcentagens superiores a
62%| Não podemos esquecer, na análise dessa questão, o despontar de uma relação de nova
natureza que se difunde no Brasil nos anos noventa. E a previdência privada que, em 2002,
alcançava cerca de 2,1 milhões de contribuintes, dos quais mais da metade pertenciam à
região Sudeste. Se seu número representa pouco menos de 6% do total dos contribuintes da
previdência pública, a soma da sua poupança, agora subtraída do sistema público e universal,
não é todavia desprezível.


                                                                                               Faculdade de Educação Teológica -
       Um mapa semelhante ao da previdência pública é desenhado pela situação dos
trabalhadores com carteira assinada: 68% no Sul e 42% no Nordeste. No entanto, se as
médias nacionais indicavam cerca de 60% dos trabalhadores com carteira assinada no Brasil
ao longo da década de 1980 e início dos anos 1990, diminuíram para cerca de 37% na virada
do século. Consequentemente, o grau de sin-dicalização também diminuiu.
       A precarização dos vínculos empregatícios e o aumento do de-semprego foram
acompanhados de um crescimento do número de tra-balhadores domésticos durante a década
de 1990. Em 1996 o emprego doméstico representava cerca de 10% da população
economicamente ativa do Brasil. Na região Norte a média subia para 11,3% e no Sul caía
para 8,3%. Já em 2002, acompanhando o empobrecimento rela-tivo das classes médias, que
provocou uma queda na procura, eram algo mais de 6 milhões de empregados domésticos,
cerca de 8% da população economicamente ativa do país.
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                                           Durante a década de 1990 o desemprego aumentou em todo o país e, com oscilações,
                                    superou os dois dígitos nas regiões metropolita- nas. Em São Paulo, atingia nos primeiros
                                    meses de 2004 mais de 12% da população economicamente ativa, mas já atingira 20% nos
                                    anos 1990. Recife e Salvador, que haviam alcançado porcentagens em torno de 30%,
                                    registravam cerca de 15%. Mas também Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre registraram
                                    taxas superiores a 10%.
                                           Novas formas técnicas e organizacionais, como a informatização e a automação das
                                    tarefas tanto nas atividades agropecuárias quanto na indústria e nos serviços, os novos modos
                                    de circulação, os atuais tipos de contratação e as políticas trabalhistas levaram entre outros
                                    aspectos, a uma precarização das relações de emprego e a um aumento do desemprego ao
                                    longo dos últimos quinze anos. Por isso, a racionalidade dá ordem econômica atual revela-se
24                                  limitada, ainda mais nas grandes metrópoles, onde o número de pobres é importante. Do
                                    norte ao sul desse Brasil urbano as maiores metrópoles do país têm suporta-' do taxas de
                                    desemprego em torno de 20% da população economicamente ativa. Mas qual é a
                                    racionalidade de uma economia urbana que despreza tamanha quantidade de trabalhadores?
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                                    O fato é que a cada dia há um menor número de atividades e empregos ligados a essa divisão
                                    do trabalho hegemónica, e isso é mais visível nas grandes cidades.
                                           Novas necessidades produtivas e novas formas de dividir social e territorialmente o
                                    trabalho aumentam as necessidades de cooperação, criando novas profissões e rejeitando as
                                    antigas, sobretudo a partir da revolução das telecomunicações, da informática e da
                                    informação, da expansão do sistema bancário e da nova agricultura. Umas profissões cedem
                                    lugar a outras, aptas a manipular os novos objetos técnicos, mas destinadas também a uma
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                                    vida efêmera. O resultado desse ato de império é que em alguns setores como o quaternário
                                    aumenta o emprego, embora discretamente, ao passo que em outros, volumosos contingentes
                                    são condenados ao desemprego.
                                           Se a divisão social do trabalho que acompanha o mundo da informação e das finanças
                                    multiplica as profissões, ao mesmo tempo diminui o número total de empregos. As formas
                                    técnicas e de regulação contemporâneas satisfazem seu apetite com um número menor de
                                    pessoas altamente qualificadas. O emprego tradicional da metrópole industrial esvai-se, de
                                    um lado, ao ritmo das novas acelerações normativas como as formas de contratação
                                    temporária e da terceirização, da interiorização da indústria, que é sinônimo de modernização
                                    e de busca de novas densidades normativas, e, de outro, pelas novas ocupa-ções na produção,
                                    e adaptação das informações externas ao mercado brasileiro, da criação de uma publicidade
                                    que aprofunda os consumos, da produção codificada de formas de fazer e regular, como a
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miríade de instrumentos financeiros em vigor.
       Esse movimento da sociedade contemporânea contribui também para concentrar a
renda. Em 1981 a classe mais rica (com renda de vinte salários mínimos ou mais)
representava 0,7% do total de pessoas com dez anos ou mais e concentrava 15,9% de Uma
renda nacional que beirava US$ 12 bilhões. Em 1997 esse grupo era composto por 1,8% da
população de mais de dez anos de idade (2.293.493) e deti- nha 26,4% do rendimento
nacional, que agora alcançava US$ 34,5 bilhões. Isso significa que em dezesseis anos essa
classe aumentou em mais de dez pontos percentuais a sua participação na distribuição da
renda nacional e conseguiu apropriar-se de um volume de riqueza (US$ 9,1 bilhões) a ser
comparado com o total nacional produzido em 1981(US$ 12 bilhões). Entre 1981 e 1997
aqueles cujos rendimentos superam os vinte salários mínimos ganham um aumento de renda           25
de US$ 7,2 bilhões, enquanto o respectivo contingente cresce em 1.627.585 pessoas.
Enquanto a classe mais rica aumenta 3,4 vezes em número de pessoas, seus rendimentos
multiplicaram-se por 4,8. Já as duas classes mais pobres, com renda entre meio e dois




                                                                                                 www.facete.com.br
salários mínimos aumentaram em 2,4 vezes o seu contingente, mas somente em 1,8 vez a
massa, de sua renda. Em 2002 essas classes pobres já representavam cerca de um terço da
população brasileira.
       Nesse contexto, é visível o empobrecimento relativo de uma região como o Nordeste,
ao passo que se torna receptora de grandes investimentos libados a produções inseridas na
atual divisão internacional do trabalho.
       Ao se considerar as classes de maior renda, é significativa a participação dos estados
das regiões Sudeste e Sul. Quanto à classe com rendimento superior a vinte salários mínimos,


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
cabiam à área metropolitana paulistana cerca de 22% do total nacional e 58% do total esta-
dual. Desse modo, mais de 40% das classes paulistas mais ricas moravam no interior do
estado, ligadas a uma agricultura cientificizada e a um processo de desconcentração de
indústrias modernas.
       Em consequência, nos últimos anos aumenta o volume da renda e ao mesmo tempo
multiplica-se o número de excluídos no Brasil. Em outros termos, cresce a riqueza
socialmente gerada, com a produção de excedentes, mas piora sua distribuição social e
territorial. Em função de uma estrutura econômica e política concentrada, esse excedente é
legalmente transformado em lucro, isto é, ele é apropriado privadamente sem uma política
pública que permita, de fato, a ampliação do bem-estar social das maiorias. Na política atual,
as regiões mais pobres são alvo da implantação de grandes empreendimentos cujos lucros
tornam-se remessas para o estrangeiro ou para as classes hegemônicas nacionais, de modo
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                                    que seu poder devastador sobre as formas de trabalho locais não é compensado por uma
                                    reativação da economia regional.
                                           É o paradoxo da nação brasileira.

                                                             FINANÇAS,         CONSUMO EPOBREZA

                                           Todavia, o período atual caracteriza-se, entre outros complexos aspectos, pela
                                    exacerbação da possibilidade de obter dinheiro adiantado. É por isso que coexistem uma
                                    evolução decadente do emprego e do salário com um aumento relativo do consumo. Graças à
                                    proliferação do crédito, que parece não abandonar nenhuma parcela da economia nem do
                                    território, houve uma extraordinária expansão dos consumos materiais e imateriais,
                                    produtivos e das famílias.
                                           Ao contrário da produção, que é seletiva nas escolhas dos lugares, a finança se
26
                                    interessa, direta ou indiretamente, pela totalidade do território vivente. E por isso que mesmo
                                    aquelas atividades caracterizadas por baixo grau de capital fixo tecnológico, são chamadas a
                                    aumentar seu capital de giro por meio do crédito, ainda mais quando muitos dos pequenos
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                                    empresários atuam como pessoa física. Quando o spread bancário para empréstimos às
                                    empresas era de 25% ao ano, para as pessoas físicas gira em torno de 57%. A vulnerabilidade
                                    aumenta com a utilização do cheque especial, do crediário e sobretudo do crédito pessoal,
                                    pois os juros atingem valores extremamente altos (entre 505 160% ao ano). Como é
                                    significativo o número de pessoas sem conta bancária ou incapazes de dispor das necessárias
                                    garantias, o crédito pessoal concedido pelas instituições financeiras encontra um terreno
                                    fértil. Formas de verticalização de uma economia popular que, no período da globalização,
                                    conhecem graus superlativos.
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                                           Em 1999 havia 24 milhões de cartões de crédito no Brasil, nas mãos de pessoas que
                                    recebiam mais de cinco salários mínimos. Dessa forma, amplas camadas da população abaixo
                                    desse limiar e sem aces-so a cheques e cartões despontaram como um novo alvo para bancos,
                                    financeiras e supermercados que decidiam fínanceirizar essas faixas da população. Criou-se
                                    então o cartão de crédito popular, que funcio-na como um crédito pré-aprovado, é
                                    proporcional à renda e pode ser usado numa rede comercial credenciada. Além de conseguir
                                    clientes cativos, essas empresas lucram com os juros decorrentes do parcela-mento das
                                    compras. Em 2003 o número total de cartões de crédito no Brasil havia aumentado para 47,5
                                    milhões.
                                           E uma verdadeira capilaridade das redes financeiras que resulta da coexistência de
                                    filiais de grandes instituições, de todo tipo de agio- tas e da profusão de novos tipos de
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crédito oferecidos pelos bancos públicos e privados. A rentabilidade dos bancos, por
exemplo, passou de 10,6% em 1994 para 15,7% em 1998 e para 24,5% em 2002.
       Nesse contexto, o consumo de eletrodomésticos e eletroeletrôni-cos ganha novas
dimensões. Objetos como fogão, geladeira, televisão e rádio chegam maciçamente aos lares a
partir da década de 1980, e mais recentemente se verifica uma expansão do telefone fixo e do
telefone celular. As novas condições de vida urbana se alastram no território brasileiro num
período relativamente curto. A exceção das áreas rurais modernizadas e povoadas por uma
classe média com poder de consumo, a precariedade de certas formas de vida rural parece
resistir tenazmente em certas ilhas do território.
       Dentre os consumos imateriais, o ramo dos seguros também é objeto dessa formidável
ampliação. Com auxílio de uma publicidade que explora implicitamente as debilidades da            27
nova ordem social, criam-se medos e riscos diversificados que devem ser previstos de forma
crescentemente individualizada. O mercado de seguros, capitalização e previdência privada
cresceu cerca de duas vezes entre 1994 e 1998. Submetidos às lógicas do mercado, certos




                                                                                                  www.facete.com.br
bens e serviços, como a educação e saúde, também passam a fazer parte de uma vocação de
consumo que, graças à informação e aos transportes, se alastra na sociedade e no território.
       Entre 1970 e 1980 foram criadas trezentas instituições do ensino superior, e a relação
de pessoas em idade universitária por aluno passa de 28,6 em 1970 para 12,2 em 1980. Após
o extraordinário crescimento de cerca de quinze vezes no número de alunos do ensino supe-
rior entre 1960 e 1980, há uma desaceleração no intervalo 1980-2002 (o aumento é de 2,5
vezes). Em 2002 havia cerca de 3,5 milhões de alunos, dos quais 70% (2,4 milhões)
estudavam em instituições particulares, e 1.637 instituições de ensino superior, das quais


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
88% eram particulares, o que significa que num período de dezessete anos (1985-2002)
praticamente dobrou o número de faculdades, com a criação de 778 novas instituições.
       Uma "fronteira educacional" em expansão desenvolve-se nas regiões Centro-Oeste e
Sul. É nessas áreas novas que o setor privado participa da interiorização do ensino superior.
No Centro-Oeste, 90,9% das instituições são particulares. A presença do mercado privado de
ensino superior no Sudeste também é significativa. Em 2002, cerca de 77% dos ingressos por
vestibular correspondiam às instituições particulares. Apesar de sua extraordinária expansão,
o número de candidatos por vaga no sistema particular foi de 2,5 em 2002. Nesse ano havia
pouco mais de 280 mil vagas públicas, disputadas por 2,6 milhões de alunos, isto é, mais de
nove candidatos por vaga. Eis a extraordinária tensão social decorrente de um sistema
público engessado, que contribui para a produção de exclusão e pobreza.
       Quanto à saúde, os estabelecimentos públicos com internação revelaram um ligeiro
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                                    crescimento entre as décadas de 1980 e 1990, representando pouco menos de 30% do total
                                    nacional. Já o crescimento do número de estabelecimentos de saúde com atendimento a pa-
                                    cientes externos foi significativo. Em face da situação econômica e da desproteção social dos
                                    trabalhadores e desempregados, o aumento do número de consultas em estabelecimentos
                                    públicos foi explosivo. Em 1985 registraram-se 256,4 milhões de consultas públicas e 202,8
                                    milhões de consultas particulares, números que em 1997 saltaram para 676 milhões e 388,9
                                    milhões, respectivamente. Enquanto a demanda por serviços de saúde privados cresceu 1,9
                                    vez, o setor público registrou um aumento de 2,6 vezes. Em 2001 realizaram-se mais de 420
                                    milhões de consultas pelo Sistema Único de Saúde (sus), das quais 361 milhões foram
                                    públicas.
                                           A rede de saúde privada privilegia regiões como o Centro-Oeste e o Sul, mas a
28                                  presença dessa rede não se acompanha de um crescimento do acesso aos seguros de saúde e
                                    convênios. Em 1995, apenas 10,7% da população brasileira (16,8 milhões de pessoas) tinha
                                    acesso à medicina de grupo. Esse mercado se concentra nas regiões Sudeste e Sul, com cerca
                                    de 90% (15,1 milhões de pessoas), e sobretudo no estado de São Paulo, com 58% do total
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                                    nacional dos beneficiários da medicina de grupo. Em 2002 havia no país 16,2 milhões de
                                    beneficiários, isto é, 9,5% da população total.
                                           O alargamento dos sistemas ligados à satisfação de necessidades universais tem sido,
                                    no Brasil, sempre mais lento que o volume da demanda. Mas a questão é ainda mais
                                    complexa, pois essa expansão é fortemente comandada por um verdadeiro processo de
                                    privatização de vários aspectos da vida social. Como a distribuição da sociedade bra-, sileira
                                    confunde-se com a amplitude do seu território, podemos dizer que a vida social constitui um
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                                    enorme mercado com densidades bastante diversas. Daí que as áreas de altas densidades
                                    demográficas e altas rendas relativas, equipadas e dotadas de fluidez, configurem tesouros
                                    disputados pelas empresas.

                                                              NEOLIBERALISMO,          TERRITÓRIO

                                                                   EPOBREZA ESTRUTURAL


                                           Trata-se de um uso seletivo do território nacional, que pune as populações mais
                                    pobres, mais isoladas, mais dispersas e mais distantes dos grandes centros e dos centros
                                    produtivos. Enquanto o setor público pode se instalar nos lugares e esperar pela demanda, o
                                    setor privado tende a alojar-se nas regiões onde a demanda já existe ou tem uma perspectiva
                                    de desenvolver-se, sob a cadência de uma nova oferta. Por isso, o neoliberalismo conduz a
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uma maior seletividade na distribuição geográfica dos provedores de bens e de serviços,
levados pelo império da competitividade a buscar, sob pena de seu próprio enfraquecimento,
as localizações mais favoráveis. A concentração econômica agrava essa tendência.
        Desse modo, a acumulação das atividades em certos pontos pode provocar maiores
dificuldades de acesso aos respectivos produtos, sejam eles bens ou serviços. É a situação da
educação privatizada, em que o efeito de escala leva a uma utilização mais eficiente das infra-
estruturas educacionais e da mão-de-obra docente, privilegiando-se assim aquelas áreas
concentradas nas quais os custos são mais baixos e o retorno é garantido. É o caso também da
saúde quando baseada na necessidade de lucro competitivo. E assim que a pobreza revela sua
face territorial.
        Cada época produz as suas forças de concentração e de dispersão, que não podem ser        29
confundidas com as características dos momentos anteriores. Essas forças resultam da
utilização combinada de condições técnicas e condições políticas. Na época atual, o Estado
neoliberal, junto com a difusão do sistema técnico comandado pelas técnicas informacionais,




                                                                                                  www.facete.com.br
cria uma concentração e uma dispersão combinadas. De um lado, as atividades modernas
tendem a se dispersar em função das virtualidades oferecidas nos subespaços, distantes dos
centros estabelecidos, mais cobiçados pelas grandes empresas. Por outro lado há uma
concentração das decisões, mesmo que o comando técnico das operações produtivas possa ser
relativamente disperso. O fator de dispersão pede, por exemplo, a presença de novos
profissionais nas cidades médias das áreas mais desenvolvidas. E essas classes médias, ávidas
por consumir bens e serviços, revelam, sobretudo a partir das suas demandas sociais, a
ausência do poder público em aspectos centrais. São as novas fronteiras de um mercado


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
privado. Dessa maneira, essas camadas médias tornam-se, também, mais vulneráveis às crises
e à financeirização, podendo ser, a cada dia, mais pobres.
        No mundo contemporâneo, as finanças internacionais, submetendo as moedas
nacionais, também representam um papel central. O comportamento do sistema financeiro
influencia a dinâmica econômica do país na medida em que alguns instrumentos financeiros
são   privilegiados   enquanto   outros   são   negligenciados,   arrastando    as   atividades
correspondentes e os lugares onde se situam. Por outro lado, os frenéticos processos de fusão
empresarial levam a uma redução do número de pólos decisórios, a uma maior concentração
dos vetores de comando e a uma maior rigidez nas relações entre as áreas polarizado
ras e as áreas polarizadas.
        Nesse território adaptado a uma produção e uma circulação modernas, o crescimento
não beneficia a sociedade e o território como um todo. Parcelas crescentes da população são
Prática Curricular IV



                                    excluídas na formulação desses projetos e, por isso, estamos diante de uma pobreza estrutural.
                                    É, no dizer de Milton Santos, uma "produção científica, globalizada e voluntária da
                                    pobreza".11
                                               Hoje, o emprego e o salário minguam em razão da crescente racionalização da
                                    sociedade e do território. Em outras palavras, o que é mais racional no processo de tornar-se
                                    competitivo deve ser aplicado, eliminando todo tipo de viscosidades políticas, jurídicas,
                                    sociais e culturais. Desse modo, difundem-se sistemas técnicos automatizados para substituir
                                    o trabalho humano, considerado mais caro, demandante de pausas e potencialmente criador de
                                    conflitos, assim como também normas destinadas a reduzir a quantidade de mão-de-obra ou a
                                    entregar, à própria esfera individual, um conjunto de condições consideradas, em períodos
                                    anteriores, soluções de civilização como a aposentadoria, as férias pagas, as licenças e
30                                  afastamento por doenças e outros direitos sociais advindos do vínculo empregatício.
                                               A medida que esse processo de racionalização, autorizado por uma nova base técnica e
                                    por um novo quadro político, se globaliza, também o fazem suas consequências e seus
                                    produtos, como a pobreza. Se no discurso a pobreza é tida como um fato indesejável, na
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                                    prática é necessária ao funcionamento de um sistema regido pelos nexos financeiros. Criada a
                                    necessidade de liquidez, é difícil manter-se fora do sistema financeiro. E, como vimos, amplas
                                    camadas sociais não têm condições legais de inserir-se no circuito bancário, ensejando-se a
                                    entrada de outros agentes e modalidades financeiras. Ê o caso das instituições financeiras e de
                                    certos bancos e agiotas de diversas espécies, que possibilitam a presença de um dinheiro cujo
                                    custo é exorbitante.
                                               O papel da informação é, outrossim, essencial na produção da racionalização atual,
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                                    pois cria uma necessidade premente de qualificação, de segurança e de previsão de diversa
                                    natureza que, com um Estado menos presente, amplia o número de potenciais consumidores
                                    de serviços privados. A medida que os custos dos diversos aspectos da vida social são
                                    "devolvidos" às famílias, a pobreza aumenta, pois nem todas elas podem enfrentar essas
                                    despesas integral e indefinidamente. A pobreza é vista como inevitável, um fato quase natural.
                                    A sociedade segmenta-se e o futuro torna-se incerto.
                                               A divisão do trabalho que resulta do neoliberalismo é produtora de pobreza e dívidas
                                    sociais. Fundada nos acréscimos técnico-cientí-fico-informacionais e nos mecanismos
                                    financeiros, ela é feita da superposição das divisões do trabalho das grandes corporações. Ê
                                    por isso que a divisão do trabalho no país tem um papel ativo na desvalorização dos fazeres e
                                    lugares que não perfazem essas necessidades. Daí os mecanismos de exclusão e a produção da
                                    11
                                         Santos, Milton. Por uma outra globalização, op. cit., p. 72.
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pobreza. Essa economia assim planejada é incapaz de criar um número de empregos satisfató-
rio, pois despreza as atividades que não são modernas. Diminuem o número de empregos e o
valor dos salários porque se desvaloriza o trabalho da maior parte da sociedade.


                          O TERR ITÓR IO CORPORATIVO

        A medida que o território brasileiro se torna fluido, as atividades econômicas
modernas se difundem e uma cooperação entre as empresas se impõe, produzindo-se
topologias de empresas de geometria variável, que cobrem vastas porções do território,
unindo pontos distantes sob uma mesma lógica particularista. De alcance global, essas
empresas pautam seus comportamentos por parâmetros planetários, Os sistemas de infra-
estruturas que permitem essas ligações foram feitos, na maior parte das vezes, com recursos                 31


públicos, mas seu uso privado autoriza a falar de privatização do território.
        Como essas grandes firmas arrastam, na sua lógica, outras empresas, industriais,
agrícolas e de serviços, e também influenciam fortemente o comportamento do poder público,




                                                                                                            www.facete.com.br
indicando-lhe formas de ação subordinadas, podemos dizer que estamos diante de um verda-
deiro comando da vida económica e social e da dinâmica territorial por um número limitado
de empresas. Assim, o território pode ser adjeti-vado como um território corporativo, do
mesmo modo que as cidades também podem ser chamadas de cidades corporativas, já que
dentro delas se verificam processos idênticos.
        Cada empresa, cada ramo da produção cria uma lógica territorial que é visível por
meio de uma topologia, isto é, a distribuição no território dos pontos de interesse para a sua
operação.12 Esses pontos de interesse ultrapassam o âmbito da própria firma para se projetar

                                                                                                            Faculdade de Educação Teológica -
sobre as empresas fornecedoras, compradoras ou distribuidoras. Para cada uma delas, o
território do seu interesse imediato é formado pelo conjunto dos pontos essenciais para
conquistar uma posição vantajosa não apenas no país, mas sobretudo na escala internacional.
Por conseguinte, o uso desses pontos do território nacional é submetido a uma lógica que, por
intermédio de uma empresa global, acab sendo uma Lógica global.
        No campo modernizado, a atividade é subordinada aos mandamentos dás empresas,
como a escolha induzida das sementes e das espécies, a condução e a fiscalização dos
processos, o uso do crédito oferecido, às vezes a taxas menores que as dos bancos comerciais,
e, na sua contrapartida, os contratos de exclusividade. Essas firmas também oferecem
assistência técnica e influenciam as formas de colheita e transporte. Trata-se de uma produção
12
  Corrêa, Roberto Lobato L. "Corporação e organização espacial: um estudo de caso". Revista Brasileira de
Geografia (IBGE), ano 53, nº 3, 1991, pp. 33-66.
Prática Curricular IV



                                    quantitativamente ampliada em relação aos padrões técnicos e capitalistas anteriores, mas
                                    também de uma circulação restrita, graças ao conjunto de condições de racionalização
                                    introduzidas nas diversas áreas modernizadas por meio do nexo corporativo. Pode-se dizer
                                    que tal mecanismo conduz ao crescimento econômico, mas à custa da perda do controle do
                                    seu destino pelas regiões assim modernizadas.
                                           Essa atividade agrícola moderna, sob o comando técnico-científi-co de grandes
                                    empresas, se utiliza das condições encontradas em cada lugar. Na verdade, porém, não se trata
                                    de uma atividade que permita falar de relações horizontais, já que as principais etapas do
                                    respectivo processo dependem exclusivamente dos interesses dessas grandes empresas e estão
                                    fora do lugar. Por isso, as grandes firmas obrigam a nação a uma profunda
                                    internacionalização. Nessas condições, é lícito nos referirmos à existência de verdadeiros
32                                  oligopólios territoriais. Entretanto, muitas das atividades desenvolvidas nas diferentes regiões
                                    brasileiras têm uma forte relação com o próprio território e, portanto, são mais dependentes da
                                    sociedade próxima e das virtualidades materiais e sociopolíticas de cada área. Isso permite
                                    certa horizontalização da atividade. O papel de comando, todavia, é reservado às empresas
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                                    mais fortes, e os pontos do território em que elas se instalam constituem meras bases de
                                    operação, abandonadas logo que as condições deixam de lhes ser vantajosas. As grandes
                                    empresas, por isso mesmo, apenas mantêm relações verticais com tais lugares.
                                           Uma lógica menos dependente do chamado mercado global poderia atribuir às
                                    empresas um conjunto diferente de opções, levando a outros comportamentos territoriais.
                                    Todavia, a atual doutrina da economia internacional quanto aos países subdesenvolvidos
                                    confere ao mercado interno uma lógica global à qual se opõe fracamente uma lógica nacional,
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                                    tanto mais débil quanto o Estado não se mostra interessado por ela, mesmo quando hoje o
                                    discurso comece a valorizar a idéia do mercado interno. Na realidade, fala-se de um mercado
                                    interno cujo consumo é extrovertido na sua natureza e nas condições de satisfação, uma vez
                                    que os circuitos espaciais de produção e suas complementaridades técnicas, financeiras e
                                    informacionaís são extremamente internacionalizados. Em outras palavras, como o território
                                    brasileiro sedia apenas algumas instâncias de um processo produtivo cada vez mais
                                    segmentado planetariamente, cada produto do trabalho nacional embute um forte conteúdo de
                                    trabalho importado. Evidencia-se a incapacidade de fortalecer as engrenagens de uma
                                    produção horizontalizada e orientada para um consumo endógeno.
                                           O resultado é o exercício de um controle parcial de certos pontos por lógicas que se
                                    interessam apenas por aspectos particularizados. Quanto aos outros interesses, não respondem
                                    de forma neutra a essa ação privatista, já que tal ação tem sobre eles reflexos indiretos. Inseri-
Prática Curricular IV



dos ou excluídos desse processo, os demais trabalhos e lugares são condenados a novas
formas de pobreza. É o caso de uma grande empresa global numa cidade. Sua presença incide
sobre a equação do emprego, a estrutura do consumo, o uso de infra-estruturas materiais e
sociais, a composição dos orçamentos públicos, a estrutura do gasto público e o
comportamento das outras empresas, sem falar da própria imagem do lugar e do impacto
sobre os comportamentos individuais e coletivos. Paralelamente há a exigência de uma dada
política, nos âmbitos federal, estadual e municipal, para atender às necessidades de instalação,
permanência e desenvolvimento dessa empresa.
       Por essa razão, o território corporativo revela também uma utilização privilegiada dos
bens públicos e uma utilização hierárquica dos bens privados. É dessa forma que maiores
lucros são obtidos por alguns agentes, ainda que trabalhem sobre os mesmos bens e estes            33
sejam nominalmente públicos. Quando as corporações encorajam, segundo várias formas de
convicção, a construção das infra-estruturas de que necessitam e quando os governos decidem
realizar tais obras, o processo de produção do território corporativo se fortalece. Dessa forma,




                                                                                                   www.facete.com.br
as maiores empresas passam a desempenhar um papel central na produção e no
funcionamento do território e da economia. Mediante a colaboração ou a omissão do Estado,
acabam por tornar-se parte e juízes em conflitos de interesses com empresas menos poderosas
e com a sociedade como um todo.
       Uma das manifestações do território corporativo é a chamada guerra fiscal, da qual
muito se fala hoje. Esta faz alusão à disputa, vista sobretudo nos seus aspectos fiscais, de
estados e municípios pela presença de empresas e, concomitantemente, a busca pelas
empresas de lugares para se instalar e obter lucros mais altos. A questão é mais ampla. Para as


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
empresas, o mais importante é a ação que empreendem para fazer com que esses lugares
apresentem um conjunto de circunstâncias que lhes sejam vantajosas. E esse rearranjo do
lugar tem um custo a ser assumido pela sociedade como um todo. Ao mesmo tempo, esse
processo é causa e consequência de uma disputa entre as empre-sas por posições hierárquicas.
As empresas mais poderosas obtêrn lugares mais rentáveis, enquanto as demais são relegadas
a posições menos produtivas.
       Reorganiza-se assim a hierarquia regional. Ganira quem é mais forte. Cada região é
um tecido de condições de infra-estruturas; recursos humanos, fiscalidade, organização
sindical e força reivindicatória que afastam ou atraem determinadas atividades num dado
momento. Por isso, os lugares são permanentemente convocados a atualizar as condições
vantajosas segundo a inserção do país na divisão internacional do trabalho. E a velocidade
com que tais exigências se renovam não cessa de aumentar.
Prática Curricular IV



                                           Essas turbulências, que o mercado global produz na nação, criam uma instabilidade do
                                    território. Tal instabilidade marca as relações da empresa com o seu entorno, isto é, com
                                    outras empresas, as instituições e o próprio território, já que há uma contínua necessidade de
                                    readaptação ao mercado e ao entorno. É uma permanente produção de desordem, que a cada
                                    momento é diferente da desordem precedente e da desordem seguinte e cuja manifestação
                                    mais visível é, certamente, a pobreza. Como atualmente a atividade corporativa se realiza por
                                    intermédio de empresas-rede, sua influência estende-se à totalidade ou a partes significativas
                                    do território, por meio das redes de infra-estruturas, informação e comunicação.
                                           Desse modo, o território é também objeto de desarticulações que, repetidas vezes, se
                                    tornam alvo de programas sociais nacionais ou internacionais. Não são raras as ocasiões em
                                    que os financiadores são aqueles atores envolvidos nos permanentes ajustes macroeconômicos
34                                  aos quais o país é submetido e, também, algumas corporações globais. Conhecemos os
                                    programas do' Banco Mundial e de tantas instituições financiadas pelos responsáveis de um
                                    bom número de causas da situação aluai. O papel do Terceiro Setor está ainda para ser
                                    discutido criticamente.
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                                           Esse modelo corporativo está tanto mais presente quanto mais o mercado interno passa
                                    a ser objeto de uma preocupação residual. O abandono das preocupações com o mercado
                                    interno aparece como o único caminho para uma inserção plena no mercado dito global. O re-
                                    sultado é, frequentemente, a recessão, o desemprego e o empobreci-mento das populações. O
                                    Estado se afasta da elaboração de políticas industriais e de outras políticas produtivas, assim
                                    como de políticas de interesse social. O próprio fato da globalização e a subordinação do país
                                    ao mercado global, conferindo um novo papel ao mercado, são causas do desequilíbrio do
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                                    pacto federativo, já que a União precisa reunir forças mais concentradas e maciças para
                                    operacionalizar a economia globalizada.     Para fazê-lo, tanto a nação quanto o território
                                    devem ser desconsiderados, enquanto o próprio Estado renuncia às funções de regulação
                                    social e privilegia o seu papel de suporte da expansão das lógicas monetaristas. Com a força e
                                    a lei, o mercado aparece, ao mesmo tempo, como um ator e um caminho incontestáveis,
                                    erodindo o grau de autonomia dos lugares e da nação brasileira.
                                           Nesse contexto político, a descentralização, cujos fundamentos são manipulados, passa
                                    a ser utilizada menos como um mecanismo de transferência de poder e mais para resolver
                                    problemas de caixa e pulverizar a força das decisões políticas. Tal evolução leva a uma verda-
                                    deira supressão do discurso territorial na retórica do Estado e à desconsideração dos processos
                                    espaciais como dado tanto da dinâmica da sociedade e da economia quanto da formulação de
                                    políticas públicas.
Prática Curricular IV



                                UMA N A Ç Ã O   DE C I D A D Ã O S



       Considerar o território na sua totalidade como premissa da política significa também
reconhecer a necessidade de propor ações públicas compensatórias e universais diante das
ações corporativas norteadas pela obtenção de lucro. Há bens e serviços que são de interesse
geral comum, representativos de direitos "naturais" e que deveriam ser reconhecidos como um
direito legítimo, acessível a todos. Tal é o caso da educação, da saúde, da aposentadoria, da
cultura, cuja distribuição deveria ser universal. Mas quando não chegam a todas as pessoas e
todos os lugares, isto é, quando a essas demandas não corresponde uma oferta efetiva por
parte do Estado, encarnando uma resposta a esses reclamos, tende a instalar-se o setor
privado. Desse modo, criam-se compartimentações que acabam, amiúde, em curto-circuitos            35
com o exercício da cidadania.
       Surgem configurações territoriais caprichosas, cuja variedade e distribuição não têm
relação direta com a presença da população. Certas regiões não serão atrativas para as novas




                                                                                                  www.facete.com.br
atividades, reforçan-do-se negativamente um processo cumulativo às avessas, enquanto em
lugares mais bem-dotados esse processo será positivo. Com o neo-liberalismo tal processo se
acelera, enquanto se agravam e aprofundam as polarizações. O neoliberalismo é um sistema
econômico e político no qual os processos cumulativos são exponenciais. Isso ocorre com
todos os aspectos da vida social no território. E esse não é um processo natural ou espontâneo,
como frequentemente anunciado, mas produto de decisões políticas, tantas vezes com
embasamento científico.
       Haveria, assim, regiões luminosas e regiões opacas do ponto de vista da produtividade


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
e da competitividade. É um processo recorrente e acelerado de construção, destruição e
reconstrução de diferenciações e hierarquias que conduz a frequentes desvalorizações e reva-
lorizações das parcelas do território. O resultado é uma fragmentação política cuja
manifestação mais visível é a ingovernabilidade da nação. Tende a se instalar um verdadeiro
círculo vicioso, com a superposição da oferta e da demanda nas áreas geográficas já
privilegiadas. Lógica idêntica age, no sentido diametralmente oposto, com a vocação ao
esvaziamento de certas áreas. Quando o Estado deixa ao setor privado a regulação de aspectos
essenciais da vida social, acaba por penalizar certas camadas sociais e certas regiões.
       Tudo isso leva à discussão sobre o papel do Estado como vetor autônomo na produção
de serviços sociais universais, cujos limites são sobretudo ideológicos e políticos, já que a
noção de recursos é politicamente definida, e o papel da economia, também considerada, pela
via do mercado, como vetor dotado de certa autonomia na produção de bens e serviços
Prática Curricular IV



                                    universais, e cujos limites são as regulamentações e as subvenções e incentivos diretos e
                                    indiretos. Como dados explica-tivos, entram o próprio processo económico, ao qual se
                                    relacionam a capacidade de investimento do Estado e o poder de compra da socie- dade, que
                                    em geral se ampliam quando há crescimento e se reduzem quando há recessão.
                                            Mas a educação e a saúde, entre outros, são bens a serem consumidos, e esse consumo
                                    é cada vez mais produtivo. Essas atividades e aquelas que lhes são associadas, direta ou
                                    indiretamente, desempe- nham um papel na geração da riqueza local, justificando, de um
                                    ponto de vista económico e não apenas cívico ou cultural, sua permanência na esfera do poder
                                    público. Essa produtividade é também a razão da acelerada conquista dessas atividades pelas
                                    empresas privadas, cuja ação é centrada na demanda existente e na criação de uma demanda
                                    solvente hoje possível graças ao crédito. Mas há também o problema da qualidade da oferta.
36                                  Uma nação de cidadãos não pode tolerar que se prolongue a atual situação de oferta de
                                    serviços ditos universais em dois ou três níveis, segundo a capacidade económica e a
                                    localização geográfica das famílias. A situação atual significa que os cidadãos já se instalam
                                    na nação com um destino selado, discriminados ah initio, desde logo condenados a uma vida
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                                    social mutilada em função da sua posição social e territorial.
                                            É necessário portanto que o Estado-nação recupere suas funções sociais, isto é, que
                                    possa velar para que a nação como um todo tenha acesso aos bens fundamentais. Esse parece
                                    o caminho mais direto para acabar com a maior dívida social de todos os tempos: a pobreza
                                    estrutural.
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                                  FAZER HISTÓRIA



Problemas de método e problemas de sentido

     A história religiosa é o campo de um confronto entre a historiografia e a arqueologia da
qual parcialmente tomou o lugar. Secundariamente, permite analisar a relação que entrelaça a
história com a ideologia da qual deve dar conta em termos de produção. As duas questões se
entrecruzam e podem ser consideradas em conjunto no setor estreitamente circunscrito do
"tratamento" da teologia por métodos próprios à história. De imediato, o historiador considera
                                                                                                 37
a teologia como uma ideologia religiosa que funciona num conjunto mais vasto e supostamente
explicativo. Pode ele reduzi-la ao resultado desta operação? Sem dúvida que não. Porém, como
objeto de seu trabalho, a teologia se lhe apresenta sob duas formalidades igualmente incertas




                                                                                                 www.facete.com.br
na historiografia; é um fato religioso; é um fato de doutrina. Examinar, através deste caso
particular, a maneira pela qual os historiadores tratam hoje destes dois tipos de fatos e
particularizar quais os problemas epistemológicos que se abrem assim é o propósito deste
breve estudo.

A história, uma prática e um discurso.

       Esta análise será, evidentemente, determinada pela prática bastante localizada da qual
pude lançar mão, quer dizer, pela localização do meu trabalho — ao mesmo tempo um


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
período (a história dita "moderna"), um objeto (a história religiosa) e um lugar (a situação
francesa). Este limite é capital. A evidenciação da particularidade deste lugar de onde falo,
efetiva-mente prende-se ao assunto de que se vai tratar e ao ponto de vista através do qual me
proponho examiná-lo. Três "postulados" individualizam um, e outro. Eles devem ser
francamente colocados como tais (mesmo que pareçam resultar com evidência da prática
histórica atual) já que não serão objeto de uma demonstração.
       Sublinhar a singularidade de cada análise é questionara possibilidade de uma
sistematização totalizante, e considerar como essencial ao problema a necessidade de uma
discussão proporcionada a uma pluralidade de procedimentos científicos, de funções sociais e
de convicções fundamentais. Por aí se encontra, já esboçada, a função dos discursos que podem
esclarecer a questão, e que se inscrevem, eles próprios em seguimento a ou ao lado de muitos
outros: enquanto falam da história, estão sempre situados na história.
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                                           Estes discursos não são corpos flutuantes em um englobante que se chamaria a história
                                    (o "contexto"!). São históricos porque ligados a operações e definidos por funcionamentos.
                                    Também não se pode compreender o que dizem independentemente da prática de que
                                    resultam. De maneiras diferentes aí existe uma boa definição de historiografia contemporânea
                                    (mas também da teologia — inclusive e particularmente a mais tradicional1). De qualquer
                                    maneira uma e outra serão apreendidas nesta articulação entre um "conteúdo" e uma
                                    operação. Além do que esta perspectiva caracteriza, hoje, os procedimentos científicos, por
                                    exemplo, aquele que, em função de "modelos", ou em termos de "regularidades", explica os
                                    fenômenos ou documentos, tornando manifestas regras de produção e possibilidades de
                                    transformação2. Porém, mais simplesmente, é levar a sério expressões carregadas de sentido —
                                    "fazer história", "fazer teologia" — quando se é mais propriamente levado a suprimir o verbo
38                                  (o ato produtor) para privilegiar o complemento (objeto produzido).
                                           Por esta razão, entendo como história esta prática (uma "disciplina"), o seu resultado (o
                                    discurso) ou a relação de ambos sob a forma de uma "produção"3. Certamente, em seu uso
                                    corrente, o termo história conota, sucessivamente, a ciência e seu objeto — a explicação que se
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                                    diz e a realidade daquilo que se passou ou se passa. Outros domínios não apresentam a mesma
                                    ambiguidade: o francês não confunde numa mesma palavra a física e a natureza. O próprio
                                    termo "história" já sugere uma particular proximidade entre a operação científica e a realidade
                                    que ela analisa. Mas o primeiro destes aspectos será nossa entrada no assunto, por diversas ra-
                                    zões: porque a espessura e a extensão do "real" não se designam, nem se lhes confere sentido
                                    senão em um discurso, porque esta restrição no emprego da palavra "história" indica seu
                                    correspondente (a ciência histórica) à ciência, ou pelo menos à função particular que é a
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                                    teologia; finalmente para evitar a floresta virgem da História, região de "brumas" onde prolife-
                                    ram as ideologias e se corre o risco de jamais reencontrar-se. Pode ser também que, atendo-se
                                    ao discurso e à sua fabricação, se apreenda melhor a natureza das relações que ele mantém
                                    com o seu outro, o real. A linguagem, não tem ela como regra implicar, embora colocando-a
                                    como outra que não ela mesma, a realidade da qual fala?
                                           Partindo assim, de práticas e discursos historiográficos eu me proponho considerar
                                    sucessivamente as questões seguintes:
                                         1. O tratamento dado pela historiografia contemporânea à ideologia religiosa, obriga ao
                                    reconhecimento da ideologia já investida na própria história.
                                         2. Existe uma historicidade da história. Ela implica no movimento que liga uma prática
                                    interpretativa a uma prática social.
                                         3. A história oscila, então, entre dois pólos. Por um lado remete a uma prática, logo, a
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uma realidade, por outro é um discurso fechado, o texto que organiza e encerra um modo de
inteligibilidade.
     4. Sem dúvida a história é o nosso mito. Ela combina o "pensável" e a origem, de acordo
com o modo através do qual uma sociedade se compreende.

                              I. UM INDÍCIO: O TRATAMENTO DA
                            IDEOLOGIA RELIGIOSOSA EM HISTÓRIA

       A relação entre história e teologia, inicialmente, é um problema interno da história.
Qual é o significado histórico de uma doutrina no conjunto de um tempo? Segundo quais
critérios compreendê-la? Como explicá-la em função dos termos propostos pelo período
estudado? Questões particularmente difíceis e controvertidas, quando não nos contentamos           39
com uma pura análise literária dos conteúdos ou da sua organização4 e quando, por outro lado,
recusamos a facilidade de considerar a ideologia apenas como um epifenômeno social,
suprimindo-se a especificidade da afirmação doutrinária5.




                                                                                                   www.facete.com.br
       Por exemplo, que relação estabelecer entre a espiritualidade ou a teologia jansenista e
as estruturas sócio-culturais ou a dinâmica social da época. Existe todo um leque de respostas.
Assim, para Orcibal, o que se deve procurar é uma experiência radical em seu estado primeiro,
no texto mais primitivo. Porém, mesmo aí, ela se aliena nas imposições de uma linguagem
contemporânea; a história de sua difusão será, pois, a história de uma degradação progressiva.
Mesmo remontando incessantemente às fontes mais primitivas, perscrutando nos sistemas
históricos e linguísticos a experiência que escondem ao se desenvolverem, o historiador nunca
alcança a sua origem, mas apenas os estágios sucessivos da sua perda. Contrariamente, Goldmann


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
lê na doutrina jansenista o resultado e o signo da situação económica na qual se encontra contra
uma categoria social: perdendo seu poder, os magistrados se voltam para o céu da predestinação
e do Deus escondido, e revelam, assim, a nova conjuntura política que lhes fecha o futuro; aqui
a espiritualidade, sintoma daquilo, que não diz, remete à análise de uma mutação económica e
a uma sociologia do fracasso6.
       Os trabalhos sobre Lutero apresentam a mesma diversidade de posições: ora referem a
doutrina à experiência de juventude que seria seu segredo inefável e organizador (Strohl,
Febvre, por exemplo); ora se inscrevem no contínuum de uma tradição intelectual (Grisar,
Seeberg, etc); ora vêem nela o efeito de uma modificação nas estruturas econômicas (Engels,
Stein-mertz, Stern) ou a tomada de consciência de uma mutação sócio-cultural (Garin,
Moeller, etc), ou o resultado de um conflito entre o adolescente e a sociedade dos adultos
(Erikson). Finalmente, far-se-á do Luteranismo a emergência da inquietação religiosa própria de
Prática Curricular IV



                                    um tempo (cf. Lortz, Delu-meau), o acabamento de uma promoção dos "leigos" contra os
                                    clérigos (N. Z. Davis), um episódio inscrito no prosseguimento das reformas evangelistas que
                                    balizam a história da Igreja, ou a vaga criada no Ocidente pela irrupção de um acontecimento
                                    único (Holl, Bainton, Barth)? Pode-se encontrar todas estas interpretações e muitas outras7.
                                           Está claro que elas são relativas à resposta que cada autor dá a questões análogas no
                                    presente. Ainda que isto seja uma redundância é necessário lembrar que uma leitura do
                                    passado, por mais controlada que seja pela análise dos documentos, é sempre dirigida por uma
                                    leitura do presente. Com efeito, tanto uma quanto a outra se organizam em função de proble-
                                    máticas impostas por uma situação. Elas são conformadas por premissas, quer dizer, por
                                    "modelos" de interpretação ligados a uma situação presente do cristianismo.

                                    O modelo "místico"e o modelo "folklórico": uma essência escondida.
40
                                           Globalmente, desde há três séculos, no que concerne à França, a história religiosa parece
                                    marcada por duas tendências: uma, originária das correntes espirituais, fixa o estudo na análise
                                    das doutrinas; a outra, marcada pelas "Luzes", coloca a religião sob o signo das superstições.
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                                    Em última análise, teríamos, lá, verdades emergindo dos textos, e, aqui, "erros"ou um folklore
                                    abandonado na rota do progresso.
                                           Sem ir muito longe, pode-se dizer que durante a primeira metade do século XX, a
                                    religião não aproveitou nada das novas correntes que mobilizaram os historiadores medievalistas
                                    ou "modernistas", por exemplo a análise sócio-econômica de Ernest Labrousse (1933-1941). Ela
                                    era muito mais o objeto que disputavam exegetas e historiadores das origens cristãs. Quando
                                    intervinha na História das Mentalidades de Lucien Febvre (1932-1942), era como um índice de
                                    coerência próprio de uma sociedade passada (e, sobretudo, superado graças ao progresso),
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                                    numa perspectiva muito marcada pela etnologia das sociedades "primitivas".
                                           Paradoxalmente, dois nomes poderiam simbolizar o lugar mais ou menos explicitamente
                                    dado à análise das crenças durante o entre-duas-guerras e o deslocamento que nele se
                                    produziu: Henri Bremond e Arnold Van Gennep; um, inscrito na tradição da história literária,
                                    atesta uma perda de confiança nas doutrinas, relerindo-as ã um sentido "místico", a uma "me-
                                    tafísica" oculta dos santos8; o outro, escrupuloso observador do folklore religioso, vê aí o
                                    ressurgimento de umímemorial das sociedades, o retor-no de um irracional, de um originário
                                    e quase de um recalcado9. Suas posições não deixam de ter analogias, ainda que enunciadas em
                                    termos de métodos bem distantes um do outro. O primeiro remete o sentido da literatura que
                                    estuda a um fundo místico do homem, a uma "essência" que se difracta, exprime e compromete
                                    com os sistemas religiosos institucionais ou doutrinários. Os fatos doutrinários são, pois,
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dessolidarizados do seu sentido, que permanece oculto em "profundezas", no fim das contas,
estranhas aos cortes intelectuais ou sociais. A seu modo, inspirado na antropologia americana
ou alemã, e cada vez mais na escola de Jung, Van Gennep revela nos folklores religiosos os
signos de arquétipos inconscientes e de estruturas antropológicas permanentes. Através de uma
mística sempre ameaçada (segundo Bremond) ou de um folklore (para Van Gennep), o
religioso assume a imagem do marginal e do atemporal, nele, uma natureza profunda, estranha à
história, se combina com aquilo que uma sociedade rejeita para suas fronteiras.
       Este modelo, bem visível nesses dois autores, se reencontra depois sob outras formas
(o sagrado, o pânico, o inconsciente coletivo, etc).
       Explica-se, sem dúvida, pela posição que tinha o cristianismo na sociedade francesa
antes de 1939 (partilhado entre um movimento de interiorização com o Primauté du Spirituel          41
de Maritain (1927) ou Esprit de Mounier (1932) — e um positivismo religioso dos
tradicionalistas). Explica também que a história religiosa tenha sido "pensável" com
dificuldade dentro de uma história social e que tenha permanecido "aberrante" com relação à




                                                                                                    www.facete.com.br
história que se inventava, particularmente com relação à história sócio-econômica de Henri See
(1921-1929), de Simiand (1932), de Hamilton (1934-1936), de Marc Bloch (1939-1940) ou de
Ernest Labrousse. Porém, dirigindo cada vez mais as pesquisas que inspirava para o estudo das
correntes espirituais ou da cultura popular, este modelo abria, à história religiosa, um belo
fruto. A ciência constituía um campo de puros "fenómenos" religiosos, cujo sentido se retirava
para uma outra ordem, oculta. Ela os situava ao lado da etnologia, e ligava um exotismo do
interior a um essencial perdido, no território do imaginário ou do simbólico social. Ela podia,
assim, buscar na religião a metáfora de um fundo a-histórico da história.


                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
O modelo sociológico: a prática e o saber.

       Também é preciso ligar a uma arqueologia recente a importância que tomou, com
Gabriel Le Brás, a análise das práticas religiosas10. Ligado ao desenvolvimento da sociologia,
da etnologia, mas também do folklorismo11, este modelo de interpretação representa uma
reação francesa em favor das práticas sociológicas (pesquisas, etc), e contra as tipologias
teóricas de Troeltsch (1912), de Weber (1920) ou de Wach (1931). Supõe igualmente, porém,
ao lado do cristianismo, uma situação nova que remonta à época "moderna". Um passado
frequenta este presente.
       Com efeito, a prática, provavelmente, não tem o mesmo sentido no curso dos
diferentes períodos históricos. Durante o correr do século XVII, ela adquire uma função que
possuía, em muito menor grau, no século XIII ou no século XIV. O esboroamento das crenças
Prática Curricular IV



                                    em sociedades que deixam de ser religiosamente homogéneas torna ainda mais necessárias as
                                    referências objetivas: o crente se diferencia do incréu — ou o católico do protestante — pelas
                                    práticas. Tornando-se um elemento social de diferenciação religiosa, a prática ganha uma
                                    pertinência religiosa nova. A gente se reagrupa e a gente se conta em função deste critério.
                                           Hoje, quando toma a prática como uma mensuração quantitativa da religião, a
                                    sociologia faz ressurgir na ciência uma organização histórica da consciência cristã (que por outro
                                    lado não era própria do jansenismo). Acentua, também, um pressuposto já latente nessas
                                    origens velhas de quatro séculos: uma clivagem entre os gestos objetivos e a crença subjetiva.
                                    Já no século XVII, a crença começa a se dissociar da prática — fenómeno que não cessou de se
                                    acentuar desde então. Para se contarem e para marcar rupturas, os reformistas desconfiavam
                                    das doutrinas e insistiam nos atos sociais. Presentemente, nos trabalhos que levam em conta os
42                                  gestos, o interesse se volta para as práticas, porque elas representam uma realidade social, e tem
                                    como reverso uma desvalorização científica de sua significação dogmática (remetida aos
                                    "preconceitos" desmistificados pelo progresso ou às convicções privadas impossíveis de
                                    introduzir numa análise científica). A lógica de uma sociologia acresce, pois, o cisma entre os
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                                    fatos religiosos sociais e as doutrinas que pretendem explicar-lhes o sentido12.
                                           Em seguida, um olhar sociológico transformou as próprias crenças em fatos objetivos.
                                    Uma sociologia do conhecimento religioso desenvol- veu-se na proporção da retração do
                                    sentido para "o interior". O mesmo corte se encontra, então, no terreno, aparentemente oposto
                                    ao precedente, das pesquisas consagradas à ideologia. Porém, tampouco aí podemos dissociar,
                                    em nossa relação dos historiadores com o século XVII, o conhecimento que temos dela e a
                                    influência que exerce sobre nossos métodos de pesquisa. 0 olhar sociológico voltado para as
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                                    ideologias e os aparelhamen-tos conceituais que organizam nossa análise cultural (por exemplo,
                                    a distinção entre elites e massas, o critério de "ignorância" para julgar a "descris-tianização",
                                    etc. são ainda testemunhas do. função social que o saber recebeu no decorrer do século XVII.
                                    Quando a diversidade dos Estados europeus sucedeu à unanimidade religiosa da "cristandade",
                                    foi necessário um saber que tomasse o lugar das crenças e permitisse definir cada grupo ou
                                    cada país distinguindo-o dos outros. Nesses tempos da imprensa, da alfabetização (ainda fraca) e
                                    da escolarização, o conhecimento se torna um instrumento de unidade e de diferenciação: um
                                    corpus de conhecimentos ou um grau de saber recorta um corpo ou isola um nível social, ao
                                    mesmo tempo que a ignorância é associada à delinquência como causa desta, ou à massa
                                    como ao seu próprio indício. O que é novo não são estas divisões sociais, mas, o fato de que um
                                    saber ou uma doutrina constituíam o meio de as colocar, ou de as manter ou de as trocar.
                                    Também entre Igrejas, as diferenças entre saberes tornam-se decisivas. A determinação
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daquilo que se conhece, quando se é Católico ou Reformado, fornece à comunidade seu modo
de identificação e distinção. Os catecismos mudam, remodelados pela urgência dessas
definições que circunscrevem ao mesmo tempo os conteúdos intelectuais e os limites sócio-
institucionais.
        Hoje, trabalhos novíssimos, como o de R. Taveneaux, reconstituem as redes sócio-
culturais, esboçam as circulações mentais e podem estabelecer a geografia de grupos ocultos, a
partir dos traços e dos pontos de ressurgência das idéias religiosas, da mesma maneira pela qual
se determinam circuitos fisiológicos através das viagens de um elemento visível na opacidade
do corpo13. Em suma, refazem caminhos trilhados ontem pelo uso que uma sociedade fazia do
saber. Privilegiando nessas idéias seu papel passado, explorando-as, por sua vez, como restos (e
às vezes os únicos visíveis) de cortes entre grupamentos, R. Taveneaux explicita a utilidade       43
que já tinham ontem subrepticiamente — o serviço que prestavam às sociedades que as
veiculavam —, mas é ao preço do seu sentido "doutrinal" — aquele que lhe davam ainda os
contemporâneos ou aquele que elas podem manter. O desmembramento dos métodos teve,




                                                                                                   www.facete.com.br
desde então, como efeito separar cada vez mais, em cada obra doutrinal, um "objeto"
sociológico visado pelo historiador e um "objeto" teórico que parece abandonado a uma análise
literária.

Um modelo cultural: das "idéias"ao "inconsciente coletivo".
        Baczko o observou: "a história das idéias" nasceu de reações comuns, particularmente
contra o parcelamento que levou, no âmbito de uma obra ou de um período, à
compartimentação das disciplinas. Assim, em lugar de fragmentar arbitrariamente a obra de
Newton e de repartir suas parcelas entre especialidades diferentes, segundo tratem do Apoca-

                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
lipse, dos calendários, da "filosofia natural" ou da ótica, procuramos compreender sua unidade e
seus princípios organizadores14. Do mesmo modo recusamos explicar uma obra em termos de
influências, de esgotar assim um corpus, remetendo-o ao indefinido de suas origens, e de
provocar, por esse recuo sem fim através de uma poeira de fragmentos, o desaparecimento das
totalidades, das delimitações, das rupturas que constituem a história.
        Como este estudo se confere os seus métodos? Desde a criação, nos Estados Unidos, do
Journal of the History of Ideas (1940) em New York-Lancaster, a mais antiga das revistas que
lhe foram consagradas, este estudo busca a si mesmo. Não tem sequer um nome: na Alemanha, é
a Geistesgesc-hichte; nos Estados Unidos, a Intelectual History; na França, a Hutoire des
Mentalités; na U.R.S.S., a História do Pensamento.
        Baczko poderia, entre estas tendências, reconhecer origens filosóficas comuns,
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                                    longinquamente hegelianas, através de Dilthey, Lukacs, Weber, Croce, Huizinga, Cassirer,
                                    Groethuysen, etc, até os anos 1920-1930. As idéias tornam-se uma mediação entre o Espírito
                                    (o Geist) e a realidade sócio-política. Supõe-se que constituam um nível onde se reencontrem
                                    o corpo da história e sua consciência, o Zeitgeist. Entretanto, a simplicidade do postulado se
                                    decompõe, diante da análise, em problemas complexos e aparentemente insolúveis. Por
                                    exemplo, qual é o verdadeiro Newton? De que tipo é a unidade que se postula, a de sua obra,
                                    e, portanto, a de um período? Que suporte fornece a tantas "idéias" diferentes a unidade em-
                                    prestada às "idéias do tempo", à "mentalidade" ou a uma "consciência co-letiva"
                                    contemporânea?
                                           Esta unidade procurada, quer dizer, o objeto científico, se presta à discussão. Deseja-se
                                    ultrapassar a concepção individualista que recorta e reúne os escritos segundo sua "pertença" a
44                                  um mesmo "autor", que, então, fornece à biografia o poder de definir uma unidade
                                    ideológica16, e supõe que a um homem corresponda um pensamento (como a arquitetura
                                    interpretativa que repete o mesmo singular nos três andares do plano clássico: o Homem, a
                                    obra, o pensamento). Tentaram-se identificar as totalidades mentais históricas: por exemplo, a
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                                    Weltanschauug em Max Weber (concepção do universo ou visão do mundo), o paradigma
                                    científico em T. S. Kuhn, a Unit Idea em A. O. Lovejoy17, etc. Essas unidades de medida se
                                    referem ao que Lévi-Strauss chamará de a sociedade pensada em oposição à sociedade vivida.
                                    Elas tendem a fazer ressaltar dos conjuntos "sancionados" por uma época, quer dizer das
                                    coerências recebidas, implicadas pelo "percebido" ou pelo "pensado" de um tempo, sistemas
                                    culturais suscetíveis de fundar uma periodização ou uma diferenciação dos tempos18. Desta
                                    maneira se opera uma classificação do material na base dos inícios e fins ideológicos, ou
                                    daquilo que Bachelard chama de "rupturas epistemológicas"19.
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                                           As ambiguidades desses sistemas de interpretação foram vigorosamente criticadas,
                                    particularmente por Michel Foucault20. Elas se prendem, essencialmente, ao estatuto incerto,
                                    nem carne nem peixe, dessas "totalidades" que não são legíveis na superfície dos textos, mas no
                                    interior deles, realidades invisíveis que conduziriam os fenômenos. Em nome de quê supor e
                                    como determinar essas unidades a meio-caminho entre o consciente e o económico? Elas
                                    ocupam o lugar de uma "alma coletiva" e permanecem como vestígio de um ontologismo. Logo
                                    serão substituídas por um "inconsciente coletivo". Na impossibilidade de poder ser realmente
                                    controlável, esse sub-solo é extensível; pode se estender ou contrair à vontade; tem a
                                    amplitude dos fenómenos a "compreender". De fato, mais do que ser um instrumento de
                                    análise, representa a necessidade que tem dele o historiador; significa uma necessidade da
                                    operação científica, e não uma realidade apreensível em seu objeto.
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       Esta concepção manifesta que é impossível eliminar do trabalho historiográfico as
ideologias que nele habitam. Porém, dando-lhes o lugar de um objeto, isolando-as das
estruturas sócio-econômicas, supondo, além disso, que as "idéias" funcionem da mesma
maneira que essas estruturas, paralelamente e num outro nível21, a "história das idéias" não
pode encontrar a inconsistente realidade na qual sonha descobrir uma coerência autônoma,
senão através da forma de um "inconsciente". O que ela manifesta realmente, é o inconsciente
dos historiadores, ou mais exatamente, do grupo ao qual pertencem. A vontade de definir
ideologicamente a história é particularidade de uma elite social. Ela se fundamenta numa
divisão entre as idéias e o trabalho. Costuma negligenciar igualmente a relação entre as ciências
e suas técnicas, entre a ideologia dos historiadores e suas práticas, entre as idéias e sua
localização ou as condições de sua produção nos conflitos sócio-econômicos de uma sociedade,        45
etc. Nada espantoso, portanto, que esta divisão, ressurgência e reforço de um "elitismo" já
bem definido em fins do século XVIII (François Furet, entre outros, acentuou-o fre-
quentemente), tenha como símbolo a justaposição entre uma "história das idéias" e uma




                                                                                                    www.facete.com.br
"história económica".
       A procura de uma coerência própria a um nível ideológico remete, pois, ao lugar
daqueles que a elaboram no século XX. Gramsci, sem dúvida, indica sua verdadeira proporção,
quando, reexaminando a história das idéias, a substiui pela história dos "intelectuais
orgânicos", grupo particular, e do qual analisa a relação entre sua "posição" social e os
discursos que eles produzem22.

                     II. PRÁTICAS HISTÓRICAS E PRÁXIS SOCIAL

       O exame desses "modelos" (dos quais se poderia prolongar a lista e a análise) revela dois

                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
problemas conexos: a evanescência da ideologia como realidade a explicar, e sua reintrodução
como referência em função da qual se elabora uma historiografia. Enquanto objeto de estudo,
ela parece eliminada — ou sempre malograda — pelos métodos atuais de pesquisa. Por outro
lado, ressurgiu como o pressuposto dos "modelos" que caracterizam um tipo de explicação;
está implícita em cada sistema de interpretação, pelas pertinências que ele retém, pelos
procedimentos que lhe são adequados, pelas dificuldades técnicas encontradas e pelos
resultados obtidos. Dito de outra maneira, aquele que faz história, hoje, parece ter perdido o
meio de apreender uma afirmação de sentido como um objeto de seu trabalho, para encontrar
essa afirmação no próprio modo de sua atividade. Aquilo que desaparece do produto aparece
na produção.
       Sem dúvida, o termo ideologia não mais convém para designar a forma sob a qual a
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                                    significação ressurgiu na ótica ou no "olhar" do historiador. O uso corrente deste termo data
                                    do momento em que a linguagem se objetivou; quando, reciprocamente, os problemas de
                                    sentido foram deslocados do lado da operação e colocados em termos de escolhas históricas
                                    investidas no processo científico. Revolução fundamental, é preciso dizê-lo imediatamente,
                                    pois ela substitui o fazer historiográfico ao dado histórico. Ela transforma a pesquisa de um
                                    sentido desvendado pela realidade observada, em análise das opções ou das organizações de
                                    sentido implicadas por operações interpretativas.
                                           Isto não significa, de forma alguma, que a história renuncia à realidade e se volta para si
                                    mesma, contentando-se em observar os seus passos. Quer dizer, antes, nós o veremos, que a
                                    relação com o real mudou. E se o sentido não pode ser apreendido sob a forma de um
                                    conhecimento particular que seria extraído do real ou que lhe seria acrescentado, é porque
46                                  todo "fato histórico" resulta de uma práxis, porque ela já é o signo de um ato e, portanto, a
                                    afirmação de um sentido. Este resulta dos procedimentos que permitiram articular um modo de
                                    compreensão num discurso de "fatos"23.
                                           Antes de esclarecer esta situação epistemológica, que não permite mais buscar o
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                                    sentido sob a aparência de uma ideologia a mais ou de um dado da história, é preciso lembrar
                                    os seus indícios na historiografia atual. Isto significa retomar, através dos estudos históricos, o
                                    problema levantado, anteriormente, pela tese clássica de Raymond Aron24. Porém, não nos
                                    podemos contentar, como ele o fazia, em buscar a interpretação histórica apenas ao nível da
                                    filosofia implícita dos historiadores, porque, então, se chega a um jogo indefinido de idéias
                                    relativizadas umas pelas outras, jogo reservado a uma elite e combinado com a manutenção de
                                    uma ordem estabelecida. A organização de cada historiografia em função de óticas particulares
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                                    e diversas se refere a atos históricos, fundadores de sentidos e ins-tauradores de ciências. Sob
                                    este aspecto, quando a história leva em consideração o "fazer" ("fazer história"), encontra ao
                                    mesmo tempo seu enraizamento na ação que "faz história". Da mesma forma que o discurso,
                                    hoje, não pode ser desligado de sua produção, tampouco o pode ser a práxis política,
                                    económica ou religiosa, que muda as sociedades e que, num momento dado, torna possível tal
                                    ou qual tipo de compreensão científica.


                                    Dos "preconceitos" históricos às situações que eles revelam.
                                           A distância do tempo, e, sem dúvida, uma reflexão mais epistemológica permitem hoje
                                    revelar os preconceitos que limitaram a historiografia mais recente. Eles aparecem tanto na
                                    escolha dos assuntos quanto na determinação dos objetivos dados ao estudo. Mas, sempre, estão
                                    ligados às situações que conferem ao historiador uma posição particular com relação a
Prática Curricular IV



realidades religiosas.
       Assim, os conflitos entre a Igreja e o Estado ou os debates acerca da escola "livre" e da
escola leiga, entre outros efeitos, tiveram o de privilegiar, dentre os fenómenos religiosos,
aqueles que se apresentavam sob a forma de uma oposição às ortodoxias, e, por consequência,
de favorecer a história das "heresias", privilegiando-as contra a das instituições eclesiásticas e
das "ortodoxias". Menos do que as intenções pessoais, então, as localizações sócio-culturais
mobilizam o interesse e o tipo de pesquisa.
       Por exemplo, no estudo do início do século XVI prendemo-nos à "pré-reforma" mais
do que às correntes escolásticas, no entanto, majoritárias e igualmente importantes. Considera-
se mais o "humanismo" sob um aspecto de ruptura com relação à tradição cristã, do que
inscrito, também, no prolongamento da patrística, ou de reformismos sucessivos, ou de uma            47
série de retornos à Antiguidade no decurso da Idade Média25. Da mesma forma, identificou-se
o século XVII, religioso, com o jansenismo, "rebelião" profética, quando ele é, apenas, um
dos fenómenos da época, e, quando muitos dos elementos considerados como característicos




                                                                                                     www.facete.com.br
do jansenismo se encontram em outras correntes espirituais26. Ou, ainda, da obra dos grandes
"sábios" dos séculos XVI e XVII suprimiram-se seus escritos teológicos ou exegéticos,
considerados como restos de épocas encerradas, indignos de interessar uma sociedade de
progresso27, etc.
       A análise recortava, então, no tecido da história, "assuntos" relativos aos lugares de
observação. Não é de espantar que os estudos visando corrigir esses recortes, para fazer
prevalescer outros, provenham não apenas de tradições ideológicas diferentes, mas de lugares
justapostos e frequentemente opostos aos primeiros, por exemplo, de meios eclesiásticos ou de


                                                                                                     Faculdade de Educação Teológica -
Centros estranhos aos quadros da Universidade francesa. Assim, os tratados do Pe. Bernard-
Maítre e outros, até o grande livro de Massaut, sobre os teólogos "conservadores" no início do
século XVI28; os trabalhos do Pe. de Lubac ou do Pe. Bouyer sobre a repetição da exegese
apostólica e patrística do humanismo erasmiano29 ; e do Gilson sobre o vocabulário tradicional
retomado por Descartes30; o de Bremond ou de tantos outros, desde então, dentro do amplo
mostruário de correntes místicas do qual o jansenis-mo faz parte. A contribuição considerável
destes estudos não disfarça seu caráter mais ou menos discretamente apologético. Talvez
mesmo a riqueza de seu conteúdo tenha se tornado possível graças a esse aspecto de réplica ou
de cruzada, que os assemelhava a um cavalo de Tróia.
       A marca das compartimentações sócio-ideológicas é particularmente visível na
historiografia religiosa francesa. É um traço, muitas vezes sublinhado, da sociedade francesa. Os
trabalhos científicos forneciam, pois, a posição universitária neste mapa. Privilegiavam os
Prática Curricular IV



                                    "católicos liberais" frente aos "católicos intransigentes" (à parte a obra de Rene Rémond, estes
                                    últimos foram estudados principalmente por ingleses ou norte-americanos, que não eram
                                    afetados da mesma forma pelos problemas franceses31); ou, então, preferiam ao "modernismo",
                                    científico ou social, frente ao "inte-grismo" (do qual Poulat acaba de mostrar o interesse
                                    histórico32). Os debates internos da sociedade francesa provocaram um fixismo historiográfico
                                    e, durante muito tempo, a reprodução indefinida de cortes formais, mesmo quando uma nova
                                    erudição lhes modificava o conteúdo.
                                           Este esquematísmo teve como efeito um reaproveitamento presente dos "partidos" antes
                                    opostos — Reformados ou Católicos, Jansenistas ou Jesuítas, modernistas ou integristas, etc. E
                                    deles fizeram bandeiras, menos de convicções pessoais do que de situações. As polêmicas
                                    antigas organizaram, sem o saber, a pesquisa científica. Os historiadores chegaram a "me-ter-se
48                                  na sotaina, na cogula ou na toga de seus antecessores, sem se dar conta de que eram vestes de
                                    polemistas ou de pregadores, cada um defendendo sua causa33".
                                           Alguns silêncios permanecem hoje como vestígios desse passado recente, até mesmo em
                                    estudos magistrais sobre a sociedade e o pensamento clássicos: a discreção de Goubert a respeito
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                                    das teologias34 ou mesmo a respeito da religião35; a ausência de referência à literatura religiosa
                                    ha interpretação que M. Foucault faz da episteme clássica36. Mas, também, e reciprocamente, o
                                    silêncio do Abade Cognet a respeito da história sócio-eco-nômica em La Spiritualité Moderne31,
                                    ou ainda, ao contrário, em numerosos trabalhos consagrados às atividades temporais nas
                                    Abadias, a pressão social que fez tantos historiadores clérigos desatentos à vida religiosa destas
                                    mesmas Abadias38.
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                                    A mutação dos "preconceitos" em objetos de estudo.
                                           Afastados das situações conflitantes, cada vez mais distantes, é mais fácil para nós
                                    revelar a sua marca nestes estudos. Estamos, nós mesmos, adiante disto. À medida que se
                                    diluem as divisões que, ontem, organizaram ao mesmo tempo uma época e sua historiografia,
                                    elas podem ser analisadas nos próprios trabalhos deste tempo. O desaparecimento do período
                                    condiciona uma tal lucidez, mas esta compreensão, pretensamente "melhor", que de agora em
                                    diante é a nossa, se refere ao fato de estarmos deslocados: nossa situação nos permite conhecer
                                    a deles de outra maneira que eles a puderam conhecer.
                                           O que torna possível a relativização desses debates de ontem, e, portanto, o balizamento
                                    das imposições que exerceram sobre o discurso científico, é a posição nova da religião na
                                    nossa sociedade. Bem longe de ser uma força, uma ameaça, um conjunto de grupos e de
                                    corpos constituídos, como era o caso de ontem, o cristianismo francês se livra hoje de seu peso
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social, liberando-se dos fracionamentos recentes. Ele deixa de constituir lugares próprios,
vigorosos, porém fechados, na nação. Torna-se aí uma região mal definida e mal conhecida
pela cultura francesa. Uma historiografia religiosa pode, desde então, fazer-se o objeto de um
novo exotismo, semelhante àquele que conduz o etnólogo aos "selvagens" do interior ou aos
feiticeiros franceses. Socialmente, o cristianismo existia em mais alto grau, quando, ontem, se
lhe dava menos espaço no Tempo do que se lhe dá no Mundo hoje. Quando se tratava de
adversários, de oponentes, ou de grupos fechados a respeito de sua própria vitalidade, ficava-se
calado ou se era parcial. Fala-se mais dele agora que não é mais uma força e, que, por
necessidade se "abriu", "adaptou" e conformou com a situação na qual se tornou o objeto de
uma curiosidade "imparcial" e o signo longínquo de "valores39". As renovações da história
religiosa não significam, pois, uma recrudescência do cristianismo, mas a diluição de suas         49
instituições e de suas doutrinas nas novas estruturas da nação — sua passagem de estado de
corpo opaco e resistente a um estado de transparência e de movimento.
       Os "preconceitos" da história ou dos historiadores desaparecem quando se modifica a




                                                                                                   www.facete.com.br
situação à qual se referem. A organização ontem viva de uma sociedade, investida na ótica de
seus historiadores, se transforma, então, num passado suscetível de ser estudado. Ela muda de
estatuto: deixando de ser, entre os autores, aquilo em função de que eles pensavam, passa para
o lado do objeto que, como novos autores, temos que tornar pensável. Em função de uma
outra situação, desde então nos é possível examinar como "preconceitos", ou simplesmente
como os dados de um tempo, o modo de compreensão de nossos predecessores, de revelar suas
relações com outros elementos da mesma época, e de inscrever sua historiografia na história
que constitui o objeto de nossa própria historiografia40.


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
       Sob este aspecto, os modos de compreensão próprios da historiografia de ontem se
encontram na mesma posição que as ideologias ou as crenças cristãs. Estas últimas representam
apenas uma distância maior percorrida pela convicção que forneceu a um passado os seus
princípios de inteligibilidade, e que hoje deve ser compreendida de acordo com outros quadros
de referência. O afastamento entre essas duas posições indica o próprio problema do
procedimento historiográfico: a relação entre o "sentido" que se tornou um objeto e o
"sentido" que hoje permite compreendê-lo.
       Desde que se procure o "sentido histórico" de uma ideologia ou de um acontecimento,
encontram-se não apenas métodos, ideias ou uma maneira de compreender, mas a sociedade à
qual se refere a definição daquilo que tem "sentido". Se existe, pois, uma função histórica, que
especifica a incessante confrontação entre um passado e um presente, quer dizer, entre aquilo
que organizou a vida ou o pensamento e aquilo que hoje permite pensá-los, existe uma série
Prática Curricular IV



                                    indefinida de "sentidos históricos". A crença oferece apenas um caso extremo de relação entre
                                    dois sistemas de compreensão através da passagem de uma sociedade ainda religiosa (a do
                                    século XVI, por exemplo) a uma sociedade, a nossa, onde o "pensávei"se secula-rizou.


                                                             III. A HISTÓRIA, DISCURSO E REALIDADE


                                    Duas posições do real.
                                           Se recapitularmos esses dados, a situação da historiografia faz surgir a interrogação
                                    sobre o real em duas posições bem diferentes do procedimento científico: o real enquanto é o
                                    conhecido (aquilo que o historiador estuda, compreende ou "ressuscita" de uma sociedade
                                    passada) e o real enquanto implicado pela operação científica (a sociedade presente a qual se
50                                  refere a problemática do historiador, seus procedimentos, seus modos de compreensão e,
                                    finalmente, uma prática do sentido). De um lado o real é o resultado da análise e, de outro, é o
                                    seu postulado. Estas duas formas da realidade não podem ser nem eliminadas nem reduzidas
                                    uma a outra. A ciência histórica existe, precisamente, na sua relação. Ela tem como obje-tivo
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                                    próprio desenvolvê-la em um discurso. Certamente, segundo os períodos ou os grupos, ela se
                                    mobiliza, de preferência, em um de seus dois pólos.
                                           Com efeito, existem dois tipos de história, conforme prevaleça a atenção a uma destas
                                    posições do real. Mesmo que as imbricações dessas duas espécies predominem nos casos
                                    puros, elas são facilmente reconhecíveis. Um primeiro tipo de história se interroga sobre o que
                                    é pensável e sobre as condições de compreensão; a outra pretende encontrar o vivido, exumado
                                    graças a um conhecimento do passado.
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                                           A primeira dessas problemáticas examina sua capacidade de tornar pensáveis os
                                    documentos de que o historiador faz um inventário. Ela obedece à necessidade de elaborar
                                    modelos que permitam constituir e compreender séries de documentos: modelos econômicos,
                                    modelos culturais, etc. Esta perspectiva, cada vez mais comum hoje em dia, leva o historiador
                                    às hipóteses metodológicas de seu trabalho, à sua revisão através de intercâmbios
                                    pluridisciplinares, aos princípios de inteligibilidade suscetíveis de instaurar pertinências e de
                                    produzir "fatos" e, finalmente, à sua situação epistemológica presente no conjunto das
                                    pesquisas características da sociedade onde trabalha41.
                                           A outra tendência privilegiada a relação do historiador com um vivido, quer dizer, a
                                    possibilidade de fazer reviver ou de "ressuscitar" um passado. Ela quer restaurar um
                                    esquecimento e encontrar os homens através dos traços que eles deixaram. Implica, também,
                                    um gênero literário próprio: o relato, enquanto a primeira, muito menos descritiva, confronta
Prática Curricular IV



mais as séries que resultam de diferentes tipos de métodos.
          Entre estas duas formas existe tensão, mas não oposição. Pois o historiador está numa
posição instável. Se dá prioridade a um resultado "obje-tivo", se visa colocar no seu discurso a
realidade de uma sociedade passada e a reviver um desaparecido, ele reconhece, entretanto,
nessa reconstituição, a ordem e o efeito de seu próprio trabalho. O discurso destinado a dizer o
outro permanece seu discurso e o espelho de sua operação. Inversamente, quando ele retorna
às suas práticas e lhes examina os postulados para renová-las, o historiador descobre nelas
imposições que se originaram bem antes do seu presente e que remontam a organizações
anteriores, das quais, seu trabalho é o sintoma e não a fonte. Da mesma forma que o "modelo"
da sociologia religiosa implica (entre outros) o novo estatuto da prática ou do conhecimento
no século XVII, também os métodos atuais trazem, apagadas como acontecimentos e                    51
transformadas em códigos ou em problemáticas de pesquisa, antigas estruturações e histórias
esquecidas. Assim, fundada sobre o corte entre um passado, que é seu objeto, e um presente,
que é o lugar de sua prática, a história não pára de encontrar o presente no seu objeto. e o




                                                                                                   www.facete.com.br
passado, nas suas práticas. Ela é habitada pela estranheza que procura, e impõe sua lei às
regiões longínquas que conquista, acreditando dar-lhes a vida.


O intermédio, situação da história e problema do real.
          Um incessante trabalho de diferenciação (entre acontecimentos, entre períodos, entre
dados ou entre séries, etc.) é, em história, a condição de todo relacionamento dos elementos
distintos e, portanto, de sua compreensão. Mas este trabalho se apóia na diferença entre um
presente e um passado. Supõe sempre o ato que propõe uma novidade, desligando-se de uma


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
tradição, para considerá-la como um objeto de conhecimento. O corte definitivo em qualquer
ciência (uma exclusão é sempre necessária ao estabelecimento de um rigor) toma, em história, a
forma de um limite original, que constitui uma realidade como "passada" e que se explicita nas
técnicas proporcionadas à tarefa de "fazer história". Ora, esta cesura parece negada pela
operação que funda, já que este "passado" retorna na prática historiográfica. O morto ressurge
dentro do trabalho que postulava seu desaparecimento e a possibilidade de analisá-lo como um
objeto.
          O estatuto desse limite, necessário e denegado, caracteriza a história como ciência
humana. Efetivamente, ela é humana, não enquanto tem o homem por objeto, mas porque sua
prática reintroduz no "sujeito" da ciência aquilo que se havia diferenciado como seu objeto.
Seu funcionamento remete os dois pólos do real, um ao outro, A atividade produtora e o
período conhecido se alteram reciprocamente. A cesura que foi colocada entre eles por uma
Prática Curricular IV



                                    decisão instauradora do trabalho científico (e fonte de "objetividade") começa a mover-se. Ela
                                    se inverte, se desloca, avança. Este movimento se deve, precisamente, ao fato de que ela foi
                                    proposta e de que não pode ser mantida.
                                           Durante a movimentação que desloca os termos da relação inicial, esta própria relação
                                    é o lugar da operação científica. Mas é um lugar cujas mutações, como um flutuador no mar,
                                    seguem os movimentos mais amplos das sociedades, suas revoluções económicas e políticas, as
                                    relações complexas entre gerações ou entre classes, etc. A relação científica reproduz o
                                    trabalho que assegura a certos grupos a dominação sobre os outros, a ponto de fazer deles
                                    objetos de sua posse; mas atesta, também, o trabalho dos mortos que, por uma espécie de
                                    energia cinética, se perpetua, silenciosamente, com as sobrevivências de estruturas antigas,
                                    "continuando", diz Marx, sua "vida vegetativa" (Fortvegetation42).
52                                         O historiador não escapa dessas latências e dessa gravidade de um passado ainda
                                    presente (inércia que o "tradicionalista" chamará de "continuidade", tendo a esperança de
                                    apresentá-la como a "verdade" da história). Ele não pode, entretanto, fazer abstração dos
                                    distanciamentos e das exclusividades que definem a época ou a categoria social à qual
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                                    pertence. Em sua operação as permanências ocultas e as rupturas instauradoras formam
                                    amálgama. A história o mostra tanto mais quanto tem por tarefa de as diferenciar43. A frágil e
                                    necessária fronteira entre um objeto passado e uma práxis presente se movimenta, desde que,
                                    ao postulado fictício de um dado a compreender, se substitua o exame de uma operação
                                    sempre afetada por determinismos e sempre a retomar, sempre dependente do lugar onde se
                                    efetua numa sociedade e, não obstante, especificada por um problema, métodos e uma função
                                    próprios.
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                                           A história está, pois, em jogo nessas fronteiras que articulam uma sociedade com o seu
                                    passado e o ato de distinguir-se dele; nessas linhas que traçam a imagem de uma atualidade,
                                    demarcando-a de seu outro, mas que atenua ou modifica, continuamente, o retorno do
                                    "passado". Como na pintura de Miró, o traço que desenha diferenças através de contornos e que
                                    torna possível uma escrita (um discurso e uma "historicização") é atravessado por um
                                    movimento que lhe é contrário. Ele é vibração de limites. A relação que organiza a história é
                                    uma relação mutável, na qual nenhum dos (dois) termos é o referente estável.


