Patrimônios
de
Pernambuco
3
Maria Alice Amorim
Fundarpe, 2010
Patrimônios
de
Pernambuco
5
Governador de Pernambuco | Eduardo Campos
Vice-governador | João Lyra Neto
Secretário da Casa Civil | Ricardo Leitão
Secretário Estadual de Educação | Nilton Mota
Secretário Especial de Cultura | Ariano Suassuna
Presidente da Fundarpe | Luciana Azevedo
Diretor de Gestão | Alexandre Diniz
Diretora de Preservação Cultural | Célia Campos
Diretor de Políticas Culturais | Carlos Carvalho
Diretor de Difusão Cultural | Adelmo Aragão
Diretora de Projetos Especiais | Rosa Santana
Diretora de Planejamento e Monitoramento | Fátima Oliveira
Diretora de Gestão do Funcultura | Martha Figueiredo
Assessor de Comunicação | Rodrigo Coutinho
Coordenador Jurídico | Hugo Branco
Coordenadora de Cultura Popular e Pesquisa | Teca Carlos
Coordenador de Música | Rafael Cortes
Coordenadora de Artes Cênicas | Teresa Amaral
Coordenadora de Audiovisual | Carla Francine
Coordenador de Artes Plásticas e Artes Gráficas | Félix Farfan
Coordenadora de Desenvolvimento Institucional | Irani do Carmo
Coordenadora de Patrimônio Histórico | Fátima Tigre
Chefe da Unidade de Informática | Luciano Magalhães
Coordenação editorial: Maria Acselrad
Supervisão: Eduardo Sarmento
Assistência: Lilian Silva
Pesquisa e textos: Maria Alice Amorim
Fotografia: Luca Barreto
Projeto cartográfico: Luís Bulcão
Projeto gráfico e diagramação: Gilmar Rodrigues
Revisão: Maria Helena Pôrto
Editora e gráfica: Liceu
Copyright © Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco
Amorim, Maria Alice.
Patrimônios vivos de Pernambuco/ Maria Alice
Amorim; apresentação de Luciana Azevedo; organização
de Maria Acselrad – Recife: FUNDARPE, 2010.
116p. il. 23cm.
ISBN 978-85-7240-089-3
1. Patrimônios vivos – Pernambuco. 2. Patrimônio
imaterial. 3. Salvaguarda. I. Azevedo, Luciana. II.
Acselrad, Maria. III. Título.
CDU 316.7
A524p
6
Ana das Carrancas · 15Texto Institucional · 6
Luciana Azevedo
Manuel Eudócio · 23Patrimônio Vivo em Contexto · 9
Maria Acselrad
Nuca · 31Cartograma de Mestres e Grupos · 12
Maracatu Leão Coroado · 39Referências · 112
Zé do Carmo · 43
Lia de Itamaracá · 51
Manuel Salustiano · 59
Homem da Meia-Noite · 67
Zezinho de Tracunhaém · 75
Teatro Experimental de Arte · 87
Caboclinho Sete Flexas · 91
Maestro Nunes · 99
Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu · 107
Camarão · 19
J. Borges · 27
Canhoto da Paraíba · 35
Banda Musical Curica · 47
Dila · 55
Índia Morena · 63
José Costa Leite · 71
Confraria do Rosário · 79
Fernando Spencer · 83
Selma do Coco · 95
Clube Indígena Canindé · 103
7
Documentar, através deste livro, a trajetória dos
“Patrimônios Vivos de Pernambuco” e, consequentemente,
seus múltiplos saberes, histórias e memórias, representa
para nós, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico
de Pernambuco – Fundarpe –, um momento oportuno de
reconhecer, salvaguardar e difundir parte da diversidade
cultural que constitui Pernambuco. Mais do que isso, reforça
o nosso compromisso em promover e proteger o patrimônio
cultural imaterial, contido nas tradições, no folclore, nos
saberes, nas línguas, nas festas e em diversas outras
manifestações, fortalecendo as “referências culturais” dos
grupos sociais em sua heterogeneidade e complexidade.
Cientes da importância dessa categoria do patrimônio,
temos, nos últimos anos, nos esforçado para criar e
consolidar instrumentos e mecanismos, de maneira coletiva
e compartilhada, que visam garantir o seu reconhecimento,
defesa e, acima de tudo, viabilidade. Assim, no ano de
2002, o Governo do Estado de Pernambuco lançou,
de maneira pioneira no Brasil, a “Lei do Registro do
Patrimônio Vivo”, possibilitando o reconhecimento e o
apoio aos mestres e grupos da cultura popular e tradicional,
avançando para uma concepção do patrimônio entendido
como “o conjunto dos bens culturais, referente às
identidades e memórias coletivas”. Nesse contexto, formas
de expressão, saberes, ofícios e modos de fazer ganharam
um novo espaço, quanto à apreensão dos seus sentidos e
significados.
Hoje, nosso desafio é asseverar a inserção dos nossos
patrimônios vivos na Política Cultural do Estado, o que
temos feito através da realização de oficinas de transmissão
de saberes, exposições, apresentações culturais, palestras,
entre outras ações, que para nós significa a apropriação
simbólica e o uso sustentável dos recursos patrimoniais
direcionados à preservação e ao desenvolvimento
econômico, social e cultural do Estado. Nessa trajetória,
articulamos diversas ações institucionais que possibilitaram
investir em atividades como pesquisa, documentação,
proteção e promoção desses patrimônios vivos.
Portanto, ao dar corpo a testemunhos de pernambucanos
e pernambucanas, este trabalho ousa servir como um
memorial, um “pergaminho identitário” fundamental para a
construção do futuro. Um futuro que começa na percepção
do que fomos e de quem somos, possibilitados pela
“consciência patrimonial”.
Sem dúvida, esta valiosa e inédita publicação é mais um
fruto desses desafios! Queremos compartilhar com vocês,
leitores – e por que não “patrimônios vivos”? –, um pouco
das nossas descobertas e redescobertas. Saibam, desde já,
que o livro em mãos é resultado de um trabalho de pesquisa
e registro, de um olhar atento e sensível, e incompleto,
por essência, pois a cada ano serão incorporados novos
patrimônios vivos. Mais do que registrar, portanto, estas
linhas e imagens que seguem nos possibilitam mergulhar
num mosaico de experiências que marcaram e marcam
as vidas de grandes mestres e grupos da cultura popular
e tradicional, verdadeiros tesouros vivos, guardiões e
sacerdotes de memórias e saberes. Em seus testemunhos,
são revelados o simbólico, o imaginário e o real, numa
dinâmica objetiva e subjetiva que articula um saber fazer,
conhecimentos e empreendimentos sociais desafiadores à
nossa maneira de pensar e agir. Um rico universo em que
as pessoas se expressam e se relacionam com o mundo;
que comunica vida, fatos, pensamentos, sonhos, ideias e
sentimentos. Boa leitura!
Luciana Azevedo
Diretora-presidente da Fundação do Patrimônio
Histórico e Artístico de Pernambuco.
8
9
10
O Patrimônio Vivo em Contexto
Maria Acselrad1
Um dos instrumentos mais relevantes das políticas públicas
voltadas para o reconhecimento das culturas populares
desenvolvidas no Brasil, nas últimas décadas, tem sido as
patrimonializações de bens culturais imateriais. É inegável que para
o enriquecimento desse processo a circulação de documentos,
como a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Popular e
Tradicional, de 1989, e, mais tarde, a Convenção para Salvaguarda
do Patrimônio Cultural Imaterial, de 2003, ambas promulgadas
pela UNESCO, e das quais o Brasil é signatário, foram decisivas
para a reverberação de um debate público sobre o assunto.
A resposta a esse movimento, por parte dos órgãos gestores
de cultura, deu-se através da criação de instrumentos jurídicos
apropriados que procuravam atender à demanda que se impunha
em relação à lacuna gerada pelas políticas patrimoniais até aquele
momento, no que diz respeito à dimensão imaterial do patrimônio
cultural brasileiro.
A repercussão dessa discussão, no cenário brasileiro, ganha
destaque com a criação do Decreto 3.551 de 4 de agosto de 2000,
ápice de um longo processo de debates políticos e intelectuais, que
institui o Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial e cria
o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, abrindo um espaço
para o reconhecimento, por parte do Estado, de bens de caráter
processual e dinâmico como patrimônio cultural do Brasil, tendo
“como referência a continuidade histórica do bem e sua relevância
nacional para a memória, a identidade e a formação da sociedade
brasileira”. 2
1  Antropóloga e professora do Depto. de Teoria da Arte e Expressão
Artística da Universidade Federal de Pernambuco/UFPE.
2  Decreto 3.551 de 4 de agosto de 2000 in: Patrimônio imaterial no
Brasil – legislação e políticas estaduais.VIVEIROS DE CASTRO e FONSECA,
Maria Laura e Maria Cecília Londres. Brasília: UNESCO, Educarte, 2008.
Vale ressaltar, de acordo com Barbosa e Couceiro (2008), que
algumas experiências, consideradas exemplares, de programas
nacionais de salvaguarda – realizadas por países como Japão,
Tailândia, Filipinas e Romênia, conhecidas como Tesouros
Humanos Vivos – em prática desde o fim da Segunda Guerra
Mundial, contribuíram de forma significativa para a ampliação
das agendas políticas patrimoniais no mundo, inserindo o tema
da salvaguarda através da transmissão de saberes e apoio direto
a mestres e grupos, na pauta de diversos debates públicos de
âmbito nacional. Num mundo cada vez mais globalizado, em
constante e acelerado processo de transformação, a preocupação
com as especificidades culturais alçava a um novo patamar a
discussão sobre o patrimônio cultural.
Nesse contexto, as políticas de patrimonialização de pessoas
ou grupos da cultura popular e tradicional, amparadas por
leis de registro estaduais, surgem no rastro de uma série de
discussões acerca da salvaguarda do patrimônio imaterial que
encontram repercussão no âmbito local. Em Pernambuco, a
Lei do Patrimônio Vivo3 surge como uma tentativa pioneira,
no contexto brasileiro, de instituir no âmbito da administração
pública estadual, o instrumento do registro, procurando
fomentar diretamente as atividades de pessoas e grupos culturais
representantes da cultura popular e tradicional, contribuindo
para a perpetuação de suas atividades. O registro prevê a
implantação de ações de formação, difusão, documentação e
acompanhamento das atividades desenvolvidas pelos premiados.
Nesse conjunto de ações, o processo de transmissão de saberes
assume papel de destaque na salvaguarda das expressões,
celebrações e ofícios aos quais os mestres e grupos encontram-se
vinculados, através do repasse de seus conhecimentos às novas
gerações de alunos e aprendizes, em sua comunidade ou fora
dela.
3  LEI nº 12.196 de 02 de maio de 2002. Idem.
11
saúde debilitado, para continuar efetivamente trabalhando, já têm
em seus filhos um caminho que aponta para o futuro da tradição.
O universo dos mestres e grupos contemplados abrange
expressões das diversas linguagens artísticas, dos ofícios artesanais,
da religiosidade popular, entre outras manifestações culturais.
Dentre os grupos registrados até o momento, podemos encontrar
de forma predominante manifestações culturais ligadas ao
Carnaval: um clube de frevo, dois maracatus de baque virado
e dois caboclinhos. Também foram registrados: uma banda de
música, um grupo de teatro e uma irmandade religiosa. Entre
os mestres, encontramos uma diversidade de tradições culturais,
através do registro de representantes da ciranda, do coco, da
xilogravura, da cerâmica, do forró, do cordel, do circo, da pintura,
do cinema, entre outras.
Segundo Gonçalves (2003), se relativizarmos a noção moderna de
patrimônio – criada no século XVIII, com o surgimento dos estados
nacionais –, podemos encontrar correspondência na experiência
universal do “colecionamento”, prática comum entre muitos povos
e comunidades, ao longo da história da humanidade. A atribuição
de valor, onipresente nos processos de identificação e registro do
patrimônio, faz com que essa tendência ao “colecionamento”
venha a oferecer um panorama daquilo que de mais representativo
e singular compõe o patrimônio cultural de um povo. São histórias
de vida, processos de aprendizado, dinâmicas de trabalho, escolhas
estéticas, processos criativos e de transmissão de saberes de nossos
patrimônios vivos, compartilhados com a pesquisadora Maria
Alice Amorim e com o fotógrafo Luca Barreto que, através desta
publicação, temos o imenso prazer de apresentar.
Sendo assim, é com muita alegria que oferecemos aos nossos
patrimônios vivos este trabalho, em retribuição a toda uma vida
dedicada à cultura.
Recife, novembro de 2009.
Nos últimos anos, o Governo de Pernambuco, através da Fundação
do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe –,
vem realizando oficinas, palestras, aulas-espetáculo, apresentações
culturais, homenagens, exposições, numa experiência inédita de
inserção dos patrimônios vivos na política de cultura do estado.
Essas ações, cujos formatos diferem de acordo com a expressão
cultural, idade e disponibilidade do mestre, revelam algumas
questões importantes para a reflexão sobre a transmissão de
saberes populares e tradicionais, quando fomentada pelas
políticas públicas de cultura, por exemplo: 1) o reconhecimento da
importância de serem preservadas as singularidades das tradições
culturais representadas pelos mestres e grupos contemplados;
2) a valorização da diversidade de técnicas, conteúdos e formas
de repasse praticadas pelos mestres, características de processos
pedagógicos identificados com os princípios da educação não
formal; e 3) o entendimento de que o processo de aprendizado
do mestre é fator relevante para compreensão do seu processo
de transmissão de saberes, entre outros aspectos. Todos esses
fatores implicam na concepção de que ações de salvaguarda não
devem prescindir dos atores sociais que se encontram em foco e
que isso vem a ser decisivo para que a própria produção de sentido
das tradições por eles representadas se atualize e se perpetue no
tempo e no espaço.
Em Pernambuco, entre 2005 e 2010, foram registrados 24
patrimônios vivos. Dentre eles, 16 mestres e oito grupos, através
da publicação de cinco editais. O lançamento do primeiro edital
rendeu excepcionalmente a premiação de 12 mestres4
. Nos anos
subsequentes, três patrimônios vivos foram eleitos a cada edital
publicado, através de um processo de inscrições que já soma mais
de 250 candidaturas ao registro. Em 2008, Pernambuco perdeu
três mestres – Ana das Carrancas, Canhoto da Paraíba e Manoel
Salustiano –, e hoje conta com 21 patrimônios vivos, a maioria em
atividade; e mesmo aqueles que se encontram com o estado de
4  A publicação tardia do Decreto nº 27.503, de 27 de dezembro de
2004, que traz a regulamentação da Lei, gerou este acúmulo.
12
13
14
Legenda Nome Artístico Tradição cultural Data de nascimento Cidade
Ano da
titulação
1 Ana das Carrancas Artesanato em cerâmica 18.02.1928 Petrolina 2005
2 Banda Musical Curica Banda filarmônica 09.08.1848 Goiana 2005
3 Caboclinho Sete Flexas Caboclinho Fundado em 1973 Recife 2008
4 Camarão Forró 23.06.1940 Recife 2005
5 Canhoto da Paraíba Choro 17.03.1931 Recife 2005
6 Clube Indígena Canindé Caboclinho 05.05.1897 Recife 2009
7 Confraria do Rosário Irmandade religiosa Fundada provavelmente em 1777 Floresta 2007
8 Dila Xilogravura e Cordel 23.09.1937 Caruaru 2005
9 Fernando Spencer Cinema 17.01.1927 Recife 2007
10 Homem da Meia-Noite Clube de frevo 01.01.1960 Olinda 2006
11 Índia Morena Circo 13.07.1943 Jaboatão dos Guararapes 2006
12 J.Borges Xilogravura e Cordel 20.12.1935 Bezerros 2005
13 José Costa Leite Xilogravura e Cordel 27.07.1927 Condado 2006
14 Lia de Itamaracá Ciranda 12.01.1944 Ilha de Itamaracá 2005
15 Maestro Nunes Frevo 22.06.1931 Recife 2009
16 Manuel Eudócio Artesanato em cerâmica 28.01.1931 Caruaru 2005
17 Manuel Salustiano
Rabeca, cavalo-marinho
e maracatu
12.11.1945 Olinda 2005
18 Maracatu Estrela Brilhante Maracatu de baque virado Fundado provavelmente em 1824 Igarassu 2009
19 Maracatu Leão Coroado Maracatu de baque virado 08.12.1863 Olinda 2005
20 Nuca Artesanato em Cerâmica 05.08.1937 Tracunhaém 2005
21 Selma do Coco Coco de roda 10.12.1929 Olinda 2008
22 Teatro Experimental de Arte Teatro Fundado em 1969 Caruaru 2008
23 Zé do Carmo Pintura e escultura 19.11.1933 Goiana 2005
24 Zezinho de Tracunhaém Artesanato em cerâmica 05.07.1939 Tracunhaém 2007
15
16
Ana das
Carrancas
Ana das
Carrancas
17
Do extremo oeste pernambucano, espiando as terras do
Piauí, saiu a louceira Ana Leopoldina Santos à procura de
sobrevivência, e o que conseguiu cavar foi bem mais que isso:
inspiração, talento, fama. Nascida em 18 de fevereiro de 1923,
no distrito de Santa Filomena, povoação encravada na Serra do
Inácio, à época pertencente ao município de Ouricuri, foram
as verdes águas do Velho Chico que mais tarde viram nascer a
artista. Serviu de mote criador a paisagem exuberante povoada
de nego d’água, maus espíritos, vapor, paquete, remeiros. De um
lado, Pernambuco. Do outro, a Bahia. No meio, o jorro inspirador.
Nas margens, a lama sagrada. Era corriqueiro apreciar esculturas
zoomorfas e antropomorfas na proa das embarcações, imagens
que se repetiam nos barcos, há mais de um século, e no artesanato
do Vale do São Francisco. Delas, um ícone se chamava Guarany,
outro atende por Ana, a filha de Joaquim Inácio de Lima e Maria
Leopoldina dos Santos.
Ainda criança, tinha sete anos e já sabia fazer e vender louça
utilitária – pote, moringa, panela, cuscuzeiro, jarro –, uma das
tradições ouricurienses, que se mantém com as ceramistas da
comunidade do Pradicó. Vendia “panelinha de guisado, boi zebu,
cavalinho com vaqueiro amontado, santinho de lapinha”. Ou seja,
moldava as peças de louça e mais uns tantos brinquedinhos para
ganhar uns trocados e ajudar a mãe louceira, com quem teve os
18
Maria da Cruz dá continuidade ao estilo da mãe,
Ana das Carrancas, com quem aprendeu o ofício primeiros ensinamentos na modelagem do barro. Aos 22 anos
casou-se, teve duas filhas – Ana Maria e Maria da Cruz – e em
seguida ficou viúva. Um ano depois de enviuvar, Ana se casou com
o piauiense José Vicente de Barros. Moravam, então, em Picos.
A vida não era fácil naquelas terras do sertão do Araripe, em que
alternavam bom inverno e longos períodos de estiagem. Por esse
motivo, incluiu-se no rol de migrantes que corriam para Petrolina
em busca de um oásis.
Era 1954. Chegou à cidade e começou vendendo aribé, panela,
pote, presépio, burrinho, pato, boi, cabra. Depois da inspiração
saída das águas do Velho Chico, nunca mais foi a mesma. As
emblemáticas carrancas começaram a ganhar força e, a partir de
1970, tornaram-se disputadíssimas, graças, inclusive, ao trabalho
de pesquisa sobre o artesanato pernambucano que os técnicos
em turismo Olímpio Bonald Neto e Francisco Bandeira de Melo
estavam realizando pelo sertão, a serviço da Fundarpe. Ambos
ficaram impressionados com as carrancas da ceramista. A trajetória
artística de Ana Leopoldina ficou marcada, daí por diante – e para
sempre – pela mitopoética ribeirinha, a ponto de adotar o nome
artístico que correu mundo: Ana das Carrancas.
19
A carranca mais antiga, da própria produção, data de 1963, quando
ainda era conhecida por Ana Louceira ou Ana do Cego. Sobre a
primeira peça, a carranca cangula, ela mesma contou: estava na
beira do rio e pensou que poderia fazer um barco, colocar um
velho, vendedor de jerimum, com um menino ajudante, umas
bolinhas para fingir que era o jerimum, uma cobertura de palha e,
claro, a carranca na proa do barco. Segundo Ana, essa invenção
“deu sorte”. E assim, de tão bem-sucedida, a cangula ganha
réplicas ainda hoje. Outras peças, igualmente difundidas, também
trouxeram sorte: carranca-cinzeiro, com três caras, jardineira,
totem. Aliás, não se pode falar em Ana sem associá-la às figuras
totêmicas modeladas no barro, em forma de animal e de gente,
alvo de chacota dos feirantes, quando circularam a primeira vez na
feira livre de Petrolina. Ana não se intimidou. Ao contrário, valeu-se
do imaginário da comunidade ribeirinha para moldar na cerâmica
um dos ícones da cultura local. Um casamento bem-sucedido
entre temática e talento. Nesse mesmo ano, 1963, inaugura-se
a Biblioteca Municipal e as carrancas de Ana fazem sucesso,
distribuídas a título de suvenir.
Após levar o nome de Petrolina para feiras de artesanato nacionais
e internacionais, figurar em galerias de arte e museus, alternar
fama e ostracismo, o grande sonho da mulher oleira tornou-se vivo
e palpável em setembro de 2000, mesmo ano em que conquistou
o título de cidadã petrolinense. É inaugurado o Centro de Arte
e Cultura Ana das Carrancas, com loja, ateliê e exposição de
antigas carrancas, inclusive a de 1963. Tudo no ambiente ressalta a
trajetória da ceramista. O olho vazado homenageia o marido, cego
de nascença, Zé Vicente, o amassador do barro. As filhas Ângela
Aparecida de Lima – adotiva – e Maria da Cruz Santos modelam
esculturas, tal qual a mãe. A filha Ana Maria é casada com o
escultor de carrancas em madeira, Domingos Lopes, ou Lopes de
Petrolina, um dos seguidores do estilo de Guarany. Mesmo tendo
falecido em 1º de outubro de 2008, na cidade de Petrolina, a família
vive imersa no rico imaginário da ceramista, que sempre afirmava,
orgulhosa: “meu sangue é negro, mas minha alma é de barro”.
20
CamarãoCamarão
21
Quando Antonio Ferreira da Silva e Josefa Alves Freire viram
nascer o filho, não imaginavam que ali começava a trajetória
de um grande sanfoneiro do agreste. Na verdade, o início de
tudo tem a influência do pai, exímio tocador de oito baixos, a
quem o filho, desde criança, passou a acompanhar nas andanças
musicais. Na labuta cotidiana, enquanto o sanfoneiro ia para a
roça, o filho de sete anos matreiramente ia experimentando os
sons da sanfoninha pé-de-bode, até o dia em que o pai descobriu
as artes da criança engenhosa, emocionou-se e passou a cultivar
o talento do herdeiro, levando-o para as festas, onde o garoto
prestava atenção nos músicos e depois, em casa, tirava os mesmos
sons no instrumento. O menino conquistou definitivamente o
pai executando, de ouvido, os acordes de Maria Bonita, um dos
maiores sucessos àquela época. E o mestre Camarão, ou Reginaldo
Alves Ferreira, tem consciência de que foram decisivos esses
primeiros momentos da infância dedicados à música. Natural de
Brejo da Madre de Deus, é também emblemático o próprio dia do
nascimento: 23 de junho de 1940, véspera de São João.
Foi em Caruaru – a mais importante cidade do Agreste
pernambucano, protagonista de uma das mais tradicionais festas
Camarão ministra aula de acordes
22
juninas do Estado e contemplada, ainda na década de 1970, com
o título de Capital do Forró – que Camarão construiu as bases
da carreira artística. Começou a trabalhar, aos 20 anos, na Rádio
Difusora daquela cidade, por onde passaram importantes nomes
da música brasileira, como Sivuca e Hermeto Pascoal. Foi na mesma
rádio que ganhou o apelido, dado por Jacinto Silva. Luiz Gonzaga
o conheceu na difusora, tocando como profissional. Tinha 18 anos.
Graças à amizade surgida entre ambos, o rei do baião produziu
dois discos de Camarão, pela RCA Victor, em 1969 e 1970.
Gonzaga foi, na verdade, o seu grande mestre, embora nunca
esqueça a importância dos ensinamentos paternos. Na discografia,
o artista contabiliza, ao lado dessa feliz parceria com Luiz Gonzaga,
28 discos, entre long plays, compactos, 78 rotações e CDs, a
maioria fora de catálogo. É de 1998 o CD Camarão Plays forró,
produzido na Inglaterra e com circulação exclusiva na Europa.
Inventivo desde o princípio, foi o mestre quem criou, em 1968, a
primeira banda de forró no país, a Bandinha do Camarão; quem
introduziu sopros (tuba, clarinete, trombone e piston) em banda
de forró; quem criou a Orquestra Sanfônica de Caruaru, em que
diversas sanfonas executam não só variados ritmos juninos, mas
também frevo e maracatu. Norteando-se pela música desde
a primeira infância, o mestre chegou a acompanhar o rei do
baião, após conhecê-lo num programa da Difusora de Caruaru,
mesma rádio por onde passaram músicos renomados e onde
surgiu o seu primeiro conjunto musical, ou seja, o primeiro trio
de Camarão, o Trio Nortista, liderado por ele, um dos maiores
sanfoneiros nordestinos, tocador de forró nas latadas das fazendas
e arraiais juninos, experiente forrozeiro de animados grupos
pés-de-serra. O trio era formado com os músicos Jacinto Silva e
Ivanildo Leite. Afinadíssimo na sanfona, acompanhou grandes
23
nomes da música nordestina, a exemplo de Sivuca, Dominguinhos,
Santanna, Marinês, Jackson do Pandeiro, Arlindo dos Oito Baixos.
O repertório de Camarão é, como manda a tradição da sanfona
nordestina, generoso nos ritmos regionais – xote, xaxado, forró,
baião e arrasta-pé.
O nome do Maestro Camarão corre mundo. Em 1961, foi
a sanfona dele que representou Pernambuco no primeiro
aniversário de Brasília, a convite do presidente Jânio Quadros. Viaja
acompanhado do Trio Nortista, que toca, então, em vários eventos
comemorativos. Tem participado de encontros de acordeonistas
pelo país, graças ao talento e maestria com que empunha a
sanfona. Em 2004, participa do projeto O Brasil da Sanfona, de
Myriam Taubkin, que produziu dois CDs, um livro de fotografias
e um DVD. Fixado no Recife há quase 30 anos, mantém a Escola
Acordeon de Ouro, fundada há uma década no bairro de Areias,
onde já formou diversos músicos nas artes dessa invenção vienense
de 1829, que, no Brasil, ganhou um sotaque bem nordestino e
fez fama. Para facilitar a transmissão de conhecimentos, elaborou
uma cartilha, em que registra importantes informações acerca
dos instrumentos de fole, do manejo do fole, como escolher e
manusear o acordeom, além de noções elementares de música.
Marcelo de Feira Nova, Julinho do Acordeom, Ellan Ricard, Gleyson
Alves, Juquinha, Deivison, Diego Reis e Cezinha do Acordeom são
alguns dos reconhecidos sanfoneiros que passaram pela escola do
mestre. Em parceria com Salatiel d’Camarão, desenvolve o projeto
De pai para filho, com a realização de shows musicais, e, ainda,
Sanfona nas escolas, voltado para oficinas em escolas públicas.
Certamente inspirado na atitude do próprio pai, Camarão estimula
e oferece contribuição decisiva à carreira de iniciantes e, inclusive,
à do próprio filho, parceiro e continuador mais que legítimo da
obra do mestre.
24
Manuel EudócioManuel Eudócio
25
Com voz pausada e dedos firmes na modelagem, é assim que o
primeiro galante do reisado vai debulhando os grãos de uma
vida dedicada à arte e à agricultura. É pelas mãos e pela oralidade
que saem as imagens trazidas da memória de um tempo em
que conviviam os amigos Vitalino, Zé Caboclo e Manuel Eudócio
Rodrigues. Sentado num banco de madeira, tem sempre diante
de si uma mesa, barro molhado e ferramentas para fazer as
esculturas, que, começadas no início do dia, por volta das cinco
da manhã, precisam ser concluídos ao final da mesma jornada.
As mãos não param, enquanto as lembranças emergem. Quase
aos 80 anos, o narrador, mestre Eudócio, exibe o vigor mental e
as habilidades manuais invejáveis de quem teve sempre uma vida
regrada, dedicada à família, ao plantio e, sobretudo, à catarse da
atividade artística iniciada ainda na infância, com a avó louceira
Tereza Maria da Conceição. De 28 de janeiro de 1931, nascido e
criado no Alto do Moura, Caruaru, o filho de Eudocio Rodrigues
de Oliveira e Maria Tereza da Conceição desde criança trabalha na
agricultura e ocupa as mãos esculpindo o barro.
Frequentou apenas seis meses de escola e é com o auxílio
das mãos e das experiências que vai descrevendo o que tem
vivido esses anos todos no Alto do Moura. São sete décadas de
26
aprimoramento, de adaptação ao gosto da freguesia e de convívio
com fregueses alemães, franceses, portugueses, americanos. De
viagens ao Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Portugal. Lembra
que as primeiras peças foram pintadas a dedo e, onde o dedo não
cabia, pintadas com auxílio de uma varinha. Mais adiante, resolveu
deixar peças ao natural, depois voltou a pintá-las. Gosta de fazer
bonecos grandes, coloridos, embora menos vendáveis. A queima
das esculturas sempre foi num forno do quintal, quinzenalmente,
exceto quando há encomenda urgente. De preferência, o forno
deve estar cheio, pois do contrário fica muito dispendioso.
O que não admite, sob hipótese alguma, é a utilização de fôrma
para moldar as esculturas. As experiências cotidianas sempre
serviram de fio condutor nas criações inspiradas: batizado,
enterro, casamento matuto, casamento forçado, casal andando
em boi manso, violeiro, sanfoneiro, banda de pífano, cangaceiros,
padre Cícero. Mergulhado no universo da cultura tradicional,
uma das inspirações recorrentes é o reisado, com os respectivos
personagens do folguedo natalino do qual participou: dona
Joana, diabo, doutor, padre, mascarado. Em 1948, quando
começou a fazer os bonecos, resolveu fazer um reisado. Fez vários
personagens e conseguiu vender a uma pessoa do Rio de Janeiro. Ateliê no Alto do Moura, em Caruaru
27
Depois, com a dificuldade de comercializar o conjunto, foi fazendo
as figuras individuais. O reisado já não sai no Alto do Moura, o
mestre sente saudade e tenta recuperar, no barro, as práticas
culturais da infância e juventude.
Eudócio sabe que é um criador, um perfeccionista. Jamais
desperdiçou os anos de convivência com Vitalino e Zé Caboclo.
Quando Vitalino saiu do Sítio Campos para o Alto, em 1948,
Eudócio tinha 17 anos. Conheceu os trabalhos do mestre na rua:
naquela época ninguém vendia escultura em casa, o local de
exposição era o buliçoso espaço da feira. Do professor, Vitalino,
lembra-se de muitas coisas: por exemplo, que passou dois anos,
com o cunhado Caboclo, trabalhando para o afamado ceramista
e nem sequer assinavam as próprias peças. Lembra, ainda, que
em 1957 já fazia questão de dizer aos compradores que aqueles
bonecos chamados de “Vitalino” também eram criação de
outros artistas. Com o desaparecimento do mestre, Eudócio não
acreditava na continuidade do ofício. Mostra-se impressionado
com a permanência da atividade e o aumento quantitativo de
artesãos.
A família, uma das pioneiras no ramo, tem na nova geração os
continuadores. Os irmãos Eudócio, Celestina e Josué herdaram o
ofício da avó e da mãe, e se veem sucedidos pelos filhos. Dos nove
filhos de Eudócio, Carlos e José Ademildo, e as respectivas esposas,
vivem do barro. Do casal Celestina Rodrigues e Zé Caboclo, as
filhas Marliete, Socorro, Carmélia e Helena “puxaram ao pai, que
era um artista de mão cheia”, segundo o tio Eudócio. Lembra,
inclusive, das miniaturas que fazia, quando jovem, e guardava
numa caixa de fósforos, esculturas em tamanho minúsculo que são
uma das especialidades das irmãs Rodrigues. A linha de sucessão
também se repete na família Vitalino, na família Rodrigues, na
família Galdino.
28
J. BorgesJ. Borges
29
Prensa alemã, utilizada na
impressão dos cordéis
Artesão de cestinhas de cipó e brinquedos de madeira,
oleiro, pedreiro, carpinteiro, pintor de parede, marceneiro,
trabalhador da palha da cana, passador de jogo de bicho. Esses
foram alguns dos ofícios que Jota Borges experimentou, antes
de se decidir pela venda de cordel nas feiras de Pernambuco,
Paraíba, Ceará e, principalmente, na Praça do Mercado de São
José, no Recife, o que aconteceu a partir de 1956. Matuto
esperto e comunicativo, logo descobriu ser exímio talhador
de madeira e criador de histórias em versos. E o tempo de
permanência na escola foi de apenas 10 meses. Da experiência
com as artes manuais, sobretudo marcenaria e miniatura de
móveis, desenvolveu habilidades que não seriam de jeito nenhum
desperdiçadas mais adiante, conforme atestam as publicações
impressas, as gravuras inconfundíveis, as inúmeras capas de livros
e discos, exposições, oficinas.
O primeiro folheto é de 1964, com capa do poeta e xilógrafo
Dila: O encontro de dois vaqueiros no sertão de Petrolina. A partir
de 1965, incentivado pelo amigo cordelista Olegário Fernandes,
resolve fazer a capa dos próprios folhetos, e então escreve e faz a
capa de O verdadeiro aviso de Frei Damião. Nascido no Sítio Piroca,
Bezerros, agreste pernambucano, a 20 de dezembro de 1935,
30
Familiares de J. Borges auxiliam na impressão das gravuras
José Francisco Borges nem avaliava o significado dessas decisões
profissionais, apenas se deixava levar pela intuição criadora. Em
1976, faz uma das gravuras mais famosas: A chegada da prostituta
no céu. A vida do sertanejo, o imaginário nordestino, as fabulações
dos contos populares, o cenário rural e as narrativas de cordel
declamadas pela boca do pai, tudo foi misturado na cabeça e nas
memórias afetivas do artista, e o resultado é a plena vitalidade
conferida à famosa e premiada obra, que tem sido traduzida em
outras línguas e linguagens artísticas, a exemplo de peça de teatro,
telenovela, filme, coleção de roupa.
Se o nome dos pais – Joaquim Francisco Borges e Maria Francisca
da Conceição – está inscrito irremediavelmente na vida de J.
Borges, também não podem ser desprezados os nomes do
artista plástico Ivan Marchetti, do escritor Ariano Suassuna e
do pesquisador Roberto Benjamin, que fizeram as primeiras
encomendas de gravuras maiores, escreveram sobre o artista e
deram-lhe ampla divulgação. Suíça, Estados Unidos, Venezuela,
França, Alemanha, Portugal, Cuba foram países para onde
viajou, além dos lugares aonde tem ido a obra do artista: Itália,
Espanha, Holanda, Bélgica, México, Argentina. Para Caracas, foi
em 1995. Visitou Cuba em 1997, num avião russo dos anos 1950,
onde permaneceu 12 dias, ministrando oficina num festival de
cultura caribenha. Na década de 1970, uma exposição de Borges
percorreu 20 países. Em 1964, ilustrou a novela Roque Santeiro,
da TV Globo, e fez a primeira viagem de avião.
Daí por diante não mais parou de percorrer o mundo. Há décadas
tem viajado quase que ininterruptamente dentro e fora do país.
Em 2005, comemorou os 400 anos do D. Quixote, de Miguel
de Cervantes, com uma versão em cordel da referida novela de
cavalaria. E foi para a França participar da exposição itinerante
O universo da literatura de cordel, na condição de principal
homenageado. Graças ao talento e à amizade que cultiva há
anos com importantes galeristas, artistas plásticos, jornalistas e
pesquisadores, Borges tem obras no acervo da Biblioteca Nacional
de Washington e no Museu de Arte Popular do Novo México
(em Santa Fé, EUA); é divulgado no New York Times, participou
31
da revista suíça Xilon em número especial (1980) dedicado aos
xilógrafos nordestinos, ilustrou o livro As palavras andantes, do
uruguaio Eduardo Galeano (1993), figurou no calendário da ONU
de 2002 com a gravura A vida na floresta, tem participado de
exposições na Galeria Stahli, Suíça, entre outras notáveis aparições
internacionais no circuito artístico mundial.
É importante mencionar, ainda, a atuação da Gráfica J. Borges,
em plena atividade, que, durante quatro décadas, utilizou tipos
móveis e prensa manual na produção de cordéis e xilogravuras,
e vem construindo desde então parte da história da literatura de
cordel. Borges à frente, claro, contando com a participação dos
filhos J. Miguel, Ivan, Manassés, Cícero, Pádua, Jerônimo (falecido);
irmãos, cunhada, sobrinhos, como Amaro Francisco (falecido),
Severino Borges, Nena, Joel, Lourenço, Givanildo; dos três mais
novos, os filhos Pablo e Baccaro e o neto Williams. O filho George
vive de serigrafia e Ariano é gráfico. Ao todo, foram gerados 18
filhos. E um grande projeto de vida e arte, de que é testemunha o
Memorial J. Borges, em Bezerros, onde o visitante pode apreciar as
obras gráficas, plásticas, poéticas do mestre e, ainda, desfrutar de
um dedo de prosa com o artista bom de papo.
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NucaNuca
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Nuca é apelido de infância: Nuca de Tracunhaém ou Nuca dos
Leões. Tracunhaém – topônimo indígena, que quer dizer
panela de formiga – é a cidade de adoção do artista, desde os
três anos. Leão é o signo de Nuca, ou Manoel Borges da Silva,
que nasceu em 5 de agosto de 1937, no engenho Pedra Furada,
Nazaré, Mata Norte pernambucana, filho dos agricultores Francisco
Costa Mariano e Josefa Borges da Silva. O pai, da roça, criou-
se nos engenhos de cana-de-açúcar. Vivendo a infância num
ambiente de ceramistas descobre-se um admirador do ofício e,
desde os 10 anos, um continuador da tradição, modelando em
barro elementos do cotidiano. O ano em que foi morar na cidade é
o mesmo da estréia de Zé do Carmo na cerâmica. Quando estreou,
havia em Tracunhaém o povo de Lídia, fazendo santo. Antônia
Leão era referência da geração mais antiga, Maria Amélia já se
destacava pela santaria. Zezinho chegou depois, de Vitória. Nilson,
de Goiana. Nuca passou a conviver com diversos ceramistas em
feiras e salões de arte popular, entre eles, Ana das Carrancas e
alguns netos de Vitalino. Foi ao Rio de Janeiro participar de uma
exposição e lá conheceu o mestre Vitalino.
