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Pessoa Ortónimo
O enigma do Ser


A poesia de Pessoa é marcada pela procura incessante de uma verdade que o
poeta sabe impossível de alcançar; a decifração do enigma do ser. O Ser
sabe-o Pessoa que é um mistério indecifrável, desde já porque procurar
desvendá-lo é confrontar-se com a sua pluralidade, porque ele é muitos, e
sendo muitos é ninguém. Por isso, o poeta afirma negativamente o impossível
encontro com a sua identidade ("Não sei quem sou", "Nunca me vi nem
achei"), da mesma forma que afirma negativamente a sua pluralidade ("Não
sei quantas almas tenho").

A verdade é que o poeta não foge à fragmentação que o confronto com o
seu ser plural acarreta, antes a procura, como único caminho para o
encontro consigo mesmo, já que "Ser um é cadeia, /Ser eu não é ser", mas
sabe que esse é um caminho sem retorno em que cada um dos fragmentos ou
a totalidade dos fragmentos em que a sua alma se estilhaçou jamais lhe
devolverão a unidade perdida, a identidade perdida. Como afirma num poema
"Torno-me eles e não eu" ou num outro "Partiu-se o espelho mágico em que
me revia idêntico, e em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim".

Resta-lhe a interrogação filosófica, ontológica do mistério, mesmo que
essa interrogação se perca como um eco de si mesmo e o poeta seja
espectador de si mesmo, a sua "própria paisagem". Resta-lhe também
a angústia de saber as perguntas irrespondíveis. Resta-lhe ainda olhar-se
em espelhos de "águas paradas" que não lhe devolvem o rosto, e a imagem
que neles encontra só lhe acrescenta a solidão interior e a melancolia de
saber-se "um mar de sargaços / um mar onde bóiam lentos / fragmentos de
um mar de além".

Além é uma palavra que podemos associar à poesia de F. Pessoa. É que,
impelido pela sua permanente inquietação, sente que "tudo é do outro lado",
tudo está para além do muro ou para além da curva da estrada. Por isso,
o sonho é preciso, é preciso ir ao encontro do jardim encantado ou da ilha
do sul, mesmo que saiba que “os sonhos são dores” e “que não é com ilhas do
fim do mundo / que cura a alma seu mal profundo”. Mesmo que o sonho o
afaste da vida e dos outros, o impeça de viver a vida como ela é ou parece
ser. E é muitas vezes com resignação que aceita o desajuste entre a
realidade e o sonho, continuando a interrogar-se se este não será mais real
que aquela.

Além é ainda passado, infância irremediavelmente perdida, o tempo em que
o eu era feliz porque ainda não se tinha procurado e, por isso, não se tinha
fragmentado. A nostalgia da Infância é, assim, um dos temas mais
tocantes da poesia de Pessoa ortónimo que recorda o tempo em que era
feliz sem saber que o era. “A criança que fui vive ou morreu?” Interroga-se
lancinantemente o poeta e ainda “E eu era feliz? Não sei:/ Fui-o outrora
agora”.

A criança que foi é como o gato que brinca na rua ou a ceifeira, cuja sorte
o poeta inveja, já que sentem alegria e satisfação sem saberem que a
sentem, ao contrário do poeta que já não pode sentir essa alegria sem
pensar nela e, consequentemente, deixar de senti-la. “O que em mim sente
está pensando” afirma tristemente ao ouvir o canto da ceifeira que “Ondula
como um canto de ave”: A dor de pensar é, assim, outro dos temas da
poesia de Pessoa ortónimo, o poeta fingidor que procura escrever
distanciado do sentimento, já que “a composição de um poema lírico deve ser
feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela” e,
por isso, a poesia não pode ser a expressão directa de uma emoção vivida,
mas a expressão transfigurada do rasto dessa emoção. Para Pessoa, a poesia
é, pois, fingimento poético.

É uma poesia intensamente musical que recorre à métrica curta e
frequentemente à quadra, no gosto pela tradição lírica lusitana e popular.
Faz uso de um vocabulário simples e sóbrio e utiliza um tom espontâneo,
muitas vezes interrogativo, muitas vezes negativo, por vezes irónico. No
entanto, é também uma poesia que faz uso de uma linguagem fortemente
simbólica, onde abundam as metáforas inesperadas e os paradoxos
desconcertantes.