                                    A relação com o outro.
                                           Essa situação fundamental se manifesta hoje de várias maneiras, relativas à forma ou ao
                                    conteúdo da historiografia.
                                           Por exemplo, a análise de duração sócio-econômica ou cultural, breve ou longa, é
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precedida, na obra de história, desses Prefácios onde o historiador conta o percurso de uma
pesquisa. O livro, feito de duas metades desiguais, mas simbólicas, acrescenta, à história de um
passado, o itinerário de um procedimento. Já Lucien Febvre inaugurou a apresentação de
Lutero pelo exame de sua própria situação de historiador na série de estudos consagrados ao seu
objeto (1928). Ele se inscreveu na evolução de uma história presente, ao mesmo tempo em que
colocou Lutero numa série análoga, mais antiga. A partir daí não é mais, apenas, o lugar de
onde fala que o historiador particulariza, mas o movimento que fez, ou o trabalho que se
operou nos seus métodos e nas suas questões. Pierre Vilar e Emmanuel Le Roy Ladurie, cujas
obras dominam a historiografia presente, justapõem, assim, o traçado de uma curva
metodológica de seu empreendimento e aquele das transformações estruturais da Catalunha ou
do Languedoc durante quatro séculos44. A verdade da história está nesse "intermédio", cujos        53
termos uma obra propõe sem poder criar um objeto que se substitua a essa relação. Em
Soriano, a análise dos contos de Perrault torna-se ela própria o relato ou a confissão de uma
pesquisa, de maneira que o objeto de estudo, fragmentado por sondagens metodológicas




                                                                                                   www.facete.com.br
heterogêneas, encontra sua unidade na operação onde se combinam sem cessar as ações do
autor e as resistências de seu material45.
       Dessa tensão interna, motor da explicação histórica, é preciso aproximar um outro
aspecto, não menos surpreendente, das pesquisas atuais: a confrontação de um método
interpretativo com seu "outro" ou, mais precisamente, o ato de evidenciar a relação que liga
um modo do compreender com o incompreensível que ele "faz surgir". Por exemplo, a imensa
erudição cultural de Alphonse Dupront extrai, por toda parte da história, um "pânico",
profundidade selvagem e sagrada. Se, às vezes, essa "alma pânica do coletivo", esta pulsão


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
originária, ou esse neutro opaco de um "mental coletivo" toma ares de um referente, de um
significado ou de um solo da história, é por uma espécie de ficção que se apóia nas concepções
mais discutíveis de Otto ou de Jung. Pois, na realidade, esse "pânico" é o nome que um
conhecimento prodigiosamente extenso dá ao seu próprio limite, ao desconhecido que revela
e encontra no seu avanço, à necessidade que faz aparecer o progresso de uma ciência. Uma
espessura da história é assim designada (e não eliminada, como alhures), mas por um
"irracional" conformado à investigação que se colocou sob o signo de um conhecimento das
idéias e das formas culturais: "O não-histórico, diz Dupront, é indispensável ao histórico46".
       Pierre Vilar apresenta um fenômeno análogo: a própria existência do seu assunto — a
Catalunha — é o enigma que uma rigorosa análise sócioeconómica faz surgir. De que maneira a
Catalunha se constitui como unidade própria? Como esta unidade muda com o aparecimento,
também ele problemático, da unidade "espanhola"? Com estas questões a notável
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                                    demonstração de P. Vilar, que converteu a teoria económica em análise histórica para apreender
                                    uma "história profunda", a partir das variações económicas, encontra o seu outro. Ela
                                    desemboca em enigmas: "a formação de grupos com forte consciência de comunidade", a
                                    natureza da "personalidade regional", ou nacional, e de um "querer político47". O rigor de sua
                                    interpretação segrega, como ser resto ou como aquilo que se lhe torna incompreensível, a
                                    unidade de consciência cujas condições e funcionamento foram, não obstante, tão
                                    vigorosamente esclarecidos.
                                           Não é surpreendente que o problema aberto pela irrupção do outro nos procedimentos
                                    científicos apareça, igualmente, nos seus objetos. A pesquisa não se põe mais, apenas, em busca
                                    das compreensões que tiveram êxito. Retoma aos objetos que não compreende mais. Procura
                                    medir aquilo que perde, fortalecendo suas exigências e seus métodos. A História da Loucura
54                                  criou o signo desse momento em que uma cientificidade ampliada se confronta com as zonas
                                    que abandona como seu resíduo ou reverso ininteligível48. A ciência histórica vê crescer, com seu
                                    progresso, as regiões silenciosas do que não atinge. É, também, o momento em que outras
                                    ciências fazem a dedução dos prejuízos que têm origem nos seus sucessos. O livro de Michel
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                                    Foucault marca essa interrogação. Ele a exprime através de um objeto perdido pela história,
                                    mas impossível de suprimir: a loucura, constituída pelas exclusões da razão. Certamente,
                                    depois disso, o esforço do autor para dar à loucura sua linguagem própria não pode chegar
                                    senão a um fracasso e a se contradizer; ele vacila entre a "recuperação" da loucura numa
                                    compreensão de um novo tipo, e o crescimento indefinido do signo abstrato (a loucura),
                                    destinado a designar uma casa vazia, que não poderia obter da historiografia seu
                                    preenchimento49. Este vazio, porém, permanece aberto diante da razão científica sob a forma de
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                                    objetos que ela contorna sem atingir. Os estudos consagrados à feitiçaria, ao milagre, à
                                    loucura, à cultura "selvagem", etc. se multiplicaram depois disto. Eles designam um "vis-à-
                                    vis" cuja inquietante estranheza a etnologia e a psicanálise permitiram â história explicitar. A
                                    "razão" científica está indissoluvelmente casada com a realidade que retoma, como sua sombra
                                    e seu outro, no momento em que a exclui.
                                           Essa mobilização da historiografia nos limites que especificam e relativizam seu discurso
                                    se reconhece, ainda, sob a forma mais epistemológica dos trabalhos consagrados aos modos de
                                    diferenciação entre ciências. Também, nesse caso, Michel Foucault tem valor de signo.
                                    Retomando as análises anteriores, as de Canguilhem em particular, mostra como a história se
                                    recorta (e se define) em função de uma combinação sincrônica de discursos que se
                                    contradistinguem mutuamente e remetem às regras comuns de diferenciação50. Quaisquer que
                                    sejam as posições próprias do autor, sua obra descreve e precipita o movimento que leva a
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história a se tornar um trabalho sobre o limite: a se situar com relação a outros discursos, a
colocar a discursividade na sua relação com um eliminado, a medir os resultados em função dos
objetos que lhe escapam; mas também, a instaurar continuidades isolando séries, a
particularizar métodos, diferenciando os objetos distintos que ela discerne num mesmo fato, a
revisar e a comparar as periodizações diferentes, que fazem aparecer diversos tipos de análise,
etc. De agora em diante, "o problema não é mais da tradição e do vestígio, mas do recorte e do
limite".
       Falemos antes de limite ou de diferença do que de descontinuidade (termo muito
ambíguo porque parece postular a evidência de um corte na realidade). É preciso dizer, então,
que o limite se torna, "ao mesmo tempo instrumento e objeto de pesquisa51". Conceito
operatório da prática historiográfica, ele é o instrumento do seu trabalho e o lugar do exame       55
metodológico.

O discurso da história.




                                                                                                    www.facete.com.br
       Mais um passo e a história será encarada como um texto que organiza unidades de
sentido e nelas opera transformações cujas regras são determináveis. Efetivamente, se a
historiografia pode recorrer aos procedimentos semióticos para renovar suas práticas, ela
mesma se lhe oferece como um objeto, na medida em que constitui um relato ou um discurso
próprio.
       Talvez, até agora, os ensaios consagrados à história, nesta perspectiva, não sejam
absolutamente convincentes, de vez que postulam a univocidade do gênero "histórico" através
dos tempos. Assim faz Roland Barthes quando se pergunta se "a narração dos acontecimentos

                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
passados, submetida... à sanção da "ciência" histórica, colocada sob a caução imperiosa do
"real", justificada por princípios de exposição "racional", ... difere verdadeiramente, por algum
traço específico, por uma pertinência indubitável, da narração imaginária, tal como se pode
encontrar na epopéia, no romance, no drama52". Querer responder a esta questão pelo simples
exame de alguns "historiadores clássicos" — Heródoto, Maquiavel, Bossuet e Miche-let —, não
significa supor, muito rapidamente, a homologia entre estes discursos; lançar mão, muito
facilmente, dos exemplos mais próximos da narração mais afastada das pesquisas presentes;
tomar o discurso fora do gesto que o constitui, numa relação específica com a realidade
(passada) na qual ele se distingue, e não levar em consideração, por conseguinte, os modos
sucessivos dessa relação; finalmente, denegar o movimento atual que faz deste discurso
científico a exposição das condições de sua produção bem mais do que "a narração dos
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                                    acontecimentos passados"?
                                           Resta que, através dessas obras "clássicas", o estatuto de um escrito "histórico" parece
                                    definido por uma combinação de significações articuladas e apresentadas apenas em termos de
                                    fatos. Efetivamente, para Roland Barthes (se deixarmos de lado o detalhe de sua
                                    argumentação linguística) os "fatos" de que fala a história funcionam como indícios. Através
                                    das relações estabelecidas entre fatos, ou da elevação de alguns dentre eles ao valor de
                                    sintomas para uma época inteira, ou da "lição" (moral ou política) que organiza o discurso
                                    inteiro, existe em cada história um processo de significação que visa sempre "preencher" o
                                    sentido da História": "o historiador é aquele que reúne menos os fatos do que os
                                    significantes53". Ele parece contar os fatos, enquanto efetivamente, enuncia sentidos que,
                                    aliás, remetem o notado (aquele que é retido como pertinente pelo historiador) a uma
56                                  concepção do notável. O significado do discurso historiográfico são estruturas ideológicas ou
                                    imaginárias; mas elas são afetadas por um referente exterior ao discurso, por si mesmo
                                    inacessível: R. Barthes chama este artifício próprio ao discurso historiográfico, "o efeito do
                                    real" que consiste em esconder sob a ficção de um "realismo" uma maneira, necessariamente
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                                    interna à linguagem, de propor um sentido. "O discurso historiográfico não segue o real, não
                                    fazendo senão significá-lo repetindo sem cessar aconteceu, sem que esta asserção possa jamais
                                    ser outra coisa do que o avesso significado de toda a narração histórica54".
                                           Evocando "o prestígio do aconteceu" a propósito da história, R. Barthes o relaciona
                                    com o desenvolvimento atual do romance realista, do diário íntimo, das crônicas, dos museus,
                                    da fotografia, dos documentários, etc. Efetivamente, todos estes discursos se articulam sobre
                                    um real perdido (passado); reintroduzem como relíquia, no interior de um texto fechado, a
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                                    realidade que se exilou da linguagem. Parece que não se podendo mais atribuir às palavras uma
                                    relação efetiva com as coisas que designam, elas se tornam tanto mais aptas para formular
                                    sentidos, quanto menos limitadas são por uma adesão real. Também, mais do que um retorno
                                    ao real, o "realismo" exprime a disponibilidade de uma população de palavras relativas a fatos
                                    particulares e, de agora em diante, utilizáveis na produção de lendas ou de ficções. Pois, o
                                    vocabulário do "real" integra o material verbal susce-tível de ser organizado no enunciado de
                                    um pensável ou de um pensado. Não mais existe o privilégio de ser o afloramento dos fatos, de
                                    fazer emergir, através deles, uma Realidade originária, nem de, por isso, ser aureolado pelo
                                    poder de exprimir, ao mesmo tempo, a "própria coisa" e o Sentido que viria nela.
                                           Deste ponto de vista, é possível dizer que "o signo da História é de agora em diante
                                    menos o real do que o inteligível55". Mas não qualquer inteligível. "A supressão da narrativa na
                                    ciência histórica atual" atesta a prioridade concedida, por esta ciência, às condições nas quais
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elabora o "pensá-vel" (este é o sentido de todo o movimento "estruturalista"). E esta análise,
que versa sobre os métodos, quer dizer, sobre a produção do sentido, é indissociável, em
história, do seu lugar e de um objeto: o lugar é, através dos procedimentos, o ato presente desta
produção e a situação que hoje o torna possível, determinando-o; o objeto, são as condições
nas quais tal ou qual sociedade deu a si mesma um sentido através de um trabalho que é
também ele, determinado. A história não é uma crítica epistemológica. Ela permanece um
relato. Conta seu próprio trabalho e, simultaneamente, o trabalho legível num passado. Não o
compreende, no entanto, a não ser elucidando sua própria atividade produtiva e,
reciprocamente, compreen-de-se a si mesma no conjunto e na sucessão de produções das quais
ela própria é um efeito.
          Se, pois, o relato "daquilo que aconteceu" desapareceu da história científica (para, em   57
contrapartida, aparecer na história vulgarizada), ou se a narração toma o aspecto de uma
ficção própria de um tipo de discurso, não se poderia concluir daí o desaparecimento da
referência ao real. Esta referência foi, ao invés, deslocada. Ela não é mais imediatamente dada




                                                                                                    www.facete.com.br
pelos objetos narrados ou "reconstituídos". Está implicada na criação de "modelos" (destinados
a tornar os objetos "pensáveis") proporcionados às práticas, pela confrontação com o que lhes
resiste, o que os limita e exige outros modelos, finalmente, pela elucidação daquilo que tornou
possível essa atividade inscrevendo-a numa economia particular (ou histórica), da produção
social.
          Sob este ponto de vista, pode-se pensar com A. J. Greimas que com relação aos modelos
capazes de dar conta do funcionamento de uma linguagem, ou se preferirmos, com relação à
análise das combinações possíveis, na organização e transformação de elementos em número


                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
finito, o histórico surge para a formulação estruturalista "com uma limitação de suas
possibilidades de manifestação". "Da mesma forma que a estrutura atômica, diz ele, se concebe
facilmente como uma combinatória cujo universo atualmente manifestado não passa de uma
realização parcial, a estrutura semântica, imaginada segundo um modelo comparável,
permanece aberta e não recebe o seu fecho senão da história56".
          O limite se encontra no cerne da ciência histórica, designando o outro da razão ou do
possível. É sob este aspecto que o real reaparece no interior da ciência. Poder-se-ia dizer que a
distinção entre ciências "exatas" e ciências "humanas" não mais consiste numa diferença de
formalização ou de rigor da verificação, mas numa separação das disciplinas de acordo com o
lugar que oferecem, umas ao possível e outras ao limite. Em todo caso, sem nenhuma dúvida,
existe, ligada ao trabalho do etnólogo ou do historiador, uma fascinação pelo limite ou, o que é
quase a mesma coisa, pelo outro.
Prática Curricular IV



                                           Mas o limite não é apenas aquilo que o trabalho histórico organizado pela vontade de
                                    tornar pensável, encontra constantemente diante de si; ele se prende também ao fato de cada
                                    procedimento interpretativo ter sido instaurado para poder definir os procedimentos adequados
                                    a um modo de compreensão. Uma nova determinação do "pensável" supõe, por detrás de si
                                    mesma, situações económicas e sócio-culturais que a tornaram possível. Toda produção de
                                    sentido reconhece um evento que aconteceu e que a permitiu. Mesmo as ciências exatas são
                                    levadas a exumar sua relação com a história, quer dizer, o problema da relação entre seu
                                    discurso e aquilo que ele implica sem o dizer — entre uma coerência e uma génese. No discurso
                                    histórico, a interrogação a respeito do real retorna, pois, não apenas com a articulação
                                    necessária entre possibilidades e suas limitações, ou entre os universais do discurso e a
                                    particularidade ligada aos fatos (qualquer que seja o seu recorte57), mas sob a forma da origem
58                                  postulada pelo desenvolvimento de um modo do "pensável". A prática científica se apóia numa
                                    práxis social que independe do conhecimento. O espaço do discurso remete a uma tem-
                                    poralidade diferente daquela que organiza as significações de acordo com as regras
                                    classificatórias da conjugação. A atividade que produz sentido e que instaura uma
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                                    inteligibilidade do passado é, também, o sintoma de uma atividade sofrida, o resultado de
                                    acontecimentos e de estruturações que ela transforma em objetos pensáveis, a representação de
                                    uma gênese organizadora que lhe escapa.


                                                                  IV. A HISTÓRIA COMO MITO

                                           A história cairia em ruínas sem a chave de abóbada de toda a sua arquitetura: a
                                    articulação entre o ato que propõe e a sociedade que reflete; o corte, constantemente
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                                    questionado, entre um presente e um passado; o duplo estatuto de um objeto, que é um "efeito
                                    do real" no texto e o não-dito implicado pelo fechamento do discurso. Se ela deixa seu lugar
                                    — o limite que propõe e que recebe — ela se decompõe para ser apenas uma ficção (a
                                    narração daquilo que aconteceu) ou uma reflexão epistemológica (a elucidação de suas regras
                                    de trabalho). Ela, porém, não é nem a lenda à qual foi reduzida por uma vulgarização, nem a
                                    criteriologia que faria dela a única análise crítica de seus procedimentos. Ela está entre estas
                                    duas coisas, no limite que separa as suas reduções, como Charles Chaplin se definia, no final
                                    de "The Pilgrin ", através da corrida sobre a fronteira mexicana, entre dois países que o
                                    perseguiam e dos quais seus ziguezagues desenhavam ao mesmo tempo a diferença e a costura.
                                           Também ele lançado, seja para o presente, seja para o passado, o historiador faz a
                                    experiência de uma práxis que é inextricavelmente a sua e a do outro (uma outra época ou a
Prática Curricular IV



sociedade que o determina hoje). Ele trabalha a própria ambiguidade que designa o nome de
sua disciplina, Historie e Geschichte: ambiguidade, afinal, rica de sentido. Com efeito, a
ciência histórica não pode desligar, inteiramente, a sua prática daquilo que escolheu como
objeto, e tem como tarefa indefinida tornar precisos os modos sucessivos dessa articulação.
       Sem dúvida, essa é a razão pela qual a história tomou o lugar dos mitos "primitivos" ou
das teologias antigas desde que a civilização ocidental deixou de ser religiosa e que, de maneira
política, social ou científica, ela se definiu por uma práxis que envolve, igualmente, suas
relações consigo mesma e com outras sociedades. O relato dessa relação de exclusão e de
atração, de dominação ou de comunicação com o outro (posto preenchido alternadamente por
uma vizinhança ou por um futuro) permite à nossa sociedade contar-se, ela própria, graças à
história. Ele funciona como o faziam ou fazem ainda, em civilizações estrangeiras, os relatos de    59
lutas cos-mogônicas, confrontando um presente a uma origem.
       Essa localização do mito não aparece apenas com o movimento que leva as ciências
"exatas" ou "humanas" em direção à história (que permite aos cientistas se situarem num




                                                                                                    www.facete.com.br
conjunto social58), ou com a importância da vulgarização histórica (que torna pensável a
relação de uma ordem com a sua mudança, ou que a exorciza, na base de: "Foi sempre assim"),
ou ainda com as mil ressurgências da genial identificação, estabelecida por Miche-let, entre a
história e a autobiografia de uma nação, de um povo ou de um partido. A história tornou-se
nosso mito por razões mais fundamentais, do que as resumidas em algumas das análises
precedentes.


Identidade por diferenciação.


                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
       O discurso histórico explicita uma identidade social, não como "dada" ou estável, mas
enquanto se diferencia de uma época anterior ou de uma outra sociedade. Ele supõe a ruptura que
transforma uma tradição em um objeto passado, da mesma forma que a história do "Antigo
Regime" supõe a Revolução59. Mas essa relação com a origem, próxima ou longínqua, da qual
uma sociedade se separa sem poder eliminá-la é analisada pelo historiador, que faz dela o lugar
da sua ciência. Em um texto que guarda ainda a forma de relato, ele articula a prática de uma
nova inteligibilidade e a remanescência de passados diferentes (que sobrevivem, não apenas nos
documentos, mas nesse "arquivo" particular que é o próprio trabalho histórico).
       Se, por um lado, a história tem como função exprimir a posição de uma geração com
respeito às precedentes, dizendo: "Eu não sou isto", acrescenta sempre, a esta afirmativa, um
complemento não menos perigoso, que faz uma sociedade confessar: "Eu sou outra coisa além
daquilo que quero, e sou determinada por aquilo que denego". A história atesta uma autonomia
Prática Curricular IV



                                    e uma dependência cujas proporções variam segundo os meios sociais e as situações políticas
                                    que presidem à sua elaboração. Sob a forma de um trabalho imanente ao desenvolvimento
                                    humano, assume o lugar dos mitos através dos quais uma sociedade representava as relações
                                    ambíguas com as suas origens e, através de uma história violenta dos Começos, suas relações
                                    com ela mesma.


                                    A origem da linguagem: o morto e o vivo.
                                           Apesar de seus exórdios ou de seus prefácios na primeira pessoa (sob forma de Ichb .
                                    icht) que tem valor de intróito iniciático e apresentam um "naqueles tempos", graças à
                                    distância notada desde o tempo do autor, a história é um discurso na terceira pessoa. Batalhas,
                                    políticas ou salários são o seu sujeito-objeto, mas como escreve Roland Barthes, "ninguém está
60                                  lá para assumir o enunciado60". O discurso sobre o passado tem como estatuto ser o discurso do
                                    morto. O objeto que nele circula não é senão o ausente, enquanto que o seu sentido é o de ser
                                    uma linguagem entre o narrador e os seus leitores, quer dizer, entre presentes. A coisa
                                    comunicada opera a comunicação de um grupo com ele mesmo pelo remetimento ao terceiro
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                                    ausente que é o seu passado. O morto é a figura objetiva de uma troca entre vivos. Ele é o
                                    enunciado do discurso que o transporta como um objeto, mas em função de uma interlocuação
                                    remetida para fora do discurso, no não-dito.
                                           No modo dessas conjugações com o ausente, a história se torna o mito da linguagem.
                                    Ela torna manifesta a condição do discurso: uma morte. Nasce, com efeito, da ruptura que
                                    constitui um passado distinto de seu empreendimento presente. Seu trabalho consiste em criar
                                    ausentes, em fazer, de signos dispersos na superfície de uma atualidade, vestígios de realidades
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                                    "históricas" ausentes porque outras.
                                           Mas o ausente é também a forma presente da origem61. Existe mito porque, através da
                                    história, a linguagem se confrontou com a sua origem. Na verdade a confrontação adquire,
                                    aqui, aspectos distintos: é a relação do discurso histórico com tal ou qual período que foi
                                    privilegiado como obje-to de estudo, na série linear de uma cronologia; ou ainda o movimento
                                    que remete esse período ao seu aquém mais primitivo, e volta, indefinidamente, até um
                                    "começo" imaginário, um umbral fictício, mas necessário, para que se possa retornar ao longo
                                    dos tempos e classificá-los, etc. Porém, uma relação mais próxima e mais fundamental é
                                    significada por esse zero inicial, é a relação de cada discurso com a morte que o torna possível.
                                    A origem é interna ao discurso. Ela é precisamente aquilo de que ele não pode fazer um
                                    objeto enunciado. Esse discurso se define enquanto dizer, como articulado com aquilo que
                                    aconteceu além dele; tem como particularidade um início que supõe um objeto perdido; tem
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como função, entre homens, a de ser a representação de uma cena primitiva apagada, mas
ainda organizadora. O discurso não deixa de se articular com a morte que postula, mas que a
prática histórica contradiz. Pois, falar dos mortos é também negar a morte e, quase, desafiá-la.
Igualmente diz-se que a história os "ressuscita". Esta palavra é um engodo: ela não ressuscita
nada. Mas evoca a função outorgada a uma disciplina que trata a morte como um objeto do
saber e, fazendo isto, dá lugar à produção de uma troca entre vivos.
       Esta é a história. Um jogo da vida e da morte prossegue no calmo desdobramento de um
relato, ressurgência e denegação da origem, desvela-mento de um passado morto e resultado de
uma prática presente. Ela reitera, um regime diferente, os mitos que se constroem sobre um
assassinato ou uma morte originária, e que fazem da linguagem o vestígio sempre remanescente
de um começo tão impossível de reencontrar quanto de esquecer.                                      61



O dizer e o fazer.
       Finalmente, a história se refere a um fazer que não é apenas o seu ("fazer história"),




                                                                                                    www.facete.com.br
mas aquele da sociedade que especifica uma produção científica. Se ela permite a um agir
comum dar-se uma linguagem técnica própria, remete a esta práxis social como àquilo que
torna possíveis os textos organizados por uma nova inteligibilidade do passado.
       Essa relação do discurso com um fazer é interna ao seu objeto, já que, de um modo ou
de outro, a história fala sempre de tensões, de redes de conflitos, de jogos de força. Mas é
também externo, na medida em que a forma de compreensão e o tipo do discurso são
determinados pelo conjunto sócio-cultural mais amplo que designa à história seu lugar
particular. As sociedades estáveis dão lugar a uma história que privilegia as continuidades e


                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
tendem a dar valor de essência humana a uma ordem solidamente estabelecida. Nas épocas de
movimento ou de revolução, as rupturas de ação coletiva ou individual se tornam o princípio
de inteligibilidade histórica. Mas essa referência à organização social do agir — mobilizado pelo
desenvolvimento de uma ordem política ou pela fundação de novos regimes — não intervém
senão indiretamente na análise científica. Introduz-se nela, simbolicamente, com uma tópica do
inteligível: segundo os períodos da historiografia, será o acontecimento, ou a série contínua, o
ponto de partida e a definição do inteligível. Um tipo de sociedade se trai, também, na maneira
pela qual se combinam a discursividade do "compreender" e a estranheza "daquilo que
acontece"; por exemplo, o modelo sócio-econômico será preferível à biografia, ou ocorrerá o
inverso, etc.
       Espelho do fazer que hoje define uma sociedade, o discurso histórico é ao mesmo
tempo sua representação e seu reverso. Ele não é o todo - como se o saber fornecesse a
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                                    realidade ou a fizesse aceder ao seu grau mais elevado! Esse lance maior do conhecimento está
                                    ultrapassado. Todo o movimento da epistemologia contemporânea, no campo das ciências ditas
                                    "humanas", o contradiz e, antes, humilha a consciência. O discurso histórico não é senão uma
                                    cédula a mais numa moeda que se desvaloriza. Afinal de contas não é mais do que papel. Mas
                                    seria falso lançá-lo do excesso de honrarias ao excesso de indignidade. O texto da história,
                                    sempre a retomar, duplica o agir como seu rastro e sua interrogação. Articulado com aquilo
                                    que não é — agitação de uma sociedade mas também a própria prática científica —, ele
                                    sublinha o enunciado com um sentido que se combina simbolicamente com o fazer. Não
                                    substitui a práxis social, mas é sua testemunha frágil e sua crítica necessária.
                                           Destronado, do lugar para onde o havia alçado a filosofia que, desde o tempo das
                                    Luzes ou do idealismo alemão, fazia dele a manifestação última do Espírito do mundo, sem
62                                  dúvida o discurso historiográfico troca o lugar do rei pelo da criança da estória, apontando
                                    uma verdade que todos faziam questão de esquecer. Esta é, também, a posição do mito,
                                    reservado à festa que abre no trabalho o parêntese de uma verdade. Sem nada retirar das
                                    funções previamente sublinhadas, é necessário não negligenciar aquela que liga. o dizer histórico
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                                    ao fazer social, sem identificar o primeiro com o segundo: ela lembra ao trabalho sua relação
                                    com a morte e com o sentido; ela situa a verdadeira historiografia ao lado das questões
                                    indiscretas a serem abertas no imenso movimento da práxis.
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                                                                                           NOTAS
        1
             A        teologia             articula         o     ato        comunitário              da        fé,     e,       nas          suas          antigas          definições,             ela
era o aprofundamento da própria experiência.
        2
             Em           história,            como          no        conjunto             das       ciências              humanas,                  os     antigos              métodos            de
observação                    foram           substituídos             pelo           que         Lévi-Strauss               chamou                    "a      experimentação                        nos
modelos";             a        determinação                de     tipos          de     análise         supera           a        dos         meios           ou           dos        lugares        de
informação. Cf. Jean Viet, Les sciences de Vhommeen France, Mouton, p. 163-175.
        3
             Aqui              como            em          muitos            outros            casos           (cf.         por           "manifestação",                     "aparição"               e
até     por           "ação"),            uma         pressão          da         linguagem            corrente             leva          o       sentido              a     se       transformar
do ato em seu resultado, do ativo do fazer ao passivo do ser visto, do gesto à sua ima
gem         rio       espelho.             Uma         clivagem             crescente           entre       a         pesquisa            e       a        vulgarização               ocorre         tan
to     na     história                 quanto        na     teologia:            as    pesquisas            tomam            a       forma             de      meios             específicos           e
diferenciados                  por        procedimentos                 próprios;              mas,        na         sua        "vulgarização",                       a     história            e     a   63

teologia          se          tornam           objetos          de      saber         ou        de      curiosidade,                 distribuídos              e           impostos         a        um
"público" de consumidores que participa cada vez menos da produção.
        4
             Muitas                das         teses        ditas           de        teologia,            é          necessário               reconhecê-lo,                     são        simples




                                                                                                                                                                                                           www.facete.com.br
mente         análises                 literárias      de       um          autor,         e     não       se         distinguem                  de        qualquer             outro       estudo
literário         senão                pelo     fato        de        terem           um        objeto           religioso            -        como           se           "fazer          teologia"
fosse descrever as idéias teológicas contidas em uma obra.
        5
             Assim,                em         seu     grande           livro          Chrétiens            sans         Église.            La          conscience                religieuse           et
lè     lien           confessionnel                 au       XVII?           siècle            (Gallimard,             1969),             o        marxista                Leszek          Kolako-
wski quer tomar a sério o fato doutrinário e religioso como tal: "Do ponto de vista de
uma          interpretação                    materialista            da         história,           pode-se            admitir               a        irredutibilidade                    dos        fe
nômenos               religiosos,              reconhecendo                 ao        mesmo            tempo            que           se          pode         explicá-los                 genetica
mente         por              outros...            Julgamos            que           sua        especificidade               [aquela                  das         "idéias            religiosas"]
pode         ser          compreendida                    enquanto             especificidade,                  levando              em           conta            o        conjunto             mais


                                                                                                                                                                                                           Faculdade de Educação Teológica -
rico        que           é        a      totalidade            das         necessidades              sociais           da        época,               nas      suas             inter-relações"
(p.    49         e       51).          Cf.,        sobre       os      problemas               de     método            colocados                    pelo     livro,            R.     Mandrou,
"Mysticisme                   et       méthode            marxiste",          em        Politique              aujourdfiui,               février            1970,          p.        51     ss.      e
M. de Certeau, VAbsent de 1'histoire, Mame, 1973, p. 109-115.
        6
             J.        Orcibal,               Les         Origines           du        jansenisme,               Vrin,           5         vol.,            1947-1962;                L.        Gold-
mann,        Le        Dieu             cache,        1956,          etc.     e       M.       de     Certeau,           "De          Sait-Cyran               ao           jansenisme"              em
Christus, 10,4963, p. 399-417.
        7
            Cf. a este respeito E. M. Carlson, The Reinterpretations ofthe Reformation, Philadelphie, 1948; J. V. M.
Pollet, "Interprétation de Luther dans 1'Allemagne con-temporaine", em Revue de sciences religieuses, 1953, p.
147-161; H. J. Grimm, "Luther Research since 1920", em Journal of Modem History, 32, 1960, junho; R. H.
Bainton, "Interpretations of the Reformation", em American HlstoricalReview, 36, 1960, outubro; J. Delumeau,
Naissance et afflrmatton de la Reforme, P.U.F., 1965, principalmente p. 281-300; ou os Bulletins de R. Stauffer
e Th. Siiss, em Buli. de la Société de 1'histoire du protestantisme français, 113,1967, p. 313-346 e 405 ss.
        8
             Cf. M. de Certeau, VAbsent de 1'histoire, Mame, Í973, p. 73-108: "Henri Bremond, historien d'une
Prática Curricular IV


                                    absence".
                                          9
                                               Infelizmente Van Gennep (t 1956) não fora ainda o objeto do estudo de conjunto que reclamava a
                                    "Homenagem a A. Van Gennep", de Pierre Marot em Arts et traditions populaires, 5, 1957, p. 113 ss. (A partir
                                    daí, esta lacuna foi preenchida por Nicole Belmont, Amold Van Gennep, Payot, 1974.)
                                          10
                                               Acerca da obra de G. Le Brás, cf. os estudos de Henri Desroche em Revue d'histoire et de philosophie
                                    religieuse, 2, 1954, p. 128-158, e de François Isambert, em Cahiers intemationaux de sociologie, 16, 1956, p.
                                    149-169.
                                          11
                                               O primeiro artigo de G. Le Bras sobre "a prática religiosa na França" tinha por objeto "a vida popular do
                                    catolicismo"; por modelo "o folklorista"; e como ponto de partida, "o plano de pesquisa proposto por Saíntyves".
                                    Ele foi publicado, aliás, na Revue de folklore français, 4, 1933, p. 193-206.
                                          12
                                               Na sua Introduction à 1'histoire de la pratique religieuse en France (P.U.F., 1945), G. Le Brás coloca o
                                    problema da relação entre a "prática" e as "crenças" (t. I, p. 116-120), mas, para ele, este plural designa "a fé".
                                    Reagindo contra o excesso de estudos consagrados às doutrinas (cf. seu artigo de 1933), ele curto-circuitou as
                                    ideologias para consignar o enigma da relação entre "a prática" (= o sociológico, o visível, diz ele) e "as crenças"
64
                                    (o que não é para ele um conceito sociológico, mas o invisível, "a chama" ou "a graça da iluminação interior").
                                    Pouco a pouco será levado a graduar esta divisão, originária da distinção teológica entre natureza e sobrenatural,
                                    ao mesmo tempo que confiará menos na prática (cujo nome desaparece do título dado à reedição da Introduction
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                                    em 1956). Ê a esta segunda evolução que Isambert consagrou o artigo citado supra: "Développement et
                                    dépassement de 1'étude de la pratique religieuse chez G. Le Brás."
                                          13
                                               Desta maneira René Taveneaux, em Le Jansénisme en Lorraine, 1640-1789 (Vrin, 1960), tira da
                                    obscuridade aquilo que chama de "redes de transmissão do pensamento". Na realidade o que surge são as
                                    clivagens, as polarizações (parisienses, depois holandesas), as combinações insuspeitadas (por exemplo o
                                    reemprego dos bastiões monásticos de Saint-Vanne neste conjunto), etc, que caracterizam uma unidade social
                                    complexa. "O pensamento" lhe serve paia estabelecer uma sutil sociologia de um grupo de clérigos.
                                          14
                                               Ninguém poderá se espantar com o fato de ter esta corrente nascido de uma ampliação da história das
                                    ciências, por exemplo com E. A. Burtt, The Metaphy-sics of Sir Isaac Newton (Londres, Routledge, 1925); H. A.
                                    Smith, History of Modem Culture (New York, 1930-1934); A. Wolf, History of Science. Technology and Philo-
Faculdade de Educação Teológica -




                                    sophy in the 16th and 17th Century (Londres, AUen, 1935); A. R. Hall, The Scien-tific Revolution, 1500-1800
                                    (Londres, Longmans, 1954); etc.
                                          15
                                               A noção de Zeitgeist tomou, na Geistesgeschichte, um sentido que quase inverte o de suas origens.
                                    Central, entre os revolucionários alemães, na passagem do século XVIII para o XIX (Henning, Rebmann,
                                    Níethammer, Arndt principalmente com seu Esprit du temps em 1806, ou Hardenberg, etc), designa uma força
                                    irresistível cujo avanço derrubará todos os obstáculos institucionais. É com este sentido que foi retomada em
                                    Hegel, e que em 1829 foi criticada por Schlegel como indeterminada e subversiva (Philosophie der Geschichte,
                                    1829, II, 18). Cf. Jacques d'Hondt, Hegel philosophe de 1'histoire vivante, P.U.F., 1966, p. 211-216. Desde ai' o
                                    Zeitgeist definiu, pelo contrário, uma ordem estabelecida, a coerência estática de uma mentalidade. Traço
                                    significativo de um pensamento "liberal" e "ideológico" que faz, então, face ao marxismo.
                                          16
                                               Cf. por exemplo, V. P. Zoubov, "L'histoire de la science et la biogxaphie des savants", em Kwart. Hist.
                                    Nauki, 6, 1962, p. 29-42.
                                          17
                                               A. O. Lovejoy, The Great Chain of Being. A Study of the History of an Idea, Cambridge (Mass.),
Prática Curricular IV



Harvard Univ. Press, 1936.
      18
           A respeito da "história das mentalidades" francesa, cf. principalmente Geor-ges Duby, em LWstoire et
ses méthodes, Gallimard, Plêiade, 1961, p. 937-966. Po-re'm, mais do que às apresentações teóricas, é preciso
referir-se aos trabalhos históricos: os de G. Duby ou de J. Le Goff, certamente, mas também, ao estudo notavel-
mente lúcido de Franco Venturi, "L'Illuminismo nel settecento europeu", em Rap-ports du XIe Congrès
international des sciences historiques (Stockholm), Uppsala, Almquist, 1960, t. IV, p. 106-135. Na historiografia
do período "moderno", da mesma forma que o século XVII é ao mesmo tempo o objeto e a arqueologia de uma
análise das práticas, o século XVIII é uma e outra coisa para uma história das ideias. É, com efeito, no século
XVII que se forma, por exemplo, com os "Observateurs de 1' homme", a relação entre o homem das "Luzes" e o
homem-popular, entre a elite-su-jeito e o povo-objeto da ciência. Cf. Sérgio Moravia, La Scienzia delVuomo nel
settecento, Bari, 1970.
      19
           Gaston Bachelard, Le Rationalismeappliqué, P.U.F., 1949, p. 104-105.
      20
           Michel Foucault, L'Archeologie du savoir, Gallimard, 1969, p. 29-101.
                                                                                                                          65
      21
           O problema deste paralelismo permanece colocado, ainda que, como em Duby, o historiador se interesse
por uma literatura como por uma "transposição" ou "reflexo" do grupo que é o objeto real de seu estudo. Seria
necessário medir o efeito próprio desta "transposição". A expressão literária não é a transparência do vivido so-
cial, mas seu complemento, e, fequentemente, seu reverso (na medida em que enuncia aquilo que é percebido




                                                                                                                          www.facete.com.br
como "ausente").
      22
           Cf. Antonio Gramsci, OEuvres choisies, Éd. sociales, 1959, p. 432: "Como estas diversas categorias de
intelectuais tradicionais experimentam, com um "espírito de corporação", o sentimento de sua continuidade
histórica ininterrupta e de sua qualificação, situam-se a si mesmos como autónomos e independentes do grupo
social dominante. Esta autoposiçao não t falta de consequências de grande alcance no domínio ideológico e
político: toda a filosofia idealista pode, facilmente, ter conexão com esta posição tomada pelo complexo social
dos intelectuais..."
      23
           Pode-se medir a evolução da historiografia com a noção de "fato histórico", comparando a colocação de
Henri-Irenée Marrou ("Qu'est qu'un fait histori-que?", em L'Histoire et ses méthodes, op. cit., p. 1494-1500) e os



                                                                                                                          Faculdade de Educação Teológica -
problemas expostos por François Furet in J. Le Goff et P. Nora (Éd.), Faire de l'histoire, Galli-mard, 1974,t.1, p.
42-61.
      24
           Introduction à la philosophíe de 1'histoire. Essai sur les limites de 1'objecti-vité historique, Vrin, 1938.
As mesmas teses são retomadas em Dimensions de la conscience historique, Plon, 1961.
      25
           Cf. a obra magistral de A. Renaudet, Préréforme et humanismeà Paris pen-dant les premières guerres
d'ltalie, 1494-1517, Droz, 1916 e toda a sua posteridade.
      26
           Tradição universitária que corresponde à rejeição do jansenismo pelo ensino académico, difundido até
meados do século XIX, e que se mantém até na vigorosa síntese de Antoíne Adam, Du mysticisme à la révolte.
Les Janséniste du XVII6 siècle, Fayard, 1968.
      27
           Indício entre muitos, o lugar concedido aos Theological Manuscripts.(Éd. H. Mac Lachlan, Liverpool,
1950) na interpretação da obra de Newton. Alexandre Koyré, principalmente, modificou as perspectivas (cf. Du
monde closà Vunivers infi-ni, P.U.F., 1961). Hoje, chegamos a sublinhar que a ciência ocidental elaborou-se em
função de debates teológicos, e, que, por exemplo, ela tem uma relação intrínseca com o dogma da Encarnação;
cf. Alexandre Kojève, "L'origine chrétienne de la scien-ce moderne" em Mélanges Alexandre Koyré, Hermann,
Prática Curricular IV


                                    1964, t. II, p. 295-306.
                                             28
                                                  Henri Bernard-Maítre, "Les "Théologastres" de 1'Université de Paris au temps d'Erasme et de Rabelais",
                                    em Bibliothèque d'Humanisme et Renaissance, 27, 1965, p. 248-264; Jean-Pierre Massaut, Josse Oichtove
                                    l"humanisme et la reforme du elergé, Les Belles Letíres, 968.
                                             29
                                                  Louis Bouyer, Autour d'Erasme, Êtudes sur le christianisme des Humanis-tes catholiques. Paris, 1955;
                                    Henri de Lubac, Exegese médiévale, Aubier, t. IV, 1964.
                                             30
                                                  Étienne Gilson, Études sur le role de la pensée médiévale dans la formation du système cartésien, Vrin,
                                    1951.
                                             31
                                                  Cf. René Rémond, La Droite en France de 1815 à nos jours, Aubier, 1954. Temos as perspectivas
                                    anglo-americanas com Richard Griffiths, The Reactionary Re-volution, Londres, 1966;Eugen Webei, L'Action
                                    française,Stock, 1962;etc.
                                             32
                                                  Émile Poulat, Intégrisme et catholicisme integral, Casterman, 1969, e o debate que se seguiu com Paul
                                    Drouleus, em Archives de Sociologie des Religions, 28, 1969,p. 131-152.
                                             33
                                                  Lucien Febvre,Au coeur religieux du XVf siècle, Sevpen, 1957, p. 146.
66
                                             34
                                                  Em Beauvais et le Beauvaisis de 1600 à 1730, Sevpen, 1960.
                                             35
                                                  Em Ancien Regime, 1.1, A. Colin, 1969.
                                             36
                                                  M. Foucault, Les mots et les choses, Gallimard, 1966, chap. III-VI.
                                             37
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                                                  L. Cognet, La Sptritualité modeme, Aubier, 1966, e a resenha de Venard, na Rév. d'Hist. de VÊgl. de
                                    France, 54,19"68, p. 101-103.
                                             38
                                                  Cf. as notas de D. Júlia, P. Levillain, D. Nordman e A. Vauchez "Réflexi-ons sur lTiistoriographie
                                    française contemporaine", em Recherches et Débats, 47, 1964, p. 79-94.
                                             39
                                                  A respeito do interesse etnológico ou follclórico de que a religião se torna o objeto, e que explica ao
                                    mesmo tempo a natureza de uma nova "curiosidade" e a recrudescência dos estudos sobre as ideologias (de
                                    agora em diante tidas como inacredi-taVeís, mas simbólicas de um sentido a decifrar), cf. M. de Certeau, La
                                    Culture ao plu-riel, coll. 10/18,1974, p. 11-34: "Les Révolutions du croyable".
                                             40
                                                  Aqui     o       problema      é        o     de     saber       que      acontecimento          ou        que     mutação         sócio-po-
                                    lftica        torna    possível,       à    visão         da     historiografia        do     século     XX,        uma         análise,     análoga      a
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                                    que      R.      Mousnier         consagrou        seus        últimos        anos,     dos     historiadores        do        século      XVIII.      Mas,
                                    sem       dúvida,          é   necessário        inverter        os    termos         da    questão:     um         novo        olhar      científico     é,
                                    justamente,           um       dos     indícios       através         do    qual       se     exprime     ou        se     demarca         um       "aconte
                                    cimento".
                                             41
                                                  Cf.,     particularmente,           à        nova       série      dos        Annales     E.S.C,           (a      partir     de        1969),
                                    ou The Journal of Intedisciplinary History, 1970, M.I.T. Press (U.S.A.).
                                             42
                                                  Karl Marx, Das Kapital, Berlin, 1947,1.1, p. 7 (primeiro prefácio); cf. OEu-vres, Plêiade, 1965,1.1, p.
                                    549.
                                             43
                                                  Foi      isto      que       Michel           Foucault          sublinhou        fortemente,          em         particular        na     Ar-
                                    chéologie du savoir, 1969, p. 16-17.
                                             44
                                                  Emmanuel            Le       Roy            Ladurie,         LesPaysans           de      Languedoc,              Sevpen,          1966,1.1,
                                    p.       7-11,        e,       principalmente,            Pierre       Vilar,         La      Catalogne        dans            1'Espagne         moderne,
                                    Sevpen, 1962, t.I.p. 11-38.
Prática Curricular IV


      45
           Marc     Soriano,     Les    Contes     de     Perrault.     Culture   savante   et   traditions   populai-
res, Gallimard, 1968.
      46
           In Revue de Synthèse, n°. 37-39, p. 329. Cf., também, estudos particularmente importantes: "Lourdes:
perspectives d'une sociologie du sacré", em La Table Ronde, 125, maio, 1958, p. 74-96; "Problèmes et méthodes
d'une histoire de la psy-chologie collective", em Annales E.S.C., 16, 1961, p. 3-11; "Formes de la culture des
masses: de la doléance politique au pèlerinage panique (XVIII^XX 6 siècles)", em Niveaux de culture et groupes
sociaux, Mouton, 1968, p. 149-167.
      47
           P. Vilar, La Catalogne..., op. cit., 1.1, Prefácio, p. 36-37. O confronto entre expressão cultural e
estruturas económicas é particularmente rico (pelo próprio objeto estudado) em "Le Tems du Quichote"
(Europe,]zn. 1956, p. 3-16); "Les primitifs espagnols de la pensée économique" (Mélanges M. Bataillon, 1962,
p. 261-284); ou, de um ponto de vista mais metodológico, em "Marxisme et histoire, dans le dévelop-pement des
sciences humaines" (Studi storici l,n°.S, 1960, p. 1008-1043).
      48
           M. Foucault, Folie et déraison. Histoire de la folie à Tâge classique, Plon, 1961 (nova edição,
                                                                                                                         67
Gallimard, 1972).
      49
           Cf., a este respeito, as observações agudas de Jacques Derrida, L 'Êcriture et la difference, Seuil, 1967,
p. 51-97 ("Cogito et hístoire de la folie").
      50
           M. Foucault, VArchèologie du savoir, op. cit., p. 29-101: "Les régularités discursives".




                                                                                                                         www.facete.com.br
      51
           rbid.,p.l2en.
      52
           Roland Barthes, "Le Discours de l'histoire", em Social Science informa tion, VI, 4, 1967, p. 65-75... A
comparar com, do mesmo autor, "L'effet de réel", em Communications, 11, 1968, p. 84-90, e "L'Êcriture de
1'e'vénement", em Communications, 12,1968, p. 108-113.
      53
           R. Barthes, "Le discours de 1'histoire", op. cit., p. 65.
      54
           Ibid.,p. 73-74.
      55
           Ibid.,p. 75. Na "ilusão referencial" do real, no "realismo", R. Barthes revela um novo verossímil ("O
efeito do real", op. cit., p. 88). Este "real" é a conotação de um pensável.
      56
           A. J. Greimas, Du sens. Essais sémiotiques, Seuil, 1970, p. 111. Cf. todo este capítulo, "Histoire et



                                                                                                                         Faculdade de Educação Teológica -
structure", p. 103-116.
      57
           Problema que não deixa de ter analogia com aquele de que tratavam as primeiras filosofias da
linguagem, em fins da Idade Me'dia. Cf. J. Claude Piguet, "La que-relle des universaux et le probleme
contemporain du langage" na Revue de Théologie et de Philosophie, 19,1969, p. 392411.
      58
           Em "La Histoire et 1'unité des sciences de lfiomme" (in Annales E.S.C., 23, n? 2, 1968, p. 233-240),
Charles Moraze' encara sob este aspecto o papel central da história; é porque a relação entre ciências humanas se
traduz e ocorre na história que ela é "sincretista" e que hoje parece fragmentada, através de sua adesão a
disciplinas cada vez mais divergentes.
      59
           Após ter dito "c egime precedente" fala-se, a partir de novembro de 1789, do "antigo regime". Cf. Albert
Soboul, La Gvi. .ation et la Révolution Française, Arthaud, t. I, 1970, p. 37, e as reflexões de Píerre Boubeit,
L'Ancien Regime, A. Co-lin.t. 1,1969, chap.I.
      60
           R. Barthes, "Le discours de 1'histoire", op. cit. , p. 71.
      61
           Isto fala, deixando de lado o exame, esboçado alhures, dos problemas abertos pela intervenção da
psicana'lise no campo da história. Cf. "Aquilo que Freud fez da história".
Prática Curricular IV




                                                            ESTRUTURA         DA VIDA      COTIDIANA




                                    A VIDA COTIDIANA é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem nenhuma exceção, qualquer
                                    que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. Ninguém consegue identificar-se
                                    com sua atividade humano-genérica a ponto de poder desligar-se inteiramente da
                                    cotidianidade. E, ao contrário, não há nenhum homem, por mais "insubstancial" que seja, que
                                    viva tão-somente na cotidianidade, embora essa o absorva preponderantemente.
                                           A vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida
68
                                    cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-
                                    se "em funcionamento" todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas
                                    habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, idéias, ideologias. O fato de que todas
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                                    as suas capacidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que
                                    nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda sua intensidade. O homem da co-
                                    tidianidade é atuante e fruidor, ativo e receptivo, mas não tem nem tempo nem possibilidade
                                    de se absorver inteiramente em nenhum desses aspectos; por isso, não pode aguçá-los em
                                    toda sua intensidade.
                                           A vida cotidiana é, em grande medida, heterogénea; e isso sob vários aspectos,
                                    sobretudo no que se refere ao conteúdo e à significação ou importância de nossos tipos de ati-
                                    vidade. São partes orgânicas da vida cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada,
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                                    os lazeres e o descanso, a ati-vidade social sistematizada, o intercâmbio e a purificação.
                                           Mas a significação da vida cotidiana, tal como seu conteúdo, não é apenas heterogênea,
                                    mas igualmente hierárquica. Todavia, diferentemente da circunstância da heterogeneidade, a
                                    forma concreta da hierarquia não é eterna e imutável, mas se modifica de modo específico em
                                    função das diferentes estruturas econômico-sociais. Assim, por exemplo, nos tempos pré-
                                    históricos, o trabalho ocupou um lugar dominante nessa hierarquia; e, para determinadas
                                    classes trabalhadoras (para os servos, por exemplo), essa mesma hierarquia se manteve du-
                                    rante ainda muito tempo; toda a vida cotidiana se constituía em torno da organização do
                                    trabalho, à qual se subordinavam todas as demais formas de atividade. Em troca, para a popu-
                                    lação livre da Ática do século v antes de nossa era ocupavam o lugar central da vida cotidiana
                                    a atividade social, a contemplação, o divertimento (cultivo das faculdades físicas e mentais), e
Prática Curricular IV



as demais formas de atividade agrupavam-se em torno destas numa gradação hierárquica. A
heterogeneidade e a ordem hierárquica (que é condição de organicidade) da vida cotidiana
coincidem no sentido de possibilitar uma explicitação "normal" da produção e da reprodução,
não apenas no "campo da produção" em sentido estrito, mas também no que se refere às
formas de intercâmbio. A heterogeneidade é imprescindível para conseguir essa "explicitação
normal" da cotidianidade; e esse funcionamento rotineiro da hierarquia espontânea é
igualmente necessário para que as esferas heterogéneas se mantenham em movimento
simultâneo.
       O homem nasce já inserido em sua cotidianidade. O amadurecimento do homem
significa, em qualquer sociedade, que o indivíduo adquire todas as habilidades
imprescindíveis para a vida cotidiana da sociedade (camada social) em questão. É adulto         69
quem é capaz de viver por si mesmo a sua cotidianidade.
       O adulto deve dominar, antes de mais nada, a manipulação das coisas (das coisas,
certamente, que são imprescindíveis para a vida da cotidianidade em questão). Deve aprender




                                                                                                www.facete.com.br
a segurar o copo e a beber no mesmo, a utilizar o garfo e a faca, para citar apenas os
exemplos mais triviais. Mas, já esses, evidenciam que a assimilação da manipulação das
coisas é sinônimo de assimilação das relações sociais. (Pois não é adulto quem aprende a
comer apenas com as mãos, ainda que também desse modo pudesse satisfazer suas
necessidades vitais.) Mas, embora a manipulação das coisas seja idêntica à assimilação das
relações sociais, continua também contendo inevitavelmente, de modo "imanente", o domínio
espontâneo das leis da natureza. A forma concreta de submissão ao poder (da natureza) é
sempre mediatizada pelas relações sociais, mas o fato em si da submissão à natureza persiste


                                                                                                Faculdade de Educação Teológica -
sempre enquanto tal.
       Se a assimilação da manipulação das coisas (e, e o ipso, a assimilação do domínio da
natureza e das mediações sociais) é já condição de "amadurecimento" do homem até tornar-se
adulto na cotidianidade, o mesmo poder-se-á dizer — e, pelo menos, em igual medida — no
que se refere à assimilação imediata das formas do intercâmbio ou comunicação social. Essa
assimilação, esse "amadurecimento" para a cotidianidade, começa sempre "por grupos" (em
nossos dias, de modo geral, na família, na escola, em pequenas comunidades). E esses grupos
face-to-face estabelecem uma mediação entre o indivíduo e os costumes, as normas e a ética
de outras integrações maiores. O homem aprende no grupo os elementos da cotidianidade (por
exemplo, que deve levantar e agir por sua conta; ou o modo de cumprimentar, ou ainda como
com-portar-se em determinadas situações, etc); mas não ingressa nas fileiras dos adultos, nem
as normas assimiladas ganham "valor", a não ser quando essas comunicam realmente ao in-
Prática Curricular IV



                                    divíduo os valores das integrações maiores, quando o indivíduo — saindo do grupo (por
                                    exemplo, da família) — é capaz de se manter autonomamente no mundo das integrações
                                    maiores, de orientar-se em situações que já não possuem a dimensão do grupo humano
                                    comunitário, de mover-se no ambiente da sociedade em geral e, além disso, de mover por sua
                                    vez esse mesmo ambiente.
                                            A vida cotidiana não está "fora" da história, mas no "centro" do acontecer histórico: é
                                    a verdadeira "essência" da substância social. Nesse sentido, Cincinato é um símbolo. As
                                    grandes ações não cotidianas que são contadas nos livros de história partem da vida cotidiana
                                    e a ela retornam. Toda grande façanha histórica concreta torna-se particular e histórica
                                    precisamente graças a seu posterior efeito na cotidiani-dade. O que assimila a cotidianidade
                                    de sua época assimila também, com isso, o passado da humanidade, embora tal assimilação
70                                  possa não ser consciente, mas apenas "em-si".
                                            A vida cotidiana é a vida do indivíduo. O indivíduo é sempre, simultaneamente, ser
                                    particular e ser genérico. Considerado em sentido naturalista, isso não o distingue de nenhum
                                    outro ser vivo. Mas, no caso do homem, a particularidade expressa não apenas seu ser
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                                    "isolado", mas também seu ser "individual". Basta uma folha de árvore para lermos nela as
                                    propriedades essenciais de todas as folhas pertencentes ao mesmo gênero; mas um homem não
                                    pode jamais representar ou expressar a essência da humanidade.
                                            Que caracteriza essa particularidade social (ou socialmente mediatizada)? A unicidade e
                                    irrepetibilidade são, nesse ponto, fatos ontológicos fundamentais. Mas o único e irrepetível
                                    con-verte-se num complexo cada vez complexo, que se baseia na assimilação da realidade social
                                    dada e, ao mesmo tempo, das capacidades dadas de manipulação das coisas; a assimilação
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                                    contém em cada caso (inclusive no do homem mais primitivo) algo de momento "irredutível",
                                    "único". As necessidades humanas tornam-se conscientes, no indivíduo, sempre sob a forma
                                    de necessidades do Eu. O "Eu" tem fome, sente dores (físicas ou psíquicas); no "Eu" nascem
                                    os afetos e as paixões. A dinâmica básica da particularidade individual humana é a satisfação
                                    dessas necessidades do "Eu". Sob esse aspecto, não há diferença no fato de que um deter-
                                    minado "Eu" identifique-se em si ou conscientemente com a representação dada do
                                    genericamente humano, além de serem também indiferentes os conteúdos das necessidades do
                                    "Eu".
                                            Todo conhecimento do mundo e toda pergunta acerca do mundo motivados diretamente
                                    por esse "Eu" único, por suas necessidades e paixões, é uma questão da particularidade
                                    individual. "Por que vivo?", "Que devo esperar do Todo?' — são perguntas desse tipo. A
                                    teleologia da particularidade ori-enta-se — sempre para a própria particularidade, ou seja,
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para o indivíduo.
       Também o genérico está "contido" em todo homem e, mais precisamente, em toda
atividade que tenha caráter genérico, embora seus motivos sejam particulares. Assim, por
exemplo, o trabalho tem frequentemente motivações particulares, mas a atividade do trabalho
— quando se trata de trabalho efetivo (isto é, socialmente necessário) — é sempre atividade
do gênero humano. Também é possível considerar como humano-genéricos, em sua maioria,
os sentimentos e as paixões, pois sua existência e seu conteúdo podem ser úteis para
expressar e transmitir a substância humana. Assim, na maioria dos casos, o particular não é
nem o sentimento nem a paixão, mas sim seu modo de manifestar-se, referido ao eu e
colocação a serviço da satisfação das necessidades e da teleologia do indivíduo.
       Também enquanto indivíduo, portanto, é o homem um ser genérico, já que é produto e        71

expressão de suas relações sociais, herdeiro e preservador do desenvolvimento humano; mas
o representante do humano-genérico não é jamais um homem sozinho, mas sempre a
integração (tribo, demos, estamento, classe, nação, humanidade) — bem como, frequen-




                                                                                                 www.facete.com.br
temente, várias integrações — cuja parte consciente é o homem e na qual se forma sua
"consciência de nós".
       Não é casual que acentuemos o elemento "consciência". O indivíduo já pertencia à
humanidade — que é a integração suprema — mesmo quando ainda não se formara uma
humanidade unitária, uma história como história universal. (Não podemos aprofundar aqui a
questão das diferenças entre a relação mediatizada e a relação imediata com a humanidade.)
Para o homem de uma dada época, o humano-genérico é sempre representado pela
comunidade "através" da qual passa o percurso, a história da humanidade (e isso mesmo no


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
caso em que o destino dessa integração concreta seja a catástrofe). Todo homem sempre teve
uma relação consciente com essa comunidade; nela se formou sua "consciência de nós", além
de configurar-se também sua própria "consciência do Eu".
       Nela, explicitou-se a teleologia do humano-genérico, cuja colocação jamais se orienta
para o "Eu", mas sempre para o "nós".
       O indivíduo (a individualidade) contém tanto a particularidade quanto o humano-
genérico que funciona consciente e inconscientemente no homem. Mas o indivíduo é um ser
singular que se encontra em relação com sua própria individualidade particular e com sua
própria genericidade humana; e, nele, tornam-se conscientes ambos os elementos. É comum a
toda individualidade a escolha relativamente livre (autônoma) dos elementos genéricos e
particulares; mas, nessa formulação, deve-se sublinhar igualmente os termos "relativamente".
Temos ainda de acrescentar que o grau de individualidade pode variar. O homem singular
Prática Curricular IV



                                    não é pura e simplesmente indivíduo, no sentido aludido; nas condições da manipulação
                                    social e da alienação, ele se vai fragmentando cada vez mais "em seus papéis". O
                                    desenvolvimento do indivíduo é antes de mais nada — mas de nenhum modo exclusivamente
                                    — função de sua liberdade fática ou de suas possibilidades de liberdade.
                                           A explicitação dessas possibilidades de liberdade origina, em maior ou menor medida,
                                    a unidade do indivíduo, a "aliança" de particularidade e genericidade para produzir uma indi-
                                    vidualidade unitária. Quanto mais unitária for essa individualidade (pois essa unidade,
                                    naturalmente, é apenas tendência, mais ou menos forte, mais ou menos consciente), tanto
                                    mais rapidamente deixa de ser aquela muda união vital do genérico e do particular a forma
                                    característica da inteira vida. A condição ontológico-social desse resultado é um relaxamento
                                    da relação entre a comunidade portadora do humano-genérico e o próprio indivíduo, o qual
72                                  — já enquanto indivíduo — dispõe de um certo âmbito de movimento no qual pode escolher
                                    sua própria comunidade e seu próprio modo de vida no interior das possibilidades dadas. A
                                    consequência disso é uma certa distância, graças à qual o homem pode construir uma relação
                                    com sua própria comunidade, bem como uma relação com sua própria particularidade vivida
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                                    enquanto "dado" relativo.
                                           Mas nem mesmo nesse caso deixa essa unidade individual de ser mera tendência,
                                    mera possibilidade. Na vida cotidiana, a esmagadora maioria da humanidade jamais deixa de
                                    ser, ainda que nem sempre na mesma proporção, nem tampouco com a mesma extensão,
                                    muda unidade vital de particularidade e genericidade. Os dois elementos funcionam em si e
                                    não são elevados à consciência. O fato de se nascer já lançado na cotidianidade continua
                                    significando que os homens assumem como dadas as funções da vida cotidiana e as exercem
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                                    paralelamente.
                                           Os choques entre particularidade e genericidade não costumam tornar-se conscientes na
                                    vida cotidiana; ambas subme-teru-se sucessivamente uma à outra do aludido modo, ou seja,
                                    "mudamente". Mas isso não significa que a particularidade se submeta a uma comunidade
                                    natural; nesse ponto, manifesta-se uma diferença de princípio entre a moderna estrutura da vida
                                    cotidiana e a explicitação da estrutura que precedeu o nascimento da individualidade. Pois já
                                    não existem "comunidades naturais". Com isso, aumentam as possibilidades que tem a
                                    particularidade de submeter a si o humano-genérico e de colocar as necessidades e interesses
                                    da integração social em questão a serviço dos afetos, dos desejos, do egoísmo do indivíduo.
                                           Esse aumento de possibilidade — essa oportunidade de vitória espontânea da
                                    particularidade — suscitou a ética como uma necessidade da comunidade social. As exigências
                                    e normas da ética formam a intimação que a integração específica determinada (e a tradição do
Prática Curricular IV



desenvolvimento humano) dirige ao indivíduo, a fim de que esse submeta sua particularidade
ao genérico e converta essa intimação em motivação interior. A ética como motivação (o que
chamamos de moral) é algo individual, mas não uma motivação particular: é individual no
sentido de atitude livremente adotada (com liberdade relativa) por nós diante da vida, a
sociedade e dos homens.
       Umas das funções da moral é a inibição, o veto. A outra é a transformação, a
culturalização das aspirações da particularidade individual. Isso não se refere apenas à vida
do indivíduo, mas também à da humanidade. Por mais intenso que seja o esforço
"transformador" e culturalizador da moral, não se supera sua função inibidora e essa se
impõe na medida em que a estrutura da vida cotidiana está caracterizada basicamente pela
muda coexistência de particularidade e genericidade.                                              73

       A vida cotidiana está carregada de alternativas, de escolhas. Essas escolhas podem ser
inteiramente indiferentes do ponto de vista moral (por exemplo, a escolha entre tomar um
ônibus cheio ou esperar o próximo); mas também podem estar moralmente motivadas (por




                                                                                                  www.facete.com.br
exemplo, ceder ou não o lugar a uma mulher de idade). Quanto maior é a importância da mo-
ralidade, do compromisso pessoal, da individualidade e do risco (que vão sempre juntos) na
decisão acerca de uma alternativa dada, tanto mais facilmente essa decisão eleva-se acima da
co-tidianidade e tanto menos se pode falar de uma decisão cotidiana . Quanto mais intensa é a
motivação do homem pela moral, isto é, pelo humano-genérico, tanto mais facilmente sua
particularidade se elevará (através da moral) à esfera da ge-nericidade. Nesse ponto, termina a
muda coexistência de particularidade e genericidade. É necessário o conhecimento do próprio
Eu, o gnôthi seautón, o conhecimento e a apaixonada assimilação das intimações humano-


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
genéricas, a fim de que o homem seja capaz de decidir elevando-se acima da cotidiani-dade.
Kant buscava no imperativo categórico o critério formal desse comportamento. Na realidade,
nenhum homem é capaz de atuar de tal modo que seu ato se converta em exemplo universal,
já que todo homem atua sempre como indivíduo concreto e numa situação concreta. Mas o
caráter paradigmático existe apesar de tudo, na medida em que se produz aquela elevação até
o genericamente humano.
       Temos de introduzir aqui, contudo, duas restrições. Por um lado, a elevação ao
humano-genérico não significa jamais uma abolição da particularidade. Como se sabe, as
paixões e sentimentos orientados para o Eu (para o Eu particular) não desaparecem, mas
"apenas" se dirigem para o exterior, con-vertem-se em motor da realização do humano-
genérico, ou então permanecem em suspenso — na medida em que inibem a ação moralmente
motivada — enquanto duram as ações correspondentes. Por outro lado, uma decisão moral, no
Prática Curricular IV



                                    sentido aqui colocado, deve sempre ser considerada como uma tendência. Não é possível
                                    distinguir, de modo rigoroso e inequívoco, entre as decisões e ações cotidianas e aquelas
                                    moralmente motivadas. A maioria das ações e escolhas tem motivação heterogênea; as
                                    motivações particulares e as genérico-morais encontram-se e se unem, de modo que a elevação
                                    acima do particular-individual jamais se produz de maneira completa, nem jamais deixa de
                                    existir inteiramente, mas ocorre geralmente em maior ou menor medida. Não há "muralha
                                    chinesa" entre as esferas da cotidianidade e da moral. Apenas os moralistas utilizam
                                    motivações morais "puras" e, mesmo eles, o fazem mais na teoria que na realidade.
                                           Não se pode falar de "muralha chinesa", antes de mais nada, pelo fato de que a
                                    herança moral do passado da humanidade e a exigência moral da época revelam-se ao homem
                                    até mesmo nos usos e normas consuetudinárias da cotidianidade, cuja assimilação pode se
74                                  produzir de modo inteiramente espontâneo, sem nenhuma motivação moral. Mas, ainda que
                                    essas normas contivessem motivos morais, a elevação acima da particularidade ou sua
                                    suspensão não anularia o próprio movimento, nem sua existência estaria em contradição com
                                    aquela "muda coexistência".
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                                           Os conflitos extremos e puramente morais se produzem nos casos em que a motivação
                                    moral torna-se determinante e seu impulso, sua finalidaae e seu objeto são entendidos como
                                    instrumento de elevação do humano-genérico. O caso típico desse comportamento — ainda
                                    que não o único — é o serviço à comunidade. Mas o motivo moral manifesta-se igualmente
                                    quando, com nosso comportamento pessoal, representamos o comportamento "correto" do
                                    gênero humano (por exemplo, na atitude do estóico diante da morte natural). O caminho
                                    desse comportamento é a escolha (a decisão), a concentração de todas as nossas forças na
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                                    execução da escolha (ou decisão) e a vinculação consciente com a situação escolhida e,
                                    sobretudo, com suas consequências. Numerosas etapas do "caminho" esboçado são também
                                    características das decisões semicotidianas, nas quais se realiza apenas parcialmente, ou nem
                                    mesmo parcialmente, a elevação ao humano-genérico, a suspensão da particularidade. A
                                    escolha e a aceitação das consequências, por exemplo, formam um só processo. Mas, na
                                    cotidianidade, não é possível concentrar todas as energias em cada decisão. Um
                                    comportamento de tal tipo estaria em contradição com a estrutura básica da cotidianidade.
                                    Também seria absurdo, de nossa parte, assumir conscientemente as consequências de uma
                                    escolha não praticada pelo indivíduo inteiro. O "ato de assumir" ou a aceitação são aqui mais
                                    ou menos passivos e com-binam-se muito bem com a pergunta característica da parti-
                                    cularidade: "E por que isso haveria de acontecer precisamente comigo?". O herói da escolha
                                    moral é seu próprio destino; e aquilo que lhe acontece só pode acontecer a ele. O cume da
Prática Curricular IV



elevação moral acima da cotidianidade é a catarse. Na catarse, o homem torna-se consciente
do humano-genérico de sua individualidade.
       Em nenhuma esfera da atividade humana (e não apenas no caso da elevação moral), é
possível traçar uma linha divisória rigorosa e rígida entre o comportamento cotidiano e o não
cotidiano. (Estamos pensando, naturalmente, no caso dos comportamentos em que seja
possível uma elevação consciente ao humano-genérico.) Basta pensar na esfera política. Tam-
pouco fazem parte da cotidianidade as escolhas e decisões do "amour passion", por causa da
intensidade com que se processam a escolha e a paixão; mas, uma vez convertido em costume
e talvez mesmo em rotina, o amor pode novamente "dis-solver-se" na cotidianidade13.
       As formas de elevação acima da vida cotidiana que produzem objetivações duradouras
são a arte e a ciência. Reme-temo-nos nesse contexto, à profunda análise realizada por Georg                 75
                                                        14
Lukács no capítulo introdutório de sua Estética . De acordo com essa análise, o reflexo
artístico e o reflexo científico rompem com a tendência espontânea do pensamento cotidiano,
tendência orientada ao Eu individual-particular. A arte realiza tal processo porque, graças à




                                                                                                             www.facete.com.br
sua essência, é autoconsciência e memória da humanidade; a ciência da sociedade, na medida
em que desantropocentriza (ou seja, deixa de lado a teologia referida ao homem singular); e a
ciência da natureza, graças a seu caráter desantropomorfizador. Nem mesmo a ciência e a arte
estão separadas da vida do pensamento cotidianos por limites rígidos, como podemos ver em
vários aspectos. Antes de mais nada, o próprio cientista ou artista têm vida cotidiana: até
mesmo os problemas que enfrentam através de suas objetivações e suas obras lhes são
colocados, entre outras coisas (tão-somente entre outros, decerto), pela vida. Artista e
cientista têm sua particularidade individual enquanto homens da cotidianidade; essa


                                                                                                             Faculdade de Educação Teológica -
particularidade pode se manter em suspenso durante a produção artística ou científica, mas
intervém na própria objetivação através de determinadas mediações (na arte e nas ciências
sociais, através da mediação da individualidade) . Finalmente, toda obra significativa volta à
cotidianidade e seu efeito sobrevive na cotidianidade dos outros.
       O meio para essa superação dialética [A ufhebung] parcial ou total da particularidade,
para sua decolagem da cotidianidade e sua elevação ao humano-genérico, é a homogeneização.
Sabemos que a vida cotidiana é heterogênea, que solicita todas as nossas capacidades em
várias direções, mas nenhuma capacidade com intensidade especial. Na expressão de Georg
Lu-kács: é o "homem inteiro" ["ganze Mensch"] quem intervém na cotidianidade. O que
13
  O conceito de "dissolução" não tem aqui sentido pejorativo, mas pretende apenas caracterizar a diferença
entre cotidianidade e não-cotidianidade.
14
  Georg Lukács, Werke, vol. 11, Àslhetik I, t. 1, Luchterhand, Neu-wied e Berlim, pp. 33-138, Probleme der
Widerspiegelung im Alltags-leben (Problemas do Reflexo na Vida Cotidiana).
Prática Curricular IV



                                    significa homogeneização? Significa, por um lado, que concentramos toda nossa atenção
                                    sobre uma única questão e "suspenderemos" qualquer outra atividade durante a execução da
                                    anterior tarefa; e, por outro lado, que empregamos nossa inteira individualidade humana na
                                    resolução dessa tarefa. Utilizemos outra expressão de Lukács: trans-formamo-nos assim em um
                                    "homem inteiramente" ["Menschen ganz"}. E significa, finalmente, que esse processo não se
                                    pode realizar arbitrariamente, mas tão-somente de modo tal que nossa particularidade individual
                                    se dissipe na atividade humanogené-rica que escolhemos consciente e autonomamente, isto é,
                                    enquanto indivíduos.
                                           Apenas quando esses três fatores se verificam conjuntamente é que podemos falar de
                                    uma homogeneização que se eleva totalmente acima da cotidianidade para penetrar na esfera
                                    do humano-genérico. O tipo de homogeneização que só apresenta o primeiro fator, ou seja, a
76                                  concentração em uma única tarefa, concilia-se ainda perfeitamente com a cotidianidade,
                                    fazendo parte orgânica da mesma. Quando, por exemplo, temos de assimilar um novo
                                    movimento no trabalho, não podemos "pensar em outra coisa" enquanto trabalhamos, como
                                    acontece, ao contrário, no exercício de movimentos já assimilados, convertidos em algo
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                                    mecânico, nesse caso, portanto, suspendemos qualquer outra atividade. E, quando examinamos
                                    uma pessoa para qualificá-la em algum campo profissional, também homogeneizamos
                                    espontaneamente, pois fazemos abs-tração das demais propriedades da pessoa que temos
                                    diante de nós e encaramo-la tão-somente sob o aspecto de sua adequação ou inadequação para
                                    a prática de um determinado trabalho. Mas, nesse caso, a concentração — a momentânea
                                    homogeneização — não tem consequências posteriores para nós.
                                           É evidente que, em tal tipo de homogeneização, não atuou toda nossa inteira
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                                    individualidade; por isso, a concentração não implica numa suspensão de nossa
                                    particularidade. Mas os atos de decisão podem igualmente ocorrer num plano "superior", que
                                    ultrapasse em maior ou menor medida a cotidiani-dade. Por exemplo: quando um camponês
                                    começa a trabalhar numa fábrica e a assimilação dos movimentos do trabalho vai decidir se
                                    ele é ou não adequado para o trabalho industrial, se poderá ou não abandonar para sempre a
                                    sua aldeia, trata-se de uma prova cujos efeitos destinam-se a afetar toda a sua vida; durante o
                                    exame a que for submetido, portanto, poderão produzir-se conflitos, até mesmo conflitos
                                    morais. Em casos desse tipo, o Eu desempenha um papel decisivo na ação e a decisão torna-se,
                                    em maior ou menor medida, função da individualidade. Decisões desse tipo já transformam,
                                    mais ou menos amplamente, o homem inteiro, apresentando efeitos posteriores: embora ainda
                                    sem predominar, manifesta-se já a homogeneização que abre caminho para o humano-
                                    genérico; nesse ponto, tem início a "saída" da cotidianidade, sem chegar a consu-mar-se. A
Prática Curricular IV



maioria das decisões que tomamos em nossa vida — a maioria das decisões fáticas — realiza-
se nesse plano.
       A homogeneização em direção ao humano-genérico, a completa suspensão do
particular-individual, a transformação em "homem inteiramente", é algo totalmente
excepcional na maioria dos seres humanos. Nem sequer nas épocas ricas em grandes
comoções sociais existem muitos pontos críticos desse tipo na vida do homem médio. A vida
de muito homens chega ao fim sem que se tenha produzido nem um só ponto crítico
semelhante. A homogeneização em direção ao humano-genérico só deixa de ser excepcional,
um caso singular, naqueles indivíduos cuja paixão dominante se orienta para o hu-mano-
genérko e, ademais, quando têm a capacidade de realizar tal paixão. Esse é o caso dos
grandes e exemplares moralistas, dos estadistas (revolucionários), dos artistas e dos cientistas.   77
De resto, a respeito do grande estadista, do revolucionário profissional, do grande artista, do
grande cientista, deve-se afirmar que não apenas sua paixão principal, mas também seu
trabalho principal, sua atividade básica, promovem a elevação ao humano-genérico e a




                                                                                                    www.facete.com.br
implicam em si mesmos. Por isso, para tais pessoas, a homogeneização em "homem inteira-
mente" é elemento necessário de sua essência, da atividade básica de suas vidas.
       Mas não se deve esquecer que o artista, o cientista, o estadista não vivem
constantemente nessa tensão. Possuem também, como todos os outros homens, uma vida
cotidiana; o par-ticular-individual manifesta-se neles, tal como nos demais homens. Tão-
somente durante as fases produtivas essa particularidade é suspensa; e, quando isso ocorre, tais
indivíduos se convertem, através da mediação de suas individualidades, em representantes do
género humano, aparecendo como protagonistas do processo histórico global. O estadista que


                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
deve convencer às pessoas do seu meio, à multidão, e levá-las consigo à ação, ou que tem de
influir nos soldados para que tendam a um determinado objetivo, ou de resolver situações
complicadas prevendo suas consequências, esse estadista eleva-se acima de si mesmo, deixa-
se levar (por assim dizer) por sua força "invisível" que, com frequência, chama-se de
inspiração, mas que é tão-somente a força elevadora da decisão humano-genérica. O artista
parece guiado por uma mão "invisível", de tal modo que produz em sua obra algo diverso
daquilo que se propunha produzir; é arrastado pela força da objetividade, que extirpa da sua
criação tudo aquilo que, em seu projeto, pertencia ainda ao individual-particular.
       Não podemos aqui estudar detalhadamente a estrutura da vida cotidiana. Limitar-nos-
emos a aludir a alguns momentos dessa estrutura que apresentem importância para os
desenvolvimentos subsequentes.
       A característica dominante da vida cotidiana é a espontaneidade. Ê evidente que nem
Prática Curricular IV



                                    toda atividade cotidiana é espontânea no mesmo nível, assim como tampouco uma mesma ati-
                                    vidade apresenta-se como identicamente espontânea em situações diversas, nos diversos
                                    estágios de aprendizado. Mas, em todos os casos, a espontaneidade é a tendência de toda e
                                    qualquer forma de atividade cotidiana. A espontaneidade caracteriza tanto as motivações
                                    particulares (e as formas particulares de atividade) quanto as atividades humano-genéricas
                                    que nela têm lugar. O ritmo fixo, a repetição, a rigorosa regularidade da vida cotidiana (que
                                    se rompem quando se produz a elevação acima da cotidianidade) não estão absolutamente em
                                    contradição com essa espontaneidade; ao contrário, implicam-se mutuamente. A assimilação
                                    do comportamento consuetudinário, das exigências sociais e dos modismos, a qual, na
                                    maioria dos casos, é uma assimilação não tematizada, já exige para sua efetivação a
                                    espontaneidade. Pois, se nos dispuséssemos a refletir sobre o conteúdo de verdade material ou
78                                  formal de cada uma de nossas formas de atividade, não poderíamos realizar nem sequer uma
                                    fração das atividades cotidianas imprescindíveis; e, assim, tornar-se-iam impossíveis a produção
                                    e a reprodução da vida da sociedade humana. Mas a espontaneidade não se expressa apenas
                                    na assimilação do comportamento consuetudinário e do ritmo da vida, mas também no fato de
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                                    que essa assimilação faz-se acompanhar por motivações efêmeras, em constante alteração, em
                                    permanente aparecimento e desaparecimento. Na maioria das formas de ativiuade da vida
                                    cotidiana, as motivações do homem não chegam a se tornar típicas, ou seja, as motivações em
                                    permanente alteração estão muito longe de expressar a totalidade, a essência do indivíduo. O
                                    mesmo pode ser dito da maioria das motivações explicita mente formuladas, embora em
                                    menores proporções que no caso das motivações "mudas".
                                           Na vida cotidiana, o homem atua sobre a base da probabilidade, da possibilidade:
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                                    entre suas atividades e as consequências delas, existe uma relação objetiva de probabilidade.
                                    Jamais é possível, na vida cotidiana, calcular com segurança científica a consequência
                                    possível de uma ação. Nem tampou-do haveria tempo para fazê-lo na múltipla riqueza das
                                    atividades cotidianas. Ademais, isso nem mesmo é necessário: no caso médio, a ação pode ser
                                    determinada por avaliações probabilísticas suficientes para que se alcance o objetivo visado. Os
                                    conceitos de caso "médio" e segurança "suficiente" apresentam, nesse contexto, a mesma
                                    importância. O primeiro indica o fato de que são perfeitamente possíveis casos em que fracas-
                                    sam as considerações probabilísticas. Nesses casos, podemos falar de catástrofes da vida
                                    cotidiana. Considerações probabilísticas utilizamos, por exemplo, ao cruzar a rua: jamais cal-
                                    culamos com exatidão nossa velocidade e aquela dos veículos. Até agora nunca fomos parar
                                    debaixo de um carro, embora isso possa ocorrer; mas se, antes de atravessarmos, resolvês-
                                    semos realizar cálculos cientificamente suficientes, jamais chegaríamos a nos mover. Também o
Prática Curricular IV



conceito de "suficiência" indica uma fronteira dúplice. Significa que, na cotidianidade,
podemos efetivamente nos orientar e atuar com a ajuda de avaliações probabilísticas, na
medida em que, abaixo dessa linha, na esfera da mera possibilidade, ainda não podemos con-
segui-lo e, por cima da correspondente fronteira superior, na esfera da segurança científica, já
não mais o necessitamos. Decerto, essa situação implica no risco da ação baseada na pro-
babilidade; mas não se trata de um risco autonomamente assumido e sim de um risco
imprescindível e necessário para a vida. Precisamente nisso ele se diferencia dos riscos da indi-
vidualidade, que são riscos morais.
       Já a existência dessa ação realizada sobre a base da probabilidade indica o
economicismo da vida cotidiana. Toda categoria da ação e do pensamento manifesta-se e
funciona exclusivamente enquanto é imprescindível para a simples continuação da                     79
cotidianidade; normalmente, não se manifesta com profundidade, amplitude ou intensidade
especiais, pois isso destruiria a rígida "ordem" da cotidianidade. E, quando efetivamente se
manifesta com maior intensidade, dissolve fatalmente essa ordem, tanto nos casos em que




                                                                                                    www.facete.com.br
tende "para cima", ele-vando-nos ao humano-genérico, fato que jamais pode caracterizar a
totalidade de nossa vida, quanto naqueles em que tende "para baixo", a ponto de — como
aconteceu a Oblomov — incapacitar-nos para a vida.
       O pensamento cotidiano orienta-se para a realização de atividades cotidianos e, nessa
medida, é possível falar de unidade imediata de pensamento e ação na cotidianidade. As
idéias necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao plano da teoria, do mesmo modo como
a atividade cotidiana não é praxis. A atividade prática do indivíduo só se eleva ao nível da
praxis quando é atividade humano-genérica consciente; na unidade viva e muda de


                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
particularidade e genericidade, ou seja, na cotidianidade, a atividade individual não é mais do
que uma parte da praxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir do dado,
produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado.
       A unidade imediata de pensamento e ação implica na inexistência de diferença entre
"correto" e "verdadeiro" na cotidianidade; o correto é também "verdadeiro". Por conseguinte,
a atitude da vida cotidiana é absolutamente pragmática.
       Todavia, deve-se esclarecer e complementar essa afirmação acerca da igualdade de
correto e verdadeiro na vida cotidiana. O pensamento cotidiano apresenta-se repleto de pensa-
mentos fragmentários, de material cognoscitivo e até de juízos que nada têm a ver com a
manipulação das coisas ou com nossas objetivações coisificadas, mas que se referem exclusiva-
mente a nossa orientação social. Na manipulação das coisas ou de nossas objetivações
coisificadas, a identificação espontânea do "correto" e do "verdadeiro" é aproblemática (pelo
Prática Curricular IV



                                    menos no plano da vida cotidiana, pois aqui não falamos da ciência). Mas essa
                                    aproblematicidade termina quando utilizamos o "correto" para avaliar a possibilidade de nos
                                    movermos num meio determinado e de movermos esse mesmo meio determinado. Nesse caso,
                                    o correto é verdade tão-somente na medida em que, com sua ajuda, pudermos prosseguir na
                                    cotidianidade com os menores atritos possíveis. Isso nada significa com relação ao conteúdo
                                    veritativo objetivo (independente de nossa atividade individual) do pensamento ou do juízo em
                                    questão. (Naturalmente, a atividade individual é aqui muito poucas vezes completamente
                                    individual; em geral, é uma projeção das aspirações e dos interesses de uma camada ou classe
                                    social). Até mesmo os juízos e pensamentos objetivamente menos verdadeiros podem resultar
                                    corretos na atividade social, quando representarem os interesses da camada ou classe a que
                                    pertence o indivíduo e, desse modo, facilitarem a esse a orientação ou a ação correspondente
80                                  às exigências cotidianas da classe ou camada em questão. É indiscutível que uma ação
                                    correspondente aos interesses de uma classe ou camada pode se elevar ao plano da praxis,
                                    mas nesse caso superará o da cotidianida-de; a teoria da cotidianidade, nesses casos,
                                    converte-se em ideologia, a qual assume uma certa independência relativa diante da praxis
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                                    cotidiana, ganha vida própria e, consequentemente, coloca-se em relação primordial não com a
                                    atividade cotidiana mas com a praxis. Não será demais repetir aqui que não existe nenhuma
                                    "muralha chinesa" entre a atividade cotidiana e a praxis não-cotidiana ou o pensamento não-
                                    cotidiano mas existem infinitos tipos de transição.
                                           Deduz-se, do exposto, que a fé e a confiança desempenham na vida cotidiana um
                                    papel muito mais importante que nas demais esferas da vida. Isso não significa, de modo
                                    algum, que a fé e a confiança sejam aqui mais intensas que em outros campos: a fé religiosa
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                                    costuma ser mais intensa e mais incondicional, assim como a confiança tem significação mais
                                    intensa e emocionalmente maior na ética ou na atividade política. O que queremos dizer é que
                                    esses dois sentimentos "ocupam mais espaço" na cotidianidade, que sua função mediadora
                                    torna-se necessária em maior número de situações. Os homens não podem dominar o todo com
                                    um golpe de vista em nenhum aspecto da realidade; por isso, o conhecimento dos contornos
                                    básicos da verdade requer confiança (em nosso método científico, na cognoscibilidade da
                                    realidade, nos resultados científicos de outras pessoas, etc). Na cotidianidade, o conhecimento
                                    se limita ao aspecto relativo da atividade, e, por isso, o "espaço" da confiança e da fé é
                                    inteiramente diverso. Ao astrônomo, não basta ter fé em que a Terra gira em redor do sol;
                                    mas, na vida cotidiana, essa fé é plenamente suficiente. Não basta ao médico acreditar na
                                    ação terapêutica de um remédio, mas essa fé é suficiente para o enfermo (e precisamente na
                                    base de uma simples fé posta no médico ou na medicina, com maior ou menor fundamento
Prática Curricular IV



empírico). Esses exemplos são já suficientes para indicar que não estamos aqui em face de
contradições insolúveis, mas de modos de comportamento "relacionados entre si". Quando o
médico atua na base da confiança (coisa que ocorre frequentemente), está atuando na base da
cotidianidade. E, em troca, quando — num dado momento da vida cotidiana — o indivíduo
começa a refletir acerca de uma superstição que compartilhava, ou de uma tese que assimilou
da integração de que faz parte, passando a supor que nem uma nem outra são aceitáveis porque
contradizem a experiência, e, logo após, começa a examinar o objeto posto em questão
comparando-o com a realidade, para terminar recusando-o, em tal momento o referido
indivíduo elevou-se acima do decurso habitual do pensamento cotidiano, ainda que apenas em
tal momento.
       Temos falado de fé e de confiança, até aqui, de modo global. Neste contexto, não         81
podemos analisar a questão da diferença entre esses afetos, a qual se manifesta apesar da
frequente comunidade de função dos mesmos; limitar-nos-emos a precisar que a confiança é
um afeio do indivíduo inteiro e, desse modo, mais acessível à experiência, à moral e à teoria




                                                                                                www.facete.com.br
do que a fé, que se enraíza sempre no individual-particular.
       Dado que o pensamento cotidiano é pragmático, cada uma de nossas atividades
cotidianas faz-se acompanhar por uma certa fé ou uma certa confiança. Não há lugar para a fé
quando está em jogo a "justeza" da manipulação ou da obje-tivação coisifiçada; em princípio,
basta a experiência para realizar as correções necessárias. Depende da totalidade, da in-
dividualidade do homem e da situação social dada qual será o afeto fundamental do
movimento no meio social, no qual a unidade de correto e verdadeiro manifesta-se de modo
mais problemático.