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Embora desde a década de 1940 já vendesse esculturinhas
de cerâmica nas feiras, principalmente na vizinha Carpina, é
sobretudo a partir de 1968, quando esculpe o primeiro leão,
que se reconhece artista, consagra-se com o efeito visual da juba
leonina e se entrosa com ceramistas renomados. O motivo da
consagração veio da ideia de esculpir leões e floristas. A mulher,
Maria Gomes da Silva, ou Maria de Nuca, inventou de botar os
cabelos cacheados, também no leão. A moda da juba encaracolada
se difundiu tanto, que artesãos aderiram à onda, substituindo pena
de galinha pelos cachos. Além destes, que consistem nuns rolinhos
de barro aplicados um a um, há o leão de listra, o escamado e o
de tranças. Finas ou grossas, as escamas também são colocadas
individualmente, em leões e girafas. Sobre a escolha da temática
dos leões, cogita-se que pode estar vinculada à memória recente
da estatuária de louça portuguesa decorativa dos sobrados ou,
ainda, à memória ancestral daquele que é considerado o rei
dos animais. Entretanto, não podemos deixar de lembrar que o
símbolo de Pernambuco é o leão, tampouco menosprezar a força
do imaginário de ascendentes negros africanos presente na Zona
da Mata, nem esquecer que a antiga denominação de Carpina era
Floresta dos Leões.
Se a família de Nuca era de agricultores, e não de louceiros, o
mesmo aconteceu com a família de Maria, que também era da
roça, não tinha ninguém no barro. Pode-se dizer que a obra de
Nuca é quase obra de dois artistas, originalidade a quatro mãos.
O leão e as bonecas foram criação dele e da mulher. O talento de
ambos para as esculturas cerâmicas desabrochou no convívio com
artistas e artesãos de Tracunhaém, terra das figuras em cerâmica
e das panelas de barro. Depois de brinquedos, bonecas e anjos,
os leões vieram para imortalizá-los. As esculturas são sempre ao
natural, nunca pintadas, exceto sob encomenda. O forno, feito
por ele próprio, fica no quintal de casa e testemunha o fato de
que é indispensável ter ciência para saber construí-lo e usá-lo.
35
E Nuca foi exímio nisso: na hora de queimar, sabia precisar a
caldeação, a fim de não rachar a escultura, nem cair o cabelo.
Outro importante segredo é o da aplicação dos detalhes: como
fazer para não ressecar, enquanto vai modelando e colocando
simetricamente um a um.
Após afastar-se do ofício, por problemas de saúde, dois dos
seis filhos dão continuidade às artes dos pais, Nuca e Maria: o
primogênito Marcos Borges da Silva, ou Marcos de Nuca, faz os
leões e José Guilherme Borges da Silva, o filho mais novo, faz
as bonecas. Apesar de não terem sido muitas as viagens – Lima,
Peru (1980), São Paulo, Rio, Brasília, Bahia –, Nuca dos Leões
criou os filhos com a arte saída das próprias mãos, festejou a
alegria de viver fazendo sempre o que gosta e também ofereceu
todas as condições necessárias ao aprendizado e exercício
artístico dos filhos seguidores. A obra do artista pode ser
apreciada em antiquários, galerias de arte, e enfeitando praças
do Recife, como a do 1º Jardim de Boa Viagem e a Tiradentes,
no Cais do Apolo. Variando de 30 centímetros a um metro, nas
esculturas assina “Nuca de Tracunhaém”, desenhando um nome
de artista que enche de beleza o mundo.
36
Canhoto
da Paraíba
Canhoto
da Paraíba
37
Oavô tocava clarinete. O pai, violão. O filho, Francisco Soares
de Araújo, tinha a certeza de que adorava música, e isto era
o que não faltava em casa, reduto dos principais instrumentistas
da cidade. Ainda criança, já sabia apreciar um bom repertório,
habituado aos saraus e serenatas na própria residência. Com o
pai, Antônio Soares de Lima, aprendeu, aos 12 anos, a tocar a
tabuinha, que era como apelidava o violão. O avô, o clarinetista
Joaquim Soares, também exerceu grande influência sobre ele. Com
o maestro Joaquim Leandro, regente da banda local, conheceu as
primeiras notas musicais. Mas, outros instrumentistas da infância,
a exemplo dos violonistas Zé Micas e Luiz Dantas, do saxofonista
Manoel Marra e do acordeonista Zé Costa, foram decisivos, pois,
por causa deles, manteve os primeiros contatos com um repertório
de choros e valsas que o marcaram para sempre. Alguns chorinhos
fizeram-no cultuado por músicos do porte de Radamés Gnatali,
Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola.
Nascido em 17 de março de 1931, em Princesa Isabel, alto
sertão paraibano, o filho de Quitéria Lopes de Araújo, lá mesmo,
foi o tocador do sino da igreja, fez iniciação musical e partiu
amadurecido à procura de outras cidades em que pudesse
expandir os dotes artísticos. Ainda adolescente veio ao Recife
apresentar-se na Rádio Clube, mas somente aos 25 anos é
que conseguiu realmente sair de Princesa Isabel. Foi para João
Pessoa, em 1952, onde morou alguns anos e brilhou na Rádio
Tabajara. Em seguida, 1958, transfere-se definitivamente para
Pernambuco e é imortalizado como Canhoto da Paraíba, um dos
mais importantes compositores de choro. O diferencial no uso
da tabuinha aconteceu assim: por necessidade de compartilhar
com os irmãos destros o mesmo instrumento, desenvolveu uma
técnica especial de dedilhar o violão, tocando os acordes com a
mão direita e usando a esquerda para o dedilhado das cordas, sem
invertê-las. Ou seja, um violão “tocado pelo avesso”, como diz o
título de um dos seus discos gravados.
Reprodução de ilustração e antigas imagens de Canhoto da Paraíba,
fotografadas na residência do artista, em Maranguape
38
Não só a forma de tocar o instrumento, sobretudo o vigor das
composições de Canhoto é que o fizeram chegar ao panteão
dos grandes instrumentistas brasileiros. O repertório passa pelos
ritmos regionais – xote, xaxado, baião, frevo – e pela bossa nova,
predominando o choro e a valsa. Para a grandiosidade com que
compunha e tocava o violão, poucos foram os discos gravados por
Canhoto: Único Amor, de 1968, é gravado pela Fábrica Rozemblit,
no Recife. Um dos músicos, escolhido à época por Canhoto, foi
o jovem Henrique Annes, hoje violonista consagrado. O produtor
do disco foi o maestro Nelson Ferreira. Em 1974, também pela
Rozemblit, sai Um violão direito nas mãos do Canhoto. Em
1977, é a vez do álbum Com mais de mil, selo Marcus Pereira,
produzido por Paulinho da Viola e festejado pela crítica musical
do país. No repertório, as músicas Pisando em brasa e Com mais
de mil. Além de produzir o primeiro disco de Canhoto, Paulino da
Viola viajou com o violonista pelo país, no Projeto Pixinguinha, e
gravou, no seu primeiro trabalho, de 1971, o choro Abraçando
Chico Soares, seguindo o estilo de composição do paraibano. Em
1990, Geraldino Magalhães e Lula Queiroga produzem o disco
independente Fantasia nordestina: Violão brasileiro tocado pelo
avesso. E, pela Caju Music, lança, em 1993, o último trabalho solo,
Pisando em brasa, com participação especial de Raphael Rabello
39
e Paulinho da Viola. Ainda em 1993, pelo Tom Brasil, sai o CD
Instrumental no CCBB: Canhoto da Paraíba e Zimbo Trio. Em
1999, Canhoto é ladeado por Annes, Rafael Rabello, Baden
Powell na coletânea Os bambas do violão, lançada pela Kuarup.
Radicado durante meio século em Pernambuco, Canhoto foi
agraciado, em 1984, com o título de cidadão pernambucano.
Reverenciado por Baden e outros grandes nomes da música
popular brasileira, apresentou-se com Luperce Miranda,
João Bosco, Sivuca, César Camargo Mariano, para citar
apenas alguns. Em 2004, recebeu uma homenagem do
presidente Lula, em Brasília. Na Paraíba, foi homenageado
com a publicação da Lei Canhoto da Paraíba, que, a partir
de 2005, concede a artistas o título de Mestres das Artes (Lei
7694/2004, Registro de Mestres das Artes – Rema) e ele foi um
dos primeiros agraciados. Após sofrer isquemia cerebral em
1998, interrompe-se a carreira do artista, que passa os últimos
anos de vida em Maranguape, Pernambuco, com uma filha,
falecendo em 24 de abril de 2008.
A importância musical desse requintado artista inspirou o Trio
de Câmara Brasileiro a produzir, em 2009, o disco Saudade de
Princesa – Sobre a obra de Canhoto da Paraíba, do selo Crioula
Records. O recifense Caio Cezar assina a direção musical do
CD e está organizando um livro com as partituras musicais de
Canhoto. A genialidade do mestre, de viva memória, perpetua-
se com ações desse porte, e, ainda, ao ser constantemente
revisitada nas gravações originais do instrumentista e em
regravações ou releituras de outros virtuoses.
40
Maracatu
Leão Coroado
Maracatu
Leão Coroado
41
Década de 1950 do século 20. O respeitado oluô (sacerdote
máximo) Luís de França recebe a incumbência de dirigir uma
brincadeira de carnaval, que havia sido fundada pelo pai, um
africano ex-escravo. O brinquedo era o Maracatu Leão Coroado.
Morto um dos coordenadores, corria-se o risco de não haver quem
o substituísse. Herança de família e de tradição religiosa, o baque
virado daquela nação nagô precisava continuar. Desafio aceito, a
vigorosa liderança de seu Luís proporcionou aos brincantes manter
a atividade ininterrupta desde 8 de dezembro de 1863, data
considerada como a de fundação, apesar de a memória oral indicar
a possibilidade de o Leão já existir desde 1852. Mesmo mantendo-
se a dúvida quanto ao marco fundador, o contexto político e
social no qual nasce o grupo é marcado pelo debate em torno da
abolição da escravatura e os maracatus eram folguedos de negros
escravos. Ressalte-se, ainda, que, no Recife, o dia 8 de dezembro é
dedicado a Iemanjá e a Nossa Senhora da Conceição, esta última,
a representação católica, no sincretismo religioso, daquele orixá do
culto nagô e padroeira da grande festa do morro, que acontece
anualmente na mesma data, em Casa Amarela.
Luís de França dos Santos é de 1º de agosto de 1901. Nasceu na
rua da Guia, bairro do Recife, filho de Laureano Manoel dos Santos
e Philadelpha da Hora. Segundo contava, durante a juventude
vendeu jornais ao longo da via férrea, até Palmares, o que o levou
a conhecer senhores de engenho e chefes políticos da região.
Ganhou muito dinheiro revendendo produtos importados, trazidos
nos navios, quando trabalhava de estivador, profissão exercida até
aposentar-se. Cresceu no bairro de São José, espécie de gueto de
escravos libertos, local onde aconteciam cultos africanos. Guardava
na memória a participação intensa em terreiro de candomblé, o
Sítio do Pai Adão, em Água Fria, embora a sua iniciação religiosa
não tenha acontecido lá. Os pais de santo de Luís de França foram
Eustachio Gomes de Almeida e Maria Júlia do Nascimento, a Dona
Santa do Maracatu Nação Elefante.
Apresentação na cidade de Goiana, 2003 Bairro de Águas Compridas, visto a partir do terreiro do maracatu
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O líder começou a participar do maracatu quando a sede ficava no
bairro da Boa Vista, numa rua que hoje se chama Leão Coroado.
Foi membro da Irmandade de São Benedito da Igreja de São
Gonçalo da Boa Vista e da Irmandade do Rosário dos Homens
Pretos de Santo Antônio. Um dirigente desta última, José Luís, foi
quem passou ao afilhado Luís de França a direção do folguedo.
Daí em diante, o decidido líder passou a cuidar da organização
do grupo, das obrigações religiosas e da direção da batucada,
cujo baque secular aprendera com o pai e com os avós. Passado
por Luís de França, continua mantido o mesmo baque tradicional,
conforme garante o babalorixá Afonso Aguiar, que integra o
grupo a partir de 1996 e conduz a agremiação desde a morte de
França, em 1997.
Na função de rei e rainha, o Leão Coroado teve Estanislau, João
Baiano, José Nunes da Costa, José Luís, Gertrudes Boca-de-Sola,
Martinha Maria da Conceição e Dona Santa. Esta última, uma das
mais imponentes rainhas de maracatu, filha e neta de africanos,
marcou presença, sobretudo no Maracatu Nação Elefante. As
calungas são pretas, de madeira, e existem desde a fundação do
grupo: uma delas representa Oxum, é Dona Clara; a outra, que
representa Iansã, chama-se Dona Isabel. Durante mais de quatro
décadas – provavelmente de 1954 até a morte, em 3 de maio de
1997 – o mestre Luís de França guiou o grupo com dedicação
extremada, a ponto de provocar elogios da pesquisadora norte-
americana, antropóloga Katarina Real, que, no início dos anos
1960, realizou pesquisa sobre o folclore no carnaval do Recife.
À época, Katarina considerava o Leão Coroado a única legítima
nação de maracatu ainda existente. São desse período diversos
troféus conquistados pela agremiação.
Em outubro de 1996, França convida Afonso Gomes de Aguiar
Filho para sucedê-lo na liderança do grupo. Após amargar uns
anos de isolamento e consequente retração do maracatu, o filho
de Xangô acerta em adotar a sugestão do presidente da Comissão
Pernambucana de Folclore, pesquisador Roberto Benjamin, quanto
à indicação de Afonso Aguiar, que, desde então, tem conseguido
realizar importantes viagens e apresentações em São Paulo, Rio de
Janeiro, Bahia, Paraná, Santa Catarina, França, Holanda, Bélgica,
Suíça, Espanha, Itália, Timor Leste, Ilhas Canárias. A comemoração
dos 140 anos, em 2003, foi marcada pela gravação de CD, ao vivo,
com as toadas tradicionais do grupo. Voltando, ainda, a 1997,
o mesmo ano da morte de Luís de França, em 22 de dezembro
é instituído o Dia Estadual do Maracatu: pela Lei 11.506, fica
escolhido o 1º de agosto, em homenagem à data de nascimento
daquele mestre.Mestre Afonso e o centenário bombo-mestre
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Nascido na Campina do Barreto, Recife, em 15 de março de
1948, o mestre Afonso comanda há mais de 20 anos um terreiro
em Águas Compridas, Olinda, para onde transferiu a sede do
maracatu e todo o acervo do grupo. Ao longo do ano, desenvolve
dinâmica de ensaios, aulas de percussão e toque de candomblé,
oficinas de feitura e manutenção dos instrumentos musicais, de
confecção do vestuário do maracatu, além de outras atividades
educativas, como a preparação de um corpo de baile de danças
afro. Todas as ações, tanto as preparatórias ao Carnaval quanto
as pedagógicas envolvem continuamente a comunidade, sob
a coordenação geral de Afonso Aguiar, que, inclusive, tem
comandado oficinas de percussão e de confecção de instrumentos
no Brasil e no exterior, a exemplo do Festival do Caribe, em
2009, na cidade de Santiago de Cuba. Seguidor fiel do mestre
Luís de França, empolgado com a repercussão do primeiro CD e
preocupado com a manutenção do grupo, o dedicado Afonso
anuncia que o master do segundo disco está pronto e que as
comemorações do sesquicentenário já estão sendo planejadas.
Na primeira edição do Prêmio Cultura Viva (2005/2006), do
Ministério da Cultura, o maracatu foi uma das iniciativas
contempladas, na categoria manifestação tradicional. A partir
de maio de 2008, o grupo é transformado em Ponto de Cultura.
Instalado no mesmo endereço da sede do maracatu, lá funciona
um telecentro, com cursos básicos de informática e acesso 24
horas à internet, para atendimento de demandas da comunidade,
em todas as faixas etárias. Com firmeza, o mestre mantém rotina
semanal de ensaios e de trabalho. A triagem de novos integrantes
obedece a exigentes normas de conduta social. Provavelmente, o
sucessor das tradições do terreiro e do maracatu será Afonsinho,
o neto nascido em 1997, que toca nas obrigações da seita e
tem comandado, quando necessário, a batucada do maracatu.
Entretanto, como frisa o mestre Afonso, o Leão Coroado é mais
religião do que carnaval. Com as bênçãos todas de Olorum, eguns
e orixás.
Pele de Bode curtindo para posterior montagem das alfaias
44
Zé do CarmoZé do Carmo
45
Passeando pelos labirintos da memória do artista e pelos objetos
mais recônditos do ateliê de José do Carmo Souza, conhecido
internacionalmente pelas estátuas de anjos cangaceiros, descobre-
se uma encantadora obra poética, uma narrativa visual do barro
massapê, que não se sabe exatamente quando e com quem
começa em Goiana, mas registra, com certeza, a importância
do legado materno de Joana Izabel de Assunção e dos filhos
talentosos. A mãe – oleira, artesã, costureira – fazia figuras de
barro e de pano, mané-gostoso e rói-rói. O pai, padeiro, fazia
máscaras em papel machê para vender aos foliões, o molde era
em barro e a modelagem em papel e grude. Manuel de Souza
dos Santos e Joana Izabel de Assunção chegam a Goiana no ano
de 1930, vindos de Igarassu, onde nasceram. Casados a partir de
1932, é um ano depois, em 19 de dezembro de 1933, que nasce o
primogênito, Zé do Carmo.
Conhecido desde 1947 no circuito artístico, autor de respeitável
conjunto de esculturas cerâmicas tão originais quanto às da mãe,
Escultura de anjo cangaceiro seria presenteada
ao Papa e a Igreja Católica se recusou a receber
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foi com apenas sete anos, em 1940, que Zé do Carmo começa a
fazer figurinhas de barro, pintar com tinta d’água, como faziam
os pais artistas, e vender nas feiras de Goiana. Os dois irmãos,
João Antônio de Souza e Manuel Miguel de Souza, também
aprenderam o ofício dos pais. Das peças mais antigas de Zé,
destacam-se figuras de mendigo, agricultor, carregador de açúcar,
Preto Velho, anjo cangaceiro, apanhador de papel, apanhador
de água, vendedor de couro, jornaleiro, Lampião, Maria Bonita,
carregador de água, tocador de bandolim, Padre Cícero, Nossa
Senhora Artesã, São Pedro Pescador (o padroeiro de Goiana). No
acervo pessoal, conta com peças autorais feitas há cerca de 40 e
50 anos. Há uma rendeira que criou entre 1949 e 1950, quando,
segundo confessa, ainda copiava as figuras da mãe. A iniciação,
obviamente, foi com ela e o pai, mas o aluno atento, que cursou
apenas o Ensino Fundamental, sempre se valeu da observação e do
autodidatismo para aperfeiçoar a técnica e dar vazão às invenções
artísticas.
Depois que a mãe morreu, em 1972, Zé do Carmo inaugura uma
nova fase criativa, a que chama de “transfiguração humana”,
pois transforma anjos em cangaceiros, a despeito da vontade da
própria mãe, que não queria que o artista modelasse anjos com as
vestimentas do cangaço. Daí por diante, ganham asas, espingarda
e ares nada angelicais os beatos de movimentos messiânicos, os
cangaceiros Lampião e Maria Bonita, entre outros personagens da
cultura regional – o que resultou em polêmicas, sobretudo quando
Zé do Carmo ofereceu ao papa um monumental anjo cangaceiro
e o presente foi recusado. Medindo cerca de dois metros, a
escultura é mantida no ateliê, além de uma outra, em menor
proporção, também rejeitada pela Igreja, e mais um Papai Noel
nordestino, de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em 1982,
criou o Vovô Natalino, um velho simpático de aspecto messiânico
medindo 1,80 m, que faz Gilberto Freyre escrever artigo no Diario
de Pernambuco, de 2 de janeiro de 1983, louvando “bom e bravo
repúdio ao Papanoelismo que vem descaracterizando os bons
Natais castiçamente brasileiros...”.
Sobre a engenharia das peças gigantescas, o artista explica:
constrói um bloco até a cintura e espera secar. Depois que
está enxuto, torna oco esse bloco e levanta o restante. Em
seguida, modela os detalhes do corpo e do rosto. As peças ficam
alicerçadas numa base de barro e pousam sobre um suporte de
47
madeira com rodízios. Para ele, os primeiros trabalhos eram populares
demais. Depois disso, acredita que conseguiu modelar figuras de proporções
acadêmicas, como o Padre Cícero que mantém no acervo exposto no ateliê.
Tem, ainda, um busto de São Pedro jovem, que fez seguindo o padrão de
escultura neoclássica: proporção seguida à risca, com detalhes do rosto
bem-delineados. Durante muitos anos, foi professor de modelagem em
barro e de proporção. Escultor também em pedra, prova isso com um
busto exposto em meio às peças mais antigas. É inegável que, além da
observação do artista, o talento sobressai, garantindo a qualidade e a
adesão de discípulos. E não foram poucos os ceramistas que passaram pelo
ateliê de Zé do Carmo, na condição de aluno: Irene, Mário Pintor, Severino,
George, Tog, Luiz Carlos, Luiz Gonzaga, Précio Lira, Dica, Andréa Klimit
e Tiner Cunha. O único filho que possui não é discípulo, mas, segundo o
próprio pai, tem talento para a arte. Dedicado desde 1980 à pintura, o tema
preferido nas telas é o mesmo das esculturas: anjo cangaceiro.
48
Banda Musical
Curica
Banda Musical
Curica
49
Curica, do tupi ku’rika, é pássaro de canto estridente, da família
de papagaios e araras, que canta pelas matas e mangues.
Talvez por isso o nome da centenária sociedade musical goianense,
numa alusão ao papagaio trombeteiro. Melhor explicando,
existem, de fato, duas versões que apontam tal escolha para o
nome da banda, fundada em 1848. Segundo uma delas, a senhora
chamada dona Iria perguntou ao mestre João José, que passava
pela rua da Conceição: “Seu João, por que é que a música grita
tanto, que até parece uma curica?” A outra versão, variante da
primeira, conta que dona Iria era irmã do padre José Joaquim
Camelo de Andrade, e morava à rua Direita, em companhia das
próprias escravas. Estando, certa vez, na porta de casa, o maestro
José Conrado executava uma polca do musicista Francisco Tenório,
e ela teria dito, em voz alta, a uma de suas escravas: “Ô Rosa,
aquela música só parece dizer cu-ri-ca-cá”. A outra respondeu com
uma gargalhada, e assim ficou o apelido que, supõe-se, era usado
em tom depreciativo.
A Sociedade Musical Curica oferece, justamente por ser antiga, um
repertório de tradições, de histórias contadas pelos mais velhos,
dentre eles os nonagenários Antônio Secondino de Santana,
Meia Noite, e João José da Silva, Calixto, dois dos mais antigos
participantes da banda – falecidos após a banda conquistar o título
estadual de patrimônio vivo, concedido em 2005. Uma dessas
histórias diz respeito a uma tocata para o Imperador. Conforme
consta nos anais de Goiana, a Curica, sob a regência do mestre
Ricardinho, participou das festas em homenagem a D. Pedro
II, durante visita à cidade, em 6 de dezembro de 1859. Quatro
dias depois, ou seja, 10 de dezembro, o Diario de Pernambuco
noticiava a visita da autoridade máxima do país e dizia que a
Guarda Nacional “esteve reunida com mais de 700 praças e boa
música”. A Curica, naquele período, era a banda do batalhão.
Com um repertório musical cheio de sofisticação e variedade, o
grupo também marcou presença nas comemorações da Abolição
da Escravatura, da Proclamação da República, ajudou em
campanhas políticas do Partido Conservador e, então militarizada,
fez parte da Guarda Nacional. Criada com o objetivo de realizar
tocatas em festas religiosas, a banda foi fundada em 1848,
por José Conrado de Souza Nunes, primeiro regente do grupo
musical. Do Rio Grande do Norte, era conhecido como o filho do
marinheiro, Boca de Cravo. Segundo o historiador Álvaro Alvim
da Anunciação Guerra, cujo pseudônimo era Mário Santiago –
conforme pesquisado e publicado, na ocasião do centenário, em
1948, no livro Elementos para a história da Sociedade Musical
Curica – tudo começou com um grupo de 12 a 15 músicos que
se reuniu no consistório da igreja de Nossa Senhora do Amparo
dos Homens Pardos e resolveu criar uma orquestra sacra,
apresentando-se pela primeira vez numa tocata, no Amparo,
durante as comemorações da natividade de Nossa Senhora, ou
seja, no dia 8 de setembro de 1848. À época da fundação, era
chamada de corporação musical. Assim começa a história da
Panorâmica da rua da sede da banda
50
Curica, a mais antiga banda de música, em atividade ininterrupta,
do Brasil e da América Latina.
O abolicionista e senador do Império João Alfredo Corrêa de
Oliveira dá notícia, na biografia que escreveu sobre o 2º Barão de
Goiana – Bernardo José da Gama –, que “cada partido tinha a
sua banda de música a estafar-se em ajuntamentos e passeatas”.
Deduz-se que a outra banda era a rival Saboeira, de 1855, ainda
hoje em atividade, fundada com o objetivo de acompanhar o
Partido Liberal, oposicionista do Partido Conservador, ao qual
pertencia a Curica. As histórias da inimizade figadal entre as duas
bandas foram escritas com sangue. Entre pontapés e lances de
capoeira, gritava-se: “Viva a Curica! Morra a Saboeira!” E vice-
versa. Em 1928, visitou a capital da Paraíba, o que teve enorme
repercussão na imprensa local. Entre os sócios honorários, constam
os nomes do então presidente Getúlio Vargas e de Flores da
Cunha, interventor no Rio Grande do Sul. Durante a 2ª Guerra
Mundial, participou de passeata antinazista em agosto de 1942.
Vista aérea de Goiana (autor desconhecido)
51
No dia 1º de dezembro de 1944 recebe a visita do famoso
musicólogo uruguaio, professor Francisco Curt Lange, que,
demonstrando grande interesse pelos arquivos de composições
musicais, obteve uma relação das peças escritas no século 19, mais
uma fotografia da corporação. A banda executou, em homenagem
ao visitante, a Sonata Patética, de Beethoven; a valsa Obstinação,
de Nelson Ferreira, e o dobrado Conselheiro João Alfredo. Na data
do centenário, em 1948, Antonio Correia presenteou a Curica com
uma sede própria, a mesma onde o grupo desenvolve as atividades
até hoje, à rua do Rosário. Naquele ano, a banda também decidiu
criar estatuto próprio, ainda em vigor, em que se estabelecia a
fundação de uma escolinha de música, a fim de gratuitamente
serem transmitidos os conhecimentos musicais, pelos mais antigos,
para as novas gerações. De meados de 1960 a 1970, a banda
manteve uma formação denominada Curica Jazz, que é retomada
no início de 2009. São 29 componentes, escolhidos entre os mais
talentosos alunos da escolinha e integrantes da banda. Em meio às
novas realizações, a diretoria está organizando o primeiro registro
fonográfico, tanto da banda, quanto da jazz, para a gravação de
dois CDs a serem lançados ainda em 2010.
A Curica é um dos grandes patrimônios culturais de Goiana
e sempre marca presença em solenidades cívicas e religiosas,
inclusive nas viagens pelo Brasil. No Carnaval, subdivide-se em
duas orquestras de frevo, para tocar no centro, nos distritos e
vizinhança. Em variados eventos e inaugurações, apresenta-se
sob a forma de orquestras menores. O acervo musical conta com
mais de 800 títulos, de todos os gêneros, entre clássicos, barrocos,
dobrados, marchas de procissão, músicas religiosas, MPB, para
execução por cerca de 60 a 70 músicos. A catalogação do arquivo
histórico e musical foi realizada pelos estudantes da escolinha, em
regime de voluntariado. Resultante de um trabalho filantrópico
de maestros, diretores e instrumentistas, a banda é responsável
pela contínua preparação de novos artistas, pela renovação dos
próprios integrantes e traz no histórico a passagem de nomes
consagrados, como o famoso capitão Zuzinha, ou José Lourenço
da Silva, e os maestros Duda e Guedes Peixoto. É inegável que
a Curica tem colaborado com o despertar de talentos, com a
formação de músicos. E mais: toca a sensibilidade dos goianenses,
que a veem passar pelas ruas, despertando-lhes o amor à música e
às vivas tradições da cidade.
Edson Júnior, músico
e presidente da banda
52
Lia de
Itamaracá
Lia de
Itamaracá
53
Soberana, feito uma deusa surgida das águas do mar ou uma
rainha plena de realeza, é assim que Lia sempre aparece,
levando-nos ao prazer de ouvir e dançar uma ciranda. Sim,
porque ninguém fica imune ao ritmo da ciranda, muito menos
aos encantos da filha de Iemanjá, que se habituou a cantar desde
criança, na praia de Jaguaribe, localidade da Ilha de Itamaracá
onde nasceu em 12 de janeiro de 1944 e vive até hoje. Cheia
de familiaridade com a música e a dança, Maria Madalena
Correia do Nascimento começou a carreira artística muito jovem,
cantando ciranda desde os 12 anos. A filha de Severino Correia do
Nascimento e Matildes Maria da Conceição é a mesma Maria, ou
Lia, da música que se transformou num hino: Essa ciranda / quem
me deu foi Lia / que mora na Ilha de Itamaracá.
A história dessa deusa de ébano, de um metro e oitenta, não é
só feita de glamour. Após permanecer quase duas décadas no
ostracismo, lança em 2000 o CD Eu sou Lia, que recebe selo de
world music, graças à mescla de instrumentos de percussão e
sopro aos ritmos populares, e, por isso, chega a ser comercializado
nos Estados Unidos e na Europa. Nessa nova etapa de divulgação
do trabalho, Lia passa a viajar constantemente pelo Brasil e pelo
continente europeu, e, ainda assim, não é difícil vê-la nas rodas
de ciranda do Recife e Olinda, ou em Jaguaribe, onde funciona, à
beira-mar, o Espaço Cultural Estrela de Lia, sob o efeito mágico da
envolvente paisagem marinha, com direito a lua, pancada do mar,
cheiro de maresia e brisa balançando os coqueiros.
Nesse ambiente, Lia tem recebido, aos sábados – e desde
novembro de 2004 –, diversos artistas, como Cátia de França,
Célia coquista, a Ciranda de Baracho (das filhas do mestre, Dulce
e Severina Baracho), Antúlio Madureira. Mas, diferentemente
do bem-sucedido ressurgimento, antes a artista havia produzido
apenas um LP, A rainha da ciranda, gravado pela Rozemblit
em 1977, do qual lembra não ter recebido nada. Quando foi
cozinheira de um restaurante na ilha, também cantava no local.
Frequentava outras rodas de ciranda, esporadicamente, sem
Espaço cultural é dedicado a Iemanjá
O neto Misael
54
nenhuma projeção fora do restrito circuito de aficcionados da
cultura popular. A partir dos anos 1980 passa a ser merendeira
da Escola Estadual de Jaguaribe, profissão que seguiu exercendo,
paralelamente à carreira artística.
A volta triunfal ao mundo da música se deu graças à atuação do
produtor Beto Hees, que a levou, em 1998, a participar do festival
recifense Abril pro Rock, no qual foi aplaudida por 12 mil pessoas.
Daí em diante, sobretudo a partir de 2000, passou a fazer turnês
pelo Brasil e exterior, com os shows do primeiro CD, gravado
pela Ciranda Records, que contém composições dela própria,
de cirandeiros do Recife, de compositores renomados e algumas
de domínio público. Cinco músicas foram gravadas ao vivo em
1998, no Rio de Janeiro, durante participação no projeto Vozes do
Mundo, do Centro Cultural Banco do Brasil. Quase uma década
depois desse lançamento, sai em 2008 o segundo CD, Ciranda
de ritmos, com direção musical de Carlos Zens, e destaque para
Bezerra do Sax, as filhas de Baracho e uma composição de Capiba.
Conforme indica o título, o disco contempla outros ritmos
pernambucanos para além da ciranda: frevo, coco, maracatu.
Mas, claro, quem permanece reinando é a majestosa cirandeira.
Habituada, há mais de 50 anos, ao convívio com mestres da
ciranda, Lia sempre faz questão de lembrar que Baracho era um
grande amigo. É dele a ciranda: Morena vem ver / que noite tão
linda / a lua vem surgindo / cor de prata. // Faz-me lembrar / da
minha Maria / quando pra ela / eu fazia serenata. No embalo da
ciranda e das afinidades eletivas, Baracho e Lia compartilhavam
três importantes aspectos: boa voz, presença marcante na hora de
puxar a roda e habilidade no tratamento dos temas, como o do
amor.
O convívio artístico, entretanto, não se resumiu aos experientes
cirandeiros. Teca Calazans, Edu Lobo, Clara Nunes, Geraldo de
Almeida, Ney Matogrosso e Paulinho da Viola, entre outros, são
alguns dos grandes nomes da música brasileira que já cantaram Lia
em versos próprios, em composições da cirandeira ou de outros.
Essa ciranda quem me deu foi Lia é a mais antiga, de 1960 para
1961, e foi gravada por Teca Calazans. Paulinho da Viola também
ofereceu versos bonitos para a negra mais elegante dentre todos
os ilhéus: Eu sou Lia da beira do mar / morena queimada do sal e
do sol / da Ilha de Itamaracá (...), música incluída no primeiro CD.
O convívio artístico também levou a dama da ciranda por outras
veredas, como a de estrela do curta-metragem Recife frio, de
2009, dirigido e realizado por Kleber Mendonça Filho.
Com o porte e a realeza da soberana Iemanjá, a artista comanda
as atividades do Centro Cultural Estrela de Lia, transformado
desde 2008 em Ponto de Cultura, onde são oferecidas oficinas
55
de arte, cerâmica, percussão, fotografia, malabares, rabeca,
teatro, cavalo-marinho. Permanecem, ainda, as temporadas de
apresentação artística: recitais poéticos, bandas alternativas,
duplas de violeiros, filhas de Baracho, e, claro, a tradicional
ciranda de Lia. Toda a programação cultural é gratuita e
sempre conta com o envolvimento da comunidade local, ou
seja, os habitantes da Ilha de Itamaracá e, especificamente, os
da praia de Jaguaribe. Em franca ebulição, o Ponto de Cultura
foi contemplado, no início de 2009, com o prêmio Interações
Estéticas e Residências Artísticas, numa parceira da Fundação
Nacional das Artes (Funarte) com o Ministério da Cultura (Minc).
Quem mais se beneficiou foram os habitantes da localidade, com
as oficinas promovidas pelo mestre rabequeiro Luiz Paixão e pela
atriz Cinthia Mendonça.
Por onde viaja, Lia de Itamaracá vai somando os elogios que
tem recebido também na própria terra. É chamada de deusa,
rainha. Na França, um jornal comparou-a à cabo-verdiana Cesária
Évora. No Brasil, é constantemente relacionada a Clementina
de Jesus, sobretudo no sul e Sudeste. No mesmo local em que
nasceu, frequentou a escola primária e assistiu a muito coco
de roda, ciranda, pastoril e bumba meu boi. Não teve iniciação
musical com ninguém, foi aprendendo sozinha, inspirando-se
na paisagem iluminada da ilha, nos jangadeiros que saem para o
alto-mar e vêm trazendo peixes, nas ondas salgadas que quebram
na praia, na brisa marinha que tem lhe soprado aos ouvidos umas
rimas, sussurrando-lhe quantas estrelas tem o céu e quantos
peixes tem o mar. Versos e balanço encadeados pela percussão e
sopro realçam a voz rascante de Lia, “uma diva da música negra”,
conforme noticiou o New York Times. A deusa da ciranda sabe
envolver-nos todos, plena de generosidade e magnetismo, até
quando empresta a voz ao genial Capiba: “minha ciranda não é
minha só, é de todos nós, é de todos nós”.
As filhas de Baracho cantam ciranda com Lia
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DilaDila
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Cangaço e peripécias diabólicas são os temas predominantes
no universo do mestre em fabulações, gravador de capas
de folheto e álbuns em policromia, autor de rótulos de bebida
e remédios, ilustrador de livros e publicações variadas. O nome
de batismo do marechal do cordel do cangaço, conforme se
autodenomina, é José Soares da Silva, ou Dila, nome emblemático
no mundo da gravura popular. Nascido em 23 de setembro de
1937, em Bom Jardim, e estabelecido em Caruaru, o filho de
Domingos Soares da Silva e Josefa Maria da Silva testemunha que,
dos anos 1950 em diante, mergulha no mundo do cordel e da
xilogravura, quando passa a comercializar folheto nas feiras de
Pernambuco, Alagoas, da Paraíba e do Ceará.
Municiado de generosa fabulação, Dila compartilha com amigos
e visitantes a riqueza do seu mundo imaginário, as invenções e
reminiscências de mais de cinco dezenas de anos dedicados às
artes gráficas, à poesia de cordel e à xilogravura. No limiar entre
realidade e imaginação, tão bem-cultivadas pelo poeta, rememora
a chegada em Caruaru, em 1952, e as primeiras xilogravuras, que
58
foram para folhetos dele mesmo, de Francisco Sales Arêda e de
outros poetas de meio de feira, tais como Vicente Vitorino, Chico
Sales, Jota Borges, Antônio Ferreira de Morais e João José da Silva.
E, finalmente, a facilidade para com os desenhos credita ao pai
que, segundo ele, foi caricaturista. Em 1974, em plena atividade
de poeta, gravador, impressor, aparece no documentário de Tânia
Quaresma, Nordeste: cordel, repente, canção, em que figura a
profissão registrada em letras garrafais pintadas na fachada do
mesmo endereço onde ainda hoje reside, em Caruaru: Art Folheto
São José. Romances e folhetos. Do autor e editor: Dila é aqui.