                    Elisa Costa Pinto, Vera Saraiva Baptista e Paula Fonseca

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  • 1. Agrupamento de Escolas Dr. Vasco Moniz Escola Secundária de Alves Redol 12º Ano Pessoa Ortónimo O enigma do Ser A poesia de Pessoa é marcada pela procura incessante de uma verdade que o poeta sabe impossível de alcançar; a decifração do enigma do ser. O Ser sabe-o Pessoa que é um mistério indecifrável, desde já porque procurar desvendá-lo é confrontar-se com a sua pluralidade, porque ele é muitos, e sendo muitos é ninguém. Por isso, o poeta afirma negativamente o impossível encontro com a sua identidade ("Não sei quem sou", "Nunca me vi nem achei"), da mesma forma que afirma negativamente a sua pluralidade ("Não sei quantas almas tenho"). A verdade é que o poeta não foge à fragmentação que o confronto com o seu ser plural acarreta, antes a procura, como único caminho para o encontro consigo mesmo, já que "Ser um é cadeia, /Ser eu não é ser", mas sabe que esse é um caminho sem retorno em que cada um dos fragmentos ou a totalidade dos fragmentos em que a sua alma se estilhaçou jamais lhe devolverão a unidade perdida, a identidade perdida. Como afirma num poema "Torno-me eles e não eu" ou num outro "Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, e em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim". Resta-lhe a interrogação filosófica, ontológica do mistério, mesmo que essa interrogação se perca como um eco de si mesmo e o poeta seja espectador de si mesmo, a sua "própria paisagem". Resta-lhe também a angústia de saber as perguntas irrespondíveis. Resta-lhe ainda olhar-se em espelhos de "águas paradas" que não lhe devolvem o rosto, e a imagem que neles encontra só lhe acrescenta a solidão interior e a melancolia de saber-se "um mar de sargaços / um mar onde bóiam lentos / fragmentos de um mar de além". Além é uma palavra que podemos associar à poesia de F. Pessoa. É que, impelido pela sua permanente inquietação, sente que "tudo é do outro lado",
  • 2. tudo está para além do muro ou para além da curva da estrada. Por isso, o sonho é preciso, é preciso ir ao encontro do jardim encantado ou da ilha do sul, mesmo que saiba que “os sonhos são dores” e “que não é com ilhas do fim do mundo / que cura a alma seu mal profundo”. Mesmo que o sonho o afaste da vida e dos outros, o impeça de viver a vida como ela é ou parece ser. E é muitas vezes com resignação que aceita o desajuste entre a realidade e o sonho, continuando a interrogar-se se este não será mais real que aquela. Além é ainda passado, infância irremediavelmente perdida, o tempo em que o eu era feliz porque ainda não se tinha procurado e, por isso, não se tinha fragmentado. A nostalgia da Infância é, assim, um dos temas mais tocantes da poesia de Pessoa ortónimo que recorda o tempo em que era feliz sem saber que o era. “A criança que fui vive ou morreu?” Interroga-se lancinantemente o poeta e ainda “E eu era feliz? Não sei:/ Fui-o outrora agora”. A criança que foi é como o gato que brinca na rua ou a ceifeira, cuja sorte o poeta inveja, já que sentem alegria e satisfação sem saberem que a sentem, ao contrário do poeta que já não pode sentir essa alegria sem pensar nela e, consequentemente, deixar de senti-la. “O que em mim sente está pensando” afirma tristemente ao ouvir o canto da ceifeira que “Ondula como um canto de ave”: A dor de pensar é, assim, outro dos temas da poesia de Pessoa ortónimo, o poeta fingidor que procura escrever distanciado do sentimento, já que “a composição de um poema lírico deve ser feita não no momento da emoção, mas no momento da recordação dela” e, por isso, a poesia não pode ser a expressão directa de uma emoção vivida, mas a expressão transfigurada do rasto dessa emoção. Para Pessoa, a poesia é, pois, fingimento poético. É uma poesia intensamente musical que recorre à métrica curta e frequentemente à quadra, no gosto pela tradição lírica lusitana e popular. Faz uso de um vocabulário simples e sóbrio e utiliza um tom espontâneo, muitas vezes interrogativo, muitas vezes negativo, por vezes irónico. No entanto, é também uma poesia que faz uso de uma linguagem fortemente simbólica, onde abundam as metáforas inesperadas e os paradoxos desconcertantes. Elisa Costa Pinto, Vera Saraiva Baptista e Paula Fonseca