                                                                                                Faculdade de Educação Teológica -
       O característico do pensamento cotidiano é a ultragenera-Uzação, seja em suas formas
"tradicionais", seja como consequência da experiência individual. Os juízos ultrageneraliza-
dores são todos eles juízos provisórios que a prática confirma ou, pelo menos, não refuta,
durante o tempo em que, baseados neles, formos capazes de atuar e de nos orientar. Se o afeto
"confiança" adere a um juízo provisório, não representa nenhum "preconceito" o fato de se ter
"apenas" juízos provisórios ultrageneralizados; como vimos, nem sequer é possível formular a
exigência, tanto no começo quanto durante a ação, de juízos mais precisos, sob pena de
perdermos a capacidade de ação. Mas, quando já não se trata da orientação na vida cotidiana
e sim de nossa inteira individualidade, de nossa integridade moral e de seu desenvolvimento
superior, caso em que só podemos operar com juízos provisórios pondo em risco essa
integridade, então deveremos ter a capacidade de abandoná-los ou modificá-los. Isso poderá
ser feito quando o juízo se apoiar na confiança, mas não quando se basear na fé. Os juízos
Prática Curricular IV



                                    provisórios que se enraízam na particularidade e, por conseguinte, se baseiam na fé são pré-
                                    juízos ou preconceito15.
                                            Os juízos provisórios (e os preconceitos) são meros exemplos particulares de
                                    ultrageneralização. Pois é característico da vida cotidiana em geral o manejo grosseiro do
                                    "singular". Sempre reagimos a situações singulares, respondemos a estímulos singulares e
                                    resolvemos problemas singulares. Para podermos reagir, temos de subsumir o singular, do
                                    modo mais rápido possível, sob alguma universalidade; temos de organizá-lo em nossa
                                    atividade cotidiana, no conjunto de nossa atividade vital; em suma, temos de resolver o
                                    problema. Mas não temos tempo para examinar todos os aspectos do caso singular, nem
                                    mesmo os decisivos: temos de situá-lo o mais rapidamente possível sob o ponto de vista da
                                    tarefa colocada. E isso só se torna possível graças à ajuda dos vários tipos de ultragene-
82                                  ralização. É assim, por exemplo, que se recorre à analogia. É através dela que;
                                    principalmente, funciona o nosso conhecimento cotidiano do homem, sem o qual não
                                    poderíamos sequer nos orientar; classificamos em algum tipo já conhecido por experiência o
                                    homem que agora queremos conhecer sob algum aspecto importante para nós e essa
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                                    classificação por tipos permite nossa orientação. Tão-somente a posteriori torna-se "evidente"
                                    na prática que podemos dissolver aquela analogia e conhecer o fenômeno singular — nesse
                                    caso, o homem em questão — em sua concreta totalidade e, assim, avaliá-lo e compreendê-lo.
                                    Decerto, o juízo provisório de analogia pode se cristalizar em preconceito; pode ocorrer que
                                    já não prestemos atenção a nenhum fato posterior que contradiga abertamente nosso juízo
                                    provisório, tanto podemos nos manter submetidos à força de nossas próprias tipificações, de
                                    nossos preconceitos. Desse modo, o juízo provisório analógico é inevitável no conhecimento
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                                    cotidiano dos homens, mas está exposto ao perigo da cristalização (fossilização); e, embora
                                    inicialmente o tratamento grosseiro do singular não seja prejudicial, pode con-verter-se num
                                    dano irreparável se se conserva após ter cumprido sua função. Pode se tratar de um erro
                                    moral, caso em que a orientação na vida cotidiana não será "perturbada"; mas também pode
                                    ser um erro capaz de acarretar uma das catástrofes da vida cotidiana.
                                            Algo parecido ocorre no caso do uso dos precedentes. O precedente tem mais
                                    importância para o conhecimento da situação que para o conhecimento das pessoas. É um
                                    "indicador" útil para nosso comportamento, para nossa atitude. ("Outros agiram nessa
                                    situação em que me encontro desse ou daquele modo", "já havia exemplos disso", etc.) Sem
                                    essa atitude, ver-nos-emos constantemente na situação do asno de Buridan. Por isso, em

                                    15
                                      Estudei detalhadamente os preconceitos no livro Tarsadalmi nerep és (Papel social e preconceitos), publicado
                                    em húngaro pela Akadémiai Kiadó (Editora Acadêmica), Budapeste, 1966.
Prática Curricular IV



princípio, não se trata de um "mal". Essa atitude tem efeitos negativos, ou mesmo destrutivos,
apenas quando nossa percepção do precedente nos impede de captar o novo, irrepetível e
único de uma situação.
       Não há vida cotidiana sem imitação. Na assimilação do sistema consuetudinário,
jamais procedemos meramente "segundo preceitos", mas imitamos os outros; sem mimese,
nem o trabalho nem o intercâmbio seriam possíveis. Como sempre, o problema reside em
saber se somos capazes de produzir um campo de liberdade individual de movimentos no
interior da mimese, ou, em caso extremo, de deixar de lado completamente os costumes
miméticos e configurar novas atitudes. Naturalmente, existem na vida cotidiana setores nos
quais não é necessária a individualização da mimese, bem como épocas nas quais ela se torna
supérflua; ademais, os tipos e os graus de individualização são necessariamente diversos nas     83
várias esferas vitais, nas diferentes épocas e situações.
       A entonação tem uma grande importância na vida cotidiana, tanto na configuração de
nosso tipo de atividade e de pensamento quanto na avaliação dos outros, na comunicação, etc.




                                                                                                 www.facete.com.br
O aparecimento de um indivíduo em dado meio "dá o tom" do sujeito em questão, produz uma
atmosfera tonal específica em torno dele e que continua depois a envolvê-lo. A pessoa que
não produz essa entonação carece de individualidade, ao passo que a pessoa incapaz de
percebê-la é insensível a um aspecto importantíssimo das relações humanas. Mas conservar-
se preso a essa realidade tonal seria outro tipo de ultragene-ralização, mais no terreno
emocional, nesse caso, que naquele dos juízos. Talvez fosse possível aplicar a esse fenómeno
o termo "preconceito emocional". O fenômeno apresenta-se frequentemente ligado ao
preconceito baseado na ultrageneralização.


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
       Todos esses momentos característicos do comportamento e do pensamento cotidianos
formam uma conexão necessária, apesar do caráter aparentemente casual da "seleção" em que
aqui se apresentam. Todos têm em comum o fato de serem necessários para que o homem seja
capaz de viver na cotidia-nidade. Não há vida cotidiana sem espontaneidade, pragmatismo,
economicismo, andologia, precedentes, juízo provisório, ul-trageneralização, mimese e
entonação. Mas as formas necessárias da estrutura e do pensamento da vida cotidiana não
devem se cristalizar em absolutos, mas têm de deixar ao indivíduo uma margem de
movimento e possibilidades de explicitação. (Isso tem grande importância para o que diremos
mais abaixo). Se essas formas se absolutizam, deixando de possibilitar uma margem de
movimento, encontramo-nos diante da alienação da vida cotidiana.
       Deve-se afirmar, antes de mais nada, que alienação é sempre alienação em face de
alguma coisa e, mais precisamente, em face das possibilidades concretas de desenvolvimento
Prática Curricular IV



                                    genérico da humanidade. A mimese do mesmo tipo, fenómeno generalizado na época em que
                                    ainda não se havia desenvolvido o indivíduo moderno, mas presente formalmente também em
                                    nossos dias, nas mesmas proporções, deve ser entendida como produto da alienação apenas
                                    nesse último caso, pois as possibilidades configuradas na humanidade a partir daquele então
                                    exigem já uma orientação amplamente individual.
                                           A vida cotidiana, de todas as esferas da realidade, é aquela que mais se presta à
                                    alienação. Por causa da coexistência "muda", em-si, de particularidade e genericidade, a
                                    atividade cotidiana pode ser atividade humano-genérica não consciente, embora suas motivações
                                    sejam, como normalmente ocorre, efêmeras e particulares. Na cotidianidade, parece "natural" a
                                    desagregação, a separação de ser e essência. Na coexistência e sucessão heterogêneas das
                                    atividades cotidianas, não há por que revelar-se nenhuma individualidade unitária; o homem
84                                  devorado por e em seus "papéis" pode orientar-se na cotidiani-dade através do simples
                                    cumprimento     adequado    desses   "papéis".   A    assimilação   espontânea   das   normas
                                    consuetudinárias dominantes pode converter-se por si mesma em conformismo, na medida em
                                    que aquele que as assimila é um indivíduo sem "núcleo"; e a particularidade que aspira a uma
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                                    "vida boa" sem conflitos reforça ainda mais esse conformismo com a sua fé.
                                           Mas a estrutura da vida cotidiana, embora constitua indubitavelmente um terreno
                                    propício à alienação, não é de nenhum modo necessariamente alienada. Sublinhemos, mais
                                    uma vez, que as formas de pensamento e comportamento produzidas nessa estrutura podem
                                    perfeitamente deixar ao indivíduo uma margem de movimento e possibilidades de explicitação,
                                    permitindo-lhe — enquanto unidade consciente do humano-ge-nérico e do individual-particular
                                    — uma condensação "prismática", por assim dizer, da experiência da cotidianidade, de tal
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                                    modo que essa possa manifestar-se como essência unitária das formas heterogêneas de
                                    atividade próprias da cotidianidade e nelas objetivar-se. Nesse caso, o ser e a essência não se
                                    apresentam separados e as formas de atividade da cotidianidade não aparecem como formas
                                    alienadas, na proporção em que tudo isso é possível para os indivíduos de uma dada época e
                                    no plano máximo da individualidade — e, por conseguinte, de desenvolvimento do humano-
                                    genérico — característico de tal época. Quanto maior for a alienação produzida pela estrutura
                                    econômica de uma sociedade dada, tanto mais a vida cotidiana irradiará sua própria alienação
                                    para as demais esferas.
                                           Existe alienação quando ocorre um abismo entre o desenvolvimento humano-genérico e
                                    as possibilidades de desenvolvimento dos indivíduos humanos, entre a produção humano-
                                    genérica e a participação consciente do indivíduo nessa produção. Esse abismo não teve a
                                    mesma profundidade em todas as épocas nem para todas as camadas sociais; assim, por exem-
Prática Curricular IV



plo, fechou-se quase completamente nas épocas de florescimento da polis ática e do
Renascimento italiano; mas, no capitalismo moderno, aprofundou-se desmesuradamente.
Ademais, tal abismo jamais foi inteiramente insuperável para o indivíduo isolado: em todas as
épocas, sempre houve um número maior ou menor de pessoas que, com ajuda de seu talento,
de sua situação, das grandes constelações históricas, conseguiu superá-lo. Mas, para a massa,
para o grande número dos demais, subsistiu o abismo, quer quando era muito profundo, quer
quando mais superficial.
       Como dissemos, o moderno desenvolvimento capitalista exacerbou ao extremo essa
contradição. Por isso, a estrutura da cotidianidade alienada começou a expandir-se e a
penetrar em esferas onde não é necessária, nem constitui uma condição prévia da orientação,
mas nas quais aparece até mesmo como obstáculo para essa última.                                  85

       Não se trata de afirmar que as categorias da cotidianidade sejam alheias às esferas não-
cotidianas. Basta aludir à função desempenhada pelos precedentes na atividade política, pela
analogia na comparação científica e artística, pela mimese ou pela entonação na arte. Mas




                                                                                                  www.facete.com.br
essa limitada comunidade ou universalidade de categorias jamais significou uma identidade
estrutural com, ou uma assimilação pelas, formas de atividade e conteúdos da cotidianidade.
Em troca, a ciência moderna, ao colocar-se sobre fundamentos pragmáticos, "absorve",
assimila a estrutura cotidiana; e, quando a arte moderna decide escolher como temas as
efêmeras motivações e resolve fazer abstração da essência da vida humana, da constante
oscilação e da interação entre a cotidianidade e a não-cotidianidade, a cotidianidade absorve
inclusive a arte. A aludida estrutura, que na cotidianidade não aparece como um fenômeno de
alienação, é necessariamente manifestação de alienação na arte, na ciência, nas decisões


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
morais e na política. E é evidente, com efeito, que a estrutura cotidiana só começa a expandir-
se "para cima" quando ela própria já é alienada.
       Repetimos: a vida cotidiana não é alienada necessariamente, em consequência de sua
estrutura, mas apenas em determinadas circunstâncias sociais. Em todas as épocas, existiram
personalidades representativas que viveram numa cotidianidade não-alienada; e, dado que a
estruturação científica da sociedade possibilita o final da alienação, essa possibilidade
encontra-se aberta a qualquer ser humano.
       Mas isso não significa, de nenhum modo, que a vida de qualquer homem torne-se
humano-genérica em sua atividade principal no trabalho e nas objetivações. Humanização da
vida cotidiana não quer dizer que os homens vão receber a inteligência de Planck, a mão de
Menuhin ou as capacidades políticas de Lênin. Trata-se de algo que pode ser expresso com as
palavras de Goethe: todo homem pode ser completo, inclusive na cotidianidade. Mas de que
Prática Curricular IV



                                    modo?
                                            Sabemos que a vida cotidiana tem sempre uma hierarquia espontânea determinada pela
                                    época (pela produção, pela sociedade, pelo posto do indivíduo na sociedade).
                                            Essa hierarquia espontânea possibilita à individualidade uma margem de movimento
                                    diferente em cada caso. Na época iniciada com a explicitação da sociedade burguesa, essa
                                    margem se ampliou, pelo menos em princípio. Possibilidades sempre existiram; mas, a partir
                                    do momento em que a relação de um homem com sua classe tornou-se "casual" (Marx), au-
                                    mentou para todo homem a possibilidade de construir para si uma hierarquia consciente, ditada
                                    por sua própria personalidade, no interior da hierarquia espontânea. Contudo, as mesmas
                                    relações e situações sociais que criaram essa nova possibilidade impediram, no essencial, seu
                                    desenvolvimento; no momento da superação dialética do conjunto da sociedade, ou seja, com
86                                  o fim da alienação, poder-se-á contar com a máxima explicitação daquela possibilidade.
                                    Ainda com as palavras de Goethe, podemos chamar de "condução da vida" (Lebens-fúhrung) a
                                    construção dessa hierarquia da cotidianidade efe-tuada pela individualidade consciente.
                                            "Condução da vida", portanto, não significa abolição da hierarquia espontânea da
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                                    cotidianidade, mas tão-somente que a "muda" coexistência da particularidade e da
                                    genericidade é substituída pela relação consciente do indivíduo com o humano-genérico e que
                                    essa atitude — que é, ao mesmo tempo, um "engagement" moral, de concepção do mundo, e
                                    uma aspiração à auto-realização e à autofruição da personalidade — "ordena" as várias e
                                    heterogêneas atividades da vida. A condução da vida supõe, para cada um, uma vida própria,
                                    embora mantendo-se a estrutura da cotidianidade; cada qual deverá apropriar-se a seu modo
                                    da realidade e impor a ela a marca de sua personalidade. Ê claro que a condução da vida é
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                                    sempre apenas uma tendência de realização mais ou menos perfeita. E é condução da vida
                                    porque sua perfeição é função da individualidade do homem e não de um dom particular ou
                                    de uma capacidade especial.
                                            Como vimos, a condução da vida não pode se converter em possibilidade social
                                    universal a não ser quando for abolida e superada a alienação. Mas não é impossível empenhar-
                                    se na condução da vida mesmo enquanto as condições gerais econô-mico-sociais ainda
                                    favorecem a alienação. Nesse caso, a condução da vida torna-se representativa, significa um
                                    desafio à desumanização, como ocorreu no estoicismo ou no epicurismo. Nesse caso, a
                                    "ordenação" da cotidianidade é um fenômeno nada cotidiano: o caráter representativo,
                                    "provocador", excepcional, transforma a própria ordenação da cotidianidade numa ação
                                    moral e política.
Prática Curricular IV




                           INDIVÍDUO        E   COMUNIDADE


                        Uma contraposição real ou aparente?

       EXISTE contraposição real entre indivíduo e comunidade, ou trata-se de uma
contraposição apenas aparente? Colocada nesse nível de generalidade, essa pergunta não pode
ter uma resposta unívoca. Pois a resposta depende sempre das peculiaridades do indivíduo e da
comunidade que estivermos considerando; ela sempre apresenta, em primeira instância, um
ca-ráter de conteúdo.
       Mas, antes de empreendermos uma análise detalhada do problema, devemos diferenciá-
                                                                                                  87
lo de outras questões com as quais é habitualmente confundido. A primeira delas refere-se à
relação entre indivíduo e sociedade, a segunda à relação entre indivíduo e grupo, a terceira à
relação entre indivíduo e massa.




                                                                                                  www.facete.com.br
       A vinculação do indivíduo com a sociedade coincide com a vinculação do indivíduo
com a comunidade quando a mais alta integração social assume ela mesma um caráter
comunitário. As últimas integrações desse tipo foram a família clânica e as tribos. Quanto
mais diferenciada e estruturada é uma sociedade concreta, tanto menos poder-se-á constituir
ela própria em comunidade do homem. Já na época da polis antiga e naquela dos estamentos
da Alta Idade Média, na da democracia urbana do Renascimento e ainda mais na situação de-
signada por Marx como "democracia de não-liberdade", a função de comunidade pode caber
apenas a uma das camadas ou classes essenciais da sociedade global, isto é, a uma integração


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
dentro da diferenciação. A partir do desenvolvimento dos grandes estados nacionais burgueses,
mesmo isso deixou de ser possível. Por outro lado, as teorias sociais contemporâneas estão
reagindo rapidamente a essa mudança. Nas utopias de Morus e de Campanella, a sociedade
inteira ainda funciona como uma comunidade; isso já não ocorre no utopismo que se inicia
com o Iluminismo francês. Desde Morelly até Fourier, o interesse dos utópicos concentra-se
em torno da questão de como construir uma sociedade a partir de comunidades, de como
possibilitar que a relação do indivíduo com a sociedade seja mediatizada por comunidades
orgânicas. No Contraí Social, Rousseau analisa detalhadamente a razão pela qual a ordem
estatal unitária moderna não pode ser uma comunidade; e, em LM Nouvelle Heloise, propõe-se
a apresentar um modelo da nova "pequena comunidade". É evidente que, tendo em vista a pro-
gressiva industrialização nessa época de "sociedades industriais", a única colocação razoável é
a última. Quando pensamos no futuro da humanidade, é quase impossível imaginar que a in-
Prática Curricular IV



                                    tegração total possa chegar a converter-se em comunidade; mais plausível aparece a imagem de
                                    uma estrutura social articulada em comunidades orgânicas.
                                           O problema indivíduo-comunidade não pode se identificar com a relação entre o
                                    indivíduo e o grupo, já que essa relação pode perfeitamente basear-se numa casualidade. Que
                                    nos matriculem na seção a ou b de um mesmo curso, por exemplo, é uma questão casual do
                                    ponto de vista da minha individualidade; também dependem do acaso o bairro em que vivo, a
                                    profissão para a qual sou formado, a fábrica em que encontro trabalho, etc. Na medida em que
                                    esses fatores deixam de ser casuais, na medida em que minha individualidade "constrói" o
                                    grupo a que pertenço, "meus" grupos convertem-se paulatinamente em comunidades. Nem
                                    todo grupo, portanto, pode ser considerado como uma comunidade, embora qualquer grupo
                                    possa chegar a ser comunidade. Para acrescentar um outro aspecto:          o indivíduo pode
88                                  pertencer a numerosos grupos, na medida em que o fato de pertencer a grupos define-se
                                    através de uma certa analogia de interesses e de objeti-vos, bem como mediante uma certa
                                    atividade em comum. Mas há finalidades, interesses e atividades importantes, ao lado de
                                    outros que não o são na mesma medida. Isso origina uma hierarquização de "nossos" grupos,
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                                    distinguindo principalmente entre os grupos que representam nossos principais interesses,
                                    objetivos e atividades, os quais são assumidos igualmente por eles, e os grupos que se
                                    relacionam com nossos interesses, atividades e objetivos secundários, inessenciais. Não existe
                                    entre as comunidades uma hierarquia desse tipo. No caso "clássico", o homem pertence a uma
                                    comunidade; e, nos casos "não clássicos", pertence apenas a poucas. Quando se pertence a
                                    mais de uma comunidade, diminui o caráter de comunidade dos grupos secundários e
                                    terciários. Vejamos, por fim, um outro aspecto, de grande importância: nem todo grupo
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                                    apresenta uma hierarquia fixa e específica de valores; no mais das vezes, a única coisa que se
                                    choca com as normas do grupo é a violação dos interesses do grupo; fora isso, existem no
                                    grupo "éticas" plenamente pluralistas e contraditórias. Os alunos da seção a têm de ser
                                    incondicionalmente solidários em suas ações diante dos alunos da classe b; mas nem sequer
                                    nesse caso o grupo se torna comunidade, salvo se dispuser de um sistema de normas
                                    relativamente concreto e válido para todos os seus membros.
                                           Acentuamos mais acima o caráter casual — casual em relação ao fato de pertencer a
                                    uma comunidade — de nossa participação em um grupo. Mas esse ponto deve ainda ser
                                    esclarecido. Pois se nos poderia objetar que o nascer numa determinada comunidade — na
                                    comunidade da polis, por exemplo — é ainda menos objeto de escolha que o fato de pertencer
                                    a essa ou aquela seção do curso. Mas é que o fato de pertencer a uma comunidade apresenta-
                                    se segundo dois modos distintos, o que empresta à casualidade um aspecto novo. Por um
Prática Curricular IV



lado, pode-se pertencer a uma determinada comuni-dade em consequência de uma
necessidade exterior; por outro, isso pode ocorrer em consequência de uma necessidade
interna, ou seja, em consequência de uma escolha individual. No caso da polis ou dos
estamentos, trata-se do primeiro tipo. Essas sociedades ainda não são sociedades "puras", ou
seja, ainda não se consumou nelas o processo que Marx designou como "retrocesso dos limites
naturais" ["Zuruckweichung der Na-turschranken"]. As comunidades dessas sociedades são
"naturais" no sentido de que não podem ser objeto de uma escolha livre e de que a posição
social do indivíduo, as possibilidades de desenvolvimento de sua individualidade e de sua
hierarquia de valores estão determinadas pelo nascimento e no momento do nascimento. Um
jovem nascido numa família nobre da Alta Idade Média talvez pudesse escolher livremente
(muito poucas vezes) entre ser cavaleiro ou sacerdote, mas não podia escolher uma vida de        89
servo ou uma existência burguesa; possibilidades de escolha desse tipo apresentam-se apenas
quando a comunidade em questão, de tipo natural, encontra-se já em processo de dissolução.
Mas a vinculação que venha a se estabelecer não é casual ou acidental, pois sua essência




                                                                                                 www.facete.com.br
consiste em que é impossível "sair" dela, transcendê-la em individualidade. Tão-somente uma
sociedade sem estamentos, a sociedade classista "pura", a sociedade burguesa, consegue abolir
as comunidades naturais enquanto integrações sociais primárias; e tão-somente em tal sociedade
pode se produzir, por conseguinte, uma relação acidental ou "casual" do homem com sua
integração social básica ou com sua classe. E apenas nessa sociedade — em paralelismo com o
fenômeno acima descrito — é que pode ganhar espaço o movimento que se manifesta na
escolha de nossa integração, isto é, o movimento que nos permite inverter a antiga situação:
não se tornar indivíduo mediante nossa comunidade, mas ser capaz de escolher uma


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
comunidade graças ao fato de já ser indivíduo. O aristocrata que, na Revolução Francesa,
adota um nome burguês, ou o burguês que assume como seus os interesses e os objetivos do
movimento operário, são produtos e representantes dessa nova possibilidade. O
desenvolvimento dessa relação "casual", a dissolução das comunidades de tipo natural, foi
também o que permitiu ao indivíduo a possibilidade de construir uma família sobre a base de
sua escolha individual. Disso decorre que a classe (a classe social) não é necessariamente uma
comunidade, embora os interesses e as funções dos membros de uma classe sejam idênticos
em todos os aspectos essenciais e embora dominem no sistema de valores da classe normas e
costumes que fornecem uma margem análoga de movimentos. Tampouco o fato de pertencer
à classe pode se transformar no fato de pertencer a uma comunidade; isso só ocorre quando o
membro da classe decide-se conscientemente nesse sentido.
       Digamos ainda algo sobre a relação entre o indivíduo e a massa, questão que
Prática Curricular IV



                                    frequentemente se põe de contrabando em nossa problemática, ainda mais injustamente, sem
                                    dúvida, que as demais. Sociedades, classe, grupo, estamento, comunidade, etc, são
                                    efetivamente categorias de uma esfera homogênea de estruturação da sociedade; ao contrário,
                                    a relação entre indivíduo e massa é heterogênea. A massa é co-partici-pação de muitos homens
                                    numa ação determinante, que pode se expressar tanto através de uma ação comum idêntica
                                    quanto de um comum "papel de coristas". Ambas as coisas — a ação comum e o papel de
                                    acompanhamento — podem ser casuais (por exemplo, quando das reações em face do incên-
                                    dio de um teatro), mas também podem ser não-casuais (por exemplo, numa manifestação).
                                    Para a massa, para a multidão, o interesse e a finalidade comuns, a função comum, não são
                                    características necessárias na mesma medida em que o são para os grupos sociais
                                    estruturadores; reciprocamente, para tais grupos, não é característica necessária a atividade
90                                  comum ou a comum função de coro. Um grupo cu comunidade jamais pode ser uma "massa",
                                    pois está sempre articulado e estratificado, ao passo que na ação comum a massa pode per-
                                    feitamente aparecer não-estratificada e não-articulada. É evidente que esse "pode" admite a
                                    existência do caso contrário: não é raro que a multidão apareça como uma "comunidade'
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                                    Assim, por exemplo, numa manifestação de Primeiro de Maio, a multidão pode ser
                                    representante, nas ruas, de uma comunidade determinada, com interesses e objetivos comuns,
                                    e, portanto, pode-se entendê-la nesse caso como uma entidade organizada, estruturada, de
                                    nenhum modo casual.
                                           Alguns autores, de modo simplista, contrapõem a multidão à comunidade, supondo
                                    que existe multidão precisamente onde não há comunidade. Identificam assim um tipo de
                                    multidão, a multidão não estruturada e, consequentemente, de fácil manipulação, com o
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                                    conceito de multidão enquanto tal; fazem e mesmo com a comunidade, ao identificá-la com a co-
                                    munidade democrática formada por indivíduos. Essa equiparação é falsa, mesmo quando se
                                    coloca a serviço de simpáticas idéias de oposição à manipulação. E é falsa até mesmo quando
                                    a multidão realiza um dos seus mais conhecidos traços característicos: as ações "de massa" que
                                    os homens realizam, ou seja, que empreendem conjuntamente, ou como reação a algum
                                    acontecimento, acentuam nos indivíduos que constituem a multidão precisamente os traços, os
                                    objetivos e os interesses idênticos àqueles dos demais, proporcionando-lhes com isso, como
                                    ressonância, uma fundamentação afetiva adicional. Isso não implica de nenhum modo na
                                    abolição da individualidade, mas sim, quando muito, na suspensão provisória ou na subor-
                                    dinação   temporária    de   suas   aspirações   heterogéneas.   E   tampouco   implica   em
                                    manipulabilidade sem obstáculos, já que a força avassaladora da ação das massas persiste
                                    apenas — se é que a massa é formada por verdadeiros indivíduos — enquanto ela não se
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choca com obstáculos na própria individualidade. Pode-se, no máximo, supor — mas essa é
uma restrição certamente importante — que, em consequência da coexistência massiva,
aumentam as possibilidades de manipulação quando a multidão é formada por indivíduos
pouco desenvolvidos ou quando pertence a uma comunidade não-estru-turada (essa segunda
hipótese não coincide necessariamente com a primeira).
       Nesse sentido, costuma-se falar de "sociedade de massas". A palavra "massa", com
efeito, tem nesse contexto um sentido bastante lato. Não se trata de co-presença efetiva, de um
comum papel físico de coro. O que se deseja significar com essa expressão é, sobretudo, que
uma sociedade dada favorece exclusivamente — ou em primeiro lugar — a estruturação in-
terna na qual não se podem desenvolver nem a individualidade, nem a comunidade; a
socialidade dos homens, então, passa a expressar-se desde o primeiro momento como se todos        91
formassem uma multidão manipulada e como se por todos os lados dominasse uma atitude de
dispersão. "Sociedade de massas", portanto, é uma expressão metafórica para descrever uma
sociedade conformista manipulada.




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       A comunidade é uma unidade estruturada, organizada, de grupos, dispondo de uma
hierarquia homogênea de valores e à qual o indivíduo pertence necessariamente; essa
necessidade pode decorrer do fato de se "estar lançado" nela ao nascer, caso em que a
comunidade promove posteriormente a formação da individualidade, ou de uma escolha
relativamente autônoma do indivíduo já desenvolvido.
       Voltemos à nossa questão inicial: a contraposição entre indivíduo e comunidade é real
ou aparente?
       Enquanto as comunidades foram comunidades naturais e enquanto a existência social do


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
indivíduo foi uma existência "necessária" baseada no "estar lançado" na comunidade ao
nascer, essa pergunta teria carecido de sentido. Todo indivíduo se desenvolvia até tornar-se
individualidade precisamente no seio da comunidade. Quem perdia sua comunidade perdia
também a condição de existência da sua atividade; 0 castigo mais duro era o exílio.
       Decerto, já nessa época, podiam se produzir contraposições concretas entre o indivíduo
e sua comunidade — e elas efetivamente se produziram. Como se sabe, a expulsão do seio da
comunidade (que se recorde o ostracismo) era a represália por uma contraposição desse tipo,
ou então uma medida preventiva contra ela. A contraposição podia originar-se de duas causas,
frequentemente entrelaçadas: em certos casos, o indivíduo — graças à sua importância ou
popularidade — elevava-se a tal ponto acima de seus concidadãos que sua simples existência
perturbava a atividade relativamente plana dentro da estrutura da comunidade em questão; em
outros, o indivíduo colocava seus objetivos e êxitos particulares, seu enriquecimento pessoal,
Prática Curricular IV



                                    acima dos interesses e das metas da comunidade, tentando utilizar essa como instrumento para
                                    a realização daquelas suas metas particulares. Como é natural, o critério concreto segundo o
                                    qual se determinava quando o indivíduo começava a prejudicar a sociedade variava de acordo
                                    com os diferentes sistemas sociais e políticos. O banimento podia também ser injusto; com
                                    efeito, era esse o seu risco, e as comunidades tinham consciência mais ou menos clara de sua
                                    existência. Todavia, a possibilidade do erro ou da injustiça nunca levou a que se pusesse em
                                    dúvida a justiça do ato preventivo de proteção da comunidade.
                                           Em sociedades-comunidades (pensamos sempre em comunidades naturais), a expulsão
                                    implica num juízo de valor.
                                           O banido jamais está "certo", mesmo quando o concreto ato de banimento é
                                    evidentemente injusto. O indivíduo banido da sociedade sente-se como um peixe fora d'água,
92                                  como um estrangeiro eterno (no caso de Ovídio), ou se rebela contra sua sociedade; mas esse
                                    comportamento jamais lhe é perdoado, seja a causa de seu banimento a superioridade de sua
                                    individualidade (caso de Temístocles), seja o fato de ter utilizado abusivamente a comunidade
                                    para alcançar suas próprias metas e interesses (caso de Alcibíades). Coriolano, por um lado, e
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                                    a ida do Imperador Henrique a Canossa, por outro, são exemplos da catarse típica do homem
                                    que vive em unidade natural.
                                           O indivíduo reconhece à comunidade natural o direito de bani-lo mesmo quando se
                                    considera mais valioso que aqueles que o expulsam. Por isso é que Sócrates negou-se a fugir
                                    da prisão, convencido de que as leis de sua pátria — que o condenavam à morte — eram,
                                    apesar disso, obrigatórias para ele.
                                           Nas fases de dissolução das comunidades naturais, rom-pe-se definitivamente essa
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                                    contraditória harmonia entre o indivíduo e a comunidade e começam a desempenhar um papel
                                    cada vez maior as comunidades não "pré-existentes", as comunidades escolhidas. Nessa fase,
                                    ainda não se coloca o problema de saber se indivíduo e comunidade se contrapõem; o que está
                                    em discussão é apenas se o homem pode entrar em conflito com uma comunidade
                                    determinada, ou, mais exata-mente, se o indivíduo pode escolher autonomamente, no lugar
                                    das comunidades em dissolução cujos valores se diluem progressivamente, uma nova
                                    comunidade que explicite uma hierarquia de valores fixa e estável. Não se trata, portanto, de
                                    uma simples contraposição entre indivíduo e comunidade, mas entre o indivíduo que aspira a
                                    uma nova comunidade e uma velha comunidade em dissolução cada vez maior. Por todas as
                                    partes encontramos essas comunidades livremente escolhidas, mas firmes, desde a poikilé stoá
                                    até os discípulos de Jesus, passado pelo jardim de Epicuro. Uma situação análoga ocorre com
                                    os movimentos heréticos da Idade Média, nos quais, como se sabe, os laços comunitários não
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foram mais débeis, e sim mais fortes, que na Igreja oficial.
       O problema da contraposição entre comunidade e indivíduo surgiu com a "sociedade
pura", com a sociedade burguesa, por causa da relação casual do homem com sua classe. Em
suma: surgiu como consequência da sociedade na qual se separaram o fato de pertencer a uma
classe e o fato de pertencer a uma comunidade, na qual o indivíduo passou a estar submetido
enquanto tal às leis do movimento das classes, na qual o homem converteu-se em ser social não
necessariamente comunitário.
       Até aqui, temos falado de modo simplificado das comunidades naturais, com o objetivo
de contrapô-las ao desenvolvimento iniciado com a sociedade burguesa. Mas agora teremos de
distinguir, já que as formas concretas das comunidades naturais foram muito variadas. Neste
momento, tem importância tão-só o fato de que também variou a margem de movimento que              93
essas comunidades apresentaram para o desenvolvimento do indivíduo ou concederam no caso
da individualidade já desenvolvida. Ou, em outras palavras: indivíduos com diferentes graus de
desenvolvimento concentraram diferentes margens de movimento em diferentes formas




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comunitárias. O aumento da liberdade de movimento do indivíduo não se deve ao
debilitamento da comunidade, pois essa liberdade já está prefigurada, em proporções bastante
variáveis, nas comunidades que funcionam adequadamente e não se debilitam. Não vamos
nos aprofundar nessa problemática, mas observaremos que o tipo (variável) de comunidade e o
desenvolvimento da individualidade encontram-se em intexação. Gostaríamos de ilustrar esse
ponto com um exemplo. Se lermos hoje a República de Platão para o indivíduo mais
manipulado, menos "individual", esse exclamará horrorizado que, em um tal Estado, o
indivíduo está totalmente submetido ao posto que lhe é indicado pela divisão do trabalho e


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
não dispõe de nenhuma liberdade. Mas, na época de Platão, ninguém — nem mesmo os seus
piores inimigos (nem tampouco Aristóteles) — diri-giu-lhe uma tal acusação. Pois, para o
indivíduo da época, a vida em um Estado de tipo platônico não pressuporia nenhuma redução
da individualidade; aquele indivíduo não era o indivíduo de hoje, e só se pode falar numa
"redução" de necessidades, aspirações, etc, se essas já existirem efetivamente. Situação análoga
experimentamos ao ler a Utopia de Tomás Morus; mas, na época dele, todos afirmavam que
os habitantes da ilha de Utopia eram absolutamente livres. E os habitantes de Utopia, por sua
vez, teriam considerado como amor-daçamento do indivíduo o fato de que a comunidade pres-
crevesse a seus membros a inclusão numa determinada religião, o que numa comunidade do
século XI, provavelmente, ninguém teria considerado "como diminuição da própria Uberdade.
       É evidente que, ao estudarmos o desenvolvimento histórico da individualidade, não
devemos jamais partir do termo médio dos indivíduos de uma época. Temos de analisar a
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                                    possibilidade máxima produzida pela época em questão para o desenvolvimento da
                                    individualidade. Essa possibilidade máxima pode ser descoberta nos chamados indivíduos
                                    representativos, que são sempre excepcionais no sentido de que realizam até o fim a
                                    possibilidade dada. Essa distinção é tanto mais importante quanto maior for, numa sociedade
                                    determinada, a alienação, quanto mais radicalmente a essência humana estiver separada da
                                    existência dos homens médios. Por isso é que ela se revela sobremaneira importante ao
                                    estudarmos os indivíduos da sociedade capitalista. Na análise da individualidade burguesa,
                                    manifestam-se principalmente dois pontos de vista contraditórios. Alguns autores afirmam que
                                    a individualidade propriamente dita foi criada pela sociedade burguesa e que qualquer outra
                                    sociedade não pode deixar de ter como consequência a abolição dessa individualidade (é a
                                    tese dos liberais); outros opinam que a equiparação formal realizada pela burguesia, o
94                                  conformismo que isso acarretou e, sobretudo, a manipulação já teriam abolido o
                                    desenvolvimento da individualidade, a iniciativa individual, e, com ela, a possibilidade de
                                    explicitação de "grandes homens", de indivíduos verdadeiramente livres (é a concepção do
                                    romantismo). Para quem considere os fatos com atenção, resultará evidente que as duas
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                                    análises contêm elementos de verdade, ainda que em sentidos diferentes. É verdade que a
                                    sociedade burguesa desenvolveu a individualidade numa medida sem precedentes; isso pode
                                    ser comprovado do modo mais evidente se recordarmos o momento histórico em que tal
                                    desenvolvimento iniciou o seu processo, ou seja, o Renascimento. Posteriormente, a
                                    individualidade se enriqueceu com características inteiramente novas, como a subjetividade, a
                                    "interioridade", documentadas pelo grande desenvolvimento da música e da lírica, seus
                                    sensíveis sismógrafos. Tão-somente a sociedade burguesa poderia proporcionar ao indivíduo
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                                    a possibilidade de elevar-se a qualquer altura: a personalidade de Napoleão exemplifica sen-
                                    sivelmente essa circunstância. Mas, subsequentemente, revela-se a verdade da crítica
                                    romântica: essa mesma sociedade, ao subsumir o indivíduo sob sua classe, ao submetê-lo às
                                    leis econômicas como se essas fossem leis naturais, aboliu aquela grande possibilidade e fez
                                    dos indivíduos livres nada mais que escravos da alienação, até o ponto em que de facto os
                                    indivíduos se viram colocados num nível inferior àquele dos indivíduos de épocas anteriores.
                                    Durante o século passado, essa segunda tendência reforçou-se constantemente e, em nossos
                                    dias, a maior parte dos indivíduos representativos é representativa precisamente pelo fato de
                                    negar seu mundo e de buscar uma nova perspectiva para o desenvolvimento humano.
                                           A configuração do mundo burguês acarretou uma alteração básica da hierarquia moral
                                    dos valores — e, de modo mais geral, da hierarquia social dos mesmos — e, ao mesmo
                                    tempo, transformou a relação do indivíduo com essa hierarquia. Nas comunidades naturais,
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imperava uma ordem fixa de valores, existia uma hierarquia de valores representada pela co-
munidade e todo indivíduo assimilava-a necessariamente. (Na Antiguidade, por exemplo,
ninguém podia pôr em dúvida que as "virtudes fundamentais" eram a sabedoria, a coragem, a
temperança e a justiça). É evidente que também naquelas comunidades existia uma margem
de movimento e de escolha individual. O desenvolvimento da autonomia do indivíduo era
medida por sua capacidade de avaliar individualmente o caso singular oferecido a seu
julgamento, bem como de aplicar segundo sua individualidade os valores dados a cada
concreta situação de escolha. A explicitação da sociedade burguesa acarretou também a
dissolução das hierarquias axiológicas, fixas, inclusive das comunidades naturais. A partir de
então, a tarefa do indivíduo não mais consiste apenas em aplicar uma hierarquia de valores já
dada a cada ação concreta (embora também isso seja imprescindível), mas igualmente em              95
escolher os valores e construir sua própria hierarquia valorativa no interior de certos limites,
mais ou menos amplos. Assim, com a escolha dos valores, aumentam de modo particular as
possibilidades da individualidade. Mas temos de repetir que, na mesma sociedade, os




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interesses, costumes, ou, simplesmente, as fórmulas de tratamento interindividual das classes
sociais, que em seu conjunto nada têm a ver com a tábua de valores morais, apresentam uma
tendência no sentido de cumprirem uma função avaliativa muito marcada e inequívoca.
Recordarmos aqui, ademais, o particular fortalecimento do conformismo.
       Voltemos à relação do indivíduo com a comunidade. Do que até agora dissemos,
resulta que pertencer a uma comunidade não é um fato obrigatório. E isso porque, na
sociedade burguesa, o homem não nasce numa comunidade, sua existência individual não está
determinada por sua existência social: o indivíduo burguês cresce frequentemente fora de


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
qualquer comunidade e chega mesmo a viver assim por toda a sua vida. A maioria dos
indivíduos burgueses — pelo menos durante algum tempo — considera algo ideal essa vida
sem comunidade, idealizando-a enquanto "liberdade pessoal". A "libertação" do poder da
sociedade permite-lhe converter de modo explícito seus interesses privados em motor das ações
do individualismo, para os quais o chamado "interesse geral" — o progresso — da sociedade
realiza-se através da perseguição dos interesses privados. A carência de comunidade
converte-se em princípio para o individualismo, ao passo que sua autoconsciência desemboca
na chamada "teoria do egoísmo".
       Mas isso não significa que o indivíduo da sociedade burguesa careça necessariamente
de comunidade. O que se altera é apenas sua relação com a comunidade. Quando chega a
pertencer a uma, trata-se de uma comunidade construída, livremente escolhida. Os
revolucionários burgueses, os plebeus, criaram sempre comunidades desse tipo, como ocorreu,
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                                    por exemplo, durante a Revolução Francesa. Logo após, a classe operária começou a construir
                                    também suas próprias organizações comunitárias independentes. O objetivo da criação de tais
                                    comunidades era o prosseguimento vitorioso da luta contra a exploração. O trabalhador que
                                    atinge a consciência de classe e cria uma comunidade para abolir a existência das classes,
                                    colocando novos valores no lugar da ordem e da hierarquia axiológicas existentes, é o
                                    representante de tudo aquilo que a própria sociedade burguesa criou no plano do desenvolvi-
                                    mento da individualidade.
                                           Mas o indivíduo tem sempre a possibilidade de escolher uma comunidade? E qualquer
                                    comunidade? A primeira pergunta deve ser respondida com uma inequívoca negação. Basta
                                    pensar em artistas como Schubert, Schumann, Beethoven. Todo o mundo afetivo musical
                                    deles apresenta a marca da nostalgia de uma comunidade não encontrada ou perdida. Ê
96                                  evidente que a possibilidade aludida deve sempre ser analisada em relação com o indivíduo
                                    em questão. E, para responder à segunda pergunta, devemos introduzir em nossa reflexão o
                                    conceito de "valor".
                                           Essa segunda pergunta é uma questão central própria de nossa época.
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                                           Não devemos esquecer que o individualismo burguês já se "esgotara" nos meados do
                                    século passado. Em outras palavras: aquela ingênua confiança de que o indivíduo podia
                                    desenvolver-se livremente inclusive fora de qualquer comunidade e de que o interesse
                                    individual é um bom fio condutor para a liberdade individual foi-se tornando cada vez mais
                                    problemática. A partir do "fin de siècle", o desespero substitui a segurança: o indivíduo
                                    experimenta agora a falta de comunidade como solidão, como infelicidade. Isso reflete sub-
                                    jetivamente o fato de que chegou ao fim o desenvolvimento da individualidade na sociedade
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                                    burguesa, inclusive para os indivíduos representativos. Paralelamente a isso, desenvolvem-se
                                    — com crescente intensidade — os movimentos operários; e os intelectuais que aderem a tais
                                    movimentos voltam a encontrar nas comunidades que eles formam o sentido de suas vidas.
                                    Não se trata de um "medo da liberdade", mas sim de uma busca da mesma. O movimento
                                    revolucionário florescente-te no século xx, sobretudo a Revolução de Outubro, deixou marcas
                                    indeléveis na intelectualidade, pelo menos no que ela tinha de melhor. A busca de uma
                                    atividade em comunidade, que elevasse o indivíduo "nas asas da comunidade", somou-se à
                                    exigência de uma nova sociedade na qual o homem pudesse voltar a ser um ente comunitário.
                                           Decerto, três fenômenos históricos que se diferenciam em seu caráter e em seu tipo
                                    influíram de tal modo em nossa época, que a busca da comunidade voltou a sofrer um re-
                                    trocesso. São eles: o culto da personalidade no socialismo; o fascismo; a manipulação de grupo
                                    no mundo burguês contemporâneo. Devemos repetir que se trata de três fenómenos in-
Prática Curricular IV



teiramente distintos. Não podemos analisar agora suas diferenças, mas temos de citá-los
porque eles provocaram ceti-cismo com relação à comunidade e, consequentemente, reco-
locaram com urgência a questão: Que comunidade deve o homem escolher?
       Como dissemos, torna-se necessário, neste ponto, o uso do conceito de valor.
Consideramos valor objetivo, ou seja, independente da avaliação humana, o conjunto de todas
as relações, produtos, ações, idéias, etc. sociais que promovem o desenvolvimento da essência
humana no estágio histórico tomado em consideração.
       Mas o que é "essência humana"? Essa pergunta pode ser iluminada por uma idéia de
Marx, através da interpretação feita pelo jovem filósofo húngaro Gyõrgy Márkus. Segundo
essa interpretação, a essência humana consta de atividade de trabalho (objetivação),
socialidade, universalidade, autoconsciência, liberdade. Essas qualidades essenciais já estão      97
dadas na própria hominização, enquanto meras possibilidades; tor-nam-se realidade no
processo indefinido da evolução humana.
       São de valor positivo as relações, os produtos, as ações, as idéias sociais que fornecem




                                                                                                   www.facete.com.br
aos homens maiores possibilidades de objetivação, que integram sua socialidade, que con-
figuram mais universalmente sua consciência e que aumentam sua liberdade social.
Consideramos tudo aquilo que impede ou obstaculiza esses processos como negativo, ainda
que a maior parte da sociedade empreste-lhe valor positivo.
       Como esses valores se configuram em esferas heterogêneas, podem certamente entrar
em contradição uns com es outros. Há situações sociais que desenvolvem um valor e destroem
outro, ou que desenvolvem um valor em seu aspecto social total e impedem seu
desenvolvimento nos indivíduos. Por isso, ao escolher uma comunidade, deve-se ter presente


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
o lodo, o predominante no contraditório complexo de valores, bem como suas consequências
possíveis para a explicitação da substância axiológica. A explicitação dessa substância, em nos-
sa hipótese, identifica-se com a explicitação da essência humana. Assim, portanto, se
quisermos comprovar o conteúdo axiológico de uma comunidade, temos de comprovar inicial-
mente sua relação com a essência humana e examinar se essa comunidade — comparada com
as demais comunidades (e possibilidades comunitárias) — explicita a essência humana de um
modo satisfatório, bem como o modo pelo qual o faz e em que medida.
       O fato de que uma comunidade seja relativamente favorável à explicitação da essência
humana não significa, de nenhum modo, que também explicite — inequívoca e uniformemente
— as capacidades dos indivíduos. Pois não existe paralelismo necessário entre o
desenvolvimento humano-genérico e o desenvolvimento individual; na maioria das épocas
históricas, ao contrário, verifica-se uma discrepância, que se torna possível precisamente
Prática Curricular IV



                                    quando a participação do indivíduo numa comunidade baseia-se na escolha autônoma. Basta
                                    recordar o terror revolucionário das          comunidades     jacobinas, necessário para o
                                    desenvolvimento de seus conteúdos axiológicos, mas ao mesmo tempo significando ruína
                                    moral para não poucos indivíduos que delas participavam, sobre a base de uma decisão
                                    autónoma e dotados do pathos adequado à tarefa his-tórico-universal que tinham diante de si.
                                    Isso é exemplo do caso no qual a explicitação do indivíduo torna-se problemática por causa
                                    das contradições axiológicas contidas na comunidade em questão. Mas o paralelismo, também
                                    sob outro aspecto, deve ser excluído: as comunidades organizadas tendo em vista
                                    determinados fins históricos solicitam sobretudo determinadas capacidades dos indivíduos. Por
                                    isso, os indivíduos cuja capacidades inatas são congruentes com as qualidades mais importantes
                                    para as metas de uma comunidade têm maiores possibilidades de desenvolver sua
98                                  individualidade do que aqueles cujas capacidades e talentos inatos estão fora de tal tendência.
                                           Portanto, dois motivos podem estar na base da escolha de comunidade: o valor
                                    axiológico objetivo da comunidade, seus momentos favoráveis à essência humana; e a intenção
                                    de explicitar nela e através dela a       própria individualidade.     O primeiro motivo tem
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                                    sempre primazia com relação ao segundo. Essa primazia não é um mero postulado, não se
                                    situa na categoria do "dever ser", mas provém da essência da própria individualidade.
                                           Com efeito, a individualidade humana não é simplesmente uma "singularidade". Todo
                                    homem é singular, individual-particular, e, ao mesmo tempo, ente humano-genérico.           Sua
                                    atividade é, sempre e simultaneamente, individual-particular e humano-genérica. Em outras
                                    palavras:   o ente singular humano sempre atua segundo seus instintos e necessidades, so-
                                    cialmente formados mas referidos ao seu Eu, e, a partir dessa perspectiva, percebe, interroga e
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                                    dá respostas à realidade; mas, ao mesmo tempo, atua como membro do gênero humano e seus
                                    sentimentos e necessidades possuem caráter humano-genérico. Todo homem se encontra,
                                    enquanto ente particular-singu-lar, numa relação consciente com seu ser humano-genérico nessa
                                    relação, o humano-genérico é representado para o indivíduo como algo dado fora de si
                                    mesmo, em primeiro lugar através da comunidade e, posteriormente, também dos costumes e
                                    das exigências morais da sociedade em seu conjunto, das normas morais abstraias, etc. Em
                                    sua atividade social global, o homem está sempre "em movimento" entre sua particularidade e
                                    sua elevação ao genericamente humano; e é função da moral conservar esse movimento. O
                                    homem torna-se indivíduo na medida em que produz uma síntese em seu Eu, em que
                                    transforma conscientemente os objetivos e aspirações sociais em objetivos e aspirações
                                    particulares de si mesmo e em que, desse modo, "socializa" sua particularidade. A distância é
                                    essencial à individualidade: distância com relação à própria particularidade e, ao mesmo
Prática Curricular IV



tempo, com relação à própria integração, isto é, uma atitude livre com relação a essa
integração. Isso é verdade — de acordo com o grau de desenvolvimento do indivíduo — já
no caso das comunidades naturais (que se recorde a relação de Sócrates com Atenas); mas
acentua-se particularmente após a dissolução daquele tipo de comunidade.
       Dado que a atitude livre com relação à comunidade (ou, em outras palavras, a escolha
da comunidade) faz parte da essencialidade do indivíduo, o próprio conteúdo axiológico desse
indivíduo manifestar-se-á antes de mais nada no conteúdo axiológico da comunidade por ele
escolhida. Quod erat demons-trandum: o primado do conteúdo axiológico objetivo da comu-
nidade ganha legitimidade através da própria individualidade. E, com isso, torna-se evidente
outra coisa: uma comunidade cujo conteúdo axiológico seja basicamente negativo jamais de-
senvolverá a individualidade, visto que tampouco desenvolve o valor no indivíduo, nem             99
mesmo quando esse se sente bem em tal comunidade, quando acredita ter encontrado nela o
espaço adequado para a explicitação de suas capacidades. Quando muito, o que se pode
configurar numa comunidade de conteúdo axiológico negativo é a particularidade pessoal, não




                                                                                                  www.facete.com.br
a capacidade de tornar-se autêntico indivíduo.
       A história demonstra isso de modo clássico no caso das comunidades fascistas. Essas
comunidades, bem como seus mitos relativos, aboliram uma extraordinária conquista da his-
tória humana quando suprimiram a liberdade relativa na escolha da comunidade. Em um
mundo no qual há já vários séculos não existiam comunidades naturais, o fascismo criou o
mito da comunidade natural, o mito do sangue e da raça. Esse mito se desmascara quando
abole a livre escolha da comunidade e quando deixa patente que os objetivos e conteúdos da
comunidade fascista são, em sua totalidade, tão negativos que nem sequer podem manter a


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
aparência da liberdade de escolha. Precisamente por isso, o mito fascista e sua prática tiveram
de abolir um dos valores básicos da individualidade, ou seja, a distância acima aludida, aquela
distância com relação não apenas à particularidade mas também à própria integração. A
relação imediata, sem distanciamento, com a integração acarreta inevitavelmente o
"descontrole", a ilimi-tação dos afetos particulares. Nas comunidades fascistas, não houve
realização do indivíduo; ao contrário, esse se "desintegrou" numa particularidade
descontrolada e numa pseudoco-munidade que se submeteu sem reservas a exigências pseudo-
humano-genéricas.
       Ao buscar um contra-exemplo também em nosso século, deparamo-nos espontaneamente
com a comunidade descrita por Makarenko, em seu Poema Pedagógico. Não se trata aqui de
uma simples análise das características únicas ou casuais de uma coletividade juvenil, mas de
algo bem maior: de um exemplo de comunidade humana socialista, de um exemplo das pos-
Prática Curricular IV



                                    sibilidades que o socialismo contém em princípio. Não vamos nos deter nas peculiaridades
                                    dessa comunidade, pois Georg Lukács já o fez em sua análise desse livro 16. Basta-nos lembrar
                                    seus momentos essenciais. Antes de mais nada, a livre escolha dessa comunidade. Naquela
                                    comunidade, podia ingressar quem quisesse, assim como podia sair quem o desejasse. Em
                                    segundo lugar, a orientação teleológica da coletivida-de. A existência coletiva jamais é um
                                    fim em si mesma, assim como não são fins em si mesmos a educação ou o "ficar sozinho".
                                    Trata-se apenas de resultados produzidos para a realização de objetivos concretos fixados
                                    pela sociedade em seu conjunto, embora a relação da comunidade com essa sociedade total
                                    jamais seja aproblemática ou isenta de conflitos. (Com efeito, a relação da coletividade de
                                    Makarenko com a totalidade da sociedade soviética foi sempre uma concordância carregada de
                                    conflitos). E, finalmente: sua estrutura interna, a organização das normas éticas da comunidade,
100                                 que julga firmemente qualquer ação que nasça da particularidade e destrua os valores globais
                                    da coletividade, não deixa, todavia marcas no indivíduo que realizou o ato, com o que sempre
                                    se mantém a possibilidade de um renascimento. Ao mesmo tempo, essa estrutura oferece ao
                                    indivíduo a possibilidade máxima de configurar as mais variadas hierarquias individuais de
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                                    valor no interior de um âmbito axiológico positivo, a possibilidade de desenvolver os mais
                                    variados modos de comportamento. Trata-se de uma organização tão heterogênea, tão
                                    polifacética das possibilidades ativas da coletividade que cada um dos membros pode
                                    desenvolver suas capacidades naturais.
                                           Tem sentido, então, falar numa contradição entre indivíduo e comunidade?
                                           Não é casual que tenhamos contraposto, mais acima, duas comunidades diferentes.
                                    Afirmamos que, na primeira, o homem não pode absolutamente desenvolver-se até chegar à in-
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                                    dividualidade, razão pela qual só lhe resta o recurso de defender sua individualidade contra a
                                    comunidade; no segundo tipo, ao contrário, ele encontra condições ótimas para a explicitação
                                    de sua individualidade. Assim, na verdade, já respondemos à questão de saber o que um
                                    homem deve fazer quando existe, na sua sociedade, uma comunidade de conteúdo axiológico
                                    positivo: não há dúvida de que deve escolher essa comunidade, a fim de que se explicitem
                                    suas capacidades e de que sua individualidade possa desenvolver-se. Bem mais problemática
                                    parece a réplica: que deve fazer o homem se sua sociedade não apresenta nenhuma
                                    comunidade de conteúdo axiológico positivo?
                                           A substância portadora dos valores é a própria história humana; e ela não se objetiva
                                    apenas em comunidades. Supondo — ainda que sem admiti-lo — que uma sociedade não

                                    16
                                      Georg Lukács, Werke, vol. 5, Probleme des Realismus II, Der russische Realismus in der Weltiteratur,
                                    Luchterband, Ncuwicd und Berlim, pp. 417-471
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permitisse o desenvolvimento de nenhuma comunidade de conteúdo axiológico positivo, poder-
se-iam realizar valores em outras numerosas objetivações: na arte, na ciência, na produção,
etc. E, ainda que o indivíduo não pudesse produzir em nenhuma dessas esferas, continuaria a
ter oportunidade de escolher possibilidades positivas. Pode encontrá-las nas objetivações, no
mundo intelectual e nas normas de épocas passa-das, e pode escolher os valores aí contidos,
convertê-los em valores próprios, hipostasiá-los no futuro, etc. O fato de que o indivíduo,
com uma tal escolha, entre em contraposição com as comunidades de seu tempo não anula
um dado efetivo: o de que ele está escolhendo uma comunidade, ainda que apenas
idealmente. O indivíduo decide-se por uma comunidade com aqueles que, em épocas
passadas, produziram aqueles valores; decide-se em favor da integração que venha a defendê-
los no futuro. Sem uma tal comunidade ideal não existe indivíduo realmente livre, dotado de     101
conteúdo axiológico positivo. Tão-somente o indivíduo que renuncia à humanidade e,
consequentemente, à realização de valores em geral pode se abster de escolher uma
comunidade: quem escolhe um valor e aspira à sua realização (e as duas coisas são




                                                                                                www.facete.com.br
inseparáveis) escolhe também, no mais amplo sentido da palavra, uma comunidade.
       Decerto, partimos do pressuposto de que existem épocas que não concedem nenhuma
possibilidade de explicitação de comunidades de valor axiológico positivo.      Mas não o
afirmamos: não acreditamos na existência de épocas desse tipo. Ê evidente que existe uma
grande diferença entre o fato de que uma comunidade de conteúdo axiológico positivo seja ca-
racterística de uma época ou uma situação apenas excepcional, entre o fato dessa comunidade
se desenvolver dentro da tendência principal de desenvolvimento ou o fato de fazê-lo contra a
corrente, entre o fato de que possua um âmbito de influência (política, por exemplo) extenso


                                                                                                Faculdade de Educação Teológica -
ou se limite a um estreito círculo de amizades. Mas, de um ou de outro modo, de um modo
amplo ou reduzido, com maior ou menor âmbito de influência, pode-se sempre encontrar uma
possibilidade para comunidades desse tipo: e todo verdadeiro indivíduo as merece. O homem,
enquanto ser humano-genérico, não pode conhecer e reconhecer adequadamente o mundo a
não ser no espelho dos demais.
       A resistência do homem a uma comunidade de conteúdo axiológico negativo não é
simplesmente resistência do "indivíduo" à comunidade, mas oposição do indivíduo a uma
determinada comunidade, e precisamente em nome dos valores encarnados por outra
comunidade (mesmo que só relativamente), ou dos valores ideais de uma comunidade que
existiu no passado e que talvez seja agora postulada para o futuro.
       Portanto, em toda época, pelo menos em princípio, é possível criar uma comunidade de
conteúdo axiológico positivo; mas — e essa limitação tem muita importância — não para
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                                    todos. Existem épocas em que o ato de criar uma comunidade e desenvolver através dela a
                                    individualidade requer capacidades tão extraordinárias, um emprego tão intenso de energia
                                    moral e intelectual, que só os indivíduos representativos conseguem fazê-lo. Em outras
                                    palavras: os homens capazes de criar uma comunidade desse tipo convertem-se necessariamente
                                    em indivíduos representativos. A "sociedade de massas" manipulada preenche essas condições
                                    negativas. Recordemos nossas anteriores afirmações sobre a "sociedade de massas": ela impos-
                                    sibilita cada vez mais a decisão individual, sem a qual não se pode imaginar a comunidade,
                                    sobretudo a partir do momento em que a escolha da comunidade converteu-se em requisito da
                                    participação nela.    O grupo manipulado não funciona como comunidade, visto que, de
                                    "resultante" de sujeitos, converteu-se num mero objeto, numa "coisa". Nesses grupos, a
                                    aspiração à comunidade e a formas comunitárias (idênticas com aquelas da individualidade e
102                                 com a reivindicação da explicitação dessa) converteu-se numa ação cada vez mais excepcio-
                                    nal, heróica e infrenquente.
                                           Como já dissemos, a sociedade não pode em sua totalidade tornar-se uma
                                    comunidade. Mas depende da totalidade da sociedade — inclusive de sua estrutura econômica
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                                    — a medida em que é possível a configuração de comunidades de conteúdo axiológico
                                    positivo e o tipo dos indivíduos aos quais se torna acessível essa possibilidade, ou seja, se
                                    apenas aos indivíduos representativos ou se, pelo menos em princípio, a todo membro da
                                    sociedade. Quando falamos de perspectiva socialista, hipostasiasmos uma sociedade cuja
                                    estrutura oferece a todos essa possibilidade de princípio, uma sociedade construída com
                                    comunidades organizadas por indivíduos e produtora de valores positivos. E, se alguém nos
                                    perguntar o que é preciso fazer hic et nunc, responderemos: é preciso organizar e assumir
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                                    comunidades cujo objetivo seja o encaminhamento ou a aceleração do processo social que
                                    possibilita o nascimento dessa sociedade.
Prática Curricular IV




                           SOBRE         OS   PAPÉIS SOCIAIS


                          Os pressupostos do papel social
                           na estruturana vida cotidiana

       A FUNÇÃO "papel social" não nasce casualmente, nem do nada, mas resulta de
numerosos fatores da vida cotidiana dados já antes da existência dessa função e que
continuaram a existir quanto ela já se tiver esgotado. Ao estudar a categoria "papel social" de
um modo "puro", ou seja, abstrato, segundo sua forma clássica de manifestação, não
pretendemos negar que numerosos indícios e numerosas componentes da atitude própria do            103
papel social já estejam, dados de modo geral na existência social do homem, e, pelo menos,
possam reivindicar um passado bem mais longo que a existência da função "papel social".
Ademais, não há nenhuma fronteira rígida entre os comportamentos destituídos do caráter de




                                                                                                  www.facete.com.br
"papel" e aqueles que o possuem.
       Quais são esses fatores gerais?
       Mesmo a vida social mais elementar seria inimaginável sem imitação. A mímese
humana distingue-se daquela animal já em suas formas mais primitivas; com efeito, o homem
é capaz de imitar não apenas momentos e funções isolados, mas também inteiros modos de
conduta e de ação. Baseia-se igualmente na mímese a assimilação de papéis, pois sem a
imitação ativa da totalidade de um comportamento não haveria essa assimilação de papéis.
Mas, nessa afirmação, deve-se acentuar a idéia de atividade. Pois mesmo a imitação humana


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
mais mecânica é assimilação ativa. O homem não pode alienar-se de sua natureza de um
modo absoluto, nem sequer nesse terreno.
       A imitação manifesta-se sobretudo como imitação dos usos. Em todos os estágios do
desenvolvimento social, o homem nasce num mundo já "feito", numa estrutura consuetu-
dinária já "feita". Deve então assimilar esses usos, do mesmo modo como assimila as
experiências de trabalho. Desse modo, toma posse da história humana, "ingressa" na história,
e esse é o marco em que o homem consegue se orientar. Nos vários terrenos da realidade
constroem-se estruturas consuetudinárias diferentes. O homem jamais se enfrenta com usos
isolados; ele os "aprende" numa totalidade relativa, como sistema, como estrutura. O caráter
estruturado do uso, a presença simultânea de várias reações consuetudinárias (sistema tanto
mais complexo quanto mais desenvolvida é a sociedade), é um dos pressupostos da função
"papel". A sociedade não poderia funcionar se não contasse com sistemas consuetudinários de
Prática Curricular IV



                                    certo modo estereotipados. Esses sistemas constituem o fundamento do sistema de "reflexos
                                    condicionados" do homem, sistema que permite aos membros de uma sociedade mecanizar a
                                    maior parte de suas ações, praticá-las de um modo instintivo (mas instintivo por aquisição,
                                    não como resíduo de uma estrutura biológica), ou seja, concentrar o pensamento, a força
                                    moral, etc, nos pontos concretos exigidos pela realização de novas tarefas. Se tivéssemos de
                                    decidir através de demorada reflexão se vamos ou não saudar a alguém, se vamos ou não
                                    acender a luz, o que temos de fazer para obter alimentos, etc, não nos restaria tempo algum
                                    não apenas para uma ocupação livre, mas nem sequer para o trabalho habitual. Por tudo isso,
                                    torna-se necessário, na convivência social, um determinado plano de reações mecânicas
                                    fornecidas pelo "papel", mesmo nos casos em que não se trata propriamente de funções do
                                    tipo papel.
104                                        O mesmo podemos dizer da assimilação da hierarquia de valores morais. Até o homem
                                    mais autônomo e mais moralmente consciente é incapaz de avaliar moralmente todos os
                                    passos que dá, todas as atitudes que toma. Sempre existem na vida humana determinados
                                    pontos nevrálgicos nos quais se projetam muito intensamente os problemas da escolha moral.
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                                    Mas esses problemas brotam do solo de uma hierarquia de valores já assimilada, que é
                                    afirmada ou negada pelo homem em questão; e, apesar disso, não podem se repetir arbi-
                                    trariamente no momento em que se deseja. Assim, por exemplo, há decisões das quais
                                    decorrem outras de modo mais ou menos necessário, do ponto de vista do sujeito, à maneira
                                    de uma rotina. Não é pelo fato de assumir um sistema de valores previamente construído que
                                    o portador de um "papel" converte sua função em "papel".
                                           A tradição e a moda são formas particulares de manifestação do sistema
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                                    consuetudinário e também, até certo ponto, do sistema de valores. A tradição ganha maior
                                    importância na estrutura social orientada para o passado, enquanto a moda predomina naquela
                                    orientada para o futuro. As sociedades pré-capitalistas orientavam-se essencialmente para o
                                    passado. Isso implicava não apenas numa estabilidade relativa dos usos assimilados, mas
                                    também na orientação da totalidade da vida pela atitude das gerações anteriores, dos
                                    antepassados. Os filhos imitavam os pais, os netos imitavam os avós; e isso ocorria em todos
                                    os aspectos da vida, das experiências da produção até a moral. Essa situação acarretava, entre
                                    outras consequências, o prestígio dos anciãos, e a idade se tornava portadora de múltiplos
                                    valores. Os velhos eram os que melhor conheciam as experiências do passado e os mais
                                    capazes de resumi-las de modo útil. Com a ascensão da sociedade burguesa, a orientação para
                                    o futuro começa a se impor crescentemente, a partir do Renascimento, no sistema da convi-
                                    vência humana.
Prática Curricular IV



       A possibilidade de uma produção indefinida que não se limita ao essencial (Marx)
produz no homem a necessidade de modificar-se permanentemente, de renovar-se, de
transformar-se. Essa necessidade de novidade, a necessidade de transformarmos
constantemente tanto a sociedade quanto nós mesmos, é uma das maiores conquistas da
história humana. Mas, com a crescente alienação, também essa conquista converte-se em seu
contrário. A orientação para o futuro termina por transformar-se em moda. Da mesma maneira
como vão se estereotipando os sistemas funcionais da sociedade, do mesmo modo como os
tipos de comportamento tendem a converter-se em "papéis", assim também a orientação para o
futuro transforma-se na necessidade de não ficar atrasado com relação à moda. Quem quer
então desempenhar adequadamente seu papel não pode se permitir o menor atraso com
relação à moda; tem de segui-la passo a passo, tem de submeter-se a seu arbítrio, tanto no       105
sistema consuetudinário geral quanto no vestuário ou nas esferas estéticas da vida (decoração
da habitação, sensibilidade artística, etc). A moda, portanto, é a manifestação alienada da
orientação para o futuro, encontrando-se em relação necessária com o crescimento da




                                                                                                 www.facete.com.br
categoria de "papel". Isso não implica em que a orientação para o passado tenha desaparecido
inteiramente na época do capitalismo desenvolvido. Pode, ao contrário, ser até mesmo
dominante nas camadas sociais em que o capital penetrou apenas de modo relativo. É o caso,
por exemplo, dos pequenos camponeses, ainda que mesmo aqui o fenmeno esteja em
regressão. Tampouco se trata de afirmar que a orientação para o passado não esteja
absolutamente presente na cristalização dos comportamentos sob a forma de papéis;
certamente está, mas apenas com importância secundária.
       A sociedade humana tem a propriedade essencial de que o caráter público das ações


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
influi nas próprias ações. O comportamento global dos homens transforma-se quando eles es-
tão colocados diante do público, diante de seus olhos e diante de seu julgamento; os homens,
nesses casos, adotam uma "postura" num sentido redundante. Isso se deve, em parte, ao fato de
que — colocado no meio público — o homem sente mais intensamente o dever de representar
a humanidade, de dar exemplo. Quem grita um viva à pátria no patíbulo, quem declara no
leito de morte seu legado moral à família reunida, o menino que se atreve a dizer a verdade ao
professor diante de seus companheiros, "superam-se a si mesmos". Por outro lado, é inegável
que o homem vê muitas coisas de outro modo quando se encontra sob uma luz pública. Quem
cometeu um erro é capaz de vê-lo muito melhor diante do público, e não por oportunismo,
mas porque a presença da comunidade funciona como um catalizador: nessa situação, é
possível reconhecer os próprios erros, os quais, em outras situações, passariam
desapercebidos. Mas isso não significa que os homens desempenhem um papel diante do
Prática Curricular IV



                                    público como consequência de sua essência social; na verdade, o que fazem é ser mais
                                    sinceros. Quem se abandona ao medo da morte não é "mais sincero" do que quem a espera
                                    serenamente; e quem dissimula seus erros não é "mais sincero" do que quem os vê, etc. De
                                    resto, ao dar o exemplo, ao nos autocontemplarmos com os olhos do público, a presença da
                                    comunidade nem sempre é materialmente necessária. A pessoa intimamente vinculada com as
                                    normas da comunidade sente a presença da sociedade mesmo quando esta não está presente,
                                    mesmo quando a pessoa em questão está sozinha. O revolucionário executado em segredo,
                                    sem ser visto por ninguém, costuma comportar-se de modo nobre e sublime. Em sua mente,
                                    está presente a comunidade. E seria possível, de um homem assim, afirmarmos que está
                                    apenas representando seu papel diante de si mesmo? De nenhum modo. O ato de assumir uma
                                    postura em público não tem nada a ver, em si mesmo, com o desempenho de um papel. Mas
106                                 não há dúvida que é um pressuposto desse desempenho. Pois, dado que o comportamento
                                    humano se decompõe em vários clichês estereotipados e dado que a personalidade autônoma
                                    do homem pode perder-se inteiramente nesses clichês, nos casos em que isso se verifica a
                                    diferença gradual, a diferença de intensidade sempre existente entre a atitude "solitária" e a
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                                    atitude "pública" pode converter-se no oposto do acima dito. Nesse caso, o homem em
                                    público representa um papel, um papel em sentido literal, "dá seu espetáculo", expressa
                                    opiniões, estados de espírito, julgamentos, etc., que talvez nada tenham em comum com os que
                                    lhe são próprios. Um exemplo de clichê obrigatório destinado ao público é o "keep smiUng" de
                                    moda, o sorriso obrigatório, o otimismo incondicional exigido. Mesmo o homem mais pro-
                                    fundamente desesperado sorri constantemente por necessidade, apresenta-se como "otimista", bem
                                    humorado, porque o ambiente público espera isso dele. A cisão da personalidade do palhaço
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                                    converte-se em norma de toda a sociedade.
                                           A unidade que se manifesta na diversidade, na dialética interna e externa desse
                                    fenômeno, não tem importância apenas na relação da solidão com a publicidade. Revela-se
                                    igualmente em muitos aspectos da personalidade, pois a multiplicidade da personalidade
                                    humana é uma resultante da complexa totalidade de suas relações sociais. Mas não há nenhum
                                    homem (nem nenhuma comunidade) que conheça cu seja capaz de conhecer o outro indivíduo
                                    em todas as suas relações, na totalidade de suas reações. Tanto as pessoas quanto as co-
                                    munidades podem conhecer ou captar, sempre, tão-somente aspectos isolados da
                                    personalidade, da essência dos indivíduos. Mas isso não implica, de nenhum modo, em uma
                                    contraposição necessária entre "essência íntima" e "manifestação exterior". Por um lado, todo
                                    homem pode — mediante suas experiências sociais e individuais — obter um conhecimento
                                    do homem que lhe permita averiguar se um determinado indivíduo se manifestou num ato
Prática Curricular IV



importante, decisivo, essencial, ou seja, se determinadas ações do sujeito que ele quer conhecer
expressam algo decisivo acerca da sua essência. Com esse conhecimento dos homens, pode-se
também avaliar a possibilidade de inferir o comportamento de um indivíduo em situações
futuras, ou a atitude do homem inteiro, partindo dessa ou daquela ação. É evidente que uma
inferência desse tipo será apenas em raríssimos casos uma operação lógica; no mais das
vezes, tratar-se-á de uma intuição. O conhecimento dos homens pode evidentemente se
equivocar, mas apenas na medida em que qualquer conhecimento pode se equivocar, na
medida em que todos eles levam em si a possibilidade do erro. E nada disso altera o fato de
que, apesar da diferença entre a essência e a manifestação do homem, é possível inferir a
"interioridade a partir da exterioridade", e, ademais, é imprescindível fazê-lo.
       O aparecimento de estereótipos dificulta extraordinariamente as tarefas do                  107
conhecimento dos homens. Pois, quando o homem desempenha um papel, é perfeitamente
possível que não se "manifeste" de modo algum naquilo que faz e que suas relações sociais
(por numerosas que sejam) não aumentem a variedade de sua substância. Na estrutura própria




                                                                                                   www.facete.com.br
do papel, degradam-se as relações sociais, que deixam progressivamente de ser elementos
qualitativos para serem apenas quantitativos. Por muitos que sejam os papéis desempenhados
por um sujeito, sua essência se empobrecerá. Portanto, o conhecimento dos homens é
dificultado não apenas pelo fato de que a "exterioridade" em demasia encubra a "interioridade",
mas também porque a própria interioridade se empobrece. Também aqui estamos diante da
alienação de uma propriedade característica do homem. Mas a função "papel" jamais pode
esgotar a totalidade dos comportamentos humanos (do mesmo modo como a alienação nunca
é absoluta), de maneira que o conhecimento dos homens, embora seja dificultado, não chega de


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
nenhum modo a tornar-se impossível.
       Outro aspecto da diferença entre exterioridade e interioridade ganha também
importância no comportamento do tipo "papel": em situações diferentes e na resolução de
diferentes problemas, explicitam-se inevitavelmente no homem valores igualmente diversos. A
colocação das tarefas atualiza valores potenciais que, sem esse complexo problemático, jamais
superariam a condição de mera possibilidade, jamais passariam à existência. Quando, ao
terminar uma tarefa, alguém se empenha em resolver outro problema, não se limita a trocar de
papel, mas começa a mudar a si mesmo na medida em que a nova tarefa reclama outras
qualidades. Uma pessoa, por exemplo, empregava métodos terroristas quando estava situado
no cume da hierarquia social, mas depois, ao ser derrubado, con-verte-se num tolerante; não é
inevitável — e, ao contrário, é até infrequente — a conclusão de que num e noutro caso tenha
assumido um papel adequado à situação em questão; também é perfeitamente possível que,
Prática Curricular IV



                                    quando de sua queda e posteriormente, tenha reexaminado sua vida anterior, tenha atravessado
                                    uma catarse, uma crise, na qual realmente se transformou . Nesses casos de mudança de função,
                                    a transformação real nunca é igual a zero. É um fato elementar que o indivíduo desenvolve
                                    capacidades diferentes na execução de tarefas diferentes; e que, em diferentes situações,
                                    consegue inverter a atitude de todo o seu ser moral, ou seja, que a "interioridade" do homem
                                    transforma-se em interação com a sua exterioridade. Mas, na medida em que os modos de
                                    comportamento convertem-se em papéis estereotipados, as transformações se mantêm como
                                    meras aparências (sem esquecer que, como dissemos, essas transformações aparentes jamais são
                                    absolutamente aparentes, jamais absolutamente nulas). Quando os papéis são múltiplos e
                                    intensamente mutáveis, a situação exige do homem uma rica e mutável explicitação de suas
                                    habilidades técnicas, de sua capacidade de manipulação. Também e precisamente nesse caso a
108                                 alienação significa que o enriquecimento das capacidades técnicas e manipulatórias não ocorre
                                    paralelamente ao enriquecimento do homem inteiro (de sua essência social-moral), ou seja, —
                                    e para voltarmos ao problema aqui analisado, — significa que a mudança de papel não implica
                                    absolutamente numa transformação do homem. O fenômeno é expresso de modo bastante
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                                    plástico no drama O Vigário, de Rolf Hochhuth. O autor apresenta numerosos fascistas,
                                    "burocratas da morte", que prestaram "serviço" nas câmaras de gás de Auschwitz. E esses
                                    mesmos homens, sem a menor alteração de sua essência, são hoje comerciantes, especialistas
                                    industriais, juízes. Hochhuth sublinha precisamente o fato de que essas pessoas mudaram
                                    muito pouco, de que viveram e praticaram sem a menor catarse- as monstruosidades do
                                    fascismo e sua posterior revelação pública, etc, e que neles a mudança de ocupação é uma
                                    simples mudança de papel, no sentido primário de uma mudança de papel no palco. Quanto
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                                    mais se estereotipam as funções de "papel", tanto menos pode "crescer" o homem até a altura de
                                    sua missão histórica, tanto mais infantil permanece.
                                           Ao se generalizarem, os comportamentos de tipo "papel" modificam a função do dever-
                                    ser na vida cotidiana. No dever-ser, revela-se a relação do homem inteiro com os seus "de-
                                    veres", com suas vinculações, sejam essas económicas, políticas, morais ou de outro tipo.
                                    Todos conhecemos, enquanto expressão de fatos da vida, fórmulas de exortação como: "tenho
                                    de estar no escritório às oito, "devo ser sincero nesse ponto", "hei de levar sempre uma vida
                                    honrada", "tenho de me casar com essa garota", bem como "tenho de escovar os dentes", etc.
                                    Não menos conhecido é o fato de que o dever-ser entrelaça-se frequentemente com o fato da
                                    representação. Tenho de comportar-me, per exemplo, como um cavalheiro, tenho de saber
                                    resistir se sou bom marinheiro, etc. Nesses casos de dever-ser, eles podem se referir a um fato
                                    singular, a um só assunto, bem como a inteiros complexos de comportamento. Assim, por
Prática Curricular IV



exemplo, a exortação "tenho de comportar-me como um cavalheiro, ou como um marinheiro"
não se refere apenas a um aspecto do comportamento, mas à sua totalidade. Com efeito, a
autonomia do homem, sua possibilidade de escolher, sua liberdade no sistema dos casos de
dever-ser, revela-se apenas quando tal sistema contém igualmente o dever-ser moral. Se o
dever-ser referente ao complexo global do comportamento se torna exclusivo, então chega-se a
reprimir ou abolir o dever-ser moral, dissipando-se também a autonomia, a verdadeira
alternativa moral, a liberdade do homem. Mas, em situações sociais não alienadas, ou
alienadas apenas parcialmente, o dever-ser referido a inteiros complexos de comportamento não
apenas não reprime o dever-ser moral, mas até mesmo o pressupõe. Assim, o pathos básico
da vida de Antígona apóia-se no fato de que deve-ser uma boa irmã, ou seja, de que esse
dever-ser refere-se ao complexo de comportamento "ser irmã". Como, apesar das ameaças de           109
Creonte, ela decide se manter fiel à tradição moral, decide ao mesmo tempo acerca do modo
de cumprir o dever-ser referente ao "ser irmã". Em troca, quando os complexos de comporta-
mento se cristalizam em papéis, não se pode sequer colocar a questão do "como". Sou




                                                                                                   www.facete.com.br
camareiro, portanto comporto-me como camareiro, como deve comporíar-se um camareiro;
sou mãe, portanto faço aquilo que uma mãe deve fazer, etc. Os estereótipos descrevem
detalhadamente o que uma mãe ou um camareiro devem fazer; e, na medida em que os
aspectos morais do dever-ser se atrofiam, não pode mais se apresentar a questão de saber se
efetivamente serei uma mãe tão boa quanto prescreve o papel, ou se basta como conteúdo de
uma vida o exato cumprimento dos deveres de camareiro. O dever-ser converte-se numa
exigência puramente externa e minha atitude será uma simples adaptação. Observamos, de
passagem, que a conexão dos aspectos do dever-ser é muito mais complicada na realidade.