A partir da experiência na fabricação de carimbos, substitui
as matrizes de madeira pela borracha, obtendo um resultado
de impressão que o pesquisador Roberto Benjamin batizou de
folk-off-set. Utiliza cores diversas numa mesma matriz, ou faz
inúmeras combinações de gravura a partir de detalhes elaborados
em matrizes diferentes. As figuras são preparadas separadamente
para permitir isso. Irrepreensível no desenho e na invenção, a
gravura limpa, bem-talhada, complexa exibe narrativa imagética
absolutamente original, sob ângulos inusitados, sem contato
sistemático com os cânones do desenho clássico. A partir dos anos
1970, inova em publicações coloridas e no formato cordel. Em
1973, edita o álbum de gravuras em policromia Rasto das histórias,
utilizando-se de azul, vermelho e amarelo sobre fundo branco.
Em 1974, publica A bagagem do Nordeste, com a capa em preto,
vermelho e amarelo sobre fundo branco. Viver do cangaceiro sai
em 1975, pela Art folheto São José. O álbum Réstias do cangaceiro
é editado em 1981.
O fabricante de rótulos de bebida instala na própria casa máquinas
de tipos móveis e prelo, a fim de publicar folhetos e imprimir
gravuras. Além disso, as ferramentas manuseadas para cavar
a matriz são faca, peixeira, canivete, lâmina de barbear, que
cortam a borracha, ou neolite, para fazer capas de cordel, rótulos
e carimbos. Abre letreiros e desenhos do cordel numa mesma
matriz, em borracha ou ainda na madeira, reinventando o tipo
59
fixo, conforme lembra Roberto Benjamin, no texto Aparatos dos
livros populares – Dila editor popular. E o registro da própria
editora é tão mutante quanto o caudaloso fluxo narrativo do
poeta. A Art folheto São José virou Gráfica São José, ou Gráfica
Sabaó, ou Preéllo Santa Bárbara, ou Fhòlhéteria Càra d’Dillas.
Nesse registro, o nome da folheteria aparece na contracapa do
cordel, com um autorretrato de Dila vestido de cangaceiro.
E, mais, o registro de autoria do texto e da xilogravura é sempre
tão variável quanto o do editor. Dila: o marechal do cordel do
cangaço. Dila Soares da Silva. Dila Ferreira da Silva. Dyyllas Sabóia.
Dila Sabaó Sabóia. José Cavalcanti e Ferreira, José Soares da
Silva, Dila ou Dillas. Recorrentes num universo poético expresso
em ininterrupto fluxo criador, e também na atual invenção da
“literatura de cordel em contos”, da “literatura de cordel em
prosas” que vem engendrando e editando, os motivos passam
por ciganos e cangaceiros, Chico Heráclio, Lampião, Padre
Cícero, o Pai Eterno, Pessoa e Dantas, Ariano Suassuna, “xylgra
e cordel”, Dyylas Sabóia. Se, em vez de cordel e xilogravura,
produzisse um filme de cangaço, deliberou, de antemão: seria o
protagonista, o cangaceiro Relâmpago. Assim, em meio a fantasias
e criação poética, Dila vai recebendo visitas diárias de estudantes,
pesquisadores, turistas, todos ávidos em conhecer o mundo
maravilhoso do artista que está sempre a exibir, com o maior
prazer, as mais recentes invenções de poesia e xilogravura.
60
Mestre
Salustiano
Mestre
Salustiano
61
Ainda menino, sete anos, brincava cavalo-marinho pelos
engenhos de Aliança. Foi arriliquim, dama, galante, cantador
de toada, nove anos de Mateus, depois foi ser mestre. O pai era um
tocador de rabeca, aprendeu com ele. Os folguedos e brincadeiras
eram vistos e experimentados desde criança: maracatu, ciranda,
coco, forró, mamulengo, improviso de viola. Estudou até a 4ª série
primária. Trabalhou em casa de família, vendeu sorvete, picolé, foi
ambulante. Conforme declarações próprias, considerava-se o maior
dançador de cavalo-marinho e, nos versos de maracatu, inspirava-se
no mestre Antônio Baracho. Manoel Salustiano Soares, ou mestre
Salustiano, artista múltiplo e produtor de espetáculos e folguedos
tradicionais organizados e mantidos em família, nasceu a 12 de
novembro de 1945, em Aliança, e foi lá, na Zona da Mata Norte,
que se iniciou no universo cultural de que é um dos mais afamados
representantes. O filho de Maria Tertunila da Conceição aprendeu
a ler, escrever e sempre teve inteligência suficiente para tirar o
máximo proveito dos dotes artísticos.
Começou a morar em Olinda em 1965, mesmo ano em que
começou a tocar rabeca profissionalmente, aprendida pelas mãos
do pai e professor, João Salustiano, que ensinou o filho a fazer e
a usar o instrumento. Passou a ser mais conhecido na década de
1970 e em 1977 participa de um comercial de TV. Foi entrevistado
em 1989 no programa televisivo Som Brasil e, nessa época,
segundo ele mesmo, só conhecia a Mata Norte, nem sequer outras
regiões de Pernambuco. Em 1997, integrou comitiva de artistas
locais que foi a Cuba. Durante mais de 10 anos organizou o festival
da rabeca e coordenou a Casa da Rabeca do Brasil. Por quase
20 anos participou, na condição de fundador, da Associação de
Maracatus de Baque Solto de Pernambuco. Recebeu o título de
reconhecido saber em 1990, concedido pelo Conselho Estadual de
Cultura, e o título de doutor honoris causa, na UFPE. Foi agraciado
com o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, em
2001, pela Presidência da República. Percorreu todos os estados
brasileiros e outros países, como Bolívia, Cuba, França, Estados
Unidos.Maciel Salu e Barachinha
62
Com a casa repleta de filhos, o mestre Salustiano sempre manteve
a liderança da família e conseguia envolver todos nos projetos
culturais que constantemente articulava no entorno da própria
residência, no bairro olindense de Cidade Tabajara, reunindo
a comunidade, os vizinhos, turistas e pesquisadores de cultura
popular. Inicialmente, era no espaço Ilumiara Zumbi que as
apresentações aconteciam. Depois, as festas foram transferidas
para a Casa da Rabeca do Brasil, espaço inaugurado pela família
para oficinas, danças, encontros de maracatu rural e de cavalo-
marinho, shows de música regional. No Natal, vários grupos de
cavalo-marinho se reúnem e brincam a noite toda. Tem também
pastoril, ciranda, o cavalo-marinho Boi Matuto, fundado pelo
mestre em 1968, e o Mamulengo Alegre, outro brinquedo da
família, cujos bonecos eram feitos por Salu mesmo. Dublê de
artista e artesão, esculpia no mulungu os bichos do bumba
meu boi, cavalo, boi, burra. Fazia em couro de boi e de bode as
máscaras do cavalo-marinho. No domingo de carnaval, chegam
ao terreiro da família troças, ursos, caboclinhos, boi, burra, além
do grande acontecimento da tarde: a trincheira do maracatu rural
Piaba de Ouro, que fundou em 1977, e hoje é estruturado com
mais de 300 componentes. Na segunda de carnaval, acontece o
encontro de todos os maracatus rurais de Pernambuco.
63
Graças à sensibilidade artística e às invenções de homem
inteligente, Salustiano cultivava a memória da infância, povoada
de cavalo-marinho, maracatu, mamulengo, pastoril, ciranda,
forró de oito baixos, reisado, marujada, fandango, poesia
improvisada, ao mesmo tempo em que gerenciava os próprios
folguedos e temática casa de espetáculos. Depois de tentar a
vida como ambulante e empregado doméstico, foi funcionário
da prefeitura de Olinda e professor de arte popular. Por fim,
conseguiu certa dignidade financeira com o terreiro enorme para
apresentações, serviço de bar, salão para dança e uma loja, onde
são comercializados produtos de confecção própria, como rabeca,
alfaia, mineiro, bagem de taboca, pandeiro, mamulengo e os
discos. Foram quatro CDs gravados, movidos pelas sonoridades
de ciranda, maracatu, mamulengo, coco, forró, frevo: O sonho
da rabeca, As três gerações, Cavalo-marinho, Mestre Salu e a sua
rabeca encantada. Dos 15 filhos, dois fabricam rabeca: Wellington
e Cleiton Salu. O bailarino Pedro Salustiano montou o espetáculo
Samba no canavial. O músico, compositor, poeta improvisador
e MC Maciel Salu lançou o CD A pisada é assim, entre outras
importantes gravações, e é um dos integrantes da Orquestra
Contemporânea de Olinda.
Salustiano faleceu no Recife, em 31 de agosto de 2008.
Entretanto, confortável é saber que o legado se perpetua nas
produções culturais e criações artísticas dos filhos, legítimos
herdeiros e continuadores da obra do Mestre Salu.
Filhos Maciel, Cleiton e Manuelzinho
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Índia MorenaÍndia Morena
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Contorcionista, trapezista voadora, acrobata, cantora, ginasta,
atriz circense. Eis aí alguns dos atributos da grande dama do
circo pernambucano: Margarida Pereira de Alcântara. Ou, Índia
Morena, nome artístico deliberadamente escolhido por serem
índios o pai e a avó paterna. Destacada pela dedicação profissional
exclusiva à vida circense, Margarida convive desde os 10 anos
com o magnetismo do mundo dos mágicos, palhaços, humoristas,
rola-rola, malabaristas, equilibristas. Na verdade, a estreia na vida
artística foi inaugurada, a partir de 1952, em shows de calouros,
nas matinês infantis promovidas pelo Circo Democratas, que
aconteciam na Vila de São Miguel, bairro de Afogados, Recife,
onde àquela época o circo estava montado. Aos 12 anos, a
cantora mirim já interpretava, com alma, canções de Vicente
Celestino, Ângela Maria, Núbia Lafayete.
Filha de Eloy Pereira de Alcântara e Maria das Dores de Alcântara,
Margarida nasceu no Recife, em 13 de julho de 1943. Órfã de pai
aos nove anos, interrompeu os estudos no terceiro ano primário
e não havia grande expectativa de desenvolvimento profissional,
sequer de realização artística, para essa criança nascida e criada
dentro da maré, pescando crustáceos nos mangues de Afogados
para ajudar na sobrevivência da família. Adotada por Severino
Ramos de Lisboa – o palhaço Gameloso – e afilhada de crisma de
Maria Tenório Cavalcanti – a dona do antigo circo Itaquatiara Real,
no qual Índia se engajou a partir de 1º de julho de 1953, contra a
vontade materna –, essas confluências resultaram, claro, do talento
evidente da jovem circense e contribuíram para o florescimento
de singular trajetória artística. E mais: vieram acrescentar novos
elementos à história dos circos populares do Brasil.
Além de realizar viagens pelos Estados Unidos, Argentina,
Paraguai, Uruguai, Bolívia, trabalhando em diversos circos – dentre
os quais o Gran Bartolo, o Garcia, o Itaquatiara, o Edson, o Águia
de Prata, o Coliseu Mirim, o New American Circus –, Índia Morena
organizou, com a participação de Albemar Araújo, a coletânea
Dramas Circenses, em que foram transcritos seis tradicionais
66
dramas encenados nos circos populares, tais como A louca do
jardim e Lágrimas de mãe. As peças teatrais, cedidas por Índia,
fazem parte do acervo da Associação dos Proprietários e Artistas
Circenses do Estado de Pernambuco (Apacepe), organização
fundada em 1993 por Índia Morena e pelo marido, Maviael Ribeiro
de Barros. O livro, contendo 161 páginas, foi publicado em 2006,
pela Fundação de Cultura Cidade do Recife.
Índia Morena considera o circo “o palácio onde vive com alegria”
desde os 13 anos, quando decidiu largar totalmente a mãe e
entregar-se de vez ao picadeiro: passou no teste de caloura e foi
contratada para trabalhar no Itaquatiara. “Ali, eu vi o mundo”:
foi assim que nasceu para a vida artística, ao mergulhar desde
a primeira vez na lona de um circo e depois sagrar-se como
trapezista voadora e melhor contorcionista pernambucana. Depois
do Itaquatiara, trabalhou como ginasta e cantora num circo de
Olinda, o Circo do Palhaço Violino. Atuou no Circo Águia de
Prata, de propriedade de Euclides Águia de Prata que, depois,
passou a ser o Circo Edson. Ainda participou do Coliseu Mirim,
pertencente a um funcionário da prefeitura do Recife, conhecido
Apresentadora do próprio circo,
Índia Morena inicia mais um espetáculo,
dessa vez no subúrbio de Jaboatão
67
por Benigno. Em meio ao talento e à dedicação integral à carreira,
ia consolidando-se um contínuo processo de aprendizagem no
próprio meio circense, a partir do convívio com grandes nomes
do circo e da ousadia de cada nova experiência. Entretanto, em
meio aos prazeres e conquistas da biografia artística, um grande
desgosto na vida de Índia Morena quase a leva à bancarrota:
a traição do ex-marido com uma menina de circo resultou em
doença e lesão pulmonar, com prolongado internamento no
hospital Otávio de Freitas. Foi aí onde conheceu o atual marido,
que nada sabia de circo e, entretanto, aceitou abraçar o ofício,
acompanhando-a ainda hoje.
Desde 1977 possui, com Maviael, o Gran Londres Circo, pois o
antigo proprietário do Circo Edson, falido, e para quem Índia
Morena trabalhava, doou parte do negócio a título de pagamento
pelos serviços prestados por ela à companhia circense. Índia nele
injetou experiência e recursos próprios e é no Gran Londres que,
desde essa época, vai exibindo as múltiplas habilidades aprendidas
em todo o percurso artístico, cantando e apresentando os
espetáculos. Em meio a uma trupe com mais de 20 integrantes,
contracena com um palhaço cantor e compositor de músicas
irreverentes, com equilibristas, contorcionistas, transformistas,
engolidores de faca, malabaristas, pernas-de-pau, escada giratória
e mais quatro palhaços. A temporada em cada local é variável,
conforme a aceitação do público. Os espetáculos são geralmente
noturnos, mas há também matinês nos finais de semana e
feriados. A folga é sempre na segunda-feira.
O Gran Londres, itinerante como deve ser todo circo de
tradição, circula, sobretudo, pelos arredores do Recife e Região
Metropolitana, a exemplo de Jaboatão, Paulista, Abreu e Lima.
Aonde o circo vai, agrega as bandas de música locais, fisga o
público com espetáculo tradicional e ainda oferece uma atração
única: um bode pagador de promessa, que sobe uma rampa,
ajoelha-se e beija uma imagem de Nossa Senhora Aparecida,
padroeira do Brasil. “Eu só tenho o terceiro ano primário, mas
quem tem o primeiro ginasial não vai comigo, não, porque eu
aprendi muita coisa em teatro”, vangloria-se a artista, que também
não esquece a dureza da infância mergulhada na lama, catando
caranguejo. Apesar de todas as mazelas, Índia segue cantando
e louvando a magia do circo, com a elegância e o magnetismo
próprios de uma grande dama circense.
68
Homem da
Meia-noite
Homem da
Meia-noite
69
De fraque, cartola, gravata borboleta, dente de ouro, lá vem o
Homem da Meia- Noite, vem pela rua a passear, enfeitiçando
os céus olindenses e arrancando suspiros de amor. Claro, é o mais
afamado galante, o grande Don Juan do carnaval de Olinda e não
é, de maneira alguma, simplesmente um boneco, é calunga, com
todos os atributos e segredos que essa palavra suscita. A figura
do sorridente cavalheiro, envolta em mistérios e rituais próprios, é
associada ao candomblé, pois foi no dia 2 de fevereiro de 1932,
data dedicada a Iemanjá, que o calunga de madeira desfilou
pela primeira vez na tradicional folia. O Homem da Meia-Noite,
com cerca de quatro metros de altura, é o mais antigo boneco
gigante de Olinda. Nascido na categoria “troça” em 1932, passa
a clube de alegoria e crítica a partir de 1936. É de muitos anos,
portanto, que o galanteador vem arrancando suspiros de moças e
senhoras postadas à janela para ver o amado passar: ele próprio
em figura de gentleman anima as ladeiras do sítio histórico desde
a madrugadora invenção na longínqua década de 1930.
As ruas estreitas, sobretudo a do Amparo, e o Largo do
Bonsucesso testemunham a alegria e irreverência dos foliões
que gastam pelos menos quatro horas para acompanhar um
dos desfiles mais cobiçados da folia olindense. O percurso
é praticamente o mesmo desde o princípio, e o boneco vai
desfilando trajado de verde e branco, com um relógio na lapela
e a chave da cidade nas mãos. A saída acontece pontualmente
à meia-noite do sábado de Zé Pereira, partindo da sede, que
fica em frente à igreja do Rosário dos Homens Pretos, no
Bonsucesso. O local é marcado pela prática de tradições culturais
de negros escravos, desde a construção do templo religioso na
segunda metade do século 17, e, inclusive, foi essa a primeira
igreja em Pernambuco a ter irmandade de homens pretos.
Nenhuma estranheza, portanto, quanto à ligação do calunga
com o candomblé, mesmo que a aura de misticismo se misture à
irreverente balbúrdia momesca, em meio a orações e oferendas
com cachaça na troca de roupas do calunga, nos preparativos do
sábado à tarde.
Saída do Homem da Meia Noite, Estrada do Bonsucesso, Olinda, 1998
70
A existência do grupo carnavalesco se deveu a uma dissidência
de integrantes da Troça Carnavalesca Mista Cariri, fundada em
1921 e que àquela época era quem abria o carnaval, saindo às
quatro da manhã do domingo. O exímio entalhador Benedito
Bernardino da Silva, ou “Benedito Barbaça”, o encadernador
Cosmo José dos Santos, o pintor de paredes Luciano Anacleto
de Queiroz, acompanhados de Sebastião Bernardino da Silva,
Eliodoro Pereira da Silva e do sapateiro Manoel José dos Santos,
apelidado “Neco Monstro”, ao se sentirem excluídos da diretoria
daquela troça decidiram criar uma nova agremiação que “desse
uma rasteira no Cariri”, conforme conta o pesquisador Olimpio
Bonald Neto, no livro Os gigantes foliões em Pernambuco. O autor
refere, aliás, que esse não foi o primeiro gigantone a aparecer no
carnaval pernambucano: o mais antigo registro é creditado a Zé
Pereira e Vitalina, bonecos nativos da cidade sertaneja de Belém
do São Francisco, criados respectivamente em 1919 e 1929.
Quanto ao surgimento do boneco olindense, pelo menos duas
versões explicam a genealogia do fenômeno: uma delas credita
Carnaval de 2003
71
ao cinéfilo e fundador Luciano Anacleto de Queiroz a inspiração a
partir do filme O ladrão da meia-noite; a outra atribui a Benedito
Bernardino, fundador e autor do hino da agremiação, a construção
do calunga a partir de alegado flagrante de certo namorador, alto,
elegante e sorridente, que andava principalmente na madrugada
do sábado para o domingo, sempre de verde e branco, com
chapéu preto e dente de ouro.
A dissidência do Cariri foi tramada em dezembro de 1931. Para
dar forma ao boneco que ganharia as ruas à meia-noite do sábado
de Momo, os fundadores Benedito Barbaça e Luciano de Queiroz
tomaram todas as providências de marcenaria e pintura, na
modelagem daquele que seria o boneco dos primórdios do grupo.
Originalmente, o calunga pesava mais de 55 quilos, porque, além
da armação em madeira, a cabeça, o busto e as mãos eram feitos
em papel gomado; os braços, recheados com palha de colchão;
nas mãos, areia para dar peso e equilíbrio às evoluções executadas
ao som do frevo. Evidente que o boneco passou por um processo
de reengenharia, a fim de perder peso e, assim, aliviar a carga do
carregador ou “chapeado”. Um dos mais ilustres carregadores foi
Alcides Honório dos Santos, Cidinho, que durante mais de quatro
décadas deu vida e alma ao boneco. Bastos “Botão”, Henrique
Alabamba, Amaro de Biluca, Paulo 19, Pedro Garrido compõem a
galeria dos chapeados do Homem da Meia-Noite.
Esses históricos nomes animam, há décadas, a algazarra de
foliões inveterados, além dos novatos que são acrescidos às
ladeiras estreitas de Olinda, a cada ano. E o mais animador é
saber que a alegria repercute durante todos os meses, com o
projeto social Gigante Cidadão – Ponto de Cultura nacional desde
2005 – que oferece, de segunda a sábado, na sede do clube,
oficinas de música, dança, teatro e vídeo a cerca de 50 crianças da
comunidade. Apreciando de dentro ou de fora do boneco, quem
haveria de resistir a esse fogoso e ao mesmo tempo sóbrio cidadão
olindense, a esse magnético sorriso de manequim, a essas gigantes
pernas de pau dançando na multidão?
Saída do relógio, 1998
Passistas acompanhando a orquestra, 1998
72
José Costa LeiteJosé Costa Leite
73
Aversatilidade tem marcado a trajetória do cordelista, xilógrafo
e autor de almanaque popular. Nascido a 27 de julho de
1927, em Sapé, na Paraíba, o filho de Paulino Costa Leite e Maria
Rodrigues dos Santos radicou-se em Condado, Pernambuco, a
partir de 1955. José Costa Leite estreou na literatura de cordel
em 1947, vendendo, declamando e escrevendo folheto de feira.
O primeiro almanaque foi feito em 1959, para o ano de 1960,
e chamava-se, àquela época, Calendário brasileiro. As primeiras
xilogravuras são de 1949, para os folhetos, de própria autoria, O
rapaz que virou bode e a Peleja de Costa Leite e a poetisa baiana.
Na infância e adolescência, trabalhou na cana, plantou inhame,
foi cambiteiro, cambista, mascate, camelô de feira. Xilogravador
primeiramente por obra da necessidade, ou seja, a de produzir
a capa dos próprios folhetos, Costa Leite conseguiu aprimorar o
talento para as artes plásticas nessas seis décadas de familiaridade
com a madeira, quicé, goiva e formão. Como acontece a diversos
autores de cordel, o talento extrapola o mundo da escrita. É ele
quem desenha e talha na madeira e depois imprime no papel as
ilustrações de capa dos próprios folhetos. Conforme tradição dos
gravadores populares pernambucanos, que se iniciaram a partir do
diálogo com a poesia, aprendeu sozinho a arte da gravura, vendo
fazer e experimentando.
74
Os primeiros cordéis chamavam-se Eduardo e Alzira – “uma
historinha de amor”, conforme classificação do próprio poeta – e
Discussão de José Costa Leite com Manuel Vicente, cujos temas
eram “se não casar perco a vida” (Costa Leite) e “eu morro e não
caso mais” (Manuel Vicente). Essas primeiras publicações não tinham
ilustração de capa, apenas os letreiros. Voz imortalizada, na década
de 1970, em três LPs gravados no Conservatório Pernambucano de
Música, nos quais deixou registradas grandes histórias de cordel,
Costa Leite já cantou muito na feira da cidade onde vive e na vizinha
Goiana. Atualmente continua indo, sozinho, de madrugadinha
e em transporte coletivo, vender folheto em Itambé, cidade
pernambucana em que o outro lado da avenida principal é Pedras
de Fogo, Paraíba. São duas cidades, dois estados numa mesma
geografia, espécie de síntese da vida do poeta. Assim que se encerra
a feira, por volta do meio-dia, segue para Itabaiana, Paraíba, dorme
lá, e, dia seguinte, passa a manhã cumprindo um ofício que exerce
há mais de seis décadas. Cantava e vendia bem nas feiras. Ainda
dá voz a uma ou outra estrofe. Às vezes, recita e canta trechos de
folheto da própria autoria, como O sanfoneiro que foi tocar no
inferno, e mais alguns versos de outros autores, a exemplo de O
navio brasileiro, clássico de Manoel José dos Santos.
75
Costa escreve diariamente. Aventura, discussão, exemplo
são alguns dos temas preferidos. Criou pelejas fictícias com
importantes personagens do mundo da cantoria de viola, como
Preto Limão, Severino Borges Silva, Patativa do Assaré, Ivanildo
Vila Nova. Publica versos fesceninos sob pseudônimo para,
segundo ele próprio, não manchar a reputação do restante
da obra. Assina H. Renato, João Parafuso, Seu Mané do Talo
Dentro, Nabo Seco nos folhetos de safadeza, cheios de picardia
e duplo sentido, como A mulher da coisa grande, A pulga na
camisola. Frequentador assíduo da capital, semanalmente vem
ao Recife entregar originais ou receber edições produzidas
na Editora Coqueiro. Viajava muito a Olinda, entre os anos
1970 e 1990, quando editava os folhetos na Fundação Casa
das Crianças. Tem, também, folhetos impressos na editora
Tupynanquim (Fortaleza, Ceará), do poeta e artista gráfico
Klévisson Viana.
Entretanto, independentemente de quem imprime, todas as
publicações autorais recebem o selo A voz da poesia nordestina,
de José Costa Leite. E recebem, na capa, xilogravuras do próprio
autor. No campo da astrologia, continua a escrever o Calendário
nordestino, distribuído para todos os estados do Nordeste, Rio
de Janeiro e São Paulo. Sobre os cordéis, não tem a menor ideia
da quantidade de histórias que fez chegar a leitores e ouvintes,
além dos muitos manuscritos inéditos que guarda nas gavetas.
Contudo, para além de todas essas rememorações, há muito
mais: Costa Leite, andarilho das tradições, é testemunho vivo
de mais de 60 anos de peregrinação por feiras e mercados de
Pernambuco, da Paraíba, do Ceará. São mais de oito décadas
com vigor físico e memória suficientes para comercializar os
folhetos que produz e recapitular parte da história das edições
populares brasileiras, da qual é um dos protagonistas.
Acervo pessoal de JCL contém
manuscritos, matrizes, xilogravuras,
estoque de cordéis variados
76
Zezinho de
Tracunhaém
Zezinho de
Tracunhaém
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De cambiteiro, cortador de cana e agricultor chegou a pedreiro
e barbeiro, num tempo em que, nos anos 1960, de dia
labutava na construção civil e à noite, na cerâmica. Para aumentar
o orçamento, também se virava nas artes da barbearia. O estalo
que desencadeou toda a carreira artística aconteceu no dia 20 de
abril de 1966, conforme registrado no jornal Gazeta de Nazaré,
em artigo escrito pela jornalista Marliete Pessoa e publicado a 27
de agosto de 1966: “No cortiço do velho prédio do Acadêmico,
nasce mais um artista do povo”. Soldado, boêmio, músico,
valentão, vendedor de milho assado e de amendoim, mendigo de
braço cotó, marceneiro, pedreiro, ferreiro: essas são as primeiras
figuras que reinam na gênese da estatuária do mestre Zezinho.
Os primeiros ensaios de modelagem resultam de inquietações e
descobertas próprias de artista, a partir da observação do trabalho
de Lídia Vieira nas visitas inspiradoras à vizinha Tracunhaém. O
artista lembra, entretanto, que a primeira peça foi um par de
namorados, encostado na porteira de um engenho de açúcar,
com cerca de 20 cm de altura. Nessa época ele vivia em Nazaré,
era trabalhador rural e o barro que esculpia vinha de um engenho
próximo, o Alcaparra.
78
A estreia no cenário artístico aconteceu na 1ª Exposição de Arte
Popular em Nazaré da Mata, na biblioteca municipal, organizada
pela jornalista que escreveu o artigo, e inaugurada a 1º de outubro
de 1966, mesmo ano em que o escultor se inicia e é descoberto
pela jornalista. Exibe 60 bonecos. Nessa mesma década, dois
anos depois, ou seja, em 1968, decide morar em Tracunhaém
e dedicar-se exclusivamente ao trabalho de ceramista. Era a
época em que os famosos da região eram José Antônio e Lídia
Vieira, então viúva do renomado santeiro Severino. O filho de
Júlia Batista da Cruz, que nasceu em Vitória de Santo Antão, a 5
de julho de 1939, jamais havia pensado que antes dos 30 anos
fosse viver em Tracunhaém e se sustentar do ofício de ceramista.
Nem mesmo imaginou que receberia o título de cidadão daquele
município, o que aconteceu em novembro de 2002. Honraria que
vem se somar à comenda Troféu Construtores da Cultura Cidade
do Recife, recebida em 1992, e ofertada pelo então prefeito da
capital pernambucana. Além da jornalista Marliete Pessoa, um
dos principais incentivadores e divulgadores da obra do santeiro
foi o colecionador pernambucano Abelardo Rodrigues, que
frequentemente visitava o artista e encomendava trabalhos.
Há mais de 40 anos radicado naquela cidade da Mata Norte, José
Joaquim da Silva não calculava que conquistaria alguma fama
com os gigantescos santos de barro, pois sequer tinha parentes
envolvidos com a arte cerâmica, quando optou pelo ofício.
Constituída a fama de homem talentoso, calcada na inventividade
de peças como José e Maria Grávida, Lampião, Maria Bonita, São
José de Bota, Pietà, é que os filhos e a esposa também passaram a
viver do artesanato em barro, cuja matéria-prima vem da Paraíba.
A esposa, Maria Marques, mais quatro dos nove filhos – José
Carlos, Josenildo, Cláudio e Fernando –, e dois dos13 netos –
Lucas (filho de Carlinhos) e Bruno (filho de Cláudio) –, todos eles se
inspiraram na labuta de Zezinho e passaram a trabalhar as próprias
peças em regime semicoletivo, envolvendo-se com o conjunto
Filhos se dedicam ao mesmo ofício
79
das etapas, que vão desde o preparo do barro até à modelagem,
secagem, queima em forno a lenha e coloração das esculturas.
Nelas, predominam os motivos sacros, dondocas e namoradeiras.
Algumas das obras do mestre recebem dele mesmo uma
certificação de autenticidade, como é o caso da peça São Francisco
sentado olhando para o céu, registrada como peça única e com
data de conclusão em 1º de setembro de 2004. A temática
preferida do artista é a sanfranciscana, em que o santo e pássaros
são esculpidos em grandes proporções. Especialista em imagens
sacras, grandioso é o aspecto visual da obra de Zezinho, que adora
modelar peças com dois metros de comprimento e prefere pintá-
las com tinta terracota. Na Mata Norte, Tracunhaém, topônimo
indígena que significa panela de formiga, testemunha há décadas
o florescimento de diversos artistas do barro, tais como Antônia
Leão, Lídia Vieira, Severino Gomes de Freitas, Nuca, Maria Amélia.
O mestre Zezinho, um dos mais antigos ceramistas vivos naquela
cidade, tem obras espalhadas pelo mundo, em museus, igrejas,
coleções particulares. Sua obra tem figurado em inúmeros salões
de arte, coroando décadas de habilidades manuais e invenção.
Igreja em Tracunhaém, próxima ao ateliê do mestre
80
Confraria
do Rosário
Confraria
do Rosário
81
Ao som de caixa, zabumba e pífanos, o último dia do ano em
Floresta é solenemente comemorado: a secular irmandade
denominada Confraria do Rosário reservou, no calendário
religioso, o 31 de dezembro para festejar Nossa Senhora do
Rosário, a patrona dos confrades. Paralelamente, a cidade
comemora a festa do padroeiro, o Bom Jesus dos Aflitos. Assim,
no início da manhã, os fogos logo denunciam: é chegado o dia do
desfile e coroação dos reis, que, em azul e branco, se apresentam
ornados com manto, cetro e coroa. Acompanhados de vistoso
cortejo, com estandarte, guarda de honra armada de espada e
séquito de juízes, todos trajados de branco, os componentes da
confraria cantam, louvando a Senhora do Rosário: Virgem do
Rosário, sois uma alta rosa / Que entre as mais flores sois a mais
formosa – ou com antigas loas, como a registrada, em 1957, por
Álvaro Ferraz, no livro Floresta: Memórias duma cidade sertaneja
no seu cinquentenário: Oi Quenda, oi Quenda, / Oi Quenda,
Maravi’a! / Hoje é dia do Rosário / Do Rosário de Maria. Pequenos
agricultores e criadores das Fazendas Paus Pretos e Boqueirão,
empregados de um curtume e funcionários públicos compõem o
grupo, formado por habitantes da zona rural e também da sede
do município.
A comunidade é, sobretudo, formada por quilombolas e, por
isso mesmo, é símbolo de resistência negra. Nesse contexto
socioeconômico e cultural floresceu a irmandade religiosa, que,
conforme registros datados de 1792 e depoimento de João Luiz da
Silva, rei perpétuo desde 2007 e representante legal da instituição,
há mais de 200 anos a confraria existe na cidade de Floresta
82
dos Navios, sertão de Itaparica. Composta por 36 membros,
sobretudo antigos guardiões da tradição, a cada ano o ritual se
repete sempre no mesmo dia, com a missa matinal e mesa farta
à base da culinária regional para todos os que estiverem na festa,
e entra pela tarde, quando são coroados os novos reis para o ano
seguinte, conforme escolha das juízas (às vezes, a decisão decorre
da necessidade de pagamento de promessa). À noite, a irmandade
prestigia a missa do padroeiro e sempre faz questão de que o dia
dedicado aos negros seja o melhor do novenário.
A Igreja do Rosário é o ambiente onde se desenrola parte da
festa. Construída em 1777, pelo capitão José Pereira Maciel,
em homenagem ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos, na localidade
denominada Fazenda Grande, de onde se originou a cidade
de Floresta, sabe-se que somente em 1792 é que a igreja foi
inaugurada, e, segundo tradição oral, desde essa data a confraria
existe, embora somente a partir de 1897 o templo passe a ser
dedicado a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, quando
o padroeiro da cidade, o Bom Jesus dos Aflitos, ganhou novo
templo defronte. Tais irmandades, a exemplo da Confraria do
Rosário, incluem-se, conforme defende o pesquisador Veríssimo de
Melo, entre as “várias formas de reações contra-aculturativas dos
negros no Brasil”. A existência de irmandades religiosas de homens
pretos e suas respectivas cerimônias estão sempre intimamente Reprodução de fotografias antigas do acervo do grupo
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associadas às festividades de coroação de reis e rainhas e é uma
recorrência em folguedos e danças brasileiros, a exemplo de
reisados, congadas, maracatus, cambindas, pretinhas do congo.
A 500m das duas igrejas, está a sede da Confraria do Rosário,
de onde sai a rainha para, com o rei, seguirem à igreja. São
precedidos por oito espadachins e acompanhados de 11 juízes.
Há cinco juízas principais, estas são as mais antigas integrantes
do grupo, a quem todos devem obediência, inclusive rei e rainha.
Entre elas, uma é juíza do rei, outra é da rainha. Há, ainda, dois
juízes do andor, dois para as espadas e duas juízas são do altar.
O cortejo, segundo antigos relatos, era composto por quatro
espadachins, sendo dois velhos e dois jovens. Conforme dá conta
João Luiz, Manuel Preto foi um grande espadachim que ocupou a
função desde criança e por mais de 70 anos. Entretanto, antes de
morrer, passou o cargo para Manuel Caetano, ou Jubileu, que tem
33 anos. Hoje, os espadachins são todos jovens, menos Seu João,
que tem 80 anos. Cabe aos espadachins a proteção do cortejo
real, cruzando as espadas a fim de que rei e rainha possam passar
por todas as portas que estiverem no caminho até à igreja. Eles
também realizam movimentos que se assemelham a um imaginário
combate ou luta de espadas. Na procissão, São Benedito abre o
cortejo dos santos, acompanhado da imagem histórica de Nossa
Senhora do Rosário e do Bom Jesus dos Aflitos. Uma banda de
pífanos, composta por quatro músicos – dois pífanos, uma caixa
e uma zabumba –, vai executando músicas religiosas. Apenas na
volta da missa, alterna repertório variado com a banda de música
da cidade, tocando inclusive frevo, forró, maracatu. João Grande,
que foi rei perpétuo durante cerca de duas décadas, certamente
estaria satisfeito vendo perpetuar-se a festa dos ancestrais.
Tesoureiro Quinca Leocádio e Rei Perpétuo João Luiz Rainha Perpétua Lúcia de Amaro, falecida em junho/2010 Juiz das Espadas Manoel Cassiano e Espadachim Fernando
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Fernando SpencerFernando Spencer
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Filho de Nicodemes Brasil Hartmann e Maria Serafina Spencer
Hartmann, o cineasta Fernando José Spencer Hartmann nasceu
no Recife, em 17 de janeiro de 1927. Aposentado como analista
em ciência e tecnologia da Fundação Joaquim Nabuco, o cineasta
coleciona prêmios e títulos que tem recebido ao longo de mais
de cinco décadas dedicadas à sétima arte. Recebeu o título de
Memória Viva do Recife, em 1997, quando completou 70 anos.
Aos 80, foi o homenageado do Cine PE, quando então apresentou
o novo filme Almery, a estrela. Tanto no Museu da Imagem e do
Som de Pernambuco (MISPE) quanto no Cinema Rosa e Silva,
há a Sala Fernando Spencer, franca homenagem ao incansável
cinéfilo/cineasta, cuja estreia se deu com um curta-metragem
experimental, a ficção A busca, em 1969.
Jornalista profissional, exerceu a crítica de cinema durante
quatro décadas no Diario de Pernambuco, exatamente de 1958
a 1998. Spencer também foi repórter do Jornal Pequeno, em
1951, e revisor do Jornal do Commercio em 1957. Foi produtor e
realizador do programa Falando de Cinema, entre os anos de 1963
e 1978, na TV Rádio Clube, Rede Tupi. Foi produtor, realizador e
apresentador de Filmelândia, programa veiculado na Rádio Clube
de Pernambuco e Rádio Tamandaré do Recife. No ano de 1985,
86
coproduziu, com Ivan Soares, o projeto Coisas Nossas: Cinema
Pernambucano, em oito capítulos de 30 minutos. O cineasta e
pesquisador foi diretor da Cinemateca da Fundação Joaquim
Nabuco, membro do Centro Brasileiro de Pesquisadores do Cinema
Brasileiro, vice-presidente da Fundação Nordestina de Cinema,
sócio-fundador da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD),
fundador e primeiro presidente do grupo Cinema Super-8 de
Pernambuco.
Acumulando as funções de roteirista, diretor, jurado, palestrante,
debatedor, presidente de júri, professor, Fernando Spencer tem,
ainda, no currículo, diversos livros publicados, a exemplo de
Histórias do tio Joca, editado em 1990 pela Bagaço. Esse foi o
primeiro título que lançou no gênero literatura infantil. Sobre
cinema, escreveu o texto Ciclo do Recife: 60 anos, publicado pela
Massangana, em 1983. Ainda pela Massangana, lançou em 1985
o catálogo de filmes da Cinemateca da Fundaj. E, pela Bagaço,
produziu em 1989 a publicação 20 anos de cinema (1969 – 1989):
Filmografia. No Quase catálogo, organizado por Heloísa Buarque
de Holanda e publicado em 1991 no Rio de Janeiro, escreveu
verbetes sobre estrelas do cinema mudo de Pernambuco. Em
1995, publicou textos sobre os 100 anos de cinema. No mesmo
ano, publicou, em parceria com a bibliotecária Lúcia Gaspar, da
Fundaj, O Nordeste no cinema: uma contribuição bibliográfica,
para a revista Ciência & Trópico.
Em 1974, recebeu o prêmio de melhor Super-8 na III Jornada
Brasileira de Curta-Metragem, no estado da Bahia, com o filme
Valente é o galo. No mesmo ano, o cineasta fez a estreia no
gênero documentário com o filme Caboclinhos do Recife. Aliás,
Fernando Spencer, com carretéis e latas de filme 16mm
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a temática dos folguedos tradicionais é recorrente na obra de
Spencer. Em 1999, realizou A arte de ser profano, vídeo sobre
os pastoris, e em 2004 volta ao tema, dessa vez com Os irmãos
Valença, em que o pastoril religioso é um tema incontornável.
No VI Festival Nacional de Cinema, realizado em Aracaju, pela
Universidade Federal de Sergipe, no ano de 1978, recebeu o
prêmio de Melhor Filme de Comunicação para As corocas se
divertem. Com o filme Estrelas de celulóide, recebeu um troféu
candango no Festival de Cinema de Brasília, em 1987. No III
Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa, realizado na
cidade de Aveiro, Portugal, em 1988, Fernando Spencer ganhou,
em parceria com Flávio Rodrigues, o prêmio de melhor curta,
na categoria documentário, pelo trabalho Evocações de Nelson
Ferreira.
O percurso de Spencer ganha ainda mais sentido quando ele
recapitula o princípio desse amor antigo: cedo, apaixonou-se pelo
cinema, precisamente aos 12 anos, quando o pai lhe oferece um
projetor alemão para filmes de 35mm, o suficiente para inaugurar,
de forma decisiva e em grande estilo, a trajetória deste cineasta
das três bitolas. Assim conhecido no meio cinematográfico pela
produção tanto em Super-8 quanto em 16 e 35mm, a criatividade
e o amor às tradições pernambucanas selam a produção de
Fernando Spencer, com os documentários acima mencionados
e, ainda, Frei Damião: Um santo no Nordeste? (1977), Santa do
Maracatu (1981), Trajetória do frevo no Recife (1987). Sobre
literatura de cordel, realiza o documentário O folheto (1971),
na bitola 16mm, em parceria com Liêdo Maranhão, João José e
Esman Dias.
A produção mais recente, de 2009, é o curta Nossos ursos
camaradas, em que o cineasta compõe uma abordagem
antropológica de fogosos ursos e La ursas na cultura
pernambucana, a partir de pesquisa encomendada ao amigo
folclorista Mário Souto Maior. Com esse filme, Spencer estreia em
nova bitola – a digital – e adianta que a obra não encerra a sua
carreira (agora, das quatro bitolas!). Maria Bonita e Lampião são
personagens dos novos projetos desse artista que assina uma obra
autoral, prolífica, incansável.
88
Teatro Experimental
de Arte
Teatro Experimental
de Arte
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Oque há por trás de um nome? Teatro Experimental de Arte
é o nome que resume toda uma vida dedicada às artes
cênicas e à formação de jovens e estudantes. Sociedade civil de
caráter puramente artístico cultural, é assim que se autodefine a
organização fundada em Caruaru, a 16 de julho de 1962, pela
pedagoga, atriz e encenadora Arary Marrocos Bezerra Pascoal
e pelo contador, ator e autor teatral Argemiro Pascoal, cuja
nomenclatura primeira – Movimento Teatral Renovador – foi
logo substituída pela atual, na ocasião da assembleia inaugural
para aprovação do estatuto. Ao lado de Arary e Argemiro, a
lista de fundadores inclui Antonio Paulino de Medeiros, Carlos
Fernandes da Silva, José Gustavo Córdula, Fernando Gomes de
Oliveira, Edvaldo Pereira de Castro, Antonio Silva, Margarida
Miranda, Maria José Bezerra, Abias Amorim, Paulo Roberto e
Sá, Maria Ezinete de Melo, Inácio Tavares e Jonas Mendonça.
Filiado à Federação de Teatro de Pernambuco (Feteape), o TEA é
considerado, por lei municipal, um órgão de utilidade pública.
Quando Argemiro se muda de Bezerros para Caruaru, em 1951,
de modo intermitente atuava na cidade o Grupo Intermunicipal
de Comédia, com a participação dos atores Rui Rosal, Joel Pontes,
Pedro Valença. Em 1956, o declarado apreciador da linguagem
cênica decide fundar o Teatro de Amadores de Caruaru (TAC),
com Cosme Soares, Creuza Soares, Antônio Medeiros e Wilson
Feitosa. Entretanto, é em julho de 1962, ocasião em que a
cidade recebe o I Festival de Teatro de Estudantes do Nordeste,
coordenado por Joel Pontes, caruaruense radicado no Recife,
que surge o TEA, justamente a partir da breve, mas instigante,
experiência e da constatação de que algo precisava ser feito
quanto à cena teatral local.
Marcado pela ininterrupta atuação no agreste pernambucano,
o grupo é o criador do Festival de Teatro Amador e Estudantil
do Agreste (Feteag), promovido desde 1988, e do Festival de
Teatro do Estudante de Pernambuco (Festep), que acontece a
partir de 2002. Tais eventos contam com a participação de alunos Oficina de expressão corporal e dicção para atores
90
de colégios privados e escolas públicas municipais e estaduais
daquela região, visto que um dos principais objetivos do grupo é
exatamente contribuir com o desenvolvimento de jovens talentos e
promover intercâmbios artísticos mediante a promoção de festivais
e mostras de artes cênicas. Outro importante projeto é o Teatro na
Comunidade, que consiste em apresentar espetáculos populares
em palco ou praças públicas da cidade e zona rural, inclusive
promovendo debate acerca de questões de interesse das próprias
comunidades.
Construída com recursos próprios, a sede fica no bairro de
Indianópolis. Chama-se Teatro Lício Neves, em tributo ao poeta
pernambucano. Anualmente, são oferecidas oficinas de iniciação
teatral, ministradas por Arary Marrocos, Jô Albuquerque, José Carlos
da Silva e Carlos Alves, sob a coordenação de Argemiro Pascoal. O
TEA é considerado um dos principais responsáveis pela renovação
da cena teatral do interior do estado. Além de já haver encenado
diversos textos de qualidade inquestionável, tais como A bruxinha
que era boa, O Baile do Menino Deus, Cancão de fogo, Morte e vida
severina, e os clássicos Antígona, Romeu e Julieta, A metamorfose,
entre os anos de 1967 e 1979 o grupo registrou participação
contínua no espetáculo da Paixão de Cristo, em Fazenda Nova. O
primeiro seminário do teatro de Caruaru foi promovido pelo TEA.
Desde a fundação, mais de 50 espetáculos foram encenados pelo
grupo que, inclusive, vem acompanhando o despertar de novos
talentos, a exemplo do premiado teatrólogo Vital Santos.
Sede do TEA, em Caruaru
91
São José do Rio Preto, em São Paulo; Feira de Santana e Salvador,
na Bahia; São Cristóvão, em Sergipe; Maceió, em Alagoas;
João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba; Recife, Garanhuns,
Serra Talhada, Arcoverde, São José do Egito, Bonito, Limoeiro,
Pesqueira, Belo Jardim e Gravatá, em Pernambuco, são algumas
das cidades nas quais o grupo participou de festivais, mostras de
teatro e com as quais estabeleceu intercâmbio cultural. Ao longo
de todas essas décadas, o TEA se ocupa, igualmente, em promover
palestras, debates, seminários, simpósios. Diversos cursos têm
sido ministrados por importantes profissionais da cena teatral
e das artes, a exemplo de Clênio Wanderley, Marco Camarotti,
Luiz Maurício Carvalheira, Isaac Gondim Filho, Didha Pereira,
Rubem Rocha Filho, Romildo Moreira, Ivan Brandão, Valdeck de
Garanhuns, Roberto Benjamin, José Manoel, Zélia Sales, José
Francisco Filho, Feliciano Félix, Ivonete Melo, Valdi Coutinho,
Antonio Miranda Cavalcanti, José Soares da Silva (poeta e xilógrafo
Dila), ceramista Manoel Galdino, Vavá Paulino, Jorge Clésio, Joel
Pontes, Luiz Marinho Filho.
Obstinação: este é o motor que move o casal cheio de amor pelas
artes cênicas. O que resulta daí são as muitas trajetórias artísticas
que vêm ganhando o mundo, com a decisiva colaboração de Arary
e Argemiro.
Argemiro PascoalArary Marrocos
92
Caboclinho
Sete Flexas
Caboclinho
Sete Flexas
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“Quem são vocês que vêm da jurema?” Esta é pergunta
que pode ser feita a um mestre daqui, mais precisamente
a José Severino dos Santos Pereira, o Mestre Zé Alfaiate, sócio
fundador do Caboclinhos 7 Flexas, desde 7 de setembro de 1971,
no bairro de Água Fria, Recife. Com a finalidade, expressa no
estatuto, de “promover e desenvolver atividades carnavalescas,
recreativas, sociais e culturais”, Alfaiate lembra que criou a
brincadeira no ano de 1969, em Alagoas. Nessa época, em
que frequentava terreiro de umbanda, certa vez sonhou com o
Caboclo Sete Flexas – “cacique, pajé, deus do sol e deus da lua,
moreno, alto, foi criado sozinho nas matas e é curandeiro” – a
quem fez pedido. Portanto, graças a promessa, e como oferenda,
decidiu que criaria o clube, sob a proteção daquele guia,
exatamente por considerar unha e carne caboclinho e jurema.
Nascido em São Lourenço da Mata, em 25 de julho de 1924,
Alfaiate volta para Pernambuco em 1971 e, embora à época
mantivesse vínculo com o antigo Caboclinhos Carijós (de 1896),
em que começou a brincar aos 10 anos, funda o grupo que se
mantém exuberante, graças à dedicação integral que dispensa
ao brinquedo, das mais triviais demandas às mais invisíveis,
como bordar fantasia e levar comida para o caboclo da mata. Os
caboclinhos, da linha da jurema, são uma das belas e tradicionais
expressões do carnaval pernambucano.
Mais do que somente com pajelança, é à base de muito sacrifício
e trabalho que o caboclinho se mantém firme e vigoroso. Paulo
Sérgio dos Santos Pereira, ou Paulinho 7 Flexas, é filho e parceiro
incansável de Alfaiate, ao lado da mãe, Marlene Francisca
Neponucena. Figura importante na organização do grupo e um
dos mais respeitados dançarinos tradicionais do país, Paulinho 7
Flexas dança desde os dois anos. Nascido em Maceió, Alagoas,
a 28 de outubro de 1968, a partir dos 14 anos passa a dar aulas
no Teatro Brincante, na capital paulista, a convite do multiartista
Antônio Carlos Nóbrega. Paulinho e o sobrinho Carlos André
Rodrigues Pereira são os guias Jupi e Agaci, puxadores dos
Mestre Alfaiate
94
cordões dos caboclos. A sobrinha Adriana Rodrigues Pereira e a
irmã Carla dos Santos Pereira são as guias Taquaraci e Jupiara, dos
cordões das caboclas. Alfaiate, além de tudo, comanda desenhos
e bordados da vestimenta. No caboclinho, o núcleo familiar lidera
todas as atividades: onde há a casa, há a sede do brinquedo, a
oficina de dança com os ensaios semanais, as sessões de costura
e bordado, as reuniões, os preparativos de cada carnaval, enfim,
a colorida e melodiosa alegria, a firmeza dos gritos de guerra do
folguedo, mesmo quando em repouso tocadores e bailarinos.
Guerra, baião, perré, toré de caboclo, guerra: alternam-se as
batidas ou toques executados pelo baque, assim denominados
os músicos. Ouvidos atentos à execução das loas ou versos
gritados – os gritos de guerra, e das loas ou versos declamados,
improvisados ou não, sincronizados com a regular batida das
preacas (conjunto de arco e flecha em madeira), tarol, atabaque,
caracaxá marcam a melodia executada pelo gaitista. Reginaldo
Caetano do Nascimento, ou Nadinho da Gaita, é o músico que
executa as melodias no instrumento também chamado flauta ou
Paulinho Sete Flexas Nadinho da gaita
95
inúbia. O tirador de loa pode ser o cacique, o puxante, o guia,
o morubixaba. Nesse caso, é Paulinho 7 Flexas quem puxa as
loas. Enquanto isso, os olhos se maravilham com as flutuações
de penachos e plumas, com o saltitar das coreografias. Cacique,
cacica, pajé ou curandeiro, os curumins, os guias Jupi e Agaci, a
ala dos caboclos, os contraguias ou substitutos dos guias, as guias
Taquaraci e Jupiara, a ala das caboclas são as figuras que enchem
de graça as ruas e os olhares, aprendizes ou não. É obedecendo
aos sons dos caboclos do baque que os brincantes exibem
coreografia aeróbica, plena de leveza e agilidade. Impossível não se
encantar com a sonoridade e as coreografias de um caboclinho.
Conforme depoimento de Paulinho, o grupo pertence à mesa
branca, espírita, aos orixás de caboclo, à mesa da jurema. Entre
os ritos, há a saída de caboclo. Uma semana antes do Carnaval,
é necessário preparar uma oferenda, ou seja, levar comida para
o caboclo da mata. Um prato virgem, sete bifes, sete qualidades
de fruta, uma vela e mel. O pedido é sempre pedido de paz:
contra brigas e desavenças. O pajé porta um cachimbo e dá
fumaçadas para limpar a frente do clube, quando os brincantes
estão dançando. A jurema, bebida preparada à base de vinho,
champanha, mel, liamba, semente e folha de alfavaca de
caboclo, é alcoólica, entretanto tem a função de limpar o corpo
dos brincantes – as ervas cortam as dores e os males físicos.
Muita lantejoula, semente de ave-maria, cocar de pena de
ema, machadinha, cabaça, cipó, lança e preaca são alguns dos
elementos que compõem o deslumbrante vigor da cabocaria. Nas
manobras e evoluções, as coreografias apontam para a dança do
cipó, a dança da rede, a caça do caboclo, o casamento de uma
tribo com outra. Os dois puxantes Jupi e Agaci marcam com apito
a virada dos ritmos. E o porta-estandarte sai na frente, anunciando
a chegada do clube: Caboclinhos 7 Flexas, um nome de respeito.
96
Selma do CocoSelma do Coco
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Os cocos nordestinos, conforme escreveu Mário de Andrade,
“São ardentes. São expressivos. São profundamente
humanos e sociais”. Assim é que, entre tapiocas e coco, canta a
ex-tapioqueira da Sé de Olinda: O coco me adotou, me chamam
rainha do coco, o povo é meu amor. Filha de Maria Valentina
da Conceição e José Teodósio da Silva, Selma Ferreira da Silva
nasceu em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, a 10 de
dezembro de 1929. As lembranças mais antigas envolvendo a
brincadeira do coco de roda remontam à infância, claro, quando
pais e avós levavam aquela criança esperta e de voz melodiosa
para dançar e se divertir nos terreiros de chão batido e luz
de candeeiro. Frequentemente cantavam coco nas casas dos
compadres, sobretudo para comemorar o São João. As memórias
e experiências, aliadas ao talento artístico, deram o mote e Selma
vem glosando, com classe. E não deixa de ter importância saber
que a alegria da tradição familiar foi mantida, no desfiar de todas
essas décadas dedicadas ao ritmo.
Ainda criança, aos 10 anos, transferiu-se para o Recife, bairro
da Mustardinha, onde se casou, teve 14 filhos e, mal saía da
juventude, ficou viúva. Há 50 anos, decidiu morar em Olinda,
tradicional reduto de samba de coco, e daí por diante cultivou o
hábito de promover concorridas rodas para animar os finais de
semana da família e ganhar uns trocados. Quando foi tapioqueira
no Alto da Sé, jogava charme para os turistas com o feitiço da voz,
do temperamento e ritmo envolventes. Cantava coco na Sé, no
Carmo e na frente da própria casa, aos domingos. E, bom para
Selma, bom para todos, integrantes da geração manguebeat se
encantaram com a coquista, o que certamente contribuiu para a
consolidação da carreira da cantora. O filho José Ferreira da Silva,
pandeirista, foi o produtor, parceiro e diretor musical da mãe
famosa.
Morena do dente de ouro, qual é o teu feitiço? Cantando e
dançando um coco sincopado, matreiro e cheio de duplo sentido,
Selma sabe que agrada. E gosta do que faz. Embrenhando-se
Selma do Coco em frente à Igreja de Guadalupe, Olinda
98
no meio poético-musical do coco de roda, entramelando-se
nas devoções de um coco que sutilmente também batuca, o
grito de guerra “a-há” antecede o canto e faz a amarração de
uma performance cheia de ginga, simpatia e irreverência. Na
malemolência foi expandindo-se, conquistando o mercado.
Segundo a própria artista, o “a-há” não tem nenhuma relação
com orixás e outras entidades, o grito acontece enquanto o
pensamento vai rodando, procurando no repertório o próximo
coco a ser executado. Com três coletâneas gravadas na Alemanha
e uma na Bélgica, Selma do Coco também já cantou no Lincoln
Center Festival, em Nova Iorque, Estados Unidos, no ano de
2003. Tem feito shows Brasil afora: no Rio de Janeiro, em São
Paulo, Salvador, Natal, Fortaleza, Limoeiro do Norte, Itamaracá,
Garanhuns, citando apenas alguns dos locais por onde tem
passado. Os trabalhos se espalham em muitos países, como
França, Espanha, Suíça, Portugal.
No Recife, em 1990, quando ainda nem tinha um nome
consolidado no cenário nacional, participou do I Festival de
Cantadores de Praia do Nordeste, na praia de Boa Viagem. Em
1997, o festival recifense Abril pro Rock ajudou-a a deslanchar a
fama. Nesse mesmo ano, a Câmara de Vereadores concedeu-lhe
99
o título de cidadã olindense em reconhecimento à artista que
mora naquela cidade desde o final da década de 1950. O carnaval
pernambucano de 1998 ficou marcado pelo sucesso da música
A rolinha, gravada em Berlim, Alemanha, no estúdio Ufa Fabrik,
entre agosto e outubro de 1997, para o disco Cultura viva. E o
refrão Pega, pega a minha rola reinou quase absoluto naquela
folia. Em São Paulo, fez show no Instituto Itaú Cultural, no ano de
1998 e, na casa de espetáculos Tom Brasil, apresentou-se em 1999
com a banda de pífanos de Caruaru e Zeca Baleiro. Em 2006,
volta a se apresentar no Itaú Cultural. Recebeu a comenda 2007
“Ordem do Mérito Cultural”, diploma concedido pelo Presidente
da República Luiz Inácio Lula da Silva.
Dos vários CDs produzidos, foi com Minha história, gravado
na Alemanha e depois lançado pela Paradoxx em 1998, que
conquistou o Prêmio Sharp de 1999, concedido à música de
mesmo título do disco. Há, ainda, na discografia, Coco de roda,
o elogio da festa, gravado ao vivo em Olinda, em 1996, que,
após masterização na Bélgica, ficou pronto em 1999. Em 2000,
o filho Zezinho fez a produção geral e direção musical do disco
Jangadeiro. Outro trabalho é Raízes da cultura, gravado em Olinda
e lançado em 2003. Dona Selma: Bodas de ouro em coco, com
faixa multimídia, foi gravado e produzido entre 2008 e 2009.
Há, ainda, a registrar, a participação em várias coletâneas. Todos
os discos são independentes, e sempre sob a coordenação do
incansável Zezinho, à época o único filho vivo, lamentavelmente
falecido em abril de 2010.
Netas fazem backing vocal do grupo
100
Maestro NunesMaestro Nunes
101
OLargo de Santa Cruz é testemunha: os acordes do arranjador,
compositor e maestro atiçam ouvidos e olhos em direção
ao sobrado de número 438, no bairro da Boa Vista. É ali onde
funciona a Escola de Frevos do Nordeste Maestro Nunes e aonde
o artista vai diariamente para compor, dar aulas, receber pessoas.
Vem da infância o gosto pela música: aos nove anos, tornou-se
clarinetista e já sabia orquestrar. Aos 12, compunha dobrados,
tocava num pastoril religioso. O pai, que era músico, pedreiro e
mestre de obras, não tinha tempo nem paciência para ensinar ao
filho e ainda queria enviá-lo para o seminário. Mas a criança, que
sonhava ser instrumentista, sempre chorava ao ver passar a banda
de música de Angélica, o povoado onde nasceu e viveu a infância.
Graças a Sebastião Luís, mestre da banda e amigo da família, o
garoto se livrou de ser padre e passou a receber aulas de iniciação
musical.
Filho do clarinetista e violonista José Francisco Nunes e de Maria
Apolônia Nunes, José Nunes de Souza é da cidade de Vicência,
Pernambuco, e a data de nascimento é 22 de junho de 1931. Em
1950, por problemas políticos relacionados ao pai – que perdeu o
cargo de diretor da Banda 1º de Novembro, do distrito de Angélica
–, muda-se com toda a família para o Recife, onde decidiu
aprimorar as habilidades musicais. Foi aluno do Conservatório
Pernambucano de Música (CPM). Estudou música sacra e regência
na Faculdade de Filosofia do Recife, em 1960. Cinco anos depois,
concluiu o curso de licenciatura em Belas Artes, pela UFPE.
Frequentou aulas de canto gregoriano e canto coral, harmonia,
regência, teoria e solfejo, contraponto, fuga e orquestração. O
principal orientador, conforme depoimento do próprio Maestro
Nunes, foi o professor Mário Câncio Justo dos Santos, além do
padre Jaime Diniz. No rol dos principais mestres, com quem
aprendeu grandes lições, situa Capiba, Nelson Ferreira e Zumba.
Quando fala da formação musical, o maestro ressalta a
importância de ter estudado os períodos barroco, clássico e
romântico da música ocidental, dos quais os artistas preferidos
são Bach e Beethoven. Com formação política de esquerda,
filiou-se desde jovem ao Partido Comunista Brasileiro (PCB),
engajando-se no Movimento de Cultura Popular (MCP), o que lhe
rendeu perseguição política e afastamento da Banda Municipal
do Recife (BMR), no início da década de 1960. Havia assumido
em 1958, por meio de concurso, o cargo de primeiro clarinetista
da BMR. Entretanto, continuou na militância apesar da censura
e da repressão, e as conquistas artísticas fizeram sobressair o
talento do compositor que, a partir dos anos 1970, foi campeão,
consecutivas vezes, na categoria “frevo de rua”, dos concursos
Leda de Carvalho, Frevança, Recifrevo. Entre as músicas premiadas
estão: Formigueiro, uma homenagem ao maestro Formiga, ou
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Ademir Araújo; É de perder o sapato, relembrando o fato de
um músico ter perdido o sapato enquanto tocava na banda do
maestro, durante o desfile da troça carnavalesca mista O cachorro
do homem do miúdo; Mosquetão, em alusão a um colega que foi
baleado durante a ditadura; É de rasgar a camisa, dedicado à troça
Camisa Velha; Bomba-relógio, em parceria com Mário Orlando,
após a explosão de uma bomba, no Recife, durante a ditadura
militar. Interessante notar que o próprio maestro faz questão de
sempre registrar a gênese de cada criação musical.
Outras composições importantes, independentemente da
conquista de prêmios, há décadas têm-lhe rendido fama de “rei
do frevo de rua”, sobretudo o clássico Cabelo de fogo, feito para
um amigo, apelidado de Birino, que pintava os cabelos. Coquinho
no frevo, Fubica, Folhas que não caem, Santa, Ecos do Carnaval,
Balançando a pança, Segurando a peteca, entre tantos outros
célebres frevos, corroboram o talento do artista e enriquecem
o repertório de diversas agremiações carnavalescas, a exemplo
de Cachorro do Homem do Miúdo, Vassourinhas, Lenhadores,
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Girassol da Boa Vista, Lavadeiras de Areias, Amantes das Flores,
Pás Douradas, Beija-flor em Folia, Pão Duro, Seu Malaquias.
Compôs e gravou para os tradicionais clubes Leão e Camelo, do
carnaval de Vitória de Santo Antão.
Em 1972, na condição de assessor musical da Federação
Carnavalesca de Pernambuco, abriu a Escola Musical do Frevo,
destinada a crianças de baixa renda e aos filhos dos presidentes
das agremiações; e foi a partir desse ano que passou a ser o
principal e mais prolífico criador de frevo para os grupos foliões
pernambucanos. Em 1984, criou a Banda de Frevos do Nordeste.
Foi fundador do Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO)
e regente da banda de música 10 de Agosto, da cidade de São
Lourenço da Mata. Integrou a banda de música do Liceu de Artes e
Ofícios, da Universidade Católica de Pernambuco; a Banda Manoel
do Óleo, da União Operária da Macaxeira; a Orquestra Cassino
Americano, da concorrida boate do Recife, à época. Antes de
transferir-se para a capital, Nunes foi músico da Euterpina Juvenil
Nazarena, a Capa Bode, de Nazaré da Mata.
Na discografia, os trabalhos mais recentes são os CDs Locomotiva
do frevo 1 e 2, de 2002, em que oferece a remasterização de
repertório dos vinis lançados desde 1975. O CD Maestro Nunes:
60 anos de frevo, feito em 2008, apresenta-se também em dois
volumes, um com frevo de rua e o outro com frevo-canção e frevo
de bloco. Em 2009, sai o CD Homenagem ao criador: Maestro
Nunes, o mestre do Cabelo de Fogo, em que todas as músicas
gravadas – frevos de rua – são de autoria dele. Possui valioso
acervo de mais de duas mil partituras musicais e, exatamente com
a proposta de preservar tais preciosidades, conquistou o Prêmio
Culturas Populares 2007 – Maestro Duda, 100 anos de frevo,
concedido pelo Ministério da Cultura (Minc). Nesse mesmo ano, foi
o homenageado do carnaval do Recife.
Além da prolífica produção de frevos, o maestro compõe, ainda,
diversos outros gêneros: samba, bolero, rumba, forró. Mantém,
inclusive, a Banda Junina do Maestro Nunes, que interpreta
repertório próprio e dos mestres Luiz Gonzaga, Jackson do
Pandeiro, Zé Dantas, Humberto Teixeira. A coordenação da
agenda e das produções do maestro compete à compositora e
musicista Fátima Lapenda. Em meio ao processo criativo, entre
shows, gravações e aulas, o maestro Nunes faz questão de estar
sempre engajado em trabalhos comunitários, ministrando oficinas
a crianças e jovens, de comunidades dos bairros dos Coelhos e
Ilha do Leite, entre outros. Professor de maestros celebrados, a
exemplo de Spok e Forró, Nunes continua incansável na missão
de descobrir e incentivar novos talentos. Vida longa ao centenário
frevo, assim seja!
Reprodução de fotografia antiga do acervo do maestro
104
CanindéCanindé
105
Monumental, com quase dois metros, a escultura guarda a casa,
imperturbável e acolhedora. É o Rei Canindé, o encantado que
livra de todos os embaraços e semeia o ânimo. É ele quem comanda
“a famosa Tribo Canindé do Recife, a campeonísssima do Carnaval”
e razão de viver de Juracy Simões, a se desmanchar em alegria
e lágrimas sempre que convidada a discorrer sobre o grupo de
caboclinhos, do qual é presidente e herdeira por tradição de família.
Praticamente desde os primórdios, pai e tios de Juracy comandaram
a agremiação carnavalesca, vinculada ao culto da jurema.
Sabe-se pela história oral que, na antiga Rua das Jangadas, no
bairro de Afogados, alguém conhecido por Elesbão ou “Libão”,
com a ajuda de um amigo, identificado apenas como Eduardo,
decidiu criar um grupo de caboclinhos. Ambos eram estivadores. A
data de fundação é 5 de março de 1897, e uma característica do
grupo, inicialmente denominado “Príncipe do Rio do Rei Canindé”,
era a participação exclusiva de curumins ou crianças. Em 1909,
quando passa a ser conduzido por Manuel Batista da Silva, ou
Manuel Rufino, a agremiação começa a aceitar a presença de
adultos (apenas homens), transfere-se para a Bomba do Hemetério,
bairro onde está ainda hoje, e a denominação muda para Canindé
do Recife.
Em 20 de fevereiro de 1957, sob a direção de José Silva Araújo,
o estatuto é registrado com o nome Club Indígena Canindé,
embora a brincadeira fosse conhecida por Tribo Canindé do Recife.
Poucos anos depois, dois irmãos de Rufino – Miguel e Severino
Batista da Silva – tomam a frente do grupo e é Severino quem
passa a comandá-lo. Tratado entre os colegas por “Criança” e em
família como “Bibiano”, Severino assume a missão de conduzir
o brinquedo, sem perder de vista a íntima relação com a jurema
sagrada. O símbolo do grupo é um índio com arco e flecha. As
cores oficiais são o vermelho e o branco. Desde essa época, década
de 1950, registros orais dão conta da participação feminina, o que
terminou se transformando num diferencial em favor do sucesso
conquistado nas décadas seguintes.
Reprodução de fotografia do aniversário de 106 anos do Canindé:
na imagem, Juracy Simões, sentada, de blusa branca e óculos,
comemora com o grupo
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É o que testemunha e comprova a bisneta, neta e filha de
juremeiros Juracy Simões da Silva que, pela vida devotada aos
cabocolinhos, honra a filiação. Nascida no Recife, em 15 de julho
de 1945, o pai era o mestre carpinteiro Bibiano, ou Severino
Batista da Silva, e a mãe, Lucila Simões da Silva. Guardiã das
tradições religiosas da família e do caboclinho, Juracy vive imersa
no grupo desde que nasceu, e coordena, de fato, todas as
atividades desde 1985, quando o pai, por problemas de saúde,
fica impossibilitado de atuar no comando da agremiação. Em
1994, com o falecimento de Bibiano, funcionário da Prefeitura do
Recife, a única filha assume oficialmente a presidência, tornando-
se a primeira mulher a presidir um caboclinho, alçando, portanto,
à condição de destaque na história do carnaval do Recife, em
decorrência tanto desse pioneirismo quanto da marcante liderança.
A mãe, Lucila, devotada à jurema, enquanto tem saúde segue
colaborando na empreitada da filha. Falece em 2006.
Totalmente familiarizada com o cotidiano da Tribo Canindé,
Juracy conhece não apenas histórias da formação do grupo, mas,
sobretudo, a maneira como se desenvolviam as apresentações.
Para cada toque, ela sabe cantar e recitar as linhas, os pontos de
caboclo, as loas que vêm sendo excluídas do repertório devido
à exiguidade de tempo nas exibições públicas. Relembra, ainda,
que, na infância e adolescência, via e ouvia muito mais do que se
oferece hoje nas performances da tribo. Executado pelos caboclos
homens e por algumas caboclas, o característico e rápido bater de
flechas do grupo – a exemplo da guerra de uma, de duas e de três
–, declara Juracy que só o Canindé faz. Ao som do terno ou dos
caboclos do baque – gaita, tarol e maracaxá, aliados à batida seca
das preacas (arco e flecha) dos caboclos –, os toques ou gêneros
musicais executados são guerra, perré, baião, toré ou macumba,
sob os quais se apresentam bandeirista, casal de caciques, os
puxantes Jupi e Agaci, dois perós, dois cordões de curumins, dois
cordões de caboclos e caboclas, o rei e a rainha. São eles que
exibem a beleza das fantasias, a cadência do ritmo frenético da
percussão e sopro, a leveza dos corpos ágeis a exibir aeróbico
bailado.
Preocupada com a transmissão da memória do Canindé, sobretudo
direcionada aos jovens, Juracy tem promovido oficinas de
confecção de figurinos, de dança e de música, auxiliada por Dado,
ou Ednaldo Manuel dos Santos, um dos brincantes mais antigos e
uma espécie de show-man, que ocupa a função do puxante Jupi.
Zelosa quanto às características do Canindé, Juracy cuida para que
as fantasias tenham bordados primorosos, tenham vistosas plumas
e penas de ave, e que as manobras ou danças sejam executadas
Encontro de Caboclinhos, semana pré-carnavalesca, Recife 2010
107
com vivacidade, exuberância. Os ensaios ou treinos, momentos
preciosos de interação e aprendizagem, acontecem sempre
defronte da sede, e sempre na noite dos domingos, a partir do
mês de julho, estendendo-se à semana pré-carnavalesca. Há,
tradicionalmente, em todos os eventos e reuniões da agremiação,
principalmente nas semanas anteriores ao Carnaval, uma mesa
de frutas, oferenda aos encantados, das quais se servem os
brincantes, ao final.
Certamente esse rito propiciatório abre caminhos. O Canindé
esmera-se em todos os quesitos, sempre atraindo olhares
admirados. Em 1960, Bibiano levou o grupo a se apresentar em
Brasília, durante a inauguração do Sesi. Sem jamais perder a
realeza, foi campeão nove vezes consecutivas, de 1996 a 2004,
no concurso de agremiações do carnaval do Recife. Em 2003,
a TV Viva produziu o documentário Três rainhas e um reinado
de Momo, em que são apresentadas mulheres no comando de
agremiações, entre elas a carismática Juracy. O primeiro registro
fonográfico do secular caboclinho – No traçado do guerreiro – é de
2005, realizado pelo músico e produtor cultural Adriano Araújo.
Graças à importância do tradicional caboclinho – inclusive este era
um dos grupos carnavalescos já existentes à época de fundação da
Federação Carnavalesca de Pernambuco (1935) –, a Prefeitura do
Recife promoveu a exposição comemorativa Canindé: 110 anos de
resistência, realizada entre 13 de abril e 1º de maio de 2007, na
Casa do Carnaval, Pátio de São Pedro.
Concorrendo a edital público do Ministério da Cultura, Canindé
conquista, no ano seguinte, o Prêmio Culturas Populares 2008
– Mestre Humberto de Maracanã. Em 2009, sai o Batuque Book
Cabocolinho, de Climério Santos e Tarcísio Resende, com textos,
fotos, partituras, mais a gravação de sete faixas de áudio e faixa
multimídia dedicadas ao Canindé. Sem perder de vista a cidade tão
linda e os caminhos distantes de um reino encantado, em fevereiro
de 2010 o caboclinho foi homenageado na abertura do carnaval
do Recife, juntamente ao centenário maracatu Estrela Brilhante
de Igarassu. Com a firmeza própria do temperamento de Juracy,
sete caboclos flechando e a devida proteção do rei, as demandas
vão se desmanchando e a tribo resplandece. Salve o Rei Canindé
na Jurema, mestre que garante essa Nação. Quem for Canindé,
sustente o penacho: este é um rio que não deixará de correr, o rio
do Rei Canindé.
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Estrela Brilhante
de Igarassu
Estrela Brilhante
de Igarassu
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Uma estrela para nos guiar, canta a loa. Uma Nação muita
antiga, vinda da África para morar em Igarassu. É o que
pronuncia a voz firme de Olga e Gilmar, encantando nossos
ouvidos com as toadas herdadas dos antepassados. Pela voz deles
remontamos aos avós e pais da centenária dona Mariu, chegamos
ao tempo presente, aos seguidores de um baque triunfante a
iluminar toda a família. Se fosse para seguir uma das versões da
história oral relacionada ao grupo, 1730 poderia ter sido o início.
Entretanto, a data oficializada é 8 de dezembro de 1824. O local
era Vila Velha, em Itamaracá, à época pertencente a Igarassu. De
lá, os antepassados do maracatu migraram para o Alto do Rosário.
Mas da cidade de Igarassu o grupo não saiu e é a antiga Rua do
Rosário, no sítio histórico, quem testemunha, há décadas, o canto,
a dança e o batuque de descendentes de escravos. Às mulheres
cabe a dança, os homens ficam com a percussão.
Olga de Santana Batista, filha de dona Mariu, agora é a matriarca,
guardiã da tradição, desde que a mãe, centenária, faleceu em
2003. Olga, nascida em Igarassu a 28 de fevereiro de 1939,
começou a brincar aos 10 anos, como rainha, e com o pai também
brincava cavalo-marinho e fandango. Auxiliada pelo filho caçula,
mestre Gilmar, é com firmeza que os dois lideram rei, rainha,
vassalos, ministros, princesas, dama-regente, dama do paço, porta-
estandarte, porta-candeeiros, porta-símbolo, baianas, batuqueiros.
Gilmar de Santana Batista é o mestre dos batuqueiros. Rogério
Raimundo de Sousa, o contramestre. Gilberto de Santana Batista
é o porta-estandarte. Dona Rita, a dama-regente, é herdeira de
uma função – a de conduzir a calunga – que coube a dona Mariu
durante os anos todos em que participou da Nação.
Mariu, ou Maria Sérgia da Anunciação, nasceu no dia 8 de
dezembro de 1898 e morreu no dia 8 de outubro de 2003, na
mesma cidade – Igarassu. Sempre na função de dama-regente,
começou a participar do maracatu aos 12 anos. O apego a “dona
Emília”, a calunga de madeira feita pelo carpinteiro Minervino do
Ó, era tanto, que a boneca dormia com ela. Afinal, dona Emília é
110
quem manda, cantam as toadas do grupo fincado nas tradições
do candomblé, para quem a calunga – a evocar ancestrais e
orixás – desempenha primordial função de protetora do folguedo:
trata-se de um objeto ritual. O pai, João Francisco da Silva, passou
a liderança do maracatu para o marido de Mariu, Manoel Próximo
de Santana. O seu Neusa, como era conhecido Manoel, ficou
incumbido das funções de rei do maracatu e mestre do batuque.
A mãe de Maria Sérgia, dona Mariassu, morreu aos 115 anos.
Com o marido, era quem comandava o maracatu e costurava
manualmente as roupas do grupo. A filha Mariu, que chegou a
quase 105 anos, ganhou a festa “100 anos de uma rainha negra”,
organizada em dezembro de 1998 pela prefeitura de Igarassu. No
centenário, Sérgia relembrou, em entrevista concedida ao Jornal
do Commercio, em 6 de dezembro de 1998, que, no cortejo real,
havia antigamente os lanceiros, ou duas crianças que iam à frente
da corte fazendo a ordenança do rei e da rainha. Outra ausência,
lamentada ainda hoje por dona Olga, é a da calunga Joventina,
que não mais se encontra no acervo do grupo.