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
Não apenas os casos de dever-ser moral e os casos de dever-ser referentes aos complexos de
comportamento se encontram ligados através de numerosas transposições e sobreposições;
essa ligação ocorre também, por exemplo, nas situações de dever-ser político. Seria ridículo,
por exemplo, pretender que o operário em greve atua contra o dever-ser de seu papel de
operário, embora o ato de trabalhar seja indubitavelmente um elemento do conceito de ope-
rário. Mas o indivíduo é um operário consciente precisamente na medida em que derruba,
afasta e recusa o papel que lhe é prescrito pelos patrões.
       A recusa do papel é característica daqueles que não se sentem à vontade na alienação.
Mas o conflito entre os casos de dever-ser, e, neste caso, o conflito moral, que se expressa de
modo particular, são inevitáveis na medida em que um homem não submete
incondicionalmente todo o seu ser ao papel que desempenha num dado momento. Por isso, os
representantes da teoria do papel são inimigos irreconciliáveis de todo conflito. Interpretam os
Prática Curricular IV



                                    conflitos como "defeitos de organização", como "perturbações funcionais" corrigíveis; alguns
                                    chegam a interpretá-los como "complexos", como perturbações psíquicas. Mas o conflito é a
                                    rebelião das sadias aspirações humanas contra o conformismo: é uma insurreição moral,
                                    consciente ou inconsciente. (É evidente que isso não pode ser dito de todo e qualquer tipo de
                                    conflito).
                                           O dever-ser descreve sempre, de um modo conceitual-mente acessível, a relação do
                                    homem com sua obrigação. A obrigação manifesta no dever-ser pode ser uma meta do ho-
                                    mem, mas não tem necessariamente de sê-lo. Também c ideal contém algo assim como uma
                                    exigência, mas esse seu traço característico revela-se muitas vezes inacessível ao conceito.
                                    Assim, por exemplo, muitos meninos dizem querer ser como Júlio César, mas sem
                                    especificar, sem poder descrever com exatidão os traços, as virtudes, etc, do personagem que
110                                 os atrai. Não é impossível encontrar os momentos do ideal no comportamento de tipo "papel".
                                    Quem deseja assimilar o papel de camareiro, ou o que se sente feliz desempenhando o papel
                                    de noivo, não se coloca diante do conceito abstrato de camareiro ou de noivo, da totalidade
                                    dos direitos e, deveres e complexos consuetudinários abstratos correspondentes a tais
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                                    conceitos. É mais certo que escolha como ideal um determinado camareiro ou noivo,
                                    passando a assimilar — no ato de imitá-lo — o correspondente comportamento de "papel".
                                    A alienação enquanto estereotipia não se revela no fato de que os homens escolham ideais e
                                    os imitem em seu comportamento. Esse é um momento necessário do desenvolvimento da
                                    personalidade humana. Na concreta escolha do ideal, na autonomia concreta, na liberdade
                                    com a qual se escolhe o ideal é que se revela se na sociedade surgem personalidades múltiplas
                                    dentro de um determinado complexo de comportamento, de modo a se tornar possível uma
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                                    variada escolha do ideal; e revela-se, ademais, se mediante a assimilação de tais complexos de
                                    comportamento é possível alguém desenvolver-se realmente como personalidade autônoma.
                                    Hollywood, por exemplo, produz anualmente a "mulher ideal" de cada temporada, divulga-a
                                    em suas películas; todas as garotas, então, querem tornar-se esse ano precisamente como a
                                    "mulher ideal", enquanto todos os homens passam a desejar esse tipo de mulher. Nessa
                                    situação, a personalidade individual, o indivíduo, não pode se explicitar na escolha do ideal,
                                    pois o ideal é mercadoria, e o homem não é criador, mas consumidor de ideais. Nesse caso, a
                                    escolha do ideal não pode ser considerada como um grau de desenvolvimento da
                                    personalidade no sentido de uma elevação na qual se torne possível até mesmo recusar o
                                    ideal, mas sim uma muleta inteiramente exterior, substituída constantemente — e de modo
                                    absolutamente independente da personalidade e da vontade do indivíduo — por outras
                                    muletas não menos exteriores. Mas, dado que o ideal é sempre um objetivo, isso significa que
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o homem recebe seus ob-jetivos já prontos e acabados para o consumo, e sempre de um modo
acidental com relação à essência humana pessoal. Isso significa que os ideais de um papel
conduzem tão-somente ao empobrecimento, à atrofia do homem. Levam simplesmente a uma
direção manipulada e, mecanizada do comportamento. É possível aprender com qualquer um
as operações e os gestos correios de uma profissão; mas não é possível aprender a "cortejar"
com alguém que saiba fazê-lo.
       Para terminar nossas considerações, podemos afirmar que as formas de
comportamento, os métodos e os conteúdos cog-noscitivos e éticos que aparecem na função
"papel" já existiam antes que aparecesse essa função. Contudo, todos eles — a imitação, o
uso, o sistema de "reflexos condicionados", a tradição, a orientação para o futuro, a
publicidade, a diferença entre o interior e o exterior, a transformação da personalidade, a      111
explicitação de capacidades diferentes em diferentes situações, o dever-ser e o ideal —
aparecem no papel de modo alienado. Em seguida, vamos estudar de dentro a categoria
"papel". Primeiro, em seu aspecto objetivo, do ponto de vista de sua posição no sistema das




                                                                                                 www.facete.com.br
relações sociais; e, depois, com referência ao sujeito, de acordo com o aspecto de sua relação
com o papel do homem.


Indivíduo e papel social
       Já indicamos que o comportamento do indivíduo com relação ao seu papel ou a seus
papéis pode variar muito. E essas variações são praticamente inesgotáveis. Mas, de qualquer
modo, se prescindirmos das formas de transição, podemos distinguir quatro comportamentos
fundamentais, quais sejam: 1) identificação; 2) distanciamento aceitando as regras de jogo


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
dominantes (incógnito dissimulado); 3) distanciamento recusando intimamente as regras de
jogo dominantes (incógnito oposicionista); 4) recusa do papel.
       A plena identificação com o papel ou os papéis é precisamente a forma direta de
revelar-se a alienação. Nesse caso, chega-se a perder a continuidade do caráter, chega-se à
completa atrofia, à dissolução da personalidade. Típico exemplo literário é Peer Gynt, que —
após uma vida mais do que rica em aventuras e aparentemente muito variada — volta a sua
pátria e vê-se obrigado a constatar que, como as cebolas, só tem cascas e nenhum núcleo.
Essas cascas são os vários papéis, enquanto o núcleo humano inexistente é a personalidade
dissipada.
       Diferentemente dessa atitude, no incógnito dissimulado o homem não se identifica com
seu papel. É capaz de penetrar no papel e em sua função social. Por isso, tem uma persona-
lidade que não se dissipa, que não se aniquila. Mas, dado que a preservação de sua
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                                    personalidade corre paralelamente à aceitação e aproveitamento da realidade (realidade que
                                    ele aceita tão mais prazerosamente quanto pior ela é), essa personalidade torna-se demoníaca,
                                    amoral. Ninguém o conhece, mas ele conhece todos e tem todos em suas mãos, de tal modo
                                    que — para aludir apenas a um exemplo — pode se distrair, como o faz Tartufo, com os
                                    honestos cidadãos que perderam a capacidade de ver através dos papéis. Mas é extremamente
                                    importante e nunca se sublinhará em demasia o fato de que todos esses jogadores demoníacos
                                    que vivem no incógnito não podem jamais evitar seu colapso final, por muitas que sejam as
                                    almas que tenham confundido e dominado. É o que podemos depreender, em todo caso, da
                                    arte e da história. Cippola enganou muitos cavalheiros de Romat mas no final chega Mário e
                                    dispara sua arma contra ele17. E isso indica uma coisa não menos importante: que todos os
                                    experimentalistas que podemos encontrar entre os criminosos da literatura e da história — ou
112                                 seja da vida — compartilham os preconceitos da moderna filosofia burguesa. Com efeito,
                                    todos eles desprezam tanto os pobres homens que desempenham seus papéis que passam a
                                    considerar a fetichização como algo absoluto e definitivo, acreditando assim que é possível
                                    manipular o homem tanto quanto se queira. Mas sempre acontece que, na realidade, os homens
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                                    não são manipuláveis indefinidamente e em qualquer direção, pois sempre existe um ponto
                                    limite, um limes no qual deixam de ser objetos e se transformam em sujeitos: que existe um
                                    ponto além do qual já não é mais possível confundir os homens e os povos. Esse ponto pode
                                    surgir em lugares diferentes quando se trata de homens diferentes, ou seja, um homem poderá
                                    ser arrastado a uma situação de desumanidade diante da qual outro já terá gritado "basta!". E
                                    também nos vários povos esse ponto se situa em locais distintos; basta comparar, para
                                    exemplificá-lo, o fascismo alemão com o italiano. A localização do ponto varia também
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                                    segundo as classes: o pequeno burguês (visto, certamente, no nível médio da sua classe) é
                                    moralmente mais débil que o operário, etc. Mas, em todos os casos, o ponto sempre existe.
                                              A estrutura psicológica básica do homem situado num incógnito de oposição parece-se
                                    formalmente com a do homem em incógnito dissimulado. Também o de oposição representa,
                                    em maior ou menor medida, o papel que lhe é exigido no mundo, mas não abandona seu
                                    núcleo humano, já que distancia sua personalidade daquele papel; todavia, no que se refere ao
                                    conteúdo e à moralidade desse comportamento, trata-se de um fenómeno inteiramente diverso
                                    do anterior. O homem situado num incógnito de oposição encontra-se em contraposição com o
                                    mundo em que vive; não despreza os homens que representam ingenuamente os vários papéis,
                                    mas sim o mundo que lhes prescreve tais papéis. Preserva as normas morais de tempos
                                    passados ou tem uma marcada sensibilidade para com as normas morais de épocas futuras.
                                    17
                                         Personagens e situações da novela Mário e o Mago, de Thomas Mann (Nota dos Tradutores).
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Não se sente à vontade na realidade; esta lhe faz sofrer, assim como também sofre por causa
dos papéis que tem de representar. Gostaria de manifestar-se, de depor o seu incógnito, de
estabelecer con-tatos com os homens, de travar relações; mas não encontra nenhuma
comunidade em que isso seja possível. Já não é mais um conformista, mas tampouco chega a
ser um revolucionário. Esse comportamento é muito frequente entre os melhores re-
presentantes   da   intelectualidade   burguesa.   Para   descrevê-lo   mais   plasticamente,
transcreveremos uma bela poesia de Ârpád Tóth, o conhecido poeta húngaro:

     Mascarado (Âlarcosan)

     Estou mal-humorado? Sou taciturno, fechado, talvez frio?
     Perdoa-me. Se eu pudesse,
     gostaria de oferecer em abundância
     toda a luz, todo o calor do mundo.                                                         113

     Palácios. Palmeiras. Danças. A Riviera infernal com violetas, ou, pelo
     menos, de quando em vez, uma feliz, uma rica hora de companhia.
     Mas agora é tão difícil. Agora não posso mentir nem roubar nenhum raio.
    Serei derrotado




                                                                                                www.facete.com.br
    numa convulsa luta sem glória.

    Esse é o tempo do Anticristo.
    Brilha a repugnante sujeira dourada do mundo.
    E entram no Céu:
    nadas engravatados, canalhas sutis.

    Mas eu luto aqui em baixo; e ninguém nem vê
    esses tormentos que me queimam nas noites do meu
                                                [silêncio.
    Tem paciência. Ainda hão
    de chegar os dias de harmoniosa música.


                                                                                                Faculdade de Educação Teológica -
    Tem paciência. Enquanto puderes,
    continua a ser o porto que me espera, meu refúgio em
                                                  [flores.
    Agora levo uma máscara fria e obscura,
    mas dela me libertarei.
     Porque, se não o fizer, encharcada de lágrimas
     ela cairá aos pedaços em teu seio.
     E tu então me acalentarás, me acalentarás em teu colo
     até a morte.

       No caso daquele que recusa um papel, a categoria "distanciamento é superada,
conservada e elevada a um nível mais alto. Esse homem já não se distancia do papel, nem
tenta preservar sua personalidade através do papel, mas a realiza sem inserir-se na ordem dos
comportamentos de tipo "papel". Trata-se sempre de um rebelde, ainda que não neces-
sariamente de um revolucionário. É evidente que existem recusas de papel que são uma
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                                    questão puramente privada. Nesses casos, quem consuma essa recusa não se preocupa abso-
                                    lutamente com o problema de saber se, para os outros, os comportamentos do tipo "papel" são
                                    ou não obrigatórios. Ele se limita a negar essa obrigatoriedade para si mesmo. Há épocas nas
                                    quais esse tipo de recusa do papel entra na moda, como ocorreu com o costume de "épater le
                                    bourgeois", praticado pela juventude intelectual de princípios do século. Shaw construiu
                                    numerosos excêntricos desse tipo, como, por exemplo, o Senhor Trefusis, que se recusa a
                                    vestir luto pela morte de sua mulher tão-somente porque é isso que esperam dele. A expectativa
                                    tem sempre efeitos negativos sobre o excêntrico, pois esse faz sempre, intencionalmente, o
                                    contrário do que esperam que ele faça. (Ademais, Shaw mostrou — com grande agudeza —
                                    que esse tipo de atitude excêntrica é um luxo, já que é necessário muito capital para poder
                                    mantê-la). De qualquer modo, observaremos aqui que a recusa particular de papéis não se
114                                 converte necessariamente em excentricidade, embora isso seja muito provável, tendo em vista
                                    que não existe nenhuma norma sócio-moral com a qual medir o conteúdo moral da realização
                                    da personalidade. Por isso, nesses casos, a realização da personalidade é sempre problemática.
                                           Em troca, aquele que recusa o papel por motivos revolucionários não apenas subtrai
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                                    sua própria pessoa ao jogo dos papéis, mas também se opõe à base econômica e política de
                                    determinadas funções de papel e se propõe a abolir a sociedade que produz os costumes e usos
                                    determinados que se cristalizaram em papéis. Que se pense, por exemplo, em Lênin, que era
                                    inimigo radical de todos os clichês de comportamento, mas apesar disso insistiu na
                                    conservação das normas tradicionais elementares, embora nos clichês de comportamento
                                    expres-sem-se precisamente, com frequência, de um modo fetichizado c alienado, essas
                                    normas.
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                                           A relação geral média com os papéis se apresenta, decerto, nos períodos históricos
                                    relativamente tranquilos, como de identificação, como perda de si mesmo na simultaneidade e
                                    na sucessão dos papéis representados. Nesse processo, o interesse é sempre a determinante
                                    mais abstraía e mais universal. Isso pode ser visto claramente nos casos conflitivos, mas se
                                    trata de uma situação que — embora possa ser latente — existe em todos os casos. A
                                    determinante universal mais concreta é a socialidade do homem, a aspiração de todo homem
                                    no sentido de que essa socialidade se realize em contatos externos, em relações humanas. No
                                    princípio de minha exposição, referi-me ao fato de que o capitalismo desenvolvido aliena
                                    todas as relações humanas, cristalizando em papéis todos os sistemas consuetudinários, todas as
                                    hierarquia de comportamento, etc., de tal modo que os fatos vitais imprescindíveis para a
                                    convivência humana, tais como a imitação, os estereótipos básicos, a relação com a tradição,
                                    os costumes, etc, passam a aparecer sob a forma de papéis. Para a média dos homens, é prática
Prática Curricular IV



e teoricamente impossível distinguir entre as estruturas valiosas ou relativamente valiosas da
tradição, etc, e a sua função de papel. Para efetuar essa distinção, são necessárias capacidades
intelectuais incomuns, bem como uma força moral extraordinária. Essa possibilidades
aumentam subitamente em épocas revolucionárias, mas os períodos de crise revolucionária
aguda são relativamente curtos se comparados com todo o desenvolvimento capitalista. Quanto
mais desenvolvido é o capitalismo, quanto mais encobertas são suas manifestações de crise,
tanto mais heróico vai se tornando até mesmo o mero comportamento médio estóico que se
distancia do papel.
       Embora tenhamos estabelecido uma relação entre a identificação com o papel e a
alienação, com isso não queremos afirmar que haja sempre uma razão direta entre a medida
dessa identificação e a alienação. A situação está determinada em grande parte pela relação        115
entre as concretas possibilidades dadas à personalidade e o papel concreto em questão.
Existem, por exemplo, possibilidades pessoais que podem ser desenvolvidas — ainda que
limitadamente — em determinados papéis. Nesses casos, naturalmente, a alienação será menor




                                                                                                   www.facete.com.br
do que quando o papel em questão ou o sistema de papéis for contrário às possibilidades
pessoais de um homem em todos os terrenos. De modo análogo, as motivações psicológicas
conscientes ou inconscientes da identificação podem diferir muito; e é evidente que influem
de modo muito variado no desenvolvimento ou na involução da perscnalidade. Um papel po-
de, por exemplo, ser assumido por obrigação íntima. Embora o papel seja objetivamente
conforme à estrutura social dada e embora também o seja a determinante última da
motivação, pode ocorrer — se essa determinação aparecer à consciência sob uma forma
inconformista, ou seja, se na esfera da chegada da motivação à consciência se der uma


                                                                                                   Faculdade de Educação Teológica -
aparência de inconformismo — que a personalidade se empobreça apenas limitadamente. O
resultado, sem dúvida, depende em grande medida do conteúdo sócio-moral dos papéis em
questão. Mas não há dúvida de que o desenvolvimento da personalidade tem menos
possibilidades de ocorrer nos casos em que as motivações conscientes se adaptam aos papéis
aceitos e diretamente expressos pela opinião pública manipulada.
       Também aqui devemos fazer uma distinção. Não é possível identificar a diferença que
existe entre aceitar um papel por obrigação íntima ou aceitá-lo através da manipulação com
aquela que se estabelece entre os fatos da consciência e os da espontaneidade. Pois tanto a
consciência quanto a espontaneidade apresentam formas alienadas e formas não-alienadas
(deixando-se de lado a amplíssima escala de formas de transição) . Quando a cristalização das
formas de comportamento em papéis é um processo já adiantado da consciência, ele não se
contrapõe simplesmente à espontaneidade, mas as contraposições reais se verificam, por um
Prática Curricular IV



                                    lado, entre a consciência alienada e a não-alienada, e, por outro, entre a espontaneidade
                                    alienada e não-alienada. Em ambos os casos, o problema consiste em saber a profundidade com
                                    que essas formas conseguem penetrar na essência da personalidade, a proporção com que essa
                                    terceira dimensão (a profundidade) determina as ações. Decerto, há muitas coisas que são
                                    consciência, mas consciência caricatural e fetichizada; por exemplo, saber reconhecer as
                                    exterioridades de um determinado status quo da realidade, saber "utilizá-las", saber prever
                                    dentro dos seus limites, ser capaz de decidir aos vinte anes o que se poderá ganhar em
                                    determinado emprego quinze anos mais tarde, quando será conveniente casar, quantos filhos
                                    convirá ter, etc. De modo análogo, representa uma caricatura fetichizada da espontaneidade o
                                    homem que tudo aceita, sem preocupações, do modo como lhe aparece na vida; o homem que
                                    atua segundo o princípio do "seja o que deus quiser", sem nenhuma perspectiva que transcenda o
116                                 dia a dia. A verdadeira espontaneidade é sempre exteriorização da personalidade, e, como tal,
                                    um ato de liberdade; a verdadeira consciência é um comportamento que busca as conexões
                                    objetivas da realidade, sendo também um ato da liberdade: A espontaneidade criadera está
                                    acima da consciência conformista; por sua         vez,   a consciência criadora está acima da
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                                    espontaneidade criadora, embora sempre conservando dialeticamente os elementos da esponta-
                                    neidade.
                                           Por conseguinte, é inteiramente equivocado afirmar que o índice psicossocial de status
                                    e a capacidade de desempenhar papéis são correlativos. Essa tese significa não apenas uma
                                    aceitação do status quo dos países mais manipulados, como também situações extremas que
                                    não predominam sequer em tais países.
                                           Não é verdade, em primeiro lugar, que um caráter seja tanto mais social quanto mais
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                                    adaptável, quanto maior número de papéis for capaz de "representar" sucessiva e simultanea-
                                    mente. Os indivíduos não suficientemente adaptáveis a nenhum papel foram sempre
                                    autênticas personalidades, portadoras de novas tendências sociais e de novas idéias. Disso
                                    decorre, em segundo lugar, que a maior ou menor adaptabilidade ou a maior ou menor
                                    aspereza de um caráter colocam problemas que, de nenhum modo, são apenas puramente psi-
                                    cológicos. É evidente que se trata também de um problema psicológico, mas em igual medida
                                    — ou mesmo em maior medida — estão implicados valores morais. Um caráter é muitas
                                    vezes inflexível, ou insuficientemente flexível, pela simples razão de que não quer ser diferente,
                                    porque vê na flexibilidade que a tudo se adapta indignidade e amoralidade. Por que os
                                    meninos em idade escolar simpatizam muito mais com o papel de chefe de bandidos que com
                                    aquele de provocador policial? Ambos são papéis. Se se deve responder que é o desprezo
                                    geral o que impede a segunda escolha, essa resposta será suficiente para refutar a tese de que
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o índice psicossocial de status seja correlativo da capacidade de desempenhar papéis. Mas irei
ainda mais longe. Em ambientes como os internatos, nos quais pode ser uso e sintoma de
distinção troçar dos calouros, dos. estudantes do primeiro ano, há sempre estudantes veteranos
que se negam a participar dessas brincadeiras, ainda que, por causa disso, sua comunidade os
despreze e até mesmo os segregue. E ocorre, com frequência, que aquele que é capaz de
suportar essa segregação passa a desfrutar depcis de um prestígio maior que qualquer outro de
seus colegas, de curso. Mas, se responde que os homens que se negam a aceitar determinados
papéis, que os homens não dispostos a aceitarem qualquer papel, terminam inevitavelmente
segregados quando chegam à idade adulta, por que considerar essa resposta uma verdade
eterna, "correlação psicossocial", ao invés de sublevar-se contra ela?

                                                                                                 117
O condicionamento do papel social
       Já várias vezes sublinhamos o caráter condicional da função "papel". O homem é mais
do que o conjunto de seus papéis, antes de mais nada porque esses são simplesmente as




                                                                                                 www.facete.com.br
formas de suas relações sociais, estereotipadas em clichês, e posteriormente porque os papéis
jamais esgotam o comportamento humano em sua totalidade. Assim como não existe nenhuma
relação social inteiramente alienada, tampouco há comportamentos humanos que se tenham
cristalizado absolutamente em papéis.
       Vimos que as funções de tipo "papel" são condicionadas, antes de mais nada, pelo
conjunto da sociedade. Mesmo nos contextos mais manipulados, produz-se constantemente a
"recusa do papel". Em todos esses contextos, há excêntricos, rebeldes e revolucionários. Até
mesmo os contextos mais manipulados estão repletos de homens que vivem em "incógnito de


                                                                                                 Faculdade de Educação Teológica -
oposição".
       Embora limitando nossa investigação ao comportamento objetivamente cínico, embora
pensando apenas naqueles que se identificam com seu papel ao aceitá-lo, ainda assim nos en-
contramos diante do referido caráter condicional.
       Pensemos no camareiro de Sartre. Esse camareiro representa dia após dia, do início da
manhã até o fim da noite, o papel de camareiro. Mas que acontecerá no dia em que —
hipótese nada excepcional, mas cotidiana — alguém por ele servido (uma garota, ou uma
velha senhora) começar se sentir mal? Como reagirá a essa situação inesperada? Nas "ex-
pectativas" do papel de camareiro não existem preceitos ou receitas que digam se, ao
necessitar um concreto ser humano de uma ajuda concreta, deva o camareiro ajudar-lhe, nem
tampouco o modo de tal ajuda. Nessa situação, portanto, o camareiro não se comportará de
acordo com as expectativas do papel. Seria ridículo afirmar que, nesse caso, o camareiro "as-
Prática Curricular IV



                                    sume" os papéis de médico, enfermeiro, amigo, etc. A verdade é que, na hipótese examinada,
                                    devem entrar em ação as qualidades humanas mais gerais e imediatas, como a bondade, a
                                    solidariedade, e também — e não em último lugar — a capacidade simpatética de conhecer
                                    uma situação e, com ela, o emprego do tato. Ou, no caso de um comportamento contrário, as
                                    qualidades humanas, também gerais e imediatas, de indiferença, egoísmo, falta de tato,
                                    comodismo, etc. É claro que as qualidades que, num tal caso, impõem-se em primeira instância
                                    não se limitam a papéis determinados, mas são características do homem inteiro, do indivíduo.
                                    Em situações novas, surpreendentes, nas quais os estereótipos deixam de funcionar ou funcionam
                                    mal, restabelece-se sempre a unidade da personalidade, ou seja, manifesta-se repentinamente
                                    como é o homem em questão, de que tipo de homem se trata. Daremos também aqui um
                                                                                                                                    18
                                    exemplo literário: o Holmer, de Ibsen, desempenha durante toda a sua vida dois papéis                .É
118                                 um funcionário duro e egoísta; mas, ao mesmo tempo, um marido amável e afetuoso e um pai
                                    exemplar. Quando se encontra diante de uma situação nova, de uma situação conflitiva,
                                    desprende-se subitamente de qualquer elemento de papel e comporta-se também diante de sua
                                    mulher como um egoísta brutal e desumano. Inutilmente tenta retornar a seu "papel" familiar
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                                    anterior, após o conflito. Nora já o conhece e não acredita nele. Quanto mais conflitiva e
                                    desconhecida, quanto mais inédita for uma situação, tanto menos será possível comportar-se
                                    diante dela conforme as prescrições de um papel. Por isso, já sublinhei repetidamente que o
                                    elemento "papel" do comportamento debilita-se do ponto de vista social geral nos casos em
                                    que, durante seu decurso, produz-se uma situação conflitiva repentina e revolucionária.
                                           Assim como a perda da personalidade, também a interrupção da continuidade do
                                    caráter é naturalmente uma simples tendência. Quanto mais fetichizado estiver o comporta-
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                                    mento humano, tanto menos os vários papéis conseguem lhe imprimir marcas, caso em que o
                                    homem já será velho mas continuará pueril. Mas, também aqui, deve-se recordar que não
                                    existe nenhum contexto, por mais alienado que seja, no qual os papéis assumidos não deixem
                                    marca alguma no sujeito, visto que — embora isso pareça paradoxal — a própria circunstância
                                    de que um homem assuma e realize cegamente determinados papéis diz algo sobre ele; também
                                    a vacuidade, a corrosão moral, são um conteúdo humano, embora se trate de um conteúdo
                                    negativo. Toda negação é, ao mesmo tempo, afirmação: esse princípio também se aplica
                                    plenamente ao caráter.
                                           Como já dissemos, o menino não se reconhece simplesmente em outros papéis, mas
                                    sim no ser-outro em geral, em outrem. E já dissemos que o menino não assimila papéis, mas

                                    18
                                      Os eventos   descritos   são   tomados   da   peça   Casa   de Bonecas,   de Henrik Ibsen (Nota dos
                                    Tradutores).
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sim modos de comportamento, percebendo a unidade deles. Quando, na vida adulta,
perde-se paulatinamente essa sensibilidade (o que ocorre na medida em que a sociedade é
manipulada) e as expectativas vão se estreitando efetivamente até coincidirem com as do
papel, nem mesmo assim elas chegam jamais a identificar-se completamente com o papel.
Basta pensar num fato elementar: a escolha do companheiro sexual ou do cônjuge. Os
sociólogos norte-americanos costumam lamentar o fato de que essa decisiva esfera da vida
esteja profundamente       manipulada; notam que os esquemas de tipo "papel" revelam-se
decisivos na escolha do companheiro e que o conjugue "ideal", do qual o cinema e a televisão
fazem propaganda, determina em dado momento a escolha, a qual incide, portanto, nas
pessoas que melhor representam esse papel. E isso se refere tanto às qualidade externas (ideal
conformista de beleza) quanto às "internas".     Mas, dentro do grupo dos muitos homens cu          119
das muitas mulheres uniformes, escolhe-se precisamente esse ou aquela, não esse outro nem
aquela outra, e essa circunstância não pode ser explicada exclusivamente pelo acaso. £
inimaginável que não haja, mesmo no interior            dos estereótipos, nenhuma qualidade




                                                                                                    www.facete.com.br
particular, individual, nenhummatiz individual que não "permaneça", por assim dizer, nada
particular que atraia mais para una do que para outros; e também é impossível que esses
"matizes" individuais sejam apenas externos, sem nenhuma característica simultaneamente
interna. Certa feita, ouvi de uma mulher: "Um homem não gosta de nós pelo tipo de sua
relação conosco, mas pelo tipo de sua relação com o mundo". É evidente que não se trata das
palavras que deveriam decorrer das expectativas de seu papel. Mas, inclusive no caso das
expectativas adequadas ao papel, deve-se negar que sejam indiferentes as formas de com-
portamento nos campos não determinados pelo papel (nesse caso, pelo papel de marido) com


                                                                                                    Faculdade de Educação Teológica -
relação aos sentimentos (por mais pobres que sejam) ou com relação à escolha (por mais
mecânica que seja).
       Já dissemos que, no comportamento de "papel", os homens atuam segundo as regras
do jogo. Mas, tampouco aqui deve-se passar por alto o fato de que não existe nenhum com-
portamento, por mais que esteja cristalizado em papel, no qual não desperte, com maior ou
menos frequência, a consciência da responsabilidade pessoal, cu, pelo menos, a sensibilidade
correspondente. A consciência moral e os apelos dessa consciência jamais se reduzem
exclusivamente à observância ou ao desprezo pelas regras do jogo da vida, à questão vitória-ou-
derrota. Qualquer homem psiquicamente normal pode distinguir entre a vida real e o jogo; e
efetivamente o faz. Precisamente nisso se encontra a linha divisória entre a esquizofrenia social
e a esquizofrenia médica; o esquizofrênico médico perde realmente a capacidade de distinguir
entre o jogo e a vida, entre a representação e a realidade. Muitos psicólogos sociais não
Prática Curricular IV



                                    reconhecem esse fato elementar porque passam da investigação dos fenômenos patológicos à
                                    análise do comportamento de homens psiquicamente normais e interpretara a analogia como se
                                    fosse uma identidade.
                                           Last buí not least: a existência econômica das diversas classes e camadas não
                                    condiciona na mesma medida a formação de papéis estereotipados em clichês. As mais
                                    expostas à fetichização do comportamento humano segundo as regras do papel são as camadas
                                    dos pequenos burgueses, dos burocratas, dos managers e dos pequenos capitalistas. Menos
                                    expostos a essa fetichização são a classe operária e as camadas superiores da burguesia. No
                                    caso da classe operária, o decisivo é que o processo de trabalho — por mais alienado e
                                    mecânico que seja — presta-se pouco à formação de papéis estereotipados em clichês. Pode-
                                    se "representar" o papel de porteiro de hotel, assim como um diretor-gerente pode sem dúvida
120                                 sumir no papel de "diretor-gerente ideal". Mas não é possível "representar" o papel de
                                    "torneiro ideal", pois diante de um torno nada há a fazer senão trabalhar, e servindo-se
                                    precisamente dos movimentos mais simples e econômioos entre os conhecidos. Todos esses
                                    movimentos estão determinados pela peça trabalhada e pela ferramenta, e não diretamente
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                                    pela relação social. Os representantes mais destacados da burguesia — cujos comportamentos
                                    cotidianos podem ser clichês — vêem-se constantemente em face da necessidade de elaborar
                                    respostas não determinadas pelo papel, por causa da luta de classes nacional e internacional e
                                    por causa do constante aparecimento de situações novas. Se respondesse conforme o papel
                                    estereotipado em clichés, a burguesia já há muito teria desaparecido.
                                           Na leitura de novelas policiais norte-americanas de hoje, podemos encontrar
                                    frequentemente a seguinte situação: parte-se de um fato que merece punição e tenta-se
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                                    descobrir seu autor. O caráter dos personagens não oferece nenhuma ajuda para essa
                                    investigação sobre a autoria do crime. Por quê? Porque não são caracteres, não são
                                    personalidades, de modo que em princípio — todos poderiam ter cometido o ato em questão.
                                    O assassino é "substituível": todos podem ser assassinos. A tensão resulta precisamente do fato
                                    de que ora suspeitamos de um, ora de outro, até que — no final — o genial detetive consegue
                                    descobrir o verdadeiro assassino. Esse genial detetive é o único que consegue penetrar com o
                                    olhar em todas as complicações, é o único situado acima do mundo do acusado, é o único
                                    capaz de jogar com os seres humanos, e, por conseguinte, de triunfar em última instância.
                                    Ora, se o mundo absolutamente manipulado existisse, seria precisamente assim.
                                           Todavia, "enquanto for capaz de aspirar, nosso coração não será uma ficha".
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                       O LUGAR         DA    ÉTICA      NO   MARXISMO


        TODO MOVIMENTO social importante, mais cedo ou mais tarde, deve enfrentar os problemas
éticos. Pode não tomar posição espontaneamente, pode não propor aos seus seguidores uma teoria, uma
ideologia, ou perspectivas ligadas a semelhante teoria ou ideologia, porém, se exige uma militância
consciente não pode deixar de assumir uma atitude determinada, positiva ou negativa, em face da
tradição moral. No entanto, do fato de que um movimento social importante não pode existir por muito
tempo sem uma tomada de posição diante da ética não decorre que o seu alcance, a sua importância e o
entusiasmo que ele suscita estejam ligados, de modo diretamente proporcional, à elaboração da sua ética.
Isso aparece de maneira evidente no estudo dos movimentos socialistas. O marxismo já existe há mais        121

de um século, há mais de um século ele exerce sua influência, mobiliza massas. Hoje, de um modo ou
de outro, ele se acha na base da concepção do mundo adotada por movimentos que exercem influência
política no mundo inteiro. Nenhum dos marxistas, contudo, mesmo os mais notáveis, nenhum deles




                                                                                                           www.facete.com.br
definiu os problemas da ética, a não ser de maneira apriorística. Apesar disso, a ética possui no
conjunto da teoria marxista um lugar que merece exame e que nós gostaríamos de examinar,
mesmo porque se impõe hoje a exploração urgente dessa "terra desconhecida".
        Não basta certamente constatar que um movimento de importância histórico-mundial,
cuja doutrina inclui teoricamente uma posição diante das questões morais, não formulou no
curso de um século sua ética; é preciso nos perguntarmos por que não a formulou.
        A ausência de uma ética em um movimento não significa certamente que ele não tenha
seus costumes e que nestes não haja um código moral. Entre esses três existe um nexo. E, nos


                                                                                                           Faculdade de Educação Teológica -
costumes de um determinado movimento, no seu código, no seu código moral, em seus
conteúdos e suas funções, podem ser encontrados elementos para uma resposta à pergunta:
por que semelhante movimento possui ou não possui uma ética, e por que semelhante ética é
exatamente assim e não de outro modo?
        O código moral e a ética podem ser inversamente proporcionais um ao outro. Se as
escolhas e as ações são guiadas por um código fixo, a opção é relativamente segura e o seu
conteúdo moral nunca é problemático. Além disso, a opção nunca apresenta o caráter de
opção individual, só se apoia minimamente num risco pessoal, nunca é dinâmica (no sentido
de poder levar em conta o "elemento novo"). Quando, numa situação concreta, uma escolha se
impõe, a ética não contribui para trazer uma certeza maior; ela pode até, ao contrário, di-
minuir o grau de certeza. Ela não facilita a escolha: leva ao reconhecimento dos diversos
aspectos da situação e do caráter relativo da opção, leva à tomada de consciência de seus
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                                    riscos e possíveis consequências. Quando o indivíduo se coloca a pergunta referente ao
                                    conteúdo moral e aos possíveis abertos à sua ação, a ética pode proporcionar uma resposta a
                                    essa pergunta, mas nunca lhe oferecerá conselhos concretos.
                                           Um movimento elabora uma ética, elabora os nexos teóricos da sua ética, quando os
                                    seus costumes e as suas necessidades morais apresentam maior afinidade com a ética do que
                                    com a ação codificada. Mas o conteúdo das suas necessidades morais depende de fatores
                                    muito variados. Enumeremos alguns deles:
                                       a) uma ética só pode se formar cm movimentos que não se considerem absolutos, isto é,
                                           em movimentos que se considerem um fator no conjunto dos movimentos da
                                           sociedade, um fator da história;
                                       b) a elaboração de uma ética torna-se possível c necessária quando a espontaneidade do
122                                        movimento é cortada. Nas épocas históricas em que os acontecimentos (entre os quais o
                                           movimento em questão) se desenvolvem sem comoções internas e sem pontos de
                                           estrangulamento, o que se vê aparecer é uma ideologia da espontaneidade e uma
                                           postura burocrática, que subestimam a importância das opções humanas. Por isso, é
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                                           natural que a ética, na doutrina do movimento, só passe ao primeiro plano em épocas
                                           revolucionárias (de crise positiva) e quando no interior do próprio movimento
                                           manifestam-se contradições (crise negativa);
                                       c) a constituição da ética é possível e se torna necessária quando, no seio de uma
                                           comunidade, o juízo individual (e portanto o papel da decisão individual) assume real
                                           importância; particularmente quando um grande número de indivíduos se acha em
                                           uma situação na qual se torna impossível para eles agir de acordo com o código;
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                                       d) por fim, para que em um movimento se forme uma ética, é necessário que nele exista
                                           uma consciência de si, uma autoconsciência, uma autocrítica. Não se trata apenas de re-
                                           conhecer com isso sua relatividade histórica; trata-se da tomada de consciência das
                                           contradições internas do movimento por parte dos indivíduos, contradições que
                                           aparecem aos referidos indivíduos como contradições morais.


                                           Os termos "possível" e "necessário" possuem significados que podem variar, de modo
                                    que convém esclarecer que, na realidade, na acepção com que acabamos de utilizá-los, a
                                    "possibilidade" é absoluta, ao passo que a "necessidade" é hipotética, constitui o objeto de
                                    uma alternativa: indica uma necessidade cuja satisfação depende de um grande número de
                                    fatores heterogêneos.
                                           Desde o nascimento do socialismo até os nossos dias, tais condições nunca se reuniram.
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Isso ainda é mais verdadeiro para os movimentos socialistas não-marxistas, que preferimos
não levar em conta no presente estudo.
       Na evolução do movimento marxista, podemos distinguir aproximativamente as
seguintes etapas:
   a) o desenvolvimento do marxismo no próprio Marx, na época da Revolução de 1848 e
       da Primeira Internacional;
   b) a Segunda Internacional, isto é, o marxismo dos clássicos da social-democracia;
   c) o renascimento do movimento revolucionário marxista, do começo do nosso século
       até a consolidação definitiva da sociedade soviética (Lênin e o leninismo, Luxemburg,
       Jaurès, Gramsci, o Lukács de História e Consciência de Classe, e, sob certos aspectos,
       Pannekoek e Otto Bauser;                                                                 123
   d) o período do culto à personalidade, do marxismo positivista e manipulatório;
   e) a inversão da tendência. No curso dos anos sessenta, particularmente, as tentativas de
       suscitar um segundo renascimento do marxismo.




                                                                                                www.facete.com.br
       Queremos desde logo afirmar que a premissa e ao mesmo tempo o postulado de uma
ética marxista já se apresentaram em três ocasiões: no próprio Marx, no período
revolucionário do começo do Século XX e, por fim, nos nossos dias.
       Se consideramos os fatores que tornam possível o nascimento de uma ética,
compreenderemos facilmente por que semelhante possibilidade não se apresentou nem na
época da Segunda Internacional nem no tempo do culto à personalidade.
       O movimento operário do final do século passado ficou mais ou menos isolado do

                                                                                                Faculdade de Educação Teológica -
conjunto da sociedade. Baseou-se sobretudo na espontaneidade e se interessou
unilateralmente pelos fatores econômicos. Ê natural, portanto, que a praxis, sobretudo as
motivações da praxis, mas também a heterogeneidade de seus sistemas de valores, tudo isso
tenha ficado fora de seus horizontes ideológicos. De tal situação resultou que a ética foi
definida unanimemente como uma ética de classe e, ainda por cima, como um sistema
absoluto e fechado, elaborado à base de interesses e necessidades, e tornando biológicas as
motivações morais. Era uma posição mais aproximada da de D'Hclbach ou da de Darwin do
que da de seus pontos de partida marxianos. A ética de Kautsky nos fornece um exemplo
eloquente do que dizemos, porém, poderíamos lembrar também o estudo em que Lafargue
analisa o nascimento das noções morais. O próprio Engels, em alguns capítulos do Anti-
Duhring, "adaptou" a teoria do egoísmo dos filósofos do século XVIII à análise das classes.
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                                    A evolução tranquila dessa época não compelia o movimento a tomar consciência dessa sua
                                    carência de uma ética.
                                           O marxismo da época do culto à personalidade adotou quase que integralmente a
                                    interpretação da moral realizada por Kautsky e Plekhânov, acrescentando-lhe entretanto
                                    algumas inovações. Na realidade, ele fundiu positivismo e voluntarismo, combinando à fusão
                                    um código extremamente rígido e limitado. Esse matrimônio artifical é uma decorrência do
                                    ca-ráter mesmo do movimento. Subsistia o fator do isolamento, que se tornara até mesmo
                                    mais relevante do que na época da Segunda Internacional. E as possibilidades de uma praxis
                                    real no interior do movimento se tornaram ainda mais reduzidas. Tudo isso, porém,
                                    misturava-se a um ativismo coletivo no qual não existia mais espaço para a espontaneidade, a
                                    margem para a atividade individual era mínima e o conteúdo das ações individuais era
124                                 determinado pelo código moral a que já nos referimos.
                                           Como já dissemos, a necessidade de uma moral reaparece no primeiro quartel do
                                    nosso século. Semelhante necessidade se manifestou não só em decorrência da revolução,
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                                    mas também por força da crise da social-democracia. Tornara-se possível, então, escolher
                                    entre dois tipos de movimento, entre dois ou mais caminhos. Não é casual que, em condições
                                    bastante diversas e de maneiras diferentes, Lênin e Jaurès, que não queriam isolar o mundo
                                    operário dos problemas e conflitos do conjunto da sociedade, tenham percebido claramente
                                    essa necessidade. No Que Fazer? Lênin recoloca programaticamente a categoria de "praxis"
                                    em seu justo lugar, enquanto reavalia positivamente, de outro lado, o papel das alternativas,
                                    como também o papel de todos e cada um dos indivíduos na formação, na realização e
                                    concretização das alternativas.
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                                           Não podemos analisar aqui a explicitação histórica dessas posições: limitamo-nos a
                                    constatar que, apesar de tudo, a elaboração de uma ética marxista não representou, naquela
                                    ocasião, um problema que pudesse ser efetivamente enfrentado. E verdade que, juntamente
                                    com as questões da praxis e das alternativas, surgiram outros problemas teóricos: a função so-
                                    cial e ética da violência as contradições éticas entre a espontaneidade e a consciência, as
                                    relações com as tradições morais, a determinação dos valores com base nos quais cabe
                                    transformar a sociedade; a concreta aplicação da tese marxiana sobre Feuerbach que analisa o
                                    dilema entre o "educador" e o "educando" (tese segundo a qual a sociedade é sempre
                                    transformada pelos homens que nela vivem e, portanto, ainda que não necessariamente, está
                                    sempre exposta à possibilidade de deformações). Em todas essas questões transparece a noção
                                    de que uma reorganização da sociedade, capaz de humanizar a vida não depende de uma única
Prática Curricular IV



ação revolucionária drástica c sim de uma revolução permanente. Apesar disso, as teorias que
chegaram a se elaborar no trato com essas questões, naquele então, nunca chegaram a
constituir um todo orgânico, ou só o constituíram transitoriamente. Isso não ocorreu porque
"ainda não era a época própria", pois a época é sempre própria quando se trata de dar resposta
a uma exigência que se acha na ordem-do-dia: na realidade, não ocorreu porque a exigência
ainda não se achava na ordem-do-dia.
       Atualmente são numerosos os pensadores que, como Mar-cuse, encaram as revoluções
da primeira parte do nosso século como "revolução da fome". Conquistar o poder, fazer
desaparecer a miséria e a opressão e reorganizar a economia eram, de fato, as exigências que
estavam na ordem do dia. Os problemas éticos se colocam apenas como problemas marginais,
como elementos contidos nos objetivos supra-indicados e, em seguida, como valores que             125

caracterizam o tipo de cada perspectiva (e, portanto, como todos os valores, vistos como mo-
tivadores das ações).
       A situação atual é completamente diversa. Em primeiro lugar, as tragédias e os




                                                                                                  www.facete.com.br
horrores do passado mostraram o que pode acontecer quando a moral, a escala dos valores
morais, desaparece da esfera da política e é separada do esforço de humanização, o que pode
acontecer quando a iniciativa individual desaparece em todos os níveis e a responsabilidade
individual deixa de existir. Além disso, as sociedades eminentemente "manipuladas" da
América e da Europa, que asseguram a todos um crescente, embora relativo, bem-estar mate-
rial, colocam em termos novos o problema do Que Fazer? A libertação ou dcscartamento da
miséria passa a ter apenas uma função que agora já passa a ser secundária e logo será até mes-
mo terciária. Já não se trata mais de criar as condições elementares para a vida humana e


                                                                                                  Faculdade de Educação Teológica -
depois chegar a uma vida verdadeiramente humana: o nosso objetivo imediato é, desde logo,
chegar efetivamente a esta última. A consciência do direito a uma vida verdadeiramente
humana está presente nos homens, potencialmente, da mesma maneira como a consciência do
direito à satisfação das necessidades mais primárias se achava presente nos homens na época
das "revoluções da fome". Lassalle ainda falava da "maldita falta de exigências" dos operários.
No século XX, os operários já superaram isso, o problema que se coloca é o das exigências
relativas à humanização da vida em geral. É à luz dessas novas exigências que a consciência de
classe deve propor as iniciativas capazes de transformá-la numa força apta para mudar o
mundo (e, para tal fim, cabe à consciência de classe estimular essas exigências e
corresponder a elas). Desenvolver e formular a nova reivindicação é mais difícil do que foi, no
passado, desenvolver e formular a luta do movimento operário. Por isso mesmo, a ética — se
conseguir efetivamente assumi-lo — deverá desempenhar um papel decisivo. O elemento
Prática Curricular IV



                                    ético, de fato, não existe apenas de maneira implícita: a consciência da nova exigência
                                    significa ao mesmo tempo a consciência dos valores e da orientação ética em que se há de
                                    basear a criação da nova realidade. Marx disse que, transformando o mundo, os homens se
                                    transformam a si mesmos. Não modificaremos substancialmente o seu pensamento se
                                    alterarmos a sua frase e afirmarmos agora que não podemos transformar o mundo se, ao
                                    mesmo tempo, não nos transformarmos nós mesmos.
                                           Voltamos, então, a um dos princípios que havíamos enunciado no início dessas nossas
                                    considerações: a ética tem seu lugar na concepção de Marx. Procuraremos precisar ainda, em
                                    breves traços, qual é esse lugar e o que é que o caracteriza.
                                           Todos sabem que Marx interpreta a sociedade como praxis, como unidade de ser e
                                    consciência, uma unidade em cujo quadro os limites mais gerais das possibilidades da ação
126                                 humana são determinados pelo grau de assenhoreamento da natureza, pelo avanço cuja
                                    contrapartida é o "Retrospecto dos limites naturais". A humanidade se produz a si mesma a
                                    partir de um mundo que já existia antes dela. A história da humanidade é a história do
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                                    nascimento e do desenvolvimento da liberdade: os homens se libertam cada vez mais da
                                    fatalidade natural e, no entanto, nunca chegam a suprimi-la. Marx nos dá portanto uma
                                    dedução consequente da idéia da imanência. As motivações da humanidade são, de fato,
                                    sempre imanentes; mas os homens não têm consciência disso (ou, pelo menos, não têm
                                    plenamente). A consciência da liberdade, para a humanidade e para os indivíduos,
                                    desenvolve-se na medida em que os homens compreendem semelhante imanência, a
                                    alternativa e o poder que nascem dela. É aqui que podemos discernir os contornos gerais da
                                    ética de Marx. A moral é sempre imanente porém a humanidade — enquanto humanidade
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                                    livre — só pode se elevar à autoconsciência à base da imanência moral, o que significa —
                                    convém repetir — a tomada de consciência do caráter terreno da vida e da contínua
                                    autocriação humana. A meu ver, essa é a contraposição de princípio existente entre a ética de
                                    Marx e todas as éticas religiosas, independentemente do fato de que ambas as espécies de
                                    ética podem chegar a resultados completamente diversos, ou semelhantes, ou até idênticos, na
                                    apreciação de determinados valores.
                                           Como dissemos, para Marx o grau de "retrocesso dos limites naturais" (resultante de
                                    finalidades humanas) indica as possibilidades colocadas em cada época e para cada grupo, o
                                    âmbito do movimento da humanidade, e, no interior desse movimento, as integrações, as
                                    ações, das classes, as camadas sociais e os indivíduos. Mas existem sempre alternativas, e o
                                    resultado só aparece depois de uma escolha entre as inumeráveis alternativas. Em nossa
Prática Curricular IV



opinião, a autonomia relativa da atividade humana constitui o segundo ponto de partida da
ética marxista.
       Essa autonomia relativa significa duas coisas para o indivíduo: por um lado, ela lhe
oferece a possibilidade dele criar seu próprio destino e promover, mediata ou imediatamente,
sua integração e a de toda a humanidade; por outro lado, ela lhe dá a possibilidade de levar
em conta tudo aquilo que é necessário e cobra dele o esforço no sentido de encarar os fatos
tais como eles são, reconhecimento sem o qual todo comportamento ativo degenera em
moralismo abstrato ou sonho estéril. As atitudes de Prometeu ou de Epicuro representam,
para Marx, juntas, a tomada de posição correia diante dessas alternativas.
       Para Marx, a moral é a relação existente entre o indivíduo, sua circunstância e suas
possibilidades concretas. Por isso, ele criticou implacavelmente os que pretendiam descrever as      127

circunstâncias com a terminologia da moral e protestou energicamente contra os que
identificavam o conceito de "capitalista" com o de "mau" e o conceito de "operário" com o de
"bom", repelindo ainda toda e qualquer tentativa de caracterizar a sociedade do futuro através




                                                                                                     www.facete.com.br
de noções morais. Marx considerava desprovida de sentido a crença na onipotência da
"educação moral". Isso não significa que ele negasse a existência dos valores e até da
acumulação dos valores; só que não considerava os valores sociais, antropológicos,
acumulados como sendo por si mesmos valores morais, entendendo-os como valores mais
amplos ou mais limitados do que aqueles que se realizam no âmbito dos costumes (e, de
qualquer modo, como valores de outro tipo). No que concerne a tais valores, a moral se
manifesta pela escolha ou pela rejeição do desenvolvimento da essência humana: na
perseverança, nas formas da busca dos fins almejados, etc. Somente à base dessa concepção é


                                                                                                     Faculdade de Educação Teológica -
que pôde nascer a caracterização do "revolucionário prematuro" (tal como ela se acha nas
cartas sobre o drama Franz von Sickingen de Lassale), tipo no qual a grandeza humana da
ação não fica indicada pela pura motivação, nem pelas consequências, e sim pelo fato do herói
assumir a defesa de uma causa, tornar-se responsável por ela, e essa causa representar valores
humanos e sociais que o próprio herói não pode realizar nas condições dadas e que, no
entanto, são valores inseridos na perspectiva do desenvolvimento efetivo da humanidade.
       Do que dissemos, conclui-se que para Marx a moral não pertence a qualquer esfera
particular. Quase todas as ações humanas têm um conteúdo moral, mas não há nenhuma na-
tureza puramente ética. A moral indica a relação objetiva do indivíduo com a sua espécie, a
sua pertinência ao gênero humano (relação dos valores), o nível em que expressa essa relação
(em que medida o indivíduo tem consciência de sua pertinência ao gênero, em que medida sua
Prática Curricular IV



                                    personalidade particular se combina com essa pertinência e em que medida a universalidade
                                    do gênero chega a constituir a fundamentação ética das suas ações). £ no plano moral que se
                                    manifesta igualmente a sabedoria da vida ao indivíduo: em que medida ele reconhece os
                                    conflitos entre os valores, em que medida é capaz de avaliar e escolher diante das
                                    circunstâncias, "aplicando" seus princípios sem se submeter passivamente à situação. E é no
                                    plano moral, por fim, que se manifesta a força, a resistência e a solidez do caráter.
                                           Como em outros campos, também no da moral Marx discerne o fenômeno da
                                    alienação. Quando a moral se apresenta como uma esfera autônoma, trata-se de uma morai
                                    alienada: suas exigências se opõem rigidamente às particularidades da vida individual e a
                                    moral esmaga o indivíduo, mesmo nos casos em que este se submete voluntariamente, tal
                                    como o esmagam a Justiça e o Estado (pense-se na análise de Fleur de Marie, na Sagrada
128                                 Família). Mas a moral também se acha alienada quando — e na medida em que — os
                                    interesses de uma entidade e especialmente de uma classe tornam-se um postulado moral
                                    "natural" para os indivíduos que a integram. O movimento comunista deve levar à supressão
                                    de semelhante determinismo de classe: cabe-lhe conseguir que a motivação das escolhas
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                                    morais se destaque cada vez mais de suas derivações dos interesses de um determinado estrato
                                    social para vin-cular-se cada vez mais diretamente à humanidade como um todo, à essência do
                                    gênero humano. O fortalecimento dessa essência genérica do homem e a efetiva humanização
                                    global da vida acarretam ao mesmo tempo a superação da alienação moral: a conquista de um
                                    âmbito de movimento individual cada vez mais amplo, no qual a decisão ética concreta vai
                                    poder substituir em geral, para todos, a vigência de princípios de moral abstrata, o
                                    automatismo dos costumes.
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                                           Depois de ter sustentado em linhas gerais a existência de um lugar para a ética no
                                    sistema do marxismo e de ter procurado caracterizar rapidamente qual e esse lugar, devo
                                    explicar ainda uma coisa: por que falei de uma ética dos movimentos socialistas e não somente
                                    de uma ética marxista? Por que essa ética não poderia ser elaborada a partir da doutrina
                                    filosófica -de Marx? Por que um "especialista" no estudo do pensamento de Marx (um
                                    "marxólogo") não poderia elaborá-la?
                                           Todo filósofo deve viver seus pensamentos; as idéias que não forem vividas não são
                                    efetivamente filosóficas. Semelhante princípio prevalece com especial vigor no caso da ética,
                                    e ainda mais particularmente no caso da ética marxista. A ética marxista é uma praxis, não
                                    pode existir sem uma realização prática sem se realizar na prática de algum modo. Mesmo
                                    elaborada com base nos princípios teóricos de Marx, uma ética que se limite a contrapor-se
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passivamente ao atual mundo manipulado não passará de uma nova expressão,
contemporânea, da "consciência infeliz". A ética marxista só pode ser a tomada de
consciênncia do movimento que se humaniza a si mesmo e humaniza a humanidade. Por isso,
a ética marxista não depende só da compreensão e da aplicação correta dos textos de Marx:
ela depende muito mais do desenvolvimento do movimento que a adote como moral. Os que
hoje tentam elaborar uma ética marxista e querem explorar essa "terra desconhecida" da qual
falamos só podem ter uma perspectiva: um reencontro do movimento revolucionário, de seus
homens, de suas massas (da atividade que humaniza e transforma o mundo), com a teoria de
Marx. A "maldita falta de exigências" das novas condições tornou necessária a ética marxista,
porém, a fecunda ética de Marx só pode avançar com a diminuição e a superação dessa "falta
de exigências".                                                                                 129

       Eis-nos portanto de volta à nossa afirmação inicial. Indicamos quando um movimento
pode elaborar uma ética: pode fazê-lo no momento em que se considera absoluto, desaparece
a espontaneidade da sua consciência, aumenta o âmbito da atividade individual no seio da




                                                                                                www.facete.com.br
comunidade e ele passa a ter consciência de si mesmo, autocrítica. Mesmo se esses elementos
se acham total ou parcialmente em falta, o movimento pode se desenvolver, desperta
entusiasmo, exercer uma crescente influência sobre as massas (como ocorreu na história dos
movimentos marxistas na época da Segunda Internacional). No mundo atual, contudo, um
movimento capaz de transformar o mundo num sentido marxista não pode se realizar se esses
fatores estiverem ausentes. Para a ética — e também para a ética marxista — prevalece aquilo
que vale para todos os postulados do movimento comunista, entendido no sentido de Marx.



                                                                                                Faculdade de Educação Teológica -

Prática curricular iv fontes escritas...