Os instrumentos utilizados no batuque tradicional do Estrela
Brilhante são zabumba (o mesmo que tambor ou alfaia), tarol
(ou caixa de guerra), mineiro (ou ganzá) e gonguê. Os tambores,
que antigamente eram feitos com barrica de transportar o peixe
bacalhau, agora talhados no tronco de macaíba, são tocados com
uma baqueta (ao invés de duas) e uma vareta ou galho de árvore,
chamado bacalhau, o que confere um toque diferenciado ao
baque do Estrela, “um suingue muito mais gostoso”, conforme
demonstra, orgulhoso, o mestre Gilmar, que puxa, entre
outras toadas, a seguinte: Toque o gonguê / toque o tambor
/ vem mineiro e caixa / foi o mestre que mandou. Os ensaios
tradicionalmente ocorrem a partir de setembro e se prolongam
até a semana pré-carnavalesca. E no período junino, os brincantes
também se divertem, mas é com o centenário samba de coco e o
banho ou “batismo” de São João pela madrugada do dia 24 de
junho.
Entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, o maracatu
passou quatro anos sem se apresentar, conforme registrado
numa reportagem do Diario de Pernambuco, em 11 de fevereiro
de 1982, intitulada: “Maracatu volta a desfilar”. Adiante, após
mais alguns anos desativado em decorrência do falecimento
de seu Neusa e da impossibilidade de locomoção de dona
Mariu, um grupo de estudiosos da Comissão Pernambucana de
Folclore, presidida pelo pesquisador Roberto Benjamin, realizou,
durante 1993, um levantamento das toadas e da história do
grupo e, assim, foi responsável pela retomada do grupo, em
janeiro de 1994. A seguir, o grupo não mais parou. Em 1997,
foi o homenageado do carnaval de Igarassu. No mesmo ano,
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Roberto Berliner dirigiu um documentário de três minutos, em
16mm, colorido, no projeto Som da Rua, intitulado Maracatu
Estrela Brilhante. Em 1998, dona Mariu ganhou destaque com o
aniversário de 100 anos, conforme mencionado acima.
O primeiro registro fonográfico aconteceu em 2003, com
gravação ao vivo e ao ar livre, resultando no CD Maracatu Estrela
Brilhante de Igarassu – 180 anos. No início de setembro de 2008,
o grupo viaja a Portugal, para participação no XII Festival Folclore
Internacional Alto Minho, em Viana do Castelo, cidade-irmã de
Igarassu, por esta ter sido fundada pelo capitão Afonso Gonçalves,
natural daquela cidade portuguesa. Ponto de Cultura Estrela
Para Todos desde 2008, o grupo passou a promover oficinas
de percussão e dança e colocou no ar uma home page, em três
línguas. Conquistou o Prêmio Culturas Populares 2008 – Mestre
Humberto de Maracanã, do Ministério da Cultura (Minc), com o
qual realizou a remasterização e reedição do CD comemorativo
aos 180 anos. Foi contemplado com o projeto Cine Mais Cultura
(Minc), edição 2008. O tradicional Coco de Olga também foi
contemplado com o Prêmio Culturas Populares 2009 – Edição
Mestra Dona Isabel. Em fevereiro de 2010, juntamente à
centenária Tribo Canindé do Recife, ganhou homenagem na
abertura do carnaval do Recife, no Marco Zero. Com tantas ações
importantes, com tantas vozes e loas bonitas, sustente o baque,
dona Emília, que o Estrela vai continuar!
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fontes Chino ITC e Frutiger   papel Offset 120gr/m2   tiragem 3000   impressão Gráfica e Editora Liceu
Recife 2010
Patrimonios vivos 2010

Patrimonios vivos 2010

  • 2.
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  • 4.
    Maria Alice Amorim Fundarpe,2010 Patrimônios de Pernambuco
  • 5.
    5 Governador de Pernambuco| Eduardo Campos Vice-governador | João Lyra Neto Secretário da Casa Civil | Ricardo Leitão Secretário Estadual de Educação | Nilton Mota Secretário Especial de Cultura | Ariano Suassuna Presidente da Fundarpe | Luciana Azevedo Diretor de Gestão | Alexandre Diniz Diretora de Preservação Cultural | Célia Campos Diretor de Políticas Culturais | Carlos Carvalho Diretor de Difusão Cultural | Adelmo Aragão Diretora de Projetos Especiais | Rosa Santana Diretora de Planejamento e Monitoramento | Fátima Oliveira Diretora de Gestão do Funcultura | Martha Figueiredo Assessor de Comunicação | Rodrigo Coutinho Coordenador Jurídico | Hugo Branco Coordenadora de Cultura Popular e Pesquisa | Teca Carlos Coordenador de Música | Rafael Cortes Coordenadora de Artes Cênicas | Teresa Amaral Coordenadora de Audiovisual | Carla Francine Coordenador de Artes Plásticas e Artes Gráficas | Félix Farfan Coordenadora de Desenvolvimento Institucional | Irani do Carmo Coordenadora de Patrimônio Histórico | Fátima Tigre Chefe da Unidade de Informática | Luciano Magalhães Coordenação editorial: Maria Acselrad Supervisão: Eduardo Sarmento Assistência: Lilian Silva Pesquisa e textos: Maria Alice Amorim Fotografia: Luca Barreto Projeto cartográfico: Luís Bulcão Projeto gráfico e diagramação: Gilmar Rodrigues Revisão: Maria Helena Pôrto Editora e gráfica: Liceu Copyright © Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco Amorim, Maria Alice. Patrimônios vivos de Pernambuco/ Maria Alice Amorim; apresentação de Luciana Azevedo; organização de Maria Acselrad – Recife: FUNDARPE, 2010. 116p. il. 23cm. ISBN 978-85-7240-089-3 1. Patrimônios vivos – Pernambuco. 2. Patrimônio imaterial. 3. Salvaguarda. I. Azevedo, Luciana. II. Acselrad, Maria. III. Título. CDU 316.7 A524p
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    6 Ana das Carrancas· 15Texto Institucional · 6 Luciana Azevedo Manuel Eudócio · 23Patrimônio Vivo em Contexto · 9 Maria Acselrad Nuca · 31Cartograma de Mestres e Grupos · 12 Maracatu Leão Coroado · 39Referências · 112 Zé do Carmo · 43 Lia de Itamaracá · 51 Manuel Salustiano · 59 Homem da Meia-Noite · 67 Zezinho de Tracunhaém · 75 Teatro Experimental de Arte · 87 Caboclinho Sete Flexas · 91 Maestro Nunes · 99 Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu · 107 Camarão · 19 J. Borges · 27 Canhoto da Paraíba · 35 Banda Musical Curica · 47 Dila · 55 Índia Morena · 63 José Costa Leite · 71 Confraria do Rosário · 79 Fernando Spencer · 83 Selma do Coco · 95 Clube Indígena Canindé · 103
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    7 Documentar, através destelivro, a trajetória dos “Patrimônios Vivos de Pernambuco” e, consequentemente, seus múltiplos saberes, histórias e memórias, representa para nós, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe –, um momento oportuno de reconhecer, salvaguardar e difundir parte da diversidade cultural que constitui Pernambuco. Mais do que isso, reforça o nosso compromisso em promover e proteger o patrimônio cultural imaterial, contido nas tradições, no folclore, nos saberes, nas línguas, nas festas e em diversas outras manifestações, fortalecendo as “referências culturais” dos grupos sociais em sua heterogeneidade e complexidade. Cientes da importância dessa categoria do patrimônio, temos, nos últimos anos, nos esforçado para criar e consolidar instrumentos e mecanismos, de maneira coletiva e compartilhada, que visam garantir o seu reconhecimento, defesa e, acima de tudo, viabilidade. Assim, no ano de 2002, o Governo do Estado de Pernambuco lançou, de maneira pioneira no Brasil, a “Lei do Registro do Patrimônio Vivo”, possibilitando o reconhecimento e o apoio aos mestres e grupos da cultura popular e tradicional, avançando para uma concepção do patrimônio entendido como “o conjunto dos bens culturais, referente às identidades e memórias coletivas”. Nesse contexto, formas de expressão, saberes, ofícios e modos de fazer ganharam um novo espaço, quanto à apreensão dos seus sentidos e significados. Hoje, nosso desafio é asseverar a inserção dos nossos patrimônios vivos na Política Cultural do Estado, o que temos feito através da realização de oficinas de transmissão de saberes, exposições, apresentações culturais, palestras, entre outras ações, que para nós significa a apropriação simbólica e o uso sustentável dos recursos patrimoniais direcionados à preservação e ao desenvolvimento econômico, social e cultural do Estado. Nessa trajetória, articulamos diversas ações institucionais que possibilitaram investir em atividades como pesquisa, documentação, proteção e promoção desses patrimônios vivos. Portanto, ao dar corpo a testemunhos de pernambucanos e pernambucanas, este trabalho ousa servir como um memorial, um “pergaminho identitário” fundamental para a construção do futuro. Um futuro que começa na percepção do que fomos e de quem somos, possibilitados pela “consciência patrimonial”. Sem dúvida, esta valiosa e inédita publicação é mais um fruto desses desafios! Queremos compartilhar com vocês, leitores – e por que não “patrimônios vivos”? –, um pouco das nossas descobertas e redescobertas. Saibam, desde já, que o livro em mãos é resultado de um trabalho de pesquisa e registro, de um olhar atento e sensível, e incompleto, por essência, pois a cada ano serão incorporados novos patrimônios vivos. Mais do que registrar, portanto, estas linhas e imagens que seguem nos possibilitam mergulhar num mosaico de experiências que marcaram e marcam as vidas de grandes mestres e grupos da cultura popular e tradicional, verdadeiros tesouros vivos, guardiões e sacerdotes de memórias e saberes. Em seus testemunhos, são revelados o simbólico, o imaginário e o real, numa dinâmica objetiva e subjetiva que articula um saber fazer, conhecimentos e empreendimentos sociais desafiadores à nossa maneira de pensar e agir. Um rico universo em que as pessoas se expressam e se relacionam com o mundo; que comunica vida, fatos, pensamentos, sonhos, ideias e sentimentos. Boa leitura! Luciana Azevedo Diretora-presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.
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    10 O Patrimônio Vivoem Contexto Maria Acselrad1 Um dos instrumentos mais relevantes das políticas públicas voltadas para o reconhecimento das culturas populares desenvolvidas no Brasil, nas últimas décadas, tem sido as patrimonializações de bens culturais imateriais. É inegável que para o enriquecimento desse processo a circulação de documentos, como a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Popular e Tradicional, de 1989, e, mais tarde, a Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, de 2003, ambas promulgadas pela UNESCO, e das quais o Brasil é signatário, foram decisivas para a reverberação de um debate público sobre o assunto. A resposta a esse movimento, por parte dos órgãos gestores de cultura, deu-se através da criação de instrumentos jurídicos apropriados que procuravam atender à demanda que se impunha em relação à lacuna gerada pelas políticas patrimoniais até aquele momento, no que diz respeito à dimensão imaterial do patrimônio cultural brasileiro. A repercussão dessa discussão, no cenário brasileiro, ganha destaque com a criação do Decreto 3.551 de 4 de agosto de 2000, ápice de um longo processo de debates políticos e intelectuais, que institui o Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial e cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, abrindo um espaço para o reconhecimento, por parte do Estado, de bens de caráter processual e dinâmico como patrimônio cultural do Brasil, tendo “como referência a continuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira”. 2 1  Antropóloga e professora do Depto. de Teoria da Arte e Expressão Artística da Universidade Federal de Pernambuco/UFPE. 2  Decreto 3.551 de 4 de agosto de 2000 in: Patrimônio imaterial no Brasil – legislação e políticas estaduais.VIVEIROS DE CASTRO e FONSECA, Maria Laura e Maria Cecília Londres. Brasília: UNESCO, Educarte, 2008. Vale ressaltar, de acordo com Barbosa e Couceiro (2008), que algumas experiências, consideradas exemplares, de programas nacionais de salvaguarda – realizadas por países como Japão, Tailândia, Filipinas e Romênia, conhecidas como Tesouros Humanos Vivos – em prática desde o fim da Segunda Guerra Mundial, contribuíram de forma significativa para a ampliação das agendas políticas patrimoniais no mundo, inserindo o tema da salvaguarda através da transmissão de saberes e apoio direto a mestres e grupos, na pauta de diversos debates públicos de âmbito nacional. Num mundo cada vez mais globalizado, em constante e acelerado processo de transformação, a preocupação com as especificidades culturais alçava a um novo patamar a discussão sobre o patrimônio cultural. Nesse contexto, as políticas de patrimonialização de pessoas ou grupos da cultura popular e tradicional, amparadas por leis de registro estaduais, surgem no rastro de uma série de discussões acerca da salvaguarda do patrimônio imaterial que encontram repercussão no âmbito local. Em Pernambuco, a Lei do Patrimônio Vivo3 surge como uma tentativa pioneira, no contexto brasileiro, de instituir no âmbito da administração pública estadual, o instrumento do registro, procurando fomentar diretamente as atividades de pessoas e grupos culturais representantes da cultura popular e tradicional, contribuindo para a perpetuação de suas atividades. O registro prevê a implantação de ações de formação, difusão, documentação e acompanhamento das atividades desenvolvidas pelos premiados. Nesse conjunto de ações, o processo de transmissão de saberes assume papel de destaque na salvaguarda das expressões, celebrações e ofícios aos quais os mestres e grupos encontram-se vinculados, através do repasse de seus conhecimentos às novas gerações de alunos e aprendizes, em sua comunidade ou fora dela. 3  LEI nº 12.196 de 02 de maio de 2002. Idem.
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    11 saúde debilitado, paracontinuar efetivamente trabalhando, já têm em seus filhos um caminho que aponta para o futuro da tradição. O universo dos mestres e grupos contemplados abrange expressões das diversas linguagens artísticas, dos ofícios artesanais, da religiosidade popular, entre outras manifestações culturais. Dentre os grupos registrados até o momento, podemos encontrar de forma predominante manifestações culturais ligadas ao Carnaval: um clube de frevo, dois maracatus de baque virado e dois caboclinhos. Também foram registrados: uma banda de música, um grupo de teatro e uma irmandade religiosa. Entre os mestres, encontramos uma diversidade de tradições culturais, através do registro de representantes da ciranda, do coco, da xilogravura, da cerâmica, do forró, do cordel, do circo, da pintura, do cinema, entre outras. Segundo Gonçalves (2003), se relativizarmos a noção moderna de patrimônio – criada no século XVIII, com o surgimento dos estados nacionais –, podemos encontrar correspondência na experiência universal do “colecionamento”, prática comum entre muitos povos e comunidades, ao longo da história da humanidade. A atribuição de valor, onipresente nos processos de identificação e registro do patrimônio, faz com que essa tendência ao “colecionamento” venha a oferecer um panorama daquilo que de mais representativo e singular compõe o patrimônio cultural de um povo. São histórias de vida, processos de aprendizado, dinâmicas de trabalho, escolhas estéticas, processos criativos e de transmissão de saberes de nossos patrimônios vivos, compartilhados com a pesquisadora Maria Alice Amorim e com o fotógrafo Luca Barreto que, através desta publicação, temos o imenso prazer de apresentar. Sendo assim, é com muita alegria que oferecemos aos nossos patrimônios vivos este trabalho, em retribuição a toda uma vida dedicada à cultura. Recife, novembro de 2009. Nos últimos anos, o Governo de Pernambuco, através da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe –, vem realizando oficinas, palestras, aulas-espetáculo, apresentações culturais, homenagens, exposições, numa experiência inédita de inserção dos patrimônios vivos na política de cultura do estado. Essas ações, cujos formatos diferem de acordo com a expressão cultural, idade e disponibilidade do mestre, revelam algumas questões importantes para a reflexão sobre a transmissão de saberes populares e tradicionais, quando fomentada pelas políticas públicas de cultura, por exemplo: 1) o reconhecimento da importância de serem preservadas as singularidades das tradições culturais representadas pelos mestres e grupos contemplados; 2) a valorização da diversidade de técnicas, conteúdos e formas de repasse praticadas pelos mestres, características de processos pedagógicos identificados com os princípios da educação não formal; e 3) o entendimento de que o processo de aprendizado do mestre é fator relevante para compreensão do seu processo de transmissão de saberes, entre outros aspectos. Todos esses fatores implicam na concepção de que ações de salvaguarda não devem prescindir dos atores sociais que se encontram em foco e que isso vem a ser decisivo para que a própria produção de sentido das tradições por eles representadas se atualize e se perpetue no tempo e no espaço. Em Pernambuco, entre 2005 e 2010, foram registrados 24 patrimônios vivos. Dentre eles, 16 mestres e oito grupos, através da publicação de cinco editais. O lançamento do primeiro edital rendeu excepcionalmente a premiação de 12 mestres4 . Nos anos subsequentes, três patrimônios vivos foram eleitos a cada edital publicado, através de um processo de inscrições que já soma mais de 250 candidaturas ao registro. Em 2008, Pernambuco perdeu três mestres – Ana das Carrancas, Canhoto da Paraíba e Manoel Salustiano –, e hoje conta com 21 patrimônios vivos, a maioria em atividade; e mesmo aqueles que se encontram com o estado de 4  A publicação tardia do Decreto nº 27.503, de 27 de dezembro de 2004, que traz a regulamentação da Lei, gerou este acúmulo.
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    14 Legenda Nome ArtísticoTradição cultural Data de nascimento Cidade Ano da titulação 1 Ana das Carrancas Artesanato em cerâmica 18.02.1928 Petrolina 2005 2 Banda Musical Curica Banda filarmônica 09.08.1848 Goiana 2005 3 Caboclinho Sete Flexas Caboclinho Fundado em 1973 Recife 2008 4 Camarão Forró 23.06.1940 Recife 2005 5 Canhoto da Paraíba Choro 17.03.1931 Recife 2005 6 Clube Indígena Canindé Caboclinho 05.05.1897 Recife 2009 7 Confraria do Rosário Irmandade religiosa Fundada provavelmente em 1777 Floresta 2007 8 Dila Xilogravura e Cordel 23.09.1937 Caruaru 2005 9 Fernando Spencer Cinema 17.01.1927 Recife 2007 10 Homem da Meia-Noite Clube de frevo 01.01.1960 Olinda 2006 11 Índia Morena Circo 13.07.1943 Jaboatão dos Guararapes 2006 12 J.Borges Xilogravura e Cordel 20.12.1935 Bezerros 2005 13 José Costa Leite Xilogravura e Cordel 27.07.1927 Condado 2006 14 Lia de Itamaracá Ciranda 12.01.1944 Ilha de Itamaracá 2005 15 Maestro Nunes Frevo 22.06.1931 Recife 2009 16 Manuel Eudócio Artesanato em cerâmica 28.01.1931 Caruaru 2005 17 Manuel Salustiano Rabeca, cavalo-marinho e maracatu 12.11.1945 Olinda 2005 18 Maracatu Estrela Brilhante Maracatu de baque virado Fundado provavelmente em 1824 Igarassu 2009 19 Maracatu Leão Coroado Maracatu de baque virado 08.12.1863 Olinda 2005 20 Nuca Artesanato em Cerâmica 05.08.1937 Tracunhaém 2005 21 Selma do Coco Coco de roda 10.12.1929 Olinda 2008 22 Teatro Experimental de Arte Teatro Fundado em 1969 Caruaru 2008 23 Zé do Carmo Pintura e escultura 19.11.1933 Goiana 2005 24 Zezinho de Tracunhaém Artesanato em cerâmica 05.07.1939 Tracunhaém 2007
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    17 Do extremo oestepernambucano, espiando as terras do Piauí, saiu a louceira Ana Leopoldina Santos à procura de sobrevivência, e o que conseguiu cavar foi bem mais que isso: inspiração, talento, fama. Nascida em 18 de fevereiro de 1923, no distrito de Santa Filomena, povoação encravada na Serra do Inácio, à época pertencente ao município de Ouricuri, foram as verdes águas do Velho Chico que mais tarde viram nascer a artista. Serviu de mote criador a paisagem exuberante povoada de nego d’água, maus espíritos, vapor, paquete, remeiros. De um lado, Pernambuco. Do outro, a Bahia. No meio, o jorro inspirador. Nas margens, a lama sagrada. Era corriqueiro apreciar esculturas zoomorfas e antropomorfas na proa das embarcações, imagens que se repetiam nos barcos, há mais de um século, e no artesanato do Vale do São Francisco. Delas, um ícone se chamava Guarany, outro atende por Ana, a filha de Joaquim Inácio de Lima e Maria Leopoldina dos Santos. Ainda criança, tinha sete anos e já sabia fazer e vender louça utilitária – pote, moringa, panela, cuscuzeiro, jarro –, uma das tradições ouricurienses, que se mantém com as ceramistas da comunidade do Pradicó. Vendia “panelinha de guisado, boi zebu, cavalinho com vaqueiro amontado, santinho de lapinha”. Ou seja, moldava as peças de louça e mais uns tantos brinquedinhos para ganhar uns trocados e ajudar a mãe louceira, com quem teve os
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    18 Maria da Cruzdá continuidade ao estilo da mãe, Ana das Carrancas, com quem aprendeu o ofício primeiros ensinamentos na modelagem do barro. Aos 22 anos casou-se, teve duas filhas – Ana Maria e Maria da Cruz – e em seguida ficou viúva. Um ano depois de enviuvar, Ana se casou com o piauiense José Vicente de Barros. Moravam, então, em Picos. A vida não era fácil naquelas terras do sertão do Araripe, em que alternavam bom inverno e longos períodos de estiagem. Por esse motivo, incluiu-se no rol de migrantes que corriam para Petrolina em busca de um oásis. Era 1954. Chegou à cidade e começou vendendo aribé, panela, pote, presépio, burrinho, pato, boi, cabra. Depois da inspiração saída das águas do Velho Chico, nunca mais foi a mesma. As emblemáticas carrancas começaram a ganhar força e, a partir de 1970, tornaram-se disputadíssimas, graças, inclusive, ao trabalho de pesquisa sobre o artesanato pernambucano que os técnicos em turismo Olímpio Bonald Neto e Francisco Bandeira de Melo estavam realizando pelo sertão, a serviço da Fundarpe. Ambos ficaram impressionados com as carrancas da ceramista. A trajetória artística de Ana Leopoldina ficou marcada, daí por diante – e para sempre – pela mitopoética ribeirinha, a ponto de adotar o nome artístico que correu mundo: Ana das Carrancas.
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    19 A carranca maisantiga, da própria produção, data de 1963, quando ainda era conhecida por Ana Louceira ou Ana do Cego. Sobre a primeira peça, a carranca cangula, ela mesma contou: estava na beira do rio e pensou que poderia fazer um barco, colocar um velho, vendedor de jerimum, com um menino ajudante, umas bolinhas para fingir que era o jerimum, uma cobertura de palha e, claro, a carranca na proa do barco. Segundo Ana, essa invenção “deu sorte”. E assim, de tão bem-sucedida, a cangula ganha réplicas ainda hoje. Outras peças, igualmente difundidas, também trouxeram sorte: carranca-cinzeiro, com três caras, jardineira, totem. Aliás, não se pode falar em Ana sem associá-la às figuras totêmicas modeladas no barro, em forma de animal e de gente, alvo de chacota dos feirantes, quando circularam a primeira vez na feira livre de Petrolina. Ana não se intimidou. Ao contrário, valeu-se do imaginário da comunidade ribeirinha para moldar na cerâmica um dos ícones da cultura local. Um casamento bem-sucedido entre temática e talento. Nesse mesmo ano, 1963, inaugura-se a Biblioteca Municipal e as carrancas de Ana fazem sucesso, distribuídas a título de suvenir. Após levar o nome de Petrolina para feiras de artesanato nacionais e internacionais, figurar em galerias de arte e museus, alternar fama e ostracismo, o grande sonho da mulher oleira tornou-se vivo e palpável em setembro de 2000, mesmo ano em que conquistou o título de cidadã petrolinense. É inaugurado o Centro de Arte e Cultura Ana das Carrancas, com loja, ateliê e exposição de antigas carrancas, inclusive a de 1963. Tudo no ambiente ressalta a trajetória da ceramista. O olho vazado homenageia o marido, cego de nascença, Zé Vicente, o amassador do barro. As filhas Ângela Aparecida de Lima – adotiva – e Maria da Cruz Santos modelam esculturas, tal qual a mãe. A filha Ana Maria é casada com o escultor de carrancas em madeira, Domingos Lopes, ou Lopes de Petrolina, um dos seguidores do estilo de Guarany. Mesmo tendo falecido em 1º de outubro de 2008, na cidade de Petrolina, a família vive imersa no rico imaginário da ceramista, que sempre afirmava, orgulhosa: “meu sangue é negro, mas minha alma é de barro”.
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    21 Quando Antonio Ferreirada Silva e Josefa Alves Freire viram nascer o filho, não imaginavam que ali começava a trajetória de um grande sanfoneiro do agreste. Na verdade, o início de tudo tem a influência do pai, exímio tocador de oito baixos, a quem o filho, desde criança, passou a acompanhar nas andanças musicais. Na labuta cotidiana, enquanto o sanfoneiro ia para a roça, o filho de sete anos matreiramente ia experimentando os sons da sanfoninha pé-de-bode, até o dia em que o pai descobriu as artes da criança engenhosa, emocionou-se e passou a cultivar o talento do herdeiro, levando-o para as festas, onde o garoto prestava atenção nos músicos e depois, em casa, tirava os mesmos sons no instrumento. O menino conquistou definitivamente o pai executando, de ouvido, os acordes de Maria Bonita, um dos maiores sucessos àquela época. E o mestre Camarão, ou Reginaldo Alves Ferreira, tem consciência de que foram decisivos esses primeiros momentos da infância dedicados à música. Natural de Brejo da Madre de Deus, é também emblemático o próprio dia do nascimento: 23 de junho de 1940, véspera de São João. Foi em Caruaru – a mais importante cidade do Agreste pernambucano, protagonista de uma das mais tradicionais festas Camarão ministra aula de acordes
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    22 juninas do Estadoe contemplada, ainda na década de 1970, com o título de Capital do Forró – que Camarão construiu as bases da carreira artística. Começou a trabalhar, aos 20 anos, na Rádio Difusora daquela cidade, por onde passaram importantes nomes da música brasileira, como Sivuca e Hermeto Pascoal. Foi na mesma rádio que ganhou o apelido, dado por Jacinto Silva. Luiz Gonzaga o conheceu na difusora, tocando como profissional. Tinha 18 anos. Graças à amizade surgida entre ambos, o rei do baião produziu dois discos de Camarão, pela RCA Victor, em 1969 e 1970. Gonzaga foi, na verdade, o seu grande mestre, embora nunca esqueça a importância dos ensinamentos paternos. Na discografia, o artista contabiliza, ao lado dessa feliz parceria com Luiz Gonzaga, 28 discos, entre long plays, compactos, 78 rotações e CDs, a maioria fora de catálogo. É de 1998 o CD Camarão Plays forró, produzido na Inglaterra e com circulação exclusiva na Europa. Inventivo desde o princípio, foi o mestre quem criou, em 1968, a primeira banda de forró no país, a Bandinha do Camarão; quem introduziu sopros (tuba, clarinete, trombone e piston) em banda de forró; quem criou a Orquestra Sanfônica de Caruaru, em que diversas sanfonas executam não só variados ritmos juninos, mas também frevo e maracatu. Norteando-se pela música desde a primeira infância, o mestre chegou a acompanhar o rei do baião, após conhecê-lo num programa da Difusora de Caruaru, mesma rádio por onde passaram músicos renomados e onde surgiu o seu primeiro conjunto musical, ou seja, o primeiro trio de Camarão, o Trio Nortista, liderado por ele, um dos maiores sanfoneiros nordestinos, tocador de forró nas latadas das fazendas e arraiais juninos, experiente forrozeiro de animados grupos pés-de-serra. O trio era formado com os músicos Jacinto Silva e Ivanildo Leite. Afinadíssimo na sanfona, acompanhou grandes
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    23 nomes da músicanordestina, a exemplo de Sivuca, Dominguinhos, Santanna, Marinês, Jackson do Pandeiro, Arlindo dos Oito Baixos. O repertório de Camarão é, como manda a tradição da sanfona nordestina, generoso nos ritmos regionais – xote, xaxado, forró, baião e arrasta-pé. O nome do Maestro Camarão corre mundo. Em 1961, foi a sanfona dele que representou Pernambuco no primeiro aniversário de Brasília, a convite do presidente Jânio Quadros. Viaja acompanhado do Trio Nortista, que toca, então, em vários eventos comemorativos. Tem participado de encontros de acordeonistas pelo país, graças ao talento e maestria com que empunha a sanfona. Em 2004, participa do projeto O Brasil da Sanfona, de Myriam Taubkin, que produziu dois CDs, um livro de fotografias e um DVD. Fixado no Recife há quase 30 anos, mantém a Escola Acordeon de Ouro, fundada há uma década no bairro de Areias, onde já formou diversos músicos nas artes dessa invenção vienense de 1829, que, no Brasil, ganhou um sotaque bem nordestino e fez fama. Para facilitar a transmissão de conhecimentos, elaborou uma cartilha, em que registra importantes informações acerca dos instrumentos de fole, do manejo do fole, como escolher e manusear o acordeom, além de noções elementares de música. Marcelo de Feira Nova, Julinho do Acordeom, Ellan Ricard, Gleyson Alves, Juquinha, Deivison, Diego Reis e Cezinha do Acordeom são alguns dos reconhecidos sanfoneiros que passaram pela escola do mestre. Em parceria com Salatiel d’Camarão, desenvolve o projeto De pai para filho, com a realização de shows musicais, e, ainda, Sanfona nas escolas, voltado para oficinas em escolas públicas. Certamente inspirado na atitude do próprio pai, Camarão estimula e oferece contribuição decisiva à carreira de iniciantes e, inclusive, à do próprio filho, parceiro e continuador mais que legítimo da obra do mestre.
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    25 Com voz pausadae dedos firmes na modelagem, é assim que o primeiro galante do reisado vai debulhando os grãos de uma vida dedicada à arte e à agricultura. É pelas mãos e pela oralidade que saem as imagens trazidas da memória de um tempo em que conviviam os amigos Vitalino, Zé Caboclo e Manuel Eudócio Rodrigues. Sentado num banco de madeira, tem sempre diante de si uma mesa, barro molhado e ferramentas para fazer as esculturas, que, começadas no início do dia, por volta das cinco da manhã, precisam ser concluídos ao final da mesma jornada. As mãos não param, enquanto as lembranças emergem. Quase aos 80 anos, o narrador, mestre Eudócio, exibe o vigor mental e as habilidades manuais invejáveis de quem teve sempre uma vida regrada, dedicada à família, ao plantio e, sobretudo, à catarse da atividade artística iniciada ainda na infância, com a avó louceira Tereza Maria da Conceição. De 28 de janeiro de 1931, nascido e criado no Alto do Moura, Caruaru, o filho de Eudocio Rodrigues de Oliveira e Maria Tereza da Conceição desde criança trabalha na agricultura e ocupa as mãos esculpindo o barro. Frequentou apenas seis meses de escola e é com o auxílio das mãos e das experiências que vai descrevendo o que tem vivido esses anos todos no Alto do Moura. São sete décadas de
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    26 aprimoramento, de adaptaçãoao gosto da freguesia e de convívio com fregueses alemães, franceses, portugueses, americanos. De viagens ao Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Portugal. Lembra que as primeiras peças foram pintadas a dedo e, onde o dedo não cabia, pintadas com auxílio de uma varinha. Mais adiante, resolveu deixar peças ao natural, depois voltou a pintá-las. Gosta de fazer bonecos grandes, coloridos, embora menos vendáveis. A queima das esculturas sempre foi num forno do quintal, quinzenalmente, exceto quando há encomenda urgente. De preferência, o forno deve estar cheio, pois do contrário fica muito dispendioso. O que não admite, sob hipótese alguma, é a utilização de fôrma para moldar as esculturas. As experiências cotidianas sempre serviram de fio condutor nas criações inspiradas: batizado, enterro, casamento matuto, casamento forçado, casal andando em boi manso, violeiro, sanfoneiro, banda de pífano, cangaceiros, padre Cícero. Mergulhado no universo da cultura tradicional, uma das inspirações recorrentes é o reisado, com os respectivos personagens do folguedo natalino do qual participou: dona Joana, diabo, doutor, padre, mascarado. Em 1948, quando começou a fazer os bonecos, resolveu fazer um reisado. Fez vários personagens e conseguiu vender a uma pessoa do Rio de Janeiro. Ateliê no Alto do Moura, em Caruaru
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    27 Depois, com adificuldade de comercializar o conjunto, foi fazendo as figuras individuais. O reisado já não sai no Alto do Moura, o mestre sente saudade e tenta recuperar, no barro, as práticas culturais da infância e juventude. Eudócio sabe que é um criador, um perfeccionista. Jamais desperdiçou os anos de convivência com Vitalino e Zé Caboclo. Quando Vitalino saiu do Sítio Campos para o Alto, em 1948, Eudócio tinha 17 anos. Conheceu os trabalhos do mestre na rua: naquela época ninguém vendia escultura em casa, o local de exposição era o buliçoso espaço da feira. Do professor, Vitalino, lembra-se de muitas coisas: por exemplo, que passou dois anos, com o cunhado Caboclo, trabalhando para o afamado ceramista e nem sequer assinavam as próprias peças. Lembra, ainda, que em 1957 já fazia questão de dizer aos compradores que aqueles bonecos chamados de “Vitalino” também eram criação de outros artistas. Com o desaparecimento do mestre, Eudócio não acreditava na continuidade do ofício. Mostra-se impressionado com a permanência da atividade e o aumento quantitativo de artesãos. A família, uma das pioneiras no ramo, tem na nova geração os continuadores. Os irmãos Eudócio, Celestina e Josué herdaram o ofício da avó e da mãe, e se veem sucedidos pelos filhos. Dos nove filhos de Eudócio, Carlos e José Ademildo, e as respectivas esposas, vivem do barro. Do casal Celestina Rodrigues e Zé Caboclo, as filhas Marliete, Socorro, Carmélia e Helena “puxaram ao pai, que era um artista de mão cheia”, segundo o tio Eudócio. Lembra, inclusive, das miniaturas que fazia, quando jovem, e guardava numa caixa de fósforos, esculturas em tamanho minúsculo que são uma das especialidades das irmãs Rodrigues. A linha de sucessão também se repete na família Vitalino, na família Rodrigues, na família Galdino.
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    29 Prensa alemã, utilizadana impressão dos cordéis Artesão de cestinhas de cipó e brinquedos de madeira, oleiro, pedreiro, carpinteiro, pintor de parede, marceneiro, trabalhador da palha da cana, passador de jogo de bicho. Esses foram alguns dos ofícios que Jota Borges experimentou, antes de se decidir pela venda de cordel nas feiras de Pernambuco, Paraíba, Ceará e, principalmente, na Praça do Mercado de São José, no Recife, o que aconteceu a partir de 1956. Matuto esperto e comunicativo, logo descobriu ser exímio talhador de madeira e criador de histórias em versos. E o tempo de permanência na escola foi de apenas 10 meses. Da experiência com as artes manuais, sobretudo marcenaria e miniatura de móveis, desenvolveu habilidades que não seriam de jeito nenhum desperdiçadas mais adiante, conforme atestam as publicações impressas, as gravuras inconfundíveis, as inúmeras capas de livros e discos, exposições, oficinas. O primeiro folheto é de 1964, com capa do poeta e xilógrafo Dila: O encontro de dois vaqueiros no sertão de Petrolina. A partir de 1965, incentivado pelo amigo cordelista Olegário Fernandes, resolve fazer a capa dos próprios folhetos, e então escreve e faz a capa de O verdadeiro aviso de Frei Damião. Nascido no Sítio Piroca, Bezerros, agreste pernambucano, a 20 de dezembro de 1935,
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    30 Familiares de J.Borges auxiliam na impressão das gravuras José Francisco Borges nem avaliava o significado dessas decisões profissionais, apenas se deixava levar pela intuição criadora. Em 1976, faz uma das gravuras mais famosas: A chegada da prostituta no céu. A vida do sertanejo, o imaginário nordestino, as fabulações dos contos populares, o cenário rural e as narrativas de cordel declamadas pela boca do pai, tudo foi misturado na cabeça e nas memórias afetivas do artista, e o resultado é a plena vitalidade conferida à famosa e premiada obra, que tem sido traduzida em outras línguas e linguagens artísticas, a exemplo de peça de teatro, telenovela, filme, coleção de roupa. Se o nome dos pais – Joaquim Francisco Borges e Maria Francisca da Conceição – está inscrito irremediavelmente na vida de J. Borges, também não podem ser desprezados os nomes do artista plástico Ivan Marchetti, do escritor Ariano Suassuna e do pesquisador Roberto Benjamin, que fizeram as primeiras encomendas de gravuras maiores, escreveram sobre o artista e deram-lhe ampla divulgação. Suíça, Estados Unidos, Venezuela, França, Alemanha, Portugal, Cuba foram países para onde viajou, além dos lugares aonde tem ido a obra do artista: Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, México, Argentina. Para Caracas, foi em 1995. Visitou Cuba em 1997, num avião russo dos anos 1950, onde permaneceu 12 dias, ministrando oficina num festival de cultura caribenha. Na década de 1970, uma exposição de Borges percorreu 20 países. Em 1964, ilustrou a novela Roque Santeiro, da TV Globo, e fez a primeira viagem de avião. Daí por diante não mais parou de percorrer o mundo. Há décadas tem viajado quase que ininterruptamente dentro e fora do país. Em 2005, comemorou os 400 anos do D. Quixote, de Miguel de Cervantes, com uma versão em cordel da referida novela de cavalaria. E foi para a França participar da exposição itinerante O universo da literatura de cordel, na condição de principal homenageado. Graças ao talento e à amizade que cultiva há anos com importantes galeristas, artistas plásticos, jornalistas e pesquisadores, Borges tem obras no acervo da Biblioteca Nacional de Washington e no Museu de Arte Popular do Novo México (em Santa Fé, EUA); é divulgado no New York Times, participou
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    31 da revista suíçaXilon em número especial (1980) dedicado aos xilógrafos nordestinos, ilustrou o livro As palavras andantes, do uruguaio Eduardo Galeano (1993), figurou no calendário da ONU de 2002 com a gravura A vida na floresta, tem participado de exposições na Galeria Stahli, Suíça, entre outras notáveis aparições internacionais no circuito artístico mundial. É importante mencionar, ainda, a atuação da Gráfica J. Borges, em plena atividade, que, durante quatro décadas, utilizou tipos móveis e prensa manual na produção de cordéis e xilogravuras, e vem construindo desde então parte da história da literatura de cordel. Borges à frente, claro, contando com a participação dos filhos J. Miguel, Ivan, Manassés, Cícero, Pádua, Jerônimo (falecido); irmãos, cunhada, sobrinhos, como Amaro Francisco (falecido), Severino Borges, Nena, Joel, Lourenço, Givanildo; dos três mais novos, os filhos Pablo e Baccaro e o neto Williams. O filho George vive de serigrafia e Ariano é gráfico. Ao todo, foram gerados 18 filhos. E um grande projeto de vida e arte, de que é testemunha o Memorial J. Borges, em Bezerros, onde o visitante pode apreciar as obras gráficas, plásticas, poéticas do mestre e, ainda, desfrutar de um dedo de prosa com o artista bom de papo.
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    33 Nuca é apelidode infância: Nuca de Tracunhaém ou Nuca dos Leões. Tracunhaém – topônimo indígena, que quer dizer panela de formiga – é a cidade de adoção do artista, desde os três anos. Leão é o signo de Nuca, ou Manoel Borges da Silva, que nasceu em 5 de agosto de 1937, no engenho Pedra Furada, Nazaré, Mata Norte pernambucana, filho dos agricultores Francisco Costa Mariano e Josefa Borges da Silva. O pai, da roça, criou- se nos engenhos de cana-de-açúcar. Vivendo a infância num ambiente de ceramistas descobre-se um admirador do ofício e, desde os 10 anos, um continuador da tradição, modelando em barro elementos do cotidiano. O ano em que foi morar na cidade é o mesmo da estréia de Zé do Carmo na cerâmica. Quando estreou, havia em Tracunhaém o povo de Lídia, fazendo santo. Antônia Leão era referência da geração mais antiga, Maria Amélia já se destacava pela santaria. Zezinho chegou depois, de Vitória. Nilson, de Goiana. Nuca passou a conviver com diversos ceramistas em feiras e salões de arte popular, entre eles, Ana das Carrancas e alguns netos de Vitalino. Foi ao Rio de Janeiro participar de uma exposição e lá conheceu o mestre Vitalino.
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    34 Embora desde adécada de 1940 já vendesse esculturinhas de cerâmica nas feiras, principalmente na vizinha Carpina, é sobretudo a partir de 1968, quando esculpe o primeiro leão, que se reconhece artista, consagra-se com o efeito visual da juba leonina e se entrosa com ceramistas renomados. O motivo da consagração veio da ideia de esculpir leões e floristas. A mulher, Maria Gomes da Silva, ou Maria de Nuca, inventou de botar os cabelos cacheados, também no leão. A moda da juba encaracolada se difundiu tanto, que artesãos aderiram à onda, substituindo pena de galinha pelos cachos. Além destes, que consistem nuns rolinhos de barro aplicados um a um, há o leão de listra, o escamado e o de tranças. Finas ou grossas, as escamas também são colocadas individualmente, em leões e girafas. Sobre a escolha da temática dos leões, cogita-se que pode estar vinculada à memória recente da estatuária de louça portuguesa decorativa dos sobrados ou, ainda, à memória ancestral daquele que é considerado o rei dos animais. Entretanto, não podemos deixar de lembrar que o símbolo de Pernambuco é o leão, tampouco menosprezar a força do imaginário de ascendentes negros africanos presente na Zona da Mata, nem esquecer que a antiga denominação de Carpina era Floresta dos Leões. Se a família de Nuca era de agricultores, e não de louceiros, o mesmo aconteceu com a família de Maria, que também era da roça, não tinha ninguém no barro. Pode-se dizer que a obra de Nuca é quase obra de dois artistas, originalidade a quatro mãos. O leão e as bonecas foram criação dele e da mulher. O talento de ambos para as esculturas cerâmicas desabrochou no convívio com artistas e artesãos de Tracunhaém, terra das figuras em cerâmica e das panelas de barro. Depois de brinquedos, bonecas e anjos, os leões vieram para imortalizá-los. As esculturas são sempre ao natural, nunca pintadas, exceto sob encomenda. O forno, feito por ele próprio, fica no quintal de casa e testemunha o fato de que é indispensável ter ciência para saber construí-lo e usá-lo.
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    35 E Nuca foiexímio nisso: na hora de queimar, sabia precisar a caldeação, a fim de não rachar a escultura, nem cair o cabelo. Outro importante segredo é o da aplicação dos detalhes: como fazer para não ressecar, enquanto vai modelando e colocando simetricamente um a um. Após afastar-se do ofício, por problemas de saúde, dois dos seis filhos dão continuidade às artes dos pais, Nuca e Maria: o primogênito Marcos Borges da Silva, ou Marcos de Nuca, faz os leões e José Guilherme Borges da Silva, o filho mais novo, faz as bonecas. Apesar de não terem sido muitas as viagens – Lima, Peru (1980), São Paulo, Rio, Brasília, Bahia –, Nuca dos Leões criou os filhos com a arte saída das próprias mãos, festejou a alegria de viver fazendo sempre o que gosta e também ofereceu todas as condições necessárias ao aprendizado e exercício artístico dos filhos seguidores. A obra do artista pode ser apreciada em antiquários, galerias de arte, e enfeitando praças do Recife, como a do 1º Jardim de Boa Viagem e a Tiradentes, no Cais do Apolo. Variando de 30 centímetros a um metro, nas esculturas assina “Nuca de Tracunhaém”, desenhando um nome de artista que enche de beleza o mundo.
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    37 Oavô tocava clarinete.O pai, violão. O filho, Francisco Soares de Araújo, tinha a certeza de que adorava música, e isto era o que não faltava em casa, reduto dos principais instrumentistas da cidade. Ainda criança, já sabia apreciar um bom repertório, habituado aos saraus e serenatas na própria residência. Com o pai, Antônio Soares de Lima, aprendeu, aos 12 anos, a tocar a tabuinha, que era como apelidava o violão. O avô, o clarinetista Joaquim Soares, também exerceu grande influência sobre ele. Com o maestro Joaquim Leandro, regente da banda local, conheceu as primeiras notas musicais. Mas, outros instrumentistas da infância, a exemplo dos violonistas Zé Micas e Luiz Dantas, do saxofonista Manoel Marra e do acordeonista Zé Costa, foram decisivos, pois, por causa deles, manteve os primeiros contatos com um repertório de choros e valsas que o marcaram para sempre. Alguns chorinhos fizeram-no cultuado por músicos do porte de Radamés Gnatali, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola. Nascido em 17 de março de 1931, em Princesa Isabel, alto sertão paraibano, o filho de Quitéria Lopes de Araújo, lá mesmo, foi o tocador do sino da igreja, fez iniciação musical e partiu amadurecido à procura de outras cidades em que pudesse expandir os dotes artísticos. Ainda adolescente veio ao Recife apresentar-se na Rádio Clube, mas somente aos 25 anos é que conseguiu realmente sair de Princesa Isabel. Foi para João Pessoa, em 1952, onde morou alguns anos e brilhou na Rádio Tabajara. Em seguida, 1958, transfere-se definitivamente para Pernambuco e é imortalizado como Canhoto da Paraíba, um dos mais importantes compositores de choro. O diferencial no uso da tabuinha aconteceu assim: por necessidade de compartilhar com os irmãos destros o mesmo instrumento, desenvolveu uma técnica especial de dedilhar o violão, tocando os acordes com a mão direita e usando a esquerda para o dedilhado das cordas, sem invertê-las. Ou seja, um violão “tocado pelo avesso”, como diz o título de um dos seus discos gravados. Reprodução de ilustração e antigas imagens de Canhoto da Paraíba, fotografadas na residência do artista, em Maranguape
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    38 Não só aforma de tocar o instrumento, sobretudo o vigor das composições de Canhoto é que o fizeram chegar ao panteão dos grandes instrumentistas brasileiros. O repertório passa pelos ritmos regionais – xote, xaxado, baião, frevo – e pela bossa nova, predominando o choro e a valsa. Para a grandiosidade com que compunha e tocava o violão, poucos foram os discos gravados por Canhoto: Único Amor, de 1968, é gravado pela Fábrica Rozemblit, no Recife. Um dos músicos, escolhido à época por Canhoto, foi o jovem Henrique Annes, hoje violonista consagrado. O produtor do disco foi o maestro Nelson Ferreira. Em 1974, também pela Rozemblit, sai Um violão direito nas mãos do Canhoto. Em 1977, é a vez do álbum Com mais de mil, selo Marcus Pereira, produzido por Paulinho da Viola e festejado pela crítica musical do país. No repertório, as músicas Pisando em brasa e Com mais de mil. Além de produzir o primeiro disco de Canhoto, Paulino da Viola viajou com o violonista pelo país, no Projeto Pixinguinha, e gravou, no seu primeiro trabalho, de 1971, o choro Abraçando Chico Soares, seguindo o estilo de composição do paraibano. Em 1990, Geraldino Magalhães e Lula Queiroga produzem o disco independente Fantasia nordestina: Violão brasileiro tocado pelo avesso. E, pela Caju Music, lança, em 1993, o último trabalho solo, Pisando em brasa, com participação especial de Raphael Rabello
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    39 e Paulinho daViola. Ainda em 1993, pelo Tom Brasil, sai o CD Instrumental no CCBB: Canhoto da Paraíba e Zimbo Trio. Em 1999, Canhoto é ladeado por Annes, Rafael Rabello, Baden Powell na coletânea Os bambas do violão, lançada pela Kuarup. Radicado durante meio século em Pernambuco, Canhoto foi agraciado, em 1984, com o título de cidadão pernambucano. Reverenciado por Baden e outros grandes nomes da música popular brasileira, apresentou-se com Luperce Miranda, João Bosco, Sivuca, César Camargo Mariano, para citar apenas alguns. Em 2004, recebeu uma homenagem do presidente Lula, em Brasília. Na Paraíba, foi homenageado com a publicação da Lei Canhoto da Paraíba, que, a partir de 2005, concede a artistas o título de Mestres das Artes (Lei 7694/2004, Registro de Mestres das Artes – Rema) e ele foi um dos primeiros agraciados. Após sofrer isquemia cerebral em 1998, interrompe-se a carreira do artista, que passa os últimos anos de vida em Maranguape, Pernambuco, com uma filha, falecendo em 24 de abril de 2008. A importância musical desse requintado artista inspirou o Trio de Câmara Brasileiro a produzir, em 2009, o disco Saudade de Princesa – Sobre a obra de Canhoto da Paraíba, do selo Crioula Records. O recifense Caio Cezar assina a direção musical do CD e está organizando um livro com as partituras musicais de Canhoto. A genialidade do mestre, de viva memória, perpetua- se com ações desse porte, e, ainda, ao ser constantemente revisitada nas gravações originais do instrumentista e em regravações ou releituras de outros virtuoses.
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    41 Década de 1950do século 20. O respeitado oluô (sacerdote máximo) Luís de França recebe a incumbência de dirigir uma brincadeira de carnaval, que havia sido fundada pelo pai, um africano ex-escravo. O brinquedo era o Maracatu Leão Coroado. Morto um dos coordenadores, corria-se o risco de não haver quem o substituísse. Herança de família e de tradição religiosa, o baque virado daquela nação nagô precisava continuar. Desafio aceito, a vigorosa liderança de seu Luís proporcionou aos brincantes manter a atividade ininterrupta desde 8 de dezembro de 1863, data considerada como a de fundação, apesar de a memória oral indicar a possibilidade de o Leão já existir desde 1852. Mesmo mantendo- se a dúvida quanto ao marco fundador, o contexto político e social no qual nasce o grupo é marcado pelo debate em torno da abolição da escravatura e os maracatus eram folguedos de negros escravos. Ressalte-se, ainda, que, no Recife, o dia 8 de dezembro é dedicado a Iemanjá e a Nossa Senhora da Conceição, esta última, a representação católica, no sincretismo religioso, daquele orixá do culto nagô e padroeira da grande festa do morro, que acontece anualmente na mesma data, em Casa Amarela. Luís de França dos Santos é de 1º de agosto de 1901. Nasceu na rua da Guia, bairro do Recife, filho de Laureano Manoel dos Santos e Philadelpha da Hora. Segundo contava, durante a juventude vendeu jornais ao longo da via férrea, até Palmares, o que o levou a conhecer senhores de engenho e chefes políticos da região. Ganhou muito dinheiro revendendo produtos importados, trazidos nos navios, quando trabalhava de estivador, profissão exercida até aposentar-se. Cresceu no bairro de São José, espécie de gueto de escravos libertos, local onde aconteciam cultos africanos. Guardava na memória a participação intensa em terreiro de candomblé, o Sítio do Pai Adão, em Água Fria, embora a sua iniciação religiosa não tenha acontecido lá. Os pais de santo de Luís de França foram Eustachio Gomes de Almeida e Maria Júlia do Nascimento, a Dona Santa do Maracatu Nação Elefante. Apresentação na cidade de Goiana, 2003 Bairro de Águas Compridas, visto a partir do terreiro do maracatu
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    42 O líder começoua participar do maracatu quando a sede ficava no bairro da Boa Vista, numa rua que hoje se chama Leão Coroado. Foi membro da Irmandade de São Benedito da Igreja de São Gonçalo da Boa Vista e da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos de Santo Antônio. Um dirigente desta última, José Luís, foi quem passou ao afilhado Luís de França a direção do folguedo. Daí em diante, o decidido líder passou a cuidar da organização do grupo, das obrigações religiosas e da direção da batucada, cujo baque secular aprendera com o pai e com os avós. Passado por Luís de França, continua mantido o mesmo baque tradicional, conforme garante o babalorixá Afonso Aguiar, que integra o grupo a partir de 1996 e conduz a agremiação desde a morte de França, em 1997. Na função de rei e rainha, o Leão Coroado teve Estanislau, João Baiano, José Nunes da Costa, José Luís, Gertrudes Boca-de-Sola, Martinha Maria da Conceição e Dona Santa. Esta última, uma das mais imponentes rainhas de maracatu, filha e neta de africanos, marcou presença, sobretudo no Maracatu Nação Elefante. As calungas são pretas, de madeira, e existem desde a fundação do grupo: uma delas representa Oxum, é Dona Clara; a outra, que representa Iansã, chama-se Dona Isabel. Durante mais de quatro décadas – provavelmente de 1954 até a morte, em 3 de maio de 1997 – o mestre Luís de França guiou o grupo com dedicação extremada, a ponto de provocar elogios da pesquisadora norte- americana, antropóloga Katarina Real, que, no início dos anos 1960, realizou pesquisa sobre o folclore no carnaval do Recife. À época, Katarina considerava o Leão Coroado a única legítima nação de maracatu ainda existente. São desse período diversos troféus conquistados pela agremiação. Em outubro de 1996, França convida Afonso Gomes de Aguiar Filho para sucedê-lo na liderança do grupo. Após amargar uns anos de isolamento e consequente retração do maracatu, o filho de Xangô acerta em adotar a sugestão do presidente da Comissão Pernambucana de Folclore, pesquisador Roberto Benjamin, quanto à indicação de Afonso Aguiar, que, desde então, tem conseguido realizar importantes viagens e apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Santa Catarina, França, Holanda, Bélgica, Suíça, Espanha, Itália, Timor Leste, Ilhas Canárias. A comemoração dos 140 anos, em 2003, foi marcada pela gravação de CD, ao vivo, com as toadas tradicionais do grupo. Voltando, ainda, a 1997, o mesmo ano da morte de Luís de França, em 22 de dezembro é instituído o Dia Estadual do Maracatu: pela Lei 11.506, fica escolhido o 1º de agosto, em homenagem à data de nascimento daquele mestre.Mestre Afonso e o centenário bombo-mestre
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    43 Nascido na Campinado Barreto, Recife, em 15 de março de 1948, o mestre Afonso comanda há mais de 20 anos um terreiro em Águas Compridas, Olinda, para onde transferiu a sede do maracatu e todo o acervo do grupo. Ao longo do ano, desenvolve dinâmica de ensaios, aulas de percussão e toque de candomblé, oficinas de feitura e manutenção dos instrumentos musicais, de confecção do vestuário do maracatu, além de outras atividades educativas, como a preparação de um corpo de baile de danças afro. Todas as ações, tanto as preparatórias ao Carnaval quanto as pedagógicas envolvem continuamente a comunidade, sob a coordenação geral de Afonso Aguiar, que, inclusive, tem comandado oficinas de percussão e de confecção de instrumentos no Brasil e no exterior, a exemplo do Festival do Caribe, em 2009, na cidade de Santiago de Cuba. Seguidor fiel do mestre Luís de França, empolgado com a repercussão do primeiro CD e preocupado com a manutenção do grupo, o dedicado Afonso anuncia que o master do segundo disco está pronto e que as comemorações do sesquicentenário já estão sendo planejadas. Na primeira edição do Prêmio Cultura Viva (2005/2006), do Ministério da Cultura, o maracatu foi uma das iniciativas contempladas, na categoria manifestação tradicional. A partir de maio de 2008, o grupo é transformado em Ponto de Cultura. Instalado no mesmo endereço da sede do maracatu, lá funciona um telecentro, com cursos básicos de informática e acesso 24 horas à internet, para atendimento de demandas da comunidade, em todas as faixas etárias. Com firmeza, o mestre mantém rotina semanal de ensaios e de trabalho. A triagem de novos integrantes obedece a exigentes normas de conduta social. Provavelmente, o sucessor das tradições do terreiro e do maracatu será Afonsinho, o neto nascido em 1997, que toca nas obrigações da seita e tem comandado, quando necessário, a batucada do maracatu. Entretanto, como frisa o mestre Afonso, o Leão Coroado é mais religião do que carnaval. Com as bênçãos todas de Olorum, eguns e orixás. Pele de Bode curtindo para posterior montagem das alfaias
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    45 Passeando pelos labirintosda memória do artista e pelos objetos mais recônditos do ateliê de José do Carmo Souza, conhecido internacionalmente pelas estátuas de anjos cangaceiros, descobre- se uma encantadora obra poética, uma narrativa visual do barro massapê, que não se sabe exatamente quando e com quem começa em Goiana, mas registra, com certeza, a importância do legado materno de Joana Izabel de Assunção e dos filhos talentosos. A mãe – oleira, artesã, costureira – fazia figuras de barro e de pano, mané-gostoso e rói-rói. O pai, padeiro, fazia máscaras em papel machê para vender aos foliões, o molde era em barro e a modelagem em papel e grude. Manuel de Souza dos Santos e Joana Izabel de Assunção chegam a Goiana no ano de 1930, vindos de Igarassu, onde nasceram. Casados a partir de 1932, é um ano depois, em 19 de dezembro de 1933, que nasce o primogênito, Zé do Carmo. Conhecido desde 1947 no circuito artístico, autor de respeitável conjunto de esculturas cerâmicas tão originais quanto às da mãe, Escultura de anjo cangaceiro seria presenteada ao Papa e a Igreja Católica se recusou a receber
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    46 foi com apenassete anos, em 1940, que Zé do Carmo começa a fazer figurinhas de barro, pintar com tinta d’água, como faziam os pais artistas, e vender nas feiras de Goiana. Os dois irmãos, João Antônio de Souza e Manuel Miguel de Souza, também aprenderam o ofício dos pais. Das peças mais antigas de Zé, destacam-se figuras de mendigo, agricultor, carregador de açúcar, Preto Velho, anjo cangaceiro, apanhador de papel, apanhador de água, vendedor de couro, jornaleiro, Lampião, Maria Bonita, carregador de água, tocador de bandolim, Padre Cícero, Nossa Senhora Artesã, São Pedro Pescador (o padroeiro de Goiana). No acervo pessoal, conta com peças autorais feitas há cerca de 40 e 50 anos. Há uma rendeira que criou entre 1949 e 1950, quando, segundo confessa, ainda copiava as figuras da mãe. A iniciação, obviamente, foi com ela e o pai, mas o aluno atento, que cursou apenas o Ensino Fundamental, sempre se valeu da observação e do autodidatismo para aperfeiçoar a técnica e dar vazão às invenções artísticas. Depois que a mãe morreu, em 1972, Zé do Carmo inaugura uma nova fase criativa, a que chama de “transfiguração humana”, pois transforma anjos em cangaceiros, a despeito da vontade da própria mãe, que não queria que o artista modelasse anjos com as vestimentas do cangaço. Daí por diante, ganham asas, espingarda e ares nada angelicais os beatos de movimentos messiânicos, os cangaceiros Lampião e Maria Bonita, entre outros personagens da cultura regional – o que resultou em polêmicas, sobretudo quando Zé do Carmo ofereceu ao papa um monumental anjo cangaceiro e o presente foi recusado. Medindo cerca de dois metros, a escultura é mantida no ateliê, além de uma outra, em menor proporção, também rejeitada pela Igreja, e mais um Papai Noel nordestino, de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em 1982, criou o Vovô Natalino, um velho simpático de aspecto messiânico medindo 1,80 m, que faz Gilberto Freyre escrever artigo no Diario de Pernambuco, de 2 de janeiro de 1983, louvando “bom e bravo repúdio ao Papanoelismo que vem descaracterizando os bons Natais castiçamente brasileiros...”. Sobre a engenharia das peças gigantescas, o artista explica: constrói um bloco até a cintura e espera secar. Depois que está enxuto, torna oco esse bloco e levanta o restante. Em seguida, modela os detalhes do corpo e do rosto. As peças ficam alicerçadas numa base de barro e pousam sobre um suporte de
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    47 madeira com rodízios.Para ele, os primeiros trabalhos eram populares demais. Depois disso, acredita que conseguiu modelar figuras de proporções acadêmicas, como o Padre Cícero que mantém no acervo exposto no ateliê. Tem, ainda, um busto de São Pedro jovem, que fez seguindo o padrão de escultura neoclássica: proporção seguida à risca, com detalhes do rosto bem-delineados. Durante muitos anos, foi professor de modelagem em barro e de proporção. Escultor também em pedra, prova isso com um busto exposto em meio às peças mais antigas. É inegável que, além da observação do artista, o talento sobressai, garantindo a qualidade e a adesão de discípulos. E não foram poucos os ceramistas que passaram pelo ateliê de Zé do Carmo, na condição de aluno: Irene, Mário Pintor, Severino, George, Tog, Luiz Carlos, Luiz Gonzaga, Précio Lira, Dica, Andréa Klimit e Tiner Cunha. O único filho que possui não é discípulo, mas, segundo o próprio pai, tem talento para a arte. Dedicado desde 1980 à pintura, o tema preferido nas telas é o mesmo das esculturas: anjo cangaceiro.
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    49 Curica, do tupiku’rika, é pássaro de canto estridente, da família de papagaios e araras, que canta pelas matas e mangues. Talvez por isso o nome da centenária sociedade musical goianense, numa alusão ao papagaio trombeteiro. Melhor explicando, existem, de fato, duas versões que apontam tal escolha para o nome da banda, fundada em 1848. Segundo uma delas, a senhora chamada dona Iria perguntou ao mestre João José, que passava pela rua da Conceição: “Seu João, por que é que a música grita tanto, que até parece uma curica?” A outra versão, variante da primeira, conta que dona Iria era irmã do padre José Joaquim Camelo de Andrade, e morava à rua Direita, em companhia das próprias escravas. Estando, certa vez, na porta de casa, o maestro José Conrado executava uma polca do musicista Francisco Tenório, e ela teria dito, em voz alta, a uma de suas escravas: “Ô Rosa, aquela música só parece dizer cu-ri-ca-cá”. A outra respondeu com uma gargalhada, e assim ficou o apelido que, supõe-se, era usado em tom depreciativo. A Sociedade Musical Curica oferece, justamente por ser antiga, um repertório de tradições, de histórias contadas pelos mais velhos, dentre eles os nonagenários Antônio Secondino de Santana, Meia Noite, e João José da Silva, Calixto, dois dos mais antigos participantes da banda – falecidos após a banda conquistar o título estadual de patrimônio vivo, concedido em 2005. Uma dessas histórias diz respeito a uma tocata para o Imperador. Conforme consta nos anais de Goiana, a Curica, sob a regência do mestre Ricardinho, participou das festas em homenagem a D. Pedro II, durante visita à cidade, em 6 de dezembro de 1859. Quatro dias depois, ou seja, 10 de dezembro, o Diario de Pernambuco noticiava a visita da autoridade máxima do país e dizia que a Guarda Nacional “esteve reunida com mais de 700 praças e boa música”. A Curica, naquele período, era a banda do batalhão. Com um repertório musical cheio de sofisticação e variedade, o grupo também marcou presença nas comemorações da Abolição da Escravatura, da Proclamação da República, ajudou em campanhas políticas do Partido Conservador e, então militarizada, fez parte da Guarda Nacional. Criada com o objetivo de realizar tocatas em festas religiosas, a banda foi fundada em 1848, por José Conrado de Souza Nunes, primeiro regente do grupo musical. Do Rio Grande do Norte, era conhecido como o filho do marinheiro, Boca de Cravo. Segundo o historiador Álvaro Alvim da Anunciação Guerra, cujo pseudônimo era Mário Santiago – conforme pesquisado e publicado, na ocasião do centenário, em 1948, no livro Elementos para a história da Sociedade Musical Curica – tudo começou com um grupo de 12 a 15 músicos que se reuniu no consistório da igreja de Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos e resolveu criar uma orquestra sacra, apresentando-se pela primeira vez numa tocata, no Amparo, durante as comemorações da natividade de Nossa Senhora, ou seja, no dia 8 de setembro de 1848. À época da fundação, era chamada de corporação musical. Assim começa a história da Panorâmica da rua da sede da banda
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    50 Curica, a maisantiga banda de música, em atividade ininterrupta, do Brasil e da América Latina. O abolicionista e senador do Império João Alfredo Corrêa de Oliveira dá notícia, na biografia que escreveu sobre o 2º Barão de Goiana – Bernardo José da Gama –, que “cada partido tinha a sua banda de música a estafar-se em ajuntamentos e passeatas”. Deduz-se que a outra banda era a rival Saboeira, de 1855, ainda hoje em atividade, fundada com o objetivo de acompanhar o Partido Liberal, oposicionista do Partido Conservador, ao qual pertencia a Curica. As histórias da inimizade figadal entre as duas bandas foram escritas com sangue. Entre pontapés e lances de capoeira, gritava-se: “Viva a Curica! Morra a Saboeira!” E vice- versa. Em 1928, visitou a capital da Paraíba, o que teve enorme repercussão na imprensa local. Entre os sócios honorários, constam os nomes do então presidente Getúlio Vargas e de Flores da Cunha, interventor no Rio Grande do Sul. Durante a 2ª Guerra Mundial, participou de passeata antinazista em agosto de 1942. Vista aérea de Goiana (autor desconhecido)
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    51 No dia 1ºde dezembro de 1944 recebe a visita do famoso musicólogo uruguaio, professor Francisco Curt Lange, que, demonstrando grande interesse pelos arquivos de composições musicais, obteve uma relação das peças escritas no século 19, mais uma fotografia da corporação. A banda executou, em homenagem ao visitante, a Sonata Patética, de Beethoven; a valsa Obstinação, de Nelson Ferreira, e o dobrado Conselheiro João Alfredo. Na data do centenário, em 1948, Antonio Correia presenteou a Curica com uma sede própria, a mesma onde o grupo desenvolve as atividades até hoje, à rua do Rosário. Naquele ano, a banda também decidiu criar estatuto próprio, ainda em vigor, em que se estabelecia a fundação de uma escolinha de música, a fim de gratuitamente serem transmitidos os conhecimentos musicais, pelos mais antigos, para as novas gerações. De meados de 1960 a 1970, a banda manteve uma formação denominada Curica Jazz, que é retomada no início de 2009. São 29 componentes, escolhidos entre os mais talentosos alunos da escolinha e integrantes da banda. Em meio às novas realizações, a diretoria está organizando o primeiro registro fonográfico, tanto da banda, quanto da jazz, para a gravação de dois CDs a serem lançados ainda em 2010. A Curica é um dos grandes patrimônios culturais de Goiana e sempre marca presença em solenidades cívicas e religiosas, inclusive nas viagens pelo Brasil. No Carnaval, subdivide-se em duas orquestras de frevo, para tocar no centro, nos distritos e vizinhança. Em variados eventos e inaugurações, apresenta-se sob a forma de orquestras menores. O acervo musical conta com mais de 800 títulos, de todos os gêneros, entre clássicos, barrocos, dobrados, marchas de procissão, músicas religiosas, MPB, para execução por cerca de 60 a 70 músicos. A catalogação do arquivo histórico e musical foi realizada pelos estudantes da escolinha, em regime de voluntariado. Resultante de um trabalho filantrópico de maestros, diretores e instrumentistas, a banda é responsável pela contínua preparação de novos artistas, pela renovação dos próprios integrantes e traz no histórico a passagem de nomes consagrados, como o famoso capitão Zuzinha, ou José Lourenço da Silva, e os maestros Duda e Guedes Peixoto. É inegável que a Curica tem colaborado com o despertar de talentos, com a formação de músicos. E mais: toca a sensibilidade dos goianenses, que a veem passar pelas ruas, despertando-lhes o amor à música e às vivas tradições da cidade. Edson Júnior, músico e presidente da banda
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    53 Soberana, feito umadeusa surgida das águas do mar ou uma rainha plena de realeza, é assim que Lia sempre aparece, levando-nos ao prazer de ouvir e dançar uma ciranda. Sim, porque ninguém fica imune ao ritmo da ciranda, muito menos aos encantos da filha de Iemanjá, que se habituou a cantar desde criança, na praia de Jaguaribe, localidade da Ilha de Itamaracá onde nasceu em 12 de janeiro de 1944 e vive até hoje. Cheia de familiaridade com a música e a dança, Maria Madalena Correia do Nascimento começou a carreira artística muito jovem, cantando ciranda desde os 12 anos. A filha de Severino Correia do Nascimento e Matildes Maria da Conceição é a mesma Maria, ou Lia, da música que se transformou num hino: Essa ciranda / quem me deu foi Lia / que mora na Ilha de Itamaracá. A história dessa deusa de ébano, de um metro e oitenta, não é só feita de glamour. Após permanecer quase duas décadas no ostracismo, lança em 2000 o CD Eu sou Lia, que recebe selo de world music, graças à mescla de instrumentos de percussão e sopro aos ritmos populares, e, por isso, chega a ser comercializado nos Estados Unidos e na Europa. Nessa nova etapa de divulgação do trabalho, Lia passa a viajar constantemente pelo Brasil e pelo continente europeu, e, ainda assim, não é difícil vê-la nas rodas de ciranda do Recife e Olinda, ou em Jaguaribe, onde funciona, à beira-mar, o Espaço Cultural Estrela de Lia, sob o efeito mágico da envolvente paisagem marinha, com direito a lua, pancada do mar, cheiro de maresia e brisa balançando os coqueiros. Nesse ambiente, Lia tem recebido, aos sábados – e desde novembro de 2004 –, diversos artistas, como Cátia de França, Célia coquista, a Ciranda de Baracho (das filhas do mestre, Dulce e Severina Baracho), Antúlio Madureira. Mas, diferentemente do bem-sucedido ressurgimento, antes a artista havia produzido apenas um LP, A rainha da ciranda, gravado pela Rozemblit em 1977, do qual lembra não ter recebido nada. Quando foi cozinheira de um restaurante na ilha, também cantava no local. Frequentava outras rodas de ciranda, esporadicamente, sem Espaço cultural é dedicado a Iemanjá O neto Misael
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    54 nenhuma projeção forado restrito circuito de aficcionados da cultura popular. A partir dos anos 1980 passa a ser merendeira da Escola Estadual de Jaguaribe, profissão que seguiu exercendo, paralelamente à carreira artística. A volta triunfal ao mundo da música se deu graças à atuação do produtor Beto Hees, que a levou, em 1998, a participar do festival recifense Abril pro Rock, no qual foi aplaudida por 12 mil pessoas. Daí em diante, sobretudo a partir de 2000, passou a fazer turnês pelo Brasil e exterior, com os shows do primeiro CD, gravado pela Ciranda Records, que contém composições dela própria, de cirandeiros do Recife, de compositores renomados e algumas de domínio público. Cinco músicas foram gravadas ao vivo em 1998, no Rio de Janeiro, durante participação no projeto Vozes do Mundo, do Centro Cultural Banco do Brasil. Quase uma década depois desse lançamento, sai em 2008 o segundo CD, Ciranda de ritmos, com direção musical de Carlos Zens, e destaque para Bezerra do Sax, as filhas de Baracho e uma composição de Capiba. Conforme indica o título, o disco contempla outros ritmos pernambucanos para além da ciranda: frevo, coco, maracatu. Mas, claro, quem permanece reinando é a majestosa cirandeira. Habituada, há mais de 50 anos, ao convívio com mestres da ciranda, Lia sempre faz questão de lembrar que Baracho era um grande amigo. É dele a ciranda: Morena vem ver / que noite tão linda / a lua vem surgindo / cor de prata. // Faz-me lembrar / da minha Maria / quando pra ela / eu fazia serenata. No embalo da ciranda e das afinidades eletivas, Baracho e Lia compartilhavam três importantes aspectos: boa voz, presença marcante na hora de puxar a roda e habilidade no tratamento dos temas, como o do amor. O convívio artístico, entretanto, não se resumiu aos experientes cirandeiros. Teca Calazans, Edu Lobo, Clara Nunes, Geraldo de Almeida, Ney Matogrosso e Paulinho da Viola, entre outros, são alguns dos grandes nomes da música brasileira que já cantaram Lia em versos próprios, em composições da cirandeira ou de outros. Essa ciranda quem me deu foi Lia é a mais antiga, de 1960 para 1961, e foi gravada por Teca Calazans. Paulinho da Viola também ofereceu versos bonitos para a negra mais elegante dentre todos os ilhéus: Eu sou Lia da beira do mar / morena queimada do sal e do sol / da Ilha de Itamaracá (...), música incluída no primeiro CD. O convívio artístico também levou a dama da ciranda por outras veredas, como a de estrela do curta-metragem Recife frio, de 2009, dirigido e realizado por Kleber Mendonça Filho. Com o porte e a realeza da soberana Iemanjá, a artista comanda as atividades do Centro Cultural Estrela de Lia, transformado desde 2008 em Ponto de Cultura, onde são oferecidas oficinas
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    55 de arte, cerâmica,percussão, fotografia, malabares, rabeca, teatro, cavalo-marinho. Permanecem, ainda, as temporadas de apresentação artística: recitais poéticos, bandas alternativas, duplas de violeiros, filhas de Baracho, e, claro, a tradicional ciranda de Lia. Toda a programação cultural é gratuita e sempre conta com o envolvimento da comunidade local, ou seja, os habitantes da Ilha de Itamaracá e, especificamente, os da praia de Jaguaribe. Em franca ebulição, o Ponto de Cultura foi contemplado, no início de 2009, com o prêmio Interações Estéticas e Residências Artísticas, numa parceira da Fundação Nacional das Artes (Funarte) com o Ministério da Cultura (Minc). Quem mais se beneficiou foram os habitantes da localidade, com as oficinas promovidas pelo mestre rabequeiro Luiz Paixão e pela atriz Cinthia Mendonça. Por onde viaja, Lia de Itamaracá vai somando os elogios que tem recebido também na própria terra. É chamada de deusa, rainha. Na França, um jornal comparou-a à cabo-verdiana Cesária Évora. No Brasil, é constantemente relacionada a Clementina de Jesus, sobretudo no sul e Sudeste. No mesmo local em que nasceu, frequentou a escola primária e assistiu a muito coco de roda, ciranda, pastoril e bumba meu boi. Não teve iniciação musical com ninguém, foi aprendendo sozinha, inspirando-se na paisagem iluminada da ilha, nos jangadeiros que saem para o alto-mar e vêm trazendo peixes, nas ondas salgadas que quebram na praia, na brisa marinha que tem lhe soprado aos ouvidos umas rimas, sussurrando-lhe quantas estrelas tem o céu e quantos peixes tem o mar. Versos e balanço encadeados pela percussão e sopro realçam a voz rascante de Lia, “uma diva da música negra”, conforme noticiou o New York Times. A deusa da ciranda sabe envolver-nos todos, plena de generosidade e magnetismo, até quando empresta a voz ao genial Capiba: “minha ciranda não é minha só, é de todos nós, é de todos nós”. As filhas de Baracho cantam ciranda com Lia
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    57 Cangaço e peripéciasdiabólicas são os temas predominantes no universo do mestre em fabulações, gravador de capas de folheto e álbuns em policromia, autor de rótulos de bebida e remédios, ilustrador de livros e publicações variadas. O nome de batismo do marechal do cordel do cangaço, conforme se autodenomina, é José Soares da Silva, ou Dila, nome emblemático no mundo da gravura popular. Nascido em 23 de setembro de 1937, em Bom Jardim, e estabelecido em Caruaru, o filho de Domingos Soares da Silva e Josefa Maria da Silva testemunha que, dos anos 1950 em diante, mergulha no mundo do cordel e da xilogravura, quando passa a comercializar folheto nas feiras de Pernambuco, Alagoas, da Paraíba e do Ceará. Municiado de generosa fabulação, Dila compartilha com amigos e visitantes a riqueza do seu mundo imaginário, as invenções e reminiscências de mais de cinco dezenas de anos dedicados às artes gráficas, à poesia de cordel e à xilogravura. No limiar entre realidade e imaginação, tão bem-cultivadas pelo poeta, rememora a chegada em Caruaru, em 1952, e as primeiras xilogravuras, que
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    58 foram para folhetosdele mesmo, de Francisco Sales Arêda e de outros poetas de meio de feira, tais como Vicente Vitorino, Chico Sales, Jota Borges, Antônio Ferreira de Morais e João José da Silva. E, finalmente, a facilidade para com os desenhos credita ao pai que, segundo ele, foi caricaturista. Em 1974, em plena atividade de poeta, gravador, impressor, aparece no documentário de Tânia Quaresma, Nordeste: cordel, repente, canção, em que figura a profissão registrada em letras garrafais pintadas na fachada do mesmo endereço onde ainda hoje reside, em Caruaru: Art Folheto São José. Romances e folhetos. Do autor e editor: Dila é aqui. A partir da experiência na fabricação de carimbos, substitui as matrizes de madeira pela borracha, obtendo um resultado de impressão que o pesquisador Roberto Benjamin batizou de folk-off-set. Utiliza cores diversas numa mesma matriz, ou faz inúmeras combinações de gravura a partir de detalhes elaborados em matrizes diferentes. As figuras são preparadas separadamente para permitir isso. Irrepreensível no desenho e na invenção, a gravura limpa, bem-talhada, complexa exibe narrativa imagética absolutamente original, sob ângulos inusitados, sem contato sistemático com os cânones do desenho clássico. A partir dos anos 1970, inova em publicações coloridas e no formato cordel. Em 1973, edita o álbum de gravuras em policromia Rasto das histórias, utilizando-se de azul, vermelho e amarelo sobre fundo branco. Em 1974, publica A bagagem do Nordeste, com a capa em preto, vermelho e amarelo sobre fundo branco. Viver do cangaceiro sai em 1975, pela Art folheto São José. O álbum Réstias do cangaceiro é editado em 1981. O fabricante de rótulos de bebida instala na própria casa máquinas de tipos móveis e prelo, a fim de publicar folhetos e imprimir gravuras. Além disso, as ferramentas manuseadas para cavar a matriz são faca, peixeira, canivete, lâmina de barbear, que cortam a borracha, ou neolite, para fazer capas de cordel, rótulos e carimbos. Abre letreiros e desenhos do cordel numa mesma matriz, em borracha ou ainda na madeira, reinventando o tipo
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    59 fixo, conforme lembraRoberto Benjamin, no texto Aparatos dos livros populares – Dila editor popular. E o registro da própria editora é tão mutante quanto o caudaloso fluxo narrativo do poeta. A Art folheto São José virou Gráfica São José, ou Gráfica Sabaó, ou Preéllo Santa Bárbara, ou Fhòlhéteria Càra d’Dillas. Nesse registro, o nome da folheteria aparece na contracapa do cordel, com um autorretrato de Dila vestido de cangaceiro. E, mais, o registro de autoria do texto e da xilogravura é sempre tão variável quanto o do editor. Dila: o marechal do cordel do cangaço. Dila Soares da Silva. Dila Ferreira da Silva. Dyyllas Sabóia. Dila Sabaó Sabóia. José Cavalcanti e Ferreira, José Soares da Silva, Dila ou Dillas. Recorrentes num universo poético expresso em ininterrupto fluxo criador, e também na atual invenção da “literatura de cordel em contos”, da “literatura de cordel em prosas” que vem engendrando e editando, os motivos passam por ciganos e cangaceiros, Chico Heráclio, Lampião, Padre Cícero, o Pai Eterno, Pessoa e Dantas, Ariano Suassuna, “xylgra e cordel”, Dyylas Sabóia. Se, em vez de cordel e xilogravura, produzisse um filme de cangaço, deliberou, de antemão: seria o protagonista, o cangaceiro Relâmpago. Assim, em meio a fantasias e criação poética, Dila vai recebendo visitas diárias de estudantes, pesquisadores, turistas, todos ávidos em conhecer o mundo maravilhoso do artista que está sempre a exibir, com o maior prazer, as mais recentes invenções de poesia e xilogravura.