  • 1.
    Prática Curricular IV:Fontes Escritas, visuais e sonoras- construindo texto didático Faculdade de Educação Teológica - www.facete.com.br
  • 2.
    Prática Curricular IV FACETE – FACULDADE DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO PARÁ CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA DISCIPLINA: PRÁTICA CURRICULAR IV (FONTES ESCRITAS VISUAIS E SONORAS – CONSTRUINDO TEXTOS DIDÁTICOS) PROFESSOR: EMENTA “A História do Historiador” Introdução ( ou, sobre o que precisamos considerar ao trabalhar com História) Passado e memória dão conteúdo, identidade e espessura a todos os humanos. Por mais isolado que se encontre um grupo, uma comunidade ou mesmo um só indivíduo, todos estão imbuídos de um passado, de uma memória e de uma história. A história de si mesmos é também a história da vinculação com determinado tempo e espaço. A história pessoal de cada um inevitavelmente terá raízes numa história externa, mais ampla, mais difusa, imbricada com o social, o econômico, com as estruturas da cultura, nem sempre perceptível no plano da 2 consciência individual. É justamente da tradução dessas histórias através de narrativa coerente, elaborada a partir de elementos concretos, não ficcionais, com bases num múltiplo e complexo inter-relacionamento entre tempo, espaço e a expressão dos grupos humanos, que se ocupará o historiador. O historiador não será o guardião da memória individual, ou memorialista, mas aquele que ao indagar, capta o sentido da construção de uma memória www.facete.com.br social no tempo, criando uma imagem do passado. Neste sentido a memória é documento, não produto final. Assim como o conteúdo da história não é o indivíduo isolado, tampouco o historiador expressará uma subjetividade ilimitada na sua captação do passado. Pelo simples fato de participar de um passado realizado no presente, de pertencer ou se projetar num determinado grupo social, seu trabalho expressará uma historicidade intrínseca na escolha de temas, na abordagem, na leitura da documentação, no processo de reflexão convertido num contexto. Paradoxalmente, nesta condenação do historiador ao presente situa-se a eternidade de um passado que nunca se esgota. Caso contrário, a história da Grécia, por exemplo, teria sido escrita por Homero e ponto final. No entanto, cada século reelaborou a história da Grécia dentro de suas perspectivas e possibilidades. Nos limites entre a ―consciência possível‖ e a ―consciência real‖ próprias e de seu tempo, o historiador busca no passado a consciência de Faculdade de Educação Teológica - seu tempo. O historiador, diante da necessidade de organizar seu pensamento, seu entendimento, cria medidas e categorias de tempo, organiza esse tempo em função de fatos, de ciclos, de épocas, de estruturas. Dessa forma, acrescenta uma noção de tempo diversa daquela vivida pelas comunidades, ou seja,, o tempo jamais é único no estudo da história, é desigual e particular a cada sociedade, a cada momento e a cada espaço.É físico e metafísico. Pode até mesmo não existir. Dependendo de suas crenças, é possível a uma sociedade conceber um mundo sem passado, num eterno presente em que passado e futuro se fundem. No Egito, na China, há deuses que significam o próprio tempo, um tempo contínuo, seria um não-tempo divino que interpreta o cotidiano. Na cultura do cristianismo, o tempo existe na esfera do humano, fora da divindade, que é eterna... (QUEIROZ, Tereza Aline P. e IOKOI, Zilda Márcia G. A História do Historiador. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 1999. P.07 a 12, Introdução).
  • 3.
    Prática Curricular IV Um pouco sobre o ensino da História no Brasil A partir da constituição do Estado brasileiro a História tem sido um conteúdo constante do currículo da escola elementar. O texto do decreto revelava que a escola elementar destinava-se a fornecer conhecimentos políticos rudimentares e uma formação moral cristã à população. A História a ser ensinada compreendia História Civil articulada à História Sagrada. A constituição da História como disciplina escolar autônoma ocorreu apenas em 1837, com a criação do Colégio Pedro II, o primeiro colégio secundário do país, que apesar de público era pago e destinado às elites e apenas a História Universal. A História do Brasil foi introduzida no ensino secundário depois de 1855 e, logo após, foram desenvolvidos programas para as escolas elementares. No final da década de 1870 foram feitas novas reformulações dos currículos das escolas primárias visando criar um programa de História Profana, mais extenso e eliminar a História Sagrada. Os métodos de ensino estão aplicados nas aulas de História eram baseados na memorização e na repetição oral dos textos escritos. Os materiais didáticos eram escassos, 3 restringindo-se à fala do professor e aos poucos livros didáticos com perguntas e respostas, facilitando as argüições. Desse modo, ensinar História era transmitir os pontos estabelecidos nos livros, dentro do programa oficial, e considerava-se que aprender História reduzia-se a saber repetir as lições recebidas e prontas. Pulando o século XIX, a partir de 1930, o ensino de História era idêntico em todo www.facete.com.br o país, dando ênfase ao estudo de História Geral, sendo o Brasil e a América apêndices da civilização ocidental.com o processo de industrialização e urbanização se repensou sobre a inclusão do povo brasileiro na História. Nos programas e livros didáticos, a História ensinada incorporou a tese da democracia racial, da ausência de preconceitos raciais e étnicos. Nessa perspectiva, o povo brasileiro era formado por brancos descendentes de portugueses, índios e negros, e, a partir dessa tríade, por mestiços, compondo conjuntos harmônicos de convivência dentro de uma sociedade multirracial e sem conflitos, cada qual colaborando com seu trabalho para a grandeza do país. Ao longo desse período, poucas mudanças aconteceram em nível metodológico. Apesar das propostas escolanovistas de substituição de métodos mnemônicos pelos métodos ativos, com aulas mais dinâmicas, centradas nas atividades do aluno, com a realização de Faculdade de Educação Teológica - trabalhos concretos como fazer maquetes, visitar museus, assistir a filmes, comparar fatos e épocas, coordenar os conhecimentos históricos aos geográficos. Os métodos tradicionais de ensino têm sido questionados com maior ênfase. Os livros didáticos, difundidos amplamente e enraizados nas práticas escolares, passaram a ser questionados em relação aos conteúdos e exercícios propostos. A simplificação dos textos, os conteúdos carregados de ideologias, os testes ou exercícios sem exigência de nenhum raciocínio são apontados como comprometedores de qualquer avanço que se faça no campo curricular formal. Dessa forma, o ensino de História atualmente está em processo de mudanças substantivas em seu conteúdo e método. Reafirmar a importância do currículo, não desprezando totalmente os livros didáticos disponíveis já que alguns são de boa qualidade, mas atentando para a importância do historiador produzir, a partir de um sólido referencial teórico, novos subsídios nascidos da observação atenta e crítica dos fatos históricos, textos didáticos novos que contemplem diversas fontes escritas visuais e sonoras são o que pretende esta disciplina. OBJETIVO GERAL: Capacitar aos futuros historiadores construírem, a partir de um sólido referencial teórico-histórico apreendido durante o curso e se utilizando das fontes
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    Prática Curricular IV escritas visuais e sonoras, textos didáticos que possibilitem aos seus alunos a realização de leituras críticas dos espaços, das culturas e das histórias do seu cotidiano. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: - Orientar aos professores a construção de um material didático que privilegie a história crítica, pretendendo desenvolver com os alunos atitudes intelectuais de desmistificação das ideologias, possibilitando a análise das manipulações dos meios de comunicação de massas e da sociedade de consumo. - Possibilitar a hetero-crítica dos livros didáticos e questioná-los e relação aos conteúdos e exercícios propostos: a simplificação dos textos, os conteúdos sem nexo, os exercícios sem exigência de nenhum raciocínio, imprópria iconografia e outros fatores que denigram o ensino-aprendizagem da História. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO 1- Conceitos de currículo e de referencial teórico; 2- Prática de produção de texto didático utilizando as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e o correto manuseio das fontes escritas visuais e sonoras; 3- Como fazer pesquisa bibliográfica relacionando com o assunto pesquisado. 4 METODOLOGIA/ATIVIDADES A disciplina Prática Curricular IV priorizará atividades que possibilitem a construção de textos didáticos além de atividades em grupo, pesquisas e confecção de painéis e outros. www.facete.com.br O Ensino e a aprendizagem da História estão voltados, inicialmente, para atividades em que os alunos possam compreender as semelhanças e as diferenças, as permanências e as transformações no modo de vida social, cultural e econômico no presente e no passado, mediante a leitura de diferentes obras humanas. O trabalho do professor consiste em introduzir o aluno na leitura das diversas fontes de informação: registros escritos, iconográficos e sonoros, para que adquira, pouco a pouco, autonomia intelectual. O percurso do trabalho escolar inicia, dentro dessa perspectiva, com a identificação das especificidades das linguagens dos documentos – textos escritos, desenhos, filmes -, das simbologias e das formas de construções dessas mensagens. Para tal tarefa é necessário que ao construir os textos didáticos a utilização de vários materiais não só de origem canônica (sociais, culturais, artísticos, religiosos), mas Faculdade de Educação Teológica - também requer o estudo de novos materiais (relatos orais, imagens, objetos, danças, músicas, narrativas) que devem se transformar em instrumentos de construção do saber histórico. Privilegiar, portanto, na construção dos textos didáticos de modo geral o trabalho com fontes documentais – fotografias, entrevistas, pesquisa bibliográfica, formulação de hipóteses, comparação de informações e perspectivas diferentes sobre um mesmo acontecimento, teatro, murais, quadros cronológicos, debates, mapas, filmes, depoimentos, edificações, objetos de uso cotidiano – é necessário desenvolver trabalhos específicos de levantamento e organização de informações, leitura e formas de registro. Os documentos são fundamentais como fontes de informações a serem interpretadas, analisadas e comparadas. São cartas, livros, relatórios, diários, pinturas, esculturas, fotografias, filmes, músicas, lendas, falas, espaços, construções arquitetônicas ou paisagísticas, instruções e ferramentas de trabalho, utensílios, vestimentas, restos de alimentos, habitações, meios de locomoção. São, ainda,os sentidos culturais, os estéticos, técnicos e históricos que os objetos expressam, organizados por meio de linguagens( escrita, oralidade, números, gráficos, cartografia, fotografia, arte). É importante analisar a linguagem escrita, considerada como universo simbólico que abarca signos simbólicos, conteúdos, mensagens, sentidos, construção argumentativa,
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    Prática Curricular IV estruturalingüística, etc. Finalmente, mas não menos importante é preciso que ao se produzir um texto didático que contemple a história regional, o profissional de história deve fazer recortes e considerar alguns aspectos relevantes, desenvolver um trabalho de integração dos conteúdos de História com outras áreas do conhecimento. REREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANPUH. Memória, História, Historiografia: dossiê ensino de história. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 13, n. 25/26, set. 2002/ago.2003. BITTENCOURT, C.M.F. Pátria, civilização e trabalho: ensino de História nas escolas paulistas. São Paulo: Loyola, 1990. BLOCH, M, Introdução à história. Lisboa: Presença, s/d. BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto/ Secretaria do Ensino Fundamental e médio. Parâmetros Curriculares Nacionais- História. Vol. 5. Brasília. 1997. CABRINI, C. ET alii. O ensino de história: revisão urgente. São Paulo: Brasiliense, 1996. CERTEAU, M. DE. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense. 2002. 5 COCH, Ingedore; TRAVAGLIA, Luiz C. A coerência textual. 3. Ed. São Paulo: Contexto, 2001.ão Paulo: Contexto, 2001. DIAS, M.O.L.da S. Quotidiano e poder. São Paulo: Brasiliense, 1994. FONSECA, S. G. Caminhos da história ensinada. Campinas: Papirus, 2003. Guia do livro Didático/ PNLD 2004. Brasília: MEC, 200º. www.facete.com.br HELLER, A. O cotidiano e a história. Rio de Janeiro. 1992. HOBSBAWM, E. e RANGER, T. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004. NADAI, E. A escola pública contemporânea: propostas curriculares e ensino de história. Revista Brasileira de História, Rio de Janeiro, v. 11, 1996, p. 99-116. SILVA, M. (ORG.). República em migalhas, História regional e local. Rio de Janeiro: Marco Zero; MCT/CNPq, 2000. ____________. Repensando a história. Rio de Janeiro: Marco Zero, 2004. Faculdade de Educação Teológica -
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    Prática Curricular IV SUMÁRIO 1- Por que há tantas desigualdades sociais no Brasil? Um panorama da riqueza e da pobreza brasileira. 2- Fazer História: Problemas de método e problemas de sentido. 3- Estrutura da Vida Cotidiana 4- Indivíduo e Comunidade: - Uma contraposição real ou aparente? 6 www.facete.com.br Faculdade de Educação Teológica -
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    Prática Curricular IV POR QUE HÁ TANTAS DESIGUALDADES SOCIAIS NO BRASIL? Um panorama da riqueza e da pobreza brasileira María Laura Silveira INTRODUÇÃO CADA MOMENTO DA HISTÓRIA pode ser reconhecido por uma dada feição do território ou, em outras palavras, pela existência de um sistema de infra-estruturas e uma dada organização da vida política, econômica e social. Produto do trabalho, essas bases materiais e 7 políticas dão lugar à consecução de um novo trabalho e à sua divisão entre as pessoas e os lugares.1 Assim, a história de uma nação pode ser contada pela sucessão das infra-estruturas ligadas à produção e à circulação — que podemos chamar de configurações territoriais — www.facete.com.br mas, ao mesmo tempo, pela sucessão de políticas industriais, financeiras, sociais etc. Em cada pedaço do território nacional, a quantidade e qualidade das infra-estruturas e das políticas possibilitam o exercício, mais ou menos bem-sucedido, de um tipo de trabalho valorizado no mundo contemporâneo. É por isso que podemos dizer que as regiões dão valor ao trabalho que nelas se desenvolve, mas, reciprocamente, a chegada de novos objetos e normas também cria valor nas regiões; Produz-se então uma hierarquia entre as regiões do país. Essa história paralela das coisas e das ações denota o modo como o território é usado pela sociedade, e sua análise revelar-nos-ia as respectivas formas de inclusão das pessoas e Faculdade de Educação Teológica - das regiões. O que não é incluído nessa repartição do trabalho privilegiada pela política de um país perde valor e, assim, se empobrece. Como o trabalho considerado moderno muda sua natureza e sua localização, as feições e extensões da modernidade e da pobreza variam no tempo. Incapazes de acompanhar o passo do processo de modernização material e organizacional, certas pessoas e regiões são excluídas das benesses da modernização, sem todavia deixarem de ser resultado dela. Assim, a cada momento certas formas de trabalho são valorizadas e outras não, certas regiões passam a abrigar o trabalho que se valoriza e outras o perdem. Essa perda de valor é uma das causas centrais da pobreza e, como esta adquire conteúdos diferentes segundo os contextos regionais, falamos, conjuntamente, de desigualdades regionais. 1 Santos, Milton. A natureza do espaço: iécnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
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    Prática Curricular IV Apesar de ser vista, amiúde, como um resultado indesejado do processo modernizador, a pobreza é, tantas vezes, considerada inelutável. Mas ela o é apenas quando estamos diante de uma ação política que, explícita ou sub-repticiamente, valoriza a velocidade, a fluidez e a competitividade do trabalho. Ao contrário, a construção de um pro-jeto coletivo de sociedade aconselharia reconhecer a pobreza menos como um resultado indesejado e mais como uma dívida social resultante de um processo produtor de formas de exclusão. DOS T E M P O S VAGAROSOS DA N A T U R E Z A AO BR A S I L AR Q U I P É L A G O Uma das características marcantes do território brasileiro é sua grande extensão. Trata- se de um território com uma enorme variedade de sistemas naturais sobre os quais a história 8 foi se fazendo de um modo também diferenciado. A conquista desse meio natural por formas de trabalho modernas, frequentemente conhecida como ciclos da economia, mostra a escolha, em cada momento, das áreas mais aptas para a implantação das novas atividades. A ocupação www.facete.com.br do litoral é sucedida pela dinâmica das frentes pioneiras, que vagarosamente interiorizam a exploração européia do território.2 Durante três longos séculos o uso da técnica na ocupação foi bastante limitado e, assim, as condições naturais eram as respostas a uma ação humana tanto local quanto forânea. No desafio às condições naturais e no enfrentamento das distâncias, o corpo do homem era o principal instrumento. Criavam-se, em virtude do tipo de produção, áreas de densidade ou de rarefação. Homens, plantas e animais de três continentes, sob o império dos europeus, encontraram-se em pontos privilegiados da terra brasileira e, no seu convívio, tornado Faculdade de Educação Teológica - obrigatório pelo trabalho, criaram uma nova geografia nesta porção dg planeta. A ocupação primeira do território dá-se com a cultura da cana-de-açúcar, em seguida do fumo e de produtos alimentícios e depois do algodão nos agrestes nordestinos. A cultura da cana-de-açúcar, baseada no desmatamento da floresta, permite a criação das primeiras plan-tations e a floração de uma série de pequenos centros no Recôncavo da Bahia e na Zona da Mata. As localidades estavam separadas por distâncias que se cumpriam em um dia de marcha e que presidiam o comércio e o abastecimento das áreas produtoras. Segundo suas exigências no processo de produção, os diversos produtos conduziram a uma certa organização do território, vinculada a uma organização do calendário agrícola, à demanda de mão-de-obra e às necessidades de transformação. Ê o caso da cana-de-açúcar que precisava 2 Andrade, Manuel C. de. A questão do território no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1995.
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    Prática Curricular IV serrapidamente levada aos engenhos, o beneficiamento do fumo se dava nas aglomerações e assim por diante. Dessa forma, a natureza do produto conduzia a uma determinada organização do território, sobretudo quando se tratava de um produto de exportação.3 Desde a instalação do Governo Geral em Salvador, em 1549, até a Independência, em 1822, não se criaram fluxos verdadeiramente nacionais no domínio da economia. A máquina de Estado servia para preservar e ampliar as fronteiras, manter o regime e a ordem, assegurar a coleta de impostos e, com a ajuda da Igreja, unificar a língua. A unidade política e linguística era contemporânea da vinculação quase direta entre as diversas regiões e o mercado externo. A falta de intermediários produziu uma evolução espacial e econômica caracterizada por "ilhas" de produção. Daí a imagem de um vasto arquipélago, formado, na verdade, por um conjunto de "penínsulas" da Europa. 9 A interiorização do povoamento foi devida à mineração e à criação de gado nas fazendas. A pecuária era dispersa pelo território dos sertões, enquanto a exploração dos diamantes e do ouro foi responsável pelo surgimento de inúmeros núcleos de vida urbana no www.facete.com.br interior dos estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Mato Grosso. Despontavam nos albores da interiorização os sertões do Nordeste, que abasteciam as zonas de agricultura comercial do litoral e as zonas de mineração, e os campos do Sul, que serviam à produção de couro e charque.4 Durante séculos, o território brasileiro, sobretudo algumas áreas do Nordeste, conheceu uma produção fundada muito mais no trabalho direto e concreto do homem do que na incorporação de grandes sistemas de infra-estrutura à natureza. A pobreza estava ligada sobretudo à seleção que a natureza fazia das produções e das formas de buscar domesticá-la. Faculdade de Educação Teológica - Coincidindo com as condições dos meios naturais 'ou com as sazonalidades da incipiente produção, a pobreza não significava verdadeiramente uma exclusão social. A MECANIZAÇÃO DA P R O D U Ç Ã O E DO T E R R I T Ó R I O Novas geografias desenham-se sobretudo a partir da utilização de novos recursos, prolongamentos não apenas do corpo do homem, mas do próprio território. Emerge o espaço mecanizado. São as lógicas e os tempos humanos impondo-se à natureza com a emergência de sucessivos meios técnicos, todos incompletamente realizados, todos incompletamente difundidos. A partir da segunda metade do século XIX mecaniza-se a produção mediante a 3 Furtado, Celso. Formação econômica do Brasil. 2a ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959. 4 Prado Jr., Caio. História econômica do Brasil. 23a ed. São Paulo: Brasiliense, 1980 [1945].
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    Prática Curricular IV instalação de usinas açucareiras e, mais tarde, o território com a navegação a vapor e as estradas de ferro. Às técnicas da máquina circunscritas à produção sucedem as técnicas da máquina incluídas no território. Criam-se interdependências entre os navios, os portos, as ferrovias, as primeiras estradas de rodagem e as usinas de eletricidade, que permitiram a constituição dos primeiros sistemas de infra-estruturas, verdadeiros sistemas de engenharia no território brasileiro. Todavia, em enormes pedaços do território reinava o meio natural, impondo, como na Amazônia, significativos estorvos à exploração e à posse dos europeus. Baseados em grande parte no investimento público, a produção e o comércio da borracha permitiram o crescimento de Belém e de Manaus, assim como São Paulo e Santos devem ao café o seu desenvolvimento. Na Bahia, sob o comando do porto de Ilhéus, o cacau ajudou a criar uma rede de cidades. Foram instaladas as primeiras indústrias brasileiras, que 10 não eram necessariamente urbanas. Algumas dependiam da proximidade das matérias-primas — como o algodão, cultivado em áreas da Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco e Maranhão — ou de fontes de energia diretamente utilizáveis, que se encontravam fora das cidades. Mas, a partir de um certo desenvolvimento técnico que permitiu o deslocamento de www.facete.com.br materiais e fluidos, a localização da produção industrial tornou-se menos dependente da presença contígua de matérias-primas e de fontes de energia e mais vinculada à oferta de mão-de-obra e de mercados. Das 636 fábricas existentes no Brasil em 1890, que empregavam 54.169 operários, as mais numerosas e importantes estavam no Rio de Janeiro. O crescimento das cidades foi, entretanto, desigual, em virtude das oscilações das economias regionais ou de seu papel político.' Dominando uma vasta extensão do território, cada cidade desenhava verdadeiros circuitos interiores. O motor fundamental dessa vida de Faculdade de Educação Teológica - relações era o comércio, principalmente orientado para o estrangeiro. Mas, as regiões organizavam-se com os meios muito limitados de que dispunham as cidades e suas relações com o exterior eram hierárquicas. A inexistência de transportes interiores rápidos era responsável por um isolamento, quebrado apenas pelos transportes marítimos. Mesmo na primeira fase dos transportes mecânicos, com a criação das vias férreas, não mudou muito a situação, pois a vinculação circunscrevia-se às zonas de produção e aos portos. Não havia uma integração. O aparelhamento dos portos, a construção de estradas de ferro e as novas formas de participação do país na fase industrial do modo de produção capitalista permitiram às cidades beneficiárias aumentar, pouco a pouco, seu comando sobre o espaço regional, enquanto a navegação, muito mais importante para o exterior, apenas ensejava um mínimo de contatos entre as diversas capitais regionais, mas também entre os portos de importância.
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    Prática Curricular IV Consolidavam-seas áreas de monocultura de exportação e, paralelamente, o processo de urbanização aumentava as demandas de eletricidade. A introdução da estrada de ferro vai permitir um uso mais dinâmico do território. Criam-se duas lógicas. A exceção da área hoje nucleada por Rio de Janeiro e São Paulo, a estrada de ferro reforça os laços privilegiados entre as metrópoles regionais e suas respectivas hinterlândias, mas sem estabelecer entre tais metrópoles relações outras que não as permitidas pela navegação marítima. Todavia, no Sudeste criam-se, de um lado, uma rede localizada de ferrovias e, de outro, um intercâmbio baseado nas formas modernas de dividir territorialmente o trabalho. A expansão do sistema de circulação e das áreas de produção agrícola para exportação reforçou o crescimento do emprego, sobretudo nas áreas próximas ao litoral. A pobreza, cuja 11 face era sobretudo rural, vinculava-se mormente a uma estrutura de propriedade injusta. Eram situações locais, cujas soluções também eram locais por meio da política assistencialista do Estado ou, por vezes, pela ação social e pontual de uma empresa. Tais soluções não estavam www.facete.com.br ainda permeadas pela lógica do capital financeiro ou de instâncias internacionais. Era uma "pobreza incluída".5 Embora a riqueza gerada nesse país-conti-nente não conhecesse formas satisfatórias de distribuição, a inclusão social, a partir do crescimento do emprego, permitia uma evolução menos brutal das desigualdades. DA MECANIZAÇÃO DA CIRCULAÇÃO AO ALVORECER DA INDUSTR IALIZAÇÃO Como a economia era fundada em técnicas menos intensivas, o aumento dos volumes produzidos significava, frequentemente, a criação de empregos. Ao mesmo tempo, a Faculdade de Educação Teológica - industrialização nascente se fez numa fase em que os progressos técnicos eram menos rápidos e as escalas de produção menos estendidas, de sorte que o tempo de vida de uma fábrica era maior, e a cada necessidade de aumentar a produção uma outra fábrica era agregada. A massa salarial, fabril e rural, contribuía para o nascimento de outras fábricas. Paralelamente, uma certa ociosidade da estrutura de transporte, já que os trens vinham carregados de café para São Paulo e o litoral e voltavam vazios, permitiu uma diversificação produtiva. Esses fatos, somados à expansão da capacidade de consumo de uma população que se urbanizava, permi- tiram um maior desenvolvimento industrial. A imigração beneficiou as regiões para onde se dirigia, já que os grupos de imigrantes eram portadores de uma tecnologia industrial e constituíam uma mão-de-obra qualificada, 5 Santos, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
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    Prática Curricular IV desejosa de reproduzir no Brasil um modelo de consumo que haviam conhecido ou. almejado obter nos seus países de origem. Nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná a política oficial de imigração e colonização determinou a forma de povoamento e de trabalho. São Paulo foi, certamente, o grande beneficiário desse movimento migratório. A população brasileira aumentou continuamente no decorrer desses anos. A luta contra a morte, conjuntamente com o combate menos eficaz contra o analfabetismo, resultou num enorme aumento dos efetivos demográficos. Desde o início do século XX até a segunda década, a população passou de 17,4 milhões para 30,6 milhões. O aumento populacional teve como consequência não somente um aumento das densidades demográficas em cada região, mas também a sua redistribuição. Se as populações do Nordeste, do Sudeste e do Sul dobraram nesses vinte anos, o aumento foi ainda mais significativo na Amazônia. Essa 12 redistribuição manifestou-se por um novo equilíbrio demográfico regional e um abandono do campo, com o aumento do número das cidades e de sua população. Em 1940, cerca de um terço da população brasileira era urbana. Uma grande parte dos brasileiros do Norte e do Nordeste abandonou essas regiões e dirigiu-se para as cidades do Sul. No final do século XIX www.facete.com.br ambas regiões representavam mais de um terço da população nacional e em 1960 cor- respondiam a um quarto, ainda que seus índices de natalidade fossem os mais altos do país. Um aumento de 2,2 vezes na matrícula do ensino fundamental entre 1940 e 1960 revelou-se importante mas não suficiente, ainda que se verificasse uma expansão nas diferentes regiões do país. Embora evidenciando uma velocidade de crescimento análoga, o ensino médio mostrava um número de alunos consideravelmente mais baixo. As instituições de ensino superior, que eram 28 em 1908, aumentaram para cinquenta em 1912 e para 248 Faculdade de Educação Teológica - em 1935. O Sudeste, o Nordeste e, mais tarde, o Sul foram as regiões que apresentaram o maior número de instituições, tanto públicas como particulares. Paralelamente verifica-se uma explosão no número de matrículas. O principal centro universitário nas primeiras décadas do século era o Rio de Janeiro, que reunia cerca da metade dos alunos do país. Alguns anos mais tarde, São Paulo despontou como um centro educacional importante, sobretudo quando se generalizou uma demanda de cultura industrial orientada à transformação material do território. É o primeiro momento de um longo processo de integração nacional, que se acompanha do início da hegemonia de São Paulo, com o crescimento industrial do país e a formação de um esboço de mercado territorial no Centro-Sul.
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    Prática Curricular IV A INTEGRAÇÃO DO MERCADO E DO T E R R I T Ó R I O A Segunda Guerra Mundial havia revelado as carências do sistema de transportes e a necessidade de um planejamento nacional que se preocupasse com os sistemas de infra- estruturas. Um sólido processo de industrialização pôs-se em marcha, e a cidade de São Paulo tornou-se a grande metrópole fabril. Nessa cidade estavam presentes todos os tipos de indústrias e, convocado a acompanhar esse despertar industrial, o país inteiro conheceu uma quantidade de solicitações e foi impregnado pela necessidade de completar a integração nacional. Juntou-se à rede de ferrovias um sistema de estradas de rodagem que permitiu, pela primeira vez, comunicar as diversas regiões do país entre si. As necessidades de alimentos e matérias-primas para uma metrópole que aumentava sua população e suas indústrias e, de certo modo, seu nível de vida demandavam novos 13 patamares de circulação. Os intercâmbios foram favorecidos pela nova base material e por políticas específicas e, assim, o mercado se unificava ao ritmo da integração do território. O Brasil-arquipélago cedia lugar a um território mais fluido. www.facete.com.br Em 1950, registravam-se mais de 70 mil estabelecimentos industriais e cerca de 1,3 milhão de pessoas ocupadas. Era uma época em que as micro e pequenas empresas representavam 96,7% dos estabelecimentos e eram responsáveis por 42,3% dos empregos no setor. Com 3 milhões de habitantes, São Paulo concentrava mais de um terço dos estabelecimentos industriais e do emprego industrial do país, o que evidencia também o crescimento da região do ABC. É num Brasil integrado pelos transportes e comunicaçõese pelas necessidades advindas da industrialização e da criação de um mercado interno que nascem importantes Faculdade de Educação Teológica - cidades no interior. Estas decor-rem do crescimento populacional, da elevação dos níveis de vida, da expansão do consumo e da demanda de serviços em número e fre-qúência maiores que anteriormente. O transporte rodoviário de mercadorias reorganiza as relações entre os centros regionais e a metrópole econômica do país. Sem dúvida, o traçado das estradas obedecia às novas exigências da indústria e do comércio, que acabaram por reforçar a posição de São Paulo como centro produtor e, ao mesmo tempo, centro de distribuição primária. A criação de uma indústria automobilística e a construção de Brasília j também confluíram para favorecer São Paulo e ampliar, quantitativa e qualitativamente, as diferenças regionais.6 As antigas metrópoles costeiras foram, desse modo, tornando-se relativamente menos 6 Fernandes, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 3a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981 [1974].
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    Prática Curricular IV polarizadoras das respectivas populações regio-nais. Como mencionamos, entre outras razões, os novos sistemas de transporte induziam os deslocamentos para São Paulo e Rio de Janeiro, e aquelas antigas metrópoles litorâneas tornaram-se incapazes de fornecer os novos bens e serviços às suas tradicionais áreas de ínfluência. Por essa razão, os núcleos urbanos mais recentemente criados ou desenvolvidos ligavam-se diretamente a São Paulo, para obter as respostas econômicas e técnicas de que necessitavam. Pouco a pouco, Brasília vai retirando do Rio de Janeiro a centralidade do poder, isto é, das ordens de natureza pública com as quais o território deveria ser regulado. São Paulo, por sua vez, vai subtraindo ao Rio de Janeiro o comando da economia, atribuindo-se, por meio de uma indústria capaz de abastecer e equipar um Brasil relativamente unificado pelos transportes, a produção das ordens econômicas e da regulação económica do território. O 14 desequilíbrio entre a estrutura industrial do Rio e a de São Paulo consolida-se realmente quando a indústria paulista conhece uma diversificação e a do Rio de Janeiro deixa de seguir esse caminho. A formação de capital na região de São Paulo é um dos fatores dessa diversificação. Brasília tende rapidamente a se instalar como metrópole política e São Paulo www.facete.com.br afirma-se ainda mais como metrópole econômica, enquanto ambas essas funções vão minguando na antiga capital imperial e republicana, Rio de Janeiro. Estabelecem-se relações entre a metrópole económica e as áreas agrícolas tecnificadas e dinâmicas bem mais significativas do que com o resto do país, constituindo uma especificidade da nova divisão territorial do trabalho. Abandonadas por essa repartição do trabalho, gran-des camadas da população urbana do Nordeste e do Norte conheceram, agora, o fenômeno da pobreza. Faculdade de Educação Teológica - Essa urbanização recente foi acompanhada de um crescimento da demanda educacional. A matrícula no ensino fundamental mais que triplicou entre 1960 e 1980 e resulta significativa em todas as regiões. Todavia, surpreende a situação do ensino médio que, ao longo dessas duas décadas, cresceu cerca de sete vezes, apesar de estar muito aquém de uma universalização. Tal retrato completa-se com uma nova explosão da matrícula universitária entre 1960 e 1970, quando aumentou em cerca de 3,6 vezes. Cursos e instituições, sobretudo particulares, colonizam as diversas regiões do país. Criavam-se então as condições de formação do que hoje é a região polarizada do país. Foi um momento preliminar da integração territorial, marcado por uma integração regional do Sudeste e do Sul. Mas, de certo modo, permaneciam muitas das velhas estruturas sociais. Em 1960, cerca de 33 mil proprietários possuíam quase a metade da superfície das propriedades agrícolas brasileiras, enquanto 3,3 milhões dispunham apenas da outra metade. Tal estrutura
  • 15.
    Prática Curricular IV dapropriedade favorecia, ao mesmo tempo, a persistência da pobreza e o abandono do campo. Os excedentes de população, cada ano mais numerosos, encontraram um refúgio nas cidades. Isso explica um crescimento urbano superior a 10% anuais em vários centros regionais e de 6% nas grandes metrópoles, enquanto o número de empregados e subempre- gados aumentava num ritmo ainda maior. O deslocamento desses milhares de indivíduos para as cidades respondia quase sempre a uma busca por melhores condições de vida. Os novos meios de comunicação foram em grande parte responsáveis por essa revolução. Intensificaram-se as migrações para o estado de São Paulo. Bahia, Minas Gerais e Pernambuco eram os principais estados de origem dos contingentes. Esse período criou as condições para a reativação do processo de enfraquecimento de todas as periferias, enquanto 15 o país parecia refluir para o seu centro: capitais privados, investimentos públicos, população, crescimento e pobreza. A pobreza despontava como uma das principais causas das migrações desses contingentes, que amiúde encontravam uma pobreza de nova qualidade nos seus www.facete.com.br lugares de destino. OS P R I M Ó R D I O S DA G L O B A L I Z A Ç Ã O NO B R A S I L A revolução dos transportes ocorrida nas décadas de 1950 e 1960 segue-sé", nos anos 1970, uma revolução das telecomunicações, com as perspectivas abertas pela revolução científico-técnica e a incorporação dos satélites brasileiros.7 A ideologia de racionalidade e modernização a qualquer preço ultrapassa o domínio industrial, impõe-se ao setor público e invade áreas até então não tocadas ou alcançadas só indiretamente, como, por exemplo, a Faculdade de Educação Teológica - manipulação da mídia, a organi-zacão e o conteúdo do ensino em todos os seus graus, a profissionalização e as relações de trabalho. As transformações das bases materiais e sociais do território brasileiro, graças aos acréscimos de ciência e de técnica, significam, também, a exigência de novas qualificações profissionais. O aumento de mais de 220% na matrícula universitária entre 1970 e 1980 é talvez a melhor evidência da necessidade e do desejo de apropriar-se de uma sofisticada cultura técnica e organizacional. Como a proporção de instituições particulares aumentou ao longo desses anos, estaríamos autorizados a falar, ao mesmo tempo, de uma difusão geo- oráfica do ensino superior e de uma difusão social, agora reguladas pelas leis do mercado. Agravam-se o atraso e as disparidades sociais sobretudo a partir da imposição de um 7 Dias, Leila Christina. "Les enjeux socio-spatiaux du développement des réseaux de télécommunications au Brésil". Document de Recherche du Credal, nº 204, 1989, pp. 28-41.
  • 16.
    Prática Curricular IV modelo de consumo norte-americano que significa, ao mesmo tempo, um modelo de produção, tornando mais pobre a nação, pois mesmo que os valores absolutos da renda pudessem aumentar, crescia o desamparo social produzido pelo poder público e pela dependência tecnológica, organizacional e financeira. Tal promessa de consumo, encarnada na publicidade e no crédito, espalha-se na sociedade e no território, de modo que os pobres já não podiam ser definidos como os excluídos de tal consumo, nem o fato de consumir era prova de inclusão social. Considerada o oferta infinita de bens e serviços e a criação científica e permanente de necessidades, a pobreza torna-se relativa e quantificável, enquanto a carência dos mais elementares bens e serviços ganha, agora, indicadores e participa de complexas equações. Pobreza e miséria passam a ser alvo de programas específicos ou da aplicação de ações isoladas inspiradas nos 16 países que usufruíam das condições do Estado de bem-estar ou mesmo dos países socialistas.8 De alguma forma é o momento da aplicação de políticas desenvolvimentistas, precedidas por discursos que denunciavam uma drenagem de regiões pobres para regiões mais ricas. Testemunha precoce desse debate político, a Superintendência de Desenvolvimento do www.facete.com.br Nordeste (Sudene) havia sido criada já no fim dos anos 1950. O dinamismo econômico da área Sudeste-Sul e o esvaziamento demográfico e económico das áreas periféricas perduraram até o final da década de 1970. A diminuição da atividade econômica que afetava o país como um todo parecia, então, uma ameaça à continuidade do modelo. Para mantê-lo, era indispensável retomar a atividade, ao preço de mais investimentos públicos e mais injeção de recursos para promover a exportação, mais proteção ao grande capital e menor retribuição ao trabalho,9 ao preço de uma política social Faculdade de Educação Teológica - ainda menos generosa e, necessariamente, de uma ordem ainda maior no campo político- social. A prédica do crescimento foi razão política suficiente para a realização de grandes projetos, viabilizados por volumosos empréstimos. Em decorrência, o endividamento tornou-se — e é até hoje — uma forma onipresente de distorção da economia e do território, pois todos os demais desejos e realidades deverão subordinar-se à dívida, que passa a ser o eixo da vida nacional. Uma nova divisão territorial do trabalho esboça-se no Brasil a partir da necessidade de transformar minérios e produzir derivados do petróleo. É o momento de implantação de 8 Santos, Milton. Por uma outra globalização, op. cit. 9 Mamigonian, Armen. "Teorias sobre a industrialização". São Paulo: Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental, Departamento de Geografia da USP, 1992. (Seleção de Textos nº 4).
  • 17.
    Prática Curricular IV complexose pólos indus-triais ligados à petroquímica na Bahia, à siderurgia no Maranhão, ao minério de ferro em Carajás, aos derivados do cloro em Alagoas e à eletrometalurgia em Tucuruí. Paralelamente, havia a necessidade de substituir o petróleo em alguns setores da circulação. Daí a institucionalização, em 1975, do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que, com o ingresso maciço da cultura de cana-de-açúcar, muda a geogra-fia do interior paulista. Os anos 1970 foram, assim, um marco na modernização da agri-cultura, no desenvolvimento do capitalismo agrário, na expansão das fronteiras agrícolas e na intensificação dos movimentos dos trabalhadores volantes — os bóias-frias. Novos conflitos no campo não se fizeram esperar. Estados como Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais e Bahia 17 apresentam altas taxas de emigração líquida entre 1950 e 1980. Áreas que haviam sido atrativas em outros momentos transformaram-se, nos anos 1970, em expulsoras de uma população cujo destino eram as metrópoles ou as novas frentes pioneiras, como a Amazônia. www.facete.com.br Uma produção industrial extrovertida, um maior endividamento, um aumento do número e do poder das firmas estrangeiras, para as quais tudo era facilitado, uma ampliação das facilidades de circulação dentro do país e para os canais de exportação se conjugaram com uma tendência à concentração e à centralização da economia, assim como à concentração geográfica e à concentração da renda. Aumentam os intercâmbios, e em decorrência cresce e se diversifica o setor terciário da economia, pois há maior necessidade de organização, de serviços públicos e privados, de transportes e de bancos. Gesta-se, a um só tempo, uma grande especialização territorial, com Faculdade de Educação Teológica - a tendência à concentração da produção de bens e serviços mais sofisticados em alguns pontos do Sudeste e do Sul: Apesar da industrialização, as características do subdesenvolvimento permanecem e muitas vezes se agravam com o crescimento econômico. Malgrado o aumento do Produto Nacional Bruto e mesmo dg Produto , Nacional Per Capita, acirram-se as disparidades regionais, as desigualdades da renda e o empobrecimento daqueles que já eram pobres. Como a expansão da indústria dinâmica é acompanhada pela redução absoluta ou relativa do poder aquisitivo das massas, a economia vê-se forçada a procurar mercados externos ou a reduzir seu próprio crescimento. Os investimentos dirigem-se aos setores em que há possibilidade de exportação, isto é, à produção de bens para os quais existem compradores estrangeiros potenciais. Essa orientação exige uma constante modernização do equipamento industrial para poder concorrer internacionalmente, que agrava a dependência
  • 18.
    Prática Curricular IV em relação aos centros mais avançados do sistema mundial. Por outro lado, a necessidade de importação exige uma política de exportação agressiva. Buscando o crescimento promove-se a produção de bens de capital, para os quais não existe mercado interno. O Estado é então compelido a adotar uma política de grande potência, favorecendo as maiores empresas, sem consideração pelas massas, cada vez mais empobrecidas. O extraordinário crescimento do capital fixo, revelado pelo aumento do tamanho das infra-estruturas, fundamenta-se em projetos de planejamento aparentemente isolados, mas orientados a acelerar a modernização capitalista. As formas têm um poder que convida a ações como a modernização da agricultura e, no meio urbano, a renovação do meio construído com o forte papel do capital especulativo. O capital comanda o território e o 18 trabalho torna-se, ainda mais, subordinado. As modernizações mais recentes desintegram a economia e a so-ciedade porque produzem um desequilíbrio e não criam os empregos suficientes. Como se desintegram as estruturas no campo, não há migração escalonada na rede urbana, e por isso as grandes www.facete.com.br cidades con-tinuam a crescer. Todavia, é a grande cidade que, pela existência de um mercado amplo e segmentado, abriga os pobres, nativos ou imigrantes, cujo trabalho, pouco valorizado, lhes permite, todavia, a sobrevivência. O PAÍS GLOBALIZADO: MODERNIZAÇÃO E POBREZA No período atual, os imperativos de um mercado tornado global passam I a comandar os acréscimos de ciência e tecnologia que o território brasi- leiro já começara a incorporar Faculdade de Educação Teológica - nos anos 1970. A informação substitui a indústria como variável motora. Não se trata de menosprezar os dinâmi- cos processos industriais, mas de apontar a relevância de um fenômeno novo: a produção de informação. Assim, enquanto aumentam as ativi- dades de serviços a indústria continua a crescer em várias porções do Brasil, como no estado de São Paulo, ainda que com menor velocidade. A implantação do sistema básico de telecomunicações permitiu não apenas a transmissão de dados, mas também a unificação do sistema de televisão. A instalação das redes possibilitou a difusão da informação gerais do consumo, assim como a financeirização do território. Mais tarde, a incorporação da fibra óptica nos sistemas técnicos nacionais, a partir dos projetos de interligação do planeta, ampliou a participação do país na globalização das telecomunicações.
  • 19.
    Prática Curricular IV O território ganha novos conteúdos e impõe novos comportamentos, em virtude das enormes possibilidades da produção e, sobretudo, da circulação de insumos, produtos e dinheiro, de idéias e informações, das ordens e dos homens. E a constituição de um espaço moderno, reticular e fluído. Essa premente necessidade de criar condições para uma maior circulação justifica a ênfase dada na política atual à criação e ao aprimoramento de sistemas de infra-estrutura que facilitem o movimento. Tal unificação técnica ou material do território se perfaz com a unificação do mercado. A força difusora do consumo que, no período atual, ganha uma velocidade antes nunca vista, acompanha-se do comportamento territorial das grandes empresas. As firmas mais poderosas escolhem os pontos que consideram instrumentais para sua existência produtiva e deixam o resto do território às empresas menos poderosas. É uma modalidade de 19 exercício do seu poder. Os dados próprios do período tanto alcançam áreas agrícolas como industriais e de serviços, que se caracterizam pela sua inserção numa cadeia produtiva global, pelo www.facete.com.br predomínio de relações distantes e, frequentemente estrangeiras, e pela sua lógica extrovertida. O país é cortado por estradas de rodagem que servem mais aos interesses nacionais e internacionais do que aos regionais e locais. A pavimentação dos principais eixos rodoviários e a construção de rodovias para os países vizinhos orientam-se a desenvolver uma maior integração comercial. Ainda que o peso dos empréstimos e créditos de organismos financeiros internacionais nessa modernização do país seja marcante, não podemos deixar de assinalar que o próprio Estado brasileiro investe pesadamente para dotar certas regiões das condições Faculdade de Educação Teológica - de circulação indispensáveis ao comércio externo. Aquelas regiões orientadas a produzir para a exportação e para um comércio distante têm prioridade nesse equipamento, de modo que se criam no território áreas com maior densidade viária e infoviária a serviço de um dos aspectos da economia nacional. Essas densidades não têm, pois, relação direta com o tamanho e a densidade da população, nem com a antiguidade do povoamento, nem com as urgências das sociedades locais, mas com certos nexos econômicos, sobretudo os da economia internacional. Há, todavia, uma permanente insatisfação com o equipamento e com os custos do seu uso, agravada por frequentes comparações com outros países, que alimenta a produção de um discurso sobre a necessidade de modernizar o território nacional. É uma divisão territorial nova e ampliada no Brasil, que permite, por um lado, ocupar
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    Prática Curricular IV áreas até então periféricas e, por outro, remodelar as áreas ocupadas.10 O consumo e o crédito encontram as bases materiais para sua instalação em quase todo o território. Tornam-se, prati- camente, ubíquos. Há uma unificação do território pelo mercado, pelos transportes e pela informação. Num país de grandes disparidades regionais e de renda, o processo de criação de fluidez é seletivo e não igualitário. A produção de fluidez se realiza não apenas com a construção de equipamentos, mas também pela alocação de certas profissões e pela oferta de certos empregos ligados à economia moderna, levando desse modo à desvalorização do resto das formas de trabalho. Superpõe-se ao velho tecido um novo tecido de urbanização. O nu-mero de grandes cidades aumenta consideravelmente: as aglomerações com mais de 500 mil habitantes, que eram quinze em 1980, passaram a 28 em 1996 e a 31 em 2000. Quanto às cidades com mais 20 de um mi- lhão de habitantes, que somavam dez em 1980, passaram a quinze em 2000. Crescem as metrópoles e, ainda mais, as grandes cidades médias. Nessas condições, novas fontes de riqueza e novas razões de pobreza se estabelecem nas grandes cidades. Ao mesmo tempo que os salários dos trabalhadores industriais tendem a www.facete.com.br baixar, verifica-se, ainda que com menor ímpeto, uma imigração de gente pobre proveniente de áreas rurais modernas e tradicionais e de outras áreas urbanas. Os processos de valorização da terra por consolidação de frentes pioneiras certamente tiveram um papel detonador em vários movimentos migratórios do país, como é o caso do Norte do Paraná ou, mesmo, do Mato Grosso. Por outra parte, o fenômeno de migração circular já se havia esboçado alguns anos antes. Lembremos que, em 1980, 11,5 milhões de famílias não dispunham de terra ou já não sobreviviam em pequenas propriedades. Isso Faculdade de Educação Teológica - significa que um terço da população, cerca de 40 milhões de pessoas, estava em permanente migração, tentando fixar-se no campo mas frequentemente não o conseguindo. E um novo patamar do êxodo rural, devido à combinação explosiva de uma estrutura fundiária arcaica em zonas agrícolas tradicionais e da modernização capitalista do campo em zonas dinâmicas e em áreas de colonização agrícola e de ocupação recente. Não podemos esquecer que na segunda metade da década de 1990 havia mais de 16 milhões de hectares produtivos não utilizados no Brasil — o equivalente ao total de terras de Tocantins. Havia no país cerca de 332 milhões de hectares distribuídos em 3,6 milhões de estabelecimentos, ao passo que cerca de 220 milhões de hectares estavam repartidos entre 1,3 milhão de estabelecimentos trabalhados por arrendatários, parceiros e ocupantes, o que 10 Santos, Milton e Silveira, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
  • 21.
    Prática Curricular IV configuravauma estrutura fundiária apta a expulsar a população rural. Expulsos das áreas rurais modernas e tradicionais ou de outras cidades, os pobres encontram nas metrópoles algum tipo de ocupação, mesmo que não constitua propriamente emprego. A variedade de capitais existente na grande cidade assegura a possibilidade de uma extrema variedade do trabalho. Entretanto, nas metrópoles ou em outras cidades a presença de pobres e a correspondente depressão dó mercado de trabalho e dos salários projetam-se no empobrecimento das respectivas municipalidades. Esse problema, aliás, é agravado com o crescente desmantelamento do Estado de bem-estar, o que contribui para um empo- brecimento ainda maior da população. Paralelamente, a implantação da modernidade na metrópole representa um peso sobre os outros aspectos da vida local, mediante custos públicos e privados, custos federais, estaduais e municipais. Tais adaptações ao moderno 21 representam lógicas distantes, que incidem sobre subáreas privilegiadas do organismo urbano, mas cujo custo é verdadeiramente social. Toda a cidade sofre os resultados desse processo aumentando os graus de pobreza. www.facete.com.br Representando cerca da metade da população desse Brasil de contrastes, a população economicamente ativa tem aumentado nos setores secundário e terciário. Verifica-se nas últimas décadas uma verdadeira explosão do setor terciário, sobretudo na região Sudeste e no estado de São Paulo. Nas regiões metropolitanas, boa parte da população está ocupada em atividades de serviços, mas o comércio, que não pára de crescer, é também um importante contratador de mão-de-obra. Observado com mais cuidado, esse fenômeno revela uma economia pontual de comércios e serviços modernos coexistindo com uma enorme economia pobre orientada ao comércio e aos serviços mais banais nessas grandes cidades. A OPÇÃO POR MULTIPLICAR A POBREZA Faculdade de Educação Teológica - Quando uma nação privilegia um tipo de produção que não ajuda a população a subsistir e a se desenvolver, mas obriga à criação permanente de um excedente, ocasionando- lhe um ônus excessivo, falamos: em produção desnecessária. Haveria também uma circulação e um intercâmbio desnecessários, que têm um custo social, como as infra- estruturas de investimento pesado e a respectiva mobilização de veícu-los e serviços que não contribuem com o bem-estar geral da sociedade nem permitem sua ampliação, em virtude dos custos que representam. Quando a exportação é pregada como solução necessária, em vez de buscar a melhoria das condições de vida dos mais pobres, ampliam-se a produção e a circulação desnecessárias
  • 22.
    Prática Curricular IV e se aprofunda uma divisão do trabalho igualmente desnecessária. A globalização acelera esse processo porque faz parte do seu credo a idéia de que sem exportar é impossível modernizar-se e participar plenamente do mundo "civilizado". De fato, o que resulta na prática é o triunfo de uma lógica econômica a despeito das distorções de ordem social que possa causar. A decorrente divisão do trabalho passa a ser comandada sem preocu pação com o interesse social. Uma das consequências desse processo é a multiplicação e dis- semínação da pobreza nas diversas camadas sociais das regiões brasi- leiras. Com a ampliação do poder do sistema financeiro e de uma informação enviesada que reforça uma única interpretação da socíe- dade, as políticas públicas, mais do que compensar esse jogo de forças, acabam por inclinar o fiel da balança para o acirramento dessa situação. Subsídios e créditos do Tesouro para 22 auxiliar grandes corporações e bancos são, entre outras, formas legais de violência que, como vemos cotidianamente, ampliam outras modalidades de violência, amiúde ilegais. A mídia, frequentemente associada aos interesses hegemónicos, mostra isoladamente os fatos emergentes de um processo mais complexo e invisível. Não se revelam os mecanismos www.facete.com.br produtores de violência, mas suas manifestações visíveis. A ordem corporativa, criadora de desordem para o poder público e para toda a sociedade, é dissimulada. A morte anunciada do sistema previdenciário é mais um mecanismo de comando que o sistema financeiro exerce sobre a política, reduzindo o debate nacional a uma complexa contabilidade macroeconômica. Nesse processo, o papel da informação, produzida e veiculada pela mídia hegemônica, não é menos importante. Forma-se assim a chamada opinião pública, manifestação do pensamento único, que ampara as ações políticas orientadas Faculdade de Educação Teológica - a erodir o embrionário Estado de bem-estar e a acelerar o empobrecimento das diversas camadas sociais. Se a massa da população economicamente ativa foi aumentando desde meados do século XX até os dias de hoje, não se pode dizer o mesmo da evolução do número de contribuintes para o Instituto da Previdência. Em 1981, metade de um total de 45,5 milhões de trabalhadores contribuíam para a Previdência, e em 1995 essa proporção era de apenas 42,8%. Se o volume de trabalhadores cresceu em mais de 24 milhões nesses catorze anos, a quantidade de contribuintes aumentou em apenas 7,1 milhões. Entre 1995 e 2002 o aumento foi de pouco mais de 6 milhões de contribuintes. As consequências desse enfraquecimento das estruturas fiscais são inúmeras, mas todas convergem para o empobrecimento da população. A evolução negativa da base previdenciária é frequentemente apresentada, ainda que isolada dos seus respectivos contextos explicativos, como uma das mais importantes
  • 23.
    Prática Curricular IV razõesda falência do Estado. A regionalização torna-se mais uma vez necessária para a compreensão dos fenômenos. Em 2002, pouco mais de 20 milhões de contribuintes viviam na região Sudeste, 6,7 milhões no Sul, 5,1 milhões no Nordeste, 2,5 milhões no Centro-Oeste e 1,3 milhão no Norte. Num estado como Tocantins, apenas 20% dos trabalhadores contribuíam para a Previdência, enquanto a situação era um pouco melhor no Pará e no Amazonas. O retrato dos estados do Centro-Oeste não é muito diferente: em Goiás e Mato Grosso, cerca de 32% do total de trabalhadores são contribuintes. De alguma maneira, as áreas que sediam a expansão de atividades modernas, como a agricultura das novas frentes pioneiras, são manifestações de um Estado menos preocupado na contenção social dos trabalhadores e mais prel ocupado na produção de um território fluido. Novas relações traba-lhistas, mais despojadas dos freios 23 sociais a um processo de forte acu-mulação capitalista, asseguram o crescimento da economia moderna. A situação é um pouco diferente nas regiões Sul e Sudeste. Estados como Rio Grande www.facete.com.br do Sul e Santa Catarina têm metade da massa de trabalhadores incluída no sistema previdenciário, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo registram porcentagens superiores a 62%| Não podemos esquecer, na análise dessa questão, o despontar de uma relação de nova natureza que se difunde no Brasil nos anos noventa. E a previdência privada que, em 2002, alcançava cerca de 2,1 milhões de contribuintes, dos quais mais da metade pertenciam à região Sudeste. Se seu número representa pouco menos de 6% do total dos contribuintes da previdência pública, a soma da sua poupança, agora subtraída do sistema público e universal, não é todavia desprezível. Faculdade de Educação Teológica - Um mapa semelhante ao da previdência pública é desenhado pela situação dos trabalhadores com carteira assinada: 68% no Sul e 42% no Nordeste. No entanto, se as médias nacionais indicavam cerca de 60% dos trabalhadores com carteira assinada no Brasil ao longo da década de 1980 e início dos anos 1990, diminuíram para cerca de 37% na virada do século. Consequentemente, o grau de sin-dicalização também diminuiu. A precarização dos vínculos empregatícios e o aumento do de-semprego foram acompanhados de um crescimento do número de tra-balhadores domésticos durante a década de 1990. Em 1996 o emprego doméstico representava cerca de 10% da população economicamente ativa do Brasil. Na região Norte a média subia para 11,3% e no Sul caía para 8,3%. Já em 2002, acompanhando o empobrecimento rela-tivo das classes médias, que provocou uma queda na procura, eram algo mais de 6 milhões de empregados domésticos, cerca de 8% da população economicamente ativa do país.
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    Prática Curricular IV Durante a década de 1990 o desemprego aumentou em todo o país e, com oscilações, superou os dois dígitos nas regiões metropolita- nas. Em São Paulo, atingia nos primeiros meses de 2004 mais de 12% da população economicamente ativa, mas já atingira 20% nos anos 1990. Recife e Salvador, que haviam alcançado porcentagens em torno de 30%, registravam cerca de 15%. Mas também Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre registraram taxas superiores a 10%. Novas formas técnicas e organizacionais, como a informatização e a automação das tarefas tanto nas atividades agropecuárias quanto na indústria e nos serviços, os novos modos de circulação, os atuais tipos de contratação e as políticas trabalhistas levaram entre outros aspectos, a uma precarização das relações de emprego e a um aumento do desemprego ao longo dos últimos quinze anos. Por isso, a racionalidade dá ordem econômica atual revela-se 24 limitada, ainda mais nas grandes metrópoles, onde o número de pobres é importante. Do norte ao sul desse Brasil urbano as maiores metrópoles do país têm suporta-' do taxas de desemprego em torno de 20% da população economicamente ativa. Mas qual é a racionalidade de uma economia urbana que despreza tamanha quantidade de trabalhadores? www.facete.com.br O fato é que a cada dia há um menor número de atividades e empregos ligados a essa divisão do trabalho hegemónica, e isso é mais visível nas grandes cidades. Novas necessidades produtivas e novas formas de dividir social e territorialmente o trabalho aumentam as necessidades de cooperação, criando novas profissões e rejeitando as antigas, sobretudo a partir da revolução das telecomunicações, da informática e da informação, da expansão do sistema bancário e da nova agricultura. Umas profissões cedem lugar a outras, aptas a manipular os novos objetos técnicos, mas destinadas também a uma Faculdade de Educação Teológica - vida efêmera. O resultado desse ato de império é que em alguns setores como o quaternário aumenta o emprego, embora discretamente, ao passo que em outros, volumosos contingentes são condenados ao desemprego. Se a divisão social do trabalho que acompanha o mundo da informação e das finanças multiplica as profissões, ao mesmo tempo diminui o número total de empregos. As formas técnicas e de regulação contemporâneas satisfazem seu apetite com um número menor de pessoas altamente qualificadas. O emprego tradicional da metrópole industrial esvai-se, de um lado, ao ritmo das novas acelerações normativas como as formas de contratação temporária e da terceirização, da interiorização da indústria, que é sinônimo de modernização e de busca de novas densidades normativas, e, de outro, pelas novas ocupa-ções na produção, e adaptação das informações externas ao mercado brasileiro, da criação de uma publicidade que aprofunda os consumos, da produção codificada de formas de fazer e regular, como a
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    Prática Curricular IV miríadede instrumentos financeiros em vigor. Esse movimento da sociedade contemporânea contribui também para concentrar a renda. Em 1981 a classe mais rica (com renda de vinte salários mínimos ou mais) representava 0,7% do total de pessoas com dez anos ou mais e concentrava 15,9% de Uma renda nacional que beirava US$ 12 bilhões. Em 1997 esse grupo era composto por 1,8% da população de mais de dez anos de idade (2.293.493) e deti- nha 26,4% do rendimento nacional, que agora alcançava US$ 34,5 bilhões. Isso significa que em dezesseis anos essa classe aumentou em mais de dez pontos percentuais a sua participação na distribuição da renda nacional e conseguiu apropriar-se de um volume de riqueza (US$ 9,1 bilhões) a ser comparado com o total nacional produzido em 1981(US$ 12 bilhões). Entre 1981 e 1997 aqueles cujos rendimentos superam os vinte salários mínimos ganham um aumento de renda 25 de US$ 7,2 bilhões, enquanto o respectivo contingente cresce em 1.627.585 pessoas. Enquanto a classe mais rica aumenta 3,4 vezes em número de pessoas, seus rendimentos multiplicaram-se por 4,8. Já as duas classes mais pobres, com renda entre meio e dois www.facete.com.br salários mínimos aumentaram em 2,4 vezes o seu contingente, mas somente em 1,8 vez a massa, de sua renda. Em 2002 essas classes pobres já representavam cerca de um terço da população brasileira. Nesse contexto, é visível o empobrecimento relativo de uma região como o Nordeste, ao passo que se torna receptora de grandes investimentos libados a produções inseridas na atual divisão internacional do trabalho. Ao se considerar as classes de maior renda, é significativa a participação dos estados das regiões Sudeste e Sul. Quanto à classe com rendimento superior a vinte salários mínimos, Faculdade de Educação Teológica - cabiam à área metropolitana paulistana cerca de 22% do total nacional e 58% do total esta- dual. Desse modo, mais de 40% das classes paulistas mais ricas moravam no interior do estado, ligadas a uma agricultura cientificizada e a um processo de desconcentração de indústrias modernas. Em consequência, nos últimos anos aumenta o volume da renda e ao mesmo tempo multiplica-se o número de excluídos no Brasil. Em outros termos, cresce a riqueza socialmente gerada, com a produção de excedentes, mas piora sua distribuição social e territorial. Em função de uma estrutura econômica e política concentrada, esse excedente é legalmente transformado em lucro, isto é, ele é apropriado privadamente sem uma política pública que permita, de fato, a ampliação do bem-estar social das maiorias. Na política atual, as regiões mais pobres são alvo da implantação de grandes empreendimentos cujos lucros tornam-se remessas para o estrangeiro ou para as classes hegemônicas nacionais, de modo
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    Prática Curricular IV que seu poder devastador sobre as formas de trabalho locais não é compensado por uma reativação da economia regional. É o paradoxo da nação brasileira. FINANÇAS, CONSUMO EPOBREZA Todavia, o período atual caracteriza-se, entre outros complexos aspectos, pela exacerbação da possibilidade de obter dinheiro adiantado. É por isso que coexistem uma evolução decadente do emprego e do salário com um aumento relativo do consumo. Graças à proliferação do crédito, que parece não abandonar nenhuma parcela da economia nem do território, houve uma extraordinária expansão dos consumos materiais e imateriais, produtivos e das famílias. Ao contrário da produção, que é seletiva nas escolhas dos lugares, a finança se 26 interessa, direta ou indiretamente, pela totalidade do território vivente. E por isso que mesmo aquelas atividades caracterizadas por baixo grau de capital fixo tecnológico, são chamadas a aumentar seu capital de giro por meio do crédito, ainda mais quando muitos dos pequenos www.facete.com.br empresários atuam como pessoa física. Quando o spread bancário para empréstimos às empresas era de 25% ao ano, para as pessoas físicas gira em torno de 57%. A vulnerabilidade aumenta com a utilização do cheque especial, do crediário e sobretudo do crédito pessoal, pois os juros atingem valores extremamente altos (entre 505 160% ao ano). Como é significativo o número de pessoas sem conta bancária ou incapazes de dispor das necessárias garantias, o crédito pessoal concedido pelas instituições financeiras encontra um terreno fértil. Formas de verticalização de uma economia popular que, no período da globalização, conhecem graus superlativos. Faculdade de Educação Teológica - Em 1999 havia 24 milhões de cartões de crédito no Brasil, nas mãos de pessoas que recebiam mais de cinco salários mínimos. Dessa forma, amplas camadas da população abaixo desse limiar e sem aces-so a cheques e cartões despontaram como um novo alvo para bancos, financeiras e supermercados que decidiam fínanceirizar essas faixas da população. Criou-se então o cartão de crédito popular, que funcio-na como um crédito pré-aprovado, é proporcional à renda e pode ser usado numa rede comercial credenciada. Além de conseguir clientes cativos, essas empresas lucram com os juros decorrentes do parcela-mento das compras. Em 2003 o número total de cartões de crédito no Brasil havia aumentado para 47,5 milhões. E uma verdadeira capilaridade das redes financeiras que resulta da coexistência de filiais de grandes instituições, de todo tipo de agio- tas e da profusão de novos tipos de
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    Prática Curricular IV créditooferecidos pelos bancos públicos e privados. A rentabilidade dos bancos, por exemplo, passou de 10,6% em 1994 para 15,7% em 1998 e para 24,5% em 2002. Nesse contexto, o consumo de eletrodomésticos e eletroeletrôni-cos ganha novas dimensões. Objetos como fogão, geladeira, televisão e rádio chegam maciçamente aos lares a partir da década de 1980, e mais recentemente se verifica uma expansão do telefone fixo e do telefone celular. As novas condições de vida urbana se alastram no território brasileiro num período relativamente curto. A exceção das áreas rurais modernizadas e povoadas por uma classe média com poder de consumo, a precariedade de certas formas de vida rural parece resistir tenazmente em certas ilhas do território. Dentre os consumos imateriais, o ramo dos seguros também é objeto dessa formidável ampliação. Com auxílio de uma publicidade que explora implicitamente as debilidades da 27 nova ordem social, criam-se medos e riscos diversificados que devem ser previstos de forma crescentemente individualizada. O mercado de seguros, capitalização e previdência privada cresceu cerca de duas vezes entre 1994 e 1998. Submetidos às lógicas do mercado, certos www.facete.com.br bens e serviços, como a educação e saúde, também passam a fazer parte de uma vocação de consumo que, graças à informação e aos transportes, se alastra na sociedade e no território. Entre 1970 e 1980 foram criadas trezentas instituições do ensino superior, e a relação de pessoas em idade universitária por aluno passa de 28,6 em 1970 para 12,2 em 1980. Após o extraordinário crescimento de cerca de quinze vezes no número de alunos do ensino supe- rior entre 1960 e 1980, há uma desaceleração no intervalo 1980-2002 (o aumento é de 2,5 vezes). Em 2002 havia cerca de 3,5 milhões de alunos, dos quais 70% (2,4 milhões) estudavam em instituições particulares, e 1.637 instituições de ensino superior, das quais Faculdade de Educação Teológica - 88% eram particulares, o que significa que num período de dezessete anos (1985-2002) praticamente dobrou o número de faculdades, com a criação de 778 novas instituições. Uma "fronteira educacional" em expansão desenvolve-se nas regiões Centro-Oeste e Sul. É nessas áreas novas que o setor privado participa da interiorização do ensino superior. No Centro-Oeste, 90,9% das instituições são particulares. A presença do mercado privado de ensino superior no Sudeste também é significativa. Em 2002, cerca de 77% dos ingressos por vestibular correspondiam às instituições particulares. Apesar de sua extraordinária expansão, o número de candidatos por vaga no sistema particular foi de 2,5 em 2002. Nesse ano havia pouco mais de 280 mil vagas públicas, disputadas por 2,6 milhões de alunos, isto é, mais de nove candidatos por vaga. Eis a extraordinária tensão social decorrente de um sistema público engessado, que contribui para a produção de exclusão e pobreza. Quanto à saúde, os estabelecimentos públicos com internação revelaram um ligeiro
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    Prática Curricular IV crescimento entre as décadas de 1980 e 1990, representando pouco menos de 30% do total nacional. Já o crescimento do número de estabelecimentos de saúde com atendimento a pa- cientes externos foi significativo. Em face da situação econômica e da desproteção social dos trabalhadores e desempregados, o aumento do número de consultas em estabelecimentos públicos foi explosivo. Em 1985 registraram-se 256,4 milhões de consultas públicas e 202,8 milhões de consultas particulares, números que em 1997 saltaram para 676 milhões e 388,9 milhões, respectivamente. Enquanto a demanda por serviços de saúde privados cresceu 1,9 vez, o setor público registrou um aumento de 2,6 vezes. Em 2001 realizaram-se mais de 420 milhões de consultas pelo Sistema Único de Saúde (sus), das quais 361 milhões foram públicas. A rede de saúde privada privilegia regiões como o Centro-Oeste e o Sul, mas a 28 presença dessa rede não se acompanha de um crescimento do acesso aos seguros de saúde e convênios. Em 1995, apenas 10,7% da população brasileira (16,8 milhões de pessoas) tinha acesso à medicina de grupo. Esse mercado se concentra nas regiões Sudeste e Sul, com cerca de 90% (15,1 milhões de pessoas), e sobretudo no estado de São Paulo, com 58% do total www.facete.com.br nacional dos beneficiários da medicina de grupo. Em 2002 havia no país 16,2 milhões de beneficiários, isto é, 9,5% da população total. O alargamento dos sistemas ligados à satisfação de necessidades universais tem sido, no Brasil, sempre mais lento que o volume da demanda. Mas a questão é ainda mais complexa, pois essa expansão é fortemente comandada por um verdadeiro processo de privatização de vários aspectos da vida social. Como a distribuição da sociedade bra-, sileira confunde-se com a amplitude do seu território, podemos dizer que a vida social constitui um Faculdade de Educação Teológica - enorme mercado com densidades bastante diversas. Daí que as áreas de altas densidades demográficas e altas rendas relativas, equipadas e dotadas de fluidez, configurem tesouros disputados pelas empresas. NEOLIBERALISMO, TERRITÓRIO EPOBREZA ESTRUTURAL Trata-se de um uso seletivo do território nacional, que pune as populações mais pobres, mais isoladas, mais dispersas e mais distantes dos grandes centros e dos centros produtivos. Enquanto o setor público pode se instalar nos lugares e esperar pela demanda, o setor privado tende a alojar-se nas regiões onde a demanda já existe ou tem uma perspectiva de desenvolver-se, sob a cadência de uma nova oferta. Por isso, o neoliberalismo conduz a
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    Prática Curricular IV umamaior seletividade na distribuição geográfica dos provedores de bens e de serviços, levados pelo império da competitividade a buscar, sob pena de seu próprio enfraquecimento, as localizações mais favoráveis. A concentração econômica agrava essa tendência. Desse modo, a acumulação das atividades em certos pontos pode provocar maiores dificuldades de acesso aos respectivos produtos, sejam eles bens ou serviços. É a situação da educação privatizada, em que o efeito de escala leva a uma utilização mais eficiente das infra- estruturas educacionais e da mão-de-obra docente, privilegiando-se assim aquelas áreas concentradas nas quais os custos são mais baixos e o retorno é garantido. É o caso também da saúde quando baseada na necessidade de lucro competitivo. E assim que a pobreza revela sua face territorial. Cada época produz as suas forças de concentração e de dispersão, que não podem ser 29 confundidas com as características dos momentos anteriores. Essas forças resultam da utilização combinada de condições técnicas e condições políticas. Na época atual, o Estado neoliberal, junto com a difusão do sistema técnico comandado pelas técnicas informacionais, www.facete.com.br cria uma concentração e uma dispersão combinadas. De um lado, as atividades modernas tendem a se dispersar em função das virtualidades oferecidas nos subespaços, distantes dos centros estabelecidos, mais cobiçados pelas grandes empresas. Por outro lado há uma concentração das decisões, mesmo que o comando técnico das operações produtivas possa ser relativamente disperso. O fator de dispersão pede, por exemplo, a presença de novos profissionais nas cidades médias das áreas mais desenvolvidas. E essas classes médias, ávidas por consumir bens e serviços, revelam, sobretudo a partir das suas demandas sociais, a ausência do poder público em aspectos centrais. São as novas fronteiras de um mercado Faculdade de Educação Teológica - privado. Dessa maneira, essas camadas médias tornam-se, também, mais vulneráveis às crises e à financeirização, podendo ser, a cada dia, mais pobres. No mundo contemporâneo, as finanças internacionais, submetendo as moedas nacionais, também representam um papel central. O comportamento do sistema financeiro influencia a dinâmica econômica do país na medida em que alguns instrumentos financeiros são privilegiados enquanto outros são negligenciados, arrastando as atividades correspondentes e os lugares onde se situam. Por outro lado, os frenéticos processos de fusão empresarial levam a uma redução do número de pólos decisórios, a uma maior concentração dos vetores de comando e a uma maior rigidez nas relações entre as áreas polarizado ras e as áreas polarizadas. Nesse território adaptado a uma produção e uma circulação modernas, o crescimento não beneficia a sociedade e o território como um todo. Parcelas crescentes da população são
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    Prática Curricular IV excluídas na formulação desses projetos e, por isso, estamos diante de uma pobreza estrutural. É, no dizer de Milton Santos, uma "produção científica, globalizada e voluntária da pobreza".11 Hoje, o emprego e o salário minguam em razão da crescente racionalização da sociedade e do território. Em outras palavras, o que é mais racional no processo de tornar-se competitivo deve ser aplicado, eliminando todo tipo de viscosidades políticas, jurídicas, sociais e culturais. Desse modo, difundem-se sistemas técnicos automatizados para substituir o trabalho humano, considerado mais caro, demandante de pausas e potencialmente criador de conflitos, assim como também normas destinadas a reduzir a quantidade de mão-de-obra ou a entregar, à própria esfera individual, um conjunto de condições consideradas, em períodos anteriores, soluções de civilização como a aposentadoria, as férias pagas, as licenças e 30 afastamento por doenças e outros direitos sociais advindos do vínculo empregatício. A medida que esse processo de racionalização, autorizado por uma nova base técnica e por um novo quadro político, se globaliza, também o fazem suas consequências e seus produtos, como a pobreza. Se no discurso a pobreza é tida como um fato indesejável, na www.facete.com.br prática é necessária ao funcionamento de um sistema regido pelos nexos financeiros. Criada a necessidade de liquidez, é difícil manter-se fora do sistema financeiro. E, como vimos, amplas camadas sociais não têm condições legais de inserir-se no circuito bancário, ensejando-se a entrada de outros agentes e modalidades financeiras. Ê o caso das instituições financeiras e de certos bancos e agiotas de diversas espécies, que possibilitam a presença de um dinheiro cujo custo é exorbitante. O papel da informação é, outrossim, essencial na produção da racionalização atual, Faculdade de Educação Teológica - pois cria uma necessidade premente de qualificação, de segurança e de previsão de diversa natureza que, com um Estado menos presente, amplia o número de potenciais consumidores de serviços privados. A medida que os custos dos diversos aspectos da vida social são "devolvidos" às famílias, a pobreza aumenta, pois nem todas elas podem enfrentar essas despesas integral e indefinidamente. A pobreza é vista como inevitável, um fato quase natural. A sociedade segmenta-se e o futuro torna-se incerto. A divisão do trabalho que resulta do neoliberalismo é produtora de pobreza e dívidas sociais. Fundada nos acréscimos técnico-cientí-fico-informacionais e nos mecanismos financeiros, ela é feita da superposição das divisões do trabalho das grandes corporações. Ê por isso que a divisão do trabalho no país tem um papel ativo na desvalorização dos fazeres e lugares que não perfazem essas necessidades. Daí os mecanismos de exclusão e a produção da 11 Santos, Milton. Por uma outra globalização, op. cit., p. 72.
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    Prática Curricular IV pobreza.Essa economia assim planejada é incapaz de criar um número de empregos satisfató- rio, pois despreza as atividades que não são modernas. Diminuem o número de empregos e o valor dos salários porque se desvaloriza o trabalho da maior parte da sociedade. O TERR ITÓR IO CORPORATIVO A medida que o território brasileiro se torna fluido, as atividades econômicas modernas se difundem e uma cooperação entre as empresas se impõe, produzindo-se topologias de empresas de geometria variável, que cobrem vastas porções do território, unindo pontos distantes sob uma mesma lógica particularista. De alcance global, essas empresas pautam seus comportamentos por parâmetros planetários, Os sistemas de infra- estruturas que permitem essas ligações foram feitos, na maior parte das vezes, com recursos 31 públicos, mas seu uso privado autoriza a falar de privatização do território. Como essas grandes firmas arrastam, na sua lógica, outras empresas, industriais, agrícolas e de serviços, e também influenciam fortemente o comportamento do poder público, www.facete.com.br indicando-lhe formas de ação subordinadas, podemos dizer que estamos diante de um verda- deiro comando da vida económica e social e da dinâmica territorial por um número limitado de empresas. Assim, o território pode ser adjeti-vado como um território corporativo, do mesmo modo que as cidades também podem ser chamadas de cidades corporativas, já que dentro delas se verificam processos idênticos. Cada empresa, cada ramo da produção cria uma lógica territorial que é visível por meio de uma topologia, isto é, a distribuição no território dos pontos de interesse para a sua operação.12 Esses pontos de interesse ultrapassam o âmbito da própria firma para se projetar Faculdade de Educação Teológica - sobre as empresas fornecedoras, compradoras ou distribuidoras. Para cada uma delas, o território do seu interesse imediato é formado pelo conjunto dos pontos essenciais para conquistar uma posição vantajosa não apenas no país, mas sobretudo na escala internacional. Por conseguinte, o uso desses pontos do território nacional é submetido a uma lógica que, por intermédio de uma empresa global, acab sendo uma Lógica global. No campo modernizado, a atividade é subordinada aos mandamentos dás empresas, como a escolha induzida das sementes e das espécies, a condução e a fiscalização dos processos, o uso do crédito oferecido, às vezes a taxas menores que as dos bancos comerciais, e, na sua contrapartida, os contratos de exclusividade. Essas firmas também oferecem assistência técnica e influenciam as formas de colheita e transporte. Trata-se de uma produção 12 Corrêa, Roberto Lobato L. "Corporação e organização espacial: um estudo de caso". Revista Brasileira de Geografia (IBGE), ano 53, nº 3, 1991, pp. 33-66.
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    Prática Curricular IV quantitativamente ampliada em relação aos padrões técnicos e capitalistas anteriores, mas também de uma circulação restrita, graças ao conjunto de condições de racionalização introduzidas nas diversas áreas modernizadas por meio do nexo corporativo. Pode-se dizer que tal mecanismo conduz ao crescimento econômico, mas à custa da perda do controle do seu destino pelas regiões assim modernizadas. Essa atividade agrícola moderna, sob o comando técnico-científi-co de grandes empresas, se utiliza das condições encontradas em cada lugar. Na verdade, porém, não se trata de uma atividade que permita falar de relações horizontais, já que as principais etapas do respectivo processo dependem exclusivamente dos interesses dessas grandes empresas e estão fora do lugar. Por isso, as grandes firmas obrigam a nação a uma profunda internacionalização. Nessas condições, é lícito nos referirmos à existência de verdadeiros 32 oligopólios territoriais. Entretanto, muitas das atividades desenvolvidas nas diferentes regiões brasileiras têm uma forte relação com o próprio território e, portanto, são mais dependentes da sociedade próxima e das virtualidades materiais e sociopolíticas de cada área. Isso permite certa horizontalização da atividade. O papel de comando, todavia, é reservado às empresas www.facete.com.br mais fortes, e os pontos do território em que elas se instalam constituem meras bases de operação, abandonadas logo que as condições deixam de lhes ser vantajosas. As grandes empresas, por isso mesmo, apenas mantêm relações verticais com tais lugares. Uma lógica menos dependente do chamado mercado global poderia atribuir às empresas um conjunto diferente de opções, levando a outros comportamentos territoriais. Todavia, a atual doutrina da economia internacional quanto aos países subdesenvolvidos confere ao mercado interno uma lógica global à qual se opõe fracamente uma lógica nacional, Faculdade de Educação Teológica - tanto mais débil quanto o Estado não se mostra interessado por ela, mesmo quando hoje o discurso comece a valorizar a idéia do mercado interno. Na realidade, fala-se de um mercado interno cujo consumo é extrovertido na sua natureza e nas condições de satisfação, uma vez que os circuitos espaciais de produção e suas complementaridades técnicas, financeiras e informacionaís são extremamente internacionalizados. Em outras palavras, como o território brasileiro sedia apenas algumas instâncias de um processo produtivo cada vez mais segmentado planetariamente, cada produto do trabalho nacional embute um forte conteúdo de trabalho importado. Evidencia-se a incapacidade de fortalecer as engrenagens de uma produção horizontalizada e orientada para um consumo endógeno. O resultado é o exercício de um controle parcial de certos pontos por lógicas que se interessam apenas por aspectos particularizados. Quanto aos outros interesses, não respondem de forma neutra a essa ação privatista, já que tal ação tem sobre eles reflexos indiretos. Inseri-
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    Prática Curricular IV dosou excluídos desse processo, os demais trabalhos e lugares são condenados a novas formas de pobreza. É o caso de uma grande empresa global numa cidade. Sua presença incide sobre a equação do emprego, a estrutura do consumo, o uso de infra-estruturas materiais e sociais, a composição dos orçamentos públicos, a estrutura do gasto público e o comportamento das outras empresas, sem falar da própria imagem do lugar e do impacto sobre os comportamentos individuais e coletivos. Paralelamente há a exigência de uma dada política, nos âmbitos federal, estadual e municipal, para atender às necessidades de instalação, permanência e desenvolvimento dessa empresa. Por essa razão, o território corporativo revela também uma utilização privilegiada dos bens públicos e uma utilização hierárquica dos bens privados. É dessa forma que maiores lucros são obtidos por alguns agentes, ainda que trabalhem sobre os mesmos bens e estes 33 sejam nominalmente públicos. Quando as corporações encorajam, segundo várias formas de convicção, a construção das infra-estruturas de que necessitam e quando os governos decidem realizar tais obras, o processo de produção do território corporativo se fortalece. Dessa forma, www.facete.com.br as maiores empresas passam a desempenhar um papel central na produção e no funcionamento do território e da economia. Mediante a colaboração ou a omissão do Estado, acabam por tornar-se parte e juízes em conflitos de interesses com empresas menos poderosas e com a sociedade como um todo. Uma das manifestações do território corporativo é a chamada guerra fiscal, da qual muito se fala hoje. Esta faz alusão à disputa, vista sobretudo nos seus aspectos fiscais, de estados e municípios pela presença de empresas e, concomitantemente, a busca pelas empresas de lugares para se instalar e obter lucros mais altos. A questão é mais ampla. Para as Faculdade de Educação Teológica - empresas, o mais importante é a ação que empreendem para fazer com que esses lugares apresentem um conjunto de circunstâncias que lhes sejam vantajosas. E esse rearranjo do lugar tem um custo a ser assumido pela sociedade como um todo. Ao mesmo tempo, esse processo é causa e consequência de uma disputa entre as empre-sas por posições hierárquicas. As empresas mais poderosas obtêrn lugares mais rentáveis, enquanto as demais são relegadas a posições menos produtivas. Reorganiza-se assim a hierarquia regional. Ganira quem é mais forte. Cada região é um tecido de condições de infra-estruturas; recursos humanos, fiscalidade, organização sindical e força reivindicatória que afastam ou atraem determinadas atividades num dado momento. Por isso, os lugares são permanentemente convocados a atualizar as condições vantajosas segundo a inserção do país na divisão internacional do trabalho. E a velocidade com que tais exigências se renovam não cessa de aumentar.
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    Prática Curricular IV Essas turbulências, que o mercado global produz na nação, criam uma instabilidade do território. Tal instabilidade marca as relações da empresa com o seu entorno, isto é, com outras empresas, as instituições e o próprio território, já que há uma contínua necessidade de readaptação ao mercado e ao entorno. É uma permanente produção de desordem, que a cada momento é diferente da desordem precedente e da desordem seguinte e cuja manifestação mais visível é, certamente, a pobreza. Como atualmente a atividade corporativa se realiza por intermédio de empresas-rede, sua influência estende-se à totalidade ou a partes significativas do território, por meio das redes de infra-estruturas, informação e comunicação. Desse modo, o território é também objeto de desarticulações que, repetidas vezes, se tornam alvo de programas sociais nacionais ou internacionais. Não são raras as ocasiões em que os financiadores são aqueles atores envolvidos nos permanentes ajustes macroeconômicos 34 aos quais o país é submetido e, também, algumas corporações globais. Conhecemos os programas do' Banco Mundial e de tantas instituições financiadas pelos responsáveis de um bom número de causas da situação aluai. O papel do Terceiro Setor está ainda para ser discutido criticamente. www.facete.com.br Esse modelo corporativo está tanto mais presente quanto mais o mercado interno passa a ser objeto de uma preocupação residual. O abandono das preocupações com o mercado interno aparece como o único caminho para uma inserção plena no mercado dito global. O re- sultado é, frequentemente, a recessão, o desemprego e o empobreci-mento das populações. O Estado se afasta da elaboração de políticas industriais e de outras políticas produtivas, assim como de políticas de interesse social. O próprio fato da globalização e a subordinação do país ao mercado global, conferindo um novo papel ao mercado, são causas do desequilíbrio do Faculdade de Educação Teológica - pacto federativo, já que a União precisa reunir forças mais concentradas e maciças para operacionalizar a economia globalizada. Para fazê-lo, tanto a nação quanto o território devem ser desconsiderados, enquanto o próprio Estado renuncia às funções de regulação social e privilegia o seu papel de suporte da expansão das lógicas monetaristas. Com a força e a lei, o mercado aparece, ao mesmo tempo, como um ator e um caminho incontestáveis, erodindo o grau de autonomia dos lugares e da nação brasileira. Nesse contexto político, a descentralização, cujos fundamentos são manipulados, passa a ser utilizada menos como um mecanismo de transferência de poder e mais para resolver problemas de caixa e pulverizar a força das decisões políticas. Tal evolução leva a uma verda- deira supressão do discurso territorial na retórica do Estado e à desconsideração dos processos espaciais como dado tanto da dinâmica da sociedade e da economia quanto da formulação de políticas públicas.
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    Prática Curricular IV UMA N A Ç Ã O DE C I D A D Ã O S Considerar o território na sua totalidade como premissa da política significa também reconhecer a necessidade de propor ações públicas compensatórias e universais diante das ações corporativas norteadas pela obtenção de lucro. Há bens e serviços que são de interesse geral comum, representativos de direitos "naturais" e que deveriam ser reconhecidos como um direito legítimo, acessível a todos. Tal é o caso da educação, da saúde, da aposentadoria, da cultura, cuja distribuição deveria ser universal. Mas quando não chegam a todas as pessoas e todos os lugares, isto é, quando a essas demandas não corresponde uma oferta efetiva por parte do Estado, encarnando uma resposta a esses reclamos, tende a instalar-se o setor privado. Desse modo, criam-se compartimentações que acabam, amiúde, em curto-circuitos 35 com o exercício da cidadania. Surgem configurações territoriais caprichosas, cuja variedade e distribuição não têm relação direta com a presença da população. Certas regiões não serão atrativas para as novas www.facete.com.br atividades, reforçan-do-se negativamente um processo cumulativo às avessas, enquanto em lugares mais bem-dotados esse processo será positivo. Com o neo-liberalismo tal processo se acelera, enquanto se agravam e aprofundam as polarizações. O neoliberalismo é um sistema econômico e político no qual os processos cumulativos são exponenciais. Isso ocorre com todos os aspectos da vida social no território. E esse não é um processo natural ou espontâneo, como frequentemente anunciado, mas produto de decisões políticas, tantas vezes com embasamento científico. Haveria, assim, regiões luminosas e regiões opacas do ponto de vista da produtividade Faculdade de Educação Teológica - e da competitividade. É um processo recorrente e acelerado de construção, destruição e reconstrução de diferenciações e hierarquias que conduz a frequentes desvalorizações e reva- lorizações das parcelas do território. O resultado é uma fragmentação política cuja manifestação mais visível é a ingovernabilidade da nação. Tende a se instalar um verdadeiro círculo vicioso, com a superposição da oferta e da demanda nas áreas geográficas já privilegiadas. Lógica idêntica age, no sentido diametralmente oposto, com a vocação ao esvaziamento de certas áreas. Quando o Estado deixa ao setor privado a regulação de aspectos essenciais da vida social, acaba por penalizar certas camadas sociais e certas regiões. Tudo isso leva à discussão sobre o papel do Estado como vetor autônomo na produção de serviços sociais universais, cujos limites são sobretudo ideológicos e políticos, já que a noção de recursos é politicamente definida, e o papel da economia, também considerada, pela via do mercado, como vetor dotado de certa autonomia na produção de bens e serviços
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    Prática Curricular IV universais, e cujos limites são as regulamentações e as subvenções e incentivos diretos e indiretos. Como dados explica-tivos, entram o próprio processo económico, ao qual se relacionam a capacidade de investimento do Estado e o poder de compra da socie- dade, que em geral se ampliam quando há crescimento e se reduzem quando há recessão. Mas a educação e a saúde, entre outros, são bens a serem consumidos, e esse consumo é cada vez mais produtivo. Essas atividades e aquelas que lhes são associadas, direta ou indiretamente, desempe- nham um papel na geração da riqueza local, justificando, de um ponto de vista económico e não apenas cívico ou cultural, sua permanência na esfera do poder público. Essa produtividade é também a razão da acelerada conquista dessas atividades pelas empresas privadas, cuja ação é centrada na demanda existente e na criação de uma demanda solvente hoje possível graças ao crédito. Mas há também o problema da qualidade da oferta. 36 Uma nação de cidadãos não pode tolerar que se prolongue a atual situação de oferta de serviços ditos universais em dois ou três níveis, segundo a capacidade económica e a localização geográfica das famílias. A situação atual significa que os cidadãos já se instalam na nação com um destino selado, discriminados ah initio, desde logo condenados a uma vida www.facete.com.br social mutilada em função da sua posição social e territorial. É necessário portanto que o Estado-nação recupere suas funções sociais, isto é, que possa velar para que a nação como um todo tenha acesso aos bens fundamentais. Esse parece o caminho mais direto para acabar com a maior dívida social de todos os tempos: a pobreza estrutural. Faculdade de Educação Teológica -
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    Prática Curricular IV FAZER HISTÓRIA Problemas de método e problemas de sentido A história religiosa é o campo de um confronto entre a historiografia e a arqueologia da qual parcialmente tomou o lugar. Secundariamente, permite analisar a relação que entrelaça a história com a ideologia da qual deve dar conta em termos de produção. As duas questões se entrecruzam e podem ser consideradas em conjunto no setor estreitamente circunscrito do "tratamento" da teologia por métodos próprios à história. De imediato, o historiador considera 37 a teologia como uma ideologia religiosa que funciona num conjunto mais vasto e supostamente explicativo. Pode ele reduzi-la ao resultado desta operação? Sem dúvida que não. Porém, como objeto de seu trabalho, a teologia se lhe apresenta sob duas formalidades igualmente incertas www.facete.com.br na historiografia; é um fato religioso; é um fato de doutrina. Examinar, através deste caso particular, a maneira pela qual os historiadores tratam hoje destes dois tipos de fatos e particularizar quais os problemas epistemológicos que se abrem assim é o propósito deste breve estudo. A história, uma prática e um discurso. Esta análise será, evidentemente, determinada pela prática bastante localizada da qual pude lançar mão, quer dizer, pela localização do meu trabalho — ao mesmo tempo um Faculdade de Educação Teológica - período (a história dita "moderna"), um objeto (a história religiosa) e um lugar (a situação francesa). Este limite é capital. A evidenciação da particularidade deste lugar de onde falo, efetiva-mente prende-se ao assunto de que se vai tratar e ao ponto de vista através do qual me proponho examiná-lo. Três "postulados" individualizam um, e outro. Eles devem ser francamente colocados como tais (mesmo que pareçam resultar com evidência da prática histórica atual) já que não serão objeto de uma demonstração. Sublinhar a singularidade de cada análise é questionara possibilidade de uma sistematização totalizante, e considerar como essencial ao problema a necessidade de uma discussão proporcionada a uma pluralidade de procedimentos científicos, de funções sociais e de convicções fundamentais. Por aí se encontra, já esboçada, a função dos discursos que podem esclarecer a questão, e que se inscrevem, eles próprios em seguimento a ou ao lado de muitos outros: enquanto falam da história, estão sempre situados na história.
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    Prática Curricular IV Estes discursos não são corpos flutuantes em um englobante que se chamaria a história (o "contexto"!). São históricos porque ligados a operações e definidos por funcionamentos. Também não se pode compreender o que dizem independentemente da prática de que resultam. De maneiras diferentes aí existe uma boa definição de historiografia contemporânea (mas também da teologia — inclusive e particularmente a mais tradicional1). De qualquer maneira uma e outra serão apreendidas nesta articulação entre um "conteúdo" e uma operação. Além do que esta perspectiva caracteriza, hoje, os procedimentos científicos, por exemplo, aquele que, em função de "modelos", ou em termos de "regularidades", explica os fenômenos ou documentos, tornando manifestas regras de produção e possibilidades de transformação2. Porém, mais simplesmente, é levar a sério expressões carregadas de sentido — "fazer história", "fazer teologia" — quando se é mais propriamente levado a suprimir o verbo 38 (o ato produtor) para privilegiar o complemento (objeto produzido). Por esta razão, entendo como história esta prática (uma "disciplina"), o seu resultado (o discurso) ou a relação de ambos sob a forma de uma "produção"3. Certamente, em seu uso corrente, o termo história conota, sucessivamente, a ciência e seu objeto — a explicação que se www.facete.com.br diz e a realidade daquilo que se passou ou se passa. Outros domínios não apresentam a mesma ambiguidade: o francês não confunde numa mesma palavra a física e a natureza. O próprio termo "história" já sugere uma particular proximidade entre a operação científica e a realidade que ela analisa. Mas o primeiro destes aspectos será nossa entrada no assunto, por diversas ra- zões: porque a espessura e a extensão do "real" não se designam, nem se lhes confere sentido senão em um discurso, porque esta restrição no emprego da palavra "história" indica seu correspondente (a ciência histórica) à ciência, ou pelo menos à função particular que é a Faculdade de Educação Teológica - teologia; finalmente para evitar a floresta virgem da História, região de "brumas" onde prolife- ram as ideologias e se corre o risco de jamais reencontrar-se. Pode ser também que, atendo-se ao discurso e à sua fabricação, se apreenda melhor a natureza das relações que ele mantém com o seu outro, o real. A linguagem, não tem ela como regra implicar, embora colocando-a como outra que não ela mesma, a realidade da qual fala? Partindo assim, de práticas e discursos historiográficos eu me proponho considerar sucessivamente as questões seguintes: 1. O tratamento dado pela historiografia contemporânea à ideologia religiosa, obriga ao reconhecimento da ideologia já investida na própria história. 2. Existe uma historicidade da história. Ela implica no movimento que liga uma prática interpretativa a uma prática social. 3. A história oscila, então, entre dois pólos. Por um lado remete a uma prática, logo, a
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    Prática Curricular IV umarealidade, por outro é um discurso fechado, o texto que organiza e encerra um modo de inteligibilidade. 4. Sem dúvida a história é o nosso mito. Ela combina o "pensável" e a origem, de acordo com o modo através do qual uma sociedade se compreende. I. UM INDÍCIO: O TRATAMENTO DA IDEOLOGIA RELIGIOSOSA EM HISTÓRIA A relação entre história e teologia, inicialmente, é um problema interno da história. Qual é o significado histórico de uma doutrina no conjunto de um tempo? Segundo quais critérios compreendê-la? Como explicá-la em função dos termos propostos pelo período estudado? Questões particularmente difíceis e controvertidas, quando não nos contentamos 39 com uma pura análise literária dos conteúdos ou da sua organização4 e quando, por outro lado, recusamos a facilidade de considerar a ideologia apenas como um epifenômeno social, suprimindo-se a especificidade da afirmação doutrinária5. www.facete.com.br Por exemplo, que relação estabelecer entre a espiritualidade ou a teologia jansenista e as estruturas sócio-culturais ou a dinâmica social da época. Existe todo um leque de respostas. Assim, para Orcibal, o que se deve procurar é uma experiência radical em seu estado primeiro, no texto mais primitivo. Porém, mesmo aí, ela se aliena nas imposições de uma linguagem contemporânea; a história de sua difusão será, pois, a história de uma degradação progressiva. Mesmo remontando incessantemente às fontes mais primitivas, perscrutando nos sistemas históricos e linguísticos a experiência que escondem ao se desenvolverem, o historiador nunca alcança a sua origem, mas apenas os estágios sucessivos da sua perda. Contrariamente, Goldmann Faculdade de Educação Teológica - lê na doutrina jansenista o resultado e o signo da situação económica na qual se encontra contra uma categoria social: perdendo seu poder, os magistrados se voltam para o céu da predestinação e do Deus escondido, e revelam, assim, a nova conjuntura política que lhes fecha o futuro; aqui a espiritualidade, sintoma daquilo, que não diz, remete à análise de uma mutação económica e a uma sociologia do fracasso6. Os trabalhos sobre Lutero apresentam a mesma diversidade de posições: ora referem a doutrina à experiência de juventude que seria seu segredo inefável e organizador (Strohl, Febvre, por exemplo); ora se inscrevem no contínuum de uma tradição intelectual (Grisar, Seeberg, etc); ora vêem nela o efeito de uma modificação nas estruturas econômicas (Engels, Stein-mertz, Stern) ou a tomada de consciência de uma mutação sócio-cultural (Garin, Moeller, etc), ou o resultado de um conflito entre o adolescente e a sociedade dos adultos (Erikson). Finalmente, far-se-á do Luteranismo a emergência da inquietação religiosa própria de
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    Prática Curricular IV um tempo (cf. Lortz, Delu-meau), o acabamento de uma promoção dos "leigos" contra os clérigos (N. Z. Davis), um episódio inscrito no prosseguimento das reformas evangelistas que balizam a história da Igreja, ou a vaga criada no Ocidente pela irrupção de um acontecimento único (Holl, Bainton, Barth)? Pode-se encontrar todas estas interpretações e muitas outras7. Está claro que elas são relativas à resposta que cada autor dá a questões análogas no presente. Ainda que isto seja uma redundância é necessário lembrar que uma leitura do passado, por mais controlada que seja pela análise dos documentos, é sempre dirigida por uma leitura do presente. Com efeito, tanto uma quanto a outra se organizam em função de proble- máticas impostas por uma situação. Elas são conformadas por premissas, quer dizer, por "modelos" de interpretação ligados a uma situação presente do cristianismo. O modelo "místico"e o modelo "folklórico": uma essência escondida. 40 Globalmente, desde há três séculos, no que concerne à França, a história religiosa parece marcada por duas tendências: uma, originária das correntes espirituais, fixa o estudo na análise das doutrinas; a outra, marcada pelas "Luzes", coloca a religião sob o signo das superstições. www.facete.com.br Em última análise, teríamos, lá, verdades emergindo dos textos, e, aqui, "erros"ou um folklore abandonado na rota do progresso. Sem ir muito longe, pode-se dizer que durante a primeira metade do século XX, a religião não aproveitou nada das novas correntes que mobilizaram os historiadores medievalistas ou "modernistas", por exemplo a análise sócio-econômica de Ernest Labrousse (1933-1941). Ela era muito mais o objeto que disputavam exegetas e historiadores das origens cristãs. Quando intervinha na História das Mentalidades de Lucien Febvre (1932-1942), era como um índice de coerência próprio de uma sociedade passada (e, sobretudo, superado graças ao progresso), Faculdade de Educação Teológica - numa perspectiva muito marcada pela etnologia das sociedades "primitivas". Paradoxalmente, dois nomes poderiam simbolizar o lugar mais ou menos explicitamente dado à análise das crenças durante o entre-duas-guerras e o deslocamento que nele se produziu: Henri Bremond e Arnold Van Gennep; um, inscrito na tradição da história literária, atesta uma perda de confiança nas doutrinas, relerindo-as ã um sentido "místico", a uma "me- tafísica" oculta dos santos8; o outro, escrupuloso observador do folklore religioso, vê aí o ressurgimento de umímemorial das sociedades, o retor-no de um irracional, de um originário e quase de um recalcado9. Suas posições não deixam de ter analogias, ainda que enunciadas em termos de métodos bem distantes um do outro. O primeiro remete o sentido da literatura que estuda a um fundo místico do homem, a uma "essência" que se difracta, exprime e compromete com os sistemas religiosos institucionais ou doutrinários. Os fatos doutrinários são, pois,
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    Prática Curricular IV dessolidarizadosdo seu sentido, que permanece oculto em "profundezas", no fim das contas, estranhas aos cortes intelectuais ou sociais. A seu modo, inspirado na antropologia americana ou alemã, e cada vez mais na escola de Jung, Van Gennep revela nos folklores religiosos os signos de arquétipos inconscientes e de estruturas antropológicas permanentes. Através de uma mística sempre ameaçada (segundo Bremond) ou de um folklore (para Van Gennep), o religioso assume a imagem do marginal e do atemporal, nele, uma natureza profunda, estranha à história, se combina com aquilo que uma sociedade rejeita para suas fronteiras. Este modelo, bem visível nesses dois autores, se reencontra depois sob outras formas (o sagrado, o pânico, o inconsciente coletivo, etc). Explica-se, sem dúvida, pela posição que tinha o cristianismo na sociedade francesa antes de 1939 (partilhado entre um movimento de interiorização com o Primauté du Spirituel 41 de Maritain (1927) ou Esprit de Mounier (1932) — e um positivismo religioso dos tradicionalistas). Explica também que a história religiosa tenha sido "pensável" com dificuldade dentro de uma história social e que tenha permanecido "aberrante" com relação à www.facete.com.br história que se inventava, particularmente com relação à história sócio-econômica de Henri See (1921-1929), de Simiand (1932), de Hamilton (1934-1936), de Marc Bloch (1939-1940) ou de Ernest Labrousse. Porém, dirigindo cada vez mais as pesquisas que inspirava para o estudo das correntes espirituais ou da cultura popular, este modelo abria, à história religiosa, um belo fruto. A ciência constituía um campo de puros "fenómenos" religiosos, cujo sentido se retirava para uma outra ordem, oculta. Ela os situava ao lado da etnologia, e ligava um exotismo do interior a um essencial perdido, no território do imaginário ou do simbólico social. Ela podia, assim, buscar na religião a metáfora de um fundo a-histórico da história. Faculdade de Educação Teológica - O modelo sociológico: a prática e o saber. Também é preciso ligar a uma arqueologia recente a importância que tomou, com Gabriel Le Brás, a análise das práticas religiosas10. Ligado ao desenvolvimento da sociologia, da etnologia, mas também do folklorismo11, este modelo de interpretação representa uma reação francesa em favor das práticas sociológicas (pesquisas, etc), e contra as tipologias teóricas de Troeltsch (1912), de Weber (1920) ou de Wach (1931). Supõe igualmente, porém, ao lado do cristianismo, uma situação nova que remonta à época "moderna". Um passado frequenta este presente. Com efeito, a prática, provavelmente, não tem o mesmo sentido no curso dos diferentes períodos históricos. Durante o correr do século XVII, ela adquire uma função que possuía, em muito menor grau, no século XIII ou no século XIV. O esboroamento das crenças
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    Prática Curricular IV em sociedades que deixam de ser religiosamente homogéneas torna ainda mais necessárias as referências objetivas: o crente se diferencia do incréu — ou o católico do protestante — pelas práticas. Tornando-se um elemento social de diferenciação religiosa, a prática ganha uma pertinência religiosa nova. A gente se reagrupa e a gente se conta em função deste critério. Hoje, quando toma a prática como uma mensuração quantitativa da religião, a sociologia faz ressurgir na ciência uma organização histórica da consciência cristã (que por outro lado não era própria do jansenismo). Acentua, também, um pressuposto já latente nessas origens velhas de quatro séculos: uma clivagem entre os gestos objetivos e a crença subjetiva. Já no século XVII, a crença começa a se dissociar da prática — fenómeno que não cessou de se acentuar desde então. Para se contarem e para marcar rupturas, os reformistas desconfiavam das doutrinas e insistiam nos atos sociais. Presentemente, nos trabalhos que levam em conta os 42 gestos, o interesse se volta para as práticas, porque elas representam uma realidade social, e tem como reverso uma desvalorização científica de sua significação dogmática (remetida aos "preconceitos" desmistificados pelo progresso ou às convicções privadas impossíveis de introduzir numa análise científica). A lógica de uma sociologia acresce, pois, o cisma entre os www.facete.com.br fatos religiosos sociais e as doutrinas que pretendem explicar-lhes o sentido12. Em seguida, um olhar sociológico transformou as próprias crenças em fatos objetivos. Uma sociologia do conhecimento religioso desenvol- veu-se na proporção da retração do sentido para "o interior". O mesmo corte se encontra, então, no terreno, aparentemente oposto ao precedente, das pesquisas consagradas à ideologia. Porém, tampouco aí podemos dissociar, em nossa relação dos historiadores com o século XVII, o conhecimento que temos dela e a influência que exerce sobre nossos métodos de pesquisa. 0 olhar sociológico voltado para as Faculdade de Educação Teológica - ideologias e os aparelhamen-tos conceituais que organizam nossa análise cultural (por exemplo, a distinção entre elites e massas, o critério de "ignorância" para julgar a "descris-tianização", etc. são ainda testemunhas do. função social que o saber recebeu no decorrer do século XVII. Quando a diversidade dos Estados europeus sucedeu à unanimidade religiosa da "cristandade", foi necessário um saber que tomasse o lugar das crenças e permitisse definir cada grupo ou cada país distinguindo-o dos outros. Nesses tempos da imprensa, da alfabetização (ainda fraca) e da escolarização, o conhecimento se torna um instrumento de unidade e de diferenciação: um corpus de conhecimentos ou um grau de saber recorta um corpo ou isola um nível social, ao mesmo tempo que a ignorância é associada à delinquência como causa desta, ou à massa como ao seu próprio indício. O que é novo não são estas divisões sociais, mas, o fato de que um saber ou uma doutrina constituíam o meio de as colocar, ou de as manter ou de as trocar. Também entre Igrejas, as diferenças entre saberes tornam-se decisivas. A determinação
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    Prática Curricular IV daquiloque se conhece, quando se é Católico ou Reformado, fornece à comunidade seu modo de identificação e distinção. Os catecismos mudam, remodelados pela urgência dessas definições que circunscrevem ao mesmo tempo os conteúdos intelectuais e os limites sócio- institucionais. Hoje, trabalhos novíssimos, como o de R. Taveneaux, reconstituem as redes sócio- culturais, esboçam as circulações mentais e podem estabelecer a geografia de grupos ocultos, a partir dos traços e dos pontos de ressurgência das idéias religiosas, da mesma maneira pela qual se determinam circuitos fisiológicos através das viagens de um elemento visível na opacidade do corpo13. Em suma, refazem caminhos trilhados ontem pelo uso que uma sociedade fazia do saber. Privilegiando nessas idéias seu papel passado, explorando-as, por sua vez, como restos (e às vezes os únicos visíveis) de cortes entre grupamentos, R. Taveneaux explicita a utilidade 43 que já tinham ontem subrepticiamente — o serviço que prestavam às sociedades que as veiculavam —, mas é ao preço do seu sentido "doutrinal" — aquele que lhe davam ainda os contemporâneos ou aquele que elas podem manter. O desmembramento dos métodos teve, www.facete.com.br desde então, como efeito separar cada vez mais, em cada obra doutrinal, um "objeto" sociológico visado pelo historiador e um "objeto" teórico que parece abandonado a uma análise literária. Um modelo cultural: das "idéias"ao "inconsciente coletivo". Baczko o observou: "a história das idéias" nasceu de reações comuns, particularmente contra o parcelamento que levou, no âmbito de uma obra ou de um período, à compartimentação das disciplinas. Assim, em lugar de fragmentar arbitrariamente a obra de Newton e de repartir suas parcelas entre especialidades diferentes, segundo tratem do Apoca- Faculdade de Educação Teológica - lipse, dos calendários, da "filosofia natural" ou da ótica, procuramos compreender sua unidade e seus princípios organizadores14. Do mesmo modo recusamos explicar uma obra em termos de influências, de esgotar assim um corpus, remetendo-o ao indefinido de suas origens, e de provocar, por esse recuo sem fim através de uma poeira de fragmentos, o desaparecimento das totalidades, das delimitações, das rupturas que constituem a história. Como este estudo se confere os seus métodos? Desde a criação, nos Estados Unidos, do Journal of the History of Ideas (1940) em New York-Lancaster, a mais antiga das revistas que lhe foram consagradas, este estudo busca a si mesmo. Não tem sequer um nome: na Alemanha, é a Geistesgesc-hichte; nos Estados Unidos, a Intelectual History; na França, a Hutoire des Mentalités; na U.R.S.S., a História do Pensamento. Baczko poderia, entre estas tendências, reconhecer origens filosóficas comuns,
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    Prática Curricular IV longinquamente hegelianas, através de Dilthey, Lukacs, Weber, Croce, Huizinga, Cassirer, Groethuysen, etc, até os anos 1920-1930. As idéias tornam-se uma mediação entre o Espírito (o Geist) e a realidade sócio-política. Supõe-se que constituam um nível onde se reencontrem o corpo da história e sua consciência, o Zeitgeist. Entretanto, a simplicidade do postulado se decompõe, diante da análise, em problemas complexos e aparentemente insolúveis. Por exemplo, qual é o verdadeiro Newton? De que tipo é a unidade que se postula, a de sua obra, e, portanto, a de um período? Que suporte fornece a tantas "idéias" diferentes a unidade em- prestada às "idéias do tempo", à "mentalidade" ou a uma "consciência co-letiva" contemporânea? Esta unidade procurada, quer dizer, o objeto científico, se presta à discussão. Deseja-se ultrapassar a concepção individualista que recorta e reúne os escritos segundo sua "pertença" a 44 um mesmo "autor", que, então, fornece à biografia o poder de definir uma unidade ideológica16, e supõe que a um homem corresponda um pensamento (como a arquitetura interpretativa que repete o mesmo singular nos três andares do plano clássico: o Homem, a obra, o pensamento). Tentaram-se identificar as totalidades mentais históricas: por exemplo, a www.facete.com.br Weltanschauug em Max Weber (concepção do universo ou visão do mundo), o paradigma científico em T. S. Kuhn, a Unit Idea em A. O. Lovejoy17, etc. Essas unidades de medida se referem ao que Lévi-Strauss chamará de a sociedade pensada em oposição à sociedade vivida. Elas tendem a fazer ressaltar dos conjuntos "sancionados" por uma época, quer dizer das coerências recebidas, implicadas pelo "percebido" ou pelo "pensado" de um tempo, sistemas culturais suscetíveis de fundar uma periodização ou uma diferenciação dos tempos18. Desta maneira se opera uma classificação do material na base dos inícios e fins ideológicos, ou daquilo que Bachelard chama de "rupturas epistemológicas"19. Faculdade de Educação Teológica - As ambiguidades desses sistemas de interpretação foram vigorosamente criticadas, particularmente por Michel Foucault20. Elas se prendem, essencialmente, ao estatuto incerto, nem carne nem peixe, dessas "totalidades" que não são legíveis na superfície dos textos, mas no interior deles, realidades invisíveis que conduziriam os fenômenos. Em nome de quê supor e como determinar essas unidades a meio-caminho entre o consciente e o económico? Elas ocupam o lugar de uma "alma coletiva" e permanecem como vestígio de um ontologismo. Logo serão substituídas por um "inconsciente coletivo". Na impossibilidade de poder ser realmente controlável, esse sub-solo é extensível; pode se estender ou contrair à vontade; tem a amplitude dos fenómenos a "compreender". De fato, mais do que ser um instrumento de análise, representa a necessidade que tem dele o historiador; significa uma necessidade da operação científica, e não uma realidade apreensível em seu objeto.
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    Prática Curricular IV Esta concepção manifesta que é impossível eliminar do trabalho historiográfico as ideologias que nele habitam. Porém, dando-lhes o lugar de um objeto, isolando-as das estruturas sócio-econômicas, supondo, além disso, que as "idéias" funcionem da mesma maneira que essas estruturas, paralelamente e num outro nível21, a "história das idéias" não pode encontrar a inconsistente realidade na qual sonha descobrir uma coerência autônoma, senão através da forma de um "inconsciente". O que ela manifesta realmente, é o inconsciente dos historiadores, ou mais exatamente, do grupo ao qual pertencem. A vontade de definir ideologicamente a história é particularidade de uma elite social. Ela se fundamenta numa divisão entre as idéias e o trabalho. Costuma negligenciar igualmente a relação entre as ciências e suas técnicas, entre a ideologia dos historiadores e suas práticas, entre as idéias e sua localização ou as condições de sua produção nos conflitos sócio-econômicos de uma sociedade, 45 etc. Nada espantoso, portanto, que esta divisão, ressurgência e reforço de um "elitismo" já bem definido em fins do século XVIII (François Furet, entre outros, acentuou-o fre- quentemente), tenha como símbolo a justaposição entre uma "história das idéias" e uma www.facete.com.br "história económica". A procura de uma coerência própria a um nível ideológico remete, pois, ao lugar daqueles que a elaboram no século XX. Gramsci, sem dúvida, indica sua verdadeira proporção, quando, reexaminando a história das idéias, a substiui pela história dos "intelectuais orgânicos", grupo particular, e do qual analisa a relação entre sua "posição" social e os discursos que eles produzem22. II. PRÁTICAS HISTÓRICAS E PRÁXIS SOCIAL O exame desses "modelos" (dos quais se poderia prolongar a lista e a análise) revela dois Faculdade de Educação Teológica - problemas conexos: a evanescência da ideologia como realidade a explicar, e sua reintrodução como referência em função da qual se elabora uma historiografia. Enquanto objeto de estudo, ela parece eliminada — ou sempre malograda — pelos métodos atuais de pesquisa. Por outro lado, ressurgiu como o pressuposto dos "modelos" que caracterizam um tipo de explicação; está implícita em cada sistema de interpretação, pelas pertinências que ele retém, pelos procedimentos que lhe são adequados, pelas dificuldades técnicas encontradas e pelos resultados obtidos. Dito de outra maneira, aquele que faz história, hoje, parece ter perdido o meio de apreender uma afirmação de sentido como um objeto de seu trabalho, para encontrar essa afirmação no próprio modo de sua atividade. Aquilo que desaparece do produto aparece na produção. Sem dúvida, o termo ideologia não mais convém para designar a forma sob a qual a
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    Prática Curricular IV significação ressurgiu na ótica ou no "olhar" do historiador. O uso corrente deste termo data do momento em que a linguagem se objetivou; quando, reciprocamente, os problemas de sentido foram deslocados do lado da operação e colocados em termos de escolhas históricas investidas no processo científico. Revolução fundamental, é preciso dizê-lo imediatamente, pois ela substitui o fazer historiográfico ao dado histórico. Ela transforma a pesquisa de um sentido desvendado pela realidade observada, em análise das opções ou das organizações de sentido implicadas por operações interpretativas. Isto não significa, de forma alguma, que a história renuncia à realidade e se volta para si mesma, contentando-se em observar os seus passos. Quer dizer, antes, nós o veremos, que a relação com o real mudou. E se o sentido não pode ser apreendido sob a forma de um conhecimento particular que seria extraído do real ou que lhe seria acrescentado, é porque 46 todo "fato histórico" resulta de uma práxis, porque ela já é o signo de um ato e, portanto, a afirmação de um sentido. Este resulta dos procedimentos que permitiram articular um modo de compreensão num discurso de "fatos"23. Antes de esclarecer esta situação epistemológica, que não permite mais buscar o www.facete.com.br sentido sob a aparência de uma ideologia a mais ou de um dado da história, é preciso lembrar os seus indícios na historiografia atual. Isto significa retomar, através dos estudos históricos, o problema levantado, anteriormente, pela tese clássica de Raymond Aron24. Porém, não nos podemos contentar, como ele o fazia, em buscar a interpretação histórica apenas ao nível da filosofia implícita dos historiadores, porque, então, se chega a um jogo indefinido de idéias relativizadas umas pelas outras, jogo reservado a uma elite e combinado com a manutenção de uma ordem estabelecida. A organização de cada historiografia em função de óticas particulares Faculdade de Educação Teológica - e diversas se refere a atos históricos, fundadores de sentidos e ins-tauradores de ciências. Sob este aspecto, quando a história leva em consideração o "fazer" ("fazer história"), encontra ao mesmo tempo seu enraizamento na ação que "faz história". Da mesma forma que o discurso, hoje, não pode ser desligado de sua produção, tampouco o pode ser a práxis política, económica ou religiosa, que muda as sociedades e que, num momento dado, torna possível tal ou qual tipo de compreensão científica. Dos "preconceitos" históricos às situações que eles revelam. A distância do tempo, e, sem dúvida, uma reflexão mais epistemológica permitem hoje revelar os preconceitos que limitaram a historiografia mais recente. Eles aparecem tanto na escolha dos assuntos quanto na determinação dos objetivos dados ao estudo. Mas, sempre, estão ligados às situações que conferem ao historiador uma posição particular com relação a
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    Prática Curricular IV realidadesreligiosas. Assim, os conflitos entre a Igreja e o Estado ou os debates acerca da escola "livre" e da escola leiga, entre outros efeitos, tiveram o de privilegiar, dentre os fenómenos religiosos, aqueles que se apresentavam sob a forma de uma oposição às ortodoxias, e, por consequência, de favorecer a história das "heresias", privilegiando-as contra a das instituições eclesiásticas e das "ortodoxias". Menos do que as intenções pessoais, então, as localizações sócio-culturais mobilizam o interesse e o tipo de pesquisa. Por exemplo, no estudo do início do século XVI prendemo-nos à "pré-reforma" mais do que às correntes escolásticas, no entanto, majoritárias e igualmente importantes. Considera- se mais o "humanismo" sob um aspecto de ruptura com relação à tradição cristã, do que inscrito, também, no prolongamento da patrística, ou de reformismos sucessivos, ou de uma 47 série de retornos à Antiguidade no decurso da Idade Média25. Da mesma forma, identificou-se o século XVII, religioso, com o jansenismo, "rebelião" profética, quando ele é, apenas, um dos fenómenos da época, e, quando muitos dos elementos considerados como característicos www.facete.com.br do jansenismo se encontram em outras correntes espirituais26. Ou, ainda, da obra dos grandes "sábios" dos séculos XVI e XVII suprimiram-se seus escritos teológicos ou exegéticos, considerados como restos de épocas encerradas, indignos de interessar uma sociedade de progresso27, etc. A análise recortava, então, no tecido da história, "assuntos" relativos aos lugares de observação. Não é de espantar que os estudos visando corrigir esses recortes, para fazer prevalescer outros, provenham não apenas de tradições ideológicas diferentes, mas de lugares justapostos e frequentemente opostos aos primeiros, por exemplo, de meios eclesiásticos ou de Faculdade de Educação Teológica - Centros estranhos aos quadros da Universidade francesa. Assim, os tratados do Pe. Bernard- Maítre e outros, até o grande livro de Massaut, sobre os teólogos "conservadores" no início do século XVI28; os trabalhos do Pe. de Lubac ou do Pe. Bouyer sobre a repetição da exegese apostólica e patrística do humanismo erasmiano29 ; e do Gilson sobre o vocabulário tradicional retomado por Descartes30; o de Bremond ou de tantos outros, desde então, dentro do amplo mostruário de correntes místicas do qual o jansenis-mo faz parte. A contribuição considerável destes estudos não disfarça seu caráter mais ou menos discretamente apologético. Talvez mesmo a riqueza de seu conteúdo tenha se tornado possível graças a esse aspecto de réplica ou de cruzada, que os assemelhava a um cavalo de Tróia. A marca das compartimentações sócio-ideológicas é particularmente visível na historiografia religiosa francesa. É um traço, muitas vezes sublinhado, da sociedade francesa. Os trabalhos científicos forneciam, pois, a posição universitária neste mapa. Privilegiavam os
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    Prática Curricular IV "católicos liberais" frente aos "católicos intransigentes" (à parte a obra de Rene Rémond, estes últimos foram estudados principalmente por ingleses ou norte-americanos, que não eram afetados da mesma forma pelos problemas franceses31); ou, então, preferiam ao "modernismo", científico ou social, frente ao "inte-grismo" (do qual Poulat acaba de mostrar o interesse histórico32). Os debates internos da sociedade francesa provocaram um fixismo historiográfico e, durante muito tempo, a reprodução indefinida de cortes formais, mesmo quando uma nova erudição lhes modificava o conteúdo. Este esquematísmo teve como efeito um reaproveitamento presente dos "partidos" antes opostos — Reformados ou Católicos, Jansenistas ou Jesuítas, modernistas ou integristas, etc. E deles fizeram bandeiras, menos de convicções pessoais do que de situações. As polêmicas antigas organizaram, sem o saber, a pesquisa científica. Os historiadores chegaram a "me-ter-se 48 na sotaina, na cogula ou na toga de seus antecessores, sem se dar conta de que eram vestes de polemistas ou de pregadores, cada um defendendo sua causa33". Alguns silêncios permanecem hoje como vestígios desse passado recente, até mesmo em estudos magistrais sobre a sociedade e o pensamento clássicos: a discreção de Goubert a respeito www.facete.com.br das teologias34 ou mesmo a respeito da religião35; a ausência de referência à literatura religiosa ha interpretação que M. Foucault faz da episteme clássica36. Mas, também, e reciprocamente, o silêncio do Abade Cognet a respeito da história sócio-eco-nômica em La Spiritualité Moderne31, ou ainda, ao contrário, em numerosos trabalhos consagrados às atividades temporais nas Abadias, a pressão social que fez tantos historiadores clérigos desatentos à vida religiosa destas mesmas Abadias38. Faculdade de Educação Teológica - A mutação dos "preconceitos" em objetos de estudo. Afastados das situações conflitantes, cada vez mais distantes, é mais fácil para nós revelar a sua marca nestes estudos. Estamos, nós mesmos, adiante disto. À medida que se diluem as divisões que, ontem, organizaram ao mesmo tempo uma época e sua historiografia, elas podem ser analisadas nos próprios trabalhos deste tempo. O desaparecimento do período condiciona uma tal lucidez, mas esta compreensão, pretensamente "melhor", que de agora em diante é a nossa, se refere ao fato de estarmos deslocados: nossa situação nos permite conhecer a deles de outra maneira que eles a puderam conhecer. O que torna possível a relativização desses debates de ontem, e, portanto, o balizamento das imposições que exerceram sobre o discurso científico, é a posição nova da religião na nossa sociedade. Bem longe de ser uma força, uma ameaça, um conjunto de grupos e de corpos constituídos, como era o caso de ontem, o cristianismo francês se livra hoje de seu peso
  • 49.
    Prática Curricular IV social,liberando-se dos fracionamentos recentes. Ele deixa de constituir lugares próprios, vigorosos, porém fechados, na nação. Torna-se aí uma região mal definida e mal conhecida pela cultura francesa. Uma historiografia religiosa pode, desde então, fazer-se o objeto de um novo exotismo, semelhante àquele que conduz o etnólogo aos "selvagens" do interior ou aos feiticeiros franceses. Socialmente, o cristianismo existia em mais alto grau, quando, ontem, se lhe dava menos espaço no Tempo do que se lhe dá no Mundo hoje. Quando se tratava de adversários, de oponentes, ou de grupos fechados a respeito de sua própria vitalidade, ficava-se calado ou se era parcial. Fala-se mais dele agora que não é mais uma força e, que, por necessidade se "abriu", "adaptou" e conformou com a situação na qual se tornou o objeto de uma curiosidade "imparcial" e o signo longínquo de "valores39". As renovações da história religiosa não significam, pois, uma recrudescência do cristianismo, mas a diluição de suas 49 instituições e de suas doutrinas nas novas estruturas da nação — sua passagem de estado de corpo opaco e resistente a um estado de transparência e de movimento. Os "preconceitos" da história ou dos historiadores desaparecem quando se modifica a www.facete.com.br situação à qual se referem. A organização ontem viva de uma sociedade, investida na ótica de seus historiadores, se transforma, então, num passado suscetível de ser estudado. Ela muda de estatuto: deixando de ser, entre os autores, aquilo em função de que eles pensavam, passa para o lado do objeto que, como novos autores, temos que tornar pensável. Em função de uma outra situação, desde então nos é possível examinar como "preconceitos", ou simplesmente como os dados de um tempo, o modo de compreensão de nossos predecessores, de revelar suas relações com outros elementos da mesma época, e de inscrever sua historiografia na história que constitui o objeto de nossa própria historiografia40. Faculdade de Educação Teológica - Sob este aspecto, os modos de compreensão próprios da historiografia de ontem se encontram na mesma posição que as ideologias ou as crenças cristãs. Estas últimas representam apenas uma distância maior percorrida pela convicção que forneceu a um passado os seus princípios de inteligibilidade, e que hoje deve ser compreendida de acordo com outros quadros de referência. O afastamento entre essas duas posições indica o próprio problema do procedimento historiográfico: a relação entre o "sentido" que se tornou um objeto e o "sentido" que hoje permite compreendê-lo. Desde que se procure o "sentido histórico" de uma ideologia ou de um acontecimento, encontram-se não apenas métodos, ideias ou uma maneira de compreender, mas a sociedade à qual se refere a definição daquilo que tem "sentido". Se existe, pois, uma função histórica, que especifica a incessante confrontação entre um passado e um presente, quer dizer, entre aquilo que organizou a vida ou o pensamento e aquilo que hoje permite pensá-los, existe uma série
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    Prática Curricular IV indefinida de "sentidos históricos". A crença oferece apenas um caso extremo de relação entre dois sistemas de compreensão através da passagem de uma sociedade ainda religiosa (a do século XVI, por exemplo) a uma sociedade, a nossa, onde o "pensávei"se secula-rizou. III. A HISTÓRIA, DISCURSO E REALIDADE Duas posições do real. Se recapitularmos esses dados, a situação da historiografia faz surgir a interrogação sobre o real em duas posições bem diferentes do procedimento científico: o real enquanto é o conhecido (aquilo que o historiador estuda, compreende ou "ressuscita" de uma sociedade passada) e o real enquanto implicado pela operação científica (a sociedade presente a qual se 50 refere a problemática do historiador, seus procedimentos, seus modos de compreensão e, finalmente, uma prática do sentido). De um lado o real é o resultado da análise e, de outro, é o seu postulado. Estas duas formas da realidade não podem ser nem eliminadas nem reduzidas uma a outra. A ciência histórica existe, precisamente, na sua relação. Ela tem como obje-tivo www.facete.com.br próprio desenvolvê-la em um discurso. Certamente, segundo os períodos ou os grupos, ela se mobiliza, de preferência, em um de seus dois pólos. Com efeito, existem dois tipos de história, conforme prevaleça a atenção a uma destas posições do real. Mesmo que as imbricações dessas duas espécies predominem nos casos puros, elas são facilmente reconhecíveis. Um primeiro tipo de história se interroga sobre o que é pensável e sobre as condições de compreensão; a outra pretende encontrar o vivido, exumado graças a um conhecimento do passado. Faculdade de Educação Teológica - A primeira dessas problemáticas examina sua capacidade de tornar pensáveis os documentos de que o historiador faz um inventário. Ela obedece à necessidade de elaborar modelos que permitam constituir e compreender séries de documentos: modelos econômicos, modelos culturais, etc. Esta perspectiva, cada vez mais comum hoje em dia, leva o historiador às hipóteses metodológicas de seu trabalho, à sua revisão através de intercâmbios pluridisciplinares, aos princípios de inteligibilidade suscetíveis de instaurar pertinências e de produzir "fatos" e, finalmente, à sua situação epistemológica presente no conjunto das pesquisas características da sociedade onde trabalha41. A outra tendência privilegiada a relação do historiador com um vivido, quer dizer, a possibilidade de fazer reviver ou de "ressuscitar" um passado. Ela quer restaurar um esquecimento e encontrar os homens através dos traços que eles deixaram. Implica, também, um gênero literário próprio: o relato, enquanto a primeira, muito menos descritiva, confronta
  • 51.
    Prática Curricular IV maisas séries que resultam de diferentes tipos de métodos. Entre estas duas formas existe tensão, mas não oposição. Pois o historiador está numa posição instável. Se dá prioridade a um resultado "obje-tivo", se visa colocar no seu discurso a realidade de uma sociedade passada e a reviver um desaparecido, ele reconhece, entretanto, nessa reconstituição, a ordem e o efeito de seu próprio trabalho. O discurso destinado a dizer o outro permanece seu discurso e o espelho de sua operação. Inversamente, quando ele retorna às suas práticas e lhes examina os postulados para renová-las, o historiador descobre nelas imposições que se originaram bem antes do seu presente e que remontam a organizações anteriores, das quais, seu trabalho é o sintoma e não a fonte. Da mesma forma que o "modelo" da sociologia religiosa implica (entre outros) o novo estatuto da prática ou do conhecimento no século XVII, também os métodos atuais trazem, apagadas como acontecimentos e 51 transformadas em códigos ou em problemáticas de pesquisa, antigas estruturações e histórias esquecidas. Assim, fundada sobre o corte entre um passado, que é seu objeto, e um presente, que é o lugar de sua prática, a história não pára de encontrar o presente no seu objeto. e o www.facete.com.br passado, nas suas práticas. Ela é habitada pela estranheza que procura, e impõe sua lei às regiões longínquas que conquista, acreditando dar-lhes a vida. O intermédio, situação da história e problema do real. Um incessante trabalho de diferenciação (entre acontecimentos, entre períodos, entre dados ou entre séries, etc.) é, em história, a condição de todo relacionamento dos elementos distintos e, portanto, de sua compreensão. Mas este trabalho se apóia na diferença entre um presente e um passado. Supõe sempre o ato que propõe uma novidade, desligando-se de uma Faculdade de Educação Teológica - tradição, para considerá-la como um objeto de conhecimento. O corte definitivo em qualquer ciência (uma exclusão é sempre necessária ao estabelecimento de um rigor) toma, em história, a forma de um limite original, que constitui uma realidade como "passada" e que se explicita nas técnicas proporcionadas à tarefa de "fazer história". Ora, esta cesura parece negada pela operação que funda, já que este "passado" retorna na prática historiográfica. O morto ressurge dentro do trabalho que postulava seu desaparecimento e a possibilidade de analisá-lo como um objeto. O estatuto desse limite, necessário e denegado, caracteriza a história como ciência humana. Efetivamente, ela é humana, não enquanto tem o homem por objeto, mas porque sua prática reintroduz no "sujeito" da ciência aquilo que se havia diferenciado como seu objeto. Seu funcionamento remete os dois pólos do real, um ao outro, A atividade produtora e o período conhecido se alteram reciprocamente. A cesura que foi colocada entre eles por uma
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    Prática Curricular IV decisão instauradora do trabalho científico (e fonte de "objetividade") começa a mover-se. Ela se inverte, se desloca, avança. Este movimento se deve, precisamente, ao fato de que ela foi proposta e de que não pode ser mantida. Durante a movimentação que desloca os termos da relação inicial, esta própria relação é o lugar da operação científica. Mas é um lugar cujas mutações, como um flutuador no mar, seguem os movimentos mais amplos das sociedades, suas revoluções económicas e políticas, as relações complexas entre gerações ou entre classes, etc. A relação científica reproduz o trabalho que assegura a certos grupos a dominação sobre os outros, a ponto de fazer deles objetos de sua posse; mas atesta, também, o trabalho dos mortos que, por uma espécie de energia cinética, se perpetua, silenciosamente, com as sobrevivências de estruturas antigas, "continuando", diz Marx, sua "vida vegetativa" (Fortvegetation42). 52 O historiador não escapa dessas latências e dessa gravidade de um passado ainda presente (inércia que o "tradicionalista" chamará de "continuidade", tendo a esperança de apresentá-la como a "verdade" da história). Ele não pode, entretanto, fazer abstração dos distanciamentos e das exclusividades que definem a época ou a categoria social à qual www.facete.com.br pertence. Em sua operação as permanências ocultas e as rupturas instauradoras formam amálgama. A história o mostra tanto mais quanto tem por tarefa de as diferenciar43. A frágil e necessária fronteira entre um objeto passado e uma práxis presente se movimenta, desde que, ao postulado fictício de um dado a compreender, se substitua o exame de uma operação sempre afetada por determinismos e sempre a retomar, sempre dependente do lugar onde se efetua numa sociedade e, não obstante, especificada por um problema, métodos e uma função próprios. Faculdade de Educação Teológica - A história está, pois, em jogo nessas fronteiras que articulam uma sociedade com o seu passado e o ato de distinguir-se dele; nessas linhas que traçam a imagem de uma atualidade, demarcando-a de seu outro, mas que atenua ou modifica, continuamente, o retorno do "passado". Como na pintura de Miró, o traço que desenha diferenças através de contornos e que torna possível uma escrita (um discurso e uma "historicização") é atravessado por um movimento que lhe é contrário. Ele é vibração de limites. A relação que organiza a história é uma relação mutável, na qual nenhum dos (dois) termos é o referente estável. A relação com o outro. Essa situação fundamental se manifesta hoje de várias maneiras, relativas à forma ou ao conteúdo da historiografia. Por exemplo, a análise de duração sócio-econômica ou cultural, breve ou longa, é
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    Prática Curricular IV precedida,na obra de história, desses Prefácios onde o historiador conta o percurso de uma pesquisa. O livro, feito de duas metades desiguais, mas simbólicas, acrescenta, à história de um passado, o itinerário de um procedimento. Já Lucien Febvre inaugurou a apresentação de Lutero pelo exame de sua própria situação de historiador na série de estudos consagrados ao seu objeto (1928). Ele se inscreveu na evolução de uma história presente, ao mesmo tempo em que colocou Lutero numa série análoga, mais antiga. A partir daí não é mais, apenas, o lugar de onde fala que o historiador particulariza, mas o movimento que fez, ou o trabalho que se operou nos seus métodos e nas suas questões. Pierre Vilar e Emmanuel Le Roy Ladurie, cujas obras dominam a historiografia presente, justapõem, assim, o traçado de uma curva metodológica de seu empreendimento e aquele das transformações estruturais da Catalunha ou do Languedoc durante quatro séculos44. A verdade da história está nesse "intermédio", cujos 53 termos uma obra propõe sem poder criar um objeto que se substitua a essa relação. Em Soriano, a análise dos contos de Perrault torna-se ela própria o relato ou a confissão de uma pesquisa, de maneira que o objeto de estudo, fragmentado por sondagens metodológicas www.facete.com.br heterogêneas, encontra sua unidade na operação onde se combinam sem cessar as ações do autor e as resistências de seu material45. Dessa tensão interna, motor da explicação histórica, é preciso aproximar um outro aspecto, não menos surpreendente, das pesquisas atuais: a confrontação de um método interpretativo com seu "outro" ou, mais precisamente, o ato de evidenciar a relação que liga um modo do compreender com o incompreensível que ele "faz surgir". Por exemplo, a imensa erudição cultural de Alphonse Dupront extrai, por toda parte da história, um "pânico", profundidade selvagem e sagrada. Se, às vezes, essa "alma pânica do coletivo", esta pulsão Faculdade de Educação Teológica - originária, ou esse neutro opaco de um "mental coletivo" toma ares de um referente, de um significado ou de um solo da história, é por uma espécie de ficção que se apóia nas concepções mais discutíveis de Otto ou de Jung. Pois, na realidade, esse "pânico" é o nome que um conhecimento prodigiosamente extenso dá ao seu próprio limite, ao desconhecido que revela e encontra no seu avanço, à necessidade que faz aparecer o progresso de uma ciência. Uma espessura da história é assim designada (e não eliminada, como alhures), mas por um "irracional" conformado à investigação que se colocou sob o signo de um conhecimento das idéias e das formas culturais: "O não-histórico, diz Dupront, é indispensável ao histórico46". Pierre Vilar apresenta um fenômeno análogo: a própria existência do seu assunto — a Catalunha — é o enigma que uma rigorosa análise sócioeconómica faz surgir. De que maneira a Catalunha se constitui como unidade própria? Como esta unidade muda com o aparecimento, também ele problemático, da unidade "espanhola"? Com estas questões a notável
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    Prática Curricular IV demonstração de P. Vilar, que converteu a teoria económica em análise histórica para apreender uma "história profunda", a partir das variações económicas, encontra o seu outro. Ela desemboca em enigmas: "a formação de grupos com forte consciência de comunidade", a natureza da "personalidade regional", ou nacional, e de um "querer político47". O rigor de sua interpretação segrega, como ser resto ou como aquilo que se lhe torna incompreensível, a unidade de consciência cujas condições e funcionamento foram, não obstante, tão vigorosamente esclarecidos. Não é surpreendente que o problema aberto pela irrupção do outro nos procedimentos científicos apareça, igualmente, nos seus objetos. A pesquisa não se põe mais, apenas, em busca das compreensões que tiveram êxito. Retoma aos objetos que não compreende mais. Procura medir aquilo que perde, fortalecendo suas exigências e seus métodos. A História da Loucura 54 criou o signo desse momento em que uma cientificidade ampliada se confronta com as zonas que abandona como seu resíduo ou reverso ininteligível48. A ciência histórica vê crescer, com seu progresso, as regiões silenciosas do que não atinge. É, também, o momento em que outras ciências fazem a dedução dos prejuízos que têm origem nos seus sucessos. O livro de Michel www.facete.com.br Foucault marca essa interrogação. Ele a exprime através de um objeto perdido pela história, mas impossível de suprimir: a loucura, constituída pelas exclusões da razão. Certamente, depois disso, o esforço do autor para dar à loucura sua linguagem própria não pode chegar senão a um fracasso e a se contradizer; ele vacila entre a "recuperação" da loucura numa compreensão de um novo tipo, e o crescimento indefinido do signo abstrato (a loucura), destinado a designar uma casa vazia, que não poderia obter da historiografia seu preenchimento49. Este vazio, porém, permanece aberto diante da razão científica sob a forma de Faculdade de Educação Teológica - objetos que ela contorna sem atingir. Os estudos consagrados à feitiçaria, ao milagre, à loucura, à cultura "selvagem", etc. se multiplicaram depois disto. Eles designam um "vis-à- vis" cuja inquietante estranheza a etnologia e a psicanálise permitiram â história explicitar. A "razão" científica está indissoluvelmente casada com a realidade que retoma, como sua sombra e seu outro, no momento em que a exclui. Essa mobilização da historiografia nos limites que especificam e relativizam seu discurso se reconhece, ainda, sob a forma mais epistemológica dos trabalhos consagrados aos modos de diferenciação entre ciências. Também, nesse caso, Michel Foucault tem valor de signo. Retomando as análises anteriores, as de Canguilhem em particular, mostra como a história se recorta (e se define) em função de uma combinação sincrônica de discursos que se contradistinguem mutuamente e remetem às regras comuns de diferenciação50. Quaisquer que sejam as posições próprias do autor, sua obra descreve e precipita o movimento que leva a
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    Prática Curricular IV históriaa se tornar um trabalho sobre o limite: a se situar com relação a outros discursos, a colocar a discursividade na sua relação com um eliminado, a medir os resultados em função dos objetos que lhe escapam; mas também, a instaurar continuidades isolando séries, a particularizar métodos, diferenciando os objetos distintos que ela discerne num mesmo fato, a revisar e a comparar as periodizações diferentes, que fazem aparecer diversos tipos de análise, etc. De agora em diante, "o problema não é mais da tradição e do vestígio, mas do recorte e do limite". Falemos antes de limite ou de diferença do que de descontinuidade (termo muito ambíguo porque parece postular a evidência de um corte na realidade). É preciso dizer, então, que o limite se torna, "ao mesmo tempo instrumento e objeto de pesquisa51". Conceito operatório da prática historiográfica, ele é o instrumento do seu trabalho e o lugar do exame 55 metodológico. O discurso da história. www.facete.com.br Mais um passo e a história será encarada como um texto que organiza unidades de sentido e nelas opera transformações cujas regras são determináveis. Efetivamente, se a historiografia pode recorrer aos procedimentos semióticos para renovar suas práticas, ela mesma se lhe oferece como um objeto, na medida em que constitui um relato ou um discurso próprio. Talvez, até agora, os ensaios consagrados à história, nesta perspectiva, não sejam absolutamente convincentes, de vez que postulam a univocidade do gênero "histórico" através dos tempos. Assim faz Roland Barthes quando se pergunta se "a narração dos acontecimentos Faculdade de Educação Teológica - passados, submetida... à sanção da "ciência" histórica, colocada sob a caução imperiosa do "real", justificada por princípios de exposição "racional", ... difere verdadeiramente, por algum traço específico, por uma pertinência indubitável, da narração imaginária, tal como se pode encontrar na epopéia, no romance, no drama52". Querer responder a esta questão pelo simples exame de alguns "historiadores clássicos" — Heródoto, Maquiavel, Bossuet e Miche-let —, não significa supor, muito rapidamente, a homologia entre estes discursos; lançar mão, muito facilmente, dos exemplos mais próximos da narração mais afastada das pesquisas presentes; tomar o discurso fora do gesto que o constitui, numa relação específica com a realidade (passada) na qual ele se distingue, e não levar em consideração, por conseguinte, os modos sucessivos dessa relação; finalmente, denegar o movimento atual que faz deste discurso científico a exposição das condições de sua produção bem mais do que "a narração dos
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    Prática Curricular IV acontecimentos passados"? Resta que, através dessas obras "clássicas", o estatuto de um escrito "histórico" parece definido por uma combinação de significações articuladas e apresentadas apenas em termos de fatos. Efetivamente, para Roland Barthes (se deixarmos de lado o detalhe de sua argumentação linguística) os "fatos" de que fala a história funcionam como indícios. Através das relações estabelecidas entre fatos, ou da elevação de alguns dentre eles ao valor de sintomas para uma época inteira, ou da "lição" (moral ou política) que organiza o discurso inteiro, existe em cada história um processo de significação que visa sempre "preencher" o sentido da História": "o historiador é aquele que reúne menos os fatos do que os significantes53". Ele parece contar os fatos, enquanto efetivamente, enuncia sentidos que, aliás, remetem o notado (aquele que é retido como pertinente pelo historiador) a uma 56 concepção do notável. O significado do discurso historiográfico são estruturas ideológicas ou imaginárias; mas elas são afetadas por um referente exterior ao discurso, por si mesmo inacessível: R. Barthes chama este artifício próprio ao discurso historiográfico, "o efeito do real" que consiste em esconder sob a ficção de um "realismo" uma maneira, necessariamente www.facete.com.br interna à linguagem, de propor um sentido. "O discurso historiográfico não segue o real, não fazendo senão significá-lo repetindo sem cessar aconteceu, sem que esta asserção possa jamais ser outra coisa do que o avesso significado de toda a narração histórica54". Evocando "o prestígio do aconteceu" a propósito da história, R. Barthes o relaciona com o desenvolvimento atual do romance realista, do diário íntimo, das crônicas, dos museus, da fotografia, dos documentários, etc. Efetivamente, todos estes discursos se articulam sobre um real perdido (passado); reintroduzem como relíquia, no interior de um texto fechado, a Faculdade de Educação Teológica - realidade que se exilou da linguagem. Parece que não se podendo mais atribuir às palavras uma relação efetiva com as coisas que designam, elas se tornam tanto mais aptas para formular sentidos, quanto menos limitadas são por uma adesão real. Também, mais do que um retorno ao real, o "realismo" exprime a disponibilidade de uma população de palavras relativas a fatos particulares e, de agora em diante, utilizáveis na produção de lendas ou de ficções. Pois, o vocabulário do "real" integra o material verbal susce-tível de ser organizado no enunciado de um pensável ou de um pensado. Não mais existe o privilégio de ser o afloramento dos fatos, de fazer emergir, através deles, uma Realidade originária, nem de, por isso, ser aureolado pelo poder de exprimir, ao mesmo tempo, a "própria coisa" e o Sentido que viria nela. Deste ponto de vista, é possível dizer que "o signo da História é de agora em diante menos o real do que o inteligível55". Mas não qualquer inteligível. "A supressão da narrativa na ciência histórica atual" atesta a prioridade concedida, por esta ciência, às condições nas quais
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    Prática Curricular IV elaborao "pensá-vel" (este é o sentido de todo o movimento "estruturalista"). E esta análise, que versa sobre os métodos, quer dizer, sobre a produção do sentido, é indissociável, em história, do seu lugar e de um objeto: o lugar é, através dos procedimentos, o ato presente desta produção e a situação que hoje o torna possível, determinando-o; o objeto, são as condições nas quais tal ou qual sociedade deu a si mesma um sentido através de um trabalho que é também ele, determinado. A história não é uma crítica epistemológica. Ela permanece um relato. Conta seu próprio trabalho e, simultaneamente, o trabalho legível num passado. Não o compreende, no entanto, a não ser elucidando sua própria atividade produtiva e, reciprocamente, compreen-de-se a si mesma no conjunto e na sucessão de produções das quais ela própria é um efeito. Se, pois, o relato "daquilo que aconteceu" desapareceu da história científica (para, em 57 contrapartida, aparecer na história vulgarizada), ou se a narração toma o aspecto de uma ficção própria de um tipo de discurso, não se poderia concluir daí o desaparecimento da referência ao real. Esta referência foi, ao invés, deslocada. Ela não é mais imediatamente dada www.facete.com.br pelos objetos narrados ou "reconstituídos". Está implicada na criação de "modelos" (destinados a tornar os objetos "pensáveis") proporcionados às práticas, pela confrontação com o que lhes resiste, o que os limita e exige outros modelos, finalmente, pela elucidação daquilo que tornou possível essa atividade inscrevendo-a numa economia particular (ou histórica), da produção social. Sob este ponto de vista, pode-se pensar com A. J. Greimas que com relação aos modelos capazes de dar conta do funcionamento de uma linguagem, ou se preferirmos, com relação à análise das combinações possíveis, na organização e transformação de elementos em número Faculdade de Educação Teológica - finito, o histórico surge para a formulação estruturalista "com uma limitação de suas possibilidades de manifestação". "Da mesma forma que a estrutura atômica, diz ele, se concebe facilmente como uma combinatória cujo universo atualmente manifestado não passa de uma realização parcial, a estrutura semântica, imaginada segundo um modelo comparável, permanece aberta e não recebe o seu fecho senão da história56". O limite se encontra no cerne da ciência histórica, designando o outro da razão ou do possível. É sob este aspecto que o real reaparece no interior da ciência. Poder-se-ia dizer que a distinção entre ciências "exatas" e ciências "humanas" não mais consiste numa diferença de formalização ou de rigor da verificação, mas numa separação das disciplinas de acordo com o lugar que oferecem, umas ao possível e outras ao limite. Em todo caso, sem nenhuma dúvida, existe, ligada ao trabalho do etnólogo ou do historiador, uma fascinação pelo limite ou, o que é quase a mesma coisa, pelo outro.
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    Prática Curricular IV Mas o limite não é apenas aquilo que o trabalho histórico organizado pela vontade de tornar pensável, encontra constantemente diante de si; ele se prende também ao fato de cada procedimento interpretativo ter sido instaurado para poder definir os procedimentos adequados a um modo de compreensão. Uma nova determinação do "pensável" supõe, por detrás de si mesma, situações económicas e sócio-culturais que a tornaram possível. Toda produção de sentido reconhece um evento que aconteceu e que a permitiu. Mesmo as ciências exatas são levadas a exumar sua relação com a história, quer dizer, o problema da relação entre seu discurso e aquilo que ele implica sem o dizer — entre uma coerência e uma génese. No discurso histórico, a interrogação a respeito do real retorna, pois, não apenas com a articulação necessária entre possibilidades e suas limitações, ou entre os universais do discurso e a particularidade ligada aos fatos (qualquer que seja o seu recorte57), mas sob a forma da origem 58 postulada pelo desenvolvimento de um modo do "pensável". A prática científica se apóia numa práxis social que independe do conhecimento. O espaço do discurso remete a uma tem- poralidade diferente daquela que organiza as significações de acordo com as regras classificatórias da conjugação. A atividade que produz sentido e que instaura uma www.facete.com.br inteligibilidade do passado é, também, o sintoma de uma atividade sofrida, o resultado de acontecimentos e de estruturações que ela transforma em objetos pensáveis, a representação de uma gênese organizadora que lhe escapa. IV. A HISTÓRIA COMO MITO A história cairia em ruínas sem a chave de abóbada de toda a sua arquitetura: a articulação entre o ato que propõe e a sociedade que reflete; o corte, constantemente Faculdade de Educação Teológica - questionado, entre um presente e um passado; o duplo estatuto de um objeto, que é um "efeito do real" no texto e o não-dito implicado pelo fechamento do discurso. Se ela deixa seu lugar — o limite que propõe e que recebe — ela se decompõe para ser apenas uma ficção (a narração daquilo que aconteceu) ou uma reflexão epistemológica (a elucidação de suas regras de trabalho). Ela, porém, não é nem a lenda à qual foi reduzida por uma vulgarização, nem a criteriologia que faria dela a única análise crítica de seus procedimentos. Ela está entre estas duas coisas, no limite que separa as suas reduções, como Charles Chaplin se definia, no final de "The Pilgrin ", através da corrida sobre a fronteira mexicana, entre dois países que o perseguiam e dos quais seus ziguezagues desenhavam ao mesmo tempo a diferença e a costura. Também ele lançado, seja para o presente, seja para o passado, o historiador faz a experiência de uma práxis que é inextricavelmente a sua e a do outro (uma outra época ou a
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    Prática Curricular IV sociedadeque o determina hoje). Ele trabalha a própria ambiguidade que designa o nome de sua disciplina, Historie e Geschichte: ambiguidade, afinal, rica de sentido. Com efeito, a ciência histórica não pode desligar, inteiramente, a sua prática daquilo que escolheu como objeto, e tem como tarefa indefinida tornar precisos os modos sucessivos dessa articulação. Sem dúvida, essa é a razão pela qual a história tomou o lugar dos mitos "primitivos" ou das teologias antigas desde que a civilização ocidental deixou de ser religiosa e que, de maneira política, social ou científica, ela se definiu por uma práxis que envolve, igualmente, suas relações consigo mesma e com outras sociedades. O relato dessa relação de exclusão e de atração, de dominação ou de comunicação com o outro (posto preenchido alternadamente por uma vizinhança ou por um futuro) permite à nossa sociedade contar-se, ela própria, graças à história. Ele funciona como o faziam ou fazem ainda, em civilizações estrangeiras, os relatos de 59 lutas cos-mogônicas, confrontando um presente a uma origem. Essa localização do mito não aparece apenas com o movimento que leva as ciências "exatas" ou "humanas" em direção à história (que permite aos cientistas se situarem num www.facete.com.br conjunto social58), ou com a importância da vulgarização histórica (que torna pensável a relação de uma ordem com a sua mudança, ou que a exorciza, na base de: "Foi sempre assim"), ou ainda com as mil ressurgências da genial identificação, estabelecida por Miche-let, entre a história e a autobiografia de uma nação, de um povo ou de um partido. A história tornou-se nosso mito por razões mais fundamentais, do que as resumidas em algumas das análises precedentes. Identidade por diferenciação. Faculdade de Educação Teológica - O discurso histórico explicita uma identidade social, não como "dada" ou estável, mas enquanto se diferencia de uma época anterior ou de uma outra sociedade. Ele supõe a ruptura que transforma uma tradição em um objeto passado, da mesma forma que a história do "Antigo Regime" supõe a Revolução59. Mas essa relação com a origem, próxima ou longínqua, da qual uma sociedade se separa sem poder eliminá-la é analisada pelo historiador, que faz dela o lugar da sua ciência. Em um texto que guarda ainda a forma de relato, ele articula a prática de uma nova inteligibilidade e a remanescência de passados diferentes (que sobrevivem, não apenas nos documentos, mas nesse "arquivo" particular que é o próprio trabalho histórico). Se, por um lado, a história tem como função exprimir a posição de uma geração com respeito às precedentes, dizendo: "Eu não sou isto", acrescenta sempre, a esta afirmativa, um complemento não menos perigoso, que faz uma sociedade confessar: "Eu sou outra coisa além daquilo que quero, e sou determinada por aquilo que denego". A história atesta uma autonomia
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    Prática Curricular IV e uma dependência cujas proporções variam segundo os meios sociais e as situações políticas que presidem à sua elaboração. Sob a forma de um trabalho imanente ao desenvolvimento humano, assume o lugar dos mitos através dos quais uma sociedade representava as relações ambíguas com as suas origens e, através de uma história violenta dos Começos, suas relações com ela mesma. A origem da linguagem: o morto e o vivo. Apesar de seus exórdios ou de seus prefácios na primeira pessoa (sob forma de Ichb . icht) que tem valor de intróito iniciático e apresentam um "naqueles tempos", graças à distância notada desde o tempo do autor, a história é um discurso na terceira pessoa. Batalhas, políticas ou salários são o seu sujeito-objeto, mas como escreve Roland Barthes, "ninguém está 60 lá para assumir o enunciado60". O discurso sobre o passado tem como estatuto ser o discurso do morto. O objeto que nele circula não é senão o ausente, enquanto que o seu sentido é o de ser uma linguagem entre o narrador e os seus leitores, quer dizer, entre presentes. A coisa comunicada opera a comunicação de um grupo com ele mesmo pelo remetimento ao terceiro www.facete.com.br ausente que é o seu passado. O morto é a figura objetiva de uma troca entre vivos. Ele é o enunciado do discurso que o transporta como um objeto, mas em função de uma interlocuação remetida para fora do discurso, no não-dito. No modo dessas conjugações com o ausente, a história se torna o mito da linguagem. Ela torna manifesta a condição do discurso: uma morte. Nasce, com efeito, da ruptura que constitui um passado distinto de seu empreendimento presente. Seu trabalho consiste em criar ausentes, em fazer, de signos dispersos na superfície de uma atualidade, vestígios de realidades Faculdade de Educação Teológica - "históricas" ausentes porque outras. Mas o ausente é também a forma presente da origem61. Existe mito porque, através da história, a linguagem se confrontou com a sua origem. Na verdade a confrontação adquire, aqui, aspectos distintos: é a relação do discurso histórico com tal ou qual período que foi privilegiado como obje-to de estudo, na série linear de uma cronologia; ou ainda o movimento que remete esse período ao seu aquém mais primitivo, e volta, indefinidamente, até um "começo" imaginário, um umbral fictício, mas necessário, para que se possa retornar ao longo dos tempos e classificá-los, etc. Porém, uma relação mais próxima e mais fundamental é significada por esse zero inicial, é a relação de cada discurso com a morte que o torna possível. A origem é interna ao discurso. Ela é precisamente aquilo de que ele não pode fazer um objeto enunciado. Esse discurso se define enquanto dizer, como articulado com aquilo que aconteceu além dele; tem como particularidade um início que supõe um objeto perdido; tem
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    Prática Curricular IV comofunção, entre homens, a de ser a representação de uma cena primitiva apagada, mas ainda organizadora. O discurso não deixa de se articular com a morte que postula, mas que a prática histórica contradiz. Pois, falar dos mortos é também negar a morte e, quase, desafiá-la. Igualmente diz-se que a história os "ressuscita". Esta palavra é um engodo: ela não ressuscita nada. Mas evoca a função outorgada a uma disciplina que trata a morte como um objeto do saber e, fazendo isto, dá lugar à produção de uma troca entre vivos. Esta é a história. Um jogo da vida e da morte prossegue no calmo desdobramento de um relato, ressurgência e denegação da origem, desvela-mento de um passado morto e resultado de uma prática presente. Ela reitera, um regime diferente, os mitos que se constroem sobre um assassinato ou uma morte originária, e que fazem da linguagem o vestígio sempre remanescente de um começo tão impossível de reencontrar quanto de esquecer. 61 O dizer e o fazer. Finalmente, a história se refere a um fazer que não é apenas o seu ("fazer história"), www.facete.com.br mas aquele da sociedade que especifica uma produção científica. Se ela permite a um agir comum dar-se uma linguagem técnica própria, remete a esta práxis social como àquilo que torna possíveis os textos organizados por uma nova inteligibilidade do passado. Essa relação do discurso com um fazer é interna ao seu objeto, já que, de um modo ou de outro, a história fala sempre de tensões, de redes de conflitos, de jogos de força. Mas é também externo, na medida em que a forma de compreensão e o tipo do discurso são determinados pelo conjunto sócio-cultural mais amplo que designa à história seu lugar particular. As sociedades estáveis dão lugar a uma história que privilegia as continuidades e Faculdade de Educação Teológica - tendem a dar valor de essência humana a uma ordem solidamente estabelecida. Nas épocas de movimento ou de revolução, as rupturas de ação coletiva ou individual se tornam o princípio de inteligibilidade histórica. Mas essa referência à organização social do agir — mobilizado pelo desenvolvimento de uma ordem política ou pela fundação de novos regimes — não intervém senão indiretamente na análise científica. Introduz-se nela, simbolicamente, com uma tópica do inteligível: segundo os períodos da historiografia, será o acontecimento, ou a série contínua, o ponto de partida e a definição do inteligível. Um tipo de sociedade se trai, também, na maneira pela qual se combinam a discursividade do "compreender" e a estranheza "daquilo que acontece"; por exemplo, o modelo sócio-econômico será preferível à biografia, ou ocorrerá o inverso, etc. Espelho do fazer que hoje define uma sociedade, o discurso histórico é ao mesmo tempo sua representação e seu reverso. Ele não é o todo - como se o saber fornecesse a
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    Prática Curricular IV realidade ou a fizesse aceder ao seu grau mais elevado! Esse lance maior do conhecimento está ultrapassado. Todo o movimento da epistemologia contemporânea, no campo das ciências ditas "humanas", o contradiz e, antes, humilha a consciência. O discurso histórico não é senão uma cédula a mais numa moeda que se desvaloriza. Afinal de contas não é mais do que papel. Mas seria falso lançá-lo do excesso de honrarias ao excesso de indignidade. O texto da história, sempre a retomar, duplica o agir como seu rastro e sua interrogação. Articulado com aquilo que não é — agitação de uma sociedade mas também a própria prática científica —, ele sublinha o enunciado com um sentido que se combina simbolicamente com o fazer. Não substitui a práxis social, mas é sua testemunha frágil e sua crítica necessária. Destronado, do lugar para onde o havia alçado a filosofia que, desde o tempo das Luzes ou do idealismo alemão, fazia dele a manifestação última do Espírito do mundo, sem 62 dúvida o discurso historiográfico troca o lugar do rei pelo da criança da estória, apontando uma verdade que todos faziam questão de esquecer. Esta é, também, a posição do mito, reservado à festa que abre no trabalho o parêntese de uma verdade. Sem nada retirar das funções previamente sublinhadas, é necessário não negligenciar aquela que liga. o dizer histórico www.facete.com.br ao fazer social, sem identificar o primeiro com o segundo: ela lembra ao trabalho sua relação com a morte e com o sentido; ela situa a verdadeira historiografia ao lado das questões indiscretas a serem abertas no imenso movimento da práxis. Faculdade de Educação Teológica -
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    Prática Curricular IV NOTAS 1 A teologia articula o ato comunitário da fé, e, nas suas antigas definições, ela era o aprofundamento da própria experiência. 2 Em história, como no conjunto das ciências humanas, os antigos métodos de observação foram substituídos pelo que Lévi-Strauss chamou "a experimentação nos modelos"; a determinação de tipos de análise supera a dos meios ou dos lugares de informação. Cf. Jean Viet, Les sciences de Vhommeen France, Mouton, p. 163-175. 3 Aqui como em muitos outros casos (cf. por "manifestação", "aparição" e até por "ação"), uma pressão da linguagem corrente leva o sentido a se transformar do ato em seu resultado, do ativo do fazer ao passivo do ser visto, do gesto à sua ima gem rio espelho. Uma clivagem crescente entre a pesquisa e a vulgarização ocorre tan to na história quanto na teologia: as pesquisas tomam a forma de meios específicos e diferenciados por procedimentos próprios; mas, na sua "vulgarização", a história e a 63 teologia se tornam objetos de saber ou de curiosidade, distribuídos e impostos a um "público" de consumidores que participa cada vez menos da produção. 4 Muitas das teses ditas de teologia, é necessário reconhecê-lo, são simples www.facete.com.br mente análises literárias de um autor, e não se distinguem de qualquer outro estudo literário senão pelo fato de terem um objeto religioso - como se "fazer teologia" fosse descrever as idéias teológicas contidas em uma obra. 5 Assim, em seu grande livro Chrétiens sans Église. La conscience religieuse et lè lien confessionnel au XVII? siècle (Gallimard, 1969), o marxista Leszek Kolako- wski quer tomar a sério o fato doutrinário e religioso como tal: "Do ponto de vista de uma interpretação materialista da história, pode-se admitir a irredutibilidade dos fe nômenos religiosos, reconhecendo ao mesmo tempo que se pode explicá-los genetica mente por outros... Julgamos que sua especificidade [aquela das "idéias religiosas"] pode ser compreendida enquanto especificidade, levando em conta o conjunto mais Faculdade de Educação Teológica - rico que é a totalidade das necessidades sociais da época, nas suas inter-relações" (p. 49 e 51). Cf., sobre os problemas de método colocados pelo livro, R. Mandrou, "Mysticisme et méthode marxiste", em Politique aujourdfiui, février 1970, p. 51 ss. e M. de Certeau, VAbsent de 1'histoire, Mame, 1973, p. 109-115. 6 J. Orcibal, Les Origines du jansenisme, Vrin, 5 vol., 1947-1962; L. Gold- mann, Le Dieu cache, 1956, etc. e M. de Certeau, "De Sait-Cyran ao jansenisme" em Christus, 10,4963, p. 399-417. 7 Cf. a este respeito E. M. Carlson, The Reinterpretations ofthe Reformation, Philadelphie, 1948; J. V. M. Pollet, "Interprétation de Luther dans 1'Allemagne con-temporaine", em Revue de sciences religieuses, 1953, p. 147-161; H. J. Grimm, "Luther Research since 1920", em Journal of Modem History, 32, 1960, junho; R. H. Bainton, "Interpretations of the Reformation", em American HlstoricalReview, 36, 1960, outubro; J. Delumeau, Naissance et afflrmatton de la Reforme, P.U.F., 1965, principalmente p. 281-300; ou os Bulletins de R. Stauffer e Th. Siiss, em Buli. de la Société de 1'histoire du protestantisme français, 113,1967, p. 313-346 e 405 ss. 8 Cf. M. de Certeau, VAbsent de 1'histoire, Mame, Í973, p. 73-108: "Henri Bremond, historien d'une
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    Prática Curricular IV absence". 9 Infelizmente Van Gennep (t 1956) não fora ainda o objeto do estudo de conjunto que reclamava a "Homenagem a A. Van Gennep", de Pierre Marot em Arts et traditions populaires, 5, 1957, p. 113 ss. (A partir daí, esta lacuna foi preenchida por Nicole Belmont, Amold Van Gennep, Payot, 1974.) 10 Acerca da obra de G. Le Brás, cf. os estudos de Henri Desroche em Revue d'histoire et de philosophie religieuse, 2, 1954, p. 128-158, e de François Isambert, em Cahiers intemationaux de sociologie, 16, 1956, p. 149-169. 11 O primeiro artigo de G. Le Bras sobre "a prática religiosa na França" tinha por objeto "a vida popular do catolicismo"; por modelo "o folklorista"; e como ponto de partida, "o plano de pesquisa proposto por Saíntyves". Ele foi publicado, aliás, na Revue de folklore français, 4, 1933, p. 193-206. 12 Na sua Introduction à 1'histoire de la pratique religieuse en France (P.U.F., 1945), G. Le Brás coloca o problema da relação entre a "prática" e as "crenças" (t. I, p. 116-120), mas, para ele, este plural designa "a fé". Reagindo contra o excesso de estudos consagrados às doutrinas (cf. seu artigo de 1933), ele curto-circuitou as ideologias para consignar o enigma da relação entre "a prática" (= o sociológico, o visível, diz ele) e "as crenças" 64 (o que não é para ele um conceito sociológico, mas o invisível, "a chama" ou "a graça da iluminação interior"). Pouco a pouco será levado a graduar esta divisão, originária da distinção teológica entre natureza e sobrenatural, ao mesmo tempo que confiará menos na prática (cujo nome desaparece do título dado à reedição da Introduction www.facete.com.br em 1956). Ê a esta segunda evolução que Isambert consagrou o artigo citado supra: "Développement et dépassement de 1'étude de la pratique religieuse chez G. Le Brás." 13 Desta maneira René Taveneaux, em Le Jansénisme en Lorraine, 1640-1789 (Vrin, 1960), tira da obscuridade aquilo que chama de "redes de transmissão do pensamento". Na realidade o que surge são as clivagens, as polarizações (parisienses, depois holandesas), as combinações insuspeitadas (por exemplo o reemprego dos bastiões monásticos de Saint-Vanne neste conjunto), etc, que caracterizam uma unidade social complexa. "O pensamento" lhe serve paia estabelecer uma sutil sociologia de um grupo de clérigos. 14 Ninguém poderá se espantar com o fato de ter esta corrente nascido de uma ampliação da história das ciências, por exemplo com E. A. Burtt, The Metaphy-sics of Sir Isaac Newton (Londres, Routledge, 1925); H. A. Smith, History of Modem Culture (New York, 1930-1934); A. Wolf, History of Science. Technology and Philo- Faculdade de Educação Teológica - sophy in the 16th and 17th Century (Londres, AUen, 1935); A. R. Hall, The Scien-tific Revolution, 1500-1800 (Londres, Longmans, 1954); etc. 15 A noção de Zeitgeist tomou, na Geistesgeschichte, um sentido que quase inverte o de suas origens. Central, entre os revolucionários alemães, na passagem do século XVIII para o XIX (Henning, Rebmann, Níethammer, Arndt principalmente com seu Esprit du temps em 1806, ou Hardenberg, etc), designa uma força irresistível cujo avanço derrubará todos os obstáculos institucionais. É com este sentido que foi retomada em Hegel, e que em 1829 foi criticada por Schlegel como indeterminada e subversiva (Philosophie der Geschichte, 1829, II, 18). Cf. Jacques d'Hondt, Hegel philosophe de 1'histoire vivante, P.U.F., 1966, p. 211-216. Desde ai' o Zeitgeist definiu, pelo contrário, uma ordem estabelecida, a coerência estática de uma mentalidade. Traço significativo de um pensamento "liberal" e "ideológico" que faz, então, face ao marxismo. 16 Cf. por exemplo, V. P. Zoubov, "L'histoire de la science et la biogxaphie des savants", em Kwart. Hist. Nauki, 6, 1962, p. 29-42. 17 A. O. Lovejoy, The Great Chain of Being. A Study of the History of an Idea, Cambridge (Mass.),
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    Prática Curricular IV HarvardUniv. Press, 1936. 18 A respeito da "história das mentalidades" francesa, cf. principalmente Geor-ges Duby, em LWstoire et ses méthodes, Gallimard, Plêiade, 1961, p. 937-966. Po-re'm, mais do que às apresentações teóricas, é preciso referir-se aos trabalhos históricos: os de G. Duby ou de J. Le Goff, certamente, mas também, ao estudo notavel- mente lúcido de Franco Venturi, "L'Illuminismo nel settecento europeu", em Rap-ports du XIe Congrès international des sciences historiques (Stockholm), Uppsala, Almquist, 1960, t. IV, p. 106-135. Na historiografia do período "moderno", da mesma forma que o século XVII é ao mesmo tempo o objeto e a arqueologia de uma análise das práticas, o século XVIII é uma e outra coisa para uma história das ideias. É, com efeito, no século XVII que se forma, por exemplo, com os "Observateurs de 1' homme", a relação entre o homem das "Luzes" e o homem-popular, entre a elite-su-jeito e o povo-objeto da ciência. Cf. Sérgio Moravia, La Scienzia delVuomo nel settecento, Bari, 1970. 19 Gaston Bachelard, Le Rationalismeappliqué, P.U.F., 1949, p. 104-105. 20 Michel Foucault, L'Archeologie du savoir, Gallimard, 1969, p. 29-101. 65 21 O problema deste paralelismo permanece colocado, ainda que, como em Duby, o historiador se interesse por uma literatura como por uma "transposição" ou "reflexo" do grupo que é o objeto real de seu estudo. Seria necessário medir o efeito próprio desta "transposição". A expressão literária não é a transparência do vivido so- cial, mas seu complemento, e, fequentemente, seu reverso (na medida em que enuncia aquilo que é percebido www.facete.com.br como "ausente"). 22 Cf. Antonio Gramsci, OEuvres choisies, Éd. sociales, 1959, p. 432: "Como estas diversas categorias de intelectuais tradicionais experimentam, com um "espírito de corporação", o sentimento de sua continuidade histórica ininterrupta e de sua qualificação, situam-se a si mesmos como autónomos e independentes do grupo social dominante. Esta autoposiçao não t falta de consequências de grande alcance no domínio ideológico e político: toda a filosofia idealista pode, facilmente, ter conexão com esta posição tomada pelo complexo social dos intelectuais..." 23 Pode-se medir a evolução da historiografia com a noção de "fato histórico", comparando a colocação de Henri-Irenée Marrou ("Qu'est qu'un fait histori-que?", em L'Histoire et ses méthodes, op. cit., p. 1494-1500) e os Faculdade de Educação Teológica - problemas expostos por François Furet in J. Le Goff et P. Nora (Éd.), Faire de l'histoire, Galli-mard, 1974,t.1, p. 42-61. 24 Introduction à la philosophíe de 1'histoire. Essai sur les limites de 1'objecti-vité historique, Vrin, 1938. As mesmas teses são retomadas em Dimensions de la conscience historique, Plon, 1961. 25 Cf. a obra magistral de A. Renaudet, Préréforme et humanismeà Paris pen-dant les premières guerres d'ltalie, 1494-1517, Droz, 1916 e toda a sua posteridade. 26 Tradição universitária que corresponde à rejeição do jansenismo pelo ensino académico, difundido até meados do século XIX, e que se mantém até na vigorosa síntese de Antoíne Adam, Du mysticisme à la révolte. Les Janséniste du XVII6 siècle, Fayard, 1968. 27 Indício entre muitos, o lugar concedido aos Theological Manuscripts.(Éd. H. Mac Lachlan, Liverpool, 1950) na interpretação da obra de Newton. Alexandre Koyré, principalmente, modificou as perspectivas (cf. Du monde closà Vunivers infi-ni, P.U.F., 1961). Hoje, chegamos a sublinhar que a ciência ocidental elaborou-se em função de debates teológicos, e, que, por exemplo, ela tem uma relação intrínseca com o dogma da Encarnação; cf. Alexandre Kojève, "L'origine chrétienne de la scien-ce moderne" em Mélanges Alexandre Koyré, Hermann,
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    Prática Curricular IV 1964, t. II, p. 295-306. 28 Henri Bernard-Maítre, "Les "Théologastres" de 1'Université de Paris au temps d'Erasme et de Rabelais", em Bibliothèque d'Humanisme et Renaissance, 27, 1965, p. 248-264; Jean-Pierre Massaut, Josse Oichtove l"humanisme et la reforme du elergé, Les Belles Letíres, 968. 29 Louis Bouyer, Autour d'Erasme, Êtudes sur le christianisme des Humanis-tes catholiques. Paris, 1955; Henri de Lubac, Exegese médiévale, Aubier, t. IV, 1964. 30 Étienne Gilson, Études sur le role de la pensée médiévale dans la formation du système cartésien, Vrin, 1951. 31 Cf. René Rémond, La Droite en France de 1815 à nos jours, Aubier, 1954. Temos as perspectivas anglo-americanas com Richard Griffiths, The Reactionary Re-volution, Londres, 1966;Eugen Webei, L'Action française,Stock, 1962;etc. 32 Émile Poulat, Intégrisme et catholicisme integral, Casterman, 1969, e o debate que se seguiu com Paul Drouleus, em Archives de Sociologie des Religions, 28, 1969,p. 131-152. 33 Lucien Febvre,Au coeur religieux du XVf siècle, Sevpen, 1957, p. 146. 66 34 Em Beauvais et le Beauvaisis de 1600 à 1730, Sevpen, 1960. 35 Em Ancien Regime, 1.1, A. Colin, 1969. 36 M. Foucault, Les mots et les choses, Gallimard, 1966, chap. III-VI. 37 www.facete.com.br L. Cognet, La Sptritualité modeme, Aubier, 1966, e a resenha de Venard, na Rév. d'Hist. de VÊgl. de France, 54,19"68, p. 101-103. 38 Cf. as notas de D. Júlia, P. Levillain, D. Nordman e A. Vauchez "Réflexi-ons sur lTiistoriographie française contemporaine", em Recherches et Débats, 47, 1964, p. 79-94. 39 A respeito do interesse etnológico ou follclórico de que a religião se torna o objeto, e que explica ao mesmo tempo a natureza de uma nova "curiosidade" e a recrudescência dos estudos sobre as ideologias (de agora em diante tidas como inacredi-taVeís, mas simbólicas de um sentido a decifrar), cf. M. de Certeau, La Culture ao plu-riel, coll. 10/18,1974, p. 11-34: "Les Révolutions du croyable". 40 Aqui o problema é o de saber que acontecimento ou que mutação sócio-po- lftica torna possível, à visão da historiografia do século XX, uma análise, análoga a Faculdade de Educação Teológica - que R. Mousnier consagrou seus últimos anos, dos historiadores do século XVIII. Mas, sem dúvida, é necessário inverter os termos da questão: um novo olhar científico é, justamente, um dos indícios através do qual se exprime ou se demarca um "aconte cimento". 41 Cf., particularmente, à nova série dos Annales E.S.C, (a partir de 1969), ou The Journal of Intedisciplinary History, 1970, M.I.T. Press (U.S.A.). 42 Karl Marx, Das Kapital, Berlin, 1947,1.1, p. 7 (primeiro prefácio); cf. OEu-vres, Plêiade, 1965,1.1, p. 549. 43 Foi isto que Michel Foucault sublinhou fortemente, em particular na Ar- chéologie du savoir, 1969, p. 16-17. 44 Emmanuel Le Roy Ladurie, LesPaysans de Languedoc, Sevpen, 1966,1.1, p. 7-11, e, principalmente, Pierre Vilar, La Catalogne dans 1'Espagne moderne, Sevpen, 1962, t.I.p. 11-38.