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    61 Ainda menino, seteanos, brincava cavalo-marinho pelos engenhos de Aliança. Foi arriliquim, dama, galante, cantador de toada, nove anos de Mateus, depois foi ser mestre. O pai era um tocador de rabeca, aprendeu com ele. Os folguedos e brincadeiras eram vistos e experimentados desde criança: maracatu, ciranda, coco, forró, mamulengo, improviso de viola. Estudou até a 4ª série primária. Trabalhou em casa de família, vendeu sorvete, picolé, foi ambulante. Conforme declarações próprias, considerava-se o maior dançador de cavalo-marinho e, nos versos de maracatu, inspirava-se no mestre Antônio Baracho. Manoel Salustiano Soares, ou mestre Salustiano, artista múltiplo e produtor de espetáculos e folguedos tradicionais organizados e mantidos em família, nasceu a 12 de novembro de 1945, em Aliança, e foi lá, na Zona da Mata Norte, que se iniciou no universo cultural de que é um dos mais afamados representantes. O filho de Maria Tertunila da Conceição aprendeu a ler, escrever e sempre teve inteligência suficiente para tirar o máximo proveito dos dotes artísticos. Começou a morar em Olinda em 1965, mesmo ano em que começou a tocar rabeca profissionalmente, aprendida pelas mãos do pai e professor, João Salustiano, que ensinou o filho a fazer e a usar o instrumento. Passou a ser mais conhecido na década de 1970 e em 1977 participa de um comercial de TV. Foi entrevistado em 1989 no programa televisivo Som Brasil e, nessa época, segundo ele mesmo, só conhecia a Mata Norte, nem sequer outras regiões de Pernambuco. Em 1997, integrou comitiva de artistas locais que foi a Cuba. Durante mais de 10 anos organizou o festival da rabeca e coordenou a Casa da Rabeca do Brasil. Por quase 20 anos participou, na condição de fundador, da Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco. Recebeu o título de reconhecido saber em 1990, concedido pelo Conselho Estadual de Cultura, e o título de doutor honoris causa, na UFPE. Foi agraciado com o título de Comendador da Ordem do Mérito Cultural, em 2001, pela Presidência da República. Percorreu todos os estados brasileiros e outros países, como Bolívia, Cuba, França, Estados Unidos.Maciel Salu e Barachinha
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    62 Com a casarepleta de filhos, o mestre Salustiano sempre manteve a liderança da família e conseguia envolver todos nos projetos culturais que constantemente articulava no entorno da própria residência, no bairro olindense de Cidade Tabajara, reunindo a comunidade, os vizinhos, turistas e pesquisadores de cultura popular. Inicialmente, era no espaço Ilumiara Zumbi que as apresentações aconteciam. Depois, as festas foram transferidas para a Casa da Rabeca do Brasil, espaço inaugurado pela família para oficinas, danças, encontros de maracatu rural e de cavalo- marinho, shows de música regional. No Natal, vários grupos de cavalo-marinho se reúnem e brincam a noite toda. Tem também pastoril, ciranda, o cavalo-marinho Boi Matuto, fundado pelo mestre em 1968, e o Mamulengo Alegre, outro brinquedo da família, cujos bonecos eram feitos por Salu mesmo. Dublê de artista e artesão, esculpia no mulungu os bichos do bumba meu boi, cavalo, boi, burra. Fazia em couro de boi e de bode as máscaras do cavalo-marinho. No domingo de carnaval, chegam ao terreiro da família troças, ursos, caboclinhos, boi, burra, além do grande acontecimento da tarde: a trincheira do maracatu rural Piaba de Ouro, que fundou em 1977, e hoje é estruturado com mais de 300 componentes. Na segunda de carnaval, acontece o encontro de todos os maracatus rurais de Pernambuco.
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    63 Graças à sensibilidadeartística e às invenções de homem inteligente, Salustiano cultivava a memória da infância, povoada de cavalo-marinho, maracatu, mamulengo, pastoril, ciranda, forró de oito baixos, reisado, marujada, fandango, poesia improvisada, ao mesmo tempo em que gerenciava os próprios folguedos e temática casa de espetáculos. Depois de tentar a vida como ambulante e empregado doméstico, foi funcionário da prefeitura de Olinda e professor de arte popular. Por fim, conseguiu certa dignidade financeira com o terreiro enorme para apresentações, serviço de bar, salão para dança e uma loja, onde são comercializados produtos de confecção própria, como rabeca, alfaia, mineiro, bagem de taboca, pandeiro, mamulengo e os discos. Foram quatro CDs gravados, movidos pelas sonoridades de ciranda, maracatu, mamulengo, coco, forró, frevo: O sonho da rabeca, As três gerações, Cavalo-marinho, Mestre Salu e a sua rabeca encantada. Dos 15 filhos, dois fabricam rabeca: Wellington e Cleiton Salu. O bailarino Pedro Salustiano montou o espetáculo Samba no canavial. O músico, compositor, poeta improvisador e MC Maciel Salu lançou o CD A pisada é assim, entre outras importantes gravações, e é um dos integrantes da Orquestra Contemporânea de Olinda. Salustiano faleceu no Recife, em 31 de agosto de 2008. Entretanto, confortável é saber que o legado se perpetua nas produções culturais e criações artísticas dos filhos, legítimos herdeiros e continuadores da obra do Mestre Salu. Filhos Maciel, Cleiton e Manuelzinho
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    65 Contorcionista, trapezista voadora,acrobata, cantora, ginasta, atriz circense. Eis aí alguns dos atributos da grande dama do circo pernambucano: Margarida Pereira de Alcântara. Ou, Índia Morena, nome artístico deliberadamente escolhido por serem índios o pai e a avó paterna. Destacada pela dedicação profissional exclusiva à vida circense, Margarida convive desde os 10 anos com o magnetismo do mundo dos mágicos, palhaços, humoristas, rola-rola, malabaristas, equilibristas. Na verdade, a estreia na vida artística foi inaugurada, a partir de 1952, em shows de calouros, nas matinês infantis promovidas pelo Circo Democratas, que aconteciam na Vila de São Miguel, bairro de Afogados, Recife, onde àquela época o circo estava montado. Aos 12 anos, a cantora mirim já interpretava, com alma, canções de Vicente Celestino, Ângela Maria, Núbia Lafayete. Filha de Eloy Pereira de Alcântara e Maria das Dores de Alcântara, Margarida nasceu no Recife, em 13 de julho de 1943. Órfã de pai aos nove anos, interrompeu os estudos no terceiro ano primário e não havia grande expectativa de desenvolvimento profissional, sequer de realização artística, para essa criança nascida e criada dentro da maré, pescando crustáceos nos mangues de Afogados para ajudar na sobrevivência da família. Adotada por Severino Ramos de Lisboa – o palhaço Gameloso – e afilhada de crisma de Maria Tenório Cavalcanti – a dona do antigo circo Itaquatiara Real, no qual Índia se engajou a partir de 1º de julho de 1953, contra a vontade materna –, essas confluências resultaram, claro, do talento evidente da jovem circense e contribuíram para o florescimento de singular trajetória artística. E mais: vieram acrescentar novos elementos à história dos circos populares do Brasil. Além de realizar viagens pelos Estados Unidos, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, trabalhando em diversos circos – dentre os quais o Gran Bartolo, o Garcia, o Itaquatiara, o Edson, o Águia de Prata, o Coliseu Mirim, o New American Circus –, Índia Morena organizou, com a participação de Albemar Araújo, a coletânea Dramas Circenses, em que foram transcritos seis tradicionais
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    66 dramas encenados noscircos populares, tais como A louca do jardim e Lágrimas de mãe. As peças teatrais, cedidas por Índia, fazem parte do acervo da Associação dos Proprietários e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco (Apacepe), organização fundada em 1993 por Índia Morena e pelo marido, Maviael Ribeiro de Barros. O livro, contendo 161 páginas, foi publicado em 2006, pela Fundação de Cultura Cidade do Recife. Índia Morena considera o circo “o palácio onde vive com alegria” desde os 13 anos, quando decidiu largar totalmente a mãe e entregar-se de vez ao picadeiro: passou no teste de caloura e foi contratada para trabalhar no Itaquatiara. “Ali, eu vi o mundo”: foi assim que nasceu para a vida artística, ao mergulhar desde a primeira vez na lona de um circo e depois sagrar-se como trapezista voadora e melhor contorcionista pernambucana. Depois do Itaquatiara, trabalhou como ginasta e cantora num circo de Olinda, o Circo do Palhaço Violino. Atuou no Circo Águia de Prata, de propriedade de Euclides Águia de Prata que, depois, passou a ser o Circo Edson. Ainda participou do Coliseu Mirim, pertencente a um funcionário da prefeitura do Recife, conhecido Apresentadora do próprio circo, Índia Morena inicia mais um espetáculo, dessa vez no subúrbio de Jaboatão
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    67 por Benigno. Emmeio ao talento e à dedicação integral à carreira, ia consolidando-se um contínuo processo de aprendizagem no próprio meio circense, a partir do convívio com grandes nomes do circo e da ousadia de cada nova experiência. Entretanto, em meio aos prazeres e conquistas da biografia artística, um grande desgosto na vida de Índia Morena quase a leva à bancarrota: a traição do ex-marido com uma menina de circo resultou em doença e lesão pulmonar, com prolongado internamento no hospital Otávio de Freitas. Foi aí onde conheceu o atual marido, que nada sabia de circo e, entretanto, aceitou abraçar o ofício, acompanhando-a ainda hoje. Desde 1977 possui, com Maviael, o Gran Londres Circo, pois o antigo proprietário do Circo Edson, falido, e para quem Índia Morena trabalhava, doou parte do negócio a título de pagamento pelos serviços prestados por ela à companhia circense. Índia nele injetou experiência e recursos próprios e é no Gran Londres que, desde essa época, vai exibindo as múltiplas habilidades aprendidas em todo o percurso artístico, cantando e apresentando os espetáculos. Em meio a uma trupe com mais de 20 integrantes, contracena com um palhaço cantor e compositor de músicas irreverentes, com equilibristas, contorcionistas, transformistas, engolidores de faca, malabaristas, pernas-de-pau, escada giratória e mais quatro palhaços. A temporada em cada local é variável, conforme a aceitação do público. Os espetáculos são geralmente noturnos, mas há também matinês nos finais de semana e feriados. A folga é sempre na segunda-feira. O Gran Londres, itinerante como deve ser todo circo de tradição, circula, sobretudo, pelos arredores do Recife e Região Metropolitana, a exemplo de Jaboatão, Paulista, Abreu e Lima. Aonde o circo vai, agrega as bandas de música locais, fisga o público com espetáculo tradicional e ainda oferece uma atração única: um bode pagador de promessa, que sobe uma rampa, ajoelha-se e beija uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. “Eu só tenho o terceiro ano primário, mas quem tem o primeiro ginasial não vai comigo, não, porque eu aprendi muita coisa em teatro”, vangloria-se a artista, que também não esquece a dureza da infância mergulhada na lama, catando caranguejo. Apesar de todas as mazelas, Índia segue cantando e louvando a magia do circo, com a elegância e o magnetismo próprios de uma grande dama circense.
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    69 De fraque, cartola,gravata borboleta, dente de ouro, lá vem o Homem da Meia- Noite, vem pela rua a passear, enfeitiçando os céus olindenses e arrancando suspiros de amor. Claro, é o mais afamado galante, o grande Don Juan do carnaval de Olinda e não é, de maneira alguma, simplesmente um boneco, é calunga, com todos os atributos e segredos que essa palavra suscita. A figura do sorridente cavalheiro, envolta em mistérios e rituais próprios, é associada ao candomblé, pois foi no dia 2 de fevereiro de 1932, data dedicada a Iemanjá, que o calunga de madeira desfilou pela primeira vez na tradicional folia. O Homem da Meia-Noite, com cerca de quatro metros de altura, é o mais antigo boneco gigante de Olinda. Nascido na categoria “troça” em 1932, passa a clube de alegoria e crítica a partir de 1936. É de muitos anos, portanto, que o galanteador vem arrancando suspiros de moças e senhoras postadas à janela para ver o amado passar: ele próprio em figura de gentleman anima as ladeiras do sítio histórico desde a madrugadora invenção na longínqua década de 1930. As ruas estreitas, sobretudo a do Amparo, e o Largo do Bonsucesso testemunham a alegria e irreverência dos foliões que gastam pelos menos quatro horas para acompanhar um dos desfiles mais cobiçados da folia olindense. O percurso é praticamente o mesmo desde o princípio, e o boneco vai desfilando trajado de verde e branco, com um relógio na lapela e a chave da cidade nas mãos. A saída acontece pontualmente à meia-noite do sábado de Zé Pereira, partindo da sede, que fica em frente à igreja do Rosário dos Homens Pretos, no Bonsucesso. O local é marcado pela prática de tradições culturais de negros escravos, desde a construção do templo religioso na segunda metade do século 17, e, inclusive, foi essa a primeira igreja em Pernambuco a ter irmandade de homens pretos. Nenhuma estranheza, portanto, quanto à ligação do calunga com o candomblé, mesmo que a aura de misticismo se misture à irreverente balbúrdia momesca, em meio a orações e oferendas com cachaça na troca de roupas do calunga, nos preparativos do sábado à tarde. Saída do Homem da Meia Noite, Estrada do Bonsucesso, Olinda, 1998
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    70 A existência dogrupo carnavalesco se deveu a uma dissidência de integrantes da Troça Carnavalesca Mista Cariri, fundada em 1921 e que àquela época era quem abria o carnaval, saindo às quatro da manhã do domingo. O exímio entalhador Benedito Bernardino da Silva, ou “Benedito Barbaça”, o encadernador Cosmo José dos Santos, o pintor de paredes Luciano Anacleto de Queiroz, acompanhados de Sebastião Bernardino da Silva, Eliodoro Pereira da Silva e do sapateiro Manoel José dos Santos, apelidado “Neco Monstro”, ao se sentirem excluídos da diretoria daquela troça decidiram criar uma nova agremiação que “desse uma rasteira no Cariri”, conforme conta o pesquisador Olimpio Bonald Neto, no livro Os gigantes foliões em Pernambuco. O autor refere, aliás, que esse não foi o primeiro gigantone a aparecer no carnaval pernambucano: o mais antigo registro é creditado a Zé Pereira e Vitalina, bonecos nativos da cidade sertaneja de Belém do São Francisco, criados respectivamente em 1919 e 1929. Quanto ao surgimento do boneco olindense, pelo menos duas versões explicam a genealogia do fenômeno: uma delas credita Carnaval de 2003
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    71 ao cinéfilo efundador Luciano Anacleto de Queiroz a inspiração a partir do filme O ladrão da meia-noite; a outra atribui a Benedito Bernardino, fundador e autor do hino da agremiação, a construção do calunga a partir de alegado flagrante de certo namorador, alto, elegante e sorridente, que andava principalmente na madrugada do sábado para o domingo, sempre de verde e branco, com chapéu preto e dente de ouro. A dissidência do Cariri foi tramada em dezembro de 1931. Para dar forma ao boneco que ganharia as ruas à meia-noite do sábado de Momo, os fundadores Benedito Barbaça e Luciano de Queiroz tomaram todas as providências de marcenaria e pintura, na modelagem daquele que seria o boneco dos primórdios do grupo. Originalmente, o calunga pesava mais de 55 quilos, porque, além da armação em madeira, a cabeça, o busto e as mãos eram feitos em papel gomado; os braços, recheados com palha de colchão; nas mãos, areia para dar peso e equilíbrio às evoluções executadas ao som do frevo. Evidente que o boneco passou por um processo de reengenharia, a fim de perder peso e, assim, aliviar a carga do carregador ou “chapeado”. Um dos mais ilustres carregadores foi Alcides Honório dos Santos, Cidinho, que durante mais de quatro décadas deu vida e alma ao boneco. Bastos “Botão”, Henrique Alabamba, Amaro de Biluca, Paulo 19, Pedro Garrido compõem a galeria dos chapeados do Homem da Meia-Noite. Esses históricos nomes animam, há décadas, a algazarra de foliões inveterados, além dos novatos que são acrescidos às ladeiras estreitas de Olinda, a cada ano. E o mais animador é saber que a alegria repercute durante todos os meses, com o projeto social Gigante Cidadão – Ponto de Cultura nacional desde 2005 – que oferece, de segunda a sábado, na sede do clube, oficinas de música, dança, teatro e vídeo a cerca de 50 crianças da comunidade. Apreciando de dentro ou de fora do boneco, quem haveria de resistir a esse fogoso e ao mesmo tempo sóbrio cidadão olindense, a esse magnético sorriso de manequim, a essas gigantes pernas de pau dançando na multidão? Saída do relógio, 1998 Passistas acompanhando a orquestra, 1998
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    73 Aversatilidade tem marcadoa trajetória do cordelista, xilógrafo e autor de almanaque popular. Nascido a 27 de julho de 1927, em Sapé, na Paraíba, o filho de Paulino Costa Leite e Maria Rodrigues dos Santos radicou-se em Condado, Pernambuco, a partir de 1955. José Costa Leite estreou na literatura de cordel em 1947, vendendo, declamando e escrevendo folheto de feira. O primeiro almanaque foi feito em 1959, para o ano de 1960, e chamava-se, àquela época, Calendário brasileiro. As primeiras xilogravuras são de 1949, para os folhetos, de própria autoria, O rapaz que virou bode e a Peleja de Costa Leite e a poetisa baiana. Na infância e adolescência, trabalhou na cana, plantou inhame, foi cambiteiro, cambista, mascate, camelô de feira. Xilogravador primeiramente por obra da necessidade, ou seja, a de produzir a capa dos próprios folhetos, Costa Leite conseguiu aprimorar o talento para as artes plásticas nessas seis décadas de familiaridade com a madeira, quicé, goiva e formão. Como acontece a diversos autores de cordel, o talento extrapola o mundo da escrita. É ele quem desenha e talha na madeira e depois imprime no papel as ilustrações de capa dos próprios folhetos. Conforme tradição dos gravadores populares pernambucanos, que se iniciaram a partir do diálogo com a poesia, aprendeu sozinho a arte da gravura, vendo fazer e experimentando.
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    74 Os primeiros cordéischamavam-se Eduardo e Alzira – “uma historinha de amor”, conforme classificação do próprio poeta – e Discussão de José Costa Leite com Manuel Vicente, cujos temas eram “se não casar perco a vida” (Costa Leite) e “eu morro e não caso mais” (Manuel Vicente). Essas primeiras publicações não tinham ilustração de capa, apenas os letreiros. Voz imortalizada, na década de 1970, em três LPs gravados no Conservatório Pernambucano de Música, nos quais deixou registradas grandes histórias de cordel, Costa Leite já cantou muito na feira da cidade onde vive e na vizinha Goiana. Atualmente continua indo, sozinho, de madrugadinha e em transporte coletivo, vender folheto em Itambé, cidade pernambucana em que o outro lado da avenida principal é Pedras de Fogo, Paraíba. São duas cidades, dois estados numa mesma geografia, espécie de síntese da vida do poeta. Assim que se encerra a feira, por volta do meio-dia, segue para Itabaiana, Paraíba, dorme lá, e, dia seguinte, passa a manhã cumprindo um ofício que exerce há mais de seis décadas. Cantava e vendia bem nas feiras. Ainda dá voz a uma ou outra estrofe. Às vezes, recita e canta trechos de folheto da própria autoria, como O sanfoneiro que foi tocar no inferno, e mais alguns versos de outros autores, a exemplo de O navio brasileiro, clássico de Manoel José dos Santos.
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    75 Costa escreve diariamente.Aventura, discussão, exemplo são alguns dos temas preferidos. Criou pelejas fictícias com importantes personagens do mundo da cantoria de viola, como Preto Limão, Severino Borges Silva, Patativa do Assaré, Ivanildo Vila Nova. Publica versos fesceninos sob pseudônimo para, segundo ele próprio, não manchar a reputação do restante da obra. Assina H. Renato, João Parafuso, Seu Mané do Talo Dentro, Nabo Seco nos folhetos de safadeza, cheios de picardia e duplo sentido, como A mulher da coisa grande, A pulga na camisola. Frequentador assíduo da capital, semanalmente vem ao Recife entregar originais ou receber edições produzidas na Editora Coqueiro. Viajava muito a Olinda, entre os anos 1970 e 1990, quando editava os folhetos na Fundação Casa das Crianças. Tem, também, folhetos impressos na editora Tupynanquim (Fortaleza, Ceará), do poeta e artista gráfico Klévisson Viana. Entretanto, independentemente de quem imprime, todas as publicações autorais recebem o selo A voz da poesia nordestina, de José Costa Leite. E recebem, na capa, xilogravuras do próprio autor. No campo da astrologia, continua a escrever o Calendário nordestino, distribuído para todos os estados do Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo. Sobre os cordéis, não tem a menor ideia da quantidade de histórias que fez chegar a leitores e ouvintes, além dos muitos manuscritos inéditos que guarda nas gavetas. Contudo, para além de todas essas rememorações, há muito mais: Costa Leite, andarilho das tradições, é testemunho vivo de mais de 60 anos de peregrinação por feiras e mercados de Pernambuco, da Paraíba, do Ceará. São mais de oito décadas com vigor físico e memória suficientes para comercializar os folhetos que produz e recapitular parte da história das edições populares brasileiras, da qual é um dos protagonistas. Acervo pessoal de JCL contém manuscritos, matrizes, xilogravuras, estoque de cordéis variados
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    77 De cambiteiro, cortadorde cana e agricultor chegou a pedreiro e barbeiro, num tempo em que, nos anos 1960, de dia labutava na construção civil e à noite, na cerâmica. Para aumentar o orçamento, também se virava nas artes da barbearia. O estalo que desencadeou toda a carreira artística aconteceu no dia 20 de abril de 1966, conforme registrado no jornal Gazeta de Nazaré, em artigo escrito pela jornalista Marliete Pessoa e publicado a 27 de agosto de 1966: “No cortiço do velho prédio do Acadêmico, nasce mais um artista do povo”. Soldado, boêmio, músico, valentão, vendedor de milho assado e de amendoim, mendigo de braço cotó, marceneiro, pedreiro, ferreiro: essas são as primeiras figuras que reinam na gênese da estatuária do mestre Zezinho. Os primeiros ensaios de modelagem resultam de inquietações e descobertas próprias de artista, a partir da observação do trabalho de Lídia Vieira nas visitas inspiradoras à vizinha Tracunhaém. O artista lembra, entretanto, que a primeira peça foi um par de namorados, encostado na porteira de um engenho de açúcar, com cerca de 20 cm de altura. Nessa época ele vivia em Nazaré, era trabalhador rural e o barro que esculpia vinha de um engenho próximo, o Alcaparra.
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    78 A estreia nocenário artístico aconteceu na 1ª Exposição de Arte Popular em Nazaré da Mata, na biblioteca municipal, organizada pela jornalista que escreveu o artigo, e inaugurada a 1º de outubro de 1966, mesmo ano em que o escultor se inicia e é descoberto pela jornalista. Exibe 60 bonecos. Nessa mesma década, dois anos depois, ou seja, em 1968, decide morar em Tracunhaém e dedicar-se exclusivamente ao trabalho de ceramista. Era a época em que os famosos da região eram José Antônio e Lídia Vieira, então viúva do renomado santeiro Severino. O filho de Júlia Batista da Cruz, que nasceu em Vitória de Santo Antão, a 5 de julho de 1939, jamais havia pensado que antes dos 30 anos fosse viver em Tracunhaém e se sustentar do ofício de ceramista. Nem mesmo imaginou que receberia o título de cidadão daquele município, o que aconteceu em novembro de 2002. Honraria que vem se somar à comenda Troféu Construtores da Cultura Cidade do Recife, recebida em 1992, e ofertada pelo então prefeito da capital pernambucana. Além da jornalista Marliete Pessoa, um dos principais incentivadores e divulgadores da obra do santeiro foi o colecionador pernambucano Abelardo Rodrigues, que frequentemente visitava o artista e encomendava trabalhos. Há mais de 40 anos radicado naquela cidade da Mata Norte, José Joaquim da Silva não calculava que conquistaria alguma fama com os gigantescos santos de barro, pois sequer tinha parentes envolvidos com a arte cerâmica, quando optou pelo ofício. Constituída a fama de homem talentoso, calcada na inventividade de peças como José e Maria Grávida, Lampião, Maria Bonita, São José de Bota, Pietà, é que os filhos e a esposa também passaram a viver do artesanato em barro, cuja matéria-prima vem da Paraíba. A esposa, Maria Marques, mais quatro dos nove filhos – José Carlos, Josenildo, Cláudio e Fernando –, e dois dos13 netos – Lucas (filho de Carlinhos) e Bruno (filho de Cláudio) –, todos eles se inspiraram na labuta de Zezinho e passaram a trabalhar as próprias peças em regime semicoletivo, envolvendo-se com o conjunto Filhos se dedicam ao mesmo ofício
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    79 das etapas, quevão desde o preparo do barro até à modelagem, secagem, queima em forno a lenha e coloração das esculturas. Nelas, predominam os motivos sacros, dondocas e namoradeiras. Algumas das obras do mestre recebem dele mesmo uma certificação de autenticidade, como é o caso da peça São Francisco sentado olhando para o céu, registrada como peça única e com data de conclusão em 1º de setembro de 2004. A temática preferida do artista é a sanfranciscana, em que o santo e pássaros são esculpidos em grandes proporções. Especialista em imagens sacras, grandioso é o aspecto visual da obra de Zezinho, que adora modelar peças com dois metros de comprimento e prefere pintá- las com tinta terracota. Na Mata Norte, Tracunhaém, topônimo indígena que significa panela de formiga, testemunha há décadas o florescimento de diversos artistas do barro, tais como Antônia Leão, Lídia Vieira, Severino Gomes de Freitas, Nuca, Maria Amélia. O mestre Zezinho, um dos mais antigos ceramistas vivos naquela cidade, tem obras espalhadas pelo mundo, em museus, igrejas, coleções particulares. Sua obra tem figurado em inúmeros salões de arte, coroando décadas de habilidades manuais e invenção. Igreja em Tracunhaém, próxima ao ateliê do mestre
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    81 Ao som decaixa, zabumba e pífanos, o último dia do ano em Floresta é solenemente comemorado: a secular irmandade denominada Confraria do Rosário reservou, no calendário religioso, o 31 de dezembro para festejar Nossa Senhora do Rosário, a patrona dos confrades. Paralelamente, a cidade comemora a festa do padroeiro, o Bom Jesus dos Aflitos. Assim, no início da manhã, os fogos logo denunciam: é chegado o dia do desfile e coroação dos reis, que, em azul e branco, se apresentam ornados com manto, cetro e coroa. Acompanhados de vistoso cortejo, com estandarte, guarda de honra armada de espada e séquito de juízes, todos trajados de branco, os componentes da confraria cantam, louvando a Senhora do Rosário: Virgem do Rosário, sois uma alta rosa / Que entre as mais flores sois a mais formosa – ou com antigas loas, como a registrada, em 1957, por Álvaro Ferraz, no livro Floresta: Memórias duma cidade sertaneja no seu cinquentenário: Oi Quenda, oi Quenda, / Oi Quenda, Maravi’a! / Hoje é dia do Rosário / Do Rosário de Maria. Pequenos agricultores e criadores das Fazendas Paus Pretos e Boqueirão, empregados de um curtume e funcionários públicos compõem o grupo, formado por habitantes da zona rural e também da sede do município. A comunidade é, sobretudo, formada por quilombolas e, por isso mesmo, é símbolo de resistência negra. Nesse contexto socioeconômico e cultural floresceu a irmandade religiosa, que, conforme registros datados de 1792 e depoimento de João Luiz da Silva, rei perpétuo desde 2007 e representante legal da instituição, há mais de 200 anos a confraria existe na cidade de Floresta
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    82 dos Navios, sertãode Itaparica. Composta por 36 membros, sobretudo antigos guardiões da tradição, a cada ano o ritual se repete sempre no mesmo dia, com a missa matinal e mesa farta à base da culinária regional para todos os que estiverem na festa, e entra pela tarde, quando são coroados os novos reis para o ano seguinte, conforme escolha das juízas (às vezes, a decisão decorre da necessidade de pagamento de promessa). À noite, a irmandade prestigia a missa do padroeiro e sempre faz questão de que o dia dedicado aos negros seja o melhor do novenário. A Igreja do Rosário é o ambiente onde se desenrola parte da festa. Construída em 1777, pelo capitão José Pereira Maciel, em homenagem ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos, na localidade denominada Fazenda Grande, de onde se originou a cidade de Floresta, sabe-se que somente em 1792 é que a igreja foi inaugurada, e, segundo tradição oral, desde essa data a confraria existe, embora somente a partir de 1897 o templo passe a ser dedicado a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, quando o padroeiro da cidade, o Bom Jesus dos Aflitos, ganhou novo templo defronte. Tais irmandades, a exemplo da Confraria do Rosário, incluem-se, conforme defende o pesquisador Veríssimo de Melo, entre as “várias formas de reações contra-aculturativas dos negros no Brasil”. A existência de irmandades religiosas de homens pretos e suas respectivas cerimônias estão sempre intimamente Reprodução de fotografias antigas do acervo do grupo
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    83 associadas às festividadesde coroação de reis e rainhas e é uma recorrência em folguedos e danças brasileiros, a exemplo de reisados, congadas, maracatus, cambindas, pretinhas do congo. A 500m das duas igrejas, está a sede da Confraria do Rosário, de onde sai a rainha para, com o rei, seguirem à igreja. São precedidos por oito espadachins e acompanhados de 11 juízes. Há cinco juízas principais, estas são as mais antigas integrantes do grupo, a quem todos devem obediência, inclusive rei e rainha. Entre elas, uma é juíza do rei, outra é da rainha. Há, ainda, dois juízes do andor, dois para as espadas e duas juízas são do altar. O cortejo, segundo antigos relatos, era composto por quatro espadachins, sendo dois velhos e dois jovens. Conforme dá conta João Luiz, Manuel Preto foi um grande espadachim que ocupou a função desde criança e por mais de 70 anos. Entretanto, antes de morrer, passou o cargo para Manuel Caetano, ou Jubileu, que tem 33 anos. Hoje, os espadachins são todos jovens, menos Seu João, que tem 80 anos. Cabe aos espadachins a proteção do cortejo real, cruzando as espadas a fim de que rei e rainha possam passar por todas as portas que estiverem no caminho até à igreja. Eles também realizam movimentos que se assemelham a um imaginário combate ou luta de espadas. Na procissão, São Benedito abre o cortejo dos santos, acompanhado da imagem histórica de Nossa Senhora do Rosário e do Bom Jesus dos Aflitos. Uma banda de pífanos, composta por quatro músicos – dois pífanos, uma caixa e uma zabumba –, vai executando músicas religiosas. Apenas na volta da missa, alterna repertório variado com a banda de música da cidade, tocando inclusive frevo, forró, maracatu. João Grande, que foi rei perpétuo durante cerca de duas décadas, certamente estaria satisfeito vendo perpetuar-se a festa dos ancestrais. Tesoureiro Quinca Leocádio e Rei Perpétuo João Luiz Rainha Perpétua Lúcia de Amaro, falecida em junho/2010 Juiz das Espadas Manoel Cassiano e Espadachim Fernando
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    85 Filho de NicodemesBrasil Hartmann e Maria Serafina Spencer Hartmann, o cineasta Fernando José Spencer Hartmann nasceu no Recife, em 17 de janeiro de 1927. Aposentado como analista em ciência e tecnologia da Fundação Joaquim Nabuco, o cineasta coleciona prêmios e títulos que tem recebido ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à sétima arte. Recebeu o título de Memória Viva do Recife, em 1997, quando completou 70 anos. Aos 80, foi o homenageado do Cine PE, quando então apresentou o novo filme Almery, a estrela. Tanto no Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (MISPE) quanto no Cinema Rosa e Silva, há a Sala Fernando Spencer, franca homenagem ao incansável cinéfilo/cineasta, cuja estreia se deu com um curta-metragem experimental, a ficção A busca, em 1969. Jornalista profissional, exerceu a crítica de cinema durante quatro décadas no Diario de Pernambuco, exatamente de 1958 a 1998. Spencer também foi repórter do Jornal Pequeno, em 1951, e revisor do Jornal do Commercio em 1957. Foi produtor e realizador do programa Falando de Cinema, entre os anos de 1963 e 1978, na TV Rádio Clube, Rede Tupi. Foi produtor, realizador e apresentador de Filmelândia, programa veiculado na Rádio Clube de Pernambuco e Rádio Tamandaré do Recife. No ano de 1985,
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    86 coproduziu, com IvanSoares, o projeto Coisas Nossas: Cinema Pernambucano, em oito capítulos de 30 minutos. O cineasta e pesquisador foi diretor da Cinemateca da Fundação Joaquim Nabuco, membro do Centro Brasileiro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, vice-presidente da Fundação Nordestina de Cinema, sócio-fundador da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), fundador e primeiro presidente do grupo Cinema Super-8 de Pernambuco. Acumulando as funções de roteirista, diretor, jurado, palestrante, debatedor, presidente de júri, professor, Fernando Spencer tem, ainda, no currículo, diversos livros publicados, a exemplo de Histórias do tio Joca, editado em 1990 pela Bagaço. Esse foi o primeiro título que lançou no gênero literatura infantil. Sobre cinema, escreveu o texto Ciclo do Recife: 60 anos, publicado pela Massangana, em 1983. Ainda pela Massangana, lançou em 1985 o catálogo de filmes da Cinemateca da Fundaj. E, pela Bagaço, produziu em 1989 a publicação 20 anos de cinema (1969 – 1989): Filmografia. No Quase catálogo, organizado por Heloísa Buarque de Holanda e publicado em 1991 no Rio de Janeiro, escreveu verbetes sobre estrelas do cinema mudo de Pernambuco. Em 1995, publicou textos sobre os 100 anos de cinema. No mesmo ano, publicou, em parceria com a bibliotecária Lúcia Gaspar, da Fundaj, O Nordeste no cinema: uma contribuição bibliográfica, para a revista Ciência & Trópico. Em 1974, recebeu o prêmio de melhor Super-8 na III Jornada Brasileira de Curta-Metragem, no estado da Bahia, com o filme Valente é o galo. No mesmo ano, o cineasta fez a estreia no gênero documentário com o filme Caboclinhos do Recife. Aliás, Fernando Spencer, com carretéis e latas de filme 16mm
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    87 a temática dosfolguedos tradicionais é recorrente na obra de Spencer. Em 1999, realizou A arte de ser profano, vídeo sobre os pastoris, e em 2004 volta ao tema, dessa vez com Os irmãos Valença, em que o pastoril religioso é um tema incontornável. No VI Festival Nacional de Cinema, realizado em Aracaju, pela Universidade Federal de Sergipe, no ano de 1978, recebeu o prêmio de Melhor Filme de Comunicação para As corocas se divertem. Com o filme Estrelas de celulóide, recebeu um troféu candango no Festival de Cinema de Brasília, em 1987. No III Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa, realizado na cidade de Aveiro, Portugal, em 1988, Fernando Spencer ganhou, em parceria com Flávio Rodrigues, o prêmio de melhor curta, na categoria documentário, pelo trabalho Evocações de Nelson Ferreira. O percurso de Spencer ganha ainda mais sentido quando ele recapitula o princípio desse amor antigo: cedo, apaixonou-se pelo cinema, precisamente aos 12 anos, quando o pai lhe oferece um projetor alemão para filmes de 35mm, o suficiente para inaugurar, de forma decisiva e em grande estilo, a trajetória deste cineasta das três bitolas. Assim conhecido no meio cinematográfico pela produção tanto em Super-8 quanto em 16 e 35mm, a criatividade e o amor às tradições pernambucanas selam a produção de Fernando Spencer, com os documentários acima mencionados e, ainda, Frei Damião: Um santo no Nordeste? (1977), Santa do Maracatu (1981), Trajetória do frevo no Recife (1987). Sobre literatura de cordel, realiza o documentário O folheto (1971), na bitola 16mm, em parceria com Liêdo Maranhão, João José e Esman Dias. A produção mais recente, de 2009, é o curta Nossos ursos camaradas, em que o cineasta compõe uma abordagem antropológica de fogosos ursos e La ursas na cultura pernambucana, a partir de pesquisa encomendada ao amigo folclorista Mário Souto Maior. Com esse filme, Spencer estreia em nova bitola – a digital – e adianta que a obra não encerra a sua carreira (agora, das quatro bitolas!). Maria Bonita e Lampião são personagens dos novos projetos desse artista que assina uma obra autoral, prolífica, incansável.