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    Prática Curricular IV 45 Marc Soriano, Les Contes de Perrault. Culture savante et traditions populai- res, Gallimard, 1968. 46 In Revue de Synthèse, n°. 37-39, p. 329. Cf., também, estudos particularmente importantes: "Lourdes: perspectives d'une sociologie du sacré", em La Table Ronde, 125, maio, 1958, p. 74-96; "Problèmes et méthodes d'une histoire de la psy-chologie collective", em Annales E.S.C., 16, 1961, p. 3-11; "Formes de la culture des masses: de la doléance politique au pèlerinage panique (XVIII^XX 6 siècles)", em Niveaux de culture et groupes sociaux, Mouton, 1968, p. 149-167. 47 P. Vilar, La Catalogne..., op. cit., 1.1, Prefácio, p. 36-37. O confronto entre expressão cultural e estruturas económicas é particularmente rico (pelo próprio objeto estudado) em "Le Tems du Quichote" (Europe,]zn. 1956, p. 3-16); "Les primitifs espagnols de la pensée économique" (Mélanges M. Bataillon, 1962, p. 261-284); ou, de um ponto de vista mais metodológico, em "Marxisme et histoire, dans le dévelop-pement des sciences humaines" (Studi storici l,n°.S, 1960, p. 1008-1043). 48 M. Foucault, Folie et déraison. Histoire de la folie à Tâge classique, Plon, 1961 (nova edição, 67 Gallimard, 1972). 49 Cf., a este respeito, as observações agudas de Jacques Derrida, L 'Êcriture et la difference, Seuil, 1967, p. 51-97 ("Cogito et hístoire de la folie"). 50 M. Foucault, VArchèologie du savoir, op. cit., p. 29-101: "Les régularités discursives". www.facete.com.br 51 rbid.,p.l2en. 52 Roland Barthes, "Le Discours de l'histoire", em Social Science informa tion, VI, 4, 1967, p. 65-75... A comparar com, do mesmo autor, "L'effet de réel", em Communications, 11, 1968, p. 84-90, e "L'Êcriture de 1'e'vénement", em Communications, 12,1968, p. 108-113. 53 R. Barthes, "Le discours de 1'histoire", op. cit., p. 65. 54 Ibid.,p. 73-74. 55 Ibid.,p. 75. Na "ilusão referencial" do real, no "realismo", R. Barthes revela um novo verossímil ("O efeito do real", op. cit., p. 88). Este "real" é a conotação de um pensável. 56 A. J. Greimas, Du sens. Essais sémiotiques, Seuil, 1970, p. 111. Cf. todo este capítulo, "Histoire et Faculdade de Educação Teológica - structure", p. 103-116. 57 Problema que não deixa de ter analogia com aquele de que tratavam as primeiras filosofias da linguagem, em fins da Idade Me'dia. Cf. J. Claude Piguet, "La que-relle des universaux et le probleme contemporain du langage" na Revue de Théologie et de Philosophie, 19,1969, p. 392411. 58 Em "La Histoire et 1'unité des sciences de lfiomme" (in Annales E.S.C., 23, n? 2, 1968, p. 233-240), Charles Moraze' encara sob este aspecto o papel central da história; é porque a relação entre ciências humanas se traduz e ocorre na história que ela é "sincretista" e que hoje parece fragmentada, através de sua adesão a disciplinas cada vez mais divergentes. 59 Após ter dito "c egime precedente" fala-se, a partir de novembro de 1789, do "antigo regime". Cf. Albert Soboul, La Gvi. .ation et la Révolution Française, Arthaud, t. I, 1970, p. 37, e as reflexões de Píerre Boubeit, L'Ancien Regime, A. Co-lin.t. 1,1969, chap.I. 60 R. Barthes, "Le discours de 1'histoire", op. cit. , p. 71. 61 Isto fala, deixando de lado o exame, esboçado alhures, dos problemas abertos pela intervenção da psicana'lise no campo da história. Cf. "Aquilo que Freud fez da história".
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    Prática Curricular IV ESTRUTURA DA VIDA COTIDIANA A VIDA COTIDIANA é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem nenhuma exceção, qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano-genérica a ponto de poder desligar-se inteiramente da cotidianidade. E, ao contrário, não há nenhum homem, por mais "insubstancial" que seja, que viva tão-somente na cotidianidade, embora essa o absorva preponderantemente. A vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida 68 cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam- se "em funcionamento" todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, idéias, ideologias. O fato de que todas www.facete.com.br as suas capacidades se coloquem em funcionamento determina também, naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda sua intensidade. O homem da co- tidianidade é atuante e fruidor, ativo e receptivo, mas não tem nem tempo nem possibilidade de se absorver inteiramente em nenhum desses aspectos; por isso, não pode aguçá-los em toda sua intensidade. A vida cotidiana é, em grande medida, heterogénea; e isso sob vários aspectos, sobretudo no que se refere ao conteúdo e à significação ou importância de nossos tipos de ati- vidade. São partes orgânicas da vida cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada, Faculdade de Educação Teológica - os lazeres e o descanso, a ati-vidade social sistematizada, o intercâmbio e a purificação. Mas a significação da vida cotidiana, tal como seu conteúdo, não é apenas heterogênea, mas igualmente hierárquica. Todavia, diferentemente da circunstância da heterogeneidade, a forma concreta da hierarquia não é eterna e imutável, mas se modifica de modo específico em função das diferentes estruturas econômico-sociais. Assim, por exemplo, nos tempos pré- históricos, o trabalho ocupou um lugar dominante nessa hierarquia; e, para determinadas classes trabalhadoras (para os servos, por exemplo), essa mesma hierarquia se manteve du- rante ainda muito tempo; toda a vida cotidiana se constituía em torno da organização do trabalho, à qual se subordinavam todas as demais formas de atividade. Em troca, para a popu- lação livre da Ática do século v antes de nossa era ocupavam o lugar central da vida cotidiana a atividade social, a contemplação, o divertimento (cultivo das faculdades físicas e mentais), e
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    Prática Curricular IV asdemais formas de atividade agrupavam-se em torno destas numa gradação hierárquica. A heterogeneidade e a ordem hierárquica (que é condição de organicidade) da vida cotidiana coincidem no sentido de possibilitar uma explicitação "normal" da produção e da reprodução, não apenas no "campo da produção" em sentido estrito, mas também no que se refere às formas de intercâmbio. A heterogeneidade é imprescindível para conseguir essa "explicitação normal" da cotidianidade; e esse funcionamento rotineiro da hierarquia espontânea é igualmente necessário para que as esferas heterogéneas se mantenham em movimento simultâneo. O homem nasce já inserido em sua cotidianidade. O amadurecimento do homem significa, em qualquer sociedade, que o indivíduo adquire todas as habilidades imprescindíveis para a vida cotidiana da sociedade (camada social) em questão. É adulto 69 quem é capaz de viver por si mesmo a sua cotidianidade. O adulto deve dominar, antes de mais nada, a manipulação das coisas (das coisas, certamente, que são imprescindíveis para a vida da cotidianidade em questão). Deve aprender www.facete.com.br a segurar o copo e a beber no mesmo, a utilizar o garfo e a faca, para citar apenas os exemplos mais triviais. Mas, já esses, evidenciam que a assimilação da manipulação das coisas é sinônimo de assimilação das relações sociais. (Pois não é adulto quem aprende a comer apenas com as mãos, ainda que também desse modo pudesse satisfazer suas necessidades vitais.) Mas, embora a manipulação das coisas seja idêntica à assimilação das relações sociais, continua também contendo inevitavelmente, de modo "imanente", o domínio espontâneo das leis da natureza. A forma concreta de submissão ao poder (da natureza) é sempre mediatizada pelas relações sociais, mas o fato em si da submissão à natureza persiste Faculdade de Educação Teológica - sempre enquanto tal. Se a assimilação da manipulação das coisas (e, e o ipso, a assimilação do domínio da natureza e das mediações sociais) é já condição de "amadurecimento" do homem até tornar-se adulto na cotidianidade, o mesmo poder-se-á dizer — e, pelo menos, em igual medida — no que se refere à assimilação imediata das formas do intercâmbio ou comunicação social. Essa assimilação, esse "amadurecimento" para a cotidianidade, começa sempre "por grupos" (em nossos dias, de modo geral, na família, na escola, em pequenas comunidades). E esses grupos face-to-face estabelecem uma mediação entre o indivíduo e os costumes, as normas e a ética de outras integrações maiores. O homem aprende no grupo os elementos da cotidianidade (por exemplo, que deve levantar e agir por sua conta; ou o modo de cumprimentar, ou ainda como com-portar-se em determinadas situações, etc); mas não ingressa nas fileiras dos adultos, nem as normas assimiladas ganham "valor", a não ser quando essas comunicam realmente ao in-
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    Prática Curricular IV divíduo os valores das integrações maiores, quando o indivíduo — saindo do grupo (por exemplo, da família) — é capaz de se manter autonomamente no mundo das integrações maiores, de orientar-se em situações que já não possuem a dimensão do grupo humano comunitário, de mover-se no ambiente da sociedade em geral e, além disso, de mover por sua vez esse mesmo ambiente. A vida cotidiana não está "fora" da história, mas no "centro" do acontecer histórico: é a verdadeira "essência" da substância social. Nesse sentido, Cincinato é um símbolo. As grandes ações não cotidianas que são contadas nos livros de história partem da vida cotidiana e a ela retornam. Toda grande façanha histórica concreta torna-se particular e histórica precisamente graças a seu posterior efeito na cotidiani-dade. O que assimila a cotidianidade de sua época assimila também, com isso, o passado da humanidade, embora tal assimilação 70 possa não ser consciente, mas apenas "em-si". A vida cotidiana é a vida do indivíduo. O indivíduo é sempre, simultaneamente, ser particular e ser genérico. Considerado em sentido naturalista, isso não o distingue de nenhum outro ser vivo. Mas, no caso do homem, a particularidade expressa não apenas seu ser www.facete.com.br "isolado", mas também seu ser "individual". Basta uma folha de árvore para lermos nela as propriedades essenciais de todas as folhas pertencentes ao mesmo gênero; mas um homem não pode jamais representar ou expressar a essência da humanidade. Que caracteriza essa particularidade social (ou socialmente mediatizada)? A unicidade e irrepetibilidade são, nesse ponto, fatos ontológicos fundamentais. Mas o único e irrepetível con-verte-se num complexo cada vez complexo, que se baseia na assimilação da realidade social dada e, ao mesmo tempo, das capacidades dadas de manipulação das coisas; a assimilação Faculdade de Educação Teológica - contém em cada caso (inclusive no do homem mais primitivo) algo de momento "irredutível", "único". As necessidades humanas tornam-se conscientes, no indivíduo, sempre sob a forma de necessidades do Eu. O "Eu" tem fome, sente dores (físicas ou psíquicas); no "Eu" nascem os afetos e as paixões. A dinâmica básica da particularidade individual humana é a satisfação dessas necessidades do "Eu". Sob esse aspecto, não há diferença no fato de que um deter- minado "Eu" identifique-se em si ou conscientemente com a representação dada do genericamente humano, além de serem também indiferentes os conteúdos das necessidades do "Eu". Todo conhecimento do mundo e toda pergunta acerca do mundo motivados diretamente por esse "Eu" único, por suas necessidades e paixões, é uma questão da particularidade individual. "Por que vivo?", "Que devo esperar do Todo?' — são perguntas desse tipo. A teleologia da particularidade ori-enta-se — sempre para a própria particularidade, ou seja,
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    Prática Curricular IV parao indivíduo. Também o genérico está "contido" em todo homem e, mais precisamente, em toda atividade que tenha caráter genérico, embora seus motivos sejam particulares. Assim, por exemplo, o trabalho tem frequentemente motivações particulares, mas a atividade do trabalho — quando se trata de trabalho efetivo (isto é, socialmente necessário) — é sempre atividade do gênero humano. Também é possível considerar como humano-genéricos, em sua maioria, os sentimentos e as paixões, pois sua existência e seu conteúdo podem ser úteis para expressar e transmitir a substância humana. Assim, na maioria dos casos, o particular não é nem o sentimento nem a paixão, mas sim seu modo de manifestar-se, referido ao eu e colocação a serviço da satisfação das necessidades e da teleologia do indivíduo. Também enquanto indivíduo, portanto, é o homem um ser genérico, já que é produto e 71 expressão de suas relações sociais, herdeiro e preservador do desenvolvimento humano; mas o representante do humano-genérico não é jamais um homem sozinho, mas sempre a integração (tribo, demos, estamento, classe, nação, humanidade) — bem como, frequen- www.facete.com.br temente, várias integrações — cuja parte consciente é o homem e na qual se forma sua "consciência de nós". Não é casual que acentuemos o elemento "consciência". O indivíduo já pertencia à humanidade — que é a integração suprema — mesmo quando ainda não se formara uma humanidade unitária, uma história como história universal. (Não podemos aprofundar aqui a questão das diferenças entre a relação mediatizada e a relação imediata com a humanidade.) Para o homem de uma dada época, o humano-genérico é sempre representado pela comunidade "através" da qual passa o percurso, a história da humanidade (e isso mesmo no Faculdade de Educação Teológica - caso em que o destino dessa integração concreta seja a catástrofe). Todo homem sempre teve uma relação consciente com essa comunidade; nela se formou sua "consciência de nós", além de configurar-se também sua própria "consciência do Eu". Nela, explicitou-se a teleologia do humano-genérico, cuja colocação jamais se orienta para o "Eu", mas sempre para o "nós". O indivíduo (a individualidade) contém tanto a particularidade quanto o humano- genérico que funciona consciente e inconscientemente no homem. Mas o indivíduo é um ser singular que se encontra em relação com sua própria individualidade particular e com sua própria genericidade humana; e, nele, tornam-se conscientes ambos os elementos. É comum a toda individualidade a escolha relativamente livre (autônoma) dos elementos genéricos e particulares; mas, nessa formulação, deve-se sublinhar igualmente os termos "relativamente". Temos ainda de acrescentar que o grau de individualidade pode variar. O homem singular
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    Prática Curricular IV não é pura e simplesmente indivíduo, no sentido aludido; nas condições da manipulação social e da alienação, ele se vai fragmentando cada vez mais "em seus papéis". O desenvolvimento do indivíduo é antes de mais nada — mas de nenhum modo exclusivamente — função de sua liberdade fática ou de suas possibilidades de liberdade. A explicitação dessas possibilidades de liberdade origina, em maior ou menor medida, a unidade do indivíduo, a "aliança" de particularidade e genericidade para produzir uma indi- vidualidade unitária. Quanto mais unitária for essa individualidade (pois essa unidade, naturalmente, é apenas tendência, mais ou menos forte, mais ou menos consciente), tanto mais rapidamente deixa de ser aquela muda união vital do genérico e do particular a forma característica da inteira vida. A condição ontológico-social desse resultado é um relaxamento da relação entre a comunidade portadora do humano-genérico e o próprio indivíduo, o qual 72 — já enquanto indivíduo — dispõe de um certo âmbito de movimento no qual pode escolher sua própria comunidade e seu próprio modo de vida no interior das possibilidades dadas. A consequência disso é uma certa distância, graças à qual o homem pode construir uma relação com sua própria comunidade, bem como uma relação com sua própria particularidade vivida www.facete.com.br enquanto "dado" relativo. Mas nem mesmo nesse caso deixa essa unidade individual de ser mera tendência, mera possibilidade. Na vida cotidiana, a esmagadora maioria da humanidade jamais deixa de ser, ainda que nem sempre na mesma proporção, nem tampouco com a mesma extensão, muda unidade vital de particularidade e genericidade. Os dois elementos funcionam em si e não são elevados à consciência. O fato de se nascer já lançado na cotidianidade continua significando que os homens assumem como dadas as funções da vida cotidiana e as exercem Faculdade de Educação Teológica - paralelamente. Os choques entre particularidade e genericidade não costumam tornar-se conscientes na vida cotidiana; ambas subme-teru-se sucessivamente uma à outra do aludido modo, ou seja, "mudamente". Mas isso não significa que a particularidade se submeta a uma comunidade natural; nesse ponto, manifesta-se uma diferença de princípio entre a moderna estrutura da vida cotidiana e a explicitação da estrutura que precedeu o nascimento da individualidade. Pois já não existem "comunidades naturais". Com isso, aumentam as possibilidades que tem a particularidade de submeter a si o humano-genérico e de colocar as necessidades e interesses da integração social em questão a serviço dos afetos, dos desejos, do egoísmo do indivíduo. Esse aumento de possibilidade — essa oportunidade de vitória espontânea da particularidade — suscitou a ética como uma necessidade da comunidade social. As exigências e normas da ética formam a intimação que a integração específica determinada (e a tradição do
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    Prática Curricular IV desenvolvimentohumano) dirige ao indivíduo, a fim de que esse submeta sua particularidade ao genérico e converta essa intimação em motivação interior. A ética como motivação (o que chamamos de moral) é algo individual, mas não uma motivação particular: é individual no sentido de atitude livremente adotada (com liberdade relativa) por nós diante da vida, a sociedade e dos homens. Umas das funções da moral é a inibição, o veto. A outra é a transformação, a culturalização das aspirações da particularidade individual. Isso não se refere apenas à vida do indivíduo, mas também à da humanidade. Por mais intenso que seja o esforço "transformador" e culturalizador da moral, não se supera sua função inibidora e essa se impõe na medida em que a estrutura da vida cotidiana está caracterizada basicamente pela muda coexistência de particularidade e genericidade. 73 A vida cotidiana está carregada de alternativas, de escolhas. Essas escolhas podem ser inteiramente indiferentes do ponto de vista moral (por exemplo, a escolha entre tomar um ônibus cheio ou esperar o próximo); mas também podem estar moralmente motivadas (por www.facete.com.br exemplo, ceder ou não o lugar a uma mulher de idade). Quanto maior é a importância da mo- ralidade, do compromisso pessoal, da individualidade e do risco (que vão sempre juntos) na decisão acerca de uma alternativa dada, tanto mais facilmente essa decisão eleva-se acima da co-tidianidade e tanto menos se pode falar de uma decisão cotidiana . Quanto mais intensa é a motivação do homem pela moral, isto é, pelo humano-genérico, tanto mais facilmente sua particularidade se elevará (através da moral) à esfera da ge-nericidade. Nesse ponto, termina a muda coexistência de particularidade e genericidade. É necessário o conhecimento do próprio Eu, o gnôthi seautón, o conhecimento e a apaixonada assimilação das intimações humano- Faculdade de Educação Teológica - genéricas, a fim de que o homem seja capaz de decidir elevando-se acima da cotidiani-dade. Kant buscava no imperativo categórico o critério formal desse comportamento. Na realidade, nenhum homem é capaz de atuar de tal modo que seu ato se converta em exemplo universal, já que todo homem atua sempre como indivíduo concreto e numa situação concreta. Mas o caráter paradigmático existe apesar de tudo, na medida em que se produz aquela elevação até o genericamente humano. Temos de introduzir aqui, contudo, duas restrições. Por um lado, a elevação ao humano-genérico não significa jamais uma abolição da particularidade. Como se sabe, as paixões e sentimentos orientados para o Eu (para o Eu particular) não desaparecem, mas "apenas" se dirigem para o exterior, con-vertem-se em motor da realização do humano- genérico, ou então permanecem em suspenso — na medida em que inibem a ação moralmente motivada — enquanto duram as ações correspondentes. Por outro lado, uma decisão moral, no
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    Prática Curricular IV sentido aqui colocado, deve sempre ser considerada como uma tendência. Não é possível distinguir, de modo rigoroso e inequívoco, entre as decisões e ações cotidianas e aquelas moralmente motivadas. A maioria das ações e escolhas tem motivação heterogênea; as motivações particulares e as genérico-morais encontram-se e se unem, de modo que a elevação acima do particular-individual jamais se produz de maneira completa, nem jamais deixa de existir inteiramente, mas ocorre geralmente em maior ou menor medida. Não há "muralha chinesa" entre as esferas da cotidianidade e da moral. Apenas os moralistas utilizam motivações morais "puras" e, mesmo eles, o fazem mais na teoria que na realidade. Não se pode falar de "muralha chinesa", antes de mais nada, pelo fato de que a herança moral do passado da humanidade e a exigência moral da época revelam-se ao homem até mesmo nos usos e normas consuetudinárias da cotidianidade, cuja assimilação pode se 74 produzir de modo inteiramente espontâneo, sem nenhuma motivação moral. Mas, ainda que essas normas contivessem motivos morais, a elevação acima da particularidade ou sua suspensão não anularia o próprio movimento, nem sua existência estaria em contradição com aquela "muda coexistência". www.facete.com.br Os conflitos extremos e puramente morais se produzem nos casos em que a motivação moral torna-se determinante e seu impulso, sua finalidaae e seu objeto são entendidos como instrumento de elevação do humano-genérico. O caso típico desse comportamento — ainda que não o único — é o serviço à comunidade. Mas o motivo moral manifesta-se igualmente quando, com nosso comportamento pessoal, representamos o comportamento "correto" do gênero humano (por exemplo, na atitude do estóico diante da morte natural). O caminho desse comportamento é a escolha (a decisão), a concentração de todas as nossas forças na Faculdade de Educação Teológica - execução da escolha (ou decisão) e a vinculação consciente com a situação escolhida e, sobretudo, com suas consequências. Numerosas etapas do "caminho" esboçado são também características das decisões semicotidianas, nas quais se realiza apenas parcialmente, ou nem mesmo parcialmente, a elevação ao humano-genérico, a suspensão da particularidade. A escolha e a aceitação das consequências, por exemplo, formam um só processo. Mas, na cotidianidade, não é possível concentrar todas as energias em cada decisão. Um comportamento de tal tipo estaria em contradição com a estrutura básica da cotidianidade. Também seria absurdo, de nossa parte, assumir conscientemente as consequências de uma escolha não praticada pelo indivíduo inteiro. O "ato de assumir" ou a aceitação são aqui mais ou menos passivos e com-binam-se muito bem com a pergunta característica da parti- cularidade: "E por que isso haveria de acontecer precisamente comigo?". O herói da escolha moral é seu próprio destino; e aquilo que lhe acontece só pode acontecer a ele. O cume da
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    Prática Curricular IV elevaçãomoral acima da cotidianidade é a catarse. Na catarse, o homem torna-se consciente do humano-genérico de sua individualidade. Em nenhuma esfera da atividade humana (e não apenas no caso da elevação moral), é possível traçar uma linha divisória rigorosa e rígida entre o comportamento cotidiano e o não cotidiano. (Estamos pensando, naturalmente, no caso dos comportamentos em que seja possível uma elevação consciente ao humano-genérico.) Basta pensar na esfera política. Tam- pouco fazem parte da cotidianidade as escolhas e decisões do "amour passion", por causa da intensidade com que se processam a escolha e a paixão; mas, uma vez convertido em costume e talvez mesmo em rotina, o amor pode novamente "dis-solver-se" na cotidianidade13. As formas de elevação acima da vida cotidiana que produzem objetivações duradouras são a arte e a ciência. Reme-temo-nos nesse contexto, à profunda análise realizada por Georg 75 14 Lukács no capítulo introdutório de sua Estética . De acordo com essa análise, o reflexo artístico e o reflexo científico rompem com a tendência espontânea do pensamento cotidiano, tendência orientada ao Eu individual-particular. A arte realiza tal processo porque, graças à www.facete.com.br sua essência, é autoconsciência e memória da humanidade; a ciência da sociedade, na medida em que desantropocentriza (ou seja, deixa de lado a teologia referida ao homem singular); e a ciência da natureza, graças a seu caráter desantropomorfizador. Nem mesmo a ciência e a arte estão separadas da vida do pensamento cotidianos por limites rígidos, como podemos ver em vários aspectos. Antes de mais nada, o próprio cientista ou artista têm vida cotidiana: até mesmo os problemas que enfrentam através de suas objetivações e suas obras lhes são colocados, entre outras coisas (tão-somente entre outros, decerto), pela vida. Artista e cientista têm sua particularidade individual enquanto homens da cotidianidade; essa Faculdade de Educação Teológica - particularidade pode se manter em suspenso durante a produção artística ou científica, mas intervém na própria objetivação através de determinadas mediações (na arte e nas ciências sociais, através da mediação da individualidade) . Finalmente, toda obra significativa volta à cotidianidade e seu efeito sobrevive na cotidianidade dos outros. O meio para essa superação dialética [A ufhebung] parcial ou total da particularidade, para sua decolagem da cotidianidade e sua elevação ao humano-genérico, é a homogeneização. Sabemos que a vida cotidiana é heterogênea, que solicita todas as nossas capacidades em várias direções, mas nenhuma capacidade com intensidade especial. Na expressão de Georg Lu-kács: é o "homem inteiro" ["ganze Mensch"] quem intervém na cotidianidade. O que 13 O conceito de "dissolução" não tem aqui sentido pejorativo, mas pretende apenas caracterizar a diferença entre cotidianidade e não-cotidianidade. 14 Georg Lukács, Werke, vol. 11, Àslhetik I, t. 1, Luchterhand, Neu-wied e Berlim, pp. 33-138, Probleme der Widerspiegelung im Alltags-leben (Problemas do Reflexo na Vida Cotidiana).
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    Prática Curricular IV significa homogeneização? Significa, por um lado, que concentramos toda nossa atenção sobre uma única questão e "suspenderemos" qualquer outra atividade durante a execução da anterior tarefa; e, por outro lado, que empregamos nossa inteira individualidade humana na resolução dessa tarefa. Utilizemos outra expressão de Lukács: trans-formamo-nos assim em um "homem inteiramente" ["Menschen ganz"}. E significa, finalmente, que esse processo não se pode realizar arbitrariamente, mas tão-somente de modo tal que nossa particularidade individual se dissipe na atividade humanogené-rica que escolhemos consciente e autonomamente, isto é, enquanto indivíduos. Apenas quando esses três fatores se verificam conjuntamente é que podemos falar de uma homogeneização que se eleva totalmente acima da cotidianidade para penetrar na esfera do humano-genérico. O tipo de homogeneização que só apresenta o primeiro fator, ou seja, a 76 concentração em uma única tarefa, concilia-se ainda perfeitamente com a cotidianidade, fazendo parte orgânica da mesma. Quando, por exemplo, temos de assimilar um novo movimento no trabalho, não podemos "pensar em outra coisa" enquanto trabalhamos, como acontece, ao contrário, no exercício de movimentos já assimilados, convertidos em algo www.facete.com.br mecânico, nesse caso, portanto, suspendemos qualquer outra atividade. E, quando examinamos uma pessoa para qualificá-la em algum campo profissional, também homogeneizamos espontaneamente, pois fazemos abs-tração das demais propriedades da pessoa que temos diante de nós e encaramo-la tão-somente sob o aspecto de sua adequação ou inadequação para a prática de um determinado trabalho. Mas, nesse caso, a concentração — a momentânea homogeneização — não tem consequências posteriores para nós. É evidente que, em tal tipo de homogeneização, não atuou toda nossa inteira Faculdade de Educação Teológica - individualidade; por isso, a concentração não implica numa suspensão de nossa particularidade. Mas os atos de decisão podem igualmente ocorrer num plano "superior", que ultrapasse em maior ou menor medida a cotidiani-dade. Por exemplo: quando um camponês começa a trabalhar numa fábrica e a assimilação dos movimentos do trabalho vai decidir se ele é ou não adequado para o trabalho industrial, se poderá ou não abandonar para sempre a sua aldeia, trata-se de uma prova cujos efeitos destinam-se a afetar toda a sua vida; durante o exame a que for submetido, portanto, poderão produzir-se conflitos, até mesmo conflitos morais. Em casos desse tipo, o Eu desempenha um papel decisivo na ação e a decisão torna-se, em maior ou menor medida, função da individualidade. Decisões desse tipo já transformam, mais ou menos amplamente, o homem inteiro, apresentando efeitos posteriores: embora ainda sem predominar, manifesta-se já a homogeneização que abre caminho para o humano- genérico; nesse ponto, tem início a "saída" da cotidianidade, sem chegar a consu-mar-se. A
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    Prática Curricular IV maioriadas decisões que tomamos em nossa vida — a maioria das decisões fáticas — realiza- se nesse plano. A homogeneização em direção ao humano-genérico, a completa suspensão do particular-individual, a transformação em "homem inteiramente", é algo totalmente excepcional na maioria dos seres humanos. Nem sequer nas épocas ricas em grandes comoções sociais existem muitos pontos críticos desse tipo na vida do homem médio. A vida de muito homens chega ao fim sem que se tenha produzido nem um só ponto crítico semelhante. A homogeneização em direção ao humano-genérico só deixa de ser excepcional, um caso singular, naqueles indivíduos cuja paixão dominante se orienta para o hu-mano- genérko e, ademais, quando têm a capacidade de realizar tal paixão. Esse é o caso dos grandes e exemplares moralistas, dos estadistas (revolucionários), dos artistas e dos cientistas. 77 De resto, a respeito do grande estadista, do revolucionário profissional, do grande artista, do grande cientista, deve-se afirmar que não apenas sua paixão principal, mas também seu trabalho principal, sua atividade básica, promovem a elevação ao humano-genérico e a www.facete.com.br implicam em si mesmos. Por isso, para tais pessoas, a homogeneização em "homem inteira- mente" é elemento necessário de sua essência, da atividade básica de suas vidas. Mas não se deve esquecer que o artista, o cientista, o estadista não vivem constantemente nessa tensão. Possuem também, como todos os outros homens, uma vida cotidiana; o par-ticular-individual manifesta-se neles, tal como nos demais homens. Tão- somente durante as fases produtivas essa particularidade é suspensa; e, quando isso ocorre, tais indivíduos se convertem, através da mediação de suas individualidades, em representantes do género humano, aparecendo como protagonistas do processo histórico global. O estadista que Faculdade de Educação Teológica - deve convencer às pessoas do seu meio, à multidão, e levá-las consigo à ação, ou que tem de influir nos soldados para que tendam a um determinado objetivo, ou de resolver situações complicadas prevendo suas consequências, esse estadista eleva-se acima de si mesmo, deixa- se levar (por assim dizer) por sua força "invisível" que, com frequência, chama-se de inspiração, mas que é tão-somente a força elevadora da decisão humano-genérica. O artista parece guiado por uma mão "invisível", de tal modo que produz em sua obra algo diverso daquilo que se propunha produzir; é arrastado pela força da objetividade, que extirpa da sua criação tudo aquilo que, em seu projeto, pertencia ainda ao individual-particular. Não podemos aqui estudar detalhadamente a estrutura da vida cotidiana. Limitar-nos- emos a aludir a alguns momentos dessa estrutura que apresentem importância para os desenvolvimentos subsequentes. A característica dominante da vida cotidiana é a espontaneidade. Ê evidente que nem
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    Prática Curricular IV toda atividade cotidiana é espontânea no mesmo nível, assim como tampouco uma mesma ati- vidade apresenta-se como identicamente espontânea em situações diversas, nos diversos estágios de aprendizado. Mas, em todos os casos, a espontaneidade é a tendência de toda e qualquer forma de atividade cotidiana. A espontaneidade caracteriza tanto as motivações particulares (e as formas particulares de atividade) quanto as atividades humano-genéricas que nela têm lugar. O ritmo fixo, a repetição, a rigorosa regularidade da vida cotidiana (que se rompem quando se produz a elevação acima da cotidianidade) não estão absolutamente em contradição com essa espontaneidade; ao contrário, implicam-se mutuamente. A assimilação do comportamento consuetudinário, das exigências sociais e dos modismos, a qual, na maioria dos casos, é uma assimilação não tematizada, já exige para sua efetivação a espontaneidade. Pois, se nos dispuséssemos a refletir sobre o conteúdo de verdade material ou 78 formal de cada uma de nossas formas de atividade, não poderíamos realizar nem sequer uma fração das atividades cotidianas imprescindíveis; e, assim, tornar-se-iam impossíveis a produção e a reprodução da vida da sociedade humana. Mas a espontaneidade não se expressa apenas na assimilação do comportamento consuetudinário e do ritmo da vida, mas também no fato de www.facete.com.br que essa assimilação faz-se acompanhar por motivações efêmeras, em constante alteração, em permanente aparecimento e desaparecimento. Na maioria das formas de ativiuade da vida cotidiana, as motivações do homem não chegam a se tornar típicas, ou seja, as motivações em permanente alteração estão muito longe de expressar a totalidade, a essência do indivíduo. O mesmo pode ser dito da maioria das motivações explicita mente formuladas, embora em menores proporções que no caso das motivações "mudas". Na vida cotidiana, o homem atua sobre a base da probabilidade, da possibilidade: Faculdade de Educação Teológica - entre suas atividades e as consequências delas, existe uma relação objetiva de probabilidade. Jamais é possível, na vida cotidiana, calcular com segurança científica a consequência possível de uma ação. Nem tampou-do haveria tempo para fazê-lo na múltipla riqueza das atividades cotidianas. Ademais, isso nem mesmo é necessário: no caso médio, a ação pode ser determinada por avaliações probabilísticas suficientes para que se alcance o objetivo visado. Os conceitos de caso "médio" e segurança "suficiente" apresentam, nesse contexto, a mesma importância. O primeiro indica o fato de que são perfeitamente possíveis casos em que fracas- sam as considerações probabilísticas. Nesses casos, podemos falar de catástrofes da vida cotidiana. Considerações probabilísticas utilizamos, por exemplo, ao cruzar a rua: jamais cal- culamos com exatidão nossa velocidade e aquela dos veículos. Até agora nunca fomos parar debaixo de um carro, embora isso possa ocorrer; mas se, antes de atravessarmos, resolvês- semos realizar cálculos cientificamente suficientes, jamais chegaríamos a nos mover. Também o
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    Prática Curricular IV conceitode "suficiência" indica uma fronteira dúplice. Significa que, na cotidianidade, podemos efetivamente nos orientar e atuar com a ajuda de avaliações probabilísticas, na medida em que, abaixo dessa linha, na esfera da mera possibilidade, ainda não podemos con- segui-lo e, por cima da correspondente fronteira superior, na esfera da segurança científica, já não mais o necessitamos. Decerto, essa situação implica no risco da ação baseada na pro- babilidade; mas não se trata de um risco autonomamente assumido e sim de um risco imprescindível e necessário para a vida. Precisamente nisso ele se diferencia dos riscos da indi- vidualidade, que são riscos morais. Já a existência dessa ação realizada sobre a base da probabilidade indica o economicismo da vida cotidiana. Toda categoria da ação e do pensamento manifesta-se e funciona exclusivamente enquanto é imprescindível para a simples continuação da 79 cotidianidade; normalmente, não se manifesta com profundidade, amplitude ou intensidade especiais, pois isso destruiria a rígida "ordem" da cotidianidade. E, quando efetivamente se manifesta com maior intensidade, dissolve fatalmente essa ordem, tanto nos casos em que www.facete.com.br tende "para cima", ele-vando-nos ao humano-genérico, fato que jamais pode caracterizar a totalidade de nossa vida, quanto naqueles em que tende "para baixo", a ponto de — como aconteceu a Oblomov — incapacitar-nos para a vida. O pensamento cotidiano orienta-se para a realização de atividades cotidianos e, nessa medida, é possível falar de unidade imediata de pensamento e ação na cotidianidade. As idéias necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao plano da teoria, do mesmo modo como a atividade cotidiana não é praxis. A atividade prática do indivíduo só se eleva ao nível da praxis quando é atividade humano-genérica consciente; na unidade viva e muda de Faculdade de Educação Teológica - particularidade e genericidade, ou seja, na cotidianidade, a atividade individual não é mais do que uma parte da praxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir do dado, produz algo novo, sem com isso transformar em novo o já dado. A unidade imediata de pensamento e ação implica na inexistência de diferença entre "correto" e "verdadeiro" na cotidianidade; o correto é também "verdadeiro". Por conseguinte, a atitude da vida cotidiana é absolutamente pragmática. Todavia, deve-se esclarecer e complementar essa afirmação acerca da igualdade de correto e verdadeiro na vida cotidiana. O pensamento cotidiano apresenta-se repleto de pensa- mentos fragmentários, de material cognoscitivo e até de juízos que nada têm a ver com a manipulação das coisas ou com nossas objetivações coisificadas, mas que se referem exclusiva- mente a nossa orientação social. Na manipulação das coisas ou de nossas objetivações coisificadas, a identificação espontânea do "correto" e do "verdadeiro" é aproblemática (pelo
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    Prática Curricular IV menos no plano da vida cotidiana, pois aqui não falamos da ciência). Mas essa aproblematicidade termina quando utilizamos o "correto" para avaliar a possibilidade de nos movermos num meio determinado e de movermos esse mesmo meio determinado. Nesse caso, o correto é verdade tão-somente na medida em que, com sua ajuda, pudermos prosseguir na cotidianidade com os menores atritos possíveis. Isso nada significa com relação ao conteúdo veritativo objetivo (independente de nossa atividade individual) do pensamento ou do juízo em questão. (Naturalmente, a atividade individual é aqui muito poucas vezes completamente individual; em geral, é uma projeção das aspirações e dos interesses de uma camada ou classe social). Até mesmo os juízos e pensamentos objetivamente menos verdadeiros podem resultar corretos na atividade social, quando representarem os interesses da camada ou classe a que pertence o indivíduo e, desse modo, facilitarem a esse a orientação ou a ação correspondente 80 às exigências cotidianas da classe ou camada em questão. É indiscutível que uma ação correspondente aos interesses de uma classe ou camada pode se elevar ao plano da praxis, mas nesse caso superará o da cotidianida-de; a teoria da cotidianidade, nesses casos, converte-se em ideologia, a qual assume uma certa independência relativa diante da praxis www.facete.com.br cotidiana, ganha vida própria e, consequentemente, coloca-se em relação primordial não com a atividade cotidiana mas com a praxis. Não será demais repetir aqui que não existe nenhuma "muralha chinesa" entre a atividade cotidiana e a praxis não-cotidiana ou o pensamento não- cotidiano mas existem infinitos tipos de transição. Deduz-se, do exposto, que a fé e a confiança desempenham na vida cotidiana um papel muito mais importante que nas demais esferas da vida. Isso não significa, de modo algum, que a fé e a confiança sejam aqui mais intensas que em outros campos: a fé religiosa Faculdade de Educação Teológica - costuma ser mais intensa e mais incondicional, assim como a confiança tem significação mais intensa e emocionalmente maior na ética ou na atividade política. O que queremos dizer é que esses dois sentimentos "ocupam mais espaço" na cotidianidade, que sua função mediadora torna-se necessária em maior número de situações. Os homens não podem dominar o todo com um golpe de vista em nenhum aspecto da realidade; por isso, o conhecimento dos contornos básicos da verdade requer confiança (em nosso método científico, na cognoscibilidade da realidade, nos resultados científicos de outras pessoas, etc). Na cotidianidade, o conhecimento se limita ao aspecto relativo da atividade, e, por isso, o "espaço" da confiança e da fé é inteiramente diverso. Ao astrônomo, não basta ter fé em que a Terra gira em redor do sol; mas, na vida cotidiana, essa fé é plenamente suficiente. Não basta ao médico acreditar na ação terapêutica de um remédio, mas essa fé é suficiente para o enfermo (e precisamente na base de uma simples fé posta no médico ou na medicina, com maior ou menor fundamento
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    Prática Curricular IV empírico).Esses exemplos são já suficientes para indicar que não estamos aqui em face de contradições insolúveis, mas de modos de comportamento "relacionados entre si". Quando o médico atua na base da confiança (coisa que ocorre frequentemente), está atuando na base da cotidianidade. E, em troca, quando — num dado momento da vida cotidiana — o indivíduo começa a refletir acerca de uma superstição que compartilhava, ou de uma tese que assimilou da integração de que faz parte, passando a supor que nem uma nem outra são aceitáveis porque contradizem a experiência, e, logo após, começa a examinar o objeto posto em questão comparando-o com a realidade, para terminar recusando-o, em tal momento o referido indivíduo elevou-se acima do decurso habitual do pensamento cotidiano, ainda que apenas em tal momento. Temos falado de fé e de confiança, até aqui, de modo global. Neste contexto, não 81 podemos analisar a questão da diferença entre esses afetos, a qual se manifesta apesar da frequente comunidade de função dos mesmos; limitar-nos-emos a precisar que a confiança é um afeio do indivíduo inteiro e, desse modo, mais acessível à experiência, à moral e à teoria www.facete.com.br do que a fé, que se enraíza sempre no individual-particular. Dado que o pensamento cotidiano é pragmático, cada uma de nossas atividades cotidianas faz-se acompanhar por uma certa fé ou uma certa confiança. Não há lugar para a fé quando está em jogo a "justeza" da manipulação ou da obje-tivação coisifiçada; em princípio, basta a experiência para realizar as correções necessárias. Depende da totalidade, da in- dividualidade do homem e da situação social dada qual será o afeto fundamental do movimento no meio social, no qual a unidade de correto e verdadeiro manifesta-se de modo mais problemático. Faculdade de Educação Teológica - O característico do pensamento cotidiano é a ultragenera-Uzação, seja em suas formas "tradicionais", seja como consequência da experiência individual. Os juízos ultrageneraliza- dores são todos eles juízos provisórios que a prática confirma ou, pelo menos, não refuta, durante o tempo em que, baseados neles, formos capazes de atuar e de nos orientar. Se o afeto "confiança" adere a um juízo provisório, não representa nenhum "preconceito" o fato de se ter "apenas" juízos provisórios ultrageneralizados; como vimos, nem sequer é possível formular a exigência, tanto no começo quanto durante a ação, de juízos mais precisos, sob pena de perdermos a capacidade de ação. Mas, quando já não se trata da orientação na vida cotidiana e sim de nossa inteira individualidade, de nossa integridade moral e de seu desenvolvimento superior, caso em que só podemos operar com juízos provisórios pondo em risco essa integridade, então deveremos ter a capacidade de abandoná-los ou modificá-los. Isso poderá ser feito quando o juízo se apoiar na confiança, mas não quando se basear na fé. Os juízos
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    Prática Curricular IV provisórios que se enraízam na particularidade e, por conseguinte, se baseiam na fé são pré- juízos ou preconceito15. Os juízos provisórios (e os preconceitos) são meros exemplos particulares de ultrageneralização. Pois é característico da vida cotidiana em geral o manejo grosseiro do "singular". Sempre reagimos a situações singulares, respondemos a estímulos singulares e resolvemos problemas singulares. Para podermos reagir, temos de subsumir o singular, do modo mais rápido possível, sob alguma universalidade; temos de organizá-lo em nossa atividade cotidiana, no conjunto de nossa atividade vital; em suma, temos de resolver o problema. Mas não temos tempo para examinar todos os aspectos do caso singular, nem mesmo os decisivos: temos de situá-lo o mais rapidamente possível sob o ponto de vista da tarefa colocada. E isso só se torna possível graças à ajuda dos vários tipos de ultragene- 82 ralização. É assim, por exemplo, que se recorre à analogia. É através dela que; principalmente, funciona o nosso conhecimento cotidiano do homem, sem o qual não poderíamos sequer nos orientar; classificamos em algum tipo já conhecido por experiência o homem que agora queremos conhecer sob algum aspecto importante para nós e essa www.facete.com.br classificação por tipos permite nossa orientação. Tão-somente a posteriori torna-se "evidente" na prática que podemos dissolver aquela analogia e conhecer o fenômeno singular — nesse caso, o homem em questão — em sua concreta totalidade e, assim, avaliá-lo e compreendê-lo. Decerto, o juízo provisório de analogia pode se cristalizar em preconceito; pode ocorrer que já não prestemos atenção a nenhum fato posterior que contradiga abertamente nosso juízo provisório, tanto podemos nos manter submetidos à força de nossas próprias tipificações, de nossos preconceitos. Desse modo, o juízo provisório analógico é inevitável no conhecimento Faculdade de Educação Teológica - cotidiano dos homens, mas está exposto ao perigo da cristalização (fossilização); e, embora inicialmente o tratamento grosseiro do singular não seja prejudicial, pode con-verter-se num dano irreparável se se conserva após ter cumprido sua função. Pode se tratar de um erro moral, caso em que a orientação na vida cotidiana não será "perturbada"; mas também pode ser um erro capaz de acarretar uma das catástrofes da vida cotidiana. Algo parecido ocorre no caso do uso dos precedentes. O precedente tem mais importância para o conhecimento da situação que para o conhecimento das pessoas. É um "indicador" útil para nosso comportamento, para nossa atitude. ("Outros agiram nessa situação em que me encontro desse ou daquele modo", "já havia exemplos disso", etc.) Sem essa atitude, ver-nos-emos constantemente na situação do asno de Buridan. Por isso, em 15 Estudei detalhadamente os preconceitos no livro Tarsadalmi nerep és (Papel social e preconceitos), publicado em húngaro pela Akadémiai Kiadó (Editora Acadêmica), Budapeste, 1966.
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    Prática Curricular IV princípio,não se trata de um "mal". Essa atitude tem efeitos negativos, ou mesmo destrutivos, apenas quando nossa percepção do precedente nos impede de captar o novo, irrepetível e único de uma situação. Não há vida cotidiana sem imitação. Na assimilação do sistema consuetudinário, jamais procedemos meramente "segundo preceitos", mas imitamos os outros; sem mimese, nem o trabalho nem o intercâmbio seriam possíveis. Como sempre, o problema reside em saber se somos capazes de produzir um campo de liberdade individual de movimentos no interior da mimese, ou, em caso extremo, de deixar de lado completamente os costumes miméticos e configurar novas atitudes. Naturalmente, existem na vida cotidiana setores nos quais não é necessária a individualização da mimese, bem como épocas nas quais ela se torna supérflua; ademais, os tipos e os graus de individualização são necessariamente diversos nas 83 várias esferas vitais, nas diferentes épocas e situações. A entonação tem uma grande importância na vida cotidiana, tanto na configuração de nosso tipo de atividade e de pensamento quanto na avaliação dos outros, na comunicação, etc. www.facete.com.br O aparecimento de um indivíduo em dado meio "dá o tom" do sujeito em questão, produz uma atmosfera tonal específica em torno dele e que continua depois a envolvê-lo. A pessoa que não produz essa entonação carece de individualidade, ao passo que a pessoa incapaz de percebê-la é insensível a um aspecto importantíssimo das relações humanas. Mas conservar- se preso a essa realidade tonal seria outro tipo de ultragene-ralização, mais no terreno emocional, nesse caso, que naquele dos juízos. Talvez fosse possível aplicar a esse fenómeno o termo "preconceito emocional". O fenômeno apresenta-se frequentemente ligado ao preconceito baseado na ultrageneralização. Faculdade de Educação Teológica - Todos esses momentos característicos do comportamento e do pensamento cotidianos formam uma conexão necessária, apesar do caráter aparentemente casual da "seleção" em que aqui se apresentam. Todos têm em comum o fato de serem necessários para que o homem seja capaz de viver na cotidia-nidade. Não há vida cotidiana sem espontaneidade, pragmatismo, economicismo, andologia, precedentes, juízo provisório, ul-trageneralização, mimese e entonação. Mas as formas necessárias da estrutura e do pensamento da vida cotidiana não devem se cristalizar em absolutos, mas têm de deixar ao indivíduo uma margem de movimento e possibilidades de explicitação. (Isso tem grande importância para o que diremos mais abaixo). Se essas formas se absolutizam, deixando de possibilitar uma margem de movimento, encontramo-nos diante da alienação da vida cotidiana. Deve-se afirmar, antes de mais nada, que alienação é sempre alienação em face de alguma coisa e, mais precisamente, em face das possibilidades concretas de desenvolvimento
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    Prática Curricular IV genérico da humanidade. A mimese do mesmo tipo, fenómeno generalizado na época em que ainda não se havia desenvolvido o indivíduo moderno, mas presente formalmente também em nossos dias, nas mesmas proporções, deve ser entendida como produto da alienação apenas nesse último caso, pois as possibilidades configuradas na humanidade a partir daquele então exigem já uma orientação amplamente individual. A vida cotidiana, de todas as esferas da realidade, é aquela que mais se presta à alienação. Por causa da coexistência "muda", em-si, de particularidade e genericidade, a atividade cotidiana pode ser atividade humano-genérica não consciente, embora suas motivações sejam, como normalmente ocorre, efêmeras e particulares. Na cotidianidade, parece "natural" a desagregação, a separação de ser e essência. Na coexistência e sucessão heterogêneas das atividades cotidianas, não há por que revelar-se nenhuma individualidade unitária; o homem 84 devorado por e em seus "papéis" pode orientar-se na cotidiani-dade através do simples cumprimento adequado desses "papéis". A assimilação espontânea das normas consuetudinárias dominantes pode converter-se por si mesma em conformismo, na medida em que aquele que as assimila é um indivíduo sem "núcleo"; e a particularidade que aspira a uma www.facete.com.br "vida boa" sem conflitos reforça ainda mais esse conformismo com a sua fé. Mas a estrutura da vida cotidiana, embora constitua indubitavelmente um terreno propício à alienação, não é de nenhum modo necessariamente alienada. Sublinhemos, mais uma vez, que as formas de pensamento e comportamento produzidas nessa estrutura podem perfeitamente deixar ao indivíduo uma margem de movimento e possibilidades de explicitação, permitindo-lhe — enquanto unidade consciente do humano-ge-nérico e do individual-particular — uma condensação "prismática", por assim dizer, da experiência da cotidianidade, de tal Faculdade de Educação Teológica - modo que essa possa manifestar-se como essência unitária das formas heterogêneas de atividade próprias da cotidianidade e nelas objetivar-se. Nesse caso, o ser e a essência não se apresentam separados e as formas de atividade da cotidianidade não aparecem como formas alienadas, na proporção em que tudo isso é possível para os indivíduos de uma dada época e no plano máximo da individualidade — e, por conseguinte, de desenvolvimento do humano- genérico — característico de tal época. Quanto maior for a alienação produzida pela estrutura econômica de uma sociedade dada, tanto mais a vida cotidiana irradiará sua própria alienação para as demais esferas. Existe alienação quando ocorre um abismo entre o desenvolvimento humano-genérico e as possibilidades de desenvolvimento dos indivíduos humanos, entre a produção humano- genérica e a participação consciente do indivíduo nessa produção. Esse abismo não teve a mesma profundidade em todas as épocas nem para todas as camadas sociais; assim, por exem-
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    Prática Curricular IV plo,fechou-se quase completamente nas épocas de florescimento da polis ática e do Renascimento italiano; mas, no capitalismo moderno, aprofundou-se desmesuradamente. Ademais, tal abismo jamais foi inteiramente insuperável para o indivíduo isolado: em todas as épocas, sempre houve um número maior ou menor de pessoas que, com ajuda de seu talento, de sua situação, das grandes constelações históricas, conseguiu superá-lo. Mas, para a massa, para o grande número dos demais, subsistiu o abismo, quer quando era muito profundo, quer quando mais superficial. Como dissemos, o moderno desenvolvimento capitalista exacerbou ao extremo essa contradição. Por isso, a estrutura da cotidianidade alienada começou a expandir-se e a penetrar em esferas onde não é necessária, nem constitui uma condição prévia da orientação, mas nas quais aparece até mesmo como obstáculo para essa última. 85 Não se trata de afirmar que as categorias da cotidianidade sejam alheias às esferas não- cotidianas. Basta aludir à função desempenhada pelos precedentes na atividade política, pela analogia na comparação científica e artística, pela mimese ou pela entonação na arte. Mas www.facete.com.br essa limitada comunidade ou universalidade de categorias jamais significou uma identidade estrutural com, ou uma assimilação pelas, formas de atividade e conteúdos da cotidianidade. Em troca, a ciência moderna, ao colocar-se sobre fundamentos pragmáticos, "absorve", assimila a estrutura cotidiana; e, quando a arte moderna decide escolher como temas as efêmeras motivações e resolve fazer abstração da essência da vida humana, da constante oscilação e da interação entre a cotidianidade e a não-cotidianidade, a cotidianidade absorve inclusive a arte. A aludida estrutura, que na cotidianidade não aparece como um fenômeno de alienação, é necessariamente manifestação de alienação na arte, na ciência, nas decisões Faculdade de Educação Teológica - morais e na política. E é evidente, com efeito, que a estrutura cotidiana só começa a expandir- se "para cima" quando ela própria já é alienada. Repetimos: a vida cotidiana não é alienada necessariamente, em consequência de sua estrutura, mas apenas em determinadas circunstâncias sociais. Em todas as épocas, existiram personalidades representativas que viveram numa cotidianidade não-alienada; e, dado que a estruturação científica da sociedade possibilita o final da alienação, essa possibilidade encontra-se aberta a qualquer ser humano. Mas isso não significa, de nenhum modo, que a vida de qualquer homem torne-se humano-genérica em sua atividade principal no trabalho e nas objetivações. Humanização da vida cotidiana não quer dizer que os homens vão receber a inteligência de Planck, a mão de Menuhin ou as capacidades políticas de Lênin. Trata-se de algo que pode ser expresso com as palavras de Goethe: todo homem pode ser completo, inclusive na cotidianidade. Mas de que
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    Prática Curricular IV modo? Sabemos que a vida cotidiana tem sempre uma hierarquia espontânea determinada pela época (pela produção, pela sociedade, pelo posto do indivíduo na sociedade). Essa hierarquia espontânea possibilita à individualidade uma margem de movimento diferente em cada caso. Na época iniciada com a explicitação da sociedade burguesa, essa margem se ampliou, pelo menos em princípio. Possibilidades sempre existiram; mas, a partir do momento em que a relação de um homem com sua classe tornou-se "casual" (Marx), au- mentou para todo homem a possibilidade de construir para si uma hierarquia consciente, ditada por sua própria personalidade, no interior da hierarquia espontânea. Contudo, as mesmas relações e situações sociais que criaram essa nova possibilidade impediram, no essencial, seu desenvolvimento; no momento da superação dialética do conjunto da sociedade, ou seja, com 86 o fim da alienação, poder-se-á contar com a máxima explicitação daquela possibilidade. Ainda com as palavras de Goethe, podemos chamar de "condução da vida" (Lebens-fúhrung) a construção dessa hierarquia da cotidianidade efe-tuada pela individualidade consciente. "Condução da vida", portanto, não significa abolição da hierarquia espontânea da www.facete.com.br cotidianidade, mas tão-somente que a "muda" coexistência da particularidade e da genericidade é substituída pela relação consciente do indivíduo com o humano-genérico e que essa atitude — que é, ao mesmo tempo, um "engagement" moral, de concepção do mundo, e uma aspiração à auto-realização e à autofruição da personalidade — "ordena" as várias e heterogêneas atividades da vida. A condução da vida supõe, para cada um, uma vida própria, embora mantendo-se a estrutura da cotidianidade; cada qual deverá apropriar-se a seu modo da realidade e impor a ela a marca de sua personalidade. Ê claro que a condução da vida é Faculdade de Educação Teológica - sempre apenas uma tendência de realização mais ou menos perfeita. E é condução da vida porque sua perfeição é função da individualidade do homem e não de um dom particular ou de uma capacidade especial. Como vimos, a condução da vida não pode se converter em possibilidade social universal a não ser quando for abolida e superada a alienação. Mas não é impossível empenhar- se na condução da vida mesmo enquanto as condições gerais econô-mico-sociais ainda favorecem a alienação. Nesse caso, a condução da vida torna-se representativa, significa um desafio à desumanização, como ocorreu no estoicismo ou no epicurismo. Nesse caso, a "ordenação" da cotidianidade é um fenômeno nada cotidiano: o caráter representativo, "provocador", excepcional, transforma a própria ordenação da cotidianidade numa ação moral e política.
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    Prática Curricular IV INDIVÍDUO E COMUNIDADE Uma contraposição real ou aparente? EXISTE contraposição real entre indivíduo e comunidade, ou trata-se de uma contraposição apenas aparente? Colocada nesse nível de generalidade, essa pergunta não pode ter uma resposta unívoca. Pois a resposta depende sempre das peculiaridades do indivíduo e da comunidade que estivermos considerando; ela sempre apresenta, em primeira instância, um ca-ráter de conteúdo. Mas, antes de empreendermos uma análise detalhada do problema, devemos diferenciá- 87 lo de outras questões com as quais é habitualmente confundido. A primeira delas refere-se à relação entre indivíduo e sociedade, a segunda à relação entre indivíduo e grupo, a terceira à relação entre indivíduo e massa. www.facete.com.br A vinculação do indivíduo com a sociedade coincide com a vinculação do indivíduo com a comunidade quando a mais alta integração social assume ela mesma um caráter comunitário. As últimas integrações desse tipo foram a família clânica e as tribos. Quanto mais diferenciada e estruturada é uma sociedade concreta, tanto menos poder-se-á constituir ela própria em comunidade do homem. Já na época da polis antiga e naquela dos estamentos da Alta Idade Média, na da democracia urbana do Renascimento e ainda mais na situação de- signada por Marx como "democracia de não-liberdade", a função de comunidade pode caber apenas a uma das camadas ou classes essenciais da sociedade global, isto é, a uma integração Faculdade de Educação Teológica - dentro da diferenciação. A partir do desenvolvimento dos grandes estados nacionais burgueses, mesmo isso deixou de ser possível. Por outro lado, as teorias sociais contemporâneas estão reagindo rapidamente a essa mudança. Nas utopias de Morus e de Campanella, a sociedade inteira ainda funciona como uma comunidade; isso já não ocorre no utopismo que se inicia com o Iluminismo francês. Desde Morelly até Fourier, o interesse dos utópicos concentra-se em torno da questão de como construir uma sociedade a partir de comunidades, de como possibilitar que a relação do indivíduo com a sociedade seja mediatizada por comunidades orgânicas. No Contraí Social, Rousseau analisa detalhadamente a razão pela qual a ordem estatal unitária moderna não pode ser uma comunidade; e, em LM Nouvelle Heloise, propõe-se a apresentar um modelo da nova "pequena comunidade". É evidente que, tendo em vista a pro- gressiva industrialização nessa época de "sociedades industriais", a única colocação razoável é a última. Quando pensamos no futuro da humanidade, é quase impossível imaginar que a in-
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    Prática Curricular IV tegração total possa chegar a converter-se em comunidade; mais plausível aparece a imagem de uma estrutura social articulada em comunidades orgânicas. O problema indivíduo-comunidade não pode se identificar com a relação entre o indivíduo e o grupo, já que essa relação pode perfeitamente basear-se numa casualidade. Que nos matriculem na seção a ou b de um mesmo curso, por exemplo, é uma questão casual do ponto de vista da minha individualidade; também dependem do acaso o bairro em que vivo, a profissão para a qual sou formado, a fábrica em que encontro trabalho, etc. Na medida em que esses fatores deixam de ser casuais, na medida em que minha individualidade "constrói" o grupo a que pertenço, "meus" grupos convertem-se paulatinamente em comunidades. Nem todo grupo, portanto, pode ser considerado como uma comunidade, embora qualquer grupo possa chegar a ser comunidade. Para acrescentar um outro aspecto: o indivíduo pode 88 pertencer a numerosos grupos, na medida em que o fato de pertencer a grupos define-se através de uma certa analogia de interesses e de objeti-vos, bem como mediante uma certa atividade em comum. Mas há finalidades, interesses e atividades importantes, ao lado de outros que não o são na mesma medida. Isso origina uma hierarquização de "nossos" grupos, www.facete.com.br distinguindo principalmente entre os grupos que representam nossos principais interesses, objetivos e atividades, os quais são assumidos igualmente por eles, e os grupos que se relacionam com nossos interesses, atividades e objetivos secundários, inessenciais. Não existe entre as comunidades uma hierarquia desse tipo. No caso "clássico", o homem pertence a uma comunidade; e, nos casos "não clássicos", pertence apenas a poucas. Quando se pertence a mais de uma comunidade, diminui o caráter de comunidade dos grupos secundários e terciários. Vejamos, por fim, um outro aspecto, de grande importância: nem todo grupo Faculdade de Educação Teológica - apresenta uma hierarquia fixa e específica de valores; no mais das vezes, a única coisa que se choca com as normas do grupo é a violação dos interesses do grupo; fora isso, existem no grupo "éticas" plenamente pluralistas e contraditórias. Os alunos da seção a têm de ser incondicionalmente solidários em suas ações diante dos alunos da classe b; mas nem sequer nesse caso o grupo se torna comunidade, salvo se dispuser de um sistema de normas relativamente concreto e válido para todos os seus membros. Acentuamos mais acima o caráter casual — casual em relação ao fato de pertencer a uma comunidade — de nossa participação em um grupo. Mas esse ponto deve ainda ser esclarecido. Pois se nos poderia objetar que o nascer numa determinada comunidade — na comunidade da polis, por exemplo — é ainda menos objeto de escolha que o fato de pertencer a essa ou aquela seção do curso. Mas é que o fato de pertencer a uma comunidade apresenta- se segundo dois modos distintos, o que empresta à casualidade um aspecto novo. Por um
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    Prática Curricular IV lado,pode-se pertencer a uma determinada comuni-dade em consequência de uma necessidade exterior; por outro, isso pode ocorrer em consequência de uma necessidade interna, ou seja, em consequência de uma escolha individual. No caso da polis ou dos estamentos, trata-se do primeiro tipo. Essas sociedades ainda não são sociedades "puras", ou seja, ainda não se consumou nelas o processo que Marx designou como "retrocesso dos limites naturais" ["Zuruckweichung der Na-turschranken"]. As comunidades dessas sociedades são "naturais" no sentido de que não podem ser objeto de uma escolha livre e de que a posição social do indivíduo, as possibilidades de desenvolvimento de sua individualidade e de sua hierarquia de valores estão determinadas pelo nascimento e no momento do nascimento. Um jovem nascido numa família nobre da Alta Idade Média talvez pudesse escolher livremente (muito poucas vezes) entre ser cavaleiro ou sacerdote, mas não podia escolher uma vida de 89 servo ou uma existência burguesa; possibilidades de escolha desse tipo apresentam-se apenas quando a comunidade em questão, de tipo natural, encontra-se já em processo de dissolução. Mas a vinculação que venha a se estabelecer não é casual ou acidental, pois sua essência www.facete.com.br consiste em que é impossível "sair" dela, transcendê-la em individualidade. Tão-somente uma sociedade sem estamentos, a sociedade classista "pura", a sociedade burguesa, consegue abolir as comunidades naturais enquanto integrações sociais primárias; e tão-somente em tal sociedade pode se produzir, por conseguinte, uma relação acidental ou "casual" do homem com sua integração social básica ou com sua classe. E apenas nessa sociedade — em paralelismo com o fenômeno acima descrito — é que pode ganhar espaço o movimento que se manifesta na escolha de nossa integração, isto é, o movimento que nos permite inverter a antiga situação: não se tornar indivíduo mediante nossa comunidade, mas ser capaz de escolher uma Faculdade de Educação Teológica - comunidade graças ao fato de já ser indivíduo. O aristocrata que, na Revolução Francesa, adota um nome burguês, ou o burguês que assume como seus os interesses e os objetivos do movimento operário, são produtos e representantes dessa nova possibilidade. O desenvolvimento dessa relação "casual", a dissolução das comunidades de tipo natural, foi também o que permitiu ao indivíduo a possibilidade de construir uma família sobre a base de sua escolha individual. Disso decorre que a classe (a classe social) não é necessariamente uma comunidade, embora os interesses e as funções dos membros de uma classe sejam idênticos em todos os aspectos essenciais e embora dominem no sistema de valores da classe normas e costumes que fornecem uma margem análoga de movimentos. Tampouco o fato de pertencer à classe pode se transformar no fato de pertencer a uma comunidade; isso só ocorre quando o membro da classe decide-se conscientemente nesse sentido. Digamos ainda algo sobre a relação entre o indivíduo e a massa, questão que
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    Prática Curricular IV frequentemente se põe de contrabando em nossa problemática, ainda mais injustamente, sem dúvida, que as demais. Sociedades, classe, grupo, estamento, comunidade, etc, são efetivamente categorias de uma esfera homogênea de estruturação da sociedade; ao contrário, a relação entre indivíduo e massa é heterogênea. A massa é co-partici-pação de muitos homens numa ação determinante, que pode se expressar tanto através de uma ação comum idêntica quanto de um comum "papel de coristas". Ambas as coisas — a ação comum e o papel de acompanhamento — podem ser casuais (por exemplo, quando das reações em face do incên- dio de um teatro), mas também podem ser não-casuais (por exemplo, numa manifestação). Para a massa, para a multidão, o interesse e a finalidade comuns, a função comum, não são características necessárias na mesma medida em que o são para os grupos sociais estruturadores; reciprocamente, para tais grupos, não é característica necessária a atividade 90 comum ou a comum função de coro. Um grupo cu comunidade jamais pode ser uma "massa", pois está sempre articulado e estratificado, ao passo que na ação comum a massa pode per- feitamente aparecer não-estratificada e não-articulada. É evidente que esse "pode" admite a existência do caso contrário: não é raro que a multidão apareça como uma "comunidade' www.facete.com.br Assim, por exemplo, numa manifestação de Primeiro de Maio, a multidão pode ser representante, nas ruas, de uma comunidade determinada, com interesses e objetivos comuns, e, portanto, pode-se entendê-la nesse caso como uma entidade organizada, estruturada, de nenhum modo casual. Alguns autores, de modo simplista, contrapõem a multidão à comunidade, supondo que existe multidão precisamente onde não há comunidade. Identificam assim um tipo de multidão, a multidão não estruturada e, consequentemente, de fácil manipulação, com o Faculdade de Educação Teológica - conceito de multidão enquanto tal; fazem e mesmo com a comunidade, ao identificá-la com a co- munidade democrática formada por indivíduos. Essa equiparação é falsa, mesmo quando se coloca a serviço de simpáticas idéias de oposição à manipulação. E é falsa até mesmo quando a multidão realiza um dos seus mais conhecidos traços característicos: as ações "de massa" que os homens realizam, ou seja, que empreendem conjuntamente, ou como reação a algum acontecimento, acentuam nos indivíduos que constituem a multidão precisamente os traços, os objetivos e os interesses idênticos àqueles dos demais, proporcionando-lhes com isso, como ressonância, uma fundamentação afetiva adicional. Isso não implica de nenhum modo na abolição da individualidade, mas sim, quando muito, na suspensão provisória ou na subor- dinação temporária de suas aspirações heterogéneas. E tampouco implica em manipulabilidade sem obstáculos, já que a força avassaladora da ação das massas persiste apenas — se é que a massa é formada por verdadeiros indivíduos — enquanto ela não se
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    Prática Curricular IV chocacom obstáculos na própria individualidade. Pode-se, no máximo, supor — mas essa é uma restrição certamente importante — que, em consequência da coexistência massiva, aumentam as possibilidades de manipulação quando a multidão é formada por indivíduos pouco desenvolvidos ou quando pertence a uma comunidade não-estru-turada (essa segunda hipótese não coincide necessariamente com a primeira). Nesse sentido, costuma-se falar de "sociedade de massas". A palavra "massa", com efeito, tem nesse contexto um sentido bastante lato. Não se trata de co-presença efetiva, de um comum papel físico de coro. O que se deseja significar com essa expressão é, sobretudo, que uma sociedade dada favorece exclusivamente — ou em primeiro lugar — a estruturação in- terna na qual não se podem desenvolver nem a individualidade, nem a comunidade; a socialidade dos homens, então, passa a expressar-se desde o primeiro momento como se todos 91 formassem uma multidão manipulada e como se por todos os lados dominasse uma atitude de dispersão. "Sociedade de massas", portanto, é uma expressão metafórica para descrever uma sociedade conformista manipulada. www.facete.com.br A comunidade é uma unidade estruturada, organizada, de grupos, dispondo de uma hierarquia homogênea de valores e à qual o indivíduo pertence necessariamente; essa necessidade pode decorrer do fato de se "estar lançado" nela ao nascer, caso em que a comunidade promove posteriormente a formação da individualidade, ou de uma escolha relativamente autônoma do indivíduo já desenvolvido. Voltemos à nossa questão inicial: a contraposição entre indivíduo e comunidade é real ou aparente? Enquanto as comunidades foram comunidades naturais e enquanto a existência social do Faculdade de Educação Teológica - indivíduo foi uma existência "necessária" baseada no "estar lançado" na comunidade ao nascer, essa pergunta teria carecido de sentido. Todo indivíduo se desenvolvia até tornar-se individualidade precisamente no seio da comunidade. Quem perdia sua comunidade perdia também a condição de existência da sua atividade; 0 castigo mais duro era o exílio. Decerto, já nessa época, podiam se produzir contraposições concretas entre o indivíduo e sua comunidade — e elas efetivamente se produziram. Como se sabe, a expulsão do seio da comunidade (que se recorde o ostracismo) era a represália por uma contraposição desse tipo, ou então uma medida preventiva contra ela. A contraposição podia originar-se de duas causas, frequentemente entrelaçadas: em certos casos, o indivíduo — graças à sua importância ou popularidade — elevava-se a tal ponto acima de seus concidadãos que sua simples existência perturbava a atividade relativamente plana dentro da estrutura da comunidade em questão; em outros, o indivíduo colocava seus objetivos e êxitos particulares, seu enriquecimento pessoal,
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    Prática Curricular IV acima dos interesses e das metas da comunidade, tentando utilizar essa como instrumento para a realização daquelas suas metas particulares. Como é natural, o critério concreto segundo o qual se determinava quando o indivíduo começava a prejudicar a sociedade variava de acordo com os diferentes sistemas sociais e políticos. O banimento podia também ser injusto; com efeito, era esse o seu risco, e as comunidades tinham consciência mais ou menos clara de sua existência. Todavia, a possibilidade do erro ou da injustiça nunca levou a que se pusesse em dúvida a justiça do ato preventivo de proteção da comunidade. Em sociedades-comunidades (pensamos sempre em comunidades naturais), a expulsão implica num juízo de valor. O banido jamais está "certo", mesmo quando o concreto ato de banimento é evidentemente injusto. O indivíduo banido da sociedade sente-se como um peixe fora d'água, 92 como um estrangeiro eterno (no caso de Ovídio), ou se rebela contra sua sociedade; mas esse comportamento jamais lhe é perdoado, seja a causa de seu banimento a superioridade de sua individualidade (caso de Temístocles), seja o fato de ter utilizado abusivamente a comunidade para alcançar suas próprias metas e interesses (caso de Alcibíades). Coriolano, por um lado, e www.facete.com.br a ida do Imperador Henrique a Canossa, por outro, são exemplos da catarse típica do homem que vive em unidade natural. O indivíduo reconhece à comunidade natural o direito de bani-lo mesmo quando se considera mais valioso que aqueles que o expulsam. Por isso é que Sócrates negou-se a fugir da prisão, convencido de que as leis de sua pátria — que o condenavam à morte — eram, apesar disso, obrigatórias para ele. Nas fases de dissolução das comunidades naturais, rom-pe-se definitivamente essa Faculdade de Educação Teológica - contraditória harmonia entre o indivíduo e a comunidade e começam a desempenhar um papel cada vez maior as comunidades não "pré-existentes", as comunidades escolhidas. Nessa fase, ainda não se coloca o problema de saber se indivíduo e comunidade se contrapõem; o que está em discussão é apenas se o homem pode entrar em conflito com uma comunidade determinada, ou, mais exata-mente, se o indivíduo pode escolher autonomamente, no lugar das comunidades em dissolução cujos valores se diluem progressivamente, uma nova comunidade que explicite uma hierarquia de valores fixa e estável. Não se trata, portanto, de uma simples contraposição entre indivíduo e comunidade, mas entre o indivíduo que aspira a uma nova comunidade e uma velha comunidade em dissolução cada vez maior. Por todas as partes encontramos essas comunidades livremente escolhidas, mas firmes, desde a poikilé stoá até os discípulos de Jesus, passado pelo jardim de Epicuro. Uma situação análoga ocorre com os movimentos heréticos da Idade Média, nos quais, como se sabe, os laços comunitários não
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    Prática Curricular IV forammais débeis, e sim mais fortes, que na Igreja oficial. O problema da contraposição entre comunidade e indivíduo surgiu com a "sociedade pura", com a sociedade burguesa, por causa da relação casual do homem com sua classe. Em suma: surgiu como consequência da sociedade na qual se separaram o fato de pertencer a uma classe e o fato de pertencer a uma comunidade, na qual o indivíduo passou a estar submetido enquanto tal às leis do movimento das classes, na qual o homem converteu-se em ser social não necessariamente comunitário. Até aqui, temos falado de modo simplificado das comunidades naturais, com o objetivo de contrapô-las ao desenvolvimento iniciado com a sociedade burguesa. Mas agora teremos de distinguir, já que as formas concretas das comunidades naturais foram muito variadas. Neste momento, tem importância tão-só o fato de que também variou a margem de movimento que 93 essas comunidades apresentaram para o desenvolvimento do indivíduo ou concederam no caso da individualidade já desenvolvida. Ou, em outras palavras: indivíduos com diferentes graus de desenvolvimento concentraram diferentes margens de movimento em diferentes formas www.facete.com.br comunitárias. O aumento da liberdade de movimento do indivíduo não se deve ao debilitamento da comunidade, pois essa liberdade já está prefigurada, em proporções bastante variáveis, nas comunidades que funcionam adequadamente e não se debilitam. Não vamos nos aprofundar nessa problemática, mas observaremos que o tipo (variável) de comunidade e o desenvolvimento da individualidade encontram-se em intexação. Gostaríamos de ilustrar esse ponto com um exemplo. Se lermos hoje a República de Platão para o indivíduo mais manipulado, menos "individual", esse exclamará horrorizado que, em um tal Estado, o indivíduo está totalmente submetido ao posto que lhe é indicado pela divisão do trabalho e Faculdade de Educação Teológica - não dispõe de nenhuma liberdade. Mas, na época de Platão, ninguém — nem mesmo os seus piores inimigos (nem tampouco Aristóteles) — diri-giu-lhe uma tal acusação. Pois, para o indivíduo da época, a vida em um Estado de tipo platônico não pressuporia nenhuma redução da individualidade; aquele indivíduo não era o indivíduo de hoje, e só se pode falar numa "redução" de necessidades, aspirações, etc, se essas já existirem efetivamente. Situação análoga experimentamos ao ler a Utopia de Tomás Morus; mas, na época dele, todos afirmavam que os habitantes da ilha de Utopia eram absolutamente livres. E os habitantes de Utopia, por sua vez, teriam considerado como amor-daçamento do indivíduo o fato de que a comunidade pres- crevesse a seus membros a inclusão numa determinada religião, o que numa comunidade do século XI, provavelmente, ninguém teria considerado "como diminuição da própria Uberdade. É evidente que, ao estudarmos o desenvolvimento histórico da individualidade, não devemos jamais partir do termo médio dos indivíduos de uma época. Temos de analisar a
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    Prática Curricular IV possibilidade máxima produzida pela época em questão para o desenvolvimento da individualidade. Essa possibilidade máxima pode ser descoberta nos chamados indivíduos representativos, que são sempre excepcionais no sentido de que realizam até o fim a possibilidade dada. Essa distinção é tanto mais importante quanto maior for, numa sociedade determinada, a alienação, quanto mais radicalmente a essência humana estiver separada da existência dos homens médios. Por isso é que ela se revela sobremaneira importante ao estudarmos os indivíduos da sociedade capitalista. Na análise da individualidade burguesa, manifestam-se principalmente dois pontos de vista contraditórios. Alguns autores afirmam que a individualidade propriamente dita foi criada pela sociedade burguesa e que qualquer outra sociedade não pode deixar de ter como consequência a abolição dessa individualidade (é a tese dos liberais); outros opinam que a equiparação formal realizada pela burguesia, o 94 conformismo que isso acarretou e, sobretudo, a manipulação já teriam abolido o desenvolvimento da individualidade, a iniciativa individual, e, com ela, a possibilidade de explicitação de "grandes homens", de indivíduos verdadeiramente livres (é a concepção do romantismo). Para quem considere os fatos com atenção, resultará evidente que as duas www.facete.com.br análises contêm elementos de verdade, ainda que em sentidos diferentes. É verdade que a sociedade burguesa desenvolveu a individualidade numa medida sem precedentes; isso pode ser comprovado do modo mais evidente se recordarmos o momento histórico em que tal desenvolvimento iniciou o seu processo, ou seja, o Renascimento. Posteriormente, a individualidade se enriqueceu com características inteiramente novas, como a subjetividade, a "interioridade", documentadas pelo grande desenvolvimento da música e da lírica, seus sensíveis sismógrafos. Tão-somente a sociedade burguesa poderia proporcionar ao indivíduo Faculdade de Educação Teológica - a possibilidade de elevar-se a qualquer altura: a personalidade de Napoleão exemplifica sen- sivelmente essa circunstância. Mas, subsequentemente, revela-se a verdade da crítica romântica: essa mesma sociedade, ao subsumir o indivíduo sob sua classe, ao submetê-lo às leis econômicas como se essas fossem leis naturais, aboliu aquela grande possibilidade e fez dos indivíduos livres nada mais que escravos da alienação, até o ponto em que de facto os indivíduos se viram colocados num nível inferior àquele dos indivíduos de épocas anteriores. Durante o século passado, essa segunda tendência reforçou-se constantemente e, em nossos dias, a maior parte dos indivíduos representativos é representativa precisamente pelo fato de negar seu mundo e de buscar uma nova perspectiva para o desenvolvimento humano. A configuração do mundo burguês acarretou uma alteração básica da hierarquia moral dos valores — e, de modo mais geral, da hierarquia social dos mesmos — e, ao mesmo tempo, transformou a relação do indivíduo com essa hierarquia. Nas comunidades naturais,
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    Prática Curricular IV imperavauma ordem fixa de valores, existia uma hierarquia de valores representada pela co- munidade e todo indivíduo assimilava-a necessariamente. (Na Antiguidade, por exemplo, ninguém podia pôr em dúvida que as "virtudes fundamentais" eram a sabedoria, a coragem, a temperança e a justiça). É evidente que também naquelas comunidades existia uma margem de movimento e de escolha individual. O desenvolvimento da autonomia do indivíduo era medida por sua capacidade de avaliar individualmente o caso singular oferecido a seu julgamento, bem como de aplicar segundo sua individualidade os valores dados a cada concreta situação de escolha. A explicitação da sociedade burguesa acarretou também a dissolução das hierarquias axiológicas, fixas, inclusive das comunidades naturais. A partir de então, a tarefa do indivíduo não mais consiste apenas em aplicar uma hierarquia de valores já dada a cada ação concreta (embora também isso seja imprescindível), mas igualmente em 95 escolher os valores e construir sua própria hierarquia valorativa no interior de certos limites, mais ou menos amplos. Assim, com a escolha dos valores, aumentam de modo particular as possibilidades da individualidade. Mas temos de repetir que, na mesma sociedade, os www.facete.com.br interesses, costumes, ou, simplesmente, as fórmulas de tratamento interindividual das classes sociais, que em seu conjunto nada têm a ver com a tábua de valores morais, apresentam uma tendência no sentido de cumprirem uma função avaliativa muito marcada e inequívoca. Recordarmos aqui, ademais, o particular fortalecimento do conformismo. Voltemos à relação do indivíduo com a comunidade. Do que até agora dissemos, resulta que pertencer a uma comunidade não é um fato obrigatório. E isso porque, na sociedade burguesa, o homem não nasce numa comunidade, sua existência individual não está determinada por sua existência social: o indivíduo burguês cresce frequentemente fora de Faculdade de Educação Teológica - qualquer comunidade e chega mesmo a viver assim por toda a sua vida. A maioria dos indivíduos burgueses — pelo menos durante algum tempo — considera algo ideal essa vida sem comunidade, idealizando-a enquanto "liberdade pessoal". A "libertação" do poder da sociedade permite-lhe converter de modo explícito seus interesses privados em motor das ações do individualismo, para os quais o chamado "interesse geral" — o progresso — da sociedade realiza-se através da perseguição dos interesses privados. A carência de comunidade converte-se em princípio para o individualismo, ao passo que sua autoconsciência desemboca na chamada "teoria do egoísmo". Mas isso não significa que o indivíduo da sociedade burguesa careça necessariamente de comunidade. O que se altera é apenas sua relação com a comunidade. Quando chega a pertencer a uma, trata-se de uma comunidade construída, livremente escolhida. Os revolucionários burgueses, os plebeus, criaram sempre comunidades desse tipo, como ocorreu,
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    Prática Curricular IV por exemplo, durante a Revolução Francesa. Logo após, a classe operária começou a construir também suas próprias organizações comunitárias independentes. O objetivo da criação de tais comunidades era o prosseguimento vitorioso da luta contra a exploração. O trabalhador que atinge a consciência de classe e cria uma comunidade para abolir a existência das classes, colocando novos valores no lugar da ordem e da hierarquia axiológicas existentes, é o representante de tudo aquilo que a própria sociedade burguesa criou no plano do desenvolvi- mento da individualidade. Mas o indivíduo tem sempre a possibilidade de escolher uma comunidade? E qualquer comunidade? A primeira pergunta deve ser respondida com uma inequívoca negação. Basta pensar em artistas como Schubert, Schumann, Beethoven. Todo o mundo afetivo musical deles apresenta a marca da nostalgia de uma comunidade não encontrada ou perdida. Ê 96 evidente que a possibilidade aludida deve sempre ser analisada em relação com o indivíduo em questão. E, para responder à segunda pergunta, devemos introduzir em nossa reflexão o conceito de "valor". Essa segunda pergunta é uma questão central própria de nossa época. www.facete.com.br Não devemos esquecer que o individualismo burguês já se "esgotara" nos meados do século passado. Em outras palavras: aquela ingênua confiança de que o indivíduo podia desenvolver-se livremente inclusive fora de qualquer comunidade e de que o interesse individual é um bom fio condutor para a liberdade individual foi-se tornando cada vez mais problemática. A partir do "fin de siècle", o desespero substitui a segurança: o indivíduo experimenta agora a falta de comunidade como solidão, como infelicidade. Isso reflete sub- jetivamente o fato de que chegou ao fim o desenvolvimento da individualidade na sociedade Faculdade de Educação Teológica - burguesa, inclusive para os indivíduos representativos. Paralelamente a isso, desenvolvem-se — com crescente intensidade — os movimentos operários; e os intelectuais que aderem a tais movimentos voltam a encontrar nas comunidades que eles formam o sentido de suas vidas. Não se trata de um "medo da liberdade", mas sim de uma busca da mesma. O movimento revolucionário florescente-te no século xx, sobretudo a Revolução de Outubro, deixou marcas indeléveis na intelectualidade, pelo menos no que ela tinha de melhor. A busca de uma atividade em comunidade, que elevasse o indivíduo "nas asas da comunidade", somou-se à exigência de uma nova sociedade na qual o homem pudesse voltar a ser um ente comunitário. Decerto, três fenômenos históricos que se diferenciam em seu caráter e em seu tipo influíram de tal modo em nossa época, que a busca da comunidade voltou a sofrer um re- trocesso. São eles: o culto da personalidade no socialismo; o fascismo; a manipulação de grupo no mundo burguês contemporâneo. Devemos repetir que se trata de três fenómenos in-
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    Prática Curricular IV teiramentedistintos. Não podemos analisar agora suas diferenças, mas temos de citá-los porque eles provocaram ceti-cismo com relação à comunidade e, consequentemente, reco- locaram com urgência a questão: Que comunidade deve o homem escolher? Como dissemos, torna-se necessário, neste ponto, o uso do conceito de valor. Consideramos valor objetivo, ou seja, independente da avaliação humana, o conjunto de todas as relações, produtos, ações, idéias, etc. sociais que promovem o desenvolvimento da essência humana no estágio histórico tomado em consideração. Mas o que é "essência humana"? Essa pergunta pode ser iluminada por uma idéia de Marx, através da interpretação feita pelo jovem filósofo húngaro Gyõrgy Márkus. Segundo essa interpretação, a essência humana consta de atividade de trabalho (objetivação), socialidade, universalidade, autoconsciência, liberdade. Essas qualidades essenciais já estão 97 dadas na própria hominização, enquanto meras possibilidades; tor-nam-se realidade no processo indefinido da evolução humana. São de valor positivo as relações, os produtos, as ações, as idéias sociais que fornecem www.facete.com.br aos homens maiores possibilidades de objetivação, que integram sua socialidade, que con- figuram mais universalmente sua consciência e que aumentam sua liberdade social. Consideramos tudo aquilo que impede ou obstaculiza esses processos como negativo, ainda que a maior parte da sociedade empreste-lhe valor positivo. Como esses valores se configuram em esferas heterogêneas, podem certamente entrar em contradição uns com es outros. Há situações sociais que desenvolvem um valor e destroem outro, ou que desenvolvem um valor em seu aspecto social total e impedem seu desenvolvimento nos indivíduos. Por isso, ao escolher uma comunidade, deve-se ter presente Faculdade de Educação Teológica - o lodo, o predominante no contraditório complexo de valores, bem como suas consequências possíveis para a explicitação da substância axiológica. A explicitação dessa substância, em nos- sa hipótese, identifica-se com a explicitação da essência humana. Assim, portanto, se quisermos comprovar o conteúdo axiológico de uma comunidade, temos de comprovar inicial- mente sua relação com a essência humana e examinar se essa comunidade — comparada com as demais comunidades (e possibilidades comunitárias) — explicita a essência humana de um modo satisfatório, bem como o modo pelo qual o faz e em que medida. O fato de que uma comunidade seja relativamente favorável à explicitação da essência humana não significa, de nenhum modo, que também explicite — inequívoca e uniformemente — as capacidades dos indivíduos. Pois não existe paralelismo necessário entre o desenvolvimento humano-genérico e o desenvolvimento individual; na maioria das épocas históricas, ao contrário, verifica-se uma discrepância, que se torna possível precisamente
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    Prática Curricular IV quando a participação do indivíduo numa comunidade baseia-se na escolha autônoma. Basta recordar o terror revolucionário das comunidades jacobinas, necessário para o desenvolvimento de seus conteúdos axiológicos, mas ao mesmo tempo significando ruína moral para não poucos indivíduos que delas participavam, sobre a base de uma decisão autónoma e dotados do pathos adequado à tarefa his-tórico-universal que tinham diante de si. Isso é exemplo do caso no qual a explicitação do indivíduo torna-se problemática por causa das contradições axiológicas contidas na comunidade em questão. Mas o paralelismo, também sob outro aspecto, deve ser excluído: as comunidades organizadas tendo em vista determinados fins históricos solicitam sobretudo determinadas capacidades dos indivíduos. Por isso, os indivíduos cuja capacidades inatas são congruentes com as qualidades mais importantes para as metas de uma comunidade têm maiores possibilidades de desenvolver sua 98 individualidade do que aqueles cujas capacidades e talentos inatos estão fora de tal tendência. Portanto, dois motivos podem estar na base da escolha de comunidade: o valor axiológico objetivo da comunidade, seus momentos favoráveis à essência humana; e a intenção de explicitar nela e através dela a própria individualidade. O primeiro motivo tem www.facete.com.br sempre primazia com relação ao segundo. Essa primazia não é um mero postulado, não se situa na categoria do "dever ser", mas provém da essência da própria individualidade. Com efeito, a individualidade humana não é simplesmente uma "singularidade". Todo homem é singular, individual-particular, e, ao mesmo tempo, ente humano-genérico. Sua atividade é, sempre e simultaneamente, individual-particular e humano-genérica. Em outras palavras: o ente singular humano sempre atua segundo seus instintos e necessidades, so- cialmente formados mas referidos ao seu Eu, e, a partir dessa perspectiva, percebe, interroga e Faculdade de Educação Teológica - dá respostas à realidade; mas, ao mesmo tempo, atua como membro do gênero humano e seus sentimentos e necessidades possuem caráter humano-genérico. Todo homem se encontra, enquanto ente particular-singu-lar, numa relação consciente com seu ser humano-genérico nessa relação, o humano-genérico é representado para o indivíduo como algo dado fora de si mesmo, em primeiro lugar através da comunidade e, posteriormente, também dos costumes e das exigências morais da sociedade em seu conjunto, das normas morais abstraias, etc. Em sua atividade social global, o homem está sempre "em movimento" entre sua particularidade e sua elevação ao genericamente humano; e é função da moral conservar esse movimento. O homem torna-se indivíduo na medida em que produz uma síntese em seu Eu, em que transforma conscientemente os objetivos e aspirações sociais em objetivos e aspirações particulares de si mesmo e em que, desse modo, "socializa" sua particularidade. A distância é essencial à individualidade: distância com relação à própria particularidade e, ao mesmo
  • 99.
    Prática Curricular IV tempo,com relação à própria integração, isto é, uma atitude livre com relação a essa integração. Isso é verdade — de acordo com o grau de desenvolvimento do indivíduo — já no caso das comunidades naturais (que se recorde a relação de Sócrates com Atenas); mas acentua-se particularmente após a dissolução daquele tipo de comunidade. Dado que a atitude livre com relação à comunidade (ou, em outras palavras, a escolha da comunidade) faz parte da essencialidade do indivíduo, o próprio conteúdo axiológico desse indivíduo manifestar-se-á antes de mais nada no conteúdo axiológico da comunidade por ele escolhida. Quod erat demons-trandum: o primado do conteúdo axiológico objetivo da comu- nidade ganha legitimidade através da própria individualidade. E, com isso, torna-se evidente outra coisa: uma comunidade cujo conteúdo axiológico seja basicamente negativo jamais de- senvolverá a individualidade, visto que tampouco desenvolve o valor no indivíduo, nem 99 mesmo quando esse se sente bem em tal comunidade, quando acredita ter encontrado nela o espaço adequado para a explicitação de suas capacidades. Quando muito, o que se pode configurar numa comunidade de conteúdo axiológico negativo é a particularidade pessoal, não www.facete.com.br a capacidade de tornar-se autêntico indivíduo. A história demonstra isso de modo clássico no caso das comunidades fascistas. Essas comunidades, bem como seus mitos relativos, aboliram uma extraordinária conquista da his- tória humana quando suprimiram a liberdade relativa na escolha da comunidade. Em um mundo no qual há já vários séculos não existiam comunidades naturais, o fascismo criou o mito da comunidade natural, o mito do sangue e da raça. Esse mito se desmascara quando abole a livre escolha da comunidade e quando deixa patente que os objetivos e conteúdos da comunidade fascista são, em sua totalidade, tão negativos que nem sequer podem manter a Faculdade de Educação Teológica - aparência da liberdade de escolha. Precisamente por isso, o mito fascista e sua prática tiveram de abolir um dos valores básicos da individualidade, ou seja, a distância acima aludida, aquela distância com relação não apenas à particularidade mas também à própria integração. A relação imediata, sem distanciamento, com a integração acarreta inevitavelmente o "descontrole", a ilimi-tação dos afetos particulares. Nas comunidades fascistas, não houve realização do indivíduo; ao contrário, esse se "desintegrou" numa particularidade descontrolada e numa pseudoco-munidade que se submeteu sem reservas a exigências pseudo- humano-genéricas. Ao buscar um contra-exemplo também em nosso século, deparamo-nos espontaneamente com a comunidade descrita por Makarenko, em seu Poema Pedagógico. Não se trata aqui de uma simples análise das características únicas ou casuais de uma coletividade juvenil, mas de algo bem maior: de um exemplo de comunidade humana socialista, de um exemplo das pos-
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    Prática Curricular IV sibilidades que o socialismo contém em princípio. Não vamos nos deter nas peculiaridades dessa comunidade, pois Georg Lukács já o fez em sua análise desse livro 16. Basta-nos lembrar seus momentos essenciais. Antes de mais nada, a livre escolha dessa comunidade. Naquela comunidade, podia ingressar quem quisesse, assim como podia sair quem o desejasse. Em segundo lugar, a orientação teleológica da coletivida-de. A existência coletiva jamais é um fim em si mesma, assim como não são fins em si mesmos a educação ou o "ficar sozinho". Trata-se apenas de resultados produzidos para a realização de objetivos concretos fixados pela sociedade em seu conjunto, embora a relação da comunidade com essa sociedade total jamais seja aproblemática ou isenta de conflitos. (Com efeito, a relação da coletividade de Makarenko com a totalidade da sociedade soviética foi sempre uma concordância carregada de conflitos). E, finalmente: sua estrutura interna, a organização das normas éticas da comunidade, 100 que julga firmemente qualquer ação que nasça da particularidade e destrua os valores globais da coletividade, não deixa, todavia marcas no indivíduo que realizou o ato, com o que sempre se mantém a possibilidade de um renascimento. Ao mesmo tempo, essa estrutura oferece ao indivíduo a possibilidade máxima de configurar as mais variadas hierarquias individuais de www.facete.com.br valor no interior de um âmbito axiológico positivo, a possibilidade de desenvolver os mais variados modos de comportamento. Trata-se de uma organização tão heterogênea, tão polifacética das possibilidades ativas da coletividade que cada um dos membros pode desenvolver suas capacidades naturais. Tem sentido, então, falar numa contradição entre indivíduo e comunidade? Não é casual que tenhamos contraposto, mais acima, duas comunidades diferentes. Afirmamos que, na primeira, o homem não pode absolutamente desenvolver-se até chegar à in- Faculdade de Educação Teológica - dividualidade, razão pela qual só lhe resta o recurso de defender sua individualidade contra a comunidade; no segundo tipo, ao contrário, ele encontra condições ótimas para a explicitação de sua individualidade. Assim, na verdade, já respondemos à questão de saber o que um homem deve fazer quando existe, na sua sociedade, uma comunidade de conteúdo axiológico positivo: não há dúvida de que deve escolher essa comunidade, a fim de que se explicitem suas capacidades e de que sua individualidade possa desenvolver-se. Bem mais problemática parece a réplica: que deve fazer o homem se sua sociedade não apresenta nenhuma comunidade de conteúdo axiológico positivo? A substância portadora dos valores é a própria história humana; e ela não se objetiva apenas em comunidades. Supondo — ainda que sem admiti-lo — que uma sociedade não 16 Georg Lukács, Werke, vol. 5, Probleme des Realismus II, Der russische Realismus in der Weltiteratur, Luchterband, Ncuwicd und Berlim, pp. 417-471
  • 101.
    Prática Curricular IV permitisseo desenvolvimento de nenhuma comunidade de conteúdo axiológico positivo, poder- se-iam realizar valores em outras numerosas objetivações: na arte, na ciência, na produção, etc. E, ainda que o indivíduo não pudesse produzir em nenhuma dessas esferas, continuaria a ter oportunidade de escolher possibilidades positivas. Pode encontrá-las nas objetivações, no mundo intelectual e nas normas de épocas passa-das, e pode escolher os valores aí contidos, convertê-los em valores próprios, hipostasiá-los no futuro, etc. O fato de que o indivíduo, com uma tal escolha, entre em contraposição com as comunidades de seu tempo não anula um dado efetivo: o de que ele está escolhendo uma comunidade, ainda que apenas idealmente. O indivíduo decide-se por uma comunidade com aqueles que, em épocas passadas, produziram aqueles valores; decide-se em favor da integração que venha a defendê- los no futuro. Sem uma tal comunidade ideal não existe indivíduo realmente livre, dotado de 101 conteúdo axiológico positivo. Tão-somente o indivíduo que renuncia à humanidade e, consequentemente, à realização de valores em geral pode se abster de escolher uma comunidade: quem escolhe um valor e aspira à sua realização (e as duas coisas são www.facete.com.br inseparáveis) escolhe também, no mais amplo sentido da palavra, uma comunidade. Decerto, partimos do pressuposto de que existem épocas que não concedem nenhuma possibilidade de explicitação de comunidades de valor axiológico positivo. Mas não o afirmamos: não acreditamos na existência de épocas desse tipo. Ê evidente que existe uma grande diferença entre o fato de que uma comunidade de conteúdo axiológico positivo seja ca- racterística de uma época ou uma situação apenas excepcional, entre o fato dessa comunidade se desenvolver dentro da tendência principal de desenvolvimento ou o fato de fazê-lo contra a corrente, entre o fato de que possua um âmbito de influência (política, por exemplo) extenso Faculdade de Educação Teológica - ou se limite a um estreito círculo de amizades. Mas, de um ou de outro modo, de um modo amplo ou reduzido, com maior ou menor âmbito de influência, pode-se sempre encontrar uma possibilidade para comunidades desse tipo: e todo verdadeiro indivíduo as merece. O homem, enquanto ser humano-genérico, não pode conhecer e reconhecer adequadamente o mundo a não ser no espelho dos demais. A resistência do homem a uma comunidade de conteúdo axiológico negativo não é simplesmente resistência do "indivíduo" à comunidade, mas oposição do indivíduo a uma determinada comunidade, e precisamente em nome dos valores encarnados por outra comunidade (mesmo que só relativamente), ou dos valores ideais de uma comunidade que existiu no passado e que talvez seja agora postulada para o futuro. Portanto, em toda época, pelo menos em princípio, é possível criar uma comunidade de conteúdo axiológico positivo; mas — e essa limitação tem muita importância — não para
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    Prática Curricular IV todos. Existem épocas em que o ato de criar uma comunidade e desenvolver através dela a individualidade requer capacidades tão extraordinárias, um emprego tão intenso de energia moral e intelectual, que só os indivíduos representativos conseguem fazê-lo. Em outras palavras: os homens capazes de criar uma comunidade desse tipo convertem-se necessariamente em indivíduos representativos. A "sociedade de massas" manipulada preenche essas condições negativas. Recordemos nossas anteriores afirmações sobre a "sociedade de massas": ela impos- sibilita cada vez mais a decisão individual, sem a qual não se pode imaginar a comunidade, sobretudo a partir do momento em que a escolha da comunidade converteu-se em requisito da participação nela. O grupo manipulado não funciona como comunidade, visto que, de "resultante" de sujeitos, converteu-se num mero objeto, numa "coisa". Nesses grupos, a aspiração à comunidade e a formas comunitárias (idênticas com aquelas da individualidade e 102 com a reivindicação da explicitação dessa) converteu-se numa ação cada vez mais excepcio- nal, heróica e infrenquente. Como já dissemos, a sociedade não pode em sua totalidade tornar-se uma comunidade. Mas depende da totalidade da sociedade — inclusive de sua estrutura econômica www.facete.com.br — a medida em que é possível a configuração de comunidades de conteúdo axiológico positivo e o tipo dos indivíduos aos quais se torna acessível essa possibilidade, ou seja, se apenas aos indivíduos representativos ou se, pelo menos em princípio, a todo membro da sociedade. Quando falamos de perspectiva socialista, hipostasiasmos uma sociedade cuja estrutura oferece a todos essa possibilidade de princípio, uma sociedade construída com comunidades organizadas por indivíduos e produtora de valores positivos. E, se alguém nos perguntar o que é preciso fazer hic et nunc, responderemos: é preciso organizar e assumir Faculdade de Educação Teológica - comunidades cujo objetivo seja o encaminhamento ou a aceleração do processo social que possibilita o nascimento dessa sociedade.
  • 103.
    Prática Curricular IV SOBRE OS PAPÉIS SOCIAIS Os pressupostos do papel social na estruturana vida cotidiana A FUNÇÃO "papel social" não nasce casualmente, nem do nada, mas resulta de numerosos fatores da vida cotidiana dados já antes da existência dessa função e que continuaram a existir quanto ela já se tiver esgotado. Ao estudar a categoria "papel social" de um modo "puro", ou seja, abstrato, segundo sua forma clássica de manifestação, não pretendemos negar que numerosos indícios e numerosas componentes da atitude própria do 103 papel social já estejam, dados de modo geral na existência social do homem, e, pelo menos, possam reivindicar um passado bem mais longo que a existência da função "papel social". Ademais, não há nenhuma fronteira rígida entre os comportamentos destituídos do caráter de www.facete.com.br "papel" e aqueles que o possuem. Quais são esses fatores gerais? Mesmo a vida social mais elementar seria inimaginável sem imitação. A mímese humana distingue-se daquela animal já em suas formas mais primitivas; com efeito, o homem é capaz de imitar não apenas momentos e funções isolados, mas também inteiros modos de conduta e de ação. Baseia-se igualmente na mímese a assimilação de papéis, pois sem a imitação ativa da totalidade de um comportamento não haveria essa assimilação de papéis. Mas, nessa afirmação, deve-se acentuar a idéia de atividade. Pois mesmo a imitação humana Faculdade de Educação Teológica - mais mecânica é assimilação ativa. O homem não pode alienar-se de sua natureza de um modo absoluto, nem sequer nesse terreno. A imitação manifesta-se sobretudo como imitação dos usos. Em todos os estágios do desenvolvimento social, o homem nasce num mundo já "feito", numa estrutura consuetu- dinária já "feita". Deve então assimilar esses usos, do mesmo modo como assimila as experiências de trabalho. Desse modo, toma posse da história humana, "ingressa" na história, e esse é o marco em que o homem consegue se orientar. Nos vários terrenos da realidade constroem-se estruturas consuetudinárias diferentes. O homem jamais se enfrenta com usos isolados; ele os "aprende" numa totalidade relativa, como sistema, como estrutura. O caráter estruturado do uso, a presença simultânea de várias reações consuetudinárias (sistema tanto mais complexo quanto mais desenvolvida é a sociedade), é um dos pressupostos da função "papel". A sociedade não poderia funcionar se não contasse com sistemas consuetudinários de
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    Prática Curricular IV certo modo estereotipados. Esses sistemas constituem o fundamento do sistema de "reflexos condicionados" do homem, sistema que permite aos membros de uma sociedade mecanizar a maior parte de suas ações, praticá-las de um modo instintivo (mas instintivo por aquisição, não como resíduo de uma estrutura biológica), ou seja, concentrar o pensamento, a força moral, etc, nos pontos concretos exigidos pela realização de novas tarefas. Se tivéssemos de decidir através de demorada reflexão se vamos ou não saudar a alguém, se vamos ou não acender a luz, o que temos de fazer para obter alimentos, etc, não nos restaria tempo algum não apenas para uma ocupação livre, mas nem sequer para o trabalho habitual. Por tudo isso, torna-se necessário, na convivência social, um determinado plano de reações mecânicas fornecidas pelo "papel", mesmo nos casos em que não se trata propriamente de funções do tipo papel. 104 O mesmo podemos dizer da assimilação da hierarquia de valores morais. Até o homem mais autônomo e mais moralmente consciente é incapaz de avaliar moralmente todos os passos que dá, todas as atitudes que toma. Sempre existem na vida humana determinados pontos nevrálgicos nos quais se projetam muito intensamente os problemas da escolha moral. www.facete.com.br Mas esses problemas brotam do solo de uma hierarquia de valores já assimilada, que é afirmada ou negada pelo homem em questão; e, apesar disso, não podem se repetir arbi- trariamente no momento em que se deseja. Assim, por exemplo, há decisões das quais decorrem outras de modo mais ou menos necessário, do ponto de vista do sujeito, à maneira de uma rotina. Não é pelo fato de assumir um sistema de valores previamente construído que o portador de um "papel" converte sua função em "papel". A tradição e a moda são formas particulares de manifestação do sistema Faculdade de Educação Teológica - consuetudinário e também, até certo ponto, do sistema de valores. A tradição ganha maior importância na estrutura social orientada para o passado, enquanto a moda predomina naquela orientada para o futuro. As sociedades pré-capitalistas orientavam-se essencialmente para o passado. Isso implicava não apenas numa estabilidade relativa dos usos assimilados, mas também na orientação da totalidade da vida pela atitude das gerações anteriores, dos antepassados. Os filhos imitavam os pais, os netos imitavam os avós; e isso ocorria em todos os aspectos da vida, das experiências da produção até a moral. Essa situação acarretava, entre outras consequências, o prestígio dos anciãos, e a idade se tornava portadora de múltiplos valores. Os velhos eram os que melhor conheciam as experiências do passado e os mais capazes de resumi-las de modo útil. Com a ascensão da sociedade burguesa, a orientação para o futuro começa a se impor crescentemente, a partir do Renascimento, no sistema da convi- vência humana.
  • 105.
    Prática Curricular IV A possibilidade de uma produção indefinida que não se limita ao essencial (Marx) produz no homem a necessidade de modificar-se permanentemente, de renovar-se, de transformar-se. Essa necessidade de novidade, a necessidade de transformarmos constantemente tanto a sociedade quanto nós mesmos, é uma das maiores conquistas da história humana. Mas, com a crescente alienação, também essa conquista converte-se em seu contrário. A orientação para o futuro termina por transformar-se em moda. Da mesma maneira como vão se estereotipando os sistemas funcionais da sociedade, do mesmo modo como os tipos de comportamento tendem a converter-se em "papéis", assim também a orientação para o futuro transforma-se na necessidade de não ficar atrasado com relação à moda. Quem quer então desempenhar adequadamente seu papel não pode se permitir o menor atraso com relação à moda; tem de segui-la passo a passo, tem de submeter-se a seu arbítrio, tanto no 105 sistema consuetudinário geral quanto no vestuário ou nas esferas estéticas da vida (decoração da habitação, sensibilidade artística, etc). A moda, portanto, é a manifestação alienada da orientação para o futuro, encontrando-se em relação necessária com o crescimento da www.facete.com.br categoria de "papel". Isso não implica em que a orientação para o passado tenha desaparecido inteiramente na época do capitalismo desenvolvido. Pode, ao contrário, ser até mesmo dominante nas camadas sociais em que o capital penetrou apenas de modo relativo. É o caso, por exemplo, dos pequenos camponeses, ainda que mesmo aqui o fenmeno esteja em regressão. Tampouco se trata de afirmar que a orientação para o passado não esteja absolutamente presente na cristalização dos comportamentos sob a forma de papéis; certamente está, mas apenas com importância secundária. A sociedade humana tem a propriedade essencial de que o caráter público das ações Faculdade de Educação Teológica - influi nas próprias ações. O comportamento global dos homens transforma-se quando eles es- tão colocados diante do público, diante de seus olhos e diante de seu julgamento; os homens, nesses casos, adotam uma "postura" num sentido redundante. Isso se deve, em parte, ao fato de que — colocado no meio público — o homem sente mais intensamente o dever de representar a humanidade, de dar exemplo. Quem grita um viva à pátria no patíbulo, quem declara no leito de morte seu legado moral à família reunida, o menino que se atreve a dizer a verdade ao professor diante de seus companheiros, "superam-se a si mesmos". Por outro lado, é inegável que o homem vê muitas coisas de outro modo quando se encontra sob uma luz pública. Quem cometeu um erro é capaz de vê-lo muito melhor diante do público, e não por oportunismo, mas porque a presença da comunidade funciona como um catalizador: nessa situação, é possível reconhecer os próprios erros, os quais, em outras situações, passariam desapercebidos. Mas isso não significa que os homens desempenhem um papel diante do
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    Prática Curricular IV público como consequência de sua essência social; na verdade, o que fazem é ser mais sinceros. Quem se abandona ao medo da morte não é "mais sincero" do que quem a espera serenamente; e quem dissimula seus erros não é "mais sincero" do que quem os vê, etc. De resto, ao dar o exemplo, ao nos autocontemplarmos com os olhos do público, a presença da comunidade nem sempre é materialmente necessária. A pessoa intimamente vinculada com as normas da comunidade sente a presença da sociedade mesmo quando esta não está presente, mesmo quando a pessoa em questão está sozinha. O revolucionário executado em segredo, sem ser visto por ninguém, costuma comportar-se de modo nobre e sublime. Em sua mente, está presente a comunidade. E seria possível, de um homem assim, afirmarmos que está apenas representando seu papel diante de si mesmo? De nenhum modo. O ato de assumir uma postura em público não tem nada a ver, em si mesmo, com o desempenho de um papel. Mas 106 não há dúvida que é um pressuposto desse desempenho. Pois, dado que o comportamento humano se decompõe em vários clichês estereotipados e dado que a personalidade autônoma do homem pode perder-se inteiramente nesses clichês, nos casos em que isso se verifica a diferença gradual, a diferença de intensidade sempre existente entre a atitude "solitária" e a www.facete.com.br atitude "pública" pode converter-se no oposto do acima dito. Nesse caso, o homem em público representa um papel, um papel em sentido literal, "dá seu espetáculo", expressa opiniões, estados de espírito, julgamentos, etc., que talvez nada tenham em comum com os que lhe são próprios. Um exemplo de clichê obrigatório destinado ao público é o "keep smiUng" de moda, o sorriso obrigatório, o otimismo incondicional exigido. Mesmo o homem mais pro- fundamente desesperado sorri constantemente por necessidade, apresenta-se como "otimista", bem humorado, porque o ambiente público espera isso dele. A cisão da personalidade do palhaço Faculdade de Educação Teológica - converte-se em norma de toda a sociedade. A unidade que se manifesta na diversidade, na dialética interna e externa desse fenômeno, não tem importância apenas na relação da solidão com a publicidade. Revela-se igualmente em muitos aspectos da personalidade, pois a multiplicidade da personalidade humana é uma resultante da complexa totalidade de suas relações sociais. Mas não há nenhum homem (nem nenhuma comunidade) que conheça cu seja capaz de conhecer o outro indivíduo em todas as suas relações, na totalidade de suas reações. Tanto as pessoas quanto as co- munidades podem conhecer ou captar, sempre, tão-somente aspectos isolados da personalidade, da essência dos indivíduos. Mas isso não implica, de nenhum modo, em uma contraposição necessária entre "essência íntima" e "manifestação exterior". Por um lado, todo homem pode — mediante suas experiências sociais e individuais — obter um conhecimento do homem que lhe permita averiguar se um determinado indivíduo se manifestou num ato
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    Prática Curricular IV importante,decisivo, essencial, ou seja, se determinadas ações do sujeito que ele quer conhecer expressam algo decisivo acerca da sua essência. Com esse conhecimento dos homens, pode-se também avaliar a possibilidade de inferir o comportamento de um indivíduo em situações futuras, ou a atitude do homem inteiro, partindo dessa ou daquela ação. É evidente que uma inferência desse tipo será apenas em raríssimos casos uma operação lógica; no mais das vezes, tratar-se-á de uma intuição. O conhecimento dos homens pode evidentemente se equivocar, mas apenas na medida em que qualquer conhecimento pode se equivocar, na medida em que todos eles levam em si a possibilidade do erro. E nada disso altera o fato de que, apesar da diferença entre a essência e a manifestação do homem, é possível inferir a "interioridade a partir da exterioridade", e, ademais, é imprescindível fazê-lo. O aparecimento de estereótipos dificulta extraordinariamente as tarefas do 107 conhecimento dos homens. Pois, quando o homem desempenha um papel, é perfeitamente possível que não se "manifeste" de modo algum naquilo que faz e que suas relações sociais (por numerosas que sejam) não aumentem a variedade de sua substância. Na estrutura própria www.facete.com.br do papel, degradam-se as relações sociais, que deixam progressivamente de ser elementos qualitativos para serem apenas quantitativos. Por muitos que sejam os papéis desempenhados por um sujeito, sua essência se empobrecerá. Portanto, o conhecimento dos homens é dificultado não apenas pelo fato de que a "exterioridade" em demasia encubra a "interioridade", mas também porque a própria interioridade se empobrece. Também aqui estamos diante da alienação de uma propriedade característica do homem. Mas a função "papel" jamais pode esgotar a totalidade dos comportamentos humanos (do mesmo modo como a alienação nunca é absoluta), de maneira que o conhecimento dos homens, embora seja dificultado, não chega de Faculdade de Educação Teológica - nenhum modo a tornar-se impossível. Outro aspecto da diferença entre exterioridade e interioridade ganha também importância no comportamento do tipo "papel": em situações diferentes e na resolução de diferentes problemas, explicitam-se inevitavelmente no homem valores igualmente diversos. A colocação das tarefas atualiza valores potenciais que, sem esse complexo problemático, jamais superariam a condição de mera possibilidade, jamais passariam à existência. Quando, ao terminar uma tarefa, alguém se empenha em resolver outro problema, não se limita a trocar de papel, mas começa a mudar a si mesmo na medida em que a nova tarefa reclama outras qualidades. Uma pessoa, por exemplo, empregava métodos terroristas quando estava situado no cume da hierarquia social, mas depois, ao ser derrubado, con-verte-se num tolerante; não é inevitável — e, ao contrário, é até infrequente — a conclusão de que num e noutro caso tenha assumido um papel adequado à situação em questão; também é perfeitamente possível que,
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    Prática Curricular IV quando de sua queda e posteriormente, tenha reexaminado sua vida anterior, tenha atravessado uma catarse, uma crise, na qual realmente se transformou . Nesses casos de mudança de função, a transformação real nunca é igual a zero. É um fato elementar que o indivíduo desenvolve capacidades diferentes na execução de tarefas diferentes; e que, em diferentes situações, consegue inverter a atitude de todo o seu ser moral, ou seja, que a "interioridade" do homem transforma-se em interação com a sua exterioridade. Mas, na medida em que os modos de comportamento convertem-se em papéis estereotipados, as transformações se mantêm como meras aparências (sem esquecer que, como dissemos, essas transformações aparentes jamais são absolutamente aparentes, jamais absolutamente nulas). Quando os papéis são múltiplos e intensamente mutáveis, a situação exige do homem uma rica e mutável explicitação de suas habilidades técnicas, de sua capacidade de manipulação. Também e precisamente nesse caso a 108 alienação significa que o enriquecimento das capacidades técnicas e manipulatórias não ocorre paralelamente ao enriquecimento do homem inteiro (de sua essência social-moral), ou seja, — e para voltarmos ao problema aqui analisado, — significa que a mudança de papel não implica absolutamente numa transformação do homem. O fenômeno é expresso de modo bastante www.facete.com.br plástico no drama O Vigário, de Rolf Hochhuth. O autor apresenta numerosos fascistas, "burocratas da morte", que prestaram "serviço" nas câmaras de gás de Auschwitz. E esses mesmos homens, sem a menor alteração de sua essência, são hoje comerciantes, especialistas industriais, juízes. Hochhuth sublinha precisamente o fato de que essas pessoas mudaram muito pouco, de que viveram e praticaram sem a menor catarse- as monstruosidades do fascismo e sua posterior revelação pública, etc, e que neles a mudança de ocupação é uma simples mudança de papel, no sentido primário de uma mudança de papel no palco. Quanto Faculdade de Educação Teológica - mais se estereotipam as funções de "papel", tanto menos pode "crescer" o homem até a altura de sua missão histórica, tanto mais infantil permanece. Ao se generalizarem, os comportamentos de tipo "papel" modificam a função do dever- ser na vida cotidiana. No dever-ser, revela-se a relação do homem inteiro com os seus "de- veres", com suas vinculações, sejam essas económicas, políticas, morais ou de outro tipo. Todos conhecemos, enquanto expressão de fatos da vida, fórmulas de exortação como: "tenho de estar no escritório às oito, "devo ser sincero nesse ponto", "hei de levar sempre uma vida honrada", "tenho de me casar com essa garota", bem como "tenho de escovar os dentes", etc. Não menos conhecido é o fato de que o dever-ser entrelaça-se frequentemente com o fato da representação. Tenho de comportar-me, per exemplo, como um cavalheiro, tenho de saber resistir se sou bom marinheiro, etc. Nesses casos de dever-ser, eles podem se referir a um fato singular, a um só assunto, bem como a inteiros complexos de comportamento. Assim, por
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    Prática Curricular IV exemplo,a exortação "tenho de comportar-me como um cavalheiro, ou como um marinheiro" não se refere apenas a um aspecto do comportamento, mas à sua totalidade. Com efeito, a autonomia do homem, sua possibilidade de escolher, sua liberdade no sistema dos casos de dever-ser, revela-se apenas quando tal sistema contém igualmente o dever-ser moral. Se o dever-ser referente ao complexo global do comportamento se torna exclusivo, então chega-se a reprimir ou abolir o dever-ser moral, dissipando-se também a autonomia, a verdadeira alternativa moral, a liberdade do homem. Mas, em situações sociais não alienadas, ou alienadas apenas parcialmente, o dever-ser referido a inteiros complexos de comportamento não apenas não reprime o dever-ser moral, mas até mesmo o pressupõe. Assim, o pathos básico da vida de Antígona apóia-se no fato de que deve-ser uma boa irmã, ou seja, de que esse dever-ser refere-se ao complexo de comportamento "ser irmã". Como, apesar das ameaças de 109 Creonte, ela decide se manter fiel à tradição moral, decide ao mesmo tempo acerca do modo de cumprir o dever-ser referente ao "ser irmã". Em troca, quando os complexos de comporta- mento se cristalizam em papéis, não se pode sequer colocar a questão do "como". Sou www.facete.com.br camareiro, portanto comporto-me como camareiro, como deve comporíar-se um camareiro; sou mãe, portanto faço aquilo que uma mãe deve fazer, etc. Os estereótipos descrevem detalhadamente o que uma mãe ou um camareiro devem fazer; e, na medida em que os aspectos morais do dever-ser se atrofiam, não pode mais se apresentar a questão de saber se efetivamente serei uma mãe tão boa quanto prescreve o papel, ou se basta como conteúdo de uma vida o exato cumprimento dos deveres de camareiro. O dever-ser converte-se numa exigência puramente externa e minha atitude será uma simples adaptação. Observamos, de passagem, que a conexão dos aspectos do dever-ser é muito mais complicada na realidade. Faculdade de Educação Teológica - Não apenas os casos de dever-ser moral e os casos de dever-ser referentes aos complexos de comportamento se encontram ligados através de numerosas transposições e sobreposições; essa ligação ocorre também, por exemplo, nas situações de dever-ser político. Seria ridículo, por exemplo, pretender que o operário em greve atua contra o dever-ser de seu papel de operário, embora o ato de trabalhar seja indubitavelmente um elemento do conceito de ope- rário. Mas o indivíduo é um operário consciente precisamente na medida em que derruba, afasta e recusa o papel que lhe é prescrito pelos patrões. A recusa do papel é característica daqueles que não se sentem à vontade na alienação. Mas o conflito entre os casos de dever-ser, e, neste caso, o conflito moral, que se expressa de modo particular, são inevitáveis na medida em que um homem não submete incondicionalmente todo o seu ser ao papel que desempenha num dado momento. Por isso, os representantes da teoria do papel são inimigos irreconciliáveis de todo conflito. Interpretam os
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    Prática Curricular IV conflitos como "defeitos de organização", como "perturbações funcionais" corrigíveis; alguns chegam a interpretá-los como "complexos", como perturbações psíquicas. Mas o conflito é a rebelião das sadias aspirações humanas contra o conformismo: é uma insurreição moral, consciente ou inconsciente. (É evidente que isso não pode ser dito de todo e qualquer tipo de conflito). O dever-ser descreve sempre, de um modo conceitual-mente acessível, a relação do homem com sua obrigação. A obrigação manifesta no dever-ser pode ser uma meta do ho- mem, mas não tem necessariamente de sê-lo. Também c ideal contém algo assim como uma exigência, mas esse seu traço característico revela-se muitas vezes inacessível ao conceito. Assim, por exemplo, muitos meninos dizem querer ser como Júlio César, mas sem especificar, sem poder descrever com exatidão os traços, as virtudes, etc, do personagem que 110 os atrai. Não é impossível encontrar os momentos do ideal no comportamento de tipo "papel". Quem deseja assimilar o papel de camareiro, ou o que se sente feliz desempenhando o papel de noivo, não se coloca diante do conceito abstrato de camareiro ou de noivo, da totalidade dos direitos e, deveres e complexos consuetudinários abstratos correspondentes a tais www.facete.com.br conceitos. É mais certo que escolha como ideal um determinado camareiro ou noivo, passando a assimilar — no ato de imitá-lo — o correspondente comportamento de "papel". A alienação enquanto estereotipia não se revela no fato de que os homens escolham ideais e os imitem em seu comportamento. Esse é um momento necessário do desenvolvimento da personalidade humana. Na concreta escolha do ideal, na autonomia concreta, na liberdade com a qual se escolhe o ideal é que se revela se na sociedade surgem personalidades múltiplas dentro de um determinado complexo de comportamento, de modo a se tornar possível uma Faculdade de Educação Teológica - variada escolha do ideal; e revela-se, ademais, se mediante a assimilação de tais complexos de comportamento é possível alguém desenvolver-se realmente como personalidade autônoma. Hollywood, por exemplo, produz anualmente a "mulher ideal" de cada temporada, divulga-a em suas películas; todas as garotas, então, querem tornar-se esse ano precisamente como a "mulher ideal", enquanto todos os homens passam a desejar esse tipo de mulher. Nessa situação, a personalidade individual, o indivíduo, não pode se explicitar na escolha do ideal, pois o ideal é mercadoria, e o homem não é criador, mas consumidor de ideais. Nesse caso, a escolha do ideal não pode ser considerada como um grau de desenvolvimento da personalidade no sentido de uma elevação na qual se torne possível até mesmo recusar o ideal, mas sim uma muleta inteiramente exterior, substituída constantemente — e de modo absolutamente independente da personalidade e da vontade do indivíduo — por outras muletas não menos exteriores. Mas, dado que o ideal é sempre um objetivo, isso significa que
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    Prática Curricular IV ohomem recebe seus ob-jetivos já prontos e acabados para o consumo, e sempre de um modo acidental com relação à essência humana pessoal. Isso significa que os ideais de um papel conduzem tão-somente ao empobrecimento, à atrofia do homem. Levam simplesmente a uma direção manipulada e, mecanizada do comportamento. É possível aprender com qualquer um as operações e os gestos correios de uma profissão; mas não é possível aprender a "cortejar" com alguém que saiba fazê-lo. Para terminar nossas considerações, podemos afirmar que as formas de comportamento, os métodos e os conteúdos cog-noscitivos e éticos que aparecem na função "papel" já existiam antes que aparecesse essa função. Contudo, todos eles — a imitação, o uso, o sistema de "reflexos condicionados", a tradição, a orientação para o futuro, a publicidade, a diferença entre o interior e o exterior, a transformação da personalidade, a 111 explicitação de capacidades diferentes em diferentes situações, o dever-ser e o ideal — aparecem no papel de modo alienado. Em seguida, vamos estudar de dentro a categoria "papel". Primeiro, em seu aspecto objetivo, do ponto de vista de sua posição no sistema das www.facete.com.br relações sociais; e, depois, com referência ao sujeito, de acordo com o aspecto de sua relação com o papel do homem. Indivíduo e papel social Já indicamos que o comportamento do indivíduo com relação ao seu papel ou a seus papéis pode variar muito. E essas variações são praticamente inesgotáveis. Mas, de qualquer modo, se prescindirmos das formas de transição, podemos distinguir quatro comportamentos fundamentais, quais sejam: 1) identificação; 2) distanciamento aceitando as regras de jogo Faculdade de Educação Teológica - dominantes (incógnito dissimulado); 3) distanciamento recusando intimamente as regras de jogo dominantes (incógnito oposicionista); 4) recusa do papel. A plena identificação com o papel ou os papéis é precisamente a forma direta de revelar-se a alienação. Nesse caso, chega-se a perder a continuidade do caráter, chega-se à completa atrofia, à dissolução da personalidade. Típico exemplo literário é Peer Gynt, que — após uma vida mais do que rica em aventuras e aparentemente muito variada — volta a sua pátria e vê-se obrigado a constatar que, como as cebolas, só tem cascas e nenhum núcleo. Essas cascas são os vários papéis, enquanto o núcleo humano inexistente é a personalidade dissipada. Diferentemente dessa atitude, no incógnito dissimulado o homem não se identifica com seu papel. É capaz de penetrar no papel e em sua função social. Por isso, tem uma persona- lidade que não se dissipa, que não se aniquila. Mas, dado que a preservação de sua
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    Prática Curricular IV personalidade corre paralelamente à aceitação e aproveitamento da realidade (realidade que ele aceita tão mais prazerosamente quanto pior ela é), essa personalidade torna-se demoníaca, amoral. Ninguém o conhece, mas ele conhece todos e tem todos em suas mãos, de tal modo que — para aludir apenas a um exemplo — pode se distrair, como o faz Tartufo, com os honestos cidadãos que perderam a capacidade de ver através dos papéis. Mas é extremamente importante e nunca se sublinhará em demasia o fato de que todos esses jogadores demoníacos que vivem no incógnito não podem jamais evitar seu colapso final, por muitas que sejam as almas que tenham confundido e dominado. É o que podemos depreender, em todo caso, da arte e da história. Cippola enganou muitos cavalheiros de Romat mas no final chega Mário e dispara sua arma contra ele17. E isso indica uma coisa não menos importante: que todos os experimentalistas que podemos encontrar entre os criminosos da literatura e da história — ou 112 seja da vida — compartilham os preconceitos da moderna filosofia burguesa. Com efeito, todos eles desprezam tanto os pobres homens que desempenham seus papéis que passam a considerar a fetichização como algo absoluto e definitivo, acreditando assim que é possível manipular o homem tanto quanto se queira. Mas sempre acontece que, na realidade, os homens www.facete.com.br não são manipuláveis indefinidamente e em qualquer direção, pois sempre existe um ponto limite, um limes no qual deixam de ser objetos e se transformam em sujeitos: que existe um ponto além do qual já não é mais possível confundir os homens e os povos. Esse ponto pode surgir em lugares diferentes quando se trata de homens diferentes, ou seja, um homem poderá ser arrastado a uma situação de desumanidade diante da qual outro já terá gritado "basta!". E também nos vários povos esse ponto se situa em locais distintos; basta comparar, para exemplificá-lo, o fascismo alemão com o italiano. A localização do ponto varia também Faculdade de Educação Teológica - segundo as classes: o pequeno burguês (visto, certamente, no nível médio da sua classe) é moralmente mais débil que o operário, etc. Mas, em todos os casos, o ponto sempre existe. A estrutura psicológica básica do homem situado num incógnito de oposição parece-se formalmente com a do homem em incógnito dissimulado. Também o de oposição representa, em maior ou menor medida, o papel que lhe é exigido no mundo, mas não abandona seu núcleo humano, já que distancia sua personalidade daquele papel; todavia, no que se refere ao conteúdo e à moralidade desse comportamento, trata-se de um fenómeno inteiramente diverso do anterior. O homem situado num incógnito de oposição encontra-se em contraposição com o mundo em que vive; não despreza os homens que representam ingenuamente os vários papéis, mas sim o mundo que lhes prescreve tais papéis. Preserva as normas morais de tempos passados ou tem uma marcada sensibilidade para com as normas morais de épocas futuras. 17 Personagens e situações da novela Mário e o Mago, de Thomas Mann (Nota dos Tradutores).
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    Prática Curricular IV Nãose sente à vontade na realidade; esta lhe faz sofrer, assim como também sofre por causa dos papéis que tem de representar. Gostaria de manifestar-se, de depor o seu incógnito, de estabelecer con-tatos com os homens, de travar relações; mas não encontra nenhuma comunidade em que isso seja possível. Já não é mais um conformista, mas tampouco chega a ser um revolucionário. Esse comportamento é muito frequente entre os melhores re- presentantes da intelectualidade burguesa. Para descrevê-lo mais plasticamente, transcreveremos uma bela poesia de Ârpád Tóth, o conhecido poeta húngaro: Mascarado (Âlarcosan) Estou mal-humorado? Sou taciturno, fechado, talvez frio? Perdoa-me. Se eu pudesse, gostaria de oferecer em abundância toda a luz, todo o calor do mundo. 113 Palácios. Palmeiras. Danças. A Riviera infernal com violetas, ou, pelo menos, de quando em vez, uma feliz, uma rica hora de companhia. Mas agora é tão difícil. Agora não posso mentir nem roubar nenhum raio. Serei derrotado www.facete.com.br numa convulsa luta sem glória. Esse é o tempo do Anticristo. Brilha a repugnante sujeira dourada do mundo. E entram no Céu: nadas engravatados, canalhas sutis. Mas eu luto aqui em baixo; e ninguém nem vê esses tormentos que me queimam nas noites do meu [silêncio. Tem paciência. Ainda hão de chegar os dias de harmoniosa música. Faculdade de Educação Teológica - Tem paciência. Enquanto puderes, continua a ser o porto que me espera, meu refúgio em [flores. Agora levo uma máscara fria e obscura, mas dela me libertarei. Porque, se não o fizer, encharcada de lágrimas ela cairá aos pedaços em teu seio. E tu então me acalentarás, me acalentarás em teu colo até a morte. No caso daquele que recusa um papel, a categoria "distanciamento é superada, conservada e elevada a um nível mais alto. Esse homem já não se distancia do papel, nem tenta preservar sua personalidade através do papel, mas a realiza sem inserir-se na ordem dos comportamentos de tipo "papel". Trata-se sempre de um rebelde, ainda que não neces- sariamente de um revolucionário. É evidente que existem recusas de papel que são uma
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    Prática Curricular IV questão puramente privada. Nesses casos, quem consuma essa recusa não se preocupa abso- lutamente com o problema de saber se, para os outros, os comportamentos do tipo "papel" são ou não obrigatórios. Ele se limita a negar essa obrigatoriedade para si mesmo. Há épocas nas quais esse tipo de recusa do papel entra na moda, como ocorreu com o costume de "épater le bourgeois", praticado pela juventude intelectual de princípios do século. Shaw construiu numerosos excêntricos desse tipo, como, por exemplo, o Senhor Trefusis, que se recusa a vestir luto pela morte de sua mulher tão-somente porque é isso que esperam dele. A expectativa tem sempre efeitos negativos sobre o excêntrico, pois esse faz sempre, intencionalmente, o contrário do que esperam que ele faça. (Ademais, Shaw mostrou — com grande agudeza — que esse tipo de atitude excêntrica é um luxo, já que é necessário muito capital para poder mantê-la). De qualquer modo, observaremos aqui que a recusa particular de papéis não se 114 converte necessariamente em excentricidade, embora isso seja muito provável, tendo em vista que não existe nenhuma norma sócio-moral com a qual medir o conteúdo moral da realização da personalidade. Por isso, nesses casos, a realização da personalidade é sempre problemática. Em troca, aquele que recusa o papel por motivos revolucionários não apenas subtrai www.facete.com.br sua própria pessoa ao jogo dos papéis, mas também se opõe à base econômica e política de determinadas funções de papel e se propõe a abolir a sociedade que produz os costumes e usos determinados que se cristalizaram em papéis. Que se pense, por exemplo, em Lênin, que era inimigo radical de todos os clichês de comportamento, mas apesar disso insistiu na conservação das normas tradicionais elementares, embora nos clichês de comportamento expres-sem-se precisamente, com frequência, de um modo fetichizado c alienado, essas normas. Faculdade de Educação Teológica - A relação geral média com os papéis se apresenta, decerto, nos períodos históricos relativamente tranquilos, como de identificação, como perda de si mesmo na simultaneidade e na sucessão dos papéis representados. Nesse processo, o interesse é sempre a determinante mais abstraía e mais universal. Isso pode ser visto claramente nos casos conflitivos, mas se trata de uma situação que — embora possa ser latente — existe em todos os casos. A determinante universal mais concreta é a socialidade do homem, a aspiração de todo homem no sentido de que essa socialidade se realize em contatos externos, em relações humanas. No princípio de minha exposição, referi-me ao fato de que o capitalismo desenvolvido aliena todas as relações humanas, cristalizando em papéis todos os sistemas consuetudinários, todas as hierarquia de comportamento, etc., de tal modo que os fatos vitais imprescindíveis para a convivência humana, tais como a imitação, os estereótipos básicos, a relação com a tradição, os costumes, etc, passam a aparecer sob a forma de papéis. Para a média dos homens, é prática
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    Prática Curricular IV eteoricamente impossível distinguir entre as estruturas valiosas ou relativamente valiosas da tradição, etc, e a sua função de papel. Para efetuar essa distinção, são necessárias capacidades intelectuais incomuns, bem como uma força moral extraordinária. Essa possibilidades aumentam subitamente em épocas revolucionárias, mas os períodos de crise revolucionária aguda são relativamente curtos se comparados com todo o desenvolvimento capitalista. Quanto mais desenvolvido é o capitalismo, quanto mais encobertas são suas manifestações de crise, tanto mais heróico vai se tornando até mesmo o mero comportamento médio estóico que se distancia do papel. Embora tenhamos estabelecido uma relação entre a identificação com o papel e a alienação, com isso não queremos afirmar que haja sempre uma razão direta entre a medida dessa identificação e a alienação. A situação está determinada em grande parte pela relação 115 entre as concretas possibilidades dadas à personalidade e o papel concreto em questão. Existem, por exemplo, possibilidades pessoais que podem ser desenvolvidas — ainda que limitadamente — em determinados papéis. Nesses casos, naturalmente, a alienação será menor www.facete.com.br do que quando o papel em questão ou o sistema de papéis for contrário às possibilidades pessoais de um homem em todos os terrenos. De modo análogo, as motivações psicológicas conscientes ou inconscientes da identificação podem diferir muito; e é evidente que influem de modo muito variado no desenvolvimento ou na involução da perscnalidade. Um papel po- de, por exemplo, ser assumido por obrigação íntima. Embora o papel seja objetivamente conforme à estrutura social dada e embora também o seja a determinante última da motivação, pode ocorrer — se essa determinação aparecer à consciência sob uma forma inconformista, ou seja, se na esfera da chegada da motivação à consciência se der uma Faculdade de Educação Teológica - aparência de inconformismo — que a personalidade se empobreça apenas limitadamente. O resultado, sem dúvida, depende em grande medida do conteúdo sócio-moral dos papéis em questão. Mas não há dúvida de que o desenvolvimento da personalidade tem menos possibilidades de ocorrer nos casos em que as motivações conscientes se adaptam aos papéis aceitos e diretamente expressos pela opinião pública manipulada. Também aqui devemos fazer uma distinção. Não é possível identificar a diferença que existe entre aceitar um papel por obrigação íntima ou aceitá-lo através da manipulação com aquela que se estabelece entre os fatos da consciência e os da espontaneidade. Pois tanto a consciência quanto a espontaneidade apresentam formas alienadas e formas não-alienadas (deixando-se de lado a amplíssima escala de formas de transição) . Quando a cristalização das formas de comportamento em papéis é um processo já adiantado da consciência, ele não se contrapõe simplesmente à espontaneidade, mas as contraposições reais se verificam, por um
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    Prática Curricular IV lado, entre a consciência alienada e a não-alienada, e, por outro, entre a espontaneidade alienada e não-alienada. Em ambos os casos, o problema consiste em saber a profundidade com que essas formas conseguem penetrar na essência da personalidade, a proporção com que essa terceira dimensão (a profundidade) determina as ações. Decerto, há muitas coisas que são consciência, mas consciência caricatural e fetichizada; por exemplo, saber reconhecer as exterioridades de um determinado status quo da realidade, saber "utilizá-las", saber prever dentro dos seus limites, ser capaz de decidir aos vinte anes o que se poderá ganhar em determinado emprego quinze anos mais tarde, quando será conveniente casar, quantos filhos convirá ter, etc. De modo análogo, representa uma caricatura fetichizada da espontaneidade o homem que tudo aceita, sem preocupações, do modo como lhe aparece na vida; o homem que atua segundo o princípio do "seja o que deus quiser", sem nenhuma perspectiva que transcenda o 116 dia a dia. A verdadeira espontaneidade é sempre exteriorização da personalidade, e, como tal, um ato de liberdade; a verdadeira consciência é um comportamento que busca as conexões objetivas da realidade, sendo também um ato da liberdade: A espontaneidade criadera está acima da consciência conformista; por sua vez, a consciência criadora está acima da www.facete.com.br espontaneidade criadora, embora sempre conservando dialeticamente os elementos da esponta- neidade. Por conseguinte, é inteiramente equivocado afirmar que o índice psicossocial de status e a capacidade de desempenhar papéis são correlativos. Essa tese significa não apenas uma aceitação do status quo dos países mais manipulados, como também situações extremas que não predominam sequer em tais países. Não é verdade, em primeiro lugar, que um caráter seja tanto mais social quanto mais Faculdade de Educação Teológica - adaptável, quanto maior número de papéis for capaz de "representar" sucessiva e simultanea- mente. Os indivíduos não suficientemente adaptáveis a nenhum papel foram sempre autênticas personalidades, portadoras de novas tendências sociais e de novas idéias. Disso decorre, em segundo lugar, que a maior ou menor adaptabilidade ou a maior ou menor aspereza de um caráter colocam problemas que, de nenhum modo, são apenas puramente psi- cológicos. É evidente que se trata também de um problema psicológico, mas em igual medida — ou mesmo em maior medida — estão implicados valores morais. Um caráter é muitas vezes inflexível, ou insuficientemente flexível, pela simples razão de que não quer ser diferente, porque vê na flexibilidade que a tudo se adapta indignidade e amoralidade. Por que os meninos em idade escolar simpatizam muito mais com o papel de chefe de bandidos que com aquele de provocador policial? Ambos são papéis. Se se deve responder que é o desprezo geral o que impede a segunda escolha, essa resposta será suficiente para refutar a tese de que
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    Prática Curricular IV oíndice psicossocial de status seja correlativo da capacidade de desempenhar papéis. Mas irei ainda mais longe. Em ambientes como os internatos, nos quais pode ser uso e sintoma de distinção troçar dos calouros, dos. estudantes do primeiro ano, há sempre estudantes veteranos que se negam a participar dessas brincadeiras, ainda que, por causa disso, sua comunidade os despreze e até mesmo os segregue. E ocorre, com frequência, que aquele que é capaz de suportar essa segregação passa a desfrutar depcis de um prestígio maior que qualquer outro de seus colegas, de curso. Mas, se responde que os homens que se negam a aceitar determinados papéis, que os homens não dispostos a aceitarem qualquer papel, terminam inevitavelmente segregados quando chegam à idade adulta, por que considerar essa resposta uma verdade eterna, "correlação psicossocial", ao invés de sublevar-se contra ela? 117 O condicionamento do papel social Já várias vezes sublinhamos o caráter condicional da função "papel". O homem é mais do que o conjunto de seus papéis, antes de mais nada porque esses são simplesmente as www.facete.com.br formas de suas relações sociais, estereotipadas em clichês, e posteriormente porque os papéis jamais esgotam o comportamento humano em sua totalidade. Assim como não existe nenhuma relação social inteiramente alienada, tampouco há comportamentos humanos que se tenham cristalizado absolutamente em papéis. Vimos que as funções de tipo "papel" são condicionadas, antes de mais nada, pelo conjunto da sociedade. Mesmo nos contextos mais manipulados, produz-se constantemente a "recusa do papel". Em todos esses contextos, há excêntricos, rebeldes e revolucionários. Até mesmo os contextos mais manipulados estão repletos de homens que vivem em "incógnito de Faculdade de Educação Teológica - oposição". Embora limitando nossa investigação ao comportamento objetivamente cínico, embora pensando apenas naqueles que se identificam com seu papel ao aceitá-lo, ainda assim nos en- contramos diante do referido caráter condicional. Pensemos no camareiro de Sartre. Esse camareiro representa dia após dia, do início da manhã até o fim da noite, o papel de camareiro. Mas que acontecerá no dia em que — hipótese nada excepcional, mas cotidiana — alguém por ele servido (uma garota, ou uma velha senhora) começar se sentir mal? Como reagirá a essa situação inesperada? Nas "ex- pectativas" do papel de camareiro não existem preceitos ou receitas que digam se, ao necessitar um concreto ser humano de uma ajuda concreta, deva o camareiro ajudar-lhe, nem tampouco o modo de tal ajuda. Nessa situação, portanto, o camareiro não se comportará de acordo com as expectativas do papel. Seria ridículo afirmar que, nesse caso, o camareiro "as-
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    Prática Curricular IV sume" os papéis de médico, enfermeiro, amigo, etc. A verdade é que, na hipótese examinada, devem entrar em ação as qualidades humanas mais gerais e imediatas, como a bondade, a solidariedade, e também — e não em último lugar — a capacidade simpatética de conhecer uma situação e, com ela, o emprego do tato. Ou, no caso de um comportamento contrário, as qualidades humanas, também gerais e imediatas, de indiferença, egoísmo, falta de tato, comodismo, etc. É claro que as qualidades que, num tal caso, impõem-se em primeira instância não se limitam a papéis determinados, mas são características do homem inteiro, do indivíduo. Em situações novas, surpreendentes, nas quais os estereótipos deixam de funcionar ou funcionam mal, restabelece-se sempre a unidade da personalidade, ou seja, manifesta-se repentinamente como é o homem em questão, de que tipo de homem se trata. Daremos também aqui um 18 exemplo literário: o Holmer, de Ibsen, desempenha durante toda a sua vida dois papéis .É 118 um funcionário duro e egoísta; mas, ao mesmo tempo, um marido amável e afetuoso e um pai exemplar. Quando se encontra diante de uma situação nova, de uma situação conflitiva, desprende-se subitamente de qualquer elemento de papel e comporta-se também diante de sua mulher como um egoísta brutal e desumano. Inutilmente tenta retornar a seu "papel" familiar www.facete.com.br anterior, após o conflito. Nora já o conhece e não acredita nele. Quanto mais conflitiva e desconhecida, quanto mais inédita for uma situação, tanto menos será possível comportar-se diante dela conforme as prescrições de um papel. Por isso, já sublinhei repetidamente que o elemento "papel" do comportamento debilita-se do ponto de vista social geral nos casos em que, durante seu decurso, produz-se uma situação conflitiva repentina e revolucionária. Assim como a perda da personalidade, também a interrupção da continuidade do caráter é naturalmente uma simples tendência. Quanto mais fetichizado estiver o comporta- Faculdade de Educação Teológica - mento humano, tanto menos os vários papéis conseguem lhe imprimir marcas, caso em que o homem já será velho mas continuará pueril. Mas, também aqui, deve-se recordar que não existe nenhum contexto, por mais alienado que seja, no qual os papéis assumidos não deixem marca alguma no sujeito, visto que — embora isso pareça paradoxal — a própria circunstância de que um homem assuma e realize cegamente determinados papéis diz algo sobre ele; também a vacuidade, a corrosão moral, são um conteúdo humano, embora se trate de um conteúdo negativo. Toda negação é, ao mesmo tempo, afirmação: esse princípio também se aplica plenamente ao caráter. Como já dissemos, o menino não se reconhece simplesmente em outros papéis, mas sim no ser-outro em geral, em outrem. E já dissemos que o menino não assimila papéis, mas 18 Os eventos descritos são tomados da peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen (Nota dos Tradutores).
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    Prática Curricular IV simmodos de comportamento, percebendo a unidade deles. Quando, na vida adulta, perde-se paulatinamente essa sensibilidade (o que ocorre na medida em que a sociedade é manipulada) e as expectativas vão se estreitando efetivamente até coincidirem com as do papel, nem mesmo assim elas chegam jamais a identificar-se completamente com o papel. Basta pensar num fato elementar: a escolha do companheiro sexual ou do cônjuge. Os sociólogos norte-americanos costumam lamentar o fato de que essa decisiva esfera da vida esteja profundamente manipulada; notam que os esquemas de tipo "papel" revelam-se decisivos na escolha do companheiro e que o conjugue "ideal", do qual o cinema e a televisão fazem propaganda, determina em dado momento a escolha, a qual incide, portanto, nas pessoas que melhor representam esse papel. E isso se refere tanto às qualidade externas (ideal conformista de beleza) quanto às "internas". Mas, dentro do grupo dos muitos homens cu 119 das muitas mulheres uniformes, escolhe-se precisamente esse ou aquela, não esse outro nem aquela outra, e essa circunstância não pode ser explicada exclusivamente pelo acaso. £ inimaginável que não haja, mesmo no interior dos estereótipos, nenhuma qualidade www.facete.com.br particular, individual, nenhummatiz individual que não "permaneça", por assim dizer, nada particular que atraia mais para una do que para outros; e também é impossível que esses "matizes" individuais sejam apenas externos, sem nenhuma característica simultaneamente interna. Certa feita, ouvi de uma mulher: "Um homem não gosta de nós pelo tipo de sua relação conosco, mas pelo tipo de sua relação com o mundo". É evidente que não se trata das palavras que deveriam decorrer das expectativas de seu papel. Mas, inclusive no caso das expectativas adequadas ao papel, deve-se negar que sejam indiferentes as formas de com- portamento nos campos não determinados pelo papel (nesse caso, pelo papel de marido) com Faculdade de Educação Teológica - relação aos sentimentos (por mais pobres que sejam) ou com relação à escolha (por mais mecânica que seja). Já dissemos que, no comportamento de "papel", os homens atuam segundo as regras do jogo. Mas, tampouco aqui deve-se passar por alto o fato de que não existe nenhum com- portamento, por mais que esteja cristalizado em papel, no qual não desperte, com maior ou menos frequência, a consciência da responsabilidade pessoal, cu, pelo menos, a sensibilidade correspondente. A consciência moral e os apelos dessa consciência jamais se reduzem exclusivamente à observância ou ao desprezo pelas regras do jogo da vida, à questão vitória-ou- derrota. Qualquer homem psiquicamente normal pode distinguir entre a vida real e o jogo; e efetivamente o faz. Precisamente nisso se encontra a linha divisória entre a esquizofrenia social e a esquizofrenia médica; o esquizofrênico médico perde realmente a capacidade de distinguir entre o jogo e a vida, entre a representação e a realidade. Muitos psicólogos sociais não
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    Prática Curricular IV reconhecem esse fato elementar porque passam da investigação dos fenômenos patológicos à análise do comportamento de homens psiquicamente normais e interpretara a analogia como se fosse uma identidade. Last buí not least: a existência econômica das diversas classes e camadas não condiciona na mesma medida a formação de papéis estereotipados em clichês. As mais expostas à fetichização do comportamento humano segundo as regras do papel são as camadas dos pequenos burgueses, dos burocratas, dos managers e dos pequenos capitalistas. Menos expostos a essa fetichização são a classe operária e as camadas superiores da burguesia. No caso da classe operária, o decisivo é que o processo de trabalho — por mais alienado e mecânico que seja — presta-se pouco à formação de papéis estereotipados em clichês. Pode- se "representar" o papel de porteiro de hotel, assim como um diretor-gerente pode sem dúvida 120 sumir no papel de "diretor-gerente ideal". Mas não é possível "representar" o papel de "torneiro ideal", pois diante de um torno nada há a fazer senão trabalhar, e servindo-se precisamente dos movimentos mais simples e econômioos entre os conhecidos. Todos esses movimentos estão determinados pela peça trabalhada e pela ferramenta, e não diretamente www.facete.com.br pela relação social. Os representantes mais destacados da burguesia — cujos comportamentos cotidianos podem ser clichês — vêem-se constantemente em face da necessidade de elaborar respostas não determinadas pelo papel, por causa da luta de classes nacional e internacional e por causa do constante aparecimento de situações novas. Se respondesse conforme o papel estereotipado em clichés, a burguesia já há muito teria desaparecido. Na leitura de novelas policiais norte-americanas de hoje, podemos encontrar frequentemente a seguinte situação: parte-se de um fato que merece punição e tenta-se Faculdade de Educação Teológica - descobrir seu autor. O caráter dos personagens não oferece nenhuma ajuda para essa investigação sobre a autoria do crime. Por quê? Porque não são caracteres, não são personalidades, de modo que em princípio — todos poderiam ter cometido o ato em questão. O assassino é "substituível": todos podem ser assassinos. A tensão resulta precisamente do fato de que ora suspeitamos de um, ora de outro, até que — no final — o genial detetive consegue descobrir o verdadeiro assassino. Esse genial detetive é o único que consegue penetrar com o olhar em todas as complicações, é o único situado acima do mundo do acusado, é o único capaz de jogar com os seres humanos, e, por conseguinte, de triunfar em última instância. Ora, se o mundo absolutamente manipulado existisse, seria precisamente assim. Todavia, "enquanto for capaz de aspirar, nosso coração não será uma ficha".
  • 121.
    Prática Curricular IV O LUGAR DA ÉTICA NO MARXISMO TODO MOVIMENTO social importante, mais cedo ou mais tarde, deve enfrentar os problemas éticos. Pode não tomar posição espontaneamente, pode não propor aos seus seguidores uma teoria, uma ideologia, ou perspectivas ligadas a semelhante teoria ou ideologia, porém, se exige uma militância consciente não pode deixar de assumir uma atitude determinada, positiva ou negativa, em face da tradição moral. No entanto, do fato de que um movimento social importante não pode existir por muito tempo sem uma tomada de posição diante da ética não decorre que o seu alcance, a sua importância e o entusiasmo que ele suscita estejam ligados, de modo diretamente proporcional, à elaboração da sua ética. Isso aparece de maneira evidente no estudo dos movimentos socialistas. O marxismo já existe há mais 121 de um século, há mais de um século ele exerce sua influência, mobiliza massas. Hoje, de um modo ou de outro, ele se acha na base da concepção do mundo adotada por movimentos que exercem influência política no mundo inteiro. Nenhum dos marxistas, contudo, mesmo os mais notáveis, nenhum deles www.facete.com.br definiu os problemas da ética, a não ser de maneira apriorística. Apesar disso, a ética possui no conjunto da teoria marxista um lugar que merece exame e que nós gostaríamos de examinar, mesmo porque se impõe hoje a exploração urgente dessa "terra desconhecida". Não basta certamente constatar que um movimento de importância histórico-mundial, cuja doutrina inclui teoricamente uma posição diante das questões morais, não formulou no curso de um século sua ética; é preciso nos perguntarmos por que não a formulou. A ausência de uma ética em um movimento não significa certamente que ele não tenha seus costumes e que nestes não haja um código moral. Entre esses três existe um nexo. E, nos Faculdade de Educação Teológica - costumes de um determinado movimento, no seu código, no seu código moral, em seus conteúdos e suas funções, podem ser encontrados elementos para uma resposta à pergunta: por que semelhante movimento possui ou não possui uma ética, e por que semelhante ética é exatamente assim e não de outro modo? O código moral e a ética podem ser inversamente proporcionais um ao outro. Se as escolhas e as ações são guiadas por um código fixo, a opção é relativamente segura e o seu conteúdo moral nunca é problemático. Além disso, a opção nunca apresenta o caráter de opção individual, só se apoia minimamente num risco pessoal, nunca é dinâmica (no sentido de poder levar em conta o "elemento novo"). Quando, numa situação concreta, uma escolha se impõe, a ética não contribui para trazer uma certeza maior; ela pode até, ao contrário, di- minuir o grau de certeza. Ela não facilita a escolha: leva ao reconhecimento dos diversos aspectos da situação e do caráter relativo da opção, leva à tomada de consciência de seus
  • 122.
    Prática Curricular IV riscos e possíveis consequências. Quando o indivíduo se coloca a pergunta referente ao conteúdo moral e aos possíveis abertos à sua ação, a ética pode proporcionar uma resposta a essa pergunta, mas nunca lhe oferecerá conselhos concretos. Um movimento elabora uma ética, elabora os nexos teóricos da sua ética, quando os seus costumes e as suas necessidades morais apresentam maior afinidade com a ética do que com a ação codificada. Mas o conteúdo das suas necessidades morais depende de fatores muito variados. Enumeremos alguns deles: a) uma ética só pode se formar cm movimentos que não se considerem absolutos, isto é, em movimentos que se considerem um fator no conjunto dos movimentos da sociedade, um fator da história; b) a elaboração de uma ética torna-se possível c necessária quando a espontaneidade do 122 movimento é cortada. Nas épocas históricas em que os acontecimentos (entre os quais o movimento em questão) se desenvolvem sem comoções internas e sem pontos de estrangulamento, o que se vê aparecer é uma ideologia da espontaneidade e uma postura burocrática, que subestimam a importância das opções humanas. Por isso, é www.facete.com.br natural que a ética, na doutrina do movimento, só passe ao primeiro plano em épocas revolucionárias (de crise positiva) e quando no interior do próprio movimento manifestam-se contradições (crise negativa); c) a constituição da ética é possível e se torna necessária quando, no seio de uma comunidade, o juízo individual (e portanto o papel da decisão individual) assume real importância; particularmente quando um grande número de indivíduos se acha em uma situação na qual se torna impossível para eles agir de acordo com o código; Faculdade de Educação Teológica - d) por fim, para que em um movimento se forme uma ética, é necessário que nele exista uma consciência de si, uma autoconsciência, uma autocrítica. Não se trata apenas de re- conhecer com isso sua relatividade histórica; trata-se da tomada de consciência das contradições internas do movimento por parte dos indivíduos, contradições que aparecem aos referidos indivíduos como contradições morais. Os termos "possível" e "necessário" possuem significados que podem variar, de modo que convém esclarecer que, na realidade, na acepção com que acabamos de utilizá-los, a "possibilidade" é absoluta, ao passo que a "necessidade" é hipotética, constitui o objeto de uma alternativa: indica uma necessidade cuja satisfação depende de um grande número de fatores heterogêneos. Desde o nascimento do socialismo até os nossos dias, tais condições nunca se reuniram.
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    Prática Curricular IV Issoainda é mais verdadeiro para os movimentos socialistas não-marxistas, que preferimos não levar em conta no presente estudo. Na evolução do movimento marxista, podemos distinguir aproximativamente as seguintes etapas: a) o desenvolvimento do marxismo no próprio Marx, na época da Revolução de 1848 e da Primeira Internacional; b) a Segunda Internacional, isto é, o marxismo dos clássicos da social-democracia; c) o renascimento do movimento revolucionário marxista, do começo do nosso século até a consolidação definitiva da sociedade soviética (Lênin e o leninismo, Luxemburg, Jaurès, Gramsci, o Lukács de História e Consciência de Classe, e, sob certos aspectos, Pannekoek e Otto Bauser; 123 d) o período do culto à personalidade, do marxismo positivista e manipulatório; e) a inversão da tendência. No curso dos anos sessenta, particularmente, as tentativas de suscitar um segundo renascimento do marxismo. www.facete.com.br Queremos desde logo afirmar que a premissa e ao mesmo tempo o postulado de uma ética marxista já se apresentaram em três ocasiões: no próprio Marx, no período revolucionário do começo do Século XX e, por fim, nos nossos dias. Se consideramos os fatores que tornam possível o nascimento de uma ética, compreenderemos facilmente por que semelhante possibilidade não se apresentou nem na época da Segunda Internacional nem no tempo do culto à personalidade. O movimento operário do final do século passado ficou mais ou menos isolado do Faculdade de Educação Teológica - conjunto da sociedade. Baseou-se sobretudo na espontaneidade e se interessou unilateralmente pelos fatores econômicos. Ê natural, portanto, que a praxis, sobretudo as motivações da praxis, mas também a heterogeneidade de seus sistemas de valores, tudo isso tenha ficado fora de seus horizontes ideológicos. De tal situação resultou que a ética foi definida unanimemente como uma ética de classe e, ainda por cima, como um sistema absoluto e fechado, elaborado à base de interesses e necessidades, e tornando biológicas as motivações morais. Era uma posição mais aproximada da de D'Hclbach ou da de Darwin do que da de seus pontos de partida marxianos. A ética de Kautsky nos fornece um exemplo eloquente do que dizemos, porém, poderíamos lembrar também o estudo em que Lafargue analisa o nascimento das noções morais. O próprio Engels, em alguns capítulos do Anti- Duhring, "adaptou" a teoria do egoísmo dos filósofos do século XVIII à análise das classes.
  • 124.
    Prática Curricular IV A evolução tranquila dessa época não compelia o movimento a tomar consciência dessa sua carência de uma ética. O marxismo da época do culto à personalidade adotou quase que integralmente a interpretação da moral realizada por Kautsky e Plekhânov, acrescentando-lhe entretanto algumas inovações. Na realidade, ele fundiu positivismo e voluntarismo, combinando à fusão um código extremamente rígido e limitado. Esse matrimônio artifical é uma decorrência do ca-ráter mesmo do movimento. Subsistia o fator do isolamento, que se tornara até mesmo mais relevante do que na época da Segunda Internacional. E as possibilidades de uma praxis real no interior do movimento se tornaram ainda mais reduzidas. Tudo isso, porém, misturava-se a um ativismo coletivo no qual não existia mais espaço para a espontaneidade, a margem para a atividade individual era mínima e o conteúdo das ações individuais era 124 determinado pelo código moral a que já nos referimos. Como já dissemos, a necessidade de uma moral reaparece no primeiro quartel do nosso século. Semelhante necessidade se manifestou não só em decorrência da revolução, www.facete.com.br mas também por força da crise da social-democracia. Tornara-se possível, então, escolher entre dois tipos de movimento, entre dois ou mais caminhos. Não é casual que, em condições bastante diversas e de maneiras diferentes, Lênin e Jaurès, que não queriam isolar o mundo operário dos problemas e conflitos do conjunto da sociedade, tenham percebido claramente essa necessidade. No Que Fazer? Lênin recoloca programaticamente a categoria de "praxis" em seu justo lugar, enquanto reavalia positivamente, de outro lado, o papel das alternativas, como também o papel de todos e cada um dos indivíduos na formação, na realização e concretização das alternativas. Faculdade de Educação Teológica - Não podemos analisar aqui a explicitação histórica dessas posições: limitamo-nos a constatar que, apesar de tudo, a elaboração de uma ética marxista não representou, naquela ocasião, um problema que pudesse ser efetivamente enfrentado. E verdade que, juntamente com as questões da praxis e das alternativas, surgiram outros problemas teóricos: a função so- cial e ética da violência as contradições éticas entre a espontaneidade e a consciência, as relações com as tradições morais, a determinação dos valores com base nos quais cabe transformar a sociedade; a concreta aplicação da tese marxiana sobre Feuerbach que analisa o dilema entre o "educador" e o "educando" (tese segundo a qual a sociedade é sempre transformada pelos homens que nela vivem e, portanto, ainda que não necessariamente, está sempre exposta à possibilidade de deformações). Em todas essas questões transparece a noção de que uma reorganização da sociedade, capaz de humanizar a vida não depende de uma única
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    Prática Curricular IV açãorevolucionária drástica c sim de uma revolução permanente. Apesar disso, as teorias que chegaram a se elaborar no trato com essas questões, naquele então, nunca chegaram a constituir um todo orgânico, ou só o constituíram transitoriamente. Isso não ocorreu porque "ainda não era a época própria", pois a época é sempre própria quando se trata de dar resposta a uma exigência que se acha na ordem-do-dia: na realidade, não ocorreu porque a exigência ainda não se achava na ordem-do-dia. Atualmente são numerosos os pensadores que, como Mar-cuse, encaram as revoluções da primeira parte do nosso século como "revolução da fome". Conquistar o poder, fazer desaparecer a miséria e a opressão e reorganizar a economia eram, de fato, as exigências que estavam na ordem do dia. Os problemas éticos se colocam apenas como problemas marginais, como elementos contidos nos objetivos supra-indicados e, em seguida, como valores que 125 caracterizam o tipo de cada perspectiva (e, portanto, como todos os valores, vistos como mo- tivadores das ações). A situação atual é completamente diversa. Em primeiro lugar, as tragédias e os www.facete.com.br horrores do passado mostraram o que pode acontecer quando a moral, a escala dos valores morais, desaparece da esfera da política e é separada do esforço de humanização, o que pode acontecer quando a iniciativa individual desaparece em todos os níveis e a responsabilidade individual deixa de existir. Além disso, as sociedades eminentemente "manipuladas" da América e da Europa, que asseguram a todos um crescente, embora relativo, bem-estar mate- rial, colocam em termos novos o problema do Que Fazer? A libertação ou dcscartamento da miséria passa a ter apenas uma função que agora já passa a ser secundária e logo será até mes- mo terciária. Já não se trata mais de criar as condições elementares para a vida humana e Faculdade de Educação Teológica - depois chegar a uma vida verdadeiramente humana: o nosso objetivo imediato é, desde logo, chegar efetivamente a esta última. A consciência do direito a uma vida verdadeiramente humana está presente nos homens, potencialmente, da mesma maneira como a consciência do direito à satisfação das necessidades mais primárias se achava presente nos homens na época das "revoluções da fome". Lassalle ainda falava da "maldita falta de exigências" dos operários. No século XX, os operários já superaram isso, o problema que se coloca é o das exigências relativas à humanização da vida em geral. É à luz dessas novas exigências que a consciência de classe deve propor as iniciativas capazes de transformá-la numa força apta para mudar o mundo (e, para tal fim, cabe à consciência de classe estimular essas exigências e corresponder a elas). Desenvolver e formular a nova reivindicação é mais difícil do que foi, no passado, desenvolver e formular a luta do movimento operário. Por isso mesmo, a ética — se conseguir efetivamente assumi-lo — deverá desempenhar um papel decisivo. O elemento
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    Prática Curricular IV ético, de fato, não existe apenas de maneira implícita: a consciência da nova exigência significa ao mesmo tempo a consciência dos valores e da orientação ética em que se há de basear a criação da nova realidade. Marx disse que, transformando o mundo, os homens se transformam a si mesmos. Não modificaremos substancialmente o seu pensamento se alterarmos a sua frase e afirmarmos agora que não podemos transformar o mundo se, ao mesmo tempo, não nos transformarmos nós mesmos. Voltamos, então, a um dos princípios que havíamos enunciado no início dessas nossas considerações: a ética tem seu lugar na concepção de Marx. Procuraremos precisar ainda, em breves traços, qual é esse lugar e o que é que o caracteriza. Todos sabem que Marx interpreta a sociedade como praxis, como unidade de ser e consciência, uma unidade em cujo quadro os limites mais gerais das possibilidades da ação 126 humana são determinados pelo grau de assenhoreamento da natureza, pelo avanço cuja contrapartida é o "Retrospecto dos limites naturais". A humanidade se produz a si mesma a partir de um mundo que já existia antes dela. A história da humanidade é a história do www.facete.com.br nascimento e do desenvolvimento da liberdade: os homens se libertam cada vez mais da fatalidade natural e, no entanto, nunca chegam a suprimi-la. Marx nos dá portanto uma dedução consequente da idéia da imanência. As motivações da humanidade são, de fato, sempre imanentes; mas os homens não têm consciência disso (ou, pelo menos, não têm plenamente). A consciência da liberdade, para a humanidade e para os indivíduos, desenvolve-se na medida em que os homens compreendem semelhante imanência, a alternativa e o poder que nascem dela. É aqui que podemos discernir os contornos gerais da ética de Marx. A moral é sempre imanente porém a humanidade — enquanto humanidade Faculdade de Educação Teológica - livre — só pode se elevar à autoconsciência à base da imanência moral, o que significa — convém repetir — a tomada de consciência do caráter terreno da vida e da contínua autocriação humana. A meu ver, essa é a contraposição de princípio existente entre a ética de Marx e todas as éticas religiosas, independentemente do fato de que ambas as espécies de ética podem chegar a resultados completamente diversos, ou semelhantes, ou até idênticos, na apreciação de determinados valores. Como dissemos, para Marx o grau de "retrocesso dos limites naturais" (resultante de finalidades humanas) indica as possibilidades colocadas em cada época e para cada grupo, o âmbito do movimento da humanidade, e, no interior desse movimento, as integrações, as ações, das classes, as camadas sociais e os indivíduos. Mas existem sempre alternativas, e o resultado só aparece depois de uma escolha entre as inumeráveis alternativas. Em nossa
  • 127.
    Prática Curricular IV opinião,a autonomia relativa da atividade humana constitui o segundo ponto de partida da ética marxista. Essa autonomia relativa significa duas coisas para o indivíduo: por um lado, ela lhe oferece a possibilidade dele criar seu próprio destino e promover, mediata ou imediatamente, sua integração e a de toda a humanidade; por outro lado, ela lhe dá a possibilidade de levar em conta tudo aquilo que é necessário e cobra dele o esforço no sentido de encarar os fatos tais como eles são, reconhecimento sem o qual todo comportamento ativo degenera em moralismo abstrato ou sonho estéril. As atitudes de Prometeu ou de Epicuro representam, para Marx, juntas, a tomada de posição correia diante dessas alternativas. Para Marx, a moral é a relação existente entre o indivíduo, sua circunstância e suas possibilidades concretas. Por isso, ele criticou implacavelmente os que pretendiam descrever as 127 circunstâncias com a terminologia da moral e protestou energicamente contra os que identificavam o conceito de "capitalista" com o de "mau" e o conceito de "operário" com o de "bom", repelindo ainda toda e qualquer tentativa de caracterizar a sociedade do futuro através www.facete.com.br de noções morais. Marx considerava desprovida de sentido a crença na onipotência da "educação moral". Isso não significa que ele negasse a existência dos valores e até da acumulação dos valores; só que não considerava os valores sociais, antropológicos, acumulados como sendo por si mesmos valores morais, entendendo-os como valores mais amplos ou mais limitados do que aqueles que se realizam no âmbito dos costumes (e, de qualquer modo, como valores de outro tipo). No que concerne a tais valores, a moral se manifesta pela escolha ou pela rejeição do desenvolvimento da essência humana: na perseverança, nas formas da busca dos fins almejados, etc. Somente à base dessa concepção é Faculdade de Educação Teológica - que pôde nascer a caracterização do "revolucionário prematuro" (tal como ela se acha nas cartas sobre o drama Franz von Sickingen de Lassale), tipo no qual a grandeza humana da ação não fica indicada pela pura motivação, nem pelas consequências, e sim pelo fato do herói assumir a defesa de uma causa, tornar-se responsável por ela, e essa causa representar valores humanos e sociais que o próprio herói não pode realizar nas condições dadas e que, no entanto, são valores inseridos na perspectiva do desenvolvimento efetivo da humanidade. Do que dissemos, conclui-se que para Marx a moral não pertence a qualquer esfera particular. Quase todas as ações humanas têm um conteúdo moral, mas não há nenhuma na- tureza puramente ética. A moral indica a relação objetiva do indivíduo com a sua espécie, a sua pertinência ao gênero humano (relação dos valores), o nível em que expressa essa relação (em que medida o indivíduo tem consciência de sua pertinência ao gênero, em que medida sua
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    Prática Curricular IV personalidade particular se combina com essa pertinência e em que medida a universalidade do gênero chega a constituir a fundamentação ética das suas ações). £ no plano moral que se manifesta igualmente a sabedoria da vida ao indivíduo: em que medida ele reconhece os conflitos entre os valores, em que medida é capaz de avaliar e escolher diante das circunstâncias, "aplicando" seus princípios sem se submeter passivamente à situação. E é no plano moral, por fim, que se manifesta a força, a resistência e a solidez do caráter. Como em outros campos, também no da moral Marx discerne o fenômeno da alienação. Quando a moral se apresenta como uma esfera autônoma, trata-se de uma morai alienada: suas exigências se opõem rigidamente às particularidades da vida individual e a moral esmaga o indivíduo, mesmo nos casos em que este se submete voluntariamente, tal como o esmagam a Justiça e o Estado (pense-se na análise de Fleur de Marie, na Sagrada 128 Família). Mas a moral também se acha alienada quando — e na medida em que — os interesses de uma entidade e especialmente de uma classe tornam-se um postulado moral "natural" para os indivíduos que a integram. O movimento comunista deve levar à supressão de semelhante determinismo de classe: cabe-lhe conseguir que a motivação das escolhas www.facete.com.br morais se destaque cada vez mais de suas derivações dos interesses de um determinado estrato social para vin-cular-se cada vez mais diretamente à humanidade como um todo, à essência do gênero humano. O fortalecimento dessa essência genérica do homem e a efetiva humanização global da vida acarretam ao mesmo tempo a superação da alienação moral: a conquista de um âmbito de movimento individual cada vez mais amplo, no qual a decisão ética concreta vai poder substituir em geral, para todos, a vigência de princípios de moral abstrata, o automatismo dos costumes. Faculdade de Educação Teológica - Depois de ter sustentado em linhas gerais a existência de um lugar para a ética no sistema do marxismo e de ter procurado caracterizar rapidamente qual e esse lugar, devo explicar ainda uma coisa: por que falei de uma ética dos movimentos socialistas e não somente de uma ética marxista? Por que essa ética não poderia ser elaborada a partir da doutrina filosófica -de Marx? Por que um "especialista" no estudo do pensamento de Marx (um "marxólogo") não poderia elaborá-la? Todo filósofo deve viver seus pensamentos; as idéias que não forem vividas não são efetivamente filosóficas. Semelhante princípio prevalece com especial vigor no caso da ética, e ainda mais particularmente no caso da ética marxista. A ética marxista é uma praxis, não pode existir sem uma realização prática sem se realizar na prática de algum modo. Mesmo elaborada com base nos princípios teóricos de Marx, uma ética que se limite a contrapor-se
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    Prática Curricular IV passivamenteao atual mundo manipulado não passará de uma nova expressão, contemporânea, da "consciência infeliz". A ética marxista só pode ser a tomada de consciênncia do movimento que se humaniza a si mesmo e humaniza a humanidade. Por isso, a ética marxista não depende só da compreensão e da aplicação correta dos textos de Marx: ela depende muito mais do desenvolvimento do movimento que a adote como moral. Os que hoje tentam elaborar uma ética marxista e querem explorar essa "terra desconhecida" da qual falamos só podem ter uma perspectiva: um reencontro do movimento revolucionário, de seus homens, de suas massas (da atividade que humaniza e transforma o mundo), com a teoria de Marx. A "maldita falta de exigências" das novas condições tornou necessária a ética marxista, porém, a fecunda ética de Marx só pode avançar com a diminuição e a superação dessa "falta de exigências". 129 Eis-nos portanto de volta à nossa afirmação inicial. Indicamos quando um movimento pode elaborar uma ética: pode fazê-lo no momento em que se considera absoluto, desaparece a espontaneidade da sua consciência, aumenta o âmbito da atividade individual no seio da www.facete.com.br comunidade e ele passa a ter consciência de si mesmo, autocrítica. Mesmo se esses elementos se acham total ou parcialmente em falta, o movimento pode se desenvolver, desperta entusiasmo, exercer uma crescente influência sobre as massas (como ocorreu na história dos movimentos marxistas na época da Segunda Internacional). No mundo atual, contudo, um movimento capaz de transformar o mundo num sentido marxista não pode se realizar se esses fatores estiverem ausentes. Para a ética — e também para a ética marxista — prevalece aquilo que vale para todos os postulados do movimento comunista, entendido no sentido de Marx. Faculdade de Educação Teológica -