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    89 Oque há portrás de um nome? Teatro Experimental de Arte é o nome que resume toda uma vida dedicada às artes cênicas e à formação de jovens e estudantes. Sociedade civil de caráter puramente artístico cultural, é assim que se autodefine a organização fundada em Caruaru, a 16 de julho de 1962, pela pedagoga, atriz e encenadora Arary Marrocos Bezerra Pascoal e pelo contador, ator e autor teatral Argemiro Pascoal, cuja nomenclatura primeira – Movimento Teatral Renovador – foi logo substituída pela atual, na ocasião da assembleia inaugural para aprovação do estatuto. Ao lado de Arary e Argemiro, a lista de fundadores inclui Antonio Paulino de Medeiros, Carlos Fernandes da Silva, José Gustavo Córdula, Fernando Gomes de Oliveira, Edvaldo Pereira de Castro, Antonio Silva, Margarida Miranda, Maria José Bezerra, Abias Amorim, Paulo Roberto e Sá, Maria Ezinete de Melo, Inácio Tavares e Jonas Mendonça. Filiado à Federação de Teatro de Pernambuco (Feteape), o TEA é considerado, por lei municipal, um órgão de utilidade pública. Quando Argemiro se muda de Bezerros para Caruaru, em 1951, de modo intermitente atuava na cidade o Grupo Intermunicipal de Comédia, com a participação dos atores Rui Rosal, Joel Pontes, Pedro Valença. Em 1956, o declarado apreciador da linguagem cênica decide fundar o Teatro de Amadores de Caruaru (TAC), com Cosme Soares, Creuza Soares, Antônio Medeiros e Wilson Feitosa. Entretanto, é em julho de 1962, ocasião em que a cidade recebe o I Festival de Teatro de Estudantes do Nordeste, coordenado por Joel Pontes, caruaruense radicado no Recife, que surge o TEA, justamente a partir da breve, mas instigante, experiência e da constatação de que algo precisava ser feito quanto à cena teatral local. Marcado pela ininterrupta atuação no agreste pernambucano, o grupo é o criador do Festival de Teatro Amador e Estudantil do Agreste (Feteag), promovido desde 1988, e do Festival de Teatro do Estudante de Pernambuco (Festep), que acontece a partir de 2002. Tais eventos contam com a participação de alunos Oficina de expressão corporal e dicção para atores
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    90 de colégios privadose escolas públicas municipais e estaduais daquela região, visto que um dos principais objetivos do grupo é exatamente contribuir com o desenvolvimento de jovens talentos e promover intercâmbios artísticos mediante a promoção de festivais e mostras de artes cênicas. Outro importante projeto é o Teatro na Comunidade, que consiste em apresentar espetáculos populares em palco ou praças públicas da cidade e zona rural, inclusive promovendo debate acerca de questões de interesse das próprias comunidades. Construída com recursos próprios, a sede fica no bairro de Indianópolis. Chama-se Teatro Lício Neves, em tributo ao poeta pernambucano. Anualmente, são oferecidas oficinas de iniciação teatral, ministradas por Arary Marrocos, Jô Albuquerque, José Carlos da Silva e Carlos Alves, sob a coordenação de Argemiro Pascoal. O TEA é considerado um dos principais responsáveis pela renovação da cena teatral do interior do estado. Além de já haver encenado diversos textos de qualidade inquestionável, tais como A bruxinha que era boa, O Baile do Menino Deus, Cancão de fogo, Morte e vida severina, e os clássicos Antígona, Romeu e Julieta, A metamorfose, entre os anos de 1967 e 1979 o grupo registrou participação contínua no espetáculo da Paixão de Cristo, em Fazenda Nova. O primeiro seminário do teatro de Caruaru foi promovido pelo TEA. Desde a fundação, mais de 50 espetáculos foram encenados pelo grupo que, inclusive, vem acompanhando o despertar de novos talentos, a exemplo do premiado teatrólogo Vital Santos. Sede do TEA, em Caruaru
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    91 São José doRio Preto, em São Paulo; Feira de Santana e Salvador, na Bahia; São Cristóvão, em Sergipe; Maceió, em Alagoas; João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba; Recife, Garanhuns, Serra Talhada, Arcoverde, São José do Egito, Bonito, Limoeiro, Pesqueira, Belo Jardim e Gravatá, em Pernambuco, são algumas das cidades nas quais o grupo participou de festivais, mostras de teatro e com as quais estabeleceu intercâmbio cultural. Ao longo de todas essas décadas, o TEA se ocupa, igualmente, em promover palestras, debates, seminários, simpósios. Diversos cursos têm sido ministrados por importantes profissionais da cena teatral e das artes, a exemplo de Clênio Wanderley, Marco Camarotti, Luiz Maurício Carvalheira, Isaac Gondim Filho, Didha Pereira, Rubem Rocha Filho, Romildo Moreira, Ivan Brandão, Valdeck de Garanhuns, Roberto Benjamin, José Manoel, Zélia Sales, José Francisco Filho, Feliciano Félix, Ivonete Melo, Valdi Coutinho, Antonio Miranda Cavalcanti, José Soares da Silva (poeta e xilógrafo Dila), ceramista Manoel Galdino, Vavá Paulino, Jorge Clésio, Joel Pontes, Luiz Marinho Filho. Obstinação: este é o motor que move o casal cheio de amor pelas artes cênicas. O que resulta daí são as muitas trajetórias artísticas que vêm ganhando o mundo, com a decisiva colaboração de Arary e Argemiro. Argemiro PascoalArary Marrocos
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    93 “Quem são vocêsque vêm da jurema?” Esta é pergunta que pode ser feita a um mestre daqui, mais precisamente a José Severino dos Santos Pereira, o Mestre Zé Alfaiate, sócio fundador do Caboclinhos 7 Flexas, desde 7 de setembro de 1971, no bairro de Água Fria, Recife. Com a finalidade, expressa no estatuto, de “promover e desenvolver atividades carnavalescas, recreativas, sociais e culturais”, Alfaiate lembra que criou a brincadeira no ano de 1969, em Alagoas. Nessa época, em que frequentava terreiro de umbanda, certa vez sonhou com o Caboclo Sete Flexas – “cacique, pajé, deus do sol e deus da lua, moreno, alto, foi criado sozinho nas matas e é curandeiro” – a quem fez pedido. Portanto, graças a promessa, e como oferenda, decidiu que criaria o clube, sob a proteção daquele guia, exatamente por considerar unha e carne caboclinho e jurema. Nascido em São Lourenço da Mata, em 25 de julho de 1924, Alfaiate volta para Pernambuco em 1971 e, embora à época mantivesse vínculo com o antigo Caboclinhos Carijós (de 1896), em que começou a brincar aos 10 anos, funda o grupo que se mantém exuberante, graças à dedicação integral que dispensa ao brinquedo, das mais triviais demandas às mais invisíveis, como bordar fantasia e levar comida para o caboclo da mata. Os caboclinhos, da linha da jurema, são uma das belas e tradicionais expressões do carnaval pernambucano. Mais do que somente com pajelança, é à base de muito sacrifício e trabalho que o caboclinho se mantém firme e vigoroso. Paulo Sérgio dos Santos Pereira, ou Paulinho 7 Flexas, é filho e parceiro incansável de Alfaiate, ao lado da mãe, Marlene Francisca Neponucena. Figura importante na organização do grupo e um dos mais respeitados dançarinos tradicionais do país, Paulinho 7 Flexas dança desde os dois anos. Nascido em Maceió, Alagoas, a 28 de outubro de 1968, a partir dos 14 anos passa a dar aulas no Teatro Brincante, na capital paulista, a convite do multiartista Antônio Carlos Nóbrega. Paulinho e o sobrinho Carlos André Rodrigues Pereira são os guias Jupi e Agaci, puxadores dos Mestre Alfaiate
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    94 cordões dos caboclos.A sobrinha Adriana Rodrigues Pereira e a irmã Carla dos Santos Pereira são as guias Taquaraci e Jupiara, dos cordões das caboclas. Alfaiate, além de tudo, comanda desenhos e bordados da vestimenta. No caboclinho, o núcleo familiar lidera todas as atividades: onde há a casa, há a sede do brinquedo, a oficina de dança com os ensaios semanais, as sessões de costura e bordado, as reuniões, os preparativos de cada carnaval, enfim, a colorida e melodiosa alegria, a firmeza dos gritos de guerra do folguedo, mesmo quando em repouso tocadores e bailarinos. Guerra, baião, perré, toré de caboclo, guerra: alternam-se as batidas ou toques executados pelo baque, assim denominados os músicos. Ouvidos atentos à execução das loas ou versos gritados – os gritos de guerra, e das loas ou versos declamados, improvisados ou não, sincronizados com a regular batida das preacas (conjunto de arco e flecha em madeira), tarol, atabaque, caracaxá marcam a melodia executada pelo gaitista. Reginaldo Caetano do Nascimento, ou Nadinho da Gaita, é o músico que executa as melodias no instrumento também chamado flauta ou Paulinho Sete Flexas Nadinho da gaita
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    95 inúbia. O tiradorde loa pode ser o cacique, o puxante, o guia, o morubixaba. Nesse caso, é Paulinho 7 Flexas quem puxa as loas. Enquanto isso, os olhos se maravilham com as flutuações de penachos e plumas, com o saltitar das coreografias. Cacique, cacica, pajé ou curandeiro, os curumins, os guias Jupi e Agaci, a ala dos caboclos, os contraguias ou substitutos dos guias, as guias Taquaraci e Jupiara, a ala das caboclas são as figuras que enchem de graça as ruas e os olhares, aprendizes ou não. É obedecendo aos sons dos caboclos do baque que os brincantes exibem coreografia aeróbica, plena de leveza e agilidade. Impossível não se encantar com a sonoridade e as coreografias de um caboclinho. Conforme depoimento de Paulinho, o grupo pertence à mesa branca, espírita, aos orixás de caboclo, à mesa da jurema. Entre os ritos, há a saída de caboclo. Uma semana antes do Carnaval, é necessário preparar uma oferenda, ou seja, levar comida para o caboclo da mata. Um prato virgem, sete bifes, sete qualidades de fruta, uma vela e mel. O pedido é sempre pedido de paz: contra brigas e desavenças. O pajé porta um cachimbo e dá fumaçadas para limpar a frente do clube, quando os brincantes estão dançando. A jurema, bebida preparada à base de vinho, champanha, mel, liamba, semente e folha de alfavaca de caboclo, é alcoólica, entretanto tem a função de limpar o corpo dos brincantes – as ervas cortam as dores e os males físicos. Muita lantejoula, semente de ave-maria, cocar de pena de ema, machadinha, cabaça, cipó, lança e preaca são alguns dos elementos que compõem o deslumbrante vigor da cabocaria. Nas manobras e evoluções, as coreografias apontam para a dança do cipó, a dança da rede, a caça do caboclo, o casamento de uma tribo com outra. Os dois puxantes Jupi e Agaci marcam com apito a virada dos ritmos. E o porta-estandarte sai na frente, anunciando a chegada do clube: Caboclinhos 7 Flexas, um nome de respeito.
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    97 Os cocos nordestinos,conforme escreveu Mário de Andrade, “São ardentes. São expressivos. São profundamente humanos e sociais”. Assim é que, entre tapiocas e coco, canta a ex-tapioqueira da Sé de Olinda: O coco me adotou, me chamam rainha do coco, o povo é meu amor. Filha de Maria Valentina da Conceição e José Teodósio da Silva, Selma Ferreira da Silva nasceu em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, a 10 de dezembro de 1929. As lembranças mais antigas envolvendo a brincadeira do coco de roda remontam à infância, claro, quando pais e avós levavam aquela criança esperta e de voz melodiosa para dançar e se divertir nos terreiros de chão batido e luz de candeeiro. Frequentemente cantavam coco nas casas dos compadres, sobretudo para comemorar o São João. As memórias e experiências, aliadas ao talento artístico, deram o mote e Selma vem glosando, com classe. E não deixa de ter importância saber que a alegria da tradição familiar foi mantida, no desfiar de todas essas décadas dedicadas ao ritmo. Ainda criança, aos 10 anos, transferiu-se para o Recife, bairro da Mustardinha, onde se casou, teve 14 filhos e, mal saía da juventude, ficou viúva. Há 50 anos, decidiu morar em Olinda, tradicional reduto de samba de coco, e daí por diante cultivou o hábito de promover concorridas rodas para animar os finais de semana da família e ganhar uns trocados. Quando foi tapioqueira no Alto da Sé, jogava charme para os turistas com o feitiço da voz, do temperamento e ritmo envolventes. Cantava coco na Sé, no Carmo e na frente da própria casa, aos domingos. E, bom para Selma, bom para todos, integrantes da geração manguebeat se encantaram com a coquista, o que certamente contribuiu para a consolidação da carreira da cantora. O filho José Ferreira da Silva, pandeirista, foi o produtor, parceiro e diretor musical da mãe famosa. Morena do dente de ouro, qual é o teu feitiço? Cantando e dançando um coco sincopado, matreiro e cheio de duplo sentido, Selma sabe que agrada. E gosta do que faz. Embrenhando-se Selma do Coco em frente à Igreja de Guadalupe, Olinda
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    98 no meio poético-musicaldo coco de roda, entramelando-se nas devoções de um coco que sutilmente também batuca, o grito de guerra “a-há” antecede o canto e faz a amarração de uma performance cheia de ginga, simpatia e irreverência. Na malemolência foi expandindo-se, conquistando o mercado. Segundo a própria artista, o “a-há” não tem nenhuma relação com orixás e outras entidades, o grito acontece enquanto o pensamento vai rodando, procurando no repertório o próximo coco a ser executado. Com três coletâneas gravadas na Alemanha e uma na Bélgica, Selma do Coco também já cantou no Lincoln Center Festival, em Nova Iorque, Estados Unidos, no ano de 2003. Tem feito shows Brasil afora: no Rio de Janeiro, em São Paulo, Salvador, Natal, Fortaleza, Limoeiro do Norte, Itamaracá, Garanhuns, citando apenas alguns dos locais por onde tem passado. Os trabalhos se espalham em muitos países, como França, Espanha, Suíça, Portugal. No Recife, em 1990, quando ainda nem tinha um nome consolidado no cenário nacional, participou do I Festival de Cantadores de Praia do Nordeste, na praia de Boa Viagem. Em 1997, o festival recifense Abril pro Rock ajudou-a a deslanchar a fama. Nesse mesmo ano, a Câmara de Vereadores concedeu-lhe
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    99 o título decidadã olindense em reconhecimento à artista que mora naquela cidade desde o final da década de 1950. O carnaval pernambucano de 1998 ficou marcado pelo sucesso da música A rolinha, gravada em Berlim, Alemanha, no estúdio Ufa Fabrik, entre agosto e outubro de 1997, para o disco Cultura viva. E o refrão Pega, pega a minha rola reinou quase absoluto naquela folia. Em São Paulo, fez show no Instituto Itaú Cultural, no ano de 1998 e, na casa de espetáculos Tom Brasil, apresentou-se em 1999 com a banda de pífanos de Caruaru e Zeca Baleiro. Em 2006, volta a se apresentar no Itaú Cultural. Recebeu a comenda 2007 “Ordem do Mérito Cultural”, diploma concedido pelo Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Dos vários CDs produzidos, foi com Minha história, gravado na Alemanha e depois lançado pela Paradoxx em 1998, que conquistou o Prêmio Sharp de 1999, concedido à música de mesmo título do disco. Há, ainda, na discografia, Coco de roda, o elogio da festa, gravado ao vivo em Olinda, em 1996, que, após masterização na Bélgica, ficou pronto em 1999. Em 2000, o filho Zezinho fez a produção geral e direção musical do disco Jangadeiro. Outro trabalho é Raízes da cultura, gravado em Olinda e lançado em 2003. Dona Selma: Bodas de ouro em coco, com faixa multimídia, foi gravado e produzido entre 2008 e 2009. Há, ainda, a registrar, a participação em várias coletâneas. Todos os discos são independentes, e sempre sob a coordenação do incansável Zezinho, à época o único filho vivo, lamentavelmente falecido em abril de 2010. Netas fazem backing vocal do grupo
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    101 OLargo de SantaCruz é testemunha: os acordes do arranjador, compositor e maestro atiçam ouvidos e olhos em direção ao sobrado de número 438, no bairro da Boa Vista. É ali onde funciona a Escola de Frevos do Nordeste Maestro Nunes e aonde o artista vai diariamente para compor, dar aulas, receber pessoas. Vem da infância o gosto pela música: aos nove anos, tornou-se clarinetista e já sabia orquestrar. Aos 12, compunha dobrados, tocava num pastoril religioso. O pai, que era músico, pedreiro e mestre de obras, não tinha tempo nem paciência para ensinar ao filho e ainda queria enviá-lo para o seminário. Mas a criança, que sonhava ser instrumentista, sempre chorava ao ver passar a banda de música de Angélica, o povoado onde nasceu e viveu a infância. Graças a Sebastião Luís, mestre da banda e amigo da família, o garoto se livrou de ser padre e passou a receber aulas de iniciação musical. Filho do clarinetista e violonista José Francisco Nunes e de Maria Apolônia Nunes, José Nunes de Souza é da cidade de Vicência, Pernambuco, e a data de nascimento é 22 de junho de 1931. Em 1950, por problemas políticos relacionados ao pai – que perdeu o cargo de diretor da Banda 1º de Novembro, do distrito de Angélica –, muda-se com toda a família para o Recife, onde decidiu aprimorar as habilidades musicais. Foi aluno do Conservatório Pernambucano de Música (CPM). Estudou música sacra e regência na Faculdade de Filosofia do Recife, em 1960. Cinco anos depois, concluiu o curso de licenciatura em Belas Artes, pela UFPE. Frequentou aulas de canto gregoriano e canto coral, harmonia, regência, teoria e solfejo, contraponto, fuga e orquestração. O principal orientador, conforme depoimento do próprio Maestro Nunes, foi o professor Mário Câncio Justo dos Santos, além do padre Jaime Diniz. No rol dos principais mestres, com quem aprendeu grandes lições, situa Capiba, Nelson Ferreira e Zumba. Quando fala da formação musical, o maestro ressalta a importância de ter estudado os períodos barroco, clássico e romântico da música ocidental, dos quais os artistas preferidos são Bach e Beethoven. Com formação política de esquerda, filiou-se desde jovem ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), engajando-se no Movimento de Cultura Popular (MCP), o que lhe rendeu perseguição política e afastamento da Banda Municipal do Recife (BMR), no início da década de 1960. Havia assumido em 1958, por meio de concurso, o cargo de primeiro clarinetista da BMR. Entretanto, continuou na militância apesar da censura e da repressão, e as conquistas artísticas fizeram sobressair o talento do compositor que, a partir dos anos 1970, foi campeão, consecutivas vezes, na categoria “frevo de rua”, dos concursos Leda de Carvalho, Frevança, Recifrevo. Entre as músicas premiadas estão: Formigueiro, uma homenagem ao maestro Formiga, ou
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    102 Ademir Araújo; Éde perder o sapato, relembrando o fato de um músico ter perdido o sapato enquanto tocava na banda do maestro, durante o desfile da troça carnavalesca mista O cachorro do homem do miúdo; Mosquetão, em alusão a um colega que foi baleado durante a ditadura; É de rasgar a camisa, dedicado à troça Camisa Velha; Bomba-relógio, em parceria com Mário Orlando, após a explosão de uma bomba, no Recife, durante a ditadura militar. Interessante notar que o próprio maestro faz questão de sempre registrar a gênese de cada criação musical. Outras composições importantes, independentemente da conquista de prêmios, há décadas têm-lhe rendido fama de “rei do frevo de rua”, sobretudo o clássico Cabelo de fogo, feito para um amigo, apelidado de Birino, que pintava os cabelos. Coquinho no frevo, Fubica, Folhas que não caem, Santa, Ecos do Carnaval, Balançando a pança, Segurando a peteca, entre tantos outros célebres frevos, corroboram o talento do artista e enriquecem o repertório de diversas agremiações carnavalescas, a exemplo de Cachorro do Homem do Miúdo, Vassourinhas, Lenhadores,
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    103 Girassol da BoaVista, Lavadeiras de Areias, Amantes das Flores, Pás Douradas, Beija-flor em Folia, Pão Duro, Seu Malaquias. Compôs e gravou para os tradicionais clubes Leão e Camelo, do carnaval de Vitória de Santo Antão. Em 1972, na condição de assessor musical da Federação Carnavalesca de Pernambuco, abriu a Escola Musical do Frevo, destinada a crianças de baixa renda e aos filhos dos presidentes das agremiações; e foi a partir desse ano que passou a ser o principal e mais prolífico criador de frevo para os grupos foliões pernambucanos. Em 1984, criou a Banda de Frevos do Nordeste. Foi fundador do Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO) e regente da banda de música 10 de Agosto, da cidade de São Lourenço da Mata. Integrou a banda de música do Liceu de Artes e Ofícios, da Universidade Católica de Pernambuco; a Banda Manoel do Óleo, da União Operária da Macaxeira; a Orquestra Cassino Americano, da concorrida boate do Recife, à época. Antes de transferir-se para a capital, Nunes foi músico da Euterpina Juvenil Nazarena, a Capa Bode, de Nazaré da Mata. Na discografia, os trabalhos mais recentes são os CDs Locomotiva do frevo 1 e 2, de 2002, em que oferece a remasterização de repertório dos vinis lançados desde 1975. O CD Maestro Nunes: 60 anos de frevo, feito em 2008, apresenta-se também em dois volumes, um com frevo de rua e o outro com frevo-canção e frevo de bloco. Em 2009, sai o CD Homenagem ao criador: Maestro Nunes, o mestre do Cabelo de Fogo, em que todas as músicas gravadas – frevos de rua – são de autoria dele. Possui valioso acervo de mais de duas mil partituras musicais e, exatamente com a proposta de preservar tais preciosidades, conquistou o Prêmio Culturas Populares 2007 – Maestro Duda, 100 anos de frevo, concedido pelo Ministério da Cultura (Minc). Nesse mesmo ano, foi o homenageado do carnaval do Recife. Além da prolífica produção de frevos, o maestro compõe, ainda, diversos outros gêneros: samba, bolero, rumba, forró. Mantém, inclusive, a Banda Junina do Maestro Nunes, que interpreta repertório próprio e dos mestres Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Zé Dantas, Humberto Teixeira. A coordenação da agenda e das produções do maestro compete à compositora e musicista Fátima Lapenda. Em meio ao processo criativo, entre shows, gravações e aulas, o maestro Nunes faz questão de estar sempre engajado em trabalhos comunitários, ministrando oficinas a crianças e jovens, de comunidades dos bairros dos Coelhos e Ilha do Leite, entre outros. Professor de maestros celebrados, a exemplo de Spok e Forró, Nunes continua incansável na missão de descobrir e incentivar novos talentos. Vida longa ao centenário frevo, assim seja! Reprodução de fotografia antiga do acervo do maestro
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    105 Monumental, com quasedois metros, a escultura guarda a casa, imperturbável e acolhedora. É o Rei Canindé, o encantado que livra de todos os embaraços e semeia o ânimo. É ele quem comanda “a famosa Tribo Canindé do Recife, a campeonísssima do Carnaval” e razão de viver de Juracy Simões, a se desmanchar em alegria e lágrimas sempre que convidada a discorrer sobre o grupo de caboclinhos, do qual é presidente e herdeira por tradição de família. Praticamente desde os primórdios, pai e tios de Juracy comandaram a agremiação carnavalesca, vinculada ao culto da jurema. Sabe-se pela história oral que, na antiga Rua das Jangadas, no bairro de Afogados, alguém conhecido por Elesbão ou “Libão”, com a ajuda de um amigo, identificado apenas como Eduardo, decidiu criar um grupo de caboclinhos. Ambos eram estivadores. A data de fundação é 5 de março de 1897, e uma característica do grupo, inicialmente denominado “Príncipe do Rio do Rei Canindé”, era a participação exclusiva de curumins ou crianças. Em 1909, quando passa a ser conduzido por Manuel Batista da Silva, ou Manuel Rufino, a agremiação começa a aceitar a presença de adultos (apenas homens), transfere-se para a Bomba do Hemetério, bairro onde está ainda hoje, e a denominação muda para Canindé do Recife. Em 20 de fevereiro de 1957, sob a direção de José Silva Araújo, o estatuto é registrado com o nome Club Indígena Canindé, embora a brincadeira fosse conhecida por Tribo Canindé do Recife. Poucos anos depois, dois irmãos de Rufino – Miguel e Severino Batista da Silva – tomam a frente do grupo e é Severino quem passa a comandá-lo. Tratado entre os colegas por “Criança” e em família como “Bibiano”, Severino assume a missão de conduzir o brinquedo, sem perder de vista a íntima relação com a jurema sagrada. O símbolo do grupo é um índio com arco e flecha. As cores oficiais são o vermelho e o branco. Desde essa época, década de 1950, registros orais dão conta da participação feminina, o que terminou se transformando num diferencial em favor do sucesso conquistado nas décadas seguintes. Reprodução de fotografia do aniversário de 106 anos do Canindé: na imagem, Juracy Simões, sentada, de blusa branca e óculos, comemora com o grupo
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    106 É o quetestemunha e comprova a bisneta, neta e filha de juremeiros Juracy Simões da Silva que, pela vida devotada aos cabocolinhos, honra a filiação. Nascida no Recife, em 15 de julho de 1945, o pai era o mestre carpinteiro Bibiano, ou Severino Batista da Silva, e a mãe, Lucila Simões da Silva. Guardiã das tradições religiosas da família e do caboclinho, Juracy vive imersa no grupo desde que nasceu, e coordena, de fato, todas as atividades desde 1985, quando o pai, por problemas de saúde, fica impossibilitado de atuar no comando da agremiação. Em 1994, com o falecimento de Bibiano, funcionário da Prefeitura do Recife, a única filha assume oficialmente a presidência, tornando- se a primeira mulher a presidir um caboclinho, alçando, portanto, à condição de destaque na história do carnaval do Recife, em decorrência tanto desse pioneirismo quanto da marcante liderança. A mãe, Lucila, devotada à jurema, enquanto tem saúde segue colaborando na empreitada da filha. Falece em 2006. Totalmente familiarizada com o cotidiano da Tribo Canindé, Juracy conhece não apenas histórias da formação do grupo, mas, sobretudo, a maneira como se desenvolviam as apresentações. Para cada toque, ela sabe cantar e recitar as linhas, os pontos de caboclo, as loas que vêm sendo excluídas do repertório devido à exiguidade de tempo nas exibições públicas. Relembra, ainda, que, na infância e adolescência, via e ouvia muito mais do que se oferece hoje nas performances da tribo. Executado pelos caboclos homens e por algumas caboclas, o característico e rápido bater de flechas do grupo – a exemplo da guerra de uma, de duas e de três –, declara Juracy que só o Canindé faz. Ao som do terno ou dos caboclos do baque – gaita, tarol e maracaxá, aliados à batida seca das preacas (arco e flecha) dos caboclos –, os toques ou gêneros musicais executados são guerra, perré, baião, toré ou macumba, sob os quais se apresentam bandeirista, casal de caciques, os puxantes Jupi e Agaci, dois perós, dois cordões de curumins, dois cordões de caboclos e caboclas, o rei e a rainha. São eles que exibem a beleza das fantasias, a cadência do ritmo frenético da percussão e sopro, a leveza dos corpos ágeis a exibir aeróbico bailado. Preocupada com a transmissão da memória do Canindé, sobretudo direcionada aos jovens, Juracy tem promovido oficinas de confecção de figurinos, de dança e de música, auxiliada por Dado, ou Ednaldo Manuel dos Santos, um dos brincantes mais antigos e uma espécie de show-man, que ocupa a função do puxante Jupi. Zelosa quanto às características do Canindé, Juracy cuida para que as fantasias tenham bordados primorosos, tenham vistosas plumas e penas de ave, e que as manobras ou danças sejam executadas Encontro de Caboclinhos, semana pré-carnavalesca, Recife 2010
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    107 com vivacidade, exuberância.Os ensaios ou treinos, momentos preciosos de interação e aprendizagem, acontecem sempre defronte da sede, e sempre na noite dos domingos, a partir do mês de julho, estendendo-se à semana pré-carnavalesca. Há, tradicionalmente, em todos os eventos e reuniões da agremiação, principalmente nas semanas anteriores ao Carnaval, uma mesa de frutas, oferenda aos encantados, das quais se servem os brincantes, ao final. Certamente esse rito propiciatório abre caminhos. O Canindé esmera-se em todos os quesitos, sempre atraindo olhares admirados. Em 1960, Bibiano levou o grupo a se apresentar em Brasília, durante a inauguração do Sesi. Sem jamais perder a realeza, foi campeão nove vezes consecutivas, de 1996 a 2004, no concurso de agremiações do carnaval do Recife. Em 2003, a TV Viva produziu o documentário Três rainhas e um reinado de Momo, em que são apresentadas mulheres no comando de agremiações, entre elas a carismática Juracy. O primeiro registro fonográfico do secular caboclinho – No traçado do guerreiro – é de 2005, realizado pelo músico e produtor cultural Adriano Araújo. Graças à importância do tradicional caboclinho – inclusive este era um dos grupos carnavalescos já existentes à época de fundação da Federação Carnavalesca de Pernambuco (1935) –, a Prefeitura do Recife promoveu a exposição comemorativa Canindé: 110 anos de resistência, realizada entre 13 de abril e 1º de maio de 2007, na Casa do Carnaval, Pátio de São Pedro. Concorrendo a edital público do Ministério da Cultura, Canindé conquista, no ano seguinte, o Prêmio Culturas Populares 2008 – Mestre Humberto de Maracanã. Em 2009, sai o Batuque Book Cabocolinho, de Climério Santos e Tarcísio Resende, com textos, fotos, partituras, mais a gravação de sete faixas de áudio e faixa multimídia dedicadas ao Canindé. Sem perder de vista a cidade tão linda e os caminhos distantes de um reino encantado, em fevereiro de 2010 o caboclinho foi homenageado na abertura do carnaval do Recife, juntamente ao centenário maracatu Estrela Brilhante de Igarassu. Com a firmeza própria do temperamento de Juracy, sete caboclos flechando e a devida proteção do rei, as demandas vão se desmanchando e a tribo resplandece. Salve o Rei Canindé na Jurema, mestre que garante essa Nação. Quem for Canindé, sustente o penacho: este é um rio que não deixará de correr, o rio do Rei Canindé.
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    109 Uma estrela paranos guiar, canta a loa. Uma Nação muita antiga, vinda da África para morar em Igarassu. É o que pronuncia a voz firme de Olga e Gilmar, encantando nossos ouvidos com as toadas herdadas dos antepassados. Pela voz deles remontamos aos avós e pais da centenária dona Mariu, chegamos ao tempo presente, aos seguidores de um baque triunfante a iluminar toda a família. Se fosse para seguir uma das versões da história oral relacionada ao grupo, 1730 poderia ter sido o início. Entretanto, a data oficializada é 8 de dezembro de 1824. O local era Vila Velha, em Itamaracá, à época pertencente a Igarassu. De lá, os antepassados do maracatu migraram para o Alto do Rosário. Mas da cidade de Igarassu o grupo não saiu e é a antiga Rua do Rosário, no sítio histórico, quem testemunha, há décadas, o canto, a dança e o batuque de descendentes de escravos. Às mulheres cabe a dança, os homens ficam com a percussão. Olga de Santana Batista, filha de dona Mariu, agora é a matriarca, guardiã da tradição, desde que a mãe, centenária, faleceu em 2003. Olga, nascida em Igarassu a 28 de fevereiro de 1939, começou a brincar aos 10 anos, como rainha, e com o pai também brincava cavalo-marinho e fandango. Auxiliada pelo filho caçula, mestre Gilmar, é com firmeza que os dois lideram rei, rainha, vassalos, ministros, princesas, dama-regente, dama do paço, porta- estandarte, porta-candeeiros, porta-símbolo, baianas, batuqueiros. Gilmar de Santana Batista é o mestre dos batuqueiros. Rogério Raimundo de Sousa, o contramestre. Gilberto de Santana Batista é o porta-estandarte. Dona Rita, a dama-regente, é herdeira de uma função – a de conduzir a calunga – que coube a dona Mariu durante os anos todos em que participou da Nação. Mariu, ou Maria Sérgia da Anunciação, nasceu no dia 8 de dezembro de 1898 e morreu no dia 8 de outubro de 2003, na mesma cidade – Igarassu. Sempre na função de dama-regente, começou a participar do maracatu aos 12 anos. O apego a “dona Emília”, a calunga de madeira feita pelo carpinteiro Minervino do Ó, era tanto, que a boneca dormia com ela. Afinal, dona Emília é
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    110 quem manda, cantamas toadas do grupo fincado nas tradições do candomblé, para quem a calunga – a evocar ancestrais e orixás – desempenha primordial função de protetora do folguedo: trata-se de um objeto ritual. O pai, João Francisco da Silva, passou a liderança do maracatu para o marido de Mariu, Manoel Próximo de Santana. O seu Neusa, como era conhecido Manoel, ficou incumbido das funções de rei do maracatu e mestre do batuque. A mãe de Maria Sérgia, dona Mariassu, morreu aos 115 anos. Com o marido, era quem comandava o maracatu e costurava manualmente as roupas do grupo. A filha Mariu, que chegou a quase 105 anos, ganhou a festa “100 anos de uma rainha negra”, organizada em dezembro de 1998 pela prefeitura de Igarassu. No centenário, Sérgia relembrou, em entrevista concedida ao Jornal do Commercio, em 6 de dezembro de 1998, que, no cortejo real, havia antigamente os lanceiros, ou duas crianças que iam à frente da corte fazendo a ordenança do rei e da rainha. Outra ausência, lamentada ainda hoje por dona Olga, é a da calunga Joventina, que não mais se encontra no acervo do grupo. Os instrumentos utilizados no batuque tradicional do Estrela Brilhante são zabumba (o mesmo que tambor ou alfaia), tarol (ou caixa de guerra), mineiro (ou ganzá) e gonguê. Os tambores, que antigamente eram feitos com barrica de transportar o peixe bacalhau, agora talhados no tronco de macaíba, são tocados com uma baqueta (ao invés de duas) e uma vareta ou galho de árvore, chamado bacalhau, o que confere um toque diferenciado ao baque do Estrela, “um suingue muito mais gostoso”, conforme demonstra, orgulhoso, o mestre Gilmar, que puxa, entre outras toadas, a seguinte: Toque o gonguê / toque o tambor / vem mineiro e caixa / foi o mestre que mandou. Os ensaios tradicionalmente ocorrem a partir de setembro e se prolongam até a semana pré-carnavalesca. E no período junino, os brincantes também se divertem, mas é com o centenário samba de coco e o banho ou “batismo” de São João pela madrugada do dia 24 de junho. Entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, o maracatu passou quatro anos sem se apresentar, conforme registrado numa reportagem do Diario de Pernambuco, em 11 de fevereiro de 1982, intitulada: “Maracatu volta a desfilar”. Adiante, após mais alguns anos desativado em decorrência do falecimento de seu Neusa e da impossibilidade de locomoção de dona Mariu, um grupo de estudiosos da Comissão Pernambucana de Folclore, presidida pelo pesquisador Roberto Benjamin, realizou, durante 1993, um levantamento das toadas e da história do grupo e, assim, foi responsável pela retomada do grupo, em janeiro de 1994. A seguir, o grupo não mais parou. Em 1997, foi o homenageado do carnaval de Igarassu. No mesmo ano,
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    111 Roberto Berliner dirigiuum documentário de três minutos, em 16mm, colorido, no projeto Som da Rua, intitulado Maracatu Estrela Brilhante. Em 1998, dona Mariu ganhou destaque com o aniversário de 100 anos, conforme mencionado acima. O primeiro registro fonográfico aconteceu em 2003, com gravação ao vivo e ao ar livre, resultando no CD Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu – 180 anos. No início de setembro de 2008, o grupo viaja a Portugal, para participação no XII Festival Folclore Internacional Alto Minho, em Viana do Castelo, cidade-irmã de Igarassu, por esta ter sido fundada pelo capitão Afonso Gonçalves, natural daquela cidade portuguesa. Ponto de Cultura Estrela Para Todos desde 2008, o grupo passou a promover oficinas de percussão e dança e colocou no ar uma home page, em três línguas. Conquistou o Prêmio Culturas Populares 2008 – Mestre Humberto de Maracanã, do Ministério da Cultura (Minc), com o qual realizou a remasterização e reedição do CD comemorativo aos 180 anos. Foi contemplado com o projeto Cine Mais Cultura (Minc), edição 2008. O tradicional Coco de Olga também foi contemplado com o Prêmio Culturas Populares 2009 – Edição Mestra Dona Isabel. Em fevereiro de 2010, juntamente à centenária Tribo Canindé do Recife, ganhou homenagem na abertura do carnaval do Recife, no Marco Zero. Com tantas ações importantes, com tantas vozes e loas bonitas, sustente o baque, dona Emília, que o Estrela vai continuar!
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    117 fontes Chino ITCe Frutiger   papel Offset 120gr/m2   tiragem 3000   impressão Gráfica e Editora Liceu Recife 2010